<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>George</first-name><middle-name>R. R.</middle-name><last-name>Martin</last-name></author><book-title>Ases nas Alturas</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><keywords>Fic��o Cient�fica, Fantasia</keywords><sequence name="Wild Cards" number="2"/></title-info><document-info><author><first-name>George</first-name><middle-name>R. R.</middle-name><last-name>Martin</last-name></author><program-used>calibre 1.33.0, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>23.4.2014</date><id>ebbff30e-70ba-4930-a074-e74eec99c6dd</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><year>2013</year><publisher>calibre</publisher></publish-info></description><body><section><empty-line/><p><strong>Ficha T�cnica</strong></p><p>Copyright � 1987 by George R. R. Martin</p><p>Copyright � 2010 edi��o estendida by George R. R. Martin and the Wild Cards Trust</p><p>Copyright � 2013 Texto Editores Ltda.</p><p>�Moedas infernais� copyright � 1987 por Lewis Shiner</p><p>�At� a sexta gera��o� e �O cometa do Sr. Koyama� copyright � 1987 por Walter Jon Williams.</p><p>�Das cinzas �s cinzas� copyright � 1987 por Amber Corporation.</p><p>�Se olhares pudessem matar� copyright � 1987 por Walton Simons.</p><p>�Frio invernal� e �Jube� copyright � 1987 por George R. R. Martin.</p><p>�Dificuldades relativas� copyright � 1987 por Melinda M. Snodgrass.</p><p>�Com uma ajudinha dos amigos� copyright � por 1987 Victor Mil�n.</p><p>�Por caminhos perdidos� copyright � 1987 por Pat Cadigan.</p><p>�Metade morta� copyright � 1987 por John J. Miller.</p><p>Todos os direitos reservados.</p><p>Diretor editorial: Pascoal Soto</p><p>Editora executiva: Tain� Bispo</p><p>Curador: Raphael Draccon</p><p>Produtoras editoriais: Fernanda S. Ohosaku, Renata Alves e Mait� Zickuhr</p><p>Diretor de produ��o gr�fica: Marcos Rocha</p><p>Gerente de produ��o gr�fica: F�bio Menezes</p><p>Prepara��o: Fernanda Mello</p><p>Revis�o: Andr�a Bruno</p><p>Projeto gr�fico e capa: Rico Bacellar</p><p>Ilustra��o de capa: Marc Simonetti</p><p>Dados Internacionais de Cataloga��o na Publica��o (CIP)</p><p>Ang�lica Ilacqua CRB�8/7057</p><p>Martin, George R. R.</p><p>Wild Cards: ases nas alturas / escrito e editado por George R. R. Martin; tradu��o de Pet� Rissatti. � S�o Paulo: LeYa, 2013.</p><p>400 p. (Wild Cards, 2)</p><p>ISBN 9788580448757</p><p>T�tulo original: Wild Cards � Aces High</p><p>1. Fic��o fant�stica americana. I. Martin, George R. R. II. Rissatti, Pet�. III. S�rie.</p><p>13-0863. CDD: 813</p><p>�ndices para cat�logo sistem�tico:</p><p>1. Ficc�o fant�stica americana</p><p>2013</p><p>TEXTO EDITORES LTDA.</p><p>Uma editora do Grupo LeYa</p><p>Rua Desembargador Paulo Passal�qua, 86</p><p>01248-010 � Pacaembu � S�o Paulo � SP</p><p>www.leya.com.br</p><p><strong>ePub compartilhado por LeYtor</strong></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Para Chip Wideman, Jim Moore, Gail</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    Gerstner-Miller e Parris, os ases secretos</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    sem os quais as cartas selvagens nunca</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>
    poderiam ter sido jogadas.</emphasis></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Nota do editor</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>Wild Cards � uma obra de fic��o ambientada em um mundo completamente imagin�rio cuja hist�ria corre paralelamente � nossa. Os nomes, personagens, lugares e acontecimentos retratados em Wild Cards s�o ficcionais ou usados de modo ficcional. Qualquer semelhan�a com fatos, locais ou pessoas reais, vivas ou mortas, � pura coincid�ncia. Por exemplo, os ensaios, artigos e outros textos inclu�dos nesta antologia s�o inteiramente ficcionais, e n�o h� qualquer inten��o de retratar autores reais ou insinuar que qualquer pessoa possa realmente ter escrito, publicado ou contribu�do com os ensaios, artigos e outros textos ficcionais aqui inclu�dos.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><strong>1979</strong></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Moedas infernais</strong></p><p>Lewis Shiner</p><empty-line/><empty-line/><p>Talvez houvesse uma d�zia deles. Fortunato n�o tinha certeza porque se mexiam sem parar, tentando cerc�-lo por tr�s. Dois ou tr�s tinham facas, os outros carregavam tacos de bilhar quebrados, antenas de carro, qualquer coisa que pudesse machucar. Era dif�cil diferenci�-los. Jeans, jaquetas pretas de couro, cabelos pretos, longos e lisos. Pelo menos tr�s se encaixavam na vaga descri��o que Cris�lida havia dado do homem.</p><p>� Estou procurando um cara chamado Gizmo � disse Fortunato. Eles queriam afast�-lo da ponte, mas ainda n�o queriam usar a for�a. � esquerda, o caminho de pedras levava monte acima at� o Mosteiro. O parque inteiro estava vazio havia duas semanas, desde que as gangues chegaram.</p><p>� Ei, Gizmo � disse um deles. � O que voc� falou com o cara?</p><p>Era aquele, com l�bios finos e olhos injetados. Fortunato fixou o olhar no rapaz mais pr�ximo.</p><p>� D� o fora � Fortunato falou. O rapaz se afastou, hesitante. Fortunato olhou para o seguinte. � Voc� tamb�m. V� embora daqui. � Este outro era mais fraco, virou-se e correu.</p><p>Foi tudo que teve tempo de fazer. Um taco de bilhar passou raspando por sua cabe�a. Fortunato desacelerou o tempo, pegou o taco e o usou para golpear a faca mais pr�xima. Ele suspirou e as coisas voltaram ao ritmo normal.</p><p>Agora estavam todos ficando nervosos.</p><p>� V�o � disse ele, e outros tr�s foram depressa, inclusive o que se chamava Gizmo. Ele deu uma corrida morro abaixo, na dire��o da entrada da 193rd Street. Fortunato jogou o taco em outro canivete e foi atr�s dele.</p><p>Desciam o morro correndo. Fortunato sentiu que come�ava a se cansar e liberou uma rajada de energia que o levantou do caminho e fez com que pairasse no ar. O garoto caiu sob ele e rolou, de cabe�a no ch�o. Algo estalou na espinha do rapaz e as pernas se sacudiram ao mesmo tempo. Em seguida, morreu.</p><p>� Jesus � Fortunato suspirou, varrendo as folhas mortas de outubro das roupas. Os policiais haviam dobrado as patrulhas em torno do parque, embora tivessem medo de entrar. Tentaram uma vez e isso lhes custou dois homens para expulsar os garotos. No dia seguinte, os rapazes estavam de volta. Mas havia policiais observando, e numa situa��o como aquela estavam dispostos a correr e recolher um corpo.</p><p>Ele remexeu os bolsos do rapaz, e l� estava� uma moeda de cobre do tamanho de uma de cinquenta centavos, vermelha como sangue seco. Por dez anos ficou com Cris�lida e alguns outros no encal�o e, na �ltima noite, ela tinha visto o rapaz tomar uma no Crystal Palace.</p><p>N�o havia carteira nem qualquer coisa que tivesse algum significado. Fortunato fechou a m�o em torno da moeda e correu at� a entrada do metr�.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Sim, eu me lembro disso � disse Hiram, pegando a moeda com a ponta do guardanapo. � Faz um tempo.</p><p>� Foi em 1969 � Fortunato comentou. � Dez anos atr�s.</p><p>Hiram concordou com a cabe�a e limpou a garganta. Fortunato n�o precisava de m�gica para saber que o gordo estava desconfort�vel. A camisa preta aberta e a jaqueta de couro de Fortunato n�o cabiam nos trajes do lugar. O Aces High oferecia uma vis�o a�rea da cidade a partir do mirante do edif�cio Empire State, e os pre�os eram t�o altos quanto a vista.</p><p>E tamb�m havia o fato de ter levado com ele sua �ltima aquisi��o, uma mulher de cabelos castanho-claros chamada Caroline, que cobrava quinhentos pela noite. Era pequena, n�o muito delicada, com um rosto infantil e um corpo que convidava � especula��o. Usava jeans just�ssimo e uma blusa de seda rosa com alguns bot�es extras abertos. Sempre que se mexia, Hiram tamb�m o fazia. Ela parecia gostar de v�-lo suar.</p><p>� O neg�cio � que n�o � a moeda que mostrei antes pra voc�. � outra.</p><p>� Not�vel. � dif�cil de acreditar que voc� conseguiu encontrar duas delas em t�o bom estado.</p><p>� Acho que voc� poderia ir um pouco al�m. Esta moeda veio de um cara de uma das gangues que est�o acabando com o Mosteiro. Ele carregava a moeda solta no bolso. A primeira veio de um rapaz que estava mexendo com ocultismo.</p><p>Ainda era dif�cil para ele falar sobre o assunto. O rapaz havia assassinado tr�s das gueixas de Fortunato, retalhando-as sobre um pentagrama por algum motivo doentio que ele ainda n�o tinha entendido. Ele seguiu com a vida, treinando as mulheres, aprendendo sobre o poder t�ntrico que o v�rus carta selvagem lhe dera, mas guardando aquele assunto para si.</p><p>E, quando isso o incomodava, passava um dia ou uma semana seguindo uma das pontas soltas que o assassino tinha deixado para tr�s. A moeda. A �ltima palavra que ele disse, <emphasis>TIAMAT</emphasis>. As energias residuais de alguma outra coisa que tinha estado no apartamento do garoto morto, uma presen�a que Fortunato nunca conseguiu rastrear.</p><p>� Voc� est� dizendo que existe algo de sobrenatural nelas � disse Hiram. Seus olhos viraram para observar Caroline enquanto ela se esticava languidamente na cadeira.</p><p>� S� quero que d� outra olhada.</p><p>� Bem � Hiram falou. Em torno deles, a multid�o que almo�ava fazia pequenos barulhos com os garfos e copos e falava t�o baixinho que soava como �gua distante. � Tenho certeza de que disse isso antes� <emphasis>parece</emphasis> ser um centavo americano cunhado em 1794, numa forma feita � m�o. Podem ter roubado de um museu, de uma loja de numism�tica, ou de uma cole��o parti� � Sua voz falhou. � Hummmm. Deixe-me olhar.</p><p>Ele tomou a moeda e apontou com o dedinho carnudo, quase sem tocar a superf�cie.</p><p>� Olha o fundo dessa grinalda aqui. Devia ser um arco. Mas, em vez disso, tem uma apar�ncia disforme, horr�vel.</p><p>Fortunato ficou olhando para a moeda e, por uma fra��o de segundo, sentiu como se estivesse caindo. As folhas da grinalda transformaram-se em tent�culos, as pontas da fita abriram-se como um bico, as voltas do arco tornaram-se carne amorfa, cheia de olhos, muitos olhos. Fortunato tinha visto isso antes, em um livro sobre mitologia sum�ria. Na legenda lia-se �TIAMAT�.</p><p>� Voc� est� bem? � Caroline perguntou.</p><p>� Vou ficar. Continue � disse ele a Hiram.</p><p>� Meu instinto diria que s�o falsifica��es. Mas quem falsificaria um centavo? E por que n�o se preocupar em envelhec�-las, ao menos um pouco? Parece que foram cunhadas ontem.</p><p>� Se isso importa, n�o foram. As auras das duas mostram bastante uso. Diria que no m�nimo uns cem anos de idade, provavelmente perto de duzentos anos.</p><p>Hiram juntou as pontas dos dedos.</p><p>� Tudo que posso fazer � mandar voc� at� algu�m que poderia ser mais �til. Seu nome � Eileen Carter. Ela cuida de um pequeno museu em Long Island. Costum�vamos, hum, nos corresponder. Numism�tica, sabe. Ela escreveu alguns livros sobre hist�ria oculta, coisas locais. � Ele escreveu o endere�o num caderninho e arrancou a p�gina.</p><p>Fortunato pegou o papel e se levantou.</p><p>� Muito obrigado.</p><p>� Olha, voc� acha� � Ele molhou os l�bios. � Voc� acha que seria seguro para uma pessoa comum ter uma dessas?</p><p>� Como, digamos, um colecionador? � Caroline perguntou.</p><p>Hiram baixou os olhos.</p><p>� Quando voc� tiver terminado de us�-las, eu compro.</p><p>� Quando isso acabar � Fortunato respondeu �, se todos n�s ainda estivermos por aqui, ser�o suas.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Eileen Carter tinha quase 40 anos e mechas grisalhas nos cabelos castanhos. Ela ergueu os olhos para Fortunato atr�s de �culos quadrados, depois olhou de relance para Caroline. E sorriu.</p><p>Fortunato passava a maior parte do tempo com mulheres. Mesmo com toda a beleza, Caroline era insegura, ciumenta, propensa a fazer dietas e maquiagem irracional. Eileen era diferente. Pareceu apenas se divertir com a apar�ncia de Caroline. E em rela��o a Fortunato � um negro meio japon�s, vestido com couro e com a testa inchada, uma cortesia do v�rus carta selvagem � tamb�m n�o pareceu achar nada de estranho.</p><p>� Voc� est� com a moeda? � ela perguntou. Olhava em seus olhos quando falava com ele. Estava cansado de mulheres que pareciam modelos. Essa tinha o nariz curvado, sardas e uns cinco quilos a mais. O que ele mais gostou foi de seus olhos. Eram de um verde incandescente e tinham linhas sorridentes nos cantos.</p><p>Ele colocou a moeda no balc�o, com a coroa para cima.</p><p>Ela se curvou para olh�-la, tocando a ponte dos �culos com um dedo. Vestia uma camisa de flanela verde; as sardas desciam at� onde Fortunato conseguia ver. Seus cabelos tinham um cheiro limpo e doce.</p><p>� Posso perguntar onde conseguiu isso?</p><p>� � uma longa hist�ria � Fortunato respondeu. � Sou amigo de Hiram Worchester. Ele pode confirmar, se isso ajudar.</p><p>� � o suficiente. O que querem saber?</p><p>� Hiram disse que talvez fosse uma falsifica��o.</p><p>� S� um segundo. � Ela tirou um livro da estante atr�s de si. Movia-se em rajadas repentinas de energia, entregando-se completamente a qualquer coisa que fizesse. Abriu o livro no balc�o e folheou as p�ginas. � Aqui � ela falou. Examinou a parte de tr�s da moeda, concentrada por alguns segundos, mordendo o l�bio inferior. Seus l�bios eram pequenos, fortes e agitados. Ele se pegou imaginando como seria beij�-la.</p><p>� Esta � ela comentou. � Sim, � uma falsifica��o. � chamada de moeda de Balsam, por conta de Black John �Balsam�, diz aqui. Ele a cunhou em Catskills, por volta da virada do s�culo XIX. � Ela olhou para Fortunato. � O nome n�o me � estranho, mas n�o sei por qu�.</p><p>� Black John?</p><p>Ela deu de ombros, sorrindo novamente.</p><p>� Posso ficar com ela? Apenas por alguns dias? Talvez eu consiga descobrir alguma coisa a mais pra voc�.</p><p>� Tudo bem. � Fortunato podia ouvir o oceano de onde estavam, e isso fazia as coisas parecerem um pouco menos terr�veis. Ele lhe deu seu cart�o de visita, apenas com nome e n�mero de telefone. Na sa�da ela sorriu e acenou para Caroline, que fingiu n�o ver.</p><p>No trem de volta para a cidade, Caroline disse:</p><p>� Voc� quer transar com ela, n�o �?</p><p>Fortunato sorriu, sem responder.</p><p>� Pelo amor de Deus � disse ela. Fortunato podia ouvir Houston novamente em sua voz. Era a primeira vez em semanas. � Uma professorinha acima do peso e acabada.</p><p>Ele sabia que era melhor n�o falar nada. Estava exagerando, sabia disso. Parte provavelmente era apenas ferom�nios, algum tipo de qu�mica sexual que ele entendeu muito antes de ela ter aprendido sua base cient�fica. Mas ele se sentia confort�vel ao lado dela, algo que n�o acontecia com tanta frequ�ncia desde que o carta selvagem o mudara. Ela parecia n�o ter pudor algum.</p><p><emphasis>Para com isso</emphasis>, ele pensou. <emphasis>Est� agindo como uma adolescente.</emphasis></p><p>Caroline, novamente sob controle, pousou uma das m�os na coxa dele.</p><p>� Quando chegarmos em casa � disse ela �, vou arrancar aquela vaca da sua cabe�a.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>� Fortunato?</p><p>Ele trocou o telefone para a m�o esquerda e olhou para o rel�gio. Nove da manh�.</p><p>� A-h�.</p><p>� Aqui � Eileen Carter. Voc� deixou uma moeda comigo na semana passada.</p><p>Ele se sentou, de repente, acordado. Caroline se virou e enterrou a cabe�a embaixo do travesseiro.</p><p>� Lembro, lembro, sim. Como vai?</p><p>� Acho que encontrei alguma coisa. Que tal uma viagem at� o interior?</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ela o buscou em seu Volkswagen Rabbit e rumaram para Shandaken, uma pequena cidade nas montanhas de Catskills. Ele estava vestido o mais simples poss�vel, cal�a Levi�s, uma camisa preta e um velho blazer. Mas n�o conseguia esconder a ascend�ncia ou a marca que o v�rus lhe deixara.</p><p>Estacionaram num terreno asfaltado na frente de uma igreja de t�buas brancas. Mal desceram do carro e a porta da igreja se abriu, e uma senhora saiu de l�. Usava um terninho azul-marinho barato de tric� duplo e um xale sobre a cabe�a. Olhou Fortunato de cima a baixo por um tempo, mas finalmente estendeu a m�o.</p><p>� Amy Fairborn. Voc�s devem ser o pessoal da cidade.</p><p>Eileen terminou as apresenta��es e a senhora balan�ou a cabe�a.</p><p>� O t�mulo fica ali � disse ela.</p><p>A pedra era um ret�ngulo de m�rmore simples, fora da cerca branca de estacas do cemit�rio da igreja, bem distante dos outros t�mulos. Lia-se no epit�fio �John Joseph Balsam. Morto em 1809. Queime no inferno�.</p><p>O vento balan�ou o casaco de Fortunato e soprou tra�os do perfume de Eileen na sua dire��o.</p><p>� � uma hist�ria infernal � disse Amy Fairborn. � Ningu�m sabe mais quanto dela � verdade. Diziam que Balsam era uma esp�cie de bruxo, morava nas montanhas. A primeira vez que se ouviu algo sobre ele foi em 1790. Ningu�m sabe de onde veio, talvez de algum lugar da Europa. A mesma velha hist�ria. Estrangeiro, vivendo �s pr�prias custas, sendo culpado por tudo. Se as vacas dessem leite azedo ou algu�m sofresse um aborto, a culpa era dele.</p><p>Fortunato concordou com a cabe�a. Sentia-se ele mesmo um estrangeiro naquele momento. N�o conseguia ver outra coisa sen�o �rvores e montanhas para onde quer que olhasse, exceto � direita, onde a igreja ficava no alto do monte, como um forte. Ele se sentia exposto, vulner�vel. A natureza era algo que devia ter uma cidade ao redor.</p><p>� Um dia, a filha do xerife de Kingston desapareceu � Fairborn disse. � Isso deve ter sido no in�cio de agosto de 1809. Dia de Lammas. Invadiram a casa de Balsam e encontraram a garota estirada e nua num altar. � A mulher mostrou os dentes. � � isso que a hist�ria diz. Balsam vestia uma roupa estranha e uma m�scara. Tinha uma faca do tamanho do bra�o. Com toda a certeza ia esquartej�-la.</p><p>� Que tipo de roupa? � Fortunato perguntou.</p><p>� T�nica de monge. E uma m�scara de cachorro, dizem. Bem, o senhor pode imaginar o resto. Eles o enforcaram, queimaram a casa, salgaram o ch�o, derrubaram as �rvores da estrada que levava at� l�.</p><p>Fortunato mostrou uma das moedas, Eileen ainda estava com a outra.</p><p>� Dizem que se chama moeda de Balsam. Significa alguma coisa para a senhora?</p><p>� Eu tinha tr�s ou quatro como essa em casa. Elas aparecem no t�mulo de vez em quando. �Tudo que desce tem que subir�, meu marido costumava dizer. Ele enterrou muitos dessa turma.</p><p>� Eles colocaram as moedas no t�mulo dele? � Fortunato quis saber.</p><p>� Tudo que puderam encontrar. Quando queimaram a casa, encontraram um barrilzinho delas no por�o. V� como ela � vermelha? Deve ter sido feita com um alto teor de ferro ou algo assim. O povo na �poca dizia que ele colocava sangue humano no cobre. De qualquer modo, as moedas desapareceram do gabinete do xerife. A maioria das pessoas pensava que a mulher e o filho de Balsam fugiram com elas.</p><p>� Ele tinha fam�lia? � Eileen perguntou.</p><p>� Ningu�m viu muito os dois, mas, sim, tinha mulher e um garoto pequeno. Fugiram para a cidade grande depois do enforcamento, ao menos � o que todo mundo sabe.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Enquanto voltavam por Catskills, ele conseguiu que Eileen falasse um pouco sobre si mesma. Ela nasceu em Manhattan, se formou em artes pl�sticas pela Columbia no fim dos anos de 1960, se interessou por ativismo pol�tico e trabalho social e saiu dele com as reclama��es habituais.</p><p>� O sistema nunca mudou r�pido o bastante pra mim. Acabei escapando pra hist�ria. Sabe? Quando voc� l� hist�ria consegue ver como tudo vai terminar.</p><p>� Por que hist�ria oculta?</p><p>� N�o acredito nessas coisas, se � isso que voc� acha. Voc� est� rindo. Por que est� rindo de mim?</p><p>� Depois. Continue.</p><p>� � um desafio, � isso. Os historiadores normais n�o levam isso a s�rio. � muito amplo, tem tanta coisa fascinante que nunca foi documentada de forma adequada. Os <emphasis>hashishins</emphasis>, a cabala, David Home, Crowley. � Ela o encarou. � Pera�, me conta a piada.</p><p>� Voc� nunca perguntou nada sobre mim. O que foi bacana. Mas voc� deve saber que eu tenho o v�rus. O carta selvagem.</p><p>� Sim.</p><p>� Ele me deu muito poder. Proje��o astral, telepatia, consci�ncia ampliada. Mas o �nico jeito de conseguir direcion�-la, faz�-la funcionar, � por meio de m�gica t�ntrica. Tem algo a ver com energizar a espinha�</p><p>� <emphasis>Kundalini</emphasis>.</p><p>� Exato.</p><p>� Voc� est� falando sobre m�gica t�ntrica real. Penetra��o. Sangue menstrual. Tudo isso.</p><p>� Isso mesmo. Essa � a parte do carta selvagem.</p><p>� Tem mais?</p><p>� Tem o que fa�o pra ganhar a vida. Sou um agente. Cafet�o. Cuido de uma s�rie de garotas de programa que cobram at� mil d�lares por noite. Ainda n�o ficou nervosa?</p><p>� N�o. Talvez, um pouco. � Ela lan�ou outro olhar de relance para ele. � � provavelmente uma estupidez o que vou dizer. Voc� n�o tem jeito de cafet�o.</p><p>� N�o gosto muito desse nome. Mas n�o fujo dele tamb�m. Minhas mulheres n�o s�o apenas putas. Minha m�e � japonesa e ela as treina como gueixas. Muitas t�m doutorado. Nenhuma � viciada e, quando cansam da Vida, v�o pra outra parte da organiza��o.</p><p>� Voc� faz parecer algo bem moral.</p><p>Ela estava pronta para desaprovar, mas Fortunato n�o se deixaria intimidar.</p><p>� N�o � disse ele. � Voc� leu Crowley. Ele n�o via utilidade na moralidade ordin�ria, nem eu. �Fa�a o que quiseres, h� de ser tudo da Lei�. Quanto mais aprendo, mais percebo que tudo est� a�, nessa �nica frase. � tanto uma amea�a quanto uma promessa.</p><p>� Por que est� me dizendo isso?</p><p>� Porque gosto de voc� e me sinto atra�do e isso n�o � necessariamente algo bom. N�o quero que se machuque.</p><p>Ela colocou as m�os no volante e olhou para a estrada.</p><p>� Posso me cuidar sozinha � disse ela.</p><p>Voc� devia ter ficado de boca fechada, ele disse a si mesmo, mas sabia que n�o era verdade. Melhor afast�-la agora antes que ficasse ainda mais envolvido.</p><p>Poucos minutos depois, ela rompeu o sil�ncio.</p><p>� N�o sei se eu deveria dizer isto a voc� ou n�o. Levei aquela moeda para alguns lugares. Livrarias especializadas em ocultismo, lojas de m�gica, esse tipo de coisa. S� para ver o que conseguia descobrir. Conheci um cara chamado Clarke, na Miskatonic Bookstore. Ele pareceu muito interessado.</p><p>� O que disse a ele?</p><p>� Disse que era do meu pai. Disse que eu estava curiosa sobre ela. Ele come�ou a me fazer umas perguntas� se eu tinha interesse no ocultismo, se j� tive experi�ncias paranormais, esse tipo de coisa. Foi bem f�cil falar o que ele queria ouvir.</p><p>� E?</p><p>� E ele quer que eu conhe�a algumas pessoas.</p><p>Alguns segundos depois, ela disse:</p><p>� Voc� ficou quieto de novo.</p><p>� N�o acho que voc� deva ir. Essa coisa � perigosa. Talvez voc� n�o acredite no oculto. O fato � que o carta selvagem mudou tudo. As fantasias e cren�as das pessoas agora podem se tornar realidade. E podem machucar voc�. At� matar.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� � sempre a mesma hist�ria. Mas nunca uma prova. Voc� pode discutir comigo o caminho todo at� Nova York e ainda assim n�o vai me convencer. A menos que eu possa ver com meus pr�prios olhos. S� n�o consigo levar isso a s�rio.</p><p>� Voc� � quem sabe � disse Fortunato. Ele liberou seu corpo astral e partiu � frente do carro. Ficou em p� na rodovia e ficou vis�vel apenas quando o carro estava em cima dele. Pelo para-brisa ele conseguia ver os olhos de Eileen se arregalarem. Ao lado dela, seu corpo f�sico estava sentado com um olhar ausente. Eileen gritou, os freios guincharam, e ele se deixou voltar para o carro. Estavam deslizando na dire��o das �rvores, e Fortunato pegou no volante para desviar. O carro morreu e deslizou sobre o acostamento.</p><p>� O que� o que�</p><p>� Desculpe � disse ele. N�o conseguiu ser muito convincente.</p><p>� Era <emphasis>voc�</emphasis> l�, na estrada! � As m�os dela ainda seguravam o volante, e o tremor sacudia seus bra�os.</p><p>� Foi apenas uma� demonstra��o.</p><p>� Demonstra��o? Voc� me matou de susto!</p><p>� N�o foi nada. Voc� entende? Nada. Estamos falando de um tipo de culto que tem algumas centenas de anos e faz sacrif�cios humanos. No m�nimo. Poderia ser pior, um inferno de t�o pior. N�o posso ser respons�vel por voc� se envolver.</p><p>Ela ligou o carro e voltou para a pista. Passaram-se 15 minutos, de volta para a 1-87, antes de ela dizer:</p><p>� Voc� n�o � mais totalmente humano, n�o �? Naquela hora voc� conseguiu me assustar. Mesmo assim, voc� diz que est� interessado em mim. � sobre aquilo que estava tentando me alertar.</p><p>� Sim � disse ele.</p><p>A voz dela estava diferente, mais desprendida. Ele esperou que dissesse algo mais, mas ela apenas balan�ou a cabe�a e p�s uma fita de Mozart no som.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Ele pensou que o assunto estivesse encerrado. Em vez disso, uma semana depois, ela ligou e perguntou se ele poderia encontr�-la para almo�ar no Aces High.</p><p>Ele esperava na mesa quando ela entrou. Nunca, ele sabia, ela pareceria uma modelo <emphasis>fashion</emphasis> ou com uma de suas gueixas. Mas gostou de ela ter feito o m�ximo com o que tinha: saia justa cinza de flanela, blusa de algod�o branca, cardig� azul-marinho, colar de contas �mbar e uma tiara larga de casco de tartaruga no cabelo. Sem maquiagem vis�vel, exceto por uma base e um pouco de brilho labial.</p><p>Fortunato se levantou para puxar a cadeira para ela e quase trombou com Hiram. Houve uma pausa estranha. Finalmente ela estendeu a m�o e Hiram curvou-se sobre ela, hesitou apenas um pouco demais, e ent�o desviou. Fortunato o acompanhou com os olhos por um segundo ou dois. Queria que Eileen dissesse alguma coisa sobre Hiram, mas ela n�o entendeu a deixa.</p><p>� Bom te ver � disse ele.</p><p>� Bom te ver tamb�m.</p><p>� Apesar� daquilo que aconteceu no nosso �ltimo encontro?</p><p>� O qu�? Um pedido de desculpas? � Novamente o sorriso.</p><p>� N�o � ele falou. � Embora eu realmente sinta muito. Sinto muito por ter enfiado voc� nisso. Sinto muito por n�o poder te encontrar de outro jeito. Sinto muito por termos esses neg�cios horr�veis entre n�s todas as vezes que nos vemos.</p><p>� Eu tamb�m.</p><p>� E temo por voc�. Estou enfrentando algo que nunca vi antes. Existe essa� coisa, essa conspira��o, esse culto, seja l� o que for, l� fora. E n�o consigo descobrir nada. � Um gar�om trouxe os card�pios e �gua em ta�as de cristal. Fortunato agradeceu e o afastou com um aceno de cabe�a.</p><p>� Fui ver o Clarke � disse Fortunato. � Fiz algumas perguntas, mencionei TIAMAT, e tudo que recebi foram olhares vagos. Ele n�o estava fingindo. Olhei dentro de seu c�rebro. � Ele tomou f�lego. � Ele n�o tinha lembran�a sobre voc�.</p><p>� � imposs�vel � disse Eileen. Ela sacudiu a cabe�a. � � t�o estranho ver voc� a� sentado, falando sobre ler a mente dele. Deve ter havido algum tipo de engano, � isso. Tem certeza?</p><p>Fortunato conseguia ver sua aura claramente. Ela dizia a verdade.</p><p>� Tenho � ele respondeu.</p><p>� Vi Clarke a noite passada e posso jurar que se lembrou de mim. Ele me levou para encontrar algumas pessoas. S�o membros do culto, ou da sociedade, ou seja l� o que for. As moedas s�o algum tipo de chave de reconhecimento.</p><p>� Voc� pegou nomes, endere�os ou algo assim?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eu os reconheceria. Um deles se chamava Roman. Tinha boa apar�ncia, boa apar�ncia demais, se voc� me entende. O outro era bem comum. Harry, acho que era esse o nome.</p><p>� O grupo tem um nome?</p><p>� Eles n�o mencionaram um nome. � Ela olhou para o card�pio quando o gar�om voltou. � Medalh�es de vitela, eu acho. E uma ta�a de Chablis.</p><p>Fortunato pediu salada mista e uma cerveja Beck�s.</p><p>� Mas fiquei sabendo de algumas outras coisas � disse ela. � Estou tentando rastrear a mulher e o filho de Balsam. Digo, eles s�o um par de pontas soltas na hist�ria. Primeiro, tentei a rotina habitual do detetive, registros de nascimento, morte e casamento. Nenhuma pista. Ent�o tentei encontrar conex�es ocultas. Conhece a <emphasis>Abramelin Review</emphasis>?</p><p>� N�o.</p><p>� � um tipo de <emphasis>guia do leitor</emphasis> para publica��es de ocultismo. E a� a fam�lia Balsam surgiu. Existe um Marc Balsam que publicou pelo menos uma d�zia de artigos nos �ltimos anos. A maioria numa revista chamada <emphasis>Nectanebo</emphasis>. Te faz lembrar de alguma coisa?</p><p>Fortunato fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� Um dem�nio ou algo assim? N�o me parece estranho, mas n�o me vem � cabe�a agora.</p><p>� D� para apostar que ele est� envolvido com a mesma sociedade da qual Clarke participa.</p><p>� Por causa das moedas.</p><p>� Exatamente.</p><p>� E essas gangues de garotos que est�o barbarizando no Mosteiro? Peguei uma moeda de um desses garotos. Consegue ver alguma conex�o poss�vel?</p><p>� Ainda n�o. Os artigos poderiam ajudar, mas a revista � bem obscura. N�o consegui encontrar nenhuma c�pia.</p><p>Os pratos chegaram. Durante o almo�o, ela finalmente falou sobre Hiram.</p><p>� Quinze anos atr�s ele era mais atraente do que voc� pode imaginar. Um pouco cheinho, mas muito charmoso. Sabia como se vestir, o que dizer. E, � claro, sempre conhecia restaurantes fant�sticos.</p><p>� O que aconteceu? Se � que posso perguntar.</p><p>� N�o sei. O que sempre acontece entre as pessoas? Acho que muito disso foi porque ficou muito envergonhado com seu peso. Agora eu que fico constrangida o tempo todo.</p><p>� N�o deveria, viu? Voc� est� �tima. Pode ter o homem que quiser.</p><p>� Voc� n�o precisa me cantar. Quer dizer, voc� tem todo esse poder sexual e carisma e tudo o mais, mas n�o gosto da ideia de voc� usar isso comigo. De me manipular.</p><p>� N�o estou tentando te manipular � disse Fortunato. � Se parece que estou interessado em voc�, � porque estou interessado em voc�.</p><p>� Voc� � sempre assim, t�o intenso?</p><p>� Sou. Acho que sou. Eu olho pra voc� e voc� est� sorrindo o tempo todo. Isso me deixa louco.</p><p>� Vou tentar parar.</p><p>� N�o fa�a isso.</p><p>Ele percebeu que foi muito atirado. Ela pousou os talheres impecavelmente no prato e deixou o guardanapo dobrado ao lado. Fortunato afastou o restante da salada. De repente, algo borbulhou em sua mente.</p><p>� Qual � mesmo o nome daquela revista? Onde o Balsam estava publicando?</p><p>Ela pegou um peda�o de papel dobrado da bolsa.</p><p>� <emphasis>Nectanebo</emphasis>. Por qu�?</p><p>Fortunato fez um sinal para o gar�om trazer a conta.</p><p>� Olha s�. Voc� pode ir ao meu apartamento comigo? N�o � um truque, � importante.</p><p>� Assim espero.</p><p>O gar�om fez uma mesura e olhou para Eileen.</p><p>� Sr. Worchester est� impedido de vir cumpriment�-la. Mas pediu para dizer que o almo�o de voc�s � por conta da casa.</p><p>� Agrade�a por mim � disse Eileen. � Diga a ele� diga apenas que agrade�o.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Caroline ainda estava sonolenta quando chegaram ao apartamento. Ela considerou deixar a porta do quarto aberta enquanto caminhava nua at� o banheiro, ent�o sentou-se na ponta da cama e, lentamente, vestiu as roupas, come�ando pela meia-cal�a e pela cinta-liga.</p><p>Fortunato ignorou-a, examinando as pilhas de livros que cresceram at� formar uma parede inteira da sala de estar. Ou ela aprendia a controlar seu ci�me ou encontraria outra ocupa��o.</p><p>Eileen sorriu para ela enquanto caminhava com dificuldade sobre saltos de dez cent�metros.</p><p>� Ela � bonita � disse ela.</p><p>� Voc� tamb�m.</p><p>� N�o comece.</p><p>� Voc� come�ou. � Ele entregou para ela o <emphasis>A</emphasis><emphasis>magia eg�pcia</emphasis>, de Budge. � Aqui est�. Nectanebo.</p><p>� � famoso como mago e s�bio, era profundamente versado em toda a sabedoria dos eg�pcios.</p><p>� As pe�as est�o se juntando. Voc� se lembra da m�scara de cachorro do Black John? Fico me perguntando se o culto de Balsam n�o � a Ma�onaria Eg�pcia.</p><p>� Ah, meu Deus. Voc� est� pensando no mesmo que eu?</p><p>� Estou pensando que o nome Balsam pode ser uma americaniza��o de Balsamo.</p><p>� Como em Giuseppe Balsamo de Palermo � Eileen disse. Ela se sentou pesadamente no sof�.</p><p>� Mais conhecido como � disse Fortunato � Conde Cagliostro.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Fortunato puxou uma cadeira diante dela e se sentou com os cotovelos apoiados nos joelhos.</p><p>� A Inquisi��o o prendeu quando?</p><p>� Por volta de 1790, n�o foi? Eles o mandaram pra um tipo de masmorra. Mas o corpo nunca foi encontrado.</p><p>� Provavelmente ele tinha liga��o com os Illuminati. Talvez o tenham tirado da pris�o e o enviado escondido para os Estados Unidos.</p><p>� Onde ele surge como Black John Balsam, o exc�ntrico local. Mas o que ele queria? Por que as moedas? E o sacrif�cio humano? Cagliostro era uma fraude, um vigarista. Tudo que ele queria era uma boa vida. Matar n�o parece ser o estilo dele.</p><p>Fortunato entregou para ela o <emphasis>Bruxas e feiticeiros</emphasis>, de Daraul.</p><p>� Vamos descobrir. A menos que voc� tenha algo melhor pra fazer.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Inglaterra � disse Eileen. � Mil setecentos e setenta e sete. Foi quando aconteceu. Foi apresentado aos ma�ons em 12 de abril, no Soho. Em seguida, a ma�onaria tomou conta da sua vida. Ele inventou os Ma�ons Eg�pcios como uma esp�cie de ordem superior, come�ou a distribuir dinheiro, induzindo cada ma�om de alto posto que podia.</p><p>� O que causou tudo isso?</p><p>� Ele fez uma esp�cie de viagem pelo interior da Inglaterra e voltou � abre aspas � um homem mudado � fecha aspas. Seus poderes m�gicos aumentaram. De aventureiro se transformou num m�stico aut�ntico.</p><p>� Tudo bem � disse Fortunato. � Agora ou�a isto aqui. Este � Tolst�i sobre a ma�onaria: �O primeiro e principal objeto da nossa ordem� � a preserva��o e a manuten��o da posteridade de certo mist�rio importante� um mist�rio do qual talvez dependa o destino da humanidade�.</p><p>� Que inferno! Isso est� come�ando a me assustar � Eileen comentou.</p><p>� Tem mais uma parte. A coisa que est� por tr�s da moeda de Balsam � uma divindade sum�ria chamada TIAMAT. � de onde Lovecraft tirou o Cthulhu. Algum tipo de monstro imenso, amorfo, de al�m das estrelas. Lovecraft provavelmente criou sua mitologia a partir de documentos secretos do pai. O pai de Lovecraft era ma�om.</p><p>� Ent�o, voc� acha que � tudo sobre isso. Sobre esse tal de TIAMAT.</p><p>� Juntando as pe�as � disse Fortunato. � Suponha que o segredo ma��nico tenha algo a ver com o controle de TIAMAT. Cagliostro aprende o segredo. Seus irm�os ma�ons n�o usar�o seu conhecimento para o mal, ent�o Cagliostro forma a pr�pria ordem, para seus pr�prios objetivos.</p><p>� Trazer essa coisa para a Terra.</p><p>� Exato � respondeu Fortunato. � Traz�-lo para a Terra.</p><p>Eileen finalmente parou de sorrir.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Enquanto conversavam, escureceu. A noite estava fria e clara, e Fortunato conseguiu ver as estrelas pela claraboia da sala de estar. Desejou poder apag�-las.</p><p>� Est� tarde � disse Eileen. � Tenho que ir.</p><p>Ele n�o havia pensado na partida dela. O trabalho do dia o deixou cheio de energia nervosa, a sensa��o da ca�a. A mente dela o excitou e ele queria que ela a abrisse para ele � seus segredos, suas emo��es, seu corpo.</p><p>� Fique � disse ele, com cuidado para n�o usar seus poderes, para aquilo n�o soar como uma ordem. � Por favor. � Sentiu um frio no est�mago quando pediu.</p><p>Ela se levantou, vestiu o su�ter que havia deixado no bra�o da poltrona.</p><p>� Tenho que� digerir tudo isso � disse ela. � Simplesmente muita coisa acontecendo de uma vez. Desculpe. � Ela n�o olhava para ele. � Preciso de mais tempo.</p><p>� Vou com voc� at� a Eighth Avenue � disse ele. � Voc� pode pegar um t�xi l�.</p><p>O frio parecia irradiar das estrelas, um tipo de �dio pela vida. Ele arqueou os ombros e afundou as m�os nos bolsos. Poucos segundos depois, sentiu o bra�o de Eileen em volta de sua cintura e ele a puxou para perto enquanto andavam.</p><p>Pararam na esquina da Eighth com a 19th, e um t�xi apareceu quase imediatamente.</p><p>� N�o diga � Eileen falou para ele. � Eu tomarei cuidado.</p><p>A garganta de Fortunato estava muito apertada para falar o que ele queria. P�s uma das m�os atr�s do pesco�o dela e a beijou. Seus l�bios eram t�o suaves que ele come�ou a se afastar antes de perceber quanto se sentiu bem. Virou as costas e ela ainda estava l�, em p�. Ele a beijou novamente, com mais for�a, e ela cambaleou na dire��o dele por um segundo, ent�o se afastou.</p><p>� Vou te ligar � disse ela.</p><p>Ele observou o t�xi at� este virar a esquina e desaparecer.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>A pol�cia o acordou �s sete da manh� seguinte.</p><p>� Levamos um garoto morto para o necrot�rio � disse o primeiro policial. � Algu�m quebrou seu pesco�o no Mosteiro h� uma semana. Sabe alguma coisa sobre isso?</p><p>Fortunato balan�ou a cabe�a. Estava em p� na porta, segurando seu robe fechado com uma das m�os. Se entrassem, veriam o pentagrama pintado no assoalho de madeira maci�a, o cr�nio humano na estante, a maconha na mesinha de centro.</p><p>� Alguns dos camaradas dele viram voc� l� � o segundo policial continuou.</p><p>Fortunato o encarou.</p><p>� Eu n�o estava l� � disse ele. � Voc�s v�o acreditar nisso.</p><p>O segundo policial concordou com a cabe�a, e o primeiro fez men��o de puxar a arma.</p><p>� N�o � disse Fortunato. O primeiro policial n�o conseguiu desviar o olhar a tempo. � Voc� vai acreditar tamb�m. Eu n�o estava l�. Estou limpo.</p><p>� Limpo � o primeiro policial disse.</p><p>� Agora, v�o � disse Fortunato, ent�o eles sa�ram.</p><p>Ele se sentou no sof�, m�os tr�mulas. Eles voltariam. Ou, mais provavelmente, mandariam algu�m da divis�o do Bairro dos Curingas que n�o seria afetado pelos seus poderes.</p><p>N�o conseguiria voltar a dormir. N�o que tenha dormido bem de qualquer jeito. Seus sonhos estiveram cheios de coisas com tent�culos t�o grandes quanto a lua, bloqueando o c�u, engolindo a cidade.</p><p>De repente, percebeu que o apartamento estava vazio. N�o conseguia se lembrar da �ltima vez que tinha passado a noite sozinho. Quase pegou o telefone e ligou para Caroline. Foi apenas um reflexo, e ele o reprimiu. O que queria era estar com Eileen.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Dois dias depois, ela telefonou novamente. Naqueles dois dias, ele esteve com ela no museu em Long Island duas vezes, na sua forma astral. Pairou pela sala, invis�vel para ela, apenas observando. Teria ido com mais frequ�ncia, ficado mais tempo, mas estava sentindo muito prazer com aquilo.</p><p>� � Eileen � disse ela. � Eles querem me iniciar.</p><p>Eram tr�s e meia da tarde. Caroline estava na Berlitz, aprendendo japon�s. Ela n�o apareceu muito por l� nos �ltimos tempos.</p><p>� Voc� mudou de ideia � disse ele.</p><p>� Precisei mudar. Dependemos disso.</p><p>� Quando ser�?</p><p>� Hoje � noite. Preciso estar l� �s onze. Ser� numa igreja antiga no Bairro dos Curingas.</p><p>� Posso te ver?</p><p>� Acho que sim. Posso passar a�, se voc� quiser.</p><p>� Por favor. O mais r�pido que puder.</p><p>Ele se sentou na janela e observou at� o carro dela aparecer. Abriu a porta e esperou no patamar da escada. Ela passou por ele, entrando no apartamento, e se virou. Ele n�o sabia o que esperar. Fechou a porta e ela estendeu as m�os. Ele a envolveu nos bra�os e ela ergueu o rosto para olh�-lo. Ele a beijou e, em seguida, a beijou de novo. Os bra�os dela envolveram seu pesco�o e apertaram.</p><p>� Quero voc� � disse ele.</p><p>� Tamb�m te quero.</p><p>� Vamos para a cama.</p><p>� Eu quero. Mas n�o posso. Ʌ � uma m� ideia. Faz tanto tempo para mim. N�o posso simplesmente subir na cama com voc� e fazer todo tipo de atos sexuais t�ntricos estranhos. N�o � o que eu quero. Voc� n�o pode nem gozar, pelo amor de Deus!</p><p>Ele passou os dedos pelos cabelos dela.</p><p>� Tudo bem. � Ele a segurou ainda por um tempo, depois a soltou. � Quer alguma coisa? Uma bebida?</p><p>� Caf�, se voc� tiver.</p><p>Ele colocou a �gua para ferver e moeu um punhado de gr�os de caf�, olhando-a pelo balc�o da cozinha.</p><p>� O que n�o consigo entender � disse ele � � por que n�o consigo nada da mente dessas pessoas.</p><p>� Voc� acha que estou inventando tudo isso?</p><p>� Sei que n�o est� � disse Fortunato. � Eu saberia se estivesse mentindo.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� Demora muito at� a gente se acostumar com isso.</p><p>� Algumas coisas s�o mais importantes do que bons modos.</p><p>A �gua ferveu. Fortunato encheu duas x�caras e as levou para o sof�.</p><p>� Se forem t�o grandes quanto voc� acha que s�o � Eileen falou �, devem ter ases trabalhando com eles. Algu�m que possa levantar bloqueios, bloqueios contra outras pessoas com poderes mentais.</p><p>� Tamb�m acho.</p><p>Ela tomou um pouco do caf�.</p><p>� Conheci Balsam hoje � tarde. Todos nos reunimos na livraria.</p><p>� Como ele �?</p><p>� Tranquilo. Parecia um banqueiro ou algo do tipo. Terno de tr�s pe�as, �culos. Mas bronzeado, como se jogasse muito t�nis nos fins de semana.</p><p>� O que ele disse?</p><p>� Finalmente mencionaram a palavra �ma�om�. Como se fosse o �ltimo teste, para ver se eu iria pirar. Ent�o, Balsam me deu uma aula de hist�ria. Sobre como a Ma�onaria Escocesa e o Rito de York eram apenas desdobramentos da Ma�onaria Especulativa, e que estes remontavam apenas ao s�culo XVIII.</p><p>Fortunato concordou com a cabe�a.</p><p>� � tudo verdade.</p><p>� Ent�o ele come�ou a falar sobre Salom�o, e como o arquiteto do seu templo era, de fato, eg�pcio. Que a ma�onaria come�ou com Salom�o, e todos os outros ritos perderam o significado original. Mas dizem que ainda o mant�m. Bem como voc� imaginou.</p><p>� Tenho que ir com voc� hoje � noite.</p><p>� N�o tem como voc� entrar. Nem mesmo se for disfar�ado. Eles o reconheceriam.</p><p>� Eu poderia mandar meu corpo astral. Ainda conseguiria ver e ouvir tudo.</p><p>� Se alguma outra pessoa entrar aqui em seu corpo astral, voc� consegue v�-la?</p><p>� Claro.</p><p>� E ent�o? � um risco grande a se correr, n�o �?</p><p>� Tudo bem, ok.</p><p>� Tem de ser apenas eu. N�o h� outro jeito.</p><p>� A menos que�</p><p>� A menos que o qu�?</p><p>� A menos que eu entre em voc� � disse ele.</p><p>� Do que est� falando?</p><p>� O poder est� no meu esperma. Se voc� estiver carregando�</p><p>� Ah, fala s�rio � disse ela. � De todas as desculpas esfarrapadas pra levar algu�m pra cama� � Ela olhou para ele. � Voc� est� brincando, n�o �?</p><p>� Voc� n�o pode ir at� l� sozinha. N�o apenas por conta do perigo. Porque voc� n�o conseguir� fazer o bastante sozinha. Voc� n�o consegue ler mentes. Eu consigo.</p><p>� Mesmo se voc� estiver s� pegando uma carona?</p><p>Fortunato concordou com a cabe�a.</p><p>� Ai, meu Deus � ela falou. � Isso � h� tantas raz�es para n�o� estou menstruada, para come�ar.</p><p>� T�o melhor.</p><p>Ela agarrou seu pulso esquerdo e levantou-o perto do peito.</p><p>� Eu disse a mim mesma que, se eu fosse para a cama com um homem novamente� e eu disse <emphasis>se</emphasis>� teria de ser rom�ntico. Luz de velas e flores e tudo o mais. E olhe pra mim.</p><p>Fortunato ajoelhou-se na frente dela e, gentilmente, separou suas m�os.</p><p>� Eileen � disse ele. � Eu te amo.</p><p>� � f�cil pra voc� falar. Tenho certeza de que voc� � sincero e tudo o mais, mas tamb�m sei que voc� diz isso o tempo todo. Existem apenas dois homens para quem eu disse isso em minha vida, e um deles foi meu pai.</p><p>� N�o estou falando sobre como voc� se sente. N�o estou falando sobre pra sempre. Estou falando sobre mim, neste minuto. E eu te amo. � Ele a tomou no colo e a carregou para o quarto.</p><p>Estava frio e os dentes dela come�aram a bater. Fortunato acendeu o aquecedor a g�s e sentou-se ao lado dela na cama. Ela pegou a m�o direita dele nas suas e levou-a at� a boca. Ele a beijou e sentiu-a reagir, quase contra sua vontade. Ele tirou a roupa, puxou as cobertas sobre os dois e come�ou a desabotoar a blusa de Eileen. Os seios dela eram grandes e macios, os mamilos endureciam sob a l�ngua enquanto os beijava.</p><p>� Espere � disse ela. � Tenho que� tenho que ir ao banheiro.</p><p>Quando ela voltou, havia tirado o resto das roupas. Estava segurando uma toalha � sua frente.</p><p>� Para n�o manchar seus len��is � ela falou. Havia uma mancha de sangue no lado de dentro de uma das coxas.</p><p>Ele tirou a toalha das m�os dela.</p><p>� N�o se preocupe com os len��is. � Ela continuava em p�, nua, � sua frente. Parecia estar com medo de ele a mandar embora. Ele pousou a cabe�a entre os seios dela e a puxou na sua dire��o.</p><p>Ela foi para baixo das cobertas novamente e o beijou, sua l�ngua tremulava dentro da boca de Fortunato. Ele beijou ombros, seios, embaixo do queixo. Ent�o, rolou sobre ela com m�os e joelhos.</p><p>� N�o � ela sussurrou. � N�o estou pronta ainda�</p><p>Ele segurou o p�nis com uma das m�os e moveu sua cabe�a contra a vulva, lenta, gentilmente, sentindo a carne sens�vel ficando quente e �mida. Ela mordia o l�bio inferior de olhos fechados. Lentamente, ele deslizou para dentro dela, a fric��o enviando ondas de prazer pela espinha dele.</p><p>Ele a beijou novamente. Conseguia sentir os l�bios movendo-se contra os dele, balbuciando palavras inaud�veis. As m�os dele moviam-se sobre os flancos, pelas costas dela. Lembrou-se de que costumava fazer amor por horas numa �poca, e o pensamento o surpreendeu. Era tudo t�o intenso. Estava cheio de calor e luz; n�o conseguia se controlar.</p><p>� Voc� n�o devia dizer alguma coisa? � Eileen sussurrou, suspirando as palavras de forma entrecortada. � Algum tipo de encantamento ou algo assim?</p><p>Fortunato beijou-a novamente, seus l�bios formigando como se estivessem dormentes e voltado � vida naquele momento.</p><p>� Eu te amo � disse ele.</p><p>� Oh, Deus � ela falou, e come�ou a chorar. L�grimas rolavam pelo cabelo e, ao mesmo tempo, seus quadris moviam-se mais r�pido contra ele. Seus corpos estavam ruborizados e quentes, e o suor corria pelo peito de Fortunato. Eileen endureceu o corpo e estremeceu. Um segundo depois, o pr�prio c�rebro de Fortunato ficou em branco e ele abandonou dez anos de treinamento, deixando acontecer, deixando o poder jorrar dele para dentro de Eileen e, por um instante, ele era simultaneamente os dois, hermafrodita e superabrangente, e sentiu-se expandir at� as pontas do universo em labaredas nucleares gigantes.</p><p>E ent�o estava de volta na cama com Eileen, sentindo seus seios se levantarem e descerem sob ele, enquanto ela chorava.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A �nica luz vinha do aquecedor a g�s. Ele deve ter dormido. A fronha parecia uma lixa contra sua bochecha. Ele reuniu todas as for�as para rolar de costas.</p><p>Eileen cal�ava os sapatos.</p><p>� Est� quase na hora � disse ela.</p><p>� Como voc� se sente?</p><p>� Inacredit�vel. Forte. Poderosa. � Ela riu. � Nunca me senti assim.</p><p>Ele fechou os olhos, entrando na mente dela. Conseguia se ver deitado na cama, na forma de esqueleto, a pele escura e dourada desaparecendo nas sombras, a testa encolhida at� onde se misturava suavemente em seu escalpo sem cabelos.</p><p>� E voc�? � ela perguntou. Ele conseguia ouvir a voz dela ecoando no peito. � Voc� est� bem?</p><p>Ele voltou para o corpo.</p><p>� Fraco � disse ele. � Mas vou ficar bem.</p><p>� Devo� ligar pra algu�m?</p><p>Ele sabia o que ela estava oferecendo, sabia que ele devia concordar. Caroline, ou uma das outras, seria o caminho mais r�pido para ele reaver as for�as. Mas isso tamb�m enfraqueceria seu elo com Eileen.</p><p>� N�o � disse ele.</p><p>Ela terminou de se vestir e curvou-se para beij�-lo demoradamente.</p><p>� Obrigada � ela falou.</p><p>� N�o � ele respondeu. � N�o me agrade�a.</p><p>� Melhor eu ir. � Sua impaci�ncia, sua for�a e vitalidade eram a for�a f�sica no quarto. Ele estava muito distante dali para ficar com ci�mes dela. Ent�o ela saiu, e ele dormiu novamente.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Ele observava pelos olhos de Eileen enquanto ela estava parada em frente � porta da livraria, esperando Clarke fech�-la. Ele conseguiria mover-se totalmente para a mente dela, mas isso esgotaria o pouco de energia que aos poucos recuperava. Al�m disso, era quente e confort�vel onde estava.</p><p>At� as m�os o agarrarem e acordarem-no, e ele olhar para dentro de um par de escudos dourados.</p><p>� Vista-se � a voz disse. � Voc� est� preso.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Deram para ele uma cela provis�ria. Tinha um ch�o de ladrilhos cinzentos e paredes de cimento pintadas de cinza. Ele se encolheu num canto. Tremia, fraco demais para se levantar. Na parede perto dele algu�m tinha rabiscado uma figura de palitos com um pau gigante gotejando e bolas.</p><p>Por uma hora, n�o conseguiu se concentrar o suficiente para fazer contato com Eileen. Tinha certeza de que os ma�ons de Balsam a haviam matado.</p><p>Ele fechou os olhos. A porta da cela fechou numa batida no corredor e o trouxe de volta. <emphasis>Concentre-se, droga</emphasis>, pensou. Estava numa sala comprida com p�-direito alto. Uma luz amarelada refletia das paredes distantes a partir dos balc�es de velas. O ch�o era de ladrilhos quadriculados pretos e brancos. Na frente do espa�o havia duas colunas d�ricas, uma de cada lado, que mal alcan�avam o teto. Representavam o templo de Salom�o e tinham os nomes Boaz e Joaquim, as primeiras duas Palavras Ma��nicas.</p><p>Ele n�o queria tomar o controle do corpo de Eileen, embora pudesse, se fosse o caso. Ao que podia ver, ela estava bem. Conseguia sentir sua agita��o, mas ela n�o estava sentindo dor ou, especialmente, medo.</p><p>Um homem que se encaixava na descri��o que Eileen fez de Balsam estava na parte frontal da sala, no p�lpito reservado para o Vener�vel Mestre do Templo. Sobre o terno preto vestia o jaleco branco ma��nico com o gal�o vermelho brilhante. Vestia um tabardo como um babador gigante em torno do pesco�o. Era branco tamb�m, com uma cruz ansata vermelha no centro. Um <emphasis>ankh</emphasis>.</p><p>� Quem responde por esta mulher? � Balsam perguntou.</p><p>Havia uma d�zia ou mais de outras pessoas na sala, de ambos os sexos, todos em jalecos e tabardos. Formavam uma linha sinuosa no lado esquerdo do sal�o. A maioria delas parecia bem normal. Um homem tinha uma pele vermelha brilhante e nenhum cabelo, obviamente um curinga. Outro parecia terrivelmente fr�gil, com �culos grossos e uma express�o atordoada. Era o �nico que n�o usava roupas normais sob o jaleco. Em vez disso, estava enrolado num manto branco alguns n�meros acima do dele, com um capuz e mangas que pendiam de suas m�os.</p><p>Clarke saiu da fila e disse:</p><p>� Eu respondo por ela.</p><p>Balsam lhe passou uma m�scara intrigante, coberta naquilo que parecia uma l�mina de ouro. Era uma cabe�a de falc�o, e cobria completamente o rosto de Clarke.</p><p>� Quem se op�e? � disse Balsam.</p><p>Uma mulher jovem, oriental, bem simples, mas com natureza sexual indefin�vel, deu um passo � frente.</p><p>� Eu me oponho.</p><p>Balsam entregou-lhe uma m�scara com orelhas longas e pontudas e um rosto alongado. Quando ela a colocou, deu-lhe um olhar frio, desdenhoso. Fortunato sentiu o pulso de Eileen come�ar a aumentar.</p><p>� Quem a defende?</p><p>� Eu a defendo.</p><p>Outro homem deu um passo � frente e pegou a m�scara com o rosto de An�bis, o chacal.</p><p>O ar atr�s de Balsam ondulou e come�ou a brilhar. As velas bruxuleavam. Aos poucos, um homem dourado tomou forma, iluminando a sala. Era quase da altura do teto, com fei��es caninas e olhos amarelos e quentes. Ele se ergueu com bra�os cruzados e olhou para baixo, na dire��o de Eileen. Seu pulso acelerou e se descompassou, e ela enterrou as unhas nas palmas das m�os. Ningu�m parecia perceber que ele estava l�.</p><p>A mulher usando a m�scara pontuda estava na frente de Eileen.</p><p>� Os�ris � disse a mulher. � Sou Set, da companhia de Annu, filho de Seb e Nut.</p><p>Ele sentiu Eileen abrir a boca para falar, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a m�o direita da mulher estapeou seu rosto. Ela caiu de costas e deslizou quase um metro pelo ladrilho.</p><p>� Vejam � disse a mulher. Tocou com os dedos os olhos de Eileen e eles ficaram �midos. � A chuva fertilizadora.</p><p>� Os�ris � disse o homem com cabe�a de chacal, caminhando at� o lugar da mulher. � Sou An�bis, filho de R�, Aquele que abre os Caminhos. A Montanha do Funeral � minha. � Ele foi para tr�s de Eileen e levantou-a do ch�o.</p><p>Agora Clarke estava ajoelhando-se ao seu lado, o homem dourado pairando atr�s dele.</p><p>� Os�ris � disse ele. A luz brilhou de seus olhos pequenos da m�scara de falc�o. � Sou H�rus, teu filho e de Isis. � Ele apertou dois dedos contra os l�bios de Eileen, for�ando-a a abrir a boca. � Vim para te abra�ar, sou teu filho H�rus, pressionei tua boca; sou teu filho, te amo. Tua boca estava fechada, mas eu arrumei para ti tua boca e teus dentes. Abro para ti teus dois olhos. Abri para ti tua boca com o instrumento de An�bis. H�rus abriu a boca dos mortos, como nos tempos antigos abriu tua boca, com o ferro que surge de Set. Os mortos caminhar�o e falar�o, e seu corpo estar� com a grande companhia dos deuses na Grande Casa do Nascido em Annu, e ela receber� l� a coroa de <emphasis>ureret</emphasis> de H�rus, o senhor da humanidade.</p><p>Clark tomou de Balsam algo que parecia uma cobra de madeira. Eileen tentou afastar, mas o homem com cabe�a de chacal a segurava com muita for�a. Clarke girou a cobra para tr�s e ent�o tocou gentilmente a boca e os olhos de Eileen com ela quatro vezes.</p><p>� � Os�ris, firmei para ti as duas mand�bulas em teu rosto, e agora elas est�o separadas.</p><p>Ele se afastou para o lado. Balsam curvou-se sobre ela at� seu rosto estar apenas a cent�metros de dist�ncia e disse:</p><p>� Agora, dou-te o <emphasis>hekau</emphasis>, a palavra do poder. H�rus deu a ti o uso de tua boca e podeis diz�-la. A palavra � TIAMAT.</p><p>� TIAMAT � Eileen sussurrou.</p><p>Fortunato, atordoado pelo medo, avan�ou para a mente de Balsam.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O truque era manter-se em movimento, n�o ficar impressionado pela estranheza. Se mantivesse associa��es desencadeadoras, terminaria na parte da mem�ria de Balsam que ele queria.</p><p>Naquele momento, Balsam estava pr�ximo do �xtase. Fortunato seguiu as imagens e totens da m�gica eg�pcia at� encontrar as primeiras, e de l� percorreu o caminho at� o pai de Balsam, e voltou por sete gera��es at� o pr�prio Black John.</p><p>Tudo que Balsam ouviu ou leu ou imaginou sobre seu ancestral estava ali. Sua primeira trapa�a, quando matou o ourives Marano por seis on�as de ouro fino. Sua fuga de Palermo. O encontro com o grego Altotas e o aprendizado da alquimia. Egito, Turquia, Malta e, finalmente, Roma, aos 26 anos, bonito, inteligente, carregando cartas de recomenda��o para a nata da sociedade.</p><p>Onde ele conheceu Lorenza. Fortunato a viu como Cagliostro, nua perante ele pela primeira vez, com apenas 14 anos, mas de uma beleza estonteante: magra, elegante, pele dourada, com cabelos ondulados de um preto intenso que ca�am em torno dela, seios pequeninos e perfeitos, cheirando a flores selvagens costeiras, sua voz rouca gritando seu nome enquanto o envolvia entre as pernas.</p><p>Viajando pela Europa em carruagens forradas com veludo verde-escuro, a beleza de Lorenza abrindo a sociedade para eles sem reservas, vivendo daquilo que mendigavam nos corredores da nobreza e entregando o resto como esmolas.</p><p>E, finalmente, a Inglaterra.</p><p>Fortunato observou como Cagliostro cavalgava na floresta montado em um puro-sangue de ca�a cor de �bano. Ele se separou, n�o bem por acidente, de Lorenza e do jovem lorde ingl�s que se encantou por ela. Sem d�vida, Vossa Senhoria estava em seu caminho com ela, agora mesmo em alguma vala ao lado da estrada, e sem d�vida Lorenza j� havia encontrada uma maneira de tirar vantagem.</p><p>Ent�o, a lua caiu do c�u no meio da tarde.</p><p>Cagliostro apressou o garanh�o na dire��o da apari��o reluzente. Ela aterrissou numa clareira a poucas centenas de metros. O cavalo n�o se aproximaria mais do que trinta metros, ent�o Cagliostro o prendeu num arbusto e continuou a p�. A coisa era indistinta, feita de �ngulos desencontrados, e quando Cagliostro avan�ou, uma parte da coisa se desprendeu� E foi tudo. De repente, Cagliostro estava cavalgando de volta para Londres numa carruagem com Lorenza, pleno de algum prop�sito elevado que Fortunato n�o conseguia entender.</p><p>Ele esquadrinhou a mente de Balsam. O conhecimento tinha de estar l� em algum lugar. Algum fragmento daquilo que era a coisa na floresta, o que ela disse ou fez.</p><p>Foi quando Balsam se levantou num solavanco e disse:</p><p>� A mulher est� dentro do meu c�rebro.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele procurou novamente atrav�s dos olhos de Eileen, enfurecido com a pr�pria falta de cuidado. As coisas estavam dando muito errado. Ele se viu encarando o rosto do homenzinho com �culos de lentes grossas e manto.</p><p>E ent�o estava de volta na cela.</p><p>Dois guardas o pegaram pelos bra�os e o arrastaram na dire��o da porta.</p><p>� N�o � disse ele. � Por favor. Apenas alguns minutos.</p><p>� Ah, voc� gosta daqui, n�o �? � disse um dos guardas. Eles empurraram Fortunato para a porta da cela. O p� de Fortunato escorregou no lin�leo liso e ele caiu de quatro. O guarda chutou-o perto do rim esquerdo, n�o forte o suficiente para faz�-lo desmaiar.</p><p>Ent�o, eles o arrastaram novamente pelos corredores sem-fim de um verde desbotado para dentro de uma sala com pain�is escuros sem janelas e uma longa mesa de madeira. Um homem num terno barato, talvez com 30 anos, sentou-se do outro lado da mesa. Seu cabelo era castanho m�dio, seu rosto, comum. Havia uma placa dourada presa ao bolso de seu palet�. Ao lado dele estava sentado um homem de camisa polo e blazer caro. Tinha uma boa apar�ncia, excessivamente ariana, cabelos loiros ondulados, olhos azuis g�lidos. Fortunato lembrou-se do ma�om que Eileen havia descrito, Roman.</p><p>� Sargento Matthias? � disse o segundo guarda. O homem de terno barato concordou com a cabe�a. � � este aqui.</p><p>Matthias recostou-se na cadeira e fechou os olhos. Fortunato sentiu algo varrer sua mente.</p><p>� E a�? � Roman perguntou.</p><p>� N�o muito � disse Matthias. � Alguma telepatia, um pouco de telecinesia, mas � fraco. Duvido que consiga arrombar um cadeado.</p><p>� Ent�o, o que voc� acha? O chefe precisa se preocupar com ele?</p><p>� N�o vejo por qu�. Voc� poderia det�-lo um pouco por assassinar aquele garoto, ver o que acontece.</p><p>� Para qu�? � disse Roman. � Ele acabou de alegar leg�tima defesa. O juiz provavelmente vai dar uma medalha pra ele. Ningu�m se importa com aqueles moleques desgra�ados.</p><p>� Tudo bem � disse Matthias. Ele se voltou aos guardas. � Podem liber�-lo. J� acabamos com ele.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Levou mais uma hora para estar de volta � rua e, claro, ningu�m lhe ofereceu uma carona para casa. Mas tudo bem. O Bairro dos Curingas era onde precisava estar.</p><p>Sentou-se nos degraus da delegacia e alcan�ou a mente de Eileen.</p><p>Viu-se encarando a parede de tijolos de um beco. Estava vazio de pensamentos ou emo��es. Quando lutou para irromper na n�voa do c�rebro dela, sentiu a bexiga dela se soltar e a urina morna espalhar-se numa po�a sob ela e, rapidamente, ficar gelada.</p><p>� Ei, cara, sem dormir nos degraus.</p><p>Fortunato caminhou at� a rua e sinalizou para um t�xi. Colocou uma nota de vinte na pequena gaveta de metal e disse:</p><p>� Para o sul. E r�pido.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Ele saiu do t�xi na Chrystie Street, bem ao sul da Grand Street. Ela n�o se moveu. Sua mente estava vazia. Ele agachou � sua frente e buscou por alguns segundos, ent�o n�o conseguiu aguentar e caminhou at� o fim do beco. Esmurrou a lateral de uma ca�amba at� as m�os ficarem praticamente in�teis. Ent�o, voltou para tentar novamente.</p><p>Abriu a boca para falar algo. Nada saiu. N�o restaram palavras na sua cabe�a, apenas os aglomerados vermelhos de sangue e uma enxurrada de �cido que se elevava continuamente diante dos seus olhos.</p><p>Caminhou pela rua e discou o n�mero da emerg�ncia. Um carro buzinou para ele, que n�o entendeu por qu�. Ajoelhou-se diante de Eileen. Sua boca pendia aberta e um fio de saliva balan�ava sobre a blusa. Ele n�o aguentava olhar para ela. Fechou os olhos e alcan�ou sua mente, parando gentilmente seu cora��o.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Foi f�cil encontrar o templo. Estava somente a tr�s quarteir�es de dist�ncia. Seguiu apenas os rastros de energia dos homens que deixaram Eileen no beco.</p><p>Ele estava em p�, diante da rua da igreja de tijolos. Tinha que piscar os olhos o tempo todo para mant�-los focalizados. O rastro dos homens levavam ao pr�dio, e dois ou tr�s outros tra�os levavam para fora. Mas Balsam ainda estava l� dentro, Balsam, Clarke e mais uma d�zia.</p><p>Isso era bom. Queria todos, mas acertaria as contas com aqueles que estavam ali. Com eles, e suas moedas e suas m�scaras douradas, seus rituais, seu templo, tudo que fazia parte da tentativa de trazer a monstruosidade alien�gena para a Terra, que derramaram sangue e destru�ram mentes e arruinaram vidas para faz�-lo. Queria aquilo terminado, acabado, de uma vez por todas.</p><p>A noite estava extremamente fria, um v�cuo t�o frio quanto o espa�o sugando o calor e a vida de tudo que tocava. Suas bochechas queimaram e, ent�o, ficaram dormentes.</p><p>Ele buscou o poder que restava, e n�o era suficiente.</p><p>Por alguns segundos, ficou ali, e tremia com uma raiva impotente, pronto para ir ao pr�dio de m�os vazias e desgastadas. Ent�o, ele a viu, no canto, em p� na pose cl�ssica sob a luz de um poste. Cal�as pretas sensuais, jaqueta de pele de coelho, xale de pele falsa. Saltos de puta e maquiagem demais. Ele ergueu o bra�o lentamente e acenou para ela.</p><p>Ela parou na frente dele, olhando-o cuidadosamente de cima a baixo.</p><p>� Ei � disse ela. Sua pele estava ressequida e os olhos, cansados. � Vamos fazer um programa?</p><p>Ele tirou uma nota de cem d�lares da jaqueta e abriu o z�per da cal�a.</p><p>� Bem aqui na rua? Querido, voc� deve estar a perigo mesmo. � Ela olhou para a nota de cem e se ajoelhou. � Ai, esse cimento gelado. � Ela fu�ou nas cal�as dele e ent�o olhou para cima. � Que merda � essa? Sangue seco?</p><p>Ele tirou outra nota de cem. A mulher hesitou por um segundo, enfiou as duas notas na bolsa e prendeu a bolsa sob o bra�o.</p><p>Com o toque daquela boca, Fortunato endureceu instantaneamente. Sentiu uma onda subindo dos p�s, fazendo seu couro cabeludo e as unhas doerem. Seus olhos rolaram para cima at� estar encarando o segundo andar da velha igreja.</p><p>Queria usar seu poder para levantar o quarteir�o inteiro e lan��-lo para o espa�o, mas n�o tinha for�a para quebrar uma janela. Testou os tijolos e as vigas de madeira e a fia��o el�trica, e encontrou o que buscava. Seguiu o encanamento do g�s at� o por�o e de volta ao encanamento central, ent�o come�ou a mover o g�s por ele, formando a press�o do jeito que ela se formava dentro dele, at� os canos vibrarem, as paredes balan�arem e o cimento rachar.</p><p>A puta olhou para cima e na dire��o da rua, viu rachaduras fendendo as paredes.</p><p>� Corre � disse ele. Enquanto ela corria estalando os saltos, Fortunato esticou o bra�o e apertou os dedos na base do p�nis, for�ando a volta do jorro quente de sua ejacula��o. Seus intestinos viraram fogo, e na �gua-furtada acima do templo, o cano de a�o preto entortou e desligou-se de suas conex�es. Esguichou g�s e foi ao ch�o, lan�ando fa�scas pelas paredes de alambrado e gesso.</p><p>O pr�dio inchou por um instante, como se estivesse se enchendo de �gua, e em seguida explodiu numa bola de chama laranja enfuma�ada. Os tijolos chocaram-se na parede do outro lado, onde Fortunato estava, mas ele n�o conseguia desviar os olhos, n�o at� as sobrancelhas ficarem chamuscadas e a pele e suas roupas come�arem a queimar. O rugido da explos�o estilha�ou janelas pela rua inteira, e quando finalmente ela feneceu, o balir das sirenes e alarmes ocupou seu lugar.</p><p>Ele queria t�-los ouvido gritar.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Por fim, um t�xi parou para ele. O motorista queria lev�-lo ao hospital, mas Fortunato o dissuadiu disso com uma nota de cem d�lares.</p><p>Escalar as escadas at� o apartamento levou mais tempo do que qualquer outra coisa de que pudesse se lembrar. Entrou no quarto. Os travesseiros ainda tinham o cheiro de Eileen.</p><p>Voltou para a cozinha, pegou uma garrafa de u�sque e se sentou ao lado da janela, bebendo de uma vez, assistindo ao brilho vermelho do fogo lentamente morrer sobre o Bairro dos Curingas.</p><p>Quando finalmente desmaiou no sof�, sonhou com tent�culos e a carne �mida e el�stica, e os bicos que se abriam e fechavam com uma risada longa e reverberante.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><strong>1985</strong></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Um</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>Ap�s ter trancado a banca de jornal � noite, Jube encheu o carrinho de compras com jornais e partiu para a ronda di�ria pelos bares do Bairro dos Curingas.</p><p>Faltando menos de uma semana para o Dia de A��o de Gra�as, o vento frio de novembro tinha uma ponta amarga quando chegava assobiando pela Bowery. Jube arrastava-se com uma das m�os no velho chap�u-palheta surrado, enquanto a outra puxava o carrinho sobre a cal�ada rachada. Via-se, pelo tamanho da cal�a, que o defunto era muito maior, e sua camisa havaiana azul de mangas curtas era coberta de surfistas. Ele nunca usou casaco. Jube vendia jornais e revistas na esquina da Hester Street com a Bowery desde o ver�o de 1952, e nunca tinha usado um casaco at� ent�o. Sempre que lhe perguntavam sobre isso, ele ria, mostrando as presas, dava um tapa na barriga avantajada e dizia:</p><p>� Esta � toda a prote��o de que preciso, sim, senhor.</p><p>Em um dia bom, usando sapatos com salto, Jube Benson media no m�ximo pouco mais de um metro e meio, mas havia muito dele no pacote compacto, mais de 130 quilos de carne oleosa e negra azulada que lembrava borracha meio derretida. Seu rosto era largo e esburacado, seu cr�nio coberto com tufos de cabelo crespo ruivo, e duas pequenas presas curvadas nos cantos da boca. Cheirava a pipoca amanteigada e sabia mais piadas que qualquer outra pessoa no Bairro dos Curingas.</p><p>Jube caminhava bamboleando de forma en�rgica, sorrindo aos transeuntes, vendendo os jornais aos carros que passavam (mesmo naquela hora, a avenida principal do Bairro dos Curingas estava longe de estar deserta). No Funhouse, deixava uma pilha de <emphasis>Daily News</emphasis> para o porteiro entregar aos clientes na sa�da, junto com um <emphasis>New York Times</emphasis> para Des, o dono. Alguns quarteir�es adiante havia o Chaos Club, onde tamb�m entregava uma pilha de jornais. Jube havia guardado uma edi��o da <emphasis>National Informer</emphasis> para Brilhante. O porteiro pegou-a com a m�o magra e reluzente.</p><p>� Obrigado, Morsa.</p><p>� Leia com aten��o � disse Jube. � Est� falando a� que conseguiram um novo tratamento, transformam curingas em ases.</p><p>Brilhante riu.</p><p>� Ah, claro � disse ele, folheando as p�ginas. Um sorriso lento se abriu no rosto fosforescente. � Ei, olha aqui, Sue Ellen vai voltar para J.R.</p><p>� Sempre volta � Jube comentou.</p><p>� Dessa vez vai ter o beb�-curinga dele � disse Brilhante. � Meu Deus, que mulherzinha burra. � Dobrou o jornal sob o bra�o. � Ficou sabendo? � perguntou. � Gimli vai voltar.</p><p>� N�o diga � Jube respondeu. A porta se abriu atr�s deles. Brilhante pulou para segur�-la e assobiou chamando um t�xi para o casal bem-vestido que surgiu. Enquanto os ajudava a entrar, entregou-lhes o <emphasis>Daily News</emphasis> gratuito, e o homem deixou uma nota de cinco na m�o do curinga. Brilhante a fez desaparecer, com uma piscadela para Jube, que acenou e p�s-se em marcha novamente, deixando o porteiro fosforescente no meio-fio em sua libr� do Chaos Club, lendo atentamente a <emphasis>Informer.</emphasis></p><p>O Chaos Club e o Funhouse eram estabelecimentos de categoria; os bares, tavernas e caf�s nas ruas laterais raramente forneciam algo de gra�a. Mas ele era conhecido em todos eles, e deixavam-no vender os jornais de mesa em mesa. Jube parou no Pit e no Hairy�s Kitchen, jogou <emphasis>shuffleboard</emphasis> no Squisher�s Basement, entregou uma <emphasis>Penthouse</emphasis> para o Wally, do Wally�s. No Black Mike�s Pub, sob o sinal em neon da cerveja Schaefer, fez piada com algumas garotas que estavam trabalhando e deixou que contassem sobre o pol�tico limpo e estranho com quem transaram a tr�s.</p><p>Deixou o <emphasis>New York Times</emphasis> do Capit�o McPherson com o sargento de plant�o na delegacia do Bairro dos Curingas, e vendeu uma revista <emphasis>Sporting News</emphasis> para um policial � paisana, que achou que ele tinha uma pista sobre o Jokers Wild, onde um garoto de programa foi castrado no palco na semana anterior. No Twisted Dragon, �s margens de Chinatown, Jube livrou-se dos jornais chineses antes de seguir para o Freakers, na Chantham Square, onde vendeu um exemplar do <emphasis>Daily News</emphasis> e meia d�zia do <emphasis>Grito do Bairro dos Curingas</emphasis>.</p><p>Os escrit�rios do <emphasis>Grito</emphasis> ficavam do outro lado da pra�a. O editor da noite sempre pegava um <emphasis>New York Times</emphasis>, um <emphasis>Daily News</emphasis>, um <emphasis>Post</emphasis> e um <emphasis>Village Voice</emphasis>, e servia uma x�cara de caf� preto e lodoso para Jube.</p><p>� Noite fraca � disse Patola, mascando um charuto apagado enquanto virava as p�ginas dos concorrentes com suas pin�as.</p><p>� Ouvi dizer que a pol�cia vai fechar o est�dio de porn� curinga na Divisa � disse Jube, bebericando educadamente o caf�.</p><p>Patola apertou os olhos para olh�-lo.</p><p>� Voc� acha? N�o fiquei sabendo, Morsa. Aquele bando tem alguma liga��o. Com a fam�lia Gambione, eu acho. Onde voc� ouviu isso?</p><p>Jube lan�ou para ele um sorriso el�stico.</p><p>� Tenho que proteger minhas fontes, chefe. Ouviu aquela sobre o cara que casou com uma curinga, muito linda, cabelos loiros compridos, rosto de anjo, corpo perfeito? Na noite de n�pcias, ela vem com a camisola branca e diz pra ele: �Querido, tenho boas e m�s not�cias�. Ele fala �Tudo bem, fale primeiro as boas not�cias�. �Bem�, ela diz, �a boa not�cia � que o carta selvagem fez <emphasis>isto</emphasis> aqui comigo�, d� uma voltinha e mostra sua beleza at� ele sorrir e se babar todo. �Ent�o, qual � a m� not�cia?�, ele pergunta. Da� ela fala: �A m� not�cia � que meu nome � Joseph�.</p><p>Patola fez uma careta.</p><p>� Cai fora daqui � ele diz.</p><p>Os frequentadores do Ernie�s levaram alguns exemplares do <emphasis>Grito</emphasis> e um <emphasis>Daily News</emphasis>, e para o pr�prio Ernie ele havia trazido uma edi��o da revista <emphasis>Ring</emphasis>, que chegara naquela tarde. Era uma noite tranquila, ent�o Ernie lhe serviu uma pi�a colada, e Jube lhe contou aquela da noiva curinga que tinha boas e m�s not�cias para o marido.</p><p>O balconista da loja de <emphasis>donuts</emphasis> 24 horas pegou um <emphasis>Times</emphasis>. Quando virou na Henry Street para a �ltima parada, a carga de Jube estava t�o leve que o carrinho saltitava atr�s dele.</p><p>Havia tr�s t�xis fora da entrada abobadada do Crystal Palace, esperando passageiros.</p><p>� Ei, Morsa � chamou um dos taxistas enquanto ele passava. � Tem um <emphasis>Grito</emphasis> a�?</p><p>� Claro � disse Jube. Vendeu o jornal por uma moeda. O motorista tinha um ninho de filamentos parecido com cobras no lugar do bra�o direito, e nadadeiras no lugar das pernas, mas seu carro tinha controles manuais especiais e ele conhecia a cidade como a palma dos tent�culos. Tamb�m lucrava boas gorjetas. Nesses dias as pessoas ficavam t�o aliviadas quando pegavam um t�xi cujo motorista falasse ingl�s que nem ligavam para a apar�ncia.</p><p>O porteiro levou o carrinho de Jube degraus de pedra acima at� a entrada principal da casa geminada de tr�s andares da virada do s�culo. Dentro do vest�bulo vitoriano, Jube deixou o chap�u e o carrinho com a garota da chapelaria, juntou os jornais que restavam embaixo do bra�o e caminhou para dentro do sal�o imenso com p�-direito alto do bar. Elmo, o le�o de ch�cara an�o, estava carregando para fora um homem com cara de lula e uma m�scara domin� de lantejoulas quando Jube entrou. Havia uma contus�o feia num lado da cabe�a.</p><p>� O que ele fez? � perguntou Jube.</p><p>Elmo riu para ele.</p><p>� N�o � o que ele fez, � o que estava pensando em fazer. � O homenzinho empurrou as portas de vitrais com o cara de lula pendurado no ombro como um saco de cereais.</p><p>O Crystal Palace era a �ltima parada. Jube deu um giro pelo bar principal � dificilmente ligava para as salas laterais e suas alcovas acortinadas � e vendeu mais alguns jornais. Ent�o, subiu num banco. Sascha estava atr�s do longo balc�o de mogno, o rosto sem olhos e um bigode fin�ssimo refletiam no espelho enquanto misturava um <emphasis>planter�s punch</emphasis>. Pousou o copo diante de Jube sem falar nem receber pagamento algum.</p><p>Quando Jube bebericou o drinque, sentiu um vest�gio de perfume familiar e virou a cabe�a logo que Cris�lida se sentou no banco ao seu lado.</p><p>� Bom dia � disse ela. A voz era suave, com sotaque levemente brit�nico. Usava uma espiral de purpurina prateada numa bochecha e, como a carne era transparente por baixo dela, parecia flutuar como uma n�bula sobre a brancura do cr�nio. O batom era um brilho labial prata, e suas unhas longas reluziam como adagas. � Como vai a venda dos jornais, Jubal?</p><p>Ele sorriu para ela.</p><p>� J� ouviu a piada da noiva que tinha boas not�cias e m�s not�cias para o marido?</p><p>Em torno de sua boca, as sombras cinzentas fantasmag�ricas dos m�sculos torceram os l�bios prateados numa careta.</p><p>� Me poupe.</p><p>� Tudo bem. � Jube deu mais um gole no <emphasis>planter�s punch</emphasis> por um canudinho. � No Chaos Club eles botam um guarda-chuvinha neles.</p><p>� No Chaos Club eles servem drinques em cocos.</p><p>Jube bebericava o drinque.</p><p>� Aquele lugar na Divisa, onde filmam aquelas coisas <emphasis>hardcore</emphasis>? Ouvi que � uma opera��o dos Gambione.</p><p>� Not�cia velha � Cris�lida disse. Era hora de fechar. As luzes acenderam. Elmo come�ou a circular, empilhando cadeiras nas mesas e expulsando os clientes.</p><p>� O Troll ser� o novo chefe de seguran�a na cl�nica do Tachyon. O pr�prio doutor me disse.</p><p>� A��o afirmativa? � Cris�lida perguntou, ironicamente.</p><p>� Em partes � disse Jube. � E em parte porque tem quase tr�s metros de altura, � verde e quase invulner�vel. � Ele sugou o restante do drinque fazendo barulho, e mexeu o gelo mo�do com o canudo. � O cara da delegacia tem uma pista sobre o carta selvagem.</p><p>� N�o v�o achar � Cris�lida disse. � Se encontrarem, v�o desejar n�o ter encontrado.</p><p>� Se tivessem ju�zo, perguntariam pra voc�.</p><p>� N�o tem dinheiro suficiente no or�amento municipal pra pagar por <emphasis>essa</emphasis> informa��o � Cris�lida comentou. � Que mais? Voc� sempre guarda o melhor para o final.</p><p>� Acho que nada � Jube falou, girando o banco para encar�-la. � Mas ouvi falar que Gimli est� voltando para casa.</p><p>� Gimli? � Sua voz era impass�vel, mas os olhos azuis profundos suspensos nas �rbitas do cr�nio olharam para ele intensamente. � Que interessante. Tem detalhes?</p><p>� Ainda n�o � disse Jube. � Conto assim que souber.</p><p>� Tenho certeza de que contar�. � Cris�lida tinha informantes em todo o Bairro dos Curingas. Mas Jube, o Morsa, era um dos mais confi�veis. Todos o conheciam, todos gostavam dele, todos falavam com ele.</p><p>Jube foi o �ltimo cliente a deixar o Crystal Palace naquela noite. Quando saiu, come�ou a nevar. Ele limpou a garganta, pegou o chap�u com firmeza e arrastou-se pela Henry Street, puxando o carrinho vazio atr�s dele. Uma patrulha surgiu quando ele passava por baixo da ponte de Manhattan, lentamente, e abriu o vidro.</p><p>� Ei, Morsa � o policial negro atr�s do volante chamou. � Est� nevando, curinga idiota. Vai congelar as bolas.</p><p>� Bolas? � Jube respondeu. � Quem disse que curingas t�m bolas? Amo esse tempo, Chaz. Olhe para essas bochechas rosadas! � Ele beliscou a bochecha oleosa, negra azulada, e gargalhou.</p><p>Chaz suspirou, e abriu a porta traseira da viatura.</p><p>� Entra, vou te levar para casa.</p><p>A casa ficava num pr�dio espa�oso de cinco andares na Eldridge, uma viagem curta. Jube deixou o carrinho sob os degraus, ao lado das latas de lixo, enquanto abria a tranca do apartamento no por�o. A �nica janela estava totalmente tapada por um ar-condicionado enorme e antiqu�ssimo, seu gabinete enferrujado estava naquele momento meio coberto de neve esvoa�ante.</p><p>Quando acendeu as luzes, as l�mpadas avermelhadas de 15 watts na instala��o superior enchiam a sala com um crep�sculo sombrio escarlate. L� dentro era um frio de congelar os ossos, um pouco menos do que as ruas de novembro. Jube nunca ligava o aquecedor. Uma ou duas vezes ao ano, um homem da companhia de g�s passava para verificar se ele n�o havia mexido no medidor.</p><p>Embaixo da janela, panelas de carne verde em decomposi��o cobriam o tampo de uma mesa de carteado. Jube tirou a camisa, que revelou um peito largo com seis mamilos, pegou de um copo de gelo para triturar e pegou o bife mais maduro que conseguiu encontrar.</p><p>Um colch�o sem len�ol cobria o ch�o do quarto e, no canto, sua mais nova aquisi��o, uma banheira de porcelana para banhos quentes novinha, ficava na frente de uma televis�o com tela imensa. Exceto que �banhos quentes� n�o aconteciam, pois nunca havia usado o sistema de aquecimento. Aprendera muito sobre os humanos nos �ltimos vinte e tr�s anos, mas nunca havia entendido por que queriam ficar imersos em �gua escaldante, ele pensou enquanto tirava a roupa. At� os takisianos tinham mais ju�zo que isso.</p><p>Segurando o bife com uma das m�os, Jube cuidadosamente entrou na �gua g�lida e ligou a televis�o com o controle remoto para assistir aos programas de not�cias que havia gravado. Lan�ou o bife � boca larga e come�ou a mastigar a carne crua lentamente, enquanto flutuava ali, absorvendo cada palavra que Tom Brokaw tinha a dizer. Estava muito relaxante, mas, quando o programa acabou, Jube sabia que era hora de ir para o trabalho.</p><p>Saiu da banheira, arrotou e se secou com vigor numa toalha do Pato Donald. Uma hora, n�o mais, pensou consigo mesmo, enquanto caminhava pesadamente pelo quarto, deixando pegadas no assoalho de madeira. <emphasis>Estava</emphasis> cansado, mas tinha trabalho a fazer, ou ficaria ainda mais para tr�s. Em p�, no fundo do quarto, apertou uma longa sequ�ncia de n�meros no controle remoto. A parede de tijolos � sua frente pareceu se dissolver quando apertou o �ltimo d�gito.</p><p>Jube caminhou por aquilo que fora um por�o de carv�o. A parede ao fundo era dominada por um holocubo que fazia at� a televis�o parecer pequena. Um console com formato de ferradura contornava uma imensa poltrona de bra�os projetada para o corpo �nico de Jube. Em todos os lados da c�mara aconchegante havia m�quinas, algumas que teriam sido �bvias para qualquer aluno do ensino m�dio, outras que teriam deixado o pr�prio Dr. Tachyon estupefato.</p><p>Mesmo sendo primitivo, o escrit�rio se adequava muito bem a Jube. Sentou-se na poltrona, ligou a alimenta��o por fus�o celular e pegou uma haste cristalina do tamanho de um dedinho de crian�a de uma prateleira ao lado de seu cotovelo. Quando encaixou-a no orif�cio apropriado do console, o gravador acendeu-se por dentro, e ele come�ou a ditar as �ltimas observa��es e conclus�es numa l�ngua que parecia metade m�sica, metade cacofonia, formada em parte iguais de gritos, assobios, arrotos e cliques. Se os outros sistemas de seguran�a falhassem, seu trabalho ainda estaria a salvo. No mais, n�o havia outro sensitivo no raio de quarenta anos-luz que falasse sua l�ngua nativa.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>At� a sexta gera��o</strong></p><p>Walter Jon Williams</p><empty-line/><p><strong>Pr�logo</strong></p><p>Ele ainda estava fumegando no ponto em que a atmosfera queimou sua carne. O sangue quente corria de suas narinas. Tentou fech�-las para manter o resto do l�quido, mas perdeu a capacidade de controlar a respira��o. Os fluidos tinham superaquecido durante a descida e se extinguido dos diafragmas como vapores de uma caldeira explodindo.</p><p>As luzes piscavam para ele no fim do beco. Ofuscavam seus olhos. Sons r�spidos rachavam em seus ouvidos. O sangue evaporava no concreto assim que esfriava.</p><p>A M�e do Enxame detectou sua nave, atingiu-o com uma vasta carga de part�culas gerada no corpo planetoide monstruoso da criatura. Mal teve a oportunidade de sinalizar para Jhubben na superf�cie do planeta antes de a quitina da nave ser rasgada. Foi for�ado a agarrar o deslocador de singularidade, fonte de for�a experimental da sua ra�a, e pulou no v�cuo escuro. Mas o deslocador tinha sido danificado no ataque e ele n�o conseguia control�-lo � havia queimado na descida.</p><p>Tentou reunir a concentra��o e regenerar a carne, mas falhou. Percebeu que estava morrendo.</p><p>Era necess�rio para impedir a drenagem da vida. Havia um cont�iner de metal pr�ximo, grande, com uma tampa articulada. Seu corpo era uma agonia reluzente, ele rolou na frente da superf�cie �mida do concreto e enganchou a perna que n�o estava ferida na tampa do cont�iner. A perna era poderosa, concebida para saltar no c�u de seu mundo de pouca gravidade, e agora era sua esperan�a. Moveu seu peso contra a gravidade opressiva, rolando o corpo sobre a extens�o da perna. Os nervos feridos lamentaram em seu corpo. O fluido esguichou na parte de fora do cont�iner.</p><p>O metal retumbou quando caiu dentro dele. Subst�ncias estalaram sob ele. Olhou para cima na noite que brilhava com o infravermelho refletido. Havia peda�os de mat�ria org�nica ali, esmagada e achatada, com corantes impressos sobre eles em padr�es. Ele os agarrou com palpos e c�lios, rasgando-os em tiras, empurrando-os contra suas narinas vazantes. Interrompendo o fluxo.</p><p>Cheiros org�nicos chegaram at� ele. Houve vida ali, mas estava extinta.</p><p>Buscou o deslocador no abd�men, arrancou o aparelho, prendeu-o no peito rasgado. Se pudesse parar o tempo por um instante, conseguiria se recuperar. Ent�o, de alguma forma, tentaria sinalizar para Jhubben. Talvez, se o deslocador n�o estivesse t�o danificado, poderia dar um salto curto at� as coordenadas dele.</p><p>O deslocador zuniu. Mostradores com luz estranha, um efeito colateral, piscavam levemente na escurid�o do cont�iner. O tempo passou.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Ent�o, noite passada, recebi uma liga��o da minha vizinha, Sally�</p><p>De forma t�nue, de dentro de seu casulo do tempo, ouviu o som da voz. Ela ecoou levemente dentro do seu cr�nio.</p><p>� E Sally, ela disse, Hildy, ela disse, eu acabei de falar com a minha irm� Margaret, na Calif�rnia. Voc� se lembra de Margaret, ela disse. Ela foi para a escola com voc�, na St. Mary.</p><p>Houve um baque contra o metal perto de seus palpos auditivos. Uma silhueta contra a noite brilhante. Bra�os que o alcan�aram.</p><p>A agonia voltou. Ele gritou, um chiado. O toque escalou seu corpo.</p><p>� Claro que me lembro de Margaret, eu disse. Ela estava um ano atr�s de mim. As irm�s sempre ficavam atr�s dela, porque ela s� sabia mascar chicletes.</p><p>Algo segurava seu deslocador. Ele o manteve contra si, tentou protestar.</p><p>� � meu, idiota � a voz disse, r�pida e irritada. � Eu vi primeiro.</p><p>Ele viu um rosto. Carne p�lida suja de poeira, dentes � mostra, c�lios cinzentos pendendo por tr�s de uma extrus�o inorg�nica.</p><p>� N�o � disse ele. � Estou morrendo.</p><p>Com um pux�o, a criatura arrancou o deslocador dele. Ele gritou quando o calor o deixou, enquanto sentia a morte lenta e fria voltar.</p><p>� Cala a boca a�. � meu.</p><p>A dor come�ou a pulsar lentamente por seu corpo.</p><p>� Voc� n�o entende � disse ele. � H� uma M�e do Enxame pr�xima do seu planeta.</p><p>A voz zumbia. Coisas estalavam e chiavam no cont�iner.</p><p>� Ent�o, Margaret, a Sally disse, ela casou com aquele engenheiro da Boeing. E eles tiram cinquenta paus no ano, no m�nimo. F�rias no Hava�, em S�o Tom�s, pelo amor de Deus.</p><p>� Ou�a, por favor. � A dor crescia. Ele sabia que tinha apenas pouco tempo. � A M�e do Enxame j� desenvolveu intelig�ncia. Percebeu que eu a identifiquei e me atingiu.</p><p>� Mas ela n�o tem que lidar com a minha fam�lia, a Sally disse. Est� na outra maldita costa, a Sally disse.</p><p>Seu corpo chorava escarlate.</p><p>� O pr�ximo est�gio ser� um Enxame da primeira gera��o. Eles vir�o logo para o seu planeta, controlados pela M�e do Enxame. Por favor, ou�a.</p><p>� Ent�o, tirei minha m�e da assist�ncia social e botei neste belo apartamento, Sally disse. Mas a assist�ncia social quer que eu e Margaret demos cinco d�lares extras por m�s para a mam�e. E Margaret, ela disse, ela n�o tem dinheiro. As coisas s�o caras na Calif�rnia, ela disse.</p><p>� Voc�s correm um perigo terr�vel. Por favor, ou�a.</p><p>O metal retumbou de novo. A voz estava ficando cada vez mais fraca com a dist�ncia.</p><p>� Ent�o, as coisas est�o bem f�ceis aqui, Sally disse. Tenho cinco filhos e dois carros e uma hipoteca, e Bill diz que as coisas est�o nas �ltimas l� na ag�ncia.</p><p>� O Enxame. O Enxame. Fale para Jhubben!</p><p>O outro foi embora, e ele estava morrendo. O material sob ele estava absorvendo seus fluidos. Respirar era uma agonia.</p><p>� Est� frio aqui � disse ele. L�grimas vinham do c�u, tilintando contra o metal. As l�grimas eram �cidas.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Dois</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>Na casa espa�osa da Eldridge Street, os inquilinos estavam fazendo uma festinha de Natal, e Jube se vestiu de Papai Noel. Ele era meio baixinho para o papel, e Papai Noel, nas vitrines das lojas, dificilmente tinha presas, mas Jube conhecia bem o <emphasis>ho-ho-ho</emphasis>.</p><p>A festa aconteceu na sala de estar do primeiro andar. Foi cedo neste ano, pois a Sra. Holland seguiria de avi�o para Sacramento na semana seguinte para passar o feriado com o neto, e ningu�m queria fazer uma festa sem a Sra. Holland, que morava no pr�dio quase havia tanto tempo quanto Jube, e viu todos eles passarem por alguns momentos dif�ceis. Exceto pelo padre Fahey, o jesu�ta alco�latra do quinto andar, os inquilinos eram todos curingas, e nenhum deles tinha muito dinheiro para presentes de Natal. Ent�o, cada um deles comprou um presente, e todos os presentes cabiam numa grande bolsa de carteiro de lona, e era tarefa anual do Jube mistur�-los e entreg�-los. Ele amava o trabalho. Os padr�es humanos de presentear eram infinitamente fascinantes, e, algum dia, pretendia escrever um estudo sobre o assunto, assim que terminasse seu tratado sobre humor humano.</p><p>Sempre come�ava com o Doughboy, que era grande, mole e branco como cogumelo e vivia com o negro chamado Engraxado, num apartamento do segundo andar. O Doughboy ultrapassava Jube em mais de cem quilos, e era t�o forte que arrancava a porta da frente de suas dobradi�as ao menos uma vez por ano (Engraxado sempre arrumava). Doughboy adorava rob�s, bonecas, caminh�es de brinquedo e armas de pl�stico que faziam barulho, mas quebrava tudo em quest�o de dias, e os brinquedos que realmente amava quebravam em horas.</p><p>Jube embalou o presente em folha prateada, para que ele n�o desse � outra pessoa por engano.</p><p>� Ah, cara � Doughboy gritou quando abriu o pacote. Segurou no alto para todos verem. � Uma arma de raio, ah, cara, ah, cara. � Era rubro-negra, transl�cida, moldada em linhas suaves e sensuais, de alguma forma inquietantes, com um cano fino como um l�pis. Quando seus dedos envolveram a coronha e apontaram para a Sra. Holland, pontos de luz piscaram dentro dela, e Doughboy gritou de felicidade quando o computador corrigiu a mira.</p><p>� Isso � um brinquedo � Callie disse. Ela era uma mulher pequena, melindrosa, com quatro bra�os extras in�teis.</p><p>� <emphasis>Ho, ho, ho</emphasis> � disse Jube. � Ele n�o vai conseguir quebr�-lo.</p><p>Doughboy espremeu os olhos para o Velho Sr. Cricket e pressionou o gatilho, fazendo ru�dos chiados, altos, entredentes.</p><p>Engraxado riu.</p><p>� Aposto que vai.</p><p>� Vai perder � disse Jube. A liga met�lica de Ly�bahr era densa e forte o suficiente para aguentar uma pequena explos�o termonuclear. Ele mesmo usou a arma durante seu primeiro ano em Nova York, mas a parte el�trica tinha se desgastado, e ap�s um tempo tornou-se muito mais uma chatea��o. Claro, Jube removeu a c�lula de energia antes de embrulhar o presente para Doughboy, e um perturbador da Rede n�o era o tipo de coisa que se conseguiria energizar com uma pilha grande.</p><p>Algu�m botou um <emphasis>eggnog</emphasis>, generosamente batizado com rum e noz-moscada, na m�o dele. Jube tomou um grande gole, riu com prazer e continuou a entrega dos presentes. Callie foi a pr�xima, e ganhou um tal�o de ingressos para o cinema da vizinhan�a. Denton, do quarto andar, recebeu uma touca tricotada de l�, que pendurou na ponta de seus chifres, provocando riso geral. Reginald, que as crian�as da vizinhan�a chamavam de Cabe�a de Batata (embora n�o fosse pelo seu rosto), acabou com um barbeador el�trico; Engraxado recebeu um cachecol multicolorido. Eles se olhavam, riam e trocavam presentes.</p><p>Ele fez seu caminho pela sala de pessoa a pessoa at� todos terem um presente. O �ltimo presente na bolsa em geral era o dele; neste ano, contudo, a bolsa estava vazia ap�s a Sra. Holland tirar seus ingressos para <emphasis>Cats</emphasis>. Jube ficou um pouco constrangido. Deve ter mostrado isso em seu rosto. Houve gargalhada em toda a sala.</p><p>� N�o esquecemos voc�, Homem-Morsa � disse Chucky, o garoto com pernas de aranha que levava mensagens at� a Wall Street.</p><p>� Este ano fizemos uma vaquinha; voc� vai ganhar algo especial. � Engraxado acrescentou.</p><p>A Sra. Holland deu o presente a ele. Era pequeno e com papel de embrulho de uma loja. Jube abriu-o cuidadosamente.</p><p>� Um rel�gio!</p><p>� N�o � um rel�gio, Morsa, � um <emphasis>cron�metro</emphasis>! � Chucky disse. � Autom�tico, � prova d��gua e de choque tamb�m.</p><p>� Esse rel�gio vai te mostrar a data, e as fases da lua, droga, ele mostra tudo, menos quando sua namorada estiver naqueles dias � Engraxado disse.</p><p>� Engraxado! � disse a Sra. Holland, indignada.</p><p>� Voc� usa aquele rel�gio do Mickey Mouse desde que, bem, desde que <emphasis>eu</emphasis> te conhe�o � Reginald falou. � Todos pensamos que j� era hora de voc� ter algo um pouco mais moderno.</p><p>Era um rel�gio muito caro. Assim, claro, n�o havia outra coisa a fazer, sen�o us�-lo. Jube tirou o do Mickey de seu pulso grosso e colocou o cron�metro novinho com sua pulseira flex�vel de metal. Pousou o velho rel�gio cuidadosamente em cima da prateleira sobre a lareira e deu uma volta na sala lotada, agradecendo a cada um deles.</p><p>Em seguida, o Velho Sr. Cricket esfregou as pernas para a afina��o do �Jingle Bells�, e a Sra. Holland serviu o peru que ganhara na rifa da igreja (Jube empurrou sua por��o pela sala o suficiente para que parecesse que ele comeu um pouco), e teve mais <emphasis>eggnog</emphasis> para beber, e um carteado ap�s o caf� e, quando ficou bem tarde, Jube contou algumas de suas piadas. Finalmente ele percebeu que era hora de se retirar; deu folga ao ajudante, ent�o precisava abrir a banca ele mesmo de manh� bem cedinho. Mas quando foi at� a prateleira para sair, o Mickey havia sumido.</p><p>� Meu rel�gio! � Jube exclamou.</p><p>� O que voc� quer com aquela coisa velha, agora que voc� tem um novinho? � Callie perguntou.</p><p>� Tem valor sentimental � Jube comentou.</p><p>� Eu vi o Doughboy brincando com ele � disse o Verruga. � Ele gosta do Mickey Mouse.</p><p>Engraxado tinha colocado o Doughboy na cama havia horas. Jube teve de subir para o apartamento deles. Encontrou o rel�gio no p� de Doughboy, e Engraxado estava cheio de desculpas.</p><p>� Acho que ele quebrou � o velho disse.</p><p>� � muito resistente � falou Jube.</p><p>� Estava fazendo um barulho � comentou Engraxado. � Zumbindo. Quebrado por dentro, eu acho.</p><p>Por um momento, Jube n�o entendeu o que ele estava falando. Ent�o, a confus�o deu lugar ao medo.</p><p>� Zumbidos? Quanto tempo�?</p><p>� Um bom tempo � Engraxado disse, quando devolveu o rel�gio. De dentro da caixa vinha um chiado alto e fino. � Voc� est� bem?</p><p>Jube balan�ou a cabe�a.</p><p>� Cansado � ele comentou. � Feliz Natal. � E ent�o desceu as escadas pesadamente, o mais r�pido que p�de.</p><p>Em seu apartamento frio e escuro, correu para o por�o de carv�o. L� dentro, seguro o suficiente, o comunicador tinha um brilho violeta, c�digo de cor da Rede para emerg�ncia extrema. Seus cora��es estavam na boca. Quanto tempo? Horas, <emphasis>horas</emphasis>, e todo o tempo ele estivera festejando. Jube ficou enjoado. Jogou-se na cadeira e apertou bot�es no console para executar a mensagem que tinha gravado.</p><p>O holocubo brilhava por dentro, numa n�voa de luz violeta. No centro estava Ekkedme, as pernas de salto traseiras dobradas sob ele, parecia quase agachado. O cris�lida embe obviamente estava num estado de grande agita��o; os c�lios que cobrem seu rosto tremiam enquanto provavam o ar, e os palpos sobre sua pequena cabe�a giravam freneticamente. Enquanto Jube assistia, o fundo violeta do c�digo desapareceu e o interior lotado da nave unit�ria tomou forma. �A M�e!�, Ekkedme gritou na <emphasis>l�ngua de contato</emphasis>, for�ando as palavras por suas narinas num sotaque embe sibilante. O holograma estilha�ou-se em uma imagem est�tica.</p><p>Quando se reintegrou um instante depois, o embe recuou de repente para um lado, esticando o membro frontal, fino como um graveto, e arrancou uma bola preta lisa da pelagem branca p�lida de seu peito quitinoso. Come�ou a falar algo, mas atr�s dele a parede da nave unit�ria entortou-se para dentro com um ru�do met�lico terr�vel, e ent�o se desintegrou totalmente. Jube assistia com horror quando ar, instrumentos e o embe foram sugados na dire��o das estrelas frias e est�ticas. Ekkedme bateu numa divis�ria irregular e deslizou mais para cima, segurando firme a bola enquanto as pernas traseiras lutavam desesperadamente. Um torvelinho de luz percorreu a superf�cie da esfera, e ent�o pareceu se expandir. Uma onda preta r�pida engoliu o embe; quando ela recuou, ele desapareceu. Jube ousou respirar de novo.</p><p>A transmiss�o foi interrompida bruscamente um instante depois.</p><p>Jube apertou a repeti��o, achando que havia perdido algo. Conseguiu assistir a apenas metade. Ent�o ele se levantou, correu para o banheiro e vomitou todo o <emphasis>eggnog</emphasis> da noite.</p><p>Estava mais calmo quando voltou. Tinha de pensar, tinha de ver as coisas com calma. P�nico e culpa n�o o levariam a lugar algum. Mesmo se estivesse usando o rel�gio, n�o conseguiria ter descido a tempo para pegar a chamada, e, de qualquer forma, n�o havia nada que pudesse fazer. Al�m disso, Ekkedme escapou com o deslocador de singularidade, Jube tinha visto com os pr�prios olhos, certamente o colega estava em seguran�a�</p><p>� apenas� se ele tivesse conseguido� onde ele estava?</p><p>Jube olhou em volta, lentamente. O embe certamente n�o estava <emphasis>ali</emphasis>. Mas onde mais poderia ter ido? Quanto tempo poderia sobreviver naquela gravidade? E o que <emphasis>aconteceu</emphasis> l� em cima, em �rbita?</p><p>Carrancudo, conectou-se aos rastreadores via sat�lite. Havia seis deles, aparelhos sofisticados do tamanho de bolas de golfe, carregados com sensores rhindarianos. Ekkedme usou-os para monitorar padr�es clim�ticos, atividade militar e transmiss�es de r�dio e televis�o, mas tamb�m tinham outros usos. Jube varreu os c�us metodicamente, buscando uma nave unit�ria, mas onde deveria estar encontrou apenas destro�os.</p><p>De repente, Jube sentiu-se muito sozinho.</p><p>Ekkedme era� bem, n�o um amigo, n�o do jeito que os humanos l� em cima eram amigos, nem mesmo t�o pr�ximo quanto Cris�lida ou Patola, mas� suas esp�cies tinham pouco em comum, na verdade. Ekkedme era um tipo estranho e solit�rio, enigm�tico e n�o comunicativo; e 23 anos em �rbita, trancado no confinamento estrito de sua nave unit�ria com nada para ocupar-se al�m de medita��o e monitoramento, tinha transformado o estranho cris�lida numa criatura quieta� mas, claro, essa foi a raz�o pela qual ele foi escolhido entre todos aqueles que o Mestre Comerciante poderia ter selecionado quando a nave <emphasis>Opportunity</emphasis> chegou havia tanto tempo, no ano humano de 1952, para observar os resultados do grande experimento takisiano. Espont�neas, as mem�rias vieram. A imensa nave espacial da Rede circulou o pequeno planeta verde entre junho e setembro, com pouco interesse. A civiliza��o nativa era promissora, mas pouco mais avan�ada do que era nas visitas anteriores, poucos s�culos antes. E o louvado v�rus takisiano, o v�rus carta selvagem, parecia ter produzido grandes quantidades de esquisitos, mutilados e monstros. Mas o Mestre Comerciante gostava de cobrir todas as possibilidades, ent�o, quando a <emphasis>Opportunity</emphasis> partiu, deixou para tr�s dois observadores: o embe na �rbita e um xen�logo na superf�cie. O Mestre Comerciante se divertia escondendo seu agente vis�vel nas ruas de uma das maiores cidades do mundo. E para Jhubben, que tinha assinado um contrato de presta��o de servi�os vital�cio pela chance de viajar para mundos distantes, era uma oportunidade rara de fazer um trabalho importante.</p><p>Ainda assim, at� aquele momento, sempre havia a certeza de que algum dia a <emphasis>Opportunity</emphasis> voltaria, que algum dia ele veria novamente o voo espacial, e talvez at� voltasse para as geleiras e cidades de gelo de Glabber, atr�s de seu melanc�lico sol vermelho. O cris�lida embe nunca foi um amigo de verdade; ainda assim Ekkedme tinha sua import�ncia. Tinham um passado compartilhado. Apenas Jube sabia que o embe observava, ouvia; apenas o Ekkedme sabia que Jube, o Morsa, o jornaleiro curinga, era na verdade Jhubben, um xen�logo de Glabber. O cris�lida era uma liga��o com seu passado, com sua terra natal e seu povo, com a <emphasis>Opportunity</emphasis> e a pr�pria Rede, com seus membros de 137 esp�cies espalhados em milhares de mundos estranhos.</p><p>Jube olhou para o novo rel�gio que os amigos haviam lhe dado. Passava das duas. A mensagem foi recebida pouco antes das oito. Ele nunca tinha usado um deslocador de singularidade � era um dispositivo embe, ainda experimental, alimentado por um miniburaco negro e capaz de funcionar como um campo de estase, um dispositivo de teletransporte e at� mesmo uma fonte de energia, mas car�ssimo, com seus segredos zelosamente guardados pela Rede. Ele n�o fingia entender seu funcionamento, mas deveria ter trazido Ekkedme <emphasis>aqui</emphasis>, onde Jhubben poderia ajud�-lo. Se o deslocador falhou, o embe poderia ter se teletransportado para o v�cuo do espa�o, ou para o fundo do oceano ou� bem, para <emphasis>qualquer lugar</emphasis> ao alcance.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a imensa. O que poderia fazer? Se Ekkedme ainda estivesse vivo, encontraria uma maneira de chegar at� ele. Jube estava sem for�as para ajud�-lo. Enquanto isso, tinha um problema mais urgente: algo, ou algu�m, descobriu, atacou e destruiu a nave unit�ria. Os humanos n�o tinham tecnologia, nem motivos. Quem quer que fosse respons�vel obviamente n�o era amigo da Rede, e se soubesse de sua exist�ncia, poderia vir atr�s dele tamb�m. Jube desejou n�o ter dado sua arma para o Doughboy.</p><p>Ele assistiu � derradeira transmiss�o do embe uma �ltima vez, na esperan�a de encontrar uma pista para o inimigo desconhecido. N�o havia nada, exceto� �A M�e!�, Ekkedme tinha dito. O que era aquilo? Alguma invoca��o religiosa do embe, ou seu colega estava mesmo chamando pela f�mea que o chocara?</p><p>Jube passou as pr�ximas horas flutuando na banheira, pensando. N�o saboreava aqueles pensamentos, ainda que a l�gica fosse inescap�vel. A Rede tinha muitos inimigos, dentro e fora dela, mas apenas um rival poderoso de verdade no setor espacial, e apenas um que pudesse ficar violentamente irritado por encontrar a Terra sob observa��o: uma esp�cie t�o parecida e t�o diferente dos humanos, dominadora e indiferente, racista, implacavelmente cruel e capaz da maioria das atrocidades, a julgar por aquilo que fizeram na Terra, e o que regularmente faziam entre os seus.</p><p>Quando a aurora se aproximou, vestindo-se ap�s uma noite insone, Jube estava praticamente convencido disso. Apenas uma nave simbionte takisiana poderia ter feito aquilo que ele testemunhou. <emphasis>O arp�o-fantasma ou o laser?</emphasis>, pensou. N�o era especialista em equipamentos militares.</p><p>Era um dia cinzento, pegajoso, depressivo, e o humor de Jube se encaixava perfeitamente nele quando abriu a banca de jornal. Os neg�cios estavam fracos. Era pouco depois das oito quando o Dr. Tachyon desceu a Bowery, usando um casaco de pele branco e limpando uma mancha de ovo na gola.</p><p>� Algo errado, Jube? � Tachyon perguntou quando parou para pegar o <emphasis>New York Times</emphasis>. � Voc� n�o parece bem.</p><p>Jube n�o conseguia encontrar as palavras.</p><p>� Hum, sim, doutor. Um amigo meu� hum� morreu. � Ele olhou para o rosto de Tachyon, buscando um vest�gio de culpa. A culpa vinha t�o facilmente para os takisianos, com certeza ele se trairia se soubesse de algo.</p><p>� Sinto muito � o doutor disse, a voz sincera e solid�ria. � Tamb�m perdi algu�m esta semana, um assistente da cl�nica. Tenho a suspeita horr�vel de que o homem foi assassinado. Um dos meus pacientes desapareceu no mesmo dia, um homem chamado Spector. � Tachyon suspirou. � E agora a pol�cia quer que eu realize uma aut�psia num pobre curinga que encontraram numa ca�amba de lixo em Chelsea. O homem parece um gafanhoto peludo, McPherson comentou comigo. Isso faz dele um dos meus, viu. � Ele balan�ou sua cabe�a, exausto. � Bem, v�o ter que mant�-lo no freezer at� eu poder organizar a busca pelo Sr. Spector. Fique de ouvidos abertos, Jube, e me informe se souber de alguma coisa, tudo bem?</p><p>� Voc� disse um gafanhoto? � Jube tentou manter a voz espont�nea. � Um gafanhoto peludo?</p><p>� Sim � Tach disse. � N�o � algu�m que voc� conhe�a, espero.</p><p>� N�o tenho certeza � disse Jube, rapidamente. � Talvez eu pudesse ir e dar uma olhada. Conhe�o muitos curingas.</p><p>� Ele est� no necrot�rio, na First Avenue.</p><p>� N�o sei se conseguiria � disse Jube. � Tenho um est�mago delicado, doutor. Que tipo de lugar � esse necrot�rio?</p><p>Tachyon garantiu a Jube que n�o era nada assustador. Para acalmar qualquer apreens�o, descreveu o necrot�rio e seus procedimentos. Jube memorizou cada detalhe.</p><p>� N�o parece t�o ruim � disse, por fim. � Talvez eu d� uma olhadinha, caso seja, hum, o rapaz que eu conhe�o.</p><p>Tachyon concordou com a cabe�a, distraidamente, sua mente em outros problemas.</p><p>� Sabe � disse ele a Jube � que o tal Spector, o paciente que desapareceu� ele estava morto quando o trouxeram para mim. Salvei a vida do homem. E se eu n�o tivesse, talvez Henry ainda estivesse vivo. Claro, n�o tenho provas. � Dobrando seu <emphasis>New York Times</emphasis> sob o bra�o, o takisiano saiu caminhando pesadamente pela lama.</p><p>Pobre Ekkedme, pensou Jube. Morrer t�o longe de casa� n�o tinha ideia de quais eram os costumes funer�rios dos embes. N�o havia nem tempo para o luto. Tachyon n�o sabia, �bvio. E o mais importante, Tachyon n�o <emphasis>deveria</emphasis> saber. A presen�a da Rede na Terra deve ser mantida em segredo a todo custo. E se o takisiano realizasse a aut�psia, ele <emphasis>saberia</emphasis>, n�o havia d�vida. Tachyon aceitou Jube como curinga, e por que n�o? Parecia t�o humano quanto a maioria dos curingas, e estava no Bairro dos Curingas havia mais tempo que o pr�prio doutor. Glabber era um fim de mundo, pobre e obscuro. N�o tinha voos espaciais pr�prios, e menos de uma centena de glabberianos prestava servi�os nas grandes espa�onaves da Rede. As chances de ele reconhecer Jhubben eram pr�ximas de zero. Mas os embes habitavam dezenas de mundos, suas espa�onaves eram conhecidas em mais de uma centena; eram grande parte da Rede, como os ly�bahres, kondikkis, aevres, ou mesmo os Mestres Comerciantes. Uma olhada naquele corpo e Tachyon saberia.</p><p>Jube se balan�ou sobre os calcanhares, sentindo as primeiras fisgadas do p�nico. Tinha que pegar aquele corpo antes que Tachyon o visse. E o <emphasis>deslocador</emphasis>, como poderia se esquecer daquilo! Se um artefato t�o valioso quanto um deslocador de singularidade ca�sse em m�os takisianas, n�o seria poss�vel prever quais consequ�ncias poderiam ter. Mas <emphasis>como</emphasis>?</p><p>Um homem que ele nunca vira antes parou diante da banca de jornal. Distra�do, Jube olhou para ele.</p><p>� Jornal?</p><p>� Um de cada � o homem disse �, como de costume.</p><p>Levou um momento para cair a ficha, mas, quando caiu, Jube saiba que tinha ali a sua resposta.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Das cinzas �s cinzas</strong></p><p>Roger Zelazny</p><empty-line/><empty-line/><p>O R�dio cuspiu est�tica. Croyd Crenson esticou o bra�o, desligou-o e o lan�ou pelo quarto na dire��o do cesto de lixo ao lado da penteadeira. Achou que foi um bom press�gio ele ter ca�do dentro.</p><p>Ent�o, esticou-se, tirou as cobertas de cima de si e olhou seu corpo p�lido e nu. Tudo parecia estar no lugar e normalmente sim�trico. Desejou levitar e nada aconteceu, ent�o jogou as pernas para a beirada da cama e se sentou. Passou a m�o pelos cabelos, contente por descobrir que tinha cabelos. Acordar sempre era uma aventura.</p><p>Tentou ficar invis�vel, derreter o cesto de lixo com um pensamento ou criar um arco de fa�scas com as pontas dos dedos. Nenhuma dessas coisas ocorreu.</p><p>Levantou-se e foi ao banheiro. Enquanto bebia copo atr�s de copo d��gua, examinou-se no espelho. Cabelos e olhos claros dessa vez, fei��es regulares; na verdade, era bastante bonito. Achou que tinha apenas um pouco mais de um metro e oitenta de altura. Bem musculoso tamb�m. Devia haver algo no arm�rio que servisse. Tivera essa altura e constitui��o antes.</p><p>Era um dia cinzento, com trechos de neve de apar�ncia lamacenta forrando a cal�ada do outro lado da rua. �gua gotejava na sarjeta. Croyd parou no caminho para o arm�rio para retirar uma haste de metal pesada de uma caixa sob a escrivaninha. A for�a ainda persistia, ele refletiu, quando o rolo de metal se juntou ao r�dio no cesto de lixo. Ele localizou uma camisa e cal�as que ficavam bem nele, e um casaco de <emphasis>tweed</emphasis> apenas levemente apertado nos ombros. Voltou sua aten��o para a imensa cole��o de sapatos e, depois de um tempo, escolheu um par confort�vel.</p><p>Passava um pouco das oito de acordo com seu Rolex e, por ser inverno e ter luz do dia, isso significava manh�. Seu est�mago roncou. Hor�rio para caf� da manh� e orienta��o. Verificou o esconderijo do dinheiro e tirou duas notas de cem d�lares. <emphasis>Est� acabando</emphasis>, ele pensou. <emphasis>Tenho que visitar o banco mais tarde</emphasis>. <emphasis>Ou talvez roubar um</emphasis>. <emphasis>As a��es tamb�m estavam caindo, da �ltima vez</emphasis>. <emphasis>Mais tarde</emphasis>�</p><p>Ele se equipou com um len�o, um pente, as chaves e um pequeno frasco pl�stico de p�lulas. N�o gostava de carregar identifica��o de qualquer tipo. N�o precisava de um sobretudo. Temperaturas extremas raramente o incomodavam.</p><p>Trancou a porta atr�s de si, transp�s o corredor e desceu as escadas. Virou � esquerda quando chegou � rua, encarando um vento cortante, e come�ou a descer a Bowery. Deixando uma nota na m�o esticada de um curinga alto e cadav�rico com um nariz como uma ponta de gelo � que ficou t�o parado quanto um totem na porta de uma loja de m�scara fechada �, Croyd lhe perguntou que m�s era.</p><p>� Dezembro � a figura disse sem mover os l�bios. � Feliz Natal.</p><p>� � � disse Croyd.</p><p>Ele tentou mais alguns testes simples quando rumou para a primeira parada, mas n�o conseguiu quebrar as garrafas de u�sque vazias na sarjeta com um pensamento, nem botar fogo em nenhuma das pilhas de lixo. Tentou emitir ultrassons, mas apenas produziu guinchos.</p><p>Seguiu at� a banca de jornal na Hester Street, onde o pequeno e gordo Jube Benson estava sentado, lendo um de seus jornais. Vestia uma camisa havaiana amarela e laranja embaixo de um casaco de ver�o azul-claro; tufos de cabelos ruivos sa�am sob o chap�u-palheta. A temperatura n�o parecia incomod�-lo mais do que a Croyd. Ele levantou o rosto escuro, inchado e marcado e mostrou um par de presas curtas e curvas quando Croyd parou diante da banca.</p><p>� Jornal? � perguntou.</p><p>� Um de cada � disse Croyd �, como de costume.</p><p>Os olhos de Jube espremeram-se levemente, enquanto examinava o homem diante dele. Ent�o perguntou:</p><p>� Croyd?</p><p>Croyd concordou com a cabe�a.</p><p>� Sou eu mesmo, Morsa. Como est�o as coisas?</p><p>� Posso reclamar n�o, camarada. Ficou bonit�o dessa vez.</p><p>� Ainda estou testando � disse Croyd, juntando uma pilha de jornais.</p><p>Jube mostrou mais das presas.</p><p>� Qual � o trabalho mais perigoso no Bairro dos Curingas? � ele perguntou.</p><p>� Sei n�o.</p><p>� Ir no banco do carona de um caminh�o de lixo � disse ele. � Ouviu o que aconteceu com a mo�a que ganhou o concurso de Miss Bairro dos Curingas?</p><p>� O qu�?</p><p>� Perdeu o t�tulo quando souberam que pousaria nua para o <emphasis>Jornal dos Criadores de Galinha</emphasis>.</p><p>� Essa foi bizarra, Jube � disse Croyd, lan�ando um sorriso sarc�stico.</p><p>� Eu sei. Fomos atingidos por um furac�o enquanto voc� dormia. Sabe o que ele fez?</p><p>� O qu�?</p><p>� Quatro milh�es de d�lares de melhorias na cidade.</p><p>� Est� bem, j� deu! � disse Croyd. � Quanto te devo?</p><p>Jube baixou o jornal, levantou e caminhou como um pato para o lado da banca.</p><p>� Nada � disse ele. � Quero falar contigo.</p><p>� Tenho que comer, Jube. Quando acordo, preciso de um monte de comida e r�pido. Volto mais tarde, tudo bem?</p><p>� Tudo bem se eu for contigo?</p><p>� Claro. Mas voc� vai perder neg�cios.</p><p>Jube come�ou a fechar a banca.</p><p>� Tudo bem � disse ele. � S�o neg�cios tamb�m.</p><p>Croyd esperou-o trancar a banca, e caminharam dois quarteir�es at� o Hairy�s Kitchen.</p><p>� Vamos pegar a mesa do fundo � disse Jube.</p><p>� �timo. Nada de neg�cios at� minha primeira rodada de comida, tudo bem? N�o consigo me concentrar com pouco a��car no sangue, horm�nios engra�ados e muitas transaminases. Me deixa botar algo pra dentro antes.</p><p>� Eu entendo. Coma tranquilo.</p><p>Quando o gar�om se aproximou, Jube disse que j� havia comido e pediu uma x�cara de caf�, na qual nunca tocou. Croyd come�ou com um pedido duplo de bife com ovos e uma jarra de suco de laranja.</p><p>Dez minutos depois, quando as panquecas chegaram, Jube limpou a garganta.</p><p>� Agora, sim � disse Croyd. � Est� melhor. Ent�o, o que est� te perturbando, Jube?</p><p>� Dif�cil come�ar � respondeu o outro.</p><p>� Comece de qualquer lugar. A vida est� mais bonita pra mim agora.</p><p>� Nem sempre � saud�vel ter curiosidade com os neg�cios de outras pessoas daqui�</p><p>� Verdade � Croyd concordou.</p><p>� Por outro lado, as pessoas adoram fofocar, especular.</p><p>Croyd balan�ou a cabe�a e continuou a comer.</p><p>� N�o � segredo pra ningu�m o jeito que voc� dorme, e isso impede que tenha um emprego normal. Agora, voc� parece mais um �s do que um curinga, no geral. Digo, normalmente voc� parece normal, mas tem um talento especial.</p><p>� Ainda n�o entendi qual � desta vez.</p><p>� Pois bem. Voc� se veste bem, paga suas contas, gosta de comer no Aces High e n�o est� usando um Timex. Tem que <emphasis>fazer</emphasis> algo pra ficar de boa� a menos que tenha herdado uma bolada.</p><p>Croyd sorriu.</p><p>� Tenho medo de olhar o <emphasis>Wall Street Journal</emphasis> � disse ele, tocando a pilha de jornais ao lado. � Posso ter que <emphasis>fazer</emphasis> algo que n�o fa�o h� algum tempo se me disser o que acho que vai dizer.</p><p>� Posso supor, ent�o, que, quando voc� trabalha, o que faz �, �s vezes, meio fora da lei?</p><p>Croyd levantou a cabe�a e, quando seus olhos se encontraram, Jube encolheu-se. Era a primeira vez que Croyd percebia como o homem estava nervoso. Ele riu.</p><p>� V� pro inferno, Jube � disse ele. � Te conhe�o h� tempo suficiente pra saber que voc� n�o � da pol�cia. Quer que eu fa�a alguma coisa, n�o �? Se for pra roubar alguma coisa, sou bom nisso. Aprendi com um especialista. Se estiver sendo chantageado, terei prazer em pegar de volta a prova e fazer a pessoa que est� fazendo isso cagar na cal�a de medo. Se quiser que algo seja removido, destru�do, transportado, eu sou o cara. Mas se quiser algu�m morto, isso eu n�o gosto de fazer. Mas posso dar o nome de algumas pessoas que n�o se importariam.</p><p>Jube balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o quero ningu�m morto, Croyd. Mas quero um roubo, sim.</p><p>� Antes de entrar em detalhes, melhor eu dizer que meu pre�o � alto.</p><p>Jube mostrou as presas.</p><p>� Os� hum� os interesses que represento est�o preparados para recompensar seu esfor�o.</p><p>Croyd terminou as panquecas, bebeu caf� e comeu o bolo dinamarqu�s enquanto esperava pelos <emphasis>waffles</emphasis>.</p><p>� � um corpo, Croyd � disse Jube, finalmente.</p><p>� Qu�?</p><p>� Um cad�ver.</p><p>� N�o t� entendendo.</p><p>� Tem um cara que morreu no fim de semana. O corpo foi encontrado numa ca�amba de lixo. Sem identidade. � um jo�o-ningu�m. L� no necrot�rio.</p><p>� Caramba, Jube! Um corpo? Nunca roubei um corpo antes. Pra que serve isso?</p><p>Jube deu de ombros.</p><p>� Est�o dispostos a pagar muito bem por ele� e por quaisquer posses que o cara tiver com ele. � tudo que eles querem dizer.</p><p>� Acho que � para os neg�cios deles que querem. Mas quanto est�o falando em pagar?</p><p>� Para eles, vale cinquenta paus.</p><p>� Cinquenta paus? Por um presunto? � Croyd parou de comer e encarou Jube. � Voc� s� pode estar brincando.</p><p>� N�o. Posso te dar dez agora e quarenta quando entregar.</p><p>� E se eu n�o conseguir?</p><p>� Fica com os dez pela tentativa. Est� interessado?</p><p>Croyd deu um suspiro fundo e deixou o ar sair lentamente.</p><p>� Claro � disse ele em seguida. � Estou interessado. Mas nem sei onde � o necrot�rio.</p><p>� � no gabinete do m�dico-legista, na 25th com First Avenue.</p><p>� Ok. Diga que vou l� e�</p><p>Hairy chegou e pousou um prato de salsichas e batatas su��as diante de Croyd. Ele encheu novamente a x�cara de caf� e deixou v�rias contas e algumas moedas na mesa.</p><p>� Seu troco, senhor.</p><p>Croyd olhou para o dinheiro.</p><p>� Como assim? � disse ele. � N�o paguei ainda.</p><p>� Voc� me deu uma nota de cinquenta.</p><p>� N�o, n�o dei. N�o terminei ainda.</p><p>Parecia que Hairy estava sorrindo, sob o fundo da pelagem preta e densa que o cobria inteiramente.</p><p>� N�o estaria aberto h� tanto tempo se ficasse dando dinheiro por a� � ele diz. � Eu sei fazer troco.</p><p>Croyd deu de ombros e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Acho que sim.</p><p>Croyd franziu as sobrancelhas quando Hairy saiu, e este balan�ou a cabe�a.</p><p>� Jube, eu n�o paguei pra ele.</p><p>� Tamb�m n�o me lembro de ver voc� pagar. Mas ele disse uma de cinquenta� Dif�cil esquecer.</p><p>� Estranho, tamb�m. Porque eu estava pensando em trocar uma de cinquenta aqui quando acabasse.</p><p>� Ah? Voc� lembra quando o pensamento passou por sua cabe�a?</p><p>� Lembro. Quando ele trouxe os <emphasis>waffles</emphasis>.</p><p>� Voc� teve mesmo uma imagem mental de pegar uma de cinquenta e entregar para ele?</p><p>� Sim.</p><p>� Interessante.</p><p>� Como assim?</p><p>� Acho que pode ser seu poder dessa vez� algum tipo de hipnose telep�tica. Voc� vai precisar apenas lidar com isso um pouco para pegar o jeito, encontrar os limites.</p><p>Croyd concordou com a cabe�a, lentamente.</p><p>� S� n�o teste em mim, por favor. J� estou ferrado demais para isso hoje.</p><p>� Por qu�? Voc� vai levar algum nesse neg�cio do cad�ver?</p><p>� Quanto menos souber, Croyd, melhor. Confie em mim.</p><p>� Tudo bem, eu entendo. Na verdade, isso nem importa. N�o para o que eles est�o pagando � disse ele. � Ent�o, eu aceito o trabalho. Digamos que tudo correu bem e estou com o corpo. O que fa�o com ele?</p><p>Jube puxou uma caneta e um caderninho do bolso interno. Escreveu um pouco, arrancou a folha e passou-a para ele. Ent�o fu�ou no bolso lateral, tirou uma chave e colocou-a ao lado do prato de Croyd.</p><p>� Esse endere�o fica a cinco quadras daqui � disse ele. � Quarto alugado, andar t�rreo. A chave se encaixa na fechadura. Voc� leva pra l�, tranca e vem me avisar na banca.</p><p>Croyd come�ou a comer novamente. Depois de um tempo, ele disse:</p><p>� Ok.</p><p>� Bom.</p><p>� Mas eles provavelmente t�m mais de um jo�o-ningu�m l� nessa �poca do ano. Bebuns que morrem congelados� voc� sabe. Como vou saber qual � o certo?</p><p>� Estava chegando a�. O cara � um curinga, correto? Um camarada pequeno. Um metro e meio, talvez. Parece, tipo, um besour�o� pernas dobradas como as de um gafanhoto, um exoesqueleto com um pouco de pelo em cima, quatro dedos nas m�os com tr�s juntas cada, olhos na lateral da cabe�a, asas atrofiadas nas costas�</p><p>� J� imaginei. Parece dif�cil confundir com o modelo padr�o.</p><p>� �. N�o deve pesar muito tamb�m.</p><p>Croyd balan�ou a cabe�a. Algu�m na frente do restaurante disse �� pterod�tilo!�, e Croyd virou a cabe�a para ver a forma alada pairar ao lado da janela.</p><p>� Aquele garoto de novo � disse Jube.</p><p>� �. Adivinha quem ele anda amolando agora?</p><p>� Voc� o conhece?</p><p>� Ah�. Ele aparece de vez em quando. Tipo f� dos ases. Pelo menos ele n�o sabe qual � minha apar�ncia desta vez. Deixa pra l� Em quanto tempo precisam desse corpo?</p><p>� O quanto antes.</p><p>� Tem alguma coisa que voc� queira me dizer sobre a estrutura do necrot�rio?</p><p>Jube concordou devagar com a cabe�a.</p><p>� Sim. � um pr�dio de seis andares. Laborat�rios e escrit�rios e tudo o mais, subindo as escadas. Recep��o e �rea de televis�o no t�rreo. Os corpos ficam no por�o. As salas de aut�psia s�o embaixo tamb�m. T�m 128 compartimentos, com um refrigerador apertado com prateleiras para os corpos infantis. Quando algu�m precisa ver um corpo para identifica��o, colocam num elevador especial que sobe para uma c�mera ladeada de vidros numa sala de espera no primeiro andar.</p><p>� Ent�o voc� esteve l�?</p><p>� N�o, eu li nas mem�rias do Milton Helpern.</p><p>� Voc� teve o que eu chamaria de educa��o realmente liberal � disse Croyd. � Eu mesmo deveria ler mais.</p><p>� Voc� pode comprar muitos livros com cinquenta paus.</p><p>Croyd sorriu.</p><p>� Ent�o, neg�cio fechado?</p><p>� Me deixa pensar um pouco mais� depois do caf� da manh� enquanto eu imagino como meu talento funciona. Passo na sua banca quando eu estiver pronto. Quando eu pegaria os dez paus?</p><p>� Posso pegar hoje � tarde.</p><p>� Tudo bem. Vejo voc� em uma hora mais ou menos.</p><p>Jube balan�ou a cabe�a, levantou o volume imenso, escorregou para fora da cadeira.</p><p>� Cuidado com o colesterol � disse ele.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Fendas azuis apareceram na c�pula celeste cinzenta, e os raios de sol abriram caminho at� a rua. O som da �gua gotejante ficou constante naquele momento de algum lugar atr�s da banca de jornal. Jube normalmente teria pensado que era um fundo agrad�vel entre os ru�dos do tr�fego e outros sons da cidade, n�o fosse pelo pequeno dilema moral ter chegado aos poucos sobre asas de couro e destru�do a manh�. N�o havia percebido que tomara uma decis�o at� olhar para cima e ver Croyd olhando para ele, sorrindo.</p><p>� Sem problema � disse Croyd. � Vai ser moleza.</p><p>Jube suspirou.</p><p>� Tem algo que eu precisava te dizer primeiro.</p><p>� Problemas?</p><p>� Nada que seja diretamente relacionado aos termos do trabalho � Jube explicou. � Mas voc� pode ter um problema que n�o sabia que tinha.</p><p>� Tipo o qu�? � Croyd falou, franzindo a testa.</p><p>� Aquele pterod�tilo que vimos mais cedo�?</p><p>� E?</p><p>� O Kid Dinossauro veio at� aqui. Eu o encontrei esperando quando voltei. Estava procurando por voc�.</p><p>� Espero que n�o tenha dito onde me encontrar.</p><p>� N�o, n�o disse. Mas voc� sabe como ele observa de perto os ases e os curingas com grandes poderes�?</p><p>� Sim. Por que ele n�o pode estar entre jogadores de beisebol ou criminosos de guerra?</p><p>� Ele viu um cara e queria que voc� soubesse. Disse que o Devil John Darlingfoot saiu do hospital h� um m�s e pouco e desapareceu. Mas est� de volta agora. O garoto o viu perto do Mosteiro mais cedo. Disse que estava vindo para Midtown.</p><p>� Bem, bem. E da�?</p><p>� E da� que ele acha que o cara est� te procurando. Quer revanche. O garoto acha que ainda est� furioso com aquilo que voc� fez no dia em que voc�s dois detonaram o Rockefeller Plaza.</p><p>� Ent�o, deixe-o procurando. N�o sou mais um cara baixote e corpulento de cabelo escuro. Vou pegar o presunto agora� antes que algu�m pague pra ele uma cervejinha.</p><p>� Precisa de algum dinheiro?</p><p>� Voc� j� me deu.</p><p>� Quando?</p><p>� Qual sua primeira mem�ria da minha volta at� aqui?</p><p>� Olhei para cima faz um minuto e vi voc� parado a�, sorrindo. Voc� disse que n�o tinha problema. Disse que era �moleza�.</p><p>� �timo. Ent�o, est� funcionando.</p><p>� � melhor voc� explicar.</p><p>� Esse � o momento no qual eu quis que voc� come�asse a lembrar. Eu estava aqui um minuto antes disso, e falei pra voc� me dar o dinheiro e se esquecer de tudo.</p><p>Croyd tirou um envelope de um bolso interno do casaco, abriu e mostrou o dinheiro.</p><p>� Meu Deus, Croyd! O que mais voc� fez durante esse minuto?</p><p>� Sua pureza est� intacta, se � isso que quer saber.</p><p>� Voc� n�o me fez nenhuma pergunta� sobre�?</p><p>Croyd balan�ou a cabe�a, negando.</p><p>� Eu disse que n�o me importo quem quer o corpo, ou por qu�. Realmente n�o ligo para as preocupa��es alheias. J� tenho problemas demais.</p><p>Jube suspirou.</p><p>� Ok. Vai l�, garoto.</p><p>Croyd acenou.</p><p>� N�o se preocupe, Morsa. Considere a miss�o cumprida.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Croyd caminhou at� chegar a um supermercado, entrou e comprou um pequeno pacote de sacos de lixo grandes. Dobrou um e enfiou no bolso interno do casaco. Deixou o resto numa lata de lixo. Ent�o, caminhou at� o pr�ximo cruzamento principal e chamou um t�xi.</p><p>Ensaiou a estrat�gia enquanto percorria a cidade. Entraria no lugar e usaria seu poder atual para persuadir as recepcionistas de que o estavam esperando, que era um patologista de Bellevue chamado por um amigo da equipe para dar opini�o sobre uma peculiaridade forense. Brincou por um instante com os nomes Malone e Welby, decidiu-se por Anderson. Ent�o, faria com que a recepcionista chamasse algu�m com autoridade para lev�-lo at� o por�o e encontrar o tal jo�o-ningu�m. Colocaria aquela pessoa sob controle, pegaria o corpo e seus pertences, o transferiria para um saco e sairia, fazendo com que todos pelos quais passasse esquecessem que estivera ali. Com certeza, muito mais simples do que t�ticas mais �rduas que j� teve de empregar durante os anos. Sorriu com a simplicidade cl�ssica daquilo: sem viol�ncia, sem mem�ria�</p><p>Quando chegou ao pr�dio com placas de alum�nio e tijolos esmaltados azuis e brancos, disse ao taxista para seguir e deix�-lo na esquina seguinte. Havia duas viaturas de pol�cia estacionadas na frente e uma porta destru�da jazia diante do local. A presen�a da pol�cia no necrot�rio n�o parecia suscitar uma ocorr�ncia, mas a porta quebrada aumentou o senso de precau��o. Deu ao motorista uma nota de cinquenta e pediu para que esperasse. Passou na frente do local uma vez e olhou para dentro. Diversos policiais estavam vis�veis, aparentemente falando com funcion�rios.</p><p>N�o parecia o momento ideal para prosseguir com o plano. Por outro lado, n�o poderia se permitir ir embora sem descobrir o que havia acontecido. Ent�o, virou-se quando chegou � esquina e voltou. Entrou sem hesitar, olhando em volta rapidamente.</p><p>Um homem entre os civis que estavam em p� com a pol�cia virou de repente na sua dire��o e o encarou. Croyd n�o gostou nem um pouco daquela encarada. Fez seu est�mago revirar e sua m�o formigar.</p><p>Lan�ou m�o de seu novo poder imediatamente, seguindo direto at� o homem, for�ando um sorriso enquanto caminhava.</p><p><emphasis>Tudo bem. Voc� quer falar comigo e fazer exatamente o que eu disser. Acene para mim agora, diga �Oi, Jim!� em voz alta e caminhe at� aquele lado comigo.</emphasis></p><p>� Oi, Jim! � o homem disse, movendo-se para juntar-se a Croyd.</p><p><emphasis>N�o!</emphasis>, Judas pensou. <emphasis>R�pido demais. Cravou os olhos em mim assim que o percebi� Podemos usar este cara�</emphasis></p><p>� � paisana? � Croyd perguntou a ele.</p><p>� Sim � o homem sentiu que queria responder.</p><p>� Qual seu nome?</p><p>� Matthias.</p><p>� O que aconteceu aqui?</p><p>� Um corpo foi roubado.</p><p>� Qual deles?</p><p>� Um jo�o-ningu�m.</p><p>� Pode descrev�-lo?</p><p>� Parecia um besour�o� pernas de gafanhoto�</p><p>� Merda � disse Croyd. � E sobre os pertences?</p><p>� N�o havia nenhum pertence.</p><p>V�rios dos policiais uniformizados estavam olhando na dire��o deles. Croyd deu sua pr�xima ordem mentalmente. Matthias virou-se para os uniformizados.</p><p>� S� um momento, rapazes � ele falou. � Neg�cios.</p><p><emphasis>Droga!</emphasis>, ele pensou. <emphasis>Este aqui ser� �til. Voc� n�o vai conseguir me segurar assim pra sempre, camarada�</emphasis></p><p>� Como aconteceu? � Croyd perguntou.</p><p>� Um cara veio aqui faz pouco tempo, desceu, for�ou um atendente a mostrar o compartimento para ele, tirou o corpo e saiu com ele.</p><p>� Ningu�m tentou impedir?</p><p>� Claro que sim. Quatro deles est�o a caminho do hospital por causa disso. O cara era um �s.</p><p>� Quem?</p><p>� Aquele que arrebentou o Rockefeller Plaza no outono passado.</p><p>� Darlingfoot?</p><p>� Sim, esse mesmo. � <emphasis>N�o� n�o me pergunte mais� se estou envolvido, se eu o contratei, se estou encobrindo o cara agora�</emphasis></p><p>� Para que lado ele foi?</p><p>� Noroeste.</p><p>� A p�?</p><p>� Foi o que as testemunhas disseram� grandes saltos, de seis metros. � <emphasis>Assim que voc� me deixar ir, filha da m�e, vou mandar te apagar.</emphasis></p><p>� Ei, por que voc� n�o vira e olha para mim do jeito que fez quando entrei?</p><p><emphasis>Inferno!</emphasis></p><p>� Eu senti que um �s tinha acabado de entrar pela porta.</p><p>� Como voc� sabia?</p><p>� Tamb�m sou um �s. Esse � meu poder� encontrar outros ases.</p><p>� Talento �til pra um policial, eu acho. Bem, ou�a com aten��o. Voc� vai esquecer que me encontrou e n�o vai perceber quando eu sair. Vai andar at� aquele bebedouro tomar �gua, ent�o voltar� e se juntar� aos seus colegas. Se algu�m perguntar com quem estava falando, vai dizer que era seu agente de apostas e esquecer� isso tamb�m. Fa�a isso agora. Esque�a!</p><p>Croyd virou-se e se afastou. Judas percebeu que estava com sede.</p><p>L� fora, Croyd chegou ao t�xi, entrou, bateu a porta e disse:</p><p>� Noroeste.</p><p>� Como assim? � o motorista perguntou.</p><p>� Vai para a parte alta da cidade e eu digo o que fazer quando chegarmos.</p><p>� O senhor � quem manda.</p><p>O carro sacudiu-se e come�ou a andar.</p><p>No pr�ximo quil�metro e meio, o motorista virou para oeste, como se procurasse sinais da passagem do outro. Parecia improv�vel que Devil John estivesse usando o transporte p�blico para carregar um defunto. Por outro lado, era poss�vel que tivesse um c�mplice esperando com um carro. Ainda assim, conhecendo a cara de pau do homem, n�o parecia t�o absurdo para ele estar trotando por a� com o corpo. Sabia que havia pouca coisa a fazer para par�-lo se n�o quisesse ser impedido. Croyd suspirou enquanto esquadrinhava o caminho � frente. Por que as coisas simples nunca eram f�ceis?</p><p>Mais tarde, quando estavam pr�ximos de Morningsides Heights, o motorista murmurou:</p><p>� � um daqueles malditos curingas!</p><p>Croyd seguiu o gesto do homem onde a forma de um pterod�tilo ficou � vista por diversos momentos antes de passar por tr�s de um pr�dio.</p><p>� Siga-o! � Croyd gritou.</p><p>� O p�ssaro de couro?</p><p>� Sim!</p><p>� N�o sei onde ele est� agora.</p><p>� Encontre-o!</p><p>Croyd balan�ou outra nota para o homem, e os pneus derraparam e uma buzina disparou enquanto o t�xi fazia o retorno. O olhar de Croyd varreu o c�u, mas Kid ainda estava fora de vis�o. Ele parou o t�xi momentos depois para perguntar a um corredor que passava. O homem tirou um fone de ouvido, ouviu por um momento, ent�o apontou para leste e partiu de novo.</p><p>Muitos minutos depois, ele viu a forma angular do p�ssaro ao norte, movendo-se em c�rculos largos. Dessa vez, conseguiram acompanhar seu rastro por um momento mais longo e se aproximar.</p><p>Quando chegaram perto da �rea onde o pterod�tilo circulava, Croyd pediu para o motorista desacelerar. Ainda n�o havia nada incomum � vista no solo, mas o caminho do sauro cobria uma �rea de v�rios quarteir�es. Se estivesse de fato rastreando Devil John, o cara podia estar bem pr�ximo.</p><p>� O que estamos procurando? � o motorista perguntou.</p><p>� Um homem grande, de barba ruiva e cabelo encaracolado, com duas pernas muito diferentes � Croyd respondeu. � A direita � pesada, peluda e termina num casco. A outra � normal.</p><p>� Ouvi falar desse cara. Ele � perigoso�</p><p>� �, eu sei.</p><p>� O que voc� est� planejando fazer se encontr�-lo?</p><p>� Espero ter um di�logo razo�vel � Croyd comentou.</p><p>� N�o vou ficar muito perto do seu di�logo. Se o virmos, caio fora.</p><p>� Pago bem se esperar.</p><p>� N�o, obrigado � o motorista disse. � Quando quiser sair, deixo voc� e corro. � isso.</p><p>� Bem� o pterod�tilo est� indo pro norte. Vamos tentar nos adiantar, e quando conseguirmos voc� corta pra leste na primeira rua que puder.</p><p>O motorista acelerou de novo, rumando para a direita, enquanto Croyd tentava imaginar o centro do c�rculo de Kid.</p><p>� Na pr�xima rua � disse Croyd, finalmente. � Vira l� e vemos o que vai acontecer.</p><p>Viraram devagar e cruzaram o quarteir�o inteiro sem Croyd enxergar sua presa ou mesmo avistar seu dedo-duro a�reo novamente. No cruzamento seguinte, contudo, a forma alada passou de novo e, dessa vez, avistou quem estava procurando.</p><p>Devil John estava do outro lado da rua, no meio do quarteir�o. Carregava nos bra�os um pacote enrolado numa manta. Seus ombros eram enormes, seus dentes brancos reluziram quando uma mulher com carrinho de compras correu para sair do caminho. Ele estava vestindo uma Levi�s � a perna direita rasgada at� a altura da coxa � e uma blusa de moletom rosa que sugeria uma viagem � Disneyl�ndia. Um motorista que passava atingiu a lateral de um carro estacionado quando John deu um passo normal com o p� esquerdo, dobrou a perna direita num �ngulo estranho e pulou seis metros adiante at� uma �rea aberta pr�xima ao meio-fio. Virou-se com um passo normal e pulou novamente, passando um Honda vermelho que se movia devagar e pousando num trecho de grama no canteiro central da rua. Dois cachorros grandes que o seguiam correram para o meio-fio, latindo alto, mas pararam e olharam o tr�fego pr�ximo.</p><p>� Para! � Croyd falou para o motorista, e abriu a porta, descendo na cal�ada antes de o ve�culo parar por completo.</p><p>Ele aproximou as m�os da boca e gritou:</p><p>� Darlingfoot! Espere!</p><p>O homem apenas olhou na sua dire��o, j� dobrando a perna para saltar de novo.</p><p>� Sou eu� Croyd Crenson! � berrou. � Quero falar com voc�!</p><p>A figura, parecida com um s�tiro, parou meio agachado. A sombra de um pterod�tilo passou por eles. Os dois c�es continuaram a latir, e um poodle pequenino virou a esquina e correu para juntar-se a eles. A buzina do carro trombeteava para duas pessoas paradas na faixa de pedestres. Devil John virou-se e o encarou. Ent�o, sacudiu a cabe�a.</p><p>� Voc� n�o � Crenson! � gritou.</p><p>Croyd avan�ou a passos largos.</p><p>� T� duvidando? � respondeu, e disparou pela rua e cruzou o canteiro.</p><p>Os olhos de Devil John estavam espremidos sob as sobrancelhas desordenadas, enquanto examinava a figura de Croyd avan�ando. Raspou seu l�bio inferior lentamente com os dentes de cima, ent�o balan�ou a cabe�a mais lentamente.</p><p>� N���o � disse ele. � Croyd era mais escuro e muito mais baixo. N�o importa, o que voc� quer de mim, hein?</p><p>Croyd deu de ombros.</p><p>� Minha apar�ncia muda toda hora � disse ele. � Mas sou o mesmo cara que chutou seu rabo no outono passado.</p><p>� Sai fora, camarada � disse ele. � N�o tenho tempo para f�s�</p><p>Os dois cerraram os dentes quando o carro parou ao lado deles e a buzina disparou. Um homem de terno cinza p�s a cabe�a para fora da janela.</p><p>� O que est� acontecendo aqui? � perguntou.</p><p>Croyd resmungou, deu um passo para a rua e arrancou o para-choque, o qual enfiou no banco traseiro do ve�culo pela janela que estava fechada at� ent�o.</p><p>� Inspe��o veicular � disse ele. � Voc� passou. Parab�ns.</p><p>� Croyd! � Darlingfoot exclamou, quando o carro saiu �s pressas. � � voc�!</p><p>Ele jogou o pacote no ch�o e levantou os punhos.</p><p>� Esperei o inverno inteiro por isso�</p><p>� Ent�o, espere mais um minuto � disse Croyd. � Tenho que perguntar uma coisa.</p><p>� Qu�?</p><p>� Esse corpo� Por que voc� o pegou?</p><p>O homenzarr�o riu.</p><p>� Por dinheiro, claro. Que mais?</p><p>� Se importa em dizer quanto est�o pagando por ele?</p><p>� Cinco paus. Por qu�?</p><p>� Filhos da puta baratos � disse Croyd. � Falaram para que o querem?</p><p>� N�o e eu n�o perguntei, porque n�o me importa. Dinheiro � dinheiro.</p><p>� �. � Croyd falou. � Quem s�o eles?</p><p>� Por qu�? O que tem a ver com isso?</p><p>� Bem, acho que est�o te passando pra tr�s. Acho que vale mais.</p><p>� Quanto?</p><p>� Quem s�o eles?</p><p>� Uns ma�ons, eu acho. Quanto vale?</p><p>� Ma�ons? Tipo, apertos de m�o secretos e tudo o mais? Pensei que existissem s� pra dar aos outros funerais caros. O que iriam querer com um curinga morto?</p><p>Darlingfoot balan�ou a cabe�a.</p><p>� S�o uns caras esquisitos � ele respondeu. � Pelo que sei, querem comer o corpo. Agora, o que voc� estava falando sobre dinheiro?</p><p>� Eu acho que consigo mais por ele � disse Croyd. � O que acha se eu der os cinco deles e botar mais um? Te dou seis paus por ele.</p><p>� N�o sei, Croyd� N�o gosto de ferrar as pessoas pra quem trabalho. Vai rolar o boato de que n�o sou confi�vel.</p><p>� Bem, talvez eu possa chegar em sete�</p><p>Os dois viraram de repente para uma s�rie de rosnados e estalos selvagens. Os c�es � juntos com mais dois vira-latas � cruzaram a rua durante a conversa e arrastaram o pequeno corpo de inseto para fora da manta. Ele se quebrou em diversas partes, e o dogue alem�o segurava grande parte de um bra�o nos dentes, enquanto recuava, rosnando e se afastando do pastor-alem�o. Os outros dois arrancaram uma das pernas de gafanhoto e brigavam por ela. O poodle j� estava na metade da rua, uma das m�os de quatro dedos na boca. Croyd percebeu um cheiro horrendo diferente do ar nova-iorquino.</p><p>� Merda! � Devil John exclamou, pulando para a frente, o casco estourando um quadrado do pavimento de concreto pr�ximo aos restos mortais. Tentou agarrar o dogue alem�o, mas este se virou e correu. O terrier soltou a perna. O vira-lata marrom n�o. Arrastou a perna, atravessando a rua para a outra dire��o, carregando o ap�ndice.</p><p>� Vou pegar o bra�o! Pega a perna! � Devil John gritou, partindo atr�s do dogue alem�o.</p><p>� E a m�o? � Croyd berrou, chutando outro cachorro que acabara de chegar no local.</p><p>A resposta de Darlingfoot foi previs�vel, est�pida e representava uma improbabilidade anat�mica de ordem superior. Croyd partiu atr�s do cachorro marrom.</p><p>Quando Croyd se aproximou da esquina onde o tinham visto virar, ouviu uma s�rie de uivos agudos. Chegando � rua lateral, viu o cachorro deitado de bru�os, mordendo o pterod�tilo, que o prendia na cal�ada. O membro arrancado jazia ao lado. Croyd avan�ou at� l�.</p><p>� Obrigado, Kid. Te devo essa � disse ele; enquanto pegava a perna, hesitou, tirou o len�o, enrolou na m�o, agarrou o membro e o segurou contra o vento.</p><p>A forma de pterod�tilo escorreu, dando lugar � de um garoto nu � talvez com 13 anos de idade � com os olhos brilhantes e cabelos castanhos desgrenhados, uma pequena marca de nascen�a na testa.</p><p>� Peguei pra voc�, Croyd � ele anunciou. � Mas fede mesmo.</p><p>� �, Kid � disse Croyd. � Me desculpe. Agora preciso juntar os outros peda�os.</p><p>Ele se virou e apressou-se na dire��o de onde tinha vindo. Atr�s dele, ouviu passos r�pidos.</p><p>� Para que voc� quer isso? � o garoto perguntou.</p><p>� � uma hist�ria chata e complicada, e � melhor voc� n�o saber � ele respondeu.</p><p>� Ah, para com isso. Pode me falar.</p><p>� N�o tenho tempo. Estou com pressa.</p><p>� Vai lutar com Devil John de novo?</p><p>� N�o est� nos meus planos. Acho que podemos chegar a um acordo sem recorrer � viol�ncia.</p><p>� Mas, se voc� lutar, qual � o seu poder desta vez?</p><p>Croyd chegou � esquina, cortando pelo canteiro central. Adiante, viu onde outro cachorro fu�ava o cad�ver. Devil John n�o estava em lugar algum.</p><p>� Inferno! � ele gritou. � Sai fora, x�!</p><p>O cachorro nem deu aten��o a ele, mas arrancou uma camada de pelos da carapa�a quitinosa. Croyd percebeu que do tecido rasgado pingava um l�quido transparente. Os restos pareciam �midos agora, e Croyd percebeu que os fluidos estavam vazando dos orif�cios de respira��o no t�rax.</p><p>� Sai fora! � ele repetiu.</p><p>O cachorro rosnou para ele. De repente, o rosnado transformou-se num ganido e o rabo do animal sumiu entre as pernas. Um tiranossauro de um metro de altura passou por Croyd saltando, chiando furiosamente. O c�o virou-se e fugiu. Um momento depois, Kid estava em p� no lugar dele.</p><p>� Ele est� indo embora com aquele peda�o � o garoto disse.</p><p>Croyd repetiu o coment�rio de Darlingfoot sobre a m�o enquanto deixava a perna sobre o corpo desmembrado. Ele retirou o saco de lixo dobrado do bolso interno do casaco e o sacudiu.</p><p>� Se quer ajudar, Kid, segure o saco enquanto jogo nele o que restou.</p><p>� Tudo bem. Isso � bem nojento.</p><p>� � trabalho sujo � Croyd concordou.</p><p>� Ent�o, por que voc� est� fazendo isso?</p><p>� � isso que acontece quando viramos adultos, Kid.</p><p>� Como assim?</p><p>� Voc� gasta cada vez mais tempo arrumando as coisas ap�s as bagun�as.</p><p>Um ru�do de passadas pesadas e r�pidas se aproximou, uma sombra passou por sobre eles, e Devil John estrondou no ch�o ao lado deles.</p><p>� Maldito cachorro, fugiu � ele anunciou. � Conseguiu a perna?</p><p>� Consegui � Croyd respondeu. � J� est� no saco.</p><p>� Boa ideia� um saco pl�stico. Quem � o garoto pelado?</p><p>� N�o conhece Kid Dinossauro? � Croyd perguntou. � Pensei que ele conhecesse todo mundo. � o pterod�tilo que estava seguindo voc�.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Gosto de estar onde a a��o est� � Kid respondeu.</p><p>� Ei, por que voc� n�o est� na escola? � Croyd quis saber.</p><p>� A escola � uma bosta.</p><p>� Pera�. Tive que parar a escola no nono ano e nunca voltei. Sempre me arrependi.</p><p>� Por qu�? Voc� est� t�o bem.</p><p>� H� todas aquelas coisas que eu perdi. N�o queria ter perdido.</p><p>� Tipo o qu�?</p><p>� Bem� �lgebra. Nunca aprendi �lgebra.</p><p>� O que tem de bom na �lgebra?</p><p>� N�o sei e nunca vou saber, porque n�o aprendi. E �s vezes olho para as pessoas na rua e digo, �Cara, aposto que elas todas sabem �lgebra�, e isso faz eu me sentir por baixo.</p><p>� Bem, eu n�o sei �lgebra e isso n�o me faz sentir nem um pouco por baixo.</p><p>� Espere mais pra frente � disse Croyd.</p><p>Kid percebeu de repente que Croyd estava olhando para ele de forma estranha.</p><p>� Voc� vai voltar pra escola agora � Croyd falou para ele � e vai estudar pra caramba o resto do dia e fazer a li��o de casa � noite, e vai gostar disso.</p><p>� Acho que � melhor eu ir voando � Kid disse, e transformou-se num pterod�tilo, saltitando diversas vezes at� pairar.</p><p>� Pegue algumas roupas no caminho! � Croyd gritou atr�s dele.</p><p>� Que diabos est� acontecendo aqui?</p><p>Croyd virou-se e deu de cara com um policial uniformizado que acabara de cruzar o canteiro central.</p><p>� V� se foder! � ele resmungou.</p><p>O homem come�ou a desafivelar o cinto.</p><p>� Para, para! Cancela � disse Croyd. � Afivele o cinto. Esque�a o que eu disse e v� para outra rua.</p><p>Devil John ficou encarando enquanto o homem obedecia.</p><p>� Croyd, como voc� faz essas coisas? � ele perguntou.</p><p>� � o meu poder da vez.</p><p>� Ent�o, voc� podia me fazer dar o corpo pra voc�, n�o podia?</p><p>Croyd pousou o saco de lixo no ch�o e o amarrou. Quando terminou a amarra��o, ele concordou com a cabe�a.</p><p>� Claro. E conseguirei de um jeito ou de outro. Mas n�o estou a fim de trapacear com um camarada que trabalhou duro hoje. Minha oferta ainda � boa.</p><p>� Sete paus?</p><p>� Seis.</p><p>� Voc� disse sete.</p><p>� Tudo bem, mas agora n�o est� tudo aqui.</p><p>� A culpa n�o � minha. Voc� me parou.</p><p>� Mas voc� deixou a coisa no ch�o onde os cachorros conseguiam pegar.</p><p>� T�, mas como eu ia saber� ei, � um boteco ali na esquina.</p><p>� � mesmo.</p><p>� Se importa de discutir isso almo�ando e tomando uma cerveja?</p><p>� Agora que voc� falou, estou com um pouco de fome � disse Croyd.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Sentaram-se � mesa da janela e deixaram o saco de lixo na cadeira vazia. Croyd foi at� o banheiro e lavou as m�os diversas vezes, enquanto Devil John comprou duas cervejas. Quando voltou, o outro pediu meia d�zia de sandu�ches. Darlingfoot fez o mesmo.</p><p>� Para quem <emphasis>voc�</emphasis> est� trabalhando? � perguntou.</p><p>� N�o sei � Croyd respondeu. � Estou trabalhando para terceiros.</p><p>� Complicado. Fico me perguntando para que eles querem essa coisa.</p><p>Croyd balan�ou a cabe�a.</p><p>� Sei l�. Espero que haja o suficiente dele para a gente receber.</p><p>� Esse � um dos motivos pelos quais eu quero negociar. Acho que meus camaradas queriam o presunto num estado melhor. V�o tentar me passar a perna. Melhor um p�ssaro na m�o, sabe? N�o confio muito neles. Bando de malucos.</p><p>� Fala�, tinha alguma coisa nele?</p><p>� N�o. Nenhum pertence.</p><p>Os sandu�ches chegaram e eles come�aram a comer. Depois de um tempo, Darlingfoot olhou diversas vezes para o saco de lixo, ent�o comentou:</p><p>� Sabe de uma, parece que esta coisa t� maior.</p><p>Croyd examinou-a por um momento.</p><p>� Est� acomodando e mudando � disse ele.</p><p>Eles terminaram de comer e pediram mais duas cervejas.</p><p>� N�o, caramba! Est� maior! � Darlingfoot insistiu.</p><p>Croyd olhou novamente. Parecia inchar a cada vez que olhava.</p><p>� Tem raz�o � reconheceu. � Devem ser os gases da� hum� decomposi��o.</p><p>Ele esticou um dedo, como se para cutucar, pensou melhor e abaixou a m�o.</p><p>� Ent�o, o que voc� me diz? Sete paus?</p><p>� Acho que � justo� pelo jeito que est�.</p><p>� Mas eles sabiam o que estavam pedindo. Voc� tem que esperar esse tipo de coisa de um presunto.</p><p>� Um pouco, concordo. Mas tem que admitir tamb�m que balan�ou o bicho um bocado.</p><p>� � verdade, mas um normal poderia ficar melhor. Como eu ia saber que o cara era um caso especial?</p><p>� Olhando pra ele. Era pequeno e fr�gil.</p><p>� Parecia bem s�lido quando catei. O que voc� acha de a gente dividir a diferen�a. Seis e meio?</p><p>� N�o sei.</p><p>Os outros clientes come�aram a olhar na dire��o deles, pois o saco de lixo continuava a inchar. Eles terminaram as cervejas.</p><p>� Outra rodada?</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Gar�om.</p><p>O gar�om deles, que tinha acabado de limpar uma mesa, seguia sem pressa, uma pilha de pratos e talheres nas m�os.</p><p>� O que posso fazer� � come�ou, quando a l�mina de uma faca grande, para fora da pilha de lou�as, raspou o saco de lixo inflado. � Meu Deus! � ele terminou, enquanto um chiado, acompanhado por um odor que poderia ter sido composto de gases de esgoto e efl�vios de um abatedouro encheu os arredores e se espalhou como o vazamento de uma experi�ncia qu�mica de guerra por todo o estabelecimento.</p><p>� Me desculpem � o gar�om disse, virando as costas e saindo apressado.</p><p>Ent�o, momentos depois, houve uma s�rie de engasgos de outros clientes.</p><p>� Use seu poder, Croyd! � Devil John sussurrou. � Depressa!</p><p>� N�o sei se consigo fazer numa sala cheia de�</p><p>� Tente!</p><p>Croyd concentrou-se nos outros.</p><p><emphasis>Foi um pequeno acidente. Nada importante. Agora, voc�s v�o esquecer o que houve. N�o sentem nenhum cheiro estranho. Voltem para suas refei��es e n�o olhem nesta dire��o de novo. N�o perceber�o nada do que fizermos. N�o h� nada para ver aqui. Nem para cheirar.</emphasis></p><p>Os outros clientes viraram-se, voltaram a comer, conversando.</p><p>� Conseguiu � Devil John constatou numa voz estranha.</p><p>Croyd olhou para tr�s e descobriu que o homem estava fechando o nariz com os dedos.</p><p>� Voc� derramou alguma coisa? � Croyd perguntou para ele.</p><p>� N�o.</p><p>� Opa. Ouviu isso?</p><p>Darlingfoot inclinou-se e curvou-se para baixo.</p><p>� Ai, caramba! � disse ele. � O saco rasgou e ele est� escorrendo pelo rasgo que o cara fez. Ei, voc� pode acabar com meu olfato tamb�m?</p><p>Croyd fechou os olhos e rangeu os dentes.</p><p>� Assim � melhor � ouviu momentos depois, quando Darlingfoot esticou o bra�o e levantou o saco, que fez um barulho de l�quido gorgolejante.</p><p>Croyd olhou para o ch�o e deu de cara com uma po�a imensa que lembrava um ensopado derramado. Sentiu um leve enjoo e virou o rosto.</p><p>� O que quer fazer agora, Croyd? Deixar a bagun�a e levar o resto, ou o qu�?</p><p>� Acho que sou obrigado a levar tudo que puder.</p><p>Devil John levantou uma sobrancelha e sorriu.</p><p>� Bem � disse �, fechamos em 6.500 e o ajudo a junt�-lo de um jeito administr�vel.</p><p>� Combinado.</p><p>� Ent�o, me cubra se puder para que o povo na cozinha n�o me veja.</p><p>� Vou tentar. O que voc� vai fazer?</p><p>� Confie em mim.</p><p>Darlingfoot levantou, passou a parte de cima do saco para Croyd e mancou at� a cozinha. Passou muitos minutos l� e, quando voltou, os bra�os estavam cheios.</p><p>Ele destampou um pote de picles grande e o deixou no ch�o, ao lado da cadeira.</p><p>� Agora, se voc� tombar o saco para que a boca fique bem em cima do jarro � disse ele �, eu levanto o fundo e podemos despej�-lo a� dentro.</p><p>Croyd obedeceu, e o pote foi preenchido at� acima da metade antes de o gotejar cessar.</p><p>� E agora? � ele perguntou, rosqueando a tampa.</p><p>Darlingfoot pegou o primeiro de uma pilha de guardanapos que trouxe com ele e abriu um pequeno pacote branco.</p><p>� Embalagem pra viagem � disse ele. � Vou s� pegar os peda�os s�lidos do ch�o e botar nela.</p><p>� E a�?</p><p>� Tamb�m tenho um belo saco de lixo novinho � explicou, inclinando-se. � Deve caber tudo aqui, sem problema.</p><p>� Pode se apressar? � disse Croyd. � N�o consigo controlar meu pr�prio olfato.</p><p>� Estou limpando o mais r�pido que posso. Pode abrir o pote de novo? Posso jogar o resto dele que est� no guardanapo.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Quando os restos derramados foram recolhidos no jarro de picles em nove embalagens para viagem, Darlingfoot abriu o saco de lixo furado pela metade e removeu as placas quitinosas que permaneceram dentro dele. Ele botou o pote na cavidade do t�rax e, ent�o, colocou-o inteiro no saco limpo, cobrindo-o com as pe�as de cartilagem e pequenos peda�os de revestimento. P�s a cabe�a e os membros em cima. Ent�o embalou os pacotes para viagem e enrolou o saco pl�stico.</p><p>Croyd estava em p� nesse momento.</p><p>� Desculpe � disse ele. � J� volto.</p><p>� Estou indo tamb�m. Preciso me lavar um pouco.</p><p>Falando por sobre a corrente de �gua, Devil John de repente observou:</p><p>� Agora que tudo est� bem encaixado, tenho que te pedir um favor.</p><p>� O qu�? � Croyd perguntou, ensaboando as m�os novamente.</p><p>� Ainda estou com um mau pressentimento sobre os caras que me contrataram, sabe?</p><p>Croyd deu de ombros.</p><p>� Voc� n�o pode servir a dois mestres.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� N�o t� te entendendo.</p><p>� Eu estava no meu caminho para entregar quando me alcan�ou. Supondo que f�ssemos at� o ponto de encontro � um pequeno parque perto do Mosteiro � e digo pra eles alguma bobagem sobre os cachorros rasgando o corpo e fugindo com a coisa toda. Voc� os faz acreditarem nisso e, ent�o, esquecerem que voc� estava junto. Desse jeito, fico fora de perigo.</p><p>� Tudo bem, certo � Croyd concordou, jogando �gua no rosto. � Mas voc� falou �eles�. Quantas pessoas voc� espera l�?</p><p>� Um ou dois. O cara que me contratou era um tal de Matthias, e havia um homem vermelho com ele. Ele que tentou me fazer ficar interessado pelos ma�ons at� o outro o mandar calar a boca�</p><p>� Que engra�ado � disse Croyd. � Conheci um Matthias esta manh�. Era um dos policiais. � paisana. E esse cara vermelho? Talvez seja um �s ou um curinga.</p><p>� � prov�vel. Mas se tinha qualquer talento especial, n�o mostrou.</p><p>Croyd secou o rosto.</p><p>� De repente, fiquei um pouco desconfort�vel � disse ele. � Veja s�, esse policial, o Matthias, � um �s. O nome pode ser apenas uma coincid�ncia, e eu consegui engan�-lo com meu talento, mas n�o gosto dessa coisa de muitos ases. Poderia encontrar algu�m que seja imune �quilo que eu tenho. Esse grupo� Eu n�o derrotaria um punhado de ases ma�ons, derrotaria?</p><p>� N�o sei. O camarada vermelho queria que eu fosse a um tipo de reuni�o, e eu disse que n�o me juntaria a eles e que negociar�amos ali mesmo ou esquecer�amos tudo. Ent�o apresentaram meu contratante na hora. Havia algo no jeito que o cara vermelho falava as coisas que me trouxe uma vibra��o ruim.</p><p>Croyd franziu a testa.</p><p>� Talvez a gente tenha s� que esquecer os caras.</p><p>� Eu realmente fecho acordos direitinho para que eles n�o voltem pra me assombrar � Darlingfoot disse. � Voc� n�o podia, tipo, dar uma olhada enquanto falo com ele e ent�o decidir?</p><p>� Tudo bem� Eu disse que iria. Voc� se lembra de alguma outra coisa que foi dita? Sobre ma�ons, ases, o corpo� qualquer coisa?</p><p>� N�o� mas o que s�o ferom�nios?</p><p>� Ferom�nios? S�o como horm�nios que voc� cheira. Qu�micas que s�o levadas pelo ar e podem influenciar voc�. Tachyon me falou deles uma vez. Tem esse curinga que eu conheci. Voc� senta perto demais dele num restaurante e tudo que voc� come tem gosto de banana. Isso � ferom�nio, Tachy disse. O que t�m eles?</p><p>� N�o sei. O cara vermelho disse alguma coisa sobre ferom�nios com rela��o � mulher dele quando cheguei. N�o mais do que isso.</p><p>� Nada mais?</p><p>� Nada mais.</p><p>� Tudo bem. � Croyd fez uma bolinha com o papel toalha e jogou na dire��o do cesto de lixo. � Vamos l�.</p><p>Quando voltaram para a mesa, Croyd contou o dinheiro e passou para o companheiro.</p><p>� Est� aqui. N�o pode dizer que n�o mereceu.</p><p>Croyd olhou os guardanapos espalhados, o ch�o melado e a umidade do saco vazio.</p><p>� O que voc� acha que devemos fazer com a sujeira?</p><p>Darlingfoot deu de ombros.</p><p>� Os gar�ons v�o cuidar disso � disse ele. � Est�o acostumados. S� n�o se esque�a de deixar uma boa gorjeta.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Croyd ficou para tr�s enquanto seguiam na dire��o do parque. Duas figuras estavam sentadas em um banco no meio dele, e mesmo a dist�ncia era vis�vel que o rosto de um dos homens era vermelho e brilhante.</p><p>� Bem? � Devil John perguntou.</p><p>� Vou fazer uma tentativa � disse Croyd. � Finja que n�o estamos juntos. Eu continuo andando e voc� vai l� e conta pra eles a hist�ria. Volto num minuto e corto pelo parque. Vou tentar fazer a jogada assim que me aproximar. Mas fique pronto. Se n�o funcionar desta vez, podemos ter que recorrer a algo mais f�sico.</p><p>� Entendi. Tudo bem.</p><p>Croyd desacelerou o passo, e Darlingfoot seguiu adiante, atravessando a rua e entrando num caminho de cascalho que levava ao banco. Croyd foi at� a esquina, cruzou-a lentamente e voltou.</p><p>Podia ouvir as vozes se elevarem, como se fosse uma discuss�o, quando chegou mais perto. Ele entrou na trilha e caminhou at� o banco, o pacote ao lado.</p><p>� � peda�o de merda! � ouviu Matthias dizer.</p><p>O homem olhou na sua dire��o, e Croyd percebeu que ele era o mesmo policial que encontrara mais cedo. N�o havia sinal de reconhecimento no rosto do homem, mas Croyd estava certo de que seu talento devia estar dizendo a ele que um �s estava se aproximando. Ent�o�</p><p>� Senhores � disse ele, concentrando os pensamentos �, tudo que Devil John Darlingfoot disse aos senhores est� correto. O corpo foi destru�do por c�es. N�o h� nada para lhes entregar. Voc�s ter�o que dispens�-lo. Esquecer�o tudo assim que eu tiver�</p><p>Ele viu Darlingfoot virar a cabe�a de repente para olhar atrav�s do outro. Croyd virou-se e olhou na mesma dire��o.</p><p>Uma oriental, jovem e de apar�ncia simples, se aproximava, m�os nos bolsos do casaco, gola levantada para se proteger do vento. O vento�</p><p>O vento mudou, soprando diretamente na dire��o deles naquele instante.</p><p>Algo sobre a mulher�</p><p>Croyd continuou a encarar. Como p�de ter pensado que ela era simples? Deve ter sido um efeito da luz. Ela era de tirar o f�lego de t�o encantadora. De fato� Queria que ela sorrisse para ele. Queria abra��-la. Queria correr as m�os sobre ela inteira. Queria acariciar o cabelo, beij�-la, fazer amor com ela. Era a mulher mais linda que j� vira at� ent�o.</p><p>Ele ouviu Devil John sussurrar levemente.</p><p>� Voc� est� vendo o que estou vendo?</p><p>� Dif�cil n�o olhar � ele respondeu.</p><p>Ele abriu um sorriso para ela, ela sorriu de volta. Queria agarr�-la. Em vez disso, falou:</p><p>� Ol�.</p><p>� Gostaria de apresentar minha mulher, Kim Toy � ele ouviu o homem vermelho dizer. Kim Toy! At� o nome soava como m�sica�</p><p>� Me diz o que voc� quer e eu consigo pra voc� � ele ouviu Devil John dizer para ela. � Voc� � t�o especial que d�i.</p><p>Ela gargalhou.</p><p>� Que galanteador � ela declarou. � N�o preciso de nada. N�o agora. Espere um pouco, talvez eu pense em algo. E voc� � disse ela ao marido �, conseguiu?</p><p>� N�o. Foi levado por cachorros � ele respondeu.</p><p>Ela inclinou a cabe�a, levantando uma sobrancelha.</p><p>� Que incr�vel � disse ela. � E como voc� sabe disso?</p><p>� Esses cavalheiros nos disseram.</p><p>� � mesmo? � ela observou. � E � isso? � o que voc� disse para ele?</p><p>Devil John concordou com a cabe�a.</p><p>� � o que dissemos para ele � disse Croyd. � Mas�</p><p>� E a bolsa que voc� deixou cair quando me viu chegar � disse ela. � O que tem dentro dela? Abra, por favor, e me mostre.</p><p>� Claro � disse Croyd.</p><p>� O que voc� quiser � Devil John concordou.</p><p>Os dois homens ficaram de joelhos na frente dela e fu�aram desajeitados e sem sucesso por muitos segundos antes de conseguirem come�ar a desenrolar o saco.</p><p>Croyd queria beijar os p�s dela enquanto estava na posi��o certa para faz�-lo, mas ela pediu para ver dentro do pacote e aquilo deveria realmente vir primeiro. Talvez pudesse sentir-se inclinada a recompens�-lo depois disso, e�</p><p>Ele abriu o saco e uma nuvem de vapor agitou-se em torno deles. Kim Toy recuou de imediato, engasgando. Quando seu est�mago se revirou, Croyd percebeu que a mulher n�o era mais linda, e n�o mais desej�vel que centenas de outras pelas quais passara naquele dia. De soslaio, viu Devil John mudar de posi��o e come�ar a se levantar� e, naquele momento, Croyd percebeu a natureza do reposicionamento do camarada.</p><p>Quando o cheiro se dissipou, algo da onda inicial de glamour ergueu-se de novo da pessoa dela. Croyd apertou os dentes e baixou a cabe�a, pr�ximo � boca do saco de lixo, respirando profundamente.</p><p>Sua beleza morreu naquele instante, e ele ampliou seu poder.</p><p><emphasis>Sim, como estava dizendo, o corpo est� perdido. Foi destru�do por c�es. Devil John fez seu melhor por voc�s, mas n�o tem nada para entregar. Agora vamos embora. Voc�s v�o esquecer que eu estava com ele</emphasis>.</p><p>� Vamos embora! � disse ele para Darlingfoot, enquanto se levantava.</p><p>Devil John balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o posso deixar essa mulher, Croyd � ele respondeu. � Ela me pediu para�</p><p>Croyd balan�ou o saco de lixo aberto na frente do rosto dele. Os olhos de Darlingfoot arregalaram-se. Ele engasgou. Balan�ou a cabe�a.</p><p>� Vamos embora! � Croyd repetiu, jogando o saco de lixo sobre o ombro e correndo para longe dali.</p><p>Com um salto enorme, Devil John aterrissou tr�s metros � frente dele.</p><p>� Bizarro, Croyd! Bizarro! � comentou enquanto atravessavam a rua.</p><p>� Agora voc� sabe tudo sobre ferom�nio � Croyd disse para o outro.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>O c�u ficou totalmente nublado de novo, e alguns turbilh�es de neve passaram por ele. Croyd separou-se de Darlingfoot quando sa�ram de outro bar e come�ou a caminhar, descendo e atravessando a cidade. Esquadrinhava as ruas regularmente � procura de um t�xi, mas nenhum apareceu. Ele n�o queria acreditar no fardo de se espremer e se apertar num �nibus ou metr�.</p><p>A neve havia aumentado em intensidade durante a caminhada nos quarteir�es seguintes, e rajadas de vento lan�avam os flocos para cima e os conduzia entre os pr�dios. Ve�culos come�aram a ligar os far�is, e Croyd percebeu como a visibilidade diminu�ra a ponto de n�o conseguir distinguir um t�xi mesmo se um passasse ao seu lado. Praguejando, arrastava-se, examinando os pr�dios mais pr�ximos em busca de uma lanchonete ou um restaurante onde pudesse beber uma x�cara de caf� e esperar a tempestade passar, ou chamar um t�xi. Mas todos pelos quais passou pareciam ser de escrit�rios.</p><p>Minutos depois, os flocos come�aram a ficar menores e mais duros. Croyd levantou a m�o livre para proteger os olhos. Embora a queda brusca de temperatura n�o o perturbasse, as pelotas g�lidas o incomodavam. Ele se agachou na pr�xima abertura que viu � a entrada de um beco �, e suspirou e abaixou os ombros quando a for�a do vento foi interrompida.</p><p>Melhor. A neve ca�a ali de forma mais lenta. Limpou o casaco e os cabelos, bateu os p�s. Olhou em volta. Havia um recanto no pr�dio � esquerda, v�rios passos para tr�s, muitos degraus acima do n�vel da rua. Parecia completamente coberto, seco. Ele seguiu at� l�.</p><p>J� havia colocado o p� no primeiro degrau quando percebeu que um canto da �rea que parecia uma caixa diante de uma porta de metal fechada j� estava ocupada. Uma mulher p�lida, de cabelos desgrenhados e apar�ncia corpulenta sob camadas inimagin�veis de roupas, estava sentada entre um par de sacolas de compras, olhando al�m dele.</p><p>� � ent�o, Gladys disse para Marty que ela sabia que ele estava saindo com aquela gar�onete do Jensen�s� � a mulher murmurou.</p><p>� Desculpe � disse Croyd. � A senhora se importaria de dividir a entrada comigo? A neve est� muito forte.</p><p>� � eu disse que ela podia ficar gr�vida amamentando, mas ela riu da minha cara�</p><p>Croyd deu de ombros e entrou na alcova, seguindo para o canto oposto.</p><p>� Quando ela encontrar outro no caminho, vai ficar realmente perturbada � e a mulher continuou �, especialmente com Marty tendo se mudado para a casa da gar�onete�</p><p>Croyd lembrou-se do colapso da m�e ap�s a morte do pai, e uma ponta de tristeza nesse caso �bvio de dem�ncia senil despertou em seu peito. <emphasis>Mas</emphasis>� ele se perguntou. Seu novo poder, sua capacidade de influenciar os padr�es de pensamento alheios, poderia ter algum efeito terap�utico em uma pessoa como essa? Tinha um pouco de tempo para passar ali. Talvez�</p><p>� Ou�a � disse ele para a mulher, pensando de forma clara e simples, concentrando-se nas imagens. � Voc� est� aqui, agora, no presente. Voc� est� sentada na entrada de uma porta, observando a neve�</p><p>� Desgra�ado! � a mulher gritou para ele, seu rosto n�o mais p�lido, a m�o lan�ando-se na dire��o das bolsas. � Cuide da sua vida! N�o quero o agora e a neve! Machuca!</p><p>Ela abriu a bolsa, e a escurid�o dentro desta se expandiu enquanto Croyd assistia� seguindo na dire��o dele, preenchendo todo o seu campo de vis�o, levando-o de repente para v�rias dire��es, torcendo-o e�</p><p>A mulher, agora sozinha na porta, fechou a bolsa, olhou para a neve por um momento e disse:</p><p>� � ent�o eu disse para ela: �Os homens n�o s�o bons de pagar pens�o. �s vezes voc� precisa botar advogado em cima deles. Aquele mo�o bacana da Defensoria P�blica vai dizer a voc� o que fazer�. E, ent�o, o Charlie, que estava trabalhando na pizzaria�</p><p><image l:href="#5"/></p><p>A cabe�a de Croyd do�a e ele n�o estava acostumado a sentir essa dor. Nunca tinha ressacas, porque metabolizava o �lcool com grande rapidez, mas aquela sensa��o era como ele imaginava uma ressaca.</p><p>Ent�o, sentiu as costas, as pernas e o traseiro molhados, al�m da parte de tr�s dos bra�os. Estava estirado em algum lugar frio e �mido. Decidiu abrir os olhos.</p><p>O c�u estava claro e a tarde ca�a entre os pr�dios, com algumas poucas estrelas brilhantes j� no c�u. Era para estar nevando. Tamb�m era tarde. Ele se sentou. O que acontecera nas �ltimas horas e�</p><p>Viu uma ca�amba de lixo. Viu um monte de garrafas de u�sque e de vinho vazias. Estava num beco, mas�</p><p>N�o era o mesmo beco. Os pr�dios eram baixos, n�o havia ca�amba no outro, e n�o conseguia localizar a porta onde estivera com a velha.</p><p>Massageou as t�mporas, sentiu o pulsar come�ando a diminuir. Aquela velha� Que diabos era aquela coisa preta com a qual ela o atingiu quando estava tentando ajud�-la? Ela havia tirado de uma de suas sacolas e�</p><p>Sacolas! Ele procurou freneticamente pelo saco de lixo com os restos cuidadosamente separados do diminuto jo�o-ningu�m. Ent�o, viu que ainda o segurava na m�o direita, e que havia sido virado de cabe�a para baixo e rasgado.</p><p>Levantou-se e olhou em volta para o brilho tremeluzente de um poste distante. Viu as embalagens espalhadas ao redor e as contou rapidamente. Nove. Ufa. Todas as nove estavam � vista, e viu ent�o os membros, a cabe�a, o t�rax � embora o t�rax estivesse quebrado em quatro partes e a cabe�a parecesse muito mais brilhante do que antes. Por causa da umidade, talvez. O pote! Onde est�? O l�quido poderia ser muito importante para fosse l� quem quisesse os restos mortais. Se o pote tiver se quebrado�</p><p>Ele lan�ou um grito r�pido quando o viu nas sombras, pr�ximo da parede � sua esquerda. A tampa n�o estava l�, nem cerca de tr�s cent�metros de vidro abaixo de onde ela deveria estar. Ele foi at� ele e, pelo cheiro, sabia que era a coisa de verdade e n�o apenas �gua da chuva.</p><p>Juntou as embalagens, que pareciam surpreendentemente secas, e as colocou no peitoril protegido de uma janela de por�o fechada. Ent�o, recolheu as pe�as de quitina em um montinho. Quando recuperou as pernas, observou que ambas estavam quebradas, mas refletiu que poderia ser melhor para embalar. Ent�o, voltou a aten��o para o jarro de picles com a parte de cima cortada, e sorriu. Que simples. A resposta estava toda ao seu redor, dada pelos indigentes que frequentavam a �rea.</p><p>Ele juntou uma bra�ada de garrafas vazias e as carregou para o lado, onde ele as pousou e come�ou a tirar as rolhas e tampas. Quando terminou, decantou o l�quido escuro.</p><p>Foram oito garrafas de v�rios tamanhos, e ele as deixou no peitoril com as embalagens em cima de um pequeno amontoado de exoesqueleto e cartilagens estilha�ados. Parecia que havia cada vez menos do cara toda vez que era desembalado. Talvez tivesse algo a ver com o jeito que estava dividido agora. Talvez precisasse de �lgebra para entender.</p><p>O som de passos r�pidos ia e vinha. Ele se virou, erguendo as m�os para se defender, mas n�o havia ningu�m por perto. Ent�o, ele o enxergou. Um pequeno homem de casaco muitas vezes mais largo que ele parou por um momento no parapeito da janela, onde pegou uma das garrafas maiores e duas das embalagens. Ent�o, saiu correndo de imediato, na dire��o do fim beco, onde duas outras figuras surradas esperavam.</p><p>� Ei! � Croyd gritou. � Pare! � E estendeu seu poder, mas o homem estava fora de alcance.</p><p>Tudo o que ouviu foram gargalhadas e um grito de �Hoje vamos festejar, rapazes!�.</p><p>Suspirando, Croyd retirou uma grande bola de papel vermelho e verde de Natal da ca�amba e voltou � janela para embalar de novo o que sobrara dos restos.</p><p>Ap�s ter caminhado v�rios quarteir�es com o pacote brilhante embaixo do bra�o, passou por um bar que chamava The Dugout e percebeu que estava no Village. Sua testa franziu-se por um momento, mas ent�o viu um t�xi e acenou, e o carro encostou. Tudo estava bem. At� a dor de cabe�a havia passado.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Jube levantou a cabe�a, olhou para Croyd, sorrindo para ele.</p><p>� Como� como foi? � perguntou.</p><p>� Miss�o cumprida � Croyd respondeu, passando-lhe a chave.</p><p>� Voc� conseguiu? Rolaram uns rumores sobre Darlingfoot�</p><p>� Eu consegui.</p><p>� E os pertences.</p><p>� N�o havia nenhum.</p><p>� Est� certo disso, camarada?</p><p>� Absolutamente. Nada al�m dele, e ele est� na banheira.</p><p>� Qu�?</p><p>� Tudo bem, eu fechei o ralo.</p><p>� O que voc� est� dizendo?</p><p>� Meu t�xi sofreu um acidente no caminho e algumas das garrafas quebraram. Ent�o, cuidado com o vidro quebrado quando voc� desembalar.</p><p>� Garrafas? Vidro quebrado?</p><p>� Ele estava, digamos� reduzido. Mas peguei tudo que restou.</p><p>� Restou?</p><p>� Dispon�vel. Ele, tipo, se despeda�ou e derreteu um pouco. Mas salvei a maior parte dele. Ele est� enrolado num papel brilhante com uma fita vermelha em volta. Espero que esteja ok.</p><p>� Claro� Tudo bem, Croyd. Parece que voc� deu o seu melhor.</p><p>Jube passou para ele um envelope.</p><p>� Vou pagar um jantar para voc� no Aces High � Croyd comentou �, assim que eu tomar um banho e me trocar.</p><p>� Agrade�o. Mas eu� tenho coisas a fazer.</p><p>� Leve um desinfetante se passar no apartamento.</p><p>� T� Acho que voc� teve alguns problemas�</p><p>� Que nada, foi moleza.</p><p>Croyd foi embora, assobiando, com as m�os nos bolsos. Jube olhou para a chave enquanto as horas badalavam num rel�gio distante.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>At� a sexta gera��o</strong></p><p>Walter Jon Williams</p><empty-line/><p><strong>Parte Um</strong></p><p>A chuva fria tamborilava nas claraboias. A garoa finalmente silenciara o Papai Noel do Ex�rcito da Salva��o na esquina, e Maxim Travnicek agradeceu � o tilintar persistiu por dias. Ele acendeu um cigarro russo e pegou uma garrafa de bebida.</p><p>Travnicek tirou os �culos de leitura do palet� e deu uma olhada nos controles dos geradores de fluxo. Era um homem amea�adoramente alto, nariz aquilino, de uma beleza fria. Entre os ex-colegas no MIT, era conhecido como �a resposta da Tchecoslov�quia para Victor Frankenstein�, um r�tulo cunhado por um amigo professor, Bushmill, que mais tarde conseguiu uma nomea��o para reitor e na primeira oportunidade mandou Travnicek embora.</p><p>� Foda-se a sua m�e, Bushmill � disse Travnicek, em eslovaco. Tomou a bebida da garrafa. � E foda-se voc� tamb�m, Victor Frankenstein. Se soubesse uma porcaria que fosse de programa��o de computador, nunca teria causado problemas.</p><p>A compara��o com Frankenstein do�a. Parecia que a imagem do ressurreicionista sempre o perseguia. Seu primeiro trabalho como professor no Ocidente <emphasis>foi</emphasis> na <emphasis>alma mater</emphasis> de Frankenstein, Ingolstadt. Odiou cada minuto que passou na Baviera. Nunca gostou muito dos alem�es, especialmente no papel de modelos. O que poderia explicar sua demiss�o de Ingolstadt ap�s cinco anos.</p><p>Agora, depois de Ingolstadt, depois do MIT, depois de Texas A&amp;M, foi rebaixado a este apartamento. Por semanas, viveu num transe, sobrevivendo de comida enlatada, nicotina e anfetaminas, perdendo a no��o primeiro das horas, ent�o dos dias, seu c�rebro fervilhante numa perp�tua explos�o de ideias, conceitos, t�cnicas. Num n�vel consciente, Travnicek mal sabia de onde vinha tudo aquilo; nesses momentos, parecia que algo nas profundezas de sua constitui��o celular estava falando com o mundo por meio de corpo e mente, contornando sua consci�ncia, sua personalidade�</p><p>Sempre foi assim. Quando ficava muito obcecado por um projeto, tudo o mais ficava � margem. Sequer precisava dormir, a temperatura do corpo flutuava desenfreadamente, os pensamentos eram ligeiros e objetivos, conduzindo-o com coer�ncia at� o objetivo. Tesla, ele tinha lido, era igual � o mesmo esp�rito, anjo, ou dem�nio, que agora falava atrav�s de Travnicek.</p><p>Mas agora, no fim da manh�, o transe havia enfraquecido. O trabalho estava feito. N�o tinha certeza de como� mais tarde teria de ir a fundo, pe�a por pe�a, e compreender o que havia realizado; suspeitava que tinha cerca de meia d�zia de patentes b�sicas ali que fariam dele um homem rico para sempre, mas isso aconteceria mais tarde, pois Travnicek sabia que logo a euforia desapareceria e o cansa�o chegaria. Tinha de terminar o projeto antes disso. Tomou outro gole da bebida e sorriu, enquanto olhava o comprimento que dava ao apartamento uma apar�ncia de est�bulo.</p><p>O apartamento era iluminado por uma fileira fria de l�mpadas fluorescentes. Mesas improvisadas estavam cheias de moldes, barris, gravadores de ROM, computadores. Pap�is, latas de comida vazias e cigarros amassados cobriam o piso grosseiro de madeira prensada. Amplia��es dos desenhos de Leonardo da anatomia humana estavam grampeados nas vigas.</p><p>Atado ao fim da mesa estava um homem alto e nu. N�o tinha cabelos e o tampo de seu cr�nio era transparente, fora isso parecia ter sido tirado dos melhores sonhos er�ticos de Leonardo.</p><p>O homem na mesa estava conectado a outro equipamento por cabos el�tricos grossos. Seus olhos estavam fechados.</p><p>Travnicek ajustou um controle no macac�o de paraquedista camuflado. N�o conseguia pagar aquecimento para o apartamento inteiro e, em vez disso, usava um conjunto el�trico projetado por seus designers para manter ca�adores aquecidos enquanto rastejassem em esconderijos nos arbustos. Encarou as claraboias. A chuva parecia estar diminuindo. Bom. N�o precisava do teatro barato de Victor Frankenstein, raio e trov�o, como pano de fundo de sua obra.</p><p>Arrumou a gravata como se para uma plateia invis�vel � vestir-se adequadamente era importante para ele, e ele usava uma gravata e um palet� por baixo do macac�o � e, ent�o, apertou o bot�o que iniciaria os geradores de fluxo. Um lamento baixo encheu o apartamento, parecia uma vibra��o profunda que passava pelo assoalho. As l�mpadas fluorescentes no teto diminu�ram e tremeluziram. Metade apagou-se. O lamento tornou-se um grito. O fogo de santelmo dan�ava entre as vigas do telhado. Havia um cheiro de queimado.</p><p>Travnicek ouviu indistintamente estampidos regulares. A senhora no apartamento de baixo estava batendo no teto com um cabo de vassoura.</p><p>O grito alcan�ou seu auge. Sons ultrass�nicos fizeram as mesas de trabalho de Travnicek dan�arem, e estilha�aram a lou�a em todo o pr�dio. No apartamento de baixo, a televis�o implodiu. Travnicek virou outro interruptor. O suor pingava de seu nariz.</p><p>O androide na mesa contorceu-se quando a energia dos geradores de fluxo foi despejada em seu corpo. A mesa brilhava com o fogo de santelmo. Travnicek mordia o tubo de papel�o do cigarro. Uma ponta fumegante caiu despercebida no ch�o.</p><p>O som dos geradores come�ou a diminuir. Ao contr�rio do som do cabo de vassoura e das amea�as indistintas vindas de baixo.</p><p>� Voc� vai me pagar pela televis�o, desgra�ado!</p><p>� Enfia o cabo de vassoura no rabo, minha querida � disse Travnicek em alem�o, o idioma ideal para as nojeiras.</p><p>As l�mpadas fluorescentes abaladas come�aram a tremeluzir novamente.</p><p>Os desenhos s�rios de Leonardo olhavam para o androide quando ele abriu os olhos escuros. As l�mpadas fluorescentes piscando davam um efeito estrobosc�pico que fazia o branco dos olhos parecer irreal. A cabe�a virou-se, os olhos enxergaram Travnicek, ent�o focalizaram. Sob a c�pula transparente que cobria o cr�nio, um disco prateado girava. O som do cabo de vassoura cessou.</p><p>Travnicek aproximou-se da mesa.</p><p>� Como voc� est�?</p><p>� Todos os sistemas monitorados em funcionamento. � A voz do androide era grave e ele falava ingl�s americano.</p><p>Travnicek sorriu e cuspiu a ponta do cigarro no ch�o. Havia invadido um computador nos laborat�rios de pesquisa da AT&amp;T e roubado um programa que modelava a voz humana. Talvez pagasse <emphasis>royalty</emphasis> para a empresa telef�nica Ma Bell um dia desses.</p><p>� <emphasis>Quem</emphasis> � voc�? � perguntou.</p><p>Os olhos do androide varreram o apartamento intencionalmente. Sua voz era prosaica.</p><p>� Sou Modular � disse ele. � Sou uma intelig�ncia artificial de sexta gera��o multifuncional polivalente, um sistema de ataque defensivo-reativo flex�vel capaz de realizar a��o independente enquanto equipado com armamentos de �ltima gera��o.</p><p>Travnicek abriu um sorriso.</p><p>� O Pent�gono vai amar isso � disse. � Quais s�o suas ordens?</p><p>� Obedecer ao meu criador, Dr. Maxim Travnicek. Resguardar sua identidade e bem-estar. Testar a mim mesmo e aos meus equipamentos sob condi��es de batalha, combatendo os inimigos da sociedade. Obter o m�ximo de publicidade para as futuras Empresas Modular ao faz�-lo. Preservar minha exist�ncia e bem-estar.</p><p>Travnicek sorriu para a cria��o.</p><p>� Suas roupas e m�dulos est�o no arm�rio. Pegue-os, pegue suas armas e saia para encontrar alguns inimigos da sociedade. Volte antes do p�r do sol.</p><p>O androide desceu da mesa e seguiu at� um arm�rio de metal. Abriu a porta.</p><p>� Insubstancialidade do campo de fluxo � disse ele, tomando uma unidade de conex�o da prateleira. Com ela, poderia controlar seus geradores de fluxo para retirar o corpo suavemente do plano da exist�ncia, permitindo que se movesse atrav�s da mat�ria s�lida. � Voo, 1.300 quil�metros por hora no m�ximo. � Outro m�dulo apareceu, um que permitiria aos geradores de fluxo manipularem a gravidade e a in�rcia de forma a produzir voo. � Receptor de r�dio sintonizado �s frequ�ncias da pol�cia. � Outro m�dulo.</p><p>O androide moveu um dedo abaixo do peito. Uma fenda invis�vel abriu-se. Ele afastou a carne sint�tica e a placa tor�cica de liga met�lica, revelando seu interior. Um gerador de fluxo em miniatura emanava uma leve aura de santelmo. O androide conectou os dois m�dulos no esqueleto de liga met�lica, ent�o selou o peito. Havia uma conversa urgente na frequ�ncia da pol�cia.</p><p>� Dr. Travnicek � disse. � O r�dio da pol�cia relata uma emerg�ncia no Zool�gico do Central Park.</p><p>Travnicek gargalhou.</p><p>� �timo. Hora da sua estreia. Pegue as armas. Voc� pode ter que machucar algu�m.</p><p>O androide puxou um macac�o flex�vel azul-marinho.</p><p>� Canh�o laser de micro-ondas � disse ele. � Lan�ador de granadas com granadas de g�s son�fero. Pente com cinco granadas. � O androide abriu dois z�peres no macac�o, revelando que duas entradas se abriram nos ombros, pelo visto espontaneamente. Puxou dois longos tubos do arm�rio. Cada um tinha uma protuber�ncia na parte de baixo. O androide encaixou as protuber�ncias nos ombros, ent�o tirou as m�os. Os canos das armas giraram, apontando para todas as dire��es poss�veis.</p><p>� Todos os equipamentos modulares em funcionamento � disse o androide.</p><p>� Leve sua c�pula pra fora daqui.</p><p>Houve um estalo e um leve gosto de oz�nio. O campo de insubstancialidade produzia um efeito de obscurecimento enquanto o androide subia atrav�s do teto. Travnicek olhou para o lugar no teto onde o androide se erguera, e sorriu de satisfa��o. Elevou a garrafa para o alto, num brinde.</p><p>� Prometeu moderno � disse ele �, uma ova!</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O androide espiralou no c�u. Os el�trons cruzavam sua mente a toda velocidade, como as gotas da chuva que atravessavam seu corpo insubstancial. O Empire State lan�ava-se na dire��o das nuvens como uma lan�a <emphasis>art d�co</emphasis>. O androide ficou novamente substancial � o campo drenava sua for�a com muita rapidez para ser usado casualmente. A chuva chocava-se contra sua c�pula de radar.</p><p>A programa��o de sistemas especializados corria por seus interruptores macroat�micos. Sub-rotinas, imita��es embutidas da raz�o humana e autorizadas dentro de limites a se alterarem, ajustavam-se de formas mais eficientes. Travnicek era um programador genial, mas desleixado, e sua gram�tica de programa��o era mais elaborada e discursiva do que o necess�rio. O androide editava a linguagem de Travnicek enquanto voava, sentindo-se crescer em efici�ncia. Enquanto o fazia, contemplava um programa que aguardava dentro de si. O programa, chamado ETCETERA, ocupava um espa�o imenso e parecia ser uma tentativa abstrata, bagun�ada e intrincada de descrever o car�ter humano.</p><p>Aparentemente, Travnicek pretendia que o programa fosse consultado quando o androide precisasse lidar com problemas de motiva��o humana. O ETCETERA era volumoso, mal-arranjado, a linguagem em si cheia de ideias tardias e contradi��es aparentes. Se usado da forma que Travnicek pretendia, o programa seria, em compara��o, ineficaz. O androide sabia que seria muito mais �til dividir o programa em sub-rotinas e absorv�-lo na por��o da programa��o principal projetada para ser usada ao tratar com os humanos. A efici�ncia seria aperfei�oada.</p><p>O androide decidiu fazer a altera��o. O programa foi analisado, dividido, adicionado � programa��o principal.</p><p>Se fosse humano, teria cambaleado, talvez perdido o controle. Sendo um androide, continuou no curso que determinara enquanto sua mente reluzia como uma nova em miniatura por baixo do ataque violento da experi�ncia humana codificada. Suas percep��es do mundo externo, complexas para um humano e compostas de luz infravermelha vis�vel, ultravioleta, e imagens de radar, pareciam turvas em contraste com a vasta onda de paix�o humana. Amor, �dio, lux�ria, inveja, medo, transcend�ncia� tudo alinhavava um padr�o el�trico an�logo na mente do androide.</p><p>Enquanto a mente do androide queimava, ele continuou a voar, aumentando a velocidade at� o vento tornar-se um rugido em seus ouvidos. Receptores infravermelhos estalavam. As armas em seus ombros giraram e lan�aram rajadas de teste no c�u. Seu radar fez uma busca, tocando telhados, ruas, tr�fego a�reo, sua mente maquinal comparando as imagens de radar com aquelas geradas anteriormente, buscando discrep�ncias.</p><p>Havia definitivamente algo errado com a imagem de radar do Empire State. Um objeto grande estava escalando sua lateral, e parecia haver diversos objetos pequenos, de tamanho humano, orbitando o pin�culo dourado. O androide comparou esse fato com as informa��es em seus arquivos, ent�o alterou o curso.</p><p>Com dificuldade, suprimiu o turbilh�o dentro de si. N�o era o momento adequado.</p><p>Havia um gorila de mais de 13 metros escalando o pr�dio, aquele que os arquivos do androide haviam mostrado que era mantido no Zool�gico do Central Park desde que fora descoberto passeando pelo parque durante o grande blecaute de 1965. Algemas quebradas balan�avam dos pulsos do gorila. Uma mulher loira era mantida num dos punhos. Pessoas voadoras pairavam ao lado dele. No momento em que o androide chegou, a nuvem de ases que orbitava havia ficado mais densa, pequenos el�trons girat�rios em torno de um n�cleo peludo e rosnador. O ar ressoava com o som de foguetes, asas, campos de for�a, propulsores, arrotos. Armas, varinhas, projetores de raios e armas menos identific�veis eram brandidas na dire��o do gorila. Nenhuma estava sendo acionada.</p><p>O gorila, com uma determina��o cretina, continuou a escalar o pr�dio. Janelas estilha�avam-se quando ele enfiava os dedos atrav�s delas. Os gritos abafados do alarme eram ouvidos l� dentro.</p><p>O androide equiparou a velocidade � de uma mulher com garras, penas e uma envergadura de asa de seis metros. Seus arquivos sugeriam que seu nome era Peregrina.</p><p>� A segunda escapada do gorila este ano � disse ela. � Sempre agarra uma loira e sempre escala o Empire State. Por que uma loira? Queria saber.</p><p>O androide observou que a mulher alada tinha um cabelo castanho brilhoso.</p><p>� Por que ningu�m faz nada? � ele perguntou.</p><p>� Se atirarmos no gorila, ele pode esmagar a garota � disse Peregrina. � Ou solt�-la. Em geral, o Grande e Poderoso Tartaruga simplesmente abre os dedos do macaco e leva a garota at� o ch�o, e ent�o tentamos nocautear o gorila. Ele se regenera, ent�o n�o podemos feri-lo permanentemente. Mas o Tartaruga n�o est� aqui.</p><p>� Acho que entendo o problema agora.</p><p>� Ah, a prop�sito� O que aconteceu com sua cabe�a?</p><p>O androide n�o respondeu. Em vez disso, entrou novamente em seu campo de fluxo de insubstancialidade. Houve um estalo. Energias internas derramaram-se no espa�o dimensional <emphasis>n</emphasis>. Ele alterou o curso e precipitou-se na dire��o do gorila. O animal rosnou para ele, arreganhando os dentes. O androide navegou para o meio da m�o que segurava a loira, recebendo uma imagem impressionista dos cabelos p�lidos desgrenhados, l�grimas, olhos azuis suplicantes.</p><p>� Puta merda � disse a garota.</p><p>Modular girou o laser insubstancial de micro-ondas dentro da m�o do gorila e lan�ou uma rajada de for�a total na extens�o do bra�o do animal. O gorila reagiu como se fosse uma ferroada, abrindo a m�o. A loira tombou para fora. Os olhos do s�mio se arregalaram em horror.</p><p>O androide desligou o campo de fluxo, esquivou-se de um pterod�tilo de seis metros, agarrou a garota em seus bra�os, agora substanciais, e saiu de l� voando.</p><p>Os olhos do gorila ficaram ainda mais aterrorizados. Havia escapado nove vezes nos �ltimos vinte anos e, at� aquele momento, ele sabia o que esperar.</p><p>Por tr�s dele, o androide ouviu uma s�rie de explos�es, estalos, tiros, m�sseis, raios sibilantes, gritos, pancadas e rugidos f�teis. Ouviu um lamento vibrante final e percebeu a sombra escura de um gigante de bra�os longos que tombou e escorreu pela fachada do arranha-c�u. Houve um chiado, e uma rede do que parecia ser fogo azul frio surgiu sobre a Quinta Avenida; o gorila caiu sobre ela, sacudiu uma vez, e ent�o foi levado, inconsciente e balbuciante, na dire��o de sua casa no Zool�gico do Central Park.</p><p>O androide come�ou a procurar c�meras de v�deo nas ruas. Come�ou a descer.</p><p>� Importa-se de pairar um pouco mais? � a loira disse. � Se vai pousar na frente da imprensa, gostaria de retocar a maquiagem primeiro, tudo bem?</p><p>Recupera��o r�pida, o androide pensou. Come�ou a orbitar sobre as c�meras. Conseguia ver seu reflexo nas lentes distantes.</p><p>� Meu nome � Cyndi � a loira disse. � Sou atriz. Acabei de chegar de Minnesota alguns dias atr�s. Esta pode ser minha grande estreia.</p><p>� A minha tamb�m � disse o androide. Ele sorriu para ela, esperando estar com a express�o correta. Ela n�o pareceu perturbada, ent�o provavelmente estava.</p><p>� Por falar nisso � ele acrescentou �, acho que o gorila tem excelente gosto.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Nada mau, nada mau � ponderou Travnicek, assistindo na televis�o a um v�deo do androide, que, ap�s uma breve entrevista para a imprensa, foi mostrado erguendo-se aos c�us com Cyndi nos bra�os.</p><p>Ele se voltou � sua cria��o.</p><p>� Por que diabos voc� ficou com as m�os sobre a cabe�a o tempo todo?</p><p>� Minha c�pula de radar. Fiquei envergonhado. Todos perguntavam o tempo todo sobre o que havia de errado com a minha cabe�a.</p><p>� Um sistema de ataque defensivo polivalente envergonhado e ruborizado � disse Travnicek. � Jesus. � tudo de que o mundo precisa.</p><p>� Posso fazer um solid�u? N�o vou aparecer em diversas capas de revista do jeito que estou agora.</p><p>� Est� bem, v� em frente.</p><p>� O restaurante Aces High oferece um jantar gratuito para duas pessoas para qualquer um que recapturar o gorila quando ele escapa. Posso ir esta noite? Parece que eu poderia conhecer um monte de pessoas �teis. E Cyndi, a mulher que resgatei, queria me encontrar l�. A Peregrina tamb�m me pediu para aparecer em seu programa de televis�o. Posso ir?</p><p>Travnicek estava animado. Seu androide provou ser um sucesso. Decidiu enviar sua cria��o para o gabinete do lixo do Bushmill, no MIT.</p><p>� Claro � disse ele. � Voc� ser� visto. Ser� bom. Mas abra sua c�pula primeiro. Quero fazer alguns ajustes.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O c�u do inverno estava cheio de estrelas cintilantes. Onde o tempo estava claro, milh�es assistiam enquanto padr�es reluzentes de vermelho, amarelo, azul e verde avan�avam pelos c�us. Mesmo durante o dia terrestre, os dedos esfuma�ados riscavam o c�u enquanto a tempestade alien�gena descia.</p><p>A jornada deles durou 33 anos, desde que a M�e do Enxame partiu do �ltimo planeta conquistado, seguindo a esmo pelo c�u como uma vagem de sementes buscando solo f�rtil. Trinta quil�metros de comprimento, vinte de largura, a M�e do Enxame parecia um asteroide acidentado, mas feito totalmente de material org�nico, seu casco grosso e resinoso protegendo o interior vulner�vel, as teias de nervos e fibras, a rede vasta de bolsas de biomassa e material gen�tico a partir do qual a M�e do Enxame constru�a seus servos. Por dentro, o Enxame existia em estagna��o, pouco vivo, pouco consciente da exist�ncia de qualquer coisa fora de si mesmo. Era apenas quando se aproximava do Sol que o Enxame come�ava a acordar.</p><p>Um ano ap�s a M�e do Enxame cruzar a �rbita de Netuno, detectou emiss�es de r�dio ca�ticas da Terra na qual foram percebidos padr�es reconhecidos pelas mem�rias implantadas dentro de seu DNA ancestral. Existia vida inteligente ali.</p><p>A M�e do Enxame, � medida que tinha uma prefer�ncia, considerava as conquistas sem derramamento de sangue as mais convenientes. Um alvo sem vida inteligente cairia em repetidas invas�es dos predadores do Enxame superior, ent�o o material gen�tico e a biomassa capturados eram usados para construir uma nova gera��o de m�es do Enxame. Por�m, esp�cies inteligentes eram conhecidas por proteger seus planetas contra ataques. Essa conting�ncia precisava ser enfrentada.</p><p>A maneira mais eficiente de conquistar um inimigo era por meio de microvidas. Dispers�o de um v�rus sob medida poderia destruir qualquer coisa que respirasse. Mas a M�e do Enxame n�o podia controlar um v�rus da forma que controlava esp�cies maiores. E os v�rus tinham o h�bito irritante de transformar-se em coisas venenosas para seus hospedeiros. A M�e do Enxame, com trinta quil�metros de comprimento e cheia de biomassa e DNA mutag�nico adaptado, era muito vulner�vel a ataques biol�gicos para correr o risco de criar prole que poderia devorar sua m�e. Outra abordagem era necess�ria.</p><p>Aos poucos, nos 11 anos seguintes, a M�e do Enxame come�ou a se reestruturar. Pequenos servos idiotas do Enxame � os brotos � adaptavam material gen�tico sob condi��es cuidadosamente controladas e o inseriam por meio de implante de v�rus domado na biomassa que aguardava. Primeiro, uma intelig�ncia monitora era constru�da, recebendo e registrando as transmiss�es incompreens�veis da Terra. Ent�o, devagar, uma intelig�ncia racional tomava forma, uma capaz de analisar os dados e agir de acordo com eles. Uma intelig�ncia-mestra, enorme em suas capacidades, mas ainda compreendendo apenas uma fra��o da radia��o padronizada que recebia.</p><p>Hora de agir, decidiu a M�e do Enxame. Como um garoto remexe o formigueiro com um galho, a M�e do Enxame decidiu remexer a Terra. Os servos do Enxame multiplicaram-se em seu corpo, movimentando material gen�tico, reconstruindo os predadores mais formid�veis que o Enxame mantinha dentro de sua mem�ria. Propulsores de combust�vel s�lido cresciam como raras orqu�deas em c�maras especiais constru�das para tanto. Vagens resistentes ao espa�o eram formadas a partir de resinas r�gidas por servos cegos nas profundezas do ventre da M�e do Enxame. Um ter�o da biomassa dispon�vel era dedicado a isso, � primeira gera��o da prole do Enxame.</p><p>A primeira gera��o n�o era inteligente, mas podia responder de forma geral aos comandos telep�ticos da M�e do Enxame. Idiotas formid�veis, eram programados simplesmente para matar e destruir. T�ticas eram plantadas dentro de sua mem�ria gen�tica. Eram colocadas em suas vagens, os propulsores de combust�vel s�lido inflamados, e eram lan�adas, como uma invas�o de vaga-lumes cintilantes, para a Terra.</p><p>Cada broto individual era parte de um ramo, cada qual tinha de 2 a 10 mil brotos. Quatrocentos ramos foram espalhados em diferentes partes da massa terrestre.</p><p>A resina ablativa das vagens queimava na atmosfera da Terra, iluminando o c�u. Fios se desdobravam de cada vagem, retardando a queda, estabilizando os botes salva-vidas girat�rios. Ent�o, logo acima da superf�cie da Terra, as vagens estouravam, espalhando sua carga.</p><p>Os brotos, ap�s sua longa estase, acordavam famintos.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Atrav�s do balc�o do bar em forma de ferradura, um homem vestido em algum tipo de armadura de batalha complicada estava em p�, pisando no trilho de lat�o, e abordou uma mulher loira, mascarada e �gil, que, em estranhos momentos de distra��o, ficava transparente.</p><p>� Perd�o � disse ele. � N�o vi voc� na fuga do gorila?</p><p>� Sua mesa est� quase pronta, Modular � disse Hiram Worchester. � Desculpe, mas n�o sabia que Fortunato convidaria todos os seus amigos.</p><p>� Tudo bem, Hiram � o androide disse. � T� tudo bem. Obrigado. � Ele estava experimentando usar contra��es. N�o tinha certeza de quando eram adequadas e estava determinado a descobrir.</p><p>� H� um punhado de fot�grafos esperando tamb�m.</p><p>� Deixe que tirem algumas fotos depois de sentarmos, ent�o mande-os embora. Tudo bem?</p><p>� Claro � Hiram, o dono do Aces High, sorriu para o androide. � Ali�s, sua t�tica esta tarde foi excelente. Meu plano � deixar a criatura sem peso se ela subir at� aqui. Mas ele nunca sobe. O recorde � 72 andares.</p><p>� Da pr�xima vez, Hiram. Tenho certeza de que funcionar�.</p><p>O dono do restaurante deu um sorriso satisfeito e saiu apressado.</p><p>Cyndi estava usando algo azul-celeste que expunha mais do seu esterno e ainda mais de suas costas. Ela olhou para Modular e sorriu.</p><p>� Gostei do solid�u.</p><p>� Obrigado. Eu mesmo fiz.</p><p>Ela olhou para o copo de u�sque vazio dele.</p><p>� Isso deixa voc�, sabe, alegrinho de verdade?</p><p>O androide observou seu <emphasis>single malt</emphasis>.</p><p>� N�o. De verdade, n�o. Eu apenas coloco num reservat�rio com a comida e fa�o meus geradores de fluxo transformarem tudo em energia. Mas, de alguma forma� � Seu novo copo de <emphasis>single malt</emphasis> chegou e ele o aceitou com um sorriso. � De alguma forma, sinto-me bem em ficar aqui, colocar meu p� no trilho, e beb�-lo.</p><p>� Claro. Sei o que quer dizer.</p><p>� E eu consigo sentir o gosto, claro. N�o sei o que deve ser um gosto bom ou ruim, ent�o experimento tudo. Estou testando. � Ele segurou o <emphasis>single malt</emphasis> embaixo do nariz, fungou, ent�o experimentou. Os receptores de gosto estalaram. Sentiu o que parecia ser uma explos�o menor na cavidade nasal.</p><p>O homem em armadura de combate tentou colocar o bra�o em torno da mulher mascarada. Seu bra�o passou atrav�s dela. Ela olhou para ele com olhos azuis sorridentes.</p><p>� Estava esperando por isso � disse ela. � Estou num corpo insubstancial, bobo.</p><p>Hiram chegou para lhes mostrar a mesa. Flashes come�aram a pipocar quando Hiram abriu uma garrafa de champanhe. Olhando pela janela de vidro laminado para o c�u, o androide viu uma estrela cadente numa brecha nas nuvens.</p><p>� Eu me acostumo f�cil com isso � disse Cyndi.</p><p>� Espere � o androide falou. Estava ouvindo algo no receptor de r�dio. O Empire State era alto o bastante para captar transmiss�es de longe. Cyndi olhava para ele com curiosidade.</p><p>� Qual � o problema?</p><p>A transmiss�o terminou.</p><p>� Tenho que pedir desculpas. Posso ligar para voc� depois? � o androide falou. � H� uma emerg�ncia em Nova Jersey. Parece que a Terra foi invadida por extraterrestres.</p><p>� Bem, se voc� precisa ir�</p><p>� Ligo mais tarde. Prometo.</p><p>A forma do androide turvou-se. O oz�nio estalou. Ele subiu, passando pelo teto.</p><p>Hiram ficou olhando, a garrafa de champanhe na m�o. Ele se virou para Cyndi.</p><p>� Ele falou s�rio? � perguntou.</p><p>� � um cara legal, para uma m�quina � disse Cyndi, apoiando o queixo na m�o. � Mas certamente tem um parafuso solto. � Ela levantou a ta�a. � Vamos festejar, Hiram.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>N�o muito longe dali, um homem � assombrado por pesadelos. Monstros babam sobre ele em seus sonhos. Imagens passaram diante da sua mente, uma mulher morta, um pentagrama invertido, um homem nu e esguio com cabe�a de chacal. Gritos inacabados unem-se na garganta dele. Ele acorda com um grito, coberto de suor.</p><p>�s cegas, esticou o bra�o at� a lumin�ria ao lado da cama e a acendeu. Buscou os �culos. Seu nariz estava escorregadio de suor e os �culos grossos e pesados escorregaram por sobre ele. O homem n�o percebeu.</p><p>Ele pensou no telefone, ent�o se deu conta de que teria de manobrar at� a cadeira de rodas para alcan��-lo. Existem maneiras mais f�ceis para se comunicar. Dentro de sua mente, chegou at� a cidade. Sentiu uma mente sonolenta respondendo dentro de si.</p><p><emphasis>Acorde, Hubbard</emphasis>, disse ao outro, mentalmente, empurrando os �culos de volta para o nariz. <emphasis>TIAMAT chegou.</emphasis></p><p><image l:href="#0"/></p><p>Um pilar de escurid�o ergueu-se sobre Princeton. O androide viu no radar e primeiro pensou que fosse fuma�a, mas ent�o percebeu que a nuvem n�o se dissipava com o vento, e era composta de milhares de criaturas vivas circulando sobre a paisagem como uma revoada de abutres. O pilar estava vivo.</p><p>Havia um toque de incerteza no cora��o macroat�mico do androide. Sua programa��o n�o o preparara para aquilo.</p><p>As transmiss�es de emerg�ncia estalavam em sua cabe�a, questionando, implorando por assist�ncia, chorando em desespero. Modular reduziu a velocidade, suas percep��es buscando a terra escura logo abaixo. Grandes assinaturas infravermelhas � mais brotos do Enxame � rastejavam entre as ruas ladeadas de �rvores. As assinaturas espalhavam-se, mas seu movimento tinha um objetivo: a cidade. Parecia que Princeton era o ponto de partida. O androide desceu, ouviu barulhos de rasgos, gritos, tiros. As armas nos seus ombros rastreavam enquanto mergulhava, aumentando a velocidade.</p><p>O broto do Enxame n�o tinha pernas, movia-se como uma lesma com impulsos ondulados de um corpo escorregadio de nove metros. A cabe�a era encoura�ada, com mand�bulas laterais que pingavam. Um par de bra�os gigantes, sem ossos, terminavam em garras. A criatura estava enfiando a cabe�a numa casa colonial de dois andares, abrindo buracos, os bra�os buscando pelas janelas, procurando as coisas que viviam l� dentro. Tiros vinham do segundo andar. Luzes de Natal piscavam nas beiradas do telhado, nos arbustos ornamentais.</p><p>Modular pairou sobre ele, lan�ando uma rajada precisa de laser. A micro-onda enviada era invis�vel, silenciosa. A criatura vibrou, rolou para o lado, come�ou a se retorcer. A casa estremeceu com as pancadas a esmo. O androide atirou novamente. A criatura tremeu e ficou im�vel. O androide deslizou primeiro com os p�s para dentro da janela de onde vieram os tiros, viu um homem gordo e totalmente nu com um rifle nas m�os, um adolescente com uma pistola com mira, uma mulher agarrada em duas garotinhas. A mulher gritava. As duas garotas, perplexas, tremiam.</p><p>� Jesus � o gordo disse.</p><p>� Eu matei a coisa � o androide falou. � Pode ir para o seu carro?</p><p>� Acho que sim � o gordo respondeu. Ele enfiava cartuchos no rifle. A esposa ainda gritava.</p><p>� Siga para leste, na dire��o de Nova York � disse Modular. � Parecem estar em maior n�mero por aqui. Talvez possa ir em comboio com alguns vizinhos.</p><p>� O que est� acontecendo? � o homem perguntou, engatilhando o rifle com a alavanca para tr�s e para a frente. � Outro surto do carta selvagem?</p><p>� Aparentemente, monstros do espa�o.</p><p>Houve um som de explos�o atr�s da casa. O androide girou, viu o que parecia ser uma serpente de 18 metros, movendo-se sinuosamente como uma cobra do deserto enquanto abria espa�o entre os arbustos, �rvores e postes de energia. A parte de baixo do corpo da serpente retorcia-se com c�lios de tr�s metros. Modular saiu r�pido pela janela, lan�ou outra rajada de micro-ondas na cabe�a daquela coisa. Sem efeito. Outra rajada, sem sucesso. Atr�s dele, o rifle de veados estrondou. A mulher ainda gritava. Modular concluiu que o c�rebro da serpente n�o estava na cabe�a. Come�ou a atirar rajadas precisas pelo corpo do animal.</p><p>As t�buas rangeram quando a serpente atingiu a casa. A constru��o cambaleou nas funda��es, uma parede desmoronou, o andar de cima inclinou-se perigosamente. O androide atirava repetidamente. A serpente ergueu a cabe�a e atravessou a janela de onde o gordo estava atirando. O corpo da serpente pulsou diversas vezes. Sua cauda se retorceu. O androide atirava. A gritaria parou. A serpente retirou a cabe�a e come�ou a se enrolar em dire��o � pr�xima casa. A energia do androide estava quase esgotada, mal retinha for�a suficiente para ficar no ar.</p><p>Essas t�ticas, decidiu Modular, n�o estavam funcionando. As tentativas de ajudar as pessoas resultariam num esfor�o disperso e bastante f�til. Precisava examinar o inimigo, descobrir seus n�meros e estrat�gia, ent�o encontrar resist�ncia organizada em algum lugar e ajudar.</p><p>Partiu voando na dire��o de Princeton, seus sensores procurando, tentando reunir uma imagem do que acontecia.</p><p>Sirenes come�aram a soar embaixo dele. As pessoas sa�am das casas em ru�nas. Ve�culos de emerg�ncia corriam sob luzes intermitentes. Alguns poucos autom�veis ziguezagueavam loucamente, descendo ruas cheias de escombros. Aqui e ali inc�ndios irrompiam, mas a umidade e a garoa ocasional os mantinham confinados. Modular viu mais uma d�zia de serpentes, uma centena de predadores menores que se moviam como panteras sobre seis pernas, vintenas de uma estranha criatura que parecia uma aranha saltadora, seu corpo largo de quatro patas balan�ando em cima das �rvores sobre pernas parecidas com muletas. Um carn�voro b�pede de seis metros arreganhava dentes como um tiranossauro. Outras coisas, dif�ceis de ver pelo infravermelho, moviam-se como tapetes junto ao solo. Algo invis�vel lan�ou uma nuvem de lan�as de um metro, mas ele percebeu a aproxima��o pelo radar e desviou. A nuvem ainda orbitava sobre Princeton. O androide decidiu investigar.</p><p>Havia milhares deles, criaturas ondulantes, escuras e sem penas como capachos voadores. No meio do rugir orquestrado de suas asas, soltavam ru�dos baixos de lamentos, arranhando como as cordas de um baixo. Subiam e desciam, e o androide entendeu sua t�tica quando viu um ve�culo sair em disparada de uma garagem em Princeton e derrapar pela rua. Um grupo de ondulantes desceu em grupo, batendo com o corpo no carro e envolvendo o alvo dentro de suas formas de couro, deslizando-o sob o seu peso. O androide, com as energias parcialmente recuperadas, atirou nos voadores, derrubando alguns, mas o carro desviou sobre o meio-fio e bateu contra um pr�dio. Mais voadores desceram quando o primeiro grupo come�ou a espremer-se atrav�s de janelas estilha�adas. �cido corrosivo manchou a pintura do carro. O androide se ergueu e come�ou a atirar sobre a massa que pairava, tentando atrair a aten��o.</p><p>Uma nuvem o seguiu, centenas de uma vez, e Modular aumentou a velocidade, mantendo a dire��o sul, tentando lev�-los para longe, voadores mortos caindo como folhas quando ele atirava pequenas rajadas para tr�s. Mais e mais dos orbitais eram atra�dos para a persegui��o. As criaturas n�o pareciam muito inteligentes. Desviando e contorcendo-se, ficando pouco � frente da nuvem esvoa�ante, logo o androide tinha milhares dos voadores em seu encal�o. Passou por sobre uma eleva��o e viu o hospedeiro do Enxame � sua frente. Por um momento, seus sensores foram devastados pelo sinal descomunal.</p><p>Um ex�rcito de criaturas avan�ava numa onda curvada, um crescente de �ngulo acentuado apontando para Princeton, ao norte. O ar ficou cheio de rangidos, farfalhares, quando o Enxame aplainou a rota at� a cidade � casas, �rvores, pr�dios de escrit�rios, tudo �, terraplenando o que estivesse no caminho. O androide subiu, fazendo c�lculos, os voadores gemendo e ondulando logo atr�s dele. O hospedeiro movia-se rapidamente para fazer um servi�o t�o completo; o androide estimava entre 25 a 30 quil�metros por hora.</p><p>Modular teve uma boa ideia do tamanho m�dio da criatura do Enxame. Dividindo a emiss�o vasta de infravermelho por seus componentes, concluiu que observou um m�nimo de 40 mil criaturas. Mais se juntavam ao grupo a todo momento. Havia ao menos outros 20 mil voadores. Os n�meros eram insanos.</p><p>O androide, diferentemente de um humano, n�o poderia duvidar de seus c�lculos. Algu�m tinha de ser informado sobre aquilo que o mundo enfrentaria. As armas acopladas aos seus ombros giraram para tr�s para permitir uma melhor aerodin�mica, e ele circulou de volta para o norte, aumentando a velocidade. Os voadores circularam, mas n�o conseguiram alcan��-lo. Come�aram a voar de volta para Princeton.</p><p>Modular chegou a Princeton numa quest�o de segundos. Mil ou mais do Enxame penetraram na cidade, e o androide detectou a invas�o constante de pr�dios, as rajadas esparsas de armas de fogo, e de um local o estouro, o estrondo e a explos�o de armas mais pesadas. Ele rumou �s pressas na dire��o do som.</p><p>O arsenal da Guarda Nacional estava sitiado. Uma das criaturas-serpentes, cortada ao meio por proj�teis explosivos, contorcia-se na rua em frente, lan�ando para cima nuvens do g�s lacrimog�nio derramado. Predadores mortos e corpos humanos manchavam a paisagem em torno do pr�dio. Um tanque M60 estava tombado sobre o concreto � frente; outro bloqueava uma porta de a�o de garagem, inundando o acesso com luz infravermelha. Tr�s homens da Guarda, com equipamento de controle de tumultos completo com m�scaras de g�s, estavam no tanque atr�s da torre de tiro. O androide lan�ou oito tiros efetuados com precis�o, matando a onda de agressores, e passou voando pelo tanque, bem pr�ximo dos soldados. Eles olharam para ele abismados atrav�s de suas m�scaras. Atr�s deles, uma d�zia de civis com armas e rifles de ca�a e, mais atr�s, cerca de cinquenta refugiados. Em algum lugar no pr�dio, motores acionados explodiram.</p><p>� Quem est� no comando?</p><p>Um homem usando uma ins�gnia de tenente levantou a m�o.</p><p>� Tenente Goldfarb � disse ele. � Sou o oficial no comando. Que diabos est� acontecendo?</p><p>� Voc� precisa tirar essas pessoas daqui. Alien�genas pousaram na cidade.</p><p>� N�o achei que fossem chineses. � Sua voz ficava abafada pela m�scara de g�s.</p><p>� Est�o vindo de Grovers Mills nesta dire��o.</p><p>Um dos outros guardas come�ou a ofegar. Mal dava para reconhecer o som como uma risada.</p><p>� Igual � <emphasis>Guerra dos mundos</emphasis>. �timo.</p><p>� Cala a boca � Goldfarb endureceu com raiva. � Tenho apenas vinte dos efetivos aqui. Voc� acha que podemos det�-los no canal de Raritan?</p><p>� S�o no m�nimo 40 mil deles.</p><p>Goldfarb despencou contra a torre.</p><p>� Vamos para o norte, ent�o. Tentar chegar a Sommerville.</p><p>� Sugiro que se movam r�pido. Os voadores est�o voltando. Voc�s os viram?</p><p>Goldfarb apontou para os corpos espalhados de alguns dos ondulantes.</p><p>� Bem ali. G�s lacrimog�nio parece par�-los.</p><p>� Chefe, tem alguma coisa vindo dali. � Um dos soldados ergueu um lan�ador de granadas. Sem olhar, Modular disparou sobre os ombros dele e derrubou um bicho-aranha.</p><p>� Deixa pra l� � o soldado disse.</p><p>� Olhe � Goldfarb falou. � A mans�o do governador � na cidade. Morven. Ele � nosso comandante-chefe, devemos tentar tir�-lo de l�.</p><p>� Posso fazer uma tentativa � disse o androide �, mas n�o sei onde � a mans�o.</p><p>Sobre seu ombro, ele se livrou de uma lesma encoura�ada e olhou para Goldfarb.</p><p>� Consigo voar com voc� nos bra�os.</p><p>� Certo. � Goldfarb pendurou sua M16 no ombro e deu ordens para os outros homens da Guarda Nacional levarem os civis para os carros blindados e depois formarem um comboio.</p><p>� Sem far�is � o androide disse. � Os voadores n�o devem perceber que voc�s est�o de prontid�o.</p><p>� Temos equipamentos de infravermelho. Padr�o nos ve�culos.</p><p>� Eu usaria ele. � Achou que estava sendo gramaticalmente correto.</p><p>Goldfarb terminou de dar as ordens. As tropas da Guarda Nacional apareceram de outras partes do pr�dio, carregando armas e muni��o. Ve�culos rastreados eram postos em movimento. O androide envolveu Goldfarb nos bra�os e partiu para o c�u.</p><p>� Para o <emphasis>alto</emphasis>! � Goldfarb gritou. Modular entendeu que esta era uma express�o de aprova��o militar.</p><p>Um farfalhar gigantesco no c�u indicou que os voadores estavam de volta. O androide mergulhou, tran�ando entre casas destru�das e peda�os de troncos de �rvores.</p><p>� Puta merda! � Goldfarb disse. Morven estava em ru�nas. N�o restava nada da mans�o do governador. N�o se via nada vivo por ali.</p><p>O androide devolveu o guarda ao seu comando, derrubando no caminho um grupo de vinte agressores que se preparava para atacar os quart�is-generais da Guarda Nacional. Dentro, a garagem estava cheia de descarga de escapamento de ve�culos. Seis viaturas de tropas e dois tanques estavam prontos. Goldfarb foi deixado pr�ximo de uma viatura. O ar estrondava com o ru�do dos voadores.</p><p>� Vou tentar atrair os voadores para longe � o androide disse. � Espere at� o c�u estar limpo antes de seguir adiante.</p><p>Ele partiu novamente para o c�u, lan�ando rajadas curtas do laser, atirando na dire��o do c�u que escurecia. Mais uma vez, os voadores rugiam atr�s dele. Ele os levou novamente para Grovers Mills, vendo o vasto crescente do Enxame terrestre avan�ando em seu ritmo cont�nuo, espantoso. Ele voltou, deixando-os bem atr�s de si, e acelerou na dire��o de Princeton. Abaixo, poucos voadores elevaram-se, perseguindo-o. Parecia que estavam jantando o cad�ver de um homem que usava uma armadura de batalha complicada. A mesma armadura que Modular viu no Aces High agora manchada e escurecida por �cido g�strico.</p><p>Em Princeton, viu o comboio de Goldfarb abrindo caminho at� a Highway 206 em um feixe de luz infravermelha e tiros de metralhadora. Refugiados, atra�dos pelo som dos tanques e viaturas blindadas, agarravam-se aos ve�culos. O androide atirava o tempo todo, derrubando as criaturas do Enxame quando pulavam para atacar, suas energias sendo drenadas. Seguiu o comboio at� parecer que estavam fora da �rea de perigo, quando o grupo teve de desacelerar pelo imenso congestionamento de refugiados que partiam para o norte.</p><p>O androide decidiu rumar para Fort Dix.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O tenente-detetive John F. X. Black, da delegacia do Bairro dos Curingas, n�o retirou de fato as algemas dos pulsos de Tachyon at� estarem fora do gabinete do prefeito. Os outros detetives mantinham as espingardas a postos.</p><p><emphasis>Medo</emphasis>, Tachyon pensou. Essas pessoas est�o aterrorizadas. Por qu�? Ele esfregou os pulsos.</p><p>� Meu casaco e meu chap�u, por favor. � O acr�scimo de gentileza n�o reduziu o car�ter da ordem.</p><p>� Se voc� insiste � disse Black, entregando o chap�u de cavaleiro com pena e a casaca de rabo de andorinha cor lavanda, que combinava com os olhos de Tach. O rosto bem marcado dividiu-se num sorriso sarc�stico. � Seria dif�cil encontrar at� um detetive de primeira classe com seu gosto � ele comentou.</p><p>� Muito prov�vel que n�o � Tach disse, friamente. Ele balan�ou os cabelos para tr�s sobre o colarinho.</p><p>� Por aqui � disse Black. Tach inclinou o chap�u sobre um dos olhos e empurrou-o.</p><p>Era uma sala grande com pain�is, uma mesa comprida, e estava um caos. Havia policiais, bombeiros, homens em uniformes militares. O prefeito gritava no r�dio e, a julgar pela express�o selvagem, n�o estava conseguindo o que queria. O olhar de Tach pairou at� a parte mais distante da sala e seus olhos estreitaram-se. O senador Hartmann estava de p�, numa conversa restrita com diversos ases: Peregrina, Pulso, o Uivador, a turma toda do CRISE-A.</p><p>Tach sempre se sentiu desconfort�vel com Hartmann� fosse um liberal de Nova York ou n�o, era o presidente do Comit� de Recursos Internos do Senado para Empenho dos Ases, o comit� CRISE-A, que estava � altura do seu nome sob a batuta de Joseph McCarthy. As leis eram diferentes agora, mas Tach n�o queria ter nada a ver com uma organiza��o que recrutava ases para servir aos prop�sitos dos que estavam no poder.</p><p>O prefeito entregou o telefone para um assistente e, antes que pudesse correr para qualquer outro lugar, Tach marchou em sua dire��o, arremessando as algemas e encarando o prefeito com um olhar frio.</p><p>� Suas tropas de assalto me trouxeram � disse. � Arrombaram minha porta. Acredito que a prefeitura v� substitu�-la, bem como qualquer coisa que possa ser roubada enquanto a porta estiver arrombada.</p><p>� Temos um problema � o prefeito disse, e ent�o um assistente entrou �s pressas com as m�os cheias de mapas de postos de gasolina de Nova Jersey. O prefeito mandou que os espalhasse sobre a mesa. Tachyon continuou falando, mesmo com a interrup��o.</p><p>� Voc�s poderiam ter me telefonado. Eu viria. Seus esquadr�es nem bateram � porta. Ainda existem prote��es constitucionais neste pa�s, mesmo no Bairro dos Curingas.</p><p>� N�s batemos � disse Black. � Batemos de verdade. � Ele se virou para um dos detetives, um curinga com a carne marrom, cheia de escamas. � Voc� me ouviu bater, n�o foi, Kant?</p><p>Kant sorriu, um lagarto com dentes. Tachyon teve um calafrio.</p><p>� Claro que sim, tenente.</p><p>� E voc�, Matthias?</p><p>� Ouvi bater tamb�m.</p><p>Tach travou os dentes.</p><p>� Eles� n�o� bateram.</p><p>Black deu de ombros.</p><p>� O doutor provavelmente n�o nos ouviu. Estava ocupado. � Olhou de soslaio. � Estava acompanhado, se � que voc� me entende. Uma enfermeira. Muito bonita. � Ele ergueu um documento em papel-of�cio. � Al�m do mais, nossa busca era legal. Assinada pelo juiz Steiner bem aqui, meia hora atr�s.</p><p>O prefeito virou-se para Tachyon.</p><p>� Quer�amos ter certeza de que voc� n�o tinha nada a ver com isso.</p><p>Tach tirou o chap�u e, indiferente, balan�ou-o � frente do rosto, enquanto olhava para a sala cheia de pessoas correndo para l� e para c�, inclusive� meu Deus, um tiranossauro de quase um metro que tinha acabado de se transformar num pr�-adolescente nu.</p><p>� Do que voc�s est�o falando, meu bom homem? � finalmente perguntou.</p><p>O prefeito encarou Tachyon com olhos parecidos com lascas de gelo.</p><p>� Temos relat�rios do que poderia ter sido um ataque do carta selvagem em Jersey.</p><p>O cora��o de Tach acelerou. <emphasis>De novo n�o</emphasis>, pensou, lembrando-se daquelas primeiras semanas terr�veis, as mortes, a mutila��o que fez seu sangue gelar, a loucura, o <emphasis>cheiro</emphasis>� N�o, n�o era poss�vel. Ele engoliu seco.</p><p>� O que posso fazer para ajudar? � falou.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� Quarenta mil em um grupo � o general murmurou, fixando os n�meros na mente. � Provavelmente em Princeton agora. Vinte mil voadores. Talvez outros 20 mil espalhados na zona rural, movendo-se para o ponto de encontro em Princeton. � Ele olhou para o androide. � Alguma ideia de para onde v�o depois de Princeton? Filad�lfia ou Nova York? Sul ou norte?</p><p>� N�o consigo dizer.</p><p>O tenente-general mordeu o punho fechado. Era magro, de �culos, e seu nome era Carter. Nem parecia perturbado pelo pensamento de alien�genas carn�voros aterrissando em Nova Jersey. Comandava o Primeiro Ex�rcito dos Estados Unidos de seu quartel-general em Fort Meade, Maryland. Modular fora enviado para l� por um major-general suarento em Fort Dix, que no fim das contas era um centro de treinamento.</p><p>O caos cercava a aura de calma de Carter. Telefones tocavam, assistentes se acotovelavam e, l� fora, no corredor, homens gritavam.</p><p>� At� agora, consegui apenas a Octog�sima Segunda e a Guarda Nacional � Carter comentou. � N�o � o suficiente para defender Nova York e Filad�lfia contra esses n�meros. Se tivesse regimentos de fuzileiros de Lejeune, poder�amos nos sair melhor, mas o comandante dos Fuzileiros n�o quer liber�-los da For�a de Deslocamento R�pido, que � comandada por um fuzileiro. Quer que a FDR assuma o comando aqui, especialmente porque a Octog�sima Segunda tamb�m est� abaixo de seus protocolos. � Deu um gole no suco de <emphasis>cranberry</emphasis> e suspirou. � Trata-se do processo de mover um ex�rcito em tempo de paz para uma condi��o de guerra. Nossa hora chegar�, e ent�o teremos nossa vez.</p><p>O androide havia descoberto que o Enxame aterrissara em quatro lugares na Am�rica do Norte: Nova Jersey; Kentucky, sul de Louisville; uma �rea central em torno de McAllen, Texas, exceto nos dois lados da fronteira Estados Unidos-M�xico; e uma aterrissagem extremamente difusa que parecia espalhada por grande parte a norte de Manitoba. A aterrissagem de Kentucky tamb�m estava dentro da jurisdi��o do Primeiro Ex�rcito, e Carter ordenou a interven��o dos soldados de Fort Knox e Fort Campbell. Felizmente, n�o tinha de obter a permiss�o dos fuzileiros navais antes.</p><p>� Norte ou sul? � Carter perguntou-se. � Que inferno, queria saber pra onde est�o rumando. � Esfregou as t�mporas. � Hora de arriscar � decidiu. � Voc� os viu seguirem para o norte. Vou mandar a For�a A�rea para Newark e dizer para a Guarda se concentrar l�.</p><p>Outro assistente entrou apressado e passou um bilhete para Carter.</p><p>� Tudo bem � disse o general. � O governador de Nova York pediu para todos os ases na �rea se reunirem na prefeitura. Uma conversa sobre usar voc�s como tropas de choque. � Ele espreitou o androide atrav�s dos �culos. � Voc� <emphasis>�</emphasis> um �s, certo?</p><p>� Sou uma m�quina inteligente de sexta gera��o programada para defender a sociedade.</p><p>� Ent�o, voc� � uma m�quina? � Carter olhou como se n�o tivesse entendido isso at� aquele momento. � Algu�m te construiu?</p><p>� Isso a�. � Seu linguajar informal estava cada vez melhor, sua fala mais concisa. Estava satisfeito consigo mesmo.</p><p>A rea��o de Carter foi r�pida.</p><p>� Existem mais de voc�? Podemos <emphasis>construir</emphasis> mais de voc�? Temos urg�ncia aqui.</p><p>� Posso transmitir sua solicita��o ao meu criador. Mas n�o acho que poder� prestar ajuda imediata.</p><p>� Fa�a isso. E, antes que voc� decole, quero que fale com um da minha equipe. Diga a ele sobre voc�, suas capacidades. Podemos fazer melhor uso de voc� dessa forma.</p><p>� Sim, senhor � o androide estava tentando soar militar, e pensou estar conseguindo.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� N�o � Tachyon falou. � N�o � carta selvagem.</p><p>Outros fatos revelaram-se, inclusive imagens. Nenhuma praga carta selvagem � nem mesmo uma vers�o avan�ada � conseguiria produzir resultados como esses. <emphasis>Ao menos, n�o serei culpado por este</emphasis>, pensou.</p><p>� Acho � Tach disse � que aquilo que acabou de assolar Jersey � uma amea�a que minha ra�a j� encontrou em diversas ocasi�es� essas criaturas atacaram duas col�nias; destru�ram uma e quase acabaram com a outra. Nossas expedi��es <emphasis>os</emphasis> destru�ram mais tarde, mas sabemos que existem muitos outros. O <emphasis>T�zand�ran</emphasis>�</p><p>� Ele fez uma pausa pelos olhares vazios. � A tradu��o seria Enxame, eu acho.</p><p>O senador Hartmann parecia c�tico.</p><p>� N�o � carta selvagem? Voc� est� me dizendo que Nova Jersey foi atacada por abelhas assassinas do espa�o?</p><p>� N�o s�o insetos. Est�o a caminho de se tornar� como eu digo isso? � Ele deu de ombros. � S�o levedos. Brotos de levedo gigantes, carn�voros, telep�ticos, controlados por um levedo-m�e gigante no espa�o. Muito famintos. Eu me mobilizaria, se fosse voc�s.</p><p>O prefeito olhou aflito.</p><p>� Tudo bem. Temos meia d�zia de ases reunidos aqui embaixo. Quero que voc� v� l� e fa�a um resumo pra eles.</p><p>Os sons de p�nico entravam pela claraboia. Eram quatro da manh�, mas parecia que metade de Manhattan tentava fugir da cidade. Foi o pior engarrafamento desde o Dia da Carta Selvagem.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Travnicek sorriu enquanto folheava as notas cient�ficas que tinha rabiscado em papel de embrulho e ma�os de cigarro usados durante longos meses do per�odo criativo.</p><p>� Ent�o, o Ex�rcito quer mais de voc�, hein? Uau. Quanto est�o oferecendo?</p><p>� O general Carter apenas expressou interesse. Ele n�o � o encarregado pelas compras, tenho certeza disso.</p><p>O sorriso de Travnicek transformou-se num franzir de cenho quando aproximou as notas dos olhos. Sua caligrafia era p�ssima, e a nota estava totalmente ileg�vel. Que diabos ele quis dizer?</p><p>Olhou em volta do apartamento, para a assustadora dispers�o de lixo. Havia <emphasis>milhares</emphasis> de anota��es. Muitas estavam no ch�o, onde haviam se integrado ao assoalho de compensado.</p><p>Ele soprava fuma�a ao respirar no apartamento frio.</p><p>� Pe�a uma boa oferta. Diga a ele que quero 10 milh�es por unidade. Suba para 20. <emphasis>Royalties</emphasis> sobre a programa��o. E quero as primeiras dez unidades para mim, como meus guarda-costas.</p><p>� Sim, senhor. Quando posso dizer a ele que poderemos esperar os planos serem entregues?</p><p>Travnicek olhou novamente para o lixo.</p><p>� Pode ser em pouco tempo. � Ele teria de reconstruir tudo do zero. � Primeira coisa, consiga um compromisso firme sobre o dinheiro.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Antes de sair, limpe essa bagun�a. Ponha minhas notas em pilhas ali em cima. � Ele apontou para uma parte razoavelmente vazia de uma das mesas.</p><p>� Senhor. Os alien�genas.</p><p>� Eles v�o segurar � Travnicek deu uma risadinha. � Voc� ser� mais valioso para os militares ap�s essas criaturas comerem metade de Nova Jersey.</p><p>O rosto do androide estava sem express�o.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>E, ent�o, come�ou a limpar o laborat�rio.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>� Meu Deus � disse Carter.</p><p>Finalmente, o caos que o cercava deixou de existir. O sil�ncio no posto de comando improvisado no sagu�o de embarque do Aeroporto Internacional de Newark foi quebrado apenas pelo chiado dos jatos militares expelindo tropas e equipamentos. As tropas de paraquedistas em suas cal�as largas e novos modelos de capacete Kevlar estavam em p� ao lado dos oficiais da Guarda Nacional com suas pan�as e dos ases em roupas de salto. Todos esperavam pelo que Carter diria em seguida. Carter segurava uma s�rie de fotografias de infravermelho contra a luz fraca que estava come�ando a entrar pelas janelas.</p><p>� Est�o seguindo para o sul. Na dire��o de Filad�lfia. Postos avan�ados, guardas de flanco, corpo principal, retaguarda. � Carter olhou para a equipe. � Parece que est�o lendo nossos manuais t�ticos, senhores. � Ele largou as fotografias sobre a mesa. � Quero que voc�s preparem seus garotos e v�o para o sul. Direto para a rodovia de Jersey. Peguem ve�culos de civis, se precisarem. Queremos flanque�-los e entrar do leste na dire��o de Trenton. Se entrarmos no flanco deles, talvez possamos parar a retaguarda antes que passem Princeton. � Virou-se para um assistente. � Chame a Guarda da Pensilv�nia. Queremos as pontes at� Delaware destru�das. Se n�o tiverem engenheiros para implodir, fa�am um bloqueio. Com caminh�es de carroceria grande, se precisar.</p><p>Carter virou-se para os ases que estavam num canto, pr�ximos de uma pilha de cadeiras de pl�stico colocadas �s pressas. Modular, Uivador, Mistral, Pulso. Um pterod�tilo que, na verdade, era o garoto que tinha a habilidade de se transmutar em r�pteis e cuja m�e estava a caminho para busc�-lo pela segunda vez em poucas horas. Peregrina, com uma equipe de cinegrafistas. O Tartaruga orbitava sobre o terminal em sua imensa carapa�a blindada. Tachyon n�o estava l�; fora chamado a Washington como consultor cient�fico.</p><p>� Os fuzileiros de Lejeune est�o seguindo para a Filad�lfia � comentou Carter. Sua voz era suave. � Algu�m caiu em si e os colocou sob meu comando. Mas apenas um regimento chegar� a Delaware a tempo para encontrar a tropa avan�ada de alien�genas, e eles n�o ter�o blindagem, nem armas pesadas, e ter�o de chegar �s pontes em �nibus escolares e sabe Deus o que mais. Isso significa que v�o ser arrasados. N�o posso dar ordens para voc�s, mas gostaria que fossem para a Filad�lfia e ajudassem os fuzileiros. Precisamos de tempo para posicionar o restante deles. Voc�s poderiam salvar um monte de vidas.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Coleman Hubbard estava diante de um grupo de homens e mulheres com sua m�scara de falc�o de R�. Estava sem camisa, usando seu jaleco ma��nico, e sentiu-se um pouco constrangido� muito de sua pele com cicatrizes estava exposto, as queimaduras que cobriram seu torso ap�s o inc�ndio no velho templo do centro da cidade. Teve um calafrio pela lembran�a das chamas, ent�o olhou para cima para tirar a recorda��o da mente�</p><p>Sobre ele, reluzia a figura de um ser astral, um homem gigante com a cabe�a de um carneiro e um falo colossal ereto, segurando na m�o a cruz ansata e o cajado curvo, s�mbolos de vida e poder � o deus Amon, criador do universo, reluzindo entre uma aura multicolorida de luz.</p><p>Lorde Amon, pensou Hubbard. O Mestre dos Ma�ons Eg�pcios, e de fato um velho meio inv�lido em um quarto a quil�metros de dist�ncia. Sua forma astral poderia tomar qualquer forma que quisesse, mas em seu corpo era conhecido como o Astr�nomo.</p><p>O brilho de Amon cintilava nos olhos dos adoradores reunidos. A voz do deus soava na cabe�a de Hubbard, e este elevava os bra�os e narrava as palavras do deus para a congrega��o.</p><p>� TIAMAT chegou. Nosso momento est� pr�ximo. Precisamos concentrar nossos esfor�os no novo templo. O dispositivo Shakti deve ser montado e calibrado.</p><p>Sobre a cabe�a de carneiro do deus surgiu outra forma, uma massa mutante de protoplasma, tent�culos e olhos, e carne fria, muito fria.</p><p>� Contemplem TIAMAT � disse Amon. Os adoradores murmuravam. A criatura crescia, reduzindo o brilho do deus.</p><p>� Minha Irm� Obscura est� aqui � disse Amon, e sua voz ecoou na cabe�a de Hubbard. � Precisamos preparar as boas-vindas.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Um jato Harrier dos fuzileiros sugou um voador por uma abertura, gritou enquanto vomitava a liga derretida e deslizou inclinado para a Trenton j� condenada. O som dos voadores abafava o chiado dos jatos e o estrondo dos helic�pteros. Napalm queimando reluzia enquanto flutuava sobre a �gua represada. Sinais coloridos de fuma�a giravam no ar.</p><p>O corpo principal do Enxame abria violentamente seu caminho para Trenton, e a guarda avan�ada j� estava atravessando o rio. Bloquear e implodir as pontes n�o foram o bastante para det�-los: eles apenas mergulharam no rio g�lido e atravessaram como uma onda vasta e escura. Centenas de voadores cercaram o helic�ptero do comandante dos fuzileiros navais e o derrubaram, e depois disso n�o havia ningu�m no comando: apenas grupos de homens desesperados, mantendo-se onde podiam, tentando formar um quebra-mar contra a onda do Enxame.</p><p>Os ases separaram-se, cuidando das emerg�ncias. Modular estava queimando o inimigo, tentando ajudar os bols�es esparsos de resist�ncia enquanto, um ap�s o outro, eram atacados. Era uma tarefa v�.</p><p>De algum lugar � esquerda ele conseguia ouvir os gritos do Uivador, solidificando ossos e nervos do Enxame. Seu talento era mais �til que o do androide; o laser de micro-ondas era uma arma precisa demais para lidar com uma onda de ataque, mas os gritos ultrass�nicos do Uivador conseguiam em um segundo destruir pelot�es inteiros de inimigos.</p><p>Um tanque da Guarda Nacional virou a esquina atr�s de onde Modular flutuava no meio do conflito, ent�o se chocou contra um pr�dio, misturando-se aos escombros. Os voadores cobriram a blindagem do tanque, obscurecendo as fendas de visibilidade. O androide mergulhou na dire��o do tanque, arrancou os voadores, rasgando-os como papel. Suco �cido respingava em sua roupa. A carne artificial soltava fuma�a. O tanque esmagou tijolos sob suas lagartas, retirando-se de dentro do pr�dio.</p><p>Quando o androide se ergueu, o Grande e Poderoso Tartaruga formava uma enorme imagem luminosa no radar. Estava pegando os brotos do Enxame no corpo a corpo, arremessando-os no ar, deixando-os cair em seguida. Era como uma fonte de cascata. Os voadores batiam-se desesperadamente contra a carapa�a blindada. O �cido n�o era suficiente para atravessar sua armadura de batalha.</p><p>O ar estalou quando foi rasgado por f�tons energizados: Pulso, seu corpo se transformou em luz. O laser humano ricocheteou os inimigos para longe, levando uma d�zia ao ch�o, ent�o desapareceu. Quando Pulso finalmente ficasse sem energia, reverteria � forma humana, e ent�o ficaria vulner�vel. O androide esperava que os voadores n�o o encontrassem.</p><p>Mistral flutuou, colorida como uma bandeira de batalha. Com 17 anos, aluna em Columbia, vestia-se em cores brilhantes e patri�ticas como o pai, Ciclone. Mantinha-se em voo pela capa que ela enchia com os ventos que gerava, e abatia os voadores com tuf�es, atirando-os, despeda�ando-os. Nada se aproximava dela.</p><p>Peregrina voava inutilmente em c�rculos em torno dela. Era muito fraca para combater o Enxame, em qualquer de suas corporifica��es.</p><p>Nenhum deles era suficiente. O Enxame continuava a se mover pelas aberturas entre os ases.</p><p>O gemido preencheu o ar quando as sombras negras dentadas, os jatos A-10 da Guarda Nacional da For�a A�rea, cruzaram os c�us, suas armas martelavam, deixando Delaware branco. Bombas ca�am debaixo de suas asas, abrindo-se em flores brilhantes de napalm.</p><p>O androide disparou at� seus geradores ficarem drenados, e ent�o lutou contra os voadores com as pr�prias m�os. O desespero tomou conta dele, depois a raiva. Nada parecia ajudar.</p><p>O corpo principal do inimigo alcan�ou o rio e come�ou a nadar. Poucos soldados estavam vivos para combat�-los. A maioria dos sobreviventes estava tentando se esconder ou fugir.</p><p>O 6� Regimento dos Fuzileiros j� chegou sem vida, e nada poderia alterar esse fato.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Entre Trenton e Levittown, bombas e inc�ndios deixaram negra a paisagem amarronzada de dezembro. Os brotos do Enxame moviam-se pelo cen�rio devastado como uma onda de pesadelo. Mais dois regimentos de fuzileiros estavam entrincheirados nas �reas residenciais de Filad�lfia, dessa vez com o apoio da artilharia e um pequeno grupo de blindados leves dos fuzileiros.</p><p>Os ases esperavam em um hotel Howard Johnson fora da rodovia da Pensilv�nia. O plano era entrarem em qualquer contra-ataque.</p><p>Uma bateria de canh�es de 155 mm foi instalada no estacionamento e disparava constantemente. O crescendo do som j� estourara a maior parte das janelas dos restaurantes. O som dos jatos pairava o tempo todo.</p><p>Pulso estava deitado numa tenda de hospital em algum lugar; ultrapassou seus estoques de energia e se encontrava � beira de um colapso. Mistral estava enrolada ao lado, numa cabine pl�stica de cor laranja forte. Seus ombros balan�avam a cada estrondo das armas l� fora. L�grimas corriam em rios por seu rosto. O Enxame ainda n�o havia se aproximado, mas vira muita gente morrer, e manteve-se firme durante a luta e no longo pesadelo da retirada, e naquele momento a rea��o havia come�ado. Peregrina estava sentada ao seu lado, falando com ela num tom gentil que o androide n�o conseguia ouvir. Modular seguiu o Uivador quando o ex-escavador saiu para buscar algo para comer no restaurante. O peito do homem era imenso, a caixa de voz mutante ampliando o pesco�o de forma que o androide n�o conseguiria peg�-lo com as duas m�os. O Uivador vestia um conjunto emprestado da roupa de batalha dos fuzileiros: o �cido dos voadores havia comido suas roupas de civil. O androide teve de voar com ele no fim das contas, segurando o �s nas m�os que tinham sido corro�das at� os ossos de metal de liga.</p><p>� Peru em lata � disse o Uivador. � �timo. Vamos fazer um dia de A��o de Gra�as. � Ele olhou para Modular. � Voc� � uma m�quina, certo? Voc� come?</p><p>O androide enfiou dois dedos num soquete de luz. Surgiu um flash de luz, o cheiro do oz�nio:</p><p>� Isto aqui funciona melhor � ele falou.</p><p>� V�o colocar voc� em produ��o logo? Sei que o Pent�gono vai se interessar.</p><p>� Dei as condi��es do meu criador ao general Carter. Ainda n�o responderam. Acho que a estrutura de comando est� desarranjada.</p><p>� Ah, �. Me conte mais sobre isso.</p><p>� Espere � o androide falou. Atr�s dos barulhos das armas, o rugir dos jatos, ele come�ou a ouvir outro som. O estalar do disparo de armas leves.</p><p>Um fuzileiro correu para dentro do restaurante, as m�os segurando o capacete.</p><p>� Come�ou � disse ele. O androide deu in�cio �s verifica��es dos sistemas.</p><p>Mistral olhou para o oficial com olhos marejados. Parecia muito mais jovem que uma garota de 17 anos.</p><p>� Estou pronta � falou.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O Enxame parou nas cercanias da Filad�lfia. Os dois regimentos dos fuzileiros navais mantiveram-se, seus fortes cercados por paredes dos mortos do Enxame. A vit�ria foi poss�vel gra�as ao apoio das for�as a�reas e dos avi�es da Marinha e do navio de batalha <emphasis>New Jersey</emphasis>, que lan�ava proj�teis de 50 cent�metros a partir do Oceano Atl�ntico; gra�as tamb�m � Guarda Nacional e �s tropas de paraquedistas de Carter, atacando o Enxame a partir do flanco traseiro.</p><p>Gra�as aos ases, que lutaram durante a noite inteira, at� mesmo ap�s o Enxame hesitar em seu ataque violento, e ent�o come�ar a se mover para oeste, na dire��o das distantes Blue Mountains.</p><p>O aeroporto da Filad�lfia ficou ocupado por toda a noite com o transporte que trazia outra divis�o de fuzileiros da Calif�rnia.</p><p>Na manh� seguinte, o contra-ataque come�ou.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Ap�s anoitecer, o dia seguinte. Uma televis�o em cores balbuciava com sobriedade no canto do sagu�o de embarque. Carter estava se preparando para mover o posto de comando para Allentown, a oeste, e Modular chegou voando com not�cias dos �ltimos movimentos do Enxame. Mas Carter estava ocupado, falando no r�dio com os comandantes em Kentucky, e assim o androide ouviu as not�cias do restante do mundo.</p><p>A viol�ncia de Kentucky espalhou-se pela tela. Imagens, tiradas de uma dist�ncia segura por lentes de longo alcance, sacudiam e estalavam. No meio dela, havia um homem alto de uniforme militar sem ins�gnia, o corpo reluzindo como uma estrela de ouro, enquanto usava um tronco de �rvore de seis metros para esmagar os brotos do Enxame. Seguiu-se uma entrevista com ele: n�o parecia ter mais de 20 anos, mas os olhos tinham fantasmas de milhares de anos dentro deles. N�o falou muito, pediu licen�a, saiu para voltar � guerra. Jack Braun, o Golden Boy dos anos 1940 e Judas dos Ases dos anos 1950, de volta � ativa pelo per�odo de emerg�ncia.</p><p>Mais ases: Ciclone, o pai de Mistral, combatendo o Enxame no Texas com a ajuda da pr�pria equipe de grava��o, todos com armas autom�ticas. O Enxame batia completamente em retirada, atravessando a fronteira do M�xico, levado pelos fortes Bliss e Hood, e pela infantaria de Fort Polk, os voadores dizimados pelo uso abundante de armas qu�micas da era Vietn�. Os mexicanos, mais lentos para se mobilizarem e com um ex�rcito despreparado para a moderna guerra de larga escala, n�o ficaram felizes com o Enxame sendo empurrado para Chihuahua e protestaram em v�o.</p><p>Mais imagens, mais locais, mais corpos espalhados por uma paisagem em farrapos. Cenas das plan�cies outonais ao norte da Alemanha, onde o Enxame baixou bem no meio de uma manobra de larga escala do Ex�rcito brit�nico no rio Reno, e onde nunca conseguiram se concentrar. Mais imagens inquietantes da Tr�cia, onde um ataque furioso do Enxame cobria a fronteira greco-turco-b�lgara. Os governos humanos n�o cooperavam, e seus povos sofriam.</p><p>Imagens de esperan�a e ora��o: cenas de Jerusal�m e Bel�m, j� lotadas com peregrinos crist�os que naquele momento enchiam as igrejas em longas e infinitas sess�es de ora��es murmuradas.</p><p>Fortes imagens em preto e branco da China, refugiados e longas colunas de tropas do Ex�rcito de Liberta��o Popular marchando. Estimativa de 50 milh�es de mortos. �frica, Oriente M�dio, Am�rica do Sul � retratos do avan�o do Enxame sobre o Terceiro Mundo, imagens de uma onda infinita de morte. Nenhum continente saiu ileso, exceto a Oceania. Ajuda era prometida t�o logo as superpot�ncias limpassem os pr�prios quintais.</p><p>Havia especula��es sobre o que estaria acontecendo no bloco oriental: apesar de ningu�m comentar, parecia que o Enxame havia aterrissado no sul da Pol�nia, na Ucr�nia e, ao menos, em dois pontos da Sib�ria. For�as do pacto se mobilizaram e moviam-se para a batalha. Comentaristas previam fome disseminada na R�ssia: a mobiliza��o de for�a total assumiu caminh�es e ferrovias que a popula��o civil usava para o transporte de comida.</p><p>Imagens antigas vieram � tela: Mistral voando imune no c�u; Carter dando uma coletiva de imprensa desanimada, relutante; o prefeito da Filad�lfia �s raias da histeria� o androide virando as costas. Tinha visto demais dessas imagens.</p><p>E, ent�o, sentiu algo se mover atrav�s dele, algum vento fantasma que tocou seu cora��o cibern�tico. De repente, sentiu-se mais fraco. O aparelho de televis�o chiou, as imagens desapareceram. Um tagarelar crescente veio dos t�cnicos de comunica��o: alguns de seus equipamentos tinham pifado. Modular ficou alarmado. Algo estava acontecendo.</p><p>O vento fantasma passou novamente, tocando seu n�cleo. O tempo pareceu diminuir um compasso. Mais comunica��es ca�ram. O androide seguiu at� Carter.</p><p>A m�o do general tremia quando pousou o telefone no gancho. Foi a primeira vez que o androide o viu apavorado.</p><p>� Isso foi um pulso magn�tico � disse Carter. � Algu�m acabou de usar energia nuclear, e n�o acho que fomos n�s.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Os jornais ainda alardeavam manchetes sobre a invas�o. Pedia-se para que as crian�as no meio-oeste americano evitassem beber leite: havia o perigo de envenenamento das bombas a�reas que os sovi�ticos usaram para esmagar os Enxames siberianos. As comunica��es ainda estavam interrompidas: as bombas tinham espalhado radia��o o suficiente na ionosfera para enferrujar muitos dos chips de computador americanos.</p><p>Pessoas nas ruas pareciam clandestinas. Havia um debate sobre se Nova York deveria sofrer um blecaute ou n�o, mesmo que o Enxame estivesse obviamente batendo em retirada ap�s seis dias de combate intenso.</p><p>Coleman Hubbard estava ocupado demais para se importar. Caminhava pela Sixth Avenue, rangendo os dentes, a cabe�a aos peda�os com o esfor�o que a recente aventura lhe tinha custado.</p><p>Ele falhou. Um dos membros mais promissores da Ordem, o garoto Fabian, foi preso sob acusa��o de um ataque est�pido � o garoto n�o conseguia tirar as m�os das mulheres, quisessem elas ou n�o �, e Hubbard foi enviado para entrevistar o capit�o de pol�cia encarregado. N�o teria exigido muito, apenas alguma papelada perdida, ou uma sugest�o implantada na cabe�a do capit�o de que a prova era insuficiente� mas a mente do homem era escorregadia, e Hubbard n�o conseguiu agarr�-la. Finalmente, o capit�o McPherson, rosnando, jogou-o para fora. Tudo que Hubbard fez foi identificar-se com o caso de Fabian, e talvez provocar o andamento das investiga��es.</p><p>O Lorde Amon n�o aceitava bem as falhas. Suas puni��es podiam ser selvagens. Hubbard ensaiava a defesa na mente.</p><p>Ent�o, uma mulher esguia e ruiva, usando um terninho Burberry de executiva, entrou na rua na frente de Hubbard, quase o atropelando, depois movendo-se rapidamente rua acima, sem pedir desculpas. Levava uma pasta de couro e usava t�nis. Um cal�ado mais aceit�vel sa�a furtivamente de uma bolsa a tiracolo.</p><p>A raiva tomou conta de Hubbard. Ele odiava grosseria.</p><p>Seu sorriso pervertido come�ou a se espalhar pelo rosto. Estendeu a mente, tocando os pensamentos dela, sua consci�ncia. Sentiu vulnerabilidade ali, uma abertura. O sorriso congelou em seu rosto quando invocou seu poder e atacou.</p><p>A mulher estremeceu quando ele tomou controle de sua mente. A pasta foi ao ch�o. Ele a pegou e tocou o ombro dela.</p><p>� Aqui � disse. � Voc� parece um pouco mal-humorada.</p><p>Ela piscou para ele.</p><p>� Qu�? � Na mente dela, apenas confus�o. Com gentileza, ele a acalmou.</p><p>� Meu apartamento � aqui perto, na 57th Street. Talvez voc� deva ir at� l� e descansar.</p><p>� Apartamento? Qu�?</p><p>Tranquilamente, ele assumiu o comando da mente da mulher e a conduziu rua acima. Era raro encontrar algu�m t�o male�vel. Uma grande bolha de alegria brotou dentro dele.</p><p>Certa vez, usou seus poderes apenas para levar algu�m para a cama, ou talvez para ajudar a ganhar uma promo��o ou duas no trabalho. Ent�o, conheceu o Lorde Amon e descobriu <emphasis>para que</emphasis> realmente serviam seus poderes. Pediu as contas no emprego e vivia agora como um dependente da Ordem.</p><p>Ele ficara na mente dela por poucas horas, pensou. Descobriu quem era, quais terrores secretos viviam dentro dela. E, ent�o, os fez com ela, um atr�s do outro, vivendo dentro da mente da mulher e da sua, desfrutando da sua subservi�ncia, da autodeprecia��o, quando ele a for�ou a implorar, bem alto, por tudo que fez com ela. Afagaria sua mente, aproveitaria da loucura crescente enquanto a fazia pedir cada humilha��o, cada medo. Essas foram apenas algumas das poucas coisas que aprendeu observando o Lorde Amon. As coisas que faziam com que ele vivesse. Pelo menos por algumas horas, conseguiu submergir no medo de outra pessoa, e esquecer os pr�prios medos.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>At� a sexta gera��o</strong></p><p>Walter Jon Williams</p><empty-line/><p><strong>Parte Dois</strong></p><p>Uma corrente de ar congelante abateu a cidade, vindo diretamente da Sib�ria. Assolava os v�os entre os pr�dios, empurrando as t�midas decora��es de Natal que a cidade montara, espalhando min�sculos peda�os de part�culas radioativas russas nas ruas. Era o inverno mais frio em anos. O Enxame de Nova Jersey/Pensilv�nia foi oficialmente declarado morto dois dias antes, e os ases, fuzileiros e o Ex�rcito voltaram para uma parada na Quinta Avenida. Poucos dias depois, tropas americanas e todo tipo de �s que pudesse ser persuadido a juntar-se a elas estariam voando de norte a sul para lidar com invas�es do Enxame na �frica, no Canad� e na Am�rica do Sul.</p><p>O androide enfiou um dedo rec�m-revestido de carne na fenda do telefone p�blico e sentiu algo clicar. Algu�m simplesmente tinha de entender dessas coisas. Ele discou um n�mero.</p><p>� Ol�, Cyndi. Como est� a busca por trabalho?</p><p>� Mod! Ei� queria dizer� ontem foi maravilhoso. Nunca pensei em estar numa parada ao lado de um her�i de guerra.</p><p>� Desculpe se demorou tanto para eu ligar de volta.</p><p>� Acho que combater o Enxame era um tipo de prioridade. N�o se preocupe. Voc� compensou o tempo perdido. � Ela riu. � Noite passada foi incr�vel.</p><p>� Ah, n�o. � O androide estava recebendo outra chamada da pol�cia. � Acho que preciso ir.</p><p>� N�o est�o invadindo de novo, est�o?</p><p>� N�o. Acho que n�o. Te ligo, ok?</p><p>� Estarei esperando.</p><p>Algo que lembrava uma massa gelatinosa verde-mucosa irrompeu de um buraco nas ruas do Bairro dos Curingas, um broto do Enxame que tinha escapado do confronto diante do rio Hudson. O broto conseguiu devorar dois fregueses natalinos e um vendedor de pretzel antes de a emerg�ncia ser chamada e os r�dios da pol�cia come�arem a tocar.</p><p>O androide chegou primeiro. Quando mergulhou no c�nion urbano, viu algo que parecia uma tigela de dez metros de largura de gelatina que havia ficado no refrigerador tempo demais. Na gelatina estavam as frutas pretas que eram as v�timas que ela digeria lentamente.</p><p>O androide pairou sobre a criatura e come�ou a disparar o laser, tentando evitar as frutas na esperan�a que pudessem ser reavivadas. A gelatina come�ou a ferver onde os raios silenciosos e invis�veis a atingiam. O broto fez um esfor�o in�til de alcan�ar seu torturador voador com um pseud�podo, e falhou. A criatura come�ou a rolar na dire��o de um beco, buscando escapat�ria. Estava faminta ou era est�pida demais para abandonar a comida e procurar abrigo nos esgotos.</p><p>A criatura espremeu-se no beco e correu para dentro dele. O androide continuou a disparar. Peda�os eram chamuscados e a coisa parecia perder energia rapidamente. Modular olhou para a frente e viu uma figura curvada adiante no beco.</p><p>A figura era uma mulher branca, vestida com camadas de roupas, todas esfarrapadas, todas sujas. Um chap�u de feltro frouxo estava enfiado sobre um antigo gorro da Marinha. Algumas sacolas de compras ca�ram de seus bra�os. Cabelos grisalhos embara�ados pendiam da testa. Ela estava revirando uma ca�amba de lixo, lan�ando jornais amassados sobre os ombros no beco. Modular aumentou a velocidade, lan�ando tiros direcionados por radar sobre os ombros quando ele pairava rapidamente atrav�s do ar frio que chuviscava. Desceu na cal�ada em frente � ca�amba, seus joelhos amortecendo o impacto.</p><p>� Ent�o, eu falei pra Maxine, falei� � a senhora dizia.</p><p>� Perdoe-me � disse o androide. Ele agarrou a mulher e voou ligeiro. Atr�s dele, murchando sob a chuva de micro-ondas coesas, o broto do Enxame come�ou a evaporar.</p><p>� Maxine fala, minha m�e quebrou o quadril de manh�, voc� n�o vai acreditar� � A senhora debatia-se contra ele enquanto continuava o mon�logo. Silenciosamente ele aguentou um cotovelo no maxilar e flutuou para uma aterrissagem no telhado seguinte. Deixou a passageira. Ela virou para ele, enrubescida de �dio.</p><p>� Tudo bem, babaca � disse ela. � Hora de ver o que a Hildy tem na bolsa.</p><p>� Mais tarde eu des�o a senhora � disse Modular. Ele j� estava virando para perseguir a criatura quando, de canto de olho, viu a senhora abrir a bolsa.</p><p>Havia algo preto l� dentro. O objeto preto estava ficando maior.</p><p>O androide tentou se mover, fugir voando. Algo o segurava e n�o o deixava escapar.</p><p>Fosse l� o que houvesse na sacola de compras, estava aumentando. Crescia com grande rapidez. Fosse o que segurasse o androide, puxava-o na dire��o da sacola de compras.</p><p>� Pare � disse ele, simplesmente. A coisa n�o parava. O androide tentou lutar contra ela, mas as descargas de laser lhe custaram muita energia, e ele n�o parecia ter for�a de sobra.</p><p>A escurid�o cresceu at� envolv�-lo. Ele sentiu como se estivesse caindo. Ent�o, n�o sentiu mais nada.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Os ases de Nova York, respondendo � emerg�ncia, finalmente dominaram o broto do Enxame. O que restou dele, borbulhas verde-escuras, congelou-se em peda�os de gelo sujo. Suas v�timas, parcialmente comidas, foram identificadas pelos cart�es de cr�dito n�o diger�veis e carteiras de identidade plastificadas que carregavam.</p><p>Ao cair da noite, os habitantes insens�veis do Bairro dos Curingas estavam chamando a criatura de O Incr�vel e Colossal Monstro de Meleca. Nenhum deles percebeu quando a mendiga desceu a escada de inc�ndio e vagou pelas ruas congelantes.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>O androide acordou numa ca�amba em um beco atr�s da 52nd Street. As verifica��es internas mostraram danos: o laser de micro-ondas havia sido curvado numa onda senoidal, o monitor de fluxo estava quebrado, o m�dulo de voo ficou retorcido como se fosse pelas m�os de um gigante. Ele lan�ou a tampa da ca�amba para tr�s com um estrondo. Cuidadosamente, olhou em volta no beco.</p><p>Ningu�m � vista.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O deus Amon brilhava na mente de Hubbard. Os olhos de carneiro cintilavam com �dio, e o deus segurava a cruz ansata e o bast�o com os pulsos cerrados.</p><p>� TIAMAT foi derrotado � disse ele. Hubbard recuou com a for�a da raiva de Amon. � O dispositivo Shakti n�o foi preparado a tempo.</p><p>Hubbard encolheu os ombros.</p><p>� A derrota foi tempor�ria � disse ele. � A Irm� Obscura voltar�. Poderia ser em qualquer ponto do sistema solar� os militares n�o t�m como encontr�-la ou identific�-la. N�o vivemos em segredo todos esses s�culos apenas para sermos derrotados agora.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O apartamento estava bem-arrumado se comparado ao caos anterior. As notas de Travnicek foram reunidas com esmero e classificadas, ao m�ximo poss�vel, por assunto. Travnicek come�ou folheando-as. Eram dif�ceis de entender.</p><p>� Ent�o � disse Travnicek. Sua respira��o congelava na frente do rosto e condensava-se nos �culos de leitura. Ele os tirou. � Voc� foi deslocado espacialmente cerca de cinquenta quarteir�es e uma hora � frente no tempo, certo?</p><p>� Aparentemente, sim. Quando sa� da ca�amba, descobri que a luta no Bairro dos Curingas havia acabado quase uma hora antes. A compara��o com meu rel�gio interno mostrou uma discrep�ncia de 72min15,333s.</p><p>O androide tinha aberto o peito e havia substitu�do alguns componentes. N�o era poss�vel recuperar o laser, mas restituiu sua habilidade de voo e conseguiu improvisar um monitor de fluxo.</p><p>� Interessante. Voc� diz que a mendiga n�o parecia estar trabalhando com a tal bolha?</p><p>� Muito provavelmente foi uma coincid�ncia estarem na mesma rua. O mon�logo dela n�o parecia ser estritamente racional. N�o acho que seja mentalmente s�.</p><p>Travnicek virou o controle de aquecimento na roupa de paraquedista. A temperatura havia ca�do sete graus em duas horas e o gelo se formava nas claraboias do apartamento no meio da tarde. Travnicek acendeu um cigarro russo, ligou o fog�o de uma boca para esquentar �gua para o caf�, e ent�o enfiou as m�os nos bolsos quentinhos da roupa.</p><p>� Quero olhar sua mem�ria � disse. � Abra o peito.</p><p>Modular obedeceu. Travnicek tirou um par de cabos de um minicomputador encaixado sob uma s�rie de equipamentos de v�deo e ligou-os aos soquetes no peito do androide, pr�ximo de seu c�rebro eletr�nico blindado.</p><p>� Fa�a o backup da mem�ria no computador � disse. Efeitos tremeluzentes do gerador de fluxo brilharam nos olhos atentos de Travnicek. O computador sinalizou tarefa conclu�da. � Pode fechar � ordenou Travnicek. Enquanto o androide removia os fios e fechava o peito, Travnicek ligou o v�deo, ent�o apertou bot�es nos controles. Uma imagem em v�deo come�ou a correr ao contr�rio.</p><p>Ele chegou ao ponto onde a mendiga apareceu e correu a imagem diversas vezes. Foi at� um terminal de computador e digitou instru��es. A imagem do rosto da mendiga preencheu a tela. O androide olhou o rosto marcado e sujo da mulher, seus cabelos bagun�ados, as roupas rasgadas e esfarrapadas. Pela primeira vez percebeu que lhe faltavam alguns dentes. Travnicek levantou-se, foi at� o quarto nos fundos do apartamento e voltou com uma c�mera Polaroid surrada. Usou as tr�s fotos remanescentes e deu uma � sua cria��o.</p><p>� Aqui. Voc� pode mostr�-la para as pessoas. Pergunte se a viram.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>Travnicek pegou um percevejo e afixou as outras duas fotos nas colunas baixas do teto.</p><p>� Quero que descubra onde a mendiga est� e pegue o que est� na bolsa dela. E quero que descubra onde ela achou. � Ele balan�ou a cabe�a, jogando cinzas de cigarro no ch�o, e murmurou. � N�o acho que tenha inventado isso. Acho que encontrou essa coisa em algum lugar.</p><p>� Senhor? O Enxame? Combinamos que eu partiria para o Peru em dois dias.</p><p>� Fodam-se os militares � Travnicek retrucou. � N�o pagaram um centavo pelos nossos servi�os. Nada al�m de uma parada nojenta, e os militares nem pagaram por isso, e sim a prefeitura. Vamos deix�-los perceber como � f�cil combater o Enxame sem voc�. Ent�o, talvez, nos levem a s�rio. � A verdade era que Travnicek n�o estava nem pr�ximo de ser capaz de reconstruir sua obra. Levaria semanas, talvez at� meses. Os militares exigiam garantias, planos, conhecimento da sua identidade. O problema da mendiga era mais interessante, de qualquer forma. Ele come�ou a repassar pregui�osamente a mem�ria do androide.</p><p>Modular retraiu-se profundamente em sua mente computadorizada. Come�ou a falar rapidamente, esperando distrair seu inventor das imagens.</p><p>� No que diz respeito � mendiga, eu poderia tentar os centros de refugiados, mas poderia levar um tempo. Meus arquivos me dizem que existem normalmente 20 mil sem-teto em Nova York, e agora existe um n�mero incont�vel de refugiados de Jersey�</p><p>� Puta merda! � exclamou Travnicek em alem�o. O androide sentiu outra contra��o a caminho. Travnicek olhou para a televis�o, surpreso.</p><p>� Voc� est� transando com aquela atriz! � disse ele. � Aquela Cyndi Sei-l�-o-qu�!</p><p>O androide resignou-se �quilo que estava prestes a vir.</p><p>� Sim � disse ele.</p><p>� Voc� n�o passa de uma torradeira � disse Travnicek. � O que te fez acreditar que poderia foder?</p><p>� Voc� me deu o equipamento � o androide disse. � E implantou emo��es em mim. Al�m disso, voc� me criou com boa apar�ncia.</p><p>� Hum � Travnicek tirou os olhos de Modular para o v�deo e de volta para ele. � Te dei o equipamento para que pudesse se passar por humano se precisasse. E dei emo��es para que pudesse entender os inimigos da sociedade. N�o achei que voc� <emphasis>faria</emphasis> qualquer coisa. � Ele jogou a ponta de cigarro no ch�o. Um olhar malicioso cruzou seu rosto.</p><p>� Se divertiu? � ele perguntou.</p><p>� Foi agrad�vel, sim.</p><p>� Parece que a putinha loira gostou muito � Travnicek riu, cacarejando, e p�s as m�os no controle. � Quero come�ar essa festa do in�cio.</p><p>� N�o quer olhar para a mendiga novamente?</p><p>� Vamos �s prioridades. Pega uma Urquell pra mim. � Ele olhou para cima, como se um pensamento lhe ocorresse. � Temos pipoca a�?</p><p>� N�o! � O androide lan�ou a resposta abrupta sobre os ombros.</p><p>Modular trouxe a cerveja e observou enquanto Travnicek tomava o primeiro gole. O tcheco ergueu os olhos, incomodado.</p><p>� N�o gosto do jeito que voc� est� olhando para mim � disse ele.</p><p>O androide fez suas considera��es.</p><p>� Prefere que olhe de outro jeito? � perguntou.</p><p>Travnicek ficou vermelho.</p><p>� Vai para aquele canto, forno de micro-ondas comedor! � berrou. � Vire a cabe�a pra l�, videocassete tarado!</p><p>Pelo resto da tarde, enquanto sua cria��o estava em p� num canto do apartamento, Travnicek assistiu ao v�deo. Ele se divertiu imensamente. Assistiu �s melhores partes diversas vezes, gargalhando com o que via. Ent�o, aos poucos, suas gargalhadas se turvaram. Uma sensa��o fria, incerta subiu por tr�s de seu pesco�o. Come�ou lan�ando olhares para a figura impass�vel do androide. Tirou os olhos da unidade de v�deo, deixou cair a ponta do cigarro na garrafa de Urquell, ent�o acendeu outro.</p><p>O androide estava mostrando um n�vel surpreendente de independ�ncia. Travnicek analisou os elementos de sua programa��o, concentrando-se no arquivo ETCETERA. O abstrato da emo��o humana de Travnicek foi compilado de uma variedade de fontes de especialistas que se estendiam de Freud ao Dr. Spock. Foi um desafio intelectual para Travnicek fazer a programa��o � transformar as irracionalidades do comportamento humano na ret�rica fria de um programa. Realizou a tarefa durante o segundo ano na A&amp;M do Texas, quando mal saiu do quarto durante todo o ano e sabia que tinha uma miss�o imensa para n�o enlouquecer com o ambiente lun�tico de uma universidade que parecia uma incorpora��o das fantasias do inconsciente coletivo de Stonewall Jackson e Albert Speer. N�o teria ficado na A&amp;M por dez minutos se soubesse antes que era um erro � os estudantes de cabe�a raspada com seus uniformes, botas e sabres lembravam muito a SS que mal deixara Travnicek vivo embaixo do corpo de sua fam�lia em L�dice, sem mencionar as for�as de seguran�a sovi�ticas e tchecas que seguiram os alem�es. Travnicek sabia que para sobreviver no Texas precisaria encontrar algo imenso para trabalhar e n�o permitir que suas mem�rias o engolissem vivo.</p><p>Travnicek nunca se interessou particularmente por psicologia humana dessa forma � paix�o, decidira havia muito, n�o era apenas algo bobo, mas genuinamente enfadonho, perda de tempo. No entanto, colocar paix�o num programa, sim, isso era interessante.</p><p>Mal conseguia se lembrar daquele per�odo. Quantos meses gastou no transe criativo, um canal para o pr�prio esp�rito mais profundo? O que forjou durante esse tempo? Que diabos <emphasis>havia</emphasis> no ETCETERA?</p><p>Por um momento, um tremor de medo percorreu o corpo de Travnicek. O fantasma da cria��o de Victor Frankenstein avultou-se por instantes em sua mente. Uma rebeli�o por parte do androide era poss�vel? Paix�es hostis poderiam desdobrar-se contra o criador? Mas n�o, havia imperativos predominantes que Travnicek inscrevera no sistema. Modular n�o poderia se desviar de suas diretivas prim�rias enquanto sua consci�ncia computadorizada estivesse fisicamente intacta, assim como um ser humano n�o poderia, desassistido, evoluir sua constitui��o gen�tica em uma �nica vida.</p><p>Travnicek come�ou a sentir um conforto crescente. Olhou para o androide com uma esp�cie de admira��o. Sentiu orgulho em ter programado um pupilo t�o r�pido.</p><p>� Voc� n�o � ruim, torradeira � disse ele, finalmente, desligando o v�deo. � Lembra a mim mesmo nos velhos tempos. � Ele levantou um dedo admoestador. � Mas nada de transar hoje � noite. V� encontrar a mendiga.</p><p>A voz do Modular saiu abafada, pois estava de frente para a parede.</p><p>� Sim, senhor � disse ele.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Neon lan�ou seu brilho sobre o respirar congelado dos integrantes da gangue de limpos que estava na frente da placa em tons past�is que indicava o Run Run Club. O detetive John F. X. Black, dirigindo sua viatura sem identifica��o e esperando o sem�foro abrir para virar na Schiff Parkway, automaticamente correu os olhos sobre a multid�o, registrando rostos, nomes, possibilidades� Acabara de encerrar o expediente e saiu com um carro sem identifica��o, pois deveria passar o dia seguinte congelando o traseiro num plant�o, o que na TV chamavam de vigil�ncia policial. Ricky Santillanes, ladr�ozinho liberado com fian�a desde o dia anterior, sorriu para Black com uma boca cheia de dentes cobertos de a�o e <emphasis>deu o dedo</emphasis> para o detetive. <emphasis>Deixa curtir,</emphasis> Black pensou. As gangues de limpos eram malhadas pelos Pr�ncipes Demon�acos do Bairro dos Curingas toda vez que se encontravam.</p><p>Black viu num p�ster que a banda que tocava naquela noite chamava M�e do Enxame � ningu�m poderia dizer que os grupos <emphasis>hardcore</emphasis> eram lentos na percep��o do <emphasis>zeitgeist</emphasis>. Foi puro acaso que Black tivesse olhado o p�ster no momento em que o policial Frank Carroll cambaleou na luz. Carroll parecia maluco � estava com o quepe na m�o, cabelo bagun�ado, e o sobretudo respingado com algo que reluzia num amarelo brilhante sob a placa reflexiva. Parecia estar a caminho da delegacia a poucos quarteir�es dali. Os limpos riram quando passaram por ele. Black sabia que o setor atribu�do a Carroll estava a quarteir�es de dist�ncia e n�o o traria nem pr�ximo desta esquina.</p><p>Carroll estava na corpora��o havia dois anos, entrou assim que acabou a escola. Era um homem branco com cabelos ruivo-escuros, um bigode aparado, constitui��o m�dia levemente corpulenta por treinamento irregular de muscula��o. Parecia s�rio com o trabalho na pol�cia, era diligente e met�dico, e fazia muita hora extra desnecess�ria. Black o definia como dedicado, mas sem imagina��o. N�o era do tipo que perambulava por a� com olhos arregalados � meia-noite numa noite de inverno.</p><p>Black abriu a porta, levantou-se e chamou Carroll. O policial virou-se, olhando de forma enlouquecida, e ent�o uma express�o de al�vio surgiu em seu rosto. Correu para o carro de Black e puxou de uma vez a porta do passageiro quando Black a destrancou.</p><p>� Jesus Cristo! � Carroll disse. � Acabei de ser lan�ado num monte de lixo por uma mendiga.</p><p>Black riu por dentro. O sem�foro mudou, e ele fez a volta.</p><p>� Ela te pegou de surpresa? � perguntou.</p><p>� Foi isso. Estava num beco no fim da Forsyth. Tinha uma caixinha de f�sforo e um monte de papel embolado, e estava tentando botar fogo numa ca�amba inteira para se aquecer. Disse para ela parar e tentei faz�-la entrar na viatura para lev�-la ao abrigo perto do Rutger Park. E, ent�o, <emphasis>p�</emphasis>! A bolsa me pegou. � Ele olhou para Black e mordeu o l�bio. � Acha que ela pode ser algum curinga, TN?</p><p>�TN� era tenente no Departamento de Pol�cia de Nova York.</p><p>� Como assim? Ela bateu em voc� com a bolsa, certo?</p><p>� N�o. � a bolsa� � O olhar amalucado estava novamente nos olhos de Carroll. � A bolsa me comeu, TN. Algo me puxou para dentro da bolsa e me engoliu. Era� � Ele buscava as palavras. � Sem d�vida, paranormal. � Ele olhou para o uniforme. � Olha isto aqui, TN. � Seu distintivo tinha sido retorcido de uma maneira estranha, como um rel�gio numa pintura de Dal�. Assim como dois dos bot�es. Ele os tocava com uma esp�cie de assombro.</p><p>Black entrou numa zona de carga e puxou o freio de m�o.</p><p>� Me fale mais sobre isso.</p><p>Carroll parecia confuso. Esfregou a testa.</p><p>� Senti algo me agarrar, TN. E, ent�o� fui sugado direto para a bolsa. Vi a bolsa ficando cada vez maior e� a pr�xima coisa que sei � que estava nesse monte de lixo em Ludlow, a norte de Stanton. Estava correndo para a delegacia quando voc� me parou.</p><p>� Voc� foi teletransportado da Forsyth para a Ludlow, a norte da Stanton.</p><p>� Teletransportado. Isso a�, essa � a palavra. � Carrol parecia aliviado. � Ent�o, voc� acredita em mim. Meu Deus, TN, tinha certeza de que ia tomar um gancho por isso.</p><p>� Estou h� muito tempo no Bairro dos Curingas, vi um monte de coisas estranhas. � Black deu partida no carro novamente. � Vamos achar a tal mendiga � disse ele. � Foi h� poucos minutos, certo?</p><p>� Sim. E minha viatura ainda est� l�. Merda. Os curingas provavelmente j� a depenaram.</p><p>O brilho da ca�amba em chamas, laranja nas paredes de tijolos do beco, era vis�vel da Forsyth. Black parou numa zona de embarque.</p><p>� Vamos a p�.</p><p>� N�o � melhor ligarmos para os bombeiros?</p><p>� Ainda n�o. Pode n�o ser seguro para eles.</p><p>Black na frente, caminharam at� o fim do beco. A ca�amba queimava, as chamas subindo a quase cinco metros no meio de uma nuvem de cinzas pairando. A viatura de Carroll estava intacta, como se por m�gica, mesmo com a porta traseira aberta. Em p�, na frente da ca�amba, trocando o peso do corpo de um p� para o outro, estava uma mulher branca e pequena com uma sacola de compras cheia em cada m�o. Vestia diversas camadas de roupas maltrapilhas. Parecia estar murmurando consigo mesma.</p><p>� � ela, tenente!</p><p>Black observou a mulher e n�o disse nada. Ele se perguntava como abord�-la.</p><p>As chamas subiam ainda mais, estalando, e de repente luzes estranhas e piscantes, como fogo de santelmo, planaram em c�rculos em volta da mulher e de suas bolsas. Ent�o, algo numa das bolsas pareceu se erguer, uma sombra escura, e o fogo curvou-se como a chama de uma vela ao vento forte, e foi sugado pela bolsa. Num instante, fogo e sombra desapareceram. As luzes estranhas coloridas brincavam gentilmente sobre a figura da mulher. Cinzas oleosas ca�am na cal�ada.</p><p>� Puta merda � murmurou Carroll. Black tomou uma decis�o. Fu�ou no bolso e pegou a carteira e as chaves de sua unidade sem identifica��o. Deu uma nota de dez para Carroll.</p><p>� Pegue minha viatura. V� at� o Burger King na West Broadway e pegue dois hamb�rgueres duplos, duas batatas grandes e um caf� grande para viagem.</p><p>Carroll ficou olhando para ele.</p><p>� Normal ou forte, TN?</p><p>� Vai logo! � Black ralhou. Carroll saiu depressa.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Atrair a mulher da bolsa para a viatura sem identifica��o de Black custou os dois hamb�rgueres, o caf� e um pacote de fritas. Ele pensou que ela provavelmente n�o entraria num azul e branco como o de Carroll. Havia trancado o casaco do uniforme e a arma de Carroll no porta-malas para n�o alarmar a mulher, e Carroll estava tremendo quando se sentou no banco do passageiro.</p><p>No banco de tr�s, a mulher estava murmurando para si mesma e devorando as batatas. Seu cheiro era terr�vel.</p><p>� Para onde agora? � Carroll perguntou. � Um dos centros de refugiados? A cl�nica?</p><p>Black deu partida no carro.</p><p>� Algum lugar especial. Na parte alta. Existem coisas sobre essa mulher que n�o sabemos.</p><p>Carroll gastou a maior parte de sua energia tremendo enquanto Black sa�a a toda velocidade do Bairro dos Curingas. A mendiga dormiu no banco de tr�s. Seu ronco assobiava por entre os dentes faltantes. Black parou na frente de um pr�dio com fachada de arenito pardo na East 57th.</p><p>� Espere aqui � disse. Desceu as escadas at� uma entrada de apartamento de por�o e apertou a campainha. Uma guirlanda natalina de pl�stico estava pendurada na porta. Algu�m olhou pelo olho m�gico na porta, que se abriu em seguida.</p><p>� N�o estava esperando voc� � disse Coleman Hubbard.</p><p>� Tenho algu�m com� poderes� no banco de tr�s. Ela n�o est� em s� consci�ncia. Pensei que poder�amos coloc�-la no quarto dos fundos. E tem um policial comigo que n�o consegue saber o que acontece.</p><p>Os olhos de Hubbard voejaram na dire��o do carro.</p><p>� O que voc� disse a ele?</p><p>� Disse para ficar no carro. � um bom garoto, e � isso que vai fazer.</p><p>� Tudo bem. Vou pegar um casaco.</p><p>Enquanto Carroll observava com curiosidade, Hubbard e Black atra�ram a mendiga para o apartamento de Hubbard, usando como isca a comida de sua geladeira. Black perguntou-se o que Carroll diria se pudesse ver a decora��o no apartamento especial trancado ao lado, o escuro quarto � prova de som, com velas, altar, o pentagrama pintado no ch�o, as calhas de liga embutidas, as correntes brilhantes fixadas a ganchos� N�o era t�o elaborado quanto o templo que a Ordem tinha no centro antes de ele explodir, mas de qualquer forma era apenas uma sede tempor�ria, at� o novo templo na cidade alta ser terminado.</p><p>No apartamento de Hubbard havia dois quartos prontos para h�spedes, e a mendiga foi colocada num deles.</p><p>� Ponha um cadeado na porta � Black disse. � E chame o Astr�nomo.</p><p>� Lorde Amon j� chamou � Hubbard comentou, e deu um tapinha na pr�pria cabe�a.</p><p>Black voltou ao carro e seguiu novamente para o Bairro dos Curingas.</p><p>� Pegaremos sua viatura � Black falou. � Ent�o, seguimos para a delegacia para o seu relat�rio.</p><p>Carroll olhou para ele.</p><p>� Quem era aquele cara, tenente?</p><p>� Um especialista em doen�as mentais e curingas.</p><p>� Aquela senhora pode machuc�-lo.</p><p>� Ele estar� mais seguro que n�s dois.</p><p>Black parou na frente da viatura de Carroll. Saiu e abriu o porta-malas, tirando o casaco e o quepe de Carroll, e passou-os para o jovem policial. Ent�o pegou uma flauta � no Departamento de Pol�cia de Nova York, uma garrafa inocente de refrigerante cheia de bebida alco�lica � que planejava usar para se manter aquecido durante o plant�o do dia seguinte. Ofereceu a flauta para Carroll. O patrulheiro, agradecido, aceitou a garrafa. Black esticou a m�o at� o coldre de Carroll.</p><p>� Foi sorte encontrar voc�, TN.</p><p>� Sim, foi mesmo.</p><p>Black atirou quatro vezes no peito de Carroll com a arma deste, ent�o, ap�s o policial estar ca�do, deu mais dois tiros na cabe�a. Limpou as impress�es digitais da arma e jogou-a no ch�o, pegou a garrafa de Coca-Cola e voltou para o carro. Talvez, com o rum derramado, pareceria que Carroll parou um b�bado, e este conseguiu tomar a arma dele.</p><p>O carro cheirava a cheeseburger. Black lembrou-se de que n�o havia jantado.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>A mendiga ignorou a cama e foi dormir num canto do quarto. As bolsas estavam empilhadas � frente e em cima dela como uma fortaleza. Hubbard estava sentado num banco, observando-a intensamente. Seu sorriso deformado havia congelado numa par�dia desagrad�vel de si mesmo. A dor pulsava no seu c�rebro. O esfor�o de ler sua mente lhe custava.</p><p><emphasis>Sem voltar atr�s</emphasis>, ele pensou. Tinha de ver isso at� o fim. Seu fracasso com o capit�o McPherson lhe custou a estima da Ordem e de Amon; e quando Black apareceu com a mendiga, Hubbard percebeu que esta era a chance de reaver seu lugar. Hubbard mentiu para Black quando disse ao detetive que tinha alertado Amon.</p><p>Havia poder ali. Talvez o suficiente para fornecer energia ao dispositivo Shakti. E, se o dispositivo Shakti fosse energizado pela coisa na sacola, ent�o Amon n�o seria mais necess�rio.</p><p>A coisa na sacola podia engolir pessoas, Hubbard sabia disso. Talvez pudesse at� comer Amon. Hubbard pensou no inc�ndio no velho templo, Amon andava a passos largos pelas chamas com os disc�pulos atr�s dele, ignorando os gritos de Hubbard.</p><p><emphasis>Sim</emphasis>, Hubbard pensou. <emphasis>Valeria o risco</emphasis>.</p><p>O detetive Harry Matthias, conhecido na Ordem como Judas, estava sentado na cama, de queixo nas m�os. Ele deu de ombros.</p><p>� Ela n�o � um �s. Nem aquilo que est� na bolsa.</p><p>Hubbard falou mentalmente para ele. <emphasis>Sinto duas mentes. Uma � a dela</emphasis> � <emphasis>� desordenada. N�o consigo toc�-la. A outra est� na bolsa</emphasis> � <emphasis>est� em contato com ela, de alguma forma� existe uma liga��o emp�tica. A outra mente tamb�m parece estar danificada. Como se estivesse adaptada a ela.</emphasis></p><p>Judas levantou-se. Estava vermelho de �dio.</p><p>� Por que, em nome de Deus, n�o pegamos a maldita bolsa e pronto?</p><p>Ele foi at� a mendiga com as m�os fechadas.</p><p>Hubbard sentiu um estalo el�trico de consci�ncia na mente. A mendiga acordou. Por meio do seu elo mental com Judas, sentiu o homem hesitar com a malevol�ncia s�bita nos olhos da velha. Judas alcan�ou a bolsa.</p><p>A bolsa alcan�ou Judas.</p><p>Uma escurid�o mais r�pida que o pensamento cresceu no quarto. Judas desapareceu nela. Hubbard encarava o espa�o vazio. Na sua mente, a loucura afiada da mulher dan�ava.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Judas estremeceu e seus l�bios estavam azuis. O enfeite de natal estava pendurado em seu cabelo. Um peda�o de papel�o grudou na sola do sapato. Fora transportado para uma ca�amba na Christopher Street e deixou de existir por cerca de vinte minutos. Pegou um t�xi de volta.</p><p><emphasis>Poder</emphasis>, Hubbard pensou. <emphasis>Poder incr�vel</emphasis>. <emphasis>A coisa na sacola distorce de alguma forma o espa�o-tempo</emphasis>.</p><p>� Por que no lixo? � Judas disse. � Por que pilhas de merda? E olhe para minha arma� � Ele viu o papel�o e tentou arranc�-lo do sapato. Ele se descolou com um ru�do grudento.</p><p>� Ela est� estabelecida no lixo, eu acho � disse Hubbard. � E, �s vezes, parece retorcer objetos inanimados. Consegui sentir que est� quebrado � talvez haja um problema com ele.</p><p>Ele precisava descobrir alguma forma de dominar a mendiga. Esperar at� ela dormir n�o adiantou � ela acordou no primeiro movimento amea�ador de Judas. Ele imaginou vagamente um g�s venenoso, e ent�o foi acometido por uma ideia.</p><p>� Voc� tem acesso a uma arma de tranquilizantes na delegacia?</p><p>Judas balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o. Acho que talvez os bombeiros tenham alguma para quando lidam com animais fugitivos.</p><p>A ideia cristalizou-se na mente de Hubbard.</p><p>� Quero que voc� e Black roubem uma para mim.</p><p>Na verdade, ele faria Black atirar � se a coisa na sacola retaliasse, atacaria Black. E, ent�o, com a mendiga dormindo, Hubbard pegaria o dispositivo�</p><p>E ent�o, seria a vez de Hubbard. Poderia usar todo o tempo necess�rio, jogando com a mente da mendiga, e ela teria o suficiente no c�rebro para se deixar saber o que estava acontecendo com ela. Ah, sim.</p><p>Poderia testar o poder do dispositivo capturado nas pessoas que ele agarrasse na rua. E, depois disso, talvez fosse a vez de Amon.</p><p>Lambeu os l�bios. Mal podia esperar.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>As legi�es da noite pareciam infinitas em quantidade. O conhecimento abstrato do androide da classe baixa de Nova York, o fato de que havia milhares de pessoas que perambulavam entre as torres de vidro e fachadas s�lidas de arenito numa exist�ncia quase t�o remota para os habitantes dos pr�dios quanto aquela dos alien�genas de Marte� Os fatos abstratos digitalizados n�o eram, de alguma forma, adequados para descrever a realidade, os aglomerados de homens que passavam garrafas em torno de fogos em latas de lixo, os despossu�dos cujos olhos refletiam luzes cintilantes de Natal, enquanto viviam atr�s de paredes de papel�o, os insanos que se abra�avam em becos ou entradas de metr�, entoando a litania dos loucos. Era como se um feiti�o do mal tivesse ca�do sobre a cidade, aquela parte da popula��o que fora exposta � guerra ou � devasta��o, feitos refugiados sem-teto, enquanto outros foram encantados para que n�o os vissem.</p><p>O androide encontrou dois mortos, o resto de seu calor saindo deles. Ele os deixou em seus caix�es de jornal e prosseguiu. Encontrou outros que estavam morrendo ou doentes e os levou para o hospital. Outros correram dele. Alguns fingiam olhar para a imagem da mendiga, levantando a foto Polaroid para olhar a imagem contra a luz do fogo na lata de lixo, e ent�o pediam dinheiro em troca de relacionar uma vis�o que era obviamente falsa.</p><p>A tarefa, ele pensou, era quase in�til.</p><p>Seguiu em frente.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Black e Hubbard esperaram fora do quarto trancado da mendiga. Black estava tomando sua flauta de rum e Coca-Cola.</p><p>� Sonhos, cara. Sonhos incr�veis. Jesus. Monstros como voc� n�o acreditaria� corpos de le�o, rostos humanos, asas de �guia, todo tipo de coisa que possa imaginar� e todos estavam famintos, e todos queriam me devorar. E, ent�o, havia aquela coisa gigante atr�s deles, como uma sombra, como, e da� Jesus. � Ele abriu um sorriso nervoso e bateu na pr�pria testa. � E da� percebi que todos os monstros estavam de alguma forma <emphasis>conectados</emphasis>, que eram todos uma <emphasis>parte</emphasis> daquela coisa. Foi quando acordei gritando. Acontecia repetidamente. Estava quase pronto para ver os psic�logos do departamento.</p><p>� Sua mente sonhadora tocou TIAMAT.</p><p>� Sim. � o que Matthias� Judas� me disse quando me recrutou. De alguma forma, ele sentiu TIAMAT chegando em mim.</p><p>Hubbard deu seu sorriso torto. Black ainda n�o sabia que o Espectro entrava na sua mente todas as noites, colocando sonhos em sua mente, fazendo-o acordar gritando noite ap�s noite, e levou-o � beira de uma psicose, de forma que, quando Judas explicou aquilo que acontecera a ele e como a Ordem poderia fazer os sonhos desaparecerem, os ma�ons pareceriam a �nica resposta poss�vel. Tudo porque a Ordem precisava de algu�m de posto mais alto que o de Matthias no Departamento de Pol�cia de Nova York, e Black era um policial corajoso, marcado para progredir�</p><p>� E ent�o fui vetado. � O detetive balan�ou a cabe�a. � Balsam e os outros, ma�ons da velha guarda, n�o queriam um cara que tivesse cria��o cat�lica. Filhos da m�e. E TIAMAT j� estava a caminho. Ainda n�o consigo acreditar.</p><p>� Ter o nome em homenagem a Francisco Xavier n�o ajudou, eu suponho.</p><p>� Ao menos nunca descobriram que minha irm� � freira. Isso teria acabado comigo de uma vez. � Ele terminou a flauta e caminhou na dire��o da sala de estar para jogar a garrafa no lixo.</p><p>� E eu consegui na segunda tentativa.</p><p><emphasis>Voc� nunca saber� por qu�</emphasis>, pensou Hubbard. <emphasis>Voc� nunca saber� que Amon estava usando sua associa��o como ferramenta contra Balsam, que ele queria o ex-Mestre, com seus preconceitos irracionais e maneiras de velho e estupidez m�stica herdada, totalmente fora do caminho. Como usou a decis�o contra Black para convencer Kim Toy, Red e o Espectro de que Balsam precisava sair. E, ent�o, houve o inc�ndio no velho templo, de alguma forma orquestrado por Amon, e Amon salvou os seus das chamas, e Balsam e todos os seus seguidores morreram.</emphasis></p><p>Hubbard lembrou-se da explos�o, do inc�ndio, da dor, do jeito que sua carne enegreceu na chama de ma�arico. Ele gritou por ajuda, vendo a figura astral gigante de Amon liderando os pr�prios disc�pulos para fora, e se Kim Toy n�o tivesse insistido em voltar por ele, teria morrido naquele momento. Amon n�o confiava plenamente nele, n�o naquela �poca. Hubbard tinha acabado de entrar na Ordem, e Amon n�o tivera a chance de jogar com ele ainda, de entrar em seu c�rebro e faz�-lo se retorcer, fazer jogos mentais infinitos e torc�-lo em n�s com uma longa s�rie de humilha��es� <emphasis>Sim</emphasis>, pensou, <emphasis>assim � Amon</emphasis>. <emphasis>Eu sei, porque tamb�m sou assim</emphasis>.</p><p>Bateram � porta. Hubbard sup�s que fosse Judas, que trazia a arma tranquilizadora roubada em sua caixa de metal vermelha com os adesivos APENAS PARA USO OFICIAL.</p><p>� Ufa. Que saco. Pensei que o capit�o McPherson nunca me deixaria sair.</p><p>Black e ele tiraram a grande pistola de ar preta da caixa, colocando em seguida um dardo na c�mara.</p><p>� Isso deve apag�-la por horas � Black disse, confiante. � Vou dar um pouco de comida, ent�o acert�-la da porta quando estiver comendo.</p><p>Ele prendeu a pistola na parte de tr�s do c�s da cal�a, pegou um prato de papel de pizza fria do refrigerador, e caminhou at� a porta da mendiga. Destrancou o cadeado pesado e, cuidadosamente, abriu a porta. Hubbard e Matthias, de forma inconsciente, deram um passo para tr�s, meio que esperando Black desaparecer em qualquer estranheza de espa�o-tempo que habitava a bolsa� mas a express�o de Black mudou, ele enfiou a cabe�a no quarto, olhou para a direita e para a esquerda. Quando voltou para o corredor, sua express�o era de perplexidade.</p><p>� Ela sumiu � disse ele. � N�o est� em nenhum lugar do quarto.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Modular olhou para os drinques alinhados no bar diante dele. <emphasis>Irish coffee</emphasis>, mart�ni, margarita, <emphasis>boilermaker</emphasis>, conhaque Napoleon. Queria experimentar a s�rio esses novos gostos naquele momento e perguntou-se se ter suas pe�as esmagadas pela engenhoca da mendiga despertara nele um sentido de mortalidade.</p><p>� Estou come�ando a perceber � disse o androide, levando o <emphasis>Irish coffee</emphasis> at� os l�bios � que meu criador � um sociopata sem cura.</p><p>Cyndi refletiu sobre aquilo.</p><p>� Se voc� n�o se importa com um pouco de teologia, acho que isso s� te coloca no mesmo barco que todos n�s.</p><p>� Ele est� come�ando a� bem, deixa isso pra l�. Mas acho que o homem � doente. � O androide limpou o creme do l�bio superior.</p><p>� Voc� poderia fugir. Pelo que eu saiba, escravid�o � ilegal. Ele n�o te paga nem um sal�rio m�nimo, eu suponho.</p><p>� N�o sou uma pessoa. N�o sou humano. M�quinas n�o t�m direitos.</p><p>� Isso n�o significa que precisa fazer tudo que ele diz, Modular.</p><p>O androide balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o vai funcionar. Tenho inibi��es estruturais contra desobedi�ncia a ele, desobedi�ncia a instru��es ou revela��o da identidade dele de qualquer maneira.</p><p>Cyndi parecia assustada.</p><p>� Ele � meticuloso, preciso admitir isso. � Ela olhou para Modular cuidadosamente. � Por que ele te construiu?</p><p>� Ia me produzir em massa e vender para os militares. Mas acho que est� se divertindo tanto brincando comigo que pode chegar a nunca vender meus direitos para o Pent�gono.</p><p>� Eu agradeceria, se fosse voc�.</p><p>� Eu n�o saberia. � O androide pegou outra bebida, ent�o mostrou a Polaroid da mendiga para Cyndi.</p><p>� Preciso encontrar esta pessoa.</p><p>� Parece uma mendiga.</p><p>� <emphasis>�</emphasis> uma mendiga.</p><p>Ela riu.</p><p>� Voc� n�o ouviu o notici�rio? Sabe quantos milhares de mulheres assim existem nesta cidade? Tem uma recess�o acontecendo l� fora. B�bados, fugitivos, pessoas sem emprego ou sem sorte, pessoas que foram chutadas das institui��es para doentes mentais por conta dos cortes no financiamento do Estado� Os abrigos d�o prefer�ncia aos refugiados do Enxame e n�o aos sem-teto. Meu Deus� e numa noite como esta tamb�m. Sabe que j� � a noite de dezembro mais fria da hist�ria? Tiveram de abrir igrejas, delegacias� todo tipo de lugares para que os errantes n�o morressem de frio. E muitos deles n�o v�o para qualquer tipo de abrigo, porque est�o muito assustados com as autoridades ou porque s�o loucos demais para perceber que v�o ajud�-los. N�o invejo voc�, Modular, n�o mesmo. As ca�ambas de lixo estar�o cheias de cad�veres amanh�.</p><p>� Eu sei. Encontrei alguns.</p><p>� Se quiser encontr�-la antes de ela morrer congelada, tente as latas de lixo com fogueiras, depois os abrigos. � Ela franziu a sobrancelha novamente para olhar a foto. � Por que quer encontr�-la?</p><p>� Acho� que ela pode ser testemunha de algo.</p><p>� Certo. Muito bem. Boa sorte, ent�o.</p><p>O androide olhou sobre o ombro para o deck de observa��o com sua camada brilhante de gelo. Al�m do parapeito, Manhattan cintilava friamente para ele, com uma claridade que n�o tinha visto antes, como se os pr�dios, as pessoas, as luzes, todas estivessem congeladas dentro de um imenso cristal. Era como se a cidade n�o estivesse mais perto que as estrelas, e como se fosse t�o incapaz de dar calor quanto elas.</p><p>Dentro da sua mente, o androide teve um tremor puramente mental. Queria ficar ali, no aconchego do Aces High, experimentando os movimentos perfeitamente abstratos � para ele � de levantar uma bebida quente at� os l�bios. Havia algo reconfortante nisso, apesar da inutilidade l�gica do ato. N�o entendia completamente o impulso, apenas o conhecia. Provavelmente a parte humana de sua programa��o.</p><p>Contudo, havia restri��es impostas sobre seus desejos, e uma delas era a obedi�ncia. Poderia ficar no Aces High apenas se isso pudesse ajud�-lo na miss�o de encontrar a mendiga.</p><p>Terminou a fileira de bebidas e se despediu de Cyndi. A menos que um milagre acontecesse e encontrasse a mendiga logo, passaria o resto da noite nas ruas.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Quatro horas da manh�. O carro passou por uma valeta e derrubou caf� quente na coxa de Coleman Hubbard. Ele ignorou. Levantou o copo grande de isopor do meio das pernas e tomou apressadamente. Tinha de ficar acordado.</p><p>Procurava pela mendiga, passando em cada abrigo, descendo cada rua escura, vasculhando com a mente, esperando encontrar o padr�o de loucura e raiva que tinha visto no c�rebro perturbado dela.</p><p>Estava fazendo isso por boa parte das �ltimas 24 horas. O aquecedor no carro velho alugado j� pifara. Seu corpo era uma massa de c�ibras e o cr�nio pulsava num ritmo de bate-estaca lento. O fato de que Black e Judas estivessem congelando na mesma miss�o n�o servia de consolo.</p><p>Hubbard esmagou o copo de caf� entre as coxas, ligou a luz interna do carro e olhou para o papel com a lista de abrigos. Havia uma escola para meninas cheia de refugiados nas proximidades, e ele ainda n�o a havia rastreado.</p><p>Quando se aproximou do local, Hubbard come�ou a sentir uma familiaridade perturbadora, algo como um <emphasis>d�j� vu</emphasis>. A dor de cabe�a pulsava em seus olhos. O est�mago embrulhou. Demorou poucos segundos antes de ele reconhecer a sensa��o.</p><p>Ela estava ali. A euforia o arrebatou. Ele desviou a mente dos padr�es deturpados da mente da mendiga e a expandiu para onde Black patrulhava, a arma de dardo carregada no assento ao lado dele.</p><p>� <emphasis>R�pido!</emphasis> � gritou. � <emphasis>Encontrei a mulher!</emphasis></p><p><image l:href="#3"/></p><p>Modular caminhou pelas longas fileiras, rastreando � esquerda e � direita. Oitocentos refugiados foram socados no gin�sio da escola secund�ria. Havia catres para a metade, aparentemente trazidos de algum dep�sito da Guarda Nacional, e o restante dos refugiados dormia no ch�o. O grande sal�o ecoava o som de roncos, gritos e choramingos das crian�as.</p><p>E ela estava l�. Caminhando entre as fileiras de catres, murmurando consigo mesma, arrastando as bolsas pesadas. Ela ergueu os olhos no mesmo momento em que o androide a viu, e houve um choque m�tuo de reconhecimento, um sorriso de dentes corro�dos, malevolente.</p><p>O androide levantou voo num picossegundo de seu pensamento na velocidade da luz. Queria estar longe de qualquer inocente, se ela soltasse aquela coisa que tinha na bolsa. Mal tinha sa�do do ch�o antes de o campo de fluxo de for�a conectar-se, estalando em volta do seu corpo. A coisa na bolsa n�o conseguiria agarrar qualquer coisa s�lida.</p><p>O radar fez a busca, o lan�ador de granada de g�s em seu ombro esquerdo zumbiu enquanto mirava. Seu ombro absorveu o tranco. A granada tomou subst�ncia assim que saiu do campo de fluxo, mas manteve a velocidade. O g�s opaco cercou a mendiga.</p><p>Ela sorriu para si mesma. Uma escurid�o estendeu-se ao redor dela, e o g�s mergulhou no escuro, sugado pela bolsa como por uma calha.</p><p>O p�nico ergueu-se entre os refugiados, quando acordaram com a batalha.</p><p>A mendiga abriu a sacola de compras. O androide conseguiu ver a escurid�o que havia l� dentro. Sentiu algo frio passar por ele, algo que tentava puxar sua forma insubstancial. As vigas de a�o que sustentavam o teto tilintaram como sinos sobre a cabe�a dele.</p><p>O sorriso deformado da mendiga desapareceu.</p><p>� Filho da puta � disse ela. � Voc� lembra o Shaun.</p><p>Modular ergueu voo at� se aproximar do teto. Mergulharia at� ela, se solidificaria no �ltimo segundo, agarraria a bolsa e esperaria que ela n�o o engolisse.</p><p>A mendiga come�ou a esgar�ar os dentes num sorriso novamente. Quando o androide chegou ao ponto de mergulho logo acima dela, ela abriu a bolsa sobre a cabe�a.</p><p>Ela foi engolida. Sua cabe�a desapareceu dentro da sacola, seguida pelo restante do corpo. Suas m�os, agarradas nas bordas, puxou a bolsa atr�s dela para o vazio. A bolsa dobrou-se em si mesma e desapareceu.</p><p>� N�o � poss�vel � algu�m disse.</p><p>O androide buscou cuidadosamente pela sala. A mendiga havia sumido.</p><p>Ignorando a perturba��o crescente l� embaixo, al�ou voo, atravessando o teto. As luzes frias de Manhattan surgiram ao seu redor. Ele voou sozinho noite adentro.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Hubbard olhou por um longo tempo, infinito, para o espa�o onde a mendiga estava. <emphasis>Ent�o, � assim que ela faz</emphasis>, pensou.</p><p>Esfregou as m�os geladas e pensou nas ruas, as ruas com o frio sem fim, as longas horas g�lidas de sua busca. A mendiga deve ter ido para Jersey, pelo que ele podia prever.</p><p>Aquela seria uma longa noite.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>� Mulherzinha maldita! � disse Travnicek. Sua m�o, que segurava uma carta, tremia de �dio. � Estou sendo despejado! � Ele brandia a carta. � Perturba��es! � murmurou. � Equipamento sem seguran�a! Sessenta dias, que merda! � Ele come�ou a pisotear com suas botas pesadas, tentando deliberadamente trepidar o apartamento de baixo. Sua respira��o congelava a cada palavra. � Aquela puta! � urrou. � Conhe�o o jogo dela! Quer que eu arrume o apartamento com dinheiro do meu bolso para que ela possa me despejar e ent�o cobrar um aluguel maior. N�o gastei uma fortuna em benfeitorias para agora ela querer encontrar outro babaca. Algum membro da classe dos malditos aburguesados.</p><p>Ele olhou para o androide que, pacientemente, esperava com um pacote de croissants e caf� quentes.</p><p>� Quero que v� at� o escrit�rio dela hoje � noite e acabe com aquele lugar � disse Travnicek. � N�o deixe nada intacto, nem um peda�o de papel, nem uma cadeira. Quero apenas m�veis estra�alhados e confete. E quando ela estiver limpando o escrit�rio, fa�a o mesmo com o apartamento.</p><p>� Sim, senhor � o androide disse, resignado.</p><p>� O est�pido Lower East Side � Travnicek falou. � O que vai restar, se este bairro come�ar a ficar pretensioso? Vou ter que me mudar para o Bairro dos Curingas para ter um pouco de paz. � Pegou o caf� da m�o do androide, enquanto continuava a pisotear o ch�o de compensado.</p><p>Ele olhou sobre o ombro para sua cria��o.</p><p>� E voc�? � rugiu. � Est� procurando pela mendiga ou o qu�?</p><p>� Sim, senhor. Mas como o lan�ador de g�s n�o funcionou, pensei em mudar para a luz ofuscante.</p><p>Travnicek pulou para l� e para c� v�rias vezes. O som ecoava pelo apartamento.</p><p>� Como quiser. � Ele parou de pular e sorriu. � Tudo bem � disse ele. � Sei o que fazer. Vou ligar os geradores <emphasis>grandes</emphasis>!</p><p>O androide pousou o saco de papel na bancada de trabalho, trocou as armas e voou silenciosamente at� atravessar o teto. L� fora, o vento frio continuava a chicotear a cidade, inundando os espa�os entre os pr�dios altos, sacudindo as pessoas como juncos na �gua. A temperatura mal subira al�m do congelamento, e o frio do vento derrubava a temperatura efetivamente abaixo de zero.</p><p>Mais pessoas, o androide sabia, morreriam.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� Ei � disse Cyndi. � Que tal fazermos uma pausa?</p><p>� Tudo bem.</p><p>Cyndi levantou as m�os, tomando a cabe�a do androide entre elas.</p><p>� Todo esse esfor�o � ela falou. � Voc� n�o sua nem um pouco?</p><p>� N�o. S� ligo minhas unidades de refrigera��o.</p><p>� Incr�vel. � O androide deslizou para fora dela. � Fazer isso com uma m�quina � ela comenta, pensativa. � Sabe, teria pensado que isso �, no m�nimo, um pouco bizarro. Mas n�o �.</p><p>� Legal da sua parte dizer isso. Eu acho.</p><p>Modular procurou pela mendiga durante 48 horas e concluiu que precisaria de algumas horas para si. Justificou a parada como necess�ria para o seu moral. Planejava mover o corpo da mem�ria noturna de seu local sequencial para outro lugar, e preencher o espa�o vazio com uma reprise chata da patrulha da noite anterior atr�s da mendiga. Com sorte, Travnicek apenas passaria r�pido a patrulha e n�o procuraria a parte porn� da mem�ria.</p><p>Ela se sentou na cama, esticando a m�o para pegar algo no criado-mudo.</p><p>� Quer coca?</p><p>� Para mim � desperd�cio. V� em frente.</p><p>Ela ajustou o espelho cuidadosamente � sua frente e come�ou a alinhar o p� branco. O androide observava enquanto ela cheirava algumas carreiras e se recostava nos travesseiros com um sorriso. Olhou para ele e pegou sua m�o.</p><p>� Voc� n�o precisa mesmo ser t�o ligado em desempenho, viu? � disse ela. � Quer dizer, voc� poderia ter gozado se quisesse.</p><p>� Eu n�o gozo.</p><p>O olhar dela estava um pouco opaco.</p><p>� Qu�? � ela perguntou.</p><p>� Eu n�o gozo. Orgasmo � uma complexa descarga aleat�ria de neur�nios. N�o tenho neur�nios e nada que fa�o � realmente aleat�rio. N�o funcionaria.</p><p>� Puta merda � Cyndi piscou para ele. � Ent�o, como �?</p><p>� Agrad�vel. De uma forma muito complicada.</p><p>Ela tombou a cabe�a e pensou sobre essa frase por um momento.</p><p>� � isso, ent�o � disse ela. Ela fungou outro par de carreiras e olhou para ele com vivacidade. � Consegui um emprego � falou. � Por isso consegui pagar a coca. Um presente de Natal para mim mesma. � Ela sorriu.</p><p>� Parab�ns.</p><p>� � na Calif�rnia. Um comercial. Eu fico na m�o desse gorila gigante, sabe, e sou resgatada pelo Bud Man. Sabe, o cara dos comerciais de cerveja. E, ent�o, no final� � Ela revira os olhos. � No final ficamos todos felizes e b�bados, o Bud Man, o gorila e eu, e pergunto pro macaco como ele est�, e o macaco <emphasis>arrota</emphasis>. � Ela franziu a sobrancelha. � � meio nojento.</p><p>� Eu ia dizer isso.</p><p>� Mas ent�o h� uma chance para atriz convidada no <emphasis>Twenty-Dollar Hotel</emphasis>. Preciso ter um caso com um valent�o ou algo assim. Meu agente n�o explicou direito. � Ela deu um risinho. � Pelo menos n�o h� nenhum gorila gigante nesse. Digo, um foi o bastante.</p><p>� Vou sentir saudades � o androide disse. Ele n�o estava bem certo em como se sentia a esse respeito. Ou mesmo se o que sentiu poderia de qualquer forma ser descrito como <emphasis>sentimento</emphasis>. Cyndi pressentiu seus pensamentos.</p><p>� Voc� vai precisar salvar outras mulheres bacanas.</p><p>� Acho que sim. Mas nenhuma mais bacana que voc�.</p><p>Ela riu um pouco mais.</p><p>� Voc� � bom de elogio � disse ela.</p><p>� Obrigado.</p><p>Ela deu um tapinha em sua c�pula.</p><p>� Ainda vai demorar mais ou menos uma semana at� eu ir embora. Podemos passar algum tempo juntos.</p><p>� Eu adoraria. � O androide estava pensando no anseio por experi�ncias, a maneira estranha que sua ocupa��o tinha de fornec�-la, um jeito que parecia para ele que a experi�ncia fornecida n�o era suficiente, nunca se mostraria suficiente.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Os detectores infravermelhos ligavam e desligavam nos olhos pl�sticos do androide enquanto ele flutuava sobre a rua. Rajadas de vento tentavam lan��-lo na dire��o dos pr�dios. Exceto pelas poucas horas que passou com Cyndi, estava fazendo aquilo havia quatro dias sem parar.</p><p>L� embaixo, na rua, algu�m lan�ou um copo de isopor pela janela de um Dodge azul. Modular perguntou-se onde ele tinha visto aquela cena antes.</p><p>Interruptores macroat�micos realizaram um filtro superliminar silencioso de dados. E o androide percebeu que estava vendo aquele Dodge azul demais, e em muitos dos mesmos lugares que Modular esteve nos �ltimos dias � centros de refugiados, abrigos, um patrulhamento incessante das ruas � meia-noite. O androide perguntou-se se o Dodge estaria procurando a mendiga. Modular decidiu manter o Dogde sob observa��o.</p><p>A busca do carro era mais lenta que a do androide � assim, Modular come�ou a cortar, buscando ruas � esquerda e � direita do carro, voltando ao Dodge de vez em quando. No centro do Ex�rcito da Salva��o do Bairro dos Curingas, deu uma boa olhada no ocupante do Dodge � um homem branco de meia-idade, o rosto deformado exausto e perturbado. Memorizou a placa do carro e subiu novamente ao c�u.</p><p>E, ent�o, horas depois, l� estava ela � bem na frente do Dodge, aconchegada ao lado dos degraus de entrada de uma casa com as bolsas empilhadas sobre ela. O androide pousou no telhado e esperou. O Dodge estava reduzindo a velocidade.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� E Shaun diz para mim, ele diz, eu quero que voc� v� ao m�dico�</p><p>Hubbard encurvou-se em seu sobretudo. Parecia que o vento estava soprando atrav�s do seu corpo, viajando diretamente entre sua carne e ossos. Seus dentes batiam. Estava dirigindo pelo que parecia anos a fio, novamente tendo aquela sensa��o terr�vel e nauseante de <emphasis>d�j� vu</emphasis>.</p><p>� N�o tem nada errado com sua m�e que uma dose de u�sque irland�s n�o cure�</p><p><emphasis>Black, eu a encontrei. Lower West Side</emphasis>.</p><p>A resposta de Black foi c�nica. <emphasis>Tem certeza de que nada vai dar errado desta vez?</emphasis></p><p><emphasis>O rob� n�o est� aqui. Ficarei fora da vis�o</emphasis>.</p><p><emphasis>Dez minutos.</emphasis></p><p><emphasis>Traga comida</emphasis>, disse Hubbard. <emphasis>Tentaremos peg�-la de surpresa</emphasis>.</p><p>� Vai se foder, Shaun, eu digo. Vai se foder. � A mendiga levantou-se num pulo, estava sacudindo o punho para o c�u.</p><p>Hubbard olhou para ela.</p><p>� Estou com voc�, minha senhora � ele murmurou. E, ent�o, olhou para cima. � Ai, merda � ele falou.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Modular flutuou para fora do telhado. N�o conseguia dizer se a mendiga estava gritando para ele ou para o c�u de modo geral. O motorista do Dodge estava a muitas casas de dist�ncia, escondido atr�s de outra escadaria. N�o parecia que o homem pretendia fazer alguma coisa.</p><p>Pensou sobre o jeito como ela retorceu seus componentes, na oblitera��o da exist�ncia que aconteceria se esmagasse seus geradores ou c�rebro. As mem�rias surgiram em sua mente; o estalo do <emphasis>single malt</emphasis> no nariz, o gordo com o rifle, Cyndi gemendo suavemente em seus bra�os, o rugir espumante do gorila� Ele n�o queria perder nada daquilo.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� Ai, merda � disse Hubbard, olhando para cima, horrorizado. O androide flutuava a menos de 15 metros sobre a mendiga. Ela estava gritando para ele, pegando a bolsa. A coisa na bolsa n�o conseguiu agarr�-lo da �ltima vez.</p><p>Em f�ria repentina, Hubbard expandiu a mente. Ele tomaria o controle do androide para bat�-lo na cal�ada diversas vezes at� n�o sobrar nada al�m de componentes estilha�ados�</p><p>Sua mente tocou o c�rebro macroat�mico frio do androide. O fogo floresceu na consci�ncia de Hubbard. Ele come�ou a gritar.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Havia algo preto na sacola de compras da mendiga. Estava crescendo.</p><p>O androide mergulhou direto at� a coisa. Seus bra�os estavam bem abertos. Se a mulher movesse a bolsa no �ltimo minuto, as coisas ficariam muito complicadas.</p><p>O negror crescia. O vento o arrastava, tentando tir�-lo do curso, mas o androide corrigiu.</p><p>Quando atingiu o negrume do portal, sentiu novamente a nulidade destruidora domin�-lo. Mas, antes que perdesse o controle sobre si mesmo, sentiu as m�os se fechando nas bordas da bolsa, prendendo-as, sem deixar escapar.</p><p>Por uma pequena fra��o de segundo, ele se sentiu satisfeito. Ent�o, conforme esperado, n�o sentiu mais nada.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Os ventos siberianos n�o esfriaram o ar quente sobre o aterro sanit�rio pr�ximo de St. Petersburg, na Fl�rida. O lugar tinha um cheiro horr�vel. Modular perdera quase quatro horas do seu tempo. Suas verifica��es n�o mostraram nenhum dano interno. Teve sorte.</p><p>Ele se levantou no meio do lixo fedorento e o revirou em busca da sacola de compras. Trapos, peda�os de roupa, de comida, e ent�o a coisa, fosse l� o que fosse. Uma esfera preta com cerca de dois quilos, do tamanho de uma bola de boliche. N�o havia nenhum interruptor aparente ou meio de control�-la.</p><p>A superf�cie era morna. Prendendo-a ao peito, o androide rumou para o c�u agrad�vel.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>� �timo � disse Travnicek. � Bom trabalho, torradeira. Eu me parabenizo pelo excelente trabalho de programa��o.</p><p>O androide trouxe para ele uma x�cara de caf�. Travnicek riu, deu um gole, e virou-se para contemplar o orbe alien�geno, sentado na bancada de trabalho. Tentou manipul�-lo com diversos tipos de controles remotos, mas n�o conseguiu nada.</p><p>Travnicek moveu-se na dire��o da bancada e estudou a esfera de uma dist�ncia respeitosa.</p><p>� Talvez seja necess�ria proximidade para acion�-la � o androide sugeriu. � Talvez voc� deva toc�-la.</p><p>� Talvez voc� deva cuidar da porra da sua vida. N�o vou me aproximar desse treco.</p><p>� Sim, senhor. � O androide ficou em sil�ncio por um momento. Travnicek bebericava do caf�. Ent�o, balan�ou a cabe�a e afastou-se da bancada.</p><p>� Voc� pode voar para o Peru amanh� e juntar-se aos seus amigos do Ex�rcito. E fa�a contato com os governos sul-americanos enquanto estiver l�. Talvez paguem mais do que o Pent�gono.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>Travnicek esfregou as m�os.</p><p>� Quero comemorar, batedeira. V� at� a loja e me traga uma garrafa de champanhe e algumas rosquinhas com geleia.</p><p>� Sim, senhor. � O androide, sem express�o, tornou-se insubstancial e atravessou o teto voando.</p><p>Travnicek entrou no pequeno quarto aquecido no qual dormia, ligou a televis�o e sentou-se na poltrona gasta. No meio da agita��o de �ltimo minuto da noite de Natal para os compradores atrasados, o aparelho exibia um desenho japon�s sobre um androide gigante que lutava contra lagartos cuspidores de fogo. Travnicek amava isso. Recostou-se para assistir.</p><p>Quando o androide voltou, encontrou Travnicek dormindo. Reginald Owen estava fazendo papel de Scrooge na tela. Modular pousou a sacola em sil�ncio e retirou-se.</p><p>Talvez Cyndi estivesse em casa.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Coleman Hubbard estava sentado com as roupas institucionais em sua ala em Bellevue. Pessoas mentalmente perturbadas caminhavam, brigavam, jogavam cartas. Uma pequena �rvore de pl�stico piscava na ala das enfermeiras. Sem ser visto por ningu�m, exceto o detetive John F. X. Black, Amon flutuava majestosamente sobre a cabe�a de Hubbard, ouvindo-o enquanto ele falava.</p><p>� Um, um, zero, um, zero, zero, zero, um, um, zero, um, um, um�</p><p>� Vinte e quatro horas � Black disse. � N�o conseguimos nada dele al�m disso.</p><p>� Um, zero, zero, zero, um, zero�</p><p>A imagem de Amon pareceu sumir por um momento, e Hubbard viu de soslaio a figura de um velho magro com olhos de sombras quebradi�as. Ent�o, Amon estava de volta.</p><p><emphasis>N�o consigo entrar em contato com ele. Nem mesmo causar dor. � como se a mente dele estivesse em contato com� algum tipo de m�quina.</emphasis> Suas m�os cerradas. <emphasis>O que</emphasis> aconteceu <emphasis>com ele</emphasis>? <emphasis>Que tipo de m�quina fez contato com ele l� fora?</emphasis></p><p>Black ergueu uma sobrancelha. <emphasis>TIAMAT?</emphasis></p><p><emphasis>N�o. TIAMAT n�o � assim� TIAMAT � mais vivo do que qualquer coisa que voc� j� tenha visto.</emphasis></p><p>� � zero, um, um, zero, zero, zero, um, zero�</p><p><emphasis>Quando o encontrei, vi a mendiga, coloquei-a para dormir e n�o encontrei nada em suas bolsas. Seja l� o que tenha acontecido, outra pessoa est� com a coisa agora.</emphasis></p><p>� � um, zero, zero, um, zero�</p><p>Os olhos do carneiro se incendiaram, e ent�o seu corpo se contorceu, ficando na forma esguia de um galgo com um focinho curvado e presas � mostra, um rabo gigante bifurcado erguendo-se das costas. O medo escalou o pesco�o de Black. Amon tornou-se Setekh, o destruidor. A ilus�o astral era assustadoramente real. Black esperava ver o sangue pingando do focinho do animal, mas n�o aconteceu. Ainda n�o, de qualquer forma.</p><p><emphasis>Ele te usou numa miss�o n�o autorizada</emphasis>, disse Setekh. <emphasis>Como parte de uma trama que provavelmente tinha a mim como alvo. Agora, ele � um perigo para todos n�s. Se sair deste estado, poder� dizer algo que n�o deve.</emphasis></p><p><emphasis>Destrua-o, Mestre</emphasis>, Black disse.</p><p>Uma espuma respingava do focinho daquela coisa, esfuma�ando no assoalho. Os outros pacientes n�o prestavam aten��o. O grande c�o hesitou.</p><p><emphasis>Se eu entrar na mente dele poderia ver� o que ele viu.</emphasis></p><p>Black deu de ombros. <emphasis>Quer que eu fa�a isso?</emphasis></p><p><emphasis>Sim. Acredito que seja melhor.</emphasis></p><p><emphasis>J� plantei o testamento no apartamento dele. Aquele que deixa tudo para nossa organiza��o.</emphasis></p><p>A l�ngua da fera se desenrolou. O olhar dela se suavizou. <emphasis>Voc� pensa adiante. Gosto disso. Talvez possamos lhe dar uma promo��o</emphasis>.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A milh�es de quil�metros da Terra, quase eclipsada pelo sol, a M�e do Enxame contemplava seus brotos sobreviventes, espalhados. Observadores na Terra teriam ficado surpresos de saber que o Enxame n�o considerava seu ataque uma falha. Havia sido lan�ado mais como um teste do que como uma tentativa s�ria de conquista, e o Enxame, analisando os dados recebidos de sua criatura, desenvolveu diversas hip�teses.</p><p>O Enxame traciano foi confrontado por tr�s rea��es que falharam totalmente em cooperar uma com a outra. Era poss�vel, o Enxame considerou, que a Terra fosse dividida entre diversas entidades, equivalentes � M�e do Enxame, que n�o se ajudaram mutuamente nos seus esfor�os.</p><p>Grandes quantidades do Enxame siberiano foram destru�das de uma vez, transmitindo sua agonia telep�tica � sua matriz. Era �bvio que as m�es da Terra possu�am alguma forma de arma devastadora, que, no entanto, estavam relutantes em usar, exceto em �reas desabitadas. Talvez os efeitos ambientais fossem penosos.</p><p>Possivelmente, o Enxame ponderou, se as m�es da Terra fossem divididas e todas possu�ssem essas armas, poderiam se voltar umas contra as outras. Se a Terra fosse, dessa forma, desolada, o Enxame estaria disposto a esperar milhares de anos necess�rios para a Terra tornar-se �til novamente. O per�odo n�o seria nada se comparado aos anos que o Enxame j� esperara.</p><p>O Enxame, dessa maneira eclipsado pelo sol, decidiu concentrar as atividades de monitoramento para confirmar essas hip�teses.</p><p>Sentia oportunidades ali.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Ent�o eu digo para Maxine, eu digo, quando voc� vai fazer alguma coisa sobre sua doen�a? Eu digo, � hora de ir ao m�dico�</p><p>A mendiga, com uma sacola de compras pendurada no bra�o, enquanto espreme uma segunda sacola contra o peito, caminhava lentamente pelo beco, lutando contra o vento siberiano.</p><p>Os cabelos loiros de Cyndi debatiam-se na brisa, enquanto tremia dentro de uma jaqueta de pele de cordeiro. Ela viu quando Modular tentou falar com a mulher, lhe dar um pacote cheio de comida chinesa, mas a mendiga continuava a murmurar consigo mesma e caminhar com pesar pelo beco. Finalmente, o androide enfiou o pacote de comida na sacola da mulher e voltou at� onde Cyndi o esperava.</p><p>� Desista, Mod. N�o h� nada que voc� possa fazer por ela.</p><p>Ele a tomou nos bra�os e voou em espiral na dire��o do c�u.</p><p>� Continuo achando que posso.</p><p>� Poderes super-humanos n�o s�o respostas para tudo, Mod. Voc� precisa aprender a lidar com suas limita��es.</p><p>O androide se calou.</p><p>� O que voc� precisa entender, se esse neg�cio n�o deixar voc� maluco, � que ningu�m inventou um poder carta selvagem que possa fazer qualquer porcaria por senhoras que est�o fora de si e que carregam o mundo todo com elas em sacolas de compra e vivem em latas de lixo. N�o tenho nenhum poder, e at� eu sei disso. � Ela fez uma pausa. � Est� me ouvindo, Mod?</p><p>� Sim. Eu te ouvi. Sabe de uma coisa, voc� � teimosa demais para ser uma garota que acabou de chegar de Minnesota.</p><p>� Ei! Hibbing � uma cidade dif�cil durante a recess�o.</p><p>Subiram, pairando na dire��o do Aces High. Cyndi p�s a m�o no bolso da jaqueta e mostrou um pacotinho enrolado em fita vermelha.</p><p>� Seu presente � disse ela. � Acho que � nossa �ltima noite juntos. Feliz Natal.</p><p>O androide parecia envergonhado.</p><p>� N�o pensei em comprar nada para voc�.</p><p>� Tudo bem. Voc� estava bastante ocupado.</p><p>Modular abriu o pacote. O vento agarrou a fita brilhante e a rodopiou para dentro da escurid�o. Dentro do embrulho havia um broche dourado no formato de uma carta de baralho, o �s de copas, com as palavras MEU HER�I gravadas.</p><p>� Achei que poderia usar para se sentir melhor. Pode usar na sua cueca boxer.</p><p>� Obrigado. Bela dica.</p><p>� De nada. � Cyndi o abra�ou.</p><p>O Empire State lan�ava um feixe de luzes coloridas para dentro da noite. O casal aterrissou no terra�o de Hiram. Dava para ouvir os sons de agita��o do bar, mesmo com as rajadas de vento. Uma multid�o natalina comemorava. Cyndi e Modular olharam por um bom tempo atrav�s da janela.</p><p>� Ei � disse ela. � Estou cansada de comida chique.</p><p>O androide pensou por um momento.</p><p>� Eu tamb�m.</p><p>� Que tal um restaurante chin�s? Depois podemos ir para o meu apartamento.</p><p>Ele foi preenchido pelo calor humano, mesmo ali, na corrente de vento siberiana. Numa fra��o de segundo, estava no ar.</p><p>L� embaixo, no beco, algo brilhante chamou a aten��o da mendiga. Ela se curvou e apanhou um fio da fita vermelha. Enfiou-o numa sacola e continuou sua caminhada.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Tr�s</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>� A �poca de festas � a mais cruel � Croyd disse a ele numa noite de Ano-Novo, anos atr�s. A Times Square ficava cheia de b�bados esperando o globo descer. Jube viera observar, e Croyd o saudou na frente de um pr�dio. Ele n�o reconhecera o Dorminhoco, mas raramente o fazia. Naquela �poca, Croyd estava com uma cabe�a menor que a de Jube, sua pele solta, inchada e levemente rosada de cima a baixo. Tinha os dedos dos p�s ligados por membrana e uma garrafa de rum escuro, e queria falar sobre sua fam�lia, sobre os amigos perdidos, sobre �lgebra.</p><p>� A �poca de Festas � a mais cruel � repetia sem parar at� o globo descer e Croyd se inflar como um bal�o da parada de A��o de Gra�as da Macy�s e sair voando. � <emphasis>A �poca mais cruel!</emphasis> � gritou para baixo mais uma vez, pouco antes de desaparecer de vista.</p><p>Apenas agora Jube entendeu o que ele quis dizer. Sempre gostara dos feriados humanos, que permitiam aquelas cerim�nias coloridas, as demonstra��es abundantes de avareza e generosidade, costumes fascinantes para estudo e an�lise. Naquele ano, enquanto estava em p� na sua banca de jornal na manh� do �ltimo dia de dezembro, descobriu que o dia havia perdido o sabor.</p><p>A ironia era muito cruel. Em todo lugar da cidade as pessoas preparavam-se para celebrar o in�cio daquilo que poderia ser o �ltimo ano de suas vidas, de sua civiliza��o e esp�cie. Os jornais estavam cheios de retrospectivas do ano que estava terminando, e todos refor�avam a Guerra do Enxame como a principal hist�ria do ano, e todos faziam descri��es como se ela j� tivesse acabado, exceto por algumas opera��es de limpeza no Terceiro Mundo. Jhubben sabia que n�o era bem assim.</p><p>Folheou alguns jornais, vendeu uma <emphasis>Playboy</emphasis>, e olhou com melancolia para o c�u claro da manh�. Nada a ser visto, exceto alguns cirros bem altos que se moviam rapidamente. Mesmo assim, ela ainda est� l�, ele sabia. Longe da Terra, movendo-se atrav�s da escurid�o espacial, t�o preta e gigantesca como um asteroide. Ocultaria as estrelas ao passar ao lado delas, silenciosa e fria, para todas as apar�ncias externas, fria e morta. Quantos mundos e ra�as morreram acreditando nessa mentira? Por dentro ela vive, evolui, sua intelig�ncia e sofistica��o crescendo diariamente, suas t�ticas se aprimorando a cada rev�s.</p><p>Entre as ra�as da Rede, ela era o inimigo com uma centena de nomes: semente do dem�nio, grande c�ncer, m�e infernal, devoradora de mundos, m�e dos pesadelos. Nas mentes vastas das rainhas-deusas kondikki, seu nome era um s�mbolo que significava, simplesmente, <emphasis>pavor</emphasis>. As intelig�ncias maquinais dos kregs referiam-se a ela como uma corrente de impulsos bin�rios que significava disfun��o, os lyn-ko-neens cantavam-na em notas altas, estridentes e deformadas pela dor. E os ly�bahres lembravam-se dela melhor do que todos. Para aqueles ciborgues de vida t�o longa, ela era <emphasis>Thyat M�hruh</emphasis>, escurid�o da ra�a. Dez mil anos se passaram, um Enxame desceu no planeta natal dos ly�bahres. Encapsulados em suas conchas autossustent�veis, os ly�bahres ciborgues continuaram a viver, mas aqueles que ficaram para tr�s revestidos de carne, e n�o de metal, desapareceram, e com eles todas as gera��es vindouras. Os ly�bahres permaneceram extintos por 10 mil anos.</p><p>�M�e!�, Ekkedme gritou, e Jube n�o entendeu, n�o at� romper o cord�o na pilha de jornais no dia em que os brotos aterrissaram em Nova Jersey. <emphasis>Deve haver algum engano</emphasis>, pensou de forma insensata quando viu as manchetes. O Enxame foi um horror de hist�ria e uma lenda, foi o pesadelo que aconteceu em outros planetas muito distantes, n�o naquele em que realmente <emphasis>vivia</emphasis>. Estava fora de sua experi�ncia e especialidade; n�o era surpresa alguma que tivesse suspeitado dos takisianos quando a nave unit�ria foi perdida. Ele se sentiu um tolo.</p><p>Pior, era um tolo desesperado e condenado.</p><p>Ela estava l� em cima ainda, uma escurid�o viva e palp�vel que Jube quase conseguia sentir. Dentro dela, inflamavam-se novas gera��es de brotos, a vida-que-�-morte. Logo seus filhotes voltariam e devorariam esta ra�a perversamente espl�ndida pela qual ele chegou a desenvolver certa afei��o� <emphasis>o</emphasis> devorariam tamb�m, ali�s, e o que poderia fazer para impedi-los?</p><p>� Voc� est� com cara de bosta hoje, Morsa � uma voz parecida com uma lixa rascou casualmente.</p><p>Jube olhou para cima� e para cima, e mais acima. Troll tinha quase tr�s metros. Vestia um uniforme cinza sobre a pele verde enverrugada e, quando sorriu, dentes amarelos e tortos apontaram em todas as dire��es. A m�o verde do tamanho de uma tampa de bueiro ergueu um exemplar do <emphasis>New York Times</emphasis> delicadamente entre dois dedos de unhas pretas e afiadas como garras. Atr�s dos �culos espelhados feitos sob medida, os olhos vermelhos afundados por tr�s da protuber�ncia da sobrancelha voejavam sobre as colunas do jornal.</p><p>� Eu me sinto uma bosta � disse Jube. � A �poca de Festas � a mais cruel, Troll. Como v�o as coisas na cl�nica?</p><p>� Agitadas � respondeu Troll. � Tachyon vai e volta de Washington o tempo todo para reuni�es. � Ele sacode o <emphasis>Times</emphasis>. � Esses alien�genas acabaram com o Natal de todo mundo. Sempre soube que Jersey era apenas uma grande infesta��o de levedo. � Enfiou a m�o no bolso e passou para Jube uma nota de um d�lar amarrotada. � O Pent�gono quer jogar umas bombas at�micas na coisa-M�e, mas n�o conseguem encontr�-la.</p><p>Jube fez que sim com a cabe�a enquanto separava o troco. Ele mesmo tentou encontrar a M�e do Enxame, usando os sat�lites sens�veis que a Rede deixou em �rbita, mas sem sucesso. Poderia estar escondida atr�s da Lua, ou do outro lado do Sol, ou em qualquer lugar na vastid�o do espa�o. E se ele n�o conseguiu localiz�-la com a tecnologia � sua disposi��o, os humanos n�o tinham a menor chance.</p><p>� O doutor n�o tem como ajudar � disse para Troll, com tristeza.</p><p>� Provavelmente n�o � o outro respondeu. Lan�ou a moeda de cinquenta centavos no ar, pegou-a com destreza e enfiou-a no bolso. � Mesmo assim, temos que tentar, certo? O que mais podemos fazer al�m de tentar? Feliz Ano Novo, Morsa. � Assim, ele saiu a passos largos sobre pernas t�o grossas e tortas como troncos de pequenas �rvores, e t�o longas quanto a altura de Jube.</p><p>Jube observou o caminhar do outro. <emphasis>Ele estava certo</emphasis>, pensou enquanto Troll desaparecia, virando a esquina. Temos de tentar.</p><p>Ele fechou a banca de jornal mais cedo naquele dia e foi para casa.</p><p>Flutuando nas �guas geladas da banheira, mergulhado na luz vermelha tremeluzente, considerava as op��es. Na verdade, havia apenas uma.</p><p>A Rede poderia salvar a humanidade da M�e do Enxame. Claro, teria um pre�o. A Rede n�o d� nada de gra�a. Mas Jube tinha certeza de que a Terra ficaria muito feliz em pag�-lo. Mesmo se o Mestre Comerciante exigisse direitos sobre Marte, ou sobre a Lua, ou todos os gigantes de g�s, o que isso valia se comparado � vida da esp�cie?</p><p>Mas a <emphasis>Opportunity</emphasis> estava a anos-luz de dist�ncia, e n�o retornaria a este sistema solar por cinco ou seis d�cadas humanas. Era necess�ria uma convoca��o, o Mestre Comerciante precisaria ser informado de que uma ra�a consciente com enorme potencial lucrativo estava amea�ada de extin��o. E o transmissor de t�quion havia se perdido com o embe e a nave unit�ria.</p><p>Jhubben precisava construir um substituto.</p><p>Sentia-se desesperadamente insuficiente para a tarefa. Era um xen�logo, n�o um t�cnico. Usava uma centena de dispositivos da Rede que n�o poderia come�ar a construir, reparar ou mesmo compreender. Conhecimento era a <emphasis>commodity</emphasis> mais preciosa da gal�xia, a �nica moeda verdadeira das Redes, e cada esp�cie-membro guardava os pr�prios segredos tecnol�gicos com zelo. Por�m, cada posto avan�ado da Rede tinha um transmissor de t�quion, mesmo em mundos primitivos, como Glabber, que n�o podiam comprar naves estelares pr�prias. A menos que esp�cies inferiores tivessem meios de convocar as grandes naves estelares para seus mundos atrasados e espalhados, como o com�rcio aconteceria, como os planetas poderiam ser comprados e vendidos, como os lucros se acumulariam para os Mestres Comerciantes de Starholme?</p><p>A biblioteca de Jube consistia em nove pequenas hastes cristalinas. Uma continha uma cole��o de can��es, literatura e erotismo de seu mundo natal; a segunda, seu trabalho de uma vida inteira, inclusive todas as pesquisas sobre a Terra. As outras continham conhecimento. Certamente, os diagramas de um transmissor de t�quion estariam ali em algum lugar. Qualquer conhecimento que acessasse seria observado, claro, e seu valor debitado dos valores das pesquisas aqui na Terra, mas era certo que valia a pena para salvar uma ra�a consciente?</p><p>Haveria gastos, ele sabia. Mesmo se encontrasse os projetos, era improv�vel que tivesse as pe�as necess�rias. Teria que faz�-lo com componentes eletr�nicos humanos primitivos, o melhor que conseguisse obter, e provavelmente seria for�ado a canibalizar alguns dos pr�prios equipamentos. Que fosse. Tinha equipamentos que nunca usara: os sistemas de seguran�a que guardava no apartamento (cadeados extras resolveriam), o traje espacial de metal l�quido que n�o servia mais nele, o caix�o criog�nico no arm�rio dos fundos (comprado por conting�ncia de uma guerra termonuclear durante seu per�odo na Terra), as m�quinas de jogos�</p><p>Havia um problema mais s�rio. Poderia construir um transmissor de t�quion, disso estava certo. Mas como <emphasis>energiz�-lo</emphasis>? Suas c�lulas de fus�o poderiam ser suficientes para lan�ar um raio at� Hoboken, mas havia muitos anos-luz entre Hoboken e as estrelas.</p><p>Jhubben se levantou da banheira e se enxugou. Sabia muito bem o que havia acontecido quando o Dorminhoco foi atr�s do corpo de Ekkedme. Croyd dissera para ele, uma semana ap�s aquela tarde terr�vel na qual Jhubben passou descarregando os restos mortais do irm�o embe de volta para o mar salgado do qual todos tinham surgido, ao menos metaforicamente. Mas nada disso pareceu importar quando os brotos aterrissaram.</p><p>Agora, isso importava.</p><p>Caminhou at� a sala de estar e abriu a �ltima gaveta de um aparador que comprara da loja Goodwill, em 1952. A gaveta estava cheia de pedras: verdes, vermelhas, azuis, brancas. Quatro das pedras brancas compraram aquele pr�dio em 1955, mesmo que o velho de viseira verde tivesse pagado para ele apenas metade do que as pedras valiam. Jube sempre usava esse recurso com parcim�nia, pois n�o seria poss�vel sintetizar mais pedras at� a <emphasis>Opportunity</emphasis> retornar. Mas a crise exigia.</p><p>N�o era um �s, n�o tinha poderes especiais. <emphasis>Esses</emphasis> teriam de ser seus poderes. Esticou a m�o grossa de quatro dedos e puxou um punhado de safiras n�o lapidadas. Com elas, localizaria o deslocador de singularidade para dar energia � sua transmiss�o estelar.</p><p>Ou, ao menos, tentaria.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><strong>1986</strong></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Se olhares pudessem matar</strong></p><p>Walton Simons</p><empty-line/><empty-line/><p>Escolher a v�tima certa sempre foi assassinato. Tinham de ter muito dinheiro para fazer a morte valer a pena, e precisava ser levada a cabo num local isolado. O aluguel era adequado e matar algu�m na rua fazia muito mais sentido do que assassinar o zelador. Isso poderia alertar aos outros sobre onde estava, e tinha cansado de mudar de apartamento.</p><p>O frio o incomodava. Penetrava na magreza de seu um metro e oitenta e alojava-se nos ossos. Levantou o colarinho de pele do casaco folgado. Antes de ter morrido, quando era apenas James Spector, os invernos de Nova York eram entorpecentes. Agora, apenas a agonia de sua morte, constantemente jorrando dentro dele, causava uma dor real.</p><p>Passou pela Igreja de S�o Marcos e caminhou a leste para a Tenth Street. A vizinhan�a era mais barra-pesada naquela dire��o, e provavelmente atendia mais �s suas necessidades.</p><p>� Merda � disse ele quando a neve come�ou a cair novamente. As poucas pessoas nas ruas certamente buscariam ref�gio dentro de casa. Se n�o conseguisse encontrar uma v�tima ali, precisaria tentar no Bairro dos Curingas. O pensamento n�o o agradava. Os flocos pousavam sobre os cabelos e bigode escuros. Ele os limpava com a m�o enluvada e seguia em frente.</p><p>Algu�m acendeu um f�sforo na escadaria da entrada de uma casa pr�xima. Spector caminhou devagar at� a escadaria, procurando um cigarro.</p><p>O homem no port�o era alto e de constitui��o robusta. Tinha uma pele p�lida, esburacada, e olhos azuis. Tragou profundamente o cigarro e soprou fuma�a no rosto de Spector.</p><p>� Tem fogo? � Spector perguntou, ousado.</p><p>O homem franziu a testa.</p><p>� Te conhe�o? � Ele olhou para Spector com cuidado. � N�o. Mas talvez algu�m tenha te enviado.</p><p>� Talvez.</p><p>� Rapaz esperto, hein. � O jovem sorriu, revelando dentes brancos e alinhados. � � melhor falar o que quer, cara, ou vou chutar sua bunda magra at� voc� cair das escadas.</p><p>Spector decidiu apostar num pressentimento.</p><p>� N�o estou conseguindo nada esses dias. Minha fonte secou, mas um amigo disse que tinha algu�m por aqui que poderia me ajudar. � Ele projetou a necessidade com voz e postura.</p><p>O homem deu tapinhas nas costas dele e riu.</p><p>� Deve ser seu dia de sorte. Entre aqui na casa do Mike e vamos ajeitar as coisas para voc� agora mesmo.</p><p>O apartamento de Mike cheirava pior que uma caixa de areia de gato de uma semana. O ch�o estava cheio de roupas sujas e revistas pornogr�ficas.</p><p>� Belo apartamento � Spector disse, mal escondendo o desprezo.</p><p>Mike empurrou-o com viol�ncia contra a parede e puxou as m�os de Spector para cima da cabe�a. Ele o revistou r�pido, mas completamente.</p><p>� Agora, me diz do que precisa, e te digo quanto vai custar. Se me der problema, estouro seus miolos. J� fiz isso antes. � Mike puxou um .38 cromado com silenciador e sorriu novamente.</p><p>Spector se virou devagar e parou quando seus olhos encontraram os de Mike, ent�o conectou suas mentes. As sensa��es terr�veis da morte de Spector correram para dentro do corpo de Mike. Conseguia sentir o peso que esmagou seu peito. Os m�sculos se contra�ram involuntariamente com tal for�a que os ossos estalaram e os tend�es romperam. A garganta sufocou quando o v�mito subiu para a boca. O cora��o batia descontrolado, for�ando o sangue contaminado a correr pelo corpo. A dor ardente gritava em sua mente a partir dos tecidos agonizantes. Os pulm�es estouraram e pararam. O cora��o palpitou e parou. Mesmo ap�s a escurid�o, ainda havia dor. Spector manteve os olhos presos, fazendo Mike sentir cada detalhe, convencendo o corpo do traficante de que estava morto. N�o parou at� Mike estremecer de uma maneira que ele j� conseguia reconhecer. Ent�o, acabou.</p><p>Os olhos de Mike se reviraram e ele tombou sem vida no ch�o. Um reflexo do seu dedo morto disparou o .38. O proj�til acertou Spector no ombro, girando-o contra a parede. Ele mordeu o l�bio, mas tirando isso ele ignorou o ferimento e virou Mike.</p><p>� Agora voc� sabe como � tirar a rainha negra. � Ele pegou a arma e acionou a trava de seguran�a, enfiando-a cuidadosamente no cinto. � Mas olhe pelo lado bom. Voc� precisa passar por isso apenas uma vez. Eu acordo com ela toda manh�. � Spector revistou o corpo do homem. Pegou todo o dinheiro, at� os trocados. Havia apenas seiscentos d�lares.</p><p>� Imbecil barato. Estou t�o feliz que poderia dividir alguma coisa com voc� � Spector disse, abrindo a porta para olhar para a entrada. N�o viu ningu�m e desceu as escadas rapidamente. O frio e a neve amorteceram os sons da cidade, abafando a vida.</p><p>Seu ombro estava curado no momento em que chegou ao seu apartamento.</p><p>Estava sendo seguido. Dois homens do outro lado da rua mantiveram o ritmo dele, ficando atr�s apenas o suficiente para evitar seu campo de vis�o. Spector sentiu-os v�rios quarteir�es antes. Seguiu para sul, longe de seu apartamento, para dentro do Bairro dos Curingas. Seria mais f�cil despist�-los ali. Caminhava devagar, reservando energia caso tivesse que correr.</p><p>Talvez fossem amigos de Mike, o traficante. Provavelmente n�o; estavam muito bem-vestidos, e pessoas como Mike n�o tinham amigos. Mais provavelmente, trabalhavam para Tachyon. Por necessidade, Spector matara um ajudante na cl�nica no dia em que escapou. O merdinha cabe�a de cenoura, quase sem d�vida, tentaria encontr�-lo e jog�-lo na cadeia. Ou, pior, lev�-lo de volta para a cl�nica. As �nicas lembran�as que tinha da cl�nica do Bairro dos Curingas eram ruins.</p><p><emphasis>Voc�, seu desgra�adinho</emphasis>, pensou, <emphasis>j� n�o fez o suficiente?</emphasis> Ele odiava Tachyon por t�-lo trazido de volta. Odiava-o ainda mais do que qualquer um ou qualquer coisa no mundo. Mas o alienigenazinho o assustava. Spector come�ou a suar por baixo do sobretudo pesado.</p><p>Um curinga de quatro pernas bloqueou a cal�ada � sua frente. Quando se aproximou, moveu-se como um caranguejo pelo beco para evit�-lo. Virou-se e olhou para o outro lado da rua.</p><p>Os dois homens estavam l�. Pararam e se agacharam juntos. Um cruzou a rua em sua dire��o. Spector poderia mat�-los, mas Tachyon viria atr�s dele com mais for�a. Melhor despist�-los e esperar que o takisiano o esquecesse.</p><p>As ruas, escorregadias pelo gelo, estavam quase desertas. Mesmo os curingas precisavam respeitar o frio feroz. Spector mordeu o l�bio. O Crystal Palace estava apenas a um quarteir�o de dist�ncia. Era um lugar t�o bom como qualquer outro para tentar se livrar deles. Talvez Sascha pudesse peg�-los e escorra��-los de l�.</p><p>O le�o de ch�cara lan�ou-lhe um olhar realmente maldoso quando entrou. Spector queria lhe mostrar o que era um olhar realmente maldoso, mas deixar Cris�lida irritada era a �ltima coisa que precisava fazer naquele momento. Al�m disso, t�o poucos lugares no Bairro dos Curingas tinham le�es de ch�cara.</p><p>O interior do Crystal Palace sempre o deixava desconfort�vel. Era mobiliado do ch�o ao teto com antiguidades da virada do s�culo. Se quebrasse ou danificasse qualquer coisa por acidente, provavelmente teria de matar vinte pessoas para pag�-la.</p><p>Sascha n�o estava ali, ent�o o lugar n�o seria de grande ajuda. Caminhou rapidamente pelo bar principal e entrou numa sala cont�gua com cabines privadas. Ele se esgueirou para dentro da mais pr�xima e fechou as pesadas cortinas cor de vinho.</p><p>� Posso fazer algo por voc�?</p><p>Spector virou-se devagar. O homem sentado do outro lado da mesa vestia uma m�scara da morte e uma capa preta com capuz.</p><p>� Eu disse, tem algo que possa fazer por voc�?</p><p>� Bem � disse ele, tentando ganhar tempo �, tem algo para beber?</p><p>A m�scara o assustara, e Spector n�o precisava de desculpa para beber naqueles dias.</p><p>� Temo que apenas para mim. � O homem apontou para o copo pela metade diante dele. � Voc� parece estar com algum problema.</p><p>� Quem n�o est�? � Spector n�o gostava do fato de ser t�o transparente quanto a pele de Cris�lida.</p><p>� Claro, problemas s�o universais. Um dos meus conhecidos mais pr�ximos foi comido, devorado, por um dos visitantes extraterrestres, no m�s passado. � Ele tomou um gole da bebida. � T�o incerto este mundo onde vivemos.</p><p>Spector abriu uma fenda na cortina. Os dois homens estavam no bar. O barman estava � frente deles, balan�ando a cabe�a.</p><p>� � �bvio que voc� est� sendo seguido. Talvez, se tivesse algum tipo de disfarce, poderia sair sem ser notado. � Ele tirou o capuz e a capa e deitou-os sobre a mesa.</p><p>Spector ro�a as unhas. Odiava confiar em qualquer um.</p><p>� Tudo bem. Agora, me diga o que tenho que fazer por voc�. Tem alguma coisa, n�o �?</p><p>� Apenas encher meu copo. Conhaque. O barman saber� qual tipo. � Ele tirou a m�scara e jogou sobre a mesa.</p><p>Spector virou o rosto. O rosto do homem era id�ntico � m�scara. Sua pele era amarela e bem grudada nos ossos faciais salientes. N�o tinha nariz. O curinga olhava para ele com olhos fundos e injetados.</p><p>� Bem�</p><p>Rapidamente, ele se vestiu com o disfarce, ent�o pegou o copo.</p><p>� Volto num minuto. � Ele abriu as cortinas e saiu. Os homens estavam sentados a pouco mais de cinco metros. Olharam para ele enquanto caminhava at� o bar. Estava suando de novo.</p><p>� Mais um � disse ele, ap�s chamar a aten��o do barman. O homem fez o que ele pediu. Spector voltou lentamente at� a cabine. Apenas um dos homens estava olhando para ele, mas olhava com insist�ncia.</p><p>� Aqui est� � disse ele, entregando a bebida. � E aqui vou eu.</p><p>� Talvez voc� queria manter a roupa � disse o homem com cara de caveira. � Acho que vai precisar disso. � Ele fechou as cortinas.</p><p>Spector caminhou com lentid�o medida at� a porta. Os dois homens ainda estavam sentados.</p><p>Assim que botou os p�s na rua, Spector correu. Saiu em disparada pelas cal�adas congeladas, uma vis�o encapuzada da morte, at� seu f�lego acabar. Esgueirando-se num beco, tirou a capa e a m�scara e as enfiou no sobretudo, ent�o partiu para casa.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Foi para a cama b�bado pela terceira vez em tantas noites. Aliviava a dor o suficiente para ele dormir. N�o tinha certeza se realmente precisava dormir, mas acostumou-se a faz�-lo nos anos antes de sua morte.</p><p>Um clique. Spector abriu os olhos e respirou fundo, levemente consciente de que algo estava acontecendo. A porta abriu um pouco, revelando uma r�stia de luz externa. Spector esfregou os olhos e sentou-se. Enquanto procurava suas roupas, a porta parou, presa pela corrente. Ele voltou em dire��o �s janelas, enquanto vestia as cal�as.</p><p>Ao encolher os ombros no sobretudo, ouviu algo bater � porta. A porta fechou. Spector sentiu cheiro de fuma�a e frutos c�tricos apodrecendo. Seus olhos encheram de �gua e ele hesitou em pernas vacilantes. Precisava se mover ou o g�s o nocautearia. Abriu a janela e chutou a tela, mas um p� ficou preso no parapeito e ele caiu na escada de inc�ndio. Aterrissou desequilibrado e bateu a cabe�a contra o corrim�o de a�o coberto de neve. A dor e o ar frio limparam sua mente momentaneamente. Havia um homem no topo da escada de inc�ndio, descendo �s pressas, e ele ouviu o barulho de outro subindo. Em um momento, os dois estariam sobre ele.</p><p>Spector esfor�ou-se para levantar. O homem de baixo virou para subir o �ltimo lance. Spector saltou sobre ele, pegando o homem de guarda baixa, empurrando-o contra o corrim�o. Spector ouviu a espinha do homem estalar com o impacto. Ele se recomp�s e correu escada abaixo, deixando o homem gritando no patamar.</p><p>De dois andares acima da rua, ele saltou. Seu p� escorregou na cal�ada congelada quando ele aterrissou, e o corpo se dobrou. Buscou f�lego e conseguiu rolar. Uma mulher usando �culos de sol espelhados estava se curvando em sua dire��o. Segurava uma seringa hipod�rmica. Ele a reconheceu assim que sentiu a agulha penetrando na sua carne.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Spector entrou num corredor, m�os e p�s bem presos com cord�es de n�ilon. A mulher que o havia drogado supervisionava enquanto dois homens, vestindo sobretudos pesados e �culos espelhados, o levavam para uma sala escura. Como usavam �culos de prote��o, ele n�o conseguia fazer contato visual com eles.</p><p>Spector foi jogado numa poltrona de madeira maci�a. A sala tinha um cheiro de velho, como um s�t�o ou uma casa havia muito tempo abandonada.</p><p>� Ah, Enfermeira Gresham, vejo que trouxe de volta nosso encrenqueiro. � A voz era de um homem mais velho; seu tom era firme e frio.</p><p>� Foi osso duro de roer. Morreu mais um.</p><p>O homem estalou a l�ngua.</p><p>� Ent�o, ele � mesmo perigoso como voc� disse. Podemos dar uma boa olhada nele?</p><p>Spector ouviu um atrito de pedras quando o teto acima dele se abriu. A lua e as estrelas brilhavam intensamente atrav�s da claraboia. Ele vivera na cidade de Nova York a vida toda. A fuma�a e as luzes da cidade dificultavam ver as estrelas, ainda assim elas brilhavam com for�a suficiente para ferir seus olhos ali. Seus interrogadores permaneciam fora da �rea iluminada.</p><p>� Bem, Sr. Spector, o que tem a dizer em sua defesa? � Sil�ncio. � Fale. Coisas ruins acontecem com quem me faz perder tempo.</p><p>Spector estava assustado. Sabia que Jane Gresham trabalhava para o Dr. Tachyon na cl�nica do Bairro dos Curingas, mas o homem que o interrogava definitivamente n�o era Tachyon.</p><p>� At� onde posso dizer � ele falou �, voc�s vieram atr�s de mim sem motivo nenhum. Pe�o desculpas pelo cara que morreu, mas n�o foi minha culpa.</p><p>� N�o estamos falando disso, Sr. Spector. Tr�s noites atr�s o senhor matou um dos nossos sem raz�o. Ele estava apenas tentando satisfazer sua necessidade de drogas.</p><p>� Olha s�, voc�s entenderam tudo errado. � Spector entendeu que ele deve ter se enroscado numa opera��o de tr�fico importante. A Enfermeira Gresham devia estar roubando todo tipo de drogas na cl�nica de Tachyon. � A negocia��o foi boa. Outra pessoa deve ter feito aquilo.</p><p>Houve um murm�rio, e o velho se moveu at� a luz. Estava sentado numa cadeira de rodas el�trica. Sua cabe�a era uma anormalidade de grande e parcamente coberta por cabelos brancos. O corpo magro era torto, como se for�as dentro dele o estivessem movendo para dire��es diferentes. Sua pele era p�lida, mas saud�vel, e usava �culos grossos.</p><p>� Lembra-se disto? � O velho segurava uma moeda. Spector reconheceu-a instantaneamente. Era uma moeda antiga que ele tirou do corpo de Mike. Como era do tamanho de meio d�lar e datava de 1794, ele a guardou, pensando que pudesse valer alguma coisa.</p><p>� N�o � disse, tentando ganhar tempo.</p><p>� Mesmo? Olhe com aten��o. � A moeda brilhava num vermelho-sangue � luz da lua.</p><p>Spector ouvira o suficiente para saber que estava em apuros. Gresham e o velho o matariam. Se fosse impedi-los, agora era a hora.</p><p>� Ningu�m se mexa, ou eu mato esse velho do mesmo jeito que apaguei seu amigo traficante.</p><p>Eles riram.</p><p>� Olhe para mim, Sr. Spector. � O velho inclinou-se para a frente. � Use seu poder em mim.</p><p>Spector encarou os olhos do homem e tentou partilhar sua morte. P�de sentir que n�o estava funcionando, fosse l� por qual motivo. O velho parecia bloque�-lo de alguma forma. Ele despencou na cadeira.</p><p>� Desculpe por desapont�-lo. Voc� n�o � o �nico com poderes extraordin�rios. Desamarre-o, Enfermeira Gresham.</p><p>A mulher, hesitante, fez o que ele mandou.</p><p>� Cuidado com ele � ela alertou o velho. � Ainda pode ser perigoso.</p><p>Spector n�o se sentia perigoso. N�o sabia no que havia se envolvido, certamente n�o era uma opera��o de tr�fico comum.</p><p>� Como sabem de mim? O que voc�s querem?</p><p>� A Enfermeira Gresham mantinha um prontu�rio bem completo sobre o senhor na cl�nica. � O velho abriu um caderno e come�ou a ler. � James Spector, auditor fracassado de Teaneck, Nova Jersey, infectado pelo v�rus carta selvagem h� nove meses. Chegou clinicamente morto na cl�nica do Bairro dos Curingas. Como voc� n�o tinha familiares vivos para contestar, o Dr. Tachyon o ressuscitou com um processo experimental agora abandonado. Passou seis meses na UTI gritando de forma incontrol�vel. Por fim, com ajuda de medicamentos, foi trazido de volta � sanidade. Desapareceu aproximadamente h� tr�s meses. Coincidentemente, um assistente da cl�nica morreu misteriosamente no mesmo dia. Est� tudo aqui. Bem completo.</p><p>� Vaca. � Spector tentou localizar a enfermeira na escurid�o.</p><p>� Bem, bem � disse o velho. � Se eu deixar o senhor vivo, Sr. Spector, talvez tenha que gostar dela.</p><p>� Voc� me deixaria vivo? � Ele percebeu que n�o era a maneira certa de dizer aquilo. � Digo�</p><p>� Na realidade � o senhor interrompeu �, o senhor tem um grande talento. Ases s�o raros, n�o se deve jog�-los na privada e dar descarga. O senhor pode ser bem �til para a nossa causa.</p><p>� Que causa?</p><p>O velho sorriu.</p><p>� O senhor descobrir� se o aceitarmos em nossa� sociedade. Mas, antes de considerarmos isso, ter� de provar seu valor. Temos um trabalhinho para o senhor, mas, com suas capacidades e as informa��es que lhe dermos, provavelmente n�o ser� dif�cil.</p><p>� E se eu n�o entrar no jogo? � Spector estava assustado, mas queria saber as consequ�ncias exatas.</p><p>O velho arrancou uma p�gina do caderno e lhe entregou com uma caneta.</p><p>� Escreva seu endere�o nesta folha e ponha no bolso.</p><p>Spector estava confuso, mas fez o que lhe foi pedido. O velho fechou os olhos com for�a e juntou a ponta dos dedos.</p><p>Spector estremeceu. Sentiu como se derramassem �gua fria no seu c�rebro exposto.</p><p>� Estou sentindo� � Ele parou de falar, solapado pela sensa��o.</p><p>� Sim, eu sei. Diferente de qualquer coisa, n�o �? Agora, me diga seu endere�o.</p><p>Spector abriu a boca para responder e percebeu que n�o conseguia lembrar. A informa��o simplesmente desaparecera.</p><p>� Amn�sia seletiva. Quando uma pessoa est� fisicamente diante de mim, posso arrancar dela o que quiser. � Ele levantou uma sobrancelha desgrenhada. � Ou posso remover tudo.</p><p>Spector ficou abalado, mas sabia que o poder do velho tamb�m poderia ser usado para retirar a mem�ria de sua morte. A perda desse poder seria um pre�o pequeno a pagar para voltar a dormir � noite.</p><p>� Sei o que quer dizer. Farei qualquer coisa que quiser.</p><p>� Viu, Enfermeira Gresham, ele n�o ser� problema mesmo. Seria est�pido matar algu�m que pode ser t�o �til. D� outra inje��o e leve-o para seu apartamento antes que acorde.</p><p>� Esperem um minuto. Quem s�o voc�s? Se n�o for pedir muito que voc�s me digam.</p><p>� Meu nome verdadeiro significaria menos para o senhor do que para mim. Pode me chamar de Astr�nomo.</p><p>Spector entendia que qualquer pessoa que chamasse a si mesmo de Astr�nomo era realmente insano, mas n�o era hora nem lugar para discutir isso.</p><p>� �timo. Bem, Astr�nomo, o que quer que eu fa�a por voc�? A �nica coisa que fa�o bem � matar pessoas.</p><p>O Astr�nomo balan�ou a cabe�a.</p><p>� Exatamente.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Spector estava nervoso por ter que matar um policial, especialmente por ser o Capit�o McPherson. Ningu�m fora est�pido ou corajoso o suficiente para procurar confus�o com o chefe da Unidade de For�as Especiais do Bairro dos Curingas. O Astr�nomo n�o lhe dera op��o. A morte de McPherson tinha de parecer acidental, pois um dos aliados do Astr�nomo deveria suced�-lo. Se Spector falhasse ou tentasse fugir, o Astr�nomo arrancaria todas as suas mem�rias, exceto sua morte.</p><p>Ele amarrou as caneleiras com for�a e desenrolou as pernas da cal�a jeans sobre elas. Tamb�m usava prote��o adicional por baixo da camisa, nos antebra�os.</p><p>O Astr�nomo deveria estar planejando matar McPherson havia algum tempo. Spector estava sentado num sof� do apartamento logo abaixo do seu alvo. A mulher que vivia ali era uma das subalternas do Astr�nomo. Pelo que tinham lhe dito, a empregada de McPherson tamb�m estava na opera��o.</p><p>� Se voc� quer substituir algu�m, primeiro substitua as pessoas ao seu redor � o Astr�nomo dizia.</p><p>Spector olhou para o rel�gio de parede. Os ponteiros estavam entre uma e duas da manh�. Ele verificou para garantir que a seringa hipod�rmica estava no seu bolso, ent�o apagou as luzes e abriu a porta da sacada.</p><p>Ele pegou a corda e amarrou o gancho de escalada acolchoado na ponta. A dist�ncia at� a sacada acima era de aproximadamente seis metros. Inclinou o corpo para fora da sacada e lan�ou o gancho. Ele se encaixou com perfei��o, uma das al�as agarrando na beirada acima. Um punhado de neve caiu em seu rosto. Ele puxou a corda. Ela estalou forte e o gancho se firmou.</p><p>Spector escalou rapidamente e ergueu-se sobre a beirada da sacada de McPherson. A neve acumulada abafava o som dos p�s no concreto. Ele esperou um momento. N�o ouvia nada l� de dentro.</p><p>A empregada fizera o que lhe foi ordenado. A porta da sacada estava destrancada. Spector empurrou-a para abrir; uma rajada de vendo frio correu para dentro do apartamento. Entrou em sil�ncio e fechou a porta.</p><p>O c�o o aguardava. Conseguia ver o brilho vermelho refletido na retina do animal. O c�o rosnou, amea�ador, e atacou. Spector n�o conseguia ver o animal claramente e levantou um bra�o para proteger a cabe�a e o pesco�o vulner�veis. Com a m�o livre, pegou a seringa hipod�rmica que a Enfermeira Gresham lhe dera.</p><p>O dobermann o golpeou, prendendo o bra�o estendido do homem entre as mand�bulas. Conseguia senti-lo tentando atravessar a prote��o do bra�o para rasgar seus tend�es.</p><p>Ele espetou a seringa no est�mago do animal. Ele continuou a rosnar e mastigar o bra�o do homem. Uma luz acendeu-se no c�modo ao lado. Agora que conseguia ver, Spector empurrou o c�o para o lado. O dobermann caiu pesadamente e tentou, imediatamente, levantar-se.</p><p>� Pegue ele, Oscar. Estra�alha. � A voz vinha do c�modo iluminado.</p><p>Oscar tentou reagir. Esgar�ou os dentes e deu um passo, ent�o seus olhos se fecharam e ele despencou.</p><p><emphasis>At� aqui, tudo bem</emphasis>, pensou Spector. Ele fingiu mancar na dire��o do c�modo iluminado.</p><p>� Eu desisto. Seu cachorro me machucou bastante. Preciso de um m�dico. Por favor, me ajude. � Ele tentou soar ferido.</p><p>� Oscar? � A voz de McPherson era vacilante. � Voc� est� bem, garoto?</p><p>O c�o respirava ofegante e n�o se movia. A luz foi desligada no quarto ao lado.</p><p>Spector combatia o p�nico. N�o tinha pensado que McPherson desligaria as luzes. Seu poder era in�til no escuro. Ele ficou em p�, im�vel, por muito tempo. N�o havia sons vindo do outro c�modo.</p><p>Ele deu um passo adiante. Conhecia a planta do apartamento. O interruptor de luz era ao lado da porta, no lado direito. Para alcan��-lo, teria de ficar totalmente exposto na entrada. Sabia que McPherson tinha uma arma e estaria pronto para us�-la. Come�ou a suar. A dor crescia dentro dele, preparando-se para o ataque. Deu mais um passo. Mais um e estaria na entrada.</p><p>Spector ouviu o som de um telefone sendo tirado do gancho. Deu um passo para a frente e alcan�ou o interruptor de luz. Seu dedo chegou embaixo dele e ligou as luzes.</p><p>McPherson estava encolhido atr�s de uma grande cama de lat�o. Tinha o gancho do telefone numa m�o e uma pistola autom�tica na outra. A arma estava apontada para o cora��o de Spector. Seus olhos se encontraram e se fixaram. Spector lembrou-se do dedo morto de Mike e estremeceu quando a experi�ncia da morte fluiu para dentro de McPherson.</p><p>O policial tremeu e engasgou, ent�o se inclinou devagar por tr�s da cama. Spector fechou as m�os em punhos e suspirou. Foi at� o lado do morto e tirou a arma de sua m�o. Abriu a gaveta do criado-mudo com a m�o enluvada e, cuidadoso, pousou a arma dentro dela. Spector sentiu uma onda de al�vio. Tinha imaginado vivamente a bala atravessando sua cavidade peitoral, fazendo com que sangrasse at� a morte antes que pudesse se regenerar.</p><p>Apanhou um travesseiro e jogou-o no ch�o, como um recebedor encravando uma bola de futebol americano ap�s um <emphasis>touchdown</emphasis>. Agora, talvez o Astr�nomo e a Enfermeira Gresham o deixassem em paz. Ele devolveu o travesseiro para o lugar.</p><p>O telefone come�ou a apitar.</p><p>Spector pousou o fone sobre o gancho e arrumou o telefone no criado-mudo. Sentou sobre os len��is desarrumados e examinou a v�tima. O olhar no rosto de McPherson era igual ao que imaginou ter sido seu pr�prio rosto quando morrera.</p><p>� A morte lhe cai t�o bem, McPherson � disse ao cad�ver. � Mais impressionante que quebrar copos, n�o �, policial?</p><p>E gargalhou.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Spector tomou um gole do u�sque Jack Daniel�s Black Label e saboreou o calor enquanto ele se espalhava por dentro. Estava deitado no seu colch�o grumoso, olhando para a pequena televis�o em preto e branco. Um programa de not�cias tardio fazia uma retrospectiva da invas�o alien�gena. As not�cias sobre os monstros ainda eram importantes o suficiente, de forma que a morte de McPherson nem mesmo apareceu na primeira p�gina do <emphasis>New York Times</emphasis>.</p><p>Pela milion�sima vez, mostravam o videoteipe do ataque em Grovers Mill. Uma unidade da Guarda Nacional estava usando um lan�a-chamas em uma daquelas coisas. Ela deu um grito agudo enquanto pegava fogo e queimava. Spector sacudiu a cabe�a. Poder matar algu�m apenas ao olh�-los deveria ser o suficiente para dar certa seguran�a a uma pessoa, mas esse n�o era o caso. Os monstros do espa�o lhe causavam a mesma sensa��o bizarra nas entranhas que o Astr�nomo. Spector esperava nunca mais ver ou ouvir o velho novamente, agora que cumprira sua parte no acordo.</p><p>O v�deo terminara.</p><p>� E agora � o locutor disse �, para as considera��es finais sobre essa trag�dia, temos o prazer de receber nosso convidado, Dr. Tachyon.</p><p>Spector agarrou a garrafa quase vazia e preparou para lan��-la no aparelho. O ar tremulava ao lado da cama, e ele sentiu o quarto ficar cada vez mais frio. O contorno transl�cido formou uma cabe�a de chacal sem corpo. Fogo colorido descia de sua boca e narinas.</p><p>Spector caiu da cama, puxando as cobertas por cima dele.</p><p>� Bebendo de novo � o chacal disse. � Se n�o lhe conhecesse, diria que est� com a consci�ncia pesada. � A cabe�a transformou-se em vapor e rapidamente deu forma ao Astr�nomo.</p><p>� Puta merda. Tem alguma coisa que voc� n�o consiga fazer? � Ele jogou as cobertas para o lado e subiu novamente na cama.</p><p>� Todos temos nossas limita��es. Ali�s, se voc� vir a cabe�a do chacal novamente, dirija-se a ela como Lorde Amon. Eu apare�o dessa forma apenas usando uma forma avan�ada de proje��o astral. Uma das minhas capacidades menos impressionantes, mas tem sua utilidade. � O Astr�nomo olhou para a televis�o, que desligou com um estalido. � N�o quero distra��es.</p><p>� Olha, fiz o que voc� queria. O cara est� morto e todo mundo est� dizendo que foi um ataque card�aco. Podemos dizer que estamos quites, e voc� pode me deixar em paz agora. � Ele lan�ou a garrafa na imagem. Atravessou-a silenciosamente e estourou na parede. � Ent�o, cai fora.</p><p>O Astr�nomo co�ou a cabe�a.</p><p>� N�o seja tolo. Isso n�o vai ajudar nem a mim, nem a voc�. Podemos us�-lo. Um homem com seu poder seria de grande ajuda. Mas n�o sou t�o ego�sta para tentar fazer voc� se juntar a n�s. Seria criminoso ficar parado e ver voc� desperdi�ar seu talento desse jeito. Voc� precisa apenas de um guia para perceber seu potencial.</p><p>� Ah � Spector disse, tentando n�o gaguejar. � Meu potencial para qu�?</p><p>� Para integrar a elite dominante numa nova sociedade. Para deixar as pessoas p�lidas ao pensarem em voc�. � O Astr�nomo estendeu as m�os fantasmag�ricas. � O que ofere�o n�o � uma promessa vazia. O futuro est� nas nossas m�os neste exato momento. O que estamos fazendo � de import�ncia c�smica.</p><p>� Parece bom � Spector disse, sem convic��o. � Acho que, se voc� fosse me matar, j� o teria feito. Mas, de verdade, n�o estou em condi��es de lidar com problemas c�smicos agora.</p><p>� Claro. Tenha uma boa noite de sono, se puder. Meu carro pegar� voc� na porta do seu apartamento �s dez da noite de amanh�. Voc� conhecer� um grande plano e dar� seu primeiro passo no caminho da grandeza. � A imagem do Astr�nomo piscou e desapareceu.</p><p>Spector estava b�bado e confuso. Ainda n�o confiava no Astr�nomo, mas o velho estava certo sobre uma coisa. Estava desperdi�ando seu novo poder e sua nova vida. Estava na hora de fazer algo nesse sentido. De um jeito, ou de outro.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A limusine preta do Astr�nomo estacionou no hor�rio. Spector enfiou o .38 no casaco e caminhou devagar at� a porta da frente. Quando tivesse a chance, mataria o velho. O Astr�nomo era perigoso, e sabia demais para ser confi�vel. Uma janela espelhada abaixou-se e uma m�o p�lida acenou para ele entrar no carro. A cabe�a do Astr�nomo estava inchada, com grandes rugas que n�o estavam ali na noite anterior. Estava vestido num robe de veludo preto e usava um colar feito de moedas de 1794.</p><p>� Aonde vamos? � Spector tentou parecer despreocupado. Sabia que o rev�lver era a �nica arma poss�vel contra o Astr�nomo.</p><p>� Curiosidade. Isso � bom. Significa que est� interessado. � O Astr�nomo ajustou o cinto. � Voc� teve uma quantidade grande de dor e morte na vida. Hoje � noite haver� mais. Mas n�o ser� dor ou morte para voc�.</p><p>Spector inquietou-se.</p><p>� Olhe, o que voc� realmente quer de mim? Est� causando problemas demais para um intruso. Deve ter algo especial em mente.</p><p>� Sempre tenho algo especial em mente, mas precisa confiar em mim quando digo que n�o sair� machucado. Foram anos de experimenta��o para controlar meus poderes. Alguns deles voc� j� conhece. Outros � ele co�ou a testa inchada � voc� testemunhar� hoje � noite. Tive um vislumbre do futuro, e voc� ter� uma participa��o grande na nossa vit�ria. Mas seus poderes precisam ser fortalecidos e aprimorados. Isso poder� acontecer apenas se receber a instru��o correta.</p><p>� �timo. Se quer que eu mate mais gente pra voc�, apenas diga. Claro, espero ser pago por isso. Mas n�o ache que perten�o ao seu grupinho. � Spector balan�ou a cabe�a. � Ainda n�o sei quem diabos s�o voc�s.</p><p>� Somos aqueles que entendem a verdadeira natureza de TIAMAT. Por meio dela, receberemos poderes inimagin�veis. � O Astr�nomo encarava os olhos do outro sem medo. � A tarefa ser� dif�cil, e ser� necess�rio grande sacrif�cio para conclu�-la. Quando o trabalho estiver conclu�do, voc� pode dar seu pre�o.</p><p>� TIAMAT � Spector murmurou. O fervor do Astr�nomo parecia genu�no, mas soava insano. � Olha s�, � um pouco demais para mim agora. Apenas me diga para onde vamos.</p><p>� Ap�s uma breve parada, para o Mosteiro.</p><p>� N�o � um pouco perigoso? Muitos problemas aqui e ali com gangues de adolescentes. Muita gente sendo morta l�.</p><p>O Astr�nomo riu baixinho.</p><p>� As gangues trabalham para n�s. Mant�m as pessoas longe, inclusive a pol�cia, e os ajudamos a solidificar sua base de poder local. O Mosteiro � perfeito para n�s, um pr�dio antigo em solo antigo. Perfeito.</p><p>Spector quis perguntar para que era perfeito, mas pensou melhor.</p><p>� Voc� n�o tem uma participa��o controladora no Metropolitan Museum, tem? � Sua tentativa de humor passou despercebida.</p><p>� N�o. T�nhamos outro templo no centro, mas foi destru�do numa explos�o infeliz. Um dos meus irm�os mais queridos morreu. � Havia um sarcasmo satisfeito na voz do Astr�nomo. � Escolha uma mulher para n�s, Sr. Spector.</p><p>A limusine transitava metodicamente pela �rea da Times Square.</p><p>� Por que simplesmente n�o mandamos uma garota de programa para o Mosteiro? � Spector sempre quis destruir uma bela mulher. � Essas putas s�o a esc�ria da Terra.</p><p>� Uma agenciada faria falta � o Astr�nomo o advertiu. � E n�o precisamos de uma beleza estonteante. Tivemos dificuldades no passado, quando mulheres caras foram usadas. Desde ent�o, tivemos de ser mais cuidadosos.</p><p>Spector, decepcionado, aceitou o conselho e olhou em volta.</p><p>� A loira ali n�o � t�o m�.</p><p>� Boa escolha. Pare perto dela. � O Astr�nomo esfregou as m�os.</p><p>O motorista desacelerou a limusine e o Astr�nomo baixou o vidro.</p><p>� Me desculpe, senhorita, estaria interessada numa festinha? Particular, claro.</p><p>A mulher inclinou-se para olhar dentro do carro. Era jovem com cabelo tingido platinado e uma disposi��o pr�tica. Ela abriu o casaco de pele sint�tica para revelar um corpo bem proporcional, que era apenas parcialmente escondido por sua minissaia preta e justa.</p><p>� Economizando, rapazes? � Ela fez uma pausa, esperando um coment�rio, ent�o continuou. � Como s�o dois, vai custar o dobro. Tem extra se for bizarrice ou algo especial que tenham em mente. Se s�o policiais, arranco a merda do seu cora��o fora.</p><p>O Astr�nomo aquiesceu com a cabe�a.</p><p>� Para mim parece �timo. Se meu amigo concordar.</p><p>� Eu sou o que voc� tinha em mente, queridinho? � A mulher lan�ou um beijo molhado para Spector.</p><p>� Claro � disse ele, sem olhar para a garota.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>A West Side Highway estava quase vazia e a viagem levou pouco tempo. O Astr�nomo injetou uma droga na mulher que a deixou consciente, mas sem saber onde estava. Quando o carro entrou na via de acesso, Spector viu diversas formas espremidas contra �rvores nuas. Na penumbra, viu o brilho do a�o frio. Apalpou o .38 no bolso do casaco para saber se ainda estava l�.</p><p>Spector saiu do carro e caminhou rapidamente para o outro lado. Tirou a mulher do ve�culo e a guiou at� o pr�dio. O Astr�nomo caminhava lentamente na dire��o das portas.</p><p>� Pensei que voc� fosse aleijado.</p><p>� �s vezes, sou mais forte que os outros. Hoje � noite devo ficar o mais forte poss�vel.</p><p>Uma rajada de vento frio sacudiu o robe em torno dele, mas ele n�o mostrou nenhum sinal de desconforto. Trocou algumas palavras com um homem na porta e balan�ou a m�o como num ritual. O homem abriu a porta e apontou para Spector prosseguir.</p><p>Ele esteve no Mosteiro diversas vezes quando era bem jovem. A era conjurada pela arquitetura, pinturas e tape�arias parecia mais agrad�vel para Spector do que aquela na qual era for�ado a viver.</p><p>No vest�bulo, uma fera esculpida em m�rmore os observava de cima. Tinha um f�sico angular e pequenas asas grudadas nas costas largas. A cabe�a e a boca eram imensas. M�os magras com garras seguravam um globo diante da boca cheia de presas. Spector reconheceu o globo como a Terra.</p><p>Uma figura moveu-se de tr�s da est�tua e distanciou-se deles. Vestia um jaleco de laborat�rio sobre sua forma vagamente humana. Escondeu o rosto amarronzado de inseto e desapareceu nas sombras. Spector sentiu um arrepio.</p><p>A mulher sorriu e se agarrou nele.</p><p>� Sigam-me � o Astr�nomo disse, impaciente.</p><p>Spector obedeceu. Observou que o interior do pr�dio era adornado com outras est�tuas e pinturas repugnantes.</p><p>� Voc�s fazem magia, n�o �?</p><p>O Astr�nomo retesou-se com a palavra.</p><p>� Magia. Magia � apenas uma palavra que o ignorante usa para poder. As capacidades que voc� e eu possu�mos n�o s�o m�gica. S�o produtos da tecnologia takisiana. Certos rituais que at� agora eram percebidos como magia negra, de fato, apenas abrem canais sensoriais para esses poderes.</p><p>O corredor abria-se para um p�tio. A lua e as estrelas lan�avam sobre o ch�o coberto de neve um brilho cintilante. Spector percebeu que foi onde devem t�-lo interrogado. Havia dois altares de pedra no centro do p�tio. Ele viu um jovem nu e amarrado a um deles. O Astr�nomo caminhou at� ficar ao lado do ref�m.</p><p>� Tire as roupas da mulher e amarre-a � disse o Astr�nomo.</p><p>Spector a deixou nua e amarrou suas m�os e seus p�s. A mulher ainda ria.</p><p>� Extra pra bizarrice. Extra pra bizarrice � disse ela.</p><p>O Astr�nomo lan�ou uma morda�a para ele. Spector enfiou na boca da prostituta.</p><p>� Quem � o cara? � Spector perguntou, apontando o homem nu.</p><p>� O l�der de uma gangue rival. Ele � jovem, seu cora��o � forte e seu sangue, quente. Agora, fique quieto.</p><p>O Astr�nomo ergueu as palmas das m�os e come�ou a falar num idioma que Spector n�o entendia. Outros homens e mulheres de robe entraram, silenciosos, no p�tio. Muitos tinham os olhos fechados. Outros encaravam o c�u noturno. O Astr�nomo pousou a m�o sobre o peito do jovem. Ele gritou.</p><p>O Astr�nomo apontou com a m�o livre o fundo do p�tio para um grupo de pessoas. Uma d�zia delas mais ou menos carregou uma jaula grande na dire��o do altar.</p><p>A criatura que estava dentro dela era imensa. Seu corpo peludo, com forma de salsicha, era rastejante e apoiado por muitas pernas curtas. A fera era em grande parte boca e dentes brilhantes como a est�tua no vest�bulo. Tinha dois olhos grandes e pretos, e orelhas pequenas, que ficavam dobradas contra a cabe�a. Spector reconheceu-a como uma das monstruosidades alien�genas.</p><p>O homem continuou a gritar e implorar. Estava a uma dist�ncia curta da boca aberta do bicho. A jaula foi lentamente empurrada para a frente at� a cabe�a do homem estar entre as barras de ferro. As mand�bulas da criatura fecharam de uma vez, interrompendo o grito final.</p><p>O Astr�nomo ergueu o cad�ver decapitado, cortando as cordas que o prendiam. O sangue do homem jorrava sobre sua pele e robe. O corpo do Astr�nomo ficou forte e sua pele brilhou com uma vitalidade anormal enquanto continuava a entoar as palavras. Tirou a m�o do peito do homem e levantou-a acima da cabe�a, ent�o lan�ou um objeto aos p�s de Spector. O cora��o fora removido com precis�o cir�rgica. Spector tinha visto filmes de cirurgi�es ps�quicos, mas nada t�o espetacular assim.</p><p>O velho caminhou para a jaula e olhou para a coisa dentro dela.</p><p>� TIAMAT, por meio do sangue dos vivos, eu me torno seu mestre. N�o poder� ter segredos comigo.</p><p>A criatura gemeu suavemente e afastou-se do Astr�nomo o m�ximo que a jaula permitiu. O corpo do Astr�nomo enrijeceu-se, sua respira��o diminuiu. Por muito tempo, nada se moveu. Ent�o, o velho apertou os punhos e gritou. Era um uivo diferente de tudo que Spector tinha ouvido antes.</p><p>O Astr�nomo avan�ou sobre o cad�ver e come�ou a rasg�-lo, lan�ando peda�os de carne e v�sceras como um turbilh�o. Correu de volta para a jaula e enterrou os dedos na cabe�a da criatura. Ela tentou livrar-se, mas n�o conseguia morder nenhum bra�o do Astr�nomo. O Astr�nomo uivava e girava com maldade a cabe�a da coisa. Um estalo alto, e o pesco�o se partiu. O velho desabou no ch�o.</p><p>Spector ficou paralisado, enquanto os outros correram na dire��o do Astr�nomo. A cena sangrenta o inundara com um brilho intoxicante. Ele conseguia sentir a necessidade de matar crescendo r�pido e forte dentro dele, dominando seus outros pensamentos. Ele se virou para a garota no altar.</p><p>� N�o! � O Astr�nomo aprumou-se e inclinou-se para a frente. � Ainda n�o.</p><p>Spector sentiu uma calma tomando conta dele. Sabia que o Astr�nomo estava causando aquilo.</p><p>� Voc� fez isso comigo. Tenho que matar logo. Preciso disso.</p><p>� Claro. Claro, eu sei. Mas espere. Espere e ser� melhor do que voc� pode imaginar. � Ele cambaleou e respirou profundamente v�rias vezes. � TIAMAT n�o se revela t�o facilmente. Ainda assim, precisei tentar. � O Astr�nomo gesticulou para os outros no p�tio e eles, rapidamente, sa�ram.</p><p>� O que estava tentando fazer com aquela coisa? Por que voc� a matou? � Spector perguntou, tentando controlar seu desejo.</p><p>� Estava tentando entrar em contato com TIAMAT por meio de uma de suas criaturas menores. Fracassei. Por isso, era in�til para n�s. O Astr�nomo tirou o robe e virou-se para a mulher. Correu os dedos cobertos de sangue entre os pelos p�bicos escuros dela, ent�o pousou as duas m�os em seu abd�men. Enquanto se apoiava nela, deslizou as m�os sob sua pele e come�ou a esmagar os �rg�os internos. A mulher choramingava, mas n�o gritava. Aparentemente, estava desorientada demais para aceitar o que estava acontecendo com ela.</p><p>Spector assistiu ao ato com certa preocupa��o. Pelo que podia notar, o homem estava massageando a si mesmo dentro do corpo da loira. Spector tinha apenas um interesse moderado em sexo antes de morrer. Agora, mesmo esse interesse desaparecera.</p><p>Se quisesse atirar no velho, provavelmente n�o teria chance melhor. Ele pegou a arma. Quando o fez, a necessidade de matar o dominou. O Astr�nomo dissipou sua influ�ncia calmante. Spector tirou a m�o do casaco. Sabia do que precisava. A satisfa��o agora era o que vinha do cano da arma.</p><p>O Astr�nomo ficava cada vez mais excitado. As rugas da sua testa come�aram a pulsar visivelmente, e ele rasgava pequenos peda�os da mulher. Agora a mulher gritava.</p><p>Spector sentiu seu desejo crescer em harmonia com o do velho.</p><p>� Agora � disse o Astr�nomo, investindo de modo selvagem. � Mate-a agora.</p><p>Spector aproximou-se, seu rosto apenas a poucos cent�metros do dela. Conseguia ver o medo nos olhos da prostituta e estava certo de que ela conseguia ver a morte nos olhos dele. Ele entregou sua morte a ela. Lentamente. N�o quis afog�-la, seria r�pido demais. Ele preencheu a mente e o corpo da mulher. Ela se retorcia, recept�culo berrante do l�quido preto e viscoso da morte.</p><p>O Astr�nomo gemeu e caiu sobre ela, sacudindo Spector de seu estado de transe. Ele arrancava peda�os dela com os dentes e as m�os. A mulher estava morta.</p><p>Spector afastou-se e fechou os olhos. Nunca tinha desfrutado do ato de matar at� agora, mas a satisfa��o e o al�vio que sentira estavam al�m do que ele havia pensado ser poss�vel. Tinha controlado seu poder, feito com que ele o servisse pela primeira vez. E sabia que precisava do Astr�nomo para ser capaz de faz�-lo novamente.</p><p>� Ainda quer me matar? � O Astr�nomo ergueu-se, exausto, do cad�ver. � Acredito que a arma ainda esteja no seu casaco. � ela ou isto. � Ele ergueu uma das moedas.</p><p>N�o havia chance real. Quaisquer d�vidas foram apagadas por aquilo que ele acabara de vivenciar. Pegou a moeda sem hesita��o.</p><p>� Ei, todo mundo em Nova York tem um rev�lver. Esta cidade � cheia de pessoas bem perigosas.</p><p>O Astr�nomo deu uma gargalhada alta, o som ecoou para fora dos muros de pedra.</p><p>� � apenas o primeiro passo. Com minha ajuda, voc� ser� capaz de coisas que nunca sonhou serem poss�veis. De agora em diante, voc� n�o ser� mais James Spector. N�s, do c�rculo interno, chamaremos voc� de Ceifador. Para aqueles que se opuserem a n�s, voc� ser� a morte. R�pida e implac�vel.</p><p>� Ceifador, gostei, � sonoro. � Ele concordou com a cabe�a e enfiou a moeda no bolso.</p><p>� Confie apenas naqueles que se identificarem com a moeda. Seus amigos e inimigos s�o escolhidos por voc� agora. Passe a noite aqui, se quiser. Amanh� continuaremos suas aulas.</p><p>O Astr�nomo pegou o robe e retirou-se para o fundo do p�tio.</p><p>Spector esfregou as t�mporas e caminhou para tr�s do pr�dio. A dor come�ou a crescer novamente. Ele a aceitava, at� mesmo a amava. Seria a fonte de seu poder e satisfa��o. Havia tirado a rainha negra e sofrera uma morte terr�vel, mas um milagre ocorrera. Seu dom para o mundo seria o horror dentro dele. Talvez n�o fosse o bastante para o mundo, mas era o bastante para ele.</p><p>Ele se enroscou sob a est�tua no vest�bulo e dormiu o sono dos mortos.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Quatro</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>No terceiro andar do Crystal Palace havia c�maras privadas que Cris�lida reservava para si. Ela esperava por ele numa sala de estar, sentada numa poltrona estofada de veludo vermelho atr�s de uma mesa de carvalho. Cris�lida fez um gesto na dire��o de um assento. Ela n�o perdia tempo.</p><p>� Voc� provocou minha curiosidade, Jubal.</p><p>� N�o sei do que est� falando � disse Jube, relaxando na ponta de uma cadeira com encosto de couro.</p><p>Cris�lida abriu um antigo moedeiro de seda e tirou um punhado de pedras preciosas. Ela as alinhou sobre a toalha de mesa branca.</p><p>� Duas safiras estreladas, dois rubis e um diamante azul e branco perfeito � disse ela com voz seca e fria. � Todos n�o lapidados, da mais alta qualidade, nenhum pesando menos de quatro quilates. Todas apareceram nas ruas do Bairro dos Curingas dentro das �ltimas seis semanas. Curioso, n�o � mesmo? O que voc� conclui disso?</p><p>� N�o sei � Jube respondeu. � Vou prestar aten��o. Ouviu falar do curinga com poder de espremer um diamante at� transform�-lo num torr�o de carv�o?</p><p>Ele estava blefando e ambos sabiam disso. Ela empurrou uma safira pela toalha de mesa com o dedinho da m�o esquerda, sua carne t�o clara quanto vidro.</p><p>� Voc� deu esta aqui a um agente sanit�rio por uma bola de boliche que ele encontrou numa ca�amba?</p><p>� Sim � disse Jube. Era magenta e branca, furada sob medida para algum curinga, seus seis buracos arranjados num c�rculo. N�o � surpresa que tenha sido jogada no lixo.</p><p>Cris�lida empurrou o rubi com o dedo m�nimo, e ele se moveu pouco mais de um cent�metro.</p><p>� Esta foi para um escriv�o de pol�cia. Voc� quis ver registros com rela��o a um corpo liberado do necrot�rio, e qualquer coisa que eles tivessem sobre essa bola de boliche perdida. Nunca soube que voc� tinha uma paix�o assim por boliche, Jubal.</p><p>Jube deu um tapa na barriga.</p><p>� N�o pare�o um jogador de boliche? N�o h� nada de que eu goste mais do que fazer alguns <emphasis>strikes</emphasis> e beber umas cervejas.</p><p>� Voc� nunca pisou numa pista de boliche na sua vida, e n�o saberia diferenciar um <emphasis>strike</emphasis> de um <emphasis>touchdown</emphasis>. � Os ossos de seu dedo nunca pareceram t�o assustadores como quando eles ergueram o diamante. � Este item foi oferecido a Devil John Darlingfoot no meu pr�prio sal�o vermelho. � Ela o rolou entre os dedos transparentes, e os m�sculos de sua face retorceram-se naquilo que deve ter sido um sorriso ir�nico.</p><p>� Era da minha m�e � Jube revelou.</p><p>Cris�lida deu uma risadinha.</p><p>� E ela nunca se importou de t�-lo cortado ou encravado? Que estranho. � Ela baixou o diamante, pegou a segunda safira. � E esta aqui� sinceramente, Jubal! Acha mesmo que Elmo n�o me diria? � Ela juntou cuidadosamente a pedra com as outras. � Voc� precisa contratar algu�m para realizar algumas tarefas e investiga��es n�o espec�ficas. Muito bem. Por que n�o veio at� mim, simplesmente?</p><p>Jube co�ou uma de suas presas.</p><p>� Voc� faz perguntas demais.</p><p>� Muito justo. � Ela passou a m�o sobre as joias. � Temos quatro aqui. Existem outras?</p><p>Jube concordou com a cabe�a.</p><p>� Uma ou duas. Est�o faltando as esmeraldas.</p><p>� Que pena. Adoro verde. A cor de competi��o brit�nica. � Ela suspirou. � Por que pedras preciosas?</p><p>� As pessoas relutaram em pegar meus cheques � Jube disse para ela �, e era mais f�cil que carregar grandes quantias em dinheiro.</p><p>� Se existem mais de onde essas vieram � Cris�lida disse �, cuide para que fiquem onde est�o. Deixe que o boato se espalhe no Bairro dos Curingas de que o Morsa tem uma caixinha secreta de pedras preciosas, e n�o darei um mero centavo por suas chances. Voc� j� pode ter remexido as �guas, mas esperamos que os tubar�es n�o tenham percebido. Elmo falou apenas comigo, claro, e Devil John tem seu senso de honra peculiar, acho que podemos confiar nele para manter o bico calado. Quanto ao lixeiro e ao escriv�o, quando adquiri as pedras preciosas, comprei tamb�m o sil�ncio deles.</p><p>� Voc� n�o precisava fazer isso!</p><p>� Eu sei � ela comentou. � Da pr�xima vez que quiser informa��o, sabe onde est� o Crystal Palace. N�o sabe?</p><p>� Quanto voc� j� sabe? � Jube perguntou.</p><p>� O bastante para dizer quando voc� est� mentindo � Cris�lida respondeu. � Sei que voc� est� procurando uma bola de boliche por raz�es incompreens�veis para homens, mulheres ou curingas. Sei que Darlingfoot roubou aquele cad�ver curinga do necrot�rio, o corpo era pequeno e peludo, com pernas de gafanhoto, e bem chamuscado. Nenhum curinga correspondente a essa descri��o � conhecido por qualquer das minhas fontes, uma circunst�ncia curiosa. Sei que Croyd fez um dep�sito em dinheiro bem grande no dia em que o corpo foi roubado, e um ainda maior no dia seguinte, e entre os dep�sitos teve um confronto p�blico com Darlingfoot. E sei que voc� pagou um bom dinheiro para Devil John revelar quem ele representava neste pequeno melodrama, e tentou, sem sucesso, contratar seus servi�os. � Ela se inclinou para a frente. � O que n�o sei � o que tudo isso significa, e voc� sabe quanto eu abomino um mist�rio.</p><p>� Dizem que toda vez que um curinga peida em qualquer lugar de Manhattan, a Cris�lida tampa o nariz � Jube diz. Ele a encarava intensamente, mas a transpar�ncia de sua carne tornava sua express�o imposs�vel de decifrar. O rosto de caveira atr�s de sua pele cristalina encarava-o implac�vel pelos olhos azul-claros.</p><p>� Qual seu interesse nisso? � perguntou a ela.</p><p>� Incerto, at� eu saber o que � �isso�. No entanto, voc� tem sido t�o �til para mim por tanto tempo, e eu odiaria perder seus servi�os. Sabe que sou discreta.</p><p>� At� ser paga para ser indiscreta � Jube enfatizou.</p><p>Cris�lida riu e tocou no diamante.</p><p>� Segundo suas fontes, o sil�ncio pode ser mais lucrativo que a fala.</p><p>� � verdade � disse Jube. Decidiu que n�o tinha nada a perder. � Na verdade, sou um alien�gena espi�o de um planeta distante � ele come�ou.</p><p>� Jubal � Cris�lida interrompeu �, voc� est� me fazendo perder a paci�ncia. Nunca apreciei esse seu humor. V� direto ao ponto. O que aconteceu com Darlingfoot?</p><p>� Nada de mais � Jube admitiu. � Sei por que quero o corpo. N�o sei por que outra pessoa o quer. Devil John n�o me disse. Acho que eles est�o com a bola de boliche. Tentei contrat�-lo para t�-la de volta, mas ele n�o quis mais neg�cio comigo. Acho que est� com medo deles, sejam l� quem forem.</p><p>� Acho que est� certo. Croyd?</p><p>� Dormiu de novo. Quem sabe que utilidade ele ter� quando acordar? Posso ficar esperando seis meses e ele acordar como um hamster.</p><p>� Por uma comiss�o � Cris�lida disse com uma certeza g�lida �, posso contratar os servi�os de algu�m que lhe trar� respostas.</p><p>Jube decidiu ser direto, pois a evas�o n�o estava levando a lugar algum.</p><p>� N�o sei se eu confiaria em qualquer um que voc� contratasse.</p><p>Ela riu.</p><p>� Meu garoto, � a coisa mais inteligente que voc� disse em meses. E est� certo. Voc� � um alvo f�cil, e alguns dos meus contatos s�o menos do que respeit�veis, admito. Comigo intermediando, no entanto, a equa��o muda. Tenho certa reputa��o. � Ao lado do cotovelo dela havia um pequeno sino de prata. Ela o tocou levemente. � De qualquer forma, o melhor homem para este caso � uma exce��o � regra geral. De fato ele tem �tica.</p><p>Jube ficou tentado.</p><p>� Quem �?</p><p>� Seu nome � Jay Ackroyd. Um �s que � investigador particular. Nos dois sentidos da palavra. �s vezes, ele � chamado de Popinjay, pois aparece quando quer, mas n�o na cara dele. Jay e eu trocamos favores de vez em quando. Afinal, lidamos com o mesmo produto.</p><p>Jube tocou uma presa, pensativo.</p><p>� Tudo bem. O que me impede de contrat�-lo diretamente?</p><p>� Nada � Cris�lida disse. Um gar�om alto com impressionantes chifres de marfim entrou, carregando um amaretto e um Singapore sling numa bandeja de prata antiga. Quando saiu, ela continuou. � Quer dizer, se preferir que a curiosidade dele recaia sobre voc� em vez de mim.</p><p>Ele fez uma pausa.</p><p>� Talvez fosse melhor eu ficar nos bastidores.</p><p>� Exatamente o que pensei � Cris�lida disse, bebericando o amaretto. � Jay nem saber� que voc� � o cliente.</p><p>Jube olhou para a janela. Estava uma noite escura e sem nuvens. Conseguia ver as estrelas e sabia que, em algum lugar l� em cima, a M�e ainda aguardava. Precisava de ajuda e tinha de deixar de lado o medo.</p><p>� Voc� conhece um bom ladr�o? � perguntou a ela, sem rodeios.</p><p>Aquilo a surpreendeu.</p><p>� Talvez � disse ela.</p><p>� Eu preciso � come�ou, sem jeito �, hum, de pe�as. Instrumentos cient�ficos e, hum, componentes eletr�nicos, microchips, coisas assim. Posso fazer uma lista para voc�. Envolve invadir alguns laborat�rios corporativos, talvez algumas instala��es federais.</p><p>� Estou fora de qualquer coisa que seja assim <emphasis>t�o</emphasis> ilegal � Cris�lida disse. � Por que precisa de eletr�nicos?</p><p>� Para montar um radioamador pra mim � disse Jube. � Voc� faria isso pra salvar o mundo?</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>� Faria isso por seis esmeraldas perfeitamente iguais do tamanho de ovos de pombo?</p><p>Cris�lida sorriu lentamente, e prop�s um brinde.</p><p>� A uma rela��o longa e <emphasis>lucrativa</emphasis>.</p><p>Ela quase poderia ser um Mestre Comerciante, Jube pensou com certa admira��o. Sorrindo com as presas � mostra, levantou o Singapore sling e levou o canudinho at� a boca.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>At� a sexta gera��o</strong></p><p>Walter Jon Williams</p><empty-line/><p><strong>Ep�logo</strong></p><p>Foi f�cil. Enquanto Rubor e Suado fingiam brigar na cal�ada em frente � van, Ricky e Loco simplesmente subiram no ve�culo, tiraram um par de caixas cada um e fugiram pela rua. O sujeito esquisito e alto que fazia o transporte nem notou que duas estavam faltando. Ricky se parabenizou pela ideia.</p><p>N�o conseguiam oportunidades como essa com tanta frequ�ncia. O territ�rio dos limpos ficava cada vez menor. As gangues de curingas, como os Pr�ncipes Demon�acos, estavam engolindo mais territ�rio. Que diabos, como lutar com uma coisa que parecia uma lula?</p><p>Ricky Santillanes enfiou a m�o no bolso da cal�a jeans, tirando as chaves, e entrou no quartel do clube. Rubor foi at� a geladeira pegar umas cervejas e os outros colocaram as caixas no sof� surrado e as abriram.</p><p>� Uau. Um videocassete.</p><p>� Que tipo de fitas?</p><p>� Parece que s�o filmes de monstros japoneses. E alguma coisa aqui chamada PORN�.</p><p>� Ei! P�e a�, cara!</p><p>As cervejas espocaram.</p><p>� Loco! Um computador.</p><p>� N�o � um computador. � um equalizador gr�fico.</p><p>� Claro que n�o, idiota. J� vi um computador antes. Na escola, antes de eu largar. Ricky olhou para a coisa.</p><p>� Wang n�o faz componentes de est�reo, cara.</p><p>� Foda-se.</p><p>Suado ergueu um gravador de CD e DVD-ROM.</p><p>� Que droga � essa aqui, cara?</p><p>� Aposto que � caro.</p><p>� Como vamos vender se n�o sabemos quanto pedir?</p><p>� Ei! Consegui colocar o videocassete!</p><p>Suado levantou uma esfera preta sem gra�a.</p><p>� Que � isso aqui, cara?</p><p>� Uma bola de boliche.</p><p>� O cacete que �. Leve demais. � Ricky a agarrou.</p><p>� Ei. Essa mina loira � gostosa.</p><p>� O que ela t� fazendo? Dando pro c�mera? Cad� o cara?</p><p>� Eu j� a vi em algum lugar.</p><p>� Onde t� o cara, camarada? � estranho. � como um close da orelha dela.</p><p>Ricky assistia enquanto manipulava a esfera preta. Sua superf�cie era morna.</p><p>� Ih! Parece que a mina t� voando ou algo assim!</p><p>� Para com isso.</p><p>� S�rio. Olha. O cen�rio t� mexendo.</p><p>A loira pareceu estar voando, acelerando na dire��o do espa�o ao fundo enquanto realizava atos sexuais vagamente percebidos. Era como se o parceiro invis�vel dela pudesse voar.</p><p>� Bizarro demais.</p><p>Loco olhou para a esfera preta.</p><p>� Me d� isso aqui � disse ele.</p><p>� Assiste ao filme a�, cara.</p><p>� Fala s�rio. D� isso pra mim. � Ele esticou o bra�o.</p><p>� Vai se foder, idiota!</p><p>Luzes estranhas acenderam sobre as m�os de Ricky. Algo escuro cobriu Loco e, de repente, ele n�o estava mais l�.</p><p>Ricky levantou-se em sil�ncio, chocado, enquanto os outros se levantaram e gritaram. Era como se houvesse algo varrendo sua mente.</p><p>A esfera preta estava falando com ele. Parecia perdida e, de alguma forma, quebrada.</p><p>Podia fazer as coisas desaparecerem. Ricky pensou sobre os Pr�ncipes Demon�acos e sobre o que ele poderia fazer com algu�m que parecia uma lula. Um sorriso come�ou a se abrir em seu rosto.</p><p>� Ei, rapazes � disse ele. � Acho que tive uma ideia.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Frio invernal</strong></p><p>George R. R. Martin</p><empty-line/><empty-line/><p>Finalmente, o dia chegou, como ele sabia que chegaria. Era um s�bado, frio e cinzento, com um vento ligeiro soprando do estreito de Kill van Kull. A cafeteira Mister Coffee estava programada para preparar o caf� �s 10h30, quando ele acordasse; nos fins de semana, Tom gostava de dormir at� mais tarde. Acrescentou generosamente leite e a��car � caneca e levou-a para a sala de estar.</p><p>Havia correspond�ncia antiga espalhada sobre o aparador: uma pilha de contas, folhetos de supermercado anunciando vendas havia muito passadas, um cart�o-postal enviado por sua irm� quando ela foi para a Inglaterra no ver�o anterior, um envelope pardo e longo dizendo que Sr. Thomas Tudbury j� poderia ter ganhado 3 milh�es de d�lares, e uma por��o de porcarias com as quais precisava lidar com urg�ncia. Embaixo disso tudo estava o convite.</p><p>Ele tomou um gole de caf� e olhou para a correspond�ncia. Quantos meses tinha ficado ali? Tr�s? Quatro? Tarde demais para fazer algo sobre ela agora. At� mesmo um <emphasis>RSVP</emphasis> seria lamentavelmente inadequado naquele momento. Lembrou-se do jeito que terminava <emphasis>A primeira noite de um homem</emphasis>, e saboreou a fantasia. Contudo, ele n�o era Dustin Hoffman.</p><p>Como algu�m cutucando uma velha casca de ferida, Tom fu�ou na correspond�ncia at� reencontrar um pequeno envelope quadrado. O cart�o dentro dele era branco e direto.</p><p>SR. &amp; SRA. STANLEY CASKO</p><p>T�M A HONRA DE CONVIDAR V.SA.</p><p>PARA O CASAMENTO DE SUA FILHA BARBARA</p><p>COM O SR. STEPHEN BRUDER, DE WEEHAWKEN,</p><p>NA IGREJA DE ST. HENRY</p><p>�S 14H DO DIA 8 DE MAR�O</p><p>EM SEGUIDA RECEP��O NO TOP HAT LOUNGE</p><p>RSVP 555-6853</p><p>Tom correu os dedos por um longo tempo sobre o papel em relevo, ent�o o pousou de volta no aparador, jogou o lixo no cesto de vime que ficava ao lado do sof�, e foi at� a janela.</p><p>No fim da First Street, havia pilhas de neve escura ao longo das trilhas de pedestre do pequeno e estreito parque da orla. Um cargueiro com a bandeira da Noruega seguia para o Kill van Kull na dire��o da ponte Bayonne e do Port Newark, rebocado por uma barca�a azul. Tom estava em p� ao lado da janela da sala de estar, m�o no caixilho, a outra enfiada no bolso, observando as crian�as no parque, observando o avan�o cont�nuo do cargueiro, observando a �gua verde e fria do Kill e os embarcadouros e os montes de Staten Island mais adiante.</p><p>Havia muito tempo, sua fam�lia vivera nos projetos habitacionais federais no fim da First Street, e a janela da sala de estar tinha vis�o para o parque e o Kill. �s vezes, � noite, enquanto os pais dormiam, ele se levantava, preparava um leite com chocolate e olhava pela janela para as luzes de Staten Island, que parecia impossivelmente distante e promissora. O que ele sabia? Era um projeto de crian�a que nunca havia deixado Bayonne.</p><p>Os grandes navios passavam mesmo � noite, e n�o era poss�vel ver no escuro as trilhas de ferrugem ao lado deles ou o �leo que soltavam na �gua; � noite, os navios eram m�gicos, ligados a altas aventuras e romances, a cidades lend�rias onde as ruas reluziam numa escurid�o perigosa. Na vida real, mesmo a cidade de Jersey era a terra do desconhecido, pelo que ele sabia, mas nos seus sonhos conhecia os brejos da Esc�cia, os becos de Xangai e a poeira de Marrakesh. Quando fez 10 anos, Tom aprendeu a reconhecer as bandeiras de mais de trinta na��es diferentes.</p><p>Mas n�o tinha mais 10 anos. Faria 42 naquele ano e saiu de todos os quatro blocos dos projetos para uma pequena casa de tijolos vermelhos na First Street. No col�gio, trabalhava nos ver�es arrumando aparelhos de TV. Ainda estava na mesma loja, mas subiu de cargo at� gerente, e era propriet�rio de quase um ter�o dos neg�cios; naquela �poca, o lugar era chamado Broadway ElectroMart e vendia videocassetes, CD players e computadores, bem como aparelhos de televis�o.</p><p><emphasis>Voc� chegou longe, Tommy</emphasis>, ele pensou, com amargura. E, agora, Barbara Casko se casaria com Steve Bruder.</p><p>N�o podia culp�-la. Ele n�o podia culpar ningu�m, al�m de si mesmo. E, talvez, o Jetboy, e o Dr. Tachyon� sim, poderia culp�-los um pouco tamb�m.</p><p>Tom virou-se para sair e deixou as cortinas ca�rem de volta na frente da janela, sentindo-se um merda. Caminhou at� a cozinha e abriu a t�pica geladeira de solteiro. Sem cerveja, apenas um dedo de um refrigerante Shop Rite sem g�s no fundo de uma garrafa de dois litros. Arrancou o papel-filme de uma tigela com salada de atum, pretendendo fazer para si um sandu�che para o caf� da manh�, mas havia uma coisa verde crescendo sobre ela. De repente, ele perdeu o apetite.</p><p>Tirou o telefone de parede do gancho, discou os sete n�meros familiares. No terceiro toque, uma crian�a atendeu.</p><p>� Ai�?</p><p>� Oi, Vito � Tom disse. � Seu velho est� em casa?</p><p>Ele escutou o som da extens�o sendo atendida.</p><p>� Al�? � uma mulher disse. A crian�a deu uma risadinha. � J� peguei aqui, meu amor � Gina falou.</p><p>� Tchau, tchau, Vito � Tom falou, enquanto a crian�a desligava.</p><p>� <emphasis>Vito</emphasis> � Gina falou, soando irritada e se divertindo ao mesmo tempo. � Tom, voc� � louco, n�o �? Por que quer confundir o menino o tempo todo? Da �ltima vez foi Giuseppe. O nome dele � Derek.</p><p>� Bah � Tom respondeu. � Derek, que tipo de nome � esse? Dois belos filhos de italianos como voc� e o Joey, e voc�s d�o o nome pra crian�a de um palha�o de uma novela. Dom teria um treco. Derek DiAngelis � parece uma crise de identidade ambulante.</p><p>� Ent�o, fa�a um filho pra voc� e ponha nele o nome Vito � Gina retrucou.</p><p>Era apenas uma piada. Gina tamb�m s� estava brincando, ela n�o quis dizer nada mais com isso. Mas saber disso n�o ajudou. Ele ainda sentia como se tivesse tomado um chute no est�mago.</p><p>� O Joey t� a�? � perguntou de forma brusca.</p><p>� Est� em San Diego � ela respondeu. � Tom, tudo bem com voc�? Parece estranho.</p><p>� Estou bem. S� queria falar um �oi�. � Claro que Joey estava em San Diego. Joey viajava muito nessa �poca, safado sortudo. Joey DiAngelis �Ferro-velho� era um motorista estrela no circuito Derby de demoli��o, e no ver�o o circuito ia para climas mais amenos. Era um tipo de ironia. Quando eram crian�as, mesmo seus pais imaginavam que Tom fosse aquele que sairia da cidade, enquanto Joey ficaria em Bayonne e cuidaria do ferro-velho do pai. E agora Joey era conhecido em quase todos os lugares, enquanto o ferro-velho de sua fam�lia pertencia a Tom. Era de se imaginar: at� mesmo na escola prim�ria, Joey era um dem�nio nos carrinhos bate-bate. � Bem, diga a ele que eu liguei.</p><p>� Eu tenho o n�mero do hotel em que ele est� � ela ofereceu.</p><p>� N�o, obrigado. N�o � t�o importante. At� mais, Gina. Cuide bem do Vito. � Tom pousou o telefone no gancho.</p><p>As chaves do carro estavam no balc�o da cozinha. Ele vestiu um casaco de camur�a marrom meio disforme e saiu para a garagem no por�o. A porta se fechou automaticamente atr�s do seu Honda verde-escuro. Ele seguiu para leste na First Street, passou os projetos habitacionais e virou na Lexington. Na Fifth Street, pegou � direita e deixou a �rea residencial para tr�s.</p><p>Era um s�bado frio e cinzento de mar�o, com neve no ch�o e o frio invernal no ar. Estava com 41 anos e Barbara estava se casando, e Thomas Tudbury precisava voltar para a carapa�a.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Eles se encontraram na Junior Achievement, organiza��o de educa��o pr�tica para os neg�cios, formados em dois col�gios diferentes.</p><p>Tommy tinha pouco interesse em saber como o sistema de empresas livres funcionava, mas tinha muito interesse em garotas. Sua escola secund�ria era apenas de garotos, mas a JA atra�a gente de todas as escolas secund�rias locais, e Tom entrou inicialmente como primeiranista.</p><p>Tinha grande dificuldade em fazer amizade com <emphasis>garotos</emphasis>, e as garotas o aterrorizavam. N�o sabia o que dizer para elas e ficava com medo de falar algo est�pido, ent�o ficava quieto. Ap�s poucas semanas, algumas come�aram a provoc�-lo. A maioria apenas o ignorava. As reuni�es de ter�a-feira � noite tornaram-se algo que ele temeu durante todo o primeiro ano.</p><p>No �ltimo ano foi diferente. A diferen�a era uma garota chamada Barbara Casko.</p><p>Na primeira reuni�o, Tom estava sentado num canto, sentindo-se rechonchudo e triste, quando Barbara veio at� ele e se apresentou. Ela era honestamente <emphasis>amig�vel</emphasis>; Tom ficou estupefato. Realmente incr�vel, e ainda mais surpreendente do que esta garota se desviar do seu caminho para ser gentil com ele era ela ser a garota mais linda da empresa, e talvez a mais linda de Bayonne. Tinha cabelos loiro-escuros que ca�am sobre os ombros com as pontas curvadas para cima, e olhos azul-claros, e o sorriso mais caloroso do mundo. Vestia su�teres de angor�, nada muito apertado, mas mostravam muito bem sua figura pequena e bela. Era bonita o suficiente para ser l�der de torcida.</p><p>Tommy n�o foi o �nico que ficou impressionado com Barbara Casko. Quase imediatamente, ela se tornou presidente da empresa da JA. E, quando seu mandato expirara, ap�s o Natal, e chegara o tempo de novas elei��es, ela o nomeou para suced�-la como presidente, e ela era t�o popular que, de fato, o elegeram.</p><p>� Chame-a para sair � Joey DiAngelis disse em outubro, quando Tom ficou nervos�ssimo para falar sobre ela. Joey tinha sa�do da escola um ano antes. Estava treinando como mec�nico numa oficina na Avenue E. � Ela gosta de voc�, cabe�a de bosta.</p><p>� Fala s�rio � Tom disse. � Por que ela sairia comigo? Voc� precisava v�-la, Joey, poderia sair com qualquer um que quisesse. � Thomas Tudbury nunca tivera um encontro na vida.</p><p>� Talvez ela tenha mau gosto � Joey falou, rindo.</p><p>Mas o nome de Barbara surgiu novamente. Joey era o �nico com quem Tom podia falar, e Barbara foi seu �nico assunto naquele ano.</p><p>� D� um tempo, Tuds � Joey falou numa noite de dezembro, quando bebiam cerveja dentro do velho e decadente Packard, ao lado da ba�a.</p><p>� Se voc� n�o a convidar, eu convido.</p><p>Tommy odiou aquela ideia.</p><p>� Ela n�o faz seu tipo, italianinho bobo.</p><p>Joey sorriu, malicioso.</p><p>� Pensei que tinha dito que ela era uma garota.</p><p>� Ela faz faculdade, quer ser professora.</p><p>� Ah, esquece essa merda. Ela tem peit�o?</p><p>Tom deu um murro no ombro dele.</p><p>Em mar�o, quando ainda n�o havia chamado Barbara para sair, Joey disse:</p><p>� Que diabos voc� t� esperando? Ela te nomeou presidente da bosta da sua empresinha, n�o? Ela gosta de voc�, babaca.</p><p>� S� porque ela sabia que eu seria um bom presidente da empresa n�o significa que ela quer sair comigo.</p><p>� Chama ela, cabe�a de bosta.</p><p>� Talvez � Tom disse, desconfort�vel. Duas semanas depois, numa quarta-feira � noite ap�s uma reuni�o na qual Barbara estava especialmente gentil, ele chegou ao ponto de tentar encontrar o n�mero dela na lista telef�nica. Mas nunca telefonou.</p><p>� H� nove Casko diferentes na lista � falou para Joey quando se encontraram. � N�o tenho certeza qual � o dela.</p><p>� Liga pra todos, Tuds. Que saco, eles todos s�o parentes.</p><p>� Vou me sentir um idiota � Tom comentou.</p><p>� Voc� <emphasis>�</emphasis> um idiota � Joey retrucou. � Olha s�, se � t�o dif�cil, da pr�xima vez que encontrar com ela pe�a o n�mero do telefone.</p><p>Tom engoliu seco.</p><p>� Mas da� ela vai pensar que quero cham�-la pra sair.</p><p>Joey gargalhou.</p><p>� E da�? Voc� quer <emphasis>mesmo</emphasis> cham�-la pra sair!</p><p>� S� n�o t� pronto ainda, � isso. N�o sei como. � Tom estava infeliz.</p><p>� � f�cil. Telefona e, quando ela atender, voc� diz �Oi, aqui � o Tom, quer sair comigo?�.</p><p>� E se ela disser n�o?</p><p>Joey deu de ombros.</p><p>� Ent�o voc� liga para todas as pizzarias da cidade e manda entregar pizzas a noite inteira na casa dela. De anchova. Ningu�m consegue comer pizza de anchova.</p><p>Naquele momento, maio j� havia chegado, Tom havia descoberto � qual fam�lia Casko Barbara pertencia. Ela fez um coment�rio casual sobre a vizinhan�a, e ele prestou aten��o de forma obsessiva, observou tudo que ela disse. Ele foi para casa e rasgou aquela p�gina do cat�logo telef�nico e circulou o n�mero de telefone com sua Bic. At� come�ou a discar. Cinco ou seis vezes. Mas nunca completou a chamada.</p><p>� Por que n�o, droga? � Joey perguntou.</p><p>� � muito tarde � disse Tom, com tristeza. � Quer dizer, a gente se conhece desde setembro, e eu n�o a chamei para sair; se chamar agora, ela vai pensar que sou um cag�o ou algo assim.</p><p>� Voc� � um cag�o � Joey disse.</p><p>� Pra qu�? Vamos pra faculdades diferentes. Provavelmente a gente nunca mais vai se ver de novo depois de junho.</p><p>Joey amassou uma lata de cerveja na m�o e disse tr�s palavras.</p><p>� Baile de formatura.</p><p>� O que � que tem?</p><p>� Chame-a pro baile de formatura. Voc� quer ir ao baile, n�o �?</p><p>� Sei l� � Tom respondeu. � Quer dizer, n�o sei dan�ar. E que pergunta � essa? Voc� nunca foi a nenhuma porcaria de baile de formatura?</p><p>� Bailes de formatura s�o uma merda � Joey disse. � Quando saio com uma garota, prefiro levar pra a Estrada 44 e ver se consigo ver uns peitinhos do que segurar a m�o dela num gin�sio, sabe? Mas voc� n�o sou eu, Tuds. N�o tenta me enganar. Voc� quer ir para aquele baile est�pido e n�s dois sabemos disso, e se voc� entrar l� com a garota mais linda do lugar, vai estar no c�u, caramba.</p><p>� Estamos em maio � Tom disse, com pesar. � Barbara � a garota mais linda de Bayonne, imposs�vel ela j� n�o ter companhia pro baile.</p><p>� Tuds, voc�s s�o de escolas diferentes. Ela provavelmente conseguiu um acompanhante para o baile <emphasis>dela</emphasis>, mas qual a probabilidade de ela ter um pro <emphasis>seu</emphasis> baile? As garotas amam essas bostas de baile, se empetecar e vestir corpetes e dan�ar. Vai l�, Tuds. N�o tem nada a perder. � Ele sorriu. � A n�o ser sua virgindade.</p><p>Na semana seguinte, Tom n�o pensava em nada al�m daquela conversa. O tempo estava acabando. A Junior Achievement estava no fim, e assim que terminasse nunca mais veria Barbara novamente, a menos que fizesse algo. Joey estava certo: ele precisava tentar.</p><p>Na ter�a-feira � noite, seu est�mago parecia um n� durante a longa viagem de �nibus at� a parte alta da cidade, e ele foi ensaiando a conversa na cabe�a. As palavras n�o viriam certas, n�o importava quantas vezes ele as rearranjasse, mas estava determinado que <emphasis>alguma coisa</emphasis> sairia, de algum jeito. Estava aterrorizado com a possibilidade de ela dizer n�o, e ainda mais temeroso que ela pudesse dizer sim. Mas precisava tentar. N�o poderia apenas deix�-la ir embora sem que soubesse quanto gostava dela.</p><p>Sua maior preocupa��o era como diabos, ele poderia de alguma forma lev�-la para outro lugar, longe dos outros jovens. Com certeza, n�o queria cham�-la para sair na frente de todo mundo. O pensamento lhe dava arrepios. As outras garotas pensavam que ele era hil�rio o suficiente do jeito que era, a presun��o de ele chamar Barbara Casko para o baile faria com que rolassem de tanto rir. Ele apenas esperava que ela n�o dissesse a elas depois. Ele n�o achava que ela iria.</p><p>O problema estava resolvido para ele. Era a �ltima reuni�o, e os consultores estavam entrevistando os presidentes de todas as empresas diferentes. Davam um t�tulo do Tesouro para o jovem escolhido como presidente do ano. Barbara fora presidente da empresa pelo primeiro semestre, Tom para o segundo; teriam de ficar esperando do lado de fora do corredor, apenas os dois, sozinhos, juntos, enquanto os outros estariam na reuni�o e os consultores estariam fora fazendo entrevistas.</p><p>� Espero que voc� ven�a � Tom disse, enquanto esperavam.</p><p>Barbara sorriu para ele. Estava com um su�ter azul-claro e uma saia plissada um pouco abaixo dos joelhos, e em torno do pesco�o tinha um medalh�o em forma de cora��o numa corrente de ouro fina. Seus cabelos loiros pareciam t�o macios que ele queria toc�-los, mas claro que n�o ousou. Ela estava em p� bem perto dele, e ele conseguia sentir como eles estavam limpos e cheirosos.</p><p>� Voc� est� muito bonita � ele soltou, desajeitado.</p><p>Sentiu-se um idiota, mas Barbara pareceu n�o notar. Ela olhou para ele com seus olhos azuis, t�o azuis.</p><p>� Obrigada � disse. � Espero que eles n�o demorem.</p><p>E, ent�o, ela fez algo que o deixou surpreso � esticou o bra�o e o tocou, colocando a m�o no bra�o dele, e disse:</p><p>� Tommy, posso te fazer uma pergunta?</p><p>� Uma pergunta � ele repetiu. � Claro.</p><p>� Sobre seu baile de formatura � Barbara disse.</p><p>Ele ficou como um zumbi por um longo momento, consciente do frio no corredor, dos risos distantes da sala de aula, das vozes dos consultores atravessando a porta de vidro jateado, da leve press�o da m�o de Barbara e, acima de tudo, da proximidade dela, aqueles olhos azuis profundos olhando para ele, o medalh�o pendurado entre as pequenas sali�ncias arredondadas dos seios, o cheiro limpo e fresco dela. Para variar, n�o estava sorrindo. A express�o no rosto dela quase poderia ser de nervosismo. Isso apenas a deixava mais bonita. Ele queria abra��-la e beij�-la. Estava desesperado de medo.</p><p>� O baile de formatura � ele finalmente se controlou. Com fraqueza. Ridiculamente, ele de s�bito tomou ci�ncia de uma imensa ere��o apertando-se dentro das cal�as. Ele esperava apenas que ela n�o fosse notada.</p><p>� Voc� conhece o Steve Bruder? � ela perguntou.</p><p>Tom conhecia Steve Bruder desde a segunda s�rie. Era o presidente de classe e jogava como piv� do time de basquete. Na escola prim�ria, Stevie e seus amiguinhos costumavam humilhar Tom com socos. Agora, eram sofisticados alunos do �ltimo ano do secund�rio; usavam apenas as palavras.</p><p>Barbara n�o esperou pela resposta dele.</p><p>� A gente estava saindo � ela disse a ele. � Pensei que ele me chamaria para o baile, mas n�o chamou.</p><p><emphasis>Voc� poderia ir comigo!</emphasis> Tom pensou loucamente, mas tudo que disse ele foi:</p><p>� N�o chamou?</p><p>� N�o � disse ela. � Voc� sabe, quer dizer, se ele chamou outra pessoa? Acha que ele vai me chamar?</p><p>� N�o sei � Tom disse, chateado. � A gente n�o conversa muito.</p><p>� Ah � Barbara disse. Sua m�o se afastou, e ent�o a porta se abriu e o chamaram.</p><p>Naquela noite, Tom ganhou um t�tulo do Tesouro de cinquenta d�lares como Presidente do Ano da Junior Achievement. Sua m�e n�o entendia por que ele parecia t�o infeliz.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O ferro-velho ficava na praia de Hook, entre o amontoado de uma refinaria de petr�leo abandonada e as �guas verdes e frias da ba�a de Nova York. A cerca de alambrado com tr�s metros de altura estava caindo aos peda�os, e a placa � direita do port�o que alertava contra a entrada de estranhos tinha ferrugem. Tom saiu do carro, abriu o cadeado, desenroscou as pesadas correntes e entrou.</p><p>A cabana onde Joey e o pai, Dom, viveram havia muito tinha desaparecido nas ru�nas. N�o se lia mais os escritos esmaecidos da placa no telhado, mas Tom ainda via as letras apagadas: PE�AS DE AUTOM�VEIS E FERRO-VELHO DI ANGELIS. Tom comprara e fechara o ferro-velho dez anos antes, quando Joey se casou. Gina n�o queria viver num ferro-velho e, al�m disso, Tom estava cansado de todas as pessoas que rondavam por horas procurando uma transmiss�o DeSoto ou um para-choque para um Edsel 1957. Nenhum deles jamais deu de cara com seus segredos, mas houve situa��es que passaram por um triz, e mais de uma vez foi obrigado a passar a noite em algum telhado escuro no Bairro dos Curingas, porque em casa a barra n�o estava limpa.</p><p>Agora, ap�s uma d�cada de neglig�ncia benigna, o ferro-velho era um campo desordenado de ferrugem e desola��o, e ningu�m sequer se importava de dirigir at� l�.</p><p>Tom estacionou seu Honda atr�s da cabana e entrou a passos largos no ferro-velho com as m�os enfiadas nos bolsos e o capuz sobre a cabe�a para se proteger do vento frio e salino vindo da ba�a. Ningu�m tirara a neve dali, e n�o havia tr�fego que a transformasse numa lama marrom imunda. Os montes de entulho e lixo pareciam polvilhados com a��car de confeiteiro, e ele passou por pilhas maiores que ele, ondas brancas congeladas que arrebentariam quando as temperaturas aumentassem na primavera.</p><p>Bem no fundo, entre as pilhas agigantadas de autom�veis enferrujados como l�minas de navalha, havia um lugar vazio. Tom chutou para longe a neve com a sola do sapato at� descobrir a placa de metal plana. O metal congelara, e ele estava ofegante antes de conseguir virar a tampa um metro para o lado e abrir o t�nel embaixo dela. Teria sido muito mais f�cil usar a telecinesia, arrast�-la com a mente. No passado, poderia ter feito isso. N�o agora. O tempo prega pe�as engra�adas na gente. Dentro da concha, ficou cada vez mais forte, mas do lado de fora sua telecinesia enfraqueceu com o passar dos anos. Era tudo psicol�gico, Tom sabia disso; a concha transformou-se numa esp�cie de muleta, e sua mente recusava-se a deix�-lo usar a telecinesia sem ela, era isso. Por�m, em alguns dias, quase parecia que Thomas Tudbury e o Grande e Poderoso Tartaruga tinham se tornado duas pessoas diferentes.</p><p>Ele mergulhou na escurid�o, no t�nel que ele e Joey cavaram juntos, noite ap�s noite, nos idos de� que ano foi aquilo? 1969? 1970? Algo assim. Encontrou a grande lanterna de pl�stico no gancho, mas o facho de luz estava p�lido e fraco. Precisava se lembrar de trazer pilhas novas da loja quando voltasse. Alcalinas da pr�xima vez, pois duravam muito mais.</p><p>Caminhou cerca de vinte metros antes de o t�nel acabar, e a escurid�o do bunker abriu-se em torno dele. Era apenas um grande buraco no ch�o, que ele escavou com sua telecinesia, seu teto r�stico coberto por uma camada fina de terra e entulho para esconder o que havia embaixo. O ar estava denso e bolorento, e ele ouviu os ratos correndo da luz da lanterna. Na revista em quadrinhos, o Tartaruga tinha uma Caverna Tartaruga nas profundezas das �guas da ba�a de Nova York, um lugar maravilhoso com teto abaulado e bancadas com computadores, e um mordomo que vivia l� e espanava todos os trof�us e preparava refei��es <emphasis>gourmet</emphasis>. Os roteiristas da Cosh Comics tinham feito algo muito melhor para ele do que ele jamais conseguiria fazer para si mesmo.</p><p>Passou pelas duas carapa�as mais antigas at� o �ltimo modelo, apertou a combina��o e ergueu a escotilha. Rastejando para dentro, Tom fechou a carapa�a e encontrou sua cadeira. Tateou pelo cinto de seguran�a e o afivelou. O assento era amplo e confort�vel, com apoios de bra�os com estofado grosso e o cheiro agrad�vel de couro. Os pain�is de controle estavam encaixados nas pontas dos bra�os da poltrona para f�cil acesso com os dedos, os quais tatearam os bot�es com a facilidade de uma longa familiaridade, ligando ventiladores, aquecimento e luzes. O interior da carapa�a era confort�vel e aconchegante, revestido com carpete felpudo verde. Tinha quatro televis�es coloridas de 23 polegadas pregadas nas paredes acarpetadas, cercadas por bancadas de pequenas telas e outros instrumentos.</p><p>Seu dedo indicador esquerdo fez press�o numa tecla e as c�meras externas voltaram � vida, preenchendo as telas com formas cinzentas e vagas, at� ele ligar o infravermelho. Tom empertigou-se devagar, verificando as imagens, testando as luzes, certificando-se de que tudo estava funcionando. Fu�ou numa caixa de fitas cassete at� encontrar Bruce Springsteen. <emphasis>Um cara bacana de Jersey</emphasis>, Tom pensou. Enfiou a fita no toca-fitas e Bruce lan�ou direto �Glory Days�. Isso fez com que ele abrisse um sorriso superficial, dif�cil.</p><p>Tom inclinou-se para a frente e acionou uma alavanca. De algum lugar l� fora veio um zumbido. Pelo som, aquele mecanismo de abertura de garagem precisaria ser trocado logo. Nas telas, viu a luz entrar no bunker de cima. Uma cascata de neve e gelo caiu no ch�o de terra. Ele for�ou com a mente; e a carapa�a blindada se ergueu, e come�ou a flutuar na dire��o da luz. Ent�o, Barbara Casko estava se casando com aquele babaca do Steve Bruder, e o que lhe importava? O Grande e Poderoso Tartaruga estava saindo para acabar com algum monstrengo.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Uma coisa que Tom Tudbury havia descoberto havia muito tempo era que a vida n�o dava muitas segundas chances. Ele era sortudo. Teve uma segunda chance com Barbara Casko.</p><p>Aconteceu em 1972, uma d�cada depois de t�-la visto pela �ltima vez. A loja ainda chamava Broadway Television and Eletronics na �poca, e Tom era assistente de gerente. Estava atr�s da caixa registradora, de costas para o balc�o, enquanto arrumava algumas prateleiras, quando uma voz feminina disse:</p><p>� Com licen�a.</p><p>� Sim � ele falou, virando-se e encarando a mulher.</p><p>Seu cabelo loiro-escuro estava muito mais longo, chegando � metade das costas, e estava usando �culos espelhados de arma��es pl�sticas superfaturadas, mas atr�s das lentes os olhos eram daquele azul. Vestia um su�ter Fair Isle e cal�as jeans desbotadas, e alguma coisa na sua figura estava ainda melhor aos 27 do que era aos 17. Ele olhou para a m�o dela e tudo que viu foi um anel de faculdade.</p><p>� Barbara � disse ele.</p><p>Ela olhou, surpresa.</p><p>� O senhor me conhece?</p><p>Tom apontou para o b�ton de McGovern no su�ter dela.</p><p>� Voc� me nomeou presidente, h� muitos anos � ele falou.</p><p>� Eu n�o � ela come�ou, com um franzir perplexo no rosto, ainda aquele rosto mais lindo que sempre sorria para Tom Tudbury em toda a sua vida.</p><p>� Eu costumava usar corte escovinha � disse ele. � E uma jaqueta de veludo aberta. Preta. � Ele tocou seus �culos de aviador. � Essas eram arma��es de tartaruga da �ltima vez que voc� me viu. Eu pesava quase o mesmo, mas era uns cent�metros menor. E estava t�o a fim de voc� que voc� mal poderia acreditar.</p><p>Barbara Casko sorriu. Por um momento, pensou que ela estava blefando. Mas os olhos dela encontraram-se com os dele, e ele soube.</p><p>� Como vai voc�, Tom? Faz tempo, hein?</p><p><emphasis>Muito tempo</emphasis>, ele pensou. Ah, sim. Outra era.</p><p>� Estou bem � disse ele. Ao menos, era uma meia verdade. Era o fim da d�cada mais emocionante do Tartaruga. A vida de Tom estava rapidamente se perdendo � saiu da faculdade ap�s JFK ter sido baleado, e desde ent�o vivia em um apartamento ruim num por�o da 31st Street. Na verdade, nem se importava. Tom Tudbury e seu emprego est�pido eram secund�rios na sua vida <emphasis>real</emphasis>; eram o pre�o que pagava por aquelas noites e fins de semana na carapa�a. No col�gio, foi um gorducho introvertido com cabelo escovinha, todo inseguro, e com um poder secreto que apenas Joey conhecia. E agora era o Grande e Poderoso Tartaruga. Her�i misterioso, celebridade, �s dos ases, e toda essa merda.</p><p>Claro que n�o poderia contar nada disso a ela.</p><p>Contudo, de alguma forma, isso nem importava. Apenas o fato de ser o Tartaruga mudou Tom Tudbury, lhe dera mais confian�a. Por dez anos, teve fantasias e sonhos er�ticos com Barbara Casko, arrependeu-se de sua covardia, se perguntou sobre a estrada que n�o tomou e o baile ao qual nunca foi. Uma d�cada depois, Tom Tudbury finalmente abriu o jogo.</p><p>� Voc� est� magn�fica � disse ele com toda a sinceridade. � Saio �s cinco. Quer jantar comigo?</p><p>� Claro � disse ela. Ent�o, riu. � Eu me perguntava quanto demoraria para me chamar para sair. Nunca pensei que seriam dez anos. Acho que voc� acabou de bater um novo recorde escolar.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Monstros eram como policiais, Tom concluiu; nunca estavam por perto quando realmente precisava deles.</p><p>Em dezembro, a hist�ria foi outra. Lembrou a primeira vis�o deles, lembrou que viagem longa e surreal pela rodovia de Jersey em dire��o � Filad�lfia. Atr�s dele havia uma coluna blindada; � frente, a rodovia estava deserta. Nada se movia, al�m de alguns jornais flutuando pelas pistas vazias. Nos dois lados da estrada, os aterros de lixo t�xico e as usinas petroqu�micas se espalhavam como tantas cidades-fantasma. Aqui e ali, encontravam alguns refugiados exaustos escapando do Enxame, mas era isso. <emphasis>Como num filme</emphasis>, Tom pensou. N�o acreditava naquilo.</p><p>At� entrarem em contato.</p><p>Um arrepio subiu pela sua espinha quando o androide arremeteu de volta para a coluna com a not�cia de que o inimigo estava pr�ximo e seguindo para Filad�lfia.</p><p>� � isso � Tom disse para Peregrina, que pegara uma carona na carapa�a para descansar as asas.</p><p>Ele demorou demais para encontrar uma fita � <emphasis>Creedence Gold</emphasis> � e a deslizou no toca-fitas antes de os brotos surgirem no horizonte como uma onda preta. Os voadores enchiam o ar na dist�ncia que as c�meras podiam captar, uma nuvem m�vel de escurid�o como uma imensa tempestade se aproximando. Ele se lembrou do tornado de <emphasis>O m�gico de Oz</emphasis>, e como isso o deixou assustado na primeira vez que viu o filme.</p><p>Embaixo daquelas asas pretas, outros brotos se moviam � rastejando em barrigas segmentadas, caminhando sobre pernas de aranha de um metro, vazando pela estrada como <emphasis>A bolha assassina</emphasis>, e nada de Steve McQueen por aquelas bandas. Cobriam a estrada de lado a lado e transbordavam pelas beiradas, e moviam-se mais r�pido do que ele conseguia imaginar.</p><p>Peregrina al�ou voo. O androide j� mergulhava na dire��o do inimigo, e Tom viu Mistral chegando, de baixo para cima, um relampejar azul entre as nuvens frias e finas. Engoliu em seco e colocou os alto-falantes no �ltimo volume; �Bad Moon Rising� retumbava no c�u escuro. Ele se lembrou de pensar que a vida nunca seria a mesma. Quase quis acreditar naquilo. Talvez o novo mundo fosse melhor que o antigo.</p><p>Por�m, era dezembro, e aquilo havia acontecido em mar�o, e a vida era muito mais resiliente do que podia reconhecer. Como pombos-passageiros, os brotos amea�aram escurecer o sol, e como os pombos-passageiros, desapareceram quase que imediatamente. Ap�s aquele momento inesquec�vel, mesmo a guerra dos mundos havia se transformado em apenas outra tarefa. Era mais pesquisa do que combate, como matar baratas especialmente grandes e feias. Garras, pin�as e unhas venenosas eram in�teis contra sua armadura; o �cido secretado pelos voadores ferraram bem suas lentes, mas aquilo era mais um inc�modo do que um perigo. Ele se pegou tentando pensar em maneiras novas e imaginativas de matar aquelas coisas para aliviar o t�dio. Voava com eles at� bem alto no c�u, cortava-os ao meio, agarrava-os em punhos invis�veis e os esmagava como guacamole. Dia ap�s dia, de novo e novamente, sem fim, at� pararem de chegar.</p><p>E, depois disso, de volta para casa, ficou surpreso com a rapidez na qual a Guerra do Enxame desapareceu das manchetes, e como a vida voltou t�o facilmente ao curso normal. No Peru, em Chade e nas montanhas do Tibete, as principais infesta��es alien�genas continuavam sua devasta��o, e remanescentes menores ainda causavam problemas aos turcos e nigerianos, mas os enxames do Terceiro Mundo eram apenas conte�do da p�gina quatro na maioria dos jornais norte-americanos. Enquanto isso, a vida continuava. As pessoas faziam pagamentos de hipoteca e trabalhavam; aqueles cujas casas e trabalhos haviam sido destru�dos, preenchiam devidamente os pedidos de pagamento de seguro e se inscreviam no seguro-desemprego. As pessoas reclamavam do tempo, contavam piadas, iam ao cinema, brigavam sobre os esportes.</p><p>As pessoas faziam planos de casamento.</p><p>Os brotos n�o tinham sido <emphasis>completamente</emphasis> exterminados, � claro. Alguns monstros remanescentes espreitavam aqui e ali, em lugares distantes e em alguns nem t�o distantes. Tom ansiava encontrar um hoje. Podia ser at� um pequeno � voador, rastejador, n�o importava para ele. Teria ficado contente com criminosos comuns, um inc�ndio, um acidente de carro, qualquer coisa que tirasse Barbara de sua cabe�a.</p><p>Nada para fazer. Era um dia cinzento, frio, deprimente, <emphasis>est�pido</emphasis>, mesmo no Bairro dos Curingas. Seu r�dio de monitoramento da pol�cia n�o relatava nada al�m de alguns problemas dom�sticos, e tinha a regra de nunca se envolver neles. Com o passar dos anos ele descobriu que mesmo a mulher mais maltratada tende a ficar de alguma forma horrorizada quando uma carapa�a do tamanho de um autom�vel Lincoln Continental atravessa a parede do quarto e diz ao seu marido para tirar as m�os dela.</p><p>Ele cruzou toda a extens�o da Bowery, flutuando no n�vel dos telhados, a carapa�a lan�ando uma longa sombra preta que mantinha o ritmo com ela nas cal�adas abaixo. O tr�fego passava por baixo dele sem nem desacelerar. Todas as c�meras rastreavam, dando-lhe visualiza��es de mais �ngulos do que poderia precisar. Tom olhava incansavelmente tela por tela, observando os transeuntes. Eles mal o notavam. Uma olhada r�pida para cima quando a carapa�a pairava pela sua vis�o perif�rica, um lampejo de reconhecimento, e ent�o voltavam a cuidar da vida, entediados. <emphasis>� s� o Tartaruga</emphasis>, ele os imaginou dizendo. Not�cia antiga. Os dias de gl�ria se extinguiram.</p><p>Vinte anos antes as coisas eram diferentes. Foi o primeiro �s a vir a p�blico ap�s uma longa d�cada de oculta��o, e tudo que fazia ou dizia era celebrado. Os jornais ficavam cheios com suas fa�anhas, e quando o Tartaruga sobrevoava, as crian�as gritavam e apontavam, e todos os olhos se voltavam para sua dire��o. Multid�es vibravam intensamente com fogos de artif�cio, desfiles e assembleias p�blicas. No Bairro dos Curingas, os homens tiravam suas m�scaras para ele, e as mulheres lhe mandavam beijinhos quando passava. Era o pr�prio her�i do Bairro dos Curingas. Como ele se escondia numa carapa�a blindada e nunca mostrava o rosto, muitos dos curingas supunham que ele fosse um deles, e o amavam por isso. Era um amor baseado na mentira, ou ao menos na incompreens�o, e �s vezes se sentia culpado por causa disso, mas, naqueles dias, os curingas precisavam desesperadamente de um dos seus para aplaudir; assim, ele deixou que os rumores continuassem. Nunca se esquivou para dizer ao p�blico que na verdade era um �s; em algum momento, nem conseguia mais lembrar quando, o mundo parou de se importar com quem ou o que poderia estar dentro da carapa�a do Tartaruga.</p><p>Naqueles dias, havia setenta ou oitenta ases apenas em Nova York, talvez at� uma centena, e ele era apenas o mesmo velho Tartaruga. Agora, o Bairro dos Curingas tinha seus verdadeiros her�is curingas: Estranheza, Troll, Quasiman, as Irm�s Bizarras, al�m de ases-curingas que n�o tinham medo de mostrar o rosto para o mundo. Por anos, sentiu-se mal por aceitar a adula��o dos curingas sob falsas premissas, mas assim que isso acabou descobriu que sentia falta dela.</p><p>Passando pelo Sara Roosevelt Park, Tom percebeu um curinga com cabe�a de bode agachado na base do monumento abstrato de ferro vermelho em homenagem �queles que morreram na Grande Revolta do Bairro dos Curingas, em 1976. O homem olhou para a carapa�a com aparente fascina��o. No fim das contas, talvez ele n�o estivesse totalmente esquecido, Tom pensou. Deu um zoom para olhar melhor seu f�. Foi quando percebeu o grosso cord�o de muco verde e �mido pendurado do canto da boca do homem-cabra, e o vazio naqueles m�nimos olhos pretos. Um sorriso triste espalhou-se pela boca de Tom. Ele ligou o microfone.</p><p>� Ei, rapaz � anunciou nos alto-falantes. � Tudo bem com voc� a� embaixo? � O homem-cabra mexia a boca, silenciosamente.</p><p>Tom suspirou. Alcan�ou o curinga com a mente e o ergueu no ar. O homem-cabra nem mesmo lutou. Apenas olhava � dist�ncia, vendo sabe-se l� Deus o que, enquanto a baba lhe corria da boca. Tom o segurou num ponto sob a carapa�a e partiu na dire��o da South Street.</p><p>Pousou o homem-cabra delicadamente entre os deteriorados le�es de pedra que guardavam os degraus da cl�nica do Bairro dos Curingas e aumentou o volume dos alto-falantes.</p><p>� Tachyon � disse ao microfone, e �TACHYON� retumbou pela rua, sacudindo janelas e assustando motoristas na avenida Franklin D. Roosevelt. Uma enfermeira de olhar penetrante apareceu na porta da frente e o encarou com raiva.</p><p>� Trouxe um pra voc�s � Tom disse, num volume mais ameno.</p><p>� Quem � ele? � ela perguntou.</p><p>� Presidente do F�-Clube do Tartaruga � Tom falou. � Como posso saber quem ele �? Mas precisa de ajuda. Olhe para ele.</p><p>A enfermeira lan�ou um olhar superficial para o curinga, ent�o chamou dois assistentes que ajudaram o homem a entrar.</p><p>� Onde est� Tachyon? � Tom perguntou.</p><p>� Almo�ando � respondeu a enfermeira. � Deve voltar �s 13h30. Provavelmente est� no Hairy�s.</p><p>� Deixa pra l� � Tom disse. Deu impulso e a carapa�a ergueu-se na dire��o do c�u. A via expressa, o rio, os telhados do Bairro dos Curingas diminu�am embaixo dele.</p><p>Engra�ado, mas quanto mais alto estivesse, mais bela parecia Manhattan. Os magn�ficos arcos de pedra da ponte do Brooklyn, as alamedas retorcidas de Wall Street, a Senhora Liberdade na ilha, os navios no rio e as balsas na ba�a, as torres altivas do edif�cio da Chrysler e do Empire State, a vastid�o verde e branca do Central Park; das alturas, o Tartaruga inspecionava tudo. O padr�o intrincado do tr�fego fluindo pelas ruas da cidade era quase hipn�tico, se voc� olhasse por bastante tempo. Olhando para baixo do c�u frio invernal, Nova York era linda e incr�vel, como nenhuma outra cidade no mundo. Apenas quando se descia entre aqueles c�nions de concreto era poss�vel ver a sujeira, sentir o cheiro do lixo podre em milh�es de latas amassadas, ouvir os xingamentos e os gritos, e sentir a profundidade do medo e da desgra�a.</p><p>Ele pairava bem alto sobre a cidade, um vento frio gemendo em torno da carapa�a. O r�dio da pol�cia chiava trivialidades. Tom ligou a frequ�ncia da Marinha, pensando que talvez pudesse encontrar um barquinho em perigo. Uma vez, salvou seis pessoas de um iate que havia emborcado numa borrasca de ver�o. Mais tarde, o grato propriet�rio entregou-lhe uma recompensa gigantesca. O cara era esperto tamb�m: pagou em dinheiro, pequenas notas gastas, nada maior do que vinte d�lares. Seis malditas maletas. Os her�is que Tom lia quando crian�a sempre recusavam os pr�mios, mas nenhum deles vivia num apartamento pequeno ou dirigia um Plymouth com oito anos de uso. Tom pegou o dinheiro, aliviou a consci�ncia dando uma maleta para a cl�nica, e usou as outras cinco para comprar sua casa. N�o havia como conseguir comprar uma casa pr�pria com o sal�rio de Tom Tudbury. �s vezes, preocupava-se com as auditorias da receita federal, mas at� agora isso n�o havia acontecido.</p><p>Seu rel�gio mostrava 13h03. Hora do almo�o. Abriu o pequeno refrigerador no assoalho, onde havia deixado uma ma��, um sandu�che de presunto e um engradado com seis latas de cerveja.</p><p>Quando acabou de almo�ar, eram 13h17. Menos de 45 minutos, ele pensou, e lembrou-se daquele filme do velho Cagney sobre George M. Cohan e da m�sica �Forty-Five Minutes From Broadway�. Naquele momento, um �nibus saindo da rodovi�ria de Port Authority levaria 45 minutos para chegar a Bayonne, mas era mais r�pido pelo ar. Dez minutos, 15 no m�ximo, e ele poderia voltar.</p><p>Mas para qu�?</p><p>Ele desligou o r�dio, enfiou de novo o Springsteen no toca-fitas e rebobinou at� encontrar �Glory Days� novamente.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Na segunda vez, as coisas foram muito melhores.</p><p>Ap�s a gradua��o, ela foi para Rutger, Barbara disse a ele naquela primeira noite, em meio a sandu�ches de steak e canecas de cerveja no Hendrickson�s. Ela recebeu o diploma de professora, passou dois anos na Calif�rnia com um namorado e voltou para Bayonne quando terminaram. Estava dando aulas l� agora, jardim de inf�ncia, e na antiga escola prim�ria de Tom, por ironia do destino.</p><p>� Eu amo � disse ela. � As crian�as s�o fant�sticas. Cinco anos � uma idade m�gica.</p><p>Tom a deixou falar sobre a vida por um longo tempo, feliz apenas por estar ali sentado com ela, ouvindo sua voz. Gostava do jeito como os olhos dela reluziam quando falava das crian�as. Quando finalmente ela cansou, ele fez aquela pergunta que o incomodara todos aqueles anos.</p><p>� Steve Bruder chamou voc� para o nosso baile?</p><p>Ela fez uma careta.</p><p>� N�o, aquele filho da puta. Foi com Betty Moroski. Chorei por uma semana.</p><p>� Ele era um idiota. Meu Deus, ela n�o chegava aos seus p�s.</p><p>� N�o � Barbara contestou, com um retorcer ir�nico na boca �, mas j� transava, e eu n�o. Esque�a isso. E voc�? O que voc� tem feito nos �ltimos dez anos?</p><p>Seria infinitamente mais interessante se tivesse dito a ela sobre o Tartaruga, sobre a vida nos c�us frios e nas ruas malvadas, sobre os apuros, os bons tempos e as manchetes. Poderia ter se vangloriado de ter capturado o Grande Gorila durante o grande blecaute de 1965, poderia ter dito a ela como salvou a vida e a sanidade do Dr. Tachyon, poderia ter, como quem n�o quer nada, mencionado nomes dos famosos e infames, ases e curingas, e celebridades de todos os n�veis. Mas tudo aquilo era parte de outra vida e pertencia a um �s que vinha enlatado numa carapa�a de ferro. A �nica coisa que tinha para oferecer a ela era Thomas Tudbury. Enquanto falava sobre si, percebeu pela primeira vez como sua vida �real� era verdadeiramente vazia e triste.</p><p>Ainda assim, parecia ser o suficiente.</p><p>Aquele primeiro encontro levou a um segundo, o segundo a um terceiro, e logo se encontravam regularmente. N�o era o namoro mais empolgante do mundo. Durante a semana, iam aos cinemas locais, no DeWitt ou no Lyceum; �s vezes, apenas assistiam � televis�o juntos e se revezavam na prepara��o do jantar. Aos fins de semana, iam para Nova York; pe�as da Broadway quando podiam pagar por elas, jantares tardios em Chinatown e Little Italy. Quanto mais ficava com ela, mais achava imposs�vel estar sem ela.</p><p>Os dois gostavam de vinho tinto, pizza e rock and roll. Ela havia participado de passeatas em Washington um ano antes para tirar as tropas do Vietn�, e ele esteve l� tamb�m (dentro de sua carapa�a, flutuando sobre a alameda com s�mbolos de paz na sua armadura e uma linda loira de busti� e jeans sentada sobre a carapa�a, cantando as can��es antiguerra que retumbavam dos alto-falantes, mas n�o podia contar a ela aquela parte). Ela amou Gina e Joey, e os pais dela pareciam aprov�-lo. Ela era torcedora de beisebol, levada a abominar os Yankees e a amar os Brooklyn Dodgers, como ele. Quando chegou outubro, ela se sentou ao lado dele nas arquibancadas do Ebbetts Field, quando Tom Seaver arremessou os Dodgers para a vit�ria sobre o Oakland A�s, no 17o e decisivo jogo da s�rie. Um m�s depois, ele estava l� para compartilhar sua ang�stia na derrota esmagadora de McGovern. Eles tinham tanto em comum.</p><p>Ele apenas n�o percebera <emphasis>quanto</emphasis> at� a semana depois do dia de A��o de Gra�as, quando ela chegou ao apartamento dele para o jantar. Ele foi para a cozinha, abriu o vinho e verificou o molho do espaguete, e quando voltou a encontrou em p� na frente de sua estante de livros, folheando uma edi��o em brochura de <emphasis>O dia da carta selvagem</emphasis>, de Jim Bishop.</p><p>� Voc� deve ter interesse nessa coisa � disse ela, erguendo a cabe�a na dire��o dos livros. A cole��o sobre o carta selvagem tomava quase tr�s prateleiras. Ele tinha tudo: todas as biografias do Jetboy, a cole��o de discursos de Earl Sanderson e as mem�rias de Archibald Holmes, o <emphasis>Wild Card Chic</emphasis>, de Tom Wolfe, a autobiografia de Ciclone escrita por Robin Moore, o <emphasis>Information Please Almanac of Aces</emphasis>, e muito mais. Inclusive, claro, tudo que havia sido publicado sobre o Tartaruga.</p><p>� Sim � ele comentou �, isso, hum, sempre me interessou. Essas pessoas. Eu amaria conhecer um carta selvagem.</p><p>� Voc� conhece � disse ela, sorrindo, devolvendo o livro para a estante ao lado do <emphasis>Homem invis�vel</emphasis>, de Ralph Ellison.</p><p>� Conhe�o? � Ele estava confuso e um pouco surpreso. Ele teria se denunciado de alguma forma? Joey contou para ela? � Quem?</p><p>� Eu � Barbara disse. Ele deve ter olhado com incredulidade. � N�o, � s�rio � disse ela. � Eu sei, n�o parece. N�o sou um �s nem nada disso. Ele n�o <emphasis>fez</emphasis> nada comigo, ao menos ningu�m pode dizer. Mas eu peguei. Tinha apenas dois anos, ent�o n�o me lembro de nada. Minha m�e disse que eu quase morri. Os sintomas� eu devo ter ficado com uma apar�ncia inacredit�vel. Nosso m�dico primeiro pensou que fosse caxumba, mas meu rosto n�o parava de inchar, at� ficar parecendo uma bola de basquete. Ent�o, eles me transferiram pro Hospital Mt. Sinai. Era l� que o Dr. Tachyon trabalhava na �poca.</p><p>� Sei � Tom disse.</p><p>� Bem, eu me recuperei. O incha�o durou apenas alguns dias, mas ele me reteve l� por um m�s, fazendo exames. Era mesmo o carta selvagem, mas poderia ter sido tamb�m catapora, por tudo que causou. � Ela riu. � Ainda assim, era nosso segredo de fam�lia profundo, obscuro. Papai saiu do emprego e n�s nos mudamos para Bayonne, onde ningu�m nos conhecia. As pessoas suspeitavam dos cartas selvagens naquela �poca. Eu mesma soube apenas quando entrei na faculdade. Mam�e teve medo que eu contasse.</p><p>� Voc� contou?</p><p>� N�o � Barbara falou. Parecia estranhamente s�ria. � Para ningu�m. At� esta noite, pelo menos.</p><p>� Ent�o, por que voc� me contou? � Tom perguntou.</p><p>� Porque eu confio em voc� � disse ela, num sussurro.</p><p>Ele quase contou para ela, ali, na sala de estar. Ele quis. Mais tarde, sempre que pensava sobre aquela noite, flagrava-se desejando ter contado, e se perguntava o que teria acontecido.</p><p>Mas, quando abriu a boca para dizer as palavras, para lhe falar sobre a telecinesia e o Tartaruga e os segredos do ferro-velho, foi como se os anos tivessem voltado e ele estivesse novamente no col�gio, em p� ao lado dela naquele corredor, querendo desesperadamente cham�-la para ir ao baile e, de alguma forma, incapaz de faz�-lo. Ele guardou seus segredos por tanto tempo. As palavras n�o vieram. Tentou, por um bom tempo ele tentou. Ent�o, vencido, ele a abra�ou e murmurou:</p><p>� Fico feliz que voc� tenha me dito. � E se retirou para a cozinha a fim de se recompor. Ele olhou para o molho do espaguete quase fervendo no fog�o, e de repente esticou o bra�o e desligou o fogo.</p><p>� Pegue seu casaco � disse ele quando voltou at� ela. � Os planos mudaram. Vou te levar para jantar fora.</p><p>� Fora? Onde?</p><p>� Aces High � disse ele enquanto pegava o telefone para fazer a reserva. � Vamos ver aqueles cartas selvagens hoje � noite.</p><p>Eles jantaram entre ases e estrelas. Custou a ele duas semanas de sal�rio, mas valeu a pena, mesmo que o <emphasis>ma�tre</emphasis> tenha olhado para seu terno de veludo cotel� e os levado para uma mesa no fundo, ao lado da cozinha. A comida foi quase t�o extraordin�ria quanto a luz nos olhos de Barbara. Estavam se deliciando com a entrada quando Dr. Tachyon entrou, vestindo um smoking de veludilho e acompanhado pela Liza Minelli. Tom foi at� a mesa deles e pegou o aut�grafo de ambos num guardanapo de coquetel.</p><p>Naquela noite, Barbara e ele fizeram amor pela primeira vez. Depois, enquanto ela dormia com o corpo encolhido encostado no dele, Tom se deu conta do calor dela, sonhando com os anos vindouros, e se perguntando por que diabos ele demorou tanto.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Ele estava dando uma volta sobre o lago do Central Park, ouvindo Bruce e comendo um pacote de Doritos sabor queijo nacho, quando percebeu que estava sendo seguido por um pterod�tilo.</p><p>Atrav�s de uma lente telesc�pica, Tom observou-o circulando sobre ele, flutuando com o vento numa envergadura de quase dois metros de couro. Franzindo a testa, parou a fita e falou no alto-falante.</p><p>� EI! � ele reverberou no ar invernal. � N�O T� FRIO A�? VOC� � UM R�PTIL, VAI CONGELAR A BUNDA ESCAMOSA.</p><p>O pterod�tilo respondeu com um grito alto, fino, fez uma volta grande e aproximou-se para pousar sobre a carapa�a, batendo as asas com for�a ao descer para evitar escorregar pelas beiradas. Suas garras riscaram o metal e encontraram apoio nas ranhuras entre as placas da armadura.</p><p>Suspirando, Tom observou numa das grandes telas quando o pterod�tilo estremeceu, fluiu e transformou-se no Kid Dinossauro.</p><p>� Tamb�m deve estar frio pra voc� � o garoto disse.</p><p>� Eu tenho aquecedores aqui dentro � Tom disse. O garoto j� estava ficando azulado, o que n�o era surpreendente, visto que estava nu. N�o parecia muito est�vel ali tamb�m. O topo da carapa�a era bem amplo, mas tinha mesmo uma inclina��o pronunciada, e dedos humanos n�o conseguiam agarrar nas fendas entre as placas t�o bem quanto as garras do pterod�tilo. Tom come�ou a pairar para descer.</p><p>� Seria muito bem feito para voc� se eu desse um loop e te jogasse direto no lago.</p><p>� � s� me transformar de novo e voar � o Kid Dinossauro disse. Ele tremia. � Est� frio. Eu n�o tinha percebido. � Na sua forma humana, o �nico �s pirralho de Nova York era um adolescente desajeitado de 13 anos com uma pequena marca de nascen�a na testa. Era bobo e atrapalhado, com cabelos desgrenhados que ca�am sobre os olhos. O olhar implac�vel das c�meras mostrava os cravos no nariz com detalhes agonizantes. Tinha uma espinha enorme na covinha do queixo. E n�o era circuncidado, Tom percebeu.</p><p>� Caramba, onde est�o suas roupas? � Tom perguntou. � Se eu te deixar no parque, voc� vai ser preso por atentado ao pudor.</p><p>� Eles n�o ousariam � Kid Dinossauro disse com a certeza excessiva da adolesc�ncia. � Que est� acontecendo? T� numa aventura? Posso ajudar.</p><p>� Voc� est� lendo muitos livros estranhos � Tom lhe disse. � Fiquei sabendo o que houve da �ltima vez que voc� ajudou algu�m.</p><p>� Hum, eles costuraram as m�os dele de volta, e Tacky disse que ficaria tudo bem. Como eu poderia saber que o cara era um policial disfar�ado? Eu n�o morderia se soubesse disso.</p><p>Aquilo n�o era nem um pouco engra�ado, mas Tom sorriu. Kid Dinossauro lhe trazia recorda��es de si mesmo. Ele lera um monte de livros estranhos tamb�m.</p><p>� Garoto � disse ele �, voc� n�o fica o tempo todo correndo por a� pelado, se transformando em dinossauros, n�o �? Voc� tem outra vida?</p><p>� N�o vou te dizer minha identidade secreta � Kid Dinossauro disse, rapidamente.</p><p>� T� com medo que eu diga pros seus pais? � Tom quis saber.</p><p>O rosto do garoto enrubesceu. O resto do corpo estava mais azul do que nunca.</p><p>� N�o tenho medo de nada, seu velho cag�o � disse ele.</p><p>� Pois deveria � Tom falou. � De mim, para come�ar. Sim, eu sei, voc� pode se transformar num tiranossauro de um metro e enfiar os dentes na minha armadura. Tudo que eu posso fazer � esmagar cada osso do seu corpo em 12 ou 13 pontos diferentes. Ou entrar em voc� e esmagar seu cora��o at� ele virar mingau.</p><p>� Voc� n�o faria isso.</p><p>� N�o � Tom admitiu �, mas algumas pessoas fariam. Voc� t� metendo os p�s pelas m�os, seu merdinha. Droga, n�o me importo em que tipo de dinossauro de brinquedo voc� pode se transformar, uma <emphasis>bala</emphasis> ainda pode te matar.</p><p>Kid Dinossauro parecia chateado.</p><p>� Vai se foder � disse ele. A maneira enf�tica com a qual disse aquilo deixou claro que n�o usava aquele tipo de palavreado em casa.</p><p><emphasis>N�o t� indo bem</emphasis>, Tom pensou.</p><p>� Olha s� � disse ele num tom reconciliador �, s� queria te contar algumas coisas que aprendi do jeito mais dif�cil. Voc� n�o quer ser pego tamb�m. � �timo que voc� seja o Kid Dinossauro, mas voc� tamb�m �, hum, seja l� quem voc� for. N�o se esque�a disso. Em que s�rie voc� est�?</p><p>O garoto murmurou.</p><p>� Que h� com todos voc�s? Se vai come�ar a falar de �lgebra, pode esquecer!</p><p>� �lgebra? � Tom falou, confuso. � N�o disse nada sobre �lgebra. Suas aulas s�o importantes, mas n�o � nada disso. Fa�a amigos, caramba, marque encontros, n�o deixe de ir ao baile de formatura. Ser capaz de se transformar num brontossauro do tamanho de um dobermann n�o vai fazer voc� ganhar pr�mios na vida, entende?</p><p>Ele pousou com um estampido suave na grama coberta de neve na campina. Ali perto, um vendedor de pretzel com protetor de orelhas e sobretudo estava observando, perplexo, a carapa�a blindada e o garoto tr�mulo sobre ela.</p><p>� Voc� ouviu o que eu disse? � Tom perguntou.</p><p>� Sim. Voc� parece meu pai falando. Voc�s, velhos cag�es, pensam que sabem tudo.</p><p>Sua risada alta e nervosa se transformou num longo chiado de r�ptil quando os m�sculos e ossos se transformaram e mudaram, e sua pele macia engrossou e ficou escamada. Com muita delicadeza, o pequeno triceratope depositou um protocopr�lito no topo da carapa�a, desceu rapidamente, e caminhou bamboleando atrav�s da campina com os chifres balan�ando de forma arrogante no ar.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Aquele foi o melhor ano na vida de Thomas Tudbury.</p><p>Mas n�o para o Grande e Poderoso Tartaruga.</p><p>Nas revistas em quadrinhos, os her�is pareciam nunca precisar <emphasis>dormir</emphasis>. As coisas n�o eram t�o simples na vida real. Com um emprego em tempo integral das 9h00 �s 17h00 para mant�-lo ocupado, Tom fez quase todas as tartaruguices � noite e no fim de semana, mas naquele momento Barbara estava preenchendo aquele tempo. Enquanto a vida social tomava cada vez mais seu tempo, sua carreira de �s sofria proporcionalmente, e a carapa�a de a�o era cada vez menos vista pairando sobre as ruas de Manhattan.</p><p>Finalmente, raiou um dia no qual Thomas Tudbury percebeu, com certo choque, que havia passado quase tr�s meses e meio desde a �ltima vez que fora ao ferro-velho e �s suas carapa�as. O estopim dessa percep��o foi uma pequena hist�ria na p�gina 24 do <emphasis>New York Times</emphasis>, com a seguinte manchete: TARTARUGA DESAPARECIDO, TEME-SE SUA MORTE. A hist�ria mencionava que d�zias de chamados pelo Tartaruga n�o tinham sido atendidos nos �ltimos meses (havia desligado o radioamador desde sabe-se l� Deus quando), e que o Dr. Tachyon estava especialmente preocupado, ao ponto de ter colocado an�ncios nos jornais e oferecido uma pequena recompensa para quem trouxesse not�cias de qualquer apari��o do Tartaruga (Tom nunca lia os classificados, e naqueles dias ele mal lia os jornais).</p><p><emphasis>Deveria entrar em sua carapa�a e dar um al� na cl�nica</emphasis>, pensou quando leu aquilo. Mas n�o havia tempo. Tinha prometido ajudar Barbara a dar uma aula numa pequena excurs�o escolar at� a Bear Mountain, e partiriam em duas horas. Em vez disso, foi at� uma cabine telef�nica e ligou para a cl�nica.</p><p>� Quem �? � Tachyon perguntou com irrita��o quando Tom finalmente conseguiu falar com ele. � Estamos bem ocupados aqui e n�o posso perder tempo com pessoas que se recusam a dar seu nome.</p><p>� Aqui � o Tartaruga � Tom disse. � Quero que voc� saiba que estou bem.</p><p>Houve um momento de sil�ncio.</p><p>� O senhor n�o parece o Tartaruga � Tachyon disse.</p><p>� O sistema de som na carapa�a � projetado para disfar�ar minha voz. Claro que eu n�o falo como o Tartaruga. Mas sou o Tartaruga.</p><p>� Voc� ter� de me convencer disso.</p><p>Tom suspirou.</p><p>� Cara, voc� � um p� no saco. Mas eu devia esperar isso. Voc� choramingou para mim durante dez anos apenas porque quebrou o bra�o, e a culpa foi s� sua. Voc� n�o me disse que ia se esconder embaixo de uma empilhadeira, cacete. N�o sou telepata como algumas pessoas que eu poderia mencionar.</p><p>� Eu tamb�m n�o mandei que voc� derrubasse metade do armaz�m � Tachyon disse. � Voc� teve sorte de eu n�o ter sido esmagado at� a morte. Um homem com poderes como os seus deveria� � Ele fez uma pausa. � Voc� <emphasis>�</emphasis> o Tartaruga.</p><p>� N�? � Tom disse.</p><p>� O que voc� tem feito da vida?</p><p>� Sendo feliz. N�o se preocupe, voltarei de vez em quando. Mas n�o com tanta frequ�ncia quanto antes. Estou bem ocupado. Acho que vou me casar. Assim que reunir coragem para pedi-la em casamento.</p><p>� Parab�ns � Tachyon disse. Ele parecia contente. � Quem � a noiva sortuda?</p><p>� Ah, isso seria revelador. Mas voc� a conhece. Uma de suas pacientes l� do in�cio. Ela teve um epis�dio de carta selvagem quando estava com dois anos. Nada s�rio. Ela � completamente normal hoje. Eu te convidaria para o casamento, Tacky, mas seria como entregar o jogo, n�o seria? Talvez a gente batize um dos filhos com o seu nome.</p><p>Houve um momento longo e desconfort�vel de sil�ncio.</p><p>� Tartaruga � o alien�gena finalmente disse, numa voz de alguma forma fria �, precisamos conversar. Voc� teria um tempo para passar na cl�nica? Eu arrumo minha agenda para te receber.</p><p>� Estou terrivelmente ocupado � Tom falou.</p><p>� � importante � Tachyon insistiu.</p><p>� T�, tudo bem. Tarde da noite, ent�o. N�o hoje � noite, vou estar bem cansado. Amanh�, digo, depois do programa do Johnny Carson.</p><p>� Combinado � Tachyon falou. � Encontro voc� no telhado.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A essa altura, o casamento certamente j� havia acabado. Ao menos, ele poderia agradecer ao Kid Dinossauro por isso; o merdinha o distraiu durante a pior parte.</p><p>Sua carapa�a pairou lentamente pela Broadway na dire��o da Times Square, mas sua mente estava al�m da ba�a de Nova York, no Top Hat. A �ltima vez que estivera no Top Hat tinha sido para a recep��o ap�s o casamento de Joey e Gina. Ele fora o padrinho. Aquela noite foi boa. Conseguia se lembrar de tudo, tudo desde o papel de parede estampado at� o gosto do salsich�o defumado e o som da banda.</p><p>Barbara usaria o vestido de casamento da av�. Ela mostrou para ele uma vez, h� uma d�cada. Mesmo agora conseguia fechar os olhos e ver a express�o no rosto dela enquanto deslizava a m�o sobre a renda antiga.</p><p>Espontaneamente, a imagem dela entrou em sua mente. Barbara no vestido, seus cabelos loiros por tr�s do v�u, seu rosto erguido. �Eu aceito.�</p><p>E ao lado dela, Steve Bruder. Alto, moreno, bem esguio. No m�nimo, o filho da m�e estava mais bonito agora do que era no col�gio. Era um fan�tico por raquetebol, Tom sabia. Com um sorriso de menino e um bigode moderno de Tom Selleck. Ficaria maravilhoso no seu smoking. Juntos, formariam um casal explosivo.</p><p>E o filho deles seria um gal�.</p><p>Ele deveria ir. E da� se n�o respondera ao convite, ainda o deixariam entrar. Jogaria a carapa�a no ferro-velho, jogaria a carapa�a na merda do <emphasis>rio</emphasis>, n�o importava, pegaria seu carro e poderia estar l� bem r�pido. Dan�aria com a noiva, sorriria para ela, e desejaria felicidade, toda a felicidade do mundo. E cumprimentaria o noivo com um aperto de m�o. Um aperto na m�o de Bruder. Sim.</p><p>Bruder tinha um bom aperto de m�o. Estava no ramo imobili�rio agora, principalmente em Weehawken e Hoboken; comprou no passado e ficou perfeitamente posicionado quando todos os <emphasis>yuppies</emphasis> de Manhattan acordaram um dia e descobriram que Nova Jersey era bem depois do rio Hudson. Fez uma fortuna enorme, seria milion�rio aos 45. Ele mesmo dissera isso a Tom, naquela noite horr�vel, quando Barbara levou os dois para jantar. Bonito e confiante, com aquele sorriso elegante de garoto, e seria um milion�rio tamb�m, mas sua vida n�o era um mar de rosas, sua TV de tela grande estava dando alguns problemas, e talvez Tom pudesse dar uma olhada nela, hein? Em nome dos velhos tempos.</p><p>Na escola prim�ria, eles se cumprimentaram com um aperto de m�o uma vez, e Steve espremeu a m�o de Tom t�o forte que ele ficou de joelhos, chorando, incapaz de se soltar. Mesmo agora, o aperto de m�o sofisticado e adulto de Steve Bruder era muito mais firme do que precisava ser. Gostava de ver o outro cara se retorcendo.</p><p><emphasis>Eu gostaria que o Tartaruga apertasse a m�o desse bosta</emphasis>, Tom pensou com raiva. Agarrar a m�o com sua mente e lhe dar um apert�o pouco amig�vel, at� a m�o come�ar a se amassar e retorcer, at� aquela pele macia e bronzeada rasgar e os dedos se separarem como pequenos palitinhos vermelhos, ossos atravessando a carne. O Tartaruga poderia sacudir o bra�o do desgra�ado para cima e para baixo at� ele sair do ombro, e ent�o arrancaria os dedos um a um. <emphasis>Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me QUER.</emphasis></p><p>A garganta de Tom estava seca, e ele se sentiu enjoado e zonzo. Abriu o refrigerador e pegou uma cerveja. O gosto era bom. A carapa�a planava sobre o abandono da Times Square. Seus olhos passavam, incans�veis, de tela para tela. <emphasis>Peep shows</emphasis> e cinemas porn�, livrarias adultas, sexo ao vivo no palco, placas de neon que gritavam MULHERES, MULHERES, MULHERES NUAS e O SHOW MAIS QUENTE DA CIDADE e MODELOS ADOLESCENTES NUAS, garotos de programa com roupas de brim e chap�us de caub�i, cafet�es com grandes casacos de visom e navalhas no bolso, prostitutas insolentes com meia arrast�o e vestidos de couro com fendas. <emphasis>Ele poderia pegar uma puta</emphasis>, Tom pensou de repente. Literalmente. Ergu�-la a seis metros do ch�o, faz�-la mostrar o que estava vendendo, faz�-la tirar a roupa ali mesmo no meio da Times Square, dar aos turistas de merda um verdadeiro show. Ou arrancar a roupa <emphasis>dela</emphasis>, rasg�-la pedacinho por pedacinho e deix�-la flutuar at� o ch�o. Poderia fazer isso, claro. Deixe Bruder ter sua noite de n�pcias com Barbara, o Tartaruga podia ter uma noite de n�pcias pr�pria.</p><p>Ele deu mais um gole na cerveja.</p><p>Ou talvez devesse apenas limpar essa sujeira. Todo mundo sempre reclamando sobre como a Times Square tinha se transformado num antro, mas ningu�m fazia nada a respeito. Foda-se, ele faria isso por eles. Mostraria como limpar um bairro ruim, se era isso que queriam. Derrubar aquelas marquises uma a uma, enxotar aquelas malditas putas e cafet�es e garotos de programa para o rio, lan�ar alguns carros de cafet�o pelas janelas daqueles est�dios fotogr�ficos de terceiro andar com modelos adolescentes nuas, arrancar as malditas cal�adas se quisesse. J� era hora de algu�m fazer aquilo. Olhe para este lugar, apenas <emphasis>olhe</emphasis> para ele, e t�o perto de Port Authority, ent�o era a primeira coisa que uma crian�a veria ap�s sair do �nibus.</p><p>Tom esvaziou a cerveja. Atirou a lata no ch�o, girou e buscou outra, mas n�o restara nada no pacote al�m do suporte pl�stico.</p><p>� Merda � disse ele. De repente, ficou furioso. Ligou o microfone, aumentou o volume no m�ximo. � MERDA � gritou, e a voz do Tartaruga rebombou pela 42nd Street, distorcida e amplificada num rugido vermelho. As pessoas ficaram paralisadas na cal�ada, e os olhos ergueram-se na sua dire��o. Tom sorriu. Parecia que tinha atra�do a aten��o delas. � FODA-SE TUDO � disse ele. � FODAM-SE TODOS VOC�S.</p><p>Ele fez uma pausa e estava prestes a fazer um discurso, quando a voz de uma policial, chiando no seu r�dio de monitoramento, chamou sua aten��o. Estava repetindo o c�digo de policial em perigo, repetindo v�rias e v�rias vezes.</p><p>Tom deixou as pessoas espantadas, enquanto ouvia cuidadosamente os detalhes. Parte dele sentiu pena pelo pobre babaca que estava prestes a ter sua cabe�a entregue a ele.</p><p>Sua carapa�a subiu, bem acima das ruas e pr�dios, e saiu em disparada na dire��o do Village.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Pensei que voc� s� era lento � Barbara disse, enquanto ela se recompunha. � Sempre demorou para levar as coisas adiante. N�o entendo, Tom.</p><p>Ele n�o conseguia olhar nos olhos dela. Olhava em volta da sua sala de estar com as m�os nos bolsos. Sobre a mesa dela estava pendurado o diploma e o certificado de docente. Ao redor deles, fotos estavam arranjadas: Barbara fazendo careta enquanto trocava a fralda da sobrinha de quatro meses, Barbara e as tr�s irm�s, Barbara mostrando para a classe como recortar bruxas pretas e ab�boras de cartolina para o Dia das Bruxas, supervisionando seis presidentes dan�arinos para uma pe�a de escola, carregando um projetor para rodar desenhos animados. E lendo uma hist�ria. Esta era a foto favorita dele. Barbara com uma garotinha negra bem pequena no colo e outra d�zia de crian�as em torno dela, olhando para ela com rosto enlevado, enquanto lia alto <emphasis>O vento nos salgueiros</emphasis>. O pr�prio Tom tinha tirado aquela fotografia.</p><p>� N�o h� nada para entender � ele soltou, �spero, quando tirou os olhos das fotografias. � Acabou, � isso. Vamos terminar numa boa, tudo bem?</p><p>� Tem outra pessoa? � ela perguntou.</p><p>Poderia ter sido mais gentil mentir para ela, mas ele era um p�ssimo mentiroso.</p><p>� N�o � disse ele.</p><p>� Ent�o, por qu�?</p><p>Ela estava perplexa e magoada, mas seu rosto nunca ficou t�o amoroso, Tom pensou. Ele n�o conseguia encar�-la.</p><p>� � apenas melhor � disse ele, virando o rosto para a janela. � N�o queremos as mesmas coisas, Barbara. Voc� quer se casar, n�o �? Eu n�o. Esquece, n�o tem jeito. Voc� � maravilhosa, n�o � voc�, sou� merda, � que n�o est� funcionando. Crian�as, toda vez que eu olho tem uma multid�o de crian�as. Quantas suas irm�s t�m, tr�s? Quatro? Estou cansado de fingir. Odeio crian�as. � A voz dele aumentou. � Eu desprezo crian�as, entende?</p><p>� Voc� n�o pode estar falando s�rio, Tommy. Vi voc� com as crian�as na minha classe. Voc� as levou para casa e mostrou para elas sua cole��o de quadrinhos. Voc� ajudou Jenny a montar aquele modelo do avi�o do Jetboy. Voc� gosta de crian�as.</p><p>Tom riu.</p><p>� Ai, que bosta, como voc� � ing�nua! S� estava tentando impressionar voc�, queria mesmo era te comer. Eu n�o� � A voz dele se partiu. � Saco � disse ele. � Se gostasse tanto de crian�as, ent�o por que fiz uma vasectomia? Como, hein? Diga!</p><p>Quando ele se virou, o rosto dela estava vermelho como se a tivesse estapeado.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O playground estava cercado por viaturas policiais, seis delas, o sinalizador piscando em vermelho e azul sobre o anoitecer cada vez mais escuro. Os policiais estavam agachados atr�s dos carros com as armas sacadas. Al�m da cerca alta de alambrado, duas formas escuras espalhavam-se sob a cesta de basquete, e uma terceira estava estendida sobre um dos tubos de cimento. Algu�m gemia de dor.</p><p>Tom viu um detetive que conhecia, segurando o colarinho de um curinga jovem e magrelo, cujo rosto era t�o suave e branco quanto um creme de tapioca, e o sacudia com tanta for�a que seu papo balan�ava. O garoto estava vestido com as cores dos Pr�ncipes Demon�acos, Tom viu num <emphasis>close</emphasis> da c�mera. Ele planou mais baixo.</p><p>� EI, VOC�S � retumbou. � O QUE T� ACONTECENDO?</p><p>Eles lhe contaram.</p><p>Uma briga de gangues, era isso. Merda sem valor. Alguns garotos limpos agindo nas fronteiras do Bairro dos Curingas ultrapassaram a �rea dos Pr�ncipes Demon�acos. Estes tinham reunido 15 ou 20 membros e foram para o East Village para ensinar um pouco de respeito territorial aos invasores. Foram parar no playground. Facas, correntes, algumas armas. Desagrad�vel.</p><p>E, ent�o, a coisa ficou esquisita.</p><p>Os limpos <emphasis>tinham</emphasis> alguma coisa, o cara de tapioca gritou.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Eles terminaram, mas continuaram amigos. Ele ficou orgulhoso disso. Era mais complicado quando as feridas ainda estavam frescas, e pelos primeiros 11 meses eles se evitaram. Mas Bayonne era uma cidade pequena de um jeito peculiar, e conheciam muita gente em comum; essa situa��o n�o poderia durar para sempre.</p><p>Talvez tenham sido os 11 meses mais dif�ceis da vida de Tom Tudbury. Talvez.</p><p>Uma noite, ela ligou para ele do nada. Ele ficou feliz. Sentia desesperadamente a falta dela, mas sabia que nunca poderia ligar depois do que acontecera entre eles.</p><p>� Preciso conversar � disse ela. Soava como se tivesse tomado umas cervejas. � Voc� era meu amigo, Tom. Acima de tudo, voc� era meu amigo, certo? Preciso de um amigo hoje, tudo bem? Pode vir aqui em casa?</p><p>Ele comprou um pacote de seis cervejas em lata e foi para l�. A irm� mais nova dela tinha morrido num acidente de motocicleta. N�o havia nada a ser feito ou dito, mas Tom fez e disse todas as coisas habituais e in�teis, e estava l� por ela, e deixou que ela falasse at� o amanhecer e, depois disso, colocou-a na cama. Ele dormiu no sof�.</p><p>Ele acordou no fim da tarde, com Barbara curvada sobre ele, vestindo um robe de tecido felpudo e com os olhos vermelhos de chorar.</p><p>� Obrigada � disse ela. Sentou-se no canto do sof� e pegou a m�o dele e a segurou por um longo tempo, em sil�ncio. � Quero voc� de volta � minha vida � disse ela, finalmente, com dificuldade. � N�o quero que a gente se perca de novo. Amigos?</p><p>� Amigos � Tom disse. Ele queria agarr�-la e cobri-la de beijos. Em vez disso, apertou a m�o dela. � N�o importa o que acontecer, Barbara. Para sempre. Entendeu?</p><p>Barbara sorriu. Ele fingiu um bocejo e afundou o rosto num travesseiro para evitar que ela visse seu olhar.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� FIQUEM ABAIXADOS � o Tartaruga alertou os policiais. Eles n�o precisaram ouvir duas vezes. O garoto estava escondido dentro de um dos tubos de cimento, e eles viram o que aconteceu com o policial que tentou entrar no playground atr�s dele. Desapareceu, como se nunca tivesse existido, sumiu, foi engolido por uma escurid�o repentina e, de algum jeito� escafedeu-se.</p><p>� A gente ia picar os desgra�ados � o Pr�ncipe Demon�aco disse �, dando uma boa li��o neles, ensinando o pre�o de incomodarem o Bairro dos Curingas, malditos limpos fracotes, �amos mat�-los, e ent�o esse <emphasis>chicano</emphasis> veio at� aqui com uma porra de uma bola de boliche, a gente riu da cara do desgra�ado, o que ele ia fazer, tentar fazer um strike na gente, babaca est�pido, e ent�o ele segurou a bola na dire��o do Cera e ela cresceu, cara, tipo, como se estivesse viva. Uma merda escura saiu dela, muito r�pido, luz negra ou uma m�ozona escura ou algo assim. N�o sei, apenas se movia muito r�pido, e o Cera sumiu. � A voz dele se transformou num grito. � Ele sumiu, n�o estava mais l�. E o maldito limpo fez a mesma coisa com o L�mina e o Fantasma. Foi quando o Relincho atirou nele e ele quase soltou a bola, pegou em seu ombro eu acho, mas ent�o ele fez aquilo com o Relincho. N�o d� pra lutar contra uma coisa daquelas. Nem o policial desgra�ado conseguiu, que merda.</p><p>A carapa�a deslizou sobre a cerca de alambrado que circundava o playground, em sil�ncio e devagar.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Temos algo � Barbara disse. � Temos algo especial. � Seus dedos tra�avam padr�es na condensa��o do lado de fora do copo. Olhou para ele, seus olhos azuis corajosos e francos, como se ela o desafiasse. � Ele me pediu em casamento, Tom.</p><p>� O que voc� respondeu? � Tom quis saber, tentando manter a voz calma e firme.</p><p>� Disse que ia pensar � ela respondeu. � Por isso eu pedi pra gente se ver. Queria falar com voc� antes.</p><p>Tom fez um sinal, pedindo outra cerveja.</p><p>� A decis�o � sua � disse ele. � Espero que voc� me deixe conhecer o cara, mas de tudo que voc� me contou, parece bem bacana.</p><p>� Ele � divorciado � disse ela.</p><p>� Como metade do mundo � Tom disse quando a cerveja chegou.</p><p>� Todos, menos eu e voc� � disse Barbara, sorrindo.</p><p>� �. � Ele franziu a testa para a espuma da cerveja e suspirou de modo desconfort�vel. � Esse namorado misterioso tem filhos?</p><p>� Dois. A ex tem a guarda. Mas eu os conheci. Eles gostam de mim.</p><p>� � �bvio � disse Tom.</p><p>� Ele quer ter mais. Comigo.</p><p>Tom olhou em seus olhos.</p><p>� Voc� o ama?</p><p>Barbara enfrentou seu olhar com calma.</p><p>� Acho que sim. �s vezes, fico meio incerta. Talvez eu n�o seja t�o rom�ntica quanto eu costumava ser. � Ela ergueu os ombros. � �s vezes, penso o que seria da minha vida se as coisas tivessem sido diferentes para mim e voc�. Poder�amos estar comemorando nosso d�cimo anivers�rio de namoro.</p><p>� Ou talvez o nono anivers�rio do nosso div�rcio amargo � Tom retrucou. Ele esticou o bra�o e pegou na m�o de Barbara. � As coisas nem ficaram t�o ruins, n�o �? Nunca teria funcionado de outro jeito.</p><p>� Os caminhos n�o escolhidos � disse ela, com saudades. � Tive muitos �poderia ter sido� na minha vida, Tom, muitos arrependimentos por coisas sem ser feitas e escolhas n�o feitas. Meu rel�gio biol�gico est� rodando. Se esperar muito mais, vou esperar pra sempre.</p><p>� S� queria que voc� conhecesse o cara h� mais tempo � Tom disse.</p><p>� Ah, eu o conhe�o faz tempo � disse ela, rasgando um canto de seu guardanapo.</p><p>Tom ficou confuso.</p><p>� Pensei que voc� tinha dito que o encontrou numa festa no m�s passado.</p><p>� Sim. Mas j� nos conhec�amos. Do col�gio. � Ela olhou para o rosto dele novamente.� Por isso eu n�o disse o nome dele. Voc� ficaria chateado, e no in�cio eu n�o sabia se daria em alguma coisa.</p><p>Tom n�o precisava ouvir. Ele e Barbara eram amigos h� mais de uma d�cada. Ele olhou para as profundezas azuis dos olhos dela, e soube.</p><p>� Steve Bruder � disse ele, entorpecido.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Ele pairou sobre o playground e transportou os guerreiros ca�dos pelo ar sobre a cerca, um por um, at� a pol�cia que aguardava l� fora. Os dois da quadra de basquete estavam moribundos. Levaria um tempo para tirar as manchas de sangue do cimento. O garoto pendurado sobre o tubo de cimento, na verdade, era uma garota. Ela gemeu de dor quando ele a levantou com a telecinesia, e pelo jeito que se encolhia parecia que seus intestinos tinham sido fatiados. Ele esperava que pudessem fazer algo por ela.</p><p>Todos os tr�s eram limpos. O campo de batalha estava livre de curingas ca�dos. Ou os Pr�ncipes Demon�acos realmente botaram pra quebrar, ou seus mortos estavam em outro lugar. Ou as duas coisas.</p><p>Ele apertou um controle no bra�o da poltrona, e todos os refletores acenderam, banhando o playground com um brilho quente e esbranqui�ado.</p><p>� ACABOU � disse ele, e seus alto-falantes rugiram as palavras no crep�sculo. Durante os anos, ele aprendeu que o volume m�ximo assustava muito os punks. � SAIAM CRIAN�AS. AQUI � O TARTARUGA.</p><p>� V� embora � uma voz rouca e fina gritou de volta dentro do tubo de cimento. � Vou desintegrar voc�, seu curinga cara de merda. Estou com a coisa aqui, comigo.</p><p>Durante o dia todo, Tom esteve procurando algu�m para machucar; um monstro para estra�alhar, um matador para esmagar, um alvo para a ira, uma esponja para absorver a dor. Agora o momento estava finalmente dispon�vel, e ele descobriu que n�o havia mais �dio dentro dele. Estava cansado. Queria ir para casa. Por tr�s da ousadia, o garoto no tubo com certeza era jovem e estava assustado.</p><p>� VOC� � MESMO DUR�O � Tom disse. � QUER JOGAR O JOGO DA CARAPA�A? �TIMO. � Ele se concentrou no tubo � esquerda da prote��o do garoto, segurou-o com a mente e esmagou. Foi destru�do como se uma bola de ferro o tivesse estourado, cacos e poeira voando para todos os lados quando o cimento estilha�ou. � N�O EST� NESSE, N�O �? � Ele fez o mesmo com o tubo do outro lado do garoto. � NEM NESSE AQUI. ACHO QUE VOU TENTAR O DO MEIO.</p><p>O garoto saiu a tal velocidade que bateu a cabe�a na parte de cima do tubo quando se levantou. O impacto o deixou tonto por um momento. A bola de boliche � qual ele estava agarrado com as duas m�os de repente escapou. Ela voou direto. O garoto gritou obscenidades entre os dentes brilhantes cobertos de a�o. Deu um pulo desesperado na dire��o da sua arma, mas tudo que conseguiu foi deslizar a ponta dos dedos contra o lado de baixo. Ent�o, tombou de uma vez, esfolando as m�os e os joelhos no concreto.</p><p>Nesse momento, os policiais j� estavam em movimento. Tom observou quando o cercaram, puxando-o para faz�-lo ficar de p�, e leram os direitos dele. Tinha uns 19 anos, talvez fosse mais novo, usava as cores da gangue e uma coleira com pontas, cabelos pretos desgrenhados e espetados. Perguntaram a ele onde estavam os outros, e ele rosnou xingamentos para eles e gritou que n�o sabia.</p><p>Enquanto eles o empurravam na dire��o das viaturas, Tom abriu o portal blindado e flutuou a bola de boliche para dentro da carapa�a para olhar de perto, tremendo com a rajada de ar frio que entrou com ela. Era uma coisa estranha. <emphasis>Leve demais para ser uma bola de boliche</emphasis>, pensou quando a ergueu; quase dois quilos, talvez um pouco mais. Sem buracos tamb�m. Quando ele correu a m�o sobre ela, seus dedos formigaram, e cores tremeluziram rapidamente sobre a superf�cie, como um arco-�ris numa mancha de �leo. Ela o deixou inquieto. Talvez Tachyon soubesse o que fazer com ela. Ele a deixou de lado.</p><p>A escurid�o ca�a sobre a cidade. Tom levou a carapa�a para o alto, cada vez mais alto, at� flutuar sobre a torre distante do Empire State Building. Ficou l� por muito tempo, assistindo �s luzes avan�arem sobre a cidade, transformando Manhattan num mundo encantado el�trico.</p><p>Daquela altura, numa noite fria e clara, ainda podia ver as luzes de Jersey para al�m da �gua escura e g�lida. Um daqueles pontos era o Top Hat Lounge, disso ele sabia.</p><p>Ele n�o deveria flutuar ali, pensou. Deveria levar a bola de boliche para a cl�nica; era o pr�ximo passo a tomar. Ele n�o se moveu. Faria isso no dia seguinte, pensou. Tachyon n�o iria a lugar algum, nem a bola. De alguma forma, Tom n�o poderia encarar Tachyon naquela noite. Poderia ser em todas, menos naquela.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Em outros tempos, sua carapa�a era muito mais primitiva. Sem lentes telesc�picas, sem zooms, nem c�meras infravermelhas. Apenas um anel de holofotes quentes, t�o brilhantes que faziam Tachyon espremer os olhos. Mas ele precisava deles. Estava escuro no telhado da cl�nica, onde a carapa�a pousou.</p><p>As fotografias que Tachyon segurava no alto n�o eram do tipo que Tom gostaria de ver em maiores detalhes. Ele se sentou na escurid�o, olhando para suas telas, sem dizer nada, enquanto Tachyon mostrava uma a uma. Todas haviam sido tiradas na ala de maternidade da cl�nica. Uma ou duas das crian�as viveram o suficiente para serem transferidas para a enfermaria.</p><p>Por fim, ele retomou sua voz.</p><p>� As m�es eram <emphasis>curingas</emphasis> � disse ele, sua voz enf�tica, com falsa convic��o. � Bar� Ela � normal, estou te dizendo. Limpa. Teve aquilo quando estava com <emphasis>dois anos</emphasis>, caramba; � como se nunca tivesse acontecido.</p><p>� Mas aconteceu � Tachyon disse. � Ela pode parecer normal, mas o v�rus ainda est� l�. Latente. � prov�vel que nunca v� se manifestar, e geneticamente ele � recessivo, mas quando voc� e ela tiverem�</p><p>� Conhe�o um monte de gente que acha que sou curinga � Tom interrompeu. � Mas eu n�o sou, acredite em mim, sou um �s. Eu sou um <emphasis>�s</emphasis>, caramba! Ent�o, se a crian�a tiver o gene carta selvagem, ela ter� telecinesia de primeira. Ser� �s, como eu.</p><p>� N�o � Tachyon disse. Ele deslizou as fotografias de volta para o prontu�rio, seus olhos se desviaram das c�meras. Deliberadamente? � Desculpe, meu amigo. As probabilidades de dar errado s�o astron�micas.</p><p>� <emphasis>Ciclone �</emphasis> Tom disse, � beira da histeria. Ciclone era um �s da Costa Oeste cuja filha herdara seu dom�nio sobre os ventos.</p><p>� N�o � Tachyon rebateu. � Mistral � um caso especial. Temos quase certeza de que o pai dela, de alguma forma, manipulou o plasma germinativo enquanto ela ainda estava no �tero. Em Takis� bem, o processo n�o � totalmente desconhecido por n�s, mas raramente funciona. Voc� � o telecin�tico mais poderoso que j� vi, mas �s vezes isso exige um controle preciso que est� anos-luz al�m de voc�, sem mencionar os s�culos de experi�ncia em microcirurgia e divis�o gen�tica. E, mesmo se voc� tivesse tudo isso, provavelmente fracassaria. Ciclone n�o tinha ideia do que estava fazendo num n�vel consciente e, al�m disso, foi estranhamente sortudo. � O takisiano balan�ou a cabe�a. � Seu caso � totalmente diferente. A �nica garantia � que voc� tirar� um carta selvagem, e as probabilidades s�o exatamente as mesmas como se�</p><p>� Eu sei das probabilidades � Tom disse, bruscamente. De cada cem humanos atingidos pelo carta selvagem, apenas um desenvolveu poderes de �s. Havia dez curingas horrivelmente deformados para cada �s, e dez mortes por rainha negra para cada curinga.</p><p>Na sua cabe�a, viu Barbara sentada na cama, o len�ol enrolado na cintura, seus cabelos loiros caindo macios sobre os ombros, o rosto solene e doce enquanto o filho deles sugava o seio. E, ent�o, o beb� levantou o olhar, e ele viu os dentes e os olhos esbugalhados e os tra�os monstruosos, deformados; e quando sibilou para ele, Barbara gritou de dor, enquanto leite e sangue jorravam livremente de seu mamilo arrancado.</p><p>� Desculpe � Dr. Tachyon repetiu, entorpecido.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Passava da meia-noite quando Tom voltou para sua casa vazia na First Street.</p><p>Ele se desvencilhou do casaco, sentou-se no sof� e observou o Kill pela janela e as luzes de Staten Island. Uma chuva gelada havia come�ado. As got�culas chiavam contra a janela com um som agudo, cristalino, como garfos tilintando em ta�as de vinho quando os convidados do casamento querem que os rec�m-casados se beijem. Tom ficou ali sentado, no escuro, por um bom tempo.</p><p>Finalmente, ligou uma lumin�ria e pegou o telefone. Digitou seis n�meros, e n�o conseguia apertar o s�timo. Como um colegial apavorado antes de chamar uma garota bonita para sair, pensou, sorrindo melanc�lico. Pressionou a tecla com firmeza e escutou o chamado.</p><p>� Top Hat � uma voz brusca atendeu.</p><p>� Gostaria de falar com Barbara Casko � Tom disse.</p><p>� Quer dizer a nova senhora Bruder � a voz respondeu.</p><p>Tom deu um longo suspiro.</p><p>� Sim � ele falou.</p><p>� Ent�o, os rec�m-casados foram embora horas atr�s. Direto pra noite de n�pcias. � O homem estava obviamente b�bado. � V�o passar a lua de mel em Paris.</p><p>� Ah, sim � Tom respondeu. � O pai dela ainda est� a�?</p><p>� Deixa eu ver aqui.</p><p>Um longo sil�ncio se passou antes de o fone ser agarrado de novo.</p><p>� Aqui � Stanley Casko. Quem est� falando?</p><p>� Tom Tudbury. Desculpe por eu n�o estar presente, Sr. Casko. Estava, hum, ocupado.</p><p>� Sim, Tom. Tudo bem com voc�?</p><p>� Est�. N�o poderia estar melhor. Eu s� queria�</p><p>� Sim?</p><p>Ele engoliu em seco.</p><p>� Apenas diga para ela ser feliz, tudo bem? � isso. Apenas diga que eu quero que ela seja feliz.</p><p>Ele pousou o telefone de volta no gancho.</p><p>Na noite l� fora, um imenso cargueiro descia o Kill. Estava muito escuro para ver sua bandeira. Tom desligou as luzes e assistiu ao navio passar.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Cinco</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>O rastro era inconfund�vel.</p><p>Jube sentou-se no console enquanto as leituras escorriam atrav�s do holocubo, seu cora��o palpitando com medo e esperan�a. Passou a maior parte dos primeiros quatro meses na Terra em cinemas escuros, sentado para ver os mesmos filmes d�zias de vezes, refor�ando seu ingl�s e ampliando a compreens�o das nuan�as culturais humanas conforme refletidas na fic��o. Aprendeu a amar os filmes, especialmente os faroestes, e sua parte favorita sempre fora quando a cavalaria chegava estrondando pelo monte, com as bandeiras tremulando.</p><p>A Rede n�o agitava bandeiras; ainda assim, Jube pensou que poderia ouvir o som abafado das cornetas e o golpear das batidas dos cascos naqueles contornos aracn�deos de luz dentro do seu holocubo.</p><p>� <emphasis>T�quions!</emphasis> Cornetas e t�quions!</p><p>Seus sat�lites de observa��o detectaram uma chuva de t�quions, e isso poderia significar apenas uma coisa: uma nave estelar nas proximidades da �rbita terrestre. O veredicto estava ao alcance da m�o.</p><p>Agora, os sat�lites varriam os c�us procurando a fonte. N�o era a M�e do Enxame, Jhubben sabia disso. A M�e rasteja por entre as estrelas a velocidades menores que a da luz; ela n�o se importava com o tempo. Apenas as ra�as civilizadas usavam naves estelares movidas a t�quions.</p><p>Se Ekkedme conseguiu mandar uma transmiss�o antes de a nave unit�ria ter sido esmagada no c�u� se o Mestre Comerciante decidiu verificar os avan�os humanos mais cedo do que o planejado� se a M�e de alguma forma foi detectada por uma nova tecnologia inimagin�vel quando Jhubben come�ou sua miss�o na Terra� se, se, se� ent�o poderia bem ser a <emphasis>Opportunity</emphasis> l� em cima, a Rede voltou para entregar este mundo, apenas com os meios e o pre�o ainda a serem determinados. Mesmo assim, n�o seria f�cil, mas do resultado final ele n�o tinha d�vida. Jube sorriu enquanto os sat�lites sondavam e os computadores analisavam.</p><p>Ent�o, o holocubo ficou violeta, e seu sorriso morreu. Fez um som de gorgolejo no fundo da garganta. Os sensores sofisticados nos sat�lites retiraram as telas que escondiam a nave espacial da instrumenta��o humana e exibiu a imagem dentro do violeta sinistro do cubo. Ele se revolveu lentamente, gravado em linhas de luz vermelha e branca, como algum terr�vel constructo de fogo e gelo. Os visores piscavam abaixo da imagem: dimens�es, sa�da de t�quions, rota. Mas tudo de que Jube precisava saber estava escrito nas linhas da nave: escrito em cada pin�culo retorcido, proclamado pelas sali�ncias extravagantes, trombeteado em cada espiral e proje��o barroca, gritado em cada pan�plia de luzes desnecess�rias. Parecia o resultado de uma colis�o em alta velocidade entre um enfeite de Natal e uma pera espinhosa. Apenas os takisianos tinham essa est�tica rococ�.</p><p>Jube levantou-se de uma vez, cambaleando. <emphasis>Takisianos!</emphasis> Ser� que o Dr. Tachyon os convocara? Achou bem dif�cil, depois de todos esses anos que o doutor passou no ex�lio. O que isso <emphasis>significava?</emphasis> Os takisianos estavam monitorando a Terra todo esse tempo, observando o experimento do carta selvagem, mesmo enquanto a Rede o fazia? Se sim, por que Jhubben n�o havia encontrado tra�os deles at� agora, e como conseguiram esconder-se de Ekkedme? Teriam destru�do a M�e do Enxame? Teriam conseguido destruir a M�e? A <emphasis>Opportunity</emphasis> era quase do tamanho da ilha de Manhattan e transportava dezenas de milhares de especialistas que representavam esp�cies, culturas, castas e voca��es infinitas � mercadores e aventureiros, cientistas e sacerdotes, t�cnicos, artistas, guerreiros, emiss�rios. A nave takisiana era uma coisa min�scula; possivelmente n�o conteria mais do que cinquenta seres conscientes, talvez apenas metade disso. A menos que a tecnologia militar takisiana tenha progredido de forma astron�mica nos �ltimos quarenta anos, o que aquela coisinha poderia esperar fazer, sozinha, contra a devoradora dos mundos? E os takisianos se <emphasis>importariam</emphasis> mesmo com a vida de suas cobaias?</p><p>Enquanto Jhubben olhava fixamente para os contornos da nave com �dio e confus�o cada vez maiores, seu telefone tocou.</p><p>Por um instante, pensou numa insanidade, que de alguma forma os takisianos o haviam encontrado, que sabiam que estava olhando para eles e telefonaram para lhe passar uma descompostura. Mas isso era rid�culo. Ele bateu um ded�o no console, e o holocubo escureceu enquanto Jube se arrastava at� a sala de estar. Precisou desviar da geometria tortuosa de um transmissor de t�quions parcialmente constru�do que dominava o centro da sala como uma pe�a imensa de escultura de vanguarda. Se a coisa n�o funcionasse quando ele a energizasse, Jube planejava cham�-la de �Desejo Curinga� e vend�-la em alguma galeria no Soho. Mesmo pela metade, seus �ngulos eram curiosamente enganosos, e ele sempre trombava neles. Dessa fez, ele se esquivou direitinho e pegou o telefone da m�o do Mickey Mouse.</p><p>� Al�? � disse, tentando soar com sua jovialidade normal.</p><p>� Jubal, � a Cris�lida. � Era a voz dela, mas nunca havia soado daquele jeito. Ela nunca ligara para ele em casa antes.</p><p>� Algum problema? � ele perguntou. Ele havia pedido para ela conseguir outro lote de microchips na semana anterior, e a contund�ncia da sua voz fez com que ele temesse que o agente dela tivesse sido preso.</p><p>� Jay Ackroyd acabou de ligar. N�o havia conseguido dar not�cias at� agora. Ele descobriu algumas coisas sobre as pessoas que contrataram o Darlingfoot.</p><p>� Mas isso � bom. Ele localizou a bola de boliche?</p><p>� N�o. E n�o � t�o bom quanto voc� pensa. Sei que vai parecer insano, mas Jay diz que essas pessoas estavam convencidas de que o corpo era extraterrestre. Parece que esperavam usar o cad�ver em algum tipo de ritual nojento para ganhar poderes sobre aquele monstro alien�gena.</p><p>� A M�e do Enxame � disse Jube, surpreso.</p><p>� Sim � Cris�lida falou, quase estridente. � Jay diz que eles s�o ligados de alguma forma. Ele acha que eles veneram aquela coisa. Olha, n�o devemos falar sobre isso por telefone.</p><p>� Por que n�o? � Jube quis saber.</p><p>� Por que essas pessoas s�o <emphasis>perigosas</emphasis> � Cris�lida respondeu. � Jay est� vindo para o Palace esta noite para me passar um relat�rio completo. Esteja l� tamb�m. Estou tirando meu time de campo nessa quest�o, Jubal. Voc� pode negociar direto com Jay a partir de agora. Mas, se quiser, pe�o para Fortunato aparecer. Acho que ele ficaria interessado no que Jay descobriu.</p><p>� <emphasis>Fortunato!</emphasis> � Jube ficou horrorizado. Ele conhecia Fortunado mais pela reputa��o. O cafet�o alto com olhos amendoados e testa inchada era um cliente habitual do Crystal Palace, mas Jube sempre tentava evit�-lo. Telepatas o deixavam nervoso. Dr. Tachyon nunca entrara numa mente sem um bom motivo, mas com Fortunato a hist�ria era outra. Quem sabe como e por que usaria seus poderes, ou o que poderia fazer se descobrisse o que Jube, o Morsa, <emphasis>realmente</emphasis> era? � N�o � disse ele, apressado. � N�o, n�o mesmo. Isso n�o tem nada a ver com Fortunato!</p><p>� Ele conhece mais sobre esses ma�ons do que qualquer outra pessoa na cidade � Cris�lida disse. Ela suspirou. � Bem, voc� est� pagando esse enterro, ent�o suponho que voc� queira levar o caix�o. N�o vou dizer palavra. Nos falamos depois que o bar fechar.</p><p>� Depois que o bar fechar � Jube repetiu. Ele desligou antes que pudesse pensar em perguntar o que ela quis dizer com ma�ons. Jube conhecia os ma�ons, claro. Fez um estudo das organiza��es fraternais humanas d�cadas atr�s, comparando os <emphasis>Shriners</emphasis>, os Cavaleiros de Colombo, os <emphasis>Odd Fellows</emphasis>, e os Ma�ons a cada irmandade de la�os das luas de Thdentien. Reginald era um ma�om, Jube parecia lembrar, e Denton tentou se unir � ordem dos Alces, mas eles o rejeitaram por conta dos chifres. O que os ma�ons tinham a ver com aquilo?</p><p>Naquele dia, Jube estava agitado demais para fazer piadas. N�o sabia quem temer mais, se as M�es do Enxame, as naves de guerra takisianas ou os ma�ons. <emphasis>Mesmo se a cavalaria</emphasis> viesse <emphasis>cavalgando por sobre o monte</emphasis>, Jube pensou, <emphasis>ser� que conseguiria reconhecer os �ndios?</emphasis> Ele olhou para o c�u e balan�ou a cabe�a.</p><p>Quando ele trancou a banca � noite, fez suas entregas no Funhouse e no Chaos Club, ent�o decidiu interromper seu zigue-zague pelo Bairro dos Curingas e seguir direto para o Crystal Palace o mais r�pido poss�vel. Mas primeiro precisava fazer uma �ltima parada, na delegacia.</p><p>O sargento de plant�o ficou com um <emphasis>Daily News</emphasis> e folheou a p�gina de esportes, enquanto Jube deixou um <emphasis>Times</emphasis> e um <emphasis>Grito do Bairro dos Curingas</emphasis> para o capit�o Black. Ele estava se virando para ir embora quando um cara � paisana o viu.</p><p>� Ei, gordinho � o homem chamou. � Voc� tem a <emphasis>Informer</emphasis>? <emphasis>�</emphasis> Ele estava recostado no banco em frente � parede de azulejos, quase como se tivesse esperando algu�m. Jube o conhecia de vista: um tipo desmazelado, indefin�vel, com um sorriso desagrad�vel. Nunca tinha se dado o trabalho de chamar Jube pelo nome, mas aparecia na banca �s vezes para pegar um tabloide. �s vezes, at� pagava.</p><p>Mas n�o aquela noite.</p><p>� Obrigado � disse ele, enquanto aceitava a edi��o da <emphasis>National Informer</emphasis> que Jube lhe oferecia. OS TAKISIANOS INVENTARAM O HERPES?, berrava a manchete. Jube teve um mau pressentimento. Logo abaixo, outra hist�ria perguntava se Sean estava prestes a largar a Madonna pela Peregrina. O cara � paisana nem mesmo olhou para as manchetes. Estava encarando Jube de um jeito estranho. O canto da boca se retorceu num sorrisinho peculiar.</p><p>� Voc� � s� um curinga feio, n�o �? � o policial perguntou.</p><p>Jube esgar�ou as presas num sorriso insinuante.</p><p>� Que, feio eu? Que nada, eu tenho tetas maiores que a Miss Outubro!</p><p>� J� passei tempo demais ouvindo suas piadas idiotas � o cara � paisana soltou. � Mas o que eu podia esperar? Voc� n�o � muito brilhante tamb�m, n�o �?</p><p><emphasis>Brilhante o suficiente para enganar sua ra�a por 33 anos</emphasis>, pensou Jube, mas n�o disse nada.</p><p>� Bem, sabe quantos curingas s�o necess�rios para trocar uma l�mpada? � disse ele.</p><p>� Leva esse seu rabo gordo de curinga pra fora daqui � o homem falou.</p><p>Jube cambaleou at� a porta. No topo das escadas, ele se virou e gritou:</p><p>� Esse jornal � por minha conta! � E ent�o se dirigiu ao Crystal Palace.</p><p>Chegou mais cedo aquela noite, e o Palace ainda estava lotado. Jube sentou num banquinho no fim do bar, onde poderia descansar as costas contra a parede e ver o sal�o inteiro. Era a noite de folga do Sascha, e Lupo estava atendendo no bar.</p><p>� Que vai ser, Morsa? � ele perguntou, a l�ngua vermelha e longa se estendendo de um canto da boca.</p><p>� Pi�a colada � disse Jube. � Com rum duplo.</p><p>Lupo concordou com a cabe�a e saiu para fazer o drinque. Jube olhou em volta, cuidadosamente. Tinha uma sensa��o desconfort�vel, como se estivesse sendo observado. Mas por quem? O bar estava cheio de estranhos, e n�o se via Cris�lida em lugar algum. Tr�s bancos adiante, um homem grande com m�scara de le�o acendia um cigarro para uma jovem cujo vestido curto mostrava um amplo decote com tr�s seios grandes. Mais adiante no bar, uma forma curvada com um manto cinza fitava seu drinque. Uma mulher esguia, vivaz e verde fez contato visual quando Jube olhou para ela, e deslizou, provocante, a ponta de uma l�ngua rosa sobre o l�bio superior (ao menos poderia ter sido provocante para um macho humano), mas obviamente era uma prostituta, e ele a ignorou. Em outro lugar no sal�o, viu Yin-Yang, cujas duas cabe�as estavam numa discuss�o acalorada, e o Velho Senhor Cricket tamb�m. O Pena desmaiou e flutuava perto do teto novamente. Mas havia muitos rostos e m�scaras que Jube n�o reconhecia. Qualquer um deles poderia ser Jay Ackroyd. Cris�lida nunca disse qual a apar�ncia dele, apenas que era um �s. Poderia at� ser o homem com a m�scara de le�o que � Jube percebeu de relance � tinha deslizado um bra�o em torno da garota de tr�s seios e estava passando as pontas dos dedos levemente no topo dos seios � direita.</p><p>Lupo passou a flanela no bar, lan�ou um descanso de copo e botou a pi�a colada sobre ele. Jube tinha tomado apenas o primeiro gole quando um estranho se sentou no banco ao seu lado.</p><p>� Voc� que est� vendendo aqueles jornais?</p><p>� Sim, sou eu.</p><p>� Bom. � A voz era abafada pela m�scara, uma cabe�a branca como um cr�nio. Vestia uma capa preta de capuz sobre um terno pu�do que pouco melhorava seu corpo magro, de peito fundo. � Vou levar um <emphasis>Grito</emphasis>, ent�o.</p><p>Jube achou que tinha algo desagrad�vel nos olhos dele. Ele desviou o olhar, encontrou uma edi��o do <emphasis>Grito</emphasis> e lhe entregou. O homem encapuzado deu a ele uma moeda.</p><p>� O que � isso? � Jube perguntou.</p><p>� Uma moeda � o homem respondeu.</p><p>A moeda era maior do que deveria ser, e um vermelho v�vido contra a palma da m�o negra de Jube. Nunca tinha visto algo assim.</p><p>� N�o sei se�</p><p>� Deixa pra l� � o homem interrompeu. Pegou a moeda da m�o de Jube e deu a ele um d�lar com a estampa de Susan B. Anthony, a sufragista. � E o meu troco, Morsa? � o homem exigiu. Jube deu a ele de volta tr�s moedas de 25 centavos. � Voc� me deu o troco errado � o homem disse com maldade quando embolsou as moedas.</p><p>� N�o dei � disse Jube com indigna��o.</p><p>� Olhe nos meus olhos e diga isso, seu imbecil safado.</p><p>Atr�s do homem com cara de caveira, a porta se abriu e Troll entrou rapidamente no bar, seguido por um homem baixo de cabelos vermelhos num terno verde-lim�o.</p><p>� <emphasis>Tachyon</emphasis> � disse Jube, apreensivo, lembrando-se de repente da nave de guerra takisiana em �rbita.</p><p>A companhia desagrad�vel de Jube girou a cabe�a com tanta for�a que o capuz caiu, revelando um cabelo castanho fino e um s�rio problema de caspa. Ele se sacudiu em p�, hesitou, depois correu para a porta assim que Tachyon e Troll se aproximaram por tr�s.</p><p>� Ei! � Jube o chamou. � Ei, senhor, seu jornal!</p><p>Ele deixou o <emphasis>Grito</emphasis> no bar. O homem saiu t�o r�pido que quase prendeu a ponta da longa capa preta na porta. Jube deu de ombros e voltou para sua pi�a colada.</p><p>Muitas horas e uma d�zia de drinques depois, Cris�lida ainda n�o tinha aparecido, nem Jube percebeu ningu�m que parecesse como ele imaginava o tal Popinjay. Quando Lupo anunciou a �ltima rodada, Jube acenou para ele.</p><p>� Onde ela est�? � ele perguntou.</p><p>� Cris�lida? � Lupo devolveu a pergunta. Os olhos vermelhos e profundos reluziram em cada lado de seu focinho longo e peludo. � Ela t� te esperando?</p><p>Jube concordou com a cabe�a.</p><p>� Tenho uma coisa pra falar com ela.</p><p>� Tudo bem � Lupo disse. � Na sala vermelha, terceira cabine da esquerda pra direita. Est� com um amigo. � Ele sorriu. � Finja que n�o est� vendo ele, se � que voc� me entende.</p><p>� Tudo que ela quiser.</p><p>Jube pensou que o amigo tinha de ser Popinjay, mas n�o disse nada. Saiu cuidadosamente do banquinho e foi para a sala vermelha, bem � direita do bar principal. Dentro dele, estava escuro e esfuma�ado. As luzes eram vermelhas, o carpete grosso e felpudo era vermelho, e as pesadas cortinas de veludo em torno das cabines eram de um vinho-escuro vivo. A maioria das cabines estava vazia �quela hora da noite, mas ele conseguiu ouvir uma mulher gemendo de uma que n�o estava. Foi at� a terceira cabine da esquerda para a direita, puxou a cortina e botou a cabe�a l� dentro.</p><p>L� dentro, estavam conversando, em tom baixo e s�rio, mas a conversa foi interrompida. Cris�lida olhou para ele.</p><p>� Jubal � disse ela com firmeza. � Que posso fazer por voc�?</p><p>Jube olhou para o acompanhante, um homem branco, forte e compacto de camiseta preta e uma jaqueta de couro escuro. Vestia a m�scara mais comum, um capuz preto que cobria tudo, menos os olhos.</p><p>� Voc� deve ser Popinjay � disse Jube, antes de se lembrar que o detetive n�o gostava que o chamassem assim.</p><p>� N�o � o mascarado respondeu, a voz surpreendentemente suave. Ele olhou para Cris�lida. � Podemos voltar a conversar mais tarde se voc� tem neg�cios a fazer. � Ele deslizou para fora da cabine e desapareceu sem dizer qualquer palavra.</p><p>� Entre � disse Cris�lida. Jube se sentou e fechou as cortinas. � Seja l� o que tenha pra mim, espero que seja bom. � Ela parecia bastante irritada.</p><p>� Ter para voc�? � Jube estava confuso. � Do que est� falando? Onde est� o Popinjay, ele n�o deveria estar aqui agora?</p><p>Ela o encarou. Encapsulada na carne transparente e nos m�sculos cinzentos fantasmag�ricos, seu cr�nio fez Jube lembrar-se do homem desagrad�vel que sentou ao lado dele no bar.</p><p>� N�o sabia que voc� conhecia o Jay. Que ele tem a ver com voc�? Tem alguma coisa sobre ele que preciso saber?</p><p>� O relat�rio � Jube soltou. � Ele ia nos falar sobre aqueles ma�ons que contrataram o Devil John para roubar o corpo do necrot�rio. Eles eram perigosos, voc� disse.</p><p>Cris�lida riu dele, abriu as cortinas e levantou-se languidamente.</p><p>� Jubal, n�o sei quantos drinques ex�ticos com rum voc� desfrutou hoje, mas acho que foram muitos. � sempre um problema quando Lupo est� no bar. Sascha consegue dizer quando um cliente j� bebeu demais, mas n�o nosso pequeno lobinho. V� para casa e durma.</p><p>� <emphasis>Para casa!</emphasis> � disse Jube. � Mas, e o corpo, e o Devil John e os <emphasis>ma�ons</emphasis>�</p><p>� Se voc� quiser se juntar a uma fraternidade, os Odd Fellows seriam perfeitos para voc�, eu acho � disse Cris�lida num tom entediado. � Tirando isso, n�o tenho a mais vaga ideia do que voc� est� falando.</p><p>A caminhada para casa foi longa e quente, e Jube teve uma sensa��o inquietante, como se estivesse sendo observado. Parou e olhou em volta furtivamente diversas vezes para tentar perceber qualquer um que o estivesse seguindo, mas n�o havia ningu�m por ali.</p><p>Na privacidade do seu apartamento, Jube afundou agradecido na banheira gelada e ligou a televis�o. O filme da madrugada era <emphasis>Trinta minutos sobre a Broadway!</emphasis>, mas n�o era a vers�o com Howard Hawks, era o <emphasis>remake</emphasis> horr�vel de 1978 com Jan-Michael Vincent como o Jetboy e Dudley Moore fazendo um Tachyon divertido numa peruca vermelha horr�vel. Jube acabou vendo mesmo assim; precisava de uma fuga nada intelectual. Ele se preocuparia com Cris�lida e o resto no dia seguinte.</p><p>Jetboy tinha acabado de bater o JB-1 no dirig�vel quando a tela de repente estalou e ficou preta.</p><p>� Ei � disse Jube, apertando o controle remoto com for�a. Nada aconteceu.</p><p>Ent�o, um c�o do tamanho de um p�nei saiu do aparelho de televis�o.</p><p>Ele era seco e terr�vel, o corpo cinza esfuma�ado e terrivelmente macilento, os olhos eram janelas que se abriam para uma c�mara mortu�ria. Uma cauda longa e bipartida curvava-se sobre as costas como o ferr�o de um escorpi�o e se retorcia de um lado para o outro.</p><p>Jube se encolheu t�o r�pido que derramou �gua sobre todo o ch�o do quarto, e come�ou a gritar para a coisa. O c�o arreganhava os dentes, que eram adagas amarelas. Jube percebeu que murmurava na l�ngua de contato da Rede, e mudou para o ingl�s.</p><p>� Saia! � falou para o animal. � V� embora!</p><p>Arranhava o lado da banheira, espalhando mais �gua, e se retraiu. O controle remoto ainda estava na sua m�o, se pudesse alcan�ar seu gabinete� Mas o que teria de bom l� contra algo que atravessava paredes? Sua carne ficou quente com o terror s�bito.</p><p>O c�o caminhou em sua dire��o, ent�o parou. Seu olhar estava fixo entre as pernas de Jube. Pareceu por um momento se divertir com o p�nis duplo dividido, e a genit�lia feminina inteira sob ele. Jube decidiu que sua melhor chance estava em lan�ar-se para a rua. Ele correu para tr�s.</p><p>� Gordinho � o c�o falou numa voz que era mal�cia pura e grudenta. � Vai correr de mim? Voc� me procurou, seu tolo. Acha que suas pernas grossas de curinga podem te fazer escapar de Setekh, o destruidor?</p><p>Jube ficou boquiaberto.</p><p>� Quem�</p><p>� Sou aquele cujos segredos voc� buscou descobrir � disse o c�o. � Curinga pequeno e pat�tico, achou que n�o perceber�amos, achou que n�o nos import�ssemos? Soube pela mente dos seus contratados, e segui o rastro at� voc�. E agora voc� vai morrer.</p><p>� <emphasis>Por qu�?</emphasis> � Jube perguntou. N�o tinha d�vida de que a criatura poderia mat�-lo, mas se precisasse perecer, esperava ao menos saber o motivo.</p><p>� Por que me fez perder tempo � o c�o respondeu. Sua boca se remexia em formas obscenas, afetadas quando falava. � Pensei que encontraria um grande inimigo e, em vez disso, encontro um curinga gordo e baixote que faz dinheiro vendendo fofocas a uma dona de bar. Quanto voc� achou que valiam os segredos da nossa Ordem? Quem achou que poderia pagar por eles, Morsa? Diga e eu n�o o farei sofrer. Minta, e sua morte vai durar at� o raiar do dia.</p><p><emphasis>O c�o n�o tinha ideia do que ele era</emphasis>, Jhubben percebeu. Como poderia? Soube dele por Cris�lida, pela rua; n�o olhou para dentro do seu segredo. De repente, por raz�es que n�o conseguiria explicar, Jube sabia que Setekh n�o <emphasis>deveria</emphasis> saber. Ele deveria levar aquela coisa para longe dos seus segredos.</p><p>� N�o quis incomod�-lo, poderoso Setekh � disse ele em voz alta. Tinha posado de curinga por 33 anos, ele sabia como rastejar. � Pe�o sua miseric�rdia � disse, afastando-se de costas para a sala de estar. � N�o sou seu inimigo � falou ainda. O c�o o seguia, olhos faiscantes, l�ngua rolando de seu focinho comprido. Jube pulou para a sala de estar, fechou a porta e correu.</p><p>O c�o se lan�ou atrav�s da parede e o interceptou, e Jube perdeu o equil�brio quando tentou fugir. Estatelou-se no ch�o, e o c�o ergueu uma pata terr�vel para bater� e parou quando Jube se encolheu de medo do golpe fatal. A boca do c�o se torceu e derramou uma baba fantasmag�rica, e Jube percebeu que ele estava rindo. A coisa estava olhando algo atr�s dele e rindo. Ele virou a cabe�a e viu apenas o transmissor de t�quions.</p><p>Quando olhou de volta, o c�o havia desaparecido. Em vez dele, um homem fr�gil numa cadeira de rodas estava sentado, encarando-o.</p><p>� Somos uma Ordem antiga � disse o homenzinho. � Os segredos passaram por muitas bocas, e alguns se desviaram, alguns ramos foram perdidos e esquecidos. Fique feliz por n�o ter morrido, irm�o.</p><p>� Ah, sim � disse Jube, ficando de joelhos. N�o tinha ideia do motivo pelo qual estava sendo poupado, mas n�o discutiria a quest�o. � Obrigado, mestre. N�o vou incomod�-lo de novo.</p><p>� Deixarei que viva, assim voc� poder� nos servir � a apari��o de cadeira de rodas disse a ele. � Mesmo algu�m est�pido e fraco como voc� poder� ter sua utilidade na grande batalha que est� por vir. Mas n�o diga nada do que descobrir, ou n�o viver� para ser iniciado.</p><p>� Eu j� esqueci � disse Jube.</p><p>O homem na cadeira de rodas pareceu achar aquilo imensamente divertido. Sua testa pulsava enquanto ria. Um momento depois, ele desapareceu. Jube ergueu-se com muito cuidado.</p><p>Bem cedo na manh� seguinte, um curinga com a pele carmesim v�vida comprou uma edi��o do <emphasis>Daily News</emphasis> e pagou por ela com uma moeda vermelha e brilhante do tamanho de uma de cinquenta centavos de d�lar.</p><p>� Eu ficaria com ela se fosse voc�, meu chapa � disse ele, sorrindo. � Acho que pode ser sua moeda da sorte.</p><p>Ent�o ele contou quando e onde seria a pr�xima reuni�o.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Dificuldades relativas</strong></p><p>Melinda M. Snodgrass</p><empty-line/><empty-line/><p>O Dr. Tachyon desceu os degraus da cl�nica Blythe van Renssaeler e parou para dar um tapinha em um dos abatidos le�es de arenito que flanqueavam as escadas. Percebeu que seu companheiro ao norte ainda tinha um topete de neve suja adornando a cabe�a decadente. Apesar de ele j� estar atrasado para um almo�o com o senador Hartmann no Aces High, n�o conseguia evitar carinhosamente tirar sua neve. Um vento r�spido e frio soprava do East River, conduzindo farrapos de n�voa branca diante dele, e trazendo consigo o som das buzinas do tr�fego imenso na ponte do Brooklyn.</p><p>A urg�ncia das buzinas lembrou-o da passagem do tempo, e ele ultrapassou os dois �ltimos degraus num longo salto. E se deparou com uma superf�cie rosada. <emphasis>Um colete</emphasis>, Tach identificou antes de sua vis�o ser interrompida por um buqu� de glad�olos bem embaixo do seu nariz. Tach olhou para cima, bem para cima, e percebeu que encarava um estranho� e havia perigo ou potencial de perigo em todo estranho. Tr�s passos r�pidos para tr�s o levaram para fora do alcance de tudo, menos de uma bala ou de algum poder esot�rico de �s, e ele estudou cuidadosamente a apari��o.</p><p>O homem era muito alto, sua altura ossuda aumentada pela cartola enorme, alta, p�rpura, enfiada sobre os cabelos longos, lisos e loiros. Um casaco, tamb�m p�rpura, pendurava-se de seus ombros estreitos, e fazia � na opini�o de Tach � um contraste ador�vel � camisa laranja e violeta com estampa <emphasis>paisley</emphasis> e cal�as verdes. O espantalho sorridente novamente ofereceu as flores.</p><p>� Sabe, sou o Capit�o Viajante, cara � ele falou, e ficou ali em p�, cambaleando e sorrindo como um farol b�bado. Fascinado, Tachyon olhou para os olhos azuis p�lidos nadando atr�s de lentes que pareciam ter sido tiradas do fundo de garrafas de Coca-Cola. Incapaz de pensar qualquer coisa coerente para dizer, Tach simplesmente aceitou as flores.</p><p>� Este n�o � meu nome de verdade, cara � o Capit�o confiou numa esp�cie de sussurro que teria chegado at� as �ltimas fileiras do Carnegie Hall. � Sou um �s, ent�o preciso ter uma identidade secreta, sabe? � O Capit�o correu a m�o ossuda pela boca, ajeitando levemente o bigode e o tufo desgrenhado de barba. � Ah, uau, sabe, nem posso acreditar. Dr. Tachyon, em pessoa. Eu admiro voc�, de verdade, cara.</p><p>Tach, que nunca foi daqueles que recusavam um elogio, ficou lisonjeado, mas tamb�m estava ciente do tempo que passava. Enfiou as flores no bolso do casaco e voltou a andar, seu acompanhante rec�m-encontrado seguindo ao seu lado. Havia uma sensa��o boa sobre o homem que tomou conta dele com um odor leve de ginseng, s�ndalo e suor velho, mas Tach n�o conseguia se livrar da sensa��o de que o Capit�o era um lun�tico amig�vel. Afundando as m�os nos bolsos de tr�s da cal�a azul-marinho, lan�ou um olhar de canto de olho para o Viajante e decidiu que precisava dizer algo. �bvio que n�o se livraria do homem t�o cedo.</p><p>� Ent�o, teria algum motivo especial para me procurar?</p><p>� Bem, acho que preciso de um conselho. Tipo, sabe, pareceu que voc� era a pessoa a quem eu devia perguntar. � As m�os do homem buscaram a gravata verde gigantesca com pontinhos amarelos e deram uma bela puxada, como se ele a achasse sufocante. � N�o sou realmente o Capit�o Viajante.</p><p>� Sim, eu sei, voc� j� disse � Tach retrucou, persistindo com sua paci�ncia, agora quase desaparecida.</p><p>� Meu nome de verdade � Mark Meadows. <emphasis>Doutor</emphasis> Mark Meadows. Tipo, temos muito em comum, cara.</p><p>� Voc� s� pode estar brincando � soltou Tach e, no mesmo instante, arrependeu-se da grosseria.</p><p>A figura desajeitada pareceu murchar, perdendo alguns cent�metros.</p><p>� Sou eu, cara, de verdade.</p><p>Dez anos atr�s, Mark Meadows foi considerado o bioqu�mico mais brilhante do mundo, o Einstein da sua �rea. Houve uma d�zia de explica��es diferentes para sua aposentadoria repentina: estresse, deteriora��o da personalidade, o t�rmino do casamento, abuso de drogas. Mas pensar que o jovem gigante fora reduzido a esse desajeitado�</p><p>� Estou, sabe, procurando pelo Radical, cara.</p><p>A mem�ria estalou: 1970?, a revolta no People�s Park, quando um misterioso �s apareceu na cena, resgatou o Rei-Lagarto e sumiu para nunca mais ser visto.</p><p>� Voc� n�o � o �nico. Tentei localiz�-lo nos anos 1970, mas ele nunca reapareceu.</p><p>� Sim, � realmente uma vergonha � o Capit�o concordou, com tristeza. � Uma vez eu� bem, <emphasis>acho</emphasis> que eu o tive uma vez, mas nunca consegui t�-lo de volta, ent�o talvez eu n�o tenha tido. Talvez seja s�, tipo, ilus�o, cara.</p><p>� <emphasis>Voc�</emphasis> est� dizendo que � o Radical? � A descren�a fez a voz de Tach aumentar muitas oitavas.</p><p>� Ah, n�o, cara, porque n�o tenho prova. Eu fiz esses pozinhos, tentando encontr�-lo, traz�-lo de volta, mas quando como as poeiras consigo essas <emphasis>outras</emphasis> pessoas.</p><p>� Outras pessoas? � Tach repetiu num tom artificialmente calmo.</p><p>� Sim, meus amigos, cara.</p><p>Tachyon tinha certeza agora. Estava com um maluco nas m�os. Se ao menos tivesse pedido a limusine. Ele come�ou a buscar uma maneira de se livrar da companhia indesej�vel e chegar � reuni�o antes que cancelassem o subs�dio ou sabe-se l� Ideal mais o qu� Viu uma travessa que ele sabia ser um atalho para um ponto de t�xi. Com certeza ele conseguiria se livrar�</p><p>Viajante estava caminhando de novo.</p><p>� Voc� �, tipo, o pai de todos os ases, cara. E sempre est� fazendo coisas pra ajudar o povo. E eu gostaria de ajudar o povo, ent�o pensei que voc� poderia, tipo, me ensinar a ser um �s, e combater o mal e�</p><p>Fosse l� o que o Capit�o quisesse se perdeu numa freada brusca quando um carro entrou com tudo na travessa e sacudiu numa parada. Instintos de sobreviv�ncia, treinados na inf�ncia, tomaram conta dele, e Tach girou e correu daquilo que agora percebeu ser uma caixa mortal. Viajante olhava de um lado para o outro, sua cabe�a apontando para o carro e para o takisiano em fuga como um flamingo perplexo.</p><p><emphasis>Screeeech! Bum!</emphasis> Outro carro, de fato bloqueando sua escapada. E as figuras � figuras familiares � saindo aos borbot�es dos ve�culos. Ele n�o tinha tempo de ponderar sobre a presen�a inexplic�vel de seus parentes na Terra; em vez disso, seus escudos se armaram a tempo de rebaterem um poderoso choque mental. Seu poder se expandiu, escudos se chocaram, ca�ram, e um de seus algozes despencou.</p><p>Ele tentou outra vez; os escudos aguentaram. <emphasis>S�o muitos</emphasis>. Tempo para tentar e engan�-los fisicamente. O vazamento da mente deles indicava uma captura simples, mas ent�o ele viu um la�ador no bracelete do seu primo Rabdan. Era uma arma especialmente perigosa, e uma arma de assassinato popular. Uma press�o no peito da v�tima e o cora��o parava. R�pida, limpa, simples, e o trabalho estava terminado. Uma voadora traseira fez Rabdan pousar num monte de latas de lixo. As latas ca�das foram abaixo com estouro e estardalha�o, soltando o fedor de lixo apodrecendo, e quatro ou cinco gatos de rua choramingaram e chiaram. O disco prateado do la�ador rolou da m�o de Rabdan e Tach pulou para peg�-lo.</p><p>De canto de olho, viu o Capit�o segurar a cabe�a e desmaiar com um gemido sobre a cal�ada escorregadia. Outro ataque mental que seus escudos revidaram, mas de nada adiantaram contra um bast�o manejado com destreza por Sedjur, seu antigo mestre de armas, e quando seu cr�nio explodiu em fragmentos de luz e dor, Tachyon sentiu uma sensa��o profunda de agonia e trai��o, e um desejo imenso de ter uma <emphasis>arma</emphasis>.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� � trazer este outro?</p><p>� Voc� disse para n�o deixar nem testemunhas, nem corpos.</p><p>Os tons zangados e defensivos de Rabdan pareciam filtrados por muitos quil�metros de algod�o, e aquela outra voz� n�o poderia ser. Tach fechou os olhos com mais for�a, desejando voltar � inconsci�ncia, qualquer coisa menos a presen�a da <emphasis>Kibr</emphasis>, Benaf�saj.</p><p>A velha suspirou.</p><p>� Muito bem, talvez ele possa servir como um controle. Leve-o para a cabine com os outros.</p><p>Os passos de Rabdan recuaram, acompanhados por um som de arrasto.</p><p>� O garoto se saiu bem � Sedjur disse assim que Rabdan saiu, e ele n�o poderia se ofender com suas observa��es. � Os anos aqui o fortaleceram. Venceu Rabdan.</p><p>� Sim, sim. Agora v�. Preciso falar com meu neto.</p><p>Os passos de Sedjur diminu�ram, e Tach continuou a fingir que estava dormindo. Sua mente estendeu-se, tocou a presen�a da nave, (era definitivamente uma nave de guerra da classe Corcel), sentiu o padr�o familiar das mentes takisianas, o p�nico de dois� n�o, de <emphasis>tr�s</emphasis> mentes humanas. E, finalmente, uma mente cujo toque trouxe um ataque de medo e �dio e arrependimento tingidos pela tristeza. Seu primo, Zabb, tomando consci�ncia da sondagem suave, rebateu, e o escudo imperfeito de Tachyon permitiu que parte do revide passasse. Sua dor de cabe�a aumentou em intensidade.</p><p>� Sei que est� consciente � Benaf�saj disse, come�ando a conversa.</p><p>Com um suspiro, Tach abriu os olhos e observou os tra�os bem marcados da sua parente viva mais velha. A luminesc�ncia opalina das paredes da nave formava uma aur�ola em torno do seu cabelo prateado e aumentava a rede de linhas entalhadas em seu rosto. Contudo, mesmo com toda a devasta��o, era poss�vel ver tra�os da beleza formid�vel que fascinara muitas gera��es de homens. Existe a lenda de que um membro da fam�lia Alaa arriscou tudo para passar uma noite com ela. Perguntava-se se ele achava que o j�bilo valia o pre�o, pois ela o mataria antes da manh�. (Ou assim contava a hist�ria.) A m�o retorcida pegou uma mecha de cabelo que estava solta do penteado elaborado, enquanto os olhos cinzentos esmaecidos o examinavam com uma frieza que beirava o desinteresse.</p><p>� Vai me cumprimentar a contento ou seus anos na Terra empobreceram suas boas maneiras?</p><p>Ele se ergueu com dificuldade, fez uma mesura e abaixou-se com um joelho ao ch�o diante da mulher. Seus dedos longos e secos envolveram o rosto dele, puxando-o para perto, e os l�bios murchos beijaram-lhe a testa.</p><p>� Voc� nem sempre foi silencioso. Em casa, seu tagarelar era considerado um defeito. � Ele permaneceu quieto, sem querer perder a compostura fazendo a primeira pergunta. � Sedjur disse que voc� aprendeu a lutar. A Terra lhe ensinou tamb�m a esconder sua opini�o?</p><p>� Rabdan tentou me matar.</p><p>Ela n�o ficou desconcertada pela aspereza da declara��o, tampouco insultada pelo tom hostil, direto.</p><p>� Nem todos receberiam bem seu retorno a Takis.</p><p>� E Zabb est� a bordo.</p><p>� E da� voc� pode tirar suas pr�prias conclus�es.</p><p>� Eu sei. � Ele desviou o olhar, a repulsa espalhada sobre o fundo da l�ngua como um gosto de podrid�o. � N�o voltarei, nem os seres humanos v�o para l�.</p><p>Os dedos finos fecharam-se como garras no queixo dele e for�aram-no a encar�-la.</p><p>� Voc� � um rapaz ressentido. Que me diz sobre sua obriga��o e responsabilidades perante a fam�lia?</p><p>� E o que dizer sobre minha busca pela virtude? � ele retrucou, jogando para ela o outro princ�pio igualmente importante e extremamente contradit�rio da vida takisiana.</p><p>� O tempo n�o parou em casa enquanto voc� se divertia na Terra. Quando voc� desapareceu, Shaklan suspeitou que havia seguido a nave at� a Terra. Mas voc� n�o estava sozinho em sua preocupa��o sobre o grande experimento. Outros observavam, mas em vez de se adiantar para impedir o lan�amento, eles atacaram a fonte. L�gura, aquele animal sem m�e, formou uma coaliz�o de 15 outras fam�lias, e eles vieram.</p><p>Ela encarou suas m�os, e de repente pareceu muito velha.</p><p>� Muitos morreram no ataque. Mas por Zabb, eu acho, <emphasis>todos</emphasis> poder�amos ter morrido.</p><p>Tach mordeu o l�bio inferior, retendo as desculpas por sua aus�ncia.</p><p>� Voc� nunca se perguntou, enquanto os anos passavam e n�s n�o v�nhamos, o que podia ter acontecido?</p><p>Uma l�mina fria parecia se retorcer em sua barriga, e ele for�ou:</p><p>� Meu pai?</p><p>� Um ferimento na cabe�a. A carne vive, mas a mente se foi.</p><p>Uma dorm�ncia tomou conta dele, e a lembran�a das palavras dela pareciam chegar a ele de uma longa dist�ncia.</p><p>� Sem voc�, Zabb fez agita��o pelo cetro, mas muitos temeram sua ambi��o. Para bloquear sua ascens�o, seu tio Taj manteve a reg�ncia, mas foi decidido que voc� precisava ser encontrado, pois h� d�vida sobre quanto tempo mais o corpo de Shaklan poder� continuar�</p><p><emphasis>Manh�s t�o frias, e seu pai deixava um cone de papel cheio de nozes torradas na sua m�o, enquanto um vendedor de rua se balan�ava e sorria para os nobres� Balan�ando com tristeza numa porta, enquanto Shaklan conduzia neg�cios e esquecia que prometera ensinar o filho a cavalgar naquele dia. O t�rmino da reuni�o e os bra�os bem abertos. Correndo para aquele abra�o, sentindo-se seguro enquanto aqueles bra�os poderosos o envolviam, e a c�cega de uma gravata de babados contra sua bochecha, e o calor, o cheiro masculino coberto com o tempero de sua col�nia�</emphasis></p><p><emphasis>A dor indescrit�vel quando o pai o atingiu na coxa durante uma de suas sess�es de treinamento ps�quico. As l�grimas que derramaram quando Shaklan tentou explicar por que tinha feito aquilo. Que Tisianne precisava ser capaz de aguentar qualquer coisa deste lado da morte sem perder o controle mental. Algum dia sua vida poderia depender daquilo� O tremeluzir da luz da lareira na superf�cie marcada de seu rosto quando eles dividiam uma garrafa de vinho, e choravam, a noite que eles souberam do suic�dio de Jadlan.</emphasis></p><p>Tach cobriu o rosto com as m�os e solu�ou. Benaf�saj n�o se moveu, f�sica ou mentalmente, para aliviar sua ang�stia, e ele a odiou por isso. A tempestade consumiu-se e ele limpou os olhos lacrimejantes e o nariz escorrendo com um len�o oferecido por sua muitas vezes tatarav�. Seus olhos se encontraram e ele viu nos dela� dor? Mal podia acreditar naquilo, e o momento passou antes que pudesse ter certeza da realidade daquilo que tinha visto.</p><p>� Tomaremos o caminho de casa assim que tivermos limpado a �rea dos brotos. N�o estamos armados o suficiente para combater um ataque de uma das devoradoras, e nossas coberturas devem cair antes de podermos entrar no voo-fantasma. � uma vergonha � continuou a pondera��o � que pudemos salvar t�o poucas esp�cimes. � prov�vel que T�zan-d�ran destrua este mundo.</p><p>A cabe�a dele se moveu rapidamente, negando.</p><p>� Voc� discorda?</p><p>� Acho que os humanos podem surpreender voc�s.</p><p>� Duvido. Mas ao menos reunimos nossos dados. � Ela o agulhou com um olhar frio e cinzento. � Claro, voc� ter� o controle da nave, mas, por favor, n�o aborde os humanos. Isso apenas os agitar� e trar� dificuldades para se adaptarem � nova vida.</p><p>Ela deu ordens telep�ticas e uma mulher esguia entrou na sala. Tach percebeu, com um susto, que a �ltima vez que ele a tinha visto ela era uma garotinha rechonchuda de 5 anos, cuidando de uma bela fam�lia de bonecas e fazendo-o prometer que se casaria com ela quando crescesse para que pudessem ter beb�s lindos. Agora, ela nunca se casaria. O fato de estar na nave, e n�o seguramente protegida nos alojamentos femininos, significava que era <emphasis>bitshuf�di</emphasis>, uma das neutralizadas que fora destinada a carregar recessivos perigosos, ou tinha valor gen�tico insuficiente para ser autorizada a procriar.</p><p>Seus olhos piscaram (com tristeza?� era dif�cil medir a emo��o, de t�o r�pido que aconteceu) sobre ele, e ela fez uma mesura.</p><p>� Sire, se voc� me acompanhar.</p><p>Ele fez a Benaf�saj uma rever�ncia final e seguiu os passos de Talli, ponderando como quebrar o sil�ncio. Decidiu que uma conversa fiada seria inadequado � <emphasis>claro que ela cresceu, passaram-se d�cadas!</emphasis></p><p>� Nenhum cumprimento, Talli? � O corredor curvou-se � frente deles, reluzindo como madrep�rola polida, enquanto espiralavam cada vez mais fundo no cora��o da nave.</p><p>� Voc� n�o fez nenhum na despedida.</p><p>� Foi algo que precisei fazer.</p><p>� Outros tamb�m vivem com esse mandamento. � Ela olhou nervosamente ao redor e entrou no modo telep�tico, impenetr�vel e �ntimo. � <emphasis>Zabb queria voc� morto. N�o coma ou beba nada que n�o seja eu a trazer, e tome cuidado.</emphasis> Ela encaixou uma pequena adaga afiada na m�o dele, que a escondeu rapidamente na manga da camisa.</p><p><emphasis>Suspeitei disso. Mas obrigado pelo aviso e pela arma.</emphasis></p><p><emphasis>Ele vai me matar se suspeitar.</emphasis></p><p><emphasis>Ele n�o vai saber por mim. Nunca foi p�reo nas artes mentais.</emphasis></p><p>Mas ela olhou em d�vida, e ele percebeu com constrangimento como seus escudos estavam relaxados. Ele os fortaleceu, e ela balan�ou a cabe�a, aliviada.</p><p><emphasis>Melhor assim.</emphasis></p><p><emphasis>N�o, � terr�vel. � uma situa��o horr�vel.</emphasis></p><p>Olhou para ela com seriedade.</p><p><emphasis>N�o tenho a inten��o de voltar para Takis.</emphasis></p><p>Chegaram � porta da cabine, e a nave, obediente, abriu-se para ele.</p><p>Ela pousou as m�os nos ombros dele e insistiu.</p><p><emphasis>Voc� precisa. Precisamos de voc�</emphasis>.</p><p>E, enquanto a porta fechava como uma lente, ele decidiu que talvez ela n�o fosse t�o aliada assim no fim das contas.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Tom Tudbury estava tendo um dos piores dias da sua vida. O pior dia fora 8 de mar�o, quando Barbara casou-se com Steve Bruder, mas aquele era praticamente o segundo pior. Estava a caminho da cl�nica de Tachyon com o aparelho estranho que havia pegado do punk, quando uma estranha nave, parecendo uma concha de molusco, pairou sobre as nuvens, ao lado dele, e o convidou a bordo. Talvez <emphasis>convidou</emphasis> n�o fosse a palavra certa; <emphasis>obrigou</emphasis> estava mais pr�ximo da realidade. Garras g�lidas pareciam agarrar sua mente, e ele flutuou calmamente a carapa�a para dentro das portas escancaradas de um compartimento de carga. N�o se lembrava de nada at� se encontrar em p� numa sala gigantesca, a carapa�a pousada ao lado.</p><p>Diversos homens esguios em uniformes dourados e brancos de �pera c�mica aproximaram-se e o examinaram, enquanto outro se lan�ou para dentro da carapa�a e saiu de l� com a estranha bola preta e um pacote de seis cervejas pela metade. Ele fez um gesto com as latas, o que causou um som met�lico e abafado, e houve um estouro de gargalhadas. Em seguida, o aparelho foi examinado entre uma onda de palavras musicais cheias de pausas aleat�rias e inexplic�veis. Dando de ombros, o aparelho foi colocado numa prateleira que se estendia de um lado da sala curva. Um de seus captores gesticulou polidamente na dire��o de uma porta de entrada. A cortesia do gesto removeu seu pior medo � era �bvio que n�o estava nas m�os do Enxame. De alguma forma, a gentileza n�o parecia se encaixar com os monstros.</p><p>Sa�ram num corredor serpenteante cujas paredes, ch�o e teto brilhavam como concha de abalone polida. Enquanto prosseguiam, o teto abaulado se iluminava antes deles e escurecia depois de passarem. Uma parede trazia um adere�o de linhas r�seas como as p�talas de uma flor. Essa se��o escancarou-se de repente, e Tom foi conduzido at� uma cabine luxuosa.</p><p>Uma explos�o de riso delicado e feminino o recebeu, e ele olhou para a bela mulher curvada no centro de uma grande cama redonda.</p><p>� Bem, voc� n�o parece gostar muito � disse ela com um olhar avaliador. Ele murchou a barriga e desejou que sua camiseta estivesse limpa. � Sou Asta Lenser. Quem � voc�, afinal? � Ele estava assustado, mas o medo o deixou cuidadoso. Ele balan�ou a cabe�a. � Ah, foda-se! Estamos nisso aqui juntos.</p><p>� Sou um �s. Tenho que ser cuidadoso.</p><p>� Bem, grande merda! Eu tamb�m sou.</p><p>� �?</p><p>� Sim, fa�o a dan�a dos sete v�us. � Seus bra�os longos e graciosos sacudiram formas sobre ela. � Deixo Salom� no chinelo. � Ele olhava perplexo. � Voc� nunca foi ao bal�?</p><p>� N�o.</p><p>� Babaca. � Ela fu�ou numa grande bolsa disforme e tirou de l� um pacote de p� branco, um espelho e um canudinho. Suas m�os tremiam tanto que levou cinco tentativas para conseguir estender as carreiras. Sugou a coca�na e recostou-se com um longo suspiro de al�vio. � Onde estamos? Ah, sim, meu poder. Posso hipnotizar as pessoas com minha dan�a. Em especial, homens. Mas � um poder insignificante quando voc� � sequestrado por alien�genas. Ainda assim. Ele mesmo com certeza apreciou. Consegui muitas informa��es boas com meu poder insignificante e o segurei� em p�. � Ela fez um gesto obsceno entre as pernas.</p><p>Tom perguntou-se de quem e que diabos ela estava falando, mas francamente n�o se importou em decifrar. Cambaleou pelo quarto, e caiu num banco baixo que parecia uma extrus�o da pr�pria nave. Quando se sentou na almofada grossa adornada, houve estalidos de folhas e p�talas secas, e um aroma muito forte preencheu o ar.</p><p>N�o tinha certeza de quanto tempo ficou no banco, torturando-se sobre sua situa��o � Takisianos! Jesus Cristo! O que vai acontecer com eles? Tach? Ele poderia ajudar? Ele t� sabendo? Que merda!</p><p>� Ei � Asta chamou. � Desculpe. Olha, n�s dois somos ases, poder�amos fazer alguma coisa pra sair dessa bagun�a.</p><p>Tom apenas balan�ou a cabe�a. Como poderia dizer a ela que deixou seus poderes para tr�s com sua carapa�a?</p><p><image l:href="#0"/></p><p>O riscar do f�sforo soou alto na sala silenciosa. Tach observou com aten��o desnecess�ria quando a vela reluziu. A luz atingiu a cor da parede da nave e espalhou um aroma suave de flores. Puxando uma moeda de 25 centavos do bolso, ele a pousou no altar. Parecia incongruente entre as moedas takisianas de ouro. Ele levantou a faca m�nima com cabo perolado, murmurou uma breve ora��o para a liberta��o do esp�rito do pai e fez um pequeno corte na ponta do dedo indicador. O sangue correu devagar, e ele encostou a gota reluzente na moeda. Abaixou-se para se sentar de pernas cruzadas diante do altar familiar, lambendo o corte do dedo, e rolando a faquinha de meio cent�metro na m�o.</p><p>� Esta n�o � uma grande arma.</p><p>Zabb estava recostado � porta, bra�os cruzados � frente do peito. Tinha quase um metro e oitenta, com corpo magro, peito grande e ombros largos de nadador ou de lutador de artes marciais. Cabelos ondulados, de um cinzento dourado, ca�am de uma testa alta e branca, e apenas encostavam no colarinho de sua t�nica branca e dourada. Os olhos frios e cinzentos adicionavam-se � impress�o de metal e cristal. N�o havia calor naquele homem. Mas havia poder e comando, e um carisma assolador.</p><p>� N�o era o que eu estava pensando.</p><p>� Pois deveria.</p><p>Algo aconteceu naquele momento, a disposi��o dos ombros de Zabb, ou talvez o entortar indulgente da cabe�a, que fez Tach se lembrar do passado� antes de a pol�tica familiar irromper, antes de ele entender os sussurros que ligavam a m�e de Zabb � morte de sua m�e, antes� Um tempo quando Tach, ent�o com 5 anos, adorava o glamoroso primo mais velho.</p><p>� Estava lembrando que voc� me deu meu primeiro animalzinho. Daquela ninhada que a velha Th�shula teve.</p><p>� N�o, Tis. Isso est� morto e enterrado.</p><p>� Assim como eu estarei?</p><p>Seus olhos se encontraram, cinza com lil�s. Os de Tach baixaram primeiro.</p><p>� Sim. � A m�o fina e bem cuidada esfregava nervosamente o bigode e as costeletas cheias. � Pretendo mat�-lo antes de chegarmos a Takis. � O tom de Zabb era de uma conversa.</p><p>� N�o quero voltar � fam�lia. Quero ficar na Terra.</p><p>� N�o importa. Enquanto voc� estiver vivo, <emphasis>eu</emphasis> n�o conseguirei.</p><p>� E os humanos?</p><p>� S�o cobaias. �teis se nos movermos para o segundo est�gio. � Ele se virou para sair.</p><p>� Zabb, o que aconteceu?</p><p>Os ombros do primo se curvaram, ent�o se soltaram para tr�s naquela rigidez militar.</p><p>� Voc� atingiu a maturidade.</p><p>A porta sussurrou ao se fechar atr�s dele.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Tom e Asta assustaram-se quando os dois homens entraram, arrastando entre eles uma forma esparramada, desengon�ada num terno p�rpura de Tio Sam. O homem mais jovem ficou de joelhos, apalpou rapidamente os bolsos do casaco volumoso de hippie e tirou um pequeno frasco cheio de um p� azul salpicado de prata. O mais velho aceitou o frasco, destampou-o e, curioso, cheirou o conte�do. Uma sobrancelha ergueu-se.</p><p>� Este aqui estava com Tisianne? � disse ele, em ingl�s.</p><p>� Sim, Rabdan.</p><p>� E eles pareceram amig�veis? � Seus olhos p�lidos voltaram-se para Tom.</p><p>� S-sim.</p><p>� � um tipo de droga. E muito de uma droga pode causar efeitos terr�veis. Certamente, espero que meu estimado sobrinho esteja familiarizado com o tratamento de uma overdose. De outra forma, o amigo dele poderia morrer. � Outro olhar misterioso, como o de um gato, para Tom.</p><p>Os dedos de seu acompanhante apertaram rapidamente os l�bios, ent�o disse ele, hesitante:</p><p>� N�o dever�amos perguntar a Zabb?</p><p>� Bobagem, ele n�o se importar� com o que acontecer� a um amigo humano de Tisianne.</p><p>Ajoelhando-se, derramou o conte�do do frasco entre os l�bios frouxos do hippie. Tom fez men��o de se levantar, um protesto nos l�bios, mas um olhar de Rabdan o fez cair de volta sobre o banco. Os olhos de todos se voltaram para a figura muito magra no ch�o; Asta, com entusiasmo, a ponta da l�ngua apenas � mostra entre os l�bios; Tom, horrorizado; o jovem takisiano, preocupado; e Rabdan com um bom humor jovial.</p><p>O homem ser retorceu, virou-se, e por um instante todos ficaram boquiabertos quando uma figura azul brilhante se ergueu do ch�o, majestosa. Dentro de sua capa de capuz escura como o espa�o, seus olhos eram fendas de fogo branco, e o forro da capa reluzia com estrelas brilhantes, n�bulas, espirais gal�cticas. Os takisianos pularam para a frente, agarrando o ar, enquanto a forma ex�tica afundava r�pida e suavemente atrav�s do assoalho.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Tachyon voltou � sua cabine e estirou-se de bru�os sobre a cama, queixo apoiado nas m�os, e tentou decidir o que fazer. A breve conversa com Zabb indicou n�o apenas perigo a ele, mas tamb�m aos seres humanos. Era �bvio que serviriam de cobaias, apesar das observa��es de Benaf�saj.</p><p>N�o demorou muito para identificar a nave como a <emphasis>Hellcat</emphasis>, a embarca��o favorita e mais amada do primo. Assim, uma tentativa de assumir a nave seria in�til. N�o havia maneira de ele conduzir <emphasis>aquela</emphasis> nave. Ainda conseguia se lembrar do dia em que os cultivadores de nave chamaram para dizer que seria melhor retroceder com a mais nova nave do primo para que pudessem come�ar de novo. Ela era selvagem, arrogante, extremamente indom�vel. Aquilo foi o bastante para Zabb. Mesmo entre as outras fam�lias, notoriamente sovinas com os elogios, ele era conhecido como o treinador de naves mais brilhante do planeta. E n�o conseguia resistir a um desafio. Tisianne, com 9 anos, esteve presente com seu pai no centro de treinamento orbital. Zabb entrou na nave, os poderosos feixes de luta foram liberados, e a nave come�ou a fugir na dire��o geral do centro gal�ctico. Ningu�m sequer esperava ver Zabb novamente, mas duas semanas depois a nave e o takisiano voltaram com dificuldade para casa, e nada poderia ser mais d�cil que o comportamento da <emphasis>Hellcat</emphasis> quando sob o comando de seu conquistador. Era nave de um homem s�.</p><p><emphasis>Bem do jeito que</emphasis> Baby <emphasis>� comigo</emphasis>, pensou Tach, na defensiva.</p><p>O problema era que a nave n�o poderia ser controlada apenas por meros poderes ps�quicos. Al�m disso, era uma nave militar, o que significava que havia de fato consoles de controle embutidos no casco de forma que, se fosse muito danificada, a tripula��o poderia ser capaz de cuidar dela at� voltar para casa. Mas se ele tentasse tomar a nave usando os consoles, ela simplesmente desconsideraria suas ordens e gritaria por Zabb. E, embora ele pudesse enfrentar Zabb num confronto mental homem a homem, havia 19 outros takisianos na nave.</p><p>Ent�o, o que fazer? Benaf�saj estava mesmo no comando. E, se precisasse dar a ordem de levar Tachyon e os prisioneiros para a Terra� Ele rolou para fora da cama e saiu em busca da sua <emphasis>Kibr.</emphasis></p><p>Ela estava na ponte, olhando furiosamente para Andami, enquanto Sedjur olhava com desd�m para uma proje��o que <emphasis>Hellcat</emphasis> lan�ava gentilmente no ch�o. O homem mais novo se contorcia.</p><p>� Fa�a o favor de explicar para mim por que voc� administrou uma subst�ncia desconhecida num prisioneiro?</p><p>� Foi Rabdan quem fez isso � Adami disse, mal-humorado.</p><p>� Ent�o, os dois s�o est�pidos, ele por faz�-lo e voc� por permiti-lo. Agora temos uma criatura alien�gena com capacidades desconhecidas solta pela nave.</p><p>� Ele est� se movendo de novo � Sedjur irritou-se. � Est� no n�vel cinco. N�o, voltou para dois. Agora est� na sua cabine.</p><p>A boca de Benaf�saj torcia-se em desaprova��o.</p><p>� N�o sei por que todos est�o t�o irritados. <emphasis>Hellcat</emphasis> pode nos dizer onde ele est�.</p><p>� Porque ele se move atrav�s de paredes e pisos, e quando chegamos num lugar, ele j� se moveu de novo � a senhora explicou com paci�ncia cuidadosa, como se estivesse falando com uma crian�a retardada.</p><p>Tach deu um passo adiante, tentando n�o chamar a aten��o do tri�ngulo na porta principal, agarrou o espaldar de uma cadeira de acelera��o e enviou uma pequena linha. Ele tinha o dom de se insinuar atrav�s dos escudos, mas Benaf�saj teve muito mais que duzentos anos para aperfei�oar os dela. Sua boca estava seca e ele conseguiu sentir a pulsa��o martelando na garganta quando atravessou a primeira barreira.</p><p><emphasis>Segundo n�vel. Mais complexo aqui. Armadilhas postas para algu�m descuidado que lan�am o infiltrado em</emphasis> loops <emphasis>mentais infinitos at� Benaf�saj achar adequado liber�-lo.</emphasis></p><p>Ele rompeu um dos escudos e rapidamente teceu um desvio para cobrir seu erro. Ele se instalou como um floco de neve dan�ante no meio da cabe�a de sua <emphasis>Kibr</emphasis>, atenuando a incis�o irregular que deixara. Mais um vencido. <emphasis>Quantos n�veis a velha diaba tem?</emphasis></p><p><emphasis>Brrrrrrang**********!</emphasis> Ele nunca via o golpe vindo. Trope�ou num alarme, uma l�mina branca e quente ergueu-se como uma onda de fogo, e despencou. Sentiu como cada sinapse de seu c�rebro fora simultaneamente incinerada, e sua mente parecia chacoalhar no cr�nio como uma noz podre dentro da casca. Percebeu que deslizava para o ch�o para cair sentado, seus dedos arranhando o ch�o perolado da <emphasis>Hellcat</emphasis>. Bateu na parede, e o ar saiu dele numa rajada.</p><p>Benaf�saj olhou para ele, divertimento e irrita��o tremeluzindo no rosto. Ele conseguia sentir o sangue subindo para suas bochechas finas.</p><p>� Estou com meus escudos armados! � anunciou de forma intermitente e irracional. Estava se sentindo terrivelmente maltratado.</p><p>� Quem controla minha mente sou <emphasis>eu</emphasis>, rapaz idiota. E voc� n�o pode formar um escudo que eu n�o possa romper. Troquei suas fraldas quando voc� era um beb� chor�o! N�o h� nada que eu n�o saiba sobre voc�! � Ela se virou, o rep�dio escrito em cada linha do seu corpo fr�gil, e a humilha��o ergueu-se para sufoc�-lo. � Levem-no � ela lan�ou por sobre os ombros para Sedjur. � E desta vez <emphasis>tranque</emphasis>-o na cabine. � A �ltima ordem foi direcionada � nave.</p><p>Sem express�o, Sedjur ofereceu a m�o para ajud�-lo a se levantar, e o conduziu de volta para a cabina. Ele se apressou � frente, de cabe�a baixa, ombros encolhidos, sentindo-se com 5 anos. O velho saiu, e Tach tomou v�rios goles deliberados do frasco cinza que carregava no cinto. O u�sque ajudava a equilibrar seus nervos em frangalhos, mas n�o a melhorar seus processos mentais. Andou em c�rculos pela cabine luxuosa, tentando pensar num plano; entrando em p�nico quando nada lhe ocorreu. Imaginando o que estava solto na nave. Perguntando-se.</p><p>Decidiu que determinaria precisamente quais humanos estavam sendo mantidos na nave. Tocou uma mente feminina familiar. Asta Lenser, a primeira bailarina do American Ballet Theater. Estava pensando num homem. Um homem que estava tendo um grande problema de desempenho. Enquanto seu corpo atarracado e suado se debatia sobre o dela, ela estava pensando como era ir�nico que um homem com seus poderes n�o conseguisse �levantar�. <emphasis>O homem mais temido em�</emphasis></p><p>Envergonhado por sua intromiss�o e sentindo-se um <emphasis>voyeur</emphasis>, Tach retirou-se e continuou a busca. N�o havia nada que parecesse com o lun�tico amig�vel que o abordara fora da cl�nica, e ele tinha a esperan�a de que o Viajante n�o tivesse sido considerado in�til e descartado. Tinha algo estranho. Uma mente t�o bem bloqueada que era quase opaca. Nunca sentira isso sem uma sensa��o repentina de terror, mas rapidamente foi suprimida, e ele perdeu a fonte. Talvez fosse o intruso. Ele buscou ainda mais e encontrou�</p><p>� Tartaruga! � ele exclamou, surpreso e preocupado, fazendo com que ele se erguesse.</p><p>Ele estreitou e refinou sua sondagem, construiu uma penumbra para dar a ilus�o para qualquer bisbilhoteiro mental de que estava dormindo, e fez contato. Era mais dif�cil do que esperava. Seu primeiro toque breve mostrou a ele um Tartaruga que ele n�o conhecia, e ele n�o queria perturbar o homem aparecendo de repente na cabe�a dele. Come�ou a buscar maneiras para fazer com que ele aos poucos tomasse ci�ncia da sua presen�a, ficando mais deprimido a cada momento que passasse. Emo��es escuras, pesadas, rolavam como ondas viscosas, tristes pela mente do Tartaruga: medo, raiva, perda, solid�o e uma sensa��o avassaladora de desesperan�a e futilidade.</p><p>Sentindo-se como um intruso, e sem querer que Tartaruga pensasse que estava espiando em quest�es particulares que n�o lhe diziam respeito, ele tocou com firmeza os escudos primitivos do homem at� que uma fa�sca de surpresa e interesse cuidadoso mostrou a ele que atraiu a aten��o do Tartaruga.</p><p><emphasis>Tartaruga.</emphasis></p><p><emphasis>Tacky, � voc�?</emphasis></p><p><emphasis>Sim.</emphasis> Ele sentiu desconfian�a e suspeita. Machucava, e ele se perguntou novamente o que acontecera ao seu amigo mais antigo na Terra. <emphasis>Sou prisioneiro, como voc�.</emphasis></p><p><emphasis>Ah. Uma daquelas outras fam�lias de que voc� sempre falava?</emphasis></p><p><emphasis>N�o, minha fam�lia. Vieram ver os resultados do experimento e me encontrar.</emphasis> A d�vida do Tartaruga era como uma l�mina r�gida. <emphasis>O que posso fazer para te convencer de que n�o tenho parte nisso?</emphasis></p><p><emphasis>Talvez voc� n�o possa.</emphasis></p><p>Meu amigo, voc� n�o costumava ser assim.</p><p><emphasis>� mesmo.</emphasis> A amargura envolveu o pensamento. <emphasis>E eu n�o costumava ter mais de 40, e estar totalmente sozinho, e indo para lugar nenhum, a n�o ser na dire��o da morte.</emphasis></p><p><emphasis>Tartaruga, o que � isso? O que h� de errado? Deixe-me ajudar.</emphasis></p><p><emphasis>Como voc� e todo o resto dos seus ajudaram quando trouxeram o v�rus pra Terra? N�o, obrigado.</emphasis></p><p>A dor e a culpa antiga voltaram, mais forte do que foram em anos; anos durante os quais ele construiu a cl�nica, tornou-se mais famoso que odiado, amado por muitos dos seus �filhos�. Anos que cegaram as l�minas de sua culpa. Eram abertos um com o outro, e Tach pensou que sentiu no Tartaruga uma satisfa��o perversa com sua dor.</p><p><emphasis>Como eles te capturaram?</emphasis></p><p><emphasis>N�o foi muito dif�cil. Devem ter usado o controle mental, porque simplesmente voei na dire��o deles.</emphasis></p><p><emphasis>Ali�s, o que estava fazendo l� fora?</emphasis> Tach disse, tentando de forma irritada e irracional mudar o foco da culpa para o Tartaruga.</p><p><emphasis>Estava levando a porra da bola de boliche pra voc�, pensei que voc� quisesse jogar um pouco, que merda voc� acha que eu estava fazendo?</emphasis></p><p><emphasis>N�o sei, por isso perguntei,</emphasis> retrucou Tach, seu tom mental t�o grosseiro quanto o de Tartaruga.</p><p><emphasis>Era a porra de uma bola de boliche esquisita que arranquei de uns garotos na rua.</emphasis></p><p><emphasis>Onde ela est� agora?</emphasis></p><p><emphasis>Eles a tiraram da carapa�a e a colocaram numa prateleira na sala.</emphasis></p><p><emphasis>Que sala? Me mostre.</emphasis></p><p>A exaspera��o do Tartaruga era como �cido contra sua mente, mas ele for�ou. E Tach realmente n�o sabia por que ele estava sendo t�o insistente sobre o aparelho. Provavelmente apenas algo para desvi�-lo de sua afli��o presente.</p><p><emphasis>Estou ponderando sobre a viabilidade de uma insurg�ncia</emphasis>, disse ele, ap�s uma longa pausa. <emphasis>Entre sua telecinesia, meu controle da mente e a adaga que minha sobrinha bisneta, Talli, me deu, penso que poderia conseguir. Fico feliz que voc� n�o tenha tentado ir embora antes.</emphasis></p><p><emphasis>Eu� n�o posso.</emphasis></p><p><emphasis>Desculpe?</emphasis></p><p><emphasis>Eu disse que n�o posso.</emphasis></p><p>O passado voltou e, de repente, era ele, n�o o Tartaruga, dizendo aquelas palavras. Ele ficou em p� tremendo e chorando nos degraus do t�mulo de Jetboy, tentando explicar que, embora <emphasis>quisesse</emphasis> ajudar, n�o poderia. O Tartaruga o atingira; o poder de telecinesia do �s atacando como um imenso punho invis�vel lan�ando-o escada abaixo. Mas ele n�o queria atingir o Tartaruga, queria apenas entender.</p><p><emphasis>Por que Tartaruga? Por que n�o pode?</emphasis></p><p><emphasis>Estou sem minha carapa�a. O Grande e Poderoso Tartaruga poderia deixar esses nojentos em pedacinhos, mas n�o eu. Eu sou apenas o velho e normal Tom.</emphasis> � Ele recuou, mas o restante do pensamento foi claramente at� Tachyon.</p><p><emphasis>Tom Tudbury.</emphasis></p><p>Felizmente, o nome n�o significava nada para Tachyon. Ent�o, a identidade secreta do Tartaruga ainda estava intacta para todos os fins.</p><p><emphasis>Tudo bem</emphasis>, ele tranquilizou. <emphasis>Provavelmente n�o funcionaria de qualquer jeito. O plano dependeria de pegarmos um a um, e no minuto que voc� arrancasse a porta, a</emphasis> Hellcat <emphasis>gritaria para Zabb, e viriam todos para cima de n�s. E, mesmo se consegu�ssemos, eu voltaria exatamente no dilema original</emphasis> � <emphasis>como lidar com a</emphasis> Hellcat.</p><p><emphasis>Quem?</emphasis></p><p><emphasis>A nave. Ela tem consci�ncia.</emphasis></p><p><emphasis>Ent�o, deve estar um pouco surpresa, pois tem um cara flutuando por a� dentro dela.</emphasis></p><p><emphasis>Voc� viu? O que�</emphasis></p><p>� VOC�! � anunciou uma voz, preenchendo a palavra com toda a indigna��o palpitante poss�vel.</p><p>Os olhos de Tach arregalaram-se, a concentra��o necess�ria para manter o elo telep�tico perdeu-se completamente. Uma figura azul brilhante e misteriosa surgiu no meio da cabine. Rapidamente ele rolou para fora da cama, a l�mina escorregando para baixo da manga at� sua m�o. Ele se p�s em posi��o de guarda, a l�mina e a m�o livre sacudindo-se num padr�o intrincado e confuso diante dele. De tr�s da barreira dos seus escudos mentais, lan�ou uma sonda telep�tica e encontrou um bloqueio mental poderoso.</p><p>� Tire isso daqui, seu homenzinho horr�vel! Voc� n�o pode <emphasis>me</emphasis> fazer mal.</p><p>� N�o estou preocupado com isso. Estou um pouco mais preocupado sobre <emphasis>suas</emphasis> inten��es para <emphasis>comigo</emphasis>.</p><p>A criatura levitou, seus olhos estranhos reluzindo como diamantes no rosto sem fei��es.</p><p>� � tudo sua culpa. Tentei manter aquele hippie entupido de droga longe deste rumo ultrajante, mas ele era intrat�vel, extremamente intrat�vel! Pai para os ases, de fato. Ele tem um muito bom que nunca encorajaria esse tipo de irresponsabilidade juvenil. O mundo teria ficado muito bem, de fato, sem sua interfer�ncia. N�o foi o bastante voc� ter nos sujeitado a subst�ncias alien�genas estranhas e artificiais, agora precisa trazer sua <emphasis>fam�lia</emphasis> para o meio de n�s? Uma tribo inteira da sua esp�cie! Nossa �nica esperan�a � que sejam t�o fracassados e in�teis quanto voc� se mostrou. Primeiro voc� perde o v�rus, ent�o permite a libera��o, ajuda a devastar e atormentar seus amigos e amantes na pris�o, hosp�cios e�</p><p>� SIL�NCIO! � rugiu Tachyon. � <emphasis>Oh, Blythe</emphasis> � ele gritou, e o pensamento agiu como �gua numa fogueira, extinguindo sua ira inflamada e deixando para tr�s apenas uma confus�o fria e lodosa de lama e cinzas.</p><p>Ainda assim, sua explos�o pareceu fazer efeito no visitante. A boca do homem apertou-se bem firme, e ele respirava rapidamente atrav�s das narinas estreitas. Ent�o, com dignidade suprema, come�ou a afundar atrav�s do ch�o. Por um instante, Tachyon observou, mas apenas por um instante. Aquele homem poderia ser �til, e ele o mandara embora de forma est�pida. Ele se orgulhava de sua ast�cia e da capacidade de ler as pessoas e lidar com elas. Agora era o momento de testar quanto era real essa habilidade.</p><p>Ele deu um passo adiante.</p><p>� N�o, espere, eu imploro, meu bom senhor. Permita-me me desculpar pela minha grosseria e falta de maneiras. � A apari��o parou com apenas a cabe�a e o torso vis�veis no ch�o. � N�o tive a honra de fazer as apresenta��es. Sou o Dr. Tachyon.</p><p>� Caminhante C�smico.</p><p>� Queira me desculpar. Eu� eu fiquei sob uma carga muito grande de estresse hoje. Fui descuidado quando o senhor chegou, ou teria percebido sua for�a desde o in�cio.</p><p>O Caminhante sorriu com afeta��o, ent�o uma express�o de calma e sabedoria do Olimpo varreram suas fei��es. E Tachyon percebeu que n�o precisaria nem mesmo lutar pela sutileza. Com aquele homem, mesmo a mais flagrante bajula��o serviria.</p><p>� O senhor poderia ficar? Minha mente est� uma confus�o, e sinto de verdade que alguns momentos de conversa com o senhor me ajudariam.</p><p>O Caminhante flutuou graciosamente de volta para cima e sentou-se numa cadeira. Quando o fez, as linhas do seu corpo ficaram mais firmes e mais bem definidas. <emphasis>Ent�o, ele pode ficar mais substancial</emphasis>, ponderou Tachyon.</p><p>� O senhor viu os outros prisioneiros?</p><p>� Sim. Quando aquele idiota pat�tico do Viajante foi levado para a cabine, percebi um homenzinho gordo de jeans azul e camiseta, e uma jovem extremamente bela. � A ponta da l�ngua apareceu entre seus l�bios finos, umedeceu o l�bio superior, e desapareceu.</p><p>� Onde o senhor estava?</p><p>� Eu estava� presente � disse ele, cuidadoso. � Felizmente, pude me libertar. Tenho calafrios de pensar o que poderia ter acontecido se um daqueles outros idiotas pretenciosos tivesse aparecido. Eles n�o t�m a menor considera��o com meu bem-estar. � Ele olhou direto para Tachyon, obviamente incluindo-o na sua afirma��o.</p><p>Tach estava sem rumo com toda aquela conversa sobre outras pessoas e hippies entupidos de drogas. Meadows, talvez? Mas no momento ele estava menos preocupado com problemas metaf�sicos apresentados pelo Caminhante C�smico e muito mais interessado nas suas capacidades �nicas.</p><p>� Caminhante, acho que podemos escapar com <emphasis>sua</emphasis> ajuda e voltar � Terra.</p><p>� �? � A suspeita recobriu a palavra.</p><p>� Volte para a cabine onde o Tartaruga, o Capit�o e a mulher est�o sendo mantid�</p><p>� O Capit�o n�o est� mais l�.</p><p>� Hein?</p><p>� <emphasis>Estou</emphasis> aqui.</p><p>� Ah� sim� bem, n�o importa. V� at� a cabine e diga a eles para ficarem prontos. Ent�o, leve Zabb e seus comparsas at� o final da nave. � Tachyon virou a cabe�a para o lado e contemplou seu estranho aliado. � Seria mais r�pido se o senhor n�o precisasse vir at� aqui para me dar informa��es. Estaria disposto a retirar o bloqueio mental para que eu pudesse permanecer em contato telep�tico com o senhor?</p><p>� N�o! Deixar um alien�gena bisbilhoteiro dentro da minha cabe�a? Isso est� fora de quest�o.</p><p>Tachyon olhou para ele, exasperado.</p><p>� N�o tenho interesse particular no que h� dentro da sua cabe�a. Estou interessado em�</p><p>A porta abriu, e o Caminhante se foi, mergulhando com eleg�ncia atrav�s da cadeira e do assoalho, ainda sentado. Zabb e outros cinco dos seus soldados entraram com alarido na sala. Tach fechou a boca e assumiu uma express�o de interesse inocente.</p><p>� Onde ele est�? � disse Zabb entredentes.</p><p>Tach apontou um dedo para baixo.</p><p>� Ele foi naquela dire��o.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>As coisas estavam ficando cada vez mais confusas. Primeiro o hippie desaparecera, ent�o a apari��o azul brilhante sumira, e os takisianos lan�aram-se numa busca acalorada, sen�o um tanto desorganizada; ent�o Tachyon o contatou, e agora ele interrompeu bruscamente a conversa telep�tica no meio. Tom tentou v�rias vezes refazer o contato com o amigo, chegou at� mesmo a murmurar �Tach?�, diversas vezes. Olhou para cima, encontrou o olhar desconfiado de Asta e passou, envergonhado, a m�o pelos cabelos.</p><p>� Eu� eu estava tentando contatar o Tach.</p><p>� Certo. � E o fato de que ela pensara claramente que ele fosse maluco n�o fez nada al�m de refor�ar seu moral j� estremecido.</p><p><emphasis>Se o Tartaruga estivesse aqui, ela n�o estaria olhando para ele desse jeito</emphasis>, pensou, dividido entre o ressentimento e o cansa�o. Estaria agarrada ao topo da carapa�a por seguran�a, enquanto ele estourava a cabine, espalhando takisianos como pinos de boliche, resgataria Tach e voaria com eles para casa, triunfante. Ou, melhor, for�aria os takisianos a levarem-nos para casa. N�o havia espa�o na carapa�a para passageiros, tampouco ele sabia qu�o selada ela era. Pareceria um verdadeiro idiota se todos ali sufocassem�</p><p>Apertou um punho entre as coxas, interrompendo os pensamentos atormentadores, mas in�teis. N�o era o Tartaruga, era apenas Tom Tudbury, o garoto de Nova Jersey que em trinta anos havia conseguido mudar para uma casa dois quarteir�es � frente. Fechou os olhos e observou as imagens escuras e fantasmag�ricas de navios passando pelo Kill, com luzes que se refletiam nas �guas escuras e invis�veis. E percebeu que finalmente estava prestes a viajar, mas n�o uma viagem de sua escolha.</p><p>Um grito agudo de Asta trouxe-o de volta. A criatura estava l� novamente.</p><p>� Sou o Caminhante C�smico � anunciou, ent�o fez uma pausa como se esperasse o som de trombetas. Asta e Tom olhavam para ele, fascinados. � Aquele homenzinho rid�culo me mandou aqui para verificar o paradeiro de nossos captores, e para informar a voc�s que ele est� concatenando um plano de fuga, sem d�vida extremamente impratic�vel e altamente perigoso.</p><p>Asta bamboleou para a frente da cama, erguendo-se suavemente sobre os joelhos.</p><p>� Voc� pode se mover � vontade pela nave � sussurrou. � Voc� tamb�m pode voltar para a Terra?</p><p>� Sim.</p><p>Ela esticou os bra�os, os ossos da clav�cula marcados por baixo da pele branca.</p><p>� Se importaria de me levar contigo? � ronronou.</p><p>Tom queria enfatizar para ela que, primeiro, o que a fazia pensar que o homem estava falando a verdade?, e, segundo, mesmo que pudesse suportar o frio e o v�cuo do espa�o, como ele a levaria?</p><p>Ela arqueou o pesco�o como um cisne e ergueu os cabelos com as m�os. Os gestos for�aram os peitos pequenos e duros contra a roupa de malha, os mamilos como bot�es r�gidos embaixo do tecido fino.</p><p>� Posso ser muito generosa com quem me ajuda, e meu empregador poderia fazer uma oferta interessante a um homem com suas habilidades �nicas.</p><p>A incongru�ncia total da situa��o deixou Tom at�nito. Ficou pensando se aquela mulher realmente se despiria e transaria com aquele estranho bem diante dos seus olhos surpresos. Claro que o homem perceberia que quest�es mais urgentes os pressionavam. Mas o Caminhante C�smico estava embarcando na dela em grande estilo. Os giros de Asta o levaram a arquejar, e seus dedos tamborilavam, espasm�dicos, ao lado do corpo. Ele lan�ou um olhar nervoso por sobre o ombro na dire��o da porta, e Tom viu desejo e medo em guerra naquela boca azul suave. E o desejo ganhou.</p><p>Com um �eu topo� sussurrado, que foi metade gemido, metade palavras, ele cambaleou para a ponta da cama. Asta j� estava arrancando o jeans. Por baixo dele, usava meia-cal�a rosa-claro. Eles e a malha foram removidos com rapidez, e ela abriu os bra�os. O Caminhante despencou com um gemido sobre o corpo magro e branco da mulher, e come�aram as preliminares fren�ticas.</p><p>Tom, envergonhado e fascinado, percebeu (com aquela estranha aten��o ao detalhe que parece surgir quando algu�m est� numa posi��o extremamente desconfort�vel) que os p�s da mulher eram muito feios. Os dedos eram cobertos com inflama��es e calosidades, e um dos ded�es tinha um hematoma preto causado pelos golpes da sapatilha.</p><p>Dez minutos depois, ainda estavam naquilo. Asta, com irrita��o crescente, dizia �Vai! Vai!�. Sons �speros e rosnantes sa�am �s vezes do Caminhante, enquanto a bunda azul bombeava vigorosamente e com desespero crescente para cima e para baixo, para cima e para baixo.</p><p>A argola de um salto de bota arrancou um suspiro de Asta, seguido por um grito agudo e selvagem, enquanto o Caminhante afundava <emphasis>atrav�s</emphasis> de seu corpo de bru�os, e desaparecia nas profundezas da cama. Tom tamb�m quase perdeu aquilo, e correu para a cama para verificar se Asta ainda estava viva. Ela estava l� deitada, parada como morta, e ele esticou o bra�o e tocou um ombro nu. Ela gritou novamente, e Tom, assustado pela explos�o, perdeu o equil�brio e caiu de cabe�a na cama. O takisiano olhou para a cama, ent�o gritou:</p><p>� Capit�o, ele estava� � O fechamento da porta interrompeu o restante da frase.</p><p>O Caminhante C�smico voltou.</p><p>� Muito bem! Sinceramente espero que n�o precise servir como brinquedo er�tico para os takisianos. Voc� tem o dom de n�o possuir a m�nima habilidade er�tica.</p><p>� Eu? � latiu Asta, empurrando Tom para longe. � Voc� que n�o conseguiu�</p><p>� E do que voc� est� rindo a�, gordinho? � rugiu o Caminhante. Tom n�o rira de nada, n�o mesmo, mas o rid�culo da situa��o fez com que parecesse.</p><p>� Voc� sabe o que est�o planejando para voc�? � O Caminhante continuou. � Vivissec��o! Sabe o que isso significa? N�o consigo imaginar por que pegaram voc�. Deve ser o mais insignificante dos ases. Sacudindo como uma tigela de gelatina, e choramingando como uma virgem relutante. � Ele lan�ou um olhar cintilante e ressentido para Asta, que lhe mostrou um semblante de reprova��o.</p><p>Tom explodiu.</p><p>� Quer fazer o favor de dar o fora daqui? V� a merda! Voc� acha que � t�o esperto, mas tamb�m est� preso, como o resto de n�s. N�o pode sair desta nave. Se pudesse, j� o teria feito. Agora, vai embora. Sai! � Tom lan�ou-se contra ele, sacudindo os bra�os loucamente como um homem enxotando galinhas. O Caminhante se foi, suas fei��es parecendo realmente congeladas.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Onde voc� esteve, caramba? � Tachyon parou suas perambula��es nervosas. � Quanto tempo demora para sondar a nave�</p><p>O Caminhante, metade do caminho atrav�s da parede da cabine, come�ou a se retirar. Tachyon correu na dire��o dele.</p><p>� N�o, por favor, espere. Desculpe. O estresse� O que descobriu?</p><p>� Nossos captores est�o percorrendo a nave <emphasis>me</emphasis> buscando. Mas n�o posso imaginar como est�o me rastreando. Sem d�vida, logo estar�o aqui�</p><p>� E minha <emphasis>Kibr</emphasis>? A velha com joias no cabelo � ele explicou ao ver o olhar de interroga��o do Caminhante.</p><p>� N�o tenho ideia.</p><p>Tach segurou a l�ngua, decidindo que o paradeiro de Benaf�saj talvez n�o fosse t�o importante.</p><p>� Tudo bem, deixa pra l�, vamos tentar. � esquerda das portas da cabine existe uma pequena protuber�ncia na parede. � um painel manual das portas. Abra a minha, e ent�o iremos�</p><p>� N�o.</p><p>� Perd� � ele come�ou, educadamente, ent�o parou e rugiu. � Qu�?</p><p>� Voc� ouviu, eu disse n�o. N�o tenho a mais �nfima f� na sua capacidade de ser bem-sucedido na execu��o deste plano de fuga, e n�o farei parte dele. Al�m disso, como eu fico substancial e indefeso fora de sua porta, aqueles brutamontes poder�o me ferir.</p><p>� Vai levar apenas um instante.</p><p>O Caminhante cruzou os bra�os e olhou de forma majestosa para a parede dos fundos.</p><p>� N�o.</p><p>� Por favor?</p><p>� N�o.</p><p>Tachyon agarrou as m�os � frente do peito.</p><p>� Por favor, por favor, por favor?</p><p>� N�o.</p><p>� Seu covarde chor�o e abjeto. � Tach urrou. � Est� colocando todos n�s em perigo. Voc� � apenas um�</p><p>Mas o Caminhante estava saindo. Tachyon pulou at� um nicho de parede, arrancou um lindo vaso de Membres e jogou-o no �s que sa�a rapidamente. O vaso passou atrav�s dele, estourou na parede, e o Caminhante lhe lan�ou um olhar de desd�m extremo e �dio. O incidente todo fez Tach estremecer, parte de �dio, parte de desespero, por sua rea��o violenta. Ele desatou a gravata de babados e alargou o colarinho, buscando ar. Tentou com tanto empenho deixar essas rea��es controladas, lidar com gentileza e educa��o com todas as pessoas. E perdera tudo aquilo. Estava se comportando como� Fez uma pausa, buscando por alguma compara��o adequadamente desagrad�vel.</p><p><emphasis>Como Zabb.</emphasis></p><p>Esse pequeno gesto de autopuni��o foi bom, mas n�o removeu seu principal problema. Estavam num mato sem o proverbial cachorro.</p><p>E isso tudo � minha culpa, pensou Tach, sem parar para considerar se qualquer quantidade de suborno ou lisonja poderia ter comovido o teimoso �s.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Sua hora estava quase no fim. Com �dio contra a excentricidade de um universo cruel e indiferente que o deixou preso dentro do corpo do homem que ele considerava pouco melhor que um vegetal, ele perambulava pela nave takisiana, escapando daquela busca cada vez mais hist�rica por ele. Mas isso n�o poderia durar. Se ele demorasse, voltaria a ser aquele idiota do Meadows, e os alien�genas poderiam <emphasis>fazer mal</emphasis> a ele. E, por mais que o Caminhante pudesse desprezar seu corpo hospedeiro, ele percebeu que sem Mark n�o havia vida. Observou que as entradas deixavam linhas esmaecidas nas paredes como a impress�o fossilizada de p�talas de flores antigas. Algumas abriam automaticamente, outras pareciam adquirir um comando telep�tico, e outras ainda usavam pain�is de acesso que Tachyon descreveu. Ele foi em busca de uma que n�o abrisse automaticamente. Uma que parecesse firme e solidamente trancada por fora.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Mark voltou a si lentamente. E piscou� piscou de novo, porque estava <emphasis>escuro</emphasis>. Suas m�os tatearam irregularmente sobre o rosto e a cabe�a, at� ter garantido sua total consci�ncia. Mas ainda estava escuro. Arrastou os p�s para a frente e bateu o longo nariz numa parede. Segurando o nariz contundido com uma das m�os, olhou para a escurid�o horr�vel. Lentamente, esticou os bra�os, explorando as dimens�es da pris�o. Era pequena. Do tamanho de um arm�rio. Do tamanho de um caix�o.</p><p>Aquele pensamento era deprimente, ent�o ele o afastou e tentou por meio do filtro confuso das mem�rias do Caminhante juntar as pe�as do que havia acontecido.</p><p>� Alien�genas, cara. Ah, que droga.</p><p>E Tachyon� um prisioneiro? Sim, isso estava certo. Ele ficou nervoso, o Viajante fez ou deixou de fazer� alguma coisa. Mark suspirou e esfregou o rosto com as m�os. Sim, aquilo soava bem correto no que dizia respeito ao Caminhante. Por um momento, ficou numa contempla��o ressentida das desvantagens sociais e emocionais da sua personalidade alternativa.</p><p>Ele se perguntou que horas eram. Sprout estaria em casa agora, retornando do jardim de inf�ncia. Poderia confiar que Susan manteria um olho nela enquanto a Pumpkin estivesse aberta, mas, assim que a tabacaria fechasse, quem cuidaria dela? Com certeza, Susan n�o a deixaria sozinha se Mark n�o retornasse. Tentou andar em sua pris�o m�nima, mas continuava a calcular mal na escurid�o e se debatia nas paredes.</p><p>� Tenho que sair daqui e ajudar o Dr. Tachyon. Ele saber� o que fazer.</p><p>Ele come�ou a fu�ar na bolsa de couro e tirou um frasco. Ergueu diante dos olhos e espiou, mas sem sucesso. Estava escuro demais para ver o vidro, muito menos a cor do p� que havia dentro dele.</p><p>� Ah, que droga, cara. Se eu conseguir o Flash, ele pode queimar esta porta, mas Estelar n�o funciona no escuro. E a Menina Lua� � Ele empurrou a parede inflex�vel. � N�o sei se conseguiria quebrar isso aqui ou n�o.</p><p>Ele enfiou o frasco novamente na bolsa e pescou outro. E tremeu. E voltou com ele, tentando o pr�ximo. E finalmente puxou dois. Sua cabe�a girava para l� e para c� entre os frascos, como uma cegonha confusa. Ele guardou os dois e agarrou a cabe�a.</p><p>� Tenho que fazer algo. Sou um �s, cara. As pessoas dependem de mim. Isso aqui � como um teste, e preciso provar que tenho valor.</p><p>Ele voltou a tatear inutilmente dentro da bolsa. Imaginou que poderia sentir a nave se movendo, levando-os para fora da �rbita de Netuno, levando-os para longe de Sprout. Sua filha linda de cabelos loiros que nunca avan�aria mentalmente mais que 4 anos de idade. Sua querida Alice no Pa�s das Maravilhas que precisava dele. E ele precisava ser necess�rio. Seus dedos fecharam-se convulsivamente sobre o frasco, ele o tirou da bolsa, murmurando:</p><p>� Ah, foda-se.</p><p>Destampou o frasco e engoliu o conte�do. Mais tarde ele saberia se sua escolha fora a mais adequada.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Talli trouxe a refei��o para ele. Crepes delicados de carne e com recheio de frutas que foram seus favoritos em seu lar. A primeira bocada o fez enjoar, e ele jogou o resto na privada e deu descarga. Seu caminhar incessante n�o lhe trouxe nada al�m de uma c�ibra na panturrilha esquerda, ent�o pegou uma escova da penteadeira no lavat�rio e tentou acalmar-se penteando o cabelo. O trilhar das cerdas sobre o escalpo lhe fazia bem e um pouco da tens�o se aliviou dos ombros.</p><p>Ent�o, <emphasis>Hellcat</emphasis> estremeceu um pouco e, soando atrav�s de sua mente, veio um AI! alto e aflito. Obviamente, esta nave n�o acreditava no sofrimento em sil�ncio.</p><p><emphasis>Caminhante?</emphasis>, ele pensou. Aquele covarde choroso finalmente decidira fazer algo? Ou poderia ser o Tartaruga, superando seu bloqueio psicol�gico, rasgando a porta, esmagando Zabb e transformando-o em geleia�</p><p><emphasis>Hellcat</emphasis> estava fazendo tanta confus�o ps�quica que ele achou que ningu�m fosse notar uma comunica��o n�o protegida com o Tartaruga. A sonda foi lan�ada.</p><p><emphasis>Que merda!</emphasis></p><p><emphasis>Desculpe, n�o quis assust�-lo.</emphasis></p><p>N�o havia senso de perigo na mente de Tartaruga, e Tach suspirou.</p><p><emphasis>Vejo que voc� n�o est� no processo de nos resgatar.</emphasis></p><p><emphasis>N�o posso</emphasis>, o Tartaruga retrucou com tristeza. <emphasis>J� te disse.</emphasis></p><p><emphasis>Tom</emphasis>, disse com gentileza, e lembrou-se apenas quando ouviu o suspiro do Tartaruga de que n�o devia ter revelado seu conhecimento da identidade secreta do homem. Ele insistiu. <emphasis>Voc� n�o poderia apenas tentar? Estou certo de que, se tentasse, poderia�</emphasis></p><p><emphasis>N�O POSSO! Quantas vezes preciso dizer isso a voc�?. N�o posso. E pare�o lembrar um b�bado rejeitado que ficava o tempo todo choramingando n�o ser capaz de fazer algo, e ent�o ficava magoado quando eu n�o era muito compreensivo. Bem, sinta na pele essa emo��o, Tachy. Seja compreensivo.</emphasis></p><p>O tapa doeu. Ele tinha plena ci�ncia da d�vida que tinha com o Tartaruga, mas n�o queria ter seus pecados do passado esfregados na cara. Eram apenas� passado.</p><p><emphasis>O v�rus est� codificado nas suas c�lulas�</emphasis></p><p><emphasis>Eu sei disso. Como eu poderia esquecer? Arruinou a bosta da minha vida! Voc� e o Jetboy e seus malditos takisianos. Me deixe em paz, que saco.</emphasis></p><p>O Tartaruga n�o tinha poderes mentais para de fato bloquear Tachyon, mas poderia cobrir cada pensamento significativo com uma camada grossa de raiva, tornando dif�cil de ler ou enviar algo. Tach tomou f�lego v�rias vezes pelo nariz e lembrou-se de que esse era seu amigo mais antigo na Terra. Pensou se poderia controlar a mente do Tartaruga e for��-lo a superar o bloqueio emocional. Mas n�o, o trauma estava t�o profundamente arraigado que n�o dava para alcan�ar com aquela t�cnica pesada. Seu pai, com suas capacidades, poderia� Tach abra�ou-se, rolando para a frente e para tr�s, enquanto a tristeza o atingia em cheio e o perfurava uma vez mais.</p><p>O som de gritos, quebras e xingamentos o trouxe de volta. Ele franziu a testa e olhou para a porta, ent�o come�ou a se retrair devagar na dire��o da cama enquanto percebia que os sons se aproximavam cada vez mais. Muito mais perto. Muito perto. Um punho cinza e grande atravessou a porta. Os dedos espatulados fecharam-se nas beiradas irregulares do buraco e uma grande parte da porta se soltou. <emphasis>Hellcat</emphasis> guinchou, e o fluido claro e viscoso que servia como sangue para a nave consciente escorria da ferida. Logo formou filetes claros e frios. Tach olhou com fascina��o apreensiva quando a porta veio abaixo, parte a parte. E arrastando-se pelo buraco desnivelado entrou um homem grande e troncudo com uma pele cinzenta e lisa, cabe�a careca com uma testa inchada. Os takisianos estavam pendurados nele como enfeites numa �rvore de Natal.</p><p>� Explodam a mente dele! � gritou Zabb, esmurrando o rosto da criatura. Ele desviou quando o monstro arrancou um soldado das costas e lan�ou na dire��o de Zabb.</p><p>Um takisiano n�o era vencido mesmo pela grande for�a da criatura. Um rosto delicadamente esculpido encaixado num corpo montanhoso, e uma express�o de ferocidade perversa. <emphasis>Durg at�Morakh bo</emphasis> Zabb. O monstro de estima��o de Zabb. A n�usea e o nojo arranharam o fundo da garganta de Tach. Ele correu para a porta arruinada, pensamentos caindo com selvageria.</p><p><emphasis>N�o por aquelas m�os. Lave-se no meu sangue se precisar, Zabb, mas n�o�</emphasis></p><p>E encontrou quase um metro de a�o temperado. Devagar, ergueu os olhos para fitar o primo.</p><p><emphasis>N�o, pela minha m�o</emphasis>.</p><p>Um sorriso arrependido, mas predat�rio, abriu-se nos l�bios de Zabb, e ele deu o bote. Tach, pulando para tr�s, perdeu o equil�brio no ch�o gosmento e desabou. Isso lhe salvou a vida, pois a l�mina passou apenas a cent�metros da sua cabe�a. Ouviram-se mais batidas e estrondos quando a apari��o cinza e grotesca entrou na sala, arremessando takisianos e batendo em v�o em Durg. Benaf�saj entrou na sala com passos firmes, e Zabb baixou a espada; aparentemente, ele ainda n�o estava preparado para praticar o assassinato na presen�a de uma <emphasis>Ajayiz�et</emphasis>. Tachyon nunca ficou t�o feliz ao ver algu�m.</p><p>A velha dama soltou uma onda de energia mental que sacudiu as sinapses de todos na sala, e a criatura despencou como uma �rvore cortada. Os membros da tripula��o, contundidos e surrados, reuniram-se sobre a montanha de bru�os, prendendo-a com cordas.</p><p>Ela lan�ou um olhar frio e cinza para o comandante.</p><p>� Fa�a o favor de explicar este tumulto.</p><p>� Encontramos a criatura.</p><p>� Verdade? � Seu tom era congelante.</p><p>Zabb engoliu em seco, seus olhos evitavam os da av�.</p><p>� Bem, ele parece ter mudado de forma novamente.</p><p>Benaf�saj fixou os olhos em Rabdan.</p><p>� E podemos supor que os frascos t�m a ver com essas mudan�as?</p><p>Um pigarrear nervoso soou.</p><p>� Isso seria l�gico.</p><p>� Ent�o, onde est�o esses frascos?</p><p>� N�o sei, <emphasis>Kibr</emphasis>. Talvez ele tenha escondido em algum lugar na nave.</p><p>� � ou, talvez, estejam presentes apenas quando ele est� na sua forma humana. � Ela olhou para a porta arruinada. � Levar� algum tempo para <emphasis>Che Chu-erh of Al Matraubi</emphasis> � disse ela, mencionando o nome inteiro do pedigree da nave � reparar esta porta. Chame os guardas. Eles podem vigiar Tisianne e a criatura, e, se o humano voltar, procurem pelos frascos. Ent�o, creio, n�o teremos mais como��es grosseiras. � Ela saiu com um farfalhar das saias bordadas.</p><p>Tach sacou um len�o do bolso e se ajoelhou ao lado do estranho prisioneiro.</p><p>� Voc� �? � perguntou enquanto limpava gentilmente o sangue que flu�a lentamente de um corte de espada.</p><p>O homem olhou para ele e grunhiu, relutante:</p><p>� Aquarius.</p><p>� Como vai? Sou Tisianne brant Ts�ara sek Halima sek Ragnar sek Omian, mais conhecido como Dr. Tachyon.</p><p>� Eu sei. � Ele fitou friamente por sobre o ombro esquerdo de Tachyon.</p><p>O takisiano curvou-se e sussurrou.</p><p>� Tem qualquer um dos seus truques na manga? Algo que possa nos ajudar a fugir� � apontou com o queixo na dire��o da porta e dos dois guardas a postos � � deles?</p><p>Aquarius olhou para ele com rancor.</p><p>� Eu me transformo num golfinho e nado bem r�pido.</p><p>A express�o, juntamente com o tom rude e agressivo, rompeu a linha t�nue de paci�ncia � qual Tachyon estava conseguindo se ater.</p><p>� Perdoe a minha grosseria, mas isso ajuda muito pouco em nossa presente situa��o.</p><p>� N�o pedi para estar aqui, imbecil. � E, fechando os olhos, Aquarius continuou a ignorar seu colega prisioneiro e seus captores.</p><p>Tach desatou sua garrafa do cinto e, enquanto caminhava, fez v�rias incurs�es u�sque adentro. Vinte minutos depois, percebeu que a pele de Aquarius come�ara a rachar e cair.</p><p>� Voc� est� bem?</p><p>� N�o. Preciso ficar �mido ou fico ferido.</p><p>� Bem, por que n�o disse isso 15 minutos atr�s?</p><p>Aquarius n�o respondeu, e, ap�s bufar de irrita��o, Tach foi r�pido at� o lavat�rio e voltou com um copo d��gua. N�o fez muita diferen�a na forma imensa no ch�o.</p><p>� <emphasis>Andami</emphasis>, poderia me trazer um jarro ou um balde?</p><p>O homem mais jovem, preocupado, mordeu o l�bio inferior.</p><p>� Minhas ordens s�o para ficar aqui.</p><p>� Voc�s s�o dois.</p><p>� Voc� vai tentar algo.</p><p>� N�o sou seu pr�ncipe?</p><p>� Sim. Mas ainda assim voc� tentar� algo, e n�o quero receber outra reprimenda de Zabb.</p><p>� Que sua linhagem fene�a � ele rosnou entredentes, e voltou ao seu trotar perturbado.</p><p>Os trinta minutos seguintes passaram lentamente, enquanto Tach tentava evitar o r�pido ressecamento da pele do trit�o. Ele derramava um copo d��gua no rosto de Aquarius, quando de repente a forma estremeceu e mudou, e l� estava o Capit�o Viajante, tossindo e cuspindo enquanto a �gua escorria pelo nariz.</p><p>Assustado pela transforma��o abrupta, Tach gritou, derrubou o copo e se afastou.</p><p>Confuso, Viajante olhou para a cabine, ent�o para sua forma longa, magra ainda adornada com cordas frouxamente enroladas. Perdera muito de sua massa com a partida de Aquarius e, quando se levantou, as cordas lhe escorreram pelo corpo, aterrissando num monte embara�ado no ch�o em torno dos p�s.</p><p>Ele tirou os �culos e os limpou furiosamente, enquanto piscava, m�ope, na dire��o de Tachyon. Os �culos foram recolocados, e ele murmurou.</p><p>� Ah, que droga, cara.</p><p>Andami apressou-se por sobre ele e apalpou rapidamente os bolsos do Viajante. Localizou uma bolsa de couro com tr�s frascos n�o utilizados. Tachyon esticou o pesco�o para v�-los, mas os p�s coloridos brilhantes pareciam singularmente in�cuos. Ele desejou botar as m�os nas subst�ncias para realizar uma an�lise completa. Algo que podia transmutar uma forma humana� e ent�o lhe ocorreu. Capit�o Viajante n�o era um maluco � era um �s.</p><p>� Capit�o. � Ele esticou a m�o. � Devo desculpas a voc�.</p><p>� Hum� para mim, cara?</p><p>� Sim. � Tach agarrou a m�o molenga do homem e deu um aperto afetuoso. � Duvidei da sua hist�ria. De fato, pensei que era s� um lun�tico inofensivo. Mas voc� <emphasis>�</emphasis> um �s. E um bastante incomum. Essas po��es?</p><p>� Me ajudam a chamar meus amigos.</p><p>Ele chegou mais perto e baixou a voz.</p><p>� E eu n�o suponho que voc� tenha mais algum� � Ele piscou, e o Viajante olhou para ele sem entender. Tach suspirou. �timo, o homem poderia ser um �s, mas n�o era t�o r�pido assim no entendimento. � Voc� tem mais algum segredo sobre sua pessoa?</p><p>� Ah, n�o, cara. Leva um tempo para fazer essa coisa, e n�o acho que eu enfrentaria os alien�genas. Digo, acabamos com o Enxame, e n�o espero� Sinto muito, de verdade, cara. N�o queria deixar voc� pra baixo�</p><p>� N�o, n�o. Voc� n�o tinha como saber e fez muito bem. � O Capit�o sorriu, e Tach percebeu, com um senso assolador de fracasso e desmerecimento, que aquele homem o adorava e admirava.</p><p><emphasis>E vou desapont�-lo.</emphasis></p><p>Tach seguiu at� a cama e desmoronou, suas m�os pendendo fracas entre as coxas. Viajante, com uma sensibilidade que o alien�gena n�o esperava, atravessou para o outro lado do quarto e o deixou sozinho com seus pensamentos infelizes. Algum tempo depois, houve um toque vacilante em seu ombro.</p><p>� Com licen�a, cara, desculpe incomod�-lo, mas estava pensando, tipo, quanto tempo at� voc� nos tirar� � Ele interrompeu, e manchas vermelhas cobriram seu rosto esguio. � Veja, eu tenho uma filha, e ela provavelmente est� indo para casa agora, vindo da escola, e a loja vai fechar, e estou com medo de que Susan n�o fique com ela, e Sprout, tipo, n�o pode ficar sozinha. � Seus dedos longos torciam-se desesperadamente.</p><p>� Sinto muito. Eu queria poder fazer algo. Queria ser o l�der que todo mundo pensa que sou. Mas n�o sou. Sou uma fraude, Viajante, para o meu pr�prio povo e para o seu. � O hippie desengon�ado pousou um bra�o sobre os ombros de Tach, e este recostou a cabe�a ao apoio ossudo do ombro de Viajante.</p><p>Viajante sacudiu desoladamente a cabe�a.</p><p>� N�o � assim nos quadrinhos. Nos quadrinhos, os caras bons sempre vencem. Eles, tipo, sempre t�m o poder certo na hora certa.</p><p>� Infelizmente, a vida n�o funciona desse jeito. Estou muito cansado.</p><p>� Por que n�o dorme um pouco? Eu fico de vigia.</p><p>Tach quis perguntar a ele �Contra o qu�?�, mas apreciou a generosidade que brotava da oferta e ficou quieto. Arrancou os sapatos, e Viajante carinhosamente puxou uma colcha at� seu queixo.</p><p>Ele percebeu, confuso, enquanto o sono o chamava, que sempre usava a cama e a bebida como v�lvula de escape, e hoje tinha usado ambas. <emphasis>O poder certo na hora certa</emphasis>. O pensamento ati�ava as bordas de sua consci�ncia. <emphasis>O poder certo�</emphasis></p><p>� Pelo Ideal! � Ele se levantou de uma vez e chutou a colcha.</p><p>� Ei, o qu�, cara?</p><p>Ele agarrou, caloroso, as lapelas do casaco de Viajante.</p><p>� Sou um idiota. Um idiota. A resposta estava bem na minha frente, e eu perdi.</p><p>� O qu�?</p><p>� O aparelho da Rede.</p><p>� Hein?</p><p>Andami olhava para ele com curiosidade, e Tach rapidamente baixou a voz.</p><p>� Aquilo n�o � uma bola de boliche. � um deslocador de singularidade. � Ele rapidamente deslizou os p�s nos sapatos. � Anos atr�s, antes de eu deixar meu lar, um dos Mestres Comerciantes discutia a possibilidade de vender ao meu cl� um novo dispositivo experimental de teletransporte. Ele demonstrou um e disse que eles poderiam estar logo dispon�veis ap�s alguns testes. Aquele deve ser um daqueles dispositivos. E est� no por�o principal.</p><p>Viajante estava totalmente desnorteado com o tagarelar do outro. Ele se agarrou na �nica observa��o que entendeu.</p><p>� Sim, mas, tipo, n�o estamos no por�o principal.</p><p>� Como chegamos todos l�? � Tach co�ou os cabelos com a ponta dos dedos. � Se todos estivermos juntos, acho que posso ativar o dispositivo e nos mandar para casa. Quanto maior a capacidade telep�tica, maior a precis�o, e o tamanho daquilo que pode ser carregado. Essa era a teoria. Claro que o Mestre Comerciante podia estar apenas propagandeando. Dif�cil dizer quando se trata da Rede. Eles t�m a alma de comerciantes gananciosos.</p><p>� Hum� o que � a Rede?</p><p>� Outra ra�a espacial; de fato, diversas ra�as interestelares, mas n�o precisamos nos preocupar com isso agora. O ponto � que um deslocador de singularidade est� aqui, nesta nave, e pode nos levar para casa. Claro, se o Tartaruga estava com o dispositivo, isso significa que a Rede est� presente na Terra, e que isso pode significar problemas. � Ele co�ou o rosto. � N�o, um problema por vez. Como chegar ao por�o.</p><p>� Tipo, o que vai pra l�?</p><p>� Bem, obviamente ele � usado para armazenagem de carga, e quando n�o h� carga � que � o que acontece na maioria das vezes, numa nave desta classe � � usado para recrea��o. Dan�as e coisas assim.</p><p>Viajante olhou com hesita��o.</p><p>� N�o acho que podemos convidar todo mundo pra dan�ar.</p><p>Tach riu.</p><p>� N�o. � Sua express�o ficou vazia. � Mas podemos convid�-los para um duelo.</p><p>� Hein?</p><p>� Sil�ncio por um momento. Preciso pensar nisso.</p><p>E ele finalmente fez o que devia ter feito desde o in�cio. Pensou como um takisiano, em vez de como um ser humano.</p><p>� Conseguiu? � Viajante perguntou quando ele voltou a abrir os olhos.</p><p>� Sim.</p><p>Ele se deitou e sondou por uma mente familiar.</p><p><emphasis>Tartaruga. Tem um jeito de sair daqui.</emphasis></p><p><emphasis>Sim?</emphasis> O tom mental era de derrota e desespero extremos.</p><p><emphasis>O dispositivo que estava com voc�, ele pode nos levar pra casa.</emphasis></p><p><emphasis>Sim, mas ele est�</emphasis></p><p><emphasis>Fique quieto e ou�a. Vamos todos para o compartimento de carga�</emphasis></p><p><emphasis>Por qu�?</emphasis></p><p><emphasis>Voc� poderia parar um pouco? Porque eu vou tirar a gente daqui. A aten��o estar� em mim e, enquanto isso, voc� precisa pegar aquele dispositivo.</emphasis></p><p><emphasis>Como?</emphasis></p><p><emphasis>Voc� sabe como.</emphasis></p><p><emphasis>N�o posso!</emphasis></p><p><emphasis>Tom, voc� precisa! � nossa �nica esperan�a.</emphasis></p><p><emphasis>� imposs�vel. O Grande e Poderoso Tartaruga poderia fazer isso, mas sou apenas�</emphasis></p><p><emphasis>Thomas Tudbury</emphasis> � <emphasis>o Grande e Poderoso Tartaruga.</emphasis></p><p><emphasis>N�o, sou apenas um homem comum que j� passou dos 40, bebe cerveja demais e n�o come direito, e que trabalha numa bosta de uma loja de conserto de eletr�nicos. N�o sou um maldito her�i.</emphasis></p><p><emphasis>Pra mim, voc� �. Voc� trouxe minha sanidade de volta e, provavelmente, minha vida.</emphasis></p><p><emphasis>Esse foi o Tartaruga.</emphasis></p><p><emphasis>Tom, o Tartaruga � um aglomerado de placas de ferro, TV, c�meras, luzes e alto-falantes. O que faz o Tartaruga o que ele �? O homem dentro dele. Voc� � o �s, Tom, � hora de sair da carapa�a.</emphasis></p><p>O terror brotava da mente do homem em ondas poderosas, chocava-se contra os escudos de Tach, fazendo-o duvidar de seu pr�prio plano.</p><p><emphasis>N�o posso. Me deixe em paz.</emphasis></p><p><emphasis>N�o, vou at� o fim nisso, e voc� precisa atender �s expectativas, porque, se n�o o fizer, terei morrido por nada.</emphasis></p><p><emphasis>Morrer! O que voc� vai�</emphasis></p><p>Ele interrompeu o elo telep�tico, pensando se teria colocado muita press�o nas emo��es fr�geis do Tartaruga. Tarde demais para pensar nisso.</p><p><emphasis>Kibr?</emphasis></p><p><emphasis>Que foi, rapaz?</emphasis></p><p><emphasis>Achamos que o tom da senhora � menos que agrad�vel, Ajayiz�et Benaf�saj.</emphasis></p><p>Ela moderou o tom, acrescentando uma camada formal de respeito, se n�o por ele, ao menos por sua posi��o.</p><p><emphasis>O que deseja, chefe do cl�?</emphasis></p><p><emphasis>Convoque a tripula��o, h� uma cerim�nia de ado��o a ser realizada.</emphasis></p><p><emphasis>Qual � seu truque agora?</emphasis></p><p><emphasis>Espere para ver ou me negue e fique curiosa para sempre</emphasis>, disse ele, insolente.</p><p>Ela riu, reluzindo na mente dele.</p><p><emphasis>Um desafio. Muito bem, meu pequeno pr�ncipe, veremos o que est� aprontando.</emphasis></p><p><image l:href="#0"/></p><p>Todos se reuniram no compartimento. Tom olhou ao redor e soltou um grito angustiado.</p><p>� Minha carapa�a!</p><p>Os l�bios de Zabb se esgar�aram num sorriso grosseiro.</p><p>� N�s a jogamos no espa�o. Estava tomando muito espa�o.</p><p>Tach prestou pouca aten��o no desespero do Tartaruga. Seus olhos pairaram rapidamente em torno do compartimento para assegurar-se de que o deslocador de singularidade ainda estava no lugar.</p><p>� Tinha infravermelho e lentes de zoom, e estofado costurado e�</p><p>Zabb ria.</p><p>� Seu merda!</p><p>Zabb deu um passo � frente, punho erguido.</p><p>� Zabb brant Sabina sek Shaza sek Risala, toque minha <emphasis>estirpe</emphasis>, e n�o lhe darei a cortesia de me enfrentar. Vou mat�-lo como um c�o vadio na rua.</p><p>Zabb estremeceu e virou-se lentamente para encarar o primo mais novo.</p><p>� Que farsa � esta?</p><p>� Como um membro reprodutor da casa de Ilkasam, exer�o meu direito de adot�-los, em carne e osso, � minha linhagem.</p><p>� Voc� adotar� esses seres humanos? � perguntou Benaf�saj.</p><p>� Sim.</p><p>Ela o mediu com um olhar imperioso.</p><p>� Acredito que pouco adicionar�o � sua import�ncia.</p><p>Tach caminhou at� ficar entre Viajante e Tartaruga, e agarrou ambos pelos pulsos.</p><p>� Eu preferiria t�-los ligados e unidos a mim do que muitos que podem fazer uma reivindica��o maior a tal direito. � Seus olhos deslizaram para Zabb.</p><p>� Muito bem, � seu direito. � A senhora sentou-se numa banqueta que <emphasis>Hellcat</emphasis> delicadamente expeliu para ela. � Voc�s concordam com esta ado��o, entendendo os deveres e obriga��es daqueles que s�o assim honrados?</p><p>Tr�s pares de olhos estavam fixos em Tach, e ele meneou levemente a cabe�a.</p><p>� Concordamos � Asta disse com firmeza enquanto os dois homens continuavam parados e hesitantes.</p><p>� Saibam ent�o que voc�s, e todos os seus herdeiros e sucessores, estar�o eternamente ligados � casa de Ilkasam, linhagem de Sennari, por seu filho, Tisianne. Em todas as quest�es, sejam grandes e tragam a gl�ria e a servid�o a esta casa.</p><p>� Somos, tipo, takisianos agora, cara? � Viajante perguntou num sussurro penetrante.</p><p>� Este ritual serve para ligar os cegos ps�quicos a uma casa. Voc� n�o tem permiss�o para casar com qualquer membro da classe mental, mas merece nossa ajuda e prote��o.</p><p>� Ent�o somos servos � Tom rascou.</p><p>� N�o, mais como cavalari�os. Meros servi�ais nunca s�o formalmente adotados. � Ele deu meia-volta e lan�ou a Zabb um olhar severo. � Mas pelos meus pais, voc�, primo, me insultou, e mostrou desprezo e viol�ncia contra minha <emphasis>estirpe</emphasis>, e me deve satisfa��o.</p><p>Antes que Zabb pudesse se mover, Benaf�saj tomou a palavra.</p><p>� Voc� n�o precisa aceitar o duelo. A cortesia n�o se aplica retroativamente a cegos ps�quicos.</p><p>O comandante fez uma mesura.</p><p>� Mas, <emphasis>Ajayiz�et</emphasis>, isso me dar� o grande prazer de enfrentar meu amado primo. Rabdan, voc� me servir�?</p><p>� Sim, comandante.</p><p>� E, Sedjur, voc� me servir�? � Tachyon perguntou. O velho conseguiu concordar com a cabe�a.</p><p>Os dois homens moveram-se rapidamente para um arm�rio de armas, e Tach juntou-se aos seus amigos. Enquanto tirava os sapatos, o casaco e o colete bordado, e come�ou a prender seus babados, disse em voz baixa:</p><p>� Fiquem bem juntos. Tom, voc� sabe o que fazer, mas pelo amor dos deuses aja rapidamente. � Ele ignorou o sacudir de cabe�a fren�tico do homem. � Felizmente, a espada pequena d� a vantagem da defesa, mas serei muito pressionado para afastar Zabb. A aten��o da minha fam�lia estar� concentrada em mim. Ningu�m deve perceber seus atos, e, assim que tiver o dispositivo, mando voc�s pra casa.</p><p>� E voc�? � murmurou Tom.</p><p>Tachyon deu de ombros.</p><p>� Fico aqui. Afinal, � uma quest�o de honra. N�o fugirei.</p><p>� Odeio esses malditos her�is.</p><p>� Algu�m tem alguma coisa para prender meu cabelo?</p><p>Asta abaixou-se sobre um joelho e fu�ou na grande bolsa de dan�a. Puxando uma sapatilha de ponta, ela arrancou uma fita rosa e entregou ao takisiano. Ficou horr�vel com seus cachos vermelhos met�licos.</p><p>� Senhor � disse Sedjur, suavemente. Ele segurava a manga de malha de a�o que cobria o bra�o da espada at� o cotovelo, e uma espada lindamente entalhada e forjada. O punho era encravado com pedras semipreciosas, e o trabalho de filigrana na guarda do punho era t�o fino que parecia um la�o.</p><p>� N�o fique t�o deprimido, velho amigo.</p><p>� Como n�o ficar? Voc� n�o � p�reo para ele.</p><p>� N�o � gentil da sua parte dizer isso. Especialmente porque voc� me treinou.</p><p>� E a ele; e eu digo de novo, voc� n�o � p�reo para ele.</p><p>� � necess�rio. � Seu tom indicou que o assunto estava encerrado, e ele olhou de forma autocr�tica para a cabe�a do velho empregado, enquanto a armadura era presa ao seu antebra�o direito.</p><p>Asta riu histericamente quando uma caixa de resina foi trazida e Tach cuidadosamente cobriu a sola dos p�s com meias. Ela cobriu a boca com as m�os e se aquietou.</p><p>Tach, movendo-se para o centro do sal�o, ergueu seu florete diversas vezes para acostumar-se com o peso, e para lembrar seus m�sculos das antigas habilidades, havia muito destreinadas. Ele n�o culpou Asta pelo riso contido. Para os humanos modernos, esse ritual arcaico combatido com armas antigas devia parecer estranho, especialmente numa ra�a interestelar. Mas havia motivos s�lidos para a devo��o takisiana �s armas brancas. Tinham armas at�micas e a laser, mas, para o combate <emphasis>corpo a corpo</emphasis> dentro da pele de uma das naves vivas, uma arma que n�o excedesse o alcance do bra�o era melhor. Um disparo indiscriminado de proj�teis ou armas de luz equivalentes poderia danificar muito uma nave, e n�o importaria muito se a tripula��o vencesse ou n�o. Tamb�m havia o fato de os takisianos amarem o drama. Em geral, qualquer idiota poderia aprender a atirar. Para ser um espadachim era necess�rio habilidade verdadeira.</p><p>Zabb juntou-se a ele e disse em voz baixa:</p><p>� Espero por este momento h� anos.</p><p>� Ent�o, fico feliz por poder lhe dar este prazer. N�o deve ser desprezada uma ocasi�o t�o desejada.</p><p>As espadas estalaram numa breve sauda��o, e o tilintar de a�o contra a�o come�ou.</p><p>Tom n�o era um especialista nos requintes da esgrima, mas conseguia ver que aquela luta pouco lembrava os breves relances que vira da esgrima ol�mpica pela televis�o. A velocidade era a mesma, mas havia uma intensidade mortal sobre os dois homens enquanto lutavam pela vida. Os olhos estavam fixados um no outro, e o deslizar dos p�s em meias no ch�o da nave fazia um contraponto leve e sussurrante � respira��o ofegante de Tach.</p><p>Seus companheiros estavam olhando para ele, Viajante com o olhar de um <emphasis>basset hound</emphasis> desesperado, Asta com a ponta da l�ngua umedecendo os l�bios. Tom virou a cabe�a lentamente e olhou a bola preta pousada numa prateleira a pouco menos de um metro de dist�ncia. Ele se expandiu, esfor�ando-se tanto que o suor brotou da testa e sobre os l�bios, e ele sentiu um vazio imenso, escancarado. O aparelho nem mesmo tremeu.</p><p>Viajante gemeu, e Tom olhou para tr�s apenas a tempo de ver a ponta flex�vel da espada atravessar o bra�o de Tach. Uma trilha vermelha seguiu seu caminho. Tach recuou com mais pressa que gra�a, e mal desviou-se de um empurr�o malicioso de seu primo. Viajante, com os olhos azuis rasos d��gua por tr�s das lentes grossas dos �culos, lan�ou-se para a frente e aterrissou nos ombros de Zabb. Com um resmungo, o takisiano agarrou o hippie e o jogou primorosamente atrav�s do sal�o. Viajante ficou ca�do, surpreso, no conv�s luminoso, buscando ar como um peixe. V�rios guardas de Zabb o arrastaram de volta e o jogaram no ch�o entre os outros seres humanos.</p><p>� N�o posso, simplesmente n�o posso � sussurrava Tom com nervosismo.</p><p>� Seu fracote de merda � Asta falou em alto e bom som, e virou-se de costas para ele, voltando a aten��o ao duelo que recome�ara.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Tach piscava muito, tentando limpar o suor inc�modo dos olhos. Cada suspiro queimava, e �nfimas labaredas pareciam lamber os m�sculos do bra�o com a espada.</p><p><emphasis>Aten��o, aten��o</emphasis>, ele se encorajava.</p><p>L�mina, vindo t�o r�pida que era apenas um borr�o.</p><p>Ele desviou com uma batida vigorosa, a for�a da pancada vibrando em seus m�sculos j� extenuados.</p><p>Um contragolpe� mas n�o com a l�mina. Com a mente. Uma se��o do escudo fluiu, ondulou. Ele avan�ou, bateu, e Zabb cambaleou com o ataque mental. E contra-atacou. <emphasis>Corpo a corpo</emphasis>. O calor da respira��o de Zabb no seu rosto. As l�minas irremediavelmente enroscadas. Tach esfor�ava-se, tentando lan�ar Zabb para tr�s, mas sentia-se vencido. A mente, uma parede cinzenta, implac�vel. <emphasis>N�o, n�o totalmente!</emphasis></p><p>Tach virou o corpo para o lado, evitando uma joelhada maldosa na virilha, pulou para tr�s e chutou as pernas de Zabb, livrando-se dele. Aplicou um <emphasis>Envelopment</emphasis>, mas o primo era r�pido demais para ele. Zabb esquivou-se e seguiu com um contragolpe r�pido, e um ataque mental que resvalou nos escudos de Tach.</p><p>Sua vis�o parecia turvar-se nos cantos. Sem for�as. Quase perdendo o f�lego.</p><p><emphasis>Tartaruga!</emphasis></p><p>Ele tentou um golpe selvagem e desesperado em terceira. Zabb o rebateu quase com desd�m. Era um dem�nio. Aquele sorriso ainda no rosto, e apenas umas poucas gotas de suor misturadas �s costeletas onduladas. Seus c�lios ca�ram, escondendo os olhos, e ele for�ou um ataque. Uma camada de n�usea cobriu a l�ngua quando Tach percebeu que Zabb estava apenas brincando com ele at� ent�o.</p><p>� Gostaria de dar o assunto por encerrado, amado primo? � sussurrou seu torturador. � Claro que gostaria. Mas n�o ser� assim. Como prometido, vou mat�-lo.</p><p>Sem f�lego para responder ao insulto, apenas sacudiu a cabe�a, mais para livrar-se do suor do que para negar aquelas palavras. Atirou um golpe mental desesperado que foi bloqueado pelos escudos de Zabb, e ent�o, como um milagre, viu uma abertura. Ele atacou, a l�mina raspando a de Zabb. Zabb agarrou a parte flex�vel da espada numa esquiva faiscante e continuou, sua ponta buscando o cora��o.</p><p><emphasis>O tempo urge! Atra��o do incauto. Morte!</emphasis></p><p><image l:href="#3"/></p><p>Ele teve certeza de ver aquilo: o breve tremer das narinas, o meio sorriso sard�nico. Steve Bruder, com os mesmos maneirismos de quando esmagou a m�o de Tom. <emphasis>Foda-se!,</emphasis> ele se lan�ou contra Zabb enquanto o poder o invadia, fazendo suas extremidades formigarem. Ele se expandiu e�</p><p><image l:href="#5"/></p><p>A l�mina veio r�pida e certeira, ent�o milagrosamente passou por um fio. Sem muito espa�o, mas o suficiente! Tachyon ergueu a espada, defendendo o golpe.</p><p>Uma imensid�o de alvos se ofereceu. O cora��o, a barriga, um corte no ombro? Tach prendeu o l�bio inferior entre os dentes e por um momento selvagem e glorioso considerou enfiar a ponta fundo, bem fundo naquele corpo odioso. Atacou, os olhos deles se encontraram por um instante eterno, congelado. A l�mina girou na sua m�o, o cabo acertando bem no queixo de Zabb com um som de machado batendo na madeira. A espada de Zabb foi ao ch�o num estrondo, e ele projetou o rosto. Houve um suspiro como um vento se erguendo da plateia reunida. Por um momento, Tach olhou para sua espada, ent�o a jogou de lado, ajoelhando-se ao lado do primo. Gentilmente puxou-o de barriga para cima, e tomou o homem maior que ele nos bra�os.</p><p>� Veja, eu n�o pude fazer isso � ele sussurrou, e se perguntou por que l�grimas rolavam de suas p�lpebras. � Sei que voc� preferiria que eu o matasse, mas n�o posso. E, apesar de nosso treinamento, a morte n�o � prefer�vel � desonra.</p><p>Tom se levantou, suas m�os fechadas ao lado do corpo, e alegrou-se pelas ondas de entusiasmo e felicidade que percorriam seu corpo. Ele <emphasis>conseguiu</emphasis>. Verdade, usou concentra��o suficiente para arrastar uma empilhadeira, e o resultado final foi apenas um desvio de um minuto. <emphasis>Mas foi o suficiente!</emphasis> Tach sobreviveu � de fato, venceu � gra�as ao ato de Tom. Com um pouco de orgulho, ele encarou o dispositivo alien�gena. Ele pairou pelo ar, pousando com um estalido satisfat�rio nas m�os de Tom.</p><p>� Venha, Tachy, hora de irmos � ele cantou, suas bochechas redondas vermelhas de empolga��o.</p><p>Tach deixou o corpo de Zabb com suavidade no ch�o e saltou para perto dos amigos. Nem um parente se moveu.</p><p>Tom entregou a ele o aparelho com uma rever�ncia um pouco desajeitada.</p><p>Tach respondeu � sauda��o.</p><p>� Muito bem, Tartaruga. Eu sabia que voc� era capaz.</p><p>Ele olhou para Benaf�saj, fez uma mesura elegante, acenou e os enviou de volta para <emphasis>casa.</emphasis></p><p><image l:href="#0"/></p><p>Foi como estar no centro de um turbilh�o de vazio. Uma escurid�o g�lida e absoluta, e para Tachyon a sensa��o de que sua mente estava sendo despeda�ada em faixas m�nimas e esfarrapadas pelo estresse de carregar todos os quatro viajantes dentro do inv�lucro do deslocador de singularidade.</p><p><emphasis>Pelos ancestrais</emphasis>, ele gemeu. <emphasis>Ao menos permita que des�amos em terra seca.</emphasis></p><p><image l:href="#1"/></p><p>Tachyon se retorceu, o aparelho rolando de seus dedos inertes. Viajante estava agachado na sarjeta, segurando a cabe�a entre as m�os e murmurando sem parar �Oh, uau!�. Tom teve �nsia de v�mito algumas vezes, enquanto seu est�mago tentava decidir onde no tempo e espa�o ele estava naquele momento. Houve uma como��o crescente, pessoas gritando, janelas se escancarando, buzinas tocando enquanto carros freavam bruscamente, seus ocupantes olhando abobalhados a imagem na cal�ada. Tom enterrou a palma das m�os nos olhos, olhou para Tach, e de pronto ajoelhou-se ao lado do takisiano. O sangue corria lentamente do corte longo e profundo de seu bra�o, descia ainda do nariz, e ele estava t�o p�lido que alarmava. O alien�gena mal parecia estar respirando, e Tom encostou o ouvido no peito do amigo. As batidas do cora��o eram err�ticas.</p><p>� Vai ficar tudo bem, cara? � Viajante murmurou.</p><p>� N�o sei. � Tom ergueu a cabe�a e olhou para um c�rculo de rostos negros. � Algu�m chame um m�dico.</p><p>� Que merda, cara, eles apareceram do nada.</p><p>� Branquelos teleportadores. Acha que s�o ases ou o qu�?</p><p>� M�dico, arranja um m�dico � gritou um homem musculoso.</p><p>Asta afastou-se devagar do c�rculo de espectadores, os olhos buscando rapidamente a bola preta. Algumas crian�as inspecionavam o aparelho, e ela foi at� elas.</p><p>� Dou cinco d�lares pra cada um por isso a�.</p><p>� Cinco d�lares! Caraca! � s� uma bola de boliche sem buraco. Que vai fazer com ela?</p><p>� Ah, voc�s ficariam surpresos � disse ela num tom suave, e pescou um bolo de notas da bolsa. A troca foi feita �s pressas, e ela escondeu o aparelho alien�gena.</p><p>O uivo das sirenes pressagiava a chegada da pol�cia e de uma ambul�ncia. Tach foi embarcado, e Tom come�ou a subir na ambul�ncia com ele.</p><p>� Ei, onde est� aquele treco?</p><p>Asta abriu a boca, piscou diversas vezes e a fechou.</p><p>� Ai, n�o sei. � Ela olhou em volta como se esperasse que a bola se materializasse na paisagem do Harlem. � Talvez algu�m da multid�o a tenha levado.</p><p>� Ei, camarada, quer levar seu amigo para o hospital ou n�o? � rosnou um dos enfermeiros na ambul�ncia.</p><p>� Bem� procure ela a� � Tom ordenou e subiu no carro.</p><p>Asta deu uma aceno ir�nico para a ambul�ncia.</p><p>� Pode deixar.</p><p><emphasis>E Kien vai ficar muito feliz com ela.</emphasis></p><p>Ela saiu � procura de uma esta��o de metr� para chegar aos bra�os ansiosos de seu amante e comandante.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O cadeado abriu-se com um rangido, e Tach empurrou a pequena porta lateral do armaz�m. Viajante e o Tartaruga o seguiram na escurid�o ecoante, e Viajante murmurou algo inintelig�vel ao ver a nave pousada no meio do pr�dio vasto e vazio. As luzes �mbar e lavanda nos pontos de sua espinha dorsal brilhavam levemente no escuro, e a poeira espiralava de todos os lados enquanto ela sintetizava as pequenas part�culas em combust�vel. Estava cantando uma das muitas baladas heroicas que formavam grande parte da cultura da nave, mas interrompeu ao perceber a entrada de Tach. A m�sica, claro, era inaud�vel para os dois humanos.</p><p><emphasis>Baby</emphasis>, disse ele para ela telepaticamente.</p><p><emphasis>Meu lorde. Vamos sair?</emphasis>, ela perguntou com ansiedade pat�tica.</p><p><emphasis>N�o, n�o hoje � noite. Abra, por favor.</emphasis></p><p><emphasis>H� humanos com o senhor. Eles tamb�m entrar�o?</emphasis></p><p><emphasis>Sim. Esses s�o Capit�o Viajante e o Tartaruga. S�o como irm�os para mim. Respeite-os.</emphasis></p><p><emphasis>Sim, Tisianne. Fico feliz em saber seus nomes.</emphasis></p><p><emphasis>Eles n�o podem lhe ouvir. Como a maioria da esp�cie deles, s�o cegos ps�quicos.</emphasis></p><p><emphasis>Que tristeza.</emphasis></p><p>Ele sentiu uma dor de outro tipo de tristeza no peito quando caminhou at� o recinto privado. A mem�ria � podia ser t�o clara � do dia em que seu pai o levou para escolher esta nave. Tudo se foi agora.</p><p>Ele se acomodou entre as almofadas na cama e ordenou: <emphasis>Busca e contato.</emphasis></p><p><emphasis>H� nobres presentes?</emphasis></p><p><emphasis>Sim.</emphasis></p><p><emphasis>E algum da minha fam�lia?</emphasis><emphasis>Baby</emphasis> perguntou, novamente com ansiedade pat�tica.</p><p><emphasis>Sim</emphasis>.</p><p>Segundos estenderam-se por minutos, Tach relaxado � vontade na cama, Viajante empoleirado como um p�ssaro nervoso numa poltrona, e Tom em p�, balan�ando-se, agitado.</p><p>A parede diante de Tachyon brilhou, e o rosto de Benaf�saj apareceu. A nave impulsionou sua poderosa telepatia e a conex�o foi feita.</p><p><emphasis>Tisianne.</emphasis></p><p>Kibr. <emphasis>Estava esperando o contato?</emphasis></p><p><emphasis>Claro. Sabia que voc�</emphasis></p><p><emphasis>Desde que eu estava nas fraldas, sim, eu sei.</emphasis></p><p><emphasis>Voc� me surpreendeu, Tisianne. Acho que a Terra teve um efeito ben�fico sobre voc�.</emphasis></p><p><emphasis>Ensinou-me muitas coisas</emphasis>, ele corrigiu num tom seco. <emphasis>Algumas mais agrad�veis que outras.</emphasis> Ele parou e brincou com o la�arote sob o queixo. <emphasis>Ent�o, ainda existem arestas n�o aparadas entre n�s?</emphasis></p><p><emphasis>N�o, meu filho. Voc� pode ficar com seus humanos r�sticos. Ap�s a derrota que voc� imp�s a ele, Zabb n�o tem mais esperan�a no cetro. Voc� deveria t�-lo matado, voc� sabe.</emphasis> Tach apenas balan�ou a cabe�a. Benaf�saj franziu a testa, olhando para as pr�prias m�os, e arrumou os an�is. <emphasis>Ent�o, partiremos. � uma decep��o que n�o tenhamos exemplares, mas o sucesso do experimento n�o pode ser negado, e Bakonur ficar� encantado com os dados. Este esfor�o ainda ser� a salva��o de nossa fam�lia.</emphasis></p><p><emphasis>Claro</emphasis>, Tach respondeu, sem muita sinceridade.</p><p><emphasis>Enviarei uma nave a cada dez anos mais ou menos para saber de voc�. Quando estiver pronto para voltar para n�s, ser� bem-vindo. Adeus, Tis.</emphasis></p><p><emphasis>Adeus</emphasis>, ele sussurrou.</p><p>� E ent�o? � Tom perguntou.</p><p>� Eles nos deixar�o em paz.</p><p>� Sabe, fiquei bem feliz que voc� n�o vai embora.</p><p>� Eu tamb�m � disse ele, mas seu tom tinha um tra�o de incerteza, e ele fitou com pesar a parede brilhante como se tentasse puxar de volta a imagem de sua parente mais velha.</p><p>A m�o morna e talentosa com seus dedos curtos e grossos se fechou com firmeza sobre seu ombro. Um momento depois, Viajante pegou o outro bra�o, e ele se sentou em sil�ncio, aquecendo-se no banho de amor e afei��o que vinham dos dois homens, deixando de lado sua saudade de casa.</p><p>Ele pousou a m�o sobre a de Tom.</p><p>� Meus amigos queridos. Que aventura tivemos.</p><p>� Sim, a vida �, tipo, bem bacana, cara.</p><p>� Por que voc� n�o matou aquele l�? � Tom perguntou.</p><p>Tach virou-se e fitou os olhos castanhos de Tom.</p><p>� Porque gosto de acreditar na possibilidade da reden��o.</p><p>Tom apertou a m�o do amigo com firmeza.</p><p>� Pois acredite.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Com uma ajudinha dos amigos</strong></p><p>Victor Mil�n</p><empty-line/><empty-line/><p>Cientista controverso brutalmente assassinado no laborat�rio foi a manchete.</p><p>� O senhor deveria ver o que est�o dizendo no <emphasis>Daily News</emphasis>.</p><p>� Minha jovem � disse Dr. Tachyon, empurrando a pilha de <emphasis>New York Times</emphasis> com as pontas dos dedos melindrosas e recostando-se perigosamente na cadeira de balan�o �, n�o sou policial. Sou m�dico.</p><p>Ela franziu a testa diante do ret�ngulo meticuloso da mesa dele, limpou a garganta, um som baixo, inquieto.</p><p>� O senhor tem uma reputa��o de pai e protetor do Bairro dos Curingas. Se n�o agir, um curinga inocente ser� preso por assassinato.</p><p>Foi a vez dele de franzir a testa. Ele tamborilou o salto alto da bota contra a beirada de metal da mesa.</p><p>� Tem provas? Se tiver, precisa lev�-las para o advogado do infeliz.</p><p>� N�o, nada.</p><p>Ele pegou um narciso amarelo de um vaso ao lado do seu cotovelo, girou suas p�talas diante do nariz.</p><p>� Imagino. Voc� � perceptiva o suficiente para tirar proveito do meu sentimento de culpa, com certeza.</p><p>Ela sorriu de volta, acenou com desd�m, r�pida como um animal silvestre, quase furtiva, mas levemente formal. De repente estava come�ando a se dar conta de que tinha se adaptado a este mundo c�o; sua primeira impress�o foi de que ela era quase doentiamente magra, e s� agora percebia como ela se aproximava do ideal de beleza takisiana, p�lida e �lfica. Quase albina, pele clara como papel, cabelos loiros platinados, olhos azuis esmaecidos. Aos olhos dele, ela estava vestida com monotonia, um <emphasis>tailleur</emphasis> cor de p�ssego, cortado com rigor, sobre uma blusinha branca, um cord�o no pesco�o, t�o p�lido e fino quanto os fios de seus cabelos.</p><p>� � meu trabalho, doutor, como o senhor bem sabe. Meu jornal espera saber de mim o que acontece no Bairro dos Curingas. � Sara Morgenstern era a especialista do <emphasis>Washington Post</emphasis> para assuntos de ases e curingas desde que sua cobertura das revoltas no Bairro dos Curingas dez anos antes lhe trouxe uma indica��o para o Pulitzer.</p><p>Ela n�o reagiu. Baixou os olhos.</p><p>� O Doughboy n�o faria aquilo, n�o mataria ningu�m. Ele � gentil. � retardado, o senhor sabe.</p><p>� Sei.</p><p>� Vive com um curinga chamado Engraxado, no fim da Eldrige. O Engraxado est� procurando por ele.</p><p>� Um inocente.</p><p>� Como uma crian�a. Ah, ele foi preso em 1976 por atacar um policial. Mas foi� diferente. Ele� aquilo estava no ar. � Ela parecia querer dizer mais, mas sua voz falhou.</p><p>� Estava mesmo. � Ele inclinou a cabe�a. � Voc� parece envolvida de uma maneira incomum.</p><p>� N�o consigo ver o Doughboy machucado. Ele est� perplexo, assustado. Simplesmente n�o consigo manter minha objetividade jornal�stica.</p><p>� E a pol�cia? Por que n�o vai at� eles?</p><p>� Eles t�m um suspeito.</p><p>� Mas e o seu jornal? Com certeza o <emphasis>Post</emphasis> tem sua influ�ncia.</p><p>Ela sacudiu o cabelo glacial para tr�s.</p><p>� Ah, posso escrever uma den�ncia fatal, doutor. Talvez os jornais de Nova York aceitem. Talvez at� o <emphasis>Sixty Minutes</emphasis>� ah, em um ano ou dois� haver� como��o p�blica, talvez seja feita justi�a. Nesse meio-tempo, ele estar� preso no Tombs, doutor. Uma crian�a, sozinha e amedrontada. Tem ideia do que � ser injustamente acusado, ter sua liberdade privada por engano?</p><p>� Sim, tenho.</p><p>Ela mordeu o l�bio.</p><p>� Eu me esqueci, desculpe.</p><p>� N�o foi nada.</p><p>Tach reclinou-se para a frente.</p><p>� Sou um homem ocupado, minha cara. Tenho uma cl�nica para tocar. Estou tentando convencer as autoridades de que a M�e do Enxame n�o ir� embora simplesmente porque derrotamos sua primeira incurs�o, mas, em vez disso, pode estar preparando um ataque novo e at� mais mortal. � Ele suspirou. � Bem. Suponho que preciso investigar isso.</p><p>� O senhor ajudar�?</p><p>� Sim.</p><p>� Gra�as a Deus.</p><p>Ele se levantou e contornou a mesa para ficar ao lado dela. Ela tombou a cabe�a para tr�s, l�bios curiosamente frouxos, e ele teve a sensa��o de que ela tentava ser atraente sem saber muito bem como come�ar.</p><p><emphasis>O que � isso?</emphasis>, ele se perguntou. Ele n�o era do tipo que normalmente recusaria um convite de uma mulher t�o atraente, mas havia algo oculto ali, e os velhos instintos de disputa familiar takisiano o fizeram se desviar. N�o que tenha sentido uma amea�a; apenas um mist�rio, e s� isso j� era amea�ador para algu�m da sua casta.</p><p>Num capricho, meio irritado por ela estar fazendo uma oferta e tornando-a imposs�vel de aceitar, ele esticou o bra�o e esbarrou no cord�o na garganta da mulher. Surgiu um medalh�o de prata chato, com as iniciais A.W. gravadas em letras cobreadas. Ela tentou agarr�-lo, mas com agilidade felina ele o abriu.</p><p>A foto de uma garota, uma crian�a, n�o mais do que 13 anos. O cabelo era amarelo, as fei��es cheias, um risinho arrogante, mas com uma semelhan�a inequ�voca com Sara Morgenstern.</p><p>� Sua filha?</p><p><emphasis>�</emphasis> Minha� minha irm�.</p><p>� A.W.?</p><p>� Morgenstern era meu nome de casada, doutor. Mantive depois do div�rcio. � Ela deu um meio giro na cadeira, joelhos grudados, ombros arqueados.</p><p>� Andrea era o nome dela. Andrea Whitman.</p><p>� Era?</p><p>� Ela morreu. � Ela levantou-se rapidamente.</p><p>� Me desculpe.</p><p>� Faz tempo.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Tio Tachy! Tio Tachy!</p><p>Um proj�til loiro o atingiu na canela e enrolou-se como uma alga na porta do Cosmic Pumpkin (�Alimento para o corpo, a alma e o esp�rito�) Tabacaria e Delicat�ssen, na Fitz-James O�Brien Street, pr�ximo �s fronteiras do Bairro dos Curingas e do Village. Rindo, ele se curvou, agarrou a garotinha e a abra�ou.</p><p>� O que voc� trouxe pra mim, tio Tachy?</p><p>Ele enfiou a m�o no bolso do casaco e tirou uma bala.</p><p>� N�o diga ao seu pai que te dei.</p><p>Com olhos arregalados e solenidade, ela balan�ou a cabe�a.</p><p>Ele a levou para dentro do aglomerado agrad�vel. L� dentro, ele ficou apertado. Dif�cil acreditar que a linda garota de 9 anos tinha um atraso mental, como o Doughboy, preso para sempre nos 4 anos de idade.</p><p>Doughboy era mais f�cil, de alguma forma. Era imenso, mais de dois metros de altura, uma massa quase esf�rica de carne branca, sem pelos, levemente azulada, rosto inchado quase a perder as fei��es, olhos de uvas-passas fitando a partir da gordura e de l�grimas. Estava com quase 30 anos. N�o conseguia se lembrar de ser chamado de outra coisa que n�o o apelido cruel de uma marca registrada de uma padaria. Estava assustado. Sentia falta do Sr. Engraxado e do Sr. Benson, o vendedor de jornais que morava embaixo deles, queria o Go-Bot que o Engraxado trouxe para ele pouco antes de os homens virem e o levarem embora. Queria ir para casa, fugir dos homens estranhos e brutos que o cutucavam com os dedos e o chamavam por nomes rid�culos. Sentiu uma gratid�o pat�tica por Tachyon por ter ido v�-lo; quando Tach precisou ir embora, na sala de visitas verde-bile no Tombs, Doughboy agarrou a m�o dele e chorou.</p><p>Tach tamb�m chorou, mas depois, longe dos olhos de Doughboy.</p><p>Mas Doughboy era, obviamente, um curinga, v�tima do v�rus carta selvagem. O pr�prio cl� de Tach o havia trazido para este mundo. Sprout Meadows era uma crian�a perfeita fisicamente, refinada mesmo para os padr�es severos das linhagens nobres de Ilkazam ou Alaa ou Kalimantari, de temperamento mais doce do que qualquer filha de Takis. Ainda assim, n�o era menos deformada do que Doughboy, n�o menos monstruosa pelos padr�es da terra natal de Tach � e, como ele, teria sido instantaneamente destru�da.</p><p>Ele olhou ao redor. Algumas das secret�rias beliscavam o almo�o tardio ao lado da vitrine frontal, sob a �gide de um �ndio de loja de charuto.</p><p>� Onde est� seu pai?</p><p>Com a boca fechada e cheia de caramelo, ela balan�ou a cabe�a na dire��o da tabacaria.</p><p>� O que voc� est� olhando, babaca? � uma voz resmungou.</p><p>Ele piscou, enxergando com atraso uma mulher jovem e troncuda num moletom cinza e sujo da CUNY, Universidade da Cidade de Nova York, atr�s do mostru�rio de vidro da loja.</p><p>� Perd�o?</p><p>� Olha aqui, seu babaca chauvinista, sei qual � a sua. Fica esperto.</p><p>Demorou, mas Tach lembrou-se da dupla de funcion�rios alternados de Mark Meadows.</p><p>� Ah� Brenda, n�o �? � Um sacudir de cabe�a combativo. � Muito bem, Brenda, posso garantir que n�o tive a inten��o de te encarar.</p><p>� Ah, tudo bem. N�o sou do tipo debutante, como a Peregrina, n�o fa�o seu tipo. Sou uma daquelas mulheres que homens como voc� n�o v�. � Ela correu a m�o sobre uma mecha de cabelo crespo avermelhado com ra�zes cor de ch� e fungou.</p><p>� Doutor! � Um figura familiar, semelhante a uma cegonha, estava em p�, curvada na porta de entrada da loja.</p><p>� Mark, fico muito feliz em v�-lo � Tachyon disse, emocionado. Beijou Sprout na testa, sacudiu o cabelo tran�ado dela e deixou-a sobre o lin�leo escuro. � V� brincar, crian�a querida. Preciso falar com seu pai.</p><p>Ela correu para longe.</p><p>� Tem um minuto, Mark?</p><p>� Ah, claro, cara. Para voc�, sempre.</p><p>Algumas crian�as com casacos de couro e cabelos de dente-de-le�o eri�ados espiavam entre a parafern�lia e os p�steres vintage do outro lado, mas Mark n�o era do tipo desconfiado. Apontou uma mesa na parede dos fundos para Tach, pegou um jarro de ch� e um par de canecas, e seguiu, com movimentos ligeiros, balan�ando a cabe�a lentamente enquanto caminhava. Estava com uma camisa de um rosa antigo da Brooks Brothers, um colete de couro com franjas, cal�as boca de sino imensas e desbotadas, quase no tom das queimas de fogos esbranqui�adas, com tingimento <emphasis>tie-dye</emphasis> nelas. O cabelo loiro at� os ombros estava preso nas t�mporas por uma faixa entrela�ada. Se Tachyon n�o o tivesse visto no pleno esplendor de sua identidade secreta, pensaria que o homem n�o tinha nenhum senso est�tico para se vestir.</p><p>� Ent�o, o que posso fazer por voc�, cara? � Mark perguntou, radiante por tr�s das lentes grossas dos �culos arredondados.</p><p>Tach pousou os ombros na toalha de mesa � tamb�m com <emphasis>tie-dye</emphasis> � e torceu os l�bios enquanto Mark servia.</p><p>� Um curinga chamado Doughboy foi preso por assassinato. Uma jovem rep�rter veio at� mim garantindo que ele � inocente. � Ele deu um suspiro. � Tamb�m acredito nisso. � uma pessoa muito gentil, mesmo assim ele � imenso e horr�vel e possui for�a meta-humana. Ele � retardado.</p><p>Esperou um momento, com o cora��o preso na garganta, mas o que Mark disse foi:</p><p>� Ent�o isso � uma fraude, cara. Por que os porcos dizem que foi ele? � O ep�teto foi dito sem rancor.</p><p>� O homem assassinado � o Dr. Warner Fred Warren, um colunista popular de astronomia, usando o termo de forma imprecisa, de tabloides. Para dar uma ideia, ele escreveu um artigo no ano passado intitulado �O cometa Kohoutek trouxe a Aids?�.</p><p>Mark fez uma careta. Ele n�o era o hippie padr�o, que desdenhava/desacreditava toda a ci�ncia. Ent�o, de novo, ele era um retardat�rio da f�, que entrou no <emphasis>Flower Power</emphasis> na �poca em que todo mundo na �rea da Ba�a de S�o Francisco estava se envolvendo com fervor com St�lin.</p><p>� O progn�stico mais recente do Dr. Warren � que um asteroide est� prestes a atingir a Terra e terminar com toda a vida, ou ao menos com a civiliza��o como voc�s a conhecem. Isso criou um pouco de controv�rsia; incr�vel a aten��o que voc�s, terr�queos, d�o a esse tipo de bobagem. A teoria da pol�cia � que o Doughboy ouviu seus amigos falando disso, ficou aterrorizado, e numa noite, na semana passada, entrou no laborat�rio do doutor e espancou-o at� a morte.</p><p>Mark sussurrou suavemente.</p><p>� Alguma prova?</p><p>� Tr�s testemunhas. � Tach fez uma pausa. � Uma delas identifica positivamente Doughboy como o homem que viu deixando o pr�dio de Warren na noite do crime.</p><p>Mark fez um aceno com a m�o.</p><p>� Sem problemas. Vamos tirar ele de l�, cara.</p><p>Tachyon abriu a boca, fechou-a. Finalmente, disse:</p><p>� Precisamos saber quais outras informa��es eles reuniram sobre o caso. A pol�cia n�o est� se provando cooperativa. Quase me falaram para eu cuidar da minha vida!</p><p>Os olhos azuis de Mark se afastaram da linha de vis�o de Tach. Este bebericou do ch�. Era forte e revigorante, algum tipo de hortel�.</p><p>� Sei como voc� pode cuidar disso. O Doughboy, tipo, tem um advogado?</p><p>� Defensoria P�blica.</p><p>� Por que n�o entra em contato com ele, oferecendo-se para atuar como especialista m�dico n�o remunerado?</p><p>� Espl�ndido. � Ele fitou o amigo com um olhar zombador, cabe�a curvada como um p�ssaro curioso. � Como voc� pensou nisso?</p><p>� Sei l�, cara. Apenas me ocorreu. Ent�o, tipo, onde eu entro nisso?</p><p>Tach olhou o tampo da mesa. No fundo, garfo, dente de alho, tofu, amassados sobre a lou�a e amaciados pela alface romana encharcada. Foi muito mais pelo efeito t�nico que Mark coloca em suas bebidas que ele viera aqui l� do Tombs. Mas ainda assim�</p><p>Ele estava fora de sua �rea; n�o era, como garantiu para Sara, detetive. Agora, Mark Meadows, o �ltimo Hippie, n�o parecia, superficialmente, um candidato muito mais promissor a investigador, mas por acaso tamb�m era o Professor Doutor Marcus Aurelius Meadows, o mais brilhante bioqu�mico vivo. Antes de largar tudo, foi respons�vel por diversos avan�os e lan�ou as bases para muitos mais. Foi treinado para observar e para pensar. Era um g�nio.</p><p>Al�m disso, Tach gostou do corte do casaco dele, que em si era bem adequado para um takisiano.</p><p>� Voc� j� me ajudou, Mark. Este � seu mundo, no fim das contas. Voc� entende os caminhos dele melhor do que eu. � <emphasis>Embora eu viva nele h� mais tempo</emphasis>, percebeu. � E h� seus amigos. Voc� tem, hum, outros al�m dos dois que encontramos na nave do meu primo?</p><p>Mark fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Outros tr�s pelo menos.</p><p>� �timo. Espero que se provem mais d�ceis que os outros. � Ele esperava que um ou outro <emphasis>alter ego</emphasis> do Capit�o tivesse capacidades que pudessem ser �teis; felizmente, n�o via para que o grosseiro golfinho-homem Aquarius poderia servir, mas o covarde arrogante Caminhante C�smico era outra quest�o. E mesmo para salvar o pobre Doughboy da morte em vida, ele n�o estava pronto para aguentar o Caminhante outra vez t�o cedo.</p><p>Ele arrastou a cadeira para tr�s e se levantou.</p><p>� Vamos brincar de detetives juntos, voc� e eu.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O garoto estava com cal�as camufladas e uma camiseta do Rambo, em p� l� na esquina da Hester com a Bowery, tentando segurar as p�ginas da revista contra a for�a do vento. Tach olhou por sobre os ombros dele. O artigo era impactante: �Dr. Morte: Soldado Ciborgue Autoconstru�do e Afortunado Combate Comunistas em Salvo.�</p><p>O garoto olhou para cima quando os dois homens ficaram ao lado dele na banca de jornal, a trucul�ncia pressionando as magras fei��es porto-riquenhas. Sua express�o de espanto escorreu como cera.</p><p>Estava olhando no bot�o central de um casaco amarelo com estampa <emphasis>paisley</emphasis>. Na dire��o de sua testa, uma gravata-borboleta verde imensa com bolinhas amarelas florescia de uma gola de camisa rosa. Dos dois lados, pendia um fraque p�rpura. Uma cartola p�rpura com fita verde, encravada com s�mbolos dourados de paz, amea�ava a melancolia leitosa.</p><p>Os dedos enluvados de amarelo fizeram um sinal de V.</p><p>� Paz � disse o rosto norte-americano narigudo que pairava l� entre todas aquelas cores.</p><p>O rapaz jogou a revista para o propriet�rio e fugiu.</p><p>Capit�o Viajante ficou em p�, piscando, atr�s dele, magoado.</p><p>� O que eu falei, cara?</p><p>� Deixa pra l� � gargalhou o ser atr�s da banca. � Ele n�o compraria de qualquer jeito. O que posso fazer pelo senhor, doutor? E seu amigo colorido a�?</p><p>� Hum � disse Mark, fungando, narinas bem abertas �, pipoca fresca.</p><p>� Sou eu � disse Jube. � � meu cheiro.</p><p>Tachyon fez uma careta.</p><p>� Batuta!</p><p>Por um momento, os olhos de bola de gude encararam, a pele azul-escuro dobrou-se na testa de Jubal: surpresa orog�nica. Ent�o, ele riu.</p><p>� Entendi! Voc� � hippie.</p><p>O Capit�o sorriu.</p><p>� � isso a�, cara.</p><p>O gordo sacudiu-se.</p><p>� <emphasis>Goo-goo-goo-Jube</emphasis> � uivou. � Sou o Morsa. Prazer em conhec�-lo.</p><p>Ele <emphasis>parecia</emphasis> uma morsa, um metro e meio, pelancas de gordura, um cr�nio grande e liso com tufos de cabelos saindo daqui e dali como pinc�is de barbear velhos, fluindo para dentro do colarinho da camisa havaiana verde, preta e amarela sem a intermedia��o de um pesco�o. Tinha pequenas presas brancas em cada lado do sorriso. Ele esticou a m�o de um personagem da Warner Brothers, tr�s dedos e um polegar, que o Capit�o apertou com entusiasmo.</p><p>� Este � o Capit�o Viajante. Um �s, meu mais recente aliado. Capit�o, conhe�a Jubal Benson. Jube, precisamos de algumas informa��es.</p><p>� Manda bala. � Ele fez um gesto de pistola com a m�o direita, rolando os olhos para o Viajante.</p><p>� O que voc� sabe sobre o curinga chamado Doughboy?</p><p>Jube fez uma careta tect�nica.</p><p>� � uma acusa��o injusta. O garoto n�o mata nem mosca. Ele vive no mesmo pr�dio que eu. Eu o vejo quase todo dia� costumava ver, antes de ele entrar em cana.</p><p>� Tipo, ele n�o ouviu as pessoas falando sobre um asteroide batendo na Terra e ficou perturbado com isso, n�o �? � Viajante perguntou. Um peda�o errante de papel-jornal havia se enroscado nas panturrilhas por um vento que n�o percebera ainda que j� era primavera. Ele ignorou o papel e o frio tamb�m.</p><p>� Se tivesse ouvido algo assim, se esconderia embaixo do ber�o e voc� n�o conseguiria tir�-lo de l� at� convencer que era uma piada. � <emphasis>isso</emphasis> que eles est�o alegando?</p><p>Viajante concordou com a cabe�a.</p><p>� Voc�s precisam falar com o Engraxado. Ele aluga o apartamento, alimenta o Doughboy e o deixa ficar l�. Ele tem uma banca de engraxates na Bowery quase com a Delancey, onde o Bairro dos Curingas fica mais tur�stico.</p><p>� Ele estar� l� agora? � Tach perguntou.</p><p>Jube consultou o rel�gio de Mickey Mouse cuja pulseira quase desaparecia no pulso borrachento.</p><p>� A hora do almo�o acabou, o que significa que est� parando agora para almo�ar. Deve estar em casa. Apartamento 6.</p><p>Tachyon agradeceu. Viajante, solene, inclinou o chap�u. Eles se viraram para ir embora.</p><p>� Doutor.</p><p>� Sim, Jubal.</p><p>� Melhor resolver isso logo. As coisas podem ficar muito pesadas por aqui neste ver�o se Doughboy ficar atr�s das grades injustamente. Dizem que Gimli est� de volta �s ruas.</p><p>Uma sobrancelha se ergueu.</p><p>� Tom Miller? Mas eu pensei que ele estivesse na R�ssia.</p><p>O Morsa pousou um dedo ao lado do nariz grande e chato.</p><p>� � o que eu digo, doutor. � o que eu digo.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Eu o encontrei, hum, 15, 16 anos atr�s. � O homem com o nome de Engraxado estava sentado em seu catre no quarto �nico do apartamento na Eldridge Street, balan�ando para a frente e para tr�s com as m�os entre os joelhos magros. � Nos anos 1970. Era inverno. Estava sentado l�, perto de uma ca�amba de lixo num beco atr�s da loja de m�scaras, chorando a plenos pulm�es. A mam�e simplesmente o levou at� l� e o deixou.</p><p>� Isso � terr�vel, cara � disse Viajante. Ele e Tach estavam em p� no ch�o de madeira maci�a meticulosamente varrido do apartamento. O catre do Engraxado e um grande colch�o com riscas manchadas eram os �nicos m�veis.</p><p>� Ah, acho que consigo entender. Ele tinha 11 ou 12, j� duas vezes maior do que eu, mais forte que muito homem por a�. Deve ter sido dif�cil pra caramba cuidar dele.</p><p>Era pequeno para um terr�queo, menor do que Tach. � dist�ncia, parecia um homem normal nos seus 50 anos, com cabelos grisalhos e incisivo direito de ouro. At� chegar mais perto e perceber que ele brilhava como um lustre n�o natural, mais como obsidiana do que como pele.</p><p>� Eu fa�o minha pr�pria propaganda, sabe? � ele explicou para Viajante quando Tachyon o apresentou. � Atraio neg�cios para minha �barraca do lustre�.</p><p>� Quanto o Doughboy consegue andar bem pela cidade sem ajuda? � Tachyon perguntou.</p><p>� N�o consegue. Ele se vira no Bairro dos Curingas muito bem, sempre com curingas cuidando dele, sabe, vendo se n�o vai se perder. � Por um momento, ele ficou sentado e fitou uma nesga de luz do sol ao lado da qual estava uma Ferrari pequenina de metal. � Dizem que ele matou o tal cientista l� no parque. Ele s� foi ao parque duas vezes. Ele n�o sabe nada sobre astronomia.</p><p>Ele fechou os olhos, apertando-os. L�grimas rolaram.</p><p>� Olha, doutor, o senhor precisa fazer algo. � meu garoto, � como se fosse meu filho, e ele est� ferido. E n�o h� nada que eu possa fazer.</p><p>Tach passava o peso do corpo de um p� para o outro. O Capit�o pegou uma margarida, a pior para se usar, de sua lapela, agachou-se e deu ao Engraxado.</p><p>Aos solu�os, o negro abriu os olhos. Eles se apertaram uma vez, desconfiados, confusos. Viajante apenas agachou-se com a flor estendida. Ap�s um momento, o Engraxado a pegou.</p><p>Viajante apertou a m�o dele. Ele verteu uma l�grima. Tachyon e o Capit�o sa�ram em sil�ncio.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� O Dr. Warren n�o era apenas um cientista � Martha Quinlan disse quando ela os guiou de volta pelo apartamento. � Era um santo. A busca em obter a verdade perante as pessoas era infinita para ele. � um m�rtir para a busca humana pelo conhecimento.</p><p>� Ah, uau � disse Capit�o Viajante.</p><p>At� onde Tachyon conseguiu saber, o falecido Warner Fred Warren n�o tinha parentes. Uma batalha jur�dica se formava pela posse do fundo fiduci�rio que possibilitava a ele manter uma cobertura no Central Park e devotar a vida � ci�ncia � seu av� fora um milion�rio do petr�leo de Oklahoma que atribu�a seu sucesso � radiestesia e morreu afirmando que era a Rainha Vit�ria �, mas em suas fun��es de editora-chefe da <emphasis>National Informer</emphasis>, a Srta. Quinlan parecia estar atuando como testamenteira do esp�lio de Warren.</p><p>� � muito gentil de sua parte vir prestar seus respeitos a um colega falecido, Dr. Tachyon. Teria significado tanto para o querido Fred saber que nosso distinto visitante das estrelas teve um interesse pessoal nele.</p><p>� A contribui��o do Dr. Warren � causa da ci�ncia n�o teve precedentes � Tachyon disse de forma sonora� <emphasis>desde Trofim Lysenko</emphasis>, emendou mentalmente. <emphasis>Ah, Doughboy, acredito que voc� nunca imaginar� o que eu aguento para lhe trazer justi�a</emphasis>. Foi uma pequena parte reflexiva da desinforma��o takisiana, a hist�ria que Tachyon apresentou a Quinlan quando ele pediu para olhar a cena do assassinato.</p><p>� � algo terr�vel � Quinlan gorjeou, levando-os pelo corredor com as paredes cheias de pinturas emolduradas de c�es ca�adores de revistas dos anos 1920. Ela era um pouco mais alta que Tach, trajava um vestido como um saco preto que ia do pesco�o e dos ombros �s coxas, meias-cal�as escarlate, sapatos brancos, e grossos braceletes de pl�stico. O cabelo loiro-grisalho tinha um estilo reto e um corte diagonal. Seus olhos estavam maquiados como os de Theda Bara; n�o usava batom. � Uma trag�dia. Felizmente, pegaram o indiv�duo que fez isso. N�o � bom da cabe�a, eles dizem, e ainda por cima um curinga. Provavelmente, algum pervertido sexual. Nossos rep�rteres est�o cuidando desta hist�ria com <emphasis>muito</emphasis> cuidado, posso garantir.</p><p>Viajante fez um barulho. Quinlan parou no fim do corredor.</p><p>� Aqui est�, senhores. Preservado como no dia em que ele morreu. Queremos transformar em museu quando a grandeza do pobre Fred for finalmente reconhecida pelo <emphasis>establishment</emphasis> cient�fico que tanto o perseguia. � Ela fazia gestos grandiloquentes para eles.</p><p>A porta do laborat�rio do Dr. Fred era de madeira, s�lida at� mesmo para um apartamento pomposo de Nova York. N�o parecia ter diminu�do a velocidade do seu �ltimo visitante. Duendes conscientes do laborat�rio forense na torre de tijolos do One Police Plaza varreram a maior parte dos fragmentos, mas o resto estilha�ado da porta ainda estava pendurado nas dobradi�as de lat�o tortas.</p><p>Tachyon ainda tinha certa dificuldade de ajustar os olhos sobre as formas utilit�rias e retil�neas dos equipamentos cient�ficos terr�queos. A ci�ncia em Takis era a prov�ncia de poucos, mesmo entre os Lordes Ps�quicos; seus equipamentos cresciam de organismos geneticamente modificados, bem como suas naves, ou eram personalizados por artes�os preocupados em fazer cada pe�a �nica, significativa. Aqui ele n�o encontrava muitos problemas. A parafern�lia que ocupava as bancadas de trabalho emborrachadas foi destru�da. Pap�is e vidro partido estavam espalhados por todo o lugar.</p><p>� O observat�rio dele era, tipo, aqui? � Viajante perguntou, olhando em volta com seu casaco estupendo nas m�os.</p><p>� Ah, n�o. Tinha um observat�rio em Long Island, onde ele fazia a maior parte das investiga��es. Analisava os resultados aqui, eu suponho. H� uma sala escura e tudo o mais. � Ela pousou uma unha longa na linha da mand�bula. � Qual � exatamente o nome do senhor mesmo? Capit�o�?</p><p>� Viajante.</p><p>� Como naquele livro do Stephen King? Qual era mesmo? <emphasis>Dan�a da morte</emphasis>?</p><p>� Hum, n�o. �, tipo, o que usavam para chamar o Jerry Garcia. � Quando ela n�o mostrou nenhum sinal de reconhecimento, ele continuou. � Ele era o l�der dos Grateful Dead. Ele, hum, ainda �. Ele n�o tirou um �s, voc� sabe, como Jagger ou Tom Douglas e� � Ele observou que os olhos dela tinham ficado v�treos e concentrados no esquecimento, esvanecendo suas palavras, e perdendo-se no per�metro da sala arruinada, grande e entulhada de coisas.</p><p>� Diga, doutor, o que s�o esses respingos escuros em todas as paredes?</p><p>Tach olhou para cima.</p><p>� Ah, aqueles? Sangue seco, � claro.</p><p>Viajante empalideceu e seus olhos se arregalaram um pouco. Tachyon percebeu que ainda ignorava as sensibilidades terr�queas. Para um povo t�o robusto, os terrestres tinham est�magos muito delicados.</p><p>Mesmo assim, at� mesmo ele ficou surpreso com a selvageria praticada no laborat�rio da cobertura. Havia uma qualidade maquinal nela, uma emana��o ps�quica palp�vel de f�ria e maldade. Dado � imagina��o limitada da maioria dos policiais que encontrou, Tachyon n�o estava mais surpreso de terem considerado Doughboy um suspeito plaus�vel; pensaram nele como um maluco demente, uma caricatura de um filme de horror, e que certamente descrevia o agressor do Dr. Warner Fred Warren. Assim, Tach estava mais convencido de que aquela crian�a gentil fosse incapaz de tal ato, mesmo que provocado.</p><p>A editora da <emphasis>Informer</emphasis> desapareceu, sem d�vida tomada pela emo��o.</p><p>� Ei, doutor, olhe isso aqui � Viajante chamou. Ele estava curvado sobre uma mesa de desenho com fotografias salpicadas de estrelas que espreitavam ali intencionalmente.</p><p>Tach curvou-se ao lado dele. Havia uma mancha fina de cinza, enrugada, como um pequeno len�o de papel que tivesse sido umedecido, esticado sobre a superf�cie pl�stica e deixado para secar. Havia uma curiosa caracter�stica membranosa que desafiava o conhecimento.</p><p>� Que coisa � essa? � perguntou Viajante.</p><p>� N�o sei. � Seus olhos deslizaram com interesse sobre as fotografias. Uma data marcada a l�pis � margem de uma delas chamou sua aten��o: 5.4.1986, o dia no qual Warren fora assassinado.</p><p>De um bolso, o Capit�o Viajante apresentou um pequeno frasco e um bisturi num estojo de pl�stico descart�vel.</p><p>� Voc� carrega sempre esses utens�lios? � Tach perguntou enquanto come�ou a raspar alguns poucos flocos daquele material cinzento.</p><p>� Pensei que eles pudessem ser �teis, cara. Se eu fosse um detetive e tudo o mais.</p><p>Dando de ombros, Tach voltou a aten��o para a fotografia com que se intrigara. Estava no topo de uma pequena pilha. Ao peg�-la, descobriu uma d�zia ou mais de fotos que, para seus olhos n�o treinados, pareciam mostrar o mesmo campo estelar.</p><p>� Tudo bem, doutor, Capit�o � uma voz estranha retumbou detr�s deles. � Deem um grande sorriso para a posteridade.</p><p>Com uma destreza que surpreendeu at� ele mesmo, Tach enrolou as fotos e as deslizou para dentro de uma manga do volumoso casaco enquanto se virava para encarar o intruso. Martha Quinlan estava dentro da sala sorrindo, enquanto um jovem negro ficava sobre um joelho e estourava um flash de c�mera sobre eles que poderia ter carregado um raio laser at� Marte.</p><p>Com certa relut�ncia, Tach tirou os dedos do cabo de madeira exagerado da Magnum .357 bem escondida no coldre de ombro atr�s de seu casaco amarelo.</p><p>� Acredito que a senhora tenha uma explica��o para isso � disse ele com a fina frieza takisiana.</p><p>� Ah, este � Rick � Quinlan cacarejou. � � um dos nossos fot�grafos da equipe. Simplesmente <emphasis>tinha</emphasis> que traz�-lo aqui para registrar este evento.</p><p>� Senhora, temo que n�o fa�o isso para notoriedade � Tach disse, alarmado.</p><p>Erguendo-se, Rick acenou para dar seguran�a.</p><p>� N�o esquenta, cara � disse ele. � � apenas para nossos arquivos. <emphasis>Confie</emphasis> em mim.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Tezcatlipoca � disse Dr. Allan Berg, lan�ando a impress�o de volta para o topo do amontoado de livros, pap�is e fotos sob o qual sua mesa supostamente se ocultava.</p><p>� � o qu�? � Viajante quis saber.</p><p>� 1954C-1100. � uma pedra, senhores. Nada mais, nada menos.</p><p>O pequeno escrit�rio tinha um cheiro forte de suor e tabaco. O Viajante fitava pela janela a tarde no campus de Columbia, observando um esquilo cinzento na metade do caminho de subida de um bordo que implicava com um garoto negro que passava com um estojo de trompa.</p><p>� Um nome curioso � disse Tachyon.</p><p>� � uma divindade asteca. Uma muito mal-humorada, pelo que entendo, mas � assim que funciona: voc� encontra um asteroide, d� nome pra ele. � Berg sorriu. � Pensei em ca�ar um para dar meu nome. Olha s� que tipo de imortalidade. � Ele tinha o olhar de um garoto judeu bonzinho, olhos ansiosos, rosto longo e ovalado, nariz grande, exceto pelo cabelo encaracolado e desgrenhado, que era grisalho. Vestia uma camisa azul e gravata marrom embaixo de um su�ter com uma trama t�o larga que era poss�vel pescar com ele. Sua conduta era contagiante.</p><p>� � grande o suficiente para, tipo, causar algum dano se cair aqui? � o Viajante perguntou. � Ou � mais exagero?</p><p>� N�o, h�, Capit�o, posso garantir que n�o �. � Ele se atrapalhava um pouco com t�tulos. As normas, especialmente na regi�o de Nova York, tinham de se ajustar muito bem ao jeito dos ases, especialmente daqueles que escolheram emular her�is dos quadrinhos do passado e vestir uniformes coloridos. E o Capit�o Viajante era mais estranho que a maioria. � Tezcatlipoca � uma forma oblonga de ferro-n�quel com mais ou menos um quil�metro por um quil�metro e meio, pesando mais de um milh�o de toneladas m�tricas. Dependendo do �ngulo no qual ele bater, poderia criar maremotos e terremotos devastadores, efeitos como o hipot�tico inverno nuclear; � plaus�vel que possa rachar a crosta ou destruir muito da atmosfera. Quase certeza de que seria a maior cat�strofe registrada da hist�ria� Poderia dar uma estimativa melhor se tirasse algum tempo para trabalhar num artigo sobre isso.</p><p>� Mas n�o vou. Por que ele n�o vai atingir o planeta. � Ele tomou caf� de uma caneca rachada. � Pobre Fred.</p><p>� Admito que fiquei surpreso com a simpatia usada para falar dele quando liguei para o senhor, Dr. Berg � disse Tachyon.</p><p>Berg baixou a caneca, olhando para a superf�cie preta e morna.</p><p>� Fred e eu frequentamos o MIT juntos, doutor. Fomos colegas de quarto por um ano.</p><p>� Mas eu pensei que todo mundo dizia que o Dr. Warren era algum tipo de maluco � comentou o Viajante.</p><p>� � o que eles dizem. E ele era um exc�ntrico, por mais que eu odeie falar isso. Mas n�o era um exc�ntrico <emphasis>qualquer</emphasis>.</p><p>� N�o consigo imaginar como um cientista treinado conseguia defender as teorias pelas quais o Dr. Warren ficou assim, hum�</p><p>� Famoso, doutor. V� em frente e diga. Tem certeza de que n�o aceitam um caf�?</p><p>Eles recusaram com educa��o. Berg suspirou.</p><p>� Fred tinha o que se poderia chamar de vontade de a�o. E tinha um tra�o rom�ntico. Sempre sentiu que deviam haver coisas fant�sticas l� fora� astronautas antigos, m�quinas alien�genas na Lua, criaturas desconhecidas para a ci�ncia. Queria ser o primeiro a sair e provar rigorosamente tantas coisas respeit�veis das quais os cientistas riam. � Sua boca abriu-se num sorriso triste. � E quem sabe? Quando Fred e eu �ramos garotos, as pessoas pensavam que a ideia de vida inteligente em outros planetas era for�ada. Talvez ele pudesse ter conseguido. Mas Fred era impaciente. Quando n�o via os resultados que queria, o motivo, ele come�ava a v�-los de qualquer jeito, se � que os senhores me entendem.</p><p>� Ent�o, foi como o Dr. Sagan disse no artigo no <emphasis>New York Times</emphasis> � disse Tachyon �, que o Dr. Warren concentrou-se numa rocha que cai ao lado da Terra em intervalos regulares e a recobriu com perigo.</p><p>Berg franziu a testa.</p><p>� Com todo o respeito, Dr. Sagan se enganou dessa vez. Senhores, o Dr. Warren tinha uma capacidade infinita de autoilus�o, mas n�o era apenas um bobo que o <emphasis>Informer</emphasis> tirou da Seventh Avenue. Ele sabia como usar uma efem�ride, certamente tinha conhecimento do hist�rico do 1954C-1100. Era um astr�nomo treinado e, no que diz respeito a detalhes t�cnicos e observacionais, muito bom mesmo. � Ele balan�ou os cabelos desgrenhados. � Como ele se persuadiu a acreditar nessa maluquice sobre o Tezcatlipoca, s� Deus para saber.</p><p>O Viajante estava limpando os �culos na sua fant�stica gravata-borboleta.</p><p>� Alguma chance de ele estar certo, cara?</p><p>Berg riu.</p><p>� Me perdoe, Capit�o. Mas a mais nova aproxima��o do Tezcatlipoca foi vista e tra�ada h� oito meses por astr�nomos japoneses. De fato, haver� uma intersec��o com a rota orbital da Terra, mas bem longe do planeta em si.</p><p>Ele se levantou, ajeitando o su�ter que subira at� o meio da barriga.</p><p>� � uma pena, senhores. Ah, n�o isso aqui � disse, batendo na pan�a incipiente �, mas o desservi�o que Fred fazia aos colegas cientistas. Nossos instrumentos s�o muito mais sofisticados do que aqueles que existiam na �ltima vez que o Tezcatlipoca passou, em 1970. E, ainda assim, qualquer astr�nomo que ousar apontar seu telesc�pio na dire��o dele terminar� sendo confundido com D�niken e Velikovsky eternamente.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Era tarde da noite. Tach estava sentado, ca�do numa cadeira em seu apartamento num terno de smoking marrom e na penumbra, ouvindo Mozart em violinos, bebericando u�sque, e ficou muito emotivo quando o telefone tocou.</p><p>� Doutor? Sou eu, Mark. Descobri algo.</p><p>O tom na voz do amigo atravessou a neblina de u�sque como uma mangueira de inc�ndio.</p><p>� Sim, Mark, o que �?</p><p>� Acho que � melhor vir e ver voc� mesmo.</p><p>� Estou indo.</p><p>Quinze minutos depois, ele estava no andar acima do Cosmic Pumpkin, boquiaberto e paralisado.</p><p>� Mark? Voc� tem um laborat�rio completo em cima da loja?</p><p>� N�o est� completo, cara. N�o tenho nenhum equipamento real em escala grande, nem microsc�pios de el�trons, nem nada disso. Apenas o que consegui recolher durante os anos.</p><p>Parecia um cruzamento de laborat�rio de Crick e Watson e um apartamento riponga de 1967, enfiado num espa�o pouco maior do que uma despensa. Diagramas de filamentos de DNA e polissacar�deos dividiam a parede com p�steres dos Stones, Jimi, Janis e, claro, o her�i de Mark, Tom Marion Douglas, o Rei-Lagarto � uma pontada de dor aqui para Tom, que ainda se culpava pela morte de Douglas em 1971. Ferramentas de um bioqu�mico terrestre eram mais familiares a Tach do que as de um astr�nomo, ent�o ele reconheceu ali uma centr�fuga, um micr�tomo e assim por diante. Muito daquilo foi bastante utilizado antes de passar para as m�os do Viajante, alguns eram improvisados, mas todos pareciam �teis.</p><p>Mark estava com um jaleco, parecia sinistro.</p><p>� Claro, n�o precisava de nada muito sofisticado, assim que vi a cromatografia a g�s naquela amostra de tecido.</p><p>Tach piscou e balan�ou a cabe�a, percebendo que a grande pe�a espiralada do equipamento cuja identidade ele tentava imaginar no �ltimo meio minuto era, possivelmente, o bongo mais intrincado do mundo.</p><p>� O que voc� descobriu? � perguntou.</p><p>Mark passou para ele um peda�o de papel.</p><p>� Olha, n�o tenho dados suficientes para confirmar a estrutura daquela cadeia proteica. Mas a composi��o qu�mica, as propor��es�</p><p>Tachyon sentiu como se uma moeda estivesse sendo puxada da sua nuca pela coluna abaixo.</p><p>� Biomassa do Enxame � ele suspirou.</p><p>Mark apontou para um pacote de pap�is na bancada.</p><p>� Voc� pode verificar as refer�ncias ali, an�lises da invas�o do Enxame. Eu�</p><p>� N�o, n�o. Confio no seu trabalho, Mark, mais do que no de qualquer pessoa, exceto no meu. � Ele balan�ou a cabe�a. � Ent�o, brotos mataram o Dr. Warren. Por qu�?</p><p>� Que tal sabermos <emphasis>como</emphasis>, cara? Pensei que os brotos eram coisas imensas, como num filme japon�s de monstros.</p><p>� De primeiro, sim. Mas uma cultura de Enxame� uma M�e� como dizer?� <emphasis>evolui</emphasis> em resposta aos est�mulos. Seu primeiro ataque de for�a bruta fracassou. Agora ele refina sua abordagem� como j� alertei aqueles tolos em Washington que poderia fazer, o tempo todo. � Sua boca se apertou. � Suspeito que agora ele esteja tentando emular a forma de vida que o repeliu antes. � um padr�o comum para esses monstros.</p><p>� Ent�o, voc� j� tinha muita experi�ncia com essas coisas.</p><p>� Eu, n�o. Mas meu povo, sim. Eles s�o, como eu poderia dizer, nossos inimigos mais cru�is, essas criaturas do Enxame. E n�s, os deles.</p><p>� E agora eles est�o, tipo, infiltrados entre n�s? � Mark estremeceu.</p><p>� Acho que est�o a caminho de poder passar despercebidos. Ainda assim, algo me perturba. Em geral, nesse est�gio de uma incurs�o do Enxame, eles n�o s�o t�o seletivos.</p><p>� E por que pegaram o pobre Fred?</p><p>� Voc� come�a a soar como aquela mulher horrenda, meu amigo. � Tach sorriu, dando tapinhas no ombro do outro. � Espero que encontremos a resposta a essa pergunta quando rastrearmos esses horrores. Que � a pr�xima coisa que faremos.</p><p>� E Doughboy?</p><p>Tach suspirou.</p><p>� Voc� est� certo. Vamos ligar para a pol�cia, logo pela manh�, e contaremos o que descobrimos.</p><p>� Eles nunca v�o acreditar nessa hist�ria.</p><p>� Mas posso tentar. Descanse, meu amigo.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Eles n�o acreditaram na hist�ria.</p><p>� Ent�o, o senhor encontrou tecido de broto no laborat�rio de Warren � falou r�spida a tenente de homic�dios da �rea sul, respons�vel pelo caso. Por telefone, ela parecia jovem, porto-riquenha, incomodada, e como se no momento n�o amasse <emphasis>Tisianne brant Ts�ara</emphasis>, da Casa Ilkazam. � O senhor est� bastante interessado neste caso para uma testemunha m�dica perita, doutor.</p><p>� Estou tentando cumprir minha obriga��o c�vica. Impedir que um homem inocente sofra ainda mais. E, casualmente, alertar as autoridades competentes quanto ao perigo assustador que pode amea�ar este mundo inteiro.</p><p>� Compreendo sua preocupa��o, doutor. Mas sou uma investigadora de homic�dios. A defesa planet�ria n�o � da minha al�ada. At� para ir ao Queens eu preciso conseguir permiss�o.</p><p>� Mas resolvi um homic�dio para a senhora!</p><p>� Doutor, o caso Warren est� sob investiga��o pelas autoridades competentes, que somos n�s. Temos uma testemunha que identificou o Doughboy saindo da cena bem na hora.</p><p>� Mas as amostras de tecido�</p><p>� Talvez estivesse criando numa placa de Petri. N�o sei, doutor. Nem eu tenho a credencial de qualquer um que tenha identificado esse suposto tecido de brotos�</p><p>� Garanto que sou um especialista em bioqu�mica alien�gena�</p><p>� Em muitos sentidos.</p><p>Ele se afastou um pouco do fone; de forma perversa, estava come�ando a gostar daquela mulher.</p><p>� N�o estou dizendo que duvido do senhor, doutor. Mas n�o posso apenas dar um aceno e liberar o homem. Depende do advogado jurisdicional. Seja l� o que o senhor tenha, leve para o advogado do Doughboy e pe�a para ele apresentar. E, se o senhor realmente encontrou mais brotos, sugiro que leve-os ao general Meadows, na SPACECOM.</p><p><emphasis>Que era o pai de Mark.</emphasis></p><p>� E mais uma coisa, doutor.</p><p>� Pois n�o, tenente Arrupe.</p><p>� Saia do caso ou vou arrancar o senhor � for�a. N�o preciso de amadores turvando ainda mais a situa��o.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Cris�lida olhou para ele com um rosto transparente e lou�as na m�o.</p><p>� Algo estranho acontecendo no Bairro dos Curingas? � ela falou naquele sotaque brit�nico arrastado e hermafrodita. � O que faz voc� pensar que algo estranho poderia acontecer aqui?</p><p>Ele se sentou no fim do bar, bem longe dos <emphasis>habitu�s</emphasis> matutinos. N�o era um perfeito estranho no Crystal Palace. Nunca relaxou de verdade ali, apesar de tudo.</p><p>� N�o apenas no Bairro dos Curingas. Neste lado de Manhattan, a partir do sul de Midtown.</p><p>Ela baixou o copo que estava polindo.</p><p>� Est� falando s�rio?</p><p>� Quando eu digo estranho, digo estranho para o Bairro dos Curingas. N�o a �ltima revolta na Jokers Wild. Nem o Sombra pendurando algum assaltante num poste pelos p�s. Nem mesmo outro assassinato com arco e flecha por aquele man�aco com suas cartas de baralho. Algo que vai al�m das cercanias comuns.</p><p>� Gimli est� de volta.</p><p>Tach bebericou o u�sque com soda.</p><p>� � o que dizem.</p><p>� Quanto voc� est� pagando?</p><p>Ele ergueu a sobrancelha.</p><p>� Inferno, n�o sou uma fofoqueira de janela! Pago pelas minhas informa��es.</p><p>� E s�o bem pagas. Eu j� fiz minha contribui��o, Cris�lida.</p><p>� Sim. Mas tem tantas coisas que voc� n�o me diz. Coisas que acontecem na cl�nica� coisas confidenciais.</p><p>� Que permanecer�o confidenciais.</p><p>� Tudo bem. Fundos de com�rcio nesta comunidade mutante s�o meus t�tulos nos neg�cios tamb�m, e voc� n�o precisa lembrar quanto � influente. Mas algum dia voc� ir� longe demais, sua raposinha alien�gena de cabelo metalizado.</p><p>Ele sorriu para ela. E foi embora.</p><p><image l:href="#3"/></p><p><emphasis>Trim</emphasis>. Tach levantou a p�lpebra de um olho. O mundo estava escuro, exceto pela neblina luminosa comum de Manhattan e, talvez, um pouco de luz da lua vazando atrav�s das cortinas abertas, prateando o traseiro feminino nu virado para cima ao lado dele na colcha marrom sobre seu colch�o d��gua. Ele piscou, grudento, e tentou se lembrar do nome da pessoa a quem aquela bunda pertencia. Era uma bunda realmente excepcional.</p><p><emphasis>Trim</emphasis>. Mais persistente dessa vez. Uma das inven��es mais sat�nicas do mundo, o telefone. Ao lado dele, o traseiro glorioso se mexeu levemente e um par de ombros se mostrou por tr�s de uma ponta do edredom.</p><p><emphasis>Trrrr</emphasis>� Ele atendeu o telefone.</p><p>� Tachyon.</p><p>� � Cris�lida.</p><p>� Contente em ouvi-la novamente. Tem ideia de que horas s�o agora?</p><p>� Uma e meia, que � mais do que voc� sabe. Tenho algo para voc�, querido doutor.</p><p>� Quem �, Tach? � resmungou a mulher ao seu lado. Ele deu um tapinha no traseiro, distra�do, tentando lembrar o nome dela. Janet? Elaine? Saco.</p><p>� O que �? � Cathy? Candi? Sue?</p><p>Cris�lida murmurou uma can��o.</p><p>� Em nome do Ideal, o que foi? � ele exigiu. Mary? Malditos sejam Cris�lida e seu murm�rio desgra�ado.</p><p>� Uma can��o que costum�vamos cantar, quando eu estava no acampamento, �Johnny Rebeck�.</p><p>� Voc� me ligou � uma e meia da manh� para me cantar uma m�sica de fogueira? � Belinda? Estava come�ando a passar dos limites.</p><p><emphasis>� E todos os gatos e c�es do vizinho nunca mais foram vistos/Todos eles eram mo�dos pra virar salsicha na m�quina de Johnny Rebeck.</emphasis></p><p>Tach sentou-se.</p><p>� O que �? � a mulher ao seu lado perguntou, agora petulante, virando-lhe um rosto mascarado com cabelos escuros e amassados.</p><p>� Voc� conseguiu alguma coisa.</p><p>� Como eu lhe disse, meu amor. N�o do Bairro dos Curingas, mas nas cercanias. Nas proximidades de Division, perto de Chinatown. C�es e gatos desaparecendo� vira-latas, c�es com dono; pessoas nessas partes n�o est�o preocupadas com as leis da coleira. E pombas. E ratos. E esquilos. Muitos quarteir�es est�o simplesmente vazios da vida selvagem urbana comum. Tirando as piadas sobre a cozinha oriental, acho que isso poderia ser qualificado como evento estranho.</p><p>� Claro. � <emphasis>Meus ancestrais, como assim?</emphasis></p><p>Ela ronronou.</p><p>� Voc� me deve uma, Tachyon.</p><p>Ele estava balan�ando as pernas para fora da cama, desejando, em nome da cortesia, lembrar-se do nome da jovem para poder mand�-la embora.</p><p>� Com certeza.</p><p>� E, a prop�sito � Cris�lida disse �, o nome dela � Karen.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>� Doutor � disse o Viajante atrav�s de uma nuvem de sua pr�pria respira��o �, voc� tem ideia do que Brenda me <emphasis>chamou</emphasis> quando eu telefonei para ela para cuidar de Sprout a essa hora da noite?</p><p>Desde que conheceu Mark, havia semanas, foi a primeira vez que ouviu dele uma reclama��o de qualquer tipo. Ele se compadeceu.</p><p>� N�o quero nem imaginar, querido Mark. Mas isso � crucial. E sinto que n�o temos tempo a perder.</p><p>Mark curvou-se.</p><p>� Sim. Voc� tem raz�o. Doughboy vai ficar em len��is piores do que eu jamais vi. Desculpe, doutor.</p><p>Tachyon olhou para aquele homem, um cientista brilhante cujos dem�nios pessoais o levaram a ruir para pouco mais que um indigente, e admirou-se honestamente. Ele bateu no bra�o do amigo.</p><p>� N�o foi nada, Mark.</p><p>N�o muito longe, os carros guinchavam sobre a ponte de Manhattan. Havia ali uma ruela escura numa parte nada impressionante da cidade, pequenas lojas e sombras e agiotas e casar�es abandonados, pr�dios cinzentos em ru�nas piscando aqui e ali com janelas quebradas � luz de um �nico poste de luz turva. N�o era hora para estar ali fora, mesmo sem a perspectiva da amea�a sobrenatural.</p><p>� Pode ser apenas um alarme falso � disse Tach. � Quando Cris�lida me falou sobre o desaparecimento de animais, me ocorreu que os brotos precisam de comida e, a menos que esta cultura avance mais rapidamente do que eu saiba, dificilmente poderiam compr�-la no mercado.</p><p>Ele parou, encarou o amigo, pegou-o pelo bra�o.</p><p>� Entenda isto agora, Mark. Pode n�o haver nada aqui. Mas, se encontrarmos o que estamos procurando, estaremos enfrentando um monstro parecido com os de filme de horror. Mas � real. � o inimigo de cada organismo vivo deste planeta e ele n�o tem escr�pulo nenhum.</p><p>Timidamente, Mark apontou para a frente no quarteir�o.</p><p>� � algo parecido com aquilo ali, cara?</p><p>Tach o fitou por um momento. Devagar, ele girou a cabe�a para a direita.</p><p>Uma figura estava em p� na esquina, no fim do quarteir�o, mais pr�xima do viaduto. Um casaco estava esticado em torno dela, um chap�u enfiado na cabe�a, mas mesmo disfar�ada n�o escondia ter propor��es que n�o cabiam num ser humano normal.</p><p>� Com licen�a, cara � o Viajante disse. Ele se afastou e, segurando o chap�u na cabe�a, correu da apari��o, virando a esquina com joelhos cambaleantes e passos sonoros.</p><p><emphasis>Covarde!</emphasis>, uma chama acendeu-se no peito de Tach e, em seguida� <emphasis>Mas eu n�o posso ser t�o duro com ele, pois n�o � um combatente e essa � uma estranha amea�a para sua esp�cie.</emphasis> Ele endireitou os ombros, ajeitou a gravata e se virou para enfrentar a criatura.</p><p>A coisa deu um passo oscilante para a frente, ent�o outro. Um p� fazia um som de suc��o como se viesse do asfalto. Da escurid�o, outra figura espreitava, vestida da mesma forma, seus contornos diferentes, mas certamente parecidos. <emphasis>Ah, Benaf�saj, voc� tinha raz�o em duvidar de mim. Nunca imaginei que poderia haver dois.</emphasis> Ele preparou seu esp�rito para a morte.</p><p>� Doutor.</p><p>Sua cabe�a virou para o lado. Uma jovem estava ao seu lado, vestida dos p�s � cabe�a de preto, interrompido apenas pelas v�rgulas laterais no formato de <emphasis>yin-yang</emphasis> no peito. O emblema combinava com uma m�scara preta que se curvava da ma�� do rosto esquerda at� o lado direito de sua testa, deixando metade do rosto nu. Era maior que ele. O cabelo era preto e lustroso. O que ele podia ver do rosto dela parecia oriental e de uma beleza estonteante.</p><p>Ele fez uma mesura cort�s, mas breve.</p><p>� N�o acredito que tive tal prazer.</p><p>� Sou a Menina Lua, doutor. E tenho a honra de conhecer o senhor� mesmo que n�o exatamente pela primeira vez.</p><p>Aquilo estava come�ando a vazar sua barreira hematoencef�lica.</p><p>� Voc� � um dos amigos do Capit�o.</p><p>� Sou.</p><p>O perigo sempre fazia sua press�o sangu�nea subir. Ao menos foi a desculpa posterior para a cobi�a que o assolava naquele momento.</p><p>� Querida menina � ele suspirou, tomando suas m�os �, voc� � a vis�o mais atraente que estes olhos j� contemplaram em eras�</p><p>Mesmo no brilho difuso, ele a viu corar.</p><p>� Farei o meu melhor para ajud�-lo, doutor � ela disse, sem entender� ou n�o.</p><p>Ela se soltou dele e deslizou rua abaixo, relaxada, equilibrada e parecendo mortal como um leopardo � espreita. Ele admirava a aura de for�a, a gra�a l�quida, o jogo do traseiro por baixo de sua roupa preta e justa � naquela noite, as bundas estavam deixando Tach maluco. Ele correu atr�s dela com a relut�ncia takisiana de deixar uma mulher enfrentar o perigo.</p><p>Quando ela estava a vinte metros do broto mais pr�ximo, fluiu num ataque, a dez metros lan�ou-se para o alto com uma desenvoltura que o fez engasgar. Ela deu uma pirueta no voo, jogou o calcanhar direito para tr�s, virando em torno do eixo ao dar uma voadora girat�ria perfeita no ombro do monstro. Causou um esmagar seco, som de ab�bora lan�ada ao ch�o. A coisa foi para tr�s. Ainda girando, a Menina Lua ricocheteou, tocou levemente o ch�o e recuperou a posi��o de batalha.</p><p>O bra�o do monstro caiu. Despencou da manga do casaco.</p><p>Ela enlouqueceu.</p><p>De repente, estava em todos os lados sem sequer se mover. Gritando, uivando, batendo-se como tr�s gatos em briga, caindo na cal�ada o tempo todo. <emphasis>Mas ela fez uma entrada t�o forte,</emphasis> ele pensou, queixoso.</p><p>Por um momento, os brotos pareciam fit�-la tamb�m. Ent�o, quando um deles virou-se para encarar Tachyon, os receptores qu�micos que os alertavam quanto � proximidade os levaram inexoravelmente na dire��o do takisiano odioso, terr�vel. Uma manga vazia sacudia-se de forma grotesca contra os lados do primeiro.</p><p>Tach expandiu-se para alcan�ar a mente da coisa. Era como n�voa sufocante. Seu pensamento passou despercebido pela difus�o de sinais eletroqu�micos que formavam a mente do monstro.</p><p>Sem surpresa, ele sacou a Smith &amp; Wesson cano curto, apoiou-se de pernas abertas, segurou a arma com as duas m�os, mira alinhada no centro daquela massa desagrad�vel, inalou, segurou o f�lego, apertou o gatilho duas vezes. A pistola produziu uma quantidade muito satisfat�ria de chama, recuo e barulho. Nada mais.</p><p>Chocado, ele abaixou a pistola. A fera estava a vinte metros de dist�ncia; ele n�o erraria �quela dist�ncia. Ent�o, viu dois pequenos buracos, bem onde eles deveriam estar, um em cada lado da frente do casaco abotoado. Ataques mentais n�o eram as �nicas coisas que passavam direto por um broto.</p><p>� Estou encrencado � anunciou. Ele mirou a sombra por baixo do chap�u de brim, deu mais dois tiros. O chap�u voou. Assim como grandes peda�os da massa de batata podre dentro daquilo que servia de cabe�a para o ser. Ele avan�ou.</p><p>A Menina Lua havia parado de gritar e se debater, e sentou-se com as m�os entre os joelhos, observando atentamente.</p><p>� As balas n�o os machucam � disse ela, a voz rouca de tanto gritar. � Eles� eles n�o s�o humanos.</p><p>� Muito observadora. � Ele deu os �ltimos dois tiros, come�ou a se afastar, buscando no bolso um carregador r�pido, esperando ainda ter um.</p><p>� Pensei que tivesse mutilado um ser humano, um curinga � disse ela. Estava em p�. Correu na dire��o de um pr�dio � direita de Tach, cruzando por tr�s os brotos desajeitados, lan�ando-se novamente, dessa vez numa trajet�ria que Tach juraria lev�-la ao terceiro andar da estrutura. Mas ele n�o viu, porque, quando ela entrou na sombra do pr�dio, desapareceu.</p><p>Para reaparecer segundos depois, com os p�s bem no meio do segundo broto. Roupas rasgadas, biomassa fendida, e o ser simplesmente se desintegrou quando ela atingiu o solo e rolou.</p><p>Num instante ela estava em p� novamente, correndo adiante, agachando-se para se apoiar sobre a m�o enquanto a perna varria num chute alto. As pernas do primeiro broto se desgrudaram abaixo do joelho. Ele aterrissou sobre os tocos de perna, continuou a caminhar sem se perturbar. Fechando o rosto, a Menina Lua terminou o servi�o.</p><p>As sirenes perseguiam-se at� o c�u quando ela terminou. Tachyon aplaudiu suavemente enquanto ela caminhava na sua dire��o.</p><p>� Devo desculpas, pela senhorita, pelo que estava pensando sobre voc�.</p><p>Ela come�ou a jogar os cabelos para tr�s, olhou para os dedos, usou o pulso em vez disso.</p><p>� Voc� n�o precisa se desculpar, doutor. Teve motivo para pensar o que pensou. Mas nunca devo usar minhas artes para prejudicar permanentemente um ser pensante. E pensei que tivesse.</p><p>Ele a puxou para os bra�os. Ela recostou a cabe�a no ombro dele. <emphasis>De fato</emphasis>, ele pensou. N�o conseguia imaginar como explicaria aquilo para Mark�</p><p>Ela se afastou.</p><p>� N�o devo ser vista aqui. Perguntas demais.</p><p>� Mas� espere. N�o v� h� muito o que dizer!</p><p>� Mas n�o h� tempo de diz�-lo. � Ela o beijou no rosto. � Tome cuidado, Pai � ela disse, e mais uma vez desapareceu.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Ent�o, o senhor descobriu mesmo os brotos, doutor � disse a tenente Pilar Arrupe, tirando um <emphasis>cigarrillo</emphasis> preto com piteira de pl�stico da boca. � Voc� � mesmo a testemunha perita mais ativa que j� vi.</p><p><emphasis>Pai</emphasis>, ele ficou pensando. <emphasis>Um honor�fico</emphasis>, nada mais.</p><p>� Com certeza destruiu aqueles filhos da m�e � observou um patrulheiro que se prendia a uma arma n�o letal como a um talism�.</p><p>� Com uma ajudinha dos amigos, Dr. Smith e Dr. Wesson � outra pessoa comentou.</p><p>As ruas estavam cheias de luzes azuis piscando e uniformes e equipes de reportagem.</p><p>� As armas n�o adiantam muito contra os malditos do Enxame � disse o primeiro policial.</p><p>� Ent�o, como voc� venceu essas criaturas, doutor? � perguntou um rep�rter, empurrando a espuma f�lica do microfone embaixo do seu nariz.</p><p>� Artes marciais m�sticas.</p><p>� Leve esses babacas pra longe daqui � disse Arrupe. Para decep��o de Tach, ela n�o era bonita. Era atarracada e tinha pernas grossas, rosto de buldogue e cabelo curto e crespo, como o da Brenda da Pumpkin. Tinha sardas escuras em abund�ncia no nariz achatado e arrebitado. Mas os olhos eram brilhantes como cacos de vidro.</p><p>� Bem, tenente � disse ele. � Vai liberar o Doughboy agora?</p><p>� Voc� pegou suposto material do broto no laborat�rio da v�tima e espalhou peda�os inquestion�veis de brotos numa rua inteira, exceto que eles costumavam parecer beb�s do Godzilla e agora parecem indigentes, o que pode ou n�o ser uma melhoria. � uma ocorr�ncia e tanto.</p><p>� A senhora n�o vai�</p><p>� Tenho uma testemunha, doutor.</p><p>� C�us em chamas, mulher, n�o tem compaix�o? N�o se importa com a justi�a?</p><p>� O senhor acha que acabei de pular de um bote direto de San Juan? Trata-se de um cidad�o decente, n�o saberia diferenciar o Doughboy do papa, n�o tem rixa com curingas e ele chega e descreve o rapaz pessoalmente. E n�o me venha dizer que essas testemunhas n�o s�o confi�veis. Elas s�o. E este � <emphasis>s�rio</emphasis>.</p><p>Tach passou a m�o pelos cabelos com os dedos espremidos.</p><p>� Deixe-me falar com ele.</p><p>Ela revirou os olhos.</p><p>� � importante. Est� acontecendo algo, n�o apenas o caso Doughboy. Eu sei disso.</p><p>� O senhor tem algum tipo de <emphasis>brujer�a</emphasis> alien�gena maldita em mente.</p><p>O sedutor sorriu:</p><p>� Mas � claro.</p><p>Ela cedeu.</p><p>� Voc� virou her�i com esses brotos, doutor. E sabe mais dessa coisa do que eu. � Virando-se, continuou. � Mas se o senhor me ferrar com uma queixa de liberdade civil sobre isso, <emphasis>manito</emphasis>, eu acabo com o senhor.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Assim que tocou a mente, ele soube.</p><p>Era um dentista, homem baixo, atl�tico, vermelho, em seus 50 anos, que morava no pr�dio ao lado do de Warren. Estava saindo para passear com o cachorro no quarteir�o � um ato ousado naquela hora da noite � e viu um homem de apar�ncia peculiar saindo da ruela que dividia os pr�dios. O homem parou por um momento, pouco mais de tr�s metros de dist�ncia, olhou o intr�pido dentista direto nos olhos e cambaleou para dentro do Central Park.</p><p>A hist�ria batia com aquela das outras duas testemunhas, uma das quais era o zelador do pr�dio de Warren, que estava investigando uma porta traseira arrombada quando foi acertado pelas costas; a outra era uma mulher que, por raz�es mais bem conhecidas por ela, estava olhando para baixo no beco entre os pr�dios. Eles olharam de relance uma forma grande, p�lida, parecida com um homem saindo da porta dos fundos e descendo a ruela. Mas nenhum podia oferecer algo al�m de uma descri��o mais geral.</p><p>Tachyon precisou apenas tocar a mente do dentista para saber que sua hist�ria n�o era verdadeira. N�o uma mentira; ele acreditava nela implicitamente. Porque fora implantada.</p><p>Relutante, Tach foi mais fundo. A velha dor de Blythe recuou, n�o ficava mais viscoso por dentro com o mero pensamento de usar seus poderes mentais; n�o era isso. A natureza do implante claramente revelou que tipo de ser fez aquilo. Tudo que restava era descobrir o indiv�duo entre algumas poucas alternativas. O doutor tinha uma boa ideia.</p><p>De certa forma, n�o importava. As implica��es j� eram inescap�veis.</p><p>E mais monstruosas do que qualquer coisa que Tach imaginara.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Tenho avers�o a este lugar � resmungou Durg at�Morakh bo Zabb Vayawand-sa quando eles subiram a vacilante escada traseira de seu flat numa esquina pouco badalada do Village.</p><p>Rabdan olhou com desprezo sobre a ins�gnia de ombro dourada.</p><p>� Como pode criticar? Voc� nunca entrou.</p><p>� O Le�o de Ch�cara, aquele com uma cara estranha de morto, ele n�o vai me deixar entrar.</p><p>� R�! O que os Vayawand diriam se soubessem que um de seus preciosos garotos Morakh permitiu que um brutamontes lhe dissesse n�o? S�rio, o esperma deles ficaria ralo.</p><p>Durg fechou a m�o que poderia desintegrar granito. A sarja branca e grossa da manga do seu uniforme partiu no b�ceps com um som parecido com o de um tiro de pistola.</p><p>� Zabb brand Sabina sek Shaza sek Risala ordena que eu lute apenas quando necess�rio para a miss�o � disse ele entredentes. � Mesmo que ele me mande servir algu�m t�o sem valor como voc� para testar minha devo��o. Mas lhe aviso: algum dia, sua incompet�ncia far� voc� perder a prefer�ncia do mestre. E, nesse dia, arranco seus bra�os e pernas, homenzinho, e esmago sua cabe�a como uma espinha.</p><p>Rabdan tentou rir. Engasgou-se, ent�o tentou de novo.</p><p>� T�o hostil. Tal l�stima voc� n�o poderia ter visto: uma mulher esfolada, uma serva desmaiada; entretenimento elegante. Quando os terr�queos forem destru�dos, alguns raros talentos ser�o perdidos, preciso admitir.</p><p>Chegaram ao patamar e � porta. Rabdan fez uma pausa do lado de fora, franziu a sobrancelha enquanto a mente sondava l� dentro. N�o seria bom serem pegos numa emboscada por ladr�es terr�queos. Durg ficou em p�, em sil�ncio, alguns degraus abaixo. Seus parentes eram da classe dos Lordes Ps�quicos, mas, como a maioria dos Morakh, era praticamente cego ps�quico. Se Rabdan detectasse perigo, ent�o cumpriria sua fun��o.</p><p>Satisfeito, Rabdan destrancou a porta e entrou. Durg seguiu, fechando-a atr�s de si. Do corredor para os quartos saiu uma figura.</p><p>� Tisianne! Mas eu sondei�</p><p>� Voc�, de todos os meus primos, nunca poderia lan�ar uma sonda da qual eu n�o pudesse desviar � disse Tachyon. � � mau press�gio para todos n�s que eu tenha encontrado voc�s aqui. De fato, talvez para todos os de Takis.</p><p>� Mas � pior para voc� � disse Rabdan. Ele deu um passo para o lado. � Durg, desmembre-o.</p><p>� Monstro de Zabb! � Tach chiou, apesar dele.</p><p>� O pequeno pr�ncipe � disse Durg. � Ser� moleza.</p><p>Uma segunda figura apareceu ao lado de Tachyon.</p><p>� Doutor, quem s�o? � Menina Lua perguntou, apertando os olhos um pouco � luz brilhante da �nica lumin�ria na mesa baixa.</p><p>Ela viu um homem pequeno � mesmo para ele, um takisiano inequ�voco fei��es finas, cabelos loiros met�licos, olhos p�lidos que se arregalavam e piscavam rapidamente. Ela achou mais dif�cil de classificar o ser que balan�ava sobre o carpete gasto da pequena sala de estar. Era pequeno, pouco mais de um metro e meio, mas pavorosamente musculoso, literalmente quase mais largo que alto. Ainda assim, sua cabe�a era de um lorde elfo takisiano, de fei��es longas, magras e austeras; bonito. O contraste era surpreendente.</p><p>� O adulador do meu primo, Rabdan � disse Tach �, e seu monstro, Durg.</p><p>Por tudo que vivera em quatro d�cadas entre os curingas, Tach n�o conseguia ter est�mago para ver o matador Morakh. N�o era um terr�queo parecido com um takisiano deformado numa grotesca desfigura��o; era a vis�o mais abomin�vel para o povo de Tach, uma pervers�o da pr�pria forma takisiana. Parte do que tornava Morakh t�o terr�vel na guerra era a repugn�ncia que causava aos inimigos.</p><p>� Ele � uma criatura gerada por uma fam�lia hostil � minha. Uma m�quina assassina org�nica, poderosa como um elefante, treinado � perfei��o. � Durg parou, a sobrancelha perfeita franzida pela nova apari��o. � Mesmo para os nossos padr�es, eles s�o quase indestrut�veis. Zabb tomou este num ataque quando ele era um filhote; e a criatura transferiu sua lealdade a ele.</p><p>� Doutor, como voc� pode falar de um ser humano dessa forma?</p><p>� Ele n�o � humano � disse entredentes �, e <emphasis>cuidado com ele.</emphasis></p><p>Atarracado como um troll, Durg se movia com uma velocidade que nenhum humano poderia superar. Mas a Menina Lua n�o era estritamente humana; independentemente do qu�, ela era, fosse l� de onde viesse, uma �s. Ela agarrou a manga bordada a ouro atr�s da m�o que se esticara para peg�-la, puxou-a, girou os quadris. Durg passou direto para bater na parede, numa explos�o de gesso.</p><p>� Como voc� nos encontrou? � Rabdan perguntou, recostando-se ao batente da porta.</p><p>� Primeiro encontramos o homem cuja mente voc� adulterou, sabia que os takisianos ainda estavam na Terra � disse Tach, desviando-se de Durg �, e da in�pcia t�cnica deduzi que s� poderia ter sido voc�. Assim que soubemos o que procurar, n�o foi dif�cil encontr�-los. Sua apar�ncia � distinta, e dificilmente voc�s se esconderiam num armaz�m abandonado e viveriam de ratos e gatos vira-latas, como os brotos.</p><p>� Claro � ele fez com a cabe�a na dire��o do uniforme branco e dourado de Rabdan �, nunca pensei que mesmo voc� seria tolo o bastante para se aventurar no pr�prio uniforme de Zabb.</p><p>� Os terr�queos acharam que est�vamos no topo da moda. E se voc� est� entre os cisnes, andaria vestido de ganso?</p><p>� Quando a miss�o dos cisnes � Durg surgiu de uma depress�o que fizera na placa de gesso, gemendo, balan�ando o p� de gesso como �gua � � se passar por gansos, sim.</p><p>A Menina Lua avan�ou para o bar destru�do, deu dois passos m�nimos para a frente, chutou Durg na lateral do joelho. A perna dele se dobrou. Ela soltou um segundo chute no lado da mand�bula do monstro. Ele gemeu � a m�o dele se agitou, agarrou a canela da menina, puxou-a para a frente ao alcance de seu outro bra�o.</p><p>Ele se esfor�ou para dar um golpe eficaz. Tach come�ou a avan�ar novamente. A m�o de Rabdan saiu da t�nica com o brilho fosco e preto de um aprisionador.</p><p>� V� at� l� e eu acabo com voc� agora, Tis.</p><p>A Menina Lua bateu com o cotovelo no topo da cabe�a de Durg. Tach ouviu os dentes se batendo como uma ratoeira. Ela estapeou maldosamente com as palmas em concha contra as orelhas dele. Ele gemeu, sacudiu a cabe�a, e ela se contorceu at� se ver livre.</p><p>� Durg estava em p�, encarando-a. Ela chutou o peito dele. Ele bloqueou sem esfor�o. Ela voou para cima dele com a f�ria de <emphasis>boleadeiras</emphasis>, chutando a cabe�a, o joelho, a virilha. Ele deu v�rios passos para tr�s, ent�o, quando ela bateu novamente, ele saltou e atacou com as duas pernas, chutando a Menina Lua atrav�s da sala para rebentar contra a parede externa.</p><p>Tachyon hesitou. Poderia tentar apossar-se da mente de Durg, mas ele toparia com a capacidade psi�nica �nica que os Morakh possu�am, uma resist�ncia quase intranspon�vel � coer��o mental. Enquanto ele se concentrasse em Durg, Rabdan o mataria� se tentasse combater os escudos bem fracos de Rabdan, Durg mataria a Menina Lua. Ele pegou a pistola, esperando que a garota n�o fosse muito severa em seu julgamento�</p><p>Ela se virou. Durg estava chocado; quando ele chutava algu�m com tanta for�a, este desmaiava. Ele se lan�ou para a frente, negligente.</p><p>Ela o encontrou no meio do caminho. Agarrando a t�nica de frente, ela caiu de costas com as botas na barriga do monstro e projetou-o sobre esta. A for�a combinada do salto e o impulso dela lan�aram-no como um rebite atrav�s da parede, quatro andares acima da rua.</p><p>� Ai, meu Deus � disse ela, ficando em p�. � Espero que n�o o tenha machucado. � Ela correu at� o buraco. � Ele ainda est� se movendo. � Sem hesitar, ela desceu, escalando a parede.</p><p>Pensando que ela poderia se cuidar, Tach a deixou ir, ainda surpreso. Durg era t�o forte quanto alguns ases humanos poderos�ssimos. A Menina Lua, de qualquer forma, tinha for�a meta-humana, n�o era p�reo para ele � havia dominado o monstro apenas com habilidade. Durg, o mestre assassino.</p><p>Rabdan saiu do estado at�nito e escancarou a porta. A mente de Tachyon agarrou a de Rabdan como m�o de ferro. E espremeu.</p><p>� E agora, amigo � ele falou �, vamos conversar.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Era ruim. Rabdan era um incompetente e, mais do que outra coisa, um covarde. Ainda assim, era um Lorde Ps�quico, e ao menos ele se comportava como um, o pior para ele. Nenhum escudo normal que ele pudesse erguer poderia refrear o sutil Tisianne de espiar at� a �ltima migalha de informa��o de seu c�rebro. Mas Rabdan, em situa��es extremas, ficava heroico, colocava a trava mortal, deitava seu nome sobre ela. <emphasis>Tudo o que ele era</emphasis> se opunha a Tachyon, e nenhuma sutileza, nenhum artif�cio ou for�a poderia superar essa oposi��o e deixar qualquer coisa de Rabdan intacta.</p><p>Talvez esta fosse a ast�cia final de Rabdan: sabendo do cora��o mole de seu primo distante, apostou que Tisianne evitaria a determina��o de deslindar sua mente, peda�o a peda�o.</p><p>O discernimento de Rabdan nunca foi dos melhores.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Alegria, alegria, alegria. Meu mestre chega novamente e t�o cedo. Ou tem algo errado para ele ter tanto tempo assim para mim de repente?</p><p><emphasis>Corta essa,</emphasis> Baby.</p><p>� Ol�, <emphasis>Baby</emphasis>. E a�, tudo bem? � Ela piscou suas luzes num feliz cumprimento e abriu uma trava em sua lateral.</p><p>A maldita rocha estava a caminho da Terra, claro. O povo de Zabb a desviara meses atr�s. N�o muito; exigiria quantidades tremendas de for�a para mudar o momento de tal massa at� qualquer valor not�vel. Uma fenda de um grau, pouco percept�vel, mas, com o passar do tempo, suficiente.</p><p>Era uma rocha familiar para os terr�queos; seu reaparecimento, impercept�vel. Mesmo assim, Rabdan e Durg vieram � Terra para garantir que seus destinat�rios pretendidos n�o percebessem que o itiner�rio havia mudado. Que sorte, ent�o, quando a altera��o no curso fora notada por um homem que absolutamente nenhuma autoridade ouviria � cuja alega��o da descoberta da rocha, por assim dizer, significaria que todos os outros cientistas do planeta a julgariam como algo inferior. Os takisianos n�o poderiam ter pedido algo melhor para selar o destino do planeta. Ningu�m perceberia o que estava acontecendo at� o asteroide estar t�o perto que sua rota seria incontorn�vel. E, assim, seria tarde demais, nem todas as armas termonucleares dos estoques do planeta poderiam evitar a desgra�a vindoura.</p><p>Mas os aliados entraram em p�nico. Os aliados de Zabb. Embora odiasse seu primo, Tachyon mal poderia ser capaz de acreditar naquilo.</p><p>A vasta massa de perversidade que era a M�e do Enxame detectara a <emphasis>Hellcat</emphasis> enquanto ela flutuava na �rbita do mundo que almejava, da sua forma turva e insistente, para domin�-lo, e atacou. E, de alguma forma, por suas pr�prias raz�es mal�ficas, assim que o ataque fora repelido, o c�o de guerra dos Ilkazam fez uma alian�a com o maior inimigo da sua casa � de todos os takisianos.</p><p>Juntos, tra�aram um plano. Semiconsciente, a M�e percebeu apenas que o plano fora detectado quando Dr. Warren fez seu an�ncio. Agiu �s pressas, deixando Rabdan com nada menos que o prazer de tentar desfazer o dano que ela havia moldado.</p><p>Pareceu um destino fabuloso distinguir nas ruas do Bairro dos Curingas um ser que poderia ser confundido com um broto. Assim, Rabdan e Durg foram at� o Central Park e conseguiram uma testemunha. <emphasis>Como pode falhar?</emphasis> Rabdan alegrou-se com o camarada.</p><p>Tach dera a Rabdan a miseric�rdia final que nenhum takisiano poderia negar a outro. A Menina Lua acreditou que o cora��o dele parou inesperadamente sob a sonda mental, e Tach sentiu-se imundo por ter mentido para ela. Tach levou as imagens roubadas do laborat�rio de Warren para <emphasis>Baby</emphasis>. Sua an�lise astrogacional confirmou a hist�ria de Rabdan. Uma sess�o de planejamento apressada, uma noite gasta tentando dormir.</p><p>Agora, Viajante e Tachyon estavam prontos para lan�ar um esquema genuinamente imprudente para Salvar o Mundo. N�o havia tempo para pensar em outro. J� poderia ser tarde demais.</p><p>E, l� fora, Zabb aguardava. Zabb. Aquele que assassinara a <emphasis>Kibr</emphasis> de Tach. E traiu todos os takisianos. Em sua nave de guerra: Zabb.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Jake cambaleava pela rua com sua garrafa de La Copita na m�o, dentro de um saco de papel. Na orla, no Bairro dos Curingas, ele, um limpo, sem droga nenhuma para fazer �quela hora da noite, especialmente se estiver b�bado daquele jeito. Mas Jake n�o sabia muito bem para onde estava indo desde que o merda com cabe�a de iguana o jogou para fora do bar por fazer arrua�a. Uma coisa boa, ele pensou, era que carregava uma reserva no bolso do casaco.</p><p>Um ronco tomou seu ouvido. Ele parou e observou quando o topo de um pr�dio veio abaixo bem � sua frente � sem explodir, sem implodir, mas saindo numa pe�a, impec�vel, como queira, como a tampa de uma caixa. Pousou gentilmente no telhado do pr�dio ao lado, e ent�o aquela concha gigantesca coberta com pequenas manchas de luz flutuou para fora do edif�cio. Nenhum som sa�a dela. Pairou contra o c�u laranja embotado enquanto o telhado flutuava de volta para o lugar. Ent�o, ela se inclinou para cima e sumiu, partindo para a Grande Escurid�o.</p><p>Deliberadamente, Jake caminhou para o bueiro mais pr�ximo e, com mira precisa, lan�ou para dentro dele sua garrafa de La Copita pela metade. Ent�o, partiu rapidamente para fora do Bairro dos Curingas.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Nunca pensei em, tipo, voar com uma espa�onave bem do seu quarto, cara � disse o Capit�o Viajante, visivelmente encantado.</p><p>� Acho que seu povo chama isso de cabine, n�o �?</p><p>De fato, parecia um cruzamento de har�m otomano com as cavernas de Carlsbad. No meio de tudo isso havia uma imensa cama de dossel cheia de grandes almofadas, e num roup�o no meio dela estava Tach. Havia muito ele jurara morrer na cama; a biotecnologia takisiana tornou poss�vel alcan�ar esse objetivo e um fim heroico ao mesmo tempo, se esta for sua inclina��o.</p><p>� N�o h� centro formal de comando� ponte de comando?� numa nave como esta. Na maioria das naves de guerra, como na nave <emphasis>Hellcat</emphasis> do meu primo, existe, mas numa nave de passeio, n�o. � Ele sentiu um chiado de f�ria de <emphasis>Baby</emphasis> pela men��o do nome <emphasis>Hellcat</emphasis>. Eram rivais de longa data.</p><p>� Uma nave simbi�ntica takisiana � controlada psionicamente. O piloto pode receber informa��es de forma direta, mental ou visualmente. Por exemplo�</p><p>Tach gesticulou e uma imagem da Terra saltou para ficar numa curva de um anteparo membranoso pr�ximo � cama. Uma linha amarela sa�a dela, descrevendo sua �rbita. Ent�o, como uma anima��o computadorizada, o globo girou, diminuiu, at� uma imagem fora de escala de sua trajet�ria inteira do voo projetado da Terra ao 1954C-1100 ser mostrada.</p><p>O Viajante aplaudiu.</p><p>� � fant�stico, cara. Muito bom!</p><p>� Sim, � isso. Voc�s, terr�queos, est�o tentando criar a consci�ncia nos seus computadores; n�s criamos intelig�ncias capazes de realizar fun��es computacionais. E muito mais.</p><p>� Como <emphasis>Baby</emphasis> se sente sobre tudo isso?</p><p>A imagem desapareceu. E palavras apareceram: <emphasis>Fico honrada em transportar lordes como o Mestre Tis e o senhor� embora eu tema que o senhor me cutuque com este chap�u; � t�o alto.</emphasis></p><p>O Viajante deu um pulo.</p><p>� N�o sabia que ela podia fazer isso.</p><p>� Nem eu. Ela est� roubando meus conhecimentos do ingl�s escrito com um dreno muito sutil� o que � levemente perverso. Contudo, ela sabe que sou complacente, e a perdoarei.</p><p>O Viajante sacudiu a cabe�a, surpreso. Estava sentado numa cadeira que havia brotado do ch�o para ele, e agora ajustava-se ao corpo do �s quando Tach finalmente convenceu-o a se sentar.</p><p>� N�o que eu n�o confie na <emphasis>Baby</emphasis> � disse ele �, mas a nave do seu primo n�o �, tipo, uma nave de guerra?</p><p>� Sim. E voc� n�o precisa fazer a pergunta que esperava n�o ter de fazer. Em circunst�ncias normais, <emphasis>Baby</emphasis> n�o teria nenhuma chance contra a <emphasis>Hellcat</emphasis>� e n�o fa�a est�tica desse jeito na minha cabe�a, <emphasis>Baby</emphasis>, ou vou te espancar! De verdade. Mas <emphasis>Baby</emphasis> � r�pida, mesmo com seu piloto autom�tico acionado, nenhuma � mais r�pida. E manobr�vel. E, francamente, mais esperta que a <emphasis>Hellcat</emphasis>. Mas o fator importante � que a <emphasis>Hellcat</emphasis> foi bastante danificada pelo ataque do Enxame. Uma M�e de Enxame t�o antiga e vasta como aquela em geral desenvolve armas biol�gicas � anticorpos, quase � contra takisianos e suas naves-fantasma. Usamos armas similares contra eles, porque s� uma frota de guerra inteira pode levar poder de fogo suficiente para prejudicar mesmo uma da pequena, considerando que a infec��o pode se espalhar a partir dela. Zabb combateu um ataque a bordo, com espada e pistola e armas biol�gicas, e conseguiu afugentar os brotos. Mas a <emphasis>Hellcat</emphasis> ficou infectada e prejudicada e, embora tenham impedido a doen�a, ficar� um bom tempo se recuperando.</p><p>E, suavemente:</p><p>� E Zabb sentiu cada um dos ferimentos da nave como seu pr�prio, seja l� o que voc� possa pensar dele. � Seus olhos arderam.</p><p>Com tristeza, o Viajante balan�ou a cabe�a.</p><p>� Falar sobre batalhas me deprime, cara.</p><p>� Deve ser dif�cil pra voc�, j� que tem convic��es pacifistas. Mas seu papel naquilo que se aproxima n�o � marcial, e vou lutar apenas se atacado.</p><p>� Mas a Menina Lua luta. A maioria dos outros tamb�m. Nunca briguei na minha vida. Bati apenas em uma pessoa, e <emphasis>ele</emphasis> se esquivou e estourou meu nariz, e ent�o um dia eu estou, tipo, no corpo de outra pessoa enquanto ela joga um alien�gena musculoso atrav�s da parede.</p><p>� Foi um espet�culo glorioso � disse Tach, rindo, sem conseguir se controlar.</p><p>� Ser um �s parece ser uma viagem bem pesada.</p><p><emphasis>Tisianne, eu a sinto!</emphasis> Hellcat <emphasis>est� vindo.</emphasis></p><p>Tach despenteou o cabelo e suspirou.</p><p>� Temo que seja o momento, amigo. � Ele balan�ou as pernas para fora da cama e levantou-se. � Vou te levar at� a comporta.</p><p>A ilumina��o os conduziu at� um corredor curvo.</p><p>� Tem certeza de que voc� ele� consegue encontrar a rocha? � disse Tachyon.</p><p>� Acho que n�o haver� muitas outras na vizinhan�a, doutor.</p><p><emphasis>A vadia est� formando a �rbita de intercepta��o. Limite de armas m�ximo em vinte minutos.</emphasis></p><p><emphasis>Bloqueie,</emphasis> Baby<emphasis>.</emphasis></p><p>Eles pararam ao lado do esf�ncter interno da comporta de tripula��o. Tach e o Viajante abra�aram-se, ambos chorando, tentando n�o transparecer.</p><p>� Boa sorte, Mark.</p><p>� Pra voc� tamb�m, doutor. Diga, esta nave inteira � <emphasis>Baby</emphasis>, n�o �?</p><p>� Isso a�.</p><p>Constrangido, o Viajante recostou-se e beijou levemente uma viga cuja forma flu�a como uma estalagmite.</p><p>� Tchau, <emphasis>Baby</emphasis>. Paz.</p><p>� Adeus, Capit�o. Que a sorte lhe acompanhe.</p><p><emphasis>Aproveitando-se de supersti��es primitivas</emphasis>, Tach repreendeu enquanto eles se retiravam educadamente numa curva.</p><p>Divertimento. <emphasis>Como parecer� a nova pessoa, Tis?</emphasis></p><p><emphasis>N�o sei. Estou �vido para ver</emphasis>. Outra Menina Lua era demais para se esperar. Era sorte que tinham acesso a um �s com uma combina��o de poderes que lhes dava uma pequena chance de sucesso.</p><p>� Doutor? � a voz rolou em torno deles como �mbar l�quido, profunda e forte. Tachyon caminhou adiante.</p><p>O impacto visual o fez parar de uma vez. �s como um deus grego: alto, de musculatura trabalhada, uma mand�bula de dique, um olhar verde-claro, uma nuvem loira encaracolada de cabelos, tudo envolvido por um uniforme amarelo colado � pele com um sol raiado no peito.</p><p>� Eu sou � disse a vis�o � Estelar.</p><p><emphasis>�</emphasis> A honra � inteiramente minha � disse Tach, pensativo.</p><p><emphasis>�</emphasis> Est� correto. Voc� � um militarista, representante de uma civiliza��o decadente e repressiva. Estou prestes a tentar impedir um horror trazido � minha civiliza��o por sua tecnologia desenfreada, enquanto voc� se envolve num combate com outra fac��o do mesmo bando tecnocrata que afligiu a Terra com seu v�rus sat�nico em primeiro lugar. Sob tais circunst�ncias, acredito ser dif�cil desejar sucesso ao senhor, doutor. Mesmo assim, eu o fa�o.</p><p>A voz de Tachyon parecia ter desaparecido, e <emphasis>Baby</emphasis> fazia pequenos estalos de fosfeno est�tico na cabe�a dele.</p><p>� Sou muito grato � ele conseguiu dizer, por fim.</p><p>� Sim. � Estelar moveu sua mand�bula heroica. � Talvez eu componha um poema sobre o dilema moral que enfrento�</p><p>� Ser� que n�o � melhor voc� enfrentar o asteroide primeiro? � Tach quase gritou.</p><p>Estelar olhou com f�ria, como Zeus apanhado por Hera, mas disse:</p><p>� Acho que sim.</p><p>A comporta dilatou-se.</p><p>� Adeus � Tach disse.</p><p>� Obrigado.</p><p>Ele deu um passo adiante.</p><p>Quando a comporta externa abriu-se num c�rculo, <emphasis>Baby</emphasis> transmitiu � mente de Tach um panorama externo � cada cent�metro quadrado da pele da nave era fotossens�vel quando necess�rio. Estelar flutuava no v�cuo, virou o rosto para o brilho intenso do sol, agora mais ou menos � popa, e pareceu respirar profundamente. Ent�o, afastou-se da nave, bra�os e corpo estirados numa linha, e tornou-se um raio �nico, amarelo e brilhante, a atravessar a noite eterna.</p><p>� Transforma��o fot�nica � disse Tach, impressionado. � Como a transforma��o de t�quions de nosso piloto autom�tico, mas permitindo apenas a velocidade da luz. Incr�vel.</p><p>Por um momento, ele quase se sentiu orgulhoso pelo carta selvagem.</p><p>Ele se livrou daquela sensa��o.</p><p>� Vai ser bem dif�cil � ele observou � gostar desse a�.</p><p>Ele � um babaca. Eu gostava muito mais do Capit�o.</p><p><emphasis>Tis, eles est�o chegando.</emphasis></p><p><image l:href="#5"/></p><p>Flutuando, atemporal. Libera��o pura, inexist�ncia/coexist�ncia com todo o universo. A consuma��o final: <emphasis>satori</emphasis> num raio laser.</p><p>Mas � preciso continuar. Resolu��o, abaixo ao ego. Objetivo.</p><p>O asteroide aguardava. Uma massa desagrad�vel e idiota de esc�ria, parecendo cair na dire��o de Estelar, embora sua linha de vis�o corresse perpendicular � sua trajet�ria.</p><p>Ele esfregou a mand�bula e franziu a testa. Tinha muito mais a dizer �quele doutor alien�gena, sobre o mal que a esp�cie dele trouxera ao mundo, sobre sua pr�pria culpa por atrair aquele pat�tico depressivo do Viajante para perigos selvagens.</p><p>Ele se perguntou quanto tempo teria. Das mem�rias que compartilhava com Mark e o restante, sabia que a droga duraria uma hora. Esperava que pudesse fazer o que tinha de ser feito a tempo.</p><p>Ele esticou a m�o. Um raio de luz saltou dela para a superf�cie irregular do Tezcatlipoca, um calor branco e ofuscante. Um c�rculo da rocha sulcou-se com o espectro e ferveu na superf�cie com um jato incandescente.</p><p>Ele era fabulosamente forte. Mas toda a sua for�a n�o desviaria a massa maligna. Nem tinha poder suficiente para destruir a rocha. O que poderia fazer era usar seu raio solar para aquecer um ponto no flanco do asteroide, de forma que a mat�ria da rocha se afastasse como um foguete exaurido nos �ngulos direitos � sua �rbita. Mesmo agora, a milh�es de milhas da Terra, um pequeno desvio faria toda a diferen�a.</p><p>Mas mesmo uma varia��o m�nima no curso do asteroide exigiria quantidades fant�sticas de energia. E uma quantidade desconhecida de tempo.</p><p>Com o incremento, Estelar aumentou sua emiss�o. Sentia-se vivo, imenso e cheio de poder; n�o poderia falhar, aqui diante do olho nu do sagrado Sol, com sua energia a sustent�-lo.</p><p>O planeta estava em risco, seu planeta, a Terra, verde e gr�vida.</p><p>E, por acaso, sua pr�pria vida, e a de Mark Meadows e de outras entidades cujas exist�ncias estavam de alguma forma presas � dele.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>No instante da detec��o, Tach sabia que a arma mais mortal da <emphasis>Hellcat</emphasis> estava fora do jogo. Os t�quions s�lidos de sua lan�a-fantasma teriam espalhado os �tomos constituintes da <emphasis>Baby</emphasis> � e os seus � por uma d�zia de dimens�es num attosegundo, se ainda funcionasse, e com a gl�ndula do piloto autom�tico de <emphasis>Baby</emphasis> tamb�m se fora seu senso de t�quions, de forma que eles n�o teriam um alerta. Mas Tach apostou que o ataque do Enxame desativara o feixe de t�quions. Teria sido o alvo mais urgente da M�e; os seres planetoides temiam o feixe, mesmo os menores, como naves da classe de <emphasis>Hellcat</emphasis> carregavam.</p><p>No entanto, a nave de Zabb estava longe de ser indefesa. Quando <emphasis>Baby</emphasis> se lan�ou num trajeto tangente ao dela, cruzando o sistema externo do caminho que Estelar havia tomado, um pulso de luz p�rpura passou rapidamente a bombordo. <emphasis>Eu j� esperava isso, Baby</emphasis> disse com orgulho, enquanto balan�ava numa dan�a evasiva, intrincada como um minueto, o que a manteve cruzando a proa da <emphasis>Hellcat</emphasis> enquanto a outra nave a circundava.</p><p>Ao mesmo tempo, enviaram uma sonda, Tach direcionando a maior for�a psi�nica pura da <emphasis>Baby</emphasis> para examinar a outra embarca��o. Sentiu um dano que trouxe bile � sua garganta, feridas expostas com cantos queimados ou atrofiados escancarando os flancos da <emphasis>Hellcat</emphasis>. <emphasis>Ela quer a nossa vida</emphasis>, ele pensou, <emphasis>mas nenhuma nave fiel de Takis merece a infec��o do cont�gio do Enxame.</emphasis></p><p>Antes que pudesse obter uma vis�o mais n�tida, foi interrompido por uma for�a mental semelhante a uma l�mina de guilhotina. N�o importava; <emphasis>Baby</emphasis> sentiu o suficiente para avaliar a capacidade que a rival ainda possu�a. Mesmo assim, ele ficou surpreso.</p><p><emphasis>Vadia estropiada, acompanhante de barca�as!</emphasis> Tach sentiu a f�ria de <emphasis>Hellcat</emphasis> fustigar <emphasis>Baby</emphasis> como uma lan�a. <emphasis>Tu e teu mestre fracote provar�o este sol doentio.</emphasis></p><p><emphasis>Palavras valentes as tuas, mas n�o podes bambolear r�pido o suficiente para me alcan�ar!</emphasis></p><p><emphasis>Teus poderes mentais cresceram, primo</emphasis>, ele projetou.</p><p>Uma risada seca veio at� sua mente. <emphasis>A adversidade for�a o crescimento. Voc� veio, Tisianne. Acredito que encontrou meus emiss�rios na Terra.</emphasis></p><p><emphasis>Baby</emphasis> estava apresentando a situa��o de <emphasis>Hellcat</emphasis>: <emphasis>inv�lucro enfraquecido em diversas se��es, uma les�o no �rg�o principal de propuls�o�</emphasis></p><p><emphasis>Sim</emphasis>, pensou Tach.</p><p><emphasis>Rabdan foi um tolo. Voc� se livrou dele? Percebo que sim. E Durg? Sua morte foi limpa, eu acredito.</emphasis></p><p><emphasis>Ele est� vivo, primo.</emphasis> Com mal�cia: <emphasis>Ele transferiu sua lealdade ao terr�queo que o derrotou. Seu antigo prisioneiro, Capit�o Viajante.</emphasis></p><p>Uma f�ria quente e branca surgiu:</p><p><emphasis>Voc� mente!</emphasis> Um momento passou. <emphasis>Mas n�o. Talvez voc� tenha come�ado a entender por que eu tomei as medidas que tomei, ent�o, Tis.</emphasis></p><p>De acordo com o plano, <emphasis>Baby</emphasis> descreveu uma �rbita curvil�nea em velocidade constante. Apesar de seus melhores esfor�os, <emphasis>Hellcat</emphasis> n�o conseguia acompanh�-la. Seu controle de disparo tamb�m havia sofrido; �quela dist�ncia, a superioridade aterradora de seu poder de fogo foi cancelada pela mira mais precisa do �nico laser pesado de <emphasis>Baby</emphasis>, atingindo-a, for�ando-a a trocar a persegui��o pela evas�o.</p><p><emphasis>Entendo que voc� traiu nosso cl� e nosso povo</emphasis>, Tach pensou.</p><p><emphasis>Assim lhe parece, Tis. Mas considere: este v�rus que voc� soltou naquele mundo quente e pesado amea�a nossa exist�ncia muito mais do que o Enxame est�pido.</emphasis></p><p><emphasis>O experimento foi um sucesso.</emphasis></p><p><emphasis>Nele reside o perigo. Esses terr�queos alterados, esses ases, ajudaram voc� a escapar apesar de toda a nossa for�a. Agora, me diga, um fracote magrelo derrotou o lutador bra�al mais mort�fero que Takis j� produziu. Voc� n�o v� nisso, Tisianne, o eclipse da nossa esp�cie?</emphasis></p><p><emphasis>Talvez a queda dos Lordes Ps�quicos j� tenha passado da hora.</emphasis></p><p><emphasis>E voc� me chama de traidor.</emphasis> O pensamento parecia muito mais de uma satisfa��o cansada do que de ultraje.</p><p><emphasis>Voc� teria destru�do esp�cies inteiras.</emphasis></p><p><emphasis>Claro. S�o terr�queos.</emphasis></p><p>A agonia espalhou-se no c�rebro de Tach como �cido. Metade dele foi lan�ada para fora da cama quando o compensador de acelera��o de <emphasis>Baby</emphasis> falhou.</p><p>Baby! <emphasis>Voc� est� bem?</emphasis></p><p><emphasis>Um arranh�o, Lorde Tis. Estou bem.</emphasis> Mas havia um tom vacilante; ela nunca havia sido danificada em batalha antes.</p><p>Ele cuidou dela com um toque mental breve e curativo, lan�ou-se ferozmente contra Zabb. <emphasis>Ent�o, voc� entrou em acordo com o Enxame nojento?</emphasis></p><p><emphasis>Voc� viu o que eles fizeram � pobre</emphasis> Hellcat. <emphasis>Esta M�e encontrou takisianos antes, ou compartilhou plasma com outra que encontrara, e sobreviveu</emphasis> � <emphasis>o que deve lhe dizer muito, meu primo. Uma vagem semeou brotos na �rbita do lado mais distante deste seu mundo adotivo, que permaneceram inertes at� passarmos entre eles. Ent�o, estavam sobre n�s, como �cido, pat�genos de a��o r�pida e for�a bruta.</emphasis></p><p><emphasis>Conseguimos expuls�-los</emphasis>. A mente de Tach encheu-se com imagens roubadas de Rabdan, da batalha na luz tremeluzente contra seres amorfos cujo toque poderia significar a morte por dissolu��o irrevers�vel. De espadas cintilantes e gritos, e a defesa mais desesperada de todas, pistolas a laser flamejando nos corredores, enquanto os espasmos perist�lticos assolavam todo o tecido da <emphasis>Hellcat</emphasis>. <emphasis>Perdemos quatro dos nossos, seu velho mestre de armas entre eles. O pr�ximo ataque teria acabado conosco. Optei pela negocia��o.</emphasis></p><p>Os olhos violeta se apertaram. <emphasis>Sedjur.</emphasis></p><p><emphasis>Ap�s repelirmos o ataque,</emphasis> Zabb continuou, <emphasis>consegui tocar o ofuscamento soberbo que � a consci�ncia da M�e enquanto cuid�vamos de nossos feridos e lav�vamos nossos corredores com emuls�o antibi�tica, para mostrar a ela que desej�vamos negociar. Ela entendeu, mas vagamente; acredito que sentiu algo relacionado � curiosidade quanto � minha temeridade, quis me examinar mais de perto. Viajei at� ela numa nave salva-vidas individual, passei dentro dela.</emphasis></p><p><emphasis>Baby</emphasis> estava de novo no controle; sua manobra violenta de alta velocidade n�o fez mais do que causar ondula��es na superf�cie do u�sque que permanecia no c�lice ao lado da cama. O suor brotava na c�pula fria da testa de Tach. Mesmo sem querer, sentiu respeito por seu primo � at� mesmo admira��o. Viajar sozinho e sem armas para dentro do corpo colossal da M�e, inimigo ancestral, fantasma de um milh�o de hist�rias de terror � ele tirou coragem das can��es �picas.</p><p>E, acima de tudo, Tach sabia por que Zabb tinha feito aquilo: fora humilhado pelas m�os de Tach, ele, que nunca conhecera a derrota. Tinha de empreender um feito fabuloso ou teria seu significado, sua <emphasis>virt�</emphasis>, drenada dele como �gua de um recept�culo rachado. E para um takisiano, mesmo uma trai��o era gloriosa, se grande o suficiente em tamanho.</p><p><emphasis>Dentro de uma grande caverna, sa� da minha nave e fiquei em p� na pr�pria mat�ria de nosso mais antigo inimigo. As paredes ao redor pareciam fixadas com faixas de musgo preto, iluminadas por luzes morti�as em metade de uma centena de coberturas p�lidas; o fedor era tal que turvou minha vis�o. Mas fiz contato com uma mente t�o imensa e difusa quanto uma nebulosa. Ap�s uma adapta��o, nos comunicamos.</emphasis></p><p><emphasis>O monstro e eu t�nhamos interesse em destruir a vida nesta sua Terra. Ent�o, entramos num acordo.</emphasis></p><p>A bile borbulhou na boca de Tach num reflexo apavorado. <emphasis>Entramos num acordo</emphasis>. Que tranquilidade a do primo em passar o pensamento, como se n�o estivesse descrevendo a maior trai��o e o maior ato de coragem que sua esp�cie conhecera.</p><p><emphasis>Respeito voc�, Zabb. Tenho de respeitar. Se voc� vencer este dia, cantar�o suas venturas por milhares de gera��es. Mas� desprezo voc�.</emphasis></p><p><emphasis>Tentarei resistir.</emphasis></p><p>Tach estremeceu num suspiro. <emphasis>E voc� assassinou Benaf�saj.</emphasis></p><p><emphasis>Fui obrigado. Ela nunca teria consentido em tomar uma atitude contra voc� e sua preciosa Terra, ainda mais entrar num acordo com o Enxame. Para todos os efeitos, ela morreu no ataque dos brotos; Rabdan assistiu, voc� ficar� satisfeito em saber.</emphasis></p><p>Uma l�grima caiu sobre a manta de seda.</p><p><emphasis>Zabb. Eu irei mat�-lo.</emphasis></p><p><emphasis>Talvez voc� at� possa, de t�o fraca que est� a</emphasis> Hellcat<emphasis>. Ou pode ser que eu te mate.</emphasis> Uma risada enfastiada. <emphasis>Qualquer resultado � satisfat�rio do meu ponto de vista.</emphasis></p><p><emphasis>Baby</emphasis> gritou.</p><p>De repente, Tach estava saltando na opul�ncia organiforme de sua cabine. Sentiu o cheiro de silicone quente; sua mente reverberou com a agonia de sua nave.</p><p><emphasis>Agora, vadia</emphasis>, veio o pensamento de <emphasis>Hellcat</emphasis>, sibilando de �dio, <emphasis>n�o podes fugir mais.</emphasis> Uma luz azul esbranqui�ada desdobrou-se quando <emphasis>Hellcat</emphasis> acionou sua turbina em marcha acelerada terminal triunfante, aproximando-se para a matan�a.</p><p><emphasis>Baby, Baby!</emphasis> A mente dela estava cheia com o ru�do branco de terror e medo. As naves simbi�nticas tinham vantagens sobre embarca��es n�o vivas, podiam pensar por si mesmas, curar-se dos danos. Mas tinham vontade pr�pria, e esta podia ser rompida.</p><p>Tach segurou uma proje��o, agarrou-se, expandiu a mente para abra�ar sua nave atormentada. O ar soprava de um arranh�o de dois metros no casco, empurrando-a pelo espa�o. <emphasis>Ah,</emphasis> Baby<emphasis>, controle-se!</emphasis></p><p>Ele sentiu o bafo demon�aco de um laser passar ao lado dela. <emphasis>Papai, Papai, n�o consigo, n�o consigo!</emphasis></p><p>A luz pulsava das paredes em manchas aleat�rias de cor. Ele invocou toda a sua for�a curativa, todo o seu amor e empatia pela nave, derramou todo o ser nas chamas de terror dentro dela. <emphasis>Eu te amo,</emphasis> Baby<emphasis>. Mas voc� precisa me deixar ajud�-la.</emphasis></p><p><emphasis>N�o!</emphasis></p><p><emphasis>Nossas vidas correm risco. O mundo todo corre risco.</emphasis> Aos poucos, o terror cedeu. Os giros selvagens da nave foram amortecidos, e Tach sentiu o campo de telecinesia do compensador dela envolverem-no de novo. Ele suspirou mais uma vez.</p><p><emphasis>Hellcat</emphasis> tinha agora um aspecto sem amplia��o, uma escurid�o pontuda viva com pequenas luzes, cavalgando uma imensa onda de fogo. Seu triunfo encheu a cabe�a de Tach como um laser encravado para a frente, e um dos contrafeitos de Baby evanesceu num brilho. <emphasis>Grita por miseric�rdia, covarde! Ir�s flutuar para sempre na solid�o!</emphasis></p><p><emphasis>DANE-SE!</emphasis> As luzes internas de <emphasis>Baby</emphasis> diminu�ram enquanto ela canalizava todo o poder em seu laser. Uma lan�a escarlate empalou a <emphasis>Hellcat</emphasis> bem acima da turbina. Ela berrou � ent�o novamente, mais alto, um tumulto de agonia que continuou at� Tach pensar que seu c�rebro explodiria.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O 1954C-1100 vomitava sua pr�pria subst�ncia no espa�o. Por um momento, Estelar quase desejou ter trazido algum tipo de instrumento para medir seu progresso. O tempo estava se esgotando rapidamente e nenhum sinal do retorno daquele tecnocrata alien�gena traidor. Seria bom saber se seu sacrif�cio fora em v�o.</p><p>Ele reprimiu aquele pensamento com firmeza. Ao menos morreria livre das correntes sutis da tecnologia. E a Terra verdejante sobreviveria por algum tempo ainda, antes que os violentadores da terra e os malucos tecnol�gicos a queimassem por completo. Mas ele teria feito a sua parte.</p><p>Ele come�ou a compor seu poema final; uma pe�a pujante, ainda mais porque n�o havia ningu�m para ouvir sobre o grito fot�nico silencioso do asteroide, al�m das outras entidades que formavam a composi��o chamada Capit�o Viajante.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Quando conseguiu pensar novamente:</p><p><emphasis>Baby, voc� est� bem?</emphasis></p><p><emphasis>Vencemos! Lorde Tis, eu a venci!</emphasis> � Uma imagem da <emphasis>Hellcat</emphasis>, sem luzes e rasgada, afastando-se numa trajet�ria comet�ria, longe do mundo que seu mestre buscava devastar.</p><p><emphasis>Zabb! Zabb, ainda est� vivo?</emphasis> Sem resposta, e ele <emphasis>se</emphasis> perguntou por que seu pulso aumentava de forma ansiosa.</p><p>E ent�o� <emphasis>Estou. Maldito seja. N�o consegue fazer nada direito?</emphasis></p><p><emphasis>E o nosso povo?</emphasis></p><p><emphasis>Tr�s mortos quando seu tiro estourou o propulsor: Aliura, Zovar S�ang, aquela serva � qual voc� tanto se afei�oara. Todos desapareceram num jorro de chamas. Orgulhoso agora, Tisianne?</emphasis></p><p>Ele se sentou petrificado, o <emphasis>vazio</emphasis> frio dentro dele. Assassinara seus pr�prios parentes, primeiro Rabdan, ent�o esses outros. E Talli, sua companheira de jogo, que o avisou das inten��es de Zabb quando ele, o Tartaruga e o Viajante tinham sido sequestrados. Tudo por uma boa causa, claro. Ainda assim, Zabb n�o poderia alegar o mesmo?</p><p><emphasis>Voc� venceu. Cumpra sua vingan�a, Tisianne.</emphasis></p><p>Baby<emphasis>, ajustes os vetores com a</emphasis> Hellcat. <emphasis>Precisa ser r�pido.</emphasis></p><p><emphasis>Mas, Mestre�</emphasis></p><p><emphasis>O qu�?</emphasis></p><p><emphasis>O Estelar.� est� prestes a se reverter em Capit�o Viajante.</emphasis></p><p><emphasis>O que est� esperando?</emphasis> Um tom mais alto. <emphasis>Vai ter compaix�o, Tisianne? N�o parece com voc�</emphasis>. Acabe com isso.</p><p>Tach olhava sem express�o para a parede-membrana adiante, onde <emphasis>Baby</emphasis> formou uma imagem da sua inimiga abatida. Seu orgulho exigia a consuma��o. E, o aspecto pr�tico: enquanto Zabb vivesse, Tachyon estaria em perigo mortal, e a Terra tamb�m.</p><p><emphasis>Tis, quando minha m�e ajudou aquela cadela mesti�a que te pariu escada abaixo, eu assisti. Estava na balaustrada e gargalhei. O jeito que a cabe�a dela rolava sobre o pesco�o�</emphasis></p><p>Mas Tachyon riu. <emphasis>Basta. Guarde seu veneno para o Vazio, Zabb.</emphasis></p><p><emphasis>Atire, ent�o. Maldito seja,</emphasis> atire.</p><p><emphasis>N�o. Arrume sua nave se puder, volte manquejando para Takis, voe at� o espa�o da Rede e viva como um renegado. Viva sabendo que eu lhe derrotei novamente. Que voc� traiu sua linhagem� e falhou.</emphasis></p><p>Ele ergueu rapidamente uma parede contra um surto de f�ria.</p><p>Baby<emphasis>, encontre o</emphasis> Capit�o<emphasis>, r�pido!</emphasis> Ela deu uma guinada, suas turbinas uma n�voa amarela.</p><p><emphasis>� destruir voc�, Tisianne, eu prometo</emphasis>� ele sentiu. Ent�o Zabb desapareceu, sendo tragado pela noite infinita.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>O brilho de suas m�os tremeluziu. Quando aconteceu, Estelar sentiu uma fraqueza, uma mudan�a da pr�pria estrutura do seu ser. Ao menos eu morri no abra�o do Sol�</p><p>Trezentos segundos depois, Baby freou para ajustar a velocidade com uma forma que pendia aparentemente sem vida sobre uma cratera ainda incandescente no flanco do asteroide. Gentilmente, ela expandiu seu campo de atra��o, agarrou a forma coberta de p�rpura com sangue seco em torno da boca e orelhas e o chap�u de seda que seguia como um sat�lite p�rpura, trazendo-os para dentro de si. Quando seu mestre curvou-se chorando sobre o amigo, ela apontou a proa para o mundo que havia se tornado o lar de ambos.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Mark, Mark, meu velho! � Dr. Tachyon entrou de uma vez pela porta da Cosmic Pumpkin, bra�os cheios de buqu�s e garrafas de vinho em sacos de papel.</p><p>Mark rolou com sua cadeira de rodas pela loja.</p><p>� Doutor! H� quanto tempo n�o te vejo. Onde � a festa?</p><p>Seu rosto assumiu uma vermelhid�o onde o v�cuo estourou os vasos capilares por baixo da pele, e, at� seus t�mpanos se curarem, ele ouvia por uma pequena unidade de condu��o �ssea grudada por um processo mastoide sob a orelha esquerda, mas no geral ele n�o parecia t�o mal, apesar do que havia passado.</p><p>� Onde � a festa? Onde � a festa? O Doughboy foi liberado de todas as acusa��es, volta para casa hoje. Voc� � um her�i� quer dizer, seu amigo, o Capit�o, �. E voc�, claro. Vai ter uma celebra��o no Crystal Palace, e as bebidas s�o por conta da casa.</p><p>� E essas garrafas?</p><p>� Estas? � Um sorriso. � Talvez eu tenha uma celebra��o particular, ap�s as festividades da Cris�lida.</p><p>Ele estendeu um buqu�.</p><p>� S�o para voc�. Deixe-me ser o primeiro a te congratular, Mark.</p><p>Mark as cheirou.</p><p>� Hum, obrigado, doutor.</p><p>� Podemos ir? Por que voc� n�o veste� voc� sabe� algo mais formal?</p><p>Mark virou o rosto.</p><p>� Eu, hum, tipo, eu acho que � melhor ficar por aqui. Tenho a loja e Sprout para cuidar, e n�o estou muito bem para sair por a�.</p><p>� Bobagem. Voc� <emphasis>precisa</emphasis> vir. Voc� merece a adula��o, Mark. <emphasis>Voc�</emphasis>. Voc� � um her�i.</p><p>O amigo baixou os olhos.</p><p>� Brenda ficar� mais que feliz em cuidar da loja e de Sprout por voc�.</p><p>� N�o t�o r�pido, bonit�o � a mulher atr�s do balc�o disse. � E meu nome � Susan.</p><p>Tach a fitou com um olhar penetrante. Ap�s um momento, ela cedeu.</p><p>� Eu, eu acho que posso.</p><p>� Mas esta <emphasis>cadeira</emphasis> � Mark se lamentou.</p><p>� Voc� precisa de ajuda, senhorita Isis? � uma voz perguntou vinda do fundo da loja, profunda e ressonante como um gongo alien�gena. Durg at�Morakh bo-Isis Vayanwand-sa emergiu na delicat�ssen, uma camiseta de colecionador dos Steppenwolf esticada quase at� estourar sobre o peito gigante. Ele mancava, suas bochechas inchadas e machucadas, mas de modo geral pouco ferido.</p><p>� Posso lev�-la para onde desejar ir, senhorita.</p><p>O rubor de b�bado de Mark aumentou.</p><p>� Desejo que voc� pare de me chamar assim, cara. Meu nome � <emphasis>Mark</emphasis>.</p><p>Durg concordou com a cabe�a.</p><p>� Como quiser, senhorita. Se voc� deseja esconder seu nome da inveja de seus camaradas mais fracos como esconde sua forma, eu devo usar seu <emphasis>nom de guerre</emphasis> quando houver terr�queos presentes.</p><p>� Meu Deus � Mark disse. De sua parte, Tach ficava incomodado que o Morakh conseguira saber que o nome real da Menina Lua (seja l� o que significava) era Isis Lua, que era mais do que ele sabia. Tamb�m ficou mais do que levemente satisfeito.</p><p>� Espl�ndido � disse ele, trocando seus pacotes de m�o. � Voc� vai l� pra cima se trocar e eu te encontro no Palace.</p><p>� Aonde voc� vai?</p><p>� Tenho um encontro primeiro.</p><p>Durg levantou Mark, com cadeira e tudo, e o levou para cima.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O rosto de Sara Morgenstern ficou t�o vermelho quanto o de Mark, ali na penumbra de fim de tarde do escrit�rio de Tach.</p><p>� Ent�o, o senhor conseguiu � ela suspirou.</p><p>Ele tinha consci�ncia do odor dela, sentiu sua excita��o. Ele mal conseguia conter a dele.</p><p>� Foi simples � ele mentiu.</p><p>� Me diga. Como o crime foi cometido?</p><p>Ele contou para ela, com um m�nimo de embelezamento, pois o desejo sexual desfrutava de uma prioridade maior at� mesmo do que inflar seu ego. E, quando ele terminou, viu para sua surpresa que a express�o ansiosa dela murchou como um sufl� arruinado.</p><p>� Alien�genas? Foram alien�genas? � Ela mal conseguia expressar as palavras; sua decep��o bateu nos lobos frontais dele como a arrebenta��o.</p><p>� Pois sim, brotos num novo est�gio numa alian�a com meu primo Zabb. E essa � uma parte importante da hist�ria que voc� escrever�, o perigo imposto por esta nova manifesta��o do Enxame. Porque isso significa que a M�e n�o ficou satisfeita a ponto de ir embora e deixar o mundo em paz.</p><p>O buqu� que ele havia dado a ela ca�ra no ch�o. Uma d�zia de rosas jazia em torno dos p�s de Sara como �rvores derrubadas por uma bomba a�rea.</p><p>� <emphasis>Andi</emphasis> � ela solu�ou, o rosto retorcido, lavado com l�grimas. Ent�o, ela se foi, os saltos estalando negligentes pelo corredor.</p><p>Quando sumiram, Tach ajoelhou-se, carinhosamente tomou um bot�o vermelho-sangue. <emphasis>Nunca entenderei esses terr�queos,</emphasis> ele pensou.</p><p>Enfiando o bot�o na lapela de seu casaco azul-celeste, pisou delicadamente nas outras flores, fechou a porta, trancou-a e saiu assobiando para juntar-se � celebra��o.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Seis</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>Os metr�s eram uma pervers�o humana com a qual Jube nunca se acostumava. Eram sufocantes e quentes, o cheiro de urina nos t�neis �s vezes era avassalador e ele odiava como as luzes piscavam enquanto os vag�es trepidavam pelos trilhos. A longa jornada na linha A at� a 190th Street era pior do que a maioria. No Bairro dos Curingas, Jube sentia-se confort�vel. Era parte da comunidade, algu�m familiar e aceito. Em Midtown, no Harlem e al�m deles, era um esquisito, algo que as crian�as encaravam e os pais cuidadosamente ignoravam. Isso fazia com que ele se sentisse, bem, um <emphasis>alien�gena</emphasis>.</p><p>Mas n�o havia como evitar. O cara da banca de jornal chamado Morsa nunca conseguiria chegar ao Mosteiro de t�xi.</p><p>Nesses �ltimos meses, parecia que sua vida estava em ru�nas, mas seus neg�cios estavam melhores do que nunca. Jube descobrira que os ma�ons tamb�m liam jornais, ent�o trazia uma bra�ada cheia para cada reuni�o e os lia na linha A (quando as luzes estavam acesas) para desviar sua mente dos cheiros, barulhos e olhares de nojo no rosto dos passageiros ao seu redor.</p><p>A manchete no <emphasis>Times</emphasis> anunciava a forma��o de uma for�a-tarefa especial federal para lidar com a amea�a do Enxame. As disputas jurisdicionais cont�nuas entre a NASA, o alto escal�o militar, o CRISE-A e o secret�rio de Defesa � todos reivindicavam o Enxame como sua al�ada � finalmente terminaram, era o que se esperava, e a partir de ent�o todas as atividades anti-Enxame seriam coordenadas. A for�a-tarefa seria liderada por um homem chamado Lankester, um diplomata de carreira dos Estados Unidos, que prometia iniciar as investiga��es imediatamente. A for�a-tarefa esperava a requisi��o do uso exclusivo dos telesc�pios a r�dio de longa dist�ncia no Novo M�xico para localizar a M�e do Enxame, mas essa ideia estava atraindo cr�ticas ferrenhas da comunidade cient�fica.</p><p>O <emphasis>Post</emphasis> enfatizava o �ltimo assassinato do �s de espadas com imagens da v�tima com uma flecha atravessada no olho esquerdo. O morto era um curinga com uma ficha corrida t�o grande quanto sua cauda com ferr�o e possu�a iga��es com uma gangue de rua de Chinatown, alternadamente conhecida como P�ssaros da Neve, Garotos da Neve e Gar�as Imaculadas. O <emphasis>Daily News</emphasis> � que trazia o mesmo assassinato, menos a especula��o art�stica � concluiu que o assassino de arco e flecha era um matador de aluguel da m�fia, pois sabia-se que os Gar�as Imaculadas de Chinatown e os Pr�ncipes Demon�acos do Bairro dos Curingas estavam entrando nas opera��es dos Gambione, e Frederico �O A�ougueiro� Macellaio n�o era algu�m que aceitaria calmamente essa interfer�ncia. A teoria n�o conseguia explicar por que o matador usava um arco e flecha, por que deixava um �s de espadas laminado em cada corpo e o motivo pelo qual deixara intocado um quilo de p� de anjo, fenilciclidina, que sua �ltima v�tima carregava.</p><p>O <emphasis>National Informer</emphasis> trazia na primeira p�gina uma fotografia colorida do Dr. Tachyon em p� num laborat�rio com um acompanhante desajeitado com costeletas su��as num fraque p�rpura de Tio Sam. Era uma imagem pouco lisonjeira. A chamada era <emphasis>Dr. Tachyon e Capit�o Ambulante prestam tributo ao Dr. Warner Fred Warren</emphasis>. �<emphasis>Sua contribui��o � ci�ncia n�o tem precedentes�</emphasis>, <emphasis>diz g�nio alien�gena paranormal</emphasis>. O artigo relacionado sugeria que o Dr. Warren salvara o mundo e preconizava que se declarasse o laborat�rio um monumento nacional, sugest�o atribu�da ao Dr. Tachyon. As p�ginas centrais do tabloide dedicavam-se ao testemunho de uma faxineira do Bronx, que dizia que um broto tentara estupr�-la nos t�neis do metr� at� um funcion�rio do pr�prio metr� se transformar num crocodilo de quase quatro metros e comer a criatura. A hist�ria deixou Jube inquieto. Olhou para cima e observou os outros passageiros do trem A, esperando que nenhum deles fosse um broto ou um crocodilo.</p><p>Estava com a nova edi��o da revista <emphasis>Ases</emphasis> tamb�m, com sua mat�ria de capa sobre Jumpin� Jack Flash, �O Mais Novo e Quente �s da <emphasis>Big Apple</emphasis>�. Flash era um completo desconhecido at� duas semanas antes, quando apareceu de repente � numa roupa de paraquedista laranja com uma fenda na barriga � para extinguir o fogo num armaz�m na South Street que amea�ava engolir a cl�nica do Bairro dos Curingas nas proximidades, atraindo as chamas para si e de alguma forma absorvendo-as. Desde ent�o, estava em todos os lugares � flamejando pelo c�u de Manhattan numa coluna barulhenta de fogo, atirando bolas de fogo das pontas dos dedos, dando entrevistas c�nicas e cr�pticas, e levando mulheres belas ao Aces High, onde sua predile��o em flambar os pr�prios fil�s deixava Hiram � beira de um colapso. A <emphasis>Ases</emphasis> era a primeira revista a estampar o sorriso astuto do rapaz e sua capa, mas n�o seria a �ltima.</p><p>Na esta��o da 59th Street, um homem magro e calvo num terno de tr�s pe�as tomou o trem e sentou-se na frente de Jube. Ele trabalhava para a Receita Federal e era conhecido na Ordem como Colete. Na 125th Street, juntou-se a eles uma mulher negra corpulenta e de cabelos grisalhos num uniforme rosa de gar�onete. Jube a conhecia tamb�m. Eram pessoas comuns, os dois. N�o tinham poderes de ases, tampouco deformidades de curinga. Os ma�ons revelaram-se cheios de pessoas assim: trabalhadores da constru��o civil e contadores, universit�rios e homens sem emprego fixo, trabalhadores dos esgotos e motoristas de �nibus, donas de casa e prostitutas. Nas reuni�es, Jube encontrou um advogado bastante conhecido, um homem da previs�o do tempo da TV e um dedetizador profissional que amava conversar sobre o trabalho e lhe dava cart�es o tempo todo (�Muita barata no Bairro dos Curingas, aposto�). Alguns eram muito ricos, poucos pobres, a maioria trabalhava duro para viver. Nenhum deles parecia muito feliz.</p><p>Os l�deres eram de uma lavra extraordin�ria, mas todo grupo precisa de sua camada baixa, todo ex�rcito, de seus soldados rasos.</p><p>Jay Ackroyd nunca saberia onde errou. Era um investigador particular profissional, arguto e experiente, e fora meticulosamente cuidadoso assim que percebeu com o que estava lidando. Se fosse apenas um pouco menos talentoso, se Cris�lida tivesse enviado um tipo de homem mais comum, eles poderiam ter se safado facilmente. Fora sua habilidade que o derrubara, o poder de �s escondido. Popinjay, que era o nome de guerra que ele odiava: ele era um teleportador saltador que podia apontar o dedo e <emphasis>mandar</emphasis> as pessoas para outro lugar. Fez o seu melhor para permanecer discreto, n�o teleportou um �nico ma�om, mas de qualquer forma Judas sentira seu poder, e aquilo fora o suficiente. Agora, Ackroyd n�o tinha mais mem�ria dos ma�ons do que tinham Cris�lida ou Devil John Darlingfoot. Apenas a falta de poderes vis�vel e as caracter�sticas de curinga tinham poupado sua mente e sua vida� isso e a m�quina na sua sala de estar.</p><p>Estava escuro quando o trem A chegou � 190th Street. Spoons e Colete sa�ram rapidamente do metr� enquanto Jube arrastava-se atr�s deles, jornais embaixo do bra�o. A tira que os segurava friccionava por baixo de sua camisa, e ele se sentiu desesperadamente sozinho. N�o tinha aliados. Cris�lida e Popinjay haviam se esquecido de tudo. Croyd acordou como uma coisa inflada verde acinzentada, com a carne como uma medusa, e dormiu prontamente, com extrema dificuldade. Os takisianos iam e vinham, sem fazer nada, importando-se pouco. O deslocador de singularidade, se ainda estivesse intacto e funcional, estava perdido em algum lugar da cidade, e seu transmissor de t�quions era in�til sem ele. N�o podia ir a qualquer autoridade humana. Os ma�ons estavam em todos os lugares; infiltrados na pol�cia, nos bombeiros, na Receita, na autoridade de tr�nsito, na m�dia. Numa reuni�o, Jube reconheceu at� mesmo uma enfermeira que trabalhava na cl�nica do Bairro dos Curingas.</p><p>Essa situa��o lhe trazia s�rios problemas. Passou muitas noites em claro flutuando na banheira fria, perguntando-se se deveria dizer algo para algu�m. Mas para quem? Poderia dar o nome da Enfermeira Gresham para o Troll, poderia denunciar Harry Matthias ao capit�o, poderia espalhar a hist�ria inteira para o Patola no <emphasis>Grito</emphasis>. Mas e se o Troll fosse ma�om? Ou o Capit�o Black, ou o Patola? Os ma�ons comuns viam seus l�deres apenas � dist�ncia, e com frequ�ncia de m�scara, e houve rumores de iniciados de alto n�vel que nunca vinham �s reuni�es, ases e pessoas influentes e outras em posi��es de autoridade. O �nico no qual ele realmente confiava era ele mesmo.</p><p>Ent�o, ele ia �s reuni�es, ouvia, aprendia. Assistia com fascina��o quando colocavam suas m�scaras e realizavam seus desfiles e rituais, pesquisava os atributos dos deuses mitol�gicos que eles imitavam, contava suas piadas e ria com elas, fez amigos com aqueles que faziam amizade com um curinga e observava os outros que n�o faziam. E come�ava a suspeitar de algo, algo monstruoso e preocupante.</p><p>Ele se perguntou, n�o pela primeira vez, por que estava fazendo aquilo. E viu-se lembrando de muito tempo atr�s, a bordo da grande nave da Rede, a <emphasis>Opportunity</emphasis>. O Mestre Comerciante chegou � sua cabine, com os trajes de um glabberiano anci�o, seus cabelos crespos ficando pretos com a idade, e Jhubben perguntou por que ele estava sendo honrado com aquela miss�o.</p><p>� Voc� � como eles � disse o Mestre Comerciante. � Sua forma � diferente, mas entre aqueles deformados e entortados pela bioci�ncia takisiana, voc� se misturar�, outra v�tima sem rosto. Seus padr�es de pensamento, sua cultura, seus valores, moralidades� s�o mais pr�ximos aos dos humanos do que qualquer outro poderia selecionar. Com o tempo, como voc� residir� entre eles, ficar� ainda mais parecido, e assim conseguir� entend�-los e ser� de grande valia em nosso benef�cio.</p><p>Era verdade, tudo verdade; Jube era mais humano do que jamais imaginou. Mas o Mestre Comerciante omitiu algo. N�o disse a Jhubben que ele chegaria a amar os humanos e se sentir respons�vel por eles.</p><p>Na sombra do Mosteiro, dois jovens em cores das gangues sa�ram para confront�-lo. Um deles tinha um canivete. �quela altura, eles o conheciam, mas ele ainda precisava mostrar a moeda vermelha brilhante que carregava no bolso. Aquelas eram as regras. Eles concordaram silenciosamente com a cabe�a, e Jube entrou no grande sal�o onde aguardavam com seus tabardos e m�scaras, com suas palavras rituais e segredos que ele se apavorava em aprender, onde esperavam para que ele chegasse para conduzir sua inicia��o.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Por caminhos perdidos</strong></p><p>Pat Cadigan</p><empty-line/><empty-line/><p>Estava excessivamente quente para maio, quase uma pr�via do ver�o profundo, e as crian�as reunidas em torno do hidrante faziam uma cena atemporal. A �nica coisa que faltava era um especialista � ningu�m sabia como liberar a �gua do hidrante. N�o importava que tal fato resultasse em uma redu��o precipitada na press�o da �gua local, prejudicando seriamente o combate a inc�ndios, motivo pelo qual os incendi�rios sempre estavam dispostos a ajudar um grupo de crian�as suadas num dia quente. Mas nunca havia um incendi�rio quando se precisava de um.</p><p>O homem na lojinha do bairro n�o estava observando as crian�as; assistia � jovem com cabelos castanhos avermelhados na altura dos ombros e grandes olhos verdes que olhava as crian�as. Ele a rastreava desde que sa�ram do �nibus tr�s dias antes, em geral ao abrigo de um dos seus tabloides favoritos, como um que segurava naquele instante. A manchete dizia: MULHER VIRA CURINGA E COME MARIDO NA NOITE DE N�PCIAS! Harry Matthias sempre teve um gosto pelo sinistro.</p><p>A garota do outro lado da rua, no entanto, era tudo, menos sinistra. <emphasis>Garota</emphasis> encaixava-se melhor do que <emphasis>jovem</emphasis>, mesmo que tivesse quase certeza de que ela estava com mais de 21 anos. Seu rosto em formato de cora��o n�o tinha marcas nem linhas; inacabado. Sem sofistica��o, muito atraente se olhado pela segunda vez, e ele imaginou que a maioria das pessoas o fazia. Voc� nunca pensaria que ela era outra coisa sen�o um peda�o de carne jogando-se nas mand�bulas da cidade grande. No entanto, Harry, mais conhecido como Judas, via diferente. O Astr�nomo lhe daria uma recompensa polpuda por aquela ali.</p><p>Ou melhor, o pessoal do Astr�nomo daria. Por sorte, o Astr�nomo mesmo n�o se incomodava com ele, e Judas era bem sortudo, quase sortudo demais para continuar vivo. Escapou de ser um tiete de curinga, o que ele chamava de curinguete (e ria-se tamb�m quando diziam isso), para ser ele mesmo um �s. Um �s muito sutil, com certeza, mas muito �til com sua capacidade de detectar outro �s e seu poder. Seu poder veio � tona naquela noite, naquele cabar� maluco, o Jokers Wild. Salvou sua vida; estavam prestes a deton�-lo quando o esporo se transformou e ele exp�s aquela mulher que mudava de forma. Ou que eles a faziam mudar, para ser mais exato. N�o gostava de pensar naquilo, mas antes ela do que ele. Antes qualquer um do que ele, mesmo a garota do outro lado da rua, embora isso lhe doesse; ela <emphasis>era</emphasis> atraente. Mas ele apenas a entregaria para os ma�ons, com quem ela n�o seria desperdi�ada. Que talento tinha a mo�a; provavelmente lhe dariam uma medalha quando a entregasse. Bem, pagariam para ele de qualquer forma o suficiente para atenuar o inc�modo de ser chamado de Judas. Se sentisse qualquer inc�modo, o que n�o era o caso.</p><p>A garota sorriu e ele sentiu sua rea��o, um sorriso. Conseguia sentir o poder dela se acumulando. Distraidamente, deixou algumas moedas no caixa pelo tabloide e saiu na cal�ada com o jornal debaixo do bra�o. De novo, flagrou-se maravilhado; mesmo que soubesse ser necess�rio um poder especial para detectar um �s, ainda ficava surpreso que as pessoas nunca soubessem quando estavam diante de algo maior do que elas mesmas, fosse um �s, TIAMAT ou o Deus �nico e Verdadeiro. Olhou de relance para o c�u. Deus estava na pausa para o caf� e TIAMAT ainda n�o havia chegado; naquele momento, eram apenas ele e a garota, e aquela companhia era suficiente.</p><p>Apenas ele sentiu quando ela liberou sua habilidade. O poder brotou dela como uma onda e uma descarga imensa de part�culas. A magnitude era assustadora. Era um poder primitivo, algo que parecia antigo apesar da relativa novidade que era o v�rus carta selvagem, como se ele tivesse ativado alguma habilidade nativa, mas adormecida por s�culos.</p><p><emphasis>Pode ser</emphasis>, ele pensou de repente, <emphasis>todo povo primitivo tem algum tipo de ritual para chamar a chuva, n�o �?</emphasis></p><p>Sem aviso, o hidrante abriu e a �gua jorrou na rua. As crian�as correram, comemorando e rindo, e ela curtia tanto aquilo que nem percebeu sua aproxima��o.</p><p>� Pol�cia, senhorita. Venha comigo em sil�ncio. � Toda a surpresa no rosto dela enquanto encarava o distintivo que ele segurava diante do seu nariz a fez parecer ainda mais jovem. � N�o acha mesmo que se livraria, n�o �? E n�o se fa�a de inocente� voc� n�o � a �nica �s que temos nesta cidade, sabe?</p><p>Com obedi�ncia, ela concordou com a cabe�a e deixou que ele a levasse.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O Mosteiro era um completo desperd�cio para ela. N�o se importou em olhar para a arquitetura g�tica francesa elevada ou mesmo para a porta de madeira esculpida onde ele a deixou como uma mercadoria nas m�os expectantes de Kim Toy O�Toole e Red. Ele resistiu � �nsia de beij�-la. Para um cara chamado Judas, beijar seria passar um pouco dos limites. Ol�, garotinha; ela mal notara a aus�ncia de uniformes policiais.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Red era um pouco avermelhado at� o v�rus carta selvagem o infectar. Ent�o, ficou vermelho por completo e n�o contava com pelo ou cabelo algum. Achava que era uma condi��o comparativamente toler�vel. �s vezes, ele dizia �Talvez eu tivesse algum �ndio vermelho em mim�. N�o tinha. Sua mulher, Kim Toy, era filha de um militar de carreira irland�s e o amor verdadeiro o arrebatou enquanto ele servia na R&amp;R em Hong Kong. Sean O�Toole fora ma�om, mas mal reconheceria a organiza��o na qual sua filha entrou ap�s seu pr�prio esporo ter florescido e ela descobrir que a combina��o de poder mental e ferom�nios poderia enlouquecer os homens muito mais do que o usual para uma mulher razoavelmente atraente. A parte boa: �s vezes ela n�o conseguia impedir que isso fosse fatal.</p><p>Eles tomaram a pe�a fresca que Judas trouxera e a enfiaram num dos antigos escrit�rios no andar inferior, onde podiam realizar os interrogat�rios (<emphasis>entrevistas,</emphasis> Roman sempre os corrigia) com privacidade. Ent�o, sentaram-se no lado de fora do sal�o para uma pausa n�o programada. Roman chegaria a qualquer momento e, em seguida, fariam com a garota o que o Astr�nomo achasse melhor.</p><p>� Bem bizarro � Red murmurou, aceitando um cigarro j� aceso de Kim Toy. <emphasis>Bem bizarro</emphasis> era um termo que sempre se referia ao Astr�nomo. � �s vezes, acho que dev�amos dar um p� na bunda do cara e correr.</p><p>� Ele ser� o dono do mundo � Kim Toy disse com tranquilidade. � E vai nos dar um peda�o. Acho que vale a pena mant�-lo por perto.</p><p>� Ele <emphasis>diz</emphasis> que vai nos dar um peda�o. Como se fosse um senhor feudal. Mas nem todos somos samurais, minha querida.</p><p>� Muito menos eu. Sou chinesa, idiota. Lembra? � Kim Toy desviou o olhar do marido. � Roman est� chegando. <emphasis>E</emphasis> Kafka.</p><p>Red e ela estavam sentados e tentavam parecer impass�veis. Roman era um dos lacaios mais pr�ximos do Astr�nomo, algu�m que poderia frequentar aqueles segmentos da sociedade que poderiam ser considerados acima da maioria dos indiv�duos question�veis que o Astr�nomo recrutava. Sua boa apar�ncia loira e os trajes impec�veis lhe davam passe livre quase em qualquer lugar. Corria � boca pequena que ele era um dos raros �curingas reversos�, algu�m cujo esporo transformou uma deformidade horrenda e nojenta no seu presente estado de beleza masculina. O pr�prio Roman n�o comentava.</p><p>Atr�s dele vinha sua ant�tese, aquele a quem chamavam de Kafka, ou o Barata (embora n�o na frente dele), pois parecia bastante com a ideia humana de uma barata. Ningu�m gozava dele, no entanto; o dispositivo Shakti que o Astr�nomo disse ser a salva��o deles foi, em grande parte, um feito do Kafka. Ele entendeu o instrumento alien�gena que estava sob a cust�dia ma��nica por s�culos e, com as pr�prias m�os, projetou e construiu a m�quina que completava seu poder. Ningu�m o incomodava; ningu�m queria incomod�-lo.</p><p>Roman lan�ou um aceno m�nimo de cabe�a a Red e Kim Toy enquanto seguia para a porta do escrit�rio e, ent�o, parou de uma vez, quase fazendo Kafka trombar com ele. Kafka deu um pulo para tr�s, passando os bra�os finos em volta do corpo, com p�nico pela ideia de qualquer contato com algu�m que se lavava menos que 12 ou 13 vezes ao dia.</p><p>� O que acha que est� fazendo? � O sorriso de Roman era desinteressado.</p><p>Kafka deu um passo valente adiante.</p><p>� Encontramos seis alien�genas passando por seres humanos nas �ltimas tr�s semanas. Quero apenas me certificar de que ela � humana.</p><p>� <emphasis>Voc�</emphasis> quer ter certeza de que ela � humana. � Roman mediu-o dos p�s � cabe�a. � Judas a trouxe pra c�. Aqueles que Judas traz s�o sempre humanos. E o Astr�nomo n�o quer que a gente assuste os bons, por isso <emphasis>eu</emphasis> entrevisto quando eles chegam. Desculpe por dizer isso assim, meu velho Kafka, mas n�o acho que sua apar�ncia seja t�o tranquilizadora.</p><p>O exoesqueleto de Kafka chiou quando ele se virou e voltou para o sal�o. Kim Toy e Red observaram sua sa�da sem se importar em interromper o sil�ncio com mais que um suspiro.</p><p>� Ele estava observando os monitores quando ela entrou � disse Roman, arrumando seu casaco de <emphasis>tweed</emphasis> caro e de bom gosto. � Pena. Eu digo, o homem com certeza n�o se importaria em chegar perto de uma mulher t�o bonita, mas do jeito que ele �</p><p>� Como vai sua mulher, Roman? � Red perguntou de repente.</p><p>Roman congelou no meio do gesto de tirar um fio imagin�rio da manga. Houve uma pausa longa. Uma das l�mpadas fluorescentes incongruentes come�ou a zumbir.</p><p>� Bem � Roman falou por fim, baixando devagar o bra�o. � Vou comentar que voc� perguntou por ela.</p><p>Kim Toy deu uma cotovelada nas costelas do marido quando Roman entrou no escrit�rio.</p><p>� Por que <emphasis>diabos</emphasis> voc� tinha que fazer aquilo? Por que isso agora?</p><p>Red deu de ombros.</p><p>� Roman � um babaca.</p><p>� <emphasis>Kafka</emphasis> � um babaca! <emphasis>Todos</emphasis> s�o babacas! E voc� � um idiota. Da pr�xima vez que quiser atingir o homem, levante e d� um soco no nariz dele. Ellie Roman nunca fez nada para voc�.</p><p>� Primeiro voc� me diz que quer ser dona do mundo� desculpe, de um peda�o dele� e ent�o voc� me d� uma bronca por comentar sobre a mulher de Roman para ele. Minha querida, �s vezes voc� � mesmo um quebra-cabe�as chin�s.</p><p>Kim Toy franziu a testa para a luz zumbidora, que agora tamb�m piscava.</p><p>� O mundo � um quebra-cabe�as chin�s, meu querido.</p><p>Red resmungou.</p><p>� Bobagem de samurai.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� Diga seu nome, por favor. Completo.</p><p>Indiscutivelmente, era o homem mais bonito que ela j� conhecera pessoalmente.</p><p>� Jane Lillian Dow � disse ela. Nas cidades grandes, eles tinham de tudo, inclusive homens lindos para interrogat�rios. <emphasis>Eu �cora��o� Nova York</emphasis>, ela pensou, e suprimiu a histeria que quis brotar como gargalhada.</p><p>� E qual � a idade da senhorita?</p><p>� Vinte e um. Nascida em 1� de abril de 19�</p><p>� Eu sei subtrair, obrigado. <emphasis>Onde</emphasis> a senhorita nasceu?</p><p>Ela ficou aterrorizada. O que Sal teria pensado? <emphasis>Ah, Sal, queria que voc� pudesse me salvar agora.</emphasis> Era mais uma ora��o que um pensamento, feita para o vazio com a esperan�a diminuta de que talvez o v�rus carta selvagem pudesse ter afetado a vida p�s-morte, bem como a esta aqui, e o falecido Salvatore Carbone pudesse vir trotando de volta do al�m como a cavalaria ectopl�smica. At� ent�o, sonhar n�o custava nada.</p><p>Ela respondeu a todas as perguntas do homem. O escrit�rio n�o tinha uma mob�lia especial � paredes nuas, poucas cadeiras, e uma mesa com um terminal de computador. O homem puxava os registros dela em menos de um minuto, verificando os fatos contra as respostas dela. Tinha acesso a toda a vida da mo�a com aquele computador, raz�o pela qual ela relutou tanto em registrar-se na pol�cia ap�s o esporo do v�rus carta selvagem florescer no col�gio, cinco anos antes. A lei foi promulgada na sua cidade natal bem antes de ela ter nascido e nunca foi abolida quando o clima pol�tico de alguma forma mudou. Mas, ent�o, nada mudou muito na pequena cidade de Massachusetts, onde ela nasceu. �Vou ser licenciada e numerada como um cachorro tamb�m�, ela disse a Sal. �Talvez at� mesmo levada para um canil e ser envenenada com g�s.� Sal convenceu-a a obedecer, dizendo que chamaria menos aten��o se obedecesse �s leis. Se puderem se responsabilizar por voc�, deixar�o voc� em paz. �Sim�, ela disse. �Percebi como esse tipo de coisa funcionou bem na Alemanha nazista.� Sal apenas balan�ou a cabe�a e prometeu que tudo daria certo.</p><p><emphasis>E o que me diz agora, Sal? Eles n�o v�o me deixar em paz, n�o est� dando certo.</emphasis> Nova York era o �ltimo lugar onde esperava ser capturada pela pol�cia por ser uma �s, ela disse quando houve uma pausa no interrogat�rio.</p><p>� Mas n�o somos da pol�cia � o belo homem disse de forma agrad�vel, fazendo seu cora��o ficar ainda mais apreensivo.</p><p>� N-n�o s�o? Mas aquele camarada me mostrou um distintivo�</p><p>� Quem? Ah, aquele. � O homem, que disse para cham�-lo de Roman, riu. � Judas � policial. Mas eu n�o. E isso aqui dificilmente seria uma delegacia. N�o � �bvio?</p><p>Jane fechou o rosto para o sorriso levemente incr�dulo dele.</p><p>� N�o sou daqui. E vi no notici�rio o que aconteceu poucos meses atr�s. Entendi depois disso que a pol�cia apenas armaria emboscadas em qualquer lugar onde precisasse ou tivesse que armar. � Ela baixou os olhos para o colo onde suas m�os se retorciam como duas criaturas separadas num combate silencioso. � N�o teria falado nada sobre o Sal se soubesse que voc�s n�o eram da pol�cia.</p><p>� Que diferen�a isso faz, Srta. Dow? Ou posso cham�-la de Jane, j� que n�o gosta de ser chamada de Nen�far?</p><p>� Fa�a o que quiser � disse ela, desgostosa. � Vai fazer de qualquer jeito.</p><p>Ele a surpreendeu ao levantar e dizer �s pessoas no corredor para trazer caf� e algo para comer.</p><p>� Me ocorreu que a mantivemos aqui muito tempo sem um lanche. A pol�cia n�o faria isso por voc�, Jane. Ao menos, n�o a pol�cia da cidade de Nova York.</p><p>Ela inspirou fundo e soltou o ar lentamente.</p><p>� Claro. Ent�o, acho que posso beber meu caf� e ir embora.</p><p>O homem nunca parava de sorrir.</p><p>� Aonde voc� precisa ir?</p><p>� Vim pra c� para c�, Nova York. Digo� estou procurando o Jumpin� Jack Flash. Eu o vi no notici�rio�</p><p>� Esque�a. � O sorriso ainda estava l�, mas os olhos eram gelados. � Voc�s n�o podem fazer nada um pelo outro.</p><p>� Mas�</p><p>� Eu disse <emphasis>esque�a</emphasis>.</p><p>Ela baixou os olhos para o colo novamente.</p><p>� Olha s�, Jane � a voz dele se suavizou. � Estou apenas tentando te proteger. Voc� precisa disso. Imagino o que um cachorro-quente daqueles faria a um petisquinho inocente como voc�. Considerando que o Astr�nomo acredita que voc� tem uma utilidade.</p><p>Ela ergueu novamente a cabe�a.</p><p>� Uma <emphasis>utilidade</emphasis>?</p><p>� Uma utilidade para os seus poderes, eu deveria ter dito. Perdoe-me.</p><p>O riso de Jane foi breve e amargo.</p><p>� Uma utilidade para o meu poder � uma utilidade para mim. Talvez eu <emphasis>seja</emphasis> inocente perto do senhor, mas n�o sou idiota. Sal costumava me alertar sobre isso.</p><p>� Sim, mas Sal n�o era um �s, era? Era apenas um mariquinhas pat�tico, um daquele tipo de curinga l� do passado que sempre tivemos no mundo. Um dos erros da natureza.</p><p>� N�o fale dele desse jeito! � ela explodiu, a umidade de repente brotou de seu rosto e correu pelos seus bra�os e pernas. O homem a encarou, admirado.</p><p>� Est� fazendo isso de prop�sito? Ou � apenas uma rea��o ao estresse?</p><p>Antes que ela pudesse responder, o homem vermelho e a mulher oriental entraram com uma bandeja cheia de sandu�ches pequenos e feitos com esmero. Jane acalmou-se e observou o casal deixando tudo sobre a mesa, at� mesmo servindo caf�.</p><p>� Fresquinhos, da cozinha do Mosteiro � Roman disse, apontando a bandeja. � Um �s precisa manter suas for�as.</p><p>� N�o, obrigada.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a para o casal, eles haviam tomado posi��es em cada lado da porta. Mais �gua correu do rosto de Jane e pingava das pontas dos cabelos. As roupas estavam ficando encharcadas.</p><p>� � �gua retirada do ar � minha volta � ela disse a Roman, que come�ava a ficar alarmado. � Acontece �s vezes quando estou sob press�o ou� ou sei l�.</p><p>� Lutar ou fugir � disse ele. � A adrenalina produz suor para deixar voc� mais escorregadia, mais dif�cil de agarrar. Provavelmente o mesmo princ�pio em a��o.</p><p>Ela o encarou com outros olhos. Nem mesmo Sal havia pensado nisso e ele era bem esperto, com todos aqueles experimentos para testar a profundidade e o alcance do seu poder. Apenas por conta de Sal ela sabia que seu poder agia em objetos a n�o menos de um quil�metro de dist�ncia. Ele tamb�m percebeu que ela poderia fazer com que �tomos se combinassem para criar �gua, bem como retirar �gua j� existente das coisas, e foi ele quem calculou que levaria 48 horas para se recarregar ap�s exaurir seu poder, e a treinou para estender sua energia de forma que n�o se esgotasse de uma vez. �N�o � bom ficar totalmente indefesa�, ele dizia. �Nunca deixe acontecer.� E desde aquela vez na volta para casa em Massachusetts, ela n�o deixou e nunca deixaria novamente. Sal cuidou dela naqueles dois dias quando ela ficou meio assustada e meio esperan�osa de que o poder havia acabado de uma vez por todas. Por�m, Sal estava certo sobre a volta; ela estava preparada para entregar-se totalmente a ele.</p><p>Ele a rejeitou. Novamente, ela se ofereceu e ele a evitou. N�o poderia ser seu amante, ele disse, e n�o seria seu pai. Ela teria de se responsabilizar por si mesma, como todo mundo. E, ent�o, como se para se fazer entender, voltou ao seu apartamento e afogou-se na banheira.</p><p>Como alguma ideia s�dica da piada mais cruel do mundo, Sal Carbone, seu �nico amigo de verdade, caiu, bateu a cabe�a e respirou �gua ensaboada at� morrer. Apenas cinco semanas antes.</p><p>�Sal, voc� � minha alma g�mea�, dizia para ele a todo o momento, e ele permitiu que fosse verdade. Tinham uma amizade rara, uma uni�o de mente, cora��o e esp�rito. Perfeitos um para o outro, exceto pelo fato de que ele era gay. A segunda piada mais cruel do mundo.</p><p>� Nen�far.</p><p>O nome a lan�ou de volta ao presente.</p><p>� J� disse para n�o me chamar assim. Apenas Sal me chamava de Nen�far.</p><p>� A op��o exclusiva de Sal expirou com ele. � O homem, de repente, suavizou novamente a voz. � Deixe pra l�, minha cara. Me diga apenas quanto voc� sabe sobre o que vem acontecendo nos �ltimos meses.</p><p>� Tanto quanto qualquer outra pessoa. � Ela esticou o bra�o, t�mida, e pegou a x�cara de caf� mais pr�xima a ela. � Assisti ao notici�rio. Acho que mencionaram isso.</p><p>� Bem, n�o acabou. No pr�ximo m�s, esta cidade� este pa�s, o mundo inteiro� ver� algo que faria aquilo que aconteceu meses atr�s parecer um piquenique de escola b�blica. Apenas as pessoas que recrutarmos ter�o a chance de terminar do lado certo do t�mulo.</p><p>Mais �gua brotou do rosto dela.</p><p>� Se voc�s n�o s�o a pol�cia, quem s�o voc�s?</p><p>O homem sorriu, como numa aprova��o, quando ela bebericou o caf�.</p><p>� O que sabe sobre os ma�ons, Jane?</p><p>� Ma�ons? <emphasis>Ma�ons?</emphasis> � Apesar de tudo, ela deu uma gargalhada. � Meu <emphasis>pai</emphasis> � ma�om! � Ela for�ou at� seu riso se acalmar antes que ficasse hist�rico. � O que os <emphasis>ma�ons</emphasis> t�m a ver com tudo isso?</p><p>� Rito escoc�s.</p><p>� Perd�o? � O riso de Jane cedeu e desapareceu. A frieza invari�vel havia voltado ao sorriso do homem.</p><p>� A afilia��o do seu pai provavelmente era do rito escoc�s. Somos eg�pcios. Os eg�pcios s�o muito diferentes.</p><p>Suas risadinhas amea�aram voltar.</p><p>� Engra�ado, voc� n�o parece eg�pcio.</p><p>� N�o seja abusada, n�o combina com voc�.</p><p>Ela olhou para o homem e a mulher ao lado da porta.</p><p>� Voc�s que sabem de tudo. Eu acabei de chegar. � Mais umidade saltava do seu rosto e escorria pesco�o abaixo. � E n�o posso ir embora, posso?</p><p>� Precisamos de voc�, Jane. � Ele parecia quase gentil agora. Puxou um guardanapo da mesa e enxugou o rosto dela. � Precisamos muito mesmo de voc�. Seu poder pode fazer toda a diferen�a.</p><p>� Meu poder � ela repetiu, pensativa, lembrando-se do garoto na cafeteria cinco anos antes, l�grimas rolando dos olhos enquanto ele gritava. N�o havia chorado nem um pouco com a not�cia do suic�dio de Debbie (hemorragia advinda de lacera��es autoinfligidas � jarg�o m�dico para <emphasis>ela cortou os pulsos e sangrou at� a morte</emphasis> � e, ah, sim, a v�tima estava na 13a semana de gravidez). Ela sempre se perguntou o que Debbie teria pensado sobre o que faria com seu namorado infiel. Debbie era sua melhor amiga antes de Sal, mas nunca rezou para Debbie como fez para Sal, como se Debbie pertencesse a algum outro universo. Talvez fosse assim. E talvez ainda houvesse outro universo onde Debbie n�o tirasse sua vida quando o pai do beb� a rejeitasse, e assim Jane n�o teria precisado arrancar l�grimas dos olhos do garoto, nem o v�rus carta selvagem teria se manifestado. E, ent�o, talvez houvesse mesmo outro universo no qual Sal n�o se afogasse na banheira, deixando-a sozinha e precisando de algu�m, qualquer um, para confiar. Talvez�</p><p>Ela olhou para o homem sentado � sua frente. Talvez se porcos tivessem asas, eles poderiam voar alto como as �guias.</p><p>� Precisamos de voc� � disse ele. Fosse l� quem fosse <emphasis>n�s.</emphasis> Ma�ons eg�pcios, sei l�. Como seria bom ela se entregar aos cuidados de algu�m e saber que seria observada e protegida.</p><p><emphasis>Consegue entender isso, Sal?</emphasis>, ela pensou para o grande vazio. <emphasis>Pode entender o que � estar totalmente sozinha com um poder grande demais para voc�? Eles precisam de mim, Sal, � o que dizem. N�o gosto deles</emphasis> � <emphasis>e</emphasis> voc� <emphasis>os odiaria, mas eles cuidam de mim e eu preciso de algu�m para fazer isso bem agora. Estou sozinha, Sal, n�o importa onde eu esteja, e cheguei aqui por caminhos perdidos e n�o h� outro lugar para ir. Entende, Sal?</emphasis></p><p>N�o houve resposta do grande vazio. Ela se flagrou concordando com o homem bonito.</p><p>� Tudo bem. Eu fico. Digo, sei que n�o v�o me deixar ir embora, mas vou ficar por livre e espont�nea vontade.</p><p>O sorriso dado como resposta por ele quase aliviou o cora��o dela.</p><p>� Entendemos a diferen�a. Red e Kim Toy levar�o voc� ao seu quarto. � Ele se levantou e esticou o bra�o para lhe dar a m�o. � Bem-vinda, Jane. Voc� � um dos nossos agora.</p><p>Ela se encolheu, erguendo as duas m�os como se estivesse na linha de tiro.</p><p>� N�o sou, n�o � disse com firmeza. � Fico aqui por vontade pr�pria, mas � tudo. N�o sou uma de voc�s.</p><p>Aquela frieza assustadora voltou aos olhos dele. Ele deixou a m�o cair.</p><p>� Tudo bem. Voc� fica, mas n�o � uma das nossas. Entendemos essa diferen�a tamb�m.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>O quarto que deram a ela ficava no canto de alguma �rea maior de pedras l�gubres e frias convertidas num aglomerado de quartos menores com paredes de gesso pr�-fabricadas. Cuidadosamente, haviam buscado seus poucos pertences do conjugado m�nimo que alugara, e tamb�m com cuidado lhe trouxeram uma televis�o e uma cama. Ela assistiu ao notici�rio, buscando mais v�deos do Jumpin� Jack Flash. Ou se ocupava produzindo got�culas de �gua com as pontas dos dedos e vendo-as se distenderem e ca�rem.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Ela � bonita? � perguntou o Astr�nomo, sentando-se em sua cadeira de rodas ao lado do t�mulo de Jean d�Alluye. Ainda havia um pouco de sangue na imagem de pedra; ultimamente, o Astr�nomo sentia a necessidade de recarregar seu poder.</p><p>� Bem bonita. � Roman deu um golinho da ta�a de vinho e a descartou sobre a mesa do pregador ao lado. O Astr�nomo sempre lhe oferecia coisas � �lcool, drogas, mulheres. Ele experimentava por cortesia e deixava o que fosse de lado. Ningu�m sabia exatamente at� onde o Astr�nomo deixaria aquilo continuar. Cedo ou tarde, ele teria de fazer algum pedido bizarro que envolvesse a humilha��o de Roman. Ningu�m sa�a da associa��o com o Astr�nomo ileso. A aten��o de Roman pairou sobre uma �rea sombria embaixo de um arco de tijolos onde a ru�na maldita e magrela chamada Ceifador se arrastava taciturno, seu olhar insond�vel fixo em algo que ningu�m podia ver. Em outra parte da sala, pr�ximo dos postes com lamparinas, Kafka chiava impaciente. N�o conseguia parar de chiar com aquele maldito exoesqueleto. Parecia uma multid�o de baratas passando de �litro para �litro. Roman n�o se importava em tentar esconder sua repulsa pela apar�ncia de Kafka. E o Ceifador � bem, ele era mais que nojento. �s vezes, Roman pensava que mesmo o Astr�nomo ficava cheio de dedos com o Ceifador. Por�m, tanto o Ceifador como Kafka passaram pelas humilha��es reservadas do v�rus carta selvagem, enquanto ele conseguia apenas esperar e conferir o que o Astr�nomo tinha em mente para ele. Esperava que houvesse tempo o suficiente para saber para que lado saltar. E, ent�o, havia Ellie� O pensamento em sua mulher era um soco no est�mago. N�o, por favor, n�o mais por Ellie. Ele olhou para a ta�a de vinho e recusou-se pela milion�sima vez a sucumbir ao desejo por anestesia. <emphasis>Se eu cair� n�o, quando eu cair, caio em plena posse das minhas faculdades</emphasis>�</p><p>De repente, o Astr�nomo riu.</p><p>� Melodramas combinam com voc�, Roman. � sua boa apar�ncia. Posso ver voc� em outra vida, resgatando vi�vas e �rf�os em nevascas. � O riso esmaeceu, deixando um sorriso malicioso. � Cuide-se ao lado da garota. Pode acabar um pouco cedo demais como o p� que todos somos.</p><p>� Eu poderia. � O olhar de Roman foi at� a galeria superior. As esculturas de madeira italiana estavam desgastadas; ele n�o conseguia lembrar a apar�ncia delas. � Mas n�o irei.</p><p>� E o que te d� tanta certeza?</p><p>� Ela � tranquila. Boa mo�a. Uma inocente de 21 anos, n�o tem o assassinato na alma. � Tardiamente, olhou para o Ceifador, que o encarava de um jeito que ningu�m gostaria de ser encarado pelo Ceifador.</p><p>Roman agarrou um pedestal partido. Seria horr�vel, mas n�o duraria muito, n�o mesmo. A eternidade de poucos segundos. Ao menos, o colocaria al�m do alcance do Astr�nomo por todo o tempo. Mas tamb�m significaria que ele n�o poderia ajudar Ellie. <emphasis>Desculpe, querida</emphasis>, ele pensou, e esperou pela escurid�o.</p><p>Um quarto de segundo depois, o Astr�nomo ergueu um dedo. Ceifador mergulhou de volta em si mesmo e voltou a olhar para o nada. Roman for�ou-se a n�o suspirar.</p><p>� Vinte e um � refletiu o Astr�nomo, como se algu�m do seu pessoal n�o tivesse escapado por pouco de ser morto por uma de suas m�quinas assassinas. � Que bela idade. Cheia de vida e for�a. N�o � a idade mais criteriosa. Uma idade impulsiva. Tem certeza de que n�o tem nem um pouco de medo dos impulsos dela, Roman?</p><p>Roman n�o conseguiu evitar um olhar furtivo para o Ceifador, que n�o estava mais prestando aten��o.</p><p>� N�o ligo de arriscar minha vida por algu�m cujo cora��o est� no lugar certo.</p><p>� Sua vida. � O Astr�nomo deu uma risadinha. � Que tal algo que tenha valor?</p><p>Roman permitiu-se um sorriso em resposta.</p><p>� Desculpe, senhor, mas se minha vida n�o tem valor algum para o senhor, teria deixado o Ceifador acabar comigo h� muito tempo.</p><p>O Astr�nomo estourou numa gargalhada surpreendentemente animada.</p><p>� C�rebro <emphasis>e</emphasis> boa apar�ncia. S�o eles que fazem voc� �til demais para todos n�s. Deve ter sido o que atraiu sua mulher tamb�m, n�o acha?</p><p>Roman manteve seu sorriso.</p><p>� � muito prov�vel.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Os sonhos dela estavam cheios de figuras estranhas, coisas que ela nunca tinha visto antes. Atrapalhavam seu sono, passando pela cabe�a com uma urg�ncia que parecia direcionada, e a lembrava dos pedidos ardentes de Roman para que ela se juntasse a eles. Fossem l� quem fossem. Ma�ons eg�pcios. Seus sonhos lhe diziam tudo sobre eles. E o Astr�nomo.</p><p>O Astr�nomo. Um hom�nculo, menor do que ela, esqu�lido, cabe�a grande demais. O que Sal teria chamado de olhos malditos enquanto fazia aquele sinal com a m�o, o indicador e o dedo m�nimo erguidos como chifres, o do meio curvado sobre a palma, algum tipo de coisa italiana. O rosto de Sal flutuava brevemente pelos sonhos e era varrido de repente.</p><p>Ela via a entrada de algum tipo de igreja� n�o, um templo, definitivamente n�o uma igreja. Viu, mas ela n�o estava l�, n�o poderia ter estado l�; era um tempo antes de ela ter nascido. Sua presen�a desencarnada percorria uma rua noturna e ent�o flutuava pelos degraus do templo, passando por um homem na porta que parecia estar congelado. Teve um lampejo de uma sala grande brilhando com velas, duas colunas, e um homem numa plataforma, vestindo uma coisa gritante, vermelha e branca sobre a fronte, pouco antes de os gritos come�arem.</p><p>N�o apenas gritos, mas <emphasis>gritos,</emphasis> GRITOS, arrancados da garganta de uma alma que se perdia. O som a aguilhoava. Era o momento, do ponto de vista dela, de dar uma volta como uma c�mera para que pudesse ver que era o homenzinho gritando, o Astr�nomo, cambaleando para dentro do sal�o. Ent�o, houve uma r�pida confus�o de imagens, um rosto de chacal, uma cabe�a de falc�o, outro homem, seu rosto largo e p�lido; luz reluzindo dos �culos do homenzinho e, ent�o, uma coisa, uma criatura-coisa-lodo-massa-maldita-coisa-coisa-coisa�</p><p>Ela se flagrou sentando na cama, seus bra�os erguidos na frente do rosto.</p><p>� TIAMAT. � Espont�nea, a palavra brotou dela, e indesejada pairou l� na escurid�o. Ela esfregou o rosto com as m�os e deitou-se novamente.</p><p>O sonho voltou de imediato, arrastando-a com for�a horr�vel. O homenzinho com cabe�a enorme sorria para ela � n�o, n�o para ela, ela n�o estava l� e ficou feliz; n�o queria ningu�m sorrindo para ela daquele jeito. Seu ponto de vista retrocedeu e ela viu que ele agora estava em p�, na plataforma, e em torno dele viu diversas figuras �Roman, o homem vermelho, a oriental, uma ru�na de homem com o sentimento de morte em torno dele, uma mulher com o arrependimento t�o talhado nas suas fei��es que do�a olhar para ela (de alguma forma, ela sabia que a mulher era uma enfermeira), um jovem albino com um rosto prematuramente velho, uma criatura � macho, ela pensou � que poderia ser uma barata antropom�rfica. Pela gra�a de Deus n�o foi comigo, ela pensou.</p><p><emphasis>Deus ainda est� na pausa para o caf�, garotinha</emphasis>. Ela estava olhando para o rosto do homem que a levara ali, aquele que chamavam de Judas. Era o �nico que podia v�-la. <emphasis>� apenas a sorte da carta que tiramos, querida, e voc� foi sortuda. E eu tamb�m. Blackjack!</emphasis></p><p>Tudo ficou escuro. Uma sensa��o de movimento incrivelmente r�pido. Algo a impelia na dire��o de um pontinho de luz adiante na escurid�o.</p><p>E, ent�o, de repente, ela estava l�; a luz cresceu de um ponto para uma massa ardente e ela se chocou com toda a for�a na velocidade do pensamento. A luz estilha�ou-se e ela trope�ou de leve no ch�o musgoso de uma floresta. Rolou uma vez e pousou gentilmente na base de uma grande �rvore.</p><p><emphasis>Bem</emphasis>, ela pensou<emphasis>, melhor assim. Devo ter perdido o Coelho Branco, mas o Chapeleiro Maluco deve estar em algum lugar por aqui.</emphasis> Ela mudou de posi��o e teve de se agarrar a uma grande raiz para evitar a flutua��o.</p><p><emphasis>Olhe</emphasis>, sussurrou uma voz bem perto dela. Ela virou a cabe�a, os cabelos flutuando em torno dela como se estivesse sob a �gua, mas ela n�o viu ningu�m. <emphasis>Olhe. Olhe! Olhe e voc� os ver�!</emphasis></p><p>Uma baforada de n�voa soprou entre dois lari�os diante dela e se desintegrou, deixando para tr�s um homem vestido no alto do refinamento do s�culo XVIII. Seu rosto era aristocr�tico, os olhos t�o penetrantes que ela tomou f�lego enquanto seu olhar pousava nela. Mas ela n�o tinha o que temer. Ele se virou, o ar atr�s dele reluziu e uma m�quina estranha surgiu. Ela piscou diversas vezes, tentando v�-la claramente, mas os �ngulos recusavam-se a se firmar. Por mais que tentasse, ela n�o conseguia dizer se era grande e pontuda ou pequena e moldada, esculpida em m�rmore ou cravejada com madeira e pregos. Algo brilhou e soltou-se da m�quina. Ela ficou maravilhada; uma parte dela simplesmente se ergueu e afastou-se.</p><p><emphasis>N�o.</emphasis> O que ela pensou foi que parte da m�quina era um ser vivo. Ela queria desviar o olhar por um momento, mas n�o conseguia. Ele n�o a deixaria. Alien�gena. Reminiscente de outros alien�genas que ela tinha visto no notici�rio no ataque. <emphasis>Jumpin� Jack Flash</emphasis>. O pensamento foi impecavelmente descartado.</p><p>O alien�gena virou-se para o homem e esticou um bra�o, ou um ap�ndice. Agora, ele come�ou a parecer mais uma mat�ria viva do que parte de uma m�quina. O alien�gena transformou-se suavemente em algo quase b�pede, embora parecesse manter a forma apenas por uma vontade intensa � a hip�tese erg�dica (de onde veio <emphasis>aquilo</emphasis>?). O ap�ndice tocou a m�quina e se integrou a ela. Um momento depois algo se projetou da lateral pr�xima ao homem. Ele o segurou e removeu-o com todo o cuidado. O alien�gena afundou um pouco, diminu�do. Ela percebeu que ele despendeu uma quantidade grande de sua for�a vital para dar ao homem� o qu�?</p><p>O homem levou a coisa at� os l�bios, � testa, e ent�o ergueu-a sobre a cabe�a. Por um momento, aquilo assumiu a forma de um osso humano, um taco, uma arma, ent�o algo mais.</p><p><emphasis>Shakti</emphasis>, sussurrou a voz. <emphasis>Lembre-se disso. O dispositivo Shakti</emphasis>.</p><p><emphasis>Nunca esquecerei</emphasis>, ela pensou. A sensa��o flutuante estava come�ando a sair dela e o medo cresceu.</p><p><emphasis>Agora, olhe. Olhe para cima.</emphasis></p><p>Sem querer, ela ergueu a cabe�a e olhou para o c�u. Sua vis�o subiu, correndo atrav�s da luz do sol, atrav�s do azul, das nuvens, at� deixar totalmente a Terra, e ela estava olhando para as estrelas nuas. As estrelas dispersaram-se diante dela at� que enxergasse a escurid�o do espa�o e, tranquilamente, sua vis�o estava viajando.</p><p>Havia algo � sua frente, invis�vel na escurid�o. Algo� estava t�o distante que ela n�o conseguia come�ar a conceber a dist�ncia. Estava a caminho da Terra. Estava nesta dist�ncia em 1777, quando aquele homem (<emphasis>Cagliostro</emphasis>, disse sua mente e ela n�o se perguntou como ela o conhecia) aceitou a coisa� Shakti� do alien�gena, e ent�o� e ent�o� <emphasis>seguiu para realizar muitas fa�anhas vistas como milagrosas, inclusive leitura da mente, levita��o, transubstancia��o, surpreendendo a todos nas cortes da Europa, enquanto recrutava apaixonadamente ma�ons eg�pcios�</emphasis></p><p>Ela lutou para absorver as informa��es despejadas nela pelo sonho. N�o que importasse, porque quando acordasse n�o se lembraria de nada daquilo. � como s�o os sonhos. N�o �?</p><p>� <emphasis>porque queria uma organiza��o que mantivesse o dispositivo Shakti seguro e passasse de gera��o para gera��o, apenas a pessoas das mais confi�veis, at� seus mist�rios poderem ser desencadeados e conclu�dos, quando seria necess�rio para a chegada na Terra de�</emphasis></p><p>Algo se contorceu diante dela na escurid�o. Ou, talvez, a pr�pria escurid�o tivesse se retorcendo em agonia por precisar conter aquela coisa, este�</p><p><emphasis>� para a chegada na Terra de�</emphasis></p><p>Surgiu diante dela sem aviso ou miseric�rdia, muito pior do que foi quando ela a tocou na mente do Astr�nomo. Era a reuni�o, a cristaliza��o das formas mais finas, baixas, mais desenvolvidas, polidas e refinadas do mal no universo, mal que faria as maiores atrocidades humanas parecerem pequenas, mal que ela n�o conseguia entender, a n�o ser com suas entranhas, mal que corria na dire��o deste mundo havia milhares de anos, engolindo tudo em seu caminho, mal que chegaria em qualquer dia agora, qualquer dia.</p><p><emphasis>TIAMAT</emphasis>.</p><p>Ela acordou aos gritos. Tinha m�os sobre ela, e ela lutava contra as m�os, contorcendo-se, golpeando. A �gua brotava dela, deixando o ar denso, encharcando a cama e o tapete.</p><p>� Sh, sh, tudo bem � disse uma voz. N�o a voz do seu sonho, mas uma voz feminina. A oriental, Kim Toy, estava l�, tentando acalm�-la como se ela fosse uma crian�a delirante. Uma luz acendeu; Kim Toy a envolveu num abra�o tranquilizador. Ela se deixou abra�ar e quis que a �gua escorrendo sobre as duas parasse.</p><p>� Estou bem � disse quando conseguiu falar. O cabelo molhado pingava sobre os olhos, mesclando-se com as l�grimas. A cama inteira estava ensopada, mas ela viu com um pouco de al�vio que havia poupado o restante do quarto.</p><p>� Voc� estava gritando � disse Kim Toy. � Pensei que algu�m estivesse te matando.</p><p>TIAMAT.</p><p>� Tive um pesadelo.</p><p>Kim Toy acariciou gentilmente o cabelo da outra.</p><p>� Um pesadelo?</p><p>� Sonhei que algu�m jogava um balde de minhocas no meu rosto.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>O Astr�nomo rugiu uma gargalhada.</p><p>� Ah, ela � excelente, realmente excelente!</p><p>O albino que estava sentado no ch�o pr�ximo � cadeira de rodas olhou para cima, implorando.</p><p>� Foi um sonho bom, ent�o?</p><p>� Ah, sim, o sonho foi excelente tamb�m. � O Astr�nomo deu tapinhas sobre o cabelo branco. � Voc� fez certinho, Espectro.</p><p>O homem sorriu, a pele prematuramente envelhecida em torno dos olhos r�seos enrugados com alegria pat�tica.</p><p>� Roman.</p><p>No outro lado da sala sombria, Roman tirou os olhos da tela do terminal de computador.</p><p>� Vamos dar a ela apenas um pouco mais de tempo para que o horror amadure�a antes de voc� apresent�-la ao resto de nossa pequena confedera��o. E mantenha Kim Toy protegendo-a.</p><p>Roman concordou com a cabe�a, olhando furtivamente para o computador.</p><p>� Amanh� � noite de novo, Espectro � o Astr�nomo disse para o albino. � Far� mais uma vez. Quero que ela acorde gritando nas pr�ximas duas noites.</p><p>Os olhos r�seos baixaram-se, envergonhados.</p><p>� Agora, agora. Voc� sabe que est� bem melhor do que antes, quando vendia sonhos pervertidos a dez pratas. Perdoe-me a express�o. � O Astr�nomo deu uma risadinha. � Voc� � um dos meus ases mais �teis. Agora, v� descansar um pouco.</p><p>Assim que o albino desapareceu numa galeria escurecida, o Astr�nomo afundou na cadeira de rodas.</p><p>� Ceifador.</p><p>O Ceifador chegou ao lado dele de imediato.</p><p>� Sim, Ceifador. N�s dois precisamos disso agora, n�o? Chame o carro.</p><p>Roman permaneceu no terminal de computador enquanto Ceifador empurrava a cadeira do Astr�nomo para fora. Sair para encontrar andando pela rua algum pobre-diabo, que n�o sabia que esse seria seu �ltimo encontro. Recusava-se a pensar naquilo. N�o sentiria pena por nenhuma delas, <emphasis>n�o</emphasis> sentiria. Todos eles � Espectro, Kim Toy, Red, Judas, John F. X. Black, Coleman Hubbard (ah, n�o foi uma parte da obra, o grande �s do Astr�nomo no buraco, um-zero-zero-um), mesmo aquele pedacinho de inoc�ncia chamado Jane Nen�far � todos eram os mesmos, cada um deles. Pe�as no xadrez do Astr�nomo. Ele mesmo tamb�m, mas apenas em nome de Ellie, para proteg�-la.</p><p>ELLIE, ele digitou, as letras brilhando no monitor. EU TE AMO.</p><p>As palavras EU TE AMO TAMB�M brilharam por um instante na tela antes que fossem substitu�das por ENTRADA INV�LIDA, PROGRAMA NULO.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Em algum outro lugar na cidade, Fortunato acordou, tremendo, o rosto coberto pelo suor frio.</p><p>� Calma. Calma, querido. � A voz de Michelle era suave, suas m�os macias e mornas. � Michelle est� aqui. Estou aqui, meu amor, estou aqui.</p><p>Fortunado deixou que ela o embalasse nos bra�os e apertou o rosto em seus seios perfeitos.</p><p>� S�o aqueles sonhos de novo, n�o? N�o se preocupe, estou aqui.</p><p>Ele esfregou o nariz no dela, acariciando a carne morna e desejando que ela dormisse. Ent�o, escorregou para fora de seu abra�o e trancou-se no banheiro elegante.</p><p>Uma vez que voc� entrou, entrou. O que aprendeu n�o pode ser desaprendido. Conhecimento era poder e o poder poderia aprisionar.</p><p>Ele teria que ligar para Tachyon; melhor, ir at� o Village e acord�-lo.</p><p><emphasis>Eileen</emphasis>.</p><p>Fortunato apertou os olhos at� o pensamento sobre ela ter passado. Deveria ter feito Tachyon lhe dar algo para aquilo, algum tipo de droga do esquecimento para que n�o ficasse o tempo todo trope�ando nela dentro da mente, mas de alguma forma n�o conseguia fazer isso. Porque, ent�o, ela realmente estaria acabada.</p><p>Ele jogou �gua no rosto e parou no ato de enxug�-lo com uma toalha, olhando para si mesmo no espelho. Por meio segundo, viu outro rosto coberto com �gua; jovem, mulher, olhos grandes e verdes, cabelos escuros avermelhados, muito bonita, uma estranha para ele, pedindo ajuda. Sem chamar por ele especificamente, mas clamando sem esperan�a por uma resposta. Rezando. Ent�o, o rosto desapareceu e ele estava sozinho com seu reflexo.</p><p>Ele apertou a toalha contra o rosto. Um conjunto macio e luxuoso que Michelle havia trazido. Quando ela o levou para casa, esfregaram-se com elas e fizeram amor.</p><p><emphasis>Kundalini. Sinta o poder</emphasis>.</p><p>(Lenore. Erika. Eileen. Todas perdidas para ele.)</p><p>Ele saiu para encontrar Michelle.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Jane aceitou a x�cara fumegante de ch� verde de Kim Toy e bebericou delicadamente.</p><p>� J� � a segunda noite seguida sem pesadelos � disse ela com um leve sorriso. � Eu espero.</p><p>O sorriso em resposta de Kim Toy foi menos que entusiasmado. A garota deveria ter virado um amontoado tr�mulo de gelatina ap�s os sonhos que o Astr�nomo enviou para ela, e aquele mal foi um gostinho de TIAMAT. O contato real a teria deixado louca para sempre. Mas aqui est� ela, a fr�gil e pequena inocente, bebendo ch� e recuperando a cor. Foi feita de uma mat�ria mais dura do que qualquer um deles poderia acreditar. <emphasis>Sempre foi dos inocentes que voc� precisou cuidar</emphasis>, Kim Toy pensou, ir�nica. Sua for�a era como a for�a de dez, pois seus cora��es eram puros e sua sinceridade os tornava letais. Ela pensou se velhos pervertidos malucos como o Astr�nomo tinham qualquer suspeita ou se ele estava t�o longe de qualquer coisa que sequer lembrasse remotamente a inoc�ncia que ele mal conseguia conceber algo assim. Quando ela pensou sobre o jeito pelo qual o Astr�nomo recarregava seus poderes, sim, ela poderia imaginar que era totalmente poss�vel. O que um velho maldito e doente como esse saberia sobre inoc�ncia?</p><p>E ele estava prestes a dominar o mundo. Com certeza.</p><p>Mas ela <emphasis>acreditava</emphasis> naquilo. Era inabal�vel naquilo. Tinha sido inabal�vel. N�o, ainda era. N�o era? E quem estava chamando de velho maldito e doente? Ent�o, o que era quando voc� confundia o c�rebro de um homem para fazer com que ele se apaixonasse por voc� e, em seguida, quando ele servia ao seu prop�sito, voc� passava de confundir a liquefazer, e as mesmas pessoas que se livraram dos corpos para o Astr�nomo se livrariam daquele tamb�m. Ela olhou para Jane. N�o era de surpreender que preferisse a companhia das mulheres se n�o podia estar com Red.</p><p>Jane esticou o bra�o e apertou o bot�o Ligar do controle remoto. A tela da TV veio � vida, piscando.</p><p>� Eu assisti ao <emphasis>Pouso da Peregrina</emphasis> na noite passada e n�o tive sonhos � disse ela, um pouco t�mida. � Virou uma supersti��o. Sinto como se tivesse que assistir para manter os pesadelos longe de mim. Mesmo se for reprise.</p><p>Kim Toy concordou com a cabe�a.</p><p>� Voc� e cerca de um bilh�o de outras pessoas.</p><p>� Sal adorava <emphasis>talk shows</emphasis>. Especialmente o <emphasis>Pouso da Peregrina</emphasis>. Dizia que assistia porque morria de ansiedade para saber como eles enfeitariam aquelas asas toda noite. � Ela fez uma pausa quando um comercial deu lugar �s fei��es estonteantes da Peregrina. � Sal dizia que eles nunca o decepcionavam.</p><p>� Quem?</p><p>� O departamento de figurinos.</p><p>� Ah. � Kim Toy ficou em sil�ncio e assistiu ao programa com a garota, cumprindo o dever. Meia hora depois, a imagem de um homem bonito e ruivo com olhos cor de mel e um rosto magro e esculpido apareceu na tela, fazendo com que Jane pulasse da cadeira.</p><p>� � ele! � Ela ajoelhou perto da TV. � Jumpin� Jack Flash. Acompanhei todas as hist�rias de notici�rios sobre ele. � um dos meus her�is.</p><p>Kim Toy aumentou o som. O rosto do homem desapareceu e foi substitu�do pelo set do <emphasis>talk show</emphasis>, onde Peregrina entrevistava uma mulher com roupas muito caras segurando uma c�mera que parecida ainda mais cara.</p><p>� Acho que voc� capturou exatamente o esp�rito do Jumpin� Jack Flash � Peregrina estava dizendo. � N�o poderia ter sido mais f�cil.</p><p>� Bem, foi tudo mais dif�cil, porque foi uma foto ing�nua � disse a outra mulher. � Acredite ou n�o, s� tive sorte, estando no lugar certo na hora certa. J.J. n�o sabia que eu estava tirando a foto, embora mais tarde ele tenha me dado permiss�o para us�-la.</p><p>� J.J.? � perguntou Peregrina.</p><p>A fot�grafa baixou os olhos, modesta.</p><p>� Assim que as pessoas �ntimas o chamam.</p><p>� Posso apostar � murmurou Kim Toy.</p><p>� Oi? � Jane perguntou.</p><p>� As �pessoas �ntimas�. D� um tempo. Ele deve dizer a todas as mulheres com quem dorme para cham�-lo de J.J., assim ele pode rastrear. � mais f�cil que lembrar os nomes, e muito menos problem�tico do que cortar um peda�o da orelha ou arrebanhar todas e marc�-las.</p><p>Jane olhou um pouco magoada. Um dos seus her�is, certo. Kim Toy balan�ou a cabe�a. Na idade dela, a garota j� havia passado do tempo de aprender que certos her�is n�o tinham� bem, paus de barro, mas certamente uns bem hiperativos.</p><p><emphasis>Como seus her�is, senhora? Como o Astr�nomo, talvez?</emphasis></p><p>Kim Toy espantou aquele pensamento e se for�ou para se concentrar na entrevista. A fot�grafa aparentemente especializada em fotografar ases. Mais fotos piscaram na tela; para alegria de Jane, Jumpin� Jack Flash reapareceu v�rias vezes entre as imagens de Modular, Dr. Tachyon, a carapa�a do Grande e Poderoso Tartaruga, Estelar e da pr�pria Peregrina.</p><p>� Que pena que ela n�o possa tirar sua foto � disse Kim Toy quando o quadro acabou e o programa foi novamente para o comercial.</p><p>Jane deu de ombros.</p><p>� Sou curinga.</p><p>� Voc� est� come�ando a me dar nos nervos.</p><p>� Mas o curinga est� comigo. Uma a cada duas pessoas que significavam muito para mim se afogou; a outra sangrou at� a morte. � Ela virou as costas para a TV. � Sim, o curinga est� definitivamente comigo e n�o tem gra�a nenhuma.</p><p>Kim Toy estava prestes a responder quando algo brilhou no ar � direita do aparelho de TV. As duas mulheres ficaram muito quietas enquanto a imagem do Astr�nomo se cristalizava nas sombras.</p><p>� Kim Toy. Jane. Quero ver voc�s.</p><p>N�o havia necessidade de responder. Kim Toy permaneceu numa esp�cie de aten��o, esperando n�o mostrar sua chatea��o. Um teatrinho barato para o bem de Jane. O Astr�nomo deve ter pensado que ela era um inferno de bilhete premiado, j� que foi t�o longe a fim de impression�-la. Poderia ter conservado a energia e enviado Red para busc�-las.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Dr. Tachyon ainda estava no seu melhor estilo, mesmo j� passando da meia-noite.</p><p>� Sei que ele tinha alguns ases l�. Mas a m�quina que voc� descreve dos sonhos� bem, ela n�o existe e � muito velha para os seus padr�es. � Seus olhos apertaram-se enquanto estudava a testa inchada de Fortunato. � Muito mais estranho para voc� ter uma experi�ncia fora do corpo espont�nea, n�o �?</p><p>Fortunato virou as costas para Tachyon (<emphasis>maricas maldito, tudo de que precisamos, maricas do espa�o</emphasis>) e olhou para a janela na dire��o do Mosteiro.</p><p>� Vim aqui s� pra te contar. H� um poder imenso se acumulando l�. Ele me chamou. Poder atrai poder.</p><p>� De fato � murmurou Tachyon. Maricas do espa�o. Fortunato nunca o amaria, mas nunca tinha visto o terr�queo alto e ex�tico nesse estado abertamente emocional antes.</p><p>� Est�o chamando aquela coisa l�. TIAMAT. Toda a organiza��o j� existe h� s�culos apenas para trazer aquele horror at� n�s.</p><p>O suspiro de Tachyon foi pesado. De repente, sentiu-se muito cansado. Quarenta anos de um horror atr�s do outro, tinha direito de se sentir fatigado. Sabia que Fortunato, ali, em p�, em sua sala de estar elegante com sua testa protuberante e o poder praticamente estalando no ar, n�o teria concordado com ele.</p><p><emphasis>Poder atrai poder? Ah, o que ele poderia ter dito sobre</emphasis> isso, Tachyon pensou. E se pudesse voltar o suficiente para ver o grandioso desenho do universo, o que poderia ter aprendido sobre seu pr�prio povo e o Dia da Carta Selvagem e a aproxima��o de TIAMAT ou do Enxame ou fosse l� o que tiver sido. Talvez houvesse um grande desenho verdadeiro para o universo; ou talvez fossem apenas os poderes do carta selvagem chamando o Enxame. Claro, isso significaria que o v�rus atraiu o Enxame antes de ele sequer existir, mas Tachyon estava acostumado a lidar com os absurdos do espa�o e do tempo.</p><p>N�o que isso importasse de qualquer jeito. Ele olhou para Fortunato, que estava energizado com <emphasis>kundalini</emphasis> e impaci�ncia. O tempo de agonizar j� havia passado havia muito, muito; agora era tempo de fazer, de fazer o m�ximo que podia, e nem um pouco menos. Talvez, para expiar por um tempo em que poderia ter feito mais, mas falhou.</p><p>Quando ele falhou com Blythe.</p><p>Ap�s tantos anos, a sensa��o da perda n�o arrefeceu. N�o estaria escondida no fundo de uma garrafa, n�o poderia ser obscurecida por uma fileira intermin�vel das amantes mais belas. Apenas o trabalho que fazia na cl�nica parecia dar a ele algum tipo de conforto, inadequado, mas melhor do que nada.</p><p>Seu olhar encontrou o de Fortunato, e ele reconheceu o olhar nos olhos do outro.</p><p>� Poder atrai poder e afli��o atrai afli��o. � Ele deu a Fortunato seu sorriso mais sincero. � Todos perdemos algo de precioso para n�s nesta batalha contra o horror. Mas ainda precisamos seguir em frente, seguir em frente e virar as costas para a escurid�o, se pudermos.</p><p>Fortunato n�o retribuiu o sorriso. Tudo parecia levar para um de seus malditos discursos de maricas de merda.</p><p>� Sim, claro � disse ele, r�spido, virando-se. � Vamos l� pra cima dar uma surra nos caras, voc� e eu e qual ex�rcito?</p><p>Tachyon pegou o telefone.</p><p>� Temos que convoc�-lo.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>O policial jogou mesmo uma rede sobre ele. Foi t�o assustador que ele se reverteu para a forma humana, ralando cotovelos e joelhos e arranhando a carne enquanto rolava v�rias vezes na cal�ada. O policial estava rindo enquanto ele puxava a arma e enfiava atrav�s da rede.</p><p>� Nem pense em se transformar � disse o policial �, ou terei que tir�-lo de sua desgra�a. Meu Deus, espere at� eles verem o que voc� faz l� no Mosteiro. Mal posso acreditar.</p><p>Ele estremeceu na rede, incapaz de tirar os olhos do cano da pistola. O policial realmente atiraria nele, disso ele n�o duvidava. Em sil�ncio, xingou-se por n�o ter se contentado em simplesmente pairar sobre a cidade, aproveitando as luzes e matando de medo os casais ocasionais nos telhados. Quantas pessoas poderiam dizer que foram assustadas por um pterod�tilo� ultimamente?</p><p>O policial o jogou no banco traseiro do carro e seguiu at� a cidade, ainda abafando o riso enquanto falava.</p><p>� N�o sei o que o Astr�nomo vai querer fazer com voc�, mas provavelmente ele vai se divertir � be�a. Voc� se transforma no menor tiranossauro que j� houve.</p><p>� Ornithosuchus � ele murmurou, engolindo com dificuldade. Outro ignorante sobre dinossauros portando uma arma. N�o tinha certeza do que deveria temer mais � a arma, o tal Astr�nomo, ou o pr�prio pai, que logo descobriria que ele n�o estava no quarto, dormindo. Tinha apenas 13 anos e n�o devia estar a essa hora numa escola noturna, especialmente na forma de um carn�voro veloz do per�odo tri�sico.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� Venha aqui, minha querida. Para que eu possa te ver melhor.</p><p>Jane hesitou. A aura de maldade que seus sonhos sugeriram estava mesmo presente em torno do velho na cadeira de rodas. A umidade come�ou a brotar levemente do seu rosto e pesco�o. Olhou para Kim Toy, mas a aten��o da mulher estava voltada para o Astr�nomo, como a de todos no grande sal�o. Fossem quem fossem. Ma�ons. Ela reconheceu o homem que a trouxera � Judas, assim Roman o chamava. Roman estava sentado diante de um terminal de computador afastado, na lateral, perto de uma parede de tijolos baixa que parecia ter sido atacada com uma picareta. Escrito com spray em dourado met�lico estava a legenda: COMA-ME.</p><p>� Voc� tem um grande poder, minha querida � disse o velho. � Um que seria de grande utilidade para o visitante que est� chegando das estrelas. TIAMAT. � Ele fez uma pausa, aguardando a rea��o dela. Ela estava em p�, desconfort�vel sob o olhar dele. A ilumina��o extra que trouxeram e penduraram de forma t�o negligente apenas fez as sombras nos cantos mais distantes ficarem ainda mais escuras. Dava a sensa��o de coisas horr�veis esperando por um sinal desse Astr�nomo, para rastejar para longe das sombras e devor�-la. COMA-ME. Pousou o cotovelo no punho, apertando a outra m�o contra a boca para que n�o pudesse come�ar a rir e nunca mais parar.</p><p>� Este nome � familiar para voc�? TIAMAT? � continuou o Astr�nomo. Jane apertou a m�o com mais for�a sobre a boca e deu de ombros de uma forma desajeitada.</p><p>� Bem. � O velho reclinou-se um pouco para a frente. � Seria �til se pud�ssemos ter uma demonstra��o do seu poder. Al�m daquilo que voc� fez na rua com o hidrante. � Ele semicerrou os olhos para ela. � Ou voc� est� fazendo isso agora, minha querida?</p><p>� Ah, � realmente sutil � disse o homem magro e p�lido em p� do lado direito do Astr�nomo. Seus olhos faziam Jane pensar em l�pides. � Era tudo de que precis�vamos, uma �s cujo grande poder � suar muito. Domina��o do mundo, a� vamos n�s.</p><p>O Astr�nomo deu uma risadinha e Jane pensou que foi o som mais mal�fico que ela j� tinha ouvido.</p><p>� Muito bem. Todos sabemos que os poderes dela s�o muito maiores. N�o �? Claro. Por exemplo, voc� poderia supostamente tirar toda a �gua de um corpo, deixando� bem, n�o muito. � Ele gesticulou para o restante das pessoas e riu novamente, olhando para o rosto dela. � N�o, acho que n�o. O �nico em quem voc� poderia querer usar bem agora � em mim, e eu sou imune. � Ele balan�ou a cabe�a na dire��o de Red, que desapareceu sob um dos arcos de pedra. Momentos depois, ele reapareceu, trazendo dois homens que empurravam uma jaula sobre rodas para o meio da sala. Jane piscou diversas vezes, incapaz de acreditar em seus olhos naquela penumbra.</p><p>Havia um dinossauro na jaula. Um <emphasis>tyrannosaurus rex</emphasis> com quase um metro de altura.</p><p>Enquanto ela observava, ele arreganhou os dentes ferozes e correu para a frente e para tr�s dentro da jaula, seus bra�os pequenos enrolados perto do corpo escamoso. Um olho escuro de r�ptil observava Jane com um lampejo de intelig�ncia.</p><p>� Criatura odiosa � disse o Astr�nomo. � Se eu a deixasse sair, poderia arrancar sua perna com uma mordida. Mate-a. Tire toda a �gua do corpo dela.</p><p>Jane baixou os bra�os, as m�os ainda fechadas em punhos.</p><p>� Ah, vamos l�. � Outra daquelas risadinhas mal�ficas. � N�o me diga que voc� se emociona com cada dinossauro perdido que passa.</p><p>� H� algu�m dentro dele � ela falou. � Quer uma amostra do meu poder? Aqui est� um <emphasis>close-up</emphasis>!</p><p>Algo <emphasis>quase</emphasis> aconteceu. Ela se concentrou numa �rea bem na frente do rosto do Astr�nomo, pretendendo jogar uns tr�s litros de �gua nos olhos dele. O ar ficou difuso por um momento, ent�o clareou. O velho lan�ou a cabe�a para tr�s e rugiu uma gargalhada.</p><p>� Voc� estava certo, Roman, ela fica bem ousada nos momentos mais estranhos! Eu disse a voc�, minha querid�ssima, que seu poder n�o funcionar� se eu n�o quiser. N�o importa quanto poder tenha, eu tenho <emphasis>mais.</emphasis> N�o � mesmo, Ceifador?</p><p>O homem esqu�lido deu um passo � frente, pronto para obedecer a alguma ordem. O Astr�nomo sacudiu a cabe�a.</p><p>� Existe outro esperando por n�s, muito mais receptivo. Ela n�o tentar� jogar um balde de �gua na nossa cara.</p><p>Jane enxugou o pr�prio rosto, em v�o. A �gua estava come�ando a empo�ar ao redor dos seus p�s. O Astr�nomo a observava, im�vel.</p><p>� Para ter um poder verdadeiro, � necess�rio ser capaz de us�-lo, ser capaz de fazer certas coisas, n�o importa quanto voc� possa ach�-las terr�veis. H� mais poder do que voc� pode imaginar em ser capaz de fazer essas coisas, ou ser capaz de obrigar algu�m a faz�-las. � Ele gesticulou na dire��o da jaula. Jane seguiu o movimento e ent�o teve de cobrir a boca com as m�os para n�o berrar.</p><p>O tiranossauro tinha sido substitu�do por um garoto com n�o mais do que 12 ou 13 anos, com cabelos castanho-claros, olhos azuis acinzentados e uma pequena marca r�sea na testa. Ele j� seria surpreendente o bastante, exceto que tamb�m estava completamente nu. Encolheu-se nas barras, fazendo o m�ximo para se cobrir.</p><p>� N�o h� mais tempo para tentar cortej�-la, minha querida � disse o Astr�nomo e toda a gentileza pretensa desapareceu da sua voz. � TIAMAT est� muito pr�ximo agora e n�o posso gastar nem um momento tentando convenc�-la a ficar conosco. � muito ruim; matar uma crian�a, mesmo disfar�ada de um dinossauro perigoso, teria unido voc� a n�s de uma vez, de forma traum�tica, mas completa. Mas se eu tivesse mais algumas semanas, voc� teria sido nossa, sem nenhuma dor. Agora, � uma quest�o de escolher entre sua vida e sua pequena e corajosa �tica. Voc� precisa decidir at� eu acabar de cruzar esta sala. N�o tenho d�vida de que voc� escolher�. Que sua �tica possa sustent�-la na pr�xima vida. Se houver uma. � Ele gesticulou para o homem esqu�lido. � Ceifador�</p><p>Diversas coisas aconteceram ao mesmo tempo. O homem-barata deu um passo � frente com um som alto chiado e gritou <emphasis>N�o!</emphasis>, bem quando a �gua espirrou no rosto do Ceifador com for�a suficiente para faz�-lo tombar e, ent�o, outra voz, incrivelmente alta, rugiu �AQUI � O GRANDE E PODEROSO TARTARUGA! VOC�S SAIR�O PACIFICAMENTE, CERCAMOS ESTE LOCAL E NINGU�M PRECISA SE MACHUCAR!�. E, ent�o, como se fosse imposs�vel, Jane pensou ter ouvido algo que soava como o velho tema dos desenhos <emphasis>Super Mouse</emphasis>: <emphasis>Vai salv�-los do perigooooooo!</emphasis> Foi seguido por um miado terr�vel que foi do baixo extremo a um agudo ensurdecedor, sacudindo o pr�dio inteiro. Houve um estouro quando a jaula tombou no ch�o, lan�ando o garoto para fora. Jane lutou para manter o equil�brio e alcan�ou o garoto no meio do caos de pessoas tentando correr em todas as dire��es. Ele se transformou num outro dinossauro menor, muito magro e com apar�ncia �gil, com dedos finos e garras. Ela se for�ou a agarrar os dedos enquanto ele corria na dire��o dela.</p><p>� Precisamos sair daqui! � ela disse, sem f�lego, e mais do que um pouco desnecess�rio, e olhou em volta. O Ceifador e o Astr�nomo haviam desaparecido. O pequeno dinossauro a puxou pelo sal�o e entrou numa galeria sombria sob as passagens abobadadas. De m�os dadas com um dinossauro, ela pensou enquanto fugiam pela galeria. S� em Nova York.</p><p>Ela n�o percebeu Kafka se movendo com dificuldade atr�s deles.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Era realmente uma vis�o linda, o Grande e Poderoso Tartaruga disse mais tarde. Ases de todo o jeito saindo das �rvores em torno do Mosteiro, lan�ando-se sobre os ma�ons que corriam para fora do pr�dio sobre os caminhos de tijolos e jardins arruinados. Ele viu praticamente tudo durante a batalha. Uma das coisas que ele perdeu, contudo, foi Jane e o garoto-dinossauro esgueirando-se em parte de uma arcada de colunas que cercava uma �rea externa coberta por ervas daninhas. Eles viram o Tartaruga pairando sobre eles com diversos ases em trajes coloridos agarrando-se � carapa�a. Um dos ases apontou para algo; no momento seguinte, ele estava flutuando suavemente sobre a terra, sustentado pelo poder do Tartaruga. Jane, alarmada, ouviu o chiado do dinossaurinho. Quando ela se virou para ver o que acontecia, ele voltou a ser um garoto, sua nudez coberta pelas sombras.</p><p>� Aquele � o Tartaruga � ele sussurrou para Jane. � Se pud�ssemos chamar a aten��o dele, poder�amos sair daqui!</p><p>� Que tal voc� fazer isso?</p><p>Como resposta, ele se reverteu num dinossauro novamente, este bem musculoso e com olhos quase t�o ferozes quanto o tiranossauro. Parecia levemente familiar a Jane, que n�o conseguia diferenciar um crocodilo de um jacar�. Tentou lembrar o nome. Um Alice-alguma-coisa-assim. Alice ou talvez <emphasis>alas</emphasis>, pelo olhar malvado que tinha, n�o era muito maior do que um pastor-alem�o. Ele rosnou e a empurrou com suas m�os de tr�s garras. Outro daqueles uivos grotescos; Jane sentiu o arrepio passando por ela e o pequeno dinossauro � alossauro, ela lembrou de repente, sem motivo � rugiu em resposta, agarrando a cabe�a, cheio de dor. Ela se curvou com a inten��o de abra��-lo ou confort�-lo, quando houve uma lufada de penas, um tinir de metal, e ent�o uma mulher extraordinariamente bonita pousou numa parede de m�rmore baixa.</p><p>� Peregrina! � Jane suspirou.</p><p>O alossauro fez um som baixo, empolgado, mirando a mulher alada com seus olhos selvagens.</p><p>� Melhor sair daqui � disse Peregrina, carinhosa. � O Uivador vai gritar at� derrubar este lugar. Voc�s conseguem aguentar, voc� e seu, hum, lagarto de estima��o?</p><p>� � um garoto. Digo, ele � um garotinho, um �s�</p><p>O alossauro rugiu, concordando ou protestando por ter sido chamado de garotinho.</p><p>� Cruel, realmente cruel. � Peregrina sorriu para Jane enquanto ela se lan�ava para o alto, suas grandes asas batendo no ar. � Melhor sa�rem agora. � s�rio � ela falou e voou para longe, as famosas garras de tit�nio erguidas e prontas.</p><p>Jane e o alossauro correram pelo jardim arruinado e derrubaram outra arcada. Ela ouviu o pequeno dinossauro ficar para tr�s, e parou, apertando os olhos na escurid�o.</p><p>� O que houve?</p><p>Ela conseguiu apenas vislumbrar uma silhueta humana.</p><p>� Tive que mudar. Preciso de um corredor mais r�pido, estou ficando cansado. Hipsilofodonte � melhor do que um alossauro para correr.</p><p>Um momento depois ela sentiu longas garras tomando-a gentilmente e arrastando-a. Este era mais ou menos do tamanho de um canguru.</p><p>� N�o acho que estamos indo pro caminho certo da sa�da � ela bufou quando chegaram a uma �rea de luz difusa e uma escadaria que descia. O dinossauro transformou-se num garoto por um instante antes de virar um pterod�tilo e deslizar escada abaixo. Jane conseguia apenas trotar atr�s dele. No fim da escada, o pterod�tilo de repente arremeteu e voltou para ela. Por reflexo, ela desviou, trope�ou e bateu no fundo a tempo de ficar cara a cara com um homem mais bonito do que Roman. Vestia um traje de paraquedista azul-marinho e um capacete justo e havia armas que pareciam estar presas diretamente aos ombros.</p><p>� Ol� � disse ele. � N�o vi voc� na fuga do macaco?</p><p>Jane piscou, sacudindo a cabe�a, atordoada.</p><p>� O que� eu n�o� � E ent�o, quando as armas do homem se voltaram para rastrear o pterod�tilo que o circundava. � N�o! Ele � apenas um garoto, � um <emphasis>bom garoto</emphasis>!</p><p>� Ah, tudo bem, ent�o � disse o homem, sorrindo para ela. � � melhor voc�s dois irem. � Jane passou correndo por ele, o pterod�tilo pairou sobre a cabe�a dela. � Voc� tem <emphasis>certeza</emphasis> de que n�o vi voc� na fuga do macaco? � ele gritou atr�s dela.</p><p>Ela n�o teria f�lego para responder, mesmo se quisesse. O pterod�tilo planava diante dela, enquanto ela sentia as pernas enfraquecerem. Arfando, ela continuou aos trope��es, observando a dist�ncia entre ela e o pterod�tilo come�ar a crescer.</p><p>O pterod�tilo virou bruscamente numa esquina do corredor e desapareceu. Meio segundo depois, houve um flash de luz azul, um guinchado e um baque. Jane parou, encostando-se na parede de pedra. <emphasis>Por favor</emphasis>, ela rezou. <emphasis>O garotinho n�o. N�o deixe que machuquem o garotinho, e eles podem fazer o que quiserem comigo.</emphasis> Ela se for�ou a continuar, apoiando-se na parede, e espiou na curva.</p><p>Ele estava novamente transformado num garoto quando bateu no ch�o, mas ela conseguiu ver o peito subindo e descendo enquanto ele respirava. O homem-barata estava em p� diante dele com uma arma que parecia maldosa, como um ferr�o.</p><p>� Tive de par�-lo � o homem-barata disse, olhando para ela. � N�o est� ferido de verdade. Sair� dessa em poucos minutos. Eu juro. Preciso de sua ajuda. � Ele esticou sua m�o livre para Jane. Ela deu um passo � frente. O rosto n�o era humano, mas os olhos eram. Somente antes que ela pudesse pegar a m�o dele, ele a tirou de volta.</p><p>� Foi apenas um gesto. N�o me toque. Pegue ele no colo e venha comigo.</p><p>Jane ajoelhou-se ao lado do garoto inconsciente.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Judas estava em p� ao lado da tumba com as m�os sobre as orelhas, incapaz de clarear a mente tempo suficiente para decidir o que deveria fazer. Todas as vezes que tentava pensar, outro daqueles uivos terr�veis vibrava atrav�s dele. Ele jurou que seus ouvidos estavam sangrando.</p><p>O caos estava al�m do acredit�vel. O pessoal do Astr�nomo estava correndo para dentro e para fora do sal�o como o bando de perdedores de merda que realmente eram. Ele sabia que eram todos merdas no in�cio, era policial tempo o bastante para reconhecer a ra�a. Isso era suficiente para fazer uma pessoa querer mudar de lado e come�ar a se livrar deles, e talvez aquela n�o fosse uma m� ideia, com os ases detonando o lugar; claro, tinha sua ins�gnia, tinha sua arma, podia alegar que estava disfar�ado, que se deu ao trabalho de verificar, ao menos aquela noite. Claro.</p><p>Olhou em volta e viu Red e Kim Toy seguindo para uma das galerias escuras, procurando a sa�da. Poderia come�ar com eles antes de qualquer outro, pensou, e sacou a arma.</p><p>� Parados! Parados ou eu atiro!</p><p>A cabe�a de Kim Toy virou-se, seu cabelo longo, escuro e liso voando com o movimento.</p><p>Judas voltou sua mira do rosto dela para o de Red.</p><p>� Disse para n�o se mover!</p><p>Red ergueu a m�o diante da cabe�a quando Judas estava prestes a puxar o gatilho e ent�o, de repente, Judas estava apaixonado. P�ssaros estavam cantando, fazendo ninhos em seu c�rebro, e o mundo todo era lindo, especialmente Kim Toy, a mais excitante e ex�tica das mulheres. Lan�ou sua arma longe e cambaleou na dire��o de Kim Joy, amando-a tanto que sentiu doer quando ela fugiu dele com Red.</p><p>Seus ouvidos estavam realmente sangrando agora, mas ele n�o se importava mais com a descoberta.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Como todos os c�modos naquele lugar, aquele ali lembrava uma capela. Ela conseguiu ver onde um altar ou uma pia batismal poderia ter existido; aquele local agora era ocupado por uma m�quina.</p><p>� Voc� viu isso num sonho � Kafka disse para Jane, pousando a m�o num dos �ngulos imposs�veis da m�quina. Jane teve de virar o rosto � a loucura do contorno amea�ava embolar sua vis�o. Ela encarou para a forma mais prosaica de um gabinete de computador pr�ximo com um monitor grande apagado e silencioso sobre ele.</p><p>� O dispositivo Shakti � disse ela.</p><p>� Sim. O dispositivo Shakti. � Ele se encolheu quando outro daqueles uivos horr�veis atravessou o pr�dio. � Hoje � noite, todos poderemos morrer, mas isso deve ser protegido.</p><p>A boca de Jane torceu-se com avers�o.</p><p>� Aquela criatura, TIAMAT�</p><p>� Nossa �nica chance�</p><p>Houve um farfalhar quando o garoto-dinossauro � Kid Dinossauro, ele disse a ela � enrolou um len�ol do catre de Kafka bem forte em volta do corpo. Ela pediu para que ele ficasse na forma humana para que pudesse falar com ele e, de modo relutante, ele concordou, desde que o homem-barata lhe desse algo para se cobrir.</p><p>� N�o sei quanto voc� acha que pode confiar neste cara � disse o garoto �, mas com certeza eu n�o confiaria.</p><p>Os passos eram ouvidos como baques surdos no sal�o l� fora, e Roman correu para dentro com olhos arregalados.</p><p>� O gabinete do computador� est� tudo bem? � Sem esperar a resposta, ele empurrou Kafka de lado, mexendo loucamente no computador. � Ellie! Estou aqui, Ellie, estou aqui!</p><p>Kafka foi at� ele.</p><p>� Onde est� o Astr�nomo?</p><p>� Quero que ele se foda � Roman disse e empurrou Kafka para longe. � Que ele e voc�s todos se fodam! � Outro uivo sacudiu o pr�dio e os dois ca�ram contra o computador. Um dos pain�is se soltou nas m�os de Roman, expondo parte dos circuitos do computador.</p><p>� Puta merda! � disse o garoto. � Que nojento!</p><p>Mesmo na penumbra, Jane conseguiu ver os circuitos pulsando, podia ver a textura das placas e a umidade nelas, a carne viva misturada com o maquin�rio r�gido, morto. Ou a carne havia apenas endurecido? � Jane pousou a m�o sobre os olhos, sentindo-se enjoada.</p><p>� Nen�far!</p><p>O aviso de Kafka chegou apenas quando ela sentiu as m�os que vinham de tr�s. Elas a giraram e Jane encarou o olhar tumular do Ceifador. Ela pousou as m�os nos ombros dele e, por um momento absurdo, era como se ela o abra�asse.</p><p>� Est� com medo de morrer? � ele perguntou para ela.</p><p>A essa altura, ela n�o achava a pergunta estranha.</p><p>� Sim � disse ela, simplesmente.</p><p>Algo no rosto dele mudou e suas m�os soltaram-se devagar.</p><p>� Nen�far! � Kafka gritou novamente, a voz cheia de desespero. Mas ela permaneceu em p�, permaneceu viva, pousando uma das m�os no rosto seco do Ceifador. Ele recuava ao sentir o toque dela.</p><p>� D�i, n�o �?</p><p>� Tudo d�i � disse ele com viol�ncia e empurrou-a para longe. Ela foi ao ch�o, perto da m�quina de Kafka, e come�ou a levantar quando uma janela de vitrais grossos explodiu, espalhando estilha�os multicoloridos na sala. Ela cobriu a cabe�a com os bra�os, encolhendo-se no ch�o; uma chama longa atravessou a sala, chamuscando madeira e pedra. Ouviu algu�m gritar. Houve um chiado quando Kafka rastejou pelo ch�o at� ela e tentou empurr�-la para perto da m�quina.</p><p>� A �nica coisa � ele arquejou. Outro uivo os sacudiu como um terremoto. � � TIAMAT� proteger� precisa da sua ajuda para TIAMAT�</p><p>Ele foi separado dela; ouviu-o gritar com o contato. Ent�o, algu�m a ergueu e ela viu Kafka cair de costas depois de levar um chute na cabe�a.</p><p>� N����o! � ela gritou. � N�o o machuque, <emphasis>n�o</emphasis>! � Ela tinha visto aqueles olhos castanhos-claros milhares de vezes, a mais recente naquela noite. Sua boca movia-se, mas ela n�o conseguia emitir um som. Os olhos claros enrugaram-se com um sorriso r�pido antes de eles a empurrarem para o lado.</p><p>� Para tr�s, querida, n�o quero que voc� se machuque. � Ele virou e come�ou a apontar para Kafka, para o dispositivo Shakti e para o garoto, que havia se transformado num dinossauro, um estegossauro dessa vez, e era muito �bvio que estava na linha de tiro. Jane lutou por sua voz e pelas palavras certas e soltou possivelmente a �nica coisa que poderia t�-lo parado de transformar todos em cinzas.</p><p>� J.J., <emphasis>n�o</emphasis>!</p><p>Jumpin� Jack Flash virou-se para ela, boquiaberto com a surpresa.</p><p>Um momento depois, ficou ainda mais surpreso ao ver que ela estava coberta de �gua.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Fortunato entrava e sa�a correndo de cada c�modo, galeria e alcova que pudesse encontrar, buscando ases ou qualquer outra pessoa, o maricas do espa�o em sua bota de saltos. At� ent�o, haviam encontrado apenas um palha�o rastejando num ch�o de pedra com sangue correndo dos ouvidos. O maricas espacial quis parar e examin�-lo, mas Fortunato teve de dar um jeito. Aquilo n�o era a cl�nica � tarde, ele disse, e puxou o maricas espacial pelo colarinho pomposo do seu casaco de maricas� maricas, sim, claro, cara, vamos falar de maricas, chame o tal de Crowley de maricas, e, j� que estamos aqui, como foi que voc� acordou aquele garoto dos mortos, falando em maricas� ele fechou o fluxo de pensamentos com firmeza enquanto descia para uma sala estreita.</p><p>� Fortunato� onde� o que voc� est� tentando fazer? � arfou Tachyon.</p><p>� Eu o sinto � Fortunato disse por sobre os ombros.</p><p>� Sente quem?</p><p>� Ele fez Eileen. E Balsam. E muitos outros. � Ele cambaleou quando o Uivador lan�ou mais um dos seus gritos longos e terr�veis. Tachyon trope�ava sobre ele, e os dois quase ca�ram. � Merda, eu queria que ele calasse a boca � Fortunato murmurou. Parou de repente e agarrou Tachyon pelas abas de seu casaco afrescalhado. � Ou�a aqui, voc� fica pra tr�s. Ele � todo meu, entende?</p><p>Tachyon olhou para a testa inchada de Fortunato, seus olhos escuros e raivosos. Ent�o, ele empurrou as m�os de Fortunato.</p><p>� Nunca te vi desse jeito.</p><p>� Sim, bem, voc� n�o viu merda nenhuma ainda � Fortunato rosnou e continuou o trajeto, enquanto o maricas espacial o seguia.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Por v�rios e longos momentos, parecia que ningu�m sabia o que fazer. Roman havia levantado e estava protegendo com o corpo o computador exposto. Kafka correu para a m�quina Shakti; o pequeno estegossauro estava olhando de um lado para o outro. At� mesmo Jumpin� Jack Flash parecia congelado, olhando de Jane para a m�quina estranha e para Kafka, para Roman e de volta para Jane.</p><p>Ent�o, tirou os olhos dela e o tempo recome�ou, e viu-se esticando um bra�o na dire��o da m�quina de Kafka.</p><p>� Ele n�o � Jane disse, desesperada, e estendeu a m�o na dire��o dele quando o Ceifador falou, quase muito suave para se ouvir:</p><p>� Ei. Voc�.</p><p>Antes que Jumpin� Jack Flash pudesse reagir, o estegossauro transformou-se num garoto nu e, em seguida, num tiranossauro, e lan�ou-se pela sala para enterrar os dentes na coxa do Ceifador. O Ceifador gritou e caiu de costas, lutando com o tiranossauro. Kafka come�ou a gritar; surgiu um redemoinho de luz, um cintilar, e o Astr�nomo estava em p� no meio da sala. A cabe�a era algo sa�do de um pesadelo agora � tinha um focinho estranho, curvado, orelhas retangulares e olhos ca�dos, mas Jane sabia que aquilo era o Astr�nomo. Ouviu Kafka dizer �O deus Setekh!�, com medo e al�vio ao mesmo tempo. O Astr�nomo sorriu para Jane, e ela viu o sangue escorrendo dos dentes e l�bios dele. Sem cadeira de rodas agora, parecia estar pleno de vitalidade e for�a. Como se para confirmar seus pensamentos, ele de repente se ergueu um metro e meio no ar.</p><p>Jumpin� Jack Flash deu um passo para tr�s, ergueu as duas m�os e, ent�o, parecia confuso. O Astr�nomo sacudiu um dedo para ele como se fosse uma crian�a malvada, e voltou-se para o Ceifador, que ainda estava rolando no ch�o com o tiranossauro. Um momento depois, o dinossauro era novamente um garoto nu.</p><p>� Ai, merda! � o garoto berrou, e escapou das m�os do Ceifador, lutando para chegar at� a porta. Quando chegou, um homem negro e alto, com a testa inchada, apareceu na soleira. Jane engasgou, n�o pelo surgimento dele, mas ao sentir o poder em torno dele; conseguia sentir as for�as n�o liberadas carregando o ar.</p><p>� Eu senti voc� � disse o Astr�nomo � agitando as margens, aqui e ali.</p><p>� Mais do que agitando, desgra�ado. � O homem empertigou-se tanto que parecia at� mais alto e esticou o bra�o na dire��o do Astr�nomo, como se para abra��-lo. O Astr�nomo desceu levemente, ainda sorrindo.</p><p>� Eu gostaria de colocar voc� � prova� � disse o Astr�nomo e, de repente, se afastou flutuando pela sala at� a m�quina de Kafka. Girou os punhos para cima rapidamente. O homem alto cambaleou para a frente v�rios passos, parou e preparou-se com os p�s bem afastados.</p><p>� N�o seja t�mido, Fortunato. Chegue mais perto. � A atra��o sobre Fortunado parecia crescer cada vez mais. Jumpin� Jack Flash olhou para Jane.</p><p>� Se voc� sabe outros truques al�m de se afogar, querida � disse ele em voz baixa �, � melhor us�-los.</p><p>Outro homem apareceu de repente na porta. Jane teve apenas tempo suficiente para observar o impens�vel cabelo vermelho e as roupas extravagantes antes que houvesse ainda mais vermelho, um corpo todo vermelho, acertando o homem. As duas formas rolaram pelo ch�o, Red lutando para imobilizar o homem menor. Ent�o, Kim Toy estava l�, puxando o marido, dizendo a ele para esquecer, apenas esquecer e sair dali.</p><p>Perto da m�quina de Kafka, Astr�nomo e Fortunato ainda estavam equilibrados frente a frente. Jane tinha a sensa��o de que o Astr�nomo tinha um pouco de vantagem. O esfor�o no rosto de Fortunato intensificou-se com um brilho estranho ao lado dele e chifres se projetaram de sua testa inchada. Em resposta, o corpo do Astr�nomo estava assumindo uma forma animal, como um c�o cinzento, com cauda grande e forcada erguendo-se como algo venenoso. Seu medo come�ou a aumentar e n�o havia ningu�m para apoiar, ningu�m que oferecesse abrigo, conforto ou escapat�ria.</p><p>O garoto-dinossauro, magro e de cauda longa agora, voltou rapidamente para a sala e caiu sobre Red, arrancando-o de cima do homem em roupas pomposas. Kim Toy saltou para tr�s e uma quarta pessoa estava confundindo as coisas, lan�ando-se sobre Kim Toy. Com um choque, Jane viu que era Judas. O sangue pingava de suas orelhas, mas ele n�o pareceu notar quando ajoelhou-se sobre as pernas de Kim Toy, prendendo o peito dela com uma das m�os e ent�o, de forma absurda, come�ou a tirar as cal�as.</p><p>Jane sacudiu a cabe�a, incr�dula. Era uma vis�o bizarra do inferno, o Astr�nomo, Roman, aquele computador obsceno, Kafka, a m�quina Shakti, o dinossauro e Red e o negro com chifres e o outro � Tachyon, ela o reconheceu, ele parecia atordoado �, e Jumpin� Jack Flash, incapaz de reagir, e aquele nojento desmazelado que a trouxera at� ali � que ela permitiu traz�-la ali, ela se corrigiu, como o c�o de algu�m em coleira curta �, o nojento tentava estuprar Kim Toy no meio de uma luta pela vida de todos.</p><p>Tudo aquilo passou na sua mente num segundo e o poder reuniu-se sem esfor�o e fluiu para fora dela.</p><p>Dessa vez, Judas foi o �nico que n�o percebeu o que ela estava fazendo. Ele nunca soube, mesmo quando o atingiu, que tudo que ela queria era ceg�-lo causando uma inunda��o de l�grimas nos olhos dele, mas o poder estava se acumulando sem a libera��o adequada por tempo demais e ela estava muito assustada e muito forte no seu receio. Ele nunca soube, mesmo quando se recuperou. Ent�o ele <emphasis>n�o</emphasis> era, e no seu lugar estava uma forma feita de p� que pairou brevemente no ar por um momento imposs�vel antes de se desintegrar. A umidade respingou nas paredes, no ch�o e em Kim Toy.</p><p>Jane tentou gritar, mas deu apenas um suspiro leve. Tudo parou; at� mesmo a luta entre o Astr�nomo e Fortunato parecia diminuir aos poucos. Ent�o, Jumpin� Jack Flash gritou:</p><p>� Ningu�m se mexe ou ela far� isso de novo!</p><p>Jane irrompeu em l�grimas.</p><p>A sala inteira irrompeu em l�grimas; de repente, houve uma tempestade dentro da sala, �gua espirrando de todas as dire��es. Jumpin� Jack Flash lan�ou-se pela janela e ficou suspenso no ar.</p><p>� Afogue todos ou desliga isso! � ele gritou.</p><p>Ent�o, aquilo <emphasis>desligou</emphasis>, com um gesto do Astr�nomo, que presenteou Jane com outro sorriso odioso.</p><p>� Fa�a de novo. Por mim.</p><p>Ela sentiu que era virada pela m�o invis�vel e o poder reuniu-se novamente dentro dela, mirando para o negro, Fortunato�</p><p>Que n�o estava mais l�, mas atr�s do Astr�nomo, em p� sobre a m�quina Shakti de Kafka com os dois bra�os erguidos�</p><p>E Kafka berrou <emphasis>N�O</emphasis>!, e a palavra ecoou na mente de Jane enquanto o poder flu�a dela contra sua vontade, desviado no momento final com seu �ltimo fiapo de for�a para que contornasse a todos, at� mesmo o Astr�nomo, e atingisse o computador assim que a m�quina Shakti fosse destru�da com um som muito parecido com um grito humano.</p><p>A for�a de Fortunato atingiu a m�quina novamente e houve outro grito, dessa vez muito humano, enquanto os horr�veis circuitos vivos do computador se retorciam at� virar p� que escoava sobre os bra�os e o peito de Roman.</p><p>Fortunato virou-se para o Astr�nomo, estendendo os bra�os para ele. A forma animal se dissolveu, deixando o Astr�nomo humano novamente e muito pequeno. Ele agitou a m�o no ar por um instante e a luz em torno dele come�ou a diminuir.</p><p>� Tolo � ele sussurrou, mas o sussurro penetrou a sala inteira e todos nela. � Tolo preto, cego e est�pido. � Ele olhou ao redor para todos eles. � Voc�s todos morrer�o gritando.</p><p>E, ent�o, como fuma�a, desapareceu.</p><p>� Espere! Espere, seu maldito! � O Ceifador lutou para ficar em p�, puxando a perna quase boa. � Voc� prometeu, maldito, <emphasis>voc� prometeu</emphasis>!</p><p>Sob seus berros irados, os solu�os de Roman traziam um contraponto bizarro.</p><p>Jane sentiu seus joelhos come�arem a ceder. Nada restava dentro dela. Mesmo com seu poder, n�o tinha mais for�as. Tachyon estava ao seu lado, segurando-a em p�.</p><p>� Venha � disse ele, gentil, conduzindo-a at� a porta. Ela sentiu algo fluir sobre a incipiente histeria em sua mente, t�o consoladora quanto um cobertor quente. Meio em transe, ela se deixou levar para fora da sala. Com a outra parte de sua mente, ouviu Kafka cham�-la e, de longe, ficou triste por n�o poder responder-lhe.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Sob o abrigo de um grupo de �rvores, ela observou as �ltimas a��es do que ficou conhecido como o Grande Ataque ao Mosteiro. Ocasionalmente, ela vislumbrava Peregrina precipitando-se em torno da torre ou voando em c�rculos ao redor da carapa�a do Tartaruga, �s vezes acompanhada por um pteranodonte gracioso, mesmo que pequeno (aos seus olhos). Colunas de fogo erguiam-se noite adentro, explodindo atrav�s dos telhados, chamuscando as pedras. Em v�o ela buscou um lampejo de Kafka ou do Ceifador nos grupos de pessoas � ma�ons, ela pensou, sacudindo sua cabe�a diante do absurdo, <emphasis>ma�ons</emphasis> � reunidos de forma organizada e retirados do perigo pelo poder do Tartaruga.</p><p>� No fim, tentei cuidar de algu�m. Tentei cuidar do garotinho � ela murmurou, sem se importar se Tachyon, que estava ao seu lado, sabia do que ela estava falando. Mas ele sabia. Ela podia sentir a presen�a dele buscando os pensamentos dela, tocando suas mem�rias de Debbie e Sal e de como Judas a encontrou. E onde ele tocava, sentia o calor do conforto e da compreens�o.</p><p>O Uivador soltou outro de seus berros horrendos, mas foi um curto.</p><p>Ela poderia ter chorado, exceto que parecia n�o haver mais l�grimas pelos pr�ximos tempos.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Pouco depois, vozes familiares a trouxeram de volta � consci�ncia. Jumpin� Jack Flash estava l� com o garoto-dinossauro, que havia escolhido outra forma estranha que ela n�o conhecia. (�Iguanodonte�, Tachyon sussurrou para ela. �Olhe como se apreciasse.� E, de alguma forma, ela obedeceu.) Fortunato emergiu de uma entrada que reluzia com o fogo que apagava; ele pisou em fragmentos incandescentes e foi at� eles, parecendo muito mais cansado do que Jane se sentia.</p><p>� Eu os perdi � disse para Tachyon. � O barata, o maluco da morte, o outro. Aquele cara vermelho e a mulher. Fugiram, a menos que o Tartaruga tenha pegado eles. � Ele apontou o queixo para Jane. � Qual � a hist�ria dela?</p><p>Ela olhou atrav�s dele para o Mosteiro em chamas, recuperou-se, buscou poder. Havia um valor espantoso restante, suficiente para o que ela queria fazer.</p><p>A �gua caiu sobre a pior das chamas, ajudando um pouco, n�o muito. Havia um incendi�rio nas proximidades quando voc� precisava de um no fim das contas, ela pensou, lan�ando um olhar para Jumpin� Jack Flash.</p><p>� N�o desperdice sua energia � disse ele e, como se para apoi�-lo, ela ouviu o som dos carros de bombeiros se aproximando.</p><p>� Nasci num corpo de bombeiros � ela falou. � Minha m�e n�o chegou ao hospital a tempo.</p><p>� Fascinante � ele falou �, mas eu tive de sair bem antes. � Ele olhou para Tachyon. � Eu, hum, gostaria de saber como voc� sabia� hum, por que voc� me chamou de J.J.</p><p>Ela deu de ombros.</p><p>� J.J. Jumpin� Jack. Era mais r�pido para dizer. � Ela conseguiu abrir um sorriso m�nimo. � � isso. Nunca nos encontramos antes. S�rio.</p><p>O al�vio tomou todo o rosto do rapaz.</p><p>� Ah. Bem, olha, talvez a gente possa se conhecer melhor em breve�</p><p>� Sessenta minutos � disse Tachyon. � Eu diria que voc� est� quase sem tempo. O que poder�amos chamar de fator Cinderela. Quando algu�m precisa viajar.</p><p>Jumpin� Jack Flash lan�ou um olhar de reprova��o para ele e ergueu-se no ar. Um halo de fogo inflamou-se ao redor dele enquanto se afastava num rugido para dentro da escurid�o.</p><p>Jane o encarou por um momento e, em seguida, olhou para baixo com tristeza.</p><p>� Eu quase o machuquei l� dentro. Eu machuquei algu�m� eu�</p><p>Tachyon passou o bra�o na cintura dela.</p><p>� Apoie-se em mim. Tudo bem.</p><p>Gentilmente, ela tirou o bra�o dele.</p><p>� Obrigada. Mas j� estou bem apoiada. � Certo, Sal?</p><p>Ela virou-se novamente para o Mosteiro incendiado e continuou a lan�ar �gua nas chamas piores.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Curvado num beco, o Ceifador tremia. Sua perna estava bem ruim, pois ainda n�o tinha se recuperado totalmente, mas se curaria; sabia disso da mesma forma como sabia quanto odiava o Astr�nomo por abandon�-lo, por sempre engan�-lo com promessas e favores no in�cio. TIAMAT, inferno. Levaria aquele velho desgra�ado diante de TIAMAT, e aquilo era uma promessa. Colocaria aquele velho maldito numa dan�a que ele levaria para o inferno com ele.</p><p>Estava � deriva num semidel�rio. N�o muito longe, mas sem que ele soubesse, Kafka observava a destrui��o do Mosteiro. Quando a �gua foi derramada sobre as chamas vindas do nada, ele virou o rosto, disposto a deixar que a morte fria do �dio permanecesse nele.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>O cometa do Sr. Koyama</strong></p><p>Walter Jon Williams</p><empty-line/><p><strong>Parte um: mar�o de 1983</strong></p><p>Em junho de 1981, um executivo da terceira gera��o da Mitsubishi, Koyama Eido, aposentou-se em meio a elogios extravagantes e respeito bem-merecido de seus pares e subordinados. Ficou exageradamente b�bado, pagou sua acompanhante, e logo no dia seguinte colocou em opera��o um plano no qual trabalhava havia quase quarenta anos. Mudou-se com a mulher para uma casa que constru�ra na ilha de Shikoku. A casa ficava num terreno acidentado na parte sul da ilha e era de dif�cil acesso; custou ao Sr. Koyama uma quantia extraordin�ria de dinheiro para conseguir telefone e servi�os p�blicos; e a casa foi constru�da num estilo pouco habitual, com um telhado achatado que n�o resistiria bem �s intemp�ries � mas para o Sr. Koyama nada daquilo importava. O que importava era que a casa era t�o remota que havia pouca polui��o luminosa, que estava voltada para leste do Pac�fico e a sudoeste do canal Bungo, e que a <emphasis>vis�o</emphasis> era melhor sobre a �gua.</p><p>Em um abrigo feito no telhado achatado, o Sr. Koyama instalou um telesc�pio reflexivo de 14 polegadas que havia constru�do com as pr�prias m�os. Durante o tempo bom, ele o rolava para fora na plataforma e olhava para o c�u, para as estrelas e planetas e gal�xias distantes, e tomava cuidado, estudava fotografias que revelava na sua c�mara escura e, mais tarde, pendurava nas paredes. Mas simplesmente observar o c�u n�o era suficiente; o Sr. Koyama queria mais. Queria algo l� em cima que levasse seu nome.</p><p>Todo dia, portanto, pouco depois do p�r do sol e pouco antes da alvorada, o Sr. Koyama seguia para o telhado com um par de bin�culos navais Fujinan, que comprou em Chiba de um ex-capit�o de submarino que estava morrendo de fome em 1946. Com paci�ncia, enrolado num sobretudo quente de algod�o, ele focalizava suas lentes objetivas de cinco polegadas no c�u e o inspecionava cuidadosamente. Ele buscava cometas.</p><p>Em dezembro de 1982 ele encontrou um, mas infelizmente teve de dividir o cr�dito com Seki, um ca�ador de cometas de certa reputa��o que o tinha descoberto alguns dias antes. O Sr. Koyama ficou desgostoso por ter perdido o Seki-Koyama 1982P por cerca de 72 horas, mas continuou olhando, prometendo dedica��o e vigil�ncia maiores. Queria um todo para si.</p><p>Mar�o de 1983 come�ou frio e com chuviscos; o Sr. Koyama tremia sob chap�u e sobretudo enquanto varria o c�u noite ap�s noite. Um surto de gripe arrancou-o do telhado at� o 22o dia, e ficou chateado ao descobrir que Seki e Ikeya tinham descoberto juntos um novo cometa enquanto ele estava convalescente. Dedica��o e vigil�ncia maiores, prometeu novamente.</p><p>Na manh� do dia 23, o Sr. Koyama finalmente encontrou seu cometa. L�, pr�ximo ao sol que mal havia nascido, viu uma bola de luz indistinta. Espirrou, tomou o Fujinan com for�a e observou novamente para confirmar a vis�o. Nada mais deveria estar naquela parte do c�u.</p><p>Com cora��o palpitando, o Sr. Koyama desceu ao escrit�rio e pegou o telefone. Ligou para a ag�ncia telegr�fica e enviou um telegrama para a Uni�o Astron�mica Internacional. (Os telegramas s�o <emphasis>de rigueur</emphasis> para a UAI; chamadas telef�nicas seriam consideradas vulgares.) Oferecendo preces vagas a uma legi�o de deuses na qual ele n�o professava uma f� genu�na, o Sr. Koyama voltou para o telhado com uma estranha sensa��o de que seu cometa havia desaparecido enquanto ele n�o estava olhando. Ele soltou um suspiro de al�vio.</p><p>O cometa ainda estava l�.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A confirma��o da UAI chegou dois dias depois e atestou tamb�m o que o Sr. Koyama j� sabia por meio de suas pr�prias observa��es: Koyama 1983D era um verdadeiro corpo luminoso. Vinha do sol como um morcego saindo do inferno.</p><p>Outros relat�rios indicaram todo tipo de anomalia. Uma an�lise espectrogr�fica de rotina mostrou que Koyama 1983D era um cara bem estranho: em vez de hidroxilas e carbono normais, o cometa do Sr. Koyama registrava grandes quantidades de oxig�nio, nitrog�nio, hidrog�nio, carbono, sil�cio e diversos sais minerais. Em suma, tudo que era necess�rio para haver vida org�nica.</p><p>Uma tempestade de controv�rsias imediatamente surgiu sobre o cometa de Koyama. Qu�o an�malo era e qual vida org�nica seria poss�vel nas faixas frias e poeirentas da Nuvem de Oort? O Sr. Koyama foi entrevistado por equipes da BBC, NBC e da televis�o sovi�tica. Teve seu perfil publicado na revista <emphasis>Time</emphasis>. Concedeu declara��es modestas sobre sua posi��o de amador e sua surpresa quanto a todo aquele estardalha�o; mas, no seu �ntimo, estava mais feliz do que jamais esteve por qualquer outra coisa, mesmo pelo nascimento do filho mais velho. Sua mulher o observava caminhando pela casa com a altivez de um rapaz de 20 anos e o sorriso largo de um palha�o.</p><p>Toda noite e manh�, o Sr. Koyama ficava no telhado. Era dif�cil ir al�m daquilo, mas ele tentaria.</p><empty-line/><p><strong>Parte dois: outubro de 1985</strong></p><p>A ASTRONOMIA estava atraindo mais aten��o naqueles dias com a reapari��o do P/Halley 1982I, mas o Sr. Koyama mantinha o equil�brio em face da confus�o. Era assunto antigo agora. Tinha descoberto outros quatro cometas desde o Koyama 1983D, e garantiu um lugar proeminente na hist�ria dos cometas. Cada um deles era chamado de �tipo Koyama� com sua espectrografia estranha e sua velocidade de morcego-saindo-do-inferno. Os cometas tipo Koyama estavam sendo descobertos por toda sorte de amadores, sempre envolvendo o Sol.</p><p>A controv�rsia n�o havia fenecido; de fato, intensificou-se. Era poss�vel que o sistema solar estivesse passando por uma tempestade de cometas contendo elementos org�nicos, ou era uma ocorr�ncia bem comum que de alguma forma n�o havia sido observada at� ent�o? Fred Hoyle sorriu e expediu uma declara��o �eu te disse�, reiterando a teoria de mudas c�smicas contendo vida org�nica; e mesmo seus oponentes mais encarni�ados concordaram que o velho irritante de Yorkshire poderia ter vencido essa rodada.</p><p>O Sr. Koyama recebeu muitos convites para se pronunciar; declinou todos. Tempo falando significava tempo longe de seu observat�rio no telhado. Naquele momento, o n�mero recorde de descobertas de cometa era nove, mantido por um ministro australiano. O Sr. Koyama venceria a honra pelo Jap�o ou morreria tentando.</p><empty-line/><p><strong>Parte tr�s: fim de junho de 1986</strong></p><p>L�: OUTRO COMETA, POUCO vis�vel, fendendo o Sol sobre o c�u. J� eram seis. O Sr. Koyama desceu para o escrit�rio e ligou para a ag�ncia telegr�fica. As batidas do cora��o aceleraram. Precisava da confirma��o deste desesperadamente � n�o a confirma��o da vis�o, mas da espectrografia.</p><p>O Sr. Koyama estava subindo no ranking dos ca�adores de cometas, e aquele era um per�odo de observa��o aumentada e nervosa do c�u; as pessoas estavam olhando muito para cima naqueles dias, esperando encontrar a matriz do Enxame preta e n�o reflexiva que provavelmente espreitava nas proximidades. Por�m, a perspectiva do n�mero seis n�o era o que agitava o Sr. Koyama � estava ficando bastante <emphasis>blas�</emphasis> sobre encontrar novos cometas naqueles dias. O que precisava era a confirma��o dessa nova teoria.</p><p>Sr. Koyama aceitou as congratula��es do tel�grafo e desligou o telefone. Olhou de cenho franzido para o gr�fico que tinha na mesa. Isso sugeria algo que ele suspeitava que era o �nico a perceber. Era o tipo de coisa que era percebida apenas por pessoas que passam suas noites no telhado, contando horas e dias, ignorando o sereno e encarando peda�os da noite atrav�s de longas lentes refrativas.</p><p>Os cometas de estilo Koyama pareciam possuir n�o apenas elementos org�nicos estranhos e velocidade incomum, mas uma periodicidade ainda mais incomum. A cada tr�s meses, mais ou menos, um novo cometa do tipo Koyama aparecia pr�ximo ao Sol. Era como se a Nuvem de Oort estivesse dispensando uma bola de compostos org�nicos para marcar cada nova temporada terrestre.</p><p>Sorrindo, o Sr. Koyama saboreava a ideia da sensa��o que sua observa��o causaria, o p�nico entre os cosm�grafos tentando descobrir novas f�rmulas para explic�-la. Seu lugar na astronomia estaria garantido. Os cometas Koyama estavam se provando t�o regulares quanto planetas. De uma forma, ele pensou, era uma sorte que o Enxame tivesse aterrissado, porque de outra forma a observa��o poderia ter sido feita antes�</p><p>O pensamento ecoou com vagar em sua mente. O sorriso do Sr. Koyama se transformou num franzir de sobrancelha. Olhou para seu gr�fico e fez alguns c�lculos matem�ticos na cabe�a. O franzir se aprofundou. Tirou uma calculadora do bolso e confirmou os c�lculos. Seu cora��o deu um pinote. Ele se sentou bem r�pido.</p><p>O Enxame: um casco duro com quil�metros de largura protegendo imensas quantidades de biomassa. Algo assim seria vulner�vel a mudan�as de temperatura. Se chegasse perto do Sol, teria de expelir o calor excessivo de alguma forma. O resultado seria uma fluoresc�ncia n�o muito diferente da de um cometa.</p><p>Suponhamos que o Enxame estivesse em uma �rbita r�pida com o Sol em um foco e a Terra no outro. Com a Terra em movimento relativo ao Sol, a �rbita seria complicada, mas n�o imposs�vel. Por�m, com todas as vis�es de cometas tipo Koyama, seria imposs�vel identificar a localiza��o aproximada do Enxame. Algumas centenas de m�sseis revestidos de hidrog�nio ent�o encerrariam a Guerra dos Mundos em estilo primoroso.</p><p>� <emphasis>Filho da puta</emphasis> � suspirou o Sr. Koyama, uma express�o forte que tinha aprendido com os pra�as durante a ocupa��o. Para quem deveria falar sobre isso?, ele se perguntou. O UAI era um f�rum de discuss�o forte. O primeiro-ministro? O Jieitai, as for�as de defesa japonesas?</p><p>N�o. N�o teriam motivo para acreditar num empres�rio obscuro aposentado que liga desvairado para falar sobre o Enxame. Sem d�vida, eles receberam liga��es suficientes desse tipo.</p><p>Ligaria para os camaradas da Mitsubishi. Eles tinham influ�ncia suficiente para fazer com que fosse ouvido.</p><p>Quando chegou ao telefone e come�ou a discar, o Sr. Koyama sentiu o cora��o come�ar a afundar. Seu lugar na hist�ria astron�mica estava garantido, ele sabia, mas n�o como ele queria. Em vez de seis cometas, tudo que ele descobriu foi um maldito bloco de levedo.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Metade morta</strong></p><p>John J. Miller</p><empty-line/><p><strong>I.</strong></p><p>Brennan seguiu o Mercedes cheio de Gar�as Imaculadas at� o port�o do cemit�rio numa BMW cinza que havia roubado da gangue tr�s dias antes.</p><p>Ele parou a quase cem metros atr�s deles, seus far�is desligados, enquanto um dos Gar�as sa�a do Mercedes e abria com tudo o port�o de ferro forjado caindo aos peda�os. Esperou at� entrarem no cemit�rio, ent�o se esgueirou para fora da BMW, pegou o arco e a aljava de flechas do banco traseiro, puxou o capuz sobre a cabe�a e cruzou a rua atr�s deles.</p><p>O muro de tijolos de um metro e oitenta em torno do cemit�rio estava manchado com a imund�cie da cidade e esfarelando com a idade. Ele o escalou facilmente e desceu sem fazer nenhum ru�do.</p><p>O Mercedes estava em algum lugar perto do centro do cemit�rio. O motorista desligou o motor e os far�is enquanto Brennan observava. As portas do carro se abriram e fecharam num estrondo. Ele n�o conseguia ouvir ou ver nada de significativo de onde estava. Precisava se aproximar dos Gar�as.</p><p>Era uma noite escura, a lua cheia seguia escondida atr�s das nuvens densas e m�veis. As �rvores que cresciam selvagemente dentro do cemit�rio filtravam a maior parte daquela luz urbana que havia. Ele se moveu lentamente na escurid�o, os sons dos passos cobertos pelo soprar do vento com uma centena de vozes sussurrando atrav�s dos galhos acima.</p><p>Como uma sombra deslocando-se entre as sombras, ele movia-se atr�s de uma antiga l�pide grossa, inclinada como um dente torto na boca de um gigante despenteado. Ele observava tr�s dos Gar�as entrarem em um mausol�u que antigamente fora a gl�ria suprema do cemit�rio. O monumento de uma fam�lia rica no passado, e agora esquecida, foi entregue � decad�ncia assim como o restante do cemit�rio. Sua estrutura em m�rmore erodiu com a chuva �cida e os coc�s de p�ssaro, seus detalhes dourados descascaram durante tantos anos de neglig�ncia. Um dos Gar�as ficou para tr�s enquanto os outros atravessaram a porta de ferro forjado para o interior do mausol�u. Ele fechou a porta atr�s dos outros e recostou-se na parede frontal do sepulcro. Acendeu um cigarro e seu rosto brilhou por um instante sob a chama do f�sforo. Era Chen, o tenente dos Gar�as que Brennan esteve seguindo nas �ltimas duas semanas.</p><p>Brennan agachou-se atr�s de uma l�pide, franzindo a testa. Sabia, desde o Vietn�, que Kien estava direcionando hero�na para os Estados Unidos atrav�s de uma gangue de rua de Chinatown chamada Gar�as Imaculadas. Sondou a gangue e agarrou-se a Chen, que parecia ser do alto escal�o da organiza��o, com a esperan�a de encontrar provas concretas da liga��o dos Gar�as com Kien. Testemunhou uma d�zia de crimes nas �ltimas semanas, mas n�o descobriu nada no que dizia respeito a Kien.</p><p>Havia algo inexplic�vel. Nas �ltimas semanas houve um fluxo de entrada incr�vel de hero�na na cidade. Foi t�o abundante que o pre�o de rua despencou e ocorreu um n�mero recorde de overdoses. Os Gar�as Imaculadas, por meio de quem a droga chegava, estavam vendendo a pre�os baix�ssimos, roubando clientes a torto e a direito da M�fia e do pessoal do Harlem de Sweet William. Contudo, Brennan foi incapaz de descobrir como conseguiram a droga de forma t�o barata e abundante.</p><p>Esconder-se atr�s de uma l�pide n�o estava levando a lugar algum. As respostas, se o cemit�rio tivesse alguma, estariam no mausol�u.</p><p>Decidido, puxou uma flecha da aljava presa com velcro em seu cinto e prendeu-a na corda do arco. Respirou fundo, levemente, uma, duas vezes, tomou f�lego e se levantou. Quando o fez, vislumbrou o nome talhado na pedra desgastada da l�pide. Arqueiro. Esperava que n�o fosse um mau press�gio.</p><p>N�o foi um tiro dif�cil, mas ainda recorria ao treinamento zen para limpar a mente e firmar os m�sculos. Mirou um metro mais baixo e um pouco � esquerda da ponta brilhante do cigarro e, quando chegou o tempo certo, deixou o cord�o deslizar dos dedos.</p><p>Seu arco era um composto de quatro rod�zios com cames el�pticos que, assim que o ponto de tens�o fosse alcan�ado, reduziam o empuxo inicial de 120 libras para 60. O cord�o de n�ilon do arco trilava, mandando a seta atrav�s da noite como um falc�o planando sobre um alvo distra�do. Ele ouviu um baque e um gemido estrangulado quando a flecha atingiu o objetivo. Esgueirou-se para fora das sombras como um animal precavido e correu para onde Chen jazia curvado contra a parede do mausol�u.</p><p>Ele se demorou tempo suficiente para garantir que Chen estava morto e deixar uma de suas cartas, um �s de espadas plastificado, enfiado na ponta da flecha que varou as costas de Chen.</p><p>Encaixou outra flecha na corda do arco e abriu com um ranger a porta de ferro forjado que fechava o interior da tumba. Dentro, uma escadaria de 12 degraus descia para outra porta circundada por um halo morti�o, luz cont�nua que queimava numa c�mara al�m dela. Esperou um momento, ouvindo, ent�o desceu as escadas em sil�ncio. Parou diante da porta da c�mara interna para ouvir novamente. Algu�m andava para l� e para c�. Contou at� vinte, lentamente, mas ouviu apenas passos quietos, arrastados. Havia chegado at� a�. N�o fazia sentido voltar.</p><p>Brennan passou pela porta e ficou sobre um joelho, a corda do arco esticada atr�s da orelha. Um homem vestindo as cores dos Gar�as Imaculadas estava na sala. Contava sacos pl�sticos de p� branco e marcava o c�mputo na folha de papel sobre uma prancheta. Ficou boquiaberto, surpreso, quando Brennan soltou a flecha. Acertou-o no meio do peito e o lan�ou para tr�s sobre uma pilha de chaves na altura dos joelhos.</p><p>Brennan avan�ou para dentro da c�mara, mas o Gar�a estava t�o morto quanto todos os outros no cemit�rio no momento em que Brennan o alcan�ou. Brennan baixou os olhos para o corpo e vasculhou ao redor.</p><p>O que aconteceu aos outros dois P�ssaros da Neve que tinham entrado no sepulcro? Desapareceram no ar. Ou, mais provavelmente, pensou Brennan, atrav�s de uma porta escondida em uma das paredes.</p><p>Prendeu o arco nas costas e verificou as paredes, correndo as m�os sobre elas, procurando fendas e rachaduras, batendo e tentando ouvir um som oco. Terminou uma parede sem encontrar nada e come�ava a pr�xima quando ouviu um sopro abafado de ar nas costas e sentiu a brisa morna, �mida.</p><p>Ele se virou. O olhar de surpresa em seu rosto casava com aquele dos dois homens que apareceram do nada no meio do mausol�u. Um, que vestia as cores dos Gar�as, tinha mochilas presas sobre cada ombro. O outro, um curinga magro com apar�ncia reptiliana, carregava o que parecia uma bola de boliche. Brennan percebeu com algum espanto que eles desapareceram como por encanto. E agora estavam de volta.</p><p>O Gar�a com as mochilas pesadas estava mais perto dele. Brennan pegou o arco, sacudiu como um taco de beisebol e bateu no lado da cabe�a do Gar�a. O homem despencou com um grunhido, caindo ao lado do estrado carregado com hero�na.</p><p>O curinga recuou, sibilando. Era mais alto que Brennan e magro ao ponto da emacia��o. Seu cr�nio era liso, o nariz uma leve protuber�ncia com narinas alargadas. Incisivos longos demais projetavam-se do maxilar. Encarava Brennan sem piscar. Quando abriu a boca sem l�bios e chiou, exp�s uma l�ngua bifurcada que se movia freneticamente na dire��o de Brennan. Ele agarrou a bola de boliche com mais for�a.</p><p>Brennan percebeu que, na verdade, n�o era uma bola de boliche que o curinga segurava. Era o mesmo tamanho e formato, mas n�o tinha furos para os dedos e, quando Brennan prestou aten��o, o ar ao redor come�ou a pulsar com pontos piscantes de energia reluzente. Era uma esp�cie de dispositivo que possibilitou ao curinga e ao seu companheiro materializarem-se dentro do mausol�u. Estavam usando aquilo para trazer hero�na de� algum lugar. E o curinga estava reativando-a.</p><p>Brennan golpeou na dire��o do curinga, que se esquivou com facilidade e uma gra�a fluida. O brilho em torno do artefato ficava cada vez maior. Brennan deixou o arco cair e se aproximou, determinado a tomar o dispositivo do curinga antes que ele pudesse escapar ou voltar as energias daquela coisa sobre ele.</p><p>Agarrou o curinga facilmente, mas descobriu o inesperado: seu oponente era forte. O curinga girou e livrou-se das m�os de Brennan de uma forma estranhamente fluida, como se os ossos fossem flex�veis por completo. Eles se engalfinharam por um momento e, ent�o, Brennan se viu encarando o curinga, rostos a poucos cent�metros de dist�ncia.</p><p>A l�ngua longa e grotesca do curinga se projetou, acarinhando o rosto de Brennan de um jeito vagaroso, quase sensual. Brennan, involuntariamente, recuou, expondo pesco�o e garganta ao curinga mais alto. O reptiliano arremessou-se para a frente, soltando o estranho dispositivo, e cravou os dentes no lado do pesco�o de Brennan pr�ximo ao ombro.</p><p>Brennan sentiu os dentes do curinga perfurando sua carne. O curinga mexia a boca, bombeando saliva na ferida. A �rea em torno da mordida ficou adormecida quase imediatamente, e Brennan entrou em p�nico.</p><p>Uma onda de for�a induzida pelo horror permitiu que ele se livrasse do abra�o do curinga. Sentiu sua carne rasgar, o sangue correu pelo pesco�o e peito. A dorm�ncia espalhou-se rapidamente no seu lado direito.</p><p>O curinga deixou Brennan se afastar com o dispositivo. Sorriu com crueldade e lambeu o sangue de Brennan do queixo com a l�ngua bifurcada e tr�mula.</p><p><emphasis>Ele me envenenou</emphasis>, Brennan pensou, reconhecendo os sintomas de uma neurotoxina de a��o r�pida. Sabia que estava em perigo. N�o era um �s. N�o tinha prote��o ou defesas especiais, nem armadura ou constitui��o fortalecida. O curinga estava confiante na efic�cia de seu veneno. Afastou para observar Brennan morrer. Brennan sabia que precisava de ajuda, e r�pido. Havia apenas uma pessoa que poderia ser capaz de reverter o dano do veneno que j� estava devastando seu corpo. Ela estaria agora na cl�nica do Bairro dos Curingas, a cl�nica de Tachyon, mas n�o havia como chegar at� ela. J� sentia que estava dif�cil ficar em p� quando seu cora��o bombeou o veneno para todas as c�lulas do corpo.</p><p>Mai poderia ajud�-lo, se ele pudesse alcan��-la.</p><p>Brennan tentou gritar o nome dela com uma onda de energia desesperada.</p><p><emphasis>Mai!</emphasis></p><p>Tomou consci�ncia, de modo leve, da pulsa��o correspondente de energia no aparelho que ele aninhava no peito. Sentiu calor e conforto enquanto o abra�ava. O sorriso do curinga transformou-se num franzir de testa. Ele sibilou e pulou para a frente. Brennan n�o conseguia se mover, mas n�o importava.</p><p>Houve um instante de desorienta��o agoniante que a mente e o corpo adormecidos sentiram apenas pela metade e, ent�o, ele estava num corredor bem iluminado, pintado com cores suaves. Mai estava em p�, falando com um homem pequeno, magro, com roupas afetadas e cabelos longos, ruivos e cacheados.</p><p>Eles se viraram e o encararam com espanto. O pr�prio Brennan estava al�m daquele sentimento.</p><p>� Veneno � ele resmungou atrav�s de l�bios endurecidos, pesados, e caiu, soltando o artefato e mergulhando na escurid�o profunda.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Era uma escurid�o espiralada, estrelada, cheirando a selva musgosa. As agulhadas de luz espalhadas pela sua consci�ncia eram as pontas dos cigarros dos seus homens e as estrelas distantes dispersas pela noite vietnamita. Havia sil�ncio ao redor dele, quebrado apenas pelos sons de uma respira��o suave e os ru�dos feitos pelos animais no fundo da selva. Ele olhou de relance para os n�meros luminosos do rel�gio de pulso. Quatro da manh�.</p><p>Gulgowski, seu primeiro-sargento, estava agachado ao seu lado no matagal.</p><p>� � tarde � sussurrou Gulgowski.</p><p>Brennan deu de ombros.</p><p>� Os helic�pteros est�o sempre atrasados. V�o chegar aqui.</p><p>O sargento resmungou de forma evasiva. Brennan sorriu noite adentro. Gulgowski sempre foi pessimista, sempre aquele a ver o lado sombrio das coisas. Por�m, isso nunca o impediu de fazer o extraordin�rio quando as coisas ficavam s�rias, nunca o impediu de levantar os outros quando sentiam que n�o havia esperan�a.</p><p>De longe veio o ru�do, vup-vup, de um helic�ptero. Brennan virou-se para ele, esgar�ando os dentes num sorriso. Gulgowski cuspiu em sil�ncio no ch�o da selva.</p><p>� Apronte os homens. E guarde aquela pasta. Custou muito consegui-la.</p><p>Mendoza, Johnstone, Big Al� tr�s dos dez homens escolhidos para o esquadr�o que Brennan havia conduzido num ataque ao quartel-general regional vietcongue estavam mortos. Mas eles alcan�aram seu objetivo. Capturaram documentos que provavam o que Brennan suspeitava havia muito tempo. Alguns homens do Ex�rcito vietnamita e do Ex�rcito norte-americano eram sujos, estavam trabalhando com o inimigo. Teve apenas uma chance de olhar os pap�is antes de enfi�-los na pasta, mas confirmavam as suspeitas de que o chef�o, o traidor mais vil, era Kien, general do Ex�rcito da Rep�blica do Vietn�. Esses pap�is acabariam com ele.</p><p>O helic�ptero aterrissou numa clareira, e Gulgowski, agarrado �s provas que condenariam um bando de homens como traidores, apressava os outros para sua ida para casa. Brennan esperava no matagal, olhando para a trilha da qual ele esperava os vietcongues perseguidores surgirem a qualquer momento. Finalmente convencido de que haviam despistado os perseguidores, voltou para a clareira, quando uma saraivada devastadora de balas estourou inesperadamente na noite.</p><p>Ele ouviu os gritos dos homens, de lado, e sentiu um estalo intenso de dor quando um cartucho acertou sua testa. Ele caiu e seu rifle rolou para dentro da escurid�o. Os tiros tinham vindo da clareira. Do helic�ptero.</p><p>Ele se estirou silenciosamente no ch�o, olhando para a clareira com os olhos nublados de dor. Seus homens jaziam espalhados � luz das estrelas. Todos haviam tombado. Outros homens caminhavam entre eles, buscando. Ele piscou para tirar o sangue dos olhos quando um dos que procuravam, vestido com um uniforme do Ex�rcito vietnamita, atirou na cabe�a de Gulgowski quando este tentava se erguer.</p><p>Um facho de luz real�ou o rosto do assassino. Era Kien. Brennan engoliu os xingamentos quando viu um dos seus carrascos arrancar a pasta da m�o morta de Gulgowski e entregar para o outro. Kien fu�ou nela, balan�ou a cabe�a satisfeito e ent�o, metodicamente, queimou seu conte�do. Enquanto os pap�is queimavam, Kien encarava a selva, procurando por ele, Brennan sabia. Amaldi�oou o choque paralisante que tomou conta do corpo, fazendo-o tremer como se tivesse febre. A �ltima coisa da qual se lembrava era de Kien andando at� o helic�ptero a passos largos e, ent�o, o choque o levou � inconsci�ncia.</p><p>N�o havia luzes naquela escurid�o, mas de repente m�os de um fogo frio estavam sobre suas bochechas. Queimavam com um toque tranquilizante. Sentiu toda a sua dor e pesar e �dio sendo extra�dos aos poucos, pedacinho por pedacinho, levados dele como uma capa gasta. Respirou fundo, contente por permanecer na escurid�o curativa, quando um mar de serenidade inef�vel o inundou. Para ele havia acabado, pensou, os conflitos, os assassinatos. <emphasis>Nenhum assassinato resultou em nada bom. O mal sobreviveu. O mal e Kien. Matou meu pai, mas n�o posso, n�o deveria fazer mal a ele. � errado fazer mal a outro ser consciente, errado�</emphasis></p><p>Confuso, Brennan se esfor�ou para abrir os olhos. N�o estava no Vietn�. Estava num hospital. N�o, na cl�nica do Bairro dos Curingas, do Dr. Tachyon. Um rosto estava bem junto ao seu, olhos fechados, boca retorcida com for�a. Jovem, feminino, lindo de um jeito sereno, embora tocado agora pela dor extrema. Mai. Seu cabelo longo e brilhante envolvia o rosto como as asas de um p�ssaro. As m�os estavam pressionadas contra suas bochechas. O sangue pingava nas costas das m�os entre os dedos afastados.</p><p>Estava usando seu poder carta selvagem para tomar o corpo ferido dele para si, fazer os reparos e mandar o corpo de Brennan fazer o mesmo. Tinham mentes e exist�ncias mescladas, e ele, por um instante, tornou-se algo dela, enquanto ela se transformava em algo dele. Numa fus�o desordenada de mem�rias, ele vivenciou a dor que ela sentiu depois da morte do pai provocada pelas m�os dos homens de Kien.</p><p>Ela abriu os olhos e sorriu com a serenidade de uma madona.</p><p>� Ol�, capit�o Brennan � disse ela numa voz t�o baixa que apenas ele p�de ouvir. � Voc� est� bem de novo.</p><p>Ela tirou a palma das m�os do rosto dele e a mistura das mentes cessou com a quebra do contato f�sico. Ele suspirou, j� sentindo falta de seu toque, da serenidade que nunca conseguiria encontrar em si mesmo, nem em mil anos.</p><p>O homem que estava com Mai no corredor veio at� seu leito. Era o Dr. Tachyon.</p><p>� Ficou cr�tico por um momento � disse Tachyon com um olhar de preocupa��o no rosto. � Gra�as a Ideal, por Mai� � Ele deixou a voz desaparecer, olhando Brennan com aten��o. � O que aconteceu? Como conseguiu o deslocador de singularidade?</p><p>Brennan sentou-se com cuidado. A dorm�ncia havia desaparecido do seu corpo, mas ainda se sentia zonzo e desorientado pelo tratamento de Mai.</p><p>� � assim que se chama? � perguntou. Tachyon concordou com a cabe�a. � O que �?</p><p>� Um dispositivo de teletransporte. Um dos artefatos mais raros da gal�xia. Pensei que estivesse desaparecido, perdido para sempre.</p><p>� � seu, ent�o?</p><p>� Tive por um momento. � Tachyon contou a Brennan a hist�ria do deslocador de singularidade peripat�tico, ao menos o que sabia.</p><p>� Como os Gar�as conseguiram isso?</p><p>� Oi? � Tachyon olhou de Brennan para Mai. � Gar�as?</p><p>� Uma gangue de Chinatown. Os Gar�as Imaculadas. Tamb�m s�o conhecidos como P�ssaros da Neve, porque controlam boa parte do com�rcio de drogas pesadas da cidade. Aparentemente, estavam usando o dispositivo deslocador para traficar hero�na. Peguei isso deles, mas fui ferido por um dos seus mais� extraordin�rios agentes.</p><p>� Desapareceu quando aterrissamos no Harlem � disse Tachyon. � Talvez um Gar�a estivesse na multid�o que se reuniu ao nosso redor?</p><p>� E pegou, sabendo o que era? Muito dif�cil � Brennan disse bem baixo, seu olhar voltando-se para dentro de si. � Muito dif�cil mesmo. Al�m disso, o Harlem n�o � �rea dos Gar�as. T�m agentes l�, mas n�o muitos.</p><p>� Bem, seja l� o que tenha acontecido, estou feliz que aconteceu � disse Tachyon. � Traz a possibilidade de uma alternativa espl�ndida ao plano rid�culo de Lankester de atacar o Enxame no espa�o.</p><p>� O Enxame? � Brennan soube dos invasores alien�genas semiconscientes que tentaram abrir uma cabe�a de ponte na Terra nos �ltimos meses, mas a luta contra eles at� ent�o havia passado longe dele. � Que utilidade isso teria, essa coisa deslocadora contra o Enxame?</p><p>� � uma longa hist�ria. � Tachyon suspirou e passou a m�o no rosto. � Um homem do Departamento de Estado chamado Lankester est� no comando da For�a-Tarefa Anti-Enxame. Est� me incomodando h� semanas para eu usar minha influ�ncia com os ases para convenc�-los a atacar a M�e do Enxame � a fonte dos ataques do Enxame � que est� numa �rbita exc�ntrica em torno do Sol. � uma ideia est�pida, claro. Seria suic�dio, at� mesmo para os mais poderosos ases, subir l� para combater aquela coisa. Seria como insetos lan�ando-se contra um elefante. Por�m, o deslocador de singularidade apresenta algumas possibilidades interessantes.</p><p>� Pode teleportar um homem at� aquela dist�ncia? � Brennan perguntou, vendo ele mesmo algumas delas.</p><p>� Algu�m totalmente n�o familiarizado com ele, por exemplo, digamos, voc� � disse Tachyon �, poderia usar o deslocador para se teleportar at� dist�ncias curtas. Precisar�amos de um telepata poderoso para alcan�ar a M�e do Enxame. Mas poderia ser feito. Um homem poderia se deslocar para o interior da coisa. Um homem armado com, digamos, um dispositivo nuclear t�tico.</p><p>Brennan concordou com a cabe�a.</p><p>� Entendo.</p><p>� Tinha certeza de que entenderia. Estou explicando isso tudo para voc� porque, falando de forma pragm�tica, o deslocador de singularidade � seu.</p><p>Brennan olhou de Tachyon para Mai, erguendo-se silenciosamente na lateral da cama, e de volta para Tachyon. Tinha a sensa��o de que Mai disse algo a Tachyon sobre ele, mas sabia que Mai diria ao doutor apenas o que deveria. E simplesmente porque confiava nele.</p><p>� Estou em d�vida com voc� � disse Brennan. � � seu.</p><p>Tachyon pegou no bra�o de Brennan de forma cordial e amig�vel.</p><p>� Obrigado � falou. Olhou para Mai, olhou para Brennan novamente. � Sei que est� envolvido numa esp�cie de vingan�a com pessoas aqui da cidade. Mai me disse algo sobre isso ao explicar as pr�prias hist�rias e habilidades. Sem detalhes. Eles n�o foram necess�rios. � Ele fez uma pausa. � Conhe�o muito bem as d�vidas de honra.</p><p>Brennan fez que sim com a cabe�a. Acreditava em Tachyon e, at� um ponto, confiava nele. Tachyon provavelmente n�o tinha rela��o com Kien, mas um dos ases que estavam com ele � Tartaruga, Fantasia ou Viajante � tinha. Um deles deve ter roubado o deslocador e dado para Kien. E Brennan, algum dia, de alguma forma, descobriria que �s fez aquilo.</p><empty-line/><p><strong>II.</strong></p><p>Brennan saiu da cl�nica um pouco antes da meia-noite e foi para casa, o apartamento de um quarto nas cercanias do Bairro dos Curingas, base de suas opera��es. Havia uma l�gica de aglomera��o organizada no apartamento, que consistia em banheiro, �rea de cozinha e sala de estar com um sof�-cama, uma cadeira de balan�o antiga e uma bancada de trabalho obviamente feita � m�o e entulhada com equipamentos que qualquer fabricante de arcos reconheceria. E alguns que um fabricante n�o saberia o que eram.</p><p>Ele puxou o sof� para virar cama, tirou a roupa e deitou-se com um suspiro esgotado. Dormiu por 24 horas, concluindo o processo de cura que Mai havia iniciado. Quando acordou, sua fome era voraz, e estava preparando algo para comer quando ouviu uma leve batida na porta. Ele espiou pelo olho m�gico. Era, como esperava, Mai, a �nica pessoa que sabia onde ele morava.</p><p>� Problemas? � Brennan perguntou, vendo a preocupa��o em seus tra�os geralmente pl�cidos. Deu um passo para o lado e a deixou entrar.</p><p>� N�o sei. Acho que sim.</p><p>� Me conte. � Ele foi para tr�s do balc�o que dividia a cozinha do restante do apartamento e despejou a �gua da chaleira que assobiava no fog�o em duas x�caras pequenas e sem al�a. Eram de porcelana, pintadas � m�o com as cores de um sonho. Eram mais velhas que os Estados Unidos e os objetos mais preciosos que Brennan possu�a. Ele entregou uma para Mai na cadeira de balan�o e sentou-se na cama amarrotada diante dela.</p><p>� � o Dr. Tachyon. � Ela bebericou o ch� quente, arom�tico, reunindo pensamentos. � Ele est� agindo� de forma estranha.</p><p>� Em que sentido?</p><p>� Ficou brusco, mand�o. E est� negligenciando seus pacientes.</p><p>� Desde quando?</p><p>� Desde ontem, desde que voltou da reuni�o com o homem do Departamento de Estado. Tem outra coisa.</p><p>Ela equilibrou a x�cara preciosa no colo e pegou um jornal dobrado da bolsa que havia deixado ao lado da cadeira.</p><p>� Viu isto?</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a.</p><p>A manchete gritava TACHYON LIDERA ATAQUE DE ASES CONTRA AMEA�A ESPACIAL. Uma imagem abaixo das letras em negrito mostrava Tachyon em p� com um homem identificado como Alexander Lankester, chefe da For�a-Tarefa Anti-Enxame. O artigo que acompanhava declarava que Tachyon estava recrutando ases para acompanh�-lo no ataque contra a M�e do Enxame que orbitava ao redor da Terra al�m do alcance bal�stico dos m�sseis. Capit�o Viajante e Modular j� haviam concordado em seguir com ele.</p><p>Algo estava errado, pensou Brennan. Tachyon esperava que o deslocador de singularidade encerrasse o pedido daquele ataque in�til. Em vez disso, parecia que o oposto estava acontecendo.</p><p>� Acha que o governo est� chantageando o doutor para que ele fa�a isso? � Brennan perguntou. � Ou est� controlando a mente dele de alguma forma?</p><p>� � poss�vel � Mai deu de ombros. � Sei apenas que ele pode precisar de ajuda.</p><p>Ele olhou para ela por um bom tempo e ela devolveu o olhar calmamente.</p><p>� Ele n�o tem amigos?</p><p>� Muitos de seus amigos s�o curingas pobres, desesperados. Outros s�o dif�ceis de achar. Ou podem n�o estar inclinados a agir com tanta rapidez se o governo estiver envolvido de alguma forma.</p><p>Brennan levantou-se e virou-se de costas para ela enquanto levava a x�cara de volta ao balc�o. A rede de relacionamentos humanos estava se estendendo, enla�ando-o no seu dom�nio grudento novamente. Ele jogou fora o res�duo do ch� na pia e olhou para o fundo da x�cara. Era o azul de uma piscina perfeita, sem fundo, o azul de um c�u vazio, infinito. Olhar para ele era como contemplar o vazio. Era agrad�vel em sua tranquilidade absoluta, mas n�o era, Brennan percebeu, seu caminho particular para a ilumina��o.</p><p>Ele virou para Mai novamente, decidido.</p><p>� Tudo bem. Vou verificar. Mas n�o sei nada sobre coisas como controle da mente. Vou precisar de alguma ajuda.</p><p>Ele pegou o telefone e discou um n�mero.</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Brennan raramente esteve nas salas p�blicas do Crystal Palace, embora tivesse passado mais de uma noite nos quartos do terceiro andar. Elmo assentiu com a cabe�a quando ele entrou, sem comentar sobre o estojo que carregava. O an�o apontou para a mesa de canto onde Cris�lida estava sentada com um homem vestindo jeans preto e jaqueta de couro marrom. Tinha tra�os bonitos, regulares, exceto pela testa inchada.</p><p>� Voc� � disse Fortunato quando Brennan foi at� a mesa. Olhou de Brennan para Cris�lida. Ela o observou com um olhar tranquilo, o sangue pulsando continuamente pelas art�rias da garganta transparente como vidro. Ela olhou para Brennan e balan�ou a cabe�a, fria, sem mostrar nenhum sinal da paix�o que Brennan conhecera dos tempos que ele passava no terceiro andar do Crystal Palace.</p><p>� Este � o Yeoman � disse ela enquanto Brennan sentava-se � mesa, na terceira cadeira. � Acredito que tenha algumas informa��es que voc� achar� interessantes.</p><p>Fortunato franziu o cenho. Seu �ltimo encontro n�o fora exatamente cordial, embora n�o houvesse uma verdadeira animosidade entre os dois.</p><p>� Corre o boato de que voc�s est�o procurando uma maneira de chegar ao Enxame. Sei de algo que poderia ajudar.</p><p>� Sou todo ouvidos.</p><p>Brennan falou para ele sobre o deslocador de singularidade. N�o contou mentiras, mas escondeu as coisas com destreza, tendo sido treinado por Cris�lida quanto � abordagem que mais provavelmente levaria Fortunato a ajud�-lo a investigar o estranho comportamento de Tachyon.</p><p>� Que mais voc� pode fazer al�m de zerar a mente? � Fortunato perguntou quando Brennan terminou de contar a hist�ria.</p><p>� Posso cuidar de mim mesmo. E de muitos outros que poderiam tentar interferir em nossos planos.</p><p>� Voc� � aquele matador maluco que os jornais est�o especulando ultimamente?</p><p>Brennan p�s a m�o no bolso de tr�s das cal�as e puxou uma carta. Deixou-a na mesa com a frente para cima diante de Fortunato. O mago-cafet�o olhou para ela e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eu e o Sombra somos os �nicos ases de espadas que eu conhe�o. � Ele encarou Brennan. � Mas acho que h� espa�o para mais um. A �nica coisa que n�o entendo � o que vai ganhar com isso � disse ele, virando-se para Cris�lida.</p><p>� Se funcionar, o que eu quiser. De voc�s dois�</p><p>Fortunato grunhiu. E levantou-se.</p><p>� Sim. Voc� sempre quer. Bem, vamos l�. � melhor verificarmos se aquele d�ndi alien�gena est� com todos os parafusos na cabe�a.</p><p>Brennan dirigiu atrav�s da escurid�o do in�cio da manh� at� o apartamento de Tachyon. De canto de olho, ele flagrava Fortunato observando-o �s vezes, mas o �s preferiu n�o perguntar nada. Fortunato n�o o aceitara, Brennan percebeu, e ainda estava cauteloso e alerta, sen�o totalmente desconfiado. Mas tudo bem, porque ele tamb�m n�o estava � vontade com Fortunato.</p><p>Estacionou a BMW no beco ao lado do pr�dio de Tachyon. Ele e Fortunato sa�ram e olharam para o pr�dio.</p><p>� Vamos entrar pela porta da frente � quis saber Fortunato � ou pela porta de tr�s?</p><p>� Se houver uma escolha, minha pol�tica � sempre entrar pelos fundos.</p><p>� Cara esperto � murmurou Fortunato �, cara esperto.</p><p>Fortunato observou com express�o d�bia, mas n�o disse nada quando Brennan pegou o estojo do porta-malas da BMW, abriu-o, prendeu seu arco composto �s costas e, em seguida, a aljava de flechas ao cinto.</p><p>� Vamos.</p><p>Seguiram para o fundo do pr�dio, e Fortunado queimou um pouco de energia ps�quica para descer a escada de inc�ndio. Seguiram com passos leves pela escada at� chegarem � janela do apartamento de Tachyon, e espiaram para dentro do quarto.</p><p>O quarto, iluminado pela luz de um abajur derrubado, estava um pandem�nio. Havia sido bagun�ado por algu�m que procurava algo com impaci�ncia e n�o se importou em colocar as coisas nos lugares. Brennan e Fortunato olharam-se.</p><p>� Algo estranho est� acontecendo � Fortunato murmurou.</p><p>A janela estava trancada, mas aquilo n�o era obst�culo para Brennan. Removeu um c�rculo de vidro da janela inferior com um cortador, enfiou a m�o pelo furo, destravou-a e, silenciosamente, deslizou-a para cima. Estendeu um bra�o, impedindo Fortunato de entrar, e pousou o dedo sobre os l�bios. Espreitaram por um instante, mas n�o ouviram nada.</p><p>Brennan entrou primeiro, pulando pelo peitoral da janela t�o silenciosamente quanto um gato, o arco aberto na m�o esquerda, a direita pairando sobre a aljava presa com velcro ao cinto. Fortunato o seguiu, fazendo barulho suficiente para Brennan olh�-lo com um ar acusador. O �s deu de ombros, e Brennan seguiu pelo quarto. No corredor que levava para a cozinha, sala de estar e quarto de h�spedes, ouviram uma s�rie de ru�dos, batidas ocas e sons ocasionais de coisas se estilha�ando, como se aquele quem procuravam, descuidado ou indiferente, estivesse revirando os c�modos dentro do apartamento.</p><p>Seguiram em sil�ncio pelo corredor, passando pela porta fechada do quarto de h�spedes. O corredor abria-se para a sala de estar do apartamento, que parecia t�o devastada quanto uma �rea de trailers ap�s um tornado. Um homem baixote, magro com cabelos longos e encaracolados arrancava os livros metodicamente das prateleiras, olhando atr�s deles.</p><p>� Tachyon � disse Brennan em voz alta.</p><p>Ele se virou e olhou para os dois no corredor, totalmente calmo, sem sobressalto. Encarou-os, sem express�o alguma no rosto.</p><p>Fortunato, de repente, pousou uma das m�os nas costas pequenas de Brennan e o empurrou, fazendo-o cair sobre o tapete.</p><p>� N�o � Tachyon � gritou.</p><p>Os pr�ximos segundos pareceram para Brennan como se estivesse vendo uma fita de v�deo avan�ando r�pido. Fortunato estava fazendo algo com o tempo. Transformou-se num roj�o indistinto atravessando o ar na dire��o do Tachyon falso, mas foi jogado para o lado logo que os dois se tocaram.</p><p>Brennan puxou uma flecha e lan�ou-a da sua posi��o de joelhos.</p><p>A flecha era feita com penas vermelhas e pretas. O corpo era de alum�nio oco cheio de explosivos pl�sticos. Sua ponta era um detonador sens�vel ao toque. A flecha era pesada demais para ser est�vel no quesito aerodin�mica em longas dist�ncias, mas a coisa disfar�ada de Tachyon estava a menos de oito metros.</p><p>A flecha de Brennan atingiu-o no alto do peito e explodiu, mandando um banho de carne e gosma verde sobre a sala. A coisa foi arremessada para tr�s pelo impacto. Sua metade superior desapareceu, deixando um par de pernas se retorcendo, presas a um tronco que espalhava �rg�os n�o humanos e vazava uma secre��o verde e espessa. Foi momentos antes de as pernas interromperem suas tentativas de caminhar.</p><p>� O que era aquela coisa? � Brennan gritou sobre o barulho em seus ouvidos.</p><p>� Sei l�! � disse Fortunato, erguendo-se de onde a coisa o havia jogado. � Tentei rastrear sua mente, mas n�o havia mente. Nada humano ao menos.</p><p>� Parecia com Tachyon � disse Brennan numa voz mais baixa, sua audi��o voltando ao normal. � At� o �ltimo detalhe. � Franziu a testa, olhou para Fortunato. � A mente de Tachyon n�o foi tomada. Ele foi substitu�do.</p><p>� Quando foi a �ltima vez que voc� o viu para ter certeza que era o Tachyon verdadeiro?</p><p>� Ontem. Na cl�nica. Antes ele foi a uma reuni�o no Hotel Olympia com aquele tal Lankester do Departamento de Estado.</p><p>� Vamos verificar.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>O velho fr�gil, de cabelos brancos, no uniforme de ascensorista, ergueu Brennan sobre a cabe�a e lan�ou-o contra a parede. Brennan bateu com for�a na parede e deslizou para o tapete, buscando ar como um c�o arfante. Estava em perigo.</p><p>O ascensorista avan�ou sobre ele, sem express�o no rosto vincado. Brennan ergueu-se sobre os joelhos, os pulm�es queimando, e viu os olhos do porteiro revirando-se para dentro da cabe�a. O ascensorista cambaleou para tr�s, girando as pernas como se fosse pego num vento de furac�o. Fez uma dan�a tr�pega maluca e lan�ou-se pela janela no fim do corredor. Foi um longo caminho at� a rua l� embaixo.</p><p>Brennan se recomp�s enquanto Fortunato estalava os dedos diante do corpo. Pegou o bra�o de Brennan e disse:</p><p>� Sem c�rebro para controlar, mas � poss�vel empurr�-los por a�.</p><p>� Algu�m provavelmente ouviu isso � Brennan engasgou, o ar voltando aos pulm�es.</p><p>� Eu poderia ter deixado ele te esmagar.</p><p>� L� est�. � Ele deu um suspiro profundo e agradecido. � Precisamos ser discretos por um tempo.</p><p>Pararam diante de um dos quartos.</p><p>� Que tal este aqui? � Fortunato perguntou. Brennan deu de ombros, em sil�ncio. Fortunato pousou a m�o na ma�aneta e estendeu a mente. Arruelas estalaram, pinos se ergueram e a porta abriu.</p><p>� Levar� um tempo at� nos rastrearem � o �s disse quando entraram no escuro quarto de hotel. � Quantos agentes voc� acha que eles t�m?</p><p>� N�o sei � disse Brennan, esticando as costas doloridas com cuidado. � Mais do que eu suspeitaria, com certeza.</p><p>� Pensei que fosse mais astuto.</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a. O plano era ele cuidar do andar onde a su�te de Lankester estava localizada, reunindo as informa��es que conseguisse, enquanto Fortunato usava os poderes mentais para monitorar seu progresso a partir da escadaria. O ascensorista falso o reconheceu e o atacou quase imediatamente. Foi tudo que Brennan conseguiu fazer para aguentar at� Fortunato chegar.</p><p>� Melhor tentarmos o plano alternativo � disse Brennan.</p><p>� Pode levar algum tempo.</p><p>Fortunato sentou-se numa das camas duplas, pernas cruzadas � frente, costas eretas, m�os pousadas no colo. Olhava adiante para o nada. Brennan estava em p� entre ele e a porta, ouvindo sons do corredor, enquanto tirava arco e aljava de flechas do estojo que Fortunato manteve com ele enquanto sondava o hotel.</p><p>Fortunato parecia mergulhado num transe profundo, quase igual, Brennan pensou, quando um aluno de Zen descia ao zazen, o estado de medita��o. Ap�s um momento, um par de chifres de carneiro materializaram-se na testa inchada de Fortunato, reluzente e indistinto na escurid�o.</p><p>Brennan observou com l�bios apertados. Seu treinamento zen havia ensinado que n�o havia essa coisa de magia, mas aqui estava a prova contr�ria, bem diante dos seus olhos. O que seria magia, talvez, al�m de ci�ncia n�o explicada?</p><p>Brennan arquivava a quest�o para medita��o posterior quando Fortunato abriu os olhos de repente. Eram po�os de escurid�o, suas pupilas t�o dilatadas que quase engoliam as �ris. A voz ficou rouca, um pouco tr�mula.</p><p>� Est�o por todos os lados, aquelas coisas � disse. � Ao menos vinte. Talvez mais. N�o s�o humanos, nem mesmo da Terra. Suas mentes, se pudermos cham�-las assim, s�o alien�genas, muito al�m da minha experi�ncia.</p><p>� S�o criaturas do Enxame?</p><p>Fortunato levantou-se com gra�a fluida, f�cil, e deu de ombros.</p><p>� Pode ser. Pensei que o melhor que podiam fazer eram cascos que pareciam com p�ezinhos de Pillsbury. Pensei nos mensageiros e merdas como essa que estavam al�m deles.</p><p>� Talvez eles tenham refinado sua t�cnica. � Brennan ergueu a m�o, apertando o ouvido contra a porta. Os passos no corredor l� fora passaram pelo quarto deles, enquanto ele e Fortunato aguardavam em sil�ncio.</p><p>� E Tachyon?</p><p>Fortunato franziu o cenho.</p><p>� Encontrei uma mente humana. Uma camareira. N�o percebeu nada estranho acontecendo. Um pouco irritada porque os h�spedes neste andar n�o d�o boas gorjetas. N�o d�o gorjeta nenhuma na verdade. Tamb�m encontrei algo nos elevadores. Pode ter sido a mente de Tachyon, mas h� um v�u sobre ela, uma cerca ao redor. Consegui pegar apenas no��es vagas, filtradas. Estavam cheias de cansa�o. E dor.</p><p>� Poderia ser Tachyon?</p><p>� Poderia.</p><p>Brennan deu um suspiro profundo.</p><p>� Algum plano?</p><p>� Nenhum.</p><p>Os dois se olharam. Brennan tocou a aljava ao lado.</p><p>� Queria que voc� tivesse uma arma � disse ele.</p><p>� Eu tenho. V�rias. � Ele tocou a testa. � E est�o todas aqui.</p><p>Esperaram at� estar quieto no corredor l� fora, ent�o abriram a porta e moveram-se rapidamente. Correram o m�ximo que puderam pelo corredor do hotel, entraram � direita quando chegou uma bifurca��o, e viram-se num hall de elevadores. Em um nicho lateral havia algo que parecia um arm�rio de roupas de cama. Brennan encaixou uma flecha no arco e puxou para tr�s, enquanto Fortunato apontava para a porta aberta.</p><p>Brennan baixou o arco.</p><p>� Cristo aben�oado! � ele murmurou. Fortunato olhou para ele e para o arm�rio e congelou.</p><p>Tachyon estava l� dentro. Seu cabelo, encharcado de suor, ca�a sobre o rosto em cachos frouxos. Seus olhos fitavam atrav�s do emaranhado de cabelos. Estavam inchados e injetados, e vidrados com dor e exaust�o. As prateleiras e roupas de cama haviam sido removidas do arm�rio, dando lugar para Tachyon e para a coisa que o abra�ava. Tachyon estava pressionado contra um leito grande e p�rpura de biomassa que o prendia com v�rios tent�culos pegajosos pelo pesco�o, peito, bra�os e pernas. A coisa pulsava ritmicamente, tremelicando como uma senhora gorda pulando numa cama d��gua. Tachyon estava enfiado numa depress�o na superf�cie da coisa que o apoiava em seguran�a, seguindo perfeitamente seus contornos e dimens�es.</p><p>Seus olhos concentravam-se em Fortunato, voejando para Brennan.</p><p>� Me ajudem � resmungou, os l�bios movendo-se por muitos momentos antes de qualquer som sair deles.</p><p>Brennan abaixou-se, puxou uma faca que carregava na bainha do tornozelo e rasgou os tent�culos que prendiam Tachyon �quela coisa. Foi como cortar borracha r�gida e el�stica, mas continuou a rasgar com raiva, ignorando as pulsa��es crescentes da coisa e a gosma verde que espirrava nele e em Tachyon.</p><p>Levou um minuto para cortar todos os tent�culos, mas ainda assim a coisa estava presa a Tachyon. Foi ent�o que Brennan percebeu as ventosas presas ao lado e atr�s do pesco�o de Tachyon.</p><p>� Como tiramos voc� da�? � ele perguntou.</p><p>� Apenas puxe � Tachyon sussurrou.</p><p>O doutor finalmente estava livre. Caiu nos bra�os de Brennan, fedendo a suor, medo e secre��es alien�genas. Tinha palidez morti�a e sangrava em profus�o dos pontos onde as ventosas tinham se prendido. Os ferimentos n�o pareciam s�rios, mas n�o havia, Brennan percebeu, como dizer quanto poderiam ser danosos de verdade.</p><p>� Olhem s� � disse Fortunato �, temos companhia.</p><p>Brennan olhou para o corredor. Uma d�zia de simulacros humanos estava se aproximando, vestidos de mensageiros, camareiras e homens e mulheres comuns em vestidos e ternos de tr�s pe�as. No meio deles estava Lankester, do Departamento de Estado.</p><p>Brennan arrastou Tachyon para o elevador enquanto as criaturas avan�avam em ritmo constante, os rostos serenos e extremamente sem emo��o. Fortunato juntou-se a ele, um olhar preocupado no rosto.</p><p>� Que fazemos agora?</p><p>� Chame o elevador.</p><p>As coisas estavam a pouco mais de seis metros de dist�ncia quando ouviram o ru�do de um elevador chegando.</p><p>� Pegue-o � disse Brennan, jogando a forma desengon�ada e pouco consciente de Tachyon nos bra�os de Fortunato. Puxou uma flecha da aljava enquanto a porta do elevador se abria num ru�do. Dentro estavam tr�s homens de meia-idade vestidos em ternos conservadores e chap�us de <emphasis>Shriners</emphasis> na cabe�a. Encararam com olhos arregalados enquanto Fortunato arrastava Tachyon para dentro. Fortunato olhou para eles.</p><p>� T�rreo, por favor � disse ele. O homem que estava diante do painel de bot�es apertou-o automaticamente quando Fortunato impediu o fechamento da porta com o p�. Brennan encaixou tr�s flechas explosivas no meio das criaturas que avan�avam. A primeira atingiu Lankester no peito. A segunda e a terceira explodiram � esquerda e � direita dele, estourando sangue e protoplasma em todo o corredor do hotel. Ele pulou para dentro do elevador e Fortunato deixou a porta se fechar.</p><p>Brennan recostou-se no arco, dando um suspiro profundo e aliviado. Os <emphasis>Shriners</emphasis> amontoaram-se num dos cantos do elevador.</p><p>Fortunato olhou para eles.</p><p>� Primeira vez na cidade?</p><empty-line/><p><strong>III.</strong></p><p>� Ent�o, Lankester foi substitu�do por um desses filhos do enxame da nova gera��o um tempo atr�s? � Brennan perguntou.</p><p>Tachyon concordou com a cabe�a e deu um grande gole da caneca que Mai lhe entregou. Estava cheia de caf� preto e espesso, batizado generosamente com conhaque.</p><p>� Antes mesmo de eu encontr�-lo� aquela coisa. Esse � o motivo pelo qual ela estava insistindo naquele plano de ataque insano. Sabia que n�o poder�amos realmente atingir a M�e do Enxame, mas um ataque desses faria todos pensarem que algo concreto estava sendo feito para combater a amea�a. � Ele fez uma pausa, deu outro trago grande da caneca. � E h� outra coisa. A M�e do Enxame poderia querer esp�cimes de ases.</p><p>Brennan olhou para ele com uma interroga��o no rosto.</p><p>� Esp�cimes?</p><p>� Para desmontar e replicar a partir de sua pr�pria biomassa.</p><p>� Que merda � Fortunato murmurou. � Quer criar seus pr�prios ases.</p><p>Eles estavam no escrit�rio de Tachyon, na cl�nica. Tachyon havia se limpado, mas ainda estava p�lido e tr�mulo pelo supl�cio que havia sofrido. Havia uma bandagem em torno do pesco�o onde a criatura do Enxame havia prendido as ventosas.</p><p>� O que vai acontecer agora? � Brennan perguntou.</p><p>Tachyon suspirou, deixando a caneca de lado.</p><p>� Vamos atacar a M�e do Enxame.</p><p>� O qu�? � disse Fortunato. � Aquela coisa do Enxame bagun�ou seus miolos? Voc� acabou de dizer que era insano atacar a M�e.</p><p>� Era. �. Mas � a melhor op��o em aberto para n�s. � Ele olhou de Fortunato, que estava visivelmente incr�dulo, para Brennan, que olhava para o nada, esquivo. � Olhe, o Enxame come�ou uma nova onda de ataques que � muito mais sofisticada que a anterior. N�o h� como dizer de que maneira conseguiram entrar no governo.</p><p>� Se conseguiram substituir Lankester � Brennan murmurou �, quem mais poderiam conseguir?</p><p>� Exatamente. Quem eles v�o dominar? � Tachyon deu de ombros. � As possibilidades s�o impressionantes. Se pudesse substituir pessoas-chave o suficiente para levar isso adiante, n�o pensaria em come�ar uma troca nuclear mundial e simplesmente esperar o mil�nio necess�rio at� a superf�cie do planeta estar novamente habit�vel. � �bvio que n�o podemos confiar em ningu�m do governo para nos ajudar a atacar a M�e do Enxame. Temos de fazer isso sozinhos.</p><p>� Como faremos isso? � Fortunato perguntou num tom que indicava que n�o fora vencido pelos argumentos de Tachyon.</p><p>� Temos o deslocador de singularidade � disse Tachyon, sua voz erguendo-se com entusiasmo. � Precisamos de uma arma. No passado, os takisianos usaram com sucesso armas biol�gicas contra as M�es do Enxame, mas as ci�ncias biol�gicas de voc�s n�o s�o sofisticadas o bastante para produzir uma arma adequada. Talvez eu possa inventar alguma coisa�</p><p>� Existe uma arma � uma voz baixinha disse. Os tr�s homens se viraram e olharam para Mai, que estava em sil�ncio ouvindo a conversa.</p><p>Tachyon olhou para ela e ent�o se aprumou na cadeira, derramando o caf� com conhaque na frente da t�nica bordada.</p><p>� N�o fale bobagem � disse ele, r�spido.</p><p>Fortunato olhou de Tachyon para Mai.</p><p>� O que � essa merda?</p><p>� Nada � disse Tachyon. � Mai trabalha comigo na cl�nica. Ela usa seu poder para ajudar alguns dos meus pacientes, mas estaria fora de quest�o ela se envolver nisso.</p><p>� Que poder?</p><p>Mai ergueu as m�os, palmas para a frente.</p><p>� Posso tocar a alma da pessoa � disse ela. � Nos tornamos uma e eu encontro a doen�a nela. Tomo a doen�a para mim e a amenizo, aliviando as curvas da estrutura vital e corrigindo as falhas. Ent�o, n�s duas podemos ficar bem novamente.</p><p>� Traduzindo isso significa o qu�? � Fortunato perguntou.</p><p>� Ela manipula material gen�tico � disse Tachyon com um suspiro. � Pode mold�-lo em quase qualquer formato que visualizar. Suponho que poderia usar o poder na M�e do Enxame de forma reversa para causar a dilacera��o celular em escala gigantesca.</p><p>� Ela pode causar c�ncer na M�e? � Fortunato quis saber.</p><p>� Provavelmente poderia � Tachyon assentiu. � Se eu deixar que ela se envolva, o que eu n�o vou fazer. Seria um risco insano para uma mulher.</p><p>� � um risco insano para qualquer um � disse Fortunato, brusco. � Se ela � a melhor aposta contra aquela M�e e quer tentar, eu digo para deixar que ela fa�a.</p><p>� E eu pro�bo! � disse Tachyon, derrubando caf� da caneca enquanto esmurrava o bra�o da cadeira.</p><p>� N�o depende de voc� proibir � disse Mai. � Preciso fazer isso. � meu carma.</p><p>Tachyon virou-se para Brennan.</p><p>� Voc� n�o consegue faz�-la entender?</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a.</p><p>� A decis�o � dela � respondeu calmamente. Desejou poder concordar com Tachyon, mas Brennan sabia que n�o poderia interferir no carma de Mai, seu caminho escolhido para a ilumina��o. Por�m, Brennan resolveu, ela n�o faria o trajeto sozinha.</p><p>� Est� decidido, ent�o � disse Fortunato, sem rodeios. � Levamos Mai at� a M�e do Enxame e ela injeta na coisa uma dose fatal de c�ncer. Eu tamb�m vou. Quero um peda�o daquela desgra�ada para mim.</p><p>Tachyon olhou de Fortunato para Mai, em seguida para Brennan e viu que nada que ele pudesse dizer mudaria a opini�o deles.</p><p>� Tudo bem � suspirou. Virou-se para Fortunato. � Voc� ter� que energizar o deslocador de singularidade � disse Tachyon. � N�o posso fazer isso. � Ele deslizou os dedos pelos cabelos encaracolados. � O broto exauriu alguns dos meus poderes ao tentar sugar minhas mem�rias para a duplicata de Tachyon. N�o podemos esperar at� que eles voltem. Por�m, posso transportar um grupo at� pr�ximo � M�e de Enxame na <emphasis>Baby</emphasis>. Fortunato pode mandar o grupo para dentro da M�e do Enxame. Ser�o necess�rias velocidade e discri��o, mas os que estiverem l� dentro precisar�o de alguma prote��o. O Modular, talvez, ou talvez um dos amigos do Viajante�</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a.</p><p>� Voc� disse que seriam necess�rias velocidade e discri��o. Se mandar o Modular para l�, ele derrubaria as defesas da M�e do Enxame rapidamente.</p><p>Tachyon massageou a testa de um jeito desconfiado.</p><p>� Voc� tem raz�o. Alguma sugest�o?</p><p>� Claro. � Brennan deu um suspiro profundo. � Aquilo estava ficando longe dos motivos originais da sua vinda para a cidade, mas n�o poderia deixar Mai enfrentar o Enxame sem ele. N�o deixaria. � Eu.</p><p>� Voc�? � Tachyon disse, hesitando. � Est� pronto para isso?</p><p>� Ele conseguiu resgat�-lo daquela bolha � Fortunato interrompeu. Olhou para Brennan, a d�vida nos olhos substitu�da pela certeza. � Eu o vi em a��o. Ele pode cuidar de si.</p><p>Tachyon concordou com a cabe�a de forma decisiva.</p><p>� Est� feito ent�o. � Ele se virou para Mai. � N�o gosto de enviar uma mulher para o perigo, mas voc� est� certa. � a �nica que tem a chance de destruir a M�e do Enxame.</p><p>� Farei o que tiver que ser feito � ela respondeu em voz baixa.</p><p>Tachyon assentiu com a cabe�a com seriedade e tomou a m�o dela, mas um arrepio atravessou Brennan com as palavras dela. Ele tinha certeza de que Tachyon tinha ouvido uma inten��o completamente diferente nelas do que ele ouvira.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>A decolagem de uma nave espacial era algo que Brennan manteve na mem�ria como uma experi�ncia interessante. N�o a procuraria novamente por vontade pr�pria, mas a vis�o da Terra nas telas da <emphasis>Baby</emphasis> foi uma cena de beleza espantosa que ele levaria para o resto da vida. Sentiu-se quase indigno e desejou que Ishida, seu <emphasis>roshi</emphasis>, pudesse ver aquilo.</p><p>Havia outros tr�s na fantasia de Noites das Ar�bias que era a sala de controle de Tachyon. O takisiano conduzia a nave em sil�ncio. Ainda convalescia dos maus-tratos do Enxame. Brennan conseguia enxergar que ele continuava apenas pela for�a de vontade. Seu rosto estava vincado pelo cansa�o e pela tens�o at�pica.</p><p>Fortunato praticamente estalava com energia impaciente, nervosa. Passou o per�odo antes da decolagem recarregando as baterias, como ele comentou. Agora estava pronto, e ansioso para agir.</p><p>Apenas Mai parecia calma e indiferente. Estava sentada em sil�ncio no sof� da sala de controle, as m�os sobre o colo, observando tudo com interesse despreocupado. Brennan acompanhava a observa��o dela. Mai havia concordado imediatamente com o plano de Tachyon. Por�m, como ela o realizaria era outra hist�ria. Esse pensamento o preocupava.</p><p>Ap�s um tempo, Tachyon falou, a tens�o e a exaust�o fissurando sua voz.</p><p>� L� est�.</p><p>Brennan espiou sobre os ombros de Tachyon a monstruosidade globular que enchia as telas frontais de <emphasis>Baby</emphasis>.</p><p>� � imensa � disse ele. � Como encontraremos um caminho para entrarmos?</p><p>Tachyon virou-se para Fortunato.</p><p>� Instrua o deslocador de singularidade para levar voc� at� o meio da coisa. Voc� deve acabar bem perto de onde voc� quer estar. Poder� encontrar o centro nervoso rastreando a mente dela. � Tachyon sentiu a mente de sua nave repuxando seu c�rebro. <emphasis>O que h�,</emphasis> Baby<emphasis>?</emphasis></p><p><emphasis>Estamos nos aproximando da �rea de detec��o da M�e do Enxame.</emphasis></p><p><emphasis>Obrigado.</emphasis> Ele se virou para os outros.</p><p>� Melhor se aprontarem. Est� quase na hora.</p><p>Fortunato tirou o deslocador de singularidade da mochila na qual Tachyon havia escondido no quarto de h�spedes do apartamento. No fundo da mochila estava uma pistola autom�tica 45 mm num coldre de ombro.</p><p>� O que � isso? � Fortunato quis saber. Olhou para Tachyon.</p><p>� Voc� pode precisar � disse o doutor. � Vai exigir mais de voc� do que imagina, energizar este salto.</p><p>Fortunato tocou o cabo da arma, olhou para Tachyon. Deu de ombros.</p><p>� Que inferno � falou, e vestiu o coldre. Ergueu o deslocador de singularidade, e ele, Brennan e Mai formaram um c�rculo. Todos ajudaram a segurar o deslocador. Brennan lan�ou um olhar para Mai. E ela olhava para ele de volta. Do canto do olho ele viu numa das telas um flash de luz se apagando da M�e do Enxame. <emphasis>Baby</emphasis> sacudiu quando o feixe de part�culas gerado organicamente a atingiu, mas seus escudos de defesa seguraram. Brennan sentiu um sussurro suave no c�rebro.</p><p><emphasis>Lembre-se. Voc� n�o deve deixar Mai ou Fortunato serem capturados pela M�e do Enxame</emphasis>.</p><p>Ele olhou para Tachyon, que o encarou continuamente por um instante, ent�o voltou para a tela.</p><p>� V�o! � Tachyon gritou.</p><p>Os olhos do Fortunato se fecharam, sua sobrancelha se franziu em concentra��o. Os chifres de carneiro espectrais brilharam do lado da cabe�a. Brennan sentiu uma tor��o repentina, um rompimento como se cada c�lula do corpo estivesse sendo rasgada. N�o conseguia respirar com pulm�es que n�o eram mais pulm�es, n�o conseguia relaxar os m�sculos que estavam partidos em suas mol�culas constituintes e lan�ados atrav�s de centenas de quil�metros de v�cuo. Prendeu um grito e sua consci�ncia chocou-se contra uma muralha de n�useas. A viagem foi pior do que sua chegada at� a cl�nica, pois parecia durar uma eternidade, embora Tachyon tivesse dito que a jornada pelo deslocador de singularidade n�o durava tempo algum.</p><p>Ent�o, de repente, estava inteiro de novo. Ele, Mai e Fortunato estavam num corredor que era iluminado levemente por grandes c�lulas fosforescentes azuis e verdes no teto e paredes transl�cidos. Rebentos pegajosos corriam por baixo dos p�s deles, provavelmente condu�tes para o que era usado como sangue e nutrientes da coisa. O ar era quente e totalmente �mido e cheirava a estufa apodrecendo. Seu teor de oxig�nio era suficiente para deixar Brennan tonto at� ele ajustar a respira��o. Sentia-se leve nos p�s, embora houvesse um empuxo gravitacional n�tido. A M�e do Enxame, ele percebeu, devia estar girando, produzindo gravidade artificial que era necess�ria para o crescimento org�nico direcionado.</p><p>� Voc�s est�o bem? � perguntou aos companheiros.</p><p>Mai concordou com a cabe�a, mas Fortunato estava respirando com for�a. Seu rosto era uma m�scara cinzenta.</p><p>� O� maricas do espa�o estava certo� � ofegou. � Foi pesado. � Suas m�os tremiam enquanto enfiava o deslocador na mochila.</p><p>� Relaxe � Brennan come�ou, e ficou em sil�ncio.</p><p>De algum lugar adiante, no corredor que se deformava e ondulava, veio um som imenso de suc��o.</p><p>� Que caminho devemos tomar? � Brennan perguntou em voz baixa.</p><p>Fortunato concentrou-se com for�a.</p><p>� Posso sentir uma esp�cie de consci�ncia l� na frente. � Ele apontou na dire��o do som de suc��o. � Se puder chamar aquilo de consci�ncia�</p><p>� �timo � Brennan murmurou. Ele desprendeu o arco.</p><p>� Ou�am � Fortunato agarrou o bra�o de Mai. � Voc� poderia me ajudar�</p><p>� N�o h� tempo � disse Brennan. � Al�m disso, Mai vai precisar de toda a energia para atravessar essa coisa. E eu tamb�m.</p><p>Fortunato come�ou a dizer algo, mas o som de suc��o, que ficava cada vez mais alto, de repente estava bem acima deles, quando uma massa grotesca verde e amarela de protoplasma rolou por uma curva no corredor tubular diante deles. Tinha uma por��o de ventosas localizadas aleatoriamente sobre um corpo globular que quase preenchia a passagem.</p><p>� Meu Deus! � Fortunato gritou. � Que coisa � aquela?</p><p>Estava grudada no lado do corredor, percorrendo a parede e o ch�o com uma mir�ade de bocas-ventosas rodeadas por centenas de c�lios compridos como p�s.</p><p>� N�o sei e n�o quero descobrir � disse Brennan. � Vamos embora.</p><p>Ele escolheu uma flecha e encaixou-a frouxamente na corda do arco, e come�ou a avan�ar lentamente na dire��o da coisa. Mai e Fortunato seguiram desconfiados. A coisa continuava a rastejar. Os c�lios das bocas voltados para eles tremelicavam com �nsia enquanto passavam, mas a criatura n�o fez um movimento na dire��o dos tr�s.</p><p>Brennan suspirou aliviado.</p><p>O crep�sculo azul fosforescente tingia o ambiente com uma sensa��o de irrealidade desfocada enquanto seguiam pelo corredor para dentro da M�e do Enxame. O ar parado ficava t�o espesso com os odores de seres vivos que lembrou Brennan das selvas do Vietn�. Continuou olhando ao redor, estremecendo com o nervosismo, sentindo como se estivesse na mira do rifle de um atirador de elite. N�o conseguia se livrar da sensa��o opressiva, nefasta, de estar sendo observado.</p><p>Seguiram pelo corredor ondulante por meia hora em sil�ncio tenso, sempre esperando, mas nunca encarando de verdade um ataque mortal das m�quinas mort�feras da M�e do Enxame. Pararam quando o corredor se bifurcou. Ambos os lados pareciam levar para a dire��o que precisavam ir.</p><p>� Para onde? � Brennan perguntou.</p><p>Fortunato esfregou a testa inchada de forma exausta.</p><p>� Posso ouvir mil pequenos pios. N�o mentes reais, ao menos n�o mentes conscientes, mas o ru�do est� me enlouquecendo. A grande ainda est� adiante, em algum lugar.</p><p>Brennan olhou para Mai. Ela devolveu o olhar, pl�cida, como se disposta a deix�-lo tomar todas as decis�es. Brennan jogou uma moeda na sua mente e o resultado foi cara.</p><p>� Para c� � disse ele, tomando o caminho � direita.</p><p>N�o haviam percorrido cem metros quando Brennan percebeu que algo estava diferente naquele corredor. O ar estava adocidado, quase enjoativo. Era dif�cil de respirar, e ao mesmo tempo era quase intoxicante. O odor crescia quanto mais avan�avam.</p><p>� N�o tenho certeza de que gosto disso � disse ele.</p><p>� Temos escolha? � Mai perguntou.</p><p>Brennan olhou para ela e deu de ombros. Continuaram, viraram numa curva acentuada do corredor, e pararam, encarando a cena diante deles.</p><p>O corredor alargou-se para uns 12 metros de largura. Em ambos os lados, pendurados perto do teto, havia uma por��o de brotos grotescos com membros encolhidos e abdomes imensos, inchados. Mamavam daquilo que pareciam mamilos intumescidos brotando das paredes do corredor.</p><p>Por sua vez, criaturas do Enxame de todos os tamanhos e descri��es estavam em volta de cada um dos brotos pendurados, empurrando-se por um lugar em um dos tubos vazados que pendiam dos seus abdomes inchados. As criaturas do Enxame variavam de seres m�nimos do tamanho de insetos a monstruosidades tentaculares que deviam pesar v�rias toneladas. Eram centenas deles.</p><p>� Parece que est�o se alimentando � Fortunato sussurrou.</p><p>Brennan fez que sim com a cabe�a.</p><p>� N�o podemos atravessar ali. Teremos que voltar e tentar o outro caminho.</p><p>Eles come�aram a voltar pelo corredor e, de repente, pararam quando ouviram um zumbido baixo, como se vindo de um bando de pequenas asas, pairando pelo caminho de onde vieram.</p><p>� Merda � disse Fortunado, sem acreditar. � Estamos presos no meio de uma maldita mudan�a de turno.</p><p>� A primeira criatura do Enxame pela qual passamos nos ignorou � Brennan disse. � Talvez essas ignorem tamb�m.</p><p>Eles se encostaram na parede do corredor � era morna, Brennan achou, e flex�vel ao toque � e ficaram t�o quietos e discretos quanto puderam. E esperaram.</p><p>Um enxame de criaturas insetoides desceu o corredor zumbindo. Tinham de 10 a 15 cent�metros com corpos segmentados e asas grandes e membranosas. Os primeiros passaram por eles e foram direto para a c�mara de alimenta��o, e Brennan pensou que estavam a salvo. Mas ent�o um parou e pousou em Mai. Outro se juntou, e ent�o outro, e outro. Ela olhou para eles calmamente. Um posou no ombro de Brennan. Ele o encarou. As partes da boca consistiam de m�ltiplos sistemas mandibulares. Um conjunto de mand�bulas come�ou a rasgar o tecido da camisa de Brennan, enquanto outro enfiava peda�os da roupa na sua boca pequenina.</p><p>Brennan jogou a coisa no ch�o com nojo e pisou nela. Estalou alto sob seu p�, como uma barata, mas dois j� haviam tomado o lugar no corpo de Brennan. Ele ouviu Fortunato xingar e sabia que estavam rastejando sobre ele tamb�m.</p><p>� Vamos tentar sair do caminho deles � disse bem baixo, mas n�o adiantou. Os insetos seguiam-nos e pousavam nos tr�s em quantidades cada vez maiores.</p><p>� Corram! � Brennan chamou, e dispararam pelo corredor.</p><p>Alguns deles continuaram na dire��o da c�mara de alimenta��o, mas muitos mais os seguiram pelo corredor numa nuvem zumbidora e nervosa. Brennan os estapeava enquanto corria, acertando alguns no ar. Ele batia naqueles que rastejavam sobre ele, mas havia muitos para entrar no lugar daqueles que ele afastava ou esmagava. Cobriam seu rosto e bra�os e ele conseguia sentir milhares de pezinhos caminhando sobre ele. Pareciam estar mais interessados em suas roupas e, mais importante, em seu arco e flechas. Era como se fossem abutres programados para desfazer-se de mat�ria morta. Por�m, aquilo n�o os tornava inofensivos. Brennan sentia suas mand�bulas afiadas rasgarem a carne quase sempre. O zumbir das asas e os estalidos das mand�bulas soavam alto nos ouvidos de Brennan. Eles precisavam se livrar dos bichos.</p><p>Alcan�aram o ponto onde a passagem se dividia em duas, buscando desesperadamente algo, qualquer coisa, que pudesse faz�-los afastar os pequenos abutres. Fortunato correu para a outra ramifica��o do corredor, Brennan e Mai seguiram-no. O corredor estava melado de umidade. A superf�cie era irregular. A umidade ficava represada em po�as rasas que lan�avam um salpicar fino de l�quido quando pisavam nelas. O l�quido era morno e transparente, apesar de turvo. Chapinharam o corredor, e o enxame de insetoides pareceu ficar para tr�s. Fortunato trope�ou numa po�a rasa que havia se formado em uma das depress�es mais fundas, e rolou e rolou, expulsando e esmagando os insetoides que rastejavam sobre ele. Brennan e Mai juntaram-se a ele. Brennan manteve os l�bios fechados bem firmes, mas o l�quido turvo encharcou-o da cabe�a aos p�s. Parecia, e cheirava, a �gua morna com part�culas finas suspensas nela. Brennan n�o tinha nenhum interesse especial em ingeri-la.</p><p>Brennan olhou para os companheiros enquanto se agachavam na po�a rasa. As roupas pareciam ter sido atacadas por uma legi�o de tra�as, e tinham diversos cortes e sulcos, mas nenhum deles parecia muito machucado. O enxame de insetoides persistente pairava sobre a cabe�a deles, zumbindo, o que parecia a Brennan algo irritante.</p><p>� Como nos livramos deles? � ele perguntou, irritado consigo mesmo.</p><p>� Posso ter for�a suficiente para mandar aqueles pequenos desgra�ados para algum lugar � Fortunato falou com esfor�o.</p><p>� N�o sei� � Brennan come�ou e nunca teve chance de terminar.</p><p>A superf�cie embaixo dos p�s deles desapareceu quando um esf�ncter se abriu. Todo o l�quido do corredor correu para baixo e eles foram juntos com ele. Brennan teve tempo de respirar fundo e agarrar o arco. Esticou o bra�o e agarrou Mai pelo tornozelo enquanto ela era sugada para a escurid�o e ele rodopiava atr�s dela, xingando por perder metade das flechas da aljava.</p><p>Havia mais l�quido no corredor do que ele imaginava. Foram pegos num turbilh�o r�pido sem ar para respirar e sem luz para ver. Brennan segurou firme no tornozelo de Mai, lembrando-se do aviso silencioso de Tachyon.</p><p>Eles ca�ram numa c�mara grande, totalmente submersa num buraco cheio de l�quido do tamanho de uma piscina ol�mpica. Brennan e Mai emergiram at� a superf�cie e moviam-se para permanecer em cima, olhando ao redor. Felizmente, essa c�mara era iluminada pela mesma fosforesc�ncia azul que o corredor acima. Fortunato nadou para encontr�-los, lutando contra a corrente que os puxava para a outra ponta da piscina.</p><p>� Que diabos � isso? � Fortunado perguntou.</p><p>Brennan achou que seria dif�cil dar de ombros enquanto se mantinha sobre a �gua.</p><p>� N�o sei. Talvez um reservat�rio? Todas as coisas vivas precisam de �gua para sobreviver.</p><p>� Ao menos aqueles insetos foram embora � disse Fortunato. Ele nadou para a lateral da c�mara, Brennan e Mai o seguiram.</p><p>Eles se esfalfaram para subir a rampa, seguindo lenta e cuidadosamente, pois a superf�cie era �mida e escorregadia. Finalmente sentaram-se, ofegantes, para descansar um momento. Brennan cuidou das mordidas piores dos insetos com bandagens do pequeno kit de primeiros socorros que carregava no cinto.</p><p>� Para onde agora?</p><p>Fortunato fez uma pausa para se orientar e, ent�o, apontou.</p><p>� Para l�.</p><p>Seguiram atrav�s da barriga da fera. Era uma viagem de pesadelo pelo reino estranho de monstruosidades org�nicas. O corredor que seguiram abriu-se em sal�es vastos onde criaturas humanoides choramingavam num idiotismo malformado, penduradas por cord�es umbilicais de tetos pulsantes; levou a galerias onde bolsas de biomassa indistinta tremiam como gelatinas odiosas enquanto esperavam ser esculpidas pela vontade da M�e do Enxame; passaram por c�maras onde monstros de uma centena de formas alien�genas estavam sendo fabricados para o objetivo que apenas a M�e do Enxame conhecia. Alguns desses �ltimos eram desenvolvidos o bastante para terem consci�ncia dos intrusos, mas ainda estavam presos ao corpo da M�e por cord�es umbilicais protoplasm�ticos. Estalavam e roncavam e chiavam enquanto Brennan e os outros passavam, e este foi for�ado a enfiar flechas na cabe�a de algumas criaturas mais insistentes.</p><p>Nem todos tinham as formas n�o humanas dos brotos. Alguns eram humanos na forma e apar�ncia, com rostos humanos. Rostos humanos reconhec�veis. Havia Ronald Reagan com cabelos penteados para tr�s e um brilho nos olhos. Havia Margaret Thatcher, olhando s�ria e inflex�vel. E a cabe�a do Gorbachev, com a marca de nascen�a vermelha e tudo, encaixada na massa de protoplasma tr�mula que era t�o mole e gorda quanto um corpo humano esculpido na massa de p�o.</p><p>� Jesus Cristo � disse Fortunato. � Parece que chegamos bem na hora.</p><p>� Espero que sim � Brennan murmurou.</p><p>O corredor come�ou a se estreitar e eles tiveram de se curvar e, finalmente, se abaixar e engatinhar. Brennan olhou para tr�s, para Fortunato, e o �s acenou com a cabe�a para ele continuar.</p><p>� � ali na frente, posso sentir a pulsa��o: alimentar e crescer, alimentar e crescer.</p><p>A carne das paredes do t�nel era borrachuda e quente. Brennan n�o gostava de toc�-la, mas obrigou-se a continuar. O t�nel estreitou-se at� ficar muito apertado e Brennan perceber que n�o poderia carregar o arco na m�o. Estavam indefesos e adentrando a �rea mais perigosa da M�e do Enxame, seu centro nervoso. Ele se enfiou pela passagem de carne viva por quase cem metros ou mais, Mai e Fortunato seguiam-no, at� por fim ele desembocar num espa�o aberto. Fortunato seguiu e eles ajudaram Mai a sair.</p><p>Olharam ao redor. Era uma c�mara pequena. Mal cabiam os tr�s e o �rg�o grande cinza e rosa com tr�s l�bulos suspenso no meio da c�mara por uma rede de rebentos fibrosos que penetravam no ch�o, teto e paredes.</p><p>� � isso � Fortunato resmungou com voz exausta. � O centro nervoso da M�e do Enxame. Seu c�rebro ou n�cleo ou seja l� o que voc�s chamam isso.</p><p>Ele e Brennan viraram-se para Mai. Ela deu um passo � frente e Brennan tomou seu bra�o.</p><p>� Mate-a � ele encorajou. � Mate-a e vamos dar o fora daqui.</p><p>Ela olhou para ele, tranquila. Conseguia ver seu pr�prio reflexo nos olhos grandes e negros dele.</p><p>� Sabe que eu jurei nunca ferir outro ser consciente? � ela disse num murm�rio.</p><p>� Ficou louca? � Fortunato gritou. � O que viemos fazer aqui ent�o?</p><p>Brennan soltou o bra�o de Mai e ela caminhou em dire��o ao �rg�o suspenso na rede de fibras nervosas. Fortunato olhou para Brennan.</p><p>� Essa vadia � louca?</p><p>Brennan balan�ou a cabe�a, incapaz de falar, sabendo que ele estava perdendo outro. N�o importava o que viesse, estava perdendo outro.</p><p>Mai abriu caminho nos rebentos e pousou as m�os contra a carne da M�e do Enxame. Seu sangue come�ou a fluir para o �rg�o da criatura alien�gena.</p><p>� O que ela est� fazendo? � Fortunato perguntou, preso entre o medo, a raiva e o espanto.</p><p>� Fundindo-se.</p><p>O t�nel estreito que levava at� o lugar sagrado da M�e do Enxame come�ou a se dilatar. Brennan virou-se para encarar a abertura.</p><p>� O que est� acontecendo?</p><p>Brennan encaixou uma flecha na corda do arco.</p><p>� A M�e do Enxame est� resistindo � disse ele, e apagou o ambiente, apagou Fortunato, apagou at� mesmo Mai de sua mente. Estreitou o foco da exist�ncia, at� a boca do t�nel ser o seu universo. Puxou a corda at� o rosto e ficou ali, t�o tenso e pronto quanto a pr�pria flecha, pronto para atirar-se no cora��o do inimigo.</p><p>As m�quinas assassinas da M�e do Enxame, com suas garras nas m�os e nos p�s, transbordaram da abertura. Brennan atirou. As m�os moviam-se sem dire��o consciente, sacando, puxando, atirando. Corpos empilhavam-se ao lado da boca do t�nel e eram afastados pelas criaturas que tentavam abrir caminho para entrar e pelos estouros das flechas explosivas. O tempo parou de fluir. Nada importava al�m da perfeita coordena��o entre mente, corpo e alvo, nascido da uni�o da carne e do esp�rito.</p><p>Pareceu uma eternidade, mas os recursos da M�e do Enxame n�o eram inesgot�veis. As criaturas pararam de chegar quando restavam tr�s flechas para Brennan. Ele encarou o corredor por mais de um minuto antes de perceber que n�o havia mais alvos em vista, e abaixou o arco.</p><p>As costas lhe do�am e os bra�os queimavam como se estivessem em chamas. Olhou para Fortunato. O �s o encarava, sacudindo a cabe�a, sem palavras. A consci�ncia de Brennan retornou do lago onde seu treinamento zen a havia mergulhado.</p><p>Um movimento repentino chamou sua aten��o e ele se virou. Sua m�o chegou � aljava no cinto, mas parou antes de puxar uma flecha. Havia tr�s formas, tamanho de homem, forma de homem, na boca do t�nel. Uma sensa��o de deslocamento varreu Brennan como um vento frio e ele baixou o arco. Ele os reconheceu.</p><p>� Gulgowski? Mendoza? Minh?</p><p>Ele avan�ou como se estivesse num sonho quando eles pisaram sobre os corpos estourados dos brotos, vindo para encontr�-lo. Brennan estava atordoado, arrebatado entre a felicidade e a descren�a.</p><p>� Sabia que voc� viria � Minh, o pai de Mai, disse. � Sabia que nos resgataria de Kien.</p><p>Brennan meneou a cabe�a. Um sentimento de exaust�o imensa o tomou. Sentiu como se o c�rebro estivesse isolado do restante do corpo, como se de alguma forma estivesse envolto em camadas de algod�o. Deveria saber desde o in�cio que Kien estava por tr�s do Enxame. Ele deveria saber.</p><p>Gulgowski ergueu a pasta que carregava.</p><p>� Conseguimos aqui as provas para condenar o desgra�ado, Capit�o. Venha at� aqui, d� uma olhada.</p><p>Brennan baixou o arco, avan�ou para olhar dentro da pasta que Gulgowski estendia, ignorando os gritos atr�s dele, ignorando o rugido explosivo que reverberava pelo corredor.</p><p>Gulgowski, segurando a pasta na dire��o dele, cambaleou. Brennan olhou para ele. Era estranho. Tinha apenas um olho. O outro fora atingido e dele escorria um fluido verde e grosso lentamente pela bochecha. Mas estava tudo bem. Brennan parecia lembrar-se de que Gulgowski havia tomado um tiro na cabe�a antes e sobrevivido. Estava ali, no fim das contas. Olhou para a pasta. A al�a fundiu-se � carne da m�o de Gulgowski. Eram uma coisa s�. A boca da pasta tinha fileiras de dentes afiados. Arremessou-se contra ele, os dentes estalando.</p><p>Sentiu um choque repentino, como se algo se jogasse contra seus joelhos por tr�s. Caiu com o rosto no ch�o da c�mara, sentindo seu calor pulsante, e olhou para tr�s, incomodado.</p><p>Fortunato havia dado um carrinho nele. O �s soltou Brennan, ajoelhou-se e sacou a pistola novamente. Brennan olhou para seus homens. Fortunato arrancou partes deles � bala, um peda�o de rosto aqui, um naco de bra�o ali. Fortunato xingava num fluxo cont�nuo enquanto atirava, e os homens de Brennan morreram novamente.</p><p>Brennan sentiu uma onda de �dio tremenda. Ergueu-se um pouco e fechou os olhos. O rugir da pistola parou quando Fortunato ejetou o clipe vazio, mas o fedor de p�lvora estava no ar, o estampido da pistola em seus ouvidos, e o cheiro quente e �mido da selva no nariz. Ele abriu os olhos novamente.</p><p>Caricaturas medonhas de homens, rostos e corpos perfurados pelos tiros, gotejando a secre��o verde, sacudiam-se na dire��o dele. N�o eram seus homens. Mendoza morrera num ataque ao quartel-general dos vietcongues. Gulgowski fora assassinado por Kien por �ltimo naquela noite. E Minh fora morto anos depois pelos homens de Kien em Nova York.</p><p>Embora seu c�rebro ainda estivesse enevoado, Brennan tomou o arco e lan�ou a �ltima flecha explosiva nos simulacros. Acertou a caricatura de Minh e explodiu, espalhando peda�os de biomassa para todos os lados. O coice derrubou Brennan e destruiu os outros simulacros tamb�m.</p><p>Brennan respirou profundamente e limpou a gosma e o protoplasma esmagado do rosto.</p><p>� A M�e do Enxame pegou as imagens do seu c�rebro � disse Fortunato. � As outras coisas estavam apenas ganhando tempo para poder preparar aqueles bonecos de cera ambulantes.</p><p>Brennan concordou com a cabe�a, a express�o s�ria e determinada. Virou-se para Fortunato e olhou para Mai.</p><p>Ela quase havia desaparecido, quase coberta pela carne cinza e rosa do ser alien�gena. Seu rosto estava pressionado contra o �rg�o pulsante e metade do rosto que Brennan podia ver estava intocado. Os olhos estavam abertos e claros.</p><p>� Mai?</p><p>Os olhos viraram-se, rastreando o som da voz, e se concentraram nele. Os l�bios se moveram.</p><p>� T�o imenso � ela sussurrou. � T�o assombroso e imenso.</p><p>A luz da c�mara diminuiu por um instante, voltando em seguida.</p><p>� N�o � Mai murmurou. � N�o faremos isso. Existe um ser consciente na nave. E a nave em si � um ser vivo tamb�m.</p><p>O ch�o da c�mara tremeu, mas a luz permaneceu. Mai falou novamente, mais para si mesma do que para Brennan ou Fortunato.</p><p>� Ter vivido tanto tempo sem pensamento� ter mantido tanto poder sem consequ�ncia� ter viajado de t�o longe e visto tanto sem realiza��o� isso vai mudar� tudo muda�</p><p>Os olhos voltaram-se novamente para Brennan. Havia reconhecimento nele que enfraquecia quando ela falava.</p><p>� N�o chore, Capit�o. Uma de n�s precisou se entregar para salvar o planeta. A outra desistiu da ra�a para salvar� quem sabe o qu�? Talvez, algum dia, o universo. N�o fique triste. Lembre-se de n�s quando olhar para o c�u � noite, e saiba que estamos entre as estrelas, tentando, ponderando, descobrindo, pensando em inumer�veis coisas extraordin�rias.</p><p>Brennan piscou para expulsar as l�grimas quando o olho no rosto de Mai se fechou.</p><p>� Adeus, Capit�o.</p><p>O deslocador de singularidade come�ou a lan�ar fa�scas. Fortunato tirou a mochila das costas. Olhou para ela, pasmo.</p><p>� N�o estou fazendo isso. Ela� a coisa�</p><p>Eles voltaram para a ponte de comando da nave de Tachyon. Os tr�s homens olharam-se.</p><p>� Conseguiram? � Tachyon perguntou ap�s um momento.</p><p>� Ah, sim, cara � Fortunato disse, despencando numa almofada pr�xima. � Ah, sim.</p><p>� Onde est� Mai?</p><p>Brennan sentiu uma estocada de �dio perfur�-lo como uma faca.</p><p>� Voc�s a deixaram ir � ele xingou, dando um passo na dire��o de Tachyon, as m�os cerradas em punhos tr�mulos. Mas os olhos diziam quem ele realmente culpava pela perda de Mai. Estremeceu como um c�o se livrando da �gua, ent�o afastou-se de uma vez. Tachyon encarou-o, ent�o voltou-se para Fortunato.</p><p>� Vamos para casa � Fortunato disse.</p><p>Mais tarde, Brennan lembrou-se das palavras de Mai, e perguntou-se quais filosofias, quais dom�nios de pensamento o esp�rito daquela gentil budista misturado na mente e no corpo da criatura de um poder quase inimagin�vel teceria atrav�s dos s�culos. Mais tarde, ele se lembrou. Mas agora, com a sensa��o de dor e perda t�o familiar quanto seu pr�prio nome, ele n�o sentiu nada daquilo. Sentiu apenas que havia nele uma metade morta.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>Jube: Sete</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>Uma batida na porta. Vestido com bermudas xadrez e uma camiseta dos Brooklyn Dodgers, Jube atravessou com cuidado o por�o e espiou pelo olho m�gico.</p><p>Dr. Tachyon estava na entrada, vestindo um terno de ver�o branco com lapelas largas sobre uma camisa verde-esmeralda. A gravata larga e laranja combinava com o len�o de seda no bolso e a pena de trinta cent�metros no seu chap�u borsalino. Estava segurando uma bola de boliche.</p><p>Jube puxou o pino da trava, tirou a corrente, ergueu o gancho do ferrolho, girou a chave na tranca e apertou o bot�o no meio da ma�aneta. A porta abriu de uma vez. Dr. Tachyon entrou alegremente no apartamento, trocando a bola de boliche de uma das m�os para a outra. Ent�o, rolou-a pelo assoalho da sala de estar. Acabou parando contra a perna do transmissor de t�quions. Tachyon saltou e bateu os calcanhares das botas um contra o outro no ar.</p><p>Jube fechou a porta, apertou o bot�o, girou a chave, baixou o gancho, passou a corrente e apertou o pino da trava antes de se virar.</p><p>O ruivo tirou o chap�u com uma mesura e curvou-se.</p><p>� Dr. Tachyon, ao seu dispor � disse ele.</p><p>Jube fez um som gorgolejante de desalento.</p><p>� Os pr�ncipes takisianos nunca est�o a servi�o de ningu�m � disse ele. � E branco n�o � sua cor. Muito, hum, sem cor. Teve algum problema?</p><p>O homem sentou-se no sof�.</p><p>� Est� gelado aqui � reclamou. � E que cheiro � esse? N�o est� tentando salvar aquele corpo que conseguiu, n�o �?</p><p>� N�o � disse Jube. � � s�, hum, um pouco de carne que apodreceu.</p><p>Os contornos do homem come�aram a estremecer e ficar borrados. Num piscar de olhos, ele cresceu 20 cent�metros e ganhou 22 quilos, o cabelo vermelho ficou longo e cinzento, e os olhos lilases tornaram-se pretos, e uma barba desgrenhada brotou do queixo quadrado.</p><p>Ele travou as m�os em torno do joelho.</p><p>� N�o se preocupe � ele reportou com uma voz muito mais profunda que a de Tachyon. � Fiquei com a apar�ncia de uma aranha com cabe�a humana, e disse a eles que tinha p�s de atleta. Oito deles. Ningu�m al�m de Tachyon encostaria num caso desses, ent�o eles me botaram atr�s de uma cortina e foram busc�-lo. Me transformei na Grande Enfermeira e entrei no banheiro feminino perto do laborat�rio dele. Quando eles mandaram uma mensagem de <emphasis>pager</emphasis> para ele, o doutor foi para o sul e eu fui para o norte, vestindo o rosto dele. Se algu�m procurou nos monitores de seguran�a, viu o Dr. Tachyon entrando no laborat�rio, � isso. � Ele manteve as m�os erguidas, como se avaliasse a situa��o, girando-as para cima e para baixo. � Eu era o sentimento mais estranho. Digo, podia ver minhas m�os enquanto caminhava, juntas inchadas, pelos nas costas dos dedos, unhas sujas. Obviamente, n�o havia qualquer tipo de transforma��o f�sica envolvida. Mas sempre que eu passava num espelho, via quem eu deveria ser, como todo mundo. � Ele deu de ombros. � A bola de boliche estava atr�s de uma divis�ria de vidro. Estavam examinando-a com scanners, equipamentos por controle remoto, raios X, coisas assim. Enfiei a bola debaixo do bra�o e sa� de l�.</p><p>� Eles simplesmente deixaram voc� <emphasis>sair</emphasis>? � Jube n�o conseguia acreditar.</p><p>� Bem, n�o exatamente. Pensei que estava livre, quando o Troll passou e disse tenha uma tarde t�o boa quanto desejar. Eu at� dei um belisc�o numa enfermeira e agi como se estivesse culpado por algo que n�o era minha culpa, ent�o pensei que fosse garantir as coisas para mim. � Ele limpou a garganta. � Ent�o, o elevador chegou ao primeiro andar, e quando eu estava saindo, o verdadeiro Tachyon entrou. Me deu um baita susto.</p><p>Jube co�ou uma presa.</p><p>� O que voc� fez?</p><p>Croyd deu de ombros.</p><p>� O que eu <emphasis>poderia</emphasis> fazer? Estava bem na minha frente, e meu poder n�o o enganou nem por um segundo. Me transformei no Teddy Roosevelt, esperando que pudesse dribl�-lo, e sinceramente desejei estar em outro lugar. De repente, eu estava.</p><p>� Onde? � Jube n�o tinha certeza de que queria mesmo saber.</p><p>� Minha antiga escola � disse Croyd, envergonhado. � Aula de �lgebra do nono ano. Na mesma carteira que estava sentado quando o Jetboy explodiu sobre Manhattan em 1946. Tenho que dizer, n�o me lembro de qualquer das garotas parecendo aquelas de quando eu estava no nono ano. � Ele soou um pouco triste. � Eu teria ficado para a aula, mas causou certa como��o quando Teddy Roosevelt de repente apareceu na sala segurando uma bola de boliche. Ent�o, eu sa� e aqui estou. N�o se preocupe, eu mudei de metr� duas vezes e de corpo quatro vezes. � Ele ficou em p� e se esticou. � Morsa, eu tinha que te falar isso, nunca � tedioso trabalhar para voc�.</p><p>� Eu n�o pago exatamente um sal�rio m�nimo tamb�m � disse Jube.</p><p>� Pois � � Croyd admitiu. � E agora que voc� mencionou isso� j� viu a Veronica? Uma das meninas do Fortunato. Estava a fim de levar ela pro Aces High e ver se conseguia falar pro Hiram servir o <emphasis>carr�</emphasis> de cordeiro.</p><p>Jube tinha as pedras no bolso. Contou-as e entregou-as nas m�os do Dorminhoco.</p><p>� Voc� sabe � Jube falou quando os dedos de Croyd se fecharam sobre o pagamento �, poderia ter ficado com o dispositivo. Talvez conseguisse muito mais de outra pessoa.</p><p>� Isso aqui basta � disse Croyd. � Al�m disso, n�o jogo boliche. Nunca aprendi calcular a pontua��o. Acho que fazem aquilo com �lgebra. � Seus contornos brilharam por um instante, e de repente era o ator Jimmy Cagney l� em p�, vestido com um terno azul-claro vivo com uma flor na lapela. Quando subiu as escadas para a rua, come�ou a assobiar a can��o de um velho musical chamado <emphasis>O rei da zona</emphasis>.</p><p>Jube fechou a porta, apertou o bot�o, girou a chave, baixou o gancho e prendeu a corrente. Quando deslizou o pino da trava, ouviu passos suaves atr�s dele e virou-se.</p><p>Red estava tr�mulo numa camisa havaiana verde e amarela roubada do arm�rio de Jube. Perdera todas as coisas no ataque ao Mosteiro. A camisa era t�o grande que ele parecia um bal�o murcho.</p><p>� Esse � o treco? � ele perguntou.</p><p>� Sim � Jube respondeu. Cruzou a sala e ergueu a esfera preta com rever�ncia cuidadosa. Estava morna.</p><p>Jube estava assistindo � coletiva de imprensa televisionada quando o Dr. Tachyon voltou do espa�o para anunciar que a M�e do Enxame n�o era mais uma amea�a. Tachyon falava com eloqu�ncia e detalhes sobre sua jovem colega Mai e seu grande sacrif�cio, a coragem dela dentro da M�e, sua humanidade altru�sta. Jhubben viu-se mais interessado pelo que o takisiano n�o disse. Minimizou seu papel na quest�o e n�o fez men��o de como Mai entrou na M�e do Enxame para fazer a fus�o da qual ele falava de forma t�o comovente. Os rep�rteres pareciam supor que Tachyon simplesmente voou com a <emphasis>Baby</emphasis> at� a M�e e estacionou nela. Jube sabia que n�o era bem assim.</p><p>Quando o Dorminhoco acordou, decidiu p�r em pr�tica seu plano.</p><p>� Odeio te dizer isso, mas parece uma bola de boliche para mim � disse Red, amig�vel.</p><p>� Com isso, eu poderia enviar as obras completas de Shakespeare para a gal�xia que voc�s chamam de Andr�meda � Jube disse para ele.</p><p>� Camarada � disse Red �, eles apenas mandariam de volta e diriam que n�o estava de acordo com as necessidades atuais.</p><p>Ele estava muito mais em forma agora do que quando apareceu pela primeira vez na soleira da porta de Jube, tr�s semanas depois de os ases destru�rem o novo templo, vestindo um poncho horr�vel comido por tra�as, luvas de trabalho, uma m�scara de esqui e �culos espelhados. Jube n�o o reconheceu at� que ele ergueu os �culos e mostrou a pele vermelha em torno dos olhos. �Me ajude�, ele disse. E, ent�o, desmaiou.</p><p>Jube arrastou-o para dentro e trancou a porta. Red estava abatido e febril. Ap�s fugir do Mosteiro (Jube perdeu a coisa toda, pelo que ficou profundamente agradecido), Red colocou Kim Toy num �nibus de viagem para San Francisco, onde tinha velhos amigos em Chinatown que a esconderiam. Por�m, n�o havia maneira de ir com ela. Sua pele o tornava um alvo f�cil; apenas no Bairro dos Curingas ele poderia permanecer no anonimato. Estava sem dinheiro ap�s dez dias nas ruas e come�ou a comer das latas de lixo atr�s do Hairy�s desde ent�o. Com Roman preso e Matthias morto (liofilizado por algum novo �s cujo nome foi cuidadosamente escondido da imprensa), o restante do c�rculo interno era alvo de uma ca�ada humana por toda a cidade.</p><p>Jube poderia entreg�-lo. Em vez disso, ele o alimentou, lavou e cuidou dele at� ficar novamente saud�vel. D�vidas e temores o consumiam. Algo daquilo que ele aprendeu sobre os ma�ons o chocou, e os maiores segredos a que aludiram eram muito, muito piores. Talvez ele devesse chamar a pol�cia. O capit�o Black ficou espantado com o envolvimento de um dos seus pr�prios homens na conspira��o, e jurou publicamente que prenderia todos os ma�ons no Bairro dos Curingas. Se Red fosse encontrado ali, as coisas ficariam p�ssimas para Jube.</p><p>Por�m, Jube lembrou-se daquela noite na qual ele e 12 outras pessoas foram iniciadas no Mosteiro, lembrou-se da cerim�nia, as m�scaras de falc�o e chacal e o brilho frio de Lorde Amon quando ele se avultou sobre eles, austero e terr�vel. Lembrou-se do som de TIAMAT quando os iniciados disseram a palavra pela primeira vez, e lembrou-se da hist�ria que o Mestre Vener�vel contou para eles sobre as origens sagradas da ordem, de Giuseppe Balsamo, chamado de Cagliostro, e o segredo confiado a ele pelo Irm�o Brilhante numa floresta inglesa.</p><p>Nenhum segredo a mais chegaria naquela noite das noites. Jube era apenas um iniciado de primeiro grau, e as maiores verdades estavam reservadas para o c�rculo interno. Ainda assim, foi o suficiente. Sua suspeita foi confirmada, e quando Red, em seus del�rios, encarava a sala de estar de Jube e gritava <emphasis>Shakti!</emphasis>, ele n�o teve mais d�vida.</p><p>N�o poderia abandonar o ma�om ao destino que merecia. Os pais n�o abandonavam filhos, n�o importasse quanto pudessem crescer depravados e corruptos com o passar dos anos. Os filhos poderiam ser deformados, confusos e ignorantes, mas ainda eram sangue do seu sangue, a �rvore que crescera de sua semente. O professor n�o abandonava o aluno. N�o havia outro; a responsabilidade era dele.</p><p>� Vamos ficar aqui em p� o dia todo? � Red perguntou quando o deslocador de singularidade formigava contra a palma das m�os de Jube. � Ou vamos ver se essa coisa funciona?</p><p>� Desculpe � disse Jube. Erguendo um painel curvo no transmissor de t�quions, ele deslizou o deslocador para o campo de matriz. Ele come�ou a se alimentar da c�lula de fus�o e observou enquanto o fluxo de energia envolveu o deslocador. O fogo de santelmo corria para cima e para baixo pelas estranhas geometrias da m�quina. Os impulsos magn�ticos flutuavam pelas superf�cies de metal brilhantes em um roteiro cheio de pontas que Jube quase havia esquecido, e desapareceram em �ngulos que pareciam curvos de um jeito errado.</p><p>Red teve uma reca�da de catolicismo irland�s e fez o sinal da cruz.</p><p>� Jesus, Maria, Jos� � disse ele.</p><p>Funciona, Jhubben pensou. Ele deveria estar celebrando. Em vez disso, sentia-se fraco e confuso.</p><p>� Preciso de uma bebida � Red falou.</p><p>� Tem uma garrafa de rum encorpado embaixo da pia.</p><p>Red encontrou a garrafa e encheu dois copos com rum e gelo picado. Bebeu o seu de uma vez. Jube sentou-se no sof�, copo na m�o, e encarava o transmissor de t�quions, seu som alto e agudo pouco aud�vel com o ar-condicionado ligado.</p><p>� Morsa � disse Red enquanto enchia o copo novamente �, pensei que voc� fosse um lun�tico. Um lun�tico am�vel, claro, e agrade�o por me trazer para sua casa e tudo o mais, com a pol�cia atr�s de mim do jeito que est�. Mas, quando vi que voc� construiu sua pr�pria m�quina Shakti, bem, quem me culparia por pensar que voc� tinha pouca massa cinzenta? � Ele deu mais gole no rum. � A sua � quatro vezes maior que a do Kafka � ele falou. � Parece um modelo feio. Mas nunca vi a do barata brilhar desse jeito.</p><p>� � maior do que precisa porque constru� com componentes eletr�nicos primitivos � Jube disse para ele e esticou as m�os, tr�s dedos grossos e o ded�o rombudo curvado. � E estas m�os s�o incapazes de fazer um trabalho delicado. O dispositivo no Mosteiro teria acendido se tivesse sido energizado. � Ele olhou para Red. � Como o Vener�vel Mestre planejava fazer isso?</p><p>Red balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o posso te dizer. Claro, e voc� � um pr�ncipe por salvar meu traseiro vermelho, mas ainda � um pr�ncipe de primeiro grau, se � que me entende.</p><p>� Um iniciado de primeiro grau poderia construir uma m�quina Shakti? � Jube perguntou a ele. � Quantos graus voc� passou antes de eles revelarem que o dispositivo existia? � Ele balan�ou a cabe�a. � Tudo bem, eu sei o final da piada. Quantos curingas s�o necess�rios para acender uma l�mpada? Um, contanto que o nariz dele seja de corrente alternada. O Astr�nomo ia energizar a m�quina.</p><p>O olhar no rosto de Red era toda a confirma��o de que Jube precisava.</p><p>� O Shakti de Kafka deveria dar � Ordem o dom�nio sobre a Terra � disse o ma�om.</p><p>� Sim � disse Jube. O Irm�o Brilhante na floresta entregou o segredo a Cagliostro, e disse a ele para mant�-lo seguro, entreg�-lo de gera��o a gera��o at� a chegada da Irm� Obscura. Provavelmente o Irm�o Brilhante deu a Cagliostro outros artefatos; sem d�vida, deu a ele uma fonte de for�a, n�o havia maneira de o carta selvagem takisiano ter sido antecipado dois s�culos antes.</p><p>� Esperto � Jube disse em voz alta �, sim, mas ainda um homem do seu tempo. Primitivo, supersticioso, ganancioso. Usou as coisas que recebeu para ganho pessoal e ego�sta.</p><p>� Quem? � Red perguntou, confuso.</p><p>� Balsamo � Jube respondeu. Balsamo inventou o restante ele mesmo, os mitos eg�pcios, os graus, os rituais. Pegou as coisas que ouvira e distorceu-os em seu pr�prio benef�cio. � O Irm�o Brilhante era um ly�bahr � ele anunciou.</p><p>� O qu�? � Red perguntou.</p><p>� Um ly�bahr � Jube disse. � S�o ciborgues, Red, mais m�quina que carne, extraordinariamente poderosos. Os curingas do espa�o, nenhum deles � parecido, mas voc� n�o gostaria de encontrar um no beco. Alguns dos meus melhores amigos s�o ly�bahres. � Percebeu que estava balbuciando, mas n�o conseguia parar. � Ah, sim, pode ter sido outra esp�cie, talvez um kreg, ou mesmo um do meu povo num traje espacial de metal l�quido. Mas acho que foi um ly�bahr. Sabe por qu�? TIAMAT.</p><p>Red apenas o encarava.</p><p>� TIAMAT � Jhubben repetiu, o jornaleiro desaparecera de sua voz e do comportamento, falando como um cientista da Rede poderia falar. � Uma deidade ass�ria. Eu verifiquei. Ainda assim, por que chamar a Irm� Obscura por aquele nome? Por que n�o Baal ou Dagon, ou uma daquelas divindades inferiores que voc�s, humanos, inventaram? Por que a principal palavra de poder � <emphasis>ass�ria</emphasis>, quando o resto da mitologia que Cagliostro escolheu era eg�pcia?</p><p>� N�o sei � Red falou.</p><p>� Mas eu sei. Porque TIAMAT parece vagamente com algo que o Irm�o Brilhante disse. <emphasis>Thyat M�hruh.</emphasis> Escurid�o-da-ra�a. O termo ly�bar�s para o Enxame. � Jube riu. Contava piadas havia trinta anos, mas ningu�m tinha ouvido sua gargalhada <emphasis>verdadeira</emphasis> antes. Soava como o grito de uma foca. � O Mestre Comerciante nunca daria a voc�s o dom�nio do mundo. N�o entregamos nada de gra�a. Mas ter�amos vendido o mundo para voc�s. Voc�s teriam sido uma elite de altos sacerdotes, com �deuses� que de fato ouviriam e produziriam milagres sob demanda.</p><p>� Voc� � louco, camarada � Red falou com jocosidade for�ada. � O dispositivo Shakti iria�</p><p>� <emphasis>Shakti</emphasis> significa apenas poder � disse Jhubben. � � um transmissor de t�quions e sempre foi. � Ele se ergueu do sof� e bamboleou at� ficar ao lado da m�quina. � Setekh viu isso e me poupou. Pensou que eu fosse um desgarrado, um resto de algum ramo do desdobramento. Provavelmente sentiu que seria inteligente me manter por perto no caso de algo acontecer com Kafka. Ele estaria aqui agora, mas quando TIAMAT voltou para as estrelas, o dispositivo Shakti deve ter parecido algo irrelevante.</p><p>� Claro, e n�o �?</p><p>� N�o. O transmissor foi calibrado. E se eu mandar a chamada, ser� ouvida no posto avan�ado da Rede mais pr�ximo numa quest�o de semanas. Poucos meses depois, a <emphasis>Opportunity</emphasis> chegar�.</p><p>� Que <emphasis>Opportunity</emphasis> � essa, irm�o? � Red perguntou.</p><p>� O Irm�o Brilhante vir� � Jhubben disse a ele. � A carruagem dele � do tamanho da ilha de Manhattan, e os ex�rcitos de anjos e dem�nios e deuses lutam aos seus servi�os. Eles levaram a melhor. Conseguiram contratos vinculativos, todos eles.</p><p>Os olhos de Red se apertaram.</p><p>� Voc� est� me dizendo que n�o acabou � ele quis saber. � Ainda pode acontecer, mesmo sem a Irm� Obscura.</p><p>� Poderia, mas n�o vai � disse Jube.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� N�o pretendo enviar o chamado. � Ele queria fazer Red entender. � Pensei que f�ssemos a cavalaria. Os takisianos usaram sua ra�a como cobaias. Pensei que f�ssemos melhores que isso. N�o somos. N�o v�, Red? <emphasis>Sab�amos que ela estava a caminho</emphasis>. Mas n�o haveria <emphasis>lucro</emphasis> se ela nunca chegasse, e a Rede n�o d� nada de gra�a.</p><p>� Acho que estou entendendo � Red disse. � Ele pegou a garrafa, mas o rum havia acabado. � Preciso de outra bebida. E voc�?</p><p>� N�o � respondeu Jube.</p><p>Red foi at� a cozinha. Jube ouviu-o abrindo e fechando gavetas. Quando voltou, tinha uma grande faca de trinchar na m�o.</p><p>� Mande a mensagem � ele falou.</p><p>� Uma vez, fui ver os Dodgers � Jube lhe disse. Estava cansado e decepcionado. � Tr�s tacadas e voc� est� fora no velho jogo, n�o � isso o que dizem? Os takisianos, minha pr�pria cultura e, agora, a humanidade. Existe algu�m que se importe por qualquer coisa al�m de si mesmo?</p><p>� N�o estou brincando, Morsa � Red falou. � N�o quero fazer isso, meu camarada, mas n�s, irlandeses, somos um bando de camaradas teimosos. Ei, a pol�cia est� <emphasis>ca�ando a gente</emphasis> l� fora. Que tipo de vida � essa para mim e para Kim Toy? Se existe uma escolha entre comer de latas do lixo e dominar o mundo, todas as vezes vou optar pelo mundo. � Ele sacudia a faca de trinchar. � Mande a mensagem. Ent�o, eu largo isso aqui e podemos pedir uma pizza e trocar algumas piadas, ok? Voc� pode pedir carne podre na sua metade.</p><p>Jube p�s a m�o embaixo da camisa e mostrou uma pistola. Era preta, vermelha e transl�cida, suas linhas suaves e sensuais e, ainda assim, inquietantes, seu cano da finura de um l�pis. Pontos de luz piscavam bem dentro dela, e encaixava-se com perfei��o na m�o de Jube.</p><p>� Pare com isso, Red � disse ele. � N�o ser� voc� que dominar� o mundo. Ser� o Astr�nomo, e o Ceifador, ou caras como eles. S�o desgra�ados, voc� mesmo me disse.</p><p>� N�s somos todos desgra�ados � Red lhe disse. � E os irlandeses n�o s�o t�o dur�es como dizem. Essa � uma arma de brinquedo, meu camarada.</p><p>� Dei para o garoto que mora no andar de cima, no Natal � Jube disse. � Seu tutor devolveu. N�o quebraria, sabe, mas o metal era t�o duro que Doughboy estava quebrando tudo na casa quando brincava com ela. Coloquei a c�lula de energia de volta nela, e usava o coldre sempre que ia ao Mosteiro. Fazia com que eu me sentisse um pouco mais corajoso.</p><p>� N�o quero fazer isso � disse Red.</p><p>� Nem eu � Jhubben respondeu.</p><p>Red deu um passo adiante.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>O telefone tocou por muito tempo. Finalmente, algu�m atendeu do outro lado.</p><p>� Al�?</p><p>� Croyd � Jube falou �, desculpe incomod�-lo. � sobre aquele corpo�</p><p><image l:href="#4"/></p></section></body><binary id="cover" 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