<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>George</first-name><middle-name>R. R.</middle-name><last-name>Martin</last-name></author><author><first-name>Marcia</first-name><last-name>Blasques</last-name></author><book-title>A Morte da Luz</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><keywords>Fic��o</keywords></title-info><document-info><author><first-name>George</first-name><middle-name>R. R.</middle-name><last-name>Martin</last-name></author><author><first-name>Marcia</first-name><last-name>Blasques</last-name></author><program-used>calibre 1.33.0, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>23.4.2014</date><id>7819a88c-bed6-40b2-8c16-e01debaa7c56</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><year>2012</year><publisher>calibre</publisher><isbn>9788580444926</isbn></publish-info></description><body><section><p><strong>GEORGE R. R. MARTIN</strong></p><empty-line/><p><strong>A MORTE DA LUZ</strong></p><empty-line/><p>Tradu��o Marcia Blasques</p><empty-line/><p>LeYa</p><p>2012</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><strong>Pr�logo</strong></p><empty-line/><p>Um planeta errante, um viajante sem objetivo, um p�ria da cria��o; esse mundo era todas essas coisas.</p><p>Havia incont�veis s�culos ele seguia, sozinho, sem prop�sito, entre os frios e solit�rios espa�os entre os s�is. Gera��es de estrelas haviam sucedido umas �s outras em imponentes enxames que preenchiam seu c�u desolado. Ele n�o pertencia a ningu�m. Era um mundo em si mesmo, inteiro. Em certo sentido, n�o era nem mesmo parte da gal�xia; seu percurso irregular atravessava o plano gal�ctico como um prego introduzido em uma mesa de madeira redonda. N�o fazia parte de nada.</p><p>E o<emphasis> nada</emphasis> estava bem perto. Na aurora da hist�ria humana, o planeta errante perfurou uma cortina de poeira interestelar que cobria uma �rea min�scula perto da borda superior das grandes lentes da gal�xia. Um punhado de estrelas estava al�m - trinta ou quase isso, um mero punhado. Em seguida, o vazio, uma noite maior do que qualquer mundo errante j� conhecera. Ali, passando por aquela sombria regi�o de fronteira, ele se deparou com os povos devastados.</p><p>Os Imperiais da Terra o encontraram primeiro, no auge de sua vertiginosa embriaguez expansionista, quando o Imp�rio Federal da Antiga Terra ainda estava tentando governar todos os mundos povoados pelo homem atrav�s de abismos imensos e imposs�veis. Um bombardeio chamado<emphasis> Mao Tse-tung,</emphasis> avariado durante uma incurs�o contra os hranganos, com a tripula��o morta em seus postos, os motores ligando e desligando alternadamente, tornou-se a primeira nave do reino humano a seguir � deriva para al�m do V�u do Tentador. O<emphasis> Mao</emphasis> era uma nave abandona da, sem ar e cheia de cad�veres grotescos que tombavam sem rumo pelos corredores e esbarravam nos anteparos a cada s�culo; mas os computadores ainda funcionavam e cumpriam obstinadamente seus rituais, esquadrinhando bem o bastante para notar o planeta errante em seus gr�ficos quando a nave-fantasma passou a poucos minutos-luz dele. Quase sete s�culos mais tarde, um cargueiro de Tober trope�ou no<emphasis> Mao Tse-tung</emphasis> e nessa anota��o. Mas ent�o isso n�o era novidade; o mundo j� havia sido encontrado novamente.</p><p>C�lia Marcyan foi a segunda descobridora. Seu<emphasis> Perseguidor de Sombras</emphasis> circulou o planeta escuro por um dia inteiro, durante a gera��o do interregno que se seguiu ao Colapso. Mas o planeta errante n�o tinha nada para C�lia, apenas rocha, gelo e uma noite sem-fim, ent�o n�o levou muito tempo at� que ela seguisse seu caminho. No entanto, era aficionada por nomes, e antes de partir batizou o novo mundo. Worlorn, ela o chamou. Nunca disse o motivo ou o significado, mas assim o nomeou. E C�lia seguiu para outros mundos e outras hist�rias.</p><p>Kleronomas foi o visitante seguinte, em di-46. Sua nave de reconhecimento fez uma passagem r�pida e mapeou as extens�es desertas desse mundo. O planeta revelou seus segredos aos sensores; era maior e mais rico do que a maioria, Kleronomas descobriu, com oceanos congelados e uma atmosfera congelada esperando para ser libertada.</p><p>Alguns dizem que Tomo e Walberg foram os primeiros a pousar em Worlorn, em di-97, em sua louca empreitada de atravessar a gal�xia. Verdade? Provavelmente n�o. Cada mundo do reino humano tinha uma hist�ria sobre os dois exploradores, mas o<emphasis> Puta Sonhadora</emphasis> nunca retornou, ent�o quem pode saber onde pousaram?</p><p>Os avistamentos posteriores foram mais realistas e menos legend�rios. Sem estrelas, in�til e apenas marginalmente interessante, Worlorn tornou-se uma nota��o comum nos mapas estelares da Orla, aquela dispers�o de mundos escassamente colonizados entre a escura nuvem de gases do V�u do Tentador e o Grande Mar Negro.</p><p>Ent�o, em di-446, um astr�nomo da Tocadolobo fez de Worlorn o objeto de seus estudos, e pela primeira vez algu�m se preocupou em juntar todas as coordenadas. Foi quando as coisas mudaram. O nome do astr�nomo lupino era Ingo Haapala, e ele saiu da sala de computadores incontrolavelmente excitado, do jeito que os lupinos freq�entemente ficam. Pois Worlorn teria um dia - um longo e brilhante dia.</p><p>A constela��o chamada Roda de Fogo ardia nos c�us de cada mundo exterior, uma maravilha not�ria tanto dentro quanto fora da Antiga Terra. O centro da forma��o era a supergigante vermelha, chamada por uma d�zia de nomes, tais como o Centro, o Olho do Inferno, o Sat� Gordo. Em �rbita ao redor dela, equidistantes e dispostas ordenadamente como seis bolas de fogo amarelo rolando em um �nico sulco, estavam as outras: os S�is Troianos, os Filhos de Sat�, a Coroa do Inferno. Os nomes n�o importavam. O que importava era a pr�pria Roda, seis estrelas de tamanho m�dio que rendiam homenagem ao seu vasto mestre vermelho, ao mesmo tempo o mais improv�vel e mais est�vel sistema de estrelas m�ltiplas j� descoberto. A Roda foi um sucesso passageiro, um novo mist�rio para a humanidade cansada dos mist�rios antigos. Nos mundos cientificamente mais desenvolvidos, cientistas fizeram teorias para explic�-la; al�m do V�u do Tentador, um culto cresceu ao redor dela, e homens e mulheres falavam de uma ra�a desaparecida de engenheiros estelares que haviam movido s�is inteiros para construir um monumento para eles mesmos. Tanto especula��o cient�fica quanto venera��o supersticiosa se propagaram febrilmente por algumas d�cadas e ent�o come�aram a perder for�a; o assunto acabou esquecido em pouco tempo.</p><p>O lupino Haapala anunciou que Worlorn se deslocaria ao redor da Roda de Fogo uma vez, em uma larga e lenta hip�rbole, nunca entrando no sistema propriamente dito mas chegando perto o suficiente. Cinq�enta anos-padr�o de luz do sol; ent�o sairia novamente para a escurid�o da Orla, al�m das �ltimas Estrelas, para dentro do Grande Mar Negro do vazio intergal�ctico.</p><p>Aqueles eram os s�culos turbulentos, quando o Alto Kavalaan e os outros mundos exteriores provavam o gosto do orgulho pela primeira vez e ficavam cada vez mais ansiosos para encontrar um lugar nas hist�rias devastadas da humanidade. E todo mundo sabe o que aconteceu. A Roda de Fogo sempre fora a gl�ria dos mundos exteriores, mas era uma gl�ria sem planetas - at� agora.</p><p>Foi um s�culo de tempestades enquanto Worlorn se aproximava da luz: anos de gelos derretendo, atividade vulc�nica e terremotos. Uma atmosfera congelada despertava para a vida paulatinamente, e ventos devastadores uivavam como monstros infantis. Tudo isso os povos dos mundos exteriores encararam e combateram.</p><p>Os terraformadores vieram de Tober-no-V�u, os guardi�es do clima de Escuralba, e havia equipes de Tocadolobo, de Kimdiss, de di-Emerel e do Mundo do Oceano Vinhonegro. Os homens de Alto Kavalaan supervisionavam tudo, uma vez que o mundo reivindicara para si o planeta errante. A luta durou mais de um s�culo, e aqueles que morreram ainda s�o mito para as crian�as da Orla. Mas finalmente Worlorn foi amansado. E ent�o cidades cresceram, estranhas florestas floresceram sob a luz da Roda e animais foram soltos para dar vida ao planeta.</p><p>Em di-589, o Festival da Orla foi inaugurado, com o Sat� Gordo enchendo um quarto do c�u e seus filhos brilhando ao seu redor. Naquele primeiro dia, os toberianos fizeram brilhar seu estratoescudo, ent�o as nuvens e a luz do sol se contorceram em padr�es caleidosc�picos. Outros dias se seguiram, e as naves vieram; oriundas de todos os mundos exteriores e dos mundos al�m, de Tara e Daronne, do outro lado do V�u, de �valon e do Mundo de Jamison, de lugares t�o distantes quanto Nova Holme e Antiga Posseidon, e at� mesmo da Antiga Terra. Por cinco anos-padr�o, Worlorn moveu-se na dire��o do peri�lio, por cinco anos se afastou. Em di-599 o Festival foi encerrado. Worlorn entrou no crep�sculo e se deslocou em dire��o � noite.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 1</strong></p><empty-line/><p>Do outro lado da janela, a �gua batia contra as estacas do caminho de madeira ao longo do canal. Dirk t'Larien olhou para fora e viu uma barca�a baixa negra passando lentamente sob a luz da lua. Uma figura solit�ria estava parada na popa, recostada em um fino poste escuro. Tudo se destacava com nitidez, pois a lua de Braque estava sobre suas cabe�as, do tamanho de um punho, muito brilhante.</p><p>Atr�s dela estavam o sil�ncio e a escurid�o esfuma�ada, uma cortina im�vel que escondia as estrelas mais distantes.<emphasis> Uma nuvem de p� e gases</emphasis>, ele pensou. O V�u do Tentador.</p><p>O come�o veio muito depois do fim: uma j�ia-sussurrante.</p><p>Estava enrolada em camadas de folhas prateadas e suave veludo escuro, do mesmo jeito que ele a presenteara anos atr�s. Desfez o pacote naquela noite, sentado diante da janela do quarto que dava para o largo canal turvo onde mercadores conduziam barca�as de frutas sem parar, para cima e para baixo. A gema era exatamente como Dirk se lembrava: de um vermelho profundo, com finas linhas negras e o formato de uma l�grima. Recordava-se do dia em que o �sper talhara a pedra para ele, ainda em �valon. Tocou-a depois de um longo tempo.</p><p>Era suave e muito fria em contato com a ponta do dedo, e, bem fundo em seu c�rebro, ela sussurrou lembran�as e promessas que n�o havia esquecido.</p><p>Ele n�o estava em Braque por alguma raz�o em particular, e nunca soube como o encontraram. Mas encontraram, e Dirk t'Larien estava com a j�ia novamente.</p><p>- Gwen - disse em sil�ncio, para si mesmo, apenas para pronunciar a palavra novamente e sentir o calor familiar na l�ngua. Sua Jenny, sua Guinevere, senhora de sonhos abandonados.</p><p>Fora sete anos-padr�o atr�s, ele pensou, enquanto seu dedo acariciava a joia fria, fria. Mas parecia que haviam se passado sete vidas. E tudo estava acabado. O que ela poderia querer com ele agora? O homem que a amara, aquele<emphasis> outro</emphasis> Dirk t'Larien, um fazedor de promessas e presenteador de j�ias, estava morto.</p><p>Dirk ergueu a m�o para empurrar uma mecha de cabelo castanho-grisalho para longe dos olhos. E, repentinamente, sem querer, lembrou-se de como Gwen afastava o cabelo dele sempre que pretendia beij�-lo. Sentiu-se ent�o cansado e muito perdido.</p><p>O cinismo que cuidadosamente alimentara estremeceu, e um peso caiu sobre seus ombros, um peso fantasma, o peso da pessoa que havia sido certa vez e que j� n�o era mais. Ele havia realmente mudado ao longo dos anos e chamara isso de "ficar mais s�bio", mas, agora, toda a sabedoria pareceu azedar abruptamente. Seus pensamentos errantes o levaram a todas as promessas que quebrara, aos sonhos que adiara e ent�o deixara de lado, aos ideais comprometidos, ao futuro brilhante perdido para o t�dio e para a podrid�o.</p><p>Por que ela o fazia se lembrar? Muito tempo passara, muita coisa acontecera com ele - provavelmente com ambos. Al�m disso, ele nunca quis realmente que ela usasse a joia-sussurrante. Fora um gesto est�pido, a atitude t�pica de um jovem rom�ntico. Nenhum adulto razo�vel poderia levar a s�rio um juramento t�o absurdo. Ele n�o podia ir, � claro. Mal encontrava tempo para ver Braque, tinha sua pr�pria vida e coisas importantes para fazer. Depois de todo esse tempo, Gwen n�o podia esperar que ele embarcasse para os mundos exteriores.</p><p>Ressentido, estendeu a m�o, pegou a j�ia e fechou o punho com for�a ao redor da pequena pedra. Poderia jog�-la pela janela - decidiu -, dentro das �guas escuras do canal, para bem longe, com tudo o que ela significava. Mas uma vez dentro de sua m�o, a gema era um inferno de gelo, e as lembran�as eram facas. ... <emphasis>porque ela precisa de voc�,</emphasis> a j�ia sussurrava.<emphasis> Porque voc� prometeu. </emphasis>Sua m�o n�o se moveu. Seu punho permaneceu fechado. O frio contra sua palma foi al�m da dor, at� a dorm�ncia.</p><p>O outro Dirk, o jovem, o Dirk de Gwen. Ele<emphasis> prometera.</emphasis> Mas ela tamb�m, ele se lembrou. Havia muito tempo, em �valon. O velho �sper, um emereliano enrugado com um talento menor e cabelos vermelho-dourados, havia talhado duas j�ias. Ele lera Dirk t'Larien, sentira todo o amor que Dirk tinha por sua Jenny, e colocara tanto disso na gema quanto seus pobres poderes psi�nicos o permitiram fazer. Mais tarde, fizera o mesmo para Gwen. Ent�o eles trocaram as j�ias.</p><p><emphasis>Fora id�ia de Dirk.</emphasis><emphasis> Pode n�o ser sempre assim,</emphasis><emphasis> dissera para ela, citando um antigo poema. Ent�o ambos prometeram:</emphasis><emphasis> Envie esta lembran�a, e eu virei. N�o importa onde eu esteja, ou quando, ou o que tiver se passado entre n�s. Eu virei, e n�o farei perguntas.</emphasis></p><p>Mas era uma promessa quebrada. Seis meses depois que ela o deixara, Dirk lhe enviou sua joia. Ela n�o veio. Depois disso, jamais esperou que invocasse a promessa<emphasis> dele.</emphasis> Mesmo assim, agora ela o fez. Ela realmente esperava que ele fosse?</p><p>E ele sabia, com tristeza, que o homem que fora naquela �poca, <emphasis>aquele</emphasis> homem iria at� ela, n�o importava o qu�, mesmo o quanto pudesse odi�-la - ou am�-la. Mas aquele tolo fora enterrado havia muito tempo. O tempo e Gwen o haviam matado.</p><p>Mas ainda ouvia a j�ia, e sentia seus antigos sentimentos e seu novo cansa�o. E, finalmente, ergueu os olhos e pensou,<emphasis> Bem, apesar de tudo, talvez n�o seja tarde demais.</emphasis></p><empty-line/><p>H� muitas maneiras de se mover entre as estrelas, algumas s�o mais r�pidas do que a luz, outras n�o, mas todas s�o<emphasis> lentas. </emphasis>Leva quase a vida inteira para viajar de um extremo do reino humano ao outro, e o reino humano - os mundos dispersos da humanidade e o grande vazio entre eles - � a menor parte da gal�xia. Mas Braque estava perto do V�u e dos mundos exteriores al�m dele, e havia algum com�rcio indo e vindo, ent�o Dirk p�de encontrar uma nave.</p><p>Chamava-se<emphasis> Tremor de Inimigos Esquecidos,</emphasis> ia de Braque para Tara, depois pelo V�u at� Tocadolobo e ent�o para Kimdiss e, finalmente, para Worlorn. A viagem, ainda que a velocidades MRL, levou mais de tr�s meses-padr�o. Depois de Worlorn, Dirk sabia, o<emphasis> Tremor</emphasis> partiria para Alto Kavalaan, di-Emerel e para as �ltimas Estrelas, antes de voltar e come�ar a tra�ar novamente sua rota tediosa.</p><p>O porto espacial fora constru�do para abrigar vinte naves por dia; agora recebia talvez uma por m�s. A maior parte do lugar estava fechada, escura, abandonada. O<emphasis> Tremor</emphasis> aterrissou no meio de uma pequena parte que ainda funcionava, gigantesco perto de um grupo de naves privadas e de um cargueiro toberiano parcialmente desmantelado.</p><p>Uma parte do vasto terminal automatizado e sem vida estava ainda bastante iluminada, mas Dirk atravessou-o apressadamente, em dire��o � noite, uma noite vazia do mundo exterior, que clamava pela falta de estrelas. Estavam ali, esperando por ele, atr�s das portas principais, mais ou menos como Dirk imaginara. O capit�o do<emphasis> Tremor</emphasis> havia anunciado sua chegada assim que a nave sa�ra do hiperespa�o.</p><p>Gwen Delvano veio ao encontro dele, como ele pedira a ela que fizesse. Mas n�o estava sozinha. Gwen e o homem que trouxera consigo estavam conversando entre si em voz baixa e cautelosa quando ele saiu do terminal.</p><p>Dirk parou assim que cruzou a porta, sorriu t�o facilmente quanto conseguiu e deixou cair a �nica mala leve que trazia.</p><p>- Ei - disse, suavemente. - Ouvi dizer que h� um Festival por aqui.</p><p>Ela se virou ao som da voz dele e come�ou a rir, uma t�o bem lembrada risada.</p><p>- N�o - ela respondeu. - Voc� est� dez anos atrasado.</p><p>Dirk fez uma careta e balan�ou a cabe�a.</p><p>- Que inferno - disse; ent�o sorriu novamente. Ela foi at� ele, e se abra�aram. O outro homem, o estranho, ficou parado, observando impass�vel.</p><p>Foi um abra�o curto. Nem bem Dirk a rodeou com os bra�os e Gwen se afastou. Depois de se separarem, permaneceram muito pr�ximos, olhando um para o outro para ver o que os anos haviam feito.</p><p>Ela estava mais velha, mas ainda era a mesma, e as mudan�as que ele via eram provavelmente apenas falhas da sua mem�ria. Os grandes olhos verdes n�o eram t�o verdes nem t�o grandes quanto ele lembrava, e ela era um pouco mais alta do que ele recordava, e talvez um pouco mais pesada. Mas as diferen�as n�o eram muitas; ela sorria do mesmo jeito, e o cabelo dela era o mesmo, fino e escuro, caindo pelos ombros em uma cintilante cascata mais escura do que a noite no mundo exterior. Estava vestida com um pul�ver branco de gola alta e cal�as de um grosso tecido-camale�o, agora negro como a noite, e uma tiara grossa, como gostava de usar em Avalon. Usava um bracelete tamb�m, e isso era novo. Ou talvez o nome correto fosse bra�adeira. Era uma coisa maci�a, de prata incrustada com jade, que cobria metade de seu antebra�o esquerdo. A manga do pul�ver estava enrolada para mostrar o objeto.</p><p>- Voc� est� mais magro, Dirk - ela disse.</p><p>Ele deu de ombros e afundou as m�os nos bolsos da jaqueta.</p><p>- Sim - respondeu. Na verdade, ele estava quase esquel�tico, e tinha os ombros encurvados por n�o erguer bem as costas. Os anos tamb�m o haviam envelhecido em outros aspectos; agora seu cabelo era mais cinzento do que marrom, quando antigamente era ao contr�rio, e ele o usava t�o comprido quanto o de Gwen, embora o dele fosse uma massa de cachos emaranhados.</p><p>- Faz muito tempo. - Gwen comentou.</p><p>- Sete anos-padr�o - ele respondeu, concordando. - N�o pensei que...</p><p>O outro homem, o estranho que estava esperando, tossiu, como que para lembr�-los de que n�o estavam sozinhos. Dirk levantou a cabe�a e Gwen se virou. O homem se adiantou e inclinou a cabe�a educadamente. Baixo, rechonchudo e muito loiro - de cabelo quase branco -, vestia um traje de seda brilhante colorida, verde e amarela, e um pequeno gorro negro de tric� que permanecia no lugar, a despeito de sua inclina��o.</p><p>- Arkin Ruark - apresentou-se para Dirk.</p><p>- Dirk t'Larien.</p><p>- Arkin est� trabalhando comigo no projeto. - Gwen explicou.</p><p>- Projeto?</p><p>Ela piscou.</p><p>- Voc� nem sabe por que estou aqui?</p><p>Ele n�o sabia. A j�ia-sussurrante fora enviada de Worlorn, ent�o ele n�o sabia muito mais do que onde encontr�-la.</p><p>- Voc� era uma ecologista - ele disse. - Em �valon...</p><p>- Sim. No Instituto. H� muito tempo. Terminei l�, recebi minhas credenciais e estive em Alto Kavalaan desde ent�o. At� que me enviaram para c�.</p><p>- Gwen est� com o grupo Jadeferro - Ruark falou. Ele tinha um leve sorriso no rosto. - J� eu represento a Academia da Cidade de Impril. Kimdiss. Conhece?</p><p>Dirk assentiu. Ruark era um kimdissiano ent�o, um habitante de um mundo exterior, de uma das universidades de l�.</p><p>- Impril e Jadeferro, bem, est�o atr�s da mesma coisa, sabe? Pesquisa sobre a intera��o ecol�gica em Worlorn. Isso nunca foi feito de verdade durante o Festival. Os mundos exteriores n�o s�o muito fortes em ecologia, nenhum deles. Uma ci�ncia di-esquecida, como os emerelianos dizem. Mas esse � o projeto. Gwen e eu nos conhec�amos desde antes disso, ent�o pensamos: "Bem, estamos aqui pela mesma raz�o, � sensato que trabalhemos juntos e aprendamos tudo o que pudermos".</p><p>- Imagino que sim - Dirk disse. N�o estava realmente muito interessado no projeto em si. Queria conversar com Gwen. Olhou para ela. - Voc� vai me falar tudo sobre isso mais tarde. Quando conversarmos. Imagino que voc� queira conversar.</p><p>Ela lhe deu um olhar estranho.</p><p>- Sim, � claro. Temos muito o que falar.</p><p>Ele pegou a mala.</p><p>- Para onde vamos? - perguntou. - Eu ficaria satisfeito com um banho e alguma coisa para comer.</p><p>Gwen trocou olhares com Ruark.</p><p>- Arkin e eu est�vamos justamente falando sobre isso. Ele pode aloj�-lo. Estamos no mesmo pr�dio. Apenas alguns andares de diferen�a.</p><p>Ruark assentiu.</p><p>- � claro, � claro. E um prazer receber os amigos, e ambos somos amigos de Gwen, n�o somos?</p><p>- Oh - disse Dirk. - Pensei, de algum modo, que ficaria com voc�, Gwen.</p><p>Ela n�o conseguiu olhar para ele por um tempo. Olhou para Ruark, para o ch�o, para o c�u negro, antes que seus olhos finalmente encontrassem os dele.</p><p>- Talvez - ela disse, sem sorrir agora, com uma voz cautelosa. - Mas n�o agora. N�o acho que seria bom, n�o imediatamente. Mas iremos para casa, � claro. Estamos de carro.</p><p>- Por aqui. - Ruark indicou, antes que Dirk pudesse articular uma resposta. Algo estava muito estranho. Ele imaginara a cena do reencontro urna centena de vezes a bordo do<emphasis> Tremor,</emphasis> ao longo dos meses de viagem. Algumas vezes imaginara-a delicada e amorosa, noutras um confronto zangado e, freq�entemente, lacrimoso - mas nunca assim, embara�oso, com abordagens esquisitas, e uma presen�a estranha durante o tempo todo. Come�ou a se perguntar quem exatamente Arkin Ruark era e se o relacionamento dele com Gwen era mesmo o que dissera. Mas eles dificilmente tinham falado alguma coisa de concreto. Sem saber o que dizer ou o que pensar, Dirk deu de ombros e os seguiu at� o aerom�vel.</p><p>A caminhada foi curta. Quando se aproximaram do carro, Dirk ficou surpreso. J� vira v�rios tipos de aerom�veis em suas viagens, mas nenhum como este; imenso e de a�o cinzento, com asas curvas e musculosas, parecia quase vivo, como uma gigantesca arraia voadora feita de metal. Um pequeno habit�culo com quatro lugares ficava entre as asas, e, embaixo de suas pontas, ele viu tubos sinistros.</p><p>Olhou para Gwen e apontou.</p><p>- S�o lasers?</p><p>Ela assentiu, sorrindo levemente.</p><p>- Em que diabos voc� est� voando? - Dirk perguntou. - Parece uma m�quina de guerra. Vamos ser assaltados por hranganos? N�o vejo algo assim desde que visitamos os museus do Instituto em �valon.</p><p>Gwen riu, pegou a mala dele e a jogou no banco de tr�s.</p><p>- Entre - disse para Dirk. - � um aerom�vel perfeitamente normal, fabricado em Alto Kavalaan. Come�aram a produzi-lo recentemente. Deveria parecer um animal, o banshee negro. Um predador voador, tamb�m a besta-irm� do grupo Jadeferro. Muito importante no folclore deles, um tipo de totem.</p><p>Gwen sentou-se atr�s dos controles, e Ruark a seguiu um pouco desajeitadamente, debru�ando-se sobre a asa armada para subir na parte de tr�s. Dirk n�o se moveu.</p><p>- Mas tem<emphasis> lasers!</emphasis> - insistiu.</p><p>Gwen suspirou.</p><p>- N�o est�o carregados, e nunca estiveram. Todo carro feito em Alto Kavalaan tem algum tipo de arma. A cultura exige isso. E n�o estou me referindo s� aos Jadeferro. Os grupos A�orrubro, Braith e Shanagate s�o todos iguais.</p><p>Dirk deu a volta no carro e subiu ao lado de Gwen, mas o rosto dela estava sem express�o.</p><p>- O que foi?</p><p>- Esses s�o os quatro cl�s-coaliz�o - ela explicou. - Pense neles como pequenas na��es, ou grandes fam�lias. S�o um pouco de ambos.</p><p>- Mas por que os lasers?</p><p>- Alto Kavalaan � um planeta violento. - Gwen respondeu.</p><p>Ruark deu um riso rouco.</p><p>- Ah, Gwen - disse. - Isso est� tudo errado,<emphasis> tudo!</emphasis></p><p>- Errado? - ela exclamou.</p><p>- Muito - disse Ruark. - Sim, tudo errado, porque voc� est� perto da verdade. Meias-verdades s�o piores do que mentiras inteiras.</p><p>Dirk virou-se em seu assento para encarar o gorducho kimdissiano loiro.</p><p>- O qu�?</p><p>- Alto Kavalaan<emphasis> era</emphasis> um planeta violento, � verdade. Mas agora, verdade seja dita, violentos s�o os kavalarianos. Um povo hostil, cada um deles, freq�entemente xen�fobos, racistas. Orgulhosos e ciumentos. Com suas altas-guerras e seus c�digos de honra, sim, e �<emphasis> por isso</emphasis> que carros kavalarianos v�m com armas. Para lutar no ar! Eu o previno, t'Larien...</p><p>- <emphasis>Arkin! -</emphasis> Gwen disse entre os dentes, e Dirk n�o deixou de notar a ponta de raiva em sua voz. Ela ligou o controle de gravidade repentinamente, mexeu nos controles, e o aerom�vel arrancou para a frente e deixou o solo com um gemido de protesto, erguendo-se rapidamente. O porto sob eles brilhava onde o<emphasis> Tremor pelos Inimigos Esquecidos</emphasis> estava parado entre espa�onaves menores, deixando todas elas encobertas pelas sombras. Ao redor, a escurid�o cobria o horizonte invis�vel, onde o solo negro se confundia com o c�u mais negro ainda. Apenas um pequeno grupo de estrelas iluminava a noite sobre eles. Era a Orla, com o espa�o intergal�ctico acima e a obscura cortina do V�u do Tentador abaixo, e o mundo parecia mais solit�rio do que Dirk jamais imaginara.</p><p>Ruark recostou-se, resmungando, e um sil�ncio pesado caiu sobre o carro por um longo momento.</p><p>- Arkin � de Kimdiss - Gwen disse finalmente, e for�ou uma risada. Dirk a conhecia bem demais para ser enganado, contudo ela n�o estava mais t�o tensa como quando vociferara com Ruark um momento antes.</p><p>- N�o entendo - Dirk disse, sentindo-se muito est�pido, pois todos pareciam pensar que ele deveria entender.</p><p>- Voc� n�o � um habitante de um mundo exterior - Ruark disse. - Avalon, Baldur, qualquer que seja o mundo, n�o importa. Voc�s de dentro do V�u n�o conhecem os kavalarianos.</p><p>- Ou os kimdissianos - Gwen completou, um pouco mais calma.</p><p>Ruark grunhiu.</p><p>- Isso foi sarcasmo - explicou para Dirk. - Kimdissianos e kavalarianos, n�o nos damos bem, sabe? Ent�o Gwen est� lhe dizendo que sou preconceituoso e que n�o deve acreditar em mim.</p><p>- Sim, Arkin - ela respondeu. - Dirk, voc� n�o conhece Alto Kavalaan, n�o entende a cultura ou o povo desse planeta. Como todos os kimdissianos, Arkin lhe dir� apenas o pior, mas tudo � mais complexo do que ele est� disposto a admitir. Ent�o, lembre-se disso quando este patife loquaz come�ar a tratar com voc�. Deve ser f�cil. Nos velhos tempos, voc� sempre me dizia que toda quest�o tem trinta lados.</p><p>Dirk riu.</p><p>- � justo - disse - e � verdade. Embora, nestes �ltimos anos, tenha come�ado a achar que trinta � muito pouco. Mas ainda n�o entendo do que trata isto tudo. Este carro, por exemplo... veio com o trabalho? Ou voc� tem que voar em algo assim porque trabalha para o grupo Jadeferro?</p><p>- Ah - Ruark disse em voz alta. - N�o se trabalha para o grupo Jadeferro, Dirk. N�o, voc� � um deles ou n�o �... h� apenas duas op��es. Se voc� n�o � de Jadeferro, voc� n�o trabalha para Jadeferro!</p><p>- Sim - disse Gwen, sua voz esfriando novamente. - E eu sou Jadeferro. Gostaria que se lembrasse disso, Arkin. Algumas vezes voc� me aborrece.</p><p>- Gwen, Gwen - falou Ruark, parecendo muito agitado. - Voc� � uma amiga, uma alma g�mea de verdade. Enfrentamos grandes problemas, n�s dois juntos. Nunca a ofenderia, n�o era minha inten��o. Al�m do mais, voc� n�o �<emphasis> uma</emphasis> kavalariana, nunca. Primeiro, voc� � muito mulher, uma mulher de verdade, n�o uma mera<emphasis> eyn-kethi</emphasis> ou uma<emphasis> betheyn.</emphasis></p><p>- N�o? N�o sou? Uso o v�nculo de jade-e-prata no entanto. - Ela olhou para Dirk e abaixou a voz. - Por Jaan. - falou. - Este � o carro dele, na verdade, e � por isso que estou voando nele, para responder sua pergunta original. Por Jaan.</p><p>Sil�ncio. O vento era o �nico ru�do, mo vendo-se ao redor deles enquanto subiam para a escurid�o, agitando os longos cabelos lisos de Gwen e o emaranhado de Dirk. O frio penetrava na fina roupa braquiana, e Dirk se perguntava por que o aerom�vel n�o tinha capota, apenas um pequeno para-brisa de pouca utilidade. Ent�o cruzou os bra�os, apertando-os contra o peito, e afundou-se no assento.</p><p>- Jaan? - perguntou calmamente. Uma pergunta. A resposta viria, ele sabia, e a temia apenas pelo jeito que Gwen dissera o nome, com um tipo de estranho desafio.</p><p>- Ele n�o sabe - Ruark disse.</p><p>Gwen suspirou, e Dirk viu que ela ficou tensa.</p><p>- Sinto muito, Dirk. Achei que soubesse. J� faz muito tempo. Pensei... bem, que um dos conhecidos em comum que temos em �valon, que um deles certamente teria contado para voc�.</p><p>- Nunca mais vi ningu�m - Dirk falou cautelosamente. - Aqueles que conhecemos juntos. Voc� sabe. Viajo bastante. Braque, Prometeus, Mundo de Jamison - sua voz soava oca e fr�gil aos pr�prios ouvidos. Fez uma pausa e engoliu em seco. - Quem � Jaan?</p><p>- Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro Vikary - disse Ruark.</p><p>- Jaan � meu... - Ela hesitou. - N�o � f�cil explicar. Sou<emphasis> betheyn </emphasis>de Jaan,<emphasis> cro-betheyn</emphasis> de seu<emphasis> teyn,</emphasis> Garse. - Tirou rapidamente os olhos do painel de instrumentos, olhou para ele e voltou a encarar o equipamento. N�o havia compreens�o no rosto de Dirk. - Marido - ela disse, ent�o, dando de ombros. - Sinto muito, Dirk. N�o � exatamente isso, mas � o mais perto que consigo chegar com uma �nica palavra. Jaan � meu marido.</p><p>Dirk, afundado no assento com os bra�os cruzados, n�o disse nada. Estava com frio e magoado, e se perguntava por que estava ali. Lembrou-se da joia-sussurro, e ainda assim se questionou. Gwen tivera alguma raz�o para enviar a gema para ele, certamente, e no devido tempo ela lhe contaria. E, na verdade, dificilmente teria esperado que ela estivesse sozinha. No porto, havia pensado, ainda que brevemente, que talvez Ruark... e aquilo n�o o incomodara.</p><p>Quando ele ficou em sil�ncio por tempo demais, Gwen o olhou novamente.</p><p>- Sinto muito - repetiu. - Dirk. De verdade. Voc� nunca devia ter vindo.</p><p><emphasis>E ele pensou,</emphasis><emphasis> ela est� certa.</emphasis></p><p>Os tr�s seguiram voo sem falar. Palavras haviam sido ditas, e n�o as palavras que Dirk teria desejado, mas palavras que n�o mudavam nada. Ele estava ali, em Worlorn, e Gwen ainda estava ao seu lado, embora repentinamente fosse uma estranha. Eram ambos estranhos. Ele afundou-se ainda mais no assento, sozinho com seus pensamentos, enquanto um vento frio castigava seu rosto.</p><p>Em Braque, de algum modo, pensara que a joia-sussurrante significava que ela o estava chamando de volta, que ela o queria novamente. A �nica quest�o que importava para ele era se deveria<emphasis> ir,</emphasis> se poderia voltar para ela, se Dirk t'Larien ainda poderia amar e ser amado. N�o era nada daquilo, ele sabia agora.</p><p><emphasis>Mande esta lembran�a e eu virei, e n�o haver� perguntas.</emphasis><emphasis> Essa era a promessa, a �nica promessa. Nada mais.</emphasis></p><p>Ele ficou zangado. Por que ela estava fazendo aquilo com ele? Ela havia guardado a joia e sentido os sentimentos dele. Ela podia ter adivinhado. Nenhuma necessidade dela podia pagar o pre�o das recorda��es dele.</p><p>Ent�o, finalmente, a calma retornou a Dirk t'Larien. Ao fechar os olhos com for�a, p�de ver o canal em Braque novamente e a barca�a negra e solit�ria que, por um breve momento, parecera t�o importante. E lembrou-se da decis�o de tentar novamente, de ser como<emphasis> havia</emphasis> sido, de ir at� ela e lhe dar o que pudesse dar, o que quer que ela pudesse precisar - por ele, tanto quanto por ela.</p><p>Endireitou-se com esfor�o, descruzou os bra�os, abriu os olhos e sentou-se de frente para o vento cortante. Ent�o, deliberadamente, olhou para Gwen e exibiu seu velho sorriso t�mido.</p><p>- Ah, Jenny - ele disse -, sinto muito, tamb�m. Mas n�o importa. Eu n�o sabia, mas isso n�o importa. Estou feliz de ter vindo, e voc� deveria estar contente tamb�m. Sete anos � muito tempo, certo?</p><p>Ela olhou de relance para ele, ent�o novamente para os instrumentos e passou a l�ngua sobre os l�bios de modo nervoso.</p><p>- Sim. Sete anos � muito tempo, Dirk.</p><p>- Vou conhecer Jaan?</p><p>Ela assentiu.</p><p>- E Garse tamb�m, seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>Embaixo, em algum lugar, ele ouvia barulho de �gua, um rio perdido na escurid�o. Sumiu rapidamente; estavam movendo-se em alta velocidade. Dirk espiou para baixo pelo lado do aerom�vel, para avistar a escurid�o al�m das asas, depois olhou para cima.</p><p>- Voc�s precisam de mais estrelas - disse pensativamente. - Sinto como se estivesse ficando cego.</p><p>- Sei o que quer dizer. - Gwen respondeu. Ela sorriu, e quase repentinamente Dirk se sentiu melhor do que se sentira havia muito tempo.</p><p>- Lembra-se do c�u em �valon? - ele perguntou.</p><p>- Sim. � claro.</p><p>- Montes de estrelas. Era um mundo bonito.</p><p>- Worlorn tem sua beleza tamb�m - ela comentou. - Quanto voc� conhece daqui?</p><p>- Pouco. - Dirk respondeu, ainda olhando para ela. - Sei sobre o Festival, que o planeta � errante, e n�o muito mais. Uma mulher na espa�onave me disse que Tomo e Walberg descobriram o lugar ao viajarem para o extremo da gal�xia.</p><p>- N�o exatamente - disse Gwen. - Mas a hist�ria tem um certo charme. De qualquer modo, tudo o que voc� v� � parte do Festival. O planeta inteiro �. Todos os mundos da Orla participaram, e a cultura de cada um deles est� refletida aqui, em uma das cidades. H� catorze cidades, para os catorze mundos da Orla. Entre elas, est� o Porto Espacial e a Comuna, que � um tipo de parque. Estamos passando sobre ela agora. A Comuna n�o � muito interessante, nem durante o dia. Havia festas e jogos ali nos anos do Festival.</p><p>- Onde � seu projeto?</p><p>- No deserto - contou Ruark. - Al�m das cidades e da cadeia montanhosa.</p><p>Gwen disse:</p><p>- Olhe.</p><p>Dirk olhou. No horizonte, podia perceber vagamente uma fileira de montanhas, uma barreira negra e dentada que surgia a partir da Comuna para apagar as estrelas mais baixas. Uma chispa de luz sanguinolenta brilhava no alto de um dos picos e crescia conforme se aproximavam. Ficou maior e mais alta, embora n�o mais brilhante; a cor permanecia sendo um vermelho sombrio e amea�ador que, de algum modo, fazia Dirk se lembrar da j�ia-sussurrante.</p><p>- Estamos em casa. - Gwen anunciou, enquanto a luz ficava mais inchada. - A cidade Larteyn.<emphasis> Lar</emphasis> � antigo kavalariano para c�u. Esta � a cidade de Alto Kavalaan. Algumas pessoas a chamam de Fortaleza de Fogo.</p><p>Ele p�de ver o motivo num relance. Constru�da no rebordo da montanha, com rocha embaixo e dos lados, a cidade kavalariana era tamb�m uma fortaleza quadrada e compacta, com muralhas maci�as e janelas basculantes. Mesmo as torres que se erguiam atr�s das muralhas da cidade eram pesadas e s�lidas. E baixas; a Montanha assomava-se sobre elas, sua pedra escura com manchas cor de sangue causadas pela luz refletida nela. Mas as luzes da cidade em si n�o eram refletidas; as paredes e ruas de Larteyn queimavam com um fogo pr�prio, mon�tono e carrancudo.</p><p>- Pedrardente - Gwen disse para ele, em resposta � pergunta n�o formulada. - Absorve a luz durante o dia e a devolve durante a noite. Em Alto Kavalaan, era usada para joalheria, mas foi extra�da �s toneladas e embarcada para Worlorn, para o Festival.</p><p>- Barroco impressionante - Ruark disse. - Kavalariano impressionante.</p><p>Dirk apenas assentiu.</p><p>- Voc� devia ter visto antigamente. - Gwen comentou. - Larteyn bebia dos sete s�is durante o dia e iluminava a cordilheira � noite. Como uma adaga de fogo. As pedras est�o se apagando agora... a Roda fica mais distante a cada hora. Em mais uma d�cada a cidade ficar� escura como uma brasa queimada.</p><p>- N�o parece muito grande - Dirk falou. - Quantas pessoas vivem a�?</p><p>- Um milh�o, antigamente. Voc� est� vendo apenas a ponta do iceberg. A cidade est� constru�da dentro da montanha.</p><p>- Muito kavalariano - Ruark disse. - Uma fortaleza profunda, entalhada na pedra. Mas vazia, agora. Vinte pessoas, pela �ltima contagem, incluindo n�s.</p><p>O aerom�vel passou sobre a muralha externa e se alinhou com a borda da larga sali�ncia da montanha, para passar em linha reta diante da rocha e da pedrardente. Embaixo deles, Dirk viu largos passeios, fileiras de fl�mulas movendo-se lentamente e grandes g�rgulas escavadas com olhos de pedrardente queimando. As constru��es eram de pedra branca e madeira de �bano, e nos flancos o fogo das rochas era refletido em longas estrias vermelhas, como feridas abertas de alguma besta escura e gigantesca. Sobrevoaram torres, c�pulas e ruas, becos sinuosos e amplas avenidas, p�tios abertos e um imenso teatro ao ar livre.</p><p>Vazio, tudo vazio. Nem uma figura se movia nos caminhos avermelhados de Larteyn.</p><p>Gwen desceu em espiral sobre uma negra torre quadrada. Conforme ela desligava, o controle de gravidade lentamente terminou a aterrissagem. Dirk notou dois outros carros na pista: um lustroso amarelo em formato de l�grima e um velho e formid�vel artefato militar com a apar�ncia de uma centena de anos gastos em guerra. Era verde-oliva, quadrado e blindado, com canh�o de laser na cabine dianteira e tubos de pulso na traseira.</p><p>Ela aterrissou entre os dois carros, e eles desceram do aerom�vel. Quando chegaram � �rea de elevadores, Gwen virou o rosto para ele, a face corada e estranha sob aquela melanc�lica luz avermelhada.</p><p>- � tarde - ela disse. - � melhor que todos descansemos.</p><p>Dirk n�o questionou a despedida.</p><p>- E Jaan? - perguntou.</p><p>- Voc� o conhecer� amanh� - ela respondeu. - Preciso de uma oportunidade para falar com ele primeiro.</p><p>- Por qu�? - ele perguntou, mas Gwen j� tinha se virado e se dirigia �s escadas. Ent�o o elevador chegou, Ruark colocou uma m�o no ombro dele e o empurrou para dentro.</p><p>Desceram para dormir e sonhar.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 2</strong></p><empty-line/><p>Dirk descansou muito pouco naquela noite. Cada vez que come�ava a dormir, seus sonhos o despertavam: vis�es incertas misturadas com veneno, das quais recordava vagamente quando acordava vez ap�s outra durante a noite. Finalmente desistiu. Em vez de dormir, come�ou a remexer em seus pertences at� encontrar a joia envolta em prata e veludo e sentou-se com ela na escurid�o para beber suas frias promessas.</p><p>As horas se passaram. Ent�o Dirk se levantou e se vestiu, guardou a j�ia no bolso e saiu sozinho para ver a Roda despontar. Ruark estava profundamente adormecido, mas havia dado o c�digo da porta para Dirk, ent�o n�o era um problema entrar ou sair. Tomou o elevador de volta ao telhado e esperou nas �ltimas borras da noite, sentado na fria asa de metal do aerom�vel cinzento.</p><p>Era um amanhecer estranho, opaco e amea�ador, e o dia nascia sombrio. No princ�pio, apenas um fulgor vago e nebuloso se insinuou no horizonte, uma mancha vermelho-negra que refletiu fracamente nas pedrardentes da cidade. Ent�o o primeiro sol nasceu: uma pequena bola amarela que Dirk observou a olho nu. Minutos mais tarde, uma segunda esfera apareceu, um pouco maior e mais brilhante, em outra parte do horizonte. Mas as duas juntas, embora reconhecidamente mais fortes do que estrelas, ainda forneciam menos luz do que a lua cheia de Braque.</p><p>Pouco tempo depois, o Cubo come�ou a se erguer sobre a Comuna. No in�cio, era uma linha opaca vermelha, perdida entre a luz ordin�ria do amanhecer, mas foi ficando cada vez mais brilhante, at� que finalmente Dirk viu que n�o era um reflexo, mas a coroa de um vasto sol vermelho. O mundo tornava-se carmesim enquanto ele se elevava.</p><p>Dirk olhou para as ruas abaixo. As pedras de Larteyn estavam todas opacas agora; apenas onde as sombras ca�am o brilho ainda era visto, ainda que desvanecido. A melancolia se abateu sobre a cidade como um manto cinzento ligeiramente tingido com um vermelho desbotado. Na luz fria e p�lida, todos os reflexos noturnos haviam desaparecido, e as ruas silenciosas ecoavam morte e desola��o.</p><p>O dia de Worlorn. Mas ainda era crep�sculo.</p><p>- Era mais claro no passado - disse uma voz atr�s dele. - Agora, cada dia � mais escuro, mais frio. Das seis estrelas da Coroa do Inferno, duas est�o escondidas, agora, atr�s do Sat� Gordo e n�o t�m nenhum uso para n�s. As outras ficam cada vez menores e mais distantes. O pr�prio Sat� ainda olha para Worlorn, mas sua luz � muito vermelha e cada vez mais t�nue. Ent�o, Worlorn vive um lento entardecer. Alguns anos mais e os sete s�is v�o encolher at� se tornarem sete estrelas, e o gelo vir� novamente.</p><p>Seu interlocutor permaneceu muito quieto enquanto contemplava o amanhecer, as botas ligeiramente separadas e as m�os nos quadris. Era um homem alto, magro e musculoso, com o torso nu mesmo no frio da manh�. Sua pele acobreada ficava ainda mais vermelha sob a luz do Sat� Gordo. Tinha p�mulos altos e angulosos, queixo pesado e quadrado, e um cabelo ralo na altura do ombro t�o negro quanto o de Gwen. E, nos antebra�os - antebra�os escuros recobertos de finos pelos negros -, usava dois braceletes, igualmente maci�os. Jade e prata no bra�o esquerdo, ferro negro e pedrardente no direito.</p><p>Dirk n�o se moveu da asa da arraia voadora. O homem o encarou.</p><p>- Voc� � Dirk t'Larien e, certa vez, foi amante de Gwen.</p><p>- E voc� � Jaan.</p><p>- Jaan Vikary, do grupo Jadeferro - o outro respondeu. Deu um passo adiante e ergueu as m�os, com as palmas para fora e abertas.</p><p>Dirk conhecia o gesto de algum lugar. Levantou-se e pressionou as palmas de suas pr�prias m�os contra as do kavalariano. Quando fez isso, notou algo mais. Jaan usava um cinto de metal negro lustroso, e uma pistola de laser pendia ao do lado de seu corpo.</p><p>Vikary notou seu olhar e sorriu.</p><p>- Todos os kavalarianos andam armados. � um costume... um que valorizamos. Espero que voc� n�o fique t�o chocado e impressionado quanto o amigo de Gwen, o kimdissiano. Se ficar, � sua culpa, n�o nossa. Larteyn � parte de Alto Kavalaan, e n�o esperamos que nossa cultura se adapte � sua.</p><p>Dirk sentou-se novamente.</p><p>- N�o. Talvez eu devesse esperar por isso, pelo que ouvi noite passada. Mas acho estranho. H� guerra em algum lugar?</p><p>Vikary deu um sorriso muito t�nue, um quase deliberado mostrar de dentes.</p><p>- Sempre h� guerra em algum lugar, t'Larien. A vida em si � uma guerra. - Fez uma pausa. - Seu nome: t'Larien. Incomum. Nunca tinha ouvido antes, nem meu<emphasis> teyn,</emphasis> Garse. Qual � seu mundo natal?</p><p>- Baldur. Muito longe daqui, do outro lado da Antiga Terra. Mas eu mal me lembro dele. Meus pais foram para �valon quando eu era muito jovem.</p><p>Vikary assentiu.</p><p>- E voc� tem viajado, Gwen me contou. Que mundos viu?</p><p>Dirk deu de ombros.</p><p>- Prometeus, Rhiannon, Estarrocha, Mundo de Jamison, entre outros. �valon, � claro. Uma d�zia no total, a maioria lugares mais primitivos do que �valon, onde meu conhecimento � necess�rio. Normalmente � f�cil encontrar trabalho se voc� esteve no Instituto, mesmo para quem n�o � especialmente habilidoso ou talentoso. Bom para mim. Gosto de viajar.</p><p>- Mesmo assim, nunca esteve al�m do V�u do Tentador at� agora. Apenas nos devascados, e nunca nos mundos exteriores. Encontrar� coisas diferentes aqui, t'Larien.</p><p>Dirk franziu o cenho.</p><p>- Qual a palavra que voc� usou? Devascados?</p><p>- Os devascados - Vikary repetiu. - Ah, g�ria lupina. Os mundos devascados, os mundos devastados, como voc� preferir. Uma express�o que peguei dos v�rios lupinos que estavam entre meus amigos durante meus estudos em �valon. Refere-se � esfera estelar entre os mundos exteriores e a primeira e segunda gera��es de col�nias pr�ximas da Antiga Terra. Foi nos devascados que os hranganos saturaram as estrelas, governaram seus mundos- -escravos e lutaram contra os Imperiais da Terra. A maioria dos planetas que voc� nomeou era conhecida, ent�o, e foi duramente afetada pela antiga guerra e devastada at� o colapso. A pr�pria �valon � uma col�nia de segunda gera��o, antigamente a capital do setor. H� alguma distin��o, voc� cr�, para um mundo t�o distante nestes s�culos destru�dos ap�s o interregno?</p><p>Dirk acenou com a cabe�a em concord�ncia.</p><p>- Sim. Conhe�o a hist�ria, um pouco dela. Voc� parece conhecer bastante.</p><p>- Sou historiador. - Vikary respondeu. - A maior parte do meu trabalho foi devotada a separar a hist�ria dos mitos em meu pr�prio mundo, Alto Kavalaan. Jadeferro me mandou para �valon com grande custo para pesquisar os bancos de dados dos antigos computadores com esse exato prop�sito. Mesmo tendo passado dois anos de estudos l�, tinha muito tempo livre e desenvolvi um interesse na hist�ria mais ampla do homem.</p><p>Dirk n�o falou nada, mas olhou novamente para o amanhecer. O disco vermelho do Sat� Gordo estava meio erguido agora, e uma terceira estrela amarela podia ser vista. Estava um pouco mais ao norte do que as demais e era apenas uma estrela.</p><p>- A estrela vermelha � uma supergigante - Dirk murmurou -, mas daqui parece apenas um pouco maior do que o sol de �valon. Deve estar muito longe. Devia estar mais frio, o gelo devia estar aqui agora. Mas est� apenas fresco.</p><p>- Isso � feito nosso - Vikary lhe contou com algum orgulho. - N�o de Alto Kavalaan, na verdade, mas trabalho do mundo exterior mesmo assim. Os toberianos preservaram muito da tecnologia do escudo de for�a dos Imperiais da Terra, perdida durante o Colapso, e a incrementaram ao longo dos s�culos. Sem o escudo deles, nenhum Festival poderia ter sido feito. No peri�- lio, o calor da Coroa do Inferno e do Sat� Gordo teria queimado a atmosfera de Worlorn e fervido o mar, mas o escudo de Tober bloqueou essa f�ria e tivemos um longo e brilhante ver�o. Agora, da mesma maneira, ele ajuda a manter o calor. Mesmo assim, tem seus limites, como tudo mais. O frio vir�.</p><p>- N�o pensei que f�ssemos nos conhecer assim. - Dirk comentou. - Por que veio aqui em cima?</p><p>- Uma possibilidade. H� muitos anos, Gwen me contou que voc� gostava de assistir ao amanhecer. E outras coisas tamb�m, Dirk t'Larien. Sei mais sobre voc� do que voc� sobre mim.</p><p>Dirk riu.</p><p>- Bem, isso � verdade. N�o sabia da sua exist�ncia at� a noite passada.</p><p>O rosto de Jaan Vikary estava duro e s�rio.</p><p>- Mas eu existo. Lembre-se disso, e poderemos ser amigos. Esperava encontr�-lo sozinho e conversar com voc� antes que os demais acordassem. Aqui n�o � �valon, t'Larien, e hoje n�o � ontem. Este � um mundo agonizante, um mundo sem c�digos, ent�o cada um de n�s deve se segurar firmemente a qualquer que seja o c�digo que tenha consigo. N�o teste o meu. Desde meus anos em �valon, tentei pensar em mim mesmo como Jaan Vikary, mas ainda sou um kavalariano. N�o me obrigue a ser Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro Vikary.</p><p>Dirk se levantou.</p><p>- N�o estou certo sobre o que voc� quer dizer - falou. - Mas acho que posso ser cordial o suficiente. Certamente n�o tenho nada contra voc�, Jaan.</p><p>Aquilo pareceu satisfazer Vikary Ele assentiu lentamente e colocou a m�o no bolso da cal�a.</p><p>- Um emblema da minha amizade e apre�o por voc� - disse. Em sua m�o estava um broche de metal negro, uma pequena arraia. - Usar� enquanto estiver aqui?</p><p>Dirk pegou o presente de sua m�o.</p><p>- Se � o que deseja - disse, sorrindo para o outro formalmente. Colocou o broche no colarinho.</p><p>- O amanhecer � triste aqui - Vikary comentou -, e o dia n�o � muito melhor. Vamos descer at� nossos aposentos. Despertarei os outros e poderemos comer.</p><p>O apartamento que Gwen dividia com os dois kavalarianos era imenso. A sala de estar de p� direito alto era dominada por uma lareira de dois metros de altura e duas vezes esse comprimento, e acima havia uma cornija de ard�sia onde furiosas g�rgulas empoleiradas vigiavam as cinzas. Vikary fez Dirk passar por elas, cruzando um extenso tapete negro, at� uma sala de jantar que era quase t�o grande quanto a anterior. Dirk sentou-se em uma cadeira de madeira de espaldar alto, uma entre doze que estavam ao redor da grande mesa, enquanto seu anfitri�o foi buscar comida e companhia.</p><p>Voltou em pouco tempo, trazendo uma travessa de carne fatiada em tiras finas e uma cesta de biscoitos frios. Colocou-as diante de Dirk, virou-se e partiu novamente.</p><p>Nem bem ele se foi, outra porta se abriu, e Gwen entrou sorrindo sonolentamente. Ela vestia uma velha tiara, cal�as desbotadas e uma blusa verde folgada com amplas mangas. Ele podia ver o brilho de seu pesado bracelete jade-e-prata, apertado em seu bra�o esquerdo. Com ela, um passo atr�s, vinha outro homem, quase t�o alto quanto Vikary, mas muitos anos mais jovem e muito mais esbelto, vestido com um macac�o de mangas curtas de tecido-camale�o marrom-avermelhado. Ele olhou para Dirk com intensos olhos azuis, os olhos mais azuis que Dirk j� vira, incrustados em um rosto delgado e de tra�os finos sob uma abundante barba ruiva.</p><p>Gwen se sentou. O barba ruiva parou na frente da cadeira de Dirk.</p><p>- Sou Garse Jadeferro Janacek - disse. Ofereceu suas palmas. Dirk levantou-se para pression�-las.</p><p>Garse Jadeferro Janacek, Dirk reparou, usava uma pistola laser na cintura, pendurada em um coldre de couro em um cinto de malha de a�o prateado. Ao redor de seu antebra�o direito estava um bracelete negro, g�meo do de ferro de Vikary, e que parecia ser pedrardente.</p><p>- Voc� provavelmente sabe quem sou - Dirk falou.</p><p>- Realmente - Janacek respondeu. Tinha um sorriso malicioso. Ambos se sentaram.</p><p>Gwen j� estava mastigando um biscoito. Quando Dirk retornou ao seu assento, ela se esticou por cima da mesa e tocou o pequeno broche de arraia no colarinho dele, sorrindo com ar divertido.</p><p>- Vejo que voc� e Jaan j� se encontraram - comentou.</p><p>- Mais ou menos - Dirk respondeu, e nesse momento Vikary retornou, a m�o direita segurando desajeitadamente as asas de quatro canecas de estanho, e a m�o esquerda segurando um jarro de cerveja escura. Colocou tudo no centro da mesa, ent�o fez uma �ltima viagem � cozinha para buscar pratos, talheres e uma jarra esmaltada com uma calda doce e amarela que disse para Dirk colocar sobre os biscoitos.</p><p>Quando Vikary saiu, Janacek empurrou as canecas pela mesa para Gwen.</p><p>- Sirva - disse para ela, em um tom bastante perempt�rio, antes de voltar sua aten��o novamente para Dirk. - Me contaram que voc� foi o primeiro homem que ela conheceu - disse, enquanto Gwen estava servindo. - Voc� a deixou com um grande n�mero de h�bitos vis - disse, sorrindo friamente. - Estou tentado a tomar isso como ofensa e tomar satisfa��es.</p><p>Dirk o encarou, perplexo.</p><p>Gwen havia enchido tr�s das quatro canecas com cerveja e espuma. Colocou uma diante do lugar de Vikary a segunda para Dirk e tomou um longo gole da terceira. Ent�o limpou os l�bios com as costas da m�o, sorriu para Janacek e lhe passou a caneca vazia.</p><p>- Se vai amea�ar o pobre Dirk por causa dos meus h�bitos - disse-lhe -, ent�o suponho que devo desafiar Jaan por todos os anos que venho sofrendo com os seus.</p><p>Janacek virou a caneca de cerveja vazia em suas m�os e fez uma careta.</p><p>- Cadela<emphasis> betheyn -</emphasis> disse em um tom de voz natural. Serviu sua pr�pria cerveja.</p><p>Vikary estava de volta no instante seguinte. Sentou-se, tomou um gole de sua caneca e come�aram a comer. Dirk descobriu bem r�pido que gostava de cerveja no desjejum. Os biscoitos, untados com uma grossa camada da calda doce, tamb�m eram excelentes. A carne estava um pouco seca.</p><p>Janacek e Vikary o interrogaram durante a refei��o, enquanto Gwen recostada na cadeira, falava pouco e parecia se divertir. Os dois kavalarianos eram um exemplo de contrastes. Jaan Vikary inclinava-se para a frente quando falava (ainda estava com o torso desnudo e, de vez em quando, bocejava e se co�ava com ar ausente) e mantinha o tom de amig�vel interesse geral, sorrindo com freq��ncia, parecendo muito mais tranq�ilo do que estivera no telhado. Mesmo assim, Dirk notou certa delibera��o, de um homem tenso que estava fazendo um esfor�o consciente para se soltar; mesmo suas informalidades - os sorrisos, as co�adas - pareciam estudadas e formais. Garse Janacek, por sua vez, sentava-se mais ereto do que Vikary, nunca se co�ava e tinha todos os maneirismos formais do discurso kavalariano. Mesmo assim, parecia mais genuinamente relaxado, como um homem que <emphasis>apreciava</emphasis> as restri��es que sua sociedade lhe impunha e nunca pensaria em se livrar delas. Seu discurso era animado e abrasivo; disparava um insulto atr�s do outro, a maioria deles direcionada a Gwen. Ela rebatia alguns, mas debilmente; Janacek era muito melhor no jogo do que ela. Muitos dos ataques pareciam casuais, afetuosos, mas muitas vezes Dirk pensou ter captado uma ponta de hostilidade verdadeira. Vikary tendia a franzir o cenho a cada afrontamento.</p><p>Quando Dirk mencionou seu ano em Prometeus, Janacek n�o desperdi�ou a oportunidade.</p><p>- Diga-me, t'Larien - falou -, voc� considera humanos os Homens Alterados?</p><p>- � claro - Dirk respondeu. - Eles s�o. Estabelecidos pelos Imperiais da Terra durante a guerra. Os modernos prometenses s�o apenas descendentes do antigo Comando da Guerra Ecol�gica.</p><p>- � verdade. - Janacek replicou. - Mesmo assim, devo discordar de sua conclus�o. Seus genes foram manipulados em tal grau que eles perderam totalmente o direito de serem chamados humanos, na minha opini�o. Homens-lib�lula, homens-submarino, homens que respiram veneno, homens que podem ver na escurid�o como hruuns, homens com quatro bra�os, hermafroditas, soldados sem est�mago, porcas de reprodu��o sem senci�ncia... essas criaturas n�o s�o humanas.<emphasis> S�o n�o humanas, </emphasis>mais precisamente.</p><p>- N�o - Dirk falou. - J� ouvi o termo<emphasis> n�o humano.</emphasis> � uma terminologia comum em v�rios mundos, mas significa estoque humano que sofreu tanta muta��o que n�o pode mais cruzar com o b�sico. Os prometenses tiveram o cuidado de evitar isso. Os l�deres s�o bastante normais, tiveram apenas altera��es m�nimas de longevidade e bem-estar. Bem, os l�deres fazem incurs�es regulares a Rhiannon e Estarrocha, voc� sabe. Em busca de humanos terrestres normais...</p><p>- Mas mesmo a Terra � menos terrestre normal passados estes poucos s�culos. - Janacek interrompeu. Ent�o deu de ombros. - Eu n�o deveria interromp�-lo, n�o �? A Antiga Terra est� muito longe, em todo caso. Apenas ouvimos rumores seculares. Continue.</p><p>- J� dei minha opini�o - Dirk falou, - Os Homens Alterados ainda s�o humanos. Mesmo nas castas mais baixas, os mais grotescos, os experimentos falhados e descartados pelos cirurgi�es... todos eles podem cruzar. � por isso que s�o esterilizados, eles t�m medo da prole.</p><p>Janacek tomou um gole de cerveja e o presenteou com seus intensos olhos azuis.</p><p>- Eles podem cruzar, ent�o? - sorriu. - Diga-me, t'Larien, durante seu ano naquele mundo voc� teve ocasi�o de testar isso pessoalmente?</p><p>Dirk enrubesceu e se pegou olhando de soslaio para Gwen, como se de algum modo fosse tudo culpa dela.</p><p>- N�o fiquei no celibato estes sete anos, se � isso que quer dizer - rebateu.</p><p>Janacek recompensou sua resposta com um sorriso ir�nico e olhou para Gwen.</p><p>- Interessante - disse para ela. - O homem passa v�rios anos em sua cama e ent�o imediatamente se volta para a bestialidade.</p><p>A raiva cruzou o rosto dela; Dirk ainda a conhecia bem o bastante para reconhecer<emphasis> aquilo.</emphasis> Jaan Vikary n�o pareceu satisfeito tampouco.</p><p>- Garse - disse em advert�ncia.</p><p>Janacek mudou o tom.</p><p>- Minhas desculpas, Gwen - disse. - N�o pretendia insult�-la. Certamente t'Larien pegou gosto por sereias e mulheres-inseto independentemente de voc�.</p><p>- Vai percorrer os bosques de Worlorn, t'Larien? - Vikary perguntou em voz alta, deliberadamente intervindo na conversa do outro kavalariano.</p><p>- N�o sei - Dirk respondeu, saboreando sua cerveja. - Deveria?</p><p>- Eu nunca me perdoaria se voc� n�o fizesse isso - Gwen disse, sorrindo.</p><p>- Ent�o irei. O que tem de t�o interessante?</p><p>- O ecossistema. Est� se formando e morrendo, tudo ao mesmo tempo. A ecologia foi uma ci�ncia esquecida na Orla durante muito tempo. Mesmo agora, os habitantes dos mundos exteriores possuem menos de uma d�zia de engenheiros ambientais treinados entre eles. Quando o Festival come�ou, Worlorn foi semeado com formas de vida de catorze mundos distintos, com quase nenhum planejamento sobre a intera��o entre elas. Na verdade,<emphasis> mais</emphasis> do que catorze mundos estiveram envolvidos, se contar m�ltiplos transplantes: animais trazidos da Terra para Nova Holme, para �valon, para Tocadolobo, e desses lugares para Worlorn, esse tipo de coisa, O que Arkin e eu estamos fazendo � um estudo de como essas coisas se desenvolveram. J� estamos nisso h� alguns anos, e h� trabalho suficiente ainda para nos manter ocupados por mais uma d�cada. Os resultados podem ter um interesse particular para fazendeiros em todos os mundos exteriores. Eles saber�o quais esp�cies da flora e da fauna da Orla podem introduzir com seguran�a em seus planetas natais e sob quais condi��es, e quais s�o danosos para um ecossistema.</p><p>- Os animais de Kimdiss est�o se mostrando particularmente danosos. - Janacek rosnou. - Tanto quanto aqueles que os trouxeram.</p><p>Gwen sorriu para ele com sarcasmo.</p><p>- Garse est� aborrecido porque parece que o banshee negro est� � beira da extin��o - disse para Dirk. - E uma vergonha, realmente. Em Alto Kavalaan, eles foram ca�ados at� o ponto em que a esp�cie ficou claramente em perigo, e esperava-se que os esp�cimes soltos aqui h� vinte anos pudessem se estabelecer e se multiplicar, ent�o poderiam ser recapturados e levados de volta para Alto Kavalaan antes que o frio viesse. N�o funcionou desse jeito. O banshee � um predador tem�vel, mas em sua terra natal n�o pode competir com os homens, e, em Worlorn, sua reserva foi infestada por espectros arb�reos de Kimdiss.</p><p>- A maioria dos kavalarianos pensa nos banshees apenas como uma praga e uma amea�a. - Jaan Vikary explicou. - Em seu habitat, � um freq�ente matador de homens, e os ca�adores de Braith, A�orrubro e do grupo Shanagate pensam na ca�a ao banshee como a �ltima palavra em competi��o, com uma �nica exce��o. Jadeferro sempre foi diferente. H� um mito antigo, do tempo em que Kay Ferro-Ferreiro e seu<emphasis> teyn</emphasis> Roland Lobo-Jade lutavam sozinhos contra um ex�rcito de dem�nios das Colinas de Lameraan. Kay havia ca�do, e Roland, de p� ao seu lado, estava se enfraquecendo, quando os banshees vieram por sobre as colinas, muitos deles voando juntos, negros e numerosos o suficiente para bloquear o sol. Lan�aram-se avidamente sobre o ex�rcito de dem�nios e devoraram todos eles, um por um, deixando Kay e Roland vivos. Mais tarde, quando aquele<emphasis> teyn-e-teyn</emphasis> encontrou sua cova de mulheres e estabeleceu o primeiro grupo Jadeferro, o banshee tornou-se sua besta-irm� e emblema. Nenhum Jadeferro jamais matou um banshee, e as lendas dizem que sempre que um homem do grupo est� correndo perigo de vida, um banshee aparecer� para gui�-lo e proteg�-lo.</p><p>- Uma bela hist�ria - Dirk falou.</p><p>- � mais do que uma hist�ria - Janacek disse. - H� um la�o entre Jadeferro e os banshees, t'Larien. Talvez seja psi�nico, talvez as coisas sejam sencientes, talvez seja puro instinto. N�o pretendo saber. Mesmo assim, o la�o existe.</p><p>- Supersti��o - comentou Gwen. - Voc� realmente n�o deve pensar t�o mal de Garse. N�o � culpa dele que n�o teve muita educa��o.</p><p>Dirk espalhou calda sobre um biscoito e olhou para Janacek.</p><p>- Jaan mencionou que era historiador, e eu sei o que Gwen faz - disse. - E voc�? O que voc� faz?</p><p>Os olhos azuis o encararam friamente. Janacek n�o disse nada.</p><p>- Tenho a impress�o - Dirk falou, continuando - de que voc� n�o � um ecologista.</p><p>Gwen riu.</p><p>- Essa impress�o � assustadoramente correta, t'Larien - Janacek respondeu.</p><p>- O que est� fazendo em Worlorn, ent�o? E, falando nisso - voltou seu olhar para Jaan Vikary -, o que um historiador pode encontrar em um lugar como este?</p><p>Vikary envolveu sua caneca de cerveja com as grandes m�os e bebeu pensativamente.</p><p>- Isso � bastante simples - disse. - Sou um alto-senhor kavalariano do grupo Jadeferro, ligado a Gwen Delvano por jade-e-prata. Minha<emphasis> betheyn</emphasis> foi mandada para Worlorn pelo voto do conselho dos altos-senhores, ent�o � natural que eu esteja aqui tamb�m, e meu<emphasis> teyn.</emphasis> Entende?</p><p>- Acho que sim. Voc�s fazem companhia para Gwen, ent�o?</p><p>Janacek aparentou muita hostilidade.</p><p>- N�s<emphasis> protegemos</emphasis> Gwen - disse friamente. - Normalmente, das pr�prias tolices. Ela n�o devia estar aqui, mesmo assim est�, ent�o devemos ficar aqui tamb�m. Quanto � sua quest�o anterior, t'Larien, sou um Jadeferro,<emphasis> teyn</emphasis> de Jaantony Alto-Jadeferro. Posso fazer qualquer coisa que meu grupo exija de mim: ca�ar, plantar, duelar, guerrear contra nossos inimigos, fazer beb�s na barriga de nossas<emphasis> eyn-kethi.</emphasis> � isso o que eu fa�o. O que eu sou voc� j� sabe. Eu lhe disse meu nome.</p><p>Vikary o olhou de soslaio e o fez se calar com um curto movimento de sua m�o direita.</p><p>- Pense em n�s como turistas atrasados. - falou para Dirk. - Estudamos e andamos por a�, percorremos os bosques e as cidades mortas, nos divertimos. Pod�amos engaiolar banshees para mand�-los de volta a Alto Kavalaan, mas ainda n�o fomos capazes de encontrar nenhum. - Ergueu-se e terminou de tomar sua cerveja. - O dia passa e continuamos sentados - disse, depois de colocar a caneca na mesa. - Se voc�s querem ir para os bosques, devem sair logo. Leva tempo cruzar as montanhas, mesmo no aerom�vel, e n�o � s�bio permanecer por l� depois que escurece.</p><p>- N�o? - Dirk terminou sua cerveja e limpou a boca com as costas da m�o. Guardanapos n�o pareciam fazer parte do servi�o de mesa de um kavalariano.</p><p>- Os banshees nunca foram os �nicos predadores em Worlorn - Vikary contou. - H� animais assassinos e assediadores de catorze mundos nos bosques, e eles s�o o menor perigo. Os piores s�o os humanos. Worlorn � um mundo f�cil e vazio hoje, e suas sombras e desertos est�o cheios de estranhezas.</p><p>- Seria melhor se estivessem armados - Janacek falou. - Ou, melhor ainda, Jaan e eu podemos ir com voc�s, para o bem da sua seguran�a.</p><p>Mas Vikary sacudiu a cabe�a.</p><p>- N�o, Garse. Eles devem ir sozinhos e conversar. � melhor desse jeito, entende? � meu desejo. - Ent�o pegou alguns pratos e caminhou em dire��o � cozinha. Mas, perto da porta, parou e olhou sobre os ombros, e seus olhos encontraram rapidamente os de Dirk.</p><p>E Dirk lembrou-se de suas palavras, l� fora, no teto, ao amanhecer.<emphasis> Eu existo,</emphasis> Jaan dissera.<emphasis> Lembre-se disso.</emphasis></p><p>- H� quanto tempo voc� n�o voa em um aeropatinete? - Gwen lhe perguntou pouco tempo depois, quando se encontraram no telhado. Ela vestira um macac�o de tecido-camale�o, uma vestimenta cinturada que a cobria de um escuro vermelho-acinzentado das botas ao pesco�o. A tiara que mantinha seus cabelos negros no lugar era do mesmo tecido.</p><p>- N�o ando nisso desde que era crian�a, em �valon - Dirk respondeu. Sua pr�pria roupa era g�mea da dela; Gwen lhe dera para que pudessem se camuflar na floresta. - Mas tenho vontade de tentar. Eu costumava ser muito bom.</p><p>- Vamos nessa, ent�o - Gwen falou. - N�o seremos capazes de ir muito longe ou muito r�pido, mas isso n�o importa. - Ela abriu o ba� de carga do aerom�vel cinza em formato de arraia e tirou dois pequenos pacotes prateados e dois pares de botas.</p><p>Dirk sentou-se na asa do aerom�vel novamente, enquanto colocava as novas botas e amarrava-as. Gwen desdobrou os patinetes, duas pequenas plataformas met�licas brandas e finas, largas o suficiente para apoiar os p�s. Quando colocou as plataformas no ch�o, Dirk p�de seguir com a vista os cabos entrecruzados dos controles de gravidade localizados na parte inferior. Subiu em um deles, posicionou os p�s cuidadosamente, e as solas de metal de suas botas se travaram firmemente no lugar, enquanto a plataforma ficava r�gida. Gwen lhe deu o dispositivo de controle, e ele o prendeu � cintura, de modo que ficasse ao alcance da palma da m�o.</p><p>- Arkin e eu usamos os patinetes para andar pelos bosques. - Gwen lhe contou enquanto se agachava para prender as pr�prias botas. - Um aerom�vel tem uma velocidade dez vezes maior, � claro, mas nem sempre � f�cil encontrar uma clareira grande o suficiente para pousar. Os patinetes s�o bons para trabalhos que exigem aproxima��o maior, desde que n�o tentemos levar muito equipamento nem tenhamos muita pressa. Garse diz que s�o brinquedos, mas... - Ela se levantou, subiu na plataforma e sorriu. - Pronto?</p><p>- Pode apostar - Dirk respondeu, e seu dedo ro�ou no disco prateado na palma de sua m�o direita com um pouco mais de for�a do que deveria. O patinete saiu disparado para cima, arrastando-o pelos p�s e balan�ando-o de um lado para o outro de cabe�a para baixo, quando o resto de seu corpo ficou para tr�s. Ele mal conseguiu evitar de bater a cabe�a no telhado enquanto virava e subia para o c�u pendurado sob sua plataforma, rindo descontroladamente.</p><p>Gwen veio atr�s dele, permanecendo na pr�pria plataforma e subindo pelo vento do crep�sculo com a habilidade adquirida de longa pr�tica, como um g�nio montado em um tapete prateado. Quando alcan�ou Dirk, ele havia brincado com os controles tempo suficiente para endireitar-se, embora ainda estivesse bamboleando para tr�s e para a frente, em um esfor�o feroz para manter o equil�brio. Ao contr�rio de aerom�veis, aeropatinetes n�o tinham girosc�pio.</p><p>- Eeeeeee - ele gritou quando ela se aproximou. Rindo, Gwen foi para tr�s dele e lhe deu um vigoroso tapa nas costas. Era tudo o que precisava para girar novamente, e ele come�ou a rodopiar pelos c�us de Larteyn em um louco carrossel.</p><p>Gwen estava atr�s dele, gritando alguma coisa. Dirk piscou e notou que estava prestes a se chocar contra a lateral de uma alta torre de �bano. Mexeu nos controles e se elevou bruscamente, ainda lutando para se estabilizar.</p><p>Estava bem acima da cidade e em p� sobre a plataforma quando ela o alcan�ou.</p><p>- Fique longe - avisou-a com um sorriso, sentindo-se est�pido, desajeitado e brincalh�o. - Me golpeie assim novamente e eu vou at� o tanque voador e apago voc� dos c�us com o laser, mulher! - Inclinou-se de lado e, para compensar e manter o equil�brio, balan�ou para o lado oposto.</p><p>- Voc� est� b�bado. - Gwen gritou para ele atrav�s do vento cortante. - Cerveja demais no desjejum. - Ela estava acima dele, agora, bra�os cruzados no peito, observando seus esfor�os com desaprova��o zombeteira.</p><p>- Estas coisas parecem muito mais est�veis quando voc� est� de cabe�a para baixo - Dirk falou. Finalmente conseguira um aparente equil�brio, embora pelo jeito que estendia os bra�os para os dois lados ficava claro que estava na d�vida de ser capaz de manter-se assim.</p><p>Gwen desceu ao mesmo n�vel que ele e ficou ao seu lado, bem est�vel e confiante, seus cabelos escuros agitando-se atr�s dela como um negro estandarte selvagem.</p><p>- Como est� indo? - ela gritou, enquanto voavam lado a lado.</p><p>- Acho que consegui - Dirk anunciou. Ainda estava em p�.</p><p>- Bom. Olhe para baixo!</p><p>Ele fez o que ela mandou, para al�m da escassa seguran�a da plataforma sob seus p�s. Larteyn, com suas torres escuras e ruas de pedrardente apagadas, n�o estava mais embaixo deles. Em vez disso, havia uma longa,<emphasis> longa</emphasis> queda atrav�s do vazio c�u crepuscular at� a Comuna bem abaixo. Ele vislumbrou um rio ali, um fio de �guas escuras serpenteando no verde pouco iluminado. Ent�o sua cabe�a rodou vertiginosamente, suas m�os se apertaram, e ele virou de novo.</p><p>Dessa vez, Gwen mergulhou embaixo dele quando Dirk ficou de cabe�a para baixo. Cruzou os bra�os novamente e sorriu para ele.</p><p>- Voc� � incorrig�vel, t'Larien - disse-lhe. - Por que n�o voa de cabe�a para cima?</p><p>Ele rosnou para ela, ou tentou rosnar, mas o vento tirou seu f�lego e s� conseguiu fazer uma careta. Ent�o virou-se novamente. Suas pernas estavam ficando doloridas com tudo isso.</p><p>- Ali! - ele gritou e olhou para baixo desafiadoramente para provar que a altura n�o o afetaria pela segunda vez.</p><p>Gwen estava ao seu lado outra vez. Olhava para ele e balan�ava a cabe�a.</p><p>- Voc� � a desgra�a das crian�as de �valon e dos aeropatina- dores de todos os lugares - disse. - Mas provavelmente sobreviver�. Agora, quer ver o bosque?</p><p>- Leve-me at� l�, Jenny!</p><p>- Ent�o se vire. Est� indo para o lado errado. Temos que cruzar as montanhas. - Ela estendeu a m�o livre, tomou a de Dirk, e viraram juntos em uma larga espiral, para cima e para tr�s, de frente para Larteyn e a cadeia montanhosa. A cidade parecia cinza e desbotada a dist�ncia, com orgulhosas pedrardentes opacas pelo sol. As montanhas eram uma escurid�o iminente.</p><p>Voaram juntos em dire��o a elas, ganhando altitude paulatinamente at� que ficaram bem acima da Fortaleza de Fogo, alto o suficiente para atravessar os picos. Era quase a altitude m�xima para os aeropatinetes; um aerom�vel, � claro, poderia subir muito mais. Mas era alto o suficiente para Dirk. Os macac�es de tecido-camale�o que vestiam tinham ficado totalmente cinza e branco, e ele era grato pelo calor das roupas; o vento estava frio e o indeciso dia de Worlorn n�o era muito mais quente do que a noite.</p><p>De m�os dadas e gritando coment�rios ocasionais, voando por aqui e por ali ao vento, Gwen e Dirk passaram sobre a montanha e logo depois desceram a encosta at� um vale sombrio e rochoso. Ent�o voaram para cima e para baixo novamente, e ainda mais uma vez, passando por afloramentos de rocha verde e negra afiados como punhais, por altas e estreitas cachoeiras e por precip�cios ainda mais altos. Em certo ponto, Gwen o desafiou a uma corrida, e ele gritou aceitando, ent�o dispararam adiante t�o r�pido quanto os patinetes e suas habilidades permitiam, at� que finalmente Gwen ficou com pena dele e voltou para segurar sua m�o outra vez.</p><p>A cadeia descia t�o repentinamente a oeste como se erguia no leste, formando uma barreira alta para proteger o bosque da luz da Roda, que ainda se erguia.</p><p>- Para baixo - Gwen falou, e ele assentiu, e ent�o come�aram uma lenta descida em dire��o �s folhagens escuras misturadas abaixo. Fazia mais de uma hora que estavam voando; Dirk estava meio entorpecido pelo forte vento de Worlorn, e a maior parte de seu corpo protestava desse maltrato.</p><p>Pousaram bem dentro da floresta, ao lado de um lago que haviam visto enquanto desciam. Gwen aterrissou, tra�ando graciosamente uma curva suave que a deixou parada em uma praia musgosa ao lado da �gua. Dirk, com medo de se estatelar no ch�o e quebrar uma perna, desligou o controle um pouco cedo demais e despencou o �ltimo metro.</p><p>Gwen o ajudou a soltar suas botas do aeropatinete, e, juntos, sacudiram a areia e o musgo das roupas e dos cabelos. Ent�o sentou-se ao lado dele e sorriu. Ele retribuiu o sorriso e a beijou.</p><p>Ou tentou. Quando se aproximou para colocar o bra�o ao redor dela, Gwen se afastou. Ele compreendeu e deixou as m�os ca�rem, e sombras cruzaram seu rosto.</p><p>- Sinto muito - ele murmurou. Desviou o rosto e olhou para o lago. A �gua era de um verde lustroso, e ilhas de fungos pontilhavam a superf�cie parada. O �nico movimento era dos enxames de insetos agitando-se nas �guas rasas pr�ximas. A floresta era ainda mais escura do que a cidade, pois as montanhas ocultavam a maior parte do disco do Sat� Gordo.</p><p>Gwen esticou a m�o e o tocou no ombro.</p><p>- N�o - ela disse suavemente. - Eu sinto muito. Esqueci tamb�m. Era quase como em �valon.</p><p>Ele olhou para ela e for�ou um sorriso l�nguido, sentindo-se perdido.</p><p>- Sim. Quase. Senti sua falta, Gwen, apesar de tudo. Ou n�o deveria dizer isso?</p><p>- Provavelmente, n�o - ela respondeu. Seus olhos evitaram os dele novamente e vagaram para o outro lado do lago.</p><p>A margem oposta estava perdida na neblina. Ela contemplou a dist�ncia por um longo tempo, sem se mover, exceto uma vez, quando tremeu de frio. Dirk observou a pr�pria roupa adquirir lentamente um tom manchado de branco e cinza, para combinar com a cor da terra sobre a qual se sentara.</p><p>Finalmente ele estendeu a m�o para toc�-la, ainda inseguro. Ela se afastou.</p><p>- N�o - falou.</p><p>Dirk suspirou e apanhou um punhado de areia fria, deixando escorrer entre os dedos enquanto pensava.</p><p>- Gwen. - Hesitou. - Jenny, n�o sei...</p><p>Ela olhou de relance para ele e franziu o cenho.</p><p>- Esse n�o � meu nome, Dirk. Nunca foi. Ningu�m jamais me chamou assim, exceto voc�.</p><p>Ele estremeceu, consternado.</p><p>- Mas por que...</p><p>- Porque n�o sou eu!</p><p>- E ningu�m mais - ele disse. - Simplesmente me ocorreu, em �valon, que combinava com voc�, e eu a chamei assim. Achei que gostasse.</p><p>Ela abanou a cabe�a.</p><p>- Antigamente. Voc� n�o entende. Voc� nunca entendeu. Chegou a significar mais para mim do que a princ�pio, Dirk. Mais e mais e mais, e as coisas que esse nome representa para mim n�o s�o coisas boas. Tentei falar para voc�, at� mesmo naquela �poca. Mas foi h� muito tempo. Eu era mais jovem, uma crian�a. N�o tinha as palavras adequadas para explicar.</p><p>- E agora? - A voz dele estava crispada de irrita��o. - Voc� tem as palavras<emphasis> agora,</emphasis> Gwen?</p><p>- Sim. Por voc�, Dirk. Mais palavras do que posso usar. - Ela sorriu de alguma piada secreta e sacudiu a cabe�a, ent�o seu cabelo se espalhou ao vento. - Ou�a, nomes privados s�o bons. Podem ser algo especial para se compartilhar. Com Jaan � assim. Os altos-senhores t�m longos nomes porque cumprem muitas fun��es. Ele pode ser Jaan Vikary para um amigo lupino em �valon, e Alto-Jadeferro nos conselhos do grupo, e ainda Riv no culto, Lobo na alta-guerra, ou mesmo ter outro nome na cama, um nome privado. E isso est� certo, porque todos esses nomes s�o ele. Eu reconhe�o isso. Gosto de algumas partes mais do que de outras, gosto de Jaan mais do que do Lobo ou do Alto-Jadeferro, mas esses nomes s�o todos verdadeiros para ele. Os kavalarianos t�m um ditado, que um homem � a soma de todos os seus nomes. Nomes s�o muito importantes em Alto Kavalaan. Nomes s�o muito importantes em todos os lugares, mas os kavalarianos conhecem essa verdade melhor do que a maioria. Uma coisa sem nome n�o tem subst�ncia. Se algo existe, tem um nome. E, da mesma forma, se voc� der uma nome para alguma coisa, de algum modo, em algum n�vel, a coisa nomeada ainda existe, chegar� a ser. Esse � outro ditado kavalariano. Voc� entende, Dirk?</p><p>- N�o.</p><p>Ela riu.</p><p>- Voc� � t�o confuso quanto sempre. Ou�a, quando Jaan foi para �valon, ele era Jaantony Jadeferro Vikary. Esse era seu nome, seu nome inteiro. As duas primeiras palavras eram a parte mais importante dele: Jaantony, seu nome verdadeiro, seu nome de nascimento, e Jadeferro � seu grupo e sua alian�a. Vikary � um nome inventado que ele assumiu na puberdade. Todos os kavalarianos usam esses nomes, em geral nomes de altos-senhores que admiram, ou figuras m�ticas, ou her�is pessoais. V�rios sobrenomes da Antiga Terra sobreviveram desse jeito. A id�ia � que, ao tomar o nome de um her�i, o garoto adquirir� algumas das qualidades do homem. Em Alto Kavalaan, isso realmente parece funcionar. O nome que Jaan escolheu, Vikary, � um pouco incomum em v�rios aspectos. Soa como um clich� da Antiga Terra, mas n�o �. Pelo que se conta, Jaan era um menino estranho e sonhador, muito melanc�lico e introspectivo demais. Quando era muito pequeno, gostava de ouvir can��es das<emphasis> eyn-kethi</emphasis> e de contar hist�rias, o que n�o � bom para um garoto kavalariano. As<emphasis> eyn-kethi </emphasis>s�o as mulheres para reprodu��o, as m�es perp�tuas dos grupos, e uma crian�a normal n�o deve ficar com elas mais do que o necess�rio. Quando Jaan ficou mais velho, passava o tempo sozinho, explorando cavernas e minas abandonadas nas montanhas. Mantinha uma dist�ncia segura de seus irm�os de grupo. N�o o culpo. Era sempre atormentado pelos demais e praticamente n�o tivera amigos, at� que conheceu Garse. Que � muito mais jovem, mas ainda assim acabou como protetor de Jaan nas etapas posteriores de sua inf�ncia. Eventualmente, tudo isso mudou. Quando Jaan se aproximou da idade em que deveria se sujeitar ao c�digo de honra, voltou sua aten��o para as armas e as dominou muito rapidamente. Ele fez realmente um estudo fant�stico: hoje � terrivelmente r�pido, e o consideram letal, melhor ainda do que Garse, cuja habilidade � em grande parte instintiva. N�o foi sempre assim, no entanto. De qualquer forma, quando chegou a hora de Jaantony escolher um nome, ele tinha dois grandes her�is, mas n�o se atrevia a mencionar nenhum deles para os altos-senhores. Nenhum deles era Jadeferro, e, pior, ambos eram quase p�rias, vil�es da hist�ria kavalariana, l�deres carism�ticos cujas causas foram perdidas e que haviam sido sujeitados a gera��es de difama��es. Ent�o Jaan meio que juntou seus nomes e manipulou os sons at� que o produto parecesse um antigo nome familiar importado da Terra. Os altos-senhores aceitaram sem pestanejar. Era apenas seu nome escolhido, a parte menos importante de sua identidade. � a parte que vem no final, depois de tudo.</p><p>Ela franziu o cenho e prosseguiu:</p><p>- Esse � o ponto central de toda a hist�ria. Jaantony Jadeferro Vikary foi para �valon, e era, em grande parte, Jaantony Jadeferro. S� que �valon � um mundo muito sens�vel aos sobrenomes, e l� ele descobriu que era em grande parte Vikary. A Academia o registrou com esse nome, seus instrutores o chamavam de Vikary, e esse foi o nome com o qual viveu por dois anos. Logo se transformou em Jaan Vikary, al�m de ser Jaantony Jadeferro. Acho que gostava disso. Desde essa �poca, tentou ser sempre Jaan Vikary, embora n�o tenha sido f�cil depois que voltou para Alto Kavalaan. Para os kavalarianos, ele sempre ser� Jaantony.</p><p>- Onde ele conseguiu todos os outros nomes? - Dirk pegou-se perguntando, a despeito de si mesmo. A hist�ria o fascinava e parecia jogar novas luzes sobre o que Jaan Vikary lhe dissera no telhado.</p><p>- Quando nos casamos, ele me levou para Jadeferro e tornou- -se um alto-senhor, automaticamente um membro do conselho dos altos-senhores - ela explicou. - Aquilo colocou um "alto" no nome dele, e lhe deu o direito de ter propriedades privadas, independentemente do grupo, de fazer sacrif�cios religiosos e de liderar seu<emphasis> kethi,</emphasis> seus irm�os de grupo, na guerra. Ent�o ele ganhou um nome de guerra, uma esp�cie de grau, e um nome religioso. Antigamente, esses tipos de nome eram muito importantes. N�o tanto hoje em dia, mas o costume permanece.</p><p>- Entendo - disse Dirk, embora n�o entendesse, n�o completamente. Os kavalarianos pareciam dar uma relev�ncia excepcional ao casamento. - E isso tem algo a ver conosco?</p><p>- Muito - Gwen falou, ficando muito s�ria novamente. - Quando Jaan chegou a �valon e as pessoas come�aram a cham�-lo de Vikary, ele mudou. Tornou-se Vikary, um h�brido de seus pr�prios �dolos iconocl�sticos. � isso o que os nomes podem fazer, Dirk. � o que foi nossa ru�na. Eu amava voc�, sim. Muito. Eu amava voc�, e voc� amava Jenny.</p><p>- Voc� era Jenny!</p><p>- Sim e n�o. Sua Jenny, sua Guinevere. Voc� dizia isso, uma vez, outra e mais outra. Voc� me chamava desses nomes com tanta freq��ncia quanto me chamava de Gwen, mas voc� estava certo. Esses eram<emphasis> seus</emphasis> nomes. Sim, eu gostava disso. O que eu sabia de nomes ou de nomear algo? Jenny � muito bonito, e Guinevere tem o brilho da lenda. O que eu sabia? Mas aprendi, mesmo que nunca tenha tido as palavras para explicar. O problema era que voc� amava Jenny... s� que eu n�o era Jenny. Ela era baseada em mim, talvez, mas em grande parte era um fantasma, um desejo, um sonho que voc� desenhou todo para si. Voc� a fixou em mim e amou n�s duas, e, com o tempo, me surpreendi me transformando em Jenny. D� um nome para uma coisa e ela, de algum modo, passar� a existir. Toda a verdade est� nos nomes, e todas as mentiras tamb�m, pois nada distorce tanto quanto um nome falso, um nome falso que muda a realidade assim como as apar�ncias. Eu queria que voc� me amasse, n�o a ela. Eu era Gwen Delvano, e queria ser a melhor Gwen Delvano que pudesse ser, mas ainda eu mesma. Lutei para ser Jenny, e voc� lutou para mant�-la e nunca entendeu. E foi por isso que deixei voc�. - Terminou em uma voz fria, o rosto uma m�scara, e desviou o olhar dele novamente.</p><p>E ele entendeu, finalmente. Por sete anos nunca fora capaz de compreender, mas agora, de maneira fugaz, p�de vislumbrar.<emphasis> Ent�o foi por isso,</emphasis> ele pensou,<emphasis> foi por isso que ela enviou a j�ia-sussurrante.</emphasis> N�o para cham�-lo de volta, n�o, n�o por isso. Mas para dizer-lhe, finalmente, porque o mandara embora. E havia sentido nisso. Sua raiva desapareceu repentinamente em uma cansada melancolia. A areia corria fria e despercebida entre os dedos dele.</p><p>Ela viu o rosto dele, e a voz dela ficou mais suave.</p><p>- Sinto muito, Dirk - falou. - Mas voc� me chamou de Jenny novamente. E eu tinha que lhe contar a verdade. Nunca esqueci, e n�o posso imaginar que voc� tenha esquecido, e pensei nisso por todos estes anos. Foi<emphasis> t�o</emphasis> bom, quando era bom, eu ficava pensando. Como p�de dar errado? Isso me assustava, Dirk. Isso realmente me assustava. Eu pensava, "se<emphasis> n�s</emphasis> demos errado, Dirk e eu, ent�o nada � certo, nada pode ter consist�ncia". O medo me aleijou por dois anos. Mas finalmente, com Jaan, eu entendi. E agora veio � tona, a resposta que encontrei. Sinto se � uma resposta muito dolorosa para voc�. Mas voc� tinha que saber.</p><p>- Eu esperava...</p><p>- N�o - ela avisou. - N�o comece, Dirk. N�o novamente. Nem mesmo tente. O nosso relacionamento terminou. Reconhe�a isso. Matar�amos a n�s mesmos se tent�ssemos.</p><p>Ele suspirou, totalmente desarmado. Durante toda a longa conversa, n�o a tocara nenhuma vez. Sentia-se impotente.</p><p>- Devo supor que Jaan n�o a chama de Jenny? - ele perguntou finalmente, com um sorriso amargo.</p><p>- N�o - Gwen respondeu, sorrindo. - Como kavalariana, tenho um nome secreto, e ele me chama por esse nome. Mas eu escolhi o nome, ent�o n�o tem problema. � o<emphasis> meu</emphasis> nome.</p><p>Ele apenas deu de ombros.</p><p>- Voc� est� feliz, ent�o?</p><p>Gwen se levantou e sacudiu a areia das pernas.</p><p>- Jaan e eu... bem, h� muita coisa que � dif�cil explicar. Voc� foi meu amigo antigamente, Dirk, e talvez tenha sido meu melhor amigo. Mas esteve longe por um longo tempo. N�o pressione demais. Neste exato momento preciso de um amigo. Falo com Arkin, e ele ouve e tenta compreender, mas n�o pode ajudar muito. Est� muito envolvido, muito cego sobre os kavalarianos e a cultura deles. Jaan, Garse e eu temos problemas, sim, se � o que est� perguntando. Mas � dif�cil falar sobre eles. Me d� um tempo. Espere, se puder, e seja meu amigo novamente.</p><p>O lago estava muito quieto no perp�tuo p�r do sol vermelho- acinzentado. Ele observou a �gua, espessa com as crostas de fungos espalhadas, e lembrou-se novamente do canal em Braque. Ent�o ela precisava dele, pensou. Talvez n�o como ele esperava, mas ainda havia algo que podia lhe dar. Agarrou-se a isso com for�a: ele queria dar, tinha que dar.</p><p>- Como seja - disse, enquanto se levantava. - H� muita coisa que n�o entendo, Gwen. Muita coisa. Fico pensando que metade da conversa de ontem foi incompreens�vel para mim, e n�o sei as perguntas certas que devem ser feitas. Mas posso tentar. Devo isso a voc�, acho. Devo isso, de um modo ou de outro.</p><p>- Voc� esperar�?</p><p>- E ouvirei, quando a hora chegar.</p><p>- Ent�o estou feliz que tenha vindo - ela disse. - Preciso de algu�m, de algu�m de fora. Voc� chegou bem a tempo, Dirk. Uma sorte.</p><p><emphasis>Que estranho,</emphasis><emphasis> ele pensou,</emphasis><emphasis> mandar buscar a sorte.</emphasis><emphasis> Mas n�o disse nada.</emphasis></p><p>-E agora?</p><p>- Agora me mostre o bosque. Viemos para isso, no fim das contas.</p><p>Pegaram os aeropatinetes e se afastaram do lago silencioso, em dire��o da espessa floresta. N�o havia trilha a ser seguida, mas o mato n�o era fechado e a caminhada era f�cil, com muitos caminhos a serem escolhidos. Dirk estava quieto, estudando as �rvores ao redor, com os ombros ca�dos e as m�os enfiadas no fundo dos bolsos. Gwen falou o pouco que havia para ser falado. Quando falava, sua voz era baixa e reverente como o sussurro de uma crian�a em uma grande catedral. Mas, na maior parte das vezes, ela simplesmente apontava e o deixava olhar.</p><p>As �rvores ao redor do lago eram todas velhas conhecidas que Dirk vira milhares de vezes antes. Por isso era chamada de floresta de casa, as �rvores que os homens carregaram consigo de sol em sol e plantaram em todos os mundos em que chegavam. A floresta de casa tinha suas ra�zes na Antiga Terra, mas n�o era totalmente da Terra. Em cada novo planeta, a humanidade encontrava novas favoritas, plantas e �rvores que logo eram t�o parte da linhagem quanto aquelas que vieram da Terra no in�cio. E quando as naves espaciais partiam, mudas daqueles mundos seguiam com as duas vezes desenraizadas netas da Terra, e ent�o a floresta de casa crescia.</p><p>Dirk e Gwen passearam por aquela floresta lentamente, como outros caminharam pela mesma floresta em uma d�zia de outros mundos. E conheciam as �rvores. Bordos doces, bordos ardentes, pseudocarvalho e carvalhos verdadeiros, �rvores-prata, pinheiros venenosos e �sters. Os habitantes dos mundos exteriores trouxeram essas plantas at� ali como seus ancestrais as levaram para a Orla, para adicionar um toque do lar, onde quer que o lar pudesse estar.</p><p>Mas, ali, as �rvores pareciam diferentes.</p><p>Era a luz, Dirk percebeu depois de um tempo. A luz fraca que vazava t�o escassa do c�u, o brilho vermelho p�lido que passava pelo dia de Worlorn. Essa era uma floresta crepuscular. Na lentid�o do tempo - em um outono muito estendido -, estava morrendo.</p><p>Olhou mais de perto e viu que os bordos doces estavam todos nus, as folhas ca�das aos seus p�s. N�o ficariam verdes novamente. Os carvalhos estavam secos tamb�m. Parou e puxou uma folha de um bordo ardente, e viu que as finas veias vermelhas haviam se tornado negras. E as �rvores-prata estavam, na verdade, de um cinza empoeirado.</p><p>A podrid�o viria em breve.</p><p>Em partes da floresta, a podrid�o j� chegara. Em um vale desolado, onde o h�mus estava mais grosso e mais negro do que em qualquer outro lugar, Dirk notou o odor. Olhou para Gwen, perguntando. Ela se agachou e levou um punhado de mat�ria negra ao nariz dele. Dirk virou o rosto.</p><p>- Era uma cama de musgo - contou para ele, melanc�lica. - Trouxeram de Eshellin. Um ano atr�s estava verde e escarlate, viva, com florzinhas. O negro se espalhou rapidamente.</p><p>Adentraram ainda mais na floresta, mais distantes do lago e da cadeia montanhosa. Os s�is estavam quase a pino agora; o Sat� Gordo, opaco e borrado como uma lua ensang�entada, com uma aurora irregular de quatro pequenos s�is-estrelas. Worlorn havia retrocedido demais e na dire��o errada: os efeitos da Roda estavam perdidos.</p><p>Estavam caminhando h� mais de uma hora, quando a caracter�stica da vegeta��o ao redor deles come�ou a mudar. Lentamente, sutilmente, a mudan�a se acentuou de modo t�o gradual que Dirk quase n�o notou. Mas Gwen lhe mostrou. O aroma familiar da floresta de casa estava sumindo, rendendo-se para algo mais estranho, algo �nico, algo mais selvagem. Esbeltas �rvores negras com folhas cinzentas, altas muralhas de urze de pontas vermelhas, musgos pendurados de um azul-claro fosforescente, grandes formas bulbosas infestadas com escuras manchas lascadas; para cada uma delas Gwen apontava e dava um nome. Um tipo tornava-se mais e mais comum: um arbusto amarelado e alto do qual brotavam ramos intrincados de toda a superf�cie do tronco c�reo, e galhos ainda menores desses ramos, e ainda menores desses �ltimos, at� transformar-se em um s�lido labirinto de madeira.</p><p>- Estranguladores - Gwen chamou a planta, e Dirk logo soube o motivo. Ali, nas profundezas do bosque, um dos estranguladores crescera ao lado de uma esbelta �rvore-prata, e seus ramos sinuosos e amarelados se misturaram aos outros, retos, cinzentos e espigados, enterrando ra�zes sobre e ao redor da outra �rvore, asfixiando a rival em um abra�o cada vez mais apertado. E agora a �rvore-prata mal podia ser vista: uma estaca alta e morta, perdida entre galhos e ra�zes do estrangulador.</p><p>- Os estranguladores s�o nativos de Tober - contou Gwen. - Est�o tomando a floresta aqui, exatamente como fizeram l�. Poder�amos ter dito a eles que isso aconteceria, mas n�o teriam se importado. As florestas est�o todas condenadas, de qualquer maneira, e antes mesmo de terem sido plantadas. Mesmo os estranguladores morrer�o, mesmo sendo os �ltimos a desaparecer.</p><p>Seguiram caminhando, e os estranguladores ficaram cada vez mais freq�entes, at� que logo dominaram toda a floresta. Aqui a mata era mais densa, mais escura; a passagem era mais dif�cil. Ra�zes semienterradas faziam-nos trope�ar, enquanto ramos emaranhados se interligavam sobre eles como os bra�os estendidos de lutadores gigantes. Onde dois, tr�s ou mais estranguladores cresciam pr�ximos, eles pareciam se misturar em um �nico n� retorcido, e Gwen e Dirk eram for�ados a desviar. Outras plantas vivas eram escassas, exceto leitos de cogumelos negros e roxos pr�ximos aos p�s das �rvores amarelas, e cip�s parasitas.</p><p>Mas havia animais.</p><p>Dirk via-os se moverem atrav�s das escuras sinuosidades dos estranguladores e ouvia seus chamados agudos e tr�mulos. Finalmente viu um. Parado bem acima de suas cabe�as em um inchado galho amarelo, olhando para baixo: do tamanho de um punho, im�vel como um morto e, de algum modo, transparente.</p><p>Dirk tocou o ombro de Gwen e acenou com a cabe�a para cima. Mas ela apenas sorriu para ele e depois riu levemente. Ent�o estendeu o bra�o at� onde a pequena criatura estava e a triturou entre os dedos. Quando abriu a m�o diante de Dirk, sua palma tinha apenas p� e tecido morto.</p><p>- H� um ninho de espectros arb�reos aqui perto - ela explicou. - Eles trocam de pele quatro ou cinco vezes antes da maturidade e deixam a casca como guardi�es, para espantar outros predadores. - Ela apontou. - Ali h� um vivo, se estiver interessado.</p><p>Dirk olhou e teve um vislumbre fugaz de uma pequena coisa amarela saltitante, com dentes afiados e enormes olhos castanhos.</p><p>- Eles voam tamb�m - contou Gwen. - T�m uma membrana que vai do bra�o at� a perna e permite que pairem entre as �rvores. Predadores, voc� sabe. Ca�am em grupos, podem capturar criaturas centenas de vezes seu tamanho. Mas geralmente n�o atacam humanos, a menos que seja para defender seu ninho.</p><p>O espectro arb�reo havia partido agora, perdido entre o labirinto de galhos do estrangulador, mas Dirk achou ter visto outro brevemente, com o canto do olho. Estudou as �rvores ao seu redor. As cascas de pele transparente estavam por todos os lados, vigiando o crep�sculo com ar feroz, todos pequenos e carrancu- dos fantasmas.</p><p>- S�o essas coisas que deixam Janacek t�o aborrecido, n�o s�o? - perguntou.</p><p>Gwen assentiu.</p><p>- Os espectros s�o uma peste em Kimdiss, mas aqui eles realmente encontraram seu elemento. Combinam perfeitamente com os estranguladores, e podem se mover entre os emaranhados mais r�pido do que qualquer outra coisa que eu tenha visto. N�s os estudamos muito bem. Est�o devastando as florestas. Com o tempo, matariam todas as esp�cies e morreriam de fome, mas n�o ter�o tempo para isso. O escudo falhar� antes, e o frio vir�. - Encolheu os ombros um pouco cansada e apoiou o antebra�o em um ramo baixo e arqueado. Os macac�es de ambos h� muito haviam se tornado da mesma cor amarela suja que as �rvores ao redor deles, mas a manga dela deslizou para cima quando encostou no ramo, e Dirk viu o brilho fosco do jade-e-prata brilhando contra o estrangulador.</p><p>- Ainda h� muita vida animal?</p><p>- Bastante - ela disse. A clara luz vermelha dava � prata um brilho estranho. - N�o tanta quanto costumava haver, � claro. A maioria da vida selvagem abandonou a floresta de casa. As �rvores est�o morrendo, e os animais sabem isso. Mas as �rvores dos mundos exteriores s�o mais resistentes, de algum modo. Onde florestas da Orla foram plantadas, voc� encontrar� vida, ainda forte, ainda sobrevivendo. Os estranguladores, as �rvores-fantasma, os vi�vos azuis... florescer�o at� o fim. E ter�o seus inquilinos, velhos e novos, at� que o frio venha.</p><p>Gwen movia o bra�o � toa, para este lado e para aquele, e o bracelete piscava para ele, gritava para ele. Um v�nculo, uma lembran�a e uma nega��o, tudo de uma vez, amor jurado em jade-e-prata. E ele tinha apenas uma pequena j�ia-sussurrante no formato de uma l�grima, repleta de mem�rias que se desvaneciam.</p><p>Levantou os olhos, passando por um intrincado cruzamento de ramos amarelos dos estranguladores, at� onde o Olho do Inferno estava parado em uma fatia do c�u escuro, parecendo mais cansado<emphasis> do que</emphasis> infernal, mais compassivo do que sat�nico. E estremeceu.</p><p>- Vamos voltar - pediu para Gwen. - Este lugar me deprime.</p><p>Ela n�o se op�s. Encontraram uma clareira a uma certa dist�ncia dos estranguladores que os cercavam, um lugar para estender as plataformas met�licas de seus patinetes. Ent�o subiram juntos para come�ar o longo voo de volta a Larteyn.</p><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 3</strong></p><empty-line/><p>Ao voarem de volta por cima das montanhas, Dirk se saiu melhor do que da primeira vez, perdendo por menos do que antes. Mas o progresso n�o melhorou seu humor. Na maior parte da cansativa viagem, voaram em sil�ncio, separados, com Gwen alguns metros � frente dele. Seguiram de costas para a quebrada e muda Roda de Fogo, e a silhueta de Gwen parecia a de uma bruxa vagamente delineada contra o c�u e sempre fora de alcance. A melancolia das florestas moribundas de Worlorn tinha penetrado na carne dele, e ele via Gwen com um olhar contaminado, a figura de uma boneca em uma roupa t�o desbotada quanto o desespero, seu cabelo negro lustroso sob a luz vermelha. Os pensamentos vinham em um caos colorido, enquanto o vento passava por ele, e um deles era mais freq�ente do que os demais. Ela n�o era sua Jenny, e nunca havia sido.</p><p>Duas vezes durante o voo, Dirk viu - ou pensou ter visto - o jade-e-prata brilhando, atormentando-o, como acontecera na floresta. Desviou os olhos ambas as vezes e observou as nuvens negras, longas e finas deslizarem pelo c�u vazio e est�ril.</p><p>O aerom�vel cinza em forma de arraia e a m�quina de guerra verde-oliva n�o estavam no telhado quando o casal chegou a Larteyn. Apenas o carro amarelo de Ruark, em formato de l�grima, estava estacionado. Aterrissaram perto - o pouso de Dirk foi outro trope�o desajeitado, agora estranhamente sem gra�a, apenas est�pido - e deixaram os aeropatinetes e as botas de voo no telhado, no lugar em que as tiraram. Perto dos elevadores, conversaram brevemente, mas Dirk esqueceu as palavras assim que as disse. Ent�o Gwen se despediu.</p><p>Em seus aposentos na base da torre, Arkin Ruark esperava pacientemente. Dirk encontrou um div� entre as paredes tom pastel, as esculturas e os vasos de plantas kimdissianas. Recostou-se nele, esperando apenas descansar e n�o pensar, mas Ruark estava ali, rindo e sacudindo a cabe�a, fazendo os cabelos loiros platinados dan�arem, empurrando uma ta�a verde alta em suas m�os. Dirk pegou e sentou-se novamente. A ta�a era de cristal fino e elegante, liso e sem adornos, exceto por uma pequena crosta de gelo derretido. Ele bebeu, e o vinho era muito verde e frio, e um sabor de incenso e canela desceu por sua garganta.</p><p>- Voc� parece muito cansado - falou o kimdissiano, depois de pegar uma bebida para si e largar-se em uma rede sob a sombra de uma planta negra inclinada. As folhas em formato de lan�a lan�avam faixas de sombras em seu rosto gorducho e sorridente. Ele tomou um gole, sugando o l�quido ruidosamente, e, por um breve instante, Dirk o desprezou.</p><p>- Um longo dia - comentou, vagamente.</p><p>- Verdade. - Ruark concordou. - Um dia com kavalarianos, n�? � sempre longo. A doce Gwen, Jaantony e, por fim, Garsinho... o suficiente para fazer um dia durar uma eternidade. O que me diz?</p><p>Dirk n�o disse nada.</p><p>- Mas agora - Ruark continuou, sorrindo - voc� j� viu. De minha parte, eu queria isso, que voc� visse. Antes que eu lhe contasse. Mas eu havia jurado contar para voc�, um juramento para mim mesmo. Gwen tem conversado comigo. A gente conversa, voc� sabe, como amigos, e eu a conhe�o e a Jaan desde �valon. Mas aqui nos aproximamos. Ela n�o consegue falar sobre isso facilmente, mas fala comigo, ou falava, e eu posso lhe contar. Nenhuma viola��o de confian�a. Voc� � quem deve saber, creio.</p><p>A bebida tocou seu peito com dedos gelados, e Dirk sentiu o cansa�o se dissipar. Era como se tivesse estado adormecido, como se Ruark estivesse falando por um longo tempo e ele tivesse perdido tudo.</p><p>- Sobre o que voc� est� falando? - ele perguntou. - O que eu deveria saber?</p><p>- Por que Gwen precisa de voc� - respondeu Ruark. - Por que ela mandou... a coisa. A l�grima vermelha. Voc� sabe. Eu sei. Ela me contou.</p><p>Repentinamente Dirk estava bastante alerta, interessado e intrigado.</p><p>- Ela contou para voc� - ele come�ou, e ent�o parou. Gwen lhe pedira para esperar, e havia muito tempo ele fizera uma promessa... mas se encaixava. Talvez tivesse que escutar, talvez fosse dif�cil demais para ela lhe dizer. Ruark saberia. Era amigo dela, Gwen dissera na floresta, o �nico com quem podia falar. - O que ela lhe contou?</p><p>- Voc� tem que ajud�-la, Dirk t'Larien, de algum modo. S� n�o sei como.</p><p>- Ajud�-la a fazer o qu�?</p><p>- A ser livre. A escapar.</p><p>Dirk colocou a bebida na mesa e co�ou a cabe�a.</p><p>- De quem?</p><p>- Dos kavalarianos.</p><p>Ele franziu o cenho.</p><p>- De Jaan, quer dizer? Eu o conheci esta manh�, ele e Janacek. Ela ama Jaan. Eu n�o entendo. - Ruark riu, tomou sua bebida e riu novamente. O kimdissiano estava vestido com um traje de tr�s pe�as com quadros alternados marrons e verdes, como a roupa de um bobo da corte, e estava sentado disparando coisas sem sentido. Dirk se perguntou se o pequeno ecologista era realmente um tolo.</p><p>- Am�-lo, sim, ela disse isso? - Ruark perguntou. - Voc� est� seguro disso, n�o est�? Ent�o?</p><p>Dirk hesitou, tentando lembrar as palavras da conversa que haviam tido no lago verde e parado.</p><p>- N�o tenho certeza - admitiu. - Mas falou algo nesse sentido. Ela �... O que ela � dele?</p><p>- <emphasis>Betheyn</emphasis>? - Ruark sugeriu.</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Sim,<emphasis> betheyn,</emphasis> esposa.</p><p>Ruark gargalhou.</p><p>- N�o, totalmente errado. No carro, eu ouvi. Gwen disse errado. Bem, n�o realmente, mas voc� ficou com a impress�o errada. <emphasis>Betheyn</emphasis> n�o � esposa. A parte verdadeira da maior mentira de todas, lembra? O que voc� acha que � um<emphasis> teyn?</emphasis></p><p>A palavra o fez refletir.<emphasis> Teyn.</emphasis> Ouvira-a uma centena de vezes em Worlorn.</p><p>- Amigo? - sugeriu, sem saber o significado.</p><p>- <emphasis>Betheyn</emphasis> est� mais pr�ximo de esposa do que<emphasis> teyn</emphasis> de amigo - Ruark falou. - Conhe�a melhor os mundos exteriores, Dirk. N�o. <emphasis>Betheyn</emphasis> �, em antigo kavalariano, uma "mulher de um homem", uma esposa ligada por jade-e-prata. Agora, pode haver muita afei��o no jade-e-prata, muito amor, sim. Embora, voc� sabe, a palavra usada para isso, a palavra-padr�o terrestre, n�o tenha equivalente no antigo kavalariano. Interessante, n�? Eles podem amar sem uma palavra para isso, amigo t'Larien?</p><p>Dirk n�o respondeu. Ruark deu de ombros, tomou um gole e continuou.</p><p>- Bem, n�o importa, mas pense nisso. Eu falei em jade-e-prata, e, sim, freq�entemente os kavalarianos t�m amor nesse la�o, amor de<emphasis> betheyn</emphasis> para o alto-senhor, e algumas vezes do alto-senhor para<emphasis> betheyn.</emphasis> Ou afei��o, se n�o amor. Mas nem sempre, e n�o necessariamente! Entende?</p><p>Dirk acenou com a cabe�a.</p><p>- La�os kavalarianos s�o baseados em costumes e obriga��es - Ruark disse, inclinando-se para a frente dramaticamente -, e o amor vem depois, como um acidente. Povo violento, eu disse para voc�. Leia a hist�ria, leia as lendas. Gwen conheceu Jaan em �valon, voc� sabe, e ela n�o tinha lido. N�o o suficiente. Ele era Jaan Vikary de Alto Kavalaan, e o que era isso, algum planeta? Ela nunca soube. Verdade. Ent�o o afeto entre eles cresceu. Chame isso de amor, talvez. O sexo aconteceu, e ele ofereceu para ela o jade-e-prata forjado com o emblema dele. E repentinamente ela era<emphasis> betheyn</emphasis> dele, mesmo sem saber muito bem. Presa.</p><p>- Presa? Presa como?</p><p>- Leia a hist�ria! A viol�ncia em Alto Kavalaan � antiga, a cultura n�o mudou. Gwen �<emphasis> betheyn</emphasis> de Jaan Vikary, esposa cativa <emphasis>betheyn,</emphasis> mulher dele, sim, al�m de amante, e mais. Propriedade e escrava, ela � isso tamb�m, e um presente. Ela � um presente para o grupo Jadeferro e carrega os sobrenomes dele, sim. Deve ter filhos se ele ordenar, quer ela queira, quer n�o. Deve tomar Garse como amante tamb�m, quer queira, quer n�o. Se Jaan morrer em um duelo com um homem de outro grupo que n�o o Jadeferro, um Braith ou um A�orrubro, Gwen passa a ser deste homem, como uma bagagem, uma propriedade... torna-se<emphasis> betheyn</emphasis> dele, ou uma mera<emphasis> eyn-kethi,</emphasis> se o vitorioso j� usar jade-e-prata. Se Jaan morrer de causas naturais, ou em um duelo com outro Jadeferro, Gwen fica para Garse. O desejo dela n�o entra em quest�o. Quem se importa se ela o odiar? N�o os kavalarianos. E quando Garsinho morrer, heim? Bem, quando isso acontecer, ela se torna uma<emphasis> eyn-kethi,</emphasis> uma parideira do grupo, degradada para sempre, livre para ser usada por qualquer<emphasis> kethi. Kethi</emphasis> significa "irm�os do grupo", mais ou menos, os homens da fam�lia. O grupo Jadeferro � uma imensa fam�lia, milhares e milhares de fam�lias, e qualquer um poderia t�-la. Do que ela chama Jaan? Esposo? N�o. Carcereiro. � isso o que ele �, ele e Garse, carcereiros que a amam, talvez, se voc� pensar que isso pode se conciliar com nossa id�ia de amor. Jaantony honra nossa Gwen, e deve, pois ele � Alto-Jadeferro agora, ela � sua<emphasis> presente-betheyn, e</emphasis> se ela morrer ou deix�-lo, ele ser� um Fre-Jadeferro, um velho, zombado, sem armas, sem voz no conselho. Mas ele a escraviza, n�o a ama, e ela est� a anos de �valon, agora, est� mais velha e mais s�bia, e agora ela sabe. - Ruark pronunciou as �ltimas palavras com uma f�ria entrecortada, com os l�bios apertados.</p><p>Dirk hesitou.</p><p>- Ele n�o a ama, ent�o?</p><p>- Como voc� ama sua propriedade, assim � entre um alto-senhor e sua<emphasis> betheyn.</emphasis> � um la�o apertado, jade-e-prata, para nunca ser quebrado, mas � um la�o de obriga��o e possess�o. N�o amor. Amor est� em outro lugar, se � que os kavalarianos t�m isso, e � encontrado no irm�o escolhido, o g�meo que � escudo, alma g�mea, amante e guerreiro, o sempre leal provedor de prazer, tomador de golpes e aguentador de dores, o v�nculo por toda a vida.</p><p>- <emphasis>Teyn</emphasis> - Dirk falou, um pouco aturdido, a mente correndo adiante.</p><p>- <emphasis>Teyn! -</emphasis> Ruark assentiu. - Os kavalarianos, t�o violentos como s�o, t�m uma grande poesia. Muitas celebram o<emphasis> teyn,</emphasis> o la�o de ferro-e-pedrardente, nenhuma fala do jade-e-prata.</p><p>As coisas pareciam se encaixar sem esfor�o.</p><p>- Voc� est� dizendo - Dirk come�ou - que ela e Jaan n�o se amam, que Gwen n�o � mais do que uma escrava. Mesmo assim, ela n�o parte?</p><p>O rosto gorducho de Ruark ficou corado.</p><p>- <emphasis>Partir</emphasis>? Um total absurdo! Eles a trariam de volta. Um alto-senhor precisa manter e proteger sua<emphasis> betheyn.</emphasis> E matar todos aqueles que tentarem roub�-la.</p><p>- E ela me mandou a joia...</p><p>- Gwen conversa comigo, eu sei. Que outra esperan�a ela tinha? Os kavalarianos? Jaantony j� matou tr�s vezes em duelo. Nenhum kavalariano tocaria nela, e que bem faria se tocasse? Eu? Eu por acaso sou uma esperan�a? - Suas m�os suaves escorregaram pelo pr�prio corpo, e ele se descartou com desprezo. - Voc�, t'Larien, voc� � a esperan�a de Gwen. Voc�, que deve algo a ela. Voc�, que a amou certa vez.</p><p>Dirk ouviu a pr�pria voz, como se estivesse distante.</p><p>- Ainda a amo - disse.</p><p>- Bom. Eu acho, voc� sabe, que Gwen... embora ela nunca tenha dito isso, mesmo assim, eu acho... que ela ainda sente. O mesmo que sentia. O que jamais chegou a sentir por Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro Vikary.</p><p>A bebida, o estranho vinho verde, o tocara mais do que ele poderia imaginar. Apenas uma ta�a, uma simples ta�a alta, e o curioso aposento come�ou a rodar em torno dele. Dirk se ergueu com esfor�o, ouvira coisas imposs�veis, e come�ou a divagar. O que Ruark dizia n�o fazia sentido, pensou, mas, na verdade, fazia sentido. Isso explicava tudo, realmente, e era tudo t�o brilhantemente claro, assim como era claro o que Dirk deveria fazer. Era mesmo? A sala ondulava, ficava mais escura e depois mais clara novamente, escura e clara, e Dirk estava seguro em um segundo e totalmente inseguro no segundo seguinte. O que devia fazer? Alguma coisa, alguma coisa por Gwen. Tinha que descobrir a verdade das coisas, e ent�o...</p><p>Levou a m�o � testa. Sob as mechas de cabelo castanho-cinzento, tinha o rosto coberto de suor. Ruark levantou-se repentinamente, com uma express�o de alarme.</p><p>- Oh! - o kimdissiano exclamou - o vinho fez mal para voc�! Que tremendo tolo sou! E minha culpa. Vinho do mundo exterior e um est�mago de �valon, � isso o que d�. Comida o ajudar�, voc� sabe. Comida. - Saiu correndo, esbarrando nos vasos de planta, deixando as lan�as negras agitando-se e dan�ando atr�s de si.</p><p>Dirk sentou-se bem ereto. Bem ao longe, ouviu um bater de pratos e travessas, mas n�o prestou aten��o. Ainda suando, sua testa estava enrugada pelos pensamentos, mas era estranhamente dif�cil pensar. A l�gica parecia fugir dele, e as coisas mais claras se desvaneciam quando tentava se aferrar a elas. Tremeu, enquanto sonhos mortos despertavam para uma nova vida, enquanto bosques de estranguladores murchavam em sua mente, e a Roda ardia inclemente sobre os rec�m-floridos bosques de meio-dia de Worlorn. Ele podia fazer acontecer, for�ar isso, despertar isso, colocar um fim no longo p�r do sol, e ter Jenny, sua Guinevere, para sempre ao seu lado. Sim.<emphasis> Sim!</emphasis></p><p>Quando Ruark voltou com garfos e tigelas de queijo suave, tub�rculos vermelhos e carne quente, Dirk estava mais calmo, tranq�ilo novamente. Pegou uma tigela e comeu, em uma esp�cie de transe, enquanto seu anfitri�o tagarelava. Amanh�, prometeu a si mesmo. Ele os veria no desjejum, falaria com eles, descobriria a verdade que pudesse. Ent�o poderia agir. Amanh�.</p><p>- ... n�o pretendo insult�-lo - Vikary dizia na manh� seguinte. - Voc� n�o � tolo, Lorimaar, mas nisso acho que voc� age tolamente.</p><p>Dirk parou na porta de entrada, a pesada porta de madeira que abrira sem pensar oscilando diante dele. Todos viraram para olh�-lo, quatro pares de olhos, Vikary por �ltimo, e n�o at� que terminasse o que estava dizendo. Gwen lhe havia dito que viesse para o desjejum quando se separaram na noite anterior (ele somente, j� que Ruark e os kavalarianos preferiam se evitar sempre que poss�vel), e esta era a hora apropriada, um pouco depois do amanhecer. Mas a cena n�o era a que esperava ao entrar.</p><p>Havia quatro pessoas na cavernosa sala de estar. Gwen, des- penteada e com os olhos sonolentos, estava sentada na ponta de um sof� baixo de madeira e couro que ficava diante da lareira e das g�rgulas. Garse Janacek estava parado bem ao lado dela, com os bra�os cruzados e o cenho franzido, enquanto Vikary e um estranho estavam cara a cara perto da cornija. Os tr�s homens estavam vestidos formalmente e armados. Janacek usava cal�a e camisa de um suave cinza-carv�o, com colarinho alto e fileiras duplas de bot�es de ferro negro correndo pelo peito. A manga direita da camisa fora cortada para mostrar o pesado bracelete de ferro e pedrardentes vagamente em chamas. Vikary tamb�m estava de cinza, mas sem a fileira de bot�es; na frente de sua camisa havia um V cujo v�rtice quase chegava ao seu cintur�o e, contra o pelo escuro de seu peito, um medalh�o de jade pendurado em uma corrente de ferro.</p><p>O visitante, o estranho, foi o primeiro a se dirigir a Dirk. Estava de costas para a porta, mas virou-se quando os outros olharam naquela dire��o e franziu o cenho. Uma cabe�a mais alto do que Vikary e Janacek, o homem era muito maior do que Dirk, mesmo a v�rios metros de dist�ncia. Sua pele era castanho-escura, contrastando com o traje branco-leite que vestia sob as pregas de uma capa violeta curta. Cabelos grisalhos, j� mais para brancos, ca�am por seus ombros largos, e seus olhos - pedras de obsidiana incrustadas em um rosto marrom com uma centena de linhas e rugas - n�o eram amig�veis. Nem sua voz. Olhou rapidamente para Dirk, ent�o disse, simplesmente:</p><p>- V� embora.</p><p>- O qu�? - Nenhuma resposta podia ser mais est�pida do que esta, Dirk pensou assim que falou, mas nada mais lhe veio � mente.</p><p>- Eu disse para ir embora. - O gigante de branco repetiu. Como Vikary, os dois antebra�os dele estavam nus para mostrar os braceletes, os quase-g�meos de jade-e-prata no bra�o esquerdo e ferro-e-fogo no direito. Mas os padr�es e desenhos dos braceletes do estranho eram muito diferentes. A �nica coisa que era igual, exatamente igual, era a arma em sua cintura.</p><p>Vikary cruzou os bra�os, exatamente como Janacek fizera.</p><p>- Esta � minha casa, Lorimaar Alto-Braith. Voc� n�o tem o direito de ser rude com aqueles que v�m at� aqui a meu convite.</p><p>- Um convite que voc� mesmo n�o tem, Braith. - Janacek completou, com um sorrisinho insidioso.</p><p>Vikary olhou para seu<emphasis> teyn</emphasis> por cima do ombro e balan�ou a cabe�a energeticamente. N�o. Mas para qu�? Dirk se perguntou.</p><p>- Venho at� voc� em alto agravo, Jaantony Alto-Jadeferro, para uma conversa s�ria - o kavalariano vestido de branco retumbou. - Devemos tratar diante de um forasteiro? - Olhou de relance para Dirk novamente, ainda de cenho franzido. - Um quase-homem, por tudo o que sei.</p><p>A voz de Vikary era serena, mas firme, quando respondeu.</p><p>- Terminamos nossa conversa, amigo. J� lhe dei minha resposta. Minha<emphasis> betheyn</emphasis> tem minha prote��o, e o kimdissiano e este homem tamb�m - indicou Dirk com um aceno de m�o, ent�o cruzou os bra�os novamente -, e se levar qualquer um deles, ent�o se prepare para me levar tamb�m.</p><p>Janacek sorriu.</p><p>-Al�m do mais, ele n�o � um quase-homem - o esbelto kavalariano de barba ruiva disse. - Este � Dirk t'Larien,<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro, quer voc� goste ou n�o. - Janacek virou-se ligeiramente na dire��o de Dirk e apontou para o estranho de branco. - t'Larien, este � Lorimaar Reln Raposadeinverno Alto-Braith Arkellor.</p><p>- Um vizinho nosso - Gwen disse do sof�, falando pela primeira vez. - Ele vive em Larteyn tamb�m.</p><p>- Longe de voc�s, Jadeferros - o outro kavalariano disse. N�o estava feliz. A prega em sua testa estava bem funda, e seus olhos negros moviam-se de um para outro, cheios de fria raiva, antes de encararem Vikary. - Voc� � mais jovem do que eu, Jaantony Alto-Jadeferro, e seu<emphasis> teyn</emphasis> � mais jovem ainda, e eu n�o estaria disposto a encarar voc� e os seus em duelo. Mas o c�digo tem suas exig�ncias, como voc� e eu sabemos, e nenhum de n�s deve for�ar as coisas. Voc�s, jovens altos-senhores, costumam for�ar os limites com freq��ncia, sinto, e os altos-senhores de Jadeferro mais do que todos, e...</p><p>- ... e eu mais do que todos os altos-senhores de Jadeferro - Vikary disse, interrompendo o outro.</p><p>Arkellor balan�ou a cabe�a.</p><p>- Antigamente, quando eu n�o era mais do que uma crian�a desmamada no grupo de Braith, acabava em duelo se um interrompesse o outro, como voc� fez comigo agora. Na verdade, os velhos tempos j� se foram. Os homens de Alto Kavalaan ficaram moles demais para meu gosto.</p><p>- Acha que sou mole? - Vikary perguntou sem se alterar.</p><p>- Sim e n�o, Alto-Jadeferro. Voc� � um estranho. Tem uma dureza que ningu�m pode negar, e isso � bom, mas �valon colocou o fedor de quase-homem em voc�, tocando-o com a fraqueza e a tolice. N�o gosto de sua cadela<emphasis> betheyn e</emphasis> n�o gosto de seus "amigos". Eu gostaria de ser mais jovem. Viria at� voc� com f�ria e o ensinaria novamente a antiga sabedoria dos grupos, as coisas que voc� esqueceu t�o facilmente.</p><p>- Est� nos chamando para um duelo? - Janacek perguntou. - Suas palavras s�o fortes.</p><p>Vikary descruzou os bra�os e acenou casualmente com a m�o.</p><p>- N�o, Garse. Lorimaar Alto-Braith n�o est� nos chamando para um duelo. Est�, amigo alto-senhor?</p><p>Arkellor esperou v�rios segundos antes de dar a resposta.</p><p>- N�o - disse. - N�o, Jaantony Alto-Jadeferro, n�o desejo insult�-lo.</p><p>- Nem tomarei suas palavras como insulto - Vikary disse, sorrindo.</p><p>O alto-senhor Braith n�o sorriu.</p><p>- Boa sorte - disse a contragosto. Dirigiu-se para a porta em passos largos, parando apenas o tempo necess�rio para Dirk sair do caminho apressadamente, ent�o continuou para fora em dire��o � escada do telhado. A porta fechou-se atr�s dele.</p><p>Dirk caminhou na dire��o dos outros, mas a cena j� se dissolvia. Janacek, com a testa franzida e um aceno de m�o, virou-se e saiu rapidamente para o outro c�modo. Gwen levantou-se, p�lida e tr�mula, e Vikary deu um passo na dire��o de Dirk.</p><p>- N�o foi uma coisa boa para voc� presenciar - o kavalariano disse. - Mas talvez isso aclare as coisas para voc�. Ainda assim, lamento sua presen�a. N�o gostaria que voc� pensasse sobre Alto Kavalaan da mesma maneira que o kimdissiano pensa.</p><p>- N�o entendi nada - Dirk confessou. Vikary colocou um bra�o ao redor de seu ombro e o levou em dire��o � sala de jantar, com Gwen atr�s deles. - Sobre o que ele estava falando?</p><p>- Ah, de muitas coisas. Eu explicarei. Mas devo dizer que h� uma segunda coisa pela qual lamento: o desjejum que prometemos a voc� n�o est� pronto. - Sorriu.</p><p>- Posso esperar. - Foram para a sala de jantar e se sentaram. Gwen ainda estava silenciosa e preocupada. - Do que Garse me chamou? - Dirk perguntou. - Kora-alguma coisa, o que significa?</p><p>Vikary pareceu hesitar.</p><p>- A palavra �<emphasis> korariel.</emphasis> � uma palavra em antigo kavalariano. O significado tem mudado ao longo dos s�culos. Hoje, aqui neste lugar, quando usado por Garse ou por mim, significa protegido. Protegido por n�s, protegido por Jadeferro.</p><p>- Isso � o que voc� gostaria que significasse, Jaan - Gwen disse, sua voz crispada e furiosa. - Conte a ele o real significado!</p><p>Dirk esperou. Vikary cruzou os bra�os e seus olhos passaram de um para o outro.</p><p>- Muito bem, Gwen, se � o que voc� quer. - Virou-se para Dirk. - O significado completo, mais antigo, � propriedade sob prote��o. S� posso esperar que n�o considere isso um insulto. N�o � nossa inten��o.<emphasis> Korariel</emphasis> � uma palavra para pessoas que n�o fazem parte do grupo, mas mesmo assim s�o guardadas e valiosas.</p><p>Dirk lembrou-se das coisas que Ruark lhe contara na noite anterior, as palavras vagamente percebidas atrav�s de uma n�voa do vinho verde. Sentiu a raiva subindo como uma mar� vermelha por seu pesco�o, e lutou para reprimi-la.</p><p>- N�o estou acostumado a ser propriedade de ningu�m - disse, amargamente -, n�o importa de qu�o alto valor. E contra quem se sup�e que voc�s est�o me protegendo?</p><p>- Lorimaar e seu<emphasis> teyn,</emphasis> Saanel - Vikary respondeu. Inclinou-se por sobre a mesa e pegou o bra�o de Dirk apertado. - Garse pode ter usado a palavra de maneira apressada, t'Larien. Mesmo assim, para ele, sem d�vida pareceu correta naquele momento, uma palavra antiga para um conceito antigo. Errada, sim, eu reconhe�o o erro. Errada porque voc� � um humano, uma pessoa, n�o a propriedade de algu�m. Mesmo assim, foi a palavra adequada para usar com algu�m como Lorimaar Alto-Braith, que entende essas coisas e pouco al�m disso. Se isso o incomoda tanto, como sei que o conceito incomoda Gwen, ent�o realmente sinto muito que meu<emphasis> teyn</emphasis> a tenha usado.</p><p>- Bem - Dirk ponderou, tentando ser razo�vel. - Agrade�o pelas desculpas, mas n�o � o suficiente. Ainda n�o sei o que est� acontecendo. Quem � Lorimaar? O que ele queria? E por que tenho que ser protegido contra ele?</p><p>Vikary suspirou e soltou o bra�o de Dirk.</p><p>- N�o � t�o simples responder a essas quest�es. Teria que lhe contar a hist�ria do meu povo, o pouco que sei e o muito que conjecturei. - Virou-se para Gwen. - Podemos comer enquanto conversamos, se ningu�m faz obje��o a isso. Voc� pode nos trazer a comida?</p><p>Ela assentiu e partiu, retornando alguns minutos depois, carregando uma grande bandeja com pilhas altas de p�o preto, tr�s tipos de queijo e ovos cozidos em brilhantes cascas azuis. E cerveja, � claro. Vikary inclinou-se para a frente e descansou os cotovelos na mesa. Come�ou a falar enquanto os outros comiam.</p><p>- Alto Kavalaan tem sido um mundo violento - disse. - E o mais antigo dos mundos exteriores, com exce��o da Col�nia Esquecida, e todas as suas longas hist�rias falam sobre batalhas. Infelizmente, essas hist�rias s�o tamb�m em grande parte inven��es ou lendas, repletas de mentiras etnoc�ntricas. Mesmo assim, esses contos foram considerados verdadeiros at� o momento em que as naves estelares regressaram, depois do interregno. Nas fam�lias do grupo Jadeferro, por exemplo, ensinam aos meninos que o universo tem apenas trinta estrelas, e Alto Kavalaan est� no centro delas. A humanidade se originou ali, quando Kay Ferro-Ferreiro e seu<emphasis> teyn</emphasis> Roland Lobo-Jade nasceram da c�pula entre um vulc�o e uma tempestade. Sa�ram fumegantes dos l�bios do vulc�o, para um mundo cheio de dem�nios e monstros, e, por muitos anos, vagaram de um lado a outro, protagonizando v�rias aventuras. Finalmente se depararam com uma profunda caverna ao p� de uma montanha e dentro dela encontraram uma d�zia de mulheres, as primeiras mulheres do mundo. As mulheres tinham medo dos dem�nios e n�o queriam sair. Ent�o Kay e Roland ficaram, tomaram as mulheres � for�a e fizeram delas suas<emphasis> eyn-kethi.</emphasis> A caverna tornou-se sua fortaleza, as mulheres deram � luz muitos filhos, e assim come�ou a civiliza��o kavalariana. O caminho para fora da caverna n�o era f�cil, dizem as hist�rias. Os meninos nascidos das<emphasis> eyn-kethi</emphasis> eram todos da semente de Kay e Roland, fogosos, perigosos e autorit�rios. Havia muitas brigas. Um filho, o astuto e maligno John Carv�o- -Negro, costumava matar seus<emphasis> kethi,</emphasis> seus irm�os de grupo, por inveja, porque n�o ca�ava t�o bem quanto eles. Ent�o, esperando conseguir alguma de suas habilidades e for�a, come�ou a comer o corpo dos mortos. Certo dia, Roland o encontrou em meio a um desses banquetes, e perseguiu o filho atrav�s das montanhas, batendo nele com um grande mangual. Depois disso, John n�o voltou para Jadeferro, mas come�ou seu pr�prio grupo em uma mina de carv�o e tomou um dem�nio como<emphasis> teyn.</emphasis> Essa foi a origem dos altos-senhores canibais das Moradas do Carv�o Profundo. Outros grupos foram fundados da mesma maneira, embora as hist�rias Jadeferro simpatizem muito mais com outros rebeldes do que com John Negro. Roland e Kay eram mestres severos, n�o era f�cil viver com eles. Shan, o Espadachim, por exemplo, era um garoto bom e forte que partiu com seu<emphasis> teyn</emphasis> e com sua <emphasis>betheyn</emphasis> depois de uma violenta luta com Kay, que n�o respeitou sua jade-e-prata. Shan foi o fundador do grupo Shanagate. Jadeferro reconhece sua linhagem como totalmente humana, e sempre foi assim. Da mesma maneira com a maioria dos grandes grupos. Aqueles que desapareceram, como a Morada do Carv�o Profundo, n�o se sa�ram t�o bem nas lendas. Essas lendas s�o muito extensas, e muitas s�o esclarecedoras. H� um conto do<emphasis> kethi</emphasis> desobediente, por exemplo. O primeiro Jadeferro soube que o �nico lar adequado para um homem era nas profundezas da rocha, na solidez da pedra, em uma caverna ou mina. Mesmo assim, aqueles que vieram depois n�o acreditaram; as plan�cies pareciam abertas e convidativas aos seus olhos ing�nuos. Ent�o sa�ram, com suas<emphasis> eyn-kethi</emphasis> e filhos, e erigiram altas cidades. Foi uma insensatez. Fogos ca�ram do c�u e os destru�ram, derretendo e retorcendo as torres que haviam levantado, queimando as cidades dos homens, mandando os sobreviventes correndo de volta ao subsolo, aterrorizados, para onde as chamas n�o podiam alcan��-los. E ent�o as<emphasis> eyn-kethi</emphasis> deram � luz, e as crian�as eram dem�nios, nenhum era humano. Algumas vezes comiam seu caminho para fora do �tero.</p><p>Vikary fez uma pausa e tomou um gole de sua caneca. Dirk, quase no fim de seu desjejum, empurrou alguns peda�os de queijo em seu prato e franziu o cenho.</p><p>- Tudo isso � fascinante - disse -, mas temo que n�o vejo a relev�ncia.</p><p>Vikary bebeu novamente e mordiscou um peda�o de queijo.</p><p>- Tenha paci�ncia - disse.</p><p>- Dirk - Gwen disse secamente -, as hist�rias dos quatro grupos-coaliz�o sobreviventes diferem em v�rios aspectos, mas h� dois grandes eventos com os quais todos concordam. S�o os embasamentos dos mitos kavalarianos. Todos eles t�m uma vers�o desta �ltima hist�ria: a queima das cidades. � chamado Tempo do Fogo e dos Dem�nios. Uma hist�ria mais tardia, a Praga Dolorosa, tamb�m � repetida praticamente palavra por palavra em cada grupo.</p><p>- � verdade - Vikary concordou. - Mas essas hist�rias s�o os �nicos relatos dos dias antigos que me foram dados para trabalhar. Na �poca do meu nascimento, nenhum kavalariano em s� consci�ncia acreditava nelas. - Gwen tossiu polidamente. Vikary olhou de relance para ela e sorriu. - Sim, Gwen me corrige - disse. -<emphasis> Poucos</emphasis> kavalarianos em s� consci�ncia acreditavam nisso. - Prosseguiu. - Mesmo assim, os que duvidavam n�o tinham nada mais em que acreditar, nenhuma verdade alternativa para professar. A maioria deles n�o estava particularmente interessada nisso. Quando as viagens estelares recome�aram, e os lupinos, os toberianos e, mais tarde, os kimdissianos foram para Alto Kavalaan, encontraram-nos �vidos em aprender as artes perdidas da tecnologia, e foi isso que nos ensinaram em troca de nossas pedras preciosas e metais pesados. Em pouco tempo t�nhamos naves espaciais, mas ainda n�o t�nhamos hist�ria. - Sorriu. - Encontrei as verdades que temos agora durante meus estudos em �valon. Era bem pouco, mas suficiente. Escondidos nos grandes bancos de dados da Academia, achei os registros da coloniza��o original de Alto Kavalaan. Foi quase no final da Guerra Dupla. Um grupo de colonos partiu de Tara para um mundo al�m do V�u do Tentador, onde esperavam ficar seguros dos ataques dos hranganos e das ra�as-escravas dos hranganos. Os computadores indicam que por um tempo conseguiram seu objetivo. Descobriram um planeta in�spito e estranho, mas rico. Rapidamente constru�ram uma col�nia de alto n�vel, baseada na minera��o. H� registros de com�rcio entre Tara e a col�nia por quase vinte anos, ent�o o planeta al�m do V�u abruptamente desapareceu da hist�ria humana. Tara quase nem notou. Esses eram os anos mais cru�is da guerra.</p><p>- E voc� acha que esse planeta era Alto Kavalaan? - Dirk perguntou.</p><p>- � sabido por um fato - Vikary respondeu. - As coordenadas combinam, e outros fascinantes fragmentos de dados tamb�m. A col�nia chamava-se Cavanaugh, por exemplo. Talvez at� mesmo mais intrigante, a l�der da primeira expedi��o era uma capit� de nave estelar chamada Kay Ferreiro. Uma mulher.</p><p>Gwen sorriu ao ouvir aquilo.</p><p>- Tem mais uma coisa que descobri, tamb�m - Vikary continuou -, quase por acaso. Voc� deve se lembrar que a maioria dos mundos exteriores nunca esteve envolvida na Guerra Dupla. As civiliza��es da Orla s�o filhas do Colapso, ou ainda do P�s-Colapso. Nenhum kavalariano jamais tinha visto um hrangano, muito menos uma de suas v�rias ra�as-escravas. Eu n�o tinha, at� ir para �valon e me interessar pelos aspectos amplos da hist�ria humana. Ent�o, em um relato do conflito nas devascadas, vi ilustra��es dos v�rios escravos semissencientes que os hranganos usavam como tropa de choque nos mundos que n�o julgavam dignos de sua pr�pria aten��o imediata. Sem d�vida, sendo um humano nas devascadas, voc� conhece essas ra�as estranhas, Dirk. Os noturnos hruuns, guerreiros de alta gravidade e imensa for�a e selvageria, que enxergam bem no infravermelho. Dactiloides alados, cujo nome veio de alguma semelhan�a com uma besta da pr�-hist�ria humana. E, os piores de todos, os<emphasis> githyanki, </emphasis>os sugadores de alma, com seus terr�veis poderes psi�nicos.</p><p>Dirk estava assentindo.</p><p>- J� vi um ou dois hruuns durante minhas viagens. Essas outras ra�as est�o h� muito extintas, n�o est�o?</p><p>- Talvez - Vikary disse. - Olhei para as ilustra��es que encontrei por muito tempo e voltei a elas v�rias e v�rias vezes. Havia alguma coisa nelas que me perturbava. Finalmente, desvendei a verdade. Os hruuns, os dactiloides, os<emphasis> githyanki...</emphasis> cada um deles tinha uma vaga semelhan�a com as g�rgulas que se sentam nas portas de toda fortaleza kavalariana. Eles eram os dem�nios dos nossos ciclos m�ticos, Dirk! - Vikary levantou-se e come�ou a andar lentamente para um lado e para o outro da sala, ainda falando, sua voz ainda controlada, sua excita��o demonstrada somente pelo ato de caminhar. - Quando Gwen e eu voltamos para Jadeferro, expus minha teoria, baseado nas velhas lendas, no ciclo de<emphasis> Can��es do Dem�nio,</emphasis> do grande poeta aventureiro Jamis-Le�o Taal, e nos bancos de dados da Academia. Considere a verdade: a col�nia Cavanaugh se estabelece, com suas cidades nos planaltos e suas escava��es nas minas. Os hranganos sobrevoam a cidade com um bombardeio nuclear. Sobreviventes vivem apenas nos abrigos das profundezas e nas minas do deserto. Para tomar o planeta, os hranganos tamb�m enviam para terra firme um contingente de suas ra�as-escravas. Ent�o partem e n�o retornam por um s�culo. As minas se tornam as primeiras fortalezas dos grupos, outras s�o constru�das mais tarde, escavadas profundamente na pedra. Suas cidades desaparecem, e os mineiros retornam a um n�vel mais primitivo de tecnologia, e logo estabelecem uma r�gida cultura voltada para a sobreviv�ncia. Ao mesmo tempo, sob as ru�nas radioativas das cidades, muta��es humanas come�am a surgir...</p><p>Dessa vez foi Dirk quem se levantou.</p><p>- Jaan - disse.</p><p>Vikary parou de caminhar, virou-se e franziu o cenho.</p><p>- Tenho sido bastante paciente - Dirk falou. - Entendo que tudo isso tem grande import�ncia para voc�. E seu trabalho. Mas quero algumas respostas, e quero agora. - Levantou a m�o e come�ou a contar as perguntas nos dedos. - Quem � Lorimaar? O que ele quer? E por que preciso ser protegido contra ele?</p><p>Gwen se levantou tamb�m.</p><p>- Dirk - disse -, Jaan est� apenas lhe dando o pano de fundo que voc� precisa para entender. N�o seja t�o...</p><p>- N�o! - Vikary a calou com um movimento da m�o. - N�o, t'Larien est� correto, eu fico muito entusiasmado quando falo sobre esses assuntos. - Para Dirk, disse: - Eu lhe darei uma resposta direta, ent�o. Lorimaar � um kavalariano muito tradicional, t�o tradicional que est� fora de lugar at� mesmo em Alto Kavalaan. � uma criatura de outra era. Voc� se lembra que, ontem de manh�, quando lhe dei meu broche para usar, Garse e eu expressamos preocupa��es sobre sua seguran�a depois que escurecesse?</p><p>Dirk assentiu. Ergueu a m�o e tocou o pequeno broche cuidadosamente preso em seu colarinho.</p><p>- Sim.</p><p>- Lorimaar Alto-Braith e outros como ele s�o a causa de nossa preocupa��o, t'Larien. As raz�es n�o s�o f�ceis de explicar.</p><p>- Permita-me - Gwen falou. - Dirk, ou�a. Os altos-senhores kavalarianos, o povo dos grupos, sempre respeitaram uns aos outros ao longo dos s�culos... Oh, eles lutaram e guerrearam tanto que mais de vinte antigos grupos e coaliz�es foram completamente destru�dos, deixando apenas os quatro grandes grupos sobreviventes dos tempos modernos. Ainda assim, eles reconhecem uns aos outros como humanos, sujeitos �s regras da alta-guerra e ao c�digo de honra kavalariano. Mas havia outros, veja voc�, pessoas solit�rias nas montanhas, pessoas que moravam sob as cidades arruinadas, fazendeiros. S�o apenas suposi��es, minhas e de Jaan, mas o ponto � que tais pessoas<emphasis> existiram,</emphasis> sobreviventes do lado de fora dos acampamentos nas minas que se tornaram as fortalezas dos grupos. Os altos- -senhores n�o reconhecem esses sobreviventes como homens e mulheres. Jaan omitiu certos detalhes da hist�ria, como pode ver... Oh, n�o se incomode assim. Sei que era uma longa hist�ria, mas era importante. Voc� se lembra que as ra�as-escravas dos hranganos correspondiam aos tr�s dem�nios do mito kavalariano? Bem, o �nico problema � que h� tr�s ra�as-escravas, mas<emphasis> quatro</emphasis> tipos de dem�nios. O pior e o mais maligno de todos os dem�nios eram os quase-homens.</p><p>Dirk franziu o cenho.</p><p>- Quase-homens. Lorimaar me chamou de quase-homem. Pensei que era algo como n�o humano, mais ou menos.</p><p>- N�o - Gwen respondeu. - N�o humano � um termo comum, quase-homem existe apenas em Alto Kavalaan. Multimorfos, a lenda diz, marginais e mentirosos. Podem assumir qualquer forma, mas com mais freq��ncia a de humanos, e querem se infiltrar nos grupos. Uma vez dentro, disfar�ados como humanos, podem secretamente atacar e matar. Esses outros sobreviventes, os fazendeiros, as fam�lias das montanhas, os mutantes e os desafortunados, os outros humanos de Cavanaugh, esses s�o os quase-homens, o povo marginal. N�o lhes era permitido se render, as regras da alta-guerra n�o se aplicavam a eles. Os kavalarianos os exterminavam, sem nunca acreditar que alguns deles eram humanos. Eram animais alien�genas. Depois de s�culos, os que sobraram eram ca�ados por esporte. Os homens dos grupos sempre ca�aram em duplas,<emphasis> teyn-e-teyn,</emphasis> para que cada um pudesse jurar sobre a humanidade do outro quando retornassem.</p><p>Dirk olhou horrorizado.</p><p>- Isso ainda continua?</p><p>Gwen deu de ombros.</p><p>- Raramente. Os kavalarianos modernos admitem os pecados de sua hist�ria. Depois que as naves espaciais vieram, os grupos Jadeferro e A�orrubro, as coaliz�es mais progressistas, proibiram a captura dos quase-homens. Os ca�adores tinham um costume. Quando n�o queriam matar um quase-homem imediatamente, por qualquer que fosse a raz�o, mas queriam mant�-lo como uma presa pessoal para mais tarde, podiam nome�-lo<emphasis> korariel, </emphasis>e ningu�m tocaria nele, sob pena de duelo. Os<emphasis> kethi</emphasis> Jadeferro e A�orrubro sa�ram e capturaram todos os quase-homens que conseguiram, colocaram-nos em vilas e tentaram traz�-los para a civiliza��o, tirando-os da selvageria na qual haviam ca�do. E seus cativos foram nomeados<emphasis> korariel.</emphasis> Houve uma breve guerra por causa disso, entre Jadeferro e Shanagate. Jadeferro venceu, e <emphasis>korariel</emphasis> ganhou um novo significado, propriedade sob prote��o.</p><p>- E Lorimaar? - Dirk exigiu saber. - Como ele se encaixa nisso?</p><p>Ela sorriu maliciosamente por um segundo, fazendo Dirk se</p><p>lembrar de Janacek.</p><p>- Em qualquer cultura, alguns teimosos restam, crentes sinceros e fundamentalistas. Braith � a coaliz�o mais conservadora, e quase um d�cimo deles, segundo estimativa de Jaan, ainda acredita nos quase-homens. A maioria � de ca�adores, que<emphasis> querem</emphasis> acreditar, e quase todos eles de Braith. Lorimaar, seu<emphasis> teyn </emphasis>e um punhado de seus<emphasis> kethi</emphasis> est�o aqui para ca�ar. A disputa � mais variada do que em Alto Kavalaan, e ningu�m imp�e regras restritivas. De fato, n�o h� leis. Os pactos do Festival terminaram h� muito tempo. Lorimaar pode matar qualquer coisa que quiser.</p><p>- Incluindo humanos. - Dirk comentou.</p><p>- Se os encontrar - ela disse. - Larteyn tem vinte habitantes, creio. Vinte e um com voc�. N�s, um poeta chamado Kirak A�orrubro Cavis, que vive em uma antiga torre de observa��o, e um par de leg�timos ca�adores de Shanagate. Os demais s�o Braiths. Ca�ando quase-homens e qualquer outra coisa que quiserem quando n�o encontram quase-homens. Uma gera��o mais velha do que Jaan, principalmente, e bastante sedentos de sangue. Sem contar as hist�rias que ouviram em seus grupos, e talvez por uma ou outra ca�ada humana il�cita nas colinas de Lameraan, eles n�o sabem nada das antigas ca�adas, exceto as lendas. Todos est�o estourando de tradi��o e frustra��o. - Ela sorriu.</p><p>- E isso continua? Ningu�m faz nada?</p><p>Jaan Vikary cruzou os bra�os.</p><p>- Tenho uma confiss�o a fazer, t'Larien - disse gravemente. - Mentimos para voc� ontem, Garse e eu, quando perguntou o motivo de estarmos aqui. Na verdade, fui eu quem mentiu. Garse disse ao menos a verdade parcial: devemos proteger Gwen. Ela pertence a outro mundo, n�o � kavalariana, e os Braiths a matariam alegremente como uma quase-homem, sem o escudo de Jadeferro. O mesmo vale para Arkin Ruark, que n�o sabe nada sobre isso, nem mesmo que est� sob nossa prote��o. Mesmo assim, ele est�. Ele tamb�m �<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro. Nossas raz�es para estar aqui v�o al�m disso, no entanto. Era vital que eu deixasse Alto Kavalaan na �poca que sa�. Quando assumi meus altos-nomes e publiquei minhas teorias, tornei-me imediatamente muito poderoso e celebrado no conselho dos altos-senhores, e muito odiado. Muitos homens religiosos tomaram como insulto pessoal minha tese de que Kay Ferro-Ferreiro era uma mulher. Fui desafiado seis vezes apenas por causa dessa hist�ria. No �ltimo duelo, Garse matou um homem, enquanto eu feri seu <emphasis>teyn</emphasis> t�o gravemente que ele nunca andar� novamente. N�o quis continuar naquela situa��o. Worlorn estava vazio de inimigos, parecia. Ao meu pedido, o conselho Jadeferro enviou Gwen em seu projeto ecol�gico. Ao mesmo tempo, fiquei sabendo das atividades de Lorimaar por aqui. Ele j� conseguira seu primeiro trof�u, e a not�cia alcan�ou Braith e chegou at� n�s. Garse e eu discutimos o assunto e resolvemos acabar com isso. A situa��o � explosiva ao extremo. Se os kimdissianos soubessem que os kavalarianos est�o ca�ando quase-homens novamente, a not�cia se espalharia rapidamente por todos os mundos exteriores. Resta pouco amor entre Kimdiss e Alto Kavalaan, como voc� deve saber. N�o tememos os kimdissianos em si, que professam uma religi�o e uma filosofia de n�o viol�ncia como os emerelianos. Mas outros mundos da Orla s�o mais perigosos. Os lupinos s�o sempre vol�teis e err�ticos; os toberianos podem encerrar seus acordos comerciais se souberem que kavalarianos est�o ca�ando seus turistas atrasados. Talvez at� mesmo �valon se voltasse contra n�s, se as not�cias chegassem al�m do V�u, e ser�amos expulsos da Academia. Esses riscos n�o podem ser corridos. Lorimaar e seus companheiros n�o se importam, e o conselho dos grupos n�o pode fazer nada. N�o tem autoridade aqui, e apenas os Jadeferros t�m a m�nima preocupa��o com acontecimentos a anos-luz de dist�ncia, em um mundo moribundo. De modo que Garse e eu agimos contra os ca�adores Braith sozinhos. At� agora, n�o tivemos conflitos abertos. Viajamos o mais longe que podemos, visitando cada uma das cidades, procurando por aqueles que permaneceram em Worlorn. Qualquer um que encontramos, transformamos em<emphasis> korariel.</emphasis> Encontramos apenas uns poucos: uma crian�a selvagem perdida durante o Festival, uns poucos lupinos que permaneceram na cidade de Haapala, um ca�ador cornoferro de Tara. Para cada um deles eu dei um s�mbolo da minha estima - sorriu - um pequeno broche de ferro negro com o formato de um banshee. E um farol de proximidade, para avisar um ca�ador que chegue perto demais. Se tocarem em qualquer um usando esse broche, qualquer<emphasis> korariel</emphasis> meu, isso seria uma ofensa de duelo. Lorimaar pode grunhir e protestar, mas n�o duelar� conosco. Isso seria a morte para ele.</p><p>- Entendo - disse Dirk. Alcan�ou seu colarinho, tirou o pequeno broche de ferro e o jogou na mesa entre os restos do desjejum. - Bem, isso � ador�vel, mas voc� pode ficar com seu brochinho. N�o sou propriedade de ningu�m. Venho tomando conta de mim mesmo por um longo tempo, e posso continuar fazendo isso sozinho.</p><p>Vikary franziu o cenho.</p><p>- Gwen - disse -, voc� pode convenc�-lo de que � mais seguro se...</p><p>- N�o - ela disse asperamente. - Aprecio o que voc� est� tentando fazer, Jaan, sabe disso. Mas entendo os sentimentos de Dirk. N�o gosto de ser protegida tampouco e me recuso a ser propriedade. - A voz dela era brusca, resoluta.</p><p>Vikary olhou para os dois, impotente.</p><p>- Muito bem - cedeu. Pegou o broche que Dirk descartou. - Devo lhe dizer uma coisa, t'Larien. Temos mais sorte em encontrar pessoas do que os Braiths, simplesmente porque procuramos nas cidades, enquanto eles ca�am nas florestas, lamentavelmente escravizados por velhos costumes. Eles raramente encontram algu�m nos bosques. At� agora n�o tinham id�ia do que Garse e eu estivemos fazendo. Mas, nesta manh�, Lorimaar Alto-Braith veio a mim em agravo porque, no dia anterior, havia topado com uma presa, quando saiu para ca�ar com seu<emphasis> teyn,</emphasis> e algo o impediu de persegui-la. A presa que ele perseguia era um homem em um aeropatinete, voando sozinho sobre as montanhas. - Ele segurou o broche com formato de banshee. - Sem isso - disse -, ele teria obrigado voc� a descer ou o teria atingido no c�u com o laser, depois teria perseguido voc� mata adentro e finalmente o teria matado. - Colocou o broche no bolso, encarou Dirk significativamente por um minuto, e ent�o saiu da sala.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 4</strong></p><empty-line/><p>- Foi um azar que voc� tenha trope�ado em Lorimaar hoje de manh� - Gwen disse, depois que Jaan saiu da sala. - N�o havia raz�o para envolver voc� nisso, e eu tinha esperan�as de poup�-lo desses detalhes s�rdidos. Espero que mantenha esta hist�ria confidencial quando deixar Worlorn. Deixe Jaan e Garse tomarem conta dos Braiths. Ningu�m mais far� nada, de qualquer maneira, exceto comentar sobre o assunto e difamar inocentes de Alto Kavalaan. Sobretudo, n�o diga nada a Arkin! Ele despreza os kavalarianos e partiria para Kimdiss no mesmo instante. - Ela se levantou. - Neste momento, sugiro que falemos de coisas mais agrad�veis. Temos pouco tempo juntos; eu s� posso ser sua guia enquanto n�o tiver que voltar ao trabalho. N�o h� raz�o para deixar esses a�ougueiros Braiths estragarem os poucos dias que temos.</p><p>- Como quiser - Dirk respondeu, ansioso para agradar, mas ainda chocado por toda a hist�ria de Lorimaar e seus quase-homens. - Voc� tem algo planejado?</p><p>- Eu poderia lev�-lo novamente � floresta - Gwen lhe disse. - Ela segue ininterruptamente, e h� centenas de coisas fascinantes para se ver nos bosques: lagos cheios de peixes maiores do que n�s dois, montes de terra mais altos do que este edif�cio, feitos por insetos menores do que a unha do seu dedo, um incr�vel sistema de cavernas que Jaan descobriu al�m da cadeia de montanhas... Jaan nasceu em uma caverna. Mesmo assim, hoje acho que devemos agir com seguran�a. N�o queremos colocar muito sal na ferida de Lorimaar, ou ele e seu gordo<emphasis> teyn </emphasis>poderiam nos ca�ar, e Jaan estaria condenado. Hoje, mostrarei as cidades para voc�. Elas tamb�m s�o fascinantes, e t�m um tipo macabro de beleza. Como Jaan disse, Lorimaar ainda n�o pensa em ca�ar l�.</p><p>- Tudo bem - Dirk concordou, com pouco entusiasmo.</p><p>Gwen vestiu-se rapidamente e levou-o para o telhado. Os aeropatinetes ainda estavam no mesmo lugar em que tinham sido deixados no dia anterior. Dirk agachou-se para peg�-los, mas Gwen tirou as plataformas da m�o dele e atirou-as na traseira do aerom�vel cinzento em formato de arraia. Depois pegou as botas de v�o e os controles e os guardou tamb�m.</p><p>- N�o usaremos os patinetes hoje - disse. - Cobriremos muito terreno.</p><p>Dirk assentiu, e os dois subiram por sobre as asas do carro at� os assentos dianteiros. O c�u de Worlorn o fazia sentir-se como se estivesse voltando de uma expedi��o, em vez de se preparando para partir.</p><p>O vento gritava ao redor do carro selvagemente, e por um breve tempo Dirk pegou o controle para que Gwen pudesse prender seus longos cabelos negros. Seu pr�prio cabelo castanho-acinzentado chicoteava em loucas convuls�es enquanto percorriam o c�u, mas estava abstra�do demais para notar, muito menos para se incomodar com isso.</p><p>Gwen os manteve bem alto sobre a cadeia de montanhas e na dire��o sul. A pl�cida Comuna, com suas gentis colinas cobertas de relva e rios sinuosos, prolongava-se para a direita deles, at� a linha do horizonte. Na distante esquerda, onde as montanhas terminavam, podiam ver a extremidade dos bosques. As �reas infestadas de estranguladores eram �bvias mesmo dessa altitude: c�nceres amarelos brotando entre o verde-escuro.</p><p>Por quase uma hora voaram em sil�ncio, Dirk perdido em seus pensamentos, tentando ligar uma coisa � outra, e falhando. At� que finamente Gwen olhou para ele com um sorriso.</p><p>- Gosto de voar em aerom�veis - disse. - Mesmo neste. Faz com que me sinta livre e limpa, livre de todos os problemas. Sabe o que quero dizer?</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Sim. Voc� n�o � a primeira a dizer isso. V�rias pessoas se sentem assim. Eu inclu�do.</p><p>- Sim - ela concordou. - Eu costumava lev�-lo para voar, lembra? Em �valon? Vo�vamos por horas e horas, do amanhecer at� o p�r do sol, e voc� ficava sentado com um bra�o para fora da janela, encarando a dist�ncia com esse olhar sonhador no rosto. - Sorriu novamente.</p><p>Ele se lembrava. Aquelas viagens tinham sido muito especiais. Eles nunca falavam muito, s� olhavam um para o outro de tempos em tempos e, sempre que seus olhos se encontravam, sorriam. Era inevit�vel; n�o importava o quanto ele lutasse contra, aquele sorriso sempre vinha. Mas agora parecia terrivelmente longe e perdido.</p><p>- O que a fez pensar nisso? - ele perguntou.</p><p>- Voc� - ela respondeu, e fez um gesto. - Sentado a�, largado, com uma m�o pendurada do lado. Ah, Dirk. Voc� � um trapaceiro, sabia? Acho que fez isso deliberadamente, para me fazer lembrar de �valon e sorrir, e querer abra��-lo de novo. Bah.</p><p>E riram juntos.</p><p>E Dirk, quase sem pensar, deslizou em seu assento e colocou o bra�o ao redor dela. Ela olhou rapidamente para o rosto dele, ent�o deu um ligeiro encolher de ombros, seu cenho franzido se desfez em um suspiro de resigna��o e, finalmente, em um sorriso relutante. E n�o se afastou dele.</p><p>Foram ver as cidades.</p><p>A cidade da manh� era uma t�nue vis�o pastel incrustada em um amplo vale verde. Gwen aterrissou o aerom�vel no centro de uma de suas pra�as quadradas, e passearam por suas grandes avenidas por quase uma hora. Era uma cidade graciosa, esculpida em um delicado m�rmore rosado e pedra clara. As ruas eram largas e tinham curvas sinuosas, as constru��es baixas e de estruturas aparentemente fr�geis de madeira polida e vidro tingido. Por todos os lados encontravam pequenos parques e grandes centros comerciais, e todo tipo de arte: esculturas, pinturas, murais nas cal�adas e nas laterais das constru��es, jardins de pedra e �rvores que eram esculturas vivas.</p><p>Mas agora os parques estavam desolados e encobertos, a grama azul-esverdeada crescia descontrolada. Trepadeiras negras serpenteavam pelas cal�adas, os rodap�s laterais estavam vazios, as esculturas arb�reas mais resistentes haviam adquirido formas grotescas com as quais seus criadores jamais sonharam.</p><p>Um rio azul que se movia lentamente dividia e subdividia a cidade, serpenteando de um lado para o outro em um curso t�o sinuoso e tortuoso quanto as ruas que o margeavam. Gwen e Dirk sentaram-se perto da �gua por um momento, sob a sombra de uma passarela de madeira ornamentada, e observaram o reflexo do Sat� Gordo flutuando vermelho e pregui�oso na �gua. E enquanto ficaram ali, ela contou para ele como a cidade fora um dia, na �poca do Festival, antes que qualquer um deles tivesse ido para Worlorn. O povo de Kimdiss constru�ra aquele lugar, ela disse, e o chamaram de D�cimo-Segundo Sonho.</p><p>Talvez a cidade estivesse sonhando agora. Se fosse assim, este era seu �ltimo sono. Os sal�es abobadados ecoavam vazios, os jardins eram selvas l�gubres, pr�ximas de se tornarem tumbas. Onde o riso certa vez enchera as ruas, agora s� restava o sussurro farfalhante das folhas mortas sopradas pelo vento. Se Larteyn era uma cidade moribunda, Dirk refletiu enquanto estava sentado sob a passarela, ent�o D�cimo-Segundo Sonho era uma cidade morta.</p><p>- Era aqui que Arkin queria estabelecer nossa base de opera��es - Gwen contou. - N�s o vetamos, no entanto. Se ele e eu �amos trabalhar juntos, era nitidamente melhor que viv�ssemos na mesma cidade, e Arkin queria que fosse em D�cimo-Segundo Sonho. Eu me neguei, e n�o sei se ele j� me perdoou. Se os kavalarianos constru�ram Larteyn como uma fortaleza, os kimdissianos fizeram sua cidade como uma obra de arte. J� foi mais bonita nos tempos antigos, entendo. Eles desmancharam as melhores constru��es e levaram as mais belas esculturas das pra�as quando o Festival acabou.</p><p>- Voc� votou por Larteyn? - Dirk perguntou. - Para viver l�?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a. Seu cabelo, solto agora, ondulou suavemente. Deu um sorriso para ele.</p><p>- N�o - respondeu. - Jaan queria isso, e Garse. Eu... bem, eu n�o votaria por D�cimo-Segundo Sonho tampouco, temo. Eu nunca poderia viver aqui. O aroma de decad�ncia � muito forte. Concordo com Keats, voc� sabe. Nada � t�o melanc�lico quanto a morte da beleza. H� mais beleza aqui do que em Larteyn, embora Jaan rosnasse se me ouvisse dizer isso. Ent�o este � um lugar mais triste. Al�m disso, em Larteyn temos<emphasis> alguma</emphasis> companhia, ao menos, ainda que seja Lorimaar e os seus. Aqui n�o h� ningu�m al�m de fantasmas.</p><p>Dirk contemplou a �gua, onde o grande sol vermelho, esgotado e capturado, balan�ava assustadoramente para cima e para baixo no lento deslizar das ondas. E quase p�de ver os fantasmas dos quais ela falava, espectros que se apinhavam nas duas margens do rio e cantavam lamentos por coisas havia muito perdidas. E outro tamb�m, este um fantasma �nico: um barqueiro de Braque, avan�ando rio abaixo, empurrando um longo remo negro. Aquele barqueiro estava vindo por Dirk, se aproximando cada vez mais. E o barco negro que ele navegava estava baixo na �gua, repleto de vazio.</p><p>Ent�o Dirk se levantou e puxou Gwen consigo, dizendo apenas que queria caminhar. E correram dos fantasmas, de volta � pra�a onde o aerom�vel cinzento aguardava.</p><p>Ent�o partiram novamente, para um segundo interl�dio de vento, c�u e sil�ncio pensativo. Gwen voou mais longe para o sul, e ent�o para leste, e Dirk observava, meditava e permanecia quieto, e em intervalos ela olhava para ele e, sem nunca se dar conta, sorria.</p><p>Finalmente chegaram ao mar.</p><p>A cidade da tarde era constru�da ao longo da costa de uma ba�a recortada, onde as ondas verde-escuras rompiam contra um cais em decomposi��o. Antigamente era chamada de Musquel-Junto-ao-Mar, Gwen contou enquanto circundavam o local, em espirais lentas e cont�nuas. Embora tivesse sido erguida com as outras cidades de Worlorn, havia um ar mais antigo aqui. As ruas de Musquel eram serpentes com a espinha quebrada, ruas estreitas de paralelep�pedos que se contorciam entre torres inclinadas de tijolos multicoloridos. Era uma cidade de tijolos. Tijolos azuis, tijolos vermelhos, amarelos, verdes, cor de laranja, tijolos pintados, listrados e malhados, tijolos unidos com uma argamassa negra como obsidiana, ou vermelha como o Sat� sobre eles, unidos em loucos padr�es conflitantes. Ainda mais vistosos eram os toldos de lona tingida nas bancas dos mercadores, que ainda se alinhavam nas ruas tortuosas e permaneciam t�o abandonados quanto os p�eres de madeira nos quais se encontravam.</p><p>Pousaram no p�er que pareceu mais forte do que a maioria, escutando as ondas por um momento, e ent�o entraram na cidade. Totalmente vazia e empoeirada. As ruas eram varridas pelo vento, as c�pulas e as torres esf�ricas estavam desertas; a poeira estava por todos os lados, multicolorida e sufocante. Musquel n�o era uma cidade de constru��o s�lida, e agora estava t�o morta quanto D�cimo-Segundo Sonho.</p><p>- � primitiva - comentou Dirk, entre as ru�nas. Estavam parados no cruzamento de duas ruas estreitas, onde um po�o profundo havia sido cavado e cercado com pedra. �gua negra brotava embaixo. - A sensa��o � pr�-espacial, e os sinais dizem o mesmo sobre a cultura. Braque � assim, mas n�o neste grau. Eles t�m um pouco de tecnologia antiga, peda�os aqui e outros ali que n�o s�o proibidos pela religi�o. Musquel d� a impress�o de que nem isso teve.</p><p>Ela assentiu, passando a m�o suavemente pela boca do po�o, fazendo um monte de p� e pedregulhos despencar na escurid�o. O jade-e-prata brilhou vermelho opaco em seu bra�o esquerdo, capturando o olhar de Dirk e fazendo-o estremecer e se questionar mais uma vez. O que era aquilo? Uma marca de escravo, ou um s�mbolo de amor, o qu�? Mas colocou o pensamento de lado, relutante em consider�-lo.</p><p>- As pessoas que constru�ram Musquel tinham muito pouco conhecimento - ela estava dizendo. - Vieram da Col�nia Esquecida, que algumas vezes � chamada de Cidade Esquecida pelos habitantes dos mundos exteriores, e sempre foi chamada de Terra por seu pr�prio povo. Em Alto Kavalaan, essas pessoas s�o chamadas de Povo Perdido. Quem s�o eles, como chegaram ao seu mundo, de onde vieram... - ela sorriu e deu de ombros. - Ningu�m sabe. Sem d�vida, estavam aqui antes dos kavalarianos, e possivelmente antes do<emphasis> Mao Tse-tung,</emphasis> que, segundo a hist�ria, foi a primeira nave estelar humana a romper o V�u do Tentador. Os kavalarianos tradicionais certamente acreditam que todos do Povo Perdido s�o quase-homens e dem�nios hranganos, mas eles provaram que podem cruzar com outras esp�cies humanas de mundos mais conhecidos. Mas a Col�nia Esquecida �, em grande parte, um globo solit�rio, sem muito interesse para o resto do espa�o. T�m uma cultura da Idade do Bronze, pescadores em grande parte, que cuidam de si mesmos.</p><p>- Estou surpreso de que tenham vindo at� aqui - Dirk falou -, ou se incomodado em construir uma cidade.</p><p>- Ah - ela respondeu, sorrindo e empurrando mais alguns pedregulhos soltos para dentro do po�o em pequenos salpicos de �gua. - Mas todo mundo teve que construir uma cidade, todas as catorze culturas do mundo exterior. Essa era a id�ia. Tocadolobo encontrou a Col�nia Esquecida h� alguns s�culos, ent�o Tocadolobo e Tober arrastaram algumas pessoas do Povo Perdido para c�. Eles nem tinham naves estelares pr�prias. Eram pescadores em seu planeta natal, ent�o se tornaram pescadores aqui. Novamente foi Tocadolobo, com o Mundo do Oceano Vinhonegro, quem reservou os mares para eles. Pescavam com redes em pequenas embarca��es, pequenos homens e mulheres negros, nus da cintura para cima, e fritavam os peixes em fossas abertas para os visitantes. Tinham bardos e cantores de rua para trazer alegria aos seus becos. Todos paravam em Musquel durante o Festival para ouvir seus estranhos mitos, comer peixe frito e alugar barcos. Mas n�o acho que o Povo Esquecido gostava muito da cidade. Menos de um m�s ap�s o t�rmino do Festival, e todos haviam partido. Nem mesmo desarmaram os toldos, e ainda � poss�vel encontrar facas de peixe, roupas e um ou outro osso se voc� vasculhar nas constru��es.</p><p>- Voc� j� encontrou algo?</p><p>- N�o. Mas ouvi hist�rias. Kirak A�orrubro Cavis, o poeta que vive em Larteyn, ficou aqui uma vez, vagou pela cidade e escreveu algumas can��es.</p><p>Dirk olhou ao seu redor, mas n�o havia nada para ver. Tijolos desbotados e ruas vazias, janelas sem vidro como as �rbitas de milhares de olhos cegos, toldos pintados que batiam ruidosamente com o vento. Nada.</p><p>- Outra cidade de fantasmas - ele comentou.</p><p>- N�o - Gwen discordou. - N�o, eu n�o acho. O Povo Perdido nunca deu sua alma para Musquel, ou para Worlorn. Seus fantasmas foram para casa com eles.</p><p>Dirk estremeceu, e a cidade repentinamente pareceu mais vazia do que no momento anterior. Mais vazia do que vazia. Era uma id�ia estranha.</p><p>- Larteyn � a �nica cidade que ainda � habitada? - perguntou.</p><p>- N�o - ela respondeu, afastando-se do po�o. Andaram juntos por uma rua estreita, em dire��o � costa. - N�o, eu lhe mostrarei vida agora, se voc� quiser. Vamos.</p><p>De volta ao ar, seguiram em dire��o � penumbra crescente. Haviam consumido a maior parte da tarde para chegar a Musquel e andar por l�; o Sat� Gordo estava baixo no horizonte ocidental, e um de seus quatro assistentes amarelos j� tinha mergulhado fora da vista. Era crep�sculo novamente, de fato tanto quando em apar�ncia.</p><p>Muito inquieto, Dirk assumiu os controles dessa vez, enquanto Gwen permaneceu sentada ao seu lado, com o bra�o repousando suavemente sobre o dele, dando orienta��es breves. A maior parte do dia j� se fora, e ele tinha tanto a dizer, tanto a perguntar, tantas coisas para decidir. Mesmo assim, n�o fizera nada disso. Em breve, no entanto, prometeu a si mesmo enquanto voavam. Em breve.</p><p>O aerom�vel ronronava suavemente, quase inaud�vel, sob seu toque gentil. O solo ficava mais escuro embaixo deles, e os quil�metros passavam velozes. Vida, Gwen lhe dissera, seria encontrada adiante, a oeste, muito a oeste, na dire��o do p�r do sol.</p><p>A cidade do entardecer era uma �nica constru��o prateada, com a base fincada nas colinas muito abaixo deles, e o topo nas nuvens dois quil�metros acima. Era uma cidade de luz, com flancos met�licos, sem janelas e que irradiava um brilho branco com tons rubros. Cintilando, piscando, a luz escalava a parede curva em ondas, come�ando bem l� embaixo, onde a cidade estava profundamente ancorada na rocha primordial, ent�o subia e ganhava resplendor e intensidade ao mesmo tempo em que a cidade se erguia e se estreitava, como uma imensa agulha. Mais r�pida e mais alta, a onda de luz ascendia por toda aquela incr�vel altura, at� alcan�ar o topo prateado coberto de nuvens e um estalido de gl�ria ofuscante. E, ent�o, tr�s ondas atrasadas j� come�avam a fazer o mesmo percurso.</p><p>- Desafio - Gwen nomeou a cidade enquanto se aproximavam. Seu nome e sua inten��o. Fora constru�da por todos os urbanistas de di-Emerel, cujas cidades natais eram torres de a�o negro fincadas em plan�cies ondulantes. Cada cidade emereliana era uma na��o-estado, cada uma delas em uma �nica torre, e a maioria dos emerelianos nunca deixava o pr�dio em que havia nascido (embora aqueles que o fizessem, disse Gwen, freq�entemente se tornassem os maiores andarilhos de todo o espa�o). Desafio era todas aquelas torres emerelianas em uma s�, branco-prateada, em vez de negra, duas vezes mais altiva e tr�s vezes mais alta, a filosofia arcol�gica de di-Emerel encarnada em metal e pl�stico, movida � fus�o nuclear, autom�tica, computadorizada e autorreparadora. Os emerilianos se vangloriavam de que a cidade era imortal, a prova final de que as gl�rias da tecnologia da Orla (ou da tecnologia emereliana, em todo caso) brilhavam com n�o menos fulgor do que as de Nova Holme, de �valon, ou mesmo da pr�pria Antiga Terra.</p><p>Havia escuras ranhuras horizontais no corpo da cidade - pistas de aterrissagem, separadas por dez n�veis de dist�ncia umas das outras. Dirk se dirigiu para uma delas, e, quando se aproximou, a ranhura negra se iluminou. A abertura estava facilmente localizada a dez metros de altura; ele n�o teve problemas para pousar na espa�osa pista do cent�simo n�vel.</p><p>Quando desceram do aerom�vel, uma voz profunda e suave falou de lugar algum.</p><p>- Bem-vindos - disse. - Sou a Voz do Desafio. Posso ajudar voc�s?</p><p>Dirk olhou de relance por sobre o ombro, e Gwen riu para ele.</p><p>- O c�rebro da cidade - ela explicou. - Um supercomputador. Eu lhe disse que esta cidade ainda vivia.</p><p>- Posso ajudar voc�s? - a Voz repetiu. Vinha das paredes.</p><p>- Talvez - Dirk se aventurou. - Acho que estamos provavelmente com fome. Pode nos alimentar?</p><p>A Voz n�o respondeu, mas um painel deslizou em uma parede a v�rios metros e um silencioso ve�culo acolchoado saiu pela abertura e parou diante deles. Eles entraram no ve�culo, que se moveu em dire��o a outra prestativa parede.</p><p>Foram levados em suaves pneus-bal�o atrav�s de uma sucess�o de imaculados corredores brancos, passando por incont�veis fileiras de portas numeradas, enquanto uma m�sica tocava serenamente em volta deles. Dirk notou rapidamente que as luzes brancas faziam um brusco contraste com o opaco c�u crepuscular de Worlorn, e instantaneamente os corredores se tornaram de um azul suave e calmo.</p><p>O carro de gordos pneus os deixou em um restaurante, e um rob�-gar�om que soava muito parecido � Voz lhes ofereceu os card�pios e as cartas de vinho. As duas sele��es eram extensas, n�o limitadas � culin�ria de di-Emerel ou mesmo dos mundos exteriores, mas inclu�a famosos pratos e vinhos antigos de todos os mundos devastados do reino humano, at� mesmo alguns que Dirk nunca ouvira falar. No menu, cada prato tinha seu mundo de origem impresso em letras pequenas. Refletiram sobre a sele��o por um longo tempo. Finalmente, Dirk escolheu drag�o de areia fervido em manteiga, do Mundo de Jamison, e Gwen pediu ovas azuis com queijo, da Antiga Posseidon.</p><p>O vinho que escolheram era l�mpido e branco. O rob� o trouxe congelado em um cubo de gelo, ent�o quebrou a pedra diante deles e, de alguma forma, a bebida j� estava l�quida e ainda bem gelada. � assim que deve ser servido, a Voz insistiu. O jantar veio em pratos quentes de prata e ossos. Dirk puxou uma perna com garras de sua entrada, tirou a casca, e provou a carne branca e tenra.</p><p>- Est� incr�vel - disse, acenando com a cabe�a em dire��o ao prato. - Vivi no Mundo de Jamison por um tempo, e aqueles jamisianos realmente amam seus drag�es de areia rec�m-fervidos, e este est� t�o bom quanto qualquer um de l�. Congelado? Congelado e trazido para c�? Diabos, os emerelianos devem ter precisado de uma frota para trazer toda a comida que necessitavam para este lugar.</p><p>- N�o � congelada - veio a resposta. N�o era Gwen, embora ela o encarasse com um sorriso divertido. A Voz respondeu para ele. - Antes do Festival, o navio mercantil<emphasis> Placa Azul,</emphasis> de di-Emerel, visitou todos os mundos que conseguiu alcan�ar, coletando e preservando amostras de seus alimentos mais finos. A viagem, longamente planejada, levou quarenta e tr�s anos-padr�o, comandada por quatro capit�es e a mesma quantidade de tripula��es. Finalmente, o navio veio para Worlorn, e nas cozinhas e biotanques do Desafio as amostras coletadas foram clonadas e reclonadas para alimentar as multid�es. Assim, os peixes e os p�es foram multiplicados, n�o por um falso profeta, mas pelos cientistas de di-Emerel.</p><p>- Soa muito convencido. - Gwen comentou com uma risadinha.</p><p>- Soa como um discurso padr�o - Dirk respondeu. Ent�o deu de ombros e voltou para seu jantar, assim como Gwen. Os dois estavam sozinhos, exceto pelo rob�-gar�om e pela Voz, no centro do restaurante constru�do para comportar centenas de pessoas. Tudo ao redor deles estava vazio mas imaculado, outras mesas esperando com toalhas vermelho-escuras e jogos de jantar de prata brilhante. Os clientes haviam partido havia d�cadas; mas a Voz e a cidade tinham uma paci�ncia infinita.</p><p>Depois, enquanto tomavam caf� (negro e grosso, com creme e especiarias, uma mistura de �valon e mem�rias agrad�veis), Dirk sentiu-se tranq�ilo e relaxado, talvez mais confort�vel do que estivera desde que chegara a Worlorn. Jaan Vikary e o jade-e-prata - que brilhava escuro e belo sob as luzes t�nues do restaurante, primorosamente trabalhado, mas estranhamente drenado de sua amea�a e significado - haviam diminu�do de import�ncia agora que estava novamente com Gwen. Diante dele, enquanto bebia de uma x�cara de porcelana branca e sorria com uma express�o sonhadora e distante, ela parecia muito acess�vel, muito com a Jenny que ele conhecera e amara certa vez, a dama de sua joia-sussurrante.</p><p>- Agrad�vel - ele comentou, com um aceno de cabe�a que indicava tudo ao redor deles.</p><p>E Gwen acenou de volta para ele.</p><p>- Agrad�vel - concordou, sorrindo.</p><p>Dirk a desejava, a Guinevere dos grandes olhos verdes e do cabelo negro sem-fim, aquela que havia amado, sua alma-g�mea perdida.</p><p>Ele se inclinou para a frente e encarou sua x�cara. N�o havia press�gios no caf�. Tinha que falar com ela.</p><p>- Est� sendo uma noite agrad�vel - disse. - Como em �valon. - Quando ela murmurou, concordando novamente, ele continuou. - Sobrou alguma coisa, Gwen?</p><p>Ela o olhou fixamente e tomou um gole do caf�.</p><p>- N�o � uma pergunta justa, Dirk, voc� sabe. Sempre sobra alguma coisa. Se o que voc� teve era real, para come�ar. Se n�o, bem, ent�o n�o importa. Mas, se era real, ent�o resta alguma coisa, um pouco de amor, uma ta�a de �dio, desespero, ressentimento, lux�ria. O que quer que seja. Mas alguma coisa.</p><p>- N�o sei - Dirk t'Larien disse, suspirando. Baixou o olhar, introspectivo. - Talvez voc� seja a �nica realidade que tive, ent�o.</p><p>- Triste - ela disse.</p><p>- Sim - respondeu. - Acho que sim. - Ergueu os olhos. - Para mim sobrou muita coisa, Gwen. Amor, �dio, ressentimento, tudo isso. Como voc� disse. Lux�ria. - Deu uma risada.</p><p>Gwen apenas sorriu.</p><p>- Triste - ela disse novamente.</p><p>Ele n�o estava disposto a deixar para l�.</p><p>- E voc�? Alguma coisa, Gwen?</p><p>- Sim. N�o posso negar isso. Alguma coisa. E tem aumentado.</p><p>- Amor?</p><p>- Voc� est� me pressionando - ela disse gentilmente, abaixando sua x�cara. O rob�-gar�om ao seu lado encheu-a novamente com caf�, sempre cremoso e com especiarias. - Pedi para n�o fazer isso.</p><p>- Tenho que fazer - ele disse. - J� � dif�cil o suficiente ficar t�o perto de voc� e falar sobre Worlorn ou sobre os costumes kavalarianos ou mesmo sobre ca�adores. N�o � sobre isso que quero falar!</p><p>- Eu sei. Dois antigos amantes juntos, conversando. � uma situa��o comum e uma tens�o comum. Ambos assustados, sem saber se devem tentar abrir velhos port�es novamente, sem saber se o outro quer despertar esses sentimentos adormecidos ou se prefere deixar para l�. Cada vez que lembro de alguma coisa de �valon e estou prestes a fazer algum coment�rio sobre isso, eu me pergunto, ele quer que eu fale sobre isso, ou est� rezando para que eu n�o fa�a?</p><p>- Imagino que depende do que voc� vai dizer. Uma vez tentei come�ar tudo de novo. Voc� se lembra? Logo depois que terminamos. Enviei minha j�ia-sussurrante para voc�. Voc� nunca respondeu, nunca veio. - Sua voz era equilibrada, com um leve toque de reprova��o e arrependimento, mas sem raiva. De alguma forma, sua raiva havia se dissipado nesse exato momento.</p><p>- Voc� j� imaginou por qu�? - Gwen falou. - Eu recebi a joia e chorei. Ainda estava sozinha naquela �poca, n�o tinha conhecido Jaan, e queria algu�m desesperadamente. Eu teria voltado para voc� se me chamasse.</p><p>- Eu chamei voc�. E voc� n�o veio.</p><p>Um sorriso triste.</p><p>- Ah, Dirk. A j�ia-sussurrante veio em uma caixinha, e junto dela havia um bilhete. "Por favor", o bilhete dizia, "volte para mim agora. Preciso de voc�, Jenny". Era isso que estava escrito. Eu chorei e chorei. Se voc� estivesse escrito "Gwen", se voc� apenas amasse<emphasis> Gwen,</emphasis> a mim. Mas n�o, era sempre Jenny, mesmo depois de tudo, mesmo ent�o.</p><p>Dirk se lembrou e fez uma careta.</p><p>- Sim - admitiu depois de um curto sil�ncio. - Acho que escrevi isso. Sinto muito. Nunca entendi. Mas agora entendo. � tarde demais?</p><p>- Eu disse isso. No bosque. � tarde demais, Dirk, est� tudo morto. Voc� nos machucar� se pressionar.</p><p>- <emphasis>Tudo</emphasis> morto? Voc� disse que restou algo e que est� crescendo. Disse isso agora mesmo. Decida, Gwen. N�o quero ferir voc� ou eu. Mas quero...</p><p>- Eu sei o que voc� quer. N�o pode ser. Acabou.</p><p>- Por qu�? - ele perguntou. Apontou atrav�s da mesa, para o bracelete dela. - Por causa disso? Jade-e-prata por todo o sempre, � isso?</p><p>- Talvez - ela disse. Sua voz vacilou, insegura. - N�o sei. N�s... isso �, eu...</p><p>Dirk se lembrou de todas as coisas que Ruark lhe contara.</p><p>- Sei que n�o � f�cil falar sobre isso - ele falou cuidadosa e gentilmente. - E eu prometi esperar. Mas algumas coisas n�o podem esperar. Voc� diz que Jaan � seu marido, certo? O que � Garse? O que<emphasis> betheyn</emphasis> significa?</p><p>- Esposa-escrava - ela disse. - Mas voc� n�o entende. Jaan � diferente dos outros kavalarianos, mais forte, mais s�bio e mais decente. Ele est� mudando as coisas, sozinho. Os velhos v�nculos, de<emphasis> betheyn</emphasis> com o alto-senhor, nossos v�nculos n�o s�o assim. Jaan n�o acredita nisso, n�o mais do que acredita em ca�ar quase-homens.</p><p>- Ele acredita em Alto Kavalaan - Dirk lembrou - e no c�digo de honra. Talvez ele seja at�pico, mas ainda � um kavalariano.</p><p>Foi a coisa errada para se dizer. Gwen apenas sorriu para ele se recomp�s.</p><p>- Nossa - ela disse. - Agora voc� falou como Arkin.</p><p>- Falei? Talvez Arkin esteja certo, no entanto. Uma outra coisa. Voc� diz que Jaan n�o acredita em v�rios dos antigos costumes, certo?</p><p>Gwen assentiu.</p><p>- Muito bem. E quanto a Garse, ent�o? N�o tive muita chance de falar com ele. Devo supor que Garse � igualmente esclarecido?</p><p>Aquilo a fez parar.</p><p>- Garse... - come�ou. Ent�o parou e balan�ou a cabe�a em d�vida. - Bem, Garse � mais conservador.</p><p>- Sim - disse Dirk. Repentinamente pareceu compreender tudo. - Sim, acho que �, e essa � grande parte do seu problema, n�o �? Em Alto Kavalaan, n�o � homem e mulher. N�o, � homem e homem, e talvez mulher, mas mesmo ent�o ela n�o � t�o terrivelmente importante. Voc� ama Jaan, mas n�o se importa o mesmo tanto com Garse Janacek, se importa?</p><p>- Tenho muita afei��o por...</p><p>- <emphasis>Tem?</emphasis></p><p>O rosto de Gwen endureceu.</p><p>- Pare - ela disse.</p><p>A voz dela o assustou. Ele recuou, repentina e doentiamente consciente da maneira que estava inclinado sobre a mesa, pressionando, empurrando, apontando, atacando e insultando-a, ele que viera para cuidar dela e ajud�-la.</p><p>- Sinto muito - murmurou.</p><p>Sil�ncio. Ela o olhava fixamente, o l�bio inferior tremendo, enquanto se recompunha e recuperava as for�as.</p><p>- Voc� est� certo - ela finalmente falou. - Em parte, ao menos. Eu n�o... bem... n�o estou inteiramente feliz com meu grupo. - For�ou uma gargalhada ir�nica. - Acho que me engano muito. Uma m� id�ia, enganar a si mesmo. Todo mundo faz isso, no entanto, todo mundo. Eu visto o jade-e-prata e digo para mim mesma que sou mais do que uma esposa-escrava, mais do que outra mulher kavalariana. Por qu�? S� por que Jaan me diz isso? Jaan Vikary � um bom homem, Dirk, ele realmente �, de muitas maneiras � o melhor homem que j� conheci. Eu o amava, talvez ainda o ame. N�o sei. Estou muito confusa agora. Mas, amando-o ou n�o, eu devo a ele. D�vidas e obriga��es, esses s�o os la�os kavalarianos. Amor � apenas algum que Jaan conheceu em �valon, e n�o estou certa se j� aprendeu a dominar bem esse sentimento. Eu teria sido seu<emphasis> teyn,</emphasis> se pudesse. Mas ele j� tinha um<emphasis> teyn.</emphasis> Al�m disso, nem mesmo Jaan iria t�o longe contra os costumes de seu mundo. Voc� ouviu o que ele disse sobre os duelos, e tudo porque ele fez uma pesquisa em alguns bancos de dados de computadores antigos e descobriu que um dos her�is populares kavalarianos tinha tetas. - Sorriu sombriamente. - Imagine o que teria acontecido se ele me tomasse como<emphasis> teyn! </emphasis>Ele teria perdido tudo, absolutamente tudo. Jadeferro � relativamente tolerante, sim, mas ainda ser�o necess�rios s�culos at� que o grupo esteja pronto para isso. Nenhuma mulher jamais usou ferro-e-pedrardente.</p><p>- Por qu�? - Dirk falou. - N�o entendo. Todos voc�s ficam fazendo esses coment�rios... sobre mulheres parideiras, esposas- -escravas e mulheres escondidas nas cavernas com medo de sair para fora, toda essa coisa. E eu continuo sem acreditar nelas. Como Alto Kavalaan pode estar t�o distorcido? O que eles t�m contra as mulheres? Por que � t�o cr�tico que a fundadora de Jadeferro seja uma mulher?</p><p>Gwen lhe deu um sorriso amarelo e esfregou as t�mporas gentilmente com as pontas dos dedos, como se tivesse uma dor de cabe�a que quisesse espantar.</p><p>- Voc� devia ter deixado Jaan terminar a hist�ria - ela respondeu. - Ent�o saberia tanto quanto n�s. Ele estava apenas se aquecendo. Nem chegou at� a Praga Dolorosa - suspirou. - � tudo uma hist�ria muito longa, Dirk, e neste momento n�o tenho a maldita energia para isso. Espere at� voltarmos para Larteyn. Eu encontrarei uma c�pia da tese de Jaan e voc� poder� l�-la com seus pr�prios olhos.</p><p>- Tudo bem - Dirk concordou. - Mas h� algumas coisas que n�o serei capaz de ler em nenhuma tese. H� alguns minutos voc� disse que n�o tinha certeza se ainda amava Jaan. Voc� certamente n�o ama Alto Kavalaan. Acho que odeia Garse. Ent�o, por que est� fazendo tudo isso consigo mesma?</p><p>- Voc� leva jeito para fazer perguntas desagrad�veis - ela disse amargamente. - Mas antes de lhe responder, deixe-me corrigi-lo em alguns pontos. Posso odiar Garse, como voc� diz. Algumas vezes tenho quase certeza de que odeio Garse, embora creia que Jaan morreria se me ouvisse dizer isso. Em outras vezes, contudo... eu n�o estava mentindo antes, quando disse para voc� que tenho uma consider�vel afei��o por ele. Assim que cheguei a Alto Kavalaan, era totalmente cega, inocente e vulner�vel. Jaan havia me explicado tudo de antem�o, � claro, muito pacientemente, muito minuciosamente, e eu havia aceitado. Eu era de �valon, afinal de contas, e ningu�m pode ser mais sofisticado do que em �valon, pode? N�o, a menos que voc� seja um terr�queo. Eu estudara todas as estranhas culturas que a humanidade espalhara entre as estrelas e sabia que qualquer um que entrava em uma nave espacial devia estar preparado para se adaptar a sistemas sociais e moralidades completamente diferentes dos seus. Eu sabia que costumes sexuais-familiares variam e que �valon n�o � necessariamente mais s�bio do que Alto Kavalaan nesta �rea. Eu era muito esperta, pensava. Mas n�o estava pronta para os kavalarianos, oh, n�o. Por mais que viva, jamais me esquecerei por um segundo do medo e do trauma do meu primeiro dia e da minha primeira noite nas fortalezas de Jadeferro, como<emphasis> betheyn </emphasis>de Jaan Vikary. Especialmente a primeira noite. - Ela riu. - Jaan tinha me avisado, � claro, e... que inferno, eu n�o estava pronta para ser<emphasis> partilhada.</emphasis> O que posso dizer? Foi ruim, mas sobrevivi. Garse me ajudou. Ele estava honestamente preocupado comigo, e muito mais com Jaan. Seria poss�vel dizer que foi terno. Confiei nele; ele escutou e foi cuidadoso. E, na manh� seguinte, o abuso verbal come�ou. Eu fiquei assustada e machucada; Jaan ficou desconcertado e incrivelmente zangado. Mandou Garse com um empurr�o para o outro lado da sala da primeira vez que ele me chamou de cadela<emphasis> betheyn.</emphasis> Garse ficou quieto por um tempo depois disso. Ele me d� tr�gua com freq��ncia, mas nunca para. Ele � verdadeiramente not�vel, de certa forma. Teria desafiado e matado qualquer kavalariano que me insultasse a metade do que ele faz. Sabe que suas piadas irritam Jaan e provocam terr�veis brigas... ou pelo menos provocavam. A essa altura, Jaan se tornou indiferente a tudo isso. Mesmo assim, Garse persiste. Talvez n�o possa evitar, ou talvez me deteste realmente, ou talvez simplesmente goste de provocar dor. Se for isso, n�o lhe dei muitas alegrias nos �ltimos anos. Uma das primeiras coisas que decidi foi que n�o o deixaria me fazer chorar novamente. E n�o deixei. Mesmo quando ele chega e diz alguma coisa que me faz querer arrancar sua cabe�a com um machado, eu apenas sorrio, mostrando os dentes, e tento pensar em algo desagrad�vel para responder para ele. Uma ou duas vezes consegui tir�-lo dos trilhos. Normalmente, fico me sentindo como um inseto esmagado. Mesmo assim, a despeito de tudo isso, h�<emphasis> outros</emphasis> momentos tamb�m. Tr�guas, pequenos cessar-fogo em nossa guerra sem-fim, momentos de assombroso calor e compaix�o. Muitos deles � noite. Esses momentos sempre me surpreendem quando acontecem. S�o muito intensos. Uma vez, acredite ou n�o, disse a Garse que o amava. Ele riu de mim. Ele n�o me amava, disse em voz alta, eu simplesmente era sua<emphasis> cro-betheyn</emphasis> e ele me tratava como era obrigado a tratar pelos la�os que existiam entre n�s. Essa foi a �ltima vez que quase chorei. Lutei, lutei e venci. N�o chorei. Apenas gritei alguma coisa para ele e sa� correndo pelo corredor. Vivemos no subsolo, voc� sabe. Todo mundo vive no subsolo em Alto Kavalaan. N�o estava vestindo muita coisa al�m do meu bracelete, e corri como louca, e finalmente um homem tentou me parar... um b�bado, um idiota, um cego que n�o p�de ver o jade-e-prata, n�o sei. Eu estava t�o furiosa que puxei sua arma do coldre e esmaguei seu rosto com um golpe, era a primeira vez que batia em outro ser humano com raiva, e bem quando Jaan e Garse chegaram. Jaan parecia calmo, mas estava muito transtornado. Garse estava quase feliz, e pedindo por uma briga. Como se o homem que eu havia derrotado n�o tivesse sido insultado o suficiente, Garse ainda me disse para pegar todos os dentes que eu arrancara para devolv�-los, pois eu j� tinha dentes suficientes. Tiveram sorte de que esse coment�rio n�o deu origem a um duelo.</p><p>- Como inferno voc� se envolveu em uma situa��o dessas, Gwen? - Dirk quis saber. Estava se esfor�ando para que sua voz n�o se quebrasse. Estava zangado com ela, ferido por ela e, mesmo assim, estranhamente (ou talvez n�o t�o estranhamente) exultante. Era tudo verdade, tudo o que Ruark lhe dissera. O kimdissiano era um bom amigo dela e seu confidente; apesar disso, ela tinha buscado por ele. Sua vida era uma mis�ria, ela era uma escrava, e ele podia consert�-la,<emphasis> ele.</emphasis> - Voc� devia ter uma id�ia de como seria.</p><p>Ela deu de ombros.</p><p>- Menti para mim mesma - disse - e deixei Jaan mentir para mim, embora acho que ele honestamente acredita em todas as falsidades amorosas que me diz. Se pudesse come�ar de novo... mas n�o posso. Eu estava pronta para ele, Dirk, precisava dele e o amei. Ele n�o tinha ferro-e-pedrardente para me dar. Isso ele j� dera para outra pessoa, ent�o me deu jade-e-prata, e eu aceitei s� para ficar perto dele, com apenas uma vaga no��o do que isso significava. Eu perdera voc� havia n�o muito tempo. N�o queria que Jaan se fosse tamb�m. Ent�o coloquei o belo braceletinho e disse em voz bem alta: "sou mais do que uma<emphasis> betheyn",</emphasis> como se fizesse diferen�a. D� um nome a uma coisa e de algum modo ela se transformar� naquilo. Para Garse, sou<emphasis> betheyn</emphasis> de Jaan e sua<emphasis> cro-betheyn,</emphasis> e isso � tudo. Os nomes definem os la�os e as obriga��es. O que mais poderia haver? Para qualquer outro kavalariano � a mesma coisa. Quando tento sair disso, ultrapassar esse nome, Garse est� ali, zangado, gritando<emphasis> betheyn!</emphasis> Para mim. Jaan � diferente, apenas Jaan, e algumas vezes n�o posso evitar e come�o a me perguntar como<emphasis> ele</emphasis> realmente se sente. - Colocou as m�os sobre a toalha da mesa e fechou os punhos, lado a lado. - A mesma maldita coisa, Dirk. Voc� queria me transformar em Jenny, e eu me salvei rejeitando o nome. Mas, como uma tola, aceitei o jade-e-prata, e agora sou esposa-escrava e nenhuma das minhas nega��es pode mudar isso.<emphasis> A mesma maldita coisa!</emphasis> - A voz dela estava estridente, seus punhos fechados com tanta for�a que as juntas dos dedos estavam ficando brancas.</p><p>- Podemos mudar isso - Dirk disse rapidamente. - Volte comigo. - Ele soou vazio, sem esperan�a, desesperado, triunfante, preocupado; seu tom era tudo isso ao mesmo tempo.</p><p>No in�cio, Gwen n�o respondeu. Dedo por dedo, muito lentamente, ela abriu as m�os, e encarou-as solenemente, respirando profundamente, virando as m�os uma vez e outra, como se fossem algum estranho artefato colocado diante dela para inspe��o. Ent�o as espalmou na mesa e empurrou, ficando em p�.</p><p>- Por qu�? - perguntou, e o calmo controle retornara � sua voz. - Por qu�, Dirk? Para que voc� possa me transformar em Jenny novamente? � por isso? Porque que eu o amei uma vez, porque algo pode ter ficado?</p><p>- Sim! N�o, quero dizer. Voc� me confunde. - Ele tamb�m se levantou.</p><p>Ela sorriu.</p><p>- Ah, mas eu tamb�m amei Jaan certa vez, mais recentemente do que voc�. E com ele, agora, h� outros la�os, todas as obriga��es de jade-e-prata. Com voc�, bem, apenas lembran�as, Dirk.</p><p>Quando ele n�o respondeu - ficou parado, esperando -, Gwen se dirigiu para a porta. Ele a seguiu.</p><p>O rob�-gar�om os interceptou e bloqueou o caminho deles, com seu rosto de metal ovoide e sem express�o.</p><p>- A conta - ele disse. - Preciso do n�mero de suas contas do Festival.</p><p>Gwen franziu o cenho.</p><p>- Conta Larteyn, Jadeferro 797-742-677 - replicou. - Registre as duas refei��es neste n�mero.</p><p>- Registrado - o rob� disse, enquanto sa�a do caminho.</p><p>Atr�s deles, o restaurante ficou escuro.</p><p>A Voz deixara o carro esperando por eles. Gwen lhe disse para lev�-los de volta � pista de aterrissagem, e o ve�culo come�ou a se mover por corredores que repentinamente se inundaram de cores vivas e m�sica alegre.</p><p>- O maldito computador registrou a tens�o em nossa voz - ela disse, um pouco zangada. - Agora est� tentando nos animar.</p><p>- N�o est� fazendo um trabalho muito bom - Dirk respondeu com um sorriso. Ent�o completou - Obrigado pela refei��o. Converti meus padr�es para moeda do Festival antes de chegar, mas temo n�o ter ganhado muito com o c�mbio.</p><p>- Jadeferro n�o � pobre - Gwen disse. - E n�o h� muito que ser pago em Worlorn de qualquer modo.</p><p>- Humm. Sim. Nunca pensei que houvesse, at� agora.</p><p>- Programas do Festival - Gwen explicou. - Esta � a �nica cidade que ainda funciona desta maneira. Todas as outras est�o fechadas. Uma vez por ano, di-Emerel manda um enviado para limpar todas as contas dos bancos. Embora logo chegue ao ponto de que a viagem custar� mais do que ele arrecada.</p><p>- Estou surpreso de que ainda n�o tenha acontecido.</p><p>- Voz! - ela disse. - Quantas pessoas vivem em Desafio hoje?</p><p>As paredes responderam.</p><p>- Atualmente tenho trezentos e nove residentes legais e quarenta e dois convidados, incluindo voc�s. Voc�s podem, se quiserem, se tornar residentes. Os pre�os s�o bastante razo�veis.</p><p>- Trezentos e nove? - Dirk surpreendeu-se. - Onde?</p><p>- Desafio foi constru�da para abrigar vinte milh�es - Gwen explicou. - Voc� dificilmente pode esperar dar de cara com um deles, mas est�o aqui. Nas outras cidades tamb�m, embora n�o tantos quanto em Desafio. A vida � mais f�cil aqui. A morte seria f�cil tamb�m, se os altos-senhores de Braith alguma vez pensassem em come�ar a ca�ar nas cidades, em vez de nos bosques. Esse sempre foi o grande medo de Jaan.</p><p>- Quem s�o eles? - Dirk quis saber, curioso. - Como vivem? N�o entendo. Desafio n�o perde uma fortuna a cada dia?</p><p>- Sim. Uma fortuna em energia, jogada no lixo, desperdi�ada. Mas esse � o ponto central de Desafio, de Larteyn e de todo o Festival. Desperd�cio, um desperd�cio descomunal, para provar que a Orla era rica e forte, desperd�cio em uma escala que o reino humano jamais conhecera antes, um planeta inteiro moldado e ent�o abandonado. Voc� v�? Quanto a Desafio, bem, verdade seja dita, a vida da cidade � um movimento vazio, agora. Ela se auto-alimenta de reatores de fus�o e descarrega energia em fogos de artif�cio que ningu�m v�. Colhe toneladas de comida todos os dias, com suas imensas m�quinas agr�colas, mas ningu�m come, exceto um punhado de ermit�es, fan�ticos religiosos, crian�as perdidas que se tornaram selvagens, qualquer que seja a esc�ria que sobrou do Festival. A cidade envia um barco para Musquel todos os dias, para buscar peixe. N�o h� peixe algum, � claro.</p><p>- A Voz n�o reescreve o programa?</p><p>- Ah, o xis da quest�o! A Voz � idiota. N�o pensa realmente, n�o consegue programar a si mesma. Oh, sim, os emerelianos queriam impressionar as pessoas, e a Voz � imponente, � claro. Mas, na realidade, � muito primitiva se comparada aos computadores da Academia, em �valon, ou �s Intelig�ncias Artificiais da Antiga Terra. N�o pode pensar, ou fazer mudan�as. Faz o que lhe foi dito para fazer, e os emerelianos lhe disseram para seguir em frente, para suportar o frio o m�ximo que for capaz. E o computador far� isso. - Ela olhou para Dirk. - Como voc�. Insiste muito depois que sua persist�ncia perdeu todo o sentido e o significado, segue em frente, para nada, depois que tudo est� morto.</p><p>- Oh - exclamou Dirk. - Mas<emphasis> at�</emphasis> que tudo esteja morto, voc� tem que seguir. Este � o ponto, Gwen. N�o h� outro jeito, h�? Prefiro admirar a cidade, mesmo que ela seja a grande insensatez que voc� diz.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>- Voc� devia mesmo.</p><p>- E ainda h� mais - ele continuou. - Voc� enterra tudo r�pido demais, Gwen. Worlorn pode estar morrendo, mas ainda n�o est� morto. E n�s, bem, n�o temos que estar mortos tamb�m. O que voc� disse no restaurante, sobre Jaan e eu, acho que deveria pensar sobre isso. Decida o que sobrou para mim, para ele. Qu�o pesado este bracelete � no seu bra�o - ele apontou para a pe�a de jade-e-prata - e de que nome voc� gosta mais, ou mesmo quem tem mais possibilidade para dar a voc� seu<emphasis> pr�prio</emphasis> nome. V�? Ent�o, depois me diga o que est� vivo e o que est� morto!</p><p>Ele se sentiu muito satisfeito com seu pequeno discurso. Certamente, pensou, ela veria que ele podia deixar Jenny de lado e deix�-la ser Gwen com mais facilidade do que Jaantony Vikary poderia torn�-la uma<emphasis> teyn</emphasis> feminina, em vez de uma mera<emphasis> betheyn.</emphasis> Parecia muito claro. Mas ela apenas olhou para ele, sem dizer nada, at� que chegaram ao aerom�vel.</p><p>Ent�o ela saiu do ve�culo acolchoado.</p><p>- Quando n�s quatro escolhemos onde viver�amos em Worlorn, Garse e Jaan votaram por Larteyn, e Arkin por D�cimo-Segundo Sonho - ela disse. - Eu n�o votei por nenhuma das duas. Nem por Desafio, apesar de toda a sua vitalidade. N�o gosto de viver em um labirinto. Quer saber o que est� morto e o que est� vivo? Venha, ent�o, vou lhe mostrar<emphasis> minha</emphasis> cidade.</p><p>Foram para fora mais uma vez, Gwen lac�nica e silenciosa atr�s dos controles, o repentino frio do ar da noite ao redor deles, a brilhante agulha de Desafio desaparecendo atr�s deles. Agora era a profunda escurid�o novamente, como havia sido na noite em que o<emphasis> Tremor de Inimigos Esquecidos</emphasis> trouxera Dirk t'Larien para Worlorn. Apenas uma d�zia de estrelas solit�rias balan�ava no c�u, e metade delas estava oculta por nuvens turbulentas. Todos os s�is haviam se posto.</p><p>A cidade da noite era vasta e intrincada, com apenas algumas luzes dispersas rasgando a escurid�o que ca�ra sobre ela, como se uma p�lida joia tivesse sido colocada em um macio feltro negro. Entre todas as cidades, era a �nica constru�da nos bosques al�m da cadeia de montanhas, e pertencia �quele lugar, entre as florestas de estranguladores, �rvores-fantasmas e vi�vos azuis. A partir da escurid�o da mata, suas finas torres brancas se levantavam como espectros em dire��o �s estrelas, ligadas por graciosas pontes penseis que reluziam como teias de aranhas congeladas. C�pulas baixas se erguiam como vigias solit�rios entre uma rede de canais cujas �guas capturavam as luzes das torres e o brilho das raras estrelas distantes, e circulando a cidade havia uma s�rie de constru��es estranhas que pareciam m�os descarnadas e angulosas tentando agarrar o c�u. As �rvores - e como havia �rvores - eram do mundo exterior; n�o havia grama, apenas grossos tapetes de musgo fosforescente que irradiavam um fulgor opaco.</p><p>E a cidade tinha uma can��o.</p><p>N�o era como nenhuma m�sica que Dirk j� ouvira. Era inquietante, selvagem e quase inumana, e se elevava, ca�a e deslocava-se constantemente. Era uma escura sinfonia do vazio, das noites sem estrelas e dos sonhos conturbados. Era feita de gemidos, sussurros e uivos, e uma estranha nota baixa que s� podia ser o som da tristeza. Com tudo isso,<emphasis> era</emphasis> m�sica.</p><p>Dirk olhou para Gwen, maravilhado.</p><p>- Como?</p><p>Ela escutava enquanto dirigia, mas a pergunta dele arrancou-a de seus acordes flutuantes e a fez sorrir de leve.</p><p>- Escuralba construiu esta cidade, e os escuralbinos s�o um povo estranho. H� um v�o nas montanhas. Os guardi�es do tempo fizeram os ventos soprarem por ele. Ent�o constru�ram as torres, e em cima de cada uma delas h� uma abertura. O vento toca a cidade como um instrumento. A mesma can��o, uma vez e outra. Os aparelhos de controle do tempo guiam os ventos e, a cada mudan�a, algumas torres soam suas notas, enquanto outras ficam em sil�ncio. A m�sica � uma sinfonia escrita em Escuralba h� muitos s�culos, por uma compositora chamada Lamiya-Bailis. Um computador a toca, eles dizem, fazendo funcionar as m�quinas de vento. A coisa estranha nisso tudo � que os escuralbinos nunca usaram muito os computadores e t�m pouca tecnologia. Outra hist�ria era popular durante os dias do Festival. Uma lenda, dizem. Ela afirma que Escuralba era um mundo sempre perigosamente no limite da sanidade, e que a m�sica de Lamiya-Bailis, a maior das sonhadoras de Escuralba, empurrou a cultura inteira para a loucura e o desespero. Em puni��o, dizem, o c�rebro da compositora foi mantido vivo, e pode agora ser encontrado nas profundezas sob as montanhas de Worlorn, conectado �s m�quinas de vento e tocando sua pr�pria obra-prima uma vez ap�s a outra, para sempre. - Ela estremeceu. - Ou, pelo menos, at� que a atmosfera congele. Nem mesmo os guardi�es do tempo de Escuralba podem parar isso.</p><p>- Isso... - Dirk, perdido na can��o, n�o conseguia encontrar as palavras. - Isso se encaixa, de algum modo - disse, finalmente. - Uma can��o para Worlorn.</p><p>- Se encaixa agora. - Gwen concordou. - � uma can��o do crep�sculo e da noite que chega, com nenhum amanhecer novamente, jamais. Uma can��o de finais. No auge dos dias do Festival, a m�sica estava fora de lugar. Kryne Lamiya (este � o nome da cidade, Kryne Lamiya, embora seja freq�entemente chamada de Cidade Sereia, do mesmo modo que Larteyn era chamada de Fortaleza de Fogo), bem, nunca foi um lugar popular. Parece grande, mas na realidade n�o �. Foi constru�da para abrigar apenas cem pessoas, e nunca esteve com mais de um quarto de sua lota��o. Como a pr�pria Escuralba, suponho. Quantos viajantes j� foram para Escuralba, bem na margem do Grande Mar Negro? E quantos v�o para l� no inverno, quando o c�u de Escuralba � quase totalmente vazio, com nada para ver al�m da luz de algumas gal�xias muito distantes? N�o muitos. � necess�rio um tipo de gente muito peculiar para isso. Aqui tamb�m, para amar Kryne Lamiya. As pessoas dizem que a m�sica as perturba. E nunca para. Os escuralbinos n�o fizeram nem quartos de dormir � prova de som.</p><p>Dirk n�o disse nada. Estava olhando para as m�gicas torres e as escutava cantar.</p><p>- Quer descer? - Gwen perguntou.</p><p>Ele assentiu, e ela fez uma espiral em dire��o ao solo. Encontraram uma clareira ao lado de uma das torres. Ao contr�rio das pistas de aterrissagem de Desafio e de D�cimo-Segundo Sonho, esta n�o estava completamente vazia. Dois outros aerom�veis descansavam ali, um modelo esportivo vermelho de asas curtas e um pequeno negro e prateado com forma de l�grima, ambos havia muito abandonados. A poeira soprada pelo vento formava uma camada grossa em suas cabines e tetos, e os estofados dentro do modelo esportivo j� haviam come�ado a apodrecer. S� por curiosidade, Dirk experimentou os dois ve�culos. O esportivo estava morto, queimado, sua energia esva�da havia anos. Mas o pequeno aerom�vel em forma de l�grima ainda ligava sob seu toque, e o painel de controle se acendeu e piscou, mostrando que uma pequena reserva de energia ainda sobrava. A imensa arraia cinzenta de Alto Kavalaan era maior e mais pesada do que os dois objetos abandonados juntos.</p><p>Da pista de pouso, foram por uma longa galeria, onde pain�is luminosos cinza e brancos oscilavam e giravam em formas opacas que acompanhavam o ritmo da m�sica. Ent�o subiram at� um balc�o que haviam visto quando chegaram.</p><p>Do lado de fora, a m�sica estava por todas as partes, chamando-os com vozes sobrenaturais, tocando-os e brincando com seus cabelos, aumentando e reverberando como um trov�o da paix�o. Dirk pegou a m�o de Gwen e ficou ouvindo, enquanto lan�ava um olhar perdido para al�m das torres, c�pulas e canais, em dire��o � floresta e �s montanhas depois dela. A m�sica do vento parecia arrast�-lo. Era como se falasse com ele suavemente, instando-o a pular, a acabar com tudo, com toda a tolice, indignidade e insignificante futilidade que ele chamava de vida.</p><p>Gwen viu em seus olhos. Apertou a m�o dele e, quando ele olhou para ela, disse:</p><p>- Durante o Festival, mais de duzentas pessoas cometeram suic�dio em Kryne Lamiya. Dez vezes o n�mero de qualquer outra cidade. E isso apesar de que esta cidade tinha a menor popula��o de todas.</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Sim. Posso sentir. A m�sica.</p><p>- A celebra��o da morte - Gwen falou. - Sim, voc� sabe, a Cidade Sereia<emphasis> n�o</emphasis> est� morta, n�o como Musquel ou D�cimo-Segundo Sonho. Ela ainda vive, teimosamente, apenas para exaltar o desespero e glorificar o vazio da vida ao qual ela mesma se aferra. Estranho, n�o?</p><p>- Por que constru�ram tal lugar? � bonito, mas...</p><p>- Tenho uma teoria - Gwen respondeu. - Os escuralbinos s�o niilistas de humor negro, antes de tudo, e acho que Kryne Lamiya � sua piada amarga para Alto Kavalaan, Tocadolobo, Tober e os outros mundos que se esfor�aram tanto pelo Festival na Orla. Os escuralbinos vieram, tudo bem, e constru�ram uma cidade que diz que tudo � sem valor.<emphasis> Tudo</emphasis> sem valor: o Festival, a civiliza��o humana, a vida em si. Pense nisso! Que armadilha para um turista desprevenido! - Jogou a cabe�a para tr�s e come�ou a gargalhar descontroladamente, e por um breve momento Dirk sentiu um s�bito medo irracional, como se Gwen tivesse enlouquecido.</p><p>- E voc� queria viver aqui? - ele perguntou.</p><p>Sua gargalhada morreu t�o abruptamente quanto come�ara; o vento a levou embora. Longe, � direita deles, uma torre espigada emitia uma nota breve e penetrante que vagava como o uivo de um animal em dor. A torre em que estavam respondia com um triste gemido baixo de uma buzina, lento e intermin�vel. A m�sica rodopiava ao redor deles. Bem ao longe, Dirk pensou ter ouvido o bater de um �nico tambor, golpes graves e contundentes, uniformemente espa�ados.</p><p>- Sim - Gwen confirmou. - Eu queria viver aqui. - A buzina desapareceu; quatro torres avermelhadas do outro lado do canal, unidas por pontes p�nseis, come�aram a ulular selvagemente, cada nota mais alta do que a anterior, at� que finalmente se tornaram inaud�veis. O tambor continuou, imut�vel: bum, bum, bum.</p><p>Dirk suspirou.</p><p>- Entendo - disse, em uma voz muito cansada. - Eu teria vivido aqui tamb�m, suponho, embora me pergunte quanto tempo viveria se fizesse isso. Braque era um pouco assim, o mais suave dos ecos, especialmente � noite. Talvez fosse por isso que eu vivesse<emphasis> l�.</emphasis> Estava muito cansado, Gwen. Muito. Acho que tinha desistido. Nos velhos tempos, voc� sabe, eu estava sempre procurando... por amor, por dinheiro f�cil, pelos segredos do universo, pelo que quer que fosse. Mas depois que voc� me deixou... n�o sei, tudo dava errado, me deixava um gosto amargo na boca. E quando alguma coisa<emphasis> dava</emphasis> certo, eu achava que n�o importava, n�o fazia nenhuma diferen�a. Era tudo vazio. Tentei e tentei, mas tudo o que consegui foi me cansar, me tornar ap�tico e c�nico. Talvez tenha sido por isso que vim at� aqui. Voc�... bem, eu era melhor naquela �poca. Se eu encontrasse voc� de novo, talvez conseguisse<emphasis> me</emphasis> encontrar novamente tamb�m. N�o funcionou bem desse jeito. N�o sei se funcionou de algum jeito.</p><p>- Ou�a Lamiya-Bailis - Gwen falou -, e a m�sica da cidade lhe dir� que<emphasis> nada</emphasis> funciona, que nada significa coisa alguma. Eu queria viver aqui, voc� sabe. Eu votei... bem, n�o planejava votar desse jeito, mas est�vamos conversando sobre isso quando chegamos aqui pela primeira vez, e simplesmente saiu. Isso me assustou. Talvez voc� e eu ainda tenhamos muito em comum, Dirk. Fiquei cansada tamb�m. Em geral, n�o demonstro. Tenho meu trabalho para me manter ocupada, Arkin � meu amigo, e Jaan me ama. Mas quando venho aqui... ou algumas vezes simplesmente paro e come�o a pensar demais, ent�o me questiono. As coisas que tenho n�o s�o suficientes. N�o � o que eu queria. - Ela se virou na dire��o dele e pegou sua m�o. - Sim, eu tenho pensado em voc�. Tenho pensado que as coisas eram melhores quando voc� e eu est�vamos juntos em �valon, e tenho pensado que talvez ainda seja<emphasis> voc�</emphasis> quem eu amo, e n�o Jaan, e tenho pensado que voc� e eu pod�amos trazer a m�gica de volta, fazer tudo ter sentido outra vez. Mas voc� n�o v�? N�o �<emphasis> assim,</emphasis> Dirk, e toda a sua press�o n�o vai fazer com que seja. Ou�a a cidade, ou�a Kryne Lamiya. Eis a sua verdade. Voc� pensa em mim, e algumas vezes eu penso em voc�, apenas porque a morte est� entre n�s. Esta � a �nica raz�o pela qual parece melhor. Felicidade ontem e felicidade amanh�, mas nunca hoje, Dirk. N�o pode ser, porque tudo � apenas ilus�o no final das contas, e ilus�es s� parecem reais a dist�ncia. A nossa terminou, meu amor perdido e sonhador<emphasis> terminou,</emphasis> e isso � o melhor de tudo, porque � a �nica coisa que o faz ser bom.</p><p>Ela estava chorando; as l�grimas escorriam lentamente por seu rosto. Kryne Lamiya chorava com ela, as torres pranteando o lamento deles. Mas a cidade zombava dela tamb�m, como se dissesse, "Sim, vejo sua dor, mas a dor n�o tem mais significado do que todo o resto, a dor � t�o vazia quanto o prazer". As torres gemiam, grades finas riam insanamente, e o som baixo do tambor continuava: bum, bum, bum.</p><p>Novamente, mais forte dessa vez, Dirk quis saltar do balc�o, em dire��o � pedra clara e aos canais escuros embaixo deles. Uma queda vertiginosa, e ent�o o descanso finalmente. Mas a cidade cantava para ele como para um tolo:<emphasis> Descanso?,</emphasis> cantava, n�o h� descanso na morte. Apenas o nada. Nada. Nada. O tambor, os ventos, os gemidos. Ele tremeu, ainda segurando as m�os de Gwen. Olhou em dire��o ao solo abaixo.</p><p>Algo avan�ava pelo canal. Balan�ando e flutuando, facilmente � deriva, vindo na dire��o dele. Um barco negro, com um remador solit�rio.</p><p>- N�o - ele disse.</p><p>Gwen pestanejou.</p><p>- N�o? - repetiu.</p><p>E repentinamente as palavras vieram, as palavras que o<emphasis> outro </emphasis>Dirk t'Larien teria dito para sua Jenny, e as palavras estavam na ponta de sua l�ngua, embora n�o tivesse certeza se podia acreditar nelas, e pegou a si<emphasis> mesmo</emphasis> dizendo tudo mesmo assim.</p><p>- <emphasis>N�o! -</emphasis> exclamou, gritando para a cidade, sentindo uma raiva s�bita pela m�sica zombeteira de Kryne Lamiya. - Maldi��o, Gwen, todos temos algo desta cidade em n�s mesmos, sim. O teste � como enfrentamos isso. Tudo isto � assustador - soltou as m�os dela para gesticular em dire��o � escurid�o, o gesto de sua m�o abarcando tudo - o que a cidade<emphasis> diz</emphasis> � assustador, e o pior � o medo que voc� sente quando parte de sua alma concorda, quando voc� sente que � tudo verdade, que voc� pertence a este lugar. Mas o que voc� faz a esse respeito? Se voc� � fraco, ignora. Finge que n�o existe, entende? E talvez isso v� embora. Ocupa-se durante todo o dia com tarefas triviais e nunca pensa na escurid�o l� fora. E, deste modo, voc� a deixa ganhar, Gwen. No fim, a cidade engole voc� e todas as suas coisas triviais, e voc� e outros tolos mentem uns para os outros reciprocamente e aceitam isso. N�o pode ser assim, Gwen, voc�<emphasis> n�o</emphasis> pode ser assim. Tem que tentar. Voc� � uma ecologista, certo? E sobre o que a ecologia trata? De vida! Voc� tem que estar do lado da vida, tudo o que voc� � diz isso. Esta cidade, esta maldita cidade branca como ossos, com seu hino morto, � a nega��o de tudo o que acredita, de tudo o que voc� �. Se voc� � forte, encara isso, luta, chama-a pelo nome. Desafia isso.</p><p>Gwen parara de chorar.</p><p>- Isso � in�til - ela disse, balan�ando a cabe�a.</p><p>- Voc� est� errada - ele respondeu. - Sobre esta cidade, sobre n�s. Est� tudo entrela�ado, percebe? Voc� diz que quer viver aqui? Muito bem! Viva aqui! Viver nesta cidade seria uma vit�ria em si mesma, uma vit�ria filos�fica. Mas viva aqui porque voc� sabe que a vida refuta Lamiya-Bailis, viva aqui e ria desta absurda m�sica dela,<emphasis> n�o</emphasis> viva aqui e concorde com este maldito lamento mentiroso. - Pegou a m�o dela novamente.</p><p>- N�o sei - ela disse.</p><p>- Voc� sabe - ele refutou, mentindo.</p><p>- Voc�<emphasis> realmente</emphasis> acha que... que poder�amos fazer dar certo novamente? Melhor do que antes?</p><p>- Voc� n�o ser� Jenny - ele prometeu. - Nunca mais.</p><p>- N�o sei - ela repetiu, num sussurro.</p><p>Ele pegou o rosto dela com as duas m�os e levantou-o, para que os olhos dela encontrassem os dele. Beijou-a muito suavemente, apenas ro�ando os l�bios nos dela. A cidade gemia. A buzina soava profunda e queixosa ao redor deles, as torres distantes gritavam e lamentavam, e o tambor solit�rio continuava a tocar seu bumbo sem sentido.</p><p>Depois do beijo, ficaram parados em meio � m�sica, encarando um ao outro.</p><p>- Gwen - ele finalmente disse, em uma voz nem t�o forte ou t�o segura quanto tinha estado alguns momentos antes - , eu tamb�m n�o sei, acho. Mas, talvez, possa valer a pena tentar...</p><p>- Talvez - ela respondeu, desviando e baixando os grandes olhos verdes. - Seria dif�cil, Dirk. E h� Jaan para se considerar, e Garse, tantos problemas. E nem mesmo sabemos se valeria a pena. N�o sabemos se far� a m�nima diferen�a.</p><p>- N�o, n�o sabemos - ele concordou. - Muitas vezes, nestes poucos �ltimos anos, decidi que n�o importava, que n�o valia a pena tentar. N�o me senti bem, ent�o, apenas cansado, infinitamente cansado. Gwen, se n�o tentarmos, nunca saberemos.</p><p>Ela assentiu.</p><p>- Talvez - disse, e nada mais. O vento soprava frio e forte; a m�sica da loucura escuralbina se ergueu e baixou novamente. Foram para dentro, ent�o desceram as escadas do balc�o, passaram pelos pain�is opacos e tremulantes de luzes cinza e brancas, para onde a s�lida sanidade do aerom�vel os esperava para lev�-los de volta a Larteyn.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo</strong><strong> 5</strong></p><empty-line/><p>Voaram das altas torres brancas de Kryne Lamiya at� as fogueiras desvanecidas de Larteyn em um sil�ncio solit�rio, sem se tocarem, ambos perdidos nos pr�prios pensamentos. Gwen deixou o aerom�vel no lugar costumeiro do telhado, e Dirk a seguiu escada abaixo at� a porta do apartamento dela.</p><p>- Espere - Gwen disse em um r�pido sussurro, quando ele achou que ela fosse dizer boa noite. Ela desapareceu l� dentro; Dirk esperou, intrigado. Havia barulho do outro lado da porta, vozes, ent�o, abruptamente Gwen voltou, empurrando um grosso manuscrito nas m�os dele, uma massa de papel impressionantemente pesada, encapada � m�o com couro negro. - Leia - sussurrou, inclinando-se porta afora. - Venha amanh� de manh� e conversaremos mais.</p><p>Beijou-o levemente no rosto e fechou a porta pesada com um pequeno estalo. Dirk ficou parado por um momento, inspecionando o manuscrito encadernado, ent�o virou-se em dire��o aos elevadores.</p><p>Havia dado apenas alguns passos quando ouviu o primeiro grito. Ent�o, de alguma maneira, n�o p�de continuar; os sons o levaram de volta, e ele ficou parado ouvindo atrav�s da porta de Gwen.</p><p>As paredes eram grossas, e muito pouco do que era dito passava por elas. N�o entendia as palavras, nem o que significavam, mas o tom das vozes dizia bastante. A voz de Gwen predominava: alta, mordaz - �s vezes ela gritava -, pr�xima da histeria. Em sua mente, Dirk podia v�-la caminhando pela sala de estar, diante das g�rgulas, do jeito que sempre fazia quando estava zangada. Os dois kavalarianos deviam estar presentes, repreendendo-a, pois Dirk tinha certeza de ter ouvido mais duas vozes: uma calma e segura, sem raiva, questionando implacavelmente. Essa tinha que ser a voz de Jaan Vikary. Sua cad�ncia o entregava, as marca��es de seu discurso podiam ser distinguidas mesmo atrav�s da parede. A terceira voz, Garse Janacek, falava pouco no in�cio, ent�o mais e mais, com crescente volume e ira. Depois de um tempo, a primeira voz masculina calma estava praticamente em sil�ncio, enquanto Gwen e Garse gritavam um com o outro. Ent�o ouviu-se alguma coisa, uma ordem forte. E Dirk ouviu um barulho, uma pancada surda. Um golpe. Algu�m tinha batido em algu�m, n�o podia ser outra coisa.</p><p>Finalmente Vikary come�ou a dar ordens, e, a seguir, o sil�ncio. A luz se apagou dentro do aposento.</p><p>Dirk ficou parado quieto, segurando o manuscrito de Vikary e se perguntando como agir. N�o parecia ter nada que<emphasis> pudesse </emphasis>fazer, exceto conversar com Gwen na manh� seguinte e descobrir quem batera em quem, e por qu�. Devia ser Janacek, pensou.</p><p>Ignorando os elevadores, decidiu descer as escadas at� os aposentos de Ruark.</p><p>Uma vez na cama, Dirk descobriu que estava imensamente cansado e profundamente abalado pelos eventos do dia. Era muita coisa ao mesmo tempo, e ele mal conseguia lidar com isso. Os ca�adores kavalarianos e seus quase-homens, a estranha e amarga vida que Gwen levava com Vikary e Janacek, a s�bita e desconcertante possibilidade de ela voltar para ele. Incapaz de dormir, pensou em tudo isso por um longo tempo. Ruark j� estava dormindo; n�o havia ningu�m com quem conversar. Finalmente, Dirk pegou o grosso manuscrito que Gwen lhe dera e come�ou a folhear as primeiras p�ginas. N�o havia nada melhor do que um sisudo trabalho acad�mico para colocar um homem para dormir, refletiu.</p><p>Quatro horas e meia d�zia de x�caras de caf� mais tarde, ele baixou o manuscrito, bocejando e esfregando os olhos. Ent�o desligou a luz e encarou a escurid�o.</p><p><emphasis>A tese de Jaan Vikary -</emphasis><emphasis> Mito e hist�ria: origens da sociedade dos grupos baseada na interpreta��o do ciclo de</emphasis><emphasis> Can��es do Dem�nio </emphasis><emphasis>de Jamis-Le�o Taal</emphasis><emphasis> - era uma acusa��o contra seu povo pior do que qualquer coisa que Arkin Ruark pudesse dizer, Dirk pensou. Ele tinha colocado tudo para fora, com fontes e documentos dos bancos de dados dos computadores de �valon, longas cita��es da poesia de Jamis-Le�o Taal e ainda mais longas disserta��es sobre o que Jamis Taal queria dizer. Todas as coisas que Jaan e Gwen haviam contado para Dirk naquela manh� estavam ali, em detalhes. Vikary fornecia teorias sobre teorias, tentando explicar tudo. Explicara at� mesmo os quase-homens, mais ou menos. Argumentava que, durante o Tempo do Fogo e dos Dem�nios, alguns sobreviventes das cidades haviam alcan�ado os acampamentos de minera��o e buscaram abrigo. Uma vez l� dentro, no entanto, provaram-se perigosos. Alguns eram v�timas de doen�as causadas pela radia��o; morriam lentamente e de forma horr�vel, e possivelmente contaminavam aqueles que cuidavam deles. Outros, parecendo saud�veis, viveram e se tornaram parte dos protogrupos, at� que se casaram e geraram crian�as. Ent�o os efeitos da radia��o se mostraram. Eram tudo conjecturas da parte de Jaan, com nada al�m de uma linha ou duas de apoio de Jamis-Le�o, mesmo assim parecia uma racionaliza��o poss�vel e plaus�vel do mito dos quase-homens.</emphasis></p><p>Vikary tamb�m dedicava v�rias p�ginas para o evento que os kavalarianos chamavam de Praga Dolorosa, e que ele cuidadosamente chamou de<emphasis> "a</emphasis> substitui��o dos padr�es sexuais-familiares dos kavalarianos contempor�neos".</p><p>Segundo sua hip�tese, os hranganos voltaram a Alto Kavalaan aproximadamente um s�culo ap�s a primeira incurs�o. As cidades que haviam bombardeado ainda eram entulhos; n�o havia sinais de novas constru��es por parte de humanos. Apesar disso, as tr�s ra�as-escravas que haviam deixado para povoar o planeta n�o estavam em evid�ncia em nenhum lugar: dizimados, extintos. Sem d�vida, a Mente Hrangana em comando concluiu que alguns dos humanos ainda viviam. Para efetuar a limpeza final, os hranganos jogaram bombas bacteriol�gicas. Esta era a teoria de Vikary.</p><p>Os poemas de Jamis-Le�o n�o faziam men��o aos hranganos, mas havia muitas refer�ncias �s doen�as. Todos os relatos dos kavalarianos sobreviventes concordavam com isso. Houve uma Praga Dolorosa, um longo per�odo em que uma horr�vel epidemia ap�s a outra arrasou com os grupos. Cada mudan�a de esta��o originava uma doen�a nova e mais devastadora. Era o maior dem�nio de todos, um que os kavalarianos n�o conseguiam combater ou matar.</p><p>Noventa homens morriam em cada cem. Noventa homens e noventa e nove mulheres.</p><p>Uma das muitas pragas, parecia, atacava seletivamente as mulheres. Os m�dicos-especialistas que Vikary consultou em �valon lhe disseram, baseados na pequena evid�ncia que lhes fora dada - alguns poemas e can��es antigos -, que parecia prov�vel que os horm�nios femininos agissem como catalisador da doen�a. Jamis-Le�o Taal escrevera que jovens donzelas eram poupadas da perda de sangue por causa de sua inoc�ncia, enquanto as<emphasis> eyn-kethi</emphasis> no cio eram horrivelmente atingidas e morriam em convuls�es espasm�dicas. Vikary interpretou que as garotas na pr�-puberdade n�o se contagiavam, enquanto as mulheres maduras sexualmente ativas eram devastadas. Uma gera��o inteira foi eliminada. Pior, a doen�a persistiu; nem bem as meninas chegavam � puberdade e a praga as atacava. Jamis-Le�o fez disso uma verdade de vasto significado religioso.</p><p>Algumas mulheres, imunes por natureza, escaparam. Muito poucas no in�cio. Depois mais; como viviam, produziam filhos e filhas, muitos dos quais tamb�m eram imunes, enquanto os que n�o compartilhavam da mesma resist�ncia morriam na puberdade. Afinal, todos os kavalarianos se tornaram imunes, com raras exce��es. E a Praga Dolorosa acabou.</p><p>Mas o dano j� estava feito. Grupos inteiros haviam desaparecido; os sobreviventes viam suas popula��es declinarem muito abaixo do n�mero necess�rio para manter uma sociedade vi�vel. E a estrutura social e os pap�is sexuais haviam se separado irremediavelmente do igualitarismo monog�mico dos primeiros colonos de Tara. Gera��es chegavam � maturidade, nas quais os homens superavam as mulheres em um total de dez para uma; garotinhas viviam toda a inf�ncia sabendo que a puberdade significaria a morte. Eram tempos funestos. Disso, tanto Jaan Vikary quanto Jamis-Le�o Taal falavam em un�ssono.</p><p>Jamis-Le�o escrevera que o pecado finalmente deixara Alto Kavalaan quando as<emphasis> eyn-kethi</emphasis> foram trancadas em seguran�a longe da luz do sol, de volta �s cavernas de onde haviam sa�do, onde sua vergonha n�o podia ser vista. Vikary escrevera que os sobreviventes kavalarianos haviam resistido da melhor maneira poss�vel. N�o tinham mais as habilidades tecnol�gicas para construir c�maras herm�ticas esterilizadas; mas sem d�vida o rumor sobre a exist�ncia de tais lugares se difundira entre eles ao longo dos anos, e ainda tinham esperan�a de que tais lugares pudessem ser eficazes contra a enfermidade. Ent�o as mulheres sobreviventes foram encarceradas em hospitais que pareciam pris�es, nas profundezas do solo, no local mais seguro das fortalezas dos grupos, o mais afastado poss�vel do vento contaminado, da chuva e da �gua. Homens que antes exploravam, ca�avam e guerreavam com as esposas ao lado agora o faziam com outros homens, ambos lamentando as parceiras perdidas. Para aliviar as tens�es sexuais - e manter o grupo gen�tico o melhor poss�vel, se � que entendiam dessas coisas -, os homens que sobreviveram � Praga Dolorosa transformaram suas mulheres em propriedade sexual de todos. Para garantir tantas crian�as quanto fosse poss�vel, eles as transformaram em parideiras perp�tuas, que viviam suas vidas longe do perigo, em gravidez constante. Os grupos que n�o adotaram tais medidas n�o conseguiram sobreviver; os demais passaram adiante uma heran�a cultural.</p><p>Outras mudan�as se enraizaram tamb�m. Tara havia sido um mundo religioso, lar da Igreja Cat�lica Romana Reformada, e o desejo de monogamia era dif�cil de morrer. Os padr�es se mantiveram em duas formas mutantes; os fortes la�os emocionais que cresceram entre os parceiros de ca�a masculinos se tornaram a base da rela��o total e intensa de<emphasis> teyn-e-teyn,</emphasis> enquanto aqueles homens que desejavam um la�o semiexclusivo com uma mulher criaram as<emphasis> betheyns,</emphasis> capturando f�meas de outros grupos. Os l�deres encorajavam tais incurs�es, Jaan Vikary afirmava; novas mulheres significavam sangue novo, mais crian�as, uma popula��o maior e, portanto, uma chance melhor de sobreviv�ncia. Era impens�vel que qualquer homem tomasse posse exclusiva de uma das<emphasis> eyn-kethi</emphasis>; mas um homem que trazia uma mulher de fora era recompensado com honras, um assento no conselho de lideran�a e, talvez o mais importante, com a pr�pria mulher.</p><p>Esses foram os prov�veis eventos, Vikary argumentava, as verdades evidentes que produziram a moderna sociedade kavalariana. Jamis-Le�o Taal, ao vagar pela face do mundo muitas gera��es mais tarde, havia sido t�o filho de sua cultura que era incapaz de conceber um mundo no qual as mulheres tivessem um status diferente daquele que ele via; e quando foi for�ado a pensar de outra maneira pelo folclore que coletara, achou a id�ia perversamente intoler�vel. Assim que reescreveu toda a literatura oral que reuniu em seu ciclo de<emphasis> Can��es de Dem�nio, </emphasis>transformou Kay Ferro-Ferreiro em um gigante col�rico, fez da Praga Dolorosa uma balada sobre a perversidade das<emphasis> eyn-kethi </emphasis>e criou a impress�o generalizada de que o mundo sempre fora como ele o conhecia. Poetas posteriores edificaram sobre as funda��es que ele deixou.</p><p>As for�as que produziram a sociedade dos grupos em Alto Kavalaan desapareceram havia muito tempo. No presente, havia mulheres e homens em quantidades iguais, as epidemias eram apenas f�bulas terr�veis, e a maioria dos perigos da superf�cie do planeta j� havia sido derrotada. N�o obstante, os grupos-coaliz�es continuaram. Os homens lutavam em duelos, estudavam a nova tecnologia, trabalhavam em fazendas e em f�bricas, viajavam em naves estelares kavalarianas, enquanto as<emphasis> eyn-kethi</emphasis> viviam em vastas barracas subterr�neas, como parceiras sexuais para todos os homens do grupo, trabalhando em qualquer que fosse a tarefa que o conselho dos altos-senhores julgasse segura e adequada, e dando � luz, embora agora com menos freq��ncia. A popula��o kavalariana era estritamente controlada. Outras mulheres viviam uma vida um pouco mais livre, sob a prote��o do jade-e-prata, mas n�o muitas. Uma<emphasis> betheyn</emphasis> tinha que vir de fora do grupo, o que, na pr�tica, significava que todo jovem ambicioso tinha que desafiar e matar um alto-senhor de outra coaliz�o, ou mesmo reclamar uma das<emphasis> eyn-kethi</emphasis> em um grupo inimigo e encarar um defensor escolhido pelo conselho. Essa segunda op��o raramente dava bons resultados; o conselho de altos-senhores invariavelmente escolhia o mais habilidoso duelista para defender a<emphasis> eyn-kethi. </emphasis>De fato, a designa��o era uma honra singular. Um homem que conseguisse ganhar uma<emphasis> betheyn</emphasis> imediatamente ganhava seus altos-nomes e seu lugar entre os governantes. Dizia-se que havia dado a seus<emphasis> kethi</emphasis> o presente de dois sangues - o sangue da morte, um inimigo morto, e o sangue da vida, uma nova mulher. A mulher desfrutava o status de jade-e-prata at� que seu altos-senhor fosse morto. Se ele fosse assassinado por algu�m do pr�prio grupo, ela se tornava uma<emphasis> eyn-kethi;</emphasis> se o assassino fosse de fora, ela passaria para ele.</p><p>Esse era o status que Gwen Delvano assumira quando colocara o bracelete de Jaan ao redor de seu punho.</p><p>Dirk ficou acordado por muito tempo, pensando em tudo o que lera e encarando o teto, ficando mais e mais zangado conforme pensava. Quando a primeira luz do amanhecer come�ou a ser suavemente filtrada pela janela sob sua cabe�a, j� havia decidido. Em certo sentido, n�o importava muito se Gwen voltaria ou n�o para ele, desde que deixasse Vikary, Janacek e toda a doentia sociedade de Alto Kavalaan. Mas, sozinha, ela n�o conseguiria romper com isso, por mais que desejasse. Muito bem, ent�o Arkin Ruark estava certo; ele podia ajud�-la. Ele a ajudaria a ser livre. E, depois, teriam tempo para considerar sua pr�pria rela��o.</p><p>Finalmente, com a resolu��o firme na mente, Dirk adormeceu.</p><p>Era quase meio-dia quando acordou repentinamente, com uma sensa��o de culpa. Sentou-se, pestanejou e se lembrou de que prometera a Gwen que passaria por l� naquela manh�, e a manh� j� havia passado e ele perdera a hora. Apressadamente, levantou-se e vestiu-se, procurando rapidamente por Ruark - o kimdissiano se fora, sem nenhuma pista de onde havia ido, ou por quanto tempo - e, ent�o, subiu ao apartamento de Gwen. A tese de Vikary estava firmemente embaixo de seu bra�o.</p><p>Garse Janacek atendeu a porta.</p><p>- Sim? - o kavalariano de barba ruiva disse, franzindo o cenho. Estava nu at� a cintura, vestido apenas com cal�as negras folgadas e o eterno bracelete de ferro-e-pedrardente no bra�o direito. Dirk percebeu imediatamente por que Janacek n�o usava aquelas camisas de gola em V que Vikary parecia gostar tanto; do lado esquerdo de seu peito, da axila at� o peito, havia uma longa cicatriz curva, lisa e dura.</p><p>Janacek sentiu-se observado.</p><p>- Um duelo que deu errado - retrucou. - Eu era muito jovem. N�o acontecer� novamente. Agora, o que voc� quer?</p><p>Dirk corou.</p><p>- Quero ver Gwen - respondeu.</p><p>- Ela n�o est� aqui - Janacek disse, seus olhos gelados, duros e pouco amistosos. Come�ou a fechar a porta.</p><p>- Espere. - Dirk segurou a porta com a m�o.</p><p>- Que mais voc� quer?</p><p>- Gwen. Eu devia me encontrar com ela. Onde ela est�?</p><p>- Nos bosques, t'Larien. Eu ficaria satisfeito se voc� se lembrasse que ela � uma ecologista, enviada para c� pelos altos-senhores de Jadeferro para fazer um trabalho importante. Ela negligenciou esse trabalho por dois dias inteiros para levar voc� para cima e para baixo. Agora, como � apropriado, ela voltou a trabalhar. Ela e Arkin Ruark pegaram seus instrumentos e partiram para as florestas.</p><p>- Ela n�o me disse nada noite passada. - Dirk insistiu.</p><p>- Ela n�o precisa informar voc� dos planos dela - Janacek respondeu. - Nem deve ter sua permiss�o para nada. N�o h� la�os entre voc�s.</p><p>Lembrando-se da discuss�o que ouvira na noite anterior, Dirk ficou repentinamente desconfiado.</p><p>- Posso entrar? - falou. - Quero devolver isso para Jaan, conversar com ele sobre algumas coisas que li - acrescentou, mostrando para Garse a tese encadernada em couro. Na verdade, esperava procurar por Gwen, descobrir se ela estava sendo mantida afastada dele. Mas dificilmente teria sido educado dizer isso; Janacek destilava hostilidade, e uma tentativa de empurr�-lo poderia ser muito imprudente.</p><p>- Jaan n�o est� em casa agora. N�o h� ningu�m al�m de mim. E estou prestes a sair - estendeu o bra�o e arrancou a tese das m�os de Dirk. - Ficarei com isto, no entanto. Gwen nunca deveria ter dado isto a voc�.</p><p>- Ei! - Dirk falou. E teve um impulso. - A hist�ria � muito interessante - disse, repentinamente. - Posso entrar e conversar com voc� sobre isso? Um segundo ou dois, n�o vou prend�-lo por muito tempo.</p><p>Abruptamente, Janacek pareceu mudar. Sorriu e abriu passagem, convidando Dirk para entrar no apartamento.</p><p>Dirk olhou ao redor rapidamente. A sala de estar estava deserta, a lareira, fria; nada parecia errado ou fora de lugar. A sala de jantar, vis�vel atrav�s da arcada aberta, estava vazia tamb�m. O apartamento inteiro estava tranq�ilo. Nenhum sinal de Gwen ou Jaan. Pelo que podia ver, parecia que Janacek estava falando a verdade.</p><p>Incerto, Dirk vagou pela sala, parando diante da cornija e suas g�rgulas. Janacek o observava sem dizer uma palavra, ent�o se virou e saiu, voltando logo depois. Havia colocado o cinto de malha de a�o com o pesado coldre e estava abotoando a frente de uma camisa preta desbotada quando retornou.</p><p>- O que voc� est� fazendo? - Dirk perguntou.</p><p>- Saindo - Janacek respondeu com um vago sorriso. Soltou o coldre e tirou a pistola laser, conferindo o indicador de carga na coronha, ent�o colocou a arma de volta e sacou-a novamente com um suave movimento da m�o direita... e olhou para Dirk. - Eu assusto voc�? - perguntou.</p><p>- Sim - Dirk respondeu, afastando-se da cornija.</p><p>Janacek sorriu novamente. Deslizou a pistola para dentro do coldre.</p><p>- Sou muito bom em um duelo com laser - disse -, embora, na verdade, meu<emphasis> teyn</emphasis> seja melhor. � claro, eu tenho que usar apenas o bra�o direito. O esquerdo ainda me d�i. O tecido da cicatriz repuxa, ent�o os m�sculos do peito deste lado n�o conseguem se mover com tanta facilidade quanto do lado direito. Mas isso n�o tem muita import�ncia. Fa�o tudo com a m�o direita. O bra�o direito sempre vale mais do que o esquerdo, voc� sabe. - Sua m�o direita descansava sobre a pistola laser enquanto ele falava, e as pedrardentes no conjunto de ferro negro brilhavam como opacos olhos vermelhos ao longo de seu antebra�o.</p><p>- E uma pena que o feriram.</p><p>- Eu cometi um erro, t'Larien. Era muito jovem, talvez, mas meu erro n�o foi menos s�rio por causa da minha idade. Tais erros podem ser coisas muito s�rias, e de certo modo escapei com facilidade. - Estava olhando fixamente para Dirk. - Devemos ter cuidado para n�o cometer erros.</p><p>- Verdade. - Dirk fingiu um sorriso inocente.</p><p>Por um tempo, Janacek n�o respondeu. Ent�o, finalmente disse:</p><p>- Acho que voc� sabe sobre o que estou falando.</p><p>-Sei?</p><p>- Sim. Voc� n�o � um homem sem intelig�ncia, t'Larien. Nem eu. Suas artimanhas infantis n�o me divertem. Voc� n�o tem nada para conversar comigo, por exemplo. Simplesmente queria entrar nesta casa por algum outro motivo.</p><p>O sorriso de Dirk desapareceu. Ele assentiu.</p><p>- Est� certo. Uma artimanha imbecil, sem d�vida, j� que voc� a percebeu de imediato. Eu queria procurar por Gwen.</p><p>- Eu lhe disse que ela estava nos bosques, trabalhando.</p><p>- N�o acreditei em voc�. - Dirk confessou. - Ela teria me dito algo ontem. Voc� a est� mantendo afastada de mim. Por qu�? O que est� acontecendo?</p><p>- Nada que precise preocupar voc� - Janacek falou. - Me entenda, t'Larien, se puder. Talvez para voc�, assim como para Arkin Ruark, eu pare�a um homem mau. Voc� pode pensar isso de mim. N�o me importo nem um pouco. Mas n�o sou um homem mau. E por isso que o avisei a respeito dos erros. � por isso que deixei voc� entrar, mesmo sabendo que n�o tinha nada para me dizer. Pois<emphasis> eu</emphasis> tenho algumas coisas para dizer para voc�.</p><p>Dirk se reclinou contra o encosto do sof� e assentiu.</p><p>- Tudo bem, Janacek. V� em frente.</p><p>Janacek franziu o cenho.</p><p>- Seu problema, t'Larien, � que voc� sabe pouco e entende menos ainda sobre Jaan, sobre mim e nosso mundo.</p><p>- Sei mais do que voc� pensa.</p><p>- Sabe? Voc� leu os escritos de Jaan sobre as<emphasis> Can��es do Dem�nio,</emphasis> e, certamente, as pessoas falaram coisas para voc�. Mesmo assim, o que � isso? Voc� n�o � kavalariano. Voc� n�o entende os kavalarianos, eu diria, mas voc� est� aqui, e vejo julgamento em seus olhos. Com que direito? Quem � voc� para nos julgar? Voc� mal nos conhece. Vou lhe dar um exemplo. H� um segundo voc� me chamou de Janacek.</p><p>- Esse � seu nome, n�o �?</p><p>- Essa � parte do meu nome, a �ltima parte, a menos importante e a menor parte de quem sou. � meu nome-escolhido, o nome de um antigo her�i do grupo Jadeferro que viveu uma longa e frut�fera vida, por muitas vezes defendendo honradamente o grupo e seus<emphasis> kethi</emphasis> em altas-guerras. Sei porque voc� o usa, � claro. Em seu mundo, e de acordo com seu sistema de nomes, costuma-se interpelar a quem se trata com dist�ncia e hostilidade pelo �ltimo componente do nome... a algu�m �ntimo voc� chama pelo primeiro nome, n�o �?</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Mais ou menos. N�o � t�o simples assim, mas voc� est� bem perto.</p><p>Janacek esbo�ou um sorriso; seus olhos azuis pareciam brilhar.</p><p>- V�? Eu<emphasis> entendo</emphasis> seu povo muito bem. E lhe dou o benef�cio de seus pr�prios costumes. Eu o chamo de t'Larien porque sou hostil a voc�, e isso � correto. Voc� n�o � rec�proco, no entanto. Voc� se dirige a mim como Janacek, sem um instante de considera��o ou preocupa��o, me impondo quase deliberadamente seu pr�prio sistema de nomes.</p><p>- Como eu deveria cham�-lo? Garse?</p><p>Janacek fez um gesto brusco e impaciente.</p><p>- Garse � meu nome verdadeiro, mas n�o � adequado para voc�. Segundo o costume kavalariano, o uso do nome sozinho indica um relacionamento que n�o existe de fato entre n�s. Garse � um nome para meu<emphasis> teyn,</emphasis> para minha<emphasis> cro-betheyn</emphasis> e para meus <emphasis>kethi,</emphasis> n�o para algu�m de outro mundo. A rigor, voc� deveria me chamar de Garse Jadeferro, e meu<emphasis> teyn</emphasis> de Jaantony Alto-Jadeferro. Essas s�o as formas tradicionais e corretas de um igual, um kavalariano de outra casa com quem estou conversando. Eu lhe dou o benef�cio de muitas d�vidas. - Sorriu. - Agora entenda, t'Larien, que isso que lhe contei � apenas um exemplo. Eu me importo muito pouco se voc� me chama de Garse, de Garse Jadeferro, ou de Senhor Janecek. Me chame do que deixar seu cora��o mais feliz, e n�o tomarei isso como insulto. O kimdissiano Arkin Ruark sempre me chamou de<emphasis> Garsinho,</emphasis> mas eu resisti � vontade de fur�-lo para ver se ele arrebenta. Quanto a essas quest�es de cortesia e etiqueta, n�o preciso que Jaan me diga que s�o coisas antigas, legados de dias mais elaborados e mais primitivos, moribundos nestes tempos modernos. Hoje os kavalarianos viajam em naves de uma estrela a outra, conversam e negociam com criaturas que antigamente ter�amos exterminado como dem�nios, at� mesmo moldam planetas, como moldamos Worlorn. O antigo kavalariano, a l�ngua dos grupos por milhares de seus anos-padr�o, mal � falada agora, embora alguns poucos termos permane�am e continuar�o a permanecer, desde que apontem realidades que podem ser nomeadas apenas desajeitadamente ou que n�o possam completamente ser nomeadas nas l�nguas dos viajantes estrelares... realidades que logo desaparecer�o se desistirmos de seus nomes, dos termos em antigo kavalariano. Tudo mudou, mesmo n�s de</p><p>Alto Kavalaan, e Jaan diz que deveremos mudar ainda mais se quisermos cumprir nosso destino na hist�ria dos homens. Assim, as velhas regras de nomes e de nomes de la�o se quebram, e mesmo os altos-senhores ficam mais amb�guos em seus discursos, e Jaantony Alto-Jadeferro passa a se chamar Jaan Vikary.</p><p>- Se isso n�o importa - Dirk falou -, aonde quer chegar?</p><p>- Tudo isso era um exemplo, t'Larien, uma simples e elegante ilustra��o do quanto sua pr�pria cultura tem erroneamente a pretens�o de fazer parte da nossa, de como voc� coloca seus julgamentos e seus valores em n�s a cada palavra e ato. Esse � o ponto. H� coisas mais importantes em jogo, mas o padr�o � o mesmo; voc� comete o mesmo erro, um erro que n�o devia cometer. O pre�o pode ser maior do que voc� � capaz de pagar. Acha que n�o sei o que est� tentando fazer?</p><p>- <emphasis>O que</emphasis> estou tentando fazer?</p><p>Janacek sorriu novamente, seus olhos apertados e duros, pequenas rugas formando-se nos cantos.</p><p>- Est� tentando tirar Gwen Delvano do meu<emphasis> teyn.</emphasis> Verdade?</p><p>Dirk n�o disse nada.</p><p>- � verdade - Janacek falou. - E � errado. Entenda que isso nunca ser� permitido.<emphasis> Eu</emphasis> n�o permitirei. Sou ligado por ferro-e-fogo a Jaantony Alto-Jadeferro e n�o me esqueci disso. Somos<emphasis> teyn-e-teyn,</emphasis> n�s dois. Nenhum la�o que voc� j� conheceu � mais forte.</p><p>Dirk pegou a si mesmo pensando em Gwen e em uma gota de l�grima profundamente vermelha, cheia de lembran�as e promessas. Pensou que era uma pena que n�o pudesse dar a j�ia-sussurrante para que Janacek a segurasse por um momento, para que o arrogante kavalariano pudesse experimentar o qu�o forte era o la�o que Dirk tinha com sua Jenny. Mas tal gesto seria in�til. A mente de Janacek n�o teria resson�ncias com os padr�es que o �sper havia talhado na pedra; seria apenas uma gema para ele.</p><p>- Eu amei Gwen - disse bruscamente. - Duvido que qualquer um de seus la�os seja mais forte do que esse.</p><p>- Duvida? Bem, voc� n�o � kavalariano, n�o mais do que Gwen �, voc� n�o entende o ferro-e-fogo. Conheci Jaan quando ambos �ramos muito jovens. Eu era mais jovem do que ele, na verdade. Ele gostava de brincar com crian�as mais novas, em vez de ficar com os de sua idade, e vinha freq�entemente at� nossa creche. Eu o tomei em grande estima logo de in�cio, como apenas um garoto � capaz, porque ele era mais velho do que eu e, portanto, lhe faltava menos para ser um alto-senhor, e porque ele me levava em aventuras por estranhos corredores e cavernas, e porque ele me contava hist�rias fascinantes. Quando fiquei mais velho, me interei do motivo pelo qual Jaantony ficava com tanta freq��ncia entre as crian�as mais novas e fiquei chocado e envergonhado. Ele tinha medo dos de sua idade, porque eles o insultavam e freq�entemente batiam nele. Mas, quando descobri isso, j� havia um la�o entre n�s. Voc� poderia chamar isso de amizade, mas estaria errado; estaria impondo seus pr�prios conceitos em nossa vida mais uma vez. Era mais do que sua amizade de outros mundos, j� havia ferro entre n�s, embora ainda n�o f�ssemos<emphasis> teyn-e-teyn.</emphasis> Da pr�xima vez que Jaan e eu fomos explorar juntos (est�vamos bem longe da fortaleza do nosso grupo, em uma caverna que conhec�amos bem), eu o surpreendi e bati nele at� que cada parte de seu corpo estivesse com hematomas e inchada. Ele n�o apareceu na barraca das crian�as da minha idade durante todo o inverno, mesmo assim, um dia retornou. N�o havia amargura entre n�s. Come�amos a explorar e a ca�ar juntos mais uma vez, e ele me contou mais hist�rias, mitos ou n�o. De minha parte, eu o atacava nos momentos mais inesperados, sempre pegando-o desprevenido e derrotando-o. Com o tempo, ele come�ou a revidar, e bem. Com o tempo, n�o consegui mais surpreend�-lo com meus punhos. Um dia escondi uma faca de Jadeferro sob minha camisa e cortei Jaan com ela. Ent�o, ambos come�amos a carregar facas. Quando ele chegou � adolesc�ncia, a idade que deveria adotar seus nomes-escolhidos e tornar-se sujeito ao c�digo de honra, Jaantony j� deixara de ser um sujeito facilmente insult�vel. Ele sempre foi impopular. Voc� deve entender que ele sempre foi um tipo questionador, que fazia perguntas inc�modas e com opini�es pouco ortodoxas, um amante da hist�ria, mas com um desprezo aberto em rela��o � religi�o, com um interesse pouco saud�vel nos outros mundos que se moviam entre n�s. Por isso, foi desafiado uma vez ap�s outra naquele primeiro ano em que atingiu a idade para duelar. E sempre venceu. Quando eu cheguei � adolesc�ncia alguns anos depois, e n�s nos tornamos<emphasis> teyn-e-teyn, </emphasis>eu dificilmente conseguia algu�m com quem lutar. Jaantony pusera medo em todos eles, ent�o n�o nos desafiavam. Fiquei muito desapontado. Desde essa �poca, duelamos juntos muitas vezes. Estamos ligados por toda a vida, e passamos por muitas coisas, e n�o me importo em ouvir voc� jorrar compara��es com esse "amor" sem significado que encanta tanto voc�s de outros mundos, esse la�o quase-humano que vem e vai de acordo com o momento. O pr�prio Jaantony foi muito corrompido por esse conceito durante seus anos em �valon, e isso, de certa maneira, foi minha culpa, porque eu o deixei sozinho. Era verdade que em �valon eu n�o teria fun��o ou lugar, mesmo assim, eu deveria ter ido para l�. Falhei com Jaan nisso. Nunca mais falharei de novo. Sou<emphasis> teyn</emphasis> dele e sempre serei seu<emphasis> teyn,</emphasis> e n�o permitirei que ningu�m o mate, o machuque, deturpe sua mente ou manche seu nome. Essas coisas s�o parte de meu la�o e de meu dever. Hoje em dia, Jaan permite com freq��ncia que o nome dele seja amea�ado por tipos como voc� e Ruark. De muitas maneiras, Jaan � um homem perverso e perigoso, e os equ�vocos da mente dele em geral nos colocam em perigo. Mesmo os her�is dele... Um dia me lembrei de algumas das hist�rias que ele havia me contado quando eu era crian�a, e me surpreendi com o fato de que todos os her�is favoritos de Jaan eram homens solit�rios que finalmente foram derrotados. Aryn Alto-Pedrardente, por exemplo, que dominou toda uma �poca da hist�ria. Ele governou, pela for�a de sua personalidade, o mais poderoso grupo que Alto Kavalaan j� conheceu, a Montanha Pedrardente; e quando seus inimigos se uniram em uma alta-guerra e todas as m�os se ergueram contra ele, ele colocou espadas e escudos nos bra�os de suas<emphasis> eyn-kethi</emphasis> e mandou-as para a batalha, para engrossar as fileiras de seu ex�rcito. Seus inimigos foram desbaratados e humilhados, segundo a vers�o que Jaan me contou da hist�ria. Mais tarde, descobri que Aryn Alto-Pedrardente n�o conseguiu vit�ria alguma. Tantas <emphasis>eyn-kethi</emphasis> de seu grupo foram mortas naquele dia, que poucas sobraram para dar � luz novos guerreiros. O poder e a popula��o de Montanha Pedrardente declinaram paulatinamente, e quarenta anos depois do ousado golpe de Aryn, os Pedrardentes ca�ram, e os altos-senhores de Taal, de Jadeferro e de Punho de Bronze tomaram suas mulheres e crian�as, deixando a fortaleza do grupo abandonada. A verdade � que Aryn Alto-Pedrardente era um fracassado e um tolo, um dos p�rias da hist�ria. E tais tipos s�o os loucos her�is de Jaan.</p><p>- Aryn parece bem heroico para mim - Dirk comentou asperamente. - Em �valon, lhe dar�amos cr�dito por libertar as escravas, mesmo se n�o tivesse vencido.</p><p>Janacek olhou para ele com raiva, seus olhos azuis brilhando no rosto anguloso. Puxou a barba ruiva, aborrecido.</p><p>- t'Larien, esse coment�rio � exatamente sobre o que lhe avisei. As<emphasis> eyn-kethi</emphasis> n�o s�o escravas, elas s�o<emphasis> eyn-kethi.</emphasis> Voc� julga erroneamente, e sua interpreta��o � falsa.</p><p>- Segundo voc� - Dirk respondeu. - Segundo Ruark...</p><p>- Ruark - o tom de Janacek era depreciativo. - O kimdissiano � a fonte de toda a sua informa��o sobre Alto Kavalaan? Vejo que desperdicei tempo e palavras com voc�, t'Larien. Voc� j� est� envenenado e n�o tem interesse em compreender. � um instrumento dos manipuladores de Kimdiss. N�o explicarei mais nada a voc�.</p><p>- Tudo bem - Dirk falou. - Apenas me diga onde est� Gwen.</p><p>- J� lhe disse.</p><p>- Ent�o quando ela voltar�?</p><p>- Mais tarde, e ent�o estar� cansada. Estou certo de que ela n�o vai querer ver voc�.</p><p>- Voc�s a<emphasis> est�o</emphasis> mantendo longe de mim!</p><p>Janacek ficou em sil�ncio por um momento.</p><p>- Sim - disse, finalmente, torcendo a boca. - � o melhor a fazer, t'Larien, para o seu bem e para o dela, embora n�o espere que acredite nisso.</p><p>- Voc� n�o tem o direito.</p><p>- Na sua cultura. Tenho todo o direito na minha. Voc� n�o ficar� sozinho com ela novamente.</p><p>- Gwen n�o � parte da sua maldita cultura kavalariana doentia - Dirk falou.</p><p>- Ela n�o nasceu dentro dela, � verdade, mesmo assim aceitou o jade-e-prata e o nome de<emphasis> betheyn.</emphasis> Agora ela � kavalariana.</p><p>Dirk estava tremendo, descontrolado.</p><p>- O que ela diz sobre isso? - quis saber, aproximando-se de Janacek. - O que ela disse noite passada? Amea�ou partir? - apontou acusadoramente para o kavalariano. - Ela disse que iria embora comigo, foi isso? E voc� bateu nela e a arrastou?</p><p>Janacek franziu o cenho e empurrou a m�o de Dirk com for�a.</p><p>- Ent�o voc� nos espiona tamb�m. N�o faz isso direito, t'Larien, mas � ofensivo da mesma maneira. Um segundo erro. O primeiro foi de Jaan, dizendo para voc� as coisas que ele disse, confiando em voc� e colocando voc� sob a prote��o dele.</p><p>- N�o preciso da prote��o de ningu�m!</p><p>- Assim voc� diz. Um orgulho inoportuno de um idiota. Apenas os fortes devem rejeitar a prote��o dada aos fracos; os que s�o fracos realmente precisam dela. - Ele se virou. � N�o perderei mais tempo com voc� - disse, andando em dire��o � sala de jantar. Sobre a mesa havia uma pequena maleta negra. Janacek a abriu, destravando as duas fechaduras ao mesmo tempo. Dentro, Dirk viu cinco fileiras do broche de ferro negro com o formato de banshee presos em feltro vermelho. Janacek pegou um. - Est� seguro de que n�o quer um desses?<emphasis> Korariel?</emphasis></p><p>- Ele sorriu.</p><p>Dirk cruzou os bra�os e n�o se dignou a responder.</p><p>Janacek esperou pela resposta por um momento. Quando nenhuma veio, colocou o broche de banshee no lugar e fechou a maleta.</p><p>- Os filhos da lesma n�o s�o t�o exigentes quanto voc� - disse.</p><p>- Agora, preciso levar esses broches para Jaan. Saia daqui.</p><p>Era come�o da tarde. O Cubo ardia fracamente no meio do c�u, com as pequenas luzes esparsas dos quatro S�is Troianos vis�veis brilhando irregularmente ao seu redor. Um forte vento soprava do leste e parecia anunciar uma tormenta. O p� rodopiava pelos becos cinzentos e escarlates.</p><p>Dirk sentou-se no canto do telhado, com as pernas penduradas em dire��o � rua, meditando sobre suas possibilidades.</p><p>Seguira Garse Janacek at� a pista de aterrissagem e o vira partir, levando a mala de banshees e voando em sua maci�a rel�quia quadrada com a armadura verde-oliva. Os outros dois aerom�veis, a arraia cinza e a brilhante l�grima amarela, haviam partido tamb�m. Ele estava encalhado ali em Larteyn, sem id�ia de onde Gwen estava ou o que estavam fazendo com ela. Desejou brevemente que Ruark estivesse em algum lugar por ali.</p><p>Desejou ter seu pr�prio aerom�vel. Sem d�vida, poderia ter alugado um em Desafio, se tivesse pensado nisso, ou mesmo no porto espacial, na noite em que chegara. Em vez disso, estava sozinho e desamparado; at� mesmo os aeropatinetes haviam desaparecido. O mundo era vermelho e cinza e mon�tono. Ele se perguntava o que fazer.</p><p>Enquanto pensava nos aerom�veis, abruptamente teve uma id�ia. As cidades do Festival que vira eram todas muito diferentes, mas tinham uma coisa em comum: nenhuma tinha espa�o de aterrissagem suficiente para acomodar uma popula��o de aerom�veis igual � popula��o humana. O que significava que as cidades deviam estar interligadas por algum outro tipo de rede de transporte. O que significava que talvez ele tivesse alguma liberdade de a��o apesar de tudo.</p><p>Levantou-se, pegou o elevador e desceu at� o apartamento de Ruark, na base da torre. Entre dois vasos com plantas negras da altura do teto, havia uma tela na parede, exatamente como se lembrava de ter visto, escura e desligada, como estivera desde que Dirk chegara; restavam poucas pessoas em Worlorn para chamar ou serem chamados. Mas, sem d�vida, havia um circuito de informa��es. Estudou as duas fileiras de bot�es no p� da tela, escolheu um e apertou. A escurid�o deu lugar a uma suave luz azul, e Dirk recuperou um pouco o f�lego; a rede de comunica��es ao menos ainda era operacional.</p><p>Um dos bot�es estava marcado com um ponto de interroga��o. Experimentou-o e foi recompensado. A luz azul ficou mais clara, e de repente a tela estava cheia de pequenos caracteres, uma centena de n�meros para uma centena de servi�os b�sicos, tudo, desde ajuda m�dica e informa��es religiosas, at� not�cias de outros planetas.</p><p>Ele apertou a seq��ncia para "transporte de visitante". Figuras flu�am atrav�s da tela, e, uma por uma, as esperan�as de Dirk murcharam. Havia servi�os de aluguel de aerom�veis no porto espacial e em dez das catorze cidades. Todos fechados. Os ve�culos funcionais haviam partido de Worlorn com as multid�es do Festival. Outras cidades ofereciam alugu�is de ve�culos movidos � h�lice ou colch�es de ar. N�o mais. Em Musquel-Junto-ao-Mar, os visitantes podiam velejar pela costa em um genu�no veleiro da Col�nia Esquecida. Servi�o fora de opera��o. A linha de aerobus intercidades estava fechada, as estratonaves de propuls�o nuclear de Tober e os dirig�veis de h�lio de Eshellin haviam sido levados embora. A tela da parede mostrou para ele o mapa dos metr�s de alta velocidade que iam do porto espacial at� cada uma das cidades, mas o mapa estava todo pintado de vermelho, e a legenda embaixo explicava que isso significava "fora de servi�o".</p><p>N�o havia outro meio de transporte para sair de Worlorn, exceto andando, pelo que parecia. Al�m disso, todos os outros visitantes tardios traziam os pr�prios ve�culos.</p><p>Dirk fez uma careta e fechou a imagem do mapa. Estava prestes a desligar a tela quando outra id�ia lhe ocorreu. Teclou "Biblioteca" e conseguiu um ponto de interroga��o e instru��es. Ent�o digitou "filhos da lesma" e "define". Esperou.</p><p>Foi uma espera curta, e dificilmente precisaria de toda a vasta informa��o que a biblioteca lhe forneceu, os detalhes da hist�ria, geografia e filosofia. Separou rapidamente a informa��o importante e descartou o resto. "Filhos da lesma", aparentemente, era um apelido comum para os seguidores de um culto pseudo-religioso baseado em drogas do Mundo do Oceano Vinhonegro. Eram chamados dessa maneira porque passavam anos vivendo no interior �mido e cavernoso de lesmas quilom�tricas que rastejavam com lentid�o infinita no fundo dos mares. Os devotos chamavam as criaturas de M�es. As M�es alimentavam seus filhos com doces secre��es alucin�genas, e acreditava-se que elas eram semi-sencientes. A cren�a, Dirk percebeu, n�o impedia os filhos da lesma de matarem as hospedeiras quando a qualidade de sua secre��o de sonhos come�ava a declinar, o que invariavelmente ocorria quando as lesmas envelheciam. Livres de uma M�e, os filhos da lesma iam atr�s de outra.</p><p>Rapidamente Dirk limpou o tema dos dados e consultou a biblioteca novamente. O Mundo de Vinhonegro tinha uma cidade em Worlorn. Ficava sob um lago artificial de cinq�enta quil�metros de di�metro, embaixo das mesmas �guas escuras e f�rteis que cobriam a superf�cie do planeta natal dos vinhonegrinos. Era chamada de Cidade do Tanque sem Estrelas, e o lago ao redor era cheio de formas de vida trazidas para o Festival da Orla. Incluindo M�es, sem d�vida.</p><p>Por curiosidade, Dirk encontrou a cidade no mapa de Worlorn. N�o tinha como ir at� l�, � claro. Desligou a tela da parede e foi at� a cozinha preparar uma bebida. Enquanto bebia - era um leite espesso e meio amarelado de algum animal kimdissiano, muito gelado, amargo mas refrescante -, tamborilava com os dedos impacientemente no balc�o. A inquietude aumentava dentro dele, a urg�ncia de fazer alguma coisa. Sentia-se preso ali, esperando que algu�m retornasse, sem saber quem seria ou o que aconteceria em seguida. Tinha a impress�o de que estivera se movendo para a frente e para tr�s ao capricho dos demais desde que descera do<emphasis> Tremor dos Inimigos Esquecidos.</emphasis> Nem sequer havia vindo por vontade pr�pria; Gwen o chamara com a j�ia- sussurrante, ainda que a recep��o dela n�o tivesse sido muito calorosa quando ele chegou. Isso, ao menos, Dirk come�ara a entender. Ela estava presa em uma teia muito complexa, uma teia que era pol�tica e emocional ao mesmo tempo; e ele aparentemente tinha sido arrastado com ela, para observar impotente enquanto tempestades semi-compreendidas de tens�o psicossocial e cultural giravam ao redor dele. Estava muito cansado de observar impotente.</p><p>Abruptamente lembrou-se de Kryne Lamiya. Na pista varrida pelos ventos, dois ve�culos estavam abandonados. Dirk colocou o copo no balc�o pensativamente, secando os l�bios com as costas da m�o, e voltou para o painel da parede.</p><p>Era uma simples quest�o de encontrar a localiza��o de todas as pistas de aterrissagem de Larteyn. Havia instala��es no topo de todas as largas torres residenciais e uma grande garagem p�blica nas profundezas da rocha sob a cidade. A garagem, o diret�rio da cidade informava, podia ser acessada por qualquer um dos doze elevadores subterr�neos espalhados por Larteyn; as portas ocultas estavam no meio do penhasco escarpado que se erguia sobre a Comuna. Se os kavalarianos haviam deixado algum aerom�vel na cidade, era ali que poderia encontr�-lo.</p><p>Pegou o elevador, desceu at� o t�rreo e foi para a rua. O Sat� Gordo j� ultrapassara o z�nite e mergulhava em dire��o ao horizonte. As ruas de pedrardente estavam desbotadas e negras onde o brilho vermelho ca�a, mas quando atravessou as sombras entre as torres quadradas de �bano, Dirk p�de ver os fogos frios da cidade sob seus p�s, o suave brilho vermelho da pedra, d�bil, mas ainda persistente. Nos espa�os abertos, ele mesmo projetava sombras, espectros escuros e fr�geis que se empilhavam desajeitadamente uns sobre os outros - quase mas n�o totalmente coincidentes - e afundavam rapidamente em seus calcanhares para despertar a pedrardente adormecida. N�o viu ningu�m durante o percurso, embora se perguntasse inquieto sobre os Braiths e, em determinado momento, tenha passado por algo que devia ser uma resid�ncia. Era uma constru��o quadrada com um telhado abobadado e pilares de ferro negro na porta. Acorrentado a um desses pilares estava um c�o de ca�a que parecia mais alto do que Dirk, com brilhantes olhos vermelhos e um focinho comprido e sem pelos que o fazia lembrar um rato. A criatura estava roendo um osso, mas parou quando ele passou e rosnou profundamente. Quem quer que vivesse naquela constru��o claramente n�o apreciava a id�ia de visitantes.</p><p>Os elevadores subterr�neos ainda funcionavam. Dirk entrou em um deles, a luz do dia desapareceu, e chegou �s passagens inferiores, onde Larteyn tinha grande semelhan�a com as fortalezas dos grupos em Alto Kavalaan: salas de pedra ecoantes com cortinas de ferro forjado, portas de metal em todos os lugares, c�maras dentro de c�maras. Um forte de pedra, Ruark dissera certa vez. Um forte, sem nenhuma parte que pudesse ser facilmente tomada. Mas agora estava abandonado.</p><p>A garagem tinha dez n�veis e era fracamente iluminada, com espa�o suficiente para mil aerom�veis em cada andar. Dirk vagou pela poeira por meia hora antes de encontrar um ve�culo. Era in�til para ele. Outro carro com forma de animal, decorado com metal azul-marinho que lhe dava a apar�ncia grotesca de um morcego gigante, mais realista e assustador do que a arraia-banshee estilizada do ve�culo de Jaan Vikary. Mas era um casco vazio. Uma das asas ornamentadas estava torcida e semi-derretida, e do pr�prio aerom�vel restava apenas o corpo. As instala��es interiores, a fonte de alimenta��o e o armamento haviam desaparecido, e Dirk suspeitava que o controle de gravidade tamb�m estivesse faltando, embora n�o pudesse ver a parte inferior do ve�culo. Deu uma volta ao redor da carca�a e seguiu adiante.</p><p>O segundo aerom�vel que encontrou estava ainda em condi��es piores. Na verdade, aquilo dificilmente poderia ser chamado carro. N�o restava nada al�m de uma arma��o de metal nu e quatro assentos apodrecidos recostados no esqueleto de tubula��o completamente destru�do. Dirk passou por esse tamb�m.</p><p>Os pr�ximos dois destro�os estavam intactos, mas eram fantasmas. Ele podia apenas supor que seus propriet�rios haviam morrido em Worlorn, e que os ve�culos ficaram aguardando nas profundezas da cidade muito tempo depois de terem sido esquecidos, at� que sua fonte de energia se esgotasse. Experimentou ambos, mas nenhum respondeu ao seu toque e tentativas de conserto.</p><p>O quinto carro - encontrado ao fim de uma hora de buscas - respondeu imediatamente.</p><p>Tipicamente kavalariano, o atarracado carro de dois lugares tinha asas curtas e triangulares que pareciam ainda mais in�teis do que as asas dos outros aerom�veis produzidos em Alto Kavalaan. Era esmaltado de prata e branco, e a cabine met�lica tinha um formato que lembrava a cabe�a de um lobo. Canh�es de laser haviam sido colocados nos dois lados da fuselagem. O ve�culo n�o estava trancado; Dirk empurrou a escotilha da cabine, que se abriu com facilidade. Entrou, fechou a cabine e olhou para fora dos grandes olhos do lobo com um sorriso ir�nico no rosto. Ent�o experimentou os controles. O aerom�vel ainda tinha toda a energia.</p><p>Franzindo o cenho, desligou a for�a novamente e recostou-se no assento para pensar. Encontrara o meio de transporte que estava procurando, se ousasse peg�-lo. Mas n�o podia se enganar: este carro n�o era uma ru�na como os outros que encontrara. Estava em condi��es muito boas. Sem d�vida, pertencia a um dos outros kavalarianos que ainda estavam em Larteyn. Se as cores significavam alguma coisa - ele n�o tinha certeza disso -, ent�o o ve�culo provavelmente pertencia a Lorimaar ou um dos outros Braiths. Definitivamente, peg�-lo n�o era o caminho mais seguro a se escolher.</p><p>Dirk reconheceu o perigo e o considerou. A espera n�o tinha apelo algum para ele, mas nem a perspectiva do perigo. Com Jaan Vikary ou sem Jaan Vikary, roubar um aerom�vel poderia ser a desculpa para os Braiths entrarem em a��o.</p><p>Relutante, saiu da cabine e desceu do ve�culo, mas nem bem fez isso e ouviu vozes. Baixou a escotilha da cabine e a fechou com um estalido baixo mas ainda assim aud�vel. Dirk se agachou, buscando a seguran�a das sombras a alguns metros de dist�ncia do carro-lobo.</p><p>P�de ouvir os kavalarianos conversando, e seus passos ecoando barulhentos, muito antes de v�-los; eram apenas dois, mas soavam como dez. Quando chegaram ao espa�o iluminado pr�ximo ao aerom�vel, Dirk estava se espremendo contra um nicho na parede da garagem, uma pequena cavidade cheia de ganchos que antigamente eram usados para pendurar ferramentas. N�o tinha muita certeza do motivo de estar se escondendo, mas estava contente por passar despercebido. As coisas que Gwen e Jaan lhe contaram sobre os outros residentes de Larteyn n�o eram muito tranquilizadoras.</p><p>- Voc� tem certeza de tudo isso, Bretan? - um deles, o mais alto, estava dizendo quando chegaram � vista de Dirk. N�o era Lorimaar, mas a semelhan�a era extraordin�ria: este homem tinha a mesma altura imponente, a mesma pele curtida e enrugada. Mas era mais gordo do que Lorimaar Alto-Braith, seu cabelo era completamente branco - ao contr�rio do outro, que era a maior parte grisalho - e tinha um bigode "escovinha". Tanto ele quanto seu companheiro usavam um casaco branco sobre cal�a e camisa de tecido-camale�o que estavam quase negros na pouca luz da garagem. E ambos carregavam lasers.</p><p>- Roseph n�o brincaria comigo - o segundo kavalariano disse em uma voz �spera e arenosa. Era muito mais baixo do que o outro homem, quase da altura de Dirk, e mais jovem e mais esbelto tamb�m. Seu casaco tinha as mangas cortadas para mostrar poderosos bra�os marrons e um grosso bracelete de ferro-e-pedrardente. Conforme se moveu na dire��o do aerom�vel, ficou totalmente sob a luz por um instante e pareceu encarar a escurid�o onde Dirk estava escondido. Tinha apenas metade do rosto: o resto estava deformado por cicatrizes. Seu "olho" esquerdo se movia sem cessar quando seu rosto se virava, e Dirk n�o demorou para entender o motivo: uma pedrardente preenchia a �rbita vazia.</p><p>- Como voc� sabe isso? - o homem mais velho disse quando os dois pararam por um tempo ao lado do carro-lobo. - Roseph gosta de brincadeiras.</p><p>- Eu n�o gosto - disse o outro, o que fora chamado de Bretan. - Roseph pode brincar com voc�, com Lorimaar ou mesmo com Pyr, mas n�o ousa brincar comigo. - A voz dele era horrivelmente desagrad�vel; havia uma aspereza sibilante que ofendia o ouvido, mas com cicatrizes t�o grossas cobrindo seu pesco�o, Dirk achou surpreendente que o homem ainda conseguisse falar.</p><p>O kavalariano mais alto apertou o lado da cabe�a do lobo, mas a cabine n�o se abriu.</p><p>- Bem, se isso � verdade, temos que nos apressar - disse, queixosamente. - A fechadura, Bretan, a fechadura!</p><p>O caolho Bretan fez um barulho estranho, algo entre um grunhido e um rosnado. Tentou abrir a cabine.</p><p>- Meu<emphasis> teyn</emphasis> - falou com a voz �spera. - Deixei a cabine entreaberta... eu... levei s� um momento para subir e me encontrar com voc�.</p><p>Nas sombras, Dirk pressionou o corpo contra a parede, e os ganchos se cravaram dolorosamente em suas costas, entre as omoplatas. Bretan franziu o cenho e se ajoelhou, enquanto seu companheiro mais velho ficou parado e parecia intrigado.</p><p>Ent�o, repentinamente, o Braith ficou em p� novamente, e sua pistola laser estava empunhada em sua m�o direita, apontada para Dirk. Seu olho de pedrardente brilhava opacamente.</p><p>- Saia e mostre-nos quem voc� � - exclamou. - O rastro que deixou no p� � muito claro de se ver.</p><p>Dirk, em sil�ncio, ergueu as m�os sobre a cabe�a e saiu de seu esconderijo.</p><p>- Um quase-homem - o kavalariano mais alto se surpreendeu. - Aqui embaixo!</p><p>- N�o - Dirk respondeu cuidadosamente. - Dirk t'Larien.</p><p>O homem alto o ignorou.</p><p>- Isso � que � ter sorte - comentou para seu companheiro com o laser. - Aqueles filhos da lesma de Roseph n�o teriam sido presas interessantes. Esse a� parece adequado.</p><p>Seu jovem<emphasis> teyn</emphasis> fez o barulho estranho novamente, e o lado esquerdo de seu rosto teve um espasmo. Mas o laser em sua m�o ainda estava apontado.</p><p>- N�o - disse para o outro Braith. - Infelizmente, n�o acho que podemos ca��-lo. Esse s� pode ser aquele sobre quem Lorimaar falou. - Deslizou a pistola laser para dentro do coldre e acenou com a cabe�a para Dirk, um movimento t�o suave que mais parecia um dar de ombros. - Voc� � grosseiramente negligente. A cabine se tranca automaticamente quando � totalmente fechada. Pode ser aberta pelo lado de dentro, mas...</p><p>- Percebo isso agora - Dirk respondeu. Abaixou as m�os. - Eu estava apenas procurando por um carro abandonado. Preciso de transporte.</p><p>- Ent�o tentou roubar nosso aerom�vel.</p><p>-N�o.</p><p>- Sim. - A voz do kavalariano transformava cada palavra em um esfor�o doloroso. - Voc� �<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro?</p><p>Dirk hesitou, com a negativa presa na garganta. Qualquer resposta que desse podia deix�-lo em apuros.</p><p>- N�o tem resposta para isso? - disse o homem coberto de cicatrizes.</p><p>- Bretan - o outro advertiu. - As palavras do quase-homem n�o importam para n�s. Se Jaantony Alto-Jadeferro o declarou <emphasis>korariel,</emphasis> ent�o � verdade. Tais animais n�o t�m voz sobre seu status. Ainda que dissesse que n�o, n�o pode mudar seu nome, ent�o a realidade � a mesma independentemente disso. Se o matarmos, teremos roubado propriedade de Jadeferro e eles certamente exigir�o duelo.</p><p>- Pe�o que considere as possibilidades, Chell - Bretan disse. - Este a�, este Dirk t'Larien pode ser homem ou quase-homem, <emphasis>korariel</emphasis> de Jadeferro ou n�o. Verdade?</p><p>- Verdade. Mas ele n�o � homem de verdade. Ou�a-me, meu <emphasis>teyn.</emphasis> Voc� � jovem, e eu sei dessas coisas de<emphasis> kethi</emphasis> mortos h� muito tempo.</p><p>- Considere mesmo assim. Se ele � quase-homem e os Jade-ferros o declararam<emphasis> korariel,</emphasis> ent�o ele �<emphasis> korariel</emphasis> quer admita, quer n�o. Mas, se isso � verdade, Chell, ent�o voc� e eu devemos ir contra os Jadeferros em duelo. Ele estava tentando roubar de n�s, lembre-se disso. Se ele � propriedade Jadeferro, ent�o � um ladr�o Jadeferro.</p><p>O grande homem de cabelos brancos assentiu lentamente, relutante.</p><p>- Se � quase-homem, mas n�o<emphasis> korariel,</emphasis> ent�o n�o temos problema - Bretan continuou -, ent�o pode ser ca�ado. E se ele � um homem de verdade, humano como os altos-senhores, e n�o um quase-homem?</p><p>Chell era muito mais lento do que seu<emphasis> teyn.</emphasis> O kavalariano mais velho franziu o cenho pensativamente e disse:</p><p>- Bem, ele n�o � f�mea, ent�o n�o pode ser tomado. Mas se ele � humano, deve ter direitos de homem e um nome de homem.</p><p>- Verdade - Bretan concordou. - Mas ele n�o pode ser<emphasis> korariel, </emphasis>ent�o o crime � responsabilidade exclusiva dele. Eu duelaria com <emphasis>ele,</emphasis> n�o com Jaantony Alto-Jadeferro. - O Braith deu o estranho grunhido-rosnado novamente.</p><p>Chell assentiu, e Dirk estava quase estarrecido. O mais jovem dos dois ca�adores parecia ter acertado as coisas com uma desagrad�vel precis�o. Dirk dissera tanto a Vikary quanto a Janacek, em termos inequ�vocos, que rejeitava o escudo contaminado da prote��o de Jadeferro. Naquele momento, havia sido uma coisa f�cil de fazer. Em mundos s�os, como �valon, teria sido inquestionavelmente a coisa certa a se fazer. Em Worlorn, as coisas n�o eram t�o claras.</p><p>- Aonde o levaremos? - Chell perguntou. Os dois Braiths falavam como se Dirk n�o tivesse mais vontade do que o aerom�vel.</p><p>- Devemos lev�-lo para Jaantony Alto-Jadeferro e seu<emphasis> teyn - </emphasis>Bretan disse em sua voz �spera. - Conhe�o a torre deles de vista.</p><p>Por um breve instante, Dirk pensou em sair correndo. N�o parecia vi�vel. Eram dois deles, com armas e at� mesmo um aerom�vel. Ele n�o iria longe.</p><p>- Eu irei - disse quando vieram em sua dire��o. - Posso mostrar o caminho. - Poderia ganhar algum tempo para pensar, em todo caso; os Braiths n�o pareciam saber que Vikary e Janacek j� estavam na Cidade do Tanque sem Estrelas, sem d�vida tentando proteger os desvalidos filhos da lesma de outros ca�adores.</p><p>- Mostre-nos, ent�o - Chell falou. E Dirk, sem saber o que mais fazer, levou-os em dire��o aos elevadores subterr�neos. Durante a subida, refletiu amargamente que tudo aquilo acontecera porque estava cansado de esperar. E agora, parecia, teria que esperar de qualquer jeito.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 6</strong></p><empty-line/><p>No come�o, a espera foi um inferno.</p><p>Eles o levaram para a pista de aterrissagem no topo da torre vazia, depois que descobriram que os Jadeferro n�o podiam ser encontrados, e o for�aram a sentar no canto do telhado varrido pelo vento. O p�nico tomava conta de Dirk, e seu est�mago tinha um n� dolorido.</p><p>- Bretan... - Dirk come�ou, em uma voz que beirava � histeria, mas o kavalariano apenas se virou para ele e desferiu um tapa em sua boca.</p><p>- N�o sou "Bretan" para voc� - disse. - Me chame de Bretan Braith se tiver que se dirigir a mim, quase-homem.</p><p>Depois disso, Dirk ficou em sil�ncio. A quebrada Roda de Fogo mancava lentamente pelos c�us de Worlorn, e enquanto a observava se arrastar, Dirk sentia que estava muito perto de ter um ataque de nervos. Tudo o que lhe acontecera parecia irreal, e os Braiths e os eventos da tarde eram o menos real de tudo, e ele se perguntava o que aconteceria se repentinamente ficasse em p� e pulasse da beira do telhado at� a rua. Cairia e cairia, pensou, como acontece em um sonho, mas quando se esmagasse nos tijolos de pedrardente escura l� embaixo n�o haveria dor, apenas o choque de um s�bito despertar. E se encontraria em sua cama em Braque, ensopado de suor e rindo dos absurdos desse pesadelo.</p><p>Brincou com esse pensamento e outros semelhantes por um tempo que pareceu horas, mas, quando olhou para cima, o Sat� Gordo mal tinha se posto completamente. Come�ou a tremer, ent�o; o frio, disse a si mesmo, o vento frio de Worlorn, mas sabia que aquilo n�o era o frio, e quanto mais lutava para se controlar, mais tremia, at� que os kavalarianos olharam para ele com estranheza. E a espera prosseguiu.</p><p>E finalmente os tremores seguiram seu curso, assim como os pensamentos de suic�dio e o p�nico antes deles, e um estranho tipo de calma caiu sobre ele. Pegou-se pensando novamente, mas pensando coisas sem sentido: especulava ociosamente, como se tudo aquilo n�o passasse de uma aposta, se a arraia cinza ou o ve�culo militar voltariam primeiro, ou em como Jaan ou Garse se arranjariam em um duelo com o Bretan caolho, ou no que aconteceria com os filhos da lesma na distante cidade vinhonegrina. Tais quest�es pareciam terrivelmente importantes, embora Dirk n�o soubesse por qu�.</p><p>Ent�o come�ou a observar seus captores. Esse era o jogo mais interessante de todos, e servia para passar o tempo t�o bem quanto qualquer outro. Enquanto observava, notou algumas coisas.</p><p>Os dois kavalarianos mal haviam falado desde que o escoltaram at� o telhado. Chell, o alto, sentou-se no muro baixo que circundava a pista de aterrissagem a apenas um metro de Dirk, e, quando come�ou a estud�-lo, Dirk viu que era um homem realmente velho. A semelhan�a com Lorimaar Alto-Braith era muito ilus�ria. Embora Chell andasse e se vestisse como um homem mais jovem, era ao menos vinte anos mais velho do que Lorimaar, Dirk suspeitou. Sentado, seus anos pesavam muito mais. O ventre formava uma proemin�ncia curva sobre o t�nue brilho do cintur�o de malha de a�o, e rugas escavavam profundamente o curtido rosto marrom. Dirk tamb�m viu veias azuis e manchas ros�ceas nas costas das m�os de Chell enquanto ele as repousava nos joelhos. A longa e in�til espera pelo retorno dos Jadeferros o tocara tamb�m, e era mais do que t�dio. Suas bochechas pareciam ceder, e seus largos ombros haviam inconscientemente ca�do em um cansa�o desleixado.</p><p>Ele se moveu uma vez, suspirando, e esticou-se enquanto apertava as m�os nos joelhos para uni-los com for�a. Foi quando Dirk viu os braceletes dele. No bra�o direito tinha ferro-e-pedrardente, g�meo daquele que era exibido t�o orgulhosamente pelo caolho Bretan, e o esquerdo tinha prata. Mas faltava o jade. Havia estado ali em algum momento, mas as pedras haviam sido arrancadas e agora o bracelete prateado estava repleto de orif�cios.</p><p>Enquanto o velho e cansado Chell (repentinamente parecia dif�cil para Dirk v�-lo como a amea�adora figura marcial que fora havia algum tempo) sentou-se e esperou que algo acontecesse, Bretan (ou Bretan Braith, como exigira ser chamado) caminhou horas a fio. Era todo incans�vel energia, pior do que qualquer um que Dirk j� vira, mesmo Jenny, que fora bem inquieta em seu tempo. Mantinha as m�os enfiadas profundamente nos bolsos do curto casaco branco e andava de um lado para o outro pelo telhado, indo e voltando, indo e voltando. A cada tr�s voltas, olhava para cima impacientemente, como se estivesse reprovando o c�u crepuscular por n�o lhe trazer Jaan Vikary.</p><p>Eram um par estranho, Dirk decidiu enquanto os observava. Bretan Braith era t�o jovem quanto Chell era velho - certamente n�o mais velho do que Garse Janacek e provavelmente mais jovem do que Gwen, Jaan, ou ele mesmo. Como viera a se tornar <emphasis>teyn</emphasis> de um kavalariano t�o mais idoso do que ele? Tampouco era um alto-senhor, nem dera uma<emphasis> betheyn</emphasis> para Braith; seu bra�o esquerdo, coberto com uma fina camada de pelos ruivos que brilhavam quando estava bem perto de Dirk e refletiam a luz solar, n�o tinha nenhum bracelete de jade-e-prata.</p><p>Seu rosto, aquele estranho meio-rosto, era mais feio do que qualquer coisa que Dirk j� vira, mas na medida em que o dia minguava e o falso crep�sculo se tornava real, descobriu que j� tinha se acostumado com ele. Quando Bretan Braith caminhava em uma dire��o, parecia completamente normal: um jovem esbelto e �gil, cheio de energia nervosa mantida firmemente sob controle, t�o controlada que Bretan parecia prestes a explodir. Seu rosto daquele lado era sem marcas e sereno; tinha curtos cachos negros em volta da orelha e uns poucos lhe ca�am pelos ombros, mas n�o tinha sinal de barba. Mesmo sua sobrancelha era apenas uma suave linha sobre seu grande olho verde. Parecia quase inocente.</p><p>Ent�o, chegava at� a beira do telhado e voltava pelo mesmo caminho, e tudo mudava. O lado esquerdo de seu rosto era inumano, uma paisagem de plan�cies retorcidas e �ngulos que nenhum rosto devia ter. A carne fora costurada em meia d�zia de lugares, e o resto tinha o brilho liso do esmalte. Desse lado, Bretan n�o tinha cabelo em lugar algum, nem orelha - apenas um buraco - e a metade esquerda de seu nariz era uma pequena pe�a de pl�stico colorido. Sua boca era uma abertura sem l�bios e, o pior de tudo, se movia. Ele tinha um tique nervoso grotesco que lhe contra�a o rosto, do canto esquerdo da boca seguia ondulando at� o couro cabeludo, sobre montes de tecidos cicatriciais.</p><p>Na luz do dia, o olho de pedrardente de Braith era escuro como um peda�o de obsidiana. Mas lentamente a noite chegava, o Olho do Inferno mergulhava no horizonte, e os fogos se destacavam na �rbita ocular. Na escurid�o total, Bretan seria o Olho do Inferno, n�o a cansada supergigante de Worlorn; a pedrardente irradiaria um cont�nuo e inalter�vel fulgor vermelho, e o meio-rosto ao redor dele se tornaria a negra par�dia de um cr�nio, uma moldura adequada para um olho como esse.</p><p>Tudo parecia muito aterrador at� que algu�m se lembrasse - como Dirk se lembrou - de que tudo era completamente deliberado. Bretan Braith n�o era obrigado a usar uma pedrardente como olho, ele escolhera isso, por suas pr�prias raz�es, e essas raz�es n�o eram dif�ceis de compreender. A mente de Dirk voltou ao momento mais cedo daquela tarde, e ao di�logo junto ao aerom�vel com cabe�a de lobo. Bretan era r�pido e perspicaz, sem d�vida, mas Chell podia facilmente estar nos primeiros anos da senilidade. Custara-lhe um doloroso esfor�o compreender a situa��o, e seu<emphasis> teyn</emphasis> o levara pela m�o em cada ponto, Dirk se lembrava. Repentinamente, os dois Braiths pareciam muito menos assustadores, e Dirk podia apenas se perguntar por que ficara t�o aterrorizado. Eles eram quase divertidos. O que quer que Jaan Vikary dissesse quando retornasse da Cidade do Tanque sem Estrelas, certamente nada aconteceria; n�o havia real perigo nesses dois.</p><p>Como se estivesse sublinhando isso, Chell come�ou a murmurar, falando consigo sem perceber, e Dirk olhou-o de relance e tentou escutar. O velho ria um pouco enquanto falava, os olhos encarando o vazio. Suas palavras n�o faziam nenhum sentido. Dirk levou v�rios minutos para compreender, mas finalmente percebeu que Chell estava falando em antigo kavalariano. Uma l�ngua que evoluiu em Alto Kavalaan durante os longos s�culos do interregno, quando os kavalarianos sobreviventes n�o tiveram contato com outros idiomas humanos, uma linguagem que rapidamente voltara aos padr�es terr�queos, embora enriquecendo a l�ngua materna com palavras que n�o tinham equivalentes. Quase ningu�m falava antigo kavalariano atualmente, Garse Janacek lhe dissera, e mesmo assim aqui estava Chell, um homem mais velho do mais tradicional grupo-coaliz�o, murmurando coisas que sem d�vida ouvira em sua juventude.</p><p>E Bretan, que batera sonoramente em Dirk por usar a forma errada para interpel�-lo, uma forma permitida apenas para seus <emphasis>kethi.</emphasis> Outro costume moribundo, Garse dissera; at� mesmo os altos-senhores estavam ficando mais relaxados. Mas n�o Bretan Braith, jovem e sem altos-t�tulos, que se aferrava a tradi��es que homens de gera��es mais antigas j� haviam descartado como disfuncionais.</p><p>Dirk quase sentiu pena deles. Eram an�malos, decidiu, mais marginais e mais sozinhos do que o pr�prio Dirk, sem mundo em certo sentido, porque Alto Kavalaan j� estava al�m de tudo aquilo e n�o podia mais ser o mundo<emphasis> deles.</emphasis> N�o era de se admirar que tivessem vindo a Worlorn e permanecido ali. Eles e seus costumes estavam morrendo.</p><p>Bretan, em particular, era digno de pena; Bretan, que tentava tanto ser uma figura assustadora. Era jovem, talvez o �ltimo crente verdadeiro, e viveria para ver um tempo em que ningu�m compartiria seus costumes. Era por isso que ele era<emphasis> teyn</emphasis> de Chell? Porque seus pares o rejeitavam e a seus valores antiquados? Provavelmente, imaginou Dirk, e aquilo era cruel e triste.</p><p>Um sol amarelo ainda brilhava no oeste. O Cubo era uma vaga lembran�a vermelha no horizonte, e Dirk estava pensativo e controlado, j� tendo superado seus medos, quando ouviu os aerom�veis se aproximando.</p><p>Bretan Braith congelou, olhou para cima, e tirou as m�os dos bolsos. Uma delas foi descansar, quase automaticamente, no coldre da pistola laser. Chell, pestanejando, levantou-se lentamente e de repente pareceu ficar uma d�cada mais jovem. Dirk ergueu-se tamb�m.</p><p>Os ve�culos desceram. Os dois juntos, o cinzento e o verde-oliva, voando com uma precis�o quase militar, lado a lado.</p><p>- Venha aqui. - Bretan grunhiu, e Dirk obedeceu. Chell juntou-se a eles, ent�o estavam os tr�s juntos, com Dirk no centro como um prisioneiro. O vento era cortante. Ao redor deles, as pedrar-dentes da cidade de Larteyn irradiavam um fulgor sangrento, e o olho de Bretan brilhava selvagemente em seu ninho de cicatrizes. As contra��es haviam parado por alguma raz�o; seu rosto estava r�gido.</p><p>Jaan Vikary manobrou a arraia cinzenta e aterrissou gentilmente, ent�o desceu pelo lado do ve�culo e se aproximou deles a passos largos. A quadrada e feia m�quina militar, cujo teto blindado impedia de ver o piloto, aterrissou quase ao mesmo tempo, e Garse Janacek saiu dela, erguendo a cabe�a e olhando ao redor para ver qual era o problema. Viu, fechou a porta do ve�culo com for�a, se aproximou e ficou � direita de Vikary.</p><p>Vikary cumprimentou Dirk primeiro, com um aceno r�pido e um vago sorriso. Ent�o olhou para Chell.</p><p>- Chell Nim Ventofrio Fre-Braith Daveson - disse, formalmente. - Honras ao seu grupo, honras ao seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>- � para os seus - o velho Braith disse. - Meu novo<emphasis> teyn</emphasis> est� ao meu lado, voc� n�o o conhece. - Indicou Bretan. Jaan se virou e mediu o jovem marcado por cicatrizes rapidamente com os olhos.</p><p>- Sou Jaan Vikary - disse -, do grupo Jadeferro.</p><p>Bretan fez seu ru�do, aquele mesmo ru�do peculiar. Seguiu-se um estranho sil�ncio.</p><p>- Mais propriamente - Janacek falou -, meu<emphasis> teyn</emphasis> � Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro Vikary. E eu sou Garse Jadeferro Janacek.</p><p>Agora Bretan respondeu.</p><p>- Honras ao seu grupo, honras ao seu<emphasis> teyn.</emphasis> Sou Bretan Braith Lantry.</p><p>- Eu deveria saber - Janacek disse com um leve sinal de sorriso. - Ouvimos falar de voc�.</p><p>Jaan Vikary lhe deu uma olhada de advert�ncia. Parecia haver algo de errado com o rosto de Jaan. No in�cio, Dirk pensou que era impress�o sua, por causa da pouca luz - a escurid�o chegava rapidamente mas ent�o viu que a mand�bula de Vikary estava levemente inchada em um lado, dando a seu perfil um aspecto deformado.</p><p>- Viemos at� voc�s em alto agravo - disse Bretan Braith Lantry.</p><p>Vikary olhou para Chell.</p><p>- � isso mesmo?</p><p>- E isso mesmo, Jaantony Alto-Jadeferro.</p><p>- Lamento que haja disc�rdia entre n�s - Vikary respondeu. - Qual � o problema?</p><p>- Precisamos fazer uma pergunta para voc� - Bretan falou. Colocou a m�o no ombro de Dirk. - Este aqui, Jaantony Alto-Jadeferro. Diga-me, ele �<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro ou n�o?</p><p>Agora Garse Janacek sorria abertamente com ironia, e seus olhos azuis encontraram os de Dirk, com ar zombeteiro em suas profundezas geladas, como se dissesse, "Bem, bem, o que voc� fez agora?"</p><p>Jaan Vikary apenas franziu o cenho.</p><p>- Por qu�?</p><p>- Por acaso sua resposta depende de nossos motivos, alto-senhor? - Bretan perguntou asperamente. Sua bochecha marcada por cicatrizes se contorceu violentamente. Vikary olhou para Dirk. Claramente n�o estava satisfeito com aquela situa��o.</p><p>- N�o h� motivos para que voc� demore ou nos negue sua resposta, Jaantony Alto-Jadeferro - Chell Daveson falou. - A verdade � sim ou a verdade � n�o; n�o pode ser mais do que isso.</p><p>A voz do velho era serena; ele, ao menos, n�o tinha tens�es para ocultar, e seu c�digo lhe ditava cada palavra que dizia.</p><p>- Antigamente voc� estaria certo, Chell Fre-Braith. - Vikary come�ou. - Nos tempos antigos dos grupos, a verdade era uma coisa simples, mas estes s�o novos tempos, repletos de coisas novas. Somos um povo de muitos mundos, agora, n�o de um �nico, e ent�o nossas verdades s�o mais complexas.</p><p>- N�o - replicou Chell. - Este quase-homem �<emphasis> korariel</emphasis> ou este quase-homem n�o �<emphasis> korariel.</emphasis> Isso n�o � complexo.</p><p>- Meu<emphasis> teyn</emphasis> fala a verdade - Bretan completou. - A quest�o que coloquei para voc� � bem simples, alto-senhor. Exijo sua resposta.</p><p>Vikary n�o seria pressionado.</p><p>- Dirk t'Larien � um homem do distante mundo de �valon, de dentro do V�u do Tentador, um mundo humano onde estudei antigamente. Eu o nomeei<emphasis> korariel,</emphasis> dei a ele minha prote��o e a prote��o de Jadeferro contra aqueles que quisessem causar-lhe algum mal. Mas eu o protejo como um amigo, como protegeria um irm�o de Jadeferro, como um<emphasis> teyn</emphasis> protege um<emphasis> teyn.</emphasis> Ele n�o � minha propriedade. N�o me pertence. Entende, Chell Fre-Braith?</p><p>Chell n�o entendia. O velho apertou os l�bios sob o pequeno bigode e murmurou algo em antigo kavalariano. Ent�o falou em voz alta. Bem alta, de fato, quase gritando.</p><p>- Que disparate � esse? Seu<emphasis> teyn</emphasis> � Garse Jadeferro, n�o este estranho. Como pode proteg�-lo como a um<emphasis> teyn</emphasis>? Ele � de Jade- ferro? Ele nem est� armado! Ele � um homem, afinal de contas? Por que, se �, n�o pode ser<emphasis> korariel</emphasis>; e se ele n�o �, e ele �<emphasis> korariel, </emphasis>ent�o voc� deve ser o dono dele. N�o vi nenhum sentido em suas palavras de quase-homem.</p><p>- Sinto por isso, Chell Fre-Braith - Vikary respondeu -, mas s�o seus ouvidos que falham, n�o minhas palavras. Tento respeitar sua honra, mas voc� n�o facilita as coisas.</p><p>- Voc� est� brincando comigo! - Chell falou, acusadoramente.</p><p>-N�o.</p><p>- Est�, sim!</p><p>Bretan Braith falou ent�o, e sua voz n�o tinha nada da raiva de Chell, mas era bastante dura.</p><p>- Dirk t'Larien, como ele chama a si mesmo e voc� o chama, nos ofendeu. Este � o centro da quest�o, Jaantony Alto-Jadeferro. Ele colocou as m�os em uma propriedade de Braith sem a permiss�o de Braith. Agora, quem pagar� por isso? Se ele � um quase-homem e seu<emphasis> korariel,</emphasis> ent�o aqui e agora eu o desafio. Jadeferro ofendeu Braith. Se ele n�o �<emphasis> korariel,</emphasis> ent�o, bem...</p><p>- Entendo - Jaan Vikary falou. - Dirk?</p><p>- Antes de mais nada, tudo o que fiz foi sentar no maldito aerom�vel por um segundo - Dirk disse inquieto. - Estava procurando um ve�culo abandonado, alguma coisa que ainda funcionasse. Gwen e eu encontramos um assim em Kryne Lamiya, e eu pensei que talvez pudesse encontrar outro.</p><p>Vikary deu de ombros e olhou para os dois Braiths.</p><p>- Parece que a ofensa cometida, se � que houve ofensa, n�o foi grave. Nada foi roubado.</p><p>- Nosso carro foi<emphasis> tocado!</emphasis> - o velho Chell berrou. - Por ele, por um quase-homem; ele n�o tinha o direito! Voc� chama isso de ofensa pequena? Ele poderia ter levado o ve�culo. Quer que eu feche os olhos como um quase-homem e fique grato por ele ter feito t�o pouco? - Virou-se para Bretan, seu<emphasis> teyn.</emphasis> - Os Jadefer- ros brincam conosco, nos insultam - disse. - Talvez n�o sejam homens verdadeiros, mas tamb�m sejam quase-homens. Est�o cheios de palavras de quase-homens.</p><p>Garse Janacek respondeu imediatamente.</p><p>- Sou<emphasis> teyn</emphasis> de Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro e respondo por ele. Ele n�o � quase-homem. - As palavras sa�ram rapidamente, uma f�rmula habitual.</p><p>Do jeito que Janacek olhou para Vikary, ficou claro para Dirk que ele esperava que seu<emphasis> teyn</emphasis> repetisse as mesmas palavras. Em vez disso, Jaan balan�ou a cabe�a e disse:</p><p>- Ah, Chell. Quase-homens n�o existem.</p><p>Soou imensamente cansado, como se um fardo estivesse sobre seus ombros largos.</p><p>O Braith mais alto e mais velho olhou como se Jaan tivesse lhe dado um golpe. Novamente murmurou algo em antigo kavalariano.</p><p>- Isso n�o pode ser - Bretan Braith falou. - N�o vamos a lugar algum assim. Voc� nomeia este homem<emphasis> korariel,</emphasis> Jaantony Alto-Jadeferro?</p><p>- Sim.</p><p>- Eu rejeito o nome - Dirk falou tranq�ilamente. Sentia-se obrigado a isso, e o momento parecia oportuno. Bretan virou-se para olh�-lo de relance, e o olho verde do Braith parecia irradiar tanto quanto seu parceiro de pedrardente.</p><p>- Ele rejeita apenas a sugest�o de propriedade - Vikary disse muito rapidamente. - Meu amigo reafirmou sua condi��o humana, mas ainda usa o escudo de minha prote��o.</p><p>Garse Janacek sorriu ironicamente e balan�ou a cabe�a.</p><p>- N�o, Jaan. Voc� n�o estava em casa esta manh�. t'Larien n�o quer nenhuma prote��o nossa. Ele disse isso.</p><p>Vikary olhou para ele, furioso.</p><p>- Garse! Isso n�o � hora para brincadeiras.</p><p>- N�o estou brincando - disse Janacek.</p><p>- � verdade - admitiu Dirk. - Eu disse que posso cuidar de mim mesmo.</p><p>- Dirk, voc� n�o sabe o que est� falando! - Vikary advertiu.</p><p>- Pois para variar um pouco, acho que sei.</p><p>Bretan Braith Lantry fez seu ru�do, bem alto e repentino, enquanto Dirk e os dois Jadeferros discutiam, e seu<emphasis> teyn</emphasis> Chell permanecia r�gido em f�ria.</p><p>- Sil�ncio! - A voz r�spida exigiu, e todos ficaram quietos. - Isso n�o tem import�ncia. As coisas continuam iguais. Voc� diz que ele � humano, Jadeferro. Se � isso mesmo, ele n�o pode ser<emphasis> korariel </emphasis>e voc� n�o pode proteg�-lo. Quer ele queira quer n�o, voc� n�o pode proteg�-lo. Meus<emphasis> kethi</emphasis> garantir�o que voc� n�o far� isso. - Girou sobre os calcanhares para encarar Dirk de frente. - Eu desafio voc�, Dirk t'Larien. - Todos estavam em sil�ncio. Larteyn resplandecia ao redor, e o vento estava muito gelado.</p><p>- N�o quis insultar - Dirk falou, lembrando-se das palavras que os Jadeferros usaram outras vezes. - Posso me desculpar, ou o qu�? - Ofereceu a palma de suas m�os para Bretan Braith, abertas e vazias.</p><p>O rosto coberto de cicatrizes se contorceu.</p><p>- O insulto foi cometido.</p><p>- Voc� tem que duelar com ele - Janacek falou.</p><p>As m�os de Dirk se abaixaram lentamente. Cerrou os punhos ao lado do corpo. N�o disse nada.</p><p>Jaan Vikary encarava o ch�o, mortificado, mas Janacek ainda estava animado.</p><p>- Dirk t'Larien n�o conhece os costumes do duelo - contou para os dois Braiths. - Tais costumes n�o existem em �valon. Voc�s me permitem instru�-lo?</p><p>Bretan Braith assentiu, o mesmo movimento desajeitado e curioso de cabe�a e ombros que Dirk notara naquela tarde na garagem. Chell n�o pareceu nem escutar; o velho Braith ainda encarava Vikary, murmurando, com olhar penetrante.</p><p>- H� quatro escolhas a se fazer, t'Larien - Janacek disse para Dirk. - Como desafiado, voc� faz a primeira. Sugiro que fa�a a escolha das armas, e escolha espadas.</p><p>- Espadas - Dirk disse, sem convic��o.</p><p>- Eu fa�o a escolha do modo - Bretan rugiu - e escolho o quadrado da morte.</p><p>Janacek assentiu.</p><p>- Voc� faz a terceira escolha, t'Larien. J� que voc� n�o tem<emphasis> teyn, </emphasis>a escolha dos n�meros � imposta. Ser� uma luta individual. Voc� pode dizer isso, ou voc� pode escolher o lugar.</p><p>- Na Antiga Terra? - Dirk disse, esperan�oso.</p><p>Janacek sorriu.</p><p>- N�o. S� neste mundo, temo. Outras escolhas n�o est�o dispon�veis.</p><p>Dirk deu de ombros.</p><p>- Aqui, ent�o.</p><p>- Fa�o a escolha dos n�meros - Bretan disse. Estava completamente escuro agora, e apenas as dispersas estrelas dos mundos exteriores brilhavam no negro c�u sobre eles. O olho do Braith</p><p>reluzia, e um estranho reflexo parecia umedecer suas cicatrizes.</p><p>- Escolho combate singular, como deve ser.</p><p>- Est� acertado, ent�o - Janacek falou. - Voc�s dois devem chegar a um acordo sobre um �rbitro, e ent�o...</p><p>Jaan Vikary ergueu a cabe�a. Suas fei��es estavam opacas e sombrias, e apenas a p�lida luz das pedrardentes brilhava nelas, mas sua mand�bula inchada lhe dava uma estranha silhueta.</p><p>- Chell - disse muito calmo, em um tom deliberadamente inexpressivo.</p><p>- Sim - o velho Braith respondeu.</p><p>- Voc� � um tolo de acreditar em quase-homens - Vikary lhe disse. - Todos voc�s que acreditam nisso s�o tolos.</p><p>Dirk ainda estava encarando Bretan Braith quando Vikary falou. O rosto marcado se contorceu uma, duas, tr�s vezes.</p><p>Chell soava como se estivesse em transe.</p><p>- Tomo isso como insulto, Jaantony Alto-Jadeferro, falso kavalariano, quase-homem. Exijo desafio.</p><p>Bretan se virou e tentou gritar. Sua voz n�o foi capaz disso, e ele cuspiu e engasgou em vez disso.</p><p>- Voc�... infrator de duelos! Jadeferro... eu...</p><p>- Est� dentro do c�digo - Vikary respondeu sem muito entusiasmo. - Embora, se Bretan Braith puder sobrelevar a pequena transgress�o de um ignorante de outro mundo, ent�o talvez eu possa pedir perd�o para Chell Fre-Braith.</p><p>- N�o - Janacek disse sombriamente. - N�o � honroso pedir perd�o.</p><p>- N�o - Bretan ecoou. Seu rosto<emphasis> era</emphasis> uma caveira agora. Seu olho de pedra reluzia e sua face estava contorcida em f�ria. - Tolerei o m�ximo que pude de voc�, falso kavalariano. N�o vou brincar com a sabedoria do meu grupo. Meu<emphasis> teyn</emphasis> tem mais direito do que eu. Na verdade, cometi um amargo erro ao tentar evitar um duelo com voc�, mentiroso. Quase-homem. Foi vergonhoso, mas agora posso limpar meu nome. Mataremos voc�, Chell e eu. Mataremos voc�s tr�s.</p><p>- Talvez isso seja verdade - Vikary falou. - Logo saberemos.</p><p>- E sua<emphasis> cadela-betheyn</emphasis> tamb�m - Bretan disse. N�o conseguiu gritar; sua voz falhou quando tentou. Ent�o falou baixo como sempre, e a aspereza pegou sua garganta, fazendo-o engasgar.</p><p>- Quando tivermos terminado com voc�s, acordaremos nossos c�es e ca�aremos ela e o kimdissiano gordo atrav�s das florestas que eles conhecem t�o bem.</p><p>Jaan Vikary o ignorou.</p><p>- Fui desafiado - disse para Chell Fre-Braith. - A primeira das quatro escolhas � minha. Fa�o a escolha dos n�meros. Lutaremos <emphasis>teyn-e-teyn.</emphasis></p><p>- Fa�o a escolha das armas - Chell respondeu. - Escolho pistolas.</p><p>- Fa�o a escolha do modo - disse Vikary. - Escolho o quadrado da morte.</p><p>- Por �ltimo, a escolha do lugar - Chell falou. - Aqui, ent�o.</p><p>- O �rbitro marcar� um �nico quadrado - Janacek disse. Dos cinco homens no telhado, era o �nico que ainda sorria. - Ainda precisamos de um �rbitro. O mesmo para os dois duelos?</p><p>- Um homem servir� - Chell concordou. - Sugiro Lorimaar Alto-Braith.</p><p>- N�o - respondeu Janacek. - Ele veio at� n�s em alto agravo ainda ontem. Kirak A�orrubro Cavis.</p><p>- N�o - Bretan falou. - Ele escreve belas poesias, mas n�o tenho outro uso para Kirak A�orrubro.</p><p>- H� dois do grupo Shanagate. - Janacek lembrou. - N�o estou seguro dos nomes deles.</p><p>- N�s preferimos um Braith - Bretan disse, contorcendo o rosto. - Um Braith comandar� bem, respeitar� a honra do c�digo.</p><p>Janacek olhou de relance para Vikary; Vikary deu de ombros.</p><p>- De acordo - Janacek respondeu, encarando Bretan novamente. - Um Braith, ent�o. Pyr Braith Oryan.</p><p>- Pyr Braith n�o. - Bretan recusou.</p><p>- Voc� n�o � f�cil de agradar. - Janacek comentou secamente. - Ele � um dos seus<emphasis> kethi.</emphasis></p><p>- Tenho atritos com Pyr Braith - Bretan respondeu.</p><p>- Um alto-senhor seria uma escolha melhor - o velho Chell falou. - Um homem de estatura e sabedoria. Roseph Lant Banshee Alto-Braith Kelcek.</p><p>Janacek deu de ombros.</p><p>- De acordo.</p><p>- Falarei com ele - disse Chell. Os outros assentiram.</p><p>- Amanh�, ent�o - falou Janacek.</p><p>- Tudo est� acertado - concordou Chell.</p><p>E enquanto Dirk ficava s� observando, sentindo-se perdido e fora de lugar, os quatro kavalarianos se despediram. E, estranhamente, antes de partir, cada um deles beijou os dois inimigos suavemente nos l�bios.</p><p>E Bretan Braith Lantry, coberto de cicatrizes e caolho, sem metade do l�bio, beijou Dirk.</p><p>Quando os Braiths se foram, os outros desceram pela escada. Vikary abriu a porta de seu apartamento e acendeu as luzes. Ent�o, em um sil�ncio met�dico, come�ou a acender o fogo da grande lareira sob a cornija, pegando toras de madeira negra retorcida de um gabinete oculto na parede pr�xima. Dirk sentou-se na ponta do sof�, franzindo o cenho. Garse Janacek sentou-se na outra ponta, com um sorriso vago no rosto, os dedos remexendo na barba ruiva com ar distra�do. Ningu�m falou.</p><p>O fogo ganhou vida, pontudas l�nguas laranja e azuis lambendo as toras, e Dirk sentiu um s�bito calor no rosto e nas m�os. Um cheiro que parecia canela encheu o aposento. Vikary se levantou e saiu da sala.</p><p>Voltou com tr�s ta�as de licor negras como obsidiana. Uma garrafa estava sob o seu bra�o. Deu um copo para Dirk e outro para Garse, colocou o terceiro em uma mesa pr�xima e tirou a rolha da garrafa com os dentes. O vinho era vermelho-escuro, muito pungente. Vikary encheu as tr�s ta�as at� a borda, e Dirk passou a dele sob o nariz. Os vapores queimavam, mas lhe pareceram estranhamente agrad�veis.</p><p>- Agora - Vikary disse, antes que qualquer um deles provasse o vinho. Colocou a garrafa na mesa e ergueu a pr�pria ta�a. - Agora vou dizer algo muito dif�cil para voc�s dois. Pedirei para cada um de voc�s ir al�m de sua pr�pria cultura por um tempo e ser algo que nunca foi antes, algo estranho a voc�s. Garse, pedirei a voc�, pelo bem de cada um de n�s, que seja amigo de Dirk t'Larien. N�o h� palavra para isso em antigo kavalariano, eu sei. Isso n�o � necess�rio em Alto Kavalaan, onde um homem tem seu grupo e seus<emphasis> kethi</emphasis> e a maioria tem seu<emphasis> teyn.</emphasis> Mas estamos todos em Worlorn, e amanh� duelaremos. Talvez n�o duelemos todos juntos, mesmo assim temos inimigos em comum. Ent�o, pe�o a voc�, como meu<emphasis> teyn,</emphasis> para tomar o nome e os la�os de amigo com t'Larien.</p><p>- Voc� pede demais de mim - Janacek respondeu, segurando seu vinho na frente do rosto e observando as chamas dan�arem no vidro negro. - t'Larien nos espionou, tentou roubar minha<emphasis> cro-betheyn </emphasis>e seu nome, e agora nos envolveu nessa disputa com Bretan Braith. Tenho vontade de desafi�-lo eu mesmo por tudo o que tem feito. E voc�, meu<emphasis> teyn,</emphasis> pede que, em vez disso, eu o tome como amigo.</p><p>- Pe�o - Vikary concordou.</p><p>Janacek olhou para Dirk, ent�o provou seu vinho.</p><p>- Voc� � meu<emphasis> teyn</emphasis> - disse. - Eu me rendo aos seus desejos. Que obriga��es exige o v�nculo de amigo?</p><p>- Trate um amigo como faria com um<emphasis> keth</emphasis> - Vikary explicou. Virou-se para encarar Dirk. - E voc�, t'Larien, voc� foi a causa de um problema muito grave, e n�o estou certo de quanto realmente isso � sua culpa. Pe�o algo para voc� tamb�m. Que seja irm�o de grupo, por um tempo, de Garse Jadeferro Janacek.</p><p>Dirk n�o teve chance de responder; Janacek o impediu.</p><p>- Voc� n�o pode fazer isso. Quem � ele, esse t'Larien? Como voc� pode pensar que seja digno de pertencer a Jadeferro? Ele ser� desleal, Jaan. N�o manter� os la�os, n�o defender� a fortaleza, n�o retornar� conosco para o grupo. Eu me oponho.</p><p>- Se ele aceitar, acho que manter� os la�os por um tempo - Vikary falou.</p><p>- Por um tempo?<emphasis> Kethi</emphasis> s�o ligados para sempre!</p><p>- Ent�o essa ser� uma coisa nova, um novo tipo de<emphasis> keth,</emphasis> um amigo por um tempo.</p><p>- Isso � mais do que novo. - Janacek retrucou. - N�o permitirei isso.</p><p>- Garse - disse Jaan Vikary - Dirk t'Larien � seu amigo agora. Ou voc� esqueceu t�o r�pido assim? Voc� faz mal em tentar impedir minha oferta. Rompe os la�os que acabou de tomar. N�o faria isso com um<emphasis> keth.</emphasis></p><p>- Voc� n�o convidaria um<emphasis> keth</emphasis> a ser um<emphasis> keth</emphasis> - Janacek grunhiu. - Ele j� seria isso, ent�o a coisa toda n�o faz sentido. Os v�nculos do grupo n�o t�m nada a ver com ele. O conselho de altos- -senhores impugnaria voc�, Jaan. Isso est� claramente errado.</p><p>- O conselho de altos-senhores est� sentado em Alto Kavalaan, e aqui � Worlorn - Vikary o lembrou. - Apenas voc� est� aqui para falar por Jadeferro. Voc� machucaria seu amigo?</p><p>Janacek n�o respondeu.</p><p>Vikary voltou-se novamente para Dirk.</p><p>- Bem, t'Larien?</p><p>- N�o sei - Dirk falou. - Acho que sei o que isso significa, ser um irm�o de grupo, e acho que apreciaria a honra, ou o que quer que fosse. Mas h� muitas coisas entre n�s, Jaan.</p><p>- Voc� est� falando de Gwen - Vikary disse. - Ela realmente est� entre n�s. Mas, Dirk, estou pedindo que seja um tipo novo e especial de irm�o de grupo. Apenas enquanto permanecer em Worlorn, e apenas com Garse, n�o comigo ou com qualquer outro Jadeferro. Entende?</p><p>- Sim. Isso torna mais f�cil. - Olhou de relance para Janacek. - Mesmo com Garse, contudo, tive problemas. Ele foi um que tentou me tornar propriedade, e agora h� pouco n�o estava exatamente tentando me<emphasis> tirar</emphasis> daquele duelo.</p><p>- Eu s� falei a verdade - Janacek respondeu, mas Vikary acenou para que silenciasse.</p><p>- Essas coisas posso perdoar, acho - Dirk continuou. - Mas n�o a quest�o com Gwen.</p><p>- Esse assunto ser� resolvido entre mim, voc� e Gwen Delvano - Vikary falou calmamente. - Garse n�o tem voz nisso, embora possa lhe dizer que tem.</p><p>- Ela � minha<emphasis> cro-betheyn. -</emphasis> Garse reclamou. - Tenho direito de falar e agir. Tenho a obriga��o de fazer isso.</p><p>- Estou falando sobre a noite passada. - Dirk explicou. - Eu estava na porta. Eu ouvi. Janacek bateu nela, e desde esse momento voc�s dois a afastaram de mim.</p><p>Vikary sorriu.</p><p>- Ele bateu nela?</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Eu escutei.</p><p>- Voc� ouviu uma discuss�o e um golpe, disso n�o tenho d�vida - Vikary disse. Tocou seu queixo inchado. - De onde voc� acha que<emphasis> isso</emphasis> veio?</p><p>Dirk ficou olhando e, repentinamente, se sentiu confuso.</p><p>- Eu... eu pensei... n�o sei. Os filhos da lesma.</p><p>- Garse bateu em<emphasis> mim,</emphasis> n�o em Gwen - Vikary respondeu.</p><p>- E faria novamente - Janacek acrescentou com aspereza.</p><p>- Mas - disse Dirk - mas, ent�o, o que estava acontecendo? Noite passada? Esta manh�?</p><p>Janacek se levantou, deu alguns passos at� onde Dirk estava sentado e ficou parado diante dele:</p><p>- Amigo Dirk - disse em um tom ligeiramente venenoso - esta manh�, eu lhe disse a verdade. Gwen saiu com Arkin Ruark, para trabalhar. Ontem o kimdissiano ligou para ela o dia todo. Estava fren�tico. A hist�ria que me contou era que uma coluna de escaravelhos-encoura�ados estava come�ando a migrar, sem d�vida em resposta ao frio crescente. Dizem que isso � muito raro, at� mesmo em Eshellin. Em Worlorn, � claro, � um evento �nico e n�o pode ser recriado, e Ruark achava que devia ser estudado imediatamente.<emphasis> Agora</emphasis> voc� entende, meu<emphasis> amigo</emphasis> Dirk t'Larien?</p><p>- Oh - disse Dirk. - Ela teria dito alguma coisa.</p><p>Janacek voltou para seu assento com o rosto anguloso retorcido em desprezo.</p><p>- Meu amigo me chama de mentiroso - disse.</p><p>- Garse diz a verdade - Vikary falou. - Gwen disse que deixaria not�cias para voc�, um bilhete ou um recado. Talvez, na excita��o dos preparativos, ela tenha se esquecido. Essas coisas acontecem. Ela � muito envolvida no trabalho dela, Dirk. E uma boa ecologista.</p><p>Dirk olhou para Garse Janacek.</p><p>- Espere um pouco - disse. - Nesta manh� voc�<emphasis> disse</emphasis> que estava mantendo-a afastada de mim. Voc� admitiu isso.</p><p>Vikary pareceu intrigado tamb�m.</p><p>- Garse?</p><p>- � verdade - Janacek confessou, entredentes. - Ele veio aqui, pressionou e pressionou, for�ou sua entrada com uma mentira clara. Mais do que isso, ele claramente queria acreditar que Gwen estava sendo mantida cativa pelos cru�is Jadeferros. Duvido que acreditasse em qualquer outra coisa. - Bebeu cautelosamente o vinho.</p><p>- <emphasis>Isso</emphasis> - Jaan Vikary falou - n�o foi s�bio, Garse.</p><p>- Mentira dada, mentira devolvida - Janacek respondeu, parecendo todo cheio de si.</p><p>- Voc� n�o est� sendo um bom amigo.</p><p>- Farei o poss�vel para melhorar - disse Janacek.</p><p>- Isso me agrada - Vikary falou. - Agora, t'Larien, voc� ser� <emphasis>keth</emphasis> de Garse?</p><p>Dirk pensou por um longo momento.</p><p>- Acho que sim - finalmente decidiu.</p><p>- Bebamos, ent�o - Vikary disse. Os tr�s homens ergueram as ta�as simultaneamente (a de Janacek j� estava pela metade) e o vinho escorreu quente e um pouco amargo pela l�ngua de Dirk. N�o era o melhor vinho que j� provara. Mas era bom o suficiente.</p><p>Janacek terminou sua ta�a e se levantou.</p><p>- Precisamos conversar sobre os duelos.</p><p>- Sim - Vikary concordou. - Este foi um dia nefasto. Nenhum de voc�s demonstrou prud�ncia.</p><p>Janacek inclinou-se contra a cornija embaixo de uma das g�rgulas.</p><p>- A imprud�ncia maior foi sua, Jaan. Entenda-me, n�o tenho medo de duelar com Bretan Braith e Chell Bra�os-Vazios, mas isso n�o era necess�rio. Voc� deliberadamente provocou isso. O Braith tinha que desafi�-lo depois do que voc� falou, ou ent�o seu pr�prio<emphasis> teyn</emphasis> teria cuspido nele.</p><p>- N�o saiu como eu esperei - Vikary confessou. - Pensei que talvez Bretan nos temesse, que deixaria para l� o duelo com t'Larien a fim de evitar a briga conosco. Ele n�o fez isso.</p><p>- N�o - falou Janacek -, ele n�o fez isso. Eu poderia ter dito isso para voc�, se tivesse perguntado. Voc� o pressionou demais e chegou muito perto de romper o duelo.</p><p>- Est� dentro do c�digo.</p><p>- Talvez. Mesmo assim, Bretan estava certo; teria sido uma grande vergonha para ele se ignorasse a transgress�o de t'Larien por medo de voc�.</p><p>- N�o - discordou Vikary. - � onde voc� e todo nosso povo est�o errados. N�o teria sido uma vergonha evitar o duelo. Se queremos alcan�ar nosso destino, precisamos aprender isso. Ainda que, em certo sentido, voc� tenha raz�o. Considerando quem e o que ele era, n�o haveria outra resposta. Eu fiz um mau julgamento.</p><p>- Um s�rio erro de julgamento - Janacek comentou. Um sorriso separou sua barba ruiva. - Teria sido melhor deixar t'Larien duelar. Garanti que lutassem com espadas, n�o garanti? O Braith n�o o teria matado por uma ofensa t�o insignificante. Um homem como Dirk, ah, n�o haveria honra nisso. Um golpe apenas, eu diria. Um corte faria bem a t'Larien. Uma li��o para ele, uma li��o sobre erros. Acrescentaria car�ter ao seu rosto, um corte pequeno. - Olhou para Dirk. - Agora, � claro, Bretan Braith matar� voc�.</p><p>Estava sorrindo e fez esse �ltimo coment�rio com um ar casual. Dirk tentou n�o engasgar com seu vinho.</p><p>- O qu�?</p><p>Janacek deu de ombros.</p><p>- Como primeiro desafiado, voc� deve duelar primeiro, ent�o n�o pode esperar que Jaan e eu o matemos antes que ele chegue at� voc�. Bretan Braith Lantry � largamente conhecido por sua habilidade em duelar, tanto quanto pelo rosto sedutor que tem. Na verdade, isso � not�rio. Suponho que esteja aqui ca�ando quase-homens com Chell, mas ele na verdade n�o � muito dado a ca�adas. Fica mais confort�vel no quadrado da morte do que nos bosques, por tudo o que ouvi. Mesmo seus pr�prios<emphasis> kethi</emphasis> acham que ele � de dif�cil trato. Al�m de ser feio, tomou Chell Fre-Braith como<emphasis> teyn.</emphasis> Chell j� foi um alto-senhor de grande poder e honra. Sobreviveu � sua<emphasis> betheyn</emphasis> e ao seu<emphasis> teyn</emphasis> original. Hoje � um tagarela supersticioso, com um c�rebro pequeno e grande riqueza. Os rumores do grupo dizem que a riqueza fez Bretan Braith vestir o ferro-e-fogo de Chell. Ningu�m diz isso abertamente para Bretan, � claro. Ele tem fama de ser muito suscet�vel. E agora Jaan o deixou zangado e talvez um pouco assustado. Ele n�o ter� miseric�rdia de voc�. Espero que voc� consiga cort�-lo um pouco antes de morrer. Isso tornar� nosso duelo com ele mais f�cil.</p><p>Dirk se lembrava da confian�a que tomara conta dele no telhado; tinha certeza de que nenhum dos dois Braiths representava perigo real. Ele os entendia; sentia pena deles. Agora come�ava a ter pena de si mesmo.</p><p>- Ele est� certo? - perguntou para Vikary.</p><p>- Garse brinca e exagera - Vikary ponderou mesmo assim, voc� est� em perigo. Sem d�vida, Bretan tentar� mat�-lo, se voc� deixar. Mas n�o precisa acontecer. As regras impostas por essas armas e por esse modo s�o muito simples. O �rbitro desenhar� um quadrado na rua, de cinco metros por cinco metros, e voc� e seu oponente come�ar�o em cantos opostos. A uma palavra do �rbitro, cada um de voc�s avan�ar� para o centro com sua espada. Quando se encontrarem, lutar�o. Para satisfazer as exig�ncias da honra, voc� deve dar apenas um golpe e receber um. Eu o aconselharia a feri-lo no p� ou na perna, j� que isso indicar� que voc� n�o deseja um duelo de morte. Ent�o, se n�o conseguir det�-lo com sua espada e receber o primeiro golpe dele, voc� pode caminhar at� o per�metro do quadrado. N�o corra. N�o h� honra em correr, e nesse caso o �rbitro decretar� que o duelo foi vit�ria de morte para Bretan, e Bretan o matar�. Voc� deve andar calmamente. Uma vez que ultrapassar a linha do per�metro, estar� a salvo.</p><p>- Para conseguir essa seguran�a, voc� deve<emphasis> alcan�ar</emphasis> a linha do per�metro - Janacek disse. - Bretan matar� voc� antes disso.</p><p>- Se eu der meu golpe e receber um, ent�o posso baixar a espada e ir embora? - Dirk perguntou.</p><p>- Nesse caso, Bretan o matar� com um olhar intrigado no rosto, ou no que resta dele - Janacek comentou.</p><p>- Eu n�o faria isso - Vikary advertiu.</p><p>- As sugest�es de Jaan s�o tolice - Janacek falou. Andou lentamente de volta ao sof�, pegou sua ta�a e serviu-se de mais vinho.</p><p>- Voc� tem que manter sua espada e lutar com ele. Considere, o homem � cego de um lado. Certamente � vulner�vel ali! E veja como ele mexe e vira a cabe�a de modo estranho.</p><p>A ta�a de Dirk estava vazia. Estendeu-a e Janacek a encheu de vinho.</p><p>- Como voc�s duelar�o? - Dirk perguntou.</p><p>- As regras das nossas armas e do nosso modo s�o diferentes das suas - Vikary comentou. - N�s quatro ficaremos nos quatro cantos do quadrado da morte com lasers de duelo ou outro tipo de pistola. N�o podemos nos mover exceto para tr�s, para fora do quadrado, para nos colocarmos a salvo. E n�o podemos fazer isso at� que cada homem dentro do quadrado tenha feito um disparo. Feito isso, a escolha � nossa. Aqueles que permanecerem dentro, se continuarem em p�, devem continuar a atirar. Pode ser um modo inofensivo ou mortal, dependendo daqueles que participam.</p><p>- Amanh� - Janacek prometeu deve ser mortal. - Bebeu novamente.</p><p>- Eu desejaria que fosse de outro jeito - Vikary disse meneando a cabe�a consternadamente mas temo que voc� fale a verdade. Os Braiths est�o com muita raiva de n�s para atirar para o ar.</p><p>- Sem d�vida - Janacek concordou com um pequeno sorriso.</p><p>- Tomaram o insulto muito profundamente. Chell Bra�os-Vazios, pelo menos, n�o esquecer�.</p><p>- Voc�s n�o podem atirar para ferir? - Dirk sugeriu. - Para desarm�-los? - As palavras vieram com facilidade, mas era estranho ouvi-lo dizer isso. A situa��o era t�o completamente fora de sua experi�ncia, e mesmo assim ele se surpreendeu aceitando-a, sentindo-se estranhamente confort�vel com os dois kavalarianos, seu vinho e sua tranq�ila conversa sobre morte e mutila��es. Talvez significasse alguma coisa ser um dos<emphasis> kethi;</emphasis> talvez fosse por isso que sua inquietude estivesse desaparecendo. Tudo o que Dirk sabia era que se sentia em paz, e em casa.</p><p>Vikary parecia preocupado.</p><p>- Feri-los? Eu desejaria isso tamb�m, mas n�o pode ser. Os ca�adores nos temem agora. Eles poupam os<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro por causa desse temor. Salvamos vidas. Isso n�o ser� poss�vel se formos brandos com os Braiths amanh�. Os outros n�o v�o se privar de sua ca�a se pensarem que tudo o que arriscam � um pequeno ferimento. N�o, infelizmente, acho que devemos matar Chell e Bretan se pudermos.</p><p>- Podemos - Janacek afirmou, confiante. - E, amigo t'Larien, n�o � t�o f�cil ou t�o prudente ferir um inimigo em duelo como voc� pensa. Desarm�-los, ent�o, bem, voc� est� brincando conosco. Isso � virtualmente imposs�vel. Lutamos com lasers de duelo, amigo, n�o com armas de guerra. Tais pistolas disparam em pulsos de meio segundo e exigem quinze segundos completos para recarregar entre os tiros. Voc� entende? Um homem que apressa seu tiro, ou busca dificuldades desnecess�rias, um homem que atira para desarmar, � logo morto. Mesmo a cinco metros de dist�ncia voc� ainda pode errar, e seu inimigo o matar� antes que seu laser esteja pronto para um segundo disparo.</p><p>- Ent�o n�o pode ser feito? - Dirk perguntou.</p><p>- Muitas pessoas s�o apenas feridas em duelo - Vikary lhe contou. - Muitas mais do que s�o mortas, na verdade. Mesmo assim, na maioria dos casos, esse n�o � o resultado pretendido. Algumas vezes, sim. Quando um homem atira para o ar, e seu inimigo decide puni-lo, ent�o cicatrizes horr�veis podem ser infligidas. Mas isso n�o acontece com freq��ncia.</p><p>- Poder�amos ferir Chell - Janacek falou. - Ele � velho e lento, n�o sacar� com rapidez. Mas Bretan Braith � outra coisa. Dizem que j� matou meia d�zia.</p><p>- Eu me encarrego dele - disse Vikary. - Assegure-se de deixar o laser de Chell fora de combate, Garse, e ser� suficiente.</p><p>- Talvez. - Janacek olhou para Dirk. - Se voc� pudesse ferir Bretan s� um pouco, t'Larien, no bra�o, na m�o ou no ombro...</p><p>apenas um talho, mas que doa e tire velocidade. Isso faria diferen�a. - Sorriu.</p><p>Apesar de si mesmo, Dirk descobriu que estava retribuindo o sorriso.</p><p>- Posso tentar - disse mas, lembre-se, sei muito pouco sobre duelar e menos ainda sobre espadas, e minha primeira preocupa��o � permanecer vivo.</p><p>- N�o se preocupe com o imposs�vel - Janacek falou, ainda sorrindo. - Apenas fa�a o maior estrago que puder.</p><p>A porta se abriu. Dirk se virou e levantou os olhos, e Janacek ficou em sil�ncio. Gwen Delvano estava em p� no umbral, o rosto e a roupa manchados de p�. Correu os olhos, incerta, de um rosto para o seguinte, ent�o entrou lentamente na sala. Um pacote de sensores estava pendurado em um de seus ombros. Arkin Ruark a seguiu, carregando duas pesadas caixas de instrumentos sob os bra�os. Estava suado e ofegante, vestido em grossas cal�as verdes e jaqueta com capuz, e parecia muito menos afetado do que o usual.</p><p>Gwen colocou o pacote de sensores no ch�o gentilmente, mas sem soltar as al�as.</p><p>- Estrago? - ela disse. - O que � isso? Quem vai fazer estrago em quem?</p><p>- Gwen - Dirk come�ou.</p><p>- N�o - Janacek o interrompeu. Estava em p� muito r�gido. - O kimdissiano deve sair.</p><p>Ruark olhou ao redor, p�lido e intrigado. Baixou o capuz e come�ou a secar a testa sob o cabelo loiro platinado.</p><p>- Quanta bobagem, Garsinho - disse. - O que � isso, um grande segredo kavalariano, �? Uma guerra, uma ca�ada, um duelo, alguma viol�ncia? N�o vou me intrometer nessas coisas, n�o, n�o eu. Darei privacidade para voc�s. - Come�ou a se dirigir para a porta.</p><p>- Ruark - Jaan Vikary falou. - Espere.</p><p>O kimdissiano parou.</p><p>Vikary encarou seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>- Temos que dizer para ele. Se falharmos...</p><p>- N�o falharemos!</p><p>- Se falharmos, eles prometeram ca��-los. Garse, o kimdissiano tamb�m est� envolvido. Devemos contar para ele.</p><p>- Voc� sabe o que vai acontecer. Em Tober, em Tocadolobo, em Eshellin, por toda a Orla. Ele e seus parentes v�o espalhar mentiras, e todos os kavalarianos ser�o Braiths. Assim agem esses manipuladores, esses quase-homens. - A voz de Janacek n�o tinha nada do humor selvagem que costumava usar com Dirk; estava fria e s�ria agora.</p><p>- A vida dele est� em jogo, e a de Gwen tamb�m - Vikary lembrou. - Devemos contar para eles.</p><p>- Tudo?</p><p>- As adivinha��es acabaram - Vikary falou.</p><p>Ruark e Gwen falaram ao mesmo tempo.</p><p>- Jaan, o que... - ela come�ou.</p><p>- Adivinha��es, vida, ca�a, o que � tudo isso? Diga-me!</p><p>Jaan Vikary se virou e contou para ele.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 7</strong></p><empty-line/><p>- Dirk, Dirk, voc� n�o pode estar falando s�rio. N�o, n�o acredito nisso. Todo este tempo pensei, bem, sim, que voc� era melhor do que eles. E voc� diz<emphasis> isso</emphasis> para mim? N�o, estou sonhando. Isso � uma completa loucura! - Ruark se recuperara de alguma maneira. Em sua longa bata de seda sint�tica bordada com corujas, parecia mais consigo mesmo, embora estivesse lamentavelmente fora de lugar em meio � desordem da sala de trabalho. Estava sentado em um banco alto, de costas para as escuras telas retangulares do console de computadores; os p�s cal�ados em chinelos estavam cruzados na altura dos tornozelos, e as m�os rechonchudas seguravam uma ta�a alta de gelado vinho verde kimdissiano. A garrafa estava atr�s dele, perto de duas ta�as vazias.</p><p>Dirk estava sentado em uma larga mesa de pl�stico, as pernas cruzadas e o cotovelo apoiado em um pacote de sensores. Abrira um espa�o para sentar empurrando o pacote para um lado e uma pilha de diapositivos e pap�is para o outro. A sala estava incrivelmente desordenada.</p><p>- N�o vejo onde est� a loucura - disse, teimosamente. Mesmo enquanto falava, seus olhos vagavam pelo recinto. Nunca vira a sala de trabalho antes. Era quase do mesmo tamanho da sala de estar do apartamento kavalariano, mas parecia muito maior. Um conjunto de pequenos computadores alinhados ocupava uma parede. Em frente, havia um imenso mapa de Worlorn em uma d�zia de cores diferentes, cheio de alfinetes e marcadores. Entre eles estavam as mesas de trabalho. Era aqui que Gwen e Ruark juntavam os dados de conhecimento que conseguiam coletar nos bosques do moribundo mundo do Festival, mas parecia mais um quartel-general aos olhos de Dirk.</p><p>Ainda n�o entendia por que estavam ali. Depois da longa explana��o de Vikary e da agressiva discuss�o que se seguiu entre Ruark e os dois kavalarianos, o kimdissiano descera para o pr�prio apartamento, levando Dirk consigo. O momento n�o parecia adequado para conversar com Gwen. Mas nem bem trocara de roupa e acalmara os nervos com um gole de vinho, Ruark insistiu que Dirk o acompanhasse alguns andares acima, at� a sala de trabalho. Trouxera consigo tr�s ta�as, mas o pr�prio Ruark era o �nico que estava bebendo. Dirk ainda se lembrava da �ltima vez, e tinha de levar o dia seguinte em considera��o; precisava permanecer l�cido. Al�m disso, se o vinho kimdissiano se misturasse com o kavalariano da mesma maneira que kimdissianos se davam com kavalarianos, seria um completo suic�dio beber um depois do outro. Ent�o Ruark bebeu sozinho.</p><p>- A loucura - o kimdissiano disse, depois de um gole da bebida verde - � voc� duelar como um kavalariano. Eu digo que escutei com meus ouvidos, mas ainda n�o posso crer! Jaantony, sim, Garsinho, naturalmente, e, � claro, aqueles Braiths. Animais xenof�bicos, povo violento. Mas voc�, ah! Dirk, voc�, um homem de �valon, n�o pode se rebaixar a isso. Pense, eu lhe imploro, sim, eu imploro, por mim, por Gwen, por voc� mesmo. <emphasis>Como</emphasis> pode levar isso a s�rio? Diga-me, preciso saber. De �valon! Voc� cresceu na Academia do Conhecimento Humano, sim, no Instituto de Estudos de Intelig�ncia N�o Humana de �valon, tamb�m. O mundo de Tomas Chung, a base de opera��es da Inspe��o Kleronomas, toda aquela hist�ria e conhecimento ao seu redor, mais do que existe em qualquer lugar, exceto talvez na Antiga Terra ou em Nova Holme. Voc� � viajado, culto, viu mundos diferentes, muitos povos espalhados. Sim! Voc� tem discernimento. Tem, n�o? Sim!</p><p>Dirk franziu o cenho.</p><p>- Arkin, voc� n�o entende. Eu n�o busquei essa briga. Foi algum tipo de engano. Tentei me desculpar, mas Bretan n�o me ouviu. O que mais eu devia fazer?</p><p>- Fazer? Ora, partir, � claro. Pegar a doce Gwen e partir; deixar Worlorn o mais r�pido poss�vel. Voc� deve isso a ela, Dirk, sabe isso. Ela precisa de voc�, sim, ningu�m mais pode ajudar. Como vai ajud�-la? Tornando-se t�o mau quanto Jaan? Se matando? Hein? Diga-me, Dirk, diga-me.</p><p>Estava ficando tudo confuso novamente. Quando estava bebendo com Janacek e Vikary, tudo parecia muito claro, muito f�cil de aceitar. Mas agora Ruark dizia que estava tudo errado.</p><p>- N�o sei. - Dirk respondeu. - Quero dizer, recusei a prote��o de Jaan. Ent�o tenho que me proteger sozinho, n�o tenho? Quem mais � respons�vel? Fiz as escolhas e tudo aquilo; o duelo est� acertado. N�o posso dar para tr�s agora.</p><p>- � claro que pode - Ruark falou. - Quem vai impedi-lo? Que lei, hein? N�o h� leis em Worlorn, n�o, nenhuma. Completa verdade! Esses animais poderiam nos ca�ar com uma lei? N�o, mas n�o h� lei, ent�o todo mundo tem problemas, mas voc� n�o tem que duelar a menos que queira.</p><p>A porta se abriu, e Dirk se virou a tempo de ver Gwen entrar. Os olhos dele se estreitaram enquanto Ruark pareceu ficar feliz.</p><p>- Ah, Gwen - o kimdissiano disse venha aqui, conven�a t'Larien. Esse completo tolo pretende duelar, verdade, como se fosse o pr�prio Garsinho!</p><p>Gwen adiantou-se e ficou parada entre eles. Vestia cal�a de tecido-camale�o agora cinza-escuro e um pul�ver negro, com uma tiara verde para prender o cabelo. Seu rosto rec�m-lavado estava s�rio.</p><p>- Disse para eles que tinha que descer para verificar alguns dados - disse, passando a ponta da l�ngua nervosamente pelos l�bios. - N�o sei o que dizer. Perguntei a Garse sobre Bretan Braith Lantry. Dirk, as chances de que ele mate voc� s�o muito grandes.</p><p>As palavras dela o deixaram gelado. De alguma forma, ouvir isso de Gwen tornava tudo diferente.</p><p>- Eu sei - ele respondeu. - Isso n�o muda nada, Gwen. Quero dizer, se eu quisesse estar seguro, era s� me tornar<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro, certo?</p><p>Ela assentiu.</p><p>- Sim, mas voc� se recusou. Por qu�?</p><p>- O que voc� disse na floresta? E depois de novo? Sobre nomes? N�o queria me tornar propriedade de ningu�m, Gwen. N�o sou<emphasis> korariel.</emphasis></p><p>Ele a observou. Por um breve instante, o rosto dela ficou sombrio, e seus olhos deram uma r�pida olhada para o jade-e-prata.</p><p>- Entendo - ela disse, em uma voz que era quase um sussurro.</p><p>- Eu n�o - Ruark bufou. - Seja<emphasis> korariel.</emphasis> O que � isso? Apenas uma palavra! Mas voc� ficar� vivo, hein?</p><p>Gwen olhou para o kimdissiano empoleirado no banco. Ele parecia vagamente c�mico em sua t�nica longa, agarrado � sua ta�a e carrancudo.</p><p>- N�o, Arkin - ela disse. - Esse foi meu erro. Eu pensei que <emphasis>betheyn</emphasis> era s� uma palavra.</p><p>Ele corou.</p><p>- Tudo bem, ent�o! Ent�o Dirk n�o �<emphasis> korariel,</emphasis> muito bem, ele n�o � propriedade de ningu�m. Isso n�o significa que tenha que duelar, n�o, absolutamente n�o. O c�digo de honra kavalariano � um disparate, uma grand�ssima estupidez na verdade. Ent�o, voc� � obrigado a ser est�pido, Dirk? A morrer e ser est�pido?</p><p>- N�o - Dirk respondeu. As palavras de Ruark o incomodavam. Dirk n�o acreditava no c�digo de Alto Kavalaan. Ent�o por qu�? Estava longe de saber. Para provar algo, pensou, mas n�o sabia o qu�, ou para quem. - Tenho que fazer, � tudo. � a coisa certa a ser feita.</p><p>- Palavras! - Ruark disse.</p><p>- Dirk, n�o quero v�-lo morto - Gwen falou. - Por favor. N�o me fa�a passar por isso.</p><p>O kimdissiano gorducho riu.</p><p>- N�o, n�s o convenceremos, n�s dois, hein? - Bebeu seu vinho. - Ou�a-me, Dirk, pode fazer isso ao menos?</p><p>Dirk assentiu carrancudo.</p><p>- Bom. Primeiro, me responda: voc� acredita no c�digo de honra? Como uma institui��o social? Como uma coisa moral? Diga-me, de verdade, acredita?</p><p>- N�o - Dirk respondeu. - Mas n�o acho que Jaan acredite tampouco, por alguns coment�rios que fez. Mesmo assim, ele duela quando precisa. De outro modo seria covardia.</p><p>- N�o, ningu�m pensa que voc� � um covarde, ou mesmo ele. Jaantony pode ser kavalariano, com tudo de mau que existe nisso, mas nem mesmo eu digo que seja covarde. Mas h� tipos diferentes de coragem, n�o? Se esta torre pegasse fogo, voc� arriscaria a vida para salvar Gwen e talvez a mim? Garse tamb�m, talvez?</p><p>- Acredito que sim - Dirk falou.</p><p>Ruark assentiu.</p><p>- Veja, ent�o, voc� � um homem corajoso. N�o � necess�rio um suic�dio para provar isso.</p><p>Gwen assentiu.</p><p>- Lembre-se do que voc� disse naquela noite em Kryne Lamiya, Dirk, sobre vida e morte. Voc� n�o pode sair e se matar depois daquilo, pode?</p><p>Ele franziu o cenho.</p><p>- Mas que maldi��o, isso n�o � suic�dio!</p><p>Ruark riu.</p><p>- N�o? � quase a mesma coisa. Por acaso acha que pode derrot�-lo?</p><p>- Bem, n�o, mas...</p><p>- Se o suor fizer a espada escorregar da m�o dele, ou algo assim, voc� o matar�?</p><p>- N�o - Dirk assegurou. - Eu...</p><p>- Isso seria errado, n�o �? Sim! Bem, deix�-lo matar voc� tamb�m � errado. Mesmo dar a ele a chance de fazer isso. � est�pido. Al�m disso, voc� n�o � kavalariano, ent�o nem me mencione Jaantony. Descrente ou n�o, ele ainda � um matador. Voc� � melhor do que isso, Dirk. E ele tem uma desculpa, ele pensa que luta para, talvez, mudar o pr�prio povo. Jaan tem um grande complexo de salvador, mas n�o zombemos dele, n�o. Mas voc�, Dirk, voc� n�o tem nenhum motivo para fazer isso. Tem?</p><p>- Acho que n�o. Mas, que maldi��o, Ruark, ele est� fazendo a coisa certa. Voc� n�o parecia t�o desenvolto quando ele lhe disse como os Braiths teriam ca�ado voc� se n�o fosse pela prote��o dele.</p><p>- N�o, n�o me senti nada bem, de verdade. Isso n�o muda nada. Ent�o eu sou<emphasis> korariel,</emphasis> talvez, ent�o os Braiths s�o piores do que os Jadeferros, ent�o Jaan usa viol�ncia para impedir viol�ncia pior, talvez. Isso � certo? Ah, n�o posso dizer. � realmente uma dif�cil quest�o moral! Talvez os duelos de Jaan sirvam para algum prop�sito, sim, para seu povo, para n�s. Mas seu duelo � uma completa tolice, n�o serve para nada, apenas para que morra. E para que Gwen fique com Jaan e Garse para sempre, at� que eles percam um duelo, quem sabe, e isso n�o ser� agrad�vel para ela.</p><p>Ruark fez uma pausa e terminou seu vinho, ent�o virou-se sobre o banco para servir-se de outra ta�a. Dirk permaneceu sentado muito r�gido, com os olhos de Gwen sobre si, um olhar t�o pesado que quase podia ser sentido. A cabe�a dele latejava. Ruark estava confundindo tudo, pensou novamente. Tinha de fazer a coisa certa, mas qual era? Repentinamente todas as suas percep��es e decis�es tinham evaporado. O sil�ncio caiu pesado sobre a sala de trabalho.</p><p>- N�o fugirei - Dirk falou finalmente. - N�o fugirei. Mas tampouco vou duelar. Irei at� l� e direi minha decis�o para eles, que me recuso a lutar.</p><p>O kimdissiano girou o vinho na ta�a e riu.</p><p>- Bem, h� uma certa coragem moral nisso. Realmente. Jesus Cristo, S�crates, Erika Stormjones e, agora, Dirk t'Larien, grandes m�rtires da hist�ria, sim. Talvez o poeta A�orrubro escreva alguma coisa sobre voc�.</p><p>Gwen lhe respondeu mais seriamente.</p><p>- Eles s�o Braiths, Dirk, altos-senhores de Braith da velha guarda. Em Alto Kavalaan talvez voc� jamais fosse desafiado para um duelo. Os conselhos de altos-senhores reconhecem que pessoas de outros mundos n�o aderem ao c�digo. Mas isso � diferente. O �rbitro se pronunciar� contra voc�, e Bretan Braith e seus irm�os de grupo o matar�o ou o ca�ar�o. Ao recusar um duelo, aos olhos deles, voc� prova ser um quase-homem.</p><p>- <emphasis>N�o posso fugir! -</emphasis> Dirk repetiu. Todos os seus argumentos sumiram de repente; ele n�o tinha nada al�m da emo��o, uma determina��o de encarar o que estava por vir.</p><p>- Voc� afasta sua sanidade, sim, na verdade. N�o � covardia, Dirk. � a escolha mais valente de todas, pense dessa maneira, arriscar-se ao desprezo deles por fugir. Mesmo ent�o, voc� corre perigo. Provavelmente eles o ca�ar�o, Bretan Braith, se ele viver, os outros do grupo se ele morrer, sabe? Mas voc� viver�, talvez consiga evit�-los e ajudar� Gwen.</p><p>- N�o posso - Dirk falou. - Prometi para eles, para Jaan e Garse.</p><p>- Prometeu? O qu�? Que morreria?</p><p>- N�o. Sim. Quero dizer, Jaan me fez prometer que seria um irm�o para Janacek. Eles n�o estariam neste duelo se Vikary n�o estivesse tentando me tirar da encrenca.</p><p>- Depois que Garse a empurrou para ela - Gwen disse amargamente, e Dirk notou o s�bito veneno no tom tranq�ilo dela.</p><p>- Eles podem morrer amanh� tamb�m - Dirk falou, incerto. - E eu sou respons�vel por isso. Agora voc� diz que devo abandon�-los.</p><p>Gwen chegou bem perto dele e levantou as m�os. Os dedos dela passaram suavemente pelo rosto dele enquanto ela afastava mechas do cabelo castanho-cinzento da testa, e os grandes olhos verdes o encararam. De repente, ele se lembrou de outras promessas: a j�ia-sussurrante. E tempos havia muito passados voltaram novamente, e o mundo girou, e certo e errado se fundiram irremediavelmente.</p><p>- Dirk, me escute - Gwen disse lentamente. - Jaan j� esteve em seis duelos por minha causa. Garse, que nem me ama, esteve com ele em quatro. Eles mataram por mim, por meu orgulho, minha honra. N�o pedi isso, n�o mais do que voc� pediu pela prote��o deles. Era a concep��o que<emphasis> eles</emphasis> tinham da minha honra, n�o a minha. Mesmo assim, aqueles duelos foram para mim o mesmo que este � para voc�. Apesar disso, voc� me pediu para deix�-los, para voltar para<emphasis> voc�,</emphasis> para am�-lo novamente.</p><p>- Sim - Dirk respondeu. - Mas... n�o sei. Deixei um rastro de promessas n�o cumpridas. - A voz dele estava angustiada. - Jaan me nomeou<emphasis> keth.</emphasis></p><p>Ruark bufou.</p><p>- Se ele o nomeasse<emphasis> jantar,</emphasis> voc� pularia para dentro da panela, hein?</p><p>Gwen apenas sacudiu a cabe�a tristemente.</p><p>- E voc� sente isso como? Um dever? Uma obriga��o?</p><p>- Acho que sim - ele disse, relutante.</p><p>- Ent�o j� respondeu a si mesmo, Dirk. Voc� me disse qual deve ser minha resposta para<emphasis> voc�.</emphasis> Se sente t�o fortemente que tem que cumprir os deveres de um<emphasis> keth</emphasis> de curta dura��o, um la�o que nem mesmo existe em Alto Kavalaan, como pode me pedir para descartar o jade-e-prata?<emphasis> Betheyn</emphasis> significa mais do que<emphasis> keth.</emphasis></p><p>Gwen tirou as m�os do rosto dele e deu um passo para tr�s.</p><p>Dirk esticou a m�o bruscamente e pegou o pulso dela. O pulso esquerdo. Fechou o punho ao redor do frio metal e do jade polido.</p><p>- N�o - ele disse.</p><p>Gwen n�o disse nada. Apenas esperou.</p><p>Para Dirk, Ruark estava esquecido e a sala de trabalho desaparecera na escurid�o. Havia apenas Gwen, encarando-o, com olhos verdes, grandes e cheios de... de qu�? Promessas? Amea�as? Sonhos perdidos? Ela esperou em sil�ncio, e ele trope�ou nas palavras, sem saber o que dizer a seguir. E o jade-e-prata estava frio em sua m�o, e ele come�ou a se lembrar...</p><p>Lembrou das l�grimas vermelhas cheias de amor, embrulhadas em prata e veludo, queimando intensas e frias. Do rosto de Jaan, com pomos altos, a mand�bula lisa e quadrada, o cabelo negro e ralo, e o sorriso f�cil. A voz, calma como a�o, sempre imperturb�vel:<emphasis> Mas eu existo.</emphasis></p><p>As torres brancas fantasmag�ricas de Kryne Lamiya vieram a sua mente, gemendo, zombando, cantando o desespero enquanto um tambor distante soava sem significado. No meio de tudo isso, desafio, decis�o. Por um breve momento, soubera o que dizer.</p><p>Recordou-se do rosto de Garse Janacek, distante (os olhos azuis esfuma�ados, a cabe�a sempre erguida, a boca severa), hostil (o olhar gelado, o sorriso selvagem que brincava por tr�s de sua barba), cheio de humor amargo (os olhos crepitando, os dentes arreganhados em um sorriso da pr�pria morte).</p><p>Pensou em Bretan Braith Lantry, o tique e o olho de pedrardente, uma figura que inspirava medo e pena com um beijo frio e assustador.</p><p>Vinho tinto em ta�as de obsidiana, vapores que irritavam os olhos, bebido em uma sala cheia de canela e de estranha camaradagem.</p><p><emphasis>Palavras.</emphasis><emphasis> Um tipo novo e especial e irm�o de grupo,</emphasis><emphasis> Jaan falou.</emphasis></p><p>Palavras.<emphasis> Ele ser� desleal,</emphasis> Garse prometeu.</p><p>O rosto de Gwen, uma Gwen mais jovem, mais espigada, com olhos de alguma maneira maiores. Gwen rindo. Gwen chorando. Gwen tendo um orgasmo. Abra�ando-o, seus seios soltos e vermelhos, o rubor se espalhando por todo seu corpo. Gwen sussurrando para ele,<emphasis> Eu te amo, eu te amo.</emphasis> Jenny!</p><p>Uma sombra negra e solit�ria remando uma barca�a baixa pelo escuro canal sem fim.</p><p>Recorda��es.</p><p>A m�o que segurava o bra�o de Gwen tremia.</p><p>- Se eu n�o duelar - ele disse -, voc� deixar� Jaan? E vir� comigo?</p><p>O aceno de resposta dela foi dolorosamente lento.</p><p>- Sim. Pensei nisso o dia todo, conversei sobre isso com Arkin. Planejamos que ele o trouxesse aqui em cima, e que eu diria a Jaan e Garse que tinha que trabalhar.</p><p>Dirk descruzou as pernas, que formigavam como se tivessem sido atacadas por uma centena de pequenas facas, enquanto a dorm�ncia e a rigidez sa�am. Levantou-se e estava decidido.</p><p>- Voc� ia fazer isso de qualquer jeito, ent�o? N�o � s� por causa do duelo?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>- Ent�o eu irei. Quando podemos deixar Worlorn?</p><p>- Duas semanas e tr�s dias - Ruark falou. - N�o h� naves at� l�.</p><p>- Teremos que nos esconder - Gwen disse. - Considerando as circunst�ncias, � o �nico caminho seguro. N�o sabia nesta tarde se diria minha decis�o para Jaan ou simplesmente partiria. Pensei que talvez pud�ssemos conversar, e juntos o encarar�amos. Mas essa hist�ria de duelo define tudo. Voc� n�o teria permiss�o para partir agora.</p><p>Ruark saltou de seu banco.</p><p>- V�o, ent�o - falou. - Eu ficarei aqui, vigiarei, voc�s podem ligar e eu contarei o que aconteceu. E seguro o suficiente para mim, a menos que Garsinho e Jaantony percam o duelo deles. Ent�o, eu iria rapidamente me unir a voc�s, hein?</p><p>Dirk pegou as m�os de Gwen.</p><p>- Eu amo voc�. - Disse. - Ainda te amo.</p><p>Ela sorriu gravemente.</p><p>- Sim. Estou feliz, Dirk. Talvez d� certo desta vez. Mas temos que nos mexer r�pido, desaparecer completamente. De agora em diante, todos os kavalarianos s�o veneno para n�s.</p><p>- Tudo bem - ele concordou. - Para onde vamos?</p><p>- Des�a e pegue suas coisas. Precisar� de roupas quentes. Depois me encontre no telhado. Pegaremos o aerom�vel e depois decidiremos para onde vamos.</p><p>Dirk assentiu e beijou-a rapidamente.</p><p>Voavam sobre os rios escuros e as colinas ondulantes da Comuna quando as primeiras luzes do amanhecer tocaram o c�u, um baixo brilho carmesim no leste. Logo o primeiro sol amarelo nasceu, e a escurid�o se transformou em uma cinzenta n�voa matutina que rapidamente se dissolveu. O aerom�vel em forma de arraia estava aberto, como sempre, e Gwen o conduzia em velocidade m�xima, ent�o o vento frio corria ao redor deles com um ru�do alto, tornando imposs�vel conversar. Enquanto ela dirigia, Dirk dormia ao seu lado, embrulhado em um sobretudo de retalhos marrons que Ruark lhe dera antes de partir.</p><p>Ela o despertou quando a lan�a brilhante de Desafio apareceu diante deles, sacudindo gentilmente seu ombro. O sono dele era leve, inquieto. Ele imediatamente se endireitou e bocejou.</p><p>- Estamos aqui. - Dirk comentou, desnecessariamente.</p><p>Gwen n�o respondeu. A arraia perdeu velocidade conforme a cidade emereliana ficava maior e mais pr�xima.</p><p>Dirk olhou para fora, na dire��o do amanhecer.</p><p>- Dois s�is j� nasceram - falou - e, olhe, j� d� quase para ver o Sat� Gordo. Acho que agora j� sabem que partimos. - Pensou em Vikary e em Janacek, aguardando por ele no quadrado da morte desenhado na rua, acompanhados pelos Braiths. Bretan teria caminhado impacientemente, sem d�vida, e feito seu estranho ru�do. Seu olho estaria opaco e frio na manh�, como uma brasa morta em seu rosto marcado. Talvez estivesse morto agora, ou Jaan, ou Garse Janacek. Por um breve instante, Dirk corou de vergonha. Aproximou-se de Gwen e passou um bra�o ao redor dela.</p><p>Desafio cresceu diante deles. Gwen guiou o aerom�vel em uma brusca descida atrav�s de nuvens brancas desfeitas. A entrada negra de uma pista de aterrissagem se iluminou com a aproxima��o deles e Dirk viu os n�meros enquanto Gwen entrava nela. Era o 520� andar, uma pista vasta, imaculada e deserta.</p><p>- Bem-vindos - uma voz familiar disse enquanto a arraia pairava e mergulhava no piso. - Sou a Voz de Desafio. Posso ajud�-los?</p><p>Gwen desligou o aerom�vel e desceu pela asa.</p><p>- Queremos nos tornar residentes tempor�rios.</p><p>- A tarifa � muito razo�vel - a Voz falou.</p><p>- Leve-nos para um apartamento, ent�o.</p><p>Uma parede se abriu, e outro dos carros com pneus-bal�o foi ao encontro deles. Em tudo, exceto na cor, era g�meo do que os levara durante a �ltima visita. Gwen entrou, e Dirk come�ou a carregar o ve�culo com a bagagem que estava no banco de tr�s do aerom�vel: o pacote de sensores que Gwen trouxera consigo, tr�s malas cheias de roupas, um pacote de suprimentos de campo para caminhar no interior do bosque. Os dois aeropatinetes, completos, com botas de v�o, estavam no topo da pilha, mas Dirk os deixou no aerom�vel.</p><p>O ve�culo partiu, e a Voz come�ou a contar para eles os v�rios tipos de instala��es dispon�veis. Desafio tinha quartos mobiliados em uma centena de estilos, para fazer as pessoas de outros mundos sentirem-se em casa, embora o gosto de di-Emerel fosse o predominante.</p><p>- Algo simples e barato - Dirk pediu. - Uma cama de casal, cozinha e chuveiro.</p><p>A Voz os conduziu at� um pequeno cub�culo com paredes azuis pastel, dois n�veis acima. Tinha cama de casal, que preenchia a maior parte do quarto, al�m de uma quitinete constru�da dentro de uma das paredes e uma enorme tela de parede colorida que ocupava tr�s quartos de outra.</p><p>- Genu�no esplendor emereliano. - Gwen comentou sarcasticamente quando entraram. Ela colocou o pacote de sensores e a mala de roupas no ch�o e jogou-se aliviada sobre a cama. Dirk acomodou as malas que estava carregando atr�s de um arm�rio de porta deslizante e sentou-se aos p�s de Gwen, na ponta da cama, e olhou a tela.</p><p>- Uma grande sele��o de v�deos est� dispon�vel para seu entretenimento - a Voz disse. - Lamento informar que toda a programa��o regular do Festival foi encerrada.</p><p>- Voc� nunca vai embora? - Dirk reclamou.</p><p>- Fun��es b�sicas de monitoramento continuam o tempo todo, para sua seguran�a e prote��o; mas, se desejar, minha fun��o de servi�o pode ser temporariamente desativada na sua vizinhan�a. Alguns moradores preferem assim.</p><p>- Incluindo eu - Dirk falou. - Desative-se.</p><p>- Se mudar de id�ia ou precisar de algum servi�o - disse a Voz -, simplesmente aperte o bot�o marcado com uma estrela em qualquer painel de parede pr�ximo, e estarei novamente �s suas ordens. - Ent�o ficou em sil�ncio.</p><p>Dirk esperou por um momento.</p><p>- Voz? - chamou. Ningu�m respondeu. Assentiu com satisfa��o e voltou a inspecionar a tela. Gwen, atr�s dele, j� estava adormecida, a cabe�a apoiada nas m�os e o corpo encolhido de lado.</p><p>Queria ligar para Ruark desesperadamente, para descobrir o que acontecera no duelo, quem vivera e quem morrera. Mas n�o achava que j� fosse seguro. Um dos kavalarianos - ou mais do que um - podia estar fazendo companhia a Ruark em seus aposentos ou na sala de trabalho, e uma liga��o delataria a posi��o deles. Tinha que esperar. Antes de partirem, o kimdissiano lhes dera o n�mero de um apartamento deserto dois andares acima do seu, e dissera para Dirk ligar naquele n�mero assim que anoitecesse. Se fosse seguro, prometia estar ali para atender a liga��o. Caso contr�rio, n�o haveria resposta. De qualquer maneira, Ruark n�o sabia para onde os dois fugitivos haviam ido, ent�o os kavalarianos n�o poderiam arrancar essa informa��o dele.</p><p>Dirk estava muito cansado. Apesar de seu cochilo no aerom�vel, durante a viagem, a exaust�o pesava sobre ele, misturada com as escuras cores da culpa. Finalmente tinha Gwen ao seu lado, mas n�o se sentia exultante. Talvez ficasse assim mais tarde, quando suas outras preocupa��es tivessem desaparecido e eles come�assem a se conhecer novamente, como era em �valon, sete anos atr�s. Mas isso n�o seria poss�vel at� que estivessem em seguran�a, fora de Worlorn, longe de Jaan Vikary, Garse Janacek e de todos os outros kavalarianos, longe das cidades mortas e das florestas moribundas. Voltariam para dentro do V�u do Tentador, Dirk pensou olhando ausente para a tela em branco, deixando a Orla para sempre. Iriam para Tara, Braque ou outro planeta saud�vel, talvez de volta a �valon, talvez para mais longe, at� Gulliver, Vagabundo ou Velho Posseidon. Havia centenas de mundos que nunca vira, milhares, mais - mundos de humanos, n�o humanos e alien�genas, todos os tipos de distantes lugares rom�nticos onde ningu�m ouvira falar em Alto Kavalaan ou Worlorn. Ele e Gwen poderiam ver esses mundos juntos agora.</p><p>Cansado demais para dormir, inquieto e pouco � vontade, Dirk come�ou a brincar com a tela, testando suas capacidades sem objetivo definido. Ligou-a e apertou o bot�o marcado com um ponto de interroga��o, como fizera no dia anterior no apartamento de Ruark em Larteyn, e a mesma lista de servi�os piscou diante dele em tamanho triplicado. Estudou-a cuidadosamente, para aprender todo o poss�vel. Talvez conseguisse algum conhecimento �til, averiguar algo que pudesse ajud�-los.</p><p>A lista inclu�a um n�mero de chamadas para receber not�cias planet�rias. Digitou, esperando que o duelo do amanhecer tivesse sido noticiado, talvez como obitu�rio. Mas a tela ficou cinza novamente, com letras brancas piscando "Servi�o encerrado", at� que ele a apagou.</p><p>Franzindo o cenho, Dirk tentou outra seq��ncia, para obter informa��es do porto espacial e checar os dados de Ruark sobre a nave. Dessa vez, teve melhor sorte. Tr�s naves pousariam no planeta nos pr�ximos dois meses-padr�o. A primeira delas, como o kimdissiano dissera, chegaria em pouco mais de duas semanas, uma nave da Orla chamada<emphasis> Teric neDahlir.</emphasis> O que Ruark n�o mencionara, contudo, era que a nave iria para os mundos exteriores, partindo de Kimdiss e dirigindo-se para Eshellin, depois para o Mundo do Oceano Vinhonegro e, finalmente, para di-Emerel, seu ponto de origem. Uma semana depois, um navio de suprimentos chegaria de Alto Kavalaan. Ent�o, n�o haveria nada at� o<emphasis> Tremor dos Inimigos Esquecidos,</emphasis> retornando, com destino ao V�u.</p><p>Mas n�o seria poss�vel esperar tanto tempo; ele e Gwen teriam simplesmente que pegar o<emphasis> Teric neDahlir</emphasis> e trocar de nave em algum dos mundos um pouco al�m. Embarcar seria o maior risco que teriam de enfrentar, Dirk refletiu. Era praticamente imposs�vel que os kavalarianos os encontrassem em Desafio, com um planeta inteiro para procurar, mas Jaan Vikary certamente adivinharia que tentariam deixar o planeta assim que poss�vel. Isso significava que ele deveria esperar por eles no porto espacial quando chegasse o momento. Dirk n�o sabia como lidariam com isso. Apenas podia esperar que n�o fosse necess�rio.</p><p>Dirk limpou a tela e tentou outros n�meros, para saber quais fun��es haviam sido desligadas completamente, quais funcionavam precariamente - o servi�o de emerg�ncia m�dica, entre eles - e os que ainda estavam ativos como nos tempos do Festival. Viu v�rias imagens das outras cidades, o que o convenceu de que haviam escolhido corretamente ao vir para Desafio. Os emerelianos tinham se determinado a fazer uma torre-cidade imortal e a mantiveram em funcionamento, apesar do frio, da escurid�o e do gelo que chegava. Esse era um local c�modo para se viver. As outras cidades estavam comparativamente em piores condi��es. Quatro das catorze estavam completamente escuras e sem energia, e uma delas sofrer� tanta eros�o do vento e do clima que estava quase desmoronando em ru�nas empoeiradas.</p><p>Por um tempo, Dirk continuou a apertar bot�es, mas finalmente a brincadeira o cansou e sentiu-se entediado e inquieto. Gwen dormia. Ainda era manh�, imposs�vel ligar para Ruark. Desligou a tela, lavou-se rapidamente no min�sculo banheiro e voltou para a cama, apagando as luzes. Levou algum tempo at� dormir. Ficou deitado na morna escurid�o, encarando o teto e ouvindo a suave respira��o de Gwen, mas sua mente estava distante e preocupada.</p><p>Logo tudo ficar� bem novamente, disse para si mesmo, do jeito que era em �valon. Mesmo assim, n�o conseguiu acreditar. Ele n�o se sentia como o velho Dirk t'Larien, o Dirk da Gwen, aquele que prometera a si mesmo que voltaria novamente. Sentiu, em vez disso, como se nada tivesse mudado; continuava t�o cansado, t�o sem esperan�as como estivera em Braque e nos mundos antes desse. Sua Jenny estava com ele novamente, deveria estar transbordando de alegria, mas sentia apenas uma triste sensa��o de cansa�o. Como se tivesse falhado com ela novamente.</p><p>Dirk colocou os pensamentos de lado e fechou os olhos.</p><empty-line/><p>Quando acordou, era tarde. Gwen j� havia se levantado. Dirk tomou um banho e vestiu trajes de tela sint�tica de �valon, de cores suaves. Ent�o os dois sa�ram para o corredor, para explorar o 522� andar de Desafio. Andavam de m�os dadas.</p><p>O apartamento deles era um dos milhares do setor residencial do edif�cio. Ao redor havia outros, id�nticos ao deles, exceto pelos n�meros nas portas negras. Os pisos, as paredes e os tetos dos corredores que atravessaram eram todos acarpetados em ricos tons de cobalto, e as luzes que pendiam em cada cruzamento, em globos p�lidos e opacos, repousantes para os olhos, faziam jogo com esses tons.</p><p>- Isso � chato - Gwen disse, depois que andaram por alguns minutos. - A uniformidade � muito deprimente. E n�o vejo nenhum mapa. Fico surpresa que as pessoas n�o se percam.</p><p>- Acho que perguntam o caminho para a Voz - Dirk falou.</p><p>- Sim. Esqueci disso. - Ela franziu o cenho. - O que aconteceu com a Voz? N�o a ouvi muito ultimamente.</p><p>- Eu a desliguei - Dirk contou. - Mas ainda est� nos observando.</p><p>- Pode coloc�-la em funcionamento de novo?</p><p>Ele assentiu, parou e ent�o a levou at� a porta negra mais pr�xima. O apartamento, como imaginara, estava desocupado e abriu facilmente ao seu toque. Dentro, a cama, a decora��o, a tela de parede, era tudo igual. Dirk ligou a tela, apertou o bot�o marcado com uma estrela e desligou o aparelho novamente.</p><p>- Posso ajud�-los? - perguntou a Voz.</p><p>Gwen sorriu para Dirk; um sorriso leve e tenso. Parecia t�o cansada quanto ele. Havia linhas de preocupa��o nos cantos de sua boca.</p><p>- Sim - ela respondeu. - Queremos fazer algo. Divirta-nos. Mantenha-nos ocupados. Mostre-nos a cidade. - Dirk achou que ela falava muito r�pido, como algu�m que ansiava por distra��o para afastar a mente de algum assunto desagrad�vel. Ele se perguntou se temia pela seguran�a deles, ou se eram poss�veis preocupa��es com Jaan Vikary.</p><p>- Entendo - a Voz respondeu. - Deixe-me ser seu guia, ent�o, pelas maravilhas de Desafio, a gl�ria de di-Emerel renascida na distante Worlorn. - Ent�o come�ou a dar-lhes instru��es, e foram at� os elevadores mais pr�ximos, para sair desse reino sem-fim de retos corredores cobalto, para regi�es mais coloridas e divertidas.</p><p>Subiram ao Olimpo, um sal�o luxuoso no alto da cidade, e ficaram parados em um carpete negro que chegava aos tornozelos, enquanto olhavam para fora atrav�s da �nica janela de Desafio. Um quil�metro abaixo deslizavam fileiras de nuvens escuras, empurradas por um vento cortante que n�o podiam sentir. O dia estava escuro e sombrio; o Olho do Inferno queimava e brilhava como sempre, mas seus companheiros amarelos estavam escondidos atr�s de uma bruma cinzenta que emba�ava o c�u. Podiam ver as distantes montanhas e o fraco verde-escuro da Comuna muito abaixo deles. Um rob�-gar�om serviu-lhes bebidas geladas.</p><p>Caminharam at� o espig�o central, um v�o cil�ndrico que atravessava a torre-cidade do topo � base. De p� no balc�o mais alto, deram as m�os e olharam juntos para baixo, por outros balc�es em fileiras sem-fim que se perdiam em um abismo pouco iluminado. Ent�o abriram a porta de ferro fundido, saltaram e, ainda de m�os dadas, ca�ram flutuando envoltos na corrente morna. O espig�o central era uma instala��o recreativa que mantinha um tra�o de gravidade que dificilmente era grande o suficiente para ser chamada de gravidade - menos de 0,01 por cento da gravidade em di-Emerel.</p><p>Foram at� a galeria externa, um amplo corredor que descia em espiral pela borda da cidade, como um imenso parafuso, para que um turista mais ativo pudesse fazer o percurso da base at� o topo. Restaurantes, museus e lojas alinhavam-se dos dois lados da galeria. No meio havia corredores de tr�fego, agora vazios, destinados aos carros com rodas-bal�o e a ve�culos mais velozes. Uma d�zia de esteiras rolantes - seis para cima, seis para baixo - integravam o centro da galeria gentilmente curva. Quando seus p�s ficaram cansados, subiram em uma esteira, depois em uma mais r�pida, e ent�o em outra mais r�pida ainda. Enquanto o cen�rio passava por eles, a Voz apontava itens de mais interesse, mas nenhum deles chamou particularmente sua aten��o.</p><p>Nadaram nus no Oceano Emereliano, um pseudomar de �gua doce que ocupava a maior parte do 231� e do 232� andares. A �gua era verde, brilhante e cristalina, t�o dlimpa que podiam ver algas balan�ando sinuosamente no fundo. Sobre eles, pain�is luminosos criavam a ilus�o de um brilhante sol. Pequenos peixes necr�fagos nadavam de um lado para o outro nas zonas mais baixas do oceano; na superf�cie, plantas flutuantes balan�avam e seguiam � deriva como cogumelos gigantes feitos de feltro verde.</p><p>Usaram esquis-el�tricos para descer a rampa, em um quase-v�o sobre o pl�stico de baixo atrito que os levou do cent�simo andar at� o primeiro. Dirk desceu duas vezes, mal chegando ao final do percurso para subir novamente.</p><p>Visitaram um gin�sio de queda-livre.</p><p>Olharam os audit�rios na penumbra, constru�dos para receber milhares de pessoas, e se recusaram a assistir aos holodramas que a Voz lhes ofereceu.</p><p>Comeram, rapidamente e sem apreciar, em um caf� no meio de um<emphasis> shopping</emphasis> antigamente cheio de gente.</p><p>Vagaram por uma selva de �rvores retorcidas e musgo amarelo, onde os sons dos animais eram todos gravados e ecoavam estranhamente pelas paredes do quente e vaporoso parque.</p><p>Finalmente, ainda inquietos e preocupados, e apenas um pouco distra�dos por tudo aquilo, deixaram que a Voz os conduzisse de volta aos seus aposentos. Do lado de fora - a Voz informou -, o verdadeiro crep�sculo ca�a sobre Worlorn.</p><p>Dirk ficou em p� no estreito espa�o entre a cama e a parede enquanto apertava os bot�es em seq��ncia. Gwen sentou-se atr�s dele.</p><p>Ruark levou um longo tempo para responder, longo demais. Dirk se perguntava, apreensivo, se algo terr�vel ocorrera. Mas nem bem pensara isso, o latejante sinal azul de chamada sumiu, e o rosto gorducho do ecologista kimdissiano encheu a tela. Atr�s dele, em uma penumbra cinzenta, estava um apartamento abandonado e sujo.</p><p>- Tudo bem? - Dirk perguntou. Olhou de relance para Gwen. Ela estava mordendo o l�bio, e sua m�o direita estava apoiada no bracelete de jade-e-prata que ainda usava no antebra�o esquerdo.</p><p>- Dirk? Gwen? S�o voc�s? N�o consigo v�-los. Minha tela est� escura... - Os olhos claros de Ruark piscaram, inquietos sob mechas de cabelo ainda mais claro.</p><p>- Claro que somos n�s! - Dirk exclamou. - Quem mais ligaria neste n�mero?</p><p>- N�o consigo v�-los... - Ruark repetiu.</p><p>- Arkin - Gwen disse, ainda sentada na cama -, se voc� nos visse, saberia onde estamos.</p><p>A cabe�a de Ruark balan�ou. Uma papada dupla apenas se insinuou em seu pesco�o.</p><p>- Sim, n�o pensei nisso, voc� est� certa. � melhor que eu n�o saiba, sim.</p><p>- O duelo - Dirk quis saber. - Nesta manh�. O que aconteceu?</p><p>- Jaan est� bem? - Gwen perguntou.</p><p>- N�o teve duelo... - Ruark contou para eles. Seus olhos ainda piscavam, procurando por algo para olhar, Dirk sup�s. Ou talvez temesse que os kavalarianos invadissem o apartamento vazio. - Fui ver, mas n�o houve duelo, essa � a completa verdade.</p><p>Gwen suspirou audivelmente.</p><p>- Ent�o est�o todos bem? Jaan?</p><p>- Jaantony est� vivo e bem, e Garsinho e os Braiths - Ruark falou. - N�o houve tiros ou mortes, mas quando Dirk n�o apareceu para morrer no hor�rio marcado, todos enlouqueceram, sim.</p><p>- Conte-me. - Dirk pediu calmamente.</p><p>- Sim, bem, voc� foi a causa do outro duelo ter sido adiado.</p><p>- Adiado? - perguntou Gwen.</p><p>- Adiado - Ruark respondeu. - Eles ainda lutar�o, mesmo modo e armas, mas n�o agora. Bretan Braith apelou para o �rbitro. Disse que tinha o direito de encarar Dirk primeiro, uma vez que podia morrer no duelo com Jaan e Garsinho, e seu agravo contra Dirk ficaria sem ser resolvido. Exigiu que o segundo duelo fosse adiado at� que Dirk pudesse ser encontrado. O �rbitro disse sim para ele. Uma ferramenta dos Braiths, esse �rbitro, sim, concordou com tudo o que o animal prop�s. Roseph Alto-Braith, eles o chamaram, um homenzinho completamente maligno.</p><p>- Os Jadeferros - Dirk falou. - Jaan e Garse. N�o falaram nada?</p><p>- Jaantony n�o. N�o disse absolutamente nada, apenas ficou parado muito ereto em um canto do quadrado da morte. Todos os demais rugiam por todos os lados, gritando, uivando e se comportando como kavalarianos. Ningu�m mais estava no quadrado al�m de Jaan, n�o, mas ele ficou ali parado, olhando ao redor, como se esperasse que o duelo come�asse a qualquer momento. J� Garsinho ficou muito bravo. Primeiro, quando voc� n�o apareceu, fez piadas sobre voc� estar doente, depois ficou muito frio e silencioso por um tempo, quieto como Jaan, mas mais tarde estava um pouco menos bravo, acho, ent�o come�ou a discutir com Bretan Braith, com o �rbitro e com o outro participante do duelo, Chell. Todos os Braiths estavam ali, para testemunhar, talvez. N�o sabia que t�nhamos tanta companhia em Larteyn, n�o. Bem, eu imaginava, sim, mas � diferente quando est�o todos juntos no mesmo lugar. Um par de Shanagates tamb�m apareceu, embora n�o o poeta A�orrubro, ent�o s� faltavam tr�s pessoas l�: voc�s dois e ele. Do contr�rio, teria sido como uma reuni�o do conselho da cidade, com todos vestidos formalmente. - Riu.</p><p>- Voc� sabe o que est� acontecendo agora?</p><p>- N�o se preocupem - Ruark falou. - Voc�s dois fiquem escondidos e peguem a nave, sim. Eles n�o podem rastre�-los, com todo o planeta para ca�ar! Os Braiths, eu acho, nem v�o olhar. Verdade, eles o nomearam quase-homem. Bretan Braith exigiu isso, e seu parceiro falou sobre as antigas tradi��es, e outros Braiths tamb�m, e o �rbitro concordou que, se n�o aparecesse para duelar, voc� n�o seria um homem verdadeiro. Ent�o eles o ca�ar�o, talvez, mas n�o com um prop�sito especial. Voc� � agora apenas um animal para ser morto, como qualquer outro.</p><p>- Quase-homem - Dirk disse com voz cavernosa. Estranhamente, sentia como se tivesse perdido alguma coisa.</p><p>- Para Bretan Braith e os demais, sim. Garse, eu acho, vai tentar seriamente encontr�-lo, mas n�o ca�ar� voc� como a um animal. Ele jurou que voc� duelaria, duelaria com Bretan Braith e ent�o com ele, ou talvez com ele primeiro.</p><p>- E quanto a Vikary? - Dirk perguntou.</p><p>- J� lhe disse, ele n�o falou absolutamente nada, nada.</p><p>Gwen se levantou da cama.</p><p>- Voc� s� est� falando sobre Dirk - disse para Ruark. - E quanto a mim?</p><p>- Voc�? - os olhos claros de Ruark piscaram. - Os Braiths disseram que voc� � quase-homem tamb�m, mas Garse n�o permitiu isso. Amea�ou duelar com qualquer um que tocasse em voc�. Roseph Alto-Braith protestou. Queria nome�-la como quase-homem tamb�m, como Dirk, mas Garsinho estava muito bravo, e, pelo que entendi, kavalarianos que participam de duelos podem desafiar �rbitros que tomam decis�es erradas, embora ainda sejam obrigados a seguir essas decis�es. Ent�o, doce Gwen, voc� ainda �<emphasis> betheyn</emphasis> e protegida, e eles s� a trar�o de volta se a capturarem. Depois voc� ser� punida, mas ser� punida pelos Jadeferros. Na verdade, n�o falaram muito de voc�, a maior parte do tempo a conversa girou em torno de Dirk. Afinal, voc� � apenas uma mulher, hein?</p><p>Gwen n�o respondeu.</p><p>- Ligaremos novamente em alguns dias - Dirk falou.</p><p>- Dirk, temos que marcar uma data, n�o? N�o estou sempre neste buraco empoeirado. - Ruark deu outra risadinha ao falar aquilo.</p><p>- Em tr�s dias, ao p�r do sol. Temos que combinar como vamos pegar aquela nave. Imagino que Jaan e Garse estar�o no porto espacial quando chegar o momento.</p><p>Ruark assentiu.</p><p>- Pensarei nisso.</p><p>- Voc� pode nos conseguir armas? - Gwen perguntou repentinamente.</p><p>- Armas? - O kimdissiano fez um barulho de cacarejo. - Verdade, Gwen, os kavalarianos se infiltraram em seu sangue. Eu sou de Kimdiss. O que sei de lasers e coisas afins, t�o violentas?</p><p>Posso tentar, no entanto, por voc� e por meu amigo Dirk. Falaremos sobre isso quando conversarmos novamente; agora preciso ir.</p><p>Seu rosto se dissolveu, e Dirk apagou a tela antes de virar-se para encarar Gwen.</p><p>- Quer lutar contra eles? Isso � prudente?</p><p>- N�o sei - ela respondeu. Andou at� a porta lentamente, virou-se, andou de volta. Ent�o parou de novo; o apartamento era t�o pequeno que era imposs�vel caminhar com real veem�ncia.</p><p>- Voz! - Dirk chamou, em uma s�bita inspira��o. - H� alguma loja de armas em Desafio? Um lugar onde possamos comprar lasers e outras armas?</p><p>- Lamento informar que as normas de di-Emerel pro�bem o porte de armas pessoais - a Voz respondeu.</p><p>- E armas esportivas? - Dirk sugeriu. - Para ca�adas e tiro ao alvo?</p><p>- Lamento informar que as normas de di-Emerel pro�bem todos os esportes sangrentos e jogos baseados em viol�ncia subliminar. Se voc� � membro de uma cultura onde tais costumes s�o apreciados, por favor, tenha em conta que isso n�o implica insulto ao seu planeta natal. Essas formas de recrea��o est�o indispon�veis por toda Worlorn.</p><p>- Esque�a - Gwen falou. - Era uma p�ssima id�ia de qualquer modo.</p><p>Dirk colocou as m�os nos ombros dela.</p><p>- N�o precisaremos de armas em todo caso - disse com um sorriso embora admita que me sentiria um pouco melhor se carregasse uma. Mas duvido que saiba como us�-la se o momento chegar.</p><p>- Eu sei - ela falou. Seus olhos, seus grandes olhos verdes, tinham uma dureza que Dirk nunca vira. Por um estranho segundo, ele se lembrou de Garse Janacek e seu olhar azul g�lido e desdenhoso.</p><p>- Como? - ele perguntou.</p><p>Ela gesticulou com impaci�ncia e deu de ombros, ent�o as m�os dele sa�ram de seus ombros e ela se virou de costas para ele.</p><p>- No campo, Arkin e eu usamos armas com proj�teis. Para disparar agulhas de rastreamento quando estamos tentando seguir um animal, estudar seus padr�es de migra��o. Dardos son�feros tamb�m. E h� implantes de sensores do tamanho de uma unha, capazes de lhe dizer tudo o que quiser saber sobre uma forma de vida: como ca�a, o que come, h�bitos de reprodu��o, padr�es cerebrais durante v�rios est�gios do ciclo da vida. Com pistas suficientes, voc� pode deduzir o funcionamento de todo o ecossistema, a partir dos dados que diferentes esp�cies nos d�o. Mas voc� tem que implantar seus espi�es primeiro, e faz isso imobilizando os sujeitos com dardos. Atirei em milhares deles. Sou boa nisso. S� queria ter trazido uma dessas armas conosco.</p><p>- Isso � diferente. - Dirk comentou. - Usar uma arma para algo assim e atirar em um homem com um laser. Nunca fiz nenhum dos dois, mas n�o acho que d� para comparar.</p><p>Gwen inclinou-se contra a porta e olhou para ele com azedu- me a v�rios metros de dist�ncia.</p><p>- Voc� n�o acredita que eu possa matar um homem?</p><p>- N�o.</p><p>Ela sorriu.</p><p>- Dirk, n�o sou a garotinha que voc� conheceu em �valon. De l� para c�, passei v�rios anos em Alto Kavalaan. N�o foram anos f�ceis. Outras mulheres cuspiram no meu rosto. Ouvi Garse Janacek fazer mil serm�es sobre as obriga��es de jade-e-prata. Fui chamada de quase-homem e de cadela<emphasis> betheyn</emphasis> por outros homens kavalarianos tantas vezes que ocasionalmente me pegava respondendo. - Meneou a cabe�a. Sob a larga tiara colocada apertada ao redor da testa, seus olhos eram duras pedras verdes. Jade, Dirk pensou vagamente, jade como o bracelete que ela ainda usava.</p><p>- Voc� est� zangada - ele disse. - � f�cil ficar zangada. Mas conhe�o voc�, amor, e voc� � essencialmente uma pessoa gentil.</p><p>- Eu era. Tentei ser. Mas j� se passou muito tempo, Dirk, muito, muito tempo, e isso foi sendo constru�do, e Jaan Vikary tem sido a �nica parte boa de tudo isso. Disse para Arkin; ele sabe como me sinto,<emphasis> o que</emphasis> senti. Houve vezes em que estive t�o perto... <emphasis>t�o</emphasis> perto... Com Garse, especialmente, porque, de um jeito muito estranho, ele � parte de mim, e uma parte ainda maior de Jaan, e machuca mais quando � algu�m com quem voc� se importa, algu�m que poderia amar se n�o fosse por...</p><p>Parou de falar. Seus bra�os estavam cruzados com for�a sobre o peito e estava franzindo o cenho, mas parou de falar. Ela devia ter visto a express�o no rosto dele, Dirk pensou. Ele se perguntava o que tinha acontecido.</p><p>- Talvez voc� esteja certo - ela disse depois de um instante, descruzando os bra�os. - Talvez eu n�o possa matar ningu�m. Mas, sabe, algumas vezes sinto como se pudesse. E bem agora, Dirk, eu gostaria muito de ter uma arma. - Deu um risinho sem gra�a. - Em Alto Kavalaan, � claro, eu n�o tinha permiss�o para andar armada. Por que uma<emphasis> betheyn</emphasis> precisaria de uma pistola? Seu alto-senhor e seu<emphasis> teyn</emphasis> a protegem. E uma mulher com uma arma pode atirar em si mesma. Jaan... bem, Jaan tem lutado para mudar v�rias coisas. Ele tenta. Estou aqui, afinal de contas. A maioria das mulheres nunca deixa a seguran�a da rocha da fortaleza de seu grupo uma vez que veste o jade-e-prata. Mas, apesar de todas as tentativas, e eu as respeito, Jaan n�o entende. Ele � um alto-senhor, afinal de contas, e est� lutando contra outras coisas tamb�m, e para tudo que digo, Garse diz algo diferente. Algumas vezes Jaan nem percebe. E as coisas pequenas, como eu andar armada, ele diz que n�o s�o importantes. Falei com ele sobre isso uma vez, e ele me lembrou que sou contra toda essa coisa de andar armada e todo o grande artif�cio do c�digo de honra, o que � verdade. E, mesmo assim, Dirk, eu sei, eu entendo o que voc� estava dizendo para Arkin noite passada, sobre querer enfrentar Bretan mesmo sem se sentir ligado pelo c�digo. Senti o mesmo muitas vezes.</p><p>As luzes do quarto brilharam por um instante, diminuindo e ent�o recuperando a intensidade.</p><p>- O que foi isso? - Dirk perguntou, levantando os olhos.</p><p>- Os residentes n�o devem se alarmar - a Voz disse em seu tom grave e inalter�vel. - Uma falha tempor�ria do suprimento de energia afetou o andar, mas j� foi consertada.</p><p>- Falha de energia! - Uma imagem se formou repentinamente na mente de Dirk, a imagem de Desafio (herm�tica, sem janelas, totalmente fechada) sem energia. N�o gostou da id�ia. - O que est� acontecendo?</p><p>- Por favor, n�o fique alarmado - a Voz repetiu, mas as luzes sobre suas cabe�as desmentiram suas palavras. Elas se apagaram completamente e, por um breve segundo, Gwen e Dirk ficaram parados em uma escurid�o total e assustadora.</p><p>- Acho que � melhor irmos embora - Gwen falou, quando as luzes voltaram. Virou-se, abriu o painel deslizante da parede e come�ou a tirar as malas. Dirk foi ajud�-la.</p><p>- Por favor, n�o entrem em p�nico - a Voz disse. - Para sua pr�pria seguran�a, insisto que permane�am em seu apartamento. A situa��o est� sob controle. Desafio tem muitas instala��es de seguran�a, assim como redund�ncia para todos os sistemas importantes.</p><p>Terminaram de fazer as malas. Gwen foi para a porta.</p><p>- Voc� est� usando a energia secund�ria agora? - ela perguntou.</p><p>- Do primeiro andar at� o quinquag�simo, do 251� at� o 300�, do 351� at� o 451�, e do 500� at� o 550� est�o usando energia secund�ria no presente momento - a Voz admitiu. - Isso n�o � motivo para alarme. Rob�s-t�cnicos est�o reparando a energia principal o mais r�pido poss�vel, e outros sistemas de reserva existem no caso improv�vel da energia secund�ria falhar.</p><p>- N�o entendo - Dirk falou. -<emphasis> Por qu�?</emphasis> Qual � a causa destas falhas?</p><p>- Por favor, n�o fiquem alarmados - a Voz respondeu.</p><p>- Dirk - Gwen falou calmamente. - Vamos. - Ela saiu do apartamento, uma mala na m�o direita e o pacote de sensores pendurado por uma al�a no ombro esquerdo. Dirk pegou as outras duas malas e a seguiu pelos corredores azul-cobalto. Correram na dire��o dos elevadores, Gwen dois passos adiante, os carpetes abafando os sons dos passos.</p><p>- Residentes que entram em p�nico s�o mais propensos a se ferir do que aqueles que permanecem na seguran�a dos apartamentos enquanto durar esta pequena inconveni�ncia - a Voz os recriminou.</p><p>- Diga-nos o que est� acontecendo e podemos reconsiderar. - Dirk respondeu. N�o pararam nem reduziram o passo.</p><p>- Os regulamentos de emerg�ncia j� est�o em vigor - a Voz insistiu. - Guardi�es foram enviados para conduzi-los de volta ao apartamento. Isso � para sua pr�pria prote��o. Repito, guardi�es foram enviados para conduzi-los de volta ao apartamento. As normas de di-Emerel pro�bem... - As palavras come�aram repentinamente a ficar confusas, e a voz baixa se ergueu at� se converter em um gemido rouco que arranhou seus ouvidos. Parou em um sil�ncio assustador.</p><p>As luzes se apagaram.</p><p>Dirk parou um instante, ent�o deu dois passos adiante na espessa escurid�o e trombou em Gwen.</p><p>- O qu�? - ele disse. - Me desculpe.</p><p>- Quieto - Gwen sussurrou e come�ou a contar os segundos. No treze, os globos pendurados nos cruzamentos dos corredores acenderam novamente. Mas a luz azul era p�lida e espectral, pouco mais que suficiente para que pudessem enxergar alguma coisa.</p><p>- Vamos - Gwen falou. Come�ou a andar de novo, mais lentamente dessa vez, avan�ando com cautela na penumbra azulada. Os elevadores n�o estavam muito longe.</p><p>Quando as paredes falaram com eles, a voz n�o era a Voz.</p><p>- Esta � uma cidade grande - disse -, mesmo assim, n�o � grande o suficiente para escond�-lo, t'Larien. Estou esperando nos s�t�os mais profundos dos emerelianos, no quinquag�simo segundo subsolo. A cidade � minha. Venha at� mim, agora, ou toda a luz se apagar� ao seu redor, e, na escurid�o, meu<emphasis> teyn</emphasis> e eu vamos ca��-lo.</p><p>Dirk reconheceu a voz que falava. Era inconfund�vel. Em Worlorn, ou em qualquer outro lugar, n�o seria f�cil reproduzir a voz sibilante e rouca de Bretan Braith Lantry.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 8</strong></p><empty-line/><p>Ficaram parados no corredor sombrio como se estivessem paralisados. Gwen era uma obscura silhueta azul, seus olhos eram fossos negros. Sua boca contorcia-se no canto, fazendo Dirk se lembrar horrivelmente de Bretan e<emphasis> seu</emphasis> tique nervoso.</p><p>- Eles nos encontraram - ela disse.</p><p>- Sim. - Dirk concordou. Os dois estavam sussurrando, por medo de que Bretan Braith, como nova Voz de Desafio, pudesse ouvi-los se falassem algo. Dirk tinha a aguda impress�o de que falantes os cercavam, e orelhas tamb�m, e talvez olhos: todos invis�veis atr�s das paredes acarpetadas.</p><p>- Como? - perguntou Gwen. - Eles n�o tinham como. � imposs�vel.</p><p>- Mas conseguiram. Devia ser poss�vel. Mas o que fazemos agora? Vou at� eles? O que h� l� embaixo, no quinquag�simo segundo subsolo, de qualquer modo?</p><p>Gwen franziu o cenho.</p><p>- N�o sei. Desafio n�o era minha cidade. S� sei que os subsolos n�o s�o residenciais.</p><p>- M�quinas. - Dirk sugeriu. - Energia. Suporte � vida.</p><p>- Computadores - acrescentou Gwen, em um pequeno sussurro cavernoso.</p><p>Dirk colocou as malas no ch�o. Parecia bobagem apegar-se a roupas e pertences a esta altura.</p><p>- Mataram a Voz - ele comentou.</p><p>- Talvez. Se � que ela pode ser morta. Pensei que fosse toda uma rede de computadores espalhada pela torre. N�o sei. Talvez fosse apenas uma grande instala��o.</p><p>- De qualquer modo, chegaram ao c�rebro central, ao nervo central, o que quer que seja. N�o teremos mais avisos gentis das paredes. E, provavelmente, Bretan nos v� bem agora.</p><p>- N�o - Gwen falou.</p><p>- Por que n�o? A Voz podia.</p><p>- Sim, talvez, embora n�o ache que as instala��es da Voz inclu�am sensores visuais. Quero dizer, n�o eram necess�rios. Ela tinha outros sentidos, coisas que humanos n�o t�m. Mas esse n�o � o ponto. A Voz era um supercomputador, constru�do para lidar com bilh�es de bits de informa��o simultaneamente. Bretan n�o pode fazer isso. Nenhum humano pode. Al�m disso, a forma de recep��o dos dados n�o foi criada para fazer sentido para ele, para voc� ou para mim. Apenas para a Voz. Mesmo se Bretan conseguir acesso a todos os dados que a Voz recolhia, a maioria ser� inintelig�vel para ele, ou ele receber� os dados t�o rapidamente que ser�o in�teis. Talvez um especialista em cibern�tica pudesse tirar algo disso, embora eu duvide. Mas n�o Bretan. N�o, a menos que ele conhe�a algum segredo que n�s desconhecemos.</p><p>- Ele soube como nos encontrar - Dirk comentou. - E soube onde o c�rebro de Desafio estava e como provocar um curto-circuito.</p><p>- N�o sei como nos encontrou - Gwen respondeu -, mas n�o era t�o dif�cil chegar � Voz. O �ltimo subsolo, Dirk! Foi s� uma suposi��o da parte dele, tinha de ser. Kavalarianos constroem suas fortalezas na profundeza da rocha, e os n�veis inferiores s�o sempre os mais seguros, os mais resguardados. E onde mant�m as mulheres e outros tesouros do grupo.</p><p>Dirk estava pensativo.</p><p>- Espere um minuto. Ele n�o pode saber exatamente onde estamos. Caso contr�rio, por que tentaria nos atrair para o por�o ou amea�aria nos ca�ar?</p><p>Gwen assentiu.</p><p>- Ele est� no centro de computadores, no entanto. - Dirk prosseguiu. - Temos que ser cuidadosos. Ele pode ser capaz de nos encontrar.</p><p>- Alguns dos computadores ainda devem estar funcionando - Gwen falou, olhando de relance na dire��o do opaco globo azul a alguns metros. - A cidade ainda est� viva, mais ou menos.</p><p>- Ele pode perguntar � Voz onde estamos? Se a conectar novamente?</p><p>- Talvez, mas a Voz lhe diria? Acho que n�o. Somos residentes legais, desarmados, e ele � um intruso perigoso violando as normas de di-Emerel.</p><p>- Ele? Voc� quer dizer eles. Chell est� com ele. Talvez outros tamb�m.</p><p>- Um grupo de intrusos, ent�o.</p><p>- Mas n�o podem ser mais do que... quantos? Vinte? Menos? Como v�o vasculhar uma cidade deste tamanho?</p><p>- di-Emerel � um mundo totalmente desprovido de viol�ncia, Dirk. E este � um mundo de Festival. Duvido que Desafio tenha muitas defesas. Os guardi�es...</p><p>Dirk olhou ao redor repentinamente.</p><p>- Sim, guardi�es. A Voz os mencionou. Estava mandando um atr�s de n�s. - Quase esperava ver uma silhueta enorme e amea�adora rodando em dire��o a eles por algum corredor transversal. Mas n�o havia nada. Sombras, globos cobalto e um sil�ncio azul.</p><p>- N�o podemos ficar parados aqui - Gwen falou. Deixara de sussurrar. Ent�o ele tamb�m parou. Ambos perceberam que se Bretan Braith e seus companheiros pudessem ouvir cada palavra que falavam, tamb�m poderiam localiz�-los de uma d�zia de outros jeitos tamb�m. Se fosse assim, o caso deles era sem esperan�a. Sussurrar era um gesto in�til. - O aerom�vel est� s� a dois andares daqui - ela lembrou.</p><p>- Os Braiths podem estar a dois andares daqui tamb�m - Dirk respondeu. - Mesmo se n�o estiverem, temos que evitar o aerom�vel. Eles devem saber que temos um, e estar�o esperando que tentemos fugir. Talvez seja por isso que Bretan fez seu pequeno discurso, para nos fazer decolar, onde ser�amos presas f�ceis. Seus irm�os de grupo est�o provavelmente esperando para nos abater com lasers. - Fez uma pausa, pensativo. - Mas tampouco podemos simplesmente ficar aqui.</p><p>- N�o perto do nosso apartamento - ela disse. - A Voz sabe onde estamos, e Bretan Braith pode ser capaz de descobrir. Mas temos que permanecer na cidade; voc� est� certo sobre isso.</p><p>- Vamos nos esconder, ent�o - Dirk falou. - Onde?</p><p>Gwen deu de ombros.</p><p>- Aqui, ali, em qualquer lugar. � uma cidade grande, como Bretan Braith disse.</p><p>Gwen rapidamente se ajoelhou sobre sua mala, descartando todas as roupas pesadas, mas mantendo os suprimentos de campo e o pacote de sensores. Dirk vestiu o pesado sobretudo que Ruark lhe dera e abandonou todo o resto. Caminharam at� a galeria exterior; Gwen estava ansiosa para ficar o mais longe poss�vel do apartamento, e nenhum dos dois queria se arriscar a usar os elevadores.</p><p>As luzes sobre a ampla galeria ainda irradiavam brilhantes e brancas, e as esteiras rolantes cantarolavam uniformemente; o caminho em espiral parecia ter uma fonte de energia independente.</p><p>- Para cima ou para baixo? - Dirk perguntou.</p><p>Gwen n�o pareceu escut�-lo; estava ouvindo outra coisa.</p><p>- Quieto - ela disse. Sua boca se contorceu. Por cima do zumbido constante das esteiras rolantes, Dirk ouviu<emphasis> outro</emphasis> barulho, fraco, mas inconfund�vel. Um uivo.</p><p>Vinha do corredor embaixo deles, Dirk tinha certeza. Era como um sopro frio estremecendo a c�lida quietude azul, e parecia permanecer no ar por mais tempo do que devia. Gritos indistintos e distantes vieram na seq��ncia.</p><p>Houve um curto sil�ncio. Gwen e Dirk olharam um para o outro e ficaram parados muito r�gidos, ouvindo. O uivo veio novamente, mais alto, mais distinto, ecoando por um momento, dessa vez. Era um grito furioso em forma de uivo, longo e agudo.</p><p>- C�es de ca�a dos Braiths - Gwen falou, em uma voz muito mais est�vel do que podia se esperar.</p><p>Dirk se lembrou da besta que encontrara enquanto caminhava pelas ruas de Larteyn - o c�o do tamanho de um cavalo que rosnara � sua aproxima��o, a criatura com cara de rato, sem pelos e com pequenos olhos vermelhos. Olhou pelo corredor atr�s deles com apreens�o, mas nada se movia nas sombras cobalto.</p><p>Os sons estavam ficando mais altos, mais pr�ximos.</p><p>- Para baixo - Gwen falou. - E r�pido.</p><p>Dirk n�o precisou que ela falasse duas vezes. Correram para a faixa central da galeria, atravessando o caminho silencioso, e subiram na primeira e mais lenta das esteiras rolantes que desciam. Ent�o come�aram a se mover, passando de esteira em esteira at� que chegaram a mais r�pida delas. Gwen tirou os suprimentos de campo do ombro e abriu a bolsa, vasculhando o conte�do enquanto Dirk permanecia em p� ao seu lado, uma m�o pousada em seu ombro, observando os n�meros dos andares passarem, negros sentinelas montados sobre as bocas cobertas de sombras crepusculares que levavam aos corredores interiores de Desafio. Os n�meros piscavam a intervalos regulares, ficando cada vez menores.</p><p>Haviam acabado de passar pelo 490� andar quando Gwen ficou em p�, segurando uma curta vara de metal negro-azulada na m�o direita.</p><p>- Tire as roupas - ela disse.</p><p>- O qu�?</p><p>- Tire as roupas - ela repetiu. Como Dirk continuava olhando para ela, sem agir, ela sacudiu a cabe�a impacientemente e bateu no peito dele com a ponta da vara. - Anulador de odores - disse-lhe. - Arkin e eu usamos no bosque. Vamos jogar em n�s mesmos antes de sairmos. Vai matar o cheiro do nosso corpo por quatro horas e, espero, tirar os c�es do nosso rastro.</p><p>Dirk assentiu e come�ou a se despir. Quando ficou nu, Gwen o fez ficar parado com as pernas afastadas e os bra�os erguidos sobre a cabe�a. Pressionou uma ponta da vara met�lica, e da outra saiu uma fina bruma cinzenta, que tocou levemente a pele desnuda de Dirk. Sentia-se gelado, tolo e muito vulner�vel enquanto ela jogava o spray nele, na frente e atr�s, da cabe�a aos p�s. Ent�o Gwen se ajoelhou e cobriu as roupas dele com a n�voa tamb�m, do lado de dentro e do lado de fora, tudo, exceto o grande sobretudo que Arkin lhe dera, que ela cuidadosamente deixou de lado. Quando terminou, Dirk se vestiu novamente - suas roupas estavam secas e cobertas por um p� fino e cinzento -, enquanto Gwen se despia e passava o spray para ele.</p><p>- E o sobretudo? - ele disse, quando ela se voltou para as pr�prias roupas. Jogou o spray em tudo: no pacote de sensores, nos suprimentos de campo, em seu bracelete jade-e-prata, em tudo, exceto no sobretudo de retalhos marrom de Arkin. Dirk o empurrou com a ponta da bota.</p><p>Gwen pegou o casaco e o jogou por sobre o parapeito, at� uma das esteiras rolantes ascendentes. Ficaram observando enquanto a pe�a de roupa se afastava deles, at� sair de vista.</p><p>- Voc� n�o precisa disso - Gwen falou quando o sobretudo se foi. - Talvez leve a matilha na dire��o errada. Certamente nos seguiram at� a galeria.</p><p>Dirk parecia em d�vida.</p><p>- Talvez - disse, com um olhar de soslaio para a parede interna. O andar 472 veio e se foi. - Acho que devemos sair - disse repentinamente. - Sair da galeria.</p><p>Gwen olhou para ele interrogativamente.</p><p>- Voc� mesma acaba de dizer - ele explicou. - Quem quer que esteja atr�s de n�s, chegou at� a galeria. Se j� come�aram a descer, meu casaco n�o os enganar� muito. Eles o ver�o passar e rir�o.</p><p>Ela sorriu.</p><p>- Voc� est� certo. Mas valia a pena tentar.</p><p>- Ent�o, presumindo que estejam descendo atr�s de n�s...</p><p>- J� teremos conseguido uma boa vantagem - ela interrompeu. - Nunca colocar�o uma matilha de c�es da ca�a em uma esteira rolante, o que quer dizer que est�o a p�.</p><p>- E da�? A galeria ainda n�o � segura, Gwen. Olha, n�o � Bretan que est� l� em cima, ele est� l� embaixo, no subsolo. E provavelmente tampouco � Chell, n�o �?</p><p>- N�o. Um kavalariano ca�a com seu<emphasis> teyn.</emphasis> Eles n�o se separam.</p><p>- Imaginei isso. Ent�o temos um par brincando com a energia embaixo de n�s, e outro par em nossos calcanhares. Quantos outros est�o atr�s de n�s? Voc� pode responder isso?</p><p>-N�o.</p><p>- Eu diria que uns poucos, ao menos; e mesmo se n�o for, � melhor presumir o pior e trabalhar com isso. Se h� outros Braiths soltos pela cidade, e se estiverem em contato com os ca�adores atr�s de n�s, os que est�o em cima dir�o para os outros fecharem a galeria.</p><p>Os olhos dela se estreitaram.</p><p>- Talvez n�o. As duplas de ca�a dificilmente trabalham juntas. Cada par quer a presa para si.<emphasis> Maldi��o,</emphasis> como eu queria uma arma!</p><p>Dirk ignorou o coment�rio final.</p><p>- N�o podemos correr nenhum risco - ele falou.</p><p>Nesse momento, as brilhantes luzes sobre a cabe�a deles come�aram a piscar, diminuindo abruptamente para uma p�lida penumbra cinzenta, e simultaneamente a esteira rolante sob seus p�s deu um tranco e come�ou a ir mais devagar. Gwen trope�ou, mas Dirk a segurou pelo bra�o. A esteira mais lenta parou primeiro, depois a seguinte e, finalmente, a esteira em que estavam.</p><p>Gwen estremeceu e ergueu os olhos para Dirk, e ele a abra�ou apertado, tirando desesperadamente a confian�a que precisava do calor e da proximidade do corpo dela.</p><p>De baixo deles - Dirk jurava que o som vinha<emphasis> de baixo</emphasis> deles, da dire��o para onde a esteira rolante os levava - veio um grito �spero e n�o muito distante.</p><p>Gwen soltou-se dele. N�o falaram nada. Moveram-se de uma esteira para outra, pelas linhas de tr�fico sombrias e vazias, em dire��o � passagem que os tiraria da perigosa galeria e para dentro dos corredores novamente. Dirk olhou de relance para os n�meros enquanto passavam da penumbra cinzenta para a azul: andar 468. Quando os carpetes engoliram seus passos novamente, come�aram a correr, atravessando rapidamente o primeiro longo corredor, ent�o viraram uma e outra vez, algumas vezes para a direita, outras para a esquerda, escolhendo ao acaso as dire��es. Correram at� ficarem sem f�lego, ent�o pararam e se jogaram no carpete sob a luz de um globo p�lido e azulado.</p><p>- O que foi isso? - ele finalmente falou, quando retomou o f�lego.</p><p>Gwen ainda estava ofegante, arfando pelo esfor�o da corrida. Haviam percorrido um longo trecho. Ela lutava para recuperar o f�lego. L�grimas silenciosas escorriam por seu rosto sob a luz azul.</p><p>- O que voc�<emphasis> acha</emphasis> que era? - disse, finalmente, com a voz crispada. - Era um quase-homem, gritando.</p><p>Dirk abriu a boca e sentiu gosto de sal. Tocou a umidade em seu rosto e se perguntou havia quanto tempo estava chorando.</p><p>- Mais Braiths, ent�o - respondeu.</p><p>- Embaixo de n�s - ela concordou. - E encontraram uma v�tima. Maldi��o, maldi��o,<emphasis> maldi��o</emphasis>! N�s os trouxemos at� aqui, � nossa culpa. Como pudemos ser t�o est�pidos? Jaan sempre temeu que eles come�assem a ca�ar nas cidades.</p><p>- Eles come�aram ontem - Dirk falou - com os filhos da lesma vinhonegrinos. Era s� uma quest�o de tempo at� chegarem aqui. N�o carregue...</p><p>Ela virou o rosto para ele, com as fei��es desfiguradas pela raiva e as faces marcadas pelas l�grimas.</p><p>- O qu�? - cuspiu. - Voc� n�o acha que somos respons�veis? Quem mais, ent�o? Bretan Braith seguiu<emphasis> voc�</emphasis>, Dirk. Por que viriam at� aqui? Dev�amos ter ido para D�cimo-Segundo Sonho, para Musquel, para Esvoch. Cidades vazias. Ningu�m seria machucado. Agora os emerelianos ser�o... Quantos residentes a Voz falou que ainda restavam?</p><p>- N�o me lembro. Quatrocentos, acho. Algo assim. - Tentou colocar o bra�o ao redor dela e pux�-la em sua dire��o, mas ela se encolheu e olhou furiosa para ele.</p><p>- � nossa culpa - disse. - Temos que fazer alguma coisa.</p><p>- Tudo o que podemos fazer � tentar permanecer vivos - ele respondeu. - Est�o atr�s de n�s, lembra? N�o podemos nos preocupar com os demais. - Gwen o encarava, seu rosto duro de... de qu�? Talvez desprezo, Dirk pensou. O rosto dela o sobressaltou.</p><p>- N�o acredito no que est� dizendo - ela falou. - Voc� n�o consegue pensar em ningu�m al�m de si mesmo? Maldi��o, Dirk, n�s ao menos contamos com o anulador de odores. Os emerelianos n�o t�m absolutamente nada. Nenhuma arma, nenhuma prote��o. Eles s�o quase-homens, presas apenas.<emphasis> Temos que fazer alguma coisa!</emphasis></p><p>- O qu�? Cometer suic�dio? � isso? Voc� n�o queria que eu fosse contra Bretan esta manh�, em duelo, mas agora voc�...</p><p>- Sim! Temos que fazer isso. Voc� n�o teria falado assim em �valon - ela o recriminou, sua voz ficando cada vez mais alta at� quase tornar-se um grito. - Voc� era diferente naquela �poca. <emphasis>Jaan</emphasis> n�o teria...</p><p>Parou, repentinamente ciente das pr�prias palavras, e desviou o olhar dele. Ent�o, come�ou a solu�ar. Dirk permaneceu sentado, im�vel.</p><p>- Ent�o � isso - ele disse, depois de um tempo, com a voz tranq�ila. - Jaan n�o teria pensado em si mesmo, certo? Jaan teria bancado o her�i.</p><p>Gwen olhou para ele novamente.</p><p>- Teria, voc� sabe.</p><p>Ele assentiu.</p><p>- Teria. Talvez eu tamb�m tivesse, antigamente. Talvez voc� esteja certa. Talvez eu tenha mudado. N�o sei mais nada. -</p><p>Sentia-se enjoado, cansado e derrotado, e muito envergonhado. Seus pensamentos iam de um lado para o outro e davam voltas sem parar. Os dois estavam certos, pensou. Eles<emphasis> haviam</emphasis> trazido os Braiths at� Desafio, at� centenas de v�timas inocentes. A culpa era deles; Gwen estava certa. E sim,<emphasis> ele</emphasis> estava certo tamb�m, n�o podiam fazer nada agora, nada. Aquilo podia ser ego�smo, mas n�o deixava de ser verdade.</p><p>Gwen chorava abertamente. Dirk esticou o bra�o novamente, e dessa vez ela deixou que ele a abra�asse e tentasse confort�-la com seus carinhos. Mas enquanto alisava os longos cabelos negros dela e lutava para conter as pr�prias l�grimas, ele compreendeu que aquilo era in�til, que n�o mudava nada. Os Braiths estavam ca�ando, matando - e ele n�o podia impedi-los. Dificilmente conseguiria salvar a si mesmo. N�o era o antigo Dirk, no final das contas, o Dirk de �valon, n�o. E a mulher em seus bra�os n�o era Jenny. Ambos eram apenas presas.</p><p>Ent�o repentinamente teve uma id�ia.</p><p>- Sim - disse em voz alta.</p><p>Gwen olhou para ele, e Dirk ficou imediatamente em p�, ajudando-a a se levantar em seguida.</p><p>- Dirk? - ela perguntou.</p><p>- Podemos fazer alguma coisa - ele falou, e a levou at� a porta do apartamento mais pr�ximo. Abriu-a com facilidade e foi at� a tela na parede ao lado da cama. As luzes do quarto estavam apagadas; a �nica ilumina��o era o comprido ret�ngulo azul opaco que vinha da porta aberta. Gwen ficou parada no v�o da porta, incerta, uma silhueta l�gubre e escura.</p><p>Dirk ligou a tela, sendo obrigado a esperar, e quando ela se iluminou, respirou mais aliviado. Virou-se para Gwen.</p><p>- O que voc� vai fazer? - ela lhe perguntou.</p><p>- Diga-me o n�mero da sua casa - ele respondeu.</p><p>Ela compreendeu. Assentiu lentamente e ditou-lhe os n�meros. Ele teclou um por um e esperou. O sinal intermitente de chamada iluminou o quarto. Quando se dissipou, os padr�es de luz se redesenharam formando as fei��es de Jaan Vikary.</p><p>Ningu�m falou. Gwen se adiantou para ficar atr�s de Dirk, uma m�o no ombro dele. Vikary olhou para eles em sil�ncio, e Dirk temeu, por um longo momento, que desligasse a tela e os deixasse � pr�pria sorte.</p><p>Ele n�o fez isso. Em vez disso, falou para Dirk:</p><p>- Voc� era um irm�o de grupo. Confiei em voc�. - Ent�o seus olhos foram para Gwen. - E eu amei voc�.</p><p>- Jaan - ela disse, r�pida e suavemente, em uma voz que era quase um sussurro, e Dirk duvidou que Jaan a tivesse ouvido. Ent�o ela n�o aguentou, virou-se e saiu rapidamente do quarto.</p><p>Mesmo assim, Vikary n�o interrompeu a comunica��o.</p><p>- Vejo que est�o em Desafio. Por que ligou, t'Larien? Sabe o que temos que fazer com voc�, meu<emphasis> teyn</emphasis> e eu?</p><p>- Sei - Dirk falou. - Correrei o risco. Tenho que contar para voc�. Os Braiths nos seguiram. De algum modo, n�o sei como, nunca pensamos que pudessem nos rastrear. Mas est�o aqui. Bretan Braith Lantry desligou o computador da cidade e parece controlar grande parte da energia restante. Os outros... est�o com matilhas de ca�a aqui. Est�o pelos corredores.</p><p>- Entendo. - Vikary comentou. Uma emo��o ileg�vel e estranha cruzou seu rosto. - Os residentes?</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Voc�s vir�o?</p><p>Vikary sorriu muito de leve, e n�o havia alegria naquele sorriso.</p><p>- Est� pedindo minha ajuda, Dirk t'Larien? - Sacudiu a cabe�a. - N�o, n�o devo brincar, n�o � voc� quem pede, n�o � para voc�. Entendo isso. Para os outros, os emerelianos, sim, Garse e eu iremos. Levaremos nossos broches e faremos<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro aqueles que encontrarmos antes dos ca�adores. Mesmo assim, isso levar� tempo, talvez tempo demais. Muitos morrer�o. Ontem, na Cidade do Tanque sem Estrelas, uma criatura chamada M�e sofreu uma morte s�bita. Os filhos da lesma... voc� conhece os filhos da lesma vinhonegrinos, t'Larien?</p><p>- Sim. Bastante.</p><p>- Eles sa�ram da M�e para encontrar outra, e n�o acharam nenhuma. Durante d�cadas, viveram dentro desse enorme hospedeiro, outros de seu mundo capturaram a criatura no Mundo do Oceano Vinhonegro e a trouxeram para Worlorn, e depois a abandonaram. As rela��es entre os filhos da lesma e outros vinhonegrinos que n�o participam do culto n�o s�o boas. De modo que sa�ram aos montes, uma centena deles ou mais, e percorreram a cidade, enchendo-a com s�bita vida, sem saber onde estavam ou por qu�. A maioria era velha, muito velha. Em p�nico, come�aram a despertar a cidade morta, ent�o Roseph Alto-Braith os encontrou. Fiz o que pude, protegi alguns. Os Braiths encontraram muitos outros, porque levou tempo. Farei o mesmo em Desafio. Os que sa�rem correndo pelos corredores ser�o ca�ados e mortos, muito antes que meu<emphasis> teyn</emphasis> e eu possamos ajudar. Entendeu?</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- N�o � o suficiente me ligar. - Vikary prosseguiu. - Voc� deve agir por conta pr�pria. Bretan Braith Lantry quer voc�, e ningu�m mais. Ele pode at� permitir que voc� duele. Os outros querem apenas ca��-lo, como um quase-homem, mas ainda assim o cobi�am como presa mais valiosa. Mostre-se, t'Larien, e ir�o atr�s de voc�. Para os emerelianos escondidos ao seu redor, esse tempo ser� importante.</p><p>- Entendo. - Dirk falou. - Voc� quer que Gwen e eu...</p><p>Vikary ficou visivelmente contrariado.</p><p>- N�o, Gwen n�o.</p><p>- Eu, ent�o. Voc� quer que eu chame a aten��o deles? Sem uma arma?</p><p>- Voc� tem uma arma - Vikary falou. - Voc� mesmo a roubou, insultando Jadeferro. Se vai us�-la ou n�o � uma decis�o que apenas voc� pode tomar. N�o confiarei em voc� para fazer a escolha correta. J� fiz isso uma vez. Simplesmente o informo. Outra coisa, t'Larien. O que quer que fa�a ou deixe de fazer, isso n�o muda nada entre mim e voc�. Esta chamada n�o muda nada. Voc� sabe o que temos que fazer.</p><p>- Voc� j� me disse. - Dirk respondeu.</p><p>- Digo uma segunda vez. Quero que se lembre. - Vikary franziu o cenho. - E agora partirei. � um longo voo para Desafio, um longo e frio v�o.</p><p>A tela ficou escura antes que Dirk pudesse pensar em uma resposta.</p><p>Gwen estava esperando do lado de fora da porta, inclinada contra a parede acarpetada, o rosto escondido entre as m�os. Endireitou-se quando Dirk saiu.</p><p>- Est�o vindo? - perguntou.</p><p>- Sim.</p><p>- Sinto muito, eu... sa�. N�o pude encar�-lo.</p><p>- N�o importa.</p><p>- <emphasis>Importa.</emphasis></p><p>- N�o - ele disse terminantemente. Seu est�mago do�a. Ficava imaginando gritos distantes. - N�o importa. Voc� deixou claro antes... como se sente.</p><p>- Deixei? - ela riu. - Se sabe como me sinto, voc� me conhece melhor do que eu mesma, Dirk.</p><p>- Gwen, eu n�o... n�o, escute, n�o importa. Voc� tinha raz�o. Temos que... Jaan disse que temos uma arma.</p><p>Ela franziu o cenho.</p><p>- Temos? Ele acha que eu trouxe a arma de dardos? Ou o qu�?</p><p>- N�o, n�o acho. Ele s� disse que temos uma arma, que a roubamos n�s mesmos e insultamos Jadeferro.</p><p>Ela fechou os olhos.</p><p>- O qu�? - disse. - � claro. - Abriu os olhos novamente. - O aerom�vel. � armado com canh�es de laser. Deve ser o que ele quis dizer. Mas n�o est�o carregados. Acho que nem est�o conectados. Era eu quem usava esse aerom�vel a maior parte do tempo, e Garse...</p><p>- Entendo. Mas acha que os lasers podem ser consertados? Eles podem funcionar?</p><p>- Talvez. N�o sei. Mas o que mais Jaan podia querer dizer?</p><p>- Os Braiths devem ter encontrado o carro, � claro. - Dirk comentou. Sua voz era fria e calma. - Teremos que nos arriscar. Vamos nos esconder... n�o podemos nos esconder, eles nos encontrar�o. Bretan pode estar a caminho bem agora, se minha transmiss�o para Larteyn foi registrada em algum lugar l� embaixo. N�o, vamos voltar para o aerom�vel. Eles n�o v�o esperar por isso, se sabem que est�vamos descendo pela galeria.</p><p>- O aerom�vel est� a cinq�enta e dois andares acima - Gwen lembrou. - Como vamos chegar l�? Se Bretan tem tanto controle sobre a energia quanto achamos que tem, certamente desligou os elevadores. Ele parou as esteiras rolantes.</p><p>- Ele sabia que est�vamos usando as esteiras rolantes - Dirk falou. - Ou pelo menos que est�vamos na galeria. Os que estavam nos rastreando falaram para ele. Eles<emphasis> est�o</emphasis> em contato, Gwen. Os Braiths. T�m que estar. As esteiras pararam de modo muito conveniente. Mas isso facilita as coisas.</p><p>- Facilita? O qu�?</p><p>- Chamar a aten��o deles - ele falou. - Para que venham atr�s de n�s, para salvar os benditos emerelianos. E isso o que Jaan quer que fa�amos. N�o � o que voc� quer? - sua voz era cortante.</p><p>Gwen empalideceu visivelmente.</p><p>- Bem - disse. - Sim.</p><p>- Ent�o voc� venceu. Vamos fazer isso.</p><p>Ela olhou pensativa.</p><p>- Os elevadores, ent�o? Se ainda estiverem funcionando?</p><p>- N�o podemos confiar nos elevadores - Dirk falou. - Mesmo se estiverem funcionando, Bretan pode par�-los quando estivermos dentro de um deles.</p><p>- N�o sei se h� escadas - ela disse. - E nunca encontraremos sem a Voz, mesmo se existirem. Podemos andar pela galeria, mas...</p><p>- Sabemos que pelo menos dois pares de Braiths est�o percorrendo a galeria. Deve haver mais. N�o.</p><p>- Ent�o como?</p><p>- O que nos resta? - Dirk franziu o cenho. - O espig�o central.</p><p>Dirk se inclinou por sobre a grade de ferro fundido, olhando para cima e para baixo, e ficou tonto. O espig�o central parecia seguir infinitamente em ambas as dire��es. Eram apenas dois quil�metros do topo at� a base, ele sabia, mas tudo ali dava a sensa��o de dist�ncia infinita. As correntes ascendentes de ar quente que divertiam os visitantes com a flutuabilidade de uma pena tamb�m enchiam o espa�o com uma n�voa branco-acinzentada, e os balc�es que se alinhavam pela circunfer�ncia, andar ap�s andar, eram todos id�nticos, dando a ilus�o de uma repeti��o sem-fim.</p><p>Gwen pegou algo de seu pacote de sensores, um instrumento met�lico prateado do tamanho da palma de sua m�o. Ficou parada perto de Dirk e o jogou suavemente no v�o do espig�o central. Os dois o observaram flutuar, girando mais e mais, piscando com a luz refletida. Flutuou at� metade do di�metro do grande cilindro antes que come�asse a cair lentamente, gentilmente, meio suportado pelo ar ascendente, um gr�o de poeira met�lica dan�ando na luz solar artificial. Observaram por uma eternidade, at� que desaparecesse no abismo cinza embaixo deles.</p><p>- Bem - Gwen falou, depois que perderam o instrumento de vista -, a gravidade artificial ainda est� funcionando.</p><p>- Sim. Bretan n�o conhece a cidade. N�o o suficiente. - Dirk olhou de relance para cima, novamente. - Acho que devemos come�ar. Quem vai primeiro?</p><p>- Os homens primeiro - ela disse.</p><p>Dirk abriu o port�o do balc�o e retrocedeu at� a parede. Tirou uma mecha de cabelo dos olhos impacientemente, deu de ombros e saiu correndo, dando o maior impulso que conseguiu quando chegou na beirada.</p><p>O impulso o levou para cima e ainda mais para<emphasis> cima.</emphasis> Por um segundo, era como se ca�sse, e o est�mago de Dirk se contraiu, mas ent�o olhou, viu e sentiu que n�o estava caindo, estava voando, subindo. Riu alto, repentinamente exultante, levou os bra�os adiante e come�ou a dar fortes bra�adas, nadando mais alto e mais r�pido. As fileiras de balc�es vazios passavam por ele: um andar, dois, cinco. Cedo ou tarde, come�aria a cair, uma lenta curva descendente at� a dist�ncia envolta de cinza, mas dificilmente teria tempo de descer muito. O outro lado do espig�o central estava a apenas trinta metros de dist�ncia, uma dist�ncia f�cil de atravessar com a gravidade artificial do v�o.</p><p>Finalmente, aproximou-se de uma parede curva e ricocheteou em um corrim�o de ferro negro, girando sobre si mesmo e rodando absurdamente antes de alcan�ar e agarrar uma barra do balc�o bem acima do corrim�o em que batera. Foi f�cil entrar. Viera sem problemas pelo espig�o central e estava onze andares acima. Sorrindo e sentindo-se estranhamente animado, sentou-se e reuniu for�as para um segundo salto enquanto observava Gwen vindo atr�s dele. Voava como algum gracioso p�ssaro fabuloso, seu cabelo negro ondulando enquanto ela flutuava. Parou dois andares acima dele.</p><p>Quando chegaram ao 520� andar, Dirk tinha hematomas em meia d�zia de lugares em que batera contra varandas de ferro, mas sentia-se quase bem. Ao final de seu sexto salto vertiginoso pelo v�o do espig�o, estava quase relutante em chegar ao seu destino e retornar � gravidade normal. Mas chegou. Gwen j� estava ali, esperando por ele, com o pacote de sensores e os suprimentos de campo presos �s costas, entre as omoplatas. Ela lhe estendeu a m�o e o ajudou a entrar no balc�o.</p><p>Seguiram pelo amplo corredor que circundava o espig�o central, at� as j� familiares sombras azuis.</p><p>Os globos brilhavam fracamente nos cruzamentos em cada lado deles, onde compridas passagens retas se afastavam do centro da cidade como raios em uma roda enorme. Escolheram um ao acaso e avan�aram rapidamente em dire��o ao per�metro. Era uma caminhada mais longa do que Dirk imaginara, passando por v�rios outros cruzamentos (ele perdera a conta em quarenta), cada um como os demais, passando por portas negras que diferiam umas das outras apenas pela numera��o. Nem ele nem Gwen falavam. A sensa��o agrad�vel que o tocara por um breve tempo, a alegria de voar sem asas, deixou-o t�o subitamente quanto viera enquanto ele caminhava pela meia-luz turva. No lugar dela, assaltou-o uma fraca sensa��o de medo. Ru�dos imagin�rios atazanavam seus ouvidos: uivos distantes e as suaves pegadas de seus perseguidores. Seus olhos transformavam os globos de luz mais distantes em algo estranho e terr�vel, e Dirk via formas nos cantos cobalto onde s� havia escurid�o. Mas n�o encontraram nada, ningu�m; era apenas sua mente pregando pe�as.</p><p>Contudo, os Braiths tinham estado ali. Perto do per�metro de Desafio, onde o corredor transversal cruzava com a galeria exterior, encontraram um dos ve�culos de roda-bal�o que a Voz usava para levar os visitantes de um lado para outro. Estava vazio e virado, parte no carpete azul, parte no limpo e frio pl�stico que cobria o ch�o da galeria. Quando chegaram l�, pararam, e os olhos de Gwen encontraram os de Dirk em um coment�rio sem palavras. Os carros de roda-bal�o, ele se lembrou, n�o eram controlados pelos passageiros; a Voz os dirigia. E apenas um estava ca�do desse lado, sem energia ou movimento. Tamb�m notou outra coisa. Perto de uma roda traseira o carpete azul estava �mido e malcheiroso.</p><p>- Vamos - Gwen sussurrou, e voltaram a percorrer a galeria silenciosa, esperando que os Braiths que tinham estado por ali tivessem partido ou que n�o pudessem ouvi-los. A pista de aterrissagem e o carro deles estavam muito pr�ximos agora; seria uma ironia cruel se n�o conseguissem alcan��-los. Mas parecia para Dirk que seus passos ecoavam horrivelmente altos na superf�cie n�o acarpetada da galeria. Certamente o pr�dio inteiro podia ouvi-los, mesmo Bretan Braith nos s�t�os profundos, quil�metros abaixo. Quando chegaram � passarela de pedestres que passava por sobre as esteiras rolantes, come�aram a correr. Ele n�o saberia dizer quem come�ou, se Gwen ou ele. Em um momento caminhavam lado a lado, tentando mover-se o mais r�pido poss�vel, com menos barulho que conseguissem fazer; ent�o, repentinamente, estavam correndo.</p><p>Depois da galeria n�o acarpetada, passaram por duas voltas e uma porta larga que parecia relutante em abrir. Finalmente Dirk a empurrou com seu ombro coberto de hematomas, e ambos gemeram em protesto, mas a porta se abriu. Finalmente estavam novamente na pista de aterrissagem do 520� andar de Desafio.</p><p>A noite estava fria e escura. Podiam ouvir o eterno vento de Worlorn choramingando contra a torre emereliana, e uma �nica estrela brilhando no comprido e baixo ret�ngulo que demarcava o c�u do mundo exterior. Do lado de dentro, a pista de aterrissagem estava igualmente escura.</p><p>Nenhuma luz se acendeu quando entraram.</p><p>Mas o aerom�vel ainda estava l�, encurvado na escurid�o como uma coisa viva, como o banshee que pretendia retratar, e nenhum Braith estava de guarda.</p><p>Aproximaram-se do ve�culo. Gwen pegou o pacote de sensores e os suprimentos de campo e colocou-os no banco traseiro, onde os aeropatinetes ainda estavam guardados. Dirk ficou observando-a, tremendo; o sobretudo de Ruark se fora, e o ar estava g�lido naquela noite.</p><p>Gwen tocou em um controle do painel de instrumentos, e uma fenda escura se abriu no centro da parte superior da arraia. Pain�is de metal correram para tr�s e para cima, e as entranhas da m�quina kavalariana estavam diante deles. Ela se aproximou da dianteira e acendeu uma luz na parte inferior de um dos pain�is. O outro painel, Dirk viu, estava coberto de ferramentas de metal presas em clipes.</p><p>Gwen, de p� em uma pequena �rea iluminada com luz amarela, estudava o intrincado mecanismo. Dirk se aproximou. Finalmente, ela balan�ou a cabe�a.</p><p>- N�o - disse, em uma voz cansada. - N�o funciona.</p><p>- Podemos tirar energia do controle de gravidade - Dirk sugeriu. - Voc� tem as ferramentas - apontou.</p><p>- N�o tenho conhecimento suficiente para isso - ela disse. - Um pouco, sim. Esperava ser capaz de descobrir... voc� sabe. N�o posso. � mais do que apenas uma quest�o de energia. Os lasers das asas n�o est�o nem conectados. Pelo que podem nos servir, daria no mesmo se fossem de enfeite. - Voltou-se para Dirk. - Imagino que voc� n�o...</p><p>- N�o - ele confirmou.</p><p>Ela assentiu.</p><p>- N�o temos armas, ent�o.</p><p>Dirk parou e olhou para al�m da arraia, na dire��o do c�u vazio de Worlorn.</p><p>- Pod�amos voar para fora daqui.</p><p>Gwen puxou os pain�is, um com cada m�o, e os fechou novamente, e mais uma vez o escuro banshee estava inteiro e feroz. Sua voz estava inexpressiva.</p><p>- N�o. Lembre-se do que voc� disse. Os Braiths estar�o l� fora. Os carros deles estar�o armados. N�o ter�amos chance. N�o. - Passou por Dirk e entrou no aerom�vel.</p><p>Depois de um tempo, ele a seguiu. Sentou-se meio torto no assento, para que pudesse olhar a solit�ria estrela no frio c�u noturno. Sabia que estava muito cansado, e tamb�m que esse esgotamento era mais do que f�sico. Desde que chegara a Desafio, suas emo��es o castigaram como ondas sobre uma praia, uma ap�s a outra, mas repentinamente parecia que o oceano se fora. N�o sobraram mais ondas.</p><p>- Suponho que voc� estava certa, antes, no corredor - ele disse, em uma voz introspectiva. N�o estava olhando para Gwen.</p><p>- Certa? - ela perguntou.</p><p>- Sobre ser ego�sta. Sobre... voc� sabe... sobre n�o ser um cavaleiro branco.</p><p>- Um cavaleiro branco?</p><p>- Como Jaan. Talvez eu nunca tenha sido um cavaleiro branco, mas, em Avalon, eu gostava de pensar que era. Eu acreditava em coisas. Agora, nem consigo lembrar o que eram. Exceto voc�, Jenny. De voc�, eu me lembrei. Foi por isso, bem, voc� entende. Nos �ltimos sete anos, fiz coisas, nada terr�vel, voc� sabe, mesmo assim, coisas que n�o teria feito em Avalon. Coisas c�nicas, coisas ego�stas. Mas at� agora ningu�m morreu por minha culpa.</p><p>- N�o se fa�a de v�tima, Dirk - ela disse. Sua voz estava exausta tamb�m. - N�o � atraente.</p><p>- Quero fazer alguma coisa. - Dirk prosseguiu. - Tenho que fazer. Eu s�... voc� sabe. Voc� estava certa.</p><p>- N�o podemos fazer nada, exceto fugir e morrer, e isso n�o vai ajudar em nada. N�o temos uma arma.</p><p>Dirk riu amargamente.</p><p>- Ent�o vamos esperar que Jaan e Garse venham nos salvar, e ent�o... nosso reencontro teve uma vida terrivelmente curta, n�o foi?</p><p>Ela se inclinou para a frente sem responder e apoiou a cabe�a no antebra�o sobre o painel de instrumentos. Dirk olhou para ela de relance e depois para fora novamente. Ainda estava com frio, com aquelas roupas finas, mas de algum modo isso n�o parecia importante.</p><p>Ficaram sentados em sil�ncio na arraia.</p><p>At� que finalmente Dirk se virou e colocou uma m�o no ombro de Gwen.</p><p>- A arma - disse, em uma voz estranhamente animada. - Jaan disse que t�nhamos uma arma.</p><p>- Os lasers no aerom�vel - Gwen respondeu. - Mas...</p><p>- N�o. - Dirk a interrompeu com um sorriso s�bito. - N�o, n�o,<emphasis> n�o!</emphasis></p><p>- O que mais ele poderia querer dizer?</p><p>Em resposta, Dirk estendeu o bra�o e ligou os ascensores do aerom�vel. O banshee de metal cinza voltou � vida e se elevou ligeiramente do solo.</p><p>- O carro - ele disse. - O pr�prio carro.</p><p>- Os Braiths l� fora t�m carros - ela lembrou. - Carros<emphasis> armados.</emphasis></p><p>- Sim - Dirk respondeu. - Mas Jaan e eu n�o est�vamos falando sobre os Braiths l� fora. Est�vamos falando sobre as duplas de ca�a<emphasis> aqui dentro,</emphasis> as que estavam percorrendo as galerias e matando pessoas!</p><p>A compreens�o iluminou o rosto de Gwen como a luz do sol. Ela sorriu.</p><p>- Sim - disse com entusiasmo; tocou nos controles e a arraia rosnou, e de algum lugar sob o cap� colunas brilhantes de luz branca se espalharam para perseguir a escurid�o diante deles.</p><p>Enquanto ela manobrava a meio metro do ch�o, Dirk desceu pelas asas, correu at� a porta maltratada e usou seu ombro igualmente castigado para abrir um segundo painel, amplo o suficiente para que o aerom�vel sa�sse. Ent�o Gwen moveu a arraia na dire��o dele, e ele subiu novamente.</p><p>Algum tempo depois, flutuavam pela galeria, perto de onde o carro de rodas-bal�o estava virado. Os feixes luminosos dos far�is oscilaram pelas esteiras rolantes e pelas lojas havia muito desertas e apontaram para a frente, iluminando o caminho que os conduziria para baixo, em espiral, pela alta torre de Desafio, at� finalmente chegar ao t�rreo.</p><p>- Voc� percebeu - Gwen comentou antes de sa�rem - que estamos na m�o errada? O tr�fego de descida deveria estar do outro lado do corredor central.</p><p>- Isso � proibido, sem d�vida, pelas normas de di-Emerel - Dirk sorriu. - Mas n�o acho que a Voz v� se incomodar.</p><p>Gwen devolveu o sorriso, tocou nos instrumentos, e a arraia sob eles arrancou e acelerou. Ent�o, por um longo tempo, fizeram vento enquanto deslizavam pela penumbra cinzenta, cada vez mais r�pido. Gwen estava nos controles, p�lida e com os l�bios apertados, e Dirk, ao seu lado, observava de bra�os cruzados os n�meros dos andares, enquanto corredor ap�s corredor passava por eles.</p><p>Ouviram os Braiths muito antes de v�-los - os uivos novamente, os latidos selvagens que eram diferentes de qualquer som canino que Dirk j� ouvira, ainda mais selvagens pelos ecos que reverberavam na galeria. Quando ouviu a matilha, Dirk estendeu a m�o e apagou os far�is do aerom�vel.</p><p>Gwen olhou para ele interrogativamente.</p><p>- N�o fazemos muito barulho - ele disse. - Nunca nos ouvir�o com os uivos e seus pr�prios gritos. Mas podem ver as luzes chegando por tr�s. Certo?</p><p>- Certo - ela respondeu. Nada mais. Estava concentrada no aerom�vel. Dirk a observou sob a luz p�lida e cinzenta que restava para eles. Seus olhos eram jade novamente, duros e polidos, t�o zangados quanto os de Garse Janacek ficavam algumas vezes. Ela tinha sua arma finalmente, e os ca�adores kavalarianos estavam em algum lugar adiante.</p><p>Perto do andar 497, passaram por uma �rea repleta de panos rasgados que esvoa�avam e se agitaram com sua descida. Um peda�o maior do que os outros permaneceu parado no meio da galeria. Os restos de um sobretudo de retalhos marrom, feito em tiras.</p><p>Adiante, os uivos ficavam mais fortes e mais altos.</p><p>Um sorriso passou brevemente pelos l�bios de Gwen. Dirk viu e recordou, intrigado, sua gentil Jenny de �valon. Ent�o viram as figuras, pequenas formas negras na galeria sombria, formas que se transformaram rapidamente em homens e c�es conforme a arraia corria na dire��o deles. Cinco dos grandes c�es de ca�a corriam livremente pela galeria, nos calcanhares de um sexto, maior do que todos eles, preso na extremidade de duas pesadas correntes negras. Dois homens estavam na outra ponta das correntes, trope�ando atr�s da matilha enquanto o imenso c�o l�der os levava adiante.</p><p>Ficavam cada vez maiores. Como cresciam<emphasis> r�pido!</emphasis></p><p>Os c�es foram os primeiros a ouvir o aerom�vel. O l�der lutou para se virar, e uma das correntes foi arrancada da m�o do ca�ador. Tr�s dos c�es soltos deram a volta, rosnando, e um quarto come�ou a correr para cima, ao encontro do ve�culo que descia em alta velocidade. Os homens pareceram confusos por um instante. Um estava enroscado na corrente que segurava quando o c�o l�der mudou de dire��o. O outro, de m�os vazias, tateou o quadril em busca de algo.</p><p>Gwen acendeu as luzes. Na semiescurid�o, os olhos da arraia eram cegantes.</p><p>O aerom�vel os alcan�ou.</p><p>As impress�es rolaram sobre Dirk uma ap�s a outra. Um uivo persistente que abruptamente se transformou em um grito de dor; o impacto sacudiu a arraia. Selvagens olhos vermelhos brilhando horrivelmente perto, uma cara de rato e dentes amarelos cheios de baba, ent�o o impacto novamente, outra sacudida, um estalo. Mais impactos, ru�dos repugnantes de carne, um, dois, tr�s. Um grito, um grito bem humano, e ent�o o perfil de um homem contra a luz dos far�is. Pareceu que levou uma hora at� alcan��-lo. Era um homem robusto e maci�o, ningu�m que Dirk conhecesse, vestido com cal�as grossas e jaqueta de tecido-camale�o que parecia mudar de cor enquanto se aproximavam. Suas m�os estavam na frente dos olhos, uma delas segurando um in�til laser de duelo, e Dirk pode ver o brilho do metal do bracelete sobre a manga do homem. Cabelos brancos ca�am at� os ombros.</p><p>Ent�o, repentinamente, depois de uma eternidade em c�mara lenta, o homem se foi. A arraia sacudiu novamente. Dirk saltou no assento.</p><p>Na frente estava uma vastid�o cinzenta, a comprida galeria curva.</p><p>Atr�s - Dirk se virou para olhar -, um c�o de ca�a os perseguia, arrastando duas correntes barulhentas enquanto corria. Mas foi ficando cada vez menor e menor. Formas escuras enchiam a fria rua de pl�stico. Nem bem Dirk come�ara a cont�-los e j� estavam fora de sua vista. Um pulso de luz brilhou brevemente sobre suas cabe�as, vindo de algum lugar distante.</p><p>Em pouco tempo, ele e Gwen estavam sozinhos novamente e n�o havia outro ru�do que n�o o sussurro de sua descida. O rosto dela estava r�gido, as m�os firmes. As dele, n�o.</p><p>- Acho que os matamos - ele disse.</p><p>- Sim - ela respondeu. - Matamos. Alguns c�es tamb�m. - Ficou em sil�ncio por um instante. Ent�o, disse. - O nome dele, se me lembro bem, era Teraan Braith alguma coisa.</p><p>Ambos ficaram em sil�ncio. Gwen desligou os far�is mais uma vez.</p><p>- O que est� fazendo? - Dirk perguntou.</p><p>- H� mais adiante - ela respondeu. - Lembre-se do grito que ouvimos.</p><p>- Sim. - Ele pensou por um tempo. - O carro ag�enta mais batidas?</p><p>Ela sorriu de leve.</p><p>- Ah - disse. - O c�digo de honra kavalariano tem v�rios modos a�reos. Aerom�veis s�o freq�entemente escolhidos como armas. S�o aparatos muito fortes. Este carro � constru�do para ag�entar tiros a laser o m�ximo de tempo poss�vel. A blindagem... Precisa que continue?</p><p>- N�o. - Ele fez uma pausa. - Gwen.</p><p>-Sim?</p><p>- N�o mate mais ningu�m.</p><p>Ela olhou de relance para ele.</p><p>- Eles est�o ca�ando os emerelianos - disse - e quem quer que teve o azar de ficar em Desafio. Eles nos ca�ariam sem o menor pudor.</p><p>- Mesmo assim - ele pediu. - Podemos afugent�-los, ganhar algum tempo para os demais. Jaan estar� aqui logo. Ningu�m precisa ser morto.</p><p>Ela suspirou e reduziu a velocidade do aerom�vel.</p><p>- Dirk - come�ou a dizer. Ent�o viu alguma coisa no caminho e reduziu a velocidade ao m�nino. - Ali. Olhe - apontou.</p><p>A luz estava t�o fraca que era dif�cil ver as coisas com clareza at� que se aproximassem, e ent�o... uma carca�a de algum tipo, ou o que restara dela. No centro da galeria, r�gida e ensang�entada. Peda�os de carne estavam espalhados por todo lado. Havia sangue seco escuro no pl�stico.</p><p>- Deve ser a v�tima que ouvimos mais cedo. - Gwen sup�s em um tom coloquial. - Ca�adores de quase-homens n�o comem sua presa, voc� sabe. N�o pensam duas vezes antes de dizer que as criaturas n�o s�o humanas, apenas algum tipo de animal semi-senciente, e acreditam nisso. Mesmo assim, o fedor de canibalismo � muito forte, mesmo para eles, ent�o n�o ousam. Mesmo antigamente, em Alto Kavalaan, durante a era da escurid�o, os grupos de ca�adores nunca comeram a carne dos quase-humanos que abatiam. Deixavam para os deuses, para as mariposas carniceiras, para os besouros da areia. Depois de ter dado um peda�o para os c�es provarem, � claro, como recompensa. Os ca�adores tinham seus trof�us, no entanto. A cabe�a. V� o torso ali? Mostre-me a cabe�a.</p><p>Dirk se sentiu enjoado.</p><p>- A pele tamb�m. - Gwen continuou. - Eles levam facas de esfola. Ou levavam. Lembre-se, a ca�a de quase-homens est� banida em Alto Kavalaan h� gera��es. At� o conselho de altos-senhores de Braith se pronunciou contra. Tais matan�as que esses ca�adores remanescentes fazem s�o sub-rept�cias. Eles t�m que esconder seus trof�us, exceto entre eles mesmos. Aqui, no entanto, bem, deixe-me dizer que Jaan espera que os Braiths permane�am em Worlorn o m�ximo que puderem. Segundo me disse, falam de renunciar a Braith, de trazer suas<emphasis> betheyn</emphasis> das fortalezas no planeta natal e formar uma nova coaliz�o aqui, um grupo que trar� de volta os velhos tempos, todas as mortes e as tradi��es mais sanguin�rias. Por um tempo, um ano, dois ou dez, enquanto o estratoescudo toberiano mantiver o calor. Lorimaar Alto-Larteyn e os seus, sem ningu�m para restringi-los.</p><p>- Isso seria insano!</p><p>- Talvez. Isso n�o os parar�. Se Jaantony e Garse partissem amanh�, seria feito. A presen�a dos Jadeferros os det�m. Temem que se eles e os outros Braiths tradicionalistas formassem um contingente para vir para c�, ent�o a fac��o progressista de Jadeferro tamb�m mandaria um contingente. N�o teriam nada para ca�ar, ent�o, e eles e seus filhos encarariam uma vida dura e curta em um mundo moribundo, sem sequer gozar seus prazeres preferidos, as alegrias da alta-ca�a. N�o. - Ela deu de ombros. - Mas h� salas de trof�us em Larteyn mesmo agora. Lorimaar sozinho gaba-se de ter cinco cabe�as, e dizem que tem duas jaquetas feitas de pele de quase-homem. Ele n�o as usa. Jaan o mataria.</p><p>Colocou o aerom�vel em movimento novamente, e mais uma vez come�aram a ganhar velocidade.</p><p>-Agora - ela continuou -, ainda quer que eu desvie da pr�xima vez que encontrarmos alguns deles? Agora que sabe o que s�o?</p><p>Dirk n�o respondeu.</p><p>Pouco depois, os barulhos come�aram novamente, abaixo de onde estavam, os uivos e os gritos ecoando pela galeria outrora deserta. Passaram por outro ve�culo tombado, as enormes rodas-bal�o desinfladas e rasgadas. Gwen teve de dar a volta ao redor dele. Logo toparam com uma arma��o de metal negro que bloqueava o caminho, um rob� maci�o com quatro bra�os tensos paralisados em grotescas posi��es sobre a cabe�a. A parte de cima do torso era um cilindro escuro cravejado com olhos de vidro; a parte de baixo era uma base do tamanho de um aerom�vel, com rodas.</p><p>- Um guardi�o. - Gwen comentou, enquanto passavam pelo silencioso cad�ver mec�nico, e Dirk viu que as m�os haviam sido arrancadas dos bra�os e o corpo estava crivado por disparos de laser.</p><p>- Ser� que lutou contra eles? - ele perguntou.</p><p>- Provavelmente - ela respondeu. - O que quer dizer que a Voz ainda vive e controla algumas fun��es. Talvez seja por isso que n�o ouvimos mais nada de Bretan Braith. Pode ser que esteja com problemas l� embaixo. A Voz naturalmente deve ter convocado os guardi�es para proteger as fun��es de vida da cidade. - Deu de ombros. - Mas n�o importa. Os emerelianos n�o agem com viol�ncia. Os guardi�es s�o instrumentos de conten��o. Disparam dardos son�feros, e acho que podem jogar g�s lacrimog�neo por essas grades na base. Os Braiths vencer�o. Sempre.</p><p>Atr�s deles, o rob� j� havia sumido, e a galeria estava vazia mais uma vez. Os barulhos adiante aumentavam.</p><p>Dessa vez, Dirk n�o falou nada quando Gwen avan�ou sobre eles e acendeu as luzes, e os gritos e os impactos se sobrepuseram uns aos outros. Ela acertou os dois ca�adores Braiths, embora depois confessasse que n�o tinha certeza se o segundo tinha morrido. O kavalariano fora atingido por um golpe que o lan�ou de costas em um dos c�es.</p><p>E a voz de Dirk sumiu, porque, enquanto o homem estava trope�ando e girando � direita do ve�culo, soltou alguma coisa que estava carregando. Essa coisa voou pelos ares e se esmagou contra a vitrine de uma loja, deixando um rastro sangrento no vidro quando caiu no ch�o. Dirk notou que o ca�ador a estivera segurando pelo cabelo.</p><p>O caminho em espiral descia ao redor da torre de Desafio, afundando lenta e progressivamente. Levou mais tempo do que Dirk teria imaginado descer do 388� andar, onde surpreenderam o segundo grupo de Braiths, at� o t�rreo. Um longo voo em um sil�ncio cinzento.</p><p>N�o encontraram mais ningu�m, nem kavalariano nem emereliano.</p><p>No 120� andar, um guardi�o solit�rio bloqueou o caminho deles, encarando-os com seus olhos opacos e ordenando que parassem, no tom de voz sempre uniforme e cordial da Voz de Desafio. Mas Gwen n�o diminuiu a velocidade, e, quando se aproximou, o guardi�o rodou para fora do caminho, sem disparar dardos ou exalar gases. Suas ordens retumbantes os perseguiram galeria abaixo.</p><p>No 57� andar, as opacas luzes sobre eles piscaram e apagaram, e por um instante voaram na escurid�o total. Ent�o Gwen acendeu os far�is e reduziu um pouco a velocidade. Nenhum deles falou nada, mas Dirk pensou em Bretan Braith e se perguntou brevemente se as luzes haviam falhado ou se haviam sido cortadas. Optou pela �ltima alternativa; um sobrevivente acima finalmente tinha se comunicado com seus irm�os de grupo que estavam embaixo.</p><p>No t�rreo, a galeria terminava em um grande centro comercial e uma imensa rotat�ria. Podiam ver muito pouco; apenas onde os feixes dos far�is tocavam, e formas surpreendentes saltavam do oceano de piche que os cercava. No meio do centro comercial parecia haver uma �rvore ou algo do tipo. Dirk entreviu um tronco maci�o e retorcido, uma parede virtual de madeira, e ouviu folhas farfalhando acima deles. O caminho dava uma volta ao redor da �rvore e encontrava-se consigo mesmo. Gwen percorreu todo o amplo c�rculo.</p><p>No outro extremo da �rvore, havia uma porta larga que se abria para a noite, e Dirk sentiu o toque do vento no rosto dele e percebeu por que as folhas estavam farfalhando. Quando passaram pela porta, permanecendo no c�rculo, deu uma espiada para fora. Al�m da porta, uma estrada branca se afastava de Desafio.</p><p>E um aerom�vel movia-se velozmente por esse caminho, em dire��o � cidade. Em dire��o a eles. Dirk vislumbrou-o apenas por um instante. Era escuro - mas tudo era escuro sob as fracas luzes das estrelas dos mundos exteriores - e met�lico, alguma disforme besta kavalariana que n�o era capaz nem de come�ar a identificar.</p><p>Mas, sem d�vida, n�o eram os Jadeferros.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 9</strong></p><empty-line/><p>- Conseguimos - Gwen disse secamente, depois que passaram diante da porta. - Est�o atr�s de n�s.</p><p>- Eles nos viram?</p><p>- Devem ter visto nossa luz, quando passamos pela porta aberta. N�o iam deixar de ver.</p><p>Uma espessa escurid�o os rodeava por todos os lados, e as folhas ainda farfalhavam sobre a cabe�a deles.</p><p>- Fugimos? - Dirk perguntou.</p><p>- O carro deles deve ter lasers que funcionam, e o nosso n�o tem. A galeria externa � a �nica sa�da. O aerom�vel dos Braiths vai nos perseguir e, em algum lugar l� em cima, os ca�adores estar�o esperando. S� matamos dois, talvez tr�s. Deve ter mais. Estamos presos.</p><p>Dirk estava pensativo.</p><p>- Podemos dar outra volta na �rvore e sair pela porta depois que entrarem.</p><p>- Sim, � uma alternativa �bvia. �bvia demais, no entanto. Deve ter outro aerom�vel do lado de fora esperando por n�s, imagino. Tenho uma id�ia melhor. - Enquanto falava, Gwen diminu�a a velocidade da arraia at� par�-la completamente. Bem na frente deles, o caminho se bifurcava, banhado pela brilhante luz dos far�is. A esquerda, estava a curva que terminava em si mesma; � direita, a galeria exterior, que come�ava sua subida de dois quil�metros.</p><p>Gwen desligou as luzes e a escurid�o os engoliu. Quando Dirk come�ou a falar, ela o silenciou com um �spero "ssshh".</p><p>O mundo estava muito negro. Dirk se sentia cego. Gwen, o aerom�vel, Desafio - tudo desaparecera. Ele ouvia o murm�rio das folhas, e pensou ter escutado o outro aerom�vel, os Braiths, vindo at� eles, mas aquilo devia estar s� em sua mente, pois certamente veriam primeiro os far�is.</p><p>Sentia um suave movimento de balan�o, como se estivesse sentado em um pequeno bote. Algo tocou seu bra�o, e Dirk se sobressaltou, e ent�o outras coisas ro�aram em seu rosto. Folhas.</p><p>Estavam se elevando em dire��o � densa folhagem da copa ampla e baixa da �rvore emereliana.</p><p>Um galho, empurrado e depois solto, chicoteou dolorosamente a sua bochecha, arrancando sangue. As folhas estavam por todos os lados, apertando-o. Finalmente um ru�do seco anunciou que as asas da arraia haviam acertado um tronco mais grosso. N�o puderam subir mais. Flutuavam �s cegas, envoltos pela escurid�o e pela folhagem invis�vel.</p><p>Pouco depois, um borr�o de luz passou sobre eles, virando para a direita, em dire��o � galeria. Nem bem havia partido e outro carro apareceu - pela<emphasis> esquerda</emphasis> - e virou bruscamente na bifurca��o, seguindo o primeiro. Dirk estava muito grato por Gwen ter ignorado a sugest�o dele.</p><p>Flutuaram entre as folhas por um tempo infinito, mas nenhum outro carro apareceu. Finalmente, Gwen os levou de volta � pista.</p><p>- Isso n�o vai despist�-los permanentemente - ela disse. - Quando fecharem o cerco e n�o nos encontrarem, v�o come�ar a questionar onde estamos.</p><p>Dirk secava a bochecha com a barra da camisa. Quando seus dedos finalmente lhe indicaram que a fina camada de sangue estava seca, virou-se na dire��o da voz de Gwen. Ainda estava cego.</p><p>- E a� v�o nos perseguir - ele respondeu. - Isso � bom. Enquanto estiverem ocupados tentando descobrir para onde fomos, n�o estar�o matando nenhum emereliano. E Jaan e Garse logo estar�o aqui. Agora temos que nos esconder, acho.</p><p>- Esconder ou fugir - a resposta de Gwen veio pela escurid�o. Ela ainda n�o acendera os far�is do aerom�vel.</p><p>- Tenho uma id�ia. - Dirk prop�s. Tocou a bochecha novamente. Ent�o, satisfeito, soltou a barra da camisa. - Quando demos a volta na rotat�ria, notei uma coisa. Uma rampa, com uma placa de sinaliza��o. Vi rapidamente, sob as luzes dos far�is, mas isso me fez lembrar de uma coisa. Worlorn tem uma rede subterr�nea, certo? Intercidades?</p><p>- � verdade - Gwen respondeu. - Mas est� desativada.</p><p>- Est�? Sei que os trens n�o funcionam, mas e os t�neis? Foram fechados?</p><p>- N�o sei. Acho que n�o. - Repentinamente os far�is do aerom�vel se acenderam novamente e Dirk piscou com a s�bita luz.</p><p>- Mostre-me essa placa. - Gwen pediu, e novamente come�aram o amplo circuito ao redor da �rvore central.</p><p>Era uma entrada de metr�, como Dirk imaginara. Uma rampa rasa descia para a escurid�o. Gwen parou o carro e deixou-o flutuando a alguns metros de dist�ncia, enquanto jogava os far�is sobre a placa.</p><p>- Isso significa abandonar o aerom�vel - ela disse, finalmente.</p><p>- Nossa �nica arma.</p><p>- Sim - Dirk concordou. A entrada era estreita demais para a grande arraia cinzenta de metal; obviamente os construtores do metr� n�o contavam que algu�m quisesse voar pelos t�neis. - Mas pode ser melhor. N�o podemos deixar Desafio, e dentro da cidade o carro limita muito nossa mobilidade. Certo?</p><p>- Quando Gwen n�o respondeu imediatamente, ele co�ou a cabe�a, cansado. - Parece o melhor para mim, mas talvez eu n�o esteja pensando direito. Estou cansado e provavelmente ficaria assustado se parasse para pensar sobre o assunto. Tenho hematomas e cortes e quero dormir um pouco.</p><p>- Bem - Gwen falou pode valer a pena tentar. Podemos colocar alguns quil�metros entre n�s e Desafio, e dormir. N�o acho que os Braiths pensar�o em nos ca�ar a� embaixo, nos t�neis.</p><p>- Est� decidido, ent�o - Dirk respondeu.</p><p>Prepararam-se metodicamente. Gwen estacionou o aerom�vel perto da rampa subterr�nea e tirou o pacote de sensores e os suprimentos de campo do banco de tr�s. Pegaram os aeropatinetes tamb�m, vestindo as botas de v�o e descartando os pr�prios sapatos. E, entre as ferramentas guardadas no cap� do banshee, estava uma lanterna port�til bem pequena, uma vara de pl�stico e metal do tamanho do antebra�o de um homem que irradiava uma luz p�lida e branca.</p><p>Quando estavam prontos para partir, Gwen borrifou ambos com o anulador de odores novamente, ent�o fez Dirk esperar na entrada do metr� enquanto levava o aerom�vel at� a rotat�ria e o deixava no meio do caminho, perto de um dos largos corredores do t�rreo. Os Braiths pensariam que haviam entrado pelos intrincados labirintos de Desafio; teriam uma bela e longa ca�ada � espera deles.</p><p>Dirk esperava na escurid�o, enquanto Gwen andava pelo longo caminho ao redor da �rvore, iluminando o percurso com a lanterna de m�o. Ent�o, juntos, desceram a rampa at� o terminal abandonado. A descida era maior do que Dirk imaginara. Estavam ao menos dois andares sob o t�rreo, sup�s, andando em sil�ncio enquanto a luz da lanterna refletia nas lisas paredes azul pastel. Pensou em Bretan Braith, a uns cinq�enta andares abaixo deles ainda, e por um insano momento teve a esperan�a que os t�neis ainda tivessem energia, sendo no final das contas algo que n�o pertencia � torre-cidade emereliana e, portanto, fora do alcance de Bretan.</p><p>Mas � claro que o sistema de metr� fora desligado muito antes de Bretan e dos outros Braiths chegarem a Worlorn; l� embaixo s� encontraram uma plataforma vasta e maci�os buracos de minhoca de pedra correndo em dire��o ao infinito. O infinito parecia muito f�cil de ser alcan�ado na escurid�o. O terminal estava em sil�ncio, e esse sil�ncio parecia ainda mais f�nebre do que os tranq�ilos corredores de Desafio. Era como andar por uma tumba. Havia p� por todo lado. A Voz n�o permitia p� em Desafio, Dirk percebeu, mas o metr� n�o era de Desafio, n�o era obra de di-Emerel. Conforme andavam, seus passos soavam horrivelmente altos.</p><p>Gwen estudou um mapa do sistema muito cuidadosamente antes de entrarem nos t�neis.</p><p>- H� duas linhas saindo daqui - ela disse, sussurrando por algum motivo. - Uma linha conecta todas as cidades do Festival em um grande circuito. Aparentemente os trens costumavam percorrer as duas dire��es. A outra linha � um servi�o que une Desafio ao porto espacial. Cada cidade tinha seu pr�prio transporte para o porto espacial. Por qual devemos ir?</p><p>Dirk estava exausto e irrit�vel.</p><p>- D� no mesmo - disse. - Que diferen�a faz? De qualquer modo n�o podemos andar at� a pr�xima cidade. Mesmo com os aeropatinetes, as dist�ncias s�o muito longas.</p><p>Gwen assentiu pensativamente, ainda olhando para o mapa.</p><p>- Duzentos e trinta quil�metros at� Esvoch em uma dire��o, trezentos e oitenta para Kryne Lamiya se formos para o outro lado. Mais do que para o porto espacial. Acho que voc� est� certo. - Deu de ombros, virou-se e escolheu uma dire��o ao acaso. - Por aqui. - disse.</p><p>Queriam velocidade e dist�ncia. Sentados na borda da plataforma, sobre os trilhos, travaram as botas nas plataformas met�licas dos aeropatinetes, ent�o sa�ram lentamente na dire��o que Gwen indicara. Ela foi na frente, voando a vinte cent�metros do solo e passando a m�o esquerda levemente pela parede do t�nel. Levava a lanterna na m�o direita. Dirk seguia atr�s, voando um pouco mais alto para que pudesse ver por sobre o ombro dela. O t�nel que escolheram fazia uma grande curva suave, virando imperceptivelmente para a esquerda. N�o havia nada para se ver, nada para chamar a aten��o. Logo Dirk perdeu completamente a sensa��o de movimento, t�o constante e sem intercorr�ncias era o v�o deles. Tinha a impress�o de que ele e Gwen estavam flutuando em algum limbo atemporal, enquanto as paredes deslizavam rapidamente.</p><p>Mas finalmente, quando estavam a uns tr�s quil�metros de Desafio, desceram ao solo e pararam. Nenhum dos dois tinha nada para dizer. Gwen apoiou a lanterna contra uma �spera parede de pedra, enquanto se sentava no ch�o sujo para tirar as botas. Em sil�ncio, colocou os suprimentos de campo e usou o pacote como travesseiro. Nem bem apoiou a cabe�a e estava adormecida, alheia a ele.</p><p>E separada dele tamb�m.</p><p>Apesar do cansa�o, Dirk encontrou dificuldades para dormir. Em vez disso, sentou-se na ponta do pequeno c�rculo de luz da lanterna que Gwen deixara acesa e observou sua companheira, acompanhou sua respira��o, viu as sombras brincando em seu rosto e em seu cabelo quando ela se moveu agitada enquanto dormia. Percebeu, ent�o, o qu�o longe dele ela se deitara, e lembrou-se de que n�o se tocavam nem se falavam desde Desafio. N�o parou para pensar nisso; sua mente estava emba�ada demais pelo medo e pela fadiga para pensar. Mas sentia como um peso no peito, e a escurid�o o agoniava neste comprido buraco empoeirado nas entranhas do mundo.</p><p>Finalmente apagou a lanterna e toda a vis�o de sua Jenny e tentou dormir. Conseguiu algum tempo depois, mas os pesadelos n�o tardaram em aparecer. Sonhou que estava com Gwen, beijando-a, abra�ando-a bem apertado. Mas quando seus l�bios encontraram os dela, n�o era Gwen que beijava; era Bretan Braith. Bretan, cujos l�bios eram secos e duros, cujo olho de pedrardente flamejava assustadoramente perto na escurid�o.</p><p>E, depois disso, Dirk estava fugindo novamente, correndo por algum t�nel sem-fim para lugar algum. Mas, atr�s de si, podia ouvir o barulho da �gua e, quando olhou sobre o ombro, pensou ter vislumbrado um barqueiro solit�rio remando uma barca�a vazia. O barqueiro estava flutuando em um c�rrego negro e oleoso, e Dirk corria sobre uma pedra seca, mas no sonho tudo parecia fazer sentido. Ele corria e corria, mas a barca se aproximava cada vez mais, e finalmente p�de ver que o barqueiro n�o tinha rosto.</p><p>Veio a calma depois disso, e pelo resto da longa noite Dirk n�o sonhou.</p><p>Uma luz brilhava onde n�o devia haver luz. P�de perceb�-la atrav�s das p�lpebras fechadas e do torpor: um resplendor tr�mulo e amarelo, que se aproximava e se afastava um pouco. Dirk estava apenas vagamente consciente quando ela se intrometeu pela primeira vez em seu sono duramente conquistado. Resmungou e virou de lado. Vozes murmuravam ali por perto, e algu�m deu uma gargalhada breve e �spera. Dirk ignorou.</p><p>Ent�o eles o chutaram, com for�a, no rosto.</p><p>Sua cabe�a foi de um lado para o outro, e as correntes de sono se dissolveram em um espasmo de dor. Desorientado e aturdido, sem saber onde estava, lutou para se sentar. Sua t�mpora latejava. Tudo estava brilhante demais. Levou um bra�o na frente dos olhos para bloquear a luz e proteger-se de outros chutes. Ouviu outra gargalhada.</p><p>Lentamente o mundo tomou forma. Eram os Braiths, � claro.</p><p>Um deles, um homem ossudo e desengon�ado, de cabelo negro encaracolado, estava parado do outro lado do t�nel, segurando Gwen com uma m�o e uma pistola laser com a outra. Outro laser, um rifle, estava pendurado em seu ombro por uma al�a. As m�os de Gwen estavam amarradas nas costas, e ela permanecia em sil�ncio, com os olhos baixos.</p><p>O Braith que estava sobre Dirk n�o tinha um laser, mas levava uma poderosa lanterna na m�o esquerda que enchia o t�nel com luz amarela. O brilho da lanterna tornava dif�cil para Dirk ver suas fei��es, mas percebeu que era alto e corpulento, e parecia ser careca como um ovo.</p><p>- Pelo menos conseguimos sua aten��o - disse o homem com a luz. O outro gargalhou, a mesma risada que Dirk ouvira antes.</p><p>Com dificuldade, Dirk se levantou e deu um passo para tr�s, afastando-se dos kavalarianos. Inclinou-se contra a parede do t�nel e tentou se endireitar, mas seu cr�nio gritava e o fazia sentir vertigens. O brilho quente da lanterna de m�o queimava seus olhos.</p><p>- Voc� machucou a presa, Pyr - o Braith com o laser comentou do outro lado do t�nel.</p><p>- Espero que n�o demais - disse o homem corpulento.</p><p>- V�o me matar? - Dirk perguntou. As palavras vieram com incr�vel serenidade, considerando o que perguntava. Estava finalmente come�ando a se recuperar dos chutes.</p><p>Gwen levantou os olhos quando ele falou.</p><p>- No final v�o matar voc� - ela disse com voz desolada. - N�o ser� uma morte f�cil. Sinto muito, Dirk.</p><p>- Sil�ncio, cadela<emphasis> betheyn</emphasis> - disse o homem corpulento chamado Pyr. Dirk estava vagamente consciente de ter ouvido esse nome antes. O homem olhou de relance para Gwen quando ela falou, e ent�o voltou-se para Dirk.</p><p>- O que ela quer dizer? - Dirk perguntou, nervoso. Estava apertando o corpo com for�a contra a pedra, tentando tensionar os m�sculos discretamente. Pyr estava a menos de um metro de dist�ncia. O Braith parecia arrogante e desprevenido, mas Dirk se perguntava qu�o verdadeira essa impress�o poderia ser. O homem estava segurando a lanterna com a m�o esquerda, mas com a direita segurava algo mais - um bast�o de um metro de comprimento, de alguma madeira escura, com um punho redondo na ponta e uma l�mina curta na outra. Segurava o bast�o descuidadamente entre os dedos da m�o, pelo meio do eixo, batendo-o ritmicamente contra a perna.</p><p>- Voc� nos proporcionou uma ca�ada excitante, quase-homem - Pyr falou. - N�o digo isso � toa ou como brincadeira. Poucos se igualam a mim na antiga alta-ca�a. Ningu�m me supera. At� Lorimaar Alto-Braith Arkellor tem apenas metade dos trof�us que j� ganhei. Ent�o, quando digo que esta ca�ada foi extraordin�ria, voc� sabe que falo a verdade. Me alegra que n�o tenha acabado.</p><p>- O qu�? - Dirk perguntou. - N�o acabou? - O homem estava bem perto, e Dirk se perguntava se conseguiria atac�-lo, protegendo-se do laser do outro homem com o corpo de Pyr. Talvez pudesse arrancar o bast�o dele, ou at� mesmo a pistola que Pyr tinha guardada no coldre na cintura.</p><p>- N�o h� m�rito em capturar um quase-homem dormindo, nem h� honra nisso. Voc� vai fugir novamente, Dirk t'Larien.</p><p>- Ele o tornar� seu<emphasis> korariel</emphasis> pessoal - Gwen falou zangada, olhando para os dois Braiths em desafio calculado. - Ningu�m poder� ca��-lo al�m dele e de seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>Pyr virou-se na dire��o dela novamente.</p><p>- Eu disse sil�ncio!</p><p>Ela riu para ele.</p><p>- Conhecendo Pyr - ela continuou -, ele o ca�ar� pelo m�todo tradicional. Deixar� voc� livre no bosque, provavelmente nu. Eles dois deixar�o de lado os lasers e os aerom�veis e ir�o atr�s de voc� a p�, com facas, espadas de arremesso e c�es. Depois que me entregarem aos meus mestres, � claro.</p><p>Pyr estava franzindo o cenho. O outro Braith ergueu a pistola e usou-a para dar uma coronhada na boca de Gwen.</p><p>Dirk contraiu os m�sculos, hesitou um instante longo demais e saltou. Mesmo um metro era longe demais; Pyr estava sorrindo quando virou a cabe�a. O bast�o veio com uma velocidade assustadora, e o punho de madeira afundou na barriga de Dirk. Ele cambaleou, dobrou o corpo e, de alguma forma, tentou seguir adiante. Pyr retrocedeu desdenhosamente e acertou outro golpe na virilha de Dirk. O mundo desapareceu em uma bruma vermelha.</p><p>Dirk percebeu vagamente que Pyr se aproximou depois que ele caiu no ch�o. Ent�o o Braith o acertou uma terceira vez, um golpe quase casual no lado de sua cabe�a, e ent�o n�o viu mais nada.</p><p>Dor. Foi a primeira coisa que sentiu. Era tudo o que sentia. Dor. Sua cabe�a girava, latejava e estremecia em um tipo estranho de ritmo; seu est�mago do�a tamb�m, e mais abaixo sentia-se entorpecido. Dor e aturdimento eram os limites do mundo de Dirk. Por um momento muito longo, isso foi tudo.</p><p>Gradualmente, no entanto, recobrou uma esp�cie de consci�ncia turva. Come�ou a notar coisas. Primeiro, a dor - vinha e ia em ondas, de cima para baixo, de cima para baixo. Ele estava indo para cima e para baixo tamb�m, percebeu finalmente, trepidando e saltando. Estava sobre alguma coisa. Sendo arrastado ou carregado. Moveu as m�os, ou pelo menos tentou. Era dif�cil. A dor parecia varrer todas as sensa��es normais. Tinha a boca cheia de sangue. Seus ouvidos zumbiam, ardiam, vibravam.</p><p>Estava sendo carregado. Havia vozes; podia ouvi-las, falando e zumbindo. As palavras n�o eram claras. Adiante, em algum lugar, uma luz dan�ava e vacilava; todo o resto era n�voa cinzenta. Pouco a pouco o zumbindo se dissipou. Finalmente as palavras come�aram a ficar claras.</p><p>- ... n�o ficar� feliz - disse a voz que n�o conhecia. N�o achava que a conheceria, de todo jeito. Era dif�cil dizer. Tudo era t�o terrivelmente distante, e ele estava saltando, e a dor ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha.</p><p>- Sim - concordou a outra voz, carregada, firme, en�rgica.</p><p>Mais zumbidos... muitas vozes ao mesmo tempo. Dirk n�o entendeu nada.</p><p>Ent�o um homem silenciou os demais.</p><p>- Basta - falou. Essa voz estava ainda mais afastada do que as outras duas; vinha de algum lugar adiante, da luz bruxuleante. Pyr? Sim, Pyr.</p><p>- N�o temo Bretan Braith Lantry, Roseph. Voc� se esquece quem sou. J� tinha conseguido tr�s cabe�as nos bosques quando Bretan Braith ainda sugava as tetas das mulheres. O quase-homem � meu por todos os antigos direitos.</p><p>- Verdade - a primeira voz desconhecida respondeu. - Se voc� o tivesse capturado nos t�neis, ningu�m negaria seu direito. Mas voc� n�o fez isso.</p><p>- Desejo uma ca�ada pura, do jeito mais antigo.</p><p>Algu�m disse alguma coisa em alto kavalariano. Houve uma gargalhada.</p><p>- Mais de uma vez ca�amos juntos em sua juventude, Pyr - a voz desconhecida disse. - Se suas opini�es sobre as mulheres tivessem sido outras, poder�amos ter nos tornado<emphasis> teyn-e-teyn,</emphasis> n�s dois. N�o falarei contra voc�. Bretan Braith Lantry quer muito este homem.</p><p>- Ele n�o � um homem, � um quase-homem. Voc� mesmo decidiu isso, Roseph. E os desejos de Bretan Braith n�o s�o nada para mim.</p><p>- Realmente afirmei que ele � quase-homem, e ele �. Para voc� e para mim, ele � apenas isso, um entre muitos. Temos os filhos da lesma para ca�ar, os emerelianos, e outros. Voc� n�o precisa dele, Pyr. Bretan Braith pensa diferente. Ele foi at� o quadrado da morte e foi feito de tolo quando o homem que desafiou n�o era realmente um homem.</p><p>- Isso � verdade, mas n�o � toda ela. t'Larien � um tipo especial de presa. Dois de nossos<emphasis> kethi</emphasis> foram mortos por ele, e Koraat est� morrendo com uma espinha quebrada. Nenhum quase-homem fugiu dessa maneira antes. Ficarei com ele, como � meu direito. Eu o encontrei, eu sozinho.</p><p>- Sim - disse a segunda voz desconhecida, a carregada e en�rgica. - Isso � realmente verdade, Pyr. Como voc� o descobriu?</p><p>Pyr ficou bastante satisfeito com a chance de se gabar.</p><p>- N�o fui enganado pelo aerom�vel, como voc�s dois e at� mesmo Lorimaar. Esse quase-homem foi bem esperto, ele e a cadela<emphasis> betheyn</emphasis> que fugia ao seu lado. N�o deixaram o carro indicando o lugar por onde haviam partido. Quando voc�s reuniram todos os c�es e partiram pelo corredor, meu<emphasis> teyn</emphasis> e eu come�amos a procurar no centro comercial com uma lanterna, buscando um rastro. Eu sabia que os c�es seriam in�teis. N�o precisava deles. Sou um rastreador melhor do que qualquer c�o ou mestre de canil. J� rastreei quase-homens sobre as pedras nuas das Colinas de Lameraan, nas cidades mortas, at� mesmo nas fortalezas abandonadas de Taal, de Punho de Bronze e da Montanha de Pedrar- dente. Esses dois foram ridiculamente f�ceis. Verificamos cada corredor por uma dist�ncia de v�rios metros, ent�o segu�amos para olhar o seguinte. Encontramos o rastro. Pegadas no ch�o do lado de fora da rampa do metr� e depois sinais claros no p�. O rastro desapareceu quando come�aram a usar seus brinquedos voadores, � claro, mas ent�o t�nhamos apenas duas dire��es poss�veis a considerar. Temi que pudessem tentar voar at� Esvoch ou Kryne Lamiya, mas isso n�o aconteceu. Levou a maior parte do dia e uma longa caminhada, mesmo assim os capturamos.</p><p>Dirk estava quase alerta agora, embora tivesse o corpo ainda envolto em uma gaze de dor, e duvidava que responderia muito bem se tentasse se mover. Podia ver com toda a nitidez. Pyr Braith estava andando na frente com a lanterna de m�o, conversando com um homem menor vestido de branco e p�rpura, que devia ser Roseph, o �rbitro dos duelos que nunca ocorreram. Entre eles estava Gwen, andando por conta pr�pria, mas ainda com as m�os amarradas. Ela seguia em sil�ncio. Dirk se perguntava se eles a tinham amorda�ado, mas era imposs�vel dizer, uma vez que s� conseguia ver as costas dela.</p><p>Ele estava deitado em uma esp�cie de maca, que sacudia a cada passo. Outro Braith em branco e p�rpura, segurava a parte da frente, seus grandes punhos cerrados em volta da barra de madeira. O<emphasis> teyn</emphasis> de Pyr, o das gargalhadas estrondosas, estava provavelmente atr�s dele, na outra ponta da maca. Ainda estavam no t�nel, andando; o metr� parecia seguir infinitamente, e Dirk n�o tinha id�ia de quanto tempo estivera desmaiado. Por um bom tempo, imaginava; n�o havia Roseph nem maca quando tentara atacar Pyr, tinha certeza disso. Seus captores provavelmente haviam aguardado no t�nel depois de pedir ajuda dos irm�os de grupo.</p><p>Ningu�m pareceu notar que Dirk estava de olhos abertos. Ou talvez tivessem notado e simplesmente n�o se importassem. Ele n�o estava em condi��es de fazer nada, exceto, talvez, gritar por ajuda.</p><p>Pyr e Roseph continuaram a conversar, com os outros dois fazendo coment�rios de tempos em tempos. Dirk tentou ouvir, mas a dor tornava dif�cil se concentrar, e o que estavam dizendo n�o servia muito para Gwen ou para ele. Especialmente Roseph parecia avisar Pyr que Bretan Braith ficaria muito aborrecido se Pyr matasse Dirk, j� que Bretan Braith queria ele mesmo matar Dirk. Pyr n�o se importava; seus coment�rios deixavam claro que tinha pouco respeito por Bretan, que era duas gera��es mais jovem do que o resto deles e, portanto, suspeito. Em nenhum momento da conversa algum dos ca�adores mencionou os Jadeferros, o que levou Dirk a concluir que Jaan e Garse ainda n�o haviam chegado a Desafio, ou esses quatro ainda n�o estavam cientes disso.</p><p>Depois de um tempo, parou de se esfor�ar para entender o que diziam e se deixou vencer pelo torpor. As vozes ficaram confusas novamente e continuaram falando por um bom tempo. Finalmente pararam. Uma das extremidades da maca parou abruptamente, e Dirk despertou de novo. Bra�os fortes o ergueram pelas axilas.</p><p>Haviam chegado ao terminal de Desafio, e o<emphasis> teyn</emphasis> de Pyr estava levando Dirk para a plataforma. Ele nem tentou ajudar. Ficou o mais mole que podia e deixou-se ser levado como um peda�o de carne.</p><p>Ent�o estava na maca novamente, e eles o carregaram pela rampa que dava na cidade. N�o o trataram com gentileza na plataforma; sua cabe�a voltara a latejar. Paredes azuis pastel apareceram diante dele, e Dirk se lembrou de quando desceram a rampa na noite anterior. Por alguma raz�o, esconder-se no metr� parecera uma id�ia incrivelmente boa naquele momento.</p><p>As paredes desapareceram, e estavam em Desafio novamente. Dirk viu a grande �rvore emereliana, dessa vez em toda sua impon�ncia. Era um gigante disforme, azul e negro, com os galhos mais baixos pendurados sobre a curva vis�vel da rotat�ria enquanto os mais altos ro�avam contra o teto sombreado. O dia chegara, Dirk percebeu. A porta de entrada permanecia aberta, e, atrav�s do arco, p�de ver o Sat� Gordo e uma �nica estrela amarela no horizonte. Estava muito aturdido e cansado para saber se amanhecia ou anoitecia.</p><p>Dois maci�os aerom�veis kavalarianos estavam estacionados na estrada pr�xima � rampa do metr�. Pyr parou perto deles, e Dirk foi colocado no ch�o. Lutou para se sentar, mas foi em v�o. Mexeu as pernas debilmente e a dor voltou, at� que se rendeu e deitou de costas novamente.</p><p>- Re�na os outros - Pyr falou. - Essas quest�es ser�o resolvidas aqui e agora, para que meu<emphasis> korariel</emphasis> possa ser preparado para a ca�ada. - Ficou parado ao lado de Dirk enquanto falava. Estavam todos reunidos ao redor da maca, incluindo Gwen. Mas s� ela olhou para baixo, e seus olhos encontraram os dele. Estava amorda�ada. E cansada. E desesperada.</p><p>Levou quase uma hora para os Braiths se reunirem; para Dirk, foi uma hora em que a luz se dissipou e ele p�de reunir for�as. <emphasis>Era</emphasis> p�r do sol, logo percebeu; al�m da porta de entrada, o Sat� Gordo mergulhava lentamente no horizonte. A escurid�o se propagava ao redor deles, ficando mais espessa e mais densa, at� que finalmente os kavalarianos foram obrigados a acender os far�is de seus aerom�veis. O aturdimento de Dirk havia passado. Pyr notara isso e fez com que amarrassem as m�os de Dirk nas costas, e o obrigou a se sentar contra a lateral de um aerom�vel. Ent�o colocaram Gwen ao lado dele, mas n�o tiraram sua morda�a.</p><p>Embora n�o estivesse amorda�ado, Dirk n�o tentou falar. Sentou-se contra o frio metal, as cordas ro�ando seus punhos, e esperou, observou e escutou. De tempos em tempos olhava de relance para Gwen, mas ela permaneceu com a cabe�a baixa e n�o lhe devolveu o olhar.</p><p>Chegaram sozinhos e em pares. Os<emphasis> kethi</emphasis> de Braith. Os ca�adores de Worlorn. Vieram das sombras e dos lugares escuros. Como p�lidos fantasmas. Um barulho e uma forma vaga no in�cio, at� irromperem no pequeno c�rculo de luz e tornarem-se homens novamente. Ainda assim n�o eram nada mais que humanos.</p><p>O primeiro a chegar trouxe quatro c�es altos com cara de rato, e Dirk o reconheceu da selvagem corrida pela galeria exterior. O homem acorrentou os c�es no para-choques do aerom�vel de Roseph, cumprimentou Pyr, Roseph e seus<emphasis> teyns,</emphasis> e sentou-se de pernas cruzadas no ch�o a alguns metros dos prisioneiros. N�o falou nem uma vez. Seus olhos estavam fixos em Gwen, sem nunca abandon�-la, e permaneceu absolutamente im�vel. Ali perto, Dirk podia ouvir os c�es rosnando nas sombras, suas correntes de ferro se retorcendo e chocalhando.</p><p>Ent�o os outros chegaram. Lorimaar Alto-Braith Arkellor, um gigante castanho com um traje de tecido-camale�o negro como piche e bot�es de ossos claros, chegou em um colossal aerom�vel vermelho abobadado. Com Lorimaar estava outro homem, gordo e quadrado, duas vezes mais corpulento do que Pyr, o corpo s�lido e duro como tijolo, o rosto p�lido e su�no. Depois deles, sozinho e a p�, veio um velho de apar�ncia fr�gil, careca, enrugado e quase totalmente banguela, com uma m�o de carne e osso e outra com uma garra de tr�s dedos de metal escuro. O velho tinha a cabe�a de uma crian�a pendurada no cintur�o; ainda estava sangrando, e uma perna de suas cal�as brancas estava manchada com compridas faixas marrons do gotejamento.</p><p>Finalmente Chell chegou, t�o alto quanto Lorimaar, cabelo branco e de bigodes, parecendo muito cansado e trazendo apenas um imenso c�o Braith. Parou dentro do c�rculo de luz e piscou.</p><p>- Onde est� seu<emphasis> teyn</emphasis>? - Pyr exigiu saber.</p><p>- Aqui. - Um grunhido na escurid�o. A alguns metros de dist�ncia, uma �nica pedrardente brilhava opaca. Bretan Braith Lantry avan�ou e parou perto de Chell. Seu rosto se contraiu.</p><p>- Est�o todos reunidos - Roseph Alto-Braith disse para Pyr.</p><p>- N�o - algu�m objetou. - Falta Koraat.</p><p>O ca�ador silencioso falou do ch�o.</p><p>- Ele n�o existe mais. Suplicou por seu fim. Eu lhe concedi. Na verdade, estava muito ferido. Foi o segundo<emphasis> keth</emphasis> que vi morrer hoje. O primeiro foi meu<emphasis> teyn,</emphasis> Teraan Braith Nalarys. - Enquanto falava, n�o desviava os olhos de Gwen. Encerrou com uma longa frase em antigo kavalariano.</p><p>- Tr�s de n�s se foram - o velho falou.</p><p>- Fa�amos sil�ncio por eles - Pyr disse. Ainda estava segurando seu bast�o, com o punho de madeira e a l�mina curta, e o batia nervosamente contra a perna enquanto falava, exatamente como fizera nos t�neis.</p><p>Atrav�s da morda�a, Gwen tentou gritar. O<emphasis> teyn</emphasis> de Pyr, o kavalariano desengon�ado com o cabelo negro desgrenhado, aproximou-se dela com uma express�o amea�adora.</p><p>Mas Dirk, sem morda�a, tivera uma id�ia.</p><p>- N�o vou manter sil�ncio - gritou. Ou pelo menos tentou. Sua voz n�o estava forte o suficiente para gritar. - Eram assassinos, todos eles. Mereceram morrer.</p><p>Todos os Braiths olharam para ele.</p><p>- Amordace-o e fa�a-o parar de gritar. - Pyr mandou. Seu <emphasis>teyn</emphasis> se apressou em cumprir a ordem. Quando terminou, Pyr falou novamente. - Voc� ter� tempo suficiente para gritar, Dirk t'Larien, quando estiver correndo nu pela floresta e ouvir meus c�es latindo atr�s de voc�.</p><p>A cabe�a e os ombros de Bretan se viraram estranhamente. A luz brilhava em suas cicatrizes.</p><p>- N�o - disse. - A primeira reivindica��o � minha.</p><p>Pyr o encarou.</p><p>- Eu rastreei o quase-homem. Eu o capturei.</p><p>Bretan contorceu o rosto. Chell, ainda segurando o grande c�o pela corrente enrolada em uma m�o imensa, colocou a outra m�o no ombro de Bretan.</p><p>- Isso n�o me importa - outra voz falou. Era o Braith sentado no ch�o, encarando im�vel. - E quanto � cadela?</p><p>Os outros se voltaram para ele, inquietos.</p><p>- N�o podemos dispor dela, Myrik - disse Lorimaar Alto-Braith. - Ela � de Jadeferro.</p><p>O homem contraiu ferozmente os l�bios; por um instante seu rosto calmo ficou selvagemente distorcido, um rosto de animal, um ricto de emo��o. Ent�o passou. Suas fei��es assumiram a apar�ncia calma novamente, tudo controlado.</p><p>- Eu matarei esta mulher - ele disse. - Teraan era meu<emphasis> teyn. </emphasis>Ela deixou o fantasma dele vagando em um mundo sem almas.</p><p>- Ela? - a voz de Lorimaar era incr�dula. - Isso � verdade?</p><p>- Eu vi - respondeu o homem no ch�o, aquele chamado Myrik. - Atirei nela quando atropelou Teraan e o deixou agonizando. Isso � verdade, Lorimaar Alto-Braith.</p><p>Dirk tentou ficar em p�, mas o kavalariano desengon�ado o obrigou a sentar-se novamente, com for�a, e bateu a cabe�a dele contra a lateral de metal do aerom�vel para marcar posi��o.</p><p>O velho fr�gil, aquele com garras e a cabe�a de uma crian�a pendurada, falou ent�o.</p><p>- Pegue-a ent�o como sua presa pessoal - sugeriu, com uma voz fina e cortante como a l�mina da faca de esfolar que levava no cintur�o. - A sabedoria dos grupos � antiga e inequ�voca, meus irm�os. Ela n�o � uma mulher verdadeira agora, se � que j� foi, nem esposa-escrava ou<emphasis> eyn-keth.</emphasis> Quem pode atestar por ela? Ela deixou a prote��o de seu alto-senhor para fugir com um quase-homem! Se alguma vez ela foi carne da carne de um homem,<emphasis> j�</emphasis> n�o � mais. Voc�s sabem como agem os quase- homens, as mentiras, as perf�dias, os grandes enganos. Sozinho com ela na escurid�o, este quase-homem Dirk certamente a matou e a substituiu por um dem�nio como ele pr�prio, feito � imagem dela.</p><p>Chell assentiu em concord�ncia e falou gravemente em antigo kavalariano. Os outros Braiths n�o pareciam t�o seguros. Lorimaar trocou olhares s�rios com seu<emphasis> teyn,</emphasis> o gordo maci�o. O rosto aborrecido de Bretan permaneceu imut�vel, metade m�scara de cicatrizes, metade inoc�ncia. Pyr franziu o cenho e continuou a bater com seu bast�o.</p><p>Foi Roseph quem respondeu.</p><p>-Nomeei GwenDelvano humana quando arbitrei no quadrado da morte - disse cuidadosamente.</p><p>- Isso � verdade - Pyr falou.</p><p>- Talvez ela fosse humana ent�o - o velho disse. - Mesmo assim, ela provou sangue e dormiu com um quase-homem, e quem vai cham�-la humana agora?</p><p>Os c�es come�aram a uivar. Os quatro que Myrik havia acorrentado no aerom�vel come�aram a cacofonia, que foi levada adiante pela matilha presa dentro do ve�culo abobadado de Lorimaar. O maci�o c�o de Chell rosnou e esticou a corrente, at� que o Braith mais velho a puxou para tr�s com raiva; ent�o a criatura se sentou e juntou-se aos uivos.</p><p>A maior parte dos ca�adores come�ou a olhar de soslaio em dire��o � silenciosa escurid�o al�m do pequeno c�rculo de luz, e mais do que um levou a m�o � pistola. Myrik, rosto impass�vel e im�vel, era a not�vel exce��o: seus olhos nunca deixavam Gwen Delvano.</p><p>Na beira do c�rculo, al�m dos aerom�veis e da luz dos far�is, os dois Jadeferros estavam parados lado a lado nas sombras.</p><p>A dor de Dirk - sua cabe�a latejava - abruptamente pareceu sem import�ncia. Seu corpo tremeu e estremeceu. Olhou para Gwen; ela estava olhando para cima, para<emphasis> eles.</emphasis> Para Jaan especialmente.</p><p>Ele caminhou para a luz, e Dirk viu que encarava Gwen quase t�o fixamente quanto o homem chamado Myrik. Parecia se mover muito devagar, como uma figura de algum sonho empoeirado, ou como um son�mbulo. Garse Janacek estava vivo e fluente ao seu lado.</p><p>Vikary usava um traje manchado de tecido-camale�o, com sombras cada vez mais negras, quando entrou no c�rculo de luz de seus inimigos. Quando os c�es silenciaram, sua roupa j� tinha mudado para um cinza encardido. As mangas de sua camisa terminavam bem em cima do cotovelo; ferro-e-pedrardente circundavam seu antebra�o direito, jade-e-prata, o esquerdo. Por um instante fugaz, sua figura pareceu imensa. Ainda que Chell e Lorimaar fossem ambos uma cabe�a mais altos, de algum modo Vikary pareceu super�-los na estatura. Passou entre os Braiths, como um fantasma caminhando a passos largos, qu�o irreal era, mesmo ali, como se n�o os visse, e parou perto de Gwen e Dirk.</p><p>Mas era tudo ilus�o. Os ru�dos reiniciaram, os Braiths come�aram a falar, e Jaan Vikary era apenas um homem novamente, maior do que muitos mas menor do que alguns.</p><p>- Voc�s transgridem, Jadeferros - Lorimaar disse, em um tom duro e zangado. - N�o foram convidados para este lugar. N�o t�m o direito de estar aqui.</p><p>- Quase-homens - cuspiu Chell. - Falsos kavalarianos.</p><p>Bretan Braith Lantry fez seu ru�do singular.</p><p>- Sua<emphasis> betheyn</emphasis> fica em suas m�os, Jaantony Alto-Jadeferro - Pyr disse com firmeza, embora seu bast�o se agitasse nervosamente. - Discipline-a como quiser, como deve. O quase-homem � meu para ser ca�ado.</p><p>Garse Janacek parara a alguns metros de dist�ncia. Seus olhos se moviam de um interlocutor para outro, e por duas vezes pareceu prestes a responder. Mas Jaan Vikary ignorou todos eles.</p><p>- Remova as morda�as das bocas deles - disse, gesticulando em dire��o aos prisioneiros.</p><p>O<emphasis> teyn</emphasis> de Pyr permanecia parado ao lado de Dirk e Gwen, encarando o alto-senhor Jadeferro. Hesitou por um longo momento, ent�o abaixou-se e tirou as morda�as.</p><p>- Obrigado - falou Dirk.</p><p>Gwen balan�ou a cabe�a para tirar o cabelo dos olhos e se levantou com dificuldade, os bra�os ainda amarrados �s costas.</p><p>- Jaan - ela disse em voz insegura. - Voc� ouviu?</p><p>- Ouvi - Vikary respondeu. Ent�o, falou para os Braiths. - Soltem os bra�os dela.</p><p>- Voc� � presun�oso, Jadeferro. - Lorimaar reclamou.</p><p>Pyr, contudo, pareceu curioso. Apoiou-se em seu bast�o.</p><p>- Solte os bra�os dela - disse. Seu<emphasis> teyn</emphasis> puxou Gwen rudemente e usou a faca para libert�-la.</p><p>- Mostre-me seus bra�os - Vikary disse para Gwen.</p><p>Ela hesitou, ent�o tirou as m�os de tr�s das costas e as estendeu, palmas para baixo. No seu bra�o esquerdo o jade-e-prata brilhou. Ela n�o havia retirado o bracelete.</p><p>Dirk olhou, amarrado e desesperado, sentindo um calafrio. Ela n�o havia retirado o bracelete.</p><p>Vikary olhou para Myrik, que ainda estava sentado de pernas cruzadas, com os olhos fixos em Gwen.</p><p>- Levante-se.</p><p>O homem se ergueu e virou o rosto para o Jadeferro, tirando o olhar de Gwen pela primeira vez desde que chegara. Vikary ia come�ar a falar, mas Gwen o interrompeu.</p><p>- N�o - Gwen ainda esfregava os pulsos. Agora parara e pousara a m�o direita sobre o bracelete. Sua voz era firme. - Voc� n�o entende, Jaan? N�o. Se voc� o desafiar, se voc� mat�-lo, eu vou tirar isso. Eu<emphasis> vou.</emphasis></p><p>Pela primeira vez, uma emo��o tomou conta do rosto de Jaan, e seu nome era ang�stia.</p><p>- Voc� � minha<emphasis> betheyn -</emphasis> ele disse. - Se eu n�o... Gwen...</p><p>- N�o - ela insistiu.</p><p>Um dos Braiths riu. Ao ouvir, Garse Janacek fez uma careta, e Dirk viu um espasmo selvagem contrair o rosto do homem chamado Myrik.</p><p>Se Gwen notou, n�o se importou. Olhou para Myrik.</p><p>- Eu matei seu<emphasis> teyn -</emphasis> afirmou. - Eu. N�o Jaan. Nem o pobre Dirk. Eu o matei e admito. Ele estava nos ca�ando, assim como voc�. E matando os emerelianos tamb�m. - Myrik n�o disse nada. Todos ficaram em sil�ncio. - Se tem que duelar, ent�o, se realmente me quer morta, duele<emphasis> comigo</emphasis> - Gwen prosseguiu. - Eu aceito. Lute comigo se sua vingan�a � t�o importante.</p><p>Pyr gargalhou alto. Um instante depois, seu<emphasis> teyn</emphasis> se juntou a ele, assim como Roseph e v�rios dos outros - o companheiro gordo e de rosto severo de Roseph, o anci�o de garra. Todos estavam gargalhando.</p><p>O rosto de Myrik ficou corado, ent�o branco e corado novamente.</p><p>- Cadela<emphasis> betheyn</emphasis> - disse. Seu rosto se crispou novamente, e dessa vez todos viram. - Voc� zomba de mim. Um duelo �... meu <emphasis>teyn...</emphasis> e voc� � uma mulher! - Terminou com um grito que sobressaltou os homens e que fez os c�es come�arem a uivar. Ent�o perdeu o controle.</p><p>Ergueu as m�os sobre a cabe�a, fechando-as e abrindo-as, e golpeou-a no rosto enquanto ela se esquivava de sua f�ria, e de repente estava sobre ela. Seus dedos se fecharam ao redor da garganta de Gwen, e ele avan�ou, enquanto ela recuava. Estavam rolando uma vez e outra no ch�o at� que bateram contra a lateral de um aerom�vel. Myrik parou firme sobre ela, com Gwen presa por baixo, as m�os dele apertando com for�a a carne do pesco�o dela. Ela bateu nele com for�a na mand�bula, mas, em sua ira, ele nem pareceu sentir. O kavalariano come�ou a bater a cabe�a dela contra o aerom�vel, uma vez, outra e mais outra, gritando o tempo todo em antigo kavalariano.</p><p>Dirk lutou para se levantar apenas para ficar parado, in�til, com as m�os amarradas. Garse deu dois passos r�pidos para a frente, e Jaan Vikary finalmente come�ou a se mexer. Mas foi Bretan Braith Lantry quem os alcan�ou primeiro e arrancou Myrik de cima de Gwen, agarrando-o pelo pesco�o com um bra�o. Myrik lutou ferozmente, at� que Lorimaar se juntou a Bretan, e, entre eles, contiveram o homem.</p><p>Gwen jazia inerte, a cabe�a apoiada contra a porta de metal onde Myrik a golpeara. Vikary ajoelhou-se ao lado dela e tentou colocar um bra�o ao redor de seus ombros. A parte de tr�s da cabe�a de Gwen deixou uma mancha de sangue na lateral do aerom�vel.</p><p>Janacek se ajoelhou tamb�m, rapidamente, e sentiu seu pulso. Satisfeito, levantou-se novamente e se virou para encarar os Braiths, a boca apertada de raiva.</p><p>- Ela usava jade-e-prata, Myrik - disse. - Voc� � um homem morto. Eu o desafio.</p><p>Myrik parara de gritar, mas estava ofegante. Um dos c�es uivou e ficou em sil�ncio.</p><p>- Ela vive? - Bretan perguntou em sua voz �spera.</p><p>Jaan Vikary olhou para ele com uma express�o estranha e consternada como a de Myrik h� alguns instantes.</p><p>- Ela vive.</p><p>- � uma sorte - disse Janacek -, mas n�o gra�as a voc�, Myrik, nem faz diferen�a. Fa�a suas escolhas!</p><p>- Soltem-me! - Dirk pediu. Ningu�m se mexeu. -<emphasis> Soltem-me! </emphasis>- gritou.</p><p>Algu�m cortou suas cordas.</p><p>Foi at� Gwen, ajoelhando-se ao lado de Vikary. Os olhos dos dois homens se encontraram rapidamente. Dirk examinou a parte de tr�s da cabe�a de Gwen, onde o cabelo escuro j� come�ava a formar uma crosta com o sangue coagulado.</p><p>- Uma concuss�o, no m�nimo - disse. - Talvez uma fratura de cr�nio, talvez algo pior. N�o sei. Existe algum servi�o m�dico? - Olhou para cada um dos kavalarianos. - Existe?</p><p>Bretan respondeu.</p><p>- Nenhum que funcione em Desafio, t'Larien. A Voz lutou comigo. A cidade n�o respondia. Tive que mat�-la.</p><p>Dirk fez uma careta.</p><p>- Ela n�o deve ser movida, ent�o. Talvez seja apenas uma concuss�o. Acho que ela deve descansar.</p><p>Incrivelmente, Jaan Vikary deixou Gwen nos bra�os de Dirk e se levantou. Gesticulou para Lorimaar e Bretan, que mantinham Myrik preso entre eles.</p><p>- Soltem-no.</p><p>- Soltar...? - Janacek olhou para Vikary com perplexidade.</p><p>- Jaan - Dirk falou -, n�o se incomode com ele. Gwen...</p><p>- Leve-a para o aerom�vel! - Vikary mandou.</p><p>- N�o acho que devemos mov�-la...</p><p>- N�o � seguro aqui, t'Larien. Coloque-a dentro de um aerom�vel.</p><p>Janacek estava franzindo o cenho.</p><p>- <emphasis>Meu</emphasis><emphasis> teyn?</emphasis></p><p>Vikary encarou os Braiths novamente.</p><p>- Eu disse para soltar este homem. - Fez uma pausa. - Este quase-homem, como voc�s o chamariam. Ele ganhou o nome.</p><p>- O que pretende, Alto-Jadeferro? - Lorimaar disse gravemente.</p><p>Dirk levantou Gwen e a colocou gentilmente no banco de tr�s do aerom�vel mais pr�ximo. Ela estava com o corpo totalmente mole, mas a respira��o ainda era regular. Ent�o deslizou para o assento do motorista e esperou, massageando o pulso para restaurar a circula��o.</p><p>Todos pareciam ter se esquecido dele. Lorimaar Alto-Braith ainda estava falando.</p><p>- Reconhecemos seu direito de enfrentar Myrik, mas deve ser em combate singular, como Teraan Braith Nalarys morreu. Como seu<emphasis> teyn</emphasis> o desafiou primeiro...</p><p>Jaan Vikary tinha a pistola laser na m�o.</p><p>- Soltem-no e saiam de perto.</p><p>Lorimaar, perplexo, soltou o bra�o de Myrik e se apressou em sair de lado. Bretan hesitou.</p><p>- Alto-Jadeferro - disse com a voz raspada -, por sua honra e pela dele, por seu grupo e de seu<emphasis> teyn,</emphasis> abaixe sua arma.</p><p>Vikary apontou para o jovem de rosto deformado. Bretan contraiu a boca, soltou Myrik e foi para tr�s encolhendo-se grotescamente.</p><p>- O que est� acontecendo? - O velho maneta exigiu saber em uma voz �spera. - O que ele est� fazendo? - Todos o ignoraram.</p><p>- Jaan - Garse Janacek disse, horrorizado. - Isso perturbou seus pensamentos. Abaixe sua arma, meu<emphasis> teyn.</emphasis> Eu j� o desafiei. Eu o matarei para voc�. - Colocou a m�o no bra�o de Jaan.</p><p>E Jaan Vikary sacudiu o bra�o e apontou a arma para Garse.</p><p>- N�o. Fique longe. Voc� n�o vai interferir, n�o agora. Isso � por Gwen.</p><p>O rosto de Janacek ficou sombrio; nada de risadas agora, nem da ironia implac�vel. Fechou a m�o direita com for�a e lentamente a levantou. Ferro-e-pedrardente brilhavam no espa�o entre os dois Jadeferros.</p><p>- Nosso la�o - disse Janacek. - Pense, meu<emphasis> teyn.</emphasis> Minha honra e a sua, e a do nosso grupo. - A voz dele era solene.</p><p>- E a honra<emphasis> dela</emphasis>? - Vikary perguntou. Gesticulando impaciente com seu laser, for�ou Janacek a se afastar dele e virou-se novamente para Myrik.</p><p>Sozinho e confuso, Myrik parecia n�o saber o que esperar. Sua ira o abandonara, embora ainda tivesse a respira��o pesada. Um rastro de saliva, tingida de rosa com sangue, escorria do canto de sua boca. Ele a secou com as costas da m�o e olhou inseguro na dire��o de Garse Janacek.</p><p>- A primeira de quatro escolhas - come�ou com voz tr�mula.</p><p>- Fa�o a escolha do modo.</p><p>- N�o - interrompeu Vikary. - Voc� n�o faz escolhas.<emphasis> Me</emphasis> encare, quase-homem.</p><p>Myrik olhou de Vikary para Janacek e ent�o para Vikary novamente.</p><p>- A escolha do modo - repetiu, aturdido.</p><p>- N�o - Vikary interrompeu novamente. - Voc� n�o deu escolhas a Gwen Delvano, e ela o teria enfrentado limpamente, em duelo.</p><p>Uma express�o genu�na de perplexidade contorceu o rosto de Myrik.</p><p>- Ela? Em duelo? Eu... ela era uma mulher, um quase-homem.</p><p>- acenou com a cabe�a, como se tivesse esclarecido tudo. - Ela era uma<emphasis> mulher,</emphasis> Jadeferro. Voc� enlouqueceu? Ela zombou de mim. Uma mulher n�o duela.</p><p>- E voc� n�o vai duelar, Myrik. Entendeu? Entendeu?<emphasis> Voc�... - </emphasis>disparou, e um pulso de luz de meio-segundo atingiu Myrik entre as pernas; ele soltou um grito - ...<emphasis> n�o...</emphasis> - esperou enquanto o laser recarregava - ...<emphasis> vai...</emphasis> - continuou, quinze segundos depois, e com a palavra brotou uma agulha de luz que queimou o peito da figura que se contorcia, e ent�o Vikary retrocedeu para o aerom�vel -...<emphasis> duelar!</emphasis> - completou, j� meio dentro do carro. Com essa �ltima palavra veio um movimento de seu pulso e uma quarta rajada de luz, e Lorimaar Alto-Braith Arkellor estava caindo, sua arma meio desembainhada.</p><p>Ent�o Vikary fechou a porta do ve�culo, Dirk acionou o controle de gravidade, e o aerom�vel arrancou bruscamente. Estavam a meio caminho da sa�da quando os disparos de laser come�aram a acertar a blindagem.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 10</strong></p><empty-line/><p>Era noite fechada sobre a Comuna. O ar era cristal negro, limpo e frio. Os ventos estavam fortes. Dirk estava grato pelo aerom�vel blindado dos Braiths, com a cabine quente, completamente fechada.</p><p>Voavam a uns duzentos metros acima das plan�cies e das suaves colinas, acelerando o m�ximo poss�vel. Uma vez, antes que Desafio desaparecesse atr�s deles, Dirk olhou para tr�s para ver se havia sinais de persegui��o. N�o viu nada, mas a cidade emereliana chamou sua aten��o novamente. Aquela alta lan�a negra, que logo estaria perdida contra o c�u mais negro ainda, o fazia se lembrar de uma �rvore presa em um inc�ndio florestal, sem galhos e folhas, nem nada para evocar sua gl�ria passada, al�m de um tronco carbonizado e escuro. Lembrou-se de Desafio como Gwen lhe mostrara pela primeira vez, quando ele pedira para ver uma cidade com vida: brilhante contra o entardecer, impossivelmente alta e prateada, coroada pelas rajadas ascendentes de luz. Uma casca morta, agora, assim como estavam mortos os sonhos de seus construtores. Os ca�adores de Braith matavam mais do que homens e animais.</p><p>- Logo estar�o atr�s de n�s, t'Larien - Jaan Vikary falou. - Voc� n�o precisa procurar por eles.</p><p>Dirk voltou a aten��o aos instrumentos.</p><p>- Para onde vamos? N�o podemos apenas voar sobre a Comuna a noite toda, sem rumo. Larteyn?</p><p>- N�o podemos voltar para Larteyn agora - Vikary respondeu. Havia embainhado o laser, mas estava com a mesma express�o sombria desde Desafio, quando derrubara Myrik. - Voc� � t�o tolo que n�o percebe o que eu fiz? Eu rompi o c�digo, t'Larien. Sou um renegado, um criminoso, um rompe-duelos. Eles vir�o atr�s de mim e me matar�o como a um quase-homem. - Entrela�ou as m�os pensativamente sob o queixo. - Nossa �nica esperan�a... n�o sei. Talvez n�o haja esperan�a.</p><p>- Fale por voc�. Tenho um pouco mais de esperan�a agora do que h� um minuto, quando estava l�l</p><p>Vikary olhou para ele e sorriu, apesar de si mesmo.</p><p>- E verdade. Embora esse seja um ponto de vista bem ego�sta. N�o foi por voc� que fiz o que fiz.</p><p>- Por Gwen?</p><p>Vikary assentiu.</p><p>- Ele... ele nem sequer lhe concedeu a honra de recusar. Como se ela fosse um animal. E mesmo assim... bem, pelo c�digo, ele estava certo. O c�digo pelo qual tenho vivido. Eu poderia t�- -lo matado por isso. Garse tentou, como voc� testemunhou. Ele estava zangado, porque Myrik tinha... tinha danificado sua propriedade e manchado nossa honra. Ele teria vingado essa falta, se eu tivesse permitido. - Suspirou. - Voc� entende por que n�o permiti, t'Larien? Entende? Vivi em �valon, e amei Gwen Delvano. Ela jazia ali, e continuava viva apenas por um capricho da sorte. Myrik Braith n�o se importaria se ela morresse, nem os outros. Mas Garse teria garantido ao homem que fez isso uma morte limpa e decente, e teria lhe dado o beijo compartilhado antes de tirar sua vida insignificante. Eu... eu me importo com Garse. Mesmo assim, n�o podia deix�-lo fazer isso, t'Larien, n�o vendo Gwen t�o... t�o desvalida e im�vel. N�o pude permitir isso.</p><p>Vikary ficou quieto, meditando. Do lado de fora, durante este momento de sil�ncio, Dirk p�de ouvir o vento feroz de Worlorn sibilando.</p><p>- Jaan - Dirk falou depois de um instante -, precisamos decidir para onde ir. Temos de levar Gwen para um abrigo. Algum lugar onde ela possa ficar confort�vel, onde n�o seja incomodada. Talvez conseguir um m�dico para v�-la.</p><p>- N�o conhe�o m�dicos em Worlorn - Vikary respondeu. - Mesmo assim, devemos levar Gwen para uma cidade. - Pensou no assunto. - Esvoch � a mais pr�xima, mas est� em ru�nas. Kryne</p><p>Lamiya � ent�o nossa melhor op��o, acho, j� que � a segunda mais perto de Desafio. Vire para o sul.</p><p>Dirk virou o aerom�vel em um arco amplo, deslizando para cima e apontando para a distante linha da cadeia de montanhas. Lembrava-se vagamente do caminho que Gwen fizera da torre brilhante de di-Emerel at� a cidade desolada de Escuralba, com sua m�sica l�gubre.</p><p>Enquanto voavam em dire��o �s montanhas, Vikary ficou pensativo novamente, encarando cegamente a escurid�o da noite de Worlorn. Dirk, que compreendia at� que ponto o kavalariano estava sofrendo, n�o tentou interromper sua melancolia, mas mergulhou nos pr�prios pensamentos em sil�ncio. Sentia-se muito cansado; a dor na cabe�a voltara a incomod�-lo, e de repente ficou ciente de uma secura na garganta e na boca. Tentou se lembrar da �ltima vez que havia comido ou bebido, mas n�o conseguiu; de algum modo perdera toda a no��o de tempo.</p><p>Os grandes picos negros de Worlorn se aproximavam deles, e Dirk levou o aerom�vel mais para cima, para sobrevo�-los, e nem assim ele ou Jaan Vikary disseram uma palavra. Foi s� quando as montanhas ficaram para tr�s e os bosques, adiante, que o kavalariano falou novamente, mas foi apenas para dar instru��es sobre o percurso correto. Depois voltou a se calar, e foi em sil�ncio que voaram os solit�rios quil�metros at� seu destino.</p><p>Dessa vez Dirk sabia o que esperar, e escutou. A m�sica de Lamiya-Bailis chegou aos seus ouvidos, um t�nue gemido do vento, muito antes que a pr�pria cidade se erguesse em meio � floresta. Fora da blindagem em que estavam, n�o havia nada al�m de desola��o: os intrincados bosques �s escuras embaixo deles, o c�u quase sem estrelas acima. Mesmo assim, as notas de desespero sombrio vieram, tilintando, e o tocaram onde estava.</p><p>Vikary ouviu a m�sica tamb�m. Olhou de relance para Dirk.</p><p>- Esta � uma cidade adequada para n�s agora, t'Larien.</p><p>- N�o - Dirk respondeu, alto demais, sem querer acreditar naquilo.</p><p>- Para mim, ent�o. Todos os meus esfor�os foram em v�o. Os povos que lutei para salvar n�o permanecer�o a salvo por muito tempo. Os Braiths poder�o ca��-los agora,<emphasis> korariel</emphasis> de Jadeferro ou n�o. N�o posso impedi-los. Talvez Garse possa, mas o que um homem sozinho pode fazer? Talvez nem tente. Era minha obsess�o, n�o a dele. Garse est� perdido tamb�m. Voltar� para Alto Kavalaan sozinho, acho, e descer� sozinho at� a fortaleza Jadeferro, e o conselho de altos-senhores tirar� meus nomes. Ele ter� que encontrar uma faca para arrancar as pedrardentes de seu bracelete, e usar ferro vazio sobre o bra�o. Seu<emphasis> teyn</emphasis> est� morto.</p><p>- Em Alto Kavalaan, talvez. - Dirk concordou. - Mas voc� viveu em �valon tamb�m, lembra?</p><p>- Sim - Vikary respondeu. - Infelizmente. Infelizmente.</p><p>A m�sica crescia e retumbava ao redor deles, e a Cidade Sereia tomava forma embaixo: o c�rculo exterior de torres, como m�os esquel�ticas em g�lida agonia, as pontes claras sobre canais escuros, os campos de musgo de brilho opaco, os pin�culos que assobiavam ao serem atingidos pelo vento. Uma cidade branca, uma cidade morta, uma floresta de ossos disformes.</p><p>Dirk circundou at� encontrar o mesmo pr�dio em que havia pousado com Gwen, e come�ou a aterrissar. Na pista de pouso, os dois carros abandonados ainda descansavam sem ser perturbados, cobertos de p�. Pareciam, para Dirk, fragmentos de um sonho havia muito esquecido. Em algum momento, por alguma raz�o, pareceram importantes; mas ele, Gwen e o mundo estavam diferentes agora, e como era dif�cil lembrar que eventual relev�ncia esses fantasmas met�licos tiveram.</p><p>- Voc�s estiveram aqui antes - Vikary disse, e Dirk olhou para ele e assentiu. - Mostre o caminho, ent�o - o kavalariano ordenou.</p><p>- Eu n�o...</p><p>Mas Vikary j� tinha se levantado. Pegou Gwen gentilmente, tomando-a nos bra�os, e ficou esperando.</p><p>- Mostre o caminho - disse novamente.</p><p>Ent�o Dirk saiu da pista de aterrissagem e caminhou at� os sal�es onde os murais cinza e brancos dan�avam ao som da sinfonia escuralbina, e tentou porta ap�s porta, at� encontrar um c�modo ainda mobiliado. Era uma su�te de quatro c�modos, na verdade, todos desertos, de p�-direito alto e longe de estarem limpos. As camas - dois dos aposentos eram quartos - eram buracos circulares no ch�o; os colch�es estavam cobertos com um couro liso e brilhante que exalava um certo odor desagrad�vel, como leite azedo. Mas eram camas, macias o suficiente, e um lugar para descansar, e Vikary colocou Gwen cuidadosamente em uma delas. Quando ela estava acomodada - parecia quase serena - Jaan deixou Dirk sentado ao seu lado, de pernas cruzadas, e saiu para revistar o aerom�vel que haviam roubado. Voltou pouco tempo depois com uma manta para Gwen e um cantil.</p><p>- Beba apenas um gole - disse, dando a �gua para Dirk.</p><p>Dirk pegou o cantil, abriu a tampa, tomou um gole e o devolveu. O l�quido estava morno e era ligeiramente amargo, mas aliviou a sequid�o da garganta.</p><p>Vikary molhou uma faixa de tecido cinza e come�ou a limpar o sangue seco da parte de tr�s da cabe�a de Gwen. Esfregou gentilmente a crosta marrom, molhando o trapo novamente e ainda mais uma vez, trabalhando at� que o fino cabelo dela estivesse limpo e solto como um reluzente leque no colch�o, brilhando sob as luzes vacilantes dos murais. Quando terminou, enfaixou sua cabe�a e olhou para Dirk.</p><p>- Ficarei de guarda - disse. - V� para o outro aposento e durma.</p><p>- Precisamos conversar - Dirk falou, hesitante.</p><p>- Mais tarde. Agora n�o. V� dormir.</p><p>Dirk n�o tinha condi��es de discutir; seu corpo estava exausto e sua cabe�a ainda latejava. Foi para o outro quarto e jogou-se desajeitadamente no colch�o cheirando a azedo.</p><p>Mas, apesar das dores, o sono n�o veio imediatamente. Talvez fosse a dor de cabe�a, ou o movimento inquieto da luz que percorria as paredes e o assombrava mesmo com os olhos fechados. O pior, no entanto, era a m�sica. N�o o abandonava, e parecia ecoar mais alto quando seus olhos se fechavam, como se cada acorde estivesse preso dentro de seu cr�nio: sopros finos, gemidos e assobios, e o<emphasis> incessante</emphasis> bater do tambor solit�rio.</p><p>Sonhos febris povoaram aquela noite intermin�vel - vis�es intensas, surreais e quentes, cheias de ansiedade. Tr�s vezes Dirk despertou de seu sono inquieto, para sentar-se na cama, tremendo e transpirando, e encarar a can��o de Lamiya-Bailis mais uma vez, sem nunca se lembrar do que o acordara. Uma vez pensou ter ouvido vozes no quarto ao lado. Outra vez teve quase certeza de ter visto Jaan Vikary com as costas apoiadas contra uma parede distante, observando-o. Nenhum deles falou, e Dirk levou quase uma hora para dormir novamente. Apenas para acordar de novo, em um quarto vazio e com luzes inquietas. Perguntou-se se eles o haviam deixado ali sozinho para viver ou morrer; quanto mais pensava nisso, mais o medo crescia, e pior seu tremor ficava. Mas, de algum modo, foi incapaz de se levantar e ir at� o quarto adjacente para conferir por si mesmo. Em vez disso, fechou os olhos e tentou afastar qualquer pensamento.</p><p>E ent�o amanheceu. O Sat� Gordo estava a meio caminho no c�u, e sua luz febril, vermelha e fria como os pesadelos de Dirk, atravessava o vitral de uma janela alta (predominantemente claro no centro, mas cercado com um padr�o intrincado de arabescos vermelho-acastanhados e cinza-fumo) e acertava seu rosto. Dirk virou de lado e lutou para se sentar, enquanto Jaan Vikary aparecia para lhe oferecer o cantil.</p><p>Dirk tomou v�rios longos goles, quase engasgando com a �gua fria e deixando um pouco para molhar os l�bios rachados e secos e escorrer pelo queixo.</p><p>- Voc� encontrou �gua - disse.</p><p>Vikary fechou o cantil novamente e assentiu.</p><p>- As esta��es de bombeamento est�o fechadas por anos, ent�o n�o h� �gua pot�vel nas torres de Kryne Lamiya. Mesmo assim, os canais ainda est�o cheios. Fui at� l� noite passada, enquanto voc� e Gwen dormiam.</p><p>Dirk ficou em p� com dificuldade, e Vikary estendeu uma m�o para ajud�-lo a sair da cama funda.</p><p>- Gwen est�...?</p><p>- Ela recuperou a consci�ncia no in�cio da noite, t'Larien. Conversamos e contei para ela o que fiz. Acho que se recuperar� em breve.</p><p>- Posso falar com ela?</p><p>- Ela est� descansando agora, dormindo normalmente. Mais tarde tenho certeza de que desejar� falar com voc�, mas neste momento n�o acho que deva acord�-la. Ela tentou se sentar noite passada e se sentiu muito mal e nauseada.</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Entendo. E quanto a voc�? Conseguiu dormir? - Enquanto falava, deu uma olhada no quarto. A m�sica escuralbina havia diminu�do de algum modo. Ainda tocava, ainda gemia, reclamava e permeava todo o ar de Kryne Lamiya; mas, aos seus ouvidos, parecia mais fraca e mais distante, ent�o talvez estivesse finalmente se acostumando a ela, aprendendo a deslig�-la de sua percep��o consciente. Os murais iluminados, como as pedrardentes de Larteyn, se desvaneciam e morriam sob a luz solar; as paredes estavam cinzentas e vazias. Os poucos m�veis que havia (umas poucas cadeiras de aspecto desconfort�vel) sobressa�am das paredes e do ch�o: extrus�es retorcidas que combinavam com a cor e o tom do aposento t�o bem que eram quase invis�veis.</p><p>- Eu dormi o suficiente - Vikary disse. - Isso n�o � importante. Estive considerando nossa posi��o. - Fez um gesto. - Venha.</p><p>Atravessaram outro aposento, uma sala de jantar vazia, e<emphasis> sa�ram</emphasis> at� um dos muitos balc�es que davam para a cidade de Escuralba. De dia, Kryne Lamiya era diferente, menos deses- peradora; mesmo o p�lido sol de Worlorn era o suficiente para fazer cintilar as �guas velozes dos canais, e no dia crepuscular as claras torres pareciam menos sepulcrais.</p><p>Dirk estava fraco e muito faminto, mas a dor de cabe�a se fora e a sensa��o do vento frio em seu rosto era agrad�vel. Afastou o cabelo - totalmente emaranhado e imundo - dos olhos e esperou que Jaan come�asse a falar.</p><p>- Observei daqui durante a noite - Vikary falou, com os cotovelos apoiados nos anteparos frios e os olhos perscrutando o horizonte. - Est�o procurando por n�s, t'Larien. Duas vezes vislumbrei aerom�veis sobre a cidade. Na primeira vez foi apenas uma luz distante, ent�o talvez estivesse enganado. Mesmo assim, a segunda n�o era engano. O carro com cabe�a de lobo de Chell voava perto do n�vel do solo sobre os canais, com uma esp�cie de holofote. Passou bem perto. Levava um c�o de ca�a tamb�m. Eu o ouvi uivar, inquieto com a m�sica escuralbina.</p><p>- N�o nos encontraram. - Dirk comentou.</p><p>- � verdade - Vikary respondeu. - Acho que ficaremos seguros aqui por algum tempo. A menos... n�o sei bem como encontraram voc�s em Desafio, e isso me d� um certo temor. Se nos rastrearem at� Kryne Lamiya e vasculharem a cidade com c�es de ca�a Braiths, correremos s�rio perigo. N�o temos o anulador de odores agora. - Olhou para Dirk. -<emphasis> Como</emphasis> souberam que voc�s estavam ali? Tem alguma id�ia?</p><p>N�o - Dirk respondeu. - Ningu�m sabia. Ningu�m nos seguiu. Talvez tenham deduzido. Era a escolha mais l�gica, no final das contas. A vida era mais confort�vel em Desafio do que em qualquer outra cidade. Mais f�cil. Voc� sabe.</p><p>- Sim, eu sei. N�o aceito sua teoria, contudo. Lembre-se, t'Larien, Garse e eu consideramos este problema tamb�m, quando voc� nos deixou envergonhados e sozinhos no quadrado da morte. Desafio era a escolha mais<emphasis> �bvia</emphasis> e, por isso, a menos l�gica, achamos. Parecia mais prov�vel que voc�s tivessem ido para Musquel e viver do peixe que conseguissem pescar, ou que Gwen ca�asse para voc�s dois nos bosques que conhece t�o bem. Garse chegou at� a sugerir que voc�s simplesmente tivessem escondido o aerom�vel e permanecido em outro lado de Larteyn, ent�o poderiam rir de n�s enquanto estiv�ssemos procurando por voc�s planeta afora.</p><p>Dirk se inquietou.</p><p>- Sim. Bem, suponho que nossa escolha tenha sido est�pida.</p><p>- N�o, t'Larien. Eu n�o disse isso. A �nica escolha est�pida, imagino, teria sido voar para a Cidade do Tanque Sem Estrelas, onde os Braiths eram numerosos. Desafio foi uma escolha sutil, talvez involuntariamente sutil. Parecia uma escolha t�o errada que era realmente a certa. Entende? N�o vejo como os Braiths descobriram voc�s, por nenhum processo de dedu��o.</p><p>- Talvez - Dirk falou. Pensou um pouco. - Lembro que soubemos que estavam ali quando Bretan falou conosco. Ele... bem, n�o estava testando uma teoria. Ele sabia que est�vamos ali, em algum lugar.</p><p>- Tem alguma id�ia de como isso foi poss�vel?</p><p>- N�o. Nenhuma id�ia.</p><p>- Teremos que viver com o temor de que nos encontrem aqui, ent�o. Do contr�rio, a menos que os Braiths possam repetir esse milagre, estamos seguros. Entenda, no entanto, que nossa posi��o n�o � menos dif�cil. Temos abrigo e �gua � vontade, mas nenhuma comida. Conclu� que devemos ir para o porto espacial e deixar Worlorn o mais r�pido poss�vel. Nossa fuga definitiva ser� muito dif�cil. Os Braiths nos antecipar�o. Tenho minha pistola laser, e dois lasers de ca�a que encontrei no aerom�vel. Al�m do pr�prio ve�culo, blindado e bem armado, provavelmente pertencente a Roseph Alto-Braith Kelcek...</p><p>- Um dos carros abandonados na pista de pouso ainda pode funcionar - Dirk assinalou.</p><p>- Ent�o temos dois aerom�veis, se precisarmos deles - Vikary falou. - Contra n�s, pelo menos oito ca�adores Braiths ainda vivos, provavelmente nove. N�o sei o qu�o seriamente feri Lorimaar Arkellor. � poss�vel que eu o tenha matado, mas estou inclinado a duvidar disso. Os Braiths podem provavelmente colocar oito aerom�veis no c�u de uma s� vez, se quiserem, embora seja mais tradicional voarem juntos,<emphasis> teyn-e-teyn.</emphasis> Cada carro estar� armado. Eles t�m suprimentos, energia e comida. Est�o em n�mero maior do que n�s. Possivelmente, j� que sou um renegado rompe-duelos, conseguir�o persuadir Kirak A�orrubro Cavis e os dois ca�adores do grupo Shanagate a se juntarem a eles na persegui��o. Al�m disso, h� Garse Janacek.</p><p>- Garse?</p><p>- Espero que ele tenha tirado as pedrardentes do bra�o e voltado para Alto Kavalaan. Ele estar� envergonhado, sozinho, vestindo ferro morto. N�o � um destino f�cil, t'Larien. Eu o desgracei e a Jadeferro. Sinto pela dor dele, mas espero que parta. E rezo por isso. Pois h� outra possibilidade, veja bem.</p><p>-Outra...?</p><p>- Ele pode vir atr�s de n�s. N�o poder� deixar Worlorn at� que a nave chegue. Isso levar� um tempo. N�o sei o que far�.</p><p>- Certamente n�o se juntar� aos Braiths. S�o inimigos, e voc� � seu<emphasis> teyn</emphasis> e Gwen � sua<emphasis> cro-betheyn.</emphasis> Ele pode querer me matar, n�o duvido, mas...</p><p>- Garse � mais kavalariano do que eu, t'Larien. Sempre foi. E agora mais do que nunca, desde que eu n�o sou mais kavalariano depois de tudo o que fiz. O antigo costume requer que o<emphasis> teyn</emphasis> de um homem, n�o menos do que qualquer outro, mate um rompe-duelos. � um costume que apenas os muito fortes conseguem seguir. O la�o de ferro-e-fogo � pr�ximo demais para a maioria, ent�o eles s�o deixados sozinhos para lamentar. Mas Garse Janacek � um homem muito forte, mais forte do que eu mesmo de muitas maneiras. N�o sei. N�o sei.</p><p>- E se ele vier atr�s de n�s?</p><p>Vikary falou calmamente.</p><p>- N�o levantarei uma arma contra Garse. Ele � meu<emphasis> teyn,</emphasis> mesmo que eu n�o seja mais o dele, e j� o magoei o bastante, falhei com ele, o envergonhei. Ele convive com uma dolorosa cicatriz a maior parte de sua vida adulta por minha causa. Uma vez, quando �ramos jovens, um homem mais velho ficou ofendido com uma de suas brincadeiras e o desafiou. O modo era um disparo, e lutamos<emphasis> teyn-e-teyn.</emphasis> Em minha infinita sabedoria, convenci Garse de que nossa honra estaria satisfeita se atir�ssemos para o ar. Ele fez isso, lamentavelmente. Os outros decidiram ensinar Garse uma li��o sobre humor. Para minha vergonha, permaneci intocado, enquanto ele foi desfigurado por causa da minha tolice. Mesmo assim, nunca me reprovou. Da primeira vez que estive com ele depois do duelo, quando ainda estava se recuperando dos ferimentos, me disse: "Voc� estava certo, Jaantony, ele<emphasis> atiraram</emphasis> para o ar. Pena que erraram". - Vikary riu, mas Dirk olhou para ele e viu que seus olhos estavam cheios de l�grimas, sua boca apertada de consterna��o. N�o chorou, no entanto; por um supremo esfor�o de vontade, impediu que as l�grimas ca�ssem.</p><p>Abruptamente, Jaan se virou e entrou no edif�cio, deixando Dirk sozinho no balc�o com o vento, a branca cidade crepuscular e a m�sica de Lamiya-Bailis. Ao longe, as brancas m�os ossudas se erguiam, refreando os bosques invasores. Dirk as estudou, pensativamente, refletindo sobre as palavras de Vikary.</p><p>Minutos depois, o kavalariano voltou, de olhos secos e rosto inexpressivo.</p><p>- Sinto muito - come�ou.</p><p>- N�o precisa...</p><p>- Devemos chegar ao cerne, t'Larien. Independentemente se Garse vai nos procurar ou n�o, enfrentamos riscos formid�veis. Temos armas, se precisarmos lutar, mas ningu�m para us�-las. Gwen � uma boa atiradora, e bastante audaz, mas est� machucada e inst�vel. E voc�... posso confiar em voc�? Coloco isso sem meias-palavras. Confiei em voc� uma vez, e voc� me traiu.</p><p>- Como posso responder a essa pergunta? - Dirk falou. - Voc� n�o tem que acreditar em nenhuma promessa que eu lhe fa�a. Mas os Braiths querem me matar tamb�m, lembra? E Gwen tamb�m. Ou voc� acha que eu a trairia t�o facilmente quanto... - Interrompeu-se, horrorizado com as pr�prias palavras.</p><p>- ... t�o facilmente quanto me traiu. - Vikary completou, com um sorriso duro. - Voc� � bastante franco. N�o, t'Larien,<emphasis> n�o</emphasis> acho que trairia Gwen. Mesmo assim, n�o achei que nos abandonaria quando o nomeamos<emphasis> keth</emphasis> e voc� aceitou o nome. N�o ter�amos que duelar se n�o fosse por voc�.</p><p>Dirk assentiu.</p><p>- Sei disso. Talvez eu tenha cometido um erro. N�o sei. Eu teria morrido, no entanto, se tivesse sido leal a voc�s.</p><p>- Morrido como um<emphasis> keth</emphasis> de Jadeferro, com honra.</p><p>Dirk sorriu.</p><p>- Gwen me atra�a mais do que a morte. Espero que entenda isso.</p><p>- Entendo. Em �ltima inst�ncia, ela ainda est� entre n�s. Encare isso, aceite a verdade. Cedo ou tarde, ela escolher�.</p><p>- Ela escolheu, Jaan, quando partiu comigo. Voc� tem que encarar<emphasis> isso</emphasis> - Dirk falou r�pida e teimosamente; e se perguntava se ele mesmo acreditava nisso.</p><p>- Ela n�o tirou o jade-e-prata - Vikary respondeu e gesticulou impacientemente. - Isso n�o importa.<emphasis> Acreditarei</emphasis> em voc�, por enquanto.</p><p>- Bem. O que quer que eu fa�a?</p><p>- Algu�m precisa ir a Larteyn.</p><p>Dirk franziu o cenho.</p><p>- Por que est� sempre querendo que eu me suicide, Jaan?</p><p>- N�o disse que voc� deve fazer esse voo, t'Larien - Vikary respondeu. - Eu mesmo o farei. Ser� perigoso, mas deve ser feito.</p><p>- Por que?</p><p>- O kimdissiano.</p><p>- Ruark? - Dirk quase se esquecera de seu ex-anfitri�o e c�mplice.</p><p>Vikary assentiu.</p><p>- Ele tem sido amigo de Gwen desde a �poca de �valon. Embora nunca tenha gostado de mim, ou eu dele, n�o posso abandon�-lo completamente. Os Braiths...</p><p>- Entendo. Mas como chegar� at� ele?</p><p>- Se eu conseguir chegar a Larteyn em seguran�a, posso cham�-lo pelo painel. � minha esperan�a, ao menos. - Deu de ombros resignado.</p><p>- E eu?</p><p>- Fique aqui com Gwen. Cuide dela, proteja-a. Eu deixarei um dos rifles laser de Roseph com voc�. Se ela se recuperar o suficiente, deixe Gwen us�-lo. Ela provavelmente � mais habilidosa do que voc�. De acordo?</p><p>- De acordo. N�o parece muito dif�cil.</p><p>- N�o - concordou Vikary. - Espero que voc�s permane�am escondidos em seguran�a e que, ao regressar com o kimdissiano, eu os encontre como os deixei. Se for necess�rio fugir, voc�s t�m o outro aerom�vel; nas proximidades h� uma caverna que Gwen conhece. Ela pode lhe mostrar o caminho. Devem ir para essa caverna se tiverem que deixar Kryne Lamiya.</p><p>- E se voc�<emphasis> n�o</emphasis> voltar? Existe<emphasis> essa</emphasis> possibilidade, voc� sabe!</p><p>- Neste caso, estar�o por conta pr�pria novamente, como da primeira vez que fugiram de Larteyn. Voc�s tinham planos. Sigam esses planos, se puderem. - Ele sorriu duramente. - Espero retornar, no entanto. Lembre-se disso, t'Larien. Lembre- -se disso.</p><p>Havia uma crispa��o f�rrea na voz de Vikary, um eco que fazia Dirk se lembrar de outra conversa no mesmo vento gelado. Com assombrosa nitidez, as antigas palavras de Jaan voltaram at� Dirk:<emphasis> Mas eu existo. Lembre-se disso... Aqui n�o � Avalon, t'Larien, e hoje n�o � ontem. Este � um mundo agonizante, um mundo sem c�digos, ent�o cada um de n�s deve se aferrar a qualquer c�digo que tenha trazido consigo.</emphasis> Mas Jaan Vikary, Dirk pensou irritado, trouxera dois c�digos consigo quando veio para Worlorn.</p><p>Enquanto Dirk n�o trouxera nenhum; s� seu amor por Gwen Delvano.</p><p>Gwen ainda estava dormindo quando os dois homens sa�ram do balc�o. Sem despert�-la, foram juntos at� a pista de pouso. Vikary havia esvaziado o aerom�vel Braith totalmente. Roseph e seu<emphasis> teyn</emphasis> tinham obviamente planejado uma breve excurs�o de ca�a nos bosques quando surgiram as novidades. Dirk lamentou que n�o tivessem planejado uma viagem mais longa.</p><p>Dessa maneira, Vikary encontrara apenas quatro barras de prote�na, al�m de dois lasers de ca�a e algumas roupas que deixara penduradas sobre os assentos. Dirk comeu uma das barras imediatamente - estava faminto - e guardou as outras tr�s no bolso da pesada jaqueta que escolheu. Ficava um pouco folgada, mas n�o estava de todo mal; o<emphasis> teyn</emphasis> de Roseph tinha quase o mesmo tamanho de Dirk. E era de couro grosso e<emphasis> quente,</emphasis> tingido de p�rpura, com a gola, o punho e os acabamentos de pele branca encardida. As duas mangas da jaqueta estavam pintadas com desenhos intrincados e sinuosos; a manga direita era vermelha e negra, a esquerda, prata e verde. Tamb�m encontraram uma jaqueta menor (de Roseph, sem d�vida), e Dirk a pegou para Gwen.</p><p>Vikary pegou os dois rifles laser, longos tubos de pl�stico negro com lobos entalhados nas coronhas brancas. Pendurou um no ombro e deu o segundo para Dirk, com instru��es resumidas de como utiliz�-lo. A arma era muito leve e ligeiramente oleosa ao tato. Dirk a segurou desajeitadamente com uma m�o.</p><p>As despedidas foram breves e muito formais. Ent�o Vikary se fechou no grande aerom�vel Braith, ergueu-o do ch�o e disparou pelo ar. Grandes nuvens de poeira se levantaram com sua partida, e Dirk retrocedeu, quase asfixiado, com uma m�o sobre a boca e outra no rifle.</p><p>Quando voltou � su�te, Gwen acabara de despertar.</p><p>- Jaan? - perguntou, levantando a cabe�a do colch�o de couro para ver quem acabava de entrar. Gemeu e deitou-se rapidamente, e come�ou a massagear as t�mporas com as duas m�os. - Minha cabe�a - disse em um choramingo.</p><p>Dirk apoiou o laser contra a parede, junto � porta, e sentou-se ao lado da cama.</p><p>- Jaan acabou de partir - disse. - Est� voando para Larteyn para buscar Ruark.</p><p>A �nica resposta de Gwen foi outro gemido.</p><p>- Quer alguma coisa? - Dirk perguntou. - �gua? Comida? Temos isso aqui. - Tirou as barras de prote�na do bolso da jaqueta e mostrou para ela.</p><p>Gwen deu uma olhada de relance e fez uma careta de desgosto.</p><p>- N�o - disse. - Tire isso daqui. N�o estou com fome.</p><p>- Voc� devia comer alguma coisa.</p><p>- Eu comi - ela respondeu. - Noite passada. Jaan esmagou umas barras dessas na �gua e fez um tipo de pasta. - Tirou as m�os das t�mporas e se virou para Dirk. - N�o consegui mant�-las no est�mago - comentou. - N�o me sinto muito bem.</p><p>- Imagino que sim - Dirk disse. - N�o pode esperar se sentir bem depois do que aconteceu. Provavelmente est� com uma concuss�o, e tem sorte de n�o estar morta.</p><p>- Jaan me contou - ela disse, um pouco irritada. - Sobre o que aconteceu depois tamb�m... o que ele fez com Myrik. - Franziu o cenho. - Acho que dei um bom golpe nele quando ca�mos. Voc� viu, n�o viu? Senti como se tivesse quebrado a mand�bula dele, ou pelo menos meus dedos. Mas ele nem notou.</p><p>- N�o - concordou Dirk.</p><p>- Conte-me o que aconteceu depois. Jaan foi muito esquem�tico. Quero saber. - A voz dela estava cansada e cheia de dor, mas falava s�rio.</p><p>Ent�o Dirk lhe contou.</p><p>- Ele apontou a arma para Garse? - ela disse em determinado momento. Dirk assentiu, e ela continuou a escutar o relato.</p><p>Quando ele terminou, Gwen estava muito silenciosa. Seus olhos se fecharam por um breve momento, abriram novamente, ent�o fecharam e n�o reabriram. Ficou deitada de lado, im�vel, em posi��o fetal, as m�os fechadas sob o queixo. Observando-a, os olhos de Dirk foram atra�dos para o antebra�o esquerdo dela, para o frio lembrete de jade-e-prata que Gwen ainda usava.</p><p>- Gwen - ele disse, suavemente. Os olhos dela se abriram novamente, por um breve momento, e ela sacudiu a cabe�a violentamente, em um silencioso grito de<emphasis> n�o!</emphasis> - Ei - ele insistiu, mas ela fechou os olhos com for�a e perdeu-se em si mesma. Dirk ficou sozinho com o bracelete dela e os pr�prios medos.</p><p>O quarto estava inundado pela luz do sol, ou pelo que chamavam de luz de sol em Worlorn; os fulgores crepusculares do meio-dia eram filtrados pela janela, e nuvens de poeira vagavam pregui�osamente nos amplos feixes de luz. A luz iluminava metade do colch�o; Gwen estava deitada metade na sombra, metade fora dela. Dirk, que n�o falou novamente com Gwen, nem olhou para ela, ficou observando os desenhos que a luz fazia no ch�o.</p><p>No centro do quarto, tudo estava c�lido e vermelho, e a poeira dan�ava, saindo da escurid�o e tingindo-se de carmesim, depois dourado, lan�ando sombras min�sculas at� sair da luz novamente e desaparecer. Dirk levantou a m�o e a manteve estendida. Por minutos? Horas? Por um tempo. Sua m�o ficava cada vez mais quente; a poeira girava em torno dela; as sombras ca�am feito �gua quando ele retorcia e virava os dedos; o sol era amig�vel e familiar. Mas, repentinamente, ficou ciente de que os movimentos de sua m�o, assim como a infinita dan�a da poeira, n�o tinham prop�sito, nem padr�o, nem significado. Era a m�sica que lhe dizia isso; a m�sica de Lamiya-Bailis. Abaixou o bra�o e franziu o cenho.</p><p>Ao redor do grande centro de luz e vida, havia um contorno fino e sinuoso onde o sol brilhava atrav�s do batente negro e vermelho da janela. Ou lutava para abrir caminho. Era apenas uma borda pequena, mas colocava um limite preciso no p� que se mexia por todos os lados.</p><p>Mais al�m havia cantos escuros, partes do quarto que o Cubo e os S�is Troianos nunca alcan�avam, onde gordos dem�nios e as encarna��es dos medos de Dirk se debru�avam obscuramente, sempre a salvo de qualquer escrut�nio.</p><p>Sorrindo e co�ando a barba rala que lhe cobria as faces at� o queixo (ele as sentia pinicar), Dirk estudou esses cantos e deixou que a m�sica escuralbina entrasse em sua alma. N�o sabia como fizera para deix�-la de lado, mas agora ela estava de volta e o cercava completamente.</p><p>A torre em que estavam emitiu uma longa nota baixa. A anos ou s�culos de dist�ncia, um coro respondeu com vibrantes gemidos de vi�va. Ouviu solu�os tr�mulos, o choro de beb�s abandonados, e o som escorregadio de facas deslizando e cortando carne fresca. E o tambor. Como o vento podia bater um tambor?, pensou. N�o sabia. Talvez fosse outra coisa. Mas soava como um tambor. T�o terrivelmente longe, pensou, e t�o<emphasis> sozinho.</emphasis></p><p>T�o horr�vel e incessantemente sozinho.</p><p>As n�voas e as sombras se reuniam no canto mais afastado e mais escuro do quarto, e ent�o come�aram a clarear. Dirk viu uma mesa e uma cadeira baixa brotando das paredes e do ch�o como estranhos vegetais de pl�stico. Perguntou-se brevemente como os via; o sol se movera um pouco, e apenas um fino feixe de luz penetrava pela janela agora, e finalmente tamb�m se dissipou, e o mundo ficou cinza.</p><p>Quando o mundo ficava cinza, ele percebeu, a poeira n�o dan�ava. N�o. Nem um pouco. Sentiu o ar para ter certeza; n�o havia poeira, nem calor, nem luz do sol. Assentiu sabiamente. Parecia que tinha descoberto alguma grande verdade.</p><p>Luzes fracas se moviam pelas paredes, fantasmas despertando para mais uma noite. Fantasmas e vest�gios de sonhos antigos. Todos eles eram cinza e branco; a cor era apenas para os vivos, n�o tinha lugar ali.</p><p>Os fantasmas come�aram a se mexer. Estavam presos nas paredes, cada um deles; de tempos em tempos, Dirk imaginava ver um deles irromper em dan�a fren�tica e bater com impot�ncia e desespero contra as paredes de vidro que o mantinha fora do quarto. M�os espectrais batiam, batiam, mas o quarto n�o estremecia. A quietude era parte dessas coisas; os fantasmas eram insubstanciais e, por mais que batessem, s� podiam seguir dan�ando.</p><p>A dan�a - uma dan�a macabra - de sombras amorfas... Oh, mas era lindo! Movendo-se, afundando, se contorcendo. Paredes de chama cinzenta. Muito melhores do que as nuvens de poeira, <emphasis>aquelas</emphasis> dan�arinas; essas seguiam um padr�o e acompanhavam a can��o da Cidade Sereia.</p><p>Desola��o. Vazio. Decad�ncia. Um �nico tambor, batendo devagar. Sozinho. Sozinho. Sozinho. Nada tem sentido.</p><p>- Dirk!</p><p>Era a voz de Gwen. Ele sacudiu a cabe�a, desviou o olhar das paredes, at� onde ela estava deitada na escurid�o. Era noite. De alguma forma, o dia se fora.</p><p>Gwen, que n�o havia dormido, olhava para ele.</p><p>- Sinto muito - ela disse. Estava lhe dizendo algo. Mas ele j� sabia, sabia pelo sil�ncio dela, sabia... pelo tambor, talvez. Por Kryne Lamiya.</p><p>Ele sorriu.</p><p>- Voc� nunca esqueceu, n�o �? N�o era uma quest�o de esquecimento. Havia uma raz�o para voc� nunca tirar o... - apontou.</p><p>- Sim - ela disse. Sentou-se na cama, a coberta caindo ao redor de sua cintura. Jaan havia desabotoado a frente do traje dela, que agora pendia solto, e as suaves curvas de seus seios eram vis�veis. Na luz tremulante, sua carne era p�lida e cinzenta. Dirk n�o sentiu nenhuma excita��o. A m�o dela foi at� o jade-e-prata. Tocou, acariciou, suspirou. - Nunca pensei... n�o sei... disse o que tinha que dizer, Dirk. Bretan Braith teria matado voc�.</p><p>- Talvez tivesse sido melhor - ele respondeu. N�o amargamente, mas em um tom divertido, vagamente distante. - Ent�o voc� nunca pretendeu deix�-lo?</p><p>- N�o sei. Como vou saber o que pretendia? Eu ia tentar, Dirk, de verdade que ia. Mas na verdade nunca acreditei. Disse isso para voc�. Fui honesta. Aqui n�o � �valon, e n�s mudamos. N�o sou sua Jenny. Nunca fui, e agora menos do que nunca.</p><p>- Sim - ele disse, assentindo. - Lembro de voc� dirigindo. Do jeito que segurava os controles. Seu rosto. Seus olhos. Voc� tem olhos de jade, Gwen. Olhos de jade e um sorriso de prata. Voc� me assusta. - Afastou os olhos dela, de volta � parede. Os murais luminosos moviam-se em desenhos ca�ticos, em compasso com a m�sica selvagem. De alguma forma, os fantasmas haviam partido. Deixara de olh�-los apenas por um instante, mesmo assim haviam evaporado e partido. Como seus antigos sonhos, pensou.</p><p>- Olhos de jade? - Gwen estava dizendo.</p><p>- Como Garse.</p><p>- Garse tem olhos azuis - ela o recordou.</p><p>- Mesmo assim. Como Garse.</p><p>Ela riu e, em seguida, gemeu.</p><p>- D�i quando rio - disse. - Mas � engra�ado. Eu, como Garse. N�o � de estranhar que Jaan...</p><p>- Voc� vai voltar para ele?</p><p>- Talvez. N�o sei. Seria muito dif�cil deix�-lo agora. Voc� entende? Ele finalmente escolheu. Quando apontou o laser para Garse. Depois disso, depois que ele se virou contra seu<emphasis> teyn,</emphasis> contra o grupo e contra o mundo, n�o posso simplesmente... Voc� sabe. Mas n�o voltarei a ser<emphasis> betheyn</emphasis> dele, nunca mais. Ter� que ser mais do que jade-e-prata.</p><p>Dirk sentia-se vazio. Deu de ombros.</p><p>- E eu?</p><p>- Voc� sabe que n�o estava dando certo. Sem d�vida. Voc� tem que ter percebido. Nunca parou de me chamar de Jenny.</p><p>Ele sorriu.</p><p>- N�o parei? Talvez n�o. Talvez n�o.</p><p>- Nunca - ela disse. Esfregou a cabe�a. - Estou me sentindo um pouco melhor agora - disse. - Ainda tem uma daquelas barras de prote�na?</p><p>Dirk pegou uma do bolso e jogou para ela. Ela a apanhou no ar com a m�o esquerda, sorriu para ele, abriu a embalagem e come�ou a comer.</p><p>Ele se levantou abruptamente, enterrando as m�os nos bolsos da jaqueta, e andou at� a janela. Os cumes das torres brancas ainda irradiavam um fulgor vago e destingido - talvez o Olho do Inferno e seus assistentes n�o tivessem sumido totalmente no c�u ocidental. Mas, embaixo, nas ruas, a cidade de Escuralba bebia da noite. Os canais eram faixas negras, e a paisagem pingava com o brilho ofuscante p�rpura do musgo fosforescente. Atrav�s dessa melancolia suave, Dirk vislumbrou o solit�rio barqueiro, como o vislumbrara antes, sobre essas mesmas �guas escuras. Estava apoiado em seu remo, como sempre, deixando que a correnteza o levasse, aproximando-se inexoravelmente. Dirk sorriu.</p><p>- Bem-vindo - murmurou. - Bem-vindo.</p><p>- Dirk? - Gwen havia terminado de comer. Ajustava seu traje novamente, envolta na luz turva. Atr�s dela, as paredes estavam vivas com os dan�arinos cinza e brancos. Dirk ouvia tambores, sussurros e promessas. E agora sabia que essas �ltimas eram mentiras.</p><p>- Uma pergunta, Gwen - ele disse, desalentado.</p><p>Ela o encarou.</p><p>- Por que me chamou? - ele questionou. - Por qu�? Se achava que n�o havia nada entre n�s, entre voc� e mim, por que n�o me deixou em paz?</p><p>O rosto dela estava p�lido e perplexo.</p><p>- Chamar voc�?</p><p>- Voc� sabe - ele disse. - A j�ia-sussurrante.</p><p>- Sim - ela falou, insegura. - Est� em Larteyn.</p><p>- � claro que est� - ele concordou. - Na minha bagagem. Voc� a mandou para mim.</p><p>- N�o - ela disse. - N�o.</p><p>- Voc� foi ao meu encontro!</p><p>- Voc� anunciou sua chegada da nave. Eu nunca... acredite em mim, foi a primeira vez que soube que estava vindo. N�o sabia o que pensar. Achei que fosse me dizer em algum momento, por isso n�o perguntei.</p><p>Dirk falou alguma coisa, mas a torre lan�ou sua nota baixa e arrebatou suas palavras. Ele meneou a cabe�a.</p><p>- Voc� n�o me chamou?</p><p>-N�o.</p><p>- Mas eu recebi a j�ia-sussurrante. Em Braque. A mesma, preparada pelo �sper. N�o d� para falsificar. - Ele lembrou de mais alguma coisa. - E Arkin<emphasis> disse...</emphasis></p><p>- Sim - ela falou e mordeu o l�bio. - N�o entendo. Ele deve ter enviado para voc�. Mas ele era meu amigo. Algu�m com quem falar. N�o entendo. - Deu um gemido.</p><p>- Sua cabe�a? - Dirk perguntou rapidamente.</p><p>- N�o - ela disse. - N�o.</p><p>Dirk observou o rosto dela.</p><p>- Arkin a enviou?</p><p>- Sim. S� pode ser ele. Tem que ser. Nos conhecemos em �va- lon, bem depois que voc� e eu... voc� sabe. Arkin me ajudou. Foi uma �poca dif�cil. Ele tamb�m estava comigo quando voc� mandou a j�ia para Jenny. Comecei a chorar. Contei tudo para ele, e conversamos. Mesmo depois, depois que eu conheci Jaan, Arkin e eu continuamos pr�ximos. Ele era como um irm�o!</p><p>- Um irm�o - Dirk repetiu. - Por que ele...</p><p>- N�o<emphasis> sei!</emphasis></p><p>Dirk ficou pensativo.</p><p>- Quando nos encontramos no porto espacial, Arkin estava com voc�. Voc� pediu que ele a acompanhasse? Eu esperava que estivesse sozinha, lembro disso.</p><p>- Foi id�ia dele - ela falou. - Bem, eu havia dito que estava nervosa. Em encontr�-lo novamente. Ele... ele se ofereceu para ir junto e me dar apoio moral. E disse que queria conhec�-lo tamb�m. Voc� sabe. Depois de tudo o que eu havia contado para ele em Avalon.</p><p>- E no dia em que voc� e ele foram para o bosque? Voc� sabe, quando tive problemas com Garse e depois com Bretan... o que aconteceu?</p><p>- Arkin falou... uma migra��o de escaravelhos-blindados. Na verdade n�o era isso, mas t�nhamos que checar. Sa�mos apressadamente.</p><p>- Por que n�o me disse para onde estava indo? Pensei que Jaan e Garse tinham batido em voc�, que a estavam mantendo afastada de mim. Na noite anterior, voc� disse que...</p><p>- Eu sei, mas Arkin disse que avisaria voc�.</p><p>- E ele me convenceu a fugir - Dirk falou. - E voc�, suponho que tenha lhe dito que, para me convencer, voc� devia...</p><p>Ela assentiu.</p><p>Dirk se virou na dire��o da janela. A �ltima luz partira do cume das torres. Acima, um punhado de estrelas brilhava.</p><p>Dirk as contou. Doze. Exatamente uma d�zia. Ele se perguntava se algumas delas eram gal�xias de verdade, nas profundezas do Grande Mar Negro.</p><p>- Gwen - falou. - Jaan partiu nesta manh�. Daqui at� Larteyn e de volta, de aerom�vel... quanto tempo leva?</p><p>Quando ela n�o respondeu, ele se virou para olh�-la novamente.</p><p>As paredes estavam cheia de fantasmas, e Gwen tremia sob as luzes.</p><p>- Ele j� devia estar de volta, n�o devia? - Ela assentiu e deitou-se novamente no colch�o claro.</p><p>A Cidade Sereia cantava sua can��o de ninar, seu hino ao sono final.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 11</strong></p><empty-line/><p>Dirk atravessou o quarto.</p><p>O rifle laser estava apoiado contra a parede. Ele o pegou, sentiu novamente a textura oleosa do pl�stico negro e liso. Passou o polegar pela cabe�a de lobo. Apoiou a arma no ombro, apontou e disparou.</p><p>O feixe de luz ficou pelo menos por um segundo no ar. Dirk moveu o rifle ligeiramente, e o raio tamb�m se moveu. Quando a luz sumiu, assim como a imagem residual de suas retinas, viu que havia feito um buraco irregular na janela. O vento passava por ali ruidosamente, em disson�ncia com a m�sica de Lamiya-Bailis.</p><p>Gwen saiu meio bamba da cama.</p><p>- O qu�? Dirk?</p><p>Ele deu de ombros e baixou o rifle.</p><p>- O qu�? - ela repetiu. - O que est� fazendo?</p><p>- Quero ter certeza de que sei como isso funciona - ele explicou. - Eu... eu vou partir.</p><p>Ela franziu o cenho.</p><p>- Espere - disse. - Vou pegar minhas botas.</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>- Voc� tamb�m? - O rosto dela estava duro, desagrad�vel. - N�o preciso que me protejam, malditos sejam...</p><p>- N�o � isso - ele a interrompeu.</p><p>- Se isso � alguma idiotice para se fazer de her�i diante dos meus olhos, n�o est� funcionando. - Ela falou, colocando as m�os nos quadris.</p><p>Ele sorriu.</p><p>- Isso, Gwen, � alguma idiotice para me fazer de her�i diante dos<emphasis> meus</emphasis> olhos. Seu olhos... seus olhos n�o t�m mais import�ncia.</p><p>- Por qu�, ent�o?</p><p>Ele ergueu o rifle, incerto.</p><p>- N�o sei - admitiu. - Talvez porque goste de Jaan e deva isso a ele. Porque quero reparar o que fiz traindo a confian�a dele, depois que me fez<emphasis> keth.</emphasis></p><p>- Dirk... - ela come�ou.</p><p>Ele a interrompeu com um gesto.</p><p>- Eu sei... mas isso n�o � tudo. Talvez eu queira encarar Ruark. Talvez porque em Kryne Lamiya tenha havido mais suicidas do que em todas as outras cidades do Festival, e eu seja um deles. Voc� pode escolher um motivo, Gwen. Entre todos esses. - Um leve sorriso cruzou seu rosto. - Talvez porque haja apenas doze estrelas, voc� sabia? Ent�o n�o faz diferen�a, faz?</p><p>- O que voc� acha que vai poder fazer de �til?</p><p>- Quem sabe? E por que isso importa? Voc� se importa, Gwen? <emphasis>Realmente</emphasis>? - Meneou a cabe�a, e o movimento fez o cabelo cair em sua testa novamente, ent�o o empurrou para tr�s. - Eu n�o me<emphasis> importo</emphasis> se voc� se importa - disse, com voz for�ada. - Voc� disse, ou insinuou, que eu estava sendo ego�sta quando est�vamos em Desafio. Bem, talvez eu estivesse. E talvez esteja sendo agora. Vou lhe dizer uma coisa, no entanto. O que quer que eu v� fazer, n�o estou esperando nada de voc�, Gwen. Entende o que quero dizer?</p><p>Era um bom discurso de despedida, mas, a meio caminho da porta, ele se acalmou, hesitou e virou.</p><p>- Fique aqui, Gwen - disse. - Apenas fique. Ainda est� ferida. Se tiver que fugir, Jaan disse algo sobre uma caverna. Sabe sobre o que ele estava falando? - Ela assentiu. - Bem, v� para l� se precisar. Caso contr�rio, fique aqui. - Fez um estranho sinal de despedida com o rifle, girou sobre os calcanhares e saiu apertando o passo.</p><p>Na pista de pouso, as paredes eram apenas paredes - sem fantasmas, sem murais, sem luzes. Dirk trope�ou no aerom�vel que procurava na escurid�o, ent�o esperou um pouco para que seus olhos se acostumassem. Seu carro abandonado n�o era produzido em Alto Kavalaan; era um pequeno artefato de dois lugares, uma l�grima negra e prateada de pl�stico e metal leve. Sem blindagem, � claro, e a �nica arma que carregava era o rifle laser que acomodou no colo.</p><p>O ve�culo estava apenas um pouco menos morto do que o resto de Worlorn, mas pouco era o suficiente. Quando ligou a energia, o carro despertou, e os instrumentos iluminaram a cabine com um fulgor p�lido. Dirk comeu uma barra de prote�na rapidamente e estudou as leituras do painel. O suprimento de energia estava baixo, mas devia conseguir chegar at� seu destino. N�o usaria os far�is; podia voar com as luzes das estrelas. A calefa��o podia ser dispensada tamb�m, enquanto a jaqueta de couro o mantivesse afastado do frio.</p><p>Dirk fechou a portinhola, trancando-se na cabine, e ligou o controle de gravidade. O aerom�vel se elevou, balan�ando um pouco inst�vel, mas se elevou. Empurrou os controles para frente, e ent�o estava no ar.</p><p>Teve apenas um relampejo de terror. Se a gravidade artificial n�o respondesse bem, sabia, n�o seria capaz de voar, apenas se chocaria contra o solo recoberto de musgo abaixo. O aerom�vel sacudiu e desceu de forma alarmante quando se afastou da pista, mas apenas por um instante; logo recuperou for�a e subiu no vento uivante, e a �nica coisa que continuou revirando foi o est�mago de Dirk.</p><p>Subiu continuamente, tentando colocar o carrinho o mais alto poss�vel. A cadeia de montanhas estava logo � frente, e tinha que ultrapass�-la. Al�m disso, n�o estava nem um pouco a fim de encontrar outros viajantes noturnos. Bem no alto, com as luzes apagadas, podia ver outros aerom�veis que passassem mais embaixo, e as chances dele pr�prio passar despercebido eram boas.</p><p>N�o olhou novamente para Kryne Lamiya, mas sentia a cidade atr�s de si, impulsionando-o, livrando-o de todos os seus temores. O temor era uma tolice; nada importava, a morte menos ainda. Mesmo quando a Cidade Sereia e suas luzes brancas e cinza desapareceram de vista, a m�sica permaneceu de forma constante mas cada vez mais fraca, sempre com ele, sempre intensa. Uma nota, um silvo tr�mulo e agudo se sobressa�a ao resto. Dirk estava a trinta quil�metros da cidade, mas ainda ouvia, misturada com o profundo assobio do vento. Finalmente percebeu que o barulho vinha de seus l�bios.</p><p>Parou de assobiar e tentou se concentrar no v�o.</p><p>Depois de quase uma hora, a cadeia de montanhas se ergueu diante dele, ou melhor, abaixo dele, pois Dirk voava bem alto, e se sentia mais perto das estrelas e das min�sculas gal�xias que vislumbrava no c�u do que das florestas l� embaixo. O vento ficara mais estridente e furioso ao for�ar seu caminho pelas fendas da portinhola, mas Dirk ignorou o som.</p><p>Onde as montanhas encontravam os bosques, ele viu uma luz.</p><p>Diminuiu a velocidade do aerom�vel, fez um c�rculo e come�ou a descer. Nenhuma luz devia iluminar esse lado das montanhas, ele sabia; o que quer que fosse, devia ser investigado.</p><p>Fez uma espiral descendente at� ficar diretamente sobre a luz, ent�o parou o aerom�vel no ar, manteve-o suspenso por um tempo, e desligou o controle de gravidade. Com lentid�o infinita, desceu silenciosamente, balan�ando para frente e para tr�s com o vento.</p><p>Havia v�rias luzes sob ele. A principal fonte de ilumina��o era uma fogueira. Dirk podia afirmar agora, podia v�-la agitando-se e tremeluzindo conforme os ventos jogavam as chamas para um lado e para o outro. Mas havia luzes menores, tamb�m, fixas e artificiais, um c�rculo delas na escurid�o, n�o muito distante da fogueira. Talvez a um quil�metro, calculou, talvez menos.</p><p>A temperatura na pequena cabine come�ou a subir, e Dirk sentia o suor em sua pele, encharcando as roupas sob a pesada jaqueta. A fuma�a chegara at� ele tamb�m; nuvens negras e sujas erguiam-se da fogueira e obscureciam sua vis�o. Franzindo o cenho, moveu o aerom�vel at� sair do caminho da fuma�a e continuou a descer.</p><p>As chamas se ergueram para saud�-lo, longas l�nguas laranja, muito brilhantes contra as nuvens de fuma�a. Dirk viu fagulhas tamb�m, ou cinzas, ou algo do tipo; brotavam da fogueira como estrelas cadentes, brincando na noite e desaparecendo. Quando estava ainda mais baixo, presenciou outro espet�culo, um crepitar furioso de chamas branco-azuladas com um cheiro forte de oz�nio, que logo se extinguiram.</p><p>Dirk parou o motor do aerom�vel quando o fogo ainda estava a uma dist�ncia prudente embaixo dele. Havia outras pessoas ao redor - no c�rculo de luzes artificiais - e n�o queria ser visto. Seu aerom�vel negro e prata, im�vel contra o c�u negro, n�o seria facilmente notado, mas seria uma hist�ria diferente se ele se deixasse atingir pelo brilho das chamas. Embora tivesse uma vis�o clara de onde estava, n�o podia identificar o que estava queimando; no centro do fogo havia uma forma imprecisa e escura que soltava fa�scas de vez em quando. Ao redor, podia ver um denso emaranhado de estranguladores, seus membros de cera brilhando amarelos sob a luz refletida. V�rios galhos haviam ca�do no centro da fogueira e contribu�am para grande parte da fuma�a enquanto murchavam e se transformavam em cinzas. Mas o resto, a cerca sinuosa que rodeava o fogo, recusava-se a arder. Em vez de se espalhar, as chamas obviamente se extinguiriam.</p><p>Dirk esperou e observou a fogueira se apagar. Tinha quase certeza de estar olhando para um aerom�vel ca�do; as fagulhas e o cheiro de oz�nio lhe diziam isso. Queria saber<emphasis> que</emphasis> carro era.</p><p>Depois que as chamas se aplacaram e as fa�scas pararam de voar, mas antes ainda que o fogo se extinguisse por completo e se transformasse em uma fuma�a gordurenta, Dirk viu um formato. Uma vis�o sucinta; uma asa que lembrava a de um morcego, retorcida em um �ngulo grotesco e apontada para o c�u, recortada contra uma l�mina de fogo. Era o suficiente; n�o era um aerom�vel conhecido, embora fosse claramente um produto kavalariano.</p><p>Como um fantasma escuro sobre a floresta, ele se afastou da fogueira moribunda, em dire��o ao c�rculo de luzes artificiais. Dessa vez, manteve uma dist�ncia maior. N�o precisava se aproximar. As luzes eram bem brilhantes, e a cena podia ser vista em detalhes.</p><p>Viu uma clareira ampla, cercada por lanternas el�tricas, � margem de algum lago extenso; o mesmo trio que estivera sob a �rvore emereliana em Desafio quando Myrik Braith atacou Gwen. Um deles, o grande carro abobadado com blindagem vermelha, pertencia a Lorimaar Alto-Braith. Os outros dois eram menores, quase id�nticos, exceto que um estava muito avariado, mesmo visto a essa dist�ncia. Estava tombado, meio submerso na �gua, e parte deformado e<emphasis> brilhante.</emphasis> A porta blindada estava aberta.</p><p>Figuras delgadas se moviam ao redor do ve�culo destro�ado. Dirk mal podia v�-las, exceto pelo movimento, t�o bem se camuflavam com a paisagem. Perto, algu�m estava tirando c�es de ca�a Braiths do aerom�vel de Lorimaar.</p><p>Franzindo o cenho, Dirk tocou seu controle de gravidade, e elevou o carro, at� perder os homens e os aerom�veis de vista e nada restar abaixo al�m de um ponto de luz na floresta. Dois pontos, na verdade, mas o fogo era uma brasa t�nue e alaranjada agora, e logo se apagaria.</p><p>Seguro no ventre negro do c�u, parou para pensar.</p><p>O carro destro�ado era de Roseph, o mesmo que haviam roubado em Desafio, o carro que Jaan Vikary usara para voar at� Larteyn naquela manh�. Tinha certeza disso. Os Braiths o encontraram, certamente, e o perseguiram at� a floresta, derrubando-o. Mas parecia improv�vel que Jaan estivesse morto; sen�o, para que os c�es? Lorimaar n�o estava apenas levando a matilha para um passeio. Era mais prov�vel que Jaan tivesse sobrevivido � queda na floresta, e que os Braiths o estivessem ca�ando.</p><p>Dirk considerou a possibilidade de resgat�-lo, mas as perspectivas pareciam sombrias. N�o tinha id�ia de como encontrar Jaan na floresta tenebrosa. Os Braiths estavam mais bem equipados para isso do que ele.</p><p>Retomou seu curso em dire��o � cadeia de montanhas, e para Larteyn, al�m dela. Na floresta, armado e sozinho como estava, n�o podia ajudar Jaan Vikary. Na fortaleza de fogo kavalariana, no entanto, podia ao menos saldar a d�vida de Arkin Ruark com Jadeferro.</p><p>As montanhas deslizavam sob ele, e Dirk relaxou mais uma vez, embora uma m�o estivesse apoiada no rifle laser que ainda estava em seu colo.</p><p>O v�o levou cerca de uma hora mais; ent�o Larteyn, vermelha e fumegante, surgiu para fora da montanha. Parecia muito morta, muito vazia, mas Dirk sabia que era mentira. Desceu e n�o perdeu tempo, sobrevoando pelos baixos telhados quadrados e pelas pra�as de pedrardente at� o pr�dio que certa vez partilhara com Gwen Delvano, os dois Jadeferros e o mentiroso kimdissiano.</p><p>Apenas um aerom�vel esperava no telhado varrido pelo vento - a rel�quia militar verde-oliva. N�o havia sinal do ve�culo amarelo de Ruark, e a arraia cinza estava perdida tamb�m. Dirk se perguntou brevemente o que teria acontecido com ela, abandonada em Desafio, mas logo deixou o pensamento de lado e aterrissou.</p><p>Empunhou o laser com firmeza e saiu. O mundo estava tranq�ilo e carmesim. Dirk andou rapidamente at� os elevadores e desceu aos aposentos de Ruark. Estavam vazios.</p><p>Revistou-os meticulosamente, derrubando coisas aqui e ali, sem se preocupar com o que bagun�ava ou destru�a. Todos os pertences do kimdissiano ainda estavam no lugar, mas Ruark n�o estava ali, e n�o havia sinal de onde havia ido.</p><p>Os pertences de Dirk tamb�m estavam ali, as poucas coisas que deixara para tr�s quando ele e Gwen fugiram, nada al�m de uma pequena pilha de roupas leves que trouxera de Braque. In�teis no frio de Worlorn.</p><p>Dirk baixou o laser, ajoelhou-se e come�ou a revirar os bolsos das cal�as sujas. S� quando a encontrou - ainda enrolada em prata e veludo - soube realmente o que procurava e por que voltara a Larteyn.</p><p>No quarto de Ruark encontrou um pequeno cofre com j�ias pessoais: an�is, pingentes, intrincados braceletes e coroas, brincos de pedras semipreciosas. Remexeu o conte�do da caixa at� encontrar uma corrente fina com uma coruja prateada incrustada em �mbar e presa por um broche. O broche parecia ter o tamanho adequado. Dirk arrancou o �mbar e a coruja e os substituiu pela j�ia-sussurrante.</p><p>Ent�o abriu a jaqueta e a pesada camisa e pendurou a corrente no pesco�o, e a fria l�grima vermelha ficou pr�xima de sua pele nua, sussurrando seus sussurros, prometendo suas mentiras. A pequena punhalada de gelo era dolorida contra seu peito, mas estava tudo bem; era Jenny. Em pouco tempo se acostumou, e a joia n�o o incomodou mais. L�grimas salgadas corriam por seu rosto. N�o notou. Subiu as escadas.</p><p>A sala de trabalho que Ruark partilhara com Gwen estava t�o desarrumada quanto Dirk se lembrava, mas o kimdissiano n�o estava ali. Nem foi encontrado no apartamento deserto no andar de cima, para o qual Dirk ligara quando estavam em Desafio. Havia apenas mais um lugar para procurar.</p><p>Rapidamente subiu at� o topo da torre. A porta estava aberta. Hesitou, e ent�o entrou, segurando o laser, pronto para atirar.</p><p>A grande sala de estar era caos e destrui��o.</p><p>A tela de parede havia sido esmagada ou explodida; havia peda�os afiados de vidro por todos os lados. As paredes estavam marcadas por tiros de laser. O sof� havia sido virado e rasgado em uma d�zia de partes, o enchimento arrancado em grandes punhados e espalhado. Alguns punhados haviam sido jogados na lareira, contribuindo para a bagun�a encharcada e esfuma�ada que sufocou o fogo. Uma das g�rgulas, sem cabe�a e de pernas para o ar, estava apoiada contra a base da cornija. Sua cabe�a, com olhos de pedrardente e tudo mais, havia sido atirada nas cinzas molhadas da lareira. O ar fedia a vinho e v�mito.</p><p>Garse Janacek dormia no ch�o, o torso nu, a barba ruiva ainda mais vermelha pelo vinho que escorrera nela, a boca aberta. Tinha o mesmo cheiro do aposento. Roncava alto, e sua pistola laser ainda estava em sua m�o. Dirk viu a camisa mergulhada em um charco de v�mito que Janacek tentara secar sem muito entusiasmo.</p><p>Dirk se aproximou cuidadosamente e tirou o laser dos dedos frouxos de Janacek. O<emphasis> teyn</emphasis> de Vikary n�o era o ferro kavalariano que Jaan imaginara.</p><p>O bra�o direito de Janacek ainda estava envolto em ferro-e- pedrardente. Algumas das j�ias negro-avermelhadas haviam sido arrancadas e os buracos vazios pareciam obscenos. Mas a maior parte do bracelete estava intacta, exceto onde se notavam alguns arranh�es. O antebra�o de Janacek, logo acima do bracelete, tamb�m estava arranhado. Os talhos era fundos e, em geral, eram continua��o dos sulcos no ferro negro. Tanto bra�o quanto bracelete tinham crostas de sangue seco.</p><p>Perto da bota de Janacek, Dirk viu uma longa faca manchada de sangue. Pode imaginar o resto. B�bado, sem d�vida, com a m�o esquerda desajeitada pelo antigo ferimento, Janacek tentara arrancar as pedrardentes, perdendo a paci�ncia e esfaqueando selvagemente, derrubando a l�mina pela dor e pela c�lera.</p><p>Dirk retrocedeu rapidamente, desviando da camisa empapada de Janacek. Parou no v�o da porta, levantou o rifle e gritou:</p><p>- <emphasis>Garse!</emphasis></p><p>Janacek n�o se moveu. Dirk repetiu o grito. Dessa vez, o volume dos roncos diminuiu notavelmente. Encorajado, Dirk parou, pegou o objeto mais pr�ximo - uma pedrardente - e o jogou no kavalariano. Acertou Janacek no rosto.</p><p>Ele se sentou lentamente, piscando. Viu Dirk e fez uma careta de desprezo.</p><p>- Levante-se. - Dirk mandou, gesticulando com o laser.</p><p>Janacek ficou em p� com esfor�o, olhando ao redor em busca da pr�pria arma.</p><p>- Voc� n�o vai ach�-la. - Dirk avisou. - Est� comigo.</p><p>Os olhos de Janacek estavam turvos e cansados, mas o sono fizera passar grande parte da bebedeira.</p><p>- Por que est� aqui, t'Larien? - perguntou, lentamente, em uma voz marcada tanto pela exaust�o quanto pelo vinho. - Veio zombar de mim?</p><p>Dirk negou com a cabe�a.</p><p>- N�o. Sinto por voc�.</p><p>Janacek o encarou com raiva.</p><p>- Sente por<emphasis> mim?</emphasis></p><p>- N�o acha que merece pena? Olhe ao seu redor!</p><p>- Cuidado. - Janacek lhe avisou. - Brinque muito comigo, t'Larien, e descobrirei se voc� tem a�o suficiente para disparar esse laser que segura t�o desajeitadamente.</p><p>- N�o, Garse - Dirk falou. - Por favor. Preciso da sua ajuda.</p><p>Janacek gargalhou, jogando a cabe�a para tr�s e rugindo.</p><p>Quando parou, Dirk lhe contou tudo o que acontecera desde que Vikary matou Myrik Braith em Desafio. Janacek permaneceu muito tenso enquanto ouvia, os bra�os cruzados apertados contra o peito nu e marcado por cicatrizes. Riu uma �nica vez - quando Dirk lhe contou suas conclus�es sobre Ruark.</p><p>- Os manipuladores de Kimdiss. - Janacek resmungou. Dirk o deixou resmungar, e ent�o terminou a hist�ria. - E eu com isso? - quis saber, quando Dirk concluiu o relato. - Por que acha que alguma coisa disso tem alguma import�ncia para mim?</p><p>- Achei que voc� n�o deixaria os Braiths ca�arem Jaan como a um animal. - Dirk respondeu.</p><p>- Ele mesmo se fez um animal.</p><p>- Aos olhos dos Braiths, imagino - Dirk falou. - Voc� � um Braith?</p><p>- Sou um kavalariano.</p><p>- Todos os kavalarianos s�o iguais agora? - Gesticulou em dire��o da cabe�a de pedra da g�rgula, jogada na lareira. - Vejo que voc� tamb�m tem trof�us, exatamente como Lorimaar.</p><p>Janacek n�o falou nada. Seus olhos estavam muito duros.</p><p>- Talvez eu estivesse errado - Dirk prosseguiu. - Mas quando vim at� aqui e vi tudo isso, comecei a pensar. Comecei a pensar que talvez voc� tivesse algum sentimento humano pelo homem que costumava ser seu<emphasis> teyn.</emphasis> Me lembrei que uma vez voc� me disse que voc� e Jaan tinham um la�o mais forte do que eu jamais seria capaz de entender. Acho que era uma mentira, no entanto.</p><p>- Era verdade. Jaan Vikary rompeu esse la�o.</p><p>- Gwen rompeu todos os la�os entre<emphasis> n�s</emphasis> h� anos - Dirk falou. - Mas eu vim quando ela precisou de mim. Oh, acontece que ela n�o precisava realmente de mim, e eu vim por v�rias raz�es ego�stas. Mas eu vim. N�o pode tirar isso de mim, Garse. Cumpri minha promessa. - Fez uma pausa. - E eu n�o deixaria ningu�m ca��-la, se pudesse impedir. Parece que �ramos ligados por algo bem mais forte que seu ferro-e-fogo kavalariano.</p><p>- Diga o que quiser, t'Larien. Suas palavras n�o mudam nada. A id�ia de voc� cumprindo promessas � rid�cula. E as promessas que fez para Jaan e para mim?</p><p>- Eu as tra� - Dirk respondeu rapidamente. - Sei disso. Ent�o voc� e eu estamos quites, Garse.</p><p>- N�o tra� ningu�m.</p><p>- Est� abandonando aqueles que eram mais pr�ximos a voc�. Gwen, que era sua<emphasis> cro-betheyn,</emphasis> que dormia com voc�, que o amava e o odiava ao mesmo tempo. E Jaan. Seu precioso<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>- Nunca tra� nenhum deles. - Janacek garantiu com veem�ncia. - Gwen traiu a mim e ao jade-e-prata que usava no dia em que se juntou a voc�. Jaan renunciou a tudo o que era decente matando Myrik daquela maneira. Ele me ignorou, ignorou os deveres de ferro-e-fogo. N�o devo nada a nenhum deles.</p><p>- N�o deve, n�o �? - Sob a camisa, Dirk podia sentir a j�ia-sussurrante dura contra a pele, inundando-o com palavras e mem�rias, com uma evoca��o do homem que fora um dia. Estava muito zangado. - E isso � tudo, certo? N�o deve nada para eles, ent�o quem se importa? Todos os seus malditos la�os kavalarianos, no final das contas, s�o d�vidas e obriga��es. Tradi��es, a antiga sabedoria dos grupos, como o c�digo de honra e a ca�a aos quase-homens. N�o pense nelas, apenas siga-as. Ruark estava certo sobre uma coisa... n�o h� amor em nenhum de voc�s, exceto, talvez, em Jaan, e n�o estou t�o seguro disso. Que diabos teria feito se Gwen n�o estivesse usando o bracelete?</p><p>- A mesma coisa!</p><p>- Verdade? E voc�? Voc� teria desafiado Myrik porque ele machucou Gwen? Ou foi s� porque ele danificou seu jade-e-prata? - Dirk bufou. - Talvez Jaan tivesse feito a mesma coisa, mas voc� n�o, Janacek. Voc� � t�o kavalariano quanto o pr�prio Lorimaar, t�o insens�vel quanto Chell ou Bretan. Jaan queria melhorar seu povo, mas acho que voc� simplesmente estava junto no passeio e n�o acreditou em nada disso nem por um minuto. - Tirou o laser de Janacek do cintur�o e o jogou no ar com a m�o livre. - Tome - gritou, abaixando o rifle. - V� ca�ar quase-homens!</p><p>Janacek, perplexo, apanhou a arma no ar quase por reflexo. Ficou parado, segurando-a e franziu o cenho.</p><p>- Eu podia mat�-lo agora, t'Larien - disse.</p><p>- Fa�a isso ou n�o fa�a nada - Dirk respondeu. - D� no mesmo. Se voc�<emphasis> realmente</emphasis> tivesse amado Jaan...</p><p>- Eu n�o<emphasis> amo</emphasis> Jaan. - Janacek rebateu, com o rosto corado. - Ele � meu<emphasis> teyn!</emphasis></p><p>Dirk deixou as palavras do kavalariano penderem no ar por um longo minuto. Co�ou o queixo pensativamente.</p><p>- E? - perguntou. - Voc� quer dizer que Jaan<emphasis> era</emphasis> seu<emphasis> teyn,</emphasis> n�o � isso?</p><p>Janacek empalideceu t�o repentinamente quanto corara. Debaixo da barba, um canto de sua boca se contorceu de uma maneira que fez Dirk se lembrar de Bretan. Voltou os olhos, quase furtivamente, meio envergonhado, para o pesado bracelete de ferro que ainda estava em seu antebra�o ensang�entado.</p><p>- N�o conseguiu arrancar todas as pedrardentes, n�o � mesmo? - Dirk falou gentilmente.</p><p>- N�o - Janacek respondeu. Sua voz estava estranhamente serena. - N�o, n�o consegui. Mas isso n�o significa muito, � claro. O ferro f�sico n�o � nada quando o outro ferro j� desapareceu.</p><p>- Mas n�o desapareceu, Garse - Dirk disse. - Jaan falou sobre voc� quando est�vamos juntos em Kryne Lamiya. Eu sei. Talvez ele se sinta ligado a Gwen por ferro tamb�m, e talvez isso seja errado. N�o me pergunte. Tudo o que sei � que para Jaan o outro ferro ainda existe. Ele estava com seu bracelete de ferro-e-fogo em Kryne Lamiya. Vai estar com ele quando os c�es Braiths o pegarem, imagino.</p><p>Janacek sacudiu a cabe�a.</p><p>- t'Larien - falou -, sua m�e deve ser kimdissiana, posso garantir. Mesmo assim, n�o posso me opor. Voc� manipula bem demais - sorriu; era o velho sorriso, aquele que brilhara na manh� em que apontara o laser para Dirk e perguntara se o assustara. - Jaan Vikary � meu<emphasis> teyn -</emphasis> garantiu. - O que quer que eu fa�a?</p><p>A convers�o de Janacek, apesar de relutante, foi mais que suficiente. O kavalariano assumiu o controle da situa��o imediatamente. Dirk pensou que deviam partir logo e discutir os planos no caminho, mas Janacek insistiu que deviam tomar um banho e se vestir antes.</p><p>- Se Jaan ainda est� vivo, estar� seguro at� o amanhecer. Os c�es t�m p�ssima vis�o � noite, e os Braiths n�o v�o querer entrar em um bosque de estranguladores sem a luz do dia. N�o, t'Larien, eles v�o acampar e esperar. Um homem sozinho e a p� n�o consegue ir muito longe. Ent�o, temos tempo suficiente para ir ao encontro deles como Jadeferros.</p><p>Quando ficaram prontos para partir, Janacek j� tinha perdido quase todos os sinais de sua bebedeira irada. Estava elegante e imaculado em um traje de tecido-camale�o forrado com pele, a barba limpa e aparada, o escuro cabelo vermelho bem penteado para tr�s. Apenas seu bra�o direito - limpo e cuidadosamente enfaixado, mas ainda vis�vel - dava provas contra ele. Mas as feridas n�o pareciam inibi-lo muito; com movimentos graciosos e fluidos, carregou e checou o laser e o colocou no cintur�o. Al�m da pistola, Janacek tamb�m levava uma faca longa de fio duplo e um rifle como o de Dirk. Sorriu jovialmente ao empunh�-lo.</p><p>Dirk havia se lavado e se barbeado enquanto esperava, e tamb�m teve a oportunidade de comer sua primeira refei��o completa em dias. Estava se sentindo quase carregado de energia quando foram para o telhado.</p><p>O interior do imenso aerom�vel quadrado de Janacek era t�o inc�modo quanto o pequeno carro abandonado com que Dirk voara de Kryne Lamiya, embora a m�quina de Janacek tivesse quatro pequenos assentos no lugar de dois.</p><p>- A blindagem. - Garse explicou quando Dirk reparou no limitado espa�o interior. Prendeu Dirk com um apertado cinto de seguran�a de batalha, em um desconfort�vel assento r�gido, fez o mesmo consigo, e depois levantaram voo.</p><p>A cabine era mal iluminada e completamente fechada, com indicadores e instrumentos por todos os lados, mesmo sob as portas. N�o tinha janelas; um painel de oito pequenas telas davam ao piloto oito vis�es do lado de fora. Por dentro, o carro n�o era pintado, n�o tinha enfeites e era sint�tico.</p><p>- Este ve�culo � mais velho do que n�s dois. - Janacek comentou enquanto subiam. Parecia ansioso por falar, e amistoso, apesar de sua mordacidade habitual. - E j� viu mais mundos at� do que voc�. A hist�ria dele � fascinante. Este modelo em particular data de uns quatrocentos anos atr�s. Foi constru�do pelos Saberes de Dam Tullian, no V�u do Tentador, e usado na guerra contra Erikan e Esperan�a do Trapaceiro. Depois de um s�culo, mais ou menos, foi avariado e abandonado. Os erikanos o confiscaram durante a paz e o venderam para os Anjos de A�o de Basti�o. Eles o usaram em v�rias campanhas, at� que finalmente o ve�culo foi capturado pelos prometenses. Um mercador kimdissiano o comprou em Prometeus e o vendeu para mim, e eu o adaptei do c�digo de honra. Ningu�m nunca mais me desafiou para um combate a�reo. Veja. - Estendeu a m�o e apertou um bot�o luminoso, e repentinamente o ve�culo se acelerou de uma tal maneira que Dirk foi pressionado contra o assento. - Tubos de pulso auxiliares para velocidade de emerg�ncia. - Janacek explicou com um sorriso. - Estaremos l� na metade do tempo que voc� levou, t'Larien.</p><p>- �timo - Dirk falou. Algo o intrigava, no entanto. - Voc� disse que conseguiu o ve�culo com um mercador kimdissiano?</p><p>- Sim, � verdade - Janacek falou. - Os pac�ficos kimdissianos s�o grandes mercadores de armas. Tenho pouca considera��o por esses manipuladores, como voc� sabe, mas n�o vou deixar de aproveitar uma barganha quando ela me � oferecida.</p><p>- Arkin fez um grande estardalha�o sobre ser n�o violento - Dirk comentou. - Suponho que seja outra farsa.</p><p>- N�o - Janacek respondeu. Olhou de relance para Dirk e sorriu. - Surpreso, t'Larien? A verdade � talvez mais bizarra. N�o chamamos os kimdissianos de manipuladores sem um motivo. Voc� estudou hist�ria em �valon, imagino...</p><p>- Um pouco - Dirk falou. - Hist�ria da Antiga Terra, do Imp�rio Federal, a Guerra Dupla, a Expans�o.</p><p>- Mas nada da hist�ria dos mundos exteriores. - Janacek riu. - J� era de se esperar. H� tantos mundos e culturas no reino humano, tantas hist�rias. Mesmo os nomes s�o muitos para se aprender. Escute, e eu lhe explicarei. Quando voc� chegou a Worlorn, notou o c�rculo de bandeiras?</p><p>Dirk olhou para ele com certa perplexidade.</p><p>-N�o.</p><p>- Talvez n�o estejam mais l�. Antigamente, no entanto, durante o Festival, a pra�a do lado de fora do porto espacial tinha catorze bandeiras. Era uma absurda presun��o toberiana, mas foi feita, embora dez das catorze bandeira planet�rias n�o representassem nada. Mundos como Eshellin e a Col�nia Esquecida nem sabiam o que era uma bandeira, enquanto, no outro extremo, os emerelianos tinham um estandarte diferente para cada uma das cem torres urbanas. Os escuralbinos riram de todos e hastearam um tecido totalmente negro. - Janacek parecia divertir-se muito com tudo isso. - Em Alto Kavalaan, n�o t�nhamos uma bandeira para nosso mundo. Encontramos uma, no entanto. Foi tirada da nossa hist�ria. Um ret�ngulo dividido em quatro qua- drantes de cores distintas: um banshee verde sobre um fundo negro para Jadeferro, um morcego ca�ador prateado em fundo amarelo para Shanagate, espadas cruzadas sobre carmesim para A�orrubro, e um lobo branco em fundo p�rpura para Braith. Era o velho estandarte da Liga dos Altos-Senhores. A Liga foi criada na �poca em que as primeiras naves espaciais voltaram para Alto Kavalaan. Havia um homem, um grande l�der, chamado Vikor Alto-A�orrubro Corben. Ele dominava o conselho de altos-senhores de A�orrubro havia gera��es, e, quando as pessoas de outros mundos chegaram, ele estava convencido de que todos os kavalarianos deveriam se unir para partilhar conhecimento e riqueza igualmente. Dessa forma, criou a Liga de Altos-Senhores, cuja bandeira descrevi para voc�. A uni�o, infelizmente, teve vida curta. Mercadores kimdissianos, temerosos do poder de um Alto Kavalaan unificado, se comprometeram a prover apenas os Braiths com modernos armamentos. Os altos-senhores Braiths haviam se juntado � Liga apenas por medo; na verdade, desejavam evitar as estrelas, que, segundo eles, estavam cheias de quase-homens. Mesmo assim, n�o se esquivaram de aceitar os lasers dos quase-homens. Ent�o tivemos a �ltima alta-guerra. Jadeferro, A�orrubro e Shanagate, juntos, subjugaram Braith, apesar das armas kimdissianas, mas Vikor Alto-A�orrubro foi morto e o custo de vidas foi imenso. A Liga de Altos-Senhores sobreviveu ao seu fundador, apenas por mais alguns anos. Os Braiths, seriamente derrotados, se aterraram � cren�a de terem sido enganados e usados por quase-homens kimdissianos, e se apegaram �s velhas tradi��es com mais firmeza do que antes. Para selar a paz e faz�-la durar, a Liga (ent�o dominada por altos-senhores de Shaganate) capturou todos os mercadores kimdissianos em Alto Kavalaan, al�m de uma nave de toberianos, declarou todos eles criminosos de guerra (um termo que aprendemos dos estrangeiros, a prop�sito), e soltou-os nas plan�cies, para que fossem ca�ados como quase-homens. Os banshees mataram muitos deles, outros morreram de fome, mas os ca�adores apanharam a maioria e trouxeram suas cabe�as para casa como trof�us. Dizem que os altos-senhores de Braith tinham uma alegria especial em esfolar os homens que os tinham armado e aconselhado. N�o temos orgulho dessa ca�ada hoje, mas podemos entend�-la. A guerra fora mais longa e mais sangrenta do que qualquer outra em nossa hist�ria desde o Tempo do Fogo e dos Dem�nios. Foi um tempo de grandes pesares e �dios poderosos, e destruiu a Liga dos Altos-Senhores. O grupo Jadeferro se retirou, em vez de tolerar a ca�ada, declarando que os kimdissianos eram humanos. A�orrubro logo o seguiu. Os matadores de quase-homens eram todos Braiths e Shanagates, mas o grupo Shanagate tamb�m j� estava fora da liga. A bandeira de Vikor foi abandonada e esquecida, at� que o Festival nos fez recordar dela. - Janacek fez uma pausa e olhou de relance para Dirk. - Entende agora, t'Larien?</p><p>- Entendo por que kavalarianos e kimdissianos n�o gostam muito uns dos outros. - Dirk admitiu.</p><p>Janacek deu uma gargalhada.</p><p>- Isso vai al�m da nossa pr�pria hist�ria - disse. - Kimdiss n�o participou de nenhuma guerra, mas o planeta tem as m�os ensang�entadas. Quando Tober-no-V�u atacou Tocadolobo, os manipuladores supriram os dois lados. Quando a guerra civil explodiu em di-Emerel, entre os urbanitas, cujo universo � uma �nica constru��o, e os descontentes observadores de estrelas, que queriam um horizonte mais amplo, Kimdiss esteve profundamente envolvido, dando aos urbanitas os meios para uma vit�ria decisiva. - Sorriu. - Na verdade, t'Larien, at� existem hist�rias de compl�s kimdissianos<emphasis> dentro</emphasis> do V�u do Tentador.</p><p>Dizem que foram agentes kimdissianos que colocaram os Anjos de A�o e os Homens Alterados de Prometeus uns contra os outros, que depuseram o Quarto Cuchulainn de Tara porque ele se negou a negociar com eles, que interferiram em Braque para que os sacerdotes impedissem o desenvolvimento tecnol�gico. Voc� conhece a antiga religi�o de Kimdiss?</p><p>- N�o.</p><p>- Voc� a aprovaria. - Janacek comentou. - � um credo pac�fico e civilizado, extremamente complexo. Voc� pode us�-lo para justificar qualquer coisa, exceto viol�ncia pessoal. Mas o grande profeta deles, o Filho do Sonhador, aceito como uma figura m�tica, mas que ainda assim � reverenciado, disse certa vez: "Lembre-se: seu inimigo tem um inimigo". Realmente, tem. Esse � o cora��o da sabedoria kimdissiana.</p><p>Dirk se mexeu inquieto no assento.</p><p>- Est� me dizendo que Ruark...</p><p>- N�o estou dizendo nada. - Janacek o interrompeu. - Tire suas pr�prias conclus�es. N�o precisa aceitar as minhas. Uma vez contei tudo isso para Gwen Delvano, porque ela era minha <emphasis>cro-betheyn</emphasis> e eu me preocupava. Ela pareceu divertir-se muito. A hist�ria n�o queria dizer nada, ela me afirmou. Arkin Ruark era apenas ele mesmo, n�o algum arqu�tipo da hist�ria dos mundos exteriores. Assim ela me disse. Ele tamb�m era amigo dela, ela me falou, e esse la�o, essa<emphasis> amizade</emphasis> - a voz dele estava corrosiva ao dizer a palavra - de algum modo transcendia o fato de ele ser um mentiroso e um kimdissiano. Gwen me disse para olhar minha pr�pria hist�ria. Se Arkin Ruark era um ma- nipulador pelo simples fato de ter nascido em Kimdiss, ent�o eu era um tomador de cabe�as de quase-homens, simplesmente por ser kavalariano.</p><p>Dirk considerou aquilo.</p><p>- Ela estava certa, voc� sabe - disse tranq�ilamente.</p><p>- Oh, estava?</p><p>- O argumento dela era correto. - Dirk explicou. - Parece, no entanto, que ela estava errada a respeito de Ruark, mas em geral...</p><p>- Em geral, � melhor desconfiar de todos os kimdissianos. - Janacek completou com firmeza. - Voc� foi enganado e usado, t'Larien, e mesmo assim n�o aprendeu. Voc� � muito parecido com Gwen. Chega disso. - Deu uma batidinha em uma das telas com o n� dos dedos. - Estamos perto das montanhas. N�o falta muito.</p><p>Dirk agarrava o rifle com for�a. Secou o suor das palmas das m�os nas cal�as.</p><p>- Voc� tem um plano?</p><p>- Sim - disse Janacek, sorrindo. Inclinou-se na dire��o de Dirk e retirou suavemente o rifle do colo. - Um plano muito simples, na verdade - continuou, colocando a arma cuidadosamente fora de alcance. - Vou entreg�-lo para Lorimaar.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 12</strong></p><empty-line/><p>Dirk n�o ficou surpreso. Sob sua roupa, a j�ia-sussurrante ainda estava fria contra a pele, recordando-o de promessas e trai��es passadas. Quase n�o se importava mais. Cruzou os bra�os e esperou.</p><p>Janacek pareceu desapontado.</p><p>- Voc� n�o parece preocupado - disse.</p><p>- N�o importa, Garse. - Dirk respondeu. - Quando deixei Kryne Lamiya, esperava morrer. - Suspirou. - Como tudo isso vai ser de alguma utilidade para Jaan?</p><p>Janacek n�o respondeu imediatamente; seus olhos azuis estudaram Dirk cuidadosamente.</p><p>- Est� mudado, t'Larien - disse finalmente, sem sorrir. - Voc� realmente se importa mais com o destino de Jaan Vikary do que com o seu pr�prio?</p><p>- Como vou saber? - Dirk falou. - Vamos em frente com seu plano!</p><p>Janacek franziu o cenho.</p><p>- Tinha imaginado pousar no acampamento Braith e tentar um confronto direto. Mas rejeitei a id�ia. Meu desejo de morte n�o aumentou tanto quanto o seu. Ainda que pudesse desafiar um ou v�rios ca�adores para duelar, seria obviamente em aux�lio a um criminoso. Eles nunca aceitariam. At� mesmo minha situa��o � delicada neste momento; por causa de minhas palavras e a��es em Desafio, os Braiths ainda me consideram humano, ainda que em desgra�a. Se eu me propuser abertamente a ajudar Jaan, contudo, ficaria manchado aos olhos deles. As cortesias do c�digo n�o valeriam para mim. Eu me tornaria um criminoso, um prov�vel quase-homem. Uma segunda alternativa seria atac�-los repentinamente, sem aviso, e matar o m�ximo poss�vel. Mas n�o sou ainda t�o depravado para considerar essa id�ia. Mesmo o ato de Jaan contra Myrik seria limpo se comparado a tal crime. Seria melhor, � claro, se pud�ssemos voar e localizar Jaan e resgat�-lo com seguran�a e em segredo. Mas a chance disso acontecer � m�nima. Os Braiths t�m c�es de ca�a. N�s, n�o. Eles t�m ca�adores e rastreadores experientes, especialmente Pyr Braith Oryan e o pr�prio Lorimaar Alto-Braith. Sou menos habilidoso, e voc� � in�til. As chances deles encontrarem Jaan antes de n�s s�o excelentes.</p><p>- Sim. - Dirk concordou. - E ent�o?</p><p>- Estou sendo um falso kavalariano ao ajudar Jaan nisso tudo - Janacek falou em um voz levemente perturbada. - Ent�o, serei um pouco mais falso. � nossa melhor alternativa. Voaremos abertamente, e eu o entregarei, como disse. Esse ato garantir� a confian�a deles at� certo ponto. A�, vou me juntar � ca�ada e fazer tudo o que puder, exceto cometer assassinato. Talvez possa provocar uma briga e desafiar algu�m para um duelo, de modo que n�o pare�a que estou protegendo Jaan Vikary.</p><p>- Voc� pode perder. - Dirk apontou.</p><p>Janacek assentiu.</p><p>- Verdade, posso perder. Mas n�o acho que isso v� acontecer. Em um duelo singular, apenas Bretan Braith Lantry � um antagonista realmente perigoso, e ele e seu<emphasis> teyn</emphasis> n�o est�o entre os ca�adores, se os aerom�veis que voc� viu s�o os �nicos. Lorimaar tem suas habilidades, mas Jaan o feriu em Desafio. Pyr � r�pido e talentoso com seu bast�ozinho, mas n�o com uma l�mina ou uma pistola. Os outros s�o velhos e fracotes. Eu n�o perderia.</p><p>- E se n�o conseguir provocar um duelo?</p><p>- Ent�o posso estar por perto quando encontrarem Jaan.</p><p>- E a�?</p><p>- N�o sei. Mas n�o o capturar�o. Prometo isso, t'Larien. Eles n�o o capturar�o.</p><p>- E, enquanto isso, o que ser� de mim?</p><p>Janacek olhou sobre o ombro mais uma vez, e novamente seus olhos azuis encararam Dirk pensativamente.</p><p>- Voc� correr� grande perigo - o kavalariano admitiu mas n�o acho que o matar�o imediatamente, e certamente n�o quando eu o entregar, amarrado e impotente. V�o querer ca�ar voc�. Pyr provavelmente vai reivindic�-lo. Espero que o libertem, tirem sua roupa e fa�am-no correr pela floresta. Se alguns deles resolverem ca�ar voc�, menos estar�o atr�s de Jaan. H� outra possibilidade tamb�m. Em Desafio, Pyr e Bretan estavam prestes a brigar por voc�. Se Bretan se juntar aos ca�adores, � prov�vel que retomem a disputa. Isso s� nos beneficiaria.</p><p>Dirk sorriu.</p><p>- Seu inimigo tem um inimigo - disse, sarc�stico.</p><p>Janacek fez uma careta.</p><p>- N�o sou Arkin Ruark - disse. - Eu o ajudarei se puder. Antes de entrarmos no acampamento dos Braiths, vamos aterrissar secretamente, perto do aerom�vel abatido que voc� viu pegando fogo. Deixaremos um laser nos destro�os. Ent�o, depois que o libertarem e o soltarem nu na floresta, voc� pode buscar a arma e surpreender seus perseguidores. - Deu de ombros. - Sua vida pode depender do qu�o r�pido e direto voc� pode correr, e qu�o boa � sua pontaria com um rifle.</p><p>- E quanto estou disposto a matar. - Dirk acrescentou.</p><p>- E quanto est� disposto a matar. - Janacek reconheceu. - N�o posso lhe oferecer mais vantagens, t'Larien.</p><p>- Aceito essas que me oferece - Dirk falou. Ent�o voaram em sil�ncio por um longo tempo. Mas quando as l�minas negras da cadeia de montanhas finalmente apareceram diante deles, e Janacek apagou todas as luzes do aerom�vel e come�ou sua lenta e cuidadosa descida, Dirk virou-se para falar com ele novamente. - O que voc� teria feito - perguntou - se eu tivesse me recusado a participar do seu plano?</p><p>Janacek se virou no assento e colocou a m�o direita no bra�o de Dirk. As pedrardentes intactas brilhavam debilmente no ferro do bracelete.</p><p>- O la�o de fogo-e-ferro � mais forte do que qualquer la�o que voc� possa imaginar - o kavalariano disse com voz grave -, e muito mais forte do que qualquer la�o de gratid�o passageira. Se tivesse se recusado, t'Larien, eu teria arrancado sua l�ngua para que n�o pudesse contar meus planos aos Braiths e teria seguido adiante. Querendo ou n�o, voc� teria desempenhado seu papel. Entenda, t'Larien, eu n�o o odeio, embora voc� tenha merecido isso muitas vezes. Algumas vezes me peguei gostando de voc�, tanto quanto um Jadeferro pode gostar de algu�m de fora do grupo. N�o machucaria voc� por mal. Mesmo assim, tenho que machucar voc�. Pois considerei cuidadosamente, e meu plano � a melhor chance que Jaan Vikary tem.</p><p>Enquanto falava, Janacek n�o esbo�ou nem o mais leve tra�o de sorriso. Pela primeira vez, n�o estava brincando.</p><p>Dirk n�o teve muito tempo para refletir sobre as palavras de Janacek. O ve�culo come�ou a descer noite adentro como uma pedra incrivelmente leve, deslizando no ar como um espectro sobre as copas dos estranguladores. O aerom�vel abatido ainda ardia em um escuro tom alaranjado, vindo do n�cleo de uma �rvore ca�da e carbonizada, com uma fina camada de fuma�a escura ao seu redor. Janacek se aproximou dos destro�os, abriu uma das grandes portas blindadas e jogou o rifle no solo da floresta, alguns metros abaixo. Por insist�ncia de Dirk, tamb�m jogou a jaqueta dos Braiths que Dirk estava vestindo, pois a pele e o couro grosso seriam uma b�n��o para um homem que estivesse correndo nu pela floresta.</p><p>Depois, voltaram a ganhar altitude, e Garse amarrou Dirk pelas m�os e pelos p�s, com cordas apertadas e doloridas que amea�avam cortar a circula��o, e, por isso mesmo, muito aut�nticas. Ent�o, acendendo os far�is e as luzes laterais, Janacek os levou at� o c�rculo iluminado.</p><p>Os c�es estavam presos e dormindo ao lado da �gua, mas acordaram quando o aerom�vel desconhecido desceu, e Janacek aterrissou no meio de ferozes latidos. Apenas um dos Braiths estava � vista, o ca�ador pele-e-osso cujos cabelos negros despenteados pareciam um novelo de arame queimado. Era<emphasis> teyn</emphasis> de Pyr, Dirk reconheceu, embora n�o soubesse seu nome. O homem estava sentado ao lado de uma fogueira, perto dos c�es, com um rifle laser ao lado. Mas, quando os avistou, ficou em p� rapidamente antes mesmo do ve�culo descer.</p><p>Janacek abriu a pesada porta novamente, empurrando-a para cima e deixando o frio da noite penetrar no calor da cabine. Colocou Dirk em p� com um pux�o e o tirou do aerom�vel com viol�ncia, for�ando-o a ficar de joelhos na areia fria.</p><p>- Jadeferro - o homem de guarda disse duramente. Seus<emphasis> kethi</emphasis> j� come�avam a se reunir, saindo dos sacos de dormir e dos aerom�veis.</p><p>- Tenho um presente para voc�s - Janacek falou, com as m�os no quadril. - Uma oferta de Jadeferro para Braith.</p><p>Eram seis ca�adores, Dirk viu quando, ainda ajoelhado, olhou para cima; todos eles tinham estado em Desafio. O careca e corpulento Pyr, que estava dormindo perto de seu<emphasis> teyn,</emphasis> foi o primeiro a aparecer. Logo depois Roseph Alto-Braith e seu silencioso e musculoso companheiro se juntaram a eles. Tamb�m dormiam ao ar livre, perto de seu aerom�vel. Por fim, Lorimaar Alto-Braith Arkellor, com o lado esquerdo do peito enfaixado, veio lentamente do aerom�vel abobadado vermelho, apoiado no bra�o do gordo que estivera com ele antes. Todos os seis apareceram como estavam dormindo: completamente vestidos e armados.</p><p>- O presente - disse Pyr - � apreciado, Jadeferro. - Usava uma pistola em um cintur�o met�lico preto, mas seu bast�o n�o estava � vista, e era como se estivesse faltando alguma coisa.</p><p>- Sua presen�a<emphasis> n�o</emphasis> � apreciada - Lorimaar falou, enquanto lutava para se juntar ao c�rculo. Estava apoiando grande parte de seu peso no<emphasis> teyn,</emphasis> ent�o parecia curvado e derrotado, n�o mais o gigante que fora. E Dirk, olhando para ele, pensou ter visto novas rugas na escurid�o, vincos profundos na pele rec�m-esculpidos pela dor.</p><p>- � �bvio agora que o duelo para o qual fui nomeado �rbitro nunca acontecer� - Roseph comentou serenamente, sem nenhum tra�o da pesada hostilidade que engrossava a voz de Lorimaar</p><p>ent�o n�o tenho nenhum tipo de autoridade, e n�o pretendo falar por Alto Kavalaan ou por Braith. Mesmo assim, acho que posso falar por todos n�s. N�o toleraremos sua interfer�ncia, Jadeferro. Com ou sem presente de sangue.</p><p>- � verdade - concordou Lorimaar.</p><p>- N�o pretendo interferir. - Janacek explicou. - Pretendo me juntar a voc�s.</p><p>- Estamos ca�ando seu<emphasis> teyn</emphasis> - o companheiro de Pyr disse.</p><p>- Ele sabe disso - Pyr rebateu.</p><p>- N�o tenho<emphasis> teyn.</emphasis> - Janacek garantiu. - Um animal ronda a floresta, usando meu ferro-e-fogo. Ajudarei voc�s a mat�-lo, e reivindico a coisa que � minha. - Soou muito duro, muito convincente.</p><p>Um dos c�es andava de um lado para o outro, impaciente na corrente. Rosnou e parou tempo suficiente para enrugar sua cara de rato para Janacek e mostrar uma fileira de dentes amarelados.</p><p>- Ele � um mentiroso - Lorimaar Alto-Braith afirmou. - At� nossos c�es farejam suas mentiras. N�o gostam dele.</p><p>- Um quase-homem - acrescentou seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>Garse Janacek virou a cabe�a ligeiramente. A luz tr�mula da fogueira dava novos tons vermelhos em sua barba quando sorriu ir�nica e amea�adoramente.</p><p>- Saanel Braith - disse - seu<emphasis> teyn</emphasis> est� ferido e me insulta com impunidade, pois sabe que n�o posso desafi�-lo a fazer suas escolhas. Voc� n�o tem essa mesma prote��o.</p><p>- Neste momento, ele tem - Roseph falou com aspereza. - Isso � um truque que n�o vamos permitir que use, Jadeferro. Voc� n�o duelar� conosco, um a um, e salvar� seu<emphasis> teyn</emphasis> renegado.</p><p>- Jurei que n�o tenho desejo de salv�-lo. N�o tenho<emphasis> teyn.</emphasis> Voc� n�o pode negar meus direitos garantidos pelo c�digo.</p><p>O pequeno e encurvado Roseph - o menor dos kavalarianos por meio metro - encarou Janacek e se recusou a ceder.</p><p>- Estamos em Worlorn - disse. - E fazemos o que queremos.</p><p>V�rios dos outros murmuraram em concord�ncia.</p><p>- Voc�s s�o kavalarianos - Janacek insistiu, mas uma fa�sca de d�vida cruzou seu rosto. - Voc�s s�o Braiths e altos-senhores de Braith, ligados ao seu grupo, ao seu conselho e seus costumes.</p><p>- Em anos passados - Pyr disse com um sorriso vi muito dos meus<emphasis> kethi</emphasis> e ainda mais homens de outros grupos abandonarem a antiga sabedoria. "Isso, isso e mais isso est� errado", os amaneirados Jadeferros falavam. "N�o seguiremos isso." E os cordeiros de A�orrubro faziam coro, assim como os afeminados de Shanagate e, lamentavelmente, muitos Braiths. Minhas lembran�as s�o falsas? Voc� fica a� parado e prega o c�digo para n�s, mas acho que me lembro de Jadeferros na minha juventude dizendo que n�o eu n�o podia mais ca�ar quase-homens. Alguns kavalarianos moles que foram mandados para �valon para aprender sobre naves espaciais, armas e outras coisas �teis n�o voltaram cheios de mentiras sobre como dev�amos mudar nossos costumes, afirmando que nosso c�digo era uma vergonha, o mesmo c�digo que por tanto tempo havia sido motivo de orgulho? Diga-me, Jadeferro,<emphasis> estou</emphasis> errado?</p><p>Garse n�o disse nada. Cruzou os bra�os sobre o peito.</p><p>- Jaan Vikary, certa vez Alto-Jadeferro, era o maior dos reformistas e dos mentirosos. Voc� n�o estava muito atr�s - Lorimaar falou.</p><p>- Nunca estive em �valon. - Janacek comentou simplesmente.</p><p>- <emphasis>Me responda -</emphasis> Pyr exigiu. - Voc� e Vikary n�o queriam mudar os velhos costumes? Voc�s n�o riam das partes do c�digo das quais n�o gostavam?</p><p>- Nunca rompi o c�digo - Janacek falou. - Jaan... Jaan algumas vezes... - titubeou.</p><p>- Ele admite - o gordo Saanel apontou.</p><p>- Estivemos conversando entre n�s - Roseph disse com voz calma. - Se os altos-senhores podem matar fora do c�digo, se as coisas que conhecemos como verdadeiras podem mudar e ser desdenhadas, ent�o tamb�m podemos fazer mudan�as e descartar falsas sabedorias que n�o nos interessam. N�o temos mais la�os com Braith, Jadeferro. E o melhor dos grupos, mas n�o � bom o suficiente. Nossos antigos<emphasis> kethi</emphasis> foram brandos demais em aceitar muitas mentiras. N�o seremos mais deformados, nem brincar�o mais conosco. Regressaremos �s antigas e verdadeira tradi��es, para o credo que j� era antigo antes da queda do Punho de Bronze, mesmo nos dias em que os altos-senhores de Jadeferro, de Taal e das Moradas do Carv�o Profundo lutavam juntos contra os dem�nios nas Colinas Lameraan.</p><p>- V�, Jadeferro - Pyr falou -, voc� nos chama por falsos nomes.</p><p>- N�o sabia - Janacek falou lentamente.</p><p>- Chame-nos por nosso nome verdadeiro. N�o somos Braiths.</p><p>Os olhos do Jadeferro pareciam escuros e sombrios. Seus bra�os ainda estavam cruzados. Olhou para Lorimaar.</p><p>- Voc�s criaram um novo grupo - disse.</p><p>- H� precedentes - Roseph comentou. - A�orrubro nasceu daqueles que romperam com Montanha Pedrardente, e Braith saiu de Punho de Bronze.</p><p>- Sou Lorimaar Reln Raposadeinverno<emphasis> Alto-Larteyn</emphasis> Arkellor - Lorimaar disse, com a voz dura, cheia de dor.</p><p>- Honra ao seu grupo - Janacek respondeu, ficando em p� rigidamente -, honra ao seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>- Somos todos Larteyns - Roseph falou.</p><p>Pyr riu.</p><p>- Somos o conselho de altos-senhores de Larteyn e mantemos o c�digo antigo - garantiu.</p><p>No sil�ncio que se seguiu, os olhos de Janacek passaram de um rosto para o seguinte. Dirk, ainda desamparado e de joelhos na areia, observava a cabe�a do Jadeferro se mover, virando de um para outro.</p><p>- Voc�s se nomearam Larteyns - Janacek falou finalmente -, ent�o s�o Larteyns. Toda a antiga sabedoria concorda com isso. Mesmo assim, lembro que todas as coisas sobre as quais falaram, os homens, os ensinamentos e os grupos que invocaram, todas essas coisas est�o mortas. Punho de Bronze e Taal foram destru�dos em altas-guerras antes que qualquer um de voc�s tivesse nascido, e as Moradas do Carv�o Profundo estavam inundadas e vazias at� mesmo durante o Tempo do Fogo e dos Dem�nios.</p><p>- A sabedoria deles vive em Larteyn - Saanel garantiu.</p><p>- Voc�s s�o apenas seis - Janacek lembrou e Worlorn est� morrendo.</p><p>- Sob nosso dom�nio voltar� a viver - Roseph falou. - As not�cias chegar�o a Alto Kavalaan, e outros vir�o. Nossos filhos nascer�o aqui, para ca�ar nos bosques de estranguladores.</p><p>- Como quiserem - falou Janacek. - Isso n�o me importa. Jadeferro n�o tem agravo contra Larteyn. Venho at� voc�s abertamente e pe�o para me juntar � ca�ada. - Apoiou a m�o no ombro de Dirk. - E trago um presente de sangue para voc�s.</p><p>- � verdade. - Pyr concordou, e por um momento ficou em sil�ncio. Ent�o falou para os outros - Digo que ele pode vir.</p><p>- N�o - discordou Lorimaar. - N�o confio nele. Est� ansioso demais.</p><p>- Por uma raz�o, Lorimaar Alto-Larteyn - Janacek explicou.</p><p>- Uma grande vergonha caiu sobre meu grupo e meu nome. Pretendo limpar minha honra.</p><p>- Um homem deve manter seu orgulho, n�o importa o pre�o</p><p>- Roseph assentiu. - Isso � verdade suficiente para qualquer um.</p><p>- Deixem-no ca�ar - o<emphasis> teyn</emphasis> de Roseph falou. - Somos seis e ele est� sozinho. Como pode nos fazer mal?</p><p>- Ele � um mentiroso! - Lorimaar insistiu. - Como chegou at� n�s? Perguntem-se isso! E olhem! - Apontou para o bra�o direito de Janacek, onde as pedrardentes queimavam como olhos vermelhos. Apenas um punhado faltava.</p><p>Janacek colocou a m�o esquerda em sua faca e a desembainhou lentamente. Ent�o estendeu a m�o direita para Pyr.</p><p>- Ajude-me a sustentar o bra�o com firmeza - disse em um calmo tom de conversa -, e eu arrancarei os falsos fogos de Jaan Vikary.</p><p>Pyr fez o que lhe foi pedido. Ningu�m falou nada. A m�o de Janacek foi segura e r�pida. Quando terminou, pedrardentes jaziam na areia como brasas de uma fogueira dispersa. Abaixou-se e recolheu uma, lan�ando-a levemente no ar e apanhando-a novamente, como se estivesse testando o peso, sorrindo todo o tempo. Ent�o levou o bra�o para tr�s e a atirou; a pedra fez uma curva ampla antes de cair na �gua. No fim de seu arco, afundando, parecia um pouco uma estrela cadente. Dirk quase esperou ouvir um chiado quando ela mergulhou no lago escuro. Mas n�o houve som, apenas a distante pancada na �gua.</p><p>Janacek pegou todas as pedrardentes, rolou-as na palma da m�o rapidamente e as jogou no lago. Quando a �ltima se foi, voltou-se para os ca�adores e estendeu o bra�o direito.</p><p>- Ferro vazio - disse. - Olhem. Meu<emphasis> teyn</emphasis> est� morto.</p><p>Depois disso, n�o teve mais problema.</p><p>- A manh� est� quase chegando - Pyr falou. - Coloquemos minha presa para correr.</p><p>Ent�o os ca�adores voltaram a aten��o para Dirk, e tudo aconteceu mais ou menos do jeito que Janacek lhe dissera. Libertaram-no das cordas e o deixaram esfregar os punhos e os tornozelos um pouco para colocar o sangue em movimento. Ent�o foi empurrado contra um aerom�vel, e Roseph e o gordo Saanel o seguraram enquanto Pyr cortava suas roupas. O ca�ador careca manejava sua pequena faca t�o mortalmente quanto seu bast�o, mas n�o foi gentil; deixou um longo corte na parte de dentro das coxas de Dirk e um mais curto e mais profundo em seu peito.</p><p>Dirk estremeceu quando Pyr o cortou, mas n�o ofereceu resist�ncia. At� que ficou finalmente nu, tremendo ao vento e pressionando as costas com for�a contra o flanco de metal frio do aerom�vel.</p><p>Pyr franziu o cenho repentinamente.</p><p>- O que � isso? - disse, e sua pequena m�o branca envolveu a j�ia-sussurrante pendurada no peito de Dirk.</p><p>- N�o - Dirk falou.</p><p>Pyr torceu e puxou com for�a. A fina corrente de prata se enterrou dolorosamente na garganta de Dirk; a j�ia saltou livre de seu cord�o improvisado.</p><p>- <emphasis>N�o!</emphasis> - Dirk gritou. Atirou-se para frente sem aviso e come�ou a se debater. Roseph trope�ou, perdeu o controle sobre o bra�o direito de Dirk e caiu. Saanel se pendurou no outro bra�o com for�a. Dirk deu um soco no pesco�o grosso como o de um touro do kavalariano, bem abaixo do queixo. O gordo o soltou com um xingamento, e Dirk se voltou para Pyr.</p><p>Pyr havia pego seu bast�o. Estava sorrindo. Dirk deu um passo r�pido na dire��o dele e parou.</p><p>A hesita��o foi o suficiente. Saanel deslizou um grosso bra�o ao redor da cabe�a de Dirk por tr�s e deu-lhe uma chave de pesco�o que logo se transformou em estrangulamento.</p><p>Pyr observava com desinteresse. Enfiou o bast�o na areia e segurou a j�ia-sussurrante entre o polegar e o indicador.</p><p>- J�ias de quase-homens - disse com desd�m. N�o significava nada para ele; n�o havia resson�ncia na mente dele com os padr�es incrustados pelo �sper na gema. Talvez notasse o qu�o fria a pequena l�grima era ao toque, talvez n�o. Mas n�o ouvia os sussurros. Chamou seu<emphasis> teyn,</emphasis> que estava chutando areia no fogo. - Voc� gostaria de um presente de t'Larien?</p><p>Sem dizer nada, o homem se aproximou, pegou a j�ia e a segurou brevemente. Ent�o colocou-a no bolso da jaqueta. Virou-se sem sorrir e come�ou a andar ao redor do per�metro do acampamento Braith, apagando o c�rculo de lanternas espetadas na areia. Enquanto as luzes eram desligadas, Dirk viu que o primeiro clar�o do amanhecer estava no horizonte ocidental.</p><p>Pyr acenou com o bast�o para Saanel.</p><p>- Solte-o - ordenou, e o gordo desfez o estrangulamento e se afastou. Dirk estava livre novamente. Seu pesco�o do�a, e a areia seca entre seus dedos era �spera e fria. Sentia-se muito vulner�vel. Sem a j�ia-sussurrante, estava muito assustado. Procurou por Garse Janacek, mas o Jadeferro estava do outro lado do acampamento, falando seriamente com Lorimaar.</p><p>- O amanhecer est� quase despontando. - Pyr comentou. - Irei atr�s de voc� logo em seguida, quase-homem. Corra.</p><p>Dirk olhou de relance sobre o ombro. Roseph franzia o cenho e massageava o ombro; ca�ra com for�a quando Dirk se libertara. Saanel, com um sorriso tolo, estava encostado no aerom�vel. Dirk deu alguns passos hesitantes para longe deles, em dire��o � floresta.</p><p>- V�, t'Larien, estou certo de que pode correr mais r�pido do que isso - Pyr gritou. - Corra r�pido o suficiente e poder� viver. Estarei a p� tamb�m, assim como meu<emphasis> teyn</emphasis> e nossos c�es. - Pegou a pistola e atirou-a no ar, rodopiando, para Saanel, que a pegou com as duas m�os enormes. - N�o levarei laser, t'Larien. - Pyr prosseguiu. - Ser� uma ca�ada pura e limpa, do tipo mais antigo. Um ca�ador com faca e l�mina de arremesso, atr�s de uma presa nua. Corra, t'Larien, corra!</p><p>Seu ossudo companheiro de cabelos negros se juntou a ele.</p><p>- Meu<emphasis> teyn</emphasis> - Pyr lhe disse -, solte nossos c�es.</p><p>Dirk girou sobre os calcanhares e correu at� o come�o do bosque.</p><p>Era como correr em um pesadelo.</p><p>Haviam tirado suas botas; nem bem percorrera tr�s metros entre as �rvores, cortou o p� em uma pedra afiada na escurid�o e come�ou a mancar. Havia outras pedras e, enquanto corria, parecia encontrar todas elas.</p><p>Tamb�m haviam tirado suas roupas; era melhor estar abrigado pelas �rvores, onde o vento n�o era t�o forte, mas ainda estava com frio. Muito frio. Tivera arrepios por um tempo, ent�o passaram. Outras dores vieram, e o frio pareceu menos importante. Os bosques do mundo exterior eram ao mesmo tempo muito escuros e muito claros. Escuros demais para ver aonde estava indo. Trope�ava nas ra�zes, esfolava os joelhos e as palmas das m�os, ca�a em buracos. Mas era muito iluminado tamb�m. A aurora chegava rapidamente, r�pido demais, e a luz se espalhava agonizante entre as �rvores. Estava perdendo de vista sua estrela-guia. Olhava para cima todas as vezes que alcan�ava uma clareira, cada vez que podia ver entre a densa folhagem, olhava para cima e a encontrava. Uma �nica estrela brilhante vermelha, a pr�pria estrela de Alto Kavalaan queimando no c�u de Worlorn. Garse a mostrara para ele e lhe dissera que deveria segui-la se perdesse o rumo. Ela o levaria pela floresta at� o laser e a jaqueta. Mas a aurora estava chegando, chegando muito r�pido; os Braiths haviam demorado demais para solt�-lo. E cada vez que Dirk olhava para cima novamente e tentava ir pelo caminho certo - a floresta era espessa e confusa, os estranguladores formavam muralhas impenetr�veis em alguns pontos e o for�avam a fazer desvios, todas as dire��es pareciam a mesma, e era f�cil se perder -, cada vez que buscava por sua estrela-guia, ela estava mais fraca, mais desbotada. A luz ocidental tingia tudo de vermelho; o Sat� Gordo erguia-se em algum lugar, e logo a estrela de Alto Kavalaan estaria apagada nesse c�u crepuscular. Tentou correr mais r�pido.</p><p>Tinha que percorrer menos de um quil�metro, menos de um quil�metro. Mas um quil�metro � um longo caminho atrav�s da floresta quando se est� nu e quase perdido. Correra por dez minutos quando ouviu os c�es Braiths latindo selvagemente atr�s de si. Depois disso, n�o pensou nem se preocupou. Correu.</p><p>Correu como um animal em p�nico, respirando ofegante, sangrando, o corpo todo tremendo e doendo. A corrida tornou-se algo sem-fim, uma coisa al�m do tempo, um sonho febril de pisadas fren�ticas, fragmentos de sensa��es vividas, e o ru�do dos c�es cada vez mais pr�ximos - ou assim parecia. Corria, corria e n�o chegava a lugar algum, corria e corria e n�o sa�a do lugar. Colidiu contra uma parede grossa de sar�as-de-fogo, e os espinhos vermelhos entraram em sua carne em uma centena de lugares, mas n�o gritou; correu e correu. Chegou a um promont�rio coberto por pedra cinza e lisa e tentou correr mais rapidamente, mas caiu e esmagou o queixo no ch�o. Sua boca se encheu de sangue e ele cuspiu. Havia sangue na pedra tamb�m, n�o era de estranhar que tivesse escorregado; o sangue que sa�a de seus cortes nos p�s estava por todo lado.</p><p>Rastejou pela pedra lisa e chegou �s �rvores novamente, e correu mais um pouco, fren�tico, at� se lembrar que n�o estava procurando por sua estrela-guia. Encontrou-a novamente, atr�s dele, muito fraca, um pontinho brilhante no c�u escarlate. Virou-se e atravessou a pedra de novo, trope�ando em ra�zes ocultas, afastando as folhagens com m�os nervosas, correndo, correndo. Trope�ou em um galho baixo, caiu de costas, levantou-se segurando a cabe�a e correu. Escorregou em uma cama de musgo lisa, negra, cheirando a podre, ergueu-se coberto pelo limo e pelo fedor, e correu, correu. Procurou por sua estrela-guia, e ela havia partido. Seguiu em frente. Tinha que ser a dire��o certa, tinha que ser. Os c�es estavam atr�s dele, latindo. Era apenas um quil�metro, era menos de um quil�metro. Estava congelando. Estava pegando fogo. Seu peito estava cheio de facas. Continuou correndo, cambaleando, trope�ando e caindo, se levantando e continuando a correr. Os c�es estavam atr�s dele, mais perto, mais perto, os c�es estavam atr�s dele.</p><p>E ent�o, repentinamente - n�o sabia quando, n�o sabia a quanto tempo estava correndo, n�o sabia o qu�o longe fora, n�o tinha mais sua estrela -, pensou ter sentido um leve cheiro de fuma�a no vento que seguia pela floresta. Correu na dire��o dele e saiu de entre as �rvores em uma pequena clareira. Avan�ou na dire��o do outro lado do espa�o aberto, e estancou.</p><p>Os c�es estavam na frente dele.</p><p>Um deles, pelo menos. Veio se esgueirando por entre as �rvores, rosnando, com olhos mortais e o focinho sem pelo retra�do para mostrar as feias mand�bulas. Dirk tentou despist�-lo, mas o animal saltou sobre ele, derrubando-o, rolando com ele pelo ch�o. O c�o se levantou de um pulo. Dirk lutou para ficar de joelhos; o animal deu a volta, rosnando amea�adoramente enquanto ele tentava se levantar. O bra�o esquerdo de Dirk tinha sido mordido e sangrava. Mas o c�o n�o o matara, n�o tentara atacar sua garganta. � treinado, Dirk pensou, � um animal treinado. O c�o circulava ao redor dele, circulava, sem nunca afastar os olhos. Pyr enviara-o na frente e estava vindo atr�s com seu<emphasis> teyn </emphasis>e os outros c�es. Este apenas o manteria preso enquanto os outros chegavam.</p><p>Dirk levantou-se repentinamente, mancando em dire��o �s �rvores. O c�o saltou, derrubando-o mais uma vez, lutando com ele no ch�o e quase arrancando seu bra�o. Dessa vez, Dirk n�o se levantou. O c�o se afastou, ficou esperando, alerta, a boca molhada de sangue e saliva. Dirk tentou se apoiar no bra�o bom. Rastejou meio metro. O c�o rosnou. Os outros estavam perto. Podia ouvi-los latindo.</p><p>Ent�o, vindo de cima, ouviu algo mais. Olhou sem for�as para a pequena fatia de c�u coberto de nuvens, mal iluminado pelos raios do alvorecer do Olho do Inferno e seus assistentes. O c�o Braith, latindo a um metro dele, olhava para cima tamb�m. E o <emphasis>som</emphasis> veio novamente. Era gemido e um grito de guerra, um alarido insistente e ululante, um grito de morte que era quase musical em sua intensidade. Dirk se perguntou se estava morrendo e ouvindo os sons de Kryne Lamiya em sua mente. Mas o c�o ouvia tamb�m. Estava agachado, paralisado, olhando para cima.</p><p>Uma forma escura mergulhou do c�u. Dirk a viu cair. Era imensa, muito negra, quase da cor do piche, e a parte inferior era recoberta com mil pequenas bocas vermelhas, e estavam todas abertas, todas cantando, todas entoando aquele gemido ar- repiante. N�o tinha cabe�a que pudesse ser vista; era uma vela larga, triangular e escura, uma arraia que nadava no vento, uma capa de couro que algu�m soltara no c�u. Mas era uma capa de couro com bocas e uma longa cauda fina.</p><p>Dirk viu a cauda chicotear uma vez, de repente, e acertar o focinho do c�o Braith. O animal piscou e retrocedeu. A criatura voadora pairou por um instante, batendo as imensas asas com uma requintada lentid�o ondulante, ent�o desceu sobre o c�o e o envolveu. Os dois animais ficaram em sil�ncio. O imenso c�o musculoso com cara de rato, que em p� tinha a altura de um homem, sumiu. A outra criatura o cobriu completamente e permaneceu deitada na grama e na terra como uma descomunal salsicha de couro negro.</p><p>Tudo estava em sil�ncio. O grito do ca�ador havia silenciado toda a floresta. Dirk n�o ouvia os outros c�es. Cuidadosamente ficou em p� e saiu andando, mancando, ao redor da torpe capa assassina. Parecia totalmente im�vel. Na penumbra da alvorada, parecia um grande tronco disforme.</p><p>Em sua mente, Dirk ainda a via como parecia no c�u: uma forma negra, uivando, caindo, asas e bocas. Por um instante, reparando apenas na silhueta, pensara que Jaan Vikary viera resgat�-lo, voando no grande aerom�vel em forma de arraia.</p><p>Do outro lado da clareira estava um emaranhado de estrangu- ladores, espessos e amarelo-acastanhados. Mas a fuma�a vinha de al�m deles. Cansado, Dirk se esquivou, se espremeu e empurrou os galhos, quebrando-os quando necess�rio e for�ando sua passagem entre as �rvores.</p><p>O ve�culo abatido parara de queimar, mas uma nuvem fina de fuma�a ainda pairava sobre ele. Uma asa fora arrastada pelo ch�o, arrancando grandes torr�es de terra e derrubando v�rias �rvores antes de parar; a outra apontava para o ar, sua forma de morcego distorcida por sulcos de metal fundido e congelado e buracos feitos por um canh�o laser. A cabine estava carbonizada e disforme, aberta com um buraco de largura irregular.</p><p>Dirk encontrou o laser ali perto. Tamb�m encontrou ossos: dois esqueletos entrela�ados em um abra�o da morte, os ossos escuros e molhados, ainda marrons pelo sangue e com peda�os de carne. Um esqueleto era humano, ou fora. Os bra�os e as pernas estavam quebrados, e a maioria das costelas espalhadas ou perdidas, mas Dirk reconheceu a garra de metal de tr�s pontas no extremo de um bra�o quebrado duas vezes. Misturado com ele, e t�o morto quanto, estavam os restos de qualquer que fosse a criatura que arrastara a carca�a do carro incendiado - algum carniceiro cujos ossos tinham veios negros e apar�ncia emborra- chada, curvados e muito grandes. O banshee o pegara comendo. N�o era de admirar que estivesse t�o perto.</p><p>N�o havia sinal da jaqueta de couro e peles que ele e Garse haviam deixado ali. Dirk arrastou-se sobre o casco frio do aerom�vel e subiu no interior sombrio. Cortou-se em uma superf�cie de metal afiada, mas mal notou; o que era mais um corte agora? Disp�s-se a esperar, abrigado do vento, e esperando estar escondido do banshee e dos Braiths. A maior parte de seus ferimentos parecia ter fechado, notou sem entusiasmo. Estava sangrando apenas de forma irregular, aqui e ali. Mas as crostas marrons que haviam se formado estavam cheias de sujeira, e ele se perguntou se devia fazer alguma coisa para evitar uma infec��o. N�o parecia ter import�ncia, no entanto; deixou o pensamento de lado e segurou o laser um pouco mais apertado, esperando que os ca�adores chegassem logo.</p><p>O que os atrasava? Talvez tivessem ficado com medo de incomodar o banshee; isso fazia muito sentido. Dirk se estendeu nas brasas frias, descansando a cabe�a no bra�o, e tentou n�o pensar, n�o sentir. Seus p�s estavam em carne viva. Desajeitadamente, tentou coloc�-los para cima, para que n�o tocassem em nada. Isso ajudou um pouco, mas n�o tinha for�as para mant�-los assim por muito tempo. Seu bra�o latejava onde o c�o Braith o mordera. Por um momento, desejou com fervor que suas dores parassem e que sua cabe�a parasse de girar. Ent�o mudou de id�ia. A dor, pensou, era provavelmente a �nica coisa que o mantinha consciente. E, se adormecesse agora, de alguma forma achava que nunca mais acordaria.</p><p>Viu o Sat� Gordo pairando sobre a floresta, seu disco sangrento meio obscurecido por uma tela de galhos negro-azulados. Perto, um �nico sol amarelo brilhava, uma pequena centelha no Armamento. Piscou para eles. Eram velhos amigos.</p><p>O som dos c�es Braiths chamou sua aten��o. A dez metros, os ca�adores emergiram avidamente da folhagem. N�o estavam t�o perto quanto Dirk esperara. � claro, pensou, haviam dado a volta nos estranguladores em vez de lutar atrav�s deles. Pyr Braith estava quase invis�vel, negro-azulado como as �rvores contra as quais estava parado, mas Dirk viu seu movimento, o bast�o que carregava em uma m�o e a l�mina lustrosa e brilhante que empunhava na outra. Seu<emphasis> teyn</emphasis> estava alguns passos atr�s, segurando dois c�es em correntes curtas, que latiam selvagemente e puxavam-no para a frente quase trotando. Um terceiro cachorro corria livre ao lado deles, e come�ou a farejar em dire��o ao carro abatido assim que saiu na clareira.</p><p>Dirk, deitado de bru�os entre as cinzas e os instrumentos destru�dos do ve�culo, repentinamente achou muita gra�a em tudo aquilo. Pyr ergueu seu eixo de prata sobre a cabe�a e come�ou a correr; tinha certeza de que teria sua presa finalmente. Mas n�o tinha laser, e Dirk tinha. Engolindo a gargalhada, Dirk ergueu o rifle e mirou cuidadosamente.</p><p>Enquanto atirava, uma lembran�a o assaltou t�o repentina e penetrantemente quanto o pulso de luz que saiu do laser. Janacek, havia poucas horas, com express�o s�ria e indiferente:<emphasis> Sua vida pode depender do qu�o r�pido e direto voc� pode correr, e qu�o boa � sua pontaria.</emphasis> E Dirk acrescentara:<emphasis> E o quanto estou disposto a matar.</emphasis> Isso lhe parecera muito importante no momento; matar era muito mais dif�cil do que simplesmente correr.</p><p>Segurou o riso novamente. A corrida fora muito dif�cil. Matar foi apenas algo que fez, e foi quase f�cil.</p><p>O brilhante feixe incandescente do laser ficou no ar por um longo segundo, atravessando o intestino do maci�o Pyr enquanto ele corria em dire��o ao casco do aerom�vel. O Braith trope�ou e caiu de joelhos. Sua boca ficou absurdamente aberta por um segundo, antes que desabasse de cara e sumisse da vista de Dirk. A longa l�mina de prata que carregava permaneceu fincada no ch�o, balan�ando com o vento.</p><p>O companheiro de cabelos negros de Pyr soltou as correntes que levava e pareceu congelar quando seu<emphasis> teyn</emphasis> tombou. Dirk moveu o laser suavemente e disparou mais uma vez, mas nada aconteceu; a arma ainda estava nos quinze segundos de recarga.</p><p>Isso tornava a ca�ada um<emphasis> esporte,</emphasis> lembrou; dava a chance da presa escapar, se voc� errasse. Pegou-se segurando o riso novamente.</p><p>O ca�ador voltou a si e jogou-se no ch�o, rolando pelo solo at� a longa vala aberta pela asa do aerom�vel. Entrincheirado e procurando por seu laser, Dirk pensou, mas n�o o encontrar�.</p><p>Os c�es haviam cercado o ve�culo, latindo cada vez que Dirk mudava de posi��o ou levantava a cabe�a. Nenhum deles tentou buscar a presa. Essa era tarefa do ca�ador. Dirk mirou cuidadosamente e atirou na garganta do mais pr�ximo. O animal caiu como um peda�o de carne, e os outros dois retrocederam. Ajoelhando-se, Dirk rastejou para fora do abrigo. Tentou ficar em p�, apoiando-se com uma m�o na asa retorcida. O mundo girava. Horr�veis espasmos tomavam suas pernas e ele n�o conseguia sentir os p�s. Mas, de alguma forma, conseguiu manter-se ereto.</p><p>Um grito ecoou, algo em antigo kavalariano; Dirk n�o conhecia a palavra. Os c�es imensos atacaram, um ap�s o outro, com a boca vermelha babando e rosnando. Com o canto do olho, viu o ca�ador saindo de seu esconderijo, a dois metros de dist�ncia, com a faca em punho. Agitou o bra�o e acertou a asa do aerom�vel atr�s da qual Dirk se escondia. O homem j� tinha se virado e estava correndo, e o c�o mais pr�ximo saltou no ar. Dirk se jogou no ch�o e ergueu o rifle. O animal n�o conseguiu atac�-lo, mas caiu em cima de seu alvo, rolou com ele pela terra e o prendeu de costas no ch�o com as patas. De alguma forma, Dirk encontrou o gatilho. Houve uma breve luz, depois o cheiro de pelo queimado e um gemido estranho. O c�o caiu de lado, debilmente, engasgando com o pr�prio sangue. Dirk empurrou a carca�a para longe e lutou para se apoiar em um joelho. O Braith alcan�ara o corpo de Pyr e agitava a longa l�mina prateada. O outro c�o prendera a ponta solta da corrente em uma sali�ncia do carro abatido. Quando Dirk se levantou, o animal uivou e avan�ou, e a casca do grande ve�culo pareceu se mexer um pouco, mas o c�o continuou preso.</p><p>O ca�ador de cabelos negros estava com a arma prateada. Dirk mirou seu laser e atirou; o raio queimando largo, mas um segundo era tempo suficiente, e Dirk moveu o rifle bruscamente, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita.</p><p>O homem caiu enquanto soltava a arma. A l�mina voou alguns metros, bateu na asa retorcida e espetou no ch�o, onde ficou se mexendo para a frente e para tr�s ao vento. Dirk ainda movia o rifle, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, muito tempo depois do ca�ador cair e da luz se extinguir. Finalmente a arma se recarregou e disparou novamente por um segundo, queimando apenas uma fileira de estranguladores, e Dirk, sobressaltado, soltou o gatilho e deixou cair a arma.</p><p>O c�o, ainda preso, grunhia e avan�ava. Dirk olhou para ele, de boca aberta, quase sem entender. Ent�o deu uma risadinha. Ajoelhou-se, pegou o laser e come�ou a rastejar na dire��o dos kavalarianos. Levou um tempo muito longo. Seus p�s do�am. O ponto onde fora mordido no bra�o, tamb�m. O c�o finalmente fez sil�ncio, mas ainda havia barulho. Dirk ouviu um lamento, um choro cont�nuo e baixo.</p><p>Arrastou-se pela terra e pelas cinzas, sobre o tronco queimado de um represeiro, at� onde os ca�adores jaziam. Estavam deitados lado a lado. O mais magro, aquele cujo nome nunca soubera, que tentara mat�-lo com a faca, os c�es e a l�mina prateada, estava r�gido, com a boca cheia de sangue. Pyr, deitado de bru�os, era a fonte dos lamentos. Dirk ajoelhou-se ao lado dele, colocou as m�os por baixo de seu corpo e o virou com muito esfor�o. O rosto do kavalariano estava coberto de cinzas e sangue; seu nariz se arrebentara com a queda, e um fio vermelho escorria de uma narina, deixando uma trilha brilhante atrav�s de suas bochechas manchadas de fuligem. Seu rosto era velho. Continuou gemendo e n�o pareceu notar Dirk, e suas m�os agarravam o est�mago. Dirk o encarou por um longo momento. Pegou uma das m�os do kavalariano - estranhamente suaves e pequenas, sem outras marcas que n�o uma cicatriz negra que percorria a palma, quase a m�o de uma crian�a, que n�o parecia pertencer �quele rosto careca e velho - e levantou-a. Depois fez o mesmo com a outra e olhou o buraco que abrira na barriga de Pyr. Uma barriga grande e um pequeno buraco escuro; n�o parecia doer tanto. Tamb�m n�o havia sangue vis�vel, exceto pelo nariz. Era quase engra�ado, mas Dirk descobriu que n�o tinha mais vontade de rir.</p><p>Pyr abriu a boca, e Dirk se perguntou se o homem estava tentando dizer alguma coisa, algumas palavras finais talvez, algum pedido de perd�o. Mas o Braith apenas fez um barulho de engasgar e voltou a gemer.</p><p>Seu bast�o estava jogado ali perto. Dirk o pegou e envolveu o punho de madeira com as m�os e colocou a pequena l�mina sobre o peito de Pyr, onde o cora��o devia estar. Apoiou todo o peso do corpo para frente e para baixo, pensando em acabar com a agonia do ca�ador. O pesado corpo de Pyr teve horr�veis espasmos por um instante, e Dirk tirou a l�mina e a enfiou novamente, e ent�o mais uma vez, mas o kavalariano n�o ficava quieto. A l�mina era muito curta, Dirk percebeu depois de um tempo, ent�o decidiu us�-la de outro modo. Encontrou uma art�ria no pesco�o de Pyr, segurou o bast�o com firmeza e pressionou a l�mina contra a clara pele gorda. Saiu muito sangue, um jorro que acertou Dirk no rosto, at� que soltou o bast�o e retrocedeu. O corpo de Pyr se sacudiu e o sangue continuou a jorrar do corte. Dirk observava, mas cada jato era um pouco mais fraco do que o anterior, e, depois de um tempo, a fonte era apenas uma gota, e depois de mais algum tempo pareceu parar. As cinzas e a terra beberam grande parte do sangue, mas ainda assim havia muito espalhado, uma pequena piscina entre os dois. Dirk n�o sabia que um homem tinha sangue suficiente para formar uma piscina. Sentiu-se enjoado. Mas finalmente Pyr estava quieto, e os gemidos pararam.</p><p>Dirk sentou-se sozinho, descansando, sob a p�lida luz vermelha. Estava com muito calor e com muito frio ao mesmo tempo, e sabia que precisava pegar algumas roupas dos cad�veres para se cobrir, mas n�o conseguia for�as para isso. Seu p� do�a horrivelmente, e seu bra�o inchara at� ficar com duas vezes o tamanho normal. N�o dormiu, mas quase perdeu a consci�ncia. Observou o Sat� Gordo se erguer cada vez mais alto no c�u, conforme o meio-dia se aproximava, com os s�is amarelos brilhando dolorosamente ao redor dele. Ouviu o c�o Braith uivar muitas vezes, e uma vez escutou o estranho grito de ca�a do banshee e se perguntou se a criatura voltaria para com�-lo e aos homens que matara. Mas o grito parecia muito distante, e talvez fosse apenas seu estado febril ou o vento.</p><p>Quando a pel�cula pegajosa e �mida em seu rosto tornou-se uma crosta marrom, e a pequena piscina de sangue na terra se fora, Dirk soube que tinha que sair dali, ou morreria. Considerou por muito tempo a possibilidade de morrer; a id�ia parecia muito boa, mas n�o conseguia faz�-lo. Lembrou-se de Gwen. Rastejou at� onde estava o corpo do<emphasis> teyn</emphasis> de Pyr, ignorando a dor o melhor que podia, e vasculhou os bolsos do homem. Encontrou a j�ia-sussurrante.</p><p>Gelo em seu punho, gelo em sua mente, mem�rias de promessas, mentiras, amor. Jenny. Sua Guinevere, e ele era Lancelot. N�o podia falhar com ela. N�o falharia. Apertou a fria e dura l�grima na m�o, e o gelo entrou em sua alma. Obrigou-se a levantar.</p><p>Depois foi mais f�cil. Lentamente tirou a roupa do homem morto e a vestiu, embora tudo fosse grande demais para ele, e a camisa e a jaqueta de tecido-camale�o estivessem queimadas na frente, e o homem tivesse sujado as cal�as. Dirk tirou as botas do cad�ver tamb�m, mas eram pequenas demais para seus p�s ensang�entados e cheios de crostas. Ent�o foi obrigado a usar as botas de Pyr. Pyr tinha p�s imensos.</p><p>Usando o rifle laser e o bast�o de Pyr como apoio, dirigiu-se para o bosque. Alguns metros depois, j� entre as �rvores, parou e olhou para tr�s rapidamente. O grande c�o estava latindo, uivando e debatendo-se para se libertar, e o aerom�vel balan�ava cada vez que o animal puxava. Dirk podia ver o corpo nu na terra, e al�m dele a arma prateada ainda balan�ando ao vento. J� quase n�o conseguia ver Pyr. Sob as manchas de sangue, o traje do ca�ador estava tingido de negro e marrom, e algumas partes vermelhas aqui e ali, de modo que o cad�ver se confundia com o solo.</p><p>Dirk deixou o c�o acorrentado e latindo e mancou atrav�s dos estranguladores emaranhados.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 13</strong></p><empty-line/><p>A corrida do acampamento dos ca�adores at� o aerom�vel abatido cobrira menos de um quil�metro, mas parecera uma eternidade para Dirk. O caminho de volta foi duas vezes mais longo. Depois teve certeza de que n�o estava inteiramente consciente enquanto andava. Tinha lembran�as apenas de fragmentos do percurso. Recordava-se de ter trope�ado e ca�do, rasgando as cal�as nos joelhos. De um c�rrego de �guas ligeiras e frias, onde parou, lavou o sangue seco do rosto, tirou as botas e mergulhou os p�s na corrente gelada at� deixar de senti-los. Da passagem pelo promont�rio de pedra do qual ca�ra anteriormente. De uma entrada escura de caverna encarando-o, uma promessa de sono e descanso que recusou. Da perda de orienta��o, procurando pelo sol, encontrando-o e seguindo-o, e perdendo-se novamente. Dos espectros arb�reos brincando de galho em galho entre os estranguladores, tagarelando com suas pequenas vozes. Das mortas cascas brancas em galhos c�reos, olhando para baixo e encarando-o. Do banshee gemendo, sobrevoando, ca�ando longe dali. De trope�ar novamente, meio sem jeito, meio com medo. Do bast�o rolando para longe, descendo uma ladeira curta e inclinada, perdendo-se entre ramas espessas e ele n�o se incomodando de procur�-la.</p><p>Lembrava-se de andar sem parar, colocando um p� na frente do outro, apoiando-se no bast�o e depois no laser, quando o bast�o se foi, o p� doendo muito. Do banshee novamente, mais perto, quase sobre sua cabe�a. De olhar para o c�u sombrio atrav�s de um emaranhado de galhos, tentando localiz�-lo sem sucesso.</p><p>De andar, sentindo dor. Lembrava-se de todas essas coisas, e sabia que certamente havia outras coisas entre elas, conectando-as umas �s outras, mas n�o se recordava. Talvez tivesse dormido enquanto caminhava. Mas n�o parou de andar.</p><p>J� era tarde quando chegou � �rea arenosa pr�xima ao lago verde. Os aerom�veis ainda estavam ali, um retorcido e tombado na �gua, os outros tr�s na areia. O acampamento estava deserto. Um dos carros - o imenso ve�culo abobadado de Lorimaar - era guardado por um c�o de ca�a, preso � porta por uma longa corrente negra. A criatura estava deitada, mas se levantou com a aproxima��o de Dirk, rosnou e mostrou os dentes amea�adoramente. Dirk pegou-se gargalhando descontroladamente, quase de modo insano. Percorrera todo este caminho, andara, andara e andara, e dava de cara com um c�o amarrado ao aerom�vel, rosnando para ele. Se era para isso, podia ter ficado onde estava.</p><p>Deu a volta cuidadosamente por fora do per�metro da corrente do c�o e foi at� o carro de Janacek. Subiu e fechou a pesada porta atr�s de si. A cabine era escura, abafada e apertada. Depois de congelar por tanto tempo, sentia-se quase desconfortavelmente quente. Queria deitar e dormir. Mas primeiro obrigou-se a procurar o compartimento de suprimentos. Encontrou um kit de primeiros socorros. Estava cheio de p�lulas, bandagens e sprays. Desejou ter pedido para Janacek jogar o kit perto do carro abandonado, juntamente com o laser. Sabia que devia ir at� o lago e lavar metodicamente todos os ferimentos antes de colocar as bandagens, mas a maci�a porta blindada era pesada demais para ser movida nesse momento.</p><p>Tirou as botas, a jaqueta e a camisa e pulverizou o p� inchado e o bra�o esquerdo com um p� que supostamente prevenia infec��es, ou as combatia, ou algo do g�nero. Estava cansado demais para ler todas as instru��es. Em seguida, olhou para as p�lulas. Tomou duas para a febre, quatro comprimidos de analg�sicos e dois de antibi�tico, engolindo em seco, pois n�o tinha �gua por perto.</p><p>Depois, deitou nas placas met�licas entre os assentos. Dormiu instantaneamente.</p><p>Acordou com a boca seca, tremendo e muito nervoso, algum efeito colateral das p�lulas. Mas estava raciocinando de novo, e sua testa estava fresca (embora coberta com um suor pegajoso) quando a tocou com as costas da m�o, e seus p�s estavam menos doloridos do que antes. O incha�o do bra�o tamb�m tinha diminu�do um pouco, embora ainda estivesse maior do que o normal e um tanto quanto duro. Vestiu a camisa queimada e suja de sangue, colocou a jaqueta por cima, pegou o kit de primeiros socorros e saiu do aerom�vel.</p><p>Ca�a a tarde; o c�u ocidental estava vermelho e alaranjado, e dois pequenos s�is amarelos brilhavam intensamente contra as nuvens do p�r do sol. Os Braiths n�o tinham retornado. Jaan Vikary, armado, vestido e experiente, claramente n�o era t�o f�cil de se apanhar quando Dirk.</p><p>Caminhou at� o lago. A �gua estava gelada, mas ele se acostumou logo, e sentia a lama escorrendo lentamente entre os dedos dos p�s. Tirou a roupa, submergiu a cabe�a e se lavou, depois pegou o kit de primeiros socorros e fez novamente tudo o que fizera mais cedo, limpando e colocando curativos nos p�s antes de cal�ar as botas de Pyr, limpando os ferimentos com desinfetante e esfregando as marcas inflamadas de mordidas no bra�o com um unguento que afirmava reduzir rea��es al�rgicas. Engoliu outro punhado de analg�sicos, desta vez com a ajuda de um pouco de �gua fresca do lago.</p><p>A noite ca�a rapidamente quando finalmente ficou pronto e vestido. O c�o Braith estava deitado ao lado do aerom�vel de Lorimaar, roendo um peda�o de carne, mas n�o havia sinais de seus mestres. Dirk caminhou cuidadosamente ao redor da besta at� o terceiro ve�culo, o que pertencia � Pyr e seu<emphasis> teyn.</emphasis> Decidiu que podia ficar com os suprimentos deles com relativa impunidade; os outros Braiths, quando retornassem ao acampamento vazio, jamais saberiam como algo fora levado dali.</p><p>Dentro do aerom�vel, Dirk encontrou um compartimento de armas: quatro rifles laser com o familiar bras�o com a cabe�a de lobo branco, um jogo de espadas de duelo, facas, uma l�mina de arremesso de prata de dois metros e meio de comprimento, e uma bainha vazia ao lado. E duas pistolas jogadas sem cuidado em um assento. Tamb�m encontrou um pacote de roupas limpas e se trocou, escondendo os trajes sujos e estragados. A roupa n�o lhe caiu bem, mas era bem confort�vel. Vestiu um cintur�o de cota de malha de a�o e pegou uma pistola e um sobretudo de tecido-camale�o que lhe chegava aos joelhos.</p><p>Ao tirar o casaco do lugar em que estava pendurado, Dirk encontrou outro compartimento de suprimentos. Abriu-o. Dentro estavam as quatro botas familiares e os aeropatinetes de Gwen. Pyr e seu<emphasis> teyn</emphasis> aparentemente tinham reivindicado os apetrechos como recompensa.</p><p>Dirk sorriu. Nunca pretendera pegar um aerom�vel; as chances de que os ca�adores o vissem imediatamente eram grandes demais, especialmente se fizesse isso durante o dia. Mas tampouco estava animado com a perspectiva de caminhar. Os patinetes eram a resposta perfeita. N�o perdeu tempo em colocar o par de botas maior, embora tivesse que deix�-lo desatado por conta da bandagem que tinha no p�.</p><p>Havia comida estocada no mesmo compartimento dos patinetes; barras de prote�na, peda�os de carne seca, uma pequena por��o de queijo duro. Prendeu uma b�ssola no punho direito, colocou a mochila nas costas e saiu do aerom�vel para colocar a plataforma de metal prateado na areia.</p><p>Era noite cerrada. Sua guia da noite anterior, a estrela de Alto Kavalaan, queimava brilhante, vermelha e solit�ria sobre a floresta. Dirk a viu e sorriu. Esta noite, ela n�o seria sua guia; apostava que Jaan Vikary iria direto para Kryne Lamiya, na dire��o oposta. Mas a estrela ainda parecia uma amiga.</p><p>Pegou um rifle laser rec�m-carregado, tocou no controle do patinete que estava na palma de sua m�o e saiu voando. Atr�s dele, o c�o Braith se levantou e come�ou a uivar.</p><p>Voou por toda a noite, mantendo-se a v�rios metros da copa das �rvores, consultando a b�ssola de tempos em tempos e estudando as estrelas. Havia muito pouco para ver. Abaixo dele, a floresta se estendia infinita, negra e encoberta, sem fogueiras ou luzes para romper a escurid�o. De vez em quando, tinha a impress�o de que estava parado, e lembrava de sua �ltima viagem de aeropatinete, pelos t�neis abandonados de Worlorn.</p><p>O vento era sua companhia constante; vinha por tr�s, atingindo suas costas com for�a, e Dirk aceitava grato o empurr�o extra que recebia. Fazia seu casaco se agitar entre as pernas e, de tempos em tempos, jogava seu cabelo comprido nos olhos. L� embaixo, podia ouvir o vento movendo as �rvores, fazendo as mais flex�veis se curvarem, sacudindo as mais duras com selvagens m�os frias at� que suas folhas ca�ssem. Apenas os estranguladores pareciam intocados, mas eram a maioria. O vento percorria seus galhos emaranhados com um silvo fino. O som era adequado; este era o vento de Kryne Lamiya, Dirk pensou, nascido nas montanhas e controlado pelas m�quinas clim�ticas de Escuralba, movendo-se em dire��o ao seu destino. Adiante, as torres brancas esperavam, e as m�os congeladas atra�am o vento em sua dire��o.</p><p>Havia outros barulhos tamb�m: movimentos confinados na mata abaixo, os gritos dos ca�adores noturnos, o murm�rio de um c�rrego, o estrondo de uma corredeira. V�rias vezes Dirk ouviu o chiado alto dos espectros arb�reos e viu pequenas formas brincando de galho em galho. Seus olhos e ouvidos tornaram-se estranhamente sens�veis. Passou sobre um grande lago e ouviu alguma coisa mergulhando nas �guas escuras, ent�o v�rias coisas mergulharam tamb�m. Ao longe, na costa, um grito curto sacudiu a noite. E, logo depois, uma resposta desafiante; um uivo prolongado. O banshee.</p><p><emphasis>Aquele</emphasis> barulho gelou a alma de Dirk na primeira vez que o escutou. Mas o medo passou logo. Quando estava nu na floresta, o banshee era uma amea�a terr�vel, a morte encarnada em asas. Agora, tinha um rifle e uma pistola, e a criatura dificilmente seria uma amea�a. Na verdade, refletiu, talvez fosse um aliado. Salvara sua vida uma vez. Talvez pudesse fazer isso novamente.</p><p>Da segunda vez que o banshee soltou seu grito estridente - ainda atr�s dele, mas mais alto agora, ganhando altitude -, Dirk apenas sorriu. Elevou-se ainda mais, para voar sobre a besta, e tra�ou um lento c�rculo para tentar avist�-la. Mas o animal ainda estava longe, e era negro como o tecido-camale�o que ele pr�prio vestia, e tudo o que p�de ver foi uma vaga impress�o de movimento contra a floresta, talvez apenas os galhos se movendo ao vento.</p><p>Mantendo a altitude, consultou a b�ssola novamente e completou o c�rculo para retomar o v�o em dire��o a Kryne Lamiya. Por duas outras vezes naquela noite pensou ter ouvido o banshee gritando, mas os sons estavam muito distantes e fracos, portanto n�o teve certeza.</p><p>O c�u oriental apenas come�ara a se iluminar quando escutou as primeiras notas musicais flutuando no ar, fragmentos dispersos de desespero, familiares demais para seu gosto. A cidade escuralbina estava bem perto agora.</p><p>Diminuiu a velocidade, preocupado. Voara pelo caminho que imaginara que Jaan Vikary faria em sua fuga, mas n�o vira nada. Talvez sua conjectura estivesse completamente errada e Vikary tivesse atra�do os ca�adores para outra dire��o. Mas Dirk n�o acreditava nisso. Era mais prov�vel que tivesse passado sobre eles, sem v�-los e sem ser visto, na escurid�o da noite.</p><p>Come�ou a refazer o trajeto no sentido oposto, voando a favor do vento desta vez, sentindo os gelados dedos fantasmag�ricos de Lamiya-Bailis no rosto. Com a luz do dia, sua tarefa seria mais f�cil, esperava. O Olho do Inferno se erguia, assim como os S�is Troianos, um a um. Nuvens t�nues branco-acinzentadas corriam pelo c�u melanc�lico, enquanto as brumas matinais caminhavam no solo da floresta. As �rvores l� embaixo passaram de negras para amarelo-acastanhadas; estranguladores se abra�avam por todos os lados como amantes desajeitados, e uma luz vermelha brilhava vagamente dos galhos c�reos. Dirk se elevou e seu horizonte se expandiu. Viu rios, o reflexo do sol na �gua. E lagos, sem reflexo algum, cobertos por uma pel�cula flutuante esverdeada. E neve, ou algo que parecia neve, at� que se aproximou e viu que era uma �rea recoberta de fungos branco-encardidos.</p><p>Viu uma falha geol�gica, um corte na rocha que seguia pela floresta de norte a sul, reta como se tivesse sido tra�ada com uma r�gua. E plan�cies lamacentas, negras e marrons, malcheirosas, nos dois lados de um largo e lento curso de �gua. E um penhasco de pedra cinzenta desgastada, que se erguia inesperadamente no meio da floresta, com estranguladores cobrindo sua base e outros erguendo-se em estranhos �ngulos no topo, mas nada na face vertical da rocha al�m de alguns liquens brancos e da carca�a de um enorme p�ssaro morto no ninho. E nenhum sinal de Jaan Vikary ou dos ca�adores que o perseguiam.</p><p>Na metade da manh�, os m�sculos de Dirk do�am de fadiga, seu bra�o come�ava a latejar novamente, e sua esperan�a diminu�a. A floresta parecia n�o ter fim, quil�metro ap�s quil�metro, um vasto tapete amarelo no qual procurava uma migalha, em um mundo silencioso coberto pelo crep�sculo. Virou-se na dire��o de Kryne Lamiya mais uma vez, convencido de que retrocedera demais. Come�ou a voar a esmo, cobrindo a rota em ziguezague, em vez de seguir em linha reta, procurando, sempre procurando. Estava muito cansado. Perto do meio-dia decidiu voar em c�rculos sobre a �rea mais prov�vel, descendo em espiral para tentar investigar todo o territ�rio.</p><p>E ouviu o banshee gritando.</p><p>Dessa vez conseguiu v�-lo. Estava voando baixo, perto do n�vel das �rvores, bem abaixo dele. Parecia incrivelmente lento e quieto. O corpo negro e triangular mal parecia se mover; as asas estavam paradas, muito r�gidas, e a criatura parecia flutuar no vento de Escuralba. Quando queria mudar de rumo, pegava uma corrente ascendente e tra�ava um c�rculo amplo antes de descer novamente. Dirk, sem nada melhor para fazer, come�ou a seguir o animal.</p><p>O banshee gritou novamente. O som ficou parado no ar.</p><p>E ent�o Dirk ouviu uma resposta.</p><p>Tocou nos controles na palma da m�o e come�ou a descer rapidamente, ouvindo, repentinamente alerta mais uma vez. O som era fraco mas inconfund�vel: uma matilha de c�es Braiths, latindo freneticamente de raiva e medo. Perdeu o banshee de vista - n�o importava agora - e perseguiu o som que desaparecia rapidamente. Veio do norte, pensou. Voou naquela dire��o.</p><p>Em algum lugar nas proximidades, um c�o come�ou a uivar.</p><p>Dirk ficou um pouco alarmado. Era poss�vel que estivesse voando muito baixo, e que os c�es estivessem latindo para ele, em vez de para o banshee. Era uma situa��o perigosa de qualquer jeito. Seu casaco fazia o melhor poss�vel para adaptar-se �s cores do c�u de Worlorn, mas o tom prateado do aeropatinete brilhava o suficiente para ser visto por qualquer um que olhasse para cima. E com um banshee nos arredores, todos estariam olhando para cima.</p><p>Mas se queria ajudar Jaan Vikary e sua Jenny, n�o tinha outra alternativa. Segurou a arma com for�a e continuou a descer. Sob ele, cortando a floresta como uma faca, estava um rio azul-esverdeado que corria rapidamente. Dirk se dirigiu para l�, vasculhando de um lado ao outro sem descanso. Ouviu o ru�do de corredeiras, procurou a origem do som e encontrou. Pareciam r�pidas e perigosas vistas de cima. Rochas nuas assomavam como dentes podres, marrons e irregulares, com a �gua a espumar branca e feroz ao redor delas, os estranguladores aglomerando-se em uma margem. Na jusante, o rio aumentava e ficava mais tranq�ilo. Dirk olhou rapidamente nessa dire��o, ent�o voltou para a corredeira. Sobrevoou a �gua, dando uma volta e depois outra.</p><p>Um c�o latiu alto. Os outros o imitaram.</p><p>Dirk voltou novamente a aten��o para a jusante. Viu pontos negros na �gua, avan�ando onde a corrente parecia mais amig�vel. Voou naquela dire��o. Os pontos cresceram, assumindo a forma humana. Um homenzinho corpulento vestido de amarelo-acastanhado, lutando para atravessar o rio. Outro homem estava ali perto, na margem, com seis imensos c�es.</p><p>O homem na �gua retrocedeu. Tinha um rifle na m�o, Dirk notou. Era baixo e bem corpulento. Rosto p�lido, torso amplo, bra�os e pernas fortes - Saanel Larteyn, o gordo<emphasis> teyn</emphasis> de Lorimaar. E Lorimaar na margem, segurando a matilha. Nenhum deles olhava para cima. Dirk diminuiu a velocidade para manter dist�ncia.</p><p>Saanel saiu da �gua. Ainda estava do lado errado do rio, juntamente com Lorimaar, na margem oposta a Kryne Lamiya. Estava tentando atravessar, no entanto. Mas n�o ali. Agora os dois ca�adores come�aram a se afastar, descendo mais o rio, movendo-se desajeitadamente entre a relva, as pedras e os estranguladores na margem.</p><p>Dirk n�o os seguiu. Estava com o aeropatinete e sabia para onde estavam indo; podia ir atr�s deles mais tarde, se precisasse. Mas onde estavam os outros? Roseph e seu<emphasis> teyn</emphasis>? Garse Janacek? Virou-se e seguiu rio acima, sentindo-se um pouco mais confiante. Se o grupo de ca�a estava dividido, seria mais f�cil lidar com eles. Voou baixo sobre o rio, rapidamente, a �gua agitando-se a dois metros de seus p�s, enquanto seus olhos procuravam nas margens por outro grupo tentando atravessar.</p><p>Dois quil�metros a nordeste da correnteza - o canal era mais estreito e r�pido ali -, Dirk encontrou Janacek de p� na beira da �gua com uma express�o perplexa no rosto. Parecia estar sozinho. Dirk gritou para ele. Janacek olhou para cima, sobressaltado, e acenou.</p><p>Dirk se aproximou. Mas a aterrissagem n�o foi muito boa. O penhasco sobre o qual Janacek estava parado era coberto com um musgo verde escorregadio, e um dos lados do aeropatinete de Dirk deslizou, quase fazendo-o ser arremessado no rio. Janacek o segurou pelo bra�o. Dirk desligou o controle de gravidade.</p><p>- Obrigado - murmurou. - N�o parece muito f�cil nadar aqui.</p><p>- Era exatamente o que eu estava pensando enquanto estava parado aqui - Janacek respondeu. Parecia abatido. Seu rosto e roupas estavam sujos, e a barba ruiva estava �mida de suor. Uma mecha de cabelo desgrenhada e gordurosa ca�a por sua testa. - Estava tentando decidir se corria o risco de enfrentar a correnteza ou se perdia tempo continuando rio abaixo, na vaga esperan�a de encontrar um lugar mais seguro para atravessar. - Um sorriso t�nue iluminou seu rosto. - Mas voc� resolveu esse problema com o brinquedo de Gwen. Onde...?</p><p>- Pyr - Dirk respondeu. Come�ou a contar para Janacek sua fuga at� o aerom�vel abatido.</p><p>- Voc� est� vivo - o Jadeferro disse rapidamente. - Posso ficar sem os detalhes tediosos, t'Larien. Muita coisa aconteceu desde ontem de manh�. Voc� viu os Braiths?</p><p>- Lorimaar e seu<emphasis> teyn</emphasis> estavam seguindo rio abaixo - falou Dirk.</p><p>- Sei disso - Janacek interrompeu. - Eles cruzaram?</p><p>- N�o, ainda n�o.</p><p>- Isso � bom. Jaan est� muito perto agora, talvez apenas a meia hora na nossa frente. Eles n�o podem alcan��-lo primeiro. - Seus olhos percorreram a outra margem do rio, e ele suspirou. - Voc� tem o outro patinete, ou tenho que pegar o seu?</p><p>Dirk deixou o rifle na rocha e come�ou a tirar a mochila das costas.</p><p>- Estou com o outro aqui - falou. - Onde est� Roseph? O que est� acontecendo?</p><p>- Jaan fugiu magnificamente at� agora. - Janacek comentou.</p><p>- Ningu�m esperava que pudesse cobrir tanto terreno t�o r�pido. Os Braiths n�o imaginavam, na verdade. E ele fez mais do que simplesmente fugir. Tamb�m montou algumas armadilhas.</p><p>- Jogou o cabelo que ca�a na testa para tr�s, com as costas da m�o.</p><p>- Ele acampou noite passada. Estava bem na nossa frente. Encontramos as cinzas da fogueira dele. Roseph caiu em um fosso oculto e enterrou o p� em uma estaca enterrada. - Janacek sorriu.</p><p>- Est� voltando para os ve�culos, com a ajuda de seu<emphasis> teyn.</emphasis> E voc� diz que Pyr e Arris est�o mortos? - Dirk assentiu. Tirou as botas e o segundo patinete da mochila. Janacek aceitou-os sem fazer coment�rios. - Os ca�adores est�o em n�mero cada vez menor. Acho que vencemos, t'Larien. Jaan Vikary deve estar cansado. Fugiu sem dormir por um dia e duas noites. Mas sabemos que n�o est� ferido, que est� armado e que � de Jadeferro. Lorimaar e aquele imbecil que mant�m como<emphasis> teyn</emphasis> n�o encontrar�o uma presa f�cil. - Ajoelhou-se e come�ou a desamarrar as botas, sem parar de falar. - A vaidade louca de criar um novo grupo n�o ir� muito longe. Lorimaar � insano s� de sonhar com isso. Acho que ficou com alguma coisa solta naquela cabe�a quando o laser de Jaan o acertou em Desafio. - Tirou uma das botas. - Sabe por que Chell e Bretan n�o est�o entre eles, t'Larien? Porque aquela dupla tem sanidade demais para esse projeto de Alto-Larteyn! Roseph me disse isso enquanto ca��vamos. A verdade, segundo ele, � esta: Lorimaar anunciou a loucura quando os Braiths retornaram para Larteyn depois que Myrik foi morto. Os seis que encontramos na floresta estavam l�, al�m do velho Raymaar. Bretan Braith Lantry e Chell Fre-Braith n�o estavam. Eles tentaram perseguir voc� e Jaantony e depois sobrevoaram algumas das cidades que consideravam prov�veis ref�gios. Ent�o, Lorimaar estava essencialmente sem oposi��o. Ele sempre intimidou os outros, exceto, talvez, Pyr, e Pyr nunca esteve interessado em outra coisa que n�o fosse tirar cabe�as de quase-homens. - Janacek estava com dificuldades para colocar as estreitas botas de Gwen. Fez uma careta e puxou com for�a, obrigando a bota a entrar. - Quando Chell retornou, ficou furioso. N�o deixaria isso seguir adiante. N�o quis nem ouvir. Bretan tentou acalm�-lo, Roseph afirmou, mas n�o conseguiu. O velho Chell � um Braith, e o novo grupo de Lorimaar era uma trai��o para ele. Desafiou-o para um duelo. Lorimaar estava imune ao duelo, na verdade, j� que estava ferido, mas aceitou mesmo assim. Chell era muito velho. Como desafiado, Lorimaar fez a primeira das quatro escolhas, a escolha dos n�meros. - Janacek se levantou e pisou com for�a na rocha escorregadia para acomodar melhor a bota apertada. - Preciso dizer que ele escolheu combate singular? Teria sido um duelo muito diferente se Bretan Braith se confrontasse juntamente com Chell Bra�os-Vazios. Lorimaar, mesmo ferido, venceu o velho com relativa facilidade. Lutaram no quadrado da morte, com espadas. Chell recebeu v�rios golpes, golpes demais, talvez. Roseph acredita que ele deve estar agonizando em Larteyn. Bretan Braith ficou com ele e, mais importante ainda, continua sendo Bretan Braith. - Janacek colocou o patinete no ch�o.</p><p>- Descobriu alguma coisa sobre Ruark? - Dirk lhe perguntou.</p><p>O kavalariano deu de ombros.</p><p>- Em geral o que j� suspeit�vamos. Ruark contactou Lorimaar Alto-Braith pela tela, e se ofereceu para revelar onde Jaan estava escondido, se Lorimaar o nomeasse<emphasis> korariel</emphasis> e lhe garantisse prote��o. Lorimaar concordou alegremente. Ningu�m parece saber onde o kimdissiano est� agora. Jaan teve sorte de estar no aerom�vel quando eles chegaram. Ele simplesmente levantou voo e fugiu. Eles o perseguiram e finalmente Raymaar o alcan�ou um pouco al�m das montanhas, mas era outro velho e nem de perto o piloto que Jaan Vikary �. - Havia uma nota de orgulho satisfeito na voz de Janacek, como um pai se gabando do filho. - O Braith foi abatido em combate, mas o ve�culo de Jaan tamb�m ficou danificado, ent�o ele foi for�ado a pousar e fugir. J� havia partido quando os altos-senhores de Larteyn descobriram o lugar em que ca�ra. Haviam perdido tempo tentando ajudar Raymaar. - Fez um gesto impaciente com a m�o.</p><p>- Por que voc� se separou de Lorimaar? - Dirk perguntou.</p><p>- Por que voc� acha? Jaan est� perto agora. Preciso alcan��-lo antes deles. Saanel insistiu que cruzar rio abaixo seria mais f�cil, e eu aproveitei para discordar. Lorimaar est� cansado demais para suspeitar de qualquer coisa. Pensa apenas na presa. Seu ferimento ainda queima, t'Larien! � como se visse Jaan Vikary sangrando aos seus p�s e se esquecesse de quem est� perseguindo. Ent�o, me afastei deles, rio acima, e por algum tempo temi ter cometido um erro. A travessia<emphasis> era</emphasis> mais f�cil rio abaixo, n�o era?</p><p>- Dirk assentiu novamente e Janacek sorriu. - Ent�o sua chegada foi uma sorte, na verdade.</p><p>- Voc� vai precisar de mais do que sorte para encontrar Jaan.</p><p>- Dirk o avisou. - Os Braiths provavelmente j� cruzaram o rio agora, e eles t�m c�es.</p><p>- Isso n�o me preocupa muito - Janacek falou. - Jaan est� fugindo em linha reta, agora, e sei algo que Lorimaar n�o sabe. Sei para onde ele est� indo. Para uma caverna, t'Larien! Meu<emphasis> teyn </emphasis>sempre foi fascinado por cavernas. Quando �ramos meninos, em Jadeferro, ele sempre me levava para explorar sob a terra. Levou-me a mais minas abandonadas do que jamais desejei ver, e v�rias vezes percorremos os subterr�neos das antigas cidades, as ru�nas assombradas pelos dem�nios. - Sorriu. - Fortalezas devastadas tamb�m, lareiras enegrecidas em antigas altas-guerras e ainda repletas de almas penadas. Jaan Vikary conhecia todos esses lugares. Costumava me guiar por ali, contando infinitas hist�rias sobre Aryn Alto-Pedrardente e Jamis-Le�o Taal e sobre os canibais das Moradas do Carv�o Profundo. Sempre foi um contador de hist�rias. Fazia os antigos her�is ganharem vida novamente, assim como todos os horrores vividos nos tempos passados.</p><p>Dirk n�o p�de deixar de sorrir.</p><p>- Ele o assustava, Garse?</p><p>O outro gargalhou.</p><p>- Me assustar? Sim! Ele me aterrorizava, mas me acostumei com o tempo. �ramos ambos jovens, t'Larien. Mais tarde, muito mais tarde, foi nas cavernas sob as Colinas de Lameraan que ele e eu fizemos nosso juramento de ferro-e-fogo.</p><p>- Tudo bem - Dirk falou. - Ent�o Jaan gosta de cavernas...</p><p>- Um sistema de cavernas fica bem perto de Kryne Lamiya - Janacek falou, voltando �s preocupa��es mais imediatas -, com uma segunda entrada perto de onde estamos. N�s tr�s o exploramos durante nosso primeiro ano em Worlorn. Agora, acho que Jaan completar� sua fuga pelo subterr�neo, se puder. Portanto, podemos intercept�-lo. - Levantou seu rifle.</p><p>Dirk tamb�m pegou sua arma.</p><p>- Voc� nunca o encontrar� na floresta - falou. - Os estranguladores d�o muita cobertura.</p><p>- <emphasis>Eu</emphasis> o encontrarei - Janacek respondeu asperamente. - Lembre-se de nosso la�o, t'Larien. Ferro-e-fogo.</p><p>- Ferro vazio agora. - Dirk comentou, assinalando com os olhos o pulso direito de Janacek.</p><p>O Jadeferro esbo�ou seu sorriso t�pico.</p><p>- N�o. - discordou. Levou a m�o ao bolso, tirou-a e abriu. Tinha uma pedrardente na palma estendida. Uma �nica joia, redonda e toscamente facetada, quase duas vezes o tamanho da joia-sussurrante de Dirk, negra e quase opaca na luz avermelhada da manh�.</p><p>Dirk a encarou, ent�o tocou-a suavemente com a ponta do dedo e moveu-a levemente na m�o de Janacek.</p><p>- Parece... fria - disse.</p><p>Janacek franziu o cenho.</p><p>- N�o - replicou. - Ao contr�rio, arde como fogo. - A pedrardente voltou para seu bolso. - H� hist�rias, t'Larien, poemas em antigo kavalariano, contos que as crian�as escutam na creche do grupo. At� as<emphasis> eyn-kethi</emphasis> conhecem as hist�rias. Elas as contam em suas vozes femininas, mas Jaan Vikary as conta melhor. Pergunte para ele algum dia. Sobre as coisas que um<emphasis> teyn j�</emphasis> chegou a fazer por seu<emphasis> teyn.</emphasis> Ele lhe falar� sobre grandes m�gicas e hero�smos ainda maiores, e sobre gl�rias imposs�veis. N�o sou um contador de hist�rias, ou eu mesmo contaria para voc�. Talvez ent�o voc� consiga entender um pouco do significado de ser<emphasis> teyn</emphasis> de um homem e partilhar o la�o de ferro.</p><p>- Talvez eu j� entenda. - Dirk comentou.</p><p>Um longo sil�ncio caiu entre eles enquanto permaneceram em p� na pedra coberta de musgo, a meio metro de dist�ncia, frente a frente, Janacek sorrindo levemente enquanto olhava Dirk. Embaixo deles, o rio corria incessante, o ru�do das �guas apressando-os a partir.</p><p>- Voc� n�o � um homem t�o mau, t'Larien - Janacek falou finalmente. - E fraco, eu sei, mas talvez porque nunca ningu�m tenha lhe dito que � forte.</p><p>Inicialmente aquilo pareceu um insulto, mas o kavalariano n�o parecia ter essa inten��o. Dirk parou para pensar naquilo e descobriu outro significado.</p><p>- Dar um nome a alguma coisa? - perguntou, sorrindo.</p><p>Janacek assentiu.</p><p>- Me escute, Dirk. N�o falarei duas vezes. Lembro, quando eu ainda era crian�a em Jadeferro, da primeira vez que fui prevenido contra os quase-homens. Uma mulher, uma<emphasis> eyn-kethi,</emphasis> que voc� chamaria de minha m�e, embora essas distin��es n�o tenham sentido no meu mundo, me contou a lenda. Mesmo assim, me contou de um jeito diferente. Os quase-homens contra os quais ela me preveniu n�o eram os dem�nios sobre os quais eu aprenderia mais tarde dos l�bios dos altos-senhores. Eram apenas homens, ela disse, n�o t�teres de outro mundo, nem parentes dos sugadores de almas. Mesmo assim eram transmorfos, de certo modo, porque n�o tinham formas reais. Eram homens nos quais n�o se podia confiar, homens que haviam esquecido seus c�digos, homens sem la�os. N�o eram reais; eram uma ilus�o da humanidade, sem subst�ncia. Entende? A<emphasis> subst�ncia</emphasis> da humanidade... um nome, um la�o, uma promessa. Est� dentro de n�s, ainda que a usemos em nossos bra�os. Assim ela me disse. � por isso que os kavalarianos t�m<emphasis> teyn,</emphasis> ela disse, e saem aos pares, porque... porque a ilus�o pode endurecer at� se tornar um fato, se voc� a ligar ao ferro.</p><p>- Um belo discurso, Garse - Dirk comentou quando o outro terminou. - Mas que efeitos t�m a prata na alma de um quase-homem?</p><p>A raiva passou rapidamente pelo rosto de Janacek, como a sombra de uma tempestade. Ent�o ele sorriu.</p><p>- Esqueci sua sabedoria kimdissiana - falou. - Outra coisa que aprendi na juventude foi a nunca discutir com um manipulador. - Deu uma gargalhada, estendeu o bra�o, pegou a m�o de Dirk e a apertou com firmeza. - Basta. Nunca nos entenderemos completamente, ainda assim posso ser seu<emphasis> amigo,</emphasis> se voc� puder ser meu<emphasis> keth.</emphasis></p><p>Dirk deu de ombros, sentindo-se estranhamente comovido.</p><p>- Tudo bem - concordou.</p><p>Mas Garse j� estava pronto para partir. Soltou o bra�o de Dirk, tocou os controles do patinete e elevou-se a um metro de altura. Voltou-se para a �gua, avan�ando rapidamente, de um modo ligeiro e gracioso no ar. A luz do sol brilhava em seus longos cabelos ruivos, e suas roupas pareciam tremeluzir e mudar de cor. Na metade do rio, virou a cabe�a para tr�s e gritou algo para Dirk, mas o barulho da correnteza levou suas palavras, e Dirk percebeu apenas o tom exultante e selvagem.</p><p>Observou at� que Janacek chegasse ao outro lado do c�rrego, de algum modo cansado demais acompanh�-lo. Colocou a m�o livre no bolso da jaqueta e tocou a j�ia-sussurrante. N�o parecia t�o fria quanto antes, e as promessas - oh, Jenny - ressoavam debilmente.</p><p>Janacek sobrevoava as �rvores amarelas, subindo em dire��o a um c�u cinza e carmesim, sua silhueta diminuindo rapidamente. Exausto, Dirk o seguiu.</p><p>Janacek podia desdenhar os aeropatinetes, chamando-os de "brinquedos", mas sem d�vida sabia como us�-los. Logo estava bem distante de Dirk, aproveitando as correntes de vento para subir at� chegar a quase vinte metros de altura da floresta. A dist�ncia entre os dois parecia aumentar progressivamente; ao contr�rio de Gwen, Janacek n�o estava disposto a parar e esperar que Dirk o alcan�asse.</p><p>Dirk se contentou com o papel de perseguidor. O Jadeferro era f�cil de ser visto - estavam sozinhos no c�u l�gubre -, ent�o n�o havia perigo de ficar perdido. Voou impulsionado pelos ventos escuralbinos novamente, aceitando o empurr�o nas costas enquanto se abandonava a divaga��es sem objetivo. Mesmo desperto, teve estranhos sonhos com Jaan e Garse, com la�os de ferro e j�ias-sussurrantes, com Guinevere e Lancelote, os quais - percebeu repentinamente - tamb�m haviam quebrado suas promessas.</p><p>O rio desapareceu. Os tranq�ilos lagos vieram e se foram, assim como a col�nia de fungos brancos que formava uma crosta sobre o bosque. Dirk ouviu os latidos da matilha de Lorimaar uma vez, bem atr�s dele, os ru�dos trazidos pelo vento. N�o se preocupou com isso.</p><p>Viraram para sul. Janacek era um pontinho negro, brilhando em tons de prata quando um raio de sol capturava a plataforma do aeropatinete. Ficava cada vez menor. Dirk ia atr�s, um p�ssaro manco. Finalmente Janacek come�ou a fazer uma espiral para baixo, at� o n�vel das copas das �rvores.</p><p>Era uma regi�o in�spita. Rochosa, em grande parte, com algumas colinas ondulantes e afloramentos de pedra negra com estrias de ouro e prata. Havia estranguladores por toda parte, estranguladores e mais estranguladores. Dirk olhava de um lado para o outro, procurando por uma �nica �rvore-prata, por um vi�vo azul, ou uma escura e sombria �rvore fantasma. Um labirinto amarelo se estendia ininterruptamente, para todos os lados que sua vista alcan�ava. Dirk ouvia os barulhos fren�ticos dos espectros arb�reos e os viu embaixo de seus p�s, voando trechos curtos com suas pequenas asas. O ar ao redor de Dirk estremeceu com o grito de um banshee, e um arrepio cruzou sua espinha sem qualquer raz�o aparente. Olhou para cima rapidamente, ao longe, e viu um pulso de luz.</p><p>Breve e intenso, irritando seus olhos cansados, o repentino feixe de luz que apareceu em sua frente n�o pertencia a este lugar, n�o aqui, n�o a este mundo cinza e crepuscular. N�o pertencia, mas estava ali. Irrompendo do bosque abaixo, o selvagem feixe de fogo logo se perdeu no c�u.</p><p>Janacek era um pequeno boneco de trapo diante dele, perto da luz. O t�nue fio escarlate o alcan�ou e passou por ele, tocando r�pida e fugazmente a plataforma prateada. A imagem ficou congelada diante dos olhos de Dirk. Absurdamente, Janacek come�ou a cair, agitando os bra�os. Era como uma vara negra deslizando e desaparecendo entre os estranguladores, chocando-se contra os galhos entrela�ados.</p><p>Barulhos. Dirk ouviu barulhos. A m�sica desse infinito vento de inverno. Madeira estalando, seguida de gritos de dor e raiva, animal e humano, humano e animal, ambos e nenhum deles. As torres de Kryne Lamiya fulguravam no horizonte, nebulosas e transl�cidas, e cantavam um canto de morte.</p><p>Os gritos pararam repentinamente; as torres brancas se dilu�ram no ar, e o vento que empurrava Dirk varreu todos os peda�os para longe. Dirk mergulhou em dire��o ao bosque e empunhou o laser.</p><p>Havia um buraco escuro no topo da folhagem por onde Garse Janacek atravessara durante sua queda: galhos amarelos retorcidos e quebrados, uma cavidade grande o suficiente para o corpo de um homem. Escurid�o. Dirk deu uma volta ao redor do buraco e n�o p�de ver Janacek no ch�o da floresta, de t�o espessas que eram as sombras. Mas, no galho superior, viu um peda�o de tecido rasgado tremendo ao vento e mudando de cor. Em cima, um pequeno fantasma montava guarda solenemente.</p><p>- Garse! - gritou, sem se preocupar com o inimigo embaixo, o homem com o laser. Os espectros arb�reos responderam com um coro de chiados.</p><p>Ouviu ru�do entre as �rvores; a luz do laser cintilou novamente. N�o para cima, desta vez, mas na horizontal, um imposs�vel raio de sol na penumbra da floresta. Dirk voava em c�rculos, indeciso. Um espectro arb�reo apareceu no galho bem embaixo dele, estranhamente destemido, seus olhos l�quidos encarando-o, as asas abertas tremendo ao vento. Dirk apontou o laser e disparou, at� que a pequena criatura se reduziu a uma mancha escura na �rvore amarela.</p><p>Ent�o moveu-se novamente, circulando em espiral at� que encontrou uma abertura entre os estranguladores, larga o suficiente para que pudesse descer. O ch�o da floresta era l�gubre; os estranguladores, completamente entrela�ados, deixavam passar apenas um d�cimo da fraca luz do Olho do Inferno. Imensos troncos erguiam-se por todos os lados, com galhos amarelos e disformes, r�gidos e nodosos. Dirk se ajoelhou - o musgo espalhado pelo ch�o estava se decompondo - e soltou as botas da plataforma prateada. Ent�o as sombras se abriram entre os estranguladores e Jaan Vikary apareceu. Dirk olhou para cima.</p><p>O rosto de Jaan estava marcado por linhas de express�o. Estava coberto com sangue e, nos bra�os, carregava um corpo fl�cido com o mesmo cuidado que uma m�e levaria o filho doente. Garse tinha um olho fechado e o outro estava faltando, arrancado com a metade do rosto. Sua cabe�a descansava gentilmente contra o peito de Jaan.</p><p>-Jaan...</p><p>Vikary estremeceu.</p><p>- Atirei nele - disse. Tremendo, derrubou o corpo.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 14</strong></p><empty-line/><p>N�o havia outro som na imensid�o da floresta que n�o o da respira��o ofegante de Vikary e os chiados fracos dos espectros arb�reos.</p><p>Dirk se aproximou de Janacek e o virou. Peda�os de musgo estavam presos ao corpo, sugando o sangue como esponjas. Os espectros arb�reos haviam despeda�ado sua garganta, ent�o a cabe�a de Garse pendeu de forma quase obscena quando Dirk o moveu. Suas roupas grossas n�o forneceram prote��o; os animais o morderam por todos os lados, transformando o tecido-camale�o em farrapos encharcados de vermelho. As pernas de Janacek, ainda unidas pela in�til plataforma de metal do aeropatinete, foram quebradas na queda; fragmentos de ossos afiados sa�am pelas duas panturrilhas, em fraturas quase id�nticas. O rosto, totalmente ro�do, era o pior. Seu olho direito desaparecera. O sangue que escorria da �rbita vazia ca�a lentamente pela bochecha at� o ch�o.</p><p>N�o havia nada a ser feito. Dirk ficou olhando, impotente. Deslizou discretamente a m�o pelo bolso da jaqueta de Janacek e envolveu a pedrardente na m�o, depois se levantou para encarar Vikary.</p><p>- Voc� disse...</p><p>- Que nunca atiraria nele. - Vikary completou. - Sei o que disse, Dirk t'Larien. E sei o que fiz. - Falou muito lentamente, cada palavra saindo de seus l�bios como se fosse chumbo. - N�o queria isso. Nunca. Pretendia apenas par�-lo, derrub�-lo do aeropatinete. Ele caiu em um ninho de espectros arb�reos. Um ninho de espectros arb�reos.</p><p>A m�o de Dirk apertava com for�a a pedrardente. N�o disse nada.</p><p>Vikary estremeceu; sua voz ficou mais agitada, e havia um toque desesperado em seu tom.</p><p>- Ele estava me ca�ando. Arkin Ruark me avisou quando falei com ele rapidamente pelo visor em Larteyn. Ele disse que Garse se unira ao Braiths, que jurara me abater. N�o acreditei. - Tremeu. - <emphasis>Eu n�o acreditei!</emphasis> Mesmo assim, era verdade. Ele veio atr�s de mim, me ca�ando com eles, exatamente como Ruark dissera. Ruark... Ruark n�o est� comigo... n�s nunca... os Braiths vieram no lugar dele. N�o sei se ele... Ruark... talvez eles o tenham matado. N�o sei.</p><p>- Parecia confuso e cansado. - Eu tinha que deter Garse, t'Larien. Ele conhecia a caverna. E tenho que pensar em Gwen tamb�m. Ruark disse que Garse, em sua loucura, prometera entreg�-la para Lorimaar, e eu o chamei de mentiroso, at� que vislumbrei Garse atr�s de mim. Gwen � minha<emphasis> betheyn,</emphasis> e voc� �<emphasis> korariel.</emphasis> S�o minha responsabilidade. Eu tinha que viver. Voc� entende? Nunca pretendi fazer isso. Fui atr�s dele, abrindo caminho com o laser... Os filhotes no ninho estavam todos sobre ele, aquelas coisas brancas, e os adultos tamb�m... queimei todos eles, queimei e o tirei de l�.</p><p>- O corpo de Vikarry sacudiu com solu�os secos, mas nenhuma l�grima surgiu; ele n�o permitiria isso. - Olhe. Ele estava usando ferro vazio. Veio me ca�ar. Eu o amava e ele veio me ca�ar!</p><p>A pedrardente era uma dura pepita de indecis�o na m�o de Dirk. Olhou novamente para Garse Janacek, cuja roupa estava tingida de sangue velho e musgo podre, e ent�o para Jaan Vikary, t�o perto de ter um ataque de nervos, parado, p�lido, com os grandes ombros tr�mulos. D� um nome a uma coisa, Dirk pensou; e agora precisava dar um nome para Jaantony Alto-Jadeferro.</p><p>Deslizou a m�o para dentro do bolso de sua jaqueta.</p><p>- Voc� teve que fazer isso - mentiu. - Ele teria matado voc�, e depois teria ido atr�s de Gwen. Ele disse isso. Estou feliz que Arkin tenha conseguido avis�-lo.</p><p>As palavras pareceram serenar Vikary. Ele assentiu sem dizer nada.</p><p>- Eu vim atr�s de voc� - Dirk prosseguiu - quando voc� n�o retornou a tempo. Gwen estava preocupada. Vim para ajudar voc�. Garse me pegou, me desarmou e me entregou para Lorimaar e Pyr. Disse que eu era um presente de sangue.</p><p>- Um presente de sangue - Vikary repetiu. - Ele estava insano, t'Larien. � verdade. Garse Jadeferro Janecek n�o era assim; ele n�o era um Braith, n�o dava presentes de sangue. Voc� precisa acreditar nisso.</p><p>- Sim - Dirk concordou. - Ele estava demente. Voc� est� certo. Dava para perceber na forma que ele falava. Sim. - Sentia-se � beira das l�grimas, e se perguntava se isso era evidente. Era como se pegasse todo o temor e ang�stia de Jaan para si; o Jadeferro parecia mais forte e mais resoluto a cada segundo, enquanto o pesar invadia os olhos de Dirk.</p><p>Vikary olhou para baixo, at� o corpo inerte estendido entre as �rvores.</p><p>- Eu lamentaria por ele, pelas coisas que foi e por tudo o que tivemos, mas n�o h� tempo. Os ca�adores est�o atr�s de n�s com os c�es. Temos que nos apressar. - Ajoelhou-se diante do cad�ver de Janacek por um instante e segurou sua m�o por um instante. Ent�o beijou os l�bios do morto desfigurado e, com a m�o livre, acariciou seus cabelos desgrenhados.</p><p>Mas quando se levantou, segurava o bracelete de ferro negro, e Dirk viu que o bra�o de Janacek estava nu e sentiu uma pontada de dor. Vikary guardou o bracelete no bolso. Dirk segurou as l�grimas e a l�ngua e n�o fez coment�rios.</p><p>- Temos de ir.</p><p>- Vamos deix�-lo aqui? - Dirk perguntou.</p><p>- Deix�-lo? - Vikary franziu o cenho. - Ah, entendo. Os kavalarianos n�o enterram seus mortos, t'Larien. N�s os abandonamos � intemp�rie, tradicionalmente, e se os animais devoram o que deixamos, n�o sentimos vergonha. A vida deve nutrir a vida. N�o � prefer�vel que a carne vigorosa de Garse d� for�as a um predador �gil e limpo em vez de ser devorada por um monte de vermes em uma tumba?</p><p>Ent�o o deixaram onde Vikary soltara o corpo, em uma pequena clareira entre o intermin�vel emaranhado amarelo-acastanhado, e seguiram pela penumbra em dire��o a Kryne Lamiya. Dirk carregava o aeropatinete e lutava para acompanhar os passos r�pidos de Vikary. Depois de um curto trajeto, se depararam com uma encosta de rocha negra e escarpada.</p><p>Quando Dirk chegou � barreira, Jaan j� estava a meio caminho do topo. O sangue de Janacek secara nas roupas de Jaan, e Dirk podia ver as manchas claramente. De outro modo, as roupas do kavalariano teriam parecido negras. Jaan escalou sem dificuldade, com o rifle preso nas costas, movendo com firmeza as m�os fortes de um apoio at� o seguinte.</p><p>Dirk colocou a plataforma prateada no aeropatinete e voou pela crista at� o cume.</p><p>Acabara de alcan�ar a altura da copa dos estranguladores quando ouviu o grito do banshee, n�o muito longe. Escrutou o bosque, buscando o grande predador. A pequena clareira onde deixaram Janacek era facilmente vis�vel dali, um retalho de crep�sculo ao alcance da m�o. Mas Dirk n�o podia ver o cad�ver; o centro da clareira era uma massa viva de corpos amarelos que disputavam a presa. Enquanto observava, outras pequenas formas apareceram das �rvores ali perto para se juntar ao banquete.</p><p>O banshee chegou de surpresa e flutuou im�vel sobre a batalha, dando seu terr�vel grito, mas os espectros-arb�reos continuaram lutando entre si freneticamente, sem prestar aten��o ao barulho, resmungando e arranhando uns aos outros. O banshee mergulhou. Sua sombra os cobriu, as grandes asas ondularam, abrindo e fechando, e ent�o ele estava sozinho, tanto os espectros quanto o cad�ver desaparecidos dentro daquele abra�o voraz. Dirk sentiu-se estranhamente consolado.</p><p>Mas foi apenas por um instante. Enquanto o banshee jazia inerte, ouviu-se um chiado rouco e repentino, e Dirk viu um r�pido dardo emba�ado caindo sobre o animal. Outro o seguiu. E mais um. E uma d�zia, pelo menos. Em um abrir e fechar de olhos parecia que os espectros arb�reos haviam duplicado. O banshee abriu suas imensas asas triangulares, batendo-as levemente, mas n�o se elevou. As pequenas criaturas estavam por todos os lados, mordendo-o, arranhando-o, segurando-o ao solo e rasgando sua carne. Preso ao solo, o banshee n�o conseguia nem dar seu grito angustiante. Morreu silenciosamente, em cima da presa que acabara de pegar.</p><p>Quando Dirk desceu do aeropatinete, no topo da encosta, a clareira era uma massa de formas amarelas novamente, da mesma forma que estivera na primeira vez que olhara, e n�o havia sinal do banshee. A floresta estava muito silenciosa. Esperou que Jaan Vikary o alcan�asse. Juntos, retomaram sua marcha silenciosa.</p><p>A caverna era fria, escura e infinitamente quieta. As horas transcorriam sob a terra, enquanto Dirk seguia a pequena luz tr�mula da lanterna de m�o de Jaan Vikary. A luz o levou por tortuosas galerias subterr�neas, atrav�s de c�maras espa�osas onde a escurid�o parecia n�o ter fim, por pequenas passagens claustrof�bicas pelas quais tinham que avan�ar engatinhando. A luz da lanterna era seu universo, e Dirk perdeu toda a no��o de tempo e espa�o. N�o tinham nada a dizer um ao outro, ele e Jaan, ent�o n�o falavam nada; os �nicos sons eram o ro�ar de suas botas na pedra empoeirada e os ecos que retumbavam ocasionalmente. Vikary conhecia bem a caverna. Nunca titubeava nem perdia o rumo enquanto mancavam e rastejavam pela alma secreta de Worlorn.</p><p>Emergiram em uma ladeira ondulada coberta de estranguladores, em uma noite cheia de fogo e m�sica. Kryne Lamiya estava queimando. As torres �sseas gritavam uma can��o aniquilada de ang�stia.</p><p>As chamas varriam todos os cantos da p�lida necr�polis, como brilhantes sentinelas vagando pelas ruas de cima a baixo. A cidade cintilava como uma miragem em ondas de calor e luz; parecia um espectro insubstancial laranja. Enquanto observavam, uma das pontes levadi�as ruiu e despencou; seu centro enegrecido caiu primeiro, bem no meio das chamas, e o resto foi em seguida. O fogo consumia e se elevava, crepitando e uivando, insaci�vel. Um edif�cio pr�ximo implodiu, espalhando uma grande nuvem de fuma�a e chamas.</p><p>A trezentos metros da colina na qual estavam, erguendo-se sobre os estranguladores, uma das torres brancas como giz permanecia intacta. Mas, perfilada contra esse terr�vel esplendor, parecia mover-se como se estivesse viva, contorcendo-se de dor. Por cima do bramido do fogo, Dirk podia ouvir a m�sica suave de Lamiya-Bailis. A sinfonia de Escuralba estava entrecortada e transformada; as torres haviam sumido, as notas estavam perdidas, ent�o a m�sica era repleta de misteriosos sil�ncios, e o crepitar das chamas dava um pungente contraponto para os gemidos, sibilos e lamentos. Os ventos dos escuralbinos que sopravam sem fim das montanhas, fazendo a Cidade Sereia cantar, aqueles mesmos ventos alimentavam as grandes chamas que devoravam Kryne Lamiya, enegrecendo a m�scara mortu�ria com cinzas antes de finalmente cal�-la.</p><p>Jaan Vikary empunhou o rifle laser. Seu rosto estava inexpressivo e estranho, banhado pelos reflexos do inc�ndio.</p><p>- Como...?</p><p>- O carro-lobo - Gwen falou.</p><p>Estava parada a alguns metros de dist�ncia, mais abaixo da ladeira. Olharam para ela sem assombro. Atr�s de Gwen, sob a sombra de um vi�vo azul tombado na base na colina, Dirk vislumbrou o pequeno aerom�vel amarelo de Ruark.</p><p>- Bretan Braith - Vikary falou.</p><p>Gwen se juntou a eles perto da entrada da caverna e assentiu.</p><p>- Sim. O carro sobrevoou a cidade v�rias vezes, disparando os lasers.</p><p>- Chell est� morto - Vikary disse.</p><p>- Mas voc� est� vivo - Gwen replicou. - Estava come�ando a me preocupar.</p><p>- Estamos vivos - admitiu Jaan. Deixou o rifle escorregar por entre os dedos. - Gwen, matei meu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>- Garse? - ela exclamou, perplexa. Franziu o cenho.</p><p>- Ele me entregou aos Braiths - Dirk acrescentou rapidamente. Seus olhos se encontraram com os de Gwen. - E ele estava ca�ando Jaan, juntamente com Lorimaar. Teve de ser feito.</p><p>Ela se voltou novamente para Jaan.</p><p>- Isso � verdade? Arkin me disse algo do tipo. N�o acreditei nele.</p><p>- � verdade - Vikary falou.</p><p>- Arkin est� aqui? - Dirk perguntou.</p><p>Gwen assentiu.</p><p>- Dentro do aerom�vel. Ele fugiu de Larteyn. Voc� deve ter falado para ele onde eu estava. Tentou me contar outras mentiras. Eu o nocauteei. Est� indefeso agora.</p><p>- Gwen - Dirk falou -, n�s julgamos Arkin muito mal. - E o fundo de sua garganta parecia se encher de bile. - N�o entende, Gwen? Arkin avisou Jaan que Garse ia tra�-lo. Sem esse aviso, Jaan nunca saberia. Teria confiado em Janacek, e talvez n�o tivesse disparado nele. E teria sido capturado, morto. - A voz dele estava rouca e imperativa. - Voc� n�o entende? Arkin...</p><p>O fogo refletia nos olhos de Gwen enquanto ela observava Dirk.</p><p>- Entendo - disse com uma voz sufocada e tr�mula. Voltou-se para Vikary. - Oh, Jaan - exclamou e abriu os bra�os para ele.</p><p>Ele se aproximou e apoiou a cabe�a no ombro dela, e a envolveu apertado em seus bra�os. E ent�o come�ou a chorar.</p><p>Dirk os deixou sozinhos e foi at� o aerom�vel.</p><p>Arkin Ruark estava amarrado em um dos assentos. Estava vestido com pesadas roupas de campo e mantinha a cabe�a baixa, com o queixo encostado no peito. Quando Dirk entrou, olhou para cima com esfor�o. Todo o lado direito de seu rosto era um inchado hematoma p�rpura.</p><p>- Dirk - murmurou.</p><p>Dirk tirou a pesada mochila das costas e a colocou no ch�o. Reclinou-se contra o painel de instrumentos.</p><p>- Arkin - disse inexpressivamente.</p><p>- Ajude-me - Ruark pediu.</p><p>- Janacek est� morto - Dirk lhe contou. - Jaan atirou nele e o derrubou em um ninho de espectros arb�reos.</p><p>- Garsinho - Ruark falou, com alguma dificuldade. Seus l�bios estavam inchados e ensang�entados, e sua voz tremia. - Ele teria matado todos voc�s. Essa � a verdade completa. Eu avisei Jaan, avisei, avisei, sim. Acredite em mim, Dirk.</p><p>- Eu acredito em voc� - Dirk respondeu, assentindo.</p><p>- Tentei ajudar, sim. Gwen, ela ficou louca. Eu disse que os Braiths pegaram Jaan, eu ia me juntar a ele, mas eles chegaram primeiro. Estava com medo por ela, estava. Vim ajudar. Ela me bateu, disse que eu era um mentiroso, me amarrou e voamos para c�. Ela est� louca, Dirk, amigo Dirk, completamente louca, uma louca kavalariana. Quase como Garse, n�o mais como a doce Gwen. Acho que pretende me matar. Voc� tamb�m, talvez, n�o sei. Ela vai voltar para Jaan, sei disso. Ajude-me, voc� tem que me ajudar. Detenha-a - choramingou.</p><p>- Ela n�o vai matar ningu�m - Dirk afirmou. - Jaan est� aqui agora, e eu tamb�m. Voc� est� a salvo, Arkin, n�o se preocupe. Vamos acertar as coisas. Temos muito o que agradecer a voc�, n�o �? Especialmente Jaan. Sem seus avisos, ningu�m sabe o que teria acontecido.</p><p>- Sim - Ruark concordou. Sorriu. - Sim, verdade, completa verdade.</p><p>Gwen apareceu repentinamente, no marco da porta.</p><p>- Dirk - falou, ignorando Ruark.</p><p>Ele se virou para ela.</p><p>-Sim?</p><p>- Fiz Jaan se deitar um pouco. Ele est� muito cansado. Venha aqui fora, onde podemos falar.</p><p>- Espere - Ruark pediu. - Solte-me primeiro, hein? Por favor. Meus bra�os, Dirk, meus bra�os...</p><p>Dirk saiu. Jaan estava deitado ali perto, com a cabe�a apoiada em uma �rvore, encarando o inc�ndio sem v�-lo. Afastaram-se dele, at� a escurid�o dos estranguladores. Finalmente Gwen parou e se virou para encar�-lo.</p><p>- Jaan nunca deve saber - disse, e afastou uma mecha do cabelo negro para tr�s, com a m�o direita.</p><p>Dirk a encarou.</p><p>- Seu bra�o - disse. Ao redor de seu antebra�o direito, Gwen usava ferro, negro e vazio.</p><p>- Sim - confirmou. - As pedrardentes vir�o depois.</p><p>- Entendo - Dirk falou. - Tanto<emphasis> teyn</emphasis> quanto<emphasis> betheyn.</emphasis></p><p>Gwen assentiu. Estendeu o bra�o e pegou as m�os de Dirk entre as suas. A pele dela estava fria e seca.</p><p>- Fique feliz por mim, Dirk - disse, em uma voz apagada e triste. - Por favor.</p><p>Ele apertou as m�os dela, tentando ser compreensivo.</p><p>- Estou feliz - disse, sem muita convic��o. Um longo e amargo sil�ncio se imp�s entre eles.</p><p>- Voc� est� acabado - Gwen falou finalmente, for�ando um pequeno sorriso. - Arranhado por todo lado. O jeito que est� seu bra�o. O jeito que caminha. Voc� est� bem?</p><p>Ele deu de ombros.</p><p>- Os Braiths n�o s�o jogadores gentis - disse. - Sobreviverei. - Soltou uma das m�os para coloc�-la no bolso. - Gwen, tenho uma coisa para voc�.</p><p>Dentro de seu punho: duas gemas. A pedrardente redonda e rudemente facetada, com um leve brilho interior, palpitando na palma de sua m�o. E a j�ia-sussurrante, menor, mais escura; morta e fria.</p><p>Gwen as pegou em sil�ncio. Rodou-as na m�o por um momento, franzindo o cenho. Ent�o guardou a pedrardente e devolveu a j�ia-sussurrante para Dirk. Ele a aceitou.</p><p>- O �nico que tenho de Jenny - disse, enquanto sua m�o se fechava ao redor da l�grima de gelo e desaparecia novamente no bolso.</p><p>- Eu sei - ela respondeu. - Obrigada por me oferecer. Mas, verdade seja dita, ela n�o fala mais comigo. Acho que mudei demais. N�o ou�o um sussurro h� anos.</p><p>- Sim - ele falou. - Suspeitei disso. Mas tinha que oferec�-la para voc�... e a promessa tamb�m. Apromessa ainda � sua, Gwen, se algum dia precisar dela. Chame isso de meu ferro-e-fogo. Voc� n�o quer me transformar em um quase-homem, quer?</p><p>- N�o - ela respondeu. - A outra...</p><p>- Garse a guardou, quando teve de jogar as outras fora. Pensei que talvez voc� quisesse coloc�-la novamente no bracelete, com as novas. Jaan nunca ver� a diferen�a.</p><p>Gwen suspirou.</p><p>- Tudo bem - disse. - Descobri que sinto muito sobre Garse, no final das contas. N�o � curioso? Todos os anos que passamos juntos, mal passou um dia em que n�o quis�ssemos pular um na garganta do outro, com o pobre Jaan preso no meio, amando a n�s dois. Algumas vezes tive quase certeza de que a �nica coisa que estava entre mim e a felicidade era Garse Jadeferro Janacek. S� que agora ele se foi, e � muito duro acreditar nisso. Fico esperando que apare�a em seu aerom�vel, armado at� os dentes e sorrindo, pronto para acabar comigo e me colocar no meu lugar. Acho que quando realmente me convencer de que � verdade, ent�o talvez eu chore. N�o � curioso?</p><p>- N�o - Dirk falou. - N�o.</p><p>- Quase podia chorar por Arkin tamb�m - ela prosseguiu. - Sabe o que ele disse? Quando foi me procurar em Kryne Lamiya? Depois que eu o chamei de mentiroso, bati nele e o derrubei, sabe o que ele disse?</p><p>Dirk negou com a cabe�a, esperando.</p><p>- Disse que me amava - Gwen continuou, sorrindo amargamente. - Disse que sempre me amou, desde o momento em que nos conhecemos em �valon. N�o posso jurar que estivesse dizendo a verdade. Garse sempre disse que os manipuladores eram espertos, e Arkin n�o precisava ser um g�nio para ver como essa revela��o me afetava. Eu quase o libertei quando me disse isso. Ele parecia t�o pequeno e digno de pena, e estava solu�ando. Em vez disso... viu o rosto dele? - Ela hesitou.</p><p>- Vi - Dirk falou. - Feio.</p><p>- Em vez de solt�-lo, fiz aquilo - Gwen confessou. - Mas acho que acredito nele agora. De uma maneira doentia, ele me amava.</p><p>E via o que eu estava fazendo comigo mesma; e sabia que, deixada aos meus pr�prios meios, eu nunca deixaria Jaan. Ent�o decidiu usar voc�, usar todas as coisas que eu lhe contara, por confiar nele, para me afastar de Jaan. Suponho que tenha imaginado que voc� e eu nos separar�amos quando estiv�ssemos novamente em �valon, e eu me voltaria para ele. Ou talvez n�o. N�o sei. Ele afirmou que estava apenas pensando em mim, na minha felicidade, que n�o podia me ver usando jade-e-prata. Que n�o pensava em si mesmo. Disse que � meu amigo - ela suspirou, consternada. - Meu amigo - repetiu.</p><p>- N�o se sinta mal por ele, Gwen. - Dirk advertiu. - Ele teria me enviado para a morte, e Jaan tamb�m, sem um momento de hesita��o. Garse Janacek est� morto, assim como v�rios dos Braiths e emerelianos inocentes em Desafio... e tudo isso pelo amigo Arkin. Ou n�o?</p><p>- Agora � voc� quem fala como Garse - ela disse. - O que voc� me disse? Que eu tinha olhos de jade? Olhe para voc� mesmo, Dirk! Bem, suponho que esteja certo.</p><p>- O que faremos com ele agora?</p><p>- Vamos libert�-lo - ela respondeu. - Pelo menos por enquanto. Jaan n�o deve suspeitar do que aconteceu de verdade. Isso o destruiria, Dirk. Ent�o Arkin Ruark ser� nosso amigo novamente. De acordo?</p><p>- Sim - ele concordou. O rugido do fogo se transformara em um estalar suave, Dirk percebeu; estava quase em sil�ncio. Olhando de relance na dire��o do aerom�vel, viu que o inferno estava se apagando. Alguns focos de inc�ndio dispersos tremulavam fracamente entre as ru�nas, jogando uma luz imprecisa sobre a cidade desfeita e fumegante. A maior parte das torres havia ca�do, e as que permaneceram estavam completamente em sil�ncio. O vento era somente vento.</p><p>- O amanhecer chegar� logo - Gwen observou. - Precisamos partir.</p><p>- Partir?</p><p>- De volta a Larteyn, se Bretan n�o a destruiu tamb�m.</p><p>- Ele tem um jeito violento de lamentar - Dirk concordou. - Mas Larteyn � seguro?</p><p>- E hora de acabar com o esconde-esconde - Gwen falou. - N�o sou inconsciente agora, e n�o sou uma<emphasis> betheyn</emphasis> indefesa que precisa ser protegida - ergueu o bra�o direito; os distantes fogos iluminaram o ferro opaco. - Sou<emphasis> teyn</emphasis> de Jaan Vikary, batizada em sangue, e tenho minha arma. E voc�... voc� mudou tamb�m, Dirk. Voc� n�o � mais<emphasis> korariel,</emphasis> sabe disso. Voc� � um<emphasis> keth.</emphasis> Estamos juntos neste momento. Somos jovens e fortes, e sabemos quem s�o nossos inimigos e como encontr�-los. E nenhum de n�s pode ser Jadeferro novamente... sou uma mulher, Jaan � um renegado e voc� � um quase-homem. Garse era o �ltimo Jadeferro. Garse est� morto. Os acertos e erros de Alto Kavalaan e do grupo Jadeferro morreram com ele, creio, pelo menos neste mundo. N�o h� c�digos em Worlorn, lembra? Nem Braiths ou Jadeferros, apenas animais tentando matar uns aos outros.</p><p>- O que est� dizendo? - Dirk perguntou, embora a entendesse.</p><p>- Estou dizendo que estou cansada de ser ca�ada, perseguida e amea�ada - Gwen explicou. Seu rosto sombrio era ferro negro; seus olhos queimavam ardentes e ferozes. - Estou dizendo que � hora de<emphasis> n�s</emphasis> sermos os ca�adores!</p><p>Dirk a contemplou em sil�ncio por um longo tempo. Ela estava muito bonita, ele pensou, bonita do mesmo jeito que Garse Janacek fora bonito. Estava um pouco como o banshee... e lamentou secretamente por sua Jenny, sua Guinevere que nunca existiu.</p><p>- Voc� est� certa - disse lentamente.</p><p>Ela se aproximou e o envolveu com os bra�os antes que ele pudesse reagir. Abra�ou-o com toda sua for�a. As m�os dele se ergueram lentamente para abra��-la tamb�m, e ficaram assim por uns bons dez minutos, esmagados um contra o outro, o suave rosto dela contra a barba por fazer dele. Quando Gwen finalmente se afastou, levantou o rosto, esperando que ele a beijasse, ent�o ele a beijou. Fechou os olhos; os l�bios dela eram secos e duros.</p><p>A Fortaleza de Fogo estava fria ao amanhecer. O vento rodopiava em violentas rajadas; o c�u estava cinza e nebuloso.</p><p>No telhado do edif�cio deles encontraram um cad�ver.</p><p>Jaan Vikary desceu cuidadosamente, de rifle na m�o, enquanto Gwen e Dirk davam cobertura da relativa seguran�a do aerom�vel. Ruark ficou sentado em sil�ncio no assento de tr�s, aterrorizado. Eles o haviam libertado antes de deixar as cercanias de Kryne Lamiya, e todo o caminho de volta estivera ora emburrado, ora exultante, sem saber o que pensar.</p><p>Vikary inspecionou o corpo, que jazia em frente aos elevadores, e voltou ao ve�culo.</p><p>- Roseph Alto-Braith Kelcek - informou.</p><p>- Alto-Larteyn - Dirk lhe recordou.</p><p>- � verdade - ele concordou, franzindo o cenho.</p><p>- Alto-Larteyn. Est� morto h� v�rias horas, pelo que percebi. Quase metade de seu peito foi arrebentada por um proj�til. Sua pr�pria pistola est� embainhada.</p><p>- Um proj�til? - Dirk perguntou.</p><p>Vikary assentiu.</p><p>- Bretan Braith Lantry � conhecido por usar armas assim em duelo. � um not�vel duelista, mas acho que escolheu a pistola de proj�til apenas duas vezes, nas raras vezes em que n�o bastava apenas ferir o advers�rio. Um laser de duelo � um instrumento limpo e preciso. Essa arma de Bretan Braith, n�o. Uma arma dessas � concebida para matar, mesmo que o alvo n�o seja perfeitamente atingido. � uma coisa descomunal e malfeita, para duelos curtos e mortais.</p><p>Gwen olhava fixamente para onde Roseph jazia como uma pilha de trapos. Suas roupas tinham a cor empoeirada do telhado, e agitavam-se erraticamente ao vento.</p><p>- Isso n�o foi um duelo - ela falou.</p><p>- N�o - Vikary concordou.</p><p>- Mas, por qu�? - Dirk questionou. - Roseph n�o era amea�a para Bretan Braith, era? Al�m disso, o c�digo de honra... Bretan ainda � um Braith, n�o �? Ent�o ele ainda � sujeito ao c�digo, certo?</p><p>- Bretan sem d�vida � um Braith, e<emphasis> esse �</emphasis> o motivo que voc� busca, Dirk t'Larien - Vikary disse. - Isso n�o � duelo. Isso � alta-guerra, Braith contra Larteyn. H� poucas regras na alta-guerra; qualquer adulto do sexo masculino do grupo inimigo � uma presa justa, at� que a paz venha.</p><p>- Uma Cruzada - Gwen comparou, rindo. - Isso n�o se parece muito com Bretan, Jaan.</p><p>- Mas � muito t�pico do velho Chell - Vikary replicou. - Suspeito que seu<emphasis> teyn</emphasis> jurou fazer isso, enquanto o velho morria. Se for verdade, Bretan mata sob juramento, n�o simplesmente pela dor. E ter� pouca miseric�rdia.</p><p>No assento de tr�s, Arkin Ruark inclinou-se para a frente com avidez.</p><p>- Mas isso � magn�fico! - exclamou. - Sim, escutem-me, isso � �timo. Gwen, Dirk, Jaan, meu amigo, escutem. Bretan matar� todos eles para n�s, n�o �? Matar� um ap�s o outro, sim. Ele � inimigo dos nossos inimigos, tivemos muita sorte, completa verdade.</p><p>- Seu prov�rbio kimdissiano n�o se aplica neste caso - Vikary explicou. - A alta-guerra entre Bretan Braith e os Larteyns n�o o torna nosso amigo, exceto por acidente. Sangue e alto agravo n�o s�o esquecidos com tanta facilidade, Arkin.</p><p>- Sim - Gwen concordou. - N�o era Lorimaar que ele suspeitava estar escondido em Kryne Lamiya, voc� sabe. Ele queimou aquela cidade no esfor�o de nos capturar.</p><p>- Um palpite, um mero palpite - Ruark resmungou. - Talvez tivesse outros motivos, raz�es pr�prias, quem sabe? Talvez estivesse louco, enfurecido de dor, sim.</p><p>- Vou lhe propor uma coisa, Arkin - Dirk falou. - Deixaremos voc� em campo aberto, e se Bretan aparecer, voc� perguntar� para ele.</p><p>O kimdissiano recostou-se e olhou para ele com estranheza.</p><p>- N�o - disse. - N�o. � mais seguro ficar com voc�s, meus amigos, voc�s me proteger�o.</p><p>- N�s o protegeremos - Jaan Vikary confirmou. - Voc� fez muito por n�s.</p><p>Dirk e Gwen trocaram olhares.</p><p>Viraky colocou o aerom�vel em s�bito movimento. Levantaram v�o e se afastaram do telhado, sobre as ruas opacas de Larteyn.</p><p>- Onde...? - Dirk perguntou.</p><p>- Roseph est� morto - Vikary falou. - Mas ele n�o era o �nico ca�ador. Faremos um censo, meus amigos, faremos um censo.</p><p>O edif�cio que Roseph Alto-Braith Kelcek partilhava com seu <emphasis>teyn</emphasis> n�o ficava muito longe da resid�ncia dos Jadeferros, e era muito pr�ximo aos elevadores subterr�neos. Era uma grande estrutura quadrada com um telhado abobadado met�lico e um p�rtico suportado por colunas de ferro negro. Aterrissaram nas proximidades e se aproximaram sigilosamente.</p><p>Dois c�es Braiths estavam acorrentados �s colunas, na frente da casa. Ambos mortos. Vikary examinou-os.</p><p>- Suas gargantas foram queimadas com um laser de ca�a disparado a alguma dist�ncia - informou. - Uma morte segura e silenciosa.</p><p>Manteve-se do lado de fora, empunhando o rifle laser, alerta, montando guarda. Ruark permaneceu ao seu lado. Gwen e Dirk foram enviados para fazer uma busca no edif�cio.</p><p>Encontraram numerosas c�maras vazias, e uma pequena sala de trof�us com quatro cabe�as; tr�s delas eram antigas e secas, com a pele esticada como couro, as fei��es quase animalescas. A quarta, Gwen afirmou, era um filho da lesma vinhonegrino, rec�m-ca�ado, pela apar�ncia. Dirk tocou o couro que cobria alguns m�veis com suspeita, mas Gwen sacudiu a cabe�a negativamente.</p><p>Outro aposento, ali perto, estava cheio de miniaturas: banshees e matilhas de lobos, soldados lutando com espadas e facas, homens enfrentando monstros grotescos em estranhos combates. Todas as cenas eram detalhadamente representadas em ferro, cobre e bronze.</p><p>- Trabalho de Roseph - Gwen disse com indiferen�a quando Dirk parou e pegou uma das figuras para examinar mais de perto. Ela fez sinal para que seguissem em frente.</p><p>O<emphasis> teyn</emphasis> de Roseph estivera comendo. Encontraram seu cad�ver na sala de jantar. Sua refei��o - um grosso ensopado de carne e vegetais em um caldo sanguinolento e peda�os de p�o preto ao lado - estava fria e consumida s� pela metade. Uma caneca de estanho cheia de cerveja escura repousava ao lado na comprida mesa de madeira. O corpo do kavalariano estava a quase um metro de dist�ncia, ainda na cadeira. Mas a cadeira estava tombada para tr�s, e havia uma mancha escura na parede atr�s dela. O homem n�o tinha mais rosto.</p><p>Gwen parou sobre ele, franzindo o cenho, o rifle pendurado casualmente embaixo de um bra�o, apontando para o ch�o. Pegou a cerveja e tomou um gole antes de passar a caneca para Dirk. A bebida estava t�pida e ran�osa, h� tempos sem espuma.</p><p>- Lorimaar e Saanel? - Gwen perguntou quando estavam novamente do lado de fora, sob as colunas de ferro.</p><p>- Duvido que j� tenham retornado da floresta - Vikary comentou. - Talvez Bretan Braith esteja em algum lugar de Larteyn esperando por eles. Sem d�vida, viu Roseph e Chaalyn chegando ontem. Talvez esteja � espreita aqui por perto, esperando apanhar seu inimigos um a um, conforme retornam para a cidade. Mas acho que n�o.</p><p>- Por qu�? - quis saber Dirk.</p><p>- Lembre-se, t'Larien,<emphasis> n�s</emphasis> chegamos ao amanhecer, e em um carro sem blindagem. Ele n�o nos atacou. Ou estava dormindo, ou n�o est� mais por aqui.</p><p>- Onde voc� acha que ele est�?</p><p>- No bosque, ca�ando os ca�adores - Vikary respondeu. - Apenas dois Larteyns permanecem vivos para encar�-lo, mas Bretan Braith n�o tem como saber isso. At� onde ele sabe, Pyr, Arris e at� mesmo o velho Raymaar Uma-M�o est�o vivos, e ser�o contados como inimigos. Meu palpite � que ele pretende atac�-los de surpresa, talvez temendo que, de outro modo, possam voltar � cidade em grupo e, ao descobrir seus<emphasis> kethi</emphasis> assassinados, se dar conta de suas inten��es.</p><p>- Ent�o dev�amos fugir, sim, antes que ele volte - afirmou Arkin Ruark. - Ir para algum lugar seguro, longe dessa loucura kavalariana. D�cimo-Segundo Sonho, sim! Para D�cimo-Segundo Sonho! Ou para Musquel, ou Desafio, qualquer lugar. Chegar� uma nave em breve, e ent�o estaremos a salvo. O que me dizem?</p><p>- Digo que n�o - Dirk discordou. - Bretan nos encontrar�. Lembra da maneira quase sobrenatural que encontrou Gwen e eu em Desafio? - olhou fixo para o kimdissiano, que empalideceu visivelmente.</p><p>- Ficaremos em Larteyn - Vikary decidiu com firmeza. - Bretan Braith Lantry � um �nico homem. Somos quatro, e tr�s de n�s, armados. Se ficarmos juntos, estaremos a salvo. Montaremos guarda. Estaremos prontos.</p><p>Gwen assentiu, tomando Jaan pelo bra�o.</p><p>- Concordo - disse. - Bretan pode n�o sobreviver a Lorimaar.</p><p>- N�o - o kavalariano discordou. - N�o, Gwen. Acho que est� errada. Bretan Braith sobreviver� a Lorimaar. Disso tenho certeza.</p><p>Por insist�ncia de Vikary, fizeram uma busca pela grande garagem subterr�nea antes de deixar os arredores da resid�ncia de Roseph. Sua aposta valeu a pena. Com seu pr�prio aerom�vel roubado em Desafio, e logo depois destru�do, Roseph e seu<emphasis> teyn</emphasis> haviam tomado emprestado o ve�culo de Pyr para retornar da floresta; o carro estava estacionado ali embaixo. Jaan o pegou. N�o chegava nem perto da maci�a rel�quia de guerra verde-oliva de Janacek, mas ainda era muito mais formid�vel do que o carrinho de Ruark.</p><p>Depois buscaram abrigo. Ao longo das muralhas da cidade de Larteyn, sobre a empinada parede rochosa que descia at� a distante Comuna, havia uma s�rie de torres de vigil�ncia com postos de guarda na parte de cima e alojamentos na parte de baixo, dentro das pr�prias muralhas. As torres, cada uma com uma grande g�rgula de pedra empoleirada no topo, eram estritamente ornamentais, um adorno que dava um ar de autenticidade � cidade kavalariana do Festival. Mas eram facilmente defens�veis e davam uma excelente vis�o de Larteyn. Gwen escolheu uma aleatoriamente e foram para l�, passando antes no antigo apartamento em busca de objetos pessoais, comida e da documenta��o quase esquecida (pelo menos por Dirk) sobre as pesquisas ecol�gicas que ela e Ruark conduziram nos bosques de Worlorn. Uma vez em seguran�a, se dispuseram a esperar.</p><p>Dirk percebeu mais tarde que aquilo foi a pior coisa que podiam ter feito. Sob a press�o da inatividade, todas as fissuras come�aram a aparecer.</p><p>Organizaram um sistema de turnos, de modo que duas pessoas estavam sempre de guarda na torre, armadas com lasers e com os bin�culos de campo de Gwen. Larteyn estava cinzenta, vazia e desolada. Havia pouco para os observadores fazerem, exceto estudar o lento fluir das luzes nas ruas de pedrardente, e conversar. Em geral, conversavam.</p><p>Arkin Ruark compartilhava os turnos de guarda com os outros, e aceitara o rifle laser que Vikary lhe empurrara, ainda que com certa relut�ncia. Mais de uma vez argumentou que a viol�ncia o repugnava, que nunca poderia disparar o laser, n�o importava a circunst�ncia. Mas concordou em ficar com a arma, sob o pedido de Jaan Vikary. Suas rela��es com todos mudara radicalmente. Permanecia perto de Jaan o mais que podia, reconhecendo que o kavalariano era seu real protetor agora. Era cordial com Gwen. Ela lhe pedira perd�o pelo que acontecera em Kryne Lamiya, afirmando que o medo e a dor a levaram temporariamente � paran�ia. Mas n�o era mais a "doce Gwen" para Ruark; a cada dia a amargura entre eles vinha mais � tona. Em rela��o a Dirk, o kimdissiano mantinha uma atitude inquieta e suspeita, alternadamente afogando-o em companheirismo e depois recuando � normalidade quando ficava claro que Dirk se mostrava reticente. Os coment�rios de Ruark durante a primeira guarda que fizeram juntos indicaram para Dirk que o ecologista esperava desesperadamente pela nave da Orla,<emphasis> Teric neDahlir,</emphasis> que chegaria na semana seguinte. Parecia n�o querer outra coisa al�m de permanecer em seguran�a e escondido e fugir do planeta assim que poss�vel.</p><p>Gwen Delvano esperava por algo completamente diferente, Dirk pensou. Enquanto Ruark perscrutava o horizonte com apreens�o, Gwen estava tensa de tanta ansiedade. Ele se lembrava das palavras que ela havia dito quando conversaram nas sombras da Kryne Lamiya destru�da pelo fogo. "� hora de<emphasis> n�s</emphasis> nos tornarmos os ca�adores", afirmara. Ainda pretendia isso. Quando ela e Dirk partilhavam a vigia, Gwen fazia todo o trabalho. Sentava-se ao lado da estreita janela do posto de vigil�ncia com uma paci�ncia quase infinita, os bin�culos pendurados entre os seios, os bra�os descansando no peitoril, jade-e-prata perto de ferro vazio. Conversava com Dirk sem olhar para ele; toda sua aten��o estava direcionada para o lado de fora. Exceto quando tinha de ir ao banheiro, Gwen se recusava a sair da janela. De tempos em tempos, pegava os bin�culos e estudava algum edif�cio distante onde vislumbrara movimento, e com menos freq��ncia pedia uma escova para Dirk e come�ava a alisar o longo cabelo negro, que estava constantemente emaranhado pelo vento.</p><p>- Espero que Jaan esteja errado - disse certa vez, enquanto escovava o cabelo. - Eu prefiro encarar Lorimaar e seu<emphasis> teyn,</emphasis> em vez de Bretan.</p><p>Dirk murmurou alguma coisa concordando, pois Lorimaar, muito mais velho e ferido, seria bem menos perigoso do que o duelista de um olho que o ca�ava. Mas quando disse isso, Gwen apenas abaixou a escova e o encarou com curiosidade.</p><p>- N�o - ela falou. - N�o, n�o � por isso, em absoluto.</p><p>Mas o mais afetado pela espera era Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro Vikary. Enquanto estivera em a��o e a situa��o exigia dele, permanecera o velho Jaan Vikary - forte, decidido, um l�der. No �cio, era um homem diferente. N�o tinha fun��o a cumprir; em vez disso, tinha tempo ilimitado para cismar. Isso n�o era bom. Embora Garse Janacek fosse mencionado raramente naqueles dias, era claro que Jaan era assombrado pelo espectro de seu<emphasis> teyn</emphasis> de barba ruiva, pois estava sempre s�rio, e come�ou a cair em sil�ncios obstinados que podiam durar por horas.</p><p>No princ�pio, Jaan havia insistido para que todos permanecessem do lado de dentro da torre o tempo todo; depois, ele mesmo come�ara a dar longas caminhadas ao amanhecer e ao p�r do sol, quando n�o estava de vigia. Durante suas horas na torre de vigil�ncia, a maior parte de suas conversas era preenchida com divaga��es de sua inf�ncia na fortaleza do grupo Jadeferro e relatos hist�ricos de her�is martirizados, como Vikor Alto-A�orrubro e Aryn Alto-Pedrardente. Nunca falava sobre o futuro, e apenas raramente sobre as circunst�ncias presentes. Observando-o, Dirk quase podia entrever o tumulto interior do homem. Em quest�o de dias, Jaan Vikary perdera tudo: seu<emphasis> teyn,</emphasis> seu planeta natal e seu povo, at� mesmo o c�digo pelo qual vivera. Estava lutando contra tudo isso - j� adotara Gwen como<emphasis> teyn,</emphasis> aceitando-a com uma depend�ncia plena que nunca demonstrara antes em rela��o a ela ou mesmo a Garse. Parecia a Dirk que Jaan estava tentando manter seu c�digo, agarrando-se desesperadamente a qualquer parte da honra kavalariana que lhe fora deixada. Era <emphasis>Gwen,</emphasis> n�o Jaan, quem falava de ca�ar os ca�adores, de animais matando uns aos outros depois que todos os c�digos haviam se perdido. Parecia falar por seu<emphasis> teyn</emphasis> e por si mesma, mas Dirk n�o achava que isso fosse compartilhado por Vikary, que quando falava das lutas iminentes, sempre deixava impl�cito que duelaria com Bretan Braith. Em suas longas caminhadas pela cidade levava tanto o rifle quanto a pistola.</p><p>- Se encontrar Bretan, preciso estar pronto - tinha dito e, como um aut�mato, praticava diariamente, em geral � vista da torre, preparando-se para cada um dos modos de duelo kavalariano. Um dia, praticava o quadrado da morte e o tiro de dez passos, acertando antagonistas imagin�rios. No dia seguinte era estilo livre e andar na linha, e ent�o tiro �nico e quadrado da morte novamente. Os que estavam de guarda davam cobertura para ele, e rezavam para que nenhum inimigo visse os insistentes pulsos de luz. Dirk tinha medo. Jaan era a for�a do grupo, e estava perdido nessa ilus�o marcial, na presun��o de que Bretan Braith retornaria e lhe garantiria a cortesia do c�digo, apesar de tudo. Mesmo com toda a destreza de Vikary em duelos, apesar de seu ritual di�rio de treino, parecia para Dirk cada vez mais improv�vel que o Jadeferro pudesse triunfar sobre Bretan no combate singular.</p><p>At� mesmo o sono de Dirk era atormentado por pesadelos recorrentes do rosto desforme do Braith: Bretan, com sua voz estranha, o olho brilhante e seu tique grotesco; Bretan delgado, de rosto suave e inocente; Bretan, o destruidor de cidades. Dirk despertava desses sonhos suado e exausto, enrascado nas roupas de cama, lembrando-se dos gritos de Gwen, lamentos �speros e agudos como as torres de Kryne Lamiya, e do jeito que Bretan olhava para ele. Para banir essas vis�es, contava apenas com Jaan, e Jaan era v�tima de um exausto fatalismo, ainda que conservasse uma certa for�a.</p><p>Era a morte de Janacek, Dirk disse para si mesmo - e, mais do que isso, as circunst�ncias da morte. Se Garse tivesse morrido de maneira mais normal, Vikary seria um vingador mais feroz, mais implac�vel e mais invenc�vel do que Myrik e Bretan combinados. Mas, pelo contr�rio, Jaan estava convencido de que seu<emphasis> teyn</emphasis> o tra�ra, que o ca�ara como a um animal ou um quase- -homem, e a convic��o o estava destruindo. Mais do que uma vez, sentado com o Jadeferro na pequena sala de vigia, Dirk sentiu vontade de lhe dizer a verdade, de pular sobre ele e gritar: <emphasis>N�o, n�o! Garse era inocente, Garse amava voc�, Garse teria morrido por voc�!</emphasis> Ainda assim, n�o disse nada. Se Vikary estava morrendo daquela maneira, consumido por sua melancolia, pelo sentimento de trai��o e pela perda definitiva da f�, dizer a verdade o teria matado imediatamente.</p><p>Ent�o os dias passavam e as fissuras aumentavam, e Dirk observava seus tr�s companheiros com apreens�o crescente. Enquanto Ruark esperava a fuga; Gwen, a vingan�a; e Jaan Vikary, a morte.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Cap�tulo 15</strong></p><empty-line/><p>No primeiro dia de vig�lia, choveu quase a tarde toda. As nuvens se apinharam � leste durante toda a manh�, ficando cada vez mais espessas e mais amea�adoras, obscurecendo o Sat� Gordo e seus filhos, de modo que o dia estava mais l�gubre do que o usual. Perto do meio-dia, a tempestade come�ou. O ru�do era ensurdecedor. Os ventos sopravam do lado de fora t�o alto que a torre de vigil�ncia parecia sacudir, e rios de �gua marrom corriam selvagemente pelas ruas de pedrardente. Quando os s�is finalmente apareceram - um pouco antes do entardecer -, Larteyn brilhou, suas muralhas e constru��es resplandecendo �midas pareciam mais limpas do que Dirk jamais vira. A Fortaleza de Fogo aparentava estar quase esperan�osa. Mas esse foi o primeiro dia de vig�lia.</p><p>No segundo dia, as coisas voltaram ao normal. O Olho do Inferno percorreu o lento caminho vermelho pelo c�u, Larteyn brilhou p�lida e negra, e o vento trouxe de volta a poeira da Comuna que a chuva do dia anterior havia lavado. No crep�sculo da tarde, Dirk viu um aerom�vel. O ve�culo se materializou sobre as montanhas, um ponto negro, e sobrevoou a Comuna antes de come�ar a descer. Dirk observou cuidadosamente, pelos bin�culos, os cotovelos repousando no parapeito de pedra da estreita janela. N�o era nenhum carro que conhecesse - uma coisa morta e negra, um pequeno morcego estilizado com amplas asas e enormes far�is que faziam as vezes de olhos. Vikary partilhava a guarda com ele. Dirk o chamou, e Jaan olhou com desinteresse.</p><p>- Sim, conhe�o esse ve�culo - Jaan afirmou. - N�o nos interessa, t'Larien, s�o apenas os ca�adores do grupo Shanagate. Gwen informou t�-los visto partir esta manh�.</p><p>O aerom�vel desaparecera, ent�o, perdido entre os edif�cios de Larteyn, e Vikary voltou para seu assento, deixando Dirk com suas reflex�es.</p><p>Nos dias que se seguiram, viu os Shanagates v�rias vezes, e nunca deixaram de parecer irreais. Era estranho pensar que iam e vinham, intocados por tudo o que acontecera, vivendo sua vida como se Larteyn ainda fosse a pac�fica cidade moribunda que aparentava, como se ningu�m tivesse perecido ali. Estavam t�o perto de tudo aquilo e, ainda assim, t�o distantes e n�o envolvidos; Dirk podia imagin�-los retornando ao seu grupo em Alto Kavalaan e contando qu�o mon�tona e aborrecida era a vida em Worlorn. Para eles, nada mudara; Kryne Lamiya ainda cantava seu f�nebre lamento, e Desafio era um local fervilhante de vida e promessas. Ele os invejava.</p><p>No terceiro dia, Dirk despertou de um pesadelo particularmente virulento, no qual estava lutando sozinho contra Bretan, e foi incapaz de voltar a dormir depois disso. Gwen, descansando da guarda, andava de um lado para o outro na cozinha. Dirk serviu-se de uma caneca da cerveja dela e escutou-a por um momento.</p><p>- Eles deviam estar aqui - ela ficava reclamando. - N�o posso acreditar que ainda estejam procurando por Jaan. Certamente j� devem ter percebido o que aconteceu! Por que n�o est�o aqui?</p><p>Dirk apenas deu de ombros e disse que desejava que nunca aparecessem; o<emphasis> Teric neDahlir</emphasis> n�o demoraria a chegar. Quando falou isso, ela se virou para ele com raiva:</p><p>- N�o me importa! - rebateu; e ent�o, envergonhada, corou, se aproximou da mesa e sentou. Sob uma larga tiara verde, seus olhos estavam fundos. Segurou a m�o dele e lhe contou, hesitante, que Vikary n�o a tocara desde a morte de Janacek. Dirk disse que as coisas melhorariam quando a nave espacial viesse e estivessem longe de Worlorn. Gwen sorriu e concordou com ele, e depois de um tempo come�ou a chorar. Quando finalmente o deixou, Dirk foi em busca da j�ia-sussurrante e a apertou com for�a na m�o, relembrando.</p><p>No quarto dia, enquanto Vikary estava fora em uma de suas perigosas caminhadas matinais, Gwen e Arkin Ruark brigaram durante a guarda, e ela bateu com a culatra do rifle no rosto dele, que s� recentemente come�ara a desinchar com compressas de gelo e unguentos. Ruark desceu da sala de vigil�ncia resmungando que ela estava louca novamente, que tentara mat�-lo. Dirk, despertado de um profundo sono, estava de p� na sala comum, e o kimdissiano parou, petrificado, ao v�-lo. Nenhum dos dois disse nada, mas depois desse epis�dio Ruark perdeu peso rapidamente, e Dirk tinha certeza de que Arkin<emphasis> sabia</emphasis> o que, at� o momento, s� havia suspeitado.</p><p>Na manh� do sexto dia, Ruark e Dirk compartilhavam a guarda em sil�ncio, quando o kimdissiano, em um acesso de f�ria, repentinamente disparou o laser pela sala.</p><p>- Coisas imundas! - exclamou. - Braiths, Jadeferros, n�o me importa... animais kavalarianos � o que s�o, sim. E voc�, um homem fino de �valon, �? Ha! Voc� n�o � melhor do que eles, de jeito nenhum, olhe para voc�. Eu devia ter deixado voc� due- lar, matar ou ser morto, como voc� queria. Isso o teria feito feliz, n�? Sem d�vida, sem d�vida. Amei a doce Gwen e fiz de voc� um amigo, e onde est� a gratid�o, onde, onde? - suas bochechas gordas estavam ocas e fundas; seus olhos claros se moviam incessantemente.</p><p>Dirk o ignorou, e Ruark logo ficou em sil�ncio. Mas, mais tarde, naquela mesma manh�, depois de pegar seu laser e ficar sentado por horas encarando a parede, o kimdissiano se virou para Dirk novamente.</p><p>- Eu fui amante dela tamb�m, voc� sabe - ele disse. - Ela n�o lhe contou isso, eu sei, eu sei, mas � a verdade, a completa verdade. Em �valon, muito antes de ela conhecer Jaantony e aceitar o maldito jade-e-prata, na noite em que voc� mandou a joia- -sussurrante. Ela estava t�o b�bada, sabe... Conversamos e conversamos, e ela bebeu; mais tarde me levou para a cama, e no dia seguinte nem se lembrava, acredita? Nem se lembrava. Mas n�o importa, � a verdade, fui amante dela tamb�m - estremeceu. - Nunca contei para ela, t'Larien, ou tentei reviver o epis�dio. N�o sou t�o tolo quanto voc�, sei o que sou e que foi s� uma coisa do momento. Mesmo assim aconteceu, e eu ensinei muito para ela, e era amigo dela, e sou<emphasis> muito</emphasis> bom no que fa�o, sim, eu sou. - Parou, respirou profundamente e, silenciosamente, deixou a torre, ainda que faltasse mais de uma hora para que Gwen o substitu�sse.</p><p>Quando ela finalmente apareceu, a primeira coisa que fez foi perguntar para Dirk o que dissera para Arkin.</p><p>- Nada - ele replicou, sinceramente. Depois lhe perguntou por que, e ela lhe disse que Ruark a despertara, chorando, e lhe dissera v�rias vezes que n�o importava o que acontecesse, que ela devia ter certeza de que o trabalho deles seria publicado e que o nome dele devia aparecer, n�o importava o que ele fizera, o nome dele devia aparecer tamb�m. Dirk assentiu, deu os bin�culos e o posto na janela para Gwen, e logo estavam falando de outras coisas.</p><p>No s�timo dia, Dirk e Jaan Vikary compartilharam o turno da noite. A cidade kavalariana refulgia opaca, as avenidas de pedrardente pareciam l�minas de cristal negro sob as quais chamas vermelhas queimavam t�nues. Perto da meia-noite, uma luz apareceu sobre as montanhas. Dirk a estudou, enquanto voava em dire��o � cidade.</p><p>- N�o sei - disse, olhando pelos bin�culos. - Est� escuro, � dif�cil dizer. Acho que consigo ver uma vaga forma abobadada - abaixou as lentes. - Lorimaar?</p><p>Vikary se aproximou. O aerom�vel se aproximou. Deslizava em sil�ncio sobre a cidade, e a silhueta era n�tida.</p><p>- � o carro dele - confirmou Jaan.</p><p>Observaram o ve�culo sobrevoar a Comuna e logo virar novamente na dire��o da parede rochosa, e para a entrada da garagem subterr�nea. Vikary olhava, pensativo.</p><p>- Nunca teria acreditado nisso - afirmou.</p><p>Desceram para despertar os demais.</p><p>O homem emergiu da escurid�o dos elevadores subterr�neos para dar de cara com dois lasers. Gwen apontava a pistola para ele quase casualmente. Dirk, armado com um dos rifles de ca�a, mirara nas portas dos elevadores e agora apertava a arma contra o rosto, pronto para atirar. Apenas Jaan Vikary n�o tinha arma apontada; segurava seu rifle entre os dedos, e a pistola estava no coldre.</p><p>As portas dos elevadores se fecharam atr�s dele, e o homem ficou r�gido, compreensivelmente assustado. N�o era Lorimaar. N�o era ningu�m que Dirk conhecesse. Abaixou o rifle.</p><p>Os olhos do homem passaram por um deles de cada vez, e finalmente pararam em Vikary.</p><p>- Alto-Jadeferro - disse, em voz baixa. - Por que me aborda?</p><p>Era um homem de estatura mediana, com cara de cavalo e</p><p>barbudo, longos cabelos loiros e magricelo. Estava vestido com tecido-camale�o que naquele momento era vermelho- -acinzentado, corado e febril como os blocos de pedrardente do pavimento.</p><p>Vikary estendeu o bra�o e empurrou gentilmente a pistola de Gwen para o lado. O ato pareceu despert�-la. Ela franziu o cenho e guardou a arma.</p><p>- Est�vamos esperando Lorimaar Alto-Braith - ela explicou.</p><p>- � verdade - Vikary afirmou. - N�o quisemos insult�-lo, Shanagate. Honra ao seu grupo, honra ao seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>O homem com cara de cavalo assentiu e pareceu aliviado.</p><p>- E aos seus, Alto-Jadeferro - respondeu -, nenhum insulto foi cometido - co�ou nervosamente o nariz.</p><p>- Voc� voa em propriedade Braith, n�o �?</p><p>Ele assentiu.</p><p>- � verdade, � nosso por direito de pilhagem. Meu<emphasis> teyn</emphasis> e eu o encontramos na floresta, enquanto persegu�amos um cornoferro em voo. A criatura parou para beber, e l� estava o carro, abandonado ao lado do lago.</p><p>- Abandonado? Tem certeza disso?</p><p>O homem gargalhou.</p><p>- Conhe�o Lorimaar Alto-Braith e o gordo Saanel bem demais, e n�o correria o risco de iniciar um alto agravo por uma coisa dessas. N�o, encontramos os corpos deles tamb�m. Algum inimigo ficou esperando por eles no acampamento, acreditamos que dentro do aerom�vel, e quando retornaram da ca�ada... - gesticulou. - N�o pegar�o mais cabe�as, seja de quase-homens ou n�o.</p><p>- Mortos? - Gwen tinha a boca apertada.</p><p>- Completamente mortos, h� v�rios dias - o kavalariano respondeu. - Carniceiros haviam atacado os cad�veres, � claro, mas ainda havia o suficiente para determinar quem eram. Encontramos outro aerom�vel nas proximidades, no pr�prio lago, na verdade, abatido e in�til, e tamb�m marcas na areia que indicavam que outros ve�culos estiveram por l� e partiram. O aerom�vel de Lorimaar ainda estava funcionando, embora estivesse cheio de c�es Braiths mortos. N�s o limpamos e o reivindicamos. Meu<emphasis> teyn </emphasis>est� vindo logo atr�s, com nosso pr�prio carro - Vikary assentiu.</p><p>- Esses s�o eventos bastante incomuns - o homem prosseguiu. Examinava os tr�s astutamente, com indisfar�ado interesse. Seu olhar permaneceu por um tempo desconfortavelmente longo em Dirk, e ent�o no bracelete de ferro negro de Gwen, mas n�o fez coment�rios. - Poucos Braiths s�o vistos ultimamente, menos do que o normal, e agora encontramos dois deles assassinados.</p><p>- Se procurar um pouco, encontrar� outros - Gwen comentou.</p><p>- Est�o come�ando um novo grupo - Dirk acrescentou - no inferno.</p><p>Quando o homem se foi, os tr�s voltaram lentamente para a torre de vigil�ncia. Ningu�m falou nada. Longas sombras estendiam-se a partir de seus p�s e os seguiam pelas ruas escuras e carmesins. Gwen caminhava como se estivesse exausta. Vikary estava quase exultante; carregava seu rifle com cuidado, pronto para empunhar e atirar se Bretan Braith repentinamente cruzasse seu caminho, e seus olhos examinavam cada beco e canto escuro pelos quais passavam.</p><p>De volta � claridade da sala comum, Gwen e Dirk se largaram no ch�o, enquanto Jaan permaneceu um momento parado na porta, o rosto pensativo. Ent�o deixou as armas de lado e abriu uma garrafa de vinho, o mesmo licor envelhecido e pungente que partilhara com Garse e Dirk na noite anterior ao duelo que nunca aconteceu. Serviu tr�s ta�as e as distribuiu.</p><p>- Bebamos - disse, erguendo sua ta�a em um brinde. - O c�rculo se fecha. Agora s� sobra Bretan Braith. Logo ele estar� com seu Chell, ou eu estarei com Garse, e em ambos os casos teremos paz - bebeu rapidamente. Os outros deram um gole. - Ruark devia beber conosco - Vikary anunciou abruptamente, enquanto enchia sua ta�a novamente.</p><p>O kimdissiano n�o os acompanhara em seu encontro noturno. Mas sua relut�ncia n�o parecia ser causada pelo medo; pelo menos Dirk n�o achou isso no momento. Jaan o despertara e Ruark estava vestido com o resto deles, usando seu melhor traje de seda sint�tica e uma boina vermelha, mas quando Vikary lhe estendeu um rifle, ele apenas olhara com um sorriso curioso e devolvera a arma. Ent�o dissera:</p><p>- Tenho meu pr�prio c�digo, Jaantony, e voc� precisa respeitar isso. Obrigado, mas acho que ficarei aqui - falara com dignidade serena; sob os cabelos loiro-platinados, seus olhos pareciam quase alegres. Jaan lhe dissera, ent�o, que continuasse vigiando da torre, e Ruark consentiu.</p><p>- Arkin odeia vinho kavalariano - Gwen disse, cansada, diante da sugest�o de Jaan.</p><p>- Isso n�o importa - Jaan respondeu. - Isso � um la�o entre <emphasis>kethi,</emphasis> n�o uma festa. Ele deveria beber conosco - deixou a ta�a de lado e subiu a escada para a torre com entusiasmo.</p><p>Quando voltou um pouco mais tarde, o entusiasmo se fora. Desceu o �ltimo metro de uma s� vez, e ficou olhando para Gwen e Dirk.</p><p>- Ruark n�o beber� conosco - declarou. - Ele se enforcou.</p><p>Naquele amanhecer, o oitavo da vig�lia deles, foi Dirk quem saiu para caminhar.</p><p>N�o percorreu as ruas de Larteyn. Em vez disso, andou pelas muralhas da cidade. Tinham tr�s metros de largura e eram de pedra negra revestidas por grossas placas de pedrardente, ent�o n�o havia perigo de cair. Como Gwen levara Jaan para a cama depois de cortar a corda que prendia o corpo de Ruark, Dirk estava sozinho de guarda, contemplando as muralhas com o laser inutilmente nas m�os e os bin�culos pendurados no pesco�o, quando o primeiro dos s�is amarelos apareceu e os fogos da noite come�aram a se apagar. A necessidade de sair ca�ra sobre ele repentinamente. Sabia que Bretan Braith n�o voltaria � cidade; a guarda era uma formalidade agora. Deixou o rifle apoiado contra a parede, perto da janela, vestiu algo mais quente e saiu.</p><p>Caminhou um longo trecho. Outras torres de vigil�ncia muito parecidas com a que ocupavam se erguiam em intervalos regulares. Passou por seis delas e estimou a dist�ncia entre uma torre e outra como sendo de aproximadamente trezentos metros. Cada torre tinha sua g�rgula, e nenhuma delas era igual � outra, percebeu. Agora, depois de tudo o que acontecera, repentinamente os reconheceu. Essas g�rgulas n�o eram tradicionais, como aquelas feitas na Antiga Terra; eram os dem�nios do mito kavalariano, vers�es grotescamente m�ticas dos dactiloides, dos Hruun e dos sugadores de almas<emphasis> githyanki.</emphasis> Todos reais, em certo sentido. Em algum lugar entre as estrelas, cada uma daquelas ra�as ainda vivia.</p><p>As estrelas. Dirk parou para olhar o c�u. O Olho do Inferno come�ara a se erguer no horizonte; a maioria das estrelas j� se fora. Viu apenas uma, muito fraca, um pequeno ponto vermelho emoldurado por tufos de nuvens cinzentas. Observou-a desaparecer. A estrela de Alto Kavalaan, pensou. Garse Janacek a mostrara para ele, uma guia durante sua fuga.</p><p>Havia poucas estrelas neste mundo, de qualquer modo. Esses n�o eram lugares para os homens viverem, esses mundos como Worlorn, Alto Kavalaan, Escuralba... esses mundos exteriores. O Grande Mar Negro estava perto demais, e o V�u do Tentador ocultava a maior parte da gal�xia, e os c�us eram tristes e vazios. Um c�u tinha que ter estrelas.</p><p>Um homem tinha que ter um c�digo tamb�m. Um amigo, um <emphasis>teyn,</emphasis> uma causa - algo al�m de si mesmo.</p><p>Dirk caminhou para a borda externa da muralha e ficou olhando para baixo. Era uma longa,<emphasis> longa</emphasis> queda. Da primeira vez que voara sobre a muralha, em um aeropatinete, perdera o equil�brio s� de olhar para ela. As muralhas desciam por um trecho, e embaixo delas o penhasco descia eternamente. Muito ao longe, um rio corria entre a relva e a neblina matinal.</p><p>Ficou parado com as m�os nos bolsos, os ventos soprando no cabelo, bagun�ando-o um pouco. Ficou parado, olhando. Ent�o pegou a j�ia-sussurrante. Esfregou-a entre o polegar e o indicador, como se fosse um amuleto da sorte.<emphasis> Jenny,</emphasis> pensou. Para onde ela se fora? Nem mesmo a joia podia traz�-la de volta.</p><p>Passos soaram nas proximidades, e ent�o uma voz.</p><p>- Honra ao seu grupo, honra ao seu<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>Dirk se virou, com a joia-sussurrante ainda na m�o. Um velho estava parado perto dele. Mais alto do que Jaan e t�o velho quanto o pobre falecido Chell. Era maci�o e leonino, com uma grande cabeleira selvagem, branca como a neve, que se misturava a uma barba igualmente emaranhada, formando uma magn�fica juba. Mesmo assim, seu rosto era cansado e fraco, como se tivesse s�culos. Apenas seus olhos se sobressa�am, olhos incrivelmente azuis, como os de Garse Janacek, ardendo gelidamente sob grossas sobrancelhas.</p><p>- N�o tenho grupo - Dirk respondeu - e n�o tenho<emphasis> teyn.</emphasis></p><p>- Sinto muito - o homem falou. - Voc� vem de outros mundos?</p><p>Dirk assentiu.</p><p>O velho riu.</p><p>- Bem, est� assombrando a cidade errada, fantasma.</p><p>- Fantasma?</p><p>- Um fantasma do Festival - o velho explicou. - O que mais poderia ser? Estamos em Worlorn, e todos os vivos foram para casa - vestia uma capa de l� negra com imensos bolsos, sobre um traje azul-claro. Um pesado medalh�o de inox pendia sob sua barba, preso por uma longa corrente de couro. Quando tirou as m�os dos bolsos da capa, Dirk viu que n�o tinha um dos dedos. N�o usava braceletes.</p><p>- Voc� n�o tem<emphasis> teyn -</emphasis> Dirk comentou.</p><p>O velho bufou.</p><p>- E claro que tive um<emphasis> teyn,</emphasis> fantasma. Eu era um poeta, n�o um sacerdote. Que tipo de pergunta � essa? Cuidado. Posso tomar como insulto.</p><p>- Voc� n�o usa ferro-e-fogo - Dirk assinalou.</p><p>- Verdade, mas que importa? Fantasmas n�o precisam de j�ias. Meu<emphasis> teyn</emphasis> est� morto h� trinta anos, assombrando alguma fortaleza em A�orrubro, imagino, e eu estou aqui assombrando Worlorn. Bem, apenas Larteyn, verdade seja dita. Assombrar um planeta inteiro seria muito exaustivo.</p><p>- Oh - Dirk sorriu. - Ent�o voc� � um fantasma tamb�m?</p><p>- Bem, sim - o velho respondeu. - Aqui estou, falando com voc� na falta de uma boa corrente para arrastar. O que voc� acha que sou?</p><p>- Acho - falou Dirk -, acho que voc� pode ser Kirak A�orrubro Cavis.</p><p>- Kirak A�orrubro Cavis - o velho repetiu de modo rude e mon�tono. - Eu o conhe�o. Esse sim � um fantasma. Seu destino � assombrar o cad�ver da poesia kavalariana. Passa a noite gemendo e recitando versos dos lamentos de Jamis-Le�o Taal e alguns dos melhores sonetos de Erik Alto-Jadeferro Devlin. Durante a lua cheia, entoa c�nticos das batalhas Braith e, algumas vezes, o hino f�nebre dos antigos canibais das Moradas do Carv�o Profundo. Um fantasma, na verdade, e um muito pat�tico. Quando realmente quer atormentar suas v�timas, recita alguns de seus pr�prios versos. Eu lhe asseguro que assim que ouvir Kirak A�orrubro recitar, voc�<emphasis> rezar�</emphasis> por correntes arrastando.</p><p>- Verdade? - Dirk perguntou. - N�o entendo por que ser um poeta � algo t�o fantasmag�rico.</p><p>- Kirak A�orrubro escreve poesias em antigo kavalariano - o homem disse franzindo o cenho. - E<emphasis> isso</emphasis> � o suficiente. � uma l�ngua morta. Ent�o, quem vai ler o que ele escreve? Em seu pr�prio grupo, os homens crescem falando apenas a l�ngua-padr�o. Talvez traduzam sua poesia, mas dificilmente valer� o esfor�o, voc� sabe. Na tradu��o, a rima se perde, e a m�trica manca como um quase-homem com dor nas costas.<emphasis> Nada</emphasis> fica bom em uma tradu��o, nem um pouco. As sonoras cad�ncias de Galen Pedrardente, os doces hinos de Laaris-Cego Alto-Kenn, todos aqueles tristes pequenos Shanagates exaltando o ferro-e-fogo, mesmo as can��es das<emphasis> eyn-kethi,</emphasis> que dificilmente podem ser consideradas poesia. Tudo morto, cada peda�o, sobrevivendo apenas em Kirak A�orrubro. Sim, o homem � um fantasma. Por que ele veio para Worlorn? Este � um mundo de fantasmas - o velho alisou a barba enquanto observava Dirk. - Voc� � o fantasma de algum turista, eu diria. Sem d�vida se perdeu enquanto procurava um banheiro, e est� vagando desde a �poca do Festival.</p><p>- N�o - Dirk respondeu. - N�o. Eu estava procurando por outra coisa - sorriu e mostrou a j�ia-sussurrante.</p><p>O velho estudou a pedra, apertando os duros olhos azuis, enquanto o vento agitava sua capa.</p><p>- O que quer que seja, provavelmente est� morto - concluiu.</p><p>Muito abaixo deles, perto do rio que corria cintilante pela Comuna, veio um som: o fraco e distante grito do banshee. Dirk virou a cabe�a para ver de onde vinha o som. N�o havia nada, nada. Apenas os dois homens parados na muralha, o vento soprando com for�a, e o Olho do Inferno alto no c�u crepuscular. Nenhum banshee. O tempo dos banshees passara em Worlorn. Estavam todos extintos.</p><p>- Morto? - Dirk perguntou.</p><p>- Worlorn est� cheio de coisas mortas - o velho comentou pessoas procurando por coisas mortas e fantasmas - murmurou algo em antigo kavalariano, algo que Dirk n�o compreendeu, e come�ou a se afastar lentamente.</p><p>Dirk o observou partir. Olhou de relance para o horizonte distante, obscurecido por um banco de nuvens azul-acinzentadas. Em algum lugar naquela dire��o estava o porto espacial, e - tinha certeza disso - Bretan Braith.</p><p>- Ah, Jenny - falou, conversando com a joia-sussurrante; atirou-a ao ar, como um menino joga uma pedra. A joia voou um pouco e logo come�ou a cair.</p><p>Pensou por um instante em Gwen e Jaan, e por v�rios instantes em Garse. Voltou-se para o velho e o chamou, gritando:</p><p>- Fantasma! Espere. Preciso de um favor, de um fantasma para outro!</p><p>O velho parou.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Ep�logo</strong></p><empty-line/><p>Era um local plano e gramado no centro da Comuna, n�o muito distante do porto espacial. Antigamente, nos dias do Festival, jogos eram disputados ali, e atletas de onze dos catorze mundos exteriores competiam por coroas de ferro cristalino.</p><p>Dirk e Kirak A�orrubro chegaram muito antes da hora combinada e ficaram esperando.</p><p>Quando o hor�rio marcado se aproximou, Dirk come�ou a se preocupar. Mas n�o era necess�rio. O aerom�vel com cabe�a de lobo apareceu no c�u como previsto. Primeiro sobrevoou a �rea com os tubos de pulsos esfriando, a pouca altura, para se assegurar de que estavam ali. Logo em seguida aterrissou.</p><p>Bretan Braith caminhou na dire��o deles pisando na grama morta, as botas negras esmagando um punhado de flores murchas. A tarde ca�a. Seus olhos come�avam a brilhar.</p><p>- Me falaram a verdade, ent�o - Bretan disse para Dirk, com um toque de assombro na voz �spera, a mesma voz que Dirk ouvira tantas vezes em seus pesadelos, uma voz v�rias oitavas abaixo e muito tortuosa para algu�m t�o esbelto e delgado quanto Bretan. - Voc� est� realmente aqui - o Braith ficou a v�rios metros de dist�ncia, olhando para eles, infinitamente puro, vestido em um traje de duelo branco com uma m�scara de lobo p�rpura bordada embaixo do cora��o. Seu cintur�o negro levava duas armas: um laser do lado esquerdo e uma enorme pistola autom�tica de metal azul-acinzentado do lado direito. Seu bracelete de ferro estava sem as pedrardentes. - N�o acreditei que o velho A�orrubro dissesse a verdade - confessou. - Mesmo assim, pensei, o lugar � bem perto e n�o far� mal conferir. Posso retornar ao porto rapidamente se for mentira.</p><p>Kirak A�orrubro ajoelhou-se e come�ou a riscar um quadrado na grama.</p><p>- Voc� presume que eu o honrarei com um duelo - Bretan falou. - N�o tenho motivo para fazer isso - moveu a m�o direita, e repentinamente Dirk estava encarando o cano da pistola autom�tica. - Por que n�o o mataria? Aqui e agora?</p><p>Dirk deu de ombros.</p><p>- Mate-me se quiser - disse - mas me responda algumas quest�es primeiro.</p><p>Bretan o encarou sem dizer nada.</p><p>- Se eu tivesse ido at� voc� em Desafio - Dirk prosseguiu - se tivesse ido at� os por�es, como voc� queria, voc� teria duelado comigo, ent�o? Ou me matado como um quase-homem?</p><p>Bretan guardou a arma no coldre.</p><p>- Eu teria duelado com voc�. Em Larteyn, em Desafio, aqui... n�o faz diferen�a. Eu teria duelado com voc�. Eu n�o acredito em quase-homens, t'Larien. Nunca acreditei em quase-homens. Apenas em Chell, que usava meu la�o e que, de algum modo, n�o se incomodava com meu rosto.</p><p>- Sim - Dirk falou. Kirak A�orrubro tinha desenhado metade do quadrado. Dirk olhou de relance para o c�u e se perguntou quanto tempo tinha. - E uma outra coisa, Bretan Braith. Como sabia que devia nos procurar em Desafio, naquela cidade entre tantas outras?</p><p>Bretan deu de ombros do modo estranho que lhe era caracter�stico.</p><p>- O kimdissiano me falou, por um pre�o. Todos os kimdissia- nos podem ser comprados. Ele havia colocado um rastreador no casaco que deu para voc�. Acho que usava esses equipamentos no trabalho que fazia.</p><p>- Qual foi o pre�o? - Dirk perguntou. Tr�s lados do quadrado estavam desenhados, linhas brancas na grama.</p><p>- Jurei por minha honra que n�o causaria danos a Gwen Del- vano, e que a protegeria contra os demais. - Os �ltimos raios de sol sumiam; o �ltimo sol amarelo se juntava aos outros atr�s da montanha.</p><p>- Agora - Bretan prosseguiu - tenho uma pergunta para voc�, t'Larien. Por que veio at� mim?</p><p>Dirk sorriu.</p><p>- Porque gosto de voc�, Bretan Braith. Voc� incendiou Kryne Lamiya, n�o foi?</p><p>- E verdade - Bretan admitiu. - Esperava queim�-lo tamb�m, e a Jaantony Alto-Jadeferro, o renegado. Ele ainda vive?</p><p>Dirk n�o respondeu aquela quest�o.</p><p>Kirak A�orrubro se levantou e limpou o giz das m�os. O quadrado estava completo. Pegou o jogo de espadas; sabres retos de a�o kavalariano, com pedrardentes e jade nas empunhaduras. Bretan escolheu um e o experimentou - a arma moveu-se pelo ar com uma can��o e um guincho -, ent�o foi para tr�s, satisfeito, na dire��o de um canto do quadrado. Estava muito tranq�ilo enquanto esperava; por um instante, pareceu quase sereno, uma delgada figura negra inclinando-se ligeiramente sobre a espada. Como o barqueiro, Dirk pensou, e involuntariamente olhou de relance para o carro-lobo, para ter certeza de que n�o tinha se transformado em uma barca�a. Seu cora��o palpitava com for�a.</p><p>Deixou o pensamento de lado, pegou a outra espada e retrocedeu para seu lugar. Kirak A�orrubro sorriu para ele. Ser� f�cil, Dirk disse a si mesmo. Tentou se lembrar dos avisos que Garse Jadeferro lhe dera havia muito tempo. Receber um golpe e dar um golpe, e � tudo, disse a si mesmo. Estava muito assustado.</p><p>Bretan jogou suas pistolas no ch�o, fora do quadrado da morte, e moveu o sabre para frente e para tr�s, soltando os m�sculos do bra�o. Ainda que sete metros os separassem, Dirk podia ver as contra��es em seu rosto.</p><p>Por cima do ombro direito de Bretan, uma estrela estava subindo. Azul-esbranqui�ada, enorme e muito pr�xima, subia pelo veludo azul-escuro do c�u at� o z�nite. E, al�m do z�nite, Dirk pensou, para Eshellin, depois di-Emerel e para o Mundo do Oceano de Vinhonegro. Desejou-lhes sorte.</p><p>Kirak Cavis saiu do quadrado da morte e disse uma palavra em antigo kavalariano. Bretan avan�ou, mo vendo-se graciosamente e com leveza, muito branco, o olho brilhando.</p><p>Dirk sorriu do jeito que Garse teria sorrido, afastou o cabelo negro dos olhos e foi de encontro ao seu advers�rio. Nenhuma estrela iluminou sua l�mina quando ele a ergueu para atingir a de Bretan. O vento soprava. Estava muito frio.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Gloss�rio</strong></p><empty-line/><p><strong>A�orrubro.</strong> Um dos quatro grupos-coaliz�o modernos de Alto Kavalaan. A�orrubro � considerado um dos dois grupos mais progressistas do planeta. O termo � usado tamb�m para designar qualquer membro do grupo A�orrubro.</p><empty-line/><p><strong>Alto</strong><strong> Kavalaan.</strong> Mundo humano na Orla, colonizado durante a Guerra Dupla por refugiados e mineiros de Tara. Invas�es dos hranganos destru�ram a maior parte da col�nia original; os sobreviventes desenvolveram a moderna civiliza��o de grupos kavalariana. A sociedade kavalariana � ao mesmo tempo regimentada e individualista; a cultura enfatiza tanto a lealdade quanto a honra pessoal. Quase em estado de barb�rie quando redescobertos por mercadores em tempos mais recentes, os kavalarianos se industrializaram muito rapidamente, educaram os jovens e adquiriram a pr�pria frota de naves estelares. Alto Kavalaan, que reivindica jurisdi��o legal sobre o planeta errante Worlorn, era uma das for�as condutoras do Festival da Orla.</p><empty-line/><p><strong>Anjos</strong><strong>de</strong><strong> A�o.</strong> Apelido popular para designar os membros de um poderoso e difundido movimento militar-religioso que nasceu entre os soldados do Imp�rio Federal durante a Guerra Dupla e que, desde essa �poca, tem persistido e crescido. Os Anjos de A�o acreditam que apenas os humanos (a semente da Terra) t�m alma, que a sobreviv�ncia da ra�a � o principal objetivo a ser alcan�ado, que a for�a � a �nica virtude verdadeira. Atualmente, a partir de sua capital em Basti�o, os Anjos governam uma d�zia de planetas e t�m col�nias, miss�es e postos avan�ados em centenas mais. Os membros do culto se autodenominam<emphasis> Filhos de Bakkalon.</emphasis> As exatas origens do movimento s�o temas de controv�rsias. Os Anjos passaram por dois grandes cismas e empreenderam v�rias guerras, em geral contra n�o humanos sencientes.</p><p><strong>Antiga</strong><strong> Hranga.</strong> Planeta natal da ra�a hrangana, e um dos poucos lugares em que as Mentes Hranganas sobrevivem em n�mero consider�vel.</p><empty-line/><p><strong>Antiga</strong><strong> Posseidon.</strong> Mundo humano de terceira gera��o colonizado na primeira �poca do per�odo Federal. Um planeta de mares turbulentos e riquezas insuspeitadas, Antiga Posseidon em pouco tempo se tornou um importante centro comercial e zona estrat�gica. Em menos de um s�culo, os posseid�nios estavam construindo as pr�prias naves estelares e enviando colonos a outros mundos; colonizaram mais de vinte planetas, incluindo o Mundo de Jamison.</p><empty-line/><p><strong>Antiga Terra.</strong> Planeta natal da ra�a humana, antigamente a capital do Imp�rio Federal. Durante o interregno, e depois da revolta de boa parte de suas for�as armadas, a Antiga Terra ordenou o regresso de seus destacamentos militares e se exilou do resto da humanidade. O embargo segue vigente, com apenas algumas exce��es. H� muitas lendas e conjecturas sobre a vida da Antiga Terra atualmente, mas poucos fatos concretos. � tamb�m conhecida como<emphasis> Terra</emphasis> ou<emphasis> Lar.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>�valon.</strong> Mundo humano dos devascados, colonizado por Nova Holme durante o primeiro s�culo do Imp�rio Federal. Zona estrat�gica durante a Guerra Dupla, �valon nunca abandonou as viagens estelares e desempenhou um papel importante no fim do interregno, por meio de um vigoroso programa de explora��o, com�rcio e reeduca��o. Depois disso, tornou-se centro de aprendizagem. A Academia de Conhecimentos Humanos e os muitos institutos a ela associados se localizam em �valon. O planeta � tamb�m um importante centro comercial, com a maior frota mercantil das devascadas. Naves de �valon freq�entemente comercializam conhecimento, tanto quanto mercadorias.</p><p><strong>Bakkalon.</strong> Deidade adorada pelos Anjos de A�o, freq�entemente descrita como um menino nu segurando uma espada negra; � conhecida tamb�m como<emphasis> o menino p�lido.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>Baldur.</strong> Col�nia humana de primeira gera��o, com colonos que partiram diretamente da Terra nos primeiros anos dos voos espaciais. Regi�o estrat�gica durante a Guerra Dupla, � atualmente um importante centro comercial.</p><empty-line/><p><strong>Banshee.</strong> Tamb�m conhecido como<emphasis> banshee negro,</emphasis> � um predador a�reo, nativo de Alto Kavalaan.</p><empty-line/><p><strong>Basti�o.</strong> Mundo humano nas devascadas, ignoram-se os detalhes de sua coloniza��o. Sabe-se que Basti�o foi, antigamente, uma col�nia humana, depois tomado pelos hranganos durante a Guerra Dupla. Foi retomado pelos humanos posteriormente e hoje � governado pelos Anjos de A�o, que tornaram o mundo sua capital.</p><empty-line/><p><strong>Betheyn.</strong> Termo kavalariano para mulher ligada a um homem e sob sua prote��o; literalmente,<emphasis> esposa-escrava.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>Braith.</strong> Um dos quatro grupos-coaliz�o modernos de Alto Kavalaan, Braith � geralmente considerado o mais tradicional. O termo tamb�m � usado para designar qualquer membro do grupo Braith.</p><empty-line/><p><strong>Braque.</strong> Mundo humano perto do V�u do Tentador, no limite das devascadas. Braque � primitivo e supersticioso, governado por uma casta sacerdotal que controla estritamente o desenvolvimento tecnol�gico.</p><empty-line/><p><strong>Cidade de Haapala.</strong> Cidade do Festival constru�da por Tocadelobo. Recebeu o nome como homenagem a Ingo Haapala, o astr�nomo lupino que descobriu que Worlorn passaria atrav�s da Roda de Fogo.</p><p><strong>Cidade do Tanque sem Estrelas.</strong> Cidade do Festival constru�da em Worlorn, sob as �guas de um lago artificial, pelo Mundo do Oceano Vinhonegro.</p><empty-line/><p><strong>Colapso.</strong> Per�odo em que o Imp�rio Federal da Antiga Terra se desintegrou e ruiu. � dif�cil precisar a data do Colapso; a guerra tornou a comunica��o entre os mundos mais ca�ticas do que o usual, e cada planeta experimentou o Colapso de maneira pr�pria e em seu pr�prio tempo. A maioria dos historiadores cita a revolta em Thor e a destrui��o de Wellington como os eventos-chave da queda do Imp�rio Federal, mas assinalam que, nas col�nias mais afastadas, o Imp�rio j� era apenas uma fic��o s�culos antes disso.</p><empty-line/><p><strong>Coroa do Inferno.</strong> Um dos nomes do conjunto de seis estrelas amarelas que circunda a supergigante vermelha chamada<emphasis> Olho do Inferno</emphasis> e que, junto com ela, formam a Roda de Fogo. Tamb�m conhecidas como<emphasis> Filhos de Sat� e S�is Troianos,</emphasis> as seis estrelas s�o praticamente id�nticas e posicionam-se como os v�rtices de um hex�gono imagin�rio.</p><empty-line/><p><strong>Cro-betheyn.</strong> Termo kavalariano para o la�o da<emphasis> betheyn</emphasis> com o<emphasis> teyn</emphasis> do alto-senhor; literalmente,<emphasis> esposa-escrava partilhada.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>Cubo.</strong><emphasis> Ver</emphasis> Sat� Gordo.</p><empty-line/><p><strong>Dactiloides.</strong> Termo humano para designar uma ra�a-escrava hrangana empregada como tropa de choque durante a Guerra Dupla. O nome prov�m de uma vaga semelhan�a com os pterod�tilos da pr�-hist�ria da Antiga Terra. Os dactiloides eram selvagens, mas dotados de pouca intelig�ncia e apenas semi-sencientes.</p><empty-line/><p><strong>Daronne.</strong> Mundo humano nas devascadas, perto do V�u do Tentador. Colonizado pelo menos tr�s vezes por alien�genas e duas vezes por humanos, Daronne � uma colcha de retalhos de culturas esot�ricas.</p><p><strong>D�cimo-Segundo Sonho.</strong> Cidade do Festival constru�da em Worlorn por Kimdiss. D�cimo-Segundo Sonho era considerada, pelos visitantes mais sofisticados, a mais est�tica das catorze cidades erigidas para o Festival da Orla. Seu nome vem da religi�o kimdissiana: o universo, e tudo o que nele existe, foi criado pelo Sonhador, cujo d�cimo-segundo sonho era a Beleza Insuperada.</p><empty-line/><p><strong>Desafio.</strong> Cidade do Festival constru�da em Worlorn por di-Emerel. Desafio � uma arcologia autom�tica e autossuficiente, operada por computador.</p><empty-line/><p><strong>Devascadas.</strong> G�ria lupina, agora comum entre os mundos exteriores, para indicar a �rea espacial entre a Orla e os mundos altamente civilizados da Antiga Terra. O Imp�rio Hrangano ocupou um grande peda�o do que agora � conhecido como devascadas. A regi�o foi palco dos epis�dios mais terr�veis da Guerra Dupla, deixando muitos planetas arruinados e muitas civiliza��es "devastadas", de onde derivou o termo. Not�veis mundos humanos est�o nas devascadas, incluindo �valon, Basti�o, Prometeus e o Mundo de Jamison.</p><empty-line/><p><strong>di.</strong> Depois do Interregno.</p><empty-line/><p><strong>di-Emerel.</strong> Mundo humano na Orla, colonizado logo ap�s o interregno (por isso o<emphasis> di-)</emphasis> por arcologitas de Daronne. A civiliza��o emereliana � tecnologicamente avan�ada, culta, pac�fica, mas est�tica e um tanto quanto regimentada. Os cidad�os vivem em torres-cidades de quil�metros de altura (arcologias) cercadas por fazendas e florestas, mas nunca deixam os edif�cios em que nascem. Os descontentes podem servir na frota estelar mercantil de di-Emerel, mas n�o podem retornar �s suas torres natais.</p><empty-line/><p><strong>Emereliano.</strong> Nativos de di-Emerel.</p><p><strong>Erikan.</strong> Mundo humano cujo nome vem da l�der religiosa Erika Storm- jones, colonizado por seus seguidores e dedicados aos preceitos que ela pregou, especialmente a imortalidade por meio da clonagem.</p><empty-line/><p><strong>Escuralba.</strong> Mundo humano na Orla, perto da borda do espa�o inter- gal�ctico. Depois de Escuralba n�o h� nada; os c�us de inverno s�o vazios, com exce��o da luz de gal�xias distantes. O mundo � pouco povoado, solit�rio e tem v�rios cultos religiosos estranhos. O controle do clima � uma arte aperfei�oada ao longo do tempo, mas, fora isso, a tecnologia n�o � enfatizada.</p><empty-line/><p><strong>Escuralbinos.</strong> Residentes de Escuralba.</p><empty-line/><p><strong>Eshellin</strong>. Mundo humano na Orla, colonizado por imigrantes de Daronne. Relativamente primitivo e esparsamente povoado.</p><empty-line/><p><strong>Esperan�a</strong><strong> do Trapaceiro.</strong> Mundo humano na regi�o celiana, antigamente capital desta zona.</p><empty-line/><p><strong>Espetros arb�reos</strong>. Pequenos roedores predat�rios nativos de Kimdiss, chamados assim porque trocam de pele v�rias vezes antes da maturidade e deixam as "cascas" transparentes ao redor do ninho para espantar os inimigos.</p><empty-line/><p><strong>Estarrocha.</strong> Mundo artificial entre Prometeus e Rhiannon criado pelo Imp�rio Federal para ser usado como base operacional durante a Guerra Dupla. Estarrocha est� localizada no meio do espa�o, n�o orbita nenhuma estrela e � bem pequena. De certo modo, parece mais com uma enorme nave espacial estacion�ria do que com um planeta de verdade. Atualmente � dominada por Prometeus.</p><empty-line/><p><strong>Estranguladores.</strong> Esp�cie comum de �rvore toberiana.</p><empty-line/><p><strong>Esvoch.</strong> Cidade do Festival constru�da por Eshellin.</p><empty-line/><p><strong>Eyn-kethi.</strong> Termo kavalariano para mulher parideira do grupo, sexualmente dispon�vel para todos os homens; literalmente,<emphasis> ligada aos irm�os do grupo.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>Filho</strong><strong> do Sonhador.</strong> L�der religioso que viveu em Deirdre em meados do per�odo Federal. O Filho do Sonhador pregava um credo de pacifismo f�sico e agress�o psicol�gica e dizia a seus seguidores para resistir aos seus inimigos com esperteza, em vez de for�a. Hoje, seus ensinamentos s�o influentes em Kimdiss, Kayan, Tamber e em v�rios outros mundos.</p><p>Filhos de Sat�.<emphasis> Ver</emphasis> Coroa do Inferno.</p><empty-line/><p><strong>Fyndii</strong>. Ra�a alien�gena e primeiros extraterrestres sencientes a fazer contato com a humanidade. Os fyndii foram um dos inimigos que o Imp�rio Federal enfrentou na Guerra Dupla. Nenhum tipo de lealdade de ra�a parece unir os fyndii; sua sociedade � baseada em "hordas" empaticamente ligadas, e cada horda � uma rival ferrenha de todas as outras. Insens�veis e incapazes de estabelecer la�os duradouros, s�o p�rias sem amigos. Os fyndii governam aproximadamente noventa mundos, geralmente perto dos mundos colonizados pelos homens.</p><empty-line/><p><strong>Githyanki.</strong> Ra�a-escrava hrangana, freq�entemente chamada de<emphasis> sugadores de almas</emphasis> pelos humanos. Quase n�o sencientes, mal�volos e telepatas potentes, os<emphasis> githyanki</emphasis> eram capazes de alterar e controlar mentes humanas, criando falsas vis�es, alucina��es e sonhos, fortalecendo o lado animal do homem e entortando ju�zo e racioc�nio, com o prop�sito final de colocar irm�os contra irm�s.</p><empty-line/><p><strong>Grande Mar Negro.</strong> Termo dos mundos exteriores que designa o espa�o entre as gal�xias, onde n�o h� estrelas.</p><p><strong>Grupo Jadeferro.</strong> Um dos quatro grupos-coaliz�o modernos de Alto Kavalaan. O grupo Jadeferro � um dos dois grupos kavalarianos mais progressistas.</p><empty-line/><p><strong>Grupo</strong><strong> Shanagate.</strong> Um dos quatro grupos-coaliz�o modernos de Alto Kavalaan.</p><empty-line/><p><strong>Grupo.</strong> Unidade social b�sica de Alto Kavalaan. O termo tamb�m � utilizado para designar uma c�mara subterr�nea ou uma s�rie de c�maras, facilmente defens�veis contra ataques, que abriga de seis a uma centena de pessoas. Antigamente, cada grupo era uma entidade independente, uma combina��o de fam�lia e na��o. Em pouco tempo, no entanto, os grupos come�aram a fazer alian�as e a se fundir com outros grupos, e at� mesmo fazer passagens subterr�neas; esses grupos s�o chamados grupos-coaliz�o. Em tempos modernos, o termo<emphasis> grupo</emphasis> � usado com mais liberdade para designar o que seria mais adequadamente chamado grupo-coaliz�o.</p><empty-line/><p><strong>Guerra Dupla.</strong> Conflito com s�culos de dura��o entre o Imp�rio Federal e duas ra�as alien�genas, os fyndii e os hranganos. � tamb�m conhecida como<emphasis> Grande Guerra, Guerra Fyndii, Conflito Hrangano, Guerra dos Mil Anos</emphasis> ou simplesmente<emphasis> A Guerra.</emphasis> Em muitos sentidos, a Guerra Dupla foi, na verdade, dois conflitos; os inimigos nunca tiveram contato uns com os outros e jamais chegaram a ser aliados, ainda que ambos estivessem engajados em uma guerra contra a humanidade. O Imp�rio Federal ocupou o espa�o entre os dois inimigos e, por isso, lutou em duas frentes; enquanto as hordas fyndii se dirigiam para o Centro, o ent�o chamado Imp�rio Hrangano atacava a orla da gal�xia. A guerra contra os fyndii come�ou primeiro e foi, de modo geral, um conflito mais curto e mais leal, finalmente resolvido atrav�s de negocia��es e pela interven��o de uma terceira ra�a alien�gena, os Damoosh. Os hranganos eram consideravelmente menos compreens�veis e muito mais inflamados. As hostilidades nunca terminaram oficialmente entre Hranga e a Terra; as duas civiliza��es sofreram um colapso. A humanidade passou pelo interregno e se recuperou, embora nunca mais como uma �nica unidade pol�tica. Os hranganos sofreram genoc�dio virtual nas m�os de suas pr�prias ra�as-escravos e dos colonizadores humanos.</p><empty-line/><p><strong>Homens alterados.</strong> Humanos geneticamente alterados do mundo de Prometeus. Os cirurgi�es prometenses fazem experi�ncias constantes, por isso h� muitas variedades de Homens Alterados. Na linguagem comum, o termo costuma designar todos os prometenses.</p><empty-line/><p><strong>Hranganos.</strong> Grandes inimigos da humanidade durante a Guerra Dupla, os hranganos eram talvez os alien�genas mais estranhos j� encontrados. Seu sistema social era estruturado a partir de uma s�rie de castas biol�gicas que, em sua maioria, pareciam pertencer a esp�cies diferentes, de t�o distintas que eram. Entre os milh�es de hranganos, apenas os chamados Mentes eram realmente inteligentes, e a humanidade nunca se comunicou com �xito nem mesmo com eles. Os hranganos eram incrivelmente xen�fobos. Antes da Guerra Dupla, haviam escravizado uma d�zia de ra�as menos avan�adas, e h� evid�ncias de terem exterminado outras completamente. A guerra efetivamente destruiu os hranganos, exceto na Antiga Hranga e em um punhado de suas col�nias mais antigas.</p><empty-line/><p><strong>Hruun.</strong> Ra�a-escrava hrangana usada freq�entemente em combate na Guerra Dupla. Os hruun eram mais inteligentes do que a maioria dos escravos hranganos. Seu mundo natal era um planeta de alta gravidade (segundo os padr�es humanos), por isso eram guerreiros de for�a descomunal. Entre seus atributos estava a vis�o infravermelha, o que os tornava especialmente adequados para o combate noturno.</p><empty-line/><p><strong>Imperiais da Terra.</strong> Originalmente, administradores enviados da Terra durante o apogeu do Imp�rio Federal. Depois do interregno, o termo passou a denominar qualquer humano que viveu durante o per�odo do Imp�rio.</p><empty-line/><p><strong>Imp�rio Federal.</strong> Unidade pol�tica que governou o espa�o humano durante os primeiros s�culos dos v�os espaciais. Colonizou a maior parte dos mundos de primeira e segunda gera��o (al�m de alguns de terceira), empreendeu a Guerra Dupla e colapsou durante o conflito. O termo em si era convenientemente equ�voco; o ent�o chamado imp�rio era, na verdade, uma burocracia democr�tica-socialista-cibern�tica. As decis�es finais estavam a cargo de um administrador-chefe, que era eleito e respondia a uma legislatura tricameral localizada em Genebra, na Antiga Terra. Mas a maioria das decis�es cotidianas na pr�pria Terra eram conduzidas por intelig�ncias artificiais, em vastos centros de computa��o. Nos anos turbulentos da Guerra Dupla, o Imp�rio Federal tornou-se cada vez mais repressivo e perdeu contato com as col�nias e at� mesmo com os bra�os militares.</p><empty-line/><p><strong>Interregno.</strong> Per�odo hist�rico entre o Colapso e a retomada dos voos espaciais. Por sua natureza, o interregno � dif�cil de ser datado com precis�o. Alguns mundos enfrentaram o Colapso mais cedo, outros, mais tarde; alguns ficaram sem voos estelares por cinco anos, alguns por cinq�enta, alguns por quinhentos; alguns - como �valon, Baldur, Nova Holme e Antiga Terra - nunca ficaram realmente isolados do resto da humanidade, enquanto outros talvez ainda n�o tenham sido redescobertos. Normalmente, diz-se que o interregno durou "uma gera��o"; isso � v�lido como uma aproxima��o rude, considerando-se apenas os principais mundos humanos.</p><empty-line/><p><strong>J�ia-sussurrante.</strong> Um cristal "talhado" psionicamente para reter certas emo��es ou pensamentos. Essas emo��es ou pensamentos s� podem ser percebidos quando o cristal � segurado por mentes "ressoantes" ou sens�veis. Qualquer tipo de cristal pode ser transformado em uma j�ia-sussurrante, mas certos tipos de gemas ret�m os padr�es melhor do que outros. A for�a e a clareza de uma j�ia-sussurrante tamb�m pode variar com o tempo, e com o grau de habilidade do �sper que a talhou. As j�ias-sussurrantes de �valon s�o muito apreciadas; �valon tem tanto cristais de excelente qualidade quanto v�rios �spers com talentos potentes. Alguns mundos menos desenvolvidos s�o conhecidos por produzir j�ias-sussurrantes ainda melhores, mas esses produtos raramente chegam ao mercado interestelar.</p><empty-line/><p><strong>Kavalariano.</strong> Nativo de Alto Kavalaan.</p><empty-line/><p><strong>Kenn.</strong> Grupo-coaliz�o kavalariano extinto.</p><empty-line/><p><strong>Keth, kethi.</strong> Termos kavalarianos para os homens de qualquer grupo ou grupo-coaliz�o; literalmente<emphasis> irm�o(s) de grupo.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>Kimdiss.</strong> Mundo humano na Orla, colonizado por um grupo religioso pacifista, � atualmente a maior for�a comercial dos mundos exteriores. Os kimdissianos s�o tradicionalmente n�o violentos e, por isso, hostis ao c�digo de honra de Alto Kavalaan.</p><empty-line/><p><strong>Kimdissiano.</strong> Nativo de Kimdiss.</p><empty-line/><p><strong>Korariel.</strong> Termo kavalariano que significa, literalmente,<emphasis> propriedade protegida.</emphasis> Originalmente usado por indiv�duos ou grupos para designar certos quase-homens ou grupos de quase-homens como presas particulares; quem n�o respeitava estava sujeito a desafio e duelo. Mais tarde, passou a ser usado pelos grupos mais progressistas para proteger os primitivos de serem exterminados pelos ca�adores kavalarianos tradicionais. A rigor, o termo n�o pode ser aplicado para humanos reais, apenas para quase-homens ou animais.</p><empty-line/><p><strong>Kryne Lamiya</strong>. Cidade do Festival constru�da em Worlorn por Escuralba. Freq�entemente chamada de Cidade Sereia, Kryne Lamiya foi projetada para que suas torres fizessem m�sica com os ventos controlados das montanhas. Com isso, tocava ininterruptamente uma sinfonia da principal compositora escuralbina, a niilista Lamiya- Bailis.</p><empty-line/><p><strong>Larteyn.</strong> Cidade do Festival constru�da na cadeia de montanhas de Worlorn por Alto Kavalaan. Larteyn, literalmente, significa<emphasis> ligada ao c�u,</emphasis> ou <emphasis>teyn do c�u.</emphasis> A cidade foi decorada com grandes quantidades de pedrardente e, por isso, � freq�entemente chamada de Fortaleza de Fogo.</p><empty-line/><p><strong>Leteo</strong>. Um dos nomes da primeira col�nia humana na Orla. Tamb�m conhecida como<emphasis> Col�nia Esquecida</emphasis> ou<emphasis> Col�nia Perdida.</emphasis> Todos esses termos t�m origem nos mundos das devascadas; o pr�prio povo perdido chama seu planeta de Terra. Leteo � o mais antigo mundo humano al�m do V�u do Tentador, t�o antigo que todos os detalhes de sua coloniza��o se perderam, restando apenas conjecturas. A popula��o do planeta � em sua maioria formada por pescadores, sem nenhum interesse em outra forma de vida que n�o a deles mesmos.</p><empty-line/><p><strong>Lupino</strong>. Um nativo de Tocadelobo.</p><empty-line/><p><strong>Montanha Pedrardente</strong>. Um dos maiores grupos-coaliz�o da hist�ria kavalariana, finalmente derrotado e destru�do por seus inimigos, agora abandonado.</p><empty-line/><p><strong>Moradas do Carv�o Profundo</strong>. Grupo-coaliz�o mitol�gico de Alto Kavalaan que, segundo as lendas, existiu em tempos remotos. Os integrantes das Moradas do Carv�o Profundo eram canibais que ca�avam e comiam membros dos outros grupos, at� serem destru�dos em guerra. Dizia-se que eram meio humanos, meio dem�nios.</p><empty-line/><p><strong>MRL</strong>. Mais R�pido do que a Luz.</p><p><strong>Mundo de</strong><strong> Jamison</strong>. Mundo humano nas devascadas, colonizado principalmente por Antigo Posseidon. Os jamisianos habitam as abundantes ilhas e arquip�lagos do planeta; o �nico continente � ainda inexplorado. O Mundo de Jamison � um centro industrial e comercial regional, e seus comerciantes rivalizam com �valon.</p><empty-line/><p><strong>Mundo</strong><strong> do Oceano Vinhonegro</strong>. Mundo humano na Orla, colonizado em di-137 por Antigo Posseidon.</p><empty-line/><p><strong>Mundos exteriores</strong>. Termo que designa todos os mundos da Orla, ou seja, as catorze col�nias humanas entre o V�u do Tentador e o Grande Mar Negro.</p><empty-line/><p><strong>Musquel-junto-ao-Mar.</strong> Cidade do Festival projetada como as de Leteo e constru�da em Worlorn por uma coaliz�o de mundos exteriores para a Col�nia Perdida, que n�o tinha tecnologia para cumprir a tarefa com tanta rapidez. Com um porto pitoresco de madeira e tijolos multicoloridos, Musquel era uma das mais populares atra��es do Festival.</p><empty-line/><p><strong>N�o</strong><strong> humano</strong>. Seres humanos que evolu�ram ou sofreram tantas muta��es que n�o podem mais procriar com o resto da ra�a.</p><empty-line/><p><strong>Nova Holme</strong>. Primeira col�nia humana interestelar; um mundo urbanizado, superpovoado e altamente tecnol�gico a apenas 4,3 anos-luz da Antiga Terra. Desde o interregno e o isolamento da Antiga Terra, Nova Holme � normalmente considerada o mundo humano mais avan�ado e o centro do tr�fico comercial interestelar. � tamb�m a capital nominal da ent�o chamada Uni�o da Humanidade, uma unidade pol�tica que reivindica jurisdi��o sobre toda a ra�a humana. Apenas tr�s mundos al�m de Nova Holme reconhecem essa autoridade, no entanto, e a Uni�o � essencialmente uma fic��o.</p><empty-line/><p><strong>Olho do Inferno</strong>.<emphasis> Ver</emphasis> Sat� Gordo.</p><empty-line/><p><strong>Padr�o.</strong> Unidade monet�ria largamente utilizada no com�rcio interestelar e em quase todos os mundos humanos mais importantes. O termo tamb�m designa a linguagem desse com�rcio e da maioria dos viajantes humanos interestelar. � tamb�m chamado<emphasis> Terran, Padr�o Terran, T�rrico</emphasis> e<emphasis> Comum.</emphasis> Tamb�m usado como adjetivo para denotar unidades de tempo correspondentes �quelas da Antiga Terra. Da� vem hora-padr�o, dia-padr�o, ano-padr�o etc.</p><empty-line/><p><strong>Pedrardente.</strong> Pedra nativa de Alto Kavalaan, capaz de estocar luz e emiti-la na escurid�o. A pedrardente � usada tanto em constru��es quanto na fabrica��o de j�ias e � um importante produto de exporta��o kavalariano.</p><empty-line/><p><strong>Prometeus.</strong> Mundo humano nas devascadas, colonizado durante a Guerra Dupla por um destacamento militar do Imp�rio Federal chamado Comando da Guerra Ecol�gica. Localizada bem no centro da zona de guerra e na esfera de influ�ncia hrangana, Prometeus foi quartel-general para as naves de guerra biol�gica que espalhavam doen�as, insetos e pragas (animais e vegetais) entre os hranganos. Ap�s o Colapso, Prometeus retomou os voos estelares rapidamente, e tamb�m preservou e desenvolveu t�cnicas de clonagem e manipula��o gen�tica que haviam sido guardadas cuidadosamente como segredos do Imp�rio Federal. Um dos mundos mais poderosos das devascadas, Prometeus �, de fato, governante de seus vizinhos mais pr�ximos, Rhiannon e Estarrocha, e exerce grande influ�ncia em v�rios outros planetas.<emphasis> Ver tamb�m</emphasis> Homens Alterados.</p><empty-line/><p><strong>Punho de Bronze.</strong> Extinto grupo-coaliz�o de Alto Kavalaan.</p><empty-line/><p><strong>Rhiannon.</strong> Mundo humano nas devascadas, colonizado por Deirdre durante o per�odo intermedi�rio do Imp�rio Federal. Um mundo rico e buc�lico, Rhiannon � tacitamente governado por Prometeus e n�o tem frota estelar pr�pria.</p><empty-line/><p><strong>Roda de Fogo.</strong> Nome do sistema estelar de sete s�is localizado na Orla, atr�s do V�u do Tentador. A Roda � considerada por alguns um monumento artificial de uma ra�a desaparecida de supercriaturas.<emphasis> Ver tamb�m</emphasis> Sat� Gordo, Coroa do Inferno.</p><empty-line/><p><strong>Rommel.</strong> Mundo frio de alta gravidade colonizado diretamente pela Terra logo no in�cio do per�odo Federal. Rommel e Wellington, um planeta-g�meo no mesmo sistema, come�aram como desagrad�veis planetas-pris�es para criminosos da Terra, mas durante a Guerra Dupla, os dois se tornaram o que ficou conhecido como <emphasis>Mundos B�licos,</emphasis> a partir dos quais os Imperiais da Terra enviavam quase todos seus esquadr�es de ataque. Os "b�licos" - termo que designava todos os guerreiros das tropas que partiam de Rommel e Wellington - viviam sua vida sob uma r�gida disciplina militar e recebiam drogas e treinamento especial para desenvolver seu poder de luta. No fim, as altera��es gen�ticas transformaram os b�licos em<emphasis> n�o humanos,</emphasis> incapazes de procriar com outros humanos. Rommel perdeu sua frota estelar durante o Colapso e nunca a recuperou. Comerciantes evitam o planeta; rommelianos s�o considerados desumanos e perigosos.</p><empty-line/><p><strong>Sat� Gordo.</strong> Supergigante vermelha localizada al�m do V�u do Tentador, not�vel pelos seis s�is amarelos que a circundam, formando um hex�gono imagin�rio; o sistema inteiro � chamado Roda de Fogo. Alguns especulam que a Roda foi criada por uma ra�a desaparecida de supercriaturas, capazes de mover s�is. O Sat� Gordo � tamb�m conhecido como <emphasis>O</emphasis><emphasis> Olho do Inferno e O Cubo.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>S�is Troianos.</strong><emphasis> Ver</emphasis> Coroa do Inferno.</p><empty-line/><p><strong>Stormjones.</strong> Planeta primitivo na regi�o celiana, cujo nome homenageia a l�der religiosa Erika Stormjones.<emphasis> Ver tamb�m</emphasis> Erikan.</p><empty-line/><p><strong>Sugador de alga</strong>. Ver<emphasis> githyanki.</emphasis></p><empty-line/><p><strong>Taal.</strong> Grupo-coaliz�o extinto de Alto Kavalaan.</p><empty-line/><p><strong>Tara.</strong> Mundo humano pr�ximo ao V�u do Tentador, nas fronteiras das devascadas. Tara foi colonizada pelo menos cinco vezes por imigrantes de mundos muito distintos, e tamb�m foi repetidamente invadida durante a Guerra Dupla, por isso, atualmente, � lar de muitas culturas estranhas e fragmentadas. As influ�ncias dominantes, contudo, est�o enraizadas na primeira coloniza��o: a Igreja Cat�lica Romana-Irlandesa Reformada, e o governador-guerreiro heredit�rio chamado Cuchulainn.</p><p><strong>Teyn.</strong> Termo kavalariano para um homem ligado a outro homem, normalmente pela vida toda, em uma rela��o de igual para igual; a rela��o mais pr�xima existente entre os kavalarianos; literalmente<emphasis> meu </emphasis>la�o, la�o-�ntimo<emphasis> ou</emphasis> mantido pr�ximo.</p><empty-line/><p><strong>Tober-no-V�u.</strong> Mundo humano no limite exterior do V�u do Tentador, geralmente considerado parte da Orla. Tober foi descoberto e colonizado durante o Colapso pela 17a Frota Humana com base em �valon, em rebeli�o contra o Imp�rio Federal. Os toberianos s�o o mundo exterior mais avan�ado tecnologicamente, superando at� mesmo o Imp�rio Federal no desenvolvimento de escudos energ�ticos e pseudo-mat�ria. Os toberianos mant�m uma poderosa for�a militar e exercem influ�ncia em v�rios dos planetas mais primitivos da Orla.</p><empty-line/><p><strong>Tocadelobo.</strong> Mundo humano na Orla, colonizado durante o Colapso por refugiados de Fenris. A cultura de Tocadelobo � considerada din�mica e vol�til; o planeta � um grande rival econ�mico de Kimdiss e, militarmente, fica atr�s apenas de Tober entre os mundos exteriores.</p><p><strong>V�u do Tentador.</strong> Nuvem de p� interestelar e gases perto da parte superior da lente gal�ctica que impede a vis�o da Roda de Fogo e das estrelas dos outros mundos exteriores; � o limite entre a Orla e as devascadas.</p><empty-line/><p><strong>Vinhonegrino.</strong> Nativo do Mundo do Oceano Vinhonegro.</p><empty-line/><p><strong>Wellington.</strong> Mundo quente de alta gravidade colonizado diretamente da Terra no in�cio do per�odo Federal como uma col�nia penal. Wellington e seu planeta-irm�o, Rommel, mais tarde se tornaram os <emphasis>Mundos B�licos</emphasis> de onde sa�am os ferozes combatentes do Imp�rio Federal.<emphasis> Ver tamb�m</emphasis> Rommel. Toda a vida em Wellington foi destru�da no final da Guerra Dupla, quando a 13a Frota Humana, sob comando de Stephen Cobalt Northstar, se rebelou contra o Imp�rio Federal. O evento � freq�entemente citado como o in�cio do Colapso.</p><empty-line/><p><strong>Worlorn.</strong> Planeta errante descoberto por C�lia Marcyan; local do Festival da Orla entre di-589 e di-599, enquanto passava perto da Roda de Fogo.</p><empty-line/></section></body><binary id="cover" content-type="image/jpeg">/9j/2wBDAAUDBAQEAwUEBAQFBQUGBwwIBwcHBw8LCwkMEQ8SEhEPERETFhwXExQaFRERGCEYGh0dHx8fExciJCIeJBweHx7/2wBDAQUFBQcGBw4ICA4eFBEUHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh4eHh7/wAARCAQAAsoDASIAAhEBAxEB/8QAHQAAAgIDAQEBAAAAAAAAAAAAAwQCBQABBgcICf/EAGYQAAEDAgMFBAUGCAkGCgcFCQEAAgMEEQUSIQYTIjFBBzJRYRQjQnGBCDNSYnKRFSSCkqGxwdEWQ1OissLS4fAlNGNzg+IXNURUdJOUo9PxJjY3VXWEsxgnRWWktPJGZJXDR1fU/8QAGwEAAgMBAQEAAAAAAAAAAAAAAgMAAQQFBgf/xAA/EQACAgEEAAUCAwUFBgYDAAAAAQIRAwQSITEFEyIyQUJRFCNhBjNScaEVJFOBwRY0YpGi0SVDcoKx8DXC4f/aAAwDAQACEQMRAD8A4nCeKgjHSyfiBDuellT4O6pbhkJc2Hu9HJ1le8OAdHcD6JXmz0o+50p0ja0nzKXqZqiBu9maLjopmd08ZNPG8PHilcVbUejg1QcR5BWnRbEJpo5XmaxBSFYb2JHVWdNTtma5kYDiD4IOIUkeWzXDeA8rJiplbGVG7eJC65DUWG+t3GyJZzOZbZThAJuQ0hHuK2g5yLgCQg+5Dc8lwjBPvsi8JJu+xvbkpSxGzCHcz0CBskTbXhtge8Oqk14yuNsxWiDcNK2LZSB4oBqGW1EkzW7x4OUWGiOavRjGBtjpY6aoFM1u8aTawIKsTNA6Rl425uL2eSGTGQi6IQVswjk5WdpfMiUeICGdrpuTegcFZ4YyB9PYtYQehClHTQ+ku/F4RlaTqeaXKQSjKwHpu+MR3P0vb7ybGMs0HotR+apVENHFXRfNR936vUf3o5wjDjqN4z7EpCrdQ0icZohPmdLOPtRqTcQop3HLOfucEDEaWSmgzxV2XykF1RR1l6jLO2nqPdGFbSkBumdTDLS1PzdUO99NM7hvi5uXzVQcAoKkb6N1RF155cvwXP1EzoajScnd/wCPFL22NujsJaenMfzf5PEoy0VPZ/q2MVXhOK1ctZHTWMg/nNV80e0bpUuA48iIp6dgG7A+DitGmhtmMYPvJTb22sOa2GghCnQ7aIOw2mly5mfcSpPw6lLmNsW5fFxT7GanTkskaC64JRKdE2iJwumI3f8ANyBUldsZhVTd2WWN/i0LrMn2lm7+0iU66Klgi/ceZz9nNVe8VVT/AOPyVIbG7SQfM4xFp9OY/BelPDQNCl389CjWqm/cZ/7Ph9Jxfo+1Y0rsJw7EbfxkcmXu/WSlVDWzVHr9m8Wh/wCj1Gb9a797W8Qd+UoztY7qbqlrL+AvwjXyeZHfg+ooaz/aYe783Q/1UttJNM6hAqaOWP67qXd/0sq9TAyi5IslJRTSPLniBx8wCUyOq56E5NK2qs8PlDeVjl8SEAtdu+6fuXqMkdMdrWOAjs1zTbKLclfPbQN5MpbeOQLa9bS6MK8LvqR4lTUFZUNzRQko34NrusMj/a4QvYXOoG+tY2muOuQJDEsRMIO4p37tg43vHC33IVrW+kE/C4r3M8mqIHsmLHNe0+BUHscdALFX9c4z1BlkeA93IWSxiYQS4i4WxyObLTlUAd1lPNRgaQ9xTzqckOOmvJChp33NwrsQ8bQqBcXIWiRbmUUxShtsp+5Bc14Fi0j4IlyLcZA9NXAFGe4lrUMkBtiVqQ8AsiKNX47XROhJaSh+qMQdnOfwUi47mxUFmRkHlzUn+9BgBzW6Ikh1tZQuIQEuat+yhtBDCQStBzstlLLsiG8R1UCOJTb37lRPM2Rx4AZkrTYdVtly2xCwWJtnKk0W63VfJRmXTRaaBdTbZbABOmiZZCZbd3CVKPvcR0WCywgEqmyzc1ufMLTLkcIspaDRaGpsNEtkC8NzmCHZpOmik4+KwWc3RRcsgOQeIBUA0ZTpZHJF7FqBKeeUWCdfBTJG5bo0HyWW4S0sDfco34eS1mJvoVLKoEWMB7oIUjk0OQe5EcOAHKAo6WHCp2Q2zLvWkxNIHNRn3Zqi4RZQtC9/NTkuLKygbmk2dzK09kZPLVTPvWs1tFCEyWuiDQ0AeSg0C1iFjrjQclpuihGTeGtOgafesDOIODQ0+SwWtqFmhsWusrBJljScrRcdNFksVgHlgDh4hbzi+osfJaqDcDiJVFg5wHkFzMx9ynYmO1tFB99LlT001KhDb2sc4ExMBa23JDZGwOBAaCEwSZDdwAugkC6hDbA5srZAe6bpl1Q9xuSdT4pYECMiwuVNtrDRQhZwVUsFg112norMVNH/AMzg/NaqBneTIQJUWenYLEz8Fw8OuVNGM6buzT42SuDm+Gw+5Pt8LLhyPTxiLTsrRe7mPv4GyFWiqFGBPubHkHSI9U+ojkAhgMgt4qNbHUVUMe8pwbdMwV/BKK872BhbGWNudbFIVkzs9iLnqVYyUT43XNJIQfau1JVdMcgvE5tzz4f3omi+RLfF8p9WLLcZJeeQWmxyg3dcrcbssvIhQoDOXNJYBY35o1PNu3Na7VQqAS4DMBc3Ki6GTeDKLjxRFDbw0nMDdx8FjbAFRYzIA7qttbmJJ1VUEg9OQJmcQ5pyU3G8bYG5F9EhSxNM3ePxTMsIJvYJUqNONOi0w6cRgXcDboSmZcQaJMwdCNCBeQ/uS2GwtdEDuYy4aggIlXkAyxtGY9LJbaQyN2J1tUaqd8skkflkurPfSzQCEzV/zH8RBlQKSmBrIKZ7A3ILkc107GZu+EMpWXRQCgJlH+S6mp/6TNlTkUGKW9RBh1NpZuXvBXTWgnWyxwYHdPuQuRFAoH4LVVLx6ZiDiOoPNO0+z9BF397K3zdorJpAIDjf4IjmAi4d8LIJZLGRgAgp9y3LAyJkflzRBGQ03sURmgtf9Cy92G9rpO6xsY0KOYc2tlprXZToNExLpbkVoB1jpoUNh0QiaTdTe0DQ3C0GgACxv5qcmmW/VXYSRqO1rZVK19LKcQysy31Ujy0UsKgFrZtFy+PbTHD670WKGMeb3cLuq6yMZiUpXYfR1Z3dfDFJ/V8VUJUBOLfRzE9bi76EVcMwkv8AyHC39V/5ydpsMmnG+nxOWQ+wIOFrvvTB2Yw2KbeQGqph/oJ8vn1WvwZWQ6DE9PCSAcXxGVOnk/QXtM/A9FHFqyT7WcrbsMogc3ozPuWhTYnH/wAqg/NP9a6I1uJb31klJJH5AtP3/wBySpTbuTsvajl6imjG1jBHAwh72tsG+S6c0sIGsEJ9wC56rvFtVT/N/PM/YF1DyfBo+KZnyVSKxxtWVs9HC86BrPcFz21dJJDQ1H4/UfR6O6rqZXEc7H4rndsc/wCD/wAoIsM7ko/cDNHg88rHFrvGyWe5xbm8U1WauI8Uq6ncTZpPLxXfh1yeeyghLdpA5hLtllzEhyPlELDnab+9LMc3jOv3olyzHOkbE83MOf8AFa9JmtxEH3rTToQhPGmiLhCm5E3zZjq1v3LHWLRYBCsiHM1g1UAbBPALtApX4bFZm8LLRvz5ohZsO+iLKdxkJ6rIyL3tqtusGuvlVMslFxRrDHZZGQGcltzrtVBIHlbdQEfFzRbaqDdXlGgWRI11U22sskWibNQoExtgStOIJ7pQ763uixm+hV8kDsbp5qPJ2qk3MDyWnaOuQrss2XdQNFtpB4rarWp0OgWrFruEqiBHAKIyhGkFnd4FAIN+SnyQm50Q5ZkIEOvopOBQtAw62Kd8Ak26DxUQeMnksZa2q29oDTYa+ahYN5Ge5utm2h1aoHQBE9kFQoxpBdYhTvxAZbhQB4hoskNnaIiicgIkOdoHgg5buUS435lFHdzKEMcxtrG4I8FEALQJOhKnl6gqEIOtda9rktEnNopsGUnOfuUJRJlvO6yXkLqGYmw6o0+sbT4Ki6ISDQErNLi5sse69j0WgGnooUEkay4sXckFxAeOaK69kF2mvUKyUFaQbqbSCbaJfUn3piIi1jzUIM8F4/Y4eLK7vJsOQJN36QNxmyezm5ouZAiHpmE/5hB9lPt5qg2XqBJTU1LGRW1D8rWM7ubyVzS1dNOSGytuPo6rhyR6jFIcaDzTDRw3slmnivc2TLbEXzaJZpYhWYhTNa6I1JaeVrKgqZQXFt811Z4phALn1IlHEb2sqqWmY3iDy8+5EkKlYvKC1tm80tBmEtyTr5JzK3RouNNdFFrBYZRdMTFtC00bd+CXm510TQIaGkOuozUuRxcSedkBxObK12gTCl0MSeJKyHS4WrHdG5uVuJvM+SFsJdDNOW7zomZXREgNDQeeqSpi0zDMBy6Jp4G87otbqlSNOGyywx5jhcWva24ObRGkO+xJgbldazgh0NPvCA+ENHEChwQhhnkvG08m3ul/Az6y0wmN8jt6SOb3fot+1XgDja1lzodHDvNaYRs/0Ob2QmqejjrKeKaKc/0fJLkyy+LSFEtJd1Sn4Pj3Pzx+/wCCh+C7Tf59V8fsb3hSpBosIx4qR58rqEDAwauJRCDfmlqQ5I2AD0stOAtwi6lxdFBxICEYQcdBwqLnaclkhIAISz5X35qlGywrDx8kWU3AsEBrjfmpOc7h1VkCwNIubIrTYckGLkTdbjJ1uVRYUi50aEE2vayzOGkg3QBK0Ei9vegTpljF2nS6E5rc2pQpKmEaskBHhe6r6/HKKnNpBJfyCpRkyfzLSQAN1sguLctgbKiqNp6bL6mne77RVdU7T1J+apoW+bk5Ypi90TMek3W00B55cjl0D5eHmvPcexSqnrBO6zXZR3QpDGcRMeZtRLoOtlqlprS5MyzKLlZ275uA8S57bWTeYV+UFW020VUy/pQa4eTUltPj0UtAGsZmMhsb6WVYNO4yBz51sZz8p9dqtuy3Sr6oE3IQ5akmxC7SizgPPE2Q0l1vFDax2Y6KUUnAXdVjZjxaI6YhqMuQIY1pOqhIwBtxqisyuY4ObZyhlcI7AqVQq9wE2A5LHnRoGiIY2mK5dxIb2nREkhcoyINJuiDXUqIAupWsrFmNyladlsttbbVY73K0iBWd34KNzayk08HwQgTe6nbCkRLjeyjGdVhvdYzmib4EknHUKTiC1Rfe6la8eqEIHYbtSA1CwN4VuNpvzVlDDD0uolt36grbCSbaAorr24iFRYFwtyUo/Ei6icxdoNFINN7hQgZu7MPOzkFw81PQc1shuVQgNunMXQyNCURxOgvYKD2HIXX4U5LgE023JadlyuuVv4LTgLO0VlEOG11MWICE7yROgUITBLHAC5WnMu4u0usYbuF7lbk1NgrIBIOZbfqOS2dDyWPObSyhRofNrYvYLTT7Km0G19FCA3WusHgVtx1PJaN9CoWFFgLFZppfktXe43NrqTrmOxABUKMlMYtlJQdSdCtuuBzCyO5F1RZN9w210MZg7miu+b56oF3eKsoOHXtdwJ8lNpF9Eu02seWqYhu97QG3N+XioQaiRkvxXa72U1Zv8tB/1gQos6KhwrEI6WJ+5cbci0pwzYjTxlpp6gO6O1H6le4U5vobb6hMuZFIwscXAHwdZcOWRvs9LHGo+056kxKpL2tdUThw5h1/2rpaTE4dwBJIB45lXTYNRyPJGdh+lmv+tQOz4NslQ4D7KrfY6O6PZZVeJ0csDmMqIyfeqlzAzkbg+aamwSmgpySS9w1uUtKwMZbSwGguhsKxZozOfcclqOwPgpwAPjldlAtys5EEQdStcC4PDugUToWK1c5cedglo23kvlKNJEWk3Oq3TjO6+8t0TU+Svg0S2zuFyxrm5jZrm6LJhZvf5Gyjl4r6kKpl/AxBIzMDYaKU9Wc3Awc+qFBFEJCC6x56Kb4GmQa2CC/uOin8FnBiJZTgOvfWxUqWqgE0Wd5LSbu0KXZStFLnDiegUxTZGucZpmkWBsB4IaQ1748hpqiKpnqJN7YfxP1iulwWeBtMIjMH/wBb/BXHULJJaiMD6P8AHf8A7qsZqWmh1rqapH+p4m/zkMkvgilL5Oyc8X0Uw/RcpRU8s0A9BqpLj+LctOxfEqGpEFTTx6dCkOA7ezrw66mBdVWF4pFVeq03n9L3Kzu3yWeUdo2MjYvzJKi4g88yg6QcwW/eoGUnllUXAW4jL3fa4UCX5v2tVkjhYuLrW1XQ4pR0X8A6uCmB/D2F7jEsQZbi3E/s/Absu+jmToYXksRn1McG2znOqm46K27KhS4htlQUNTDDUQVDZMzHAOBIY4j9Kodna4TbS0zZtzaSvjp93Jl/lA3LlRrA0rYL1bc9ocOHi1S3wHVv3pbFcZhoNq8escN9VUzwRxyRt4Mrrd0j6qusexr0TsmwDHvR8N9NrcVngln/AAfC64HIWtZFHTXfPQObW7FF12VQmJPs3S9TJCW67rXTVqt9iGw49VY9tFXGH0DC6J2JPo6fqWtcWxad1qpsG2iqxWitxKiwyrwx5tPR+jta0MdqWscBcOQvAny2WtXJvbGPQjPheFzd6Ft/qkt/UkKjAaM6xVFTEPqnMut7QMMbsztrJhUIDqGRkc9O497I/wBk+79quNoX4XSdrGMbP4ngdJS7ORUO/FQyPJ6KGwNs/M365tYg3umQ0liMmvjGn8Hmf4B9T6upv/NSxwh45yQfk5kXD9oqeSlAfT1DBc2OXmF1XZXNhGOdomC4JVUnpNNVGVr2Ts72WB7h+pVGI+WdQVnm201GaZ8NnOIdflotR0TzS5mb03ZfUALo67aPBDjTocd2cw7EMNjmlY/cMdS1Ebb2zMdH1063Vltvg9FsjjQwZlZv6V9NFU0s5FrwSNu3N5rbtaRhjmUp7ZfJ5nUBwNrEW8Sq/Ezmp+5ax0XtmPbP4PF2eem0tnYzg8kE+Mx/Qiqm3Zw+XCPq5ivNdomQy4fuqT0YSHL4eKJNQ5Ae7Imkcab5why3urvAMBOLbRUGGPqWQGomyuc4aNYLue73BoJ+C6Dtj2Xw/Cto6XGNngWbN49SR12FEG4jBFpYneYOq2o40o82cNGLM5rTCC46j7139Zszh+zXZXhG02IwQ12LY/Vzfg+OT5mnpoeFznN/jJC52l9AuZ/CNJWYXU0lRgWECd5aYauGmEMkVjxDgs0gjQ6IkCVFOfV91jvqrbu73Gt+qvQ9msDwap7CNpdpKjDt9iuG4rTU1LVfycLmjNw9371wRb1uUL4CihWbTKscdGr0zZbYTD8d7NcXrC+QbVejuxLCqb+Upad1p/i7M7L/AKheayNLWgkWIF0QLkAbzU16B2gbDU+Ednex+1uGkzw19K2PF7G/o9Q9u+jv4Zo5G/mqB2Fp29iVTtm6qP4QZilMHQjnFRyCRrC77crfua1FQuzhGZbaOUDfNoVJjHvlbFDHvXucGho6kr0DtU2Jw3Z3A8DxbA531FN6zCsXe72MTgcd9+S64t7lNpNxwD+RQhzXe9huz+EbVdquz2zmO0u/w6uqJWSgSOY7Snlc2xaQRxAJSlm2Kh2iqMOx/ZUUND6Q+F9Vh9ZU+lU9ja+Wd8jHW8CFRUjiWd9E6rq+0zY+XYjbeq2eqKuKqiia2amqGNsZoXtDmEhXeN7DYfTdkFLtFh8pfjFDUsqMcjtxR01UGil4fPKfynFQkTzdxu1TYLtWSZiu37Jtj27Wx7QRUlL+EsaoKAVOG4dvcnpTxKwO5OaXZWFxyg6q7BOLynJYpnCsLq8QbNNSgCGnZnnMjgxob73HmfZHMpjHX014aeHCDhdRTxburiOYZ5hLq7K4kt4crbfVXo+2+zWzuA7NbAYhR7FjE/wphJra8+lVz7zd12XLNZqJAHlQ0KK0WF11XYxgeFbR9peAbO41Tmpw6urCycbxzSLtdo1wPirWXAdmsQ2L2ur20/4CrtmqxsUP41I9laJJ3R5XNkcS2ThzcJ9l2iAI89yFas36bfzV03ZbhWH4/wBomz2BYpE+SjxHEI6eYMlcx2UusbEFI7a0NFhm2GP4dRU27paLEp6aFhleTkY8tGt79PFQhTm4W5NHXC9P7YNmNntlNqKShw7ZqeeinwKlqjN6dU/PPDvO2mXkV5h0JKhAUpBcMi0wOynVYTfktgerOqcAYHG11p+rSbqRAWgG2ddWQEQ241RWgBzddFEhuW6ldhYFCGw4A6LTzdxOqwG1gS1akFnaqyAwbuWOFypAi+ii/RyhDBodVLQjmVpwO7a4rbBpqoUQdlubXRmWaGHmhOGq3xaBQgRw9oKMh0F1qI8Wt1Oa1gqLIO5ahYLBt1Ii1i4aKL+f1VZRN4OXlogG+ZHkJEdrJa7rqECNAvyvqjMGR7bktN9COiC0+HNHjIbz1UZYy3QAIwaLJdupCYugRR6Xg3/FsSdHIAeKVwED8GRBPtaA5cF8Hqokgw2RJHFjWc1K3DoUazi1vdKWx0RKpqIzHlJ1KqKt4OVpGour7EYYpKUOc0NPMEBc7Xx2Is4E30Rx5G+lEo3ZKZ7bG5HNSnqP8nQU9yQJATqlY4pXhjWWLra6rdXBVR0gc+LhLuYKm0G0RndnIOQ+C2yBwcHcQPRKPiI0cORTLS5rA6/TRG4WKjJB3xX1JQxC0kgkHprZBMzhz5LQnZqHX8tChaYe+IyGBpBJB8NVtzWuPK3mk2OfcuvmC3I4m4JsLK9n6lb19i3hdlhawm9lCqfcuDi43HQjW+iBTNldAwAG9zrZFMExOhtJZthk+sluNPsfuuPRGnqoaeqilawusVYVNZidfFrHFFT8OdJQUsktb6P6R9XwXQNwfDhJv3sM/wBaR5UAXJV0NdSUbjM8GV3s2NktWVNRX1G/lpy0ezpb+cr2ooY6cXp5hCq+WrqGOyvm33wUUqDjAYwmGko5g90zDUeJaVdb6seSYZ6ME/Sa4/tVXT09PVU4lfTtYfHMQq+vjZDL6o3/ACrpLW4fFFrUjHG5jHJhrm9QMzSq2spsdkGZtgOojqiEOmq5I9CRqrmmcXQB747kqLgLaVGB4TU1OMUL8anlpsObO01OeQ/NA5nNFvpd34q92F20xkdoUmJbTb0YNijpqXE2bvh3L2uaOXQcP5qBLYs47fchAN3ZDcv5rUyGo8v4MmfS+Z2V3Z3XRbFdpNHiUjjiVBSVLgJaVrjniLXDMA4DWzr5fLmjUdDhuGbZQYnLjlLU4TT1xrAYB+MVMYcHtjER1DnctcrWpmGE+Vvcpup2XuWi/wBhOWqv4Ey0VK9xyNTLPXYpXYlUNIlq53SvuBzdr0966jajEKGfsb2awGCujlxGhxGerqaa3Fx5wzXkfg5MloYCMo+yhNoL03pHo0pbH6rebvRrraDMhWo54QzNplKCv4E+zTaLC8AxivpsbZJJh2MYZLhtWYhcxsf1y9VQ0tDQ0mICk/hHQHDGuuJ4M3cDv5K181un0l0UtJRy/O0wcfcq2pwyAH/iaST7GXiTVqN3wD+Ga6Yba3a6TbDbqfGrmgow5sFLHObOZAxvDf8AQ74rs9o+0PCpe0nFt/igxbY3FIGUcsFnO3fA1u8YDyeHNuvNpxSx/OYdW0/+PrKnnh3k3qpLD4NRrUPsTPRQSUUXWM0OBUOKGDCcWpauA/N1Bzfk8J5HyXT9j82EYL2n4LjFfjVJTUVLvnTZ32y3heG/pIXn3ojC3Nvb3S5oGtdYk69VVU7GSxOUNheVuB08tXUS1G0WEx09RVlxn9Ma7gJ5taMxJ8laY/tBhu2/aVBXSEYXs5TCnpG+kcLzSwjTNbqeL7OZcdPh4bT5t6H2StNT57i9k5NGTyJHo3ZntsJdscQG081HTYPjlLVU1fM6mjZuhI0lri5oubOC4Cto6iCsmhdNFXQ054Z4eKO3RwS4p+hdp7kJ14pLRyFXKe5FxxOMuTodn68YFgeLYsJ6X8MVH4hS05AeRBKHb+YtcLd1rY/9qVcVmOYftL2JfgTEsRwuixfBcV9Iw+Lhh9IpZm8QblbbNm1XBz3kdckk+0gTtDraDRPTMrw7uUeh02J4Ltf2PYVslU4lDhWO7P1U0mH+lfMVELnZnNzey7N46LhZ8ClpaSWpq8QwwZdGxwVkczpHeQYTp5pZrbQmyXgIDiHAK9wnymj03Y2owv8A4AtqsD/C+H0mJ12K0s9PRzzhueBjWZuenj9y4GXCH76CmbilIHVLRmn37XNhDndSNO7qkYWx31W5xEAqUhaiz0zAu0J2z/axh1bRxUJwLBZ2YbTyeiQb2Wgb6sneZb3e255+0uP7SsKoaPbPEaDB8Qoq3Cn1bjRT07814SQ5t/AgOy/kqjs0suRfyUaq3B9NEDLHR63hW1Oy7dsttdk8emz7H45RiniqKaXPuxRMb6PI37WXL9yrMB2lpcZ2C7UKKvq6HDZcXpcP/B1NJK2K/ok+aOGO/hE1o/JXljPnCpvF22TLFbTpdgX0uH4vJtFVS0Ifg9O+ppIJ32dPV6Nga0dcpLZD/q11mwmP0W03Z9tpsZj9TguFuqo24phchihpofTI7Zhm+k9osvKMqmOXJFYOxnpXyca7DsK7XtnMSxmqoqOgo5Z5ZqqpmbG2M+jytbqXdXOC52t2flxHaSvfVYjhdJS1Vc9xrhVR7lgcXZnNym7vcFRR23GtkDmHDkChGOJ6FtdjuFdoPa1TPmnFJszSNjooZamRrL0NOPrHvOs7h8ZFZ9lm31Pi3aHjFBtPDgeGYPtbSVNJWSmJsIp7RZoMzvoh1h+UvJQ0ZlB7RmV2LoaxOk9Cq5aYz085jkcwup5BIwge01w7w81ZbJ0eKgyYlg1f6JWYfKzIY6lsUvFfibdwva2vvVDlNypWcI73shAPRe2vH6HabGMGxOplo5scODQx4xJSjgdUhz7k24c2XLey6TtHE+J7NdmFPs7tFhW9w7BDFVxDHaaHcTOJdaQOevFwdOakLeKsA7/sEmgo+2HZmurqyko6WnrDLNPUzNjjja1rjcuJtZXc1Xhu18G0OymMVOFYXiseIz1+E4gN3DSzO7roJpI+HVvEHHlxa8S8oPEe8pnRveVDNp2nYwIKHti2akxCopKOOixKOWeWapjbE1rTqc+bL+lVPaQWSbdbTTxPZI2fGKuSGRkgc17DK4ggjRc/pnWha6gJ7j28/hDE9qMMODbR0FRhcOzFLTS+jYxBkvGyXeBzc/e+C8QIH1lI5b6LTu7ooHtAWGVbFsi1fopACycKMOjuS3YFrjZa9rUIgYS15AUJQsD6sghTsNNOi0BaMghbf0soRmrjMNFuQ6rATcaLJHcR0RFEAseVonksfyVEDU5J9W3d6/ylh+l3Jbkj3fz1vg4H9SD7K37Kshp5WiCcvgom7SpROyyA9VCBCMpsslBAC2XZ3ZlGckgWVENSDQFZcG11twORRsdFC7Juvl5INteSM4+aDc5+asqzbRryR2N05Iftc0Rt/FQg0y1wmNPBJRtNxzTVvNXZR6bgN/wfGrPL1sqzZ8/iLFbA8l52R6mARg01Ry7QC6DZjtLFTdE3LoT96EeZWFppXAkaDRc3iUvCNBcO5hdJLAPRyXOe4Bt1z2JxNaY3XNnG9rKRssHC+0wsPZQ5a3NTCB+oBvqmqVrck0xcGhrbclUVcpLS5jmkBEm5FSaNzzukBAA5aorqj8XazI0nxugCYbrTTodVIRiwdz+KbyIVGSaRA9UJsZL/AHhHcW8gy49/960xw3gygA8hc/3qUHSIwMuHAuIRZI2BozXAsjCRnJ4F7aWDdUMVIJILwemtku7CjQ7BK3d8JvYORm8VUxzSLjlqosIdTs0AK1E5vpB1toltNs2JraGpWmPEWyN1J69F0ez+HSbQ49Q4VT4lZ9U/KdzDbJbvH7rrmcCqW/hOnjk1v9y6eRlnBzJcpbyIOqqubFv1Kje0eGQUuCYdie6q3HEqqoFPG+TihgjkycXmTm/Qp/waxV2xlXtNBTxRQUtRuPaz8XN2byzNH5SXjoJpnQMNTNVymW1PHxcUjnZeHzcV69glLXv2jqOz+eGT+C8+Eeg+k5hl9Ibq6dvmXOc38lq1YsUZnOz6rJp40nyjxLLW1LfWVOjvBW2I7P4ZgmEYXiO0FbXRHEWekwUtLBmk3P03Xe1o9yVNLUYbUVOE1rMtVSzOik940/YvSsD/AIMdomz+H7NY9MMM2iw+JsWG1BOk49kef2PzVWHArd9jtVq5KKcX6TzerpsMosYlo6KX0+LJHNHOY8uZr2B/jpz/AEJmigmqKmOmpY5pZpXNaxg5krWL4NVbP41V4PicIZV0x4wDcFvea4Hwsu97A4aR/aI30uO746Z76f7en9UuWbyrntHPUbdP5vZx2PYdh+z1V6Lj+NStxBpBlpKClFT6OPNxIbfwteyWqqbDJtnqnGcMx/e+jvjZNSVdJuJ253WDubgQqh2/n2jxCauv6X6VNvN59LefvTBjvCQeZ5/R05fpVylGPFExRySqVl1g+zxr9icR2nqMZ9Do8MlEdQz0TO45suXLY8Xe8lLE9namLZiLabDMRpcUwYv3b5m5opIz9aNw/ar/AAaAz/J62rhE8N/wlF85I1jWcUXtE2VTjwqNl+yrDdnJ4y47QVjKxs0PHExgy5RnHC4nLfQnQrSsKpfyMT1E1OXPyVWzmD1eMyy01H3YmOmnqJ5srIWjUl56BHwzHNzVnD4NrfxY+rySYNnw/K76QJv8bZuFdLQU3o/ybNpKim+flrmCpI55GuZw/wA7+cuAw+miMFuWmb7SUscdOuPkfCeTUuSf0ljtPs7jGzVZHTYt6LK2oZvKSrp+KKo82u+KlNgNc7YkbVwAy0sc7oZ7cTouVnHTlqu12gLZPk1YW+oPr6HEt3ET7eaZ3D9zv5qrcL2tr9lNjtmpG0QrsHrKquixKmNvWM9Vbn4aovIV2umhMdZPZtfaZwLHQyNa6ST7VheyY212fp8GxeHDppoqmSSnbP6uAt7+oHvXUdoWx9FR4Q7ajZGf8I7PVRJIHOjP0fs/0VU9qHrtu3Sx/wDu+k/+g1A8TgnZpjqoaiUdonjGyEGHbIYZtM2tjNHiUuSmb6O4PLuK4PQd13VI4XsXWY5T1eJRT+j4bS/5xU1P+bs+roHZneQau77SfWdh3Z9Ny/Gp2/8A1P3IvaVD+DuwTY+Gl0hqp/SK0jq50TjxfH9Sc8UX39rM61mRdP6tp5fWYZsmXCmbtWIyWW30+HP3DPA3BzfzVSYtgEuCbTVWCzOo62WnyM3tNI70eTNC17XN7vRyBNA2fj6O9lRjD4ZG1D3FzwQBbnlbpb83hVXGqo2bMm7c5Fq3Y7GZ9lMX2jipInUGFTQMJLHHPvHWu37Omb3rkjHM4E24vNfVGxVJWw4nB2a1uEYn+A67CHx11T6DJk9KcMxdvLW0zZPyV4NXYO/BMXxHCMRB9LpKh0EvmR7Xxvf4opJQSoyQzvJOSfwU1XsxLS4Lh2L45ikGEU+JxOno4tzJJNKxrsufK0XA8s2vgFUbQ4d+CMTdh5xCixG0bJm1VNmyvbI0Pb3gTycF7nheH7I9r+zOF7KvxIYHtngNK2loN6fV1UIboLe13emo9y8L2qwHFdn9pKvBcZiMVbSEMkaX5vdl+pa1vitZz1MUgDX3jdK2PN1cCf1LrtsOzLE9kMWhwzaTanZWkqJ6cVMWR1ZITESRe7afycuUprX1+kF7B8sT/wBqWHf/AAKn/pyoo8oDNJxdM8/xbsz2kotmv4TUU+FY9grPn6vCKh0wp/8AWNLWvb+aqrYDZSv232qpNm8Iq8OgrarNujWbwNOVpce6D0BXo3ySMYqaXtXg2eeRJheP081PVwHk7LG57f1EflI/YVhcGCfK3Zg1H8zQ4piVLH9ljZwP1JqRmnKjzXENjfQp8Vp3babLVFThzaovpoTV7yR0F8zWXpwC7QdVzDzcArs9tcEwYY5tNVDa6hmqKSsqZBQCmnzyZqnLlzOaBpmd+auQPJnq86tlRsstltmse2mxGWjwKgMzIKff1dVNK2GCmj/lXyO4QE3FgGFvm3H8OdnBUZst8lXuPfvNx+xep4xhv4C+RphMmGGzsfxvPiBi5yBrpMod9UbtvCvE8PpzUVApwI2XNgNG/rUJHl0W+2myGJbKY3FhWI1+FTmamjqYqqjqDLTvY8XBDsub+ar7G+yjGMDwjBMYxbajZWlpsbpRU0Qlqau72BrXXt6Np84FQ7bbLbSbL1tNR7R0ZpZmQtMUBkbm3Hsu0LtO8vZ+3vDKTEuzPsf9L2hw3BwzZtuU1jZjvLw03d3cb+Xnbn1UB3HimMYJ+DcYbhT8YwuoLmxuFVTyPfTWeAW8eS/tD2Vado+weObAYnBhePT4aauanFQIKSdz7MJIa4nI0eyUjV0EGF7QuoqevhxCOGZgZVQ33coNjmbfpqvVvlpD/wC+Gl8PwHT2/PlVJhSPDKDD8QxHEIMPw6klq6uqk3VNBELvld4AK9rdjZsPxN2G4ptLsvh9bGcssUlTPNu3eBdDC9n85eqfJfw2mbgHaJtVGAcRwbBCyiv/ABbpI5sxb9bgt+UvCXmxJN9ed1dAyZ0W22wW1OyDKaoxWlp5sPrNaPEKKds9LOPqvb+2y5lw4dV9D9jRG13yZe0LZXEZgYsFZ6fRSn+Lu1zwG/GJ356+enD1aoWdTsD2e43ty3EjgVVhjfwbTmoqvS53RZIx7V8pCWrdl3YfgE+Kt2m2dxFkEkTBFS1UjpyHZsuhYPou+5esfJMAnj2/p9+Ib7NO9YeTOfE62q8oxPZ+Ohwmaui2mwHFQyWKPdUMs5cM2bU7yFlgMvmpRClYLdAu0wzs+xfFtiKvbCHEcDp8DoKltJVTzTuYWTuy6d2/8a385ca0Bx5Fe77E0Udf8jzbCnfX0dADtTDearz7tvDRc8gJ/QVCzx7H9nKnC8Mp644rg1fFPM6FhoKl0ha4NB1OUW7zVPCtlcVrcIGMzGmwzCy7dsrK+TdRySdWs0Jff6oKNNsy2mxDB8KbtFhldBi1XHGH0MkjmRZntjObOxlnHyHINXoHyvYTQdptFs1SHc4Tg+D00FFTgaRNIN/ibc/JWUcnQdmu0WLYLU4ls3UYVtF6IM1VDhtQ50sTfHdva17vgCuKcLC41XcdieP1Wy/adgOJ0spbmqYqaQD2mSOyH+kvUtrNgsJqPliUWzhih/BtdN+Ep4By+adK5v5Ri/nKizxSbY/Hm4PT4ziwoMEoar/NJcSqBC+p82RAbwt88qLSbBYzW4BiGM4XW4LidPhsO/rfRa9pfFH9IMNnEeeVP9v2IVuJ9sm1EtdI5xp699LG0+yyPhFvJU+zeB7TVWHYhiWB4TNUU0ED4qyaF7TkY8EODxfQajvW5JiBKSigqK6ugoaOCWpqqiXJDBE3MXu8AF0bNkMQbiYwysxXAaKt7roZq9rcjvAv7g+9em9gOGRYf2RdpO20DrYxh9C6io5gOKDMw5yD9LXmvECAGi+qIiLPbPZHaHY/GH4ZtDhlRQT+yJBdr/NrhoR7l0OyvZ5S47Bs3K/aNlAcaqqunLZ6XMIfRxd0ne1jP0ui9Opw3bz5H+J1OMXlxLZOuy0dSeZZ6o2PwlcPyQvCpq2aGOPcVZ3noZoy0DhbCTmIB8zmv9p30lCFTbha7xWnZd5otqL/AJxQhJwObQre7Hzm8/J4kN1781ntqFGLC0jVbaDa4WgSdERRF2qxYdCt2JUIEbYMWPsANFrL4KcxFmiyhCD3aKIKk7uahasC1CWScRa9kK7b8kV3cQBzREJ/BGYdOSEDoiNdooQbYdW8kylWcxomPgoUemYAPxXmrWMDMq3Z8H0dXDWrzsj1UTYHgEbLYDhK0wBFPLRAuBu0hPw08h+oVzeJkuENvCy6ioDTTSX+iuXr9DGB4lFxQz4JsZeklaMoLieapJqEtha9zozxq8F20pceViVX1+uHCzBobq8cqYqRVEZXkhxB96KJbWabe9ENM05bAAe9SnpwACAbDqn2xPBqR4DdNVGOcZhwWRS1oiFze/klw0AnkB5oHyFyOz1Mfou66g3VeKlhlAz2PmjkNGuQkuFu8gbmMCxbqdL3VJcBNvcXtLKyWJt3gqM5ETpJG20CFQgANYBYJyeFhmcXXDMt+aW+DVF2UYrmQT3Ed/ir+Daem3EY9FO89vkqqoooRPGd2TdWOEw0hP41Sj9LcvwRPkFX8nWbGbWYPQYo7F8SNNFJh9O51JBxZqioy8F7DQX9pcPh2N1FLjTMYZA306OpbU7wu0Lw7Ne3vXW/wdwqbUc+HP7KB/Bijj6/zVI52vgX5Lm27Ljti2s2cxba6LaTZ6tpZvSqYen09nZmSta1ubUa6ZR+SksUqMDqsWiloNpcIiw5+R3HvhU02jczcmTUtdfLqkzs1TF+gcFA7L05k+dcPg1SWocn0BDSbY7U7GO0Db6HaLtAqsbgopjRgMp6cyZc5bG3m7zJzKWze2f4GxijxulZM2amkzZL6Pb7TT5FqQOyeb5up+r80s/gtIY7CpzfkoJahue6h0MCjheJHW7S4xsVtTiT9ocMxqlwPEKo5qyhxUOaHO+kx4BCqqubAqTC5r49huJYjJI3dx0e+4PpOc5wGvdDQufdspUE/PRn4IsWzNQwaTx/4+CrJqcT+eSsOklBVfB22H4xgP8AwMbSbNHFqT8JYpUsnp47O9l0XtWsDwuQti8bonbLzbJbWz3wmQZ8NrWU+f0GX6Vvok/tXJMwDFGhp38fPy/so8+F4qA1u/Zbw0/cijrHFLgkvDYSnK12X+x21sOzAxTZ/ak/h3ZvFI92+pw8fN9MwabH+twqjkiio3f5O2x2YqqG/qqioc5rwPrx2vm910EYPizhYOFvtBSGC4w3kGH4hVLW45L9AseicJXfqCbbbbvr8LwzZLAgRg+GeskqKiPiqqh2rpMvRt3OyhS2nxeE9nWAUMGK4fLiNDW1L6mms7+Mbw5XWs7ucX2lv0LHAP8AM4ZPuS76bFL+sw6m/wAflJU/EIrmSaBj4fHhWMdnW39fsrXytfTxVmF1Xq62iPJ7e67Lfqg9o20WF1/aJWVGBCIYcaeBlPfNo0Qtbl8rcvyVHc4v/wC7qf8AKH+8gyUlV7WBj8wqvxj2UPWgXneYdNt9tDhFb2XbK4FTYtS1OIYfUGSpgGbTM13ddax52UNnts8Cr9havYraze0mHyG9DiLPW+ivd9Jo9m+v3rmBSSczgn8wpTHmAUNvwT6N9b6SetY0rM/9mxdpom7ZfWw2x2UkpOXpH4Qyi30shGfl9VE2OGzEPaRTel45SjZ+gmEjqicZfTSxo7rfB72/mrnJKaABueAD4ofosDr2by81o82N2kSWmybdsmNw7QYu/FZcbfiVT+ERVuq3OExcM98y7ft5xzAcfxml2r2fxzDt7V0cfpdHG/8AGIZ2t1+10H5K86jY2ObNuXFnUByNNHgpO8bT1G86tDlTyPlfcCWkitsvmJZbS4FSRbUQ12DbV7PRUj5I5YqkYgGTUvdvmZ85dp8GuVf247WUe2faRX4zh28NI1raeKR2m+DB85bpdc/WQN318ruLySEoZrr0WyMkjmzwS+SFKwTyRsMwaC7Uv0aPivZvlIuw3bLbLDcY2W2k2dxGnhwuOlk/ypDFlc0k+2R4rxAG8BCFRRjMeKyYjBJbmeo9m2JYP2a1NRtZVYjRYpj8UL4sJoKCVszInu708zm6aNzcIv3lr5NuN0dF21UW1O0mNUdDTQuqp6qpqpgwPkmjeNb8iS5eZsaDcrRGZhBGiu0D5TZ2m1Oy0U+0O0OJN2x2QNI6rq6trocRzPlaSZGtYzLfMdBa3RcLxaZiiCBvgUSSFrMut0Tmi44Ger9lu3WAVXZzivZVtzNNSYbVymowzE2xmT0Sa2a7mjiIzWPxcPNcn/AmrpsViEON7MYhSCYWqqfHKdrQy/ec17g4e5zVyJDc1wguGZ1rIrKqnR678qXaHAtp+1KOv2dxWnxKliw6GmM0Lrxl7XOJs7l1XSds8FHtV2d9mlBge1GyE1XgmFeiVscuO07N2/cwj6X1HfcvAWgBtgLKIbr3R9ym4HYzpazBvwbjtLhrcVwurn4HTTQVTXUoJGa295cv5y9g+U5FRba9oFFjOzm1Wx1bRDDIqU/5epmbt4dKXcLnfWavn0OOS11ANFun3KlwSR6x2M7a0HZh2gV1FiU8OKYDiEJpMV9FkbMw3HNpHeDXOcPddc3ttsBuMQqJdnNo8CxvCXuLqSSLFII3hh7u+jkcHNcFxLAL8lk8eXvxub7xZQpnpzdp8O2N7HsV2IwXEYcUx/aSqZJitVS8VNTUwy/i7ZOUrjxXI09Y5eXSO0s5Y+49y0cttVbFHunyVa3BqOl20/CmOYRhDsQwR1DTDEcRhp873ZvpH3Lzer2Lq8LwGtr8QxzZnLShu5hpMcpaqaoc6VrbBkby6wDiSfqrlGWPKynHlBubKiBWale14HU0kHyT9p8COI4XBi1dj0NZTUT6+ESyQg0ozWzf6J/3LxMvbfRy25xLdCpYRkTznDxdr2Ou0g8l7n2l4hhnbTgOEbU4fidBS7V0EApMRwusqRC+oYHOLTC51mu1c45frLwyBn81DflccrtVZJHoewuDQbP7RUm0u21RTYfhmGTtqzTiVj6yr3Zu2KGAEOIcQOI5Wi3eQqrtPxOo7aB2n7otnbVtmZS59GwAZcl7fQ0vZcC5rQ2wGvioqCz2jtkwXBNvsfm262DxOgqxiVjWYNVVTIK2OThaXbuV3rGn6vVWnY6yLZXsq7SxtRJTYLXVlAKaghrZ2NfUcM3C1ua7u81eCSNDgA4c1CJjGghrQPFO7Iew/J/272f2emxfZDal+62b2hpPR6ibd39Hks4Bzvq8Tv0LnMe7M9osLqHMpm0mNUF/U4nQ1DJqZ49l2bNw/HkuE58lPcwEXNPFfxyqi0eqbSbT4fsx2Jjs0wbEIK6vxSv9PxyqppN7AwDLkgjk5OPq47lunC76S8pceQ6Kcl9xbzQ3HRo6qENeBUZyC64UtbqMnPTmrKIt8yiXblIIQvuW7gmx5qyiT7BrSCfco8luxBAJ0W35Li11CAiL9Vu+oWS2MoAK0edgoQMw6LJuihyClJYht1CGO7qiRwLJSLABSA4QqLMdbIhe5Fd3UAaPVFk2g35ozRw8kJFYeWqhQ3HlLtUfRKXu8WTAsqQJ6rs/YwK2HPmqPZ+du45/oV1GQ8jVcCR6yCGWg6apgZsnNBawgjkjBhypTdGgyZv4u7oCFztcxvpNOHDTiuujrbimdbSwXN4hIfSGjLfKCh5LNyMP4PhIfcOsLWQMagDcOJbpxNCYcXupqaENJPCbD3JfFGy+juiLJQcwOvxTY8AMqy7cwhzRzQZps1mu6qc+8+v9fk3K784qH9kJxnsZAcacILxlzBwBJTfEIIbWu7mkqgXkIINggoZuIka3KGQSb3I68ltpJ7oGhspA+ubmHVEyLllxh9O5jWyOcSPspmrOYSRtcDcWGi3Sm8ViNUGojDSCWnzS59GqC2gXsJIItZrVlONbC3Eptu290WkDNNBmLtEqTsOPB0OH4gBZ8nzj9JvteKvhBcfzlQUFJFXT6+3lb6n6XQrqqSIiKxbyWTI6ofAUEJs0ZlLcmyfbFq0ZFMQ29lJlk2l7St3JymywQnIVYbq19FtsOhQedQaiV24N1jYNOasNzcrG0+iB5AqFfR7+0pmm7nH/ADk5FET7CBXfhOL5rC/SOD/nH+6leaXtNw0zt3qs9HYG8RVVPj+JUvzuDSx/nZUqceppP87wsv8Ayy1Unu9isLbJdltPV0EP8bHxqtmx3Cm9JH+5ioazcT1JMANNDfQSnkoVELYf41kn2CnOMvgLYWdTtHTtPqqeZ5/0nCkqnaCtkHq4IWD35kgY25lAxNzq5LKvqJ5cBg4xiX/OfzYm/wBlVGLyVEtt5UGZ183ErMRtyC7FW4rGQ8ZWp+FNrsGSEnt4UtuiA7Wyec05AbIToyQt8ZCJRK7O9hNn396BI9mUGQ2Lj0T9fSlml75tdFXzR8gAtEXZnlEVq+IZgeuirajK0uYDrlVpIw8Ry6RjVVVVPFviA3UrVCVHMz+krmn1a1BfPzCkB6vktQNGfularOMM0pYGOB1WyYnMOXmoUoAY/M1CtwEgdVTHxkFcDca9FGoDjE0AX1UXtJAOZHI9U3VVfIfcRJrXB+oK1YZjzTJBzm7kPIS42ciUhDgQjuL2WG5GoKIxjhfiWje2pU7BoxrRkchtFgpMJOYLcQGt0XaFfUBI4wQouuSQi3GUnwQHuJJIRoGRq2mpWsgsdVsi9lhBsRZXYkxvTVEa0WOqixunJSaDroqZZpgaDpoERziOSgRc+COIszR4KglEGZA4WA1WNY69yjbtrbWC3YX0VF7TRjaMtwpaa2Cx9uhWjcdUQVAqq+iAOuinUkkjiWm6DndHAVIy9hdqZi7ly26EG2F3EIjdIzYoX2XEDU3y2DcqEW6AEkor9Wa3QybWCNASMb0AW5NHdFoFpdyK1JzuisE0QLX6qJ1K153Wz7lZDZy2tqs4jbTRaHiURvdUIDda60bZhotvHULNLt0UIEy66rJhYBby9brbxoFCAjyU7cIQ5Ta1lsE6KmWicgt0KFY3vZFlzEc0E8uashscxojtFghBoDL5lOM3VEYeIZsqshuLfOf90kIxbKmM6sE9VwRodH4HKrRjddFWYKDuwPqhXEfL4rzkj12MKzvCybynRKsHECnm9Els0EaqJrqZ2p0C5PEY9WWPMrsak2pjb6Oq5atadwHWBN1IggoapkDjM25MYDRwlL4niPpNPUPDLl1gNFJ0Ajw0uMYzOv0Krp4XwUEIuMxu46OTYoGQlI4aNA96m0ElpBWnQvdIOQB5aImQsd5cuSeZ0OykhkY+j5pSoLd5fxTLByGp+CDURMc+wLs32Upuhy6AMaMwsbfBY4WkFjfVGggJNy4FY5jWu1KLdwVte4t4XXOZvgtTB9mkutflqt0IbY6hEDA5+puFnbNcbF3tc4Ec3OH3I9Ix7YcpFyDzTNP1WPBbYZtChlKxkUGo6l0FQ17Rfpa6tZsZxAAsjdYcgqdzS2NvFfLy11TsZYWhr76jx6rJlpjYl9gmJ1E9QymfHme5dJl0XCU9S+mqWTxuyuaV3mHzMrKRk7dMw5LNkQwgGErHRaJrIAFpw0WcuxctsCsZHdHytspWs29kN0WRjjsAiGPqtNyFgN+qOWgNVWUwcTCW6C4KUqsJw+pvv6SNzvG1k/FozncLNOeoQtp9F2cxV7J4e4kxySwOPIc2qrOyk4lJNS1zB1aLFdyXXB4syTqKmnp9ZaiOL3lWsk1wmHy/g4yo2fbTguknqHeQpwUpNTVZBjp6IyxEdaUNK6iu2lw6E5RNvj0yNNkk3aSmkn3eozDlfUI4ttdBPcUrcMqBA5lPQVsTyOIm2VUmP0FTTzxtmaCS2+ltF6aJmywWIdYjrpdcNtnT0zK9hbGWEt1OYlNwSe4E5d1PdpuQEAwC1nPba/grM07CCb3+KXkhvpuwdfFdKEwJCGKhrX5QSdOdlVEHOF1+O4NVNhdNuYwyPwfcrmalkrbnIOIa2T9NkUjPLoVxCWnbRSjdEOynVclKWulzE630XS4kCY58xGXKbLmXgXuV08C4OBr16omAepcOajSuDZkRo9WbIcOslgFpOex9uSRty0AhDfuw3uhaY28LnuaB8UBkWZjzy95QV+o2UuOibXxkgtbltomqpjTBGYuZ56pBsQy6D9KI/wBUGjW9vFWkS1QVoN7rbCASbKMBzc1JxDD0VcBG7tStQ49Exmbz0SVQ450cUxeTo3HmynRaLrDREYbN8kOwsbIjJ0QB4g53L3ocpu7Tu+9bfclRDeO9/hZGgGyIBvzUrad5SDHEXGqLFSvcMzjZCgdrsE0OA4XG6LFE46uTTYmgaWupZTbmEW4Z5dIgI428ifuW3AADRaMchdcuC1MWssC6596gVpEfaUg6Jrhw6oUjz4ae9Bc+6hTkNTSsuRp8Eu6XhsGlaz2ubBQOo8EUULkyTiSQS0okAaYnXcGoR0tqsjeddEVixlxFuS20ks0Cg4nLbKVIOtYAJYdEZblgCE/SQKUziOQUHG/TVFEFmgLvW5OdlrNx8luXUphSB20WiSFog2WG/iiITkALyWA5PNRFz42WZipcWg0UKIOv1W2DQKY0OozBSim3cl2gE/RcFCzTeq3INAsJzG9rLJdbaoSyLgLBa05qbgABdQdoOEXUITkYGhAB11R5D4oDz4BRFGybmyYYYjC1uTi+klm8+WiO22UIimMttcWITNktDzGiav8AVUslHqWDP0s36IVyw8rrn9mpQ9gv9FXzdSPBealyetw9DrBoCmQeSWZ7N0wSNPFKY6wr9aaUczbRcxVm8WQtOhXUvzCJxuO6uUqnZj7ypdDKKqrqH/g5sbdHCwVbvpnOsXackzWsIqXBrtAbpZoOa9tFpjEyykaeJARbk3lqptLi4ae9RLBmzalGY06aJjB2kt4M178kOWePeAkj7ithurr6XQZmDlcAjkl0NROOogaGjUFx1RTlNtLqtyuDgeeuuisYicrSApJJIqMm2XVM1vO3RMAtGgFkKAOsLiyJlN9G8hrqsspGqNkoO8BdSnjvYuOl9FkEbTroDawR3saQBZpI6pLYyJFzQGA5fcbpmOCd9PvTGMnjdLzsJh9WAgtkla0t3liPNLasai3w2L0mrZGzJ9HVdBskZYZ5Ib/4H/muXwKCprqzKKkB4Hu/UuroMImhnp5ZZo+D6H3rLmY1F+SsPJQut3FrlYZSZCX9lEA09pIVmK0MAvJVRgj+LGpVRXbVxRf5tF+V/wDuo8cbLUZI6lmmi1JZupIHvXnztr8Qe+7N0w/RCUxTGq6sb+Mz3H0QrUF9xzwyO7qsdw2kBY6pa4jm1mqp59sICSKekL/AuNlxubh0Ws3vutTwxodHAvgusT2or6obuJop29bakqjllkkf6x7nE9SVsEE9QVB5F+qDHCmGo7SMhFxqoScrtNkQcuSiL31CZJAMboa+spd1u5iGA2y+KljtdFWbgmLLJYte3xSbg63JK1odmacyuMVdgN8E9d2owfPN7vs/rQhO/lKnMO/4wpc/0h+UnVSMzOnqGCWN0T7lrtLWXFbQQQ0FQW2c5juWq7iTugjUrhdt4S2taHGwk5+SXoryPgz5ODl8UkYWTgNOUgrlZw4u5WC6nFGgU7rkXyrmp9XEdV6XTKkcPXdohxCI2K1R3z6ALbidybKNPfObFamcv5HKU5g5ji3miVTImsu57fglog5zHPGlkJ78+rr8rIHE0+ZcTRmgsQL+Sm50ZY1zrmyA5nADayk5oyg3NkSQjcybJ2sbaxuoueXa3WmtbfUKJbYqen4KlJ0ZvSBbVQJzc0a0eS9kIiwuESFvdRtl8vktA66LbCcmvL7S20Ag6KAgHXJU4YXvcmI4Mxu7kjHgcGtAVbiLHYJrGt7rbItuHUIcjgzUlDdUkizRop2FxEM8hrbk2QHVGXui6DI5ztXE2QxfpoEaQmcybppT7Wixx1BvdRA8Ft1wQVYm2by5yeKyg7Q2GqxxJKgNDyKhdhHDRatotu56LYGgTSGC3VSi5FReD0U4gANTZUyg7r272iwixvdDHOyM61gEseBkAdYoTxxaJot4bJZ3ztrooyFyiaHeWSA5gsF8y3OTmA0TELIFt28lpzbFTF7LT+fNWWDynoiOboCTZZHYutfRTqIXMaDnDgfBUWAJc1/e59QiMZd2p59UN2guSiAkgWRFGy3KXAG6kbZRcKLSVKQEWQkJENIFwhvDSSGmy2/ugLVtFCEZjYJcuPQIrsxUWt11ULCRNOYA6FGYLaEgeag1o0PNSaDblooQYjsCCSms8f8AKH7krYtIBaUb4KkyNHoeBGzIzyNl1MT25WnyXH4TIRTRk87LpKGdsjGjkV56aPU45Fu1wuEyw24uZSrAA0E6lMXtYWWd8mhDNwYH5vBcdVktzWB5+K7Agbl32VxdU4nfAkE30RwdFy6Fw5srQJC7n4oL4/UEghwa/QEpihLg4NtGSD1RK6MNp95Zt83IBPUqFldHbM7SxLbLTy5rxlcRdMCB0mZzSOFuqBUxgPY3MAefNXdi6ITvc46uJQTmNU1wIAaL8kwdM1hoDa6CdJjd+lvBT5LXtFy0iQuJGpTYGZg06oRjBc459By0RybZLEm/1UMlaCiuS7bzbpzTD3AvJaDoEvG4OygZsyckuS46gOFuXVZJO3RqXQKORzdS02TJEb6ccJuSDy5KDWcAIUmlwebjQAJTpMZGXAzK38W0SgglcXmCIm3MWT8rs0LAOfVWuydO9xmltpcBZ5y28miPQlsjDK3FtRb1P9y7bexgavaPilRh49Nkm0OeIMIPgq6v2Yoqr5gSUzvI8P3LPKVhotPwhQx/8upGe18+EvPU4TV+q9Mj+p67KuVxDZWvptYWNqh/oe99yqrFlwQWvvydogjik/kYoxfwdJj+CxQ0ctVHUTOMbc2RwuCuVeSRqpGWU83EjL3b8KcweqpaYH0iHfX7uWXK5i0QqPHZoUXHkSY3IAbIpN3BSn3W/vTb/d/Qf3lL/HdQzHJEWkZeS1mHgpRglp0W2Rk9FNxARuep+C1qEyKec/xEg68lL0d45sA68RVbyCbeXRZK3UfuTDKPiAu3n4qU1FGXNDsv6UCyOxcqYENFuaTr2gtOh5q0FBTaXJ5eJSlRQwnuh3L6SjyNAbUVLm3bqj4TKI6tm8L8gWPhJbponcBw6in3gqpSPADS/wAVtck1yZnHk6OGppTSb/ex6tzd9cFtTNvsXmdvO67d976PCuyqdmqSkpTNCTwD2+Jui4WoiuT7/asg0u13QqmmU9aC6N4GpJVLPhzjM7MdCF0bog2QgpapaBc+S7WLI49GDPpoz7OVI9UFCi0qG+9HOXced0GlHriRzXT+k83J+os4aeMkEn3iyjJT05hPIaqOHyyvDnOB5WRpm+rt0WR3vo6ScXHcI1OVpBjy296wBr9Xt1t4oL4bk5XX1W5Gua1pvqPJaqRgcnutGxBGHm5N1p0YAzB2UqTHkutdTeGqdBNKQta55qEw1R8tjoovbeQNHEfAJkZUIlEFGBY9UzTs4bkaKFMI2xuc4j3Kbp8zSGjK1V8iok3OYzvHRLTVJLvVNsPFCNyfFQvlcdFC5Pgk697LGtJBC1d2a5C2CeauwLNBatcLdneS2LgKxNEMrr3W3XWyXfR/SseHWHCrLoDc3UgNVhabg2WEOuoCSczW4IC04EEXcpZeFYbZeStshoX962AcqwW9yI0aeKidlE4geEZR9yIQLaqTOHqs11uboezREiW2GbS3klZPnNeSYkaALgpd+j9dUUULmzBbeBZOG59VpoGh6rczQXixTUKNZrgNaSAsNiNVjwWkWLSsfr0Vlmw0ey0/epOBtpeyi0NuCB8Lo0rg6KwisPG6osSeLk+CYk38lp3535/ac3vflINu94KURNs5YbfZRAhQx+Yx5S0qYY7lmHuWAyBx1ufFSfKWlpACV0ECkjOWxcNFFxcy3EEWYXbewQG8YuRyVpkkyRJLSgAXPNHIIaUEDiFgiKQRptp0RbWHWygW8ObeD3KTScoBOil0QPALODeic0SsDctr801oiKo7DCX5qOI+SuaNxNQxrdCqXBRfD4vcrGme5lSwt5hedyK0epgdhBcWvqU3lvY2SFNKd21zu8Vaxi0YPisjRqRCX5mTX2VyNS0PzDRvmunlqG7p4cwg2XN1TmujfYO08kSdFiUcLgSQQStVGcRBpFwfBEgeDMS5pDSPBGqXljLNAt7k6xbEmTObnFwLi3JJ1GsuYp5+V1wWuuW3S08IJaQbI4gMg2wGg5qM2XfgZdCNUzDAHZhpwqJYM+YMzWFlbfIaVxK8uLXBoNhbxUpbmNhzm4PQphlOS9xIHxWpG5bB2XU+CtukUk7LGjmyObq7MrYXe06mw1CqWZw9rg1thzVtA9gJBPd1NgseRU7NK6JwlxZZORw5m23mpA1SbHNHLknIniRoEYA0HRZZpthxCFhAy3HLmuo2P1pHtB4s336LmYmkts7ouo2Oa30aU6E3528lizS2mv6S2u3fbrNxWuj7tvit215JjIbd1Y5SLE8lvbS9bh1LXf5zSRz/ANJWFtbWWx4qlKy6OQxHY2llBNDUFj/ouF2/eucxDAcQoTaemzt+kzUfcvUbeXNZYEcr2VYckYvo0LNKJ5TS0FVLJlhpJZXeAaSQmjhWI8vQKm/+oK9Eiw6EOMsLBBIebmhL4lBjsbfxSpEg+4pv4hXSLWpcuzjqR8eHxGOvw2UyHq+7QiRUHpoL6SopYWnUxOnIVnJgu0OIH8aOYjkS7kjU+yFUR6yrhB8Gxkonkrmg1JPtnMz7+Oe0hgZ9hgyoRY2/zmvuXcYfs0KU7wVg9xiCBPg2Eb/e1VXTf0f1JWRv4RSzROPZTTZr5Xke4qWQ3sW6+5dbvdn4x6uOSdw6Fx/aq6rxVzXkUtFDA3xPNDGMYfJcckpfBSmlndHe0rh8QEOSLJYEhO1NRUTi75Dr0aEq4EEXzX8bK3KIfqKyWmufm/s8S6XBcFvADFLS/XyXc79eXkq7Ksiqqin0p5Jofa7y0rK2q6EvEX2Px+jYDUa309y8uMep/tLosUmqHUZYZnkF3duufKdpE0mDsFZYwCkKyLmQrOVvJKVQAjcR4LsY5GXLjs4aTuEdUOC+dHnjsB4kIFKDn1Xch3R4yceRulB3UtjqFGVzt1Y/rUsMIO8zE/moNU45XNFyD5JdepjZOoxoG0AatP6Ud4a9gGaxt4oLIrwNc0EnrooydFadgv0thGlocXcljfWmzdT4qMDBrmOo6KUjyG3bEW+5ETcFBhY4B7sxHQJSecb7NE0R26o8TRYlw1Sz2tseH4q42BOmY24jcsa6wIstxC4Kw2sU1mY0wWdcaqEwvqjQ9EGc8VroKCl0aJJWr8PJYNFIclYhs0NR1UmC5tqtC4CLSg59UQwHEwk63UiOKyIy2ZaPfKhKA3AGrVMluS+7UX23d/NY0ZolGLNuJLAbBRLTl0CLIy0QtYLbriIFQLaALSLXC2zrqtzvJLdSsblAOiugRhl2hpvdTc7MLAAIbLEi1ypFt76IbGgnQ2ffM33XQ5BZwLbXRTmuMrcpUJmS5gS1z/cESkBIEwestdbnaRqSEVrMxBy6rKhp3m7MZRqQkWHeFjdTu5bMZaL8lB3PQo7shMWabcypPk0tdab3b9Vp2ovYKiyAcHX0t5qbpCWsbczeAPRDcSDopMLidNFdEsO0lxN2ZVMi4AdotNJDnNzhw8VlS+wZYpRYKodc2A0CgwE9DZSla6wbc3Knls0AIUV2amGnhohNbYjwRpXZG2HFp1Suc+aYiILoemiM1oIbwC3ml4RvC0XsOqZGVosL6HqqZYyLWBUrhLbzM4AI6JFM7HB9KOOx6K3jIJDuoVJhDvxCN31Vd0IZICXm2i4E2enxKzo8MmE0V9LtTlRVuYRG0NJDVTYbMyBr9dD5pB2JbrEDMSS06c0hps0btp0zZ4Z2CN4Be5t+aoKlzQ03BuUIYm0VcL2QkWFjqhT1xkDszG2PJFGEolbuAUbQ0C8Qu86m6YqGzFoDhwjkkmTkkeCdqKveQ5HFoup6rJ8AooZWAElx6nRFdFBu2Ne5wcTc6KUVXDG0NL3EEWOiBKQ+ezHEj3Im6CSQcwtFy2+ig1pkNwCm2NDWa3NwhNicxzt1msfJBKdjoxByNs/Mc1nAW5oFe22V7d5e33I8ucgZjYBLTMaXgl/v0QxZcoh6PO91znyt8zqrLdBsRc062VfS8EdgQddE7kIiNzcZL8uZVSRcYm6d19Xm2XVO0Em8qGkO0OmqrA8+BRadrnOblJ0KQ1YyKOjLQBxNyu810GxvzM4+v/vLlnctf6SawuKvki/Fd5k+0uflXJrh7aPQWCxsmGNsLrlsPgxYOvPWStPS3EFf0M00bCJ5WzDyisVknG/kqxkN56LRZw2ymyG2pi5hs/5il6TFkuGz5f8AVlJshPI0tWg02tZQbURF1hFKPfGUX0qFhtkd/wBWUDZaJRt0tYhTylvVDZOxzrgO/wCrKY3rXaZPvjKuLolE2AZFtrWtBIU22y8lrS3JRIllfW4XHXfOGoH5ZVM7ZGlN/Wyf1l1TWqLwpKMZe4rzJR9pxx2aEPrfS6j/AGMPEjTx0ctPuarEJR/rgM3j1C6jKEvUMY8nMwEHxCvdZe9vs89xShpaaUPpqxlR45en5SFT0kUjC81NOwjkORXczYPh0g/zeH9SrKnZimdYwTyj7lTvgfHNE5QR2uLhDNFOdWts36TtAuiqNnKxhDoZA5vnYFKVE08A3FXhkcn+nfmcm2pfqM8y+jlcahMcDczoyb+ybqiP+OFdFj1Vvg0CGFo+q2y5821XQ08+C9orKQX8z3UjXG8LwPolWEjml+juiUmFydVthGzPNHFz6xRfVaR/Ocl4/wAnhXRVdJva2S3zeTy7yrm4VPGDyeGtzOcu5g1EapHl9TpJxk5MRw6N0jpC15FhdAqI3BpJPNXtFD6NCTnD943wSFS0EI/Me9iXplHHGhGCYRwgczflZQqHX1tzRpALatQZBlDTc806NGXJGRKB1wLstYWU2tA5X7yjSElzgQi+1y6qSYUY2jDYMNwgANcwix1TEvzZQG3ygK4gyXFEGgAclE8sqk0+qN1EC+qOzK+zQdlKGLGQkhSedVEC55obKl2ZdYPgtuCy2nJGkLNez7KIzTwQw3h5BS5Kw7DRHi1DVGTmSoBxvoFsknmoQ0B6viTEZYIRlzZ0rckWJRYiQMt9VRSCSNGTzUXi8Ol7+9TLjkHj7lrUs5hCNAvacg53WWAjJvr7kWwI81pwAiJvqrFNEoe6jgG2YC6Wi80wM4YdRZEEgchba45paUkPR5CbeCBORnaCqiDkDMBENwQR70CS2a5KPw5RbRLzjj01TEAyT2jd3B0QXGxClm0sbhadYdVaQLCF12jTRac5mXS6hckWutjvAAXR9FAXd6/RFYTa6hOSHd2yxt7A2IVlB4jYm/Vbl7gLu8OSiLbsEXzBY7M/K86pTLDNDgwGw1UvZW5BZgsoC4aTZAEkAqjxBLhwLro9Sb8kKGMnVOTQNBYxY3v1UsxGt9cy00kNu63NaFypwQPHG4yDwViItAl4o7AX5o+qslHS4I5smHx5TzCtKdruQJVZgEYbSREWtZX9E0DisNV56To9VABUtkEWYX05pKclwAykWVtVOLWSC/OyVlINwQqi0EwQjtGHc7qWQkNyBpBCfgqhkDAGWAseFZTSRtGoF7WGityZcY8CdOwOeLm3lZMywcPMc9NEWOmscwdc+CnUtdG1hkaRxX59Evc7D28AI4I7XcSUJ7PWZWZ735o8ggLXFrS1x1tnUHhsb2lpsbcXEr6JFEnl8TGnfOPiLqUczi24kNj5rU8bLhzbm6yNlmG4sls0RJCTiIdqAAlqsEvuLAWt3UVrXFx0Q5w4ka6BVZJMlTN6Ok5ck5HKbWIJAStO29s1+FysaaFshLACNOLVBNjMZgzFobkuXcrqdNHMYiALG/RQkz6W9lNULpHN05rPKYyMTdR6Zb1f9VXuy4rbaVksX2+6/wDwFW+u+0ui2fGIRUXqxTSR/bWbK7kmMa9FFlTQ10rzvMRObpZ7R+zwVhTUFcGkyYjKR0AY0/sSTauuit+KQn6u9TFTjNTTx5qjDnfCb+5YJJolllD6QPnPyvrI4zqiodoqaX1W4Ik+2P2o82PQ0P8AnMdRB7mhA8TRaaLtrSBpyWAjoqun2iwmq5VBz93l7StR4/1Vn6DMZYHTkj6gac0GMX1CICTyRooJEMzNQptDQNVGO4at9Fdgs2Yxe7tUNzbu0Rm3AQyeJSwSAHmoSNJ6opGqFL5KtwQN7bjUXQXNbyyo17nmtPAshlIroBLEC3iYlZYorWdCCE9ISW6lLG9jdBGYcTidvKCmZBC+OnY3iOoXB1MJbKbaAr0jb5p9AicbHj5j3LzrEA7M035roaV1M3Y/YISx2KWlabJ+UjMUlUk5gAuvEVKIHKN27Mkj6z+L4PaTpacjrolFS3hO8/J5rRCW1GPLHcznzCG3FuXLVKVcRA0XTjCnvDyCB8EnV4RM2EuJDreS2R1Fs5mTAjlJQLpecaDyVs6Aule12UAIVZBBuDYi7vArWsvBz8uCuRKlBvqOiIbWCxgsBoRosPJMu0IUadGpTeMqIa7Nw2Nm+Ck/SEi2pcsDrNKJOhUvcKNtlKm1v4qSOahyBKYpjEYS26OTMkfUxE5s2oUBfOjTCzrg6ITdJLqkBI2dPFbHLqtO97lsCwTCjROnJb+Cy2nVa6+0qYLN36hYfE3usbppZZIGgC7TmVpFWQN73UmvK115FYLHoVKJYyZPV68/etRPBBuhOAPIW+Cjy5FVQe4ZaRmvcKPNrrtugt1I0RtcpUolmNNiE0AwtOpCQ1uPenY3BzSCNVbLiwT7WsgzjiBCNI13LmoVAILQhKkb4Q0Wt9yE4Bzybi6NNmAygaIDzqNQmRBkQHfWPAJuDbyWdeix+ouSEwWzY4RcarBKRIC02PuWtQBYrCXXNjf4KyiMzi4kl1ysJtlsDdCN76rYceShA7iS/U81JwAtlJWmNIsUR5sLiyr4LQQSZmi/NQncGgZQST0QyQBdD3utyTfok/IxMm9vIZfetkBpBA06otrCx5lAmfluFE3ZdbUZI4POg0RIGXbmPRLwDM6yfZlazJ4tRvhC12GBue7+lbzH6P6VFvj0W87fBRIM7bB4Wso47dFbQi7FVYY9xpWAq1pX6WIXCmejxI1UNdpfkhSttrdMyuulakF1s3JLjKzRQOnJjeJC0eFr/wB6cb3d45uh6BapKFz2bzhIvoLohbd1gALdETlwUg1NPMY84vG0G4CXxCo3hDbuPnZPQgZSx2lwt1lM2OEOZI3U66JEXyMK4xvfC3K64BWxGQRnFh4ppzhFAQQL+SC5wc4OBuPBFdDEuCEgu+zToiNBAN9Qt2BN7WUsg3N7kE9EDVsenwCZe5sLH3qM1ja6k0G5PFdQeL2BBUl6hfTDQFoF7aprIBdzDYnmbpFgJsNdFZwQ3gcMx5JM16aGx9wCW2UHXnysnMJnEQdkgbnv3iEtPHnjsInAtFybqVC4DrayXNpjIp0Puc8anVWuDPL4N0+oI5lrcyrCSO6L9VbYLE8wbwxjg4mfDoufkVyQ+/SHLZm6F2YfSzKywgQ1MohnjNvpZhqkZWiNuXV1+o7oUKOSaKcGFrj9boFmlfwTan2dWMJpMoL2Od73kqf4MoGG4pIb+JF01RzMlgBEzZG+IJRMjb3dctSZykxfpQKCGGEAxxNHuCZJvqbrQtpwoo5apLQyJkYGXREsRYWuhMkaBlJF0cGzRpdFYMgjBdqwgBajIDea3e4VbgDByKgpA6FDupvRDdgUKS1+Snc+KHIb9VFItEXckN50UzeyE691Lss1J0QHcyiPJQnFBVBlFtjZ2DSm18pBXmtfZ7bW1HJeq4xCKjDamMjvR3+K8uqgPDW636aScKNWHjgqJxZyVlbdys6qM35JCVvEuvDISSIZeDkFbYdTWo4b+1xfnKvbDcDQq+PAAHaNy2srzzujPZXUjHMc8E3APNVOO4hOzM2EtsrqtqiyjdGyMC552XJ1DxnIewuITdLC3vZlzu1wUdfO4yh2cXd3kAMcWtbzGZXNRQQzAyCAjS5VTVbpoDbOBvbRdbHK+UcXUQaVsjIQDlHggvJvoETK0yG1+S25ttVpXRkd2LPJLQDbvKGZwjOg5ojheRlvNCc4crdUadozS9xuJvBcoLHZXOseqPHbL3VF0WhOUo0Z5WuSNg9t76pe3Hroj0rrTEEEhbqA3MSAFdc0VLmO4A4gHmUQkZNCoOF9brYva2itMEgCcvNavY9VI6N6LR1RFGNNzyUnc1pgKk4kuVUKSIWBbxEhaAPIIuV2Xu/G6i2/JWXRNwGSyFbmim1lhHCTdCUkDaLAlEbYxXsoi50RRG407rORDQJ0NwjwusHk6oEos+11l7McL80IsKJr2AFkUjM4XCTh0kGqe66IhkXZrdDTRJzjLIRZPcw06pSqt6QRryRJlZIgSBZY4R5TzUtLW1Qnt16pidiAjdBawUSSDoApDVmrbKIHWyhAbhdylEcr7ZQVp1r6NWtS7lZWQYdma8se0tcBYgrVQS1rVrwUqghzGqiyD5LtspxNu5pshhosmWkMLVZaMmdljz31SLnOLtOqPUuL+R4VqCMgZigfpK9xJjS0BMsFwEJlyLorDrzQB0G0EQGZQsVklm2AK3xI0Q7fCT+KsvqVaRGwuVV4UPxZgVixuZzRdcB9HqMY1HlLSSEOdoc02UmEtzNI0UJHFrgOhS12PCUE8kU8bCOAEn/HEjxsL3EHUvJ18P0panaXEyc7ac03RzNNSY3ObYKpOkSgsVPNDC7McwA5lDr3E0jW+JV419LPTnJLG5o5i6QxT0aOiJO6ve7RdZYtph7eCrlNwD0K3G3MQLWRA2N2QF2vghy3bMLHKnIJdBSwAc9VB18up0UgSI7jiJKGRrY3VPsauiIDr6ArbgdPFHaW5iLO+9EIjc1oykOHml+ZyFXAGAG4NtSnhe5LXgFBYNOVkwwcJBSsk9yoYo8mVg3YuJbgjlZDp4HOfc8iFt0TASTcnzKYpGvYQ64IWeTaQ2PZvdf6/wDKcriDDImwRymWZhdzIelGB0nSyfbvmxta2VzZXcoyxZcmQLaapKQutG2eaxPIu0KvXYDP6O10dU9l/Yz6IWGUkxAkM+d/0cpsFcCORwDZZy0LMp0DL9CpbhlVCfW11TuvKoPuVj6BJuPVYxUR/Q1Uo8BpjIeKQ/Ef2UePAKbdnik+8f2UiOUplZIKqIG20ETHDo6W37CkpMWxGMmOOpqKl3jA/N+uNdD+Baa9i6e3iJCEUYNQtbYNnefrOJVScURbjksPr8Vlnc2V1dC4nvTQC36gruqxHEaKFrvwvhrzbuv4T+taOFYc2Z34ixxvzc0H9auI8Mw8Qs/EacG30AlxzRRcoyOap9sMS5OpKab7F1b4ftBVT6vwWr97Bor6jggjGkLB8FO9joM2VMeaMvgH1GNJsVDqjgaFCIWZJorsw5QEFwF9FN172UJDZFuCIPQzpzRDc6oUt7aK9xZCQhAde6O5vJRLBxKSGxFnNzxvYRzFl5VjUDoMRqICLbuTT3L1jkLdVwe3EA9O9LaLCTvJ+klcqHYn6jlpBd3Ek6tsYdyT0wGdKTgZtQuzCQciVFE6ScNY4253TE1NI57j6U836I+B03q3SvDmkaWTRja08lUpWhTiUr8KqZo7ekmzT4JKow8R3JcCQOa6mPWFy5vHo6qWcNjaQ3Lqjw6rzPTERKCOfq5RTV74JH2a9lwqCQB02bMOausUiLX+tbd4GirntYbARi4Xf0/pjRxdW90tqFh3iSevgseNDcqchIeAAFqXUuFgtSMDFHWzN5pdwsRz5o8gIfz6KBcGyNu26bHoxTdyJQ3ym5up8xa6izKWnK23xRCG5QiBSViUjMktwsfxBGqI/V3ulgMxtmVipR5oGLhTaPILRHkstYK0gDUg05Bat5LdrhZl96MEnG0HTktmMsINwQoU4N7ON08I4Q1p3jj5WUkXGO4WkiJFwAPilxwnQqyqI4g0negaclXAAu0KBSJKNBHm7QtE8Ck4aWshi97I6KNhxBFrIgc7duBWhYAHIpOdmFg2yhADyN7c+C2cpjupSi/Tohi4Zaygo1EbyN96dvx80nGONtx1ThFpNBdRjIBmOOW1wlKx1qm9xyTV7G1glawXkBsFEXMXzLGcT7XK1bX4pljQDdX0JigEwyusLrTHaWyotSLNugtHDmujRTBnRxWmm7rLHHiWj3tEZQUXaFj+6AtB3QqRaCGg+KhDYjJjDluou3JY9EYFrYClnAu1VBLgwNuB4It76N5IelrLKcG5HRDNhRCRXzHwUi7KVpoDblDdrJ5JZbGG2cQmLFDgZwgkovxWgVZ2uF/5s3rbRW9FC+WYBmmiqcHFqZvW6v8ADDkMkhNtLBean6T1qA1ETow5vPK5AqNbXV22nAoDLJqXFVNc1glb4BKQYzhLgWNg3d+d3BSdFG2tL75eG11HD7bjlaxOqnIQW5uXvVP3FxVB6SFsdMTFd+bml8Tidu2uLS0dLpikqM8GYcNjayyuqC6ltlGh0JSU/WN+CveM2WwdayjIzO46lNtc0sFhok6hxE3DeyevSTsYjuGW6LRzWJv+hYHnJzKhck95C3Y34D0zzG1waBdY11m3JBPuQ2NkN7WW90eg196VKKfA2I1HMC210SOYF9swSsYyjldNUlPBJM0yRvt5FZckFDk0R5NSOJkGgNlaYZPEaXdvhcT0Oc2HwUPQo8oy3Lz0urFlDTUhLHNaZXWuRe4WfJJJBRbAtisbIstYBUgxxhvDbT7lb0+GRS1u76cP5SlXUNHv8sMeVoGt1lWVpU0NUot2S2drw/PC1mV7Re/PyV56yfuD2fekdnaOKF75GsDS4WuujAFllydisrV8CUOTxyfVylPhqg1vEURpIaVmToEx3LKpx8rKDfFEbo0lAv3llPqionH4y/3qxGlPGSq6ouKl/mnyb0kYSo8b2Mvoco+IO1RWd3mhUJtG6yICfBMgr7FSMFxmuUHQP0KKDzuhW4tVTfJRF3NBlF0Zw1QZhZVEJmnaAKMgutk8IWibc01ckIvFmgpZ1ySig71uY6BaJAapKQSE3hwVTilIypp5YJeR5K6drdIVDbuPVVje12NjyeX4nTyU1RupgWm3T2lCkpX1EmRreC2p8F6BWUNPUfPxNcfMKvq6eCmjy08QYL8wt2PUuLNaluKnIImhrQgP71ym3310SzTdxuFoUrKZCnAsT4oGIua2nJPTkjRE5rW0VXj82rYgVowxbkIn0cTj8u8rJC7mbWS0QbmN/ou/UiYywircCSTYEITWlwNgb5Tf7l6TEksfB57O/wA0WeGh2jUNxbrwori0PsSoFrNdVqiqOfITcLze4IbnAEjLyU+UrrHqFB3fcE9GWRKIjLeyYGsfLql29xyMHgNsVLoAVqAbuAKDHwyI04BvY6KJycAZJc5dRu8uX49U2ImXYJw10WZb6LDcG6MwEi+VUUkBEeo1TMDRrqgHvXKKJcp4CFCxqCNqPkj0Dglqec9WhEdUNLmggBVTobGUbI1rGCB2UBV7W2HRO1dQwsLRZJBxzDQKkxU+ZWhhskQuHMHvTLBSOANheySkeHE/uUQT4okDuQd8MJBLfFBygA6FY0uta6I0Xjdqr5B4FXHj8lFw15ojxcE9UN+XXXoiFNGRD1rbdCn+EPdw6+KQgHrAeSfFuvJWxkDdm6aapeuDQNBqmjzQKu2UkjVKQb6FYxdwFkY+FrKEA4bqTnXNgjYuKIu5G5S+bLoQmXxuDrO0PkgTNymyOJUkBeQSsbo7yWy0BtyTda18E4SzdruRJO6G3usY15F8q3MOAeKohp7nFobm0C2c2XnZbAAa39Kx7rnhF1RZF+rr8vJbp+EnzUqg535pRcoVyAbG3goy0TkdrYLI2G97GyHG1xeNblPd22gAHMBD0QO3ugXRgwWQQTpqmA7TmqRGdlhlvQ4rDVXFGwyyiMdSqjDLmmiI6hdHgkfri5w7q85OR6uJaYhHlw8taPABc1W2a8XXU4k61INNLrmMSIzAgXLilRmOaDUU8Jh3JuHuJN7Izog0N4hI7kAUvho1bnsbZtbJ6TLHKJNbZbi6GXEg6NQOjhhEckYDz0AQ6jJuHMuL30R6csmiMwBJ5GySq7sda3PVCn6gq4NQyOAAsCPcUF7/AF5uE1TyhtgR+lakOaovbT3pllUAcSR4KDWu1R6l2a1uX2kNjnHlbl9JRugwkDiDYhMPN26NN/cl4b7waG/vTURJDw14J96VksbEjT2tq6xVrTMD2gioDSPJVlOwF9iblWtHA90TgALDrdYs7bNOLkNA15nDN8bHyTMpcHgiqaHjQ8IRKWjDWslDtfrC6WqaE1FYXGQC59iMhZMjQakXGCVUsTnNNTe/I7q6yuNQ2TWoa5z/APQouz8JZUWDnlkQublWmKta57Zgb3FrWWXUVJUVH3FXQVeJMlAp/Wf7JXEVZi7z6yC3+ychYHxVBXQ91qVkkkqoGa9RUSVmNNPqqDffk5P2pikq8Uf/AJxh+5/26eDiphyT56kvaVRMXDBcKTOWqG8kNKkHXZZJj6aJ+pX1eRtSXHkiyTRuhbkPJJ4sTlNvFK4U4lxa4pDncZofGFx3HS0JtDfndG1PLRL0Ja2nGt0UOAvxJib+DPIwDUob9DqpG55FCJF9SrKTJEhCk1WAgrUhFkSVBA3ki1lCV5topPOig66tFrkFETugTyWnXde3JZTn8XIK0b5SoWDfo210jK4F6ZkdqfBIygh2nVVdMdADUOtcZlVV3zZu5Pzni1VfWFtjyWiMdzNUSreRql7EX0R3ObrayCHEusF0cfRUgbLAEqkljNVXlzgSwFXEjgGPPgCq2glZDC+Sbk92n3LbhmlwInHg43aVjW1YLANR+9IghrhYjUG/3J7aWzqiPdnm396RLbDzsu5p72cnntV+9APsZOShJ4WU3WMiiSCVsiYBBoAmcPMKD9XOTDQDNyQXEZnC3VPRlmbiA3RJPNSuOVlFvdKNE0nXLyCtiwJyxsAslnFupubqTpS53JRBdmJu2yJcASkabZxsbpuzRHp4IbAMhfcKUrg2AG/NX8kj7RQ63zLTB4LRzWWAGynyB8BbkDRY69rkKLLlScQbglWVwAdqVLKW2NwtmO45qIbfQqiBOJYW+a2+wao2uOaIB0YdHAKbBoVpkJcC64CkxthZRAqgRGqG7qpuGvNRIF3C/REUzUfeAun28h1SUAG9+CsKQuMrLR3IPJRh4zXUC+i1UDMC0WtZakcGFt+q0ZYTJlKEu7QGFoawtutNcwE9SsqC1ps3kgWcBntoioBukMuN2pae/gjMcOV7rcgcIHHKLK4lS6FJ3uLWtcR8FBthIAAb+KIcpsHLDlD7N1b4p6EEt48NPQKLr5brCSbki4W5HcItyQlkXAANsSSVMgNHmptjDWB46qL9dbIHyXRo6hBLm3t4IrzppoVEMzc2281dlhKcC1xzTDTc66oLOEWRY/0dUDLDgnwClnPgtZddFvIfBEiM7jCHEUsVzrZdNgkoaXZ3Bt/Fc5hDc1PGbdF0eF0zZSS+9ui85lSZ6yLHcXqWvpmMY+5JVLUC5AurSqga1pczusNkjNG3NmGp6LNJcDYDGH094Gm/MlRmDZWva25ytuSuhwGgilw1srwSdVWSup4jNCAGvLbe9A5cBx7K3Dj6s21Z1aVkjYw5xscpOl+ilTRtjBa118zrWTJo35AZBb3IYyGfJWuFtLKYiu4ZQ25CaqIw1lsut0m7M12l06Lsto1UcOjufJDj1LtOim83HEDdbYO8AOaOToGK5DQZ7GwRTAbEm2qDCS34lWwbGaRzweLLyWSeRwfBp2cClHEXd3LcBdBhUgjmyyC9ouhVTRjT3p6lAFSwBt7gg6rNnnuXI3EiwnLbXglO78EW263e7+c/eLIUDHA3jtbwVlhIkxCs3so0j/JWCfpHMdwWGL5qL/bn6vgo1vDwji+c/WrajjZHTNaG3a7Wyq8UFp8vc7361jnO7FY+w+zwDqlw8le3F7Ln9nrirI8lfAWKVKW5Wy8vEqN3NviiX0W2NBYR1K0NNEpsWiBHDzW23IWOBstM7hQpck+CuxdtoH2HVI4WWic3PMKxxIB1M62pVNS5m1TQdLlHH3cGiHMTr6IBtM0KXTUrVJ8y0dLKTiAL2FkuPoMcgaFa5KxpN1Jo5oiiB0CE/U80UjxQn2zc1BhFwPRwHvCTqm1xB3T4LebE65wy6Ie8blN0UWkUijJx0i0DoLe5KzM2h9qRov8ARIXQ0rg6IG7rqVrg81ccr6ch7zqH0nGVMG0JafWzWv7JSElLjJPE+rP3ruJQ7UXKRqc45Eolljje40Y9TJ8HEVVJiF+Jsvxcq2rpqkDWP7yu8nsX6lI1gGU/uWuOeUnwzTHI/k4cxyhtyGj4oUdRURuOWQj3FdQ9jHNOZo+ISLqaAX9W37lvU8rXDKlJFKa6fcPa4tPDZSknYKCJpcwEDVM1sELYBZjQ4lKYv6NFE2IMaXZVsx2zPI5fHt16RT7qX+Jb+dqq93IJrG/n2fZSzuTfeu7pvYjzup/esAbZrWWtM3JQJ9ZdbBbnubrRwYgMNvSXcOtygvH1dblGj+ec4FLSB9swPVNizLM3GDlKMSRBZBYeE3KM8tMTdUxiY9le64PJRHPUIkmXeW1Rt3Hl7pV2LqzI+5KeXkgyPGUaIrC1sZBHE5CcAWm7RcKEYIA/BTAuPBavwWtqpwtdpdqsAJka1jXNmu/qLIM44mkIjo5WO3rm2upN429OasqhY3F+K60NTfkmHwXNhYeKG8ZX5G5TZQqiJNxqtez4LZbpzstOaA02uVaBZFvfAumGC2Ylw5oBZo06XUxfIpQKNkF1rOuSgyxODnCQ2IU7ho0vcocjS8nUmyLspmQN47Anknobg2uUlAXCQnMRonacl18zSdOajDgLVYBkbpyWmN9de2gCjLcVBs66ky/EXm2ign5J7qOQXLVjoWxnM0dEWEM3QseizlooNceBSThlCM43aQRfRQqLHkFuF14m/coU+hV2jhotPve569FKp4JCea1G4F4JCMSzYLuQbopXygaAkrMxcbAaLJLm1gNEZEMNcHMGgu3wQC52umixku5abNBzKOa45IasvdRp9787XW2k5QM97LbulxdY0i/JRsgZpuM3gpwWzHi5+KhCOFELfJAWFjfqLhpTG8Z9BqTYCLI2qNAM9Bwhv4oy2mivcLlLYnePRUuEXNGz3K4o2F1mDReXyWz18R+qBZSsa63H3ki5hDgE/WMLoA0a6hKuubGyRuGxOq2YNsMa062cVX4rgvrW1EIL2nvDwVjs9YYfHpa6zEm4hNO5kZ3FO0XzHqkOVDF7jk6QXqCwNuc6uspa4MFiD+hV2CNJq3k8QaHO0VgLlwN9UDfA2QCqibI+2W4Pg1UuIQ5awhgIAHQK/fq62iqcRiJqjYi3uWnHIWpWV8jHZQLn4tRIYnXddpItpotSFw4dPuRoGuHe5I5DoIJBTFxBKLctNm3smI2lrSeiE5pEoJ7pKyykvkeHpiC0aa3T9OC6qbumak2CWpWNe4ZQrbB7fhumjLf40LLmdoKPA5DSGIfjXq+839tlbYSPRsI3lubcyY2wiG/EQ9uZv6lOTSFkPskgWXHWTeym7iOwttTtDfZFlTYm7ezl3LKLK5jPCb+Kp8TblMo5X1SpdB4fcE2fbevsPBXp0cQVU7Iwl9WZjyCuKgetJHS6GUlKForO6yURY7VY56Ew6Bbe4ZSl3wL+ST3WDfNaDiAR4rCQSNeQWXBboFZVgJW3FjyVXVsDMShDRonq6UxRF9uRVNWVhdOyQHUJ2KFcsdiZ1kEgbENLrQDnHMSbeCDhzr07XPdd1uSPvbjzSnGhHZtosCoZrKTXXDihON0N0BFG3OI5hCfYu5IujgBxKFYGsaL2ujbspSA1RyN0ypGQ5ublKoN3Cx/ShOB8Ulxb6NMKHaINMTTfojvIDRYIGHkMYweSdfHmYCBzV7kq4MuaVsRLmC+YXKpseflha5mmvRXk1Mb3tdUu0kD20YcBbiQYJScJNj8O3fFFBM5znsIJKNUNJgGpF2ocQDnWNwUfEIt3BESXG7V05P0G/d6irltzSbrZimpL7slJC9ytMFuGvgrMTfuxGSASSqut4jndzKdxuYbxrbd0pAh8zOV7FdPTSsTJHPYz/nX5OXvJZ3NqsNoIt3VQ+cP9ZyrnnVq7unf5aPO6n97IXPfU7BQJ1vZT9m9k9qjFIVYAJXa9EJ51tfqjC2+cbaZUCT5y4bonxMuQwDgdoFEas9yxt92bhRabRO0TDOxYn1vxTzSAzXwSYad4wgcyn5A4M5BW/gvH9Qq4h/LmhFrtSXIogm4joD71t1NOG36dVAJASxzSASbEaI8LX5Qcx0WoYJS/MbEdBdM7twao2XGNg6wcAub3STGuJIsbAp6Rkrx08kBucMcC4A5tdFaVgS7BEkE2BUHN1vlcjzDOcrHWPitlhLCxjrusoU4i1rC5W3PBZZGdCbgNaeXVQMBs3MrsGgbLNkBLS4KbnC/KwWp2ZR1CyRvqr36IgaIEXIWNIIc0AjTmsHRRbo51zorQlEKcucTcp+HM0WMuhCRZYOd0TQs2EuGuiKQ6Apzfmuizlu4AtqUFvfaCLI05AcGDwVCkGj4IGqT3CywhuRunRQkVD0QJuNAsphwlptobqWXqsZpKbN5hECxWs+c06oZ5otZ3wMtkNEhEiTToAs1NspA96wG4FlJ+liUYJk7humgDVQiDnaIjyDGDoFjQWAOadUpvks3I0FtwChN52Ri7KCC4BA63uibLGGGxHMphiBAc3VHb70IQTwv+pE4UEnlYreY+KIh6ThEZ9Fb5LoMKhLg56pcGIFAL9V1OEsDKbMeq8pOZ6yheuqKcx7vizXS8YYHZSTYhXFNhFLUOErt7xfWTv4CorAne/nJM7QyMom8Eli9DjiGr2tJspVjp5cKe6RtrA3BR6LDKWmkEkbn3t1KNisG9w2ZrW95txqs/YaORwmB15HjqLBWMcFngE28UHCckWfOnWuY+UO5K03tLl7iqnY4Sm1yEtM0B4s0Zver57qa+W381U1ePxklo5ctEyMgoiM0ZJubLUA9YBfRaleA8kgqMb2ulAFwrcmPiWQuHEEoZzd0j3KMtQy9tOV72RGi4ZY3KRGNQtj++CxpIHQxZnOBsU1hMhGLUz78pQUlLvPRrXFyeS215YCW2bI3kVkzv8tsKK3Oj0HF4TJj7ak6xmOwKUlkzVcNumqsqa7sCw+STV7orkqqjA9OLTyAsP1rhwilLj5EQfpH2uNlV4rrNf3KxscvNV+JAZxr1H9FE+DRh5kWmycgizOLtGuP6k/NMJJ3nWypMLzR0riNN7J+xWbARfXoh2u0jPOP5kmTe9oIaCbFaa67FA6jUrYy256IIq5yZd8IncWKzPYLRylpsUIuGUi6LbxYFiWLStbAI76nVUUpF7p/H3kTxW6hVr5ABYt5rVgdKzVBcWdjg9Sw0ULL8dvBNgXFlVYG3NSwzPJvl5WVgH5mnmLFJnzRhk/UF6FvRDaC46nTyQ2yOOYau+CNRiZzgWtIb7kpv1CXIPTxXZyVfirmipcwHk1XTTpysuYxs2xGUBxvZK8xJ8fJenlumIyvJe2/REa8lt+aXdy1Jusic4ggGyJx8qNL5Oj3yWVC4lgy2NjpxLpw6MQNGmjVyeGOLQG29pdISMlx4LJq5OatnO1Kp0TJjy2blBPkq7E2sNBOJQ1wDfBFc/U36LUsfpFPIw6bwW5JOnz7o7RcVt5ODww5cYp3DqbJraiQCuy5ho0K0jwSOnrmz70kNNwFy20Ze7FZgCdCuvHMt9w+51NO45Z2hGYnKUuAQ42sivJsQlHP3bZXFw7ui7EZJul2dDiqKCt9ZXOceJpdyR5XCnpNG6X5IMTT6SzW4ui4gHStYwaDOuhKKxO0KfJzW087JamDKCLRftVY8cIIVjtBAWVAvyEQ/WqyRw0tdd3B7bPO6n3g3g57rPBRe45rXKzW1teab8nPAOAM7jlHRRABa45eRRQPX5dfFTpmgsdz7yep8C3HdIRN8nJaDMzTYItRGI5HFt7+CHD7je6czM48AmNdHM3NFa+iZqZCyZseUcQ+5ZWiXMw24bXuk828cSb2CrsGtqoMZHNbawJWOmOUXaEFrbm9ipvbpyUBTGGSDJyF0Vs+gbYJC7gbNbqiNDrXdoiCsO+UuJcDYoLC4uJcVqPMXODm2UQ8DQqdAORIBxe7M/Q8lJzmwsDTxBZEWuj+K1ORkBaRfMoQk6TQFZvNBzQpR6lp0W2jRvNWDZuq3Zj9dmJ8nAAfoS0w4ESs4rB2liozjgRC5ArHNe4WNsS6/gpDLYWUWkNBF+iIV8G6VhN7GwATcpb6PluEpTdxxzpmocBTdL+5BLljI9CzGgv0K1UaztF1Okbe5W2NJmuQjBUQ2lgon3ounghv9yljUReRbRRBG+bprZbOqxrSJQ4+CgMherGotzBQsrsodbRTq3EzWUWPcQ2LpdHXAiXuJ0+5Y/NUMc9ng11lKre6QWD3BnsAm+VDKlJm4e8jBMPcGgRAeEaBDd3Vv2eRUbLCSNBZc2SwIBIFkR/zXdQ2s1HCgonyMstkBRWud0S7OosUxGOSEenaNzO42qd0KYHeBFsmIUz1TBmg0sY6AXXRXAoWQjvTaFcrgdU30VjDzsulwtwqa6InutGi8jkVHrbo6ala0RsA6Kwtw3Cr4vAJ7XdNN1llKgwzyGwlwF7C5VOzF4qxroXRvZdjtbq1qfmZCL6sOnwXIx0lY15cKaRwHUBLlwxsQNE57auRhBMb26+SsaXIBm6ctVWQekGWoaGgEDlbUJmJjmuaXkjTqE1NbSfUHqWDmqyUNMz8wP3ph8z8wBlB18EvVG9QQT+hSxkRGpjDXFzSh7pzpAWvA0R6hmaZzWk3shwExOdmtyRuSoaMimBqGg2ta3NOU8AdURtFhr4pTPK53AFZ4fPBFl35vIW3CxZJPZQ9fc3XRubUGJrhduvNQia51QIsuZzuSYmeKipztFi7QJnBYXfhenzgfOBZMj/LphRe12dzBwYHQxyi0gjykeGiqqRt2umPV1wfgrXHbxky8mtZcD8lV7GtayKMd3Jc/cuSouM1+hmxy9Ia/CNVWYm4b78of0U9I6zRr1VZiVswd9YImqNOPsssLcPRGAttlcbeeifzOOgKrpXMhhoQHDiuT9yMyqjHN4VxmnJ/oZ3b5Dkuy8+qwHhLUvFVRvIaJW95FJAB4rpcKlFtEfBO9hZbJbZ1/BLl+veQn1MccLnvPJG48UUVu0Jc6eLL0SZZmAJcmqqrpqp/CdQq6dwa4AE6p+OK2tGrHPijs8DDhh8IPO3ijNe46WA1VdgU7Th0eaQZreKfpfWP0Kzy5SOdLiQ3HYiwIKcp25BYGwSsLCziPK6ajNrkW+JWbJP1UZskuAzXWBOhC5jGoHuqpqgOsPcuincWM0VVVuElJOS0XssmCNyUZF4JU9xzm+HMhRif6299ELMAbWRKJrHVDWSaa+C2Nvzo2dde0sqHNcOA0BV7A67LFVmFAeig8Rs7XhT2cDks2qj5k7RzM0rkbkNzoOqDitY2jo984Gw00WOk1INwqnauZrcP3Iu7Py4kGHDvbSKxx3OgQx2nqHZbPZZcxij2y10sgcSCUs2zSbEkg66rKl7L6N1967U9MsWOLidfT4FDmIvMSG6KtrXHdOJVgTwm6q8TdoGXAuulhirTNAlEwgxO8X801VCzgANbXQZQI4Kezr90piSzhe/ILY23KmBI5fHWunrC1o1EQ/Wq2eC1C/MyzmvGqv8TAicX6att+lV9aC/Dpr2AIBXWxZaVHNzaf6jnnXMne6Ldja91p5N1phcfpLccEgdJy76qJE4MiBzHXVBnc5oDrHW4R2k7i1uQVp8AxdSFqvV979EBpdYjkUepvoeiHFHm1c6w8Vsj0ZcnuolWG0Ubd5e4SOuY6oshaSeLkoEA6NOqi4AfJNvJSa25DtVoWAFyiaW0coUkTELjIHtGiyo4BxNupiM7vR5QZQ46E3Vp2XIHGbuuXHVajAzi7bglYWnKbmyyB1jlDr3TAKJBjdS06X1C04sMQs3XMoTNaA7K4glZBCXQ95CQnkcYAAoBhEoRQw8s2ii5oFSMrrqdAyBVbbuBHNZO28Vyt1LRzLlp2Xck5lYuRkTYS0EyG/uQsozmwuLLehAcdFIWIcemVWKBwgZXcKZqyBTix6eCDT2yk2TNSy8DSLoRi6BUwyjkivGt1tugAyrTjd1iFdhogc19Fj721WEWk0C2/lqFCwbrXsFqQ2AKmfpEalBqTwJkewJe0WnILrlajWiQHWf8ABbB0BTUjM+wgOoC3Le4CgD1Unu1BVkN3KzM4rTn2WwTa6Flm3jg5KAKK8gtQW6uNigLDRaE3Rg7UJZgs4XKacQLWIVMZE3KDnCLlKHLfeNRblEgGek0dMwUsT2sIuF0GG4dVhofT1OQkJXCW58KZcC4CvcKd6sWHLReTZ7CywwuKpj/zmp3n5ICtGOsxI0+vNOP0Y1ZJMgyHXt7knh1NJRUdSZZd49GaTotVfzM/xSJhxOUpQTUTyC5OgOvJPTkOaA2QkWAOvJV9Nc1dQ4OFrWOia7j3WDSy1jomO1EO05CdXmNQ03v52UJ4znDuSZLBo4tBPQIVQ3M4XICtux0XXAhO17Jb7w3PWyjkJfd1yj1LWtbmvfyQmTZpBe1h5JidoYGaDwEC3ii1AHpUdiQzroVtuV1rFbdEXPaQeXRY5ybG2WEYDA3L1RsMlz4tSnwmAPuUoIXyFkQaB5qAgdBOS06300WeXq4L3I7jHJBLLGL9/L/aSB0kT+BYBW4/itVHhu7MUUefj4efL+sqeeR9PVOpp4zHI0kOB5ghA9BmStx7/U48dTHftsNUzNaL9Aqitlkla3LyT8zTkddVzwQyN4JtrpdZpp47Z1MGRNWTZmZG6Sxty1ViAzdgkalFfV00uGGJg9YW35oIa4sbossE3a7Llkt0QPANBdThkm66hRIOaxRc1hlsmKO3oGU7JOLr6HRDqmOdQOBsTbRYXOy8bmgZVF0gETgZAjxYqMssm0p2UssD7yFY9ueTRW+FYRX49iYocMjie5kWZxLrNHvVNXwTYdiklLVcEtO8se36zSt/4Wlx0XHWqTovsMe1sZ3IafIJoTlo4o5r+TuSq8OcN2SHEX8QiyyOy2BXMeOIziRdQV7m6CV49/RFbijGfOOJ81z9O85r3P3JkEv0OvlZBlxqS4Fyxot6vF4SPbSUdbDO2ccfJMM2Wx6piD24TU5Dyc9tifgVUYxhlfhUgbWU00BPIPZYH4hLho5+/JiKxPT+2ExKVy3RTNZUNuhnVNU+EY1VQCoosOrZIj3XNhJa5Mjp55JqSZryZIY48lnhVSwxH+5PvlYY/wDyVT+BMdAucLxAf7IpD8LGC8NuWa6HPpFFJZZd/oY1B5f3ZbVGICKYAjucXJqrdop/SxTae25yQE1RXS3ZHmLtAA0lW9Tge0stPnfhNR4j1ZUxaHLbmnwFtx4ZRTORqoxHUloJUZnDdlvEjYjSTwSv38Ra9ruIEagpeqy7qK3PLqt+9pO0dbE+RNzuAjzVViTbz/BdPHgmMy0+/GF10jC3M0+jHX+aueqWTtxTdTwSwv05jVbtLF1y7CeWMvaQrm3gKmG5h7HdCnWNvA9Cw9k85YIGGWT2QBmctSfq6EyyFDj4LXgXHIpStZu8Mkza3auj2l2X2oYfSpNmcWZT/T9Dfl+9UWKMLcOLbEHLqDzXQhjabtGV5otOpHKyuaT3VgIHRGgaZZw1sUkkh5AcTnJp+EYu3/8ACMT+FJJ+5dY89IrqpmeMeoRSTlcBeyYfS1cIvU0tTTj69O4f0mpaY2vluAokCm+0RMcbwbg3WpgIKbkiwNa5ty4qNZDVObdtLVui71xA5zf6KdF2InceymPNSyjNdbGspzcLhyaeizKU4zGODrkiyMxjnAOFkMd4tITkFNUCIO9GlLfHKVTCiY5jhANUs7MHBMHL6Pdga4XtoUvp3lSJlISZi0l2iCMwkadCjzNBZpdBy6hMESYfdX9ZvO53vFqiIX9wFWIp6d2FQPbM99Q+YvmibHcRsGXLr19pQpqJ73H0eCZ9ma2jceHx06KNBJAI4wLC6LHAwSueevNMQwXbmt3uSkQWtsGpY2isxUbt4AS77WBKZxPV4JF0tM7h7o5JkTNLsgeYsVJl7u19la105LBe7rfRRijdLoB9pNSta4xg3S1NcZbkd5WWQOdHxJcux8faCAHJQcyxJurCKAG2Unn9FFdSkh1j+hRB7Spsb89PctyNic2xOtvBPy02Ui5StTGBexUBcRJ1muy2vZKTESScuSbmysu7nokgQXEpyQiZF4BPK62OHTKi07bk21Q3k59U0CjBfwU5Bo02CiCtvvlCgJt3d5LVgQAtkXYteGqBqyzbhbTooMFpFOTktNsOiui0Tj+e0TBBJ0CWhvvbgJzLwg31S3yMRBziHgXRrnxQpbGUaIvwTEJPZNnw38G3IJ4Va4P1VBspPUyUJbMwNGVdDhQGbmvHZHyexj7S3hNibJoE5UvC0CR48060A2CzMOJIPykFQq7+jSu8lN4sAsmGejmH1Vll2MOZpnbmOYOZa6xryZ7NHCUKlZvpJy+5GYdUdrWRvygX+K0pNh+khJI4OALOXW6SqXHegFPtAvxA3SVUPWFWnaGR9wDPmuMt7IEjgLg2b4lMwhrXG4QK9gL7DS/RWuhtchsPfHJJY6gcla4TSxS4iGPdYRDMdOaoqH1c4Fim5ap0FWA0WJ1PJZstDKs6emez09wbya0rKmMiEWsXEquwl7pXOksb24lb1YY0AWOjASqwQ3Mw6mbxnsfYjB/kuurP5SqDPzWf3rke2/BfwVtFHi8LfU4l3rcmzDn+c3i+Dl6P2RQbnYOgcWZTPnmPnme636AE92gYH/CHZOsw1obv3MzwE9JBy/d8V7WOkjLSKEjxqzOOXej56p5A6LjOpCSmpyzK52o4iso3OAdG/SRmhBCJUueRFmHeDui8TrtOoLk9NoM7kjMMyuqRpoGHSytxyGllT4S8uqLWGsZ6K2a8ZRyB06LlyUYpUb5y5IObc3UCHNOa9/Jb1A5obnOCpIW5BHAZb3aPLRAqXgQ9xo8+HVTbnP8AiystmsIlxvaClwwPkNO43m4j3BzXY8P06yuujm6rO4np/YrgQw7ZduJSxZKjEbSub9FvQfrXk3bTTmk7TcQLhZs26mb8GD9oX0vDEyKJsbAA1osAF4D8peDc7U4bVtGs1IWE+Nnn97V67VaSK07ijjaTL+cmc1Hu3w2J1Hmsi3cYyjqlsLmbNMyNxNnjxVwaKN4YR426Lw2qW1+k9Fgz1H1AIWZTzuu/wSnodmdmo8YrYN7V1H+bxn+l+1cZT09msH1h4Ltu1PTEqKID1MdP6v2Vek/Lwzz1TXQnV5fOnHEjmsZ2y2llO9GIy03gyHhai4ZtwJz+BtrAK+hkDc8j4+JjvpaKqr6A1EIF7Xkb4K6quzOqlIf+GcPb5bxXo8+szSd8r4Dyw0cY1L0s4vG3U8OKVDMMzGlz8Dn8yvQ3YnX4f2U4NVUFU6GX0nd3sD9PyXE7Z7NS7PV0VHVmKWWRjX3j+jmXe4XUYFQdleDfh6hlrIfSDu939PM/i6dFs8O07hlyLrgmtyY5Yccl6lZyrtt9rLEHGBKOXzbf3LlKdsk1U2njjL5Z3ZWtA5l2i9EfX9nha7LhleCRp/i6S7NYaeba2lIAtfS/0gCk5I+bJJysbHULDCUljoexSvw/s+iFBhVNDWYzKPWySfxGZcr/AA82n9I3pxndH6G7it9ya2yIn2lxJ8nf9JePuNlymJxBtdTWA1/JQanWzT/J6QWjw4ZK8vMmehUmM0G3zTgWOU8MGJiO1PWxi2c8+6vN8WoZsOrajD6luWencWvHuTWAiaHHoJYT62OXN/OC6bty3ce2jzGBc07c9vsrXfn4fMkuUFg/u+o8qPTL/bbaXGdnti9jzhNS2Hf0Dd5dgdms1tv1qnpK9naPsVtBNi1BAzGMBG/jqYRbeMyuNj+a7T3LrsR2Qg2s2R2NhkxYUMsWHtyM3eYyXjZfqOVv0rhcRxrZnZDCMW2T2bnmxDEq+TJXVMmmTL/F6gfWH5S6zuPqk/TX+hzcGzI9mNXPd/8AseeYfh1ZjmOUmFURLpqh+Ui3d8/d5r0jFdoMH7OWfgHZSngnxcD8drZ4gXB30VXfJ3jil7Q6moHeionke+zQvMMTr5ZK+qxGsuameYuf9ZxNylYZKGLzPudTPD8TqXhrhHUDtc28pcZ3seMB0X8lJA3J+pG7TMY2R2w2EqcdlhiwbainfH6iMcNXd3/nxLmtitlcZ22xypo8HbTF9GwSyb6TLwnTT711OL9gm38lMHQfgd2QXIFUSbfmrYpzlHq0ZtRHS45tRltkcD2OtYO13ZZ9gbYnDcfFes9rHa5tts92j4vgeH1NEyho6gNY30bi1iDufvcvLOxuMDtV2XLuf4UhH85exdrLexk7fYoNozjYxfet9K9HzZM2RtrfCy1RUtj29mDO4/iI7lao8w2z7Q9o9r8Hjodo5qOaGnk3zAyEM1tbxXm1SMzV6N2hDs49Gii2Iq8Zlqd96/0u+VjcvTzuvO528dkCbUqbs0vY8W6EdpkGkR06L6FxnbvHdhvk+bB1ez/obZa9j2TekUwkaWtJPwXz7FOxjHb6Lfae04r6Pk7O6ztE7A+z3CqDGKKimiY6Yekl3H3s2Vo71ltwrs5OqfRzeH4hQ9umxOPsxrAsOw/arAKM1VNiFJDlD4+8bj8nLlv1uvnd4IcfAFe/SYhsp2O7H7QYDg+0UO0m1uMxeizSUwtHRx8TXcX0u9pe98q8COYnN5opiMXZoNzFfVvaP2hbQbAdnPZ1Hs42hkjxDBWb3f0ok7sMNrcQt3j4r5Ye0MC+t9s+yzEu0PYDs5jwvGKChlw/AYiY6lriX5o4eIW8Mv6VUS8r4Rw2MNwHtY7Jtotq24DR4TtVs4Q+okpRZlTB5j3Nk09lzV8/SFrXZbaL3bajENkezfssxbY7Z/Gm7RY9j5DcRqqYWjpmg8Q/Zl+tdy8IeSTwi5RJFQbIPc1wBuVENB5IZvmsDZM0vMg6qXwV7pD9FDmGi+j/AJHNJHDjGP1ORr6iOjjDARfvO4v1BeAYPBmX038kWnDK7H5R1hgB993Ica5LyL00UHyiOyGPC99tdsnTn8Hkt9Noo4/mC53zjW/Qvl09nvd3l891dxH/ADXL9Knsa9hY9oc1w1B5EL5I+UZ2Rv2clm2m2fgLtnnOBngYNaI/+F/R5JrgBjnzR861zSXcTCl547MvYq3xSB1yqyojcyM5ibIIkl2ChHFy/YtOA4rBYBrzst2O7dcohN2bp/Z4faXcbBzbNUeMb7arBqnFKXc+rgparcde8fEc1xFP7PF7SvYfzfyUEmaoepHt+BVvYTXVIgxHZLGcKueKcVck7fjZ2b+avYqXsH7L6+kiqqWmrJYZWhzHtrXEEFfJmFG/dblX2F8mmskquyuiikdmNLUzwjybnLmj7nBNxsVljtZXS/J+7MIInSzU+IMY0Xc51c4ABeFbS1vye6CtmpqXZraDE42m2/hriyN3mLuzL6R+UVXvw7sc2gmiNnPiZD8HysYf6S+CsTygO6q2BBWxPamXDZsQqTg8FTS0G/duIJ5s0gh6XPVVgYjSlrn39lZEGufb2UcegZeqRIZR3Z4n/ZDv3JeTLn7yLF84/vIcmXP3VEFLoxtrc7KU9iG2Ci0+5bfyBsiFMxxs1R81t3d5LbBcAWt71RZjwfFQJIda6m+w0zXUCTeyCyw0GhuSitNzreyFEHIkWYushoKwkmkzUVCcXGZuiLd3gmIBnrWBy7qh4hqedlbYTX04c5z8wa3xC5bBKmrFGAW2PXgKsKeRuVzZhNZ3PKSP2LyOaB7HEdxSVNPUG0EkR+yrGPmuRwiuw2k9ZuD/ANbxfzlf0eMUMnOS3vsf6LlhyqxqRZy91J4hUSU9K5w4r9EXfwy+r30WdnnlcsJEQuTdZrHJHLxSkEwEW5H+qmaYh8nPjzLeID0mtNhn7vt34VVmlcCZNR9B2q0RYW0spXPNyAk38T+LmoB9QHXz3CkHgu4uaje0KHIVrbcmodRCO9yKMwi4sdFMube5F0rdYwp4s7ahrXc82is4aZlVXtD5QLjiulalhNSZANei3PVQubFYFkobZxHVWksnYbdHTUcQhL4wR9H9Sexd98z95zseq5rDJibG/wDjurpYojXYlRUUf/KZ2R/nODVo0eKskTkeIeln0fsjTmk2awyk/kqSMfzVcKLR5KS9zHo8gfPnbdgP4I2s/CkAcIcS9a76O8bzH6j8VxEj4CL69zKvpLtK2fG0WytTSRi9VEN9TecjRoPjqPivmaOSZrnNcLEGx/s8/ErzvjOlUpfzOp4fncZcDGHyDfNGW/Ceg+irQZXFpyk6noPeqii1mzX1srMOdugT+pePlj9fJ6CUqRsFpvoVK9mgBp+8ILHAuIAKYaBpoUWDHQnJI3fdjuL1zsYwU0mCHF5haprjwX6RA/t/cvLtmsOOOY/Q4UAWb43f9WPmSvpGlhZBBHBE0BjGhrQOgC9j4Np/rs8/rctvaG6Lxv5T1L/kzBK+3zdQ+D88B3/9teydF538oGl9J7Op5P8Am1RFN/Oy/wBZd3P7TFhdSPEcAe2+tu7w/wCMy6GCW7dFyOBPOY3+jor6CQhui+d67GnFWejxXfBdwE7u2t/eu2GXanZ2KHfD8K0XB9HPwrz2jmBdZ1vvTNJWOpZxNTyPikHJzDYhc/S6mOntT6ZWow7na7CY1DU0nqKtk8f2hl5XVnsxs9VYlUw1VQ5wwyHWSSU/R+j+aj1W3mLxCxbRze+Pw/KXL7SbWYxiXqJazcxcPq6fha/3rZp8OmwZPMlyUsWbKqM7TcZhxraOSqg+aYN2w/SA6q6xtrndjGBWBJFVfQeb1wE5zEcJ0XUYNt/jmD4bDQxwUZhj4WXjd1P2vNbNPqIuc3LizXnwS2QjH4OfLX3adeStdmql9LWNro+9TvDh+m66aLtDxt1MQabDtQ7+Lc3+suPwie7pj4n9a5+dRxtbX2V58ssWpKjuNuNnvwiwbTYDaeKpDTUt0zMXmGOAxVNMN2Cfcei7LBccxLB35qGpDAXZnstcO+CexjtHxWAek/gvBpJOHjfA5zv6SNvBqYNye37idPLUYuIx3CPZ9stPFU/wm2g/EsOpfxiMS6bz6P8Aj2lx+2GPSY7jtTiZ4Q+RwYPox8gPuRdpNq8a2gffEanPGHZmwgWjHwVC0tF9Gn8lbp5IuOyHRu0+Gan5uXs9U7QsQnwbBNhsRonGKqiohIz2vZh4fd0VP2mYVQ7QYXD2iYC0COo9XiVMB3JfpO/x4OXPY9tLWY3hOG4fURQMgw1higMfeLcrRrm+z0SeyW1mJ4A3EcOhEVXQVvzlPVcr8r829F0ZZ4TnKD6/1M2HS5cKi49x/wDgT7N9of4Mbb0mKnSASOjqx4wu0P7HfBWvbLsQcNqZdpMHBqMBrD6QJItWw5uLK7wH0VxlUwGpJA3V83L2f8BdDsbt7tHsoC2hqxUUnWjqRni+HFoiwU4eXk6NeohNZfPwP1Hn1KC+oyUznOc42G7Ju73WXtWy9LJ2X9n+M7XY019NiWLU3odDSucTLr9L9fw81W0nbBVU0klRh2yGzVJVP1dOylObN48155tztBjG0+JtrcYr31Mpbwg6NaPIdFqx5IxmtkuWY88M+bHtlDbEJ2QO/wDvZ2WB/wDe0J/nJz5Q88X/AAxbR55xG70xttD/ACESpNmaybA9pKDGqMRVFTQVLZ2b7Nkc4ePtL0yr7ccXqJDPUbK7JVbjzMlM/wDaU9SThTdcgZYzjm3wju4PFIcgdO8SB2bw+0l6hpLr9V6Pttt2/bDCYqOTZ3BMOMcmfeUFOR07pPguGnpiLOQxrdwC5SlG5FRVX3BHkvdts8Zr9mewzslxbCnGKrpZXzwWPkeH3EOsvFqymIbfouh2q2yrsf2F2e2UfQ08UGCZhDK0uzPv4roQlwcvPG2dn234BTbb7H0PbHsy1oM3qscpGj/N528Of9jvySvDG5A7PILhei9mG3uK7CtxKjbRUeMYbiMRFXRVmbcvd4jztw/WVRshtLTbL7cUu0sGGQVDKOUyei1D7jK5pFr26X72Xoo2pC4xcezlzU08ps0EgeIsvpXtT2prtkcM7I8cwpxFTTYCLi/fZuqfNG73rwzbLHGbVbT4hjgw+OiFU7P6PANGdF0W3u21Rtlg2z2HTYVDSMwOi9Ehex5Je3KwXN+vB+lTdtJki5VZ0vyi9maDE6XDO1HZpoGD47GDVtA+YqjzzeGbl9oea8Re8QPLuRHMr0bYTb+r2d2fxfZyswqLG8BxIetoqiVwy+bXdOQ6eyqns82lj2P2wptozgrMTZT5/US6jiba4NuY+yrbB20cMQbh+lkxTEp3aPE24zj+IYmKGnw2GqqHzspYG2jizO7oSVNa6JionQ4RmJazxK+qfklw2dj8x6NpwP8AvF8uYDpI1xX1V8k54dT4+B0dT/qlUh7hmX2nuqXq6WCrpZaWqhjnhlaWPje27XN8CEhjWPYfg89BFiEjoRX1Ho0Ejh6veZS5rXO6XDTZW45JxlPi75QnZI/YmrbimDwGbAZSTf2qd30D5eBXiVfB7H1V+meKUNJilBNh9fTx1FJOwslikbcOBXxl2+9lNbsNiLq7DYJarAKk2jntmdTu+g/9h6+9DJUMgzw57XC2gQCHaqynht0KTczmgouiMY9UzQd5XEbibEKqjAEUTbc3FWFHrGDqhkNxnVYUbtvbvL6y+SvxdnlWLW/ypIf+6iXyNhzjuxbkvrP5Jr82wGINuTlxNx++CBHj9xM/RYfKoeGdiuLk+1PSj/v2L4TxmTLK6LNYWX3F8rckdjFcL2zVtKP+9BXw3iusjrgXsiye4RHoqZESmAudVCVpsFOlAzWUXRF2ThAE7hfog1TbSNA8EVzQKk69EKqB3osVVFyNCPd3tyWOy6XupQElpa4LUvTyTxJo2IssvyWhyJut35aKNFox4u1QuAUR3dUQ1pJJPJUQlE128Bvojxk359VCI3GhUoOZuUuQRObWZpRrIczhvRoi3RxAPVsKs6iaQCBl0V5gJ9W6/iuL2bqp6rD2sdUBpa3kF0WCOrmi8c0ThfUE6ryOoxbWewi9yOvhyk3ytPwRXUtLL36eA+OZoVfBUTMcCYXH3Js1rw3ipKgDyYFifA6PRX1mHUU0xc6FoN+dyCgHCon6tqquI30DZjZGdXRl+sVQ/wD2VlKOsivcwVFv9WlKTiaoFbLT10RjEeJRjiNsw4vvQvwpjlIwxyRsqG37zjmTFZVU4lDrVHeJsY72SpxGAF0ZLzfXRmqZjufYyIUYnUE+lS0MctP9IR5W/fdHoKvCpjaqkkovr6Obm96qIqmpjrPSKaSop2+BctVdXThmnXmjeP8AUM6ifD6mOH0qExS0/sTQ8Q/Ql4LSjM43b4rmKPEq2kldLQySRC+oNrK3o8QqauqdNM9kotreyTPT7fkoca0PqsgOhNrrWJ4YI4GyRi5vqVuls8ODhqDcFWjJR6JupeJobcJDlt6FuQlQ02WjFvnW+yu77NoDV7cYTFvLsjm3v3C64lku5m3vR3VemdhcIn2zfNa4go3u+JIH712/DY3lSOJ4plvGe0Y9iAwrAcRxQszijppKjL9LI0ut+hL7IY1TbRbNUGN0hvHVxB9vou9pvwNx8FT9sNT6L2aY1J9ODdfnkN/avOPkx7Rbmau2Tnm0I9JpA8/B7R/NP3r1rfqPMnuy+au2XZ3+D22c1ZDDakxX10flJ7bfv/pr6WXFdsGzf8JNjamKFhNZR/jVMRzJb3mj7TczfikarH5sRmGeyVnzrhkrGyEFubTnmVrE4DS1wqGjmaHaaHkbtVzSuL2hzbXt9A/RuvCarFskekWTcFBFzoPuW5cg19Stgni52+y5N4VQy41jdJhkLZD6RI1hfrwR+077kejxb2xWontiendiGBbjD5doKgetrOCD/V/3n9SudsdrxhG1mzGBREbzEqr1/wBWKxaPvfZdREylwvCWsBEVNSQ21Oga0f3L5Ux7aY4x2iQ7RXO5ir4Jqfeewxkjcrf5q9vBeTBROAvWz65XL9qlL6Z2dY7DlzZaR0tvscf9VdNfwQKyL0minp7fOxOYfiLJq9SA+T5EwaexA/xyXQhwDQQuToc9PUOhl/iXEdPFdBDVU7aZg1ve/ReF8Ux7V2ek04/CLnMZDf3piGZoblLzfMkBoGlpF8t+a0Cbttlv71wpm0aq3NdIMwJ68Koa6W9ULXtysVYyyuDy0Ouq17M87nlw18UrHha6GYeAlM4F+sQ99yuo7NdlG7U4xVCsBbQU443stmc48h/jwXJyF0bLtBv8V9C9j+BOwXY2nNS21XV+vm8r90fm2Xq/DdEp9nK8Q1Lg6XyeK7U4YdnsdqcKliNmfNvf7UfQquwWVp3/AAD7/wC9eqfKMwV02F0W0NOOKkfuqmw70TuX3O/WvG8AmcTN6w2PLVD4joYYskdv6itLmvGy2E0LHvAjsQdDlQK8GppxG0hpvckhF3jmhxcS4BK1lQ1uW4NjqvNPCovbE6ME91oUw+gixCtNJLiFNhtv46a+X9C6vBey6uxiIvwzafCKsjpG83+IXETZZJD9YrpuyIupO07BXxEgSPcx4B9kxnn+heo0WPDkdSj0L12XLGO5SOjZ2L7WNBb6fhuv1j/ZSzOw7axtQZPT8N1+uf7K+jCvm/tq252lwvtGrMKw/GK2jo6aNlo48uXNu2vXfWjwQ7icbHrdS/ayL+wrau5P4Qw0/luH9VUGN9kW3eHtMjMKjxJnU0czS4fkuyuPwzLWzvaxt1h9XebFfwlCf4qsDdfHiGoX0L2d7Y4dtlhHpdJeGphsyqpXnjid+1v0XJccOOXCGy1epw+qR8dupJKSolp6unnp6hrrPikYQWn7kvVxB8jV9idqWw9DtlgjowxsWIwAmlmtqD9E+RXyHWU1SMSGHviyVPpIgIPsvvlt+ckz0uw3YPEfMVs9IwLsNxrGtlcOx7DMXoGy1cAmNNUscywPds4X/UlKvsB7QWstCMBk/wDmnf2F6V2j9rFB2dmm2YwOgjxCtpaZrS2SQiOnYGizHEczbVedxfKN23kks3D9m2//ACk3/jLd5OBe8wRzaqXQpD2B9og50mDD3Vn+6jHsD2/trSYV8Kz/AHU7/wDaA27PdpMAHuo5f60q+g+zTGK3H9hMIxfEcnpdTBmlyCzb5iNPuTIYcE3UUInqM8e2fME/YF2iP0GH4cf/AJ5oS/8A9n7tJB0w3D//AOohfSPbJtFiGyXZti+0WF+i+l0j492KphdEc1QxhzAObfRx6heByfKN27YXj0LZs5Ta/oc2v/fJnlKIuOWbKc/J87SS/L+DcNF+v4RH9lJ7Q9hO2mzezWI49i34JFLQx757I5S8uHXouooPlN7TB7RiezmDVUV9dw6WB36S9d3tL2m4Rt/2EbWzYfDJS1VNQiOppZNSzO4AOB6g6/ch2ItyyR7Z8y7N4B+G8XGHUc1BS3Dn7+un3DNPP6S9IwzsE21rqbf0Fbs3WRHkYMSc5p+O7XmFEzO8+a9y+StNNTdoFRSxvc2Gege57L94tc236ylxHZHSKA/J27Rf5PAv+3O/sKk2h7DdvsIhElXVbK0kJ5OlxMRXP5TWr7g5hfEXytcQqK3tZxCCVzg2jhhp4BfuNy3NvtElO2maM9x5BjFFV4dic+H1Xo0s8D8j3QziaM/Zc3hd8EGA3dc81rr3O6saLyZhyQJBHTYM0m3uX1P8kUAYdtATzMlOD+a9fLWAXLg0/Ruvqf5JFnYTtBL9KeBo/Md+9Dj5kFl9pZfKxc5mwGGOabAYtGSfPdSoXYF2pOx+Buz20Ew/CcYtTzk29IA6H6/61v5XpA7NsOuL/wCWI/8A6E6+XcLqXMeHwOMUrZLskjLmuzeIT3ITGO4/QpJYxhtDjGGVGGYnSx1VHUMLJoZG3a8ea847Eu0qDavDm4VihEWM0wAFz/nMf0x5+IXqqbYs+Hu3Hskrtgqw1EDJqrAZSTBVAfMuPsSef1vaXkNXHo/7WXur9McYw2ixfDp8NxGnjqaSoYY5YpBdr2noV8Q9uXZjiewONPYGS1OC1BvRVQHL6jvolv8AOQOIcZHkbRdsN76Epyg1Fieq1UwFkDDcaXW6NvLXqEiXQ6PpkdJh5DY7c7hfV/ySH32DxJt9RiZ/+hD+5fJtGbQsufaX1X8kPTY7Ff8Ap4/oNR4vcFm9o78rx5b2QyDo7EKcH7yf2L4dxb58nzX258sd+TskjZb5zFIG/wA15/YviPFbl1lcvcZ49CAGYhbg4ZVkd7rTfnfir+Cl2FmA9Ivfolqi2a90ee2+GqBK0HmrRcuzGaDRbk1stNARS3O246JgsEbELLi3JbPPkiAhguWqJlg3WAaLLLAudp0U2WcdQoTN4yWhDk56KQWnbaMqUejhoox3DAFuO5cgQQd5aZgjWCUJtKLpnMExAs7SngbQ0sVTA+wtxAldfs5NSmnbOZACeeq5WgJmw5oFNIS4aaq82Y/FItzVBzS53CLrzGoe49di6OsNbTZc29vbo0FIYljRmh3UMVQzXvFpCdjkiFtJBZRxmVrqHS97hcv6jSuioZiG7iGeoLTfrE5xUHYxEGk56x/2IbIxcG0sViL35gJ+lkYKcF9z7lJNI0xkUkGIPLhIyiqJM4/jChsfiL3Zm00cTXHnrdWlXG3IZYnyWA5F+qVYIZoMj8zrG+uZEpL4DiJyQVjpWmWoAFraPupNw+Bsg3pMhvcapl0MQlsGkD7RU/R6e+axJ81fmhhaeGnaOJlvylCtdTObZgaHAfyg/eiUtNSuJvEwk+ITJw+nY0kU7PzEG9MiKeCWni+dlO8/0OZMOxGedhYGBtvEJ4xacAFkjVRPzcA1RN7wZcljTem7kbyNe1fJrhJGN1R+lFF/SP7V45TVJkhAk5/0V9B/J+ptzsH6QY8r6qqklPwOT+ou54WqnR5rxaXpI/KJqtxsAyDPl9Kro4/flDpP6i8EwGtq8GxykxSk+coznafZt7Q9y9h+U1UAYdgtJfV00slvc0N/rleQUY0HFxLbrM+3Jt+xysGLcrPrbB8QgxPC6avp3ZoqiJsjD4ghOkAgg8l5N2D48ZaGo2emJ3kGaopf9UTr/O/WvWLrfgyeZBSM847ZUfM3ats7Fs9tzMYf80rfxqD495v35vySFTUojNJF9dnF/jKvee2XZoY/su+WCO9bRgyxH6bfaj+I/UvAMNkZ6M0OFi5ug8P5y4XiWl/Mv7nQ0WauB2TKI/qhep9hGBFtNNtLMLGo9TTDwjB43flO/orzXCqGrxrGqTDKQesqJNfs+046+C+kqGnpcHwqKliGWnpog0HwaAi8L0yjJz+xWszuXpPPPlB7R/g7ZluA07h6TihLJQObYPa+/u/evno0/qZGZe8Qun202gftTtXV4xcmB3qqZv0WN7v9p3xVe6l1HHzFv8eSbm1fqAw4qifV2zNR6Zs/h9V/K0zHfe0KyIBBHiuS7Iaj0rs3wOTX1dN6Pr/o3OZ/VXWrrY/ajD8nyLtVD+DdusWpLfN4lJ+bnv8AqQXzCUm37fPzXRduNH6J2n4lblVsgqPyrBv7FyP8V9y8r4jC87iej0HqimdHhkznUsb3AXtqiTXtdtrE6qpopXx0odq8AahOQVG8gDgCDdeYnC1TOhKNBXMzOJ+jyVWRmJarYnLGD4c1XO0uSP8AHLxTsMFbEvK0kXnZxgjtodq6SjtemiO/qPKNv7zYL6GmxvDqbaCiwCSQNrKuCSWBn0mx5c39L9BXC9gmBig2ddjMg9biDzk/1I7v9b9C8r2z23qD20DaOA2hwuq3Uevep28Lvv8AW/nL3Ghx+ViUWed1U1lyto+l8cw6HFcGq8MqBeKpidG/3EL5IMEuFYnWYXVDPJR1GR3vDtfzl9eUFVDW0cNXTvD4pmB7HDkQV4T8oTZz0LHafaGCK0Vcd1Pb2ZG8j8W/qV67F5mFoHTZNkrOHgc+Vr7ePJV2KNtOwfV5J2kkGV1i0am6DXAF+csv6o2K8Nkx1nqJ6XTTTYjFfeFdZ2ZadouBEf8AOD18nLk4+J5ynr4Lq+zIf/eHgQHP0g/0XLueHOpivE+YH1EF8n9vP/tfxf7EH/0mr6vavlDt4/8Aa/i3+wH/AHTV6DUr8pnC0b/MOShiF+/9bMu+7Ea04X2lUkMM3qsR3lNOPySW/G4XE035K7Hsmhlm7T8E3Qvkmle/6rREVz9POpHT1S/JPqLlp49V8X9vR9A7Xseloju8tTDPmHSSwdf719h4tidJheF1GJVkojpqaMySvPJrRzK+Edt8ak2j2jxXF5DkdXyuqAz6IzcI/qrqZpJRObooOU7QntBiFTidfVYjWTGaoqnGSR56kpTCQC4G1zfmUtiUu89HEft5cqcw52afchwNzzDVzHP7noY4lfB0dNRSSU2+DQQB1K+vOxEW7KsAaf5A/wBNy+OmYhIIxQteSAOg/wAdF9i9iDs3ZVgDv/5c/wBNy6Oldo4OvXrKf5TgA7ENoPN1L/8AtUS+KZ5DldpzK+1vlMuaexDH3DXjpR/+qiXxPVOAdroOadl4FaZCu8h3vGz7StNntp8SwzD8ZwiDd+i4rA2mqvsh4Onnp+lUTheXN4qdM3JPl8Uhs0+Wy9wcHeA+JXuHyZQR2lsJI/4vm/WxeIYSM0wa0XH3L3D5MRB7S2jUXw6f9bEWP3C9T7T6l56r4T+U9KHdsm0AadWyRDT/AFQX3XaxXwh8phuXtl2hJcNZ4z/3QWmXBjx9nlDnFjuSJA+5aLdVGRmo11R6YEPZwgpTGxOtwKNjWukuL8l9RfJMbfZzG3aa1rG/92D+1fK2EMOZwOgvdfVfyQxbY/GiNb4kB90MZ/arx+6ws/tGPldf+yynf/8AmkX9CVfJMFV6MfnPtZP1r62+V9AZOyHPf5rE6d/9Jv8AWXxjK+ezsnJFNUBhZ2eE4tLRVcNbRzyQVMD94yVjrOjc3oP3L657Ge0aHbXCmwVjoo8XgFpomnR7fphfDVNVOjY0Hn1XVbMY7XYViEWI4fUGnqYSDHI3mpjdB5Y2foGq3aHBsN2gweowjF6SOroqlhZLFILhwXIdk/aPh+22Hthc6OnxeEfjNMDz+sy/Nv6l6En9mQ+Eu3Dswrez/Gt00OqMJqC40lXJ1+o76zf0rz2lg3ffZ97V+im1+z2FbV4FUYJjdM2poZ22cwjiDujmnoR4r4x7UOzfGNhcZNLVj0nDp83olXk0lH0T4SpU4UaMUzjYWgwtuvqX5IH/AKtY3/0tn9FfMe4O6ZbRfTHyQpP8j4/H4VETvzgf3IcfErCzcxG/llPDeyukaSLuxaK3/VSr4txYkkcVl9l/LRIb2a4WAL5sYZ/9GZfGddaV5DenRFJ3MTHoQjFjYuUbWfz6qVP39bWUD87p4qikEqbl7QHFCqPnWAuARKkHM3UIdS3K1hNlAmahseY0RJXAsAA0QGu0t0UiOEEnROfCFEXXsdbKR7o1WSd1aOrUhqmWGgsXczZCkt6QALqUJPRbcBvhqiGR4Jssb3Kiy4f8VI6clGPNvQCdFRTGJrb4IiFUSGSYXAHuCLlHiU1CjucNZJFShjwQmxK4EAOICq6F49HBYC5viXJ3faNJHwzBeekq4o9fjkW9NXVLGhokJb0BCdNbNLBklcLfZVEysyi4icfHiCM7E4WxatcsU8HN7TSmXG+AYG6WHJTFYY4g1wB8FQjGKU9XD8lEGK0TgTvNLdWlLWnfe0dFovW15J4mg3GmqCJBm1VVFiNIYszZ2G56hyNFUwv5TRElU8bf0jotFmHjNcBTEgLvBJXJILXR2/1oU44qh8gGS/hlN0t4yIs6eRgeTYCwRHS5m94n4qvmgro2FxhlYPGyGwvEjt5cnzSZYmgtrHGuHiisD5OWd/2VXtLul1e4FEPQt5TfPv7/AB9UuXpkkKm6ibbSyRs3kn9LVfT/AGX0voGwGC09v+SMe73u4j+tfMkBnc00838a9oGX39F9b0ETKajgp4+5E0M+4L1fhCbVo8n4o/UeF/KPqDLthh9Hfhiow+3m57v7IXn1BKIo/HXzy8l0HbhWRzdp2JEOziPdQhvgAwX/AJ11zNHJRlml/wBC5/ij/O7G6HE5QOi2dxqXANoqPGAZN1BPadntPY7m33r6dpZ4qqliqYHh8UrQ5jh1BXyc5sDobX/UvZ+wjHPTMFkwCV15cO1h84j+4/rC6Hhma47DNrcLjLcepW0svmDtNwg7M7Z1cDBakmO+pT0yu6fkm4X08uD7Z9kZNrMAp2UJYzEKWoa6nc7q12jx+br+SurqMPmwowwltZzPyfsI33pW0M4/0MH9Zyte37aX8EbK/gmF1qrErxG3MR9fzu7967jZvC6XZ/Z6lwymAbBSxZb+PiV8z9oe0Ltq9rq3EoznpGnc0oP8i3+1q74rJncdNp9sUOxReWZSYaCADofgrCWQRsDrAC19GodM2RjcwLSDqLAqc08wZurN111BXk4592Q7McXB7j8nyoMuwskJ/iK2Vo9zrPH9Jej3XkHybp3mkxykd7EsMo/KDm/1F68vaaeX5aOFnVZGfP8A8pak3W1eGVdtKmjLL+bHj94XmLt4/wBXH0y/zl7b8pyjz4Pg1f7UM8kd/tAH+ovEId7L+Lgcf2guF4pGsjOx4Y7iWUP+bmGAlxOjk9SQej07WF2p7yDh7XMuHAAdSE2ywOpXlciT5OvOYVawnC5caxukwYSyGSoqNX/Qb7R5IM83+NF6T2A4Hvqiq2nnHL8Wp/67v1D712fDtLuk+Tk6zLUDq+0bE27I7AVNRRkRyx07aSkAPdcdM35PP4L5eYzOwl5uTzzL6M7ZdhtoNsH4c3DK6khgpc5LZi7Vx66Dw0XADsO2oA1r8MP+0d/ZXo8sG3wcvDJRVM9H7A8Z/Cew8WHudebDD6P/ALLnF/N0/JV92kYB/CTZCtw1o/GCzeU58JG6j7+XxXH9k+we0OyOOz1U9XRSUc8AZJHG91y4cunmfvXq5T1+75FPhnxjS1DmOcxwN2mx5ea3vLHu8wur7YME/g/t/XZBaCt/G4vyicw/OuuRD2P1z+14leS1+HZKj0egzbo2Ep4yJNDpfx+qut7LwD2kYIL/APKD1/0TiuVidZ4PT+5dV2X2PaNgpHP0h3T/AETkfh69ZfiDuB9PNXyt29UlUztOxWaSlnZFI2MxTBp19U0aH719VNXmG2Ha/gmze01XgddhNfJLT5bvZks7M0Hx816jIlKJ5zFJwdo+dsKdPXTCKmg9Ik/0TSXfmtXv3ZFshJstRzbQ7QkUlXJT33Zy5aWLvG/1vpK12H7U9k9qcXGFYdR1lNWuzZGzwMa1+Xnlc0m66fbfZ2j2p2Zq8FrQ4Rzt4XNNi1w1B+9Jx6dR6YzJnlP3HzP22dqD9rHzYRhBMGBQ+H/Ksrva+r5LyZ0Mu9jsNLcf2i0rpcZwWt2ex6swjFacipiPFceXeb5OSTrQtMv+mb+hv96xaibTOxoYRUODmHN/Gae/8XT/ALEMVkgmf6N3H8LvrKVQySpnOu7Z9bhSkWQS/SVwikPeSR0eE8r8HeX2v2KgN7LcAA/5t/WcvirBeX3u8l9rdi7Ldl2AX/5t/WK6Gm4OLrOyi+U3wdiGOZRcukpf/wBpiXxRUtMlidF9s/KbP/3LYyBz3lL/APtMS+KakkX8kzM+StJ7SsZGGz3WoC4Vmnii+2StU4vVFZNxr2l3hRAmHiV7n8mBo/4SdebcOn/pRrwzCmn0lp6Ahe6fJh/9pRP/AOXT/wBKNHg9wnU+0+o28l8F/KTcZe2XaQAd2qY3X/VBfel72Xwb8o9wb2xbTWbzqm//AEQtkjDj7PLJHHeJijnZmaC03uo2aT3dSpQQnfNta6S0OgdXhL2lp09pfVnyS42jYPFZALE4u4fdTwL5QwrN7Yy3N19ZfJMYG9nmJaE3xiQ/9xAiwu1Zefon8rolvYzUuHSupv6a+Jq2c34V9xfKoZfsQxZh/l6T/wDaY18PVsYvwopCoAHTEEG6sqWpseZtZU7r3vcckVszmMdxDuoaNCPRtmdoazCsRhxLDJ/Rqqn42P8Ao+/y9lfYXZR2gUe2mEBzi2DE4R+M03h9YeS+DaOo/GR7C7fZLaOtwTEYsTw2c01TT6sffn9Vw6j6qJT2AzxOXR96Kn2v2ewrarA58GximbPSzDl7TXdHNPQhUHZTt5h+3GBiojb6PXwBoqqbq13i3xb5rt09KzHZ8Tdo+xGJ7F40aOraZIHn8UqvZlH7D9Vev/JF/wAy2kH14P8A+6vYtrNncL2mwSfCcWpxLBIND1Y7o4HoQvPewnY3FNjMa2ioq8byKTcup6gfxzePU+figUaCcrOd+WrJk7P8GjDu9i17e6GT96+O5gTJIRpovrz5bTg3ZHAGeOIOP/dn96+RKj2j4qpv1hQKyBpM3IKJb606EaqcTQH2JKjfVw15oSkTqYxma6xuo1ANm3F/ei1AFmWuhVTb5dVA5A2jTuqcw9W1aBJbzW5RwNR3YoE7ksI0BB0Un2yrR6aaISidPfNaw5IjwM44VlOBncLDktv5hEx0TRuBZZFcv1CJoWjTVDjvmS7JIkfnAj6eP6UI2zjRGsfopiEsv8Ma40Y1TEkczi0WNveswJmakGYn7lbOiabWC4UpM9ZHHErG0z8w0/SmTSO3fsp00wJFmlFNM4N1DvuQeYPjAr2UVuoPwRm0wHs3TbaeoPciNvNFbSVVtIwD7/70qeWjXGMWItgaA5zo7n7S1HDASGugJH2lZRUj8pLmDVEZRuaRdvNIjmxyCaSKqpiaH+rEoJ8CiROnbYbyU+8qwlopHuF8rfc5bbRno4EpvmwJQOKsq2NGWpmZ7nFG9PqCDmne826lDdTTA5Qpso59bgfFKm4MtMawvE6mEPBZG9v0XglXOHYrTcjThrj0jBH7VQ01DndZwt5gq8p8Kp42tJz38bpXk4/gTlmjsNjYYa7arAId7f8AH4dPdr+xfUJ1B8l829hdBFUdoVNJzFPA6p/mgf1gvpEngv5L0vh0PLxbTyGue7Mz5M2wP4T2yxab6de7J+fZV1HQ2dy6+H96qoRNLVmq30sed7n/AJRcm34jV0ZvaOpi/nLz/iFKpSOzo/4YsfxGCwe8M+0ndj8an2axykxaE6Qm0/143Wu3/HtKqfizJ4DII+AmxtzClTvhleN27Ujlbkk6TPKMnuNOpwuUT7Ao54qqliqIJGvjkaHNc03BBTGgC8o7AtpPTMPl2eqH3nouKC/MxeHwP616q4jKSTYDUr2eHJvjuPJzjtlR5328bTfgXZI4dTyWrMTzQix1bHbjcPvA/KXz9h8fA6wXR9p2OHafbmeaM/ilL6il82tOp/KOqpgyYMfuxb/HvXn/ABTUVKjp6LBbJsc2JpAt53KWfI6Ql/hysgPdMH2c7Q+ZU2AgaledwzbZ3Hp9qPTPk8TyxbWV0BPq56IOt9Zr9P0Er3r4L5u7Far0XtFw8HlUski+8Od/VX0jde38OleFHl9ZGslHnvygKVtR2cVMrv8AkszJv1t/rL5/wYOtLdfUnaBhT8a2LxfDYm5pZaV5hH+kbxM/nAL5XwuQsJbLzOhWXxePpH6GX0ls4mJga4Nv/j6yA+WaR4DWi3+PrKMDW1Ehe+9h5/7qZIhYw5Qbj/H0V5FYZM7vmQiAjgnnraakijzS1LmtjF+ZdoAvpKmipNithvWECDD6Z0j3eJAufvK8m7F8IGJ7VTYk9mVuG5MngXOGn6A5Xvylce9H2fpsAiJ3mIHNL5Mby+8/qXqtHDysDkcPUz82aieYVXaht5PUvmjxowte+4YA3KB4BSi7Sdueu0MnuyD+yuTpoQ6wTO6LeSxZ9ZKL9LN2HQqSto6odo224Zf+EMjf9iNf5q+idh8aZtBsph2LAZXzwAyDweNHD84FfKsHLUf4/OXr/wAnjHHB1Zs9OWBmlRSjr9cf0T963aPVeZZh1ml8kvflBbPjFtiX4nE29XhN5m/WjNs7f0A/kr51j1APi6y+zquGOpp5KeVoMcjS1w8QV8ibT4JNs1tbX4M4erpp703+qPzZ+5TxPCnHeX4fmcZUBhD3cLjddV2X7z/hGwP/AKQfyvVSrl6VzW3IN11PZRr2m4H9uX/6T1zdEmsqOlrpJ4uD6ctovk7t5/8Aa1i2TTNuSf8Aqmr6y6L5M7ffV9rWL5vajhI/6pq72ZcHF0quZxGG1FRT4vBW0dTLBOx2Zjw7Vpb4L647L9rYNrdnGVDnhtXBwVMXUO8fcV8hQHdwxySHuTNc/gXcbF7US7FbRQ4i2QupHNy1cV+9H4+/wWTTahWzZq9M9vJ7h2x9nsG22DmSl9Vi1NGTTSey76jv8aL5HxVz6WeamnhImbM5km87zHNOot9LRfd+CYrQ4zhVPieGzx1FJURiSKRjrhzTyK8h7fuy4Y6w7T4JT58Tiu6rgYLekMHVo+mP5y2ZsCyLsx6XO8bpHyQYJKmqG7a4k+CIMP8ARw10k0Zcf4oapiubTSPLSC0E6jlZCjo/WMdCSb9eawUddSsusEYWgHIbFfanYy1zezHAA64Pojf1kr42wmnmhiBlDtejea+0uyYZezfZ8H/mMX9FbtLyzm6w535TYv2KY6DrZ9Kf/wBTEviys/pez4r7X+UmzN2MY6D405//AFMS+LqkcPtfFHqFyDpfuU8gJkNiQspxlnJN+SM9pLiSVFjhvCAdVjOii1wv578n/eXunyYoz/wiuP8A+XTf0ol4dhIbfiXvHyYrf8Ij/wD4dN/SiT8DMmr6Z9NBfCHykIg3th2lya5quMn/AKlq+718JfKQuzti2l86hp/7pq1yZgxdnlMzcltHXTNI4F1srrrTwXOtY3TtEwh7eHVKNcYnR4YNBf7WZq+rvkradnNZ/wDFJf8A6cS+WKDkB+V1X1n8miPJ2ZMf/K1krvus39irGBm6CfKghE3Ydj7bnQ0rtP8ApMS+F6kHO4Ar71+UPRmu7GNpYQ0OyUzZtf8ARva/+qvgqrALjfRMl0Jx9leeevghvsYXJiUC/wAEu4eqchGjsLssxsrrD6tzbgu6Lng60pITUUxab2QvkKMj0DYraiu2exKmxLDZzTVMZ4folv0XeS+xOyvbrD9t8HNTAdzXQgNqqb6B1s4eRsfuXwTDWetHsZvZau72I2jxLBMYhxLDKyWmqY2cLgc1231a4dR9VMjOipYnLo+8Fi4/s028wnbXCDPSvENdBZtXSuPFE79o812C0mI+dflwH/0b2dZ1NXKf5oXybN/u/ZX1b8uF3+Stl2dDPUH7mBfKVSz1aVLofi7K0A73vaAWQnWzaHqiQMMjpOihlLXFAB8BKgnLFxdVlX3W2Oq1O0lsevVaqASW620RJkXCA2uL3Un8gAVEXHJScDpqFQBAA21RHNbkDi+3koOFtb3WOFwCFCE4TqiZtShRGxRHnXmrkh0SJPM6qcWpUHA25qcJII1QkkEcRvAjoOgmGt03mb9FMQlnW4S4+htMDifAABWEU5bK1srXAnxaqrZ+SrnjiNLStgIGXUldBLRV5AlqpGm/CAAvP5D1kWWNIB6Lvd+0gO0bkTdQyR0IMZ5+SoBROiaX78jpYo8uGVFTG2QVNm2ta6ySjRoiWDzLHpdr/gB+1QvUcyI2j7SrWYSIfnKaod5iQJqERQi26qh77lK2v5NUaCGQb06xfArKarE/EwDL9WT+5LGlw/nr/RWoYoxL6t/G76ypoZFWWYMdmnJY/aU8zG3uWD4pINmLQC46eIRoYHmQ2tfzaptVFbWHE4PID3okoAbmDrkoQilyZQ43v0spuE5eWvNrDqFljFp8l7WFwZo9Pbd7PqrrdnNi8Rx6hirKXFsFpI5C7SoqOJjQ4jurmcHafwxH6z6X6khWuAnlzkgcXIla8LUJOLXRh1MHPhSPpDs2wDZ3YuCpmm2iw51XUaSSCoY1umuUXK7j+E+zZbb+EOE/9sj/AHr4+w20oZck8XiUtUtayqk+35ruY/EFFcROFLw2W6nI9exLsnY6qdU4BtJhctPc5IpH5XNHhmBP6lxm1mC4ls830Gc0NXUnrSvz29/guSp4ZpTaGneD3+87Ll5p6OhxB0b443Mi5ahxXL1mWCS2o36bSyxy9T4JQNjoaWR09859k8glKOoqJ6vLSNLB4gckyzBHREelSiQ9TZWMDGQMDIowGeQXOnLm1wdl7aot9k8ZqsCx6mxanbrAczm/SYe8PzV7P2kba08OxW+wicSzYrHkpnMdqyNzeKTyyrwanDXSSNb1atzQNllAyN3Y+qOJbcHissUNqOHn8OUpbhancW2yaeaK+V+U6lx8j9VNw04cwANFlGWmEYNi4fEeC5OozykdLTYIxEpHknlzWOc7Ja1/eVN8BD9He61lqziL35JWHMrNUo2jsuySHCjtVFiOI4tRUPoD88LHzZd7zGmZe/x7QYFL83jOHO91Sz96+TXxE+K1V09t3ncerdCvS6HxSGDHtZ53VeHzyT3I+vo6yjlB3dXA8eTwV5Ltb2QQ12KT1+A4jFD6Q7eejPjGQHrlcOnkvEJqGC+sYTeG4dEYyWN8Oq0ZfFcWR00ZVo8mNWpHZ1XZztPg9DUYhXwU5jgLpZnxzDuj7RRKLYTafEbf5OZBBN6z0iRw/O711y7KXTNmueoLnfpQqiHLq0nL1GYrkPNBzcq7NGzM1zI+m9iMBotmcEjw2CYSkHM+UgAvd1JXkPbrshtNi+2IxChw+esovRske7eDbL7OXmNXLzWtiisyzGoJa+OL1cx7n0i3ot8/E4baoVDQZIys1unU9RuJWSsezn/iyky3O55rGUwJuWmyI1jWZnZHaO58K87kyOz0eGHAxTFokY4l3Pmul7Pn4szbPCp8IpXvk3jd5c29Xyk/Qfzly4tmBAITr85bd0JOnMBoWrTalY5qTMmt0zlHg+tQbjkvNe2XYI7WU9NW4Y1gxWjzZM5ytmafYcf6PxXgLmT330U0kX2HHwQhUYlH/wAuqv8Ar3L0L18H2cNeHZl0dB/A7a2jIFTgNWN6crbNa658O8u77G9jcbotqxjOKYe6lhp4HbveHizHTQfevJpa7EXPa+asrXFvI79yHW4nik7Az06uc13TfyLHj1EYs1z02ScaZ9ngm3JeAdv/AGf7RYptZ/CDB6R9XTSQtjmEJvI0jy8LLyGetniHqquo/PdwquONY5Hf/LdfH/8AMvP9ZdGWp8xVRkx6OWOV7hnaqlxDBf8AJuI4RU0pezP69mXN9YKkONiqyA8ty3upXFa5+J/5xUVdVL/KTyOkdl+jcpePCpw4+bN4sl0zpxi5K0esdjfau7ZKqFDicW9wGQ/xOZzqZ30gOo+kF9T7PY7hG0FAK3Bq+Ctpj/GROuF8C0dPOAZjyy3VpG/0Z4kppXwyZ3cUTiDlutcdYorkyz8NlN3E+ie2jsQp9pKmbHtmNzR4tJrUUz9Ip3fS+q79a8LxTYjaXZ/eHE9nq2mji5zkZmfnDhVbUbS7VCoprbT4zbiz/wCUZvd4+ayq2h2grKd9NVY5i9TA7nFNVyyNd8CbFTLljJBabTZsbOiwbZfarGTAKHAsSmbNpvfR3Ni/O5fFfYmy2HtwjZvDsKDw4UVLFT38cjQ39i+HcK2g2hpImU1Lj2L00DOUUNZLG1vwBsE3PtDtLJp+Hsaf9b02f+0rwZljQjU6aeSfB9g9qWB1G03Z9jOB0Tw2pqqe0J+u0hzf0tXxfiuxu2eH3FfszjEQHM+jOd+VmGiyTaTaWnZdm0mOA/8AxKT96Vl2w2tliy/woxvKRyOJSfR+0m5MimBiw5MdlBI0ZunNCy+scW2W4g4u6lCmmLZXsA1Czm06DAIavEJxDSUlRUy5c2SmhMjreNmr6M+TPspjOG4xX41imG1FFG+BsMO+Zkc+5uTb8kL5jwHFsUw6f0rD6qooqgX9dDMY3NzebV0w262vdFY7VY3r/wDzkn9pacUtpizxcnaPvbovkL5T2wO03/CNWY/huBYliWHYhHG50tLAZd08NykEDl3f0rzis222tYLx7WY8D/8AEJv7SR/4RNvWaR7Y4+B4fhCT+0tG8xxg06KKqoMTwuotidDV0kh5Crgczh+KZwmiq8QxKOkoaeaqmlNo4Ym3c4+HCg7QbSY5j1RHNjuMV2Jywdz0qYyZW9bLeC19ZhmJQVmHVk9JVQOzRyxOyuaUBoiz1HAuzntAq5hCzZDEmdGvmAha34ktX1p2cbOt2W2MoMFzZpIWXlPi86n9a+Jz2k7bddrMb+16Y5D/AIf7X1H/APFeN/8A9QlGb+crgxc8bl0femL0dNiWG1WF1YzQVcD4ZG3tdrhYj9K+JNr+xntAwGtqIRgtZiNPGTuqvDxnzjxyjUe5UVTt9ttHxRbW4413j6fKf6yF/wAJ3aGB/wCumOf9qKJysBQo5vaLA8awWWNuNYVX4bJJcxCqgdG5w+Kqruy/mq52n2m2h2kmhfjuOV+JmAHdCqnzZPcqexyoQjQA3jlIj61ljW8RJWnDVUWDDiHjmuhwOqyPGp7q52U5XDmm8NmO8HPuq27RSfqPRdntqcTwDGKXFsMndDUxuuLd1w9prh1b4hfX/ZZ2i4Tt3hImpLQV0Y/GKVzruZ5jxHmvgj0w8DFeYHtRimzuIU2J4XWGmrojdjwef1XeI+qihJkmkz3f5c034vsvF9apP/0l8tzG8JP1V3XbD2mY92gS4fJjVNQwehx2Z6KHZS57ml3MnyXBE3pb+SKYMSvgJ3g1NiNVtwbnIBJ1W4B6w68lt1g4qCjbnZmRkdCsrRoy3MrZMe7ZbndaqTq3RQP4AiwIupT5SG2BAUbjNdSlIygFEKIjKBYKN9LWUi24UCNLXVUUFj6Iju8NAhNuANFMk3voo2NiSkOnIKLCSVq5K3FzQkkHI9cEdDLeIG4Kn96YhTO52SzS0osG3966e80cQDqbeDxDlzWxrbQAgg6rtIpLNA5LzOo9L4PURKmpP4s0bt7TfldM0kwFPlyu5+CzGyCyP3odPCx8IzF3Po4rK3aNcGNtmDgMuceN7osdtUo2E9J5R+VdEjEouGzEjzCV2xpqpJB5fel2gmQXDfuRKlswALntJ82rcOfONIiOvCroevaEmEYeQGNAHkhs3G9JcRe2mi26TjdcN+LUUzCMgFkJuOrVE2i4c9gd4MrWktIvot57F58kZlVls4QQnX6KZGIZgR6PACfJJlYdMJgGV9dA4uA/8knUOvNIG6i7v1q+2fxEtxOC8EI8s3khVGMvZM61LFbMevms0c0ruhc4OxTA6d28hdl4bn9Sp8We44pURxMeNSLhehUuPGF2Gxto4fWZjz+r7khV7Wbivmb+C6c8Z1/wED1UlOrAjGW72nN7PsktaZrvWeXF/j2VdUrmtqKiLNaxba58lc4RtmH1DGfg1ov5q8O0wa4u9Cbr5pGbPkjBUuv1Bnbl0clKxrm2uCPG6Qc0MfldLbyuu8/hluh/xZD96Qd2hVHpBh/BtP7Ptf3eKQp5vrjX9f8AQJSyfCOZaMpu1xy+9MYaxskjgCR8Vcx9pFRvgw4NT6m3zn+6ujptrHvYHfgqmaSP5T/dVZMsl1H+gEpT+UcmyFtiM1klWNaJLFxK73+FlmHNhlPf7Z/soUu1zxHf8D0pH2/91IepyS4Uf6AqT+x55JHASLll9EBzYg4gltv7l3rtt7OscDpvv/3VH+G7b8WB0v3j+yjjnfxD+ho3Zn9JwTN0GEi1lMPhNtR+hd1HtzDkP+Qqa3w8fsqbduqUWtgVNfT6P9lMjmy/Ef6MVLzP8M4OIUxnfly29/xV5SMphTXaWXdz4v7l0se3dMD/AMRUw8fWN/crak2xpZKdrm4TTjMf5RvuVZM8t1X/AEM+XzNvtOGO5a6/DcD6X9yQlO8edWgX8V6gdr4Gi5winNv9I1KHbikBdmwSnP5Y/cjw5Jt+7+gqPmV+7PLKtsu8Bs37ysqBJugXWsvSavb7DhIGjZynPxb/AGVlRt3h27bbZmmd5cP9lPjkhK6kO8zN/AeYk3aOIj4KD5AQGhx+5eofw6woRgu2VpSfyf3ITtvsJv8A+qNLbxsP3IrS+r/pGxy5f8P/AKjzfJlIJc0/FWUMQqIA0StOmoXcR7d4JI2/8FKZ9vsfuVjHtjhzqZrotk6YBw0AyfuVzxJu94nLqMvWw8xnoA2ItbI0nwulPQCGGx1XpWJbfYdSwuM+xkZDQNQWfuS1Z2l4FHRNf/BRkmcjgBZcfoTIYoy43gLNlir2HllDI2WjZUyg+1+cHJLEp2DXl/j/AA5eojtN2VgFp9jofa/kfeVT4h2l7I3k/wDQOKpB7/HCt2JY5L3gyyZf8M8hqcfpyZYIgzwZJ/F/aSPoDSfVVu9J9v8Ax/jVe1UW2uxcjeHs7pdzn6xwfuTce2+w8TuDs9pcuf6EH7l0JTUfqATk+4HiVLQ1MoqTLNGN3wPPe+Flb4dRRw1FKDP6TJuN8c/6F6oe0vYeHETB/wAH4ivlfyhb+Upnb/Ye8J/gDD/J/Nx/R9yzyyYv4g083+GeUVQIlqdRy/a5L0zyIBcjr+tevnb3YTeOzdn1N/1ECXO3vZ5lObs9p9P9BChjCN3uG+bP+A8YrIxK2MX4g3T35UKJ7txeUi8PDp+avZh2gdmJ0k7OY7/9Gpys/hx2XEXk7N228qenP6My1Y8uOXTFynkX0HjVLYAuLuevNGMkXeLufmvWjt92Sj//AB27/s1P/aUTt/2Tf/67f/2an/tJ26H8QqWXJ/AePTkEaOv8UoDcmxA/KXtf8O+yF/Eez2oI/wCjQ/8AiqLttexwC47Oqn/s0P8A4icrQh5JfwniIHESHfpVfUAmYkEfevejtx2MDQdnVTf/AKND/wCIlX7Zdib32/4N6ou/6NB/4iNZXjEylJ/SePUkMrYQSDdMOzMiJ1vZeyDa3sWIFtgKof8AykH/AIqUxDbDsUhZmfsBiFvq0kH/AIynmzf0i5S/4Twypmc4m90pncT0XtH8Newd4Lndn2K/Ckg/8dRG2vYG5wH/AAeYt/2WH/x01ZpfwszyZ4s0Fz7aI1O4tcDYaHxXsI2v+T/02AxX/ssP7KhEbth2Cju7A4oP/lmf/wDQpLVv/Dl/T/uDGP6nkdzfnyWpCQPevYn7W9hJH/qTirf/AJcf+OlpNqOwon/1SxVv/wAsP/HWda5P6H/T/uN2nkG8kc7xHiiXAboQ4+C9al2m7Bn6DZTFP+pd+yZRZjXYM467LYoP9lJ/4yi8Qf8Ahy/r/wBwdiPIJQbeysDX7oaN9leuuxTsEzm+AYq0/wC0/wDFUHYn2Flh/wAkYoB75v7av+0X/hP/AJr/ALk8r/iPJm5ruv4rRA1Xq/4Q7DTHwYbiN/8Ab/8AiJafEOxrd+rw3EP++/tIvx9/QyeUeUVLbSDMi0ptOMq9FqKjsfPOlxL/AL796ynn7J/4qlxL/vv3pi13/BL/AJClBXZ53UvO9aAQmM/IXB08V19X/wAF5qWiM4kPg9bdH2eZ7MkxDl1En70a1br93INY+fccJWO4x7llx6OfcunrmbECXhkrOXVh/eglmyPo7i2aq5fQd/aTIam/pkU8Xq9xyUdt4sl+edqrfdbOmQWqqsH/AFH96VngwsyEx1VRa/WH+9P8z/hEuCFZj6qLwWqvVrcruqaqWUghj3dTIdesP96Xro2EN/GCDf8Akf8AeRKVspqogPZF1KTLw6rA0Zeax4FuacIIvIvzUbttzUnDRaI06KqLMaAfFbBaQdSsYfMLB1QMNGANy3uVKO2ZQceGylGL2NwpRTY20tDxYo+dLWOcI3xURbZ3exrr0bDlsusa5xIsxcnsPrRM05LrGi//AJrzOXvk9H8kMUgMlMwmI8+hQIyYo2hrHn3kJ2pHqGizjr9JKyMDmjQpDNkeiUczhqaeYfBv71LfHNrHIB5gBQiyg2vdPU8EcsZJB+KGS2sauiuqKhuW1jdRp6lgsSSfyXJ6WlaAeAJaVrYiA0gfFLu2Oj0T3kLZHZn3Hmi3ie4G7bJKotfWQkFTGXQAnRUoyXZai7Ghu2EtvfwsshsJCSCUq43OnNYy4Orjf3oJxkzTBF3s+W/hSG41u7+il6n+M8c7v1qezziMVhIvyd+pQq7O39uYcf1rLGTT9wqXu6LmIfjGB5j7J/UqfF2SxVUrnNcWkixXRYfTNfBh0skTy6O9vzUxjPo0dC68fFcDULFOf5jal/8AaKTUZHOYK3/KNN9r6S6hrcoIJ6rnsJaDiNNb6f0V6JsDs7+H8empKwyilpo94/63Rrb/AHq5Ynm13lr/AO9C9Tnjixb2cXiZyT3z+y1c/VODe9/KLqu0zCfwLgGGYzTyndYhUVEEmfuhzXHLb7Qb+hcNDOahvEfbXTlp3ibRNJqI6iKaHYDllbcDmu2o5Bu8oPshcXE3iby5rraf5pruVwFizqoI05IjzOWVzQbqFUwmNrGAC5QGykXcZBobJyzXhrg8G2qwv3oRVFNLCWa6oB16q6bAMQrY6Fr9zvuG7ei6PFezehm2WxnEMK9I9LpAZKdm8Ls43ETy338TrLVo/DcudOWJcIRm8Tx4JbZnn8eR0JUajI3IqrC8XZURZXAhw0IXpmCbCQ1mz1HiuLmsa6rraeGnERaPVvkaHE6eGZO0ehlkmoJh6jXY8Ud0jig4NaCukwiYGkAsuZ2+potl9s8Q2fhmlfHEYd2+QgucHNDtbe9XOyTazFZ4aGih/GZDb6PnmJ8EnUaPLHUKF8P9Bf4nDkweYW07WgcF3ZlXyxTHkxy6PF9ioBg5xKuxcgiolgk1yMvE1/j/AKty47EMHrg+KnwBxrKsYVBidQz/AFrS7K1o73C132kx+DaqCb2X/mZMfiWFyrcRqo5JJRY2brcoZbuTaBt36XcVS0+NmsJbUCVpHMcXuXebObGUu0Wz1HidVUyxPrar0amazll4r/0XfclYtB5uSoPl/wD3/I35NVHTwuZyokJ76FKSe6V0VNstg/8ACnDcHnxGrmNTi1RQSejS+w2na9vTTV1nI/aV2dV+yOHjHMOmnrcOj/zgSd+Bv0nfSb/RW+Pg+SK9xlXi2EoKSMARfa1VnHUCPDeeuV3AuZoK4S6vP1u+vUdhez7+EOAjEK3EPRWy5hEIo2l1uVyT59Fj0/h2oyy54/qO1erwwhcjjsVniFPcuF/ZsuC2gxgRaAjezcWnRq9h2w7FJ2Rxvotpz+MPyespG5IWtjc7x+quI7OexGu2mwZ2N1G0EVJnJApzT5+65zeI3XY0/g+ow5dzMcfEtO4232cHTXxM/jI9Y7LxroqbAmsmE9Q9xObNa6e2jwWXYvaKXBKoxTEbsiSM95p6+XuXddn/AGeSbXYdLic2Jmlh3jmR8GZ3n1WWWk1EnWzn+ZplrcUYbm/ScHWCKNt38uTRZUc4Zwe1ll/Y5fQU/YfQzMDX49VG3XdhIVfyf6SSEsp9paoHNn9ZDfive/eT8PgupV7jL/bGA8Pp6GGfEaX8r6vsn9qZxvCtzTxbmb/N803tO4f8FDkbVYLtfV4LXH8ZpZnU73/Z5O+N7/FWFc7NhUh53OVYZy2SUGuXf+hvhkWX29HL8tXaXN0nNJ8/9pWkken9FVFaCKzQd+zu9+d+pb8bux7AmNubTu+KI4ODbDl4rKOCoxCvZRU0YMs5swE9V6xh3YjX1+yGD4zFtLCDiTaV+X0Pk2Yt636B36Fsw6Zz9qMup1mPB+8kePuLSOa0SWs0I5L2/Evk3Y/TU0kmGbS0FVL0jnpSy/xzGy8T2jo8S2fxiTB8Yo/RamAuDm95ptfia7qL3Wt6aSM0Nbin1IVLfV9EEkltsoRRrDeyE8WZcc0UQZyFyXZ8pbyUKZ7TUlxZyXqMnYvi0lNs4BiMMeJY3R1FRHSSRW3ZZHnDAb6kt+5eTUdQ7eODhpc394TvKcezDHPGXtLNuZ0lybhUuLTl7y0OIsbK6cXU9LmGptdc1Uy79znkW1um4uBeYBLcsvdCB80U3y+ShcAHRaImDIbJGmqYpYN99jN3Uu0A5eFdlguzVViWzOJ4lDPEJMPhbNuH96Vp8D4qcEV/Jzsha7mlnxB99LAKRkzk2GUdFBs0tu7cDmqHSkQjG7DONjHd5aNSHcI6q62T2exbbHaig2bwy2+xB9rv7obzLir7td7Kcb7MqykZi1bT18FWy8E8WZozN7zbH3hHQjecP05rcQcW8N/rKPTlqvddjfk74lj+y9LiD9pRS4hV4cK+Gl9EzNDXdwOOYc/FSgm0jw2MhrjZbP5f70xX09RQYhU0NVC6KoppXRStd0c12U/pXpXZb2J7S7e7MHHWYrR4Rhu8cI5KiB0r35XWOVo6XQ7SbjyKa9/ij059bz6L07bHsPxrZnafBcDrNoaB0uK0dVVNcKaX1W4jzuDuLryuukr/AJMm1WHYhTQHaXB5RURSyaQyaBgBP603aLTV2eEuy+lDvJ1zG3GrlY49sfjeCYRgGPV1OBhuOUxqKOZhuDY9x3g62qrrg8jdLZIC1QwZibLbbehuFvZ+5ZV663/uWHWmIv0RfBPqFoyLi4Q78Rv4qUd953rqJdxnXqrXfYLboNILwx28VGrGoU5wTHFZRqwAW2N0XJH0AbdbeFjbeCk7LZHEURd3eSiCMuoUnXstHuoiGwBa9lE8+SJY5FDrzSmEjThpyUo1F1/FFZcWUIMx97VMXHgEBtsyLYeCJFs7fYgP9BaROGjyK6qGCRw0qJPgG/uXJ7GSWw6PRddSPLnWDHH3W/evN5+z0iIzUkgZf0uUG/gP3JWqp9LPlv5k2VxI1wYA5kg18v3pLESW6uzkW8llUh0CrNJERlsMvgCUzhlHTlxyktLeoc66XfK0ODMrg7yR6FzmzG8M3jcutdFNWjVEbmw+CQXJn94lKTnodzP6qSUXFrF5Tc9RJGf83t+UlRL6Q43blueaRHd8jo0RdG4kesW9w/f3dMT5WWybuNhZaLXZ7l/wypr6Dj7gjmEAkOWMzXvpdY8WWMB16pb5RoTLXZaeqGLQCaFuUhxvz6JZ+J0vpErC5jX3cAHNI6p7Zh1O3E4jILHK7W58EpVQwPlLgBcOPL3rFtcbQmVbrO5wR2bD6Y/VCT2l/wCL59Og/pJnZ8kYdTaewFHaC7sPqeHw/WuZ2ylwyiwB2XEYL6cWi9c7EKjLjWPVDyfRm0zCfq5S+68kwilq4Zaaqtfy969N2jxCg2X7G8empiBXV+Snkj4tDK3u+PzeYrueD45T1CzS4/Q5PjOWNeXHtjOIYfT7e/J4qH4bDI7I6oq6Nh0fvIpH8Pv7zV837P1DX1GUAgh1jdfTfyT8SbV9nE+Gn/kFbIAPKTj/AKRevnPavCzsv2iYvs84WNHVkxZ/5J2rD+aQu74jivDHLfRg8KybcsoFwywaDbmuspD+Lw3GmVcnSkbpnECuup9KeP7K8fqFbtnquDRPgLItNK5jrkKG7u3MSs01cTos6J2HirIcOx+ixGq3nozXEPfxOyt8V9FbKC+y2FtdYg0UX9AL5dxOYx008nMRtLv0d5fQG1u0j9kuzen2gEQlipYqXfMHMsc5jXW87Er1n7Pv0OB5TxmPrizica7GoZe0+lxWh3UOA1B39dBr841w4R5P/evT9o3MjqsFp22AdWGw8hFImMDx7B8awKPG8Or4pqB7M4lB0A814lsXtg/bf5Q0VXE6c4dQQVkdGL+qy5Ym5veTc/cu7HBDF7fk5UpSyd/B5/8AKKlbH2y4qGG5jips9uh3DP2WXadic9PTYngzo4yXmnqqid3i0OIH9Fy887a3b/tr2oz6WqWNseoEMYH612/yfJXy4zNFNHmZDQ7mP8r0h36guXkjWsOkv9zPLNpdvNpMcmqYxX1keG1FXNVCn3niXc/HnZdr2A4vjju0WkoZ5jNvorMkfzYGw5W8XgB0+qvPdlYBvnEaG7ufivYuyOjFD2pYOdPWQyt+9rv3LPj1EnmUK7Gz00PJczzDa0/gjbPEoN/LKPTajv8AE7SRw181752a3n7JdmHAy+sxKbXrltUDovnnb6X/ANJZBL9Iu++Ule29mtdGzsd2aFXXR0kdPjhAt/JgPvl8e8teCNTYjUyvDFnzxQ1GMwY0yuo8Uq4K+nmL45RIS8aZef6F9OfJ22zr9qsLxzBdqZRWVNAI3Ond/GwyB1h+TlP3r5+w3ZrGqLE4cNnwLEfSZ3lkTJad2aR18396+kOyXYmXZTZrGsSxOcUdVX02sZ/iImtdlzfW4nK8Mp3S6K1PlbU32j582ihjwDabF8JgqL09NPJBE76bdLH7rLeH9pe2+zlDuMBxowUz+5H6PHJk+L2uuua2krTV40+WlN6eeoOT7I0H7FY7K4McVJqpriIW/OWCUo6ebyRVyOpgxedg2t8HsHZ9tFtPtz2WVEm0mLmrnbjsdNHaNkXqjD3XZAPFy8Vi2r2shrXx0G0mJQQOqi60VY7r3V7x2aOp8G7MsUqMtxBiua3nucv9ZeFVlMINo56IAD0ZzIPymANP5xB+9bM2qvTLNX+Ry8WKsziO0LMUr8RdiNfUVFVM51zNLIXOX0x8nWradk2UZPrXVM5/NyX/AFheHYNTllKW25L1n5ObznkjPeifVm3v9E/eVzvCtV5mdcUbfEMW3CwnbP2y4lsFtX+BaLBaStYKZk2eWZzTd19LD3Lzx/ymtrJ6aUU+zmFwTey4ySSW+HDdexdpHY3sztzj5xvE6/FaaoMTYiKaVgbYeTmFcFtJ8nLZ/DsAqKrAsXxf0uGIuZ6bJG5hDW93RgIXoJ7vpOPheL/zDwfDa/E8U2hqsZxKXe1NbJne/RvEdSurnLo8O175fz/JVdgEcTaaFrbXBsVa4q5opo/o5l43WSlLVps9dpYR+kppXZQNUpUOHNHkeCLGyWlsTZacUTdIsOz6a232ESVHzULpC74MP713PaPtxtJs92IbAuwnFpoJXVUlLJ6trs3or/V8x9Rq4vszihl7UNnIZYtJMQjYr/5SNoNhsGoIdPRdpsZj/J9ILv6zV6HR/u2zy3ifOoijldn+3TtNwzERUuxk4jETxQ1bc7X/ALvhZeq9rVNRbefJ9bt5FTiGpoaySrgzjjbG+fLLG786/wAF83UsDTESOdjZfV2LUzKD5JePUkceSEUbxCPqEtstWCW5Mx6jH5Mos+W6CW4cmHTtsCG5rHkqvCrlhHkvRux7ZqHaXbSioqizYY5oHSfWA1y/lWWWvUbZZbx2fT21M9HH2r9ncbpIm1jhX7tp7xZ6Nrb45V8n9tWzZ2R7aMYw9nDTVEn4Qp2Do2TiN/K5IPuXp2O7X083y1MGvN+LYdJ+CBc6BzoHj+nOrX5amzvq8C2yiZ8wJKCpf9V3HH/Oz/et8uVRyMbrImfOeNVDTAAHDMeY1VG+51siVNRvqg923TmhuccuhCRjhsNcpbgLuJlyoluYgAIznZYdAENpIsUyLESM3GUC0S9S2c9RS1MEVDNLJ6FTyMZH7cnoEx9w71+L6K8udLILcS9c7O6iab8Jk+s/yLND9tzaQDKriipvk8bpnC/PROMfDlF2pOEDkEcwus1xact1XyVH2npnyYDLD214QYopZssFS97I8uYtEL+V/Oy775ZeLSY1heAPOHVdJ6JWT0z5KggZ3ZWuLQB4AN1+suA+TpS1Nd2u4fQUtdJRPq6WphdNHbMxhjNyL9V6v8tzCqTDdhdk6bD4GU9HS1UsUUbBo0ZB+5MQpny2wX0H9JfoV2VQmLCMAa8WlZszRMcPh/cvzwnzeiPPTIf1L9JdmIRDWxsbpkwejYB4C8v7lcOFRTZ8Idtot2s7UAaf5WqPre0u77IO3Y7E7DybKV+A/hKGIyGmkgkay2Z2ZzX/ABzarzztdm9M7V9qKv8A/Oaj9EpC5rJmOVWFFblZ7R2l9ueG7UbX4FtDT7OVFOMMoq6lfFJUNJeZ4zGCLeFrr6JwjaGsx7syqNu8Uw70A/gutlpIt5f8WMd2Od4OdlXx52LbCP2+7R6LAnj8Q4p691u7C0G/3uyt/KX0xt/tXSYD8kmgLz+M4lg1Ph8ItzldEGuv7g133K0xbPn7th2yFdgGxuwmHT3w7BMLp5KiwytNUYuL7mut9ouXnuV3klBd9QSdcx5p3K3zQsdi7FqzTL4rZB9GtfWyjW5rtJvzU3NvS5rnkp8E+pikAcHLRF3WHNZTXvfW5W5IiwB99SoK+Q0zXAQAW5oVWHDLdTlbZ0JJKHV3JaFA5dAm5rc1uQOsNStM0U5e6EdCiJ7vNR18Vhvlus1LURCZ7o1UDzWxfKtAG+iFoJM0DrzR47myWud6bhqapzqNLKUV8jMQ5JjRAhN5LI6gR1Gy7qluGs3eUDzXVYTPWm+UUxI8XELjtmG3w5l3u+9dRgcFO9782c26ZivP5oHool8HYo4izKQ/7QpSvFa97hM6KP7JujNoaVxDtyR+WUCtgiDy1sZt9orJSRoiAw7BqV0wLpZN7YkyF2iyswBti8yytv1Duafwemp5ZXB8ILQ3S6ufwdRubZ0TbW0Scuby2aEcuaEOhdCKiSPLyLgNVWYfS1ENYQZXOZr05rsK7DaFsTyyABwivnN1zTLska1zmH4IoZ1kXA6JJ5dc2chRyTiexmzN8LIo75RmO00tdFdRGx9xkjiW8wCsZKQ6xItZFe24vZQ0ucwJ9yVdjkRocbfT1QPornFlxcOCH+GaaR+aZ8sR10tdO0k9NPPlbSue4czkRpoKTl6JmJHIEBCnjTpozqUuzq9ksTjqaPdxSZ9ywZlaz2MOtvZ/XZc5sMzL6UBHkvl/ar3EqO9Odd1xx/oIXHzpLJSC3cFvsnSb3GKiQCww+lmqQ/oHtjdu/wBbj8Eng2y9Jt12kbT4HjtZiFPR01RHUu9FnZHebIG65gb97Sy6zYGn9B2Rkr5/mpTWa/YgcP1tkXz1t/6PjHaBitTE9s4dUHISQOVh+xes0ONYdNFtnldS3m1DSPpLsUwPZDZivx6DCsUmbV/hH0R8FRWtc54Z3CG+eZ3LmvKPlX0Iou1WmxJtgzEMOY9/k5l2k/mtauKhpsTppG11LWO3kZE7fqua7Rd/8pHf4/LsxtHBZ1M7BxPLIO7fesaR971uWZZsUoAYcTwZoyZxuDlrow09F6LDAx1BCQ3XIvL8AnO74u8vQqHFH+jwxub7IC8draR66Pq5Nua6+XKVqWnlYzNa7bJ6Uh4DhbVLOMuVwJ0WCKpBJlVXW/B1YNP83Hj4r2ftphB7BMZH/wCXw/oLPFeLVbi1wi31KfSJGxZ9OC7gF7L2owCXsIxyUuBz4NGOf1Wn9a9f4J+7l/keZ8Z/eo+SsDkxYUFRhtFX1goZ/nqWOoc2F3vF8q9h+SzQui7Sah0gIAw2T+nGvOtjIYpZWgyx8vpr2zsKgZD2g1Do7D/J0n9ONVptTWVxroLUYfyGzzTt4yf8N+0JAsA6E3HU+jwg/qK7X5PDTDiU0xINnC/mBTzn+sFwva7vMQ7YNpZ4xdorWRW90IH62ld/8nlkJxsUc78sjiTl8RupG/tCdHJu1gqS/uZ4hg89q5zjoN84/DMvZOzAmbbjZufX1bJvDpC5eebU7EY9sttHU0c2EVk1JHVFtPUR07nsmzd3ib1/rL0ns8w3FqXEsGnr6eaiMkdTJTfXa1gc7h9kcX85ZXp5LUKX2Ns8kPwt2eV9puHPw7GsI3pBfU0EdQfyxde29hOH1GL7GYPDJTxnDaPFt+bscS97eIHwsNF4DtTih2gxLDCf+TUMFN+U0/vK+juxDFThHZdgzbH12NejHz3knF/S/Qulgf8AeEjnaj/d0cvWbd4Ptp2z4Rgr6d0dPT4tMLykDP6h0bWaO6uHxzWVT8qXGNsKXagYHWVOTZytjD6aOLQTZe9n8SDl/QvMdtaR1J2k482l0dDjdU2K31ZnZf6K+g6wR9sPYx6Q7cw47Qtz+bKmPvN9z8v+LJqlutCfK2VP4PmN0J9MFgbM7z/gvRtmppP4OR8rf1g6y4ejqC2WBrhwvcAfa1XrOD4HfCZi0+p3n1fayud/SXlvFs0NmyTrdZ6bBUUGE4h7HcWER9acTlH3UpIXm209I6HtMxulN7/hGb63N116BjlDl2PhoAf/AMSmqP8Auomf11y+30uTth2ihmFiMSd+bbT9C3S50flf1ONF/wB5TOq2fw+WWm1l/tL0jsGggpK/EmteS4vLQPyYv3LzKkx6eGjtFG1nv1XVdgNfUTbe1NG+QFrqb0g6dc1v2LB4NiUNQlRs8SjJ6e5E+2Xtk2m2U21q8CwSnwmSGmEd/SYnuJLmhx5HzXnW0PbZtztNhr8NlbQ0FPI3JL6HG5rnt6i7nGyru1XDsfxHtX2jqfwBjLoTWu3UkdFJkLWaNdmty4bqtocPqaSEzVNDPDH1dNG5n6wvRajUSxtJGDS6OGSNyIYEw3GZptayfxnKBGA3SxKYomRk3YRbTklsesJGMB6LzjnKT9R6TTQUSokA5qLrAglTkNyBdQnsbC61Y3fQ5j+wLtz2k4BMY/m8Qjf9xum/lS1//pjHh4+Ziqamr/69sLv6v61V7PSxRbR0NV1groZfyd7+5P8AynKd1N2ilzKYuEtFRyaC/KGzv1tXY0s/ymef8Rj/AHhM4CgjzwNa3vO0H3r6i7cX/gv5NWK4bCSQyrp6Fh+qyeL9jF8+7DbIbTbR4tR02HYFiRbKQd66B0cYbfvZ3DKve/lEzejdjGKYY62/rtoN3AOvqznc7+Z/OWvT2k7MGuyRm40fLWFaMOq9ixaGq2Q7McBxbDjnxGodh+IZo9M29NZlb8Wtb+auC7L8Bdi+2mC4LK3WqrWRn/VN4nfzWlepfKImbL2YYaHOyzSQUOaE8wL1mqZiV2BqJbVFCmJfJ/xrDtr8ExrEttoJa3FcVDv8xdpUl28zd/lwuXvHyk8HkxjsU2kp4nXlhpm1TR9IwvbKW/lBhb8V8SSbYbX18FNDXbT4tUimm30eee+R/wBJvgfNe7dg22mI4z2a9ouzeOVlRWy0eHTVEDqiRzpeKF1269AQ371ohIxvFR80sJtqPimwGboX1Sb4JYQyKUEF8cctvKVgkb/Nc1MDd7p/wypMuR0OqM3PCAOS2+MaC4Rb7umBJuUo4kkudeypDJbRp0Ayt5cBXq+wVPANk6yu5bvD69nrP/hzC3+k79C8dBLXWGi9n2cw+ej7CnYnKLumpsamziR2VsfokDG+7ly8kxRM8meIUrdQb28lZRO0AVXDU08ZDZJ4m38XJ6KppX/MTMlc3UhpQsZj9J6H2DYjXYX2n4bLh4pvSao+hRvqM27jdJK2zjb3W95K9w+XNG7/AIMcCkfawxXI63iaeX9y+duybGKXCu1DZzEq+q9GpY61m+ceQF+v6F9e/Ka2NxPbjssfh+Bxx1FdRVLK6GJxtvQ1rmlrT4kPNk6AjL8HwTUZhh8x+of1L9LMOfHHjlS8fNtwumd+TedfnvgmxO0uL47HgzsGxKkD5Y4ql9RTOYKdrzbM4nkvuvbGpgwjD9rqiecRxUuzcbcxPd0qQFaFs+AK2rkr6yeulPrKqd07/eTm/at+fB+cl2sBa0a6Feidhuxs21m3lA+akMuE4fUwVFeXfMuaJWZWH7Rtw+AKGQ/H6Y0e4/JP2apMKwPDMWdb03GKLEJJv9Wyena3+b/SXz32vbbz7XVlJTQkswrDHTw0kWltZnkv08i0fkrvdrNsx2f9juz+GUOJtixWRuLUMeVxzxwGta3efEQuavA94zdNcHAMPI30Kgnsco2nvHVqaebHS3JQoz6lpGVw8Uw48TvVC+XvIGzRGFFbX3yh2nNTLrUhuPZU6kEm3TN4LU+bcu00y+CpFUKQ6m6iLucCSbXW6YnN5LGOcSNRa6YIXYefNv49dAg1VjIPciyuJqg1Bqw7OACOSiDZC/SylICGg3UW5tFJxNk4URflczmR8FG1m2vdEfvN027h9ygQVCGM96y2l0SKMnSxKHM3KTe7VCEWj1nJMMbYiyFldoQTqjxHzUKGm+yi6eBQG82pqzfB/wCe1RFFrgL3egts02uuowafdOA3cxzeC5XAjN6AMurT9JXNE7EWygQGM+V15/JE9NE617mlmpk+9V8hOdx3swHgHIbanGWgA0rHeNlCqrZmPBdSlzuoBWTbya4FhhwtO281Z7g5v7lcSslN8k9dGPHej+yufwnGI2VTDPT5B4krsYcYwqduX0mBptydIB+1Y9RGhsTnqqOs3bz6bMTl6zAj+iqinFQKgb+oa8W6Ouf6K7h1NPVU73U0e+bb+J1XNVVO6GWz4Xxu8JG2KmDPuHRE7etJzX80Fjnel5t58E0Wj6Sg2Mb4G3xsnrljo9hwXEEGTTwWmAarb7A8jdYwnUEJM4cmhGQzvD7CI2A6Jljp36CmkF+pWQmSLUtBsOaM2se06NBKBpVwhErOh2OY4SVGfQOLQPerrFoHGPicS+7dAeet1yuGYpJDE9jGhp3gcDdMfhGqrMUpxMdMwBIPPVcx4pLI5FbeDoaztErsI2WOz/4Piq5Y45Y6ep3n8pG5rszfLeLyzAKF4xGlMzdTJb4/SXpmMYMJtQB7OdV4wtlNiVHmHN/6FqXieXnzOvg5sdDGMvSWgw+I0nIXK4TavEcUiw+pwAmmloB6kep9YIxNnytN/G/3r1DctyeS4XHKWKTFai/ml6LXSU9ldmmWkjJHNYDBuzyOVeiUmINZRQtiYI7N1f15LmIKeKMktPwVhE8ua0crBTUN5mbYYdpZCuPEL5ze+YqDqh5YTmOqSYOK5TIc3JZzdFkcOKG7aKzEpMs0dTb1kGWX7tUPbPtGxOtwfGMAo6MxRYrHSse98mazYWAHL9ohWNQIpYyLdFRVGDwzS5l1NLrXijUUc/VaFZ5bpFNsvTyMtcWXUDGMVwSSerwqrNPM+J0Xdac1+ihT00dNyCbqIgRyS1rt0ns7Q38NeKpHJUPpfp8tRUSmSWc6kuLnOcuiw/F8TwWohxPB6r0Wri/jtHNy9bg9LI0OHAa6fV+qh1JEwMRHJT8XHFOM1x/qReHqaqjo5O3Wdji7FsBzSy1bZnyUdRl7jfouH2faVFtV2sVuN4fhRwjD5sOlw2jNJ6RJJzu1jXOa3l0VFVYNFI7OQrCn2YNJhusN5N+uhPxWc8bi41f6nMyeFRjL0nPbOYWXuLnUty03JXo2FdoFRszgFJhIwj0uKgrW1lMc+X6V2u+Lr3VNQNmovVMH+PuQsTjmqeF45rnY9esfI2Xhu6G05d7qvGsbr8TlG6qcQqJKqb6Ic91/2rs8AxvaTZGKdmFEVcFWLGP7TcvvB/shJ0VFT0x+gE3JBHOPUnMU3+0JqXpdFfgG8dHnsznRPjppqci5vy4ut109HjuL4fhUsEHKT+M9v8rr7LVdljYTTMLRUx93cvGZXGF4bg+MAwb/ANCO7/pOd+xqyarXvJJbDRhx+WqlE42n2zyQvqKmnrJsxEkYjyu9prnc/stXNY/j9ZtNt3iWOPo92ayoMobmvlHNo/NDV0+0myFfh156b18H+i73td5p/YuVw+IwVF52mGWPNnuP1hdTBrI5dPV9gfhYvLvj8HRwV9Xusnordeqd2O7RjsZtEa6XC/Sj6I6myd13evmVQMTvupRN/m/sey9vX/HksxaldUGSbhucv83/AM1WmlLG24sbqcEc8Nsj0Q/KcqPSGSHY0Gnj1aPwi7vePzSLW/KZjr8LqqY7EsLpWGMNkrc0eo6jIvL48Dpyy8kf+O6tR4HTZvVx/wCO6uivE5fw/wBf/wCHLj4RAS2cxOZ0jmvBGpPu1VnjFQ2aoZlOobqnKLCoqd7/AFQ1FkpiUGWoIZHYloK5E5rI6R2sCcRC9jqVCZzuiI4dXCyBJlOgctMHY0mHSQTuqI4r2IP5rl1+0/aLh+K7SY3iz6aRkVZhNPSR05F8m7ljLv1OXH0NNFLJuydO6c78qQx+mppa50GHBroYeHet9tatLqXG1Ry9ZplnlGz25vymsHo8Io6XB9l8QlmhiaPxiojYxnD9XMXD7l4btptvtFtltBJieJTGOMlxip4uFsV/BAhw1pHJNQYcxh5Lf+KbRlh4XGDqi+7Idp27F7b0m0mK08tXSRiWOTd8T+JuXM255/3pTtq2yodsMVw44TBNDDQ4e2CTecO+9Y933cf61WVkG8p93kVTHQfjAbkR4c7oTqdLBSJYNT5afO4WWbNbS12zGMV1bQyPz1FLPQODOAiN7bC3iWmxTWKEUVLkbp/j965rdkm/D9lFik2KzKKSoPthiv4f2or8cZTikFXKJNw11wzhAt58kpF+Qz9SwxDKffZT3PCfdZP3WZEqGsrTGG30KUqm3cGiXRqZmJEFhbTkq1znOJ+sqVl5GHyHNfM269DwftGp8J2AocCjw+VldSzVMhq95o0OEejW2/0a81B472TWTeR/T+0m3QmrPqKt+VXsrLkedhsUnmAAJnkgGX3G7l59209t2ze32ykmEUmw5oqwvY6KvnliL4bOBcAG66gW+K8afCwEobGRBp0RbxflMEHOLgBf3r6F7H/lCnBsEbs32gw1mIUUMbmRVtPxShn8nKL8XhfmvBg6Foy21ao1NpvyVcZF+Uz7A277cuzPEMAxR2HbQ56z0eD0aKSjmGd7Xb0eyvEe3/tkft3jNRRbO+l0WCVEMMcofwvqt2ZCHO8B63l7l5O+HhHdW2w8Q7qkpAeUwlKCbEjRez9jna1s9sJg2IYfWYfiE1PPVQTRGPduddpF3Ovl6f0fNePCOMcpN99bK7+shyM0dlCC7HNUj6A7PPlAbJYBsnSYdjmzmJYjWxGczzMbBIcz5XSBvrCOHi+HguJwbtK2Xp+2vENuMSwCrxHC66B+ajkgpxlkdl1yZi2wy882ZeTyx8XJTjj0tZNsz7Tse1XaXANrNt6jGdmsEGC0EkTG+jWALni95CG8Ivpy8FznRDEW6GbN+hEPs8f9yTM0Y1tNd7KTdBqjaKS19R1RSbhCqNI3DnorQcuRKnvdyjD8833qceubKtU7fXAnxRmdPkO83q3XvyS9V88LX5JlzmGqfe6BMQJzlJ+5DVsp+0HqRey3NyC221lkgGianQoGe7yWW0WSaBb9lGQmTeNB96L/ABaGVCGmHiTTClW94JqNQgxFzCbHLmlYuY4U2CPoqcFFngL2egtAvzXRYW713K1guWwBwFE3S9iuhwyY7+4Y43HRcHKelxM6aOZrQLj9KBmHpLnW5oIdKWAinP5TlNramR+aJsYd4LFVGuJcYI9np1OZntjj83ZWrqBNhlUCBPS1Enk5r3LmMBwmOv0r/wAY9r6LWrqsKwikw8H0WEfX9p2XmsGemwyhxDDMLbFJKKdrZG6BzGuafzgucL6gStiNVVzRs1DHvLwPiV2tdvNyfDu/1lyFZ86hxS4Y6HdAb3dyRoxfmfggOAEnO10WFozAXWiTpmqPYRwcGg2S0ssgqQxrTY9VYMALTZwNkJzdXSEtFkvdT5D5sgyaQO3TyMrjwlGmdkaMpuCOarpzUenBghJZbS33pptVJTZYajihOluoPNMcV8CrY9RB01mC17qxoGg4jA1psRIAfvS1FHuSJ22LCLJuN0InD4XFhBvfzWTLOKCVnab6lkihc6T50t3Q+ldJ4k3/ACth7ulyqehpJzX02t6bfN/J1V1iWmK4czwK4k09vP6EXBbOb0LVwmOaYrUAdXLvXnMBIH6O8FwePjLis45nN1TdI7mhmDsQDbyg+SsIW+pb4qvBJNgrKluImi/3+5dCdfBqZK5DTosD3OaRystFx5c1oGwceSyvsEmzW2ZTnNOxh8VXwzvNOL8zyWF5txaq3ioLaMxPZm5c0xcEg9EgHWN7aFOM4sqm3gpxCfxb0tFFv79Mrk1kJDIme06yO2GSJxiPsnL9yBqxhWywSQua5p4fZ8lfUs0lbQNLjxB93oMFOaiGcZe63hUdnpXNiqGvGpsWpOSf5dfcRNWiW5Lah94287KUlMDl9WzQ3RZKhzpzaMam6WnrHh1sg5qtqF7QU1Cy1stnDzS1RA0MvbUedkxUzVBF2CxP0QlpfSSyzxcn6QRwhGPSCuyN3ZLZuXd8kLfWqNP5D+d0/ajZdOIWWi36LrImgUOUeKz01Pkmkuw5SPgj11Hg+M0W8q5A2V2aQaeCp5JLM+q7VFgqonRGJ/Jwss8o7OHMqWn3fAtiWwlFDTRTwVssUXD9ZuY/+bVQYjspiVHQ+lb+nkF/4k8S6zB8SrD6NAdRH493/HdWYk/0uhYR4t4PZW38Y9tqQqOKZwD4sVjhyGOX8nkp0dW6Nm7qY3/k811jRl0KFNTUu6fH6MFpWZy5QbRQwVdAe5iVRT/62nzfqKJuTXm8WI01RH9DPldl9xTkmD0U0fCzdnyVPiWHCCUQRvvdaIRlLsWW42dppagRekyWGV8+/bwtafZ0W6jCcF9IilFaKamfI4ZA/iy9Ha/41XLbua54yz4lRlBZz1/KR+U4/u5UC4S+To6nAqL1voW0FAf9fw+yudghEBfHpo891ziz8lafE57HOA5KVJfdtzJ8VPubsFUnQewvbK6ywgWtlct6WUbi1r6pknYxITlsYuHMdUOhsWucWkEFMsmdlIawcIQ3SZaZ8jrN0utsXwcrUFBtDMZZhCL2Buq/UW1U6iYy1T3XuotsefRbYx9BzpS5AzWIF2lFkDMoIufcVAkbg2aOXvQmPIHK6MSxiXiblCCIBmsmNLZrJd9zxgkWTOWDKgeWMHW907TRARacyq05i+xDrpylkcY9b3CKV0BHbZOcaHxSVniQAgap17jZ1+aTdK8OBIboqiFM22OR3MtAKkYSzvG6FvJBlDQ6ykJJnXzAkBHbF+kZaTktlCg+9rlbaCWtJYbnzUJLNDgWgH3qIsPDcwt1ssleQw2UGHRvRRl6lSiC7yS+40Radzt6D1S0xJcL6I9KDe6uS4A+oca43ChKdTyW7GzVj2nP7KEMEdBo4BQqrbom4OimBpaw+KDU/NPuAdOiKJUhSM2a4hZSFxm1stRW3ZW6HWdH9zNftCAuNU/UIb5C2d2o+5EYfxl/JLzfPuspVBS6Mb3eak/ujVRHJSdq0K2xVAn8lsclkg4VEXRxBC6ZEByL7PNBk5c0RDbO8E01Jsvpqmmk8rqyIajIBGqaDtOZSkdtE0CLJaRQ9gDj6A021XRYYDvQ63Rc/gbHNoAcwXRYU7iF/BcPOelxF3EQ6yJTXFSQDpZAZpZFpj+MkeSyNGuLOt2fkJmbG4agc10ZN2lc5syQ6W5GgbzXROdpZc7NG2FfJVV944Hg62bdchP87ceK63FnEwPc0+zYrkKjS1nddVeNVIdpwZB1AKkGusFhDs1ieSI0i4vfknS6NMOwkR9XYWHjoplpsbFZGfU26qYuWknwSJ9jl0JuZclwzDVJYjSmVxFycpvqn3OIJtyKFM251ctEZcWLk/g1R1DoIMpJy+CepZ88hLPBIxtaW6296JRkQm7HNcOoSZQ3vkvpHdUbxHNDKSLNN7KdTijZMVp+EWBKpYa4uY12UILqjNPGWWzC65z0+1lwhuR1X4ScYZYdPIrlcTeXVTnOdrqmRI8AnMkKpxL+LxUliSXAzHHbI0xuua6tIBaFljrbVVTX9LJiGpLDlc3RG40qQ9/cYf8AP2zWFloxuDD0N9CoCVs0ouLAcvNM65D7lnlcSrEaeJ7mhoIFj4pv0bK2+a5ul6Q5S4E9U83JlN3XRy4CF42uZPKCbZh4pox2ia5o1QmkCQubcjzTg1YCrbpASBUBqG1LHyizGOvl/nXTc4DJnMDs4ae94rVKLSl/hoh1Rs4nzWdrcWOYZUiPIJOr+8kqE7rHjS/xRzNz97L71prRZRJtiEJ+nZv9VLoqhmRzI3Zrkm/RJVtQ0ykbiUkm/JMzDKzyuoOlJnDRY6ckUIy+4ACkeZY/mXAjoWo755Ro5rdPJEpiWmwAUKmWTPkA0IVuLi+yrNFokhJIaXE9Eu4OYd24G6cp2uEHDC61+ZW6uIOHFFYnqptVg7hZ0QLbEDklpIQDzH3Jt0bmNuCEvYh9zYqtwbVoVdmjkuFGnqHAhhHDmJVgYWuOY8rLTqZlrgJ7ypoXYSKSCobaVpDvG6DVUT42mSwLD1W2wkxXZC8+5pT9LPUtp93UUUzo+hyFJi9vRJTOf7twqDFe80/RjyrqKiExymX0UgfYK5zaD51n2T3V0sE6TB+opmkEOuhuGYWCLpm0soSXbysujGKQuQWlf+LVQzXu3n+d5pPD3jdFpvcOTtJ/xfVDNybz+Cr6FxDSzSxdzTYcwE7vzB3MSbLRAJ5qBJAvZaubZrdECjY7caYbRvjaSPFV2MTFlPlzXun5JNJeV+q53FJgBYm/n4Lo4I0qOVqZW9xVNJdJlaNSdEy6zBlIF7KMDRCwSyaXPD5rUrgZC4/BbKOf3yQY/g6qJfcWQnyvceHQJjRrQSioQRBuO8scHSjKZCAFIWIuLBTbyRpFgJnCKYAm5LUSmblceIkEXCWqi7ft3hPJHo3SPaXtIsFcuhUX6iU7XviceqRmY4W4TbqrCYnKLcyk6gua4CY8J8AlQ4CyA2OYJY3ZXnKLIz3gkHKbXQA4k2bwg+KPcRBp4ZR704BEi4ZeR5qMuXKdEQu05IcpOU6K6ITDrgaLJrm+i01p8T9yyV19LqiWKyXuNP0I1HmzHwS8vO9z96PR8r3Kt9C17hpg5gLUjXAi5W2PueWqjLfNqoxi7BvBDRcCyBVAbl2nREcTbmgVBtG7roo+in2LRZcjkShF5DYIcQ4H+5FozYkgHkjRnRun+ddp1S0gtM5MUoJLjYjVLS33hKsuRLotPNoxdbbr1W3AWAV8imCkubLOQUpTYAEWUOSOHAJJwsBcBCk0GiK51whP10REIQHi1snWgOAtZKxADmAmo+YsFUiIYh0cmMx8EEZc+gR7IEGy0wVrRRg5irqgIbM2x6KmwQXpBpormGzZ2Lj5KPQYi7F7D3ItAb1DgUMd0W8FqB+7c49VgNiO02evnNuVuS6DeCy5rZcvLDKTrbkr3eAXWLL2X8iWLBopJracK48uZmIK6vF5HOpSCOYXMVce4mDXM1IuqxL1D8LAnIHk2OqJGRmFxcWUJADLoR96yQBr2tbqSPFOl0aI9jrXMDNRe/kpZmgP0NrJbM4RCw/SjizmEX5hZ5dmlR4AOcBfRBmcHEODSR1RMmhBvZp6rYjaRJ06hNTrgTNc2Cic0x2LbC6k0HeaCyxtg3kiwtBlB5iyGXHRF1YyxzmtDQdFOIZZ2m6iyMZWu53CyMHOADqs08iQ2Baez0SNU4mTU6IkZlvlvoh1Q4unJLa4GRfqIN5kpl0IDWHeXe7mEKjj3kgaeROqtxSsjly5bkeKGUtsbDk+aEmU5u11+ScbA7d3dfVWuFUrZnBohvrqU7jlNugIw0WDNFneVSEeZ6qOOkjaJHAm3uRoWl2Wx0Q3DPO5pOUnpdMRRCKO4cbjzTpQofuNPDmEtNinmA7lpJ0skZBmIdcgnzT7gDBGHG5PmlL9QZDdL/xf/t/6qUlOuoVjR/8AFv8AtykKym3nrPrfSSYxsVHggSQgzcFVAfouus9D15zj8tyWxSkeDDkqpu9biN01RoMuajchozTxD8pLB1EKgPdUtsPAqoqMIzDeCqfe/VqUOFyOqA30lvXohemikHtj/EdtRtw2SMSNn9nmouNEJBeQe/IuNOF1bYgIqj7nEILaLEgQC6Q2PPepUdJv7FtR/iO4dW04hytEjteQjslqqsiNy2GXTx0XMsw+udEXbwgg/wAq4pWqoalrTmkc4npxFOhp6+SqidDJVjUNjOvi5LGrDe82xVB+D5DbRwP+rKg6ie03s9x/1R/ep5bTLpHV0FTQOqgKiSQDrnOi6B9ds3RtDnVFNe3vK8rlZY2yO+5Bkh4rllveETwKfCbAni3dnrx2v2cgp27t4fb6MKr6vb/CLOEMFW4j6tgvNoo4sty13wRYm0tjmE9/cFcPC4p3Yp4oROoxbbyCqoZKWGjqI5PGVwc264eqr55y3ekuLe6AEzII3N4Rp9pLVIibHw8/tLpafH5XDC2pe0VdPxAiy0+c+SgBoO6sewjXRbFCwSTJ3tjIuSCOSEwcTiQeSIwFzfNRfmJsG/oTXGhVhbkkXQ2ym+Ug5g7wQ2ylpPAdPJRDXZnPy+fJXCPNi8+X00amfbO12UEdfFUskLams0IETdXKxrCX5g0NJ5FIV7jS0/o7GtEj+Z8lux8M5eeXpEKqoFRKWggRsNo9EKUG3zg+5DaLGw5BYTe60R+5iu+AdyIhrc+Km0ucwXK3a2hFkUBrWagJqQqjTRYaaqQURci40UgrQSIuAIAeRdbgYGNvm0v0Q5tXWDeaykaRGLu1vyVS6BrkKSSMyXqWmQgZkc6jnZBJdmALhryVRJIHJGbuIkaWjoQgtBEZZmylGmla+UZjlB8Fj8p5ckwWEA5aqEpuLKQ5tWni4V0RhGXy80OQHMDdEGrO8Le5Rl0tqqIJVBNzr+hMUg4AUGp53uPvTFHdzeYui+BceyYJ3o4tFt/PmtHRwC04i+hUGfBhLbWS9S1oaSddEcDhQKq275qMCXQrEW7t3PkiUWURuJLkIO9W73I1IfxVxujFonGBuXOBckiAeZKdjkHop16pK19bo0DIxoN+eim+4AKxo4bKMjiA0BHSFmTPEgGliFA91bk0A0WDUIUyjbtPZCE/nyRDyQi7iIRFG4r3TbDYhJsNnJgXJGiGRcWOQnjAToDUlE67rWTdvNRELXAyTC036K2sQYzpzVVs9Y0bbnorhzeFq4clTPSYi3pySWlGkADnkeCFQ6xtUpnOD5QOgWObpmqJ1Oyk8bYHQsOtlckt3vPmFyey5Bme5l72V8ZHOffqFkyKi3Hkli7LU7QxxA1J+5UOLcUgcD0/crubfVEBOYANCpcTD2loLhYj9qHEto/H2V4tvDbmpRX3guLkILTqZL/BFbJeVpcPuTpI1xHHguj1tzUmaZrW5JebK9oJLh4WUoyN2ed1mfuH/SaHeId4LTiPSLGwFraqTWi9jrogTfPEN1CJCJGxcOPgmIRmkNksw3kyX1Kao+GbXldDKyItqWmJYM5FgDrZLtDWSho4k+yoDYssbXWPUlIRtPpbTyWV8JjYDzmtDTYXulqkRNc0RtJdbXRNSts0G6HOzeS6aaIa5LxMhQkNk95CupiDWnwJAUNmsOiqnyiYG4tZGyD8Mbpujd7ZKyyW6l8ElJXZ0eztOGROmtr5oG0DgKk5tfVq5ow1kWUAWVDjhPp7reA5rGm5SMyfrOMDbVB1sB5IzXOj5G6kY71EjX6EnRaMLmOPIhbKUUa4yszfyPLRzF0/OC2Jhvfyuq693WIAVi8k07QMpsEKW4J8F3hsAmwcWJ+cutPo70Tm2FsyawVzm4YG6Hqiv1g18VilmbEUUk8TgR7lVYg4iIN811FRG3c57dFy2LaR380zfSGR5JTF3o1s10CjBEhLySLIrT6uxOiGHWdoU1PgsKfJZxbzTmoOb1LkN8rAdX6o07KsYhu+xJuLpeouJTpdTFRFHEGkW0S0s7JDmbcEI1GmCArKsxtbHHma6+uqTMsokztlfr5rVULyk8ygAG6eoRrgllhBO1zg2WMFTlipySTC0pGJt6htnO+KsNLWJJQS9L4IyAggDb7sD3IRp4DezSmnAEdQg9UUd7+QLFvQ6f8Ak+99ZyQxOliji3nuVjld4H7ktiUZFK+9+79FacUnZVHOuYCO8oyR5WNtc5Vu4trosebaA3XQVgMkyndugc1rrTYS12rv0JsQ2DQ1pdYX5JeRzATc2KqxIGaBrdXPvfkLIM5JY5sZyuyqUjyb9UqZgHWcTdaca4MeWXII5Kalc5zQHftVDK98srpHO1PmnMWqs92B1xzVZfMCQF0cUfucvPLczAdbEOW4YWue45jYLTDewHNMPiFPFc3JOp1ThXwKTEtOVg08US9426WJWHUAgKNycwJGnJWAGadNXWWWbzLkK/BqdVoXItdVRLNSTPD2jnZMluVgNuaRcCJruBN0zSi0Lib89LqS4KjLkm85RfLdLb71lntsOiNIARex+9LTRDIN22566q49Em+TVQIgGiPVYbnhIAUWgCznNNvJTa4F9w029yIC0E5EXAGi1clqk4cVzyUQQdGhQsJYZeayQgtIICxwOmiyUHKSAVCCNS05r3CYork28ktUXLyCDomKUkkC5CvsUvcFN2mOxFkIO4gAAUVzMzmnLYXSTrxykjUKlwMboePwStZYttlGimDvBcIFVluW9bI0LycoEwN3B0bzTQDRRWGVLtPqLAdUWcFtI0ABV8i10RLQ2nuLd1LdNEzI21MBbolbaWVkkTBPRyx5NhYaoYtmspyd0dEQlsjI4ki5WWIOhWHLpcrRt01RxZDetkNwsUQ2IQyRfxREINPGnoy3djxSItm5JuO9tAoy4qhuBvrArG48UhTvIeBom8o+krK5H9mpA7D2u6q5z8AJ5LmtmC52Hs9yvJc4iauFOPJ6PDLg6HDpQYmqU5eZZCDzCrsNkLYwrJ7wWEt5kLJKNM1pl9sjmdUvaW24dV1DKdouXG5uuU2PneKh4DS45epXX02+lvanffxOgWDUShD3Ep7gczQIHBo6LnNpZDu8m7IOUX1XU1cR3Lmvlp2G3Lei65LaZrI3AGVpdlF+K6CE4y9g/DXyUrBZyIO9oECN4zjNeyKZG3BsbLU0broYJO70RYSRF4BLulZuS6xKxszSLG6TOFsdCXpJZiHAZlNvDNLzGhslzJIXWEJcNBchTdI9vKHOTmB1RrHyJYJptiTAT7BVpT2fJl05Kg3xGItJh1b0urFtW+NwLYH38hdXkhwDE6YQthhjFy4npdJm2/ab2sVCkxEOERkp6nrxbvRQfUMDjIbgA9Que8Uo9joFpMGbvvXKxuWw0F/FV78RpiwH0iMa8iUzFVU0wbaoi92ZRwbBXBe7P1LYa3KeThZCqpwMVkezpJcJGCUxvD2EXCxz8zs3UrKsb32XwdLR47ZhaTa6Trq70idzwVSjRp1sbqTL2JuhWJKRWxXZskCUlw5hapXi54dL9VqXIdSdVGMEHkbeKJxYwx7Q+o0b1TzrNiDbJRj235ElNTubum+KpFcl/gsrW0Fj3rJvPeK1tVQYZMGwEXIddPmpYGWEtnLJPGkCxmWS9OXLncb1hzq0MzjSnU/laKmxaSMwj1lP9f1w/tJmKNFoUE1x9y3nHNSrKJ1LEJqmsoYmluZnrS5x+ACSE+G7z1lf+U2ElNST5QzsafO5455fJBdmvyt5paprcOjI3M88vvht+1bGIUh6vb+SmuD+EAMiGWSUNLuG3OykyERuc18+nkEeJzXUgc1wtfxQJi29st/iptl0ytyDfg6glyudWvYSNTZTdhGBx9/FpBprolyN5BkLGgX55lWVlDlvYZgfNCsck+ZMHs6Wgw/ZLff8Y/YzvDVYwYfsx/7xov8AtP8AvLzCpg3b9AMnvUWUzpW8MTD4cSqOik+dxGl9z1Oagw8C8c+FO8Nf95Iy5YT6tmFuHlk/avNMo8B96JCagd1xb9pOx6HIvexdL4OzrsfqKWbdbyFn2Ax36lRYpXCtB9Iqc7+6qM5+f9Va3jx/+6P3Lbj0kY9FUKON7gG9lsOG8jzOAvzUKhxbJYWFlppLj3Q6y3kLGWYOcC2QJR723NyDdaktlN4iEuSN41oYdUMUZ5G6gtZG8sv5aqjqZHkHMDYctVc4k4MFwwBrRrquVq599K4hwDWnXVb9NHcrOZqperaCffiIaSL31W4WlxJ6WU4xeEi3VHfTiOEEE+K2bvsYtu7kVhO7kuRdaqXPlObNp4XUyx1t50Qw4XtlCtclfobLi0c1EvaMtjr1WFsjrWy2WFgzcVkdi2iZPBcWWhcgDRacG5bXAWNHGCLKyheRzhJob2TlO4yQHolZASbZQExSg7vXxVPoXHsyouYgG3BSkl4y05nWPNPS20u9rQUN7M1uJpsqgHKNisZJcGjkmYC4tLS4AIb27hrXCzrqAdc31CYxW0ISd5lLtFstOfQ6KOpctgWcSSFAkFPIX1UXA2OinmJsQQtOcX34lCyvqfnSOSNT8JGqHWA74hbjuCNVfwK+Rgk3AJKRd3+qfdq9pukpNDe6iJkDU44CbkJee+d2qYZMDFa1rJaYgnMCiXYuXRvlA1oHNHmByNaRogAXYxHqTZzRrbRET4MqbNYG2Nko4DN1sm6xzQB3rXSMh10vZDQM2ba4X5IkkfqsyEx4tYhSlNmgXKIWRNrLQPgFjsoA1WZhysjiQkdQgutfRGdbKl3OFyERZJmrk5G4sB6pWK10VpGmqhQ7BfOOSazFKwWzhPbs+CgxhdnS0ULGjRXkZ4CzmuawlzhSRkaK6gnLdRquPkid3FI6TDYmOiAcE9LSvdFaB4Y5VGE10bwBayvYpBYFYH6jbETgixKmO83Ukn1onZVvORU3LZvR/wCS/vVvTTbod7mk66qpeUnHIz8n9KGx8ZFnTVGHzQA7umprfy5y5vv5rMbxCkm44pKMmwGjmuXO4gTEBnIDegcqw1bmVAIblPQtVLA1NNMYnGrZ0EGW/wDFfBFeCAlKXaapEw3tLRbv/ozM2X8pdD+FPwiJfRJoqimjy/8AIYevw0SLa+Bm5FXp6OtQgb2VpDbDlwpo08Xj+TcIE1PDGcoJuOfGrqyt9G7w5SHSBmXVDfNAI8xlYQ7xNlSx1E0NQ5hDZTe2U6qeJVLZoBT+iCKRpvduibHDzyEabNGa4Xy2zc7q7ZUUwJG+Z53K5Nl94DodVcRsEbN5LTMIcOhV5YoKJ0tJLDuWjfxPd9VymHEPuWPf4WCo6D8GziOMxTMd9PPorWHDYmPG6rahn+20/SsGSNMLc0TLqqR5ayiOW/NzwE3LQxua3fU8ZNugQvRaqNpEeJP1Ptsa5Ol+IwwAOmoJxblfI5LkkitwocG9T6THT8H0rlv9FyCyCrZLdtY8B38VI24RBWU1ZNlmhdFUfo+8Kb4C2T1crwW9C9xKlUMQaOUAakPPtLcE8P8AGEfbYc3FZK+juHWB/wBunDloxn/3VRyf6nPH/WWZqwkaqqrc3cYXub0uAgDFnNZpDb4oVbBUmXMKaXdfRBzoLc8bSJYiR0DmEIoRsZY2MVnsLRx+d3fuRJsYqrBrBTtb9gO/Wq4DNyaB5ALcocABqPLKnuMUUhyPFa4ttv3AHwACiK+qLrmokfbo55IS8EBI4nADzKKYCPm3h9+jQqWKMVwWHOMVlu8wDyiCTnrqqQG8ui0YMtxJmZ72hLzNjAsC4+5Djxqxq6Iulc53HIT7yh3udAsyMzaLTg0GwJTUkuhfZMnTmolwIyWFvcsAy24He9YbZuSIoPHKWDvuHudZHGK1Q75Dx5pRwDo7qDW5hZUoL5AL2ixiAx2c0Rn33TPpDJjdkrCPIqhpKQvAb6OZfskj9ivaLAnPAcKcwe5xJWfJUQJUI4rA0i7bC/kqKaN8L+Yynqu4fgshZkdvHHzCp8Vwn0eO017eYV4NQlwLUihLhu7teEKGeUOPrXD4q2ioqWWHK0C4QfwXECSDf4rYsqZe4rt66xy6IU0hda7k+aFut5UCSjAGhuii0UV87nW5gqIN2i4sjvppBezbqLoHZeJpWhUIlKyO+Fi22i1AAC+Zw0tooCJwcG5TZBxKodG8xQAFrW2cLpqimqQuctsbKnHK8S3ZHo4jUqmaWtvfmi1nezHTVLtb7XPyXTww2wODmm5SocgnZACbku9ym6olqXXdcAcjZSo6K7RLNpm5DMrMRNyWaOEBDJ7RuKDaKcygtLDcIAY1zrtzWHM2VjMWtfcjRLgmaQtbZrPeihKwZR5ImwGVjderilp2xZbh7ifJXIpY3sI00Ss9GwxHI7IopcipQkIsyOisL3US0tN2rR9XII3OBA9oKU0g9kp6doT12BDssmpT28bM0EEmyrTq/iIzFORDdxcwfcrfBUZcmVAIAugXfrpojTOc5gJsfigGazCCArSI3yYwHfcQd71rUaW6rTiSSA8eIWAuFtdCoxUQgFjc6rNMxLmm62OQbrdZxHS9lQ1Inld4aLT7g8lK5IFiFBxJIuVfyQUqB6+5R4ySywKHVH11gb6eCIzMG3zfoRCl7icoIYLhKyji0TBvu7l5KXlBzkX6KokkQvYWIQpR1spm9tSVqXojFM2cwEQIRCPXDhCHN34gAVJpJlULZutaNOSA6wPJqLW6lqDbzUrgCXuJEnS1lkpNm9VmttFp+gCNIAw93Wy0LELb8hjN3kFab3UaLNnu2QnN1RTyQXO4lCjTTxWTbAMtkkOd03Dc2QyLix2Ei4tom8z/AOUScIAcNbpzTwRBkMLd+IMbZWlLexFtVV4VG51JGGqxp3up6m0vIrlT4R2MXuLbD4vV3APNPGd8Lc2Zxt0VZTfhAw3htlRPS6hjbPYD8Fl2KXRvjIeG008YyboA+NggVNfJXEGQtPxCQhj3jXOdKCfAhLSss69sqjxpBqTRbtL2tIEhPkbLGiUt7zB8AqyGadujSxwVj60sa4tt8FaSNMcjkiP8z81EbLK3uykb7w7rlogDMsvbKhiqLHnAykNdPaY8zmTL8NDInZ5Wt8LH8pVE4BlswkPPI2TgGKSSfjDKo5u7malPHN+0dGSBxl0TrgC581jp52u0aC8nVxKjGxxBzGxupZTu75g4g6om7YQNmsrR0vqrTekxmBkFieT8yq4ybHlqUeOo1LSPigyKyIeYy7Gt3rG+R0TEdDI5+s8BA1HrbpEPBY0WN1OnJjnz7r7wszX3CaOho8Q3AEE0UbmD22A6LpqaemnhjdDKx/xFwuJNWd2Q57m39kWAUKbfiQCmNjz0e1Z8mBy5KUT0BxIhISDs2dU9DtFMGltS0PHiramqY6lmeOx0WZ4nEG9rNSG1lvW10IlxJ4c2qnG4uuA2yB8DkQ4nC7Rf32Q5Ad064F0zl1vZDdycgjILkDQNGUkt5HneyPUNz2tLK0eT/wC5CgLgw87X8EdoDiLE+6yvm+SuQIwyoljBaJZR45sy1FgVQ4u4MvvNl12AMy0NgCST0Kb3OhLkh6lwTsrecRFgLLl0zXvt5KtxGmhiqN2KeRg8Q669GZTwuBbxXK4rahjY8R3YJFlWl1LyzoNSoo2QOucsF1sQuBs6MMPuTlMbnlf4pvRoubLVGT+S3IqJaect4HhySmY+M2k0Pir2pnjIy218gkHgPky5SfgnKTB3AYaamkGtTb8klykPwU2X/lc9vdHf9aaZQU4F+Iu8My2/D6b67XfRzKpToDciz2cxjCRPJ/keipgPpvzO196sa7bRsOkQi/S5c1FQBkZImd8dUsaKV0htMz4x3WKOmc5W2R7TpTt1cGMYeL+OfL+hczi20OLYhGIKmpG6J4g1trob6GW/ejPxS1XSzx/8n/nLfg0uHH7IgPb8nU00OGQxAxYjQXt7Ur3JOomos9jiVP8A7OJ7v2LmA1wb3HIYc8OPC9Hj0v6lbTrPQo7bzLVW/wCgzJGc4aOVeD/snKg38nLO/u+PRAlvpwn7lojpvuwGW808BcWtmzeHC5apiLO15qnuLEHmsEjfot+5MhioBltFCxzyTqANVzGPxsjkDoSQ5zru16K4hlkioZiTxPdoVyuOVZDjFe5GhK1aXE91sx6qe1bRGZolJkBuxp11RaCF0b3zSw5h7AU8Kizi26vE03J8Sn3kGwAAaCt88lPaYseHd6jRqDlA9GIPuU3VMjIyTTO5a6rQMbnG7ifDVL1MrXP3TDwDvG6UludjG1FCE0z5nkCJwF/FBD5WPIa0j3hbkktMRHayLcOHmn1SMrdsnBWub3xoizVjDFZrgb8wquZzi69lEcIva6YoJGd5JMnVS8gxgt1KE5zSpk3ZcBBc9ue1roooRkmTGsgs0FOwEubybZIQOu4cIuU7CwgOurmSHYLEAA4a/cluK9tCt1MrnuscrQFAG7mjQqRdoGXYa4Eodlu0DVFDA5gcOp0CA12U6AG45J6lmILXOa0ADQWUZeMCWPY+5CkAbOcRqE9WSOfqWtaLX5JZzwWmwCg7o0L+DPuQ3E5uTVIFwUSHF3RWCKVR9cemiPELx95AqmneIsd8lgr7E/IR+bJ0S0pLZCPJGGdrWl/JCndeR1iLo6KYJwcR0WTg2bqCo8RNkRkZc6MX6qFG5HcbdRospjmleboDz60otI0nOVZUfcZVklws79CWIdfvIsgOY6lDdewVFSJxjXnZZUAgtyvv8FjNRzU3A5Wpq5FgXC44lhGmjlKTlqogC3eUshuUWbogczZMObwhLltpFZRjWlMx6AIDe9ZHaFGXFDcNsw1Tt0jFfM3RO/FURk8JaTSM1T9XBJeO2pSGEg+jM1sL9FdVOjGOauTmZ38KGqGaSmDYxJz/AEKzfHDURtbNZ58QqiMN/RzVnQR5or31CzOkbYidZh7mhj4aiNo5Oa48Sk+kDI7y1UTdOVjqrOVrXsDrWN7FWDMPp5IQQQHEdUDyND9sTk2iFzi4Rlr290xA2PvRR6a7KPR87XHQtFl1sEEbrRBjWSMGngVX1tDUxua70kAHUNAOiBZmg9sSjmpqlj/WQWPvUXNILQAfNPupWOad8Wh49uzksQ0PLA5th111TY5EXQrICDc66pyjmEUb+N4ltwkNCVcWjMRpco9G0guvyRT6LguR2CQ1Q+cp+9x76zVOMGzP8z748P7SU03ntKfpQt80P6Xks8Y0PQOOPgPv9l10YU9/m9f6qXiPB/5rpcCpR+C/So5qa/8AG/Sb7wrzZPLokeSqZS1TWgiGUt8cpWZiw5XhzPgutpxLksZbA/Usl3YfSveS9jr31N1iep5LUrKBoa7U3+9MBsOUAEkqyqcHjefxeTL5FQOA1rYhkLHX6ZhdE8ikFuAtAdEI8rLDzGiPTMdA8Sw1G4Pk7mtMpp4TZ7GA+a3MLDja3TwKzNKQyLos/wAM2giEoikqvbye3/Vun6OWnl+bGvtey5c7hbaaestU1m4j+m4XsrKmlh9IlEEt/wDTvny8I8L/ANFLcAaLB4y6DVyhUnJDf2lKKSOX531H5QzO/NQZSN3xn2VlgqCA4eSHEO53T8r2xNYHcy5IUYa43B1uiVjwKhrXdPJMXqZDqtnKhhgdCXWLTeytXC+h5LkMPmdHU7zNZrrLrInB1O1175uRXN1EakDJGwBa4XFbTtP4VdyN2rsi8NBcdAOa4TGZzUYjNMNRewUxL7EiJtc2M2Nhl6IUs+cHLpdadHJJIRl0PVEFKxrOdyunasM1HTyTAOGjQmfRwABoPNGp2WpwFkug1QyyNdA0BfGb30QiTls4gm6K+zmjmEJzWjldHf3BCNZcXJHuQyW+FkQOyjxQ3kkagWUIafbS4CRxN1wBcBOuaC4C4HvStdHTl13T8ujQmwnTFoQD7ttYaKIfcG+qaa6gAsTUH3ALGS4frammd9p4CfvDEiBbuhAkaL8lZelU4/8Aw2D87MgTVRk/5NSR5/q8SYpNACr6aG+ostinjMeh1HL/ABZbLrgqQeRDm0uEzlCJCVWYGtAzARi64irb6TWOcDYFxA9yscQxeTezQtZmFyAVDCopXt9JLsvMcl0cKcImHPOM5cDEVBA2FsI4tOripvoqeBmsYN+l0B2aR9hXyucOdrCyEXSzPMPpEzgPGyYpNgNro05sZdkhjafFxRXUsG4tu2g/SAS/oUkd3smINtBdEifUsaRM64PIBGu6vgVHnhorZohHJdrrN5ZSl3vLXWvorGsLWu4gDfVJslDpSAG26WWiMvgyZltlwLyOt1UXPNlKqYS7hCG1pFro0zHKzbb2ututl5lY0gDmpSOB0bZWnZRENLmuk0IHiU5SyDIR4pAkg2zJmFxaLC2qJrgGEuQNSSZNVoZdNbLKpoY/vMffwHJDI4QDa3uVURq2GklaCLBOAtIjc0gWFykGk3BcBZOQvytLg1t+WqFlw4GHzslbdA4XNsHcjyQi7j0spAkO0tYqUN3WEB81j3u8/uWmm5WiSOZVlCtUbvHNTjBsDdRqdXjXojx90WdrbwVrgX8mTEGw1SkoIeSmXG9jfmUtUXzEXRRYuQMO5nVHp3WaRqlzcWF0QOc11x4IgFIjl8UxTaxFL5sx5FOU8dmW8RdR9Bw7bEpxZ5sg2JR3g5na9UNrSHAXVJCn8k2N05qTwA0LbgAtTDhCb0UBkF2qAGXk1TcOHkVluFBRCTjdqXf3kV2miE7V6YQxneTDdQEuwcSYaLFUy0NRWzN1T+n0lXR3ztViBpzCoIVwecinYL/BXz6nPEwWHuXM4S5xpmWGoVjPO67bDKWrnTxHVw5S/j5tubBWVK8scC06LmoK95A3osRyVnT4k3hztsFlliZ0cWQuzMCAA43vzVhT1E7Wta1ma3Wyooz6RDvIXFpv1am46jE3XjbTveWN4iyJZZws2xkWhmmDgcrg4dbFRqnulc3JKDYaglIGpxKJt3RPaPOJBjrsrzvGWJPglxhQ2JZBj8l96D9WyhUxsdC4uDLgeCVOI2GkQI62KlNWwzU72iHKfEo1jd2HwVzhe5CPQQSSOkDbPsOrrIOcWT+BzxNkkDn20T5JtEikKyUz2OeXtylvLh0SxHJpdc+CtMWrM53Ub8x6qvY1z5AGu1d0yqJcchEYTw3sE/h8xgrRVcEgZM2XJl4T5H7kAU4YRr9XuroIMPpxD9KxS80kXGJeDGcOxSu3ompsLzj5idnDm5lzXj+s1NUWHGqhJ9Lw7/tLPC9+8qWkpKfd/MhNNgYAMosuTkh9ggl7G2T/ALsJ8S1Ji9XRfZ5NSu5borOlibuOaW5ULmVdRRk1eaqzPt9EclqalpZW5RFMPjzTmS7i7Jz8OqxrTfQEIE2FFlPU0EMYJZmJKT9HqWEOjjcbeS6Cop4hfhbosp8mjbN1U/ERYy5FFNiFVv45JIZKe3fm+k78pMw4jTSgySk/mD9TVaVeHx1DbPNh5KvfgLGm7JrfaVpUFuNYZVQiwcdT5I2IyM3heOo8EGmwxsb7vdqiYxCGblrOoRqKvgrmhqmnE0ZFwA1y67C5Q/D4TfkuBpGlgJN8mbmuuwKVooLHln0WLVYaLk7YzjVcynopLmzn8LQuPhs5wDjqQSQnNpqkyVuS/C3kkacgyXuhx49isKMQrGgNsdLoU4BFs5bqjEtLyD0Q58obq4J6VFDMDmthDQSVmUOOuqHTytdCLuFwpuf0Ci7BNStDegugECxuFMkhviUJz7J6hZRjpI2tN2+4obCHFBldvXEG4aOQWPmbEwX59ETjRA0sFRMwvghMpjHrMotYeKrH05Z35IR/th/aWVMpmk4iRwoMjgmbWCS/Fx85UQj63e/orB+Dv+fSfCA/tsggm2ouohoJ1Fk6Mb+QbDek4QP+fz/cz96FPiFBufVYfq/25qku/otUHR3HcQnQX9hH5aXyA2AbWcw6J4vy5ptszHU+UWDrdUv6Gbk5iPBSMD2ssHNJT3QmRybsP/HXGRotfxKYfSUuXLlNh0uVYy7xspJOvuUY53C4Lcy2LJaM3kRiyndh9PYFoLSfBBaBTTWliduyLZgVbyuAdysUHIybhe0uBHKyuMkhMsLb4Bxx0zwXNcXg6EhQrDRwQ5S5xee7qkqhz6CUtp5iRzykJB8skrnOeS4nXktMMfFWZMuo28V6jJXue697qUFNNrKIiFqlBZKAWkXPVW0sUxhuxpPuTJOlSE41buRXv3QY4gXKTBuCTYBOPnp8gDTcnySRIc63RFHoz5JKXRjxoMouEMOvyCcjbGQWgJSeMRkH9qJdi2jTA65sOf0gpm7QNUAXvdFDCQDzujfQuK9REXDuaLZr5A15DR4koLg7Nq2/xW3DivdUEuAk3VuhAOhRQRlAsliDomQDlChSIsu6UjTRFcDY6XcOVkNveuFMF2W40UDRNt2gcYWSZsl8wOngtkWbo0clDXoANFXyF8gKouzAEjkjtBGUZuiHO03B0RJi45dBa3gpXJPkFIbAAHql5yc51R3NdvByQphxOCYhEgXMXupk6hQ/i1LXQqC0bjaRqnSXNgac3IJNpLngApup/wA3sCFaGLqxBxJvqoA8XeWydSLqI5oqE2FYddVOUN4TqgtcRe5RTJewKKiGpHjd2Q9ct7qUuWy0bZVSIReOqXf3kwdQgOHGiIaZzTLOiXb37JhqpuiIO3RzdE+Hi3dSLebdU4OXJFRVgsEpnegiQtcmKoatNuSPs7MXYY1ulyp1cQJs7xXOUuDtRxsVjaC4ZlZ07IzbmgmidmYWC+iM6GeMciEmUkaoqvkuBS08kLcrnN8bOKJBTyREOhqnC/g7VBoJ88Qiu4nxLgraOnD4g5r3F/gQsc/T8G/EZbEB3MRnNh1KjG3ETIHPq2u8c4JTrA1tO6J9y63MBAi4SNSD4WSkzUjdphGb7sj3JbEHRNZl3ULj9U3KeFiLWIHmksUZEItA29xqBqqxqnwXT+xWPf0DcvkjYe+nLJN9E4ut7lCojhLWlubMOdwEKMcRPQrZLoXEK1t26nX3olO4h9wACEFjRc3JsrKhZTugLnAE+N0uXA6IGiyST+tl3evstDsq6KaKWIDc1dFUx5vNv3rm93r/ALysYY6mmHq/s/SzLNnjvouLLqjllGp3b/ZR4Zi46grMOrcMlp44sR/FZf8AR8TfjcrTJGE6SNssMghxveuXE+//AB4JmJxjbbMRdJZg5wGYHRMv5Ns7kFmnEiDg36lYXbrUkn3IbGm17oc8vS6HaF2RlndITqshkLdSlyXZeEC/msGYDWym0IsYpd6L+Kk53DZKQzNjY3hKiZmu6OVUyiE8sjCEnWyyOew2vZSqCHWNylag6gZitOJFj1M9jgRu7Ev8VdYS8shka065lQwNaI2kHiv4q9whrjHIQ2596z6p7egkVGKHeVr+7p/ZQaX5xTrSfTJ+XNMUVKf+c0n/AGgK5vhBKRjw3MeJvNBrctjxN5ItXJ6PrOL+zo66Tr5bUUdUJabdv9jfeu+5ClYBCM28femYZ6gm1s6qvwrU20p4I/8AYZv6SlBjVXFTy6Sek8OSfhbw9eXNafJZHR0foj7awuH0tFD0KL+Nr6SAe8OcuVkr6iQ5nve8/Wckpqhzg4hpDvq2ReRt+oUoHQ4g+ma53oThbN3+qQkOt+apYXytkJDjyVxhldfSWm/KbxJiw7SBfwjBKbSYK/8A2VRb+kHI1OIp/wDkR3ef+XY3/H2kjiQMfrQGfR7yHT4lUwDLJTZfrWKvyrXZTs7LCMHwb/l9VR03/wA4yZGqqDZmCnlm/CUUoH0Jhme7/wA1xH4ac0kimD/rWKXnxWSaDdWij+/Msi0Lk/cLot3Y1hEhIp6Z/wBXiSEvrJeD8lUg5/ZW/SpI/wCNf3v8eyugsDXyL4LipDWFoaS3RAa71zG3OpSU2IyEMMln6c2rcNXB6TC5z8uvJyesVAy5C1EbTM7PbmkqmEBwyW5+CZleJpCc9x4pSrN+44ixTEoopk3sbkuf1KmrcQa27YeYPQK5gdmiObVUsFM70uR77AX5J0FFmTNfwKDDZnU93HUdfBNUNBG1l5CXE9PBNOeWU7yNDbRVrsSLaYx+19I81pcpPhGNxhB2+iVfTUkDszp3XPIBVri98pjje/KfBTgY+rnLXya+Lky+L0fQG/mjSpfqJn63fwJtZHDcOaHH6KHK5p1YwNUKkO3jhctHnzUOTLXKbHgw5JLonmstHXVQHd1Whe9kSBsjcA6Eo+uS+qAzxRyeAWKPtA/JElzWXIUCbqdQ4loaEMNuOapEb5CNvcBFvw2QnGxHNZfh681VWRMIw2ejjupaPvdUcE5SNVGMiTDhYXvZaIuSXclphvGLnksJvz5BVYZGS1h4KTibjKBZRJb1W9OitMpmyAXAiwSk5G8IvdGc4hws0BLy98myYjPI3lu09FDkOqmx2Y2ssNrKgCVKBnujVLgWgdUKjHrCVufv81A+kKy89FFSkuHKLgeisT8k2DmpScgsBGXQLHnQJpCLiDZbt5qLuQW+ihYR2rEo5vGmC7RCJGZQoHGPWJtoBCWHfRmEoGXEajF3hM5ErC71jU1mURGE2ejYKRjg5xCdqW3ItfmudwWqqW0DRmsj1M9TcevcsksbXB0Y6lI6iOZoLSQdAmBUQ5eI2XGmeozNvOQjSy1AaLTXulvTXzZpjrf0OoqJqSXKYC1rvFrbJ3DDkY6aSfN5FcQySo6SEfFGjqa+M+qqXs9xuly0ifyPx+Iy+YnavxCnzZXG/mApCqonEOB18Mq412I4llyvmEpH0gAp0uK1e8a18YPuIQ/hKNMfEo/J2ZnZ3RNK33AIdawBjS2p3muouufjxSAPbncW6a8Nk2a+J7mhszDmPiLpPkyh8Do6qEn7ht1g0m2pKlGTawaVprXEkbp7vdqjQtkD7ZHNuPaCp2asUoyRqJrxdzmvt4gOT0G9FMSJZgPoi/70B0bhFcG3ldZAZo+64n4IZrcNJNzPOqt6aslhD97hMdT7Prrty/c5Umd99E+Krdy+si3n+1Ia5KyRLRZ1NbBMGubhkcGmrY2kj9KyN9DII3moeyS+sXo2n3peqrYZ42gwR01+VzICt4Y6MudvY6adh0GaR4P6VlnjsZQ/Ix0sJ3MkYIPdyAXTNH6dDM4slhpzl0sQbpYxFpzRMbEz6kt05hzZ6SRs8dQDfnvGB/60jIqRQ5vZi4tfO5/ihyMhvmLRryRNw4v3jpj52QqogaA38EiggZA9kNHwUWv5iyjmJbqCt3NtLBE1RZsuceq2b5VgtotFzrEWU4KFpDcN0QZCd9Hzspm+W5QZn2IN+SfCJC13UGRpayzteqcwmYxb245gdVW087JYRKI7arDIbktNkiUd/YRla1wqpsrLXkKhSxjeflcSyQ3bmb1/SoQ3a6zuquSIOOu5thYjzSNZT0723MTS4+CcYwAXuVsxNkNjfRZ07IVkOHx8vyv0rbcOfmy5ohH9UXT8vq5fyVtlfVWyZgG/Whaf2LR5jBKySgI4c0rz9VqQdRubmAZOD9ay6A3l5yvb9kNH7FBslTTRGKGrc1njkZm+9wzI91g7mU1Hh9RUm1PH3vorraDYrFImiaWWijHxd+pVODTjDYJb1sh3n2W/45oVfj+IGDdRY5LHGzuQ6JM/MyP8uILv7ljjVFBRQXmxMEj+IZBl/TdV9RLD6L6XLLSxjh4N+10j7+Q4lQVbWzfOYtvD58SUbQsvdtfCPeHBbcWGu2DRetGG1DTmIv8AWegfg6kzEjI0fSzXVT+DqhsZMZZKPqPQIm1MTyBOYz9G90+EK6YIzJQMBcWyH46JZ9FNzaGOH+sCnvqjKc82897XKMuR0YJZGD7yE92BIUkgkjdxMI9xusLSS0cveEzkuOFt/dIovjdcaOHuIRKQtoUzbrmCoundyHXxRnQNa4h8cgNuoCG6kDzbI/l4BM9ApqQaOrEUWVzmkkcxbRV9bUvikJbI0g9UwMOeQcriLeIQJKJzxYvB+COKixM7Kx8s88W7zEgo9Phb3Qh7ufgeSatFSjhZd3Rv96YvV1EPrHCmjP0eZ+KdKdKkZVguVzKaohkp52ucQ0Do3VT32/aW3DD4lHLoaWUm4cOsh1/SkKqYTVH4vHcHqFcE2heSovgyWlgLjK+Z5PUkJSqNNpuXyX63GiLUelDMCDl8ErZ2W5N1ojF/LMOfa+YxNm1rrbLeKFcjhuFNp80dUZzROllEg6arH20OdaI4hxK/giJOcARcFRaW35FZKC4czotR6t1uoD8hnWIBWaZQbqbAHW1/QokIQiTbZwQUe7SPNLx2BRYyNTdQJB4QNzr3lC+hFloO05rHPAbbqqGEAWkgFqm9wa4EMQyeIeKmSSb2VrgjMc24zFqUJ4iLJx5aGE5SkpDd3Io0zPImwNA1Cx4Jj4ULW45ogJ5WUAXYWAZWXtqoPLieVkR4ytbZDa7q5TouYCYFvNt1G500siTm7iQok3yo0gDYzXPRakvcXU2gdVqcDSxujIak0y21WC9iovNwFnTmoQ2XaIXN6IRooD5xQhOKOn3X+ccbO63L3vylvi5NUQBdEa1AyRDxWztTCGyIZ22R92VaKYhgkTTRgI9TTNNkfADhE1P/ABlNIiVlNTyf5viLPsu0WVzOjGCqivkhykcV0yY9G3b0S9rHXKr3FK1lfhdHTx00TXQDWW+rmqSbIoplSLNblso7pzu6tB2bS6ahJEdmi6q1QUIqTExBODyBCZpxl0DRdS3rBcagqFI6aWbLTxF5U9QSjGJqWYsfZ1h8FIyB5Hq7ebQrKPCqh02+qXhot3iU9B6JAA3ikd9JqS8iXQ/HpJy7KQl4+aldH/Ncujpdq8dEIpa5lPiEWT/lA4vvUMlwA4DRNUPz4IA0WfPOEvdE6GDSySpSMq8Ww8y3ipamBpHt6hNUclPUQZnOzDxtyRawMlYzhY5/UW0/WspY3vic1sYjFuYNgs0nBxujfjjli+ZEWU4uckmh8QjNppCQ0TR28ysbDUMy2a9zfHmn4ZnxOJDLnwc1K8y40P67Mpd/CbARv+Kfpq+NlxUUzSfFoSMtbUFxduwD4FtltlZUmPM248QWJChu5YbLds1NOAMzfc4JxrIgWgFhPkFRx18gA0F+tmq2pJnPjDuRWTUccFRQ8C4tulay51BUxM54sBzUJwAR1ugirLoTLhY35olOdDcIUgaDzRaUHKcxsiugyWW4JutZXBrjc8lJt7Ir2Ewk36JW/kErnByUnDsw00T5BtqhzNDgB1WmDIAbKW05ZyBd4osLjY68luan4AWk6LVOw5XXHVM3KiE3EOZvC4XJ8VumIfHbN3XeKI1gNOQWagqNK2wOh5rPPghNrwIBr/OUxLcg3/nIsdP6i7gL+QQnN3YIIv8AkpEKRbB1ZDyOaDG7QtIJU3AXAuRfyW2MFzZ36E+DohgkAb0HvchufTFpzui+JCO1jXMuQPuSlU9rARkb+ajT5AAyCgI505P2gkpYKV7rgw2v9Nv70eB+dwaIWEfZRmwtDSdy2/uTUy0I1FLQl7S1rAXf6REmw6gkYGXDXdTvVuSI8GdtO23jdFL4MpzMp7D6JTVJ/AH8xeGgp4wd1M5p8RIl3UrHvINY+/mVZCWmLDbIBblZKB1P/o2j7N0ScmCJ+g8NvSD8QhuoYwOI3PiAnDPS3uXQ2+yAhl1NYuzRW9zUbk0weGJTUEAtq4rTaGAu0DkaY07uRiJ9wU492GgFsY9wCa5uhciuqqVsb7jPqPFAc17QHNe7TzVlOA4ltrjyS7qcN6G3mUalEDbQKOZ1g3fWPmEKQgXOe5TO5jI0i+NylHwZHXGnxTFtYliNZUbtpDmgm6AyesqRu422arGSBkjLvAJumKcMiZZrAPgnbkukZ3jm5O5HNQUlq1kc4GvT71deiwsiAjaBokZjfFoxoTp+1W2oaBbopN9FY8SjuONqQ50klwdChEHL1VlWRkSy2bYXSs1gBYdFti7ONmx7QA0Y3ULA4cQuNVq/SyxoHUJgg24aNWs2VyI4cIQn95TsGRkt/bH5zVjFuaaaZ2Z02Y++6i1QUNNdYnn3fBRDja9lq5IFiFOW4aNW8vFCORjFO+Rp06oYe0O1t06orpGuadBz8VA0QaTugVsk6LG29HHFyWnHgvfqpRdm+KwF+S27NYarX7louOUBQlmiHEEX1QnOyusRdTNz1QntIN73RIUyLg63CCLo+YB0UZJ0Qt6SWR5rfBHMZ3gtLy8lESKCzFoh6pJx1R6h3DlulyL+0jRJmObw5lDXS6ZqKeaM2Lg4eSA4FpAIsmCjduLhzEea24cOq0L+JW32ygKEIusANFo2Kk8aDhNlG/koQkQMuhQrC/NT5N5KAPHyUIbabORWofthMRjVQg3GeIJwEpJnMJlARspMAiLqYEnqrIwB7iRq4cmlLbN7vcNzuDRdWGLVEbXgU5Drc3BZ5Se6jXDHHbbJ4VHh5JdXSkPHKNHxaoiMQbA0BvSypY5N7KC+3vTFU0uALX5WoPL9VscsnpqJBlm+yi0vpk/q6enzuQ6PcRusfX+Xd/SrX02rIEdJSx07G+HF/SVye3pDNPj3e6RqmwAxwelYjMIj4ZP2pluIYdTndQYdc+I4WqVFgvpXrKqrNi3le5VxhWE4fTTfi5DPfxOWSWVLt2dHFgn9EaKdtFi2IOM0xEMJPVWMeHsoyLThxI71lc1mHiZ4Lah3kLJapw98bm5pQ420sEhZ2+DctNFeoR1Ld1caeYTFHGc9xkuPrD9yDl4uZ+5MU5EcwJ3lj5KSG4xreAF+hFh1tb9SZpXn0d2v6AlXCI6iQ38CP70zRwslFhM5jgL8tP1rPL2miv0CMmcWtbm6+CLNBVOfmzE3HQKNNhlTKfVvz68zp+1OtwmojcQZiD5f+azSnUS0V9SHyy2N7+9HpKepuA0tt5lWsdA3KLuRo6ZrHXyj70PnX0GxaOhdmD32P2QnGMsLAaJkD1d8v6UJoDXXI/SsuR32RGhcDh5rTneIRbeCXmBve6GBCMkRdxW0U2OAjLXM1UAbMBzc1MPY0Ek80TYRnC2LmhiZ13NvpZQc+7RqFg68uSRBFs0STHcFD5ubxBEYLRa2Q3jK4Ep0SgzXEwOFwUIDTRbO7EBykaeSlAG5TqmLohqB3EWlRZIRI4ZtEWNke9D/AC8EFzQJb20SZS5IWVO4Np73PxclZHgycOqjHJc2/YiQNBc4/sSUtrIyL9RqgFwa6wITTxob299ko5ojuQQ5aoqkUGuGxOsLe5IygyN58vFOw2EXP70pIe8LK4FFcx7Y52uc61kWTE6ZujXte7wBQv432u8tYlUNignqagDgu77SfFbmDL0ir8Ve2UNNM4+ZIIUXYrOXFga1l+uULn3Y/wCtG/pN03xa666Gk9Fr6VkzGvIPtELVOCxdozY9QsnQJ1ZNuyXTAnwyiynSVrb+ua0/BMjDm5XBrm/EKuqaWRkjbWd7kUZRkFyMz7iphJZcnyVXLeMWLXI8DJ2ktY0j3BGdPURizoL28Woo0wLK0yuFiHPHwU31TgBYm/mUWWtDnAOpm/mrT5qV1t5Fb8lMqymRjrwQA5rXHx1RPT6YEibeDztcIM9PTvPDO9uvKyWmpWsPzh/NRRhFi3YzVSRyN9RKXfoQY2lusryb9LXSc7HMaXCQC/joi0m+FnOzEAc8yLakKvkM8kC6M1wMfJLvfZnxRWyAQ3sUVMrjcVJH+WYfh+1W7r3VUHNdisLten7VaAgm5LkWTpFQXuKCtZeSTRwuq2cWbrdW9Rcl+hVTVNdYuutWJ2cnVqgDOXJYO9yWA6LB70857Jv1HJCk5ooHPmhP7ygLN8o7WCi0LH87WW28u6oLCsGi3q4FYBZo0W9R7I1VjYm7HKTZbcCFG5ylau5wVhhGf5vy6qJ5WsFNtt2AofBUQJ06KHXmFI9wHKoAHeNGXmhIzGPJY4kIbrkAqcbmtNzDz81gF3t4AAT4plUABy+tCcvl6KLGWqXaN+9bmJJ0sqLjwLTm70Eni7yLISXE6IIOuqsBhHSS2vmKi50riLkErThpq6y23pYZk0WbB18FIhpbqo8IHC1w962/VqhRokZbXctNI3ZuNVo3tzWr8FlCMIR6saoXVSOjbLbISRmuoWa6hHFw3klr2fzRWO0HEhIOxXuOaas7wSzHcTeIJwO0+cUQJR4E0egAc01JEZHBjARdA2egkfTC5sFeiER5bWWackkdHBgsVjwh2VhfJZNuw+EWBmcSnWW0uQmnNYA1wAWR5JNnQjpIClHQsha/LDFcjmUxFRuJF5WjyUXVBBHD0RKOS8gJ5e9LkjdhSQSWMss0uajYVTTySDduaQHc0vWtDpQQ79Ka2fls8Rknid4pTRpj2WkFPOOZEmv0lLEGvs3h56c0aNzxIBmUMRdd0ILgAXLPve4f8FcGvBcGkAhvJSgD3zwgm2iysjG8fle23gtUYOeMHJcHwTLrknwMVUJjF72N9LBEoG7y4v0WsQc107Gg3FugU6ABrC4G2qX9PI5l3hOaCTKcw0VqQXlxFj4aKhgcXTE/V6q3p5yAGrn5lyUhvIQL2Qi0/SsPBT3t9AVHSwI1N0hBskSQALqJIjsbcXisqHgEIDnDxUSssYY4HyUJL3QI3EusEY5mjNoPiikiA8zj4n3rRGnK9/NRzE3Gh9yy1xqL280KdkIuGZt7X1Ug2+b3KDhYWupxiwugsKwbWm4FlKdt2eKIwAnmt1MXAw3tdWnTKFCAGkAWTFPrBci59yGGbzkDojxRuDdDoiuywcnQcj42UXE9TdEdcFQcLt5IWWDjkbm5ZT70anmbmcHAH4pYt1I6oTwWv5qlAuXI8+VmVzXR6dOJLuFjpyUbgNsTf4KFyLXKKKsAaikAadEhUvu42Ck6S1+L+alHOvfX+atMYgC5PFmuqnbOW2BDd+28Z1Zu59z2voqn7QIvxERjzf8AsWvBH1IRqfYzj62WR7gCRyXe7Gi2CRtJFrrgJ4pbRkxd4L0fZWEw4LCx8ZBOuq3a6a2o5Ph8Zb2XDI7tKQrG5ZQreOwYVX1jbyhcfHls7Ag2zDmyi5TIsY+6LlBDeR15pt3BAXWKO7II1EQcAQAD7lB+lrWWSznKdT5KOUlty/onwX3BaFah2e2vLpZcniuLzmoMW+ZAIzbQaldZezhysvOMVdnxCctb/GldHRqMuzkeJZ5Y4eknPXSzSgyyl7fErrsNm3uHQOd4dBzC4yhhdUTsiFgSbXXcU0Ho1I2FpzNDeZCfqVG0jJ4ZOclKTByiwCNCBuShSasAKJFcQ2bqkXSOj8lTG22JgFWx7wHRVrQRibVZ6ZkMnVFYl7imqZLb0XVS8cLjdWU8hOa7RqkX8jpdbsRzdSKWu0arORRHkWsIyCPNCBue7+lPObIkL2uoO06ozdBZ0R+9DcQfZshBZBx4lsFacRfkt9eisAOOXMrTOfNaaeHkoXObkFXRoCE2JGbqsIs8nN0U6mOeBwZPAY3XvZ3NQfwogNxKM3tqS73LCLN0BButMe5rsxJuo5nEm5uqsJB76C/61A2Dmm3VY8lrBfqsaXbsC/6FTRJEC60QFjz8VtjhnYbFCuSLXRWZuFFYpMlpmJuozObyb4eC0zQSEuHNRMrmhxs37lQTYBx8ytN1HNSGjbGxKjceCYhBh5i627S1lt+U2IaVl7lMRDYHFqpysGRhJKGb35ok7iYmDwVlEHCwWiBYKEnK+YqViG6FQhjzdDGhvdTHmhubqqLMNyQj20CCzmjsFyFChmMHM3hCeA05JGLLcap0ZfpFUmQHgBYygAuAUxUucQLEquwBt6K8gT00jSMoKw7WdiMh2lbwAl109K7JE0tbdVVJL3W26q0lN2AWSJcdm3HJVwBMl2j9yI31ZBa0/clXk3Nk3SzOkabgG2ipjI2Sc8yAlwsQi4XMW1Ed7mzvBBmfe4AshQfOXuRZDts0RnR0s+9sHRTttbkRqgVs03qGuDS4FTp/RZo2vMGtknWmIVHPQJKgrNKlwMl/eLm2ddSpZWNJzAqAIc7mLIkbfWPtYC3K6DJwNi7RsyB8xI1F9E7A+na0tIAuPFKx2PMWTcTYyy9gUrIr6GDVMbyHL4eKs4SG6hVuG5d84+SsyARp+hZMistG3zGPum58FuOoJtdpal5gQLgLbXg2HVJcbCDVD9boW+6kFQqbulba3JHiiBYAxpfIejxor2lbjdO9xf3U42Cd7C9kZ+IS7YJGv9dO1p+qLIhMTRkNdJbyJQuMZcjseFyBmCqNxuDf3oscNSxnrIJB7xdKT7lp9XUOcfeVOOoxOlaJYZ5C3wvdZ1GW7iNj3pml7iTmvHRRY94NiFY0W0NNuf8AKOGsnm8WcCZpjguKRltPLJSVp7sMrs2Y+RS3NfSzM1KPviVjBxCw0TQbnGpssfRyUjzDK05wpMHsk2AQbiiEFLd18zbnmiNpnat/Up0zg1pJBs7kmW1MIaGk5fOyFZW0XQi6msbBqhNShkOYc+oVrG6N5sDmW6lrRASQg893RDlnsLTqXAlQEfEMziVYujaZmi4NygYnG2OQlrQPgtHmhAXw2bmDknNpzcm2XdGHH9SQrXhullpxKwSDuJ9vqoT9Bf8AO4ljH2n+CottK00tEYo755tGkOy5fituLHuaSE5smxNsXrtp6WknO6i9It/Ocua2gx6qxU3/AM3gH8Tr+n6Sr3Exi2hKCAXuvwruQ08cfJ5zPrZ5PSxgSHfB+uZdBs7tTJh3pEVT6ZWB+VzMz82X85c9b12X2lHrY8H1k3JiWRUxUM7xO0euYFi1JitNvYH2eO8wnUI1bq/8leW4ZUy0NQKmlmtlP5wXqEhzZSerFxNVpI4H6Tu6XU+fEAAMwRqgD0U69EMC5ACLUNvAdByWOM6ZtaKRwNtehTAHqg4hAdYuJy6XTUXFH3dFpXqXAAmGNLi0NXC7VU7aatBF+J1xouurcWp4pDFBfecs/muJx2SaSq9dM6QjW5XU0UZJ8nD8TzY9tIDg+mJwnlxLvntvpe+i84jcWvBDspBvouqosUqAwNc7N7wtOpg5VRk8OzqKkh+cFrLqVO8bm6DJLv6UuCyjadxdyybaOluuQux2bEmkCxT4JzHxSOgxJmisWWzaq38BY/koqoWvcfpVe82Bsw/emquf1hGuiAZQR/ctEUcvUSQF3dJLUJtvBMTWyXCWBHmtCMMom3HXqtPPCLBFbl5u5KMoZzaroXIXdc9CptBuo34lLNrayIrgOCbWAUXg21UyRZulkN41NgShLkYe824+KlcjNax81EjQKQbopRDebXXVaYRc6LHDK4Wc06eK3GLu1NhZWizObdVJ3dACxwsBbULRBLwCbBXRGByEjRSiuNCpAcWg0W2mISC41UErhkC3V3vWPboUV4N7gaFQOY5mtJvZXQcuhbW62NeS1YtOoRGtAbdWhJB2gsStDnzW3X6rLE6AJiIbbdy2/UC5UWXU5gMo1VkIusANeaj05qT7ZQVEAWVEI2WjoVMjRReBcaqEIMBzJhiAxGadFZQzEDdqeEZ8Ak4zq1PgmyuiFVgD70jbEp9/eCQwKoccPawxsBHWyZe92YXIWNnQiNxH1zfBWpqGBozA2VHTuBnGZ+iuHbh0Y4iVkmb8DIuc03INwtwyuhPqZnMJ6WW9y1oNpQfc5GpoxmGaxS7ZsikyVNE6Vx3geSetky2gdmDQSR9lMQlsabgeS8HMx3kkzyuJrhjRWupKljgWkhMU9FO4XeL3Vm0EuaOH4pjKRbkk+dJIZHEiv9Ac0atKLDBlvmCs2AvFrJeUEEgtISnnnLgdFIWfG0CwKAJZ4gWgtLSddU4YXuAs0lBqaUk3cx4BUjk9PJciVHVyRFz92CD4FWtNilzwxvt5FU8NOSLXIAVhh1JxvLbHTRDkpxJGy2e9oYXkiyTgnonVGaoqMrR0TBp95T5X6+YKp6mnbBJbV1/FJit42KX1HRMrsMgcDEGv83IjMUp53XeBlb0auXnIycjcItDMWwkNyg+ZVZcbih+PDCb4OkmxGFxLG0w16lV0hlLiWCwSTal2bun7kQVbmusRe6Vark6Kw7PaalmqI78Nx9lQhkdKw3nfGT9FynPUtLCxwtdKNeA3hIv7k3DGuUDulu9SG4yDG67gMhWjxm8bg025pNzsx962LtGiTPCo9ASyqXZe4dj1ZSztbVN9OpzzEp4h8eaujlqBvaYXjHe+quRpTNHIHsDgQbjXkujoZTHLvYo/R2P78Xs26iyyZk48maVfASNzS97ST9y2XADQrdPGAc+cG/RHLWEagJZn3EcOv6QX5k9I31b+Ii/mq+CaGKVwcbIz62nLfnf0JMoNvghVtu2oBJCHXOY9+oFwtGog3pslaySMyEtuFpjj2oJMPG5+5cGgEKsqxxG4ujtm4LA2SdVMWWJF79VqxJklQJobnaRzDVzG328O7t/m/E5/2uS6jeMiY+Y6gN5Lg8Yx44hSmL0bI1xzXuurpYPemkc7WyXlOLZzU5a12l1Jk2UXBdm6rVUx2TeXNuqBmG6z5jm6ruN0jzEpVIa3g0uXELcr4yAGtN0vm6KTuitIFTbLCmYx0zGnQE8RXqrtImN8BZeQRXEfNeg7H4rLX4dlqR6yD+N+k3z+sub4lj3wTOz4XNcxRdwmzvejPHqnIVMLuLtUd+rDzXFlGujuFQAM/tJfHqx1Dg9RUD5xreH7XT9qKAc57yq9t9MCgj/lXD2V0MELkkY9TKsbkcaMQe22YXJSlUXFue9yTyWi21nE315ImJObmY0DLou5xus8jk3OO5i8Yu5umpKsRK+KTKOHRJUIvUs6hNy3fWOtqAo+ZBYPStyLfDJyaeUHkOl1aQ23AtoLX5qkw60dx0dzXR0MTRGM17EcrlY862s7Wm9SK+K5xFlzoR4qwy2NidLofo2XEGlgNreJTDmgdNVmctqNmOPJzVTTkOe4/rSRY7Mr2oy63A5pKYNN+EfctOKbZyc2LkTn0gAs1KHTTRPSgbvupYhq1RZknGgOtuYUXX0UjYu5KLyRyuiszSIG1zqts9y1YE6hGDBprZXYO0wu4QtFyx3dUQoEYCUQScNjZQOjVoDhRplBibaDLp5LTQ4Dpqogac1sB97X0QosnZwjykrOG4uVo58hJvosyOAa8h2qstmmgZ9LgLJbggXBUiHB2QlRLXZtSqoW2MDuJZ2ZpLhe6LvXluTKB5oU2ckAKyNg2Mc95PipuFuEaKTbt56FQcXG+Y80yPAqgT+duagG3dpe6IWuA4UNps+/VEWSy2UngloUsh3N7KZa3dtu6ytlIXfqteCnJbXVBbe/JURhJdLaoL0SXVCsbqyjG3ujwi/VCtpdEjuLFQg6y2ZqaScAOYXTllZCuwTMKQNJGnVOSi7wEng7HGkFrJ+SOxasTOgokW2bK0W1VplNgR4KvDbOB6p3fEgaarPJpm3B6SbGvy6lN00fEEq0nLzR4nOASZdG2JYt5801THKbqsjkOUm6Yp5pCzRJSNEZlnJM4PbaxTDZwQ2+hVO17jUBvEjne5wNbJc8bY6OUuWylpuP1qJmDi4ZT8Slb2YNLFGiDCw3tdZ3FoYpBYajW11OeaN7AHgpSKJrZLnkUSeMcNvBW4qi9xE7prSeLKPNTpZ8kl2OA96hG3PEG+B8UaGA3JsdFTVxCixxstxd05APgEKdrXuF5y63iETIGgAtamqI0DHk1NO+XTQNWaSk+hvCQgWAtLc2YHySZp90S43IV7Uy04uY6fI0cgQlX1MRcLwXHuTI5H0yot3wVYLQ42vl97UVptzOg8wn2mmLhaAAH6oUJ46eUOygtd0FldthxyxsSPXQa+a21ul9PvUXxuYbG6dw7dQgunBJ8FcpbUMeUFDTl+pHuVjTUsYtmbe6HJU0rbZbggKTK+HdAuBFiszcpg+YWkMQ8HfnOTD7WVfTYrTXsOqZNVE8ZQeaxzxMVuGY5AB4qecFqVErAOX6VoVDdRkP3oXGxqN1I9ZdoAuEnKx1zyCK+oGe+6J80tNUDK4ltkcYNEAmM59QfehVLQ0kkkrHVXHzS1VVEi4snwhYPQbg3N7lIv45AMx+KbilMtPqAFBsTXScwnxSiVzIFuXCNpuDa915lisjRitQ0sytDyvUnPa2Fw8l5ZtCMmNVLbX4l19GvUcrxH0wCYdA2bDsRcbOO50KohGQ0A8wr/C4XNwWvlJLWlllTlhzAWNyNF0cfbONqVujEFpmBIRH6aiyKYiBxN1Q5gMoBYjbMkYuJY+i7uhp5ek+b85pXYdn269CkH/KM/5TmrlZ6n/0ZoI7e3Ib/mo+xNVNSY9Tf6R7fzSVjzRc4M6mDIoZE2eitOUWUs/CQpVLcryfE+CjO3JE1/7FwpKuz0aZXQNsZu7qqDbWo3ckEV+5xOXRNNs3d1XK7aYZVYhNT7rr+a3Kt+krfyYNdu8v0nKOERpd7vPxi/5OVLO1dquilwKLDsJqausl7kPB9rp/OXOO1cuzBqXJ5jUwnCosPhuXfHKNGpukZvZpwOTeaWoJ4IiW21TNBVMjdUWGsmgUd9obilFVGQxTODWyNYLkcl1GF5XUTHnUkLlYI3HM2Nw3hXSYSJIKAMmcMw1WbUO2dHS2gura0c+SOQeqVEt6gO0KZ39ndFjZ0VJFLU5iDcHmlnXtyTNS4u6IDmkNLtVrx0c/KLTk5LWSrmk9E5KTlKVcbN0zJ6Zz8iFxobWUzYjlqoOdryKg8nSxKMySNa5j5IgJ0CXY45jdG4u9YhEikwj9Tohi91NwNjzUNSzS6iCJm/gtlYHXaBZTMbgy5uoyEDcOtdbJOXvFQsVMm8VswRAkojBuvWH7LWtWy45b2Nm9bqH8X9L6qYfVVElJBSPlcYI3ZmR9GlQgBoaZG8RuEV7fXZtCEOzQ69tVskgqhVmPa7NdpC25t7EmxCCd5e9rAKTHOkkFmkgKIps3UvDra3+CyONu437iXEHksfdl8x1HSygQCyzrtJ1snJEMzNJLrc+iCQBrdTzNyCzbHktW1PIKyGgDe91ktg0arfTUqM2XK1DFFGT6tbZRsLXutTWyiyj/ABfNGUEfYsQbaojm6Id7KEC2bugtt5IbNdEVrbkBQg5HzCbSsXeCauhRBLAM3oYbrdO1DXZgLFAwHKaUap2a4PO6wzkdaMQbInm3VOCHkXaJaJjswJe4J7LmsbkpLkascQscJsNEw1gHQLUAIamI+EXIJ0WZ2bY0QbC3KXWAPuW4QW82j7lNry5h0cfK6iwkO5m/ggkGg2YZwQNUYScQQGXM3JFcLPFi2/groisY3rgOQIPiUWKaRtw6JuXyclAQBxIzd3Ylz7e5U+BsZBxKSNbLHTWcOFLNkde41UnySghxOnhZL2h2NxzOBzZQW+Fk87GKuWE08ToYo+XdVbC8kdECogcZbgIPKUuy+yyEziONwv70M1b2uADQfeUrkkLea21rjYFuqGWNF7hsVJLbENAPmhhxDrgj71EQuIGgCg6EtN7n4FElRQeOU66D3rJJnHXN8EFsTxZpaW/FEbC4k3dp7lVP5LS5I7xx5n9CIJjurOJBHWxU4YMxy8vNNRUbnXycYHldLeSOMcoRoQs/6S1x/SVvSYfEJWek+37SAYYgTYx/V9V/aSnKT+A7iL0dNUSh0wtlHNGlBDB60XPIWUhK+NpEchAPMWQKgg2Ot0UEyriMGd5iIvfzQ9+7xKXzODTc2WgTYi9lccJe4KZyc1yUP0k2OuiHlNjqhPubgaIvLJYR0x5oExc/un71q2trgqEsYPL9aJRJYVhnDLCQD46KOaa+X0qBvu5oLmvYLNk08EBzIS68wcD4ssm7bK3EzUOdMA6RxuSVwmKOz4hVOP0yu5yxucMt9CuJxSNzcRqA4ENc8m9l0cDSuzk6/dOMaJUlW2DA6qmIdd97WSdM65DnEcuqlUMaymFnEklLtaW2IK0xrmjlZJS9KZYSzNJFmpOR2rjdTeRfRCeCQeSIDcO7qT8ERa+r3zvyXaI+zP8Ax1R/60frScbXCka1193e/wAU9shSuqsegaNMrszgk5fax+L1TR6M50z9S4FLyzSEZS/ryTTaZl8sT5G6dSs9GyHTi81wmrPVfAvUMvGCLXt4qsxQPL4Dp+cradjrAtGZUuPyubFHlju8HkAm4Eosz6j2lFthXGSBuHuN7cTreK5aniz5QGuOZ1leY9TSQRwSVJBmn4neQQqbchoI0su1he2PB5vUweTL6iEGGgvJfolsTpm00mjnC/VW/pLOZIBSOMyNkhZprmRRk7BzwjGHBabM08ckPpBLXOvbUq6dGLcQFlR7K5hQvIa7SRWzpj1B1WPO/Wb9PL8tA+FrjlAQ3POt3tDwdLFaDiCRlLlsEEkltilxtjZP5FHtcG8MpCA4utYkpiokI5tSskundWmJmnRCQAN5pZ7Q7qiyStta1igOk06JysxTqiErbHQID2m97aI7pCRY/qQzmRmVgWt4tVMZSbNuPeVonXnqtjMeY/QiQJtx6LQ5rCDfmt2IYLnVEUSDgOZU3ybwDU6IYaOqIxwDC0C6pl/yMvc8/vCi4EnUgqTfHMD71p0ZJ0VFmnAkAXRCCANHD3IeTLpbVFd3A3Orspg7HMCTZSq2gOblkzdeaELXGt0U2cRY6AKyiLgS0OJ0WrnXJcAea0QAb3upb4tzAMaA4W5K0KkbJu3iWRM4tA4ITT5o4BbbRwCtMhCUDUAuaUCQWsizt9oEk+aA48iRdMKN2uddSpH1WW/Vaba+vNRlde11YJqZ1zotC2mi07u2tqtBx0ChAsnigEi/JEPd1QlLITbryCNHzQWIzVCDsQGYJuwSkZ4mpsIUiC+zkN6fK54CsZosrh1QsLma+nu1sY9ybfIwOaXMuPJcyUjtxiCZGQ4I79LDkjNh372mJhaFOrpzFYFwJQWaVGkRa5xtyRDmtfNY+FkJunNpTc8bd0zLKbnzQDYgYy8G2W1+t1cQ0tMxkby55cednKqcI2tsNXeN1OF7S8euAcOlkppWOVjVWYmzg07XflFTDczm6XS+4e912Sw2+u6xTsFBUnK6wc3xDtFTmkXFMk6EZbEn4LbKYuJA5orvUDKd3fy1RaWUPlLHNANudkpyZoikAFOQdWtUDGc18wPlZPxTMsSYszeV0KZ1KCLNIHkEMZF0DbpHra6JGXm9gL+Oiy9KG6OcfeFppga4lrn/AHK2w0g4By2sCP8AHktOac2jLLGZIxYzPtf/AB1UmvD3cJebeB/vSJdjQwa9rbltkIg57o5lkIylsmixwuLuY66vpFEGxvuLtNvHVS3LyRlaSPG6PS1NOyYCqDiy3suJUp8XpZDu4YGxtadCRqUuUp3RdInQ01OWPdWSOZbkAOaJDVRUwc2kpyB4vCqqjE7tcOHn4JV1a/Uh4+BU/DuXMiWiwqGvkfc6HzQywk2JVfJUTEX118VgnkyjNe/kjjAljZjeSdR8Vqp34ytFreSTbUu1JJ+Kk+V1g4lNUSnIYIkykOAKhfmEsZ3W7xWb7or5KsI6W4I8EHel5NnC46KOa97iyA7UuyjK7xTFGytwdzyXXdb9Ci57r6FDjlI1KySTqVe0HcY6SW1s7h7ggOlmzfPkD4pje2bqbe9TZMWiw3Jv4olEliuosQeiC8sfCSadsh0BJCsHNzt7zNPooYhyxWaVcZfYW18M47agtFRE1jGsGQkgeKpmchqbq02jc01ps67mjkkaBu9rIoyNCujiXptnA1POakMz0csLczjolX6rqsWgYaNzrcguVk0OhV45blyDlxbJcFzBTiXZUzsF3Nkt8FYbG0U9LLNWPBEjhYDyTWwbx+CpAbZmycl0LZQ1/MLn58zjaOxpsEOJEWVVRewYXac7IkNVPazmke9QfMGm2YNv4OQnTXYeo8brF5fJ0d/ASWoNrA5UliNxA13BcHmVJzrt1dZQqXkwuF8zbeCOMHYub4OMxSomrq8mYC0JsBdV73uEjg1h4jYDwR5w8zyOfoXG6hE0yTDTrZdmNRieby7p5CDhKwgkaeKysBytsbp6tY2N7IdDYXKUETp5dy1t3E2aji7AnDgudnGPFEC0O4jdWZc617ckKjgZBTQwROLnBuuq3M3QWdZYZ+qVnRxx2qgZllabhDE/EHSHqtmG7SQ4FLuieCbkWR9Ek/gZlfcatCUlYXDSzVAsmPJrlEsm5G/3o4J2JnJUBe0jSwPmguiffQAhHyODtSiENATr5Mu3dEQ4mu5KUmXJo12bx6JjKC65WEC/PTwsi3WLljK43vyWB7h3k45oc6wFz4Bq1aIO9fEXAdOquxEsYrdrjyRct281qoFn3HLyQhIQdXaJiA9vYVwWXNrArQfmNgpC4QBp30bsb+CwZ3Xdci3giDxsti/Xl4KEoEXiRvW48Vsm9tFCYAm9sqwh2hJFlLLok7LnbbS3mhy87DxUhq8LcznAWNrIxYNhaHDMNFkzo84AacpWnZMnDxfBRBNrokKkYdANEWWWRzWtJze5CvcardrEW0RpIogbXOe6xjHPcMv6Vt1xc80EFw4g6ysphg14ksefmpVDHAMJDVC9znc65Kk7UC5VlEHAXC0QLLZ5auWjbRQhKYW5JfXMjvsRe6E4+ShDYtdFaUFuuqNGFCDsWrmp0Kvp75gn1dUULYEXejAtIIT0kr2uGgKrMDki9EaAHD3JqWU72zWO965so8HXjIs4q+zsrmlqK+oBF7k3VbFHUSu6BqsWUzmtaAQSkNJGmMnI2ydwFi39KJvS8i5I9xWvR72zE2KLFGyM+HvVVZpiSpw2zsrCbeJTMEN7Oy2J5i60xlhcJiBwzC/NKkPijU0AeQN21vuCNT00cZa4jUa81InXwUjIbNcGX0tzS2mhkYjGUPBNhpqoMym/DzWNL8thopR6c0DHRNB0e7ERDiOegW4cSlgblj4tbcQ5IweLWv8AoWn04ccxBCD+YUY8i8889Q7eSuPhwhQggaJu6Zba6qxp4Lt0J9yYgpXEm7XB3uUeRQQyMfUJNZAYi0RWAOosdUxDSCeqtFSAssPHRdHheCxS04qcQLqeIatuRqq/E8SpaeV0NAHW5F11jlOV7YhemuRlppqVwBp2ue22ZpdzUsbxKOpgjENPFCG9A9UktXvG8RJd9IpJ0wDnEkEfFSOml7mBcQ1S4P7ummuqXfCH6kkfFHGTKG2IJbqhzuLQ3IStagBYq+GSOQ2eC08rrZjbuzcBxIW3SFxseakziiPFa48E4pgBYHwRDxsvp8Vtwtq5zSfcFHhOpAt8FCjUNDJLcxsv7ipy0kpIbk1CHvS3uk/A2WSudZpDnXPPVRWU5GmwNDHd6/vUSwA9fvWNeRfiN1jnPLb5jf4onyVuBOZFnuXOv9oob2MIdYuv73Iozm2pJ9zlsB4J019zlFwVuAxsZck5gPtLcrYurj96ZY9g0NK2w+9akdC6Sxp7N8c2qlkF2Nbl01WgANcqJK2A2yxvA+0LqI3YfcsOXxMgVNDIyolfQIT3WDj5Jp253fW6rcUkggw2oeXkPy2Z70cLbSRWWlBtnD4i90lVPNrcuR8EB9PabnQaqIy5Sb36lM4GY3V1iTr+hdJ8RPPQ9WdHRYkSaGY9Mi45+Y8wuyxNoFC/O/R0dlyEjRnIBNgl4XcDRrPcjptjz6uX3BXpDm3zE2XO7ENMtc6nY7vNvquzxyOK8DGAhwaM1lhzuspv0vOMqg457DUFYLC+hC3EW31WpXhCmN6BG5u7Mbk+PNRxEtjoJeI3stOvmD9bX+9VGP4kWXgDWnxJ6JkIOTAzZY442yrxHSrJvfTRMYBTB8zpXggA6KpFT6VUhnFcmy6ahj3NOxrWnlqtUlsVHMxVqJbymrXB1dPYk2dZGwSLNXTOaeTQk3vD55pDoXOKtNnC1peXdUdbYFQalmouNy4w8wEN0LrDiFk62eLdkZf0qDy0i7RZZLaOlJJiL2NAFz+lLvbaQnmPenHGO/EpBtMdSSPgrUhUolc+Nzb2yC/1lotIjtdp+KckhgBLgb3QHxgeFkUHQqSXyKPaQzMLKGbXUBNGNluLVvklZGgykNacvvT1z2Z5+nojnj8RdakdGLahDy5nDNZq1ICDbRMRmkScQTdrh96G0NudQChOBBvmCkA48nXRLgDhjUjAWHK8apd8AcDeykWkdVtuZw5hRFv1dis0D2m4ItZabI5os5oTcsTt4BfogugBFydfBS/uZ5Y39IVpdurkj3IbnHxPvQ5InMcLcltz2jQkkDo5MKTZMtvHzQpSAW9bKbbyEBpFluojyOA0J8kNFtkDfN7PwUZMx5qVuILdQQ3qiE9AXXyDVacbHvLTwCOqwCO1jI4H3JkQTXPUrfRaWxYhSyGjbotWWGwK0USKJAarJL5WrQW3dwK6KISi7FtmQWutuPCoHmFKIT0Qnc0duUhBfzVENNKPGAg5UWNWQcZYObqm8ySYG5hZNqiCmATA0rQyNWUkMsjxchqS2fuKUANT0xcHAhywSOvijYzTQZHauJVgTZrQAAq2Gd9wCEwZQQL80iUGzbCojrTcclp8hDgNyDZKtmN+ax8r+bShpjNyLCFxDXFzApRWcQ6+VVhmn3RAeD8VKE1EUOZwAB8So4WH5yRbvkbvLNlJRo5mtLWmVx18FSNmc54POycYAS3UX591A4jI5S0lrYQ0kGTQ25LTatru6H6KrdOGvcxzRr9VbpJnB92OI+CXsCWcu494/UNunaWmqajha0j4JPD3sI9ZKG+duSt6XGYaDutDz4W7vmsme/g1xkX+z2D4fSTRnFpvR/8AHXwQdqKvBhNlw3uN/jeWZcrimL1lZYuqHkXSQlmcZA4vOiVi0XHYHmtyseq8YEsDWvqTl6Au5KrfVU5IyuJd5HmslpWlvDMXDzUBTRtLDmJC2LDFFb2Ow1doeY15gqL52udZoQjFAOd/PVBc6KM2Y3MPtInFFKY22dwdYtDtFF8873giNoA6IVPIAcxAtbxTXpETSDkV7aL3AmtnJJyjN7lvJOIzYae5EdW5QbRfpQjXAsN9BZVTJuQPdzEEuWxHJl1uompJGjrhbNQcl87rHwAVxtgvaZEGh135nD3JidlOWAidwPhlSTZx0f8AetVFUABxH7kW1g+ksqOOi3X4xUv+t6ju/lZknKRHnsdM3C5zUi6p4dC0HwzLIXGS+ewHvVqLBc0OfhOnjh3fo28k+n/upRlXrfcez3XKNLGyZwgj+ccdPNHxOlbhoayfUu5fV8ELpcFqTTtGo6y7iHRDXwUy4lwc1tvikWTQA5g4ke/RMNljve+hUcUXGUhnM8DQAX6pWWZzSc7hp1RczS24IHwKVmBDrkAg/VUUQ90gkUu8tYqh2uncGiJpFrXKug4NA0touZ2qc01ALT/FrTp4+qjLrcv5UijFSTpZXmy8RLnyEDiGi5thJu5dhsw6P8GsJZx6krXm9MLOR4dcstyGscJGHvBPILljIwadSupxu0uHzgc8ui4qoBEgb4Dmg08bjQ3xCW1pnWbDy+jYp6Tuw4NFrXXTV1V6XWmcxlrdBYFclsPmdMA1rXDMM2Yrq8avT1zsuQRvtoFh1EfzqOlonuwbiIMfMMeDfqtTEEEWSLquSx625LRqpi29hbqr2uxu6NDDnfd0XJ7XPtWAHMc41sr50pBubn4rlNoHbyvc4k+Cdp4eoweJZPy+CGDPccSjyxFwBuV2svq6SR1rHLdcrssAyaWQ/RsFdYlOW0EnEb5UzL6piNEtmFs5OWV3pLnXNrlXmzbHzQyOcSByC51zs8nVdhgbhT4cxoYSTqU3L6YGbQtzzNjTIy1ugJWrtHPQ+CLvgW6Nt8VB7dMwvf3rHaOxtYu91uSGepLgPiiOBPRDeLc23VAzNm8jcwc0fFa3N4rvfb3LGvJs0MDQskkAGUlWkxVxNRwcNi8ZVF0Q8dEMucCWm/lqtETEAAG3vT4xFSl9iG7B5OCHUNyjXRHF2OvlUal29iNmI4sVKKoQNi8XNwmKbKZwLtslHNsfNbbmHWyZTMykosfcATcgKAsOXigzygtFioRyHkqjFhOcfgZqCZHkgjQINvZvrZac655o7bZRcBW6QPMgAls0CaxHj1WVAheLt096KWNN9AgTmJoytab9SrXIqSoWsGuGWSw8EeEtJLST5qJMbrBsfF4lSfckDkrAMBvay3VRm17D70JvSwWnvIBurFg3Xva61bXVSY3eagC481vloQmdAETw+0sab83LCPNXmz+zzcSw41stXumh7mfMl3QfvQTzwxK59G7R+H6nXT8vTrdIoTZRNl138ET/AM+d/wBR/vLP4In/AJ67/qP95ZJeJaePb/odj/Y7xb+D/qRybfipyNAAXVjZDT/jH/uP71M7HFzf+MR/1H+8qjr9M3xIn+yXi/8Ahf8Awce6waoNNjmsV10ux5Gn4R/7j/eWM2NzC34QH/Z/70x67TL6gf8AZLxb/C/+DlHHTuoS6jFNlZaSjmkfVfNNzWyc/wBK5Z+h0WiGeGW3E5XiHhmq0EorNGtxNzmnk1EjJy6BBbclGj58045w0zvN0ToBslY7ZgnbBWQXwE3pBZNVIsQlMC4aNqZqy4uFiCufJWduLoPA3NaxClMMtiSlGuObqER9w0XJQMZYwyfhtyK0Z33yht0ue5q4C3VbjPFzVuNEs2XTalpt4qVM+e4GY5SdUURXHPmj0kLnPDRZDY2MRhoeDw8vspqGNzxdvP7KwRs3ns/RXTYds+JoN9PW0tKOHgz8X9lZp5tppjiRQCIk8YufyeJDln9H+cj/ADV29VjOzWAU0sGEwRVdV1nP7/7K8/xOu9Jmnk4BvuJ30UnFk3XwFJUEjxFrnOuLhFNWx8eUNKQo925pIARpC2MBa3GwYssYJIt2Lk381gmzEgDkkmzSbkOY0E+ai1zy71jSCfooNqC3DxmMrM7eXgobwlwsl2OawBxjIPgpb8ucCYw0IPKLsZOcMPDdKl04JG60TBqDc5W9Esal4Omp8FaVFNoIwTnLYZR/rEdxLRdyUZVSE6glEzOkcAToioiCOkDm+P5KGO4bMB/JRGRgE3cLe5bDmtHC66p8F0LBrz3mlo8lIxtyayaKVSQ6LQ5SlQ0tZmLGvHmriXSJtdAwEF5+AWqmSFzW63H2VCNzMxtAz4lEnFw38Xj+BRIB8i0NnE5UxGdLE/ciUsQa0xmO1ut2owaxrTqR8VbkSMQcQEHdfIDe9wUCSWed5iMk9j1JKLnLnEgXbbmXLBJE29yLoGhtm4Imty98u8QE29+U2IukhUtDrCxRDUgO1CVJWHF8DDpGNaLtOqhLVQxNLRyPTKlX1GYEhqr6ipc8kk2ARJASmPTV0AhdYAErlNoZ98QR4Kze/fRAEW0VDiRIJC2YInL1uZ7SuzED3rrMEnjbh0V+YK5Q2cE/SzmOFrAeS0ZY3wczRZ3jluOkq5WiKSx5hchU8UuvirN9Uc1i7QhV1QRnuqwwcFQzVZ1kOj2AfF6d682AV/jFXC6rkDDdq4nB3mNxcDZWMEznTOzG4KzZsNzs3aPVbcNFgas5rC33qL62RzS3M0BIF3UFAmkAGpUWLgc8+0sZ63KDdzTwrmquQyS305pqoeAy4KQOpGnVatPHauTl63P5ki9wBrWxO6G6Yxue2H2Jvr4pOOYtFmWA9yBi8wdShpdfXwQNNzsfujHBQlRN3lZGLaXXVt0aAFymHFwqBb9Sv2zPZluL6q8ysDQtKJZxkhp5LTSXXDgkG1UhuWkBEgqpXE5rH3LNto6MZxHWghvJBlBugmoma7S9lp1Q5zuIFDtDsMABc2/StPcHHmQhGQBuik2RpGp1R0Bu5J5og25cboU0osMrlI6t5AqPS26H3o4qiXyBdK06XFx5IMzwHXN/uTJaM3ILckd2tKLgzyi5Fc0hzyCDb3LJHNDxcaBHnjc2S+tkAsLhmcDoiRmlFgZAXOBvYLAWh3CL+aJM1oIzDRDY0m5boEdmaV7gmhGnNSEZdwkkFDyuuNSjuAy3DrlTsYnZoOaAMpcfeovdlcXAm/iFhJDbBFhaL8VgFSZP+EXkIle0FxJ81KWwPmEZ8F3mTMLDoscGlwPDa2qsuqQJrWk9RdBqeE5bJ2wIDr8krWNLn5gdPBRCZxti4IJ5FTLXeFgt08RJzE/BFqA0al3wTL4K2cC4Auu52GH+RpP9e7+i1cQB5Luthv8Aih7bc53f0Wrn+I0sR7D9h4v+0P8A2yLqQarfRbfzWdF5iUtx9mXJJh4Vpw0utx91TNsqPzOAdvqBOKkCoPCkzkqWbktx9IjtQ4HBKwhp+YcvLXDjK9Q2kI/AdZr/ABDl5i+2Zeh8InujJ/qfIv2+X96h/wCk0xnVFaPIKLSLAIsVr91dVSPAUNwtOZuoTwjPgFXRn1jdFYAokyhHAiPRRmunZstxZVuCSH0VvVNTyC4WXadSMhkkAjVamdYC1ki57s410Ri8FoS2himHbYlNMDcwtp8Em0G+hFvC6YhJ3t393pqpIbiGw4AHKdfMJvDzDC4OnkNjrYBVz5IgdSD8VETcrC596Q1ZqT2nXVWLYKQxlLTHOOpGiBUVBls10rgOYAOi5uSpaHDhKK6YiRrhci3igjgjEb5/p5HqqxJVdMy+g1UJpjm4SQism4bEG58AmRgosV5kZG6OPKCQ5FkfyuLocLwXObayMS1sXimdlIIzRjSTYLZl4rg6IEcoLeX3oU0x1axl/clqDRN1DM0jrXLw33pd0nrA4ElDO8la0SgrbWNBABR9IvfY6LycRvfyQ3OIOg1W8+U2OgWnFoaJL5rpPySzbHyWsCFNxNhd1z70EucHCzh9y3K6Yu0P6ERPMMLXEk3LvLMitNobFuqXcZuoNvctObaEkknysi2E3sLeUjvADzK0WAs4i4+5yWfJaw1RIyS3zUcaD3Mm2NgObM73XU3AF7SLoDDxkOTRDAGkc0AO8LT31vdQnDCbZjdFjcIwXaHyusuHgkwhpJ6n+9Qchbc+BC3uiW2cW/AIwyh1wGXv1P8Aeh77XRjHEeB/vQuVloi2nIsOfmilrdcznaDwQZZgJgMv3uQKlwfLa+X3OQ7SWMAiyRqNXOUyDu7Xy280s888xcnQVC5SIzZt2CDbRU1azM26tZTePmUjI1pYQnwVHO1NS4Kjd2upsFiP3ph0VxZREIDgnN/Jz/L+CMwuQAoPbcgJsxguWjGOXVTcD5JlGzom2XhkyuQqZlgPG6nUA7y58EMrkzTjqMaMa8XscwQqktykgqALiSgz3LeqLbQMslgZ3udp0WdQthpuGhpN0WTMx1jE77kafBmfqmFZNwkZUvVZnNHLQ+KJbW1lDLe/NDaTGS3ONGqC/pAKtC917alIxMLXjKE2yRwNyR9yGSsdpriqGoIyWkkapiBltS0hApZ3Fpva6cjn4dbXSWmbo0DfbxUWxkuuUUOzfxWYrBHK6Q8JagGgnta06NA+K2wNPQKL4JSNSpR00oF7XV8fcW3O/aT3biNA2ymyMNvcBabE7Jqx1/esY0hzrxu/OUbC+Qb3NLrZGhFkyhgdwqFQHHRseqkWObTXkaouwdzEqmYOuBZBc45QMt0V8Ol7qAaWvBcXWTrtCJXZudhbYCzlkYLRxR81hJvodFsagFx6qCeCTmt5ZQoEZAbBoKM4cINlAsuNQVaYUocWCcAeXNCdmadLp2WNutjceKHDGLlxVgyhyQDnbvQfehSG2vVFm3sV28LmuQretbmsBZV+oD/hJROHUKUgY9wSxlc8lua3kt5gHDi1RCoyGLNazmh1NnEAFaabkNU5owb6AEeSg4GG8N12uxfDhJNv4536mrjGg5V2ex9/wVb/AE7v1NXN8VvyGev/AGHr+0f/AGyLom6xaWLz6x0fYCUY4Vt5IAWRnRbltlug+Cl2Y8XaoMBuph3CotIzaFTiyO0iv2kH+Raz/UOXmrw3MvTtqrDBKyzh8w5eXOJuV6XwiG2Mv5nyH9vXeqh/6Tcdi6yZyAciloTrdNNIIXTR4OrCQhu8GpT+VvgVXx6SNViOXNGgWVODx5aRpIynrqnXQZ3aOB96QwR4MLQ4aXXQ0lDPWSBlOI2t6ucbWWTLPadHFHd0V4bC0ZXAiUcrclPduc4Bup8l1lLgGGwgGpJnl62PCEDHqvD6JrYMPbDvOotdZ1qDT+G+5zlZRyw5Q610IGW9s1rI0zy5wLnOJ96i+QnktESnHk0GO1N7lSpi7ei4utwZiDeyyEWlzXKtpMLawzw4vuSpEOBAAW9XO5AIwZo0nKfilVQSAOiL+8pQxsOa5smCLt0a0fFDsAXAtb96FyGKJoQX1jdx+9EkaGBrTq/qhxlzZNBYqTnXOoN0SCNEDQtPvUmOs8m+izky4F0NzgLiysgaxsCHG5WwxzHAPF7oe+aA3iGiFLOXyjiQSi2yenaNTOA7wCGJAdS5wCBI64WWu4DMioGPQwCLD1YMjTzusklzSfNC6XMwBACi9+d92kAhVsJvGXGSxJH85YH8BuQlJJXZnZX8x4KFzu9dSiUCbw0srhbLYrGTgs1CTc7TmtAgt5WHuV+WRZCwbP4WRHyyOLNG3VW1+Y2AAR5C4ZSUKx0RZR6GTILbu5WFr7b0tcBdV7ZcuocQiCsmdHka+48Co4KiLKrLEl5bnc7S2gQadsss1sxISraiQaFpsm6Gs3L8wbc+aW4tdDYtSZqqDYZ3Nfz5DTuoWWK+YygDzHNRe6eSpJlvmdqVqohLWgkk+Sm3gvd6rJGUFuXQjxWpaY+jOnd3eYuOaFNCQGWvpqnKzEG/g70cRu3hFjborkroGP1WIOppTB6QGnd25pQNjLSf0XTprXx4eKUODhl8VrBsNpqiN0lVNlHQXsjjdbjK0pScUVcgjPdDgptpHZczmy5TqFZ1EGH08D2xXuNQSbqEuIQbpmR5dw2sq81vmi3p0vqFNxeTICUN0ABILrFSiqXNqAXm4y6IdQ4ulzXtfonoy8NBoIog0Znka6oM5aZ3ZDcJuhoaipYRHY9eaU9HySua4cQOuqiqympULg3fooyciLo7IBm6qE0dh4o7ESi+ha5adEUyuIab8lERg8wVPdMtpdWDs+DTBmcjhtz3h96FG2x1WZXF9xZCxn6Bgyzr3H3owaD7X6UsGlGjYC29kN0HFfA/TssCByRLHKNeShD82QAti+RA3ZsgGbIzMLuAKP6Q1o0eLJJsbTqRqtBpJy20SpIdHIMmbi6I0DgQTcJQt8botOLtOpFlaLsYcS8c2/cl964OsQtPMn8W+6gTL1ICpRsrckTOhN3c1p7+EC4t4lALjchRmL+FumqZRn3hiWhwuQhyzx3cC0OLuqi83F9L8kF0cxeAA26uKouUh5rIxHqbvcOSA5zTGIyBdp5oTt8LuLxdullFge0hztQVbRUpjD4Gxi4sSdVjZGl4zWBstFxd7uigGuLhltcqykEOU3shTQ8biHqZErb6tF+YW3Zba81aQN/cVmjNm6qZiAA1Wpic+izMcmUltyETVCtysyWJocAGgXPNRkp3Qy3jde6whxDbHqivbOw2PIqkuCVukRDQe8bFQylznloDiiTtcHWHgh2cAS24VroJ8M3nblLfBdfsc0uwNxB/jSuNljLAepK7PYsA4CWk2vIVg8R5xf5M9Z+xkv8AxD/It3Oc0W5rI3Pf0TJwXFIcOZjBZ+JTuyMk8COYWYTQ1tfVspaCKSqnkNmsY25K848M1JL7n1h6vB5cp7vaDMeRlyDc+S02EbnJrxLusPO1HZ/VtmxXZtraWscA41dNnDsvstd7J7y6LtNwivxrarZ+vwTDIJqLFGs9CNPG1gb4tdl8P1e5bXo0ot87l2q+55yX7QOOeMWo+XK6lu/hPIyGuGZ2TJ5tUdxDC71bBlXr/arjpqq0bF7M4Xhc0ro93U1DKdueaf2sluS8vxTZ7FsIk9CxajnopsoOWVlilajFU9sOf8uL+xv8M8WerxqWZbHLqO7nb/EUe1DgcDrvEwleYSaEAL0/aRobg1Zm5mnK8ym8BzXd8L9srPnX7ff71jS/hINDbogvfRQY3REjGi6HR4AYhJzDRPAj6KVhjOYap/duTEUC2XpaaOma+fUHxXQvxajohkp6dkunXRchhdc+WnaQ5hPgE1PUC4vzWCWJvs6mPPFe0exDFaid92ksH0WpeSUMAcTcnySxmzAWH6FN3E0Bw5olhjEN5pSML8zcwIC2JTawsVDdC/Oy0GOabApnBcW7GWONuWqlGHeFkOEEA5nG9lKnsXayi/mqY5N2MZXOKMObbtQHbve83AKRaMzcryUDGxDvB6CwWNDQ12YaqMgNrcSjrZxGYoaDC6dHKEr7EC4PmhAyct1p71FxOgyWVirCCWzSgulzEi9iplzd3qhgwG5tqo1YdmPJDRYqBIBbq4lHJjyhpACA4ND7BMsDaGa8DmhSSEOLmuUwA5p1BQHts+ypIHlEN6XOGmt0Qkh+uihdwd32m/ktTknnqPGyIC6NmcgOFm6KW9OS5aEu4uAtZba5zhxH9CsDeRdK69gEUOc6PisgOLhpoVMbwxcwquynM2wcQumprkNOlkowWOjwT1RnjVlnXCiZIcm2jREDowAXNIPgEHNluLqFyTqVVILcNNkiBzXLSpNqWBpFg5VztHakobnAXN1PLJHNKLLYVDABqHHrqpz1EYLWhwzHUC6pg4N4rLUkhEgeQb24SAqcfgv8RtLp1QHwklxc3rboq2d933B4R1Q4pDltewPeuhzSCMmNhEkZ5OCqOOnyBkztrgKCCRyspXbYgHkl2mzWlQaTunOLjfNoEzalwI835QQPBBuT7isOQZdNSrDCcKGIU76iaXIG8rKrq2vp6stYbhjuqGDTbj9g5xcYxk/qDhlp8uXopvh4y4i9goTSuNQ17i3MW30WCexPuRUFGiywCbK54bfQLK6F7Ji9sOYO80fDJo6XdwiJrjK25PgmauSMltu60WKzuVM2xxb48HOvllBDHgALJnAGxaE1WU7pakDS2miUrYDDM4OJKdF2ZMkdvZhDTlLhlvyU9y0al4B8EAOzQtubkFTebC9ro+ehXHZjspdyW2bsHmAhtLnHkAouaWyatafiqfANp8jkZb9EORQ5uXlZJtmA0s1qkJ2jmA74qNBxyRQ+x7XMsCtZwGnVAgkiDQRaxUmvbra2VDQ7cTZONOamJHdCbJfO3Pe9gsLiZC3eWCBqybhn0mzcpIWNqriwafelt0wO0J+KLYAaAn3K9pNzNvnP/koZiTmBcD5qduRIAstnKXXVgWzRN3EhrsvipSxuBadVrObFouAESeYHd3LrFTsNR+QMpJDWHxvdQzO32ZpUZTeUgPIWmuDXgXurFyd8FhUOY6JjGtF3c3LboPV3vy6JYyWLbckzFLYEgk38VUrQ2KixSpBaRunE6ajwQWMlFsshAJ5+CZ139xyPNBq3Oa8Nb3RzUUmDJJBKiN2ckkcvHmhFt23WyRIGEk8lExnM7UhtkS4FvnswsuLG+ayM+ma0CQj2UsXa8zZGmnADQLuGXVSVkjtFspc7Qoh3zwG3OgUGuAIsisc4y2AOYjX3K30LjHkPTvc19tTrzU3VbWtOawcOa0+UDhjadDqT4pKoe24EoAcUMYqfJrcpY1tTNvced7rsNkDfBbW5ylcWwXdz5LtdkNMIa7wkKw+KfuH/ACPSfsV/+Q/yZ7DtJYfJ/wBnRyJxaoj/AESJjsKpaxztrfwTb8Kw4SGUhGXMHOB5X9yaosIZtN2K7N4XSYhhsNXDX1ErhU1GTmX/ANyrdh54Nn8X2m2PxKvpKV2JUQhbXCX1W9B4Rm8Neaxxg1mhkfVV/Q7WbPHL4dqdLH3b5S/y3o6p+DbWUHZftJFtZTVIpwIZqU1FZv8AiBN7am3RLdkW0eI0nZ1tUIBmbh0Qnor843PDg5eZ7UUddgGKNwqrrqKpzsuJIJTI3716J2ZYTUHsz2pgjdRCTFox6HHJUtZnsXZs2Y6fFXhzylm2xXKXz2L1mjxYPDnPNJSjOcX6VUfj/SzgtmNltotoakt2Yge6eF2d0gcBlvfUuJC73tQwvaGj7J8EO1D5JMWpcSkja5z9650ZaXd6/E3Rv5qrtlDFX7CYpsOMXosGxdmINmJmqckVSwNsRm8Oq6DGMIpMQ7OcP2Hbtdgr8doKh0+U1F48pB4c/wAedkWDDGWCTXyv6/avuD4n4nknr8e+kscuOLe1r3bvseC7UjNgFW88xCQvMbcWq9T20hNPheI0ziC5jSLheYSC7zbmCtnhTuMjl/t36tVja/hBNBzXCYja32lFo1AARBl3ga5dM8F2HhNnNTwk8klEGhw1TmiJAs5rCHHcAWTtQ7iHAUpgxtTNJCdkcDKPBKY+PZgnLbcNkV0rrhQkINrIs2kbTYXQND6JBwI4jr7lJ7iG8IBUYgS25UiG2OZyqh0TIpDYkhv3Kcc+U8h9yhFlymxJ96JBuxcPF0KHxJSTO3mv6kWKZwkBPL3Ig3Jl5Lbg0Si1rKrsOJqepzWDW/oWMlJ0Lbj3LcgGYEWWhZrr5gfiqYyP8zJCeHKDy1QHXRswzHwUZA3QomD8G4GvMbffqt5QHlbEgyWaCtN53IQVQMVybDXW1WIji3c8wD4JUv4bEjnyUHXwMSOcBYcvEFAcOMG9vNSN8ugQHO4tUxCX2bLWh+iiRx89FNos9DeTmNrqwGQkAaTZy2AN13v0KBcfAqeb1ejSqoUwZtfktkcN9VFwLbEMIupB/AQQVKIDaLO6pqQgBhHggNcHaXR5B3FdF2AdmsTmQrG1ydU4+IBpBJQS1mWxurQEgOmv7kJ5aDchpHuR3FoJAc4ID90T3rogNxJ01757fcgucHeAHuWswzLC258FKA3DLJotwW2ufcg6EiwWsoDNFoXJAuFVksajayw4eiExo4tOq29xDRqoRkWPEqJTGDVT08eWI8JQnRAM37jxFLuCkwKKIyWRsOJBmFuXgpscwTguia4eCGGHNoQVhicXagfepwROTHI6iQyGWwObwKI3EJRe7GkeaUa20XjZRjDjmAQbUx/mSiTqa/ehoMQaWm91Cep3r96S0kiyDoS4EEn3rRBAtlR7REp7gm9IHRBndmIssJs3uqDuY4USQucgsZPIooPQhLQk3uUU5ib5SoEnXYYtaRpZQyC/MKI8MhUizhvkKj5JW4m2O2tgfiiw8LjwD4FQp2ODb5Cfeihkn8mbIGyRiRdlvyQ9MyOGAHVuvms3VzyspdjQbTbqVNzjbnotPDDzN/ihvAIs0/pURW4IxrRc5iiFoyk50qd4Ba9wt5r6Eq6sFsYa6xCypJLQQ4qAday3UygAC6pIvdwBYbk35qMjOK9ypNPFfkpyOF9VYKJx5nMy318kW1mAk6qFMWE3zHXojTsaWjKdVS/UbGtvBG8ls7e74BLvaN4Xnl4XU3PscgdYqNmg6OzORC2hqlgf6PI5oGQHjN0s4zBzsjQfC63GQXscHmw7wva6yRpJLs1gq4ZLYtK555lGbyAsDogSOYb66qedm7BcCfcroHcal0lHDceS3IWh4OqyF0PgbrU2R78ubKr5qgfTakPSNbuWFouSq+aO0mU8ytyPyMbG1ziQozODjrmv43QxTSLy5FKVhGRbu285XXZbMwQyYfG5o1El1xjLtK6XZiuoKTCxTVdWd4zMRbMsPiGJzx/fk9X+xupxaXXbpS2radQbtFhJI0DlYqOYh1w9xPmkn4thgHFVj+cgnFsK5it/Q5efnp8seon1VeJeHv8A81f8yzJzuu5pJ8SUcPdHGGsfI1vgHFVTMcwpzM/pbR8CpnaDBwwD0tv3FPhjyPloW/E9HVeYv+ZZOjNw9riD431Q3NJuTI4HxubpF2NYaLEV7A0+RQ/w3hYdrXssfIo3in1RS8S0f+Iv+aDbRyg4NUi9zul55IDfNfVdvjeJYZJg1UyCqZJK5nJcI93He+i7Hh8ZRi7PmX7aajDm1GN4pXwZDcqZac1ibrceXkpgNBzBdFM8TKIalaMwuFYZmfRCrqcneDkrMN06IwH+hymEA+iDVMyhwclcLEghDctk7KHXHRLvgKJsH1QuNUWR4LG3BS5D+hTJZKYgAAgbNEQjXNDVsmMagfegMa8m1wiiP6RCjQyMiZlaG2ytW4HA6ANQg3Q8lGAODzq370LGqY+97c+rAFMOYDcpWXR2pKJHmcRlYSEumGpBnmG+YHXwULwFxI5+CHM09GG6gxrrnQ3VqP6luf6Bibl1r6IbiTbmt5XDoVoh1+R5IrJvGIS0N0atiU37pQYw7I0C9/etjMCqaCjII86DnbxQ7ag3uscSYhoLqDb31VIm4bsXDgHTml3MOfVFB05i1vFCc4XvdWnRZItIfYEIYaRKbkLYkueagbl17ogCJZYu4gpMjvCTmC0NDqigjJYKLkHaLPy3AzFQc3Qm5U3C51W7XbbVR8E2gQ2x5o8xF4+NyiyMXJR5mMBjF1LK2gMgym5Q3t4eaK8tDSGgW+0ogkssT+lEhckLFtySAUJw6plwBJ0N/ehuHRW2A4izTxDQKUl83JSDWDLqERwYD0VbgfJBAutay0BY3Kca1hYDw/esihY5x7v3qkwvKAXBjbcKEQFicpTwiYWi3gtNY0RO0Cu0X5bEMjr6BSFPIeQ/SjgOtq1nxK3DCS65EHxDkO4LyjbYnh3iiGI31BTG7OYHkVIsBksXElVJj4wGtn6Z0xcJhEG26m6Urqbc1sga4W8laYPaOB2WKZxv0CTrnb6ofdj26dUhN7jS8cfLsqnMIOpCg4ZeqM6J175ygVF2tOuq0co5rQu8ardibaKNgepUtBYC6MV2TawgKRzAWuojL4uUg5vgUJf8yTADzcQitEd7GUobbHkNVP0d1sxaoM/kFi3Aj1JW2ugylbjpzu+MBaFMbGwVP+ZOf4QDjESbXstNMd9CpGORt+EWQ9wXnlqrSBd/Y3doOhW2vF+i16OXewBp4rfo5azuH4lXVEJPewC5K3G9h10QSzg7oHxQ82UgWKJIFyoalkBIsUN7wbdUMEEgLHA3CopzoNnsLqMz83/koPJBAuieAvZUXu4JxkDkBceCmZXWsguDgDqpU7dNTf3qEi3dI0LCUB1wT1COJWRuywRkyHm4rYha83bqVsxyNaXFoaPpXUa4GRW18h3ClcQ82Jb+lAklbdw5hRjF2ODTmIUWxuynMLXKWotBSmmaLWkAhrbKEozOAajTiCOHgJzHQ3UQHNkAc7dkC4LuSYLkhYZg6wz/ABUpS4EHKmNM9za6jM1pdZRMVt+AAGbUqDje+vJGgDI32e45T5XW3sjdIQ112+NrIkBtBia8QzEkrcTruuojd2Iveyk1rbXbdQvGZI67rrUz8zQ0B1kSSIWFgQVjBfRVwN9RGF8hNjyRHggg2WNjyusXCyK7JksHAlTsiATF2nghuOnJTlBtYnRQ4Q2ypOypToMXGTjQnLLlrdFq+bVHyKjtMbcG/RScTfRa9nXREjsWqWQcpmBzm3AVmN1bvNVdR3DmteRr5Kz9DjOudGgKvo4nCbbgG5Tk2rhqksMsIBqm5CLjVC0DjJ8N23KO7KBzKUsC5t3Jk5eWZyE0km5QsJ0Opt7kMc+a3ew74+9CHuCMLMp1J+C1C4B/JRY5tjqFkbuJV2EpBpH+s1cp58pFnFBeQ6QckbK0vGqoOJuaeUuBAKJTyuJOZrlkkQI5lD3JDtHOVOhsdwffAdEIzZiNbKToHZRZwJt4oU0TWtYQ8B3gokRyDNccmhHPotueGkkAn3oUINtT1RDu23N7lWwosk7k3LdoURc91T7wbqEEuDTobaoUW5DBtaxBul3c7IxmcG24eXNLF4LtUW0HcSa6z+FadxP4kXdgbg73vt4fq6ub+9QqH71+neVlbiXsW0U2RXi5n70Bmf2lPPdlgR96oLcRfGcxtfRbvYBRdI6x1WyLxdVCcGg7i96LUO1b7ko1pBB15o1Q42ClASkaEhsdTZRjbfW62x4DTqLrGPB6BXyVuiSIZlOlygkAnRq0Xuu4ABCLn+ICslxMOQdbIZc3Nw3coXJNtVHUO00VpiZMcaLsAIyrDHc81EFxjF7qIJadXFUWhtuVrQbE6IRkuO45RL3ta2x6IAqZbEEhRIksgTMei3nkuEo5zuam0vNuaom4YdJI19ytSTOLr2H3oUrC4i/6kExcYBCKkxbcqstsPxB8ET7EWPktenh7y4k3VcI8kZAGi1AAOaHarD/Ez20O+ktIOpSlQ/MCQSotY6xN0NxNrIqEPI2Qdr7SMNcozIFvMfemvRn7oSXe9jLb13MN+0oCgFyHcyptI6rZjAFzJdDLbnqruig2ZvNo1W94+3Oyg2M30ujbhpbxPsoFGzI82QkSj4qcR87nzU4qaAsJLnXU2xMa3QuI9yqx2xoG+RrX2c2E+4oLpQXfMt+5MOZx8LWfdqsEZzdxCy1FsXsXHWItv9EKe6IbZxkI80V5IPEG/BRLtLWUuwdv3BGM30GikyLiu7kiCX1dsjVNk2mlkSZNiIhob3Woc1wRYIrpXDwKi5+YXIQ0yNR+ADnuY4OBsUYzmawfKR8FEkO6KOU8xZEUHddwDiLXWSEGMCPQlbcBucxdr4KAeL2VENmTcsvfUo0UhdDZw1KA4RvaL95Fa7K0aKdhxkEDgziylrSjOkG4zB5v4JYyX71vIITnuDuLkpQW6hogvDWgA35pWpjO+DegWMmyHhdqivfyd16qdEvcBygvF8yJLa4tdTaA4B11CZjuYKgDIix0sLrHQ5Tm4VuBgkJEl2+aK+NrNA+6llCJDwSLN1KOWMZcnidZTDb3IU8gyWvz56KWB5bADW1ibrHtPJSkzM0uQPctZW31e4Aqw0mbhOfry8VN8rmAEGxPghsY1hAdyCM9kbwH2ygckapE5BTs9UDmuSlwx+W9jYJvetY2zoi6/IoTpSCAOR6IAXFPsG7haoaHkCjObpqgSvtwiyIV7QrTdpF1OJwyBvVAgIIvqjMNjy5qiD1LIBI13mrX0h3n96q4WNL228Va5B4BMTF+o4zC4y6mHJNPZYgGycwfD5PRb2WVVK4S2ICtxoBSESzibqEyW2C2aV2dunVN1FM5kdyDyQbRsZMQzdLJ30r8T9FkoKfu5WS91zfyvaS4gksOGyJ6PJccVktjogLOJPqwsaDmGgCPuXAHiKEyF5kGhV0M3E7P3inNHF6JT7veekcWduXh+rZaqM29K0/PwKqA3ojLHISSQtNiIJ4TyU6l0rAb9FKCXO0knoi2NBRkjTWucMoDr2QXcLg117pyLRpdvHHRAcHOa2xcST4IRkicfLqonKS64N0xHBIxoJD9T1UaiIku0cPcoSLIP5BBAJcTcc0yYrNBIIQmjNcanVRoLcbcT1CHYBwJsAmyNNWnklpbusACFKB3m2ltu6FB7gHm1ltsV8vCVno4LjzUoHcCLz1KwOaASpS05DtFrdhseqYo2C5EDLZS3rizmtZIbm7kUMiDO8gaoLcwLHOc4NzFGqb8OhWmNjzaPR54W3YS86oSNlexx18FISWHJMNhgbrvtVICIdbq+wWhAyOJKxrvELb255XWutNhn6XRAJOzCMzhlChI1wkFwbJprJdLNt8VqSOre8ASg26KIYzAeEAXQng3vdMRwVVxmFx5WWPhdctIyk+NlRAQvkuQeSXc4W5FPPiLWDXol3NcItFQoA0kjwRo3OOUekNb8EENkyah/wAAtbsG3BJ9ysGMuSwLyAC6eM/BQkkAJd6t1vAITYHutZrlB8M7XEZXWUoZGboYDzJG45APigRtzOOoCLFFOYDoAg08buIZgD71NpTkFbHYEbwIToRzzhRIeL6qJLrKJguaMdFr3gtuibpctQy420CKblrb5VfIO5EcgadJQVMc++Fgj47XapujAdrI1WWZm8Cpta53MhCtro9qwBxdq9Cybh2CFxaeIW96IyK1xe4Pml6e4a7nZTBeAXC9h5KUkOjKIYMBmaejfNQqBc5mk8/FB3smbQ2v5LAX5bF/6EKihnmRJS2c4/sKhGw3vzW7a2uEdrTls0qUgacuyOW45foUWMaHeKYDJQNGOPwUhDfS1neagW0C6ElvdF0J0TrWIsnmxF+rWOUZad7iOEhXyVLGn0V+R7ei20EHoU9JGQ3LlS+UB9sqqilH7kHNsOSg249lNSjK7loVoNJabnmrTBAEEkHkitY/KS0X8yOSnuIsoJfY+5b1y2vopQVAgG31But3uDcckdsZdY5VERkyHQWKllAA69uEI9TusrQNL89FDcua4mzbJkOcIN0RFxciVRLErgi4C057i+wOVY/heLdVklwRcc0RDbpJeQc2wUXyXAudVjWOJ5KToQDq4KFMyOQvaBfLZTa4Dm5CbFlHeB8lulhJJJlHPuqcEtkqh7S4akhazQsOe7nutoFupgMN+K5d0QcpvyUfBLYbfRvj1ZmKg+S1h+hEZHcB2XXyWqhoDQbaqdFttg5cxAvyQLOvcfejkksGmiiW2bZRC5Gi431sUCYXIyjUlMlh04VoMuy9tbo2VtIRXAIsExHHI8taGguPJDsPBM05fGWkDi6K6AoNAHsma0gHVXYy/RH3Km30Tahlwbly6RsLS0HKdR9Eq0xR/9k=</binary>
</FictionBook>