<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>George</first-name><middle-name>R. R.</middle-name><last-name>Martin</last-name></author><book-title>Wild Cards: o come�o de tudo</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><keywords>Fantasy</keywords><sequence name="Wild Cards" number="1"/></title-info><document-info><author><first-name>George</first-name><middle-name>R. R.</middle-name><last-name>Martin</last-name></author><program-used>calibre 1.33.0, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>23.4.2014</date><id>c94f1cbd-33da-4887-bb67-6d44f13142b3</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><year>2013</year><publisher>calibre</publisher></publish-info></description><body><section><empty-line/><p><strong>Ficha T�cnica</strong></p><p>Copyright � 1986 by George R. R. Martin</p><p>Copyright � 2010 edi��o estendida by George R. R. Martin and the Wild Cards Trust</p><p>Copyright � 2013 Texto Editores Ltda.</p><p>�Pr�logo�, �O jogo da carapa�a� e �Interl�dios� copyright � 1986 by George R. R. Martin.</p><p>�Trinta minutos sobre a Broadway!� copyright � 1986 by Howard Waldrop.</p><p>�O Dorminhoco� copyright � 1986 by The Amber Corporation.</p><p>"Testemunha" copyright � 1986 by Walter Jon Willians.</p><p>�Ritos de degrada��o� copyright � 1986 by Melinda M. Snodgrass.</p><p>�Capit�o C�todo e o �s secreto� copyright � 2010 by Michael Cassutt</p><p>�Powers� copyright � 2010 by David D. Levine</p><p>�A noite longa e obscura de Fortunato� e �Ep�logo: Terceira gera��o� copyright � 1986 by Lewis Shiner.</p><p>�Transfigura��es� e �A ci�ncia do v�rus carta selvagem: excertos da literatura� copyright � 1986 by Victor Mil�n.</p><p>�Bem fundo� copyright � 1986 by Edward Bryant and Leanne C. Harper.</p><p>�Fios� copyright � 1986 Stephen Leigh.</p><p>�A Garota Fantasma conquista Manhattan� copyright � 2010 Carrie Vaughn.</p><p>�Chega o ca�ador� copyright � 1986 by John J. Miller.</p><p>Todos os direitos reservados.</p><p>Diretor editorial: Pascoal Soto</p><p>Editora executiva: Tain� Bispo</p><p>Curador: Raphael Draccon</p><p>Editora assistente: Ana Carolina Gasonato</p><p>Assistentes editoriais: Fernanda S. Ohosaku, Renata Alves e Mait� Zickuhr</p><p>Copidesque: Fernanda Mello</p><p>Revis�o: Natalia Klussmann, Lilia Zanetti e Andr�a Bruno</p><p>Capa: Rico Mansur</p><p>Ilustra��o de capa: Marc Simonetti</p><p>Dados Internacionais de Cataloga��o na Publica��o (CIP)</p><p>Ang�lica Ilacqua CRB�8/7057</p><p>Martin, George R. R.</p><p>Wild Cards: o come�o de tudo / George R. R. Martin; tradu��o de Alexandre Martins, Edmundo Barreiros, Peterso Rissatti. � S�o Paulo : LeYa, 2013.</p><p>480 p. (Wild Cards, 1)</p><empty-line/><p>
    ISBN 9788580447156</p><p>T�tulo original: Wild Cards � The Book that started it all</p><p>1. Fic��o fant�stica americana. I. Martin, George R. R., 1948-. II. Martins, Alexandre. III. Barreiros, Edmundo. IV. Rissatti, Peterso. V. S�rie.</p><p>13-0206. CDD: 813</p><p>�ndices para cat�logo sistem�tico:</p><p>1. Ficc�o fant�stica americana</p><p>2013</p><p>TEXTO EDITORES LTDA.</p><empty-line/><p>
    Uma editora do Grupo LeYa</p><p>Rua Desembargador Paulo Passal�qua, 86</p><empty-line/><p>
    01248-010 � Pacaembu � S�o Paulo � SP</p><empty-line/><p>www.leya.com</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Para Ken Keller, que brotou das mesmas</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    matrizes a quatro cores que eu</emphasis></p></section><section><empty-line/><p><strong>Nota do editor</strong></p><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Wild Cards</emphasis> � uma obra de fic��o ambientada em um mundo completamente imagin�rio cuja hist�ria corre paralelamente � nossa. Os nomes, personagens, lugares e acontecimentos retratados em <emphasis>Wild Cards</emphasis> s�o ficcionais ou usados de modo ficcional. Qualquer semelhan�a com fatos, locais ou pessoas reais, vivas ou mortas, � pura coincid�ncia. Por exemplo, os ensaios, artigos e outros textos inclu�dos nesta antologia s�o inteiramente ficcionais, e n�o h� qualquer inten��o de retratar autores reais ou insinuar que qualquer pessoa possa realmente ter escrito, publicado ou contribu�do com os ensaios, artigos e outros textos ficcionais aqui inclu�dos.</p></section><section><empty-line/><p><strong>Pr�logo</strong></p><p>DE <strong><emphasis>TEMPOS SELVAGENS: UMA HIST�RIA ORAL DOS ANOS DO P�S-GUERRA</emphasis></strong></p><p>Studs Terkel (Pantheon, 1979)</p><p><strong>Herbert L. Cranston</strong></p><p>Anos depois, quando vi Michael Rennie sair daquele disco voador em <emphasis>O dia em que a Terra parou</emphasis>, recostei-me em minha esposa e disse: �� assim que um emiss�rio alien�gena deveria parecer�. Sempre suspeitei que foi a chegada de Tachyon que lhes deu a ideia do filme, mas voc� sabe como Hollywood modifica as coisas. Eu estava l�, ent�o sei como realmente foi. Para come�ar, ele desceu em White Sands, n�o em Washington. Ele n�o tinha um rob�, e n�o atiramos nele. Considerando o que aconteceu, talvez dev�ssemos, n�o �?</p><p>Sua nave, bem, certamente n�o era um disco voador e n�o parecia droga nenhuma com os nossos V-2 capturados ou mesmo com os foguetes lunares na prancheta de Werner. Violava qualquer lei conhecida da aerodin�mica e tamb�m a relatividade de Einstein.</p><p>Ele veio � noite, a nave toda coberta de luzes, a coisa mais bonita que j� vi. Pousou com um baque no meio do campo de testes, sem foguetes, h�lices, rotores ou qualquer meio de propuls�o vis�vel. A superf�cie externa parecia coral, ou algum tipo de rocha porosa, coberta com espirais e espor�es, como alguma coisa que voc� poderia encontrar em uma caverna de calc�rio ou ver durante um mergulho no fundo do mar.</p><p>Eu estava no primeiro jipe a alcan��-la. Quando cheguei, Tach j� estava do lado de fora. Michael Rennie tinha ficado bem naquele traje espacial azul-prateado, mas Tachyon parecia o cruzamento de um dos tr�s mosqueteiros com um artista de circo. N�o me importo de dizer que todos n�s est�vamos com bastante medo de ir at� l�, tanto os garotos dos foguetes e os sabich�es quanto os soldados. Lembro-me daquela transmiss�o do Mercury Theater em 1939, quando Orson Welles fez todo mundo pensar que os marcianos estavam invadindo Nova Jersey, e eu n�o conseguia deixar de pensar que talvez daquela vez estivesse acontecendo de verdade. Mas assim que os holofotes bateram nele, ali, de p� na frente da nave, n�s relaxamos. Ele simplesmente n�o era assustador.</p><p>Era baixo, talvez 1,58, 1,60m, e, para falar a verdade, parecia mais assustado do que n�s. Estava vestindo meias-cal�as verdes com botas embutidas, e uma camisa alaranjada com babados de rendinha afeminados nos pulsos e no colarinho, e uma esp�cie de colete de brocados prateados, bem apertado. O casaco era uma coisa amarelo-lim�o, com uma capa verde sacudindo ao vento atr�s dele e chegando at� o tornozelo. Tinha no alto da cabe�a um chap�u de aba larga com uma comprida pluma vermelha se projetando, mas, quando me aproximei, vi que na verdade era alguma estranha pena pontuda. O cabelo ca�a sobre os ombros; de in�cio, achei que era uma garota. Tamb�m era um tipo de cabelo peculiar, vermelho e brilhante, como fios de cobre finos.</p><p>Eu n�o sabia o que pensar, mas me lembro de um de nossos alem�es comentando que ele parecia um franc�s.</p><p>Assim que chegamos ele foi caminhando lentamente at� o jipe, destemido � caso prefira assim �, se arrastando pela areia com uma grande bolsa enfiada sob o bra�o. Come�ou a nos dizer seu nome, e ainda estava dizendo quando outros quatro jipes chegaram. Falava ingl�s melhor do que a maioria dos nossos alem�es, apesar de ter aquele sotaque esquisito, mas no come�o foi dif�cil ter certeza quando passou dez minutos nos dizendo seu nome.</p><p>Fui o primeiro ser humano a falar com ele. Por Deus que � verdade, e n�o me interessa o que qualquer outra pessoa lhe diga, fui eu. Sa� do jipe, estendi a m�o e disse: �Bem-vindo aos Estados Unidos�. Comecei a me apresentar, mas ele me interrompeu antes que eu conseguisse falar.</p><p>� Herb Cranston, de Cape May, Nova Jersey � disse ele. � Cientista de foguetes. Excelente. Tamb�m sou um cientista.</p><p>Ele n�o se parecia com nenhum cientista que eu tivesse conhecido, mas fiz uma concess�o, j� que vinha do espa�o sideral. Estava mais preocupado sobre como sabia meu nome. Perguntei.</p><p>Ele agitou os babados no ar, impaciente.</p><p>� Eu leio sua mente. Isso n�o � importante. O tempo � curto, Cranston. A nave deles quebrou.</p><p>Achei que ele parecia mais do que um pouco estranho quando disse aquilo; triste, sabe?, sofrido, mas tamb�m assustado. E cansado, muito cansado. Ent�o come�ou a falar sobre o tal globo. Era o globo com o v�rus carta selvagem, claro, todo mundo sabe disso agora, mas na �poca eu n�o tinha ideia de que droga ele estava falando. Disse que isso estava perdido, precisava peg�-lo de volta e esperava, para o bem de todos n�s, que estivesse intacto. Ele queria falar com nossos l�deres. Deve ter lido seus nomes na minha mente, porque citou Werner, Einstein e o presidente, embora o tenha chamado de �esse seu presidente Harry S. Truman�. Ent�o subiu na traseira do jipe e se sentou.</p><p>� Leve-me at� eles � disse. � Imediatamente.</p><p><strong>Professor Lyle Crawford Kent</strong></p><p>Em certo sentido fui eu quem cunhou seu nome. Seu verdadeiro nome, claro, o patron�mico alien�gena, era absurdamente comprido. Lembro que v�rios de n�s tentaram reduzi-lo, usando este ou aquele peda�o durante nossas confer�ncias, mas evidentemente esse era algum tipo de quebra de etiqueta em seu mundo natal, Takis. Ele sempre nos corrigia, de forma bastante arrogante, devo dizer, como um idoso petulante dando uma li��o em um bando de colegiais. Bem, precis�vamos cham�-lo de algo. O t�tulo veio primeiro. Poder�amos t�-lo chamado de �Sua Majestade�, ou algo assim, j� que alegava ser um pr�ncipe, mas os norte-americanos n�o ficam � vontade com esse tipo de rever�ncia. Ele tamb�m disse ser m�dico, embora n�o em nosso sentido da palavra, e � preciso admitir que parecia saber bastante de gen�tica e bioqu�mica, que parecia ser sua especialidade. A maior parte de nossa equipe tinha p�s-gradua��es, e nos dirig�amos uns aos outros devidamente, de modo que parecia natural que pass�ssemos a cham�-lo de �doutor� tamb�m.</p><p>Os cientistas de foguetes estavam obcecados com a nave de nosso visitante, particularmente com a teoria de seu sistema de propuls�o mais r�pida do que a luz. Infelizmente, nosso amigo takisiano havia queimado o impulso interestelar da nave em sua pressa para chegar aqui antes de seus parentes e, al�m disso, se recusou categoricamente a permitir que qualquer um de n�s, civil ou militar, inspecionasse o interior de sua nave. Werner e os alem�es ficaram limitados a questionar o alien�gena sobre o impulso, de forma bastante obsessiva, achei. Pelo que eu entendia, a f�sica te�rica e a tecnologia da viagem espacial n�o eram disciplinas em que nosso visitante fosse particularmente especializado, ent�o as respostas que lhes deu n�o eram muito claras, mas compreendemos que o impulso fazia uso de uma part�cula at� ent�o desconhecida que viajava mais r�pido do que a luz.</p><p>O alien�gena tinha um termo para a part�cula, t�o impronunci�vel quanto seu pr�prio nome. Bem, eu tinha algum conhecimento de grego cl�ssico, como todos os homens instru�dos, e um talento para nomenclatura, se � que posso dizer isso. Fui eu que cunhei o termo �tachyon�. De alguma forma os soldados confundiram as coisas e come�aram a se referir ao nosso visitante como �aquele sujeito tachyon�. O nome pegou, e da� foi um pulo para doutor Tachyon, o nome pelo qual ficou conhecido na imprensa.</p><p><strong>Coronel Edward Reid, Servi�o de Informa��es do Ex�rcito dos EUA (Aposent.)</strong></p><p>Voc� quer que eu diga, certo? Todo maldito rep�rter que fala comigo quer que eu diga. Tudo bem, a� vai. Cometemos um erro. E tamb�m pagamos por ele. Sabe que depois eles chegaram muito perto de mandar todos n�s para a corte marcial, toda a equipe de interrogat�rio? Isso � um fato.</p><p>O inferno � que n�o sei como � que se poderia esperar que fiz�ssemos as coisas de forma diferente da que fizemos. Eu estava encarregado desse interrogat�rio. Eu deveria saber.</p><p>O que realmente sab�amos sobre ele? Nada al�m do que ele mesmo nos disse. Os sabich�es o tratavam como o Menino Jesus, mas os militares t�m de ser um pouco mais cautelosos. Se voc� quer entender, se coloque no nosso lugar e se lembre de como era na �poca. A hist�ria dele era completamente absurda, e ele n�o podia provar porcaria nenhuma.</p><p>Certo, ele havia aterrissado naquele avi�o-foguete de apar�ncia engra�ada, s� que n�o tinha foguetes. Isso foi impressionante. Talvez aquele avi�o <emphasis>tivesse</emphasis> vindo do espa�o sideral, como ele disse. Mas talvez n�o tivesse. Talvez fosse um daqueles projetos secretos em que os nazistas trabalhavam, sobras da guerra. Voc� sabe que no final eles tinham jatos e aqueles V-2, e estavam at� mesmo trabalhando na bomba at�mica. Talvez fosse russo. Eu n�o sabia. Se pelo menos Tachyon tivesse nos deixado examinar a nave, nossos rapazes poderiam ter descoberto de onde ela vinha, tenho certeza. Mas ele n�o deixou ningu�m entrar na maldita coisa, o que me pareceu bastante suspeito. O que ele estava tentando esconder?</p><p>Ele disse que vinha do planeta Takis. Bem, nunca ouvi falar em nenhum maldito planeta Takis. Marte, V�nus, J�piter, certamente. At� mesmo Mongo e Barsoom. Mas Takis? Liguei para 12 astr�nomos renomados de todo o pa�s, at� mesmo para um cara na Inglaterra. Perguntei: onde fica o planeta Takis? N�o existe planeta Takis, responderam.</p><p>Ele devia ser um alien�gena, certo? N�s o examinamos. Exame f�sico completo, raios X, uma bateria de testes psicol�gicos, tudo. O resultado foi humano. N�o importava como o vir�vamos, o resultado era humano. Nada de �rg�os extras, nada de sangue verde; cinco dedos nas m�os, cinco dedos nos p�s, duas bolas e um pau. O desgra�ado n�o era diferente de voc� ou de mim. Falava <emphasis>ingl�s</emphasis>, por Deus. Mas olha isto: tamb�m falava <emphasis>alem�o</emphasis>. E russo, e franc�s, e algumas outras l�nguas que esqueci. Fiz grava��es de duas das minhas sess�es com ele e mostrei-as a um linguista, que disse que o sotaque era da Europa Central.</p><p>E os psiquiatras, uau, voc� deveria ouvir seus relatos. Paranoico cl�ssico, disseram. Megalomania, disseram. Esquizo, disseram. Todo tipo de coisa. Quero dizer, esse cara alegava ser um <emphasis>pr�ncipe</emphasis> do <emphasis>espa�o sideral</emphasis> com malditos <emphasis>poderes</emphasis> m�gicos, que tinha vindo para c� <emphasis>sozinho</emphasis> a fim de salvar nosso maldito planeta. Isso soa razo�vel a voc�?</p><p>E deixe-me dizer uma coisa sobre seus malditos poderes m�gicos. Tenho de admitir, mas era a coisa que mais me incomodava. Quero dizer, Tachyon podia n�o apenas dizer o que voc� estava pensando, mas olhar engra�ado e fazer voc� pular em cima da mesa e baixar as cal�as, quisesse voc� ou n�o. Passei horas com ele todos os dias e ele <emphasis>me</emphasis> convenceu. A coisa � que meus relatos n�o convenceram os figur�es na Costa Leste. Algum tipo de truque, pensaram, estava nos hipnotizando, lendo nossa postura corporal, usando psicologia para nos fazer pensar que l� mentes. Mandariam um hipnotizador de palco para descobrir como fazia isso, mas a merda bateu no ventilador antes que conseguissem.</p><p>Ele n�o pedia muito. Tudo o que queria era um encontro com o presidente para que pudesse mobilizar todas as for�as armadas norte-americanas a fim de procurar uma nave espacial acidentada. Tachyon estaria no comando, claro, ningu�m mais era qualificado. Nossos principais cientistas seriam seus ajudantes. Ele queria radar, jatos, submarinos, c�es farejadores e m�quinas esquisitas das quais ningu�m havia ouvido falar. Diga o nome de alguma coisa, e ele tamb�m iria querer. E tamb�m n�o queria ter de consultar ningu�m. Se voc� quer saber a verdade, aquele cara se vestia como uma cabeleireira bichinha, mas pelo modo como dava ordens voc� pensaria que tinha pelo menos tr�s estrelas.</p><p>E por qu�? Ah, sim, sua hist�ria, isso certamente era �timo. Disse que no seu planeta Takis duas d�zias de grandes fam�lias comandam tudo, como a realeza, s� que todas t�m poderes m�gicos e mandavam em todos os outros que n�o tinham poderes m�gicos. Essas fam�lias passavam a maior parte do tempo em rixa, como os Hartfield e os McCoy. Seu grupo, em particular, tinha uma arma secreta na qual estavam trabalhando havia dois s�culos. Um v�rus artificial feito sob medida, projetado para interagir com a composi��o gen�tica do organismo hospedeiro, disse. Ele havia participado do grupo de pesquisa.</p><p>Bem, eu estava lhe dando corda. Perguntei o que aquele germe fazia. E olha s�: ele fazia <emphasis>tudo</emphasis>.</p><p>Segundo Tachyon, o que ele <emphasis>devia</emphasis> fazer era acelerar os poderes mentais deles, talvez at� mesmo lhes dar novos poderes, transform�-los em semideuses, o que certamente lhes daria uma vantagem sobre os outros. Mas nem sempre funcionava assim. Algumas vezes, sim. Mas com maior frequ�ncia matava as cobaias. Ficou falando em como aquela coisa era mortal e conseguiu me dar arrepios. Quais eram os sintomas?, perguntei. Sab�amos sobre armas biol�gicas desde 1946; s� para o caso de estar dizendo a verdade, queria saber o que procurar.</p><p>Ele n�o conseguiu me dizer os sintomas. Havia todo tipo de sintoma. Todos tinham sintomas diferentes, cada pessoa. J� ouviu falar de um germe que funcione assim? Eu n�o.</p><p>Ent�o Tachyon disse que algumas vezes transformava as pessoas em aberra��es em vez de mat�-las. Que tipo de aberra��es?, perguntei. Todos os tipos, disse ele. Admiti que isso parecia muito ruim e perguntei por que o pessoal dele n�o havia usado essa coisa nas outras fam�lias. Porque algumas vezes o v�rus funcionava, falou; refazia as v�timas, lhes dava poderes. Que tipos de poder? Todos os tipos de poderes, naturalmente.</p><p>Ent�o eles tinham essa coisa. N�o queriam us�-la nos inimigos e talvez lhes dar poder. N�o queriam usar neles mesmos e matar metade da fam�lia. N�o queriam esquecer a coisa toda. Decidiram testar em n�s. Por que n�s? Porque �ramos geneticamente id�nticos aos takisianos, disse, a �nica ra�a da qual tinham conhecimento, e o v�rus era projetado para funcionar no gen�tipo takisiano. Por que t�nhamos tanta sorte? Alguns deles achavam que era evolu��o paralela, outros acreditavam que a Terra era uma col�nia takisiana perdida � ele n�o sabia e n�o se importava.</p><p>Ele se importava com a experi�ncia. Achava que era �ign�bil�. Ele protestou, disse, mas o ignoraram. A nave partiu. E Tachyon decidiu det�-los sozinho. Veio atr�s deles em uma nave menor, queimou o maldito impulso tachyon para chegar antes deles. Embora fosse da fam�lia, mandaram que sumisse quando os interceptou e houve uma esp�cie de batalha espacial. A nave dele foi danificada, a deles, incapacitada, ent�o ca�ram. Em algum lugar a leste, disse. Ele os perdeu por causa dos danos em sua nave. Ent�o aterrissou em White Sands, onde achou que poderia conseguir ajuda.</p><p>Registrei a hist�ria toda em meu gravador. Depois o Servi�o de Informa��es do Ex�rcito entrou em contato com todo tipo de especialista: bioqu�micos, m�dicos, pessoal de guerra bacteriol�gica, tudo em que voc� pensar. Um v�rus alien�gena, dissemos a eles, sintomas totalmente aleat�rios e imprevis�veis. Imposs�vel, disseram. Totalmente absurdo. Um deles me deu uma aula sobre como germes da Terra nunca poderiam afetar marcianos como naquele livro de H.G. Wells, e germes marcianos tamb�m n�o podiam nos afetar. Todos concordaram em que essa coisa de sintomas aleat�rios era ris�vel. Ent�o, o que dever�amos fazer? Todos fizemos piada sobre a gripe marciana e a febre do espa�onauta. Algu�m, n�o lembro quem, chamou-o de v�rus carta selvagem em um relat�rio e o restante de n�s passou a usar o nome, mas ningu�m acreditou nisso por um segundo.</p><p>Era uma situa��o ruim e Tachyon s� a tornou pior quando tentou fugir. Ele quase conseguiu, mas, como meu velho sempre me dizia, �quase� s� vale para ferraduras e granadas. O Pent�gono havia mandado seu pr�prio homem para interrog�-lo, um coronel da Aeron�utica chamado Wayne, e Tachyon enfim se cansou, acho. Ele assumiu o controle do coronel Wayne e simplesmente sa�ram marchando juntos do pr�dio. Sempre que eram barrados, Wayne ordenava que os deixassem passar, e a patente tem seus privil�gios. O disfarce era que Wayne tinha ordem de escoltar Tachyon de volta a Washington. Requisitaram um jipe e foram at� a espa�onave, mas nesse momento uma das sentinelas havia verificado comigo, e meus homens esperavam por eles com ordens diretas de ignorar qualquer coisa que o coronel Wayne dissesse. N�s o levamos de volta sob cust�dia e o mantivemos l�, sob guarda refor�ada. Apesar de todos os poderes m�gicos, n�o havia muito que pudesse fazer. Podia obrigar uma pessoa a realizar o que queria, talvez tr�s ou quatro, se realmente se esfor�asse, mas n�o todos n�s, e j� est�vamos atentos aos seus truques.</p><p>Talvez tenha sido uma manobra idiota, mas a tentativa de fuga conseguiu para ele o encontro que pedia com Einstein. O Pent�gono continuava nos dizendo que ele era o maior hipnotizador do mundo, mas eu n�o estava mais engolindo aquilo, e voc� deveria ter ouvido o que o coronel Wayne pensava da teoria. Os sabich�es tamb�m estavam ficando agitados. De qualquer forma, Wayne e eu conseguimos arrancar uma autoriza��o para levar o prisioneiro de avi�o a Princeton. Imaginei que uma conversa com Einstein n�o poderia fazer mal e, quem sabe, pudesse ser algo bom. A nave dele estava sob cust�dia e j� hav�amos arrancado do homem tudo o que pod�amos. Einstein supostamente era o maior c�rebro do mundo, ent�o talvez conseguisse descobrir qual era a do sujeito, certo?</p><p>Ainda h� aqueles que dizem que os militares s�o culpados por tudo o que aconteceu, mas isso n�o � verdade. � f�cil ser esperto retrospectivamente, mas eu estava l� e vou afirmar at� morrer que os passos que demos foram racionais e prudentes.</p><p>A coisa que realmente me irrita � quando falam que n�o fizemos nada para rastrear aquele maldito globo com os esporos do carta selvagem. Talvez tenhamos cometido um equ�voco, certo, mas n�o �ramos idiotas, est�vamos protegendo nossos traseiros. Cada maldita instala��o militar do pa�s recebeu a ordem de ficar atenta a uma espa�onave ca�da que parecesse algo como uma concha com luzes de navega��o. � culpa minha que nenhuma delas tenha levado isso a s�rio, droga?</p><p>Pelo menos me d� o cr�dito de uma coisa. Quando o inferno come�ou, coloquei Tachyon em um jato para Nova York em duas horas. Estava na poltrona atr�s dele. O ruivo covarde chorou metade da maldita viagem atrav�s do pa�s. J� eu, rezei por Jetboy.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Trinta minutos</strong></p><empty-line/><p><strong>
    sobre a Broadway!</strong></p><p><strong>A �LTIMA AVENTURA DE JETBOY!</strong></p><p>Howard Waldrop</p><p>O Campo de Avia��o Bonham, em Shantak, Nova Jersey, estava fechado em raz�o do mau tempo. O pequeno holofote na torre mal expulsava a escurid�o no nevoeiro rodopiante.</p><p>Houve o som de pneus de carro no piso molhado em frente ao hangar 23. Uma porta de carro se abriu, um momento depois se fechou. Passos alcan�aram a porta de servi�o. Ela se abriu. Scoop Swanson entrou, carregando sua Kodak Autograph Mark II e uma bolsa de l�mpadas de flash e filmes.</p><p>Lincoln Traynor se ergueu do motor do P-40 excedente, que estava reformando para um piloto de linha a�rea que o comprou em um leil�o por 293 d�lares. A julgar pela forma do motor, devia ter sido pilotado pelos Tigres Voadores, em 1940. O r�dio na bancada de trabalho transmitia um jogo. Linc diminuiu o som.</p><p>� Oi, Linc � disse Scoop.</p><p>� Oi.</p><p>� Nada ainda?</p><p>� N�o, estou esperando. O telegrama que ele mandou ontem disse que chegaria esta noite. � o suficiente para mim.</p><p>Scoop acendeu um Camel com uma caixa de f�sforos Three Torches que pegou na bancada. Soprou fuma�a na dire��o da placa de �Absolutamente Proibido Fumar� nos fundos do hangar.</p><p>� Ei, o que � isso? � Ele caminhou at� os fundos. Ainda em suas embalagens, havia duas extens�es de asa vermelhas e dois tanques de cerca de mil litros em forma de gota para instalar sob as asas.</p><p>� A For�a A�rea enviou ontem de S�o Francisco. Chegou outro telegrama para ele hoje. Voc� deveria ler, � quem est� escrevendo a hist�ria.</p><p>Linc lhe deu as ordens do Departamento de Guerra.</p><p>PARA: Jetboy (Tomlin, Robert NMI)</p><p>ORIGEM: Campo de Avia��o Bonham</p><p>Hangar 23</p><p>Shantak, Nova Jersey</p><p>1. Efetivo esta data 1.200 horas Zulu, 12 de agosto de 1946, voc� n�o est� mais em servi�o ativo, For�a A�rea do Ex�rcito dos Estados Unidos.</p><p>2. Sua aeronave (modelo experimental � no serv. JB-1) est� por meio deste retirada da ativa, For�a A�rea do Ex�rcito dos Estados Unidos, e repassada a voc� como aeronave particular. Material de apoio da FAEUA ou do Departamento de Guerra n�o ser� mais enviado.</p><p>3. Registros, comendas e pr�mios repassados em envio separado.</p><p>4. Nossos registros mostram que Tomlin, Robert NMI n�o obteve brev�. Por favor, entre em contato com CAB para cursos e certifica��o.</p><p>5. C�u limpo e de vento em popa.</p><p>
      Por</p><p>
      Arnold, H.H.</p><p>
      CEM, FAEUA</p><p>ref: Ordem executiva #2, 8 de dezembro de 1941</p><p>� O que � essa coisa de ele n�o ter brev�? � perguntou o jornalista. � Vasculhei o arquivo sobre ele; tem trinta cent�metros de espessura. Droga, ele deve ter voado mais r�pido e mais longe, derrubado mais avi�es que qualquer um... quinhentos avi�es, cinquenta navios! Ele fez isso sem um brev�?</p><p>Linc limpou gordura do bigode.</p><p>� �. Aquele era o garoto mais louco por avi�es que eu j� vi. Em 1939, n�o podia ter mais de 12 anos, ouviu falar que havia um emprego aqui. Apareceu �s quatro da manh�; fugiu do orfanato para fazer isso. Vieram peg�-lo. Mas � claro que o professor Silverberg o contratou, acertou isso com eles.</p><p>� Silverberg, o que os nazistas mataram friamente? O cara que fez o jato?</p><p>� �. Anos � frente de todo mundo, mas esquisito. Montei o avi�o para ele, Bobby e eu fizemos isso � m�o. Mas Silverberg fez os jatos; os motores mais desgra�ados que j� vi. Os nazistas e os italianos, e Whittle, na Inglaterra, haviam come�ado os deles. Mas os alem�es descobriram que alguma coisa estava acontecendo aqui.</p><p>� Como o garoto aprendeu a voar?</p><p>� Acho que ele sempre soube � disse Lincoln. � Um dia ele est� aqui me ajudando a dobrar metal. No dia seguinte, ele e o professor est�o voando a 650 quil�metros por hora. No escuro, com aqueles primeiros motores.</p><p>� Como eles mantiveram o segredo?</p><p>� N�o muito bem, os espi�es vieram atr�s de Silverberg; queriam ele <emphasis>e</emphasis> o avi�o. Bobby tinha sa�do com ele. Acho que ele e o professor sabiam que havia alguma coisa. Silverberg lutou tanto que os nazistas o mataram. Depois foi o esc�ndalo diplom�tico. Na �poca o JB-1 s� tinha seis armas calibre .30, e n�o sei onde o professor as arrumou. Mas o garoto cuidou do carro cheio de espi�es com isso, e aquela lancha no Hudson cheia de gente da embaixada. Todos com vistos diplom�ticos.</p><p>� S� um segundo � Linc se interrompeu. � Fim de uma rodada dupla em Cleveland. Na Blue Network.</p><p>Ele aumentou o volume do r�dio Philco de metal que estava acima do quadro de ferramentas.</p><p><emphasis>�... Sanders para Papenfuss, para Volstad, uma jogada dupla. � isso. Ent�o o Sox perdeu dois para o Cleveland. Voltaremos...�</emphasis></p><p>Linc desligou.</p><p>� L� se v�o cinco pratas � disse ele. � Onde eu estava?</p><p>� Os alem�es mataram Silverberg e Jetboy se vingou. Ele foi para o Canad�, certo?</p><p>� Se juntou � For�a A�rea canadense extraoficialmente. Lutou na Batalha da Gr�-Bretanha, foi para a China com os Tigres contra os japas, estava de volta � Gr�-Bretanha para Pearl Harbor.</p><p>� E Roosevelt o colocou no servi�o ativo?</p><p>� Mais ou menos. Sabe, tem uma coisa engra�ada sobre a carreira dele. Ele luta a guerra <emphasis>inteira</emphasis>, mais que qualquer outro norte-americano, do final de 1939 at� 1945, e ent�o, bem no final, desaparece no Pac�fico. Durante um ano todos achamos que estava morto. Ent�o eles o acham naquela ilha deserta m�s passado e agora est� voltando para casa.</p><p>Houve um zumbido alto e fino, como um avi�o a h�lice em um mergulho. Vinha do c�u nebuloso do lado de fora. Scoop pegou o terceiro Camel.</p><p>� Como ele consegue pousar nesta sopa?</p><p>� Tem um radar para todos os climas, tirou de um ca�a noturno alem�o em 1943. Poderia pousar aquele avi�o na lona de um circo � meia-noite.</p><p>Eles foram at� a porta. Duas luzes de aterrissagem, girando, perfuraram a neblina. Elas baixaram at� a extremidade oposta da pista, se viraram e voltaram pela pista de taxiar.</p><p>A fuselagem vermelha brilhava � luz envolta em cinza da pista de pouso. O bimotor de asa alta virou na dire��o deles e deslizou at� parar.</p><p>Linc Traynor colocou um conjunto de travas duplas sob cada um dos dois trens de pouso traseiros de tr�s rodas. Metade do nariz de vidro do avi�o se levantou e deslizou para tr�s. O avi�o tinha tr�s proje��es de canh�es de 20 mm na base das asas entre os motores e uma abertura para 75 mm abaixo e � esquerda da borda da cabine.</p><p>Tinha um leme alto e fino e os profundores traseiros tinham a forma da cauda de uma truta de rio. Sob cada profundor havia a abertura para um cano de metralhadora voltado para tr�s. As �nicas marcas no avi�o eram quatro estrelas fora do padr�o da FAEUA em um medalh�o negro e o n�mero de s�rie JB-1 no alto da asa traseira direita e no fundo da esquerda, e abaixo do leme.</p><p>As antenas de radar no nariz pareciam algo em que se podia grelhar salsichas.</p><p>Um garoto vestindo cal�as vermelhas, camisa branca, capacete azul e �culos saiu da cabine e pisou na escada deslizante do lado esquerdo.</p><p>Tinha 19, talvez 20. Tirou capacete e �culos. Tinha cabelos castanho-claros encaracolados, olhos castanhos e era baixo e corpulento.</p><p>� Linc � disse ele. Abra�ou o homem gorducho, dando tapinhas em suas costas durante um minuto inteiro. Scoop tirou uma foto.</p><p>� �timo ter voc� de volta, Bobby � exclamou Linc.</p><p>� Ningu�m me chama assim h� anos. � realmente bom ouvir isso de novo.</p><p>� Este � Scoop Swanson � disse Linc. � Ele vai te fazer famoso novamente.</p><p>� Eu preferia dormir � comentei, apertando a m�o do rep�rter. � H� algum lugar por aqui onde possamos comer ovos com presunto?</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O barco se dirigiu � doca em meio ao nevoeiro. No porto, um navio terminou de limpar os por�es e estava se virando para seguir rumo ao sul.</p><p>Havia tr�s homens na amarra��o: Fred, Ed e Filmore. Um homem saiu do barco com uma maleta nas m�os. Filmore se inclinou e deu uma nota de cinco e duas de vinte ao cara no leme do barco. Depois ajudou o sujeito com a maleta.</p><p>� Bem-vindo ao lar, Dr. Tod.</p><p>� � bom estar de volta, Filmore. � Tod vestia um terno folgado e um sobretudo, embora fosse agosto. Levava o chap�u baixado sobre o rosto, e deste um brilho met�lico refletia as luzes fracas de um armaz�m.</p><p>� Este � Fred e este � Ed � disse Filmore. � Eles est�o aqui apenas para a noite.</p><p>� Oi � disse Fred.</p><p>� Oi � disse Ed.</p><p>Caminharam de volta at� o carro, um Merc 46 que parecia um submarino. Entraram, com Fred e Ed vigiando os becos enevoados dos dois lados. Depois Fred foi para tr�s do volante e Ed, para o banco do carona. Com uma escopeta calibre dez.</p><p>� Ningu�m est� esperando por mim. Ningu�m se importa � disse o Dr. Tod. � Todos que tinham algo contra mim est�o mortos ou se tornaram respeit�veis durante a guerra e fizeram fortuna. Sou um homem velho e cansado. Vou para o interior criar abelhas, apostar em cavalos e investir na bolsa.</p><p>� N�o est� planejando nada, chefe?</p><p>� Absolutamente nada.</p><p>Ele virou a cabe�a quando passaram por um poste de luz. Metade de seu rosto havia desaparecido e uma placa lisa ia do queixo at� a linha do chap�u, da narina � orelha esquerda.</p><p>� Para come�ar, n�o consigo mais atirar. Minha no��o de profundidade n�o � como costumava ser.</p><p>� N�o surpreende � disse Filmore. � Ouvimos dizer que alguma coisa aconteceu em 1943.</p><p>� Eu estava em uma opera��o um tanto lucrativa fora do Egito, enquanto o Afrika Korps desmoronava. Levando pessoas de um lado para o outro por uma taxa, em avi�es supostamente neutros. S� uma atividade paralela. Ent�o dei de cara com aquele aviador metido.</p><p>� Quem?</p><p>� O garoto com o avi�o a jato, antes de os alem�es terem um.</p><p>� Vou lhe dizer a verdade, chefe, n�o acompanhei muito a guerra. Fico pensando nos efeitos a longo prazo de conflitos puramente territoriais.</p><p>� Como eu deveria ter feito � disse o Dr. Tod. � Est�vamos saindo da Tun�sia. Havia umas pessoas importantes conosco naquela viagem. O piloto gritou. Houve uma tremenda explos�o. O que me lembro � de acordar na manh� seguinte e �ramos eu e outra pessoa em um bote salva-vidas no meio do Mediterr�neo. Meu rosto doendo. Eu me levantei. Alguma coisa caiu no fundo do bote. Era meu olho esquerdo. Estava olhando para mim. Eu sabia que estava com problemas.</p><p>� Disse que era um garoto com um avi�o a jato? � indagou Ed.</p><p>� Sim. Descobrimos depois que decifraram nosso c�digo e ele havia voado quase mil quil�metros para nos interceptar.</p><p>� Quer se vingar? � perguntou Filmore.</p><p>� N�o. Foi h� tanto tempo que mal me lembro daquele lado do meu rosto. Isso s� me ensinou a ser um pouco mais cuidadoso. Encarei como constru��o do car�ter.</p><p>� Ent�o nada de planos, n�?</p><p>� Nem mesmo um � afirmou o Dr. Tod.</p><p>� Vai ser bom, pra variar � disse Filmore.</p><p>Eles viram as luzes da cidade passando.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Ele bateu na porta, desconfort�vel em seu novo terno marrom com colete.</p><p>� Entre, est� aberta � respondeu uma voz de mulher. E, em seguida, a voz abafada: � Estarei pronta em um minuto.</p><p>Jetboy abriu a porta de carvalho do sagu�o e entrou no aposento, passando pela divis�ria de tijolos de vidro.</p><p>Uma bela mulher estava de p� no meio da sala, o vestido nos bra�os erguidos � altura da cabe�a. Vestia corpete, cinta-liga e meias de seda. Puxava o vestido para baixo com uma das m�os.</p><p>Jetboy virou a cabe�a, corado e chocado.</p><p>� Oh � disse a mulher. � Oh! Eu... Quem?</p><p>� Sou eu, Belinda � disse ele. � Robert.</p><p>� Robert?</p><p>� Bobby, Bobby Tomlin.</p><p>Ela o encarou por um momento, as m�os cruzadas sobre a frente do corpo, embora estivesse totalmente vestida.</p><p>� Ah, Bobby � disse ela, indo at� ele, abra�ando-o e dando-lhe um grande beijo na boca.</p><p>Era o que ele havia esperado durante seis anos.</p><p>� Bobby. �timo ver voc�. Eu... Eu estava esperando outra pessoa. Algumas... Amigas. Como me encontrou?</p><p>� Bem, n�o foi f�cil.</p><p>Ela recuou.</p><p>� Deixe-me olhar para voc�.</p><p>Ele olhou para ela. Na �ltima vez em que a viu, ela tinha 14 anos, parecia um garoto, ainda no orfanato. Era uma garota magra, com cabelos louros escuros. Uma vez, quando ela tinha 11 anos, quase o nocauteou. Era um ano mais velha do que ele.</p><p>Ent�o ele foi embora, trabalhar no campo de avia��o, depois lutar com os brit�nicos contra Hitler. Escreveu para ela sempre que p�de durante a guerra, ap�s a entrada dos norte-americanos. Ela havia deixado o orfanato e sido colocada em um lar adotivo. Em 1944 uma de suas cartas voltou com a marca��o �Mudou-se sem deixar endere�o�. Ent�o ele ficou perdido no �ltimo ano.</p><p>� Voc� tamb�m mudou � disse ele.</p><p>� Assim como voc�.</p><p>� �.</p><p>� Acompanhei os jornais durante a guerra. Tentei escrever para voc�, mas acho que as cartas nunca chegaram. Depois disseram que voc� havia desaparecido no mar e eu meio que desisti.</p><p>� Bem, desapareci, mas me encontraram. Agora estou de volta. Como tem passado?</p><p>� Muito bem, desde que fugi do lar adotivo � disse, uma express�o de dor passando pelo rosto. � N�o sabe como fiquei contente de sumir dali. Ah, Bobby. Ah, queria que as coisas fossem diferentes! � Ela come�ou a chorar.</p><p>� Ei � disse ele, segurando-a pelos ombros. � Sente-se. Tenho uma coisa para voc�.</p><p>� Um presente?</p><p>� � � respondeu, dando-lhe um pacote de papel sujo e manchado de �leo. � Carreguei isso comigo durante os dois �ltimos anos da guerra. Estavam no avi�o comigo na ilha. Desculpe por n�o ter tido tempo de fazer outro embrulho.</p><p>Ela rasgou o papel pardo. Dentro havia exemplares de <emphasis>O ursinho Pooh</emphasis> e <emphasis>The Tale of the Fierce Bad Rabbit</emphasis>.</p><p>� Ah � disse Belinda. � Obrigada.</p><p>Ele se lembrou dela vestindo o macac�o do orfanato, tendo acabado de entrar suja e cansada de um jogo de beisebol, deitada no ch�o da sala de leitura com um livro do ursinho Pooh aberto diante dela.</p><p>� O livro de Pooh est� autografado pelo pr�prio Christopher Robin � contou. � Descobri que era oficial da RAF em uma das bases na Inglaterra. Ele disse que n�o costumava fazer esse tipo de coisa, que era apenas outro aviador. Falei que n�o contaria a ningu�m. Mas eu havia procurado por toda parte at� encontrar um exemplar, e ele sabia disso.</p><p>� Este outro tem uma hist�ria. Eu estava voltando quase ao anoitecer, escoltando uns B-17 com problemas. Ergui os olhos e vi dois ca�as noturnos alem�es chegando, provavelmente em patrulha, tentando pegar uns Lancaster antes que passassem sobre o Canal.</p><p>� Para resumir, derrubei os dois; eles ca�ram perto de um pequeno vilarejo. Mas eu havia ficado sem combust�vel e tive que descer. Vi um belo e plano pasto de ovelhas com um lago na extremidade e pousei.</p><p>� Quando sa� da cabine, vi uma dama e um <emphasis>sheepdog</emphasis> � beira do campo. Ela tinha uma escopeta. Quando chegou perto o bastante para ver os motores e os adesivos, ela disse, �Boa pontaria! N�o quer entrar para jantar e usar o telefone para ligar para o Comando de Ca�a?�</p><p>� Pod�amos ver os dois ME-110 queimando a dist�ncia.</p><p>� Voc� � o famoso Jetboy. Temos acompanhado seus feitos no jornal de Sawrey. Sou a Sra. Heelis, disse ela, estendendo a m�o.</p><p>� Eu a apertei.</p><p>� Sra. William Heelis? E aqui � Sawrey?�</p><p>� Sim � respondeu.</p><p>� Voc� � Beatrix Potter � falei.</p><p>� Suponho que sim � disse ela.</p><p>�Belinda, l� estava aquela velha e corpulenta senhora, com um su�ter pu�do e um velho vestido liso. Mas quando sorriu, eu juro, toda a Inglaterra se iluminou!</p><p>Belinda abriu o livro. Na folha de guarda estava escrito:</p><p>Para a amiga norte-americana de Jetboy,</p><empty-line/><p>
    Belinda,</p><empty-line/><p>
    da</p><empty-line/><p>
    Sra. William Heelis</p><empty-line/><p>
    (�Beatrix Potter�)</p><empty-line/><p>
    12 de abril de 1943</p><p>Jetboy tomou o caf� que Belinda fez para ele.</p><p>� Onde est�o seus amigos?</p><p>� Bem, ele... Eles j� deviam estar aqui. Estava pensando em descer at� o telefone e ligar para eles. Posso adiar e ficamos aqui falando sobre os velhos tempos. Realmente posso ligar.</p><p>� N�o � falou Jetboy. � Vamos fazer assim: ligo para voc� depois, durante a semana; podemos sair juntos uma noite quando n�o estiver ocupada. Seria divertido.</p><p>� Seria mesmo.</p><p>Jetboy se levantou para sair.</p><p>� Obrigada pelos livros, Bobby. Significam muito para mim, mesmo.</p><p>� � realmente bom ver voc� novamente, Bee.</p><p>� Ningu�m me chama assim desde o orfanato. Ligue logo, certo?</p><p>� Com certeza � disse, se inclinando e beijando-a novamente.</p><p>Ele caminhou at� as escadas. Quando estava descendo, um cara com um terno <emphasis>zoot</emphasis> ajustado � cal�as largas de boca apertada, palet� comprido, corrente de rel�gio, gravata-borboleta do tamanho de um cabide, cabelo engomado para tr�s, fedendo a Brylcreem e Old Spice � subiu as escadas de dois em dois degraus, assoviando �It Ain�t the Meat, It�s the Motion�.</p><p>Jetboy o ouviu bater na porta de Belinda.</p><p>Do lado de fora, havia come�ado a chover.</p><p>� �timo. Exatamente como em um filme � disse Jetboy.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A noite seguinte estava silenciosa como um cemit�rio.</p><p>Ent�o cachorros come�aram a latir por todo o Pine Barrens. Gatos gritaram. P�ssaros voaram em p�nico de milhares de �rvores, circularam de um lado para o outro na noite escura.</p><p>A est�tica tomou conta de todos os r�dios no nordeste dos Estados Unidos. Aparelhos de televis�o novos brilharam, o volume dobrando. Pessoas reunidas ao redor de Dumonts de nove polegadas deram pulos para tr�s com o barulho e o brilho repentinos, chocados em suas pr�prias salas, em bares e em cal�adas diante de lojas de equipamentos por toda a Costa Leste.</p><p>Para os que estavam ao ar livre, aquela noite quente de agosto foi ainda mais espetacular. Uma fina linha luminosa bem no alto se deslocou, brilhante, ainda caindo. Ent�o se expandiu, o brilho aumentando, transformada em um b�lido azul-esverdeado, pareceu parar e depois se transformou em cem fa�scas cadentes que se apagaram lentamente no c�u escuro estrelado.</p><p>Algumas pessoas disseram ter visto outra luz menor alguns minutos depois. Ela pareceu pairar, depois acelerou na dire��o oeste, ficando mais escura � medida que avan�ava. Os jornais estavam cheios de hist�rias sobre os �foguetes fantasmas� na Su�cia naquele ver�o. Era uma temporada sem muita novidade.</p><p>Alguns telefonemas para o Departamento de Meteorologia ou bases da For�a A�rea do Ex�rcito receberam a resposta de que provavelmente eram desvios da chuva de meteoros delta aquar�dios.</p><p>Em Pine Barrens algu�m sabia que n�o era, embora n�o estivesse com disposi��o para comunicar isso a ningu�m.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Jetboy, vestindo cal�as largas, camisa e jaqueta marrom de aviador, passou pelas portas da Gr�fica Blackwell. Havia uma placa brilhante em vermelho e azul sobre a porta: Lar da Cosh Comics Company.</p><p>Ele parou junto � mesa da recepcionista.</p><p>� Robert Tomlin, vim ver o Sr. Farrell.</p><p>A secret�ria, uma coisinha loura e magra usando �culos de aros alongados para cima que davam a impress�o de que um morcego havia acampado em seu rosto, ficou olhando para ele:</p><p>� O Sr. Farrell faleceu no inverno de 1945. Voc� estava servindo ou algo assim?</p><p>� Algo assim.</p><p>� Gostaria de falar com o Sr. Lowboy? Ele tem o cargo do Sr. Farrell agora.</p><p>� Quem estiver encarregado da hist�ria em quadrinhos de <emphasis>Jetboy</emphasis>.</p><p>O lugar inteiro come�ou a tremer com as impressoras sendo ligadas nos fundos do pr�dio. As paredes do escrit�rio tinham capas extravagantes de revistas em quadrinhos, prometendo coisas que apenas <emphasis>eles</emphasis> podiam oferecer.</p><p>� Robert Tomlin � disse a secret�ria no interfone.</p><p>� <emphasis>(Escrate grinte)</emphasis> nunca ouvi sobre ele <emphasis>(esquique)</emphasis>.</p><p>� Qual � o assunto? � perguntou a secret�ria.</p><p>� Diga a ele que Jetboy quer v�-lo.</p><p>� Ah � disse, olhando para ele. � Desculpe. N�o o reconheci.</p><p>� Ningu�m reconhece.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Lowboy parecia um gnomo do qual todo o sangue havia sido sugado. Era p�lido como Harry Langdon devia ser, como uma erva daninha que tivesse crescido sob uma bolsa de aniagem.</p><p>� Jetboy! � Ele estendeu a m�o que parecia um punhado de larvas de escaravelhos. � Todos n�s achamos que havia morrido at� vermos os jornais semana passada. Voc� � um her�i nacional, sabia disso?</p><p>� N�o me sinto como um.</p><p>� O que posso fazer por voc�? N�o que n�o esteja contente de finalmente conhec�-lo. Mas voc� deve ser um homem ocupado.</p><p>� Bem, para come�ar, descobri que nenhum dos meus cheques de licenciamento e direitos autorais foi depositado em minha conta desde que fui dado como Desaparecido e Considerado Morto no ver�o passado.</p><p>� Como? S�rio? O departamento jur�dico deve ter depositado em ju�zo ou algo assim at� algu�m aparecer reivindicando. Vou mandar acertarem isso.</p><p>� Bem, eu gostaria do cheque agora, antes de sair � afirmou Jetboy.</p><p>� H�? N�o sei se podem fazer isso. Isso � assustadoramente repentino.</p><p>Jetboy o encarou.</p><p>� Certo, certo, vou ligar para a Contabilidade � disse, gritando ao telefone.</p><p>� Ah � disse Jetboy. � Um amigo tem recebido meus exemplares. Verifiquei os registros de circula��o dos dois �ltimos anos. Sei que <emphasis>Jetboy</emphasis> tem vendido 500 mil c�pias por edi��o atualmente.</p><p>Lowboy gritou um pouco mais no telefone. Depois desligou.</p><p>� Eles j� v�o trazer. Mais alguma coisa?</p><p>� N�o gosto do que est� acontecendo � revista � disse Jetboy.</p><p>� O que h� para n�o gostar? Est� vendendo meio milh�o de exemplares por m�s!</p><p>� Para come�ar, o avi�o est� ficando cada vez mais parecido com uma bala. E os artistas curvaram as asas para tr�s, por Deus!</p><p>� Esta � a Era At�mica, garoto. Os meninos hoje n�o gostam de um avi�o que parece uma perna de cordeiro vermelha com cabides se projetando da parte da frente.</p><p>� Bem, ele sempre foi assim. E outra coisa: por que o maldito avi�o ficou azul nos tr�s �ltimos n�meros?</p><p>� N�o fui eu! Eu acho vermelho legal. Mas o Sr. Blackwell enviou um memorando dizendo que nada mais de vermelho a n�o ser para sangue. Ele � um convicto membro da Legi�o Americana.</p><p>� Diga a ele que o avi�o tem de parecer certo e ter a cor certa. E os relat�rios de combate foram repassados. Quando Farrell estava sentado na sua cadeira a hist�ria era sobre voar e combater, e eliminar grupos espi�es, coisas reais. E nunca houve mais do que duas hist�rias de dez p�ginas do Jetboy por n�mero.</p><p>� Quando Farrell estava nesta mesa a revista vendia apenas um quarto de milh�o de exemplares por m�s � disse Lowboy.</p><p>Robert o encarou novamente.</p><p>� Eu sei que a guerra acabou e todos querem uma casa nova e uma excita��o de arregalar os olhos � disse Jetboy. � Mas veja o que encontrei nos �ltimos 18 meses... Eu nunca lutei contra ningu�m como o Undertaker, em um lugar chamado Montanha da Perdi��o. E vamos l�! O Esqueleto Vermelho? Mr. Maggot? Professor Blooteaux? O que � isso com cr�nios e tent�culos? Quer dizer, G�meos Alem�es do Mal? O Macaco Artr�pode, um gorila com seis pares de cotovelos? Onde voc�s arranjam essas coisas?</p><p>� N�o sou eu, s�o os roteiristas. � um bando de malucos, sempre tomando benzedrina e coisas assim. Al�m disso, � isso que as crian�as querem!</p><p>� E quanto �s criaturas voadoras e as mat�rias sobre her�is da avia��o de verdade? Achei que meu contrato determinava pelo menos duas hist�rias por edi��o sobre acontecimentos e pessoas reais.</p><p>� Bem, vamos ter que ver isso novamente. Mas posso lhe dizer que as crian�as n�o querem mais essas coisas. Elas querem monstros, espa�onaves, coisas que as fa�am molhar a cama. Voc� lembra? Voc� tamb�m j� foi crian�a!</p><p>Jetboy pegou um l�pis na mesa.</p><p>� Eu tinha 13 anos quando a guerra come�ou, 15 quando bombardearam Pearl Harbor. Passei seis anos em combate. Algumas vezes acho que nunca fui crian�a.</p><p>Lowboy ficou um tempo em sil�ncio.</p><p>� Vou lhe dizer o que voc� tem que fazer � falou. � Voc� tem que colocar no papel todas as coisas de que n�o gosta nas revistas e mandar para n�s. Mandarei o departamento jur�dico dar uma olhada e vamos tentar fazer algo, resolver as coisas. Claro que imprimimos com tr�s n�meros de anteced�ncia, de modo que s� no dia de A��o de Gra�as as coisas novas v�o aparecer. Ou depois.</p><p>Jetboy suspirou.</p><p>� Entendo.</p><p>� Certamente quero que voc� fique feliz, porque <emphasis>Jetboy</emphasis> � minha hist�ria preferida. N�o, falando s�rio. As outras s�o s� trabalho. Meu Deus, que trabalho: prazos, trabalhar com b�bados ou, pior, tomar conta dos gr�ficos, voc� nem pode imaginar! Mas gosto do trabalho com <emphasis>Jetboy</emphasis>. � especial.</p><p>� Bem, fico contente.</p><p>� Claro, claro � disse Lowboy, tamborilando sobre a mesa. � Por que ser� que est�o demorando tanto?</p><p>� Provavelmente pegando o outro conjunto de livros-caixa.</p><p>� Ei, n�o! N�s estamos limpos aqui! � disse Lowboy, se levantando.</p><p>� Estava s� brincando.</p><p>� Ah. Diga, o jornal falou que voc� estava o qu�, n�ufrago em uma ilha deserta ou coisa assim? Muito duro?</p><p>� Bem, solit�rio. Fiquei cansado de pegar e comer peixe. Era acima de tudo tedioso e perdi tudo. N�o quero dizer estar perdido, quero dizer ter perdido. Fiquei l� de 29 de abril de 1945 at� m�s passado. Em certos momentos achei que fosse enlouquecer. N�o consegui acreditar quando certa manh� ergui os olhos e l� estava o <emphasis>USS</emphasis><emphasis>Reluctant</emphasis> ancorado a menos de dois quil�metros da praia. Disparei um sinal e eles me pegaram. Demorou um m�s para encontrar um lugar para consertar o avi�o, descansar e vir para casa. Estou contente de voltar.</p><p>� Posso imaginar. Ei, muitos animais perigosos na ilha? Quero dizer, le�es, tigres, coisas assim?</p><p>Jetboy riu.</p><p>� Tinha menos de um quil�metro e meio de largura e dois quil�metros de comprimento. Havia p�ssaros e ratos, e alguns lagartos.</p><p>� Lagartos? Grandes? Venenosos?</p><p>� N�o. Pequenos. Devo ter comido metade deles antes de ir embora. Fiquei muito bom com um estilingue feito de um tubo de oxig�nio.</p><p>� R�! Aposto que sim!</p><p>A porta se abriu e um cara alto com camisa suja de tinta entrou.</p><p>� � ele? � perguntou Lowboy.</p><p>� Eu s� o vi uma vez, mas parece com ele � respondeu o homem.</p><p>� Bom o bastante para mim! � disse Lowboy.</p><p>� N�o para mim � disse o contador. � Mostre uma identidade e assine o recibo.</p><p>Jetboy suspirou e fez isso. Olhou para a quantia no cheque. Tinha muito poucos d�gitos na frente do decimal. Ele o dobrou e colocou no bolso.</p><p>� Vou deixar meu endere�o com sua secret�ria para o pr�ximo cheque. E mandarei uma carta com as obje��es esta semana.</p><p>� Fa�a isso. Foi realmente um prazer conhec�-lo. Espero que tenhamos neg�cios longos e pr�speros juntos.</p><p>� Obrigado, acho � disse Jetboy. Ele e o contador sa�ram.</p><p>Lowboy se sentou em sua cadeira girat�ria. Colocou as m�os atr�s da cabe�a e olhou para a estante do outro lado da sala.</p><p>Ent�o disparou para a frente, agarrou o telefone e discou nove para pegar uma linha. Ligou para o roteirista-chefe de <emphasis>Jetboy</emphasis>.</p><p>Uma voz pastosa de ressaca atendeu no 12� toque.</p><p>� Tire toda a merda da sua cabe�a, aqui � Lowboy. Imagine isto: especial de 52 p�ginas, edi��o com uma �nica hist�ria. Pronto? <emphasis>Jetboy na ilha dos dinossauros</emphasis>! Sacou? Vejo muitos homens das cavernas, um grande como voc� chama rex rei. Como? �, � um tiranossauro. Talvez um punhado de soldados japas retardat�rios. Voc� sabe. �, talvez at� mesmo samurais. Quando? Tirados de seu rumo em 1100 d.C? Cristo. Como quiser. Voc� sabe exatamente do que precisamos. Agora � o qu�? Ter�a. Voc� tem at� cinco da tarde de quinta, certo? Pare de reclamar. S�o 150 pratas r�pidas! N�s nos vemos.</p><p>Desligou. Depois chamou um desenhista e disse o que queria para a capa.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Ed e Fred estavam voltando de uma entrega em Pine Barrens.</p><p>Dirigiam um caminh�o basculante de sete metros. Na ca�amba, at� alguns minutos antes, havia cinco metros c�bicos de concreto seco. Oito horas antes tinha sido quatro metros c�bicos e meio de �gua, areia, cascalho e cimento � e um ingrediente secreto.</p><p>O ingrediente secreto havia violado tr�s das cinco Regras Inviol�veis para conduzir um neg�cio an�nimo e livre de impostos no estado.</p><p>Ele havia sido levado por outros empres�rios a um atacadista de material de constru��o, onde aprendeu como funciona um misturador de cimento, de perto e pessoalmente.</p><p>N�o que Ed e Fred tivessem alguma coisa a ver com aquilo. Foram chamados uma hora antes e convidados a dirigir um caminh�o basculante pela floresta por duas mil pratas.</p><p>Estava escuro na floresta, a poucos quil�metros da cidade. N�o parecia que estavam a noventa quil�metros de uma cidade com popula��o de mais de quinhentas pessoas.</p><p>Os far�is revelaram valas em que tudo, de velhos avi�es at� garrafas de �cido sulf�rico, estava disposto em grandes pilhas. Partes do lixo eram novas. Subia um pouco de fuma�a e fogo. Outras brilhavam sem combust�o. Uma po�a de metal borbulhou e estourou quando passaram perto.</p><p>Ent�o eles estavam novamente em meio aos pinheiros, sacudindo nas valas.</p><p>� Ei! � gritou Ed. � Pare!</p><p>Fred enfiou o p� no freio, fazendo o motor morrer.</p><p>� Maldi��o! � exclamou. � Qual � o problema com voc�?</p><p>� Ali atr�s. Juro que vi um cara empurrando uma bola de gude n�on olho de gato do tamanho de Cleveland!</p><p>� Eu n�o vou voltar de jeito nenhum � disse Fred.</p><p>� Ah! Vamos l�. Voc� n�o v� coisas assim todo dia.</p><p>� Merda, Ed! Um dia voc� vai nos matar!</p><p><image l:href="#1"/></p><p>N�o era uma bola de gude. Eles n�o precisavam dos far�is para ver que n�o era uma mina magn�tica. Era um recipiente arredondado que brilhava sozinho, com cores girando. Escondia o homem que o empurrava.</p><p>� Parece um tatu-bola � disse Fred, que tinha estado no Oeste.</p><p>O homem atr�s da coisa piscou para eles, sem conseguir ver al�m dos far�is. Era esfarrapado e sujo, com uma barba manchada de tabaco e cabelos despenteados como palha de a�o.</p><p>Eles chegaram mais perto.</p><p>� � minha! � disse a eles, se colocando na frente da coisa, abrindo os bra�os.</p><p>� Calma, velho � disse Ed. � O que voc� tem a�?</p><p>� Minha passagem para a vida mansa. Voc�s s�o da For�a A�rea?</p><p>� Claro que n�o. Vamos dar uma olhada nisso.</p><p>O homem pegou uma pedra.</p><p>� Para tr�s! Eu encontrei isso onde encontrei o avi�o ca�do. A For�a A�rea vai pagar muito para conseguir essa bomba at�mica de volta!</p><p>� Isso n�o parece com nenhuma bomba at�mica que eu tenha visto � disse Fred. � Olhe o que est� escrito na lateral. N�o � nem ingl�s.</p><p>� Claro que n�o! S� pode ser uma arma secreta. Por isso eles estavam vestidos de modo t�o estranho.</p><p>� Quem?</p><p>� Eu j� falei mais do que queria. Saiam do meu caminho.</p><p>Fred olhou para o velho maluco.</p><p>� Voc� despertou meu interesse. Conte mais � pediu.</p><p>� Sai do meu caminho, rapaz. Eu matei um homem por uma lata de milho uma vez!</p><p>Fred enfiou a m�o no palet�. Ela saiu com uma arma cujo cano parecia um tubo de escoamento.</p><p>� Ele caiu noite passada � disse o velho, com os olhos agitados. � Me acordou. Acendeu o c�u por inteiro. Eu procurei por isso o dia todo, imaginei que a floresta estaria cheia de gente da For�a A�rea e policiais do estado, mas n�o apareceu ningu�m. Encontrei um pouco antes de escurecer. Arrancou tudo. As asas da coisa foram completamente arrancadas quando caiu. Todas aquelas pessoas vestidas de modo estranho espalhadas por l�. Mulheres tamb�m.</p><p>Ele baixou a cabe�a um minuto, vergonha no rosto.</p><p>� De qualquer modo estavam todos mortos. Devia ser um avi�o a jato, n�o encontrei h�lices nem nada. E esta bomba at�mica aqui estava ca�da no meio dos destro�os. Imaginei que a For�a A�rea pagaria bem para t�-la de volta. Uma vez um amigo meu encontrou um bal�o meteorol�gico e deram a ele um d�lar e vinte e cinco. Imagino que isto � um milh�o de vezes mais importante que aquilo!</p><p>Fred riu.</p><p>� Um conto e vinte e cinco, �? Eu dou a voc� dez d�lares por isso.</p><p>� Eu posso conseguir um milh�o!</p><p>Fred puxou o c�o do rev�lver para tr�s.</p><p>� Cinquenta � disse o velho.</p><p>� Vinte.</p><p>� N�o � justo. Mas eu aceito.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� O que voc� vai fazer com isso? � perguntou Ed.</p><p>� Levar para o Sr. Tod � respondeu Fred. � Ele vai saber o que fazer com isso. Ele � do tipo cient�fico.</p><p>� E se for uma bomba at�mica?</p><p>� Bem, eu n�o acho que bombas at�micas tenham tubos de aspers�o. E o velho estava certo. A floresta estaria lotada de gente da For�a A�rea se tivessem perdido uma bomba at�mica. Inferno, s� cinco delas j� foram explodidas. Eles n�o podem ter mais de uma d�zia, e � melhor acreditar que sabem onde cada uma delas est�, o tempo todo.</p><p>� Bem, n�o � uma mina � disse Ed. � O que voc� acha que �?</p><p>� N�o me importa. Se valer dinheiro o Dr. Tod vai dividir conosco. Ele � um cara justo.</p><p>� Para um vigarista � retrucou Ed.</p><p>Eles riram e a coisa chacoalhou na ca�amba do caminh�o basculante.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Os policiais levaram o ruivo a seu escrit�rio e os apresentaram.</p><p>� Por favor, sente-se, doutor � disse A.E. Ele acendeu o cachimbo.</p><p>O homem parecia pouco � vontade, como deveria ap�s dois dias de interrogat�rio pelo Servi�o de Informa��es do Ex�rcito.</p><p>� Eles me contaram o que aconteceu em White Sands e que voc� n�o queria falar com ningu�m al�m de mim � informou A.E. � Ent�o usaram tiopental em voc� e n�o fez efeito?</p><p>� Ele me deixou b�bado � disse o homem, cujos cabelos pareciam alaranjados e amarelados sob aquela luz.</p><p>� Mas voc� n�o falou?</p><p>� Eu disse coisas, mas n�o o que eles queriam ouvir.</p><p>� Muito incomum.</p><p>� Qu�mica sangu�nea.</p><p>A.E. suspirou. Olhou pela janela do escrit�rio de Princeton.</p><p>� Ent�o muito bem. Vou escutar sua hist�ria. N�o estou dizendo que irei acreditar, mas <emphasis>irei</emphasis> escutar.</p><p>� Tudo bem � disse o homem, respirando fundo. � Vamos l�.</p><p>Ele come�ou a falar, de in�cio lentamente, formando as palavras com cuidado, ganhando confian�a � medida que falava. Ent�o come�ou a falar mais r�pido, seu sotaque voltou, um que A.E. n�o conseguiu identificar, algo como um nativo das ilhas Fiji que tivesse aprendido ingl�s com um sueco. A.E. encheu o cachimbo mais duas vezes, depois o deixou apagado ap�s encher uma terceira. Ele se sentou inclinando-se um pouco para a frente, eventualmente concordando, os cabelos grisalhos formando uma aur�ola � luz da tarde.</p><p>O homem terminou.</p><p>A.E. se lembrou do cachimbo, achou um f�sforo e acendeu. Colocou as m�os atr�s da cabe�a. Havia um pequeno furo perto do cotovelo esquerdo do su�ter.</p><p>� Eles nunca acreditar�o em nada disso � falou.</p><p>� N�o ligo, desde que fa�am algo! � disse o homem. � Desde que eu o consiga de volta.</p><p>A.E. olhou para ele.</p><p>� Se acreditarem em voc�, as implica��es de tudo isso ir�o suplantar a raz�o pela qual voc� est� aqui. O fato de que <emphasis>voc�</emphasis> est� <emphasis>aqui</emphasis>, se � que me entende.</p><p>� Bem, o que podemos fazer? Se minha nave ainda estivesse funcionando eu mesmo estaria procurando. Fiz a segunda melhor op��o; pousei onde certamente chamaria aten��o, pedi para falar com voc�. Talvez outros cientistas, institutos de pesquisa...</p><p>A.E. riu.</p><p>� Perdoe-me. Voc� n�o entende como as coisas s�o feitas aqui. Vamos precisar dos militares. Vamos <emphasis>ter</emphasis> os militares e o governo, queiramos ou n�o, ent�o � melhor que os tenhamos nos melhores termos poss�veis, os nossos, desde o come�o. O problema � que voc� tem que pensar em algo que seja plaus�vel para eles e ainda assim os leve a fazer a busca.</p><p>� Vou falar com o pessoal do Ex�rcito sobre voc�, depois telefonar para uns amigos. Acabamos de encerrar uma grande guerra global e muitas coisas podem passar despercebidas, ou se perder na confus�o. Talvez possamos conseguir alguma coisa assim.</p><p>� O problema � que ser� melhor fazer isso de um telefone p�blico. Os policiais militares estar�o junto, ent�o terei que falar baixo. Diga � indagou ele, pegando o chap�u no canto de uma estante abarrotada de livros �, voc� gosta de sorvete?</p><p>� S�lidos de lactose e a��car densos em uma mistura mantida pouco abaixo do ponto de congelamento? � perguntou o homem.</p><p>� Eu lhe garanto que � melhor do que soa, e muito refrescante � disse A.E. Eles passaram pela porta do escrit�rio de bra�os dados.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Jetboy deu um tapinha na lateral danificada do avi�o. Estava no hangar 23. Linc saiu do escrit�rio limpando as m�os em um trapo sujo de graxa.</p><p>� Ei, como foi? � perguntou.</p><p>� �timo. Eles querem o livro de mem�rias. Ser� o grande livro da primavera, se eu conseguir terminar a tempo, ou pelo menos � o que dizem.</p><p>� Continua determinado a vender o avi�o? � perguntou o mec�nico. � Eu certamente odeio v�-lo partir.</p><p>� Bem, essa parte da minha vida est� encerrada. Sinto como se nunca fosse voar novamente, mesmo como passageiro de uma empresa, ser� cedo demais.</p><p>� O que quer que eu fa�a?</p><p>Jetboy olhou para o avi�o.</p><p>� Vou lhe dizer. Coloque as extens�es de asa de grande altitude e os tanques externos. Parece maior e mais brilhante assim. Algu�m de um museu provavelmente comprar�, � o que imagino; estou oferecendo primeiro aos museus. Se isso n�o funcionar, colocaremos an�ncios nos jornais. Tiramos as armas depois se algum cidad�o comprar. Verifique se tudo est� apertado. N�o deve ter sacudido muito na viagem desde S�o Francisco e eles fizeram uma bela reforma no Hickam Field. Avise sobre qualquer coisa que voc� achar que precisa.</p><p>� Certamente.</p><p>� Ligo amanh�, a n�o ser que algo n�o possa esperar.</p><empty-line/><p>AERONAVE HIST�RICA � VENDA: jato bimotor de Jetboy. 2 motores de empuxo de 1.200 lbs, velocidade de 600 mph a 25 mil p�s, alcance 650 milhas, tanques externos 1000 w (tanques e ext. de asa inc.) comprimento 9,5 m, env. 9,9 m (14,7 m ext.). Aceito ofertas razo�veis. � ver e gostar. Em exibi��o no hangar 23 Campo de Avia��o Bonham, Shantak, Nova Jersey.</p><p>Jetboy ficou de p� em frente � vitrine da livraria, olhando para as pir�mides de t�tulos novos. Dava para notar que o racionamento de papel havia acabado. No ano seguinte seu livro seria um deles. N�o apenas uma revista em quadrinhos, mas a hist�ria de sua participa��o na guerra. Ele esperava que fosse suficientemente bom para n�o se perder na multid�o.</p><p>Parecia que, nas palavras de algu�m, todo maldito barbeiro e engraxate que foi convocado havia escrito um livro sobre como ganhou a guerra.</p><p>Havia seis livros de mem�rias de guerra em uma vitrine, de todo tipo de gente, desde um tenente-coronel at� um general de divis�o (ser� que aqueles barbeiros soldados n�o escreviam tantos livros?).</p><p>Talvez tivessem escrito alguns, entre as duas d�zias de romances de guerra que cobriam a outra vitrine.</p><p>Havia dois livros perto da porta, pilhas deles em uma vitrine pr�pria, <emphasis>best-sellers</emphasis>, que n�o eram romances ou mem�rias de guerra. Um se chamava <emphasis>The Grass Hopper Lies Heavy</emphasis>, de algu�m chamado Abendsen (Hawthorne Abendsen, obviamente um pseud�nimo). O outro era um livro grosso intitulado <emphasis>Growing Flowers by Candlelight in Hotel Rooms,</emphasis> de algu�m t�o recatada a ponto de se identificar como �Sra. Charles Fine Adams�. Deve ser um livro de poemas ileg�vel que o p�blico, em sua loucura, tinha adotado. N�o havia explica��o para o gosto.</p><p>Jetboy enfiou as m�os nos bolsos da jaqueta de couro e caminhou at� o cinema mais pr�ximo.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Tod viu a fuma�a subindo do laborat�rio e esperou que o telefone tocasse. Pessoas corriam de um lado para o outro no pr�dio a oitocentos metros de dist�ncia.</p><p>N�o havia acontecido nada durante duas semanas. Thorkeld, o cientista que ele contratou para os testes, fez relat�rios todos os dias. A coisa n�o havia funcionado em macacos, cachorros, ratos, lagartos, sapos, insetos ou mesmo em peixes em suspens�o na �gua. O Dr. Thorkeld estava come�ando a pensar que os homens de Tod haviam pagado vinte d�lares por um g�s inerte em uma embalagem elegante.</p><p>Alguns momentos antes houve uma explos�o. Ele estava esperando.</p><p>O telefone tocou.</p><p>� Tod... ah, meu Deus, � Jones, do laborat�rio, est�...</p><p>A est�tica tomou conta da linha.</p><p>� Jesus Cristo! Thorkeld... Eles est�o todos...</p><p>Houve uma batida no telefone do outro lado.</p><p>� Ah, meu...</p><p>� Calma � disse Tod. � Todos sa�ram do laborat�rio em seguran�a?</p><p>� �, �. O... <emphasis>ohhh</emphasis>.</p><p>O som de v�mito tomou a liga��o.</p><p>Tod esperou.</p><p>� Desculpe, Dr. Tod. O laborat�rio ainda est� lacrado. O inc�ndio � pequeno, na grama do lado de fora. Algu�m jogou uma guimba de cigarro.</p><p>� Diga o que aconteceu.</p><p>� Eu tinha sa�do para fumar. Algu�m l� dentro deve ter feito besteira, derrubado alguma coisa. Eu... Eu n�o sei. �... A maioria deles est� morta, acho. Espero. N�o sei. Alguma coisa... Espere, espere. Ainda tem algu�m se movendo no escrit�rio, posso ver daqui, h�...</p><p>Houve um estalo de algu�m pegando um fone. O volume na linha diminuiu.</p><p>� Tog, Tog � disse uma voz, uma aproxima��o de uma voz.</p><p>� Quem est� a�?</p><p>� Torgk...</p><p>� Thorkeld?</p><p>� Guh. Cof. Cof. Guh.</p><p>Houve um barulho como o de um saco cheio de lulas sendo jogado em um teto de chapa corrugada.</p><p>� Cof.</p><p>Depois o som de geleia sendo esvaziada em uma gaveta de escrivaninha abarrotada.</p><p>Houve um tiro e o telefone caiu da mesa.</p><p>� Ele... Ele atirou... Isso... Nele mesmo � disse Jones.</p><p>� Estou indo para a� � afirmou Tod.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Depois da limpeza Tod estava de novo de p� em seu escrit�rio. N�o havia sido bonito. O reservat�rio estava intacto. O acidente foi com uma amostra. Os outros animais estavam bem. Era apenas com as pessoas. Tr�s morreram imediatamente. Uma, Thorkeld, se matou. Duas outras ele e Jones <emphasis>tiveram</emphasis> de matar. Uma s�tima pessoa estava desaparecida, mas n�o havia sa�do por portas ou janelas.</p><p>Tod se sentou em sua cadeira e pensou por um longo tempo. Depois se esticou e apertou um bot�o na mesa.</p><p>� Sim, doutor? � perguntou Filmore, entrando na sala com um punhado de telegramas e ordens de corretagem sob o bra�o.</p><p>O Dr. Tod abriu o cofre da escrivaninha e come�ou a contar notas.</p><p>� Filmore. Gostaria que voc� fosse para Port Elizabeth, na Carolina do Norte, e me comprasse cinco bal�es vazios tipo B. Diga a eles que eu vendo carros. Consiga que 28 mil metros c�bicos de h�lio sejam entregues no armaz�m do sul da Pensilv�nia. Separe o material e me d� uma lista completa do que temos; qualquer coisa de que precisarmos, vamos garantir com sobras. Ache o capit�o Mack, veja se ainda tem aquele navio cargueiro. Vamos precisar de passaportes novos. Encontre Cholley Sacks; vou precisar de um contato na Su��a. Preciso de um piloto com brev� para aeronave mais leve que o ar. Alguns escafandros e oxig�nio. Lastro, duas toneladas. Um visor de bomba. Cartas n�uticas. E me traga uma x�cara de caf�.</p><p>� Fred tem brev� de piloto para mais leve que o ar � afirmou Filmore.</p><p>� Aqueles dois nunca param de me impressionar � disse o Dr. Tod.</p><p>� Achei que t�nhamos dado nosso �ltimo golpe, chefe.</p><p>� Filmore � disse ele, olhando para o homem de quem era amigo havia mais de vinte anos. � Filmore, alguns golpes voc� <emphasis>tem</emphasis> que dar, queira ou n�o.</p><empty-line/><p><emphasis>�Dewey era almirante na Ba�a de Manila,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Dewey era candidato outro dia</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Dewey eram seus olhos quando ela disse sim;</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    N�s amamos um ao outro? Eu deveria dizer que sim!�</emphasis></p><p>As crian�as no p�tio do pr�dio pulavam corda. Haviam come�ado no segundo em que voltaram da escola.</p><p>De in�cio isso incomodou Jetboy. Ele se levantou da m�quina de escrever e foi � janela. Em vez de gritar, observou.</p><p>De qualquer modo a escrita n�o estava indo bem. O que parecia ser apenas fatos quando contou aos rapazes da intelig�ncia durante a guerra dava a impress�o de vangl�ria no papel, quando as palavras eram escritas:</p><empty-line/><p><emphasis>Tr�s avi�es, dois ME-109 e um TA-152 sa�ram das nuvens na dire��o do B-24 com problemas. Ele tinha sofrido pesados danos com a artilharia antia�rea. Duas h�lices estavam torcidas e a torre superior havia desaparecido.</emphasis></p><p><emphasis>Um dos 109 mergulhou, provavelmente para dar um 360� e disparar na parte de baixo do bombardeiro.</emphasis></p><p><emphasis>Eu dei uma volta longa com o avi�o e disparei um tiro em desvio a 650 metros e me aproximando. Eu vi tr�s acertos, e o 109 se desintegrou.</emphasis></p><p><emphasis>O TA-152 tinha me visto e mergulhou para interceptar. Quando o 109 explodiu, eu reduzi e bati no freio aerodin�mico. O 152 passou a menos de 50 metros de dist�ncia. Vi a express�o de surpresa no rosto do piloto. Disparei uma rajada dos 20 mm quando ele passou. Tudo da cabine para tr�s se partiu em uma chuva.</emphasis></p><p><emphasis>Eu subi. O �ltimo 109 estava atr�s do Liberator. Estava disparando com metralhadoras e canh�o. Ele acabou com o artilheiro de cauda e a torre da barriga n�o conseguia se erguer o suficiente. O piloto do bombardeiro estava sinalizando para que os artilheiros de meio pudessem fazer mira, mas s� a arma de meio da esquerda funcionava.</emphasis></p><p><emphasis>Eu estava a mais de um quil�metro e meio, mas subi e virei � direita. Baixei o nariz e disparei uma rajada com o 75 mm logo antes da mira passar pelo 109.</emphasis></p><p><emphasis>O meio do ca�a desapareceu � eu podia ver a Fran�a atrav�s dele. A �nica imagem que guardei foi, ao olhar para baixo, ver o alto de um guarda-chuva aberto que algu�m fechou de repente. O ca�a pareceu um enfeite brilhante de �rvore de Natal enquanto ca�a.</emphasis></p><p><emphasis>Ent�o os poucos artilheiros que sobravam no B-24 abriram fogo contra mim, sem reconhecer meu avi�o. Transmiti meu c�digo de identifica��o, mas o receptor deles devia estar inoperante.</emphasis></p><p><emphasis>Havia dois paraquedas alem�es bem abaixo. Os pilotos dos dois primeiros ca�as deviam ter saltado. Voltei para minha base.</emphasis></p><p><emphasis>Quando fizeram a manuten��o descobriram que me restavam um de meus 75 mm e apenas 12 cartuchos de 20 mm. Eu havia abatido tr�s avi�es inimigos.</emphasis></p><p><emphasis>Depois soube que o B-24 havia ca�do no Canal e n�o havia sobreviventes.</emphasis></p><p>Jetboy pensou: quem precisa dessa coisa? A guerra acabou. Algu�m realmente vai querer ler <emphasis>O garoto com propuls�o a jato</emphasis> quanto for publicado? Algu�m al�m de idiotas continua a querer ler <emphasis>Jetboy Comics</emphasis>?</p><p>Nem mesmo acho que <emphasis>eu</emphasis> sou necess�rio. O que posso fazer? Combater o crime? Posso metralhar carros em fuga cheios de assaltantes de banco. Isso seria uma luta <emphasis>realmente</emphasis> justa. Circo a�reo? Isso acabou com Hoover e, al�m do mais, n�o quero mais voar. Este ano mais pessoas v�o voar de f�rias por companhias a�reas do que todos os que estiveram no ar nos �ltimos quarenta e tr�s anos, incluindo pilotos do correio a�reo, de avi�o fumigador e guerras.</p><p>O que posso fazer? Desmontar um truste? Processar os que lucraram com a guerra? <emphasis>Esse</emphasis> � realmente um trabalho sem futuro. Punir velhos malvados que est�o roubando o Estado mantendo orfanatos e matando de fome e espancando os garotos? Voc�s n�o precisam de mim para isso, precisam de Spanky, Alfafa e Buckwheat.</p><empty-line/><p><emphasis>�A tisket, a tasket,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis/><emphasis>Hitler num caix�o.</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Eenie-meenie-Mussolini,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    A sete palmos do ch�o!�</emphasis></p><p>disseram os garotos do lado de fora, agora pulando com duas cordas em dire��es opostas. Crian�as t�m energia demais, pensou. Eles aceleraram um pouco, depois reduziram novamente.</p><empty-line/><p><emphasis>�No calabou�o, quatro metros de fundo</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Onde o velho Hitler dorme um sono profundo.</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Garotos alem�es fazem c�cegas nos seus p�s,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    No calabou�o, quatro metros de fundo!�</emphasis></p><p>Jetboy se afastou da janela. Talvez o que eu precise seja ir ao cinema novamente.</p><p>Desde o encontro com Belinda, ele n�o havia feito nada al�m de ler, escrever e assistir a filmes. Antes de voltar para casa, os dois �ltimos filmes que vira, em um audit�rio militar lotado na Fran�a, no final de 1944, havia sido em uma sess�o dupla barata. <emphasis>That Nazty Nuisance</emphasis>, um filme da United Artists feito em 1943, com Bobby Watson como Hitler e um dos atores preferidos de Jetboy, Frank Faylen, que havia sido o melhor dos dois. O outro era um grande lixo da PRC, <emphasis>Jive Junction</emphasis>, estrelado por Dickie Moore, sobre um bando de dan�arinos de suingue saracoteando na lanchonete.</p><p>A primeira coisa que fez ap�s pegar seu dinheiro e achar um apartamento foi encontrar o cinema mais pr�ximo, onde viu <emphasis>Ninho da serpente</emphasis>, sobre uma casa cheia de caipiras esquisitos, com Fred MacMurray e Marjorie Main, e um ator chamado Porter Hall interpretando g�meos id�nticos assassinos chamados Bert e Mert. �Qual � qual?�, pergunta MacMurray, e Marjorie Main pega um cabo de machado, acerta um deles no meio das costas e ele desmonta da cintura para cima em uma caricatura distorcida de realidade, mas permanece de p�. �Este � Mert�, diz Main, jogando o cabo do machado na pilha de lenha. �Ele tem as costas ruins�. Havia r�dio e homic�dio em abund�ncia, e Jetboy achou que era o filme mais divertido que j� havia visto.</p><p>Desde ent�o ele fora ao cinema todos os dias, algumas vezes a tr�s salas e assistindo de seis a oito filmes por dia. Ele estava se ajustando � vida civil, como muitos soldados e marinheiros haviam feito, vendo filmes.</p><p>Ele viu <emphasis>Farrapo humano</emphasis>, com Ray Milland e Frank Faylen novamente, dessa vez como um enfermeiro em uma ala psiqui�trica; <emphasis>La�os humanos</emphasis>; <emphasis>O regresso daquele homem</emphasis>, com William Powell em seu auge alco�lico, <emphasis>Bring on the Girls</emphasis>, <emphasis>It�s in the Bag</emphasis>, com Fred Allen; <emphasis>Chispa de fogo</emphasis>; <emphasis>Tamb�m somos seres humanos</emphasis> (Jetboy havia sido personagem de uma das colunas de Pyle em 1943); um filme de terror chamado <emphasis>Ilha dos mortos</emphasis>, com Boris Karloff; um novo tipo de filme italiano chamado <emphasis>Roma,</emphasis><emphasis>cidade aberta</emphasis>, em um cinema de arte, e <emphasis>O destino bate � sua porta</emphasis>.</p><p>E havia outros filmes, faroestes e policiais da Monogram, PRC e Republic, filmes que vira em salas de cinema 24 horas, mas que esquecia dez minutos ap�s sair das sess�es. Pela falta de estrelas e estranha apar�ncia dos atores principais, tinham sido as piores partes das sess�es duplas feitas durante a guerra, todas come�ando exatamente aos 59 minutos de proje��o.</p><p>Jetboy suspirou. Tantos filmes, tanto de tudo que ele perdeu durante a guerra. Perdeu at� mesmo os dias da vit�ria na Europa e sobre o Jap�o preso naquela ilha, antes que ele e o avi�o fossem encontrados pela tripula��o do <emphasis>USS Reluctant</emphasis>. Do modo como os caras no <emphasis>Reluctant</emphasis> falavam, voc� pensaria que eles tamb�m haviam perdido a maior parte da guerra e dos filmes.</p><p>Ele ansiava por muitos filmes naquele outono, e por v�-los quando fossem lan�ados, do modo como todos faziam, do modo como costumava fazer no orfanato.</p><p>Jetboy se sentou � m�quina de escrever. Se eu n�o trabalhar, nunca terminarei este livro. Irei ao cinema de noite.</p><p>Ele come�ou a datilografar todas as coisas excitantes que havia feito em 12 de julho de 1944.</p><p>No p�tio, mulheres chamavam crian�as para jantar enquanto os pais voltavam do trabalho. Duas crian�as continuavam a pular corda l� fora, as vozes finas no ar da tarde:</p><empty-line/><p><emphasis>�Hitler, Hitler parece assim,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Mussolini se curva assim,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Sonja Heni patina assim,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    E Betty Grable erra assim!�</emphasis></p><p>O armarinheiro da Casa Branca estava tendo um dia de c�o.</p><p>Come�ou com um telefonema pouco antes das seis horas da manh�. Os ansiosos no Departamento de Estado tinham alguns boatos da Turquia. Os sovi�ticos estavam deslocando todos os homens para os limites daquele pa�s.</p><p>� Bem � disse o Homem Objetivo do Missouri �, liguem quando cruzarem a maldita fronteira, n�o antes.</p><p>Agora aquilo.</p><p>O Primeiro Cidad�o de Independence observou a porta se fechar. A �ltima coisa que viu foi o calcanhar de Einstein desaparecendo. Precisava de uma meia-sola.</p><p>Ele se sentou novamente na cadeira, tirou os �culos grossos do nariz, esfregou os olhos vigorosamente. Depois o presidente juntou as pontas dos dedos formando uma torre, os cotovelos apoiados na escrivaninha. Olhou para a miniatura de arado na frente da mesa (ele havia substitu�do o modelo do M-1 Garand que ficou ali do dia em que ele tomou posse at� o dia da vit�ria sobre o Jap�o). Havia tr�s livros no canto direito da escrivaninha � uma B�blia, um dicion�rio gasto e uma hist�ria ilustrada dos Estados Unidos. A mesa tinha tr�s bot�es para chamar v�rias secret�rias, mas ele nunca os usou.</p><p><emphasis>Agora que a paz chegou estou lutando para impedir que dez guerras eclodam em vinte lugares, h� amea�as de greves em todos os setores e essa � uma maldita vergonha, as pessoas est�o pedindo mais carros e geladeiras, e est�o t�o cansadas quanto eu de guerra e de alerta de guerra.</emphasis></p><p><emphasis>E tenho de mexer em casa de marimbondo novamente, colocar todo mundo ca�ando uma maldita bomba biol�gica que pode explodir e infectar todos os EUA e matar metade das pessoas ou mais.</emphasis></p><p><emphasis>Estar�amos melhor ainda lutando com porretes e pedras.</emphasis></p><p><emphasis>Quanto mais r�pido eu voltar para o n�mero 219 da North Delaware, em Independence, melhor eu e todo este maldito pa�s ficaremos.</emphasis></p><p><emphasis>A n�o ser que aquele filho da puta do Dewey queira concorrer para presidente de novo. Como Lincoln disse, prefiro engolir uma cadeira de balan�o de chifres de cervo do que deixar aquele desgra�ado ser presidente.</emphasis></p><p><emphasis>� a �nica coisa que me manter� aqui quando tiver terminado o mandato do Sr. Roosevelt.</emphasis></p><p><emphasis>Quanto mais cedo eu come�ar essa ca�ada, mais rapidamente poderemos deixar para tr�s a Guerra Mundial N�mero Dois.</emphasis></p><p>Ele pegou o telefone.</p><p>� Ligue para o Estado-maior � disse.</p><p>� Major Truman falando.</p><p>� Major, � o outro Truman, seu chefe. Coloque o general Ostrander ao telefone, por favor.</p><p>Enquanto esperava, olhou atrav�s do ventilador da janela (detestava ar-condicionado) para as �rvores. O c�u tinha aquele tipo de azul que rapidamente fica alaranjado no ver�o.</p><p>Ele olhou para o rel�gio na parede: 10h23, hor�rio de ver�o no Leste. Que dia. Que ano. Que s�culo.</p><p>� Aqui � o general Ostrander, senhor.</p><p>� General, acabaram de jogar outro fardo de feno em cima de n�s...</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Duas semanas depois chegou o bilhete:</p><empty-line/><p>�Deposite 20 milh�es de d�lares na conta n� 43Z21, Credit Suisse, Berna, at� 2300 Zulu de 14 de setembro ou perca uma grande cidade. Voc� tem conhecimento desta arma; seu pessoal tem procurado por ela; usarei metade dela na primeira cidade. O pre�o sobe para 30 milh�es de d�lares para me impedir de usar uma segunda vez. Voc� tem minha palavra de que ela n�o ser� usada caso o primeiro pagamento seja feito, e ser�o enviadas instru��es de onde a arma poder� ser recuperada.�</p><p>O Homem Objetivo de Missouri pegou o telefone.</p><p>� Coloque tudo para funcionar � disse. � Convoque o gabinete, re�na o estado-maior. E, Ostrander...</p><p>� Sim, senhor?</p><p>� Melhor entrar em contato com aquele garoto aviador, qual o nome dele?</p><p>� Est� falando de Jetboy, senhor? Ele n�o est� mais na ativa.</p><p>� Pro inferno com isso. Agora est�!</p><p>� Sim, senhor.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Eram 14h24 de ter�a-feira, 15 de setembro de 1946, quando a coisa apareceu nas telas de radar.</p><p>�s 14h31 ainda estava se movendo lentamente na dire��o da cidade a uma altitude de mais de 18 mil metros.</p><p>�s 14h41 dispararam as primeiras sirenes de ataque a�reo, que n�o eram usadas na cidade de Nova York desde um treinamento de blecaute em abril de 1945.</p><p>�s 14h48 houve p�nico.</p><p>Algu�m na defesa civil apertou os bot�es errados. A energia foi cortada em todos os lugares, exceto em hospitais, delegacias e quart�is dos bombeiros. Trens do metr� pararam. Coisas desligaram e os sinais de tr�nsito deixaram de funcionar. Metade do equipamento de emerg�ncia, que n�o era verificado desde o fim da guerra, n�o funcionou.</p><p>As ruas foram tomadas por pessoas. Policiais sa�ram para tentar organizar o tr�nsito. Alguns dos policiais entraram em p�nico ao receber m�scaras contra g�s. Telefones ficaram ocupados. Come�aram brigas nos cruzamentos, pessoas foram pisoteadas em sa�das de metr� e escadas de arranha-c�us.</p><p>As pontes ficaram engarrafadas.</p><p>Foram dadas ordens conflitantes. Levem as pessoas para abrigos antibombas. N�o, evacuem a ilha. Dois guardas na mesma esquina gritaram ordens contradit�rias para as multid�es. A maioria das pessoas simplesmente ficou parada, observando.</p><p>Sua aten��o logo foi atra�da para algo no c�u, ao sul. Era pequeno e brilhante.</p><p>A artilharia antia�rea come�ou de forma ineficaz tr�s quil�metros abaixo dele.</p><p>Ele continuou se aproximando.</p><p>Quando os canh�es em Jersey come�aram a disparar, o p�nico realmente come�ou.</p><p>Eram tr�s da tarde.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� � mesmo muito simples � disse o Dr. Tod.</p><p>Ele baixou os olhos para Manhattan, que repousava diante dele como uma arca do tesouro. Virou-se para Filmore e ergueu um comprido aparelho cil�ndrico que parecia fruto de uma bomba de cano e um cadeado de combina��o.</p><p>� Se alguma coisa acontecer a mim, simplesmente enfie este detonador no encaixe dos explosivos � disse, indicando a parte tapada por fita com a abertura no recipiente coberto de inscri��es parecidas com s�nscrito �, tor�a at� o n�mero quinhentos e depois puxe esta alavanca.</p><p>Ele indicou a escotilha do compartimento de bombas.</p><p>� Ela cair� pelo pr�prio peso, e eu estava errado quanto ao visor de bombardeio. Grande precis�o n�o � nosso objetivo.</p><p>Ele olhou para Filmore pela grade do capacete de mergulho. Eles vestiam escafandros com tubos levando a um suprimento central de oxig�nio.</p><p>� Tenha certeza, claro, de que todos estejam de capacete. Seu sangue ir� ferver neste ar rarefeito. E estes escafandros s� precisam sustentar a press�o durante os poucos segundos em que a porta da bomba estiver aberta.</p><p>� N�o espero problemas, chefe.</p><p>� Nem eu. Depois que bombardearmos Nova York, iremos nos encontrar com o navio, soltar o lastro, pousar e seguir para a Europa. Eles ficar�o felizes de nos pagar o dinheiro. Eles n�o t�m como saber que estaremos usando toda a arma biol�gica. Uns sete milh�es de mortos devem convenc�-los de que falamos s�rio.</p><p>� Veja aquilo � disse Ed, do assento do copiloto. � L� embaixo. Fogo antia�reo!</p><p>� Qual a nossa altitude? � perguntou o Dr. Tod.</p><p>� Exatamente 17.600 metros � respondeu Fred.</p><p>� Alvo?</p><p>Ed suspirou, conferiu um mapa.</p><p>� Vinte e cinco quil�metros � frente. O senhor certamente conseguiu as correntes de ar certas, Dr. Tod.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Eles o haviam mandado at� um campo de pouso na periferia de Washington para esperar. Dessa forma estaria ao alcance da maioria das grandes cidades da Costa Leste.</p><p>Ele havia passado parte do dia lendo, parte dormindo, e o restante conversando sobre a guerra com alguns dos outros pilotos. Por�m, a maioria era nova demais para ter lutado mais do que nos �ltimos dias da guerra.</p><p>A maioria era de pilotos de jatos, como ele, que fizeram o treinamento em P-59 Aircomets ou P-80 Shooting Stars. Uns poucos na sala de prontid�o pertenciam a um esquadr�o de P-51 a h�lice. Havia um pouco de tens�o entre os j�queis de ma�arico e os comedores de pistons.</p><p>Mas todos eles eram uma nova gera��o. J� se falava que Truman transformaria a For�a A�rea do Ex�rcito em algo separado, apenas For�a A�rea, no ano seguinte. Aos 19, Jetboy sentia que o tempo o deixara para tr�s.</p><p>� Eles est�o trabalhando em algo que ir� superar a barreira do som � disse um dos pilotos. � A Bell est� por tr�s disso.</p><p>� Um amigo meu em Muroc diz para esperar at� que coloquem a Asa Voadora em opera��o. J� est�o trabalhando em uma vers�o a jato dela. Um bombardeiro que pode percorrer quatro mil quil�metros a 800 quil�metros por hora, levar uma tripula��o de treze, camas para sete, passar um dia e meio no ar! � informou outro.</p><p>� Algu�m sabe alguma coisa sobre esse alerta? � perguntou um sujeito muito jovem e nervoso com divisas de segundo-tenente. � Os russos est�o aprontando alguma?</p><p>� Ouvi dizer que vamos para a Gr�cia � disse algu�m. � Para mim, ouzo, gal�es dele.</p><p>� Mais prov�vel vodca tcheca de casca de batatas. Teremos sorte de chegar antes do Natal.</p><p>Jetboy se deu conta de que sentia mais falta do papo da sala de prontid�o do que pensava.</p><p>O interfone zumbiu e uma corneta come�ou a berrar. Jetboy olhou para o rel�gio. Eram 14h25.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele percebeu que sentia falta de algo al�m do papo furado da For�a A�rea. Era de voar. De repente tudo voltou. Quando ele voou para Washington na noite anterior havia sido apenas uma viagem de rotina.</p><p>Agora era diferente. Era como na guerra novamente. Ele tinha uma dire��o. Tinha um alvo. Tinha uma miss�o.</p><p>Ele tamb�m tinha um traje pressurizado experimental T-2 da Marinha. Era o sonho de um fabricante de espartilhos, todo de borracha e cordas, garrafas pressurizadas e um verdadeiro capacete espacial, como que sa�do de <emphasis>Planet Comics</emphasis>, sobre sua cabe�a. Eles o haviam ajustado na noite anterior, quando viram as asas de grande altitude e os tanques descart�veis no avi�o.</p><p>� Melhor apertarmos isso para voc� � disse o sargento de voo.</p><p>� Minha cabine � pressurizada � respondeu Jetboy.</p><p>� Bem, ent�o para o caso de precisarem de voc� e para o caso de algo dar errado.</p><p>O traje ainda estava muito apertado e ainda n�o pressurizado. Os bra�os eram feitos para um gorila e o peito, para um chimpanz�.</p><p>� Voc� vai gostar do espa�o extra, caso essa coisa infle em uma emerg�ncia � disse o sargento.</p><p>� O senhor � quem manda � respondeu Jetboy.</p><p>Eles at� mesmo pintaram o tronco de branco e as pernas de vermelho para combinar com seu modelo. O capacete azul e os �culos apareciam atrav�s da bolha de pl�stico transparente.</p><p>Enquanto subia com o restante do esquadr�o, estava contente por ter a coisa. Sua miss�o era acompanhar o voo dos P-80 e se envolver apenas se fosse necess�rio. Ele nunca havia sido exatamente um jogador de equipe.</p><p>O c�u � frente era azul como a cortina de fundo em <emphasis>Alegoria do triunfo de</emphasis><emphasis>V�nus,</emphasis> de Bronzino, com uma nuvem dois quintos ao norte. O sol estava sobre seu ombro esquerdo. O esquadr�o subiu. Ele acenou com as asas. Eles se espalharam em um quadrado escalonado e prepararam as armas.</p><p><emphasis>Chunder, chunder, chunder, chunder</emphasis>, fizeram seus canh�es de 20 mm.</p><p>Tra�antes fizeram um arco � frente dos seis calibre .50 em cada P-80. Deixaram os avi�es a h�lice para tr�s e apontaram os narizes para Manhattan.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Eles pareciam um bando de abelhas raivosas circulando abaixo de um falc�o.</p><p>O c�u estava tomado por jatos e ca�as a h�lice subindo como as paredes de nuvens de um furac�o.</p><p>Acima, um objeto encrespado que pairava e se deslocava lentamente na dire��o da cidade. No ponto onde seria o olho do furac�o havia uma tempestade de fogo antia�reo, mais densa do que Jetboy havia visto sobre a Europa ou o Jap�o.</p><p>Estava explodindo baixo demais, apenas ao n�vel dos ca�as mais altos.</p><p>O Controle de Ca�as os chamou:</p><p>� Comando Clark Gable para todos os esquadr�es. Alvo a cinco, cinco, zero... Repetindo, cinco, cinco, zero, anjos. Deslocando leste-nordeste a dois cinco n�s. Fogo antia�reo n�o consegue alcan�ar.</p><p>� Mande suspender � disse o l�der do esquadr�o. � Vamos tentar voar alto o bastante para tiro de deflex�o. Esquadr�o Hodiak, me siga.</p><p>Jetboy ergueu os olhos para o azul acima. O objeto continuava seu deslocamento gradual.</p><p>� O que h� nele? � perguntou ao Comando Clark Gable.</p><p>� Comando para Jetboy. Algum tipo de bomba, foi o que nos disseram. Tem de ser uma aeronave mais leve que o ar de pelo menos 14 mil metros c�bicos para chegar a essa altitude. C�mbio.</p><p>� Estou come�ando a subir. Se os outros avi�es n�o conseguirem chegar, tamb�m os chame de volta.</p><p>Houve sil�ncio no r�dio, e depois:</p><p>� Copiado.</p><p>Enquanto os P-80 cintilavam acima dele como crucifixos de prata, ele ergueu o nariz.</p><p>� Vamos l�, garota � disse ele. � Vamos voar um pouco.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Os Shooting Stars come�aram a se afastar, tombando no ar rarefeito. Jetboy s� conseguia ouvir o som de suas pr�prias press�o e respira��o nos ouvidos, e o alto gemido agudo de seus motores.</p><p>� Vamos l�, garota � disse ele. � Voc� consegue!</p><p>A coisa acima dele se revelou uma aeronave ordin�ria feita de meia d�zia de bal�es com uma g�ndola abaixo. A g�ndola parecia ter sido um dia um casco de lancha torpedeira. Era tudo o que podia ver. Al�m dela, o ar era roxo e frio. Pr�xima parada: espa�o sideral.</p><p>O �ltimo dos P-80 escorregou de lado nas estrelas azuis do c�u. Uns poucos haviam disparado rajadas aleat�rias, dando 360� como os ca�as costumavam fazer abaixo dos bombardeiros durante a guerra. Disparavam enquanto subiam. Todas as tra�antes ficaram abaixo dos bal�es.</p><p>Um dos P-80 quase perdeu o controle, caindo mais de tr�s quil�metros antes de nivelar.</p><p>O avi�o de Jetboy protestou, gemendo. Estava dif�cil de controlar. Ele ergueu o nariz novamente, teve de se esfor�ar.</p><p>� Tire todo mundo do caminho � disse ele para o Comando Clark Gable.</p><p>� � agora que damos uma folga a voc� � disse para o avi�o.</p><p>Ele soltou os tanques descart�veis. Eles ca�ram como bombas. Apertou o bot�o do canh�o. <emphasis>Chunder, chunder, chunder, chunder</emphasis>. Depois novamente, e mais uma vez.</p><p>Suas tra�antes desenharam um arco na dire��o do alvo, mas tamb�m ficaram abaixo. Ele disparou mais quatro rajadas at� o canh�o se esgotar. Depois esgotou os dois de cinquenta na cauda, mas n�o demorou para que todos os cem disparos fossem desperdi�ados.</p><p>Ele virou e deu um mergulho, como um salm�o afundando e tentando se livrar de um anzol, ganhando velocidade. Ap�s um minuto, apontou para cima, colocando o JB-1 em uma comprida ascens�o circular.</p><p>� Parece melhor, n�o? � perguntou.</p><p>Os motores cortaram o ar. O avi�o, aliviado de peso, se lan�ou para a frente e para cima.</p><p>Abaixo dele estava Manhattan com seus 7 milh�es de habitantes. Eles deviam estar assistindo l� embaixo, sabendo que aqueles poderiam ser os �ltimos minutos que veriam. Talvez isso fosse viver na Era At�mica, sempre olhando para cima e pensando: <emphasis>Ser�</emphasis>?</p><p>Jetboy esticou uma das botas e pisou forte em uma alavanca. Uma c�psula de canh�o 75 mm deslizou para a c�mara. Colocou a m�o sobre a barra de carregamento autom�tico e puxou um pouco mais para tr�s os comandos.</p><p>O jato vermelho cortou o ar como uma navalha.</p><p>Ele estava mais perto agora, mais perto do que os outros haviam chegado, e ainda assim n�o era perto o bastante. Ele s� tinha cinco disparos para fazer o servi�o.</p><p>O jato subiu, come�ando a estolar no ar rarefeito, como se fosse algum animal vermelho usando as garras para subir por uma comprida tape�aria azul que escorregava um pouco cada vez que o animal avan�ava.</p><p>Ele apontou o nariz para cima.</p><p>Tudo pareceu congelar, � espera.</p><p>Uma fina linha de tra�antes de metralhadora correu da g�ndola na sua dire��o como uma amante.</p><p>Ele come�ou a disparar o canh�o.</p><p>DO DEPOIMENTO DO PATRULHEIRO FRANCIS V. (�FRANCIS, O POLICIAL FALANTE�) O�HOOEY, 15 DE SET. 1946, 18h45</p><p>Est�vamos observando da rua na Sixth Avenue, tentando impedir que as pessoas se lan�assem umas sobre as outras em p�nico. Ent�o elas se acalmaram acompanhando as batalhas a�reas e as coisas acima.</p><p>Um observador de p�ssaros estava com um par de bin�culos, ent�o o confisquei. Acompanhei boa parte da coisa toda. Os jatos n�o estavam tendo sorte e a defesa antia�rea desde Bowery tamb�m n�o estava adiantando. Ainda acho que o Ex�rcito devia ser processado, porque os caras da defesa antia�rea ficaram t�o em p�nico que se esqueceram de colocar os temporizadores nos obuses, e ouvi alguns deles caindo no Bronx e explodindo um pr�dio inteiro de apartamentos.</p><p>De qualquer modo, esse avi�o vermelho, quer dizer, o avi�o do Jetboy, estava subindo e disparou todas as balas, eu achei, sem causar qualquer dano ao tal bal�o.</p><p>Eu estava na rua e o caminh�o dos bombeiros parou com a sirene ligada e o tenente gritava para que eu subisse, que est�vamos sendo mandados para o West Side cuidar de um acidente de tr�nsito e um tumulto.</p><p>Ent�o entrei no caminh�o e tentei ficar de olho no que estava acontecendo no c�u.</p><p>O tumulto tinha basicamente acabado. As sirenes de ataque a�reo ainda soavam, mas todo mundo estava apenas de p�, olhando de boca aberta para o que acontecia l� em cima.</p><p>O tenente grita para pelo menos levar as pessoas para os pr�dios. Empurrei algumas por umas portas, depois dei outra olhada pelos bin�culos.</p><p>E Jetboy tinha acertado alguns dos bal�es (ouvi dizer que usou o obus neles) e a coisa parece maior � est� caindo um pouco. Mas ele ficou sem muni��o e n�o est� t�o alto quanto a coisa e come�a a girar.</p><p>Eu me esqueci de dizer que o tempo todo o tal bal�o est� disparando tantas metralhadoras que parece os fogos de 4 de Julho, e o avi�o do Jetboy est� recebendo esses tiros sem parar.</p><p>Ent�o ele simplesmente faz uma volta com o avi�o, retorna e bate diretamente na, como � o nome?, na g�ndola, isso, dos bal�es. Eles meio que se fundem. Ele devia estar muito lento na hora, tipo estolando, e o avi�o meio que apenas se enfiou na lateral da coisa.</p><p>E o bal�o parecia estar descendo um pouco, n�o muito, s� um pouco. Ent�o o tenente tirou os bin�culos de mim, eu protegi os olhos e acompanhei o melhor que pude.</p><p>Houve um clar�o de luz. Achei que a coisa toda tinha explodido e me encolhi atr�s de um carro. Mas depois ergui os olhos e os bal�es ainda estavam l�.</p><p>� Olhem! Para dentro! � gritou o tenente. Ent�o todo mundo entrou em p�nico de novo e estava se jogando sob os carros, ao lado de coisas e pulando janelas. Pareceu um filme dos Tr�s Patetas por um minuto ou dois.</p><p>Alguns minutos depois come�aram a chover peda�os vermelhos de avi�o sobre as ruas, e um punhado no Terminal Hudson...</p><p>Havia vapor e fogo por todo lado. A cabine estalou como um ovo e as asas dobraram como um leque. Jetboy teve um espasmo quando os cabrestantes no traje pressurizado se inflaram. Ele foi arqueado e devia estar parecendo um gato assustado.</p><p>As paredes da g�ndola haviam se aberto como uma cortina no ponto em que as asas do ca�a bateram. Uma onda de gelo se formou sobre a cabine destro�ada com oxig�nio soprando da g�ndola.</p><p>Jetboy soltou seus tubos. A garrafa de emerg�ncia tinha cinco minutos de ar. Ele se atrapalhou com o nariz do avi�o, como se lutasse contra barras de ferro em seus bra�os e pernas. Tudo o que voc� deveria fazer com aqueles trajes era se ejetar e puxar o anel do paraquedas.</p><p>O avi�o se arrastou como um elevador de carga com um cabo partido. Jetboy agarrou uma antena de radar com a m�o enluvada, e a sentiu soltar do nariz do avi�o. Agarrou outra.</p><p>A cidade estava a quase vinte quil�metros abaixo dele, os pr�dios fazendo a ilha parecer um porco-espinho distante. O motor esquerdo do avi�o, esmagado e perdendo combust�vel, se soltou e caiu abaixo da g�ndola. Ele o viu diminuindo.</p><p>O ar era roxo como uma ameixa � a superf�cie dos bal�es, brilhante como fogo ao sol, e as laterais da g�ndola, curvadas e rasgadas como papel�o barato.</p><p>A coisa toda estremeceu como uma baleia.</p><p>Algu�m passou voando acima da cabe�a de Jetboy pelo buraco no metal, arrastando tubos como os tent�culos de um polvo. Entulho se seguiu pelo ar na descompress�o explosiva.</p><p>O jato se inclinou.</p><p>Jetboy enfiou a m�o no lado rasgado da g�ndola, encontrou uma escora.</p><p>Sentiu o cinto do paraquedas prender no equipamento de radar. O avi�o se sacudiu. Sentiu o peso.</p><p>Arrancou o cinto. As bolsas do paraquedas foram arrancadas dele, rasgando nas costas e na virilha.</p><p>Seu avi�o dobrou ao meio como uma cobra com as costas quebradas, depois caiu, as asas subindo e tocando acima da cabine arrasada como se fosse uma pomba tentando bater as asas. Ent�o se torceu de lado, caindo em peda�os.</p><p>Abaixo dele havia o ponto que era o homem que havia ca�do da g�ndola, girando como um esguicho de jardim na dire��o da cidade brilhante bem abaixo.</p><p>Jetboy viu o avi�o cair sob seus p�s. Ficou pendurado no espa�o a 19 quil�metros de altura por uma das m�os.</p><p>Ele agarrou o pulso direito com a m�o esquerda, se ergueu at� colocar um p� na lateral, depois entrou.</p><p>Ainda havia duas pessoas dentro. Uma estava nos controles, a outra, de p� no centro atr�s de uma grande coisa redonda. Enfiava um cilindro em uma reentr�ncia nela. Havia uma torre de metralhadora esmagada de um lado da g�ndola.</p><p>Jetboy procurou seu .38 de servi�o preso sobre o peito. Foi uma agonia esticar a m�o, uma agonia tentar correr na dire��o do sujeito com o detonador.</p><p>Eles vestiam escafandros. Os trajes estavam inflados. Pareciam dez ou doze bolas de praia enfiadas em ceroulas compridas. Moviam-se t�o lentamente quanto ele.</p><p>As m�os de Jetboy se fecharam em garra sobre a coronha do .38. Ele o arrancou do coldre.</p><p>A arma voou de sua m�o, ricocheteou no teto e saiu pelo buraco pelo qual ele havia entrado.</p><p>O sujeito nos controles disparou um tiro contra ele. Pulou na dire��o do outro homem, aquele com o detonador.</p><p>Sua m�o agarrou o pulso do escafandro do outro homem enquanto ele empurrava o detonador cil�ndrico na lateral do recipiente redondo. Jetboy viu que o equipamento todo estava apoiado em uma escotilha com dobradi�a.</p><p>O homem tinha apenas metade de um rosto � Jetboy viu metal liso de um lado pelo capacete de mergulho gradeado.</p><p>O homem girou o detonador com as duas m�os.</p><p>Jetboy viu, pelo teto arrancado da cabine de pilotagem, outro bal�o come�ar a esvaziar. Houve uma sensa��o de queda. Estavam caindo na dire��o da cidade.</p><p>Jetboy agarrou o detonador com as duas m�os. Seus capacetes se chocaram enquanto a nave avan�ava.</p><p>O sujeito nos controles vestia um cinto de paraquedas e ia na dire��o da abertura na parede.</p><p>Outro solavanco derrubou Jetboy e o homem com o detonador. O sujeito esticou a m�o para a alavanca da escotilha atr�s dele o melhor que p�de com o traje pesado.</p><p>Jetboy agarrou suas m�os e o puxou de volta.</p><p>Eles ca�ram juntos sobre o recipiente, as m�os presas nos trajes um do outro e no detonador da bomba.</p><p>O homem tentou novamente alcan�ar a alavanca. Jetboy o afastou. O recipiente rolou como uma bola de praia gigante quando a g�ndola se inclinou.</p><p>Ele olhou diretamente no olho do homem com roupa de mergulho. O homem usou os p�s para empurrar o recipiente de volta para a escotilha de bomba. A m�o foi novamente na dire��o da alavanca.</p><p>Jetboy deu meia-volta no detonador no outro sentido.</p><p>O homem com roupa de mergulho o pegou por tr�s. Sacou uma arma .45 autom�tica. Arrancou uma pesada m�o enluvada do detonador, controlou o deslize. Jetboy viu o cano se virar na sua dire��o.</p><p>� Morra, Jetboy! Morra! � disse o homem.</p><p>Ele apertou o gatilho quatro vezes.</p><p>DEPOIMENTO DO PATRULHEIRO FRANCIS V. O�HOOEY, 15 SET. 1946, 18h45 (CONTINUA��O).</p><p>Ent�o, quando os peda�os de metal pararam de cair, todos sa�mos correndo e olhamos para cima.</p><p>Vi o ponto branco abaixo do tal bal�o. Arranquei os bin�culos do tenente.</p><p>Com certeza era um paraquedas. Esperava que fosse Jetboy que tinha sa�do quando o avi�o bateu na coisa.</p><p>Eu n�o sei muito sobre essas coisas, mas sei que voc� n�o abre um paraquedas t�o alto ou se mete em problemas graves.</p><p>Ent�o, enquanto eu assistia, os bal�es e tudo o mais explodiram, de uma vez. Eles estavam ali, ent�o houve a explos�o, e depois era s� fuma�a e coisas no alto.</p><p>As pessoas ao redor come�aram a aplaudir. O garoto tinha conseguido � tinha explodido a coisa antes que pudesse jogar a bomba at�mica na ilha de Manhattan.</p><p>Depois o tenente mandou subir no caminh�o, que tentar�amos pegar o garoto.</p><p>N�s entramos e tentei descobrir onde ele iria pousar. Por toda parte que pass�vamos, as pessoas estavam de p� em meio a restos de carros, inc�ndios, tudo, olhando para o alto e aplaudindo o paraquedas.</p><p>Percebi a grande mancha no ar depois da explos�o, quando est�vamos circulando havia dez minutos. Os outros jatos que tinham estado com Jetboy haviam voltado, voando pelo ar, e tamb�m alguns Mustang e Thunderjug. Era como um espet�culo a�reo.</p><p>De alguma forma chegamos perto da ponte antes de todo mundo. Foi bom, porque quando fomos para a �gua vimos o sujeito ca�do a uns seis metros da praia. Ele despencou como uma pedra. Estava vestindo uma roupa de mergulho e n�s nadamos e agarramos parte do paraquedas, e um bombeiro agarrou alguns dos tubos e o puxamos para a praia.</p><p>Bem, n�o era Jetboy, era um que identificamos como Edward �Smooth Eddy� Shiloh, um bandidinho.</p><p>E estava em p�ssima forma. Pegamos um alicate no caminh�o de bombeiros, arrancamos seu capacete e ele estava roxo como uma beterraba. Havia levado 27 minutos para chegar ao solo. Desmaiou, claro, por falta de ar, e estava t�o queimado de frio que ouvi que teria de arrancar um dos p�s e tudo, menos o polegar da m�o esquerda.</p><p>Mas ele pulou da coisa antes de explodir. Olhamos para cima de novo, esperando ver o paraquedas do Jetboy ou alguma coisa, mas n�o havia nada, s� aquela grande mancha enevoada, com todos os avi�es zunindo ao redor.</p><p>Levamos Shiloh para o hospital.</p><p>Este � meu relat�rio.</p><p>DEPOIMENTO DE EDWARD �SMOOTH EDDY� SHILOH, 16 DE SET., 1946 (FRAGMENTO).</p><p>(...) todos os cinco obuses em duas das bolsas de g�s. Depois ele jogou o avi�o diretamente sobre n�s. As paredes explodiram. Fred e Filmore foram arremessados sem os paraquedas.</p><p>Quando a press�o caiu, eu me senti como se n�o pudesse me mexer, o traje muito apertado. Tentei pegar meu paraquedas. Vi que o Dr. Tod estava com o detonador e enfiando-o na tal bomba.</p><p>Senti o avi�o cair para a lateral da g�ndola. A pr�xima coisa que vi foi Jetboy de p� bem na frente do buraco aberto pelo avi�o.</p><p>Eu saco minha arma quando vejo que ele est� armado. Mas ele perde a arma e vai na dire��o de Tod.</p><p>�Segure ele, segure ele!�, Tod est� gritando pelo r�dio do traje. Eu dou um tiro, mas erro, ent�o ele est� em cima de Tod e da bomba, e eu decido que meu trabalho terminou h� cinco minutos e n�o estou recebendo hora extra.</p><p>Ent�o saio e o r�dio transmite todo aquele ranger de dentes e gritos, e eles est�o lutando. Ent�o Tod berra, saca a .45 e juro que ele colocou quatro tiros em Jetboy mais perto do que eu estou de voc�. Ent�o eles caem juntos e eu pulo pelo buraco do lado.</p><p>S� que fui idiota e puxei a corda cedo demais, meu paraquedas n�o abre direito, se enrola e eu come�o a desmaiar. Pouco antes disso a coisa toda explode acima de mim.</p><p>O que me lembro a seguir � de acordar aqui e ter um sapato sobrando, entende o que quero dizer? (...)</p><p>(...) o que eles dizem? Bem, a maior parte disso estava distorcido. Vejamos. Tod diz �Segure ele, segure ele�, e eu atiro. Depois eu fui para o buraco. Houve gritos. Eu s� consegui ouvir Jetboy quando os capacetes deles se chocaram, pelo r�dio do traje de Tod. Eles devem ter se chocado muito, porque ouvi os dois respirando pesado.</p><p>Ent�o Tod pegou a arma, atirou quatro vezes e disse �Morra, Jetboy! Morra!�, eu pulei e eles devem ter lutado um segundo, e ouvi Jetboy dizer:</p><p>�Ainda n�o posso morrer. Eu n�o vi <emphasis>Sonhos dourados</emphasis>.�</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Foram oito anos depois do dia em que Thomas Wolfe morreu, mas era seu tipo de dia. Por todo o territ�rio dos Estados Unidos e todo o hemisf�rio norte era um daqueles dias em que o ver�o cede espa�o, quando o clima vem novamente dos polos e do Canad� em vez de do Golfo e do Pac�fico.</p><p>Acabaram construindo um monumento para Jetboy � �o garoto que ainda n�o podia morrer�. Um veterano calejado de batalha, com 19 anos, que havia impedido um louco de explodir Manhattan. Depois que cabe�as mais tranquilas prevaleceram, eles compreenderam isso.</p><p>Mas demorou um pouco para que se lembrassem. E para voltar a estudar ou comprar aquela geladeira nova. Demorou muito tempo para algu�m se lembrar de como tudo era antes de 15 de setembro de 1946.</p><p>Quando as pessoas em Nova York olharam para cima e viram Jetboy explodir a aeronave agressora, pensaram que seus problemas haviam terminado. Elas estavam t�o erradas quanto cobras em uma rodovia de oito pistas.</p><p>� Daniel Deck</p><empty-line/><p><emphasis>Godot � meu copiloto:</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Uma vida de Jetboy</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis/>Lippincott, 1963</p><p>Do alto do c�u a n�voa fina come�ou a cair.</p><p>Parte dela se espalhou com o vento, seguindo a corrente, na dire��o leste.</p><p>Sob aquelas correntes, a n�voa se reagrupou e pairou como chuva que evapora, lentamente assentando sobre a cidade abaixo, faixas se formando e reformando, se rompendo como nuvens perto de uma tempestade.</p><p>Onde quer que tenha ca�do, produziu um som como de uma suave chuva de outono.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>O dorminhoco</strong></p><p>Roger Zelazny</p><p><strong>1 � A longa caminhada para casa</strong></p><p>Ele tinha 14 anos de idade quando o sono se tornou seu inimigo, uma coisa sombria e terr�vel que aprendeu a temer como outros temiam a morte. Mas n�o era uma quest�o de neurose em qualquer de suas mais misteriosas formas. Em geral uma neurose tem elementos irracionais, enquanto seu medo vinha de uma causa espec�fica e seguia um rumo t�o l�gico quanto um teorema de geometria.</p><p>N�o que n�o houvesse irracionalidade em sua vida. Muito pelo contr�rio. Mas isso era uma consequ�ncia, e n�o a causa, de seu quadro. Pelo menos foi o que disse a si mesmo mais tarde.</p><p>Resumindo, o sono era sua ru�na, sua n�mese. Era seu inferno em presta��es.</p><p>Croyd Crenson havia conclu�do oito s�ries na escola e n�o conseguiu passar pela nona. N�o foi por qualquer falha sua. Embora n�o fosse dos primeiros da turma, tamb�m n�o era dos �ltimos. Era um garoto comum, com um corpo comum, rosto sardento, olhos azuis e cabelos castanhos lisos. Gostava de brincar de guerra com os amigos at� a guerra de verdade terminar; depois passaram a brincar cada vez mais de pol�cia e ladr�o. Quando era guerra ele esperava � n�o com muita paci�ncia � por sua oportunidade de ser o grande piloto de ca�a Jetboy; depois da guerra, em pol�cia e ladr�o, ele normalmente era um ladr�o.</p><p>Ele come�ou a nona s�rie, mas, como muitos outros, nunca passou do primeiro m�s: setembro de 1946...</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Est� olhando o qu�?</p><p>Ele se lembrava da pergunta da Srta. Marston, mas n�o de sua express�o, porque n�o se virara do espet�culo. N�o era incomum os garotos de sua sala olharem pela janela com frequ�ncia cada vez maior assim que as tr�s horas da tarde chegavam a uma dist�ncia cr�vel. Mas <emphasis>era</emphasis> incomum n�o se virarem rapidamente quando chamados, simulando mais um pouco de aten��o enquanto esperavam pelo sinal do final da aula.</p><p>Em vez disso ele respondeu:</p><p>� Os bal�es.</p><p>Como tr�s outros garotos e duas meninas que tamb�m tinham uma boa linha de vis�o estavam olhando na mesma dire��o, a Srta. Marston � sua pr�pria curiosidade despertada � foi at� a janela. Parou l� e olhou.</p><p>Eles estavam bem no alto � cinco ou seis deles, aparentemente �, coisinhas pequenas no final de um corredor de nuvens, se deslocando como se unidos. E havia um avi�o na vizinhan�a, fazendo uma passagem r�pida por eles. Lembran�as em preto e branco de cinejornais, ainda frescas, vieram � mente. Realmente parecia que o avi�o estava atacando os peixes prateados.</p><p>A Srta. Marston observou por algum tempo, depois se virou.</p><p>� Certo, turma � come�ou. � � apenas...</p><p>Ent�o as sirenes soaram. A Srta. Marston sentiu os ombros subindo e enrijecendo involuntariamente.</p><p>� Ataque a�reo! � gritou uma garota chamada Charlotte na primeira fila.</p><p>� N�o � � disse Jimmy Walker, o aparelho nos dentes cintilando. � N�o tem mais. A guerra acabou.</p><p>� Eu sei como eles soam � disse Charlotte. � Sempre que havia um blecaute...</p><p>� Mas n�o tem mais guerra � afirmou Bobby Tremson.</p><p>� Agora j� chega, turma � disse a Srta. Marston. � Eles talvez estejam fazendo um treinamento.</p><p>Mas ela olhou novamente pela janela e viu um pequeno clar�o de fogo no c�u antes de uma barreira de nuvens bloquear sua vis�o do combate a�reo.</p><p>� Fiquem em seus lugares � disse, enquanto v�rios alunos se levantavam e iam na dire��o da janela. � Vou conferir na secretaria e descobrir se h� algum treinamento que n�o foi anunciado. Volto logo. Podem conversar se for em voz baixa.</p><p>Ela saiu, batendo a porta ap�s passar. Croyd continuou a olhar para a cortina de nuvens, esperando que se abrisse novamente.</p><p>� � Jetboy � disse a Bobby Tremson da outra fileira.</p><p>� Ah, at� parece � respondeu Bobby. � O que estaria fazendo l� em cima? A guerra acabou.</p><p>� � um avi�o a jato. Vi nos notici�rios, e � assim que funciona. E ele � o melhor.</p><p>� Voc� est� inventando tudo isso � disse Liza do fundo da sala.</p><p>Croyd deu de ombros.</p><p>� Tem algu�m mau l� em cima, e ele est� lutando contra � disse. � Eu vi o fogo. H� tiros.</p><p>As sirenes continuavam a berrar. Da rua do lado de fora subiram sons de pneus travando, seguidos pelo som breve de uma buzina de carro e o baque surdo de uma colis�o.</p><p>� Acidente! � gritou Bobby, e todos se levantaram e foram para a janela.</p><p>Croyd ent�o se levantou, n�o querendo ter a vis�o bloqueada; e como estava perto, conseguiu um bom lugar. Mas n�o olhou para o acidente, continuou a fitar o c�u.</p><p>� Entrou no porta-malas � disse Joe Sarzanno.</p><p>� O qu�? � perguntou uma garota.</p><p>Croyd ent�o ouviu as explos�es distantes. O avi�o n�o era mais visto.</p><p>� Que barulho � esse? � perguntou Bobby.</p><p>� Fogo antia�reo � respondeu Croyd.</p><p>� Voc� est� maluco!</p><p>� Eles est�o tentando derrubar a coisa, o que quer que seja.</p><p>� �. Claro. Como nos filmes.</p><p>As nuvens come�aram a se fechar novamente. Mas enquanto isso acontecia Croyd achou ter vislumbrado o jato novamente, indo em rota de colis�o contra os bal�es. Sua vis�o ent�o foi bloqueada antes que pudesse ter certeza.</p><p>� Droga! � falou. � Pega eles, Jetboy!</p><p>Bobby riu e Croyd o empurrou com for�a.</p><p>� Ei! Cuidado com quem est� empurrando!</p><p>Croyd se virou para ele, mas Bobby parecia n�o querer continuar com a confus�o. Estava olhando para a janela novamente, apontando.</p><p>� Por que todas aquelas pessoas est�o correndo?</p><p>� N�o sei.</p><p>� � o acidente?</p><p>� N�o.</p><p>� Olha! Mais um!</p><p>Um Studebaker azul havia feito a curva r�pido, desviado para n�o acertar os carros parados e batido em um Ford que se aproximava. Os dois carros ficaram inclinados. Outros ve�culos frearam e pararam para n�o bater neles. V�rias buzinas come�aram a soar. Os sons abafados da defesa antia�rea continuaram em meio ao uivo das sirenes. As pessoas agora estavam correndo pelas ruas, sequer parando para olhar os acidentes.</p><p>� Acha que a guerra recome�ou? � perguntou Charlotte.</p><p>� N�o sei � disse Leo.</p><p>O som de uma sirene da pol�cia de repente se misturou aos outros barulhos.</p><p>� Jesus! � disse Bobby. � A� vem outro!</p><p>Antes que ele terminasse de falar, um Pontiac havia entrado na traseira de um dos ve�culos parados. Tr�s duplas de motoristas se enfrentavam de p�; uma dupla com raiva, as outras simplesmente conversando e eventualmente apontando para cima. Logo, todos se separaram e sa�ram apressados pela rua.</p><p>� Isso n�o � um exerc�cio � disse Joe.</p><p>� Eu sei � respondeu Croyd, olhando para a �rea onde uma nuvem tinha ficado cor-de-rosa por causa do brilho que escondia. � Acho que � alguma coisa muito ruim.</p><p>Ele se afastou da janela.</p><p>� Estou indo para casa agora � disse.</p><p>� Voc� vai se meter em confus�o � afirmou Charlotte.</p><p>Ele olhou para o rel�gio.</p><p>� Aposto que o sinal toca antes que ela volte � respondeu. � Se voc� n�o for agora, acho que n�o v�o nos deixar sair com o que est� acontecendo, e quero ir para casa.</p><p>Ele se virou e foi at� a porta.</p><p>� Eu tamb�m vou � disse Joe.</p><p>� Voc�s v�o se meter em confus�o.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Eles seguiram pelo corredor. Quando se aproximavam da porta da frente uma voz adulta, masculina, chamou do sagu�o:</p><p>� Voc�s dois! Voltem aqui!</p><p>Croyd correu, abriu a grande porta verde com o ombro e continuou. Joe estava apenas um passo atr�s dele enquanto descia os degraus. Agora, a rua inteira estava cheia de carros parados dos dois lados, at� onde ele podia ver, em qualquer dire��o. Havia pessoas no alto dos pr�dios e em todas as janelas, a maioria olhando para cima.</p><p>Ele correu para a cal�ada e virou � direita. Sua casa ficava seis quarteir�es ao sul, em um grupo an�malo de casas geminadas. O caminho de Joe era metade disso, seguindo depois para leste.</p><p>Antes que alcan�assem a esquina, foram detidos por um rio de pessoas indo da rua lateral para a direita, interrompendo sua passagem, algumas virando na dire��o norte e tentando avan�ar, outras seguindo para o sul. Os garotos ouviram xingamentos e o barulho de uma briga no alto.</p><p>Joe esticou a m�o e puxou a manga de um homem. O homem puxou o bra�o com rispidez e olhou para baixo.</p><p>� O que est� acontecendo? � gritou Joe.</p><p>� Alguma esp�cie de bomba � respondeu o homem. � Jetboy tentou deter os homens que estavam com ela. Acho que todos explodiram. A coisa pode disparar a qualquer momento. Talvez seja at�mica.</p><p>� Onde ela caiu? � berrou Croyd.</p><p>O homem apontou para noroeste.</p><p>� Para l�.</p><p>Ent�o o homem desapareceu, tendo encontrado uma abertura e for�ado passagem.</p><p>� Croyd, podemos atravessar a rua se formos por cima do cap� daquele carro � disse Joe.</p><p>Croyd concordou e seguiu o outro garoto por cima do cap� ainda quente de um Dodge cinza. O motorista os xingou, mas sua porta estava bloqueada pela press�o dos corpos e a porta do lado do carona s� abria alguns cent�metros antes de bater no para-lama de um t�xi. Contornaram o t�xi e atravessaram pelo meio do cruzamento, passando por mais dois carros no caminho.</p><p>O tr�fego de pedestres diminu�a perto do meio do quarteir�o seguinte e parecia haver uma grande �rea aberta � frente. Eles correram na dire��o dela, mas ent�o pararam de repente.</p><p>Havia um homem ca�do na cal�ada. Estava tendo convuls�es. A cabe�a e as m�os tinham inchado muito e estavam vermelho-escuras, quase roxas. No momento em que o viram, sangue come�ou a escorrer do nariz e da boca; escorreu dos ouvidos, vazou dos olhos e das unhas.</p><p>� Santa Maria! � disse Joe, fazendo o sinal da cruz e recuando. � O que ele tem?</p><p>� N�o sei � respondeu Croyd. � N�o vamos chegar perto demais. Vamos passar por cima de mais uns carros.</p><p>Eles levaram dez minutos para chegar � esquina seguinte. Em algum momento do caminho perceberam que as armas estavam silenciosas havia muito tempo, embora as sirenes de ataque a�reo, da pol�cia e as buzinas dos carros sustentassem uma barulheira constante.</p><p>� Sinto cheiro de fuma�a � disse Croyd.</p><p>� Eu tamb�m. Se alguma coisa estiver pegando fogo, nenhum caminh�o de bombeiros vai chegar l�.</p><p>� Toda essa droga de cidade poderia pegar fogo.</p><p>� Talvez n�o seja isso tudo.</p><p>� Pode apostar que �.</p><p>Eles avan�aram, se depararam com uma massa de corpos e foram empurrados at� a esquina.</p><p>� N�s n�o vamos por a�! � gritou Croyd.</p><p>Mas isso n�o importava, porque a multid�o ao redor deles foi bloqueada segundos depois.</p><p>� Acha que conseguimos engatinhar at� a rua e passar por cima dos carros de novo? � perguntou Joe.</p><p>� Podemos tentar.</p><p>Eles conseguiram. S� que, dessa vez, abrir caminho de volta para a esquina demorou mais, j� que outros tomavam o mesmo rumo. Croyd viu um rosto reptiliano atr�s de um para-brisa, e m�os escamosas agarrando um volante que havia sido arrancado da coluna enquanto lentamente o motorista ca�a de lado. Desviando os olhos, viu uma coluna de fuma�a se erguer al�m dos edif�cios a noroeste.</p><p>Quando chegaram � esquina, n�o havia como passar. As pessoas estavam amontoadas e oscilando. Havia gritos eventuais. Ele queria chorar, mas sabia que n�o adiantaria nada. Trincou os dentes e estremeceu.</p><p>� O que vamos fazer? � perguntou a Joe.</p><p>� Se ficarmos presos aqui de noite, podemos quebrar o vidro de um carro vazio e dormir nele, acho.</p><p>� Eu quero ir para casa!</p><p>� Eu tamb�m. Vamos tentar ir o mais longe que pudermos.</p><p>Eles se arrastaram pela rua por quase uma hora, mas s� avan�aram outro quarteir�o. Motoristas berravam e batiam nas janelas quando eles passavam por cima do teto dos carros. Outros carros estavam vazios. Uns poucos continham coisas que n�o gostaram de ver. O tr�fego na cal�ada parecia perigoso. Estava r�pido e barulhento, com brigas r�pidas, muitos gritos e uma s�rie de corpos ca�dos que haviam sido empurrados para umbrais de porta ou do meio-fio para a rua. Houve alguns segundos de hesita��o e sil�ncio quando as sirenes pararam. Ent�o surgiu o som de algu�m falando em um megafone. Mas era distante demais. As palavras eram incompreens�veis, a n�o ser �pontes�. O p�nico recome�ou.</p><p>Viu uma mulher cair de um pr�dio � frente, do outro lado da rua, desviou os olhos antes que ela batesse no ch�o. O cheiro de fuma�a continuava no ar, mas ainda n�o havia sinais de inc�ndio na vizinhan�a. � frente, viu a multid�o parar e recuar quando uma pessoa � n�o podia dizer se homem ou mulher � explodiu em chamas no meio dela. Ele deslizou para a rua entre dois carros e esperou que o amigo aparecesse.</p><p>� Joe, estou morrendo de medo � falou. � Talvez a gente devesse engatinhar para baixo de um carro e esperar tudo terminar.</p><p>� Eu estava pensando nisso � respondeu o outro garoto. � Mas e se uma parte daquele pr�dio em chamas cair sobre um carro e ele pegar fogo?</p><p>� E da�?</p><p>� Se acertar o tanque de gasolina e ele explodir, juntos como est�o, todos eles explodem, como uma fileira de roj�es.</p><p>� Jesus!</p><p>� Temos que continuar. Voc� pode ir para minha casa se for mais f�cil.</p><p>Croyd viu um homem fazer uma s�rie de movimentos que pareciam dan�a, rasgando as roupas. Ent�o come�ou a mudar de forma. Algu�m mais atr�s na rua come�ou a uivar. Houve barulho de vidro se quebrando.</p><p>Durante a meia hora seguinte o tr�nsito na cal�ada diminuiu para o que em outras circunst�ncias poderia ser chamado de normal. As pessoas pareciam ou ter chegado aos seus destinos ou levado o engarrafamento para outra parte da cidade. Agora, aqueles que passavam abriam caminho entre cad�veres. Os rostos haviam desaparecido atr�s das janelas. N�o se via ningu�m no alto dos pr�dios. O som das buzinas dos carros havia se reduzido a surtos eventuais. Os garotos estavam de p� em uma esquina. Haviam percorrido tr�s quarteir�es e atravessado a rua desde que sa�ram da escola.</p><p>� Eu viro aqui � disse Joe. � Quer vir comigo ou vai seguir em frente?</p><p>Croyd olhou para a rua.</p><p>� Parece melhor agora. Acho que consigo chegar bem � disse.</p><p>� At� logo.</p><p>� Tchau.</p><p>Joe foi apressado para a esquerda. Croyd o observou por um momento, depois avan�ou. Mais adiante na rua um homem saiu correndo de uma porta, gritando. Ele pareceu ficar maior e seus movimentos se tornaram mais err�ticos � medida que seguia para o centro da rua. Ent�o explodiu. Croyd pressionou as costas contra a parede de tijolos � sua esquerda e observou, com o cora��o acelerado, mas n�o houve mais nenhuma perturba��o. Ouviu o megafone de novo, de algum ponto a oeste, e dessa vez as palavras eram mais claras: �As pontes est�o fechadas para carros e pedestres. N�o tentem usar as pontes. Voltem para suas casas. As pontes est�o fechadas...�</p><p>Ele tornou a avan�ar. Uma �nica sirene soou em algum lugar a leste. Um avi�o passou acima, voando baixo. Havia um corpo retorcido em um umbral � esquerda; ele desviou os olhos e acelerou o passo. Viu fuma�a do outro lado da rua, procurou chamas e as viu se erguendo do corpo de uma mulher sentada no degrau de uma entrada, com as m�os na cabe�a. Ela parecia encolher enquanto ele olhava, depois, caiu para a esquerda com um barulho de chocalho. Ele cerrou os punhos e seguiu em frente.</p><p>Um caminh�o do Ex�rcito saiu da rua lateral na esquina em frente. Ele correu at� l�. Um rosto com capacete se virou para ele do lado do carona.</p><p>� Por que est� na rua, filho? � perguntou o homem.</p><p>� Estou indo para casa � respondeu.</p><p>� Onde fica?</p><p>Ele apontou para a frente.</p><p>� Dois quarteir�es � disse.</p><p>� V� direto para casa � ordenou o homem.</p><p>� O que est� acontecendo?</p><p>� Estamos sob lei marcial. Todos t�m que ficar em casa. Tamb�m � uma boa ideia manter as janelas fechadas.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Parece que foi alguma esp�cie de bomba biol�gica que explodiu. Ningu�m sabe ao certo.</p><p>� Era o Jetboy que...</p><p>� Jetboy est� morto. Ele tentou det�-los.</p><p>Os olhos de Croyd de repente se encheram de l�grimas.</p><p>� V� direto para casa.</p><p>O caminh�o atravessou a rua e seguiu para oeste. Croyd atravessou correndo e desacelerou ao chegar � cal�ada. Come�ou a tremer. De repente se deu conta da dor nos joelhos, que os havia arranhado ao engatinhar sobre ve�culos. Enxugou os olhos. Sentia um frio terr�vel. Parou no meio do quarteir�o e bocejou v�rias vezes. Cansado. Estava inacreditavelmente cansado. Come�ou a se mover. Seus p�s pareciam mais pesados do que nunca. Parou novamente sob uma �rvore. Ouviu um gemido acima de sua cabe�a.</p><p>Quando ergueu os olhos, percebeu que n�o era uma �rvore. Era alto e marrom, com ra�zes e esguio, mas havia um rosto humano imensamente alongado perto do alto, e era de l� que vinha o gemido. Enquanto se afastava, um dos galhos agarrou seu ombro, mas era uma coisa fraca e mais alguns passos o deixaram fora de alcance. Ele choramingou. A esquina parecia estar a quil�metros de dist�ncia, e depois havia mais um quarteir�o...</p><p>Ele estava com demorados acessos de bocejo e o mundo refeito perdera a capacidade de surpreend�-lo. E da� se um homem voava sem ajuda pelas ruas laterais? Ou se havia uma po�a com rosto humano na sarjeta � sua direita? Mais corpos... Um carro virado... Uma pilha de cinzas... Fios telef�nicos pendurados...</p><p>Ele se arrastou at� a esquina. Apoiou-se em um poste, escorregou lentamente e se sentou encostado nele.</p><p>Queria fechar os olhos. Mas aquilo era tolice. Ele morava logo ali. S� mais um pouco e poderia dormir na pr�pria cama.</p><p>Agarrou o poste e se levantou com dificuldade. Mais uma travessia.</p><p>Chegou ao seu quarteir�o, a vis�o emba�ada. S� mais um pouco. Ele conseguia ver a porta...</p><p>Ouviu o som deslizante e rangente de uma janela se abrindo, ouviu seu nome ser chamado acima. Ergueu os olhos. Era Ellen, filha ca�ula dos vizinhos, olhando para ele.</p><p>� Lamento pela morte do seu pai � disse.</p><p>Ele quis chorar, mas n�o conseguiu. Os bocejos esgotaram toda a sua for�a. Ele se apoiou na porta e tocou a campainha. O bolso com a chave dentro parecia muito distante...</p><p>Quando seu irm�o Carl abriu a porta, ele caiu a seus p�s e descobriu que n�o conseguia se levantar.</p><p>� Estou muito cansado � disse a ele e fechou os olhos.</p><p><strong>II � O assassino no cora��o do sonho</strong></p><p>A inf�ncia de Croyd desapareceu enquanto dormia, naquele primeiro Dia da Carta Selvagem. Quase quatro semanas se passaram antes que ele acordasse, e estava mudado, assim como o mundo ao redor. N�o era apenas que estivesse quinze cent�metros mais alto, mais forte do que achava que algu�m poderia ser e coberto com finos pelos vermelhos. Tamb�m descobriu rapidamente, enquanto se olhava no espelho do banheiro, que os pelos tinham propriedades peculiares. Sentindo repulsa por sua apar�ncia, desejou que n�o fossem vermelhos. Imediatamente come�aram a desbotar at� um tom louro-claro, e ele sentiu um formigamento n�o exatamente desagrad�vel sobre toda a superf�cie do corpo.</p><p>Intrigado, desejou que virassem verdes, e viraram. Novamente o formigamento, dessa vez mais como uma onda de vibra��o passando. Ele quis preto, e enegreceram. Depois, mais uma vez claros. S� que dessa vez ele n�o parou em louro-claro. Mais claro, mais claro; giz, albino. Ainda mais claro... Qual era o limite? Come�ou a sumir de vista. Podia ver a parede de azulejos atr�s, atrav�s de seu perfil esmaecido no espelho. Mais claro...</p><p>Sumiu.</p><p>Levou as m�os diante do rosto e n�o viu nada. Pegou a toalha de banho encharcada e a levou ao peito. Ela tamb�m ficou transparente, desapareceu, embora ainda sentisse sua presen�a molhada.</p><p>Ele retornou ao louro-claro. Parecia o mais aceit�vel socialmente. Ent�o se enfiou no que havia sido seu jeans mais largo e colocou uma camisa de flanela cinzenta, que n�o conseguiu abotoar por completo. As cal�as s� chegavam �s canelas. Silenciosamente, desceu as escadas descal�o e foi at� a cozinha. Estava faminto. O rel�gio do sagu�o lhe disse que eram quase tr�s. Ele havia dado uma olhada na m�e, no irm�o e na irm�, mas n�o perturbou o sono deles.</p><p>Havia metade de um p�o na caixa e ele o rasgou, enfiando grandes peda�os na boca, mal mastigando antes de engolir. Em dado momento, mordeu o dedo, o que s� o desacelerou um pouco. Encontrou um peda�o de carne e outro de queijo na geladeira e os comeu. Tamb�m bebeu quase um litro de leite. Havia duas ma��s no balc�o e as comeu enquanto vasculhava os arm�rios. Uma caixa de biscoitos. Mastigou enquanto continuava a procurar. Seis biscoitos. Engoliu. Meio pote de manteiga de amendoim. Comeu de colher.</p><p>Nada. Ele n�o conseguiu encontrar mais nada e ainda sentia uma fome terr�vel.</p><p>Ent�o a enormidade do seu banquete o chocou. N�o havia mais comida na casa. Recordou da tarde louca de sua volta da escola. E se estivesse faltando comida? E se tivesse recome�ado o racionamento? Ele havia acabado de comer a comida de todos.</p><p>Tinha de conseguir mais, para os outros, bem como para si. Foi at� a sala da frente e olhou pela janela. A rua estava deserta. Ficou pensando na lei marcial sobre a qual ouvira falar no caminho da escola para casa � h� quanto tempo? Ali�s, por quanto tempo dormira? Tinha a sensa��o de que havia sido muito.</p><p>Destrancou a porta e sentiu o frescor da noite. Uma das luzes da rua que estavam funcionando brilhava atrav�s dos galhos nus de uma �rvore pr�xima. Ainda havia algumas poucas folhas nas �rvores da rua na tarde dos problemas. Pegou a chave extra na mesa do sagu�o, saiu e trancou a porta atr�s de si. Os degraus, que ele sabia que deviam estar frios, n�o pareceram particularmente gelados a seus p�s nus.</p><p>Ent�o parou e recuou para a sombra. Era assustador n�o saber o que havia l� fora.</p><p>Ele ergueu as m�os e as segurou � luz do poste.</p><p>� Claro, claro, claro...</p><p>Elas sumiram at� a luz passar atrav�s delas. Continuaram a se apagar. Seu corpo se arrepiou.</p><p>Quando desapareceram, ele baixou os olhos. Parecia n�o restar nada dele a n�o ser o formigamento.</p><p>Ent�o subiu a rua apressado, uma sensa��o de enorme energia dentro dele. O estranho ser arb�reo desaparecera do quarteir�o seguinte. As ruas estavam liberadas ao tr�fego, embora ainda houvesse muito entulho no meio-fio e quase todos os ve�culos estacionados que via tivessem sofrido algum dano. Parecia que todo pr�dio pelo qual passava tinha pelo menos uma janela fechada com papel�o ou madeira. V�rias �rvores da rua eram troncos destro�ados, e o poste de metal na esquina seguinte estava muito curvado para um lado. Ele se apressou, surpreso com a rapidez de seu avan�o, e quando chegou � escola viu que permanecia intacta, a n�o ser por alguns vidros que faltavam. Prosseguiu.</p><p>Tr�s mercearias que encontrou estavam bloqueadas com t�buas e cartazes de FECHADA AT� SEGUNDA ORDEM. Invadiu a terceira. As t�buas ofereceram pouca resist�ncia quando as empurrou. Ele achou o interruptor e o acionou. Segundos depois, o desligou. O lugar estava arrasado. Havia sido totalmente saqueado.</p><p>Continuou a subir, passando pelos esqueletos de v�rios pr�dios incendiados. Ouviu vozes � uma rouca, outra aguda e musical � vindas de um deles. Momentos depois houve um clar�o de luz branca e um grito. Simultaneamente, um peda�o de parede de tijolos desmoronou, caindo sobre a cal�ada �s suas costas. N�o viu motivo para investigar. Em certo momento tamb�m achou ter ouvido vozes saindo de bueiros.</p><p>Perambulou por quil�metros naquela noite, sem se dar conta, at� chegar perto da Times Square, de que estava sendo seguido. Inicialmente achou que era apenas um cachorro grande indo na mesma dire��o. Mas quando este chegou perto e ele percebeu tra�os humanos, parou e o encarou. Estava sentado a uma dist�ncia de cerca de tr�s metros e olhava para ele.</p><p>� Voc� tamb�m � um � rosnou.</p><p>� Voc� consegue me ver?</p><p>� N�o. Farejar.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� Comida.</p><p>� Eu tamb�m.</p><p>� Eu mostro a voc� onde. Por um pouco.</p><p>� Certo. Mostre.</p><p>Ele o levou at� uma �rea cercada onde havia caminh�es do Ex�rcito estacionados. Croyd contou dez. Homens uniformizados estavam de p� ou descansando no meio deles.</p><p>� O que est� acontecendo? � perguntou Croyd.</p><p>� Fale depois. Pacotes de comida nos quatro caminh�es � esquerda.</p><p>N�o foi problema cruzar o per�metro, entrar no fundo de um ve�culo, pegar uma bra�ada de pacotes e se retirar na outra dire��o. Ele e o homem-c�o se esconderam em um umbral a dois quarteir�es dali. Croyd se tornou vis�vel e come�aram a se empanturrar.</p><p>Depois, seu novo conhecido � que queria ser chamado de Bentley � contou a ele os acontecimentos das semanas posteriores � morte de Jetboy, enquanto Croyd dormia. Croyd soube da corrida para Jersey, dos tumultos, da lei marcial, dos takisianos e das dez mil mortes que seu v�rus havia causado. E ouviu a respeito dos sobreviventes transformados � os sortudos e os azarados.</p><p>� Voc� � um sortudo � concluiu Bentley.</p><p>� Eu n�o me sinto com sorte � disse Croyd.</p><p>� Pelo menos continuou humano.</p><p>� Ent�o, j� foi ver esse Dr. Tachyon?</p><p>� N�o. Ele tem estado muito ocupado. Mas irei.</p><p>� Eu tamb�m devia.</p><p>� Talvez.</p><p>� O que quer dizer com �talvez�?</p><p>� Por que voc� iria querer mudar? Voc� se deu bem. Pode ter o que quiser.</p><p>� Quer dizer roubar?</p><p>� Os tempos s�o dif�ceis. Voc� vive do jeito que pode.</p><p>� Talvez.</p><p>� Posso arrumar roupas que caibam em voc�.</p><p>� Onde?</p><p>� Virando a esquina.</p><p>� Tudo bem.</p><p>Croyd n�o teve dificuldade em invadir pelos fundos a loja de roupas at� onde Bentley o levou. Depois disso, desapareceu e voltou para pegar outro carregamento de pacotes de comida. Bentley o seguiu enquanto voltava para casa.</p><p>� Voc� se importa se eu o acompanhar?</p><p>� N�o.</p><p>� Quero ver onde voc� mora. Eu posso lev�-lo a muitas coisas boas.</p><p>� �?</p><p>� Gostaria de um amigo que me mantivesse alimentado. Acha que podemos dar um jeito?</p><p>� Sim.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Nos dias que se seguiram, Croyd se tornou o provedor da fam�lia. O irm�o mais velho e a irm� n�o perguntavam como ele arrumava a comida ou, depois, o dinheiro que conseguia aparentemente com facilidade durante as aus�ncias noturnas. Nem a m�e, distra�da pela dor da morte do marido, pensou em perguntar. Bentley � que dormia em algum lugar na vizinhan�a � se tornou seu guia e mentor nessas empreitadas, bem como seu confidente em outras quest�es.</p><p>� Eu talvez devesse procurar o m�dico que voc� mencionou � disse Croyd, pousando a caixa de enlatados que tirara de um armaz�m e se sentando nela.</p><p>� Tachyon? � perguntou Bentley, se esticando de um modo pouco canino.</p><p>� �.</p><p>� O que h� de errado?</p><p>� N�o consigo dormir. J� se passaram cinco dias desde que acordei assim e n�o dormi desde ent�o.</p><p>� E da�? Qual o problema com isso? Mais tempo para fazer o que quer.</p><p>� Mas finalmente estou ficando cansado, e ainda assim n�o consigo dormir.</p><p>� Voc� vai sentir sono na hora certa. N�o vale a pena incomodar Tachyon. Al�m disso, se ele tentar te curar, suas chances s�o apenas de uma em tr�s ou quatro.</p><p>� Como sabe disso?</p><p>� Eu o procurei.</p><p>� E?</p><p>Croyd comeu uma ma��.</p><p>� Voc� vai tentar? � perguntou.</p><p>� Se conseguir tomar coragem � respondeu Bentley. � Quem quer passar a vida como cachorro? E, al�m disso, n�o exatamente um bom cachorro. Por falar nisso, quando passarmos por uma pet shop, queria que voc� entrasse e pegasse uma coleira antipulgas para mim.</p><p>� Claro. Fico pensando... Se eu for dormir, dormirei tanto tempo quanto antes?</p><p>Bentley tentou dar de ombros, desistiu.</p><p>� Quem sabe?</p><p>� Quem cuidar� da minha fam�lia? Quem cuidar� de voc�?</p><p>� Entendi. Se voc� parar de sair � noite vou esperar um pouco e depois tentar a cura. Quanto � sua fam�lia, melhor juntar um punhado de dinheiro. As coisas v�o ficar mais tranquilas e dinheiro � a solu��o.</p><p>� Voc� est� certo.</p><p>� Voc� � forte pra caramba. Acha que conseguiria abrir um cofre?</p><p>� Talvez. N�o sei.</p><p>� Podemos tentar um a caminho de casa. Conhe�o um bom lugar.</p><p>� Certo.</p><p>� E um pouco de talco antipulgas.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Foi perto do amanhecer, quando estava sentado, lendo e comendo, que come�ou a bocejar de forma incontrol�vel. Quando se levantou, havia um peso em seus membros que n�o existia antes. Subiu as escadas e entrou no quarto de Carl. Sacudiu o irm�o pelo ombro at� que acordasse.</p><p>� Qual �, Croyd? � perguntou.</p><p>� Estou com sono.</p><p>� Ent�o v� para cama.</p><p>� Passou muito tempo. Talvez eu durma muito de novo.</p><p>� Ah.</p><p>� Ent�o tem aqui algum dinheiro, para cuidar de todos caso isso aconte�a.</p><p>Ele abriu a gaveta de cima do gaveteiro de Carl e enfiou um grande ma�o de notas sob as meias.</p><p>� Ahn, Croyd... Onde voc� conseguiu todo esse dinheiro?</p><p>� N�o � da sua conta. Volte a dormir.</p><p>Ele foi para o quarto, se despiu e se enfiou na cama. Sentia muito frio.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Quando acordou, tinha gelo nas vidra�as da janela.</p><p>Ao olhar para fora, viu que havia neve no ch�o sob um c�u pl�mbeo. Sua m�o no peitoril era larga e escura, os dedos curtos e grossos.</p><p>Ao se examinar no banheiro, descobriu que tinha cerca de 1,65m de altura, poderosamente corpulento, com cabelos e olhos escuros e sulcos r�gidos como cicatrizes na frente das pernas, nas laterais dos bra�os, sobre os ombros, descendo as costas e subindo o pesco�o. Demorou mais 15 minutos para aprender que podia elevar a temperatura da m�o at� o ponto em que a toalha que estava segurando pegasse fogo. Apenas mais alguns minutos e descobriu que podia gerar calor em todo lugar, at� seu corpo inteiro reluzir � embora lamentasse pela pegada que havia gravado no lin�leo e pelo buraco que seu outro p� fez no tapete.</p><p>Dessa vez havia muita comida na cozinha, e ele comeu sem parar durante mais de uma hora at� a fome passar. Vestiu uma cal�a e um casaco de moletom, refletindo sobre a variedade de roupas que precisaria manter se mudasse de forma cada vez que dormisse.</p><p>Agora n�o havia nenhuma dificuldade para conseguir comida. O enorme n�mero de mortes ocorridas desde a libera��o do v�rus resultara em abund�ncia nos dep�sitos locais, e as lojas estavam reabrindo com suas rotinas de distribui��o normalizadas.</p><p>Sua m�e estava passando a maior parte do tempo na igreja, e Carl e Claudia voltaram � escola, que reabrira pouco antes. Croyd sabia que ele mesmo n�o voltaria � escola. O estoque de dinheiro ainda era grande, mas refletindo que dessa vez ele dormira nove dias mais do que da primeira, achou que seria uma boa ideia ter dinheiro extra na m�o. Ele se perguntou se conseguiria aquecer a m�o o suficiente para abrir um buraco na porta de metal de um cofre. Ele tivera grande dificuldade para abrir o primeiro � na verdade quase desistiu �, e Bentley havia garantido que era uma �lata�. Ele saiu e praticou em um peda�o de cano galvanizado.</p><p>Tentou planejar o servi�o com cuidado, mas sua avalia��o foi ruim. Teve de abrir oito cofres naquela semana antes de conseguir um bom dinheiro. A maioria deles tinha apenas pap�is. Ele sabia que havia disparado alarmes e isso o deixava nervoso; esperava que suas digitais tamb�m mudassem quando dormia. Trabalhou o mais r�pido poss�vel e desejou que Bentley estivesse de volta. O homem-cachorro teria sabido o que fazer, sentia. Em v�rias oportunidades ele teve ind�cios de que sua ocupa��o normal envolvera algo n�o exatamente legal.</p><p>Os dias se passaram mais r�pido do que teria desejado. Comprou um grande e variado guarda-roupas. � noite, caminhava pela cidade observando os sinais de danos que permaneciam e o avan�o das obras de recupera��o. Acompanhou as not�cias da cidade, do mundo. N�o era dif�cil acreditar em um homem do espa�o sideral quando o resultado do v�rus estava ao seu redor. Perguntou a um homem com cabe�a em forma de bala e dedos palmados onde poderia encontrar o Dr. Tachyon. O homem lhe deu um endere�o e um n�mero de telefone. Ele os guardou na carteira, e n�o ligou nem foi. E se o m�dico o examinasse, dissesse que n�o era problema e o curasse? �quela altura ningu�m mais na fam�lia conseguia ganhar a vida.</p><p>Chegou o dia em que seu apetite aumentou novamente, o que para ele significava que seu corpo estava se preparando para outra mudan�a. Dessa vez observou com mais aten��o o que sentia, para futura refer�ncia. Demorou o restante daquele dia e a noite e parte do dia seguinte antes que come�assem o frio e as ondas de sonol�ncia. Ele deixou um bilhete desejando boa-noite aos outros, pois estavam fora quando a sensa��o tomou conta dele. E dessa vez trancou a porta do quarto, pois descobriu que o haviam observado regularmente enquanto dormia e em dado momento at� haviam levado um m�dico � uma mulher, que ao tomar conhecimento de seu hist�rico, prudentemente recomendara que simplesmente o deixassem dormir. Tamb�m sugerira que procurasse o Dr. Tachyon ao acordar, mas a m�e perdera o papel no qual ela havia escrito isso. A cabe�a da Sra. Crenson parecia frequentemente distra�da naqueles dias.</p><p>Ele teve o sonho novamente � e dessa vez se deu conta de que era <emphasis>novamente</emphasis> � e foi a primeira vez em que se lembrou dele: a apreens�o lembrava seus sentimentos no dia em que voltara da escola para casa pela �ltima vez. Estava caminhando pelo que parecia uma rua vazia no crep�sculo. Algo se mexeu atr�s dele, que se virou e olhou. Pessoas sa�am de umbrais, janelas, carros, bueiros e todas olhavam para ele, se moviam na sua dire��o. Continuou em seu caminho e houve algo como um suspiro coletivo �s suas costas. Quando olhou novamente, todos estavam correndo na sua dire��o de forma amea�adora, express�es de �dio nos rostos. Come�ou a correr, certo de que pretendiam sua destrui��o. Eles o perseguiram...</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Quando acordou, estava repugnante e n�o tinha poderes especiais. Estava sem pelos, tinha um focinho e estava coberto de escamas cinza-esverdeadas; os dedos eram alongados e tinham articula��es extras, os olhos eram amarelos e estreitos; sentia dores nas coxas e na base da coluna se ficasse em p� muito tempo. Era mais f�cil andar pelo quarto de quatro. Quando fez uma exclama��o em voz alta sobre sua condi��o, sua fala tinha um sibilo pronunciado.</p><p>Era come�o da noite e ouviu vozes no andar de baixo. Abriu a porta e chamou, e Claudia e Carl correram para seu quarto. Ele entreabriu a porta e permaneceu atr�s dela.</p><p>� Croyd! Voc� est� bem? � perguntou Carl.</p><p>� Sim e n�o � sibilou. � Ficarei bem. Neste exato instante estou morrendo de fome. Tragam comida. Muita.</p><p>� Qual o problema? � perguntou Claudia. � Voc� n�o vai sair?</p><p>� Depois! Falar depois. Comida agora!</p><p>Ele se recusou a sair do quarto ou a deixar a fam�lia v�-lo. Eles levaram a ele comida, revistas, jornais. Escutou r�dio e andou de um lado para o outro, quadr�pede. Dessa vez o sono era algo a ser cortejado em vez de temido. Ele se deitou na cama, esperando que viesse logo. Mas isso lhe foi negado a maior parte da semana.</p><p>Quando acordou novamente, se viu com pouco mais de 1,80m de altura, cabelos escuros, magro e com tra�os que n�o eram desagrad�veis. Era t�o forte quanto havia sido em ocasi�es anteriores, mas ap�s algum tempo concluiu que n�o possu�a poderes especiais � at� escorregar na escada ao correr para a cozinha e se salvar levitando.</p><p>Depois, notou um bilhete com a caligrafia de Claudia preso � sua porta. Tinha um n�mero de telefone e dizia que podia encontrar Bentley ali. Ele o colocou na carteira. Tinha outro telefonema a dar antes.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O Dr. Tachyon ergueu os olhos para ele e sorriu levemente.</p><p>� Podia ser pior � disse.</p><p>Croyd quase se divertiu com a avalia��o.</p><p>� Como? � perguntou.</p><p>� Bem, voc� poderia ter tirado um curinga.</p><p>� O que exatamente eu tirei, senhor?</p><p>� O seu � um dos casos mais interessantes que vi at� agora. Em todos os outros ele simplesmente seguiu seu caminho e matou a pessoa ou a modificou � para o bem ou para o mal. No seu caso... Bem, a melhor analogia � uma doen�a terrestre chamada mal�ria. O v�rus que voc� tem parece reinfect�-lo periodicamente.</p><p>� Eu tirei um curinga uma vez...</p><p>� Sim, e pode acontecer novamente. Mas diferentemente de qualquer outro com quem isso aconteceu, voc� s� precisa esperar. Passa dormindo.</p><p>� N�o quero ser um monstro novamente. H� alguma forma pela qual voc� possa mudar apenas essa parte?</p><p>� Temo que n�o. � parte de sua s�ndrome total. S� posso cuidar da coisa toda.</p><p>� E as chances de uma cura s�o de tr�s ou quatro para uma?</p><p>� Quem lhe disse isso?</p><p>� Um curinga chamado Bentley. Ele meio que parecia um cachorro.</p><p>� Bentley foi um dos meus sucessos. Ele agora voltou ao normal. Na verdade, acabou de sair daqui.</p><p>� Mesmo? Bom saber que algu�m conseguiu.</p><p>Tachyon desviou os olhos.</p><p>� Sim � respondeu um instante depois.</p><p>� Diga-me uma coisa.</p><p>� O qu�?</p><p>� Se eu s� mudo quando durmo, ent�o posso evitar uma mudan�a permanecendo acordado, certo?</p><p>� Entendo o que quer dizer. Sim, um estimulante poderia afastar isso um pouco. Se voc� sentir que est� vindo quando estiver em algum lugar, a cafe�na de duas x�caras de caf� provavelmente ir� segurar tempo suficiente para que volte para casa.</p><p>� N�o h� nada mais forte? Algo que elimine isso por mais tempo?</p><p>� Sim, h� estimulantes poderosos; anfetaminas, por exemplo. Mas podem ser perigosos caso tome demais ou por tempo demais.</p><p>� De que forma s�o perigosos?</p><p>� Nervosismo, irritabilidade, belicosidade. Depois, psicose t�xica, com ilus�es, alucina��es, paranoia.</p><p>� Loucura?</p><p>� Sim.</p><p>� Bem, voc� pode simplesmente parar se chegar perto disso, n�o?</p><p>� N�o acho que seja t�o f�cil.</p><p>� Eu odiaria ser um monstro novamente, ou... Voc� n�o disse, mas n�o � poss�vel que eu simplesmente morra durante um dos comas?</p><p>� Existe essa possibilidade. � um v�rus terr�vel. Mas voc� j� passou por v�rios ataques, o que me leva a crer que seu corpo sabe o que est� fazendo. Eu n�o me preocuparia demais com isso...</p><p>� � a parte do curinga que me incomoda de verdade.</p><p>� Essa � uma possibilidade que voc� simplesmente ter� que aceitar.</p><p>� Certo. Obrigado, doutor.</p><p>� Gostaria que viesse ao Monte Sinai da pr�xima vez que sentir que est� come�ando. Eu realmente gostaria de observar o processo em voc�.</p><p>� Eu prefiro que n�o.</p><p>Tachyon assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ou pouco depois de voc� acordar...</p><p>� Talvez � disse Croyd e apertou a m�o dele. � Por falar nisso, doutor... Como se escreve �anfetamina�?</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Croyd parou no apartamento dos Sarzanno depois, pois n�o via Joe desde aquele dia de setembro em que sa�ram da escola juntos e a necessidade de ganhar a vida reduziu seu tempo livre desde ent�o.</p><p>A Sra. Sarzanno entreabriu a porta e olhou para ele. Depois que se identificou e tentou explicar sua mudan�a de apar�ncia, ela ainda se recusou a abrir mais a porta.</p><p>� Meu Joe tamb�m mudou � disse ela.</p><p>� Ah, como ele mudou? � perguntou.</p><p>� Mudou. Isso � tudo. Mudou. V� embora.</p><p>Ela fechou a porta.</p><p>Ele bateu novamente, mas ningu�m atendeu.</p><p>Croyd ent�o partiu e comeu tr�s fil�s, pois n�o havia mais nada que pudesse fazer.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Croyd analisou Bentley � um homem pequeno com tra�os de raposa, cabelos escuros e olhos agitados � sentindo que sua transforma��o anterior de fato combinava com seu comportamento geral. Bentley devolveu o cumprimento por v�rios segundos, depois disse:</p><p>� � realmente voc�, Croyd?</p><p>� �.</p><p>� Venha. Sente-se. Tome uma cerveja. Temos muito a conversar.</p><p>Ele deu um passo para o lado e Croyd entrou no apartamento belamente mobiliado.</p><p>� Fiquei curado e voltei aos neg�cios. Os neg�cios est�o p�ssimos � disse Bentley depois que tinham se sentado. � Qual a sua hist�ria?</p><p>Croyd contou a ele sobre as mudan�as e os poderes que experimentara e sua conversa com Tachyon. A �nica coisa que nunca contou a ele foi sua idade, j� que todas as suas transforma��es tinham uma apar�ncia de maturidade. Ele temia que Bentley n�o confiasse nele da mesma forma caso soubesse.</p><p>� Voc� fez esses outros servi�os de modo errado � disse o homenzinho, acendendo um cigarro e tossindo. � Tentativa e erro nunca � bom. Voc� precisa de um pouco de planejamento, e isso deve ser ajustado ao seu talento especial a cada vez. Voc� diz que desta vez consegue voar?</p><p>� Sim.</p><p>� Certo. H� muitos lugares no alto de arranha-c�us que as pessoas acham bastante seguros. Desta vez atacamos esses. Sabe, voc� tem o melhor f�sico poss�vel. Mesmo que algu�m o veja, n�o importa. Estar� diferente da vez seguinte.</p><p>� E voc� me consegue as anfetaminas?</p><p>� Tudo o que voc� quiser. Volte aqui amanh�; mesma hora, mesma esta��o. Talvez eu tenha arrumado um servi�o para n�s. E terei seus comprimidos.</p><p>� Obrigado, Bentley.</p><p>� � o m�nimo que posso fazer. Se continuarmos juntos, ficaremos ricos.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Bentley planejou um bom servi�o e tr�s dias depois Croyd levou para casa mais dinheiro do que j� tivera antes. Deu a maior parte dele para Carl, que estava cuidando das finan�as da fam�lia.</p><p>� Vamos dar uma volta � disse Carl, escondendo o dinheiro atr�s de uma fila de livros e olhando significativamente para a sala, onde a m�e estava com Claudia.</p><p>Croyd fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Claro.</p><p>� Voc� parece muito mais velho atualmente � disse Carl, que faria 18 em poucos meses, assim que chegaram � rua.</p><p>� Eu me sinto muito mais velho.</p><p>� N�o sei onde voc� continua arrumando o dinheiro...</p><p>� Melhor n�o.</p><p>� Certo. N�o posso reclamar, j� que estou vivendo dele tamb�m. Mas queria que voc� soubesse sobre a m�e. Ela est� piorando. Ver papai ser despeda�ado daquele jeito... Ela est� piorando desde ent�o. At� agora voc� perdeu o pior disso, da �ltima vez estava dormindo. Em tr�s noites diferentes ela simplesmente se levantou e saiu de camisola; descal�a, em fevereiro, por Cristo! E vagou como se estivesse procurando por papai. Felizmente, todas as vezes algu�m que conhec�amos a viu e a trouxe de volta. Continuou perguntando a ela, a Sra. Brandt, se o tinha visto. De qualquer forma, o que estou tentando dizer � que est� piorando. J� conversei com dois m�dicos. Eles acham que deveria passar um tempo em uma casa de repouso. Claudia e eu tamb�m achamos. N�o podemos vigi�-la o tempo todo e ela pode se machucar. Claudia tem 16 anos. N�s dois podemos cuidar das coisas enquanto ela estiver fora. Mas vai ser caro.</p><p>� Eu posso conseguir dinheiro � disse Croyd.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Quando finalmente conseguiu falar com Bentley no dia seguinte e disse que precisavam fazer outro servi�o logo, o homenzinho pareceu contente, pois Croyd n�o ansiava por uma sequ�ncia r�pida.</p><p>� Um dia ou dois para arrumar algo e acertar os detalhes � disse Bentley. � Falo com voc�.</p><p>� Certo.</p><p>No dia seguinte, o apetite de Croyd come�ou a aumentar e ele se viu bocejando de vez em quando. Ent�o tomou um dos comprimidos.</p><p>Funcionou bem. Na verdade, melhor que bem. Foi uma bela sensa��o que tomou conta dele. N�o conseguia se lembrar da �ltima vez em que se sentiu t�o bem. Tudo parecia como se estivesse se encaminhando diretamente para uma mudan�a. E todos os movimentos pareciam particularmente fluidos e graciosos. Tamb�m se sentia mais alerta, mais consciente do que de h�bito. E, mais importante, n�o estava sonolento.</p><p>Apenas de noite, depois que todos haviam se recolhido, essas sensa��es come�aram a passar. Ele tomou outro comprimido. Quando come�ou a fazer efeito, ele se sentiu t�o bem que saiu e levitou bem alto acima da cidade, flutuando na fria noite de mar�o entre as brilhantes constela��es da cidade e aquelas bem acima, sentindo como se tivesse uma chave secreta para o significado interno de tudo. Pensou brevemente na batalha de Jetboy no c�u e voou sobre os restos do Terminal Hudson, que havia pegado fogo quando peda�os do avi�o de Jetboy ca�ram por cima. Tinha lido que planejavam construir um monumento ali. Era essa a sensa��o de cair?</p><p>Ele desceu para deslizar entre os pr�dios � algumas vezes parando no teto de um, saltando, caindo, se salvando no �ltimo instante. Em uma dessas ocasi�es, viu dois homens o observando de um umbral. Por alguma raz�o que ele n�o entendeu, isso o irritou. Voltou para casa e come�ou uma faxina. Empilhou jornais e revistas velhos e os amarrou em fardos, esvaziou cestos de lixo, varreu e esfregou, lavou toda a lou�a na pia. Voou com quatro carregamentos de lixo at� o East River e os jogou, j� que a coleta de lixo ainda n�o havia sido totalmente regularizada. Tirou o p� de tudo e a manh� o encontrou polindo a prataria. Depois lavou todas as janelas.</p><p>Foi de repente que se viu fraco e tr�mulo. Ele se deu conta do que era e tomou outro comprimido e colocou um bule de caf� para filtrar. Os minutos se passaram. Era dif�cil permanecer sentado, confort�vel em uma posi��o. Ele n�o gostava do formigamento nas m�os. Lavou-as v�rias vezes, mas n�o passou. Finalmente, tomou outro comprimido. Olhou o rel�gio e escutou o som do bule de caf�. Quando o caf� ficou pronto, o formigamento e o tremor come�aram a passar. Ele se sentiu muito melhor. Enquanto tomava o caf� pensou novamente nos dois homens no umbral. Estavam rindo dele? Sentiu um surto de raiva r�pido, embora n�o tivesse realmente visto seus rostos, reparado em suas express�es. Observando! Se tivessem mais tempo poderiam ter jogado uma pedra...</p><p>Balan�ou a cabe�a. Isso era tolice. Eram apenas dois caras. De repente ele quis correr para fora e caminhar pela cidade, talvez voar novamente. Mas podia perder o telefonema de Bentley, caso ligasse. Come�ou a andar de um lado para o outro. Tentou ler, mas n�o conseguiu se concentrar t�o bem como de costume. Finalmente ligou para Bentley.</p><p>� Ainda n�o conseguiu nada? � perguntou.</p><p>� Ainda n�o, Croyd. Por que a pressa?</p><p>� Estou come�ando a sentir sono. Entende o que quero dizer?</p><p>� Ahn... Sim. J� tomou aquela merda?</p><p>� Aham. Precisei.</p><p>� Certo. Olhe, v� o mais devagar poss�vel. Estou trabalhando em duas coisas. Vou tentar ter algo acertado at� amanh�. Se n�o tiver nada, voc� para de tomar a coisa e vai para a cama. Podemos fazer isso da pr�xima vez. Entendeu?</p><p>� Quero fazer desta vez, Bentley.</p><p>� Falo com voc� amanh�. Agora relaxe.</p><p>Ele saiu e caminhou. Era um dia nublado, com neve e gelo em alguns pontos do ch�o. De repente se deu conta de que n�o havia comido desde o dia anterior. Isso tinha de ser ruim, considerando o que passou a ser seu apetite normal. Deviam ser os comprimidos fazendo efeito, concluiu. Procurou um restaurante, decidido a se obrigar a comer algo. Enquanto caminhava, lhe ocorreu que n�o queria se sentar no meio de uma multid�o e comer. A ideia de ter todos ao redor era perturbadora. N�o, ele faria um pedido para viagem...</p><p>Enquanto seguia na dire��o de um restaurante, foi detido por uma voz saindo de um umbral. Ele se virou t�o r�pido que o homem que havia falado com ele ergueu um bra�o e recuou.</p><p>� N�o... � protestou o homem.</p><p>Croyd recuou um passo.</p><p>� Lamento � murmurou.</p><p>O homem vestia um casaco marrom, o colarinho levantado. Usava um chap�u, a aba baixada o m�ximo que era poss�vel sem bloquear a vis�o. Mantinha a cabe�a inclinada para a frente. Ainda assim Croyd p�de ver um bico curvo, olhos cintilantes e uma pele que brilhava de modo nada natural.</p><p>� Poderia me fazer um favor, senhor? � pediu o homem em uma voz entrecortada e aguda.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� Comida.</p><p>Croyd enfiou a m�o no bolso automaticamente.</p><p>� N�o. Eu tenho dinheiro. Voc� n�o entende. N�o posso entrar naquele lugar e ser servido com a minha apar�ncia. Pago a voc� para entrar, pegar dois hamb�rgueres para mim e trazer para fora.</p><p>� Eu ia entrar de qualquer forma.</p><p>Mais tarde Croyd se sentou com o homem em um banco, comendo. Ele era fascinado por curingas. Porque sabia que ele mesmo era, em parte, um. Come�ou a pensar em onde comeria se um dia acordasse em m� forma e n�o houvesse ningu�m em casa.</p><p>� Eu normalmente n�o venho mais t�o para o norte da cidade � disse o outro. � Mas eu tinha um servi�o.</p><p>� Onde voc�s costumam ficar?</p><p>� H� alguns de n�s no Bowery. Ningu�m nos incomoda l�. H� lugares onde voc� � servido e ningu�m se importa com a sua apar�ncia. Ningu�m d� a m�nima.</p><p>� Quer dizer que as pessoas poderiam... Atacar voc�?</p><p>O homem deu uma breve risada estridente.</p><p>� As pessoas n�o s�o muito legais, garoto. N�o quando voc� realmente as conhece.</p><p>� Eu o levo de volta � disse Croyd.</p><p>� Voc� pode estar correndo um risco.</p><p>� Tudo bem.</p><p>Foi na altura da 40th Street que tr�s homens em um banco ficaram encarando enquanto eles passavam. Croyd havia acabado de tomar mais dois comprimidos alguns quarteir�es antes. (Teria sido alguns quarteir�es antes?) N�o queria o nervosismo de novo enquanto conversava com o novo amigo, John � pelo menos era como ele queria ser chamado �, ent�o tomou mais dois para se acalmar na pr�xima depress�o, caso acontecesse logo, e soube imediatamente quando viu os dois homens que planejavam algo ruim para ele e John, e os m�sculos de suas costas se contra�ram e ele cerrou os punhos dentro dos bolsos.</p><p>� <emphasis>Cocoric�</emphasis> � disse um dos homens e Croyd come�ou a correr, mas John colocou a m�o em seu bra�o e disse:</p><p>� Vamos.</p><p>Eles sa�ram andando. Os homens se levantaram e foram atr�s deles.</p><p>� <emphasis>Quiquiquiqui</emphasis> � disse um.</p><p>� <emphasis>Qu�-qu�</emphasis> � disse o outro.</p><p>Pouco tempo depois, uma guimba de cigarro passou por cima da cabe�a de Croyd e caiu na sua frente.</p><p>� Ei, amigo esquisit�o!</p><p>Uma m�o pousou em seu ombro.</p><p>Ele ergueu o bra�o, segurou a m�o e a apertou. Ossos estalaram dentro dela enquanto o homem come�ava a gritar. Os gritos pararam de repente, quando Croyd soltou a m�o e estapeou o homem no rosto, derrubando-o na rua. O homem seguinte lan�ou um golpe na dire��o do seu rosto e Croyd desviou o bra�o para o lado com um movimento de m�o que girou o homem de frente. Ent�o esticou a m�o esquerda, segurou as lapelas do outro, juntando-as e torcendo-as, e ergueu o homem 60 cm no ar. Ele o lan�ou contra a parede de tijolos perto de onde estavam, depois o soltou. O homem caiu no ch�o e n�o se moveu.</p><p>O �ltimo homem havia sacado uma faca e o xingava entre dentes trincados. Croyd esperou at� ele estar quase em cima, depois levitou 1,20m e o chutou no rosto. O homem caiu de costas na cal�ada. Croyd se colocou em posi��o acima dele e se soltou, pousando em sua barriga. Chutou a faca para o bueiro, se virou e caminhou com John.</p><p>� Voc� � um �s � disse o homem menor ap�s um tempo.</p><p>� Nem sempre � retrucou Croyd. � �s vezes sou um curinga. Mudo sempre que durmo.</p><p>� Voc� n�o precisava ter sido t�o duro com eles.</p><p>� Certo. Eu poderia ter sido muito mais duro. Se realmente vai ser assim, dev�amos cuidar uns dos outros.</p><p>� �. Obrigado.</p><p>� Escute. Quero que voc� me mostre os lugares no Bowery onde diz que ningu�m nos incomoda. Posso precisar ir l� um dia.</p><p>� Claro. Farei isso.</p><p>� Croyd Crenson. C-r-e-n-s-o-n. Lembre-se, certo? Porque se voc� me vir novamente, eu estarei diferente.</p><p>� Vou me lembrar.</p><p>John o levou a v�rias espeluncas e apontou lugares onde alguns deles ficavam. Ele o apresentou a seis curingas que encontraram, todos terrivelmente deformados. Lembrando-se de sua fase lagarto, Croyd trocou apertos de ap�ndice com todos e perguntou se precisavam de algo. Mas eles balan�aram as cabe�as e ficaram olhando. Ele sabia que sua apar�ncia n�o o favorecia.</p><p>� Boa noite � disse e saiu voando.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Seu medo de que os sobreviventes n�o infectados o estivessem observando, esperando para saltar sobre ele, aumentou enquanto voava ao longo do East River. Naquele exato instante algu�m com um rifle e mira telesc�pica poderia estar fazendo pontaria.</p><p>Ele se moveu mais r�pido. De certa forma, ele sabia que seu medo era rid�culo. Mas era forte demais para que o deixasse de lado. Pousou na esquina, correu para a porta e entrou. Subiu as escadas correndo e se trancou no quarto.</p><p>Ficou olhando para a cama. Queria se esticar nela. Mas e se dormisse? Tudo estaria encerrado. O mundo terminaria para ele. Ligou o r�dio e come�ou a andar. Seria uma longa noite...</p><p>Quando Bentley ligou no dia seguinte e disse que tinha um servi�o quente, mas que era um pouco arriscado, Croyd respondeu que n�o ligava. Ele teria de levar explosivos � significando que teria de aprender a us�-los antes do servi�o � porque aquele cofre era resistente demais mesmo para sua for�a aumentada. Tamb�m havia a possibilidade de haver um guarda armado...</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele n�o queria matar o guarda, mas o homem o assustou ao entrar de arma em punho daquela forma. E devia ter calculado errado o detonador, porque a coisa explodiu antes da hora, motivo pelo qual o peda�o de metal arrancou os dois primeiros dedos de sua m�o esquerda. Mas ele havia enrolado a m�o no len�o, pegado o dinheiro e sa�do.</p><p>Parecia se lembrar de Bentley dizendo: �Meu Deus, garoto! V� para casa e durma!�, pouco depois de dividir o dinheiro. Ent�o levitou e foi na dire��o certa, mas teve de descer e invadir uma padaria, onde comeu tr�s p�es antes de conseguir continuar, a cabe�a girando. Havia mais comprimidos em seu bolso, mas achou que haviam dado um n� em seu est�mago.</p><p>Deslizou a janela do quarto, que havia deixado destravada, e se arrastou para dentro. Cambaleou at� a porta do quarto de Carl e jogou o saco de dinheiro sobre sua forma adormecida. Tr�mulo, retornou ao quarto e trancou a porta. Ligou o r�dio. Queria lavar a m�o ferida no banheiro, mas ele parecia longe demais. Caiu na cama e n�o se levantou.</p><p><image l:href="#4"/></p><p><emphasis>Estava caminhando pelo que parecia uma rua vazia no crep�sculo. Algo se mexeu atr�s dele, que se virou e olhou. Pessoas sa�am de umbrais, janelas, carros, bueiros, e todas olhavam para ele, se moviam na sua dire��o. Continuou em seu caminho, e houve algo como um suspiro coletivo �s suas costas. Quando olhou novamente, todos estavam correndo na sua dire��o de forma amea�adora, express�es de �dio nos rostos. Ele se virou para eles, agarrou o homem mais pr�ximo e o estrangulou. Os outros pararam, recuaram. Esmagou a cabe�a de outro homem. A multid�o se virou, come�ou a fugir. Ele perseguiu...</emphasis></p><p><strong>III � O dia da g�rgula</strong></p><p>Croyd acordou em junho para descobrir que sua m�e estava em um sanat�rio, seu irm�o se formara no ensino m�dio, sua irm� estava noiva e ele tinha o poder de modular sua voz de modo a rachar ou quebrar virtualmente qualquer coisa assim que determinasse a frequ�ncia certa por meio de uma esp�cie de resposta ressonante que carecia de vocabul�rio para explicar. Tamb�m estava alto, magro, de cabelos escuros, pele amarelada e seus dedos perdidos haviam crescido de novo.</p><p>Antecipando o dia em que estaria s�, falou outra vez com Bentley para acertar um grande trabalho para esse per�odo desperto rapidamente, antes que o cansa�o o derrotasse. Havia resolvido n�o tomar os comprimidos novamente ao se lembrar do pesadelo que foram seus �ltimos dias da vez anterior.</p><p>Dessa vez prestou mais aten��o no planejamento e fez perguntas melhores enquanto Bentley fumava um cigarro atr�s do outro resolvendo uma s�rie de detalhes. A perda dos pais e o iminente casamento da irm� o fizeram refletir sobre a transitoriedade das rela��es humanas, levando � conclus�o de que Bentley talvez n�o estivesse sempre por perto.</p><p>Foi capaz de desligar o sistema de alarme e danificar a porta do cofre do banco o suficiente para entrar, embora n�o tivesse planejado estilha�ar todas as janelas em tr�s quarteir�es enquanto buscava a frequ�ncia certa. Ainda assim, conseguiu escapar com uma grande quantidade de dinheiro. Dessa vez alugou um cofre em um banco do outro lado da cidade, onde deixou o grosso da sua parte. Havia ficado um tanto incomodado com o fato de o irm�o estar dirigindo um carro novo.</p><p>Alugou quartos em Village, Midtown, Morningside Heights, Upper East Side e Bowery, pagando um ano adiantado de aluguel. Levava as chaves em uma corrente no pesco�o, juntamente com aquela do cofre no banco. Queria lugares que pudesse alcan�ar rapidamente, n�o importando onde estivesse quando o sono chegasse. Dois dos apartamentos eram mobiliados; os outros quatro foram dotados de cobertores e r�dios. Estava com pressa, ent�o podia cuidar dos confortos depois. Havia acordado tendo no��o de v�rios acontecimentos que se deram durante seu sono mais recente e s� podia atribuir isso a uma compreens�o inconsciente dos notici�rios do r�dio que deixou ligado da �ltima vez. Decidiu manter a pr�tica.</p><p>Ele demorou tr�s dias para encontrar, alugar e equipar os novos retiros. Como o lugar em Bowery era o �ltimo, ele procurou John, se identificou e jantou com ele. As hist�rias que ouviu de uma gangue de espancadores de curingas o deprimiram, e quando a fome, o frio e a sonol�ncia o assaltaram naquela noite, ele tomou um comprimido para permanecer acordado e patrulhar a �rea. Apenas um ou dois n�o fariam diferen�a, decidiu.</p><p>Os agressores n�o apareceram naquela noite, mas Croyd estava deprimido com a possibilidade de acordar como um curinga da pr�xima vez. Ent�o engoliu mais dois comprimidos no caf� da manh� para ajeitar as coisas e decidiu mobiliar os quartos locais no acesso de energia que se seguiu. Ao escurecer tomou mais tr�s, para uma �ltima noite na cidade, e a m�sica que cantou enquanto caminhava pela 42nd Street, partindo janelas pr�dio ap�s pr�dio, fez com que cachorros uivassem por v�rios quil�metros ao redor e acordou dois curingas e um �s equipado com audi��o UHF. Brannigan Ouvido de Morcego � que faleceu duas semanas depois sob uma est�tua em queda arremessada por Vincenzi M�sculos no dia em que foi abatido a tiros pela pol�cia de Nova York � o procurou para esmag�-lo na cal�ada em pagamento por sua dor de cabe�a e acabou lhe pagando v�rios drinques e pedindo uma suave vers�o UHF de �Galway Bay�.</p><p>Na tarde seguinte, na Broadway, Croyd reagiu a um xingamento de um taxista fazendo o carro dele passar por uma s�rie de vibra��es at� desmontar. Depois, enquanto estava animado, lan�ou a for�a sobre todos os outros que haviam se revelado inimigos tocando suas buzinas. S� quando o engarrafamento resultante o fez se lembrar daquele diante de sua escola no primeiro Dia da Carta Selvagem ele se virou e fugiu.</p><p>Acordou no in�cio de agosto em seu apartamento de Morningside Heights, lentamente se lembrando de como havia chegado l� e prometendo a si mesmo n�o tomar comprimidos dessa vez. Quando olhou os tumores em seu bra�o torcido, soube que n�o seria dif�cil manter a promessa. Dessa vez queria voltar a dormir o mais rapidamente poss�vel. Olhando pela janela, ficou grato por ser noite, j� que era um longo caminho at� Bowery.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Em uma quarta-feira de meados de setembro, ele despertou e se descobriu louro-escuro, altura, peso e constitui��o medianos e sem nenhuma marca vis�vel de sua s�ndrome do carta selvagem. Fez uma s�rie de exames simples que a experi�ncia ensinou serem capazes de revelar sua habilidade oculta. Nada na forma de um poder especial foi revelado.</p><p>Intrigado, vestiu as roupas mais adequadas que tinha � m�o e saiu para o desjejum habitual. Pegou v�rios jornais no caminho e os leu enquanto devorava prato ap�s prato de ovos mexidos, waffles e panquecas. Havia sido uma manh� fria quando sa�ra para a rua. Ao deixar o restaurante eram quase dez horas da manh� e estava fresco.</p><p>Foi de metr� para o centro, onde entrou na primeira loja de roupas de apar�ncia decente que encontrou e fez uma reforma completa. Comprou dois cachorros-quentes de um ambulante e os comeu enquanto caminhava at� a esta��o do metr�.</p><p>Saltou na altura da First Avenue, caminhou at� a delicat�ssen mais pr�xima e comeu dois sandu�ches de carne em conserva com panquecas de batata. Ele se perguntou se estaria protelando. Sabia que podia ficar sentado ali o dia inteiro comendo. Podia sentir o processo de digest�o acontecendo como uma fornalha em seu ventre.</p><p>Ele se levantou, pagou e partiu. Caminharia o resto da dist�ncia. Quantos meses haviam se passado?, ele se perguntou, co�ando a testa. Era hora de ver Carl e Claudia. Hora de ver como mam�e estava passando. Ver se algu�m precisava de dinheiro.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Quando Croyd chegou � porta da frente da casa, parou, a chave na m�o. Recolocou a chave no bolso e bateu. Momentos depois Carl abriu a porta.</p><p>� Sim? � perguntou.</p><p>� Sou eu. Croyd.</p><p>� Croyd! Jesus! Entre! N�o o reconheci. Quanto tempo faz?</p><p>� Bastante.</p><p>Croyd entrou.</p><p>� Como est� todo mundo? � perguntou.</p><p>� Mam�e est� na mesma. Mas voc� sabe que nos disseram para n�o ter muitas esperan�as.</p><p>� �. Precisa de dinheiro para ela?</p><p>� N�o at� m�s que vem. Mas dois mil seriam �teis ent�o.</p><p>Croyd passou um envelope para ele.</p><p>� Provavelmente eu s� iria confundi-la se a visse estando t�o diferente.</p><p>Carl balan�ou a cabe�a.</p><p>� Ela ficaria confusa mesmo que voc� tivesse a mesma apar�ncia, Croyd.</p><p>� Ah.</p><p>� Quer comer alguma coisa?</p><p>� Quero. Claro.</p><p>Seu irm�o o levou � cozinha.</p><p>� Muito rosbife aqui. D� um bom sandu�che.</p><p>� �timo. Como v�o os neg�cios?</p><p>� Ah, estou me estabelecendo agora. Est� melhor do que no come�o.</p><p>� Bom. E Claudia?</p><p>� Bom que tenha aparecido agora. Ela n�o sabia para onde enviar o convite.</p><p>� Qual convite?</p><p>� Ela se casa no s�bado.</p><p>� Aquele cara de Jersey?</p><p>� �. Sam. Aquele do qual estava noiva. Ele administra um neg�cio de fam�lia. Ganha um bom dinheiro.</p><p>� Onde ser� o casamento?</p><p>� Em Ridgewood. Voc� vai comigo. Eu vou de carro.</p><p>� Certo. De que tipo de presente gostariam?</p><p>� Eles fizeram uma lista. Voc� encontra.</p><p>� Bom.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Croyd saiu naquela tarde e comprou um televisor Dumont com tela de 16 polegadas, pagou em dinheiro e mandou que fosse entregue em Ridgewood. Depois visitou Bentley, mas recusou um servi�o que soava arriscado por causa de sua aparente falta de talentos especiais dessa vez. Na verdade, era uma boa desculpa. N�o queria realmente trabalhar, correr o risco de se ferrar � fisicamente ou com a lei � t�o perto do casamento.</p><p>Jantou com Bentley em um restaurante italiano e depois ficaram v�rias horas bebendo uma garrafa de Chianti, falando de trabalho e pensando no futuro enquanto Bentley tentava lhe explicar o valor da solv�ncia a longo prazo e de um dia se tornar respeit�vel � algo que ele mesmo nunca havia conseguido direito.</p><p>Depois disso, caminhou a maior parte da noite, para praticar estudando pr�dios em busca de pontos fracos, para pensar sobre sua fam�lia mudada. Em algum momento depois da meia-noite, quando passava por Central Park West, uma forte coceira come�ou em seu peito e se espalhou pelo corpo todo. Ap�s um minuto ele teve de parar e se co�ar violentamente. Alergias estavam entrando na moda na �poca e ele se perguntou se sua nova encarna��o o dera uma sensibilidade a algo no parque.</p><p>Seguiu para oeste na primeira oportunidade e saiu da regi�o o mais r�pido poss�vel. Ap�s uns dez minutos a coceira diminuiu. Em meia hora, havia desaparecido completamente. Mas suas m�os e o rosto pareciam �speros.</p><p>Por volta de quatro da manh� parou em um restaurante 24 horas perto da Times Square, onde comeu lenta e constantemente e leu um exemplar da revista <emphasis>Time</emphasis> que algu�m deixou em um reservado. A se��o m�dica tinha um artigo sobre suic�dio entre curingas, o que o deprimiu consideravelmente. As cita��es que trazia o fizeram se lembrar de coisas que ouvira serem ditas por muitas pessoas que conhecia, levando-o a pensar se algumas delas estariam entre os entrevistados. Ele compreendia muito bem os sentimentos, embora n�o pudesse partilh�-los, sabendo que n�o importava o que tirasse, sempre receberia outra carta selvagem na vez seguinte � e que com maior frequ�ncia n�o era um �s.</p><p>Todas as suas articula��es rangeram quando se levantou e ele sentiu uma dor penetrante entre as omoplatas. Seus p�s tamb�m pareciam inchados.</p><p>Voltou para casa antes do amanhecer, se sentindo febril. No banheiro, encharcou uma toalha para colocar sobre a testa. Notou no espelho que o rosto parecia inchado. Ele se sentou na poltrona do quarto at� ouvir Carl e Claudia se movimentando. Quando se levantou para tomar caf� com eles, seus membros pareciam de chumbo, e as articula��es rangeram novamente enquanto descia a escada.</p><p>Claudia, magra e loura, o abra�ou quando entrou na cozinha. Depois estudou seu novo rosto.</p><p>� Voc� parece cansado, Croyd � disse.</p><p>� N�o diga isso � retrucou. � N�o posso ficar cansado t�o cedo. Faltam dois dias para seu casamento e vou chegar l�.</p><p>� Mas voc� pode descansar sem dormir, n�o pode?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ent�o relaxe. Sei que deve ser dif�cil... Venha, vamos comer.</p><p>Enquanto tomavam o caf�, Carl perguntou:</p><p>� Quer ir ao escrit�rio comigo conhecer o espa�o?</p><p>� Outra hora � respondeu Croyd. � Tenho umas coisas a fazer.</p><p>� Claro. Talvez amanh�.</p><p>� Talvez.</p><p>Carl saiu pouco depois disso. Claudia encheu novamente a x�cara de Croyd.</p><p>� N�s quase n�o o vemos mais � disse ela.</p><p>� �. Bem, voc� sabe como �. Eu durmo; �s vezes meses. Quando acordo, nem sempre estou bonito. Em outras vezes tenho de dar um jeito de pagar as contas.</p><p>� Apreciamos isso � disse ela. � � dif�cil entender. Voc� era o garotinho, mas agora parece um homem crescido. Voc� se comporta como um. N�o teve direito a uma inf�ncia inteira.</p><p>Ele riu.</p><p>� E o que voc� �, uma senhora? Tem apenas 17 e vai se casar.</p><p>Ela riu de volta.</p><p>� Ele � um cara legal, Croyd. Sei que vamos ser felizes.</p><p>� Bom. Espero que sim. Escute, se um dia quiser me encontrar, vou dar a voc� o nome de um lugar onde pode deixar uma mensagem. Mas nem sempre posso ser r�pido.</p><p>� Entendo. O que voc� faz, ali�s?</p><p>� Fiz uma s�rie de coisas diferentes. No momento estou indo de uma coisa para outra. Estou devagar dessa vez por causa do seu casamento. E como ele �?</p><p>� Ah, muito respeit�vel e correto. Estudou em Princeton. Foi capit�o do Ex�rcito.</p><p>� Europa? Pac�fico?</p><p>� Washington.</p><p>� Ah. Boas liga��es.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Fam�lia tradicional � acrescentou.</p><p>� Bem... Que bom � opinou ele. � Voc� sabe que quero que seja feliz.</p><p>Ela se levantou e o abra�ou novamente.</p><p>� Senti sua falta � disse ela.</p><p>� Eu tamb�m.</p><p>� Agora tenho coisas a fazer. Vejo voc� mais tarde.</p><p>� Sim.</p><p>� V� devagar hoje.</p><p>Quando ela saiu, ele esticou os bra�os ao m�ximo tentando aliviar a dor nos ombros. Sua camisa rasgou atr�s quando fez isso. Ele se olhou no espelho do corredor. Seus ombros estavam mais largos hoje do que ontem. De fato, seu corpo inteiro parecia mais largo, forte. Ele retornou ao quarto e se despiu. A maior parte do tronco estava coberta por uma irrita��o vermelha. A simples vis�o dava vontade de co�ar, mas ele se conteve. Em vez disso encheu a banheira e ficou afundado nela por um bom tempo. O n�vel da �gua diminu�ra visivelmente no momento em que saiu. Quando se examinou no espelho do banheiro, parecia ainda maior. Ser� que ele teria absorvido parte da �gua atrav�s da pele? De qualquer forma a inflama��o parecia ter desaparecido, embora sua pele ainda estivesse �spera nos pontos em que havia ficado inchada.</p><p>Vestiu roupas que sobraram de uma vez anterior em que fora maior. Depois saiu e foi de metr� at� a loja de roupas que visitou no dia anterior. L� ele se trocou completamente e retornou, sentindo-se ligeiramente nauseado enquanto o vag�o balan�ava e sacudia. Notou que as m�os pareciam secas e �speras. Quando as esfregou, cascas de pele morta ca�ram como caspa.</p><p>Ao sair do metr�, caminhou at� chegar ao pr�dio dos Sarzanno. Mas a mulher que abriu a porta n�o era Rose, m�e de Joe.</p><p>� O que quer? � perguntou.</p><p>� Estou procurando por Joe Sarzanno.</p><p>� N�o h� ningu�m aqui com esse nome. Deve ser algu�m que se mudou antes de virmos para c�.</p><p>� Ent�o n�o sabe para onde eles foram?</p><p>� N�o. Pergunte ao zelador. Talvez ele saiba.</p><p>Ela fechou a porta.</p><p>Ele tentou o apartamento do zelador, mas ningu�m atendeu. Ent�o foi para casa, se sentindo pesado e inchado. Na segunda vez que bocejou, sentiu um medo repentino. Parecia cedo demais para voltar a dormir. Aquela transforma��o era mais perturbadora que de h�bito.</p><p>Ele colocou um bule de caf� novo no fog�o e andou de um lado para o outro esperando que filtrasse. Embora n�o houvesse certeza de que acordaria com algum poder especial a cada ocasi�o, a �nica coisa que havia sido constante era a mudan�a. Ele pensou em todas as mudan�as pelas quais passara desde que tinha sido infectado. Aquela era a �nica em que n�o parecia nem curinga nem �s, mas normal. Ainda assim...</p><p>Quando o caf� ficou pronto ele se sentou com uma x�cara e se deu conta de que estivera co�ando a coxa direita quase inconscientemente. Esfregou as m�os e mais pele seca descascou. Pensou em seu di�metro aumentado. Pensou em todas as pequenas dores e rangidos, na fadiga. Era �bvio que ele <emphasis>n�o</emphasis> era completamente normal dessa vez, mas n�o estava certo de o que exatamente seria aquela anormalidade. Ser� que o Dr. Tachyon poderia ajud�-lo? Ou pelo menos lhe dar alguma ideia do que estava acontecendo?</p><p>Ligou para o n�mero que havia decorado. Uma mulher com voz alegre disse que Tachyon estava fora, mas voltaria naquela tarde. Ela anotou o nome de Croyd, pareceu reconhec�-lo e mandou que fosse l� �s tr�s horas.</p><p>Ele terminou a jarra de caf�; a coceira aumentou gradualmente por todo o corpo enquanto ficara sentado tomando a �ltima x�cara. Ele subiu e abriu a �gua da banheira novamente. Enquanto enchia, se despiu e examinou o corpo. Toda a pele tinha a apar�ncia seca e escamada das m�os. Onde quer que co�asse, havia uma pequena descama��o.</p><p>Ficou um bom tempo mergulhado. O calor e a umidade eram bons. Depois de alguns instantes se recostou e fechou os olhos. Muito bom...</p><p>Ele se sentou com um sobressalto. Havia come�ado a cochilar. Quase adormeceu naquele momento. Pegou a toalha e come�ou a se esfregar vigorosamente, n�o apenas para retirar todo o detrito. Quando terminou, se enxugou rapidamente enquanto a banheira esvaziava e foi apressado para o quarto. Encontrou os comprimidos no fundo de uma gaveta de roupas e tomou dois. Qualquer que fosse o jogo que seu corpo estava fazendo, o sono era seu inimigo naquele momento.</p><p>Retornou ao banheiro, limpou a banheira, se vestiu. Seria bom se esticar na cama por algum tempo. Descansar, como Claudia havia sugerido. Mas sabia que n�o podia.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Tachyon tirou uma amostra de sangue e a colocou em sua m�quina. Na primeira tentativa a agulha s� havia entrado um pouco e parado. A terceira agulha, empurrada com for�a consider�vel, penetrou uma camada subd�rmica de resist�ncia e o sangue foi retirado.</p><p>Enquanto esperava as descobertas da m�quina, Tachyon fez um exame a olho nu.</p><p>� Seus incisivos estavam t�o compridos quando voc� acordou? � perguntou, olhando dentro da boca de Croyd.</p><p>� Pareciam normais quando os escovei � respondeu Croyd. � Cresceram?</p><p>� D� uma olhada.</p><p>Tachyon ergueu um pequeno espelho. Croyd olhou. Os dentes tinham 2,5 cm de comprimento e pareciam afiados.</p><p>� Essa � uma novidade � afirmou. � N�o sei quando aconteceu.</p><p>Tachyon levantou o bra�o esquerdo de Croyd �s costas em uma chave de bra�o gentil, depois enfiou os dedos abaixo da esc�pula que se projetava. Croyd deu um berro.</p><p>� T�o ruim assim? � perguntou Tachyon.</p><p>� Meu Deus! � falou Croyd. � O que � isso? H� algo quebrado a� atr�s?</p><p>O m�dico balan�ou a cabe�a. Examinou algumas das cascas de pele ao microsc�pio. Depois estudou os p�s de Croyd.</p><p>� Estavam t�o grandes quando voc� acordou? � perguntou.</p><p>� N�o. Que porra est� acontecendo, doutor?</p><p>� Vamos esperar mais um minuto at� minha m�quina terminar com seu sangue. Voc� j� esteve aqui tr�s ou quatro vezes...</p><p>� Sim � disse Croyd.</p><p>� Felizmente voc� veio uma vez logo ao acordar. Em outra, apareceu umas seis horas ap�s despertar. Na primeira ocasi�o tinha um n�vel alto de um horm�nio muito particular que na �poca achei que poderia estar associado ao pr�prio processo de mudan�a. Na vez seguinte, seis horas ap�s acordar, ainda tinha tra�os do horm�nio, mas em um n�vel muito baixo. As �nicas vezes em que foi evidente.</p><p>� E?</p><p>� O principal teste no qual estou interessado agora � conferir sua presen�a no sangue. Ah! Acredito que j� temos alguma coisa.</p><p>Uma s�rie de s�mbolos estranhos brilhou na tela da pequena unidade.</p><p>� Sim. De fato, sim � disse ele, estudando-os. � Voc� tem um alto n�vel da subst�ncia em seu sangue; ainda maior do que era pouco ap�s despertar. Ahn. Voc� tamb�m tem tomado anfetaminas novamente.</p><p>� Precisei. Estava come�ando a ficar sonolento, e tenho de chegar at� s�bado. Diga em palavras simples o que esse maldito horm�nio significa.</p><p>� Significa que o processo de mudan�a ainda est� ocorrendo em voc�. Por alguma raz�o voc� acordou antes que ele se completasse. Ele parece ter um ciclo regular, mas dessa vez foi interrompido.</p><p>� Por qu�?</p><p>Tachyon deu de ombros, um movimento que parecia ter aprendido desde a �ltima vez em que Croyd o viu.</p><p>� Algum de uma constela��o de poss�veis acontecimentos bioqu�micos deflagrados pela pr�pria mudan�a. Acho que voc� provavelmente recebeu algum est�mulo cerebral como efeito colateral de outra mudan�a que estava acontecendo no momento em que foi despertado. Qualquer que tenha sido essa mudan�a espec�fica, ela foi conclu�da; mas o restante do processo n�o. Ent�o, seu corpo agora est� tentando fazer voc� dormir de novo at� terminar seu trabalho.</p><p>� Em outras palavras, eu acordei cedo demais?</p><p>� Sim.</p><p>� O que devo fazer?</p><p>� Pare de tomar as drogas imediatamente. Durma. Deixe o processo seguir seu curso.</p><p>� N�o posso. Tenho de ficar acordado mais dois dias; na verdade um dia e meio bastam.</p><p>� Suspeito que seu corpo ir� lutar contra isso e, como j� disse antes, ele parece saber o que est� fazendo. Acho que voc� pode correr riscos ficando acordado muito mais tempo.</p><p>� Que tipo de risco? Quer dizer que isso pode me matar; ou apenas me deixar� desconfort�vel?</p><p>� Croyd, simplesmente n�o sei. Seu quadro � �nico. Cada mudan�a segue um caminho diferente. A �nica coisa em que podemos confiar � que algum ajuste seu corpo fez ao v�rus, algo dentro de voc� faz com que passe em seguran�a por cada surto. Se tentar ficar acordado por meios artificiais, � exatamente isso que estar� combatendo.</p><p>� Eu j� afastei o sono muitas vezes com anfetaminas.</p><p>� Sim, mas nessas vezes voc� estava apenas adiando o in�cio do processo. Ele normalmente n�o come�a at� sua qu�mica cerebral registrar um estado de repouso. Mas agora ele j� est� em desenvolvimento e a presen�a do horm�nio indica sua continua��o. N�o sei o que acontecer�. Voc� pode transformar uma fase �s em uma fase curinga. Pode mergulhar em um coma realmente longo. Simplesmente n�o tenho como dizer.</p><p>Croyd pegou a camisa.</p><p>� Depois conto como foi � disse.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Croyd n�o estava t�o disposto a caminhar como costumava fazer. Pegou o metr� novamente. Sua n�usea voltou, e dessa vez trouxe com ela uma dor de cabe�a. E seus ombros ainda do�am muito. Foi � farm�cia perto da esta��o do metr� e comprou um frasco de aspirinas.</p><p>Antes de ir para casa, parou no pr�dio onde os Sarzanno haviam morado. Dessa vez o zelador estava. Mas n�o p�de ajudar, pois a fam�lia de Joe n�o havia deixado endere�o ao partir. Croyd deu uma espiada no espelho ao lado da porta do homem ao sair e ficou chocado com o incha�o em seus olhos, as olheiras profundas abaixo. Agora estavam come�ando a doer, notou.</p><p>Voltou para casa. Havia prometido levar Claudia e Carl para jantar em um bom restaurante e queria estar na melhor forma poss�vel para a ocasi�o. Retornou ao banheiro e se despiu outra vez. Estava enorme, com uma apar�ncia inchada. Ent�o se deu conta de que com todos os outros sintomas, se esquecera de dizer a Tachyon que n�o se aliviara em momento algum desde que acordou. Seu corpo devia estar encontrando alguma utilidade para tudo o que comeu ou bebeu. Subiu na balan�a, mas ela s� ia at� 136 e ele estava acima disso. Tomou duas aspirinas e esperou que fizessem efeito logo. Co�ou o bra�o e uma longa tira de carne se soltou, indolor e sem sangrar. Co�ou mais levemente em outras �reas e a escama��o continuava. Tomou uma chuveirada e escovou as presas. Penteou os cabelos e grandes mechas sa�ram. Parou de pentear. Por um momento quis chorar, mas foi distra�do por um surto de bocejos. Foi ao seu quarto e tomou mais duas anfetaminas. Depois, lembrou-se de ter ouvido em algum lugar que a massa corporal deve ser levada em conta no c�lculo das doses de medicamentos. Ent�o tomou mais uma, s� por garantia.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Croyd encontrou um restaurante escuro e deu algum dinheiro ao gar�om para que os colocasse em um reservado nos fundos, fora da vista da maioria dos outros fregueses.</p><p>� Croyd, voc� realmente est� parecendo... indisposto � disse Claudia mais cedo, quando ele voltou.</p><p>� Eu sei � respondeu. � Fui ao m�dico esta tarde.</p><p>� O que ele disse?</p><p>� Que vou precisar de muito sono, logo depois do casamento.</p><p>� Croyd, se quiser faltar, eu entendo. Sua sa�de em primeiro lugar.</p><p>� N�o quero faltar. Ficarei bem.</p><p>Como podia dizer a ela quando ele mesmo n�o entendia completamente? Dizer que era mais do que o casamento de sua parente preferida � que a ocasi�o representava a dissolu��o final de seu lar e que era improv�vel que um dia tivesse outro? Dizer que aquilo era o fim de uma fase de sua exist�ncia e o come�o de um grande desconhecido?</p><p>Em vez disso ele comeu. Seu apetite n�o diminuiu e a comida era particularmente boa. Carl assistiu com o fasc�nio de um voyeur, muito ap�s ele ter terminado sua pr�pria refei��o, enquanto Croyd dava cabo de mais dois Chateaubriand para dois, parando apenas para pedir mais cestinhas de p�o.</p><p>Quando enfim se levantaram, as articula��es de Croyd estavam rangendo novamente.</p><p>Naquela noite ele se sentou na cama, sentindo dores. As aspirinas n�o estavam adiantando. Ele havia retirado suas roupas porque sentia todas apertadas novamente. Sempre que se co�ava, a pele fazia mais do que escamar. Grandes peda�os dela ca�am, mas eram secos e claros, sem sinal de sangue. N�o espantava que parecesse p�lido, decidiu. No fundo de uma abertura particularmente grande no peito ele viu algo cinza e duro. N�o conseguiu descobrir o que era, mas sua presen�a o assustou.</p><p>Finalmente, apesar da hora, telefonou para Bentley. Tinha de falar com algu�m que soubesse de sua situa��o. E Bentley costumava dar bons conselhos.</p><p>Bentley atendeu ap�s v�rios toques e Croyd contou sua hist�ria.</p><p>� Sabe o que eu penso, garoto? � disse Bentley enfim. � Voc� devia fazer o que o m�dico mandou. Dormir.</p><p>� N�o posso. Ainda n�o. S� preciso de pouco mais que um dia. Depois ficar� tudo bem. Consigo ficar acordado at� l�, mas est� doendo demais, e minha apar�ncia...</p><p>� T� legal, t� legal. Olha o que vou fazer. Voc� aparece aqui l� pelas dez da manh�. N�o posso fazer nada por voc� agora. Mas logo cedo vou falar com um homem que conhe�o e te arrumar um analg�sico realmente forte. E quero dar uma olhada em voc�. Talvez haja algum meio de melhorar um pouco sua apar�ncia.</p><p>� Certo. Obrigado, Bentley. Fico muito grato.</p><p>� Tudo bem. Eu entendo. Tamb�m n�o foi divertido ser um cachorro. Boa noite.</p><p>� Noite.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Duas horas depois, Croyd sentiu c�licas terr�veis, seguidas por diarreia; sua bexiga tamb�m pareceu que iria explodir. Isso continuou a noite toda. Quando ele se pesou �s tr�s e meia, havia ca�do para 125 quilos. �s seis, pesava 109. Gorgolejava constantemente. A �nica vantagem, refletiu, era que isso desviava a aten��o da coceira e das dores nos ombros e articula��es. E tamb�m era suficiente para mant�-lo acordado sem anfetaminas adicionais.</p><p>�s oito horas ele pesava 98 quilos e se deu conta � quando Carl o chamou � de que finalmente havia perdido o apetite. Estranhamente, sua cintura n�o havia diminu�do nada. A estrutura do corpo em geral estava inalterada desde o dia anterior, embora naquele momento estivesse p�lido quase ao ponto do albinismo � e isso, somado aos dentes proeminentes, dava-lhe a apar�ncia de um vampiro gordo.</p><p>�s nove horas ele ligou para Bentley, pois continuava gorgolejando e correndo para o banheiro. Contou que estava com diarreia e n�o podia ir pegar o rem�dio. Bentley disse que ele mesmo levaria assim que o homem o entregasse. Carl e Claudia j� haviam sa�do para cuidar de suas vidas. Croyd os evitou naquela manh�, alegando n�o estar bem do est�mago. Pesava 89.</p><p>Eram quase 11 horas quando Bentley apareceu. A essa altura Croyd havia perdido mais nove quilos e arrancado um grande peda�o de pele do abd�men inferior. A �rea de tecido exposto abaixo era cinzenta e escamosa.</p><p>� Meu Deus! � disse Bentley quando o viu.</p><p>� �.</p><p>� Voc� est� careca em grandes �reas.</p><p>� Certo.</p><p>� Vou conseguir uma peruca. Tamb�m vou falar com uma mulher que conhe�o. Ela � esteticista. Vamos arranjar algum creme para passar. Dar a voc� uma cor normal. Acho que tamb�m seria melhor usar �culos escuros quando for ao casamento. Diga a eles que est� com conjuntivite. Voc� tamb�m est� ficando corcunda. Quando isso aconteceu?</p><p>� Sequer percebi. Eu estive... Ocupado.</p><p>Bentley deu um tapinha no calombo entre os ombros dele e Croyd berrou.</p><p>� Desculpe. Talvez fosse melhor voc� tomar um comprimido imediatamente.</p><p>� �.</p><p>� Voc� tamb�m vai precisar de um grande sobretudo. Qual o seu tamanho?</p><p>� N�o sei... Agora.</p><p>� Tudo bem. Conhe�o algu�m que tem um armaz�m cheio. Vou mandar uma d�zia.</p><p>� Tenho de correr, Bentley. Estou gorgolejando novamente.</p><p>� �. Tome seu rem�dio e tente descansar.</p><p>�s duas horas Croyd pesava 70 quilos. O analg�sico funcionara e ele estava sem dores pela primeira vez em muito tempo. Infelizmente, isso tamb�m o deixou sonolento, e ele teve de tomar anfetaminas mais uma vez. Em compensa��o, essa combina��o lhe deu a primeira sensa��o boa desde que tudo havia come�ado, mesmo sabendo que era falsa.</p><p>Quando o carregamento de casacos foi entregue �s tr�s e meia, ele havia ca�do para 61 quilos e se sentia muito leve. Em algum lugar no fundo do corpo seu sangue parecia estar cantando. Encontrou um casaco que se ajustava perfeitamente e o levou para o quarto, deixando os outros no sof�. A esteticista � uma loura alta cheia de laqu� e que mascava chicletes � apareceu �s quatro horas. Arrancou a maior parte do seu cabelo com um pente, raspou o restante e ajustou uma peruca. Depois maquiou o rosto, orientando-o sobre o uso dos cosm�ticos enquanto o fazia. Tamb�m recomendou que mantivesse a boca fechada o m�ximo poss�vel para esconder as presas. Ele ficou contente com o resultado e lhe deu cem d�lares. Ela ent�o observou que havia outros servi�os que poderia prestar, mas ele estava novamente gorgolejando e lhe desejou boa-tarde.</p><p>�s seis horas suas entranhas come�aram a se acalmar. Ele fora reduzido a 52 e ainda se sentia muito bem. A coceira tamb�m finalmente havia parado, embora ele tivesse arrancado mais pele de t�rax, antebra�os e coxas.</p><p>Quando Carl chegou, gritou para o andar de cima.</p><p>� Que porra todos esses casacos est�o fazendo aqui?</p><p>� � uma longa hist�ria � respondeu Croyd. � Pode ficar com eles se quiser.</p><p>� Ei, s�o de casimira!</p><p>� �.</p><p>� Este � do meu tamanho.</p><p>� Ent�o fique com ele.</p><p>� Como est� se sentindo?</p><p>� Melhor, obrigado.</p><p>Naquela noite ele sentiu sua for�a retornar e deu uma de suas longas caminhadas. Levantou bem alto a parte dianteira de um carro estacionado para testar. Sim, parecia estar se recuperando. Com os cabelos e a maquiagem, tinha a apar�ncia de um gordo comum, desde que ficasse de boca fechada. Se tivesse um pouco mais de tempo teria procurado um dentista para fazer algo em rela��o �s presas. N�o comeu nada naquela noite ou de manh�. Sentia uma press�o peculiar nas laterais da cabe�a, mas tomou outro comprimido e isso n�o se transformou em dor.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Antes que ele e Carl partissem para Ridgewood, Croyd se permitira outro banho de imers�o. Mais pele ca�ra, mas estava tudo bem. As roupas cobririam seu corpo de retalhos. Pelo menos o rosto havia permanecido intacto. Fez a maquiagem cuidadosamente e ajustou a peruca. Quando estava totalmente vestido e havia colocado �culos de sol, achou que parecia apresent�vel. E o sobretudo minimizava um pouco o calombo nas costas.</p><p>A manh� estava fresca e nublada. O problema intestinal parecia ter terminado. Tomou outro comprimido como profilaxia, sem saber se realmente havia mais alguma dor a ser escondida. Isso tornou necess�rio outra anfetamina. Mas tudo bem. Ele se sentia bem, embora um tanto nervoso.</p><p>Enquanto passavam pelo t�nel, ele se viu esfregando as m�os. Para seu desalento, um grande peda�o de pele se soltou nas costas da m�o esquerda. Mas mesmo isso n�o era problema. Ele se lembrou de levar luvas.</p><p>N�o sabia se era a press�o no t�nel, mas sua cabe�a estava come�ando a latejar novamente. N�o era uma sensa��o dolorosa, meramente uma press�o pesada nos ouvidos e nas t�mporas. O alto das costas tamb�m latejava e havia um movimento dentro. Ele mordeu o l�bio e um peda�o dele se soltou. Ele xingou.</p><p>� Qual o problema? � perguntou o irm�o.</p><p>� Nada.</p><p>Pelo menos n�o estava sangrando.</p><p>� Se voc� est� doente, posso lev�-lo de volta. Odeio que esteja indo doente ao casamento. Especialmente com um bando pomposo como a turma de Sam.</p><p>� Ficarei bem.</p><p>Ele se sentia leve. Sentia a press�o em muitos pontos dentro do corpo. A sensa��o de for�a da droga se sobrepunha � sua verdadeira for�a. Tudo parecia correr perfeitamente. Ele cantarolou uma can��o e tamborilou sobre o joelho.</p><p>� ... casacos devem valer bastante � Carl estava dizendo. � S�o todos novos.</p><p>� Venda em algum lugar e fique com o dinheiro � ele se ouviu dizer.</p><p>� S�o roubados?</p><p>� Provavelmente.</p><p>� Voc� est� no crime, Croyd?</p><p>� N�o, mas conhe�o pessoas.</p><p>� Vou ficar quieto.</p><p>� �timo.</p><p>� Mas voc� est� bem no papel, sabe? Com esse casaco preto e os �culos.</p><p>Croyd n�o respondeu. Estava escutando seu corpo, que lhe dizia que algo se soltava em suas costas. Esfregou os ombros no encosto do banco. Isso fez com que se sentisse melhor.</p><p>Quando foi apresentado aos pais de Sam, William e Marcia Kendall � um homem grisalho de apar�ncia rude, um pouco mais para o gordo, e uma loura conservada �, Croyd se lembrou de sorrir sem abrir a boca e fazer seus poucos coment�rios quase sem mover os l�bios. Pareceram estud�-lo cuidadosamente, e ele teve certeza de que tinham mais a dizer, s� que outros esperavam para ser cumprimentados.</p><p>� Quero conversar com voc� na recep��o � foram as �ltimas palavras de William.</p><p>Croyd suspirou enquanto se afastava. Havia passado. N�o tinha inten��o alguma de ir � recep��o. Estaria em um t�xi voltando para Manhattan assim que a cerim�nia religiosa terminasse, estaria dormindo em quest�o de horas. Sam e Claudia provavelmente estariam nas Bahamas antes que ele acordasse.</p><p>Viu seu primo Michael, de Newark, e quase o abordou. Ao inferno com isso. Teria de explicar sua apar�ncia e n�o valia a pena. Entrou na igreja e foi levado a um banco na frente, � direita. Carl conduziria Claudia. Pelo menos havia acordado tarde demais para ser escolhido como escudeiro. Era preciso reconhecer que tinha <emphasis>timing</emphasis>.</p><p>Enquanto esperava o in�cio da cerim�nia, come�ou a observar a decora��o do altar, os vitrais dos dois lados, os arranjos de flores. Outras pessoas entraram e foram acomodadas. Ele se deu conta de que suava. Olhou ao redor. Era o �nico vestindo sobretudo. Pensou se os outros achariam aquilo estranho. Pensou se a transpira��o estava fazendo a maquiagem escorrer. Desabotoou o casaco e o deixou aberto.</p><p>O suor continuou e seus p�s come�aram a doer. Finalmente ele se inclinou para a frente e afrouxou os cadar�os. Ao fazer isso ouviu a camisa se rasgar nas costas. Algo parecia ter se soltado ainda mais ao redor dos ombros. Outro peda�o de pele, imaginou. Quando se ajeitou sentiu uma dor penetrante. N�o conseguiu se recostar novamente no banco. Seu calombo parecia ter aumentado e qualquer press�o era dolorosa. Ent�o assumiu uma posi��o projetada para a frente, levemente curvado, como se rezasse. O organista come�ou a tocar. Mais pessoas entraram e foram acomodadas. Um acompanhante passou com um casal idoso por sua fila e lhe lan�ou um estranho olhar no caminho.</p><p>Logo todos estavam sentados e Croyd continuava a suar. Escorria pelo lado do corpo e pelas pernas, era absorvido pelas roupas, que ficaram marcadas e depois encharcadas. Decidiu que poderia ficar mais fresco se tirasse os bra�os das mangas do casaco e o deixasse apenas pendurado nos ombros. Isso foi um erro, pois enquanto se esfor�ava para soltar os bra�os ouviu os trajes se rasgando em v�rios outros pontos. Seu sapato esquerdo se rasgou de repente e dedos cinzentos se projetaram pelas laterais. Algumas pessoas olharam na sua dire��o quando ocorreram esses sons. Ele ficou grato por ser incapaz de corar.</p><p>N�o sabia se foi o calor ou algo psicol�gico que deflagrou a coceira novamente. N�o que importasse. Era coceira de verdade, independentemente do que havia causado. Ele tinha analg�sicos e anfetaminas no bolso, mas nada para irrita��o de pele. Cruzou as m�os com for�a, n�o para rezar, mas para se impedir de co�ar � embora tamb�m tenha feito uma prece, j� que as circunst�ncias pareciam apropriadas. N�o adiantou.</p><p>Viu o padre entrar, por entre c�lios cobertos de transpira��o. Ficou se perguntando por que o homem olhava tanto para ele. Era como se n�o aprovasse n�o episcopais suando em sua igreja. Croyd trincou os dentes. Se pelo menos tivesse o poder de ficar invis�vel, pensou. Desapareceria por alguns minutos, se co�aria loucamente, depois reapareceria e se sentaria quieto.</p><p>Com grande for�a de vontade ele conseguiu se manter quieto durante a �Marcha� de Mendelssohn. N�o conseguiu se concentrar no que o padre dizia depois disso, mas agora tinha certeza de que n�o conseguiria permanecer sentado durante a cerim�nia inteira. Ele se perguntou o que aconteceria caso sa�sse imediatamente. Claudia ficaria constrangida? Por outro lado, tinha certeza de que se permanecesse ela ficaria. Ele devia estar parecendo doente o bastante para justificar. Ainda assim, seria um daqueles incidentes sobre os quais as pessoas passavam anos falando? (�O irm�o dela saiu...�) Talvez pudesse ficar um pouco mais.</p><p>Houve movimento em suas costas. Ele sentiu o casaco se esticar. Ouviu engasgos femininos atr�s de si. Estava com medo de se mover, mas...</p><p>A coceira se tornou insuport�vel. Ele descruzou as m�os para co�ar, mas em um gesto final de resist�ncia agarrou o encosto do banco � sua frente. Para seu horror, houve um barulho alto de estalo quando a madeira se partiu sob seu aperto.</p><p>Seguiu-se um longo momento de sil�ncio.</p><p>O padre estava olhando para ele. Claudia e Sam haviam se virado para olhar para ele, que estava sentado agarrando um peda�o de encosto de banco de um metro e oitenta e sabendo que n�o podia sequer sorrir, ou suas presas apareceriam.</p><p>Ele soltou a madeira e se agarrou com os dois bra�os. Houve exclama��es atr�s quando seu casaco escorregou. Ele enfiou os dedos nas laterais do corpo com toda a for�a e se co�ou.</p><p>Ouviu as roupas se rasgando e sentiu a pele partir at� o alto da cabe�a. Viu a peruca cair � sua direita. Jogou as roupas fora e co�ou novamente, com for�a. Ouviu um grito atr�s e soube que nunca se esqueceria da express�o no rosto de Claudia quando come�ava a chorar, mas n�o podia mais parar. N�o at� que suas grandes asas de morcego se abrissem, as plumas altas e pontudas de suas orelhas se libertassem e os �ltimos restos de roupa e carne fossem removidos de seu corpo escuro e escamoso.</p><p>O padre recome�ou a falar, algo que soava como um exorcismo. Houve guinchos e barulho de passos r�pidos. Sabia que n�o podia sair pela porta para onde todos se encaminhavam, ent�o saltou no ar, circulou v�rias vezes para ter algum dom�nio dos novos membros, depois cobriu os olhos com o antebra�o esquerdo e atravessou o vitral � sua direita.</p><p>Enquanto batia asas de volta a Manhattan, sentiu que se passaria um longo tempo antes que voltasse a ver os parentes. Esperava que Carl n�o se casasse t�o cedo. Ent�o se perguntou se um dia encontraria a garota certa...</p><p>Subiu, aproveitando uma corrente de ar ascendente, a brisa uivando ao seu redor. A igreja pareceu um formigueiro agitado quando olhou novamente. Ele saiu voando.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Testemunha</strong></p><p>Walter Jon Williams</p><empty-line/><empty-line/><p>Quando Jetboy morreu, eu assistia a uma matin� de <emphasis>Sonhos dourados</emphasis>. Queria ver a atua��o de Larry Parks, que todos diziam ser memor�vel. Eu a estudei cuidadosamente e fiz anota��es mentais.</p><p>Jovens atores fazem coisas assim.</p><p>O filme terminou, mas eu estava me sentindo bem, n�o tinha planos para as horas seguintes e queria ver Larry Parks novamente. Assisti ao filme uma segunda vez. Dormi na metade, e ao acordar os cr�ditos estavam rolando. Eu estava sozinho no cinema.</p><p>Quando fui para o sagu�o os lanterninhas haviam sumido e as portas estavam trancadas. Tinham sa�do correndo e esquecido de avisar o projecionista. Escapei para uma brilhante e agrad�vel tarde de outono e vi que a Second Avenue estava vazia.</p><p>A Second Avenue nunca est� vazia.</p><p>As bancas de jornal estavam fechadas. Os poucos carros que via estavam estacionados. O letreiro do cinema havia sido desligado. Podia ouvir buzinas de carro raivosas a dist�ncia e, acima delas, o ronco de motores potentes de avi�es. Havia um cheiro ruim vindo de algum lugar.</p><p>Nova York tinha o clima misterioso que as cidades �s vezes ganham durante um ataque a�reo, deserta, apreensiva e nervosa. Havia estado em ataques a�reos durante a guerra, normalmente do lado atacado, e n�o gostava nada do clima. Comecei a caminhar na dire��o de meu apartamento, a um quarteir�o e meio dali.</p><p>Nos primeiros trinta metros vi o que estava produzindo o cheiro ruim. Vinha de uma po�a rosa-avermelhada que parecia com muitos litros de sorvete de cor esquisita derretendo na cal�ada e escorrendo para o esgoto.</p><p>Olhei mais de perto. Havia alguns ossos dentro da po�a. Um maxilar humano, parte de uma t�bia, uma �rbita. Estavam se dissolvendo em uma espuma rosa-claro.</p><p>Havia roupas sob a po�a. Um uniforme de lanterninha. Sua lanterna rolara para o bueiro e as partes met�licas estavam se dissolvendo junto com os ossos.</p><p>Meu est�mago se revirou quando a adrenalina entrou no sistema. Comecei a correr.</p><p>Chegando ao meu apartamento percebi que devia haver alguma esp�cie de emerg�ncia e liguei o r�dio para conseguir informa��es. Enquanto esperava o Philco esquentar, fui conferir a comida enlatada no arm�rio � duas latas de Campbell�s foi tudo o que encontrei. Minhas m�os tremiam tanto que derrubei uma das latas atr�s do arm�rio e ela rolou de lado para tr�s da caixa de gelo. Empurrei a lateral da caixa de gelo para pegar a lata e de repente foi como se a luz mudasse, e a caixa de gelo voou por metade do aposento e quase saiu atrav�s da parede. A panela que coloquei embaixo para conter o gelo derretido caiu no ch�o.</p><p>Peguei a lata de sopa. Minhas m�os ainda tremiam. Recoloquei a caixa de gelo no lugar e era leve como uma pena. A luz continuava a mudar de forma esquisita. Consegui erguer a caixa com uma das m�os.</p><p>O r�dio finalmente esquentou e soube do v�rus. Pessoas que se sentissem doentes deviam ir aos hospitais de campanha de emerg�ncia montados pela Guarda Nacional por toda a cidade. Havia um em Washington Square Park, perto de onde eu morava.</p><p>N�o me sentia doente, mas por outro lado podia fazer malabarismo com a caixa de gelo, o que n�o era exatamente um comportamento normal. Caminhei at� Washington Square Park. Havia baixas por todo lado � alguns simplesmente ca�dos na rua. N�o consegui olhar para muitos deles. Era pior do que qualquer coisa que vira na guerra. Sabia que, como estava saud�vel e me movimentava, os m�dicos me colocariam no fim da lista de tratamento e se passariam dias antes que conseguisse ajuda, ent�o caminhei at� um encarregado, disse que havia sido do ex�rcito e perguntei o que podia fazer para ajudar. Imaginei que se come�asse a morrer pelo menos estaria perto do hospital.</p><p>Os m�dicos me pediram para ajudar a instalar uma cozinha. Pessoas gritavam, morriam e mudavam diante dos olhos dos m�dicos, que n�o podiam fazer nada a respeito. Alimentar as v�timas era tudo em que conseguiam pensar.</p><p>Fui at� um caminh�o de duas toneladas e meia da Guarda Nacional e comecei a pegar caixas de comida. Cada uma pesava uns 20 quilos e empilhei seis, uma em cima da outra, e as tirei do caminh�o com um bra�o s�. Minha percep��o da luz continuava a mudar de forma estranha. Esvaziei o caminh�o em cerca de dois minutos. Outro caminh�o havia ficado atolado na lama ao tentar cruzar o parque, ent�o o peguei e levei-o para onde deveria estar, depois descarreguei e perguntei aos m�dicos se precisavam de mim para mais alguma coisa.</p><p>Havia um brilho estranho ao redor de mim. As pessoas me disseram que quando fiz uma das proezas eu brilhei, que uma aura dourada brilhante cercou meu corpo. Olhar para o mundo atrav�s de minha pr�pria radi�ncia fazia com que a luz parecesse mudar.</p><p>N�o pensei muito nisso. O cen�rio ao meu redor era esmagador e continuou assim durante dias. As pessoas tiravam a rainha negra ou o curinga, se tornando monstros, morrendo, se transformando. A lei marcial havia sido instaurada na cidade � era como na �poca da guerra. Depois dos primeiros tumultos nas pontes n�o houve mais dist�rbios. A cidade viveu com blecautes, toques de recolher e patrulhas durante quatro anos e as pessoas simplesmente retomaram os h�bitos da guerra. Os boatos eram ensandecidos � um ataque marciano, libera��o acidental de g�s venenoso, bact�rias espalhadas por nazistas ou por Stalin. Para completar, milhares de pessoas juravam ter visto o fantasma de Jetboy voando, sem seu avi�o, sobre as ruas de Manhattan. Continuei a trabalhar no hospital, transportando cargas pesadas. Foi onde conheci Tachyon.</p><p>Ele apareceu para entregar um soro experimental que esperava que pudesse aliviar alguns sintomas e de in�cio eu pensei, <emphasis>Ah, Cristo, uma bicha conseguiu passar pelos guardas com uma po��o dada pela sua tia Nelly</emphasis>. Era um cara magrelo com um longo cabelo vermelho met�lico abaixo dos ombros, e eu sabia que n�o podia ser cor natural. Ele se vestia como se tivesse conseguido suas roupas no Ex�rcito da Salva��o no bairro dos teatros, um palet� laranja brilhante, como usaria um l�der de banda, su�ter carmesim, chap�u de Robin Hood com uma pena, cal��es com meias com estampa de losangos e sapatos bicolores, que pareceriam inadequados at� em um cafet�o. Estava indo de leito em leito com uma bandeja cheia de seringas, observando cada paciente e enfiando as agulhas nos bra�os das pessoas. Pousei a m�quina de raios X que carregava e corri para det�-lo antes que pudesse causar algum mal.</p><p>Ent�o percebi que entre as pessoas que o seguiam havia um general de tr�s estrelas, o coronel aviador da Guarda Nacional que dirigia o hospital e o Sr. Archibald Holmes, que era um da velha turma de Franklin D. Roosevelt na Agricultura e que reconheci imediatamente. Ele fora respons�vel por um grande �rg�o de ajuda na Europa depois da guerra, mas Truman o mandara para Nova York assim que a peste atacou. Eu me coloquei atr�s de uma das enfermeiras e perguntei o que estava acontecendo.</p><p>� � um novo tipo de tratamento � disse ela. � Aquele Dr. Tach alguma coisa trouxe.</p><p>� O tratamento � <emphasis>dele</emphasis>? � perguntei.</p><p>� � � disse, franzindo o cenho para mim. � Ele � de outro planeta.</p><p>Olhei para os cal��es e o chap�u de Robin Hood.</p><p>� T� brincando.</p><p>� N�o. S�rio. Ele �.</p><p>De perto era poss�vel ver olheiras sob seus estranhos olhos roxos, o cansa�o que transparecia em seu rosto. Ele estava se esfor�ando demais desde a cat�strofe, como todos os m�dicos ali � todos exceto eu. Eu me sentia cheio de energia apesar de s� ter algumas poucas horas de sono por noite.</p><p>O coronel aviador da Guarda Nacional olhou para mim.</p><p>� Eis outro caso. Este � Jack Braun.</p><p>Tachyon olhou para mim.</p><p>� Seus sintomas? � perguntou. Tinha uma voz grave, um sotaque discreto da Europa Central.</p><p>� Sou forte. Consigo levantar caminh�es. Um brilho dourado me cerca quando fa�o isso.</p><p>Ele pareceu empolgado.</p><p>� Um campo de for�a biol�gico. Interessante. Gostaria de examin�-lo mais tarde. Depois que a presente crise passar � disse, uma express�o de desgosto passando por seu rosto.</p><p>� Claro, doutor. Quando quiser.</p><p>Ele caminhou para o leito seguinte. O Sr. Holmes, o homem da ajuda, n�o o seguiu. Ficou e me observou, brincando com a piteira.</p><p>Enfiei os polegares no cinto e tentei parecer �til.</p><p>� Posso ajudar em alguma coisa, Sr. Holmes? � perguntei.</p><p>Ele pareceu levemente surpreso.</p><p>� Sabe meu nome?</p><p>� Eu me lembro do senhor indo a Fayette, Dakota do Norte, em 1933 � respondi. � Pouco depois do New Deal. Estava na Agricultura na �poca.</p><p>� H� muito tempo. O que est� fazendo em Nova York, Sr. Braun?</p><p>� Eu era ator at� os teatros serem fechados.</p><p>� Ah � respondeu, assentindo com a cabe�a. � Logo teremos os teatros funcionando novamente. O Dr. Tachyon diz que o v�rus n�o � contagioso.</p><p>� Isso vai acalmar algumas mentes.</p><p>Ele olhou para a entrada da barraca.</p><p>� Vamos sair e fumar.</p><p>� Tudo bem para mim.</p><p>Depois de segui-lo, limpei as m�os e aceitei um cigarro feito por encomenda de sua cigarreira de prata. Ele acendeu nossos cigarros e olhou para mim por cima do f�sforo.</p><p>� Quando a emerg�ncia tiver terminado, gostaria de fazer mais alguns testes com voc� � disse. � Apenas descobrir o que pode fazer.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Claro, Sr. Holmes. Alguma raz�o em especial?</p><p>� Talvez possa lhe arranjar um emprego. No palco mundial � respondeu.</p><p>Algo passou entre mim e o sol. Ergui os olhos e um dedo frio tocou meu pesco�o.</p><p>O fantasma de Jetboy estava voando negro contra o c�u, seu cachecol branco de piloto adejando ao vento.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Cresci em Dakota do Norte. Nasci em 1924, em tempos dif�ceis. Havia problemas com os bancos, problemas com o excesso de produ��o das fazendas que mantinham os pre�os baixos. Quando veio a Depress�o, as coisas foram de mal a pior. Os pre�os dos gr�os eram t�o baixos que alguns fazendeiros literalmente tiveram de pagar as pessoas para levar a coisa embora. Havia leil�es de fazendas quase toda semana no tribunal � fazendas que valiam 50 mil d�lares eram vendidas por algumas centenas. Metade da Main Street estava fechada.</p><p>Aqueles eram os dias da Farm Holidays, fazendeiros segurando gr�os para for�ar aumento de pre�os. Eu me levantava no meio da noite para levar caf� e comida para meu pai e meus primos, que patrulhavam as estradas de modo a garantir que ningu�m roubasse seus gr�os. Se algu�m aparecia com gr�os, eles tomavam o caminh�o e esvaziavam; se vinha um caminh�o de gado, atiravam no gado e jogavam no acostamento para apodrecer. Alguns dos figur�es que estavam ganhando uma fortuna comprando trigo abaixo do pre�o enviaram a Legi�o Americana para acabar com a paralisa��o nas fazendas, carregando cabos de machado e usando seus pequenos chap�us � e todo o distrito se levantou, deu aos legion�rios a maior surra de suas vidas e os mandou correndo de volta para a cidade.</p><p>De repente um bando de fazendeiros alem�es conservadores estava falando e agindo como radicais. Roosevelt foi o primeiro democrata em que minha fam�lia votou.</p><p>Eu tinha 11 anos de idade quando vi Archibald Holmes pela primeira vez. Ele estava trabalhando como mediador para o Sr. Henry Wallace, do Departamento de Agricultura, e foi a Fayette conversar com os fazendeiros sobre alguma coisa � controle de pre�os ou de produ��o, provavelmente, ou conserva��o, a agenda do New Deal que deixou nossa fazenda fora do leil�o. Fez um pequeno discurso nos degraus da prefeitura ao chegar e por alguma raz�o eu n�o o esqueci.</p><p>Era um homem impressionante mesmo ent�o. Bem-vestido, grisalho embora ainda n�o tivesse 40 anos, fumava cigarros com piteira, como Roosevelt. Tinha um jeito de falar do Sul que soava estranho ao meu ouvido, como se houvesse algo ligeiramente vulgar no modo como pronunciava o R. Pouco depois de sua visita as coisas come�aram a melhorar.</p><p>Anos mais tarde, depois que o conheci bem, ele sempre foi o Sr. Holmes. Nunca consegui cham�-lo pelo prenome.</p><p>Talvez possa identificar a origem de meu desejo de viajar � visita do Sr. Holmes. Senti que tinha de haver algo fora de Fayette, algo fora do modo de Dakota do Norte de ver as coisas. Do modo como minha fam�lia via as coisas, eu teria minha pr�pria fazenda, casaria com uma garota da regi�o, produziria muitas crian�as e passaria os domingos escutando o pastor falar sobre o inferno e os dias de semana trabalhando nos campos para o bem do banco.</p><p>Eu me indignava com a ideia de que isso era tudo o que havia. Sabia, talvez apenas por instinto, que havia outro tipo de exist�ncia l� fora e queria minha parcela disso.</p><p>Eu me tornei alto, de ombros largos e louro, com m�os grandes que ficavam confort�veis ao redor de uma bola, o que meu agente de publicidade depois chamou de �boa apar�ncia r�stica�. Joguei futebol, e bem, cochilei durante a escola, e durante os longos invernos escuros atuei em teatros comunit�rios e espet�culos. Havia um belo circuito de teatro amador em ingl�s e alem�o e eu fazia ambos. Interpretava principalmente melodramas vitorianos e espet�culos hist�ricos e tamb�m recebi boas cr�ticas.</p><p>As garotas gostavam de mim. Eu tinha boa apar�ncia, era um cara comum e todas achavam que seria apenas o fazendeiro delas. Tomei cuidado de nunca ter ningu�m especial. Levava camisinhas no bolso e tentava manter pelo menos tr�s ou quatro garotas no ar ao mesmo tempo. N�o cairia na armadilha que meus velhos pareciam ter planejado para mim.</p><p>Todos crescemos patriotas. Era uma coisa natural naquela parte do mundo: h� um forte amor ao pa�s que vem com climas cru�is. N�o havia nada sobre o que falar muito, o patriotismo simplesmente estava l�, parte de tudo o mais.</p><p>O time de futebol local se saiu bem e comecei a identificar um modo de sair de Dakota do Norte. No final de minha temporada na escola recebi uma oferta de bolsa na Universidade de Minnesota.</p><p>Nunca fui. Em vez disso, no dia seguinte � formatura, em maio de 1942, marchei para o recrutamento e me ofereci para a Infantaria.</p><p>Nada de mais. Todos os garotos de minha turma marcharam comigo.</p><p>Terminei na 5� Divis�o na It�lia e tive uma guerra medonha na Infantaria. Chovia o tempo todo, nunca havia abrigo adequado e cada movimento nosso era acompanhado por alem�es invis�veis sentados na colina seguinte com bin�culos Zeiss colados nos olhos, ao que inevitavelmente se seguia aquele horrendo som zumbido de um 88 caindo... Senti medo o tempo todo e parte do tempo fui um her�i, mas a maior parte do tempo estava me escondendo com a boca na terra enquanto os obuses ca�am assoviando, e, ap�s alguns meses daquilo, sabia que n�o voltaria inteiro, e havia chances de que n�o voltasse de modo algum. N�o existiam turnos, como no Vietn�; um fuzileiro simplesmente ficava na linha at� a guerra terminar, at� morrer ou at� estar t�o aterrorizado que n�o podia retornar. Aceitei esses fatos e continuei com o que tinha de fazer. Fui promovido a suboficial e acabei ganhando uma Estrela de Bronze e tr�s Cora��es P�rpuras, mas medalhas e promo��es nunca significaram tanto para mim quanto de onde viria o pr�ximo par de meias secas.</p><p>Um de meus camaradas era um homem chamado Martin Kozokowski, cujo pai era um pequeno produtor teatral em Nova York. Certa noite, divid�amos uma garrafa de um vinho tinto medonho e um cigarro � fumar foi outra coisa que o ex�rcito me ensinou � e mencionei minha carreira de ator em Dakota do Norte e, em um surto de boa vontade embriagada, ele disse:</p><p>� Que inferno, venha para Nova York depois da guerra e eu e meu pai o colocaremos no palco.</p><p>Era uma fantasia sem sentido, j� que �quela altura nenhum de n�s sabia realmente se voltaria, mas pegou, falamos sobre isso mais tarde e, pouco a pouco, como acontece com alguns sonhos, isso se tornou realidade.</p><p>Depois do dia da vit�ria na Europa, fui para Nova York e o velho Kozokowski me conseguiu alguns pap�is enquanto eu trabalhava em v�rios empregos de meio expediente, todos f�ceis quando comparados ao trabalho de fazenda e � guerra. O teatro era cheio de garotas intelectuais e intensas que n�o usavam batom � n�o usar batom era considerado uma esp�cie de ousadia � e que o levavam para casa com elas se voc� as ouvisse falar sobre Anouilh, Pirandello ou sua psican�lise, e a melhor coisa nelas � que n�o queriam se casar e produzir pequenos fazendeiros. Os reflexos do tempo de paz come�aram a retornar. Dakota do Norte come�ou a se apagar e depois de um tempo comecei a pensar se afinal a guerra n�o tinha seus consolos.</p><p>Uma ilus�o, claro, porque certas noites ainda acordo com os 88 assoviando em meus ouvidos, o terror se contorcendo em minhas entranhas, o velho ferimento em minha panturrilha latejando e me lembro de como deitava de costas em um buraco de morteiro com lama at� o pesco�o, esperando que a morfina fizesse efeito enquanto olhava para o c�u para ver um grupo de Thunderbolts prateados com o sol refletindo em suas asas grossas, os avi�es saltando as montanhas mais facilmente do que eu conseguia saltar de um jipe. E me lembro de como era ficar deitado ali, furioso de inveja, porque os pilotos de ca�a estavam em seu c�u sereno enquanto eu sangrava em meu curativo de campanha e esperava morfina e plasma, e pensava que se um dia apanhasse um daqueles desgra�ados em terra faria com que pagasse por aquilo...</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Quando o Sr. Holmes come�ou os testes, provou exatamente o quanto eu era forte, que era mais forte do que qualquer um j� tinha visto, ou mesmo imaginado. Se eu me preparasse suficientemente bem, podia levantar at� quarenta toneladas. Balas de metralhadoras amassavam contra meu peito. Proj�teis de canh�o de 20 mm, capazes de perfurar blindagem, me derrubavam pela transfer�ncia de energia, mas eu me levantava novamente sem ferimentos.</p><p>Eles tiveram medo de usar algo maior que um 20 mm nos testes. Eu tamb�m. Se fosse atingido por um canh�o <emphasis>de verdade</emphasis>, em vez de apenas por uma metralhadora grande, provavelmente viraria mingau.</p><p>Tinha meus limites. Ap�s algumas horas disso, come�ava a ficar cansado. Enfraquecia. Balas come�avam a doer. Tinha de parar e descansar.</p><p>Tachyon imaginara bem ao falar de um campo de for�a biol�gico. Quando eu estava em a��o ele me cercava como um halo dourado. Eu n�o exatamente controlava isso � se algu�m disparasse uma bala nas minhas costas de surpresa, o campo de for�a se ligava sozinho. Quando come�ava a ficar cansado, o brilho ia diminuindo.</p><p>Nunca fiquei suficientemente cansado para ele sumir por completo, n�o quando o queria ligado. Tinha medo do que poderia acontecer e sempre tomava o cuidado de descansar se precisasse.</p><p>Quando o resultado dos testes chegou, o Sr. Holmes me chamou ao seu apartamento em Park Avenue South. Era um lugar grande, o quinto andar inteiro, mas muitos dos aposentos tinham aquele cheiro de falta de uso. Sua esposa havia morrido de c�ncer de p�ncreas em 1940 e desde ent�o ele desistiu de quase toda a vida social. A filha estava na escola.</p><p>O Sr. Holmes me deu um drinque e um cigarro e perguntou o que eu achava do fascismo e o que podia fazer em rela��o a isso. Lembrei-me de todos aqueles oficiais da SS e arrogantes paraquedistas da Luftwaffe, a For�a A�rea alem�, e pensei no que poderia fazer em rela��o a eles agora que era a coisa mais forte do planeta.</p><p>� Imagino que agora daria um belo soldado � respondi.</p><p>Ele me lan�ou um sorriso fino.</p><p>� Voc� <emphasis>gostaria</emphasis> de ser um soldado novamente, Sr. Braun?</p><p>Entendi imediatamente o que ele queria dizer. Havia uma emerg�ncia. O mal estava solto no mundo. Talvez pudesse fazer algo em rela��o a isso. E ali estava um homem que se sentara � direita de Franklin Delano Roosevelt, que por sua vez se sentara � direita de Deus, no que me dizia respeito, e me <emphasis>pedindo</emphasis> para fazer algo em rela��o a isso.</p><p><emphasis>Claro</emphasis> que me ofereci. Provavelmente isso me tomou tr�s segundos inteiros.</p><p>O Sr. Holmes apertou minha m�o. Depois fez outra pergunta.</p><p>� Como se sentiria trabalhando com um homem de cor?</p><p>Dei de ombros.</p><p>Ele sorriu.</p><p>� Bom. Nesse caso, terei de apresent�-lo ao fantasma de Jetboy.</p><p>Eu devo t�-lo encarado. Seu sorriso aumentou.</p><p>� Na verdade, seu nome � Earl Sanderson. � um senhor personagem.</p><p>Estranhamente, eu conhecia o nome.</p><p>� O Sanderson que costumava jogar futebol pela Rutgers? Um atleta infernal.</p><p>O Sr. Holmes pareceu chocado. Talvez n�o acompanhasse esportes.</p><p>� Ah. Acho que ir� descobrir que ele � um pouco mais que isso.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Earl Sanderson Jr. nasceu em uma vida muito diferente da minha, no Harlem, Nova York. Era onze anos mais velho do que eu e talvez nunca conseguisse ser como ele ou o alcan�asse.</p><p>Earl Jr. era cabineiro, um homem inteligente, autodidata, admirador de Frederick Douglass e Du Bois. Foi fundador do Niagara Movement, que se tornou a NAACP, Associa��o Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, e depois da Irmandade de Cabineiros de Vag�o-Leito. Um homem duro e inteligente, absolutamente � vontade no Harlem raivoso da �poca.</p><p>Earl Jr. era um jovem brilhante e seu pai insistiu em que n�o desperdi�asse isso. No ensino m�dio, ele se destacou academicamente e como atleta, e quando seguiu os passos de Paul Robeson para a Rutgers, em 1930, p�de escolher a bolsa.</p><p>Com dois anos de universidade, ingressou no Partido Comunista. Quando o conheci mais tarde, fez parecer como se fosse a �nica escolha razo�vel.</p><p>� A Depress�o estava aumentando � disse-me ele. � Os tiras estavam atirando em organizadores de sindicatos por todo o pa�s e os brancos estavam descobrindo como era ser t�o pobres quanto os de cor. Tudo o que t�nhamos da R�ssia na �poca eram fotografias das f�bricas funcionando com capacidade plena, e aqui nos Estados Unidos as f�bricas estavam fechadas e os oper�rios, passando fome. Achei que era s� uma quest�o de tempo at� a revolu��o. O PC era o �nico em que as pessoas, ao trabalharem pelos sindicatos, tamb�m trabalhavam pela igualdade. Tinham um slogan: �Preto e branco, unidos na luta�, e aquilo soava correto para mim. Estavam se lixando para a segrega��o: olhavam voc� nos olhos e o chamavam de �camarada�. O que era mais do que eu j� havia recebido de qualquer outro.</p><p>Ele tinha todos os bons motivos do mundo para ingressar no PC em 1931. Depois todos esses bons motivos se rebelariam e arrasariam conosco.</p><p>N�o estou certo de por que Earl Sanderson se casou com Lillian, mas entendo muito bem por que Lillian perseguiu Earl por todos aqueles anos.</p><p>� Jack, ele simplesmente <emphasis>brilhava</emphasis> � disse-me ela.</p><p>Lillian Abbott conheceu Earl quando ele estava no terceiro ano do ensino m�dio. Depois daquele primeiro encontro, passou todo minuto livre com ele. Comprou seus jornais, pagou sua entrada nos teatros com o troco, foi a reuni�es radicais. Aplaudiu-o em eventos esportivos. Ingressou no PC um m�s depois que ele. E algumas semanas ap�s deixar a Rutgers, <emphasis>summa cum laude</emphasis>, o desposou.</p><p>� N�o dei nenhuma escolha a Earl � disse ela. � A �nica forma que tinha de me fazer parar de falar nisso era se casar comigo.</p><p>Nenhum deles sabia no que estava se metendo, claro. Earl estava envolvido em quest�es maiores do que ele mesmo, na revolu��o que acreditava estar vindo e talvez achasse que Lillian merecia um pouco de felicidade naquela �poca de amargura. N�o custou nada a ele dizer sim.</p><p>Para Lillian, custou quase tudo.</p><p>Dois meses depois do casamento Earl estava em um barco rumo � Uni�o Sovi�tica para estudar um ano na Universidade Lenin, aprendendo a ser um bom agente do Comintern. Lillian ficou em casa, trabalhando na loja da m�e, indo a reuni�es do partido que pareciam um pouco sem gra�a sem Earl. Aprendendo, sem grande entusiasmo pela tarefa, a ser a esposa de um revolucion�rio.</p><p>Ap�s um ano na R�ssia, Earl foi cursar Direito em Columbia. Lillian o sustentou at� se formar e ir trabalhar como advogado para A. Philip Randolph, da Irmandade de Cabineiros de Vag�es-Leito, um dos sindicatos mais radicais dos Estados Unidos. Earl Jr. deve ter ficado orgulhoso.</p><p>Enquanto a Depress�o passava, o envolvimento de Earl com o PC murchava � talvez a revolu��o n�o fosse acontecer no final das contas. A greve na GM foi encerrada a favor da CIO enquanto Earl aprendia a ser um revolucion�rio na R�ssia. A Irmandade foi reconhecida pela Pullman Company em 1938 e Randolph finalmente come�ou a receber um sal�rio � havia trabalhado todos aqueles anos de gra�a. O sindicato e Randolph estavam tomando muito do tempo de Earl, e seu comparecimento �s reuni�es do partido come�ou a diminuir.</p><p>Quando o pacto germano-sovi�tico foi assinado, Earl se desfiliou do PC com raiva. Fazer acordo com os fascistas n�o era seu estilo.</p><p>Earl me contou que depois de Pearl Harbor a Depress�o terminou para os brancos quando come�ou a contrata��o nos fornecedores da Defesa, mas poucos foram os que conseguiram empregos. Randolph e seu pessoal finalmente se cansaram. Randolph amea�ou com uma greve nas ferrovias � em plena �poca de guerra � combinada com uma marcha rumo a Washington. Franklin Roosevelt enviou seu negociador, Archibald Holmes, para conseguir um acordo. Isso resultou na Ordem Executiva 8802, pela qual fornecedores do governo eram proibidos de discriminar por ra�a. Foi um dos marcos legais na hist�ria dos direitos civis e um dos maiores sucessos da carreira de Earl. Ele sempre falava disso como uma das realiza��es que lhe davam mais orgulho.</p><p>Na semana seguinte � Ordem 8802, a classifica��o de Earl para convoca��o foi alterada para 1-A. Seu trabalho com o sindicato das ferrovias n�o o protegeria. O governo estava se vingando.</p><p>Earl decidiu se oferecer como volunt�rio para a For�a A�rea. Sempre quis voar.</p><p>Ele estava velho para ser piloto, mas ainda era um atleta e seu condicionamento o levou a ser aprovado nos exames f�sicos. Seu registro foi rotulado de AFP, Antifascista Prematuro, classifica��o oficial para algu�m pouco confi�vel o bastante para n�o gostar de Hitler antes de 1941.</p><p>Foi designado para o 332� Grupo de Ca�a, uma unidade inteiramente negra. O processo de sele��o de aviadores negros era t�o severo que a unidade terminou cheia de professores, ministros protestantes, m�dicos, advogados � e todas essas pessoas brilhantes tamb�m apresentavam reflexos de pilotos de primeira categoria. Como nenhum dos grupos a�reos no exterior queria pilotos negros, o grupo permaneceu meses seguidos treinando em Tuskegee. Eles acabaram tendo tr�s vezes mais treinamento do que o grupo m�dio e, quando finalmente se deslocaram para bases na It�lia, o grupo conhecido como ��guias Solit�rias� explodiu no Teatro de Opera��es Europeu.</p><p>Voaram com seus Thunderbolts sobre a Alemanha e os pa�ses dos B�lc�s, incluindo os alvos mais dif�ceis. Realizaram mais de 15 mil miss�es e, durante esse per�odo, <emphasis>nem um �nico bombardeiro escoltado</emphasis> foi perdido para a Luftwaffe. Depois que a not�cia correu, grupos de bombardeiros come�aram a pedir especificamente que o 332� escoltasse suas aeronaves.</p><p>Um dos principais pilotos era Earl Sanderson, que terminou a guerra com 53 abates �n�o confirmados�. Os abates n�o eram confirmados porque n�o eram feitos registros para os esquadr�es negros � as for�as armadas temiam que os pilotos negros pudessem ter totais superiores aos dos brancos. Seu medo era justificado � aquele n�mero colocava Earl acima de todo piloto norte-americano, exceto Jetboy, que era outra enorme exce��o a um monte de regras.</p><p>No dia em que Jetboy morreu, Earl voltou para casa com o que achava ser uma grande gripe, e no dia seguinte acordou como um �s negro.</p><p>Ele podia voar, aparentemente por vontade pr�pria, a at� oitocentos quil�metros por hora. Tachyon chamou isso de �telecinesia de proje��o�.</p><p>Earl tamb�m era bastante resistente, embora n�o t�o resistente quanto eu � como acontecia comigo, as balas ricocheteavam nele. Mas tiros de canh�o podiam feri-lo e eu sabia que ele temia a possibilidade de uma colis�o no ar com um avi�o.</p><p>E ele podia projetar uma muralha de for�a diante dele, uma esp�cie de onda de choque viajante que tirava tudo do seu caminho. Homens, ve�culos, paredes. Um som como um trov�o estalando e a coisa era arremessada trinta metros � frente.</p><p>Earl passou duas semanas testando seus talentos antes de permitir que o mundo soubesse deles, voando sobre a cidade com seu capacete de piloto, jaqueta de couro preta de aviador e botas. Quando finalmente deixou que as pessoas soubessem, o Sr. Holmes foi um dos primeiros a telefonar.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Conheci Earl no dia seguinte a fechar acordo com o Sr. Holmes. J� havia me mudado para um dos aposentos livres do Sr. Holmes e recebera uma chave do apartamento. Estava subindo na vida.</p><p>Eu o reconheci imediatamente.</p><p>� Earl Sanderson � saudei-o, antes que o Sr. Holmes pudesse nos apresentar, e apertei sua m�o. � Lembro-me de ler sobre voc� quando jogou pela Rutgers.</p><p>Earl recebeu aquilo com serenidade.</p><p>� Voc� tem uma boa mem�ria � disse.</p><p>N�s nos sentamos e o Sr. Holmes explicou formalmente o que queria de n�s, e de outros que esperava recrutar mais tarde. Earl n�o gostava do termo ��s�, significando algu�m com habilidades �teis, em oposi��o a �curinga� � significando algu�m muito desfigurado pelo v�rus �, sentia que os termos impunham um sistema de classe aos que haviam tirado a carta selvagem e n�o queria nos colocar no alto de alguma pir�mide social. O Sr. Holmes chamou nossa equipe oficialmente de Ex�ticos pela Democracia. N�s nos tornar�amos s�mbolos vis�veis dos ideais norte-americanos do p�s-guerra para dar cr�dito � tentativa norte-americana de reconstruir a Europa e a �sia, continuar a luta contra o fascismo e a intoler�ncia.</p><p>Os Estados Unidos criariam uma Era de Ouro no p�s-guerra e a partilhariam com o restante do mundo. N�s ser�amos seu s�mbolo.</p><p>Parecia �timo. Eu queria participar.</p><p>No caso de Earl a decis�o foi um pouco mais dif�cil. Holmes havia conversado com ele antes e pedido que fizesse o mesmo tipo de acordo que mais tarde Branch Rickey pediu a Jackie Robinson: Earl teria de ficar fora da pol�tica interna. Teria de anunciar que rompera com Stalin e o marxismo, que estava comprometido com uma mudan�a pac�fica. Foi pedido que mantivesse seu temperamento sob controle, que absorvesse a inevit�vel raiva, o racismo e a superioridade, e fazer isso sem retalia��o.</p><p>Mais tarde, Earl me contou que lutou contra si mesmo. Ele conhecia seus poderes e sabia que podia mudar as coisas simplesmente estando presente onde fatos importantes estivessem acontecendo. Policiais do Sul n�o poderiam dispersar reuni�es de integra��o se algu�m presente pudesse esmagar companhias inteiras de patrulheiros estaduais. Fura-greves seriam lan�ados longe por sua onda de for�a. Se ele decidisse ir ao restaurante de algu�m, todo o Corpo de Fuzileiros n�o poderia retir�-lo � pelo menos n�o sem destruir o pr�dio inteiro.</p><p>Mas o Sr. Holmes havia chamado aten��o para que se ele usasse seus poderes dessa forma, n�o seria Earl Sanderson quem pagaria o pre�o. Se Earl Sanderson fosse visto reagindo violentamente � provoca��o, negros inocentes seriam pendurados em galhos de carvalho por todo o pa�s.</p><p>Earl deu ao Sr. Holmes a garantia que ele desejava. A partir do dia seguinte, n�s dois come�amos a fazer muita hist�ria.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O Ex�ticos pela Democracia (EPD) nunca fez parte do governo dos Estados Unidos. O Sr. Holmes conversava com o Departamento de Estado, mas pagava a Earl e a mim do pr�prio bolso, e eu morava em seu apartamento.</p><p>A primeira coisa foi lidar com Per�n. Ele fora eleito presidente da Argentina em uma elei��o fraudada e estava a caminho de se transformar em uma vers�o sul-americana de Mussolini e a Argentina, em um ref�gio de fascistas e criminosos de guerra. O Ex�ticos pela Democracia voou rumo ao sul para descobrir o que pod�amos fazer em rela��o a isso.</p><p>Olhando retrospectivamente, fico impressionado com nossas suposi��es. Est�vamos determinados a derrubar o governo constitucional de uma grande na��o estrangeira e n�o ach�vamos nada em rela��o a isso... At� mesmo Earl foi em frente sem pensar uma segunda vez. Hav�amos acabado de passar anos combatendo fascistas na Europa e n�o v�amos nenhum problema em ir para o sul e esmag�-los l�.</p><p>Quando partimos, t�nhamos outro homem conosco. David Harstein parecia simplesmente ter dado um jeito de embarcar no avi�o. L� estava ele, um enxadrista judeu do Brooklyn, um daqueles jovens de cabelos encaracolados e fala r�pida que voc� via por toda a Nova York vendendo seguros contra inunda��o, pneus de carros usados ou ternos sob medida feitos de alguma nova fibra milagrosa que era t�o boa quanto casimira, e de repente ele era um membro do EPD e dava as cartas. Era imposs�vel n�o gostar dele. Era imposs�vel n�o concordar com ele.</p><p>Ele era um ex�tico, certo. Transpirava ferom�nios que deixavam todos em paz com ele e com o mundo, criava uma atmosfera de bonomia e sugest�o. Podia convencer um stalinista alban�s a ficar de ponta-cabe�a e cantar o hino norte-americano � pelo menos enquanto ele e seus ferom�nios estivessem no aposento. Depois, quando nosso stalinista alban�s recobrasse os sentidos, imediatamente se denunciaria e daria um tiro em si mesmo.</p><p>Decidimos manter em segredo os poderes de David. Espalhamos uma hist�ria de que ele era uma esp�cie de super-humano ardiloso, como O Sombra do r�dio, e que era nosso batedor. Na verdade, apenas ia para encontros com as pessoas e fazia com que concordassem conosco. Funcionava bastante bem.</p><p>Per�n ainda n�o se firmara no poder, estando no cargo havia apenas quatro meses. Demoramos duas semanas para organizar o golpe que acabou com ele. Harstein e o Sr. Holmes iam para reuni�es com oficiais do ex�rcito, e antes que terminassem os coron�is estavam jurando entregar a cabe�a de Per�n numa bandeja, e mesmo que depois come�assem a pensar melhor nas coisas, sua no��o de honra n�o os deixaria recuar em suas promessas.</p><p>Na manh� antes do golpe, descobri algumas das minhas limita��es. Havia lido quadrinhos quando estava no ex�rcito e vi como, quando os caras maus estavam tentando fugir de carro em alta velocidade, o Super-Homem pulava na frente do carro, que ricocheteava nele.</p><p>Tentei isso na Argentina. Havia um major peronista que tinha de ser impedido de chegar ao seu posto de comando e saltei na frente do seu Mercedes. Fui lan�ado sessenta metros contra uma est�tua do pr�prio Juan P.</p><p>O problema � que eu n�o era mais pesado que o carro. Quando coisas colidem, � o objeto com menos momento linear que cede, e o peso � um componente do momento. N�o importa qu�o <emphasis>forte</emphasis> o objeto mais leve seja.</p><p>Fiquei mais esperto depois disso. Derrubei a est�tua de Per�n de sua base e a lancei contra o carro. Isso resolveu o problema.</p><p>H� algumas outras coisas sobre o trabalho do �s que voc� n�o aprende lendo revistas em quadrinhos. Eu me lembro de ases dos quadrinhos agarrando canos de canh�es de tanques e dando n�s neles.</p><p>De fato � poss�vel fazer isso, mas voc� precisa ter alavancagem. Precisa fincar os p�s em algo s�lido de modo a ter em que fazer press�o. Era muito mais f�cil para mim mergulhar sob o tanque e o arrancar das lagartas. Depois ia para o outro lado, colocava os bra�os ao redor do cano do canh�o, com o ombro abaixo dele, e puxava para baixo. Usava o ombro como o ponto de apoio de uma alavanca e dobrava o cano ao redor de mim mesmo.</p><p>Era o que fazia quando estava com pressa. Quando tinha tempo eu abria caminho a pancada pelo fundo do tanque e o rasgava de dentro para fora.</p><p>Mas devaneio. De volta a Per�n.</p><p>Havia duas coisas fundamentais que precisavam ser feitas. N�o era poss�vel influenciar alguns peronistas leais, e um deles era comandante de um batalh�o blindado aquartelado em um complexo fortificado na periferia de Buenos Aires. Na noite do golpe, peguei um dos tanques e o joguei de lado em frente ao port�o, depois simplesmente apoiei o ombro nele e o mantive no lugar enquanto os outros tanques viravam lixo tentando mov�-lo.</p><p>Earl imobilizou a For�a A�rea de Per�n. Simplesmente voou atr�s dos avi�es na pista e arrancou os estabilizadores.</p><p>A democracia venceu. Per�n e sua piranha loura fugiram para Portugal.</p><p>Eu me dei algumas horas de folga. Enquanto multid�es de classe m�dia iam para as ruas festejar, eu estava em um quarto de hotel com a filha do embaixador franc�s. Escutando o canto do povo atrav�s da janela, sentindo o gosto de champanhe e Nicolette em minha l�ngua, conclu� que aquilo era melhor que voar.</p><p>Nossa imagem foi constru�da naquela campanha. Eu vestia meu velho uniforme do ex�rcito a maior parte do tempo, e � dessa minha imagem que a maioria das pessoas se lembra. Earl usava fardas castanhas de oficial da For�a A�rea com a ins�gnia arrancada, botas, capacete, �culos, cachecol e sua velha jaqueta de couro de aviador com o s�mbolo do 332� no ombro. Quando n�o estava voando, tirava o capacete e colocava uma velha boina preta que guardava no bolso. Com frequ�ncia, quando �ramos convidados a fazer apari��es pessoais, pediam a Earl e a mim para vestir as fardas para que todos nos reconhecessem. O p�blico pareceu nunca se dar conta de que a maioria do tempo vest�amos terno e gravata, exatamente como todo mundo.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Quando Earl e eu est�vamos juntos, costumava ser em situa��o de combate, e por esse motivo nos tornamos grandes amigos... As pessoas em combate se tornam �ntimas muito rapidamente. Eu falava sobre minha vida, minha guerra, sobre mulheres. Ele era um pouco mais reservado � talvez n�o tivesse certeza de como eu reagiria ao ouvir de seus feitos com garotas brancas �, mas finalmente uma noite, quando est�vamos no norte da It�lia procurando por Bormann, ouvi tudo sobre Orlena Goldoni.</p><p>� Eu costumava ter que pintar suas meias pela manh� � disse Earl. � Tinha de maquiar as pernas para que parecesse que tinha meias de seda. E tinha que pintar a costura atr�s com um delineador � contou, sorrindo. � Era um trabalho de pintura que sempre gostei de fazer.</p><p>� Por que voc� n�o simplesmente dava meias a ela? � perguntei. Era bastante f�cil consegui-las. Soldados escreviam a amigos e parentes nos Estados Unidos pedindo que as enviassem.</p><p>� Eu dei muitos pares a ela � disse Earl, dando de ombros. � Mas Lena as repassava �s camaradas.</p><p>Earl n�o tinha guardado uma foto de Lena, n�o onde Lillian pudesse encontrar, mas eu a vi nos filmes depois, quando foi apresentada como a resposta europeia a Veronica Lake. Cabelos louros despenteados, ombros largos, voz rouca. A <emphasis>persona</emphasis> de Lake na tela era legal, mas a de Goldoni era atraente. As meias de seda eram de verdade nos filmes, mas tamb�m as pernas dentro delas, e o filme festejou as pernas de Lena o m�ximo que o diretor achou que conseguiria. Lembro-me de pensar em como Earl devia ter se divertido pintando-as.</p><p>Ela era cantora de cabar� em N�poles quando se conheceram, em uma das poucas boates que permitiam a entrada de soldados negros. Tinha 18 anos, negociava no mercado negro e havia sido mensageira dos comunistas italianos. Earl deu uma olhada nela e jogou a cautela pela janela. Talvez tenha sido a �nica vez na vida em que se entregou. Come�ou a correr riscos. Escapar do campo � noite, driblando patrulhas da pol�cia militar para ficar com ela, voltar furtivamente no come�o da manh� e estar no campo pronto para decolar para Bucareste ou Ploesti...</p><p>� Sab�amos que n�o era para sempre. Sab�amos que a guerra iria terminar mais cedo ou mais tarde � disse Earl. Havia uma esp�cie de distanciamento em seus olhos, a lembran�a de uma dor, e pude ver o quanto deixar Lena lhe custara. Deu um longo suspiro. � �ramos adultos em rela��o a isso. Ent�o nos despedimos. Fui dispensado e voltei a trabalhar para o sindicato. E n�o nos vimos desde ent�o. Agora ela est� nos filmes. N�o vi nenhum deles � disse, balan�ando a cabe�a.</p><p>No dia seguinte, pegamos Bormann. Eu o segurei pelo h�bito de monge sacudindo-o at� seus dentes chacoalharem. N�s o entregamos ao representante do Tribunal Aliado de Crimes de Guerra e nos demos alguns dias de folga.</p><p>Earl parecia mais nervoso do que j� o vira. Continuava desaparecendo para telefonar. A imprensa estava sempre nos seguindo e Earl dava um pulo sempre que um flash era disparado. Na primeira noite ele desapareceu de nosso quarto de hotel e n�o o vi durante tr�s dias.</p><p>Normalmente era eu quem tinha esse tipo de comportamento, sempre me esgueirando para passar algum tempo com uma mulher. Earl fazer isso me pegou de surpresa.</p><p>Ele passou o fim de semana com Lena em um pequeno hotel ao norte de Roma. Vi as fotos deles juntos nos jornais italianos na manh� de segunda-feira � de algum modo a imprensa havia descoberto. Fiquei imaginando se Lillian ouvira falar, no que estaria pensando. Earl apareceu de cenho franzido por volta de meio-dia de segunda, bem na hora de seu voo para a �ndia: ele ia a Calcut� ver Gandhi. Earl acabou se colocando entre o Mahatma e as balas que um fan�tico disparou contra ele nos degraus do templo � e de repente os jornais s� falavam da �ndia, esquecidos do que acabara de acontecer na It�lia. N�o sei se Earl explicou isso a Lillian.</p><p>O que quer tenha dito, suponho que Lillian acreditou nele. Ela sempre acreditava.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Anos gloriosos, aqueles. Com a rota de fuga fascista para a Am�rica do Sul fechada, os nazistas foram obrigados a permanecer na Europa, onde era mais f�cil encontr�-los. Ap�s Earl e eu termos desencavado Bormann de seu mosteiro, arrancamos Mengele de um s�t�o de fazenda na Baviera e chegamos t�o perto de Eichmann na �ustria que ele entrou em p�nico e se jogou nos bra�os de uma patrulha sovi�tica, e os russos o fuzilaram imediatamente. David Harstein entrou no Escorial com um passaporte diplom�tico e convenceu Franco a fazer um discurso ao vivo pelo r�dio no qual ele renunciava e convocava elei��es, e depois David permaneceu com ele no avi�o at� a Su��a. Portugal convocou elei��es pouco depois e Per�n teve de encontrar um novo lar em Nanquim, onde se tornou conselheiro militar do general�ssimo. Nazistas estavam fugindo da Pen�nsula Ib�rica �s dezenas e os ca�adores de nazistas apanharam muitos deles.</p><p>Eu estava ganhando muito dinheiro. O Sr. Holmes n�o me pagava um grande sal�rio, mas recebia muito para anunciar o Chesterfield e vender minha hist�ria para a <emphasis>Life</emphasis>, al�m de fazer muitas palestras remuneradas � o Sr. Holmes me contratou como redator de discursos. Minha metade do apartamento da Park Avenue era de gra�a e nunca tinha de pagar por uma refei��o se n�o quisesse. Recebi grandes quantias por artigos escritos em meu nome, coisas como �Por que acredito na toler�ncia�, �O que a Am�rica significa para mim� e �Por que precisamos da ONU�. Agentes de Hollywood faziam ofertas inacredit�veis por contratos longos, mas eu ainda n�o estava interessado. Estava conhecendo o mundo.</p><p>Tantas garotas me visitavam em meu quarto que a associa��o dos locat�rios pensou em instalar uma porta girat�ria.</p><p>Os jornais come�aram a chamar Earl de ��guia Negra�, em fun��o do apelido do 332�, ��guias Solit�rias�. Ele n�o gostou muito. Para os poucos que conheciam seu talento, David Harstein era �o Embaixador�. Eu era �Garoto Dourado�, claro. N�o me importava.</p><p>O EPD ganhou outro membro, Blythe Stanhope van Renssaeler, que os jornais come�aram a chamar de �Especialista�. Era uma pequena e decente dama de Boston, de alta classe, tensa como um puro-sangue, casada com um congressista desprez�vel de Nova York com quem tinha tr�s filhos. Era o tipo de beleza que voc� levava algum tempo para perceber, e ent�o ficava pensando em como n�o vira isso antes. Acho que ela nunca soube como realmente era ador�vel.</p><p>Ela podia absorver mentes. Lembran�as, habilidades, tudo.</p><p>Blythe era uns dez anos mais velha do que eu, mas isso n�o me incomodava e, em pouco tempo, comecei a flertar com ela. Eu tinha muitas outras companhias femininas e todos sabiam disso, de modo que, se sabia alguma coisa de mim � e talvez n�o soubesse, porque minha mente n�o era suficientemente importante para ser absorvida �, n�o me levou a s�rio.</p><p>Seu medonho marido Henry acabou a expulsando e ela foi ao nosso apartamento em busca de um lugar para ficar. O Sr. Holmes n�o estava e eu me encontrava bem embriagado ap�s algumas doses do seu conhaque 21 anos, ent�o lhe ofereci uma cama � na verdade a minha. Ela explodiu comigo, o que eu merecia, e saiu furiosa.</p><p>Droga, eu n�o queria que ela tomasse a oferta como permanente. Ela devia saber.</p><p>Assim como eu devia. Em 1947, a maioria das pessoas preferia se casar a arder de desejo. Eu era uma exce��o. E Blythe era tensa demais para que se pudesse brincar com ela � passava metade do tempo � beira de um colapso nervoso, com todo aquele conhecimento na cabe�a, e se havia uma coisa de que ela n�o precisava era um caipira de Dakota a assediando na noite em que seu casamento chegara ao fim.</p><p>Em pouco tempo Blythe e Tachyon estavam juntos. N�o foi muito bom para minha autoestima ser trocado por um ser de outro planeta, mas fiquei conhecendo Tachyon muito bem e decidi que ele era legal, apesar de sua prefer�ncia por brocados e cetim. Se ele fazia Blythe feliz, estava bom para mim. Imaginei que devia ter algo de bom para convencer uma intelectual como Blythe a viver em pecado.</p><p>A express�o ��s� pegou logo ap�s Blythe ter se juntado � EPD, ent�o de repente �ramos os Quatro Ases. O Sr. Holmes era o �s na Manga da Democracia, ou Quinto �s. �ramos caras bons e todos sabiam disso.</p><p>Era impressionante o volume de bajula��o que receb�amos. O p�blico simplesmente n�o <emphasis>permitia</emphasis> que fiz�ssemos algo errado. Mesmo intolerantes obstinados se referiam a Earl Sanderson como �nosso garoto voador de cor�. Quando ele falava sobre segrega��o, ou o Sr. Holmes falava sobre populismo, as pessoas escutavam.</p><p>Earl estava conscientemente manipulando sua imagem, acho. Era inteligente e sabia como funcionava a imprensa. A promessa que fizera ao Sr. Holmes com tanta dificuldade foi plenamente justificada pelos acontecimentos. Ele estava conscientemente se transformando em um her�i negro, uma figura impoluta desejada. Atleta, acad�mico, l�der sindical, her�i de guerra, marido fiel, �s. Foi o primeiro negro na capa da <emphasis>Time</emphasis>, o primeiro na <emphasis>Life</emphasis>. Substitu�ra Robeson como o grande ideal negro, como Robeson reconheceu ironicamente quando disse: �Eu n�o sei voar, mas Earl Sanderson n�o sabe cantar�.</p><p>Robeson estava errado, ali�s.</p><p>Earl estava voando mais alto do que nunca. Ele n�o havia percebido o que acontece aos �dolos quando as pessoas descobrem sobre seus p�s de barro.</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Os fracassos dos Quatro Ases aconteceram no ano seguinte, em 1948. Quando os sovi�ticos estavam prestes a tomar a Tchecoslov�quia, voamos apressadamente para a Alemanha e ent�o a coisa toda foi suspensa. Algu�m no Departamento de Estado havia decidido que a situa��o era complicada demais para que resolv�ssemos e pedira ao Sr. Holmes para n�o intervir. Depois ouvi um boato de que o governo estivera recrutando seus pr�prios talentos ases para servi�os secretos, e que haviam sido enviados e feito besteira. N�o sei se � verdade ou n�o.</p><p>Ent�o, dois meses depois do fiasco na Tchecoslov�quia, fomos enviados � China para salvar cerca de um bilh�o de pessoas para a democracia.</p><p>N�o estava claro na �poca, mas nosso lado j� havia perdido. No papel ainda era poss�vel um resgate � o Kuomintang do general�ssimo ainda controlava todas as maiores cidades, seus ex�rcitos eram bem equipados em compara��o com Mao e suas for�as, e sabia-se que o general�ssimo era um g�nio. Se n�o era, por que o Sr. Luce havia feito dele Homem do Ano da <emphasis>Time</emphasis> duas vezes?</p><p>Por outro lado, os comunistas marchavam rumo ao sul a um ritmo constante de 37 quil�metros por dia, sob chuva ou sol, ver�o ou inverno, redistribuindo terras enquanto avan�avam. Nada podia det�-los � certamente nem o general�ssimo.</p><p>No momento em que fomos chamados a intervir, o general�ssimo havia renunciado � ele fazia isso de tempos em tempos apenas para provar a todos que era indispens�vel. Ent�o os Quatro Ases se reuniram com o novo presidente do KMT, um homem chamado Chen, que estava sempre olhando por sobre o ombro para n�o ser substitu�do assim que o Grande Homem decidisse fazer outra entrada dram�tica para salvar o pa�s.</p><p>Na �poca a posi��o dos EUA era ceder o norte da China e a Manch�ria, que o KMT j� havia perdido, com exce��o das grandes cidades. A ideia era salvar o sul para o general�ssimo, dividindo o pa�s. O Kuomintang teria uma chance de se instalar no sul enquanto se organizava para uma reconquista e os comunistas ficariam com as cidades no norte sem precisar lutar por elas.</p><p>Est�vamos todos l�, os Quatro Ases e Holmes � Blythe havia sido inclu�da como conselheira cient�fica e acabou dando pequenas palestras sobre saneamento, irriga��o e vacina��o. Mao estava l�, e Chu en-lai, e o presidente Chen. O general�ssimo estava em Cant�o, ressentido em sua barraca, e o Ex�rcito Popular de Liberta��o (EPL) estava sitiando Mukden, na Manch�ria, e marchando paulatinamente para o sul, a 37 quil�metros por dia, comandado por Lin Biao.</p><p>Earl e eu n�o t�nhamos muito a fazer. �ramos observadores e basicamente o que observ�vamos eram os delegados. O pessoal do KMT era impressionantemente educado, se vestia bem, tinha empregados uniformizados que circulavam a servi�o deles. Sua intera��o uns com os outros parecia um minueto.</p><p>O pessoal do EPL pareciam soldados. Eram inteligentes, orgulhosos, militares no sentido em que soldados de verdade s�o militares, sem toda a formalidade afetada de luvas brancas do KMT. O EPL havia ido para a guerra e eles n�o estavam acostumados a perder. Eu pude dizer isso de imediato.</p><p>Foi um choque. Tudo o que eu sabia sobre a China era o que tinha lido em Pearl Buck. Isso e a genialidade confirmada do general�ssimo.</p><p>� <emphasis>Esses</emphasis> caras est�o combatendo <emphasis>aqueles</emphasis> caras? � perguntei a Earl.</p><p>� <emphasis>Aqueles</emphasis> caras n�o est�o combatendo ningu�m � respondeu Earl indicando a turma do KMT. � Est�o procurando abrigo e fugindo. Isso � parte do problema.</p><p>� N�o gosto do jeito disto � eu disse.</p><p>Earl pareceu um pouco triste.</p><p>� Eu tamb�m n�o � falou e cuspiu. � Os funcion�rios do KMT t�m roubado terras dos camponeses. Os comunistas est�o devolvendo a terra e isso significa que conseguiram apoio popular. Mas assim que tiverem vencido a guerra ir�o tom�-las de volta, exatamente como Stalin fez.</p><p>Earl conhecia hist�ria. Eu apenas lia os jornais.</p><p>Ao longo de duas semanas o Sr. Holmes definiu uma base para negocia��o, e ent�o David Harstein entrou na sala e logo Chen e Mao estavam sorrindo um para o outro como velhos colegas de escola em uma reuni�o, e em uma maratona de negocia��o a China foi formalmente dividida. O KMT e o EPL receberam ordens de ser amigos e depor armas.</p><p>Tudo desmoronou em dias. O general�ssimo, que sem d�vida havia sido informado de nossa perf�dia pelo ex-coronel Per�n, renegou o acordo e retornou para salvar a China. Lin Biao nunca parou de marchar para o sul. E ap�s uma s�rie de batalhas colossais, a genialidade confirmada do general�ssimo terminou em uma ilha protegida pela frota dos Estados Unidos � juntamente com Per�n e sua piranha loura, que tiveram de se mudar novamente.</p><p>O Sr. Holmes me disse que quando atravessou o Pac�fico de volta com a partilha no bolso, enquanto o acordo era desfeito atr�s dele e as multid�es jubilosas em Hong Kong, Manila, Oahu e S�o Francisco se tornavam cada vez menores, ficou se lembrando de Neville Chamberlain e seu pedacinho de papel, e de como a �paz na Europa� de Chamberlain se transformara em conflagra��o e Chamberlain, no ot�rio da hist�ria, triste exemplo de um homem que tinha boas inten��es mas esperan�a em excesso, e confiara demais em homens com maior experi�ncia em trai��o que ele.</p><p>O Sr. Holmes n�o era diferente. N�o se dera conta de que enquanto continuava a viver e trabalhar pelos mesmos ideais, pela democracia e pelo liberalismo, por justi�a e integra��o, o mundo mudava ao seu redor, e como ele n�o mudaria com o mundo, o mundo o transformaria em p�.</p><p>�quela altura o p�blico ainda estava inclinado a nos perdoar, mas se lembrava de que o hav�amos desapontado. Seu entusiasmo havia diminu�do um pouco.</p><p>E talvez o tempo dos Quatro Ases tivesse passado. Os grandes criminosos de guerra haviam sido apanhados, o fascismo estava em fuga e hav�amos descoberto nossas limita��es na Tchecoslov�quia e na China.</p><p>Quando Stalin bloqueou Berlim, Earl e eu voamos para l�. Eu estava novamente em uniforme de combate, Earl em sua jaqueta de couro. Ele fez patrulhas acima dos arames russos e o ex�rcito me deu um jipe com motorista com o qual brincar. Stalin acabou recuando.</p><p>Nossas atividades, por�m, estavam se tornando pessoais. Blythe ia a confer�ncias cient�ficas por todo o mundo e passava a maior parte do tempo que restava com Tachyon. Earl marchava em manifesta��es pelos direitos civis e discursava por todo o pa�s. O Sr. Holmes e David Harstein foram trabalhar naquele ano eleitoral para a candidatura de Henry Wallace.</p><p>Eu falei ao lado de Earl em encontros da Liga Urbana Nacional e para ajudar o Sr. Holmes disse algumas coisas legais sobre o Sr. Wallace, e recebi um monte de dinheiro para dirigir o �ltimo modelo Chrysler e falar sobre americanismo.</p><p>Depois da elei��o, fui para Hollywood trabalhar para Louis Mayer. O dinheiro era mais inacredit�vel do que qualquer coisa com a qual havia sonhado e eu estava ficando cansado de abusar do apartamento do Sr. Holmes. Deixei a maior parte das minhas coisas no apartamento, imaginando que n�o demoraria a voltar.</p><p>Estava faturando 10 mil por semana e tinha conseguido um agente, um contador, uma secret�ria para atender o telefone e algu�m para cuidar da publicidade; tudo o que tinha de fazer �quela altura era ter aulas de teatro e dan�a. Na verdade ainda n�o tinha de trabalhar, porque eles estavam com problemas no roteiro do meu filme. Nunca tinham precisado escrever um roteiro sobre um super-homem louro.</p><p>O roteiro que acabaram fazendo era levemente baseado em nossas aventuras na Argentina e se chamava <emphasis>Garoto Dourado</emphasis>. Pagaram muito dinheiro a Clifford Odets para usar esse t�tulo, e considerando o que aconteceu a Odets e a mim depois, essa liga��o tinha alguma ironia.</p><p>Quando me deram o roteiro, n�o liguei para ele. Eu era o her�i e estava tudo bem para mim. Eles me chamaram de �John Brown�. Mas o personagem de Harstein havia sido transformado no filho de um ministro protestante de Montana, e o personagem de Archibald Holmes, em vez de ser um pol�tico da Virg�nia, se transformara num agente do FBI. A pior parte era o personagem de Earl Sanderson � ele se transformara num zero � esquerda, um negro subserviente que s� aparecia em algumas cenas, e mesmo assim para receber ordens de John Brown e responder com um seco �Sim, senhor� e uma sauda��o. Liguei para o est�dio para falar sobre isso.</p><p>� N�o podemos coloc�-lo em muitas cenas � me disseram. � Do contr�rio n�o poderemos cortar para a vers�o do Sul.</p><p>Eu perguntei ao meu produtor executivo sobre o que ele estava falando.</p><p>� Se lan�amos um filme no Sul, n�o podemos ter pessoas de cor ou os exibidores n�o ir�o passar. Escrevemos cenas de modo a podermos lan�ar uma vers�o sulista cortando todas as cenas com crioulos.</p><p>Fiquei chocado. N�o sabia que faziam coisas assim.</p><p>� Olhe � eu disse. � Fiz discursos para o NAACP e a Liga Urbana Nacional. Apareci na <emphasis>Newsweek</emphasis> com Mary McLeod Bethune. N�o posso ser considerado parte disso.</p><p>A voz do outro lado da linha se tornou repulsiva.</p><p>� Veja seu contrato, Sr. Braun. O senhor n�o tem que aprovar o roteiro.</p><p>� N�o quero aprovar o roteiro. Quero apenas um roteiro que reconhe�a certos fatos sobre minha vida. Se eu seguir este roteiro, minha credibilidade desaparece. Voc� est� fodendo com minha <emphasis>imagem</emphasis> aqui!</p><p>Depois disso ficou desagrad�vel. Fiz certas amea�as e o produtor executivo fez certas amea�as. Recebi um telefonema do meu contador me dizendo o que aconteceria se os 10 mil por semana parassem de entrar e meu agente me disse que eu n�o tinha direito legal de me opor a nada disso.</p><p>Enfim liguei para Earl e lhe contei o que estava acontecendo.</p><p>� <emphasis>Quanto</emphasis> voc� disse que eles est�o lhe pagando? � perguntou.</p><p>Eu disse a ele novamente.</p><p>� Veja. O que voc� faz em Hollywood � problema seu. Mas voc� � novo aqui, e � uma mercadoria desconhecida para eles. Voc� quer defender o que � certo, isso � bom. Mas se voc� for embora, n�o far� nenhum bem a mim nem � Liga Urbana Nacional. Fique no neg�cio, ganhe alguma influ�ncia e depois a use. E se voc� se sentir culpado, a NAACP sempre pode usar parte desses 10 mil por semana.</p><p>Ent�o ficou assim. Meu agente conseguiu um acordo com o est�dio para que eu fosse consultado sobre mudan�as no roteiro. Consegui tirar o FBI do roteiro, deixando o personagem de Holmes sem nenhuma participa��o no governo e tentei tornar o personagem de Sanderson um pouco mais interessante.</p><p>Vi o copi�o e era bom. Gostei da minha atua��o � pelo menos era descontra�da, e at� tive de me colocar na frente de uma Mercedes acelerando e v�-la ricochetear em meu peito. Isso foi conseguido com efeitos especiais.</p><p>O filme foi para a lata e eu fui de um almo�o com tr�s mart�nis para a festa de encerramento sem pausa para ficar s�brio. Acordei tr�s dias depois em Tijuana com uma dor de cabe�a terr�vel e a suspeita de que havia feito algo idiota. A bela lourinha que dividia o travesseiro comigo me contou o que era. Hav�amos acabado de nos casar. Quando ela estava no banho, tive de olhar a certid�o de casamento para descobrir que seu nome era Kim Wolfe. Era uma estrelinha da Ge�rgia que estava na luta em Hollywood havia seis anos.</p><p>Ap�s algumas aspirinas e umas doses de tequila, o casamento n�o pareceu uma ideia inteiramente ruim. Com minha nova carreira e tudo o mais, talvez fosse a hora de me aquietar.</p><p>Comprei a velha casa de campo pseudoinglesa de Ronald Colman, em Summit Drive, Beverly Hills, e me mudei com Kim e nossas duas secret�rias, o cabeleireiro de Kim, dois motoristas, duas empregadas residentes... De repente eu estava pagando sal�rios a todas essas pessoas e n�o estava bem certo sobre de onde vinha o dinheiro.</p><p>O filme seguinte foi <emphasis>A hist�ria de Rickenbacker</emphasis>. Victor Fleming iria dirigir, com Fredric March como Pershing e June Allyson como a enfermeira pela qual eu deveria me apaixonar. De todas as pessoas, Dewey Martin iria interpretar Richthofen, cujo peito teut�nico eu encheria de chumbo norte-americano � n�o importava que o verdadeiro Richthofen tivesse sido morto por outro. A produ��o seria filmada na Irlanda, com um or�amento enorme e centenas de extras. Insisti em aprender a pilotar para poder fazer algumas das cenas pessoalmente. Dei um interurbano para Earl sobre isso.</p><p>� Ei � disse. � Finalmente aprendi a voar.</p><p>� Alguns caipiras demoram um pouco � falou ele.</p><p>� Victor Fleming vai me transformar em um �s.</p><p>� Jack. Voc� j� � um �s � disse, com uma voz divertida.</p><p>O que me fez parar um pouco, porque de algum modo, no meio da correria, me esqueci de que n�o havia sido a MGM que me transformara em um astro.</p><p>� Voc� est� certo nisso � eu disse.</p><p>� Voc� deveria vir a Nova York com maior frequ�ncia � disse Earl. � Descobrir o que est� acontecendo no mundo real.</p><p>� �. Farei isso. Vamos conversar sobre voar.</p><p>� Faremos isso.</p><p>Passei tr�s dias em Nova York a caminho da Irlanda. Kim n�o estava comigo � conseguira trabalho, gra�as a mim, e havia sido emprestada � Warner Brothers para um filme. De qualquer forma, era muito sulista e na �nica vez em que estivera com Earl ficara muito desconfort�vel, ent�o n�o me importei que n�o estivesse ali.</p><p>Passei sete meses na Irlanda � o clima era t�o ruim que a filmagem durou para sempre. Encontrei com Kim em Londres duas vezes, uma semana cada vez, mas passei o resto do tempo sozinho. Era fiel, � minha maneira, significando que n�o dormia com nenhuma garota mais de duas vezes seguidas. Eu me tornei um piloto suficientemente bom para que os pilotos dubl�s me cumprimentassem algumas vezes.</p><p>Quando voltei � Calif�rnia, passei duas semanas em Palm Springs com Kim. <emphasis>Garoto Dourado</emphasis> iria ser lan�ado em dois meses. Em meu �ltimo dia em Springs acabara de sair da piscina quando um assessor parlamentar, de terno e gravata, foi na minha dire��o e me deu um documento cor-de-rosa.</p><p>Era uma intima��o. Eu deveria comparecer perante o Comit� da C�mara sobre Atividades Antiamericanas ter�a-feira cedo. O dia seguinte.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Fiquei mais chateado do que qualquer outra coisa. Imaginei que evidentemente haviam chamado o Jack Braun errado. Telefonei para a Metro e falei com algu�m do Departamento Jur�dico. Ele me surpreendeu dizendo:</p><p>� Ah, achamos que receberia a intima��o a qualquer momento.</p><p>� Espere um minuto. Como voc� soube?</p><p>Houve um sil�ncio desconfort�vel de um segundo.</p><p>� Nossa pol�tica � colaborar com o FBI. Veja, um de nossos advogados ir� encontr�-lo em Washington. Apenas diga ao comit� o que sabe e poder� estar de volta � Calif�rnia semana que vem.</p><p>� Ei � falei. � O que o FBI tem a ver com isso? E por que voc�s n�o me disseram que isso iria acontecer? E que porra o comit� acha que eu sei, afinal?</p><p>� Algo sobre a China � disse o homem. � Pelo menos era sobre isso que os investigadores estavam nos perguntando.</p><p>Eu bati o telefone e liguei para o Sr. Holmes. Ele, Earl e David haviam recebido suas intima��es mais cedo e estavam tentando falar comigo desde ent�o, mas n�o haviam conseguido me achar em Palm Springs.</p><p>� Eles v�o tentar acabar com os Ases, caipira � disse Earl. � Melhor pegar o primeiro voo para o Leste. Temos que conversar.</p><p>Fiz meus preparativos, e ent�o Kim entrou, vestindo seus trajes brancos de t�nis, voltando da aula. Ela ficava melhor suada do que qualquer outra mulher que j� tinha conhecido.</p><p>� O que h� de errado? � perguntou. Apenas apontei para o papel rosa.</p><p>A rea��o de Kim foi r�pida, e isso me surpreendeu.</p><p>� N�o fa�a o que os Dez fizeram � disse rapidamente. � Eles conversaram, adotaram uma defesa agressiva e nenhum deles trabalhou desde ent�o.</p><p>Ela esticou a m�o para o telefone.</p><p>� Vou ligar para o est�dio. Precisamos conseguir um advogado para voc�.</p><p>Eu a observei enquanto pegava o telefone e come�ava a discar. Uma m�o fria tocou minha nuca.</p><p>� Gostaria de ter sabido o que estava acontecendo � eu disse.</p><p>Mas eu sabia. Eu sabia mesmo ent�o, e meu conhecimento tinha uma precis�o e uma clareza aterrorizantes. Tudo em que conseguia pensar era como desejava n�o poder ver as escolhas t�o claramente.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Para mim, o Medo chegara tarde. O comit� fora atr�s de Hollywood pela primeira vez em 1947, com os Dez de Hollywood. O comit� supostamente estava investigando infiltra��o comunista na ind�stria cinematogr�fica � uma ideia rid�cula, j� que nenhum comunista conseguiria qualquer publicidade nos filmes sem o conhecimento e a autoriza��o expressa de pessoas como o Sr. Mayer e os irm�os Warner. Os Dez eram todos comunistas ou ex-comunistas, e eles e seus advogados concordaram com uma defesa baseada nos direitos de liberdade de express�o e associa��o garantidos pela Primeira Emenda.</p><p>O comit� se lan�ou sobre eles como uma manada de b�falos sobre um canteiro de margaridas. Os Dez foram acusados de desacato ao Congresso por sua recusa em cooperar e, ap�s seus recursos terem sido negados anos depois, acabaram na cadeia.</p><p>Os Dez haviam imaginado que a Primeira Emenda os protegeria, que as acusa��es de desacato seriam descartadas em no m�ximo algumas semanas. Em vez disso, os recursos se arrastaram por anos e os Dez foram para a cadeia, e durante esse per�odo nenhum deles conseguiu trabalho.</p><p>Surgiu a lista negra. Meus velhos amigos da Legi�o Americana, que haviam aprendido t�ticas um pouco mais sutis desde que tinham se lan�ado contra a Holiday Association com cabos de machado, publicaram uma lista de comunistas conhecidos ou suspeitos para que nenhum empregador tivesse desculpa para contratar algu�m da lista. Caso contratasse algu�m, ele mesmo se tornava suspeito e seu nome podia ser acrescentado � lista.</p><p>Nenhum daqueles convocados pelo comit� havia cometido algum crime definido em lei, nem nunca havia sido acusado de crimes. N�o eram investigados por atividade criminosa, mas por associa��o. O comit� n�o tinha mandado constitucional para investigar essas pessoas, a lista negra era ilegal, as provas apresentadas nas sess�es do comit� eram, em grande medida, rumores, e inaceit�veis em um tribunal... Nada disso importou. Ainda assim aconteceu.</p><p>O comit� havia permanecido algum tempo em sil�ncio, em parte porque seu presidente, Parnell, havia sido jogado na cadeia por fraude em sal�rios, em parte porque os recursos dos Dez de Hollywood ainda estavam sendo avaliados nos tribunais. Mas sentiram falta de toda aquela enorme publicidade que haviam recebido quando foram atr�s de Hollywood e o p�blico havia sido lan�ado em uma grande excita��o pelo julgamento dos Rosenberg e o caso Alger Hiss, ent�o conclu�ram que chegara a hora de outra investiga��o espalhafatosa.</p><p>O novo presidente da comiss�o, John S. Wood, da Ge�rgia, decidiu ir atr�s da maior ca�a do planeta.</p><p>N�s.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O advogado da MGM me encontrou no aeroporto de Washington.</p><p>� Eu o aconselho a n�o conversar com o Sr. Holmes ou o Sr. Sanderson.</p><p>� N�o seja rid�culo.</p><p>� Eles tentar�o convenc�-lo a uma defesa baseada na Primeira ou na Quinta Emenda � disse o advogado. � A defesa pela Primeira Emenda n�o ir� funcionar, foi recusada em todos os recursos. A Quinta � uma defesa contra se incriminar e, a n�o ser que voc� tenha feito algo ilegal, n�o pode us�-la, se n�o quiser <emphasis>parecer</emphasis> culpado.</p><p>� E voc� n�o ir� trabalhar, Jack � disse Kim. � A Metro n�o ir� sequer lan�ar seus filmes. A Legi�o Americana faria piquetes diante deles por todo o pa�s.</p><p>� Como posso saber se irei trabalhar caso fale? � perguntei. � Tudo de que voc� precisa para entrar na lista negra � ser <emphasis>convocado</emphasis>, Deus do c�u.</p><p>� Fui autorizado pelo Sr. Mayer a lhe dizer que permanecer� como seu empregado caso coopere com o comit� � disse o advogado.</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� Vou conversar com o Sr. Holmes esta noite � disse, sorrindo para ele. � Deus do c�u, somos Ases. Se n�o conseguirmos derrotar um deputado provinciano da Ge�rgia, n�o <emphasis>merecemos</emphasis> trabalhar.</p><p>Ent�o eu me encontrei com o Sr. Holmes, Earl e David no Statler. Kim disse que eu n�o estava sendo razo�vel e manteve dist�ncia.</p><p>Houve uma diverg�ncia desde o in�cio. Earl disse que, para come�ar, o comit� n�o tinha direito de nos convocar e que dever�amos simplesmente nos recusar a cooperar. O Sr. Holmes falou que n�o pod�amos fugir da luta naquele momento, que dever�amos nos defender diante do comit� � que n�o t�nhamos nada a esconder. Earl lhe disse que um tribunal ilegal n�o era lugar para uma defesa racional. David s� queria que seus ferom�nios tivessem uma chance no tribunal.</p><p>� Para o inferno com tudo isso � falei. � Fico com a Primeira. Liberdade de express�o e associa��o � algo que todo norte-americano entende.</p><p>Algo em que eu n�o acreditei por um �nico segundo, ali�s. S� sentia que precisava dizer algo otimista.</p><p>N�o fui chamado naquele primeiro dia � fiquei fazendo hora com David e Earl no sagu�o, andando de um lado para o outro e roendo os n�s dos dedos, enquanto o Sr. Holmes e seu advogado faziam como o rei Canuto e tentavam impedir que a malvada mar� �cida comesse a carne de seus ossos. David continuava tentando passar pelos guardas, mas n�o estava tendo sorte � os guardas do lado de fora estavam dispostos a deix�-lo entrar, mas aqueles do lado de dentro, n�o expostos a seus ferom�nios, continuavam a mant�-lo de fora.</p><p>A imprensa havia sido autorizada a entrar, claro. O comit� gostava de desfilar sua virtude diante das c�meras dos notici�rios, e os notici�rios davam todo espa�o ao circo.</p><p>N�o soube o que estava acontecendo do lado de dentro at� o Sr. Holmes sair. Ele caminhava como um homem que tivera um derrame, um p� cuidadosamente diante do outro. Estava cinza. Suas m�os tremiam e ele se apoiava no bra�o do advogado. Parecia ter envelhecido vinte anos em poucas horas. Earl e David correram at� ele, mas eu s� consegui ficar olhando aterrorizado enquanto os outros o ajudavam a cruzar o corredor.</p><p>O Medo me pegara pelo pesco�o.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Earl e Blythe colocaram o Sr. Holmes no carro, depois Earl esperou que minha limusine da MGM chegasse e entrou atr�s conosco. Kim parecia emburrada, espremida no canto para que ele n�o encostasse nela, e se recusou at� mesmo a dizer ol�.</p><p>� Bem, eu estava certo � disse ele. � N�o dever�amos ter cooperado de modo algum com esses desgra�ados.</p><p>Eu ainda estava chocado com o que vira no corredor.</p><p>� N�o consigo entender por que diabos est�o fazendo isso.</p><p>Ele me olhou com uma express�o divertida.</p><p>� Caipiras � disse, um coment�rio resignado sobre o universo, e depois balan�ou a cabe�a. � Voc� precisa bater na cabe�a deles com uma p� para que prestem aten��o.</p><p>Kim fungou. Earl n�o deu qualquer ind�cio de ter ouvido.</p><p>� Eles t�m fome de poder, caipira. E foram mantidos por muitos anos fora do poder por Roosevelt e Truman. V�o tom�-lo de volta e est�o alimentando a histeria para conseguir isso. Olhe para os Quatro Ases e o que voc� v�? Um negro comunista, um judeu liberal, um liberal de Roosevelt, uma mulher vivendo em pecado. Acrescente Tachyon e voc� tem um alien�gena que est� subvertendo n�o apenas o pa�s, mas nossos cromossomos. Provavelmente h� outros igualmente poderosos sobre os quais ningu�m sabe. E todos t�m poderes sobrenaturais, ent�o quem sabe do que s�o capazes? E n�o s�o controlados pelo governo, t�m alguma agenda pol�tica liberal, logo isso amea�a a base de poder da maioria das pessoas no comit� bem ali.</p><p>� Do modo como entendo, o governo tem seus pr�prios ases neste momento, pessoas sobre as quais n�o ouvimos falar. Isso significa que somos dispens�veis � somos independentes demais e n�o somos confi�veis politicamente. China, Tchecoslov�quia e os nomes dos outros ases s�o apenas uma desculpa. A quest�o � que se conseguirem acabar conosco em p�blico, provar�o que podem acabar com qualquer um. Ser� um reino de terror que ir� durar uma gera��o. Ningu�m, nem mesmo o presidente, estar� imune.</p><p>Balancei a cabe�a. Escutei as palavras, mas meu c�rebro n�o as aceitava.</p><p>� O que podemos fazer sobre isso? � perguntei.</p><p>Earl me encarou.</p><p>� Porra nenhuma, caipira.</p><p>Virei o rosto.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Meu advogado da MGM tocou uma grava��o da audi�ncia com Holmes para mim naquela noite. O Sr. Holmes e seu advogado, um velho amigo da fam�lia, da Virg�nia, chamado Cranmer, estavam acostumados aos antigos ritos de Washington e aos ritos da lei. Esperavam procedimentos ordeiros, os cavalheiros do comit� fazendo perguntas educadas aos cavalheiros testemunhas.</p><p>O quadro n�o tinha rela��o com a realidade. O comit� mal deixou o Sr. Holmes falar � em vez disso, gritaram com ele, ataques cheios de terr�veis insinua��es e boatos e ele nunca foi autorizado a replicar.</p><p>Recebi uma c�pia da transcri��o. Partes dela s�o assim:</p><empty-line/><p>SR. RANKIN: Quando olho para este repulsivo homem do New Deal sentado diante deste comit�, com seus modos pretensiosos, roupas da Bond Street e sua piteira efeminada, tudo que � norte-americano e crist�o em mim se revolta. O homem do New Deal! Esse maldito New Deal se espalha nele como um c�ncer, e eu quero gritar: �Voc� � tudo o que h� de errado com a Am�rica. Saia e volte para a China Vermelha que � seu lugar, seu socialista do New Deal! Na China eles dar�o boas-vindas a voc� e � sua trai��o�.</p><p>PRESIDENTE: O tempo de Sua Excel�ncia terminou.</p><p>SR. RANKIN: Obrigado, Sr. presidente.</p><p>PRESIDENTE: Sr. Nixon?</p><p>SR. NIXON: Quais s�o os nomes dessas pessoas no Departamento de Estado que voc� consultou antes de sua viagem � China?</p><p>TESTEMUNHA: Devo lembrar ao comit� que aqueles com os quais lidei eram funcion�rios p�blicos norte-americanos agindo de boa-f�...</p><p>SR. NIXON: O comit� n�o est� interessado em seus hist�ricos. Apenas em seus nomes.</p><p>A transcri��o prossegue, oitenta p�ginas no total. O Sr. Holmes aparentemente apunhalara o general�ssimo pelas costas e perdera a China para os vermelhos. Foi acusado de ser frouxo com o comunismo, assim como aquele fingido cor-de-rosa Henry Wallace que ele apoiara � presid�ncia. John Rankin, de Mississippi � provavelmente a voz mais bizarra no comit� �, acusou o Sr. Holmes de ser parte da conspira��o dos judeus vermelhos que havia crucificado Nosso Salvador. Richard Nixon, da Calif�rnia, continuou pedindo nomes � queria saber as pessoas que o Sr. Holmes havia consultado no Departamento de Estado para que pudesse fazer a elas o que j� havia feito a Alger Hiss. O Sr. Holmes n�o deu qualquer nome e apelou para a Primeira Emenda. Foi quando o comit� realmente se levantou em indigna��o moral: eles o espancaram durante horas e no dia seguinte enviaram uma acusa��o de desacato ao Congresso. O Sr. Holmes estava a caminho da penitenci�ria.</p><p>Ele estava indo para a pris�o e n�o havia cometido um �nico crime.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� Jesus Cristo, tenho de falar com Earl e David.</p><p>� J� o aconselhei contra isso, Sr. Braun.</p><p>� Ao inferno com isso. Temos que fazer planos.</p><p>� Escute-o, querido.</p><p>� Ao inferno com isso � o som de uma garrafa batendo em um copo. � Tem que haver um modo de sairmos disto.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Quando cheguei � su�te do Sr. Holmes, ele havia tomado um sedativo e fora colocado na cama. Earl me disse que Blythe e Tachyon haviam recebido suas intima��es e chegariam no dia seguinte. N�o consegu�amos entender o porqu�. Blythe nunca teve qualquer participa��o nas decis�es pol�ticas e Tachyon n�o teve nada a ver com a China ou a pol�tica norte-americana.</p><p>David foi chamado na manh� seguinte. Estava sorrindo quando entrou. Ele se vingaria por todos n�s.</p><empty-line/><p>SR. RANKIN: Gostaria de garantir ao cavalheiro judeu de Nova York que ele n�o encontrar� qualquer preconceito por causa de sua ra�a. Qualquer homem que acredita nos princ�pios fundamentais do cristianismo e os segue, seja cat�lico ou protestante, tem meu respeito e minha confian�a.</p><p>TESTEMUNHA: Gostaria de dizer ao comit� que fa�o obje��es � caracteriza��o de �cavalheiro judeu�.</p><p>SR. RANKIN: Voc� faz obje��es a ser chamado de judeu ou de cavalheiro? O que o incomoda?</p><p>Depois desse in�cio dif�cil, os ferom�nios de David come�aram a penetrar na sala e, embora ele n�o tenha conseguido fazer o comit� dan�ar em uma roda cantando �Hava Nagila�, fez com que afavelmente cancelassem as intima��es, encerrassem as audi�ncias, redigissem uma resolu��o louvando os Ases como patriotas, enviassem uma carta ao Sr. Holmes se desculpando por seu comportamento, retirassem as acusa��es de desacato contra os Dez de Hollywood e em geral fez com que passassem por idiotas durante v�rias horas, bem na frente das c�meras dos notici�rios. John Rankin chamou David de �pequeno amigo hebreu da Am�rica�, para ele um grande elogio. David saiu dan�ando, vimos aquele sorriso de orelha a orelha e demos tapinhas em suas costas e voltamos ao Statler para uma celebra��o.</p><p>T�nhamos aberto a terceira garrafa de champanhe quando o detetive do hotel abriu a porta e assessores do Congresso distribu�ram uma nova rodada de intima��es. Ligamos o r�dio e ouvimos o presidente John Wood fazer um discurso ao vivo sobre como David usara �controle mental do tipo praticado no Instituto Pavlov, na R�ssia comunista� e como essa forma mortal de ataque seria plenamente investigada.</p><p>Eu me sentei na cama e fiquei olhando para as bolhas subindo pela ta�a de champanhe.</p><p>O Medo voltara.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Blythe foi na manh� seguinte. Suas m�os tremiam. David foi mandado embora por guardas no sagu�o usando m�scaras de g�s.</p><p>Havia caminh�es com s�mbolos de guerra qu�mica do lado de fora. Mais tarde descobri que se tent�ssemos fugir, usariam fosg�nio em n�s.</p><p>Estavam construindo uma gaiola de vidro na sala de audi�ncias. David testemunharia isolado, usando um microfone. O controle do microfone estava nas m�os de John Wood.</p><p>Aparentemente o comit� estava t�o abalado quanto n�s, pois o interrogat�rio foi um tanto desarticulado. Perguntaram a ela sobre a China, e como ela tinha ido em miss�o cient�fica, n�o tinha nenhuma resposta para eles sobre as decis�es pol�ticas. Depois perguntaram sobre a natureza do seu poder, como exatamente ela absorvia mentes e o que fazia com elas. Foi tudo bastante educado. Afinal, Henry van Renssaeler ainda era um deputado e a cortesia profissional determinava que n�o sugerissem que sua esposa controlava a mente dele.</p><p>Eles dispensaram Blythe e chamaram Tachyon. Ele vestia um casaco p�ssego e botas altas com borlas. Ignorara completamente os conselhos de seu advogado � entrou com a postura de um aristocrata cujo dever cumprido com relut�ncia era corrigir os equ�vocos da malta.</p><p>Ele se superou completamente e o comit� o fez em peda�os. Eles o denunciaram como alien�gena ilegal, depois o massacraram por ser o respons�vel por liberar o v�rus selvagem e para completar exigiram os nomes dos ases de que havia tratado, apenas para o caso de eles serem perversos infiltrados influenciando as mentes dos Estados Unidos em benef�cio de Tio Joe Stalin. Tachyon se recusou.</p><p>Eles o deportaram.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Harstein foi no dia seguinte, acompanhado por um destacamento de fuzileiros com trajes de guerra qu�mica. Assim que o colocaram na gaiola de vidro o fizeram em peda�os, como haviam feito com o Sr. Holmes. John Wood ficou com o bot�o do microfone e nunca o deixou falar, nem mesmo para responder quando Rankin o chamou publicamente de judeu repulsivo. Quando enfim teve oportunidade de falar, David atacou o comit� como sendo um bando de nazistas. Ao Sr. Wood aquilo soou desacato ao Congresso.</p><p>No final da audi�ncia David tamb�m estava indo para a pris�o.</p><p>O Congresso entrou em recesso de fim de semana. Earl e eu ir�amos comparecer na segunda-feira seguinte.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Ficamos sentados na su�te do Sr. Holmes na noite de sexta-feira, ouvindo r�dio e tudo era muito ruim. A Legi�o Americana estava organizando manifesta��es de apoio ao comit� por todo o pa�s. Havia uma s�rie de intima��es para pessoas de toda a na��o sabidamente com habilidades de ases � nenhum curinga deformado foi convocado, pois n�o ficavam bem nas imagens. Meu agente deixara uma mensagem me dizendo que a Chrysler queria seu carro de volta e que o pessoal do Chesterfield telefonara e estava preocupado.</p><p>Eu tomei uma garrafa de u�sque. Blythe e Tachyon estavam se escondendo em algum lugar. David e o Sr. Holmes eram zumbis, sentados no canto, olhos fundos, introjetados em sua pr�pria agonia. Nenhum de n�s tinha nada a dizer, a n�o ser Earl.</p><p>� Vou apelar para a Primeira Emenda e que se danem � disse. � Se me colocarem na pris�o, voarei para a Su��a.</p><p>Fiquei olhando para minha bebida.</p><p>� Eu n�o posso voar, Earl � disse.</p><p>� Claro que pode, caipira. Voc� mesmo disse.</p><p>� <emphasis>Eu n�o posso voar, droga!</emphasis> Me deixe em paz.</p><p>Eu n�o conseguia mais suportar aquilo e levei outra garrafa comigo para a cama. Kim queria conversar e apenas virei de costas e fingi estar dormindo.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Sim, Sr. Mayer.</p><p>� Jack? Isso � terr�vel, Jack, simplesmente terr�vel.</p><p>� �, sim. Esses desgra�ados, Sr. Mayer. Eles v�o acabar com a gente.</p><p>� Apenas fa�a o que os advogados dizem, Jack. Voc� ficar� bem. Seja corajoso.</p><p>� Corajoso? � reagi, rindo. � <emphasis>Corajoso?</emphasis></p><p>� � a coisa certa, Jack. Voc� � um her�i. N�o podem tocar em voc�. Apenas diga a eles o que sabe e os Estados Unidos o amar�o por isso.</p><p>� Quer que eu seja um rato.</p><p>� Jack, Jack. N�o use esse tipo de palavras. � uma coisa patri�tica que quero que voc� fa�a. A coisa certa. Quero que voc� seja um her�i. E quero que saiba que sempre h� um lugar na Metro para um her�i.</p><p>� Quantas pessoas ir�o comprar ingressos para ver um rato, Sr. Mayer? Quantas pessoas?</p><p>� Passe o telefone para o advogado, Jack. Quero falar com ele. Seja um bom garoto e fa�a o que ele diz.</p><p>� N�o farei porcaria nenhuma.</p><p>� Jack? O que posso fazer com voc�? Deixe-me falar com o advogado.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Earl estava flutuando do lado de fora da minha janela. Gotas de chuva brilhavam nos �culos colocados no alto do capacete de aviador. Kim olhou furiosa para ele e saiu do quarto. Eu levantei da cama, fui at� a janela e a abri. Ele entrou voando, pousou as botas no carpete e acendeu um cigarro.</p><p>� Voc� n�o parece muito bem, Jack.</p><p>� Estou de ressaca, Earl.</p><p>Ele tirou do bolso um <emphasis>Washington Star</emphasis> dobrado.</p><p>� H� uma coisa aqui que ir� deixar voc� s�brio. J� viu o jornal?</p><p>� N�o. N�o vi porra nenhuma.</p><p>Ele o abriu. A manchete dizia: STALIN ANUNCIA APOIO AOS ASES.</p><p>Eu me sentei na cama e peguei a garrafa.</p><p>� Jesus.</p><p>Earl jogou o jornal no ch�o.</p><p>� Ele quer acabar conosco. N�s o deixamos fora de Berlim, Deus do c�u. Ele n�o tem motivo para nos amar. Ele est� perseguindo seus pr�prios talentos da carta selvagem l�.</p><p>� O desgra�ado, o desgra�ado. � Fechei os olhos. Cores latejaram na parte de tr�s de minhas p�lpebras. � Tem um cigarro?</p><p>Ele me deu um e acendeu com seu Zippo da guerra. Recostei na cama e esfreguei a barba por fazer no meu queixo.</p><p>� Pelo que vejo, vamos ter dez anos ruins � disse Earl. � Talvez tenhamos at� de deixar o pa�s.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� E ent�o seremos her�is novamente. Isso n�o pode durar tanto.</p><p>� Voc� certamente sabe animar uma pessoa.</p><p>Ele riu. O cigarro tinha um gosto horr�vel. Eu afastei o gosto com u�sque.</p><p>O sorriso sumiu do rosto de Earl e ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� S�o as pessoas que ser�o chamadas depois de n�s; � por esses que lamento. Haver� uma ca�a �s bruxas neste pa�s durante anos � disse, balan�ando a cabe�a. � A NAACP est� pagando meu advogado. Eu poderia devolv�-lo. N�o quero nenhuma organiza��o associada a mim. Apenas ser� mais dif�cil para eles depois.</p><p>� Mayer ligou.</p><p>� Mayer � disse com uma careta. � Se pelo menos os caras que mandam nos est�dios tivessem se erguido quando os Dez se apresentaram perante o comit�. Se tivessem mostrado um pouco de coragem, nada disso teria acontecido.</p><p>Ele me lan�ou um olhar.</p><p>� Seria melhor voc� arrumar um novo advogado. A n�o ser que apele para a Quinta � disse, franzindo o cenho. � A Quinta � mais r�pida. Eles apenas perguntam seu nome, voc� diz que n�o vai responder e tudo acaba.</p><p>� Ent�o que diferen�a faz um advogado?</p><p>� Bem pensado � disse ele, me dando um grande sorriso desigual. � Realmente <emphasis>n�o</emphasis> faz nenhuma diferen�a, n�o �? O que dissermos ou n�o dissermos. O comit� far� o que quiser de qualquer jeito.</p><p>� �. Acabou.</p><p>Enquanto ele olhava para mim, seu rosto ganhou um sorriso suave. Por um momento vi o brilho que Lillian dissera que o cercava. Ali estava ele, prestes a perder tudo pelo que tinha lutado, quase sendo usado como uma arma que golpearia o movimento pelos direitos civis, o antifascismo, o anti-imperialismo, o trabalhismo e tudo o mais que importava para ele, sabendo que seu nome seria an�tema, que qualquer um a quem ele tivesse se ligado logo estaria enfrentando o mesmo tratamento... E ele de alguma forma aceitava isso, entristecido, claro, mas ainda s�lido interiormente. O Medo sequer chegara perto de toc�-lo. Ele n�o temia o comit�, a desgra�a, a perda de sua posi��o e seu status. N�o lamentava por um s� instante sua vida, um momento de dedica��o �s suas cren�as.</p><p>� Acabou? � disse, um fogo nos olhos. � Que inferno, Jack, n�o acabou � disse, rindo. � Uma audi�ncia de comit� n�o � a guerra. Somos ases. Eles n�o podem nos tirar isso. Certo?</p><p>� �. Acho.</p><p>� � melhor eu deixar que voc� cure sua ressaca � disse, indo para a janela. � De qualquer modo � hora do meu exerc�cio matinal.</p><p>� Vejo voc� mais tarde.</p><p>Ele ergueu o polegar enquanto passava uma perna pelo peitoril da janela.</p><p>� Cuide-se, caipira.</p><p>� Voc� tamb�m.</p><p>Levantei da cama para fechar a janela no momento em que o chuvisco se transformava em tempestade. Olhei para a rua abaixo. Pessoas corriam para se abrigar.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� Earl <emphasis>realmente era um comunista</emphasis>, Jack. Ele foi do partido por anos, foi estudar em Moscou. Escute, querido � disse, agora implorando �, <emphasis>voc� n�o pode ajud�-lo</emphasis>. Ele vai ser crucificado, n�o importa o que voc� fa�a.</p><p>� Posso mostrar a ele que n�o est� sozinho na cruz.</p><p>� Maravilha. Que maravilha. Eu me casei com um m�rtir. Apenas me diga, como voc� vai ajudar seus amigos apelando para a Quinta? Holmes n�o voltar� para a vida p�blica. David se colocou na cadeia. Tachyon vai ser deportado. E Earl est� condenado, sem d�vida alguma. Voc� n�o pode sequer carregar a cruz deles.</p><p>� Quem est� sendo sarc�stico agora?</p><p>E depois gritando:</p><p>� <emphasis>Quer largar essa garrafa e prestar aten��o em mim?</emphasis> � algo que seu pa�s quer que voc� fa�a! � a coisa certa!</p><p>Eu n�o conseguia mais suportar, ent�o fui dar uma caminhada na fria tarde de fevereiro. N�o havia comido nada o dia todo e tinha uma garrafa de u�sque dentro de mim, e o tr�fego continuava zumbindo enquanto eu andava, a chuva batendo em meu rosto, encharcando meu palet� leve da Calif�rnia e eu n�o percebia nada disso. S� pensava naqueles rostos, Wood, Rankin e Francis Case, os rostos, os olhos com �dio e o desfile constante de insinua��es, ent�o comecei a correr para o Capit�lio. Eu ia encontrar o comit� e acabar com ele, bater suas cabe�as, fazer com que sa�ssem correndo gaguejando de medo. Eu levei a democracia � Argentina, por Deus, e podia lev�-la a Washington da mesma forma.</p><p>As janelas do Capit�lio estavam escuras. Chuva fria brilhava sobre o m�rmore. N�o havia ningu�m l�. Contornei procurando uma porta aberta, depois enfim invadi por uma entrada lateral e fui diretamente � sala do comit�. Escancarei a porta e entrei.</p><p>Estava vazia, claro. N�o sabia por que estava t�o surpreso. S� havia algumas luzes acesas. A gaiola de vidro de David brilhava � luz suave como uma pe�a de cristal refinado. Equipamentos de c�mera e r�dio estavam em seus lugares. O martelo do presidente brilhava em lat�o e verniz. De alguma forma, enquanto ficava de p� como um imbecil no sil�ncio abafado da sala, a raiva escorreu de mim.</p><p>Eu me sentei em uma das cadeiras e tentei me lembrar do que estava fazendo ali. Era claro que os Quatro Ases estavam condenados. �ramos guiados pela lei e pela dec�ncia e o comit�, n�o. A �nica forma pela qual poder�amos combat�-los seria violando a lei, acertando seus rostos satisfeitos e fazendo a sala do comit� em peda�os, rindo enquanto os congressistas se jogavam no ch�o em busca de abrigo sob suas mesas. E se fiz�ssemos isso nos tornar�amos aquilo que combat�amos, uma for�a extralegal de terror e viol�ncia. N�s nos tornar�amos aquilo que o comit� dizia que �ramos. E isso s� pioraria as coisas.</p><p>Os Ases seriam derrotados e nada podia impedir isso.</p><p>Enquanto descia os degraus do Capit�lio, me senti completamente s�brio. N�o importava o quanto tivesse para beber, o �lcool n�o me impedia de saber o que sabia, de ver a situa��o em toda a sua clareza chocante e esmagadora.</p><p>Eu sabia, soube o tempo todo e n�o podia fingir que n�o.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Entrei no sagu�o na manh� seguinte com Kim de um lado e o advogado do outro. Earl estava l�, com Lillian de p� agarrando a bolsa.</p><p>N�o consegui olh�-los. Passei por eles, os fuzileiros com m�scaras de g�s abriram a porta, entrei na sala de audi�ncia e anunciei minha inten��o de depor perante o comit� como testemunha amig�vel.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Depois o comit� desenvolveu um procedimento para testemunhas amig�veis. Haveria primeiramente uma sess�o fechada, apenas a testemunha e o comit�, uma esp�cie de ensaio geral para que todos soubessem sobre o que falariam e qual informa��o seria dada, para que as coisas funcionassem bem durante a sess�o p�blica. Aquele procedimento n�o havia sido criado quando testemunhei, portanto tudo foi um pouco desajeitado.</p><p>Eu suava sob os holofotes, t�o aterrorizado que mal conseguia falar � tudo o que conseguia ver eram aqueles nove pares de olhinhos perversos me encarando do outro lado da sala, e tudo o que conseguia ouvir eram suas vozes, ribombando dos alto-falantes como a voz de Deus.</p><p>Wood come�ou, fazendo as perguntas iniciais: quem eu era, onde morava, o que fazia para viver. Depois come�ou a falar de minhas liga��es, come�ando por Earl. Seu tempo acabou e ele me passou para Kearney.</p><p>� Tem consci�ncia de que o Sr. Sanderson foi um dia membro do Partido Comunista?</p><p>Sequer ouvi a pergunta. Kearney teve de repetir.</p><p>� Ahn? Ah. Sim, ele me contou.</p><p>� Sabe se ele ainda � membro?</p><p>� Acredito que rompeu com o partido depois da coisa germano-sovi�tica.</p><p>� Em 1939.</p><p>� Se foi quando a coisa germano-sovi�tica aconteceu. 1939. Acho.</p><p>Eu me esqueci de todos os elementos de t�cnica teatral que nunca conhecera. Estava brincando com a gravata, murmurando ao microfone, suando. Tentando n�o olhar para aqueles nove pares de olhos.</p><p>� Tem conhecimento de qualquer liga��o comunista mantida pelo Sr. Sanderson posteriormente ao pacto germano-sovi�tico?</p><p>� N�o.</p><p>Ent�o veio.</p><p>� Ele n�o mencionou a voc� nenhum nome pertencente a grupos comunistas ou ligados aos comunistas?</p><p>Eu disse a primeira coisa que me veio � cabe�a. Sequer pensei.</p><p>� Houve uma garota, acho, na It�lia. Que ele conheceu na guerra. Acho que o nome dela era Lena Goldoni. � atriz agora.</p><p>Aqueles pares de olhos sequer piscaram. Mas pude ver sorrisinhos em seus rostos. E pude ver com o canto do olho os rep�rteres de repente se curvando sobre seus blocos.</p><p>� Poderia soletrar o nome, por favor?</p><p><image l:href="#4"/></p><p>E essa foi a estaca no caix�o de Earl. O que quer que pudesse ter sido dito sobre Earl at� ent�o, pelo menos o teria revelado fiel a seus princ�pios. A trai��o a Lillian insinuava outras trai��es, talvez a seu pa�s. Eu o destru�ra com algumas poucas palavras e na �poca sequer sabia o que estava fazendo.</p><p>Eu tagarelei. Ansioso para terminar, disse tudo que passou pela minha cabe�a. Falei sobre amar a Am�rica e sobre como s� dissera aquelas coisas legais sobre Henry Wallace para satisfazer o Sr. Holmes, e claro que era uma coisa idiota a fazer. Eu n�o queria mudar o modo de vida do Sul, o modo de vida do Sul era um bom modo de vida. Eu vi <emphasis>E o vento levou</emphasis> duas vezes, um grande filme. A Sra. Bethune era apenas uma amiga de Earl com a qual tirei uma foto. Velde assumiu o interrogat�rio.</p><p>� Tem conhecimento dos nomes de algum suposto �s que possa estar vivendo neste pa�s hoje?</p><p>� N�o. Nenhum, quero dizer, al�m daqueles que j� receberam intima��es do comit�.</p><p>� Sabe se Earl Sanderson conhece algum nome?</p><p>� N�o.</p><p>� Ele n�o confidenciou isso a voc� de algum modo?</p><p>Tomei um gole de �gua. Quantas vezes eles repetiriam aquilo?</p><p>� Se ele conhece o nome de algum �s, n�o o mencionou em minha presen�a.</p><p>� Sabe se o Sr. Harstein conhece algum nome?</p><p>Continuava.</p><p>� N�o.</p><p>� Acredita que o Dr. Tachyon conhece algum nome?</p><p>J� tinham abordado aquilo. Eu estava apenas confirmando o que eles sabiam.</p><p>� Ele tratou de muitas pessoas afetadas pelo v�rus. Suponho que saiba seus nomes. Mas ele nunca mencionou nenhum nome para mim.</p><p>� A Sra. van Renssaeler sabe da exist�ncia de algum outro �s?</p><p>Comecei a balan�ar a cabe�a, ent�o um pensamento me ocorreu e eu gaguejei:</p><p>� N�o. N�o ela mesma, n�o.</p><p>Velde prosseguiu.</p><p>� O Sr. Holmes... � come�ou, e ent�o Nixon sentiu algo ali, no modo como eu acabara de responder a pergunta e pediu a Velde permiss�o para interromper. Nixon era o cara esperto, sem d�vida. Seu jovem rosto de esquilo ansioso olhou para mim atentamente por cima do microfone.</p><p>� Eu poderia pedir que a testemunha esclarecesse sua declara��o?</p><p>Fiquei horrorizado. Tomei outro gole de �gua e tentei pensar em um jeito de sair daquilo. N�o consegui. Pedi a Nixon que repetisse a pergunta. Ele o fez. Minha resposta saiu antes que ele tivesse terminado.</p><p>� A Sra. van Renssaeler absorveu a mente do Dr. Tachyon. Ela saberia qualquer nome que ele soubesse.</p><p>A coisa estranha era que eles n�o haviam descoberto sobre Blythe e Tachyon at� ent�o. Precisaram que o grande atleta de Dakota aparecesse para juntar as pe�as para eles.</p><p>Eu deveria ter sacado uma arma e atirado nela. Teria sido mais r�pido.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O presidente Wood me agradeceu ao final do depoimento. Quando o presidente do comit� dizia obrigado significava que voc� estava limpo no que dizia respeito a eles, e outras pessoas podiam se ligar a voc� sem medo de se transformar em p�rias. Significava que voc� tinha um emprego nos Estados Unidos da Am�rica.</p><p>Sa� da sala de audi�ncia com meu advogado de um lado e Kim do outro. N�o olhei nos olhos dos meus amigos. Em uma hora estava em um avi�o voltando para a Calif�rnia.</p><p>A casa em Summit estava cheia de buqu�s de congratula��es dos amigos que fiz na ind�stria cinematogr�fica. Havia telegramas de todo o pa�s dizendo como havia sido corajoso, como havia sido patriota. A Legi�o Americana estava fortemente representada.</p><p>Em Washington, Earl estava apelando para a Quinta.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Eles nem deram aten��o � Quinta nem o deixaram ir. Fizeram uma pergunta insinuante atr�s da outra e o obrigaram a recorrer � Quinta em cada uma delas. Voc� � comunista? Earl respondeu com a Quinta. � um agente do governo sovi�tico? A Quinta. Est� ligado a espi�es sovi�ticos? A Quinta. Conhece Lena Goldoni? A Quinta. Lena Goldoni foi sua amante? A Quinta. Lena Goldoni era uma agente sovi�tica? A Quinta.</p><p>Lillian estava sentada em uma cadeira logo atr�s. Sentada muda, agarrando sua bolsa, enquanto o nome de Lena era repetido.</p><p>E finalmente Earl se cansou. Ele se inclinou para a frente, o rosto tomado de raiva.</p><p>� Tenho coisas melhores a fazer do que me incriminar diante de um bando de fascistas! � rosnou e imediatamente determinaram que ele abrira m�o da Quinta ao falar e fizeram as perguntas todas novamente. Quando, tremendo de f�ria, ele anunciou que simplesmente reafirmaria a Quinta e continuaria a se recusar a responder, eles o acusaram de desacato.</p><p>Ele se juntaria ao Sr. Holmes e a David na pris�o.</p><p>Pessoas da NAACP se reuniram com ele naquela noite. Disseram para se afastar do movimento pelos direitos civis. Ele havia feito a causa recuar cinquenta anos. Deveria manter dist�ncia no futuro.</p><p>O �dolo ca�ra. Ele moldou a imagem de um super-homem, um her�i sem falhas, e, assim que mencionei Lena, o povo de repente se deu conta de que Earl Sanderson era humano. Eles o culparam por isso, por sua pr�pria ingenuidade de acreditar nele e por sua pr�pria perda de f� repentina, e em tempos passados poderiam t�-lo apedrejado ou enforcado na macieira mais pr�xima, mas no final o que fizeram foi pior.</p><p>Deixaram que vivesse.</p><p>Earl sabia que estava acabado, era um homem morto que caminhava, que dera a eles uma arma que foi usada para esmag�-lo e a tudo em que ele acreditava, que havia destru�do a imagem heroica que criou com tanto cuidado, que destru�a as esperan�as de todos que haviam acreditado nele... Ele levou essa consci�ncia consigo at� o dia de sua morte, e isso o paralisou. Ainda era jovem, mas estava inv�lido e nunca mais voaria t�o alto ou t�o longe.</p><p>No dia seguinte o comit� convocou Blythe. Nem mesmo quero pensar no que aconteceu ent�o.</p><p><image l:href="#3"/></p><p><emphasis>Garoto Dourado</emphasis> estreou dois meses depois das audi�ncias. Eu me sentei ao lado de Kim na estreia e, no instante em que o filme come�ou, percebi que dera terrivelmente errado.</p><p>O personagem de Earl Sanderson havia desaparecido, simplesmente cortado do filme. O personagem de Archibald Holmes n�o era do FBI, mas tamb�m n�o era independente, pertencia �quela nova organiza��o, a CIA. Algu�m fez muitas novas filmagens. O regime fascista na Am�rica do Sul havia sido transformado em um regime comunista na Europa Oriental, comandado por homens morenos com sotaques espanh�is. Sempre que um dos personagens dizia �nazista� era dublado para �comuna�, e a dublagem era alta, ruim e nada convincente.</p><p>Vaguei chocado pela recep��o depois. Todos continuavam a me dizer como eu era um grande ator, como era um grande filme. O cartaz do filme dizia <emphasis>Jack Braun � Um her�i em quem a Am�rica pode confiar!</emphasis> Eu queria vomitar.</p><p>Sa� cedo e fui para a cama.</p><p>Continuei a receber 10 mil por semana enquanto o filme fracassava totalmente nas bilheterias. Disseram que o filme de Rickenbacker seria um grande sucesso, mas que naquele momento estavam tendo problemas com o roteiro do meu filme seguinte. Os dois primeiros roteiristas haviam sido convocados pelo comit� e acabaram na lista negra por n�o fornecer nomes. Isso me fez querer chorar.</p><p>Depois que os recursos dos Dez de Hollywood foram rejeitados, o ator que eles chamaram em seguida foi Larry Parks, o homem que eu estava vendo quando o v�rus atingiu Nova York. Ele deu nomes, mas n�o os deu com suficiente boa vontade e sua carreira chegou ao fim.</p><p>Aparentemente eu n�o conseguia me livrar da coisa. Algumas pessoas n�o conversavam comigo nas festas. Algumas vezes ouvia fragmentos de conversas. ��s Judas�. �Rato Dourado�. �Testemunha Amig�vel�, dito como se fosse um nome ou t�tulo.</p><p>Comprei um Jaguar para tentar me sentir melhor.</p><p>Enquanto isso, os norte-coreanos cruzaram o paralelo 38 e as for�as dos Estados Unidos estavam sendo esmagadas em Taej�n. Eu n�o estava fazendo nada al�m de aulas de interpreta��o duas vezes por semana.</p><p>Liguei pessoalmente para Washington. Eles me deram uma patente de tenente-coronel e me levaram em um avi�o especial.</p><p>A Metro achou que era um grande golpe publicit�rio.</p><p>Recebi um helic�ptero especial, um daqueles primeiros Bell, com um piloto dos p�ntanos da Louisiana que decididamente tinha puls�o de morte. Havia um desenho meu nas laterais, com um joelho levantado e um bra�o erguido, como se fosse o Super-Homem voando.</p><p>Eu era levado para tr�s das linhas norte-coreanas e chutava uns traseiros. Era muito simples.</p><p>Eu demolia colunas inteiras de tanques. Qualquer pe�a de artilharia vista pelo nosso lado era transformada em rosquinhas. Fiz prisioneiros quatro generais norte-coreanos e resgatei o general Dean dos coreanos que o haviam capturado. Empurrei comboios de suprimentos de encostas de montanhas. Eu era feroz, determinado e raivoso, estava salvando vidas norte-americanas e era muito bom nisso.</p><p>Uma foto minha saiu na capa da <emphasis>Life</emphasis>. Ela me mostra com aquele sorriso apertado de Clint Eastwood, segurando um T-34 acima da cabe�a. H� um norte-coreano muito surpreso na torre. Eu brilho como um meteoro. A fotografia era intitulada <emphasis>O superastro de Pusan</emphasis>, com �superastro� sendo uma palavra nova na �poca.</p><p>Eu estava muito orgulhoso do que fazia.</p><p>Nos Estados Unidos, <emphasis>Rickenbacker</emphasis> era um sucesso. N�o um sucesso t�o grande quanto todos haviam esperado, mas era espetacular e rendeu um bom dinheiro. As plateias pareciam um pouco amb�guas em suas rea��es ao astro. Mesmo aparecendo na capa da <emphasis>Life</emphasis>, havia algumas pessoas que n�o conseguiam me ver como um her�i.</p><p>A Metro relan�ou <emphasis>Garoto Dourado</emphasis>. Fracassou novamente.</p><p>N�o me importei muito. Estava mantendo o per�metro de Pusan. Estava l� com os recrutas, sob fogo metade do tempo, dormindo em uma barraca, comendo enlatados e parecendo algu�m sa�do de um cartum de Bill Mauldin. Acho que era um comportamento �nico para um tenente-coronel. Os outros oficiais odiavam, mas o general Dean me apoiava � em dado momento ele mesmo estava atirando em tanques com uma bazuca � e eu era um sucesso com os soldados.</p><p>Eles me levaram de avi�o � ilha Wake para que Truman pudesse me dar a Medalha de Honra e MacArthur foi no mesmo avi�o. Ele pareceu preocupado o tempo todo, n�o perdeu tempo conversando comigo. Parecia inacreditavelmente velho, nas �ltimas. Acho que n�o gostava de mim.</p><p>Uma semana depois sa�mos de Pusan e MacArthur desembarcou a X Divis�o em Inchon. Os norte-coreanos correram para l�.</p><p>Cinco dias depois eu estava de volta � Calif�rnia. O ex�rcito me disse, bem secamente, que meus servi�os n�o eram mais necess�rios. Estou bastante certo de que foi coisa de MacArthur. Queria ser o superastro da Coreia e n�o gostaria de dividir as honras. E na �poca provavelmente havia outros ases � ases legais, quietos, an�nimos � trabalhando para os Estados Unidos.</p><p>Eu n�o queria partir. Durante algum tempo, particularmente ap�s MacArthur ter sido esmagado pelos chineses, continuei a telefonar para Washington com novas ideias de como podia ser �til. Podia atacar os campos de pouso na Manch�ria que estavam nos dando tantos problemas. Ou poderia ser o homem de frente para uma ofensiva. As autoridades foram muito educadas, por�m estava claro que n�o me queriam.</p><p>Mas tive not�cias da CIA. Depois de Dien Bien Phu, quiseram me mandar � Indochina para acabar com Bao Dai. O plano parecia incompetente � n�o tinham ideia de quem ou o que colocar no lugar de Bao Dai, para come�ar; esperavam apenas que �for�as liberais anticomunistas nativas� se levantassem e assumissem o controle � e o cara encarregado da opera��o continuava a usar jarg�o da Madison Avenue para disfar�ar o fato de que n�o sabia nada sobre o Vietn� ou qualquer das pessoas com as quais supostamente estava lidando.</p><p>Recusei a oferta. Depois daquilo, meu �nico envolvimento com o governo federal passou a ser pagar meus impostos todo m�s de abril.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Enquanto eu estava na Coreia os recursos dos Dez de Hollywood se esgotaram. David e o Sr. Holmes foram para a pris�o. David cumpriu tr�s anos. O Sr. Holmes cumpriu apenas seis meses e foi libertado por raz�es de sa�de. Todos sabem o que aconteceu com Blythe.</p><p>Earl fugiu para a Europa e apareceu na Su��a, onde renunciou � cidadania norte-americana e se tornou um cidad�o do mundo. Um m�s depois estava morando com Orlena Goldoni no apartamento dela em Paris. Ela havia se tornado uma grande estrela. Imagino que decidiu que, como n�o havia mais raz�o para esconder o relacionamento, podia exibi-lo.</p><p>Lillian permaneceu em Nova York. Talvez Earl mandasse dinheiro para ela. N�o sei.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Per�n voltou � Argentina em meados da d�cada de 1950, juntamente com sua piranha oxigenada. O Medo indo para o Sul.</p><p>Fiz filmes, mas de alguma forma nenhum deles foi o sucesso esperado. A Metro continuava resmungando sobre meu problema de imagem.</p><p>As pessoas n�o conseguiam acreditar que eu era um her�i. Eu tamb�m n�o conseguia e isso afetava minha interpreta��o. Em <emphasis>Rickenbacker</emphasis> eu estivera convicto. Depois disso, nada.</p><p>Kim tinha a pr�pria carreira. N�o a via muito. Finalmente o detetive dela conseguiu uma foto minha na cama com a dermatologista que fazia sua maquiagem toda manh� e Kim ficou com a casa em Summit Drive, as empregadas, o jardineiro, os motoristas e a maior parte do meu dinheiro, e terminei em uma pequena casa de praia em Malibu com o Jaguar na garagem. Algumas vezes, minhas festas duravam semanas.</p><p>Houve dois casamentos depois disso e o mais longo durou apenas oito meses. Eles me custaram o restante do dinheiro que havia ganhado. A Metro me dispensou e trabalhei para a Warner. Os filmes foram cada vez piores. Fiz o mesmo faroeste umas seis vezes.</p><p>Finalmente enfrentei a realidade. Minha carreira no cinema havia terminado anos antes e eu estava quebrado. Procurei a NBC com a ideia de uma s�rie de televis�o.</p><p><emphasis>Tarzan dos macacos</emphasis> durou quatro anos. Eu era produtor executivo e na tela servia de escada para um chimpanz�. Fui o primeiro e �nico Tarzan louro. Tinha muito ibope e a s�rie me sustentou pelo resto da vida.</p><p>Depois disso, fiz o que todo ex-ator de Hollywood faz. Entrei no mercado imobili�rio. Vendi casas de atores na Calif�rnia por algum tempo e ent�o abri uma empresa e comecei a construir pr�dios de apartamentos e shopping centers. Quase sempre usava o dinheiro de outras pessoas � n�o correria o risco de quebrar de novo. Levantei shoppings em metade das pequenas cidades do Meio-Oeste.</p><p>Ganhei uma fortuna. Mesmo depois de n�o precisar mais de dinheiro, continuei nisso. N�o tinha muito mais a fazer.</p><p>Quando Nixon foi eleito, fiquei doente. N�o entendia como as pessoas podiam acreditar naquele homem.</p><p>Depois que o Sr. Holmes saiu da pris�o, come�ou a trabalhar como editor da <emphasis>New Republic</emphasis>. Morreu em 1955, c�ncer de pulm�o. Sua filha herdou o dinheiro da fam�lia. Suponho que minhas roupas ainda estavam nos arm�rios dele.</p><p>Duas semanas ap�s Earl fugir do pa�s, Paul Robeson e W.E.B. Du Bois ingressaram no Partido Comunista norte-americano, recebendo as carteiras do partido em uma cerim�nia p�blica na Herald Square. Anunciaram que se juntavam aos protestos pelo tratamento dispensado a Earl pelo comit�.</p><p>O comit� chamou muitos negros para sua sala. At� mesmo Jackie Robinson foi intimado e apareceu como testemunha amig�vel. Diferentemente das testemunhas brancas, os negros nunca eram conclamados a citar nomes. O comit� n�o queria criar mais m�rtires negros. Em vez disso, as testemunhas eram conclamadas a denunciar os pontos de vista de Sanderson, Robeson e Du Bois. Muitas fizeram isso.</p><p>Ao longo da d�cada de 1950 e da maior parte da de 1960 foi dif�cil ter no��o do que Earl estava fazendo. Vivia discretamente com Lena Goldoni em Paris e Roma. Ela era uma grande estrela, politicamente atuante, mas Earl n�o aparecia muito.</p><p>Ele n�o estava se escondendo, acho. Apenas ficando fora de vista. Existe uma diferen�a.</p><p>Mas havia boatos. De que havia sido visto na �frica em v�rias guerras pela independ�ncia. De que combatera na Arg�lia contra os franceses e o Ex�rcito Secreto. Quando interrogado, Earl se recusava a confirmar ou negar suas atividades. Era cortejado por pessoas e causas de esquerda, mas raramente se comprometia publicamente. Acho que, como eu, n�o queria ser usado novamente. Mas tamb�m acho que tinha medo de prejudicar uma causa se ligando a ela.</p><p>O reino de terror finalmente acabou, como Earl disse que aconteceria. Enquanto eu balan�ava em cip�s na selva como Tarzan, John e Robert Kennedy acabaram com a lista negra, passando por um piquete da Legi�o Americana para ver <emphasis>Spartacus</emphasis>, um filme com roteiro de um dos Dez de Hollywood.</p><p>Ases come�aram a sair dos esconderijos, ingressando na vida p�blica. Mas passaram a usar m�scaras e nomes inventados, como nos quadrinhos que havia lido durante a guerra e achado t�o bobos. N�o era mais bobo. Eles n�o correriam riscos. O Medo poderia voltar um dia.</p><p>Foram escritos livros sobre n�s. Recusei todas as entrevistas. Algumas vezes a pergunta era feita em p�blico e eu simplesmente ficava frio e dizia: �Eu me recuso a falar sobre isto neste momento�. Minha pr�pria Quinta Emenda.</p><p>Nos anos 1960, quando o movimento pelos direitos civis come�ou a ganhar for�a no pa�s, Earl foi a Toronto e se instalou na fronteira. Ele se encontrou com l�deres negros e jornalistas, falou apenas sobre direitos civis.</p><p>Mas, naquela altura, Earl era irrelevante. A nova gera��o de l�deres negros invocava sua mem�ria e citava seus discursos e os Panteras copiavam sua jaqueta de couro, botas e boina, mas sua exist�ncia continuada, como um ser humano em vez de como s�mbolo, era um pouco perturbadora. O movimento teria preferido um m�rtir morto cuja imagem pudesse ser usada com qualquer objetivo a um homem vivo e apaixonado que dava suas pr�prias opini�es em voz alta e clara.</p><p>Talvez ele tivesse sentido isso quando convidado a ir ao Sul. O pessoal da imigra��o provavelmente teria permitido. Mas hesitou demais e ent�o Nixon se tornou presidente. Earl n�o entraria em um pa�s comandado por um antigo integrante do comit�.</p><p>Nos anos 1970, Earl se instalou permanentemente no apartamento de Lena em Paris. Panteras exilados como Cleaver tentaram atuar em causas em comum com ele e fracassaram.</p><p>Lena morreu em 1975 em um acidente de trem. Deixou seu dinheiro para Earl.</p><p>Ele deu entrevistas de tempos em tempos. Eu as rastreava e lia. Segundo um entrevistador, uma das condi��es para a entrevista era que n�o fossem feitas perguntas sobre mim. Talvez ele quisesse que certas lembran�as tivessem morte natural. Quis agradecer a ele por isso.</p><p>H� uma hist�ria, quase uma lenda, espalhada por aqueles que marcharam para a cidade de Selma em 1965, durante a cruzada pelo direito ao voto... De que quando os policiais avan�aram com g�s lacrimog�neo, cassetetes e c�es, e os manifestantes come�aram a cair diante da onda de patrulheiros brancos, alguns deles juraram que olharam para o c�u e viram um homem voando, uma figura negra esticada, de jaqueta de aviador e capacete, mas que o homem simplesmente pairou e depois partiu, incapaz de agir, incapaz de decidir se usar seus poderes teria ajudado sua causa ou a prejudicado. A m�gica n�o voltara, nem mesmo em um momento t�o fundamental, e depois daquilo n�o restou mais nada em sua vida al�m da cadeira no caf�, o cachimbo, o jornal e a hemorragia cerebral que finalmente o levou para seja l� o que nos espere no c�u.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Com frequ�ncia come�o a pensar se acabou, se as pessoas realmente esqueceram. Mas hoje os ases fazem parte da vida, parte do cen�rio e o mundo inteiro � criado com a mitologia dos ases, a hist�ria dos Quatro Ases e seu traidor. Todos conhecem o �s Judas e sabem sua apar�ncia.</p><p>Em um dos meus per�odos de otimismo, eu me vi em Nova York a trabalho. Fui ao Aces High, o restaurante do Empire State que a nova gera��o de ases frequenta. Fui recebido � porta por Hiram, o �s que costumava chamar a si mesmo de Bol�o at� sua verdadeira identidade ser revelada, e imediatamente percebi que me reconheceu e que eu estava cometendo um grande erro.</p><p>Foi bastante educado, reconhe�o, mas seu sorriso lhe custou muito esfor�o. Ele me instalou em um canto escuro onde as pessoas n�o me veriam. Pedi uma bebida e um fil� de salm�o.</p><p>Quando o prato chegou, o fil� estava cercado por um arrumado c�rculo de moedas de dez centavos. Eu as contei. Trinta pe�as de prata.</p><p>Eu me levantei e sa�. Pude sentir os olhos de Hiram sobre mim o tempo todo. Nunca voltei.</p><p>N�o podia culp�-lo.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Quando eu estava fazendo <emphasis>Tarzan</emphasis>, as pessoas me chamavam de bem conservado. Depois, quando estava vendendo im�veis e construindo, todos me diziam o quanto o trabalho me fazia bem. Parecia muito jovem.</p><p>Se olho no espelho agora, vejo o mesmo cara jovem que percorria as ruas de Nova York a caminho de testes de ator. O tempo n�o acrescentou uma ruga, n�o me mudou fisicamente de modo nenhum. Hoje tenho 55 e pare�o ter 22 anos. Talvez nunca v� envelhecer.</p><p>Ainda me sinto um rato. Mas s� fiz o que meu pa�s mandou.</p><p>Talvez eu v� ser o �s Judas para sempre.</p><p>Algumas vezes fico pensando em voltar a ser um �s, vestir uma m�scara e um traje para ningu�m me reconhecer. Chamar a mim mesmo de Homem M�sculo, Garoto da Praia, Gigante Louro ou algo assim. Sair e salvar o mundo, ou pelo menos uma parte dele.</p><p>Mas ent�o penso: n�o. Tive meu tempo e acabou. E quando tive a chance, n�o consegui salvar sequer minha pr�pria integridade. Ou Earl. Ou qualquer um.</p><p>Deveria ter ficado com as moedas. Afinal, eu as mereci.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Ritos de degrada��o</strong></p><p>Melinda M. Snodgrass</p><empty-line/><empty-line/><p>Uma p�gina de jornal do tamanho de um selo postal passou voando pela grama seca do parque em Neuilly e pousou na base de uma est�tua de bronze do almirante D�Estaing. Sacudiu intermitentemente, como um animal exausto parando para respirar; em seguida, o vento gelado de dezembro a apanhou mais uma vez e a enviou adiante, deslizando rapidamente.</p><p>O homem jogado em um banco de ferro no centro do parque observou o papel se aproximando com o ar de quem encara uma decis�o monumental. Ent�o, com o cuidado exagerado de um b�bado de longa data, esticou o p� e o pegou.</p><p>Enquanto se curvava para pegar o papel esfarrapado, uma torrente de vinho tinto da garrafa aninhada entre suas coxas escorreu pela perna. Uma sequ�ncia de xingamentos, composta de diversos idiomas europeus e pontuada de tempos em tempos por uma estranha palavra cantada, saiu de seus l�bios. Tampando a garrafa, ele limpou a mancha que se espalhava com um grande len�o roxo e pegou o jornal, a edi��o de Paris do <emphasis>Herald</emphasis><emphasis>Tribune</emphasis>, e come�ou a ler. Seus claros olhos de cor lil�s passaram pelas colunas enquanto devorava as palavras.</p><empty-line/><p><emphasis>J. Robert Oppenheimer foi acusado de ter rela��es comunistas e de poss�vel trai��o. Fontes pr�ximas da Comiss�o de Energia At�mica confirmam que est�o sendo tomadas provid�ncias para rescindir seu certificado de seguran�a e afast�-lo da Presid�ncia da Comiss�o.</emphasis></p><p>O homem amassou o papel compulsivamente, reclinou-se no banco e fechou os olhos.</p><p>� Malditos sejam, que Deus amaldi�oe a todos � sussurrou em ingl�s.</p><p>Como em resposta, seu est�mago deu um ronco alto. Ele franziu o cenho com raiva e tomou um longo gole do vinho tinto barato. A bebida desceu amargamente sobre sua l�ngua e explodiu com calor causticante em seu est�mago vazio. Os roncos diminu�ram e ele suspirou.</p><p>Um volumoso sobretudo cor de p�ssego claro decorado com enormes bot�es de lat�o e v�rias sobrevestes estavam lan�ados sobre seus ombros, como um manto. Por baixo, vestia um palet� azul-celeste e cal�as azuis apertadas enfiadas em botas de couro surradas da altura dos joelhos. O colete era de um azul mais escuro do que o palet� e as cal�as, bordado com padr�es intrincados em fios de ouro e prata. Todas as pe�as de roupa estavam manchadas e amarrotadas, e havia remendos na camisa de seda branca. Um violino e um arco repousavam a seu lado no banco, e o estojo do instrumento (explicitamente aberto) estava no ch�o a seus p�s. Sob o banco havia uma mala gasta, e uma bolsa de couro vermelha, estampada em folha de ouro com uma palma, duas luas, uma estrela e um estreito bisturi dispostos em graciosa harmonia no centro, repousava junto a ela.</p><p>O vento recome�ou, agitando os galhos das �rvores e balan�ando seus cachos emaranhados at� a altura dos ombros. Cabelos e sobrancelhas eram vermelho met�lico, e a barba por fazer, que escurecia as bochechas e o queixo, era do mesmo tom incomum. A p�gina de jornal sacudia sob sua m�o, e ele abriu os olhos e a observou. A curiosidade superou o ultraje e, com um gesto de m�o, abriu o papel e recome�ou.</p><p>A ESPECIALISTA MORRE</p><p><emphasis>Blythe van Renssaeler, tamb�m conhecida como A Especialista, morreu ontem no sanat�rio Wittier. Integrante do infame grupo Quatro Ases, foi internada no sanat�rio Wittier pelo marido, Henry van Renssaeler, pouco depois de comparecer perante o Comit� da C�mara sobre Atividades Antiamericanas...</emphasis></p><p>O texto emba�ou enquanto seus olhos se enchiam de �gua. O l�quido se acumulou lentamente at� que uma l�grima transbordou e escorreu depressa pela extens�o de seu nariz fino e comprido. Ficou absurdamente pendurada na ponta, mas ele n�o fez nenhum movimento para retir�-la. Estava paralisado, mantido em uma estase medonha que n�o tinha nada a ver com dor. Isso viria depois; tudo o que sentia no momento era um grande vazio.</p><p><emphasis>Eu deveria saber, deveria ter sentido</emphasis>, pensou. Pousou o jornal sobre o joelho e passou suavemente sobre a mat�ria o indicador esguio, como um homem acariciaria o rosto de sua amada. Percebeu de um modo muito abstrato que havia mais fatos, fatos sobre a China, sobre Archibald, sobre os Quatro Ases e o v�rus.</p><p><emphasis>E todos eles errados!</emphasis> � pensou com selvageria, e sua m�o se contraiu sobre a p�gina em um espasmo.</p><p>Rapidamente alisou o papel e voltou a acarici�-lo. Ele se perguntou se sua morte teria sido f�cil. Se a haviam retirado daquele cub�culo imundo e a levado para o hospital...</p><p><image l:href="#4"/></p><p>O aposento fedia a suor e medo, a fezes e ao enjoativo cheiro adocicado de putrefa��o, e, acima de tudo, flutuava o odor pungente de antiss�ptico. Muito do suor e do medo estava sendo gerado por tr�s jovens residentes que se apertavam como ovelhas perdidas no centro da enfermaria. Junto � parede sul uma cortina isolava um leito dos demais pacientes, mas n�o podia bloquear os grunhidos inumanos que se erguiam por tr�s daquela fr�gil barreira.</p><p>Perto, uma mulher de meia-idade estava curvada sobre seu brevi�rio, lendo o servi�o de v�speras. Um ros�rio madrep�rola pendia de seus dedos finos e periodicamente gotas de sangue ca�am nas p�ginas. Quando isso acontecia, os l�bios se moviam em uma prece r�pida e ela limpava o sangue. Se o sangramento constante se limitasse a um verdadeiro estigma, ela poderia ser canonizada, mas sangrava por todos os orif�cios. Escorria sangue de suas orelhas, embara�ando os cabelos e sujando os ombros do h�bito, da boca, do nariz, dos olhos, do reto... de toda parte. Um m�dico cansado a apelidara de Irm� Maria Hemorragia na sala de descanso certa noite, e a gargalhada resultante s� podia ser desculpada com base na entorpecente exaust�o. Todos os profissionais de sa�de da regi�o de Manhattan estavam em regime de trabalho quase constante desde o Dia da Carta Selvagem, em 15 de setembro de 1946, e cinco meses de trabalho incessante estavam deixando suas marcas.</p><p>Ao lado havia um homem negro, antes bonito, flutuando em um banho de solu��o salina. Dois dias antes, come�ara a trocar a pele novamente e agora s� lhe restavam vest�gios. Seus m�sculos brilhavam nus e infeccionados e Tachyon ordenou que fosse tratado como v�tima de queimadura. Ele sobreviveu a uma dessas trocas. Era duvidoso se sobreviveria a outra.</p><p>Tachyon liderava uma sombria prociss�o de m�dicos na dire��o da cortina.</p><p>� Ir�o se juntar a n�s, cavalheiros? � chamou com a suave voz grave pontuada por um sotaque oscilante e musical que lembrava a Europa Central ou a Escandin�via. Os residentes se adiantaram com relut�ncia.</p><p>Uma enfermeira impass�vel abriu a cortina, revelando um velho macilento. Seus olhos fitaram com desespero os m�dicos e horr�veis sons abafados sa�ram de seus l�bios.</p><p>� Um caso interessante, este � disse Mandel, erguendo o prontu�rio. � Por alguma raz�o bizarra, o v�rus est� fazendo com que todas as cavidades no corpo deste homem se fechem. Em alguns dias seus pulm�es n�o ser�o capazes de inalar ar, nem haver� espa�o para o devido funcionamento de seu cora��o...</p><p>� Ent�o, por que n�o acabar com isso? � perguntou Tachyon, tomando a m�o do homem e percebendo o aperto que respondia �s suas palavras.</p><p>� O que est� sugerindo? � reagiu Mandel, baixando a voz para um sussurro urgente.</p><p>Tachyon pronunciou cada palavra claramente.</p><p>� Nada pode ser feito. N�o seria mais gentil poup�-lo dessa morte lenta?</p><p>� N�o sei o que se passa por medicina em seu mundo; ou talvez saiba, a julgar por esse v�rus infernal que voc�s criaram; mas neste mundo n�o assassinamos nossos pacientes.</p><p>Tach sentiu os m�sculos de seu maxilar se contra�rem de raiva.</p><p>� Voc�s sacrificam um cachorro ou um gato por miseric�rdia, mas negam a seu pr�prio povo a �nica droga conhecida que realmente alivia o sofrimento e for�am as pessoas a uma dor agonizante. Ah... Malditos sejam!</p><p>Ele jogou o jaleco para tr�s, revelando um traje espalhafatoso de brocados de ouro fosco, e se sentou na beirada da cama. O homem se esticou desesperadamente para cima e Tachyon agarrou suas m�os. Foi uma coisa f�cil entrar na sua mente.</p><p><emphasis>Morrer, me deixe morrer</emphasis>, veio o pensamento marcado pelo sabor de dor e medo e ainda assim havia uma calma certeza no pedido do homem.</p><p><emphasis>N�o posso. Eles n�o permitir�o, mas posso lhe dar sonhos</emphasis>. Ele se moveu rapidamente, bloqueando os centros de dor e racioc�nio do c�rebro do homem. Em sua pr�pria mente, viu isso como uma parede concreta, constru�da com cintilantes blocos de energia brancos e prateados. Estimulou os centros de prazer do homem, permitindo que mergulhasse em sonhos que ele mesmo concebia. O que constru�ra seria tempor�rio; duraria apenas alguns dias, mas seria o suficiente � antes disso, aquele curinga teria morrido.</p><p>Ele se ergueu e baixou os olhos para o rosto sereno do homem.</p><p>� O que voc� fez? � cobrou Mandel.</p><p>Lan�ou um olhar arrogante para o outro m�dico.</p><p>� Apenas mais um pouco de magia takisiana infernal.</p><p>Com um altivo aceno de cabe�a para os residentes, ele saiu da enfermaria. No sagu�o, havia leitos junto �s paredes e um assistente abria caminho cuidadosamente pela passagem. Shirley Dashette o chamou do posto das enfermeiras. Eles haviam passado v�rias noites agrad�veis explorando as diferen�as e semelhan�as entre os modos takisiano e humano de fazer amor, mas, naquela noite, n�o conseguiu mais do que um sorriso e a falta de uma rea��o f�sica o alarmou. Talvez estivesse na hora de dar uma descansada.</p><p>� Sim?</p><p>� O Dr. Bonners gostaria de consult�-lo. A paciente est� em choque e eventualmente fica hist�rica, mas n�o tem nenhum problema f�sico e ele pensou...</p><p>� Que poderia ser um dos meus.</p><p><emphasis>Ah, Deus, n�o permita que seja outro curinga</emphasis>, resmungou em sil�ncio. <emphasis>Acho que n�o posso encarar outra monstruosidade</emphasis>.</p><p>� Onde ela est�?</p><p>� Quarto 223.</p><p>Ele podia sentir a exaust�o lambendo seus nervos e fazendo os m�sculos tremerem. E bem perto da sensa��o de exaust�o vinham desespero e autopiedade. Com um xingamento abafado, lan�ou a m�o sobre o tampo da mesa e Shirley recuou.</p><p>� Tach? Voc� est� bem? � perguntou, a m�o fria sobre seu rosto.</p><p>� Sim. Claro. � Ele for�ou os ombros para tr�s, apertou o passo e se dirigiu para o corredor.</p><p>Bonners estava reunido com outro m�dico quando Tachyon abriu a porta. Bonners franziu o cenho, mas pareceu mais do que disposto a permitir que ele assumisse quando a mulher na cama deu um grito lancinante e fez for�a contra as correias. Tach pulou para o lado dela, colocou uma m�o gentil sobre sua testa e se fundiu � sua mente.</p><p><emphasis>AH DEUS! A elei��o, ser� que Riley fez o que era necess�rio? Deus sabe que ele pagou o bastante por isso. Comprou uma vit�ria, mas estaria ferrado se tivesse comprado uma vit�ria esmagadora. (...) Mam�e, estou com medo (...) A mordida de uma manh� de inverno e o chiado de uma l�mina de patim deslizando pelo gelo (...) Uma m�o segurando a dela (...) m�o errada. Onde estava Henry? Deix�-la agora (...) quantas horas mais (...) ele devia estar aqui (...) Outra contra��o vindo. N�O. Ela n�o podia ouvir isso. Mam�e (...) Henry (...) DOR!</emphasis></p><p>Ele recuou e se chocou ofegante contra o arm�rio.</p><p>� Deus do c�u, Dr. Tachyon, est� tudo bem?</p><p>A m�o de Bonners estava em seu bra�o.</p><p>� N�o... Sim... Dentro do normal.</p><p>Ele se empertigou com cautela. Seu corpo ainda do�a pela empatia da lembran�a do primeiro trabalho de parto que a mulher tivera. Mas de onde vinha aquela segunda personalidade, aquele <emphasis>homem</emphasis> frio e severo?</p><p>Livrando-se da m�o de Bonners, ele voltou � mulher e se sentou na beirada da cama. Com mais cautela dessa vez, realizou rapidamente alguns exerc�cios calmantes e de fortalecimento e golpeou com todo o seu poder ps�quico. As fr�geis defesas mentais dela desmoronaram com o ataque e, antes que pudesse arrast�-lo para seu redemoinho mental, ele agarrou sua mente.</p><p><emphasis>Como uma flor em bot�o, veludo delicado tremulando � brisa com apenas um toque...</emphasis></p><p>Ele se obrigou a abandonar o prazer quase sensual do compartilhamento mental e retornar � tarefa diante de si. Totalmente no comando, logo percorreu sua cabe�a. O que descobriu adicionou uma nova faceta � saga do carta selvagem.</p><p>Nos primeiros dias do v�rus eles tinham visto principalmente morte. Perto de 20 mil delas na regi�o de Manhattan. Dez mil pelos efeitos do v�rus e outros dez mil como resultado de tumultos, saques e da Guarda Nacional. Depois vieram os curingas: monstros hediondos nascidos da fus�o do v�rus com as pr�prias cria��es mentais. E finalmente apareceram os ases. Ele tinha visto uns trinta deles. Pessoas fascinantes com poderes ex�ticos � a prova viva de que a experi�ncia era um sucesso. Apesar do custo terr�vel, haviam criado superseres. E agora existia uma nova, com um poder �nico entre os outros ases.</p><p>Ele recuou, deixando apenas um �nico fio de controle, como r�deas nas m�os de um cavaleiro experiente.</p><p>� Sim, voc� estava certo, doutor, ela � uma das minhas.</p><p>Bonners agitou as m�os em um gesto de completa e total confus�o.</p><p>� Mas como... Quero dizer, voc� normalmente n�o... faz exames? � concluiu de forma insatisfat�ria.</p><p>Tach relaxou e sorriu com a confus�o do colega.</p><p>� Acabei de fazer. E � uma coisa impressionante; de alguma forma esta mulher conseguiu absorver todo o conhecimento e todas as lembran�as do marido � disse, com o sorriso morrendo com a chegada de um novo pensamento. � Imagino que talvez dev�ssemos mandar algu�m at� a casa dela para descobrir se o pobre velho Henry � uma casca sem mente cambaleando pelo quarto. Pelo que sei, ela pode t�-lo sugado todo. Mentalmente falando, claro.</p><p>Bonners pareceu decididamente nauseado e saiu. O outro m�dico saiu com ele.</p><p>Tachyon afastou-os de seus pensamentos, bem como o destino de Henry van Renssaeler, e se concentrou na mulher na cama. Sua mente e sua psique estavam rachados como gelo derretendo e teria de ser feita uma restaura��o muito r�pida para impedir que a personalidade se estilha�asse sob o estresse e ela afundasse na loucura. Depois tentaria um trabalho mais permanente, mas isso seria, na melhor das hip�teses, um remendo. Seu pai seria perfeito para isso, j� que o conserto de mentes partidas era seu dom. Mas como estava longe de Takis, ela dependeria das habilidades inferiores de Tach.</p><p>� Aqui, minha querida � murmurou, enquanto come�ava a trabalhar nas faixas amarradas que a mantinham presa � cama. � Vamos deix�-la mais confort�vel, e depois come�arei a ensinar a voc� algumas disciplinas mentais para que n�o enlouque�a totalmente.</p><p>Ele reiniciou a liga��o mental plena. A mente dela flutuou sob a dele, confusa, incapaz de compreender a magnitude da mudan�a que havia lhe ocorrido.</p><p><emphasis>Estou louca... Isso n�o poderia ter acontecido... Enlouquecer.</emphasis></p><p><emphasis>N�o, o v�rus...</emphasis></p><p><emphasis>Ele realmente est� aqui... N�o consigo suportar isso.</emphasis></p><p><emphasis>Ent�o n�o suporte. Veja, aqui e aqui, redirecione e o coloque bem abaixo.</emphasis></p><p><emphasis>N�O! Tire daqui, fora!</emphasis></p><p><emphasis>N�o � poss�vel; controle � a �nica solu��o.</emphasis></p><p>A defesa ganhou vida como a ponta de um fogo incandescente e criou sua gaiola intrincada ao redor de �Henry�.</p><p>Havia uma sensa��o de encantamento e paz, mas ele sabia que estavam apenas na metade do caminho. A defesa surgiu por causa do poder dele, n�o por qualquer compreens�o real por parte dela; para manter a sanidade ela mesma teria de aprender a cri�-la. Ele recuou. A rigidez havia deixado o corpo dela e a respira��o se tornou mais regular. Tach retornou � tarefa de solt�-la, assoviando uma m�sica de dan�a ritmada por entre os dentes.</p><p>Pela primeira vez desde que havia sido chamado ao quarto, ele estava relaxado para olhar, realmente olhar para a paciente. Sua mente j� o encantara e seu corpo fez o pulso acelerar. Cabelos castanho-escuros � altura dos ombros cascateavam sobre o travesseiro at� o peito da mulher, um contraponto perfeito ao cetim champanhe de sua camisola fina e � pele de alabastro. C�lios longos e negros adejaram em suas bochechas e depois se ergueram, revelando olhos de um profundo azul-escuro.</p><p>Ela o olhou atentamente por alguns segundos, depois perguntou:</p><p>� Eu o conhe�o ou n�o? Nunca vi seu rosto, mas... eu... o sinto.</p><p>Seus olhos se fecharam novamente, como se a confus�o fosse demais.</p><p>Ele respondeu, tirando os cabelos da testa dela.</p><p>� Sou o doutor Tachyon, e sim, voc� me conhece. Partilhamos a mente.</p><p>� Mente... <emphasis>Mente</emphasis>. Eu toquei a mente de Henry, mas foi medonho, medonho!</p><p>Ela se ergueu de um pulo e se sentou tr�mula, como um pequeno animal assustado.</p><p>� Ele fez tantas coisas terr�veis e desonrosas, eu n�o tinha ideia, e pensei que ele era... � disse, antes de interromper o fluxo de palavras e agarrar o bra�o dele. � Agora tenho de viver com isso. Nunca me ver livre dele. As pessoas deveriam ser mais cuidadosas quando escolhem... � melhor, acho, n�o saber o que existe atr�s dos olhos delas.</p><p>Seus olhos se fecharam brevemente e a testa se franziu. De repente os c�lios foram erguidos e suas unhas se cravaram no b�ceps dele.</p><p>� Gostei de sua mente � ela anunciou.</p><p>� Obrigado. Acredito que posso dizer com alguma precis�o que tenho uma mente extraordin�ria. De longe, a melhor que voc� provavelmente conhecer�.</p><p>Ela riu, um som grave e rouco estranhamente incongruente com sua apar�ncia delicada. Ele riu com ela, satisfeito de ver a cor retornando �s faces.</p><p>� A �nica que provavelmente conhecerei. As pessoas o consideram vaidoso? � prosseguiu em tom mais relaxado e se recostou novamente nos travesseiros.</p><p>� N�o, n�o vaidoso. Arrogante algumas vezes, dominador, mas nunca vaidoso. Veja, meu rosto n�o permite.</p><p>� Ah, n�o sei � disse, esticando a m�o e passando os dedos suavemente pela bochecha dele. � Acho um belo rosto.</p><p>Ele recuou com prud�ncia, embora lhe custasse faz�-lo. Ela pareceu ferida e se recolheu.</p><p>� Blythe, mandei algu�m verificar seu marido.</p><p>Ela desviou o rosto, enfiando a bochecha no travesseiro.</p><p>� Sei que voc� se sente desonrada pelo que descobriu sobre ele, mas precisamos ter certeza de que tudo est� bem.</p><p>Ele se levantou da cama e as m�os dela o buscaram. Ele as segurou e cruzou os dedos entre os seus.</p><p>� N�o posso voltar para ele, n�o posso!</p><p>� Voc� pode tomar esse tipo de decis�o pela manh� � disse, acalmando-a. � Neste momento quero que durma um pouco.</p><p>� Voc� salvou minha sanidade.</p><p>� Foi um prazer.</p><p>Ele fez sua melhor mesura e pressionou a pele macia da face interna do pulso dela contra os l�bios. Foi um comportamento inconsciente, mas ficou satisfeito com seu autocontrole.</p><p>� Por favor, volte amanh�.</p><p>� Trarei seu caf� na cama e lhe darei pessoalmente a massa repulsiva que se faz passar por cereal quente neste estabelecimento. Poder� me falar mais sobre minha mente maravilhosa e meu belo rosto.</p><p>� Apenas se prometer corresponder.</p><p>� Quanto a isso, voc� n�o tem nada a temer.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Eles flutuaram em um mar branco prateado sustentado pelos mais suaves toques mentais. Era quente, maternal e sensual, tudo ao mesmo tempo, e ele estava levemente consciente de seu corpo reagindo ao primeiro partilhamento de verdade que experimentara em meses. Ele se obrigou a voltar a aten��o para a sensa��o. A defesa pairava entre eles como um vaga-lume peripat�tico.</p><p><emphasis>Novamente.</emphasis></p><p><emphasis>N�o consigo. Dif�cil.</emphasis></p><p><emphasis>Necess�rio. Novamente agora.</emphasis></p><p>O vaga-lume retomou seu curso err�tico, tra�ando as linhas e as espirais complexas de uma defesa mental. Houve uma proje��o de escurid�o, como uma onda de lama fedorenta, e a defesa se desfez em peda�os. Tachyon retornou a seu corpo bem a tempo de segurar Blythe enquanto ela ca�a de cara na dire��o do concreto do terra�o.</p><p>Sua mente do�a pelo esfor�o.</p><p>� Voc� <emphasis>precisa</emphasis> cont�-lo.</p><p>� N�o consigo. Ele me odeia e quer me destruir.</p><p>Solu�os pontuaram as palavras.</p><p>� Vamos tentar novamente.</p><p>� N�o!</p><p>Ele a agarrou, um bra�o sobre os ombros, o outro segurando as m�os finas.</p><p>� Estarei com voc�. N�o deixarei que ele a fira.</p><p>Ela respirou fundo e assentiu secamente com a cabe�a.</p><p>� Certo, estou pronta.</p><p>Eles recome�aram. Dessa vez ele permaneceu em uma liga��o mais pr�xima. De repente teve consci�ncia de um redemoinho de poder sugando sua mente, sua identidade, arrastando-o cada vez mais fundo para ela. Houve uma sensa��o de estupro, de viola��o, de perda. Ele rompeu contato e saiu cambaleando pelo terra�o. Quando recobrou a no��o do que o cercava, se viu em um abra�o �ntimo com um pequeno salgueiro tristemente murcho em um canteiro de concreto, e Blythe solu�ava infeliz com o rosto apoiado nas m�os.</p><p>Ela parecia absurdamente jovem e vulner�vel em seu casaco Dior de l� preta com colarinho de pele. A severidade da cor destacava a palidez de sua pele e o colarinho r�gido erguido fazia com que parecesse uma princesa russa perdida. A sensa��o de viola��o que tinha murchou diante da �bvia perturba��o dela.</p><p>� Desculpe, desculpe. N�o pretendia. S� queria estar mais pr�xima de voc�.</p><p>� N�o ligue � disse ele, dando alguns beijinhos em sua face. � Estamos ambos cansados. Tentaremos novamente amanh�.</p><p>E assim fizeram; trabalhando dia ap�s dia, no final da semana ela tinha um controle seguro de seu indesejado passageiro mental. Henry van Renssaeler ainda n�o aparecera no hospital; em vez disso, uma discreta empregada negra levara a Blythe suas roupas. Isso foi bom para Tachyon. Ficou contente porque o homem saiu inc�lume da experi�ncia, mas o contato �ntimo com a mente do deputado van Renssaeler havia produzido pouca satisfa��o, e na verdade sentia ci�mes. Ele tinha direito a Blythe, mente, corpo e alma, e Tachyon ansiava por aquela posi��o. Teria feito dela sua <emphasis>genamiri</emphasis> com toda a honra e todo o amor e a mantido segura e protegida, mas tais sonhos eram in�teis. Ela pertencia a outro homem.</p><p>Certa noite ele foi tarde ao seu quarto e a encontrou lendo na cama. Levava nos bra�os trinta rosas cor-de-rosa de caule longo e, enquanto ela ria e protestava, come�ou a cobri-la com os bot�es perfumados. Assim que o len�ol de flores estava conclu�do, se esticou ao lado dela.</p><p>� Dem�nio! Se me furar com espinhos...</p><p>� Eu arranquei todos.</p><p>� Voc� � maluco. Quanto tempo isso demorou?</p><p>� Horas.</p><p>� E n�o tinha nada melhor a fazer com seu tempo?</p><p>Ele se virou, passando os bra�os ao redor dela.</p><p>� N�o negligenciei meus pacientes, garanto. Fiz isso no meio da madrugada.</p><p>Ele ro�ou os l�bios na sua orelha e quando ela n�o o empurrou, passou para a boca. Os l�bios brincaram sobre os dela, provando a do�ura e a promessa, e a excita��o correu por ele quando os bra�os dela se apertaram sobre seu pesco�o.</p><p>� Faz amor comigo? � sussurrou sobre os l�bios dela.</p><p>� � o que voc� pede a todas as suas garotas?</p><p>� N�o � gritou, ferido pelo riso em sua voz. Ele se sentou e espanou p�talas de seu palet� rosa fosco.</p><p>Ela arrancou p�talas de v�rias rosas.</p><p>� Voc� tem uma grande fama. Segundo o Dr. Bonners, voc� dormiu com todas as enfermeiras deste andar.</p><p>� Bonners � um velho intrometido; al�m disso, algumas delas n�o s�o suficientemente bonitas.</p><p>� Ent�o voc� admite � disse, usando o caule despetalado para apontar para ele.</p><p>� Admito que gosto de me deitar com garotas, mas com voc� seria diferente.</p><p>Ela se recostou, uma das m�os sobre os olhos.</p><p>� Ah, me poupe, senhor, j� ouvi essas palavras antes.</p><p>� Onde? � ele perguntou, de repente curioso, pois sentiu que n�o falava sobre Henry.</p><p>� Na Riviera, quando eu era muito mais jovem e muito mais tola.</p><p>Ele a abra�ou com mais for�a.</p><p>� Ah, me conte.</p><p>Uma rosa o acertou no nariz.</p><p>� N�o, conte-me voc� sobre a sedu��o em Takis.</p><p>� Prefiro flertar dan�ando.</p><p>� Por que dan�ando?</p><p>� Porque � bem rom�ntico.</p><p>As cobertas foram jogadas de lado e ela come�ou a se enfiar em um penhoar �mbar.</p><p>� Mostre-me � ordenou, abrindo os bra�os.</p><p>Ele deslizou o bra�o pela cintura dela e tomou sua m�o direita na esquerda.</p><p>� Vou ensinar a voc� �Temptation�. � uma valsa muito bonita.</p><p>� Justifica o nome?</p><p>� Vamos tentar e voc� me diz.</p><p>Ele alternou entre cantarolar em sua voz suave de bar�tono e dar instru��es enquanto avan�avam pela dan�a intrincada.</p><p>� C�us! Todas as suas dan�as s�o t�o complicadas?</p><p>� Sim, isso demonstra como somos sujeitos inteligentes e graciosos.</p><p>� Vamos novamente, e, dessa vez, apenas cantarole. Acho que peguei os passos b�sicos e voc� pode simplesmente me empurrar quando eu errar.</p><p>� Irei conduzi-la, como cabe a um homem com sua dama.</p><p>Ele a girava com um bra�o, olhando para seus olhos azuis sorridentes, quando um �h�-h� ofendido quebrou o clima. Blythe engasgou e pareceu se dar conta do quadro escandaloso que pintava; p�s nus, cabelos soltos cascateando sobre os ombros, seu leve penhoar rendado revelando demais de seu decote. Voltou apressada para a cama e puxou as cobertas at� o queixo.</p><p>� Archibald � guinchou.</p><p>� Sr. Holmes � disse Tachyon, se recompondo e estendendo a m�o.</p><p>O homem da Virg�nia a ignorou e encarou o alien�gena com sobrancelhas franzidas. O homem havia sido escolhido pelo presidente Truman para coordenar os trabalhos de ajuda em Manhattan, e, nas semanas imediatamente posteriores � cat�strofe, dividiram o palanque durante v�rias entrevistas coletivas agitadas. Parecia um pouco menos amistoso naquele momento.</p><p>Foi na dire��o da cama e deu um beijo paternal na testa de Blythe.</p><p>� Estive fora da cidade e ao retornar descobri que voc� estava doente. Nada s�rio, espero.</p><p>� N�o � respondeu ela, rindo. Saiu um pouco alto e firme demais. � Eu me tornei um <emphasis>�s</emphasis>. N�o � impressionante?</p><p>� Um �s! Quais s�o suas habilidades... � Ele se interrompeu de repente e encarou Tachyon. � Se puder nos desculpar, gostaria de conversar com minha afilhada sozinho.</p><p>� Claro. Blythe, eu a verei pela manh�.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Quando ele retornou, sete horas depois, ela havia partido.</p><p>Foi embora, disse a recep��o; um velho amigo da fam�lia, Archibald Holmes, a apanhara cerca de uma hora antes. Por um momento ele pensou em dar uma passada na cobertura dela, mas decidiu que isso s� causaria problemas. Era esposa de Henry van Renssaeler e nada mudaria isso. Tentou dizer a si mesmo que n�o importava e voltou a perseguir uma jovem enfermeira na maternidade.</p><p>Tentou tirar Blythe da cabe�a, mas nos momentos mais estranhos se pegava recordando do toque de seus dedos em sua bochecha, o azul profundo de seus olhos, o cheiro de seu perfume e, mais do que tudo, sua mente. Aquela lembran�a de beleza e gentileza o assombrava, pois ali, entre os psicocegos, ele se sentia muito isolado. Simplesmente n�o era poss�vel entrar em comunica��o telep�tica com todos que encontrava e o que teve com ela foi o primeiro contato <emphasis>real</emphasis> desde sua chegada � Terra. Suspirou e desejou poder v�-la novamente.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele alugou um apartamento em uma mans�o reformada perto do Central Park. Era uma abafada tarde de domingo, em agosto de 1947, e ele caminhava pelo aposento �nico de camisa de seda e cueca samba-can��o. Todas as janelas estavam abertas na esperan�a de uma brisa, sua chaleira assoviava de modo estridente no fog�o e <emphasis>La Traviata</emphasis> de Verdi tocava alto no fon�grafo. O extremo n�vel de decib�is era determinado por seu vizinho de baixo, que era viciado em �lbuns de Bing Crosby e escutava <emphasis>Moonlight Becomes You</emphasis> sem parar. Tachyon desejou que Jerry tivesse ido se encontrar com a atual namorada na ensolarada Coney Island; sua sele��o musical parecia determinada pelas horas e pelos lugares onde encontrava suas paix�es.</p><p>O alien�gena acabara de pegar uma gard�nia e estava pensando qual o melhor lugar para coloc�-la no jarro de flores, quando bateram � porta.</p><p>� Certo, Jerry � gritou ele, indo na dire��o da porta. � Eu desligo, mas s� se voc� concordar em enterrar Bing. Por que n�o fazemos uma tr�gua e tentamos algo n�o cantado? Glenn Miller ou algum outro. Apenas n�o me obrigue a escutar aquele leporino novamente.</p><p>Ele escancarou a porta e ficou de queixo ca�do.</p><p>� Acho que seria uma boa ideia se voc� abaixasse � disse Blythe van Renssaeler.</p><p>Ele a encarou por v�rios segundos, depois esticou a m�o e puxou a fralda da camisa discretamente para baixo. Ela sorriu e ele percebeu que tinha covinhas. Como n�o havia notado aquilo antes? Achara que seu rosto estava gravado de forma indel�vel em sua mente.</p><p>Ela balan�ou a m�o diante do rosto dele.</p><p>� Al�, lembra de mim? � disse, tentando manter um tom leve, mas havia uma assustadora intensidade.</p><p>� Cla... Claro. Entre.</p><p>Ela n�o se moveu.</p><p>� Tenho uma mala.</p><p>� Estou vendo.</p><p>� Fui colocada para fora.</p><p>� Voc� ainda assim pode entrar... Com mala e tudo.</p><p>� N�o quero que voc� se sinta... Bem, numa armadilha.</p><p>Ele enfiou a gard�nia atr�s da orelha dela, pegou a mala de sua m�o e a puxou para dentro. As pregas de seu vestido de seda p�ssego-claro raspavam em suas pernas, erguendo os pelos com o contato el�trico. Moda feminina era um passatempo de Tachyon e ele notou que era um Dior original, a saia at� os tornozelos sustentada por uma s�rie de an�guas de chiffon. Ele percebeu que provavelmente podia enla�ar sua cintura com as m�os. O corpete era sustentado por duas al�as finas, deixando a maior parte das costas nuas. Ele gostou do modo como suas omoplatas se moviam sob a pele branca. Houve um movimento de resposta dentro de sua cueca.</p><p>Constrangido, correu para o closet.</p><p>� Deixe-me colocar cal�as. H� �gua pronta para o ch�, e abaixe aquela grava��o.</p><p>� Voc� toma ch� com leite ou lim�o?</p><p>� Nenhum dos dois. Tomo com gelo. Estou quase morrendo � disse, andando pelo quarto, enfiando a camisa dentro das cal�as.</p><p>� Est� um ador�vel dia.</p><p>� Est� um ador�vel dia <emphasis>quente</emphasis>. Meu planeta � bem mais fresco que o seu.</p><p>Os olhos se desviaram e ela brincou com um cacho de cabelo.</p><p>� Sei que voc� � um alien�gena, mas parece estranho falar sobre isso.</p><p>� Ent�o n�o falamos � disse, ocupando-se do ch� enquanto a estudava discretamente com o canto do olho. � Voc� parece muito arrumada para uma mulher que acabou de ser colocada para fora � comentou finalmente.</p><p>� Tive meu momento de choro no banco do t�xi � disse, com um sorriso triste. � Pobre homem, achou que estava com uma verdadeira maluca nas m�os. Especialmente j� que...</p><p>Ela se interrompeu, usando a aceita��o da x�cara como meio de evitar o olhar inquisidor dele.</p><p>� N�o estou me queixando, de modo algum, mas por que voc�... Ahn...</p><p>� Eu o procurei? � completou, andando pela sala e abaixando o fon�grafo. � Essa � uma parte muito triste.</p><p>Ele voltou a aten��o para a m�sica novamente e se deu conta de que era a cena de despedida entre Violetta e Alfredo.</p><p>� Ahn... Sim, �.</p><p>Ela se virou para encar�-lo e seus olhos estavam preocupados.</p><p>� Vim para c� porque Earl est� absorvido demais em suas causas, marchas, greves e a��es, e David, pobre garoto, teria ficado aterrorizado com a ideia de ganhar uma mulher mais velha hist�rica. Archibald teria insistido para que eu desse um jeito nas coisas e ficasse com Henry; felizmente n�o estava em casa quando apareci, mas Jack estava e me quis... Bem, um pouco demais.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a como um garanh�o atormentado por mosquitos.</p><p>� Blythe, quem s�o essas pessoas?</p><p>� Como voc� pode ser t�o mal informado? � provocou e fez uma pose dram�tica; t�o dram�tica que debochava de suas palavras. � <emphasis>N�s</emphasis> somos os Quatro Ases.</p><p>De repente ela come�ou a tremer, derramando ch� pela beirada da x�cara.</p><p>Tach foi at� ela, pegou a x�cara de sua m�o e a apertou junto ao peito. As l�grimas deixaram uma mancha quente e molhada em sua camisa e ele se projetou para a mente dela, mas ela pareceu sentir sua inten��o e o expulsou com viol�ncia.</p><p>� N�o, n�o fa�a, n�o at� eu ter explicado o que fiz. Do contr�rio provavelmente sentir� um choque terr�vel.</p><p>Ele esperou enquanto ela tirava um len�o bordado da bolsa, assoava com determina��o e enxugava os olhos. Quando ergueu a cabe�a novamente estava calma, e ele admirou sua dignidade e seu controle.</p><p>� Voc� deve imaginar que sou uma t�pica f�mea desmiolada. Bem, n�o irei entedi�-lo mais. Vou come�ar do come�o e ser bastante l�gica.</p><p>� Voc� partiu sem se despedir � cortou ele.</p><p>� Archibald achou que era melhor e quando ele est� sendo paternal e autorit�rio nunca consigo dizer n�o � disse, a seguir censurando-se. � N�o em qualquer coisa. Quando ele soube o que eu podia fazer, me disse que eu tinha um grande dom. Que podia preservar conhecimento inestim�vel. Insistiu para que me juntasse ao seu grupo.</p><p>Ele estalou os dedos.</p><p>� Earl Sanderson e Jack Braun.</p><p>� Isso mesmo.</p><p>Ele se levantou e come�ou a andar pela sala.</p><p>� Estiveram envolvidos em algo na Argentina e capturaram Mengele e Eichman, mas <emphasis>quatro</emphasis>?</p><p>� David Harstein, conhecido como o Embaixador...</p><p>� Eu o conhe�o, tratei dele h� poucas... Deixe para l�, continue.</p><p>� E eu � disse, sorrindo com o constrangimento de uma garotinha. � Especialista.</p><p>Ele se afundou novamente no sof� e a encarou.</p><p>� O que ele... O que <emphasis>voc�</emphasis> fez?</p><p>� Usei meu talento do modo como Archibald recomendou. Quer saber alguma coisa sobre relatividade, tecnologia de foguetes, f�sica nuclear, bioqu�mica?</p><p>� Ele tem mandado voc� pelo pa�s absorvendo mentes � falou. Depois explodiu. � Inferno, quem voc� tem em sua cabe�a?</p><p>Ela se juntou a ele no sof�.</p><p>� Einstein, Salk, von Braun, Oppenheimer, Teller; e Henry, claro, mas preferiria esquecer isso � disse, sorrindo. � E esse � o cerne do problema. Henry n�o aceitava muito bem uma esposa com v�rios ganhadores do Nobel na sua casa, muito menos uma esposa que sabia onde todos os seus esqueletos estavam enterrados, ent�o esta manh� me colocou na rua. N�o me importaria muito se n�o fosse pelas crian�as. N�o sei o que vai contar a eles sobre a m�e e... ah, maldi��o � sussurrou, batendo os punhos nos joelhos. � Eu <emphasis>n�o</emphasis> vou come�ar a chorar novamente.</p><p>De qualquer forma, estava tentando pensar no que fazer. Acabara de me livrar de Jack e estava solu�ando no banco de tr�s de um t�xi, quando pensei em voc�.</p><p>De repente Tachyon se deu conta de que ela estava falando alem�o. Mordeu com for�a, empurrando a l�ngua contra o c�u da boca para conter a n�usea.</p><p>� � tolo, mas de certa forma me sinto mais pr�xima de voc� do que de qualquer outra pessoa no mundo; o que � estranho, considerando que voc� sequer � deste mundo.</p><p>O sorriso dela era meio sereia, meio Mona Lisa, mas n�o havia resposta f�sica ou rea��o emocional. Ele estava enjoado e com raiva demais.</p><p>� Algumas vezes eu n�o entendo voc�s de modo algum! Voc�s n�o t�m ideia dos perigos inerentes a esse v�rus?</p><p>� N�o, como posso ter? � ela interrompeu. � Henry nos tirou da cidade quando a crise tinha poucas horas e n�o voltamos at� ele achar que o perigo havia passado.</p><p>Ela retornara ao ingl�s.</p><p>� Bem, ele estava errado, n�o?</p><p>� Sim, mas n�o � culpa minha!</p><p>� N�o estou dizendo que �!</p><p>� Ent�o por que est� com tanta raiva?</p><p>� Holmes � soltou. � Voc� o chamou de paternal, mas se ele tivesse qualquer afeto por voc�, n�o a teria encorajado nesse caminho louco.</p><p>� O que h� de t�o louco nisso? Sou jovem, muitos desses homens s�o velhos. Estou preservando um conhecimento inestim�vel.</p><p>� Arriscando sua pr�pria sanidade.</p><p>� Voc� me ensinou...</p><p>� Voc� � uma humana! N�o � preparada para lidar com o estresse de mentes de alto n�vel. As t�cnicas que lhe ensinei no hospital para manter sua personalidade separada daquela do seu marido eram inadequadas, de modo algum fortes o bastante.</p><p>� Ent�o me ensine o que preciso saber. Ou me cure.</p><p>O desafio o conteve.</p><p>� N�o posso... Pelo menos n�o ainda. O v�rus � infernalmente complexo, descobrir uma linhagem oposta para anular... � disse, dando de ombros. � Ter um trunfo para a carta selvagem, digamos assim, pode me custar anos. Sou um homem trabalhando sozinho.</p><p>� Ent�o vou voltar para Jack � disse ela, pegando a mala e se arrastando na dire��o da porta. Era uma mistura estranhamente atraente de dignidade e farsa enquanto a bolsa pesada a desequilibrava. � E se enlouquecer talvez Archibald encontre um bom psiquiatra para mim. Afinal, sou uma dos Quatro Ases.</p><p>� Espere... Voc� n�o pode simplesmente ir embora.</p><p>� Ent�o voc� vai me ensinar?</p><p>Ele enfiou polegar e dedo m�dio nos cantos dos olhos e apertou com for�a a base do nariz.</p><p>� Vou tentar.</p><p>A mala caiu no ch�o e ela se aproximou lentamente. Ele a deteve com a m�o livre.</p><p>� Uma �ltima coisa. N�o sou um santo, nem um de seus monges humanos � disse, apontando para a alcova separada por cortina onde tinha sua cama. � Algum dia irei desej�-la.</p><p>� O que h� de errado com isso agora?</p><p>Empurrou a m�o dele para o lado e colou seu corpo no dele. N�o era um corpo particularmente exuberante. Na verdade, poderia ser descrito como carente, mas qualquer defeito que ele pudesse encontrar desapareceu quando as m�os dela tomaram sua cabe�a e aproximaram seus l�bios dos dela.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>� Um dia ador�vel � suspirou Tachyon com satisfa��o, esfregando o rosto com a m�o e tirando meias e roupa de baixo.</p><p>Blythe sorriu para ele do espelho do banheiro, onde estava em p� passando creme no rosto.</p><p>� Um terr�queo que o ouvisse dizer isso decidiria que voc� � comprovadamente insano. Um dia passado na companhia de uma crian�a de oito anos, uma de cinco e uma de tr�s n�o � considerado um pr�mio pela maioria dos homens.</p><p>� Seus homens s�o idiotas. � Ficou olhando para o espa�o, por um momento, lembrando-se da sensa��o de m�os meladas em seus bolsos enquanto um bando de primos pequenos vasculhava os doces que levava ali, a press�o de uma bochecha macia e roli�a de beb� contra a dele quando ia embora prometendo fielmente <emphasis>voltar novamente e brincar</emphasis>.</p><p>Ele expulsou o passado e a flagrou fitando-o atentamente.</p><p>� Saudades de casa?</p><p>� Pensando.</p><p>� Saudades de casa.</p><p>� Crian�as s�o uma divers�o e um prazer � disse com pressa antes que ela pudesse retomar sua constante discuss�o. Pegando uma escova, passou-a pelos cabelos compridos. � Na verdade, v�rias vezes pensei se os seus n�o foram trocados ou se voc� n�o estava enganando o velho Henry desde o come�o.</p><p>Seis meses antes, quando Blythe havia sido expulsa de casa, van Renssaeler instru�ra os empregados a proibir a entrada da esposa, afastando-a, assim, dos filhos. Tach rapidamente resolveu a situa��o. Toda semana, quando sabiam que o deputado n�o estava em casa, iam ao apartamento de cobertura, Tachyon controlava as mentes dos empregados e eles passavam horas brincando com Henry Jr., Brandon e Fleur. Ele ent�o ordenava � bab� e � faxineira que se esquecessem da visita. Dava-lhe grande satisfa��o ridicularizar o odiado Henry, embora, para ser uma verdadeira vingan�a, o homem devesse ter conhecimento de seu desafio � autoridade.</p><p>Jogando a escova de lado, pegou o jornal vespertino e entrou sob as cobertas. Na primeira p�gina havia uma foto de Earl recebendo uma medalha por ter salvado Gandhi. Jack e Holmes est�o de p� ao fundo, o homem mais velho aparentemente exultante, enquanto Jack parecia desconfort�vel.</p><p>� Eis uma foto do banquete desta noite � acrescentou ele. � Mas ainda n�o entendo por que toda a agita��o. Foi s� uma tentativa.</p><p>� N�o partilhamos sua postura insens�vel com rela��o a assassinato.</p><p>A voz dela era abafada pelas dobras da camisola de flanela que passava por cima da cabe�a.</p><p>A cama velha rangeu um pouco quando ela se instalou.</p><p>� Isso � terr�vel.</p><p>� Estamos acostumados a isso. Assassinato � um estilo de vida na minha classe. � como as fam�lias disputam posi��o. Quando tinha 20 anos havia perdido 14 membros de minha fam�lia pr�xima por assassinato.</p><p>� Qu�o pr�ximo � pr�ximo?</p><p>� Minha m�e... Acho. Eu s� tinha 4 anos quando foi encontrada ao p� das escadas perto dos aposentos das mulheres. Sempre suspeitei que minha tia Sabina estava por tr�s daquilo, mas n�o havia provas.</p><p>� Pobre garotinho � disse, pegando o rosto dele com a m�o em concha. � Voc� se lembra dela?</p><p>� S� imagens fugazes. O barulho de seda e renda e principalmente o cheiro de seu perfume. E seus cabelos, como uma nuvem dourada.</p><p>Ela se virou e se aninhou mais, as n�degas pressionando a virilha dele.</p><p>� O que mais � t�o diferente entre Takis e a Terra?</p><p>Era uma tentativa �bvia de mudar de assunto, e ele ficou grato por isso. Falar sobre a fam�lia que havia abandonado sempre o deixava triste e com saudades de casa.</p><p>� Mulheres, para come�ar.</p><p>� Somos melhores ou piores?</p><p>� Apenas diferentes. Voc�s vivem livremente ap�s chegar � idade da procria��o. Nunca permitir�amos isso. Um ataque bem-sucedido a uma mulher gr�vida poderia destruir anos de planejamento cuidadoso.</p><p>� Acho que isso tamb�m � horr�vel.</p><p>� Tamb�m n�o relacionamos sexo a pecado. Para n�s, pecado � reprodu��o casual, que poderia perturbar o plano. Mas prazer � algo totalmente diferente. Por exemplo: pegamos jovens homens e mulheres atraentes da classe inferior, as pessoas n�o psi, e os treinamos para servir aos homens e mulheres das grandes fam�lias.</p><p>� Voc�s nunca saem com as mulheres de sua pr�pria classe?</p><p>� Claro. At� os 30 anos crescemos juntos, treinamos e estudamos juntos. Apenas quando a mulher chega aos anos reprodutivos � que � isolada para ser mantida em seguran�a. E ainda nos reunimos para fun��es familiares: bailes, ca�adas, piqueniques, mas sempre dentro das muralhas da propriedade.</p><p>� Quanto tempo os garotinhos ficam com as m�es nos aposentos das mulheres?</p><p>� Todas as crian�as permanecem at� 13 anos.</p><p>� Eles voltam a se ver?</p><p>� Claro, elas s�o nossas <emphasis>m�es</emphasis>!</p><p>� N�o seja defensivo. Isso � apenas muito fora do meu mundo.</p><p>� Por assim dizer � disse ele, puxando a camisola e correndo a m�o pela perna dela.</p><p>� Ent�o voc�s t�m brinquedinhos sexuais � ficou pensando enquanto as m�os dele exploravam seu corpo e ela acariciava seu p�nis que enrijecia. � Parece uma boa ideia.</p><p>� Quer ser meu brinquedinho sexual?</p><p>� Achei que j� fosse.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Foi um arrepio que o despertou. Sentou-se e descobriu que Blythe n�o estava ali e as cobertas estavam jogadas no ch�o. Percebeu vozes por tr�s da cortina de contas. O vento batia no pr�dio, produzindo um uivo agudo ao passar pelas rachaduras e pelos espa�os nas janelas. Os pelos em sua nuca se arrepiavam, mas isso n�o tinha nada a ver com frio. Eram aquelas vozes guturais atr�s da cortina, lembrando-lhe as hist�rias de assustar crian�as sobre fantasmas ancestrais inquietos se apossando dos corpos vivos de descendentes diretos. Estremeceu e passou pelas contas. Elas ca�ram tilintando atr�s dele, e viu Blythe de p� no centro da sala tendo uma discuss�o animada consigo mesma.</p><p>� Estou lhe dizendo, Oppie, precisamos desenvolver...</p><p>� N�o! J� passamos por isso antes, nossa primeira prioridade � o artefato. N�o podemos nos desviar com essa bomba de hidrog�nio neste momento.</p><p>Tachyon passou um longo tempo paralisado de horror. Tais coisas haviam acontecido antes, quando ela estava cansada ou estressada, mas nunca de tal forma. Sabia que tinha de encontr�-la rapidamente para que n�o se perdesse, e se obrigou a se mover. Chegou ao lado dela em dois passos, agarrando-a com firmeza e buscando sua mente. E quase se retirou aterrorizado, pois do lado de dentro havia um redemoinho assustador de personalidades conflitantes, todas lutando pela supremacia, enquanto Blythe rodopiava desamparada no centro. Ele se lan�ou em sua dire��o e foi bloqueado por Henry. Tachyon o jogou de lado furioso e a tomou dentro da defesa protetora de sua mente. As outras seis personalidades orbitaram ao redor deles, lutando contra as defesas. A for�a de Blythe se combinou � sua e eles baniram Teller para seu compartimento e Oppenheimer para o dele; Einstein se retirou resmungando, enquanto Salk pareceu apenas confuso.</p><p>Blythe se jogou contra ele e o peso repentino foi demais para seu corpo exausto. Seus joelhos fraquejaram e ele se sentou com for�a no piso de madeira, Blythe aninhada em seu colo. Ele podia ouvir na rua o leiteiro fazendo entregas e se deu conta de que levara horas para restaurar o equil�brio dela.</p><p>� Maldito seja, Archibald � murmurou, mas pareceu inconveniente, t�o inconveniente quanto sua capacidade de ajudar.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� Voc� n�o quer fazer isso � murmurou David Harstein. A m�o de Tach congelou. � Seria melhor o cavalo.</p><p>O takisiano assentiu e rapidamente moveu a pe�a de xadrez. Ficou de queixo ca�do ao ver o movimento.</p><p>� Ladr�o! Seu ladr�o miser�vel!</p><p>Harstein ergueu a m�o em um gesto impotente e apaziguador.</p><p>� Foi apenas uma sugest�o.</p><p>O tom do jovem era suave e ofendido, mas seus olhos castanho-escuros estavam brilhando de divers�o.</p><p>Tachyon resmungou e se remexeu para tr�s at� conseguir se apoiar no sof�.</p><p>� Acho bastante alarmante que uma pessoa em sua posi��o se rebaixe a usar seus dons de forma t�o desprez�vel. Voc� deveria dar o exemplo aos outros ases.</p><p>David sorriu e pegou sua bebida.</p><p>� Essa � a imagem p�blica. Certamente com meu criador posso retornar a meus h�bitos pregui�osos e bo�mios.</p><p>� N�o.</p><p>Houve um momento de sil�ncio for�ado enquanto Tach olhava para dentro, para imagens que gostaria de esquecer, e David, com elaborada concentra��o, deu ao tabuleiro de bolso um deslocamento infinitesimal para a esquerda.</p><p>� Lamento.</p><p>� Tudo bem � disse, dando um sorriso reconfortante para o homem mais jovem. � Vamos continuar com o jogo.</p><p>David concordou e curvou a cabe�a escura e magra sobre o tabuleiro. Tach tomou um gole de seu <emphasis>Irish coffee</emphasis> e permitiu que o calor enchesse sua boca antes de engolir. Estava envergonhado de sua rea��o exagerada � provoca��o. Afinal, o garoto n�o o fez por mal.</p><p>Ele havia conhecido David no hospital no come�o de 1947. No Dia da Carta Selvagem, Harstein estivera jogando xadrez na mesa externa de um caf�. Nenhum sintoma se manifestou ent�o, mas meses depois ele foi levado ao hospital se contorcendo e tendo convuls�es. Tach receou que aquele homem intenso e belo fosse mais uma v�tima sem rosto, mas, contra todas as expectativas, ele se recuperou. Haviam feito exames: o corpo de David transpirava ferom�nios poderosos, ferom�nios que tornavam dif�cil resistir a ele em qualquer n�vel. Foi recrutado por Archibald Holmes, apelidado de Embaixador por uma imprensa fascinada e come�ou a usar seu impressionante carisma para solucionar greves, negociar tratados e ser mediador junto a l�deres mundiais.</p><p>Era o preferido de Tachyon entre os ases do sexo masculino e, sob a orienta��o de David, aprendera a jogar xadrez. Era uma prova tanto de suas crescentes habilidades quanto da capacidade de ensino de David que tivesse recorrido aos seus poderes para n�o deixar Tach ganhar. O alien�gena sorriu e decidiu se vingar do outro homem pela interfer�ncia.</p><p>Ele iniciou uma explora��o, deslizou abaixo das defesas de David e acompanhou enquanto aquela bela mente pesava e avaliava poss�veis jogadas. A decis�o foi tomada, mas antes que Harstein pudesse coloc�-la em pr�tica, Tach deu uma pequena tor��o, apagando a decis�o e colocando outra em seu lugar.</p><p>� Xeque.</p><p>David olhou para o tabuleiro e ent�o o jogou no ch�o com um uivo enquanto Tach subia no sof�, enfiava a cabe�a em uma almofada e ria.</p><p>� E <emphasis>me</emphasis> acusa de roubar. Eu n�o consigo controlar meu poder, mas <emphasis>voc�</emphasis>! Entrar na cabe�a de um homem e...</p><p>Uma chave raspou na fechadura e Blythe chamou:</p><p>� Crian�as, crian�as, pelo que est�o brigando agora?</p><p>� Ele est� roubando � disseram os dois homens em coro, apontando um para o outro.</p><p>Tach a tomou nos bra�os.</p><p>� Voc� est� congelando. Vou lhe fazer um ch�. Como foi a confer�ncia?</p><p>� Nada mau � disse, retirando o chap�u de pele e sacudindo a neve das extremidades prateadas. � Com Werner de cama com laringite, ficaram gratos por ter minhas informa��es.</p><p>Ela se inclinou para a frente e deu um beijo leve na bochecha escura de David.</p><p>� Ol�, querido, como foi na R�ssia?</p><p>� Sombrio � disse, come�ando a catar as pe�as espalhadas. � Sabe, n�o parece justo.</p><p>� O qu�?</p><p>Jogando o casaco no sof�, ela tirou as botas enlameadas e se aninhou sobre as almofadas com os p�s enfiados sob a pele de raposa prateada.</p><p>� Earl vai arrancar Bormann da It�lia e salvar Gandhi de um hindu fan�tico, e voc� tem de se sentar em um hotel vagabundo e ir a uma confer�ncia sobre foguetes.</p><p>� Eles tamb�m cuidam de quem apenas senta e fala. Como voc� deveria saber. Al�m disso, voc� j� teve sua boa dose de gl�ria. E a Argentina?</p><p>� Isso foi h� mais de um ano e tudo que fiz foi falar com os peronistas enquanto Earl e Jack intimidavam os totalit�rios na rua. Quem voc� acha que a imprensa notou? N�s? Improv�vel. Voc� precisaria <emphasis>relampejar</emphasis> para ser percebido neste ramo.</p><p>� E exatamente que ramo � este? � interrompeu Tachyon, colocando uma caneca de ch� fumegante nas m�os de Blythe.</p><p>David se inclinou para a frente, a cabe�a se projetando dos ombros ca�dos, como uma ave inquisidora.</p><p>� Resgatar algo do desastre. Usar esses dons para melhorar a condi��o humana.</p><p>� � assim que come�a, mas terminar� assim? Minha experi�ncia com super-ra�as, sendo eu mesmo membro de uma, � que pegamos o que queremos e o diabo pega todos os outros. Quando uma pequena minoria de pessoas em Takis come�ou a desenvolver poderes mentais, rapidamente come�aram a se reproduzir entre elas para garantir que ningu�m mais tivesse chance de conseguir os poderes. Isso nos deu o comando de um planeta, e somos apenas 8% da popula��o.</p><p>� Conosco ser� diferente � disse Harstein, seu riso seco debochando da declara��o.</p><p>� Espero que sim. Mas me consolo mais em saber que h� apenas algumas d�zias de voc�s, ases, e que Archibald n�o incorporou todos voc�s a essa grande for�a pela democracia.</p><p>Seus l�bios finos se retorceram um pouco nas �ltimas palavras.</p><p>Blythe estendeu a m�o e retirou a franja da testa.</p><p>� Voc� desaprova?</p><p>� Eu temo.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Acho que voc� e David deveriam ser gratos por ficar longe das vistas do p�blico. A f�ria dos que n�o t�m contra os que t�m nunca � bonita, e sua ra�a tem uma tradi��o de suspeita e hostilidade para com o estranho. Voc�s, ases, est�o al�m do estranho. O que diz um de seus livros sagrados? N�o deixar�s com vida uma feiticeira?</p><p>� Mas somos apenas pessoas � objetou Blythe.</p><p>� N�o, n�o s�o... N�o mais, e os outros n�o se esquecer�o disso. Sei de 37 de voc�s, pode haver mais, e voc�s n�o podem ser detectados, n�o como os curingas. Histeria nacional � uma erva daninha particularmente virulenta e de crescimento r�pido. As pessoas est�o vendo comunistas por toda parte e provavelmente n�o ir� demorar muito para que transfiram essa desconfian�a para alguma outra minoria aterrorizadora; como um grupo de pessoas invis�vel, secreto e assustadoramente poderoso.</p><p>� Acho que est� exagerando.</p><p>� Estou? Veja essas audi�ncias do comit� � disse, apontando para uma pilha de jornais. � E h� dois dias um j�ri federal indiciou Alger Hiss por perj�rio. Esses n�o s�o atos de um pa�s saud�vel e est�vel. E isso durante seu m�s de �xtase e renascimento.</p><p>� N�o, essa � a P�scoa. Este � o primeiro nascimento.</p><p>A piada ruim de David afundou no sil�ncio pesado que tomou a sala, rompido apenas pelo chiado do vento, que jogava neve contra as janelas.</p><p>Harstein suspirou e espregui�ou.</p><p>� Que bando melanc�lico somos. Que tal jantar e encontrar um espet�culo? Satchmo est� tocando na cidade.</p><p>Tachyon balan�ou a cabe�a.</p><p>� Tenho de voltar ao hospital.</p><p>� Agora? � gemeu Blythe.</p><p>� Preciso, querida.</p><p>� Ent�o vou com voc�.</p><p>� N�o, isso � bobo. Deixe David lev�-la para jantar.</p><p>� N�o � disse, os l�bios duros em uma linha obstinada. � Se voc� n�o me deixar ajudar, pelo menos posso fazer companhia.</p><p>Ele suspirou e olhou para o teto enquanto ela cal�ava as botas.</p><p>� Dama teimosa � observou David debaixo da mesa de centro, onde estava ca�ando as pe�as de xadrez espalhadas. � Todos descobrimos que n�o adianta discutir com ela.</p><p>� Voc� deveria experimentar <emphasis>viver</emphasis> com ela.</p><p>O delicado chapeuzinho redondo se dobrou sob dedos que se apertaram de repente.</p><p>� Acredite, podemos resolver esse problema.</p><p>� N�o comece � avisou Tach.</p><p>� E n�o use esse tom paternalista desaprovador comigo! N�o sou uma crian�a, nem uma de suas damas takisianas isoladas.</p><p>� Caso fosse, se comportaria melhor; e quanto a ser uma crian�a, certamente est� se comportando como uma, e ainda por cima mimada. J� tivemos essa discuss�o antes e <emphasis>n�o</emphasis> vou fazer o que voc� quer.</p><p>� N�s <emphasis>n�o</emphasis> tivemos uma discuss�o. Voc� constantemente me cortou, mudou de assunto, se recusou a discutir a quest�o...</p><p>� Sou esperado no hospital � disse ele, indo na dire��o da porta.</p><p>� Est� vendo? � ele se dirigiu ao desconfort�vel Harstein. � Ele me cortou ou ele me cortou?</p><p>O jovem deu de ombros e enfiou o jogo de xadrez no bolso de seu desajeitado palet� de veludo cotel�. Pela primeira vez ele parecia n�o ter palavras.</p><p>� David, por gentileza, leve minha <emphasis>genamiri</emphasis> para jantar e tente devolv�-la com um humor um pouco melhor.</p><p>Blythe lan�ou um olhar suplicante para Harstein, enquanto Tachyon olhava com r�gio desprezo para a parede distante.</p><p>� Ei, pessoal, acho que voc�s deveriam dar uma bela caminhada rom�ntica pela neve, resolver as coisas, cear, fazer amor e parar de brigar. Seja o que for, n�o pode ser um problema t�o grande.</p><p>� Voc� est� certo � murmurou Blythe, a rigidez do corpo diminuindo sob o efeito relaxante dos ferom�nios.</p><p>David colocou a m�o nas costas de Tach e o passou pela porta. Erguendo a m�o de Blythe, colocou-a com firmeza na de Tachyon e fez um leve gesto de b�n��o acima de suas cabe�as.</p><p>� Agora v�o, meus filhos, e n�o voltem a pecar.</p><p>Ele os seguiu escada abaixo at� a rua, depois disparou na dire��o do metr� antes que os esfor�os de pacifica��o de seus poderes de dissipassem.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Agora entende por que n�o quero voc� trabalhando comigo?</p><p>A lua conseguira se esgueirar sob a saia das nuvens e a p�lida luz prateada batendo sobre a neve fazia a cidade parecer quase limpa. Estavam no limite do Central Park, o h�lito se fundindo em nuvens brancas macias enquanto ela olhava s�ria no rosto dele.</p><p>� Entendo que voc� est� tentando me proteger e esconder, mas n�o acho isso necess�rio. E ap�s v�-lo esta noite... � disse e hesitou, buscando uma forma de suavizar as palavras seguintes. � Acho que posso lidar com isso melhor do que voc�. Voc� cuida de seus pacientes, Tach, mas suas deformidades e insanidades... Bem, elas tamb�m o desagradam.</p><p>Ele estremeceu.</p><p>� Blythe, estou muito envergonhado. Acha que eles sabem, que podem sentir?</p><p>� N�o, n�o, amor � disse, acariciando seus cabelos, acalmando-o como faria com um de seus filhos pequenos. � S� vejo isso porque sou muito pr�xima de voc�. Eles veem apenas a compaix�o.</p><p>� O Ideal sabe que tentei reprimir isso, mas nunca vi tantos horrores � disse, livrando-se dos bra�os reconfortantes dela e andando pela cal�ada. � N�o toleramos deforma��es. Nas grandes casas tais criaturas s�o destru�das.</p><p>Houve um barulho leve e ele se virou para encar�-la. Ela pressionava a boca com uma m�o enluvada e seus olhos estavam arregalados, buracos cintilantes ao brilho de um poste pr�ximo.</p><p>� E agora voc� sabe que sou um monstro.</p><p>� Acho que sua cultura � monstruosa. Toda crian�a � preciosa, n�o importando suas defici�ncias.</p><p>� Assim pensava minha irm�, e nossa cultura preciosa tamb�m a destruiu.</p><p>� Conte.</p><p>Ele come�ou a desenhar padr�es aleat�rios em um banco do parque coberto de neve.</p><p>� Ela era a mais velha, uns trinta anos a mais que eu, mas �ramos muito pr�ximos. Ela se casou fora da casa, em uma daquelas raras tr�guas familiares. Seu primeiro filho tinha defeitos e foi eliminado, e Jadlan nunca se recuperou. Ela se matou meses depois. � A m�o deslizou pelo banco, apagando os desenhos. Blythe ergueu a m�o dele e esquentou os dedos gelados entre as m�os enluvadas. � Isso me levou a refletir sobre toda a estrutura de minha sociedade. Ent�o foi tomada a decis�o de se fazer um teste de campo do v�rus na Terra, e esse foi o fim. N�o pude mais ficar assistindo.</p><p>� Sua irm� deve ter sido especial, diferente, como voc�.</p><p>� Meu primo diz que � a linhagem Sennari que carregamos. � um atavismo recessivo que, pelo menos segundo ele, nunca deveria ter sido permitido que se mantivesse. Mas eu a estou aborrecendo com essa conversa de linhagem e seus dentes est�o batendo. Vamos para casa para voc� se aquecer.</p><p>� N�o, n�o at� resolvermos isso � disse ela, e ele n�o fingiu n�o entender. �Posso ajudar e insisto em que me deixe partilhar isso com voc�. Me d� sua mente.</p><p>� N�o, seriam oito personalidades. � demais.</p><p>� Deixe que eu julgue isso. Estou lidando bastante bem com sete.</p><p>Ele fez um ru�do grosseiro e ela enrijeceu, ultrajada.</p><p>� Assim como lidou bem em fevereiro, quando encontrei Teller e Oppenheimer tendo uma batalha sobre a bomba de hidrog�nio enquanto voc� ficava parada feito um zumbi no centro da sala?</p><p>� Ser� diferente. Sinto carinho por voc�, sua mente n�o me far� mal. E al�m do trabalho... Quando tiver suas lembran�as e seu conhecimento, voc� n�o ser� mais solit�rio.</p><p>� N�o tenho sido solit�rio, n�o desde que voc� apareceu.</p><p>� Mentiroso. Eu vi o modo como voc� olha para o nada, e a m�sica triste que tira daquele violino quando acha que n�o estou escutando. Deixe que esteja ali para dar a voc� uma pequena parte de casa � disse, colocando a m�o sobre sua boca. � N�o discuta.</p><p>Ent�o ele n�o discutiu e se permitiu ser convencido. Mais por amor a ela do que realmente por aceitar seus argumentos. E mais tarde naquela noite, enquanto as pernas dela se apertavam em sua cintura, suas unhas escorregavam por suas costas escorregadias de suor e ele tinha um violento orgasmo, ela se projetou e tamb�m sugou sua mente.</p><p>Houve um terr�vel momento revoltante de <emphasis>viola��o</emphasis>, <emphasis>roubo</emphasis>, <emphasis>perda</emphasis>, e ent�o acabou, e do espelho da mente dela voltaram duas imagens. O amado toque feminino gentil que era Blythe e uma imagem assustadoramente familiar e igualmente amada que era <emphasis>ele</emphasis>.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>� Malditos sejam todos!</p><p>Tachyon cruzou a pequena antec�mara, se virou e encarou Prescott Quinn, com o indicador em riste.</p><p>� � ultrajante, inadmiss�vel nos convocar desta forma. Como eles ousam e com que direito, nos tirar de casa e mandar correndo para Washington com duas horas, <emphasis>duas horas</emphasis>, de anteced�ncia?</p><p>Quinn sugou ruidosamente o bocal do cachimbo.</p><p>� Com o direito da lei e do costume. Eles s�o membros do Congresso e esse comit� tem o poder de convocar e interrogar testemunhas.</p><p>Ele era um velho corpulento com uma barriga impressionante que esticava a corrente do rel�gio, com direito a s�mbolo Phi Beta Kappa, sobre o negro sisudo de seu colete.</p><p>� Ent�o nos chamem para testemunhar; embora s� Deus saiba sobre o qu�; e acabem com isso. Viemos correndo para c� noite passada apenas para ouvir que a audi�ncia havia sido adiada, e agora eles nos deixam esperando por <emphasis>tr�s</emphasis> horas.</p><p>Quinn grunhiu e co�ou as grossas sobrancelhas brancas.</p><p>� Se voc� acha que esta � uma espera demorada, meu jovem, tem muito a aprender sobre o governo federal.</p><p>� Tach, sente-se, tome um caf� � murmurou Blythe, parecendo p�lida, mas composta em um vestido de tric� preto, chap�u com v�u e luvas.</p><p>David Harstein entrou lentamente na antec�mara e os dois fuzileiros de guarda � porta ficaram tensos e o observaram atentamente.</p><p>� Gra�as a Deus, um toque de sanidade em meio a loucura e pesadelos.</p><p>� Ah, David, querido � disse Blythe, apertando as m�os com for�a nos ombros dele. � Voc� est� bem? Foi terr�vel ontem?</p><p>� N�o, foi �timo... Exceto continuar sendo chamado de �cavalheiro judeu de Nova York� pelo nazista Rankin. Eles me interrogaram sobre a China: eu disse que hav�amos feito de tudo para negociar um acordo entre Mao e Chiang. Eles concordaram, claro. Ent�o sugeri que encerrassem essas audi�ncias, e concordaram com alegria e aplausos, e...</p><p>� E ent�o voc� saiu da sala � interrompeu Tach.</p><p>� Sim � disse, baixando a cabe�a escura e contemplando as m�os cruzadas. � Agora est�o construindo uma gaiola de vidro e serei reconvocado. Malditos sejam!</p><p>Um assistente pretensioso entrou e chamou a Sra. Blythe van Renssaeler. Ela se assustou, deixando a bolsa cair no ch�o. Tach a pegou e pressionou o rosto junto ao dela.</p><p>� Paz, querida. Voc� � rival para eles sozinha, quanto mais com o resto de voc�s junto. E n�o se esque�a, <emphasis>eu estou</emphasis> com voc�.</p><p>Ela deu um sorriso discreto. Quinn a pegou pelo bra�o e a acompanhou at� a sala de audi�ncia. Tachyon teve um r�pido vislumbre de costas, c�meras e uma confus�o de mesas, tudo banhado por uma forte luz branca dos holofotes de televis�o. Ent�o a porta se fechou com um baque surdo.</p><p>� Jogo? � perguntou David.</p><p>� Claro, por que n�o?</p><p>� N�o estou atrapalhando? N�o prefere preparar seu depoimento?</p><p>� Qual depoimento? Eu n�o sei nada sobre a China.</p><p>� Quando eles pegaram voc�? � perguntou, as m�os h�beis deslizando, montando o tabuleiro.</p><p>� Ontem � tarde, por volta de uma hora.</p><p>� � uma palha�ada � disse o Embaixador com uma clara falta de diplomacia, e bateu com for�a um pe�o no pe�o quatro da Rainha.</p><p>Eles ainda estavam jogando quando Blythe e Quinn retornaram. O tabuleiro foi arremessado com o salto r�pido do alien�gena, mas David n�o o censurou. Blythe estava p�lida como a morte e tr�mula.</p><p>� O que eles fizeram? � cobrou Tach, as palavras arranhando a garganta. Ela n�o respondeu, simplesmente tremeu nos seus bra�os, como um animal ferido.</p><p>� Dr. Tachyon, isso vai um pouco al�m da China. Precisamos conversar.</p><p>� Um momento.</p><p>Ele se curvou para ela e pressionou os l�bios sobre sua t�mpora. Podia sentir a pulsa��o ali. Passou rapidamente sob suas defesas e enviou uma mar� calmante por sua mente. Ela relaxou com um �ltimo estremecimento e afrouxou o aperto na lapela do seu palet� p�ssego-claro.</p><p>� Sente-se com David, meu amor. Tenho de conversar com o Sr. Quinn.</p><p>Sabia que estava sendo paternalista, mas o estresse podia abalar a estrutura fr�gil que ela constru�ra para manter separadas as personalidades divergentes e o que descobrira naquela r�pida incurs�o havia sido um edif�cio desmoronando.</p><p>O advogado o chamou de lado.</p><p>� A China foi a desculpa, doutor. A quest�o agora � o v�rus. Acho que este comit� incorporou a ideia de que os ases s�o uma for�a subversiva e podem estar refletindo a disposi��o do pa�s como um todo.</p><p>� Dr. Tachyon � chamou o assistente. Quinn o dispensou com um gesto brusco.</p><p>� Que absurdo!</p><p>� Ainda assim, agora entendo por que voc� est� aqui. Meu conselho � que apele para a Quinta.</p><p>� O que significa?</p><p>� Sua recusa a responder a toda e qualquer pergunta. Isso inclui seu nome. Tal resposta seria interpretada como abrir m�o da Quinta.</p><p>Tach se empertigou em toda a sua altura pouco impressionante.</p><p>� N�o temo esses homens, Sr. Quinn, n�o permanecerei sentado me condenando pelo sil�ncio. Vamos encerrar essa tolice agora!</p><p>A sala era uma pista de obst�culos de luzes, cadeiras, mesas, pessoas e cabos sinuosos. Em certo momento, ele prendeu o calcanhar, trope�ou e se levantou com um xingamento murmurado. Por um instante a sala se apagou e ele viu o grande espa�o com piso de parquete e iluminado por candelabros do sal�o de baile Ilkazam e ouviu os risos abafados de parentes e amigos enquanto se perdia em meio �s complexidades principescas. Por causa de seu erro, a dan�a tivera uma interrup��o r�spida e inst�vel, e acima da m�sica ele podia ouvir a voz anasalada de seu primo Zabb descrevendo em detalhes cru�is exatamente qual passo errara. Um sangue quente subiu �s suas faces e produziu uma linha de suor em seu l�bio superior. Ele enxugou a umidade com um len�o e ent�o percebeu que o desconforto n�o se devia unicamente a lembran�as; por causa das luzes da televis�o, a sala fervia.</p><p>Enquanto se sentava na dura cadeira de madeira de espaldar reto, Tach notou a estrutura da gaiola de vidro que estava sendo constru�da para receber David. Parecia algo amea�ador, como um pat�bulo pela metade, e rapidamente desviou os olhos para os homens que ousavam julgar a ele e sua <emphasis>genamiri</emphasis>. S� se destacavam por suas express�es de pomposidade soturna. Fora isso, n�o passavam de um grupo de homens de meia-idade ou idosos vestindo ternos escuros de caimento ruim. Uma express�o de desprezo r�gio tomou seus tra�os e ele se reclinou na cadeira, sua pr�pria descontra��o debochando do poder deles.</p><p>� Gostaria que tivesse me escutado na quest�o de suas roupas � murmurou Quinn abrindo a maleta.</p><p>� Voc� recomendou que me vestisse bem. Eu o fiz.</p><p>Quinn espiou o palet� de fraque e as cal�as p�ssego-claro, o colete bordado em tons de verde e ouro e as botas altas e macias com suas borlas douradas.</p><p>� Preto teria sido melhor.</p><p>� N�o sou um trabalhador bra�al.</p><p>� Diga seu nome para o comit� � disse o presidente Wood, sem erguer os olhos de seus pap�is.</p><p>Ele se inclinou para o microfone.</p><p>� Sou conhecido em seu mundo como Dr. Tachyon.</p><p>� Seu nome verdadeiro completo.</p><p>� Tem certeza de que deseja isso?</p><p>� Eu perguntaria se assim n�o fosse? � rosnou Wood, irritado.</p><p>� Como queira � disse o alien�gena, sorrindo levemente e come�ando a recitar sua linhagem completa. � Tisianne brant Ts�ara sek Halima sek Ragnar sek Omian. Assim termina minha linhagem materna, sendo Omian de certa forma um rec�m-chegado ao cl� Ilkazam, tendo se casado vindo dos Zaghloul. Meu av� materno foi Taj brant Parada sek Amurath sek Ledaa sek Shahriar sek Naxina. Seu pai foi Nakonur brant Sennari...</p><p>� Obrigado � disse Wood, apressado. Ele olhou para os colegas � mesa. � Talvez para os prop�sitos desta audi�ncia possamos passar com seu <emphasis>nom de plume</emphasis>?</p><p>� <emphasis>De guerre</emphasis> � ele corrigiu docemente, desfrutando da irrita��o de Wood.</p><p>Seguiram-se v�rias perguntas in�teis e digressivas sobre onde ele morava e trabalhava; depois John Rankin, de Mississippi, come�ou.</p><p>� Agora, pelo que entendo, Dr. Tachyon, o senhor n�o � cidad�o dos Estados Unidos da Am�rica.</p><p>Tach lan�ou um olhar incr�dulo para Quinn. Houve risinhos abafados dos jornalistas reunidos e Rankin olhou com raiva.</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Ent�o � um alien�gena. � Satisfa��o permeando as palavras.</p><p>� Inegavelmente � respondeu lentamente. Recostando-se de maneira relaxada na cadeira, come�ou a brincar com as dobras da gravata.</p><p>Case, de Dakota do Sul, se adiantou.</p><p>� E voc� entrou ou n�o ilegalmente neste pa�s?</p><p>� Aparentemente, n�o havia um centro de imigra��o em White Sands, por outro lado, eu n�o perguntei, estando preocupado com quest�es mais urgentes na �poca.</p><p>� Mas nos anos desde ent�o em nenhum momento solicitou a cidadania americana?</p><p>A cadeira foi arrastada para tr�s e Tach se colocou de p�.</p><p>� O Ideal me concedeu paci�ncia. Isso � absurdo. N�o tenho qualquer desejo de me tornar cidad�o de seu pa�s. Considero seu mundo fascinante e mesmo se minha nave fosse capaz de viagem hiperespacial, eu permaneceria, pois tenho pacientes que precisam de mim. O que n�o tenho � tempo nem inclina��o de latir e rolar para divers�o deste tribunal ignorante. Por favor, continuem com seus joguinhos, mas me deixem trabalhar...</p><p>Quinn o puxou de volta para a cadeira e colocou a m�o sobre o microfone.</p><p>� Continue assim e voc� estar� pesquisando este mundo por tr�s dos muros de uma penitenci�ria federal � sibilou. � Aceite isso agora. Esses homens t�m poder sobre voc� e os meios de exerc�-lo. Agora se desculpe e vamos ver se conseguimos sair desta confus�o.</p><p>Ele o fez, mas de m� vontade, e o interrogat�rio continuou. Foi Nixon, da Calif�rnia, que os levou ao cerne da quest�o.</p><p>� Pelo que entendo, doutor, foi sua fam�lia que desenvolveu esse v�rus que custou as vidas de tantas pessoas. Isso � correto?</p><p>� Sim.</p><p>� Perdoe-me?</p><p>Ele pigarreou e disse de modo mais claro dessa vez.</p><p>� Sim.</p><p>� E ent�o voc� veio...</p><p>� Para tentar impedir sua libera��o.</p><p>� E o que tem que corrobore essa alega��o, Tachyon? � concedeu Rankin.</p><p>� O di�rio de bordo da minha nave detalhando minha discuss�o com a tripula��o da outra nave.</p><p>� E voc� consegue obter esses di�rios? � retomou Nixon.</p><p>� Est�o em minha nave.</p><p>Um assistente subiu ao palanque e houve uma confer�ncia apressada.</p><p>� Relat�rios indicam que sua nave resistiu a todos os esfor�os de entrada.</p><p>� Assim foi ordenado.</p><p>� Voc� a abriria e permitiria que a For�a A�rea retirasse os di�rios?</p><p>� N�o � disse, e eles se encararam por um longo momento. � Voc�s devolver�o minha nave e ent�o darei a voc�s os di�rios.</p><p>� N�o.</p><p>Ele se recostou novamente na cadeira e deu de ombros.</p><p>� Bem, de qualquer forma eles n�o adiantariam muito para voc�s; n�o est�vamos falando em ingl�s.</p><p>� E quanto a esses outros alien�genas? Podemos interrog�-los?</p><p>A boca de Rankin se retorceu como se estivesse contemplando algo particularmente desagrad�vel e viscoso.</p><p>� Temo que estejam todos mortos � disse, baixando a voz enquanto mais uma vez lutava contra a culpa que essas lembran�as ainda despertavam. � Avaliei equivocadamente a determina��o deles. Lutaram contra o feixe de tra��o e se fragmentaram na atmosfera.</p><p>� Muito conveniente. T�o conveniente que fico pensando em se n�o teria sido planejado dessa forma.</p><p>� Foi o fracasso de Jetboy que liberou o v�rus.</p><p>� N�o conspurque o nome do grande her�i americano com suas mentiras maliciosas � berrou Rankin, lan�ando-se completamente no modo pregador sulista. � Sugiro a este comit� e ao pa�s que voc� permaneceu neste mundo para estudar os efeitos de sua experi�ncia maldosa. Que esses outros alien�genas estavam agindo como camicases prontos para morrer de modo a que voc� parecesse um her�i e vivesse entre n�s, aceito e reverenciado, mas na verdade tratando-se de um alien�gena subversivo buscando abalar esta grande na��o com a utiliza��o desses perigosos elementos selvagens...</p><p>� N�o! � disse ele, de p�, os bra�os plantados na mesa, inclinando-se na dire��o de seus inquisidores. � Ningu�m lamenta mais os acontecimentos de 1946 do que eu. Sim, falhei... Falhei em deter a nave, falhei em localizar o globo, falhei em convencer as autoridades do perigo, falhei em ajudar Jetboy e tenho de viver com esses fracassos o resto da minha vida. S� o que posso fazer � me oferecer... Meus talentos, minha experi�ncia no trabalho com esse v�rus, para desfazer o que criei; eu lamento... Lamento.</p><p>Ele se interrompeu, engasgou e bebeu, grato, a �gua oferecida por Quinn.</p><p>O calor era algo tang�vel, enroscando em seu corpo, arrancando o f�lego dos pulm�es e o deixando tonto. Ele desejou n�o desmaiar e, tirando o len�o do bolso, enxugou os olhos e soube que havia cometido outro erro. Os machos dessa cultura eram treinados para reprimir emo��es. Ele acabara de violar outro de seus tabus. Ele caiu pesadamente na cadeira.</p><p>� Se de fato se arrepende, Dr. Tachyon, ent�o demonstre isso a este comit�. O que pe�o a voc� � uma lista completa dos chamados �ases� de que tenha tratado ou ouvido falar. Nomes... Se poss�vel endere�os e...</p><p>� N�o.</p><p>� Estaria ajudando seu pa�s.</p><p>� Este n�o � meu pa�s e n�o irei colaborar com sua ca�a �s bruxas.</p><p>� Voc� est� neste pa�s ilegalmente, doutor. Poderia ser do interesse deste pa�s que seja deportado. Portanto, eu pensaria com cuidado na resposta, se fosse voc�.</p><p>� Ela n�o demanda mais reflex�o... N�o trairei meus pacientes.</p><p>� Ent�o este comit� n�o tem mais perguntas para esta testemunha.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Nas portas da frente do Capit�lio, eles se depararam com um homem p�lido de tra�os angulosos.</p><p>Blythe soltou um pequeno ru�do e agarrou o bra�o de Tach.</p><p>� Boa tarde, Henry � resmungou Quinn, e o alien�gena se deu conta de que era o marido da mulher que partilhara sua cama e sua vida por dois anos e meio.</p><p>Ele parecia familiar. Tach lutava contra aquela <emphasis>persona</emphasis> sempre que se juntava a Blythe em uni�o telep�tica ou f�sica. Verdade que Henry havia sido relegado a um canto n�o utilizado da mente dela, como madeira descartada em um s�t�o empoeirado, mas a mente estava l�, e n�o era uma mente muito legal.</p><p>� Blythe.</p><p>� Henry.</p><p>Ele lan�ou um olhar frio a Tachyon.</p><p>� Se pudesse nos dar licen�a, gostaria de falar com minha esposa.</p><p>� N�o, por favor, n�o me deixe � disse ela, os dedos agarrando seu palet�, e ele os soltou com cuidado antes que pudesse destruir o vinco, e segurou calorosamente sua m�o na dele.</p><p>� Acho que n�o.</p><p>O deputado agarrou seu ombro e empurrou. Foi um erro de avalia��o. Ele podia ser pequeno, mas Tachyon estudara com um dos maiores mestres defesa pessoal de Takis e sua resposta foi quase mais autom�tica do que consciente. N�o se importou com a sutileza das artes marciais, simplesmente ergueu o joelho, acertando as bolas de van Renssaeler, e quando ele se dobrou, seu punho o acertou no rosto. O deputado caiu no ch�o como se acertado por um martelo e Tach sugou os n�s dos dedos.</p><p>Os olhos azuis de Blythe estavam desfocados, olhando perdidos para seu marido abaixo, e Quinn franzia o cenho como um Zeus de cabelos brancos. V�rias pessoas foram correndo ajudar o pol�tico ca�do e Quinn, se recuperando rapidamente, os levou escadaria abaixo.</p><p>� Aquele foi um golpe muito baixo � resmungou enquanto acenava para um t�xi de passagem. � N�o � muito esportivo chutar um homem nas bolas.</p><p>� N�o estou interessado em esportividade. Voc� luta para vencer e, caso fracasse, voc� morre.</p><p>� Um mundo muito estranho do qual voc� vem, se esse foi o c�digo que lhe ensinaram � resmungou novamente. � E como se j� n�o tivesse problemas suficientes, aposto que Henry ir� process�-lo por agress�o e viol�ncia f�sica.</p><p>� Considere-se contratado, Prescott � disse Blythe, erguendo a cabe�a do ombro de Tach. Ela estava apertada entre os dois homens no t�xi e Tach podia sentir o leve tremor que ainda corria por seu corpo.</p><p>� Talvez devesse pensar em pedir div�rcio. N�o imagino por que n�o o fez antes.</p><p>� As crian�as. Sabia que nunca as veria se me divorciasse de Henry.</p><p>� Bem, pense nisso.</p><p>� Para onde estamos indo?</p><p>� O Mayflower. Belo hotel, v�o gostar.</p><p>� Quero ir para a esta��o. Vamos para casa.</p><p>� N�o recomendaria isso. Minhas entranhas dizem que isto ainda n�o terminou, e minha barriga � um indicador infal�vel.</p><p>� J� demos nossos depoimentos.</p><p>� Mas Jack e Earl ainda v�o comparecer, Harstein tem de depor novamente e pode haver algo que exija que sejam chamados de novo. Vamos apenas ficar at� os vivas finais. Vai poupar a voc�s outra viagem, se estiver certo.</p><p>Tach concordou de m� vontade, afundando no encosto para ver a cidade passar.</p><p>Na noite de domingo ele estava totalmente enjoado de Washington, totalmente enjoado do Mayflower e totalmente enjoado das profecias funestas de Quinn. Blythe tentou manter a fantasia de que estavam tendo pequenas f�rias ador�veis e o arrastou pela cidade para olhar os pr�dios de m�rmore e a estatuaria sem sentido, mas seu mundo de sonhos se despeda�ou no final de sexta-feira, quando David foi acusado de desacato ao Congresso e o caso, transferido para um grande j�ri.</p><p>O garoto se encolhera na su�te deles alternando entre total confian�a em que n�o haveria indiciamento e medo de ser condenado e preso. A segunda op��o parecia mais prov�vel, pois tinha sido terrivelmente agressivo com o comit� no �ltimo dia de depoimento, chegando ao ponto de compar�-los com a elite governante de Hitler. O clima n�o era de contemporiza��o. Tachyon quase fora distra�do tentando reprimir os planos mais vingativos de David contra o comit� e tentando acalmar Blythe, que parecia ter perdido totalmente o ingl�s como primeiro idioma, falando quase exclusivamente em alem�o.</p><p>Seus esfor�os n�o eram facilitados pelo fato de que estavam virtualmente sitiados no quarto; cercados e assediados por um bando de rep�rteres que n�o se detiveram mesmo ap�s Blythe ter esvaziado um bule de caf� sobre um jornalista que tentara entrar se fazendo passar por servi�o de quarto. Apenas Quinn podia penetrar em sua fortaleza e ele era t�o uniformemente pessimista que Tach estava prestes a jog�-lo por uma janela.</p><p>Naquele momento, com o amanhecer colorindo o c�u a leste, Tach estava deitado escutando as batidas regulares do cora��o de Blythe e o sussurro suave de sua respira��o aninhada a seu lado. Haviam feito amor longa e freneticamente, como se ela temesse perder contato com ele. Tamb�m havia sido perturbador, pois ele descobriu um grande volume de fissuras entre as v�rias personalidades. Tentara lev�-la a se concentrar em uma nova constru��o, mas estava emocionalmente fragmentada demais para que isso funcionasse. Apenas descanso e um al�vio do estresse restaurariam o equil�brio, e Tach jurou que, com ou sem comit�, deixariam Washington naquele dia.</p><p>Uma batida furiosa na porta da su�te o arrancou da cama uma hora da tarde. Confuso, sequer havia pensado em seu robe, enrolando a colcha na cintura e indo para a porta. Era Quinn e a express�o no rosto dele varreu os �ltimos vest�gios de sono de sua cabe�a.</p><p>� O qu�? O que aconteceu?</p><p>� O pior. Braun arruinou com voc�s todos.</p><p>� Ahn?</p><p>� Testemunha amig�vel. Ele lan�ou todos voc�s aos lobos para se salvar.</p><p>Tach se jogou em uma cadeira.</p><p>� N�o � s� isso, v�o chamar Blythe novamente.</p><p>� Quando? Por qu�?</p><p>� Amanh�, logo depois de Earl. Jack muito generosamente ofereceu a informa��o de que, al�m de von Braun, Einstein e o resto dos g�nios, ela tamb�m tem <emphasis>seus</emphasis> pensamentos e lembran�as. Querem os nomes dos outros ases e, se n�o conseguem com voc�, v�o conseguir com ela.</p><p>� Ela ir� se recusar.</p><p>� Poderia ir para a cadeia.</p><p>� N�o... Eles n�o fariam... N�o uma mulher.</p><p>O advogado apenas balan�ou a cabe�a.</p><p>� <emphasis>Fa�a</emphasis> alguma coisa. Voc� � o advogado. Eu recusei primeiro, que me mandem para a cadeia.</p><p>� H� outra op��o.</p><p>� Qual?</p><p>� Dar a eles o que querem.</p><p>� N�o, essa n�o � uma op��o. <emphasis>Voc�</emphasis> tem que mant�-la fora daquela sala de audi�ncias.</p><p>O velho suspirou e co�ou furiosamente a cabe�a at� os cabelos se projetarem dela como os espinhos de um porco-espinho amea�ado.</p><p>� Certo, verei o que posso fazer.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>N�o havia sido o suficiente, e na manh� de ter�a-feira eles estavam de volta ao Capit�lio. Earl havia marchado para dentro, apelado para a Quinta e marchado para fora com uma express�o de total desprezo e repulsa. N�o esperava nada do governo do homem branco e este n�o o desapontou. Era ent�o a vez de Blythe. � porta, dois jovens guardas dos fuzileiros haviam tentado det�-lo. Sabia que estava sendo injusto atacando as pessoas erradas, mas a tentativa deles de separ�-lo de Blythe o descontrolara e ele dominara a mente de ambos com viol�ncia. Havia ordenado que dormissem e eles estavam roncando antes que batessem no ch�o. Aquela exibi��o de seu poder tivera um profundo efeito em v�rios observadores e rapidamente encontraram um lugar no fundo da sala, entre o pessoal da imprensa. Ele tentara protestar, querendo ficar com Blythe, mas dessa vez foi Quinn quem se op�s.</p><p>� N�o, voc� se sentar l� com ela ser� como sacudir uma bandeira vermelha para um touro. Cuidarei dela.</p><p>� N�o � apenas a quest�o legal. A mente dela... Est� muito fr�gil neste momento � disse, apontando com a cabe�a para Rankin. � N�o permita que ele a golpeie.</p><p>� Vou tentar.</p><p>� Minha querida. � Os ombros dela pareciam finos e ossudos sob suas m�os e, quando ergueu a cabe�a, os olhos eram como dois hematomas escuros no rosto branco.</p><p>� Lembre-se, a liberdade e a seguran�a deles depende de voc�. Por favor, n�o diga nada.</p><p>� N�o se preocupe, n�o direi � falou, com um lampejo de sua antiga coragem. � Eles tamb�m s�o meus pacientes.</p><p>Ele a observou se afastar, uma das m�os pousando levemente no bra�o de Quinn, e o p�nico tomou conta dele. Quis correr atr�s dela e segur�-la mais uma vez. Ficou pensando se a sensa��o era sua precogni��o errante despertando ou apenas uma mente confusa.</p><p>� Agora, Sra. van Renssaeler, vamos acertar a cronologia nas mentes de todos n�s, certo? � disse Rankin.</p><p>� Certo.</p><p>� Quando descobriu que tinha esse poder?</p><p>� Fevereiro de 1947.</p><p>� E quando abandonou seu marido, o congressista Henry van Renssaeler?</p><p>Ele refor�ou a palavra congressista, olhando rapidamente � esquerda e � direita para ver se seus colegas compreendiam.</p><p>� N�o fiz isso, ele me colocou para fora.</p><p>� E talvez tenha sido porque descobriu que voc� estava se envolvendo com outro homem, um homem que sequer era humano?</p><p>� N�o! � gritou Blythe.</p><p>� Obje��o! � gritou Quinn ao mesmo tempo. � Este n�o � um julgamento de div�rcio...</p><p>� O senhor n�o tem base para objetar, Sr. Quinn, e devo lembr�-lo de que algumas vezes este comit� considerou necess�rio investigar o hist�rico de advogados. � de se pensar por que voc�s escolheriam representar inimigos deste pa�s.</p><p>� Porque � um princ�pio do Direito anglo-americano que um r�u tenha algu�m que o proteja do impressionante poder do governo federal...</p><p>� Obrigado, Sr. Quinn, mas n�o acho que precisemos de aulas de jurisprud�ncia � interrompeu o deputado Wood. � Pode continuar, Sr. Rankin.</p><p>� Obrigado, senhor. Vamos deixar isso de lado no momento. Quando se tornou uma dos chamados Quatro Ases?</p><p>� Acho que foi em mar�o.</p><p>� De 1947?</p><p>� Sim. Archibald me mostrou como poderia usar meu poder para preservar conhecimento inestim�vel e entrei em contato com v�rios cientistas. Eles concordaram e eu...</p><p>� Come�ou a sugar suas mentes.</p><p>� N�o � assim.</p><p>� N�o acha um tanto repulsivo, quase vampiresco, o modo pelo qual come o conhecimento e as habilidades de um homem? Tamb�m � uma fraude. Voc� n�o nasceu com uma grande mente, nem estudou ou trabalhou para chegar � sua posi��o. Apenas rouba os outros.</p><p>� Eles se dispuseram. Nunca teria feito isso sem permiss�o.</p><p>� E o congressista van Renssaeler lhe deu sua permiss�o?</p><p>Tachyon podia ouvir as l�grimas engrossando a voz dela.</p><p>� Isso foi diferente. Eu n�o compreendia... N�o podia controlar.</p><p>Ela baixou o rosto para as m�os enluvadas.</p><p>� Vamos continuar. Chegamos ao momento em que voc� abandonou marido e filhos � disse, acrescentando em um tom de conversa, obviamente dirigido aos outros membros do comit�. � Tamb�m acho inacredit�vel que uma mulher abandone seu papel natural e se comporte dessa forma. Bem, isso � irrelevante...</p><p>� Eu n�o o abandonei � interrompeu Blythe.</p><p>Ele ignorou a observa��o.</p><p>� Sem�ntica. Quando foi isso?</p><p>Blythe afundou na cadeira, desesperan�ada.</p><p>� Vinte e tr�s de agosto de 1947.</p><p>� E onde tem morado desde 23 de agosto de 1947?</p><p>Ela ficou sentada em sil�ncio.</p><p>� Vamos l�, Sra. van Renssaeler. A senhora concordou em responder a perguntas perante este comit�. N�o pode voltar atr�s nessa concord�ncia agora.</p><p>� Em Central Park West, 117.</p><p>� E de quem � esse apartamento?</p><p>� Do Dr. Tachyon � sussurrou.</p><p>Com isso houve uma agita��o na imprensa, pois eles haviam sido muito discretos. Apenas os outros tr�s ases e Archibald sabiam de seu arranjo de vida.</p><p>� Ent�o, ap�s violar seu marido e roubar sua mente, a senhora saiu e vive em pecado com um inumano de outro planeta que criou o v�rus que lhe deu esse poder. H� algo muito conveniente em tudo isso � disse, inclinando-se para a frente sobre a mesa e gritando em sua dire��o. � Agora escute, madame, e � melhor responder, pois est� correndo um grande perigo. Tomou a mente e as lembran�as desse Tachyon?</p><p>� S-sim.</p><p>� E trabalhou com ele?</p><p>� Sim.</p><p>Suas respostas eram quase inaud�veis.</p><p>� E reconhece que Archibald Holmes formou os Quatro Ases como um elemento subversivo projetado para abalar aliados leais dos Estados Unidos?</p><p>Blythe se balan�ou na cadeira, as m�os agarrando a barra superior com uma intensidade desesperada, os olhos percorrendo de modo vago a sala lotada. Seu rosto parecia se contorcer, tentando se reacomodar em diferentes apar�ncias, e havia um ru�do el�trico quase ps�quico saindo de sua mente. Ele penetrou na cabe�a de Tachyon e os escudos dele se ergueram.</p><p>� Est� escutando, Sra. van Renssaeler? � melhor que esteja. Estou come�ando a pensar que voc� e seu poder sugador s�o um perigo para este pa�s. Talvez seja melhor que v� para a cadeia antes que pegue esse conhecimento indevidamente obtido e o venda para os inimigos deste pa�s.</p><p>Blythe tremia tanto que parecia improv�vel que conseguisse permanecer ereta na cadeira, e l�grimas escorriam pelo rosto. Tach se levantou e come�ou a passar em meio � multid�o que os separava.</p><p>�N�o, n�o, por favor... N�o. Me deixe em paz.</p><p>Ela passou os bra�os ao redor do corpo em busca de prote��o e balan�ou para a frente e para tr�s.</p><p>� Ent�o me d� esses nomes!</p><p>� Tudo bem... Tudo bem.</p><p>Rankin se afastou do microfone, sua caneta produzindo um pequeno ritmo satisfeito sobre o bloco � sua frente.</p><p>� H� Croyd...</p><p>Para Tachyon o tempo pareceu se distender, esticar, quase ficar im�vel. V�rias filas de pessoas ainda o separavam de Blythe e naquele �on ele tomou sua decis�o. Sua mente se projetou, imobilizando-a como uma borboleta. A voz dela engasgou e ela emitiu um engra�ado barulhinho seco. Para ele foi semelhante a segurar um floco de neve ou alguma escultura de vidro particularmente delicada. Sob seu aperto, sentiu toda a estrutura da mente se fragmentar e <emphasis>Blythe</emphasis> caiu rodopiando para dentro de uma escura e assustadora caverna da alma. Libertados, os outros sete se agitaram. Rindo, censurando, posando, vociferando, pareciam correr pelo sistema nervoso central dela, fazendo seu corpo se contorcer como uma marionete enlouquecida. Palavras se projetaram dela: f�rmulas, palestras em alem�o, discuss�es entre Teller e Oppenheimer, discursos de campanha e takisiano se misturaram em um caldo rodopiante.</p><p>No instante em que sentiu a mente dela fraquejar, ele a soltou, mas era tarde demais. Cadeiras e pessoas foram jogadas de lado de modo grosseiro enquanto abria caminho para o lado dela e a pegava nos bra�os. A sala estava em completo caos, com Wood batendo o martelo, rep�rteres gritando e se empurrando e, acima de tudo, o mon�logo man�aco de Blythe. Ele a pegou, projetou novamente o poder coercivo e a conduziu ao esquecimento. Ela desmontou em seus bra�os e um sil�ncio assustador se abateu sobre a sala.</p><p>� Acredito que o comit� n�o tenha mais perguntas para esta testemunha. � As palavras sa�ram rascantes e seu �dio se projetava dele como uma for�a tang�vel. Os nove homens se remexeram, desconfort�veis, e ent�o Nixon murmurou em uma voz quase inaud�vel:</p><p>� N�o, mais nenhuma pergunta.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Horas depois ele estava sentado no apartamento embalando-a no colo e cantarolando como teria feito com um de seus priminhos em Takis. Seu c�rebro estava esgotado da luta para lev�-la de volta � sanidade; nenhum de seus esfor�os produzira qualquer resultado. Ele se sentia jovem e desamparado; queria sapatear no tapete e uivar como um garoto de quatro anos de idade. Imagens de seu pai surgiram para assombr�-lo; grande, s�lido e poderoso, ele tinha a forma��o e o talento natural para lidar com essas doen�as mentais. Mas estava a centenas de anos-luz e n�o tinha ideia de para onde o filho errante e herdeiro tinha ido.</p><p>Houve uma batida perempt�ria na porta. Transferindo seu fardo frouxo e sem resist�ncia para o bra�o esquerdo, cambaleou at� a porta e recuou um passo quando seus olhos flamejantes se concentraram nos dois policiais e na figura toda encapotada atr�s deles. Henry van Renssaeler ergueu o rosto machucado e olhou para Tachyon.</p><p>� Tenho um mandado de interna��o para minha esposa. Por favor, entregue-a.</p><p>� N�o... N�o, voc� n�o entende. S� eu posso ajud�-la. Ainda n�o tenho a constru��o, mas conseguirei. Apenas ir� demandar um pouco mais de trabalho.</p><p>Os policiais corpulentos se adiantaram, e gentil, mas inexoravelmente, tiraram-na de seus bra�os protetores. Ele saiu trope�ando atr�s deles enquanto desciam as escadas, Blythe ca�da nos bra�os de um dos policiais. Van Renssaeler n�o fez qualquer movimento para toc�-la.</p><p>� S� mais um tempinho � disse, chorando. � Por favor, apenas me deem mais um tempinho.</p><p>Ele desmoronou, agarrando-se ao corrim�o, enquanto a porta da rua se fechava atr�s deles.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Ele s� a viu uma vez ap�s a interna��o. O recurso contra a ordem de deporta��o estava sendo negado pelos tribunais e, vendo o fim se aproximar, ele dirigiu at� o sanat�rio particular no norte do estado de Nova York.</p><p>N�o o deixaram entrar no quarto. Ele teria revertido essa decis�o com controle mental, mas desde aquele dia abomin�vel n�o havia conseguido usar seu poder. Ent�o espiou atrav�s de uma janelinha na porta pesada, olhando para uma mulher que j� n�o conhecia. Os cabelos pendiam em cachos emaranhados ao redor de seu rosto retorcido enquanto ela percorria o pequeno quarto falando para uma plateia invis�vel. Sua voz era baixa e rouca; obviamente suas cordas vocais haviam sido danificadas pelas tentativas constantes de sustentar um timbre masculino.</p><p>Incapaz de se conter, ele se projetou telepaticamente, mas o caos de sua mente o mandou de volta, cambaleando. Pior havia sido a sensa��o infinitesimal de Blythe gritando por ajuda de alguma fonte profunda e oculta. Sua culpa foi t�o intensa que ele passou v�rios minutos no banheiro vomitando, como se isso de alguma forma pudesse limpar sua alma.</p><p>Cinco semanas depois ele havia sido colocado a bordo de um navio rumo a Liverpool.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>� <emphasis>Le pauvre</emphasis>.</p><p>Uma grande matrona com duas garotinhas ao lado olhava para a figura ca�da no banco. Vasculhou a bolsa e tirou uma moeda. Ela caiu com um barulho abafado no estojo do violino. Recolhendo as crian�as, ela avan�ou, e Tachyon pegou a moeda com dois dedos sujos. N�o era muito, mas compraria outra garrafa de vinho, e outra noite de esquecimento.</p><p>Ele se levantou, guardou o instrumento, pegou a bolsa de m�dico e enfiou a p�gina de jornal dobrada na camisa. Mais tarde, durante a noite, ela o protegeria do frio. Deu alguns passos vacilantes, ent�o parou, oscilando. Segurando as duas malas com uma m�o, tirou a p�gina e olhou a manchete pela �ltima vez. O vento frio do leste recome�ou, puxando o papel com urg�ncia. Ele o soltou e o jornal deslizou para longe. Caminhou, sem olhar para onde ficou pendurado, oscilando desamparadamente contra as pernas de ferro do banco. Poderia esfriar, mas confiaria no vinho para isol�-lo do frio.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Interl�dio Um</strong></p><p>DE <strong>ASES VERMELHOS, ANOS NEGROS</strong></p><p>Elizabeth H. Crofton</p><empty-line/><p>
    New Republic, maio de 1977</p><empty-line/><empty-line/><p>A partir do momento, em 1950, em que declarou em seu famoso discurso de Wheeling, na Virg�nia Ocidental, que �Tenho aqui em minhas m�os uma lista de 57 cartas selvagens que sabemos viver e trabalhar clandestinamente hoje nos Estados Unidos�, n�o restava muita d�vida de que o senador Joseph R. McCarthy havia substitu�do os membros sem rosto do Comit� da C�mara sobre Atividades Antiamericanas (HUAC) como o l�der da histeria anticartas selvagens que se espalhou pela na��o no in�cio daquela d�cada de 1950.</p><p>Sem d�vida o HUAC podia reivindicar o cr�dito por desacreditar e destruir os Ex�ticos pela Democracia de Archibald Holmes, os �Quatro Ases� dos anos tranquilos do p�s-guerra e os s�mbolos vivos mais vis�veis da devasta��o que o v�rus carta selvagem tinha causado ao pa�s (� preciso reconhecer que havia dez curingas para cada �s, mas, assim como negros, homossexuais e drogados, durante todo esse per�odo os curingas foram homens invis�veis, ignorados com determina��o por uma sociedade que teria preferido que eles n�o existissem). Quando os Quatro Ases ca�ram, muitos acharam que o circo havia terminado. Estavam enganados. Estava apenas come�ando, e sob a dire��o de Joe McCarthy.</p><p>A ca�ada aos �Ases Vermelhos� que McCarthy provocou e empreendeu n�o produziu nenhuma vit�ria espetacular para o rival HUAC, mas, no fim, o trabalho de McCarthy afetava muito mais gente e se mostrou duradouro, enquanto o triunfo do HUAC tinha sido ef�mero. O CRISE-A (Comit� de Recursos Internos do Senado para Empenho dos Ases) nasceu em 1952 como f�rum para as ca�adas aos ases de McCarthy, mas acabou se tornando uma parte permanente da estrutura de comit�s do Senado. Com o tempo, o CRISE-A, assim como o HUAC, se transformaria em um mero fantasma do que havia sido, e d�cadas mais tarde, sob a presid�ncia de homens como Hubert Humphrey, Joseph Montoya e Gregg Hartmann, evoluiria para um tipo de animal legislativo totalmente diferente. Contudo, o CRISE-A de McCarthy era tudo o que a sigla significava: crise. Entre 1952 e 1956, mais de duzentos homens e mulheres responderam a intima��es do CRISE-A, normalmente sem evid�ncias mais substanciais do que o depoimento de informantes an�nimos de que eles, em alguma ocasi�o, haviam exibido poderes de carta selvagem.</p><p>Foi uma verdadeira ca�a �s bruxas moderna, e como os ancestrais espirituais em Salem, os que eram levados � presen�a de Joe Ca�ador pelo n�o crime de ser um �s tinha s�rios problemas para provar sua inoc�ncia. Como voc� prova que <emphasis>n�o pode</emphasis> voar? Nenhuma das v�timas do CRISE-A jamais respondeu a essa pergunta de modo satisfat�rio. E a lista negra estava sempre � espera daqueles cujos depoimentos fossem considerados insatisfat�rios.</p><p>Os destinos mais tr�gicos eram os de pessoas que na verdade <emphasis>eram</emphasis> v�timas do v�rus carta selvagem e reconheciam seus poderes de �s abertamente diante do comit�. Desses casos, nenhum foi mais comovente que o de Timothy Wiggins, ou o �Sr. Arco-�ris�, como era apresentado ao subir ao palco. �Se sou um �s, n�o quero ver um dois de paus�, disse Wiggins a McCarthy quando foi intimado em 1953, e a partir daquele momento �dois de paus� entrou no vocabul�rio como o termo para um �s cujos poderes de carta selvagem s�o triviais ou in�teis. Com certeza esse era o caso de Wiggins, um artista m�ope e gordinho de 48 anos cujo poder de carta selvagem, a habilidade para mudar a cor de sua pele, o havia levado a ser uma atra��o de segunda nos menores resorts de Catskill, onde seu n�mero consistia em tocar um <emphasis>ukulele</emphasis> e cantar vers�es em falsete de m�sicas como <emphasis>Red, Red Robin</emphasis>, <emphasis>Yellow Rose of Texas</emphasis> e <emphasis>Wild Card Blues</emphasis>, acompanhando cada interpreta��o com as mudan�as de cor apropriadas. �s ou dois de paus, o Sr. Arco-�ris n�o recebeu piedade de McCarthy ou do CRISE-A. Na lista negra e sem conseguir contratos de trabalho, Wiggins se enforcou no apartamento da filha, no Bronx, menos de 14 meses ap�s seu depoimento.</p><p>Outras v�timas tinham as vidas perturbadas e destru�das: perdiam empregos e carreiras para a lista negra, perdiam amigos e parceiros e inevitavelmente perdiam a cust�dia dos filhos nos div�rcios muito frequentes. Pelo menos 22 ases foram descobertos no auge das investiga��es do CRISE-A (o pr�prio McCarthy costumava dizer que tinha �exposto� duas vezes mais, por�m, inclu�a nesse total in�meros casos em que os �poderes� dos acusados foram determinados apenas por boatos e provas circunstanciais, sem um fiapo de documenta��o verdadeira), abrangendo criminosos perigosos como uma dona de casa do Queens que levitava enquanto dormia, um estivador que podia meter a m�o numa banheira e fazer a �gua ferver em menos de sete minutos, uma professora prim�ria anf�bia da Filad�lfia (ela escondia as guelras sob as roupas, at� o dia em que se entregou tolamente ao salvar uma crian�a que se afogava) e mesmo um quitandeiro italiano barrigudo que demonstrava uma habilidade impressionante de fazer seu cabelo crescer quando quisesse.</p><p>Embaralhadas em meio a tantas cartas selvagens, o CRISE-A encontrou realmente alguns ases genu�nos em meio aos dois de paus, entre eles Lawrence Hague, o corretor de a��es telepata cuja confiss�o provocou p�nico em Wall Street, e a mulher conhecida como �mulher pantera� de Weehawken, cuja metamorfose diante das c�meras dos cinejornais aterrorizou o p�blico dos cinemas de costa a costa. Mas isso era praticamente irrelevante perto do caso do misterioso homem detido enquanto roubava o distrito de com�rcio de diamantes de Nova York, com os bolsos cheios de pedras preciosas e anfetaminas. Esse �s desconhecido tinha reflexos quatro vezes mais r�pidos que os de um homem normal, assim como for�a surpreendente e uma aparente imunidade a tiros de armas de fogo. Depois de arremessar um carro de pol�cia a meio quarteir�o de dist�ncia e mandar 12 policiais para o hospital, ele enfim foi dominado com g�s lacrimog�neo. O CRISE-A imediatamente emitiu uma intima��o, mas o homem identificado mergulhou em um sono profundo comatoso antes de prestar seu depoimento. Para desgosto de McCarthy, o homem n�o conseguiu ser despertado � at� o dia, oito meses mais tarde, em que sua cela especial refor�ada e de seguran�a m�xima foi encontrada repentina e misteriosamente vazia. Um preso de boa conduta jurou ter visto o homem atravessar a parede, mas a descri��o que deu n�o combinava com a do prisioneiro desaparecido.</p><p>A conquista de efeito mais duradouro de McCarthy, se � que pode ser chamada de conquista, foi a aprova��o das chamadas �Leis das Cartas Selvagens�. A Lei de Controle de Poderes Ex�ticos, aprovada em 1954, foi a primeira. Ela exigia o registro imediato no governo federal de toda pessoa que tivesse poderes da carta selvagem; quem n�o fizesse isso era punido com penas que chegavam a dez anos de pris�o. Depois dessa, veio o Ato de Recrutamento Especial, que dava ao Gabinete de Recrutamento e Servi�o Militar o poder de convocar ases registrados para servir ao governo por per�odo indefinido. Persistem rumores de que v�rios ases, em cumprimento �s novas leis, foram realmente convocados para servir no Ex�rcito, no FBI e no Servi�o Secreto no fim dos anos 1950, mas, se isso for verdade, as ag�ncias que empregaram seus servi�os mantiveram seus nomes, poderes e at� a pr�pria exist�ncia desses agentes como um segredo muito bem guardado.</p><p>Na verdade, apenas dois homens foram abertamente convocados depois do Ato de Recrutamento Especial durante todos os 22 anos de dura��o desse estatuto: Lawrence Hague, que desapareceu a servi�o do governo depois que as acusa��es de manipula��o do mercado de a��es foram arquivadas, e um �s ainda mais celebrado, cujo caso virou manchete em toda a na��o. David �Embaixador� Harstein, o carism�tico negociador dos �Quatro Ases�, recebeu um aviso de convoca��o menos de um ano ap�s deixar a pris�o em que fora confinado pelo CRISE-A por desacato ao Congresso. Harstein nunca se apresentou para o servi�o. Em vez disso, desapareceu completamente da vida p�blica no in�cio de 1955, e nem a ca�ada do FBI por todo o pa�s conseguiu descobrir qualquer pista do homem que o pr�prio McCarthy chamou de �o maior subversivo dos Estados Unidos�.</p><p>As Leis Cartas Selvagens foram o maior triunfo de McCarthy, mas de modo muito ir�nico sua aprova��o plantou as sementes de sua ru�na. Quando os projetos de lei muito divulgados foram enfim aprovados, o estado de �nimo da na��o pareceu mudar. McCarthy repetiu in�meras vezes ao p�blico que as leis eram necess�rias para lidar com ases ocultos que amea�avam a na��o. Bem, respondeu a na��o, as leis foram aprovadas e o problema est� resolvido, e j� n�o aguentamos mais isso.</p><p>No ano seguinte, McCarthy apresentou o projeto de Lei de Conten��o de Doen�as Alien�genas, que teria obrigado a esteriliza��o compuls�ria de todas as v�timas do v�rus carta selvagem, tanto curingas quanto ases. Isso era demais at� para seus partid�rios mais ferrenhos. O projeto sofreu uma derrota fragorosa, tanto na C�mara quanto no Senado. Em um esfor�o para se reerguer e voltar �s manchetes, McCarthy comandou no CRISE-A uma imprudente investiga��o sobre o Ex�rcito, com o prop�sito de revelar os �ases na manga�, que os boatos insistiam em afirmar terem sido recrutados secretamente em anos anteriores ao Ato de Recrutamento Especial. Mas a opini�o p�blica mudou radicalmente contra ele durante as audi�ncias Ex�rcito-McCarthy, que culminaram em uma censura p�blica a ele feita pelo Senado.</p><p>No in�cio de 1955, muitos achavam que McCarthy podia ter for�a o bastante para tentar arrancar de Eisenhower a indica��o para concorrer � Presid�ncia pelo Partido Republicano, por�m, na �poca da elei��o de 1956, o clima pol�tico tinha mudado t�o claramente que ele foi um fator praticamente sem import�ncia.</p><p>Em 28 de abril de 1957, ele foi internado no Centro M�dico da Marinha em Bethesda, Maryland, um homem desequilibrado que falava sem parar sobre as pessoas que ele achava que o haviam tra�do. Em seus �ltimos dias, ele insistia que sua derrocada fora toda culpa de Harstein, que o Embaixador estava l� fora em algum lugar, cruzando o pa�s de um lado a outro, envenenando as pessoas contra McCarthy com um sinistro controle mental alien�gena.</p><p>Joe McCarthy morreu em 2 de maio e a na��o n�o deu a m�nima. Mas seu legado sobreviveu a ele: o CRISE-A, as Leis Cartas Selvagens, uma atmosfera de medo. Harstein podia at� estar solto l� fora, mas n�o apareceu para comemorar sua morte. Como muitos outros ases de seu tempo, ele permaneceu escondido.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Capit�o C�todo e o �s secreto</strong></p><p>Michael Cassutt</p><empty-line/><empty-line/><p>DENTRO DO ESTRATO-JATO. ATRAVESSANDO A PONTE. DURANTE O DIA.</p><empty-line/><p>Os motores RUGEM enquanto o Curinga Lobo faz uma CURVA BARULHENTA com o estrato-jato. As m�os de C�todo est�o amarradas. Ouvem-se BATIDAS na escotilha.</p><p>Marty (voz de)</p><p>Capit�o! Estamos ficando sem ar!</p><empty-line/><p>Nos controles, o Curinga Lobo se vira e olha para ele com desprezo.</p><p>Curinga Lobo</p><p>A escolha � sua, Capit�o. Entregue os c�digos, ou todos os seus amigos v�o morrer sufocados.</p><p>C�todo</p><p>Voc� tamb�m vai morrer, Curinga!</p><p>Curinga Lobo</p><p>Vou apontar o estrato-jato para a montanha e cair fora.</p><p>C�todo</p><p>Eu sabia. No fundo, os Curingas s�o covardes.</p><p>Curinga Lobo</p><p>Insultos, C�todo. In�teis... e no alvo errado.</p><p>O Curinga Lobo arranca o pr�prio rosto. � uma m�scara, claro. Por baixo dela... o rosto bigodudo e presun�oso de ROWAN MERCADO, a n�mese takisiana de C�todo.</p><p>C�todo</p><p>Mercado! Eu devia ter imaginado.</p><p>Karl von Kampen fechou o roteiro e o colocou virado para baixo sobre a mesa. Era cedo em uma manh� de segunda-feira, agosto de 1956. A temperatura fora do escrit�rio dos Est�dios Republic, do <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis> � perto das Montanhas de Santa Monica, em San Fernando Valley �, j� passava dos 30 graus e beiraria facilmente os 40. Um ar-condicionado barulhento prometia mais frio do que produzia.</p><p>Mas ali, naquele seu escrit�rio de canto, Karl sentiu um arrepio.</p><p>Um roteiro do <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis> n�o precisa chegar ao n�vel de <emphasis>Macbeth</emphasis>. N�o era preciso ter a maravilha conceitual de um H.G. Wells. N�o tinha de ser t�o emocionante quanto um <emphasis>Conflitos do destino</emphasis>.</p><p>Mas aquele velho truque do vil�o mascarado? O que Willy Ley estava pensando?</p><p>Karl se levantou da cadeira e se alongou, n�o s� para aliviar a tens�o crescente, mas simplesmente para mudar a geometria do ambiente. Seu escrit�rio era t�o simples e organizado quanto, ele esperava, a paisagem interior de sua mente: uma mesa e uma cadeira simples, uma m�quina de escrever na qual redigia os rascunhos de seus memorandos e um arquivo cheio com seis roteiros do <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis>, nem mais nem menos.</p><p>Karl era um homem pequeno com cabelos louro-esbranqui�ados e olhos azuis; um esp�cime ariano perfeito, n�o fosse pelos ombros arqueados � ele nunca fora nem remotamente esportivo � ou, algo mais percept�vel, seu andar claudicante, heran�a de um ferimento recebido em um bombardeio em Peenemunde durante a Guerra.</p><p>Ele ficou aliviado quando ouviu o telefone tocar. Era sua assistente, Abigail.</p><p>� Ligaram do set � disse ela, e Karl entendeu a mensagem antes mesmo de ouvir as palavras. � Brant est� atrasado de novo. � Brant Brewer, o pr�prio Capit�o C�todo.</p><p>Karl pegou um dos muitos pares de �culos escuros na gaveta, saiu do escrit�rio e parou ao lado de Abigail antes que ela tivesse recolocado o fone no gancho.</p><p>� Entre em contato com Saul Greene e avise a ele que o Sr. von Kampen n�o est� satisfeito. � Greene era o agente de Brewer. Karl sabia que o telefonema seria um esfor�o in�til; voc� raramente encontrava o agente sem o cliente. Mas Brewer podia ser motivado por um aviso.</p><p>� O Sr. von Kampen vai ficar ainda menos satisfeito quando souber que Harold Dann, da Kellogg�s, estar� �s nove horas no set. � Dann era o chefe dos compradores da Kellogg�s, a empresa de cereais para o caf� da manh� que estava negociando para ser a patrocinadora de <emphasis>C�todo</emphasis>, o que dobraria o or�amento da s�rie... e deixaria Karl rico.</p><p>� D� um jeito de atras�-lo � disse Karl. Com uma raiva que o deixou � beira da viol�ncia, pegou a edi��o matutina do <emphasis>Herald</emphasis> na mesa de Abigail. A reportagem sobre um corpo transformado em pedra perto do observat�rio do Griffith Park imediatamente chamou sua aten��o.</p><p>� Ah, o Assassino Medusa atacou de novo. � A s�rie de mortes horrendas j� durava tr�s meses. Todos curingas, transformados em pedra. � E o Sol tamb�m nasceu hoje de manh�.</p><p>� Karl, voc� � mau.</p><p>� �C�nico� � a palavra. � Ele se divertia fingindo saber mais ingl�s do que Abigail, que tinha realmente se formado em uma faculdade do Leste.</p><p>� Eu disse mau, e foi isso o que quis dizer. � Abigail tinha 25 anos, era magra e de cabelos escuros. Era f�cil imagin�-la como a �nica rep�rter mulher em uma reda��o cheia de homens metidos a engra�ados. Karl amava a voz dela assim como sua indiferen�a refrescante em rela��o �s conven��es de um relacionamento profissional, como as que proibiam uma secret�ria de se dirigir a seu chefe pelo primeiro nome. � A �nica coisa diferente entre essas mortes e os assassinatos habituais de curingas � que as v�timas n�o s�o mulheres jovens, mas homens.</p><p>� Aposto que s�o atores � disse Karl com amargura. � Mortos por produtores. � Ele deu um sorriso de despedida para Abigail e colocou os �culos escuros sobre o rosto. � Como voc� disse... mau!</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Karl n�o estava fazendo justi�a a si mesmo. Apesar de ter um senso de humor r�stico alem�o, afiado por experi�ncias brutais na guerra, ele simpatizava com qualquer pessoa que tivesse uma fraqueza, que fosse vulner�vel.</p><p>Qualquer um que escondesse uma habilidade de carta selvagem. Karl tinha at� um nome para a dele: <emphasis>fokus</emphasis>, assim mesmo, com a grafia alem�. O <emphasis>fokus</emphasis> lhe dava o dom de uma vis�o ampliada, a habilidade de fazer um zoom e aproximar as coisas, e frequentemente de ver atrav�s de qualquer objeto em seu campo de vis�o. N�o era apenas uma habilidade f�sica. Na verdade, era um estado mental, um momento em que o tempo se estendia.</p><p>Algo que ele ainda lutava para controlar.</p><p>Enquanto Karl atravessava o asfalto quente, uma olhada r�pida para as montanhas na extremidade norte do vale despertou o <emphasis>fokus</emphasis>. De repente, o distante monte Wilson, com seu observat�rio e uma cole��o de torres de transmiss�o de r�dio e TV, apareceu em close.</p><p>Mais uma piscada e Karl viu a c�pula branca do grande refletor de 2,5 m... sua pintura descascada. Outra piscada, a torre da R�dio KNX... uma de suas l�mpadas vermelhas de seguran�a queimada.</p><p>Havia uma satisfa��o quase sexual em exercitar o <emphasis>fokus</emphasis>. Tinha de ser em particular, � claro, uma concess�o f�cil, j� que o <emphasis>fokus</emphasis> exigia circunst�ncias especiais, como um alvo convidativo, pr�ximo ou distante.</p><p>Era um poder de carta selvagem que n�o fazia com que Karl chamasse aten��o, exceto por uma coisa: suas �ris ficavam vermelhas, em vez de azuis. Por isso os �culos escuros sempre � m�o, n�o importava quantas vezes o haviam provocado por parecer pretensioso.</p><p>Os �culos marcavam Karl von Kampen tanto quanto seu sotaque alem�o. �s vezes ele se perguntava qual o maior problema na Hollywood de 1956: ser um �s, ou ter trabalhado para Hitler?</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Entrar na cabine de som era como adentrar uma caverna escura e convidativa. Por um instante Karl conseguiu esquecer sua preocupa��o constante com dinheiro e a press�o de seu chefe, Frederick Ziv.</p><p>Ele p�de tirar os �culos.</p><p>O primeiro a notar a presen�a de Karl ali foi Eugene Olkewitz, o ator limpo, rotundo e frequentemente b�bado que interpretava Turk, o curinga com cara de cachorro e ajudante do Capit�o C�todo.</p><p>� L� vem o F�hrer! <emphasis>Wie gehts?</emphasis> � acrescentou, dando um tapinha nas costas de Karl.</p><p>� � isso o que vim aqui descobrir. � Karl n�o gostava de Olkewitz. Comparado a Brewer, Eugene era muito profissional, sempre pontual, nunca errava as marca��es nem esquecia suas falas, mas levava aquele papel secund�rio muito a s�rio, e a menina do figurino disse que ele costumava levar a m�scara de cachorro para casa. Ele dizia que gostava de ensaiar caracterizado, mas...</p><p>� Estamos resolvendo as coisas sem Brant para a primeira cena � disse Olkewitz. � Vamos filmar nossos planos, certo, garota?</p><p>�Garota� se referia a �Nora�, a atriz Dotty Doyle, maravilha escultural de olhos azuis cujas pernas magn�ficas eram constantemente exibidas em seu uniforme de estrato-jato da equipe de C�todo. Karl fez uma anota��o mental para parabenizar o figurinista, que obviamente entendia que um programa infantil podia mostrar muito mais pele do que seria considerado escandaloso em uma s�rie dirigida a adultos.</p><p>� N�o sou sua garota, Gene. � Dotty sequer se dirigiu diretamente a ele, plantando-se bem na frente de Karl. � E n�o vamos conseguir fazer nada desse jeito.</p><p>Essa era Dotty: informada, descolada, s�ria... o tipo de princesa n�rdica que os pais de Karl teriam recebido muito bem como parceira de seu filho.</p><p>Karl deu a volta nos bastidores e foi at� o cen�rio. As luzes tinham sido desligadas enquanto trabalhadores removiam o painel de controles do estrato-jato de C�todo.</p><p>� Ela tem raz�o, Karl � disse aborrecido Marshall Korshak, o diretor. � O resto do dia inteiro � com o C�todo.</p><p>Korshak ficava nervoso at� quando as coisas funcionavam bem. Ele veio para <emphasis>C�todo</emphasis> de <emphasis>Hopalong Cassidy</emphasis>. Karl deu um sorriso for�ado.</p><p>� Podia ser pior, Marshall. Pod�amos ter cavalos.</p><p>� Os cavalos est�o sempre presentes quando precisamos deles. Ou voc� arranja outro, e ningu�m percebe a diferen�a.</p><p>Naquele instante, um assistente de produ��o passou correndo por eles.</p><p>� Ele est� a�! � disse e seguiu em frente, para evitar sentir o efeito colateral da explos�o que viria. O mesmo impulso de autodefesa fez Korshak anunciar que precisava mijar.</p><p>Karl se aprumou para o encontro. Mas, assim que seus olhos se ajustaram � mudan�a brusca na luz, ele se deu conta de que n�o era Brant Brewer, o Capit�o C�todo. Era Harold Dann, da Kellogg�s.</p><p>Dann beirava os 40 anos, era moreno, forte e come�ava a ficar careca. E ele tinha os dentes mais brancos que Karl jamais vira em um humano que n�o fosse ator. Dann, na verdade, sorria com cada frase que dizia... como se estivesse sendo pago por segundo de deslumbramento.</p><p>Ele foi apresentado a Olkewitz e Dotty. Os olhos de Dann se arregalaram ao ver pela primeira vez a companhia feminina de C�todo.</p><p>� Acho que dev�amos botar <emphasis>voc�</emphasis> na caixa de cereais.</p><p>� Se pernas e peitos venderem flocos de milho, por que n�o?</p><p>Antes que a conversa ficasse mais animada, Karl ouviu:</p><p>� Qual o problema de voc�s, gente? N�o veem que temos televis�o imortal para fazer?</p><p>Brant Brewer, conhecido por milh�es de jovens americanos como o Capit�o C�todo, flagelo dos takisianos e seus malvados asseclas curingas, surgiu caminhando das sombras e parou no meio do cen�rio, com as m�os nos quadris, um modelo de for�a, justi�a e valores americanos. Estava usando seu uniforme de voo colante azul-marinho, com a letra C e um raio bordados. Sempre que Karl via seu Capit�o, n�o importava com quanta raiva estivesse, ele sonhava com a possibilidade de transmiss�o em cores.</p><p>Ou isso ou a capacidade de lan�ar raios explosivos de seus olhos com o <emphasis>fokus</emphasis>.</p><p>� Brant, voc� est� duas horas atrasado.</p><p>� A cabeleireira e maquiadora n�o me deixava sair do trailer. � O sorriso de Brewer era t�o deslumbrante quanto o de Dann, mas completamente natural. Karl n�o duvidava de que a cabeleireira e maquiadora tivesse uma queda pelo astro; a maioria das mulheres na equipe tinha, e sem d�vida alguns dos homens.</p><p>� Voc� chega horas atrasado todos os dias e isso est� acabando com a gente.</p><p>� Estamos fazendo as cenas, Karl.</p><p>� Estamos dando um jeito de fazer as cenas <emphasis>sem voc�</emphasis>! E elas nunca ficam t�o boas quanto poderiam ficar.</p><p>Brewer brandiu um roteiro.</p><p>� Como isso pode ficar bom? Sou um homem de uniforme que enrola e derrota idiotas mascarados. N�o posso atirar neles. N�o posso jog�-los pela escotilha. Tudo o que posso fazer � falar duro com eles e mand�-los comer todo seu espinafre. � Em uma discuss�o, Brewer retornava a seu sotaque cajun original, da mesma forma que Karl ficava mais teut�nico. Era impressionante que conseguissem se comunicar.</p><p>� Nosso p�blico s�o crian�as pequenas. Elas j� veem bastante viol�ncia em suas vidas reais.</p><p>� As crian�as n�o merecem esse monte de bosta. Voc� l� <emphasis>mesmo</emphasis> esses roteiros, Karl? � A express�o de Brant mudou de desafio para compaix�o. � Esque�a as simplifica��es... dram�ticas. Ser� que as crian�as americanas merecem ver esse retrato de ases e curingas? Ser� que botar uma m�scara de cachorro em Gene Olkewitz � melhor do que escalar um verdadeiro...</p><p>� Pare com isso! � Karl podia perceber que Brewer estava, como sempre, mudando de assunto, saindo de seus pr�prios erros para a covardia de Hollywood em rela��o � carta selvagem. � Voc� sabe que n�o podemos usar curingas verdadeiros. Quantas vezes vamos ter que discutir isso? A s�rie est� bem montada e fechada. Voc� faz parte dela ou n�o. Continue a se atrasar para as grava��es e vai ser dispensado.</p><p>� Voc� quer entrar para a hist�ria como o homem que demitiu o Capit�o C�todo?</p><p>Karl deu um tapinha com os dedos na parte da frente da fantasia do Capit�o C�todo.</p><p>� O Capit�o C�todo � qualquer pessoa que vista esse uniforme.</p><p>Ent�o a express�o de Brewer mudou outra vez, irradiando calor e eterna amizade.</p><p>� Voc� � o chefe. � Ele olhou ao redor, como se procurasse aliados, e viu Korshak. � Ser� que estamos ou n�o estamos fazendo televis�o aqui?</p><p>Karl ainda estava t�o abalado com o encontro que levou um momento para perceber que havia algu�m atr�s dele batendo palmas: Dann.</p><p>� Est� sentado em uma mina de ouro aqui, Sr. von Kampen.</p><p>� A s�rie vai bem.</p><p>� E deve continuar a ir bem, mas a grana de verdade n�o vir� dos jovens olhinhos que sintonizam o programa toda tarde. Ela vir� do que esses jovens for�arem seus pais a comprarem. Revistas em quadrinhos do Capit�o C�todo, brinquedos, os... pijamas, capacetes, os modelos do estrato-jato, os bonecos.</p><p>� E o cereal do caf� da manh�.</p><p>� � melhor voc� controlar seu ator. � Ele n�o estava sorrindo.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Antes de fazer qualquer coisa, Karl tinha de sofrer durante a sess�o de grava��o da trilha sonora dos cinco epis�dios da semana seguinte de <emphasis>C�todo</emphasis>.</p><p>Chamar aquilo de sess�o de grava��o era um exagero, claro. Toda trilha incidental era padr�o, j� pr�-gravada. O uso de cada trecho era mec�nico... toda apari��o de um vil�o ou falso cl�max recebia o mesmo toque melodram�tico. Para Karl, as repeti��es eram como picadas de inseto: pequenas, mas frequentes e inc�modas.</p><p>Quando deixou o est�dio, ele viu o homem de que precisava.</p><p>� Jack!</p><p>Jack Braun, o famoso �s Judas, mais recentemente astro do <emphasis>Tarzan dos macacos</emphasis>, de Ziv, ostentava um bronzeado que parecia imposs�vel e parecia bizarramente jovem de cal�as c�qui e camisa branca. Sua carta selvagem, � claro.</p><p>� Oi, Karl. Como vai seu Capit�o? � O sorriso falso de Braun revelava que ele sabia tudo sobre as faltas de Brant. Bem, Braun ainda tinha amigos em todos os cantos do est�dio Republic.</p><p>� � exatamente sobre ele que eu quero conversar com voc�, Jack.</p><p>Os olhos de Braun se estreitaram.</p><p>� Voc� seria louco se me desse o papel, Karl. Esse �s � uma carta marcada, para usar uma met�fora.</p><p>� Sei disso. Seria caro e arriscado demais trocar de ator agora. Eu queria saber por que Brant Brewer n�o consegue chegar na hora no set.</p><p>� Estou ocupado demais com <emphasis>Tarzan</emphasis> para prestar aten��o na vida dele.</p><p>� Voc� est� ligado em tudo o que acontece aqui.</p><p>� Porque � a �nica maneira de sobreviver! Acredite em um homem que teve que aprender do jeito mais dif�cil.</p><p>� Ent�o me ensine.</p><p>� Voc� est� indo bem, sozinho.</p><p>Karl apenas cruzou os bra�os. Ele tinha experi�ncia o bastante com atores para saber quando estavam representando. Hoje era: Jack Braun, o manipulador resistente de Hollywood.</p><p>N�o durou muito. Braun puxou um cart�o.</p><p>� Est� bem. O homem de quem precisa se chama Edison Hill. Voc� pode encontr�-lo aqui toda tarde, depois das duas.</p><p>Karl leu o nome no verso do cart�o.</p><p>� The Menagerie, p�er de Santa Monica. Esse Hill � um b�bado ou uma bicha? � O p�er era um conhecido ponto de encontro de homossexuais e um dos lugares mais frequentados pela pequena popula��o de curingas da cidade.</p><p>� Pelo que sei, nenhum dos dois. Ele n�o vai dar um soco na sua cara se voc� lhe pagar um coquetel, mas basicamente ele � apenas um sujeito que sabe das coisas, ou sabe como descobrir. O Menagerie � como se fosse seu escrit�rio.</p><p>Karl nunca se encontrava com Braun sem ter vontade de dizer que era um �s como ele, para no mesmo instante se dar conta da futilidade desse gesto.</p><p>� Sabe, Jack, um dia desses, toda essa... insanidade vai acabar. Dev�amos trabalhar juntos.</p><p>Braun deu um sorriso verdadeiramente caloroso e tamb�m de um ceticismo de quem sabia alguma coisa.</p><p>� Seria uma boa coisa, n�o seria?</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ele quase perdeu a entrada do The Menagerie. Ficava no meio da descida, apertado ao lado do infame carrossel do p�er de Santa Monica e cercado por estandes de jogos, barraquinhas de comida e shows de aberra��es, quase todos propriedade e operados por curingas. O interior do clube era mal iluminado e apertado, com cheiro de serragem e cerveja choca. No palco, uma mulher curinga dan�ava entediada, girando as franjas do suti� de lantejoulas e balan�ando o traseiro ao ritmo da m�sica.</p><p>� Eu venho aqui h� anos � disse Hill. � Tenho um fraco pela beleza sem enfeites. � Ele era magro, alto e bonito como um ator coadjuvante de filme B, completo com o bigode estilo Dick Powell. Parecia ter crescido em algum lugar muito a leste de Los Angeles.</p><p>� Tem algumas... pessoas incr�veis aqui � disse Karl.</p><p>� Elas podem virar um h�bito � disse Hill. Era o meio da tarde, n�o exatamente hor�rio de maior movimento em nenhum clube, e o Menagerie estava praticamente vazio. Mesmo assim, a dan�arina no palco era muito bonita para qualquer padr�o, apesar de Karl ter notado, quando ela tirou o suti�, que tinha bocas no lugar dos mamilos. Ele n�o queria pensar no que poderia estar por baixo do biqu�ni fio dental.</p><p>� O que voc� faz quando n�o est� aqui? � perguntou ele a Hill, mais por verdadeiro interesse do que curiosidade educada.</p><p>� Voc� pode me chamar de um espectro � disse Hill. Ent�o acrescentou: � <emphasis>Ghost writer</emphasis>. Escrevo projetos, discursos... Um pouco disso e daquilo. Algumas hist�rias de detetive para revistas policiais.</p><p>� D� para viver bem?</p><p>� Algumas hist�rias que vendo para as <emphasis>pulp fictions</emphasis> pagam razoavelmente bem. Mas eu era da Marinha, antes da guerra. Descobriram uma mancha em meu pulm�o e fui reformado.</p><p>� Voc� n�o voltou � ativa durante a guerra?</p><p>� Tentei v�rias vezes, mas eles n�o me aceitaram. � Hill pousou o copo e entrela�ou os dedos. � Agora, como posso ajud�-lo?</p><p>Karl relatou brevemente seus problemas com Brant Brewer.</p><p>� Acha que ele � um comuna?</p><p>� Duvido. � Karl conhecia comunistas verdadeiros de Hollywood; Brant Brewer n�o se parecia em nada com eles.</p><p>� Homossexual?</p><p>Karl abriu as m�os.</p><p>� Bem, ele <emphasis>�</emphasis> ator. � Querendo dizer que a homossexualidade era sempre uma possibilidade.</p><p>� Est� bem, vamos descartar essa. � Hill olhou despreocupadamente para a esquerda e a direita. Quando falou, Karl mal p�de ouvi-lo. � Isso deixa apenas o fator carta selvagem.</p><p>� N�o h� sinais, mas...</p><p>� Meus honor�rios s�o 20 d�lares por dia, mais despesas. Quarenta antecipados. Normalmente eu cobraria metade disso, mas quando o caso envolve cartas selvagens... � Hill fez um gesto na dire��o das pessoas que estavam no Menagerie.</p><p>� Est� bem. � Karl contou cuidadosamente quatro notas de dez.</p><p>� Voc� vai receber um relat�rio completo. Onde Brewer mora, como passa seus dias, o que ele faz e com quem. Vai gostar do estilo, sen�o do conte�do.</p><p>Eles combinaram de se encontrar em uma cafeteria na esquina de Franklin com Western �s oito horas da manh� seguinte. Se Hill precisasse entrar em contato com Karl imediatamente, telefonaria para o escrit�rio se identificando como Sr. Edwards. Se Karl precisasse de Hill, deveria ligar para o servi�o de mensagens que recebia recados para ele.</p><p>Hill pegou o chap�u, desceu da banqueta, ajustou os punhos da camisa, o colarinho e os vincos do chap�u de feltro. E cumprimentou Karl com um aceno de dois dedos ao sair.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>As grava��es terminaram �s dezenove horas, uma hora depois do hor�rio previsto (hora extra em dobro para a equipe, gra�as ao atraso de Brewer). Mas com a possibilidade de que o Sr. Dann, da Kellogg�s, surgisse de qualquer canto, Karl preferiu evitar novos confrontos e pediu a Abigail que telefonasse e chamasse um t�xi.</p><p>Ele morava em um apartamento duplex em Beverly Hills, acima de Hollywood. Sua senhoria era uma atriz do cinema mudo chamada Estelle Blair, que foi levada a se aposentar com a chegada do som, engavetada para sempre gra�as � carta selvagem, que a havia transformado em uma mulher invis�vel; um fantasma com voz de menininha localizado apenas por um robe e chinelos sem corpo.</p><p>Karl tinha visto uma foto de Estelle nos tempos do cinema mudo. Loura e de pernas compridas, era uma jovem deusa de l�bios provocantes. Ele se perguntou como ela estaria agora, aos 50.</p><p>Ser� que <emphasis>ela</emphasis> pr�pria sabia?</p><p>Era sabidamente dif�cil lidar com ela... exceto para Karl. Ela, ou melhor, seu robe, estava l� para receb�-lo quando ele chegou.</p><p>� Voc� trabalha demais � disse ela. � J� jantou?</p><p>� J�, no est�dio. � Ele sempre dizia isso para Estelle, mesmo que n�o tivesse. N�o queria ser obrigado a aceitar um convite para jantar e a responder �s perguntas dirigindo-se a um bocado de comida que se tornava invis�vel quando Estelle o engolia.</p><p>Ele aceitou sua correspond�ncia, pegando-a do que parecia ser apenas ar, e foi para o interior da casa.</p><p>A mob�lia ali era t�o espartana quanto no escrit�rio de Karl no est�dio. Um sof�, uma mesa baixa, v�rias cadeiras. O quarto que vinha em seguida era igualmente econ�mico e parcamente mobiliado, assim como a cozinha.</p><p>Al�m de usar t�xis duas vezes por dia, a �nica concess�o de Karl a seu status de produtor era a maior televis�o no mercado, uma Zenith X2552 de 17 polegadas, completa, com console. Ele fazia quest�o de ver as edi��es finais de <emphasis>C�todo</emphasis> em uma tela do mesmo tamanho ou at� menor, pois era assim que o p�blico veria o programa.</p><p>Karl normalmente ligava a Zenith no momento em que entrava em casa... al�m de ser a caixa onde ele ganhava a vida, agora tinha se tornado companhia, na maioria das noites.</p><p>Mas antes que Karl pudesse ligar o aparelho, viu entre suas correspond�ncias uma carta de Herb Cranston. O ex-diretor de opera��es de White Sands, o primeiro humano a ficar cara a cara com o Dr. Tachyon, estava na cidade naquela noite e sugeria que jantassem no Musso�s, �s oito horas.</p><p>Karl deu uma olhada no rel�gio. Oito e meia, mas o Musso ficava bem perto.</p><p>Ele telefonou para chamar um t�xi.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Oh, � mesmo Herr Kampen.</p><p>Karl havia entrado no Musso�s pela porta dos fundos e examinou o sal�o � procura de Herb Cranston; um processo complicado, pois tinha reservados. O homem-foguete estava sentado ao balc�o e � sua frente havia o que sobrara do que parecia ter sido um prato de bolo de carne. E alguns coquet�is.</p><p>� S� recebi sua mensagem agora.</p><p>� J� comeu?</p><p>� J�.</p><p>� Bem, ent�o por mais que eu goste do ambiente daqui, ouvi falar muito dos curingas de Santa Monica.</p><p>� Eles deviam botar uma placa: TERRA DOS CURINGAS. � Karl levou v�rios segundos para entender que Cranston estava realmente interessado em visitar o p�er e experimentar o submundo triste da vida dos curingas. Normalmente, Karl teria recusado, tanto por ignor�ncia quanto por repulsa. Ele tinha ido ao p�er algumas vezes, e isso era o bastante. Curingas prostitutas andando no carrossel e chamando os homens que passavam. Rostos horrendos em barraquinhas vendendo suvenires baratos e alimentos fritos. Brigas de faca entre membros de gangues de curingas. Deformidade, desespero e drogas se misturavam aos cheiros de �gua salgada, graxa e peixe podre.</p><p>Mas naquela noite dois fatores tinham mudado. Ele queria muito ver Cranston... e conhecia um clube de curingas.</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Era estranho visitar um lugar como o Menagerie duas vezes em uma vida, ainda mais no mesmo dia.</p><p>O p�er de Santa Monica parecia mais glamouroso � noite, com as luzes coloridas reluzentes e a m�sica vinda do carrossel. V�rios limpos se misturavam aos curingas, tomando sorvete e comendo cachorro-quente enquanto circulavam entre os brinquedos, barraquinhas e espet�culos de aberra��es.</p><p>No interior do The Menagerie, as dan�arinas curingas estavam de algum modo mais atraentes, ou talvez apenas em maior n�mero e variedade.</p><p>� Isso d� um novo significado � express�o �dan�arina ex�tica� � disse Cranston. Ele adorava fazer piadas. Quando trabalhavam juntos em White Sands, o ingl�s de Karl era rudimentar para entender a maior parte delas. Ele n�o tinha mais essa desculpa.</p><p>Havia tamb�m um p�blico de bom tamanho para uma noite de meio de semana. Ou pelo menos era isso o que imaginava Karl. O p�er e sua vida noturna n�o estavam entre suas especialidades.</p><p>Enquanto um trio de dan�arinas se apresentava no palco (elas se chamavam <emphasis>American Girls</emphasis> e eram, sucessivamente, vermelha, branca e azul por baixo de suas fantasias inspiradas na bandeira americana), uma mulher-felina espetacular se sentou � mesa de Karl e Cranston.</p><p>� Est�o interessados em companhia?</p><p>Cranston dispensou a garota e come�ou a falar de trabalho.</p><p>� As coisas finalmente est�o andando em Tomlin.</p><p>� Ainda tentando descobrir os segredos de Tachyon? Fazendo engenharia reversa com uma nave takisiana?</p><p>� Claro que n�o! Wright Field n�o tem nada melhor para fazer... deixe que eles desperdicem seu tempo! � Animado pelo �lcool e com a necessidade de ser ouvido acima do burburinho, Cranston praticamente gritou. Ent�o, envergonhado, disse mais baixo: � Karl, estamos de novo no neg�cio de criar nossos pr�prios projetos... e produzi-los. Olhe para o c�u. Logo voc� vai ver uma coisa feita na Terra voando. � Ele tomou mais um gole, ent�o sorriu. � Igual a seu estrato-jato.</p><p>� Meus parab�ns.</p><p>� Alguns de seus amigos de White Sands est�o conosco. At� Willy Ley. � Ley tinha deixado a Alemanha antes da guerra e se tornara jornalista especializado em reportagens populares sobre foguetes, motivo pelo qual Karl o chamara para trabalhar em <emphasis>C�todo</emphasis>. � O cara de quem precisamos mesmo � voc�. Voc� era o mais promissor do grupo.</p><p>� Meu amigo, voc� est� t�o equivocado quanto b�bado. Aquele �grupo� inclu�a von Braun, Rudolf, Dornberger e muitos outros...</p><p>� N�o quis dizer em termos de realiza��es. Sabemos que voc� saiu da escola direto para a Peenemunde. E, droga, nenhum de n�s conseguiu nem sair do lugar em White Sands, n�o depois que <emphasis>Baby</emphasis> apareceu.</p><p>Cranston e von Braun e um punhado de ex-nazistas engenheiros tinham sido enviados para se encontrar com Tachyon e sua nave takisiana em forma de concha quando ela aterrissou em White Sands. Karl e o restante, entretanto, foram mantidos afastados, ocupados com exerc�cios calist�nicos, relat�rios sem fim e aulas de ingl�s.</p><p>� Foi Willy que contou a voc�s?</p><p>Cranston deu de ombros.</p><p>� Ele s� disse que dev�amos perguntar.</p><p>� Ele n�o devia ter feito isso sem falar comigo.</p><p>� A� eu n�o teria conseguido surpreender voc�! � Cranston deu um sorriso for�ado. J� b�bado, ele estava come�ando a ficar sentimental. Karl se lembrava dele como um sujeito que bebia muito. � N�s dois, tanta sorte... o carta selvagem nunca nos pegou.</p><p>� �.</p><p>O carta selvagem <emphasis>havia</emphasis> contaminado Karl von Kampen, � claro. Em 1947, ele acompanhou Walter Dornberger em uma visita � Bell Aircraft em Buffalo e estava concentrado no t�dio de criar projetos para um bombardeiro que provavelmente jamais seria constru�do quando come�ou a sentir o que achava � esperava � ser uma gripe. Ap�s dias de febre e del�rios, ele se recuperou e descobriu que sua vis�o tinha sido alterada: antes quase cego de t�o m�ope, agora via a n�vel microsc�pico, ou ao n�vel dos melhores telesc�pios �ticos.</p><p>Ele tinha <emphasis>fokus</emphasis>.</p><p>Havia um efeito colateral: por v�rios minutos depois do <emphasis>fokus</emphasis>, os olhos de Karl reluziam com um vermelho demon�aco. No in�cio ele achou que fosse um efeito tempor�rio... mas em algumas semanas, enquanto lutava para controlar o novo �talento�, percebeu que provavelmente seria permanente, um sinal de seu status de �s. Foi a� que come�ou a usar �culos escuros.</p><p>Odiando o trabalho na Bell e odiando Buffalo ainda mais, Karl resolveu realizar o sonho de sua vida. Escreveu para o famoso diretor Fritz Lang, o homem que tinha feito o primeiro filme de foguetes, <emphasis>The Lady in the Moon</emphasis>. Lang era amigo de Dornberger e tinha certo carinho por projetistas de foguete alem�es esquecidos, como Karl von Kampen. O cineasta se ofereceu para recomendar o nome de Karl se um dia ele fosse para Los Angeles...</p><p>Karl empacotou todos os pertences e, na semana seguinte, se mudou para Hollywood. L�, seu <emphasis>fokus</emphasis> o tornou de grande valia para qualquer equipe de c�mera. Ele foi promovido de assistente de c�mera para operador, depois para cinegrafista e em seguida para produtor de <emphasis>C�todo</emphasis>.</p><p>Antes que Karl pudesse avaliar o efeito de sua mentira sobre Cranston, a mulher-felina voltou.</p><p>� Est�o se sentindo mais amistosos, agora que j� quebramos o gelo? � perguntou ela, deslizando para seu colo.</p><p>Cranston parecia mais receptivo.</p><p>� Voc� � mesmo persistente, hein?</p><p>� N�o sei bem o que isso quer dizer. � uma palavra muito grande. � Ela brincou com a orelha de Cranston, para o mais que evidente prazer do engenheiro. � E eu gosto de coisas grandes.</p><p>Karl percebeu que tamb�m estava gostando da encena��o da mulher-felina. Ela percebeu seu interesse.</p><p>� Voc� � uma gra�a, n�o devia estar sozinho, bonit�o. Est� vendo algu�m aqui que gostaria de conhecer?</p><p>� No momento, n�o, obrigado.</p><p>A jovem curinga ronronou de rir.</p><p>� Ah, � t�mido. Mas, afinal, o que voc�s dois fazem?</p><p>� Ele � um cientista que projeta foguetes � disse Karl, tentando dirigir a aten��o da mulher-felina de volta para Cranston.</p><p>Para n�o ser superado, Cranston disse:</p><p>� Karl aqui � o produtor de <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis>.</p><p>Karl poderia t�-lo matado. Uma coisa era ir a um clube de curingas; outra bem diferente era ser reconhecido em um.</p><p>Entretanto, a mulher-felina pareceu gostar.</p><p>� Ent�o voc� conhece Brant e Gene!</p><p>� E muito bem � disse Karl, tentando esconder a surpresa. � Voc� tamb�m conhece?</p><p>� � claro! Gene disse que ia tentar conseguir me botar no programa! Turk precisa de uma garota, n�o acha? C�es e gatos... as crian�as iam adorar. E pense em quanto voc� ia economizar em maquiagem! � Ela deu uma risada rouca. � S� estou fazendo isso para pagar o aluguel, sabe, na verdade eu sou atriz.</p><p>Claro que era. Ele sabia tamb�m o tipo de atriz. Tinha ouvido falar que havia um mercado crescente para filmes er�ticos com curingas.</p><p>� N�o sabia que eles eram frequentadores habituais do lugar � disse Karl. � Eles v�m muito aqui? � Ele usou o <emphasis>fokus</emphasis> em seu belo rosto felino... percebeu as gotas cintilantes de umidade em sua penugem... uma sobrancelha erguida... a boca levemente aberta. Em um limpo, seriam sinais claros de hesita��o.</p><p>Ou medo.</p><p>A mulher-felina tinha falado demais e de repente pareceu se dar conta disso.</p><p>� N�o diria que s�o frequentadores habituais. Eles s�o s�... caras que conheci. Com licen�a. � Ela se levantou do colo de Cranston.</p><p>O projetista de foguetes n�o pareceu muito chateado quando ela foi embora.</p><p>� O caminho de volta at� Mojave � longo.</p><p>� Nesse estado, voc� vai ter sorte se conseguir chegar a Lankershim.</p><p>Karl acompanhou Cranston at� a extremidade do p�er onde uma fila de t�xis aguardava. Ele deixou o ex-colega no Roosevelt Hotel e depois disse ao motorista que pegasse a Hollywood Boulevard e fosse at� Gower. De l�, ele foi a p�. Era pouco mais de um quil�metro, subindo direto a Gower at� a Scenic, depois alguns quarteir�es para leste at� Beachwood. Ele precisava de tempo para dissipar a bebida. Tempo para pensar.</p><p>Ele podia continuar como estava... espremendo epis�dios de uma s�rie infantil de TV at� que ela morresse. Depois outra, depois outra. At� que <emphasis>ele</emphasis> morresse. Ou, pior que morrer, sa�sse de moda. Ele podia vender sua parte do <emphasis>C�todo</emphasis> para a Kellogg�s e usar o dinheiro para se sustentar pelo resto da vida. Nada mais de hist�rias bobas nem de ases trai�oeiros superados por um idiota em uniforme azul.</p><p>Ou ele podia aceitar a oferta de Cranston e retomar o trabalho de sua vida.</p><p>Mas ele n�o podia fazer nada disso at� resolver o problema com Brant Brewer.</p><p>Seu astro estava frequentando uma boate de curingas. O que podia explicar os cada vez mais frequentes atrasos pela manh�. Mas o que Eugene Olkewitz estava fazendo com ele? Pelo que Karl sabia, os dois n�o passavam de colegas de set. E com certeza Olkewitz n�o estava se atrasando.</p><p>Na esquina de Gower com Franklin, parou para usar um telefone p�blico e deixou um recado urgente para Edison Hill.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>�s oito e meia da manh� seguinte, Karl estava sentado na cafeteria na esquina da Franklin com a Western. Encorajado pela caminhada da noite anterior e contando com o sol e o exerc�cio para aliviar a ressaca, Karl foi at� l� a p�, ansioso para saber o que Edison Hill descobrira.</p><p>Mas Edison Hill n�o estava l�.</p><p>Tudo o que ele podia fazer era esperar e ler as novas reportagens do <emphasis>Herald</emphasis> sobre o Assassino Medusa. Houve sete desses assassinatos nos vinte meses anteriores. Todas as v�timas homens, todos curingas entre 25 e 50 anos. Nenhum deles uma v�tima �bvia, como vagabundos, drogados ou garotos de programa. Eram cidad�os t�o respeit�veis quanto qualquer curinga poderia jamais esperar ser: ex-militares, advogados, contadores, arquivistas, mec�nicos, um dono de posto de gasolina em Glendale e at� um bombeiro e dois ex-professores que perderam os empregos quando a carta selvagem se manifestou. (Nenhum pai queria curingas perto de seus filhos.)</p><p>Nada disso era imediatamente relevante para Karl. Ele queria saber sobre o belo, sedutor e misterioso Brant Brewer... o homem que detinha as chaves do futuro de Karl.</p><p>�s nove ele desistiu de esperar, deixou um d�lar no balc�o e ligou para um t�xi. Ele tinha dado quarenta d�lares para um homem que conhecera em um bar de curingas! Teria uma conversa com Jack Braun quando tornasse a v�-lo.</p><p>Karl von Kampen detestava se sentir idiota.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Ele foi deixado, como sempre, diante do port�o principal. Para sua surpresa, Abigail o esperava no estacionamento. Ele olhou para ela atrav�s de seus �culos.</p><p>� Por que voc� n�o est� no escrit�rio?</p><p>� Porque Saul Greene est� � sua espera.</p><p>� Deixe-me adivinhar...</p><p>� Brant est� atrasado de novo.</p><p>A cabe�a de Karl come�ou a doer e dessa vez n�o era culpa da ingest�o de �lcool na noite anterior.</p><p>� Conte-me not�cias melhores.</p><p>� Ontem � noite acharam outro cara morto em Silver Lake... transformado em pedra, Karl.</p><p>� Se Saul Greene me criar algum problema, <emphasis>ele</emphasis> vai ser achado petrificado em Silver Lake. Mande que ele me encontre no set.</p><p>Karl n�o queria encarar o agente gigantesco em seu escrit�rio; e precisava assegurar o nervoso Korshak de que ele n�o seria responsabilizado pelos atrasos.</p><p>Como era de se esperar, a vaga de Brant Brewer ainda estava vazia, mas ao lado dela havia um Hudson Hollywood preto de duas portas, o tipo de carro que Karl compraria... se ele fosse comprar um. Ele pertencia a Saul Greene.</p><p>Que de algum modo conseguiu chegar � cabine de som ao mesmo tempo que Karl.</p><p>� Hoje a coisa vai ficar quente de novo � disse Greene.</p><p>Nos melhores momentos, Karl n�o tinha paci�ncia para Greene e aquele seu tipo de conversa.</p><p>� Por que voc� est� aqui e n�o seu cliente?</p><p>� Brant est� atravessando problemas pessoais. Problemas m�dicos.</p><p>� Ent�o ele est� no hospital.</p><p>� Ainda n�o. Sua vida n�o est� em risco...</p><p>� S� sua carreira.</p><p>Greene tomou Karl pelo cotovelo e conseguiu afast�-lo alguns metros.</p><p>� Karl, voc� e eu nunca fomos bons amigos.</p><p>� Na verdade, somos quase inimigos mortais.</p><p>� Mas este � um neg�cio que funciona com base em amizades, algumas bem improv�veis.</p><p>� Voc� quer ficar meu amigo, Saul? � tudo por causa disso?</p><p>� Eu, n�o. Mas... voc� entende bem os atores, Karl?</p><p>� Pago a eles muito dinheiro para aparecerem e dizerem suas falas. O que mais preciso saber?</p><p>O grandalh�o balan�ou a cabe�a, como se estivesse corrigindo o erro de uma crian�a.</p><p>� Os melhores deles s�o vazios por dentro, presas f�ceis para qualquer paix�o ou moda que surja. � o que os torna bons no que fazem... se tornarem outras pessoas.</p><p>� Ent�o de algum modo Brant Brewer est� incorporando algu�m que se atrasa cronicamente?</p><p>� N�o. Estou dizendo que ele precisa de... compreens�o. Flexibilidade.</p><p>� J� estamos reorganizando praticamente todos os dias de filmagem, Saul. Voc� j� tentou essa teoria com Harold Dann? Por alguma raz�o, n�o acho que nosso novo patrocinador vai ser compreensivo sobre programas que atrasam, ou n�o existem!</p><p>� Voc� n�o precisa botar a Kellogg�s nisso. Eles s� est�o interessados em dinheiro.</p><p>� E voc� � o qu�? Um altru�sta?</p><p>� Sou amigo de Brant Brewer. E estou pedindo a voc�, como algu�m que poderia ser seu amigo, para parar. � Greene se inclinou para mais perto de Karl. N�o havia amizade em seus modos. � Pare de mandar seguirem-no.</p><p>� Nossa conversa acabou, Saul. � Karl levou a m�o � porta da cabine de som. S� a luz vermelha alertando que as c�meras estavam rodando evitaram que ele a abrisse.</p><p>� O que quer que aconte�a, Karl? N�o concorda que ainda � um momento ruim para que sua, sua... vida particular venha a p�blico? O que isso faria com sua carreira?</p><p>Karl encarou o agente.</p><p>� N�o <emphasis>me</emphasis> ameace.</p><p>Greene, ent�o, sorriu e estendeu as m�os.</p><p>� Estou apenas dando um conselho de amigo. � Ele se virou e, ent�o, voltou a cabe�a e disse sobre o ombro: � Por falar nisso, voc� fica bem com esses �culos.</p><p>Karl fugiu para o santu�rio escuro de seu est�dio com as m�os tr�mulas e o est�mago ardendo.</p><p>Saul Greene sabia seu segredo.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Quando Brewer apareceu, pouco antes do almo�o, Karl j� tinha voltado para o escrit�rio com ordens de n�o ser incomodado. Havia fuma�a no ar, aparentemente vinda de algum inc�ndio nas colinas. Sirenes distantes. Karl achava tudo aquilo enervante.</p><p>Mas agora ele estava sentindo mais simpatia em rela��o a Edison Hill. Pelo menos tinha parado de achar que ele era um vigarista. Jack Braun n�o teria recomendado algu�m assim.</p><p>Num impulso, mandou que Abigail arranjasse o endere�o residencial e o telefone de Hill. Ele n�o gostava de esperar.</p><p>Depois tentou se concentrar nos roteiros dos pr�ximos epis�dios de <emphasis>C�todo</emphasis>. Mas suas preocupa��es com Brewer e Greene e com a Kellogg�s, combinadas com a banalidade trivial do �ltimo argumento, al�m do zumbido mon�tono do ar-condicionado, deixaram-no frustrado e infeliz.</p><p>Ele pensou em seu trabalho junto com Brant Brewer. Ele tinha visto apenas o rosto do ator em uma foto 18 x 24, junto com uma breve lista de cr�ditos que iam de pap�is secund�rios na Broadway at� TV ao vivo e algumas participa��es como ator convidado em outras s�ries de TV da Ziv. De cabelos negros e olhos azuis, Brewer tinha cara de her�i. E na s�rie de testes para o papel, mostrou que tamb�m sabia falar como um.</p><p>Karl e Brewer assinaram um contrato por interm�dio de Saul Greene antes mesmo que chegassem a ter uma conversa. E os rigores de produzir mais de cem epis�dios de baixo or�amento de 15 minutos em cada uma das duas temporadas tornou imposs�vel que fossem al�m disso. Eles nunca foram amigos, nunca fizeram uma refei��o ou beberam juntos. Seus �nicos encontros sociais tinham sido em raras festas de fim de ano.</p><p>Ele sabia ainda menos sobre o restante de seu elenco. Olkewitz era outro cliente de Greene que tinha, Karl se lembrava, feito os testes caracterizado, j� vestindo a m�scara de cachorro.</p><p>Karl n�o teria se importado em conhecer Dotty Doyle bem melhor, mas sua condi��o de �s complicava sua vida amorosa; o <emphasis>fokus</emphasis> desviava seus desejos sexuais normais para sua forma peculiar de voyeurismo. Al�m disso, Karl n�o queria ser conhecido como um produtor que dava em cima das atrizes.</p><p>Ao perceber que j� eram quase 17h e que ainda n�o tinha comido, foi at� a antessala de seu escrit�rio, que estava vazia, exceto por um bilhete com o endere�o residencial, o telefone de Edison Hill e as palavras: �Tentei este. N�mero fora de servi�o�.</p><p>Na melhor tradi��o alem�, ele resolveu tomar uma atitude.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>O endere�o de Hill era Lookout Mountain, 8.777, uma divertida coincid�ncia: Fritz Lang vivia em Lookout Mountain quando Karl o visitou, uma d�cada antes. O local ficava a menos de dez quil�metros dos est�dios do <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis>.</p><p>Mas levou mais de uma hora para chegar l�. A estrada que seguia para o sul pelo Laurel Canyon estava bloqueada por caminh�es dos bombeiros em Mulholland Drive.</p><p>O motorista do t�xi de Karl sugeriu um caminho alternativo que os fez dar uma volta pelos tr�s lados de uma pra�a, entrar na Woodrow Wilson, pegar um desfiladeiro secund�rio e depois subir de novo o Laurel pelo norte.</p><p>Mais caminh�es dos bombeiros obstru�am parcialmente o cruzamento das estradas de Laurel Canyon e Lookout Mountain, mas ainda era poss�vel passar por eles e subir a estrada estreita.</p><p>Entretanto, depois de v�rias curvas, o t�xi de Karl chegou ao bloqueio definitivo: um trio de viaturas policiais de Los Angeles.</p><p>� Est� proibido seguir adiante � disse um policial a Karl.</p><p>� Eu moro a�. � Ele odiava mentir, mas precisava chegar � casa de Hill.</p><p>� Meu amigo, se voc� mora a�, � melhor ligar para seu corretor de seguros... Quatro casas pegaram fogo e o inc�ndio ainda n�o foi totalmente controlado.</p><p>Karl retirou os �culos escuros e examinou a parte mais alta da estrada. V�rias das casas pequenas e estranhas do c�nion, estruturas verticais que, para Karl, lembravam casas em �rvores, estavam danificadas ou destru�das. �rvores nas colinas tinham se transformado em troncos fumegantes. At� a sinaliza��o da rua estava coberta de fuligem.</p><p>� Mas os caminh�es dos bombeiros est�o l� embaixo em Laurel.</p><p>O policial encarou Karl.</p><p>� O senhor deve ir embora. Fuma�a faz mal aos olhos.</p><p>Karl tentou insistir, mas ent�o o motorista ficou impaciente. Depois de uma manobra trabalhosa sob o escrut�nio de v�rios policiais, o t�xi seguiu de volta pela estrada.</p><p>� Aqui � disse Karl assim que sa�ram de vista.</p><p>Ele pagou o motorista e voltou a p� na dire��o do que costumava ser a casa de Edison Hill.</p><p>Uma das estradas laterais que formavam algo parecido com uma teia permitiu que Karl driblasse o bloqueio policial e subisse em paralelo � Lookout Mountain. Ele emergiu do meio de arbustos n�o atingidos pelo fogo e viu a cena l� embaixo.</p><p>Na encosta enegrecida acima do que antes era o n�mero 8.777 da Lookout Mountain havia um objeto estranho... um bloco de pedra que, visto atrav�s do <emphasis>fokus</emphasis> de Karl, parecia a est�tua de um homem encolhido de medo... um homem com um bigode fino.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Era uma caminhada longa e cansativa pelo Laurel Canyon, passando pela Hollywood Boulevard (que n�o tinha nada al�m de casas nessa extremidade oeste), at� a Sunset. L� ele foi ao Schwab�s e ligou para um t�xi.</p><p>Quando o carro chegou e o estava levando para o leste, na dire��o de casa, ele considerou mandar o motorista virar para o norte, na dire��o da Base Tomlin, da For�a A�rea.</p><p>Karl von Kampen estava cheio de Hollywood.</p><p>Quando subia as escadas de seu duplex, sentiu o cheiro gostoso de perfume de jasmim, uma melhora consider�vel na fuma�a e nas cinzas do Laurel Canyon. O ar fresco o reviveu. Ele deu uma parada e olhou para tr�s. Enquanto fazia isso, entrou outra vez em <emphasis>fokus</emphasis>, espontaneamente, e foi recompensado com uma sequ�ncia de imagens n�tidas e distantes. Um tordo americano pousado num cabo telef�nico. Uma bola chutada por um menino da vizinhan�a num pequeno quintal nos fundos de casa e imobilizada em pleno voo. Uma nuvem de fuma�a sa�da de um cigarro mais longe, l� embaixo em Beachwood. Uma nuvem de mariposas ao redor de uma l�mpada de rua. Na encosta, um coiote abaixado. Tudo isso ligado por tiras de concreto rachado, folhagem, tubula��es e o borr�o de carros em movimento.</p><p>Mesmo que Saul Greene ou Brant Brewer fosse o Assassino Medusa, ele j� tinha enfrentado desafios maiores. Tinha constru�do foguetes. Tinha sobrevivido ao bombardeio a�reo brit�nico. Tinha sobrevivido ao carta selvagem. Tinha virado um produtor de Hollywood.</p><p>Sem d�vida ele podia encontrar um jeito de controlar Brant Brewer.</p><p>A meio caminho da porta de casa, ele foi agarrado. Uma m�o em seu ombro. Uma m�o <emphasis>invis�vel</emphasis>.</p><p>� Volte � disse Estelle Blair.</p><p>Foi um desafio fazer a volta como se nada tivesse acontecido e ao mesmo tempo tentar identificar um agressor em potencial. Karl n�o sabia se ia conseguir at� que chegou � cal�ada sem sentir a l�mina de uma faca ou uma bala nas costas.</p><p>� Estelle... � disse ele.</p><p>� Bem atr�s de voc�.</p><p>� O que est� acontecendo?</p><p>� Dois homens, de cara muito feia e roupas demais para esse calor. Come�aram a bisbilhotar por a� h� mais ou menos uma hora. Eu os ouvi e me tornei mais dif�cil de achar, se entende o que quero dizer.</p><p>Karl ainda estava fazendo o caminho de volta para Beachwood, na dire��o do mercado da esquina e de testemunhas.</p><p>� Entendi.</p><p>� Acho que eles iam esper�-lo chegar e depois iam entrar em casa atr�s de voc�. Um deles estava armado.</p><p>Um carro foi ligado. Instantes depois, um Hudson Hollywood passou pela rua de Karl e rapidamente virou na dire��o sul, para Beachwood.</p><p>Havia dois homens de chap�u e sobretudo no interior, um deles grande o bastante para ser Saul Greene.</p><p>� Voc� se meteu em alguma encrenca, Karl?</p><p>� � o que parece. � Ele sentira n�usea e apreens�o nas ru�nas carbonizadas da casa de Edison Hill... agora sentia puro medo. Quem quer que tivesse matado Hill, de algum modo havia feito a liga��o entre eles.</p><p>� Talvez voc� n�o esteja conseguindo ver direito por causa dos �culos escuros.</p><p>� Pode ser. � Era poss�vel que Estelle tamb�m conhecesse seu segredo. Ela podia t�-lo espionado pelos �ltimos tr�s anos. Uma tolice a dele ter escolhido uma senhoria que era a �nica pessoa imune ao <emphasis>fokus</emphasis>.</p><p>� Bem, meu pai l� em Iowa, que Deus aben�oe sua alma, tinha um m�todo para lidar com pessoas inconvenientes. �Fa�a com eles antes que fa�am com voc�.�</p><p>� Estelle � disse Karl. � Eu n�o podia concordar mais.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Brant Brewer morava na Drexel Avenue, n�o longe do Farmer�s Market e do Gilmore Field, ao norte da Miracle Mile, em Wilshire.</p><p>O carro parou no Gilmore Field, onde os astros de Hollywood estavam jogando uma partida amadora. Karl podia caminhar os quatro quarteir�es at� o endere�o de Brewer. Isso lhe daria tempo para refletir mais sobre suas poucas op��es.</p><p>O sol estava se pondo, oferecendo uma promessa de al�vio do calor opressivo, mas a n�voa no ar permaneceria por dias. Karl estava grato pela aus�ncia de lua (naquela noite terr�vel em Peenemunde, a lua estava cheia, para ajudar mais os bombardeiros brit�nicos).</p><p>Apesar de ter dois andares, a casa de Brewer era de tamanho modesto, situada num terreno muito bonito por tr�s de uma cerca, bem escondida da rua.</p><p>Karl se aproximou caminhando colado � cerca, usando o <emphasis>fokus</emphasis> atrav�s das barras e dos arbustos para ver al�m. Ele viu o Hollywood de Greene estacionado na entrada de carros circular, junto a outros ve�culos. Com o <emphasis>fokus</emphasis>, viu a tinta que descascava na parede da casa e um grilo que fazia grande esfor�o para atravessar uma rachadura no cal�amento.</p><p>N�o havia obst�culos �bvios. Mas tampouco armas �bvias.</p><p>Karl tinha seu plano, e era digno do Capit�o C�todo. Esperava viver o bastante para contar o esquema para Willy Ley.</p><p>Deu uma �ltima olhada na tranquila vizinhan�a a seu redor e em seguida abriu o port�o e caminhou at� a porta da frente. Quando come�ou a ouvir m�sica e risos vindos do interior, recuou. Ainda podia abortar toda a miss�o... Dependendo de a pr�xima meia hora seguir o roteiro previsto, aquelas pessoas poderiam estar em perigo.</p><p>Tamb�m havia a tenta��o de simplesmente deixar para l�. Assinar o contrato com a Kellogg�s e se livrar dele. Que os fabricantes de cereais se preocupem com a habilidade de Brewer acertar suas marca��es.</p><p>N�o, Brewer n�o apenas trouxera o caos para a vida de Karl; ele e Saul Greene quase com certeza tinham matado Edison Hill, e quem poderia saber quantos outros? Eram monstros, vers�es reais dos curingas vil�es malvados de <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis>. Precisavam ser detidos...</p><p>Karl bateu na porta. No instante seguinte, um muito surpreso Gene Olkewitz a abriu. Ou melhor, Turk a abriu. Olkewitz estava usando a m�scara de cara de cachorro.</p><p>Karl meio que esperava aquilo, mas ainda estava chocado por descobrir que o bom ajudante do capit�o n�o estava interpretando o papel apenas na frente das c�meras.</p><p>� � agora que eu digo �<emphasis>guten abend</emphasis>�<emphasis>?</emphasis> � perguntou Karl. � Ou eu devo latir? O que voc� est� fazendo aqui? Por que est� usando essa m�scara?</p><p>� Bocetas curingas � disse Olkewitz, dando um sorriso emborrachado. � As garotas curingas s�o uma loucura, F�hrer. E t�o <emphasis>agradecidas</emphasis>. � O ator se virou como se para pedir ajuda. Um Saul Greene com express�o de raiva abria caminho entre as pessoas.</p><p>� Voc� est� louco? � disse Greene.</p><p>� Voc� queria me ver, Saul. Chegou a ir at� minha casa! � Karl sorriu para mostrar que, como todo mundo em Hollywood desde antes do cinema mudo, conhecia a velha piada.</p><p>Greene conseguiu apenas gritar:</p><p>� Brant!</p><p>Brewer deslizava atrav�s de um grupo de convidados, todos curingas. E que grupo! Uma garota-lagarto. Uma coisa escamosa com p�s. Um homem que parecia perfeitamente limpo, exceto por um par de antenas na cabe�a. Ele tamb�m viu a mulher-felina do Menagerie, que se contorcia no colo de um homem gordo com um rosto que parecia ter sido esculpido em carvalho.</p><p>Havia mais uma meia d�zia. A festa era o oposto da Arca de No�. Nenhum curinga tinha um par perfeito. Karl sentiu como se estivesse de volta ao The Menagerie. As �nicas coisas que faltavam eram o cheiro de batatas fritas e o tilintar da m�sica do carrossel ao lado. Em vez disso, havia tape�arias; elegantes sof�s brocados; pinturas art�sticas nas paredes; uma vitrola.</p><p>� N�o vejo uma televis�o � disse Karl quando Brewer chegou at� ele. � Onde voc� assiste a si mesmo?</p><p>� Voc� acredita que eu nunca vi um epis�dio?</p><p>Entre as muitas coisas chocantes que Karl soubera ultimamente, essa era a maior. Que tipo de ator deixava passar a chance de se ver?</p><p>� Bem, por que ver televis�o em preto e branco quando voc� tem uma fauna colorida como esta toda noite? � dizia Brewer quando Karl percebeu a deliciosamente real Nora/Dolly com um vestido rosa apertado, os cabelos enrolados em um ninho dourado, l�bios cor de sangue e os olhos azuis como um mar tropical. Ele nunca a tinha visto t�o desej�vel, nem mesmo em suas fantasias mais vergonhosas.</p><p>Ela cumprimentou Karl a dist�ncia, ent�o acenou com a cabe�a na dire��o do canto da sala de estar, onde Harold Dann sorria de volta para eles, erguendo um drinque na dire��o de Karl. Karl n�o via o homem da Kellogg�s havia dias. Duas dan�arinas do The Menagerie estavam com ele: as <emphasis>American Girls</emphasis>, a azul no bra�o esquerdo e a garota vermelha no direito.</p><p>Karl se virou para Brewer e Greene.</p><p>� Pelo que vejo, est�o comemorando alguma coisa. � Ser� que ele tinha confundido um t�pico acordo por baixo dos panos t�pico de Hollywood (agente e ator tentando roubar <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis> pelas suas costas) com assassinato?</p><p>Antes que Brewer pudesse responder, Karl foi agarrado por Greene e Olkewitz, cada um dos homens segurando-o por um cotovelo.</p><p>� Por que n�o vamos conversar em outro lugar?</p><p>Enquanto era levado pelo meio das pessoas, Karl captou o olhar de Dolly. Ele disse para ela:</p><p>� V� embora daqui. Tire todos eles daqui. Diga a eles... diga a eles que a pol�cia est� chegando. Uma batida!</p><p>� Oh � disse ela.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Eles chegaram ao escrit�rio e fecharam a porta, os tr�s. Olkewitz ficou de guarda do lado de fora.</p><p>� Ou voc� � louco ou o homem mais corajoso do mundo � disse Greene.</p><p>� Eu n�o posso ser os dois?</p><p>Brewer virou-se para seu agente.</p><p>� Saul...</p><p>� Cale a boca, Brant! � Greene olhou para Karl. � Na verdade voc� � muito burro, Karl. Pelo menos para um projetista de foguetes.</p><p>� N�o sabia que ser burro significava senten�a de morte em Hollywood. Nossa, as ruas iam ficar vazias...</p><p>Greene lhe deu um tapa com as costas da m�o, um golpe maldoso que surpreendeu Karl tanto quanto machucou.</p><p>� Acha que isso � nossa escolha? Voc� tem sorte! Seu �s o <emphasis>ajuda</emphasis>!</p><p>� J� basta, Saul!</p><p>Brant parecia realmente preocupado. Ele p�s as m�os sobre Greene e gentilmente afastou o agente corpulento.</p><p>� O que s�o voc�s dois? � perguntou Karl, sentindo com a l�ngua gosto de sangue e um dente mole. � Alguma esp�cie de time?</p><p>Brewer n�o era um ator bom o bastante para ocultar sua rea��o.</p><p>� N�s precisamos um do outro. Saul os petrifica. Enquanto faz isso, eu me alimento. � Ele se virou para o parceiro grande e mal-humorado. � Ainda bem que encontramos um ao outro.</p><p>� Brant... � O rosto de Greene estava molhado de suor.</p><p>� Ele merece saber, Saul! � Brewer parecia aliviado por ter a oportunidade de confessar. � Ele nos fez ganhar muito dinheiro.</p><p>� O que, um astro de programas infantis e um agente de quarta categoria? � Karl n�o resistiu e virou-se para Greene. � Voc� s� consegue 10% do que quer que seja sugado de suas v�timas?</p><p>Greene ergueu o bra�o para dar um segundo tapa, mas Brewer o deteve.</p><p>� Pare com isso, Saul! � Ele se meteu entre o agente e Karl. � Voc� j� ouviu falar dos viciados em hero�na e de seus problemas? Eu trocaria este v�cio pela hero�na na hora. � Ele passou um dedo pela testa, secando o suor. � E ainda piora nesse calor.</p><p>� Mas o que voc� consegue? Sangue? Ossos...</p><p>Greene soltou uma gargalhada.</p><p>� Isso, v� em frente, conte a ele!</p><p>Surpreendentemente, Brant pareceu envergonhado... incapaz de articular as palavras.</p><p>� Saul transforma seus corpos e eu tomo suas almas. Suas... personalidades. Na verdade, n�o posso ser um her�i... N�o posso interpretar um humano de verdade, at� fazer isso.</p><p>Se n�o estivesse semiparalisado de medo, Karl teria rido. Ent�o Brant Brewer era o supremo �s ator, um verdadeiro recept�culo vazio. Por um instante, Karl sentiu pena do homem, at� de Greene. Todos no mundo exigiam saber o pre�o f�sico que cobrava o carta selvagem... mas e as altera��es mentais? Que tormentos e torturas tinham sido infligidos em c�rebros humanos pelo v�rus takisiano?</p><p>Ent�o Saul Greene agarrou Karl por tr�s, um abra�o de urso do qual Karl sabia que jamais conseguiria escapar.</p><p>� Seu camarada Hill se revelou um her�i. E voc� tamb�m resolveu ser um. � Karl podia se sentir ficando pesado, mais denso. Estaria virando pedra? � Como eu disse, Karl, burrice.</p><p>Karl enfiou a m�o no bolso.</p><p>� Sintam esse cheiro � disse Karl, for�ando as palavras. � � g�s, e j� encheu a casa. Tudo o que � preciso para ele explodir isso at� a lua � de fogo. � Ele conseguiu tirar um isqueiro do bolso.</p><p>Brant pareceu preocupado.</p><p>� Saul, cuidado com ele!</p><p>Mas Saul Greene sorriu e gritou:</p><p>� Gene!</p><p>A porta se abriu e Olkewitz entrou carregando embaixo do bra�o uma figura que se debatia dentro de um len�ol. Ele jogou a trouxa no ch�o e se sentou sobre ela.</p><p>Greene n�o largava Karl.</p><p>� Podemos n�o ser capazes de ver sua amiga invis�vel, Karl, mas Gene tem um nariz e tanto para um limpo: ele a farejou.</p><p>A trouxa no ch�o se retorcia enquanto Brant Brewer delicadamente retirava o isqueiro da m�o de Karl, que endurecia.</p><p>� Est� tudo bem, Estelle � disse Karl. Ela tinha sido pega. Estava tudo acabado...</p><p>Brant parecia surpreso.</p><p>� Era esse o seu plano? Entrar aqui e nos explodir?</p><p>� Meu plano... � disse Karl, tentando se desvencilhar de Greene. � Era entrar aqui e tentar botar algum ju�zo em voc�s! Podem me matar como mataram todos os outros... mas se eu morrer, n�o vai ser apenas mais um assassinato de curinga. Sou alem�o! Sou seu produtor! Eu sou um <emphasis>�s</emphasis>. Quem vai me substituir? Algu�m mais forte e mau. E quando isso acontecer, quanto tempo acham que voc�s dois v�o sobreviver? N�o seria melhor simplesmente... fazer algum tipo de tr�gua?</p><p>Ele sentia como se falasse sozinho. Estava preso ao ch�o, se sentindo pesado, a pele endurecendo. Tentou usar o <emphasis>fokus</emphasis>, mas n�o conseguiu.</p><p>Tudo o que podia fazer ent�o era fechar os olhos e morrer.</p><p>De repente, a porta se abriu! Houve uma como��o e um grito de Greene:</p><p>� Brant!</p><p>Karl abriu os olhos e viu que ele e Estelle tinham sido deixados ali sozinhos. A coberta j� tinha sido jogada de lado.</p><p>� Voc� consegue se mover?</p><p>� Consigo � disse Karl, apesar de n�o ser f�cil. Ele se sentia como um homem que tivesse ficado sentado por horas na mesma posi��o, como se seus p�s, pernas e at� as coxas estivessem dormentes.</p><p>� Acho que a gente deve dar o fora daqui!</p><p>Cheio de dores e com a ajuda invis�vel e n�o muito substancial de Estelle, andou lentamente e com passos pesados at� a sala de estar.</p><p>Dolly e Dann e os convidados curingas tinham entendido o recado. As �nicas pessoas presentes eram Brant Brewer, Saul Greene e Eugene Olkewitz. Brewer estava na escada, com um isqueiro na m�o erguida para n�o deixar que Greene o pegasse. Ele, na verdade, estava em uma pose que podia ser vista todas as noites em <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis>.</p><p>� Abaixe isso, Brant!</p><p>Olkewitz estava entre os dois, ainda com a m�scara de cachorro.</p><p>� Pare com isso, Saul!</p><p>Karl come�ou a correr na dire��o da porta da frente e saiu aos trope��es na noite quente de agosto, desesperado para se afastar o m�ximo poss�vel de Estelle e da casa. Quando chegou ao port�o, ouviu o que pareceu ser um peda�o de madeira podre se quebrando...</p><p>A casa explodiu em um clar�o. Uma gigantesca m�o acertou Karl e o empurrou contra um carro estacionado.</p><p>Surdo devido � explos�o, com as m�os e os joelhos machucados pelo impacto, Karl se encolheu contra a lateral de um carro enquanto a bola de fogo crescia acima.</p><p>Ele se levantou e se obrigou a olhar, apesar de o pr�prio ar parecer estar em chamas.</p><p>� Estelle! � chamou.</p><p>� Aqui, querido! � A voz veio de tr�s dele. � N�o estou me sentindo muito...</p><p>Karl ouviu um baque surdo quando algo caiu no gramado. Ele encarou o desafio de tentar carregar uma mulher invis�vel nos bra�os.</p><p>Atr�s dele, a casa de Brant Brewer estava totalmente envolvida pelas chamas, t�o violentamente abalada que o segundo andar j� havia desabado sobre o primeiro. Nenhum esquadr�o de bombeiros conseguiria fazer alguma coisa... quando eles chegassem, n�o haveria nada al�m de cinzas.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Duas semanas mais tarde, a caminho da base a�rea Tomlin, o �nibus que levava Karl von Kampen parou no lado norte de Palmdale para abastecer.</p><p>Esticando as pernas, ainda r�gidas por causa do toque de Medusa de Saul Greene, Karl viu a manchete do jornal que o frentista estava lendo:</p><p>A ZIV TV apresenta o novo C�todo</p><empty-line/><p>
    George Reeves, que atuou em <emphasis>E o vento levou...</emphasis></p><empty-line/><p>
    e em <emphasis>A um passo da eternidade</emphasis>.</p><p>A oferta da Kellogg�s morrera com Brant Brewer. Tudo bem. Harold Dann tinha ido embora de Los Angeles e voltado para Michigan no primeiro avi�o, sem d�vida ansioso para escapar antes que algu�m fizesse perguntas inconvenientes sobre o que ele estava fazendo naquela festa. Karl n�o ligava. Ele queria deixar Hollywood, tinha at� dado sua Zenith nova para Estelle. Ele devia muito mais a ela, n�o apenas por salvar sua vida, mas por ajud�-lo a entender por que Brant Brewer tinha se matado.</p><p>� Ser um curinga j� era bem ruim � disse ela. � Os �ndices de suic�dio s�o assustadores. Mas atores s�o as pessoas mais inseguras que se pode imaginar. Nunca sabem por que s�o populares ou um sucesso, apenas que s�o, durante algum tempo. Brant Brewer deve ter se dado conta de que <emphasis>Capit�o C�todo</emphasis> era o m�ximo que conseguiria ser. E que quando voc� descobriu a verdade sobre ele, estava acabado.</p><p>Karl von Kampen botou de volta os �culos escuros e olhou para o futuro.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Powers</strong></p><p>David D. Levine</p><empty-line/><empty-line/><p>�s 9h35 da manh� do dia 2 de maio de 1960, uma batida inesperada soou � porta do escrit�rio de Franciszek Majewski. A mesa de Frank era a mais pr�xima da porta; ele apagou o cigarro e se preparou para atender.</p><p>� S� um instante � disse ele.</p><p>A maior parte dos documentos de Frank j� estava guardada de maneira apropriada em pastas de cores diferentes para cada classifica��o, todas perfeitamente alinhadas com as bordas da mesa. Ele guardou aqueles em que estava trabalhando em suas respectivas pastas, e ent�o olhou para os dois colegas de escrit�rio para se assegurar de que tinham feito o mesmo. Apesar de ser cedo naquela manh� de primavera, a sala sem janelas j� estava abafada com o calor de Washington. Frias luzes fluorescentes zumbiam acima de arquivos de metal surrados comprados em lojas de saldos e excedentes das for�as armadas, lin�leo verde e branco arranhado, mesas cinza de navios de guerra marcadas por d�cadas de queimaduras de cigarro. Os quatro cofres pesados ao longo da parede dos fundos estavam adequadamente identificados por cart�es verdes de �abertos�, suas portas fechadas, mas sem trancas durante o hor�rio de trabalho.</p><p>Frank estava preparando uma estimativa da Intelig�ncia sobre a capacidade sovi�tica de produ��o de bombardeiros. Suas pastas continham documentos em russo, alem�o, polon�s e ingl�s: reportagens, telegramas interceptados, relat�rios de oficiais de campo resumindo a descoberta de seus agentes. Estes, apesar de mais frescos e excitantes, tamb�m eram os mais suspeitos... mesmo se os fatos apresentados n�o fossem desinforma��o intencional, podiam estar errados, mal interpretados ou completamente fabricados por agentes desesperados por dinheiro ou a��o. Nada era certo naquele neg�cio, por isso se chamavam �estimativas�, mas por meio de correla��o cuidadosa da informa��o dispon�vel, um analista inteligente podia produzir uma vers�o muito prov�vel da verdade.</p><p>O homem � porta era Robert Amory Jr., alto, magro e, diferentemente de Frank, ainda de posse de todo o seu cabelo.</p><p>� Que surpresa agrad�vel! � disse Frank, enquanto apertava sua m�o. Robert, o homem que havia recrutado Frank para a CIA, tinha sido seu superior imediato antes de ser promovido a diretor adjunto da Intelig�ncia. Ele tinha na m�o uma pasta vermelha com uma etiqueta de CONFIDENCIAL.</p><p>� Preciso falar com voc�, Frank � disse ele. � Em particular. Venha comigo.</p><p>Frank engoliu em seco. Tirou os �culos com arma��o de metal e os limpou com o len�o para disfar�ar o desconforto.</p><p>Enquanto andavam pelo corredor, com o eco de seus passos no piso de lajotas, Frank sentiu o suor escorrer pelo corpo, mais do que o resultado do dia �mido e quente. Qualquer dist�rbio na rotina era preocupante, e ter a aten��o dos superiores sobre si era ainda mais preocupante. Seria aquele o dia que temia havia tantos anos?</p><p>Robert conduziu Frank at� uma sala subterr�nea pela qual ele jamais havia passado, fechando e trancando a porta ap�s entrarem. Quando estavam sentados a uma mesinha que ocupava quase toda a antessala, Robert ofereceu um cigarro (ele fumava Marlboro, que Frank achava forte demais, mas aceitou um de bom grado para acalmar os nervos).</p><p>Robert bateu o filtro do cigarro num pesado cinzeiro de vidro com o emblema da CIA e em seguida extraiu da pasta uma folha de papel.</p><p>� Assine aqui.</p><p>� O-o q-que � isso? � A pulsa��o de Frank se acelerou por tr�s do bot�o de seu colarinho.</p><p>� Preciso inscrever voc� em um novo compartimento.</p><p>�Inscrever� era o processo de autorizar um agente a ter acesso a determinado compartimento de informa��es confidenciais. A folha continha uma descri��o resumida do compartimento, um projeto de reconhecimento fotogr�fico que envolvia voos a grandes altitudes sobre a Uni�o Sovi�tica, e a declara��o habitual de que Frank entendia que a divulga��o n�o autorizada de qualquer informa��o daquele compartimento implicaria penas que poderiam chegar � pris�o perp�tua. Robert j� havia preenchido o nome de Frank, a data de nascimento e o n�mero do Servi�o Social, e Frank assinou com uma sensa��o de al�vio.</p><p>Frank ainda n�o sabia por que estavam aumentando seu n�vel de acesso a dados confidenciais, mas qualquer que fosse a raz�o, isso significava que seu segredo ainda estava seguro.</p><p>Depois que Robert tamb�m assinou e guardou o formul�rio, ele pegou outra pasta em uma das gavetas da sala subterr�nea. �Bem-vindo ao AQUATONE�. Cada compartimento era identificado por um cript�nimo, ou codinome, que come�ava com um prefixo de dois caracteres chamado d�grafo designando sua �rea geogr�fica ou operacional. O AQ de AQUATONE indicava que era alguma esp�cie de recurso t�cnico.</p><p>Robert sacou da pasta uma foto 18 x 24 brilhante e a empurrou at� o lado oposto da mesa.</p><p>� Essa informa��o n�o sai desta sala sob nenhuma circunst�ncia. AQUATONE � um de nossos projetos mais secretos. � Com o carimbo de ALTAMENTE CONFIDENCIAL AQUATONE, a foto mostrava um avi�o... um avi�o muito estranho. As asas eram bizarramente longas e delgadas, a fuselagem fina como um charuto; podia ser um planador, exceto pela turbina a jato na cauda. Estava todo pintado de negro, sem qualquer marca ou ins�gnia que o identificasse. � Este � o Lockheed U-2 � disse Robert. � Ele tem um teto de voo de 21.000 metros, velocidade m�xima de 950 km/h e pode permanecer no ar por at� oito horas sem reabastecer. H� quase cinco anos voamos com esse avi�o sobre a R�ssia.</p><p>Frank percebeu que a cinza de seu cigarro estava prestes a cair e a jogou no cinzeiro.</p><p>� Que tipo de foto se pode conseguir a essa altitude? � Vinte e um mil metros era quase no espa�o sideral.</p><p>Robert deu um sorrisinho maldoso.</p><p>� Muito boas. E os sovi�ticos n�o t�m nada que possa det�-lo. � Ele olhou Frank nos olhos. � Pelo menos, n�s ach�vamos que eles n�o tinham. Mas, no domingo, um de nossos U-2 n�o voltou para casa. � Ele entregou a pasta a Frank.</p><p>Frank pousou o cigarro no cinzeiro e leu os documentos que ela continha, todos com o carimbo ALTAMENTE CONFIDENCIAL AQUATONE. O avi�o tinha decolado de Peshawar, no Paquist�o, e deveria sobrevoar Stalingrado, Arcangel e Murmansk � procura de provas da constru��o de instala��es de lan�amento de m�sseis bal�sticos intercontinentais, mantendo sil�ncio absoluto no r�dio. Mas agora j� haviam se passado mais de 24 horas do hor�rio previsto para sua aterrissagem em Bodo, na Noruega, e ele devia ser considerado perdido.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� N�o sabemos. � um avi�o muito temperamental; pode ter sido falha no equipamento ou erro do piloto. � A �ltima folha na pasta era outra fotografia, um cara todo metido com macac�o de piloto amarrado com cadar�os como se fosse um espartilho antigo. � Esse � o piloto, Francis Gary Powers. � um dos nossos. Todos os pilotos e a equipe de apoio s�o pessoal da Ag�ncia.</p><p>O piloto tinha um queixo marcante e olhos escuros. Parecia um pouco mais velho do que o filho de Frank, talvez 30.</p><p>� Sabemos que o avi�o caiu em algum lugar na Uni�o Sovi�tica. Quero que voc� descubra o que os sovi�ticos sabem. Eles o derrubaram? Ser� que sequer sabem que caiu? Eles encontraram os destro�os, e, se encontraram, o que aprenderam com eles? O avi�o est� equipado com uma unidade de autodestrui��o, � claro, mas ela pode ter falhado.</p><p>� E o piloto?</p><p>Um olhar duro, direto.</p><p>� Equipado com uma agulha com curare. � Ele tragou por reflexo e soltou a fuma�a pelo nariz. � Mas para fazer o avi�o voar t�o alto e t�o longe... ele � basicamente feito de papel higi�nico, Frank. Se cair, as chances de sobreviv�ncia s�o de uma em um milh�o.</p><p>Frank pegou seu cigarro no cinzeiro. Esquecido, ele tinha queimado quase at� o filtro. Ele deu um �ltimo trago amargo e o apagou.</p><p>� Por que a mim? � Apesar de o cora��o de Frank ter desacelerado quando percebeu que seus segredos pessoais n�o eram a raz�o daquela visita, ainda se incomodava com a aten��o que a miss�o atrairia sobre ele.</p><p>� Eu conhe�o voc�, Frank. O russo � sua l�ngua natal. Voc� tem um bom olho, e confio em seu julgamento. E se for bem-sucedido nisso, pode ser um grande impulso em sua carreira. � Deu uma piscadela conspirat�ria para Frank.</p><p>� Obrigado. � Ele tentou sorrir.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Naquela noite, Frank chegou em casa �s 23h10. Enfiou a chave na fechadura e abriu a porta tentando fazer o m�nimo de barulho poss�vel. Mas sua mulher estava acordada, de robe e chinelos, roendo as unhas enquanto olhava fixamente pela janela da sala de estar. Ela se virou para ele quando entrou, o rosto redondo de <emphasis>babushka</emphasis> iluminado pelo al�vio que imediatamente se transformou em raiva.</p><p>� Onde voc� <emphasis>estava</emphasis>? � disse ela com voz tensa.</p><p>� Me desculpe por chegar t�o tarde, <emphasis>kochanie</emphasis> � disse e se aproximou para beij�-la no rosto. � Recebi hoje uma miss�o nova. Fiquei t�o enrolado que me esqueci de ligar. � Na verdade, ele havia passado a maior parte do dia na sala subterr�nea do AQUATONE, onde n�o tinha linhas telef�nicas.</p><p>Ela lhe deu um abra�o apertado.</p><p>� Estava t�o preocupada com voc�, <emphasis>serduszko</emphasis> � sussurrou ela ao p� de seu ouvido. � Fiquei com medo de que o CRISE-A tivesse descoberto voc�.</p><p>� Hoje n�o, <emphasis>kochanie</emphasis>. � Ele acariciou seus cabelos. � Hoje n�o. Nosso segredo est� seguro... por enquanto.</p><p>Frank se lembrava de cada detalhe do dia em que o segredo se manifestou. Era um belo dia de primavera em 1952. Frank estava atravessando a C Street, obedecendo ao sinal de siga, quando olhou para a esquerda e viu um Packard 1950 verde quase em cima dele. Frank estava a segundos de se tornar uma panqueca ensanguentada na rua. De repente, ouviu um ru�do alto ressonar em sua cabe�a e o carro pareceu reduzir a velocidade at� se arrastar.</p><p>Frank recuou, sentindo como se estivesse mergulhado em cola, sem conseguir respirar. No instante seguinte, o carro passou correndo. Frank ficou parado e tremendo na rua sem saber o que tinha acontecido e passou a m�o sobre a cabe�a suada. Ela voltou cheia de cabelo grudado. Ele sempre soube que ficaria careca, como o pai, mas n�o imaginava que isso chegaria t�o r�pido.</p><p>Outro incidente como esse ocorreu alguns meses depois, quando o vaso favorito de sua mulher caiu da mesa, e um m�s depois disso, quando uma de suas sobrinhas foi amea�ada por um c�o perigoso. Frank n�o tinha se tornado um analista bem-sucedido por ignorar informa��o, por mais inesperada ou absurda, e logo se convenceu de que suas experi�ncias n�o eram apenas subjetivas. Ele tinha desenvolvido uma habilidade extraordin�ria.</p><p>Um �s.</p><p>Mas o ca�ador Joe McCarthy rec�m-iniciara suas audi�ncias, afirmando que um n�mero crescente de ases infestava o governo e que isso havia come�ado a gerar sentimentos negativos. Parte do trabalho de Frank era entender e prever tend�ncias pol�ticas em outros pa�ses, e ele sabia que a vida de um �s no governo em pouco tempo ficaria extremamente desagrad�vel. E, apesar de ter apenas 8 anos quando os bolcheviques tomaram o poder na R�ssia e for�aram seus pais, nascidos na Pol�nia, a fugir para os Estados Unidos, sabia que ser diferente da multid�o em tempos dif�ceis podia ser fatal.</p><p>No in�cio ele n�o contou nem � mulher sobre suas habilidades. Mas ela era inteligente e observadora, e quando ela percebeu como, em momentos de estresse, ele �s vezes parecia �piscar�, ele se viu obrigado a lhe confessar seu segredo. Ironicamente, ela ainda n�o sabia que ele trabalhava para a CIA.</p><p>As audi�ncias de McCarthy agora tinham terminado, mas o medo e a desconfian�a em rela��o aos ases persistia. Qualquer um que descobrisse ter poderes incomuns era obrigado por lei a se apresentar ao CRISE-A, que os designava para posi��es em que seus poderes pudessem ser usados para o bem da na��o. Mas o CRISE-A s� tinha reconhecido dois casos: Lawrence Hague, o corretor de a��es telepata, e David Harstein, conhecido como O Embaixador. Nenhum deles jamais voltou a ser visto em p�blico.</p><p>Sophia fungou e secou os olhos na manga do robe.</p><p>� Me desculpe por estourar com voc� � disse ela. � Sempre que voc� se atrasa eu fico com medo que tenha ido para... voc� sabe, Nevada. � Uma das teorias mais exorbitantes sobre o que acontecia com os ases que desapareciam no CRISE-A era que os transportavam para uma instala��o ultrassecreta no deserto de Nevada, um lugar do qual nunca tinham permiss�o para sair, exceto para desempenhar suas obriga��es.</p><p>� Voc� sabe que isso � apenas um boato � disse ele.</p><p>Mas ele sabia que os campos de trabalhos for�ados na R�ssia eram reais, apesar de o governo sovi�tico tentar mant�-los em segredo do pr�prio povo. Os Estados Unidos nunca fariam uma coisa dessas... fariam?</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Outro carro passou. Seu farol entrou pelas frestas da persiana da janela, projetando um arco de luz no teto do quarto, e Frank deu um suspiro e se levantou. Apesar de estar exausto e de ser muito tarde, o sono n�o vinha.</p><p>Enquanto Sophia roncava suavemente na outra cama, Frank vestiu o robe, cal�ou os chinelos e foi arrastando os p�s at� o escrit�rio. Aquele aposento, com os pain�is de madeira que o deixavam mais quente, tinha sido o quarto de seus filhos, e a c�pula da lumin�ria que ele ligou ao entrar ainda era pintada com desenhos infantis de avi�es. Mas Jenna, a mais nova, tinha se casado e mudado havia tr�s anos.</p><p>Ele se sentou diante do tabuleiro de xadrez e abriu <emphasis>Cem partidas escolhidas</emphasis>, de Botvinnik, na p�gina marcada �Partida n�mero 89, Tolush vs. Botvinnik, 1945�. Arrumou as pe�as no tabuleiro com r�pida efici�ncia e come�ou a jogar a partida do livro, parando no d�cimo movimento das brancas para pensar as alternativas discutidas por Botvinnik. Tentava apenas ler e jogar as partidas em sua mente, mas segurar e mover as pe�as tornava as estrat�gias e os ataques dos jogadores mais claros para ele.</p><p>O xadrez fazia sentido. Apesar de a estrat�gia e os planos dos jogadores estarem ocultos, as regras eram conhecidas por todos, os movimentos eram feitos abertamente, e at� um xeque tinha de ser anunciado. Mas a vida real era cheia de perigos ocultos. Se o CRISE-A estivesse vigiando Frank, ele podia nunca saber at� que ca�ssem em cima dele.</p><p>Depois de terminar de jogar a partida, Frank bocejou, guardou de volta as pe�as no estojo, devolveu o livro � estante e foi para o quarto. Quando passou pelo espelho do corredor, os far�is de outro carro que passava iluminaram rapidamente seus membros magros e a barriga protuberante, e ele parou.</p><p>Houve uma �poca, n�o muito depois de seu poder se manifestar, quando considerou se apresentar ao CRISE-A. Na juventude, ele tinha fantasias de levar a vida de um destemido agente secreto, com aventuras excitantes e um codinome. Mas mesmo na �poca ele j� era velho e estava estabelecido demais para aventura, e agora o homem no espelho estava com 51 anos e parecia ter 60.</p><p>Frank sacudiu a cabe�a, afastando a imagem, enquanto entrava no quarto e fechava a porta.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Frank se barbeou com uma navalha, usando sab�o de barbear em barra, uma caneca e um pincel de pelos de texugo, assim como fazia seu pai. At� o barbeiro de Frank usava um aparelho de barba Gillette e creme de barbear em spray � ele dizia que era mais f�cil, limpo e seguro �, mas Frank gostava de se barbear cortando bem rente e da sensa��o de controle que tinha com uma navalha. Os m�todos antigos eram melhores e sem d�vida mais baratos.</p><p>Mas �s 8h15 da manh� da quinta-feira 5 de maio, Frank lamentou ter esse h�bito quando ouviu a voz de Nikita Kruschev no r�dio falando sobre uma �aeronave inimiga� ter sido �derrubada�. A voz do premier foi imediatamente coberta por uma tradu��o em ingl�s, mas Frank j� havia escutado o suficiente... demais, na verdade.</p><p>Enquanto cuidava do corte no pesco�o com um l�pis cicatrizante, Frank xingava baixinho em russo, polon�s e ingl�s. Ele trabalhara mais de 14 horas na quarta-feira, mas n�o vira nenhum detalhe em todas as fontes que estudou que o levasse � conclus�o de que os sovi�ticos sequer soubessem da exist�ncia do U-2 que ca�ra, e ele tinha entregado um relat�rio dizendo isso ao ir embora do escrit�rio �s 9h da noite anterior.</p><p>Ele tinha falhado.</p><p>O c�rebro de Frank se revirava com cr�ticas � sua conclus�o e recrimina��es enquanto ele apertava a gravata em torno do pesco�o ainda por barbear e �mido com restos de espuma. O que deixou passar? Havia aquele dado amb�guo, alguma coisa sobre um aumento nas for�as de seguran�a na cidade de Vladimir, mas, apesar de t�-lo incomodado, n�o conseguiu correlacionar isso com nenhuma outra coisa, por isso n�o incluiu a informa��o no relat�rio. Talvez devesse ter investigado mais a fundo.</p><p>No r�dio, Kruschev continuava a censurar os americanos pela �invas�o agressiva�, acusando-os de �brincar com fogo� e tentando �torpedear� o encontro de c�pula em Paris que se aproximava. Frank girou o <emphasis>dial</emphasis> para mudar de esta��o.</p><p>Era aquele troglodita Elvis Presley, amea�ando �te apertar mais forte do que um urso-pardo�.</p><p>Frank n�o sabia bem quem, Elvis ou Kruschev, era a maior amea�a para os Estados Unidos. Indignado, ele desligou o r�dio.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Antes mesmo que Frank conseguisse pendurar o chap�u, Galen, seu colega de escrit�rio, o avisou que Robert Amory queria v�-lo assim que chegasse. A secret�ria de Robert o conduziu at� uma sala de reuni�es cheia de gente. O ar na sala estava azul de fuma�a e Frank n�o conhecia metade dos homens ali.</p><p>Um que n�o podia deixar de reconhecer era Allen W. Dulles, diretor da CIA. Com seus cabelos e bigodes brancos, �culos sem arma��o e colarinho antiquado, parecia mais um banqueiro do que um espi�o. Naquele momento sua express�o estava fechada; o maxilar apertando com for�a a haste do cachimbo.</p><p>� Ainda bem que est� aqui, Frank � disse Robert depois de fazer as apresenta��es. � Vamos explicar a situa��o para o presidente... � Ele puxou o punho da camisa e olhou para o rel�gio. � Em 25 minutos, e eu gostaria que voc� estivesse presente.</p><p>A boca de Frank ficou seca.</p><p>� Sinto muito por n�o...</p><p>Robert o interrompeu com um aceno.</p><p>� Vamos conversar mais tarde sobre o que saiu errado. Agora precisamos estar preparados para o que vamos enfrentar.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A sala de reuni�es da Ala Oeste usada para o briefing, com seu papel de parede de estampas coloniais e retratos a �leo de generais da Guerra Revolucion�ria, lembrava Frank uma sala de espera de dentista, nada mais que isso. Mas quando o presidente Eisenhower entrou, ele sentiu um choque el�trico. Aquilo era de verdade. Aquilo era Hist�ria.</p><p>Frank nunca antes havia estado no mesmo aposento que um presidente. O rosto familiar embaixo da careca de Eisenhower parecia cansado e ele mancava levemente ao andar, mas os olhos por tr�s dos �culos de arma��o grossa de pl�stico transparente pareciam penetrantes e inteligentes.</p><p>� Bem, senhores � disse ele para todos na sala. � Acho que temos um pequeno problema aqui.</p><p>A pergunta sobre a mesa era se deviam �confessar�, como disse o presidente, admitir que o avi�o perdido estava em uma miss�o de espionagem, ou permanecer fi�is � hist�ria falsa inventada para acobertar a verdade, que o U-2 era um avi�o de pesquisa da NASA que, por acidente, entrara no espa�o a�reo russo. Todos os homens da CIA presentes defendiam veementemente a hist�ria de acobertamento; como Dulles dizia: �Apesar de todas as na��es espionarem, nenhuma admite isso�. Mas Thomas Gates, o secret�rio de Defesa, estava preocupado: se Kruschev tivesse provas f�sicas de espionagem, a mentira americana seria desmascarada.</p><p>� N�o queremos chegar a Paris constrangidos e de cabe�a baixa � disse ele.</p><p>Mas o presidente n�o parecia estar escutando.</p><p>� O que eu quero saber � onde est� o piloto. H� alguma possibilidade de ter sobrevivido?</p><p>Frank ficou impressionado por ver tamanha preocupa��o acerca de um homem vindo de um general que tinha comandado dezenas de milhares.</p><p>Kelly Johnson, da Lockheed, um homem muito branco com a pele ruborizada, tomou a palavra.</p><p>� Bem, senhor � disse o engenheiro, esfregando a testa com um len�o. � A aeronave � equipada com assento ejet�vel e kit de sobreviv�ncia... mas honestamente, senhor, eles existem apenas para tranquilizar os pilotos. � A express�o de Eisenhower se fechou com essa revela��o. � Por raz�es de seguran�a, os protocolos de opera��o exigem que a aeronave passe todo o tempo sobre a R�ssia em seu teto de voo ou pr�ximo dele, que �, como sabe, de 21.000 metros. E ningu�m jamais caiu de uma altitude como essa e sobreviveu.</p><p>Os olhos do presidente se fecharam apertados e ele inclinou a cabe�a para a frente por um instante. Quando ergueu a cabe�a, parecia dez anos mais velho.</p><p>� Muito bem � disse ele, com os olhos sempre indo de um lado para outro de modo que visse todos ali na sala. � Se esse � o caso, vamos ficar com a hist�ria de acobertamento. Obrigado por seu tempo, senhores.</p><p>Enquanto todos na sala se levantavam arrastando as cadeiras sobre o lin�leo, Eisenhower balan�ou a cabe�a e murmurou:</p><p>� Que Deus tenha piedade de todos n�s. � Se Frank estivesse um metro e meio mais distante n�o teria ouvido isso, e ele se emocionou com a humanidade do homem.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Na sexta-feira, os superiores de Frank pareciam t�-lo perdoado por sua falha, apesar de ele mesmo n�o ter se perdoado e trabalhar o dia inteiro tentando descobrir o que os sovi�ticos sabiam do U-2. O <emphasis>Pravda</emphasis> tinha publicado fotos dos destro�os, e Grechko, o ministro interino da Defesa sovi�tico, fizera um discurso no Soviete Supremo dizendo que o �pirata do ar americano� tinha sido �derrubado�, mas n�o havia indica��o de que os russos soubessem da miss�o ou das caracter�sticas do U-2.</p><p>Existia, por�m, uma pequena informa��o inc�moda, ou melhor, falta de informa��o, que o preocupava. Havia um oficial da KGB em ascens�o, um homem ambicioso denominado Geada, que parecia ter sumido da face da Terra em 1� de maio, mesmo dia em que o U-2 desaparecera. At� aquele momento, por�m, Frank n�o tinha nada que ligasse o homem ao U-2 al�m de uma vaga intui��o. Enquanto trancava seus pap�is no cofre antes de sair para o fim de semana, decidiu que iria mais fundo na segunda-feira.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>No s�bado, 7 de maio, Frank estava no beco dos fundos de seu pr�dio lavando seu adorado Rambler 56 quando Sophia abriu a janela do quarto e chamou:</p><p>� Frank, � algu�m chamado Robert. Ele diz que precisa falar com voc� imediatamente.</p><p>Frank jogou a esponja no balde e subiu correndo a escada, dois degraus de cada vez. Ofegante e com as m�os ainda molhadas de �gua com sab�o, ele atendeu a liga��o no escrit�rio.</p><p>� Voc� precisa vir para o escrit�rio <emphasis>agora</emphasis>. � Robert n�o parecia satisfeito.</p><p>� Sim, senhor. � N�o fazia sentido pedir maiores detalhes em uma linha n�o segura.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Quando Frank chegou ao escrit�rio de Robert, sem uma palavra o diretor adjunto entregou a ele um ma�o amarelo de folhas de fax. Eram a transcri��o de um discurso que Kruschev fizera no Soviete Supremo algumas horas antes.</p><p>� �Camaradas� � foi como come�ou o premier �, �preciso lhes contar um segredo. Quando fiz meu relat�rio, deliberadamente evitei mencionar que o piloto estava vivo e bem, e que t�nhamos os restos do avi�o�. � Frank ergueu os olhos, horrorizado.</p><p>� Continue a ler � disse Robert.</p><p>� �Fizemos isso de prop�sito� � as palavras de Kruschev continuaram �, �porque se tiv�ssemos entregado toda a hist�ria, os americanos j� teriam pensado em outra vers�o. O piloto est� bem e em seguran�a. Neste momento est� em Moscou. O nome dele � Francis G. Powers. Segundo seu depoimento, ele � primeiro-tenente da For�a A�rea dos Estados Unidos, onde serviu at� 1956, quando se juntou � CIA...�</p><p>Havia mais. Muito mais. Nomes, datas, planos de voo, informa��es precisas. Fotos das c�meras do avi�o que Kruschev descrevera como �boas�. At� a agulha com ponta embebida em curare com a qual Powers deveria se matar. A hist�ria falsa de um avi�o de pesquisa meteorol�gica que sa�ra de sua rota por acidente tinha sido completamente detonada.</p><p>Powers seria julgado por espionagem. Se condenado, e os tribunais sovi�ticos n�o eram conhecidos por sua toler�ncia, enfrentaria um pelot�o de fuzilamento.</p><p>Frank largou o manuscrito sobre a mesa � sua frente e massageou as t�mporas. Precisava desesperadamente de um cigarro mas, na pressa, deixara de traz�-los de casa. Naquele instante a porta se abriu de repente, e Allen Dulles entrou na sala, com o cachimbo preso entre os dentes. Parecia prestes a falar com Robert, mas ent�o percebeu a presen�a de Frank.</p><p>� O que <emphasis>ele</emphasis> est� fazendo aqui?</p><p>Frank ficou sentado, paralisado, posto em xeque pelo olhar do diretor.</p><p>� Frank � um de nossos melhores analistas para a Uni�o Sovi�tica � protestou Robert.</p><p>Dulles o interrompeu, tirando o cachimbo da boca e apontando sua haste para Frank.</p><p>� Ele falhou completamente em identificar o fato de que Kruschev tinha o U-2, n�o ligo para o Powers! Eu o quero <emphasis>fora</emphasis> desta opera��o. Consiga algu�m que possa me dizer o que realmente est� acontecendo por l�! � Com um �ltimo olhar devastador para Frank, ele se virou e foi embora.</p><p>Ap�s um momento de surpresa silenciosa, Robert se jogou em sua cadeira.</p><p>� Eu nunca o vi com tanta raiva assim antes � disse ele. � Nunca.</p><p>Frank agarrou a borda da mesa.</p><p>� Fiz o melhor que pude com a intelig�ncia dispon�vel, senhor � disse ele, surpreso por sua voz n�o ter tremido.</p><p>Robert pegou um ma�o de Marlboro na gaveta de sua mesa. Agradecido, Frank tamb�m aceitou um.</p><p>� N�o � s� voc�, Frank. � Robert soltou uma baforada de fuma�a ao acender o cigarro. � Tem mais alguma coisa acontecendo por aqui, e seja l� o que for, � algo que n�o est�o compartilhando comigo. � Ele soltou uma nuvem de fuma�a. � Sinto muito, Frank. Voc� fez realmente o m�ximo poss�vel. Infelizmente estava no campo de vis�o de Allen na hora errada.</p><p>Frank deu uma tragada profunda, mas isso n�o ajudou muito. Apesar de seu cora��o estar desacelerando, sabia que tinha acabado de causar um grande estrago em sua carreira e talvez igualmente na de Robert.</p><p>� Eu tamb�m sinto muito.</p><p>Pelo menos, disse para si mesmo, ele n�o estaria mais no centro das aten��es.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Nos dias seguintes, a crise se aprofundou. A Casa Branca emitiu uma nota oficial culpando o excesso de segredo russo, que tornava necess�rios os voos do U-2, e censurava os sovi�ticos por atacar um �avi�o civil desarmado�. Kruschev respondeu que Eisenhower era um fantoche dos �militaristas do Pent�gono� e de seus s�cios nos monop�lios que realmente governavam o pa�s.</p><p>Enquanto isso, em Washington, os democratas aproveitaram a oportunidade para atacar um enfraquecido presidente republicano, dizendo que era �quase dif�cil de acreditar em algo t�o est�pido� quanto mandar um avi�o espi�o sobrevoar a Uni�o Sovi�tica imediatamente antes do encontro da c�pula de Paris. Um senador chegou a acusar Powers de ser um agente duplo, o que provocou uma resposta negativa pessoal de Eisenhower.</p><p>Durante todo esse tempo, o Departamento de Estado negociava com os sovi�ticos para tentar libertar Powers. Mas estava claro que os russos sabiam estar no controle do centro do tabuleiro. Recusaram-se a negociar e aceleraram os procedimentos para o julgamento de Powers por espionagem.</p><p>Malinovsky, ministro da Defesa sovi�tico, amea�ou que bases a�reas de �c�mplices� dos Estados Unidos usadas em miss�es de sobrevoo do U-2 podiam facilmente ser �destru�das�. O secret�rio de Defesa Gates, em uma declara��o com palavras cuidadosamente escolhidas, destacou que os Estados Unidos �defenderiam seus aliados em caso de ataque�.</p><p>Finalmente, piscando diante das luzes das c�meras de TV e de cinejornais, Eisenhower fez um pronunciamento.</p><p>� Com um peso no cora��o � disse ele �, tenho de anunciar que os Estados Unidos est�o se retirando das conversa��es de paz entre as quatro pot�ncias em Paris. Nas atuais circunst�ncias, as perspectivas de paz parecem remotas.</p><p>Enquanto ele falava, o Comando A�reo Estrat�gico elevou sua prontid�o para o n�vel DEFCON 3.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Noite de ter�a-feira, 10 de maio. Ou talvez nas primeiras horas da manh� de quarta. Frank encarava fixamente o tabuleiro de xadrez. Uma espiral de fuma�a subia do cigarro entre seus dedos enquanto contemplava a posi��o final da partida n�mero 90: Romanovsky vs. Botvinnik em 1945. Frank simpatizou com Romanovsky, que cometeu um erro grosseiro no d�cimo movimento, mas conseguiu consert�-lo. Por�m, ficou confuso com surpresa ap�s surpresa do grande mestre Botvinnik. Se ele tivesse conseguido se manter no jogo... mas n�o havia conseguido. Romanovsky perdeu a concentra��o e o jogo, e Botvinnik acabou por se tornar campe�o russo e, tr�s anos mais tarde, campe�o mundial.</p><p>O rangido da porta do escrit�rio assustou Frank e o tirou de seu devaneio. Era Sophia, iluminada pela luz da lumin�ria decorada com avi�es.</p><p>� Venha para a cama, <emphasis>serduszko</emphasis> � disse ela. � � tarde.</p><p>Frank deu um suspiro, apagou o cigarro e come�ou a guardar as pe�as de xadrez em sua caixa.</p><p>� Desculpe, <emphasis>kochanie</emphasis>. N�o consigo parar de me preocupar com aquele piloto do U-2. � Apesar de ter sido afastado do projeto U-2, Frank n�o conseguia tirar Powers da cabe�a. Onde os sovi�ticos o estavam mantendo? O que haviam descoberto por meio dele? Eles iam mesmo execut�-lo por espionagem? O homem desaparecido da KGB, Geada, incomodava Frank como um dente arrancado. Ele n�o tinha fatos novos sobre o homem, mas sua intui��o insistia que Geada e Powers estavam ligados de alguma forma.</p><p>� Talvez voc� devesse tomar um relaxante muscular.</p><p>Frank balan�ou a cabe�a.</p><p>� Coitado do rapaz, ele � s� um pouco mais velho do que nosso filho.</p><p>� N�o h� nada que voc� possa fazer para ajudar.</p><p>� Bem � Frank estava com o �ltimo pe�o branco na m�o �, tenho pensado sobre isso...</p><p>� Frank! � O choque em sua voz fez a cabe�a dele girar. O rosto dela estava r�gido de medo e raiva. � Com certeza voc� n�o pode estar pensando em se entregar ao CRISE-A!</p><p>� Eu tenho uma habilidade �nica, <emphasis>kochanie</emphasis>. Talvez agora seja a hora de us�-la. Pelo bem do pa�s. � Ele estendeu os bra�os para confort�-la.</p><p>� Loucura! � Ela evitou o abra�o e caminhou at� o outro lado da sala, os bra�os cruzados apertados contra o peito. � Voc� n�o � o Garoto Dourado, Frank, voc� � um av�! Um burocrata de meia-idade que est� ficando careca! Voc� n�o gosta nem de tempero na comida! � Ela se virou e ele viu l�grimas escorrendo por seu rosto. � E pense nas crian�as! O que as pessoas v�o achar se souberem que o pai delas �... um <emphasis>deles</emphasis>?</p><p>Frank baixou os olhos para o �ltimo pe�o, ainda em sua m�o, e para o compartimento forrado de veludo com sua forma. Cada pe�a tinha um lugar pr�prio, e um pe�o n�o cabia no espa�o projetado para uma rainha. Ele deu um suspiro.</p><p>� Voc� tem raz�o, � claro.</p><p>Os chinelos de Sophia deslizaram pelo ch�o e ela o abra�ou por tr�s e pressionou seu calor suave contra as costas dele. Ele p�s o pe�o sobre a mesa e se virou para tom�-la nos bra�os. Ficaram parados assim por um tempo, balan�ando lentamente de um lado para outro enquanto se abra�avam.</p><p>� Agora venha para a cama � disse finalmente Sophia.</p><p>Frank apagou a luz, deixando no escuro o pe�o em p� ao lado do tabuleiro de xadrez.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Sexta-feira, 13 de maio. Frank estava sentado sozinho em seu escrit�rio. No canto de sua mesa, jazia frio um gorduroso cachorro-quente de rua pela metade. Havia duas semanas que n�o almo�ava direito. Em vez disso, passava cada momento livre no problema de Powers.</p><p>Nos �ltimos dias, a situa��o internacional j� tensa tinha piorado bastante, com bombardeiros sovi�ticos entrando no espa�o a�reo do Alasca e do Canad� e aumentando a intensidade das atividades em bases de lan�amento de m�sseis de m�dia dist�ncia, amea�ando a Turquia e o Paquist�o. Mas Frank estava com a aten��o concentrada no desaparecido e misterioso Geada. Ele n�o era mais o �nico agente da KGB desaparecido; outros tamb�m haviam sa�do de cena. Ao relacionar essa informa��o com as �ltimas intercepta��es de transmiss�es sobre or�amentos de transporte e seguran�a, Frank tinha deduzido o local do epicentro dessa atividade misteriosa: Vladimirsky Central, uma pris�o de seguran�a m�xima na cidade russa de Vladimir.</p><p>Powers devia estar l�.</p><p>Frank estava quase pronto para apresentar essa descoberta aos superiores; s� precisava de mais alguns fatos para sustentar sua intui��o. Dulles n�o ia gostar de saber que ele ainda estava envolvido no caso Powers, mas se Frank pudesse produzir um relat�rio bem s�lido, n�o teria alternativa que n�o a de aceitar suas conclus�es. Se tomaria alguma provid�ncia a partir dessas conclus�es era outra quest�o, mas isso estava al�m do controle de Frank.</p><p>Ele remexeu nas folhas de papel finas, rosa, pardas e amarelas marcadas com carimbos de CONFIDENCIAL e ALTAMENTE CONFIDENCIAL � procura de provas definitivas. Aquela era a intelig�ncia mais recente... Frank tinha perturbado os agentes de controle de documentos de tal modo que eles lhe davam tudo o que pudessem s� para se livrar dele. Era poss�vel que ele fosse o primeiro a ver aquela informa��o.</p><p>Ent�o, quando leu o relat�rio de um agente no sonolento sub�rbio moscovita de Noginsk dizendo que Roman Andreyevich Rudenko, promotor-geral da Uni�o Sovi�tica, tinha sido visto com os generais Borisoglebsky, Vorobyev e Zakharov em um vag�o privativo de um trem que seguia para o Leste, sua boca ficou seca.</p><p>Rudenko era o equivalente sovi�tico do procurador-geral dos EUA. Borisoglebsky, Vorobyev e Zakharov formavam a divis�o militar da Suprema Corte da Uni�o Sovi�tica. E Noginsk ficava no caminho de Vladimir.</p><p>Julgamentos de espionagem na Uni�o Sovi�tica eram realizados em segredo. Se aqueles quatro estivessem em Vladimir, podiam estar julgando Powers naquele exato momento. E Frank talvez fosse a �nica pessoa que soubesse disso.</p><p>Mas o agente em Noginsk fizera poucos relat�rios; Frank n�o tinha como determinar quanto cr�dito aquele merecia. Precisava de mais informa��o para ter certeza. Folheando as pilhas e pilhas de papel, examinando e descartando cada folha o mais r�pido poss�vel, logo formou um monte de folhas soltas no ch�o a seus p�s.</p><p>Ent�o alguma coisa que havia acabado de ler despertou algo em seu c�rebro, justo quando seus dedos largaram a folha. Ele remexeu no monte de papel para encontr�-la de novo, amassando e rasgando outros pap�is em sua pressa, ent�o a ergueu sob a luz. Era um telegrama interceptado da Central de Pris�es para o comandante da orquestra e coral do Ex�rcito Vermelho.</p><p>�INFELIZMENTE DEVE CANCELAR SUA APRESENTA��O 17 DE MAIO 1960 NA PRIS�O DE VLADIMIR�, dizia em letras cir�licas mai�sculas. �P�TIO DE EXERC�CIOS N�O DISPON�VEL NESSE DIA.�</p><p>Pris�o de Vladimir. Suprema Corte. Promotor-geral. Julgamento secreto. P�tio de exerc�cios.</p><p>Execu��o por pelot�o de fuzilamento.</p><p>Era um t�nue fiapo de prova, sem d�vida. Mas Frank havia ignorado suas intui��es antes e o resultado fora apenas inf�mia e vergonha. Sua especialidade profissional, durante toda a vida, tinha sido produzir estimativas a partir de fatos aparentemente sem conex�o, e ele raramente teve tanta certeza sobre uma conclus�o.</p><p>A data indicada era dali a quatro dias. Tr�s dias, considerando a diferen�a de fuso hor�rio entre Washington e Moscou. Para ter alguma chance de salvar Powers, seus superiores deveriam ser informados <emphasis>imediatamente</emphasis>.</p><p>Frank juntou os documentos de que precisava para confirmar suas conclus�es e saiu apressado pela porta. N�o parou nem para pegar o chap�u.</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Robert estava em um avi�o rumo a Genebra para uma reuni�o da OTAN, por isso Frank engoliu em seco e foi falar com Dulles.</p><p>� O diretor est� em uma reuni�o na Casa Branca � disse a secret�ria. � Ele s� volta amanh�.</p><p>Mas o caminho de Frank foi interrompido pelo guarda na mesa da seguran�a da Ala Oeste.</p><p>� Sinto muito, senhor, o diretor Dulles est� em reuni�o com o presidente. Por favor, aguarde aqui.</p><p>� Por quanto tempo? � Frank agarrava a pasta cheia de documentos como se fosse o volante de seu destino.</p><p>� N�o tenho como dizer, senhor.</p><p>Frank se sentou na cadeira indicada, mas s� por um instante. Ele se levantou e come�ou a andar de um lado para outro.</p><p>Ele olhou para o rel�gio na parede: 16h15, 23h15 no hor�rio de Moscou. Em 45 minutos seria s�bado l�. Se Frank estivesse certo, a execu��o de Powers estava marcada para ter�a-feira, provavelmente ao amanhecer. Faltavam mais ou menos oitenta horas.</p><p>Se ele pudesse apenas voltar o rel�gio...</p><p>Frank parou de repente.</p><p>� Sinto muito � disse ao guarda. � N�o posso esperar. Tenho de encontrar outro modo.</p><p>Frank saiu e virou no corredor. Havia outro seguran�a ali, mas ele estava olhando para fora e Frank estava atr�s dele.</p><p>Aquilo era loucura. Se Frank fizesse mesmo o que estava pensando em fazer, sua vida mudaria para sempre. Talvez nunca mais visse a mulher e os filhos. E Powers era apenas um homem, um homem que sabia mesmo ao embarcar no U-2 que podia nunca voltar de sua miss�o.</p><p>Mas Frank tinha feito o juramento de defender os Estados Unidos de todos os inimigos, dentro e fora do pa�s. Powers n�o era apenas um homem... sua vida simbolizava muito mais e resgat�-lo poderia evitar um confronto muito maior. A mulher de Frank talvez n�o entendesse. Mas o que ele fazia pelo pa�s, fazia por ela e pelos filhos.</p><p>Ele agarrou a pasta e se concentrou.</p><p>Um farfalhar parecido com o ru�do de um vento forte abafou o tique-taque do rel�gio e outros sons. Do lado de fora da janela, uma bandeira que tremulava congelou.</p><p>Frank abriu caminho pelo ar espesso, parecendo geleia, e passou pelo seguran�a da Ala Oeste, que estava sentado � mesa sem piscar. A porta atr�s dele pareceu pesada como chumbo, mas depois dela havia um corredor longo e estreito que estava vazio, n�o fosse por dois fuzileiros armados em r�gida posi��o de sentido ao lado da terceira porta � esquerda.</p><p>Por tr�s daquela porta, como Frank imaginou, havia uma sala de reuni�es pequena e escura onde tr�s homens im�veis estavam sentados em torno de uma mesa, olhando fixamente e com express�o fechada para uma tela de proje��o no alto. Com a luz do projetor, Frank reconheceu Dulles e Eisenhower; o terceiro parecia vagamente familiar, apesar de Frank n�o saber seu nome.</p><p>Frank olhou diretamente para o presidente, que estava sentado congelado com o ret�ngulo reluzente da tela refletido em seus �culos. Em um instante, Frank se revelaria para ele, e sua vida civil estaria acabada.</p><p>Ou ele podia recuar e ir embora agora mesmo, e ningu�m jamais saberia.</p><p>Ningu�m al�m do pr�prio Frank.</p><p>Frank inspirou profundamente em um f�lego, e o ronco em seu ouvido foi substitu�do pelo som mais suave da ventoinha do projetor. No instante seguinte, outro inalar s�bito e ofegante, este de Dulles, quando percebeu o surgimento repentino de Frank.</p><p>� Que diabos! � Imediatamente ele pulou para cobrir com a m�o a lente do projetor.</p><p>Aquele gesto inesperado chamou a aten��o de Frank para a tela. Antes que Dulles conseguisse bloquear a luz, ele identificou as palavras AQUATONE e CAPTURADO e RAMPART e PILOTO.</p><p>AQUATONE era o cript�nimo para o U-2, Frank sabia. E �RA� era o d�grafo para cript�nimos relacionados ao v�rus carta selvagem. Se RAMPART fosse o codinome do piloto do U-2 capturado, isso significava...</p><p>� Temos um problema � disse o terceiro homem enquanto acendia as luzes da sala. � Esse homem sabe quem � e o que � RAMPART.</p><p>De repente, Frank lembrou quem era o terceiro homem. Lawrence Hague, o corretor de a��es que tinha sido a primeira pessoa recrutada pelo CRISE-A. Um telepata. Ele era cinco anos mais velho do que os trechos de cinejornais que Frank vira dele diziam, mas aqueles olhos penetrantes e a testa alta eram inconfund�veis. Foi uma coisa boa Frank ter entrado naquela sala com a inten��o de se revelar.</p><p>� Sim, acabei de deduzir a partir de informa��es do slide projetado que Francis Gary Powers � um �s � disse ele. Para sua pr�pria surpresa, sua voz estava tranquila. � Vim aqui dizer a voc�s que ele j� foi julgado e condenado � morte.</p><p>A express�o de Eisenhower estava muito s�ria.</p><p>� Como conseguiu entrar aqui?</p><p>� Tamb�m sou um �s. � Pronto, ele tinha falado. Agora n�o havia retorno.</p><p>� Um �s atrapalhado, talvez... � reclamou Dulles.</p><p>Eisenhower se levantou, interrompendo Dulles.</p><p>� O que voc� disse sobre Powers ter sido condenado?</p><p>Frank imediatamente exp�s a informa��o da intelig�ncia e sua interpreta��o.</p><p>Dulles estava extremamente c�tico.</p><p>� Esse homem n�o conseguiria encontrar o pr�prio rabo nem com um mapa e uma lanterna � torceu o nariz.</p><p>� Sei que esta an�lise tem muitas conex�es problem�ticas � retrucou Frank. � Mas meu erro, antes, foi n�o seguir minha intui��o. � Ele se virou e falou diretamente para Eisenhower. � Senhor presidente, eu nasci na R�ssia antes da Revolu��o. Observo esses bolcheviques desde seus primeiros dias. Sei como funcionam, sei como pensam e dediquei minha vida a estudar sua pol�tica e seu governo. O senhor tem de acreditar que eu <emphasis>sei</emphasis> que Powers ou j� foi condenado por espionagem ou ser� em breve, e vai ser executado por um pelot�o de fuzilamento no p�tio de exerc�cios da Pris�o Central Vladimirsky na ter�a-feira, dia 17 de maio.</p><p>� � esse o seu poder de �s? � perguntou Eisenhower. � Algum tipo de... superdedu��o?</p><p>� N�o, sr. presidente. An�lise � minha <emphasis>profiss�o</emphasis>. Meu <emphasis>poder</emphasis> � fazer o tempo parar. Tudo para, menos eu; de seu ponto de vista, pare�o me mover instantaneamente. � Ele tinha ensaiado esse discurso em sua mente mil vezes. � Se o senhor permite que eu fa�a uma demonstra��o...</p><p>Dulles revirou os olhos, mas Eisenhower olhou para Hague, que assentiu com a cabe�a.</p><p>Frank concentrou sua mente. O mundo come�ou a rugir, e os tr�s homens congelaram onde estavam. Abrindo caminho pelo ar pesado e resistente, foi at� cada um deles e removeu as carteiras do bolso interno de seus palet�s. Ele foi at� o canto mais distante da sala antes de liberar o tempo para retomar seu curso normal.</p><p>� Aqui � disse ele. Todos os tr�s homens levaram um susto e giraram para olhar para ele, ent�o tatearam os bolsos e foram ficando cada vez mais agitados. Ele ergueu as carteiras. Hague fez com a cabe�a uma leve rever�ncia para ele em sinal de aprova��o.</p><p>Aquele era o momento pelo qual ele esperava havia cinco anos. Queria saborear seu triunfo... mas apenas se sentia cansado, exausto at� os ossos, dez anos mais velho. Tudo o que conseguia fazer era permanecer de p�.</p><p>� Senhor presidente � disse com voz rouca �, eu j� vi o quanto Powers significa para o senhor. Por favor, acredite em mim... no que eu sei, no que descobrimos, no que posso fazer. Deixe-me ajud�-lo de todas as maneiras que eu puder.</p><p>Dulles foi o primeiro a se recuperar.</p><p>� Senhor, isto � um ultraje � bradou para Eisenhower.</p><p>Mas o presidente ignorou Dulles e, em vez disso, se virou para Hague.</p><p>� Este homem est� dizendo a verdade?</p><p>� Pelo que ele compreende, sim.</p><p>� Alguma mancha em sua folha? � Esta foi dirigida a Dulles.</p><p>� Ele n�o conseguiu descobrir que os sovi�ticos estavam com Powers.</p><p>� Ele n�o foi o �nico. Mais alguma coisa?</p><p>Dulles olhou com raiva para Frank antes de responder.</p><p>� N�o que seja de meu conhecimento.</p><p>Eisenhower olhou por longo tempo nos olhos de Frank, pensando, e apesar de sua pr�pria exaust�o, Frank percebeu que aquele homem realmente carregava o peso do mundo nos ombros, e fazia isso havia quase oito anos.</p><p>� Certo � disse ele por fim. � Senhor... Mazursky, � isso?</p><p>� Majewski, senhor.</p><p>Eisenhower se aprumou.</p><p>� Sr. Majewski, pelos poderes conferidos pela Lei de Controle de Poderes Ex�ticos e pelo Recrutamento Especial, eu o ponho sob o comando do Comit� de Recursos Internos do Senado para Empenho dos Ases, a partir deste momento. O senhor conhece seus direitos e responsabilidades sob essa lei?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� O Sr. Hague aqui � o diretor do CRISE-A e, a partir de agora, voc� est� subordinado a ele. Larry, por favor, inscreva o Sr. Majewski no RAMPART.</p><p>Hague puxou uma folha de papel de sua maleta e pediu a Frank que soletrasse seu nome e desse sua data de nascimento e n�mero do Seguro Social. A folha tinha a logomarca do CRISE-A no cabe�alho e se parecia com o formul�rio de libera��o da seguran�a da CIA, exceto que a descri��o do compartimento era apenas algumas breves palavras escritas � m�o � �Francis Gary Powers, habilidades e hist�ria�, a tinta ainda �mida �, e a declara��o sobre divulga��o n�o autorizada inclu�a as palavras �qualquer tipo de divulga��o constitui trai��o� e seu autor est� �sujeito a execu��o imediata, sem julgamento�. Frank engoliu em seco e assinou o formul�rio, que depois tamb�m foi assinado por Hague, Dulles e o pr�prio Eisenhower.</p><p>Hague ent�o explicou que Gary Powers, c�digo de identifica��o �Olho de �guia�, era na verdade um �s, e o maior recurso de vigil�ncia dos Estados Unidos.</p><p>� O poder de �s dele � uma incr�vel vis�o a dist�ncia � disse Hague. � Melhor que nossas melhores c�meras telesc�picas. E ele teve anos de treinamento para entender o que v�. Powers � insubstitu�vel e <emphasis>precisa</emphasis> ser resgatado ileso.</p><p>Eisenhower agradeceu Hague por sua apresenta��o e tomou a palavra.</p><p>� Esta reuni�o foi convocada � disse ele � com o objetivo de considerar as alternativas para Olho de �guia e para o controle e a redu��o de dano diante de sua perda. Entretanto, agora que voc� est� aqui, acredito que temos uma chance de resgat�-lo. A combina��o �nica de seu conhecimento sobre a R�ssia, treinamento da CIA e poderes de �s parece ter sido enviada pelo c�u para esta situa��o. Se eu lembro bem, o russo � sua l�ngua nativa, n�o?</p><p>� <emphasis>Da</emphasis> � respondeu Frank. Seu cora��o batia mais forte � medida que compreendia o que Eisenhower estava prestes a sugerir.</p><p>Mas Dulles, que estava remoendo sua raiva em sil�ncio, naquele momento explodiu:</p><p>� Senhor presidente! O senhor n�o pode estar pensando em mandar este homem para a R�ssia! Ele n�o � um agente, � um analista! N�o tem treinamento em subterf�gios, evas�o, resist�ncia a interrogat�rios...</p><p>� Allen � disse Eisenhower �, cale a boca. � Um tom indefin�vel de comando em sua voz congelou e imobilizou Dulles. � Olho de �guia � t�o cr�tico para a seguran�a desta na��o que, por seu resgate, estou pronto para arriscar a vida de nosso novo recurso. � Um frio penetrou no fundo das entranhas de Frank quando percebeu que o presidente estava se referindo a ele. � E para qualquer dano colateral resultante. De qualquer modo, o Sr. Majewski n�o est� mais sob seu comando. � Ele afastou os olhos de Dulles no que Frank interpretou como um gesto intencional de desprezo.</p><p>� Sr. Majewski � prosseguiu Eisenhower, agora concentrando a aten��o em Frank �, sinto muito por colocar tamanho fardo sobre o senhor e por exp�-lo a uma situa��o t�o perigosa, mas, como tenho certeza de que sabe, seu pa�s precisa do senhor e de suas habilidades �nicas. O Sr. Hague vai lhe dar o m�ximo poss�vel em termos de treinamento e assist�ncia antes de sua partida para a miss�o.</p><p>Frank abriu a boca, mas nada saiu. Ap�s algumas tentativas, ele simplesmente assentiu com a cabe�a.</p><p>O pe�o que chega � �ltima casa, disse a si mesmo, se torna uma rainha.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Hague o levou at� um pr�dio de escrit�rios na F Street, supostamente um escrit�rio de advocacia e administra��o de im�veis, mas que na verdade era a sede do CRISE-A. L� ele foi submetido a uma bateria de exames m�dicos, aplicados com educa��o mas tamb�m firmeza e efici�ncia por uma equipe que inclu�a o Dr. Thatcher, um homem careca de um metro e meio, barrigudo, de pele branca, olhos apertados e amarelados e presas, que extraiu uma seringa do sangue de Frank e come�ou a <emphasis>prov�-lo</emphasis> antes de fazer longas anota��es em taquigrafia. Era a primeira vez que Frank ficava no mesmo aposento que um curinga, mas ele tentou permanecer calmo.</p><p>Imediatamente em seguida, Frank foi submetido a uma s�rie de exerc�cios com o objetivo de estabelecer os limites de seus poderes de �s. Segurou um cron�metro (qualquer coisa que tocasse sua pele era levada com ele para fora do tempo) e manteve o tempo parado pelo m�ximo que p�de, o que revelou um total de 11 minutos, apesar de parecer muito mais. Com o tempo parado, ele correu e levantou pesos de at� 15 quilos. E fez algo que nunca sequer cogitara antes: levou outro ser humano com ele para fora do tempo, um volunt�rio que caminhava lentamente enquanto era levado por Frank pela m�o. O volunt�rio disse que a experi�ncia tinha sido estranha e assustadora, um turbilh�o semiconsciente e delirante, sem qualquer controle. Era como acordar de um sonho em que estivesse dirigindo em alta velocidade. Depois que acabou, n�o pareceram restar quaisquer efeitos nocivos. Quando juntou-se um segundo volunt�rio, Frank achou dif�cil demais dar at� mesmo um passo.</p><p>Depois de todos esses testes, ele repetiu o exame m�dico. Ningu�m lhe disse nada sobre o que haviam descoberto, se � que haviam descoberto alguma coisa. Ent�o ele teve permiss�o de telefonar para a mulher, apesar de o fazer sob observa��o severa, e apenas para lhe dizer que estava em miss�o especial e n�o poderia voltar para casa por pelo menos alguns dias.</p><p>A essa altura j� eram quase duas da madrugada. Os escrit�rios do CRISE-A tinham pequenos dormit�rios, sem janelas e muito simples, mas, fora isso, bem confort�veis; a porta tamb�m n�o trancava, nem por dentro nem por fora. Frank tirou a gravata e os sapatos e se esticou na cama para descansar um pouco, certo de que sua mente estava cheia demais de perguntas e experi�ncias novas para dormir.</p><p>Quando deu por si, estava sendo acordado por um secret�rio educado que lhe disse serem seis horas. Ele tamb�m deu a Frank uma mala grande e surrada com as iniciais cir�licas Ya.G. Ela continha v�rias mudas de roupa (pesadas, mal cortadas e mal-acabadas, com etiquetas em russo), sapatos, len�os e outros itens, e o que pareceu aos olhos de Frank um passaporte russo aut�ntico com sua pr�pria fotografia e o nome de Jacek Grabowski.</p><p>Enquanto se barbeava com uma l�mina sem fio e cheia de dentes e um sab�o grosseiro feitos na R�ssia, Frank pensou que era uma coisa boa o fato de n�o estar acostumado ao creme de barbear suave e lubrificado em aerossol que seu barbeiro insistia para que experimentasse.</p><p>No momento em que saiu do banheiro, foi levado �s pressas para uma reuni�o com Hague e v�rios outros homens muito s�rios, que lhe apresentaram uma pasta grossa, cheia de pap�is: um plano detalhado para o resgate de Powers. Para que tudo funcionasse a tempo, ele teria de partir para a base a�rea de Andrews em uma hora. Ele tinha alguma pergunta?</p><p>Frank leu o plano sobre uma x�cara de caf� horr�vel e um <emphasis>donut</emphasis> velho, plano que parecia levar em conta tudo o que ele e o CRISE-A haviam descoberto sobre suas habilidades no dia anterior... ao for��-la at� seus limites absolutos. Funcionaria, pensou, desde que nada inesperado acontecesse e Frank mantivesse o mesmo n�vel de desempenho.</p><p>Mas havia uma parte do plano que Frank n�o conseguia aprovar. Ele seria acompanhado por um agente de campo experiente para ajud�-lo a entrar e sair do pa�s, mas o plano exigia que o agente acompanhasse Frank at� o interior da pris�o e depois, enquanto Frank resgatasse Powers usando seu talento de carta selvagem, ele que desse seu jeito de sair de l� por conta pr�pria.</p><p>� Vou para a R�ssia tirar um homem de uma pris�o � prova de fuga � disse Frank, botando o indicador com for�a sobre o mapa. � N�o vou deixar outro homem para tr�s em seu lugar.</p><p>As m�os de Hague se entrela�aram sobre a mesa.</p><p>� Esse � o trabalho dele, Frank. E o seu � seguir minhas ordens.</p><p>Frank encarou o olhar duro de Hague.</p><p>� N�o vou fazer isso.</p><p>Eles se encararam por um longo momento, enquanto escorria suor pelo corpo de Frank por baixo do pesado palet� sovi�tico. Mas foi Hague quem piscou primeiro.</p><p>� Est� bem � disse e se virou para um dos outros planejadores do CRISE-A. � Vamos usar o plano alternativo no qual Frank entra e sai da pris�o sozinho.</p><p>Frank ficou at�nito por Hague ter aceitado t�o f�cil e rapidamente.</p><p>� N�o fique t�o surpreso � disse Hague, apesar de Frank n�o ter falado. � Eu posso ver exatamente o que voc� pode aceitar. � Ele ficou de p� e estendeu a m�o. �Acho que voc� � um bobo sentimental, mas eu lhe desejo boa sorte e boa viagem. � Os planejadores tamb�m se levantaram.</p><p>Os joelhos de Frank tremiam tanto que ele tinha dificuldade para se manter de p�, mas conseguiu.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>O avi�o no qual Frank embarcou na base a�rea de Andrews era um grande H�rcules C-130, e ele era o �nico passageiro.</p><p>� Tudo isso para mim? � perguntou ao piloto, um militar da Marinha magro e curtido com olhos azuis, cuja etiqueta de identifica��o dizia A. DEARBORN.</p><p>� Eu voo para onde me mandam. � Deu de ombros.</p><p>A decolagem foi dura, com o compartimento de carga vazio chacoalhando e os quatro motores roncando como tornados, mas o voo logo se estabilizou na rotina.</p><p>� S�o quinze horas at� Helsinque � disse Dearborn. � Incluindo uma escala para reabastecer em Keflavik.</p><p>Frank dormiu um pouco, mas, apesar da exaust�o, dos protetores de ouvido e do terno de l� sovi�tico, o barulho e o frio o acordaram ap�s algumas horas. Ele releu o plano de resgate at� ter certeza de que havia memorizado todos os detalhes. Fez um levantamento do conte�do de sua mala e contou cada bot�o em cada camisa. Quando Dearborn passou os controles para o copiloto para descansar e foi at� l� atr�s oferecer um sandu�che para Frank, este j� havia percorrido todo o caminho do terror ao t�dio, e depois at� o desespero.</p><p>� Imagino que n�o haja um tabuleiro de xadrez neste avi�o, h�?</p><p>� Voc� est� com sorte. � Dearborn puxou um de dentro de sua sacola, um pequeno jogo de viagem, cujas pequenas pe�as de madeira se encaixavam em furos no tabuleiro. � � sempre bom ter outro jogador nesses voos longos � disse Dearborn enquanto arrumava o tabuleiro. � Qual o seu n�vel?</p><p>� Eu... eu n�o sei. N�o costumo jogar contra outras pessoas.</p><p>� Ah, ent�o voc� joga por correspond�ncia? � Dearborn, jogando com as brancas, moveu o pe�o da dama.</p><p>� N�o, eu, ah, s�... estudo os jogos dos campe�es. Eu os jogo no tabuleiro e analiso. � Foi surpreendentemente doloroso confessar seu hobby. Ele sabia que o xadrez n�o era apenas um passatempo intelectual; tamb�m era um jogo, para ser jogado com outras pessoas como uma forma de intera��o social. Mas esse aspecto simplesmente n�o o interessava. � Na verdade, n�o jogo uma partida de xadrez de verdade h�... mais ou menos uns dez anos. � Ele moveu o pe�o da dama para enfrentar Dearborn.</p><p>� N�o h� momento melhor que o presente, ent�o. � Dearborn moveu o pe�o do bispo da dama na cl�ssica abertura de gambito da dama.</p><p>Nesse momento, Frank podia recusar o gambito da dama avan�ando seu pe�o do rei, mantendo o controle do centro, ou aceit�-lo e comer o pe�o que Dearborn acabara de mover e ganhar mais liberdade para agir mais tarde.</p><p>Ele se viu incapaz de decidir.</p><p>Esticou a m�o... ent�o recuou. Repetiu o gesto. Ele tremia com a d�vida.</p><p>Ap�s tantos anos de estudos e an�lises detalhados de algumas das maiores partidas de xadrez da hist�ria... contra um advers�rio humano ele n�o conseguia nem enfrentar uma abertura cl�ssica em um jogo sem compromisso e nenhuma import�ncia.</p><p>Dulles estava certo. Ele era um analista, n�o um agente de campo. O que em nome de Deus ele achava que estava fazendo ali?</p><p>� Ei � disse Dearborn. � Voc� est� bem?</p><p>� Estou bem � mentiu Frank e assoou o nariz para esconder as l�grimas. O len�o russo era grosseiro e �spero. Ele o dobrou, enfiou-o de volta no bolso, respirou fundo e capturou o pe�o de Dearborn.</p><p>Ele j� tinha aberto m�o de tanto controle sobre sua vida. Por que n�o abrir m�o do controle do centro? Isso podia ajud�-lo no final do jogo.</p><p>A partida prosseguiu. Dearborn era um jogador enfadonho e conservador, que n�o conseguia ver al�m de alguns poucos movimentos � frente, mas de algum modo sempre parecia estar no lugar certo para enfrentar os ataques de Frank.</p><p>� Acho que � pura sorte � disse ao capturar o cavalo de Frank.</p><p>� N�o h� sorte no xadrez. � Frank avan�ou o cavalo que restava. � Xeque.</p><p>� Talvez. Mas, de algum modo, sempre tenho sorte. Podia ser eu l�, agora, em vez de Francis Gary Powers. � Ele comeu o cavalo de Frank com seu bispo.</p><p>� �? � Frank empurrou a dama uma casa adiante para amea�ar aquele bispo.</p><p>� �. Fui sondado pelo programa U-2, passei por todos os exames e entrevistas, consegui as libera��es, tudo. Mas ent�o peguei caxumba, <emphasis>caxumba</emphasis>, acredita? E perdi o prazo para entrar no treinamento. Quando estava liberado para voltar a voar, n�o tinham mais vagas. � Ele moveu o bispo amea�ado at� a outra extremidade do tabuleiro, mas, assim que soltou a pe�a, se arrependeu.</p><p>� Ah... eu n�o queria bot�-lo <emphasis>a�</emphasis>. Maluquice. � Ele franziu o cenho, examinando o tabuleiro, e de repente exclamou: � Ei, xeque-mate!</p><p>Frank torceu para que n�o fosse um mau press�gio.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Frank foi recebido em Helsinque por um homem corpulento de rosto grande e sisudo que se apresentou em russo como Pyotr Andreievich Malinov. Ele levou a mala de Frank at� um elegante sed� Volvo cinza, e Frank achou que ele fosse apenas o motorista at� que a porta fechou e ele deu a Frank o c�digo de confirma��o. Ele era o oficial de campo de Frank, um agente confi�vel da CIA de longa data que havia trabalhado v�rias vezes com o CRISE-A.</p><p>� Qual seu codinome? � perguntou-lhe Frank. � Como devo cham�-lo?</p><p>� Voc� vai se dirigir a mim como Pyotr Andreievich Malinov. Se n�o souber meu nome verdadeiro, n�o corre risco de cometer um deslize e me chamar por ele. E voc�, pelo que me consta, � apenas Jacek Grabowski, primo um pouco simpl�rio de minha mulher que estou acompanhando at� Moscou para a exposi��o agr�cola como um favor para ela. Se surgirem perguntas estranhas, aja como se fosse burro. � Era evidente que ele n�o achava aquilo um grande desafio para Frank.</p><p>Um protesto come�ou a tomar forma por tr�s dos l�bios de Frank, ele era um analista da CIA, tinha diplomas de Economia e Pol�tica Internacional, mas se manteve em sil�ncio. Sua vida dependia desse homem, que conhecia seu trabalho. N�o fazia sentido antagoniz�-lo.</p><p>�Malinov� mal falou com Frank enquanto seguiam de carro at� a esta��o de trem de Helsinque e, assim que se instalaram em suas poltronas de segunda classe, ele puxou o chap�u sobre os olhos e dormiu. Frank estava desconfort�vel em seu casaco pesado e �mido. Aquele era o homem que devia proteg�-lo? Mas Frank estava morto de cansa�o e, apesar da poltrona desconfort�vel e das muitas preocupa��es, em pouco tempo seus olhos tamb�m come�aram a se fechar.</p><p>Antes de adormecer completamente, Frank ouviu Malinov lhe desejar boa-noite. Talvez o outro homem nem estivesse dormindo.</p><p>Frank acordou assustado com um cutuc�o forte nas costelas. Quatro guardas de fronteira russos com capacetes de a�o e metralhadoras penduradas nas costas, por cima de seus longos sobretudos verdes, abriam caminho e vinham percorrendo todo o vag�o do trem.</p><p>� Passaporte � sussurrou Malinov.</p><p>Mas o passaporte de Frank n�o estava no bolso do casaco. Rapidamente procurou nos outros bolsos do casaco, nos bolsos das cal�as, embaixo dele na poltrona.</p><p>� Me... me desculpe. � Sua pulsa��o martelava seus ouvidos.</p><p>� Encontre-o � murmurou baixinho Malinov.</p><p>Dois dos guardas se aproximaram.</p><p>� Passaportes � disse um deles bruscamente.</p><p>Malinov entregou seu passaporte.</p><p>� Mil desculpas, mas meu primo n�o est� encontrando o dele. � Bateu com o indicador na t�mpora em um gesto significativo e sorriu. � Ele � polon�s.</p><p>Frank jamais teria imaginado que outras emo��es pudessem penetrar em seu terror, mas descobriu que a raiva pela ofensa �tnica conseguiu se fazer sentir mesmo enquanto ele continuava a tatear os bolsos. Malinov e os guardas riram � custa de Frank, o que se transformou em gargalhada quando o documento de Frank surgiu no bolso de sua camisa.</p><p>O guarda abriu o passaporte fraudulento de Frank.</p><p>� Por favor, me confirme sua data de nascimento.</p><p>O cora��o de Frank quase parou. Ele n�o conseguia se lembrar da data de nascimento que constava no documento falso. Seria a dele mesmo? Se n�o fosse, qual seria? Segundos agonizantes se arrastaram... dessa vez, ele estava congelado, e o resto do mundo se movia.</p><p>� Polon�s � disse de novo Malinov e deu de ombros. Dessa vez, at� o homem na poltrona do outro lado do corredor se juntou aos risos. Ainda rindo, o guarda devolveu o passaporte a Frank e seguiu pelo corredor.</p><p>� Voc� n�o precisava me insultar desse jeito � disse Frank quando os guardas foram para o vag�o seguinte. O ritmo de seu cora��o tinha desacelerado para apenas duas vezes a velocidade normal.</p><p>� O riso reduz as desconfian�as � respondeu Malinov. � E isso livrou voc� de uma encrenca. � Ele deu de ombros. � O que mais queria que eu fizesse?</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Mais tarde ele se deu conta de que podia ter usado seu poder para procurar o passaporte, ou para examin�-lo enquanto o guarda o tinha nas m�os. Mas n�o pensou nisso quando poderia ter sido de alguma ajuda. Oito anos escondendo seus poderes, ou fingindo ser algu�m que n�o era diferente de ningu�m, n�o permitiram que, no momento-chave, ele se lembrasse do que podia fazer.</p><p>O que em nome de Deus ele achava estar fazendo ali?</p><p>Talvez, no fim das contas, Dulles tivesse raz�o.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Na ter�a-feira, 17 de maio, �s tr�s da manh�, hor�rio de Moscou, Frank estava parado tremendo sob a chuva diante do port�o da Pris�o Central de Vladimirsky e se sentindo muito pequeno.</p><p>Os muros da pris�o se erguiam altos; a chuva que respingava no rosto de Frank formava halos brilhantes ao redor dos holofotes instalados em intervalos ao longo do topo dos muros. Guardas armados com c�es patrulhavam o per�metro; o interior tinha in�meras portas operadas por controle remoto, projetadas para tornar imposs�vel uma fuga. Aquela era a pris�o mais segura da R�ssia.</p><p>Frank entraria ali andando e sairia andando depois com Powers.</p><p>Mesmo com a habilidade de carta selvagem de Frank, s� gra�as a um agente duplo dentro da pris�o o resgate seria poss�vel. O mapa detalhado fornecido pelo agente duplo indicava a Frank alguns lugares para descansar, fora de vista, quando seu poder estivesse diminu�do; a lista de hor�rios precisos a cumprir que tinha agarrada na m�o, enfiada fundo no bolso do casaco, ia faz�-lo passar por aquelas portas trancadas.</p><p>O primeiro desses hor�rios era 3h05 da manh�, ainda faltavam cinco minutos. Frank conferiu o rel�gio, mas nem seus poderes podiam fazer aquele ponteiro dos minutos andar mais r�pido.</p><p>A chuva de Moscou tinha gosto de concreto e enxofre.</p><p>Finalmente as 3h05 chegaram. Frank respirou fundo e se concentrou.</p><p>O ronco do tempo imobilizado atacou seus ouvidos exaustos. Gotas de chuva se detiveram em meio � queda, cada uma delas se revelando como um disco achatado irregular, sem nada a ver com a forma de uma gota de chuva. Frank abriu caminho pelo ar pegajoso. As gotas suspensas batiam em seu rosto ou eram absorvidas pelo casaco.</p><p>Ele simplesmente entrou caminhando pelo port�o externo, uma cancela com faixas diagonais vigiada por dois guardas paralisados em seus sobretudos em meio � chuva im�vel. A porta da pris�o em si n�o estava trancada, nem as duas portas seguintes, e os guardas nelas n�o foram obst�culo. Mas abrir e fechar as portas exigia um esfor�o substancial. Mais pesadas e duras que as portas dom�sticas, cada uma delas parecia ter mais de 40 quilos para Frank. Ele estava literalmente trabalhando contra o tempo.</p><p>Agora vinha o primeiro dos obst�culos s�rios: um cub�culo de passagem com portas pesadas de a�o e vidro dos dois lados, cada uma trancada por uma fechadura com barra de seguran�a que s� podia ser aberta apertando um bot�o na cabine do guarda que ficava entre as portas. Mas o agente duplo tinha prometido destrancar as duas portas por um minuto, entre 3h05 e 3h06, que ningu�m iria notar.</p><p>Frank olhou instintivamente para o rel�gio ao se aproximar da primeira porta e sentiu um momento de p�nico: ele marcava 3h13. Mas claro que isso refletia seu tempo pessoal. O rel�gio na parede estava congelado em alguns segundos ap�s as 3h05. Ele p�s o peso contra a porta e, com pesada relut�ncia, ela se abriu. A segunda porta tamb�m estava destrancada, gra�as a Deus!, mas foi preciso mais do que um simples esfor�o para abri-la.</p><p>Depois de fechar a segunda porta, Frank se apoiou contra a parede de concreto pelo espa�o de algumas respira��es ofegantes. Mas fora do tempo n�o havia descanso. At� respirar era trabalhoso. Ele tinha de chegar ao primeiro local de esconderijo antes de ficar cansado demais para continuar.</p><p>As luzes frias no interior da zona de seguran�a agrediram os olhos de Frank enquanto ele se esgueirava pelo meio do ar denso e resistente a caminho da seguran�a de um arm�rio de produtos de limpeza e manuten��o. Quando chegou l�, sua vis�o estava come�ando a ficar turva, e tudo o que conseguiu fazer foi destravar o trinco e abrir a porta. Assim que ele a fechou, e mergulhou em uma bendita escurid�o, liberou seu poder. Tremendo, ele se deixou deslizar pela porta at� sentar no ch�o, ofegando o mais silenciosamente poss�vel. O arm�rio sujo e escuro era frio e cheirava a �gua sanit�ria, mas ainda era melhor do que o ronco e a imobilidade sobrenaturais do mundo fora do tempo.</p><p>O hor�rio seguinte do agente duplo era �s 3h15. Dez minutos de descanso n�o seriam o bastante. Dez minutos de espera impotente dentro de um arm�rio escuro, tremendo de medo cada vez que uma pessoa passava pisando firme e fazendo barulho do outro lado da porta, eram demais.</p><p>Ele imaginava a porta se abrindo de repente, enchendo o espa�o apertado e atulhado de luz e exclama��es de surpresa. Se isso acontecesse, ele podia congelar novamente o tempo e assim fugir, mas o plano seria afetado e podia provocar um alarme. E onde ele se esconderia antes do pr�ximo hor�rio poss�vel de sa�da?</p><p>Finalmente, finalmente, os ponteiros fluorescentes marcaram 3h15. Muito feliz por deixar aquele arm�rio fedorento, e com muito medo de enfrentar o ronco do tempo congelado, ele se concentrou e conjurou seu poder.</p><p>Ele teve de usar toda a sua for�a para abrir a porta petrificada.</p><p>Nunca antes Frank passara tanto tempo fora do tempo. Cada passo era como escalar uma montanha; cada porta que abria e fechava era a rocha de S�sifo.</p><p>�REA DE SEGURAN�A M�XIMA, diziam as letras cir�licas pintadas com est�ncil na porta onde deveria estar no hor�rio marcado seguinte. Esta era uma porta de correr, operada eletricamente e, apesar de destrancada como prometera o agente duplo, nem toda a for�a que restava em Frank foi suficiente para abri-la. Ele encontrou um cassetete de a�o encostado em um canto e o usou como alavanca para abrir a porta o bastante para que pudesse se espremer e atravess�-la. Depois teve de guardar de volta o cassetete no lugar, com cuidado para coloc�-lo na mesma posi��o de que se lembrava. Droga, qual das extremidades estava para cima? Estava cada vez mais dif�cil pensar direito.</p><p>J� do outro lado, ele se virou... e imediatamente deu de cara com um rosto sombrio e carrancudo. Ele recuou em p�nico e bateu com a cabe�a na porta de metal �s suas costas antes que sua raz�o superasse a rea��o inicial. O homem grande e musculoso no uniforme de coronel do Ex�rcito sovi�tico, cuja etiqueta de identifica��o dizia POLYAKOV, estava congelado como tudo o mais na pris�o, petrificado no ato de se dirigir com raiva na dire��o da porta da qual Frank acabara de surgir. Frank se apoiou contra a porta por um instante, esfregando a cabe�a e se censurando pela burrice.</p><p>Espere. Polyakov? Aquele nome era familiar.</p><p>Era um dos nomes listados pela CIA como uma das poss�veis identidades do oficial da KGB chamado de Geada pela Ag�ncia. E agora ali estava ele, na pris�o central de Vladimirsky, na ala de seguran�a m�xima onde Powers estava preso. Frank estivera certo todo o tempo, e agora tinha at� o nome daquele homem.</p><p>Frank se permitiu um momento de triunfo e satisfa��o, estalando os dedos embaixo do nariz imobilizado do homem da KGB antes de se agachar, passar por ele e seguir pelo corredor. A cela de Powers, de n�mero 37, era a primeira � direita, com o nome POVRZ, �Powers� em cir�lico, escrito a giz acima da porta.</p><p>Agora n�o havia nada entre Frank e o sucesso.</p><p>Mas a porta n�o abria.</p><p>Frank tentou de novo, empurrando para baixo a tranca com toda a for�a. Ela n�o se moveu.</p><p>O agente duplo devia ter providenciado para que a porta ficasse destrancada entre 3h10 e 3h40. Todo o resto tinha corrido exatamente como planejado.</p><p>Frank tentou abrir a tranca mais uma vez. Nada.</p><p>Procurou ansiosamente por outro modo de abrir a porta. Mas ela era de a�o maci�o e pesado, o mecanismo e as engrenagens de sua tranca bem protegidos e refor�ados, e n�o havia nada naquele corredor de concreto vazio que pudesse usar contra ela. Chegar t�o perto e superar tanta coisa s� para ser vencido por uma simples fechadura!</p><p>N�o, espere. A chave. Polyakov, congelado no momento em que vinha da cela de Powers, devia ter a chave.</p><p>Frank caminhou com dificuldade atrav�s do ar que parecia ainda mais denso que antes. N�o demorou muito para localizar o volume duro das chaves no bolso da cal�a de Polyakov, mas a posi��o de sua perna e seu bra�o petrificados tornavam imposs�vel que Frank as pegasse. Ele podia mover o bra�o � for�a, pensou, ou cortar o bolso com seu canivete, mas as duas a��es assustariam Polyakov e o fariam disparar o alarme. E Frank tinha outro hor�rio marcado em dez minutos para passar de volta com Powers na sa�da.</p><p>Ele <emphasis>precisava</emphasis> pegar a chave com Polyakov, e de uma maneira que ele n�o percebesse.</p><p>Ele se moveu at� uma posi��o atr�s de Polyakov, assegurando-se de que nenhum outro olho congelado o visse onde estava. A porta de correr estava cerca de 20 cm aberta, mas os olhos de Polyakov estavam baixos... ele teria de arriscar.</p><p>Ele liberou o tempo para correr em seu ritmo normal.</p><p>� ... matar o idiota que a deixou destrancada... � murmurava Polyakov enquanto andava.</p><p>Parar o tempo assim t�o depressa de novo era como tentar parar o jato no meio de uma mijada demorada e forte, mas de algum modo Frank conseguiu. Ele inspirou o ar pegajoso e ent�o foi at� o lado de Polyakov.</p><p>O bolso agora estava acess�vel, gra�as a Deus! Ele pescou as chaves de l�, esperando que Polyakov, no meio de um passo, n�o percebesse a intrus�o, e se arrastou de volta at� a cela de Powers. A chave marcada com o n�mero 37 entrou na fechadura, apesar de o ato de destranc�-la e abri-la parecer a ele como se estivesse puxando um vag�o de trem morro acima.</p><p>Powers estava deitado de lado na cama. Estava com apar�ncia p�ssima, os olhos fundos e a boca numa express�o triste e desesperada, mas sem d�vida era ele.</p><p>O cora��o de Frank bateu forte e sua vis�o come�ou a borrar. O ronco em seus ouvidos aumentara e se transformara no barulho de uma locomotiva a toda velocidade. Ele precisava desesperadamente de descanso.</p><p>Mas, com as duas portas abertas e as chaves nas m�os, ele n�o podia arriscar. De algum modo, tinha de seguir em frente.</p><p>Frank ergueu Powers de p� � for�a. Isso provavelmente deixaria alguns hematomas, mas n�o havia alternativa. Caminhando de costas e conduzindo o piloto impass�vel pelas duas m�os, ele guiou Powers pela porta, passou pelo congelado Polyakov e pela porta de correr. Ent�o voltou para fechar e trancar a porta da cela, recolocar as chaves no bolso de Polyakov e fechar de volta a porta que encerrava aquele grupo de celas.</p><p>� Eu queria poder ver a sua cara � disse ofegante para Polyakov enquanto empurrava com todo o seu peso a tranca da porta � quando descobrir que Powers evaporou misteriosamente de uma cela trancada.</p><p>Ele devia levar Powers para o arm�rio da limpeza onde tinha descansado ao entrar, mas n�o tinha condi��es de chegar t�o longe. Ele j� estava come�ando a se apoiar em Powers mesmo enquanto o conduzia pelo corredor, a vis�o diminuindo e os passos cada vez mais vacilantes.</p><p>Ali havia um banheiro. Teria de servir.</p><p>Ele entrou conduzindo Powers, mal se lembrando de acertar seu rel�gio com o do corredor antes de fechar e trancar a porta �s suas costas.</p><p>T�o, t�o cansado...</p><p>N�o, ele n�o podia relaxar. Ainda n�o.</p><p>Deitou Powers no ch�o como se fosse uma marionete r�gida em tamanho natural. Apoiou-se com todo o peso sobre o peito do piloto e p�s uma m�o com firmeza sobre sua boca e nariz.</p><p>Ent�o liberou o tempo.</p><p>� Mmmrrrph! � Powers se remexeu e tentou se desvencilhar de Frank. De seu ponto de vista, tinha apenas sido levado de sua cela de repente e agora estava sendo agarrado e sufocado por um estranho. Mas mesmo enfraquecido por dezessete dias sob cust�dia sovi�tica, ele ainda era mais forte que Frank.</p><p>� Fique quieto! � sussurrou Frank no ouvido de Powers, em ingl�s. � Estou aqui para resgat�-lo!</p><p>Powers parou de lutar, apesar de todos os m�sculos estarem tr�mulos pela tens�o.</p><p>� Humf?</p><p>� Sou do CRISE-A � murmurou. � Lawrence Hague me enviou. Estou a par de AQUATONE e RAMPART. Ainda estamos dentro da pris�o e se formos descobertos aqui vamos morrer os dois. Est� entendendo?</p><p>Powers balan�ou lentamente a cabe�a, os olhos arregalados acima da m�o tr�mula de Frank.</p><p>Frank soltou Powers e se encostou na parede, deixando os olhos se fecharem de cansa�o. Ele se sentia com mil anos de idade.</p><p>� Voc� � um �s? � murmurou Powers. Ele tinha um sotaque arrastado de Virg�nia.</p><p>� Sou. Eu posso parar o tempo. Mas s� por alguns minutos...</p><p>� Mais �til do que ser o <emphasis>Sr. Vis�o</emphasis>. � A voz de Powers respingava amargura. Ent�o ele inspirou fundo e soltou o ar. � Humm... Qual o seu nome?</p><p>� Franciszek Majewski. �, na verdade, Francis em polon�s. Como voc�.</p><p>Powers revirou os olhos.</p><p>� Por favor, me chame de Gary. S� minha m�e e meu pai me chamam de Francis.</p><p>� Eu sou Frank.</p><p>Eles apertaram as m�os.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Na sexta-feira, 20 de maio, �s onze da manh�, Frank entrou no Sal�o Oval, e o presidente saiu de tr�s da mesa para cumpriment�-lo. Dulles e Hague, tamb�m presentes, ficaram parados de p� onde estavam. Apesar de honrado pelo gesto, Frank n�o p�de evitar perceber que Eisenhower n�o apertou sua m�o.</p><p>� Est� tudo bem, Sr. presidente � disse ele. � N�o sou contagioso.</p><p>Frank sabia que estava com um aspecto terr�vel. Apesar de ter dormido na maior parte da viagem de volta, incluindo na limusine durante a maior parte do caminho desde a base a�rea de Andrews, ele ainda se sentia fraco; tinha perdido muito do cabelo que lhe restava, dores estranhas nas juntas o incomodavam, e seu andar tinha se tornado o arrastar de p�s de um velho.</p><p>Ele esperava que alguns dias ou semanas de descanso trouxessem de volta sua vitalidade, mas temia que n�o. Usar seu poder sempre o havia envelhecido de modo n�o natural, muito mais do que os minutos ou horas que passava fora do tempo, e o esfor�o sem precedentes que fizera na miss�o de resgate de Powers com certeza tinha lhe custado muito. Ele podia ter perdido cinco anos naquela �nica noite infernal.</p><p>� Bem-vindo de volta aos Estados Unidos, Frank � disse Eisenhower, que o acompanhou at� uma das grandes poltronas perto da lareira. � Todos estamos orgulhosos do trabalho que voc� fez por seu pa�s. � Eisenhower deu uma olhada para Dulles e Hague. Hague sorriu e balan�ou de leve a cabe�a de satisfa��o. Dulles, com ar furioso, encarava a ponta de seus sapatos pretos.</p><p>Eisenhower limpou a garganta.</p><p>� Allen?</p><p>Dulles levou um bom tempo para olhar nos olhos de Frank.</p><p>� Voc� fez um bom trabalho � reconheceu por fim.</p><p>� Obrigado � disse Frank, aceitando uma x�cara de caf� servida pelo pr�prio presidente. � Houve alguma... rea��o � fuga de Powers? � Essa pergunta o havia atormentado durante toda a viagem de volta. Ser� que Kruschev, j� com raiva por causa da invas�o de seu territ�rio pelo avi�o espi�o, iria se sentir mais provocado com o desaparecimento misterioso de Powers de sua pris�o mais segura? Ser� que a miss�o de Frank tivera como resultado apenas atrasar um pouco o rel�gio do dia do ju�zo final?</p><p>Eisenhower balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eles admitiram ter perdido Powers, n�o podiam neg�-lo depois da entrevista dele em Helsinque. Mas, em p�blico, n�o disseram nada sobre <emphasis>como</emphasis> ele escapou, e mesmo em particular eles t�m andado menos hostis.</p><p>Hague se sentou na poltrona diante de Frank.</p><p>� Eles sabem que deve ter sido um �s quem ajudou Powers a escapar � disse ele. � Mas, politicamente, n�o podem admitir que nossos ases s�o melhores que os deles. Eles v�o ter que engolir o orgulho e ficar quietos.</p><p>Mas Dulles n�o estava t�o otimista.</p><p>� Eles tamb�m ficaram quietos em rela��o aos sobrevoos dos U-2 por cinco anos.</p><p>Eisenhower lan�ou um olhar para Dulles.</p><p>� Pare com esse seu pessimismo, Allen. Esta � uma ocasi�o de comemora��o. � Ele sacou do bolso uma folha de papel dobrada e a entregou a Frank. Era uma recomenda��o oficial, no papel timbrado do CRISE-A, assinada pelo presidente e selada com uma fita vermelha. � Isto vai para sua ficha, Frank. Eu adoraria fazer um desfile em carro aberto para voc�, mas... � Ele deu de ombros. � Voc� sabe como �. � Estendeu a m�o.</p><p>Ap�s um instante, Frank entendeu o que a m�o aberta significava e devolveu o papel. Claro que ele n�o podia guardar uma c�pia. Como um agente do CRISE-A, ele n�o existia mais.</p><p>Frank engoliu em seco.</p><p>� Sei que o senhor n�o pode reconhecer publicamente meu trabalho � disse ele. � Mas... � Sua voz come�ou a vacilar, e ele teve de parar para tentar recuperar a compostura. Eisenhower esperou pacientemente. � Tudo o que pe�o � recome�ou � � que voc�s digam � minha mulher que eu morri como um her�i a servi�o de meu pa�s. � Ele esperava que as instala��es secretas em Nevada tivessem pelo menos ar-condicionado.</p><p>Hague piscou.</p><p>� Voc� acha que vamos mand�-lo para a �rea 51? � Ele deu um sorriso for�ado e balan�ou a cabe�a, e Frank se lembrou de que Hague sabia o que Frank estava pensando. � N�o, Frank, isso � apenas um mito. � Ele e Dulles trocaram olhares. � Bem, quero dizer a parte de ases mantidos prisioneiros. Voc� n�o vai simplesmente desaparecer. Na verdade, voc� vai para casa assim que n�s o interrogarmos.</p><p>� Voc� vai continuar na CIA como cobertura � disse Dulles, apesar de ser evidente que ele n�o gostava da ideia. � E vai desempenhar miss�es para o CRISE-A apenas quando necess�rio. Voc� provavelmente vai passar tantas noites em casa quanto antes. Talvez mais.</p><p>� � como ser um espi�o em seu pr�prio pa�s � prosseguiu Hague. � E, no seu caso, j� sabemos que voc� consegue guardar um segredo.</p><p>�O pe�o que chega � �ltima casa se torna uma rainha�, pensou Frank. Mas mesmo uma rainha podia ser capturada... ou podia morrer de velhice em cinco anos. Tudo dependia de como se movesse a pe�a. Mas por enquanto ele podia voltar para casa, longe do tabuleiro e guardado em seguran�a no espa�o reservado a ele.</p><p>� Obrigado, senhor � disse ele.</p><p>� N�o, obrigado a <emphasis>voc�</emphasis> � disse Eisenhower, e de novo estendeu a m�o, dessa vez para apertar a de Frank.</p><p>� Bem-vindo ao CRISE-A, agente especial Stopwatch.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>O jogo da carapa�a</strong></p><p>George R. R. Martin</p><empty-line/><empty-line/><p>Quando se mudou para o alojamento em setembro, a primeira coisa que Thomas Tudbury fez foi pendurar a foto autografada do presidente Kennedy e a capa envelhecida da revista <emphasis>Time</emphasis> de 1944 com o Jetboy como Homem do Ano.</p><p>Em novembro, a foto de Kennedy estava toda furada pelos dardos de Rodney. Rod tinha decorado seu lado do quarto com uma bandeira confederada e uma d�zia de p�steres centrais da <emphasis>Playboy</emphasis>. Ele odiava judeus, negros, curingas e Kennedy, e tamb�m n�o gostava muito de Tom. Durante todo o semestre de outono, ele se divertiu; cobria a cama de Tom com espuma de barbear, escondia seus len��is, sumia com seus �culos e enchia a gaveta de sua mesa com coc� de cachorro.</p><p>No dia em que Kennedy foi morto em Dallas, Tom foi para o quarto lutando para segurar as l�grimas. Rod tinha lhe deixado um presente. Ele usara uma caneta vermelha. Agora, toda a parte de cima da cabe�a de Kennedy estava coberta de sangue e, sobre os olhos, Rod desenhara pequenos �X� vermelhos. Sua l�ngua sa�a pelo canto da boca.</p><p>Thomas Tudbury olhou fixamente para aquilo por um bom, bom tempo. N�o chorou. N�o ia se permitir chorar. Ele come�ou a fazer as malas.</p><p>O estacionamento dos calouros ficava a meio caminho do campus. A fechadura do porta-malas de seu Mercury 54 estava quebrada, por isso ele jogou as malas no banco traseiro. Deixou o carro esquentar por bastante tempo no frio de novembro. Ele devia estar engra�ado sentado ali; um cara baixinho e acima do peso, com corte de cabelo rente e �culos de arma��o de chifre com a cabe�a apoiada no alto do volante como se estivesse prestes a vomitar.</p><p>Enquanto sa�a do estacionamento, viu o Old Cutlass novo em folha de Rodney.</p><p>Tom botou o carro em ponto morto e ficou ali parado por um tempo, pensando. Olhou ao redor; n�o havia ningu�m � vista. Todos estavam em casa, vendo as not�cias. Passou nervosamente a l�ngua pelos l�bios e tornou a olhar para o Oldsmobile. Os n�s de seus dedos ficaram mais brancos, apertando o volante. Ele olhava dura e fixamente, ent�o fechou a cara e <emphasis>apertou com for�a</emphasis>.</p><p>Os pain�is da porta cederam primeiro, empurrados lentamente para dentro com a press�o. Os far�is explodiram com pequenos estampidos, um depois do outro. O friso cromado caiu ruidosamente no ch�o. O para-brisa traseiro se estilha�ou de repente e voaram cacos de vidro para todos os lados. Os para-choques entortaram e foram destru�dos, o metal gritando de dor. Os dois pneus traseiros estouraram ao mesmo tempo, os pain�is laterais foram empurrados para dentro, depois o cap�; o para-brisa se desintegrou completamente. A caixa do motor cedeu, em seguida as paredes do tanque de combust�vel, e �leo, gasolina e fluido da transmiss�o formaram uma po�a sob o ve�culo. A essa altura, Tom estava mais confiante e isso tornava tudo mais f�cil. Ele imaginava ter o Old preso em um punho gigante invis�vel, um punho <emphasis>forte</emphasis>, e apertava com toda a for�a. O barulho de vidro se quebrando e o grito do metal torturado encheram o estacionamento, mas n�o havia ningu�m para ouvir. Ele esmagou metodicamente o Oldsmobile at� virar uma bola de metal.</p><p>Quando acabou, engrenou a primeira e deixou a faculdade, Rodney e a inf�ncia para tr�s e para sempre.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Em algum lugar, um gigante chorava.</p><p>Tachyon despertou desorientado e enjoado, sua ressaca latejando ao ritmo dos gemidos mastod�nticos. As formas no quarto escuro eram estranhas e desconhecidas. Ser� que os assassinos tinham vindo outra vez naquela noite, ser� que a fam�lia estava sendo atacada? Ele precisava achar seu pai. Zonzo, levantou-se e ficou de p�. A cabe�a girava, e ele apoiou a m�o na parede para se equilibrar.</p><p>A parede era perto demais. Aquele n�o era seu quarto, estava tudo errado, o cheiro... e ent�o as mem�rias voltaram. Ele teria preferido os assassinos.</p><p>Ele se deu conta de que tinha sonhado com Takis outra vez. A cabe�a do�a, a garganta estava �spera e seca. Tateando pela escurid�o, encontrou a correntinha do interruptor da luz do teto. A l�mpada balan�ou muito quando ele deu um pux�o, fazendo as sombras dan�arem. Ele fechou os olhos para deter o mal-estar em seu est�mago. Sentia o gosto ruim no fundo da boca. Seu cabelo estava emaranhado e imundo; as roupas, amarfanhadas. E pior de tudo: a garrafa estava vazia. Tachyon olhou ao redor, impotente. Um quarto de seis metros quadrados no segundo andar de uma pens�o chamada QUARTOS, em uma rua chamada Bowery. Para confundir, a vizinhan�a ao redor antigamente tamb�m era conhecida por Bowery, Angelical lhe contou. Mas isso tinha sido antes. A �rea agora tinha um nome diferente. Ele foi at� a janela e abriu as persianas. A luz amarela da ilumina��o p�blica encheu o quarto. Do outro lado da rua, o gigante tentava agarrar a Lua e chorava porque n�o conseguia alcan��-la.</p><p>Baixinho, era como o chamavam. Tachyon achava que devia ser humor humano. Baixinho devia ter mais de quatro metros de altura, se conseguisse ficar de p�. Seu rosto era inocente e sem rugas, coroado com um emaranhado de cabelos escuros e macios. Suas pernas eram delgadas e de propor��es perfeitas. E essa era a piada: pernas delgadas e perfeitamente proporcionais n�o conseguiam nem de longe suportar o peso de um homem de quatro metros de altura. Baixinho ficava sentado em uma cadeira de rodas de madeira, uma grande coisa mecanizada que deslizava pelas ruas do Bairro dos Curingas sobre quatro pneus carecas de um caminh�o acidentado. Quando viu Tach na janela, gritou incoerentemente, quase como se o reconhecesse. Tachyon se virou e se afastou da janela, tremendo. Mais uma noite no Bairro dos Curingas. Precisava de um drinque.</p><p>Seus aposentos fediam a mofo e v�mito, e era muito frio. QUARTOS n�o era t�o bem aquecido quanto os hot�is que havia frequentado nos velhos tempos. Sem saber por qu�, se lembrou do Mayflower em Washington, onde ele e Blythe... mas n�o, era melhor n�o pensar naquilo. Que horas eram, afinal de contas? Tarde o bastante. O sol j� tinha se posto, e o Bairro dos Curingas nascia para a vida � noite.</p><p>Pegou o sobretudo no ch�o e cobriu-se com ele. Mesmo imundo, ainda era um casaco maravilhoso, de um belo tom de rosa, com dragonas douradas franjadas nos ombros e la�os dourados de fios tran�ados para prender a longa fileira de bot�es. Um casaco de m�sico, dissera-lhe o homem do brech� de caridade da Goodwill. Ele se sentou na beira de seu colch�o aos peda�os para cal�ar as botas.</p><p>O banheiro ficava no final do corredor. Sua urina soltou vapor ao jorrar contra as paredes do vaso sanit�rio; as m�os tremiam tanto que mal conseguia apontar direito. Ele jogou �gua fria cor de ferrugem no rosto e secou as m�os numa toalha imunda.</p><p>Quando saiu, Tach parou por um instante embaixo do letreiro rachado que dizia QUARTOS e ficou olhando para Baixinho. Ele se sentiu amargo e envergonhado. E s�brio demais. N�o havia nada a fazer em rela��o ao Baixinho, mas podia se ocupar com sua sobriedade. Deu as costas para o gigante choroso, meteu as m�os bem fundo nos bolsos do casaco e saiu caminhando apressado pela Bowery.</p><p>Nos becos, curingas e b�bados passavam sacos de papel pardo de m�o em m�o e encaravam quem passava com olhos embaciados. Tavernas, casas de penhores e lojas de m�scaras estavam todas fazendo bons neg�cios. O Famoso Museu de Dez Centavos dos Cartas Selvagens do Bowery (eles ainda o chamavam assim, apesar de o ingresso agora custar 25 centavos) j� estava fechado. Tachyon o havia visitado uma vez, dois anos antes, em um dia em que estava se sentindo especialmente culpado. Ao lado de meia d�zia de curingas de apar�ncia especialmente bizarra, de vinte fetos de �beb�s curinga monstruosos� flutuando em potes de vidro com formol e de um cinejornal sensacionalista sobre o Dia da Carta Selvagem, o museu tinha uma exposi��o de dioramas com bonecos de Jetboy, dos Quatro Ases, de uma orgia no Bairro dos Curingas... e dele.</p><p>Um �nibus de turismo passou, rostos rosados comprimidos contra as janelas. Sob as luzes de n�on de uma pizzaria ali perto, quatro jovens de jaqueta de couro preto e rostos cobertos por m�scaras de borracha encararam Tachyon com grande hostilidade. Ele evitou seus olhares e mergulhou na mente do mais pr�ximo: �Bicha magrela olha s� aquele cabelo pintado com certeza ele acha que t� numa banda e gosta de tocar a porra da sua bateria mas espera merda tem melhor vamos encontrar um bom pra gente essa noite e vamos arranjar um que vai gemer quando a gente bater nele�. Tachyon interrompeu o contato enojado e apertou o passo. Era not�cia velha, e um esporte novo: v� at� a Bowery, compre umas m�scaras, d� uma surra num curinga. A pol�cia n�o parecia se importar.</p><p>O Chaos Club e seu famoso Show de Curingas estava cheio como sempre. Quando Tachyon se aproximava, uma grande limusine cinza parou junto ao meio-fio. O porteiro, que usava um fraque preto por cima da bela pelagem branca, abriu a porta com a cauda e ajudou um homem gordo de smoking a sair. Sua acompanhante era uma adolescente de seios fartos com um vestido de noite sem al�a e um colar de p�rolas, o cabelo louro num penteado alto e bufante.</p><p>Em uma soleira na quadra seguinte, uma mulher-cobra fazia propostas. Suas escamas reluziam nas cores do arco-�ris.</p><p>� N�o se assuste, Ruivo � disse ela. � Ainda � macio por dentro. � Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>O Funhouse ficava em um edif�cio comprido com enormes janelas panor�micas para a cal�ada, mas o vidro transparente tinha sido substitu�do por vidro espelhado que n�o permitia ver o interior. Randall estava parado na frente, tremendo, de casaca, capa e m�scara. Parecia perfeitamente normal, at� que voc� percebia que ele jamais tirava a m�o direita do bolso.</p><p>� Ei, Tacky � chamou ele. � O que acha de Ruby?</p><p>� Desculpe, mas eu n�o a conhe�o � disse Tachyon.</p><p>Randall franziu o cenho.</p><p>� N�o, o cara que matou Oswald.</p><p>� Oswald? � disse Tach, confuso. � Que Oswald?</p><p>� Lee Oswald, o cara que atirou em Kennedy. Ele foi morto na TV esta tarde.</p><p>� Kennedy morreu? � disse Tachyon. Kennedy foi quem permitiu sua volta aos Estados Unidos, e Tach admirava os Kennedy. Pareciam quase takisianos. Mas assassinato era algo inerente � lideran�a. � Os irm�os dele v�o ving�-lo � disse, e ent�o se lembrou de que as coisas n�o eram feitas desse modo na Terra. Al�m disso, esse homem, Ruby, aparentemente, j� o havia vingado. Como era estranho que ele tivesse sonhado com assassinos.</p><p>� Eles prenderam Ruby � Randall estava dizendo. � Se fosse eu, dava uma medalha para esse filho da puta. � Ele fez uma pausa. � Uma vez ele apertou minha m�o � acrescentou. � Quando estava disputando a elei��o contra Nixon, ele veio ao Chaos Club fazer um discurso. Depois, na hora de ir embora, apertou a m�o de todo mundo. � O porteiro tirou a m�o direita do bolso. Era r�gida e quitinosa como a de um inseto, e, no meio, tinha um agrupamento de olhos inchados e cegos. � Ele nem piscou � disse Randall. � Deu um sorriso e disse que esperava que eu me lembrasse de votar.</p><p>Tachyon conhecia Randall fazia um ano, mas nunca tinha visto a m�o dele antes. Queria fazer o que Kennedy havia feito, segurar aquela garra retorcida, abra��-la, apert�-la. Tentou tirar a m�o do bolso do casaco, mas sentiu bile no fundo da garganta e, de algum modo, tudo o que conseguiu fazer foi desviar os olhos e dizer:</p><p>� Ele era um bom homem.</p><p>Randall tornou a esconder a m�o.</p><p>� Entre, Tacky � disse com simpatia. � Angelical teve de sair para ver um homem, mas ela disse a Des que deixasse reservada sua mesa.</p><p>Tachyon assentiu e deixou que Randall abrisse a porta para ele. L� dentro, entregou o casaco e os sapatos para a mocinha da chapelaria, uma curinga de corpinho magro cuja m�scara de coruja com penas escondia o que quer que o carta selvagem tivesse feito com seu rosto. Ent�o ele empurrou a porta interna e entrou, seus p�s com meia deslizando com suave familiaridade sobre o piso espelhado. Quando olhou para baixo, outro Tachyon o encarava de volta, enquadrado por seus p�s; um Tachyon muito gordo com a cabe�a parecendo uma bola de praia.</p><p>Suspenso do teto espelhado, um lustre de cristal reluzia com centenas de pontos de luz, espalhando seus reflexos pelas lajotas do piso, pelas paredes e pelas alcovas espelhadas, pelos talheres e canecas prateados e at� sobre as bandejas dos gar�ons. Alguns dos espelhos refletiam a verdade; outros eram espelhos distorcidos, de parque de divers�es. Quando se olhava para o lado no Funhouse, nunca se sabia o que veria refletido. Aquele era o �nico estabelecimento no Bairro dos Curingas que atra�a curingas e limpos em quantidades iguais. No Funhouse os limpos podiam se ver retorcidos e deformados e rir, e brincar de serem curingas; e um curinga, se tivesse muita sorte, podia olhar para um espelho e se ver como tinha sido um dia.</p><p>� Seu reservado est� � sua espera, Dr. Tachyon � disse Desmond, o ma�tre. Des era um homem grande e avermelhado; sua tromba grossa, rosada e enrugada estava enroscada em torno de uma carta de bebidas. Ele a ergueu e conduziu o olhar de Tachyon com um dedo que pendia de sua extremidade. � Vai tomar o conhaque de sempre esta noite?</p><p>� Vou � disse Tach, desejando ter algum dinheiro para a gorjeta.</p><p>Naquela noite, tomou o primeiro drinque por Blythe, como sempre, mas o segundo foi para John Fitzgerald Kennedy.</p><p>O resto foi para ele mesmo.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>No fim da Hook Road, depois da refinaria abandonada e dos armaz�ns de importa��o e exporta��o, depois de passar pelo p�tio da ferrovia com seus vag�es de carga vermelhos esquecidos, pela passagem subterr�nea sob a autoestrada, pelos terrenos baldios cheios de mato e lixo e pelos grandes tanques de �leo de soja, Tom encontrou seu ref�gio. Estava quase escuro quando ele chegou, e o motor do Merc batia assustadoramente. Mas Joey saberia o que fazer com aquilo.</p><p>O ferro-velho erguia-se acima das �guas polu�das de �leo da ba�a de Nova York. Por tr�s de uma cerca grossa de metal de tr�s metros de altura encimada por tr�s fileiras emaranhadas de arame farpado, uma matilha de c�es de guarda acompanhou seu carro, latindo uma recep��o barulhenta que teria apavorado qualquer um que n�o conhecesse t�o bem os c�es. O p�r do sol derramava uma estranha luz cor de bronze sobre as montanhas de autom�veis enferrujados, amassados e arrebentados, os hectares de sucata, montanhas e vales de lixo e destro�os. Finalmente ele chegou ao largo port�o duplo. De um lado, uma placa de metal avisava: PROIBIDA A ENTRADA; do outro lado, outra placa alertava: CUIDADO COM OS C�ES. O port�o estava fechado e trancado com uma corrente.</p><p>Tom parou e buzinou.</p><p>Logo al�m da cerca ele podia ver o barraco de quatro aposentos que Joey chamava de lar. Havia um grande letreiro montado no topo do telhado de telhas de zinco corrugadas, com spots de luz amarela para iluminar as letras. Ele dizia: PE�AS DE AUTOM�VEIS E FERRO-VELHO DI ANGELIS. A pintura estava gasta e cheia de bolhas, resultado de duas d�cadas de sol e chuva; a pr�pria madeira tinha rachado e uma das l�mpadas estava queimada. Ao lado da casa estavam estacionados um velho caminh�o de lixo amarelo, um guincho e o orgulho e a alegria de Joey, um Cadillac cup� 1959 vermelho-sangue com barbatanas traseiras como as de tubar�es e um motor envenenado monstruoso projetando-se acima do cap� recortado.</p><p>Tom buzinou de novo. Dessa vez, com o sinal especial deles, buzinando o tema �Supermouse � seu amigoo, vai salv�-lo do perigoo!� dos desenhos animados do Supermouse que eles viam quando crian�as.</p><p>Um quadrado de luz amarela se projetou pelo ferro-velho quando Joey saiu com uma cerveja em cada m�o.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Os dois n�o se pareciam em nada, ele e Joey. Tinham origens diferentes, viviam em mundos diferentes, mas viraram melhores amigos no dia de levar os animais de estima��o � escola no terceiro ano prim�rio. Foi nesse dia que ele descobriu que tartarugas n�o podiam voar, o dia em que se deu conta do que era e do que podia fazer.</p><p>Stevie Bruder e Josh Jones o pegaram l� fora no p�tio do col�gio. Eles o faziam de bobinho jogando suas tartarugas de um para o outro enquanto Tommy corria entre eles, com o rosto vermelho e chorando. Quando se entediaram, arremessaram as duas no quadrado riscado no muro que indicava a �rea onde a bola devia ser lan�ada nos jogos de beisebol na rua. O pastor-alem�o de Stevie comeu uma delas. Quando Tommy tentou segurar o cachorro, Stevie bateu em Tommy e o deixou no ch�o com os �culos quebrados e um corte no l�bio.</p><p>Eles teriam feito pior n�o fosse por Joey Sucateiro, um garoto mirrado com cabelos negros despenteados, dois anos mais velho do que seus colegas de classe, mas que j� tinha repetido duas vezes, mal sabia ler, e sempre diziam que fedia porque seu pai, Dom, era o dono do ferro-velho. Joey n�o era t�o grande quanto Stevie Bruder, mas isso n�o importava, nem naquele dia nem em qualquer outro. Ele s� pegou Stevie pelas costas da camisa, sacudiu-o de um lado para o outro e lhe deu um chute no saco. Em seguida deu um chute no cachorro tamb�m, e teria chutado Josh Jones, mas Josh saiu correndo. Enquanto fugia, uma tartaruga morta se ergueu do solo e flutuou at� o outro lado do p�tio e o acertou bem na parte de tr�s de seu pesco�o gordo e vermelho.</p><p>Joey viu o que aconteceu.</p><p>� Como voc� faz isso? � disse, surpreso. At� aquele instante, nem Tommy tinha se dado conta de que <emphasis>ele</emphasis> era a raz�o de suas tartarugas voarem.</p><p>Isso virou um segredo dos dois, o cimento que mantinha firme a velha amizade. Tommy ajudava Joey com o trabalho de casa e tomava suas li��es para as provas. Joey se tornou o protetor de Tommy contra a brutalidade geral do playground e do p�tio do col�gio. Tommy lia revistas em quadrinhos para Joey at� que a leitura de Joey melhorou tanto que ele n�o precisou mais de Tommy. Dom, um homem de idade com cabelos grisalhos, barriga de cerveja e bom cora��o, se orgulhava disso; ele n�o sabia ler, nem mesmo italiano. A amizade durou por todo o prim�rio e tamb�m o ensino m�dio, que Joey abandonou. Ela sobreviveu � descoberta das garotas, resistiu � morte de Dom DiAngelis e � mudan�a da fam�lia de Tom para Perth Amboy. Joey DiAngelis ainda era o �nico que sabia o que Tom era.</p><p>Joey arrancou a chapinha de outra Rheingold com o abridor de garrafas que trazia preso ao pesco�o. Sob a camiseta sem mangas crescia uma barriga de cerveja como a de seu pai.</p><p>� Voc� � inteligente demais para ficar nesse trabalho de merda naquela loja de conserto de TVs � dizia ele.</p><p>� � um emprego � disse Tom. � Fiz isso no ver�o passado. Agora posso fazer em hor�rio integral. N�o importa o tipo de emprego que tenho. O que importa � o que fa�o com meu, uh, talento.</p><p>� Talento? � zombou Joey.</p><p>� Voc� sabe do que estou falando, seu ot�rio. � Tom p�s a garrafa vazia em cima do caixote de laranjas ao lado da poltrona. A maior parte dos m�veis de Joey n�o era o que pode ser chamado de elegante; ele os arranjava entre os objetos do ferro-velho.</p><p>� Tenho pensado no que o Jetboy disse no fim, tentando entender o que significa. Acho que estava dizendo que havia coisas que ainda n�o tinha feito. Ora, merda, eu ainda n�o fiz <emphasis>nada</emphasis>. H� muito tempo eu perguntei o que poderia fazer para o pa�s, sabe? Bem, cacete, n�s dois sabemos a resposta para isso.</p><p>Joey se balan�ou para tr�s na cadeira, bebendo sua Rheingold no gargalo e sacudindo a cabe�a. Atr�s dele, a parede estava coberta de estantes que Dom fizera para os garotos quase dez anos antes. A prateleira de baixo tinha apenas revistas masculinas. O restante eram revistas em quadrinhos. Seus quadrinhos. <emphasis>Superman</emphasis>s e <emphasis>Batman</emphasis>s, <emphasis>Action Comics</emphasis> e <emphasis>Detective</emphasis>, <emphasis>Classics Illustrated</emphasis>s que Joey tinha usado nos trabalhos de literatura, quadrinhos de terror e policiais e quadrinhos de batalhas a�reas. E, o melhor de tudo, seu tesouro, uma cole��o quase completa de <emphasis>Jetboy</emphasis>.</p><p>Joey percebeu para onde ele estava olhando.</p><p>� Nem pense � disse ele. � Voc� n�o � a porra de um Jetboy, cara.</p><p>� N�o � disse Tom. � Sou mais do que ele era. Sou...</p><p>� Um ot�rio � sugeriu Joey.</p><p>� Um �s � disse solenemente. � Como os Quatro Ases.</p><p>� Eles eram um grupo negro de <emphasis>doo-wop</emphasis>, n�o eram?</p><p>Tom corou.</p><p>� Voc� n�o sabe nada. Eles n�o eram cantores, eram...</p><p>Joey o interrompeu com um gesto brusco.</p><p>� Sei que porra eles eram, Tuds. D� um tempo. Eles eram uns merdas idiotas como voc�. Todos foram presos ou baleados ou algo assim, n�o foram? Menos a porra do dedo-duro, qual o nome dele? � Ele estalou os dedos. � Voc� sabe, o cara do <emphasis>Tarzan</emphasis>.</p><p>� Jack Braun � disse Tom. Ele tinha feito uma pesquisa sobre os Quatro Ases para a escola. � E aposto que h� outros, escondidos por a�. Como eu. Eu sempre me escondi. Agora chega.</p><p>� Ent�o voc� acha que vai simplesmente at� o <emphasis>Bayonne Times</emphasis> e dar a porra de um espet�culo? Seu babaca. � a mesma coisa que dizer a eles que voc� � comunista. V�o mandar voc� morar no Bairro dos Curingas e v�o quebrar todas as janelas da casa de seu pai. Podem at� convocar voc� para servir, ot�rio.</p><p>� N�o � disse Tom. � Eu j� pensei em tudo. Os Quatro Ases eram alvos f�ceis. N�o vou deixar que saibam quem sou ou onde moro. � Ele usou a garrafa de cerveja que segurava para gesticular vagamente na dire��o das estantes. � Vou manter meu nome em segredo. Como nos quadrinhos.</p><p>Joey riu alto.</p><p>� Sensacional! E vai usar ceroulas justinhas tamb�m, seu burro?</p><p>� Droga � disse Tom. Ele estava come�ando a ficar aborrecido. � Cale a porra dessa boca. � Joey s� ficou ali, balan�ando e rindo. � Voc� fala demais, vamos l� � disse com raiva enquanto se levantava. � Levante esse seu rabo gordo da� e vamos l� para fora. Vou mostrar a voc� como sou burro. Vamos, voc� que sabe tudo.</p><p>Joey DiAngelis ficou de p�.</p><p>� Eu tenho que ver isso.</p><p>L� fora, Tom esperava com impaci�ncia, alternando o peso do corpo de uma perna para a outra. Sua respira��o soltava vapor no ar frio de novembro, enquanto Joey foi at� a grande caixa de metal ao lado da casa e ligou um interruptor. No alto dos postes, as luzes do ferro-velho se acenderam. Os c�es se reuniram ao redor, farejando, e os seguiram quando come�aram a andar. O gargalo de uma garrafa de cerveja se projetava do bolso da jaqueta preta de couro de Joey.</p><p>Era apenas um ferro-velho, cheio de lixo, sucata e carros batidos, mas naquela noite parecia t�o m�gico quanto quando Tommy tinha 10 anos. Numa colina, com vista para as �guas negras da ba�a de Nova York, um velho Packard branco assomava como um forte fantasmag�rico. E ele tinha sido exatamente isso quando ele e Joey eram crian�as; seu santu�rio, sua fortaleza, seu posto avan�ado da cavalaria e esta��o espacial e castelo, tudo numa coisa s�. Ele reluzia ao luar, e as �guas abaixo estavam cheias de promessas enquanto batiam contra a orla. Escurid�o e sombras jaziam pesadas no ferro-velho, transformando as pilhas de lixo e metal em montanhas negras misteriosas, com um labirinto de vielas cinzentas entre elas. Tom os conduziu por aquele labirinto, passou pelo grande monte de lixo no qual brincavam de rei da montanha e duelavam com espadas feitas com pe�as do ferro-velho, passando pelo local dos tesouros onde tinham encontrado tantos brinquedos quebrados e pilhas de vidro colorido e garrafas retorn�veis e uma vez at� uma caixa de papel�o cheia de revistas em quadrinhos.</p><p>Caminharam pelas fileiras de carros enferrujados e amassados empilhados um em cima do outro; Fords, Chevys, Hudsons e DeSotos, um Corvette com um cap� destru�do, amassado como uma sanfona, um monte de fuscas mortos, um carro funer�rio preto cheio de dignidade, t�o morto quanto os passageiros que havia transportado. Tom olhou para todos eles com aten��o. Finalmente, ele parou.</p><p>� Aquele � disse ele, apontando para a carca�a depenada de um velho Studebaker Hawk. Ele n�o tinha mais motor, nem pneus; o para-brisa era uma teia de aranha de vidro quebrado, e mesmo no escuro eles podiam ver os pontos em que a ferrugem comera os para-choques e laterais. � N�o vale nada, certo?</p><p>Joey abriu sua cerveja.</p><p>� V� em frente, � todo seu.</p><p>Tom respirou fundo e olhou diretamente para o carro. Suas m�os se fecharam em punhos ao lado do corpo. Ele olhou fixamente e com for�a, concentrado. O carro tremeu um pouco. Sua dianteira se ergueu alguns cent�metros vacilantes acima do ch�o.</p><p>� Uaaaauuuuuuu!!!! � disse Joey com ironia, dando um soco de leve no ombro de Tom. O Studebaker caiu com um estrondo met�lico, e um para-choque se soltou. � Merda, estou impressionado.</p><p>� Droga, fique quieto e me deixe em paz � disse Tom. � Eu consigo, vou mostrar a voc�, s� cale a porra da boca por um minuto. Eu tenho treinado. Voc� n�o sabe as coisas que posso fazer.</p><p>� N�o vou dizer droga nenhuma � prometeu Joey, rindo. Ele deu um gole de cerveja.</p><p>Tom virou-se para o Studebaker. Tentou bloquear tudo, se esquecer de Joey, dos c�es, do ferro-velho; o Studebaker encheu seu mundo. Seu est�mago parecia uma bolinha apertada. Ele lhe disse que relaxasse, respirou fundo v�rias vezes, foi abrindo os punhos. <emphasis>Vamos l�, vamos l�, calma, n�o fique nervoso, v� em frente, voc� j� fez mais do que isso, isso � f�cil, f�cil.</emphasis></p><p>O carro se ergueu lentamente, subindo em meio a uma chuva de ferrugem. Tom o girou cada vez mais r�pido. Ent�o, com um sorriso de triunfo, arremessou-o a dez metros de dist�ncia. Ele bateu em uma pilha de Chevys mortos e fez tudo desmoronar em uma avalanche de metal.</p><p>Joey terminou sua Rheingold.</p><p>� Nada mal. H� alguns anos, voc� mal conseguia me fazer passar por cima de uma cerca.</p><p>� Estou ficando cada vez mais forte � disse Tom.</p><p>Joey DiAngelis assentiu com a cabe�a e jogou de lado a garrafa de cerveja vazia.</p><p>� Bom � disse ele. � Ent�o voc� n�o vai ter nenhum problema comigo, vai? � Ele deu um empurr�o forte em Tom com as duas m�os.</p><p>Tom cambaleou um passo para tr�s, de cara feia.</p><p>� Pare com isso, Joey.</p><p>� Me fa�a parar � disse Joey. Ele o empurrou de novo, mais forte. Dessa vez, Tom quase caiu no ch�o.</p><p>� Droga, <emphasis>pare</emphasis> com isso � reclamou Tom. � N�o tem nenhuma gra�a, Joey.</p><p>� N�o? � perguntou Joey. Ele sorriu. � Eu acho engra�ado pra cacete. Mas, ei, voc� pode me deter, n�o? Use seu maldito poder. � Ele chegou mais perto do rosto de Tom e lhe deu um tapa de leve na face. � Me fa�a parar, �s � disse ele e lhe deu um tapa mais forte. � Vamos l�, Jetboy, me fa�a parar. � O terceiro tapa foi ainda mais forte. � Vamos l�, super, est� esperando o qu�? � O quarto tapa machucou de verdade; o quinto quase virou a cabe�a de Tom para tr�s. Joey parou de sorrir. Tom podia sentir a cerveja em seu h�lito.</p><p>Tom tentou segurar a m�o dele, mas Joey era forte demais, r�pido demais; ele se livrou de Tom e deu outro tapa.</p><p>� Quer lutar boxe, �s? Vou fazer picadinho de voc�. Babaca. Bund�o. � O tapa quase arrancou a cabe�a de Tom e extraiu l�grimas de dor de seus olhos. � <emphasis>Me fa�a parar</emphasis>, ot�rio � gritou Joey. Ele fechou a m�o e deu um soco no est�mago de Tom com tanta for�a que ele se dobrou ao meio e ficou sem f�lego.</p><p>Tom tentou se concentrar para agarrar e empurrar, mas era como no p�tio da escola de novo, Joey estava em todo lugar, seus punhos o socando por todos os lados, e tudo o que ele podia fazer era levantar as m�os e tentar bloquear os golpes, e isso n�o adiantava muito, Joey era bem mais forte; ele o empurrava e socava, gritando o tempo todo, e Tom n�o conseguia pensar, n�o conseguia se concentrar, n�o conseguia fazer nada al�m de sentir dor, e estava recuando, cambaleante, e Joey vinha atr�s dele, os punhos armados, e o acertou com um <emphasis>uppercut</emphasis> que pegou bem em sua boca com uma for�a que machucou seus dentes. De repente, Tom estava ca�do de costas no ch�o, com a boca cheia de sangue.</p><p>Joey estava parado de p� acima dele, franzindo a testa.</p><p>� Merda � disse ele. � Eu n�o queria machucar sua boca. � Ele se agachou, pegou Tom pela m�o e o puxou com for�a para levant�-lo.</p><p>Tom secou o sangue do l�bio com as costas da m�o. Tamb�m havia sangue na frente de sua camisa.</p><p>� Olhe para mim. Estou horr�vel � disse ele, chateado, e olhou para Joey. � Isso n�o foi justo. Voc� n�o pode esperar que eu fa�a alguma coisa enquanto est� me socando, droga.</p><p>� Aham � disse Joey. � E enquanto voc� estiver se concentrando e apertando os olhos, acha que a porra dos vil�es v�o deixar voc� em paz, certo? � Ele deu um tapinha nas costas de Tom. � Eles v�o arrebentar com todos os seus dentes. Isso se voc� tiver sorte e eles simplesmente n�o derem um tiro em voc�. Voc� n�o � nenhum Jetboy, Tuds. � Ele estremeceu. � Vamos, est� frio pra cacete aqui.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Quando acordou na escurid�o quente, Tach se lembrava de pouca coisa da bebedeira, mas era assim que ele gostava. Fez for�a para se sentar. Os len��is sobre os quais estava deitado eram de cetim, macios e sensuais e, sob o odor de v�mito velho, ainda conseguia sentir um tra�o leve de algum perfume floral.</p><p>Sem muita firmeza, se livrou das cobertas e se sentou na beira da cama com dossel. O ch�o sob seus p�s descal�os era acarpetado. Ele estava pelado, o ar desconfortavelmente quente sobre sua pele nua. Esticou a m�o, encontrou o interruptor e apertou os olhos com a claridade. O quarto era rosa e branco, atulhado de m�veis vitorianos, e tinha paredes grossas, � prova de som. Um quadro a �leo de John F. Kennedy sorria do alto, de cima da lareira; num canto havia uma est�tua de gesso de um metro da Virgem Maria.</p><p>Angelical estava sentada em uma poltrona estofada de rosa, piscando de forma sonolenta para ele e cobrindo o bocejo com as costas da m�o.</p><p>Tach se sentia enjoado e envergonhado.</p><p>� Tirei voc� de sua cama de novo, n�o foi?</p><p>� Tudo bem � respondeu ela. Seus p�s repousavam sobre uma pequena banqueta. As solas de seus p�s estavam feias e machucadas, negras e inchadas apesar dos sapatos com forro especial que usava. Fora isso, ela era linda. Seus cabelos negros soltos ca�am at� a cintura, e sua pele tinha uma qualidade radiante e corada, um brilho quente de vida. Seus olhos eram escuros e fluidos, mas a coisa mais impressionante, o que nunca deixava de surpreender Tachyon, era o calor que emanava, a afei��o da qual ele n�o se sentia nada merecedor. Com tudo o que fizera a ela, e ao resto deles, de algum modo essa mulher chamada Angelical o perdoara e gostava dele.</p><p>Tach levou a m�o � t�mpora. Algu�m com uma serra el�trica estava tentando remover a parte detr�s de seu cr�nio.</p><p>� Minha cabe�a � reclamou. � Com os pre�os que cobram, o m�nimo que voc�s deviam fazer era retirar as resinas e venenos dos drinques que vendem. Em Takis, n�s...</p><p>� Eu sei � disse Angelical. � Em Takis desenvolveram vinhos que n�o d�o ressaca. Voc� j� me contou essa.</p><p>Tachyon deu um sorriso cansado. Ela parecia impossivelmente fresca, vestindo apenas uma t�nica curta de cetim que deixava suas pernas expostas at� a coxa. Era de um vermelho-vinho profundo, lindo contra sua pele. Mas quando ela se levantou, ele viu uma de suas faces, onde seu rosto tinha se apoiado sobre a poltrona enquanto ela dormia. O hematoma j� estava escurecendo, uma mancha roxa em sua bochecha.</p><p>� Angel... � come�ou ele.</p><p>� N�o � nada � disse ela e empurrou o cabelo para a frente para encobrir a marca. � Suas roupas estavam imundas. O Mal as levou para lavar. Por isso, voc� � meu prisioneiro durante algum tempo.</p><p>� Por quanto tempo eu dormi? � perguntou Tachyon.</p><p>� O dia inteiro � respondeu Angelical. � N�o se preocupe com isso. Uma vez eu tive um cliente t�o b�bado que dormiu por cinco meses. � Ela se sentou � sua penteadeira, pegou o telefone e pediu o caf� da manh�: torrada e caf� para ela, ovos, bacon e caf� forte com conhaque para Tachyon. Com aspirina para acompanhar.</p><p>� N�o � protestou ele. � Essa comida toda. Vou passar mal.</p><p>� Voc� precisa comer. Nem homens do espa�o podem viver s� de conhaque.</p><p>� Por favor...</p><p>� Se quer beber, vai ter que comer � disse ela rispidamente. � Esse � o acordo, lembra?</p><p>Do acordo, sim. Ele se lembrava. Angelical lhe fornecia o dinheiro para o aluguel, comida e uma conta aberta no bar, toda a bebida de que precisasse para lavar suas mem�rias. S� o que tinha de fazer era comer e lhe contar hist�rias. Ela adorava ouvi-lo falar. Ele contou casos de fam�lia, discursou sobre costumes takisianos, encheu-a de casos, lendas e romances, com hist�rias de bailes e intrigas e beleza muito distantes da sordidez do Bairro dos Curingas.</p><p>�s vezes, depois de fechar, ele dan�ava para ela, desenhando os movimentos intrincados da pavana de Takis pelo piso espelhado da casa noturna enquanto ela assistia e o incentivava. Uma vez, quando os dois tinham bebido vinho muito al�m da conta, ela o convenceu a demonstrar a dan�a nupcial, um bal� er�tico que a maioria dos takisianos s� dan�ava uma vez, na noite de seu casamento. Foi a �nica vez em que ela dan�ou com ele, acompanhando os passos, hesitante no come�o, depois cada vez mais r�pido, balan�ando e girando pelo sal�o at� que seus p�s descal�os ficaram esfolados e rachados e come�aram a deixar manchas vermelhas sobre as lajotas de espelho. Na dan�a nupcial, o casal de dan�arinos se juntava no fim, desabando em um abra�o longo e triunfante. Mas isso era em Takis. Aqui, quando chegou o momento, ela parou de dan�ar e se afastou, e ele foi lembrado mais uma vez de que Takis estava muito longe.</p><p>Dois anos antes, Desmond o encontrou nu e inconsciente em um beco do bairro. Algu�m havia roubado suas roupas enquanto dormia, e ele estava com febre e delirante. Des chamou ajuda para lev�-lo at� o Funhouse. Quando recobrou a consci�ncia, estava deitado em uma cama de armar em um quartinho dos fundos, cercado por barris de cerveja e caixas de vinho.</p><p>� Voc� sabe o que estava bebendo? � perguntou-lhe Angelical quando o levaram at� o escrit�rio dela. Ele n�o sabia; tudo de que se lembrava era que precisava tanto de um drinque que sentia uma dor por dentro, e o negro idoso no beco generosamente oferecera para dividir com ele. � �lcool puro � disse a ele Angelical. Ela mandou que Des trouxesse uma garrafa de seu melhor conhaque. � Se um homem quer beber, � problema dele, mas pelo menos voc� pode fazer isso com um pouco de classe. � O conhaque espalhou ramos delgados de calor por seu peito e fez com que suas m�os parassem de tremer. Quando esvaziou a garrafa, Tach a agradeceu efusivamente, mas ela recuou quando ele tentou toc�-la. Ele perguntou por qu�. � Vou mostrar a voc� � disse ela, lhe oferecendo a m�o. � Devagar � disse para ele. O beijo dele foi um leve ro�ar de l�bios, n�o nas costas da m�o dela, mas no interior de seu pulso, para sentir sua pulsa��o, a corrente de vida em seu interior, porque era t�o linda, e boa, e porque ele a queria.</p><p>No instante seguinte, ele viu com triste desalento a pele dela escurecer, ficar roxa e ent�o negra. <emphasis>Mais uma das minhas</emphasis>, pensou ele.</p><p>Ainda sim, por alguma raz�o tornaram-se amigos. N�o amantes, claro, exceto �s vezes nos sonhos dele; os vasos capilares dela se rompiam � menor press�o e, para seu sistema nervoso hipersens�vel, at� o toque mais leve era doloroso. Uma leve car�cia a deixava preta e azulada; se fizesse amor, provavelmente morreria. Mas amigos, sim. Ela nunca lhe pedia nada que ele n�o pudesse dar, assim ele nunca iria decepcion�-la.</p><p>O caf� da manh� foi servido por uma negra corcunda chamada Ruth, que tinha penas azul-claras na cabe�a em vez de cabelos.</p><p>� O homem trouxe isso para a senhora esta manh� � disse ela a Angelical depois de arrumar a mesa, entregando-lhe um pacote quadrado grosso, embrulhado em papel pardo. Angelical o aceitou sem coment�rios, enquanto Tachyon bebia seu caf� com conhaque e erguia a faca e o garfo para encarar com des�nimo os implac�veis bacon e ovos.</p><p>� N�o fa�a essa cara de chocado � disse Angelical.</p><p>� Acho que n�o contei a voc� da vez que a espa�onave da Rede chegou a Takis e o que minha bisav� Amurath disse para o enviado de Ly�bahr � come�ou ele.</p><p>� N�o � disse ela. � Continue. Gosto de sua bisav�.</p><p>� Ela � uma de n�s. Ela me apavora � disse Tachyon e contou a hist�ria.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Tom acordou bem antes do amanhecer, enquanto Joey ainda roncava no quarto dos fundos. Ele passou um bule de caf� em um coador velho e botou na torradeira um <emphasis>muffin</emphasis> Thomas. Enquanto o caf� coava, ele dobrou a cama de armar para dentro do sof�. Cobriu os <emphasis>muffins</emphasis> de manteiga e geleia de morango e olhou ao redor em busca de algo para ler. Os quadrinhos o atra�ram.</p><p>Ele se lembrava do dia em que os encontraram. A maioria tinha sido dele, originalmente, incluindo a cole��o de <emphasis>Jetboy</emphasis> que ganhou do pai. Ele amava aquelas revistas. Ent�o, um dia em 1954, chegou em casa da escola e viu que eles haviam sumido, uma estante inteira e dois caixotes cheios de gibis haviam desaparecido. A m�e dele disse que umas mulheres da Associa��o de Pais e Mestres tinham ido l� e dito a ela como os quadrinhos eram coisas terr�veis. Mostraram uma c�pia do livro de um certo Dr. Wertham sobre como os quadrinhos transformavam as crian�as em delinquentes juvenis e homossexuais, e como glorificavam ases e curingas, por isso sua m�e deixou que elas levassem a cole��o de Tom. Ele berrou e gritou e deu um ataque, mas n�o adiantou nada.</p><p>A Associa��o de Pais e Mestres tinha recolhido quadrinhos de todas as crian�as da escola. Eles queimariam tudo no s�bado, no p�tio da escola. Aquilo estava acontecendo por todo o pa�s; havia at� rumores de uma lei que havia proibido as revistas em quadrinhos, ou pelo menos aquelas sobre horror, crimes e pessoas com poderes estranhos.</p><p>Wertham e a Associa��o de Pais e Mestres estavam certos: na noite de sexta-feira, por causa das revistas em quadrinhos, Tommy Tudbury e Joey DiAngelis se tornaram criminosos.</p><p>Tom tinha 9 anos; Joe, 11, mas ele dirigia o caminh�o do pai desde os 7. No meio da noite, ele roubou o caminh�o, e Tom fugiu para encontr�-lo. Quando chegaram � escola, Joey arrombou uma janela, e Tom subiu em seus ombros, olhou para o interior da sala de aula, se concentrou, agarrou a caixa com sua cole��o, ergueu-a no ar e a fez flutuar at� a ca�amba do caminh�o. Ent�o aproveitou e pegou mais outras quatro ou cinco caixas. A Associa��o de Pais e Mestres nunca percebeu. Ainda tinham muito para queimar. Se Dom DiAngelis ficou curioso sobre a origem de todos aqueles gibis, nunca disse uma palavra. Apenas fez as estantes para guard�-los, todo orgulhoso do filho que sabia ler. A partir daquele dia, era a cole��o deles, em conjunto.</p><p>Tom p�s o caf� e o <emphasis>muffin</emphasis> sobre o caixote de laranjas, foi at� a estante de livros e pegou alguns n�meros de <emphasis>Jetboy</emphasis>. Ele os releu enquanto comia, <emphasis>Jetboy na Ilha dos Dinossauros</emphasis>, <emphasis>Jetboy e o Quarto Reich</emphasis> e sua favorita, <emphasis>Jetboy e os alien�genas</emphasis>. Por tr�s da capa, o t�tulo era: �Trinta minutos sobre a Broadway�. Tom a leu duas vezes enquanto bebia o caf� que esfriava. Demorou-se em alguns dos melhores quadros. Na �ltima p�gina havia um retrato do alien�gena Tachyon chorando. Tom n�o sabia se aquilo tinha acontecido ou n�o. Ele fechou a revista e terminou seu <emphasis>muffin</emphasis>. Por um bom tempo ficou ali sentado, pensativo.</p><p>Jetboy era um her�i. E o que era ele? Nada. Um fracote, uma titica de galinha. A porra de seu poder de carta selvagem n�o tinha feito merda nenhuma por ningu�m. Era in�til, assim como ele.</p><p>Desanimado, vestiu o casaco sobre os ombros e saiu. O ferro-velho parecia frio e feio ao amanhecer, e soprava um vento gelado. Alguns metros a leste, a ba�a estava verde e encapelada. Tom subiu at� o velho Packard em sua colina. A porta rangeu quando ele a abriu. L� dentro, os bancos estavam rachados e tinham cheiro de podre, mas pelo menos ele estava protegido daquele vento. Tom se jogou para tr�s encolhido, com os joelhos apoiados no painel e ficou olhando para o sol nascente. Ficou sentado im�vel por um bom tempo; do outro lado do ferro-velho, calotas e pneus velhos flutuaram no ar e sa�ram zunindo para mergulhar nas �guas verdes encapeladas da ba�a de Nova York. Ele podia ver a Est�tua da Liberdade em sua ilha, e as silhuetas indistintas das torres de Manhattan a nordeste.</p><p>Eram quase 7h30, seus membros estavam r�gidos, e Tom Tudbury tinha perdido a conta do n�mero de calotas que havia arremessado quando se levantou e sentou com uma express�o estranha no rosto. O freezer com o qual ele estivera fazendo malabarismo a dez metros de altura caiu no ch�o com um estrondo. Ele passou os dedos pelos cabelos e tornou a erguer o freezer, moveu-o cerca de vinte metros e o deixou cair em cima do telhado de zinco corrugado. Ent�o fez o mesmo com um pneu, uma bicicleta retorcida, seis calotas e um carrinho vermelho.</p><p>A porta da casa abriu de repente com grande barulho, e Joey saiu correndo no frio vestindo nada al�m de cuecas samba-can��o e uma camiseta sem mangas. Ele parecia estar com muita raiva. Tom segurou seus p�s nus, puxou-os do ch�o e o derrubou de bunda, com for�a; Joey xingou.</p><p>Tom o agarrou e o sacudiu no ar, de cabe�a para baixo.</p><p>� Onde diabos est� voc�, Tudbury? � gritou Joey. � Pare com isso, seu babaca. Me ponha no ch�o.</p><p>Tom imaginava duas m�os invis�veis e jogava Joey de uma para outra.</p><p>� Quando eu descer, vou bater tanto em voc� que vai ter de comer por um canudinho pelo resto da vida � prometeu Joey.</p><p>A manivela estava dura devido aos anos sem uso, mas Tom finalmente conseguiu baixar a janela do Packard. Ele botou a cabe�a para fora.</p><p>� Oi, rapazes, oi, oi, oi � disse, �s gargalhadas.</p><p>Joey balan�ava suspenso tr�s metros acima do ch�o, brandindo o punho.</p><p>� Vou arrebentar voc� e essa sua m�gica, seu cabe�a de merda � gritou ele. Tom arrancou as cuecas e as pendurou num poste telef�nico. � Voc� vai morrer, Tudbury � disse Joey.</p><p>Tom respirou fundo e baixou Joey at� o ch�o, com muita delicadeza. Era a hora da verdade. Joey veio correndo em sua dire��o, gritando obscenidades. Tom fechou os olhos, p�s as m�os no volante e <emphasis>subiu</emphasis>. O Packard se moveu embaixo dele. Gotas de suor cobriam sua testa. Ele se isolou do mundo, se concentrou, contou at� dez, lentamente, de tr�s para a frente.</p><p>Quando finalmente abriu os olhos, meio esperando ver o punho de Joey batendo em seu nariz, n�o havia nada a contemplar al�m de uma gaivota empoleirada no cap� do Packard, de cabe�a encolhida enquanto espiava atrav�s do para-brisa rachado. Ele estava flutuando. Estava voando.</p><p>Tom botou a cabe�a para fora da janela. Joey estava cinco metros abaixo dele, irritado, com as m�os nos quadris e uma express�o nada satisfeita no rosto.</p><p>� Agora � berrou l� para baixo. � O que foi que voc� disse ontem � noite?</p><p>� Espero que voc� consiga ficar a� em cima o dia inteiro, seu filho da m�e � disse Joey. Ele brandiu o punho sem o menor efeito. Cabelos negros e lisos ca�am sobre seus olhos. � Ah, merda, o que isso prova? Se eu tivesse uma arma, voc� ainda estaria morto.</p><p>� Se voc� tivesse uma arma, eu n�o estaria com a cabe�a para fora da janela � disse Tom. � Na verdade, seria melhor que eu n�o tivesse uma janela. � Ele refletiu sobre aquilo por um segundo, mas era dif�cil pensar enquanto estava l� em cima. O Packard era pesado. � Estou descendo � disse ele para Joey. � Voc�, ah, voc� est� mais calmo?</p><p>Joey sorriu.</p><p>� Venha aqui ver, Tuds.</p><p>� Saia do caminho. N�o quero esmagar voc� com essa porcaria aqui.</p><p>Joey se afastou para o lado, de bunda de fora e todo arrepiado, e Tom fez o Packard pousar t�o suavemente quanto uma folha de outono em um dia sem vento. Ele estava abrindo a porta quando Joey estendeu os bra�os, o agarrou e puxou e o empurrou de costas contra a lateral do carro, sua outra m�o fechada em um punho.</p><p>� Eu devia... � come�ou ele. Ent�o sacudiu a cabe�a, riu e deu um soco de leve no ombro de Tom. � � �s, devolve a porra da minha cueca � disse ele.</p><p>Quando estavam dentro de casa de novo, Tom requentou o resto do caf�.</p><p>� Vou precisar de voc� para fazer o trabalho � disse ele enquanto preparava para si mesmo ovos mexidos, presunto e mais alguns <emphasis>muffins</emphasis>. Usar sua telecinesia sempre lhe abria bem o apetite. � Voc� estudou mec�nica e solda e toda essa merda. Eu fa�o a parte el�trica.</p><p>� Parte el�trica? � disse Joey, aquecendo as m�os sobre a x�cara. � Mas, porra, para qu�?</p><p>� As luzes e c�meras de TV. N�o quero nenhuma janela pela qual as pessoas possam atirar. Sei onde podemos conseguir c�meras baratas, e voc� tem um monte de suportes aqui, eu vou consert�-los. � Ele se sentou e atacou os ovos com uma fome de lobo. � Tamb�m vou precisar de alto-falantes. Algum tipo de mesa de som e amplifica��o. Um gerador. Ser� que vai ter espa�o l� para botar uma geladeira?</p><p>� Aquele Packard � grande pra cacete � disse Joey. � Se tirar os bancos, cabem tr�s geladeiras.</p><p>� N�o o Packard � disse Tom. � Vou achar um carro mais leve. Podemos cobrir as janelas com partes de portas e laterais velhas ou algo assim.</p><p>Joey afastou o cabelo dos olhos.</p><p>� Que se fodam as portas e laterais. Tenho blindagem militar. Da guerra. Eles desmontaram um monte de navios na base da Marinha em 1946 e 1947, e Dom fez um lance pelo metal e nos comprou vinte toneladas dessa porra. Um puta desperd�cio de dinheiro, quem diabos vai querer comprar blindagem de navio de guerra? Ainda tenho tudo, parado l� no fundo pegando ferrugem. Voc� precisa de uma arma de 16 polegadas para penetrar aquela bosta, Tuds. Voc� vai estar t�o seguro quanto... merda, sei l�. Enfim, seguro.</p><p>Tom sabia.</p><p>� Seguro � disse ele em voz alta. � Como uma tartaruga em sua carapa�a!</p><p><image l:href="#4"/></p><p>S� restavam dez dias de compras at� o Natal, e Tach estava sentado num reservado perto da janela bebericando um <emphasis>Irish coffee</emphasis> contra o frio de dezembro e olhando detr�s do vidro espelhado para a Bowery. O Funhouse s� abriria em uma hora, mas a porta dos fundos estava sempre aberta para os amigos de Angelical. No palco, um par de curingas malabaristas que se chamavam Cosmos e Caos jogavam bolas de um lado para outro. Cosmos flutuava um metro acima do palco em posi��o de l�tus, seu rosto sem olhos sereno. Ele era totalmente cego, mas nunca perdia o ritmo nem deixava cair uma bola. Seu parceiro de seis bra�os, Caos, pulava de um lado para outro como um lun�tico, dando gargalhadas, contando piadas ruins e mantendo uma cascata de pinos flamejantes voando �s suas costas com dois bra�os enquanto os outros quatro jogavam bolas de boliche para Cosmos. Tach dispensou a eles apenas um breve olhar. Por mais talentosos que fossem, suas deformidades o incomodavam.</p><p>Mal deslizou para seu reservado.</p><p>� Quantos desses j� bebeu? � perguntou o le�o de ch�cara, olhando para o <emphasis>Irish coffee</emphasis>. Os pequenos tent�culos que pendiam de seu l�bio inferior se expandiam e contra�am em uma pulsa��o cega de verme, e seu queixo grande mal barbeado e deformado dava a seu rosto uma express�o de desprezo agressivo.</p><p>� N�o vejo como isso pode ser de sua conta.</p><p>� Voc� n�o serve para nada, n�o � mesmo?</p><p>� Eu nunca disse que servia.</p><p>Mal deu um resmungo.</p><p>� Voc� vale tanto quanto um saco de merda. N�o entendo por que Angel precisa de um homem do espa�o em roupas de beb� circulando por a� enxugando sua birita...</p><p>� Angel n�o precisa. Eu disse isso a ela.</p><p>� Voc� n�o pode dizer nada a essa mulher � concordou Mal. Ele fechou o punho. Um punho muito grande. Antes do Dia da Carta Selvagem, ele tinha sido o oitavo no ranking dos pesos-pesados. Depois disso, chegou at� o terceiro lugar na lista de desafiantes ao t�tulo... at� que baniram cartas selvagens dos esportes profissionais e acabaram com seus sonhos em uma s� tacada. A medida tinha como alvo os ases, disseram, para manter a competitividade dos jogos, mas n�o foram feitas exce��es para curingas. Mal agora estava mais velho, os cabelos ralos ficando grisalhos, mas ainda parecia forte o bastante para quebrar Floyd Patterson ao meio no joelho, e mau o bastante para encarar Sonny Liston de cima para baixo. � Veja s� isso � rosnou aborrecido, olhando pela janela. Baixinho estava l� fora em sua cadeira. � Que diabos ele est� fazendo aqui? Eu disse a ele para n�o vir mais aqui. Mal foi na dire��o da porta.</p><p>� Voc� n�o pode simplesmente deix�-lo em paz? � disse Tachyon quando ele se afastava. � Ele � inofensivo.</p><p>� Inofensivo? � Mal olhou para ele com aten��o. � Os gritos dele assustam a porra de todos os turistas, e quem diabos vai pagar por toda a sua bebida gr�tis?</p><p>Mas ent�o a porta se abriu, e Desmond surgiu ali parado, o sobretudo dobrado sobre o bra�o, sua tromba meio erguida.</p><p>� Deixe-o em paz, Mal � disse o ma�tre enfadado. � Vamos, agora. � Resmungando, Mal se afastou. Desmond se aproximou e se sentou no reservado de Tachyon. � Bom dia, doutor � disse ele.</p><p>Tachyon fez um leve aceno com a cabe�a e terminou o drinque. O u�sque todo tinha ficado no fundo da x�cara e o esquentou enquanto descia. Ele se viu encarando o pr�prio rosto no tampo espelhado da mesa, um rosto desgastado, envelhecido, acabado, <emphasis>duro</emphasis>, com olhos vermelhos e injetados, cabelos ruivos compridos emaranhados e gordurosos, os tra�os distorcidos pelo excesso de �lcool. Aquele n�o era ele, n�o podia ser, ele era bonito, de fei��es agrad�veis, marcantes, seu rosto era...</p><p>A tromba de Desmond serpenteou e seus dedos se fecharam em torno do pulso dele, puxando-o para a frente.</p><p>� Voc� n�o ouviu nem uma palavra do que eu disse, n�o �? � disse Des em voz baixa, com uma urg�ncia provocada pela raiva. Exausto e meio at�nito, Tach se deu conta de que Desmond estivera falando com ele e come�ou a murmurar desculpas.</p><p>� Deixe isso para l� � disse Des, soltando seu pulso. � Me escute. Eu estava pedindo sua ajuda, doutor. Posso ser um curinga, mas n�o sou um homem sem educa��o. J� li sobre voc�. Voc� tem certas... habilidades, digamos assim.</p><p>� N�o � interrompeu Tach. � N�o como voc� est� pensando.</p><p>� Seus poderes est�o muito bem documentados � disse Des.</p><p>� Eu n�o... � come�ou Tach, sem jeito. Ele estendeu as m�os. � Isso faz tempo. Eu os perdi, quero dizer, n�o consigo mais. � Ele olhou para baixo, para seus pr�prios tra�os envelhecidos, com vontade de encarar Des nos olhos, mas incapaz de suportar a imagem da deformidade do curinga.</p><p>� Voc� n�o quer, isso sim � disse Des. Ele se levantou. � Achei que se falasse com voc� antes de abrir, talvez conseguisse encontr�-lo s�brio. Estou vendo que me enganei. Esque�a tudo o que eu disse.</p><p>� Eu o ajudaria, se pudesse � come�ou a dizer Tach.</p><p>� Eu n�o estava pedindo por mim � disse rispidamente Des.</p><p>Quando ele foi embora, Tachyon foi at� o bar cromado e comprido e pegou uma garrafa inteira de conhaque. O primeiro copo o fez se sentir melhor; o segundo fez suas m�os pararem de tremer. No terceiro, ele tinha come�ado a chorar. Mal se aproximou e olhou para ele enojado.</p><p>� N�o sabia que um homem podia chorar tanto quanto voc� � disse ele, dando um len�o sujo para Tachyon pouco antes de ir ajudar a abrir a casa.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ele estava no ar por quatro horas e meia quando a not�cia do inc�ndio chegou estalando pelo r�dio da pol�cia ao lado de seu p� direito. N�o muito <emphasis>alto</emphasis> no ar, � verdade, apenas a uns dois metros do ch�o, mas isso era o bastante, dois ou vinte metros n�o faziam tanta diferen�a assim, descobrira Tom. Quatro horas e meia, e ele ainda n�o se sentia nem um pouco cansado. Na verdade, ele se sentia <emphasis>sensacional</emphasis>.</p><p>Ele estava seguro, preso com cinto ao assento anat�mico que Joey arrancara de um Triumph TR-3 destru�do e montara sobre um eixo bem no centro do VW. A �nica luz era o brilho p�lido de uma s�rie de telas de TV diferentes que o cercavam por todos os lados. Entre as c�meras e os motores que as movimentavam em seus trilhos, o gerador, o sistema de ventila��o, o equipamento de som, os pain�is de controle, a caixa de v�lvulas sobressalentes, e a geladeirinha, ele mal tinha espa�o para se mexer. Mas n�o havia problema. Tom era mais um <emphasis>claustr�filo</emphasis> que um claustrof�bico; ele gostava de ficar ali dentro. Em volta do exterior do fusca, Joey montara uma camada dupla de placas grossas de blindagem de navio. Era melhor que a porra de um tanque. Joey j� havia dado uns tiros ali com a Luger que Dom tomara de um oficial alem�o durante a guerra. Um tiro de sorte talvez conseguisse acertar uma das c�meras ou luzes, mas n�o havia como acertar Tom dentro de sua carapa�a. Ele estava mais do que seguro, estava <emphasis>invulner�vel</emphasis>, e quando ele se sentia assim seguro e confiante, n�o havia limite para o que era capaz de fazer.</p><p>A carapa�a ficou mais pesada que o Packard quando terminaram com ela, mas isso n�o parecia importar. Quatro horas e meia sem tocar o ch�o, deslizando de um lado para outro pelo ferro-velho em sil�ncio e quase sem esfor�o, e Tom n�o tinha nem mesmo come�ado a suar.</p><p>Quando escutou a not�cia no r�dio, foi tomado por uma onda de excita��o. �� isso!�, pensou. Ele devia esperar por Joey, mas Joey tinha ido at� a Pompeii Pizza buscar o jantar (pepperoni, cebolas e queijo extra) e n�o havia tempo a perder, essa era a sua chance.</p><p>O c�rculo de luz na parte de baixo da carapa�a projetava sombras duras sobre os montes de metal retorcido e lixo enquanto Tom erguia a carapa�a mais alto no ar, tr�s, quatro, cinco metros. Seus olhos iam nervosamente de uma tela para outra, vendo o ch�o se afastar. Em uma tela feita com o tubo de imagem de uma velha TV Sylvania, a imagem come�ou a correr na vertical. Tom mexeu em um bot�o e parou com aquilo. As palmas das m�os estavam suadas. Seis metros, ele come�ou a avan�ar at� a carapa�a chegar � beira-mar. Diante dele havia s� escurid�o; a noite estava enevoada demais para ver Nova York, mas ele sabia que ela estava ali, se pudesse chegar at� l�. Em suas pequenas telas preto e branco, as �guas da ba�a de Nova York pareciam ainda mais escuras que o normal, um oceano de nanquim encapelado e infinito assomando � sua frente. Ele teria de seguir �s cegas at� ver as luzes da cidade. E se ele perdesse o controle l� fora, ia se juntar ao Jetboy e a JFK bem mais cedo do que planejava; mesmo se conseguisse soltar a escotilha r�pido o bastante para conseguir evitar afundar, ele n�o sabia nadar.</p><p><emphasis>Mas ele n�o ia perder o controle</emphasis>, pensou de repente Tom. <emphasis>Por que diabos ele estava hesitante? Ele n�o ia perder o controle nunca mais, ia? Ele tinha de acreditar naquilo.</emphasis></p><p>Apertou os l�bios e, com a mente, fez a carapa�a avan�ar suavemente sobre a �gua. As ondas salgadas abaixo dele subiam e desciam. Ele nunca tivera de fazer for�a para erguer nada sobre a �gua antes; era uma sensa��o diferente. Tom sentiu um instante de p�nico. A carapa�a balan�ou e caiu um metro antes que ele se controlasse e a ajustasse. Fez um esfor�o para se acalmar, deu impulso para cima e subiu. <emphasis>Alto</emphasis>, pensou, ele chegaria pelo alto, apareceria <emphasis>voando</emphasis> como o Jetboy, como o �guia Negra, como a droga de um �s. A carapa�a seguiu em frente, cada vez mais r�pido, deslizando atrav�s da ba�a com �gil tranquilidade � medida que Tom ganhava confian�a. Ele nunca havia se sentido t�o incrivelmente poderoso, t�o bem, t�o <emphasis>certo</emphasis>, droga.</p><p>A b�ssola estava funcionando bem. Em menos de dez minutos, as luzes da regi�o do Battery e de Wall Street erguiam-se � sua frente. Tom deu impulso para subir mais alto e flutuou acima da cidade, acompanhando a margem do Hudson. O t�mulo de Jetboy surgiu e passou abaixo dele. Ele tinha ido at� l� dezenas de vezes. Ficava parado olhando para o rosto da grande est�tua de metal � sua frente. Ele se perguntou o que a est�tua pensaria se pudesse olhar para o alto e v�-lo esta noite.</p><p>Ele tinha um mapa das ruas de Nova York, mas naquela noite n�o precisou dele. As chamas podiam ser vistas a mais de um quil�metro de dist�ncia. Mesmo dentro da carapa�a Tom sentiu as lambidas das ondas de calor que o atingiram quando passou sobre o local. Ele come�ou a descer cuidadosamente. Seus ventiladores zumbiam, e suas c�meras foram direcionadas a seu comando. L� embaixo havia caos e cacofonia, sirenes e gritos, a multid�o, os bombeiros apressados, os bloqueios da pol�cia e as ambul�ncias, grandes caminh�es com escadas retr�teis que jogavam �gua naquele inferno. No in�cio, ningu�m o notou pairando 15 metros acima da cal�ada, at� que desceu o bastante para suas luzes atingirem as paredes do pr�dio. Ent�o ele os viu olhar para o alto e apontar: ele se sentiu zonzo de tanta excita��o.</p><p>Mas teve s� um instante para curtir a sensa��o. Ent�o, no canto do olho, ele a percebeu em uma de suas telas. Ela apareceu de repente em uma janela do quinto andar, debru�ada para fora e tossindo, o vestido j� come�ando a pegar fogo. Antes que pudesse agir, as chamas a atingiram, ela gritou e pulou.</p><p>Ele a pegou em pleno ar, sem pensar, sem hesitar, sem refletir se conseguiria ou n�o fazer aquilo. Ele simplesmente <emphasis>fez</emphasis>, pegou-a, segurou-a e a desceu suavemente at� o ch�o. Os bombeiros a cercaram, apagaram seu vestido e a levaram para uma ambul�ncia. E agora, Tom via, <emphasis>todo mundo</emphasis> estava olhando para ele l� no alto, para a forma estranha e escura que flutuava no ar naquela noite, com seu c�rculo de luzes brilhantes. A faixa de r�dio da pol�cia estava ativa; ele ouviu que estava sendo considerado um alien�gena. Ele sorriu.</p><p>Um policial subiu em sua viatura com um megafone e come�ou a se dirigir a ele. Tom desligou o r�dio para ouvir melhor em meio ao rugir das chamas. Ele estava mandando Tom descer e se identificar, perguntando quem ele era e o que era.</p><p>Isso era f�cil. Tom ligou seu pr�prio microfone.</p><p>� Sou o Tartaruga � disse ele. O VW n�o tinha pneus nem rodas. Em seu lugar, Joey fixara os maiores alto-falantes que puderam encontrar, acionados com o maior amplificador do mercado. Pela primeira vez, a voz do Tartaruga foi ouvida no solo, um retumbante �SOU O TARTARUGA!� que ecoou pelas ruas e pelos becos, um trov�o em movimento com ru�dos e estalos produzidos pela distor��o. Mas o que ele disse n�o tinha soado muito bem. Tom aumentou o volume ainda mais e injetou um pouco mais de graves na voz.</p><p>� EU SOU O GRANDE E PODEROSO TARTARUGA � anunciou para todos.</p><p>Ent�o voou uma quadra para oeste, chegou �s �guas escuras e polu�das do Hudson, e imaginou duas m�os invis�veis de cinco metros de largura. Ele as baixou at� a �gua, juntou-as em concha e encheu, e as ergueu. Um jato de �gua projetou-se de volta pela rua. Quando ele despejou a primeira cascata sobre as chamas, gritos e aplausos altos vieram da multid�o l� embaixo.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� Feliz Natal � declarou Tachyon, b�bado, quando o rel�gio marcou meia-noite, e o p�blico recorde da noite de Natal come�ou a pular, gritar e bater nas mesas. No palco, Humphrey Bogart contava uma piada infame com uma voz estranha. Todas as luzes da casa se reduziram um pouco rapidamente; quando voltaram ao normal, Bogart tinha sido substitu�do por um homem corpulento de rosto e nariz redondos.</p><p>� Quem � ele, agora? � perguntou Tachyon � g�mea a seu lado.</p><p>� W.C. Fields � murmurou ela, e esticou e enfiou a l�ngua dentro da orelha dele. A g�mea � direita estava fazendo algo ainda mais interessante por baixo da mesa, onde suas m�os de algum modo haviam encontrado o caminho para o interior das cal�as dele. As g�meas eram seu presente de Natal de Angelical.</p><p>� Voc� pode fingir que elas s�o eu � dissera a ele, apesar de, � claro, elas n�o serem nada como ela. Boas meninas, as duas, de formas fartas e divertidas, e absolutamente desinibidas, apesar de um pouco bobas. Elas o lembravam brinquedos sexuais takisianos. A da esquerda tinha contra�do o carta selvagem, mas vestia a m�scara de gata at� na cama, e n�o havia deformidade vis�vel para perturbar o doce prazer de sua ere��o.</p><p>W.C. Fields, quem quer que fosse ele, fez algumas observa��es c�nicas sobre o Natal e criancinhas. O p�blico o expulsou do palco sob vaias. O Projecionista tinha um repert�rio impressionante de rostos, mas n�o sabia contar piadas. Tach n�o ligava. Tinha toda a divers�o de que precisava.</p><p>� Jornal, doutor? � O vendedor estendeu um exemplar do <emphasis>Herald Tribune</emphasis> sobre a mesa com uma m�o grossa de tr�s dedos. Sua carne era quase azul de t�o negra e parecia oleosa. � Todas as not�cias do Natal � disse ele, ajeitando a desconfort�vel pilha de jornais que levava embaixo do bra�o. Duas presas pequenas e curvas se projetavam dos cantos de sua boca grande e sorridente. Sob um chap�u de abas estreitas, seu cr�nio era coberto de tufos densos de cabelos ruivos curtos. Nas ruas, eles o chamavam de Morsa.</p><p>� N�o, obrigado, Jube � disse Tach com dignidade embriagada. � Esta noite n�o estou com vontade de me divertir � custa da estupidez humana.</p><p>� Ei, vejam � disse a g�mea da direita. � O Tartaruga!</p><p>Tachyon olhou ao redor; momentaneamente confuso, perguntando-se como aquela enorme carapa�a blindada podia ter conseguido entrar no Funhouse, mas claro que ela estava se referindo ao jornal.</p><p>� Voc� devia comprar para ela, Tacky � disse a g�mea da esquerda, rindo. � Sen�o ela vai ficar tristinha.</p><p>Tachyon deu um suspiro.</p><p>� Vou querer um. Mas s� se n�o tiver que aturar nenhuma de suas piadas, Jube.</p><p>� Ouvi uma nova sobre um curinga, um polon�s e um irland�s perdidos numa ilha deserta, mas s� por isso n�o vou cont�-la � respondeu o Morsa com um sorriso el�stico.</p><p>Tachyon procurou moedas, mas n�o achou nada nos bolsos al�m de uma m�o pequena e feminina. Jube piscou.</p><p>� Eu pego com Des � disse ele. Tachyon abriu o jornal sobre a mesa no momento em que a casa noturna irrompeu em aplausos quando Cosmos e Caos subiram ao palco.</p><p>Uma foto granulada do Tartaruga ocupava duas colunas. Tachyon achou que aquilo parecia um picles voador, um pepino pequeno cheio de protuber�ncias e coberto de pequenos amassados. O Tartaruga tinha detido um homem que atropelou e matou um menino de 9 anos e fugiu sem prestar socorro no Harlem, interceptando sua fuga e erguendo o carro cinco metros acima do solo, onde ele ficou flutuando com o motor funcionando e os pneus girando loucamente at� que a pol�cia finalmente apareceu. Em um boxe, um porta-voz da Aeron�utica negava o boato de que a carapa�a fosse um tanque voador rob� experimental.</p><p>� Era de se pensar que eles a essa altura j� tivessem arranjado algo mais interessante sobre o que escrever � disse Tachyon. Era a terceira grande reportagem sobre o Tartaruga naquela semana. As colunas de cartas, as p�ginas de editoriais, tudo era Tartaruga, Tartaruga, Tartaruga. At� a televis�o estava enlouquecida com especula��es sobre o Tartaruga. Quem era ele? O que era ele? Como fazia aquilo?</p><p>Um rep�rter chegara a procurar por Tach para lhe fazer essa pergunta.</p><p>� Telecinesia � contou-lhe Tachyon. � N�o � nenhuma novidade. Na verdade, � quase comum. � Telecinesia tinha sido a habilidade que mais se manifestara entre os infectados pelo v�rus em 1946. Ele viu dezenas de pacientes que podiam mover clipes de papel e l�pis, e uma mulher que podia erguer o peso do pr�prio corpo por dez minutos de cada vez. At� o voo de Earl Sanderson tinha origens na telecinesia. O que ele n�o contou foi que a telecinesia <emphasis>naquela</emphasis> escala era algo sem precedentes. Claro, quando a reportagem foi publicada, erraram metade do que ele disse.</p><p>� Ele � um curinga, sabia? � sussurrou a g�mea da direita, a de m�scara de gata cinza prateada. Ela estava debru�ada sobre o ombro dele, lendo sobre o Tartaruga.</p><p>� Um curinga? � disse Tach.</p><p>� Ele se esconde dentro de um casco, n�o �? Por que ele faria isso se n�o fosse feio demais de se ver? � Ela tinha tirado a m�o de dentro das cal�as dele. � Eu posso olhar esse jornal?</p><p>Tach o empurrou na dire��o dela.</p><p>� Agora todos o est�o aplaudindo e incentivando � disse bruscamente. � Eles tamb�m aplaudiam e incentivavam os Quatro Ases.</p><p>� Era um grupo de negros, n�o era? � disse ela, voltando a aten��o para as manchetes.</p><p>� Ela est� fazendo um �lbum de recortes � disse sua irm�. � Todos os curingas acham que ele � um deles. Estupidez, n�o �? Aposto que � s� uma m�quina, alguma esp�cie de disco voador da Aeron�utica.</p><p>� N�o �, n�o � disse sua g�mea. � Diz bem aqui. � Ela apontou para uma reportagem ao lado com uma unha comprida e pintada de vermelho.</p><p>� N�o ligue para ela � disse a g�mea da esquerda. Ela se aproximou de Tachyon, mordiscando seu pesco�o enquanto a m�o ia para baixo da mesa. � Ei, qual o problema? Voc� est� todo mole.</p><p>� Mil desculpas � disse Tachyon, triste. Cosmos e Caos estavam jogando machados, facas e fac�es de um lado para outro do palco, a cascata reluzente multiplicada ao infinito pelos espelhos � sua volta. Ele estava com uma garrafa de um bom conhaque na m�o e mulheres bonitas e receptivas dos dois lados, mas, de repente, por alguma raz�o que n�o poderia explicar, aquela, na verdade, n�o parecia assim uma noite t�o boa. Ele encheu o copo at� a borda e cheirou os inebriantes vapores alco�licos. � Feliz Natal � murmurou para ningu�m em especial.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A consci�ncia voltou com os tons raivosos da voz de Mal. Tach, grogue, levantou a cabe�a do tampo espelhado da mesa piscando para seu reflexo inchado. Os malabaristas, as g�meas e o p�blico tinham ido embora havia muito tempo. Seu rosto estava grudento por ter ficado em cima de uma po�a de bebida derramada.</p><p>As g�meas o divertiram e acariciaram, e uma delas havia chegado a ir para baixo da mesa e feito de tudo. Ent�o Angelical apareceu e as mandou embora.</p><p>� V� dormir, Tacky � disse ela. Mal se aproximara para perguntar se ela queria que ele arrastasse Tacky para a cama. � Hoje n�o � disse ela. � Voc� sabe que dia � hoje. Deixe que ele durma aqui at� melhorar.</p><p>Ele n�o se lembrava de quando ca�ra no sono.</p><p>Sua cabe�a estava prestes a explodir, e os gritos de Mal n�o estavam ajudando em nada.</p><p>� N�o estou nem a� para <emphasis>o que</emphasis> prometeram a voc�, seu merda, voc� n�o vai v�-la � berrava o le�o de ch�cara. � Uma voz mais suave disse algo em resposta. � Voc� vai receber a porra da sua grana, mas � s� isso que vai levar � retrucou Mal.</p><p>Tach ergueu os olhos. Nos espelhos, viu sombriamente seus reflexos: formas retorcidas estranhas delineadas � luz p�lida do amanhecer, reflexos de reflexos, centenas deles, lindos, monstruosos, incont�veis, seus filhos, seus herdeiros, a descend�ncia de seus fracassos, um mar vivo de curingas. A voz suave disse mais alguma coisa.</p><p>� Ah, v� tomar nesse seu rabo de curinga � disse Mal. Seu corpo parecia um bast�o retorcido, e a cabe�a, uma ab�bora. Aquilo fez Tach sorrir. Mal empurrou algu�m e levou a m�o �s costas para pegar sua arma.</p><p>Os reflexos e os reflexos dos reflexos, as sombras delgadas e as inchadas, as de rosto redondo e as finas como facas, as negras e as brancas, todas se moveram ao mesmo tempo, enchendo o sal�o de barulho; um grito rouco de Mal, o estampido de tiros. Instintivamente, Tach se agachou para se proteger e bateu a testa com for�a na beira da mesa quando se abaixava. Ele piscou de volta l�grimas de dor e ficou ali encolhido no ch�o, espiando os reflexos de p�s enquanto o mundo se desintegrava em uma cacofonia cortante. Vidro se estilha�ava e ca�a, espelhos se quebravam por todos os lados, l�minas prateadas voavam pelo ar, muitas at� mesmo para Cosmos e Caos pegarem, estilha�os escuros devoravam os reflexos, tirando dentadas das formas de sombras retorcidas, respingadas de sangue contra os espelhos quebrados.</p><p>Tudo terminou t�o repentinamente quanto come�ou. A voz suave disse algo e ouviu-se o som de passos e de vidro se quebrando ao ser pisado. No instante seguinte, um grito abafado veio de suas costas. Tach estava embaixo da mesa, b�bado e apavorado. Seu dedo do�a: ele viu que estava sangrando, cortado por uma lasca de espelho. Tudo em que conseguia pensar era nas supersti��es humanas est�pidas sobre espelhos quebrados e azar. Ele p�s a cabe�a entre os bra�os para que o pesadelo terr�vel fosse embora.</p><p>Quando acordou de novo, estava sendo sacudido com for�a por um policial.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Mal estava morto, disse a ele um detetive. Mostraram-lhe uma foto do corpo do le�o de ch�cara estendido sobre uma po�a de sangue e uma confus�o de vidro quebrado. Ruth tamb�m estava morta, e um dos faxineiros, um ciclope pouco inteligente que nunca tinha feito mal a ningu�m. Eles lhe mostraram um jornal. O Massacre do Papai Noel, era como estavam chamando aquilo, e a reportagem era sobre tr�s curingas que tinham encontrado a morte aos p�s da �rvore na manh� de Natal.</p><p>A Srta. Fascetti tinha sumido, disse-lhe o outro detetive, ele sabia alguma coisa sobre isso? Achava que ela estava envolvida? Ela era criminosa ou v�tima? O que podia dizer sobre ela? Ele disse que n�o conhecia aquela pessoa, at� que lhe explicaram que estavam perguntando sobre Angela Fascetti e talvez ele a conhecesse melhor como Angelical. Ela sumira, e Mal fora baleado e estava morto, e a coisa mais assustadora de todas era que Tach n�o sabia de onde viria seu pr�ximo drinque.</p><p>Eles o detiveram por quatro dias e o submeteram a interrogat�rios insistentes, repassando v�rias vezes as mesmas coisas at� que Tachyon come�ou a gritar com eles, reivindicando, exigindo seus direitos, exigindo um advogado, pedindo uma bebida. Eles lhe deram apenas o advogado. O advogado disse que eles n�o podiam det�-lo sem acusa��o, ent�o o acusaram de ser testemunha material, de vadiagem, de resist�ncia � pris�o, e tornaram a interrog�-lo.</p><p>No terceiro dia, suas m�os estavam tremendo e ele tinha alucina��es acordado. Um dos detetives, o bonzinho, prometeu-lhe uma garrafa em troca de sua coopera��o, mas de algum modo suas respostas nunca os satisfaziam totalmente, e a garrafa n�o chegava. O mal-humorado amea�ou prend�-lo para sempre a menos que contasse a verdade. Achei que fosse um pesadelo, Tach lhe disse, chorando. Eu estava b�bado, estava dormindo. N�o, eu n�o consegui v�-los, s� os reflexos, distorcidos, multiplicados. N�o sei quantas pessoas eram. N�o sei do que se tratava. N�o, ela n�o tinha inimigos, todo mundo adorava Angelical. N�o, ela n�o tinha matado Mal, isso n�o fazia sentido. Mal a adorava. Um deles tinha voz suave. N�o, n�o sei qual deles. N�o, n�o me lembro do que disseram. N�o, n�o sei se eram curingas ou n�o, eles pareciam curingas, mas os espelhos distorcem, alguns deles, nem todos, entende? N�o, eu n�o conseguiria identific�-los se os visse, na verdade, eu nunca os vi. Tive de me esconder embaixo da mesa, entende? Os assassinos tinham chegado, era isso que meu pai sempre me dizia, n�o havia nada que eu pudesse fazer.</p><p>Quando viram que ele estava lhes contando tudo o que sabia, retiraram as acusa��es e o liberaram. Para as ruas escuras do Bairro dos Curingas e o frio da noite.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ele desceu a p� a Bowery sozinho, tremendo. O Morsa anunciava as edi��es noturnas dos jornais em sua banca na esquina da Hester.</p><p>� Leiam tudo sobre o assunto � gritava. � O Tartaruga aterroriza o Bairro dos Curingas. � Tach parou para encarar sem qualquer express�o as manchetes. POL�CIA PROCURA O TARTARUGA, dizia o <emphasis>Post</emphasis>. TARTARUGA ACUSADO DE ATAQUE, anunciava o <emphasis>World-Telegram</emphasis>. Ent�o os aplausos j� tinham terminado. Ele deu uma olhada no texto. O Tartaruga tinha passado as duas noites anteriores rondando pelo Bairro dos Curingas, erguendo pessoas no ar a trinta metros de altura para interrog�-las, amea�ando solt�-las se n�o gostasse de suas respostas. Quando a pol�cia tentou fazer uma pris�o na noite da v�spera, o Tartaruga depositou duas de suas viaturas no telhado do Freakers, na Chatham Square. DETENHAM O TARTARUGA, dizia o editorial no <emphasis>World-Telegram</emphasis>.</p><p>� Voc� est� bem, doutor? � perguntou o Morsa.</p><p>� N�o � disse Tachyon, largando o jornal. N�o podia mesmo pagar por ele.</p><p>Barreiras policiais bloqueavam a entrada do Funhouse, e havia um cadeado trancando a porta. FECHADO POR PRAZO INDETERMINADO, dizia a placa. Ele precisava de uma bebida, mas os bolsos de seu casaco de l�der de banda estavam vazios. Pensou em Des e em Randall e se deu conta de que n�o tinha ideia de onde moravam, ou de quais seriam seus sobrenomes.</p><p>Arrastando-se de volta para a QUARTOS, Tach subiu as escadas, exausto. Quando parou no escuro, quase imediatamente percebeu que no quarto fazia um frio congelante; a janela estava aberta, e um vento cortante expulsava os velhos cheiros de urina, mofo e bebida. Ele tinha feito aquilo? Confuso, foi at� l�, e algu�m saiu de tr�s da porta e o agarrou.</p><p>Aconteceu t�o depressa que ele mal teve tempo de reagir. O antebra�o que apertava sua traqueia era uma barra de ferro, sufocando seu grito, e uma m�o deu uma chave em seu bra�o direito �s suas costas, com for�a. Ele estava sem f�lego; o bra�o, quase se quebrando, e ent�o foi arrastado na dire��o da janela aberta, com velocidade, e Tachyon p�de apenas se contorcer sem muita for�a dentro de bra�os muito mais fortes que os seus. O batente da janela o acertou na boca do est�mago e arrancou seu �ltimo f�lego, e de repente ele estava caindo, de ponta-cabe�a, preso e indefeso no abra�o de ferro de seu agressor, e os dois mergulhavam na dire��o da cal�ada l� embaixo.</p><p>Pararam repentinamente 1,5 m acima do concreto, com uma for�a que provocou um resmungo do homem �s suas costas.</p><p>Tach tinha fechado os olhos antes do momento do impacto. Ele tornou a abri-los quando come�aram a flutuar para o alto. Acima do halo amarelo da luz do poste pairava um c�rculo de luzes muito mais fortes dispostas em uma escurid�o que cobria as estrelas de inverno.</p><p>O bra�o em torno de sua garganta tinha afrouxado o bastante para que Tachyon gemesse.</p><p>� Voc� � disse Tachyon com voz rouca enquanto faziam a volta na carapa�a e se detiveram suavemente em cima dela. O metal estava gelado, sua temperatura penetrava o tecido das cal�as de Tachyon. Quando o Tartaruga come�ou a subir direto para o meio da noite, o captor de Tachyon o soltou. Ele inspirou profundamente ar frio, e se virou para ver um homem de jaqueta de couro com fecho de z�per, cal�as pretas e uma m�scara de borracha de sapo. � Quem...? � engasgou ele.</p><p>� Sou o ajudante malvado do Grande e Poderoso Tartaruga � disse com certa alegria o homem de m�scara de sapo.</p><p>� DOUTOR TACHYON, EU PRESUMO � ribombaram os alto-falantes da carapa�a, muito acima dos becos do Bairro dos Curingas. � SEMPRE QUIS CONHEC�-LO. LIA SOBRE VOC� QUANDO ERA CRIAN�A.</p><p>� Abaixe isso � reclamou Tach sem energia.</p><p>� AH, CLARO. Melhorou? � O volume diminuiu bastante. � Aqui � muito barulhento, e por tr�s de toda essa blindagem nem sempre consigo saber o volume de minha voz. Desculpe se o assustei, mas n�o pod�amos arriscar que dissesse n�o. Precisamos de voc�.</p><p>Tach permaneceu exatamente onde estava, tremendo, abalado.</p><p>� O que voc�s querem? � perguntou sem �nimo.</p><p>� Ajuda � declarou o Tartaruga. Eles ainda estavam subindo; as luzes de Manhattan se espalhavam em torno deles, e as torres dos edif�cios Chrysler e Empire State se erguiam acima da cidade. Estavam mais alto que as duas. O vento estava frio e bem forte, e Tach se agarrou � carapa�a para proteger sua vida.</p><p>� Me deixem em paz � reclamou Tachyon. � N�o tenho nenhuma ajuda a dar a voc�s. N�o tenho ajuda para dar a ningu�m.</p><p>� Merda, ele est� chorando � informou o homem de m�scara de sapo.</p><p>� Voc� n�o entende � disse o Tartaruga. A carapa�a come�ou a deslizar para oeste, seu movimento firme e silencioso. Havia algo impressionante e assustador no voo. � Voc� tem de ajudar. J� tentei por minha conta, mas n�o estou chegando a lugar nenhum. Mas voc�, seus poderes, eles podem fazer a diferen�a.</p><p>Tachyon estava perdido em sua pr�pria autocomisera��o, com frio, exausto e desesperado demais para responder.</p><p>� Eu quero uma bebida � pediu Tachyon.</p><p>� Merda � disse o cara de sapo. � Dumbo tinha raz�o sobre esse cara, ele n�o passa da porra de um bebum.</p><p>� Ele n�o est� entendendo � continuou o Tartaruga. � Depois que explicarmos, ele vai compreender. Doutor Tachyon, estamos falando de sua amiga Angelical.</p><p>Ele precisava tanto de uma bebida que do�a.</p><p>� Ela era boa para mim � disse ele, lembrando-se do perfume doce de seus len��is de cetim e de suas pegadas sangrentas nas lajotas espelhadas. � Mas n�o h� nada que eu possa fazer. Contei � pol�cia tudo o que sabia.</p><p>� Pare com essa merda, seu babaca � disse o cara de sapo.</p><p>� Quando eu era crian�a, lia sobre voc� nos quadrinhos <emphasis>Jetboy</emphasis> � explicou o Tartaruga. � <emphasis>Trinta minutos sobre a Broadway</emphasis>, lembra? Voc� devia ser t�o inteligente quanto Einstein. Eu talvez possa salvar sua amiga Angelical, mas n�o vou conseguir sem seus poderes.</p><p>� N�o fa�o mais aquilo. N�o <emphasis>posso</emphasis>. Eu machuquei uma pessoa, algu�m que eu queria muito, mas eu dominei sua mente, s� por um instante e por um bom motivo, ou pelo menos eu achei que fosse um bom motivo, mas isso... a destruiu. N�o posso fazer de novo.</p><p>� Bu�, bu� � tro�ou o cara de sapo. � Vamos jog�-lo l� embaixo, ele n�o vale porra nenhuma. � Tirou algo de um dos bolsos de sua jaqueta de couro. Tach ficou surpreso ao ver que era uma garrafa de cerveja.</p><p>� Por favor � disse Tachyon quando o homem tirava a chapinha com um abridor de garrafas pendurado em seu pesco�o. � Um gole � suplicou Tach. � S� um gole. � Ele odiava o gosto de cerveja, mas precisava de alguma coisa, de qualquer coisa. J� fazia dias. � Por favor.</p><p>� V� se foder � disse o cara de sapo.</p><p>� Tachyon � disse o Tartaruga. � Voc� pode obrig�-lo.</p><p>� N�o, n�o posso � respondeu Tach. O homem levou a garrafa aos l�bios verdes de borracha. � N�o posso � repetiu Tach. Cara de sapo continuou a beber. � N�o. � Podia ouvir a cerveja descer pela garganta dele. � Por favor, s� um pouco.</p><p>O homem baixou a garrafa de cerveja e a sacudiu, pensativo.</p><p>� S� sobrou um gole � disse ele.</p><p>� Por favor. � Ele estendeu as m�os, tr�mulo.</p><p>� N�o � retrucou o cara de sapo. Come�ou a virar a garrafa de cabe�a para baixo. � Claro que se voc� estiver mesmo com sede, pode simplesmente dominar minha mente, certo? Me <emphasis>obrigar</emphasis> a dar a porra da garrafa para voc�. � Ele inclinou a garrafa um pouco mais. � V� em frente, eu o desafio a fazer isso, tente.</p><p>Tach observou o �ltimo gole de cerveja respingar sobre a carapa�a do Tartaruga e escorrer para o vazio.</p><p>� Merda � disse o homem de m�scara de sapo. � Voc� est� mal mesmo, n�o �? � Tirou outra garrafa do bolso, abriu-a e a passou para Tach, que a agarrou com as duas m�os. A cerveja estava gelada e azeda, mas ele nunca provara nada nem de perto t�o doce. Ele a enxugou inteira em um s� gole demorado.</p><p>� Tem mais alguma ideia inteligente? � perguntou o cara de sapo ao Tartaruga.</p><p>� frente deles havia o negrume do rio Hudson, e as luzes de Nova Jersey um pouco para oeste. Eles estavam descendo. Abaixo deles, com vista para o Hudson, havia uma constru��o ampla de a�o, vidro e m�rmore que Tachyon de repente reconheceu, apesar de jamais ter posto os p�s em seu interior: o t�mulo de Jetboy.</p><p>� Aonde estamos indo? � perguntou ele.</p><p>� Vamos conversar com um homem sobre um resgate � disse o Tartaruga.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>O t�mulo de Jetboy ocupava toda a quadra, no local onde ca�ram as pe�as e peda�os de seu avi�o. Ele tamb�m enchia as telas de Tom, que permanecia sentado na escurid�o quente de sua carapa�a, banhado em um brilho fosforescente. Os motores zumbiram quando as c�meras se moveram em seus trilhos. As grandes asas com aletas do t�mulo se curvavam para cima, como se o pr�prio pr�dio estivesse prestes a decolar. Atrav�s de janelas altas e estreitas, eles tiveram alguns vislumbres da r�plica em tamanho natural do JB-1 pendurada no teto, suas laterais vermelhas iluminadas por luzes escondidas. Acima das portas tinham sido gravadas as �ltimas palavras do her�i, cada letra entalhada no m�rmore italiano negro e preenchida com a�o inoxid�vel. O metal brilhou quando a luz branca dos refletores da carapa�a deslizou sobre a legenda:</p><p><strong>AINDA N�O POSSO MORRER</strong></p><empty-line/><p><strong>
    EU</strong><strong>N�O VI</strong><strong><emphasis>SONHOS DOURADOS</emphasis></strong></p><p>Tom baixou a carapa�a diante do monumento e pairou 1,5 m acima do amplo espa�o cal�ado com m�rmore no alto das escadas. Ali perto, um Jetboy de a�o de 6 m de altura olhava para longe, para al�m da West Side Highway e do rio Hudson, com os punhos em riste. Tom sabia que o metal usado na escultura viera de destro�os de avi�es acidentados. Ele conhecia o rosto da est�tua melhor do que o de seu pr�prio pai.</p><p>O homem que tinham ido encontrar surgiu das sombras na base da est�tua, uma forma escura e atarracada encolhida dentro de um sobretudo grosso, com as m�os bem fundo nos bolsos. Tom piscou uma luz para ele; uma c�mera se posicionou para lhe dar uma vis�o melhor. O curinga era um homem corpulento, de ombros arqueados e bem-vestido. Seu sobretudo tinha gola de pele, e o chap�u de feltro estava puxado para baixo. Em vez de nariz, ele tinha uma tromba de elefante no meio do rosto. Sua extremidade tinha v�rios dedos, protegidos por uma pequena luva de couro.</p><p>O Dr. Tachyon deslizou do topo da carapa�a, se desequilibrou e aterrissou de bunda no ch�o. Tom ouviu a risada de Joey. Ent�o Joey tamb�m desceu, num pulo, e ajudou Tachyon a ficar de p�.</p><p>O curinga baixou os olhos at� o alien�gena.</p><p>� Ent�o, no fim das contas, voc�s o convenceram a vir. Estou surpreso.</p><p>� N�s fomos convincentes pra cacete � disse Joey.</p><p>� Des � Tachyon disse, aparentando estar confuso. � O que est� fazendo aqui? Voc� conhece essas pessoas?</p><p>O cara de elefante retorceu a tromba.</p><p>� De certa forma, desde anteontem, sim. Eles me procuraram. Era tarde da noite, mas um telefonema do Grande e Poderoso Tartaruga ati�a o interesse de uma pessoa. Ele ofereceu sua ajuda e eu aceitei. Cheguei a contar a eles onde voc� morava.</p><p>Tachyon passou a m�o por seus cabelos sujos e emaranhados.</p><p>� Sinto muito por Mal. Voc� tem alguma not�cia de Angelical? Voc� sabe o quanto ela significa para mim.</p><p>� Sei exatamente, em d�lares e centavos � disse Des.</p><p>O queixo de Tachyon caiu. Ele pareceu sentido. Tom sentiu pena dele.</p><p>� Eu queria falar com voc� � disse ele. � Eu n�o sabia onde encontr�-lo.</p><p>Joey riu.</p><p>� O nome dele est� na porra da lista telef�nica, ot�rio. N�o tem muitos caras por a� chamados Xavier Desmond. � Ele olhou para a carapa�a. � Como, porra, ele vai achar a mulher se n�o conseguiu nem achar o amigo dele aqui?</p><p>Desmond assentiu.</p><p>� Um excelente argumento. Isso n�o vai funcionar. Olhem s� para ele! � Sua tromba apontava. � Ele n�o vai servir para nada. Estamos perdendo um tempo precioso.</p><p>� N�s fizemos do seu jeito � respondeu Tom. � E n�o estamos chegando a lugar nenhum. Ningu�m fala nada. Ele pode conseguir a informa��o de que precisamos.</p><p>� N�o estou entendendo nada disso � interrompeu Tachyon.</p><p>Joey emitiu um ru�do de insatisfa��o. Ele tinha achado uma cerveja em algum lugar e estava abrindo a chapinha.</p><p>� O que est� acontecendo? � perguntou Tach.</p><p>� Se voc� estivesse minimamente interessado em qualquer coisa al�m de conhaque e vadias baratas, talvez soubesse � disse friamente Des.</p><p>� Conte a ele o que voc� nos contou � ordenou Tom. Quando soubesse, sem d�vida Tachyon ajudaria, pensava ele. Ele <emphasis>tinha de</emphasis> ajudar.</p><p>Des soltou um suspiro profundo.</p><p>� Angelical era viciada em hero�na. Ela sentia dor, voc� sabe. N�o percebeu isso de vez em quando, doutor? A droga era a �nica coisa que a fazia aguentar o dia. Sem ela, teria enlouquecido com a dor. E seu v�cio n�o era igual ao de um drogado. Ela usava hero�na pura, sem misturas, em quantidades que teriam matado um usu�rio normal. Voc� viu como isso a afetava minimamente. O metabolismo dos curingas � algo curioso. Tem ideia de como a hero�na � cara, Dr. Tachyon? Deixa para l�, estou vendo que n�o sabe. Angelical ganhava uma boa grana com o Funhouse, mas nunca era o bastante. Seu fornecedor lhe deu cr�dito at� ela ficar completamente endividada, ent�o exigiu... digamos que uma nota promiss�ria. Ou um presente de Natal. Ela n�o tinha escolha. Era isso ou ficar sem seu suprimento. Ela esperava conseguir o dinheiro, a otimista de sempre. N�o conseguiu. Na manh� de Natal, seu fornecedor apareceu para receber. Mal n�o estava disposto a deixar que a levassem. Eles insistiram.</p><p>Tachyon estava com os olhos apertados por causa do brilho das luzes. Sua imagem come�ou a correr para cima.</p><p>� Por que ela n�o me contou? � disse ele.</p><p>� Acho que n�o queria sobrecarreg�-lo, doutor. Isso podia ter acabado com a divers�o de seus porres de autocomisera��o.</p><p>� Voc� contou � pol�cia?</p><p>� A pol�cia, ah, sim. Os melhores de Nova York. Aqueles que parecem t�o curiosamente desinteressados sempre que um curinga � espancado ou morto, mas t�o competentes se um turista � roubado. Aqueles que regularmente prendem, abusam e brutalizam qualquer curinga que tenha o mau gosto de viver em qualquer lugar fora de seu bairro. Talvez pud�ssemos consultar o policial que comentou que estuprar uma mulher curinga � mais se entregar a um prazer de gosto duvidoso do que um crime � disse com raiva Des. � Dr. Tachyon, onde o senhor acha que Angelical comprava suas drogas? Acha que algum traficantezinho comum de rua teria acesso � hero�na pura nas quantidades de que ela precisava? A pol�cia <emphasis>era</emphasis> sua fonte. O chefe do esquadr�o de narc�ticos do Bairro dos Curingas, para ser mais exato. Ah, eu lhe garanto que � improv�vel que todo o departamento esteja envolvido. O Departamento de Homic�dios pode estar conduzindo uma investiga��o de verdade. O que acha que eles diriam se cont�ssemos a eles que Bannister � o assassino? Acha que iam prender um dos seus? Apenas pelo meu testemunho, o testemunho de um curinga qualquer?</p><p>� Vamos pagar essa promiss�ria � disse bruscamente Tachyon. � Vamos dar a esse homem o dinheiro ou o Funhouse ou o que quer que ele queira.</p><p>� A nota promiss�ria � disse Desmond, desanimado � n�o era pelo Funhouse.</p><p>� O que quer que seja, entregue a ele!</p><p>� Ela lhe prometeu a �nica coisa que ainda tinha e que ele desejava � disse Desmond. � Ela mesma. Sua beleza e sua dor. � esse o boato que corre nas ruas, se voc� souber ouvir. Vai haver uma festa de Ano-Novo muito especial em algum lugar da cidade. S� para convidados. Cara. Uma emo��o �nica. Bannister vai possu�-la primeiro. Ele h� muito tempo quer isso. Mas os outros convidados ter�o sua vez. Hospitalidade do Bairro dos Curingas.</p><p>A boca de Tachyon se mexeu sem fazer qualquer som por um momento.</p><p>� A pol�cia? � finalmente conseguiu dizer. Ele parecia t�o chocado quanto ficou Tom quando Desmond contou para ele e Joey.</p><p>� Acha que eles nos amam, doutor? Somos aberra��es. Somos <emphasis>doentes</emphasis>. O Bairro dos Curingas � um inferno, um beco sem sa�da, e sua pol�cia � a mais brutal, corrupta e incompetente da cidade. N�o acho que ningu�m planejou o que aconteceu no Funhouse, mas aconteceu, e Angelical sabe demais. Eles n�o podem deix�-la viver, ent�o, v�o se divertir um pouco com sua boceta de curinga.</p><p>Tom Tudbury se inclinou na dire��o do microfone.</p><p>� Eu posso resgat�-la � disse ele. � Esses filhos da puta n�o viram nada como o Grande e Poderoso Tartaruga. Mas eu n�o consigo <emphasis>ach�-la</emphasis>.</p><p>Des disse:</p><p>� Ela tem muitos amigos. Mas nenhum de n�s consegue ler mentes, ou obrigar um homem a fazer algo que n�o queira.</p><p>� Eu <emphasis>n�o consigo</emphasis> � protestou Tachyon. Ele parecia se encolher para dentro de si mesmo a fim de escapar deles, e por um instante Tom achou que o homenzinho ia fugir. � Voc�s n�o entendem.</p><p>� Que merda de fracote deprimente � gritou Joey.</p><p>Ao ver em suas telas Tachyon desmoronar, Tom Tudbury finalmente perdeu a paci�ncia.</p><p>� Se voc� fracassar, fracassou � disse ele. � E se n�o tentar, tamb�m vai fracassar, ent�o que porra de diferen�a isso faz? Jetboy fracassou, mas pelo menos ele <emphasis>tentou</emphasis>. Ele n�o era um �s, n�o era a merda de um takisiano, era apenas um cara com um jato, mas fazia o que podia.</p><p>� Eu quero. Eu... apenas... <emphasis>n�o consigo</emphasis>.</p><p>Des exprimiu sua insatisfa��o. Joey deu de ombros.</p><p>Dentro de sua carapa�a, Tom estava sentado sem crer, at�nito. Ele n�o ajudaria. Ele n�o podia ter imaginado isso, n�o podia crer. Joey o alertara. Desmond tamb�m, mas Tom tinha insistido, tinha certeza, aquele era o doutor Tachyon, claro que ele ajudaria, talvez estivesse enfrentando alguns problemas, mas, quando lhe explicassem a situa��o, quando explicassem o que estava em jogo e o quanto precisavam dele, ele <emphasis>teria</emphasis> de ajudar. Mas ele estava dizendo n�o. Era a �ltima cartada.</p><p>Ele aumentou o bot�o do volume at� o m�ximo.</p><p>� SEU FILHO DA PUTA � trovejou, e o som fez trepidar todo o local. Tachyon se encolheu. � SEU MERDA DE ALIEN�GENA QUE N�O SERVE PARA PORRA NENHUMA! � Tachyon recuava pela escada aos trope��es, mas o Tartaruga deslizou atr�s dele, com os alto-falantes berrando. � ERA TUDO MENTIRA, N�O ERA? TUDO NAS REVISTAS EM QUADRINHOS, TUDO NOS JORNAIS, N�O PASSAVAM DE MENTIRAS EST�PIDAS. DURANTE TODA A MINHA VIDA ME BATERAM E ME CHAMARAM DE BANANA DE MERDA, DE COVARDE, SEU BABACA, SEU CHOR�O DE MERDA, VOC� NEM TENTA, N�O D� A M�NIMA PARA NINGU�M, N�O D� A M�NIMA PARA SUA AMIGA ANGELICAL NEM PARA KENNEDY NEM PARA O JETBOY NEM PARA NINGU�M, VOC� TEM A PORRA DESSES PODERES TODOS E N�O � <emphasis>NADA</emphasis>, N�O VAI FAZER NADA, VOC� � PIOR QUE OSWALD OU BRAUN OU QUALQUER UM DELES. � Tachyon descia os degraus cambaleando, com as m�os nos ouvidos, gritando algo incompreens�vel, mas Tom n�o estava ouvindo. Sua raiva agora tinha vida pr�pria. Tom partiu para cima dele e lhe deu um tapa na cara que fez sua cabe�a girar. � BABACA! � gritava Tom � � VOC� QUE SE ESCONDE NUMA CARAPA�A. � Golpes invis�veis ca�ram com f�ria sobre Tachyon. Ele trope�ou, caiu e rolou um ter�o das escadarias, tentou ficar de p� outra vez, foi derrubado de novo e caiu de ponta-cabe�a na rua. � BABACA! � trovejou o Tartaruga. � CORRA, SEU MERDA! V� EMBORA DAQUI, OU VOU JOG�-LO DENTRO DA PORRA DO RIO! CORRA, SEU MERDA, ANTES QUE O GRANDE E PODEROSO TARTARUGA FIQUE PUTO DE VERDADE! CORRA, DROGA! � VOC� QUEM EST� NUMA CARAPA�A! � VOC� QUEM EST� NUMA CARAPA�A!</p><p>E ele correu. Seguiu cegamente em disparada de um poste de luz a outro at� se perder nas sombras. Tom Tudbury o observou sumir nas v�rias telas de TV da carapa�a. Estava se sentindo mal e cansado. Sua cabe�a latejava. Ele precisava de uma cerveja ou de uma aspirina, ou das duas. Quando ouviu sirenes se aproximando, ergueu Joey e Des e os p�s sobre sua carapa�a, apagou as luzes e subiu direto noite adentro, alto, bem alto no interior da escurid�o, do frio e do sil�ncio.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Naquela noite, Tach dormiu o sonho dos malditos, rolando de um lado para outro como um homem num sono febril, gritando, chorando, despertando v�rias vezes de pesadelos s� para tornar a dormir e retornar a eles. Sonhou que estava de volta a Takis e que seu primo odiado Zabb estava se gabando de um novo brinquedo sexual, mas quando o mostrou, era Blythe, e ele a estuprou bem ali na frente de Tach, que observou tudo, impotente, incapaz de intervir; o corpo dela se contorcia embaixo do dele e escorria sangue de sua boca, de seus ouvidos e de sua vagina. Ela come�ou a mudar para as formas de mil curingas, cada um mais horr�vel do que o anterior, e Zabb seguiu em frente, estuprando todos em meio a seus gritos e sua luta. Mas depois, quando Zabb se levantou de cima do cad�ver coberto de sangue, n�o era mais o rosto de seu primo, era o seu pr�prio, macilento e dissoluto, um rosto <emphasis>vulgar</emphasis>, com olhos avermelhados e inchados, cabelos ruivos compridos, emaranhados e gordurosos, fei��es distorcidas pelo excesso de �lcool ou talvez por um espelho do Funhouse.</p><p>Ele acordou por volta do meio-dia, com o barulho terr�vel de Baixinho chorando perto de sua janela. Era mais do que podia aguentar. Foi aos trope��es at� a janela, abriu-a e gritou para que o gigante ficasse quieto, para que parasse e o deixasse em paz, por favor, mas o Baixinho continuou e n�o parou, tanta dor, tanta culpa, tanta vergonha, por que n�o podiam deix�-lo sossegado, n�o aguentava mais, n�o, cale a boca, cale a boca, <emphasis>por favor, cale a boca</emphasis>, e de repente Tach soltou um grito, projetou sua mente e mergulhou na cabe�a do Baixinho e o fez se calar.</p><p>O sil�ncio foi ensurdecedor.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>A cabine telef�nica mais pr�xima ficava em uma loja de doces a um quarteir�o de dist�ncia. V�ndalos tinham feito em peda�os a lista telef�nica. Ele discou para a telefonista e pegou o endere�o de Xavier Desmond na Christie Street, a apenas uma curta caminhada de dist�ncia. O apartamento ficava no quarto andar de um pr�dio sem elevador acima de uma loja de m�scaras. Tachyon estava sem f�lego quando chegou l� no alto.</p><p>Des abriu a porta ap�s a quinta batida.</p><p>� O Tartaruga � disse Tach. Sua garganta estava seca. � Ele conseguiu alguma coisa ontem � noite?</p><p>� N�o � respondeu Des. Sua tromba se retorceu. � A mesma hist�ria de sempre. Eles j� est�o ligados nele, sabem que n�o vai deix�-los cair. Eles chamam isso de blefe. Al�m de realmente matar algu�m, n�o h� nada a fazer.</p><p>� Me diga a quem perguntar � disse Tach.</p><p>� Voc�? � disse Des.</p><p>Tach n�o conseguia olhar o curinga nos olhos. Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� Deixe-me pegar meu casaco � disse Des. Ele saiu do apartamento todo agasalhado para o frio e carregando uma capa de pele e uma capa de chuva bege surrada. � Ponha seu cabelo para dentro do chap�u � disse ele para Tachyon. � E deixe esse casaco rid�culo aqui. Voc� n�o quer ser reconhecido. � Tach fez o que ele disse. Quando estavam saindo, Des entrou na loja de m�scaras para o toque final.</p><p>� Uma galinha? � disse Tach quando Des lhe entregou a m�scara. Ela tinha penas amarelo vivo, um bico laranja protuberante e uma crista mole no alto.</p><p>� Quando a vi, soube que era perfeita para voc� � disse Des. � Vista-a.</p><p>Um guindaste grande estava se posicionando na Chatham Square para retirar os carros de pol�cia do telhado do Freakers. O clube estava aberto. O porteiro era um curinga de mais de dois metros de altura sem pelos e com presas. Ele agarrou Des pelo bra�o quando eles tentaram passar por baixo das luzes de n�on da dan�arina de seis seios que rebolava acima da porta.</p><p>� N�o � permitida a entrada de curingas � disse ele bruscamente. � Cai fora, paquiderme.</p><p><emphasis>Projete-se e agarre sua mente</emphasis>, pensou Tachyon. Antigamente, antes de Blythe, ele teria feito aquilo instintivamente. Mas agora ele hesitava e, hesitante, estava perdido.</p><p>Des levou a m�o ao bolso traseiro da cal�a, sacou uma carteira e extraiu dela uma nota de cinquenta d�lares.</p><p>� Voc� os via retirarem os carros de pol�cia � disse ele. � Nunca me viu passar.</p><p>� Ah, sim � disse o porteiro. A nota sumiu em uma garra que fazia as vezes de m�o.</p><p>� �s vezes o dinheiro � o poder mais potente de todos � disse Des enquanto entravam na penumbra cavernosa do interior. Um p�blico esparso de meio-dia estava sentado ali, comendo o almo�o gr�tis e vendo uma <emphasis>stripper</emphasis> rodopiar por uma passarela comprida por tr�s de uma barreira de arame farpado. Ela estava coberta de pelos cinzentos sedosos, exceto nos seios, que tinham sido totalmente depilados. Desmond examinou os reservados ao longo da parede dos fundos. Pegou Tach pelo ombro e o conduziu at� um canto escuro, onde um homem de japona estava sentado com uma caneca de cerveja.</p><p>� Eles agora est�o permitindo a entrada de curingas aqui? � perguntou o homem mal-humorado quando eles se aproximaram. Ele tinha um ar s�rio e triste e um rosto com marcas de catapora.</p><p>Tach penetrou em sua mente. <emphasis>Porra, o que � isso agora? O homem-elefante do Funhouse e quem � o outro? Malditos curingas... de qualquer modo t�m muita coragem.</emphasis></p><p>� Onde Bannister est� escondendo Angelical? � perguntou Des.</p><p>� Angelical � a mulher do Funhouse, certo? N�o conhe�o nenhum Bannister. Isso � um jogo? V� se foder, curinga, eu n�o quero jogar. � Em seus pensamentos surgiram imagens confusas; Tach viu espelhos estilha�ando, l�minas de prata voando pelo ar, sentiu o empurr�o de Mal e o viu levar a m�o �s costas para pegar a arma, viu quando ele estremeceu e girou quando as balas o acertaram, ouviu a voz macia de Bannister dizer a eles para matar Ruth, viu o armaz�m perto do Hudson onde eles a estavam escondendo, as marcas l�vidas em seus bra�os quando eles a agarraram, provou o medo do homem, medo de curingas, medo da descoberta, medo de Bannister, o medo <emphasis>deles</emphasis>. Tach estendeu a m�o e apertou o bra�o de Desmond.</p><p>Desmond se virou para ir embora.</p><p>� Ei, espere a� � disse o homem com o rosto marcado pela catapora. Ele exibiu um distintivo enquanto sa�a do reservado. � Sou agente da Narc�ticos disfar�ado � disse ele �, e voc� est� drogado, senhor, fazendo perguntas idiotas de merdas como essa. � Des ficou parado enquanto o homem o revistava de cima a baixo. � Vejam s� � disse ele, mostrando um saquinho de p� branco de um dos bolsos de Desmond. � O que ser� isso? Voc� est� preso, cara de aberra��o.</p><p>� Isso n�o � meu � disse calmamente Desmond.</p><p>� O cacete que n�o � � disse o homem, e em sua cabe�a os pensamentos corriam um atr�s do outro <emphasis>pequeno acidente resistiram � pris�o o que eu podia fazer hein? os curingas v�o gritar, mas quem d� ouvidos pra porra de um curinga mas o que vou fazer com o outro?</emphasis> Ele olhou para Tachyon. <emphasis>Nossa, olha como treme esse homem-galinha talvez o merda esteja mesmo sob efeito de alguma coisa isso ia ser �timo.</emphasis></p><p>Tremendo, Tach percebeu que a hora da verdade se aproximava.</p><p>N�o sabia ao certo se conseguiria faz�-lo. Era diferente do Baixinho; aquilo tinha sido instinto cego, mas agora ele estava acordado e sabia o que estava fazendo. Antigamente era t�o f�cil, t�o f�cil quanto usar as m�os. Mas agora essas m�os tremiam e havia sangue nelas, e em sua mente tamb�m... ele pensou em Blythe e em como a mente dela se despeda�ara sob seu toque, como os espelhos do Funhouse, e por um segundo longo e terr�vel nada aconteceu, at� que o medo azedou em sua garganta e o gosto familiar do fracasso encheu sua boca.</p><p>Ent�o, o homem com rosto marcado abriu um sorriso idiota, tornou a se sentar em seu reservado, apoiou a cabe�a na mesa e dormiu como uma crian�a.</p><p>Des entendeu na hora.</p><p>� Obra sua?</p><p>Tachyon assentiu.</p><p>� Voc� est� tremendo. Est� tudo bem, doutor? � perguntou Des.</p><p>� Acho que sim � disse Tachyon. O policial tinha come�ado a roncar alto. � Acho que talvez eu esteja bem, Des. Pela primeira vez em anos. � Ele olhou para o rosto do curinga, foi al�m da deformidade e viu o homem por baixo dela. � Eu sei onde ela est� � disse, e os dois pegaram a dire��o da sa�da. Na jaula, uma hermafrodita de seios fartos e barba tinha come�ado a dan�ar e se contorcer. � Temos de agir r�pido.</p><p>� Posso reunir vinte homens em uma hora.</p><p>� N�o � disse Tachyon. � O lugar onde a est�o escondendo n�o fica no Bairro dos Curingas.</p><p>Des parou com a m�o na porta.</p><p>� Entendi � disse ele. � E fora dele, curingas e homens mascarados chamam muita aten��o, n�o �?</p><p>� Exatamente � disse Tach. Ele n�o externou seu outro medo, da retribui��o que com certeza viria se os curingas ousassem enfrentar a pol�cia, mesmo policiais t�o corruptos quanto Bannister e seus comparsas. Ele mesmo assumiria o risco, n�o tinha mais nada a perder, mas n�o podia permitir que fizessem isso. � Voc� consegue entrar em contato com o Tartaruga? � perguntou.</p><p>� Posso lev�-lo at� ele � respondeu Des. � Quando?</p><p>� Agora � disse Tach. Em uma ou duas horas o policial que dormia acordaria e iria direto falar com Bannister. E dizer o qu�? Que Des e um homem com m�scara de galinha tinham feito algumas perguntas e que ele estava prestes a prend�-los quando de repente ficou com muito sono? Ser� que ousaria admitir isso? Se admitisse, o que Bannister pensaria daquilo? O bastante para mudar Angelical de lugar? O bastante para mat�-la? Eles n�o podiam arriscar.</p><p>Quando sa�ram da penumbra do Freakers, o guindaste tinha acabado de baixar na cal�ada o segundo carro de pol�cia. Soprava um vento frio, mas, por tr�s de sua m�scara de galinha, o Dr. Tachyon tinha come�ado a suar.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Tom Tudbury acordou com o barulho baixo e abafado de algu�m batendo em sua carapa�a.</p><p>Ele afastou o cobertor surrado para o lado e bateu com a cabe�a ao se sentar.</p><p>� Ah, droga � xingou, tateando na escurid�o at� encontrar a luz de leitura. As batidas continuaram, um <emphasis>bum bum bum</emphasis> surdo contra a blindagem que fazia eco. Tom sentiu uma pontada de p�nico. �A pol�cia�, pensou, �eles me encontraram, vieram me pegar e prender por v�rias acusa��es�. A cabe�a dele do�a. Era frio e sufocante ali dentro. Ligou o aquecedor port�til, os ventiladores e as c�meras. Suas telas ganharam vida.</p><p>L� fora era um dia claro e frio de dezembro, e a luz do sol pintava cada tijolo sujo com grande nitidez. Joey havia tomado o trem de volta para Bayonne, mas Tom tinha ficado; o tempo deles estava se esgotando, ele n�o tinha alternativa. Des encontrou um lugar seguro para ele, um p�tio interno nas profundezas do Bairro dos Curingas, cercado por pr�dios residenciais de cinco andares em ru�nas e cujas pedras do cal�amento emanavam fedor de esgoto, totalmente escondido da rua. Quando aterrissou, pouco antes do amanhecer, suas luzes iluminaram por um instante algumas das janelas escuras, e rostos vieram espiar com cuidado o que havia entre as sombras; rostos cautelosos, assustados, n�o exatamente humanos, vistos brevemente e na mesma velocidade desaparecidos, quando decidiram que a coisa l� fora n�o era da conta deles.</p><p>Bocejando, Tom se ergueu em seu assento e examinou a imagem de suas c�meras at� descobrir a origem da como��o. Des estava de p� ao lado da porta aberta de um por�o, de bra�os cruzados, enquanto o Dr. Tachyon martelava a carapa�a com um cabo de vassoura.</p><p>Aturdido, Tom ligou seus microfones.</p><p>� VOC�.</p><p>Tachyon recuou.</p><p>� Por favor.</p><p>Ele baixou o volume.</p><p>� Me desculpe. Voc� me pegou de surpresa. Nunca achei que fosse v�-lo de novo. Quero dizer, depois de ontem � noite. Eu n�o machuquei voc�, machuquei? N�o era minha inten��o, eu s�...</p><p>� Eu entendo � disse Tachyon. � Mas agora n�o temos tempo para recrimina��es nem desculpas.</p><p>A imagem de Des come�ou a correr para cima. Maldito controle do vertical.</p><p>� N�s sabemos onde ela est� escondida � informou o curinga enquanto a imagem corria na tela. � Quero dizer, se o Dr. Tachyon pode mesmo ler mentes como foi anunciado.</p><p>� Onde? � perguntou Tom. A imagem de Des continuava correndo sem parar na vertical.</p><p>� Um armaz�m � beira do Hudson � respondeu Tachyon.</p><p>� Perto da base de um p�er. N�o sei dizer o endere�o, mas eu o vi claramente nos pensamentos dele. Vou reconhec�-lo.</p><p>� �timo! � disse Tom com entusiasmo. Ele desistiu de seus esfor�os para ajustar o controle do vertical e deu um tapa na tela. A imagem firmou. � Ent�o n�s os pegamos. Vamos l�. � A express�o no rosto de Tachyon o tomou de surpresa. � Voc� vem, n�o vem?</p><p>Tachyon engoliu em seco.</p><p>� Vou � confirmou. Tinha uma m�scara nas m�os e a vestiu.</p><p>Aquilo foi um al�vio, pensou Tom; por um segundo, ali, ele achou que teria de ir sozinho.</p><p>� Suba � disse ele.</p><p>Com um grande suspiro de resigna��o, e as botas sem apoio arranhando a blindagem, o alien�gena subiu no topo da carapa�a. Tom agarrou os bra�os de seu assento com for�a e empurrou para o alto. A carapa�a se ergueu com tanta facilidade quanto uma bolha de sab�o. Ele ficou euf�rico. Era exatamente aquilo que tinha o dever de fazer, pensou Tom; o Jetboy devia se sentir assim.</p><p>Joey tinha instalado uma buzina monstro na carapa�a. Tom a tocou enquanto flutuavam acima dos pr�dios, assustando alguns pombos, alguns b�bados e Tachyon, com o som alt�ssimo caracter�stico: <emphasis>(...) Vai salv�-lo do perigoo.</emphasis></p><p>� Talvez fosse inteligente ser um pouco mais sutil em rela��o a isso � disse diplomaticamente Tachyon.</p><p>Tom riu.</p><p>� N�o acredito, estou aqui com um homem do espa�o que quase sempre est� vestido como Pinky Lee montado em cima de mim, e ele me diz que eu devia ser sutil. � Ele riu de novo enquanto as ruas do Bairro dos Curingas se estendiam por toda a sua volta.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Fizeram a aproxima��o final atrav�s de um labirinto de ruelas nas docas. O �ltimo era um beco sem sa�da, que terminava em um muro de tijolos com os nomes de gangues e jovens amantes riscados. O Tartaruga se ergueu acima do muro, e eles emergiram na �rea de carga nos fundos do armaz�m. Um homem de jaqueta de couro estava sentado � beira do cais de carga. Pulou de p� quando eles apareceram flutuando. Seu pulo foi muito mais alto do que previu, cerca de uns tr�s metros mais alto. Ele abriu a boca, mas, antes que pudesse gritar, Tach o havia dominado; ele caiu no sono em pleno ar. O Tartaruga o escondeu no alto de um telhado pr�ximo.</p><p>Quatro grandes entradas de carga davam para o cais, todas fechadas com corrente e cadeado, seus port�es de metal corrugado marcados com faixas largas e marrons de ferrugem. OS INVASORES SER�O PROCESSADOS, diziam as letras na porta lateral estreita.</p><p>Tach pulou para o ch�o e aterrissou com facilidade e na ponta dos cascos, seus nervos tinindo.</p><p>� Vou entrar. Me deem um minuto e ent�o venham atr�s de mim.</p><p>� Um minuto � disseram os alto-falantes. � Combinado.</p><p>Tach tirou as botas, abriu uma fresta na porta e deslizou para dentro do armaz�m com os p�s envoltos em meias roxas, conjurando toda a discri��o e fluidez de movimentos que havia muito tempo lhe ensinaram em Takis. L� dentro, havia fardos de aparas de papel bem amarrados com arame fino e empilhados at� uma altura de nove, dez metros. Tachyon caminhou furtivamente por uma passagem cheia de curvas na dire��o do som de vozes. Uma grande empilhadeira amarela bloqueava a passagem. Ele se curvou e entrou rastejando embaixo dela para espiar do outro lado de um enorme pneu.</p><p>Contou um total de cinco. Dois estavam jogando cartas, sentados em cadeiras de armar e usando uma pilha de livros de bolso sem capa como mesa. Um homem repulsivamente gordo estava ajustando uma m�quina de picar papel gigantesca junto da parede dos fundos. Os dois �ltimos estavam debru�ados sobre uma mesa comprida com sacos de p� branco empilhados em fileiras organizadas diante deles. O homem alto de camisa de flanela pesava algo em um pequeno conjunto de balan�as. A seu lado, supervisionando, havia um homem magro e come�ando a ficar careca vestido com uma capa de chuva cara. Ele tinha um cigarro na m�o, e sua voz era suave e macia. Tachyon n�o conseguia entender direito o que diziam. N�o havia sinal de Angelical.</p><p>Ele mergulhou no esgoto que era a mente de Bannister e a viu. Entre a m�quina de picar papel e a enfardadeira. Debaixo da empilhadeira, ele n�o conseguia ver o local, pois as m�quinas obstru�am seu campo de vis�o, mas ela estava l�. Um colch�o imundo tinha sido jogado sobre o ch�o de concreto, e ela estava deitada sobre ele, os tornozelos inchados e machucados onde as algemas esfolavam sua pele.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� ... 58 jacar�, 59 jacar�, <emphasis>60</emphasis> jacar� � contou Tom.</p><p>Os port�es de carga eram grandes o bastante. Ele apertou e o cadeado se desintegrou em peda�os de ferrugem e metal retorcido. A corrente caiu com um tinido, e o port�o estremeceu e se ergueu sob os gritos de protesto dos trilhos enferrujados. Tom acendeu todas as suas luzes enquanto a carapa�a deslizava para a frente. L� dentro, pilhas altas de papel bloqueavam o caminho. N�o havia espa�o para passar entre elas. Ele as empurrou, <emphasis>com for�a</emphasis>, mas quando estavam come�ando a desmoronar, lembrou-se de que podia passar por cima delas. Ele deu impulso para cima na dire��o do teto.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>� Que porra � essa? � disse um dos jogadores de cartas quando ouviram o ru�do alto e agudo do port�o de carga se abrindo.</p><p>No instante seguinte, todos estavam em movimento. Os dois jogadores de cartas ficaram de p�; um deles puxou uma arma. O homem de camisa de flanela ergueu os olhos de suas balan�as. O homem gordo virou-se da picadora de papel gritando alguma coisa, mas era imposs�vel entender o que dizia. Fardos de papel come�aram a desmoronar perto da parede mais distante, batendo nas pilhas vizinhas e as derrubando tamb�m, numa rea��o em cadeia que se espalhou por todo o armaz�m.</p><p>Sem hesitar um instante, Bannister foi na dire��o de Angelical. Tach dominou sua mente e o deteve no meio de um passo, com o rev�lver j� sacado.</p><p>Ent�o uma d�zia de fardos de papel picado despencou em cima da traseira da empilhadeira. O ve�culo se moveu s� um pouco e esmagou a m�o de Tachyon embaixo de um enorme pneu preto. Ele gritou pelo choque e pela dor e perdeu Bannister.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>L� embaixo, dois homenzinhos estavam gritando para ele. O primeiro tiro o assustou tanto que Tom perdeu a concentra��o por uma fra��o de segundo, e a carapa�a despencou mais de um metro antes que retomasse o controle. Ent�o as balas come�aram a acertar inofensivamente a carapa�a e a ricochetear por todo o armaz�m. Tom sorriu.</p><p>� SOU O GRANDE E PODEROSO TARTARUGA � anunciou a todo volume enquanto fardos de papel ca�am por todo lado. � SEUS BABACAS, VOC�S EST�O FODIDOS, RENDAM-SE AGORA.</p><p>O babaca mais pr�ximo n�o se rendeu. Ele atirou de novo e uma das telas de Tom ficou negra.</p><p>� AH, MERDA � disse ele, esquecendo-se de desligar o microfone. Agarrou o bra�o do sujeito e tirou a arma de sua m�o, e pelo modo como o ot�rio gritava, ele provavelmente deslocara seu ombro. Ele tinha de tomar cuidado com isso. O outro sujeito come�ou a correr e pulou por cima de uma pilha desmoronada de papel. Tom o pegou no meio do pulo, levou-o direto at� o teto e o pendurou em uma viga. Seus olhos iam de tela em tela sem parar, mas uma delas agora estava escura, e na que havia ao lado, o maldito controle de vertical estava com problema de novo, por isso ele n�o tinha ideia do que estava acontecendo daquele lado. N�o havia tempo para consertar aquilo. Um sujeito de camisa de flanela estava enchendo de sacos uma mala, ele viu na tela grande, e pelo canto do olho percebeu um cara gordo subindo na empilhadeira...</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Com a m�o esmagada embaixo do pneu, Tachyon se contorcia com a dor excruciante e tentava n�o gritar. Bannister... tinha de deter Bannister antes que ele alcan�asse Angelical. Ele apertou os dentes e tentou expulsar a dor, junt�-la em uma bola e arranc�-la dele da maneira que lhe haviam ensinado, mas era dif�cil, tinha perdido a disciplina, podia sentir os ossos esmigalhados da m�o, os olhos estavam turvos de l�grimas, e ent�o ele ouviu o motor da empilhadeira dar a partida, e de repente ela come�ou a avan�ar, passou bem em cima de seu bra�o e vinha na dire��o de sua cabe�a, os sulcos do pneu maci�o parecendo uma parede negra de morte que corria em sua dire��o... e passou a cent�metros do topo de seu cr�nio quando se ergueu no ar.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A empilhadeira fez um belo voo at� a outra extremidade do armaz�m e se cravou na parede, com um empurr�ozinho do Grande e Poderoso Tartaruga. O homem gordo saltou em pleno ar e aterrissou sobre uma pilha de livros de bolso sem capas. S� ent�o Tom percebeu Tachyon estendido no ch�o no lugar onde estava a empilhadeira. Ele segurava a m�o de modo engra�ado, e sua m�scara de galinha estava toda amarfanhada e suja; ele viu Tom e, enquanto se esfor�ava para ficar de p�, gritava alguma coisa. Ele saiu correndo, mesmo cambaleante e sem firmeza. Aonde diabos ele estava indo com tanta pressa?</p><p>Fazendo uma careta, Tom deu um tapa na tela que n�o estava funcionando com as costas da m�o, e a rolagem vertical parou de repente. Por um instante, a imagem na TV ficou clara e n�tida. Um homem de capa de chuva estava parado de p� em cima de uma mulher deitada em um colch�o. Ela era muito bonita, e havia um sorriso engra�ado em seu rosto, triste e quase resignado, enquanto ele pressionava o rev�lver contra sua testa.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Tach, cambaleando, fez a volta na m�quina de picar papel, sem firmeza nos tornozelos, o mundo apenas um borr�o. Seus ossos esmigalhados se chocavam uns contra os outros a cada passo. Ele os encontrou ali, Bannister tocando-a de leve com a pistola, a pele j� escurecendo no local onde a bala penetraria, e atrav�s de suas l�grimas e medos e uma n�voa de dor, ele avan�ou sobre a mente de Bannister e a dominou... bem a tempo para senti-lo apertar o gatilho e recuar quando o rev�lver deu um coice em sua mente. Ele ouviu a explos�o por dois conjuntos de ouvidos.</p><p>� N���������ooooooooo! � gritou. Ele fechou os olhos, caiu de joelhos. Ele fez Bannister jogar a arma fora, mas isso agora n�o ia fazer nenhuma diferen�a, tarde demais, ele tinha chegado tarde demais, tinha falhado, <emphasis>falhado</emphasis> de novo, Angelical, Blythe, sua irm�, todo mundo que amava, todos mortos. Ele se encolheu no ch�o e sua mente se encheu de imagens de espelhos quebrados, da dan�a nupcial dan�ada em sangue e dor, e isso foi a �ltima coisa em que pensou antes de ser tomado pela escurid�o.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ele acordou com o cheiro adstringente de um quarto de hospital e a sensa��o de um travesseiro sob a cabe�a, a fronha dura de t�o engomada. Abriu os olhos.</p><p>� Des � disse sem for�as. Tentou se sentar, mas de alguma forma estava amarrado. O mundo estava borrado e fora de foco.</p><p>� Voc� est� melhorando, doutor � explicou Des. � Seu bra�o direito estava quebrado em dois lugares, e a m�o est� pior do que isso.</p><p>� Sinto muito � disse Tach. Ele teria chorado, mas tinha ficado sem l�grimas. � Sinto tanto. N�s tentamos, eu... eu sinto muito, eu...</p><p>� <emphasis>Tacky</emphasis> � disse ela com aquela voz suave e rouca.</p><p>E l� estava ela, de p� ao seu lado, vestida com uma camisola de hospital, o cabelo negro emoldurando um sorriso estranho. Ela o havia penteado para a frente para esconder a testa; sob a franja havia um machucado roxo-esverdeado, e a pele em torno de seus olhos estava vermelha e esfolada. Por um instante ele achou que estava morto, ou louco, ou sonhando.</p><p>� Est� tudo bem, Tacky. Estou bem. Estou aqui.</p><p>Ele ergueu os olhos para ela, estarrecido.</p><p>� Voc� est� morta. Eu ouvi o tiro. Eu o havia dominado naquele momento, mas foi tarde demais, eu senti o recuo da arma na m�o dele.</p><p>� Voc� sentiu um tranco? � perguntou-lhe.</p><p>� Tranco?</p><p>� N�o mais que alguns cent�metros. Justo quando ele atirou. Justo o bastante. Fiquei com queimaduras de p�lvora muito feias, mas a bala penetrou no colch�o a vinte cent�metros de minha cabe�a.</p><p>� O Tartaruga � disse Tach com voz rouca.</p><p>Ela assentiu.</p><p>� Ele desviou a arma no exato momento em que Bannister apertou o gatilho. E voc� fez o filho da puta jogar o rev�lver fora antes que pudesse atirar de novo.</p><p>� Voc� os pegou � disse Des. � Alguns homens escaparam na confus�o, mas o Tartaruga entregou tr�s deles, incluindo Bannister. Al�m de uma mala com dez quilos de hero�na pura. E descobriram que o armaz�m pertence � m�fia.</p><p>� � m�fia? � perguntou Tachyon.</p><p>� O crime organizado � explicou Des. � Bandidos, Dr. Tachyon.</p><p>� Um dos homens capturado no armaz�m j� fez acordo � disse Angelical. � Ele vai testemunhar sobre tudo, as propinas, a opera��o das drogas e os assassinatos no Funhouse.</p><p>� Talvez a gente consiga at� uma pol�cia decente no Bairro dos Curingas � acrescentou Des.</p><p>Os sentimentos que tomavam Tachyon estavam muito al�m do al�vio. Queria agradecer a eles, queria chorar para eles, mas nem as l�grimas nem as palavras sa�am. Ele estava fraco e feliz.</p><p>� Eu n�o falhei � conseguiu dizer por fim.</p><p>� N�o � disse Angelical. Ela olhou para Des. � Pode esperar l� fora? � Quando estavam sozinhos, ela se sentou na beira da cama. � Quero mostrar uma coisa a voc�, algo que eu devia ter lhe mostrado h� muito tempo. � Ela o segurou diante dele. Era um medalh�o com foto. � Abra.</p><p>Foi dif�cil abri-lo com uma s� m�o, mas ele conseguiu. L� dentro havia uma pequena fotografia redonda de uma mulher idosa acamada. Seus membros eram murchos e esquel�ticos, pareciam varas enroladas em carne sarapintada, e seu rosto estava horrivelmente contorcido.</p><p>� O que h� de errado com ela? � perguntou Tachyon, com medo da resposta. Outro curinga, pensou, outra v�tima de seus fracassos.</p><p>Angelical baixou o olhar para a velha retorcida, deu um suspiro e fechou o medalh�o com um movimento r�pido.</p><p>� Quando ela tinha 4 anos, em Little Italy, foi atropelada enquanto brincava na rua. Um cavalo pisoteou seu rosto e a roda da carro�a esmagou sua espinha. Isso foi, ah, em 1886. Ela ficou completamente paralisada, mas viveu. Se voc� pode chamar aquilo de vida. Aquela garotinha passou os sessenta anos seguintes na cama, com gente para aliment�-la, banh�-la e ler para ela, sem nenhuma companhia al�m das irm�s de caridade. �s vezes, tudo o que ela queria era morrer. Ela sonhava como seria ser bela, ser amada e desejada, poder dan�ar, conseguir <emphasis>sentir</emphasis> coisas. Ah, como ela queria <emphasis>sentir</emphasis>. � Ela sorriu. � Eu devia ter dito obrigada h� muito tempo, Tacky, mas � dif�cil para mim mostrar essa foto para qualquer pessoa. Mas sou grata, e agora eu estou duplamente em d�vida com voc�, que nunca mais vai pagar um drinque no Funhouse.</p><p>Ele olhou fixamente para ela.</p><p>� Eu n�o quero beber � disse ele. � N�o mais. Isso acabou. � E tinha acabado, ele sabia; se ela podia viver com sua dor, que desculpa ele poderia ter para desperdi�ar sua vida e seus talentos? � Angelical � disse de repente �, posso fazer para voc� algo melhor que hero�na. Eu sou bioqu�mico, h� drogas em Takis, posso sintetiz�-las, analg�sicos, anest�sicos neurol�gicos. Se me deixar fazer alguns testes com voc�, talvez consiga fazer algo especialmente para seu metabolismo. Vou precisar de um laborat�rio, � claro. Montar tudo vai ser caro, mas a droga pode ser feita por centavos.</p><p>� Vou ter algum dinheiro � disse ela. � Estou vendendo o Funhouse para Des. Mas isso que voc� est� dizendo � ilegal.</p><p>� Para o inferno com essas leis idiotas � exclamou Tach. � Se voc� n�o contar nada, eu tamb�m n�o conto. � As palavras jorraram uma atr�s da outra, uma torrente: planos, sonhos, esperan�as, todas as coisas que ele havia perdido ou afogado em conhaque e �lcool puro, e Angelical estava olhando para ele, pasma, sorrindo, e, quando come�ou a passar o efeito das drogas que lhe haviam aplicado e o bra�o dele voltou a latejar, o doutor Tachyon se lembrou das velhas disciplinas e mandou a dor embora, e de algum modo pareceu que parte de sua culpa e pesar foram com ela, e ele estava inteiro outra vez, e vivo.</p><p><image l:href="#7"/></p><p>A manchete dizia: TARTARUGA E TACHYON DESMANTELAM REDE DE TR�FICO DE HERO�NA. Tom estava colando a reportagem no �lbum de recortes quando Joey voltou com as cervejas.</p><p>� Eles n�o botaram a parte do Grande e Poderoso � observou Joey, deixando uma garrafa ao lado do cotovelo de Tom.</p><p>� Pelo menos meu nome apareceu primeiro � disse Tom. Ele limpou a marca dos dedos na grossa pasta branca com um guardanapo e afastou para o lado o �lbum de recortes. Embaixo, havia alguns esbo�os que fizera da carapa�a. � Agora � disse ele. � Onde diabos vamos botar o toca-discos, hein?</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Interl�dio Dois</strong></p><p>DE <strong><emphasis>NEW YORK TIMES</emphasis></strong><strong>,</strong></p><empty-line/><p><strong>
    1.� DE SETEMBRO DE 1966</strong></p><p><strong>Cl�nica no Bairro dos Curingas abre no Dia da Carta Selvagem</strong></p><p>A abertura de um hospital de pesquisa com financiamento privado, especializado no tratamento do v�rus carta selvagem takisiano, foi anunciada ontem pelo Dr. Tachyon, cientista alien�gena que ajudou a desenvolver o v�rus. O Dr. Tachyon atuar� como chefe da equipe na nova institui��o, localizada na South Street, com vista para o East River.</p><p>O instituto ser� conhecido como Cl�nica Blythe van Renssaeler, em homenagem � falecida Sra. Blythe Stanhope van Renssaeler. A Sra. van Renssaeler, membro do Ex�ticos pela Democracia de 1947 a 1950, faleceu em 1953 no Sanat�rio Wittier. Ela era conhecida como �a Especialista�.</p><p>A Cl�nica Van Renssaeler abrir� as portas ao p�blico em 15 de setembro, vig�simo anivers�rio da libera��o do v�rus carta selvagem sobre Manhattan. Servi�o de pronto-socorro e tratamento psicol�gico de pacientes ambulatoriais ser�o oferecidos pelo hospital de 196 leitos. �Estamos aqui para servir � regi�o e � cidade�, disse o Dr. Tachyon na tarde de coletiva de imprensa nos degraus do T�mulo de Jetboy, �mas nossa prioridade m�xima ser� o tratamento daqueles que passaram tanto tempo sem tratamento, os curingas, cujas necessidades m�dicas singulares e com frequ�ncia desesperadas foram ignoradas em larga escala pelos hospitais existentes. O v�rus carta selvagem foi disseminado vinte anos atr�s, e essa ignor�ncia deliberada e cont�nua sobre o v�rus � criminosa e imperdo�vel�. O Dr. Tachyon comentou esperar que a Cl�nica Van Renssaeler possa se tornar o centro de pesquisa l�der na pesquisa do v�rus carta selvagem e encabe�ar esfor�os para aperfei�oar a cura para o v�rus carta selvagem, conhecido como v�rus �trunfo�.</p><p>A cl�nica ser� alojada em um pr�dio hist�rico constru�do em 1874 �s margens do rio. O pr�dio j� foi um hotel, conhecido como Ref�gio do Marinheiro, de 1888 a 1913. De 1913 a 1942 foi o Lar do Sagrado Cora��o para Garotas Rebeldes, transformando-se em seguida numa pens�o barata.</p><p>O Dr. Tachyon revelou que a compra do pr�dio e a restaura��o completa de suas instala��es internas foram financiadas por uma doa��o da Funda��o Stanhope de Boston, chefiada pelo Sr. George C. Stanhope. O Sr. Stanhope � pai da Sra. van Renssaeler. �Se Blythe estivesse viva hoje, sei que ela n�o iria querer nada mais do que trabalhar ao lado do Dr. Tachyon�, declarou o Sr. Stanhope.</p><p>Inicialmente, o trabalho na cl�nica ser� financiado por honor�rios e doa��es particulares, mas o Dr. Tachyon admitiu ter voltado h� pouco de Washington, onde se reuniu com o vice-presidente Hubert H. Humphrey. Fontes pr�ximas ao vice-presidente indicam que o governo est� considerando o financiamento parcial da cl�nica do Bairro dos Curingas por meio dos escrit�rios do Comit� de Recursos Internos do Senado para Empenho dos Ases (CRISE-A).</p><p>Uma multid�o de aproximadamente quinhentas pessoas, muitas das quais obviamente v�timas do v�rus carta selvagem, aplaudiu com entusiasmo o an�ncio do Dr. Tachyon.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>A noite longa e obscura de Fortunato</strong></p><p>Lewis Shiner</p><empty-line/><empty-line/><p>Ele s� conseguia pensar em como ela era bonita quando estava viva.</p><p>� Vou pedir para o senhor identificar o cad�ver � disse o legista.</p><p>� � ela � Fortunato respondeu.</p><p>� Nome?</p><p>� Erika Naylor. Erika com <emphasis>k</emphasis>.</p><p>� Endere�o?</p><p>� Park Avenue, 16.</p><p>O homem assobiou.</p><p>� Classe alta. Parentes pr�ximos?</p><p>� N�o sei. Ela era de Minneapolis.</p><p>� Certo. � de onde todas v�m. O senhor acha que tem uma escola de putas ou alguma coisa assim por l�?</p><p>Fortunato olhou para o ferimento comprido e horr�vel na garganta da garota e deixou que o legista fitasse seus olhos.</p><p>� Ela n�o era puta � retrucou.</p><p>� Claro � disse o m�dico, mas deu um passo para tr�s e baixou os olhos para a prancheta. � Vou colocar aqui �modelo�.</p><p><emphasis>Gueixa</emphasis>, pensou Fortunato. Era uma de suas gueixas. Brilhante, engra�ada, linda, <emphasis>chef</emphasis> e massagista, al�m de psic�loga n�o licenciada, criativa e sensual na cama.</p><p>No �ltimo ano, a terceira de suas garotas a ser impecavelmente fatiada em peda�os.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Ele foi para a rua sabendo que sua apar�ncia estava p�ssima. Media 1,95 m, era magro pelas anfetaminas, e quando estava curvado parecia que o peito afundava-se em sua espinha. Lenore esperava por ele, aconchegada em sua jaqueta preta de pele falsa, embora o sol tivesse finalmente sa�do. Quando ela o viu, colocou-o direto num t�xi e deu seu endere�o ao taxista, West 19th.</p><p>O olhar de Fortunato pairava l� fora sobre as garotas de cabelos longos em jeans bordados, os p�steres de luz negra nas vitrines das lojas, no giz brilhante riscado sobre todas as cal�adas. Era quase P�scoa, dois invernos depois do Ver�o do Amor, mas a simples ideia de primavera o deixava t�o gelado quanto o piso ladrilhado do necrot�rio.</p><p>Lenore pegou sua m�o e a apertou, e Fortunato recostou-se no banco e fechou os olhos.</p><p>Ela era nova. Uma de suas garotas a resgatou de um cafet�o do Brooklyn chamado Willie Martelo, e Fortunato pagou 5 mil d�lares por seu �passe�. Todos nas ruas sabiam que, se Willie tivesse discordado, Fortunato gastaria os 5 mil para acabar com ele, sendo esse o atual valor de mercado de uma vida humana.</p><p>Willie trabalhava para a fam�lia Gambione, e Fortunato havia batido de frente com eles mais de uma vez. Ser negro (mesti�o de qualquer maneira) e independente deu a Fortunato um lugar de destaque nas fantasias paranoicas de Dom Carlo. A �nica coisa que Dom Carlo odiava mais eram os curingas.</p><p>Fortunato n�o teria pensado que a culpa dos assassinatos seria do velho, exceto por uma coisa: ele cobi�ava demais a opera��o de Fortunato para mexer logo com as mulheres.</p><p>Lenore veio de uma cidade provinciana nas montanhas da Virg�nia, onde os velhos ainda falavam o ingl�s elisabetano. Willie cuidou dela por menos de um m�s, o que n�o foi suficiente para absorver o m�ximo de sua beleza. Tinha cabelos ruivos escuros at� a cintura, olhos verdes n�on, e uma boca pequena, quase delicada. Nunca vestia nada que n�o fosse preto e acreditava ser uma bruxa.</p><p>Quando Fortunato a entrevistou, ficou comovido com sua entrega, sua absor��o completa � sensualidade, tanto que entrava em conflito com sua apar�ncia descolada e sofisticada. Ele a aceitou para treinamento e ela estava com ele havia tr�s semanas, tendo apenas um cliente ocasional, fazendo a transi��o de talentosa garota de programa para aprendiz de gueixa, que levaria no m�nimo dois anos.</p><p>Ela o levou ao seu apartamento e parou com a chave na fechadura.</p><p>� Hum, espero que voc� n�o ache muito estranho.</p><p>Ele ficou na entrada enquanto ela caminhava pela sala e acendia velas. Cortinas pesadas pendiam da janela, e ele n�o via quaisquer eletrodom�sticos, apenas um telefone � sem TV, rel�gios, sequer uma torradeira. No centro des�rtico da sala ela havia pintado uma imensa estrela de cinco pontas no meio de um c�rculo, direto no ch�o de madeira de lei. Por tr�s dos aromas sensuais de incenso e alm�scar subia o leve fedor sulfuroso de um laborat�rio qu�mico.</p><p>Ele trancou a porta de entrada e a seguiu at� o quarto. O apartamento era inundado de sexualidade. Fortunato mal podia mover os p�s pelo grosso carpete vinho; a cama tinha um dossel com cortinas de veludo vermelho, e era t�o alta que havia degraus para subir nela.</p><p>Ela encontrou um baseado no criado-mudo, acendeu e passou para Fortunato.</p><p>� Volto num instante � ela disse.</p><p>Ele tirou a roupa e deitou com as m�os por tr�s da cabe�a, o baseado pendendo da boca. Tragou com vontade e ficou olhando os dedos dos p�s se esticarem. O teto acima era azul-escuro, com constela��es aplicadas em verde amarelado fosforescente. Signos do zod�aco, at� onde ele sabia. Magia, astrologia e gurus estavam muito na moda. As pessoas em festas badaladas no Village sempre perguntavam umas �s outras de que signo eram e falavam sobre carma. Ele achava que a Era de Aqu�rio tinha sido apenas uma grande ilus�o. Nixon estava na Casa Branca, crian�as tomavam tiro no traseiro no sudeste da �sia, e ele ainda ouvia a palavra �crioulo� todos os dias. Mas tinha clientes que amariam aquele lugar.</p><p>Se o maluco com uma faca n�o acabasse com seu neg�cio.</p><p>Lenore ajoelhou-se ao lado dele na cama, nua.</p><p>� Sua pele � t�o bonita.</p><p>Ela correu as pontas dos dedos sobre o peito dele, fazendo-o arrepiar.</p><p>� Nunca vi uma cor como essa antes. � Como ele n�o respondeu, ela disse: � Me disseram que sua m�e � japonesa.</p><p>� E meu pai era um cafet�o do Harlem.</p><p>� Voc� est� puto da vida, n�o �?</p><p>� Eu amo essas garotas. Amo todas voc�s. Voc�s s�o mais importantes para mim que dinheiro ou fam�lia ou� qualquer outra coisa.</p><p>� E?</p><p>Ele n�o achou que tinha qualquer outra coisa a dizer at� as palavras come�arem a brotar.</p><p>� Eu me sinto t�o� t�o desesperadamente impotente. Algum filho da puta pirado est� matando minhas garotas e n�o h� nada que eu possa fazer.</p><p>� Talvez sim � ela disse. � Talvez n�o. � Seus dedos se entrela�aram nos pelos p�bicos dele. � Sexo � poder, Fortunato. � a coisa mais poderosa do universo. N�o se esque�a disso.</p><p>Com o p�nis de Fortunato na boca, ela trabalhava gentilmente com a l�ngua, como se ele fosse um picol�. Ele endureceu instantaneamente, e Fortunato sentiu o suor brotar da testa. Apagou o baseado com as pontas dos dedos �midos e jogou-o para fora da cama. Seus calcanhares deslizavam na maciez gelada dos len��is e seu nariz se enchia do perfume de Lenore. Pensou em Erika, morta, e isso fez com que ele quisesse foder Lenore forte e demoradamente.</p><p>� N�o � falou ela, tirando a m�o dele de seus seios. � Voc� me tirou das ruas, voc� me ensinou o que <emphasis>voc�</emphasis> sabe. Agora � minha vez.</p><p>Ela o empurrou para que ele deitasse de costas com os bra�os sobre a cabe�a e com as unhas pintadas de preto percorreu a pele macia sobre suas costelas. Ent�o come�ou a mover-se sobre seu corpo, tocando-o com os l�bios, os seios, as pontas dos cabelos, at� sua pele ficar quente o bastante para brilhar no escuro. E, finalmente, sentou com as pernas abertas sobre ele e deixou que ele a penetrasse.</p><p>Estar dentro dela lhe deu um barato, como o de um viciado. Ele avan�ava com os quadris e ela se apoiava neles, segurando o pr�prio peso nos bra�os, seu cabelo caindo como uma cascata em torno da cabe�a. Ent�o, lentamente, ela levantou os olhos e o encarou.</p><p>� Sou <emphasis>Shakti</emphasis> � ela falou. � Sou a deusa. Sou o poder.</p><p>Ela sorriu ao diz�-lo e, em vez de soar insano, fez apenas com que ele a quisesse ainda mais. Ent�o sua voz rompeu-se em suspiros curtos e agitados enquanto ela gozava, estremecendo, lan�ando a cabe�a para tr�s e balan�ando com for�a para a frente e para tr�s contra ele. Fortunato tentou vir�-la e terminar, mas ela era mais forte do que ele teria pensado ser poss�vel, enterrando os dedos nos ombros dele at� ele relaxar, acariciando-o novamente com vagar doloroso.</p><p>Ela gozou mais duas vezes antes de tudo ficar vermelho, e ele sabia que n�o conseguiria segurar mais. No entanto, ela sentiu tamb�m e, antes que ele soubesse o que estava acontecendo, ela se afastou e colocou a m�o entre as pernas dele, pressionando um dedo na base do p�nis. Era tarde demais e o orgasmo o tomou com tanta for�a que ele levantou o traseiro todo da cama. Ela empurrou o peito dele para baixo com a m�o esquerda e continuou pressionando com a direita, parando o esperma antes que ele pudesse jorrar, for�ando-o para que ele voltasse para dentro de Fortunato.</p><p>Ela me matou, ele pensou enquanto sentia o fogo l�quido voltar com for�a para dentro de sua virilha, queimando por todo o caminho at� a medula espinhal e acendendo-a como um pavio.</p><p>� <emphasis>Kundalini</emphasis> � ela sussurrou com o rosto suado e decidido. � Sinta o poder.</p><p>A centelha disparou coluna acima e explodiu em seu c�rebro.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>No fim, ele reabriu os olhos. O tempo surgiu das rodas dentadas do projetor e ele viu tudo em fragmentos �nicos, desconexos. Lenore o abra�ava. As l�grimas corriam de seu rosto e ca�am sobre o peito dele.</p><p>� Eu flutuei � ele comentou, quando finalmente pensou em usar a voz. � L� em cima, no teto.</p><p>� Achei que voc� tivesse morrido � Lenore falou.</p><p>� Consegui ver n�s dois. Tudo parecia feito de luz. O quarto estava branco e parecia que continuaria para sempre. Vi linhas e ondula��es em todo lugar.</p><p>Ele sentiu um pouco como se estivesse sob o efeito de muita coca�na, um pouco como se tivesse metido o dedo na tomada.</p><p>� O que voc� fez comigo?</p><p>� Ioga t�ntrica. Eu achei que� sei l�. Ia te dar um barato. Nunca soube de algu�m ser tomado desse jeito antes. � Ela virou-se para ele. � Voc� saiu mesmo? Saiu do corpo?</p><p>� Acho que sim. � Ele conseguia sentir o cheiro de menta do xampu que ela usava. Pegou o rosto da mulher com as m�os e a beijou. A boca de Lenore era macia e �mida, e sua l�ngua tremulava contra os dentes dele. Ele ainda estava duro como pedra e come�ou a se mexer como se a quisesse.</p><p>Rolou sobre ela, que o guiou para penetr�-la, e ele conseguiu senti-la queimando por dentro.</p><p>� Fortunato � ela sussurrou, seus l�bios ainda t�o pr�ximos que ro�avam nos dele quando se moviam �, se voc� gozar, vai perder a sensa��o. Ficar� t�o fraco que n�o vai conseguir se mexer.</p><p>� Que se dane, linda. Nunca quis tanto algu�m como voc�. � Ele se ergueu sobre os antebra�os para poder v�-la, seus quadris golpeando freneticamente. Cada nervo de seu corpo estava vivo, e conseguia sentir o poder tomando-o por inteiro para em seguida recuar aos poucos e se reunir em algum lugar no centro do corpo, a ponto de explodir para fora dele, deixando-o seco, fraco, indefeso, drenado�</p><p>Ele se afastou dela, rolou para o p� da cama e curvou-se, abra�ando os joelhos.</p><p>� Meu Deus! � ele gritou. � Que porra � essa que est� acontecendo comigo?</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ela queria ficar com ele, mas ele a mandou para a aula de gueixa mesmo assim. Ele estaria ali, prometeu, quando ela chegasse em casa.</p><p>O apartamento parecia vasto e vazio sem ela, e ele teve uma vis�o assustadora de Lenore sozinha na rua com o assassino de Erika ainda � solta.</p><p><emphasis>N�o</emphasis>, disse para si mesmo. <emphasis>N�o aconteceria de novo, n�o t�o r�pido</emphasis>.</p><p>Encontrou um espalhafatoso robe oriental no arm�rio e o vestiu, perambulou pelo apartamento, medindo o zunir inaud�vel do seu sistema nervoso. Por fim, parou na frente da estante de livros da sala de estar.</p><p><emphasis>Kundalini</emphasis>, ela disse. Ele tinha ouvido o nome antes e, quando viu um livro chamado <emphasis>A serpente em ascens�o</emphasis>, ligou os pontos. Pegou o livro e come�ou a l�-lo.</p><p>Leu sobre a Grande Irmandade Branca de Ultima Thule, que ficava em algum lugar na Tart�ria. O <emphasis>Livro de Dyzan</emphasis> perdido e o <emphasis>vama chara</emphasis>, o caminho da esquerda. A <emphasis>kali yuga</emphasis>, a �ltima e mais corrupta das eras, agora est� sobre n�s. �Fa�a o que desejar, pois dessa maneira voc� agrada a deusa.� <emphasis>Shakti</emphasis>. S�men como o <emphasis>rasa</emphasis>, o sumo, do poder: o <emphasis>yod</emphasis>. Sodomia que revivia os mortos. Metamorfos, corpos astrais, obsess�es implantadas que levam ao suic�dio. Paracelso, Aleister Crowley, Mehmet Karagoz, L. Ron Hubbard.</p><p>A concentra��o de Fortunato era absoluta. Absorvia cada palavra, cada diagrama, folheava para tr�s e adiante para fazer compara��es, estudar as ilustra��es. Quando terminou, viu que haviam passado 23 minutos desde que Lenore sa�ra.</p><p>O tremor em seu peito era o medo.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>No meio da noite, ele se esticou para tocar o rosto de Lenore e seus dedos voltaram molhados.</p><p>� Est� acordada? � ele disse.</p><p>Ela rolou e aconchegou-se bem perto dele. O calor da pele nua o eletrificou e tranquilizou ao mesmo tempo, como o gosto de um u�sque caro. Deslizou os dedos pelos cabelos dela e beijou seu pesco�o perfumado.</p><p>� Por que est� chorando?</p><p>� � idiota � ela respondeu.</p><p>� O qu�?</p><p>� Eu acredito de verdade naquela coisa. <emphasis>Magick</emphasis>. A Grande Obra, como Crowley chamava. � Ela pronunciava magia com um <emphasis>a</emphasis> longo e Crowley com um <emphasis>o</emphasis> longo como em <emphasis>corvo</emphasis>. � Fiz ioga e aprendi a Cabala, o tar� e o sistema enoquiano. Jejuei e fiz o Ritual do N�o Nascido, e estudei Abramelin. Mas nada aconteceu.</p><p>� O que voc� est� tentando fazer?</p><p>� Sei l�. Ter uma vis�o. <emphasis>Samadhi</emphasis>. Queria ver algo al�m de um maldito ponto de �nibus da Greyhound na Virg�nia, onde tentam linchar crian�as por deixar o cabelo crescer. Queria sair de mim mesma. Queria que acontecesse comigo o que aconteceu com voc� hoje � tarde. E aconteceu com voc�, que nunca quis isso.</p><p>� Li alguns dos seus livros hoje � noite � ele disse. Na verdade, ele havia lido duas d�zias deles, quase metade da cole��o de Lenore. � N�o sei o que est� havendo, mas n�o acho que seja m�gica. Nada parecido com a m�gica daquele cara, o Crowley. O que voc� fez comigo provocou aquilo, mas eu acho que era algo que j� estava dentro de mim.</p><p>� Voc� diz aquela coisa de germe, n�o �? Aquele v�rus carta selvagem? � Ela ficou tensa involuntariamente assim que disse aquilo.</p><p>� N�o consigo pensar em outra coisa.</p><p>� Tem aquele doutor, n�o sei o nome dele. Ele pode te examinar. Provavelmente vai te curar, se for isso que voc� quer.</p><p>� N�o � ele disse. � Voc� n�o entende. Quando li aqueles livros, pude sentir todos aqueles poderes dos quais eles falam. Como se voc� fosse um mergulhador e lesse sobre um mergulho complicado que voc� nunca fez, mas sabe que poderia fazer se praticar. Voc� disse que eu n�o queria, talvez n�o quisesse, n�o de primeira. Mas agora eu quero. � Havia uma imagem entre os �rg�os sexuais gigantes e as contor��es imposs�veis em um livro de cabeceira japon�s: o m�gico t�ntrico, testa inchada com o poder de seu esperma retido, dedos torcidos em <emphasis>mudras</emphasis> de poder. Ele fitou essa imagem at� os olhos arderem.</p><p>� Agora eu quero � ele falou.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Sem d�vida, voc� tirou uma carta selvagem � comentou o homenzinho. � Um �s, eu diria.</p><p>Fortunato n�o tinha nada em especial contra os brancos, mas ele n�o conseguia suportar as g�rias deles.</p><p>� D� pra falar a minha l�ngua?</p><p>� Sua gen�tica foi reescrita pelo v�rus takisiano. Aparentemente, estava adormecido em seu sistema nervoso central, provavelmente na espinha. A intromiss�o aparentemente deu um bom chacoalh�o, suficiente para ativar o v�rus.</p><p>� E agora, o que vai acontecer?</p><p>� Na minha opini�o, voc� tem duas op��es. � O homenzinho pulou sobre a maca que estava diante de Fortunato e botou os cabelos longos e ruivos atr�s da orelha. Parecia que podia estar numa banda de rock ou trabalhando numa loja de discos. N�o convencia como m�dico. � Posso tentar reverter os efeitos do v�rus. Sem garantias, tive at� agora trinta por cento de sucesso. �s vezes as pessoas acabam piores que antes.</p><p>� Ou?</p><p>� Ou pode aprender a viver com o seu poder. Voc� n�o estaria sozinho. Posso te dar o contato de algumas pessoas na mesma situa��o.</p><p>� Ah, �? Como o �Grande e Poderoso Tartaruga�? Assim eu posso voar por a� e tirar pessoas de carros esmagados? Melhor n�o, n�?</p><p>� O que voc� faz com suas habilidades depende s� de voc�.</p><p>� Que tipo de �habilidades� o senhor est� falando?</p><p>� N�o posso dizer ao certo. Parece que ainda est�o surgindo. O eletroencefalograma mostra forte telecinesia. O cromat�grafo mostra um corpo astral muito poderoso que eu espero que voc� consiga manipular.</p><p>� M�gica, � o que o senhor est� dizendo.</p><p>� N�o, n�o exatamente. Mas � uma coisa engra�ada do v�rus carta selvagem. �s vezes ele precisa de um mecanismo muito espec�fico para ser controlado conscientemente. N�o me surpreenderia se voc� precisasse desse ritual t�ntrico para faz�-lo funcionar em voc�.</p><p>Fortunato levantou-se e tirou uma nota de cem do rolo em seu bolso.</p><p>� Para a cl�nica � ele disse.</p><p>O homenzinho olhou para o dinheiro por um longo tempo, e ent�o enfiou na sua jaqueta Sgt. Pepper.</p><p>� Obrigado � ele soltou, como se doesse dizer aquela palavra. � Lembre-se do que eu falei. Pode me ligar a qualquer momento.</p><p>Fortunato concordou com a cabe�a e saiu do consult�rio para observar os esquisit�es do Bairro dos Curingas.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Ele estava com 6 anos quando Jetboy explodiu sobre Manhattan, havia crescido com medo do v�rus, com a mem�ria dos 10 mil que morreram no primeiro dia do novo mundo. Seu pai foi um deles, deitado na cama enquanto sua pele se abria e se regenerava continuamente, todo o ciclo n�o demorava mais de um ou dois minutos. At� uma das rachaduras partir seu cora��o, espirrando sangue por todo o apartamento no Harlem. E, mesmo no caix�o, onde o velho homem esperava deitado a sua vez para um funeral de dois minutos e uma cova coletiva, ele continuou se abrindo e regenerando, abrindo e regenerando.</p><p>A lembran�a nunca se apagou, mas naquele momento ela foi deixada de lado pelas mais novas. Aos poucos, Fortunato chegava a acreditar que nada daquilo estava acontecendo com ele. Para aqueles que o v�rus n�o tocou, a vida continuava da forma que sempre foi.</p><p>Logo ele percebeu o que teria de fazer para se sustentar. Ouvindo sua m�e reclamar sobre as mulheres americanas, teve a ideia da prostituta como gueixa; aos 14 anos, trouxe para casa uma porto-riquenha estonteante do col�gio para sua m�e treinar. Esse foi o come�o de tudo.</p><p>Olhou para cima e viu que a noite havia chegado enquanto caminhava a esmo pelo Bairro dos Curingas. Os tons cinza e past�is ficaram n�on, as roupas dos transeuntes mudaram para estampas vivas e de oncinha. Bem diante dele, manifestantes bloquearam a rua com um caminh�o-plataforma. Havia tambores, amplificadores e guitarras l� em cima, e um par de pesados cabos de extens�o saindo das portas abertas do Chaos Club.</p><p>Naquele instante, o palco estava vazio, exceto por uma mulher com cabelos ruivos encaracolados e um viol�o ac�stico. Atr�s dela, uma faixa com as letras S.N.C.C. (Comit� de Coordena��o Estudantil N�o Violento). Fortunato n�o tinha ideia do que seria aquela sigla. A mulher tinha um p�blico que cantava junto com ela uma ou outra can��o <emphasis>folk</emphasis>. Eles entraram no refr�o umas duas vezes sem o viol�o, e ent�o ela fez uma rever�ncia, eles aplaudiram, e ela saiu por tr�s do caminh�o.</p><p>N�o era bonita como Lenore; o nariz era um pouco largo, a pele n�o era t�o boa. Estava completamente uniformizada, de jeans azul e camisa de trabalho que n�o lhe favorecia. Mas tinha uma aura de energia que ele podia ver, mesmo sem querer.</p><p>As mulheres eram o fraco de Fortunato. Ele era como uma presa sob os holofotes. Mesmo t�o para baixo como se sentia, n�o podia evitar parar e dar uma olhada nela e, antes que ele percebesse, ela estava em p� ao seu lado, sacudindo uma lata de caf� com algumas moedas no fundo.</p><p>� Ei, cara, que tal uma doa��o?</p><p>� Hoje n�o � respondeu Fortunato. � N�o sou muito de pol�tica.</p><p>� Voc� � negro, Nixon � presidente, e voc� n�o � muito de pol�tica? Irm�o, tenho not�cias para voc�.</p><p>� Tudo isso por ser negro? � Fortunato n�o viu outro rosto negro na multid�o.</p><p>� N�o, cara, � sobre os curingas. Opa, pisei num calo ou algo assim? � Como Fortunato n�o respondeu, ela continuou: � Voc� sabe a expectativa m�dia de vida de um curinga no Vietn�? Menos de dois meses. Se voc� pegar o percentual de curingas na popula��o americana e dividi-lo pelo percentual de curingas no Vietn�, sabe o que voc� ter�? Quase cem vezes mais curingas l�. Cem <emphasis>vezes</emphasis>, cara.</p><p>� T�, tudo bem, e o que voc� quer que eu fa�a?</p><p>� Uma doa��o. Vamos contratar advogados para parar com isso. � o FBI, cara. O FBI e o CRISE-A. � como ter o McCarthy de volta. Eles t�m listas de todos os curingas e est�o mandando pra l� de prop�sito. Se conseguem andar e carregar uma arma, nem precisam fazer exame m�dico de verdade, � direto pra Saigon. � genoc�dio, puro e simples.</p><p>� T�, tudo bem. � Ele pescou uma nota de vinte do bolso e jogou na lata.</p><p>� Sabe o que eu queria? � Ela nem havia percebido o valor da nota. � Queria que todos os ases desgra�ados cuidassem dos seus, sabe? Que custaria pro Ciclone, ou um daqueles outros babacas, destruir esses arquivos? Nada, cara, nada mesmo, mas eles est�o muito ocupados com as manchetes dos jornais.</p><p>Ela come�ou a se afastar e ent�o olhou para a lata.</p><p>� Ei, obrigada, cara. Voc� � bacana. Olha, pegue um folheto. Se quiser fazer mais, � s� ligar.</p><p>� Claro � respondeu Fortunato. � Qual o seu nome?</p><p>� Me chamam de C.C. � ela disse. � C.C. Ryder.</p><p>� � o mesmo C.C. ali de cima? � Ele apontou para a faixa com S.N.C.C.</p><p>C.C. balan�ou a cabe�a.</p><p>� Voc� � engra�ado, cara � ela disse, sorriu finalmente e desapareceu na multid�o.</p><p>Fortunato dobrou o folheto, enfiou no bolso e virou-se para a dire��o do Bowery. Todo aquele papo sobre curingas o fez se sentir desconectado. Logo descendo a rua havia um clube com paredes espelhadas chamado Funhouse, cujo dono era um cara chamado Desmond, que tinha uma tromba no lugar do nariz. Era um dos clientes de Fortunato, sempre querendo uma gueixa com pele mais fina ou cabelo mais escuro ou um rosto mais delicado do que Fortunato conseguia encontrar para ele. Fortunato n�o podia suportar a ideia de v�-lo naquele momento.</p><p>Nas ruas laterais, as pessoas n�o usavam mais m�scaras, e os olhos desafiadores em rostos de cabe�a para baixo ou cabe�as do tamanho de mel�es-cantalupo devolviam olhares. <emphasis>Seus novos irm�os e irm�s</emphasis>, falou para si mesmo. Para cada �s havia dez desses, espreitando em becos, enquanto os sortudos vestiam capas e falavam seu palavreado imperfeito, voando por a�, lutando entre si. Os ases ocupavam as manchetes e os programas de entrevista, e os esquisitos e aleijados, o Bairro dos Curingas. O Bairro dos Curingas e as selvas vietnamitas, se a hist�ria de C.C. for verdade.</p><p>Mas o �nico lugar para onde Fortunato desejava voltar era o apartamento de Lenore, e fazer amor com ela. E dessa vez ele gozaria, e se isso o deixasse fraco, n�o importava, e as coisas voltariam ao normal, como sempre foram.</p><p>Exceto que, cedo ou tarde, o assassino atacaria novamente. O Vietn� estava a meio mundo de dist�ncia, mas o assassino estava bem ali, talvez naquele mesmo quarteir�o.</p><p>Ele parou, olhou para cima e viu que seu subconsciente o levou direto para o beco onde lhe disseram que encontraram Erika.</p><p>Pensou sobre o que C.C. disse. Usar o poder para cuidar dos seus.</p><p>Quando Lenore o arrancou para fora do corpo, ele viu coisas que nunca tinha visto antes, redemoinhos e padr�es de energia que n�o conseguia nomear. Se pudesse sair de novo, poderia enxergar algo que a pol�cia perdeu.</p><p>Um bebum num sobretudo longo e sujo encarou Fortunato. Demorou um segundo para ele perceber que o homem tinha orelhas longas e moles de bass� e um nariz preto e �mido. Fortunato o ignorou, fechando os olhos e tentando lembrar a sensa��o.</p><p>Tamb�m poderia tentar pensar em si mesmo na Lua. Precisava de Lenore, mas tinha medo de lev�-la at� ali. Ser� que conseguiria faz�-lo no apartamento dela e voar at� ali? Conseguiria manter por tanto tempo? O que aconteceria ao seu corpo f�sico se conseguisse?</p><p>Perguntas demais. Ligou para ela de um telefone p�blico e lhe disse onde encontr�-lo.</p><p>� Voc� tem uma arma? � perguntou ele.</p><p>� Sim. Desde que� voc� sabe.</p><p>� Traga.</p><p>� Fortunato? Voc� est� metido em alguma encrenca?</p><p>� Ainda n�o � ele retrucou.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>No momento em que voltou ao beco com Lenore, atraiu uma multid�o. Todos estavam vestidos com roupas doadas pelo Ex�rcito da Salva��o: cal�as largas, camisas de flanela rasgadas e manchadas, jaquetas com cor de graxa ressecada. Uma velha baixinha parecia uma est�tua de museu de cera que havia come�ado a derreter. � sua direita estava um adolescente, ao lado de uma pilha de latas de lixo, vibrando. Quando as vibra��es chegaram a certo tom, as latas se chocaram como uma s�rie de c�mbalos convulsivos, e a mulher se virou, furiosa, e as chutou. Os outros eram visivelmente menos deformados: um homem com ventosas nas pontas dos dedos, uma garota cujo rosto ficou anguloso com sulcos da pele endurecida.</p><p>Lenore agarrou o bra�o de Fortunato.</p><p>� E agora? � ela sussurrou.</p><p>Fortunato a beijou. Ela tentou se afastar quando a esquisita plateia come�ou um riso abafado, mas Fortunato insistiu, abrindo os l�bios dela com a l�ngua, passando a m�o na parte inferior de suas costas, e, finalmente, ela come�ou a ofegar, e ele sentiu o poder se agitando na base de sua espinha. Ele desceu com os l�bios para o ombro de Lenore, suas unhas compridas enterradas no pesco�o dele, e ent�o ele levantou os olhos at� avistar o homem-c�o. Sentiu o poder fluindo nos olhos e na voz, e disse, em voz baixa:</p><p>� V� embora.</p><p>O homem-c�o virou-se e saiu do beco. Mandou os outros embora, um por vez, e ent�o disse:</p><p>� Agora. � E, guiou as m�os dela para dentro de suas cal�as. � Fa�a aquilo comigo, o que voc� fez antes. � Ele deslizou as m�os sob o su�ter de Lenore e passou-as lentamente sobre os seios. A m�o direita dela estava fechada sobre ele e a esquerda segurava sua cintura, confortando-o com o peso de sua pistola S&amp;W calibre 32. Ele fechou os olhos quando o calor come�ou a se formar, deixando a parede de tijolos atr�s dele suportar seu peso. Em segundos estava pronto para gozar, seu corpo astral sacudindo-se como um bal�o numa m�o frouxa.</p><p>E ent�o, como se pulasse de um carro em movimento, ele se libertou.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Cada tijolo e papel de bala cintilava com a claridade. Quando ele se concentrou, o rumor do tr�fego diminuiu e foi abafado at� ficar quase inaud�vel.</p><p>Encontraram Erika numa soleira de porta no fundo do beco, bra�os e pernas decepados, empilhados como lenha no colo, a cabe�a presa ao corpo por menos da metade da espessura do pesco�o. Fortunato podia ver as manchas do sangue bem fundo nas mol�culas do concreto, ainda brilhando fraco com a ess�ncia da vida. A madeira do batente da porta ainda mantinha um tra�o de seu perfume, e um �nico fio de seu cabelo loiro acinzentado.</p><p>O murm�rio bar�tono da rua reduziu at� uma vibra��o t�o baixa que Fortunato conseguia sentir os picos de ondas individuais passando por ele. Agora podia ver a reentr�ncia que o corpo de Erika havia feito no degrau de concreto, os rastros infinitesimais que seus sapatos deixaram no asfalto. E, al�m disso, as pegadas do assassino.</p><p>Elas levavam da rua ao corpo de Erika e voltavam, e no meio-fio encontraram as marcas de um carro. Ele n�o tinha ideia de que tipo de carro era, mas podia ver os rastros que deixou, densos, pretos e fibrosos, como se tivesse queimado pneu por todo o caminho.</p><p>Ele parou por um instante e olhou para tr�s, para o corpo material frio nos bra�os de Lenore. Ent�o deixou que os rastros do carro o puxassem para a rua, atravessando a Second Avenue, depois para o sul, at� a Delancey. Sentia-se cada vez mais fraco, sua vis�o turvando, e os barulhos da cidade ao fundo come�ando a atrapalhar sua audi��o. Ele se concentrou com mais intensidade, arrancando as �ltimas reservas de for�a do seu corpo f�sico.</p><p>O carro virou para o norte na Bowery e parou diante de um decadente armaz�m cinzento. Fortunato avan�ou para a cal�ada, viu as pegadas quando cruzaram do carro at� a porta do pr�dio em frente.</p><p>Ele as seguiu escada acima. Sentiu como se tivesse preso a uma tira el�stica gigantesca e esticada no limite. Cada degrau exigia mais dele que o �ltimo. Por fim, as pegadas desapareceram na entrada para um loft, e ele sabia que estava acabado.</p><p>O barulho do tr�nsito aumentou a velocidade em torno dele, e ele zuniu de volta pelo caminho que o levou at� ali, irresistivelmente atra�do para seu corpo. Exultante, exausto, como se tivesse drenado a si mesmo no sexo, sentiu-se como um mergulhador numa piscina. Lenore cambaleava sob seu repentino peso morto, e ent�o ele deslizou para o ch�o, inconsciente.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� N�o � disse ela e rolou para longe dele. � N�o posso.</p><p>Ela tinha olheiras roxas sob os olhos e seu corpo estava l�nguido de exaust�o. Fortunato perguntou-se como havia sido capaz de coloc�-lo em um t�xi e ajud�-lo a subir as escadas at� o apartamento.</p><p>� N�o entendo � ele comentou.</p><p>� Voc� absorve uma carga e ent�o o sexo pega tudo pra ele. Entende? O poder, o <emphasis>shakti</emphasis>. Apenas com a <emphasis>magick</emphasis> t�ntrica voc� absorve a energia de volta. N�o apenas a sua, mas qualquer energia que eu passe para voc�.</p><p>� Ent�o, quando voc� goza, voc� entrega essa <emphasis>shakti</emphasis>.</p><p>� Exato.</p><p>� E voc� me d� tudo que voc� tem.</p><p>� Isso mesmo, garot�o. Fico toda fodida.</p><p>Fortunato esticou a m�o para pegar o telefone.</p><p>� O que voc� est� fazendo?</p><p>� Sei onde o assassino est� � disse ele, discando. � Se voc� n�o puder me dar a for�a para peg�-lo, vou ter que arranj�-la em outro lugar. � Ele n�o gostou do jeito que as palavras sa�ram, mas estava cansado demais para se importar naquele instante. Cansado e algo mais. Seu c�rebro estava acelerado por conhecer seu poder, e sentia que ele o mudava, assumia o controle.</p><p>O telefone tocou do outro lado da linha, e ent�o ele ouviu Miranda atend�-lo. Ele cobriu o bocal com a m�o e virou-se para Lenore.</p><p>� Voc� vai me ajudar?</p><p>Ela fechou os olhos e fez algo com a boca que era quase um sorriso.</p><p>� Acho que uma puta deve ser esperta o bastante para n�o ter ci�mes.</p><p>� Gueixa � retrucou Fortunato.</p><p>� Tudo bem � Lenore disse. � Mostro pra ela o que fazer.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Eles cheiraram uma carreira de coca�na cada um e dividiram uma forte maconha vietnamita. Lenore jurou que apenas ajudaria a sintoniz�-los. Miranda, alta, cabelos pretos, exuberante, a mais fisicamente competente de suas mulheres, tirava devagar a cinta-liga, as meias e o suti� preto t�o fino que ele podia ver as formas ovais e escuras de seus mamilos.</p><p>Quarenta minutos depois, Lenore passou pelo p� da cama. Miranda, com a cabe�a pendendo sobre a beirada, bra�os esticados imitando um crucifixo, fechou os olhos.</p><p>� Chega � ela sussurrou. � N�o consigo mais gozar. Acho que nunca mais vou conseguir.</p><p>Fortunato ficou de joelhos. Estava coberto com um brilho uniforme de suor e pensou poder ver uma luz dourada irradiando sob sua pele. Olhou-se no espelho sobre a penteadeira de Lenore e n�o ficou alarmado, nem mesmo surpreso, quando viu que sua testa havia come�ado a inchar com o poder.</p><p>Ele estava pronto.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O t�xi o deixou a duas quadras de dist�ncia, na Delancey. Por seguran�a, tinha a arma calibre .32 de Lenore enfiada na parte de tr�s da cal�a, escondida pelo seu blazer preto de linho. Mas, se pudesse, faria o servi�o com as pr�prias m�os. De qualquer forma, os policiais n�o teriam chance de colocar o assassino de volta nas ruas.</p><p>Seus olhos n�o conseguiam focalizar direito e tinha de manter as m�os nos bolsos, pois n�o confiava nelas. Por algum motivo, n�o estava com medo algum. Sentiu-se com 15 anos de novo, como quando come�ou a fazer aquilo com as garotas treinadas por sua m�e. Por meses ele teve medo de tentar, por conta daquilo que sua m�e poderia dizer ou fazer; assim que ele se entregou, n�o se importou mais.</p><p>Era o mesmo agora. Estava descuidado, carregado com o aroma obscuro e a press�o quente e �mida do sexo, mal operando no mundo real. Vou enfrentar um assassino, disse a si mesmo, mas eram apenas palavras. No fundo, ele sabia que estava protegendo suas mulheres e era apenas isso que importava.</p><p>Subiu as escadas para o loft. J� passava da meia-noite, mas ele podia ouvir pela porta de a�o um aparelho de som berrando �Street-Fighting Man�, dos Rolling Stones. Ele bateu na porta com o punho cerrado.</p><p>Engoliu em seco, e a garganta ficou gelada.</p><p>A porta se abriu.</p><p>Do outro lado surgiu um garoto de 17, 18 anos, p�lido, magro, mas bem-definido. Tinha cabelos loiros e longos e um rosto que poderia ter sido bonito, exceto por uma erup��o de espinhas em volta do queixo, disfar�ada de modo tosco com maquiagem. Vestia uma camisa amarela com bolinhas pretas e cal�as boca de sino de brim.</p><p>� O que voc� quer? � perguntou ele por fim.</p><p>� Falar com voc� � retrucou Fortunato. Sua boca estava seca e seus olhos ainda n�o focalizavam direito.</p><p>� Sobre o qu�?</p><p>� Erika Naylor.</p><p>O rapaz n�o reagiu.</p><p>� Nunca ouvi falar dela.</p><p>� Eu acho que j�.</p><p>� Voc� � policial? � Fortunato n�o respondeu. � Ent�o, cai fora.</p><p>Ele come�ou a fechar a porta. Fortunato se lembrou do beco, quando mandou os curingas embora.</p><p>� N�o � ele falou, olhando com firmeza nos olhos sem brilho do rapaz. � Me deixa entrar.</p><p>O rapaz hesitou, olhando surpreso, mas n�o cedeu. Fortunato empurrou a porta com o ombro, lan�ando o rapaz para tr�s no loft e para o ch�o.</p><p>O c�modo estava escuro e a m�sica, ensurdecedora. Fortunato encontrou um interruptor de luz e o acionou, em seguida deu um passo involunt�rio para tr�s quando seu c�rebro registrou o que viu.</p><p>Era o apartamento de Lenore deformado � pervers�o, o ocultismo moderno e sexy transformado at� o fim em tortura, assassinato e estupro. Como no apartamento dela, havia uma estrela de cinco pontas no ch�o, mas essa era apressada, desigual, riscada nas t�buas com algo afiado e ent�o respingada com sangue. Em vez de veludo, velas e madeira ex�tica, havia um colch�o listrado de cinza num canto, uma pilha de roupas sujas e uma d�zia ou mais de fotos Polaroid pregadas na parede com um grampeador industrial.</p><p>Ele sabia o que estava prestes a encontrar, mas andou at� a parede de qualquer forma. Das 14 mulheres nuas e desmembradas, ele reconheceu tr�s. A �ltima, no canto inferior direito, era Erika.</p><p>Ele n�o conseguia pensar com a m�sica rugindo na sua dire��o. Olhou ao redor, buscando o toca-discos, e viu o rapaz loiro erguer-se sobre pernas tr�mulas e sair trope�ando em dire��o � porta.</p><p>� Pare! � gritou Fortunato, mas sem contato visual isso n�o significava nada.</p><p>Irado e em p�nico, Fortunato atacou. Agarrou o garoto pela cintura e o levou at� a parede de gesso vazia.</p><p>E, de repente, estava tentando segurar um animal furioso, cheio de joelhos e unhas e dentes. Fortunato afastou-se por instinto e observou a l�mina de um enorme canivete reluzir entre eles, talhando a jaqueta, a camisa e a pele, saindo margeada de vermelho.</p><p><emphasis>Vou morrer</emphasis>, pensou Fortunato. A arma estava enfiada na parte de tr�s de sua cal�a, muito longe para alcan��-la antes de a l�mina dar uma segunda estocada, cortando mais fundo, deslizando at� o fim. Matando-o.</p><p>Ele olhou para a l�mina. Antes de saber o que estava fazendo, olhou firme para ela, concentrado, como havia feito ao ler os livros no apartamento de Lenore, como fez no beco do Bairro dos Curingas.</p><p>E o tempo desacelerou.</p><p>Ele conseguiu ver n�o apenas seu pr�prio sangue no canivete, mas o sangue dos outros, de Erika e de todas as outras mulheres nas fotografias, removido, mas ainda preso � mem�ria do metal.</p><p>Ele se afastou do garoto loiro insano, movendo-se com lentid�o de sonho pelo ar adensado, mas ainda assim mais r�pido do que o garoto ou sua faca. P�s o bra�o para tr�s, sentiu o cabo da arma sob os dedos. A m�sica dos Rolling Stones, mais lenta, transformou-se num canto f�nebre, enquanto ele sacava a arma, apontava para o garoto, via os olhos p�lidos arregalarem-se.</p><p>N�o o mate, pensou repentinamente. N�o at� saber por qu�. Deslocou o cano at� apontar para o ombro direito do rapaz e puxou o gatilho.</p><p>O ru�do come�ou como uma vibra��o na m�o de Fortunato, acelerou como um foguete, tornou-se um rugido, um curto estrondo de trov�o, e ent�o o tempo voltou a andar, o rapaz tombando para tr�s com o impacto da bala � embora seus olhos n�o mostrassem isso �, tirando a faca de sua in�til m�o direita com a esquerda e cambaleando para a frente novamente.</p><p><emphasis>Possu�do</emphasis>, Fortunato pensou com horror e atirou na altura do cora��o do garoto.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Cambaleando para tr�s, Fortunato abriu a camisa e viu que o corte longo e superficial atravessando seu peito j� havia parado de sangrar, nem precisaria de pontos. Abriu com viol�ncia a porta do corredor e cruzou a sala para chutar a tomada do fon�grafo. Ent�o, no sil�ncio abafado, virou-se para encarar o morto.</p><p>A energia formou ondas e cresceu em seu interior. Ele p�de ver o sangue das mulheres nas m�os do garoto morto, ver o rastro de sangue que sa�a do pentagrama tosco no ch�o, ver os rastros onde o rapaz ficara em p�, as sombras onde as mulheres morreram, e l�, palidamente, como se algu�m tivesse apagado de alguma forma, as marcas deixadas por algo mais.</p><p>Linhas de energia ainda sobreviviam dentro do pentagrama, como ondas de calor cintilando numa autoestrada no deserto. Fortunato cerrou os punhos, sentiu o suor frio gotejar do peito. O que <emphasis>realmente</emphasis> aconteceu aqui? O garoto conjurou de alguma forma um dem�nio? Ou a loucura dele foi apenas um instrumento para algo imensamente maior, alguma coisa infinitamente pior do que alguns assassinatos aleat�rios?</p><p>O rapaz poderia ter falado, mas estava morto.</p><p>Fortunato foi at� a porta, pousou a m�o na ma�aneta. Fechou os olhos e recostou a cabe�a contra o metal frio. <emphasis>Pense</emphasis>, disse para si mesmo.</p><p>Limpou as impress�es digitais da pistola e a jogou perto do corpo. Deixe que a pol�cia tire suas conclus�es. As polaroides devem dar muito o que pensar.</p><p>Ele virou para partir novamente, mas n�o conseguia deixar aquela sala.</p><p>Voc� tem o poder � ele pensou alto. � Pode sair daqui. Sabe que voc� tem o poder e se recusa a us�-lo?</p><p>O suor escorria de seu rosto e dos bra�os.</p><p>O poder estava no <emphasis>yod</emphasis>, no <emphasis>rasa</emphasis>, no esperma. Um poder incr�vel, mais do que ele saberia como controlar naquele momento. O suficiente para trazer os mortos � vida.</p><p><emphasis>N�o</emphasis>, ele pensou. <emphasis>N�o posso fazer isso</emphasis>. N�o s� porque o pensamento o deixou enjoado, mas porque sabia que isso o mudaria. Seria um passo sem volta, o passo com o qual ele desistiria de uma vez por todas de sua humanidade.</p><p>Mas o poder j� o modificara. Ele j� viu coisas que, sem ele, nunca teria entendido. O poder corrompe, disseram a ele, mas agora ele viu como isso era ing�nuo. O poder esclarece. O poder transforma.</p><p>Ele desafivelou o cinto do rapaz morto, abriu o z�per do jeans boca de sino e arrancou-o. O rapaz havia cagado e mijado neles ao morrer, e o cheiro fez Fortunato recuar. Lan�ou as cal�as num canto e virou o rapaz de bru�os.</p><p><emphasis>N�o posso fazer isso</emphasis>, pensou Fortunato. Mas ele j� estava excitado e as l�grimas rolavam em seu rosto quando ajoelhou entre as pernas do garoto morto.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele gozou quase imediatamente. Isso o deixou fraco, mais debilitado do que pensou ser poss�vel. Arrastou-se para longe do rapaz, puxando as cal�as para cima, nauseado, enojado e exausto.</p><p>O cad�ver do rapaz come�ou a se contorcer.</p><p>Fortunato foi at� a parede, p�s-se em p�. Estava zonzo e sua cabe�a latejava de dor. Viu algo no ch�o, algo que havia ca�do das cal�as do rapaz. Era uma moeda, um centavo do s�culo XVIII, t�o reluzente que parecia avermelhada na luz implac�vel do loft. Ele enfiou a moeda no bolso, caso tivesse algum significado mais tarde.</p><p>� Olhe pra mim � disse ao cad�ver.</p><p>As m�os do rapaz morto estavam cravadas no ch�o, arrancando lascas sangrentas. Devagar ele se ergueu sobre as m�os e os joelhos e, em seguida, levantou-se, cambaleando. Virou-se para Fortunato e encarou-o com olhos vazios.</p><p>Os olhos estavam horr�veis. Disseram que a morte era o nada, que mesmo alguns segundos dela seriam demais.</p><p>� Fala � ordenou Fortunato. Sem �dio, mas a mem�ria da f�ria o fez continuar. � Bunda branca maldito, diz alguma coisa. Fale o que isso significa. Me diz por qu�.</p><p>O cad�ver encarava Fortunato. Por um instante, algo tremeluziu, e o rapaz morto disse:</p><p>� TIAMAT.</p><p>Apesar de sussurrada, a palavra foi perfeitamente clara. Ent�o, o garoto morto sorriu. Com as duas m�os cravou os dedos na pr�pria garganta e arrancou-a, rasgando a pele do pesco�o e, enquanto Fortunato assistia, rasgou-o ao meio.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Lenore estava dormindo. Fortunato jogou as roupas no lixo e ficou no chuveiro por trinta minutos, at� a �gua quente lavar tudo. Depois, sentou-se � luz das velas na sala de estar de Lenore e come�ou a ler.</p><p>Encontrou o nome TIAMAT num texto sobre os elementos sum�rios da <emphasis>Magick</emphasis> de Crowley. A serpente, Leviat�, KUTULU. Monstruosa, maligna.</p><p>Sabia, sem hesitar, que havia encontrado apenas um �nico tent�culo de algo que desafiava sua compreens�o.</p><p>E, por fim, dormiu.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Acordou com o som de Lenore fechando as fivelas de uma mala.</p><p>� Voc� n�o entende? � ela tentou explicar. � Sou como uma� uma tomada de parede a qual voc� se conecta para recarregar quando chega em casa. Como posso viver assim? Voc� conseguiu o que eu sempre quis, o poder verdadeiro para fazer <emphasis>Magick</emphasis> real. E teve sem nem querer. E todo o estudo, trabalho e pr�tica que fiz durante a vida toda n�o significou merda nenhuma, porque n�o fui infectada por nenhum maldito v�rus alien�gena.</p><p>� Eu te amo � disse Fortunato. � N�o v�.</p><p>Ela lhe disse para ficar com os livros, com o apartamento tamb�m se quisesse. Disse que lhe escreveria, mas n�o precisava de <emphasis>Magick</emphasis> para saber que estava mentindo.</p><p>E ent�o ela foi embora.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Ele dormiu por dois dias, e no terceiro Miranda o encontrou, e eles fizeram amor at� ele estar forte o suficiente para dizer a ela o que havia acontecido.</p><p>� Ao menos ele est� morto � comentou Miranda. � O resto n�o me importa.</p><p>Quando ela o deixou naquela noite para encontrar um cliente, ele ficou sentado na sala de estar por mais de uma hora, incapaz de se mover. Logo, ele sabia, teria de come�ar a procurar por outro ser cujos tra�os ele viu no loft do garoto morto. Esse pensamento sozinho o paralisava de �dio.</p><p>Por fim, pegou o <emphasis>Magick</emphasis>, de Crowley, e o abriu no cap�tulo V. �Cedo ou tarde�, Crowley escreveu, �o crescimento suave e natural d� lugar � depress�o � a Noite Obscura da Alma, um cansa�o infinito e avers�o � obra�. Mas, no final, viria uma �condi��o nova e superior, uma condi��o apenas poss�vel pelo processo da morte�.</p><p>Fortunato fechou o livro. Crowley sabia, mas estava morto. Sentia como se fosse o �ltimo homem numa rocha est�ril de um planeta.</p><p>No entanto, n�o era o �ltimo homem. Era um dos primeiros de algo novo, algo que tinha o potencial para ser melhor do que o humano.</p><p>Aquela mulher na manifesta��o, C.C. Ela disse que voc� devia cuidar dos seus pares. O que lhe custaria salvar centenas de curingas de morrer no calor e na umidade putrefata do Vietn�? N�o muito. N�o muito mesmo.</p><p>Ele encontrou o folheto no bolso da jaqueta. Devagar, com crescente convic��o, discou os n�meros no telefone.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Transfigura��es</strong></p><p>Victor Mil�n</p><empty-line/><empty-line/><p>O vento noturno de novembro a�oitava suas cal�as, espetando as pernas finas como galhos, enquanto ele se esgueirava para dentro de um pequeno bar pr�ximo ao campus. A escurid�o latejava como uma ferida, pulsando em vermelho, azul e ru�do. Ele parou, hesitando � porta com um desajeitado casaco xadrez laranja e verde com o qual a m�e o mandou para o MIT tr�s anos antes, pendurando-o em seus ombros estreitos como um an�o morto. <emphasis>N�o seja covarde, Mark</emphasis>, disse a si mesmo. � pela ci�ncia.</p><p>A banda investia com �Crown of Creation� e a despejava na pista, enquanto ele buscava instintivamente o canto mais escuro com uma x�cara de ch� na m�o � ao menos havia aprendido que era antiquado pedir Coca ou caf�.</p><p>Fora isso, n�o aprendeu nenhum dos movimentos depois de semanas de pesquisa. Do jeito que estava vestido, com cal�as curtas e camisa de poli�ster em tom pastel do tipo que sempre sobra dos lados como uma vela ao vento, poderia correr o risco de ser confundido com um policial da Narc�ticos � como aquele caso no outono logo ap�s Woodstock, no ano em que Gordon Liddy criou a Ag�ncia de Combate �s Drogas, DEA, a fim de dar a Nixon um problema para desviar a aten��o da guerra. Mas Berkeley e S�o Francisco eram cidades modernas, cidades universit�rias; <emphasis>eles</emphasis> conheciam um aluno de ci�ncias quando viam um.</p><p>O Glass Onion n�o tinha propriamente uma pista de dan�a; os corpos sacudiam-se no vermelho crepuscular e no incandescer �ndigo entre as mesas ou se espremiam num v�o diante do min�sculo palco, com um chiado de mi�angas e franjas de camur�a, e o ocasional brilho opaco das joias indianas. Ele permaneceu o mais longe poss�vel do centro da a��o, mas, sendo Mark, inevitavelmente trombava em todos por quem passava, deixando uma trilha de olhares t�midos de �me desculpe� para tr�s. Suas orelhas salientes queimavam, estava prestes a alcan�ar seu objetivo, a pequena mesa bamba feita de uma bobina de cabos da empresa Ma Bell com uma �nica cadeira de audit�rio verde amassada atr�s dela e, dentro de um pote de manteiga de amendoim, uma vela apagada que balan�ou quando ele passou trope�ando em algu�m.</p><p>A primeira coisa que aconteceu foi que seus imensos �culos de tartaruga escorregaram da inclina��o do nariz e desapareceram na escurid�o. Em seguida, agarrou com as duas m�os a pessoa na qual trombou quando perdeu o equil�brio. A x�cara de ch� atingiu o ch�o com estrondo e estardalha�o. �Oh, meu caro, oh, por favor, me desculpe, sinto muito�� lhe ca�a da boca como bolas de chiclete de uma m�quina quebrada.</p><p>Ele percebeu que havia certa maciez na pessoa que suas m�os magras estavam agarrando com tanto fervor, e um cheiro de alm�scar e patchuli destacava-se do miasma geral e abriu caminho at� seu olfato. Ele praguejou para si mesmo: <emphasis>Voc� tinha de atropelar uma mulher bonita</emphasis>. Ao menos ela <emphasis>cheirava</emphasis> bonito.</p><p>Ent�o ela deu um tapinha em seu bra�o, murmurando que sentia muito, e eles se agacharam juntos para recolher a x�cara de ch� e os �culos, enquanto os corpos rodavam e rodopiavam ao redor deles, e ent�o as cabe�as se chocaram e se encolheram entre desculpas, e os dedos febris de Mark encontraram os �culos milagrosamente intactos, e encaixaram-nos de volta na frente dos olhos, e ele piscou e se viu a dez cent�metros de dist�ncia do rosto de Kimberly Ann Cordayne.</p><p>Kimberly Ann Cordayne: sim, a garota dos seus sonhos. Amor plat�nico de inf�ncia desde o primeiro momento em que colocou os olhos nela, de aventalzinho, aos 5 anos, pedalando seu triciclo ao descer a modesta rua numa �rea residencial ao sul da Calif�rnia, onde moravam. Ficou t�o hipnotizado pela sua perfei��o de cart�o Hallmark que a bola de sorvete de framboesa caiu da casquinha para acabar derretendo na cal�ada quente, e ele nem percebeu. Ela pedalava com os dedos dos p�s expostos e passava com o nariz arrebitado, sem nunca se dar conta da exist�ncia dele. Daquele dia em diante, seu cora��o se perdeu.</p><p>Esperan�a e desespero cresceram como uma onda dentro dele. Ele se empertigou, a l�ngua enrolada demais para emitir palavras. E ela gritou:</p><p>� Mark! Mark Meadows! Porra, como � bom te ver. � E o abra�ou.</p><p>Ele ficou ali parado, piscando como um idiota. Nenhuma mulher que n�o fosse parente o havia abra�ado antes. Ele engolia em seco convulsivamente. <emphasis>E se eu tiver uma ere��o?</emphasis> Muito atrasado, ele deu leves tapinhas nas costas dela, na altura da cintura.</p><p>Ela se afastou, segurando-o � dist�ncia de um bra�o.</p><p>� Me deixa olhar para voc�, cara. Uau, voc� n�o mudou nada.</p><p>Ele recuou. A goza��o come�aria agora, pela sua magreza, sua falta de jeito, seu corte de cabelo � escovinha, as espinhas ainda espalhadas por suas fei��es mirradas, supostamente p�s-adolescentes � e seu defeito mais recente e mais agravante, sua incapacidade total e absoluta de sequer se aproximar de ser descolado. No colegial, Kimberly Ann evoluiu da indiferen�a para se transformar no seu principal tormento � ou melhor, uma sucess�o de atletas em cujos b�ceps avantajados ela se pendurava, arrulhando elogios, assumiu esse papel.</p><p>Mas ali estava ela, puxando-o para aquela mesa de canto.</p><p>� Vamos l�, vamos falar dos velhos tempos ruins.</p><p>Era uma oportunidade pela qual ele esperou com ceticismo por tr�s quartos de sua vida. Cara a cara com seu ideal de amor e beleza, enquanto a banda no palco atacava com �Blackbird�, dos Beatles � e ele n�o conseguia pensar em porcaria nenhuma para dizer.</p><p>Kimberly Ann, no entanto, ficou mais do que feliz em falar. Sobre as mudan�as pelas quais passou desde a boa e velha escola Rexford Tugwell. Sobre as pessoas extraordin�rias que conheceu na Universidade Wittier, como elas a deixaram ligada e abriram seus olhos. Como desistiu no meio do �ltimo ano e foi para l�, para a �rea da Ba�a de S�o Francisco, a meca brilhante do Movimento. Como ela se encontrou desde ent�o.</p><p>Talvez ele n�o tenha mudado, mas ela definitivamente mudou. O rabo de cavalo preto e liso, as saias plissadas, o batom pastel e as unhas pintadas foram embora, a perfei��o careta de aeromo�a da filha �nica de um promissor executivo do Bank of America. O cabelo de Kimberly havia crescido muito, passando bastante da altura dos ombros, uma cabeleira grande, exc�ntrica e volumosa � la Yoko Ono. Vestia uma bata com babados e enfeites de cogumelos e planetas, uma saia volumosa com um tingimento que lembrava a Mark dos shows de fogos de artif�cio da Disneyl�ndia. Sabia que seus p�s estavam descal�os, pois tinha pisado em um deles. Ela parecia mais linda do que ele jamais poderia imaginar.</p><p>E aqueles olhos p�lidos, olhos de c�u de inverno, que o tinham gelado no passado, agora brilhavam para ele com tanta ternura que mal aguentava olh�-los. Era o para�so, mas de alguma forma ele n�o conseguia aceitar. Sendo Mark, tinha de perguntar.</p><p>� Kimberly � ele come�ou.</p><p>Ela levantou dois dedos.</p><p>� Espere um pouco, cara. Deixei esse nome pra tr�s com meu estilo burgu�s. Agora me chamo Girassol.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a e mexeu o pomo de ad�o.</p><p>� Tudo bem� Girassol.</p><p>� O que traz voc� aqui, cara?</p><p>� � uma experi�ncia.</p><p>Ela o encarou atrav�s da borda do copo de geleia cheio com vinho, subitamente desconfiada.</p><p>� Acabei de terminar meu trabalho de fim de curso no MIT � ele explicou num f�lego s�. � Agora estou aqui para fazer o doutorado em bioqu�mica na Universidade da Calif�rnia, em Berkeley.</p><p>� E o que isso tem a ver com esse lugar?</p><p>� Bem, estava trabalhando para entender como o DNA codifica as informa��es gen�ticas. Publiquei alguns artigos dessas coisas. � Na verdade, ele era comparado ao Einstein no MIT, mas voc� nunca o flagraria dizendo isso. � Mas neste ver�o encontrei algo que me interessou muito mais. A qu�mica da mente.</p><p>Seus olhos, um vazio azul.</p><p>� Psicod�licos. Drogas psicoativas. Li todo o material: Leary, Alpert, a cole��o do Solomon. Isso realmente� como � mesmo a express�o? Realmente me deixou ligad�o.</p><p>Ele se curvou para a frente, os dedos batendo instintivamente nas canetas hidrogr�ficas alojadas no protetor pl�stico dentro do bolso em seu peito. Empolgado, ele espalhava perdigotos inconscientes sobre a mesa de bobina.</p><p>� � uma �rea vital de pesquisa. Acho que poderia nos levar a responder quest�es muito importantes: quem somos, como e por qu�.</p><p>Ela olhou para ele com meia testa franzida e meio sorriso.</p><p>� Ainda n�o manjei nada.</p><p>� Estou fazendo um trabalho de campo a fim de estabelecer um contexto para minha pesquisa. Na cultura das drogas� a, hum, contracultura. Tentando achar a maneira como o uso de alucin�genos altera a perspectiva das pessoas.</p><p>Ele umedeceu os l�bios.</p><p>� � realmente estimulante. Existe todo um mundo que eu n�o sabia que existia <emphasis>bem aqui</emphasis>. � Um tique nervoso rodeava as fronteiras esfuma�adas do Onion. � Mas, de alguma forma, eu n�o consigo� bem, fazer contato de verdade. Comprei todos os discos do Grateful Dead, mas ainda me sinto um forasteiro. Eu� eu quase sinto que faria parte de todas essas coisas de hippie.</p><p>� Hippie? � ela retrucou com um riso de deboche refinado. � Mark, onde voc� esteve? Estamos em 1969. O movimento dos hippies morreu faz dois anos. � Ela balan�ou a cabe�a. � Voc� j� experimentou alguma dessas drogas que voc� est� tentando estudar?</p><p>Enrubescido, ele respondeu.</p><p>� N�o. Eu� bem� n�o estou pronto para chegar a esse est�gio.</p><p>� Pobre Mark. Voc� est� t�o nervoso. Parece que este ser� o trabalho perfeito para mim, tentar mostrar a voc� o que est� acontecendo, Mr. Jones.</p><p>A refer�ncia a Bob Dylan o deixou perdido, mas de repente seu rosto se iluminou, seu nariz e bochechas e outros tra�os se levantaram de alegria, e ele mostrou seus dentes cavalares.</p><p>� Quer dizer que vai me ajudar? � Ele agarrou a m�o dela, tirando os dedos em seguida, como se temesse deixar marcas. � Voc� vai me mostrar as coisas por a�?</p><p>Ela concordou com a cabe�a.</p><p>� Maravilha! � Ele pegou a x�cara de ch�, bateu contra os dentes de cima, percebeu que estava vazia e voltou a baix�-la. � Por qu�? Quer dizer, eu� bem, voc� nunca, hum, <emphasis>falou</emphasis> comigo assim antes.</p><p>Ela pegou a m�o dele entre as suas e ele achou que o cora��o pararia.</p><p>� Ah, Mark � disse ela terna, serena. � Sempre o anal�tico. � assim desde que meus olhos se abriram. Enxergo a beleza das pessoas do jeito que elas s�o, sem contar os porcos que oprimem o povo. E eu vejo voc� careta ainda. Mas n�o est� totalmente vendido, cara. Eu consigo ver, consigo ler na sua aura. Ainda � o bom e velho Mark.</p><p>A cabe�a dele rodopiava como um carrossel fora de controle. C�tico, o lado esquerdo do c�rebro trazia � tona hip�teses de que ela estava com saudades de casa, que ele era parte de sua inf�ncia e do passado do qual ela se desligou, talvez, de forma t�o definitiva. Ele o ignorou. Era Kimberly Ann, invulner�vel, inating�vel. A qualquer momento ela reconheceria o impostor que ele era.</p><p>N�o foi o que aconteceu. Eles conversaram noite adentro, ou melhor, ela falou e ele escutou, querendo acreditar, mas ainda incapaz de faz�-lo. Quando a banda fez um intervalo longu�ssimo, algu�m botou o lado A do novo �lbum do Destiny na vitrola. A <emphasis>gestalt</emphasis> ficou marcada de uma vez por todas: a escurid�o e as luzes coloridas dan�ando no cabelo e no rosto da mulher mais linda do mundo, e atr�s dela o bar�tono rouco de Tom Marion Douglas cantava o amor e a morte e o deslocamento de antigos deuses e destinos que era melhor n�o mencionar. Aquilo, aquela noite mudou Mark. Mas ele ainda n�o sabia.</p><p>Ele estava quase t�o saciado com o milagre para ficar extasiado ou mesmo surpreso quando, no meio da segunda e ex�gua parte do show, Kimberly levantou-se de repente, agarrando a m�o dele.</p><p>� Isso aqui vai ficar uma chatice. Esses caras n�o sabem pra onde v�o. Por que n�o vamos pro meu ap�, bebemos um pouco de vinho, ficamos um pouco altos? � Seus olhos o desafiavam, e houve um pouco daquela velha arrog�ncia, o antigo gelo, enquanto ela cal�ava rapidamente as botas de couro com cadar�os vermelhos. � Ou voc� � careta demais para isso?</p><p>Ele sentiu como se tivesse uma bola de algod�o no meio da l�ngua.</p><p>� Hum, eu� n�o. Ficaria mais do que feliz.</p><p>� Bacana. Ainda h� esperan�a para voc�.</p><p>Atordoado, Mark a seguiu para fora do bar at� uma loja de bebidas com uma imensa grade prisional correndo sobre as janelas, onde um propriet�rio careca e p�lido lhes vendeu uma garrafa de vinho Ripple com t�dio em seus olhos de peixe. Mark era virgem. Ele tinha suas fantasias, as revistas <emphasis>Playboy</emphasis> com as p�ginas grudadas empilhadas entre artigos cient�ficos sob a cama caindo aos peda�os em seu apartamento nas proximidades de Chinatown. Mas nem mesmo em fantasia ele ousou imaginar-se dormindo com a resplandecente Kimberly Ann. E agora ele pairava pelas ruas como se n�o tivesse peso, sem nem perceber os malucos e os sem-teto que trocavam cumprimentos com Girassol quando eles passavam.</p><p>E mal percebeu os rumores vacilantes quando Girassol disse:</p><p>� � conhecer o meu velho. Voc� vai amar, ele � um cara muito legal.</p><p>Ent�o as palavras chocaram-se contra o c�rebro como um martelo de chumbo. Ele trope�ou. Kimberly agarrou-o pelo bra�o, rindo.</p><p>� Pobre Mark. Sempre t�o tenso. Venha, estamos quase l�.</p><p>Ent�o, ele entrou no pequeno apartamento de um c�modo com fog�o el�trico de uma boca e uma torneira vazando no banheiro. Numa parede, um colch�o restaurado com uma colcha com estampa de madras estava recostado numa porta escorada em blocos de concreto. De pernas cruzadas na colcha embaixo de um p�ster gigante do sagrado Che, estava sentado Philip, o Velho da Girassol. Tinha olhos pretos e intensos e vestia uma camiseta preta esticada sobre o peito musculoso com um punho vermelho-sangue e a palavra <emphasis>Huelga</emphasis> escrita embaixo dele. Estava assistindo a v�deos de uma manifesta��o numa pequena TV port�til velha com uma antena feita de cabide.</p><p>� Bem na hora � ele disse quando entraram. � O Rei-Lagarto botou a cabe�a no lugar. Esses ases de terno e gravata que lutam contra a guerra trabalhando pro sistema, como o Tartaruga, n�o sabem o que � enfrentar a <emphasis>Am�rika</emphasis> fascista. Quem � voc�?</p><p>Depois de Girassol arrast�-lo para um canto e explicar com sussurros r�spidos que Mark n�o era um espi�o da pol�cia, mas um velho, velho amigo, e n�o me envergonhe, seu idiota, ele concordou em apertar a m�o de Mark. Ao passar por ele, o rapaz esticou o pesco�o para a TV; o rosto barbado do homem sendo entrevistado parecia familiar.</p><p>� Quem � ele?</p><p>Philip repuxou o canto da boca.</p><p>� Tom Douglas, quem mais? Vocalista do Destiny. O Rei-Lagarto.</p><p>Ele esquadrinhou Mark da cabe�a aos mocassins.</p><p>� Talvez voc� nunca tenha ouvido falar dele.</p><p>Mark piscou, sem dizer palavra. Conhecia o Destiny e Douglas, pois em sua pesquisa comprou o novo �lbum deles, <emphasis>Black Sunday</emphasis>, capa toda marrom dominada por um imenso sol negro. Mas ficou muito envergonhado para diz�-lo.</p><p>Os olhos de Girassol ficaram dispersos.</p><p>� Voc� precisava t�-lo visto hoje na manifesta��o. Enfrentando os porcos como o Rei-Lagarto. Muito bacana.</p><p>Amenidades � parte, os dois arrumaram um dispositivo de vidro e tubos de borracha, fecharam o recipiente cheio de droga, e acenderam. Se Girassol tivesse oferecido um baseado para Mark, ele teria aceitado. Mas agora estava se sentindo novamente estranho e alien�gena, como se sua pele n�o se encaixasse, e recusou. Foi para um canto, desengon�ado, perto de uma pilha de <emphasis>Daily Workers</emphasis>, o jornal do Partido Comunista, enquanto seu anfitri�o e sua anfitri� ficaram sentados na cama fumando a droga, e o atarracado e intenso Philip dava uma palestra ao rapaz sobre a Necessidade da Luta Armada at� ele pensar que sua cabe�a cairia do pesco�o, e Mark tomou a garrafa inteira do vinho doce enjoativo � ele tamb�m n�o bebia � e, finalmente, Kimberly come�ou a se aconchegar ao seu Velho e a acarici�-lo de uma maneira que nitidamente inquietou Mark, e ele murmurou desculpas, trope�ou e de alguma forma encontrou seu caminho para casa. Quando a primeira luz da aurora vazou pelas janelas de seu apartamento sombrio, ele regurgitou o conte�do da garrafa de Ripple em sua privada rachada e custou 15 descargas at� ficar limpa novamente.</p><p>E assim Mark come�ou a cortejar Girassol, nome de batismo Kimberly Ann Cordayne.</p><p><image l:href="#3"/></p><p><emphasis>I want you</emphasis>� As palavras derramavam-se ao vento, insolentes, sugestivas, a voz vinda do radinho japon�s, uma mistura de �mbar derretido e goles de u�sque de todo o tipo de arruaceiros nas festas de Ano-Novo: Wojtek Grabowski fechou bem seu abrigo sobre seu peito largo e tentou n�o ouvir.</p><p>O guindaste deu r� como um dinossauro zumbi, balan�ou a viga mestra na dire��o dele. Ele fez um gesto para o operador com movimentos exagerados como se estivesse embaixo d��gua. <emphasis>I want you�</emphasis> a voz insistia. Sentiu um lampejo de irrita��o. �<emphasis>A blast from the past</emphasis>, de 1966, e a primeira m�sica do Destiny�, o locutor tinha piado com sua voz de adolescente profissional. <emphasis>Esses americanos</emphasis>, Wojtek pensou, <emphasis>acham que 1966 � hist�ria antiga</emphasis>.</p><p>� Desliga essa merda de <emphasis>boogie-woogie</emphasis> � algu�m rosnou.</p><p>� V� te catar � o dono do r�dio retrucou. Tinha 20 anos, 2 m de altura e seis meses que voltara do Vietn�. Fuzileiro naval. Batalha de Khe Sahn. A discuss�o terminou.</p><p>Grabowski queria que o garoto desligasse o r�dio, mas n�o gostava de ser afobado. Ele era tolerado � um trabalhador forte que conseguia beber mais do que o homem mais forte do lugar numa sexta-feira � noite. Mas ele se resguardava.</p><p>Enquanto a viga mestra descia, a equipe se juntava para coloc�-la no lugar e o vento frio da ba�a atravessava o nylon fino e a pele envelhecida, ele pensou como era estranho estar ali � ele, o filho do meio de um pr�spero lar de Vars�via, o fraquinho, o estudioso. Seria m�dico, professor. Seu irm�o Kliment � meio invejado, muito admirado, grande, arrojado, animado, com um bigode preto de soldado de cavalaria � iria para a Academia de Oficiais, seria um her�i.</p><p>Ent�o vieram os alem�es. Kliment tomou um tiro nas costas do chefe do Ex�rcito Vermelho na floresta de Katyn. A irm� Katja desapareceu nos bord�is militares da Wehrmacht, o ex�rcito alem�o. A m�e morreu no �ltimo bombardeio de Vars�via, enquanto os sovi�ticos se escondiam no V�stula e deixavam os nazistas fazerem o trabalho sujo por eles. O pai, um funcion�rio menor do governo, sobreviveu � guerra por poucos meses at� receber a pr�pria bala na nuca, eliminado pelo regime �marionete� de Lublin.</p><p>O jovem Wojtek, com sonhos universit�rios destru�dos para sempre, passou seis anos e meio como guerrilheiro nas florestas, terminando como fugitivo, exilado numa terra estrangeira com apenas uma esperan�a: manter o cora��o pulsando.</p><p><emphasis>I want you</emphasis>. A repeti��o estava come�ando a encher a paci�ncia. Crescera com Mozart e Mendelssohn. E a mensagem� N�o era uma can��o de amor, era uma can��o de lux�ria, um convite � prevarica��o.</p><p>Amor significava mais para ele � um momento de umidade fresca, fluindo diante de sua vis�o, arrastado pela m�o g�lida do vento. Lembrou-se de seu casamento com Anna, sua garota guerrilheira, naquilo que os <emphasis>stukas</emphasis>, bombardeiros de mergulho alem�es, deixaram da igreja de um vilarejo, e mais tarde o pr�prio padre estava enfiado na sua batina esfarrapada e executava a <emphasis>Tocata e fuga</emphasis> de Bach no �rg�o, milagrosamente intacto, enquanto uma garota esfaimada se contra�a para controlar os foles. No dia seguinte eles ca�ram numa emboscada dos fascistas, mas naquela noite, naquela noite�</p><p>Outra viga mestra levantou-se. Anna foi embora antes dele, escondida por espi�es brit�nicos sol�citos em junho de 1945, seguindo para os Estados Unidos com um filho no ventre. Ele lutou o quanto p�de, ent�o a seguiu.</p><p>Agora, ele morava numa terra que amava quase como uma amante. Nada mais restava. Em 23 anos, n�o encontrou sinal da mulher que amara e da crian�a que ela deve ter parido. E, Virgem Santa, como ele a procurou.</p><p><emphasis>I waaaaaant you</emphasis>�</p><p>Ele cerrou os olhos. Se eu precisar aguentar essa letra rid�cula mais uma vez�</p><p>� <emphasis>to die with me</emphasis>.</p><p>A m�sica diminuiu at� virar um lamento sombrio. Por um momento, ele ficou paralisado, como se o vento tivesse transformado o suor em gelo dentro de sua camisa. O que parecia uma simples m�sica a�ucarada era infinitamente mais� mais mal�fica. Ali estava um homem, o porta-voz ungido da juventude, para quem as bajula��es do amor� ou mesmo da lux�ria� eram reduzidos a uma <emphasis>Totentanz</emphasis>, um ritual de morte.</p><p>A viga mestra bateu numa pilastra e soou como um sino rachado. Grabowski sacudia-se, gesticulando para o homem do guindaste parar. Ao mesmo tempo, ele se esfor�ou e ouviu o locutor dizer o nome: Tom Douglas.</p><p>Era um nome do qual ele se lembraria.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Mark esperava que fosse um galanteio. Dois dias depois, Girassol o encontrou vindo de uma reuni�o com seu orientador e o levou para um passeio no parque. Ela o levava a casas noturnas e sess�es de bate-papo at� tarde da noite, para reuni�es de protesto no People�s Park, para shows. Sempre como seu amigo, seu protegido, o amigo de inf�ncia que ela transformou em sua cruzada pessoal para resgat�-lo da caretice. Mas, infelizmente, n�o no papel elevado de seu Velho.</p><p>Mesmo assim, ele encontrou motivo para ter esperan�a. Nunca mais viu Philip, o mach�o. De fato, nunca viu nenhum dos namorados de Girassol mais de uma vez. Eram todos intensos, apaixonados, brilhantes (e me esfor�o para dizer isso a voc�). Comprometidos. E musculosos; <emphasis>aquela</emphasis> parte do gosto de Kimberly n�o havia mudado. Aquilo trazia a Mark muitos momentos de desespero, mas l� no fundo de seu peito magro ele acalentava a ideia de que algum dia ela sentiria a necessidade de um porto seguro, e viria para ele como uma ave marinha para a terra firme.</p><p>Mas, ainda assim, ele nunca, nunca cruzou o abismo que se abria entre ele e o mundo ao qual ansiava � o mundo que Girassol habitava e personificava.</p><p>Sobreviveu �quele inverno com a esperan�a e os biscoitos de aveia e gotas de chocolate que sua m�e enviou.</p><p>E com m�sica. Veio de um lar onde cantavam junto com Mitch Miller, e Lawrence Welk ocupava o mesmo pin�culo que Kennedy. Nunca se permitiu que o rock �n� roll maculasse o ar da casa de seus pais. Ele mesmo havia negligenciado tanto o rock como tudo que estivesse fora de seu laborat�rio e de suas fantasias secretas. Nunca soube da invas�o dos Beatles, da pris�o de Mick Jagger por licantropia no show da ilha de Wight, do Ver�o do Amor e da explos�o do <emphasis>acid rock</emphasis>.</p><p>Naquele momento, tudo isso come�ou a invadi-lo. Os Stones. Os Beatles. Jefferson Airplane. Grateful Dead. Spirit, Cream e os Animals e a sant�ssima trindade: Janis, Jimi e Thomas Marion Douglas.</p><p>Tom Douglas, principalmente. Sua m�sica era depressiva como uma ru�na antiga, escura, agourenta, meio oculta. Apesar de sua real afinidade ser o som mais suave de The Mamas &amp; The Papas, de um tempo que j� virara hist�ria, Mark foi atra�do pelo toque de Douglas � humor negro, distor��es obscuras �, mesmo que a f�ria nietzschiana impl�cita na m�sica o repelisse. Talvez esse Douglas fosse tudo que Mark Meadows n�o era. Famoso, vibrante, corajoso, descolado e irresist�vel �s mulheres. E um �s.</p><p>Ases e o Movimento: de muitas maneiras, eles invadiram a corrente principal da forma��o flutuante da consci�ncia p�blica como os p�ssaros de a�o que o pai de Mark conduziu para a batalha ao norte do Vietn�. Havia mais ases no rock �n� roll do que em qualquer outro segmento da popula��o. Seus poderes em geral n�o eram sutis. Alguns tinham a capacidade de projetar imagens estonteantes de luz, outros faziam m�sica extravagante sem precisar de instrumentos. A maioria, por�m, fazia jogos mentais com o p�blico por meio de ilus�o ou pura manipula��o emocional. Entre eles, Tom Douglas � o Rei-Lagarto � era o mestre das viagens mentais.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A primavera chegou. O orientador acad�mico de Mark pressionou-o, querendo resultados. Mark come�ou a se desesperar, odiando-se pela falta de determina��o, ou qualquer que fosse o defeito da humanidade que o impediu de precipitar-se � cena da droga, incapaz de continuar sua pesquisa at� faz�-lo. Sentia-se como a mosca preservada num cubo de acr�lico que seus pais inexplicavelmente possu�am quando ele era crian�a.</p><p>O m�s de abril o viu se retirar do mundo para o microcosmo, para a realidade dos artigos dentro de suas paredes descascadas. Tinha todos os discos do Destiny, mas n�o podia toc�-los agora, ou dos Dead, dos Stones, ou do m�rtir Jimi. Eram uma provoca��o, um desafio que n�o podia enfrentar.</p><p>Comia seus biscoitos de chocolate e bebia refrigerante, e emergia do quarto apenas para satisfazer um v�cio nost�lgico de inf�ncia: o amor pelos quadrinhos. N�o apenas os antigos cl�ssicos, f�bulas do Super-Homem e do Batman dos dias de inoc�ncia, antes de a humanidade ser tomada pelo v�rus carta selvagem, mas tamb�m seus sucessores modernos, que retratavam fa�anhas romanceadas dos ases reais, como livros baratos de Velho Oeste. Devorava-os com fervor de viciado. Satisfaziam por substitui��o o desejo que come�ara a corro�-lo por dentro.</p><p>N�o eram os poderes meta-humanos; nada t�o ex�tico. Nem sua �nsia de aceita��o no misterioso mundo da contracultura, nem o desejo pelo corpo �gil sem suti� da antiga Kimberly Ann Cordayne que o mantinha acordado ap�s uma noite suada. O que Mark Meadows desejava mais do que qualquer outra coisa no mundo era uma <emphasis>personalidade de fato</emphasis>. A capacidade de fazer, alcan�ar, deixar uma marca; boa ou m�, pouco importava.</p><p>Numa noite pr�xima ao fim de abril, o ref�gio de Mark foi invadido por uma batida na porta de seu apartamento. Ele estava deitado em seu colch�o fino com len��is nunca trocados, enterrando o longo nariz ainda mais nas p�ginas de um quadrinho da Cosh, o <emphasis>Tartaruga</emphasis> n�mero 92. Sua primeira rea��o foi medo, ent�o raiva pela intrus�o. Decidiu que o mundo era demais para ele; resolveu deix�-lo quieto. Por que o mundo n�o fazia o mesmo com ele?</p><p>Novamente a batida, insistente, amea�ando o fino verniz da madeira sobre o vazio. Ele suspirou.</p><p>� O que voc� quer? � ele enfatizou as palavras com um choramingo.</p><p>� Vai me deixar entrar ou vou ter que derrubar essa coisa de papel mach� que o porco do seu senhorio chama de porta?</p><p>Por um momento, Mark ficou l�, deitado. Ent�o deixou a revista ao lado da cama no ch�o de madeira manchado e rumou para a porta com as meias encardidas e gastas.</p><p>Ela estava l� em p� com as m�os no quadril. Vestia outra saia com estampa de fogos de artif�cio de Quatro de Julho e uma blusa rosa desbotada, e contra o frio primaveril da ba�a ela trajava uma jaqueta jeans da Levi�s com a �guia da Uni�o dos Trabalhadores Rurais estampada nas costas e um s�mbolo da paz costurado no lado esquerdo do peito. Irrompeu pela sala e bateu com for�a a porta.</p><p>� Olhe para esta merda � ela disse com um gesto que dividia as paredes no n�vel do peito. � Como um ser humano consegue viver desse jeito? Vivendo de a��car processado � uma sacudida de cabe�a apontando um prato com biscoitos meio devorados e um copo de refrigerante sem g�s da semana anterior � e enchendo sua mente com bobagens autorit�rias chauvinistas � outro gesto de l�mina afiada na dire��o das revistas do <emphasis>Tartaruga</emphasis> que jaziam amassadas numa pilha no ch�o. Ela balan�ou a cabe�a. � Voc� est� se comendo vivo, Mark. Afastou-se dos seus amigos, as pessoas que te amam. Isso tem que parar.</p><p>Mark ficou l�, em p�, parado. Nunca tinha visto o olhar dela t�o belo, embora ela o repreendesse, falando como a m�e dele � ou melhor, como o pai. E, ent�o, seu corpo magro come�ou a vibrar como um diapas�o, pois foi arrebatado por ela ter dito que o amava. N�o era o tipo de amor ao qual ele ansiava e ardia por ela. Mas, emocionalmente, ele n�o estava em condi��es de escolher.</p><p>� � hora de voc� sair do casulo, Mark. J� pra fora do seu quarto-incubadora. Antes de voc� virar uma daquelas coisas de <emphasis>A noite dos mortos-vivos</emphasis>.</p><p>� Tenho trabalho pra fazer.</p><p>Ela levantou uma sobrancelha e empurrou a <emphasis>Tartaruga</emphasis> 92 com a ponta da bota.</p><p>� Voc� vem conosco.</p><p>� Aonde? � Ele piscava. � Quem?</p><p>� Voc� n�o ouviu. � Um balan�ar de cabe�a. � Claro que n�o. Voc� est� trancado aqui no quarto como uma esp�cie de monge. O Destiny est� de volta � cidade. V�o dar um show no Fillmore hoje � noite. Meu pai mandou dinheiro. Tenho ingressos para n�s, voc�, eu e Peter. Ent�o, pode se vestir; vamos sair agora para n�o ficarmos uma eternidade na fila. E, pelo amor de Deus, tente n�o se vestir como um careta.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Peter parecia um surfista e pensava que era Karl Marx. Parecia trazer para Mark a lembran�a inc�moda de um ex-namorado de Kimberly Ann, o capit�o da equipe de futebol que estourou o nariz de Mark no col�gio por ficar olhando a mo�a com muita avidez. Parado l� fora num casaco surrado de <emphasis>tweed</emphasis> e sua �nica cal�a jeans, respirando o ar �mido e a fuma�a de carburador, ouvia Peter lhe dando a mesma palestra sobre o Processo Hist�rico que todos os namorados de Girassol lhe davam. Quando Mark n�o concordava com tanta empolga��o � nunca via muito sentido nesses manifestos para formar uma opini�o �, Peter lhe lan�ava um olhar azul n�rdico e g�lido, e resmungava <emphasis>Vou acabar com voc�</emphasis>.</p><p>Mais tarde, Mark descobriu que a fila era feita de pl�gios do velho barbudo comunista. Naquele momento, isso fez com que ele quisesse se enterrar na cal�ada gasta do lado de fora do audit�rio. N�o ajudava muito que Girassol ficasse l� sorrindo para os dois como se tivessem acabado de ganhar um pr�mio para ela.</p><p>Felizmente, Peter entrou numa discuss�o aos berros com os policiais que os revistaram atr�s de bebidas na porta, tirando sua ira de cima de Mark. Com consci�ncia pesada, Mark desejou que os policiais espancassem a cabe�a loura de Peter com um cassetete e o levassem em cana.</p><p>Mas o Destiny estava terminando a mais tumultuada de todas as suas turn�s. Tom Douglas, cujo consumo de drogas e qu�micas alteradoras de consci�ncia era t�o lend�rio quanto seus poderes de �s, ficava bem b�bado antes de cada show. O Rei-Lagarto estava causando confus�o; o show de New Haven na semana anterior havia culminado numa revolta que devastou o antigo campus de Yale e metade da cidade. De sua maneira desajeitada, os policiais estavam tentando evitar confrontos naquela noite. A revista n�o era o jeito mais astuto de faz�-lo, mas os policiais � e a ger�ncia do Fillmore � n�o estavam interessados em deixar os garotos mais loucos do que Tom Douglas os deixaria de qualquer forma. Ent�o, o p�blico era revistado quando chegava, mas com cuidado. Peter e sua cabe�a dourada passaram ilesos.</p><p>O primeiro show do Destiny de Mark foi tudo o que ele poderia imaginar elevado � d�cima pot�ncia. Douglas, como de costume, entrou duas horas atrasado no palco � da mesma forma como de costume estava t�o chapado que mal conseguia ficar em p�, muito menos deixar de pular na multid�o de f�s. Mas os tr�s m�sicos que formavam o restante do Destiny estavam entre os mais talentosos artistas do rock. Sua experi�ncia cobria uma profus�o de pecados. E, aos poucos, em torno do esqueleto s�lido de sua m�sica, as incoer�ncias e os gestos rudimentares de Douglas formavam algo m�gico. A m�sica foi uma explos�o de �cido que dissolveu a pris�o acr�lica de Mark, at� chegar � sua pele, e o atormentou.</p><p>No intervalo, as luzes foram apagadas como se uma grande porta fosse fechada. Em algum lugar, um tambor come�ou uma batida lenta, densa. Da escurid�o irrompeu um choro agonizante de guitarra. Um �nico facho de luz azul caiu para iluminar Douglas, sozinho com o microfone no centro do palco, suas cal�as de couro reluzindo como pele de serpente. Come�ou a cantar, um lamento suave e baixo que aumentou em urg�ncia e volume, a introdu��o de uma obra-prima, �Serpent Time�. Sua voz cresceu num grito repentino, as luzes e a banda surgiram de uma vez em torno dele, como uma borrasca contra as pedras, e eles foram lan�ados a uma odisseia nos dom�nios mais long�nquos da noite.</p><p>Por fim, ele assumiu o aspecto do Rei-Lagarto. Uma aura preta pulsava dele como calor de uma fornalha e arrebatou o p�blico. Seu efeito era ludibriador, ilus�rio, como uma nova e estranha droga: elevou alguns espectadores ao auge do �xtase, outros ele lan�ava num desespero profundo; alguns viam o que mais desejavam, outros encaravam direto a garganta do Inferno.</p><p>E no centro daquele esplendor da meia-noite, Tom Douglas parecia ficar maior do que a vida, e, naquele instante e novamente, tremeluziam, no lugar de suas fei��es vulgares e de certa forma belas, a cabe�a e as abas reluzentes de uma cobra-real gigante, negra e amea�adora, dando botes � esquerda e � direita enquanto ele cantava.</p><p>Quando a m�sica chegava ao �pice em um uivo de voz, �rg�o e guitarra, Mark flagrou-se em p� com l�grimas correndo descaradamente sobre seu rosto magro, uma m�o segurando a de Girassol, a outra a de um estranho, e Peter sentado, melanc�lico no ch�o com o rosto enterrado nas m�os, murmurando algo sobre a decad�ncia.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O dia seguinte foi o �ltimo de abril. Nixon invadiu o Camboja. A rea��o alastrou-se nos campi da na��o como uma bomba napalm.</p><p>Mark encontrou Girassol no caminho da ba�a, ouvindo discursos no meio de uma multid�o enfurecida no parque Golden Gate.</p><p>� N�o posso fazer isso � gritou ele por sobre o barulho da orat�ria. � N�o posso passar da linha� n�o posso sair de mim mesmo.</p><p>� Ah, <emphasis>Mark</emphasis>! � retrucou Girassol com uma sacudida de cabe�a furiosa e chorosa. � Voc� � t�o ego�sta. T�o� t�o <emphasis>burgu�s</emphasis>. � Ela virou as costas e perdeu-se na floresta de corpos cantantes.</p><p>Aquela foi a �ltima imagem que teve dela por tr�s dias.</p><p>Ele a procurou, perambulando por grupos raivosos, as ondas de placas denunciando Nixon e a guerra, por entre a fuma�a de maconha que pairava como perfume em torno de uma cerca viva de madressilvas. Seus trajes supercaretas atra�am olhares hostis; ele se esquivava de diversos encontros potencialmente feios apenas naquele primeiro dia sozinho, desesperando-se cada vez mais por sua incapacidade de se tornar um com a massa pulsante de humanidade em torno dele.</p><p>O ar estava carregado de revolu��o. Podia senti-la se formando como uma for�a est�tica, quase sentia o cheiro do oz�nio. E n�o era o �nico.</p><p>Ele a encontrou numa vig�lia noturna, poucos minutos antes da meia-noite do dia 3 de maio. Estava na posi��o de l�tus numa pequena �rea de grama empalidecida que sobrevivera ao ataque violento de milhares de p�s manifestantes, desafinando pregui�osamente num viol�o, enquanto ouvia os discursos gritados de um megafone.</p><p>� Onde voc� estava? � Mark perguntou, afundando at� a canela na lama deixada por uma chuva passageira.</p><p>Ela apenas olhou para ele e balan�ou a cabe�a. Nervoso, ele se jogou no ch�o ao lado dela com um pequeno chapinhar.</p><p>� Girassol, onde voc� estava? Procurei por voc� em todo canto.</p><p>Por fim ela o encarou, balan�ando a cabe�a com tristeza.</p><p>� Estava com o povo, Mark � ela disse. � Onde � o meu lugar.</p><p>De repente, ela se curvou para a frente, pegou-o pelo bra�o com for�a surpreendente.</p><p>� Onde � o seu lugar tamb�m, Mark. � que voc� � t�o� t�o ego�sta. � como se estivesse numa armadura. E voc� tem tanto a oferecer� agora, quando precisamos de toda a ajuda poss�vel para combater o opressor antes que seja tarde demais. Liberte-se, Mark. Liberte-se.</p><p>Espantado, viu uma l�grima cintilando no canto do olho de Girassol.</p><p>� Estou tentando � ele respondeu com sinceridade. � Eu� parece que n�o vou conseguir.</p><p>Uma brisa soprava da ba�a, fria e um pouco insistente, �s vezes afastando as palavras distorcidas do megafone. Mark estremeceu.</p><p>� Pobre Mark. T�o nervoso. Seus pais, as escolas, eles trancaram voc� numa camisa de for�a. Voc� precisa se libertar. � Ela umedeceu os l�bios. � Acho que posso te ajudar.</p><p>Entusiasmado, ele lan�ou o corpo para a frente.</p><p>� Como?</p><p>� Voc� precisa derrubar os muros, como na m�sica. Precisa abrir a mente.</p><p>Ela fu�ou por um momento num bolso da jaqueta jeans bordada, puxou de l� a m�o fechada, com a palma para cima.</p><p>� Luz do sol. � Ela abriu a m�o. Uma p�lula branca indefinida jazia na palma da m�o. � �cido.</p><p>Ele ficou olhando para o comprimido. L� estava, o objeto de seu longo e indireto estudo: investiga��o e objeto de investiga��o ao mesmo tempo. A dificuldade de se obter LSD licitamente � e sua relut�ncia profundamente arraigada de tentar consegui-lo no mercado negro, junto com o medo instintivo de que a primeira tentativa de compr�-lo o lan�aria na pris�o de San Quentin � ajudou-o a adiar o dia do acerto de contas. J� tinham oferecido �cido a ele na fraternidade hippie; sempre recusou, dizendo a si mesmo que era porque nunca se podia saber o que havia na droga, secretamente porque tinha medo de ir al�m daquela porta complexa que a subst�ncia apresentava. Mas naquele momento o mundo ao qual ansiava pertencer emergia na sua frente como o mar, a mulher que amava lhe oferecia desafio e tenta��o, e l� estava a droga, derretendo lentamente na chuva.</p><p>Ele pegou o comprimido dela, r�pida e cuidadosamente, como se suspeitasse que aquilo queimaria seus dedos. Enfiou bem fundo no bolso da frente das cal�as pretas justas, agora t�o completamente sujas de lama que lembravam uma experi�ncia malsucedida com o tingimento do tecido.</p><p>� Vou pensar sobre isso, Girassol. N�o posso apressar as coisas.</p><p>Sem saber o que mais dizer ou fazer, come�ou a desenroscar as pernas magricelas e levantou-se.</p><p>Ela o pegou novamente pelo bra�o.</p><p>� N�o. Fique aqui comigo. Se for para casa agora, vai jog�-lo na privada e dar descarga. � Ela o puxou para baixo, ao lado dela, mais perto do que de fato j� tinha estado antes, e de repente ele ficou completamente ciente de que o guerrilheiro vanguardista louro n�o estava em lugar algum por ali.</p><p>� Fique aqui, no meio do povo. Bem ao meu lado � ela soprou bem perto do ouvido dele. Seu h�lito tremulava como c�lios na ponta de sua orelha. � Veja o que voc� tem a ganhar. Voc� � especial, Mark. Poderia fazer tanta coisa que realmente <emphasis>importa</emphasis>. Fique comigo essa noite.</p><p>Embora o convite n�o fosse t�o abrangente quanto gostaria, ele voltou a sentar-se na lama, e assim a noite passou numa comunh�o g�lida, os dois aconchegados na cobertura d�bia da jaqueta de Girassol, ombro a ombro, enquanto os oradores retumbavam a revolu��o � o confronto final com a <emphasis>Am�rika</emphasis>.</p><p>Quando amanheceu, o protesto come�ou a se autodigerir. Eles foram juntos para uma pequena cafeteria 24 horas perto do campus, tomaram um caf� da manh� org�nico do qual Mark n�o conseguia sentir o gosto, enquanto Girassol falava apressada do destino que estava ao alcance dele:</p><p>� Se voc� ao menos conseguisse se libertar, Mark.</p><p>Ela se esticou e pegou uma das m�os longas e p�lidas dele na sua m�o pequena e bronzeada.</p><p>� Quando tropecei em voc� naquele clube no outono passado, fiquei feliz em te ver porque acho que estava com saudades dos velhos tempos, mesmo eles sendo ruins. Voc� era um rosto conhecido.</p><p>Ele baixou os olhos, piscando rapidamente, assustado com sua confiss�o aberta de que o procurou pelo que ele era e n�o por quem ele era.</p><p>� Isso mudou, Mark.</p><p>Ele ergueu os olhos novamente, hesitante como um cervo surpreendido num jardim no in�cio da manh�, pronto para fugir ao primeiro sinal de perigo.</p><p>� Comecei a gostar de voc� pelo que voc� �. E pelo que poderia ser. Existe uma pessoa de verdade por tr�s daquele corte � escovinha, daqueles �culos de tartaruga e daquelas roupas de elite sem gra�a que voc� usa. Uma pessoa que implora por ser libertada.</p><p>Ela pousou a outra m�o sobre a dele, acariciando-a de leve.</p><p>� Espero que voc� se liberte, Mark. Quero muito conhec�-lo. Mas chegou a hora de voc� decidir. N�o consigo mais esperar. O momento da escolha chegou, Mark.</p><p>� Quer dizer� � A l�ngua trope�ava. Para sua mente nublada pelo cansa�o, ela parecia estar prometendo muito mais do que amizade� e, ao mesmo tempo, amea�ando terminar at� mesmo com essa amizade se ele n�o conseguisse agir.</p><p>Ele a levou em casa, at� o apartamento clandestino. No patamar da escada externa, ela o agarrou de repente pela nuca e beijou-o com ferocidade surpreendente. Ent�o desapareceu no pr�dio, deixando-o para tr�s, piscando.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>� Finalmente deram uma li��o nos malditos comunas. � muito bem feito. Bem feito, idiotas.</p><p>Em p� ao lado das funda��es do arranha-c�u que estava sendo levantado, bebericando ch� quente de uma garrafa t�rmica, Wojtek Grabowski ouvia seus colegas discutindo as not�cias que tinham acabado de ouvir no onipresente radinho: a Guarda Nacional abriu fogo contra uma manifesta��o no campus da Universidade Estadual de Kent, em Ohio, causando a morte de diversos estudantes. Pareciam pensar que j� era hora.</p><p>Ele tamb�m, mas as not�cias o enchiam de tristeza, n�o de euforia.</p><p>Mais tarde, caminhando pelas altas vigas acima do mundo, refletiu sobre toda a trag�dia. Os soldados americanos estavam lutando para defender valores americanos e resgatavam uma na��o irm� da agress�o comunista � e aqui estavam os camaradas americanos cuspindo neles, insultando-os. Ho Chi Minh era retratado como um her�i, um aspirante a libertador.</p><p>Grabowski sabia que era mentira. Ele tinha sangrado para aprender o que os comunistas queriam dizer com �liberta��o�. Quando os ouviu aclamados como her�is, seus amigos e fam�lia assassinados levantaram num coro no fundo da sua mente, berrando den�ncias.</p><p>N�o era apenas o que os manifestantes defendiam, era quem eles eram. Crian�as privilegiadas, na sua maioria esmagadora de classe m�dia alta, gritando palavras de ordem com a petul�ncia dos mimados contra o mesmo sistema que tinha lhes dado conforto e seguran�a sem igual na hist�ria da humanidade. �A <emphasis>Am�rika</emphasis> est� engolindo sua juventude�, gritavam, mas o que ele via era diferente: a Am�rica corria o risco de ser devorada por sua juventude.</p><p>Eram liderados por falsos profetas, desviados de forma pavorosa. Por homens como Tom Douglas. Ele havia lido sobre o cantor desde que sua m�sica o deixou chocado, em novembro. Sabia naquele momento que Douglas era um dos contaminados, marcado pelo veneno alien�gena lan�ado naquela tarde de setembro de 1946, um filho da nova aurora do mal, cujo nascimento o pr�prio Grabowski testemunhou do conv�s de um navio de refugiados atracado na Governors Island. N�o era de se estranhar que os filhos se erguessem como serpentes para atacar os mais velhos, pois eram aconselhados por homens que Satan�s marcou como seus.</p><p>� Ei � gritou o imenso ex-fuzileiro com o r�dio. � Os malditos hippies est�o enchendo as ruas na frente da prefeitura, estourando janelas e queimando bandeiras americanas!</p><p>� Desgra�ados!</p><p>� Temos que fazer alguma coisa! � a revolu��o, aqui e agora.</p><p>O jovem veterano vestiu sua jaqueta Levi�s e enfiou o capacete de a�o sobre seus cabelos � escovinha.</p><p>� Fica apenas a dois quarteir�es daqui. N�o sei voc�s, mas eu <emphasis>vou</emphasis> fazer alguma coisa sobre isso. � Ele deu uma corrida na dire��o do elevador de obra.</p><p>Grabowski teria gritado: <emphasis>N�o, espere, n�o v�! Deixe isso com as autoridades � se irm�o come�ar a combater irm�o, as for�as da desordem ter�o vencido</emphasis>. Mas foi impedido de falar.</p><p>Porque estava t�o furioso quanto o resto, e temeroso, pois apenas ele tinha visto em primeira m�o as consequ�ncias dessa <emphasis>revolu��o</emphasis> da qual todo mundo falava. E, em sua emo��o, ele agarrou uma viga mestra com toda a for�a.</p><p>Seus dedos enterraram-se no a�o, como se fosse a massa mole e grudenta que os americanos chamavam de sorvete.</p><p>Ele mesmo estava maculado pela marca da Besta.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Mark passou o resto do dia num atordoamento estranho composto de desejo, esperan�a e medo. Perdeu as not�cias sobre a Universidade de Kent. Enquanto o restante da Am�rica reagia com pavor ou aprova��o, ele passou a noite trancado em seu apartamento com um prato cheio de biscoitos, estudando em profundidade seus artigos e livros surrados sobre LSD, pegando o comprimido de �cido, girando-o nos dedos como um talism�. Quando o sol surgiu bem fraco no c�u, uma onda transit�ria de decis�o fez com que ele jogasse a p�lula na boca. Um r�pido gole do refrigerante de laranja sem g�s mandou-a para dentro antes que o nervosismo pudesse faz�-lo fracassar novamente.</p><p>De sua leitura, soube que o �cido em geral levava entre uma hora e uma hora e meia at� fazer efeito. Tentou fazer o tempo passar folheando da antologia de Solomon �s revistas da Marvel, at� os quadrinhos <emphasis>Zap Comix</emphasis> que ele arranjou na sua busca por compreens�o. Ap�s uma hora, nervoso demais para aguardar sozinho os efeitos da droga, ele deixou o apartamento. Tinha de encontrar Girassol, dizer a ela que encontrou sua humanidade, deu o passo derradeiro. Tamb�m teve medo de estar sozinho quando o �cido batesse.</p><p>Encontrar Girassol era sempre como correr atr�s de uma p�tala de flor levada pela brisa, mas ele sabia que ela gravitava pela UCB, que havia muito substitu�do o moribundo distrito de Haight como o local da cultura moderna da �rea da Ba�a, e trabalhava �s vezes numa tabacaria especializada em maconha pr�xima ao People�s Park. Assim, por volta das 9h30 da manh� de 5 de maio de 1970, ele perambulava no parque � e direto ao sentido do confronto mais espetacular entre ases de toda a �poca do Vietn�.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Por um breve e brilhante momento, todos � classe m�dia e inimigos � sabiam que havia chegado a hora do combate nas ruas. Se a revolu��o estava chegando, chegou naquele momento, no primeiro jato quente de f�ria que seguiu o massacre da Universidade de Kent. Os l�deres radicais da �rea da Ba�a chamaram aquela manh� de manifesta��o-mamute no People�s Park � e n�o apenas as for�as policiais da �rea da Ba�a, mas o pr�prio contingente da Guarda Nacional de Ronald Reagan havia aparecido para combat�-los.</p><p>�s 9h45, a pol�tica tinha se retirado do parque, formando um cord�o de isolamento em torno da �rea do campus para evitar que a conflagra��o se espalhasse. Havia apenas alunos e alguns caminh�es militares vazando homens da Guarda Nacional com trajes de batalha e m�scaras de g�s das suas coberturas de lona a quarenta metros de dist�ncia. Com um rangido barulhento e vago e um estampido de motor a diesel, um tanque M113 parou atr�s da linha de baionetas fixas, os sulcos dos pneus comendo terra como bocas. Um homem com patente de capit�o estava sentado, empertigado e resoluto, na c�pula atr�s de uma metralhadora de calibre .50, com um capacete que parecia o do jogador de futebol americano Knute Rockne.</p><p>Estudantes vazavam a linha divis�ria de combate como merc�rio da ponta do dedo. Eles gritavam para trazer a guerra para casa; como seus irm�os de Ohio, parecia que seu desejo tinha sido realizado. A Guarda era convocada regularmente para acabar com manifesta��es, mas o formato quadrado e feio do tanque representava algo novo, uma nota de amea�a que mesmo o mais tapado n�o conseguiria deixar de notar. A multid�o perdia a confian�a, espalhando o alarme.</p><p>No espa�o entre as linhas entrou uma �nica figura, magra e vestida com couro preto.</p><p>� Viemos para ser ouvidos � disse Thomas Marion Douglas, sua voz soando para a linha de tiro � e vamos ser <emphasis>muito bem</emphasis> ouvidos.</p><p>Atr�s dele, a multid�o come�ou a se firmar. Ali estava uma estrela � um �s � resistindo com eles. Atrav�s da cerca viva de baionetas, os olhos dos soldados da Guarda Nacional piscavam nervosamente por tr�s das lentes grossas de suas m�scaras. Eram, em sua maioria, jovens que se alistaram na Guarda para evitar serem mandados para o Vietn�; <emphasis>eles</emphasis> sabiam quem os estava enfrentando. Muitos tinham discos do Destiny, as fei��es arrogantes de Douglas encarando-os de p�steres nas paredes de seus quartos. Era muito dif�cil, de alguma maneira, usar a baioneta ou a coronha do rifle contra algu�m que voc� <emphasis>conhecia</emphasis>, mesmo que fosse apenas como um rosto numa capa de disco ou numa foto estampada na revista <emphasis>Life</emphasis>.</p><p>O capit�o era mais truculento. Berrou uma ordem da c�pula. Armas de g�s lacrimog�neo voaram, meia d�zia de pequenos cometas descreveram um arco sobre Douglas na dire��o da multid�o que se lan�ava para unir-se a ele. Colunas de fuma�a branca e espessa, e g�s lacrimog�neo, tiraram o cantor de vista.</p><p>Tomando um atalho por uma viela, Mark conseguiu despistar os cord�es de policiais. Naquele momento ele conseguiu ter uma vis�o lateral perfeita de seu grande �dolo em p� com a fuma�a girando em torno dele, como um m�rtir medieval em perigo. Ele parou e encarou, boquiaberto, o confronto que se formava diante dele.</p><p>E o �cido bateu.</p><p>Sentiu os col�genos da realidade se dissolverem, mas a cena diante dele era muito intensa para ser uma alucina��o. Quando a brisa teimosa da manh� rompeu as cortinas de g�s, um homem com pernas firmes no ch�o e punhos levantados apareceu, cabelos vermelho-escuros esvoa�ando para tr�s de um rosto largo que de alguma forma tremeluzia, entremeado com a cabe�a de uma cobra gigante, escamas reluzindo negras, com as abas ao lado da cabe�a abertas. Os homens da Guarda recuaram; o Rei-Lagarto estava entre eles.</p><p>O Rei moveu-se para a frente num deslizar sinuoso. Os uniformizados recuaram. Algu�m o estocou com uma baioneta, ou talvez ele n�o tenha recuado r�pido o suficiente. Um girar de pulso, parecendo pregui�oso e desdenhoso, mas feito com velocidade sobre-humana, e o rifle voou girando enquanto seu dono caiu de costas na grama com um uivo de pavor. O capit�o em sua caixa de ferro gritava � rouquid�o, tentando reunir as fibras esfiapadas da determina��o de seus homens.</p><p>E quando assumia o aspecto de Rei-Lagarto, Douglas liberava seus jogos mentais sobre eles; seus olhos come�avam a vaguear, buscando vis�es de beleza desesperada ou horror atordoante, cada um afetado da sua pr�pria maneira pela aura escura do Rei-Lagarto.</p><p>A multid�o avan�ava, cantando, gritando, amea�ando. O capit�o da Guarda fez a �nica coisa que podia � seu ded�o pressionou uma vez o gatilho de borboleta de sua arma calibre .50. A arma vomitou barulho de vidro estourando e uma chama de escapamento, lan�ando rastros de fuma�a sobre as cabe�as dos manifestantes.</p><p>Triunfante num piscar de olhos antes, a multid�o se separou em p�nico e aos berros. O ru�do dos tiros atingiu Mark como um travesseiro gigante e o lan�ou de volta a corredores infinitos e tortuosos. Mas a cena permanecia diante dele, luz no fim do t�nel, terr�vel e insistente. Ningu�m tinha sido atingido pela rajada, mas os manifestantes, como o pr�prio Mark, depararam-se pela primeira vez com a realidade que seu profeta Mao tentou incutir neles: de onde vem o poder.</p><p>Tom Douglas estava em p� t�o perto que o fogo do cano chamuscou suas sobrancelhas. Ele n�o se esquivou, embora o ru�do o tenha atingido com uma for�a que nem um caminh�o carregado de alto-falantes conseguiria se equiparar. Em vez disso, respondeu com um rugido que fez os guardas correrem, trope�ando como cachorrinhos assustados.</p><p>Um prodigioso salto e ele estava de p� sobre o tampo do blindado. Curvou-se, agarrou o cano da arma e a levantou. A pesada metralhadora Browning saiu de sua base como uma muda de planta arrancada pela raiz. Ele segurou a arma sobre a cabe�a, com as duas m�os, ent�o com um �nico solavanco de ombros e b�ceps dobrou o cano quase ao meio. Tendo mostrado seu desprezo pelo sistema e por suas m�quinas de guerra, lan�ou a metralhadora arruinada na dire��o dos soldados, agora em completa derrota, e avan�ou para agarrar pelos colarinhos o capit�o apavorado na c�pula. Segurou o homem diante dele no alto, as pernas chutavam com fraqueza.</p><p>E foi derrubado pelas costas por uma pancada dada com toda a for�a extraordin�ria de um �s desconhecido.</p><p>Mark deu um pulo. Com um berro, sua alma desapareceu na escurid�o vertiginosa. Seu corpo virou-se e correu cegamente.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Wojtek Grabowski viu a serpente sinistra de preto pular no blindado e arrancar a arma de sua base, e sabia que tinha sido a escolha certa a fazer.</p><p>Apenas o catolicismo fervoroso o impediu de lan�ar-se para a morte. Ele saiu apressado do canteiro de obras, j� deserto, pois os trabalhadores haviam corrido para atacar os manifestantes, e foi at� seu apartamento apertado para uma vig�lia noturna de ang�stia e ora��o silenciosa.</p><p>Com a aurora, chegou de fato a Luz; e ele soube com uma rapidez entusiasmada que sua afli��o de �s fora enviada pelos c�us, uma b�n��o, n�o uma maldi��o. A revolu��o amea�ava seu lar adotivo, guiada por aqueles que juraram lealdade �s for�as da escurid�o. Ele se lavou, se vestiu, tomou o caminho do parque com paz no cora��o.</p><p>Mas naquele momento ele confrontava a besta que parecia ter muitas cabe�as, e sabia que estava frente a frente com o odioso Tom Douglas.</p><p>A f�ria explodiu dentro dele. A transforma��o de �s arrebatou-o, inchando seus m�sculos at� encher suas roupas largas e quase rasg�-las. O capacete de a�o de sua profiss�o na cabe�a, um grifo de encanador de quase um metro na m�o. As d�vidas insistentes sobre usar sua for�a contra seres humanos normais desapareceram; ali estava um inimigo � sua altura, um �s, um traidor � um servo do Inferno.</p><p>Ele avan�ou, saltando sobre o ve�culo enquanto a criatura de preto com cabe�a de serpente arrancava o comandante da escotilha. Os estudantes tentaram avisar Douglas com gritos, mas ele n�o ouviu. O Oper�rio ergueu o grifo e bateu na parte de tr�s de uma cabe�a ora desgrenhada, ora preta, sem pelos e obscena.</p><p>O golpe teria esmigalhado o cr�nio de um homem normal, ou separado a cabe�a dos ombros. Mas as mudan�as constantes da apar�ncia de Douglas confundiram a mira de Grabowski. A pancada o desequilibrou. Douglas largou o oficial que se contorcia e caiu desconjuntado do ve�culo quando o impulso derrubou o grifo para entortar a blindagem superior como uma folha de papel-alum�nio.</p><p>Imaginando que tinha matado o homem, Grabowski sentiu as for�as evadirem. Precisava da f�ria para ficar no estado meta, mas tudo que sentia era vergonha. Desesperado, virou-se para a multid�o.</p><p>� V�o embora � gritava em seu ingl�s rouco, rude. � V�o embora agora. Acabou. N�o precisam mais lutar. Obede�am a seus l�deres e vivam em paz.</p><p>Eles ficaram parados e o encaravam com rostos intimidados.</p><p>O orvalho da manh� sugou o g�s lacrimog�neo e envenenou a grama. Alguns brotos j� brancos de g�s contorciam-se no ch�o como cobras agonizantes. As l�grimas corriam no rosto de Grabowski. <emphasis>Eles n�o ouvem?</emphasis></p><p>Do fundo da multid�o, um jovem gritou:</p><p>� Vai se foder! <emphasis>Vai se foder, seu fascista filho da puta!</emphasis></p><p>Tendo aquele nome lan�ado em seu peito, um homem que ainda carregava balas fascistas na carne, por um fedelho mimado, insolente, ignorante � o �dio o encheu em abund�ncia, e com ele aquela for�a sobre-humana.</p><p>Felizmente para ele, pois nesse momento Tom Douglas recuperou a consci�ncia, levantou-se, pegou o Oper�rio pelo tornozelo e puxou as botas por baixo dele. O capacete de Grabowski atingiu a cobertura como um c�mbalo gigante. T�o furioso quanto o homem que o derrubara, Douglas o agarrou quando ele caiu, o lan�ou contra o lado do ve�culo e come�ou a dar pancadas de bate-estaca nele com a pr�pria for�a de �s.</p><p>Mas Grabowski tamb�m tinha mais do que a resist�ncia de ser humano. Puxou o grifo entre seus corpos e lan�ou Douglas com viol�ncia para longe. Os p�s de Douglas escorregaram uma vez na grama molhada, ele se recomp�s com agilidade de serpente e avan�ou para o ataque � apenas para conter-se e ficar na ponta dos p�s como um bailarino, enquanto um golpe de grifo zunia a poucos cent�metros de seu abd�men.</p><p>Douglas mergulhou no arco mortal descrito pelo grifo. Ele agarrou o oponente, dando socos abaixo de suas costelas. Grabowski recuou com um passo r�pido, p�s a m�o no peito de Douglas e empurrou. Douglas retrocedeu um passo. O grifo voou, e dessa vez apenas os reflexos meta-humanos de Douglas o salvaram de a ferramenta bater em cheio na frente do seu cr�nio.</p><p>A ponta de a�o da ferramenta raspou sua testa. O sangue caiu como cascata. Ele pulou para tr�s furiosamente, limpando os olhos com uma das m�os, enquanto a outra se debatia numa tentativa de defender-se da pr�xima investida.</p><p>O Oper�rio balan�ou o grifo como um taco de beisebol e pegou Douglas embaixo do bra�o direito com um som que ecoou pelo parque como uma explos�o de granada. Douglas foi ao ch�o. O Oper�rio ficou sobre ele com as pernas abertas, levantando o grifo lentamente sobre a cabe�a como um carrasco preparando o golpe. O sangue escorria do canto de sua boca. Estava enlouquecido de �dio, al�m do remorso, al�m da compaix�o, desprovido de qualquer coisa al�m da necessidade de esmagar o cr�nio do seu oponente como um caramujo na pedra.</p><p>Mas, enquanto o grifo reluzente e pingando sangue come�ou a descer, uma corrente dourada enrolou-se nele por tr�s e impediu o golpe antes de ele ser desferido.</p><p>Com um reflexo de lutador, o Oper�rio instantaneamente relaxou os bra�os, fazendo com que o grifo viajasse na dire��o para onde foi puxado repentinamente. Ent�o puxou com tudo a arma para a frente e para baixo, girando ao mesmo tempo para lan�ar todo o peso aumentado do seu corpo contra a folga. Mas enquanto ele se movia, uma sacudidela ondulou a corrente e a soltou, fazendo o grifo soltar um som musical. Com o movimento desenfreado pelo impacto esperado, o Oper�rio deu um giro completo, balan�ando para a frente, continuou para o outro lado para encarar seu oponente diante de cinco metros de terra lamacenta e pisada.</p><p>L� havia um jovem, magro e alto, cabelos loiros caindo sobre os ombros, balan�ando um medalh�o da paz do tamanho de um pires numa longa corrente. Apesar do frio da manh� na ba�a, usava apenas cal�as jeans. Para o pequeno e escuro Grabowski, parecia nada mais do que uma figura sa�da de um p�ster de recrutamento nazista.</p><p>� Quem � voc�? � rosnou o Oper�rio. Percebendo que tinha falado em sua pr�pria l�ngua, repetiu em ingl�s.</p><p>O jovem franziu a testa levemente, como se perplexo.</p><p>� Me chame de Radical � ele disse com um risinho sarc�stico. � Estou aqui para proteger o povo.</p><p>� <emphasis>Traidor!</emphasis> � O Oper�rio avan�ou, sacudindo o grifo. Radical desviou num passo de dan�a. N�o importava a f�ria com a qual o oponente atacava, n�o importava como ele amea�asse atacar, Radical escapava com aparente facilidade. Frustrado em suas tentativas de abater o jovem dourado, o Oper�rio virou-se novamente para Douglas, que ainda gemia no solo. E Radical estava l�, o s�mbolo da paz formando uma figura dourada de oito no ar diante dele, defendendo-se dos golpes mais ferozes com fa�scas cintilantes, enquanto os soldados e os estudantes permaneciam paralisados pelo espet�culo.</p><p>Mas se o Oper�rio n�o conseguia atravessar o amuleto, Radical n�o parecia disposto ou capaz de contra-atacar. Vendo isso, o Oper�rio afastou-se, balan�ando o grifo amea�adoramente. Ap�s um momento, Radical acompanhou, planando como n�voa. O Oper�rio rodava no sentido anti-hor�rio. Radical mantinha o ritmo. Lentamente, o polon�s arrastou seu oponente cabeludo para longe do Douglas deitado.</p><p>Com grande rapidez, ele se voltou para a esquerda e arremessou-se na dire��o dos observadores. Embora sua velocidade n�o fosse t�o grande quanto a de Radical, era maior do que a de uma pessoa normal, e ele estava entre a multid�o de manifestantes antes que qualquer um pudesse reagir, grifo levantado para esmagar. Pego de surpresa, Radical n�o conseguiu reagir a tempo.</p><p>O grifo ficou erguido, congelado como uma mosca no acr�lico. Radical pulou para a frente, levado a atacar por desespero, girando o medalh�o da paz por tr�s do pesco�o grosso como tronco embaixo do capacete. Parecia uma tora de madeira abatida por um machado; uma pancada n�o t�o poderosa quanto a que o Rei-Lagarto poderia ter desferido, sem nenhuma compara��o com a for�a terr�vel do grifo de Grabowski, mas suficiente para embaralhar os sentidos do Oper�rio, mandando-o de cara primeiro na grama, em seguida na lama e nas placas amassadas.</p><p>Radical pairava sobre ele, balan�ando o medalh�o lentamente e em c�rculos ao seu lado. Um momento depois, Douglas juntou-se a ele, esfregando sua lateral e fazendo careta.</p><p>� Acho que ele quebrou umas costelas � rugiu em seu familiar tom arranhado bar�tono. � Que diabos � ele?</p><p>Enquanto observavam, a forma sobre-humana encolhida do Oper�rio definhava num homem atarracado, calvo, em roupas largas, deitado com o rosto na lama, solu�ando como se seu cora��o estivesse partido. Balan�ando a cabeleira desgrenhada, Douglas virou-se para seu benfeitor.</p><p>� Sou Tom Douglas. Obrigado por salvar minha vida.</p><p>� O prazer � meu, cara.</p><p>E ent�o Douglas deu um passo � frente e abra�ou o homem alto e louro, e aplausos emergiram da multid�o. Os soldados da Guarda Nacional j� estavam em retirada, deixando o tanque para tr�s. A revolu��o n�o aconteceria hoje, talvez nunca, mas os jovens foram salvos.</p><p>Quando as c�meras de televis�o ligaram, Tom Douglas proclamou Radical seu companheiro de armas e convocou a celebra��o mais selvagem que a �rea da Ba�a j� vira. Enquanto a pol�cia mantinha o inc�modo per�metro, e a Guarda Nacional lambia suas feridas, milhares de jovens invadiram o parque para saudar os her�is conquistadores. O M113 abandonado serviu logo de palco. Barracas pipocaram no parque como cogumelos coloridos. M�sica, drogas e bebida correram livremente, naquele dia inteiro e durante toda aquela noite.</p><p>No centro desse espet�culo, tudo animava Tom Douglas e seu misterioso benfeitor, cercados por mulheres belas e obedientes � nenhuma mais do que a graciosa morena com olhos de gelo que todos chamavam de Girassol, que parecia ter brotado do quadril de Radical como uma g�mea siamesa ap�s o parto. O rec�m-chegado n�o deu outro nome al�m de Radical e desviou-se de todas as perguntas, quanto � sua origem e como aconteceu de ele estar naquele local naquele momento, com um sorrisinho e um t�mido �Eu estava aqui porque eu era necess�rio aqui, cara�. Na aurora do dia seguinte, ele fugiu em sil�ncio das festividades que minguavam e desapareceu.</p><p>Nunca mais foi visto.</p><empty-line/><p><emphasis>Na primavera de 1971, as acusa��es contra Tom Douglas originadas do confronto do People�s Park foram retiradas � por recomenda��o do Dr. Tachyon, que havia sido convocado pelo CRISE-A para ajudar a investigar o incidente � bem quando o �lbum do Destiny</emphasis>, City of Night<emphasis>, chegou �s lojas. Pouco depois, Douglas eletrificou o mundo do rock ao anunciar que estava se aposentando � n�o apenas como m�sico, mas como �s.</emphasis></p><p><emphasis>Assim, ele se submeteu � cura �trunfo� experimental do Dr. Tachyon, e foi um dos 30% afortunados nos quais ela funcionou. O Rei-Lagarto desapareceu para sempre, deixando para tr�s Thomas Marion Douglas, um normal.</emphasis></p><p><emphasis>Que morreu seis meses depois. Seu uso exagerado de drogas e �lcool alcan�ou tais propor��es heroicas que apenas uma resist�ncia de �s o manteria vivo. Assim que ela foi embora, sua sa�de deteriorou-se rapidamente. Morreu de pneumonia num hotel barato em Paris, no outono de 1971.</emphasis></p><p><emphasis>Quanto ao Oper�rio � entrevistado pelo Dr. Tachyon no dia seguinte ao confronto, hospitalizado para observa��o com uma concuss�o leve</emphasis> �<emphasis>, Wojtek Grabowski insistiu que seus inimigos n�o o derrotaram. �All you need is love� estava na ordem do dia � e o amor o derrubou. Ou algo assim. Porque quando ele se arremessou contra a multid�o, viu-se cara a cara com Anna, sua mulher, perdida dele por duas d�cadas e meia.</emphasis></p><p><emphasis>N�o era bem Anna, ele disse entre l�grimas; havia diferen�as, na cor do cabelo, no formato do nariz. E, claro, naquele momento Anna n�o seria uma mulher de vinte anos.</emphasis></p><p><emphasis>Mas seria sua filha. Grabowski estava convencido de que vira, no fim das contas, a filha que nunca conheceu. A perspectiva horrenda de que seu �dio quase o levou a destruir aquilo que ele mais adorava em todo o mundo arrancou suas for�as num instante, de forma que o medalh�o de Radical atingiu um ser em transi��o da for�a total de �s para o estado humano normal.</emphasis></p><p><emphasis>Emocionado, o Dr. Tachyon ajudou Grabowski a procurar sua filha na �rea da Ba�a. Para ele, nunca encontraria a filha; no momento em que Grabowski acreditou t�-la visto, Tom Douglas estava se recuperando, seu aspecto de Rei-Lagarto ainda ativo. E aquela aura obscura poderia fazer as pessoas verem o que mais desejassem. Pelo que Tachyon sabia, ela fez.</emphasis></p><p><emphasis>N�o foi surpresa para ele quando a busca deu em nada. De qualquer forma, ele podia dedicar pouco tempo a Grabowski, mesmo que a afli��o do homem tivesse mexido tanto com ele. Voltou para o Leste ap�s tr�s semanas, ajudando Grabowski e os investigadores do CRISE-A. Alguns meses depois, soube que Grabowski havia desaparecido, sem d�vida para continuar a busca por sua fam�lia. Desde ent�o, n�o se ouviu mais falar de Wojtek Grabowski, ou o Oper�rio.</emphasis></p><p><emphasis>E quanto a Radical�</emphasis></p><p>Nas primeiras horas da manh� de 6 de maio de 1970, Mark Meadows cambaleou para fora de um beco que dava para o People�s Park com a cabe�a cheia de chiados, vestido apenas com um jeans. N�o se lembrava do que havia acontecido com ele, mal sabia onde estava. Viu-se entre os remanescentes dos festeiros da noite anterior, com olhos pesados pela fatiga, mas ainda tagarelando sobre os fant�sticos eventos das �ltimas 24 horas, como se estivessem loucos de anfetaminas. �Voc� tinha que ter estado l�, cara�, eles diziam a ele. E quando descreveram os eventos da manh� anterior, estranhos fragmentos de mem�ria, surreais e desconexos, come�aram a borbulhar na superf�cie da mente de Mark: talvez ele <emphasis>tivesse</emphasis>.</p><p>Ser� que ele se lembrava das pr�prias experi�ncias? Ou era o restinho de �cido forjando imagens para combinar com as descri��es ofegantes e v�vidas que uma d�zia de testemunhas oculares despejava sobre ele de uma vez? Ele n�o sabia. Tudo que ele sabia era que o Radical representava a realiza��o de seu sonho mais louco: Mark Meadows como Her�i.</p><p>E quando viu Girassol em p� ali perto, cabelos desarrumados, olhos sonhadores, ela lhe disse: �Oh, Mark, eu acabei de conhecer o cara mais <emphasis>fant�stico</emphasis> de todos�, e ele soube que qualquer esperan�a que mantivesse de ser mais do que amigo de Girassol tinha ido por �gua abaixo. A menos que ele fosse, de fato, o Radical.</p><p>Ele sabia o que fazer, claro. Aprendeu mais do que havia percebido conscientemente durante seu est�gio de rua com Girassol; quando a noite caiu, estava sentado com as pernas cruzadas em seu colch�o entre biscoitos e quadrinhos, com as m�os cheias de LSD comprado com o equivalente a duas semanas de ajuda de custos. Estava t�o empolgado quando tomou o primeiro comprimido que mal precisou da droga para entrar na viagem.</p><p>Que foi tudo que ele fez. Nenhuma transforma��o Radical. Nada. Ele apenas� <emphasis>viajou longe</emphasis>.</p><p>Por uma semana, n�o saiu do apartamento, vivendo de migalhas mofadas, mandando para dentro doses cada vez maiores de �cido t�o r�pido que os efeitos da �ltima viagem diminu�ram. <emphasis>Nada</emphasis>. Quando por fim ele saiu para buscar mais drogas, tudo ficou turvo novamente.</p><p>E assim a aventura come�ou.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Interl�dio Tr�s</strong></p><p>DE <strong>WILD CARD CHIC</strong></p><p>Tom Wolfe</p><empty-line/><p>
    Nova York, junho de 1971</p><p>Hummmmmmmmmm. Esses s�o deliciosos. Rolinhos recheados com carne de siri e camar�o. Muito saborosos. Um pouco gordurosos, na verdade. O que os ases fazem para tirar manchas de gordura dos dedos de suas luvas? Talvez prefiram cogumelos recheados, ou fatiazinhas de roquefort enroladas em nozes trituradas, tudo que lhes � oferecido neste exato momento em bandejas de prata por gar�ons altos e sorridentes em uniforme do Aces High� Essas s�o perguntas a se fazer sobre as noites Wild Card Chic. Por exemplo, o negro ao lado da janela, aquele cumprimentando Hiram Worchester em pessoa com um aperto de m�o, aquele com camisa de seda preta e casaco de couro preto e aquela testa incrivelmente inchada, aquele negro com olhar <emphasis>amea�ador</emphasis> com pele cor de chocolate e olhos amendoados que saiu do elevador com as tr�s mulheres mais impressionantes que qualquer um j� viu, mesmo aqui, neste espa�o cheio de gente bonita � � ele, um �s, um �s de verdade, indo pegar um rolinho recheado com camar�o e carne de siri quando o gar�om passa, e lan�ando-o goela abaixo, sem perder uma s�laba da genialidade culta de Hiram, ou ele � mais um cara que gosta de cogumelo recheado naquele�</p><p>Hiram � espl�ndido. Um homem grande, um homem <emphasis>formid�vel</emphasis>, quase um metro e noventa e largo para todos os lados, na penumbra ele poderia passar por Orson Welles. Sua barba negra em forma de espada � tratada com perfei��o, e quando ele sorri seus dentes s�o muito brancos. � um homem carinhoso, gracioso e cumprimenta os ases com o mesmo aperto de m�o r�pido e firme, os mesmos tapinhas no ombro, a mesma exorta��o familiar com a qual cumprimenta Lillian, Felicia e Lenny, e o prefeito Hartmann, e Jason, John e D.D.</p><p>�Quanto voc�s acham que eu peso?�, pergunta a eles jovialmente e insiste para que adivinhem, 135 quilos, 160, 180. Ele d� risada das tentativas, uma risada profunda, uma risada ressonante, pois esse homem imenso pesa apenas 13 quilos e montou uma balan�a bem aqui, no meio do Aces High, seu novo e sofisticado restaurante no topo do Empire State, em meio a cristais e prataria e toalhas de mesa de um branco puro, uma balan�a igual �quelas que voc� poderia encontrar numa academia de gin�stica, apenas para que pudesse provar sua afirma��o. Ele sobe e desce dela com agilidade sempre que � desafiado. Treze quilos, e Hiram gosta dessa piadinha. Mas n�o o chame de Bol�o nunca mais. Este �s que veio � tona agora � um novo tipo de �s, que conhece as pessoas certas e os vinhos adequados, que parece absolutamente ajustado ao seu smoking e possui o mais refinado, o mais chique restaurante da cidade.</p><p>Que noite! As mesas s�o postas em c�rculo, a prata reluzindo, as pequenas chamas tremeluzentes das velas refletiam nas janelas circundantes, uma escurid�o inesgot�vel com milhares de estrelas, e este � o momento que Hiram ama. Parece haver milhares de estrelas dentro e milhares de estrelas fora, uma torre de Manhattan cheia de estrelas, a maior torre de todas, com pessoas maravilhosas caminhando pelos c�us, Jason Robards, John e D.D. Ryan, Mike Nichols, Willie Joe Namath, John Lindsay, Richard Avedon, Woody Allen, Aaron Copland, Lillian Hellman, Steve Sondheim, Josh Davidson, Leonard Bernstein, Otto Preminger, Julie Belafonte, Barbara Walters, os Penn, os Green, os O�Neal� e agora, nessa temporada de Wild Card Chic, os ases.</p><p>Esta aglomera��o de pessoas, este grupo de pessoas fascinadas, ador�veis e <emphasis>empolgadas</emphasis> com ta�as finas e altas de champanhe nas m�os e express�es extasiadas no rosto, entre elas, o objeto de toda a aten��o � um homenzinho num smoking de veludo amarrotado, um smoking de veludo amarrotado <emphasis>laranja</emphasis>, com cauda, e uma camisa amarelo-lim�o com babados, e um cabelo vermelho longo e brilhante. Tisianne brant Ts�ara sek Halima sek Ragnar sek Omian era elogiado novamente, como devia acontecer em Takis no passado, e algumas das pessoas maravilhosas ao seu redor o chamam at� mesmo de �pr�ncipe� e �pr�ncipe Tisianne�, embora n�o raro errem na pron�ncia, e para a maioria delas, agora e para sempre, ele ser� o Dr. Tachyon. Ele � <emphasis>real</emphasis>, este pr�ncipe de outro planeta, e sua simples <emphasis>ideia</emphasis>, um exilado, um her�i aprisionado pelo Ex�rcito e perseguido pelo HUAC, um homem que viveu duas vezes uma vida humana e viu coisas que ningu�m pode imaginar, que trabalha abnegadamente entre os miser�veis do Bairro dos Curingas; bem, a empolga��o toma conta do Aces High como um horm�nio defeituoso, e Tachyon parece instigado tamb�m, � poss�vel dizer pelo jeito que seus olhos lilases deslizam at� se demorarem na mulher oriental e esguia que chegou com aquele outro �s, Fortunato, o camarada de olhar amea�ador.</p><p>�Nunca conheci um �s antes�, � o refr�o da noite. �� a primeira vez para mim.� A sensa��o vibra pelo ar do Aces High, at� todo o octog�simo sexto andar <emphasis>ficar pleno</emphasis> dela, o meu primeiro, nunca conheci outro igual a voc�, o meu primeiro, sempre quis conhec�-lo, o meu primeiro, e, em algum lugar no solo �mido de Wisconsin, Joseph McCarthy revira-se no caix�o com estalos finos e altos, e todos os seus vermes voltaram para casa para descansar. N�o s�o impostores de Hollywood, nem pol�ticos sombrios, nem flores liter�rias murchas, nem curingas pat�ticos implorando ajuda, eles s�o a <emphasis>verdadeira nobreza</emphasis>, esses ases, esses ases encantadores e eletrizantes.</p><p><emphasis>T�o linda</emphasis>. Aurora, sentada no bar de Hiram, mostrando as pernas longas, t�o longas que a tornaram celebridade da Broadway, os homens apinhados ao seu redor, rindo a cada piada que contava. Not�veis, seus cabelos vermelhos dourados, cacheados e perfumados, caindo pelos ombros nus, e aqueles l�bios rachados, fazendo biquinho, e, quando ela sorri, as luzes ao norte piscam em torno dela, e os homens irrompem em aplausos. Ela assinou o contrato para seu primeiro longa-metragem no pr�ximo ano, atuando ao lado de Redford, com dire��o de Mike Nichols. A primeira �s a estrelar uma grande obra cinematogr�fica desde� n�o, n�o queremos mencionar <emphasis>quem</emphasis>, certo? N�o quando estamos nos divertindo tanto.</p><p><emphasis>T�o surpreendentes.</emphasis> As coisas que eles podem <emphasis>fazer</emphasis>, esses ases. Um homenzinho elegante vestido todo de verde produz uma bolota e um punhado de terra para vaso, pega emprestado uma tacinha de conhaque do barman, e faz surgir um pequeno carvalho ali, no meio do Aces High. Uma mulher negra com tra�os finamente esculpidos chega de jeans e uma camisa de brim, mas quando Hiram amea�a mand�-la embora, ela bate uma palma e, de repente, est� blindada da cabe�a aos p�s em metal preto que reluz como �bano. Outra palma, e ela est� usando um vestido de noite, veludo verde, ombros � mostra, perfeito para ela, e at� Fortunato d� uma segunda olhada. Quando o gelo do balde de champanhe quase acaba, um negro robusto como rocha d� um passo � frente, pega o Dom Perignon na m�o e sorri maroto enquanto uma camada de gelo cobre a garrafa.</p><p>� No ponto � diz ele, quando passa a garrafa para Hiram. � Mais um pouco e endureceria. � Hiram ri e o parabeniza, embora ele n�o acredite que tenha a honra. O negro sorri, enigm�tico. � Croyd � � tudo que diz.</p><p><emphasis>T�o rom�ntico, t�o tr�gico</emphasis>. L� na frente, no fim do bar, com roupas de couro cinzento, aquele � Tom Douglas, n�o �? � ele, � ele, o pr�prio Rei-Lagarto, ouvi que simplesmente retiraram as acusa��es, mas de que <emphasis>coragem</emphasis> precisou, que compromisso e, diga, o que aconteceu com o companheiro Radical, que o salvou? Mas Douglas parece p�ssimo. Acabado, assombrado. Eles se amontoam em torno dele, e seus olhos piscam rapidamente e logo o espectro de uma imensa cobra preta cresce sobre ele, contraponto obscuro �s cores reluzentes de Aurora, e o sil�ncio ondula pelo Aces High at� eles deixarem o Rei-Lagarto novamente sozinho.</p><p><emphasis>T�o elegante, t�o exuberante</emphasis>. Ciclone sabe como fazer uma entrada, n�o �? Mas � por isso que Hiram insistiu na varanda Sunset, afinal de contas, n�o serviria apenas para drinques sob as estrelas do ver�o e a vista gloriosa do ocaso sobre o rio Hudson, mas para os ases terem um lugar para pousar, e � natural que Ciclone fosse o primeiro. Por que andar de elevador, quando se pode andar nas nuvens? E a maneira como ele se veste � todo de azul e branco, o macac�o de paraquedista o deixa t�o �gil e <emphasis>extravagante</emphasis>, e aquela capa, o jeito como ela se pendura nos pulsos e tornozelos, e ent�o se infla no voo quando ele ati�a seus ventos. Assim que entra, cumprimentando Hiram com um aperto de m�o, retira o capacete de aviador. � um l�der <emphasis>fashion</emphasis>, o Ciclone, o primeiro �s a usar um <emphasis>uniforme</emphasis> genu�no, e j� havia come�ado em 1965, muito antes desses outros ases que vieram depois, vestia suas cores mesmo naqueles dois anos sombrios de Vietn�, mas s� porque um homem usa uma m�scara n�o significa que deve ter o fetiche de esconder sua identidade, n�o �? Esses dias ficaram para tr�s, Ciclone � Vernon Henry Carlysle, de S�o Francisco, todo mundo sabe, o medo est� morto, � a era do Wild Card Chic, quando <emphasis>todo mundo</emphasis> quer ser um �s. Ciclone viajou bastante para essa festa, mas a reuni�o n�o estaria completa sem o principal �s da Costa Oeste, certo?</p><p>Ali�s � pensamento proibido esse, com estrelas e ases brilhando em todos os aspectos numa noite em que os olhos alcan�am oitenta metros em qualquer dire��o �, realmente, a reuni�o n�o est� <emphasis>bem</emphasis> completa, n�o �? Earl Sanderson ainda est� na Fran�a, embora tenha mandado uma mensagem breve mas sincera de desculpas em resposta ao convite de Hiram. Um grande homem aquele, um grande homem bastante injusti�ado. E David Harstein, o perdido Embaixador, Hiram at� mesmo colocou um an�ncio no <emphasis>Times</emphasis>, DAVID, VENHA PARA CASA, POR FAVOR!, mas ele tamb�m n�o est� aqui. E o Tartaruga, onde est� o Grande e Poderoso Tartaruga? Houve rumores de que nesta noite m�gica e especial, neste momento tranquilo do Wild Card Chic, o Tartaruga sairia de seu casco, apertaria a m�o de Hiram e anunciaria seu nome para o mundo, mas n�o, n�o parece que ele est� aqui, n�o acha� meu Deus, n�o� voc� acha que aquelas velhas hist�rias s�o <emphasis>verdadeiras</emphasis>, e que o Tartaruga, no fim das contas, � um curinga?</p><p>Ciclone est� dizendo a Hiram que acredita que sua filha de 3 anos herdou seus poderes e�licos, e o rosto de Hiram se ilumina, e ele aperta a m�o do camarada, parabenizando o papai coruja, e prop�e um brinde. Mesmo sua voz poderosa e cuidada n�o conseguiu sobrepujar a algazarra do momento, ent�o Hiram fechou um pouco a m�o e fez aquela coisa que faz com as ondas gravitacionais e o torna ainda mais leve que 13 quilos, at� ele flutuar na dire��o do teto. O Aces High cai em sil�ncio enquanto Hiram paira sobre o imenso candelabro <emphasis>art d�co</emphasis>, eleva seu copo de Pimm�s e prop�e seu brinde. Lenny Bernstein e John Lindsay bebem � pequena Mistral Helen Carlysle, a segunda gera��o de futuros ases. Os O�Neal e os Ryan erguem seus copos ao �guia Negra, ao Embaixador e � mem�ria de Blythe Stanhope van Renssaeler. Lillian Hellman, Jason Robards e Broadway Joe brindaram ao Tartaruga e a Tachyon, e todos bebem ao Jetboy, pai de todos n�s.</p><p>E ap�s o brinde v�m as discuss�es. A Lei Cartas Selvagens ainda est� em vigor, e hoje em dia isso � uma desgra�a, algo precisa ser feito. O Dr. Tachyon precisa de ajuda, ajuda para sua cl�nica no Bairro dos Curingas, ajuda com sua a��o judicial, por quanto tempo <emphasis>isso</emphasis> se arrasta, sua a��o para recuperar a cust�dia de sua espa�onave injustamente apreendida pelo governo em 1946 � que vergonha, tomar sua <emphasis>nave</emphasis> depois de ele ter vindo de t�o longe para ajudar, isso os deixa furiosos, todos eles, e <emphasis>claro</emphasis> que empenham seus esfor�os, dinheiro, advogados e influ�ncia. Com uma bela mulher de cada lado, Tachyon fala de sua nave.</p><p>� Ela est� viva � comenta com elas � e agora certamente est� solit�ria � e enquanto fala come�a a chorar, e quando diz a elas que o nome da nave � <emphasis>Baby</emphasis>, as l�grimas brotam por tr�s das lentes de contato, amea�ando escorrer o r�mel habilmente aplicado. E, claro, algo precisa ser feito sobre a Brigada Curinga, que � um pouco melhor que o genoc�dio, e�</p><p>Mas agora o jantar ser� servido. Os convidados rumam para seus assentos marcados, a distribui��o de lugares que Hiram organizou � uma obra-prima, medida e temperada t�o precisamente quanto sua gastronomia, em todo lugar o equil�brio correto de riqueza e sabedoria, sagacidade e beleza, brilhantismo e celebridade, com um �s em cada mesa, claro, <emphasis>claro</emphasis>, sen�o algu�m poderia ir embora sentindo-se enganado, neste ano e m�s e hora do Wild Card Chic�</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Bem fundo</strong></p><p>Edward Bryant e Leanne C. Harper</p><empty-line/><empty-line/><p>Enquanto se esquivava dos t�xis, cruzando a Central Park West e entrando no parque, Rosemary Muldoon sabia que adentrava uma tarde dif�cil. Manobrava distraidamente pela multid�o dos passeadores de cachorros do fim de tarde reunidos na cal�ada e procurava N�mada.</p><p>Como estagi�ria do Departamento de Assist�ncia Social de Nova York, Rosemary pegava todos os casos interessantes, aqueles com os quais ningu�m mais conseguia lidar. N�mada, a enigm�tica andarilha que ela abordou naquela tarde, era a pior. Tinha no m�nimo 60 anos e, pelo cheiro, parecia que havia trinta n�o tomava um banho. Era algo a que Rosemary nunca se acostumava. Sua fam�lia n�o era aquela que algu�m poderia chamar de bacana, mas todos tomavam banho diariamente. Seu pai insistia nisso. E ningu�m contrariava o pai.</p><p>Fora atra�da pelos detritos da sociedade precisamente por sua aliena��o. Poucos tinham qualquer conex�o com o passado ou a fam�lia. Rosemary reconhecia esse fato, mas dizia a si mesma que n�o importava qual fosse a raz�o; importante era o resultado. Ela poderia ajud�-los.</p><p>N�mada estava em p� sob um bosque de carvalhos. Quando Rosemary se aproximou dela, pensou ver N�mada gesticulando e conversando com uma �rvore. Balan�ando a cabe�a, Rosemary puxou o prontu�rio da mulher. Era curto. Nome real desconhecido, idade desconhecida, local de origem desconhecido, hist�ria desconhecida. De acordo com as informa��es esparsas, a mulher vivia nas ruas. A melhor suposi��o do assistente social anterior era que tinha sido devolvido N�mada para as ruas de um hosp�cio estadual a fim de liberar espa�o. Como N�mada se recusava a dar quaisquer informa��es, n�o havia como ajud�-la. Rosemary deixou a papelada de lado e marchou na dire��o da senhora vestida com camadas de trapos.</p><p>� Ol�, N�mada. Meu nome � Rosemary e estou aqui para ajud�-la.</p><p>Sua abordagem falhou. N�mada virou a cabe�a e olhou fixamente para duas crian�as jogando frisbee.</p><p>� N�o quer um lugar legal, seguro e quente para dormir? Com refei��es quentes e pessoas para conversar?</p><p>A �nica resposta que recebeu veio do maior felino que tinha visto fora de um zool�gico. Ele caminhou at� N�mada e, naquele instante, encarava Rosemary.</p><p>� Voc� poderia tomar um banho. � O cabelo da pedinte estava imundo. � Mas eu preciso saber seu nome.</p><p>O imenso gato preto olhou para N�mada e, em seguida, encarou Rosemary com f�ria.</p><p>� Por que n�o vem comigo para conversarmos? � O gato come�ou a rosnar. � Vamos�</p><p>Quando Rosemary esticou o bra�o na dire��o de N�mada, o gato saltou. Rosemary deu um pulo para tr�s, trope�ando na bolsa que deixara no ch�o. Ca�da de costas, ela ficou cara a cara com o felino muito enraivecido.</p><p>� Gatinho lindo, fique bem a�.</p><p>Quando ela come�ou a levantar, juntou-se ao gato preto uma gata malhada um pouco menor.</p><p>� Tudo bem. Vejo voc� outra hora.</p><p>Rosemary agarrou a bolsa, o prontu�rio e bateu em retirada.</p><p>Seu pai nunca havia entendido por que ela quis lidar com os pobres da cidade, os �sujos�, como ele os chamava. Mais tarde teria de aguentar outra noite acompanhada pelos pais e pelo noivo. Casamento arranjado, naquela �poca! Queria que fosse mais f�cil enfrentar o pai e dizer n�o. Sua fam�lia era cria da tradi��o. Ela simplesmente n�o se encaixava.</p><p>Rosemary tinha o pr�prio apartamento que, at� recentemente, dividia com C.C. Ryder. C.C. era cantora hippie. Rosemary conseguiu que o pai nunca encontrasse C.C. As consequ�ncias seriam terr�veis demais para serem consideradas. Manter essas duas vidas separadas era primordial.</p><p>Era uma linha de pensamento quase dolorida para ela. C.C. foi embora. Desapareceu na cidade. Rosemary estava apavorada por C.C. e por si mesma, pelo que isso significava com rela��o � cidade.</p><p>Rosemary olhou por cima do banco do parque onde havia desabado. Era hora de levar o prontu�rio de volta para o escrit�rio e partir para a aula na Columbia.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>� Que noite magn�fica.</p><p>Lombardo �Lumiado� Lucchese estava se sentindo �timo, simplesmente �timo. Ap�s dois anos trabalhando com resultados financeiros e prote��o de pessoas insignificantes, tinha finalmente conseguido transform�-la na primeira das Cinco Fam�lias. Elas conheciam o talento, e Lombardo tinha muito. Descendo a 81st Street na dire��o do parque com seus tr�s amigos, ele estava no topo do mundo.</p><p>Tinha de prestar seus respeitos � noiva, Maria. Que idiota! Mas a idiota era a filha �nica de Dom Carlo Gambione, que poderia ser de muita valia nos anos vindouros. Mais tarde, celebraria com os companheiros. Agora tinha de pegar algum dinheiro para comprar flores para a Maria idiota e mostrar sua devo��o. Talvez cravos.</p><p>� Vou descer. Pegar algum dinheiro � disse Lumiado.</p><p>� Quer companhia? � perguntou Joey �Sem Nariz� Manzone.</p><p>� T� brincando? Depois da pr�xima semana vou ter uma grana preta. Quero fazer s� mais um servicinho. Pelos velhos tempos. At� mais tarde.</p><p>Chapinhando em po�as iridescentes de �leo, Lumiado assoviava enquanto balan�ava-se na dire��o do globo iluminado que indicava as escadas da esta��o de metr� da 81st Street. Nada poderia derrub�-lo naquela noite.</p><p><image l:href="#1"/></p><p><emphasis>Que noite perfeitamente apavorante</emphasis>, pensou Sarah Jarvis. Aos 68 anos, a mulher nunca esperava em sua vida ser convidada para uma festa da Amway. S� de pensar� Levou horas para sua amiga e ela sa�rem. Claro, estava chovendo naquele momento e, claro, n�o havia um t�xi livre por ali. Sua amiga vivia no pr�dio ao lado. Sarah precisou atravessar de sul a norte at� Washington Heights.</p><p>Sarah odiava o metr�. O cheiro ran�oso sempre a nauseava. De qualquer forma, detestava as partes barulhentas da cidade, e o metr� estava entre as mais ruidosas. Hoje � noite, por�m, tudo estava quieto. Sozinha na plataforma, Sarah estremeceu sob a jaqueta de <emphasis>tweed</emphasis>.</p><p>Espiando sobre a beirada da plataforma e dentro do t�nel, pensou ter visto a luz do trem AA sentido norte. Havia algo ali, mas parecia mover-se devagar. Sarah virou-se e olhou para os cartazes publicit�rios. Examinou o p�ster que convocava � reelei��o daquele bravo Sr. Nixon. Nas m�quinas de venda de jornais ao lado, as not�cias traziam assaltantes arrombando um hotel de Washington e um pr�dio. <emphasis>Watergate? Que nome engra�ado para um pr�dio</emphasis>, ela pensou. O <emphasis>Daily News</emphasis> seguia com uma hist�ria sobre o que estavam chamando de Vigilante do Metr�. A pol�cia estava atribuindo as cinco mortes da �ltima semana ao misterioso assassino. Todas as v�timas eram traficantes de drogas e outros criminosos. Todos os assassinatos ocorreram no metr�. Sarah estremeceu. A cidade estava bem diferente daquela de sua inf�ncia.</p><p>Primeiro ela ouviu passos barulhentos escada abaixo, passando pela cabine de t�quetes deserta. Ent�o o assobio, um som peculiar, mon�tono, sem tom, enquanto a pessoa entrava na esta��o. Sem querer, foi surpreendida entre a apreens�o e o al�vio. De alguma forma envergonhada pela sua rea��o, decidiu que n�o ligaria se tivesse um pouco de companhia humana.</p><p>Assim que ela o viu, n�o ficou t�o segura. Sarah nunca gostou muito de jaquetas de couro preto, especialmente quando usadas por homens jovens, levemente sebosos, com sorrisinho falso. Ela se virou de costas, resoluta, e concentrou-se na parede do outro lado dos trilhos.</p><p>Quando a senhora se virou de costas, Lumiado abriu um sorriso largo e tocou o l�bio superior com a ponta da l�ngua.</p><p>� Ei, senhora, tem fogo?</p><p>� N�o.</p><p>Um canto da boca de Lumiado se torceu, enquanto ele se movia na dire��o da mulher de costas.</p><p>� Vamos l�, senhora, seja boazinha.</p><p>Ele n�o sentiu a tens�o se acumulando nos ombros dela quando Sarah lembrou-se daquela aula de autodefesa da qual participou no �ltimo inverno.</p><p>� Me d� a bolsa, senhora� <emphasis>aaiiie</emphasis>! � Ele gritou quando Sarah se virou e esmagou seu peito do p� com o salto do escarpim bege fr�gil, mas sofisticado. Lumiado pulou para tr�s e lan�ou um soco no rosto dela. Sarah desviou com um passo para tr�s e deslizou em algo escorregadio. Lumiado deu seu sorrisinho e partiu para cima dela.</p><p>Um vento soprou neles do t�nel quando o trem AA se aproximou da esta��o.</p><p>Mal percebeu que uma d�zia de pessoas tinha conseguido chegar � entrada do metr� simultaneamente. A maioria da multid�o assistira a uma sess�o noturna de <emphasis>O poderoso chef�o</emphasis> e seguia numa discuss�o animada sobre se Coppola exagerou ou n�o na import�ncia da m�fia no crime moderno.</p><p>Um deles <emphasis>n�o</emphasis> estava no cinema, um funcion�rio do metr� que tivera um dia longo e dif�cil. Queria apenas ir para casa e jantar, n�o necessariamente nessa ordem. Os jornais estavam agressivos novamente; nem mesmo aquele neg�cio dos Direitos dos Curingas conseguia mant�-los ocupados o tempo todo. O homem da ferrovia tinha sido tirado de suas obriga��es regulares de verificar as linhas para gastar 18 horas procurando crocodilos em v�o nos esgotos e t�neis do metr�, dutos e bueiros. Mentalmente xingou seus empregadores por dobrarem-se � imprensa sensacionalista, e especialmente os rep�rteres vigilantes dos quais ele finamente se livrou.</p><p>O funcion�rio ficou um pouco para tr�s, tentando sair da confus�o, enquanto o grupo se atrapalhava com os bilhetes e passava pelas catracas. O pessoal que saiu do cinema tagarelava enquanto caminhava.</p><p>Com um rugido e o guincho de freio raspando metal contra metal, o AA local irrompeu no t�nel.</p><p>Na plataforma, todo o tipo de gente se encarava. Blasfemando em italiano, Lumiado largou a v�tima e buscou uma rota de fuga.</p><p>Os primeiros dois casais entraram e ficaram olhando a cena � sua frente. Um dos homens se moveu na dire��o de Lumiado, enquanto o outro homem agarrou sua companheira e tentou retroceder.</p><p>As portas do trem chiaram ao abrir. Naquela hora da noite, havia poucos passageiros no trem e ningu�m saiu.</p><p>� Nunca tem um guarda do metr� quando a gente precisa � disse o suposto salvador.</p><p>Por um momento, Lumiado considerou pular no moleque e espanc�-lo at� apagar. Em vez disso, driblou o homem, ent�o, meio mancando, meio correndo, seguiu para o �ltimo vag�o. As portas se fecharam de repente e o trem come�ou a se mover. Poderia ter sido a luz, mas o grafite brilhante nas laterais parecia mudar.</p><p>De dentro do vag�o, Lumiado sorria e gesticulava obscenidades para Sarah, que estava sentindo as contus�es e tentando arrumar as roupas sujas. Lumiado fez um segundo gesto para os salvadores acidentais da mulher quando o grupo inteiro juntou-se a Sarah.</p><p>De repente, o rosto de Lumiado se contorceu de medo e, depois, com absoluto pavor quando ele come�ou a bater nas portas. O homem que havia tentado parar Lumiado olhou de relance enquanto este agarrava a porta traseira do vag�o, e o trem avan�ava veloz na escurid�o.</p><p>� Credo! � disse a namorada do suposto salvador. � Era um desses curingas?</p><p>� N�o � respondeu seu amigo. � S� um maluco normal.</p><p>Todos congelaram quando ouviram os gritos vindos do t�nel do metr� ao norte. Sobre o estr�pito cada vez menor do trem, conseguiram ouvir os gritos desesperados e agoniados de Lumiado. O trem desapareceu. Mas os gritos duraram at� no m�nimo a 83rd Street.</p><p>O funcion�rio da via foi at� o t�nel central, enquanto o her�i do momento era parabenizado pela quase ilesa Sarah, bem como pelo restante dos espectadores. Outro funcion�rio desceu as escadas na outra ponta da plataforma.</p><p>� Ei � ele gritou. � Jack Esgoto! Jack Robicheaux. Voc� nunca dorme?</p><p>O homem exausto o ignorou e passou pela porta met�lica de acesso. Enquanto caminhava t�nel adentro, come�ou a arrancar as roupas. Uma observadora poderia ter pensado que viu um homem agachando-se e rastejando no ch�o �mido do t�nel, um homem cujo nariz virou um longo focinho cheio de dentes afiados e malformados, e um rabo musculoso capaz de transformar a espectadora em geleia. Mas ningu�m viu o lampejo de escamas verde-cinzentas quando o at� ent�o funcion�rio do metr� mesclou-se � escurid�o e desapareceu.</p><p>De volta � plataforma da 81st Street, os espectadores ficaram t�o paralisados pelos ecos dos gritos agonizantes de Lumiado que poucos notaram o estrondoso rugido grave vindo da outra dire��o.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Fim da �ltima aula, Rosemary caminhou, exausta, na dire��o do metr� da 116th Street. Mais uma tarefa conclu�da hoje. Agora, estava a caminho do apartamento do pai para ver o noivo. Nunca ficava entusiasmada para isso, mas nesses dias tinha pouco entusiasmo para qualquer coisa que fosse. Rosemary avan�ava nos dias, desejando que algo na sua vida se resolvesse.</p><p>Ela passou a pilha de livros para o bra�o direito enquanto, com a outra m�o, buscava o bilhete do metr� na bolsa. Ap�s passar pela catraca, ela parou, ficando de lado para sair do caminho dos outros estudantes. Julgando pelas placas carregadas por diversas pessoas, a �ltima manifesta��o antiguerra acabara havia pouco. Rosemary observou jovens aparentemente normais carregando faixas com o slogan informal da Brigada Curinga: �LTIMOS A IR � PRIMEIROS A MORRER.</p><p>C.C. sempre estava nessas manifesta��es. At� mesmo cantava suas m�sicas em algumas das reuni�es menos violentas. Um dia ela chegou a trazer um camarada ativista para casa, um cara chamado Fortunato. Embora fosse bom que o homem estivesse envolvido com o movimento dos Direitos dos Curingas, Rosemary n�o gostava de cafet�es em seu apartamento, seja de gueixas ou n�o. Isso causou uma das poucas brigas que teve com C.C. No fim das contas, C.C. concordou em consultar Rosemary antes sobre futuros convidados para o jantar.</p><p>C.C. Ryder tentava sempre convencer Rosemary a se tornar uma ativista, mas Rosemary acreditava que ajudar algumas pessoas diretamente poderia ser t�o bom quanto andar por a� gritando acusa��es contra a �classe dominante�. Provavelmente, muito melhor. Rosemary sabia que ela tinha vindo de uma fam�lia conservadora. Sua colega de quarto raramente a deixava esquecer isso.</p><p>Rosemary suspirou profundamente e lan�ou-se na enxurrada de pessoas. Era evidente que todas as �ltimas aulas tinham acabado ao mesmo tempo.</p><p>Quando Rosemary entrou na plataforma, deu uma volta at� o fundo da multid�o para poder terminar no lado mais distante da �rea de espera. N�o queria ficar t�o perto do povo naquele instante. Momentos depois, sentiu o bafo do t�nel �mido e tremeu por dentro do seu su�ter molhado.</p><p>Ensurdecedor, depressivo, o trem local passou por ela. Todos os vag�es estavam deteriorados, mas o �ltimo carro tinha uma decora��o ainda mais peculiar. Rosemary lembrou-se da mulher tatuada no show dos Ringling Brothers que tinha visto no antigo Garden. Sempre pensava na psicologia da garotada que escrevia nas laterais dos trens. �s vezes, n�o gostava do que suas palavras revelavam. Nova York n�o era mais um lugar bom para se viver.</p><p><emphasis>N�o pensarei sobre isso</emphasis>. Ela pensava sobre isso. A imagem de C.C. deitada, em coma, na ala de UTI do hospital St. Jude cintilava em sua mente. Via o brilho dos aparelhos. Como C.C. n�o tinha parentes para avisar, Rosemary ficava l� mesmo quando as enfermeiras trocavam os curativos. Lembrou-se das escoria��es, hematomas aterradores pretos e roxos que cobriam grande parte do corpo de C.C. Os m�dicos n�o tinham certeza de quantas vezes a jovem fora estuprada. Rosemary queria mostrar compreens�o, mas n�o conseguia. N�o estava nem mesmo segura de como come�ar. Tudo que poderia fazer era esperar e ter esperan�a. E, em seguida, C.C. desapareceu do hospital.</p><p>O �ltimo vag�o parecia estar vazio. Quando Rosemary seguiu na sua dire��o, olhou para o grafite. Parou petrificada, seus olhos rastreavam as palavras escritas na lateral escura do vag�o:</p><empty-line/><p><emphasis>Rose, Mary, Rosemary?</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Tempo�</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Tempo � para os outros, n�o para mim.</emphasis></p><p>� C.C.! Como? � Sem se importar com as outras pessoas que esperavam o vag�o desocupado, ela abriu caminho at� as portas. Estavam fechadas. Rosemary derrubou os livros e tentou abri-las at� o trem come�ar a sair devagar da esta��o.</p><p>� N�o!</p><p>Os olhos de Rosemary se encheram de l�grimas na �ltima vis�o do seu nome e outra das letras de m�sica de C.C.:</p><empty-line/><p><emphasis>Voc� n�o pode lutar at� o fim,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Mas pode se vingar.</emphasis></p><p>Rosemary n�o disse mais nada, apenas acompanhou o trem com a cabe�a. Baixou os olhos para os punhos cerrados. A porta aparentemente de a�o era fraca e male�vel, morna. Ser� que algu�m havia lhe dado �cido? Foi coincid�ncia? Ser� que C.C. estava morando nos subterr�neos? C.C. estaria viva afinal?</p><p>Era uma longa espera antes de o pr�ximo trem chegar.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele ca�ava na quase escurid�o.</p><p>A fome o dominava; a fome que parecia nunca ter fim. E, assim, ele ca�ava.</p><p>De forma indistinta, muito esmaecida, ele se lembrava de uma �poca e de um lugar nos quais tinha sido diferente. Era outro � o que era? �, outra coisa.</p><p>Ele olhava, mas pouco via. Naquela penumbra e, especialmente, na �gua imunda repleta de detritos, seus olhos eram de pouca serventia. Mais importantes eram os gostos e cheiros, as pequenas part�culas que lhe diziam o que estava a dist�ncia � refei��es para buscar com paci�ncia �, e as satisfa��es imediatas que pairavam, insuspeitas, bem depois do comprimento do seu focinho.</p><p>Ele conseguia ouvir as vibra��es: os movimentos poderosos, lentos de um lado para o outro enquanto sua cauda musculosa rasgava a �gua; as ondas fortes, mas distantes, reverberando l� embaixo, vindas da cidade l� em cima; a mir�ade de pequenas agita��es do alimento movendo-se furtivamente na escurid�o.</p><p>A �gua suja batia contra seu focinho largo e chato, a corrente fluindo para dentro das narinas levantadas. �s vezes, membranas transparentes deslizavam para baixo, cruzando seus olhos salientes, para deslizar novamente para cima.</p><p>Mesmo com sua largura � mal cabia em alguns dos t�neis que havia atravessado durante esse tempo de alimenta��o �, fazia muito pouco barulho. Hoje � noite, a maior parte dos sons que o acompanhavam veio da presa, que berrava durante o devorar.</p><p>Suas narinas davam-lhe a primeira pista do banquete vindouro, seguida logo pelas mensagens de seus ouvidos. Embora odiasse deixar esse santu�rio que cobria quase todo o seu corpo, sabia que precisava ir aonde estava a comida. A boca de outro t�nel crescia para um lado. Havia pouco espa�o na passagem, mesmo com um corpo flex�vel como o dele, para virar e adentrar a nova corredeira. A �gua ficou mais rasa e terminou por completo a dois corpos da entrada.</p><p>N�o importava. Suas pernas trabalhavam bem o bastante e ele conseguia mover-se quase t�o silenciosamente como antes. Ainda podia sentir o cheiro da presa aguardando por ele em algum lugar adiante. Mais perto. Perto. Muito perto. Conseguia ouvir os sons: guinchos, gritos, o chispar dos p�s, o rascar dos corpos peludos contra a pedra.</p><p>Eles n�o o esperavam; eram poucos os predadores nesses t�neis t�o fundos. Estava sobre eles num instante, o primeiro esmigalhado entre suas mand�bulas, seu grito final alertando os outros. A presa sacudia-se em p�nico. Exceto para aqueles sem escapat�ria, n�o houve tentativa de contra-ataque. Eles correram.</p><p>A maioria que sobreviveu mais tempo fugiu do monstro entre eles � e encontraram o fim murado do t�nel. Outros tentaram correr em volta dele, um ousou at� mesmo pular sobre suas costas escamosas, mas a cauda chicoteante esmagou-os contra as paredes inflex�veis. Outros ainda correram direto para sua boca, encolhendo-se de medo apenas na fra��o de segundo antes de os imensos dentes se juntarem.</p><p>Os guinchos sofridos chegavam ao auge e diminu�am. O sangue escorria deliciosamente. A carne, os pelos e os ossos se alojavam de forma satisfat�ria no seu est�mago. Dentre as presas, algumas ainda estavam vivas. Rastejavam para fora da carnificina o melhor que podiam. O ca�ador come�ou a segui-las, mas a refei��o pesava. Por ora, estava muito saciado para seguir ou se importar. Ele foi at� a beira d��gua, e ent�o parou. Agora, precisava dormir.</p><p>Primeiro ele quebraria o sil�ncio. Era permitido. Aquele era seu territ�rio. Era <emphasis>tudo</emphasis> seu territ�rio. As grandes mand�bulas se abriram e ele emitiu um rugido penetrante, estrondoso, que ecoou por muitos segundos pelo labirinto aparentemente infinito de t�neis e dutos, passagens e corredores de pedra.</p><p>Quando o eco finalmente morreu, o predador dormiu. Mas ele era o �nico.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Rosemary disse oi para Alfredo, que estava no servi�o de seguran�a daquela noite. Ele sorriu quando ela entrou e balan�ou a cabe�a quando viu a pilha de livros que ela carregava.</p><p>� Deixe que eu a ajude com isso, Srta. Maria.</p><p>� N�o, obrigada, Alfredo. Posso cuidar disso.</p><p>� Lembro-me de carregar seus livros quando era apenas uma <emphasis>bambina</emphasis>, Srta. Maria. A senhorita dizia que queria se casar comigo quando crescesse. N�o mais, n�?</p><p>� Desculpe, Alfredo, eu sou inst�vel. � Rosemary sorriu e piscou para ele. N�o era f�cil fazer piada ou mesmo ser agrad�vel. Queria que aquela noite, aquele dia, acabasse.</p><p>Estava sozinha no elevador e aproveitou para recostar a cabe�a contra a parede por um momento. Lembrava-se de Alfredo carregando seus livros para a escola. Tinha sido durante uma das guerras da sua inf�ncia. Que fam�lia.</p><p>Quando as portas do elevador se abriram, os dois homens na frente da entrada da cobertura chamaram a aten��o. Relaxaram quando ela se aproximou, mas pareciam estranhamente cerimoniosos.</p><p>� Max. O que aconteceu? � Rosemary olhou, questionadora, para o maior dos dois homens identicamente vestidos de preto.</p><p>Max balan�ou a cabe�a e abriu a porta para ela.</p><p>Rosemary caminhou entre as paredes com pain�is opressivos e escuros de carvalho at� a biblioteca. As pinturas a �leo antiqu�ssimas n�o ajudavam a aliviar a escurid�o.</p><p>Na porta da biblioteca, ela fez men��o de bater, mas as portas pesadas e esculpidas abriram-se para dentro antes que ela o fizesse. Seu pai estava em p� na entrada, com a silhueta iluminada pelo abajur sobre a mesa.</p><p>Ele tomou as m�os dela e as segurou com firmeza.</p><p>� Maria, � Lombardo. Ele n�o est� mais entre n�s.</p><p>� Que aconteceu? � Ela encarava o rosto do pai. Tinha olheiras escuras. Seu papo havia crescido mais do que ela se lembrava.</p><p>O pai gesticulou.</p><p>� Esses jovens trouxeram a not�cia.</p><p>Frankie, Joey e o Pequeno Renaldo estavam em p�, lado a lado. Joey literalmente baixou a cabe�a, com o chap�u nas m�os.</p><p>� Falamos com Dom Carlo, Maria. Lumia� eh, Lombardo estava vindo direto para c�, mas parou por um minuto no metr�.</p><p>� Queria comprar um chiclete, eu acho. � Frankie ofereceu a informa��o como se ela tivesse alguma import�ncia.</p><p>� Sim, mas isso n�o importa. Ele n�o voltou. Ficamos esperando � disse Joey �, ent�o decidimos averiguar o que estava acontecendo quando ouvimos sobre um� problema na esta��o. Quando chegamos l�, descobrimos o que havia acontecido.</p><p>� �, eles o encontraram em uma d�zia�</p><p>� Frankie!</p><p>� Sim, Dom Carlo.</p><p>� � tudo por hoje, rapazes. Vejo voc�s pela manh�.</p><p>Os tr�s jovens balan�aram a cabe�a, fizeram uma esp�cie de contin�ncia na dire��o de Rosemary para se despedir e sa�ram.</p><p>� Desculpe, Maria � falou o pai.</p><p>� N�o entendo. Quem fez isso?</p><p>� Maria, voc� sabe que Lombardo trabalhava com os neg�cios da nossa fam�lia. Outros sabiam disso. E sabiam que ele estava prestes a se tornar meu filho. Achamos que pode ter sido algu�m tentando me atingir. � A voz de Dom Carlo soava triste. � Houve outros incidentes, n�o faz muito tempo. Existem pessoas que querem tirar o que trabalhamos uma vida inteira para conseguir. � E a voz dele endureceu novamente. � N�o vamos deixar por menos. Eu prometo, Maria!</p><p>� Maria, fiz uma lasanha �tima. Sua favorita. Por favor, tente comer � falou a m�e de Rosemary, das sombras. Surgiu para levar Rosemary para a cozinha, acompanhando-a com um bra�o sobre seus ombros.</p><p>� Mam�e, n�o devia ter feito jantar para mim.</p><p>� N�o fiz. Sabia que voc� chegaria tarde, ent�o guardei um pouco para voc�.</p><p>Rosemary disse para a m�e:</p><p>� Mam�e, eu n�o amava Lombardo.</p><p>� Psiu. Eu sei. � Ela tocou os l�bios da filha. � Mas voc� come�aria a gostar dele. Eu via como voc�s se davam bem.</p><p>� Mam�e, eu n�o� � Rosemary foi interrompida pela voz do pai que as seguia da biblioteca.</p><p>� Devem ser os <emphasis>melanzanes</emphasis>, os negros! Quem mais nos atacaria? Devem estar vindo do Harlem pelos t�neis. Querem nossos territ�rios h� anos. Ainda mais uma <emphasis>susina</emphasis> como o Bairro dos Curingas. N�o, curingas nunca ousariam fazer isso com as pr�prias m�os, mas os negros podem estar usando curingas para despistar.</p><p>Rosemary ouviu um sil�ncio, seguido por pequenos chiados vindos do telefone. Sua m�e a puxou pelo bra�o. Dom Carlo respondeu:</p><p>� Precisam ser parados agora, ou v�o amea�ar todas as Fam�lias. S�o selvagens.</p><p>Outra pausa.</p><p>� <emphasis>N�o</emphasis> estou exagerando.</p><p>� Maria� � disse a m�e.</p><p>� Amanh� de manh�, ent�o � falou Dom Carlo. � Cedo. Muito bem.</p><p>� Viu, Maria? Seu pai vai cuidar disso. � A m�e levou Rosemary para a cozinha dourada com todos os utens�lios brilhantes, as paredes forradas com uma cole��o de quadros de bord�es da terra natal. Ela pensou em falar para a m�e sobre C.C. e o metr�, mas parecia imposs�vel naquele momento. Talvez fosse a imagina��o dela. N�o queria comer. N�o conseguia aguentar mais nada naquela noite.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A mendiga virou-se durante o sono e um dos dois grandes gatos ao lado saiu do caminho. Ele levantou a cabe�a e fungou para a companheira. Deixando a mulher com um gamb� enrolado recostado na barriga, os dois gatos andaram furtivamente para dentro da escurid�o do t�nel do metr�. O atalho da negligenciada 86th Street os levava na dire��o da comida.</p><p>Os dois gatos estavam famintos, mas agora ca�avam o caf� da manh� da mulher. Usando um t�nel de drenagem, sa�ram no parque e debaixo das �rvores para a rua. Quando um caminh�o de entrega do <emphasis>New York Times</emphasis> parou num sem�foro, o gato preto olhou para a malhada e apontou seu focinho para o caminh�o. Quando o ve�culo deu partida, pularam a bordo. Acomodado na traseira do caminh�o, o gato preto criou a imagem de pilhas de peixe e compartilhou com a malhada. Assistindo aos quarteir�es da cidade passarem, esperaram pelo cheiro revelador de peixe. Por fim, quando o caminh�o desacelerou, a malhada sentiu o cheiro de peixe e, impaciente, saltou do ve�culo. Miando com raiva, o preto a seguiu pelo beco. Os dois pararam quando o odor de homens estranhos sobrepujou a comida. Bem no fim do beco estava uma multid�o de curingas, par�dias malfeitas dos seres humanos normais. Vestidos em farrapos, buscavam comida no lixo.</p><p>Um feixe de luz derramou-se no beco quando uma porta se abriu. Os gatos sentiram o aroma de comida fresca quando um homem bem-vestido, mais largo que qualquer dos abutres, carregou caixas para o beco.</p><p>� Por favor � o homem gordo falou para os curingas paralisados numa voz suave cheia de dor. � Tem comida aqui para voc�s.</p><p>A cena congelada terminou quando os curingas correram juntos na dire��o das caixas de papel�o e come�aram a rasg�-las. Eles se acotovelavam e lutavam por uma posi��o para conseguir a comida deliciosa.</p><p>� Parem! � um curinga alto gritou no meio do caos. � N�o somos seres humanos?</p><p>Os curingas pararam e se afastaram das caixas, permitindo que o homem gordo repartisse a comida a cada um deles. O curinga alto foi o �ltimo a ser servido. Quando o anfitri�o lhe entregou a comida, ele falou de novo.</p><p>� Senhor, nosso muito obrigado ao Aces High.</p><p>Na escurid�o do beco, os gatos observavam a refei��o dos curingas. Virando para a malhada, o preto formou a imagem de uma espinha de peixe, e eles voltaram para a rua. Na Sixth Avenue, o preto mandou uma imagem de N�mada para a malhada. Trotaram para norte at� um lento caminh�o de hortifr�ti lhes dar carona. Muitos quarteir�es depois, o caminh�o aproximou-se de um mercado chin�s, e o preto reconheceu o perfume familiar. Quando o caminh�o come�ou a frear, os gatos saltaram. Ficaram na escurid�o al�m do alcance das luzes dos postes at� chegarem � feira.</p><p>Ainda faltava muito para o raiar do sol, e os caminhoneiros estavam descarregando os produtos agr�colas frescos do dia. O gato preto sentiu o cheiro de frango rec�m-abatido; sua l�ngua esticou-se para lamber seu l�bio superior. Ent�o, deu um ronronar curto para a companheira. A malhada pulou numa banca de tomates e come�ou a rasg�-los em pedacinhos com as unhas.</p><p>O propriet�rio gritou em chin�s e atirou a prancheta na gata ladra. Errou. Os homens que descarregavam o caminh�o pararam e encararam a felina aparentemente insana.</p><p>� Pior que no Bairro dos Curingas � um murmurou.</p><p>� Que gatona filha da puta � disse o outro.</p><p>Assim que as aten��es deles estavam presas � gata malhada destruindo os tomates, o gato preto que aguardava pulou na traseira do caminh�o e agarrou um frango com a boca. O preto era um gato muito grande, com no m�nimo 18 quilos, e ele levantou o frango com facilidade. Pulando da guarda traseira, correu para a escurid�o do beco. Ao mesmo tempo, a malhada esquivou-se de uma vassourada e seguiu o companheiro.</p><p>O gato preto esperava pela malhada a meio caminho do pr�ximo quarteir�o. Quando ela o alcan�ou, os dois miaram em un�ssono. Tinha sido uma �tima ca�ada. Com a malhada ajudando o preto �s vezes a levantar o frango sobre as cal�adas, galoparam de volta para o parque e para a mendiga.</p><p>N�mada puxou em torno de si o sobretudo verde e chique que ela havia encontrado na ca�amba de um pr�dio. Sentou-se com cuidado para n�o sacudir o gamb�. Com o bicho aninhado em seu colo e um esquilo em cada ombro, ela cumprimentou os orgulhosos gatos preto e malhado com sua recompensa. Movendo-se com uma facilidade que teria surpreendido os poucos sem-teto que se pareciam com ela, a mulher esticou-se e afagou a cabe�a dos dois gatos bravios. Quando ela o fez, formou a imagem em sua mente de um frango especialmente mirrado, j� meio comido, sendo trazido de uma lata de lixo de restaurante pelos dois.</p><p>O gato preto esticou seu focinho no ar e rosnou macio, enquanto apagava a imagem na cabe�a dele e de N�mada. A malhada mesclou um miado com um grunhido de medo fingido e esticou a cabe�a na dire��o da mulher. Capturando os olhos de N�mada, a malhada repetiu a ca�ada como ela havia percebido: a malhada no m�nimo do tamanho de um le�o, cercada por pernas humanas mais parecidas com troncos de �rvore m�veis. A corajosa gata encontrando a presa, um frango do tamanho de uma casa. A feroz malhada pulando na garganta dos homens, presas � mostra�</p><p>A cena se dissipou quando N�mada de repente concentrou-se em outro lugar. A malhada come�ou a protestar, at� uma pata preta e pesada derrub�-la de costas e prend�-la ao ch�o. A malhada cessou o protesto, cabe�a torcida para o lado para observar o rosto da mulher. O preto estava r�gido de expectativa.</p><p>A imagem formada nas tr�s mentes: ratos mortos. A imagem foi apagada pelo pavor de N�mada. Ela se levantou, expulsando os esquilos e deixando o gamb� de lado. Sem hesitar, virou-se e rumou para um dos t�neis tangenciais, que levavam ao subterr�neo. O gato preto deu um pulo silencioso � frente dela para servir de guia. A malhada acompanhou a mulher.</p><p><emphasis>Alguma coisa est� comendo meus ratos.</emphasis></p><p>Os t�neis eram pretos; �s vezes uma pequena bioluminesc�ncia emitia a �nica luz. N�mada n�o conseguia enxergar t�o bem como os gatos, mas podia usar os olhos deles.</p><p>O preto sentiu um odor estranho quando os tr�s estavam bem embaixo do parque. A �nica conex�o que podia fazer era com uma criatura mutante que era meio cobra, meio lagarto.</p><p>Alguns metros � frente, depararam-se com um ninho de ratos destru�do. Nenhum dos roedores sobreviveu. Estavam comidos pela metade. Todos os corpos mutilados.</p><p>N�mada e seus companheiros descobriram o t�nel �mido. A mulher escorregou num degrau e viu-se afundada at� a cintura na �gua nojenta. Peda�os n�o identific�veis batiam contra suas pernas na corrente moderada. Seu humor n�o melhorara.</p><p>O gato preto eri�ou-se e projetou a mesma imagem que formara poucos minutos antes, mas agora a criatura era ainda maior. O gato sugeriu que os tr�s sa�ssem naquele instante da galeria. Quietos. Rapidamente.</p><p>N�mada bloqueou a sugest�o enquanto tateava lentamente a parede lodosa at� outro ninho devastado. Alguns ratos ainda estavam vivos. A simples imagem de seu algoz era a imagem sombria de uma serpente de tamanho e feiura imposs�veis. Ela bloqueou os c�rebros dos agonizantes e seguiu em frente.</p><p>Cinco metros depois a passagem era uma alcova que oferecia drenagem para uma �rea do parque acima deles. A entrada ficava um metro acima do ch�o do t�nel. O preto rastejou para l�, m�sculos tensos, orelhas para tr�s, gemendo baixo. Estava assustado. A malhada, desdenhosa, foi at� a entrada, mas o preto a lan�ou de lado. O gato maior olhava para tr�s, na dire��o de N�mada, e enviava cada imagem negativa que ele conseguia.</p><p>Levada pela f�ria, N�mada indicou que iria na frente. Tomou f�lego, engasgou, e engatinhou para dentro da alcova.</p><p>Era iluminada por uma grade no teto, uns seis metros acima. A luz cinzenta ca�a sobre o corpo nu de um homem. Para N�mada, parecia ter trinta e poucos anos, musculoso, mas nem tanto. Sem gordura. N�mada percebeu sem muita certeza que sua apar�ncia n�o era t�o acabada como a maioria dos indigentes que tinha visto. Por um momento, pensou que ele estivesse morto, outra v�tima do misterioso assassino. Mas, enquanto sua mente se concentrava no homem, percebeu que ele estava apenas adormecido.</p><p>Os gatos a seguiram para dentro da c�mara. O preto grunhia, confuso. Seus sentidos lhe disseram que o rastro da cobra-lagarto terminava ali � cessava onde o homem dormia. N�mada sentiu algo estranho sobre o homem. Em geral, n�o tentava ler mentes humanas; era muito dif�cil. Suas mentes eram complexas. Elas tramavam, esquematizavam. Devagar, ajoelhou-se ao lado dele e estendeu a m�o.</p><p>O homem acordou, percebeu a presen�a daquela pessoa de rua suja prestes a toc�-lo e se encolheu.</p><p>� Que voc� quer?</p><p>Ela o encarou.</p><p>Ele percebeu que estava nu e lan�ou-se para a entrada da passagem cavernosa� Ouviu um rosnado profundo, encolheu-se, mal se esquivou de uma investida das garras do maior gato que j� vira. Por um momento, sentiu-se deslizando para dentro da escurid�o da mente. Ent�o, estava no t�nel principal e desapareceu.</p><p>Os gatos choramingavam perguntas, mas N�mada n�o tinha respostas. <emphasis>Quase</emphasis>, ela pensou. Dentro de sua mente. Eu quase senti� o qu�? Desapareceu.</p><p>N�mada, a malhada e o preto procuraram por mais uma hora, mas n�o encontraram outro rastro do odor estranho. N�o havia monstro no t�nel.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Os transeuntes, indigentes, mendigas e outras pessoas de rua come�avam seu dia cedo, quando encontravam as melhores latas de lixo e garrafas. Rosemary esgueirou-se para fora da cobertura bem cedo tamb�m. Mal havia dormido e naquela manh�, sabendo de quase tudo que certamente acontecia por tr�s das portas fechadas da biblioteca, quis sair de l� r�pido. Os chef�es da m�fia estavam declarando guerra.</p><p>Com suas �rvores, seus arbustos e bancos, o Central Park era o c�u para certo n�mero de pessoas de rua. Naquela manh� ensolarada, Rosemary procurava alguns que ela tinha prometido ajudar. Quando chegou ao segundo banco do parque depois da ponte de pedra, um homem com roupas rasgadas escondeu uma garrafa num arbusto ao lado do banco e ficou em p� num pulo. Trajava uma jaqueta militar surrada com uma parte menos desbotada num ombro, onde a ins�gnia da �bucha de canh�o� da Brigada Curinga fora costurada no passado. Rosemary sugeriu que n�o era prudente usar a ins�gnia neste lado da cidade.</p><p>� Ol�, Rastejante � disse a assistente social. Com cerca de trinta anos (Rosemary n�o conseguia precisar a partir de seu rosto de veterano queimado de sol), ele ganhara o apelido por seu posto militar no Vietn�: rastejador de t�neis. Realistou-se duas vezes. Ent�o, Rastejante viu o bastante.</p><p>� Oi, Rosemary. Conseguiu meus novos �culos? � Rastejante usava um par tempor�rio, barato. �culos de sol da 14th Street, os aros colados com fita adesiva branca encardida. Por baixo deles, Rosemary conhecia os olhos escuros e imensos, extraordinariamente sens�veis.</p><p>� Solicitei o financiamento. Vai demorar um pouco para conseguirmos. Sabe, burocracia� igual no servi�o.</p><p>� Droga. � Mas o indigente ainda sorria quando deslizou um passo para o lado da mo�a.</p><p>Rosemary hesitou, ent�o disse.</p><p>� Pode ver com a Associa��o dos Veteranos ainda, voc� sabe. Eles arrumam para voc�.</p><p>� Porra, n�o � retrucou Rastejante, soando alarmado. � Caras como eu v�o para a A.V. e nunca voltam.</p><p>Rosemary ia falar �� bobagem�, mas pensou melhor.</p><p>� Rastejante, voc� conhece alguma coisa no subterr�neo? Sabe, t�neis de metr� e essas coisas todas?</p><p>� Alguma coisa. Quer dizer, preciso de abrigo. S� n�o gosto de <emphasis>ficar</emphasis> l� embaixo. E tamb�m, tem coisas bizarras acontecendo l�. Ouvi gente falando de crocodilos, coisas assim. Talvez sejam os bebuns alucinando, mas nem quero saber.</p><p>� Estou procurando uma pessoa � Rosemary comentou.</p><p>Rastejante n�o ouvia.</p><p>� S� gente muito louca <emphasis>vive</emphasis> l� embaixo. � Ele murmurou algo. � � mais estranhas que l� no East Side� voc� sabe, o Bairro. <emphasis>Ela</emphasis> mora l� embaixo � Rastejante apontou para a coroa sentada no ch�o, embaixo de uma �rvore. Ela estava a centenas de metros de dist�ncia, mas podia jurar que tinham pombos pousando na cabe�a da mulher e um esquilo empoleirado no ombro. Rosemary ergueu a cabe�a e olhou por tr�s do homenzinho.</p><p>� � s� a N�mada � ela falou. � N�o se preocupe com ela� � Rosemary percebeu que o Rastejante n�o estava mais ao seu lado. Estava pedindo esmola para um executivo bem-vestido que se exercitava caminhando at� o trabalho. Ela balan�ou a cabe�a num misto de desaprova��o e resigna��o.</p><p>Quando Rosemary se virou de volta para a N�mada, os pombos e o esquilo haviam sumido. Rosemary sacudiu a cabe�a para clare�-la. <emphasis>Minha imagina��o trabalha dia e noite mesmo</emphasis>, ela pensou, caminhando na dire��o da mendiga. Apenas mais uma alma perdida.</p><p>� Ol�, N�mada.</p><p>A velha com cabelos desgrenhados virou o rosto e olhou para o parque.</p><p>� Meu nome � Rosemary. Falei com voc� antes. Tentei encontrar um lugar legal para voc� morar. Lembra? � Rosemary agachou-se para falar na altura de N�mada.</p><p>O gato preto que a assistente social vira antes aproximou-se de N�mada e come�ou a esfregar-se nela. Ela acariciou a cabe�a do bichano e murmurou sons incompreens�veis.</p><p>� Fale comigo, por favor. Quero conseguir comida para voc�. Um lugar bom para voc� morar. � Rosemary estendeu a m�o. O anel no terceiro dedo reluziu ao sol.</p><p>A mulher no ch�o encolheu as pernas e agarrou o saco de lixo cheio com seus tesouros. Ela come�ou a balan�ar para a frente e para tr�s e cantarolar. O gato preto virou-se para fitar Rosemary, e ela recuou com esse olhar amea�ador.</p><p>� Falo com voc� mais tarde. Volto para v�-la. � Rosemary levantou-se, tensa. Seu rosto retesou-se e, apenas por um momento, quis chorar para aliviar a frustra��o. Queria apenas ajudar. Algu�m. Qualquer um. Para sentir-se bem com alguma coisa.</p><p>Afastou-se de N�mada na dire��o da Central Park West e da entrada do metr�. O conselho de guerra do pai a deixara apavorada. Nunca gostou do que ele fazia, e por toda a vida parecia estar em busca da fuga e da reden��o, expia��o. Os pecados dos pais. Rosemary queria paz, mas sempre que pensara que a conseguiria, ela sa�a do seu alcance. C.C. tinha sido a �ltima esperan�a. Assim era com cada mendigo que n�o conseguia ajudar. Existia uma maneira de conseguir chegar em N�mada. Precisava existir.</p><p>Rosemary desceu os degraus, esperou, deslizou seu bilhete na catraca, desceu atordoada a segunda escadaria at� a plataforma. O sopro de ar frio entrou na esta��o seguida pelo trem AA. Rosemary mal tirou os olhos do ch�o e seguiu, tensa, no sentido do pr�ximo vag�o.</p><p>Quando estava prestes a entrar no trem, seus olhos se arregalaram e ela recuou para dentro da multid�o, atraindo olhares furiosos e alguns xingamentos por interromper o fluxo. Aquele �ltimo vag�o. Havia mais can��es de C.C. pintadas na lateral num tom de vermelho que lembrava sangue. C.C. sempre foi um pouco man�aco-depressiva, e Rosemary sempre conhecia seu humor pelo que ela escrevia ou cantava. A C.C. que tinha escrito aquelas palavras estava deprimida al�m do que Rosemary j� vivenciara:</p><empty-line/><p><emphasis>Sangue e ossos</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Leve-me para casa</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    As pessoas ao meu lado</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Aquelas pessoas ir�o</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Comigo para o inferno</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Comigo para o inferno</emphasis></p><p>Aproximando-se do vag�o, Rosemary viu palavras que ela <emphasis>sabia</emphasis> que n�o estavam l� segundos atr�s.</p><empty-line/><p><emphasis>Rosie, Rosie, bela Rosie</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    V� embora e</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Esque�a meu rosto</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    N�o chore</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Rosie, Rosie, bela Rosie</emphasis></p><p><emphasis>Vou encontrar voc�, C.C. Vou salvar voc�.</emphasis> Novamente Rosemary lutou para entrar no vag�o que, naquele momento, ela percebeu, estava coberto com peda�os de can��es de C.C., algumas ela reconhecia, outras provavelmente eram novas. Mais uma vez, o vag�o a deixou de fora. Ofegante, olhos bem abertos, Rosemary observou o vag�o mover-se para dentro do t�nel. Ela suspirou quando a lateral do carro de repente foi coberta por l�grimas de sangue.</p><p>� Santa Maria, m�e de Deus� � Rosemary lembrou-se, por mais il�gico que fosse, das hist�rias dos santos de sua inf�ncia. Por um momento, perguntou-se se o mundo estava acabando, se as guerras e as mortes, os curingas e o �dio realmente prenunciavam o Apocalipse.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Era meio-dia.</p><p>Os B-52 americanos estavam bombardeando Han�i e Haiphong. Quang Tri estava inst�vel, pois os vietnamitas do norte estavam em marcha. Em Washington, D.C., os pol�ticos trocavam telefonemas cada vez mais fren�ticos sobre um roubo recente. A quest�o em algumas regi�es era: o assessor pol�tico Donald Segretti � um �s?</p><p>O tumulto na parte central de Manhattan era feroz. Na Grand Central Station, Rosemary Muldoon buscava sombras esfarrapadas que pudesse seguir at� a escurid�o dos subterr�neos. Uma d�zia de quarteir�es ao norte, Jack Robicheaux cumpria suas tarefas habituais, percorrendo a escurid�o permanente em seu pequeno carrinho el�trico, verificando a integridade dos trilhos t�nel ap�s t�nel. E, em algum lugar sob o desvio da 86th Street, bem embaixo do terreno da parte sul do lago do Central Park, N�mada pairava � beira do sono, aquecida pelos gatos e outros bichos de sua vida.</p><p>Meio-dia. A guerra sob Manhattan estava come�ando.</p><p>� Vou citar a voc�s um trecho do discurso feito certa vez pelo pr�prio Dom Carlo Gambione � comentou Frederico �A�ougueiro� Macellaio. Ele analisou com cara fechada os grupos de <emphasis>capos</emphasis> e seus soldados reunidos em torno dele na c�mara. Nos anos de 1930, o imenso galp�o tinha sido uma oficina subterr�nea de reparos para o metr� central. Antes da Grande Guerra, foi fechado e selado, quando o departamento de transportes decidiu reunir todos os p�tios de manuten��o al�m do rio. Logo a fam�lia Gambione tomou o espa�o para armazenagem de armas e outros contrabandos, transfer�ncia de carga e vel�rios ocasionais.</p><p>O A�ougueiro ergueu a voz e as palavras ecoaram.</p><p>� O que far� a diferen�a para n�s na batalha ser�o duas coisas: disciplina e lealdade.</p><p>O Pequeno Renaldo estava em p� de um lado com Frankie e Joey.</p><p>� Sem contar as armas autom�ticas e artilharia pesada � falou ele, com um sorriso amarelo.</p><p>Joey e Frankie trocaram olhares. Frankie deu de ombros. Joey disse:</p><p>� Deus, armas e gl�ria.</p><p>O Pequeno Renaldo comentou:</p><p>� Estou entediado. Quero atirar em alguma coisa.</p><p>Joey falou um pouco mais alto, de forma que o A�ougueiro conseguiu ouvir:</p><p>� Ei, vamos botar alguns bebuns pra correr ou o qu�? Quem � o alvo? S� os pretos? Curingas tamb�m?</p><p>� N�o sabemos quem s�o os aliados � respondeu o A�ougueiro. � Sabemos que n�o agiram sozinhos. H� traidores dentro da nossa pr�pria ra�a, ajudando-os por dinheiro.</p><p>O sorriso man�aco do Pequeno Renaldo se abriu.</p><p>� Zona de tiro livre � ele disse. � � isso a�! � E baixou o chap�u militar, acomodando-o.</p><p>� Merda � retrucou Joey �, voc� nem <emphasis>tava</emphasis> l�.</p><p>Pequeno Renaldo fez sinal de positivo com o polegar.</p><p>� Vi aquele filme do John Wayne.</p><p>� Essa � a palavra do Cara, hein? � disse Joey.</p><p>O sorriso do A�ougueiro era fino e frio.</p><p>� Acabe com qualquer um que d� problema.</p><p>Os grupos come�aram a sair, sentinelas, esquadr�es e pelot�es. Os homens tinham M-16, escopetas, algumas metralhadoras M-60, granadas e lan�adores, proj�teis, g�s lacrimog�neo, armas brancas, facas, e blocos suficientes de explosivos C4 para fazer qualquer tipo de demoli��o pesada.</p><p>� Ei, Joey � chamou o Pequeno Renaldo. � No que voc� vai atirar?</p><p>Joey deu um tapa no pente de uma AK-47. Essa arma n�o era do arsenal de Gambione. Era seu pr�prio suvenir. Ele tocou a coronha de madeira polida.</p><p>� Talvez num crocodilo.</p><p>� Hein?</p><p>� N�o leu nenhum dos jornalecos que est�o falando sobre crocodilos gigantes aqui embaixo?</p><p>O Pequeno Renaldo olhou para ele desconfiado e estremeceu.</p><p>� Os curingas selvagens s�o uma coisa. N�o quero dar de cara com lagart�es com dentes.</p><p>Foi a vez de Joey sorrir.</p><p>� � mentira, n�? � disse o Pequeno Renaldo. � Voc� s� t� tirando uma com a minha cara, certo?</p><p>Joey levantou o polegar para ele, animado.</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Jack perdera toda a no��o do tempo. Sabia que muito tempo se passara desde que ele desviou o ve�culo de manuten��o de trilhos da linha principal para um ramal. Algo estava errado. Decidiu verificar algumas das rotas mais obscuras. Era como se um peda�o de gelo estivesse pressionado contra um ponto bem acima do seu c�ccix.</p><p>Ele ouvia os trens, mas passavam ao longe. Os t�neis que percorria naquele momento eram pouco usados, exceto por rotas desviadas durante grandes congestionamentos, inc�ndios na via ou outros problemas na linha principal. Tamb�m ouviu estampidos distantes que soavam como tiros.</p><p>Jack cantava. Preenchia a escurid�o com zydeco, estilo musical inspirado no blues dos cajuns-negros que o lembrava de sua inf�ncia. Come�ou com �Chantilly Lace�, de Big Booper, e �Ay-Tete-Fee<emphasis>�</emphasis>, de Clifton Chenier, seguido de um <emphasis>medley</emphasis> de Jimmy Newman e de �Rainin� in My Heart<emphasis>�</emphasis>, de Slim Harpo. Tinha acabado de puxar a alavanca e deslizava o carro por um ramal que ele sabia n�o ter sido verificado no �ltimo ano, quando o mundo explodiu num clar�o de chamas vermelhas e amarelas. Teve tempo apenas de cantar a �ltima linha de �L�Haricots sont pas sales<emphasis>�</emphasis> quando a escurid�o se fragmentou, as ondas de press�o arrebentaram-se contra seus ouvidos, e o carro e ele voaram em dire��es diferentes, girando, volteando pelo ar.</p><p>Tudo que realmente teve tempo de dizer foi: �Que merda � essa��, enquanto batia contra as pedras da parede ao fundo do t�nel e despencava no ch�o. Por um momento, ficou abalado pelo choque e pela luz. Piscou e percebeu que conseguia ver a fuma�a serpeando, e as luzes pequeninas que iluminavam a fuma�a.</p><p>Ouviu uma voz dizer:</p><p>� Meu Deus, Renaldo! N�o vamos atacar um tanque.</p><p>Outra voz comentou:</p><p>� Tipo, desculpe por isso. Odeio matar algu�m soaria muito como Chuck Berry.</p><p>� Bem � soou uma terceira �, s� podia ser mesmo um fantasma.</p><p>� V� ver, Renaldo. O cara deve estar parecendo uma lata de presunto aberta, mas � melhor ter certeza.</p><p>� Certo, Joey.</p><p>As luzes chegaram mais perto, flutuando na fuma�a que se dissipava.</p><p><emphasis>Eles v�o mi mat�</emphasis>, pensou Jack, voltando ao dialeto de sua inf�ncia. � primeira vista, n�o houve emo��o ao perceb�-lo. Ent�o, a raiva eclodiu. Ele deixou o sentimento lhe tomar. A raiva foi ao ponto da f�ria. As agulhadas de adrenalina agonizavam seus nervos. Jack sentiu primeiro uma sacudida daquilo que costumava pensar ser um ataque da loucura de <emphasis>loup-garou</emphasis>, o lobisomem.</p><p>� Ei, acho que t� vendo alguma coisa! Na ponta do seu p�, Renaldo.</p><p>Aquele que chamava Renaldo se aproximou.</p><p>� Opa, eu peguei ele. Agora vou terminar o servi�o. � Ele levantou a arma, mirando com a luz presa ao cabo da arma.</p><p>Aquilo levou Jack ao limite. <emphasis>Seu desgra�ado filho de uma puta!</emphasis></p><p>A dor, bem-vinda dor, o destro�ou. Ele� <emphasis>se transformou</emphasis>.</p><p>Seu c�rebro parecia girar, sua mente afundando-se infinitamente em si mesma at� o n�vel r�ptil primitivo. Seu corpo se alongava, engrossava; suas mand�bulas se estenderam para a frente, os dentes crescendo em profus�o. Sentia o comprimento de m�sculos perfeitamente tonificados, o balan�o de sua cauda. O poder flagrante de seu corpo� ele o sentia completamente.</p><p>Ent�o viu a presa na frente dele, a amea�a.</p><p>� Ai, meu Deus! � Pequeno Renaldo gritou. Seus dedos apertaram o gatilho da M-16. A primeira rajada de tra�adores foi em v�o. N�o teve chance de disparar a segunda.</p><p>A criatura que antes fora Jack avan�ou, as mand�bulas fechando em torno da cintura de Renaldo, sacudindo e rasgando a carne. A luz da lanterna do homem girou, esmagada, e desapareceu.</p><p>Os outros homens come�aram a atirar desenfreadamente.</p><p>O crocodilo registrou os lamentos, os gritos. O cheiro do terror. �timo. A presa era mais f�cil quando dava sua localiza��o. Soltou o cad�ver de Renaldo e moveu-se na dire��o das luzes, os urros de seu desafio preenchendo o t�nel.</p><p>� Pelo amor de Deus, Joey! Me ajuda!</p><p>� Espera a�. N�o consigo ver pra onde voc� foi.</p><p>O corredor era estreito, os materiais, velhos e decadentes. Preso entre dois petiscos igualmente tentadores, o crocodilo girava no espa�o confinado. Viu flashes de luzes, sentiu alguns impactos ardentes, principalmente na cauda. Ouviu a presa gritando.</p><p>� Joey, a coisa estourou minha perna!</p><p>Mais luzes. Uma explos�o. Fuma�a acre invadiu suas narinas. Peda�os irregulares de pedra ca�ram do teto. Vigas apodrecidas estilha�aram-se. Cimento deteriorado foi ao ch�o. Parte do solo embaixo dele cedeu e seus tr�s metros e meio de comprimento despencaram pesadamente sobre uma rampa. Choveram fuma�a, poeira e escombros.</p><p>O crocodilo tombou e destruiu uma fina escotilha de metal que n�o tinha sido feita para aguentar tanta for�a. O alum�nio rompeu-se como papel, e o monstro foi derrubado num t�nel aberto. Caiu mais seis metros antes de chocar-se contra um entremeado de vigas de madeira. Por um tempo, alguns escombros o seguiram. Ent�o, o sil�ncio por cima e por baixo. O crocodilo ficou parado na escurid�o. Quando tentou mover seu corpo, nada aconteceu. Estava totalmente preso numa cama de gato de madeira. Uma estaca estava bem presa sobre o seu focinho. N�o conseguia nem abrir as mand�bulas.</p><p>Tentou rugir, mas o som que saiu n�o foi mais que um grunhido abafado. Ele piscou, n�o via nada. Sua for�a definhava, o choque cobrando seu pre�o.</p><p>N�o queria morrer ali. Queria terminar na �gua.</p><p>Pior, o crocodilo n�o queria morrer com fome.</p><p>Estava faminto.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>N�mada sentiu algo que n�o vivenciava havia muito: simpatia por Rosemary Muldoon. Sabia que a assistente social queria ajudar, mas como poderia lhe dizer que n�o precisava de ajuda? Confusa com aquela emo��o, N�mada descobriu mais uma. Ela podia ficar feliz com o cuidado e a companhia de seus amigos, por mais que n�o fossem seres humanos.</p><p>Tinha um lugar quente para dormir. Sua casa sob o Central Park era pr�xima dos t�neis de vapor. N�mada providenciou aos poucos o melhor que a rua tinha a oferecer. Uma cadeira de diretor vermelha e quebrada era a �nica mob�lia, mas havia trapos e cobertores cobrindo todo o ch�o. Uma pintura em veludo de le�es na savana estava recostada numa parede, e uma imagem esculpida de um leopardo ficava num canto. Faltava uma das pernas do leopardo, mas ele ocupava um lugar de honra.</p><p>Cochilando l� no t�nel de desvio da 86th Street, N�mada lembrou-se at� mesmo da pessoa que fora no passado, Suzanne Melot� A onda de dor que atravessou sua mente interrompeu seus pensamentos. A for�a do grito fez com que o gato preto gemesse de dor. Quando a onda recuou, o preto mandou para N�mada a mesma imagem que recebeu da criatura que atacou os ratos. N�mada concordou mentalmente. Nem <emphasis>ela</emphasis> conseguia se livrar da imagem. A criatura parecia um imenso lagarto, mas de alguma forma n�o era totalmente animal. E estava <emphasis>machucada</emphasis>.</p><p>N�mada suspirou e levantou-se.</p><p>� Temos de encontr�-lo se quisermos ter paz e tranquilidade.</p><p>O gato preto n�o era a favor dessa solu��o, at� outra onda de ang�stia surgir. Ele resmungou e correu para o t�nel � esquerda de N�mada. A malhada sentiu apenas a ponta da dor quando passou por N�mada e pelo gato preto. N�mada repetiu um pouco do grito de dor, e a malhada estirou-se no ch�o com as orelhas para tr�s. A imagem do gato preto apareceu na mente de N�mada, e a malhada seguiu �s pressas para o t�nel atr�s dele. N�mada disse � malhada para esperar por ela, e come�aram a rastrear o gato preto e a criatura ferida.</p><p>Demorou at� os encontrarem. A criatura realmente <emphasis>lembrava</emphasis> nada mais, nada menos, do que um lagarto gigante. Ficou presa embaixo de um monte de madeiras num t�nel n�o terminado. O preto rastejou alguns metros para longe, encarando aquela apari��o.</p><p>N�mada olhou para a criatura imobilizada e riu.</p><p>� Ent�o h� mesmos crocodilos nos esgotos.</p><p>O crocodilo sacudiu a cauda, derrubando alguns tijolos pelo t�nel.</p><p>� Mas este n�o � voc� de verdade, certo?</p><p>N�o havia como ela e os gatos soltarem o crocodilo. N�mada ajoelhou-se e examinou as madeiras que aprisionavam a fera, enquanto chamava seus amigos para ajud�-la. Esticou o bra�o e acariciou a cabe�a do crocodilo, acalmando-o com as imagens que ela enviava. Sentia a criatura pairando entre a consci�ncia e a inconsci�ncia.</p><p>Os animais chegaram em momentos diferentes. Uma paz inquietante se mantinha enquanto N�mada instru�a cada um conforme suas habilidades. Ratos roeriam, um par de c�es selvagens dariam for�a, os gamb�s e guaxinins carregariam as pequenas pedras para fora. O gato preto e a malhada ajudaram N�mada a controlar a mistura inconstante dos animais.</p><p>Quando os pequenos escombros foram retirados e madeiras e t�buas mexeram-se ou rangeram, N�mada come�ou a puxar o crocodilo. Entre os pux�es dela e os esfor�os dele, Jack cavava seu caminho para a liberdade. N�mada terminou com um crocodilo exausto e machucado em seu colo. O gato preto e a malhada disseram �s criaturas que ajudaram para irem embora.</p><p>Os dois gatos observavam enquanto N�mada esfregava a parte de baixo da mand�bula do crocodilo, acalmando o animal. Enquanto ela o acariciava, o focinho e a cauda come�aram a diminuir. As costas escamosas tornaram-se pele suave e p�lida. Os membros atarracados alongaram-se em bra�os e pernas. Poucos minutos depois, N�mada estava segurando o corpo nu e ferido do homem que ela havia encontrado antes. Quando a mudan�a aconteceu, N�mada percebeu que, num momento indefin�vel, ela n�o conseguia mais controlar a criatura ou ler seus pensamentos. De alguma forma ela perdera a divis�o essencial entre o homem e a fera.</p><p>Ela se levantou e ergueu o homem, caminhando em seguida para o fim do t�nel. A gata malhada a acompanhou. O preto ficou ao lado do homem.</p><p><emphasis>Por qu�?</emphasis>, pensou N�mada.</p><p><emphasis>Por qu�?</emphasis>, retrucou o gato preto. O trabalho que tinham acabado de fazer, visto pelos olhos do gato, girava na mente dela.</p><p>A malhada olhava de um para o outro. N�o fora chamada para esta conversa.</p><p><emphasis>Crocodilo</emphasis>, N�mada explicou, <emphasis>n�o humano</emphasis>.</p><p>Na sua cabe�a, o crocodilo transformou-se num homem.</p><p>� Curiosidade� � N�mada falou alto pela primeira vez desde que a opera��o de resgate havia come�ado.</p><p>O preto enviou uma figura de um gato preto de costas com as patas para o ar.</p><p>N�mada sentou-se ao lado do homem. Em poucos minutos, ele come�ou a se mover. Dolorido, ele se sentou. Sob a luz fraca que vinha de cima, reconheceu N�mada, a velha que vira no dia anterior.</p><p>� Que aconteceu? Lembro de correr na dire��o de um punhado de malucos com armas, e ent�o as coisas ficaram confusas. � Ele tentava se concentrar na coroa, que o tempo todo se dividia em duas imagens. � Acho que talvez eu tenha uma concuss�o.</p><p>N�mada deu de ombros e apontou para as vigas do telhado em peda�os atr�s dele. Apertando os olhos, conseguiu ver o que pareciam centenas de pegadas de patas no ch�o e nas paredes em torno do desmoronamento. No centro da devasta��o, Jack tamb�m viu o rastro de uma cauda monstruosa.</p><p>� Deus do c�u, de novo, n�o. � Jack voltou as costas para N�mada. � Quando a senhora chegou, o que viu?</p><p>Ela se afastou um pouco dele, ainda em sil�ncio. Ele viu a boca da mulher torcida num quase sorriso por baixo dos cabelos desarrumados. Era louca?</p><p>� <emphasis>Merde</emphasis>. Que vou fazer? � Jack quase ficou surpreso com o par de patas pretas que atingiu seu peito. � Calma, rapaz. Voc� � o maior gatinho que vi desde que deixei os p�ntanos. � Os olhos do gato preto encararam os de Jack com estranha intensidade. � Que foi?</p><p>� Ele quer saber como voc� faz aquilo. � A voz da senhora n�o combinava com a apar�ncia. Era jovial e mantinha um toque de humor. � Cuidado. Voc� est� grogue, parece que est� saindo de uma viagem de uma dose de cloropromazina. � Ela pegou o bra�o dele quando ele tentou se levantar.</p><p>Quando ele se ergueu, N�mada comentou:</p><p>� Voc� n�o vai longe assim. � E come�ou a tirar seu sobretudo.</p><p>� <emphasis>Mon Dieu</emphasis>. Obrigado. � Sentindo-se enrubescer, Jack enfiou-se no casaco verde e enrolou-se. Ele o cobria do pesco�o aos joelhos, mas deixava seus bra�os nus do cotovelo para baixo.</p><p>� Onde voc� mora? � N�mada olhava para ele sem express�o. Jack apreciava sua cordialidade.</p><p>� No centro. Para baixo da Broadway, perto da esta��o City Hall. Estamos perto de uma esta��o aqui? � Jack n�o estava acostumado a se perder e descobriu que odiava profundamente essa sensa��o.</p><p>Como resposta, N�mada tomou seu rumo para a entrada do t�nel. N�o olhou para tr�s para conferir se ele a estava seguindo quando virou � direita.</p><p>� Sua senhora, ela � um pouco estranha. Sem querer ofender � Jack comentou com o gato preto. Este o acompanhou quando o homem seguiu a mendiga. O gato olhava para ele, farejava, e torcia a cauda.</p><p>� Quem sou eu pra falar, n�?</p><p>Embora Jack tentasse acompanhar N�mada, logo foi deixado para tr�s. No fim das contas, a pedido do gato, ela voltou e ajudou o homem, colocando o bra�o dele em seus ombros.</p><p>Jack finalmente reconheceu os t�neis quando chegaram na esta��o da 57th Street. Ficou surpreso com a mudan�a em N�mada, quando eles tomaram o rumo da plataforma. Apesar de ainda estar segurando o homem, a mulher parecia querer se afastar dele. Arrastava os p�s em vez de dar passos largos, e mantinha os olhos pregados no ch�o. Aqueles que esperavam na plataforma abriram bastante espa�o para eles.</p><p>O metr� chegou, o �ltimo carro estava coberto com grafite estranhamente brilhante. N�mada empurrou Jack na dire��o do vag�o decorado de forma t�o v�vida. Jack teve tempo de ler algumas das frases mais coerentes que cobriam a lateral.</p><empty-line/><p><emphasis>Voc� � incomum?</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Sentiu mesmo o fogo?</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Est� ardendo por dentro?</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    As chamas nos devoram a todos,</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Mas nunca nos deixam morrer.</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Nunca acaba, sempre em chamas.</emphasis></p><p>Jack achou que algumas das frases mudaram enquanto ele as observava, mas aquilo deve ter sido o efeito de seu c�rebro abalado. N�mada o empurrou para dentro. As portas fecharam, deixando alguns usu�rios do metr� muito irritados do lado de fora.</p><p>� Esta��o?</p><p><emphasis>N�mada � econ�mica demais com as palavras</emphasis>, Jack pensou.</p><p>� City Hall. � Jack deixou-se cair e pousou a cabe�a no encosto do assento, fechou os olhos assim que o trem seguiu para o centro. N�o percebeu que o assento se moldou ao corpo para confort�-lo enquanto dormia. N�o percebeu que as portas n�o voltaram a abrir at� ele chegar ao seu destino.</p><p>Os gatos n�o ficaram muito felizes com essa viagem de metr�. A malhada estava totalmente aterrorizada. Orelhas ca�das, cauda em riste e eri�ada, ficou recostada em N�mada. O preto pisava com cuidado no assoalho do vag�o. A textura era familiar apenas em partes. Ele pensava no calor e no aroma confuso ao seu redor.</p><p>N�mada tentou manter a concentra��o no interior do vag�o escuro. N�o havia �ngulos pontudos ali. Formas indistintas pareciam mudar sutilmente na sua vis�o perif�rica. <emphasis>Nunca senti nada assim antes</emphasis>, ela pensou, <emphasis>desde as viagens de �cido</emphasis>. Ela estendeu sua consci�ncia al�m dos gatos e de Jack. N�o conseguia definir o <emphasis>algu�m</emphasis> que contatou por um breve momento. Mas sentia o conforto, o calor e a prote��o impressionantes que os cercavam ali.</p><p>Cautelosa, acomodou-se em seu assento e acariciou a gata malhada.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� � aqui � Jack falou.</p><p>Tinha se recuperado o suficiente para conduzir seu pequeno comit� pela esta��o City Hall, al�m da sucess�o impressionante de quartos de materiais de manuten��o, e at� outro labirinto de t�neis n�o usados. Ele equipou se��es das passagens com luzes que ligavam e desligavam conforme necess�rio quando prosseguiam na dire��o da casa de Jack. Quando abriu a �ltima porta, p�s-se de lado e acenou para N�mada e os gatos entraram. Sorriu, orgulhoso, enquanto eles observavam o vasto espa�o.</p><p>� Uau, cara. � N�mada hesitou quando percebeu os m�veis e a decora��o opulentos. A impress�o imediata foi de veludo vermelho e div�s com p�s esculpidos.</p><p>� Voc� � mais jovem do que aparenta. Essa foi minha rea��o tamb�m. Lembrou-me do camarote do Capit�o Nemo�</p><p>� <emphasis>Vinte mil l�guas submarinas</emphasis><emphasis>.</emphasis></p><p>� Isso mesmo. Voc� viu tamb�m. Um dos primeiros filmes que vi no teatro da par�quia.</p><p>Caminharam pelas escadas com carpete carmesim flanqueadas por bala�stres dourados e cordas de veludo. Os gatos correram na frente dos dois, a malhada usando as poltronas vitorianas como obst�culos para saltar. A luz el�trica aumentou com o tremeluzir das chamas a g�s que davam ao ambiente uma atmosfera de s�culo passado. O gato preto galopava sobre os tapetes persas at� o fim da plataforma e olhava para os dois seres humanos atr�s dele.</p><p>� Ele quer saber o que � isso e o que tem atr�s daquela porta. � N�mada parou Jack enquanto desciam lentamente a escadaria. � Voc� precisa se deitar.</p><p>� Logo mais. Esta � minha casa e atr�s da porta � meu quarto. Se pudermos seguir naquela dire��o� � Eles come�aram a atravessar a sala. � Este foi o primeiro metr� de Nova York, constru�do por um homem chamado Alfred Beach antes da Guerra de Secess�o. Cobria apenas dois quarteir�es. O �Chefe Tweed� n�o o queria, ent�o mandou fechar, e ele foi esquecido. Encontrei-o logo depois que comecei a trabalhar para o Departamento de Transportes� um dos benef�cios do trabalho. N�o sei por que ele se manteve t�o bem, mas � um bom lugar para mim. Leva pouco tempo para limpar. � isso. � Eles andaram para o outro lado da sala, e Jack esticou o bra�o para girar as ma�anetas na porta ornada com bronze fundido. O c�rculo central abriu-se. � Costumava ser a entrada para o tubo pneum�tico.</p><p>� Nunca imaginei. � N�mada ficou surpresa ao descobrir que o interior do t�nel era parcamente mobiliado. Havia uma cama improvisada feita com t�buas de pinho, uma estante tamb�m improvisada, e uma c�moda de madeira.</p><p>� Todos os confortos de um lar. At� mesmo minha cole��o completa dos quadrinhos do Pogo. � Jack olhou com inoc�ncia para N�mada, e ela riu, parecendo surpresa com isso em seguida.</p><p>� Voc� tem iodo? � N�mada olhou em volta, procurando uma caixa de primeiros socorros.</p><p>� N�o uso essas coisas. Pode pegar uma dessas para mim? � Jack apontou para cima, na dire��o das teias de aranha.</p><p>� T� brincando.</p><p>� Melhor cataplasma do mundo. Minha av� que me ensinou.</p><p>Quando N�mada virou-se de volta para Jack, ele havia vestido shorts e estava com uma camisa na m�o. Ela lhe entregou as teias de aranha e o ajudou com os curativos dos ferimentos maiores.</p><p>� Ent�o, como <emphasis>voc�</emphasis> acabou aqui embaixo? � Jack estava deitado na cama, recuava um pouco, enquanto N�mada estava empoleirada cuidadosamente no canto. � Voc� com certeza n�o � dessas assistentes sociais.</p><p>N�mada observava os gatos que, l� fora, perseguiam um ao outro pela sala. Ela se virou para ele com um olhar aprovador:</p><p>� E <emphasis>eles</emphasis> gostam de voc�. Me levaram para fora da cidade um tempo atr�s e eu acabei voltando. Sem lugar para onde ir. Conheci o preto, comecei a falar com ele, e ele respondia. Fiz isso com muitos outros animais, quer dizer, com aqueles que n�o s�o seres humanos. Eu me viro. N�o preciso das pessoas, n�o as quero por perto. Pessoas sempre me trazem m� sorte. Posso falar com voc� tamb�m, quando voc� � aquele outro, sabe? L� fora me chamam de N�mada. Tive outro nome, mas n�o lembro direito.</p><p>� Me chamam de Jack Esgoto � Jack falou com amargura, em contraste com a narra��o neutra de N�mada. O ataque de emo��o que ela captou teve gritos, luzes brilhantes e medo, e o porto do p�ntano.</p><p>� Ela estava l� a criatura. O que � voc�? � N�mada estava confusa; nunca tinha visto antes essa mistura de homem e animal, com quem ela s� conseguia comunicar-se �s vezes.</p><p>� Os dois. Voc� viu.</p><p>� Consegue controlar? Pode fazer a mudan�a?</p><p>� J� viu Lawrence Talbot como lobisomem? Mudo quando perco o controle ou quando deixo a fera assumir o controle. N�o sou amaldi�oado pela lua cheia; sou amaldi�oado o tempo todo. O <emphasis>loup-garou</emphasis> � uma lenda de onde venho. Todos os cajuns acreditam nele. Quando eu era jovem, tamb�m acreditava. Tinha medo de que pudesse machucar algu�m, ent�o me distanciei o m�ximo que consegui. Nova York era um pa�s estrangeiro; ningu�m me conhecia nem me incomodaria aqui.</p><p>Seu olhos estavam voltados para ela nesse instante, e n�o no passado.</p><p>� Por que o teatro? N�o tem mais de 45.</p><p>� 26. � Ela encarou Jack, pensando se aquilo importava. � Isso impede que eles me incomodem.</p><p>Jack olhou de relance a porta aberta e viu o rel�gio da ferrovia na parede oposta.</p><p>� Estou ficando com fome. E voc�?</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Resgatar C.C. O que parecia ser uma ideia maravilhosa tornou-se um pesadelo. Rosemary seguiu alguns indigentes at� os t�neis de vapor embaixo da Grand Central Station. Em primeiro lugar, tentou perguntar a todos que conhecia sobre C.C. Mas, enquanto se movia cada vez mais para dentro das passagens �midas, aqueles que viviam ali fugiam. Havia apenas a luz ocasional das grades na rua acima, ou das fogueiras esfuma�adas dos sem-teto. Sua fadiga e seu medo come�aram a mostrar seus efeitos; sentia-se cada vez mais mergulhada na sujeira do ch�o dos t�neis.</p><p>Num momento horr�vel, ela foi atacada por uma criatura suja que a arranhou, cacarejando. Ela revidou, mas sua bolsa fora levada. Rosemary estava desesperadamente perdida. �s vezes, ouvia sons que pareciam tiros e explos�es. <emphasis>Estou no inferno</emphasis>.</p><p>� frente, havia dois pontos brilhantes que reluziam na sua dire��o dentro da escurid�o. Eles recuaram quando ela se aproximou. As luzes verdes iridescentes a hipnotizavam.</p><p>Os pontos ficaram n�tidos e Rosemary viu o gato encolhido na escurid�o. Recuando alguns metros e rosnando, ele observava enquanto Rosemary se aproximava de um gato ferido, o camarada que ele guardava. Peito esmagado, uma perna quase separada do corpo, o gato machucado estava morrendo. O guardi�o n�o permitiria que lhe infligissem mais dor. Quando ouviu o choro baixo, ela ignorou os olhos do outro e ajoelhou ao lado do gato ferido. Rosemary percebeu que n�o havia nada a fazer, mas ela o segurou. O gato come�ou a ronronar antes de suspirar e morrer.</p><p>O guardi�o levantou a cabe�a e uivou em luto antes de dar meia-volta e correr para a escurid�o.</p><p>Rosemary deitou o corpo no ch�o � sua frente e posicionou a cabe�a e as pernas do bicho em posi��o confort�vel, sentou-se e come�ou a solu�ar. Parecia que tinha chorado uma eternidade antes de recome�ar sua caminhada na dire��o dos sons de tiros, engasgando com seus solu�os.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Ap�s assaltar a geladeira � N�mada podia entender por que a companhia de energia el�trica Con Ed nunca percebeu o desvio de energia, mas como ele chegou com uma geladeira aqui embaixo? �, Jack voltou ao quarto para dormir um pouco. N�mada e os gatos exploraram os dom�nios de Jack, o que incluiu se assegurarem de que poderiam destrancar a porta que ele havia trancado atr�s deles.</p><p>Rapidamente descobriram os limites. N�mada sentou-se num sof� muito macio de crina de cavalo. O gato preto juntou-se a ela, enquanto a malhada continuou o jogo de cruzar a sala sem tocar o ch�o. N�mada ponderou e, pela primeira vez em anos, o preto n�o foi convidado a pensar com ela. N�mada estava surpresa com a maneira que Jack vivia. Fez com que sua vida de mudar-se de um lar tempor�rio para outro, de uma pilha de trapos para outra, de repente parecesse errada e cheia de desconfortos que antes ela ignorava.</p><p>Ela e Jack discutiram a probabilidade de ambos serem ases. Que sorte. O v�rus arruinou a vida dos dois. Ela nunca voltaria a ser a crian�a inocente que fora antes de o �cido e o v�rus inundarem sua mente com as percep��es alien�genas do mundo animal. Ela achou que <emphasis>teve</emphasis> uma inf�ncia miser�vel. Foi por isso que fugiu de casa. Mas para crescer pensando que era algo como um lobisomem, uma criatura amaldi�oada por Deus.</p><p>Por que tinha sido t�o transparente com ele? N�o havia outro ser humano ainda vivo na cidade que sabia tanto sobre ela quanto Jack naquele momento. Foi porque eram semelhantes; sabiam o que era ser diferente e tinham parado de procurar maneiras de ser como todo mundo.</p><p>As patas sobre as costas de sua m�o arrancaram sangue antes de sua aten��o voltar ao mundo real. Seus olhos encontraram os do gato preto, e imagens horr�veis filtradas por outros olhos come�aram a transbordar sua mente: ninhos de rato destru�dos por tiros de metralhadora; homem aos berros assustando uma gamb�, seus filhotes grudando em suas costas enquanto ela corria, um caiu para a morte; gatos fugindo, sendo alvejados, assassinados; uma gata lutando para proteger os filhotes antes de uma granada destruir a ninhada, deixando a m�e com uma pata estourada; uma mulher que parecia a maldita assistente social embalando um gato morto. O sangue � mais e cada vez mais � daqueles que eram seus �nicos amigos.</p><p>� Os filhotes. Eles n�o podem! � N�mada levantou-se e flagrou-se tremendo.</p><p>� Que aconteceu? � Jack, acordado pelo grito de N�mada, surgiu do quarto ainda sonolento.</p><p>� Est�o matando eles! Eu preciso par�-los. � N�mada cerrou os punhos, virando de costas para Jack. Ladeada pelos gatos, seguiu na dire��o das escadas.</p><p>� N�o sem mim. � Jack correu de volta para seu quarto, agarrou o sobretudo verde de N�mada, lanternas e um par de t�nis, e seguiu-os escada acima.</p><p>Atrasado, tentando amarrar os t�nis enquanto corria, ele os alcan�ou na jun��o do primeiro t�nel.</p><p>� Por a� n�o. � Jack parou o trio que entrava no t�nel � direita. Ele jogou o sobretudo de N�mada para ela. Ele apontava uma das lanternas para a outra passagem.</p><p>� � como chegamos aqui. � Em seu p�nico, N�mada perdera muito da confian�a em Jack.</p><p>� Ele vai levar voc�s direto at� o metr�. H� um caminho mais r�pido para voltar ao parque. Tenho um carrinho de trilhos. Vem comigo? � Jack esperou N�mada concordar com a cabe�a e mergulhou no t�nel � esquerda num trote.</p><p>As cenas da carnificina ficavam cada vez mais n�tidas na mente de N�mada com a aproxima��o do Central Park e quando deixaram o carrinho. Quando chegaram � pr�xima ramifica��o de t�neis, Jack levantou a cabe�a e farejou.</p><p>� Quem quer que sejam, est�o usando p�lvora para um ex�rcito inteiro. Qual � o plano?</p><p>� Precisamos descobrir quem s�o para saber como par�-los. Certo? � N�mada n�o tinha certeza do que fazer.</p><p>� Aposto que s�o aqueles <emphasis>mes amis</emphasis> armados, mas n�o tenho no��o de quem seja o chef�o.</p><p>Surgiu uma imagem da malhada andando com Jack, o preto com N�mada.</p><p>� Muito bem. � N�mada acariciou a cabe�a do imenso gato preto. � Boa ideia.</p><p>� Que ideia?</p><p>� O preto acha que devemos nos dividir at� descobrir o que est� acontecendo. Se um dos gatos estiver conosco, podemos ficar, hum�</p><p>� Em comunica��o. Sim. Ao menos voc� pode ver o que est� acontecendo. � Jack balan�ou a cabe�a, pensativo. � Eu costumava amar filmes de guerra, mas as antenas n�o funcionam l� em casa. Vamos l�, sargento � ele falou com a malhada, que pulou � sua frente. � <emphasis>Bonne chance.</emphasis></p><p>N�mada acenou com a cabe�a e seguiu na outra dire��o.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Numa escurid�o profunda mal aliviada pelos fachos lan�ados dos capacetes de mineiro usados pelos homens armados, Dom Carlo Gambione inspecionava a desola��o daquilo que era seu reino.</p><p>Seu tenente fez um coment�rio, quase um pedido de perd�o.</p><p>� Dom Carlo, temo que nossas tropas ficaram entusiasmadas demais com a miss�o.</p><p>Dom Carlo olhou para os corpos iluminados � luz da lanterna do A�ougueiro.</p><p>� Zelo numa quest�o como essa � disse ele � n�o � defeito.</p><p>� Encontramos os quart�is-generais deles � relatou o A�ougueiro. � Nossos homens descobriram h� menos de uma hora. � Ele pousou o dedo sobre o mapa. � Pr�ximos da 86th Street. Embaixo do parque. Perto do lago do Central Park. Parece desabitado. Por isso chamei o senhor.</p><p>� Fico grato � respondeu o l�der. � Quero estar presente quando a chama da rebeli�o de guerrilha mal concebida de nossos inimigos for extinta. Sabia que deveria haver um motivo para eles se levantarem agora. � A voz de Dom Carlo tamb�m se ergueu. O A�ougueiro o encarava.</p><p>� Quero a cabe�a deles � anunciou Dom Carlo. � Espetaremos em lan�as na Amsterdam e na 110th Street. � Arregalados, seus olhos brilhavam com ferocidade, refletindo a luz el�trica.</p><p>O A�ougueiro pousou uma m�o com suavidade no pulso de Dom Carlo.</p><p>� Melhor irmos para o norte agora, <emphasis>Padrone</emphasis>. Disse para os homens esperarem no lugar, mas eles est�o muito� entusiasmados.</p><p>Por um momento, o olhar de Dom Carlo pairou freneticamente sobre os corpos que jaziam no concreto sujo. Farrapos ensopados de sangue.</p><p>� Que trag�dia! A dor, a dor� � Ele n�o tirava os olhos dos cad�veres aos seus p�s. Havia um homem branco, bra�os desengon�ados e pernas abertas como os membros de uma marionete quebrada. N�o havia paz no rosto marcado e queimado pelo sol. Apenas a agonia refletia-se nos olhos negros bem abertos. �culos provis�rios esmagados jaziam no sangue empo�ado da cabe�a do homem. Dom Carlo inconscientemente empurrou o ombro da jaqueta esfarrapada com a ponta de uma bota polida.</p><p>� Este aqui era um verdadeiro curinga das selvas� � Sua voz diminuiu.</p><p>Dom Carlo virou o rosto. Empertigou-se, tirando for�as do conhecimento quase sagrado do que precisava fazer. Chegou bem perto do rosto s�brio do A�ougueiro.</p><p>� Essas coisas que fazemos� � ele disse. � S�o tristes, muito tristes. Mas �s vezes precisamos atacar e at� destruir o modo de vida que amamos para preserv�-lo.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Apesar de sua ousadia � <emphasis>por que estou tentando impressionar aquela mulher esfarrapada?</emphasis> �, Jack movia-se pelos t�neis no seu tempo. A longa jornada de volta ao parque fez com que o andar dif�cil e uma dor consider�vel voltassem. Sempre que ouvia um ru�do, congelava. A malhada mostrou paci�ncia not�vel. Seguia mais ou menos 15 metros adiante e voltava se tudo estivesse limpo. Jack desejava desesperadamente poder falar com ela.</p><p>Naquele momento, os sons n�o eram imagin�rios. Ficavam cada vez mais altos. Jack come�ou a ouvir gritos inintelig�veis. Pulava a cada tiro ou explos�o. Desligou a lanterna, pois temia que algu�m visse a luz. A malhada parou a alguns metros de dist�ncia. Jack esfregou sujeira no rosto para evitar os reflexos.</p><p>Botas se arrastavam contra o ch�o de concreto bem � sua frente. Ele come�ou a recuar e correu na dire��o de um dos ca�adores, que ficou t�o surpreso quanto ele.</p><p>� Que diabos! Joey! Joey, peguei um!</p><p>O homem de capacete com luz na testa arremessou a coronha da arma na cabe�a de Jack.</p><p>� Onde ele est�, Sly?</p><p>A coronha do rifle apenas esfolou o cr�nio de Jack. Ele conseguiu correr para fora da luz na dire��o de uma passagem aparentemente sem sa�da. Jack tentou moldar-se � parede e desejou poder se transformar em algo �til, como concreto ou sujeira. Quando o pensamento cruzou sua mente, reconheceu as agulhadas, o que significava que ele estava ficando escamoso. Jack tentou impedir, reduzindo a respira��o e esfor�ando-se para controlar-se. Era tudo que ele precisava agora. <emphasis>Onde est� a malhada?</emphasis>, ele pensou. A N�mada vai me <emphasis>matar</emphasis> se aquela gata se machucar.</p><p>� Est� aqui embaixo, Joey. N�o tem pra onde ir. � A voz soava como se tivesse a cent�metros de dist�ncia.</p><p>� Jogue uma granada e d� o fora. A gente precisa fechar a base deles.</p><p>� Hum, Joey, vem c�.</p><p>� Sly, voc� t� doido, cara. Saia da�.</p><p>O som do metal batendo na pedra. Jack viu o cintilar da granada antes de a adrenalina apagar seu c�rebro. <emphasis>Merde</emphasis>, foi seu �ltimo pensamento consciente.</p><p>O rugido explosivo foi acompanhado pela queda de algumas pedras, mas n�o havia muitas gambiarras ali. O teto aguentou.</p><p>� V� ver, Sly.</p><p>� Est� bem, Joey. Obrigado. � Sly era conhecido por ser quase t�o maluco quanto o Pequeno Renaldo.</p><p><emphasis>Por que eu?</emphasis>, Joey se perguntava.</p><p>� N�o restou <emphasis>nada</emphasis>. S� uns farrapos e um t�nis. Na mosca.</p><p>� Ent�o vamos. Temos um longo caminho pela frente.</p><p>Nenhum dos homens percebeu que a malhada se esgueirou sobre uma pedra que se projetava do muro pr�ximo ao teto. A gata desceu aos pulos e farejou as roupas rasgadas e ensanguentadas. Mandou a cena para N�mada e partiu para encontr�-la.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>N�mada ficou quieta, recostada � parede do fundo do desvio da 86th Street. Acariciou a malhada e fez sua melhor imita��o de senhora inofensiva. O gato preto alertou que os mafiosos estavam a caminho, mas j� estavam atr�s dela quando tentou recuar. Muitos para combater, ent�o ela agiu passivamente. Naquele instante, olhava silenciosa para a bagun�a que tinham feito com sua �casa�. Seu �nico guarda estava de olho em Dom Carlo.</p><p>� De alguma forma, eles devem ter escapado � desculpou-se o A�ougueiro.</p><p>� Eu os quero � retrucou Dom Carlo. Ele observava a grande pintura de veludo em sua moldura barata de madeira, um canto rasgado: uma manada de le�es perseguia zebras na savana. � Eles <emphasis>estiveram</emphasis> aqui � ele comentou. � Selvagens.</p><p>� Dom Carlo, senhor, eu� � Joey come�ou a falar.</p><p>� O qu�?</p><p>� � Maria, Dom Carlo. Encontrei com ela vagando aqui embaixo. � Joey escoltou Rosemary at� o pai. Ela n�o parecia v�-lo ou registrar qualquer outra coisa. Seu rosto estava sem express�o, quase pac�fico. Rosemary era uma boneca de pano d�cil, perdida em algum lugar nos t�neis.</p><p>Dom Carlo olhou para ela espantado e, em seguida, preocupado.</p><p>� Maria, o que aconteceu, <emphasis>mia</emphasis>? Joey, que aconteceu com ela?</p><p>� N�o sei, Dom Carlo. Ela estava assim quando encontrei com ela.</p><p>N�mada ergueu os olhos sob seus cabelos desgrenhados.</p><p>� Rosemary, voc� n�o poderia ficar fora <emphasis>disso</emphasis> tamb�m, n�? Assistentes sociais� Muito intrometidos. � N�mada falou num sussurro. O guarda virou-se quando ouviu o murm�rio, mas sacudiu a cabe�a e voltou a aten��o para o agito.</p><p>� Cuide dela para mim, Joey, at� eu terminar com isso. � Virando-se para o A�ougueiro, Dom Carlo disse: � A velha sabe de alguma coisa?</p><p>� � o que vamos descobrir. � A luz refletiu a l�mina do estilete do A�ougueiro quando ele partiu para cima de N�mada. Ent�o parou e ouviu com aten��o.</p><p>Todos no t�nel ouviam. O estrondo, que de in�cio parecia apenas outro trem a dist�ncia, ficava muito alto, muito r�pido. Gritos vieram do t�nel oeste, foi um grito de dor quando o vag�o de metr� surgiu da escurid�o, viajando onde nenhum vag�o poderia estar, sem nenhum terceiro trilho, em vias arruinadas. O carro reluzia com uma fosforesc�ncia branca, como um fantasma. No sinal de rota lia-se CC LOCAL. Parou no meio da reuni�o. Os desenhos espalhafatosos nas suas laterais mudavam com tanta rapidez que era imposs�vel concentrar-se neles.</p><p>� C.C.! � Rosemary, que estava parada ao lado de Joey, livrou-se dele e correu para o vag�o-fantasma. Ela estendeu os bra�os como se quisesse abra�ar a coisa, mas quando tocou a lateral, esta se retraiu. Ent�o Rosemary estendeu a m�o para tocar aquilo que n�o era metal. � C.C.?</p><p>As cores irradiaram do ponto onde ela tocou o vag�o, e ent�o desapareceram. O carro tornou-se preto e quase desapareceu dos olhos dos observadores. Palavras apareciam como antes: letras de can��es que C.C. havia escrito e apenas sua melhor amiga, Rosemary, tinha ouvido. Os observadores ficaram parados, espantados demais para se mover.</p><empty-line/><p><emphasis>Voc� pode cantar a dor</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Voc� pode cantar a tristeza</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Mas nada trar� um novo amanh�</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Ou mandar� o ontem embora</emphasis></p><p>As imagens apareceram na lateral do vag�o como se fossem projetadas sobre ele. A primeira cena foi de um ataque, um estupro numa esta��o de trem. Um leito de hospital com a imagem de Rosemary ao lado dele. Algu�m em camisola hospitalar descia as escadas de inc�ndio.</p><p>� Foi assim que voc� saiu do hospital, C.C. Por que fugiu? � Rosemary olhava para cima e falava com o vag�o como se ele fosse um amigo.</p><p>A pr�xima cena mostrou outra esta��o de metr�, outro ataque, mas a pessoa de camisola agora era testemunha. Tentou impedir o ataque e foi empurrada de lado, caindo nos trilhos. As cores da dor e da f�ria. O lixo e praticamente tudo que n�o estava preso na plataforma desocupada � m�quinas de venda autom�tica, jornais descartados, um rato morto, <emphasis>tudo</emphasis> � foi sugado para os trilhos como se puxados para o cora��o voraz de um buraco negro. Um trem com seis vag�es freava na esta��o. De repente, outro vag�o juntou-se a ele. O agressor, fugindo, entrou no novo carro e... a cena ficou rubra, como se sangue lavasse o vag�o-fantasma. Mais esta��es de metr�, mais vermelho. Outro agressor com jaqueta de couro, uma senhora.</p><p>� Lumiado? � Rosemary deu um passo para tr�s com a vis�o de seu noivo no meio de um assalto. � <emphasis>Lumiado?</emphasis></p><p>� Lombardo! � Dom Carlo ficou l�vido ao ver seu futuro genro entrar no vag�o e ser massacrado. � Joey, leve Maria para longe desta� coisa. Ricardo, onde est� a bazuca? Voc� vai ter sua chance agora. Frederico, leve a velha para o lado do carro. Quero todos destru�dos. Agora!</p><p>Rosemary debatia-se enquanto ele a arrastava para fora do lugar.</p><p>� Cristo � ele disse, n�o para ela, nem para ningu�m em particular. � Como costumava ser nos vilarejos. Jesus.</p><p>N�mada foi em sil�ncio, segurando a gata malhada apertada em seu colo.</p><p>Ricardo mirou cuidadosamente a bazuca. N�mada se endireitou.</p><p>Com 18 quilos de f�ria, o gato preto selvagem atingiu Ricardo bem nas costas. Ele caiu para a frente, o cano virou-se para cima e o foguete atingiu em cheio o teto. Explodiu numa chuva de centelhas vermelhas e douradas.</p><p>Rosemary afastou-se de Joey e correu para o vag�o.</p><p>A �gua come�ou a jorrar no t�nel. Os blocos de concreto rachados come�aram a se separar em seus rejuntes selados, despejando ainda mais �gua.</p><p>� Ricardo, seu idiota, voc� abriu um buraco embaixo do lago do Central Park! � Frederico, o A�ougueiro, gritou para algu�m que n�o estava mais interessado. Os mafiosos espalharam-se nos t�neis numa confus�o.</p><p>� Entre no vag�o. Vamos! � Rosemary agarrou N�mada.</p><p>� Maria, estou chegando. Espere. � Dom Carlo lutava contra a enxurrada crescente para salvar sua �nica filha.</p><p>� Papa, eu vou com a C.C.</p><p>� N�o! N�o pode. Isso a� � amaldi�oado. � Dom Carlo tentou seguir adiante, mas percebeu que sua perna estava presa. Puxou com as duas m�os dentro da �gua fria num esfor�o para se livrar e sentiu uma pele escamosa. Olhou para baixo e viu uma fileira de dentes de marfim. Os olhos implac�veis do r�ptil voltaram-se para tr�s, olhando para ele.</p><p>Rosemary havia colocado todos a bordo, at� mesmo o gato preto. O vag�o come�ou a se mover de volta para o t�nel oeste.</p><p>� Espere, Jack ficou para tr�s. N�o o deixe. � N�mada tentou abrir as portas. Rosemary agarrou seus ombros.</p><p>� Quem � Jack?</p><p>� Meu amigo.</p><p>� N�o podemos voltar � disse Rosemary. � Sinto muito.</p><p>N�mada sentou-se no �ltimo banco, novamente acompanhada pelos dois gatos, e ficou olhando para tr�s, a �gua correndo pelo t�nel atr�s deles, enquanto se moviam para um terreno mais alto.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Quando o vag�o de metr� escalou a rampa da 86th Street, as bordas de �gua escura os seguiam, lambendo as rodas flangeadas de C.C. No fim, ela alcan�ou uma eleva��o no t�nel, onde a mar� atr�s dela deixou de segui-la. C.C. parou, come�ou a dar r�, travou os freios.</p><p>Os passageiros se reuniram na porta de conex�o traseira, tentando ver qualquer coisa do que tinha ficado na escurid�o.</p><p>� Deixe-nos sair, C.C. � apelou Rosemary. � Por favor.</p><p>O vag�o obediente abriu as portas traseiras com um chiado. Os quatro, dois seres humanos e dois felinos, desceram ao leito dos trilhos e ficaram � beira dessa nova praia. A malhada farejou a beira da �gua e virou-se. Ela choramingou e olhou para N�mada.</p><p>� Espere � falou a mendiga. Um sorriso desacostumado abriu-se por um momento.</p><p>Rosemary se esfor�ou, concentrada, tentando espreitar no meio da escurid�o. A �ltima coisa que ela se lembrou de ver foi seu pai tentando alcan��-la. Ent�o, apenas seus olhos. Finalmente, nada.</p><p>� L� � disse N�mada, sem rodeios.</p><p>Todos tentaram distinguir algo.</p><p>� N�o consigo ver nada � falou Rosemary.</p><p>� L�.</p><p>Naquele momento todos viram algo: uma trilha de ondas em �v� de um largo focinho, parecido com uma ponta de p�. Viram o par de olhos blindados saindo da �gua, inspecionando o grupo �s margens.</p><p>Os gatos come�aram a miar de empolga��o, a malhada pulava para l� e para c�, o preto sacudindo a cauda como um chicote peludo.</p><p>� � o Jack � N�mada falou.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ap�s um tempo, a poeira literalmente assentou, a �gua recuou, as feridas foram cuidadas, corpos enterrados, e as equipes da cidade que havia muito sofria fizeram seu melhor para limpar a bagun�a como manda o figurino. Manhattan voltou ao normal.</p><p>O fundo do lago do Central Park foi selado novamente e a bacia, cheia de novo. As buscas pelos monstros do mar (mais adequadamente, monstros do lago) foram persistentes, mas sem sucesso.</p><p>Sarah Jarvis, 68 anos, finalmente percebeu qual identidade secreta certamente deve se esconder por baixo da fachada do presidente. Em novembro de 1972, votou em George McGovern.</p><p>A sorte de Joey Manzone cresceu, ou ao menos se alterou. Ele se mudou para Connecticut e escreveu um romance sobre o Vietn�, que n�o vendeu, e um livro sobre o crime organizado, que vendeu.</p><p>Rosa-Maria Gambione mudou seu nome legalmente para Rosemary Muldoon. Concluiu a faculdade de Assist�ncia Social em Columbia e ajuda o Dr. Tachyon com a terapia de C.C. Ryder. Entrou na faculdade de Direito e est� considerando assumir os neg�cios da fam�lia.</p><p>C.C. Ryder ainda � um dos casos mais dif�ceis do doutor, mas aparentemente h� avan�os no trabalho de trazer a mente e o corpo dela � forma humana. C.C. continua a criar can��es belas e afiadas. Suas can��es foram gravadas por Patti Smith, Bruce Springsteen e outros.</p><p>�s vezes � especialmente durante o mau tempo � N�mada e os gatos preto e malhada mudam-se para o t�nel do metr� pneum�tico Alfred Beach com Jack �Esgoto� Robicheaux. Um arranjo confort�vel, mas precisou de algumas mudan�as. Jack n�o ca�a mais ratos. Um lamento comum que se ouve na sala de jantar vitoriana �: �Que � isso agora, frango <emphasis>de novo</emphasis>?�</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Interl�dio Quatro</strong></p><p>DE <strong>MEDO E DEL�RIO NO BAIRRO DOS CURINGAS</strong></p><p>Dr. Hunter S. Thompson</p><empty-line/><p>
    Rolling Stone, 23 de agosto de 1974</p><p>O dia est� raiando no Bairro dos Curingas agora. Posso ouvir o estrondo dos caminh�es de lixo embaixo da minha janela no hotel South Street aqui perto, pr�ximo das docas. � o fim da linha, para o lixo e tudo o mais, o cu da Am�rica, e estou me sentindo pr�ximo ao fim da minha linha tamb�m, ap�s uma semana atravessando as mais vis e venenosas ruas de Nova York� Quando olho para cima, uma m�o em forma de garra ergue-se sobre o peitoril, e um minuto depois � seguida por um rosto. Estou seis andares acima da rua, este � o Bairro dos Curingas, e aquele maluco idiota vem escalando a janela como se n�o fosse nada de mais. Talvez ele esteja certo: este � o Bairro dos Curingas, e a vida corre r�pida e cruel aqui. � como perambular por um campo de exterm�nio nazista durante uma <emphasis>bad trip</emphasis>; voc� n�o entende metade do que v�, mas fica apavorado da mesma forma.</p><p>A coisa que passa na minha janela tem uns dois metros e pouco, com bra�os de juntas triplas de aranha que balan�am t�o baixo que suas garras criam sulcos no ch�o de madeira maci�a, uma fei��o de Conde Dr�cula e um focinho que lembra o Lobo Mau. Quando sorri, todo esse horror abre meio metro de dentes verdes pontudos. O desgra�ado ainda cospe veneno, o que � um bom talento para se ter quando se perambula pelo Bairro dos Curingas � noite.</p><p>� Tem anfetamina a�? � ele pergunta enquanto desce da janela. Espia a garrafa de tequila no criado-mudo, agarra-a com um de seus bra�os rid�culos e d� um grande gole.</p><p>� Pare�o o tipo de homem que toma rem�dios? � respondo.</p><p>� Acho que teremos que tomar do meu, ent�o � Croyd diz e puxa um punhado de comprimidos pretos do bolso. Pega quatro e lan�a garganta abaixo com mais da Cuervo Gold�</p><p>� Imagine se Hubert Humphrey tivesse virado um curinga, pense no Hube com uma tromba enfiada no meio da cara, como uma minhoca rosa fl�cida onde deveria estar o nariz, e voc� ter� uma boa ideia de Xavier Desmond. Seu cabelo � ralo ou j� caiu, seus olhos s�o acinzentados e inchados, e seu terno, folgado. Ele est� nessa h� dez anos, e d� para perceber que est� o consumindo. Os colunistas locais o chamam de prefeito do Bairro dos Curingas e a voz dos curingas. Isso � tudo que ele conseguiu em dez anos, ele e sua Liga Antidifama��o dos Curingas, digna de pena � alguns t�tulos inventados, certo <emphasis>status</emphasis> como o curinga favorito do Tammany, convites para algumas festas bacanas no Village quando a anfitri� n�o consegue um �s de uma hora para a outra.</p><p>Ele est� na plataforma, em seu terno de tr�s pe�as, segurando a porra do chap�u com a tromba, Deus do c�u, falando sobre solidariedade dos curingas e campanhas de vota��o e policiais curingas para o Bairro, despejando seu velho lenga-lenga como se realmente significasse alguma coisa. Atr�s dele, sob uma faixa caindo aos peda�os da LADC, est� a organiza��o mais miser�vel de perdedores pat�ticos que voc� nunca gostaria de ver. Se fossem negros, seriam os escravos da vez, mas os curingas n�o encontraram um nome para eles ainda� mas encontrar�o, pode apostar sua m�scara. Os membros da LADC se mant�m fi�is �s m�scaras, como bons curingas em qualquer lugar. N�o apenas m�scaras de esqui e m�scaras domin�. Caminhe pela Bowery ou pela Chrystie Street, ou pare por um momento em frente � cl�nica de Tachyon, e voc� ver� m�scaras de algum pesadelo de uma cabe�a cheia de �cido: m�scaras de p�ssaro com penas, de caveira, caras de ratazanas de couro e capuzes de monge, e as �m�scaras <emphasis>fashion</emphasis>� personalizadas com brilho e lantejoulas que custam uns cem paus cada. As m�scaras s�o parte da cor do Bairro dos Curingas, e os turistas de Boise, Duluth e Muskogee garantem as suas comprando uma ou duas m�scaras de pl�stico para levar como lembran�a, e todo rep�rter idiota, meio cego e meio b�bado, que decide fazer outro elogio bo�al aos pobres curingas fodidos nota as m�scaras imediatamente. A aten��o est� t�o presa nas m�scaras que n�o observam os uniformes quase transparentes do Ex�rcito da Salva��o e as roupas com estampas gastas, parecidas com pijamas, que os mascarados est�o trajando, e n�o notam o qu�o <emphasis>velhas</emphasis> algumas dessas m�scaras est�o ficando, e com certeza n�o entendem os jovens curingas, aqueles de jaquetas de couro e cal�as Levi�s que n�o usam nenhuma m�scara.</p><p>� � como eu sou � uma garota com um rosto que parecia um pote de cus esmagados me disse naquela tarde do lado de fora de uma repugnante casa porn� do Bairro dos Curingas. � T� me fodendo se os limpos gostam disso ou n�o. Tenho que usar uma m�scara pra alguma vagabunda limpa do Queens n�o ficar com est�mago embrulhado quando olhar pra mim? Quero que se foda!</p><p>Talvez um ter�o da multid�o ouvindo Xavier Desmond esteja usando m�scaras. Talvez menos. Sempre que ele para a fim de esperar aplausos, as pessoas de m�scaras batem as m�os, mas pode-se dizer que � um esfor�o, mesmo para eles. O resto deles est� apenas ouvindo, esperando, e tem olhos t�o feios quanto suas deformidades. Um bando de jovens malvados est� l� fora, e um monte deles est� usando cores de gangues com nomes como PR�NCIPES DO DEM�NIO e DEGENERADOS ASSASSINOS e LOBISOMENS. Estou em p�, meio de lado, imaginando se o Tach vai aparecer conforme anunciado, e n�o vejo quem come�a, mas de repente Desmond se cala, bem no meio de uma declara��o tediosa sobre como ases, curingas e limpos s�o todos filhos de Deus sob sua pele, e quando olho para tr�s, est�o vaiando e jogando amendoins, arremessando amendoins salgados nele ainda com casca, lan�ando-os direto na cabe�a e no peito e na maldita tromba, atirando-os dentro do chap�u, e Desmond fica apenas l�, em p�, espantado. Ele devia ser a voz desse povo, ele leu isso nos jornais <emphasis>Daily News</emphasis> e <emphasis>Grito do Bairro dos Curingas</emphasis>, e o velho coitado n�o tem a menor bosta de ideia sobre o que deu errado�</p><p>� � pouco depois da meia-noite quando saio do Freakers para mijar despreocupadamente na sarjeta, percebendo que � uma sa�da melhor do que o banheiro masculino, e as chances de um policial passar pelo Bairro dos Curingas �quela hora da noite s�o t�o remotas que chegam a ser ris�veis. A luz do poste est� estourada e por um momento acho que � Wilt Chamberlain quem est� em p� l�, mas ent�o chega mais perto e eu percebo os bra�os, as garras e o focinho. Pele como marfim velho. Pergunto qual � o problema, e ele me pergunta se n�o fui eu quem escreveu o livro sobre os Angels, e meia hora depois estamos sentados num compartimento nos fundos de um bar que n�o fechava na Broome Street, enquanto a gar�onete serve gal�es de caf� preto para ele. Ela tem longos cabelos louros e pernas bonitas, e em seu uniforme rosa est� escrito <emphasis>Sally</emphasis> na altura do peito, e � bom olhar para ela; at� notar seu rosto. Descubro que baixo os olhos para o meu prato sempre que ela se aproxima, o que me faz ficar enojado, triste e puto. O Focinho est� dizendo algo sobre como ele nunca aprendeu �lgebra, e n�o h� nada de errado comigo que cerca de quatro dedos de uma dose de rem�dio n�o curaria e, ap�s eu dizer aquilo, o Focinho me mostrou seus dentes e mencionou que, embora haja uma escassez definitiva de comprimidos eletrizantes por esses dias, por acaso ele sabe onde pode colocar as m�os em algumas�</p><p>� � Estamos falando de <emphasis>feridas</emphasis> aqui, estamos falando de feridas reais, venenosas, profundas e sangrando, do tipo que n�o podemos tratar com um maldito Band-Aid, e isso � tudo que Desmond conseguiu na tromba, apenas um monte de Band-Aids � o an�o me disse ap�s me dar o aperto de m�o dos Irm�os Revolucion�rios da Droga, ou qualquer que fosse aquela porra maldita. � medida que os curingas v�o embora, ele conseguia uma aten��o respeit�vel � havia an�es muito antes do v�rus carta selvagem �, mas ele ainda est� bem puto com a situa��o.</p><p>� Ele t� segurando esse chap�u na tromba h� dez anos, e tudo o que acontece � que os limpos caguem dentro dele. Bem, isso <emphasis>acabou</emphasis>. N�o pedimos mais, <emphasis>dizemos</emphasis> a eles, a CSJ est� <emphasis>dizendo</emphasis> a eles, e vamos enfiar isso goela abaixo se precisarmos. � A CSJ � a Curingas por uma Sociedade Justa, e tem tanto em comum com a LADC como uma piranha tem com um daqueles peixes dourados brancos gigantes e com olhos saltados que vemos bamboleando em aqu�rios decorativos na sala de espera dos consult�rios de dentista. A CSJ n�o tem Capit�o Tacky ou Jimmy Roosevelt ou Reverendo Ralph Abernathy para ajudar em sua diretoria � de fato, n�o tem uma diretoria, n�o vende filia��es a cidad�os preocupados nem a ases compadecidos. O Hube se sentiria desconfort�vel demais numa reuni�o da CSJ, tivesse ele uma tromba na cara ou n�o�</p><p>� mesmo �s quatro da manh�, o Village n�o � o Bairro dos Curingas, e isso � parte do problema, mas a maior parte � apenas porque Croyd est� ligado e maluco com as anfetaminas do caralho e, pelo que posso dizer, n�o dormiu por uma semana. Em algum lugar do Village est� o rapaz que come�amos a procurar, um �s cafet�o com metade do sangue negro que era conhecido por ter as mulheres mais maravilhosas da cidade, mas n�o conseguimos encontr�-lo, e Croyd continua insistindo que as ruas todas est�o mudando, como se fossem vivas e trai�oeiras e estivessem prontas para peg�-lo. Os carros diminuem quando veem Croyd gingando cal�ada abaixo com aqueles passos compridos de pernas de aranha com juntas triplas, e aceleram novamente quando ele olha para eles e resmunga. Estamos em frente de um emp�rio quando ele esquece tudo sobre o cafet�o que dev�amos encontrar e resolve que est� com sede. Enrola as garras em torno da porta corredi�a de a�o, d� um pequeno grunhido, e logo <emphasis>arranca</emphasis> a coisa toda da frente de tijolos expostos da loja, e a usa para estourar a vitrine� no meio do caminho at� a caixa de cerveja mexicana, ouvimos sirenes. Croyd abre seu focinho e cospe na porta, e a merda do veneno atinge o vidro e come�a a queimar tudo de imediato.</p><p>� Est�o atr�s de mim de novo � ele diz numa voz cheia de maldi��o, �dio, paranoia e raiva de viciado em anfetamina. � Eles todos est�o atr�s de mim. � E ent�o olhou para mim e � o que basta, sei que estou ferrado. � Voc� trouxe eles aqui � ele diz, e eu digo a ele que n�o, que gosto dele, alguns dos meus malditos melhores amigos s�o curingas, e os girosc�pios vermelhos e azuis est�o � frente quando ele pula, me agarra, e <emphasis>berra</emphasis>: � Eu n�o sou um curinga, seu <emphasis>merda</emphasis>, sou um maldito �s � e me joga pela vitrine, a <emphasis>outra</emphasis> vitrine, aquela cujo vidro ainda estava intacto. Mas n�o por muito tempo� enquanto estou deitado na sarjeta, sangrando, ele bate em retirada, direto da porta frontal com o engradado com seis garrafas de Dos Equis sob o bra�o, e os policiais deram um par de rajadas na dire��o dele, mas ele apenas ri da pol�cia e come�a a escalar� Suas garras deixam buracos profundos nos tijolos. Quando ele alcan�a o telhado, uiva para a lua, abre o z�per da cal�a e mija sobre todos n�s antes de desaparecer�</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Fios</strong></p><p>Stephen Leigh</p><empty-line/><empty-line/><p>A morte de Andrea Whitman foi totalmente culpa do Titereiro. Sem seus poderes, o desejo obscuro que um garoto retardado de 14 anos sentiu por uma vizinha mais nova nunca teria se deflagrado numa f�ria branca e incandescente. Sozinho, Roger Pellman nunca teria atra�do Andrea para o bosque atr�s da Escola do Sagrado Cora��o nos arredores de Cincinnati e rasgado as roupas da garota apavorada. Nunca teria empurrado aquela estranha rigidez para dentro de Andrea at� sentir um jorrar poderoso, relaxante. Nunca teria olhado para a crian�a e para a goteira de sangue escuro entre suas coxas e sentido um nojo incontrol�vel que o fez agarrar a grande rocha plana ao lado deles. Nunca teria usado aquela pedra para surrar a cabe�a loura de Andrea, transformando-a numa massa irreconhec�vel de carne despeda�ada e ossos partidos. Nunca teria ido para casa com o sangue da garota sobre seu corpo nu.</p><p>Roger Pellman n�o teria feito nada disso se o Titereiro n�o estivesse se escondendo nos recessos da mente avariada do pobre Roger, alimentando-se das emo��es que ali encontrou, manipulando o garoto e amplificando a febre adolescente que destru�a seu corpo. A mente de Roger era fraca, male�vel e aberta; o estupro que o Titereiro praticava nela n�o era menos brutal do que o ato de Roger contra Andrea.</p><p>O Titereiro tinha 11 anos. Odiava Andrea, odiava-a com a raiva horr�vel de uma crian�a mimada, odiava-a por t�-lo tra�do e humilhado. O Titereiro era a fantasia de vingan�a de um garoto infectado pelo v�rus carta selvagem, um garoto que tinha cometido o erro de confessar para Andrea sua afei��o por ela. Talvez ele tivesse dito para a garota mais velha que um dia pudessem se casar. Os olhos de Andrea se arregalaram e ela fugiu dele, dando risadinhas. Ele come�ou a ouvir os sussurros zombeteiros no dia seguinte na escola e soube, enquanto o rubor lhe queimava as bochechas, que ela havia falado para todos os amigos. Falado para todo mundo.</p><p>Quando Roger Pellman tirou a virgindade de Andrea, o Titereiro sentiu a tontura enfraquecedora daquele calor. Estremeceu com o orgasmo de Roger; quando o garoto golpeou com a pedra o rosto lacrimoso da garota, quando ouviu o estalar abafado dos ossos, o Titereiro teve um sobressalto. Cambaleou com o prazer que corria por dentro dele.</p><p>Seguro em seu quarto, a quatrocentos metros de dist�ncia.</p><p>Sua rea��o incontrol�vel �quele primeiro assassinato o assustou ao mesmo tempo em que o atraiu. Pelos meses seguintes, desacelerou o uso daquele poder, com medo de perder o controle de novo com tanto entusiasmo. Mas, como em todas as coisas proibidas, a compuls�o o coagiu. Nos cinco anos que seguiram, por diversos motivos, o Titereiro emergiu e matou mais sete vezes.</p><p>Ele imaginava aquele poder como uma entidade separada dele mesmo. �s escondidas, ele era o Titereiro � um emaranhado de fios pendendo de seus dedos invis�veis, sua cole��o de marionetes grotescas dando cambalhotas nas pontas.</p><p>TEDDY, JIMMY AINDA NO P�REO</p><empty-line/><p>
    HARTMANN, JACKSON, UDALL ESPERAM COMPROMISSO</p><p><emphasis>Daily News</emphasis> de Nova York, 14 de julho de 1976</p><p>HARTMANN PROMETE BATALHA EM CONVEN��O POR QUEST�O DOS DIREITOS DOS CURINGAS NA PLATAFORMA</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 14 de julho de 1976</p><p>O senador Gregg Hartmann saiu do elevador no hall do Aces High. Sua comitiva enfileirou-se no restaurante atr�s dele: dois homens do Servi�o Secreto, seus assistentes John Werthen e Amy Sorenson e quatro rep�rteres cujos nomes ele cuidou de esquecer no caminho at� l� em cima. Foi uma viagem de elevador lotada. Os dois homens de �culos pretos resmungaram quando Gregg insistiu que eles poderiam fazer o trajeto todos juntos.</p><p>Hiram Worchester estava l� para receber o grupo. Hiram era uma vis�o impressionante em si, um homem de circunfer�ncia impressionante que se movia com leveza e agilidade surpreendentes. Caminhava facilmente a passos largos pela �rea acarpetada da recep��o, sua m�o estendida e um sorriso furtivo dentro da barba cheia. A luz do sol poente derramava-se pelas janelas grandes do restaurante e reluzia de sua cabe�a calva.</p><p>� Senador � disse ele, jovial. � Que bom rev�-lo.</p><p>� Tamb�m acho, Hiram. � Ent�o Gregg sorriu melancolicamente, balan�ando a cabe�a para a turma atr�s dele. � Acredito que conhe�a John e Amy. O resto desse zool�gico ter� que se apresentar. Parecem ser empregados permanentes a partir de agora. � Os rep�rteres riram, os guarda-costas permitiram-se sorrisos pequenos e breves.</p><p>Hiram for�ou um sorriso.</p><p>� Temo que seja o pre�o que se paga por ser candidato, senador. Mas o senhor parece muito bem, como sempre. O corte desse terno est� perfeito.</p><p>O homem imenso deu um passo para tr�s, afastando-se de Gregg, e olhou para ele de cima a baixo, avaliando-o. Ent�o, aproximou-se e baixou sua voz de forma conspirat�ria.</p><p>� Voc� deveria dar a Tachyon umas dicas com rela��o a trajes. Realmente, o que o bom doutor tem vestido aqui � noite� � Os olhos amendoados rolaram para cima com pavor fingido, e ent�o Hiram gargalhou. � Mas voc� n�o precisa me ouvir tagarelando, sua mesa est� pronta.</p><p>� Pelo visto, meus convidados j� chegaram.</p><p>Essa fala retorceu a boca de Hiram, deixando seu rosto carrancudo.</p><p>� Sim. A mulher est� bem, mesmo que beba demais pro meu gosto, mas se o an�o n�o estivesse aqui como seu convidado, eu o teria expulsado. Nem tanto pela <emphasis>cena</emphasis> que ele criou, mas � extremamente rude com os ajudantes.</p><p>� Vou fazer com que ele se comporte, Hiram.</p><p>Gregg balan�ou a cabe�a, correndo os dedos pelos cabelos louros acinzentados. Gregg Hartmann era um homem de apar�ncia simples e med�ocre. N�o era um dos pol�ticos bonitos e bem-vestidos que pareciam ser a nova safra dos anos 1970, nem era do outro tipo, os rechonchudos e convencidos das antigas. Hiram conhecia Gregg como uma pessoa amig�vel, objetiva, algu�m que cuidava verdadeiramente dos eleitores e de seus problemas. Como presidente do CRISE-A, tinha demonstrado compaix�o por aqueles afetados pelo v�rus carta selvagem. Sob a lideran�a do senador, diversas leis restritivas relacionadas aos infectados pelo v�rus foram atenuadas, riscadas dos anais ou ignoradas de maneira prudente. A Lei de Controle de Poderes Ex�ticos e o Recrutamento Especial ainda estavam legalmente em vigor, mas o senador Hartmann proibiu qualquer de seus agentes de execut�-los. Hiram frequentemente admirava-se com o tratamento h�bil da rela��o dif�cil entre o p�blico e os curingas. �Amigo do Bairro dos Curingas� era como a <emphasis>Time</emphasis> o chamou num artigo (acompanhado por uma fotografia de Gregg apertando a m�o de Randall, o le�o de ch�cara no Funhouse � a m�o de Randall era uma garra de inseto, e no centro da palma havia um agrupamento de olhos �midos e feios). Para Hiram, o senador era aquele raro Bom Homem, algo anormal entre os pol�ticos.</p><p>Gregg suspirou, e Hiram viu o profundo cansa�o por tr�s da fachada de boa temperan�a do senador.</p><p>� Como vai a conven��o, senador? � ele perguntou. � Que chances tem a pauta dos Direitos dos Curingas?</p><p>� Estou batalhando por ela com todas as minhas for�as � respondeu Gregg e olhou para tr�s, para os rep�rteres, que observavam a conversa com interesse genu�no. � Descobriremos nos pr�ximos dias, quando tivermos o voto dos delegados.</p><p>Hiram percebeu a resigna��o nos olhos de Hartmann, que deu a ele a informa��o de que precisava � fracassaria, como todo o resto.</p><p>� Senador � falou Hiram �, quando a conven��o acabar, espero v�-lo novamente por aqui. Prepararei algo especial apenas para voc�, para que saiba como apreciamos seu trabalho.</p><p>Gregg deu um tapinha leve nas costas de Hiram.</p><p>� Com uma condi��o � retrucou ele. � Voc� tem que me garantir que posso ter uma mesa de canto. S� para mim. � O senador riu baixo. Hiram devolveu um sorriso for�ado.</p><p>� � sua. Agora, para hoje � noite, recomendaria o fil� ao vinho tinto... est� muito suave. Os aspargos est�o extremamente frescos e eu mesmo fiz o molho. De sobremesa, voc� precisa provar a mousse de chocolate branco.</p><p>As portas do elevador abriram-se atr�s deles. Os homens do Servi�o Secreto lan�aram um olhar cauteloso para as duas mulheres que sa�ram. Gregg balan�ou a cabe�a e apertou novamente a m�o de Hiram.</p><p>� Voc� precisa cuidar dos outros clientes, meu amigo. Me ligue quando essa loucura acabar.</p><p>� Voc� vai precisar de um <emphasis>chef</emphasis> para a Casa Branca tamb�m.</p><p>Gregg riu com vontade daquilo.</p><p>� Vai precisar falar com Carter ou Kennedy sobre isso, Hiram. Sou apenas um dos azar�es nesta campanha.</p><p>� Ent�o est�o ignorando o melhor � respondeu Hiram e se retirou a passos largos.</p><p>O Aces High ocupava a torre de observa��o do Empire State Building. Das janelas imensas, os comensais podiam ter uma vista da ilha de Manhattan. O sol tocava o horizonte al�m do porto da cidade; a c�pula dourada do Empire State lan�ava reflexos na sala de jantar. No p�r do sol verde e dourado, n�o era dif�cil encontrar o Dr. Tachyon sentado em sua mesa habitual com uma mulher que Gregg n�o reconheceu. Hiram estava certo, Gregg percebeu imediatamente � Tachyon vestia um palet� de noite escarlate flamejante adornado com um colarinho de seda verde-esmeralda. Lantejoulas p�rpuras tra�avam padr�es grossos nas mangas e nos ombros; ainda bem que as cal�as estavam escondidas, embora uma faixa de laranja iridescente pudesse ser vista sob o palet�. Gregg acenou, Tachyon cumprimentou com a cabe�a.</p><p>� John, por favor, leve nossos convidados para a mesa e fa�a as apresenta��es por mim. Estarei l� num segundo. Amy, poderia vir comigo? � Gregg costurou seu caminho pelas mesas.</p><p>O cabelo de Tachyon, na altura dos ombros, era do mesmo vermelho improv�vel de seu palet�. Correu uma m�o delicada pelos cachos encaracolados quando se levantou para cumprimentar Gregg.</p><p>� Senador Hartmann � ele disse. � Gostaria de lhe apresentar Angela Fascetti. Angela, este � o senador Gregg Hartmann e sua assistente, Amy Sorenson; o senador � o homem respons�vel por grande parte do financiamento da minha cl�nica.</p><p>Ap�s algumas mesuras, Amy pediu licen�a. Gregg ficou aliviado quando a companhia de Tachyon entendeu a dica sem qualquer sugest�o de Amy e deixou a mesa com ela. Gregg esperou at� as duas mulheres estarem a algumas mesas de dist�ncia e virou-se para Tachyon.</p><p>� Pensei que voc� gostaria de saber que confirmamos o agente infiltrado em sua cl�nica, doutor. Suas suspeitas estavam corretas.</p><p>Tachyon franziu o cenho, linhas profundas sulcaram sua testa.</p><p>� KGB?</p><p>� Provavelmente � Gregg respondeu. � Mas, pelo que sabemos, � relativamente inofensivo.</p><p>� Ainda o quero fora de l�, senador � Tachyon insistiu educadamente. Juntou a palma das m�os diante do rosto e, quando olhou para Gregg, seus olhos lilases estavam cheios de uma dor antiga. � Tive dificuldades o bastante com seu governo e com a antiga ca�a �s bruxas. N�o quero passar por outra. Sem ofensas, senador, voc� tem sido um bom homem para se trabalhar e muito �til para mim, mas gostaria de manter a cl�nica totalmente longe da pol�tica. Meu desejo � o de ajudar os curingas, nada mais.</p><p>Gregg conseguiu apenas concordar com a cabe�a. Resistiu a um impulso de lembrar o doutor de que a pol�tica que ele dizia querer evitar tamb�m pagara algumas das contas da cl�nica. Sua voz estava carregada de simpatia.</p><p>� Este � o <emphasis>meu</emphasis> interesse tamb�m, doutor. Mas se simplesmente despedirmos o homem, a KGB ter� um novo infiltrado no lugar dele dentro de poucos meses. Existe um novo �s trabalhando conosco. Falarei com ele.</p><p>� Fa�a o que quiser, senador. Seus m�todos n�o me interessam, desde que a cl�nica permane�a intacta.</p><p>� Cuidarei para que fique. � Do outro lado do sal�o, Gregg viu Amy e Angela seguirem na dire��o deles.</p><p>� Voc� est� aqui para encontrar Tom Miller? � Tachyon perguntou, soerguendo a sobrancelha. Ele acenou com a cabe�a levemente na dire��o da mesa de Gregg, onde John estava fazendo as apresenta��es.</p><p>� O an�o? Sim. Ele�</p><p>� Eu o conhe�o, senador. Suspeito que seja respons�vel por muitas das mortes e pela viol�ncia no Bairro dos Curingas nos �ltimos meses. � um homem amargo e perigoso, senador.</p><p>� Exatamente por isso quero fre�-lo.</p><p>� Boa sorte � Tachyon retrucou secamente.</p><p>CSJ PROMETE VIOL�NCIA SE PAUTA FOR DERRUBADA</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 14 de julho de 1976</p><p>Sondra Falin sentiu emo��es mistas quando Gregg Hartmann se aproximou da mesa. Ela sabia que enfrentaria essa dificuldade naquela noite e, talvez, tivesse bebido mais do que deveria. O �lcool queimava em seu est�mago. Tom Miller � �Gimli�, como ele preferia ser chamado na CSJ � estava agitado ao seu lado e ela estava com uma m�o tr�mula pousada nos m�sculos grossos de seu antebra�o.</p><p>� Tira essas patas de mim � o an�o rosnou. � Voc� n�o � minha av�, Sondra.</p><p>A observa��o a atingiu mais do que teria atingido em outra situa��o. Ela conseguia apenas baixar os olhos para suas m�os, para a pele seca e com manchas senis que pendia solta sobre os ossos finos, para as articula��es inchadas e artr�ticas. <emphasis>Ele olhar� para mim e sorrir� como um estranho e eu n�o posso lhe dizer</emphasis>. As l�grimas aguilhoavam seus olhos, limpou-as bruscamente com as costas das m�os, ent�o virou o copo que estava diante dela. Era um u�sque Glenlivet que secava sua garganta.</p><p>O senador sorriu para eles. Seu sorrisinho era mais do que apenas a ferramenta profissional de um pol�tico� o rosto de Hartmann era natural e aberto, inspirava confian�a.</p><p>� Desculpem a minha grosseria em n�o vir direto para c� � ele comentou. � Gostaria de dizer que estou muito feliz que os senhores tenham concordado em se encontrar comigo hoje � noite. O senhor � Tom Miller? � Gregg disse, virando-se para a imagem barbada do an�o, sua m�o estendida.</p><p>� N�o, sou Warren Beatty e esta aqui � a Cinderela � Miller retrucou, mal-humorado. Sua voz tinha o som fanhoso do Meio-Oeste. � Mostre a ele seu sapatinho, Sondra. � O an�o levantou a cabe�a beligerante para Hartmann, sutilmente ignorando a m�o.</p><p>A maioria das pessoas teria ignorado o insulto, Sondra sabia. Teria retirado a m�o e fingido que nunca havia sido oferecida.</p><p>� Conheci o Sr. Beatty noite passada numa festa da <emphasis>Rolling Stone</emphasis> � disse o senador. Ele sorriu, sua m�o sendo o foco de aten��o em torno da mesa. � Consegui at� apertar a m�o <emphasis>dele</emphasis>.</p><p>Hartmann aguardou. Em sil�ncio, Miller resmungou. Por fim, o an�o pegou os dedos de Hartmann com aquela pegada desajeitada. Com o toque, Sondra pareceu ver o sorriso de Hartmann esfriar por um momento, como se o contato o tivesse ferido levemente. Rapidamente, soltou a m�o de Miller. Ent�o, sua compostura voltou.</p><p>� Bom encontr�-los � Hartmann falou. N�o havia tra�o de sarcasmo em sua voz, apenas uma cordialidade genu�na, um al�vio.</p><p>Sondra entendia como havia conseguido amar aquele homem. <emphasis>N�o � voc� que o ama; � apenas a S</emphasis>�cubo. Ela � <emphasis>quem Gregg conhece. Para ele, voc� � apenas uma mulher enrugada para quem a pol�tica est� em quest�o. Ele nunca saber� que a S�cubo</emphasis> � a mesma pessoa, n�o se voc� quiser mant�-lo. Tudo que ele ver� � a fantasia que <emphasis>a S�cubo produzir� para ele. � aquilo que Miller disse que temos de fazer, e voc� lhe obedecer�, n�o � mesmo?</emphasis></p><p><emphasis>N�o importa o quanto isso lhe machuque.</emphasis></p><p>Agora era sua vez de apertar a m�o de Gregg. Sentiu os dedos tremerem quando se tocaram. Gregg tamb�m percebeu, por uma leve simpatia pareceu repuxar os cantos da boca. Ainda assim, havia apenas curiosidade e interesse em seus olhos azuis acinzentados, nenhum reconhecimento al�m disso. O humor de Sondra ficou obscuro novamente. <emphasis>Est� se perguntando que coisas horr�veis afligem a senhora. Perguntando-se qual feiura se acomoda dentro de mim, que horrores eu poderia revelar se ele me conhecesse.</emphasis></p><p>Ela sinalizou, pedindo outro copo de u�sque.</p><p>Seu humor continuou a piorar durante toda a refei��o. O padr�o da conversa parecia definido. Hartmann introduzia um t�pico, e Miller respondia com sarcasmo injustificado e desd�m, que o senador, por sua vez, atenuava. Sondra ouvia a intera��o sem participar. Os outros, em torno da mesa, claro, sentiam a mesma tens�o, pois o palco permanecia aberto para os dois atores principais, com os outros inserindo suas contribui��es nos momentos corretos. O jantar, apesar da preocupa��o constante de Hiram, tinha gosto de cinzas na boca da mulher. Sondra bebeu mais, observando Gregg. Quando a mousse foi colocada de lado e a conversa ficou s�ria, Sondra estava bem b�bada. Tinha de balan�ar a cabe�a para clarear as ideias.</p><p>� � preciso que o senhor prometa que n�o haver� manifesta��es p�blicas � Hartmann estava dizendo.</p><p>� Que merda � Miller retrucou. Por um momento, Sondra pensou que ele poderia mesmo cuspir. As bochechas amareladas e cheias de cicatrizes sob a barba vermelha de Gimli se inchavam e seus olhos man�acos apertavam-se. Ent�o, ele esmurrou a mesa, tremelicando os pratos. Os guarda-costas ficaram tensos em suas cadeiras, os outros em torno da mesa pularam com o som.</p><p>� � a mesma merda que <emphasis>todos</emphasis> voc�s, pol�ticos, oferecem � o an�o rosnou. � A CSJ tem ouvido isso por anos. Seja bonzinho e role como um c�ozinho am�vel que a gente joga uns restos de comida para voc�. � a hora de entrarmos no banquete, Hartmann. Os curingas est�o <emphasis>cansados</emphasis> de sobras.</p><p>A voz de Hartmann, em contraste com a de Miller, era suave e razo�vel.</p><p>� Concordo com o senhor, Sr. Miller, Sra. Falin. � Gregg balan�ou a cabe�a para Sondra, e ela apenas conseguiu franzir a testa como resposta, sentindo o repuxar das rugas em torno da boca. � � exatamente por isso que propus que o Partido Democrata acrescentasse a pauta dos Direitos dos Curingas � plataforma presidencial. Esse � o motivo pelo qual estou tentando agarrar pelo colarinho cada �ltimo voto que eu puder. � Gregg fazia gestos largos. Em outra pessoa, seu discurso poderia ter um tom vazio, falso. Mas as palavras de Gregg estavam cheias de horas longas e cansativas que ele gastou na conven��o, e isso lhes conferia verdade. � Esse � o motivo pelo qual eu pe�o que tentem manter sua organiza��o calma. Manifesta��es, especialmente de natureza violenta, v�o voltar os delegados moderados contra voc�s. Estou pedindo para que me deem uma chance, para darem <emphasis>a voc�s mesmos</emphasis> uma chance. Abandone seu plano de marchar at� o T�mulo do Jetboy. Os senhores n�o t�m permiss�o, a pol�cia j� est� sobrecarregada com as multid�es na cidade e ir� para cima de voc�s, caso voc�s tentem.</p><p>� Ent�o, pare-os � Sondra disse. O u�sque amolecia suas palavras, e ela sacudiu a cabe�a. � Ningu�m duvida que voc� se importa. Ent�o, pare-os.</p><p>Hartmann fez uma careta.</p><p>� N�o posso. Eu j� aconselhei o prefeito a impedir essas a��es, mas ele est� irredut�vel. Marchem e estar�o pedindo confronto. N�o posso ignorar a viola��o das leis.</p><p>� Rola, cachorrinho � Miller falou, bem devagar, ent�o uivou ruidosamente, lan�ando a cabe�a para tr�s. Ao redor deles, na sala de jantar, os clientes come�aram a observ�-los. Tachyon espiava-os com raiva franca, e o rosto preocupado de Hiram surgiu das portas da cozinha. Um dos homens do Servi�o Secreto come�ou a se levantar, mas Gregg acenou para que ele se sentasse.</p><p>� Senhor Miller, por favor. Estou tentando ser honesto com os senhores. H� muito dinheiro e ajuda dispon�veis e, se persistirem em antagonizar aqueles que os controlam, v�o prejudicar apenas os senhores mesmos.</p><p>� E eu estou dizendo a <emphasis>voc�</emphasis> que a porra da �realidade� est� nas ruas do Bairro dos Curingas. V� at� l� e esfregue o nariz na merda, senador. D� uma olhada nas pobres criaturas perambulando nas ruas, aqueles para os quais o v�rus n�o foi bom o suficiente para mat�-los, aqueles que, mutilados, se arrastam nas cal�adas, os cegos, ou aqueles com duas cabe�as ou quatro bra�os. Aqueles que babam enquanto andam, aqueles que se escondem na escurid�o porque o sol os queima, aqueles para quem o m�nimo toque significa agonia � a voz de Miller se elevava, o tom era vibrante e profundo. Em volta da mesa, os queixos haviam ca�do. Os rep�rteres faziam anota��es. Sondra tamb�m conseguia senti-lo, a for�a palpitante naquela voz convincente. Viu Miller levantar-se diante de uma multid�o zombeteira no Bairro dos Curingas e, em 15 minutos, ela estava ouvindo quieta, concordando com suas palavras, balan�ando a cabe�a. Mesmo Gregg se curvou para a frente, vidrado.</p><p><emphasis>Ou�a-o, mas cuidado. A voz dele � a da serpente, hipnotizante, e quando ele o capturar, dar� o bote.</emphasis></p><p>� Essa � a sua �realidade� � rosnou Miller. � Sua maldita conven��o � apenas um teatro. E eu digo a voc� agora, senador � sua voz de repente tornou-se um grito �, a CSJ <emphasis>levar�</emphasis> nossos protestos para as ruas.</p><p>� Senhor Miller� � come�ou Gregg.</p><p>� <emphasis>Gimli!</emphasis> � gritou Miller, e sua voz saiu estridente, toda sua for�a se esva�ra, como se Miller tivesse esgotado o estoque interno. � <emphasis>A porra do meu nome � Gimli!</emphasis> � Ele estava em p�, sobre a cadeira. Em outra pessoa, a postura pareceria rid�cula, mas ningu�m conseguia rir dele. � Sou uma merda de <emphasis>an�o</emphasis>, n�o um de seus �<emphasis>senhores</emphasis>�!</p><p>Sondra puxou o bra�o de Miller. Ele deu de ombros, afastando-a.</p><p>� Me deixe em paz. Quero que eles vejam o quanto eu os <emphasis>odeio.</emphasis></p><p>� O �dio � in�til � insistiu Gregg. � Ningu�m de n�s aqui odeia o senhor. Se o senhor soubesse as horas que eu empenhei pelos curingas, todo o trabalho duro que Amy e John enfrentaram�</p><p>� <emphasis>Voc�s n�o vivem essa merda!</emphasis> � Miller berrou. Perdigotos voavam de sua boca, manchando a frente do palet� de Gregg. Todos na sala olhavam para eles agora, e os guarda-costas remexeram-se nas cadeiras. Apenas a m�o de Gregg os reteve.</p><p>� O senhor n�o consegue ver que somos seus aliados, n�o inimigos?</p><p>� Nenhum dos meus aliados teria uma cara como a sua, senador. Voc� � normal demais. Quer sentir-se como um dos curingas? Ent�o, deixe-me ajud�-lo a aprender o que � sentirem pena de voc�.</p><p>Antes que qualquer um pudesse reagir, Miller se agachou. Suas pernas grossas e poderosas o lan�aram para cima do senador. Seus dedos torceram-se como garras ao chegar o rosto de Gregg. O senador recuou com as m�os para cima. A boca de Sondra ficou aberta no in�cio de um protesto in�til.</p><p>E, de repente, o an�o caiu sobre a mesa como se uma m�o gigante tivesse o abatido no ar. A mesa curvou-se e rachou sob ele, copos e lou�as caindo como cascata ao ch�o. Miller deu um guincho alto, pat�tico, como um animal ferido quando Hiram, com a f�ria fervilhando em seu rosto vermelho, correu pelo sal�o na dire��o dele, enquanto os homens do Servi�o Secreto puxavam em v�o os bra�os de Miller para imobiliz�-lo no ch�o.</p><p>� Caramba, o merdinha � <emphasis>pesado</emphasis> � murmurou um deles.</p><p>� <emphasis>Fora do meu restaurante!</emphasis> � trovejou Hiram. Abriu caminho entre os guarda-costas e curvou-se sobre o an�o. Pegou o homem como se fosse uma pena... Gimli parecia sacudir no ar, leve, sua boca trabalhando em sil�ncio, seu rosto sangrando com diversos pequenos arranh�es. � Voc� <emphasis>nunca</emphasis> mais vai colocar os p�s aqui! � Hiram rugia, um dedo gorducho em riste diante dos olhos perplexos do an�o. Hiram come�ou a marchar na dire��o da sa�da, rebocando o an�o como se puxasse um bal�o de g�s e ralhando com ele o tempo todo. � Voc� insulta meu pessoal, comporta-se de forma abomin�vel, chega a amea�ar o senador que est� apenas tentando ajudar � a voz de Hiram diminuiu quando as portas do hall fecharam atr�s dele, enquanto Hartmann limpava as lascas de lou�a de seu palet� e sacudia sua cabe�a para os guarda-costas.</p><p>� Deixe-o ir. O homem tem direito de estar irritado� voc�s tamb�m estariam se tivessem de viver no Bairro dos Curingas.</p><p>Gregg respirou fundo e balan�ou a cabe�a para Sondra, que ficou embasbacada pelo an�o.</p><p>� Senhora Falin, eu lhe imploro� se a senhora tiver qualquer controle sobre a CSJ e o Miller, por favor, segure-os. Estou falando s�rio. Voc�s apenas arriscar�o sua pr�pria causa. De verdade. � Ele parecia mais triste que nervoso. Olhava para a destrui��o em torno dos seus p�s e suspirava. � Pobre Hiram � ele disse. � E eu havia prometido a ele.</p><p>O �lcool que havia consumido deixou Sondra zonza e lenta. Ela sacudiu a cabe�a para Gregg e percebeu que todos estavam olhando para ela, esperando que ela dissesse algo. Ela balan�ou a cabe�a grisalha e encarquilhada para eles.</p><p>� Vou tentar � foi tudo que ela conseguiu murmurar. E, em seguida: � Se me d�o licen�a. � Sondra virou-se e fugiu do sal�o, seus joelhos artr�ticos reclamando.</p><p>Ela podia sentir o olhar de Gregg sobre suas costas curvadas.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>VOTA��O DOS DELEGADOS SOBRE DIREITOS DOS CURINGAS HOJE � NOITE</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 15 de julho de 1976</p><p>CSJ PROMETE MARCHA AT� O T�MULO</p><p><emphasis>Daily News</emphasis> de Nova York, 15 de julho de 1976</p><p>A c�lula de alta press�o ca�ra sobre Nova York nos �ltimos dois dias como uma imensa fera cansada, deixando a cidade excessivamente quente e �mida. O calor era denso e muito polu�do, entrava nos pulm�es como as doses de Jack Daniels que Sondra derramava na garganta � com uma ard�ncia amarga. Ela estava diante de um pequeno ventilador empoleirado em sua c�moda, olhando para o espelho. Seu rosto afundava num jogo da velha de rugas, os cabelos secos e grisalhos estavam grudados pelo suor contra um escalpo com manchas amarronzadas, seus seios eram bolsas fl�cidas penduradas e pregadas no seu t�rax ossudo. Seu penhoar gasto estava escancarado, e a transpira��o gotejava pelas inclina��es de suas costelas. Ela odiava aquela vis�o. Em desespero, virou-se de volta para o quarto.</p><p>L� fora, na Pitt Street, o Bairro dos Curingas estava acordando totalmente na escurid�o. Da sua janela, Sondra conseguia v�-los, aqueles sobre quem Gimli falara. Havia o Brilhante, muito vis�vel com o eterno brilho da sua pele, a Cravo, um agrupamento de p�stulas brilhantes estourando em sua pele como bot�es abrindo-se lentamente, Pisca, saindo da vis�o para a escurid�o como se iluminado por uma lenta luz estrobosc�pica. Todos eles buscando pequenos al�vios. A vis�o deixou Sondra melanc�lica. Quando se recostou na parede, seu ombro esbarrou num porta-retratos barato. A figura era de uma jovem, talvez com 12 anos, vestida apenas com uma camisola rendada que escorregava sobre um ombro para revelar o incha�o estimulante de seios p�beres. A foto era claramente sexual � havia uma avidez assombrosa na express�o da menina e certa afinidade �s fei��es corro�das da idosa. Sondra esticou o bra�o para levantar o porta-retratos, solu�ando. A pintura coberta pela fotografia era mais escura que a das paredes, atestando quanto tempo ela estava ali.</p><p>Sondra pegou outra dose de Jack Daniels.</p><p>Vinte anos. Naquela �poca, o corpo de Sondra envelhecia duas vezes e meia mais r�pido. Sondra era a crian�a na foto, tirada pelo pai em 1956. Ele a estuprara um ano antes, seu corpo j� mostrando os sinais da puberdade, embora ela tenha nascido cinco anos antes, em 1951.</p><p>Passos cuidadosos soaram na escadaria do lado de fora do apartamento e pararam. Sondra franziu a testa. <emphasis>Hora de se prostituir de novo. Sondra, sua idiota, sempre deixando Miller convenc�-la. Idiota por sempre cuidar do homem que voc� deveria estar usando.</emphasis> Mesmo atrav�s da porta ela conseguia sentir o pungir fraco da ansiedade feromonal do homem, aumentada pelos seus sentimentos por ele. Ela sentiu o corpo pedir para reagir com simpatia e baixou a guarda. Fechou os olhos.</p><p><emphasis>Ao menos aproveite a sensa��o. Ao menos fique feliz que por um pequeno momento voc� ser� jovem novamente</emphasis>. Ela conseguia sentir as mudan�as r�pidas movendo-se em seu corpo, a tens�o nos m�sculos e tend�es, levando-a a uma nova forma. A espinha endireitou-se, �leos cobriram sua pele de forma a perder sua fragilidade seca. Seus seios se ergueram quando o calor sexual come�ou a pulsar em seus quadris. Ela acariciou o pesco�o e descobriu que as dobras fl�cidas desapareceram. Sondra deixou o penhoar cair de seus ombros.</p><p><emphasis>J�. T�o r�pido esta noite.</emphasis> Eles eram amantes h� seis meses, ela sabia o que encontraria quando abrisse os olhos. Sim� seu corpo era magro e jovem com uma faixa de pelos louros na jun��o das pernas, seus seios pequenos como eram na foto. Essa apari��o, essa imagem mental do seu amante. Era infantil, mas n�o inocente. <emphasis>Sempre o mesmo, sempre jovem, sempre claro, alguma vis�o do seu passado, talvez. Uma vagabunda virgem, vira-lata.</emphasis> A ponta do seu dedo esfregava um mamilo que se alongou, engrossando enquanto ela suspirava com o toque, excitada. J� havia uma umidade entre suas coxas.</p><p>Ele bateu na porta. Ela conseguia ouvir seu f�lego, um pouco r�pido demais ap�s subir tr�s lances de escada, e descobriu que seu ritmo batia com o dela. Ela j� estava perdida nele. Destrancou a porta, deslizou o trinco. Quando viu que n�o havia ningu�m com ele no corredor, abriu a porta inteira e deixou que ele observasse sua nudez. Ele usava uma m�scara � seda azul sobre os olhos e nariz, a boca fina embaixo dela erguia-se num sorriso. Conhecia-o� precisava apenas da rea��o do seu corpo.</p><p>� Gregg � disse ela, e a voz era aquela da crian�a que se tornou. � Fiquei com medo de que voc� n�o conseguisse vir hoje � noite.</p><p>Ele deslizou para dentro do quarto, fechando a porta atr�s de si. Sem dizer palavra, beijou-a longa e profundamente, sua l�ngua encontrando a dela, as m�os acariciando o flanco do corpo. Quando finalmente suspirou e afastou-se, ela deitou a cabe�a sobre o peito dele.</p><p>� Foi um pouco dif�cil fugir � sussurrou Gregg. � Esgueirar-me pelas escadas dos fundos do meu hotel como um bandido� usando esta m�scara� � Ele riu, um ru�do triste. � A vota��o durou uma eternidade. Meu Deus, mulher, achou que eu te abandonaria?</p><p>Ela sorriu diante daquilo e afastou-se dele com passo afetado. Tomando-o pelo bra�o, guiou a m�o dele entre suas pernas, suspirando quando o dedo dele entrou em seu calor.</p><p>� Estava te esperando, amor.</p><p>� S�cubo � ele suspirou. Ela riu suave, uma risadinha de crian�a.</p><p>� Venha para a cama � sussurrou ela.</p><p>Em p� ao lado do colch�o surrado, ela afrouxou a gravata do homem e desabotoou a camisa, mordendo de leve os mamilos. Ent�o, ela ajoelhou diante dele, desamarrando seus sapatos, tirando as meias antes de desafivelar o cinto e baixar suas cal�as. Ela olhou para cima, sorrindo para ele, enquanto alisava a curva ascendente do p�nis. Os olhos de Gregg estavam fechados. Ela lambeu uma vez, ele gemeu. Ele come�ou a tirar a m�scara e ela o impediu.</p><p>� N�o, fique com ela � disse, sabendo ser isso que ele queria ouvir. � Seja misterioso. � A l�ngua dela correu novamente a extens�o do p�nis e ela o enfiou na boca at� ele arfar. Empurrando-o no colch�o e derramando-se delicadamente sobre seu corpo, o desejo dele aumentava o dela, at� a mulher se perder num retorno espiralado, brilhante. Ele murmurou com o fundo da garganta e afastou-a, virou-a e abriu suas pernas, bruto. Ele investia dentro dela, golpeando, movendo-se, o brilho dos olhos por tr�s da m�scara. Seus dedos enterravam-se nas n�degas dela at� arrancar gritos. N�o era gentil, a excita��o dele era um redemoinho na mente dela, uma tempestade vertiginosa de cores, um calor sufocante que abatia os dois. Ela conseguia sentir o cl�max dele se formando; instintivamente, ela seguiu naquele jorro escarlate, seus dentes travaram quando as unhas dele se cravavam em sua carne e ele entrava nela de novo e de novo e de novo�</p><p>Ele gemeu.</p><p>Ela p�de sentir como ele se esva�a dentro dela, e continuava a se mexer embaixo dele, encontrando seu pr�prio orgasmo um pouco depois. O turbilh�o come�ou a arrefecer, as cores desbotaram. Sondra agarrou-se a essa mem�ria, acumulando energia para que pudesse manter aquela forma por mais um tempo.</p><p>Ele a olhava por detr�s da m�scara. Seu olhar viajava pelo corpo dela� as marcas em seus seios, os sulcos vermelhos, inflamados, feitos por suas unhas.</p><p>� Me desculpe � disse ele. � S�cubo, me perdoe.</p><p>Ela o derrubou ao seu lado na cama, sorrindo, pois sabia que ele queria seu sorriso, perdoando-o, pois sabia que ele precisava ser perdoado. Ela manteve aceso o pavio de excita��o nele para poder permanecer S�cubo.</p><p>� N�o esquenta � ela o tranquilizou. Curvou-se para beijar o ombro dele, o pesco�o, a orelha. � Voc� n�o fez de prop�sito.</p><p>Ela olhou em seu rosto, esticou o bra�o por tr�s da cabe�a e soltou o cord�o da m�scara. A boca de Gregg apertou-se, seus olhos reluziam com seu pedido de desculpas. <emphasis>Toque-o, sinta o fogo nele. Conforte-o.</emphasis></p><p><emphasis>Sua puta.</emphasis></p><p>Essa era a parte que Sondra desprezava, a parte que trazia lembran�as dos anos em que seus pais venderam seu corpo ao rica�o de Nova York. Ela era S�cubo, a mais conhecida e mais cara prostituta na cidade entre 1956 e 1964. Ningu�m sabia que ela estava apenas com cinco anos quando come�ou, que um curinga veio com o �s que ela tirou do ma�o de cartas selvagens. N�o, apenas queriam que, como S�cubo, ela se tornasse o objeto de suas fantasias � homem ou mulher, jovem ou velho, submisso ou dominador. Qualquer corpo ou qualquer formato: uma Pigmaleoa dos sonhos masturbat�rios. Um recept�culo. Ningu�m sabia ou se importava que a S�cubo inevitavelmente desmoronaria em Sondra, que seu corpo envelheceria t�o rapidamente, que Sondra odiava a S�cubo.</p><p>Ela jurou, quando fugiu do cativeiro de seus pais 12 anos antes, que nunca deixaria a S�cubo ser usada novamente � a S�cubo apenas daria prazer �queles que tivessem pouca chance de ter prazer de outra forma.</p><p><emphasis>Maldito Miller. Maldito an�o por me envolver nisso. Maldito por me mandar para este homem. Maldita sou eu por achar que gosto tanto de Gregg. E o mais maldito de todos, o</emphasis> v�rus que me for�a a ficar escondida dele. <emphasis>Meu Deus, aquele jantar ontem no Aces High�</emphasis></p><p>Sondra sabia que a afei��o que Hartmann afirmava ter por ela era aut�ntica, e ela odiava perceber isso. Ainda que sua preocupa��o com os curingas tamb�m fosse genu�na e seu envolvimento com a CSJ fosse um compromisso s�rio. Conhecer o governo e, especialmente, o CRISE-A era essencial. Hartmann influenciou os ases que estavam come�ando a cooperar com as autoridades ap�s muitos anos escondidos: o Sombra, o Terremoto, Estranheza, o Uivador. Por Hartmann, a CSJ conseguiu canalizar dinheiro do governo para os curingas � Sondra descobriu as menores licita��es em diversos contratos governamentais, eles conseguiram vazar informa��es para empresas de propriedade de curingas. E mais importante, isso aconteceu porque ela controlava Hartmann, assim era capaz de impedir que Miller enfim transformasse a CSJ no grupo radical violento que o an�o queria. Enquanto conseguisse atrair o senador pelas m�os de S�cubo, podia limitar a ambi��o de Gimli. No m�nimo, essa era sua esperan�a � ap�s o fiasco do Aces High, ela n�o tinha mais certeza. Gimli tinha ficado raivoso e mal-humorado no encontro daquela noite.</p><p>� Voc� est� cansado, amor � ela disse a Gregg, seguindo a linha onde seu cabelo claro se afundava num bico de vi�va.</p><p>� Voc� acaba comigo � retrucou ele. O sorriso devolvido, tentador, e ent�o a lambida dela nos l�bios dele.</p><p>� Voc� parece distra�do, � isso. Foi a conven��o? � A m�o de S�cubo deslizava pelo corpo de Gregg, sobre a barriga que a idade come�ava a amolecer. Ela acariciou o meio das coxas dele, usando as energias de S�cubo para relax�-lo, deix�-lo tranquilo. Gregg sempre estava tenso, e tamb�m havia aquela muralha em sua mente que ele nunca derrubaria, um bloqueio mental fraco que seria in�til contra a maioria dos ases que ela conhecia. Duvidava que Gregg sequer percebesse que o bloqueio estava l�, que ele tamb�m havia sido tocado, mesmo que de maneira suave, pelo v�rus.</p><p>Ela sentiu o primeiro ressurgimento de sua paix�o.</p><p>� N�o foi muito boa � ele admitiu, abra�ando-a.� O voto n�o teve chance, n�o com todos os moderados contra ele� todos eles t�m medo de um levante dos conservadores. Se Reagan conseguir bater Ford na indica��o, ent�o todo o show estar� pronto. Carter e Kennedy foram totalmente contra a pauta� nenhum dos dois quis se enrolar apoiando causas que n�o conheciam bem. Como os primeiros na corrida, o suporte deles negado foi um golpe duro. � Gregg suspirou. � N�o chegamos nem perto, S�cubo.</p><p>As palavras pareciam cobrir sua mente com gelo, e ela precisava lutar para se manter na forma de S�cubo. Naquele instante, os rumores j� teriam se espalhado pelo Bairro dos Curingas. Ele organizaria a marcha para amanh�.</p><p>� Voc� n�o pode reapresentar a pauta?</p><p>� N�o agora. � Ele alisou os seios de S�cubo, circulando as aur�olas com o dedo indicador. � S�cubo, voc� n�o sabe como ansiei para v�-la depois de tudo isso. Foi uma noite muito longa e frustrante. � Gregg virou-se para ela, que se acomodou confortavelmente no corpo dele, embora sua mente estivesse a mil.</p><p>Refletindo, ela quase deixou escapar �� se a CSJ insistir, as coisas v�o ficar bem ruins�.</p><p>A m�o dela parou de se mover nele.</p><p>� � mesmo? � ela despertou.</p><p>Mas j� era tarde demais. J� conseguia sentir o aumento da excita��o dele. As m�os dele fecharam-se nas delas.</p><p>� Sente � ele diz. A rigidez dele pulsava na coxa dela. Novamente, ela come�ou a mergulhar nele, indefesa. A concentra��o a abandonou. Ele a beijou, e sua boca queimava, ela subiu no corpo de Gregg, guiando-o para dentro dela mais uma vez. L� dentro, aprisionada, Sondra atacava S�cubo. <emphasis>Maldita, ele estava falando da CSJ</emphasis>.</p><p>Mais tarde, exausto, Gregg falou muito pouco. Foi tudo que ela conseguiu fazer para convenc�-lo a ir embora antes de sua forma se deteriorar e ela voltar a ser uma velha.</p><p>SENADOR ALERTA SOBRE CONSEQU�NCIAS, PREFEITO PROMETE A��O</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 16 de julho de 1976</p><p>CONVEN��O PODE ELEGER O AZAR�O</p><p><emphasis>Daily News</emphasis> de Nova York, 16 de julho de 1976</p><p>� MAS QUE SACO! LEVE ISSO PARA <emphasis>L�</emphasis>. SE N�O CONSEGUE ANDAR, V� AT� O CARRINHO DO GARG�NTUA. OLHE, EU SEI QUE ELE � BURRO, MAS CONSEGUE EMPURRAR A PORRA DE UM <emphasis>CARRINHO</emphasis>, PELO AMOR DE DEUS.</p><p>Gimli pressionava os curingas perambulantes da carroceria de uma picape Chevy enferrujada, balan�ando seus bra�os curtos freneticamente, seu rosto enrubescido com o esfor�o dos gritos, suor pingando de sua barba. Eles estavam reunidos no parque Roosevelt, pr�ximo � Grand Street, o sol cozinhando Nova York num c�u sem nuvens, a temperatura do in�cio da manh� j� passando dos 26 graus e caminhando para mais de 35. A sombra das poucas �rvores n�o aliviava o abafamento. Sondra mal conseguia respirar. Sentia a idade a cada passo at� se aproximar da picape e de Gimli, manchas escuras de transpira��o sob os bra�os de seu vestido de ver�o tricolor.</p><p>� Gimli? � disse ela, e sua voz era rouca e intermitente.</p><p>� N�O, IDIOTA! LEVE PARA L�, AT� ONDE EST� A CRAVO! Oi, Sondra. Est� pronta pra caminhada? Eu poderia te usar para manter o fundo do grupo organizado. Vou te dar o carrinho do Garg�ntua e os aleijados� vou te dar um lugar para seguir que fique longe das multid�es, e voc� pode manter os que est�o na frente andando. Preciso de algu�m que n�o deixe o Garg�ntua fazer nada muito idiota. Voc� est� com o trajeto? Vamos descer a Grand para a Broadway e ent�o passar pelo T�mulo em Fulton�</p><p>� Gimli � insistiu Sondra.</p><p>� <emphasis>Que foi</emphasis>, merda? � Miller p�s a m�o na cintura. Usava apenas short estampado, expondo o peito forte e as pernas e os bra�os fortes, curtos e grossos, tudo generosamente coberto com pelos enrolados castanho-avermelhados. Sua voz grave era um grunhido.</p><p>� Dizem que a pol�cia est� se reunindo perto dos port�es do parque e montando barricadas. � Sondra encarou Miller, acusadora. � Falei que ter�amos problema ao sair daqui.</p><p>� �. Merda. Foda-se, vamos de qualquer jeito.</p><p>� Eles n�o v�o deixar. Lembra o que Hartmann disse no Aces High? Lembra o que eu te disse que ele mencionou na noite passada? � A velha cruzou os bra�os ossudos sobre a frente pu�da do vestido de ver�o. � Voc� vai destruir a CSJ se entrar numa briga aqui�</p><p>� Que � que tem, Sondra? Voc� chupa o pau do cara e engole toda essa porcaria pol�tica tamb�m? � Miller riu e pulou da picape para a grama ressecada. Ao redor deles, de duzentos a trezentos curingas se arrastavam pr�ximos da entrada do parque, na Grand Street. Miller franziu o cenho para o olhar de Sondra e enterrou os dedos dos p�s descal�os na sujeira. � Tudo bem � ele comentou. � Vou dar uma olhadinha nisso, se te incomoda tanto.</p><p>No port�o de ferro forjado, eles conseguiam ver a pol�cia levantando as barricadas de madeira diante do caminho pretendido. Diversos dos curingas chegaram at� Sondra e Miller quando eles se aproximaram.</p><p>� Voc� vai adiante, Gimli? � perguntou um deles. O curinga n�o usava roupas, seu corpo era duro, coberto de cascas e seu caminhar era coxeado, claudicante, seus membros r�gidos.</p><p>� Te falo num minuto, t�, Amendoim? � respondeu Gimli. Apertou os olhos para enxergar mais longe, seus corpos lan�ando longas sombras na rua. � Cassetetes, equipamento de tropa de choque, g�s lacrimog�neo, canh�o d��gua. Esses porras est�o equipados.</p><p>� Exatamente o que queremos, Gimli � respondeu Amendoim.</p><p>� Perderemos gente. Eles v�o se machucar, talvez at� morrer. Alguns deles nem conseguem carregar porretes, voc� sabe. Alguns podem ter rea��o com o g�s lacrimog�neo � Sondra comentou.</p><p>� Alguns deles poderiam trope�ar sobre a porcaria dos pr�prios p�s tamb�m. � A voz de Gimli retumbava. Mais � frente, na rua, diversos policiais olhavam na dire��o deles, apontando. � Desde quando voc� decidiu que a revolu��o � t�o perigosa, Sondra?</p><p>� Quando voc� decidiu que t�nhamos de machucar os nossos para ter o que voc� quer?</p><p>Gimli a encarou de volta, uma m�o protegendo os olhos do sol.</p><p>� N�o � o que <emphasis>eu</emphasis> quero � falou ele lentamente. � � o justo. Voc� mesma disse isso.</p><p>Sondra fechou a boca, rugas surgiram em torno de seu queixo. Afastou para tr�s uma mecha de cabelo grisalho.</p><p>� Nunca quis que fiz�ssemos desse jeito.</p><p>� Mas n�s vamos. � Gimli respirou bem fundo e ent�o urrou para os curingas que aguardavam. � TUDO BEM. VOC�S CONHECEM A ORDEM� V�O EM FRENTE, N�O IMPORTA O QUE ACONTECER. ENCHARQUEM SEUS LEN�OS. FIQUEM NAS FILEIRAS AT� CHEGARMOS AO T�MULO. AJUDE SEU COMPANHEIRO SE ELE PRECISAR. MUITO BEM, VAMOS L�!</p><p>O poder estava na sua voz novamente. Sondra ouviu e viu a rea��o dos outros, o entusiasmo repentino, as rea��es berradas. Mesmo a velocidade de seu pr�prio f�lego aumentou ao ouvi-lo.</p><p>� Vem com a gente ou vai trepar com algu�m?</p><p>� Isso � um erro � insistia Sondra. Ela suspirava, puxando o colarinho do vestido e olhando para os outros, que a encaravam. N�o havia apoio deles, nem de Amendoim, nem do Charmoso, nem do Zona ou do Calvin, nem do Mem�ria� nenhum daqueles que �s vezes a defendiam durante as reuni�es. Sabia que, se ficasse para tr�s agora, qualquer esperan�a de impedir Miller estaria perdida. De relance, ela olhou para tr�s, na dire��o do parque, para os grupos de curingas amontoando-se e formando uma fila tosca, os rostos carregavam apreens�o, mas tamb�m estavam decididos. Sondra deu de ombros.</p><p>� Eu vou � disse ela.</p><p>� Fico <emphasis>t�o</emphasis> feliz � falou Gimli arrastado, bufando seu esc�rnio.</p><p>TR�S MORTOS E MUITOS FERIDOS NA REVOLTA DOS CURINGAS</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 17 de julho de 1976</p><p>N�o foi bonito, nem f�cil. O comit� de planejamento do Departamento de Pol�cia de Nova York fez uma enxurrada de observa��es que supostamente cobririam a maioria das eventualidades caso os curingas <emphasis>decidissem</emphasis> marchar. Aqueles que estavam no comando da opera��o rapidamente descobriram que esse plano pr�vio era in�til.</p><p>Os curingas sa�ram em massa do parque Roosevelt e entraram na larga cal�ada da Grand Street. O que, em si, n�o era um problema � a pol�cia havia bloqueado o tr�fego em todos os cruzamentos pr�ximos ao parque assim que os relat�rios da concentra��o chegaram. As barricadas ficavam diante da rua, nem a cinquenta metros da entrada. Esperava-se que os organizadores da marcha simplesmente falhassem em montar uma manifesta��o ou, ao se depararem com as filas de policiais uniformizados com equipamentos de tropa de choque, voltassem para o parque, onde oficiais montados poderiam dispers�-los. Os policiais mantinham seus cassetetes prontos nas m�os, mas a maioria esperava n�o us�-los � afinal de contas eram curingas, n�o ases. Eram aleijados, doentes, aqueles que ficaram tortos e deformados: a esc�ria in�til do v�rus.</p><p>Avan�avam na rua em dire��o �s barricadas, e uns poucos homens nas primeiras fileiras da pol�cia sacudiam a cabe�a abertamente. Um an�o os liderava � que seria Tom Miller, o ativista da CSJ. Os outros seriam ris�veis se n�o fossem dignos de pena. O monte de lixo do Bairro dos Curingas se abriu e esvaziou-se nas ruas. N�o eram os bem conhecidos habitantes do Bairro: Tachyon, Cris�lida ou outros como eles. Esses eram figuras tristes que se moviam na escurid�o, que escondiam os rostos e nunca emergiam das ruas daquele distrito. Sa�ram de l� pela incita��o de Miller, com a esperan�a de que poderiam, com todo o seu horror, fazer com que a Conven��o dos Democratas apoiasse sua causa.</p><p>Era uma parada que teria sido a alegria de um show de horror de carnaval.</p><p>Mais tarde, os oficiais indicaram que nenhum deles de fato queria que aquele conforto ficasse violento. Estavam preparados para usar o m�nimo de for�a poss�vel, enquanto ainda mantinham os manifestantes longe das ruas do centro de Manhattan. Quando as fileiras dianteiras dos curingas chegassem �s barricadas, deveriam rapidamente prender Miller e mandar os outros embora. Ningu�m pensou que seria dif�cil.</p><p>Em retrospecto, perguntaram-se como puderam ser t�o idiotas.</p><p>Quando os manifestantes se aproximaram da barreira de cavaletes atr�s da qual a pol�cia esperava, eles desaceleraram. Por longos segundos, nada aconteceu, os curingas fizeram uma parada silenciosa e perturbadora no meio da rua. O morma�o que refletia da cal�ada brilhava nos rostos suarentos, os uniformes da pol�cia estavam �midos. Miller encarava furiosamente a indecis�o, ent�o fez avan�ar os que estavam atr�s dele. Miller empurrou de lado o primeiro cavalete. O resto seguiu.</p><p>A tropa de choque formou uma falange, ligando seus escudos pl�sticos, atados. Os manifestantes atingiram os escudos, os policiais empurraram para tr�s, e a linha dos manifestantes come�ou a se arquear, encurvando-se em si. Os que estavam atr�s empurravam, rompendo as linhas frontais de curingas contra a pol�cia. Mesmo assim, a situa��o poderia ter sido administr�vel, uma bomba de g�s lacrimog�neo poderia confundir os curingas o suficiente para mand�-los correndo de volta � seguran�a relativa do parque. O capit�o encarregado concordou com a cabe�a, e um dos policiais ajoelhou para lan�ar a bomba.</p><p>Algu�m gritou no choque. Ent�o, como pinos de boliche se espalhando, a primeira linha da tropa de choque foi abaixo, como se alguma miniatura de tornado a tivesse dizimado. �<emphasis>Meu Deus!�,</emphasis> um dos policiais gritou. �Que merda 酔 Os cassetetes da pol�cia estavam a postos agora. Quando os curingas atingiram as linhas, eles come�aram a ser usados. Um rugido baixo come�ou entre os pr�dios altos e alinhados da Grand Street, o som do caos se libertou. Os guardas rodavam de verdade os cassetetes enquanto curingas apavorados come�aram a revidar, batendo com os punhos ou com o que tivessem � m�o. O curinga com poder de telecinesia lan�ava-os para todos os lados, sem qualquer controle, curingas e policiais e espectadores, todos foram arremessados aleatoriamente para rolar nas ruas ou chocar-se contra os pr�dios. Proj�teis de g�s lacrimog�neo ca�am e explodiam soltando uma n�voa crescente, piorando a confus�o. Garg�ntua, um curinga monstruoso com uma cabe�a comicamente pequena, avan�ava com seu corpo imenso, gemendo enquanto o g�s ardente o cegava. Empurrando um carrinho de madeira com diversos dos curingas mais prejudicados dentro dele, o gigante infantil enfureceu-se, o carrinho adernando � sua frente com os passageiros agarrando-se em desespero �s laterais. Garg�ntua n�o tinha ideia para qual caminho correr, corria porque n�o conseguia pensar em nada melhor a fazer. Quando encontrou a fila de policiais reerguida, esmurrou freneticamente os cassetetes que o acertavam. Uma pancada daquele punho desajeitado e imenso foi respons�vel por uma das mortes.</p><p>Por uma hora, a batalha disforme arrastou-se por alguns quarteir�es da entrada do parque. Os feridos ca�am nas ruas, e as sirenes gemiam, ecoando. Qualquer vis�o de normalidade n�o p�de ser restaurada at� o meio da tarde. A marcha foi interrompida, mas com alto pre�o para todos os envolvidos.</p><p>Naquela noite longa e quente, os policiais que patrulhavam o Bairro dos Curingas descobriram que suas viaturas foram atingidas com pedras e lixo, e as sombras fantasmag�ricas dos curingas moviam-se nas ruas laterais e becos: lampejos de rostos distorcidos pelo �dio e punhos erguidos, xingamentos f�teis, frustrados. Na escurid�o �mida, os moradores do Bairro curvavam-se nas escadas de inc�ndio e nas janelas abertas dos apartamentos para lan�arem garrafas vazias, vasos de flores, lixo; esmurravam o teto dos ve�culos da pol�cia ou estilha�avam os para-brisas. Os policiais, por precau��o, ficavam dentro das viaturas, janelas e portas trancadas. Inc�ndios foram provocados em alguns pr�dios desertos, e as equipes de bombeiros que atendiam as chamadas foram atacadas a partir das sombras das casas pr�ximas.</p><p>A manh� chegou numa atmosfera esfuma�ada, num v�u de calor.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Em 1962, o Titereiro chegou � cidade de Nova York e encontrou seu nirvana nas ruas do Bairro dos Curingas. Havia todo o �dio, raiva e afli��o que tanto queria ver, havia mentes deformadas e afligidas pelo v�rus, havia emo��es j� maduras e aquelas esperando para serem modeladas segundo suas intrus�es. As ruelas, os becos obscuros, pr�dios onde pululavam os deformados, os in�meros bares e casas noturnas servindo a todos os tipos de gostos desvirtuados, vis: o Bairro dos Curingas era uma fonte imensa com potencial para ele, e ent�o come�ou a banquetear, primeiro aos poucos e, depois, com mais frequ�ncia. O Bairro dos Curingas era seu. O Titereiro via-se como o senhor sinistro e oculto do distrito. N�o podia for�ar nenhuma de suas marionetes a fazer algo que fosse contra sua vontade, seu poder n�o era t�o forte. N�o, precisava de uma semente j� plantada na mente: uma tend�ncia � viol�ncia, um �dio, um desejo� ent�o conseguia pousar sua m�o mental naquela emo��o e aliment�-la, at� a paix�o romper todos os controles e inundar. Eram brilhantes e de tom vermelho, aqueles sentimentos. O Titereiro conseguia v�-los at� mesmo quando se alimentava deles. Mesmo quando os tirava de sua cabe�a e sentia a lenta forma��o de um calor que tinha intensidade sexual, quando a explos�o pulsante e reluzente do orgasmo chegava enquanto a marionete estuprava, assassinava ou mutilava.</p><p>Dor era prazer. Poder era prazer.</p><p>O Bairro dos Curingas era onde sempre seria poss�vel encontrar o prazer.</p><p>HARTMANN PEDE CALMA</p><empty-line/><p>
    PREFEITO DIZ QUE REVOLTOSOS SER�O PUNIDOS</p><p><emphasis>Daily News</emphasis> de Nova York, 17 de julho de 1976</p><p>John Werthen entrou no quarto do hotel de Hartmann pela porta de conex�o com a su�te.</p><p>� Voc� n�o vai gostar disso, Gregg � ele disse.</p><p>Gregg estava deitado na cama, o casaco do palet� jogado de forma negligente sobre a cabeceira, as m�os sobre a cabe�a enquanto assistia a Cronkite falar sobre a conven��o que chegara a um impasse. Gregg virou a cabe�a na dire��o do assistente.</p><p>� Que foi agora, John?</p><p>� Amy ligou do escrit�rio em Washington. Como voc� sugeriu, eles deram o caso de infiltra��o sovi�tica de Tachyon ao Sombra. Acabamos de ouvir que o infiltrado foi descoberto no Bairro dos Curingas. Foi estrangulado num poste e encontrado com um bilhete pregado no peito � pregado <emphasis>atrav�s</emphasis> do peito, Gregg. Ele estava totalmente nu. O bilhete descrevia o plano sovi�tico, como eles infectavam �volunt�rios� com o v�rus num esfor�o de conseguir seus pr�prios ases, e como simplesmente matavam os curingas resultantes. O bilhete foi para identificar o pobre coitado como agente. E � isso: o legista n�o acha que ele estava consciente durante a maior parte das coisas que os curingas fizeram com ele, mas encontrou peda�os do rapaz at� uma dist�ncia de tr�s quarteir�es.</p><p>� Jesus � Gregg murmurou e deu um grande suspiro. Por um longo minuto, ficou l� deitado enquanto a voz potente de Cronkite seguia mon�tona sobre o voto final na plataforma e o impasse �bvio entre Carter e Kennedy para a indica��o.</p><p>� Algu�m falou com o Sombra desde ent�o?</p><p>John deu de ombros. Soltou a gravata e abriu o bot�o do colarinho da camisa chique da Brooks Brothers.</p><p>� Ainda n�o. Ele dir� que <emphasis>ele</emphasis> n�o fez nada, voc� sabe, e, na vis�o dele, ele est� correto.</p><p>� Calma l�, John � retrucou Gregg. � Ele sabia muito bem o que aconteceria se amarrasse o cara com aquele bilhete nele. Ele � um daqueles ases que pensam que podem fazer as coisas do jeito deles, sem se preocupar com as leis. Ligue para o Sombra, preciso falar com ele. Se ele n�o pode trabalhar do nosso jeito, ent�o n�o vai trabalhar pra gente de jeito nenhum� ele � muito perigoso. � Gregg deu outro suspiro e jogou as pernas para o lado da cama, co�ando o pesco�o em seguida. � Algo mais? E a CSJ? Conseguiu encontrar o Miller?</p><p>� Nada ainda. Est�o correndo boatos de que os curingas v�o marchar hoje de novo� mesmo trajeto e tudo o mais, direto at� a prefeitura. Acho que ele n�o � t�o est�pido.</p><p>� Ele vai marchar � Gregg previu. � A fome do cara � estar sob os holofotes. Ele acha que � poderoso. Ele vai marchar.</p><p>O senador levantou-se e curvou-se em frente ao aparelho de TV. Cronkite ficou em sil�ncio no meio de uma frase. Gregg olhou pela janela. De seu posto privilegiado no Marriott�s Essex House, conseguia olhar a imensa faixa verde do Central Park presa entre as torres da cidade. O ar estava estagnado, im�vel, e a neblina de polui��o escondia os dom�nios mais avan�ados do parque. Gregg podia sentir o calor mesmo com o ar-condicionado ligado. L� fora devia estar sufocante de novo. Nos aglomerados do Bairro dos Curingas, o dia seria insuport�vel, deixando os pavios ainda mais curtos.</p><p>� Sim, ele vai marchar � Gregg repetiu, baixo o suficiente para John n�o o ouvir. � Vamos para o Bairro dos Curingas � ele falou, virando-se de costas para o quarto.</p><p>� E a conven��o? � perguntou John.</p><p>� N�o v�o resolver nada por dias. Ela n�o importa no momento. Vou me arrumar e logo vamos.</p><empty-line/><p>CURINGAS! VOC�S EST�O EM P�SSIMAS M�OS!</p><p>
      � de um panfleto entregue por trabalhadores da CSJ</p><p>
      na manifesta��o de 18 de julho</p><p>Gimli clamava �s multid�es sob o sol radiante do meio-dia. Ap�s a noite de caos no Bairro dos Curingas, o prefeito destacou a for�a policial em turnos duplos e cancelou todas as folgas. O governador deixou a Guarda Nacional em alerta. Patrulhas rondavam as fronteiras do distrito do Bairro dos Curingas e um toque de recolher foi imposto para a noite seguinte. Os rumores de que a CSJ tentaria uma nova manifesta��o at� o T�mulo do Jetboy espalharam-se rapidamente pelo Bairro dos Curingas na noite anterior e, pela manh�, o parque Roosevelt estava fervilhando de atividade. A pol�cia manteve-se distante ap�s as duas tentativas fracassadas de varrer os curingas para fora do parque terem resultado em cabe�as quebradas e cinco policiais feridos. Havia simplesmente mais curingas dispostos a marchar com a CSJ do que as autoridades previam. As barricadas foram montadas novamente na Grand Street, e o prefeito fez um longo discurso aos curingas reunidos por um megafone. Foi completamente zombado pelos que estavam nos port�es.</p><p>Do estrado vacilante que eles ergueram, Sondra ouvia Gimli, enquanto a voz forte do an�o levantava os curingas em sua ferocidade.</p><p>� VOC�S FORAM ESPEZINHADOS, CUSPIDOS, INSULTADOS COMO NINGU�M MAIS NA HIST�RIA! � ele exclamava, e os outros gritavam sua aprova��o. O rosto de Gimli estava extasiado, brilhante de suor, os fios grosseiros da barba, escuros pelo calor. � VOC�S S�O OS NOVOS CRIOULOS, CURINGAS. VOC�S S�O OS NOVOS ESCRAVOS, AQUELES QUE IMPLORAM PARA SEREM LIBERTADOS DE UM CATIVEIRO T�O RUIM QUANTO O DOS NEGROS. CRIOULOS. JUDEUS. COMUNISTAS. PARA ESTA CIDADE, PARA ESTE PA�S VOC�S S�O TUDO ISSO! � Gimli apontou um bra�o na dire��o das defesas de Nova York. � ELES QUEREM QUE VOC�S FIQUEM NO SEU GUETO, QUEREM QUE VOC�S MORRAM DE FOME. QUEREM QUE VOC�S SEJAM MANTIDOS NO SEU LUGAR PARA QUE POSSAM TER PENA DE VOC�S, ASSIM PODEM DIRIGIR PELAS RUAS DO BAIRRO DOS CURINGAS EM SEUS CADILLACS E LIMUSINES E OLHAR PELAS JANELAS PARA DIZER: �MEU DEUS, COMO PESSOAS NESTE ESTADO PODEM <emphasis>VIVER</emphasis>?�.</p><p>A �ltima palavra foi um rugido e ecoou pelo parque, todos os curingas erguendo brados com Gimli. Sondra olhou para a massa de pessoas que manchava a grama sob o sol incandescente.</p><p>Todos eles surgiram, os curingas, abalando-se das ruas do Bairro dos Curingas. Garg�ntua estava l�, seu corpo imenso cheio de curativos. Cravo, Pisca, Carmen, seguidos por cinco mil ou mais como eles. Sondra conseguia sentir a excita��o pulsando durante o discurso de Gimli, sua pr�pria amargura correndo como veneno no ar, infectando a todos. <emphasis>N�o</emphasis>, ela queria dizer. <emphasis>N�o, voc�s n�o podem ouvi-lo. Por favor. Sim, as palavras dele s�o cheias de energia e brilho; sim, ele faz voc�s levantarem os punhos e brandi-los ao c�u enquanto marcham com ele. Ainda assim, voc�s n�o conseguem ver que este n�o � o caminho? N�o � a revolu��o. � apenas a loucura de um homem.</emphasis> As palavras ecoavam em sua mente, mas ela n�o era capaz de pronunci�-las. Gimli a enredou junto com os outros em seu feiti�o. Conseguia sentir o arco de um sorriso nos l�bios rachados, e em torno dela os outros membros do quadro gritavam. Gimli ficou em p� na frente do palanque, seus bra�os abertos enquanto os urros ficavam cada vez mais altos, quando um grito de protesto come�ou a surgir da imensa garganta da multid�o.</p><p><emphasis>Direitos dos Curingas! Direitos dos Curingas!</emphasis></p><p>A batida martelava as fileiras dos policiais a postos, a multid�o inevit�vel de observadores e os rep�rteres.</p><p><emphasis>Direitos dos Curingas! Direitos dos Curingas!</emphasis></p><p>Sondra ouviu a si mesma dizendo a frase com os outros.</p><p>Gimli saltou do estrado, e o an�o robusto come�ou a lider�-los na dire��o dos port�es. A multid�o come�ou a mover-se sem uma pretens�o de ordem. Derramaram-se dos port�es do parque Roosevelt para as ruas paralelas. Gritavam insultos para a fileira de policiais a postos. Sondra conseguia ver as luzes das viaturas piscando, conseguia sentir o rumor dos caminh�es com canh�o d��gua. Aquele rugido estranho e indefin�vel que ouviu um dia antes surgia novamente, mais alto ainda do que os gritos cont�nuos dos manifestantes. Sondra hesitou, sem saber o que fazer. Ent�o, correu at� Gimli, suas pernas do�am.</p><p>� Gimli � ela come�ou, mas sabia que o apelo era in�til. O rosto dele tinha um olhar malicioso de satisfa��o, pois os manifestantes sa�am aos montes do parque para a rua. Sondra olhou para baixo at� avistar a barricada onde a fileira de policiais aguardava.</p><p>Gregg estava l�.</p><p>Estava na frente das barricadas, diversos oficiais e os homens do Servi�o Secreto com ele. Mangas de camisa enroladas, colarinho aberto e gravata solta, parecia esgotado. Por um momento, Sondra pensou que Miller passaria marchando pelo senador, mas o an�o parou a alguns metros do homem � os manifestantes fizeram uma parada s�bita e inquieta atr�s dele.</p><p>� Saia da merda do caminho, senador � Gimli insistiu. � Saia do caminho ou vamos esmag�-lo com todos os seus guardas imbecis e rep�rteres.</p><p>� Miller, este n�o � o caminho.</p><p>� N�o <emphasis>existe</emphasis> outro caminho e estou farto de falar disso.</p><p>� Por favor, deixe-me falar por alguns minutos. � Gregg esperava, olhando de Gimli para Sondra, para os outros da CSJ na multid�o. � Sei que voc�s est�o furiosos com o que aconteceu na pauta dos Direitos dos Curingas. Sei que o jeito pelo qual os curingas foram tratados no passado � deplor�vel. Mas, caramba, as coisas est�o mudando. Odeio pedir para que tenham paci�ncia, mas � o que precisamos ter.</p><p>� O tempo esgotou, senador � disse Miller. Sua boca se abria num sorriso sarc�stico, as coroas dos seus dentes eram escuras e esburacadas.</p><p>� Se for adiante, garanto confus�o. Se voc� voltar ao parque, posso impedir que a pol�cia interfira al�m do que j� fez.</p><p>� E de que bosta isso nos serviria, senador? Queremos fazer uma manifesta��o at� o T�mulo do Jetboy, � nosso direito. Queremos subir naqueles degraus e falar sobre trinta anos de dor e tormento de nosso povo. Queremos orar por aqueles que morreram e deixar que todos nos olhem para verem como foram sortudos aqueles que morreram l�. � s� isso� pedimos os direitos que qualquer outra pessoa normal tem.</p><p>� Voc�s podem fazer tudo isso no parque Roosevelt. Todo mundo da imprensa nacional, todas as redes de televis�o cobrir�o, isso eu tamb�m garanto.</p><p>� � tudo o que o senhor tem para negociar, senador? N�o � muito.</p><p>Gregg balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eu sei e pe�o desculpas por isso. Tudo que posso dizer � que, se voc� voltar com seu povo para o parque, farei o que estiver ao meu alcance para todos voc�s. � Gregg estendeu bem as m�os. � � tudo que posso oferecer. Por favor, me diga que � suficiente.</p><p>Sondra observava o rosto de Miller. O alarido, os gritos de palavras de ordem continuavam atr�s deles. Ela pensou que o an�o riria, ca�oaria de Gregg e abriria caminho para passar as barricadas. O an�o arrastou os p�s no concreto, co�ou os pelos do peito largo. Encarava Gregg com f�ria, �dio em seus olhos fundos.</p><p>E ent�o, de alguma forma, deu um passo para tr�s. Os olhos de Gimli baixaram, e a tens�o na rua parecia se dissolver.</p><p>� Tudo bem � ele disse. Sondra quase riu. Houve protestos espantados dos outros, mas Gimli virou-se para eles como um urso irado.</p><p>� Inferno, voc�s me ouviram. Vamos dar uma chance ao homem� mais um dia, nada mais. N�o vai custar nada esperar mais um dia.</p><p>Com um xingamento, Gimli abriu caminho na multid�o aos empurr�es, voltando para os port�es do parque. Lentamente, os outros viraram-se para segui-lo. O grito de protesto recome�ou, sem entusiasmo, e ent�o morreu.</p><p>Sondra fitou Gregg por bastante tempo, e ent�o ele sorriu para ela.</p><p>� Obrigado � disse Gregg numa voz baixa, cansada. � Obrigado por me dar uma chance.</p><p>Sondra concordou com a cabe�a. N�o conseguia falar com ele, tinha medo de tentar abra��-lo, beij�-lo. <emphasis>Voc� � apenas uma velhota para o homem, Sondra. Uma curinga como todo o resto.</emphasis></p><p><emphasis>Como fez aquilo?</emphasis>, ela quis perguntar-lhe. <emphasis>Como fez com que ele te ouvisse, se ele nunca me ouve?</emphasis></p><p>Ela n�o conseguia montar as perguntas, n�o com aquela boca de velha, n�o com aquela voz de idosa.</p><p>Suspirando, mancando com os joelhos inchados, ela come�ou a percorrer o caminho de volta.</p><p>HARTMANN DESARMA TUMULTO</p><empty-line/><p>
    CONVERSA COM L�DER DA CSJ PRORROGA MANIFESTA��O</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 18 de julho de 1976, edi��o especial</p><p>BAIRRO DOS CURINGAS NO CAOS</p><p><emphasis>Daily News</emphasis> de Nova York, 19 de julho de 1976</p><p>A manifesta��o da CSJ voltou ao parque Roosevelt. Durante o resto do dia sufocante, Gimli, Sondra e os outros fizeram discursos. O pr�prio Tachyon apareceu a fim de falar para a multid�o � tarde, e havia uma atmosfera estranha de festival naquela reuni�o. Os curingas sentaram-se nos outeiros gramados do parque, cantando ou conversando. Comida de piquenique foi dividida com os mais pr�ximos, bebidas eram entornadas e oferecidas. A maconha rolava de m�o em m�o. Em certo sentido, a manifesta��o transformou-se numa celebra��o espont�nea do �ser curinga�. Mesmo o mais deformado dos curingas caminhava livremente. As m�scaras celebradas dos curingas, as fachadas an�nimas por tr�s das quais muitos dos moradores do Bairro dos Curingas estavam acostumados a se esconder, foram abandonadas por um tempo.</p><p>Para a maioria, foi uma bela tarde, algo para aliviar as mentes do calor, da pobreza de sua exist�ncia� dividir a vida com seus camaradas e, se seus problemas pareciam assoladores, havia sempre algu�m a mais para quem olhar ou com quem conversar a fim de talvez fazer voc� sentir que, no fim das contas, as coisas n�o eram t�o horr�veis assim.</p><p>Ap�s uma manh� que parecia condenada � viol�ncia e � destrui��o, o dia tornou-se tranquilo e otimista. O clima era de alegria, como se a mar� tivesse acalmado e a escurid�o tivesse sido deixada para tr�s. O sol n�o parecia mais t�o opressivo. Sondra achou que seu humor havia melhorado. Ela sorria, brincava com Gimli, abra�ava, cantava e gargalhava com o resto do pessoal.</p><p>A noite trouxe a realidade.</p><p>As sombras profundas dos arranha-c�us de Manhattan deslizaram sobre o parque e fundiram-se. O c�u tomou uma tonalidade azul-marinho e em seguida estabilizou-se, quando o reluzir celeste das luzes da cidade impediram a escurid�o total, deixando o parque numa penumbra nebulosa. A cidade irradiava o calor do dia de volta para o crep�sculo, n�o havia al�vio para o calor, e o ar estava im�vel como a morte. Talvez a noite parecesse mais opressiva que o dia.</p><p>Mais tarde, o chefe de pol�cia se reportaria ao prefeito. O prefeito, por sua vez, se reportaria ao governador, cujo gabinete afirmaria que nenhuma ordem se originou de l�. Ningu�m parecia ter certeza sobre quem exatamente ordenara a a��o. E, mais tarde, isso simplesmente n�o importava � a noite do dia 18 explodiu em viol�ncia.</p><p>Com um grito e um ressoar de megafone, teve in�cio a insanidade.</p><p>A pol�cia montada, seguida pelas fileiras que empunhavam cassetetes, come�ou a limpar o parque de sul a norte, enxotando os curingas para Delancey e, de l�, de volta ao Bairro dos Curingas. Os curingas, desorientados e confusos pelo ataque inesperado, e provocados pelo fren�tico Gimli, resistiram. Sucedeu-se uma batalha de cassetetes voadores, dificultada pela escurid�o do parque. Para a pol�cia, qualquer um sem uniforme era alvo leg�timo. Percorriam o parque, acertando qualquer um a quem pudessem tocar. Gritos e lamentos cortavam a noite. A tentativa de Gimli de organizar a resist�ncia rompeu-se logo, e pequenos grupos de curingas foram arrebanhados para as ruas e eram espancados ou atacados com spray de pimenta. Aqueles que ca�am eram pisoteados. Sondra viu-se em uma dessas multid�es. Ofegante, tentando manter o equil�brio na fuga acotovelada, m�os sobre a cabe�a para proteger-se dos cassetetes, ela conseguiu encontrar seguran�a tempor�ria num beco no fim da Stanton Street. De l�, assistiu como a viol�ncia espalhou-se para fora do parque, adentrando as ruas.</p><p>Pequenas cenas deslocavam-se diante dela.</p><p>Um <emphasis>cameraman</emphasis> da CBS estava filmando quando uma d�zia de policiais em motocicletas empurraram um grupo de curingas na dire��o de um gradeado que protegia a rampa de uma garagem subterr�nea diante da rua onde Sondra estava. Os curingas corriam, alguns deles pularam sobre o gradeado. Brilhante estava entre eles, iluminando a cena com o brilho fosforescente de sua pele, alvo miser�vel incapaz de se esconder da pol�cia que chegava. Ele saltou sobre as grades em desespero, precipitando-se num fosso de mais de dois metros de profundidade. A pol�cia viu o <emphasis>cameraman</emphasis> � um deles gritou: �Pega a porra da c�mera!� � e as motos corriam em volta com um rosnar gutural, os far�is reluzindo pelos pr�dios. O <emphasis>cameraman</emphasis> come�ou a fugir deles, ainda filmando. Um cassetete investiu quando a pol�cia passou, o homem rolou na rua, gemendo, enquanto a c�mera tombava na cal�ada com a lente estilha�ada.</p><p>Um curinga trope�ou na entrada do beco, obviamente zonzo, segurando um len�o ensopado de sangue na t�mpora, embora o corte passasse da orelha, encharcando o colarinho de sua camisa. Era �bvio como ele tinha sido pego, suas pernas e bra�os estavam virados em todos os �ngulos errados, como se tivessem sido colados ao seu tronco por um escultor b�bado. O homem mancava e cambaleava, as juntas pendendo para tr�s e para os lados. Tr�s policiais chegaram andando r�pido ao lado dele.</p><p>� Preciso de um m�dico � o curinga disse para um deles. Quando o oficial o ignorou, ele puxou a manga do uniforme. � Ei! � ele falou. O policial puxou uma lata de spray do coldre de seu cinto e lan�ou o conte�do direto no rosto do curinga.</p><p>Sondra ficou boquiaberta e afundou-se mais ainda no beco. Quando a pol�cia continuou a caminhada, ela fugiu para o outro lado.</p><p>Noite adentro, a viol�ncia espalhou-se nas ruas do Bairro dos Curingas. Uma batalha em curso alastrava-se entre as autoridades e os curingas. Era uma profus�o de destrui��o, uma celebra��o ao �dio. Ningu�m dormiu aquela noite. Curingas mascarados confrontavam as viaturas � espreita, vencendo algumas delas, carros em chamas iluminavam os cruzamentos. Perto da orla, a cl�nica de Tachyon parecia um castelo sob cerco, ladeado por guardas armados com a distinta figura do doutor correndo para tentar manter algum resqu�cio de sanidade na noite. Tachyon, junto com alguns assistentes de confian�a, fez rondas nas ruas para recolher os feridos, curingas e policiais.</p><p>O Bairro dos Curingas come�ou a entrar em colapso, agonizando no fogo e no sangue. Os vapores de g�s lacrimog�neo espalhavam-se pelas ruas, c�usticos. � meia-noite, a Guarda Nacional foi convocada e enviou muni��o viva. Os gabinetes do CRISE-A do senador Hartmann enviaram um pedido para os ases que estivessem trabalhando para o governo ajudarem a acalmar a situa��o.</p><p>O Grande e Poderoso Tartaruga pairou sobre as ruas como uma das m�quinas de guerra do filme de George Pal, <emphasis>Guerra dos mundos</emphasis>, afastando os combatentes. Como muitos dos outros ases, parecia n�o escolher um lado no confronto, usando suas habilidades para interromper as batalhas em andamento sem aliviar para curingas ou policiais. Fora da cl�nica de Tachyon (onde por volta de uma da manh� as alas estavam quase cheias, e o doutor estava come�ando a acomodar os feridos nos corredores), o Tartaruga agarrou um Mustang destru�do e em chamas e lan�ou o carro no East River como um meteorito flamejante, deixando um rastro de fagulhas e fuma�a. Ele rondou a South Street, empurrando os revoltosos e os homens da Guarda � sua frente como se manejasse um arado gigante invis�vel.</p><p>Na Third Street, os homens da Guarda equiparam os jipes com coberturas gradeadas e encaixaram grandes estruturas de arame farpado na frente dos ve�culos. Usavam esses carros para mover as multid�es de curingas para fora da avenida principal e para dentro das ruas laterais. Inc�ndios espont�neos causados por um curinga escondido explodiam os tanques de gasolina dos jipes, e os homens da Guarda corriam gritando, seus uniformes em chamas. Tiros de rifle come�aram a estalar.</p><p>Pr�ximo da Chatham Square, o som do tumulto come�ou a inchar para propor��es imensas, ensurdecedoras, enquanto o Uivador, vestido todo de amarelo, corria pelas ruas ca�ticas, sua boca aberta em um grito que continha tudo que ele ouvira, amplificado e redobrado. Por onde o Uivador passava, os curingas precipitavam-se de m�os nas orelhas, fugindo dessa torrente de barulho. Janelas estilha�avam-se quando o Uivador erguia as frequ�ncias, paredes estremeciam quando ele gritava na frequ�ncia grave:</p><p>� PAREM COM ISSO! � ele rugia. � V�O PARA DENTRO, TODOS VOC�S!</p><p>O Sombra, que havia se revelado um �s apenas poucos meses antes, mostrou rapidamente suas afinidades. Por um tempo, assistiu aos conflitos em sil�ncio. Na Pitt Street, onde um bando de curingas sitiado lutava usando provoca��es e atirando garrafas e lixo contra um canh�o d��gua e um esquadr�o de homens da Guarda utilizava baionetas fixas aos rifles, Sombra entrou na briga. A rua ficou preta instantaneamente por talvez seis metros em torno do �s com uniforme azul-marinho e m�scara domin� laranja-avermelhado. A noite impenetr�vel persistiu por dez minutos ou mais. Gritos vieram de dentro do po�o de escurid�o, e os curingas fugiram. Quando a escurid�o desapareceu e as luzes da cidade refletiram novamente as cal�adas molhadas, os homens da Guarda estavam ca�dos na rua, inconscientes, o canh�o d��gua sem ningu�m para control�-lo, vertendo �gua nas sarjetas.</p><p>Sondra viu aquele �ltimo confronto da janela do seu apartamento. A viol�ncia da noite a apavorou. Para escapar do horror, ela girou a tampa da garrafa de Jack Daniels na sua c�moda, despejando um longo e implac�vel gole na garganta. Ela engasgou, limpando a boca com as costas da m�o. Cada m�sculo em seu corpo protestava. Suas pernas e m�os artr�ticas agonizavam quando ela se movia. Foi para a cama e deitou-se. N�o conseguia dormir� os sons do tumulto adentravam a janela aberta, ela conseguia sentir o cheiro da fuma�a dos inc�ndios pr�ximos e ver as chamas tremeluzentes dan�ando nas paredes. Temia que tivesse de sair do pr�dio e perguntou-se o que ela tentaria salvar se isso acontecesse.</p><p>Houve uma leve batida na porta do apartamento. De primeiro, n�o tinha certeza de ter mesmo ouvido a batida. Repetia-se, baixa e persistente, e ela se levantou, lamentando.</p><p>Quando ela se aproximou da porta, soube quem era. Seu corpo sentiu. S�cubo sentiu.</p><p><emphasis>N�o</emphasis>, Sondra sussurrou para si mesma. <emphasis>N�o, agora n�o</emphasis>. Ele bateu novamente na porta.</p><p>� V� embora, por favor, Gregg � ela falou, recostando-se na porta, mantendo sua voz baixa para que ele n�o pudesse ouvir os tons da idosa.</p><p>� S�cubo? � A voz dele era insistente. A excita��o a atra�a, e ela se surpreendia com ela. <emphasis>Por que agora? Por que aqui? Deus, n�o posso deix�-lo me ver assim, e ele n�o vai embora</emphasis>.</p><p>� S� um minuto � ela disse e derrubou as barreiras que prendiam S�cubo. Seu corpo come�ou a mudar, e ela sentiu o turbilh�o da paix�o dele incitando a dela. Ela se despiu das roupas de Sondra, atirando-as num canto. E abriu a porta.</p><p>Gregg estava mascarado, a cabe�a inteira coberta com um rosto de palha�o sorridente e grotesco. Ele a olhou com mal�cia enquanto a empurrava para dentro. N�o disse nada, suas m�os j� abriam o z�per da cal�a, puxando para fora o pau que endurecia. N�o se preocupou em tirar a roupa, nem em entrar nas preliminares. Empurrou-a para baixo no ch�o de madeira maci�a e lan�ou-se para dentro dela, investindo com f�lego ofegante enquanto S�cubo se movia embaixo dele, encaixando-se na ferocidade dele e cooperando com aquele estupro impiedoso. Ele era brutal: seus dedos enterravam-se nos seios pequenos e firmes, as unhas rasgando at� sangrarem pequenos riscos na pele. Esmagava os mamilos entre o ded�o e o indicador at� ela gritar� desejava a dor dela naquela noite, precisava que ela se encolhesse e chorasse e, ainda assim, fosse uma v�tima submissa. Deu um tapa no rosto dela, quando ela levantou as m�os para impedir que ele fizesse de novo, suas narinas pingando sangue, ele torceu os pulsos dela com crueldade.</p><p>E, quando ele terminou com ela, ficou em p� olhando para a mulher deitada, a cabe�a de palha�o rindo para ela, seu pr�prio rosto inintelig�vel por tr�s da m�scara. Ela conseguia ver apenas os olhos, cintilantes, fitando-a.</p><p>� Tinha de ser desse jeito � falou ele. N�o havia arrependimento em sua voz. S�cubo concordou com a cabe�a, ela sabia daquilo e aceitou. Por dentro, Sondra chorava.</p><p>Hartmann subiu o z�per das cal�as. A frente da sua camisa estava imunda com sangue e fluidos.</p><p>� Voc� entende mesmo? � perguntou ele. A voz dele era gentil, calma, pedia para ela ouvir, se compadecer.</p><p>� Voc� � a �nica pessoa que me aceita sem eu ter que fazer nada. Voc� n�o liga que sou senador. Eu n�o tenho que� � Ele parou e limpou o palet�. � Voc� me ama. Posso sentir isso. Cuida de mim, e <emphasis>n�o</emphasis> preciso pedir para voc� cuidar. Eu quero� � Ele estremeceu. � Eu preciso de voc�.</p><p>Talvez fosse porque ela n�o conseguia ver seu rosto. Talvez fosse porque sua brutalidade, quando antes ele sempre fora t�o carinhoso, tivesse deixado a empatia de S�cubo por ele ainda mais profunda do que no passado. Mas conseguiu sentir os pensamentos dele por um momento quando ele a deixou estirada no ch�o, e o que ela sentiu a fez estremecer, apesar do calor horr�vel. Ele pensava na viol�ncia l� fora, e na mente do senador n�o havia �dio, nem nojo. Havia apenas um brilho de prazer, um sentimento de miss�o cumprida. Ela o fitou com espanto.</p><p><emphasis>Foi ele. Desde o in�cio, ele est� nos usando, n�o ao contr�rio.</emphasis></p><p>Na porta, Gregg virou-se e falou para ela.</p><p>� S�cubo, eu te amo. N�o acho que voc� entenderia, mas � verdade. Por favor, acredite nisso. Preciso de voc� mais do que preciso de todo o resto.</p><p>Por tr�s da m�scara, ela conseguia ver o brilho de suas pupilas. Ficou surpresa ao perceber que ele estava chorando.</p><p>De alguma forma, com toda a estranheza que Sondra testemunhou durante aquela noite, aquilo n�o parecia t�o estranho assim.</p><p><image l:href="#6"/></p><p>O Titereiro descobriu que sua seguran�a estava no anonimato, na apar�ncia de inoc�ncia. Afinal, nenhuma das marionetes sabia que ele as havia tocado, nenhuma delas conseguia dizer a qualquer pessoa o que acontecera em sua mente. Elas simplesmente� <emphasis>se entregavam</emphasis>. O Titereiro apenas deixava que extravasassem seus sentimentos, sempre havia ampla motiva��o para quaisquer crimes que suas marionetes pudessem cometer. Se fossem pegas, n�o importava.</p><p>Em 1961, graduando-se na Faculdade de Direito de Harvard, ele entrou num prestigioso escrit�rio de advocacia de Nova York. Em cinco anos, ap�s uma carreira de sucesso como advogado criminalista, entrou na pol�tica. Em 1965, foi eleito intendente da cidade de Nova York. Foi prefeito de 1968 a 1972, quando se tornou senador do estado.</p><p>Em 1976, viu a chance de alcan�ar a presid�ncia. No passado, sempre pensava em 1980, 1984. Mas a Conven��o Nacional dos Democratas foi para Nova York no ano do Bicenten�rio da Independ�ncia, e o Titereiro soube que era o momento.</p><p>Toda a funda��o estava estabelecida.</p><p>Ele se alimentou muitas vezes da ta�a profunda da amargura entranhada em Tom Miller.</p><p>Agora, ele a tomaria at� a �ltima gota.</p><p>QUINZE MORTOS NO INC�NDIO DO BAIRRO DOS CURINGAS</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 19 de julho de 1976</p><p>O sol da manh� estava encoberto pela fuma�a escura. A cidade assava sob o calor renovado, pior do que nos dias anteriores. A viol�ncia n�o terminara com a manh�. As ruas do Bairro dos Curingas estavam mergulhadas na destrui��o, inundadas com detritos do tumulto noturno. Os revoltosos travaram batalhas de guerrilha com a pol�cia e os homens da Guarda Nacional, obstruindo seus movimentos pelas ruas, virando carros para bloquear cruzamentos, provocando inc�ndios, zombando das autoridades das sacadas e janelas. O Bairro dos Curingas em si estava cercado por viaturas do esquadr�o, jipes e equipamentos anti-inc�ndio. Os soldados da Guarda, todos equipados, estavam estacionados a poucos metros da Second Avenue. Ao lado da Chrystie Street, os guardas reuniam-se em torno do parque Roosevelt, onde novamente os curingas se organizavam. A voz de Gimli podia ser ouvida no fundo da multid�o, discursando para eles, dizendo que naquele dia marchariam, independentemente das consequ�ncias. Todos os candidatos democratas apareceram pr�ximos da �rea cercada para serem fotografados com express�es preocupadas, graves, enquanto olhavam para a carca�a incendiada de um pr�dio ou falavam com um curinga menos deformado. Kennedy, Carter, Udall, Jackson � todos garantiam ser vistos, e ent�o rumavam com suas limusines de volta para o Garden, onde os delegados realizaram duas rodadas n�o conclusivas de votos para a indica��o. Apenas Hartmann foi e ficou pr�ximo ao Bairro dos Curingas, conversando com os rep�rteres e tentando, sem sucesso, persuadir Miller a sair das profundezas da multid�o para negociar.</p><p>� tarde, com a temperatura chegando perto dos 35 graus e uma brisa do East River trazendo o cheiro de inc�ndio para a cidade, os curingas sa�ram do parque.</p><p>Gregg nunca tinha lidado com tantas marionetes antes. Gimli ainda era a principal, e ele conseguia sentir a presen�a irritadi�a do an�o talvez a centenas de metros para dentro da massa de curingas que lotavam a Grand Street. Nessa bagun�a vertiginosa, Miller sozinho n�o seria suficiente para fazer os curingas voltarem no momento certo. Gregg fez de tudo para conseguir apertar a m�o dos l�deres da CSJ nas �ltimas semanas. A cada vez, usou o toque para mergulhar na mente diante dele e abrir os caminhos que permitiriam o acesso a dist�ncia. Um aglomerado era como qualquer rebanho de animais � se conduzisse bem os l�deres, o resto aconteceria inevitavelmente. Gregg tinha a maioria deles: Garg�ntua, Amendoim, Charmoso, Mem�ria, talvez outros vinte. Alguns deles, como Sondra Falin, ele ignorava � a idosa lembrava uma av� decr�pita, e ele duvidava de sua capacidade de demover a multid�o. A maioria de suas marionetes j� sentia algum medo � seria f�cil usar aquilo, expandir aquele pavor at� eles se virarem e fugirem. A maioria deles era de pessoas razo�veis, que queriam confrontos n�o mais que quaisquer outras. Foram provocadas, um feito de Hartmann. Agora ele desfaria aquilo e, no processo, se transformaria no indicado. A mar� da conven��o j� se desviara de Kennedy e Carter. Como os delegados liberavam naquele momento o primeiro compromisso de voto, estavam livres para eleger o candidato de sua escolha� no �ltimo escrut�nio, Hartmann alcan�ou um terceiro lugar com tend�ncia ao crescimento. Gregg sorria, apesar das c�meras apontadas na sua dire��o: o tumulto da noite anterior lhe deu um prazer que nunca pensou que sentiria � tanta paix�o quase arrasou com ele, uma estranha combina��o de desejos.</p><p>A fileira dos soldados da Guarda Nacional come�ou a se mover quando os curingas se aproximaram. Eles se esparramaram pela extens�o da Chrystie Street, gritando frases e brandindo placas. Megafones estrondando palavras de ordem e xingamentos a torto e a direito. Gregg conseguia ouvir os insultos dos curingas, enquanto os homens da Guarda formavam uma fileira de baionetas. No cruzamento da Delancey Street, Gregg viu o casco flutuante do Tartaruga sobre os soldados da Guarda; l�, ao menos, os manifestantes eram mantidos para tr�s sem risco. Mais adiante, a sul na dire��o dos port�es principais, onde Hartmann estava em p� num c�rculo de guardas, n�o estava t�o f�cil.</p><p>Os curingas avan�avam, empurrando e se acotovelando, a massa dos que estavam atr�s impulsionavam aqueles que poderiam ter, de outra forma, voltado para o parque. Os soldados da Guarda foram for�ados a tomar uma decis�o: usar as baionetas ou tentar empurrar os curingas para tr�s com bra�os dados. Escolheram a �ltima op��o. Por um momento, parecia que algum equil�brio fora alcan�ado, ent�o as fileiras dos homens da Guarda come�ou a se curvar lentamente. Com um grito, um grupo de curingas rompeu a linha e alcan�ou a rua. Aos berros, o restante passou pelo cord�o. Novamente, seguiu-se uma batalha cont�nua, desorganizada e confusa. Hartmann, bem atr�s do confronto naquele instante, suspirou. Fechou os olhos quando as impress�es de suas marionetes come�aram a chegar at� ele. Se desejasse, poderia perder-se, poderia mergulhar naquele mar agitado de emo��es e alimentar-se at� se fartar.</p><p>Mas n�o podia esperar tanto tempo. Precisava movimentar-se enquanto ainda havia alguma forma de conflito. Gesticulando para os guardas, come�ou a seguir em frente na dire��o dos port�es, na dire��o de Gimli.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Sondra estava com o restante dos membros principais da CSJ. Enquanto ultrapassavam o port�o principal, ela tentou novamente contar a Gimli sobre aquela estranheza que sentiu em Hartmann na �ltima noite.</p><p>� Ele pensou que estava controlando tudo isso. Eu juro, Gimli.</p><p>� Igual a qualquer outro pol�tico de merda, velhota. Al�m disso, achei que voc� gostava dele.</p><p>� Eu gosto, mas�</p><p>� Olha s�, que diabos voc� t� fazendo aqui?</p><p>� Eu sou curinga. A CSJ � meu grupo tamb�m, concorde eu com o que voc�s est�o fazendo ou n�o.</p><p>� Ent�o cala a boca, cacete. Tenho muito a fazer aqui.</p><p>O an�o lan�ou-lhe um olhar furioso e se afastou. Estavam andando num ritmo lento, de funeral, na dire��o dos soldados da Guarda, que esperavam. Ent�o a vis�o desapareceu quando os curingas se juntaram nos limites dos port�es; arrastando-se, mancando, abrindo caminho da melhor maneira poss�vel. Muitos deles carregavam sinais da luta do dia anterior, cabe�as enroladas em bandagens, tipoias� exibiam essas marcas aos homens da Guarda como medalhas de honra. Os corpos � frente de Sondra de repente pararam quando alcan�aram a fileira de soldados; algu�m a empurrou por tr�s e ela quase caiu. Abra�ou a pessoa diante dela, sentindo a pele encoura�ada sob suas m�os, vendo escamas de lagarto cobrindo costas imensas. Sondra gritou quando foi espremida, afastando-se com bra�os fracos, os m�sculos balan�ando dentro da bolsa frouxa de pele. Ela cambaleava. O sol atingiu seus olhos em cheio, ela ficou cega por um momento. Na confus�o, conseguiu ver punhos se agitando � sua frente, acompanhados por gritos e lamentos. Sondra come�ou a recuar, tentando encontrar um caminho para passar pelo conflito. Ela foi acotovelada e, quando revidou, um cassetete a golpeou ao lado da cabe�a.</p><p>Sondra gritou. S�cubo gritou.</p><p>Sua vis�o perdeu-se num turbilh�o de cores. N�o conseguia pensar. P�s as m�os sobre o corte e as m�os pareciam estranhas. Piscando atr�s do sangue que escorria do corte da t�mpora, ela tentou olhar para elas. Eram jovens aquelas m�os, e mesmo que estivesse boquiaberta por elas na confus�o, sentia a intrus�o repentina de outras paix�es.</p><p><emphasis>N�o! Volte para dentro, maldita! N�o aqui, n�o nas ruas, n�o com todas essas pessoas ao redor!</emphasis> Desesperada, Sondra tentou tomar as r�deas de S�cubo, mas sua cabe�a zumbia com a concuss�o e ela n�o conseguia pensar. Seu corpo estava atormentado, mudando de forma de modo inst�vel em resposta a todos que estavam ao seu lado. S�cubo tocava cada uma das mentes e tomava a forma de seus desejos sexuais. Primeiro mulher, depois homem, jovem e velha, gordo e magra. S�cubo uivou, confusa. Sondra corria, sua forma se alterava a cada passo, ela empurrava as m�os que a tocavam com desejos estranhos e repentinos. S�cubo reagia como devia, tomava a linha do desejo e a tecia em paix�o. Num c�rculo que crescia cada vez mais, o tumulto terminou quando curingas e guardas viraram-se para perseguir a for�a do desejo. S�cubo conseguia <emphasis>senti-lo</emphasis> tamb�m, e ela tentava abrir caminho at� Gregg. Ela n�o sabia mais o que fazer. Ele controlava aquilo, ela sabia disso desde a �ltima noite. Ele poderia salv�-la. Ele a amava� ele disse.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Os <emphasis>cameramen</emphasis> seguiam o avan�o do senador Hartmann na dire��o do port�o onde algumas brigas estavam apenas come�ando. Quando os guarda-costas tentaram segurar o senador, ele afastou as m�os deles para o lado.</p><p>� Maldi��o, algu�m precisa tentar � ouviram-no dizer.</p><p>� Ah, que �timo � um dos rep�rteres murmurou.</p><p>Hartmann seguiu em frente. Os guarda-costas trocaram olhares, deram de ombros e seguiram-no.</p><p>Gregg conseguia sentir a presen�a da maioria das marionetes na �rea pr�xima ao port�o. Com o Tartaruga segurando os curingas na outra ponta do parque, Gregg percebeu que esta seria uma �tima oportunidade. Fazer Gimli e os outros recuarem agora faria com que todos voltassem. Se o tumulto continuasse noite adentro novamente, n�o importaria, Gregg teria demonstrado generosamente sua firmeza numa crise. Os jornais ficariam cheios com a not�cia na manh� seguinte e todas as televis�es dariam destaque ao seu rosto e ao seu nome. Seria o suficiente para garantir a indica��o com um grande impulso para a pr�pria campanha. Ford ou Reagan, n�o importaria quem fosse a escolha dos republicanos.</p><p>Mantendo o rosto s�rio, Gregg caminhava a passos largos para o centro do conflito.</p><p>� Miller! � ele gritou, sabendo que o an�o estava pr�ximo o suficiente para ouvi-lo. � Miller, � o Hartmann! � Enquanto gritava, ele deu um pux�o na mente de Miller e interrompeu aquele calor incandescente da f�ria, lavando-o com o frio azul-celeste. Sentiu a liberta��o repentina, sentiu o in�cio do nojo do an�o pela vis�o ao seu redor. Hartmann deturpou a mente de novo, tocando a ess�ncia do medo no homem e impulsionando-o a crescer, uma palidez fria.</p><p><emphasis>Est� fora de controle</emphasis>, Gregg sussurrou ao homem. <emphasis>Voc� perdeu agora e n�o poder� voltar, a menos que v� at� o senador. Ou�a: ele est� te chamando. Seja razo�vel.</emphasis></p><p>� Miller! � Gregg chamou novamente. Ele sentiu o an�o come�ar a virar, e Gregg empurrou de lado o homem da Guarda � sua frente para que pudesse ver.</p><p>Gimli estava � sua esquerda. Mas, mesmo quando Hartmann come�ou a cham�-lo, ele viu a aten��o dos curingas voltando-se para o port�o. L�, perseguida por uma multid�o de curingas e soldados da Guarda, Gregg a viu.</p><p>S�cubo.</p><p>Sua forma era err�tica, centenas de rostos e corpos intermitentes nela enquanto a mulher corria. Ela viu Gregg naquele mesmo instante. Gritou para ele, seus bra�os abertos.</p><p>� S�cubo! � ele gritou de volta e come�ou a abrir caminho com os ombros na dire��o dela.</p><p>Algu�m a agarrou por tr�s. S�cubo virou-se, mas outras m�os estavam sobre ela naquele momento. Com um grito estridente, foi ao ch�o. Gregg n�o conseguia mais v�-la. Havia corpos em volta dela, acotovelando-se, batendo um no outro na sua f�ria para se aproximar de S�cubo. Gregg ouviu o estalar grotesco e seco de ossos partindo.</p><p>� <emphasis>N�o!</emphasis> � Gregg come�ou a correr. Gimli foi esquecido, o tumulto foi esquecido. Quando chegou pr�ximo dela, conseguiu sentir o puxar de sua atra��o.</p><p>Eles se empilhavam sobre ela, a multid�o pululante, col�rica, golpeando-a, dilacerando S�cubo e uns aos outros numa tentativa de se libertar. Eram como vermes que se contorciam sobre um peda�o de carne, rostos tensos e violentos, m�os arranhavam enquanto espancavam S�cubo, empurrando. O sangue de repente jorrou de algum lugar por baixo da massa que serpenteava. S�cubo gritava, uma agonia estridente, sem palavras, que de repente, de forma estranha, cessou.</p><p>Ele a sentiu morrer.</p><p>Aqueles que estavam ao redor dela come�aram a recuar, com pavor no rosto. Gregg podia ver o corpo encolhido no ch�o. Uma mancha grossa de sangue espalhava-se ao lado dele. Um dos bra�os tinha sido arrancado, suas pernas estavam torcidas em �ngulos estranhos. Gregg n�o viu nada daquilo. Olhou apenas para o seu rosto: ele viu o reflexo de Andrea Whitman deitado ali.</p><p>O �dio cresceu dentro dele. Sua intensidade varreu tudo que estava ao lado. N�o conseguia ver nada ao redor� nem as c�meras, nem os guarda-costas, nem os rep�rteres. Gregg conseguia apenas v�-<emphasis>la</emphasis>.</p><p>Ela havia sido dele. Havia sido dele sem ter sido uma marionete, e eles a tiraram dele. Zombaram dele, como Andrea tinha zombado anos atr�s, como outros tinham zombado dele e tamb�m morreram. Ele a amou mais do que conseguiu amar qualquer outra pessoa. Gregg agarrou os ombros de um soldado da Guarda que estava em p� sobre o corpo com o pau pendendo das cal�as abertas. Gregg o empurrou.</p><p>� Seu <emphasis>imbecil</emphasis>! � Enquanto gritava, esmurrou o rosto do homem v�rias vezes. � Seu maldito <emphasis>imbecil</emphasis>!</p><p>A f�ria se esparramava em sua mente, sem limites. Flu�a para as marionetes. Gimli uivou, sua voz mais convincente que nunca.</p><p>� Voc�s veem! Veem como eles matam?</p><p>Os curingas ergueram-se aos gritos e atacaram. Os guarda-costas de Hartmann, de repente temerosos pela viol�ncia renascida, arrastaram o senador para longe do combate. Ele os xingou, resistindo, lutando para se soltar, mas neste momento foram irredut�veis. Puxaram-no de volta para o carro e o levaram at� o quarto de hotel.</p><p>HARTMANN EM F�RIA POR ASSASSINATO ATACA MANIFESTANTES</p><empty-line/><p>
    CARTER PARECE SER O VENCEDOR</p><p><emphasis>The New York Times</emphasis>, 20 de julho de 1976</p><p>HARTMANN �PERDE A CABE�A�</p><empty-line/><p>
    �S VEZES � PRECISO CONTRA-ATACAR, DIZ ELE</p><p><emphasis>Daily News</emphasis> de Nova York, 20 de julho de 1976</p><p>Ele salvou o que p�de do fiasco. Disse aos rep�rteres de plant�o que simplesmente ficou estarrecido com o que testemunhou, pela viol�ncia desnecess�ria causada � pobre S�cubo. Ele deu de ombros, sorriu com tristeza e perguntou se eles tamb�m n�o teriam ficado comovidos com aquela cena.</p><p>Quando finalmente o deixaram, o Titereiro retirou-se ao seu apartamento. L�, na solid�o do quarto, assistiu aos trabalhos na televis�o, quando a conven��o elegeu Carter como o pr�ximo candidato presidencial do partido. Disse a si mesmo que n�o se importava. Disse a si mesmo que na pr�xima vez seria ele. No fim das contas, o Titereiro ainda estava seguro, ainda estava escondido. Ningu�m conhecia seu segredo.</p><p>Na sua mente, o Titereiro levantou a m�o e estendeu os dedos. Os fios esticados, as cabe�as de suas marionetes levantadas. O Titereiro sentia suas emo��es, provando o tempero de suas vidas.</p><p>Naquela noite, ao menos, o banquete era amargo e inc�modo.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Interl�dio Cinco</strong></p><p>DE <strong>TRINTA E CINCO ANOS DO V�RUS CARTA SELVAGEM, UMA RETROSPECTIVA</strong></p><empty-line/><p><strong>
    REVISTA</strong><strong><emphasis>ASES!</emphasis></strong><strong/></p><empty-line/><p><strong/><strong>15 DE SETEMBRO DE 1981</strong></p><empty-line/><p>�N�o posso morrer ainda, n�o vi <emphasis>Sonhos dourados</emphasis>.�</p><p>� Robert Tomlin</p><p>�S�o abomina��es para o Senhor, e em seus rostos carregam a marca da besta, e seu n�mero na Terra � seiscentos e sessenta e seis.�</p><p>� folheto an�nimo anticuringas, 1946</p><p>�Eles chamam de quarentena, n�o de discrimina��o. N�o somos uma ra�a, eles nos dizem, n�o somos uma religi�o, somos <emphasis>doentes</emphasis>, ent�o o correto � nos separar, embora eles saibam muito bem que o carta selvagem n�o � contagioso. A nossa � uma enfermidade do corpo, a deles, uma doen�a contagiosa da alma.�</p><p>� Xavier Desmond</p><p>�Deixe que digam o que quiserem. Eu ainda posso voar.�</p><p>� Earl Sanderson Jr.</p><p>�� minha culpa que todos gostem de mim e ningu�m goste de voc�?�</p><p>� David Harstein (para Richard Nixon)</p><p>�Amo o gosto do sangue curinga.�</p><p>� grafite no metr� de Nova York</p><p>�N�o me importo com a apar�ncia deles, sangram vermelho como qualquer pessoa� ao menos a maioria deles.�</p><p>� Tenente-coronel John Garrick, Brigada Curinga</p><p>�Se eu fosse um �s, odiaria ver um dois de paus.�</p><p>� Timothy Wiggins</p><p>�Voc� quer saber se sou um �s ou um curinga? A resposta � sim.�</p><p>� O Tartaruga</p><p><emphasis>Sou curinga, sou insano</emphasis></p><p><emphasis>E meu nome voc� n�o pode falar</emphasis></p><p><emphasis>� espreita nas ruas</emphasis></p><p><emphasis>Espero apenas a noite</emphasis></p><p><emphasis>Sou a serpente que vai arrancar</emphasis></p><p><emphasis>as ra�zes do mundo</emphasis></p><p>� �A hora da Serpente�, Thomas Marion Douglas</p><p>�Estou extasiado, pois <emphasis>Baby</emphasis> voltou para mim, mas n�o tenho a inten��o de deixar a Terra. Este planeta � minha casa agora, e aqueles que foram atingidos pelo carta selvagem s�o meus filhos.�</p><p>� Dr. Tachyon, pela ocasi�o da devolu��o de sua nave</p><p>�S�o os filhos demon�acos do Grande Sat�, a Am�rica.�</p><p>� Aiatol� Khomeini</p><p>�Em retrospecto, a decis�o de usar os ases para garantir o retorno seguro dos ref�ns provavelmente foi um erro e assumo total responsabilidade pela falha da miss�o.�</p><p>� Presidente Jimmy Carter</p><p>�Pense como um �s e poder� vencer como um �s. Pense como um curinga e o curinga aparecer� em voc�.�</p><p>� do livro <emphasis>Pense como um �s!</emphasis> (Ballantine, 1981)</p><p>�Os pais dos EUA est�o profundamente preocupados com a cobertura excessiva dos ases e da explora��o deles pela m�dia. S�o mau exemplo para nossos filhos, e milhares ficam feridos ou morrem a cada ano ao tentarem imitar seus poderes bizarros.�</p><p>� Naomi Weathers, Liga dos Pais Americanos</p><p>�At� suas crian�as querem ser como n�s. Estes s�o os anos 1980. Uma nova d�cada, cara, e somos um povo novo. Podemos voar e n�o precisamos de nenhum avi�o rid�culo como aquele do limpo do Jetboy. Os limpos n�o sabem disso ainda, mas est�o obsoletos. Estamos na era dos ases.�</p><p>
      � carta an�nima no jornal <emphasis>Grito do Bairro dos Curingas</emphasis></p><p>
      1o de janeiro de 1981</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>A garota fantasma conquista Manhattan</strong></p><p>Carrie Vaughn</p><empty-line/><empty-line/><p>Jennifer n�o sabia aonde Tricia a estava levando at� a amiga pux�-la para fora do vag�o do metr� na plataforma da Second Avenue�Lower East Side. Sua preocupa��o aumentava cada vez mais nas �ltimas quatro esta��es � passou Midtown, passou Washington Square Park, passou por lugares que n�o tinham nada a ver com elas, e Tricia continuava dizendo:</p><p>� Ah, n�o, vamos sempre nos mesmos lugares, hoje quero tentar um lugar novo, vai ser <emphasis>divertido</emphasis>!</p><p>� Trish, voc� t� <emphasis>louca</emphasis>? Que estamos <emphasis>fazendo</emphasis> aqui? � Jennifer agarrou a amiga com as duas m�os e tentou reduzir seu avan�o pelo sagu�o de entrada e escada acima at� a Houston Street. Ela olhou em volta, chegando cada vez mais perto de Tricia. Nunca tinha visto tantos curingas em um s� lugar. Metade das pessoas em p� na plataforma eram curingas. Ela vira curingas antes, n�o era poss�vel morar em Nova York � mesmo se voc� nunca se afastou muito do campus da Columbia � sem ver curingas. A maior parte do tempo voc� via apenas um ou dois, e suas deformidades eram leves � tinham penas no lugar do cabelo ou, talvez, orelhas de coelho. Mas, naquele lugar, os corpos eram inteiramente detonados, transformados, monstruosos. Um homem passou por ela e deixou um rastro de gosma no concreto. Jennifer tentou n�o ficar olhando.</p><p>Tricia puxou-a escada acima e at� a rua, onde o caos aumentava.</p><p>� Ah, vai, os Fads v�o tocar no CBGB e quero muito, muito ir, e se eu falasse antes voc� nunca viria. Certo? Ia fazer toda a ceninha e ficar de nariz empinado, como est� fazendo bem agora.</p><p>� N�o sou uma �nariz empinado� � disse Jennifer, tentando n�o fazer cara feia. Nunca tinha ouvido falar dos Fads.</p><p>� Vamos l�, viva um pouco. N�o vai acontecer nada.</p><p>Obediente, Jennifer caminhava com a amiga, ainda se mantendo perto o suficiente para que seus bra�os se tocassem.</p><p>� Meus pais ficariam doidos se soubessem que estive num lugar pr�ximo ao Bairro dos Curingas.</p><p>Tricia respondeu:</p><p>� Ent�o n�o fale pra eles. Voc� n�o fala tudo para eles, n�?</p><p>� N�o. � De fato, Jennifer n�o falava. Tinha um grande segredo que mantinha guardado de absolutamente todo mundo. At� de Tricia. N�o conseguia falar para Tricia que o grande motivo pelo qual ela n�o queria sair era porque tinha certeza de que um desses dias algu�m descobriria. Algu�m olharia para ela e <emphasis>saberia.</emphasis></p><p>Especialmente algu�m no Bairro dos Curingas. Alguns deles n�o tinham apenas deformidades, as cicatrizes f�sicas do v�rus carta selvagem. Alguns tinham poderes. Alguns deles conseguiriam ler sua mente e <emphasis>saberiam</emphasis>. Depois disso, Jennifer n�o sabia o que poderia acontecer. Nunca tinha ido t�o longe nesses pensamentos. Melhor era fingir que n�o havia nada errado.</p><p>Se n�o fosse por Tricia, Jennifer nunca sairia para explorar a cidade. E, no fim das contas, elas se divertiam bastante.</p><p>Sob os apelos de Tricia, e confiando que a amiga n�o a levaria t�o longe, Jennifer vestiu-se para uma noitada: vestido curto e preto tomara que caia, sand�lias de salto alto, cabelos loiros com escova e laqu�. Tricia estava usando cal�as com estampa de oncinha, camiseta longa com cinto dourado, e seus saltos eram ainda maiores.</p><p>� Estamos chegando! � disse Tricia, puxando o bra�o de Jennifer para apress�-la.</p><p>Talvez ela esperasse algo reluzente, pelo jeito que Tricia estava agindo. Como o Studio 54. Mas, em qualquer outro dia, Jennifer teria passado direto pelo local sem perceb�-lo. N�o era nada de mais, apenas uma fachada grafitada com um toldo branco, pr�xima de um armaz�m de abastecimento para restaurantes. N�o tinha nem mesmo uma marquise. Mas tinha uma multid�o na frente, compartilhando a cal�ada com dois curingas sem-teto escorados no muro de tijolos � mostra.</p><p>Com Tricia � frente, elas abriram caminho no meio do povo at� a entrada. Limpos e curingas formavam a aglomera��o. Talvez at� mesmo um �s ou dois, mas quem conseguiria dizer? Jennifer n�o apontaria ningu�m ali.</p><p>Um cara na porta estava cobrando a entrada, e Jennifer estava fu�ando a bolsa em busca de uma nota de cinco quando Tricia puxou seu bra�o.</p><p>� Voc� tem mais uma de cinco a�? N�o consigo encontrar a minha. � Ela usou aquele olhar suplicante.</p><p>Jennifer suspirou e pegou mais uma nota. O suficiente para uma corrida de t�xi at� em casa. Mas elas se arranjariam, sempre se arranjavam.</p><p>L� dentro, as luzes eram fortes; as paredes eram pretas e cobertas de adesivos e tinta spray. Um balc�o ocupava uma parede inteira, uma porta aberta para os fundos, e um palco estava enfiado num canto. Uma banda tocava. Num p�ster escrito � m�o, colado com fita adesiva na parede acima deles, era poss�vel ler SONIC YOUTH. Eram muito jovens � um dos guitarristas era uma mulher com cabelo loiro e esvoa�ante. Usavam m�scaras e podiam ser punks, curingas ou ambos. Jennifer provavelmente n�o conseguiria dizer se n�o chegasse mais perto.</p><p>A m�sica estava alta, n�o era muito dan��vel, e ningu�m estava dan�ando de verdade. Mas as pessoas se mexiam. Uma multid�o delas, bem perto do palco, pulando, batendo umas nas outras, estendendo os bra�os na dire��o do palco. A guitarrista estava cantando, ou melhor, gritando as letras quase imposs�veis de ouvir pelo barulho dos instrumentos: guitarras rugiam e a bateria estrondava. O suor voava dos cabelos da mulher. Com aquelas luzes, o lugar parecia um forno.</p><p>Tricia berrava e balan�ava no lugar.</p><p>� N�o � � e o resto era imposs�vel de se escutar.</p><p>� Qu�? � Jennifer berrou de volta.</p><p>� Ei! � falou um rapaz alto, magro, de cabelos escuros e camiseta preta com uma estampa desbotada escrita THE RAMONES, trocando de lugar para ficar na frente delas. � Posso pegar duas bebidas para voc�s?</p><p>Tricia esgoelou-se de novo e agarrou o bra�o dele. Jennifer revirou os olhos.</p><p>Ap�s ver alguns garotos de moicano na frente do palco, Jennifer esperava punks assustadores com cabelos espetados e jaquetas do ex�rcito, coturnos e camisetas pintadas com spray. Esperava correntes e brigas estourando. Mas n�o foi assim. Embora alguns punks reais fizessem parte da turma, muitos dos rapazes estavam entre o punk e o normal, com jeans rasgados, camisetas pretas e express�es rudes, mas n�o tinham cabelos esquisitos e todo o metal e os slogans. V�rias garotas n�o se vestiam diferente dos caras, mas outras estavam produzidas, como Jennifer e Tricia. Cabelos cheios de cores, modelados e com aur�olas em torno da cabe�a � fixadas com laqu� �, saias curtas e cal�as justas, saltos altos e grandes brincos de argola, <emphasis>gloss</emphasis> rosa e sombras brilhantes nos olhos. Um casal incrivelmente bonito estava num canto pr�ximo do palco. Tinham cabelos impec�veis, cortados e arrumados como modelos de revista. Ele vestia um terno branco que parecia bem caro e ela, um vestido de noite colado, joias prateadas e fumava de uma piteira. Totalmente afetados, mas intrigantes ao mesmo tempo. E havia um monte de festeiros comuns � universit�rios jovens e normais, talvez com olhos um pouco vidrados, esperando o pr�ximo barato da droga bater. Jennifer ficou preocupada em se destacar, que as pessoas saberiam que ela n�o fazia parte daquilo e lhe causariam problemas. Mas ela n�o se destacava, e ningu�m lhe causou problema algum.</p><p>Cerca de um ter�o daquela multid�o era de curingas, e Jennifer mal notou � primeira vista. Porque eles tamb�m n�o se sobressa�am. Alguns deles usavam m�scara. Ou poderiam ser limpos usando m�scaras. Nem disso ela conseguia ter certeza. E parecia que n�o importava.</p><p>Jennifer percebeu de relance outro casal na outra ponta do balc�o. Na superf�cie, se pareciam com o resto das pessoas ali, jeans e camiseta, despretensioso, a n�o ser por aparentarem dez anos mais velhos que a maioria do pessoal ali.</p><p>Ent�o Jennifer ficou boquiaberta. Ela sacudiu Tricia.</p><p>� N�o � o Mick Jagger e a Jeri Hall ali?</p><p>Tricia estava no meio de uma bebida e derramou parte daquilo que cheirava a gim-t�nica goela abaixo, mas conseguiu olhar de qualquer jeito. Seus olhos ficaram arregalados.</p><p>� Ai, meu Deus, e ele est� conversando com o <emphasis>David Byrne</emphasis>!</p><p>Jennifer n�o sabia quem era David Byrne.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Outra banda tocou antes dos Fads entrarem no palco. A essa altura, Tricia estava completamente b�bada, e Jennifer a segurava, pois a amiga esbarrava o tempo todo nas outras pessoas. Ningu�m parecia ligar, e Jennifer tentou n�o se irritar, mas n�o tinha vindo para servir de bab� de Tricia.</p><p>N�o, pensou melhor, provavelmente tinha. Tricia provavelmente pediu para que ela viesse, pois Jennifer era respons�vel e levaria ambas para casa s�s e salvas. Jennifer ainda bebia o mesmo rum com Coca-Cola havia uma hora. Tinha certeza de que Tricia tinha tomado umas p�lulas. Todo mundo parecia ter tomado.</p><p>O lugar estava quente como uma estufa, cheio de suor, fuma�a de cigarro e bafo de �lcool.</p><p>Parecia levar uma eternidade para uma banda sair do palco e outra assumi-lo, e quando Tricia percebeu que os Fads estavam l�, ela berrou e correu para a frente do palco, acotovelando as pessoas para passar, rindo quando tomava um empurr�o de volta. Jennifer gritava com ela, mas n�o conseguia nem ouvir a si mesma.</p><p>Os Fads eram tr�s rapazes. Dois deles eram curingas � do tipo intrigante. O cantor tinha cabelo brilhante, tran�as brancas e finas at� o pesco�o que se acendiam nas pontas como aquelas l�mpadas de fibra �tica de lojas <emphasis>kitsch</emphasis>. O guitarrista tinha muitos dedos em cada m�o. Era at� dif�cil cont�-los, pois ele os movia com grande velocidade sobre as cordas de seu instrumento, criando um padr�o bizarro de sons. O baterista parecia ser normal, um punk sem camisa com cabelo esbranqui�ado e espetado e um alfinete de seguran�a na orelha esquerda.</p><p>A suposta m�sica consistia mais num tamborilar man�aco do que numa melodia. O cantor gritava. Jennifer n�o conseguia entender muito das letras. Coisas sobre odiar os pais, botar fogo nas coisas e pensar quando as bombas cairiam.</p><p>Finalmente, a banda terminou. Houve um monte de gritos.</p><p>� Preciso fazer xixi � anunciou Tricia, agarrando a m�o de Jennifer e puxando-a para os fundos da casa noturna. Jennifer a segurou, pois estava prestes a cair.</p><p>� Tem banheiro aqui? � perguntou Jennifer, em d�vida. Ela n�o estava certa se queria v�-los, levando em conta o que vira do resto do local. Tricia apenas revirou os olhos, numa express�o como se dissesse �� poss�vel ser menos descolada que voc�?�.</p><p>O lugar era uma caverna, paredes pretas se estreitavam, o grafite somava-se � sobrecarga sensorial. Uma escada no fundo levava mesmo para baixo at� os banheiros. Jennifer sentiu o cheiro antes de chegarem. O fedor de suor e mofo do resto do clube deu lugar a um vest�gio de esgoto. Ela torceu o nariz.</p><p>Tricia mantinha o equil�brio segurando-se em Jennifer, enquanto ela empurrava a porta e entrava no banheiro feminino: aqui, o cheiro de esgoto se espalhava sem interfer�ncias. O ch�o estava grudento, e Jennifer estava com medo de olhar as privadas nas cabines e o que, sem d�vida, transbordava delas.</p><p>A sujeira � no n�vel de risco grave � sa�de � n�o impedia um aglomerado de mulheres de se apinhar na frente de um espelho marcado por grafites, passando spray no cabelo e retocando o delineador.</p><p>Tricia parecia ter esquecido sua necessidade de usar as instala��es. Caiu contra a parede forrada de adesivos e p�steres, e ergueu os olhos para alguma vis�o celestial.</p><p>� Foi incr�vel, foi <emphasis>t�o</emphasis> incr�vel!</p><p>Ao lado delas, uma mulher de meia arrast�o, saia plissada e busti� de couro estava segurando um espelhinho, algumas linhas de p� branco impecavelmente enfileiradas sobre ele. Uma amiga com roupas semelhantes curvou-se ao lado dela e inalou a coca�na.</p><p>A primeira flagrou Jennifer olhando.</p><p>� Quer um pouco? � perguntou ela. � Tenho bastante.</p><p>Jennifer rapidamente sacudiu a cabe�a e pensou sobre como ela n�o era mesmo descolada.</p><p>� Claro, aceito, obrigada! � disse Tricia, tombando para a frente enquanto a mulher segurava o espelho.</p><p>� Tricia� � disse Jennifer, mas a segunda linha de coca j� havia escalado o nariz de Trish. Ser� que a noite poderia piorar?</p><p>Tricia ergueu-se, seu rosto vermelho, esfregando o nariz e dando risadinhas.</p><p>� Ai, meu Deus, tive uma ideia �tima.</p><p>� N�o, outra n�o � murmurou Jennifer. Estava respirando pela boca, pois o cheiro parecia estar piorando. A �gua gorgolejava de uma das cabines, e as outras garotas gritaram:</p><p>� Cara, voc� n�o deu descarga, deu? Caramba!</p><p>Tricia pegou a m�o de Jennifer novamente e seguiu de volta para a porta.</p><p>� Quero segui-los.</p><p>� Seguir quem?</p><p>� Os Fads! Tony! Quero tentar um encontro com ele!</p><p>� Tony?</p><p>� O cantor! Ele n�o � demais?</p><p>� Trish, voc� sabe que horas s�o? � hora de ir embora!</p><p>� S� um minutinho, vai levar apenas um minutinho.</p><p>De alguma forma, Tricia as levou de volta escada acima, passaram por um corredor at� uma porta desprotegida. As paredes eram cobertas com p�steres e folhetos antigos que anunciavam shows ali, alguns deles de muitos anos atr�s. Ela at� reconheceu algumas das bandas. Uau, The Police tocou aqui? E Blondie? S�rio? Mas Tricia estava numa miss�o, decidida. Ela se desprendeu, e Jennifer apressou-se para alcan��-la.</p><p>Parecia que tinham emergido da multid�o, mas as pessoas as cercaram novamente no fim do corredor, que se abria para os bastidores, camarins e dep�sito. Jennifer reconheceu o cantor, estava autografando no verso de folhetos e ingressos, enquanto o que parecia, mais ou menos, uma d�zia de mulheres se espremendo em volta dele. Seu cabelo brilhante criava uma aur�ola, refletindo a luz no rosto. Os outros dois membros da banda estavam num canto, divertindo aqueles que n�o conseguiram chegar perto de Tony. N�o deveria haver seguran�as ali?</p><p>� Ei, voc�.</p><p>Tricia virou-se e viu um cara em p� atr�s dela, sorrindo. Parecia um pouco velho para a multid�o, com trinta em vez de vinte, rosto enrugado e gasto pelo tempo, bem barbeado, com cabelo preto cortado rente. Usava uma camiseta branca apertada e cal�a jeans que parecia cara, apesar de desbotada.</p><p>Tricia piscou para ele, sem saber se estava falando com ela.</p><p>� Voc� deve ser nova por aqui � disse ele.</p><p>� Quem, eu? � retrucou ela e, imediatamente, sentiu-se est�pida. � N�o, estou aqui com uma amiga. � Ela apontou sobre os ombros. Tricia puxou seu top para baixo para deixar metade dos peitos � mostra, os quais o cantor estava assinando com um marcador de texto.</p><p>O rapaz abriu um sorriso mais largo.</p><p>� Quer uma? � Ele mostrou um estojo redondo de metal nas m�os, cheio de pequenas p�lulas brancas.</p><p>De novo, n�o. Deu seu melhor para sorrir, enquanto afastava com a m�o.</p><p>� N�o, obrigada, estou bem.</p><p>� Amo essas festas, essas bandas conseguem as melhores drogas.</p><p>� Ah � ela disse.</p><p>� Esse � meu segredo terr�vel. N�o ligo muito para a m�sica. Mas n�o diga a ningu�m. � Ele chegou mais perto e piscou.</p><p>Ele estava paquerando-a? Tentando se envolver com ela? Tricia n�o tinha certeza se saberia como reagir. Estava ao mesmo tempo apavorada e lisonjeada. Ficou t�o vermelha e quente que poderia sentir o vapor saindo da cabe�a.</p><p>� Pode deixar, n�o conto. Preciso mesmo ir com a minha amiga� � Mas quando ela viu, a banda tinha ido embora. Assim era Tricia.</p><p>� Tricia? � Jennifer chamou. Ela correu para a porta dos fundos, saindo num beco atr�s do bar. Um Cadillac feio e cheio de ferrugem estava estacionado ali. A banda estava entrando no carro, fazendo uma sa�da r�pida.</p><p>O cantor com cabelos brilhantes agarrou Tricia pela cintura, quase levantando-a no ar, enquanto ela se contorcia e empurrava os bra�os dele. Estava dizendo algo, talvez gritando, embora Jennifer n�o conseguisse ouvi-la com a multid�o gritando e o barulho ainda estrondoso do clube atr�s dela.</p><p>� <emphasis>Tricia!</emphasis> � Jennifer fez uma concha com a m�o � frente da boca e chamou.</p><p>Apesar do esfor�o, ela j� havia sido puxada para dentro do carro.</p><p>Jennifer gritou novamente:</p><p>� <emphasis>Tricia!</emphasis> � E desceu correndo os degraus do palco, quase trope�ando nos saltos, com a inten��o de correr atr�s do Cadillac caindo aos peda�os. Em vez disso, correu para o meio da multid�o que n�o a deixou passar. Jennifer era alta, conseguia ver sobre a maioria das cabe�as. Mas n�o podia abrir caminho.</p><p>Um homem parrudo � um curinga, com presas projetando-se para cima de sua mand�bula e escamas pretas brilhando no lugar do cabelo � bloqueou seu caminho de prop�sito depois de ela se deparar com ele. Jennifer tentou contorn�-lo, mas ele deu um passo para o lado a fim de prend�-la.</p><p>� Ei, nen�m, que pressa � essa?</p><p>� Meu camarada � insistiu ela, desesperada. � Levaram minha amiga. N�o a viu? Ela n�o queria ir, eles simplesmente a levaram.</p><p>Ele sorriu. Suas presas faziam com que parecesse um buldogue.</p><p>� Meu amor, essa garota est� aproveitando a vida.</p><p>Jennifer o encarou, horrorizada.</p><p>� Voc� a <emphasis>viu</emphasis>? � Ela apontou para o carro, agora avan�ando com sua amiga dentro. � Ela estava tentando se livrar deles! Ela quase desmaiou de t�o b�bada�</p><p>O curinga deu risada.</p><p>� T� com ci�mes que eles n�o te levaram? Talvez voc� possa se divertir comigo.</p><p>� Ela precisa de ajuda!</p><p>O rapaz tentou agarr�-la, mas ela escapou, batendo nas m�os dele. Ele apenas ria. O carro virou a esquina.</p><p>Tricia foi sequestrada bem embaixo do nariz de Jennifer. Bem embaixo do nariz de <emphasis>todo mundo</emphasis>.</p><p>Jennifer recordou ter visto um telefone p�blico ao lado dos banheiros. Ela correu de volta para dentro e desceu as escadas. Esperava que, devido ao seu azar, chegaria ao telefone e descobriria que estava quebrado, mas n�o estava. Contudo, p�s a m�o em algo grudento no fone. Fazendo careta, passou a m�o na parede para limpar o m�ximo que p�de. Agachando-se para fazer uma bolha de privacidade, bloqueando o ru�do ao cobrir o ouvido, ela discou para a telefonista.</p><p>� Telefonista.</p><p>� Oi! Ligue para a pol�cia! � A linha estalava e crepitava com a est�tica. Ela mordia os l�bios, certa de que havia perdido a conex�o, at� ouvir uma voz.</p><p>� Departamento de Pol�cia.</p><p>� Oi, sim? � minha amiga. Minha amiga foi sequestrada!</p><p>� Desculpe?</p><p>Jennifer mal podia ouvir. Estava gritando.</p><p>� Minha amiga! Ela foi sequestrada!</p><p>� Senhora, pode dizer o que aconteceu?</p><p>� Est�vamos num bar. Alguns homens, uns caras da banda, puxaram ela pra dentro do carro. Ela estava tentando se soltar, n�o estava muito s�bria, e eles aproveitaram�</p><p>� Aguarde um minuto. � Agora o rapaz no outro lado da linha parecia se divertir. � Ent�o voc�s estavam numa festa e ela te abandonou para correr atr�s da banda�</p><p>� N�o, estou te falando, eles a arrastaram! Ela estava quase desmaiando e eles a <emphasis>levaram</emphasis>!</p><p>� Onde a senhora est�?</p><p>Ela hesitou. N�o estava indo bem e iria piorar.</p><p>� Estou naquele bar do Bowery�</p><p>O policial desligou o telefone.</p><p>Jennifer resmungou e bateu o fone no gancho. Por que Tricia n�o esperou por ela? Por que ela n�o revidou? E se ela n�o visse Tricia de novo? Sua amiga acabaria sendo estuprada e morta em uma sarjeta, e seria tudo culpa de Jennifer.</p><p>Ela tentou novamente, talvez por meio de uma central em vez da telefonista desse certo. O problema era que n�o tinha nenhum trocado na sua bolsa. Apenas algumas notas para drinques. Ela suspirou. Ent�o olhou em volta para ter certeza de que n�o havia ningu�m olhando.</p><p>Rapidamente, ela pousou a m�o no telefone p�blico� ent�o, atravessou-o. Sua m�o ficou sem subst�ncia, passando pelo aparelho como se fosse ar. Apalpou por um momento e encontrou o compartimento do troco, agarrou algumas moedas e puxou a m�o de volta para fora. As moedas flutuaram junto com ela. Agora, tinha dinheiro trocado.</p><p>De qualquer forma, seu poder de �s significava que ela poderia sempre usar um telefone p�blico.</p><p>Cinco anos atr�s, quando ela estava com 14 anos, aconteceu pela primeira vez. Serviu para si um copo de suco de laranja, pegou-o � e ele caiu. O copo escorregou da m�o dela. Ou melhor, ela estava olhando para ele� quando ele escorregou <emphasis>atrav�s</emphasis> de sua m�o. Ela ficou em p� por um longo tempo, o vidro quebrado e a po�a de suco de laranja aos seus p�s, encarando o contorno transl�cido da m�o e o ch�o da cozinha, vis�vel atrav�s de sua carne n�o mais s�lida. A m�e entrou, viu a bagun�a, e perguntou se estava tudo bem, supondo ter sido um acidente normal. Jennifer botou a m�o rapidamente para tr�s. Quando olhou novamente, ela estava s�lida. Normal.</p><p>Seguiram-se meses de medo e experimenta��o. Seu primeiro pensamento foi que estava desaparecendo, que no fim das contas sumiria. Teve ins�nia, medo de esvaecer durante o sono. Mas, no final, ela aprendeu que podia controlar o poder. Conseguia passar por objetos s�lidos. Praticava passando por gavetas, arm�rios de escola, o cofre de seu pai. Era um barato de �s. N�o ousou contar a ningu�m sobre isso.</p><p>Ela enfiou algumas moedas de dez centavos no telefone, discou o n�mero e pediu pelo gabinete principal da delegacia mais pr�xima. Ela falou com algu�m que parecia ser um sargento de plant�o, contando toda a hist�ria de novo, tentando soar calma e desesperada ao mesmo tempo para que o oficial a levasse a s�rio.</p><p>O cara tamb�m desligou na cara dela.</p><p>Limpando as l�grimas dos olhos, Jennifer subiu as escadas pisando duro.</p><p>Outra banda estava tocando. L� atr�s, na parte principal da boate, ela se acotovelou num corredor lotado e entrou na muralha de m�sica agressiva e estridente vinda do palco, sem parar quando algu�m a chamava, livrando-se de m�os que a apalpavam. Poderia ter sido sua imagina��o, poderia ter sido que o mundo de repente tenha ficado escuro e nefasto, mas a multid�o parecia ter ficado mais desordeira. A confus�o na frente do palco tinha ficado mais violenta. Jennifer ficou nos cantos e concentrou-se na frente do clube e na porta aberta, ignorando a massa de pessoas em torno dela e o tormento �cido em suas entranhas.</p><p>De que adiantava ser um �s se n�o poderia de fato fazer nada �til? Se n�o podia de fato ajudar algu�m? Por que ela n�o podia ser uma ps�quica, para poder saber para onde eles a levaram? Ou voar, para que pudesse seguir o carro?</p><p>Ela conseguiu chegar � porta da frente e sair para o ar � relativamente � puro. Uma multid�o ainda se apinhava l�, pessoas indo e vindo, ficando por ali. Sem saber o que fazer, ela se recostou na parede de tijolos do bar e descansou, tirando o suor e o cabelo do rosto. Talvez se fosse at� uma delegacia pessoalmente. Talvez se pudesse encontrar algu�m que conhecesse a banda. Eles tinham de ter um empres�rio ou algu�m que soubesse aonde poderiam ter ido.</p><p>� Ei, mo�a. O que houve?</p><p>Era o rapaz de camiseta branca com as p�lulas. Devia estar o tempo todo ali fora, ou talvez tenha vindo simplesmente da porta da frente. Talvez ele a tenha seguido.</p><p>Ele se recostou desengon�ado � parede, distante o suficiente para que n�o conseguisse esticar o bra�o e tocar nela. Isso tirou um pouco da suspeita dela contra ele.</p><p>� Por que o interesse? � Ela o olhou com f�ria, depois virou o rosto, sem querer que ele pensasse que ela estava flertando com ele. N�o que parecesse que ele estava flertando com ela. Apesar disso, ela fungou profundamente e l�grimas rolavam sobre suas bochechas. Ela disse:</p><p>� Minha amiga, Tricia. Ela sumiu e ningu�m se importa, ningu�m quer fazer nada.</p><p>� Ela te deixou pra tr�s? � disse ele, abrindo um sorriso ir�nico.</p><p>� N�o, � simples, ela foi sequestrada! A banda, eles a levaram, ela estava b�bada e eles a arrastaram para o carro, eu vi tudo!</p><p>� Tem certeza de que ela n�o decidiu ir farrear com a banda?</p><p>� Sem mim? Ela n�o faria isso. � Jennifer balan�ou a cabe�a para enfatizar. Embora fosse sincera, ela esperava qualquer coisa de Tricia, que estava <emphasis>realmente</emphasis> b�bada. Ela suspirou para mais uma rodada de l�grimas.</p><p>� Ei � disse o rapaz. � Sei onde a festa continua. Posso te levar l�, se voc� quiser.</p><p>� S�rio? � perguntou ela, desconfiada. Imaginou <emphasis>ela mesma</emphasis> sendo empurrada num carro enferrujado�</p><p>� Sim, � apenas a uns quarteir�es daqui. Conhe�o o cara que d� a tal festa e, se voc� mostrar um pouco de perna, consegue entrar l� numa boa.</p><p>Ela virou o rosto, enrubescendo.</p><p>� � como eu disse, esses caras fazem as melhores festas com as melhores drogas. Vamos l� dar uma olhada, certo?</p><p>� Tem certeza de que Tricia vai estar l�?</p><p>� Se ela foi com a banda, sim, tenho. � Ele saiu da cal�ada e ofereceu a ela o apoio de seu bra�o, um gesto estranhamente doce e arcaico. Ela o seguiu, mas n�o lhe deu o bra�o; ele pareceu divertir-se com isso e n�o se ofendeu.</p><p>Caminharam, mais ou menos, um quarteir�o. O barulho do CBGB desaparecia, substitu�do pelo ru�do de outros bares, um pouco diferentes, as sombras de m�sica e o sabor da multid�o mudando a atmosfera punk. Seu olhar foi atra�do pelos curingas que viu parados nas entradas e caminhando nas ruas. Eles a encaravam, e ela conseguiu n�o encarar de volta. Refugiou-se em si mesma, tentando ser discreta.</p><p>O rapaz da casa noturna n�o pareceu se importar com isso. Ele caminhava com passos f�ceis, confort�veis, como se estivesse andando no Central Park num dia ensolarado.</p><p>� Qual seu nome? � perguntou ele ap�s um per�odo de sil�ncio.</p><p>� Jennifer � respondeu ela. Ent�o se perguntou se deveria ter dito a ele algo mais. Em seguida, decidiu que era um nome comum demais, n�o importava, n�o era prov�vel que ele pudesse investig�-la. Assim, ela percebeu que estava entrando no Bowery com um completo estranho.</p><p>� Jennifer. Prazer. Sou Croyd.</p><p>� Oi � disse ela, rindo de maneira nervosa.</p><p>� Percebo que voc� n�o passa muito tempo nesta parte da cidade.</p><p>� Na verdade, n�o. Eu estudo na Columbia. � Ela recuou. Por que tinha dito aquilo para ele?</p><p>� � mesmo? Que �timo. Faculdade, voc� sabe. � bacana. E aqui estamos. Acho que � s� subir essas escadas.</p><p>N�o havia d�vida, o barulho de uma festa vinha do terra�o. Jennifer estava esperan�osa. A banda estaria l�, Tricia estaria l�, e Jennifer gritaria com ela por correr daquele jeito. Ent�o, talvez pudessem finalmente ir para casa, e o zumbido em seus ouvidos pararia.</p><p>Croyd educadamente afastou-se para deix�-la entrar primeiro, e ela correu escada acima e para dentro de um c�modo que parecia um dep�sito. Faltava fazer bastante coisa naquele local ordin�rio: o ch�o era de concreto, o balc�o era feito de mesas dobr�veis, e as paredes precisavam de uma dem�o de tinta. Mas havia um r�dio, um toca-discos e alto-falantes enormes despejando mais do mesmo tipo de m�sica tosca do bar. Ningu�m estava dan�ando � n�o havia muito espa�o. Grupos de pessoas pareciam estar conversando aos berros, mas Jennifer n�o sabia se conseguiam se ouvir. Portas duplas em uma parede abriam para um terra�o e a festa continuava l� fora.</p><p>Como encontraria Tricia naquela bagun�a?</p><p>O rapaz que parecia estar � frente do bar era um curinga. Tinha peso e estatura m�dia, mas era coberto por pelos azuis grossos; ela n�o conseguia ver suas fei��es. A boca e os olhos eram apenas sombras. Ele parecia olh�-la.</p><p>� Pode pegar o que quiser, s� jogar alguma coisa no jarro, t�? � Ele apontou um jarro de picles grande recheado com dinheiro no canto da mesa.</p><p>� T� procurando minha amiga. Ela est� com a banda, eu acho. Os Fads. Est�o aqui? Voc� a viu?</p><p>� Os Fads? � ele gritou, curvando-se para mais perto. Os pelos em volta da boca tremelicaram.</p><p>� Sim! Minha amiga, ela � mais baixa que eu, com cabelo castanho, voc� a viu?</p><p>� N�o vi eles. N�o passaram aqui, n�o.</p><p>Ela congelou. E agora?</p><p>� Tem certeza? Eles acabaram de tocar num bar aqui perto, o CBGB�</p><p>� Meu amor, eu conhe�o a banda, eu sei onde eles tocam, eles n�o vieram aqui, n�o vi sua amiga. Agora, voc� quer alguma coisa ou n�o?</p><p>Sem responder, ela deixou a multid�o empurr�-la para longe da mesa. Olhando � sua volta, percebeu que tamb�m havia perdido Croyd e n�o sabia se aquilo a deixava nervosa ou aliviada. Ent�o, est� bem. Isso n�o a deixava pior do que estava antes. Tinha apenas de encontrar algu�m que conhecesse a banda e soubesse para onde tinha ido. N�o estava tudo perdido. Determinada, ela se virou e abriu caminho �s cotoveladas at� o bar improvisado. Se o barman conhecia a banda, talvez dissesse onde estavam.</p><p>Ela perdeu o rumo quando uma mulher a atropelou. Jennifer trope�ou no salto, mas ficou em p� abrindo as pernas. Ela conseguiu at� segurar a mulher, impedindo que as duas desabassem no ch�o.</p><p>A mulher tinha por volta de vinte anos, com tra�os bonitos, delicados, mas uma express�o cansada, assustadi�a. Ela havia mordido os l�bios e tirado todo o batom. Trajava um vestido tricotado com gola canoa.</p><p>Jennifer tentou atrair o olhar da mulher, mas ela continuava a fitar por sobre os ombros dela.</p><p>� Tudo bem?</p><p>Quando Jennifer falou, a aten��o da mulher voltou-se para ela. Seus l�bios apertavam-se, obstinados.</p><p>� Segura isto aqui pra mim? � disse ela e colocou uma chave numa argola com uma etiqueta de pl�stico na m�o de Jennifer.</p><p>Seus dedos instintivamente fecharam-se em torno dela. A mulher empurrou Jennifer e desapareceu.</p><p>� Ei! � Jennifer a seguiu por um momento, observando seu cabelo preto e escorrido balan�ando num mar de gente, ent�o ela sumiu, outra festeira an�nima. Jennifer tentou segui-la, mas n�o conseguiu abrir caminho novamente com os cotovelos.</p><p>Quando o tiro estourou pelo ar, Jennifer pensou que fosse uma garrafa estourando no bar. Apenas quando todos come�aram a gritar e empurrar, ela percebeu que o ru�do n�o era t�o inofensivo. Mas com todos se debatendo e entrando em p�nico antes de ela ter entendido o que estava acontecendo, ela foi deixada para tr�s, olhando ao redor como uma idiota.</p><p>Um grupo de homens estava parado no topo das escadas e se espalhou. Quatro deles, obviamente parte de alguma gangue, grandes e rudes. Usavam m�scaras, daquele tipo barato de Halloween que poderiam ter sido compradas em qualquer lojinha do Bairro dos Curingas. Todos carregavam armas, um deles atirou para o alto, e ainda segurava o rev�lver para cima. Talvez fosse um curinga, ele era t�o grande � bra�os e pernas volumosos, m�sculos que pareciam cabos, quase sem nenhum pesco�o. Um deles era mesmo curinga, com bra�os peludos e garras no lugar das m�os. Os outros podiam ser normais ou curingas � as m�scaras escondiam quaisquer deformidades que pudessem ter. Novamente, isso n�o parecia importar. Curingas ou limpos, eram grandes, maus e estavam nervosos.</p><p>Jennifer sabia que esse tipo de coisa s� poderia acontecer daquele lado da cidade. Ela mataria Tricia por t�-la trazido ali. Se ela j� n�o estivesse morta.</p><p>� A gente sabe que voc� t� aqui! � disse o grandalh�o com a arma. Ele andou com impon�ncia, examinando os rostos. � Entregue e ningu�m vai se machucar!</p><p>O p�nico arrastou a maioria da multid�o para o terra�o. A mulher que trombara com Jennifer havia sumido. <emphasis>Entregue�</emphasis> Jennifer inconscientemente olhou para a chave na sua m�o. E isso foi um erro.</p><p>O brutamontes olhou para ela ali, em p�, com um pequeno objeto na palma da m�o, sem d�vida, parecendo l�vida e confusa. Sua express�o tornou-se resoluta, satisfeita, e ele marchou na dire��o dela.</p><p>O cora��o de Jennifer disparou, sua pele ficou fria, e ela deu um passo para tr�s� e caiu.</p><p>E continuou caindo.</p><p>Ela pensou por um momento que havia apagado, desmaiado, sua mente estilha�ando-se em peda�os. Sua vis�o escureceu e o corpo transformou-se em h�lio, sem peso e disperso, zonzo. Cada poro estava atordoado, �s avessas. Ela n�o conseguia respirar.</p><p>Ent�o, o mundo voltou, ela tomou f�lego e as paredes passavam r�pido� ela estava realmente caindo, mas apenas por um segundo, at� que atingiu o ch�o. Tudo havia mudado� o bar do terra�o desapareceu, o espa�o era escuro e vazio. O homem com a arma marchando � sua frente sumiu, o que foi um grande al�vio.</p><p>Mas n�o, ningu�m havia desaparecido. Ela olhou para cima, para o teto vazio, colunas e exaustor � mostra. Ela caiu de l�. E estava nua. Seus bra�os, costas e pernas estavam arrepiados. Ela abra�ou os joelhos, curvando-se para se esconder. Seu corpo inteiro havia vazado atrav�s ch�o, como um fantasma. Atrav�s das <emphasis>roupas</emphasis>. Estava nua e sentada no ch�o de lin�leo daquilo que parecia o dep�sito de uma loja de bebidas. Caixas de papel�o empilhadas com r�tulos de Coors, Pabst e Hamm�s a cercavam. Por sorte, tinha ca�do no corredor que dava passagem da porta dos fundos at� a frente da loja. O que teria acontecido se ela tivesse ca�do no meio de uma pilha de caixas? Se seu corpo tivesse se solidificado ali? Ela n�o conseguia nem imaginar. Tremia.</p><p>Ficou olhando para o teto, incerta sobre o que havia acontecido, embora soubesse, apenas ela <emphasis>sabia.</emphasis> Como o copo de suco de laranja atravessando sua m�o. Seu corpo todo atravessando o ch�o.</p><p><emphasis>Posso atravessar paredes</emphasis>, ela pensou. E queria tentar, imediatamente. Exceto pelo fato de estar nua. De que serviria atravessar paredes se precisava estar nua?</p><p>Mas ainda estava segurando a chave no seu punho bem fechado com os dentes da chave enterrados na pele. Estava t�o concentrada segurando-a que a trouxe consigo atrav�s do ch�o.</p><p>Quando a porta de tr�s abriu com tudo, escondeu-se atr�s de uma torre de caixas. Ouviu passos pesados de botas e at� rosnados. A gangue arrombou a porta, encontraram-na, e agora falariam coisas indiz�veis para ela. Ela esperava poder atravessar o ch�o novamente, embora n�o tivesse certeza de como tinha feito na primeira vez.</p><p>� Ei, garota. Jennifer. Voc� est� aqui? N�o me diga que caiu at� o esgoto.</p><p>Era Croyd.</p><p>� Estou aqui. Estou� Digo, minhas roupas n�o vieram comigo.</p><p>� Eu sei, estou com elas. Por que n�o me disse que era um �s?</p><p>� Porque n�o disse <emphasis>para ningu�m</emphasis>. Ningu�m sabe. Ao menos, ningu�m costumava saber.</p><p>� Provavelmente, o mais inteligente a se fazer � comentou ele, naturalmente, nem um pouco chocado. � Mas voc� tem alguma ideia da utilidade de um poder desses? Eu me lembro da �poca, l� em 1953, os federais tentando me prender, mas eu fui sortudo e consegui escapar.</p><p>� Do que voc� t� falando?</p><p>� Deixa pra l�. Aqui. � Ele estendeu as roupas na dire��o da voz dela. Quando ela saiu de l� para alcan��-las, ele estava educadamente olhando para o outro lado.</p><p>Ela se apressou em se vestir. Ele conseguiu pegar o suti� e as calcinhas tamb�m, pelo que ela ficou muito agradecida. At� os sapatos. Mas as joias se perderam. Ela precisava mesmo entender como fez aquilo, e como ela poderia fazer novamente sem perder tudo. Enquanto colocava o vestido, perguntou:</p><p>� O que aconteceu? Quem s�o aqueles caras?</p><p>� Ia te perguntar isso� por que ficaram t�o interessados em voc�? O que voc� fez?</p><p>� Nada! S� dei aquela trombada e, bem, aquela mulher me deu isto aqui. � Ela lhe mostrou a chave. A etiqueta nela mostrava um n�mero: 51337.</p><p>� Voc� tem o dom de estar no lugar errado na hora errada, n�o �?</p><p>� S� quero encontrar a Tricia e ir para casa. � Ela pulava enquanto prendia o fecho de sua sand�lia.</p><p>� Vamos � disse Croyd. � � melhor sairmos daqui.</p><p>� Qu�? Por que�</p><p>Ela seguiu o olhar nervoso dele para a porta e para o corredor e teve a resposta� a gangue os seguira. O corpo imenso do l�der bloqueava o caminho para fora, e ele parecia estar pronto para atirar nela e em Croyd.</p><p>Jennifer n�o sabia se conseguiria afundar novamente atrav�s do assoalho. E, se ela fizesse, onde acabaria? Talvez se corresse atrav�s da parede�</p><p>� Congela! � gritou Croyd para eles. E eles obedeceram. A boca do grandalh�o l�der estava aberta para falar, mas permaneceu em sil�ncio. Croyd deixou escapar um suspiro.</p><p>Jennifer olhou para ele. Admirada, ela disse:</p><p>� Voc� � um �s tamb�m.</p><p>Ele fez uma careta.</p><p>� �, hum, n�o � bem assim. Sou mais um dois de paus.</p><p>� Um o qu�?</p><p>� Dura apenas cinco minutos. Vamos embora agora.</p><p>Ele a puxou entre os criminosos congelados. Eles correram.</p><p>Tomaram um caminho serpenteante, virando a cada esquina numa tentativa de tornar as coisas mais dif�ceis. Jennifer n�o sabia se isso ajudaria. Ent�o, mais uma vez, estava ficando totalmente perdida. Talvez, agora, se ela chamasse a pol�cia, eles ajudassem.</p><p>N�o que pudesse chamar algu�m para ajudar. N�o que estivesse sozinha numa rua escura com um estranho que ela n�o conhecia. Como p�de ser t�o est�pida?</p><p>Croyd virou novamente num beco pr�ximo de uma entrada de arenito escondida e condenada que, sozinha, ela teria ignorado. Deu-lhes uma oportunidade de respirar um pouco.</p><p>� Deixa eu olhar isso � falou Croyd, apontando a chave que ela ainda segurava na m�o.</p><p>Relutante em entreg�-la, ela a levantou onde ele conseguia v�-la. Ap�s um momento, ele comentou:</p><p>� Parece de uma caixa postal de correio.</p><p>� E da�? � disse Jennifer, ainda tentando recuperar o f�lego. Ela esfregou o p� onde uma bolha estava se formando.</p><p>� Estou achando que � parte de uma entrega que deu errado. Provavelmente drogas, coisas roubadas ou algo assim. Aquela mulher tinha que entregar a chave. Os caras tinham que pegar a mercadoria ou a grana. Estamos no meio do fogo cruzado.</p><p>� Isso n�o me deixa mais tranquila � falou ela.</p><p>� Conhe�o algu�m que pode nos dizer at� onde isso vai. � Ele estendeu a chave, ela saiu do caminho dele.</p><p>� E a Tricia?</p><p>� Quem?</p><p>� Minha amiga que foi sequestrada.</p><p>� Tenho certeza de que ela est� bem.</p><p>� Preciso encontr�-la!</p><p>� Presta aten��o: voc� me deixa descobrir aonde essa chave leva, e eu ajudo voc� a encontrar sua amiga.</p><p>� Claro, voc� j� ajudou tanto.</p><p>� Ei, d� um tempo � disse ele, com bra�os estendidos, numa tentativa frouxa de pedir desculpas. � Essa garota, eu sei, n�o est� longe. Vamos conferir esse neg�cio da chave, ent�o ajudo a encontrar Tricia. Sei de mais alguns lugares onde podemos procurar por ela. T� bom?</p><p>Ela fez bico e, como n�o sabia mais o que fazer, disse:</p><p>� T� bem.</p><p>Croyd tirou uma p�lula de seu estojo e disse:</p><p>� Bom. Vamos l�.</p><p>Eles prosseguiram. A vizinhan�a n�o melhorava em nada. Ela n�o viu um t�xi em quarteir�es. Abra�ou seu corpo e imaginou em que tipo de confus�o havia se enfiado. Tentou garantir a si mesma que poderia escapar de qualquer um. Se algu�m tentasse amarr�-la, ela se transformaria em fantasma e passaria pelas cordas. Caramba, ela conseguia atravessar paredes.</p><p>Croyd estava tentando puxar conversa, e Jennifer tentava ignor�-lo. Por fim, ele disse:</p><p>� Olha s�, estou apenas tentando ajudar. Eu poderia te congelar e pegar essa chave.</p><p>� N�o faria isso, pois tenho certeza que est� tramando algum esquema pra me convencer a ajudar voc� a roubar um banco ou alguma coisa assim. � Quando ele n�o disse palavra, ela bufou. � Voc� ia mesmo, n�o �? � Ela come�ou a andar mais r�pido.</p><p>� T�, t� bom, talvez eu fosse � ele confessou, correndo para alcan��-la. Se ela pudesse andar ainda mais r�pido de salto, teria andado. � Mas voc� devia pensar nisso. Um poder como o seu n�o aparece todo dia.</p><p>� Voc� n�o entendeu? N�o quero esse poder, queria que eu n�o tivesse.</p><p>� Pera�, eu achei que todo jovem queria ser um �s. Ter fotos nos jornais, ir a jantares chiques no Aces High�</p><p>� E fazer o qu�? Ser uma esquisita? Sou uma garota educada de uma boa fam�lia de Long Island e s� quero ser deixada em paz.</p><p>� Voc� devia se chamar Garota Fantasma � sugeriu ele.</p><p>� Garota Fantasma?</p><p>� Sabe, um nome de �s. Algo com que os jornais v�o te chamar. Posso at� ver: �Garota Fantasma, famosa �s ladra de joias, ataca novamente�. � Ele esticou os bra�os, imitando uma manchete.</p><p>� N�o vou me chamar Garota Fantasma. � Com certeza ela poderia encontrar algo mais interessante que aquilo. Algo mais misterioso, mais <emphasis>atraente</emphasis>� � Voc� tem um nome de �s?</p><p>� Dorminhoco. � Seu sorriso desapareceu, como se n�o estivesse feliz com aquilo.</p><p>� � estranho. Pensei que seria algo como o Congelador.</p><p>Ele deu de ombros.</p><p>� Pois �.</p><p>Ele parou numa esquina, sem saber que caminho tomar. As luzes dos postes daquele bairro pareciam estar todas quebradas. Todas as lojas tinham pesadas grades de a�o na frente. Aquilo n�o fazia com que ela se sentisse melhor. Se entrasse em alguma enrascada � seja como for, mais enrascadas �, esperava poder simplesmente desaparecer de novo.</p><p>Estavam bem no centro do Bairro dos Curingas, n�o apenas nas media��es. As pessoas olhavam para eles. Jennifer estava vestida, mas poderia tamb�m estar nua pelo jeito que se arrepiava quando olhavam para ela.</p><p>� Aqui n�o � muito seguro, n�? � ela comentou, abra�ando-se.</p><p>� Est� falando s�rio? Olhe, se a gente continuar andando, ficaremos bem.</p><p>O esqueleto de um pr�dio queimado, estrutura de a�o empretecido brotando de um canteiro de entulhos, ficava na pr�xima esquina. Um desastre das revoltas do Bairro dos Curingas que n�o foi reconstru�do. Era um mundo muito diferente, um ao qual ela n�o tinha prestado aten��o antes. E isso apenas pela gra�a de Deus� Ela n�o sabia como pegou o v�rus carta selvagem. N�o sabia como tirou um �s, e n�o um curinga. Nem queria pensar sobre aquilo.</p><p>Percorreram o caminho de volta a Bowery, mas bem mais ao sul. Ali, as ruas estavam quase abarrotadas, e Jennifer n�o esperava por aquilo, n�o no meio da noite. Bares e restaurantes estavam abertos, grupos instalavam-se em algumas esquinas, parecia at� mesmo ter um grupo de mulheres num quarteir�o � ent�o Jennifer entendeu quem eram e o que estavam fazendo ali. A m�sica de uma caixa de som estrepitava ruidosamente num beco. Sem policiais � vista, claro.</p><p>Uma luz de n�on brilhava mais � frente e Croyd disse:</p><p>� Ali. Minha amiga � uma das atendentes do bar.</p><p>Um quarteir�o adiante, Jennifer parou e ficou olhando.</p><p>Uma placa imensa de n�on na frente do pr�dio mostrava uma mulher de seis seios em brilhos vermelhos e dourados. As luzes piscavam na sequ�ncia; quase parecia que os peitos balan�avam, com fogos de artif�cio baratos explodindo em torno dela. Outra extens�o de n�on vermelho piscante declarava: FREAKERS. Placas impressas simples anunciavam GAROTAS CURINGAS! e XXX QUENTES XXX! A entrada era pelas pernas abertas de uma stripper de n�on.</p><p>� Ai, meu Deus � disse Jennifer.</p><p>� Todo mundo tem essa rea��o � comentou Croyd, com um sorrisinho amarelo.</p><p>� Acho que n�o vou entrar, n�o.</p><p>� Ah, vai sim. � Ele a pegou pelo cotovelo e empurrou-a para a rua.</p><p>Eles tiveram de se desviar do tr�fego � havia tr�nsito, mesmo �quela hora. Croyd caminhava com confian�a para a porta da frente, bem no meio das pernas de n�on da dan�arina, que lan�ava um estranho brilho rosa sobre a cal�ada. Todos pareciam bronzeados.</p><p>Um curinga � com o que pareciam ser enormes chifres de bois saindo das t�mporas e cascos pretos polidos no lugar das m�os � cruzou os bra�os e ficou na frente da porta para bloquear o caminho.</p><p>� Ei, Bruce, a gente pode entrar? � perguntou Croyd.</p><p>O seguran�a apertou os olhos.</p><p>� E voc� �?</p><p>� Sou o Croyd.</p><p>� Prove.</p><p>� Lembra da �ltima vez com os g�meos azuis e a garrafa de tequila?</p><p>Os olhos do seguran�a arregalaram-se e deu um sorriso bobo pela lembran�a.</p><p>� Ah, sim. Voc� est� com uma cara boa hoje. � Ele se afastou e Croyd guiou Jennifer pela porta.</p><p>� Voc� o conhece? Por que n�o te reconheceu? � falou Jennifer.</p><p>� Longa hist�ria. Vamos cuidar do assunto da chave.</p><p>Jennifer precisou de um momento para que os olhos se ajustassem � escurid�o cavernosa, at� eles emergirem na pista principal, que era partida por luzes pisca-pisca e um globo de espelhos. The Hall &amp; Oates estrondando alto demais nas caixas de som era quase um al�vio. Ao menos era mais familiar do que aquilo que ouviu na outra casa noturna. Ao menos conseguia dan�ar com isso. E a stripper no palco girat�rio no meio da pista tamb�m conseguia. A mulher era irreal � magra, furtiva, com uma imensa cabeleira vermelho-escura bem presa para tr�s e caindo costas abaixo. E isso foi antes de perceber a cauda fina e verde de lagarto serpenteando atr�s dela, balan�ando para tr�s e para a frente, enrolando-se em seguida sensualmente em torno de um poste de lat�o, enquanto ela tombava para a frente e arrancava o peda�o de tecido preto que fazia as vezes de suti�.</p><p>Jennifer olhava para todos os lugares, exceto para o palco, e viu um monte de limpos com bebidas, corpos inclinados para a frente, examinando a dan�arina com o que parecia uma intensidade obsessiva. Croyd esgueirou-se at� o bar, onde estava conversando com� custou a Jennifer uma segunda olhada para ver que era uma mulher. Ela n�o tinha uma cabe�a. Ou melhor, sua cabe�a parecia crescer do meio do peito, de forma que o queixo se apoiava no meio dos seios, aninhada no decote criado por um suti� preto com bojo. Cabelos longos e pretos ca�am sobre a linha reta entre seus ombros. Ela estava limpando o balc�o com uma flanela e sorrindo para Croyd, que estava recostado num cotovelo e apostava num sorriso de flerte.</p><p>� Como est�, Sheila?</p><p>� Estou bem, meu caro. Faz tempo que n�o te vejo.</p><p>� Sabe como �. Estou meio por fora.</p><p>� Bem, voc� est� bonito dessa vez. Espero que tenha planos para aproveitar a oportunidade. � Ela balan�ou o quadril e deu uma piscadinha, um movimento que seria atraente se ela n�o fosse t�o� <emphasis>esquisita</emphasis>. Jennifer cruzou os bra�os e tentou n�o ficar inquieta. Sheila, a atendente, olhava para ela de cima a baixo.</p><p>� Quem � sua nova amiga?</p><p>� S� algu�m que estou ajudando � comentou Croyd. � Jennifer, pode mostrar a chave para ela? Tudo bem, eu garanto.</p><p>Relutante, Jennifer estendeu a chave.</p><p>� Posso? � disse Sheila e tomou a chave quando Jennifer concordou com a cabe�a.</p><p>A curinga fechou os olhos � e ningu�m conseguiria de fato olhar em seus olhos sem encarar seus seios � e pressionou a chave na testa. The Hall &amp; Oates terminou e a curinga com rabo de lagarto escorregou para fora do palco, substitu�da por uma que tinha p�s com escamas e garras de p�ssaro. A pr�xima m�sica: �Superfreak�.</p><p>Ap�s um momento, Sheila disse:</p><p>� � da ag�ncia de correio do outro lado da Doyers Street. Acho que n�o consigo dizer mais que isso. � Ela deu de ombros, que se erguiam acima dos cabelos, prestes a passar a chave para Croyd. Jennifer interceptou-a e tomou � sua cust�dia. A curinga sorriu sem gra�a.</p><p>� Obrigado, nen�m � gracejou Croyd. � Te devo uma.</p><p>� Quando quiser, meu caro.</p><p>� Que foi aquilo? � perguntou Jennifer enquanto eles sa�am de perto do bar.</p><p>� Sheila � psicom�trica. Consegue sentir coisas sobre um objeto� de onde veio, de quem �, essas coisas.</p><p>� Isso � �til � falou ela.</p><p>� Quase t�o �til quanto andar atrav�s das paredes. Se voc� <emphasis>usasse</emphasis> isso de verdade.</p><p>Em seu esfor�o de evitar olhar para o palco, Jennifer olhou de relance por uma porta para dentro de uma sala cont�gua privada. E jurou que viu o baterista de cabelos espetados dos Fads sentado l�. Ela se separou de Croyd e correu.</p><p>A sala era um pequeno lounge com um palco menor, particular, decorado com carpete preto de pel�cia e cadeiras vermelhas de veludo. A luz negra piscante trazia � tona desenhos fluorescentes nas paredes e os biqu�nis brancos reluzentes vestidos por um par de garotas dan�ando apenas para o baterista. Nenhuma delas era Tricia, o que de alguma forma foi um al�vio.</p><p>Quando se aproximou, o cara esticou o bra�o para enfiar uma nota no el�stico da calcinha de uma das garotas. A mo�a tinha uma pele brilhante que trocava de cor como aqueles an�is que mudam segundo o humor de quem o usa, azul para vermelho para laranja. E o rapaz era mesmo o baterista.</p><p>Jennifer o empurrou do palco para que pudesse encar�-lo. Ele soltou a nota.</p><p>� O que voc�s fizeram com a Tricia?</p><p>� Ei � falou a dan�arina, cruzando os bra�os em protesto.</p><p>� Quem � voc�? � falou o baterista.</p><p>� Cad� o resto da banda? Onde a Tricia est�?</p><p>� Hum� � respondeu o baterista.</p><p>Jennifer n�o havia terminado.</p><p>� E o que voc� est� fazendo <emphasis>aqui</emphasis>? Voc�s tinham tietes penduradas nas suas costas no clube, e agora voc� t� aqui, <emphasis>pagando</emphasis> por isso?</p><p>� Parece mais sacana quando voc� paga � comentou Croyd. Ele estava em p� ao lado, assistindo como se fosse um show. O baterista encolheu os ombros e piscou em aprova��o.</p><p>Jennifer estava quase gritando.</p><p>� Onde est� a Tricia?</p><p>� Olhe, meu amor, n�o sei de quem voc� est� falando.</p><p>� A banda � disse Croyd. � Pra onde o resto da banda foi? Eles levaram a amiga dela.</p><p>� Ah, sim. A gata bem louca? Totalmente chapada?</p><p>Sim, aquela era Tricia. Jennifer suspirou.</p><p>� Ah� hum. Eles provavelmente foram pra casa do Tony.</p><p>� Onde?</p><p>� N�o vou dizer pra <emphasis>voc�</emphasis>, deve ser alguma maluca perseguidora.</p><p>� N�o, minha amiga Tricia � a louca. Eu s� preciso encontr�-la�</p><p>� Ahn, Jennifer? � Croyd tocou o ombro e virou-a de frente para a entrada.</p><p>O brutamontes da gangue encheu a entrada. Ela conseguia ver o assassino em seus olhos atrav�s da m�scara.</p><p>� Tem uma porta dos fundos � sussurrou Croyd. � A gente precisa aprovei�</p><p>Chega. Jennifer segurou a chave onde o grandalh�o pudesse ver, ent�o esticou o bra�o e jogou-a dentro da camiseta do baterista.</p><p>� Agora a gente aproveita � disse ela, e correu na frente de Croyd para a porta dos fundos.</p><p>O barulho do caos � mob�lia virada, mulheres berrando, tudo que se tinha direito � estourou atr�s dela, e por mais que a cena provavelmente fosse divertida, Jennifer n�o ousou virar para olhar.</p><p>Eles seguiram por um corredor com camarins e sa�ram por outra porta para outro beco �mido.</p><p>� O que voc� fez, garota? � Croyd quis saber.</p><p>� A chave n�o era importante, agora que sabemos o que ela abre � disse Jennifer. � Mas temos que chegar ao correio antes deles.</p><p>� Qu�? Ai, ai, l� vamos n�s.</p><p>Eles correram em sil�ncio. Jennifer ainda esperava pelo som dos gritos e das passadas pesadas atr�s dela. O tempo todo olhava para tr�s, mas eles pareciam ter atrasado a gangue, ao menos por um momento.</p><p>� Pare de olhar t�o nervosa � disse Croyd � certa altura. � Parece suspeita.</p><p>F�cil para ele dizer. Ela tentou n�o prestar aten��o �quilo que estava � espreita para atac�-la.</p><p>Precisava distrair-se.</p><p>� Assim, como se rouba um banco?</p><p>Ele a olhou de lado.</p><p>� � s�rio?</p><p>� Sim. � O tom dela fazia do pedido uma ousadia.</p><p>� Voc� n�o vai. Digo, n�o mais. Com toda a seguran�a e vigil�ncia que est�o l� agora n�o vale a pena. Em vez disso, voc� vai atr�s dos cofres privados. Gatunice. Ou vai atr�s de carros blindados quando est�o transportando o dinheiro. Voc� espia a �rea, procura pontos fracos. Nada exagerado, seja seletiva, sabe? Pegue algumas partes do monte em vez dele inteiro. E, assim que voc� pegar, n�o se apegue, pense que voc� pode conseguir algo melhor. A� est� a parte delicada: repasse dos produtos roubados ou lavagem de dinheiro. Mas precisa ter gente por a�. Ajuda ter os contatos.</p><p>Ela concordou com a cabe�a, pensativa. Fazia todo o sentido.</p><p>� Tamb�m ajuda ter um �s realmente poderoso � acrescentou Croyd, piscando. � Superfor�a, atravessar paredes.</p><p>Na frente deles, por uma rua estreita, vozes gritaram, e Jennifer parou. Quem quer que fosse, soou nervoso, e estavam correndo, chegando cada vez mais perto. De alguma forma, a gangue os encontrara e foi atr�s deles, interceptando-os�</p><p>Croyd agarrou o bra�o dela, empurrou-a na dire��o do muro, apertou seu corpo contra o dela e a beijou. Completo fingimento, bra�os em volta dela, prendendo-a contra os tijolos. Nesse meio-tempo, uma gangue de adolescentes parou, gritando ofensas um para o outro e para o casal. N�o era bem uma gangue, mas um bando de moleques.</p><p>Croyd ainda a beijava. Distraindo-a. Ela finalmente o empurrou.</p><p>� Que voc� pensa que est� fazendo?</p><p>� Pensei que pareceria menos suspeito desse jeito � disse ele, rindo, mais arrogante que nunca.</p><p>Bufando de frustra��o, ela o empurrou de novo, ainda deu um tapa nele e marchou adiante. Ele apenas ria.</p><p>Descobriram que n�o estavam t�o longe de chegar � ag�ncia de correio em quest�o. Apenas uns poucos quarteir�es. O local era um bloco moderno de concreto enfiado entre pr�dios de tijolos � mostra nas cercanias de Chinatown. Um pequeno sagu�o que dava acesso �s caixas postais ainda estava aberto, iluminado por uma luz fraca e amarelada na parede do fundo. Se fossem atacados por uma gangue raivosa, esse era o local onde aconteceria, Jennifer pensou.</p><p>Encontraram a caixa com o n�mero da etiqueta. Croyd ficou de lado.</p><p>� Importa-se de fazer as honras?</p><p>Jennifer encarou a porta cor de lat�o por um momento, sem ter certeza de que queria saber o que estava l� dentro. Sem ter certeza de que queria entrar ali, ver o que estava oculto. Como se pudesse estar cheio de cobras venenosas ou ratoeiras. Era mais prov�vel que estivesse cheio de correspond�ncia indesej�vel de algu�m.</p><p>Ela respirou fundo e atravessou a portinhola. Sua m�o resvalou contra algo retangular, com textura de papel � um envelope muito cheio que parecia animador. Ela o segurou, desmaterializou-o com o restante de sua m�o e puxou-o pela porta.</p><p>Ela e Croyd examinaram um envelope comercial cheio de dinheiro. Notas de cem d�lares, d�zias delas.</p><p>� Meu Deus, deve ter uns trinta mil a� � disse Croyd.</p><p>Jennifer nunca tinha visto tanto dinheiro num �nico lugar, exceto em filmes. Por outro lado, Croyd conseguiu bater o olho e saber quanto tinha l�. Que significava aquilo tudo? Quem era a mulher que lhe deu a chave naquele momento? Que tipo de tramoia estava em curso? Eram drogas, contrabando, dinheiro de resgate, algo totalmente diferente? Sua imagina��o a desapontava. O dinheiro parecia queimar sua m�o.</p><p>Com a testa franzida, ela fechou o envelope, abra�ou-o forte e saiu da ag�ncia. Croyd estava ao seu lado.</p><p>� Voc� n�o est� se saindo mal na sua primeira noite como criminosa.</p><p>� N�o sou uma criminosa. Vou levar isso para a pol�cia.</p><p>� Qu�? Ah, n�o vai, n�o.</p><p>� Vou, sim.</p><p>A delegacia do Bairro dos Curingas devia estar por ali em algum lugar. Se qualquer um tentasse assalt�-la no caminho, ela simplesmente atravessaria a parede do pr�dio seguinte. Croyd falou:</p><p>� S�o os mesmos policiais que te ouviram com tanta simpatia quando voc� pediu ajuda com sua amiga, certo?</p><p>� � a coisa certa a se fazer.</p><p>� Minha cara, existe o correto e o correto. A pol�cia aqui da regi�o, eles n�o s�o corretos. Voc� leva isso pra eles, v�o fazer todo tipo de pergunta sobre de onde veio e n�o v�o ouvir nenhuma de suas respostas. Vai acabar numa cela, n�o que isso seja problema para voc�. Mas v�o te fichar e isso nunca � bom. V�o at� a Columbia pra arrastar voc� de volta para a cadeia, e voc� pode dar adeusinho pra sua educa��o brilhante. Por outro lado, estamos mantendo esse dinheiro fora das m�os de gente <emphasis>realmente</emphasis> ruim: o Sr. Pared�o e seus amigos. A gente podia tomar uns drinques com esse dinheiro, ir para a minha casa e fazer uma bela festinha a dois.</p><p>Ela quase disse sim. Tricia teria dito sim. Uma parte �nfima dela pensou sobre a grande aventura que seria. Mesmo que n�o soubesse quase nada sobre Croyd e n�o tivesse certeza de que gostava do que sabia.</p><p>A garota sensata de Long Island venceu. Apertou o passo, marchou para longe dele e disse, com um bufar indignado:</p><p>� N�o!</p><p>� Jennifer, eu gosto de voc�. Eu realmente n�o quero fazer isso.</p><p>� Fazer o qu�? � disse ela, olhando para tr�s ao mesmo tempo que Croyd disse:</p><p>� Congela!</p><p><image l:href="#4"/></p><p>E ent�o ele desapareceu. Ela sacudiu a cabe�a, limpando um res�duo de vertigem. Estava olhando para tr�s e ent�o� que desgra�ado. Aquele rato desprez�vel e desgra�ado. Desapareceu, claro. Tinha apenas cinco minutos de vantagem, mas era o suficiente para virar uma esquina e sumir nas ruas escuras. N�o que ela tenha planejado ca��-lo. O que faria se conseguisse peg�-lo?</p><p>Ele tinha at� mesmo deixado o envelope em seu decote. Bem enfiado, ap�s ele ter tirado o dinheiro, como se fosse um tipo de lata de lixo. Provavelmente a tocou tamb�m. Como se fosse uma grande piada.</p><p>Mas n�o� ela puxou o envelope e ainda tinha dinheiro nele. Croyd pegou apenas o que parecia metade do dinheiro. Ela deu um sorrisinho. Um rato desgra�ado e cavalheiro. Que homem estranho.</p><p>� Ei, voc�! � A silhueta familiar do Sr. Pared�o e seus capangas viraram a esquina e partiram na dire��o dela. � Vamos acabar com voc�! � gritou o l�der.</p><p>Ela correu. Estava aprendendo direitinho como correr de salto alto. N�o que ela tivesse que ser capaz de manter o salto alto. Ela n�o conseguiria correr mais que os caras. N�o sobreviveria se eles a pegassem. Aquilo n�o lhe deixava muitas op��es. Ela mudou de dire��o, seguiu para a parede � sua direita e pensou, <emphasis>segura, segura, segura�</emphasis></p><p>Seu suti�, sua calcinha, o dinheiro. Ela conseguiu passar com aquilo tudo. Suti�, calcinha, dinheiro, suti�, calcinha, dinheiro. Ela atingiu a parede e seguiu adiante.</p><p>Entusiasmada pela adrenalina, o poder veio quase com facilidade. Ela se desmaterializou inteira. Conseguia sentir-se cada vez mais et�rea, sentir as paredes s�lidas movendo-se em torno dela como uma brisa forte. Podia at� mesmo sentir o dinheiro na m�o, como se segurasse uma sombra. E quando emergiu� estava numa sala cheia de gente. Jennifer ficou paralisada no tapete alto e voltou os olhos para duas d�zias de homens e mulheres bem-vestidos sentados em diversas mesas olhando de volta para ela. Parecia uma reuni�o p�s-noitada num restaurante. Ao lado, um gar�om parou com um prato de cheesecake no ar enquanto o tirava de sua bandeja. Diversas pessoas tinham garfos levantados diante de bocas abertas. Uma x�cara estalou num tampo de mesa� algu�m derrubou o caf�.</p><p>Ela deixou seu vestido e sand�lias para tr�s, mas ainda estava com suti� e calcinha. Com certeza destoava do figurino do lugar. Ela imaginou se estavam esperando algum espet�culo. No entanto, o mais importante � que ela ainda estava com o envelope de dinheiro. Apertando-o, ela deixou que ele o protegesse. Ignorando o rubor que come�ou a correr por sua pele, abriu um grande sorriso e deu um pequeno aceno para os convivas:</p><p>� Uma boa noite para voc�s, pessoal! � Ent�o, correu direto para a parede do outro lado do sal�o.</p><p>� Isso sim � Manhattan! � murmurou algu�m enquanto ela desaparecia.</p><p>Jennifer descobriu que o poder n�o era apenas uma quest�o de passar por barreiras, mas de viajar por elas. N�o precisava atravessar a cal�ada para terminar na plataforma de metr� da Grand Street, poderia afundar atrav�s da cal�ada, das paredes, e surgir onde quisesse. N�o que isso tenha ajudado, pois quando saiu na plataforma e se rematerializou, dois dos grandes homens do brutamontes estavam bem ali, mascarados e tudo o mais. De alguma forma, eles arrombaram o port�o trancafiado do metr�. Quando correram na dire��o da mo�a, ela simplesmente recuou e entrou na parede novamente, desmaterializando-se, escondendo-se na mat�ria s�lida.</p><p>Talvez pudesse ficar ali, parte da parede de concreto, at� eles desaparecerem. Mas n�o, precisava continuar se movendo. Se ficasse parada, conseguia sentir um come�o de dispers�o, instabilidade. Como se suas c�lulas estivessem se espalhando. A sensa��o a deixava zonza e mal, ent�o continuou em movimento. Fora do metr� e de volta �s ruas, mas em vez de ficar na cal�ada, onde sem d�vida a gangue estava � sua procura, ela se deslocava na diagonal, como o corvo voa, atravessando pr�dios e becos. Seus p�s ficaram cortados e feridos, correndo descal�os pelas piores ruas que a cidade tinha a oferecer. Ela tremia, cada parte dela exposta ao frio.</p><p>N�o sabia qual dist�ncia havia percorrido. Em princ�pio, estava preocupada em conseguir a maior dist�ncia poss�vel entre ela e a gangue. Talvez meia hora tivesse se passado, sua garganta ardia. Sentia como se metade da noite tivesse ficado para tr�s.</p><p>Saindo de um pr�dio abandonado, ela se deparou com a vista do East River, que lhe deu uma ideia de quanto havia se deslocado. Talvez agora estivesse a salvo.</p><p>A vertigem sacudia seu campo de vis�o e fazia seu est�mago revirar. Recostou-se � parede e, em vez de atravess�-la, apenas bateu contra ela, raspando o ombro. Tinha se esfor�ado demais, precisava descansar. �bvio. O que aconteceria se ela ficasse fantasma? Continuasse a se tornar et�rea, caminhando pelas paredes at� esquecer como ficar s�lida novamente, at� suas mol�culas come�arem a se sacudir em brisas errantes? Ela conseguiu ver isso acontecer e ficou apavorada. O fato de ela conseguir imaginar t�o claramente parecia ser uma mensagem. Seu �s estava tentando lhe dizer alguma coisa.</p><p>Ela correu e, em vez de passar pelas paredes dessa vez, tomou o caminho mais longo virando a esquina, ent�o seguiu para o norte ao longo do rio.</p><p>A escurid�o penetrante e as sombras nas ruas foram rompidas por uma porta guardada por le�es. Le�es de pedra. No canto dessa grande entrada havia outra porta, mais larga, com uma luz branca reluzindo l� de dentro. A palavra EMERG�NCIA cintilava em letras vermelhas em uma placa acesa sobre ela. Acima dos le�es de pedra, outra placa estava iluminada por um refletor: CL�NICA BLYTHE VAN RENSSAELER.</p><p>Se n�o estivesse segura num hospital, n�o estaria mais em lugar nenhum.</p><p>Ela se aproximou da entrada de emerg�ncia, mas hesitou quando viu um curinga incrivelmente alto de pele verde na frente dela. Vestia um uniforme� e onde um homem com quase tr�s metros encontraria uniformes de seguran�a? Guarda noturno, n�?</p><p>Ela decidiu evitar a entrada e, em vez disso, deu a volta no quarteir�o para atravessar uma parede de fundos. A tontura a perseguia. N�o queria ter de fazer aquilo de novo t�o cedo. Felizmente, as luzes eram fracas e os corredores estavam vazios. Ela encontrou um arm�rio de materiais destrancado onde, como esperava, achou uniformes. Encontrou at� mesmo um par de sapatos � sapatos de cirurgia, na verdade, mas serviriam. A camiseta e as cal�as esverdeadas n�o eram o �ltimo grito da moda, mas a cobriam. Jogou um jaleco branco sobre as roupas por seguran�a.</p><p>Caminhou para a sala de espera da �rea de emerg�ncia e sentou-se na primeira cadeira que viu.</p><p>O lugar n�o era quieto. Uma voz arranhava num alto-falante num corredor ladrilhado, um homem b�bado reclamava com uma enfermeira no balc�o, e adiante na sala uma mulher � com uma pele de lixa e cabelos parecidos com arames � estava embalando um beb� que chorava. A crian�a estava enrolada num cobertor, e Jennifer n�o conseguia dizer se era um curinga tamb�m. Por mais estranho que fosse, apesar de tudo isso, a cena era pac�fica. Nenhuma m�sica estourando, ningu�m a perseguia, ningu�m a molestava. Ela expirou com for�a o ar e com isso mandou embora um pouco de sua ansiedade, afundou-se na cadeira e cochilou.</p><p>Ela come�ou a acordar quando uma sirene no lado de fora gritou � uma ambul�ncia estacionando. Um momento depois, uma dupla de socorristas apressou-se pela porta principal empurrando uma maca. A pessoa que estava deitada mal cabia nela, seus membros imensos pendurados nas extremidades. Seus m�sculos trabalhados estavam tensos enquanto debilmente agarrava as pessoas que estavam tentando ajud�-lo. Jennifer reconheceu o formato do paciente, o brutamontes, o Sr. Pared�o. Sangrava, manchando a camiseta, como se tivesse sido apunhalado. A maca desapareceu por tr�s de uma enfermaria acortinada, enquanto um m�dico e um enfermeiro corriam para atend�-lo.</p><p>Jennifer encolheu-se em seu assento, abra�ando-se, tentando se esconder, com medo de quem atravessaria a porta e o que aconteceria se a encontrassem. Mas ningu�m o fez. Ela n�o precisou se desmaterializar para passar por outra parede. Mas n�o relaxou novamente. Ficou olhando para a cortina, esperando o l�der da gangue descer do leito e vir atr�s dela.</p><p>� Minha querida, precisa de ajuda?</p><p>A voz veio detr�s dela, e ela se esquivou.</p><p>Era um homem baixo, magro e bem impressionante: tinha cabelos vermelhos met�licos presos para tr�s num rabo de cavalo, fei��es finas e, sob seu jaleco branco, trajava uma camisa amarelo-lim�o com babados po�ticos e justas cal�as verdes. Ela o ignorou.</p><p>� Perdoe-me, n�o quis assust�-la � disse ele, com as m�os fazendo um gesto de consolo. Seu sotaque era estranho, ex�tico e bem atraente.</p><p>� N�o, tudo bem, � que� s� estou cansada.</p><p>� Pensei primeiro que fosse uma enfermeira, mas n�o conhe�o voc�, n�o � mesmo?</p><p>� N�o. � Ela virou o rosto, rindo.</p><p>� Parece que voc� est� em perigo. Posso fazer algo para ajudar?</p><p>O rosto dele era bondoso e o sorriso, gentil. Ela gostava dele e resistiu ao �mpeto de cair em seus bra�os, solu�ando, contando a ele absolutamente tudo.</p><p>� N�o, eu-eu estou bem. S� preciso descansar, eu acho � disse ela.</p><p>Ele a examinou� seus olhos eram de um violeta dos mais estranhos. Por um momento, parecia prestes a dizer algo, a brigar com ela. Ent�o, ele apertou os l�bios e o momento passou.</p><p>� Tudo bem, ent�o. Mas n�o hesite em chamar se precisar de algo.</p><p>� Obrigada.</p><p>Ele se afastou, elegante, mesmo de jaleco, mesmo que parecesse t�o exausto quanto ela.</p><p>O b�bado veio para descansar a uns dez assentos de dist�ncia.</p><p>� Ele provavelmente acabou de ler sua mente, viu?</p><p>� O qu�? � perguntou Jennifer.</p><p>� � o que ele faz. Ele l� mentes. � o Dr. Tachyon.</p><p>Claro que era. Ent�o ele sabia. Olhou para ela, leu sua mente� e sabia que ela era um �s. Sabia tudo sobre ela. E n�o disse nada. Nada aconteceu. Ela quase riu.</p><p>Quando o c�u fora das portas da sala de emerg�ncia come�ou a empalidecer, Jennifer decidiu que era hora de partir. Ainda n�o havia encontrado Tricia.</p><p>Mas, de acordo com o baterista, Tricia estava com Tony. Talvez ele estivesse na lista telef�nica. Talvez ela pudesse apenas procur�-lo, ligar para ele, pedir para falar com Tricia� Com certeza algu�m no CBGB sabia onde ele morava. Ou seu telefone. Ela podia encontrar Tricia, n�o chegara ao fim da linha ainda.</p><p>Caminhou para oeste, na dire��o do Bowery. As luzes dos postes apagaram sem Jennifer perceber, e um caminh�o de jornal passou roncando por ela. J� era de manh�. Ela correu durante toda a noite. Que aventura. Ela teve de sorrir.</p><p>O tr�fego da manh� aumentou, pedestres surgiam nas cal�adas, lojistas abriam as grades na frente das vitrines. Pessoas olhavam para ela � cabelo desgrenhado, sapatos fr�geis, uniforme de hospital e um jaleco �, mas n�o a encaravam. N�o parecia normal, mas para aquela parte da cidade, quem era? Ela decidiu que sentir-se constrangida com aquilo era in�til.</p><p>L� na frente, viu uma placa de um restaurante que parecia ser popular, e seu est�mago roncou. Estava faminta, e um grande prato de ovos e panquecas soava como o rem�dio perfeito. E Jennifer tinha, mais ou menos, dez mil enfiados no bolso do jaleco para pagar por um bom caf� da manh�. Talvez convidasse todo mundo no restaurante.</p><p>Passou na frente da vitrine at� a porta da frente. Parou. Recuou alguns passos e olhou. L�, no centro do reservado � direita, pr�ximo � vitrine, estava Tricia. Sentados ao lado dela estavam os dois outros rapazes da banda, o cantor e o guitarrista, e uma outra tiete. O guitarrista estava tamborilando os vinte dedos na mesa; o brilho do cabelo do cantor parecia opaco e sem for�a � luz do dia. Estavam tomando caf� e rindo de algo como se n�o houvesse nada errado. Pratos vazios e uma jarra de caf� estavam atulhados sobre a mesa. Talvez tenham ficado sentados ali a noite toda.</p><p>Jennifer deu batidinhas suaves no vidro. A alternativa era arrebentar a vitrine com o punho.</p><p>Tricia olhou para cima, boquiaberta, e piscou com surpresa. Jennifer marchou at� a porta da frente e entrou, seguindo para a mesa. Tricia ainda estava de olhos arregalados, pasma. Jennifer cruzou os bra�os. Os outros tr�s no reservado recuaram com a cara feia.</p><p>Finalmente, Tricia cuspiu as palavras.</p><p>� Ai-meu-Deus, Jennifer, onde voc� estava? Voc� perdeu a melhor festa <emphasis>de todas</emphasis>!</p><p>Como se fosse sua culpa ter perdido a festa e n�o ter ficado abandonada no bairro mais miser�vel da cidade. Tantas coisas ela poderia dizer naquele instante.</p><p>Jennifer pensou por um minuto.</p><p>� Na verdade, acho que a minha festa foi melhor que a de voc�s. � Ela abriu as pontas do jaleco, mostrando seu novo modelito. � Por que n�o me esperou, Trish? Por que n�o me disse ao menos para onde voc� estava indo? Corri pra todos os cantos procurando voc�.</p><p>Tricia contorceu-se no reservado, deu de ombros, inclinando-se, e piscou.</p><p>� Pensei que voc� estava bem atr�s de n�s. De verdade.</p><p>Jennifer n�o tinha nada a dizer. J� passava da hora de ir para casa. Ela se virou e saiu de l�. N�o esperava que Tricia fosse atr�s dela, e Tricia novamente atendeu �s expectativas. Mas a chamou:</p><p>� Jennifer, espere! Meu Deus, voc� n�o precisa ser t�o <emphasis>quadrada</emphasis>.</p><p>Com o ombro recostado na parede, Jennifer permaneceu do lado de fora do restaurante, cansada demais para ficar irritada, entorpecida demais para pensar, sem saber o que fazer em seguida. Correu a noite toda e o que tinha ficado de recorda��o? P�s cheios de bolhas. Um apre�o rec�m-descoberto por seu poder de �s. E um envelope cheio de dinheiro.</p><p>Ela n�o poderia entregar o dinheiro � pol�cia. N�o se sentiria bem se gastasse. O que mais poderia fazer, al�m de jog�-lo num bueiro para algum b�bado encontr�-lo e gast�-lo em bebida?</p><p>Ou talvez�</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Ela voltou � cl�nica do Bairro dos Curingas. Lembrou-se de ver uma placa pendurada na parede perto da porta, pr�xima a uma urna com uma fenda. Estava escrito na placa DOA��ES, com um texto menor embaixo no qual se lia CADA CENTAVO AJUDA!</p><p>Jennifer deslizou para dentro e esgueirou-se pela parede, esperando n�o ser notada. O lugar estava quieto, a enfermeira que tinha visto na �ltima noite estava no balc�o, cabe�a descansando sobre os bra�os. Seu turno estava quase acabando.</p><p>Em sil�ncio, Jennifer enfiou o envelope na fenda. Custou um pouco para faz�-lo � a fenda tinha sido feita para moedas e notas, n�o para sal�rios anuais. Mas ela conseguiu, e o envelope caiu com um baque gratificante.</p><p>Por um momento, ela ficou olhando para a urna. Podia mudar de ideia. Podia arrancar o envelope dali. Ent�o, novamente... n�o, ela n�o conseguiria. Como Croyd disse, havia o correto e o correto, e aquilo parecia mais correto do que qualquer coisa naquela noite toda.</p><p>Por outro lado, precisava de dinheiro para voltar para casa. Ela enfiou a m�o-fantasma na caixa de doa��es, puxou uma �nica nota amassada. Ent�o, pegou uma segunda para substituir as roupas e as joias que tinha perdido. Era justo, n�o �? Estava com os dedos na metade do caminho para entrar na caixa e pegar uma terceira nota, quando parou a si mesma. J� era mais do que justo.</p><p>Quase fugiu da sala de emerg�ncia. M�os nos bolsos do jaleco, ela subiu a rua, de cabe�a erguida, sorrindo.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Chega o ca�ador</strong></p><p>John J. Miller</p><p><strong>�Se quiser encontrar a verdade clara, n�o se preocupe com certo e errado.�</strong></p><p><strong>� Seng-ts�an:</strong><strong><emphasis>Hsin-hsin Ming</emphasis></strong><strong>(Versos da f� na mente)</strong></p><p><strong>I.</strong></p><p>Brennan observou toda a cor desvanecer da paisagem enquanto o �nibus descia do frio calmo das montanhas para a umidade abafada de um dia de ver�o na cidade. As vagas de estacionamento asfaltadas e infinitas tomavam o lugar dos prados e dos campos relvados. Os pr�dios ficavam cada vez mais altos e juntos � estrada. Postes de luz cinzentos suplantaram as �rvores no canteiro central e ao longo da rodovia. Mesmo o c�u ficou melanc�lico e cinza, amea�ando chuva.</p><p>Ele desembarcou no terminal rodovi�rio Port Authority com outros passageiros. Eles se espalhavam para uma mir�ade de destinos, seus olhos desviavam-se � maneira habitual do morador da cidade grande, sem lhe lan�ar um segundo olhar. N�o que houvesse algo nele que fizesse algu�m olh�-lo novamente.</p><p>Era alto, mas nem tanto. Sua constitui��o era mais esguia que parruda. As m�os eram grandes. Bronzeadas e com cicatrizes, veias e tend�es destacavam-se nas costas delas como fios grossos. O rosto era escuro, magro e comum. Vestia uma jaqueta de brim, surrada e desbotada, uma camiseta de algod�o escura, cal�a jeans azul limpa e t�nis de corrida pretos. Carregava uma bolsa de viagem pequena na m�o esquerda e uma valise de couro fina na direita.</p><p>A 42nd Street estava cheia na altura do pr�dio do terminal rodovi�rio. Ele surgiu no fluxo do tr�fego pedestre, deixando-se levar por ele para uma �rea de Manhattan que era apenas um pouco menos miser�vel do que algumas das melhores partes do Bairro dos Curingas. Separou-se da manada de pedestres ap�s alguns quarteir�es e subiu os degraus de pedra gastos do Ipshwhich Arms, um hotel desleixado que aparentemente servia � prostitui��o local. Parecia que os neg�cios iam mal. As pessoas, pelo visto, estavam indo para o Bairro dos Curingas por conta das loucuras. Eram mais baratas l� e, mesmo se apenas uma fra��o daquilo que tinha lido fosse verdade, muito mais loucas.</p><p>O recepcionista olhou desconfiado quando ele chegou sozinho com bagagem, mas pegou seu dinheiro e deu as indica��es para o quarto, que era t�o pequeno e sujo quanto ele imaginou. Fechou a porta, colocou a mala no ch�o e, cuidadosamente, deixou a valise de couro sobre a cama bamba.</p><p>O quarto era abafado, mas Brennan j� havia estado em lugares mais quentes. Sentia-se confinado pelas paredes nuas e sujas ao seu redor, mas abrir a janela n�o teria ajudado. Deitou-se na cama e ficou olhando para o teto descascando sem perceber as baratas apostando corrida sobre sua cabe�a. As palavras de uma carta que recebera no dia anterior ainda percorriam sua mente.</p><p><emphasis>Capit�o Brennan, ele est� aqui. Eu o vi, mas temo que ele tenha me visto e me reconhecido tamb�m. Venha ao restaurante. Seja cauteloso, mas franco.</emphasis></p><p>N�o havia assinatura, mas reconheceu a caligrafia elegante e precisa de Minh. N�o havia endere�o, mas n�o precisava. Minh o escondera no seu restaurante por muitos dias quando voltara clandestinamente aos Estados Unidos tr�s anos antes. E Brennan n�o tinha d�vida a quem o velho amigo se referia na carta. Era Kien.</p><p>Fechou os olhos e viu um rosto: masculino, magro, predat�rio. Tentou faz�-lo sumir. Tentou expuls�-lo de sua cabe�a, conjurando das profundezas da mente o som de m�os batendo palmas. Tentou, mas fracassou. O rosto sorria, zombando dele. E come�ou a rir.</p><p>Sentou-se na cama, esperando pela escurid�o e pelo que ela traria.</p><p><strong>II.</strong></p><p>O ar estava parado, n�o se movia e entupia as narinas de Brennan com o miasma de 7 milh�es de pessoas t�o apinhadas. Ap�s tr�s anos nas montanhas, estava desacostumado com a cidade, mas ainda conseguia aproveit�-la. Um homem entre milhares, era visto, mas n�o notado, ouvido, mas n�o lembrado, enquanto caminhava para o restaurante de Minh na Elizabeth Street, carregando sua valise de couro fina.</p><p>Era in�cio da manh� e as ruas ainda estavam lotadas com potenciais clientes, mas o restaurante estava fechado. Aquilo era estranho.</p><p>O vest�bulo, a �nica parte do interior do restaurante vis�vel a partir da rua, estava escuro. A placa pendurada no lado de dentro da porta de vidro externa dizia �Fechado. Por favor, volte mais tarde� em ingl�s e vietnamita. Tr�s homens, punks da cidade, descansavam na rua em frente ao pr�dio, implicando um com o outro.</p><p>Brennan foi at� a esquina, esperando cobrir sua apreens�o repentina com um manto de calma. Fez uma s�rie de exerc�cios de respira��o que tinha sido a primeira li��o de Ishida para ele quando decidiu dar um rumo � sua vida, estudando o Caminho. Apreens�o, medo, nervosismo, �dio� nada disso faria bem a ele. Precisava da tranquilidade inef�vel de um lago montanh�s calmo e claro.</p><p>Kien ainda estava vivo. Daquilo ele nunca teve d�vida. Kien era um sobrevivente astuto e implac�vel para quem a queda de Saigon fora um simples inconveniente. Teria custado a ele algum tempo, mas Brennan sabia que ele deve ter montado uma rede de agentes t�o potente e incans�vel quanto sua rede no Vietn�. Esses agentes, pelos poucos dias que levou para a carta ser escrita, enviada e recebida, devem ter rastreado Minh.</p><p>Ele virou a esquina e, despercebido pelos outros pedestres na rua, deslizou para um beco lateral que ladeava o restaurante de Minh. Estava escuro l�, e t�o quieto e denso quanto a morte. Esgueirou-se at� uma pilha de lixo n�o coletado, ouvindo e observando. N�o viu nada quando seus olhos se ajustaram � penumbra mais profunda do beco, al�m de gatos fu�ando o lixo.</p><p>Deixou a valise no ch�o e abriu as fivelas. Mal conseguia enxergar na escurid�o, mas n�o precisava de luz para montar o que havia ali dentro. Encaixou e apertou os bra�os inferior e superior ao punho central e, com firmeza e pr�tica, deslizou a corda sobre a extremidade inferior, deu um passo � frente e apoiou a ponta do bra�o inferior no p�, curvou o bra�o superior contra a parte posterior da coxa, e passou a corda sobre sua extremidade. Dedilhou o fio tensionado e sorriu com o ressoar baixo que ele produziu.</p><p>Tinha nas m�os um arco recurvo com um metro de comprimento, feito de camadas de fibra de vidro laminadas em torno de um n�cleo de teixo. Brennan sabia que era um bom arco. Ele o tinha feito. Sua puxada era de 27 quilos, poderosa o suficiente para derrubar um cervo, um urso ou um homem.</p><p>A valise tamb�m continha uma luva de couro de tr�s dedos, que Brennan encaixou na m�o direita, e uma pequena aljava que ele prendeu ao cinto com faixas de velcro. Tirou uma flecha com sua ponta larga de ca�a com quatro palhetas afiadas como navalha. Encaixou-a frouxamente na corda tensionada e, mais silencioso do que os gatos arranhando o lixo, rumou para a porta de tr�s do restaurante.</p><p>Prestava aten��o, mas n�o conseguia escutar nada. Testou a porta, estava destrancada, e abriu-a pouco mais de um cent�metro. Um arco de luz esparramou-se, e ele avistou um peda�o da cozinha que tamb�m estava vazio e silencioso.</p><p>Deslizou para dentro, uma mancha silente de escurid�o no c�modo de a�o inoxid�vel e porcelana branca. Mantendo-se abaixado, movendo-se r�pido, seguiu at� as portas vaiv�m duplas que levavam para a �rea de jantar e, com cuidado, espreitou pela janela oval de uma das portas. Viu aquilo que temia enxergar.</p><p>Os gar�ons, cozinheiros e clientes estavam amontoados num canto do sal�o sob os olhos vigilantes de um homem armado com uma pistola autom�tica. Dois outros mantinham Minh preso de bra�os e pernas abertos contra a parede, enquanto um terceiro o espancava. O rosto de Minh estava ferido e sangrava, seus olhos, fechados pelo incha�o. O homem que o agredia metodicamente com um cassetete de couro tamb�m o interrogava.</p><p>Brennan escorregou para baixo da janela, dentes cravados, o �dio inchando as veias do pesco�o e enrubescendo o rosto.</p><p>Kien reconhecera Minh e mandou que o ca�assem. Era uma das poucas pessoas nos Estados Unidos que poderiam identificar Kien, que sabia que ele usara met�dica e implacavelmente sua posi��o de general do Ex�rcito da Rep�blica do Vietn�, o ERV, para trair seu pa�s, seus homens e aliados norte-americanos. Brennan, claro, tamb�m conhecia Kien pelo que ele era. Tamb�m sabia que, onde quer que Kien tenha se estabelecido nos EUA, os que estavam no comando o respeitariam, ouviriam e, provavelmente, at� mesmo o temeriam. Brennan, por sua vez, desde que, indignado, desertara do Ex�rcito durante o fracasso da queda de Saigon, era um fora da lei. Ningu�m entre as autoridades sabia que ele estava de volta aos Estados Unidos, e ele queria manter as coisas desse jeito.</p><p>Tirou do bolso de tr�s uma touca e vestiu-a, cobrindo suas fei��es do l�bio superior ao topo da cabe�a.</p><p>Esperou um momento para respirar fundo, afogar as emo��es em um v�cuo de inexist�ncia, esquecer-se do �dio, do medo, do amigo, de sua necessidade de vingan�a, esquecer-se at� de si mesmo. Tornou-se nada para que fosse tudo. N�o estava nervoso nem calmo. Ergueu o p� silenciosamente e atravessou a porta; agachando-se sobre um joelho atr�s de uma mesa, puxou sua primeira flecha.</p><p>As palavras calmas e seguras de Ishida, seu <emphasis>roshi</emphasis>, enchiam sua mente como o dobrar sonolento de um grande sino.</p><p><emphasis>Seja simultaneamente o alvejador e o alvejado, o golpeador e o golpeado. Seja um recept�culo cheio esperando para ser esvaziado. Solte seu peso quando for o momento certo, sem pensar ou direcionar, e dessa maneira voc� conhecer� o Caminho</emphasis>.</p><p>Ele encarou sem ver, esquecendo se os alvos eram homens ou fardos de feno, soltou a primeira flecha, desceu a m�o para a aljava no cinto, pegou a pr�xima flecha, encaixou-a, ergueu o arco, e puxou a corda enquanto a primeira flecha ainda estava no seu trajeto.</p><p>A primeira flecha atingiu seu destino enquanto ele mudava a mira para acertar o terceiro alvo. Perceberam que estavam sendo atacados no momento em que a segunda flecha acertou e a quarta foi lan�ada. Era tarde demais.</p><p>Escolheu a ordem de seus alvos antes de ficar submerso no v�cuo. O primeiro foi o homem que vigiava os ref�ns com a arma sacada. A seta o atingiu nas costas, no alto � esquerda. Atravessou o cora��o, fatiou um pulm�o e saiu trinta cent�metros � frente do peito. O impacto o lan�ou � frente, pasmado, nos bra�os do gar�om. Os dois fitaram a seta de alum�nio sangrando que se projetava do peito. O atirador abriu a boca para amaldi�oar ou rezar, mas o sangue jorrou afogando as palavras. Despencou para a frente, suas pernas amoleceram, e o gar�om o soltou.</p><p>O segundo que segurava Minh o soltou. Ele desabou no ch�o quando eles estenderam as m�os para alcan�ar as armas nos cintos. Uma de suas m�os ficou presa na barriga antes que ele pudesse sacar; a outra ficou pregada na parede. Ele soltou a pistola e agarrou a seta que o prendia como um inseto grudado no alfinete de uma prancha de secar. O �ltimo, aquele que estava interrogando Minh, girou e foi atingido na lateral. A flecha tomou um �ngulo ascendente, deslizou entre as costelas, perfurando o cora��o, e atravessou o ombro direito.</p><p>Nove segundos passaram-se. O sil�ncio repentino foi interrompido apenas por um choro dolorido do homem pregado � parede.</p><p>Brennan cruzou o sal�o com uma d�zia de passos largos. Os ref�ns ainda estavam assustados demais para se mover. Dois dos brutamontes estavam mortos. Brennan n�o sentia prazer com as mortes, como n�o sentia prazer em matar cervos para conseguir carne para a mesa. Era algo que tinha de ser feito. Nem gastava sua piedade com eles.</p><p>O homem armado estava curvado no ch�o, inconsciente e em choque. O outro, pregado � parede pela seta que tinha perfurado seu peito, ainda estava alerta. O medo retorcia seu rosto e, quando encarou os olhos de Brennan, seus solu�os cresceram num lamento.</p><p>Brennan o encarava sem remorso. Puxou uma seta de sua aljava. O homem come�ou a murmurar. Brennan deu o golpe. A ponta larga cortou a garganta do homem t�o f�cil como se fosse uma l�mina. Brennan desviou com frieza do esguicho de sangue, deslizando a flecha de volta para a aljava, e ajoelhou ao lado de Minh.</p><p>Ele estava muito machucado. Todos os membros estavam quebrados � deve ter sido agonizante ser erguido da forma que ele foi � e o dano interno provavelmente foi enorme. Sua respira��o era leve e tr�mula. Seus olhos ainda estavam inchados. Provavelmente n�o teriam foco, mesmo se ele conseguisse abri-los.</p><p>� �ng <emphasis>l� ai?</emphasis> � ele suspirou ao toque gentil e avaliador de Brennan. � Quem � voc�?</p><p>� Brennan.</p><p>Minh abriu um sorriso horripilante. O sangue borbulhava nos l�bios e brilhava nos dentes.</p><p>� Sabia que voc� viria, capit�o.</p><p>� N�o fale. Temos que encontrar ajuda�</p><p>Minh balan�ou a cabe�a. O esfor�o foi demais, ele tossiu e fez uma careta de dor.</p><p>� N�o, estou morrendo. Preciso te falar. � Kien. Essa � a prova. Querem saber se eu falei para algu�m, mas eu n�o disse nada. Eles n�o sabem de voc�.</p><p>� V�o saber � prometeu Brennan.</p><p>Minh tossiu de novo.</p><p><emphasis>�</emphasis> Eu esperava ajudar. Como nos velhos tempos. Como nos velhos tempos. � Sua mente devaneou por um momento e Brennan olhou para cima.</p><p>� Chame uma ambul�ncia � ordenou ele. � E a pol�cia. Diga a eles que tem mais tr�s l� na porta. Vai.</p><p>Um dos gar�ons correu para atender �s ordens, enquanto os outros assistiam numa incompreens�o muda.</p><p>� Ajude voc� � Minh repetia. � Ajude voc�. � Ficou em sil�ncio por um momento, ent�o parecia fazer um esfor�o supremo para falar clara e racionalmente. � Voc� precisa ouvir. Cicatriz sequestrou Mai. Eu o estava seguindo, tentando conseguir uma pista do lugar aonde ele levou Mai, quando o vi junto com Kien no banco de tr�s de uma limusine. V� at� Cris�lida, no Crystal Palace. Ela deve saber para onde ele a levou. N�o consegui� des� cobrir. � A �ltima frase foi interrompida por tosses convulsivas e sanguinolentas.</p><p>� Por que eles a pegaram? � perguntou Brennan num sussurro.</p><p>� Pelas m�os dela. Pelas m�os sangrentas dela.</p><p>Brennan limpou as gotas de suor da testa de Minh.</p><p>� Agora, descanse � ele disse.</p><p>Mas Minh n�o ouviu. Ele se levantou, agarrando-se ao bra�o de Brennan.</p><p>� Encontre Mai. Ajude. Ela.</p><p>Recostou-se, suspirou. O sangue borbulhava em seus l�bios.</p><p>� <emphasis>T�i met</emphasis> � rouquejou ele. � Estou cansado.</p><p>Brennan cerrou os dentes pela dor e respondeu baixinho, em vietnamita.</p><p>� Descanse.</p><p>Minh balan�ou a cabe�a e parou de respirar.</p><p>Brennan deixou-o cair lentamente e agachou-se, piscando rapidamente. N�o foi mais um, ele disse a si mesmo. N�o foi outra morte. Foi outro ato pelo qual Kien tinha de responder.</p><p>Levantou-se, olhou em volta e n�o viu nada al�m de medo no rosto das pessoas que resgatou. N�o havia sentido em esperar. A pol�cia faria apenas perguntas inoportunas. Como o nome dele. Muita gente gostaria de saber que Daniel Brennan ainda estava vivo e de volta aos Estados Unidos, Kien era apenas um entre eles.</p><p>Precisava sair antes de a pol�cia chegar. Precisava seguir a pista �nfima que Minh deixara para ele. Cris�lida. Crystal Palace.</p><p>Mas parou e virou-se para os ref�ns libertos.</p><p>� Preciso de uma caneta � disse ele.</p><p>Um dos gar�ons tinha um marca-texto, que passou a Brennan sem dizer nada. Ele parou por um momento. Queria que Kien acordasse � noite suando frio, pensando, refletindo. N�o chegaria nele t�o cedo, mas, com mensagens o bastante, agentes mortos o bastante, no fim das contas ele receberia o recado.</p><p>Rabiscou uma mensagem pr�xima do homem pregado � parede por sua flecha. Ela dizia: �<emphasis>Estou chegando, Kien.</emphasis>� Ele parou antes de assin�-la. Seu nome n�o apareceria. Se aparecesse, acabaria com o medo do desconhecido criado por seus ataques e daria a Kien, seus agentes e seus contatos do governo uma pista muito concreta para seguir. Ele sorriu quando teve uma inspira��o s�bita.</p><p>O codinome de sua �ltima miss�o no Vietn�, quando Kien entregou Brennan e a sua unidade nas m�os dos norte-vietnamitas, era Opera��o Yeoman. Esse nome faria Kien pensar. Poderia suspeitar que era Brennan que estava atr�s do nome, mas n�o teria certeza. � noite o nome o corroeria e salgaria seus sonhos com mem�rias de atos que acreditava h� muito enterrados. Tamb�m era um nome adequado de um jeito cruelmente ir�nico. Servia-lhe bem.</p><p>Assinou a curta mensagem como <emphasis>Yeoman</emphasis> e ent�o, num arroubo final de inspira��o, desenhou um pequeno �s de espadas, o s�mbolo vietnamita de morte e infort�nio, e o coloriu. Os gar�ons vietnamitas e ajudantes de cozinha murmuraram entre eles quando viram a marca, e o gar�om de quem Brennan havia tomado a caneta recusou-se a peg�-la de volta com um balan�ar r�pido de cabe�a, como um passarinho.</p><p>� Como quiser � Brennan comentou. � Como fa�o para chegar ao Crystal Palace?</p><p>Um deles gaguejou instru��es, e Brennan voltou � cozinha para sair no beco escuro. Desmontou o arco, deslizando-o de volta � valise, e desapareceu antes de a pol�cia chegar. Ainda usando a m�scara, ele continuou pelos becos e ruas escuras, passando por outras figuras fantasmag�ricas na escurid�o. Algumas o observavam, alguns estavam absortos com seus pr�prios problemas. Ningu�m tentou impedi-lo.</p><p>O Crystal Palace, na Henry Street, era parte de um conjunto residencial de tr�s andares que ocupava o quarteir�o inteiro. Cerca de metade do conjunto foi destru�do na Grande Revolta do Bairro dos Curingas de 1976 e nunca fora reconstru�do. Alguns dos escombros foram removidos, alguns permaneciam em grandes pilhas ao lado das paredes bambas. Quando Brennan passou, viu olhos, n�o conseguiu dizer se de homens ou animais, reluzindo atrav�s das rachaduras e fendas dentro dos montes de destro�os. N�o ficou tentado a investigar. Continuou descendo a rua at� onde o conjunto de pr�dios ainda estava intacto, at� a pequena escadaria de pedra sob uma entrada abobadada, atravessou uma antec�mara pequena e viu-se no balc�o principal do Crystal Palace.</p><p>Estava escuro, apinhado e esfuma�ado. Havia um ou outro curinga evidente, como o camarada pequeno, inchado e com presas distribuindo jornais ao lado da porta e o cantor bic�falo no pequeno palco tirando acordes bonitos de uma can��o de Cole Porter. Alguns eram normais o suficiente at� algu�m olh�-los de perto. Brennan percebeu um homem, normal, at� bonito, exceto que lhe faltava o nariz e a boca e tinha, em vez deles, uma tromba longa e curvada que se estendia como um canudinho at� a bebida enquanto Brennan observava. Alguns vestiam fantasias que chamavam a aten��o pela estranheza, como se para proclamar sua infec��o de forma desafiadora. Alguns usavam m�scaras para esconder suas deformidades, embora alguns que as usassem fossem n�o infectados, ou limpos, na g�ria curinga.</p><p>� Voc� � vendedor?</p><p>Levou um instante para Brennan perceber que aquela pergunta era direcionada a ele. Olhou em volta para o final do longo balc�o de madeira, onde um homem estava sentado num banco alto, balan�ando as pernas curtas e robustas bem longe do ch�o. Era um an�o, cerca de um metro e vinte, tanto de altura como de largura. Seu pesco�o era alto como uma lata de atum e grosso como a coxa de um homem. Observava de forma t�o s�lida e inexpressiva como uma laje de m�rmore.</p><p>� Essas s�o suas amostras? � ele perguntou, apontando a valise de Brennan com a m�o que era duas vezes a de Brennan.</p><p>� S� ferramentas do meu of�cio.</p><p>� Sascha.</p><p>Um dos atendentes, um homem alto e magro com bigode fino e cabelo frisado e oleoso caindo sobre a testa, virou-se para o an�o. Brennan notou-o de relance, misturando e entregando bebidas com velocidade e seguran�a incr�veis. Quando se virou para atender o an�o, viu que ele n�o tinha olhos, apenas uma extens�o branca, inteiri�a de pele cobrindo as �rbitas. O atendente virou a cabe�a na sua dire��o e sacudiu-a rapidamente.</p><p>� Tudo bem, Elmo, tudo bem. � O an�o balan�ou a cabe�a e tirou os olhos de Brennan pela primeira vez desde que come�ara a falar. Brennan fechou a cara, estava prestes a falar, mas o barman foi mais r�pido.</p><p>� Ela est� ali.</p><p>Brennan torceu os l�bios. O homem sem olho deu um sorrisinho e voltou a misturar as bebidas. Brennan olhou na dire��o que o barman apontou e prendeu o f�lego.</p><p>Uma mulher estava sentada numa mesa de canto com um homem magro e negro vestindo um quimono vermelho cheio de drag�es amarelos e enfeitado com o que Brennan achou ser uma f�rmula m�stica. Era bonito, exceto pela testa saliente que desfigurava suas fei��es. A cadeira na qual estava sentado era comum. A cadeira da mulher era do tamanho de um trono, com uma estrutura de imbuia escura e almofadas de veludo vermelho. Ela baixou a ta�a de cristal do tamanho de um dedal do qual bebericava um licor cor de mel, olhou diretamente para Brennan e sorriu.</p><p>Vestia cal�as coladas � sua figura graciosa e um casaco transpassado amarrado no ombro direito, deixando metade do peito nu. Sua pele era totalmente invis�vel, expondo m�sculos vagos, indefinidos e os �rg�os que trabalhavam embaixo deles. Brennan conseguia ver o sangue pulsando pelo sistema de veias e art�rias que corriam pela carne, conseguia ver seus m�sculos fantasmas, semitransparentes, deslocarem-se e deslizarem ao menor movimento, conseguia ver at� mesmo levemente a batida do cora��o dentro da sua caixa tor�cica e a tremula��o dos pulm�es enquanto trabalhavam uniforme e incessantemente.</p><p>Ela sorriu para Brennan. Ele sabia que a estava encarando, mas n�o conseguia evitar. Parecia bizarra demais para ser bonita, mas era fascinante. Seu peito exposto era totalmente invis�vel, exceto pela rede fina de vasos sangu�neos entrela�ados e seu grande mamilo escuro. Seu rosto, bem, quem poderia dizer? Os olhos eram azuis, as bochechas, sob o revestimento do m�sculo mandibular, altas, o nariz, uma cavidade no cr�nio. Seus l�bios, como os mamilos, eram vis�veis. Encorpados, convidativos e curvados num sorriso mordaz. N�o contava com cabelos para esconder seu cr�nio branco. Ele costurou seu caminho at� a mesa, e ela o observava com aquilo que parecia ser, se ele pudesse ler sua express�o esquisita, um divertimento desprendido. Ele observava o mecanismo do trabalho de sua garganta enquanto ela bebericava seu drinque.</p><p>� Me perdoe � ele come�ou e deparou-se com o sil�ncio.</p><p>Ela riu, bem-humorada, sem amargura, reprova��o ou raiva.</p><p>� Perd�o concedido, homem mascarado � ela respondeu. � Sou uma vis�o para se contemplar. Ningu�m ao me ver pela primeira vez consegue agir naturalmente. Sou Cris�lida, propriet�ria do Crystal Palace, como voc� deve saber. Este aqui � o Fortunato.</p><p>O negro olhou para Brennan, e este conseguia ver o sangue oriental do homem no formato dos seus olhos. Eles se cumprimentaram com a cabe�a sem falar nada. Brennan percebeu que havia uma aura de poder em torno daquele homem. Era um �s, disso Brennan teve certeza de repente.</p><p>� Qual o seu nome? � Cris�lida perguntou.</p><p>Ela falava num sotaque brit�nico refinado, que teria surpreendido Brennan se j� n�o tivesse gastado sua cota de espantos daquela noite. A voz dela tornou-se ponderada, sua express�o parecia calculista.</p><p>� Yeoman � Brennan disse, perguntando-se o quanto ele poderia ser honesto.</p><p>� Interessante. N�o � seu nome verdadeiro, claro.</p><p>Brennan olhava para ela em sil�ncio.</p><p>� Voc� gostaria de saber isso? � seu companheiro questionou. Fortunato riu com indol�ncia, e ela deu de ombros, sorrindo de volta evasivamente.</p><p>Fortunato olhou para Brennan. Seus olhos ficaram maiores, mais escuros. Brennan sentiu um turbilh�o vertiginoso de poder crescendo neles, o poder que percebeu de repente era direcionado a ele. Ele piscava com �dio, punhos cerrados, e sabia que n�o conseguiria impedir que a capacidade dada a Fortunato pelo v�rus penetrasse no fundo de sua mente. Havia apenas uma coisa a fazer.</p><p>Deu um suspiro profundo, segurou-o, e deixou todos os pensamentos escoarem de sua mente. Estava de volta ao Jap�o, perante Ishida, tentando responder o enigma que o <emphasis>roshi</emphasis> propusera quando ele buscou pela primeira vez guarida no monast�rio.</p><p>� Ouve-se um som quando duas m�os batem palma. Qual o som de uma �nica m�o batendo palma?</p><p>Sem palavras, Brennan lan�ou a m�o para a frente, fechada num punho. Ishida concordou com a cabe�a e o treinamento come�ou de verdade. Naquele instante, ele apelava para esse treino. Mergulhou profundamente no <emphasis>zazen</emphasis>, estado de medita��o no qual ele se esvaziava de todo pensamento, sentimento, emo��o e express�o. Um tempo atemporal passou e, como se de um lugar muito distante, ouviu Fortunato murmurar �Extraordin�rio� e trouxe a si mesmo de volta.</p><p>Fortunato olhou para ele com uma pequena dose de respeito nos olhos. Cris�lida observava ambos cuidadosamente.</p><p>� Voc� � do Zen? � perguntou Fortunato.</p><p>� Um humilde pupilo � Brennan murmurou, at� sua voz soava como se viesse de um pico de montanha distante.</p><p>� Talvez seja melhor eu falar com Yeoman sozinha � disse Cris�lida.</p><p>� Se prefere assim � Fortunato levantou-se.</p><p>� Espere. � Brennan sacudiu-se como um c�o tentando se secar e voltou por inteiro para o local. Olhou para Fortunato. � N�o fa�a isso novamente.</p><p>Fortunato apertou os l�bios e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Com certeza vamos nos encontrar de novo.</p><p>Em seguida, saiu da mesa, abrindo caminho at� o sal�o lotado.</p><p>Brennan ocupou sua cadeira enquanto Cris�lida o observava com o que parecia ser uma express�o calculista.</p><p>� Estranho nunca ter ouvido falar de voc� � comentou ela.</p><p>� Acabei de chegar � cidade.</p><p>O olhar dela tornou-se penetrante, cativante. Brennan precisou esfor�ar-se um pouco para n�o encarar os olhos dela flutuando nus nas �rbitas profundas.</p><p>� A trabalho? � perguntou ela. Brennan concordou com a cabe�a e ela deu um gole na bebida, suspirou e baixou a ta�a. � Vejo que voc� n�o est� a fim de bater papo. O que quer de mim?</p><p>� Seu barman � ele come�ou. � Como ele consegue atender t�o bem sem olhos?</p><p>� Essa � f�cil � comentou Cris�lida, sorrindo. � Essa eu dou de gra�a. Sascha � um telepata, entre outras coisas. N�o se preocupe. Quaisquer segredos que voc� esconda atr�s de sua m�scara est�o seguros. Ele � um planador, consegue apenas ler os pensamentos superficiais. Torna o trabalho mais f�cil e o Crystal Palace, mais seguro. Ele diz a Elmo quem s�o os perigosos, os doentes, os pervertidos. E Elmo se livra deles.</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a, sentindo-se um pouco mais seguro. Ficou feliz em saber que a capacidade do barman era limitada. N�o gostava da mente de ningu�m fu�ando seu c�rebro.</p><p>� E o que mais? � questionou Cris�lida.</p><p>� Preciso saber sobre dois homens. Um deles chama-se Cicatriz, e o chefe dele, Kien.</p><p>Cris�lida olhou para ele e franziu a testa. Ao menos, os m�sculos de seu rosto se juntaram. Como sua musculatura corporal, eles pareciam nebulosos, insubstanciais, como se aquilo que formava sua carne e pele totalmente invis�vel chegasse ao ponto da translucidez.</p><p>� Voc� sabe que eles est�o ligados? Isso � algo que talvez apenas tr�s pessoas fora do seu pr�prio c�rculo saibam. S�o amigos seus? � De repente, a f�ria lampejou no rosto de Brennan, e ela hesitou.</p><p>� N�o, acho que n�o.</p><p>Suas palavras trouxeram � vida mem�rias de trai��o e viol�ncia. Sascha virou seu rosto cego para o canto. Elmo ficou na ponta dos p�s, suspendendo seu grosso pesco�o. Em torno da sala, meia d�zia de pessoas silenciaram. Um homem p�s as m�os nas t�mporas e caiu numa esp�cie de desmaio. Ele gania como um cachorro espancado, enquanto os outros em sua mesa tentavam tir�-lo do transe. Cris�lida tirou os olhos de Brennan, acenou para Elmo se acalmar e a tens�o come�ou, aos poucos, a se dissipar.</p><p>� Os dois s�o perigosos � ela falou com calma. � Kien � vietnamita, ex-general. Apareceu h�, hum, oito anos. Rapidamente se infiltrou no ramo das drogas e agora det�m grande parte do neg�cio. De fato, seus dedos est�o na maioria das atividades ilegais da cidade, embora mantenha uma fachada de s�lida respeitabilidade. Possui uma rede de estabelecimentos de lavanderias a seco e restaurantes. Faz doa��es a institui��es beneficentes e partidos pol�ticos adequados. � convidado para todos os grandes eventos sociais. Cicatriz � um de seus tenentes. Ele n�o responde diretamente a Kien. O general se mant�m bem isolado.</p><p>� Me fale mais sobre o Cicatriz.</p><p>� Garoto daqui. N�o sei seu nome verdadeiro. � chamado de Cicatriz por conta das tatuagens estranhas que espalhou por todo o rosto. Acredita-se que s�o marcas tribais maoris.</p><p>Brennan deve ter parecido incr�dulo, pois Cris�lida encolheu os ombros. Ele observou os m�sculos se deslocarem e os ossos rodarem nas juntas. O mamilo do seio exposto subiu e desceu na sua almofada de carne invis�vel.</p><p>� Dizem que recebeu a ideia de um antrop�logo da Universidade de Nova York que estava estudando sua gangue de rua. Algo sobre tribalismo urbano. De qualquer forma, � um cara mau. � a principal for�a de Kien. Imbat�vel numa luta. � Ela o encarou com ast�cia. � Voc� ir� enfrent�-lo.</p><p>Era uma afirma��o, n�o uma pergunta.</p><p>� O que faz dele imbat�vel?</p><p>� Ele � um teletransportador instant�neo. Pode desaparecer com mais velocidade do que qualquer um consegue se mover e reaparecer onde quiser. Em geral, atr�s do oponente. Tamb�m � malvado como o diabo. Poderia ser um grande cara, mas gosta muito de matar. E de ser um dos tenentes de Kien. N�o que ele fa�a o mal por si mesmo. � Ela brincou com sua ta�a por um momento, ent�o olhou diretamente para Brennan. � Voc� � um �s?</p><p>Brennan n�o disse nada. Seus olhares ficaram fixos por um longo momento e ent�o Cris�lida suspirou.</p><p>� Voc� n�o tem nada, � um homem apenas. Um limpo. Que faz voc� pensar que pode pegar o Cicatriz? � ela repetiu.</p><p>� Como voc� disse, sou um homem. Ele sequestrou a filha de um amigo meu. Sou o �nico que sobrou para ir atr�s dela.</p><p>� Pol�cia? � come�ou Cris�lida, pensativa, ent�o riu da pr�pria sugest�o. � N�o. Cicatriz, por conta do Kien, tem prote��o policial o suficiente. Suponho que voc� n�o tenha ind�cios s�lidos de que o Cicatriz esteja com a garota, certo? Talvez um dos outros ases? O Sombra, Fortunato talvez�</p><p>� N�o temos tempo. N�o sei o que ele far� com ela. Al�m disso� � Ele parou por um momento e relembrou dez anos � � isso � pessoal.</p><p>� Imaginei.</p><p>Brennan voltou o olhar para o sal�o. Era dif�cil para ele encarar Cris�lida.</p><p>� Onde posso encontrar o Cicatriz?</p><p>� Eu trabalho vendendo informa��es e j� dei o bastante por conta da casa. Essa parte vai lhe custar.</p><p>� N�o tenho dinheiro.</p><p>� N�o preciso do seu dinheiro. Fa�o um favor a voc�, voc� me devolve um favor.</p><p>Brennan fechou a cara.</p><p>� N�o gosto de ficar em d�vida com ningu�m.</p><p>� Ent�o, procure informa��es em outro lugar.</p><p>A necessidade de fazer alguma coisa queimava em Brennan.</p><p>� Est� bem.</p><p>Ela tomou um gole do seu licor e olhou para a ta�a de cristal mantida na m�o cuja carne era t�o transparente quanto a pr�pria ta�a.</p><p>� Ele tem um casar�o na Castleton Avenue, Staten Island. � isolado e cercado, num terreno imenso. Ele gosta de ca�ar. Homens.</p><p>� � mesmo? � perguntou Brennan, seu olhar pensativo, reflexivo.</p><p>� Por que o Cicatriz raptou a menina? Ela � especial de algum jeito?</p><p>� N�o sei � comentou Brennan, balan�ando a cabe�a. � Achei que era para manter o pai dela quieto, pois ele viu o Cicatriz e Kien juntos, mas a sequ�ncia dos fatos est� toda errada. Minh os viu juntos quando estava seguindo o Cicatriz, tentando encontrar pistas sobre o sequestro. Ele me disse que eles a levaram pelas �m�os sangrentas�. Significa algo para voc�?</p><p>Cris�lida negou com a cabe�a.</p><p>� Pode pedir para ele ser menos cr�ptico?</p><p>� Ele morreu.</p><p>Ela estendeu o bra�o e pousou a m�o sobre a dele, e algo aconteceu entre eles.</p><p>� Com certeza voc� n�o se importar� com meus avisos, mas vou d�-los de qualquer jeito. Cuidado. � Brennan assentiu com a cabe�a. A m�o dela, invis�vel sobre a dele, era morna e suave. Ele via o sangue pulsando ritmicamente por ela. � � poss�vel � ela continuou � que voc� goste de pagar sua d�vida.</p><p>� Como? � Brennan perguntou, sentindo o desafio sutil no tom e na express�o de Cris�lida.</p><p>� Se sobreviver ao encontro com o Cicatriz, volte ao Crystal Palace hoje � noite. N�o se preocupe com o hor�rio, estarei te esperando.</p><p>N�o havia confus�o no que ela quis dizer. Ofereceu enlaces que ele evitava por muito tempo, relacionamentos dos quais ele n�o queria participar havia anos.</p><p>� Ou voc� me acha repulsiva? � questionou ela de forma natural, quebrando o longo sil�ncio que se estendeu entre eles.</p><p>� N�o � disse ele com mais brevidade do que pretendia. � N�o � isso, n�o mesmo.</p><p>Sua voz soava grosseira em seus pr�prios ouvidos. Ficara isolado do contato humano havia tanto tempo que a ideia de entrar em qualquer tipo de rela��o �ntima o apavorava.</p><p>� Seus segredos est�o bem guardados comigo, Yeoman � assegurou Cris�lida.</p><p>Ele deu um suspiro profundo, concordando com a cabe�a.</p><p>� Bem � o sorriso dela voltou �, espero voc�.</p><p>Ele se virou sem dizer nada, e o sorriso esvaneceu do rosto dela.</p><p>� Se � disse Cris�lida com tanta suavidade que apenas ela ouviu as palavras � voc� conseguir fazer o imposs�vel. Derrotar o Cicatriz.</p><p><strong>III.</strong></p><p>Havia, Brennan pensou, duas maneiras de faz�-lo. Podia entrar clandestinamente. Esgueirar-se para dentro da mans�o do Cicatriz, sem saber qual sistema de seguran�a ele poderia ter, e entrar num quarto ap�s o outro, sem saber o que encontraria em cada quarto, sem mesmo saber se Mai estava no local. Ou poderia apenas entrar, depositando confian�a na sorte, na coragem e na sua capacidade de reagir com rapidez.</p><p>Tirou a m�scara ap�s sair do Crystal Palace e encontrou um t�xi. O motorista relutou em lev�-lo at� Staten Island, mas ao ver algumas notas de vinte o taxista ficou todo sorrisos. Era uma corrida longa, de t�xi e balsa, e Brennan passou-a numa infeliz reminisc�ncia. Ishida teria desaprovado, mas, ent�o, Brennan sabia, ele nunca teria sido o melhor dos alunos do <emphasis>roshi</emphasis>.</p><p>O taxista o deixou a um quarteir�o de dist�ncia do endere�o na Castleton que Cris�lida lhe dera, pagou a corrida e deu ao motorista uma gorjeta que esgotou a maior parte de suas reservas. Quando o t�xi se afastou, ele se moveu rapidamente pelas sombras at� chegar � rua do Cicatriz. Era como Cris�lida havia descrito.</p><p>A casa em si era uma mans�o grosseira de pedra constru�da a duzentos metros da rua. Algumas luzes brilhavam pelas janelas estilha�adas em cada um dos tr�s andares, mas n�o havia ilumina��o na parte externa. O muro que circundava o terreno era de pedra, com cerca de dois metros de altura, encimado por fios el�tricos. A pequena guarita envidra�ada que havia ao lado do port�o de ferro forjado tinha um �nico sentinela. A seguran�a n�o parecia dif�cil de romper, mas a mans�o era mesmo grande demais para se buscar quarto a quarto.</p><p>Teria de haver aud�cia, coragem e sorte. Muita sorte, Brennan pensou, enquanto caminhava velozmente, saindo das sombras.</p><p>O homem na guarita estava assistindo num pequeno televisor a um programa de entrevistas apresentado por uma bela mulher com asas. Brennan, que n�o assistia � televis�o desde seu retorno aos EUA, a reconheceu de qualquer forma como a Peregrina, uma das ases com maior visibilidade, a apresentadora do programa <emphasis>Pouso da Peregrina</emphasis>. Ela estava observando um homem imenso e barbado com roupas de <emphasis>chef</emphasis> cozinhando. Eles conversavam amigavelmente enquanto as grandes m�os dele se moviam com gra�a surpreendente, e Brennan percebeu que era Hiram Worchester, codinome Bol�o, outro �s bastante famoso.</p><p>O guarda estava vidrado em Peregrina, que trajava uma fantasia inegavelmente atraente com um decote que chegava at� quase o umbigo. Brennan teve de bater na porta de vidro da guarita para chamar a aten��o, embora n�o tenha feito esfor�o algum para disfar�ar a aproxima��o.</p><p>O guarda abriu a porta.</p><p>� De onde voc� veio?</p><p>� De um t�xi. � Brennan fez um gesto vago por sobre o ombro. � Mandei-o embora.</p><p>� Ah, claro � disse o guarda. � Eu ouvi. O que voc� quer?</p><p>Brennan estava prestes a dizer que Kien o enviou pela garota, mas engoliu as palavras no �ltimo instante. Cris�lida disse a ele que apenas poucos sabiam que Kien e o Cicatriz estavam envolvidos. Este lacaio com certeza n�o era um deles.</p><p>� O chefe me enviou. � sobre a garota � disse ele, mantendo-se o mais vago poss�vel, enquanto mantinha sua voz segura e firme.</p><p>� O chefe?</p><p>� Chame o Cicatriz. Ele sabe.</p><p>O guarda virou-se, pegou um telefone. Ap�s alguns segundos de uma conversa abafada, ele desligou e tocou um painel � sua frente. O port�o de ferro forjado abriu-se em sil�ncio.</p><p>� Entre � ele disse, virando-se de volta � televis�o, onde Hiram e Peregrina estavam comendo crepes de chocolate cobertos de a��car com olhares deliciados. Brennan hesitou por um segundo.</p><p>� Mais uma coisa � falou ele.</p><p>O guarda suspirou, girou devagar, com os olhos ainda no televisor.</p><p>Brennan golpeou, de cima para baixo com a palma da m�o, o nariz do guarda. Ele sentiu o osso ceder e estilha�ar com a for�a da pancada. O homem convulsionou quando as lascas do osso perfuraram seu c�rebro e ent�o amoleceu por completo. Brennan desligou a televis�o quando Bol�o e Peregrina estavam terminando os crepes e arrastou o corpo para a frente da casa, lan�ando-o atr�s de uns arbustos. Arrependido, tamb�m deixou o estojo de seu arco escondido ali, mas, para n�o seguir totalmente desarmado, tirou uma corda de arco sobressalente e enrolou-a frouxamente na cintura, sob o c�s de seu jeans.</p><p>Caminhou com rapidez at� a mans�o.</p><p>Cicatriz estava precisando de um jardineiro. O quintal era quase uma selva. A grama n�o fora cortada durante todo o ver�o, os arbustos haviam enlouquecido. Malcuidados, espalhavam-se sobre os limites originais e formavam uma vegeta��o rasteira bem densa sob as �rvores grossas e n�o podadas. Pareciam mais 4 mil metros quadrados de floresta do que uma frente de casa e, por um momento, isso fez Brennan ansiar pela quietude das montanhas de Catskills. Em seguida, estava na porta de entrada e lembrou-se do que o havia trazido ali. Tocou a campainha.</p><p>O homem que atendeu tinha a insol�ncia de um punk urbano, e a arma que carregava sob a axila em um coldre de ombro parecia grande o suficiente para derrubar um elefante.</p><p>� Entre. O Cicatriz est� com um cliente. Eles est�o com a garota.</p><p>Brennan franziu a testa quando o homem virou as costas a fim de conduzi-lo para dentro da mans�o. O que estava acontecendo? Prostitui��o? Sexo pervertido? Queria perguntar ao homem que o levava para os fundos, mas sabia que era melhor manter a boca fechada. Logo encontraria as respostas.</p><p>Cicatriz cuidava um pouco melhor do interior da mans�o do que fazia com o jardim, mas n�o muito. O piso de m�rmore estava imundo e havia odores de bolor coalhando o ar que deixaram Brennan enjoado. Temia respirar fundo demais e identificar algum dos odores. Uma escadaria levava aos andares superiores da mans�o, mas eles ficaram no t�rreo, seguindo para os fundos da casa.</p><p>Seu guia virou � esquerda, passou por um detector de metal que apitou uma vez, e ele olhou para Brennan, que o seguia. O detector n�o emitiu mais ru�do algum. O grandalh�o aprovou com a cabe�a e levou Brennan para uma sala bem iluminada, onde estavam outras quatro pessoas. Uma delas era um faz-tudo robusto id�ntico �quele que atendeu Brennan na porta de entrada. A outra era uma mulher com longos cabelos louros. Usava uma m�scara que cobria seu rosto inteiro.</p><p>A terceira era Mai. Olhou com enfado quando ele entrou no recinto e rapidamente reprimiu o olhar de reconhecimento que veio ao rosto quando ela o viu. Tornara-se uma jovem linda, pequena, delicada, com tra�os finos, cabelos grossos e brilhantes, e olhos escuros, muito escuros. Parecia n�o ter sofrido, estava apenas terrivelmente cansada. Tinha grandes olheiras, e Brennan conseguia enxergar a exaust�o em cada m�sculo pela postura da garota.</p><p>O �ltimo era o Cicatriz. Era alto e magro, vestido com camiseta e cal�a de sarja preta. Seu rosto era um pesadelo. Os padr�es tatuados nele em preto e escarlate transformavam-no na face lasciva e bestial de um dem�nio. Seus olhos afundavam-se em fossas escuras, seus dentes, numa caverna vermelha. Brennan ficou surpreso ao ver, quando Cicatriz sorriu para ele, que seus dentes n�o eram pontudos.</p><p>� Qual o teu nome, cara? � perguntou ele no linguajar grosseiro do sub�rbio. � Nunca te vi antes.</p><p>� Arqueiro � mentiu Brennan, automaticamente. � Que est� acontecendo aqui?</p><p>Cicatriz abriu um novo sorriso. Seu rosto formava contor��es estranhas que n�o mostravam humor algum.</p><p>� Cara, chegou bem na hora. A irm�zinha aqui vai demonstrar o poder dela, n�o vai?</p><p>Todos olharam para Mai, que baixara a cabe�a em resigna��o silenciosa, esgotada.</p><p>� Ela <emphasis>pode</emphasis> fazer isso? � perguntou a mulher mascarada, sua voz estranhamente ansiosa e sibilante.</p><p>Cicatriz apenas concordou com a cabe�a e fez um gesto na dire��o de Mai. Os dois gorilas assistiam sem muito interesse. O olhar de Cicatriz pairava entre Brennan, Mai e a mulher.</p><p>� Fala pro cara � disse ele, olhando Brennan mais de perto quando Mai aproximou-se da mulher � que eu ia contar pra ele tudo sobre ela. Estava apenas dando uma olhada.</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a com impaci�ncia, indiferente e com olhar frio por fora, indeciso por dentro. Mai caminhou at� a mulher sem voltar os olhos para ele. Seja l� o que aconte�a, ele pensou, n�o pode ser muito ruim. Ela parecia estar levando as coisas com calma demais, e ele decidiu aguardar.</p><p>� Precisa tirar a m�scara � disse Mai baixinho � mulher. Ela recuou um pouco e olhou para os homens que a observavam, mas obedeceu. Brennan observava impass�vel quando ela tirou a m�scara; Cicatriz olhava de relance, com sorriso dissimulado. Estava claro que ela se envergonhava de seu rosto. Brennan tinha visto piores, mas foi o suficiente para arrancar sussurros maldosos dos homens de Cicatriz. N�o tinha queixo; apenas uma pequena mand�bula inferior. Sem nariz, contava apenas com as fendas das narinas sobre sua boca sem l�bios. A testa era m�nima. Todo o rosto era esticado para a frente, como um r�ptil, completado pela textura de bolotas coloridas de sua pele. Parecia, de qualquer forma, um monstro-de-gila com cabelos longos e louros.</p><p>� Eu era bonita � disse ela, baixando o olhar.</p><p>Os homens do Cicatriz soltaram risos abafados, mas Mai tomou o rosto grosseiro da mulher entre as palmas das m�os e sussurrou:</p><p>� Voc� voltar� a ser bonita.</p><p>A mulher levantou os olhos para ela, dentro deles, um mundo de dor. Mai a encarava com tranquilidade, seu rosto p�lido com a serenidade de uma santa. Por um momento, nada aconteceu. O olhar de Brennan pairava dela para Cicatriz, que assistia com aten��o, ent�o de volta para ela. Ent�o, onde as m�os de Mai tocaram o rosto curtido das bochechas, o sangue come�ou a correr em got�culas. Parecia brotar do rosto da mulher, das palmas das m�os de Mai, ou de ambos. Pequenos filetes corriam entre os dedos de Mai, pelas m�os at� os pulsos. Mai gemia, e Brennan a encarava enquanto seu rosto mudava. O queixo se retraiu, a mand�bula diminuiu. A testa encolheu e a pele tornou-se grossa, �spera e listrada de laranja, preto e vermelho. Levou alguns minutos. Brennan assistia com l�bios apertados. Cicatriz via como ele observava. Sorriu com malevol�ncia, seu rosto tatuado, uma m�scara demon�aca.</p><p>As duas mulheres-lagarto se encaravam, uma loura, outra de cabelos pretos. A mulher fitava Mai com olhos arregalados, Mai devolvia um olhar tranquilizador. Ela suspirou alto, como um amante ap�s o gozo, e come�ou a mudar. Sua pele perdeu a rugosidade, suas cores brilhantes. Os ossos por baixo dela voltaram �s configura��es normais. Seus l�bios torciam-se levemente, talvez pela dor da metamorfose, mas n�o disse nada. Levou mais alguns momentos, mas a mulher loira tamb�m come�ou a mudar. Sua pele suavizou-se, embranquecendo. Os ossos mudavam como cera mole. L�grimas rolavam de suas bochechas altas e finas, de dor e de alegria. Brennan n�o conseguia dizer. A transforma��o levou alguns minutos. Quando os pequenos filetes de sangue pararam de correr, Mai tirou as m�os do rosto da mulher. Ela estava certa. Foi e estava novamente bonita. Chorando em sil�ncio, ela tomou a m�o de Mai e beijou-lhe a palma. Mai sorria para ela e cambaleava, exaurida. Brennan p�de ver que apenas a for�a de vontade a mantinha em p�. Cada linha e cada m�sculo de seu corpo exalava cansa�o.</p><p>A mulher esticou a m�o para pegar uma bolsa numa pequena mesa pr�xima de onde ela estava e tirou dela um envelope grosso. Cicatriz fez um gesto. Um de seus capangas com sorriso falso pegou-o, enfiando no bolso traseiro de suas cal�as, e acompanhou a mulher para fora da sala.</p><p>� Bem, e a�, camarada, o que acha?</p><p>� Fant�stico � disse Brennan, ainda olhando para Mai. � O que � isso, manipula��o gen�tica?</p><p>� N�o sei que merda � essa n�o � disse Cicatriz. � S� ouvi que ela estava curando os curingas da regi�o e pensei: por que consertar esses curingas pobres quando posso arrumar curingas que pagam uma nota? Ent�o eu catei ela.</p><p>Brennan tirou os olhos de Mai e encarou Cicatriz.</p><p>� Ela vale muito. Devia ter falado pro Kien sobre ela. Vou ter que lev�-la para ele.</p><p>Cicatriz apertou os l�bios tatuados numa consterna��o fingida.</p><p>� Vai? Voc� parece saber demais, cara. Como n�o sabe que eu disse pro homem sobre ela quando aquele vietnamitazinho viu a gente juntos na limusine do chefe? � Ele se virou, olhou para Mai, e acrescentou com mal�cia: � E ent�o o homem acabou com o corno para ele n�o falar nada sobre isso.</p><p>� Meu pai? � perguntou Mai.</p><p>Cicatriz confirmou com a cabe�a, como um diabo. Mai engasgou, vacilou e teria ca�do se um dos homens do Cicatriz n�o a tivesse agarrado com brutalidade pelo bra�o. Brennan se mexeu.</p><p>Lan�ou-se pela sala, arrancou a arma do coldre de ombro do homem, apertou o cano contra o peito dele e puxou o gatilho. Houve um estrondo imenso quando a explos�o ergueu o homem e lan�ou-o contra a parede. Deixou um rastro vermelho quando despencou ao ch�o, seus olhos arregalados e incr�dulos.</p><p>Brennan girou, mas Cicatriz havia sumido. Viu um cintilar de canto de olho e sentiu a dor lancinante quando Cicatriz acertou sua cintura, arrancando a arma da m�o dele. Cicatriz esquivou-se do soco de Brennan, chutou a arma para um canto da sala e desapareceu, silenciosa e completamente.</p><p>Ele reapareceu entre Brennan e a arma, sorriso louco no rosto.</p><p>� Voc� precisa de uma arma para enfrentar o Cicatriz? Voc� � algum tipo de limpo doid�o � disse ele. � Que nome vai querer na sua l�pide? � Ele enfiou a m�o no bolso da cal�a de sarja e, com um sacudir treinado de punho, abriu uma navalha de 15 cent�metros.</p><p>Cicatriz desapareceu novamente, e Brennan sentiu uma pontada dolorosa no lado do corpo. Ouviu Mai gritar, afastou-se, rolou no ch�o e levantou-se. O sangue corria onde Cicatriz abrira um corte longo e raso entre suas costelas. Mal teve tempo de se reerguer antes de Cicatriz aparecer novamente, abrir um talho no rosto de Brennan e sumir. Foi como Cris�lida disse. Era r�pido e preciso quando se teletransportava. E gostava do que fazia.</p><p>� Vou picotar voc� devagar, cara � disse ele, aparecendo com olhos sedentos de morte. � Vou te cortar at� voc� me implorar para morrer. � Ele agitava o pulso, respingando o sangue de Brennan do fio de sua l�mina. Aquela sala era brilhante, brilhante e fechada. Brennan estava preso, confinado, e sabia que n�o tinha chance alguma. Cicatriz o cortaria em tiras, rindo, enquanto ele tentasse pegar a arma. Respirou fundo, acalmando sua mente galopante, recuando, como Ishida o ensinou, para um estado de tranquilidade serena, e sabia o que tinha de fazer. Cicatriz riscou suas costas quando ele se virou, correu e lan�ou-se pelas portas-balc�o no fundo da sala. Saiu da luz para um p�tio escuro.</p><p>Com um sorriso bastante contente, Cicatriz saiu para o p�tio atr�s de Brennan. Ele assobiava desafinado e observava Brennan correr pelo jardim e enfiar-se num canto denso com �rvores.</p><p>� Ei, limpo? � gritou ele. � Cad� voc�, cara? Ent�o, vou falar. Se voc� for uma boa ca�a, te corto um pouco e depois te mato de uma vez. Se me desapontar, corto suas bolas fora. Nem a cadela vietnamitazinha vai conseguir te dar um par novo.</p><p>Cicatriz gargalhou com a piada, ent�o seguiu Brennan na escurid�o. Parou por um instante e escutou. N�o ouvia nada a n�o ser os sons do vento nas �rvores e, ao longe, carros ocasionais que seguiam por ruas distantes. Sua presa desaparecera, sumira na noite. Cicatriz franziu a testa. Algo estava errado. Ele seguiu mais adiante, no meio das �rvores.</p><p>E, de lugar algum, um fantasma silencioso entre as sombras, Brennan ergueu-se de seu esconderijo, sua corda encerada de nylon enrolada nos pulsos. Ele enrolou o fio na garganta de Cicatriz por tr�s, puxou com for�a e girou. Carne e cartilagem foram esmigalhadas, e Cicatriz desapareceu, ressurgindo a alguns metros de dist�ncia com a traqueia triturada. Tentava puxar o ar, mas nada chegava aos pulm�es que se esfor�avam. Abriu a boca para dizer algo para Brennan, para xing�-lo ou implorar ajuda, mas as palavras n�o sa�ram. Desvaneceu novamente para reaparecer microssegundos depois no mesmo lugar, seu rosto tatuado contorcido de dor e medo, sua concentra��o estilha�ada, seu controle, inexistente. Brennan o viu tremeluzir loucamente entre as �rvores, desespero no rosto, teletransportando-se �s raias da insanidade, sem l�gica alguma. Por fim, ele apareceu cuspindo sangue, recostado numa �rvore, largou sua navalha e caiu de costas. Brennan aproximou-se com cuidado, mas ele estava morto. Agachou-se sobre ele e pegou a caneta que o gar�om do restaurante de Minh havia lhe dado. Desenhou um �s de espadas nas costas da m�o direita de Cicatriz e, para ter certeza de que Kien n�o deixaria de v�-lo, apoiou a m�o sobre o rosto marcado de Cicatriz.</p><p>Refez seu caminho de volta para as �rvores em sil�ncio, como o fantasma de um animal da floresta. Mai estava esperando por ele no p�tio. N�o pareceu surpresa quando ele surgiu das �rvores. Ela o conhecia e sabia do que era capaz.</p><p>� Capit�o Brennan, meu pai est� mesmo morto?</p><p>Ele confirmou com a cabe�a, sem conseguir dizer nada. Ela pareceu murchar, mais fr�gil, mais cansada, se isso fosse poss�vel. Fechou os olhos e as l�grimas rolaram silenciosas por baixo de suas p�lpebras.</p><p>� Vamos para casa.</p><p>Ele a levou para a escurid�o providencial da noite.</p><p><strong>IV.</strong></p><p>Ele saiu depois de ela fazer curativos nele, prometendo voltar quando pudesse, a tristeza por ela brotando dentro dele, fundindo-se com a dor que ele sentiu na morte de Minh. Outro camarada, outro amigo, se foi.</p><p>Kien tinha de ser derrubado. Dependia dele, um homem, sozinho, com nada al�m da for�a de suas m�os e da sagacidade de sua mente. Levaria muito tempo. Precisava de uma base de opera��es e de equipamentos. Arcos especiais, flechas especiais. Precisava de dinheiro.</p><p>Brennan voltou �s sombras da noite do Bairro dos Curingas, esperando por certo tipo de homem passar, um comerciante que trocava pacotes de p� branco por notas verdinhas amarrotadas num desespero suado.</p><p>Ele suspirou profundamente. O fedor da noite com os aromas incont�veis de 7 milh�es de pessoas e sua mir�ade de esperan�as, medos e desesperos. Era um deles agora. Deixou as montanhas para tr�s e retornou � humanidade, e sabia que este retorno traria com ele decep��es, sofrimentos e esperan�as perdidas. E conforto, uma parte dele dizia, pensando no toque morno da carne invis�vel e a imagem de um cora��o vis�vel batendo cada vez mais r�pido, com paix�o crescente.</p><p>Um ru�do repentino, um passo levemente arrastado chamou sua aten��o. Um homem passou por ele. Estava vestido com eleg�ncia para uma vizinhan�a t�o pobre e caminhava com arrog�ncia vistosa. Era aquele pelo qual esperava.</p><p>Brennan deslizou em sil�ncio entre as sombras, seguindo-o. O ca�ador havia chegado � cidade.</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Ep�logo:</strong></p><empty-line/><p><strong>
    Terceira Gera��o</strong></p><p>Lewis Shiner</p><empty-line/><empty-line/><p>Jetboy rumou para o c�u em seu jato reluzente, rastros de velocidade rugindo das asas aerodin�micas. Canh�es de 20 mm urravam uma caligrafia irregular, e o tiranossauro tombava enquanto as balas rasgavam sua carne.</p><p>� Arnie? Arnie, desliga essa luz!</p><p>� T� bom, m�e � retrucou Arnie. Ele deslizou o especial de 54 p�ginas de <emphasis>Jetboy na ilha dos Dinossauros</emphasis> de volta para o saquinho pl�stico. Desligou a lumin�ria de leitura, levou a revista em quadrinhos pela escurid�o familiar de seu quarto e guardou-a no arm�rio.</p><p>Tinha a cole��o completa dos quadrinhos <emphasis>Jetboy</emphasis> em uma das caixas de papel�o que usavam para mandar frangos �s mercearias. Numa prateleira acima estavam empilhados cadernos cheios de recortes sobre o Grande e Poderoso Tartaruga, o Uivador e Jack Flash, o Saltador. E, pr�ximos a eles, estavam os livros sobre dinossauros, n�o apenas aquelas coisas de crian�a com desenhos feiosos, mas livros de estudo sobre paleontologia, bot�nica e zoologia.</p><p>Escondida atr�s de outra caixa de quadrinhos estava a <emphasis>Playboy</emphasis> na qual a Peregrina posou. Pouco tempo atr�s, olhar aquelas fotos fez Arnie sentir-se estranho, como se estivesse nervoso, excitado e culpado, tudo ao mesmo tempo.</p><p>Seus pais sabiam de suas obsess�es, todas menos da <emphasis>Playboy</emphasis>. Era apenas o neg�cio sobre os cartas selvagens que os incomodava. O av� de Arnie estava na rua naquele dia, viu com os pr�prios olhos quando Jetboy explodiu para entrar na hist�ria. Um ano depois, a m�e de Arnie nasceu com um n�vel baixo de telecinesia, o suficiente para mover uma moeda alguns cent�metros sobre uma toalha de mesa de pl�stico. �s vezes, Arnie desejava que ela fosse apenas normal. Melhor do que ter um poder que n�o servia para nada.</p><p>Ele fez seu av� contar essa hist�ria diversas vezes.</p><p>� Ele queria morrer � dizia o velho. � Ele viu o futuro, e n�o estava nele. N�o havia mais lugar para ele.</p><p>� Xiii, vov� � dizia a m�e de Arnie. � N�o fale desse jeito na frente do Arnie.</p><p>� Eu sei o que vi � dizia o velhote, balan�ando a cabe�a. � Eu estava l�.</p><p>Arnie engatinhou em sil�ncio de volta para a cama e deitou de bru�os, agradavelmente ciente da press�o na virilha. Pensou sobre a ilha dos Dinossauros. N�o havia d�vida em sua mente de que era real. Ases eram reais. Alien�genas eram reais, trouxeram o carta selvagem para a Terra.</p><p>Ele se virou de lado e encolheu os joelhos na dire��o do peito. Como seria? Quando estava com oito anos, viajou de carro com os pais por Utah e fez com que parassem em Vernal. Foram at� a Trilha da Pr�-Hist�ria, e Arnie correu na frente para ficar sozinho com os modelos de dinossauro em tamanho real. A ilha dos Dinossauros deve ser assim, ele pensou, as montanhas irregulares cobertas de arbustos ao fundo, o dipl�doco grande o bastante para que ele pudesse andar sobre sua barriga, o estrution�deo como um avestruz imenso e escamoso, o pteranodonte encolhido como se tivesse acabado de pairar para um pouso.</p><p>Seus olhos fecharam-se e ele conseguiu v�-los se mover, n�o apenas os dinossauros horr�veis que via na TV, mas os especiais: o pequeno e malvado deinonico, a �garra terr�vel�. Ou o repugnante e grumoso anquilossauro, um sapo chifrudo com mais de dez metros com uma clava na cauda que poderia esmagar uma placa de a�o.</p><p>E, l� no fundo do seu c�rebro, inflamado pela sopa end�crina temperada e efervescente na qual flutuava, o v�rus carta selvagem pairou sobre uma c�lula, parou, bombeou sua mensagem alien�gena e morreu. E, assim, seguiu adiante, espiralando-se por anos em uma dupla h�lice de medo e �xtase, mutila��o e mudan�as milagrosas�</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>AP�NDICE</strong></p></section><section><empty-line/><p><strong>A ci�ncia do v�rus carta selvagem</strong></p><p><strong>EXCERTOS DA LITERATURA</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>� Tem�vel al�m do imagin�vel, em muitos aspectos pior do que vimos em Belsen. Nove entre dez afetados por esse pat�geno desconhecido morrem de forma horripilante. Nenhum tratamento ajuda. Os sobreviventes n�o t�m sorte melhor. Nove entre dez <emphasis>deles</emphasis> s�o transformados de alguma forma, por um processo que n�o consigo sequer come�ar a entender, em <emphasis>algo diferente</emphasis> � �s vezes, nem remotamente humano. Vi homens se transformando em ef�gies de borracha galvanizada, crian�as com novas cabe�as brotando� nem posso continuar. E o que � pior, eles ainda est�o vivos. Ainda vivem, Mac.</p><p>O mais estranho de tudo isso, talvez, sejam os dez por cento de sobreviventes, um entre cem daqueles que de fato contraem a doen�a. Eles n�o mostram quaisquer sinais de altera��o externa na maioria das vezes. Mas t�m� devo cham�-los de poderes. Podem fazer coisas que seres humanos normais n�o podem. Vi um homem decolar na dire��o dos c�us como um V-2, voando em c�rculos e voltando para pousar em p� suavemente. Um paciente furioso rasgou uma maca de a�o pesado como se fosse um len�o de papel. Nem dez minutos atr�s uma mulher atravessou uma parede do pequeno escrit�rio deste espa�o que no passado foi um armaz�m, onde me confino para uma folga de alguns minutos. Uma mulher nua, linda, tipo <emphasis>pin-up</emphasis>, brilhando com uma luz rosada que parecia vir de dentro do seu corpo, com um sorriso fixo e opaco.</p><p>N�o estou pirando, Mac. N�o estou batendo pino de loucura ou com a morfina. N�o ainda. Mesmo quando tenho sorte de ter uma hora ou duas de sono� e ent�o o horror preenche meus sonhos, e fico quase feliz em sair do meu catre e enfrentar a realidade daquilo que aconteceu aqui. Essas coisas est�o acontecendo, s�o reais. Voc� poder� ler sobre isso algum dia, se a chefia n�o conseguir segurar as informa��es. N�o entendo como conseguem� isso aqui � <emphasis>Manhattan</emphasis>, pelo amor de Deus, e as v�timas chegam �s dezenas de milhares.</p><p>Gra�as a Deus n�o � contagioso. Gra�as a Deus. Pelo que podemos perceber, ele s� se desenvolve naqueles diretamente expostos � poeira ou seja l� o que for� e n�o em todos eles, ou ter�amos mais de um milh�o. Desse jeito, a quarentena � imposs�vel, mesmo o saneamento adequado. Tivemos um surto de gripe em nossas alas, esperamos tifo a qualquer hora�</p><p>Eles dizem que uma esp�cie de alien�gena est� por tr�s disso tudo, homens do espa�o sideral. Por tudo que vimos, isso n�o soa t�o absurdo. Ouvi boatos nas altas escalas de que at� pegaram um. Espero que seja verdade. Eles podem botar o desgra�ado na forca com os chefes nazistas em Nuremberg e pendur�-lo como o animal que ele �</p><empty-line/><p>� carta pessoal do Capit�o Kevin McCarthy,</p><empty-line/><p>
    Unidade M�dica do Ex�rcito dos Estados Unidos,</p><empty-line/><p>
    21 de setembro de 1946</p><p>Os n�meros do incidente deixam claro que o recept�culo contendo o xenov�rus Takis explodiu a uma altitude de nove mil metros, bem dentro da assim chamada corrente de jato. Em seu estado latente, o v�rus fica envolvido numa c�psula proteica dur�vel, os �esporos� mencionados com tanta frequ�ncia e incorretamente na imprensa leiga, cujos testes mostraram ser resistentes a temperaturas e press�o extremas para permitir sua sobreviv�ncia em condi��es naturais de muitas dezenas de metros embaixo do oceano at� os limites superiores da estratosfera. As part�culas virais foram carregadas a leste pelo Atl�ntico na corrente de jato, caindo em intervalos aleat�rios com got�culas de chuva, ou sedimentando-se naturalmente; os mecanismos precisos ainda aguardam demonstra��o ou observa��o. Isso causou a trag�dia <emphasis>Queen Mary</emphasis> da Nova Inglaterra (17 de setembro de 1946), bem como os surtos posteriores na Inglaterra e no continente europeu. (Nota: Persistem rumores de um surto de larga escala na URSS, mas o regime do primeiro-ministro Kruschev ainda mant�m sil�ncio absoluto sobre a quest�o, assim como seus predecessores.)</p><p>As correntes e�licas e oce�nicas causaram uma dispers�o de curto prazo do v�rus sobre uma �rea substancial a leste dos Estados Unidos (mapa 1). At� o momento, o mais alarmante foram as irrup��es do v�rus, apesar do fato de ele n�o parecer infeccioso, distribu�das atrav�s de dist�ncia temporal e geogr�fica. Apenas em 1946, houve mais de uma vintena de surtos reportados, e quase uma centena de casos isolados, estendendo o alcance pelos Estados Unidos e sul do Canad� (mapa 2).</p><p>A localiza��o da maioria dos surtos internacionais principais oferece uma pista de um poss�vel padr�o: Rio de Janeiro (1947), Mombasa (1948), Porto Said (1948), Hong Kong (1949), Auckland (1950) para mencionar alguns dos mais not�rios � todos os principais portos mar�timos. O problema foi como contabilizar as apari��es do v�rus, geralmente em incidentes isolados, em locais distantes do mar, como os Andes Peruanos e planaltos remotos do Nepal.</p><p>Como nossa investiga��o revela, a resposta claramente reside na durabilidade da cobertura proteica. O v�rus pode ser transportado por quaisquer meios, humanos, mec�nicos, animais ou naturais, e sobrevive indefinidamente, a menos que exposto a agentes destrutivos, como fogo ou produtos qu�micos corrosivos. A maioria dos surtos norte-americanos e as ocorr�ncias relativamente grandes em portos mar�timos foram rastreadas de forma convincente (McCarthy, <emphasis>Relat�rio ao Chefe de Sa�de P�blica</emphasis>, 1951) at� os itens que aguardavam embarque nas docas e armaz�ns do distrito afetado de Manhattan. Outros foram atribu�dos � precipita��o de part�culas virais em embarca��es e ve�culos em tr�nsito. Indiv�duos, mesmo p�ssaros e animais (que nunca s�o afetados), podem levar as part�culas em si sem ter conhecimento. O surto nepal�s mencionado acima, por exemplo, foi rastreado at� um <emphasis>naik</emphasis> do cl� Gurung, cujo regimento, os Fuzileiros Reais Gurkha, estava envolvido na tentativa de conter a viol�ncia comunal apavorante de 10 a 13 de agosto em Calcut�, �ndia, na qual as comunidades hindus e mu�ulmanas culpavam-se mutuamente por um surto do v�rus, tendo como resultado a morte de 25 mil pessoas; o pr�prio cabo gurkha nunca desenvolveu a doen�a.</p><p>� quantos dep�sitos do v�rus latente permanecem, espalhados por cumeeiras, reunidos em sedimentos de rios e esgotos, enterrados em dep�sitos no solo, ainda carregados pelo ar na corrente de jato, n�o podem ser determinados. A seriedade que uma amea�a ainda representa para a sa�de p�blica tamb�m continua imposs�vel de avaliar. Nesse contexto, a incapacidade do v�rus de afetar uma maioria assoladora da popula��o deve ser mantida em mente�</p><empty-line/><p>� Goldberg e Hoyne, �O v�rus carta selvagem: persist�ncia e dispers�o�,</p><empty-line/><p><emphasis>Problemas na Bioqu�mica Moderna</emphasis>, Schinner, Paek e Ozawa, ed.</p><p>A capacidade do v�rus carta selvagem de alterar a programa��o gen�tica de seu hospedeiro lembra aquela dos herpes-v�rus terrestre. Contudo, � muito mais abrangente, alterando completamente o DNA do corpo de seu hospedeiro, em vez de afetar e ser expresso em certo local � p. ex., l�bios e genit�lia �, como age a fam�lia do herpes.</p><p>Sabemos agora que o xenov�rus Takis-A afeta um percentual maior de uma popula��o exposta do que originalmente se sup�s � talvez bem mais do que meio por cento. Em muitos casos, o v�rus simplesmente acresce seu pr�prio c�digo ao DNA do hospedeiro; esta � a forma latente, na qual o v�rus n�o tem exist�ncia objetiva, mas existe apenas como informa��o � outro tra�o que compartilha com os v�rus herpetiformes. Pode permanecer passivo e n�o detectado indefinidamente, ou algum trauma ou estresse do hospedeiro pode fazer com que ele se manifeste, em geral com resultados devastadores. Acrescentando-se a maneira pela qual ele �reprograma� o c�digo gen�tico do hospedeiro, o v�rus (em forma ativa ou passiva) � realmente heredit�rio, como olhos azuis ou cabelos cacheados.</p><p>Aparentemente prevendo seu efeito com predomin�ncia letal, os cientistas takisianos que criaram o v�rus desenvolveram-no para se perpetuar de fato como um �gene carta selvagem� recessivo. Recessivo porque um gene dominante que produziria muta��es letais em noventa por cento da prole e apresenta outros nove por cento incapaz ou improv�vel de se reproduzir sobreviveria apenas a poucas gera��es, mesmo que, conforme estimado, trinta por cento de todos aqueles com DNA modificado do xenov�rus carreguem a forma latente.</p><p>Portanto, o carta selvagem segue regras convencionais da heran�a dos tra�os recessivos. Apenas nos casos em que os pais carregam o c�digo viral existe qualquer possibilidade de produzir uma prole afetada; mesmo assim, a chance � apenas uma em quatro, frente a uma chance de cinquenta por cento de produzir um portador com nenhuma chance de manifestar o v�rus, e outra chance de uma em quatro de uma prole que n�o carregue o c�digo�</p><empty-line/><p>� Marcus A. Meadows, <emphasis>Gen�tica</emphasis>, janeiro de 1974, pp. 231-244</p><p>Apesar da paranoia da persegui��o comunista no fim dos anos de 1940 e in�cio da d�cada de 1950 e das �descobertas� do Comit� da C�mara sobre Atividades Antiamericanas, os ases n�o se deram melhor por tr�s das Cortinas de Ferro do que neste pa�s, e de fato foi consideravelmente pior para eles. A linha do partido, estabelecida por Trofim D. Lysenko, especialista semianalfabeto da ci�ncia estalinista, era que o �carta selvagem� supostamente alien�gena era meramente uma m�scara para um experimento capitalista-imperialista burgu�s diab�lico. Na Coreia, americanos capturados foram obrigados a assinar confiss�es da guerra biol�gica, numa tentativa aparente de responsabiliz�-los pelo surto de v�rus que varreu aquela na��o, Norte e Sul, em 1951. Enquanto isso, todos que apresentassem sinais de talentos meta-humanos dentro da esfera sovi�tica simplesmente desapareciam, alguns nos campos de trabalhos for�ados, outros em laborat�rios � e muitos outros em covas rasas.</p><p>Com a morte de Stalin, em 1953, houve uma pequena atenua��o. Kruschev reconheceu a exist�ncia dos ases, e eles come�aram a �desfrutar� do <emphasis>status</emphasis> que tinham nos Estados Unidos, ou seja, tinham o privil�gio de servir nas for�as militares ou GPU (mais tarde, KGB), ou desaparecer no Arquip�lago Gulag. Quando passaram os anos 1960, as restri��es contra eles foram reduzidas, talvez da forma que eram nos Estados Unidos, e os super-her�is patrocinados pelo Estado conseguiram tornar-se personalidades da m�dia, como os cosmonautas e as estrelas ol�mpicas.</p><p>Por que a rejei��o inicial da realidade flagrante? O regime de Brezhnev-Kosygin admitiu em 1971 que Lysenko era um curinga, em quem o v�rus se manifestou como desfigura��o repugnante. A exist�ncia de ases era uma afronta pessoal ao ex-fazendeiro. Quanto a por que Stalin engrossou a campanha antiases, a paranoia desenfreada dos �ltimos anos do ditador �, em especial, geralmente considerada explica��o suficiente. Contudo, muitos desertores das altas esferas do final dos anos de 1960 e in�cio dos anos 1970 repetiram o rumor de que o Camarada Nikita �s vezes, tarde da noite em seus drinques com companhias �ntimas, vangloriava-se de que tinha assassinado o antigo ditador com as pr�prias m�os na cela da Pris�o de Lubyanka � <emphasis>enfiando uma estaca no seu cora��o�</emphasis></p><empty-line/><p>� J. Neil Wilson, �De volta � URSS�, <emphasis>Reason,</emphasis> mar�o de 1977</p><p>O xenov�rus Takis-A, coloquialmente chamado de carta selvagem, foi um dispositivo org�nico experimental desenvolvido pelos Ilkazam, uma fam�lia proeminente entre os Lordes Psi de Takis. Existe em seu DNA um programa escrito que l� o c�digo gen�tico do organismo hospedeiro e modifica esse c�digo para aumentar as propens�es e caracter�sticas inatas do hospedeiro. Essa otimiza��o gratifica como nunca antes a grande motiva��o takisiana de cultivar a <emphasis>virt�</emphasis> pessoal (e, por extens�o, familiar). Os takisianos j� possuem grandes poderes mentais; por meio do carta selvagem, os Ilkazam buscavam promover uma multiplicidade de talentos espantosos em seus membros, garantindo sua superioridade por muitos anos vindouros.</p><p>O desafio que os pesquisadores de Ilkazam enfrentaram foi o de produzir um programa que identificaria e melhoraria caracter�sticas <emphasis>desej�veis</emphasis>; ningu�m queria ser um hemof�lico melhor. A individualidade bioqu�mica entre os takisianos, contudo, � ainda mais acentuada que nos seres humanos, que s�o uma das esp�cies mais bioquimicamente diversas na Terra. Desenvolver um software capaz de identificar caracter�sticas favor�veis � um programa �inteligente� � e melhor�-las, e que pudesse ser implementado no DNA viral, exigiu experi�ncias em escalas extravagantes. Pela natureza da sociedade takisiana, havia sempre muitos indiv�duos dispon�veis para os ensaios mais dr�sticos, n�o tendo os takisianos, de modo geral, que se preocupar em insistir para que os indiv�duos se voluntariassem. Contudo, mesmo em Takis faltava um contingente grande o suficiente de criminosos ou inimigos pol�ticos banidos � sem uma distin��o comumente apresentada naquela cultura � para fornecer o tipo de base ensa�stica necess�ria para desenvolver completamente tal ferramenta complexa. Felizmente, do ponto de vista takisiano, um conjunto de criaturas surpreendentemente similares em constitui��o gen�tica existiam� na Terra.</p><p>� A maioria das melhorias do carta selvagem n�o � favor�vel � sobreviv�ncia, ou s�o tra�os de sobreviv�ncia levados a medidas letais, como acionar o sistema de lutar ou fugir da adrenalina num n�vel t�o alto que o m�nimo estresse for�a a v�tima ao estado de atividade acelerada, queimando-a num �nico surto de frenesi terminal do efeito de anfetaminas. Nove entre dez sobreviventes tiveram caracter�sticas indesej�veis aumentadas, ou caracter�sticas desejadas aumentadas de forma indesej�vel. O �curinga� assume formas que v�o do repugnante ao doloroso, do pat�tico ao simplesmente inconveniente. Uma v�tima pode ser reduzida a uma bolha disforme de muco como um famoso morador do Bairro dos Curingas, o Homeleca, ou pode ser transformado numa figura parcialmente animal, como o taberneiro Ernie, o Lagarto. Ele pode adquirir um poder que, em outras circunst�ncias, faria dele um �s, como a levita��o limitada mas incontrol�vel do Pena. A manifesta��o pode ser bem menor, como a massa de tent�culos que formam a m�o direita de Dorian Wilde, o laureado poeta decadente do Bairro dos Curingas.</p><p>Em certos casos, a distin��o entre as classifica��es fica turva, como no Ernie acima mencionado, cuja for�a levemente maior do que a humana e a prote��o oferecida por sua pele escamada s�o insuficientes para torn�-lo um �s verdadeiro. Outro exemplo mais assustador � o incidente tr�gico da Mulher Incendiada do final dos anos de 1970, no qual o v�rus afetou uma jovem mulher, fazendo seu corpo queimar com uma chama inextingu�vel, mas regenerar-se ao mesmo tempo que sua carne era consumida. A v�tima implorava aos transeuntes para que a matassem, e por fim ela faleceu na Cl�nica Blythe van Renssaeler, aparentemente como resultado de eutan�sia � uma acusa��o contra o Dr. Tachyon que foi revogada. N�o � poss�vel determinar se o carta selvagem a qualificava como curinga ou rainha negra.</p><p>Como ele � projetado para interagir com o c�digo individual de seu hospedeiro, n�o h� duas manifesta��es do carta selvagem id�nticas. Al�m disso, seu comportamento difere de indiv�duo para indiv�duo�</p><p>� O fato de que mais de dez por cento daqueles que contra�ram o v�rus sobreviveram aos seus efeitos pode ser atribu�do � capacidade do software gen�tico takisiano e aos mestres do hardware. Para um teste em larga escala entre uma popula��o de indiv�duos diferente daquela para a qual ele foi originalmente projetado, a libera��o do v�rus na Terra foi um tremendo sucesso que teria agradado imensamente aos seus criadores, caso eles soubessem de seu resultado.</p><p>A Terra, por outro lado, teve um ponto de vista diferente.</p><empty-line/><p>� Sara Morgenstern, �Blues para o Bairro dos Curingas:</p><empty-line/><p>
    Quarenta Anos de Cartas Selvagens�, <emphasis>Rolling Stone</emphasis>, 16 de setembro de 1986</p><p><image l:href="#0"/></p></section><section><empty-line/><p><strong>Excertos da Ata da Confer�ncia da Sociedade Metabiol�gica Americana sobre Capacidades Meta-humanas</strong></p><p>(Clarion Hotel, Albuquerque, Novo M�xico,</p><empty-line/><p>
    14-17 de mar�o de 1987)</p><p><emphasis>Palestra apresentada em 16 de mar�o de 1987 pela Dra. Sharon Pao K�ang-sh�i do Departamento de Metabiof�sica da Universidade de Harvard</emphasis></p><p><image l:href="#2"/></p><p>Nobres membros da sociedade, meu agradecimento. Vou direto ao ponto. Uma pesquisa de nossa equipe em Harvard indica que as capacidades meta-humanas, informalmente chamadas �superpoderes� e engendradas pelo v�rus takisiano carta selvagem, s�o exclusivamente de origem ps�quica e, em todos, exceto nos casos raros, s�o exercidos por meio da instrumentalidade da <emphasis>psi</emphasis>.</p><p>(<emphasis>Sess�o aberta oficialmente pelo presidente Ozawa.</emphasis>)</p><p>Entendo que minha declara��o anterior poderia ser considerada um excesso ret�rico do tipo perpetrado por alguns de meus predecessores, que fizeram com que o ainda incipiente campo da metabiof�sica fosse considerado uma pseudoci�ncia do calibre da numerologia e da astrologia por diversos cientistas s�rios. Ainda assim, a honestidade e a press�o da comprova��o emp�rica obrigam-me a reiterar: as capacidades meta-humanas s�o formas especializadas de poder ps�quico.</p><p>Agora temos uma ideia melhor do que exatamente o carta selvagem fez a suas v�timas. Nos casos conhecidos como ��s�, o v�rus parece ter atuado primeiro pelo aumento de capacidade ps�quica inata, que deu a dire��o ao avan�o geral da reescrita do c�digo gen�tico. Isso explica os elevados graus de correspond�ncia entre as personalidades e as inclina��es de ases conhecidos e de suas capacidades meta-humanas � por que, por exemplo, pilotos devotados como o �guia Negra adquiriram poderes que incluem o voo, por que o obcecado �vingador da noite�, o Sombra, tem tal controle sobre a escurid�o, por que o solit�rio Aquarius apresenta uma apar�ncia metade humana, metade golfinho e pode, de fato, transformar-se num tipo de super-<emphasis>Tursiops</emphasis>. Uma telecinesia de microescala parece ser um dos mecanismos pelos quais o carta selvagem realiza suas mudan�as, possibilitando ao indiv�duo subconscientemente escolher, ou ao menos influenciar, a natureza da transforma��o que ela ou ele sofre.</p><p>Entendo a enormidade da implica��o de as pessoas poderem, em algum sentido, ter �escolhido� tirar um curinga ou uma rainha negra. Uma especula��o nessa dire��o est�, contudo, al�m do escopo de nossas presentes pesquisas.</p><p>Um dos grandes enigmas da �poca p�s-carta selvagem tem sido precisamente como o v�rus alien�gena, por mais avan�ada a tecnologia que o produziu, foi capaz de dar a certos indiv�duos a capacidade de violar as leis naturais estabelecidas, com a conserva��o da massa e energia, a lei quadrado-cubo, a inviolabilidade da pr�pria velocidade da luz. No momento em que o v�rus foi disseminado, a ci�ncia foi imutavelmente hostil � exist�ncia at� mesmo de poderes ps�quicos � justific�vel, dado � falta de corrobora��o experimental convincente desses fen�menos. Ela foi obrigada a aceitar pessoas sendo capazes de projetar fogo e luz, transformarem-se em animais, voar ou inventar dispositivos mec�nicos que permitam a elas fazer coisas semelhantes em desrespeito flagrante aos princ�pios da mec�nica e da engenharia.</p><p>Claro que, mesmo em 1946, havia pistas dispon�veis nos dom�nios te�ricos da f�sica qu�ntica. De fato, a tecnologia moderna da �poca, at� e inclusive as armas nucleares e os instrumentos de fus�o no processo de desenvolvimento, baseava-se em grande parte na mec�nica qu�ntica, muito do trabalho sendo realizado com base na ideia de �sabemos que funciona, mas n�o sabemos como�. Dado o impulso da realidade do carta selvagem, foi atribu�da aos poderes ps�quicos rapidamente uma justificativa mec�nico-qu�ntica; �a��o a dist�ncia� sem recorrer a for�as intensas, eletrofracas ou grav�ticas como caracter�stica, por exemplo, da interconex�o curiosa de part�culas que interagiam, postulada por Einstein, Podolsky e Rosen em seu famoso �paradoxo�, e estabelecida com alguma finalidade pelo experimento de Aspect na Fran�a, em 1982�</p><p>� Uma inst�ncia bem �bvia do poder baseado em telecinesia � a mudan�a de forma. O indiv�duo � em quase todos os casos subconscientemente � rearranja seus �tomos componentes para produzir uma estrutura bruta que difere consideravelmente da original: por exemplo, a transforma��o perturbadora da Garota-Elefante em um <emphasis>Elephas maximus</emphasis> voador em aparente viola��o do princ�pio de conserva��o de mat�ria e energia. Ao menos no caso da Garota-Elefante, explica-se pela telecinesia subconsciente no n�vel subat�mico; a Srta. O�Reilly pode aparentemente invocar ser uma nuvem de part�culas virtuais e mant�-las em exist�ncia imensamente maior do que elas normalmente existiram. (Uma discuss�o sobre part�culas virtuais tamb�m est�, obviamente, al�m do escopo dessa apresenta��o, por exemplo, as part�culas que �carregam� forte intera��o, e que por um instante infinitesimal violam o princ�pio de conserva��o.) Como parte da restaura��o da sua apar�ncia original, a Srta. O�Reilly permite que as part�culas virtuais que formam a mat�ria �fantasma� caiam na n�o exist�ncia.</p><p>Foi a capacidade da Garota-Elefante de voar em oposi��o a todos os princ�pios aeron�uticos conhecidos que desencadeou a linha de pesquisa que levou �s conclus�es expressas neste artigo. Em termos simples, o voo ou a levita��o da Garota-Elefante, da Peregrina e de <emphasis>todos</emphasis> os ases conhecidos � simplesmente uma varia��o da telecinesia. Nesse sentido, o Grande e Poderoso Tartaruga � o �s voador arquet�pico, j� que voa reconhecidamente por meio de sua capacidade telecin�tica. Mas nenhum truque da f�sica permitiria que as orelhas da Garota-Elefante ou mesmo as asas magn�ficas de Peregrina al�assem mesmo um ser humano pequeno para o voo, muito menos um elefante asi�tico adulto. Elas, como o Tartaruga, voam apenas lan�ando m�o de seus poderes mentais�</p><p>� As proje��es energ�ticas apresentam outro problema espinhoso explicado de maneira simples � novamente � pela telecinesia. Jack Flash, o Saltador, parece projetar explos�es de fogo da palma das m�os e, al�m disso, consegue manipular o fogo que produz de forma not�vel. Mas esse indiv�duo n�o projeta de fato a chama, no sentido de que ela n�o � emitida de seu pr�prio corpo. Na verdade, n�o � chama no sentido estrito da palavra. Sua telecinesia permite que ele regule o movimento browniano do ar circum-ambiente. Ele cria um �ponto de calor� de part�culas em elevado est�mulo a aproximadamente um m�cron da carne da palma da m�o, e ent�o utiliza a telecinesia para direcionar o fluxo resultante de g�s incandescente.</p><p>� Os poderes de voo superlum�nico apresentam um caso especial. Na maioria dos casos (e � importante manter em mente que cada transforma��o do carta selvagem � �nica), o indiv�duo com a capacidade de viajar � velocidade da luz ou mais r�pido que a luz tem a capacidade de emular um �nico f�ton, ou t�quion, numa inst�ncia posterior, para tornar-se um �macrof�ton� ou um �macrot�quion� de forma semelhante aos dispositivos de �macro�tomo� dos pesquisadores da Universidade de Sussex, sob a coordena��o de Terry Clark, que podem emular o comportamento de um �nico b�son. As espa�onaves que transportaram o v�rus carta selvagem para este planeta, bem como o alien�gena humanoide conhecido como Dr. Tachyon, empregaram o mesmo princ�pio para seu impulso superlum�nico � que levou a cunhar a palavra pelo qual o �nico residente da Terra n�o nascido neste planeta � conhecido hoje em dia.</p><p>A viagem mais r�pida do que a luz mostrou-se apenas de utilidade limitada para os ases at� o momento em virtude dos limites de dura��o e dos problemas de navega��o em longas dist�ncias, at� ent�o insuper�veis para a nossa tecnologia. Ou assim inferimos, a partir do fato de que nenhum �s viajou para al�m dos limites do sistema solar (atual �rbita de Netuno) e retornou�</p><p>� Uma caracter�stica consider�vel dos assim chamados �<emphasis>gadgets</emphasis>� � cintos antigravitacionais, portais dimensionais, vestes blindadas � � o fato de que nenhum deles pode ser replicado. Na desmontagem e an�lise, com frequ�ncia descobriu-se que n�o fazem nenhum sentido mec�nico ou el�trico. Cada qual � um resultado irreproduz�vel. Isso explica por que nenhum mestre de <emphasis>gadgets</emphasis> empreendedor comercializou, digamos, um cinto de voo � velocidade da luz pessoal ou uma empilhadeira antigravitacional. <emphasis>Apenas o criador poderia fazer um daqueles funcionar</emphasis>. Em alguns casos, os componentes consistem em montagens rid�culas de detritos, at�, e, inclusive, restos de ma��, grampos de cabelo e os torsos de bonecas Barbie. Outros consistem apenas em um <emphasis>diagrama</emphasis> de um circuito que, como a m�quina quim�rica de Hieronymus, funciona como um circuito verdadeiro �funcionaria�.</p><p>A explica��o �, novamente, uma manifesta��o da habilidade ps�quica. O criador, de fato, imprime-se sobre a obra num sentido metaf�sico (segundo o atual significado cient�fico). Essa explica��o esclarece o sentido do fen�meno observado com frequ�ncia de que parece haver um limite para a criatividade de certos �mestres de <emphasis>gadgets</emphasis>�, que �s vezes ter�o de desmontar um antigo dispositivo para fazer um novo funcionar. Essa explica��o tamb�m facilita a previs�o de que as tentativas governamentais em todo o mundo de replicar o impressionante androide Modular est�o fadadas ao fracasso, a menos que um ou mais contratem os servi�os de seus pr�prios �talentos carta selvagem��</p><p>� Uma caracter�stica de quase todos os ases � um metabolismo de energia maior do que os seres humanos �normais� possuem. Alguns parecem capazes de invocar energia para abastecer suas capacidades a partir de si mesmos ou (por falta de uma maneira melhor de descrever) a partir do cosmo. Outros precisam de fontes externas de energia para acionar seus talentos, ou se veem auxiliados pela disponibilidade desses recursos. O homem forte conhecido como Martelo do Harlem, por exemplo, acredita ser necess�rio consumir uma quantidade substancial de sais de metais pesados em sua dieta para manter as rea��es de alto n�vel do seu metabolismo, bem como diversos �osteotr�picos�, como estr�ncio-90 e b�rio-140, que parecem substituir o c�lcio em seus ossos, conferindo-lhe durabilidade e for�a maiores que o normal. Jack Flash, o Saltador, tira for�a e subsist�ncia da exposi��o ao fogo e ao calor. Outros derivam sua energia extra-humana de �baterias�, que em geral provam ser do mesmo g�nero que os dispositivos do tipo de Hieronymus. Qualquer que seja a fonte dessa energia, nenhum �s foi descoberto ainda que n�o pudesse exaurir seu suprimento, num tempo razoavelmente curto, por uso intenso de capacidades meta-humanas. Alguns podem �recarregar� simplesmente descansando por um momento, outros de fato exigem uma fonte de energia externa. Novamente, cada caso � �nico�</p><p>Confirma��o adicional da hip�tese �ps�quica� vem do caso do, assim chamado, Dorminhoco, que possui um conjunto diferente de meta-habilidades a cada vez que acorda. Seria dif�cil enquadrar qualquer outro modelo da fun��o dos poderes de �s nesse fen�meno�</p><p>Em suma, meus colegas e eu estamos dispostos a avan�ar o quanto for necess�rio para afirmar que a <emphasis>psi</emphasis> pode ser respons�vel por todas as capacidades de �s observadas � e que nenhuma outra explica��o pode�</p><p><image l:href="#0"/></p></section></body><binary id="cover" 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