<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>sf_fantasy</genre><author><first-name>Robert</first-name><last-name>Jordan</last-name></author><book-title>A ascens�o da Sombra</book-title><date>2015</date><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><src-lang>en</src-lang><translator><first-name>Mariana</first-name><middle-name>Serpa</middle-name><last-name>Vollmer</last-name></translator><sequence name="A Roda do Tempo" number="4"/></title-info><src-title-info><genre>sf_fantasy</genre><author><first-name>Robert</first-name><last-name>Jordan</last-name></author><book-title>The Shadow Rising</book-title><date>1993</date><lang>en</lang></src-title-info><document-info><author><nickname>N/A</nickname></author><date>2015</date><id>C0A0476F-BB7E-408C-A3AD-97829AF07E7F</id><version>1.0</version><program-used>fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used></document-info></description><body><title><p>Robert Jordan</p><p>A ascens�o da Sombra</p></title><epigraph><p>Dedicado a Robert Marks</p><p>Escritor, professor, acad�mico, fil�sofo, amigo e inspira��o.</p></epigraph><section><p>A Sombra h� de se erguer pelo mundo, obscurecendo cada terra, at� os menores rec�nditos, e n�o haver� Luz ou seguran�a. E, segundo a Profecia, aquele que nascer� da Aurora, que nascer� da Donzela, estender� a m�o para capturar a Sombra, e o mundo gritar� a dor da salva��o. Toda a Gl�ria ao Criador, � Luz e �quele que nascer� outra vez. Que a Luz nos proteja dele. (de Coment�rios ao Ciclo de Karaethon Sereine dar Shamelle Motara Irm�-Conselheira de Comaelle, Gr�-rainha de Jaramide, cerca de 325 DR, a Terceira Era)</p></section><section><title><p>1</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Sementes da Sombra</p></title><p>A Roda do Tempo gira, e as Eras v�m e v�o, deixando mem�rias que se transformam em lendas. As lendas se desvanecem em mitos, e at� o mito j� est� h� muito esquecido quando a Era que o viu nascer retorna. Em uma Era, chamada por alguns de a Terceira Era, uma Era ainda por vir, uma Era h� muito passada, um vento se ergueu na grande plan�cie chamada Relvado de Caralain. O vento n�o era o in�cio. O girar da Roda do Tempo n�o tem in�cios nem fins. Mas era <emphasis>um</emphasis> in�cio.</p><p>O vento soprava a norte e a leste sob o sol da manh� que nascia, estendendo-se por infind�veis milhas de terreno gramado e arbustos esparsos, ao longo do ligeiro Rio Luan, e para al�m da presa quebrada do Monte do Drag�o���a lend�ria montanha que se avultava sobre as leves eleva��es da plan�cie, t�o alta que as nuvens a coroavam a menos da metade do pico nebuloso. O Monte do Drag�o, onde o Drag�o morrera���e com ele, diziam alguns, a Era das Lendas���onde, rezava a profecia, ele renasceria. Ou renascera. A norte e leste, cruzando as aldeias de Jualdhe, Darein e Alindaer, onde pontes de pedra trabalhada se arqueavam at� as Muralhas Reluzentes, os gigantescos muros brancos do que muitos chamavam de a maior cidade do mundo. Tar Valon. Uma cidade tocada, todas as noites, pela sombra do Monte do Drag�o.</p><p>No interior daquelas muralhas, as constru��es erguidas pelos Ogier havia mais de dois mil anos pareciam ter brotado direto da terra ou sido formadas pela a��o do vento e da �gua, em vez de feitas pelas lend�rias m�os dos pedreiros Ogier. Algumas tinham forma de p�ssaros al�ando voo ou de imensas conchas de mares distantes. Torres exorbitantes, largas, fin�ssimas ou espiraladas ligavam-se umas �s outras por pontes de centenas de p�s de altura, em geral sem parapeitos. Apenas os que l� viviam havia muito tempo n�o ficavam boquiabertos, embasbacados com a vis�o, como interioranos que jamais sa�ram do campo.</p><p>A Torre Branca, a maior de todas, assomava-se sobre a cidade, reluzente como marfim polido sob o sol. <emphasis>A Roda do Tempo gira ao redor de Tar Valon</emphasis>, dizia o povo da cidade, <emphasis>e Tar Valon gira ao redor da Torre.</emphasis> A primeira vis�o que os viajantes tinham da famosa cidade, antes mesmo de seus cavalos avistarem as pontes ou de os capit�es dos navios vislumbrarem a ilha, era a Torre, refletindo o sol como um farol. N�o era de se admirar que a grande pra�a em torno das muralhas que circundavam a Torre parecesse menor sob aquela vista imponente, e que as pessoas passeando por l� fossem reduzidas a min�sculos insetos. Mas mesmo que fosse a menor torre de Tar Valon, a Torre Branca ainda impressionaria o povo da ilha por ser o cora��o do poder das Aes Sedai.</p><p>Apesar de grande, a multid�o nem chegava perto de encher a pra�a. As pessoas mais afastadas se acotovelavam em uma massa fervilhante que seguia com seus afazeres di�rios, mas pouqu�ssima gente caminhava perto aos muros da Torre, e ao redor da alta muralha branca havia uma faixa de pavimento vazio de cerca de cinquenta passadas de largura. Aes Sedai eram mais que respeitadas em Tar Valon, naturalmente. Era o Trono de Amyrlin que governava a cidade e as Aes Sedai, mas poucos desejavam se aproximar mais do que o necess�rio do poder daquelas mulheres. Havia uma diferen�a entre se envaidecer por causa de uma grande lareira no sal�o de casa e se jogar no meio das chamas.</p><p>Ainda mais raros eram os que chegavam mais perto, indo at� a ampla escadaria que conduzia � Torre em si, ou indo at� as portas com entalhes intrincados, pelas quais podiam passar mais de dez pessoas lado a lado. Essas portas permaneciam abertas e receptivas. Sempre havia quem precisasse de ajuda ou de alguma resposta que julgasse que apenas as Aes Sedai eram capazes de fornecer, e esses vinham tanto de longe quanto de perto, de Arafel e Ghealdan, Saldaea e Illian. No interior dos muros, muitos obtinham ajuda ou orienta��o, embora nem sempre ouvissem exatamente o que esperavam ou ansiavam.</p><p>Min mantinha o largo capuz do manto sobre o rosto, encobrindo-o sob suas sombras. Apesar do dia quente, a pe�a era leve o bastante para n�o atrair coment�rios, n�o em uma mulher cuja timidez era t�o �bvia. Al�m disso, muita gente era tomada pela timidez quando ia para a Torre. Nada na jovem chamava a aten��o. Os cabelos escuros estavam mais compridos do que da �ltima vez que fora � Torre, embora ainda n�o tocassem os ombros. O vestido azul e liso, a n�o ser pelas finas faixas de renda de Jaerecruz nos punhos e pesco�o, poderia muito bem ser da filha de algum fazendeiro pr�spero que pusera sua melhor roupa de festa para ir � Torre, assim como outras mulheres que se aproximavam da ampla escadaria. Min torcia para que essa fosse a impress�o passada, pelo menos. Obrigara-se a parar de olhar as outras mulheres para ver se caminhavam ou se portavam de forma similar. <emphasis>Eu consigo</emphasis>, disse a si mesma. N�o havia chegado at� ali para acabar voltando atr�s. O vestido era um bom disfarce. Aqueles que se lembravam dela na Torre tinham a imagem de uma jovem de cabelos cortados bem curtos, sempre de casaco e cal�as masculinos, nunca de vestido. Tinha que ser um bom disfarce. Ela n�o tinha escolha quanto ao que estava fazendo. N�o muita.</p><p>Quanto mais se aproximava da Torre, mais seu est�mago se embrulhava. Ela apertou a trouxa que trazia junto ao peito. As roupas de sempre estavam ali, e tamb�m as botas boas e todos os seus pertences, exceto o cavalo, que deixara em uma estalagem n�o muito longe da pra�a. Com sorte, estaria de volta em poucas horas para recuperar o cap�o e rumar para a Ponte de Ostrein e para a estrada que levava ao sul.</p><p>N�o estava muito animada para montar um cavalo t�o cedo, n�o depois de passar semanas em cima de uma sela sem nem um dia de descanso, mas ansiava por deixar aquele lugar. Nunca considerara a Torre Branca acolhedora, e, naquele instante, o lugar parecia quase t�o terr�vel quanto a pris�o do Tenebroso em Shayol Ghul. Estremecendo, desejou n�o ter pensado no Tenebroso. <emphasis>Ser� que Moiraine acha que vim aqui s� porque ela pediu? Que a Luz me ajude, agindo feito uma tonta. Fazendo coisas idiotas s� por causa de um homem idiota!</emphasis></p><p>Ela subiu as escadas, desconfort�vel���precisava dar dois passos para atravessar cada um dos enormes degraus���e, ao contr�rio da maioria dos rec�m-chegados, n�o parou para admirar, boquiaberta, toda a brancura da Torre que se avultava. Queria terminar logo com aquilo.</p><p>Do lado de dentro, o sal�o de entrada, imenso e redondo, era quase todo cercado por arcos. Os visitantes se aglomeravam no centro, arrastando os p�s sob um teto em domo sem ornamentos. O ch�o de pedras claras fora gasto e polido pelos in�meros p�s nervosos que haviam passado por ali ao longo dos s�culos. Ningu�m pensava em qualquer coisa que n�o onde estava e por qu�. Um fazendeiro e sua mulher em roupas r�sticas de l�, segurando a m�o calejada um do outro, aguardavam ao lado de uma mercadora em roupas de seda com listras de veludo, com uma servi�al atr�s de si, agarrada a uma caixinha trabalhada em prata, sem d�vida presente de sua senhora para a Torre. Em qualquer outro lugar, a mercadora teria olhado com desprezo para os camponeses que passavam t�o perto, e eles poderiam muito bem ter batido contin�ncia e recuado, desculpando-se. N�o naquele momento. N�o ali.</p><p>Havia poucos homens entre os visitantes que buscavam a ajuda das Aes Sedai, o que n�o era surpresa para Min. A maioria ficava aflita perto delas. Todos sabiam que os Aes Sedai homens, quando ainda existiam, haviam sido os respons�veis pela Ruptura do Mundo. Tr�s mil anos n�o haviam esmaecido aquela lembran�a, ainda que o tempo tivesse alterado muitos detalhes. As crian�as ainda ouviam as hist�rias de terror sobre homens capazes de canalizar o Poder �nico, todos condenados � loucura pela m�cula do Tenebroso em <emphasis>saidin</emphasis>, a metade masculina da Fonte Verdadeira. Pior ainda era a hist�ria de Lews Therin Thelamon, o Drag�o, Lews Therin Fratricida, que dera in�cio � Ruptura. Inclusive, as hist�rias tamb�m assustavam os adultos. A Profecia afirmava que o Drag�o renasceria���no momento de maior necessidade da humanidade���para enfrentar o Tenebroso em Tarmon Gai�don, a �ltima Batalha. Mas isso fazia pouca diferen�a na forma com que a maioria das pessoas encarava qualquer liga��o entre homens e o Poder. Qualquer Aes Sedai ca�aria um homem capaz de canalizar. Das sete Ajahs, a Vermelha fazia um pouco mais do que isso.</p><p>Naturalmente, nada daquilo tinha a ver com ir pedir ajuda �s Aes Sedai, mas poucos homens sentiam-se � vontade em ter qualquer rela��o com elas e com o Poder. Poucos, exceto os Guardi�es. Cada um deles tinha um elo com uma �nica Aes Sedai, e n�o eram considerados homens comuns. Havia um ditado: �Os homens preferem cortar a pr�pria m�o para se livrar de uma farpa a pedir ajuda a uma Aes Sedai.� As mulheres diziam aquilo como uma cr�tica � tola teimosia masculina, mas Min ouvira alguns homens afirmarem que perder a m�o talvez fosse uma decis�o mais s�bia.</p><p>Ela se perguntou o que aquelas pessoas fariam se soubessem o que ela sabia. Fugiriam aos gritos, talvez. E, se soubessem por que motivo estava ali, havia grandes chances de ela n�o sobreviver antes de ser levada pelos guardas da Torre e jogada em uma cela. Ela tinha amigas dentro da Torre, mas ningu�m com poder ou influ�ncia. Se seu objetivo fosse revelado, era muito mais prov�vel que, em vez de ser ajudada pelas amigas, Min acabasse arrastando todas consigo para a forca, ou para o carrasco.</p><p>Obrigou-se a parar de pensar daquela forma. <emphasis>Vou conseguir entrar, depois vou conseguir sair. Que a Luz queime Rand al�Thor por me meter nessa!</emphasis></p><p>Tr�s ou quatro Aceitas, mulheres da idade de Min, talvez um pouco mais velhas, andavam pelo sal�o circular e falavam baixinho com os visitantes. Os vestidos brancos que usavam eram lisos, a n�o ser por sete faixas coloridas na bainha, uma para cada Ajah. Vez ou outra, uma das novi�as���ainda mais jovem e toda de branco���vinha para levar algu�m mais para o interior da Torre, e a pessoa sempre acompanhava as novi�as com uma estranha mistura de entusiasmo e relut�ncia.</p><p>Min apertou ainda mais a trouxa quando uma das Aceitas parou � sua frente.</p><p>��Que a Luz a ilumine���disse a mulher de cabelos cacheados, sem muito entusiasmo.���Meu nome � Faolain. Como a Torre pode ajud�-la?</p><p>O rosto redondo e escuro de Faolain mostrava a paci�ncia de algu�m incumbido de uma tarefa tediosa enquanto preferia estar fazendo qualquer outra coisa. Estudando, provavelmente, pelo que Min sabia das Aceitas. Estudando para ser Aes Sedai. No entanto, o mais importante era a falta do brilho de reconhecimento nos olhos da Aceita. As duas se conheceram quando Min estivera na Torre, mas n�o muito intimamente.</p><p>Mesmo assim, Min baixou a cabe�a em timidez fingida. N�o era incomum, muitos camponeses n�o compreendiam muito bem a enorme diferen�a entre as Aceitas e as Aes Sedai plenas. Escondendo as fei��es por tr�s do manto, ela desviou os olhos de Faolain.</p><p>��Preciso fazer uma pergunta ao Trono de Amyrlin���come�ou, mas parou de falar de repente quando tr�s Aes Sedai pararam para observar o sagu�o, duas abaixo de um dos arcos, uma abaixo de outro.</p><p>Aceitas e novi�as faziam mesuras quando seus caminhos a levavam perto de uma das Aes Sedai, mas do contr�rio seguiam com seus afazeres, no m�ximo com um tantinho mais de vivacidade. S� isso. O mesmo n�o acontecia com os visitantes, que pareciam passar o tempo todo prendendo a respira��o. Longe da Torre Branca e de Tar Valon, teriam apenas o palpite de que as mulheres cuja idade n�o era poss�vel estimar eram Aes Sedai, mulheres no frescor da plenitude, por�m mais maduras do que os rostos suaves sugeriam. Mas na Torre n�o havia d�vidas. Uma mulher que operasse o Poder �nico por um longo per�odo n�o era tocada pelo tempo da mesma forma que as outras. Dentro da Torre, ningu�m precisava ver o anel dourado da Grande Serpente para reconhecer uma Aes Sedai.</p><p>Uma onda de mesuras se espalhou pelo grupo amontoado, os poucos homens presentes se dobraram em rever�ncias. Duas ou tr�s pessoas chegaram a cair de joelhos. A mercadora rica parecia assustada, e o casal de fazendeiros ao seu lado parecia encarar uma lenda que virava realidade. A maioria apenas ouvira boatos sobre como se portar diante de uma Aes Sedai. Era improv�vel que qualquer um ali, exceto os que de fato viviam em Tar Valon, tivesse visto uma delas antes, e era prov�vel que nem mesmo os habitantes da cidade j� houvessem se aproximado tanto de uma.</p><p>Mas n�o foi a presen�a das Aes Sedai que fizeram Min perder a fala. �s vezes, n�o com muita frequ�ncia, ela via coisas ao olhar para as pessoas: imagens e auras que se expandiam e esvaneciam em instantes. �s vezes, sabia o que significavam. Era raro ter essa compreens�o���muito mais raro do que as vis�es, na verdade���mas, quando isso ocorria, nunca falhava.</p><p>Ao contr�rio da maioria, as Aes Sedai e seus Guardi�es sempre exibiam imagens e auras, �s vezes t�o agitadas e dan�antes que deixavam Min tonta. No entanto, a quantidade n�o influenciava a interpreta��o. Ela compreendia o significado das vis�es nas Aes Sedai com a mesma rara frequ�ncia do que nas outras pessoas. Mas dessa vez soube mais do que gostaria, e estremeceu.</p><p>Uma mulher esguia de cabelos negros at� a cintura, a �nica das tr�s que ela reconheceu���chamava-se Ananda e era da Ajah Amarela���exibia uma aur�ola marrom p�lida, murcha e cheia de sulcos apodrecidos cujas bordas desabavam e aumentavam enquanto o material se decompunha. Pelo xale de franjas, dava para ver que a pequena Aes Sedai de cabelos claros ao lado de Ananda pertencia � Ajah Verde. A Chama Branca de Tar Valon estampada no tecido ficou � mostra por um instante, quando ela virou as costas. Em seu ombro, como se aninhado entre as videiras e os ramos floridos de macieira bordados no tecido, jazia um cr�nio humano. Um pequeno cr�nio feminino, oco e muito branco. A terceira, uma mulher bonita e roli�a que j� chegava � metade da volta no sal�o, n�o usava xale. A maioria das Aes Sedai n�o usava, exceto em cerim�nias. O queixo erguido e os ombros empertigados indicavam sua for�a e orgulho. Ela parecia olhar os presentes por tr�s de uma cortina de sangue, os filetes carmesins descendo pelo rosto.</p><p>Sangue, cr�nio e halo esvaneceram na dan�a de imagens ao redor das tr�s, depois surgiram e desapareceram outra vez. Os visitantes as encaravam, estarrecidos, vendo apenas tr�s mulheres capazes de tocar a Fonte Verdadeira e canalizar o Poder �nico. Ningu�m al�m de Min enxergava as outras coisas. Ningu�m al�m de Min sabia que aquelas tr�s mulheres iriam morrer. Todas no mesmo dia.</p><p>��A Amyrlin n�o pode receber a todos���explicou Faolain, mal escondendo a impaci�ncia.���A pr�xima audi�ncia p�blica � daqui a dez dias. Diga o que quer, e vou tentar arrumar uma reuni�o com a irm� que tiver mais condi��es de ajudar.</p><p>Min baixou os olhos para a trouxa em seus bra�os e os manteve ali, em parte para n�o precisar ver aquelas imagens outra vez. <emphasis>Todas elas! Luz!</emphasis> Qual era a probabilidade de tr�s Aes Sedai morrerem no mesmo dia? Mas ela sabia. Sabia.</p><p>��Tenho o direito de falar com o Trono de Amyrlin. Em pessoa.���Embora existisse, era raro aquele direito ser exigido. Quem se atreveria?���Toda mulher tem esse direito, e eu o requisito.</p><p>��Voc� acha que o Trono de Amyrlin em pessoa pode receber todos que v�m � Torre Branca? Sem d�vida alguma outra Aes Sedai poder� ajud�-la.���Faolain enfatizava os t�tulos, como se para deixar Min constrangida.���Agora explique qual � a pergunta. E diga o seu nome, para que a novi�a saiba por quem chamar.</p><p>��Meu nome � Elmindreda.���Min estremeceu sem querer. Sempre odiara seu nome, mas a Amyrlin era uma das poucas pessoas ainda vivas que o conhecia. Se pelo menos ela se lembrasse.���Tenho o direito de falar com a Amyrlin. E minha pergunta � apenas para ela. Tenho esse direito.</p><p>A Aceita arqueou uma sobrancelha.</p><p>��Elmindreda?���Ela contorceu a boca em um sorriso divertido.���E voc� exige seus direitos. Muito bem. Vou avisar � Curadora das Cr�nicas que voc� deseja ver a Amyrlin em pessoa, Elmindreda.</p><p>Min quis dar um tapa na mulher pela forma como ela enfatizou o nome, mas em vez disso respondeu apenas, em um murm�rio for�ado:</p><p>��Obrigada.</p><p>��N�o me agrade�a ainda. N�o tenho d�vidas de que a Curadora levar� horas para responder, e decerto dir� que voc� pode fazer essa pergunta � M�e na pr�xima audi�ncia p�blica. Aguarde com paci�ncia. Elmindreda.</p><p>Ao se virar para sair, ela deu um sorriso falso, quase desdenhoso.</p><p>Rangendo os dentes, Min agarrou a trouxa e foi se encostar na parede entre dois arcos, onde tentou se mesclar � parede de pedra clara e ornamentada. <emphasis>N�o confie em ningu�m e evite ser notada at� encontrar a Amyrlin</emphasis>, dissera Moiraine. Moiraine era a �nica Aes Sedai em quem ela confiava. Na maioria das vezes. De qualquer forma, era um bom conselho. Ela s� precisava chegar at� a Amyrlin, e tudo estaria terminado. Poderia recolocar as pr�prias roupas, rever as amigas e partir. N�o precisaria se esconder.</p><p>Sentiu-se aliviada em notar que as Aes Sedai haviam ido embora. Tr�s daquelas mulheres morrendo no mesmo dia. Era imposs�vel, n�o havia outra palavra. Ainda assim, iria acontecer. Nada que ela fizesse ou dissesse poderia mudar isso���sempre que sabia o significado de uma das vis�es, esta acontecia���mas era preciso contar � Amyrlin a respeito. Talvez fosse t�o importante quanto as not�cias de Moiraine, embora fosse dif�cil acreditar.</p><p>Outra Aceita chegou para substituir Faolain, e Min visualizou barras flutuantes em volta do rosto bochechudo, como uma jaula. Sheriam, a Mestra das Novi�as, olhou para o sal�o. Depois de uma espiadela, Min manteve o olhar fixo � pedra sob seus p�s. Sheriam a conhecia bem demais. O rosto da Aes Sedai ruiva lhe apareceu ferido, cheio de escoria��es. Era apenas a vis�o, naturalmente, mas Min precisou morder o l�bio para sufocar o ru�do de surpresa que quase soltou. Sheriam, com seu ar de autoridade e confian�a inabal�vel, era t�o indestrut�vel quanto a Torre. Nada poderia fazer mal a ela, tinha certeza. Mas algo faria.</p><p>Uma Aes Sedai que Min n�o conhecia, usando o xale da Ajah Marrom, levava � porta uma mulher robusta, vestida em l� vermelha da mais fina urdidura. A mulher caminhava com a leveza de uma garota, o rosto iluminado, quase rindo de satisfa��o. A irm� Marrom tamb�m sorria, mas sua aura era fraca como a chama de uma vela derretida.</p><p>Morte. Ferimentos, cativeiro e morte. Para Min, aquilo era t�o claro que poderia muito bem estar escrito.</p><p>Ela baixou os olhos. N�o queria ver mais nada. <emphasis>Que ela se lembre</emphasis>, pensou. N�o se desesperara em qualquer momento da longa viagem desde as Montanhas da N�voa, nem mesmo nas duas ocasi�es em que tentaram roubar seu cavalo, mas no momento estava desesperada. <emphasis>Luz, permita que ela se lembre do meu maldito nome.</emphasis></p><p>��Senhora Elmindreda?</p><p>Min levou um susto. A novi�a de cabelos negros parada � sua frente mal tinha idade para estar longe de casa, devia ter quinze ou dezesseis anos, mas se esfor�ava para manter a dignidade.</p><p>��Sim? Sou eu� Esse � o meu nome.</p><p>��Sou Sahra. Queira me acompanhar.���A voz aguda da menina adquiriu um tom de assombro.���O Trono de Amyrlin vai receb�-la em seu gabinete.</p><p>Min soltou um suspiro aliviado e seguiu a mo�a, ansiosa.</p><p>O capuz fundo do manto ainda cobria seu rosto, mas n�o a impedia de ver. Quanto mais via, maior a ansiedade por encontrar a Amyrlin. Poucas pessoas percorriam os amplos corredores que subiam em espiral, com o piso de azulejos em cores vivas, tape�arias nas paredes e casti�ais dourados���a Torre fora constru�da para abrigar um n�mero muito maior de pessoas do que havia atualmente���mas quase todos com quem ela cruzava na subida exibiam uma imagem ou aura que indicava viol�ncia e perigo.</p><p>Guardi�es passaram apressados, sem olh�-las, deslocando-se como lobos ca�adores. As espadas que portavam eram apenas uma amostra de quanto eram letais, mas todos pareciam ter rostos ensanguentados e com feridas abertas. Espadas e lan�as dan�avam sobre suas cabe�as, amea�adoras. As auras lampejavam, tempestuosas, tremeluzindo � beira da morte, afiada como uma l�mina. Ela via homens mortos caminhando, e soube que morreriam no mesmo dia que as Aes Sedai do sagu�o de entrada, no m�ximo um dia depois. At� mesmo alguns servos, homens e mulheres ostentando a Chama de Tar Valon no peito, apressados em seus afazeres, exibiam sinais de viol�ncia. Uma Aes Sedai que passava por um corredor lateral parecia envolta em correntes suspensas no ar. Outra, que cruzava o corredor � frente de Min e a guia, nas poucas passadas que deu, aparentava usar uma coleira de prata ao redor do pesco�o. Aquela vis�o fez Min prender a respira��o. Ela quis gritar.</p><p>��A vis�o pode ser muito impressionante para quem nunca esteve aqui���comentou Sahra, n�o conseguindo soar como se a Torre j� lhe fosse corriqueira como a aldeia onde nascera.���Mas aqui voc� est� em seguran�a. O Trono de Amyrlin vai cuidar de tudo.���A voz virou um guincho quando ela mencionou a Amyrlin.</p><p>��Luz, permita que ela fa�a isso���murmurou Min.</p><p>A novi�a lhe lan�ou o que deveria ser um sorriso consolador.</p><p>Quando as duas chegaram ao corredor do gabinete da Amyrlin, o est�mago de Min se revirava, e ela estava quase chutando Sahra nos calcanhares, de t�o depressa que ia. Apenas a necessidade de fingir que era uma estranha a impedia de avan�ar o restante do caminho em uma carreira.</p><p>Uma das portas para os aposentos da Amyrlin se abriu, e um jovem de cabelos louro-acobreados saiu andando a passos largos, quase atropelando Min e sua acompanhante. Ele era alto, forte e empertigado, usando um casaco azul com grossos bordados dourados na manga e na gola. Gawyn da Casa Trakand, filho da Rainha Morgase, de Andor, era o retrato de um jovem lorde orgulhoso. Um jovem lorde furioso. Min n�o teve tempo de baixar a cabe�a, o rapaz j� encarava seu rosto por baixo do capuz.</p><p>Ele arregalou os olhos, surpreso, depois apertou-os em dois filetes de azul g�lido.</p><p>��Ent�o voc� voltou. Sabe aonde foram minha irm� e Egwene?</p><p>��Elas n�o est�o aqui?���Com uma onda de p�nico, Min esqueceu-se de manter a compostura. Antes que percebesse o que fazia, tinha puxado as mangas de Gawyn e o encarava com um olhar premente, for�ando-o a dar um passo para tr�s.���Gawyn, elas vieram para a Torre meses atr�s! Elayne, Egwene e Nynaeve. Com Verin Sedai e� Gawyn, eu� eu�</p><p>��Fique calma���respondeu ele, soltando com delicadeza a m�o que prendia seu casaco.���Luz! N�o queria ter lhe assustado tanto. Elas chegaram em seguran�a. E n�o disseram uma palavra sobre onde estavam, ou por qu�. N�o para mim. Ser� que existe alguma m�sera chance de voc� dizer?���Ela pensou que tinha mantido a express�o impass�vel, mas ele deu uma olhada e continuou:���Imaginei que n�o. Este lugar tem mais segredos que� Elas desapareceram outra vez. E Nynaeve tamb�m.���O nome da antiga Sabedoria veio como uma lembran�a atrasada. Podia at� ser amiga de Min, mas n�o significava nada para ele. A voz do rapaz come�ou a ficar outra vez �cida, mais severa a cada segundo.���E tamb�m sem dizer uma palavra. Nem uma palavra! Elas supostamente est�o em alguma fazenda como castigo por terem fugido, mas n�o consigo descobrir onde. A Amyrlin n�o faz o favor de dar uma resposta direta.</p><p>Min fez uma careta. Por um instante, filetes de sangue seco transformaram o rosto do rapaz em uma m�scara sombria. Ele parecia ter levado um golpe duplo de martelo. Suas amigas tinham ido embora���saber que estariam l� fora era um alento em rela��o a sua ida � Torre���e Gawyn seria ferido no dia da morte das Aes Sedai.</p><p>Apesar de tudo o que vira desde que adentrara a Torre e apesar do medo, nada daquilo a afetara pessoalmente, at� ent�o. O desastre que se abateria sobre a Torre se alastraria, chegando at� bem longe de Tar Valon. Mas ela n�o pertencia � Torre, jamais pertenceria. Gawyn, no entanto, era algu�m que ela conhecia, algu�m de quem gostava. E ele seria mais ferido do que a vis�o de sangue professava, seus ferimentos iriam al�m da carne. Foi ent�o que Min se deu conta de que, se uma cat�strofe assolasse a Torre, n�o seriam apenas as Aes Sedai desconhecidas, mulheres de quem ela nunca se sentira pr�xima, que seriam feridas. Suas amigas tamb�m entrariam no meio. Elas <emphasis>pertenciam</emphasis> � Torre.</p><p>De certa forma, Min se sentia feliz por Egwene e as outras n�o estarem l�, feliz por n�o poder olhar para elas e ver poss�veis sinais de morte. Mas queria ver seus rostos, s� para ter certeza, olhar para as amigas e n�o ver nada, ou ver que viveriam. Pela Luz, onde elas estavam? Por que haviam partido? Conhecendo aquelas tr�s, achava que, se Gawyn n�o sabia onde estavam, era poss�vel que elas n�o quisessem que ele soubesse. Poderia ser isso.</p><p>De s�bito, ela lembrou onde estava e por qu�, e tamb�m que n�o estava sozinha com Gawyn. Sahra parecia ter se esquecido de que estava levando Min � Amyrlin. S� tinha olhos para o jovem lorde, para quem lan�ava olhares apaixonados que n�o eram notados. Ainda assim, n�o havia motivo para Min continuar fingindo ser uma estranha na Torre. Estava diante da porta da Amyrlin, nada mais poderia impedi-la.</p><p>��Gawyn, n�o sei onde elas est�o, mas, se estiverem mesmo cumprindo pena em uma fazenda, devem estar suadas e cobertas de lama at� os quadris. Nesse caso, voc� vai ser a �ltima pessoa que elas v�o querer que as veja.���Na verdade, n�o se sentia muito mais confort�vel do que Gawyn em rela��o � aus�ncia das tr�s. Muita coisa acontecera, muita coisa estava acontecendo, e muitas delas pareciam ligadas �s tr�s. Mas n�o era imposs�vel que suas amigas estivessem sendo castigadas.���E voc� n�o vai ajud�-las se deixar a Amyrlin irritada.</p><p>��N�o sei se elas <emphasis>est�o</emphasis> em uma fazenda. N�o sei nem mesmo se est�o vivas. Por que tanto disfarce e dissimula��o se elas estiverem apenas colhendo ervas? Se acontecer alguma coisa com a minha irm� Ou com Egwene����Ele franziu o rosto, olhando para as botas.���� meu dever cuidar de Elayne. Como vou proteg�-la se nem sei onde ela est�?</p><p>Min suspirou.</p><p>��Voc� acha que ela precisa de prote��o? Acha que alguma delas precisa?���Se a Amyrlin as tivesse enviado em alguma miss�o, talvez precisassem. A Amyrlin era capaz de mandar uma mulher ao covil de um urso armada apenas de uma vareta, se isso servisse a seus prop�sitos. E ainda esperaria que a mulher retornasse com o couro do urso, ou o pr�prio animal acorrentado, conforme suas instru��es. No entanto, dizer isso a Gawyn s� o deixaria mais exaltado e preocupado.���Gawyn, elas t�m um compromisso com a Torre. N�o v�o gostar se voc� se intrometer.</p><p>��Sei que Elayne n�o � mais crian�a���respondeu ele, com paci�ncia.���Apesar de ela n�o se decidir se quer fugir como se ainda fosse ou se prefere brincar de ser Aes Sedai. Mas ela � <emphasis>minha irm�</emphasis> e, mais do que isso, � a Filha-herdeira de Andor. Depois da minha m�e, ser� Rainha. Andor precisa dela s� e salva para subir ao trono, n�o de outra Sucess�o.</p><p><emphasis>Brincar</emphasis> de ser Aes Sedai? Parecia que ele n�o tinha percebido o talento da irm�. Desde os prim�rdios da cria��o de Andor, as Filhas-herdeiras eram enviadas para receber treinamento na Torre, mas Elayne era a primeira com potencial suficiente para ser elevada a Aes Sedai, e uma Aes Sedai poderosa. Era prov�vel que ele n�o soubesse que Egwene tinha a mesma for�a.</p><p>��Ent�o quer dizer que voc� vai proteg�-la, queira ela ou n�o?���Min fez a pergunta com uma voz impass�vel, tentando indicar que o rapaz estava cometendo um erro, mas ele assentiu, sem perceber a advert�ncia.</p><p>��Esse � o meu dever desde o dia que ela nasceu. Meu sangue deve ser derramado antes do dela, minha vida deve ser entregue antes da dela. Fiz esse juramento quando ainda n�o tinha tamanho nem para enxerg�-la no ber�o. Gareth Bryne teve que explicar o que as palavras significavam. N�o vou quebr�-lo agora. Andor precisa dela mais do que de mim.</p><p>Ele falava com uma certeza tranquila, com a aceita��o de algo correto e natural, o que provocou arrepios em Min. Sempre tinha considerado Gawyn um pouco infantil, risonho e implicante, mas ele parecia diferente. Ela achou que o Criador devia estar cansado quando chegara a hora de fazer os homens. �s vezes eles mal pareciam humanos.</p><p>��E Egwene? Qual foi o juramento que voc� fez em rela��o a ela?</p><p>Ele n�o alterou a express�o, mas remexeu os p�s, receoso.</p><p>��Estou preocupado com Egwene, � claro. E com Nynaeve. Elayne pode sofrer o mesmo que suas companheiras. Imagino que as tr�s ainda estejam juntas. Quando <emphasis>ainda</emphasis> estavam aqui, era raro ver uma sem as outras.</p><p>��Minha m�e sempre disse para me casar com um p�ssimo mentiroso, e voc� se qualifica para o posto. S� que eu acho que algu�m j� tem a prefer�ncia.</p><p>��Algumas coisas j� foram tra�adas���respondeu ele, muito calmo���outras n�o tem muita chance de acontecer. Galad est� arrasado com a partida de Egwene.</p><p>Galad era meio-irm�o de Gawyn. Os dois haviam sido enviados a Tar Valon para treinar com os Guardi�es. Era outra tradi��o andoriana. Na opini�o de Min, Galadedrid Damodred era um homem t�o correto que isso chegava a ser um defeito, mas Gawyn n�o via nada de errado com o meio-irm�o. E n�o revelaria seus sentimentos a uma mulher por quem Galad estivesse apaixonado.</p><p>Ela queria sacudi-lo e enfiar algum ju�zo em sua cabe�a, mas n�o havia tempo. N�o quando a Amyrlin esperava, n�o com o que ela tinha para dizer � Amyrlin. E certamente n�o com Sahra parada ali, independentemente de ela estar babando por ele.</p><p>��Gawyn, fui chamada pela Amyrlin. Onde posso lhe encontrar, depois que ela terminar de falar comigo?</p><p>��Estarei no p�tio de treinamento. A �nica coisa capaz de me desviar das preocupa��es � dar uns golpes de espada com Hammar.���Hammar era um mestre espadachim, o Guardi�o instrutor.���Fico l� at� o p�r do sol, quase todos os dias.</p><p>��Muito bem. Vou para l� assim que der. E tente tomar cuidado com o que diz. Se a Amyrlin ficar irritada com voc�, Elayne e Egwene tamb�m v�o ficar.</p><p>��Isso eu j� n�o posso prometer���retrucou ele, com firmeza.���Tem algo errado no mundo. Uma guerra civil em Cairhien. O mesmo, ou at� pior, em Tarabon e Arad Doman. Falsos Drag�es. Problemas e rumores de problemas por toda a parte. N�o digo que a Torre est� por tr�s disso tudo, mas nem mesmo aqui as coisas est�o como deveriam. Ou como parecem. O sumi�o de Elayne e Egwene n�o � tudo. Mesmo assim, � a parte que me preocupa. <emphasis>Vou</emphasis> descobrir onde elas est�o. E, se estiverem machucadas� se estiverem mortas�</p><p>Ele fechou a cara, e, por um instante, seu rosto se transformou outra vez naquela m�scara de sangue. E mais: uma espada flutuava por cima de sua cabe�a, um estandarte tremulando ao fundo. A espada tinha o cabo longo, como a maioria das que eram usadas pelos Guardi�es, al�m de uma gar�a gravada na l�mina ligeiramente curva. Min n�o sabia se ela pertencia a Gawyn, ou se era uma amea�a. O estandarte ostentava o s�mbolo de Gawyn, o Javali Branco em disparada, s� que em um campo verde, em vez do vermelho de Andor. A espada e o estandarte sumiram junto com o sangue.</p><p>��Tome cuidado, Gawyn.���O que ela falava tinha um duplo sentido: o rapaz devia tomar cuidado com o que dizia, mas tamb�m precisava tomar cuidado com algo que Min n�o conseguia explicar nem a si mesma.���Voc� precisa tomar muito cuidado.</p><p>Os olhos do rapaz a perscrutaram, como se ele tivesse captado um pouco do significado mais profundo.</p><p>��Eu� vou tentar���disse, por fim. Ent�o escancarou um sorriso, quase igual ao que ela se lembrava de ver em seu rosto, mas o esfor�o para mant�-lo era evidente.���Acho melhor eu voltar para o p�tio de treinamento, se quiser me manter � altura de Galad. Consegui ganhar duas vezes de Hammar nas cinco disputas de hoje de manh�, mas Galad ganhou tr�s da �ltima vez que se deu ao trabalho de aparecer por l�.���De s�bito, ele pareceu v�-la pela primeira vez, e o largo sorriso tornou-se genu�no.���Voc� deveria usar vestidos mais vezes. Fica muito bem assim. N�o esque�a: vou ficar l� at� o sol se p�r.</p><p>Enquanto ele se afastava, quase com a gra�a mortal de um Guardi�o, Min percebeu que alisava o vestido por cima dos quadris. Parou na mesma hora. <emphasis>Que a Luz queime todos os homens!</emphasis></p><p>Sahra soltou um suspiro, como se tivesse passado o tempo todo prendendo a respira��o.</p><p>��Ele � muito bonito, n�o �?���perguntou, imersa em devaneios.���N�o t�o bonito quanto Lorde Galad, � claro. E voc�s se conhecem bem.���A frase sa�ra quase como pergunta, mas era metade afirma��o.</p><p>Min reproduziu o suspiro da jovem. A garota falaria com as amigas no alojamento das novi�as. O filho de uma rainha era assunto comum no mundo das fofocas, ainda mais se fosse bonito e se portasse como um her�i dos contos dos menestr�is. Uma mulher estranha s� abria espa�o para especula��es interessantes. Mas ela n�o podia fazer nada. De qualquer modo, a essa altura, especula��es n�o causariam mal algum.</p><p>��O Trono de Amyrlin deve estar se perguntando por que ainda n�o chegamos���comentou.</p><p>Sahra voltou a si com um olhar assustado e engoliu em seco. Agarrou a manga de Min e deu um pulo para abrir uma das portas, puxando a visitante atr�s de si. No instante em que as duas entraram, a novi�a se curvou em uma r�pida mesura e gritou, em p�nico:</p><p>��Trouxe a mo�a, Leane Sedai. A senhora Elmindreda? O Trono de Amyrlin queria v�-la?</p><p>A mulher alta de pele morena que ocupava a antessala usava a estola da Curadora das Cr�nicas, cujo tecido de um palmo de largura era azul, para mostrar de que Ajah ela fora elevada. Com as m�os na cintura, a mulher esperou a novi�a terminar de falar e a dispensou em um tom �spero:</p><p>��J� demorou demais, crian�a. Retorne �s suas tarefas.</p><p>Sahra fez outra mesura e saiu com a mesma ligeireza com que entrara.</p><p>Min continuava encarando o ch�o, o capuz ainda puxado sobre o rosto. O descuido diante de Sahra j� fora terr�vel���pelo menos a novi�a n�o sabia seu nome���mas Leane a conhecia melhor do que qualquer um na Torre, exceto pela Amyrlin. Min tinha certeza de que j� n�o fazia diferen�a, mas, depois do que acontecera no corredor, pretendia seguir as instru��es de Moiraine at� ficar sozinha com a Amyrlin.</p><p>Dessa vez, suas precau��es n�o adiantaram. Leane deu dois passos, puxou o capuz para tr�s e soltou um grunhido, como se tivesse acabado de levar um soco na boca do est�mago. A jovem ergueu a cabe�a e a encarou de volta com uma express�o desafiadora, tentando fingir que n�o tentara passar despercebida. A Curadora tinha cabelos lisos e escuros, apenas um pouco mais compridos que os da pr�pria Min, e a express�o da Aes Sedai era um misto de surpresa e desgosto pela pr�pria surpresa.</p><p>��Ent�o voc� � Elmindreda, n�o �?���inquiriu Leane, com a voz �cida. Ela sempre falava assim.���Devo dizer que fica melhor nesse vestido do que nos� trajes� habituais.</p><p>��� s� Min, Leane Sedai, por gentileza.</p><p>A garota tentou manter o rosto firme, mas era dif�cil n�o olhar feio. A voz da Curadora tra�a seu divertimento. Por que sua m�e tivera de dar � Min justo o nome de uma personagem hist�rica que passava a maior parte do tempo suspirando pelos homens, ou ent�o os inspirando a compor m�sicas sobre seus olhos ou sorriso?</p><p>��Muito bem. Min. N�o vou perguntar onde voc� esteve, nem por que voltou usando um vestido e, pelo que parece, querendo falar com a Amyrlin. N�o agora, pelo menos.���Mas sua express�o indicava que ela pretendia perguntar tudo isso mais tarde e obter respostas.���Suponho que a M�e saiba quem � Elmindreda? � claro. Eu devia ter percebido isso quando ela mandou que voc� entrasse logo e sozinha. S� a Luz sabe por que � que ela aguenta voc�.���Ela se obrigou a parar, fazendo uma careta de preocupa��o.���Qual � o problema, garota? Est� doente?</p><p>Cautelosa, Min deixou o rosto inexpressivo.</p><p>��N�o. N�o, estou bem.���Por um momento, a Curadora a encarara atrav�s de uma m�scara transparente de seu pr�prio rosto, uma m�scara que parecia gritar.���Posso entrar agora, Leane Sedai?</p><p>Leane analisou a mo�a por mais um instante, depois inclinou a cabe�a de um jeito brusco, indicando a c�mara interna.</p><p>��Entre logo.</p><p>O pulo que Min deu para obedec�-la teria satisfeito at� a capataz mais r�gida.</p><p>O gabinete do Trono de Amyrlin fora ocupado por muitas mulheres importantes e poderosas ao longo dos s�culos, e lembretes disso preenchiam o c�modo, desde a comprida lareira de Kandor, no momento apagada, toda de m�rmore dourado, at� as paredes com pain�is de madeira clara raiadas, duras como ferro, entalhadas com imagens de bestas magn�ficas e p�ssaros plumados. Os pain�is haviam sido trazidos das misteriosas terras para al�m do Deserto Aiel havia mais de mil anos, e a lareira tinha o dobro da idade. A pedra vermelha polida no piso viera das Montanhas da N�voa. Compridas janelas em arco levavam a uma varanda. A pedra iridescente que as emoldurava brilhava como p�rola, recuperada dos resqu�cios de uma cidade naufragada no Mar das Tempestades com a Ruptura do Mundo, e ningu�m jamais vira qualquer coisa parecida.</p><p>No entanto, Siuan Sanche, a ocupante atual, era filha de pescadores de Tear, e a mob�lia que escolhera era simples, ainda que bem-acabada e muito lustrosa. A mulher estava sentada em uma cadeira robusta atr�s de uma mesa t�o simples que n�o se destacaria em uma casa de fazenda. A �nica outra cadeira do recinto, t�o humilde quanto a primeira, ficava sempre em um dos cantos, mas no momento diante da mesa, por cima de um tapete taireno pequeno e simples, todo em tons de azul, marrom e dourado. Meia d�zia de livros jaziam abertos nos altos suportes de leitura pela sala. Isso era tudo. Um desenho fora pendurado acima da lareira: pequeninos barcos de pesca navegando por entre juncos nas Garras do Drag�o, como o barco de seu pai.</p><p>� primeira vista, apesar das fei��es pl�cidas de Aes Sedai, a pr�pria Siuan Sanche parecia t�o simples quanto a mob�lia. Tamb�m era robusta, tinha uma beleza mais masculina e o �nico ornamento que usava era a larga estola do Trono de Amyrlin, com uma faixa colorida para cada uma das sete Ajahs. Sua idade era indefinida, assim como a de qualquer Aes Sedai: n�o havia sequer a sombra de um fio grisalho em seus cabelos negros. Mas os penetrantes olhos azuis pareciam n�o tolerar tolices, e o maxilar firme revelava a determina��o da mulher mais jovem a ser escolhida Trono de Amyrlin. Por mais de dez anos, Siuan Sanche fora capaz de convocar governantes e outras pessoas de poder, e todos sempre vinham, por mais que odiassem a Torre Branca e temessem as Aes Sedai.</p><p>Enquanto a Amyrlin dava a volta na mesa, Min depositou a trouxa e come�ou a fazer uma estranha mesura, resmungando entre dentes, irritada por ter de faz�-lo. N�o que desejasse faltar com o respeito���isso sequer passava pela cabe�a de algu�m diante de uma mulher como Siuan Sanche���mas sua rever�ncia costumeira pareceria tola em um vestido, e ela tinha apenas uma leve ideia de como fazer uma mesura.</p><p>Meio agachada, com as saias abertas entre as m�os, ela congelou como um sapo de c�coras. Siuan Sanche estava ali parada, majestosa como qualquer rainha, mas por um instante tamb�m jazia no ch�o, nua. Al�m da aus�ncia de roupas, havia algo de estranho na imagem, que desapareceu antes de Min conseguir entender o qu�. Uma das vis�es mais fortes que j� tivera, e ela n�o fazia ideia de seu significado.</p><p>��Tendo mais vis�es, �?���perguntou a Amyrlin.���Bem, eu com certeza posso fazer bom uso dessa sua habilidade. Poderia ter me valido dela todos os meses em que voc� esteve longe. Mas n�o vamos falar disso. O que est� feito est� feito. H� de ser o que a Roda tecer.���Ela deu um sorriso tenso.���Mas, se fugir de novo, arranco seu couro para fazer luvas. Levante-se, garota. Em um �nico m�s, Leane j� me imp�e formalidades o bastante para durar um ano inteiro de qualquer mulher sensata. N�o tenho tempo para isso. N�o hoje em dia. Agora, o que foi que voc� acabou de ver?</p><p>Min se endireitou devagar. Era um al�vio estar outra vez diante de algu�m que sabia sobre seu dom, mesmo que fosse o Trono de Amyrlin em pessoa. Ela n�o precisava esconder o que via daquela mulher. Longe disso.</p><p>��A senhora estava� A senhora n�o estava usando roupas. Eu� Eu n�o sei o que isso significa, M�e.</p><p>Siuan soltou uma risada curta e desconsolada.</p><p>��Com certeza quer dizer que vou arranjar um amante. Mas tamb�m n�o tenho tempo para isso. N�o h� tempo para paquerar homens quando se est� ocupada tirando �gua do barco com um balde.</p><p>��Pode ser���respondeu Min devagar. Poderia significar aquilo, mas ela duvidava.���Eu simplesmente n�o sei. Mas, M�e, ando vendo coisas desde que cheguei � Torre. Algo ruim vai acontecer, algo terr�vel.</p><p>Ela come�ou a falar com a Aes Sedai no hall de entrada e contou tudo o que vira, bem como o que cada coisa significava, pelo menos quando sabia. Entretanto, omitiu o que Gawyn dissera, ou pelo menos a maior parte: n�o faria sentido mand�-lo n�o irritar a Amyrlin se ela fizesse isso por ele. O restante, revelou da forma sombria como havia visto. Ao trazer tudo � tona e se deparar com as vis�es outra vez, um pouco de seu medo retornou. Antes mesmo de terminar, sua voz falhava.</p><p>A express�o da Amyrlin n�o se alterou.</p><p>��Ent�o voc� falou com o jovem Gawyn���comentou, quando Min terminou o relato.���Bem, acho que posso convenc�-lo a ficar de boca fechada. E, se bem me lembro de Sahra, a garota poderia fazer bom uso de um tempo de trabalho no campo. Ela n�o vai espalhar fofocas enquanto trabalha pesado em uma planta��o.</p><p>��Eu n�o entendo���retrucou Min.���Por que � que Gawyn tem que ficar de boca fechada? A respeito de qu�? N�o contei nada a ele. E Sahra�? M�e, talvez eu n�o esteja sendo muito clara. Aes Sedai e Guardi�es v�o morrer. Isso s� pode significar uma batalha. E, a n�o ser que a senhora envie um monte de Aes Sedai e Guardi�es� e servos, tamb�m vi servos mortos e feridos� A menos que a senhora fa�a isso, a batalha acontecer� aqui! Em Tar Valon!</p><p>��Voc� viu isso?���inquiriu a Amyrlin.���Uma batalha? Enxergou isso com esse seu� dom, ou � apenas suposi��o?</p><p>��O que mais poderia ser? Pelo menos quatro Aes Sedai est�o � beira da morte. M�e, vi apenas nove de voc�s desde que voltei, e quatro v�o morrer! E os Guardi�es� o que mais poderia ser?</p><p>��Mais coisas do que eu gostaria de imaginar���respondeu Siuan, taciturna.���Quando? Quanto tempo temos antes que� <emphasis>isso</emphasis>� aconte�a?</p><p>Min balan�ou a cabe�a.</p><p>��Eu n�o sei. A maior parte ocorrer� em um per�odo de um dia, talvez dois, mas pode ser amanh�, ou daqui a um ano. Ou dez.</p><p>��Vamos rezar para que sejam daqui a dez. Se acontecer amanh�, n�o h� muito que eu possa fazer para impedir.</p><p>Min fez uma careta. Apenas duas Aes Sedai al�m de Siuan Sanche sabiam sobre o que ela era capaz de fazer: Moiraine e Verin Mathwin, que tentara estudar seu dom. Ningu�m entendia mais do que ela como a coisa funcionava, s� sabiam que nada tinha a ver com o Poder. Talvez fosse por isso que apenas Moiraine parecia capaz de aceitar o fato de que, quando Min sabia o que uma vis�o significava, a vis�o acontecia.</p><p>��Talvez sejam os Mantos-brancos, M�e. Eles estavam por toda Alindaer, quando cruzei a ponte.���N�o acreditava que os Filhos da Luz tivessem qualquer coisa a ver com o que estava por vir, mas sentia-se relutante em afirmar no que de fato acreditava. Acreditava, mas n�o sabia. Mesmo assim, era ruim o bastante.</p><p>No entanto, a Amyrlin j� come�ara a balan�ar a cabe�a antes mesmo de ela terminar.</p><p>��Eles tentariam algo se pudessem, n�o tenho d�vidas. Adorariam atacar a Torre. Mas Eamon Valda n�o vai agir sem ordens claras do Senhor Capit�o Comandante, e Pedron Niall n�o vai atacar sem ter certeza de que estamos fragilizadas. Ele conhece nossa for�a bem demais para dar uma de bobo. Os Mantos-brancos agiram dessa forma por mil anos. S�o como l�cios � espreita nos juncos, ansiando por sangue Aes Sedai na �gua. Mas n�s ainda n�o deixamos cair uma gota sequer, nem deixaremos, se eu puder evitar.</p><p>��Mas, se Valda tentasse algo por conta pr�pria�</p><p>Siuan a interrompeu.</p><p>��Ele n�o tem mais de quinhentos homens perto de Tar Valon, garota. Mandou o restante embora semanas atr�s para arrumar problemas em outro canto. As Muralhas Reluzentes resistiram aos Aiel. E a Artur Asa-de-gavi�o. Valda nunca invadiria Tar Valon, a n�o ser que a cidade j� estivesse ruindo por dentro.���Ela prosseguiu, sem alterar o tom:���Voc� quer que eu acredite que o problema partir� dos Mantos-brancos. Por qu�?���N�o havia delicadeza em sua voz.</p><p>��Porque <emphasis>eu</emphasis> quero acreditar nisso���resmungou Min. Ela umedeceu os l�bios e proferiu as palavras que n�o queria dizer.���A coleira prateada que eu vi numa das Aes Sedai. M�e, parecia� Parecia uma das coleiras que� os Seanchan usam para� controlar as mulheres capazes de canalizar.���Sua voz foi morrendo enquanto a boca de Siuan se contorcia de desgosto.</p><p>��Imund�cies���rosnou a Amyrlin.���Al�m disso, a maioria das pessoas n�o acredita em um quarto do que se diz sobre os Seanchan. Mas h� mais riscos com os Mantos-brancos. Se os Seanchan atracarem outra vez por aqui, um pombo vir� me avisar em poucos dias, e Tar Valon fica muito distante do mar. Se eles reaparecerem, receberei muitos avisos. N�o, acho que voc� viu algo muito pior que os Seanchan. Temo que s� possa ser a Ajah Negra. S�o poucas de n�s que sabem a respeito delas, e n�o gosto de pensar no que acontecer� quando a hist�ria se espalhar, mas elas s�o a maior amea�a � Torre, no momento.</p><p>Min percebeu que apertava a saia com tanta for�a que sentia dor na m�o. A boca estava completamente seca. A Torre Branca sempre negara a exist�ncia de uma Ajah oculta, dedicada ao Tenebroso. A melhor maneira de irritar uma Aes Sedai era mencionar uma coisa dessas. O fato de a pr�pria Amyrlin falar sobre a Ajah Negra de forma t�o natural fez Min gelar.</p><p>A Amyrlin prosseguiu, como se n�o tivesse falado nada demais:</p><p>��Bem, voc� n�o viajou at� aqui s� para revelar essas vis�es. Trouxe algum recado de Moiraine? Fiquei sabendo do caos, para dizer o m�nimo, que se espalha de Arad Doman a Tarabon.���De fato, aquilo era o m�nimo: os homens que apoiavam o Drag�o Renascido lutavam contra os que se opunham a ele, e os dois pa�ses haviam entrado em guerra civil ao mesmo tempo em que lutavam entre si pelo dom�nio da Plan�cie de Almoth. O tom de Siuan reduzia tudo aquilo a um detalhe.���Mas j� faz meses que n�o ou�o not�cias de Rand al�Thor. Ele � o foco disso tudo. Onde � que ele est�? O que � que Moiraine o mandou fazer? Sente-se, garota. Sente-se.</p><p>Ela apontou para a cadeira diante da mesa.</p><p>Min se aproximou da cadeira com as pernas bambas e quase desabou nela. <emphasis>A Ajah Negra! Ah, Luz!</emphasis> Aes Sedai deveriam ser representantes da Luz. Ainda que n�o confiasse muito nelas, isso era verdade. As Aes Sedai e todo o poder que tinham eram empenhados em defesa da Luz, combatendo a Sombra. No entanto, isso j� n�o era verdade. Ela mal ouviu a si mesma dizendo:</p><p>��Ele est� indo para Tear.</p><p>��Tear! � <emphasis>Callandor</emphasis>, ent�o. Moiraine quer que ele tire a Espada Que N�o Pode Ser Tocada da Pedra de Tear. Juro que vou pendurar essa mulher no sol e fazer carne-seca com o couro dela! Vou faz�-la desejar ser novi�a outra vez! Ele ainda n�o est� pronto para isso!</p><p>��N�o foi����Min fez uma pausa para limpar a garganta.���N�o foi Moiraine quem mandou. Rand saiu sozinho no meio da noite. Os outros foram atr�s dele, e Moiraine me enviou para avisar � senhora. Pode ser que, a essa altura, eles j� estejam em Tear. At� onde sei, pode ser que ele j� esteja com <emphasis>Callandor</emphasis> nas m�os.</p><p>��Que o queime!���vociferou Siuan.���Ele pode estar morto, a essa altura! Queria que ele jamais tivesse ouvido sequer uma palavra das Profecias do Drag�o. Se eu pudesse impedi-lo de ouvir mais alguma, impediria.</p><p>��Mas ele n�o precisa cumprir as Profecias? N�o estou entendendo.</p><p>A Amyrlin inclinou-se na mesa, exaurida.</p><p>��Como se algu�m entendesse a maioria delas! N�o s�o as Profecias que fazem dele o Drag�o Renascido, basta que ele pr�prio reconhe�a isso. E, se ele foi atr�s de <emphasis>Callandor</emphasis>, deve ter reconhecido. As Profecias servem para anunciar ao mundo quem ele �, para prepar�-lo para o que est� por vir, e tamb�m preparar o mundo. Se Moiraine conseguir manter algum controle sobre ele, vai gui�-lo em dire��o �s Profecias das quais temos certeza, mas s� quando ele estiver pronto para enfrent�-las! No mais, confiamos que o que ele faz seja suficiente. Esperamos. At� onde eu sei, ele j� cumpriu Profecias que nenhum de n�s � capaz de compreender. Queira a Luz que isso seja o bastante.</p><p>��Ent�o voc� quer mesmo control�-lo. Ele disse que voc�s duas tentariam us�-lo, mas � a primeira vez que a ou�o admitir.���Min sentiu um calafrio. Irritada, acrescentou:���Voc�s n�o t�m feito um bom trabalho em rela��o a isso.</p><p>O cansa�o de Siuan pareceu desaparecer de seus ombros. Ela se endireitou e continuou olhando para Min.</p><p>��Seria s�bio da sua parte desejar que consegu�ssemos. Voc� acha que poder�amos simplesmente deixar Rand � solta? Teimoso, cabe�a-dura, destreinado, despreparado, talvez at� come�ando a enlouquecer. Acha que poder�amos confiar a vida dele ao Padr�o, ao seu pr�prio <emphasis>destino</emphasis>, como em alguma hist�ria? Isso n�o � uma hist�ria, e ele n�o � nenhum her�i invenc�vel. Se sua trama for removida do Padr�o, a Roda do Tempo n�o dar� por falta dele, e o Criador n�o far� nenhum milagre para nos salvar. Se Moiraine n�o for capaz de i�ar velas e fre�-lo, ele pode acabar se matando, e o que ser� de n�s? O que ser� do mundo? A pris�o do Tenebroso est� enfraquecendo. Ele <emphasis>vai</emphasis> tocar o mundo outra vez, � apenas quest�o de tempo. Se Rand al�Thor n�o estiver aqui para enfrent�-lo na �ltima Batalha, se esse rapaz tolo e teimoso acabar se matando primeiro, o mundo estar� condenado. A Guerra do Poder acontecer� outra vez, mas sem Lews Therin e seus Cem Companheiros. Depois, fogo e sombras, para sempre.���Ela parou de falar de repente, olhando para o rosto de Min.���Ent�o � assim que o vento sopra, n�o �? Voc� e Rand. N�o esperava por isso.</p><p>Min balan�ou a cabe�a vigorosamente, sentindo as bochechas ficarem vermelhas.</p><p>��� claro que n�o! Eu estava� � a �ltima Batalha. E o Tenebroso. Luz, s� pensar no Tenebroso � solta deve ser o bastante para gelar um Guardi�o. E a Ajah Negra�</p><p>��N�o tente disfar�ar���interrompeu a Amyrlin com rispidez.���Acha que � a primeira vez que eu vejo uma mulher temendo pela vida de seu homem? � melhor voc� admitir logo.</p><p>Min se remexeu na cadeira. Os olhos de Siuan a encaravam, mordazes, astutos e impacientes.</p><p>��Est� bem���murmurou, por fim.���Vou contar tudo � senhora, o que far� muito bem a n�s duas. Da primeira vez que vi Rand, pude enxergar os rostos de tr�s mulheres, e um deles era o meu. Eu nunca vira nada a meu respeito antes, e isso n�o se repetiu, mas na mesma hora soube o significado. Eu me apaixonaria por ele. N�s tr�s nos apaixonar�amos.</p><p>��Tr�s. As outras duas. Quem s�o?</p><p>Min abriu um sorriso amargo.</p><p>��Os rostos estavam emba�ados. N�o sei quem s�o.</p><p>��E nada indica que ele vai corresponder a esse amor?</p><p>��Nada! Ele nunca olhou para mim direito. Acho que me v� como� Como uma <emphasis>irm�</emphasis>. Ent�o n�o pense que pode me usar para segurar as r�deas dele, porque n�o vai funcionar!</p><p>��Mas voc� o ama.</p><p>��Eu n�o tenho escolha.���Min tentou suavizar o tom emburrado da voz.���Tentei tratar essa hist�ria como uma brincadeira, mas j� n�o consigo rir. A senhora pode n�o acreditar em mim, mas quando sei o que uma coisa significa, essa coisa acontece.</p><p>A Amyrlin tamborilou os dedos nos l�bios e observou Min, contemplativa.</p><p>Aquele olhar era preocupante. Min n�o tivera a inten��o de se expor ao rid�culo ou de revelar tanto. N�o contara tudo, mas sabia que, �quela altura, j� deveria ter aprendido a n�o dar qualquer vantagem a uma Aes Sedai, ainda que n�o fosse capaz de entender como ela a usaria. Aes Sedai eram peritas em encontrar usos para as informa��es que tinham.</p><p>��M�e, dei o recado de Moiraine e contei tudo o que sei sobre o significado das minhas vis�es. N�o h� motivo para eu n�o poder vestir minhas roupas e ir embora.</p><p>��Vai para onde?</p><p>��Tear.���Depois de falar com Gawyn, de tentar garantir que ele n�o faria nada est�pido. Desejou ter a coragem de perguntar aonde Egwene e as outras duas tinham ido, mas, se a Amyrlin n�o contara ao irm�o de Elayne, era pouco prov�vel que contasse a ela. E Siuan Sanche ainda tinha aquele peso no olhar.���Ou aonde Rand estiver. Posso estar agindo como uma idiota, mas n�o sou a primeira a fazer isso por um homem.</p><p>��Mas � a primeira a agir como idiota por causa do Drag�o Renascido. Ser� perigoso ficar perto de Rand al�Thor depois que o mundo descobrir quem e o que ele �. E, se ele estiver de posse de <emphasis>Callandor</emphasis>, o mundo muito em breve descobrir�. Metade vai querer mat�-lo de qualquer modo, como se isso pudesse impedir a �ltima Batalha, impedir a liberta��o do Tenebroso. Muitos morrer�o ao lado dele. Pode ser melhor que voc� fique aqui.</p><p>A Amyrlin soava solid�ria, mas Min achou que fosse falso. N�o acreditava que Siuan Sanche fosse capaz de solidariedade.</p><p>��Vou correr o risco, talvez eu possa ajud�-lo. Com as minhas vis�es. N�o � como se a Torre fosse assim t�o mais segura, n�o enquanto ainda houver irm�s Vermelhas por aqui. Quando virem um homem capaz de canalizar, esquecer�o a �ltima Batalha e as Profecias do Drag�o.</p><p>��Muitos outros far�o o mesmo���interrompeu Siuan, calma.���� dif�cil abandonar antigos pontos de vista, para todo mundo, inclusive para as Aes Sedai.</p><p>Min lan�ou um olhar intrigado � mulher. Ela parecia estar tomando seu lado.</p><p>��N�o � segredo que sou amiga de Egwene e Nynaeve, e tamb�m n�o � segredo que elas s�o da mesma aldeia de Rand. Para a Ajah Vermelha, isso j� ser� suficiente. Quando a Torre descobrir o que ele �, provavelmente serei presa no mesmo dia. Assim como Egwene e Nynaeve, se a senhora n�o as tiver escondido em algum lugar.</p><p>��Ent�o voc� n�o pode ser reconhecida. N�o se pega um peixe capaz de ver a rede. Sugiro que deixe de usar os casacos e cal�as por um tempo.���A Amyrlin deu um sorriso que parecia o de um gato para um rato.</p><p>��E qual � o peixe que a senhora espera capturar comigo de isca?���perguntou Min, a voz fraca.</p><p>Achava que sabia e desejou desesperadamente estar errada.</p><p>Seu desejo n�o impediu as palavras da Amyrlin:</p><p>��A Ajah Negra. Treze delas fugiram, mas temo que algumas tenham ficado. N�o sei em quem posso confiar. Por um tempo, n�o confiei em ningu�m. Voc� n�o � Amiga das Trevas, sei disso, e esse seu dom pode ser de alguma ajuda. Na pior das hip�teses, voc� seria apenas mais um par de olhos confi�veis.</p><p>��A senhora estava planejando isso desde a hora em que eu entrei, n�o � mesmo? � por isso que quer manter Gawyn e Sahra quietos.���A raiva crescia dentro de Min como vapor em uma chaleira. A mulher dizia �sapo� e esperava que os outros sa�ssem pulando. E o fato de isso geralmente acontecer s� piorava as coisas. Ela n�o era um sapo, n�o era uma marionete dan�ante.���Foi isso o que a senhora fez com Egwene, Elayne e Nynaeve? Mandou as tr�s atr�s da Ajah Negra? N�o duvido nada!</p><p>��Cuide das suas pr�prias redes, crian�a, e deixe as garotas cuidarem das delas. No que lhe diz respeito, elas est�o cumprindo pena numa fazenda. Fui clara?</p><p>Aquele olhar inabal�vel fez Min se remexer na cadeira. Era f�cil desafiar a Amyrlin���at� ela come�ar a encarar com aqueles olhos azuis, frios e penetrantes.</p><p>��Sim, M�e.���A submiss�o em seu tom de voz lhe causou um certo rancor, mas bastou um olhar para a Amyrlin se convencer a n�o levar aquilo adiante. Ela puxou a l� delicada do vestido.���Acho que n�o vou morrer se usar isso aqui por mais algum tempo.</p><p>De s�bito, Siuan pareceu bem contente. Min sentiu os pelos do pesco�o se eri�arem.</p><p>��Temo que n�o seja suficiente. Min de vestido ainda � Min de vestido, para quem observar com aten��o. N�o d� para voc� passar o tempo todo com o capuz levantado. N�o, � preciso mudar tudo o que for poss�vel. Em primeiro lugar, voc� continuar� a atender por Elmindreda. Afinal de contas, esse � o seu nome.���Min estremeceu.���Seus cabelos est�o quase do tamanho dos de Leane, o que � um bom comprimento para fazer cachos. Quanto ao resto� Eu nunca gostei de rouge, p� e pintura, mas Leane ainda se lembra de como us�-los.</p><p>Os olhos de Min se arregalavam a cada palavra, desde a men��o dos cachos.</p><p>��Ah, n�o���soltou, espantada.</p><p>��Ningu�m vai confundi-la com a Min que usa cal�as depois que Leane transform�-la em uma perfeita Elmindreda.</p><p>��Ah, N�O!</p><p>��Quanto ao motivo pelo qual voc� permanecer� na Torre� precisamos de algo adequado a uma mocinha tola que em nada se parece ou age como Min.���A Amyrlin franziu a testa, pensativa, ignorando os esfor�os de Min para interromp�-la.���Sim. Vou deixar correr a not�cia de que a Senhorita Elmindreda conseguiu encorajar os avan�os de dois pretendentes a tal ponto que precisar� se esconder dos rapazes aqui na Torre at� conseguir decidir qual prefere. Algumas poucas mulheres ainda pedem abrigo todos os anos, e �s vezes por raz�es t�o bobas quanto essa.���Seu rosto ficou s�rio, e os olhos se agu�aram.���Se ainda estiver pensando em Tear, reconsidere. Considere se ser� mais �til a Rand l�, ou aqui. Se a Ajah Negra destruir a Torre, ou pior, tomar o controle, ele perder� at� a pouca ajuda que posso dar. Voc� � uma mulher, ou uma garotinha apaixonada?</p><p>Sem escapat�ria. Min podia ver claramente a corrente em sua perna.</p><p>��A senhora sempre consegue convencer os outros, M�e?</p><p>Dessa vez, o sorriso da Amyrlin saiu ainda mais frio.</p><p>��Quase sempre, crian�a. Quase sempre.</p><empty-line/><p>Mexendo no xale de franjas vermelhas, Elaida encarava, pensativa, a porta do gabinete da Amyrlin, pelo qual as duas jovens haviam desparecido. A novi�a reapareceu quase no mesmo instante, olhou para a Aes Sedai e baliu como uma ovelha assustada. Elaida pensou t�-la reconhecido, embora n�o conseguisse lembrar o nome da garota. Tinha coisas mais importantes a fazer do que ensinar crian�as imprest�veis.</p><p>��Seu nome?</p><p>��Sahra, Elaida Sedai.���A resposta da garota saiu em um guincho aflito. Elaida podia n�o ter interesse nas novi�as, mas as garotas conheciam a Aes Sedai e sua reputa��o.</p><p>Ent�o ela se lembrou da garota. Uma avoada com habilidade med�ocre que jamais teria poder real. Era dif�cil que ela soubesse qualquer coisa al�m do que Elaida j� vira e ouvira���ou que se lembrasse de algo al�m do sorriso de Gawyn, para dizer a verdade. Uma tola. Elaida a dispensou com um gesto.</p><p>A garota se curvou em uma mesura t�o profunda que seu rosto quase tocou os azulejos do ch�o, depois saiu em disparada.</p><p>Elaida n�o a viu partir. A irm� Vermelha j� dera as costas, esquecendo a novi�a. Enquanto seguia pelo corredor, o rosto pl�cido n�o exibia uma linha sequer, mas os pensamentos fervilhavam. Ela sequer notara as servi�ais, novi�as e Aceitas que desviavam de seu caminho, inclinando-se em mesuras ao v�-la passar. Em dado momento, quase trombou com uma irm� Marrom que andava com a cara enfiada em um monte de anota��es. A Marrom roli�a deu um pulo para tr�s, soltando um ganido assustado que Elaida mal ouviu.</p><p>Com ou sem vestido, ela conhecia a jovem que entrara para ver a Amyrlin. Era Min, que, por alguma raz�o misteriosa, passara muito tempo com a Amyrlin na primeira visita que fizera � Torre. Min, muito amiga de Elayne, Egwene e Nynaeve. A Amyrlin estava escondendo o paradeiro daquelas tr�s. Elaida tinha certeza. Todas as informa��es de que estavam cumprindo pena em uma fazenda haviam passado por tr�s ou quatro bocas desde Siuan Sanche, dist�ncia mais do que suficiente para encobrir qualquer mentira. Sem mencionar o fato de que todos os seus consider�veis esfor�os para encontrar essa fazenda haviam sido em v�o.</p><p>��Que a Luz a queime!</p><p>Por um instante, a raiva estampou seu rosto. Ela n�o sabia ao certo se falava de Siuan Sanche ou da Filha-herdeira. Qualquer uma serviria. Uma Aceita esguia ouviu suas palavras e a encarou, t�o branca quanto o vestido que usava. Elaida continuou avan�ando a passos largos, sem nem reparar na jovem.</p><p>Al�m de tudo, estava furiosa por n�o conseguir encontrar Elayne. Ela �s vezes tinha a capacidade de prever eventos futuros. Apesar de fracas e eventuais, as Previs�es ainda eram mais do que qualquer Aes Sedai fizera nesse quesito desde Gitara Moroso, que morrera havia vinte anos. A primeira Previs�o de Elaida���quando ainda era Aceita e j� sabia o bastante para manter a discri��o���fora que a Linhagem Real de Andor seria a chave para derrotar o Tenebroso na �ltima Batalha. Procurara uma posi��o pr�xima de Morgase assim que ficou claro que ela subiria ao Trono, e constru�ra sua influ�ncia com muita paci�ncia, ano ap�s ano. Agora, tanto esfor�o e sacrif�cio���poderia ter sido Amyrlin, se n�o tivesse concentrado todas as energias em Andor���talvez acabassem em nada, pois Elayne estava desparecida.</p><p>Com dificuldade, voltou a pensar no que era importante naquele momento. Egwene e Nynaeve pertenciam � mesma aldeia que aquele rapaz estranho, Rand al�Thor. E Min tamb�m o conhecia, por mais que tivesse tentado esconder o fato. Rand al�Thor estava no centro de tudo.</p><p>Elaida s� vira uma vez o suposto pastor de Dois Rios, distrito de Andor, que tinha fei��es id�nticas �s de um Aiel. A Previs�o viera logo que pusera os olhos no rapaz. Ele era <emphasis>ta�veren</emphasis>, um dos raros indiv�duos que, em vez de serem tecidos no Padr�o conforme a escolha da Roda do Tempo, for�avam o Padr�o a se moldar em torno deles, pelo menos por um tempo. Elaida vira, ao redor de Rand, um turbilh�o de caos, que inclu�a briga e cis�o em Andor e talvez em outros pontos do mundo. Andor precisava ser mantida intacta, n�o importava o que acontecesse. Sua primeira Previs�o a convencera disso.</p><p>Havia mais tramas, o suficiente para capturar Siuan em sua pr�pria rede. Se os rumores fossem verdadeiros, havia tr�s <emphasis>ta�veren</emphasis>, n�o um. Todos da mesma aldeia, o tal Campo de Emond, e todos da mesma idade, o que era estranho o bastante para gerar falat�rio dentro da Torre. Na viagem de Siuan at� Shienar, quase um ano antes, vira a todos e at� falara com eles. Rand al�Thor. Perrin Aybara. Matrim Cauthon. Diziam que era mera coincid�ncia. Apenas um acaso fortuito. Era o que diziam. Os que afirmavam isso n�o sabiam tanto quanto Elaida.</p><p>Quando Elaida viu o jovem, al�Thor estava acompanhado de Moiraine, que o levara embora de sua aldeia. Moiraine o escoltara, junto com os outros dois <emphasis>ta�veren,</emphasis> at� Shienar. Moiraine Damodred, que fora melhor amiga de Siuan Sanche quando as duas eram novi�as. Se Elaida fosse o tipo de pessoa que faz apostas, teria apostado que mais ningu�m na Torre se lembrava daquela amizade. No dia em que as duas foram elevadas a Aes Sedai, no fim da Guerra dos Aiel, Siuan e Moiraine se afastaram e come�aram a se comportar quase como estranhas. Por�m, Elaida fora uma das Aceitas acima delas, quando novi�as. Como bem lembrava, ensinara li��es e punira as duas pela indol�ncia com as tarefas. Mal podia acreditar que a trama das duas tivesse come�ado tanto tempo antes���al�Thor n�o devia ter nascido muito antes disso���mas esse era o �ltimo elo que ligava a todos. Para ela, era o bastante.</p><p>Fosse l� o que Siuan estivesse aprontando, precisava ser impedido. Desordem e caos se multiplicavam por todos os cantos. Era certo que o Tenebroso se libertaria���s� de pensar, Elaida estremeceu e fechou um pouco mais o xale que a envolvia���e a Torre teria de manter dist�ncia das contendas mundanas para conseguir enfrent�-lo. A Torre teria de estar livre para puxar os cord�is que manteriam as na��es unidas, livre dos problemas que Rand al�Thor pudesse causar. De alguma forma, era preciso impedi-lo de destruir Andor.</p><p>Ela n�o contara a ningu�m o que sabia sobre al�Thor. Pretendia lidar com ele sem alarde, se fosse poss�vel. O Sal�o da Torre j� se manifestara a respeito de observar e at� guiar esses <emphasis>ta�veren</emphasis>. Ningu�m concordaria em se livrar deles, nem desse em particular, como era preciso fazer. Pelo bem da Torre. Pelo bem do mundo.</p><p>Ela fez um som com a garganta que soou muito pr�ximo de um rosnado. Siuan sempre fora teimosa, mesmo quando novi�a, sempre se considerara muito importante para a filha de um humilde pescador, mas como ela poderia ser tola a ponto de envolver a Torre naquilo sem informar ao Sal�o? A Amyrlin sabia, tanto quanto qualquer um, o que estava por vir. A �nica forma de tudo piorar seria se�</p><p>Elaida parou de repente, encarando o nada. Seria poss�vel que esse Rand al�Thor fosse capaz de canalizar? Ou que algum dos outros o fizesse? Era mais prov�vel que fosse al�Thor. N�o. Com certeza n�o era isso. Nem mesmo Siuan tocaria um homem desses. Ela n�o poderia.</p><p>��E quem � que sabe o que essa mulher � capaz de fazer?���resmungou.���Ela nunca foi digna de ser Trono de Amyrlin.</p><p>��Falando sozinha, Elaida? Sei que voc�s, Vermelhas, n�o t�m amigos fora da pr�pria Ajah, mas deve haver algu�m de l� com quem voc� possa conversar.</p><p>Elaida virou a cabe�a para responder a Alviarin. A Aes Sedai com pesco�o de cisne a encarou com a frieza insuport�vel que era marca da Ajah Branca. N�o havia muito amor entre Vermelhas e Brancas, havia mil anos as Ajahs ocupavam lados opostos do Sal�o da Torre. As Brancas apoiavam as Azuis, e Siuan fora uma Azul. Mas as Brancas se orgulhavam de sua impass�vel sensatez.</p><p>��Me acompanhe���pediu Elaida.</p><p>Alviarin hesitou antes de se p�r ao lado dela.</p><p>A princ�pio, a irm� Branca arqueou a sobrancelha afrontosa ao que Elaida tinha a dizer em rela��o a Siuan, mas, antes do fim da conversa, j� ostentava o cenho franzido em concentra��o.</p><p>��Voc� n�o tem como provar qualquer coisa� impr�pria���disse, quando Elaida enfim se calou.</p><p>��Por enquanto, n�o���respondeu Elaida, com firmeza.</p><p>Quando Alviarin assentiu, ela se permitiu abrir um sorriso tenso. Era um come�o. De um jeito ou de outro, Siuan seria detida antes de conseguir destruir a Torre.</p><empty-line/><p>Bem escondido entre um grupo de folhas-de-couro acima da margem norte do Rio Taren, Dain Bornhald jogou o manto branco para tr�s, o sol dourado e flamejante estampado no peito, e ergueu o r�gido tubo de couro da luneta at� o olho. Uma nuvem de pequenos picadinhas zuniu ao seu redor, mas ele os ignorou. Na aldeia de Barca do Taren, do outro lado do rio, era poss�vel ver as compridas casas de pedra erguidas sobre funda��es altas, como prote��o contra as cheias que ocorriam toda primavera. Os alde�es, debru�ados nas janelas ou parados no p� das escadas, observavam os trinta cavaleiros de mantos brancos em seus cavalos, em reluzentes placas e malhas. Uma delega��o de homens e mulheres da aldeia estava se reunindo com os cavaleiros. Ou melhor, estavam escutando Jaret Byar, pelo que Bornhald podia ver, o que era muito melhor.</p><p>Bornhald quase podia ouvir a voz do pai. <emphasis>Deixe que eles pensem que h� uma chance, e algum tolo tentar� arriscar. Ent�o haver� mortes, outro tolo tentar� vingar o primeiro e haver� mais mortes. Incuta neles, desde o primeiro momento, o temor � Luz, deixe que saibam que ningu�m ser� ferido se todos seguirem as ordens, ent�o n�o ter� problemas.</emphasis></p><p>Enrijeceu o maxilar ao lembrar do pai, j� morto. Ele faria algo a respeito, e em breve. Estava certo de que apenas Byar sabia por que ele n�o hesitara em aceitar o comando, por que concentrara os esfor�os em um distrito quase esquecido no interior de Andor, e Byar seguraria a l�ngua. O homem se dedicara ao pai de Dain como um sabujo e transferira toda aquela lealdade a ele. Bornhald n�o hesitara em nomear Byar seu segundo em comando quando Eamon Valda lhe concedera a autoridade.</p><p>Byar virou o cavalo e seguiu de volta at� a barca. Na mesma hora, os barqueiros a jogaram no rio e come�aram a pux�-la por pesadas cordas lan�adas sobre a �gua, que flu�a depressa. Byar olhou de relance para os homens na corda. Eles lhe lan�aram um olhar nervoso enquanto cruzavam a barca a passos pesados, depois trotaram de volta para pegar o cabo outra vez. Tudo parecia bem.</p><p>��Lorde Bornhald?</p><p>Bornhald baixou a luneta e virou a cabe�a. O homem de rosto solene que surgira ao seu lado permanecia r�gido, olhando � frente por baixo de um elmo c�nico. Mesmo depois da dif�cil viagem desde Tar Valon���e Bornhald avan�ara cada milha com vigor���a armadura dele brilhava com a mesma intensidade do manto alvo com o raio de sol dourado.</p><p>��Sim, Filho Ivon?</p><p>��O Centuri�o Farran foi quem me enviou, meu senhor. S�o os latoeiros. Ordeith estava falando com tr�s deles, meu senhor, e agora os tr�s desapareceram.</p><p>��Sangue e cinzas!���Bornhald deu meia-volta e retornou para o meio das �rvores a passos pesados, com Ivon atr�s de si.</p><p>Fora do alcance do rio, cavaleiros de mantos brancos aguardavam entre as folhas-de-couro e os pinheiros, as lan�as erguidas com familiaridade displicente, ou descansando os arcos sobre os cepilhos das selas. Os cavalos batiam os cascos e remexiam os rabos com impaci�ncia. Os cavaleiros esperavam de forma um pouco mais impass�vel. N�o seria a primeira vez que cruzariam um rio para adentrar territ�rio estrangeiro, e dessa vez n�o haveria ningu�m para impedi-los.</p><p>Em uma grande clareira depois dos homens montados havia uma caravana dos Tuatha�an, o Povo Errante. Latoeiros. Quase cem carro��es puxados por cavalos, mais casinhas quadradas sobre rodas, formavam uma grotesca mistura de cores em vermelho, verde, amarelo e todos os matizes imagin�veis que apenas os olhos de um latoeiro poderiam apreciar. As roupas daquela gente faziam os carro��es parecerem apagados. Eles permaneciam sentados no ch�o, em grupos, observando os cavaleiros de forma inquieta e ao mesmo tempo estranhamente serena. O choro de uma crian�a logo foi silenciado pela m�e. Ali perto, havia uma pilha de mastins mortos j� rodeada de moscas zunindo. Latoeiros n�o erguiam a m�o nem para defender a si pr�prios, e os c�es n�o eram realmente ferozes, mas Bornhald n�o estava disposto a correr o risco.</p><p>Seis homens era tudo o que julgara necess�rio para vigiar os latoeiros. Mesmo de rostos r�gidos, pareciam acanhados. Ningu�m notara o s�timo homem a cavalo, parado perto dos carro��es. Um homenzinho ossudo e de nariz pronunciado, vestido em um casaco cinza-escuro que, apesar de ser de corte fino, parecia grande demais para ele. Farran, um homem barbado que mais parecia um rochedo, mas de p�s leves, apesar da altura e largura do dono, mantinha os olhos cravados em todos os sete. O centuri�o levou ao peito a m�o protegida por uma manopla, mas deixou que Bornhald falasse.</p><p>��Uma palavra com o senhor, Mestre Ordeith���chamou Bornhald, baixinho. O homem ossudo inclinou a cabe�a, encarando Bornhald por um longo instante antes de descer do cavalo. Farran grunhiu, mas Bornhald manteve a voz baixa.���Tr�s dos latoeiros est�o desaparecidos, Mestre Ordeith. Por acaso o senhor p�s sua pr�pria sugest�o em pr�tica?</p><p>As primeiras palavras que sa�ram da boca de Ordeith, quando viu os latoeiros, haviam sido: �Matem todos. N�o servem para nada.� Bornhald j� matara sua cota de homens, mas jamais com a displic�ncia que o homenzinho demonstrara.</p><p>Ordeith esfregou um dedo no largo nariz.</p><p>��Ora, por que eu os mataria? Ainda mais depois da sua rea��o � mera sugest�o que fiz.���O sotaque de Lugard estava bem forte. Ele ia e vinha sem que o homem parecesse perceber, outra coisa a respeito do sujeito que inquietava Bornhald.</p><p>��Ent�o o senhor permitiu que fugissem, n�o foi?</p><p>��Bem, quanto a isso, levei alguns deles para onde pudesse descobrir o que sabiam. Sem ser interrompido, compreende?</p><p>��E o que eles sabiam? O que de �til, sob a Luz, os latoeiros podem saber?</p><p>��N�o h� como sabermos sem perguntar, n�o � mesmo?���retrucou Ordeith.���N�o machuquei muito nenhum deles. Depois mandei que retornassem aos carro��es. Quem poderia pensar que os tr�s teriam coragem de fugir com tantos dos seus homens por a�?</p><p>Bornhald percebeu que rangia os dentes. A ordem que recebera fora de fazer o melhor tempo poss�vel para chegar at� esse sujeitinho estranho, que teria mais ordens para ele. Bornhald n�o apreciava nenhuma delas, embora as ordens portassem o selo e a assinatura de Pedron Niall, Senhor Capit�o Comandante dos Filhos da Luz.</p><p>Muita coisa ficara sem explica��o, inclusive a posi��o de Ordeith. O homenzinho estava ali para aconselhar Bornhald, e Bornhald deveria cooperar com ele. Por�m, era pouco claro se Ordeith estava sob seu comando, e ele n�o apreciava a insinua��o de que deveria seguir os conselhos do sujeito. At� mesmo o motivo de enviar tantos Filhos �quele fim de mundo era vago. Descobrir Amigos das Trevas, naturalmente, e espalhar a Luz. Isso n�o era necess�rio dizer. No entanto, havia quase meia legi�o em solo andoriano sem permiss�o���o comando correria um risco enorme se a informa��o chegasse � Rainha, em Caemlyn. Era coisa demais para valer a pena, considerando as poucas respostas que Bornhald recebera.</p><p>Tudo sempre voltava a Ordeith. Bornhald n�o entendia como o Senhor Capit�o Comandante podia confiar naquele sujeito cheio de sorrisos dissimulados, mau humor e encaradas arrogantes, que nunca deixavam claro com que tipo de homem se estava lidando. Sem mencionar o sotaque, que mudava bem no meio da frase. Os cinquenta Filhos que acompanhavam Ordeith eram os mais rabugentos e carrancudos que Bornhald j� vira. Imaginou que o homenzinho devia t�-los escolhido a dedo, e a sele��o de tipos t�o soturnos revelava algo sobre o pr�prio homem. At� seu nome era amargo: Ordeith significava �amargura�, na L�ngua Antiga. Ainda assim, Bornhald tinha as pr�prias raz�es para querer estar onde estava. Cooperaria com o homem, j� que era obrigado. Mas apenas o m�nimo necess�rio.</p><p>��Mestre Ordeith���disse, com uma firmeza cautelosa���esta barca � o �nico meio de entrada e sa�da do distrito de Dois Rios.���Aquilo n�o era bem verdade. Segundo o mapa que trazia, n�o havia outra forma de cruzar o Taren, e os limites superiores do Manetherendrelle, que margeavam a regi�o ao sul, n�o tinham vaus. A leste, havia lama�ais e p�ntanos. Mesmo assim, deveria haver uma sa�da a oeste, cruzando as Montanhas da N�voa, embora o mapa terminasse na borda do trajeto. S� que seria uma travessia dif�cil, na melhor das hip�teses, e muitos de seus homens talvez n�o sobrevivessem, e ele n�o queria que Ordeith soubesse que havia essa possibilidade, mesmo que pequena.���Quando for a hora de partir, o senhor seguir� com os primeiros a cruzarem se eu vir algum soldado andoriano guardando esta margem. O senhor vai achar bem interessante ver em primeira m�o a dificuldade de abrir caminho por um rio dessa largura, n�o � mesmo?</p><p>��Este � seu primeiro comando, n�o �?���A voz de Ordeith tinha um tom de zombaria.���Isto aqui pode fazer parte de Andor no mapa, mas h� gera��es que Caemlyn n�o manda um coletor de impostos t�o longe a oeste. Mesmo que abram o bico, quem � que acreditar� em tr�s latoeiros? Se o senhor pensa que o risco � muito grande, lembre-se do selo que est� sob suas ordens.</p><p>Farran olhou para Bornhald, a m�o j� indo em dire��o � espada. Bornhald balan�ou a cabe�a de leve, e Farran deixou a m�o cair.</p><p>��Quero cruzar o rio, Mestre Ordeith. E cruzarei, mesmo que a pr�xima not�cia que receber for a de que Gareth Bryne e a Guarda da Rainha chegar�o aqui ao p�r do sol.</p><p>��� claro���retrucou Ordeith, parecendo tranquilo de repente.���Haver� tanta gl�ria aqui quanto em Tar Valon, eu garanto.���Os olhos profundos e escuros do homem encararam a algo a dist�ncia, vitrificados.���Tamb�m h� coisas que eu quero, em Tar Valon.</p><p>Bornhald balan�ou a cabe�a. <emphasis>E eu ainda tenho que cooperar com ele.</emphasis></p><p>Jaret Byar se aprumou e desceu de sua sela ao lado de Farran. T�o alto quanto o centuri�o, Byar era um homem de rosto comprido e olhos fundos e escuros. Parecia n�o haver um grama de gordura em seu corpo.</p><p>��A aldeia est� segura, meu senhor. Lucellin est� tomando precau��es para que ningu�m escape. Os alde�es quase borraram nas cal�as quando mencionei Amigos das Trevas. N�o h� nenhum na aldeia, pelo que disseram. E contaram que o povo mais ao sul simpatizava com eles.</p><p>��Mais ao sul, �?���retrucou Bornhald, bruscamente.���Veremos. Ponha trezentos para cruzar o rio, Byar. Farran vai primeiro. O resto segue depois que os latoeiros cruzarem. E certifique-se de que ningu�m mais fuja, est� bem?</p><p>��Vamos esquadrinhar Dois Rios���interrompeu Ordeith. O rosto estreito estava franzido, e bolhas de saliva saltavam dos l�bios.���Vamos fustig�-los, a�oit�-los e queimar suas almas! Eu prometi a ele! Ele vir� a mim, agora! Vir�!</p><p>Bornhald assentiu para que Byar e Farran executassem suas ordens. � um <emphasis>louco</emphasis>, pensou. <emphasis>O Senhor Capit�o Comandante me juntou a um homem louco. Mas pelo menos encontrarei o caminho at� Perrin de Dois Rios. Vingarei meu pai, custe o que custar!</emphasis></p><empty-line/><p>De um terra�o em colunata no topo de uma colina, a Gr�-lady Suroth observava o vale da Enseada de Cantorin, amplo e irregular vale da Enseada de Cantorin. As laterais raspadas de sua cabe�a formavam uma grande crista de cabelos negros, que ca�a por suas costas. Ela repousava as m�os com delicadeza em uma balaustrada de pedras lisas, t�o brancas quanto o vestido imaculado com centenas de pregas. O tamborilar distra�do de seus dedos de unhas compridas���as duas primeiras de cada m�o pintadas de azul���produziam leves cliques ritmados.</p><p>Uma leve brisa soprou no Oceano de Aryth, carregando em seu frescor mais do que um tra�o de sal. Duas mo�as ajoelhadas, encostadas na parede atr�s da Gr�-lady, mantinham a postos leques de plumas brancas, caso a brisa falhasse. Duas outras mulheres e quatro rapazes completavam a fileira de figuras acocoradas, prontas para servi-la. Descal�os, todos os oito usavam robes finos, para agradar os sentidos est�ticos da Gr�-lady com os contornos harmoniosos de seus membros e a gra�a de seus movimentos. No momento, Suroth reparava tanto nos servos quanto algu�m era capaz de reparar em mob�lias.</p><p>Entretanto, observava os seis Guardas da Morte em cada um dos cantos da colunata, rijos como est�tuas, as lan�as ornadas com borlas negras e os escudos esmaltados de preto. Simbolizavam o triunfo e o perigo dela. A Guarda da Morte servia apenas � Imperatriz e a seus representantes escolhidos, e mataria ou morreria com o mesmo fervor, caso fosse necess�rio. Havia um ditado: �Nas alturas, os caminhos s�o pavimentados de adagas.�</p><p>Ela tamborilava as unhas na balaustrada de pedra. Como era fino o fio da navalha por que caminhava.</p><p>Embarca��es dos Atha�an Miere, o Povo do Mar, enchiam a enseada interna atr�s do quebra-mar. At� a mais larga delas parecia estreita em rela��o ao comprimento. A posi��o dos an�is para cordames fazia as vergas e retrancas parecerem se inclinar em �ngulos estranhos. Os deques estavam vazios, e as tripula��es na costa montando guarda, assim como qualquer um daquelas ilhas que tivesse habilidade para velejar em alto mar. Havia in�meros navios Seanchan, imensos e de proa larga, ancorados na entrada da enseada exterior. Um, com as velas estriadas infladas ao vento, escoltava um grupo de barquinhos de pesca de volta ao porto da ilha. Se a menor embarca��o se dispersasse, alguns poderiam fugir, mas o navio Seanchan transportava uma <emphasis>damane</emphasis>, e a demonstra��o do poder de uma <emphasis>damane</emphasis> sufocava qualquer pensamento desse tipo. O navio do Povo do Mar ainda jazia em um atoleiro perto da entrada da enseada, mais parecendo um trambolho chamuscado.</p><p>Suroth n�o sabia por quanto tempo conseguiria evitar que o Povo do Mar dos outros cantos���e os malditos homens do continente���soubesse que possu�a aquelas ilhas. <emphasis>Terei tempo suficiente</emphasis>, disse a si mesma. <emphasis>Preciso ter tempo suficiente.</emphasis></p><p>Operara um milagre ao reunir a maioria das for�as Seanchan depois do fracasso a que o Gr�o-lorde Turak as conduzira. Apenas algumas das embarca��es que escaparam de Falme estava sob seu controle, e nenhuma questionava seu direito de comandar <emphasis>Hailene</emphasis>, os Predecessores. Se o milagre se mantivesse, ningu�m no continente suspeitaria de que estavam ali. Esperando para recuperar as terras que a Imperatriz os enviara para reivindicar, esperando <emphasis>Corenne</emphasis>, o Retorno. Seus agentes j� haviam explorado o caminho. N�o havia necessidade de retornar � Corte das Nove Luas e pedir desculpas � Imperatriz por uma falha que sequer fora dela.</p><p>A ideia de ter que pedir desculpas � Imperatriz a fez estremecer. Esse tipo de coisa era sempre humilhante, e costumava ser bem dolorosa, mas o que a fez estremecer foi a possibilidade de a morte lhe ser negada no fim, de ser for�ada a seguir em frente como se nada tivesse acontecido, enquanto todos, plebeus ou do Sangue, saberiam de sua degrada��o. Um belo jovem servi�al surgiu a seu lado, trazendo um robe verde-claro trabalhado em brilhantes plumagens de p�ssaros-deleite. Ela estendeu os bra�os para pegar a vestimenta, dando ao homem a mesma aten��o que daria a uma sujeirinha em sua sapatilha de veludo.</p><p>Para escapar daquelas desculpas, teria de tomar de volta o que fora perdido mil anos antes. E, para isso, teria de lidar com aquele homem que, segundo informa��es de seus agentes do continente, alegava ser o Drag�o Renascido. <emphasis>Se eu n�o encontrar uma forma de lidar com ele, o descontentamento da Imperatriz ser� o menor dos meus problemas.</emphasis></p><p>Virando-se com delicadeza, ela adentrou o amplo sal�o que fronteava o terra�o, a parede externa toda de portas e janelas altas, para captar a brisa. A madeira p�lida das paredes, macia e brilhosa como cetim a agradava. Mas ela removera as mob�lias do antigo dono, o Atha�an Miere ex-governador de Cantorin, e as substituiu por algumas telas compridas, a maioria com retratos de p�ssaros ou flores. Duas eram diferentes. Uma exibia um grande gato malhado do Sen T�jore, uma fera do tamanho de um p�nei. A outra, uma �guia negra da montanha, o topete ereto como uma coroa clara, as asas de pontas brancas abertas em toda a extens�o de sete p�s. Tais telas eram consideradas vulgares, mas Suroth gostava de animais. Incapaz de transportar os seus pelo Oceano de Aryth, mandara fazer as telas para representar os dois favoritos. Nunca aceitara muito bem que algo lhe fosse recusado.</p><p>Tr�s mulheres a aguardavam da mesma forma que as deixara: duas ajoelhadas e uma prostrada no ch�o vazio e polido, revestido com tacos de madeira clara e escura. As mulheres ajoelhadas usavam os vestidos azul-escuros de <emphasis>sul�dam</emphasis>, pain�is vermelhos com raios bifurcados cor de prata bordados no peito e nas laterais das saias. Uma das duas, Alwhin, uma mulher de rosto fino e olhos azuis que emanava um brilho cont�nuo, tinha o lado esquerdo da cabe�a raspado. O restante dos cabelos pendia por sobre o ombro em uma tran�a castanho-clara.</p><p>Suroth contraiu os l�bios por um breve instante ao notar a presen�a de Alwhin. Nunca houvera uma <emphasis>sul�dam</emphasis> elevada a <emphasis>so�jhin</emphasis>, os servi�ais superiores heredit�rios do Sangue, muito menos a uma Voz do Sangue. Ainda assim, no caso de Alwhin, havia motivos. Alwhin sabia demais.</p><p>De todo modo, a aten��o de Suroth estava voltada para a mulher prostrada com o rosto virado para o ch�o, toda vestida de cinza-escuro. O largo colar de metal prateado que circundava seu pesco�o era unido por uma corrente a um bracelete do mesmo material no pulso da segunda <emphasis>sul�dam</emphasis>, Taisa. Com a coleira e a corrente, o <emphasis>a�dam</emphasis>, Taisa controlava a mulher de vestido cinza. E ela tinha de ser controlada. Era <emphasis>damane</emphasis>, uma mulher capaz de canalizar, o que quer dizer que era perigosa demais para andar � solta. As lembran�as dos Ex�rcitos da Noite ainda eram fortes na mem�ria dos Seanchan, mesmo mil anos depois de sua destrui��o.</p><p>Os olhos de Suroth passaram, desconfort�veis, para as duas outras mulheres. N�o confiava em nenhuma <emphasis>sul�dam</emphasis>, mas n�o tinha escolha. Ningu�m mais era capaz de controlar as <emphasis>damane</emphasis>, e, sem as <emphasis>damane</emphasis>� a ideia era inconceb�vel. O poder dos Seanchan, todo o poder do Trono de Cristal, era decorrente do controle das <emphasis>damane</emphasis>. Para Suroth, havia coisas demais sobre as quais ela n�o tinha escolha. Como Alwhin, que a observava como se tivesse sido <emphasis>so�jhin</emphasis> a vida inteira. N�o. Como se ela fosse do Sangue e estivesse ajoelhada por vontade pr�pria.</p><p>��Pura.���A <emphasis>damane</emphasis> tivera outro nome quando era uma das odiosas Aes Sedai, antes de cair nas m�os dos Seanchan, mas Suroth n�o sabia que nome era, nem se importava. A mulher de vestido cinza ficou tensa, mas n�o ergueu a cabe�a. Trein�-la fora especialmente dif�cil.���Vou perguntar outra vez, Pura. Como a Torre Branca controla este homem que se denomina o Drag�o Renascido?</p><p>A <emphasis>damane</emphasis> moveu a cabe�a um mil�metro, o bastante para olhar assustada para Taisa. Se a resposta fosse desagrad�vel, a <emphasis>sul�dam</emphasis> poderia faz�-la sentir dor sem sequer levantar um dedo, por meio do <emphasis>a�dam</emphasis>.</p><p>��A Torre n�o tentaria controlar um falso Drag�o, Gr�-lady���respondeu Pura, ofegante.���Iria captur�-lo e amans�-lo.</p><p>Taisa lan�ou um olhar indagativo e ultrajado � Gr�-lady. A resposta desviara-se do inqu�rito de Suroth, talvez at� insinuara que algu�m do Sangue dissera uma mentira. Suroth balan�ou a cabe�a de leve, um simples movimento de esguelha���n�o queria esperar a <emphasis>damane</emphasis> se recuperar da puni��o���e Taisa inclinou a cabe�a, aquiescendo.</p><p>��Vou repetir, Pura, o que � que voc� sabe sobre essas Aes Sedai����Suroth contorceu a boca ao polu�-la com aquele nome. Alwhin soltou um grunhido de nojo.���Essas Aes Sedai estarem ajudando este homem? Estou avisando. Em Falme, nossos soldados enfrentaram mulheres da Torre, mulheres capazes de canalizar o Poder, ent�o n�o tente negar.</p><p>��Pura� Pura n�o sabe, Gr�-lady.���Havia urg�ncia e incerteza na voz da <emphasis>damane</emphasis>. Ela lan�ou � Taisa outro olhar arregalado. Era claro o seu desespero para que acreditassem no que dizia.���Talvez� Talvez a Amyrlin, ou o Sal�o da Torre� N�o, eles n�o fariam isso. Pura n�o sabe, Gr�-lady.</p><p>��O homem pode canalizar���retrucou Suroth, asperamente. A mulher no ch�o soltou um gemido, embora j� tivesse ouvido aquelas mesmas palavras da Gr�-lady. Repeti-las fez o est�mago de Suroth se revirar, mas ela n�o permitiu que o rosto revelasse como se sentia. Pouco do que acontecera em Falme fora obra de mulheres capazes de canalizar. <emphasis>Damane</emphasis> sentiam isso, e as <emphasis>sul�dam</emphasis> que usavam o bracelete sempre sabiam o que suas <emphasis>damane</emphasis> sentiam. O que significava que s� podia ter sido obra daquele homem. Tamb�m significava que ele era incrivelmente poderoso. T�o poderoso que Suroth j� se pegara imaginando, uma ou duas vezes, sempre com enjoo crescente, se ele de fato seria o Drag�o Renascido. N�o pode ser, disse a si mesma, com firmeza. De qualquer forma, n�o fazia diferen�a para seus planos.���� imposs�vel acreditar que at� mesmo a Torre Branca permitiria que um homem desses andasse � solta. Como � que elas o controlam?</p><p>A <emphasis>damane</emphasis> permaneceu ali, em sil�ncio, o rosto voltado para o ch�o, os ombros tr�mulos, solu�ante.</p><p>��Responda � Gr�-lady!���ordenou Taisa, com rispidez.</p><p>A <emphasis>sul�dam</emphasis> n�o se mexeu, mas Pura ofegou e se encolheu, como se tivesse recebido uma pancada no quadril. Um golpe dado por meio do <emphasis>a�dam</emphasis>.</p><p>��P-Pura n�o s-sabe.���A <emphasis>damane</emphasis> estendeu a m�o, hesitante, como se quisesse tocar o p� de Suroth.���Por favor. Pura aprendeu a obedecer. Pura fala somente a verdade. Por favor, n�o castigue Pura.</p><p>Suroth deu um passo atr�s, pl�cida, sem deixar transparecer a irrita��o por ser for�ada por uma <emphasis>damane</emphasis> a se deslocar, por quase ser tocada por uma mulher capaz de canalizar. Sentia necessidade de tomar banho, como se o toque de fato tivesse acontecido.</p><p>Taisa arregalou os olhos escuros, indignada com a afronta da <emphasis>damane</emphasis>. Suas bochechas estavam vermelhas de vergonha por ver aquilo acontecer enquanto portava o bracelete da mulher. Parecia dividida entre jogar-se ao lado da <emphasis>damane</emphasis> para implorar por perd�o e punir a mulher ali mesmo, naquele instante. Alwhin a encarou com desprezo, os l�bios apertados, cada linha do rosto afirmando que tais coisas n�o ocorriam quando ela portava o bracelete.</p><p>Suroth ergueu um dedo apenas um mil�metro e fez um pequeno gesto que toda <emphasis>so�jhin</emphasis> conhecia desde a inf�ncia, um gesto simples de dispensa.</p><p>Alwhin hesitou ao interpretar o gesto, ent�o tentou cobrir seu lapso voltando-se duramente contra Taisa.</p><p>��Tire essa� Essa criatura da frente da Gr�-lady. E, depois que a punir, v� at� Surela e diga a ela que controla seus fardos como se nunca tivesse usado o bracelete. Diga a ela que dever� ser�</p><p>Suroth calou a voz de Alwhin em sua mente. N�o dera qualquer ordem al�m da dispensa, mas a briga entre <emphasis>sul�dam</emphasis> era insignificante. Desejou saber se Pura estava tentando esconder alguma coisa. Seus agentes haviam informado que as mulheres da Torre Branca n�o podiam mentir. N�o fora poss�vel for�ar Pura a contar uma mentira sequer, como dizer que um cachecol branco era preto, mas isso ainda n�o era o bastante para tirar qualquer conclus�o. Alguns poderiam aceitar as l�grimas da <emphasis>damane</emphasis>, os protestos de inaptid�o, independente do que a <emphasis>sul�dam</emphasis> fizesse, mas nenhum desses seria escolhido para comandar o Retorno. Talvez ainda restasse alguma reserva de vontade �quela mulher, talvez ela fosse esperta o suficiente para tentar se valer da cren�a de ser incapaz de mentir. Nenhuma encolarada no continente era confi�vel e obediente, n�o como as <emphasis>damane</emphasis> trazidas pelos Seanchan. Nenhuma de fato aceitava o que era, como as <emphasis>damane</emphasis> dos Seanchan. Quem saberia dizer que segredos uma mulher que se denominava Aes Sedai seria capaz de guardar?</p><p>N�o pela primeira vez, Suroth desejou possuir a outra Aes Sedai capturada na Ponta de Toman. Com duas para interrogar, teria mais chances de pescar mentiras e evasivas. Era um desejo in�til. A outra poderia muito bem estar morta, afogada no mar, ou exposta na Corte das Nove Luas. Alguns dos navios que Suroth falhara em reunir decerto haviam conseguido retornar pelo oceano, e um deles poderia muito bem estar levando a mulher.</p><p>Ela mesma enviara um navio com relat�rios produzidos com muito cuidado, quase meio ano antes, assim que se estabilizara no comando dos Predecessores. O capit�o e a tripula��o vinham de fam�lias que serviam � dela desde que Luthair Paendrag se proclamara Imperador, quase mil anos antes. Despachar o navio fora uma aposta que Suroth fizera, pois a Imperatriz poderia mandar algu�m de volta para tomar seu lugar. No entanto, n�o despach�-lo teria sido uma aposta ainda maior: apenas uma vit�ria completa e esmagadora poderia t�-la salvado. Talvez nem isso. Ent�o a Imperatriz sabia sobre Falme, sobre o desastre de Turak e a inten��o de Suroth de seguir adiante. Mas qual seria sua opini�o, e o que ela estaria fazendo a respeito? Essa era uma preocupa��o maior do que qualquer <emphasis>damane</emphasis>, fosse l� o que a mulher tivesse sido antes de ser encolarada.</p><p>Ainda assim, o relat�rio n�o falava de tudo. O pior n�o podia ser confiado a mensageiro algum, por mais leal que fosse. Sairia dos l�bios de Suroth direto para os ouvidos da Imperatriz, e Suroth penara para que assim fosse. Apenas quatro dos que conheciam o segredo ainda viviam, e dois deles n�o falariam com ningu�m a respeito, n�o por vontade pr�pria. <emphasis>Apenas tr�s mortes podem tornar esse segredo mais seguro.</emphasis></p><p>Suroth n�o percebeu que dissera a �ltima frase em voz alta at� Alwhin retrucar:</p><p>��E, mesmo assim, a Gr�-lady precisa dos tr�s vivos.���A mulher tinha uma postura apropriadamente servil, enganadora at� nos olhos que tentavam vigiar qualquer movimento de Suroth. A voz tamb�m era servil.���Quem � que pode dizer, Gr�-lady, o que a Imperatriz, que ela viva para sempre!, far� se descobrir que tentam omitir essa informa��o dela?</p><p>Em vez de responder, Suroth repetiu o pequeno gesto de dispensa. De novo, Alwhin hesitou���dessa vez s� podia ser simples relut�ncia em sair, aquela mulher se superava a cada instante!���ent�o curvou-se em uma mesura profunda e retirou-se da presen�a de Suroth.</p><p>Com dificuldade, Suroth se acalmou. A <emphasis>sul�dam</emphasis> e as outras duas eram um problema que n�o poderia resolver naquele momento, mas a paci�ncia era uma necessidade para o Sangue. Havia grandes chances de que aqueles que n�o a possu�am acabassem na Torre dos Corvos.</p><p>No terra�o, servi�ais ajoelhados inclinaram-se um mil�metro, todos de prontid�o quando ela reapareceu. Os soldados mantiveram a vig�lia para que ela n�o fosse perturbada. Suroth tomou seu lugar na balaustrada, olhando para o mar em dire��o ao continente, a centenas de milhas a leste.</p><p>Ser a bem-sucedida comandante dos Predecessores, aquela que daria in�cio ao Retorno, traria muita honra. Talvez at� fosse adotada pela fam�lia da Imperatriz, embora essa fosse uma honra que viria acompanhada de complica��es. Ser tamb�m a captora daquele Drag�o, falso ou verdadeiro, e saber como controlar aquele incr�vel poder�</p><p><emphasis>Mas e se� Quando eu captur�-lo, devo entreg�-lo nas m�os da Imperatriz? Essa � a quest�o.</emphasis></p><p>No amplo parapeito de pedra, as longas unhas come�aram a tamborilar outra vez.</p></section><section><title><p>2</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Redemoinhos no Padr�o</p></title><p>No interior, o vento quente da noite soprava rumo ao norte, atravessando o vasto delta chamado Garras do Drag�o, um labirinto sinuoso de canais, amplos e estreitos, alguns cobertos de capim-navalha. Vastas plan�cies de juncos separavam aglomerados de ilhas baixas com florestas de �rvores com ra�zes tortuosas que n�o podiam ser encontradas em nenhum outro lugar. Por fim o delta cedia lugar � sua fonte, o Rio Erinin, uma vastid�o de �gua salpicada das luzes dos pequeninos barcos que se valiam das lanternas para pescar. Barcos e lanternas bamboleavam sem parar, surgindo de repente, e alguns homens mais velhos resmungavam sobre as coisas malignas que caminhavam � noite. Os jovens riam, mas tamb�m jogavam as redes com mais vigor, ansiosos para voltar para casa e sair da escurid�o. Diziam as hist�rias que o mal s� cruzava a porta de quem o convidasse. Isso era o que as hist�rias diziam, mas, uma vez l� fora, na escurid�o�</p><p>O �ltimo tra�o de sal j� desaparecera quando o vento atingiu a grande cidade de Tear, perto do rio, onde estalagens e lojas com tetos de telha ficavam grudadas nos imponentes pal�cios que reluziam ao luar. Mas nenhum deles era t�o grande quanto a gigantesca massa, quase uma montanha, que se estendia do cora��o da cidade at� a beira d��gua. Era a Pedra de Tear, uma fortaleza lend�ria, o mais antigo baluarte da humanidade, erigido nos �ltimos dias da Ruptura do Mundo. Na��es e imp�rios ascendiam e tombavam, eram substitu�dos e declinavam mais uma vez, mas a Pedra permanecia. Era a rocha sobre a qual, por tr�s mil anos, ex�rcitos haviam destru�do lan�as, espadas e cora��es. Por todo esse tempo, jamais sucumbira �s m�os invasoras. At� ent�o.</p><p>Na escurid�o mormacenta, as ruas, tavernas e estalagens da cidade estavam quase vazias. Todos permaneciam cautelosamente entocados. Quem controlava a Pedra era o senhor de Tear, cidade e na��o. Era como que sempre fora, e o povo aceitava a ideia. Ao nascer do dia, todos aclamavam o novo senhor com tanto entusiasmo quanto haviam aclamado o antigo. � noite, aninhavam-se juntos, tr�mulos, apesar do calor, ao som do vento uivante que a�oitava seus telhados como mil choros queixosos. Novas e estranhas esperan�as dan�avam em seus pensamentos, esperan�as que ningu�m em Tear ousara ter por cem gera��es, esperan�as mescladas com medos t�o antigos quanto a Ruptura.</p><p>O vento a�oitava o estandarte branco e comprido que tocava a lua sobre a Pedra, como se tentasse retalh�-lo. Em sua extens�o marchava uma figura sinuosa que parecia cavalgar ao vento, uma serpente com pernas, coroada com uma juba dourada de le�o e coberta de escamas vermelhas e douradas. O estandarte da profecia, aguardado e temido. O estandarte do Drag�o. O Drag�o Renascido. Precursor da salva��o do mundo, mensageiro da nova Ruptura ainda por vir. Como se ultrajado por tamanha provoca��o, o vento batia com viol�ncia nas r�gidas muralhas da Pedra. O estandarte do Drag�o tremulava despreocupado em meio � noite, � espera de tempestades maiores.</p><p>Em um quarto para al�m da metade da subida pelo lado sul da Pedra, Perrin estava sentado em um ba� no p� da cama de dossel, observando a mulher de cabelos escuros que andava de um lado para outro. Havia um qu� de cautela em seus olhos dourados. Faile costumava fazer piadas e provoc�-lo de leve sobre seu jeito vagaroso. Naquela noite, por�m, n�o proferira dez palavras desde que passara pela porta. Perrin sentia o cheiro das p�talas de rosa que haviam sido colocadas, depois da lavagem, entre as dobras das roupas que a jovem usava, assim como o odor que era s� dela. Naquele tra�o de suor limpo, ele farejou nervosismo. Faile quase nunca demonstrava preocupa��o. Imaginar por que a jovem o fazia agora deixou-o com uma comich�o entre os ombros que nada tinha a ver com o calor da noite. As saias estreitas e divididas faziam um leve <emphasis>vush-vush-vush</emphasis> a cada passo.</p><p>Ele co�ou a barba de duas semanas com irrita��o. Era ainda mais encaracolada do que os cabelos em sua cabe�a. E tamb�m era quente. Pela cent�sima vez, pensou em se barbear.</p><p>��Fica bem em vocꠗ�comentou Faile, de repente, parando de andar.</p><p>Desconfort�vel, ele deu de ombros, movimentando os membros que carregavam o peso das longas horas de trabalho na ferraria. Ela fazia isso �s vezes, parecia adivinhar seus pensamentos.</p><p>��� que co�a���resmungou.</p><p>Desejou ter dito aquilo com mais vigor. A barba era dele, e poderia rasp�-la no momento em que quisesse.</p><p>Com a cabe�a inclinada para um dos lados, ela o analisou. O nariz acentuado e ma��s do rosto proeminentes imprimiam for�a ao olhar, um contraste com a voz suave com a qual ela afirmou:</p><p>��Combina com voc�.</p><p>Perrin suspirou e deu de ombros mais uma vez. Faile n�o pedira a ele que mantivesse a barba, nem pediria. No entanto, o rapaz sabia que adiaria a raspagem mais uma vez. Ele se perguntou como seu amigo Mat lidaria com uma situa��o dessas. Talvez desse um belisc�o na mo�a, depois um beijo e fizesse alguma observa��o que a faria rir at� que ele a convencesse de seu ponto de vista. Mas Perrin sabia que n�o tinha o mesmo jeito de Mat com garotas. O amigo jamais ficaria suando por detr�s de uma barba s� porque uma mulher achava que ele deveria ter pelos no rosto. A n�o ser, talvez, que a mulher fosse Faile. Perrin suspeitava que o pai da jovem tivesse sentido uma tristeza imensa ao v�-la sair de casa, e n�o apenas por ser sua filha. O homem era o maior mercador de peles em Saldaea, pelo que Faile dizia, e Perrin conseguia visualiz�-la convencendo os clientes a pagarem o pre�o que ela quisesse em todas as vendas.</p><p>��Tem algo preocupando voc�, Faile, e n�o � a minha barba. O que �?</p><p>O rosto dela assumiu um ar de cautela. Ela se recusava a olh�-lo nos olhos, preferindo examinar desdenhosamente a mob�lia do quarto.</p><p>Tudo era decorado com entalhes de leopardos, le�es, gavi�es voando e cenas de ca�a, desde o comprido guarda-roupas e as colunas do dossel da cama, grossas como suas pernas, at� o banco estofado diante da lareira de m�rmore. Alguns dos animais tinham olhos vermelhos feitos de granada.</p><p>Perrin tentara convencer a majhere de que queria um quarto simples, mas a mulher n�o parecera compreender. N�o que fosse burra ou lenta. A majhere comandava um ex�rcito de servi�ais mais numeroso que os Defensores da Pedra. N�o importava quem comandasse a Pedra e dominasse suas muralhas, era aquela mulher quem cuidava das quest�es cotidianas para que tudo funcionasse. Por�m, ela enxergava o mundo com olhos tairenos. Apesar das roupas, o rapaz deveria ser algo mais do que o jovem campon�s que aparentava, pois plebeus jamais ficavam hospedados na Pedra���exceto Defensores e servi�ais, naturalmente. Al�m disso, ele estava com o grupo de Rand. Fosse amigo ou seguidor, era de alguma forma ligado ao Drag�o Renascido. Para a majhere, isso o tornava t�o importante quanto um Senhor da Terra, no m�nimo, talvez at� um Gr�o-senhor. Ela j� ficara escandalizada o bastante por hosped�-lo naquele quarto, sem sequer uma antessala. Perrin achou que a mulher desmaiaria se ele insistisse em uma acomoda��o ainda mais simples. Isso se houvesse uma coisa dessas fora dos alojamentos dos servi�ais ou dos Defensores. Pelo menos nada era dourado, exceto os candelabros.</p><p>Mas Faile pensava diferente.</p><p>��Voc� deveria estar mais bem acomodado. Voc� merece. Pode apostar todos os seus cobres que Mat est� num quarto melhor.</p><p>��Mat gosta de cafonices.���Foi tudo o que respondeu.</p><p>��Voc� n�o sabe se impor.</p><p>Ele n�o continuou a discuss�o. N�o eram seus aposentos que a faziam cheirar a desconforto, muito menos sua barba.</p><p>Depois de um instante, ela disse:</p><p>��O Lorde Drag�o parece ter perdido o interesse em voc�. Ele agora passa o tempo todo com os Gr�o-lordes.</p><p>A coceira entre seus ombros piorou. Ele descobriu o que a incomodava. Tentou manter a voz suave.</p><p>��Lorde Drag�o? Voc� est� parecendo uma tairena. O nome dele � Rand.</p><p>��Ele � seu amigo, Perrin Aybara, n�o meu. Se � que um homem desse tem amigos.���Ela respirou fundo e prosseguiu, em um tom mais moderado:���Andei pensando em ir embora da Pedra. Ir embora de Tear. Acho que Moiraine n�o tentaria me impedir. As not�cias sobre o� sobre Rand j� come�aram a sair da cidade h� duas semanas. Ela n�o pode querer mant�-lo em segredo por muito mais tempo.</p><p>Ele mal conseguiu se impedir de dar outro suspiro.</p><p>��Tamb�m acho que ela n�o tentaria. Na verdade, acho que ela considera voc� uma complica��o. � prov�vel que lhe d� dinheiro para seguir viagem.</p><p>Ela p�s as m�os na cintura e mudou de posi��o, encarando-o.</p><p>��Isso � tudo o que voc� tem a dizer?</p><p>��O que quer que eu diga? Que quero que voc� fique?���A raiva em sua voz o surpreendeu. Ele sentia raiva de si mesmo, n�o dela. Sentia raiva porque n�o esperava por isso, raiva porque n�o sabia como lidar com a quest�o. Gostava de poder refletir sobre as coisas. Era f�cil machucar os outros sem querer ao agir de maneira precipitada. Acabara de faz�-lo. Os olhos escuros da mo�a estavam arregalados de choque. Perrin tentou suavizar as palavras.���Eu quero que voc� fique, Faile, mas talvez seja melhor voc� partir. Sei que n�o � covarde, mas o Drag�o Renascido, os Abandonados�</p><p>N�o que qualquer outro lugar fosse seguro���n�o por muito tempo, n�o agora���mas pelo menos alguns locais eram mais seguros do que a Pedra. Pelo menos por um tempo. N�o que ele fosse burro a ponto de explicar a ela dessa forma.</p><p>Faile, no entanto, n�o parecia se importar com a forma dele de explicar as coisas.</p><p>��Ficar? Que a Luz me ilumine! Qualquer coisa � melhor do que ficar aqui plantada, mas����Ela se ajoelhou diante dele com muita gra�a, repousando as m�os em seus joelhos.���Perrin, eu n�o gosto de ficar imaginando quando � que um dos Abandonados vai dobrar uma esquina e aparecer na minha frente, e n�o gosto de ficar imaginando quando � que o Drag�o Renascido vai matar todos n�s. Ele fez isso nos tempos da Ruptura, afinal. Matou todos que eram pr�ximos a ele.</p><p>��Rand n�o � Lews Therin Fratricida���protestou Perrin.���Quer dizer, ele � o Drag�o Renascido, mas n�o � Ele n�o faria����Deixou a voz morrer, sem saber como concluir a frase.</p><p>Rand era a reencarna��o de Lews Therin Telamon, era isso que significava ser o Drag�o Renascido. Mas ser� que ele estava condenado ao mesmo destino de Lews Therin? N�o apenas enlouquecer���o que, al�m de apodrecer at� a morte, era o destino de qualquer homem capaz de canalizar���mas matar todos que se importavam com ele?</p><p>��Andei conversando com Bain e Chiad, Perrin.</p><p>Aquilo n�o era surpresa. Faile passava um tempo consider�vel com as mulheres Aiel. A amizade lhe trouxera alguns problemas, mas ela parecia gostar tanto das Aiel quanto desprezava as nobres tairenas da Pedra. Perrin, no entanto, n�o via o que aquilo tinha a ver com o que estavam conversando, e disse isso.</p><p>��Elas dizem que Moiraine �s vezes pergunta onde � que voc� est�. Ou Mat. N�o entende? Ela n�o precisaria fazer isso se pudesse vigiar voc� com o Poder.</p><p>��Me vigiar com o Poder?���perguntou ele, a voz fraca. Nunca pensara naquilo.</p><p>��Ela n�o consegue. Venha comigo, Perrin. Podemos avan�ar umas vinte milhas pelo rio antes que Moiraine d� pela nossa falta.</p><p>��Eu n�o posso���respondeu, com tristeza.</p><p>Tentou distra�-la com um beijo, mas Faile deu um pinote e se afastou t�o depressa que ele quase caiu de cara no ch�o. N�o fazia sentido insistir em se aproximar. A mulher cruzara os bra�os, formando uma esp�cie de barreira.</p><p>��N�o v� me dizer que est� com medo dela. Sei que ela � Aes Sedai e faz todos voc�s dan�arem como marionetes. Talvez ela tenha amarrado o Lo� Rand� t�o bem que ele n�o consegue mais se soltar, e s� a Luz sabe como Egwene, Elayne e Nynaeve querem isso, mas voc� pode arrebentar essas cordas, se tentar.</p><p>��Isso n�o tem nada a ver com Moiraine. � o que tenho que fazer. Eu�</p><p>Ela o interrompeu.</p><p>��Nem ouse tentar me passar essa conversinha-fiada de que um homem precisa cumprir seus deveres. Sei t�o bem quanto voc� o que s�o deveres, e voc� n�o tem nenhum por aqui. Pode at� ser <emphasis>ta�veren</emphasis>, mesmo que eu n�o veja isso, mas o Drag�o Renascido � ele, n�o voc�.</p><p>��D� para voc� me escutar?���gritou Perrin, os olhos cravados nela, que deu um pulo. Ele nunca gritara com ela, n�o daquele jeito. Faile ergueu o queixo e remexeu os ombros, mas n�o respondeu. Perrin prosseguiu:���Acho que fa�o parte do destino de Rand, de alguma forma. Mat tamb�m. Acho que Rand n�o pode fazer o que tem de fazer se tamb�m n�o fizermos a nossa parte. Esse � o dever. Como � que posso desistir se pode ser que isso leve ao o fracasso de Rand?</p><p>��Pode ser que leve?���Havia um ind�cio de pergunta em sua voz, mas apenas um ind�cio. Ele se perguntou se seria capaz de gritar com ela com mais frequ�ncia.���Foi Moiraine quem lhe contou isso, Perrin? A essa altura, voc� j� deveria ter aprendido a escutar com mais aten��o a tudo o que uma Aes Sedai diz.</p><p>��Cheguei a essa conclus�o sozinho. Acho que <emphasis>ta�veren</emphasis> s�o atra�dos uns para os outros. Ou talvez Rand atraia n�s dois, Mat e eu. Em teoria, ele � o <emphasis>ta�veren</emphasis> mais forte que j� existiu desde Artur Asa-de-gavi�o, talvez desde a Ruptura. Mat sequer admite que � <emphasis>ta�veren</emphasis>, mas, por mais que tente fugir, sempre acaba sendo arrastado de volta para Rand. Loial diz que nunca ouviu falar em tr�s <emphasis>ta�veren</emphasis> da mesma idade vindos do mesmo lugar.</p><p>Faile fungou alto.</p><p>��Loial n�o sabe de tudo. Ele n�o � muito velho, para um Ogier.</p><p>��Ele j� passou dos noventa anos���retrucou Perrin, na defensiva, e ela respondeu com um sorriso tenso. Para os Ogier, ter noventa anos n�o era ser muito mais velho do que Perrin. Talvez Loial fosse at� mais jovem. Ele n�o sabia muito sobre os Ogier. De qualquer modo, Loial tinha lido mais livros do que Perrin j� vira ou de que j� ouvira falar. �s vezes, achava que Loial j� tinha lido todos os livros do mundo.���E sabe mais do que eu ou voc�. Ele acha que eu talvez tenha raz�o. Moiraine concorda. N�o, eu n�o perguntei, mas por que mais ela ficaria de olho em mim? Acha que ela est� querendo me pedir para fazer uma faca de cozinha?</p><p>Faile ficou em sil�ncio por um momento. Quando falou, foi em um tom condescendente.</p><p>��Pobre Perrin. Eu sa� de Saldaea em busca de aventura e, agora que estou bem no meio de uma, a maior desde a Ruptura, tudo o que quero � partir para outro lugar. Seu �nico desejo � ser ferreiro, mas vai acabar fazendo parte das hist�rias, queira ou n�o.</p><p>O jovem desviou o olhar, embora o perfume de Faile ainda preenchesse sua mente. Perrin achava pouco prov�vel que fossem contar qualquer hist�ria sobre ele, a n�o ser que seu segredo se espalhasse para al�m dos que j� tinham conhecimento. Faile achava que sabia tudo sobre ele, mas estava enganada.</p><p>Havia um machado e um martelo encostados na parede oposta a ele, os dois simples e pr�ticos, com cabos do tamanho do seu antebra�o. O machado era uma perversa l�mina em meia-lua equilibrada por uma ponteira grossa, fabricado para a viol�ncia. Com o martelo ele podia produzir coisas���produzira coisas���em uma ferraria. A cabe�a do martelo pesava mais que o dobro da l�mina do machado, mas o machado parecia muito mais pesado sempre que ele o erguia. Com o machado, Perrin� ele franziu o rosto, sem querer pensar naquilo. Faile estava certa. Seu �nico desejo era ser ferreiro, voltar para casa, ver a fam�lia outra vez, trabalhar na ferraria. Mas n�o era para ser, Perrin sabia.</p><p>Ele se levantou o suficiente para pegar o martelo, depois sentou-se outra vez. Havia um certo conforto em segur�-lo.</p><p>��Mestre Luhhan sempre diz que n�o podemos fugir do que deve ser feito.���Ent�o prosseguiu, apressado, notando que o que falava era um pouco pr�ximo demais do que ela chamara de conversinha-fiada:���Ele � o ferreiro da aldeia, o homem de quem eu fui aprendiz. J� contei dele antes.</p><p>Para sua surpresa, Faile n�o aproveitou a oportunidade para apontar a repeti��o. Na verdade, a jovem n�o disse uma palavra, apenas ficou olhando para ele, esperando alguma coisa. Depois de um instante, ele se deu conta.</p><p>��Ent�o voc� est� indo embora?���perguntou.</p><p>Ela ficou ali parada, alisando a saia. Houve um longo momento de sil�ncio, como se estivesse decidindo a resposta.</p><p>��Eu n�o sei���disse, por fim.���Voc� me meteu numa bela de uma enrascada.</p><p>��Eu? O que foi que eu fiz?</p><p>��Bem, se n�o sabe, n�o sou eu que vou lhe dizer.</p><p>Co�ando a barba outra vez, Perrin encarou o martelo na outra m�o. Mat com certeza saberia muito bem o que ela queria dizer. At� mesmo o velho Thom Merrilin saberia. O menestrel de cabelos brancos dizia que ningu�m era capaz de compreender as mulheres, mas bastava sair de seu pequeno quarto no seio da Pedra que logo se via rodeado por uma d�zia de mo�as com idade para serem suas netas, todas suspirando enquanto o escutavam tocar harpa e contar grandes aventuras e romances. Faile era a �nica mulher que Perrin desejava, mas ele �s vezes se sentia como um peixe tentando entender um p�ssaro.</p><p>Sabia que Faile queria que ele perguntasse. Sabia pelo menos isso. Ela poderia contar ou n�o, mas ele tinha de perguntar. Teimoso, n�o abriu a boca. Dessa vez, pretendia aguardar.</p><p>Do lado de fora, na escurid�o, um galo cantou.</p><p>Faile estremeceu e passou os bra�os ao redor do corpo.</p><p>��Minha ama dizia que isso � sinal de morte chegando. N�o que eu acredite, � claro.</p><p>Perrin abriu a boca para concordar que aquilo era uma bobagem, embora tamb�m tivesse estremecido, mas virou a cabe�a depressa ao ouvir um rangido e um baque. O machado ca�ra no ch�o. Teve tempo apenas de franzir o rosto, pensando no que o teria feito tombar, quando o machado se mexeu outra vez, sozinho, e disparou em sua dire��o.</p><p>Sem pensar, ele girou o martelo. O tinido de metal contra metal abafou o gritou de Faile. O machado voou pelo quarto, chocou-se na parede mais distante e disparou outra vez em sua dire��o, a l�mina apontada para ele. Perrin sentia todos os pelos do corpo eri�ados.</p><p>Quando o machado passou voando por Faile, ela deu um bote e agarrou o cabo com ambas as m�os. A arma girou em seu punho, preparada para golpear o rosto dela, que estava de olhos arregalados. Perrin quase n�o teve tempo de saltar, largando o martelo e agarrando o machado para impedir que a l�mina em meia-lua tocasse a carne de Faile. Pensou que morreria se o machado���seu machado���a ferisse. Afastou a arma da jovem com tanta for�a, que a ponteira pesada quase o acertou no peito. Teria sido uma troca justa para impedir que o machado a golpeasse, mas, um pouco desapontado, come�ou a pensar que par�-lo talvez n�o fosse poss�vel.</p><p>A arma se agitava com viol�ncia, como se tivesse vida pr�pria e uma vontade mal�vola. A arma queria Perrin���o rapaz sabia disso como se o machado tivesse gritado seu nome���mas lutava com destreza. Quando conseguiu afast�-lo de Faile, o pr�prio movimento foi usado para golpe�-lo. Quando Perrin o empurrou para longe de si, o machado tentou apanhar a mo�a, como se soubesse que isso o faria parar de empurrar. N�o importava a for�a com que segurava o cabo, a arma girava em suas m�os, amea�ando-o com a ponteira ou com a l�mina curva. Suas m�os j� do�am de tanto esfor�o, e seus bra�os grossos se contorciam, com os m�sculos contra�dos. O suor escorria por seu rosto. Perrin n�o sabia quanto tempo ainda tinha antes que o machado se soltasse de seu punho. Era loucura, pura loucura, n�o havia tempo para pensar.</p><p>��Saia daqui���murmurou, entre dentes.���Saia do quarto, Faile!</p><p>O rosto dela estava p�lido, mas ela balan�ou a cabe�a, lutando contra o machado.</p><p>��N�o! N�o vou deixar voc� aqui!</p><p>��Esse tro�o vai matar n�s dois!</p><p>Ela balan�ou a cabe�a outra vez.</p><p>Com um urro, Perrin soltou o machado de uma das m�os���o bra�o tremia por segurar a coisa com uma s� m�o, o cabo queimava a palma���e empurrou Faile para longe. Ela gania enquanto ele lutava para empurr�-la at� a porta. Ignorando os gritos e os punhos que tentavam esmurr�-lo, Perrin a imprensou na parede com um dos ombros, at� conseguir abrir a porta e arremess�-la no corredor.</p><p>Bateu a porta e se escorou nela, fechando o trinco com o quadril enquanto segurava o machado outra vez com ambas as m�os. A l�mina pesada, brilhante e afiada, tremia a cent�metros de seu rosto. Ele a empurrou com dificuldade, esticando o bra�o. Os gritos abafados de Faile passaram pela porta grossa. Ele a sentia esmurr�-la, mas quase n�o tinha consci�ncia da jovem. Os olhos amarelos brilhavam, como se refletidos em cada pedacinho de luz no quarto.</p><p>��Somos s� eu e voc�, agora���rosnou para o machado.���Sangue e cinzas, como eu odeio voc�!</p><p>Em seu �ntimo, parte de si quase desatou a rir histericamente. <emphasis>Rand � o �nico que est� destinado a enlouquecer, e c� estou eu, falando com um machado! Rand! Que o queime!</emphasis></p><p>Com os dentes arreganhados pelo esfor�o, ele deu um passo, for�ando o machado para longe da porta. A arma tremia, lutando para tocar sua carne, Perrin quase podia sentir a sede de sangue. Com um rugido, puxou depressa a l�mina curva em sua dire��o e se jogou para tr�s. Perrin tinha certeza de que ouviria um grito triunfante quando o machado voou em dire��o � sua cabe�a, se este estivesse vivo de verdade. No �ltimo instante, Perrin virou para o lado, e o machado passou direto. Com um baque pesado e surdo, a l�mina se cravou na porta.</p><p>Ele sentiu a vida���n�o tinha outra forma de nomear���deixar a arma aprisionada. Lentamente, recolheu as m�os. O machado permaneceu onde estava, voltando a ser apenas a�o e madeira. Mas a porta parecia um bom lugar para deix�-lo, por enquanto. Com a m�o tr�mula, Perrin limpou o suor do rosto. <emphasis>Loucura. A loucura vai aonde Rand est�.</emphasis></p><p>De repente, percebeu que n�o ouvia mais os gritos de Faile nem as batidas na madeira. Jogando o trinco para tr�s, ele abriu a porta depressa. Um arco de a�o brilhante despontava pela madeira grossa, refletindo a luz dos lampi�es espa�ados que pendiam no corredor cheio de tape�arias.</p><p>Faile estava ali, as m�os erguidas, congelada no ato de bater � porta. De olhos arregalados, pensativa, ela tocou a ponta do nariz. Ent�o disse, com a voz fraca:</p><p>��Mais um pouquinho, e�</p><p>Com um sobressalto, ela se atirou para cima dele e o abra�ou com for�a, espalhando beijos em seu pesco�o e barba entre murm�rios incompreens�veis. Afastou-se com a mesma rapidez, passando as m�os ansiosas pelo bra�os e peito de Perrin.</p><p>��Voc� est� ferido? Se machucou? Aquilo�?</p><p>��Estou bem���respondeu ele.���Mas e voc�? N�o queria assustar voc�.</p><p>Ela o encarou atentamente.</p><p>��� s�rio? N�o est� nem um pouco machucado?</p><p>��Sa� ileso. Eu�</p><p>O tapa forte de Faile fez a cabe�a de Perrin ressoar como martelo acertando uma bigorna.</p><p>��Seu palerma peludo! Pensei que voc� tivesse morrido! Fiquei com medo que aquela coisa tivesse matado voc�! Pensei����Ela parou de falar quando ele conteve o segundo tapa no meio do caminho.</p><p>��Por favor, n�o fa�a isso de novo���pediu, baixinho.</p><p>A marca da m�o dela ainda ardia na bochecha, dolorosa, e ele calculou que sentiria dor no maxilar pelo resto da noite.</p><p>Ele continha o punho dela com a mesma gentileza com que teria segurado um passarinho. E, embora Faile lutasse para se libertar, a m�o dele n�o se movia nem um pouco. Comparado a girar um martelo o dia inteiro na forja, segur�-la n�o era esfor�o algum, mesmo depois da luta com o machado. De repente, ela pareceu decidir ignorar o punho dele e come�ou a encar�-lo. Os olhos escuros n�o piscavam, nem os dourados.</p><p>��Eu poderia ter ajudado. Voc� n�o tinha o direito�</p><p>��Eu tinha todo o direito���retrucou ele, com firmeza.���Voc� n�o poderia ter ajudado. Se tivesse ficado l�, n�s dois estar�amos mortos. Eu n�o teria conseguido lutar, n�o do mesmo jeito, e manter voc� segura ao mesmo tempo.���A jovem abriu a boca, mas ele elevou a voz e continuou:���Sei como voc� odeia ouvir isso. Vou fazer o poss�vel para n�o trat�-la feito porcelana, mas, se o que quer � que eu fique olhando voc� morrer, vou enrol�-la como um cordeiro para venda e mand�-la para a Senhora Luhhan. Ela n�o vai tolerar nenhuma dessas bobagens.</p><p>Passando a l�ngua em um dos dentes para conferir se estava frouxo, ele quase quis poder ver Faile tentando ser malcriada com Alsbet Luhhan. A mulher do ferreiro mantinha o marido na linha com apenas um pouco mais de esfor�o do que precisava para cuidar da casa. At� Nynaeve segurava a l�ngua afiada na frente dela. O dente ainda estava firme, concluiu.</p><p>Faile riu de repente, uma risada baixa e gutural.</p><p>��Voc� faria mesmo isso, n�o �? Mas n�o pense que n�o estaria entrando em uma dan�a com o Tenebroso, se tentasse.</p><p>Perrin ficou t�o surpreso que a soltou. N�o conseguia ver diferen�a entre o que tinha acabado de dizer e o que falara antes, mas da primeira vez Faile se exaltara, enquanto agora� respondia com carinho. N�o que ele tivesse certeza de que a amea�a de morte fosse totalmente brincadeira. Faile carregava facas escondidas pelo corpo e sabia us�-las muito bem.</p><p>Ela esfregou o punho dramaticamente e resmungou entre dentes. Perrin pescou as palavras �bode peludo� e jurou a si mesmo que rasparia cada fiapo daquela barba idiota. Ah, se rasparia.</p><p>Mas o que ela disse em voz alta foi:</p><p>��O machado. Era ele, n�o era? O Drag�o Renascido, tentando nos matar.</p><p>��Deve ter sido Rand.���Ele enfatizou o nome. N�o gostava de pensar no amigo de outra forma. Preferia lembrar-se da pessoa com quem crescera em Campo de Emond.���Mas n�o tentando nos matar. N�o ele.</p><p>Ela abriu um sorriso ir�nico, quase uma careta.</p><p>��Se n�o era isso, espero que ele nunca tente.</p><p>��N�o sei o que ele estava fazendo. Mas pretendo mand�-lo parar, e farei isso agora mesmo.</p><p>��N�o sei por que me importo com um homem que se preocupa tanto com a pr�pria seguran�a.</p><p>Ele a encarou, intrigado, perguntando-se o que ela queria dizer, mas Faile apenas passou o bra�o pelo dele. Perrin continuava a se perguntar enquanto os dois come�aram a caminhar pela Pedra. Deixou o machado onde estava. Ali, fincado na porta, n�o faria mal a ningu�m.</p><empty-line/><p>Com os dentes cravados em um cachimbo comprido, Mat abriu um pouco mais o casaco, tentando se concentrar nas cartas viradas para baixo � sua frente e nas moedas espalhadas no centro da mesa. Mandara fazer o casaco vermelho a partir de um modelo andoriano, na melhor l� que havia e com bordados de arabescos dourados nas mangas e na gola comprida. No entanto, dia ap�s dia, era lembrado de como Tear ficava ao sul de Andor. O suor escorria por seu rosto, deixando a camisa coladas �s costas.</p><p>Nenhum de seus companheiros de mesa parecia notar o calor, apesar dos casacos ainda mais pesados que o dele, com mangas gordas e encorpadas, todos de seda forrada, brocados e listras de cetim. Dois homens de uniforme vermelho e dourado enchiam as canecas de prata dos jogadores com mais vinho e serviam lustrosas bandejas de prata com azeitonas, queijos e nozes. O calor tamb�m n�o parecia afetar os servi�ais, embora de vez em quando um deles escondesse um bocejo com a m�o, pensando que ningu�m estava reparando.</p><p>Mat se conteve e n�o ergueu as cartas para olh�-las outra vez. Elas n�o teriam mudado. Tr�s governantes, as cartas mais altas de tr�s dos cinco naipes, j� era bom o suficiente para ganhar a maioria das m�os.</p><p>Estaria mais confort�vel jogando dados. Quase n�o se encontrava baralho nos lugares onde sempre apostava, onde a prata trocava de m�os como resultado de cinquenta jogos de dados diferentes, mas os jovens fidalgotes tairenos prefeririam vestir trapos a jogar dados. Dados eram para camponeses, embora os rapazes tivessem o cuidado de n�o dizer uma coisa dessas na frente de Mat. N�o era o g�nio do rapaz que temiam, e sim as pessoas que pensavam serem amigas dele. Jogavam um jogo chamado corte, hora ap�s hora, noite ap�s noite, usando cartas pintadas � m�o e envernizadas por um homem da cidade que enriquecera gra�as a esses sujeitos e outros como eles. Apenas mulheres e cavalos eram capazes de desviar a aten��o deles do jogo, mas nunca por muito tempo.</p><p>Mesmo assim, Mat conseguira entender o jogo bem depressa e, ainda que n�o tivesse sorte t�o boa quanto nos dados, era razo�vel. Uma bolsa gorda jazia ao lado de suas cartas, e outra ainda mais gorda repousava em seu bolso. Quando vivia em Campo de Emond teria considerado aquilo uma fortuna, o suficiente para passar o resto de seus dias no luxo. Mas a ideia que tinha de luxo mudara desde a partida de Dois Rios. As moedas dos jovens lordes jaziam em pilhas reluzentes e desordenadas, mas alguns velhos h�bitos ele n�o tinha inten��o de mudar. Nas tavernas e estalagens, �s vezes era necess�rio partir depressa. Sobretudo se a sorte o acompanhasse.</p><p>Deixaria a Pedra no instante em que juntasse o bastante para viver como desejava. Antes que Moiraine descobrisse seus planos. Se as coisas tivessem sido como gostaria, j� teria partido havia dias. Mas havia ouro para ganhar por aquelas bandas. Uma noite naquela mesa lhe renderia mais do que uma semana jogando dados nas tavernas. Bastava ter sorte.</p><p>Ele fez uma leve careta e deu uma baforada no cachimbo, preocupado. Ent�o conferiu, inseguro, se suas cartas eram boas para prosseguir. Dois dos jovens lordes tamb�m seguravam cachimbos nos dentes, mas eram de prata e tinham boquilhas de �mbar. No ar quente e im�vel, o tabaco perfumado que fumavam parecia ter o cheiro de um inc�ndio no quarto de vestir de uma lady. N�o que Mat j� tivesse adentrado o quarto de vestir de uma lady. Uma doen�a que quase o matara lhe deixara com a mem�ria t�o esburacada quanto a melhor l�, mas Mat tinha certeza de que se lembraria de uma coisa dessas. <emphasis>Nem mesmo o Tenebroso seria mau a ponto de me fazer esquecer uma coisa dessas.</emphasis></p><p>��Um navio do Povo do Mar atracou hoje���murmurou Reimon, com a boca no cachimbo. A barba do lorde de ombros largos era cuidada com �leos e muito bem aparada. Era a �ltima moda entre os nobres mais jovens, e Reimon perseguia a moda com o mesmo vigor com que perseguia as mulheres. O que era apenas com um pouco menos do vigor com que jogava. Ele atirou uma coroa de prata por cima da pilha no meio da mesa para comprar outra carta.���Um forcador. S�o os navios mais r�pidos, os forcadores, pelo que dizem. Correm mais que o vento, pelo que dizem. Eu gostaria de ver uma coisa dessas. Que a minha alma queime, como eu gostaria.���Ele n�o se deu ao trabalho de olhar a carta que recebeu: s� olhava depois de ter as cinco cartas na m�o.</p><p>O homem roli�o e de bochechas rosadas entre Reimon e Mat deu uma risadinha bem-humorada.</p><p>��Querendo ver o navio, Reimon? N�o quer dizer as mo�as? As mulheres. As beldades ex�ticas do Povo do Mar, com seus an�is e badulaques e com aquele rebolado, hein?���Ele colocou uma coroa na mesa e pegou uma carta, fazendo uma careta ao olh�-la. Aquilo n�o significava nada: a julgar pelas express�es de Edorion, suas cartas eram sempre baixas e jamais formavam a combina��o necess�ria. No entanto, ele ganhava mais do que perdia.���Bem, talvez eu tenha mais sorte com as mo�as do Povo do Mar.</p><p>O carteador, que estava do outro lado de Mat, um homem alto e magro, com a barba pontuda ainda mais escura e vi�osa que a de Reimon, apoiou um dedo na lateral do nariz.</p><p>��Acha que vai se sair bem com elas, Edorion? Do jeito que s�o reservadas, voc� vai ter sorte se conseguir sentir um sopro do perfume que usam.���Ele fez um gesto que simulava uma rajada de vento, depois inspirou fundo e soltou um suspiro, e os outros nobres riram, inclusive Edorion.</p><p>Um jovem imberbe chamado Estean soltou a risada mais alta de todas, passando uma das m�os pelos cabelos lisos que insistiam em cair em sua testa. Se o fino casaco amarelo fosse substitu�do por um de l� parda, o sujeito poderia se passar por um fazendeiro, em vez do filho do Gr�o-lorde dono de um das maiores propriedades de Tear e com toda certeza o homem mais rico da mesa. Ele tamb�m bebera mais vinho do que qualquer um.</p><p>Cambaleando na frente do homem a seu lado���um sujeito afetado chamado Baran, que parecia sempre olhar os outros com o pontudo nariz em p頗�Estean cutucou o carteador com um dedo meio vacilante. Baran se inclinou para tr�s, girando o cachimbo na boca como se temesse que Estean pudesse vomitar.</p><p>��Essa foi boa, Carlomin���gorgolejou Estean.���Voc� tamb�m acha, n�o �, Baran? Edorion n�o vai conseguir nem sentir o perfume. Se quiser tentar a sorte, arriscar uma aposta� Que tal ir atr�s das meretrizes Aiel, como o Mat, aqui. Todas aquelas lan�as e facas. Que a minha alma queime. � como tirar um le�o para dan�ar.���Um sil�ncio mortal se abateu sobre a mesa. Estean riu sozinho, depois piscou e passou a m�o nos cabelos outra vez.���Qual � o problema? Falei alguma coisa errada? Ah! Ah, sim. Eles.</p><p>Mat mal conteve a express�o de desprezo. O idiota mencionara os Aiel. O �nico assunto pior teria sido Aes Sedai. Aqueles homens provavelmente preferiam ter Aiel andando por seus corredores e olhando com superioridade para qualquer taireno que se pusesse em seu caminho do que uma �nica Aes Sedai nas imedia��es, e no momento acreditavam haver pelo menos quatro delas por perto. Ele pescou uma coroa de prata andoriana da bolsa em cima da mesa e a empurrou em dire��o � pilha no meio da mesa. Carlomin entregou-lhe a carta com cautela.</p><p>Com todo o cuidado, Mat ergueu a carta com a unha do polegar, sem se permitir sequer piscar. O Governante de Ta�as, um Gr�o-lorde de Tear. Os governantes do baralho variavam de acordo com a terra onde as cartas eram feitas, mas o governante local sempre era representado no naipe de Ta�as, o maior de todos. Aquelas cartas eram antigas. Ele j� tinha visto novos baralhos com o rosto de Rand ou algo parecido no lugar do Governante de Ta�as, junto com o estandarte do Drag�o. Rand, governante de Tear. Aquilo ainda era absurdo o bastante para faz�-lo querer se beliscar. Rand era um pastor, um sujeito bacana com quem se divertir quando n�o dava uma de s�rio e respons�vel. Agora, era o Drag�o Renascido. O que indicava que Mat era doido de pedra por estar ali sentado esperando para ver qual seria a pr�xima de Rand, em um lugar onde Moiraine poderia p�r as m�os nele quando bem entendesse. Talvez Thom Merrilin fosse embora com ele. Ou Perrin. S� que Thom parecia ter come�ado a se instalar na pedra de um jeito que indicava que n�o pretendia partir, e Perrin n�o iria a lugar algum sem que Faile apontasse o destino. Bem, Mat estava pronto para viajar sozinho, se fosse preciso.</p><p>Mas havia prata no centro da mesa e ouro diante dos fidalgotes. Se ele conseguisse o quinto governante, nenhuma outra m�o poderia bater a sua. N�o que precisasse daquilo. De repente sentiu a sorte despontando em sua mente. N�o com a mesma for�a com que vinha nos jogos de dados, claro, mas Mat j� tinha certeza de que ningu�m bateria seus quatro governantes. Os tairenos passaram a noite inteira apostando loucamente, o valor equivalente a dez fazendas cruzava a mesa sem ningu�m pestanejar.</p><p>Mas Carlomin ficou olhando as cartas em suas m�os em vez de comprar a quarta, e Baran baforava o cachimbo furiosamente e empilhava as moedas � sua frente, como se pronto para enfi�-las nos bolsos. Reimon estava com cara de desprezo por tr�s da barba, e Edorion franzia o rosto para as unhas. Apenas Estean parecia inalterado. O nobre sorriu para a mesa, indeciso, talvez j� esquecido do que dissera. Os sujeitos tinham o habito de p�r panos quentes quando algu�m mencionava os Aiel, mas j� estava tarde, e o vinho corria solto.</p><p>Mat vasculhou a mente em busca de uma forma de evitar que os homens e o ouro escapassem de suas cartas. Um s� olhar para os rostos j� lhe informou que apenas mudar de assunto n�o seria suficiente. Mas havia outra forma. Se os fizesse rir dos Aiel� <emphasis>Ser� que vale a pena fazer com que riam de mim tamb�m?</emphasis> Mascando o cachimbo, ele tentou pensar em outra coisa.</p><p>Baran pegou uma pilha de ouro em cada m�o e come�ou a enfi�-las nos bolsos.</p><p>��Acho que vou tentar a sorte com essas mulheres do Povo do Mar���comentou Mat, mais do que depressa, pegando o cachimbo para gesticular.���Coisas estranhas acontecem quando vamos atr�s das mulheres Aiel. Muito estranhas. Como o jogo que elas chamam de O Beijo da Donzela.���Atra�ra a aten��o dos outros, mas Baran n�o devolvera as moedas para a mesa, e Carlomin ainda n�o demonstrava sinal de que compraria uma carta.</p><p>Estean soltou uma gargalhada �bria.</p><p>��Elas fazem o a�o beijar suas costelas, imagino. Donzelas da Lan�a, entendeu? A�o. Lan�a nas costelas. Que a minha alma queime.</p><p>Ningu�m mais riu. Mas todos escutavam.</p><p>��Nem tanto.���Mat conseguiu abrir um sorriso. <emphasis>Que me queime, j� cheguei at� aqui. Posso muito bem falar do resto.</emphasis>���Rhuarc comentou que, se eu quisesse ter sucesso com as Donzelas, deveria perguntar a elas como � que se jogava O Beijo da Donzela. Disse que era a melhor forma de conhecer as mo�as.���Soava muito como um dos jogos de beijo que jogava em casa, por exemplo o Beije as Margaridas. Nunca pensara no chefe de cl� Aiel como homem que gostava de fazer brincadeiras. Tomaria mais cuidado da pr�xima vez. Esfor�ou-se para aumentar o sorriso.���Ent�o fui at� Bain e����Reimon franziu o rosto, impaciente. Nenhum dos homens sabia o nome de outro Aiel al�m de Rhuarc, e nenhum deles queria saber. Mat deixou os nomes de lado e prosseguiu:���Fui l�, feito um paspalho, e pedi que elas me mostrassem.���Deveria ter suspeitado de algo, a julgar pelos largos sorrisos que brotaram nos rostos das mulheres Aiel. Pareciam gatos tirados para dan�ar por um rato.���Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, um bocado de lan�as surgiu em volta do meu pesco�o, parecia uma coleira. Bastava um espirro para ficar de barba feita.</p><p>Os nobres ao redor da mesa ca�ram na gargalhada, uma diversidade de risos que ia da histeria ofegante de Reimon at� o urro embriagado de Estean.</p><p>Mat os deixou gargalharem. Era quase capaz de sentir outra vez as pontas das lan�as, espetando-o ao menor movimento de um dedo seu. Bain, rindo sem parar, dissera que nunca tinha ouvido falar de um homem que houvesse pedido para jogar O Beijo da Donzela.</p><p>Carlomin afagou a barba e comentou, diante da hesita��o de Mat:</p><p>��N�o pode parar agora. Fale mais. Quando foi isso? Duas noites atr�s, aposto. Quando voc� n�o apareceu para o jogo e ningu�m sabia dizer onde voc� estava.</p><p>��Estava jogando pedras com Thom Merrilin, aquela noite���respondeu Mat, mais do que depressa.���Isso foi v�rios dias atr�s.���Ficou feliz por saber mentir com a cara lavada.���Ganhei um beijo de cada uma. S� isso. Se achassem o beijo bom, abaixavam a lan�a. Se n�o, empurravam um pouquinho mais. Para me encorajar, por assim dizer. E foi s�. Vou dizer uma coisa: eu me corto mais fazendo a barba.</p><p>Enfiou o cachimbo entre os dentes outra vez. Se os homens quisessem saber mais, poderiam tentar o tal jogo eles mesmos. Mat quase torcia para que algum deles fosse idiota o bastante para isso. <emphasis>Malditas mulheres Aiel e suas malditas lan�as.</emphasis> S� conseguira chegar na cama depois do dia nascer.</p><p>��Seria mais que suficiente para mim���respondeu Carlomin, seco.���Que a Luz queime a minha alma, se n�o for mais que suficiente.���Ele jogou uma coroa de prata no centro da mesa e pegou outra carta para si mesmo.���O Beijo da Donzela.</p><p>O homem se sacudiu, achando gra�a, e outra onda de gargalhadas percorreu a mesa.</p><p>Baran comprou a quinta carta, e Estean revirou a pilha de moedas espalhadas � sua frente, pegou uma e olhou para ver o que era. N�o parariam de jogar por enquanto.</p><p>��Selvagens���resmungou Baran, com a boca no cachimbo.���Selvagens ignorantes. Que minha alma queime, � isso o que eles s�o. Moram em cavernas, l� no Deserto. Em cavernas! S� um selvagem poderia viver no Deserto.</p><p>Reimon assentiu.</p><p>��Pelo menos servem ao Lorde Drag�o. N�o fosse por isso, eu pegaria uns cem Defensores e tiraria todos da Pedra.</p><p>Baran e Carlomin soltaram um grunhido feroz, em concord�ncia.</p><p>Mat n�o precisou se esfor�ar para manter a express�o impass�vel. J� ouvira a mesma coisa. Era f�cil fazer amea�as quando ningu�m esperava que fossem levadas adiante. Cem Defensores? Mesmo que Rand tivesse que se afastar por algum motivo, umas poucas centenas de Aiel seriam capazes de defender a Pedra de qualquer ex�rcito que Tear pudesse reunir. N�o que eles parecessem querer tomar a Pedra, na verdade. Mat suspeitava que os Aiel estavam ali apenas por causa de Rand. Achava que nenhum daqueles fidalgotes tivesse percebido isso���todos ignoravam os Aiel sempre que podiam���mas duvidava que perceber tal coisa os faria sentir-se melhor.</p><p>��Mat.���Estean abriu as cartas em uma das m�os e p�s-se a arrum�-las, como se n�o conseguisse decidir em que ordem deveriam estar.���Mat, voc� vai falar com o Lorde Drag�o, n�o vai?</p><p>��Sobre o qu�?���perguntou Mat, com cautela.</p><p>Tairenos demais para seu gosto sabiam que ele e Rand haviam crescido juntos, e todos pareciam pensar que ele andava de bra�os dados com Rand quando n�o estava perto deles. Nenhum daqueles homens chegaria perto do pr�prio irm�o, se ele fosse capaz de canalizar. Mat n�o entendia por que o consideravam um trouxa.</p><p>��Eu n�o falei?���O homem de rosto inexpressivo apertou os olhos para as cartas e co�ou a cabe�a, depois pareceu se animar.���Ah, sim. A proclama��o, Mat. A �ltima proclama��o do Lorde Drag�o. Quando ele disse que os plebeus tinham o direito de convocar os lordes diante de um magistrado. Quem � que j� ouviu falar de um lorde sendo convocado a um magistrado? E por camponeses!</p><p>A m�o de Mat apertou a bolsa at� come�ar a esfregar as moedas l� dentro umas nas outras.</p><p>��Seria uma pena���comentou, baixinho���se voc�s fossem interrogados e julgados apenas por terem se divertido um pouco com a filha de um pescador, independente de ela dizer que queria ou n�o, ou por mandarem surrar um fazendeiro que espirrou lama em seus mantos.</p><p>Os outros se remexeram, incomodados, esperando a rea��o de Estean, mas ele assentiu, balan�ando tanto a cabe�a que esta parecia prestes a cair.</p><p>��Exatamente. Mas n�o chegaria a isso, � claro. Um lorde sendo interrogado diante de um magistrado? � claro que n�o. N�o mesmo.���Ele riu para as cartas, b�bado.���Nada de filha de pescador. Cheiram a peixe, entende? N�o importa quantos banhos tomem. Uma mo�a roli�a de fazenda � melhor.</p><p>Mat disse a si mesmo que estava ali para jogar. Disse a si mesmo para ignorar as baboseiras daquele imbecil, lembrou a si mesmo de quanto ouro poderia tirar da bolsa de Estean. Mas sua l�ngua n�o lhe deu ouvidos.</p><p>��Quem � que sabe o que pode acontecer? Enforcamentos, talvez.</p><p>Edorion olhou de soslaio para ele, parecendo na defensiva e desconfort�vel.</p><p>��Temos mesmo que falar sobre� sobre plebeus, Estean? E as filhas do velho Astoril? J� se decidiu com qual delas vai se casar?</p><p>��O qu�? Ah. Ah, acho que vou acabar decidindo na moeda.���Estean franziu a testa para as cartas, mexeu uma delas e franziu a testa outra vez.���Medore tem umas duas ou tr�s criadas bonitas. Acho que vou ficar com ela.</p><p>Mat bebeu um longo gole de vinho da caneca prata para n�o acabar dando um soco bem no meio daquela cara de fazendeiro. Ainda estava na primeira caneca, as duas servi�ais j� tinham desistido de tentar lhe servir mais. Se batesse em Estean, nenhum dos homens ergueria uma �nica m�o sequer para impedi-lo. Nem mesmo Estean. Porque ele era o amigo do Lorde Drag�o. Desejou estar em alguma taverna da cidade, onde algum doqueiro poderia questionar sua sorte, e apenas a l�ngua, as m�os ou os p�s ligeiros poderiam faz�-lo escapar ileso. Nossa, <emphasis>esse</emphasis> era um pensamento idiota.</p><p>Edorion olhou outra vez para Mat, avaliando o humor do rapaz.</p><p>��Ouvi um boato, hoje. Ouvi dizer que o Lorde Drag�o est� nos levando � guerra com Illian.</p><p>Mat engasgou com o vinho.</p><p>��Guerra?���balbuciou.</p><p>��Guerra���assentiu Reimon, satisfeito, com o cachimbo na boca.</p><p>��Tem certeza?���perguntou Carlomin.</p><p>��N�o ouvi nenhum boato���acrescentou Baran.</p><p>��Escutei hoje, de umas tr�s ou quatro bocas.���Edorion parecia absorto nas pr�prias cartas.���Quem � que pode afirmar o quanto h� de verdade nisso?</p><p>��Deve ser verdade���comentou Reimon.���Com o Lorde Drag�o para nos guiar, empunhando <emphasis>Callandor</emphasis>, nem teremos que lutar. Ele vai acabar com os ex�rcitos deles, e vamos marchar direto para Illian. � mesmo uma pena. Que a minha alma queime se n�o for. Queria uma chance de enfrentar os illianenses com espadas.</p><p>��N�o vai ter chance nenhuma com o Lorde Drag�o na lideran�a���retrucou Baran.���Eles v�o cair de joelhos assim que virem o estandarte do Drag�o.</p><p>��E, se n�o ca�rem���completou Carlomin, com uma risada���o Lorde Drag�o vai detonar todos com raios antes que consigam sair do lugar.</p><p>��Primeiro Illian���continuou Reimon���depois� depois vamos conquistar o mundo inteiro para o Lorde Drag�o. Pode dizer a ele que eu disse isso, Mat. O mundo inteiro.</p><p>Mat balan�ou a cabe�a. Um m�s atr�s, esses homens teriam ficado horrorizados com a mera ideia de um homem capaz de canalizar, um homem condenado a enlouquecer e morrer de forma terr�vel. Agora, estavam todos prontos para lutar ao lado de Rand, confiando que o poder dele os faria vencedores. Confiavam no Poder, embora n�o fosse prov�vel que vissem a coisa dessa forma. Mat imaginava que eles precisavam ter algo em que se apoiar. A indestrut�vel fortaleza da Pedra ca�ra nas m�os dos Aiel. O Drag�o Renascido estava em seus aposentos, cem p�s acima de onde jogavam, e <emphasis>Callandor</emphasis> estava com ele. Tr�s mil anos de cren�as e hist�ria tairenas jaziam em ru�nas, e o mundo tinha virado de cabe�a para baixo. Mat se perguntou se ele pr�prio tinha lidado melhor com tudo aquilo. Em pouco mais de um ano, seu pr�prio mundo tinha virado de ponta cabe�a. Girou uma coroa de ouro tairena entre os dedos. Independente de como tivesse lidado com a situa��o, n�o voltaria atr�s.</p><p>��Quando � que vamos marchar, Mat?���perguntou Baran.</p><p>��Eu n�o sei���respondeu, relutante.���Acho que Rand n�o vai come�ar uma guerra.</p><p>A n�o ser que j� tivesse enlouquecido. Era algo terr�vel demais para se pensar.</p><p>Os outros o encararam como se ele estivesse garantindo que o sol n�o nasceria no dia seguinte.</p><p>��Somos todos leais ao Lorde Drag�o, naturalmente.���Edorion franziu a cara para as cartas.���L� para o interior, no entanto� Ouvi dizer que uns Gr�o-lordes, alguns poucos, est�o tentando reunir um ex�rcito para recuperar a Pedra.���De repente, ningu�m mais olhava para Mat, embora Estean ainda parecesse tentar entender as pr�prias cartas.���Mas � claro que tudo isso vai acabar quando o Lorde Drag�o nos levar para a guerra. Em todo caso, n�s aqui na Pedra somos leais. Os Gr�o-lordes tamb�m, tenho certeza. S�o s� esses poucos do interior.</p><p>A lealdade deles n�o seria maior que o medo do Drag�o Renascido. Por um instante, Mat sentiu como se estivesse planejando abandonar Rand em um covil de v�boras. Ent�o lembrou-se do que Rand era. Seria mais como abandonar uma doninha em um viveiro de aves. Rand fora seu amigo. J� o Drag�o Renascido� Quem poderia ser amigo do Drag�o Renascido? <emphasis>N�o estou abandonando ningu�m. Ele provavelmente poderia derrubar a Pedra na cabe�a de todos eles, se quisesse. E na minha tamb�m.</emphasis> Repetiu a si mesmo que era hora de partir.</p><p>��Nada de filhas de pescadores���resmungou Estean.���Voc� vai falar com o Lorde Drag�o?</p><p>��� a sua vez, Mat���comentou Carlomin, ansioso. Parecia meio assustado. No entanto, se temia que Estean irritasse Mat outra vez ou que a conversa retornasse ao assunto da lealdade, era imposs�vel dizer.���Vai comprar a quinta carta ou vai empilhar?</p><p>Mat percebeu que n�o prestara aten��o. Todos, menos ele e Carlomin, seguravam cinco cartas, embora Reimon tivesse empilhado as dele ao lado do bolo de maneira muito organizada, as faces para baixo, para mostrar que estava fora. Mat hesitou, fingindo pensar, depois suspirou e jogou mais uma moeda na pilha.</p><p>Enquanto a coroa de prata quicava, ele sentiu a sorte crescer de repente, passando de um gotejar a uma torrente. Cada tilintar da prata na mesa de madeira soava claro em sua cabe�a. Poderia gritar cara ou coroa e saberia como a moeda cairia a cada quicada. Assim como sabia qual seria a pr�xima carta que receberia antes mesmo que Carlomin a entregasse.</p><p>Deslizou as cartas juntas na mesa e abriu-as em uma das m�os. O Governante de Chamas o encarava junto aos outros quatro: era o Trono de Amyrlin equilibrando uma chama na palma da m�o, embora em nada se parecesse com Siuan Sanche. Independente de como os tairenos se sentissem em rela��o �s Aes Sedai, reconheciam o poder de Tar Valon, ainda que as Chamas fossem o naipe mais baixo.</p><p>Quais eram as chances de receber todos os cinco? A sorte funcionava melhor com as coisas aleat�rias, como o dado, mas talvez um pouco mais dela j� come�asse a se espalhar para as cartas.</p><p>��Que a Luz fa�a cinzas dos meus ossos se n�o for isso���resmungou. Ou foi o que tentou resmungar.</p><p>��Muito bem���quase gritou Estean.���Desta vez n�o d� para negar. Isso era L�ngua Antiga. Algo sobre queimar e ossos.���Ele sorriu para a mesa.���Meu tutor ficaria orgulhoso. Vou mandar um presente a ele. Se conseguir descobrir para onde foi.</p><p>Era esperado dos nobres que soubessem falar a L�ngua Antiga, embora na verdade poucos soubessem mais do que Estean parecia saber. Os jovens lordes come�aram a debater a respeito do que Mat dissera, exatamente. Pareciam pensar que tinha sido um coment�rio acerca do calor.</p><p>Arrepios percorreram a pele do rapaz andoriano, enquanto ele tentava recordar as palavras que tinham acabado de sair de sua boca. Uma sequ�ncia de baboseiras, mas quase parecia que ele as deveria compreender. <emphasis>Que a queime, Moiraine! Se ela me deixasse em paz, eu n�o teria a mem�ria cheia de buracos onde cabem carro��o e junta, e n�o estaria declamando� seja l� que porcaria for isso!</emphasis> Estaria ordenhando as vacas do pai, n�o caminhando pelo mundo com uma bolsa cheia de dinheiro, mas tentou ignorar essa parte.</p><p>��Voc�s vieram aqui para jogar���disse, r�spido���ou para tagarelar como velhas tricoteiras?</p><p>��Para jogar���respondeu Baran, �spero.���Tr�s coroas, ouro!���Ele jogou as coroas no bolo.</p><p>��Cubro e dou mais tr�s.���Estean soltou um solu�o e acrescentou seis coroas de ouro � pilha.</p><p>Sufocando um sorriso, Mat esqueceu-se da L�ngua Antiga. Foi muito f�cil, n�o queria pensar no assunto. Al�m do mais, se os homens estavam come�ando com tanta vontade, talvez ganhasse o suficiente naquela m�o para partir logo de manh�. <emphasis>E, se ele for louco o bastante para come�ar uma guerra, vou sair daqui nem que seja a p�.</emphasis></p><p>L� fora, um galo cantou na escurid�o. Mat se remexeu, desconfort�vel, e disse a si mesmo para n�o ser bobo. Ningu�m iria morrer.</p><p>Ele baixou os olhos �s cartas� e piscou. A chama da Amyrlin fora substitu�da por uma faca. Enquanto tentava se convencer de que estava cansado e vendo coisas, a figura cravou a l�mina diminuta no dorso de sua m�o.</p><p>Com um grito rouco, ele atirou as cartas para longe e se jogou para tr�s, virando a cadeira e chutando a mesa com ambos os p�s ao cair. O ar pareceu ficar grosso como mel. Tudo se movia como se o tempo tivesse desacelerado, mas, ao mesmo tempo, tudo parecia acontecer de uma vez s�. Outros gritos ecoaram o dele, berros vazios reverberando no interior de uma caverna. Ele e a cadeira flutuaram de volta e para o ch�o, a mesa se desvirou.</p><p>A Governante de Chamas pairava no ar, crescendo, encarando-o com um sorriso cruel. J� quase do tamanho real, come�ou a sair da carta. Ainda era uma forma pintada, sem profundidade, mas tentava alcan��-lo com a l�mina tingida de vermelho com seu sangue, como se j� tivesse sido cravada em seu cora��o. Ao lado dela, o Governante de Ta�as come�ou a crescer, o Gr�o-lorde taireno de espada embainhada.</p><p>Mat flutuava, mas de alguma forma conseguiu alcan�ar a adaga em sua manga esquerda e, com o mesmo movimento, jogou-a com viol�ncia bem no cora��o da Amyrlin. Isso se a coisa tivesse cora��o. A segunda faca chegou � sua m�o esquerda com muita fluidez e deslizou para fora dela ainda mais suavemente. As duas l�minas pairavam no ar, feito plumas. Ele quis gritar, mas o primeiro berro de choque e ultraje ainda enchia sua boca. O Governante de Barras se expandia ao lado das duas primeiras cartas, a Rainha de Andor agarrada a uma barra que mais parecia um porrete, os cabelos louro-acobreados emoldurando o rosnado enlouquecido da mulher.</p><p>Ele ainda ca�a, ainda soltava aquele longo grito. A Amyrlin se libertara da carta, e o Gr�o-lorde avan�ava depressa com a espada. As formas planas moviam-se quase t�o lentamente quanto ele. Mat tinha prova de que o metal nas m�os delas era cortante, e sem d�vida a barra seria capaz de quebrar um cr�nio. O cr�nio dele.</p><p>As adagas que arremessara deslocavam-se como se estivessem afundadas em geleia. Tinha certeza de que o galo cantara para ele. N�o importava o que o pai fosse dizer, a profecia fora real. Mas ele n�o iria desistir e morrer. De algum jeito tinha puxado mais duas adagas do casaco, estava com uma em cada m�o. Esfor�ando-se para dar um giro no ar e equilibrar os p�s, atirou uma das facas na figura de cabelos dourados carregando o porrete. Segurou a outra l�mina enquanto tentava se virar e pousar no ch�o, pronto para enfrentar�</p><p>O mundo deu uma guinada e voltou � velocidade normal, e ele aterrissou de lado, todo contorcido, com tanta for�a que soltou todo o ar. Desesperado, p�s-se de p� e puxou mais uma adaga do casaco. N�o dava para carregar mais facas do que o necess�rio, dizia Thom. Mas nenhuma foi necess�ria.</p><p>Por um instante, pensou que as cartas e figuras tivessem desaparecido. Ou talvez que tivesse imaginado aquilo tudo. Talvez ele � que estivesse enlouquecendo. Ent�o viu as cartas, de volta ao tamanho original, presas por suas facas, ainda tr�mulas, aos pain�is de madeira escura. Respirou, �spera e profundamente.</p><p>A mesa estava ca�da, e as moedas ainda giravam pelo ch�o, onde fidalgotes e servi�ais se agachavam em meio �s cartas espalhadas. Boquiabertos, encaravam Mat e as facas que ele tinha nas m�os e as presas � parede com olhos igualmente arregalados. Estean agarrou uma jarra de prata que escapara ilesa e come�ou a virar o vinho goela abaixo, deixando escorrer o excesso pelo queixo e peito.</p><p>��N�o � s� porque voc� n�o tem cartas para ganhar���comentou Edorion, com a voz rouca���que h� necessidade de����Ele parou e estremeceu.</p><p>��Voc�s tamb�m viram.���Mat deslizou as facas de volta para as bainhas. Um filete de sangue escorria do ferimento diminuto, molhando o dorso de sua m�o.���N�o finjam que ficaram cegos!</p><p>��Eu n�o vi nada���retrucou Reimon, inexpressivo.���Nada!</p><p>O homem come�ou a se arrastar pelo ch�o recolhendo ouro e prata, concentrado, como se as moedas fossem a coisa mais importante do mundo. Os outros faziam o mesmo, exceto Estean, que cambaleava conferindo as jarras ca�das para ver se alguma ainda continha vinho. Um dos servi�ais escondia o rosto entre as m�os. O outro, de olhos fechados, parecia rezar em um gemido baixo e resfolegante.</p><p>Praguejando, Mat avan�ou at� onde as facas prendiam as tr�s cartas ao painel. Eram apenas cartas de baralho outra vez, s� papel duro com o verniz rachado. Mas a figura da Amyrlin ainda segurava uma adaga, em vez da chama. Sentiu gosto de sangue e percebeu que estava chupando o corte no dorso da m�o.</p><p>Mais que depressa, arrancou as facas da parede, cortando cada uma das cartas ao meio antes de guardar as adagas. Logo em seguida, vasculhou as cartas espalhadas no ch�o, encontrou os governantes de Moedas e de Ventos e os rasgou tamb�m. Sentiu-se um pouco tolo���estava tudo acabado, as cartas eram apenas cartas outra vez���mas n�o p�de evitar.</p><p>Nenhum dos jovens lordes que engatinhavam pelo ch�o tentou impedi-lo. Sa�am de sua frente sem sequer olhar para ele. N�o haveria mais jogatina hoje, decerto nem durante as pr�ximas noites. Pelo menos, n�o com ele. O que quer que tivesse acontecido, estava claro que ele fora o alvo. E estava ainda mais claro que aquilo fora feito com o Poder �nico. Ningu�m queria ter nada a ver com isso.</p><p>��Que o queime, Rand!���murmurou, entre dentes.���Se voc� for enlouquecer, me deixe fora disso!</p><p>Seu cachimbo estava em dois peda�os. Arrancara a haste da base com os dentes. Irritado, agarrou a bolsa no ch�o e saiu do sal�o pisando forte.</p><empty-line/><p>Em seu quarto escuro, Rand se remexia, desconfort�vel, sobre uma cama onde caberiam cinco pessoas. Estava sonhando.</p><p>Em uma floresta repleta de sombras, Moiraine o cutucava com uma vara pontuda, conduzindo-o ao local onde o Trono de Amyrlin aguardava, sentada em um toco, com uma corda nas m�os para enforc�-lo. Silhuetas indistintas deslocavam-se por entre as �rvores, meio encobertas, perseguindo-o, ca�ando-o. Ali o cintilar de uma l�mina de adaga sob a luz falha, acol� a vis�o de relance das cordas para amarr�-lo. Moiraine, esguia e da altura do ombro de Rand, exibia uma express�o que ele nunca tinha visto. Medo. Suando, ela o cutucou com mais for�a, tentando apress�-lo at� a corda da Amyrlin. Amigos das Trevas e Abandonados nas sombras, a coleira da Torre Branca, e a Aes Sedai Azul atr�s dele. Esquivando-se depressa do a�oite de Moiraine, ele fugiu.</p><p>��Est� tarde demais para isso���gritou a mulher atr�s dele, mas Rand precisava voltar. Voltar.</p><p>Murmurando, ele se agitou violentamente na cama, depois se acalmou e respirou com mais calma por um instante.</p><p>Estava na Floresta das �guas, perto de casa, e o sol que passava por entre as �rvores salpicava de luz o laguinho diante de si. Havia musgo verde nas pedras, naquela ponta do laguinho, e a trinta passadas de dist�ncia, do outro lado, um pequeno arco de flores silvestres. Fora ali que, quando crian�a, aprendera a nadar.</p><p>��Voc� deveria dar uma nadada agora.</p><p>Ele se virou, assustado. Min estava parada ali, sorrindo para ele, usando casaco e cal�as masculinos. Elayne estava ao lado dela, os cabelos louro-acobreados, em um vestido de seda verde apropriado para o pal�cio de sua m�e.</p><p>Fora Min quem falara, mas Elayne acrescentou:</p><p>��A �gua est� convidativa, Rand. Ningu�m vai nos incomodar, aqui.</p><p>��N�o sei���come�ou a responder, com cautela.</p><p>Min o interrompeu entrela�ando os dedos por tr�s de sua nuca e erguendo-se nas pontas dos p�s para beij�-lo.</p><p>Ela repetiu as palavras de Elayne em um murm�rio.</p><p>��Ningu�m vai nos incomodar aqui.</p><p>Ela deu um passo atr�s e se livrou do casaco, depois atacou os cord�es da camisa.</p><p>Rand as encarava fixamente, ainda mais depois que percebeu que o vestido de Elayne jazia ca�do no ch�o coberto de musgo. A Filha-herdeira estava curvada, os bra�os entrela�ados, erguendo a barra da roupa de baixo.</p><p>��O que est�o fazendo?���inquiriu ele, a voz sufocada.</p><p>��Estamos nos aprontando para nadar com vocꠗ�respondeu Min.</p><p>Elayne abriu um sorriso e passou a roupa de baixo por cima da cabe�a.</p><p>Ele virou as costas depressa, embora um tanto sem vontade. Viu-se encarando Egwene, os olhos grandes e escuros da jovem fitando-o com tristeza. Sem uma palavra, ela se virou e desapareceu por entre as �rvores.</p><p>��Espere!���gritou para ela.���Eu posso explicar.</p><p>Rand come�ou a correr, precisava encontr�-la. Por�m, ao chegar na margem das �rvores, a voz de Min o interrompeu.</p><p>��N�o v�, Rand.</p><p>Ela e Elayne j� estavam dentro da �gua, s� com as cabe�as para fora, nadando pregui�osamente do meio do laguinho.</p><p>��Volte���chamou Elayne, acenando com o bra�o esbelto.���Voc� n�o acha que merece ter o que deseja, pelo menos uma vez?</p><p>Ele revirou os p�s, querendo se mover, mas sem saber para que lado seguir. Sem saber o que queria. As palavras soavam estranhas. O que ele queria? Levou uma das m�os ao rosto para limpar o que parecia suor. A carne pustulenta quase apagava a marca da gar�a em sua palma, osso branco surgia por entre cortes com cantos avermelhados.</p><p>Acordou de um pulo, tr�mulo, deitado no calor sombrio. As roupas de baixo e os len��is de linho sob suas costas estavam empapados de suor. A lateral do corpo queimava, bem onde uma antiga ferida nunca cicatrizara direito. Ele localizou a cicatriz tosca, um c�rculo de quase uma polegada de di�metro, ainda tenra depois de todo aquele tempo. Nem a Cura Aes Sedai de Moiraine fora capaz de repar�-la por completo. <emphasis>Mas eu ainda n�o estou apodrecendo. Nem estou louco. Ainda n�o.</emphasis> Ainda n�o. Isso dizia tudo. Ele queria rir, e se perguntou se aquilo era indica��o de que j� estava um pouco louco.</p><p>Sonhar com Min e Elayne, sonhar com elas daquele jeito� Bem, isso n�o era loucura, mas sem d�vida era bobagem. Nenhuma das duas olhara para ele daquela forma quando ele estava acordado. Rand fora praticamente prometido a Egwene desde que ambos eram crian�as. A promessa de noivado nunca havia sido proferida diante do C�rculo das Mulheres, mas todos em Campo de Emond e redondezas sabiam que os dois um dia iriam se casar.</p><p>Esse dia jamais chegaria, naturalmente. N�o mais, n�o com o futuro que aguardava um homem capaz de canalizar. Egwene tamb�m devia ter percebido isso. Devia. Estava completamente dedicada em se tornar Aes Sedai. Mas as mulheres eram estranhas, ela poderia achar que era poss�vel ser Aes Sedai e se casar com ele mesmo assim, canalizando ou n�o. Como diria a ela que n�o queria mais, que a amava como uma irm�? Mas tinha certeza de que n�o haveria necessidade de dizer isso a ela. Podia se esconder atr�s do que era. Egwene teria que compreender. Que homem poderia pedir uma mulher em casamento sabendo que teria apenas mais alguns anos pela frente, com sorte, at� come�ar a enlouquecer, at� come�ar a apodrecer vivo? Apesar do calor, Rand estremeceu.</p><p><emphasis>Preciso dormir.</emphasis> Os Gr�o-lordes voltariam pela manh�, tentando manipul�-lo para ganhar seu favor. O favor do Drag�o Renascido. <emphasis>Talvez eu n�o sonhe desta vez.</emphasis> Ele come�ou a rolar, buscando um ponto seco entre os len��is���e congelou, escutando pequenos ru�dos na escurid�o. N�o estava sozinho.</p><p>A Espada Que N�o � Espada estava do outro lado do quarto, fora de seu alcance, em um assento parecido com um trono que os Gr�o-lordes tinham dado a ele, sem d�vida na esperan�a de que mantivesse <emphasis>Callandor</emphasis> fora de suas vistas. <emphasis>Algu�m quer roubar</emphasis> Callandor<emphasis>.</emphasis> Um segundo pensamento surgiu. <emphasis>Ou matar o Drag�o Renascido.</emphasis> Ele n�o precisava dos sussurros de advert�ncia de Thom para saber que os votos de lealdade infinita dos Gr�o-lordes eram apenas proferidos por necessidade.</p><p>Rand se esvaziou de pensamentos e emo��es e aceitou o Vazio, n�o foi preciso muito esfor�o. Flutuando na fria vastid�o de si mesmo, pensamentos e emo��es deixados do lado de fora, tentou alcan�ar a Fonte Verdadeira. Dessa vez, tocou-a com facilidade, o que nem sempre era o caso.</p><p><emphasis>Saidin</emphasis> o preencheu como uma torrente de luz e calor branco, enchendo-o de vida, deixando-o doente com a imund�cie da m�cula do Tenebroso, como espuma de esgoto boiando em �guas puras e doces. A torrente amea�ava arrast�-lo, consumi-lo, trag�-lo.</p><p>Lutando contra a torrente, Rand a controlou com pura for�a de vontade e rolou da cama, canalizando o Poder enquanto se erguia na postura inicial da forma da espada chamada Macieira Floresce ao Vento. Os inimigos n�o deviam estar em grande n�mero, ou teriam feito muito mais barulho. A forma, de nome t�o suave, era usada contra mais de um oponente.</p><p>Quando seus p�s tocaram o carpete, uma espada surgiu em suas m�os, de cabo longo e l�mina levemente curva, de apenas um gume. Parecia formada de chamas, mas sequer estava quente. A silhueta de uma gar�a preta era vis�vel no amarelo-avermelhado da l�mina. No mesmo instante, cada vela e lanterna dourada se acendeu, e os pequenos espelhos atr�s delas expandiram a ilumina��o. Os espelhos mais largos nas paredes e os dois espelhos de p� refletiam a luz ainda mais longe, at� chegar ao ponto em que ele seria capaz de ler sem problemas em qualquer ponto do quarto enorme.</p><p><emphasis>Callandor</emphasis> jazia, imperturbada, uma espada que parecia ser toda de vidro, cabo e l�mina, sobre um suporte de madeira alto e largo como um homem, com entalhes ornamentais dourados, cravado de pedras preciosas. A mob�lia tamb�m era toda dourada e cravejada de pedras preciosas, cama, cadeiras, bancos, guarda-roupas, ba�s e lavat�rio. Jarro e vaso eram de porcelana dourada do Povo do Mar, fina como folha. O enorme carpete taraboniano com arabescos vermelhos, dourados e azuis custava o bastante para alimentar uma aldeia inteira por meses. Quase todas as superf�cies lisas continham mais delicadas porcelanas do Povo do Mar, assim como c�lices, vasos e adornos de ouro trabalhado em prata ou de prata biselada com ouro. Na ampla cornija de m�rmore da lareira, dois lobos de prata com olhos de rubi tentavam abater um veado dourado de cerca de tr�s p�s de altura. Cortinas de seda vermelha com �guias bordadas em fios de ouro pendiam das janelas estreitas, balan�ando de leve com a brisa. Livros preenchiam todo o espa�o poss�vel, encadernados em couro ou madeira, alguns esfarrapados e ainda com a poeira das mais rec�nditas prateleiras da biblioteca da Pedra.</p><p>Onde ele pensara ver assassinos ou ladr�es havia uma bela jovem, parada hesitante e surpresa no meio do carpete, os cabelos negros caindo pelos ombros em ondas brilhosas. O robe delicado de seda branca real�ava mais do que encobria. Berelain, governante da cidade-estado de Mayene, era a �ltima pessoa que ele esperava ver ali.</p><p>Depois de o encarar assustada, com os olhos arregalados, ela fez uma mesura profunda e graciosa que apertou as roupas contra o corpo.</p><p>��Estou desarmada, meu Lorde Drag�o. Submeto-me � sua revista, se duvida de mim.���De repente, o sorriso da mulher fez notar, constrangido, que usava apenas as roupas de baixo.</p><p><emphasis>Que me queime se ela for me fazer sair todo desajeitado para tentar me cobrir.</emphasis> O pensamento flutuou para longe do Vazio. <emphasis>Eu n�o pedi que ela entrasse aqui assim. Toda</emphasis> sorrateira<emphasis>!</emphasis> Raiva e embara�o tamb�m pairavam no limite do Vazio mas, seu rosto ficou vermelho mesmo assim. Estava levemente ciente disso, ciente de que saber o que se passava intensificava a vermelhid�o em suas bochechas. Era t�o calmo e frio no Vazio, mas l� fora� Sentia cada gotinha de suor que escorria por seu peito e costas. Precisou de muito esfor�o e obstina��o para ficar ali, sob o olhar dela. <emphasis>Revist�-la? Que a Luz me ajude!</emphasis></p><p>Relaxando a postura, deixou a espada desaparecer, mas manteve o leve fluxo que o conectava a <emphasis>saidin</emphasis>. Era como beber de um buraquinho em um a�ude, com toda a terra ao redor querendo ceder. A �gua era doce como vinho adocicado e repugnante como um riacho passando por um casqueiro.</p><p>N�o sabia muito sobre a mulher, apenas que ela circulava pela Pedra como se estivesse em seu pal�cio em Mayene. Thom dizia que a Primeira de Mayene ficava o tempo todo fazendo perguntas a todos. Perguntas sobre Rand. O que seria natural, sendo ele o que era, mas n�o tornava as coisas mais f�ceis em sua mente. E ela n�o tinha voltado a Mayene. Isso n�o era natural. Fora mantida praticamente prisioneira por meses, at� sua chegada, sem contato com o trono e o dom�nio da pequena na��o. A maioria das pessoas teria aproveitado a primeira oportunidade que tivessem de se afastar de um homem capaz de canalizar.</p><p>��O que est� fazendo aqui?���Ele sabia que estava sendo rude, e n�o se importou.���Tinha um Aiel guardando aquela porta, quando fui dormir. Como passou por eles?</p><p>Os l�bios de Berelain se curvaram um pouquinho mais. Rand teve a impress�o de que o quarto de s�bito ficara ainda mais quente.</p><p>��Eles me deixaram passar na mesma hora, quando disse que havia sido convocada pelo Lorde Drag�o.</p><p>��Convocada? Eu n�o convoquei ningu�m.���<emphasis>Pare com isso</emphasis>, disse a si mesmo. <emphasis>Ela � uma rainha, ou o que h� de mais pr�ximo disso. Voc� sabe tanto sobre os costumes de uma rainha quanto sabe voar.</emphasis> Tentou ser cort�s, mas n�o sabia como chamar a Primeira de Mayene.���Milady���teria de ser o bastante���por que � que eu a convocaria a esta hora da noite?</p><p>Ela soltou uma risada grave e musical, vinda bem do fundo da garganta. Mesmo envolto em um vazio indiferente, a risada parecia lhe causar uma comich�o, eri�ando os pelos dos bra�os e pernas. De repente, notou a vestimenta justa da mulher como se fosse a primeira vez e sentiu-se enrubescer de novo. <emphasis>Ela n�o pode estar falando s�rio� Ser�? Luz, eu nunca troquei duas palavras com essa mulher.</emphasis></p><p>��Talvez eu queira conversar, meu Lorde Drag�o.���Ela deixou o robe claro cair no ch�o, revelando uma vestimenta de seda branca ainda mais fina, que ele s� poderia chamar de camisola. Deixava os ombros macios completamente nus e expunha uma parte consider�vel do busto. Ele se pegou pensando, absorto, no que os sustentava. Era dif�cil n�o ficar olhando.���Voc� est� muito longe de casa, assim como eu. As noites s�o especialmente solit�rias.</p><p>��Ficarei feliz em conversar com a senhora pela manh�.</p><p>��Mas durante o dia voc� fica rodeado de pessoas. Requerentes. Gr�o-lordes. Aiel.���Ela estremeceu. Rand disse a si mesmo que deveria desviar o olhar, mas teria sido t�o f�cil quanto parar de respirar. Nunca estivera t�o consciente das pr�prias rea��es quando envolto no Vazio.���Os Aiel me assustam, e n�o gosto dos lordes tairenos.</p><p>Acreditava que estava sendo sincera quanto aos tairenos, mas tamb�m achava que nada poderia assustar aquela mulher. <emphasis>Que me queime, ela est� no quarto de um homem desconhecido, no meio da noite, seminua, e eu � que estou nervoso como um gato fugindo de um c�o, com ou sem Vazio.</emphasis> Era hora de p�r fim �quilo, antes que a coisa fosse longe demais.</p><p>��Seria melhor se a senhora retornasse aos seus aposentos, milady.���Parte dele tamb�m queria mand�-la vestir um manto. Um manto bem grosso. S� parte dele.���H� Est� mesmo muito tarde para conversarmos. Amanh�. � luz do dia.</p><p>Ela lan�ou a Rand um olhar obl�quo e perplexo.</p><p>��Ser� que j� assimilou os modos conservadores dos tairenos, Lorde Drag�o? Ou essa reserva vem de Dois Rios? N�o somos t�o� formais� em Mayene.</p><p>��Milady����Ele tentou soar formal. Se a mulher n�o gostava de formalidades, ent�o era o que ele desejava fazer.���Estou prometido a Egwene al�Vere, milady.</p><p>��Est� falando da Aes Sedai, meu Lorde Drag�o? Isso se ela for mesmo Aes Sedai. A mo�a � bastante nova, talvez nova demais para usar o anel e o xale.���Berelain falava como se Egwene fosse uma crian�a, embora n�o devesse ser mais do que um ano mais velha que Rand, se tanto, e o rapaz era apenas pouco mais de dois anos mais velho do que Egwene.���Meu Lorde Drag�o, n�o pretendo me colocar entre os dois. Case-se com ela, se a mo�a for da Ajah Verde. Eu jamais almejaria me casar com o Drag�o Renascido. Pe�o perd�o se estiver me excedendo, mas j� disse que n�o somos t�o� formais em Mayene. Posso cham�-lo de Rand?</p><p>Rand se surpreendeu dando um suspiro arrependido. Houvera um lampejo nos olhos da mulher, uma breve mudan�a de express�o que desapareceu depressa, quando ela mencionou se casar com o Drag�o Renascido. Se ela n�o refletira sobre isso antes, o fizera agora. O Drag�o Renascido, n�o Rand al�Thor. O homem da profecia, n�o o pastor de Dois Rios. Ele n�o estava exatamente chocado, algumas garotas em casa suspiravam por quem se mostrasse mais forte ou veloz nos jogos do Bel Tine e do Dia do Sol, e, vez ou outra, uma mulher levava os olhos ao dono dos campos mais f�rteis ou dos maiores rebanhos. Teria sido bom pensar que ela desejava Rand al�Thor.</p><p>��Est� na hora de a senhora ir, milady���disse, baixinho.</p><p>Ela se aproximou.</p><p>��Sinto seus olhos em mim, Rand.���A voz era quente.���N�o sou uma garotinha de aldeia agarrada ao avental da m�e, e sei que voc� quer�</p><p>��Acha que sou de pedra, mulher?</p><p>A Primeira de Mayene se sobressaltou com o grito dele, mas no instante seguinte j� cruzava o carpete em sua dire��o, os olhos eram dois lagos negros capazes de arrastar um homem �s profundezas.</p><p>��Seus bra�os parecem fortes como pedra. Se achar que deve ser duro comigo, ent�o seja, desde que me abrace.</p><p>Ela tocou seu rosto, os dedos pareciam soltar fa�scas.</p><p>Sem pensar, Rand canalizou os fluxos ainda ligados a ele, e de repente a mulher cambaleou para tr�s, os olhos arregalados de susto, como se uma parede de ar a empurrasse. Era ar, deu-se conta. Ele fazia coisas que desconhecia com mais frequ�ncia do que percebia. Pelo menos, depois que as fazia, lembrava-se de como repeti-las.</p><p>A parede invis�vel se deslocava, ondeando o tapete, varrendo consigo o robe de Berelain ca�do no ch�o, uma bota que Rand jogara de lado ao se despir e um banquinho com um volume aberto de <emphasis>A Hist�ria da Pedra de Tear</emphasis>, de Eban Vandes. Empurrava tudo e for�ava a mulher a quase se encostar na parede, cercada. A uma dist�ncia segura dele. Rand congelou o fluxo���era a �nica forma que tinha de chamar o que fizera���e o escudo j� n�o precisava dele para se manter. Por um instante, analisou o que havia feito, at� ter certeza de que seria capaz de repetir. Parecia �til, sobretudo o congelamento.</p><p>Com os olhos escuros ainda arregalados, Berelain tateou os limites de sua pris�o invis�vel com as m�os tr�mulas. Seu rosto estava quase t�o branco quanto o vestido de seda diminuto. Banquinho, bota e livro jaziam a seus p�s, amontoados com o robe.</p><p>��Por mais que eu me arrependa disso���come�ou Rand���n�o nos falaremos outra vez, a n�o ser em p�blico, milady.���Estava mesmo arrependido. Quaisquer que fossem os motivos dela, a mulher era linda. <emphasis>Que me queime, eu</emphasis> sou <emphasis>um idiota!</emphasis> N�o sabia ao certo se era por pensar em na beleza da Primeira ou por mand�-la embora.���Na verdade, � melhor arranjar a sua viagem de volta � Mayene assim que poss�vel. Prometo que Tear n�o vai mais incomodar seu pa�s. Tem a minha palavra.</p><p>A promessa era v�lida apenas enquanto ele vivesse, talvez apenas enquanto permanecesse na Pedra, mas era preciso oferecer algo � mulher. Um curativo para orgulho ferido, um presente para desviar o pensamento do medo.</p><p>Mas o medo dela j� estava sob controle, ao menos no exterior. Honestidade e franqueza dominavam seu rosto, e todos os esfor�os de sedu��o haviam desaparecido.</p><p>��Perdoe-me. Lidei muito mal com isso. N�o era minha inten��o ofend�-lo. No meu pa�s, uma mulher pode dizer livremente o que pensa a um homem, e ele a ela. Rand, voc� deve saber que � um homem bonito, alto e forte. Eu � que seria de pedra se n�o percebesse e admirasse isso. Por favor, n�o me mande para longe de voc�. Posso implorar, se voc� quiser.���Ela se ajoelhou com muita delicadeza, parecia dan�ar. A express�o em seu rosto indicava que ela estava sendo franca e confessando tudo. Mas, por outro lado, ela puxara o vestido j� inst�vel ao se ajoelhar, at� o tecido parecer prestes a cair.���Por favor, Rand?</p><p>Mesmo protegido pelo vazio, o jovem a encarou boquiaberto, o que n�o tinha nada a ver com a beleza ou a quase nudez dela. Bem, pelo menos em parte. Se os Defensores da Pedra tivessem metade da determina��o daquela mulher, metade de sua firmeza de prop�sito, nem dez mil Aiel teriam conseguido tomar a Pedra.</p><p>��Estou lisonjeado, milady���disse, diplom�tico.���Acredite, estou mesmo. Mas n�o seria justo com a senhora. N�o posso lhe dar o que a senhora merece.���<emphasis>E deixar que fa�a o que quiser com isso.</emphasis></p><p>Do lado de fora, na escurid�o, um galo cantou.</p><p>Para surpresa de Rand, os olhos de Berelain de repente se fixaram em um ponto atr�s dele, grandes como x�caras de ch�. Seu queixo caiu, e o pesco�o delgado se preparou para um grito que n�o veio. Ele deu meia-volta, a espada de luz vermelha e amarela lampejando outra vez em suas m�os.</p><p>Do outro lado do quarto, um dos espelhos de p� refletia sua imagem, um homem jovem e alto de cabelos vermelhos e olhos cinza, vestido apenas em roupas de baixo de linho e segurando uma espada esculpida em fogo. O reflexo deu um passo para o carpete e ergueu a espada.</p><p><emphasis>Eu enlouqueci</emphasis> mesmo<emphasis>.</emphasis> Os pensamentos flutuavam no limite do Vazio. <emphasis>N�o! Ela tamb�m viu. � real!</emphasis></p><p>Com o canto do olho, captou um movimento � esquerda. Virou-se antes de conseguir pensar, deslizando a espada para cima, assumindo a forma da Lua Sobre as �guas. A l�mina golpeou a silhueta���a silhueta dele���que se projetava de um espelho na parede. A forma golpeada bamboleou, fragmentou-se como part�culas de poeira flutuando no ar e desapareceu. O reflexo de Rand surgiu outra vez no espelho, espalmando as m�os na moldura. Tinha consci�ncia do movimento nos espelhos em todo o quarto.</p><p>Em desespero, golpeou o espelho. O vidro prateado se despeda�ou, mas a imagem pareceu ter se despeda�ado primeiro. Pensou ouvir um grito distante dentro da cabe�a, um berro de sua pr�pria voz sumindo ao longe. Ao mesmo tempo que fragmentos de espelho desabavam, continuava golpeando com o Poder �nico. Cada espelho do quarto explodia em sil�ncio, formando uma cascata de vidro pelo carpete. O grito agonizante em sua cabe�a ecoava mais e mais, mandando arrepios por sua coluna. Era sua voz. Mal podia acreditar que n�o era ele fazendo aqueles sons.</p><p>Virou-se para enfrentar a silhueta que conseguira se libertar, a figura atacou no mesmo instante, Abrindo o Leque contra Pedras Rolando Montanha Abaixo. A figura deu um salto para tr�s, e, de repente, Rand percebeu que ela n�o estava sozinha. Com a mesma rapidez com que esmagara os espelhos, dois outros reflexos haviam escapado. Todos o encaravam, tr�s duplicatas dele mesmo, at� na cicatriz redonda e rugosa ao lado do corpo. Todos com os rostos retorcidos de �dio, desprezo e uma fome estranha. S� que os olhos das figuras pareciam vazios, sem vida. Antes que ele pudesse respirar, os tr�s avan�aram em sua dire��o.</p><p>Rand pisou de lado, os peda�os de espelho quebrado cortando seus p�s, sempre na lateral, de postura em postura, de forma em forma, tentando enfrentar apenas um de cada vez. Usou tudo o que Lan, Guardi�o de Moiraine, lhe ensinara nas aulas di�rias com a espada.</p><p>Se os tr�s tivessem lutado juntos, se tivessem defendido uns aos outros, Rand teria morrido no primeiro minuto, mas cada um lutou sozinho, como se os outros n�o existissem. Mesmo assim, n�o foi poss�vel deter as espadas por completo. Em minutos, o sangue escorria por seu rosto, peito, bra�os. A velha ferida se abrira, e o fluxo que escorria dela ajudava a manchar de vermelho as roupas de baixo. As figuras possu�am suas fei��es e habilidade, e eram tr�s contra um. Cadeiras e mesas tombaram, porcelanas do Povo do Mar de valor inestim�vel se despeda�aram no tapete.</p><p>Sentiu sua for�a se esgotando. Nenhum dos cortes era grande, exceto a ferida antiga, mas todos juntos� Rand sequer pensou em gritar, em pedir ajuda aos Aiel do outro lado da porta. As paredes grossas sufocariam at� um grito de morte. N�o importava o que decidisse fazer, teria que dar conta disso sozinho. Lutou, envolto na g�lida emo��o do Vazio, mas o medo arranhava as barreiras como galhos a�oitados pelo vento arranhavam uma janela na noite.</p><p>Deslizou a l�mina no rosto do oponente, bem abaixo dos olhos���foi imposs�vel n�o se contrair, era seu pr�prio rosto���e o espectro recuou, mas s� o suficiente para evitar um golpe letal. Jorrou sangue do corte, cobrindo boca e queixo de vermelho-escuro, mas o rosto destru�do n�o alterou sua express�o, e os olhos vazios jamais vacilaram. A coisa desejava a morte de Rand como um homem faminto deseja comer.</p><p><emphasis>Ser� que alguma coisa � capaz de mat�-los?</emphasis> Os tr�s sangravam pelas feridas que ele conseguira infligir, mas a perda de sangue n�o parecia afet�-los, como fazia com ele. Todos tentavam desviar de sua espada, mas nem reparavam nos pr�prios ferimentos. <emphasis>Se � que est�o feridos</emphasis>, pensou, sombriamente. <emphasis>Luz, se est�o sangrando, devem estar feridos! S� pode ser!</emphasis></p><p>Precisava de um intervalo, um instante para recuperar o f�lego, para se recompor. De s�bito, saltou para a cama, para longe dos outros, e deu um rolamento. Sentiu, mais do que viu, l�minas rasgando os len��is, quase acertando sua carne. Cambaleante, ficou de p� e agarrou uma mesa com for�a, para se equilibrar. A bacia brilhante na mesa, de prata trabalhada em ouro, bamboleou. Um dos reflexos subira na cama toda rasgada, chutando plumas de ganso ao avan�ar com muita cautela, espada a postos. Os outros dois davam a volta lentamente, ainda ignorando um ao outro, concentrados apenas nele. Seus olhos brilhavam como cristal.</p><p>Rand estremeceu quando a dor atingiu a m�o que pusera na mesa. Uma imagem de si mesmo com n�o mais de seis polegadas de altura recolheu uma espada pequenina. Ele agarrou a figura por instinto, antes que ela pudesse golpe�-lo outra vez. Contorcia-se em seu punho, arreganhando os dentes. Deu-se conta dos pequenos movimentos pelo quarto, dos in�meros min�sculos reflexos que surgiam da prata polida. Sentiu a m�o come�ar a formigar, a ficar gelada, como se a coisa estivesse sugando todo o calor de sua carne. O calor de <emphasis>saidin</emphasis> cresceu dentro dele. Foi tomado por um impulso, e o calor fluiu at� a m�o g�lida.</p><p>De repente, a figura diminuta explodiu como uma bolha, e ele sentiu algo fluir para dentro de si���vindo da explos�o���uma pequena por��o de sua for�a que fora perdida. Deu um solavanco ao sentir os pequenos choques de vitalidade.</p><p>Quando ele ergueu a cabe�a���imaginando se estaria morto���os pequenos reflexos que percebera mais cedo haviam desaparecido. Os tr�s maiores vacilavam, como se tivessem perdido a for�a que Rand ganhara. Mesmo assim, quando olhou para cima, viu que os tr�s se equilibraram e come�aram a avan�ar, embora mais cautelosos.</p><p>Ele recuou, pensando desesperadamente, a espada amea�ando primeiro um, depois outro. Se continuasse a enfrent�-los como antes, mais cedo ou mais tarde os tr�s o acabariam matando. Sabia disso com a mesma certeza que sabia estar sangrando. Mas algo conectava os reflexos. Ao absorver o pequenino���sentiu um enjoo s� de pensar, mas fora isso mesmo que acontecera���n�o apenas destru�ra os outros com ele, tamb�m afetara os maiores, pelo menos por um instante. Se pudesse fazer o mesmo com algum dos grandes, talvez destru�sse os tr�s.</p><p>A mera ideia de absorv�-los dava �nsia de v�mito, mas Rand n�o via outra sa�da. <emphasis>N</emphasis>�o <emphasis>sei como fazer isso. Como foi que fiz aquilo? Luz, o que foi que eu fiz?</emphasis> Era preciso agarrar um deles, ou pelo menos toc�-lo, disso tinha certeza. Por�m, se ele tentasse chegar t�o perto, teria tr�s espadas cravadas em seu corpo em um piscar de olhos. <emphasis>Reflexos. Quanto deles ainda</emphasis> � <emphasis>um reflexo?</emphasis></p><p>Na esperan�a de que n�o estivesse sendo um imbecil���se estivesse, era melhor ser logo um imbecil morto���fez a espada desaparecer. Preparou-se para traz�-la de volta no mesmo instante, mas, quando sua l�mina entalhada em fogo cessou de existir, as dos outros tamb�m cessaram. Por um instante, a confus�o se refletiu nas tr�s c�pias de seu rosto, uma delas toda ensanguentada. Por�m, antes que pudesse agarrar algum, os tr�s saltaram na dire��o dele, e todos os quatro desabaram no ch�o, um emaranhado de membros rolando pelo carpete cheio de estilha�os.</p><p>O frio se entranhou em Rand. A dorm�ncia subiu por seus bra�os, pernas e ossos at� que ele mal sentisse os fragmentos de espelho, as lascas de porcelana triturando sua carne. Algo pr�ximo ao p�nico tremeluzia, invadindo o vazio ao seu redor. Talvez tivesse cometido um erro fatal. Aqueles tr�s eram maiores do que o que ele absorvera antes, sorviam mais calor de dentro dele. E n�o apenas calor. Quanto mais frio ficava, mais os olhos v�treos e cinzentos que o encaravam ganhavam vida. Teve a g�lida certeza de que aquela luta n�o terminaria com sua morte. Os tr�s se virariam uns contra os outros at� que restasse apenas um, que tomaria sua vida, suas lembran�as, <emphasis>seria</emphasis> ele.</p><p>Lutou, obstinado. Quanto mais fraco ficava, mais se esfor�ava. Abriu-se para <emphasis>saidin</emphasis>, tentando se encher de seu calor. At� a m�cula nauseante era bem-vinda, pois, quanto mais a sentia, mais <emphasis>saidin</emphasis> jorrava sobre ele. Se seu est�mago ainda era capaz de ficar embrulhado, significava que ele ainda estava vivo, e, enquanto vivesse, poderia lutar. <emphasis>Mas como? Como? O que foi que eu fiz antes? Saidin</emphasis> revolvia em f�ria dentro dele. Parecia que, se sobrevivesse aos agressores, seria consumido pelo Poder. <emphasis>Como foi que eu fiz?</emphasis> S� era capaz de sugar <emphasis>saidin</emphasis> e tentar� alcan�ar� arrancar�</p><p>Um dos tr�s desapareceu���Rand o sentiu deslizar para dentro dele, foi como despencar de uma altura enorme direto em um ch�o de pedras���depois os outros dois juntos. O impacto o arremessou de costas, e ele ficou ali, virado para o teto caiado com ornamentos dourados, deleitando-se com o fato de que ainda respirava.</p><p>O Poder continuava crescendo em cada fresta de seu ser. Queria vomitar todas as refei��es que j� fizera. Sentia-se t�o vivo que, em compara��o, n�o estar banhado em <emphasis>saidin</emphasis> seria como viver nas sombras. Sentia o cheiro da cera de abelha das velas e do �leo das lanternas. Sentia cada fibra do carpete em suas costas. Sentia cada corte em sua carne, cada talho, cada incis�o, cada hematoma. No entanto, agarrou-se a <emphasis>saidin</emphasis>.</p><p>Um dos Abandonados tentara mat�-lo. Ou todos eles. Devia ter sido isso, a menos que o Tenebroso j� estivesse livre. Mas, se fosse o caso, achava que n�o seria uma luta t�o f�cil ou simples. Manteve a conex�o com a Fonte Verdadeira. <emphasis>A n�o ser que eu tenha feito tudo isso sozinho. Ser� que posso odiar tanto o que sou a ponto de tentar me matar? Mesmo sem saber? Luz, preciso aprender a controlar isso. Preciso!</emphasis></p><p>Levantou-se, todo dolorido. Deixando pegadas de sangue no carpete, mancou at� o suporte onde estava <emphasis>Callandor</emphasis>. Rand estava coberto do sangue que escorrida das centenas de cortes. Ergueu a espada, toda a extens�o v�trea cintilava com o Poder que flu�a para o seu interior. A Espada Que N�o � Espada. Aquela l�mina, aparentemente de vidro, era t�o afiada quanto o melhor a�o, ainda que <emphasis>Callandor</emphasis> n�o fosse de fato uma espada, mas um fragmento da Era das Lendas, um <emphasis>sa�angreal</emphasis>. Com ajuda de um dos relativamente poucos <emphasis>angreal</emphasis> conhecidos que tinham sobrevivido � Guerra da Sombra e � Ruptura do Mundo, era poss�vel canalizar fluxos do Poder �nico que de outra maneira teriam reduzido o canalizador a cinzas. Os <emphasis>sa�angreal</emphasis>, ainda mais raros, intensificavam os fluxos canalizados com um <emphasis>angreal</emphasis> da mesma forma que os <emphasis>angreal</emphasis> intensificavam os fluxos canalizados livremente. E <emphasis>Callandor</emphasis>, que apenas homens poderiam utilizar, conectada ao Drag�o Renascido por tr�s mil anos de lenda e profecia, era um dos mais poderosos <emphasis>sa�angreal</emphasis> j� produzidos. Empunhando <emphasis>Callandor</emphasis>, ele poderia destruir uma cidade em um �nico golpe. Empunhando <emphasis>Callandor</emphasis>, poderia at� enfrentar um dos Abandonados. <emphasis>Foram eles</emphasis> mesmo<emphasis>. S� podem ter sido.</emphasis></p><p>De repente, Rand percebeu que n�o ouvira sequer um som de Berelain. Meio temeroso de v�-la morta, ele se virou.</p><p>Ainda ajoelhada, a jovem estava encolhida. Vestira outra vez o robe e o apertava contra o corpo como uma armadura de ferro ou uma muralha de pedra. Com o rosto branco como a neve, ela umedeceu os l�bios.</p><p>��Qual deles �?���Engoliu em seco e recome�ou.���Qual deles�?���N�o conseguiu terminar.</p><p>��Sou o �nico que existe���respondeu Rand, gentilmente.���O que voc� estava tratando como se f�ssemos prometidos um ao outro.</p><p>Seu intuito era o de acalm�-la, talvez faz�-la sorrir���sem d�vida uma mulher com a for�a que ela demonstrara ter poderia sorrir, mesmo diante de um homem banhado em sangue. Mas a Primeira de Mayene se inclinou para a frente, apertando o rosto no ch�o.</p><p>��Pe�o perd�o, humildemente, por ter ofendido o senhor de forma t�o grave, Lorde Drag�o.���A voz resfolegante de fato soava humilde e assustada. Nada parecida com a mulher de antes.���Imploro que esque�a e perdoe minha ofensa. N�o incomodarei mais o senhor. Eu juro, meu Lorde Drag�o. Pelo nome de minha m�e e sob a Luz, eu juro.</p><p>Rand soltou o fluxo intrincado, e a parede invis�vel que a confinava se transformou em uma brisa r�pida, agitando o robe da jovem.</p><p>��N�o h� nada a perdoar���respondeu, com voz cansada. Sentia-se esgotado.���Fa�a como quiser.</p><p>Ela se endireitou, hesitante, estendeu uma das m�os e soltou um arquejo aliviado ao n�o encontrar resist�ncia. Juntando as saias do robe, come�ou a cruzar o carpete coberto por estilha�os de vidro com muito cuidado, os cacos rangendo sob as sapatilhas de veludo. Parou perto da porta, fazendo um esfor�o evidente para encar�-lo. Seus olhos n�o conseguiram se fixar nos dele.</p><p>��Mandarei os Aiel entrarem, se o senhor desejar. Posso mandar buscar uma Aes Sedai para cuidar de seus ferimentos.</p><p><emphasis>Ela preferia estar em um quarto com um Myrddraal, agora. Ou mesmo com o pr�prio Tenebroso, mas n�o � covarde.</emphasis></p><p>��Obrigado���respondeu ele, baixinho���mas n�o precisa. Gostaria que a senhora n�o contasse a ningu�m o que aconteceu aqui. Farei o que precisa ser feito.</p><p><emphasis>Foram os Abandonados, n�o h� d�vida.</emphasis></p><p>��Como o Lorde Drag�o quiser.</p><p>Ela fez uma mesura contida e saiu depressa, talvez com medo de que ele pudesse mudar de ideia e n�o deix�-la partir.</p><p>��Preferia estar com o pr�prio Tenebroso���murmurou Rand, quando a porta se fechou atr�s dela.</p><p>Ele mancou at� o p� da cama, deixou-se cair em cima do ba� e pousou <emphasis>Callandor</emphasis> entre os joelhos, as m�os ensanguentadas sobre a l�mina reluzente. Com aquilo nas m�os, at� um dos Abandonados o temeria. Em um instante, mandaria trazer Moiraine para Curar suas feridas. Em um instante, falaria com os Aiel l� fora e seria o Drag�o Renascido outra vez. Mas no momento, s� queria ficar sentado, lembrando-se de um pastor chamado Rand al�Thor.</p></section><section><title><p>3</p><p><image l:href="#6"/></p><p>Reflexos</p></title><p>Apesar da hora, bastante gente passava apressada pelos largos corredores da Pedra, homens e mulheres usando as roupas pretas e douradas de servi�ais ou os uniformes de um ou outro Gr�o-lorde. De vez em quando, um ou dois Defensores passavam, sem capacetes e desarmados, alguns de casacos desabotoados. Os servi�ais que passavam perto de Perrin e Faile se curvavam ou dispensavam mesuras, ent�o seguiam apressados, quase sem parar. A maioria dos soldados se assustava ao v�-los. Alguns os cumprimentavam de forma r�gida, com a m�o no cora��o, mas todos apressavam o passo, parecendo ansiosos para se afastar.</p><p>Apenas um lampi�o a cada tr�s ou quatro estava aceso. Nos trechos pouco iluminados entre os suportes compridos, sombras ofuscavam as tape�arias nas paredes e obscureciam eventuais ba�s encostados na pedra. Para quaisquer olhos al�m dos de Perrin. Os dele brilhavam como ouro reluzente naqueles corredores sombrios. O rapaz andava depressa, de lampi�o a lampi�o, mantendo o olhar baixo quando o trecho n�o estava bem iluminado. A maioria das pessoas da Pedra sabia, de um jeito ou de outro, sobre a estranha cor de seus olhos. Naturalmente, ningu�m comentava. At� mesmo Faile parecia presumir que a cor era parte de sua associa��o com uma Aes Sedai, algo que simplesmente era. Algo a ser aceito, n�o explicado. Mesmo assim, um arrepio sempre percorria a coluna de Perrin quando percebia que um estranho notara seus olhos brilhando na escurid�o. Quando os outros ficavam calados, o sil�ncio apenas enfatizava sua distin��o.</p><p>��Queria que n�o me olhassem desse jeito���resmungou, quando um Defensor grisalho, com o dobro de sua idade, quase saiu correndo ao v�-lo passar.���Como se tivessem medo de mim. N�o tinham antes, n�o desse jeito. Por que essa gente toda n�o est� dormindo?</p><p>Uma mulher carregando balde e esfreg�o inclinou-se em cumprimento e seguiu depressa, de cabe�a baixa.</p><p>Com o bra�o enroscado no dele, Faile o olhou de soslaio.</p><p>��Eu diria que os guardas s� devem frequentar esta parte da Pedra quando est�o de servi�o. Esse � um bom momento para fazer um chamego em uma empregada na cadeira de um lorde, talvez fingir que os dois s�o o lorde e a lady enquanto os verdadeiros dormem. Devem estar com medo de ser dedurados. E os servi�ais fazem a maior parte do trabalho � noite. Quem � que iria querer v�-los abaixados no ch�o, varrendo, polindo e espanando � luz do dia?</p><p>Perrin assentiu, desconfiado. Supunha que ela soubesse essas coisas por causa de seu pai. Um mercador bem-sucedido decerto tinha servi�ais, al�m de guardas para os carro��es. Pelo menos aquela gente n�o estava fora da cama por ter passado pelo mesmo que ele. Se fosse o caso, estariam todos fora da Pedra, provavelmente ainda correndo. Mas por que ele fora o alvo? Por que ele, ao que parecia, fora o escolhido? N�o estava ansioso para confrontar Rand, mas precisava saber. Faile apertava o passo para acompanh�-lo.</p><p>Apesar de todo o esplendor, de todo o ouro, das finas esculturas e dos trabalhos de marchetaria, o interior da Pedra fora projetado para a guerra tanto quanto o exterior. Buracos assassinos pontilhavam o teto nos cruzamentos entre corredores. Seteiras jamais utilizadas espreitavam as passagens em pontos onde poderiam proteger um corredor inteiro. Perrin e Faile subiam as escadas estreitas e curvas sem parar, cada uma embutida ou anexa �s paredes, com mais seteiras contemplando o corredor abaixo. Naturalmente, toda aquela arquitetura n�o fora empecilho para os Aiel, os primeiros inimigos a avan�ar para al�m das muralhas externas.</p><p>Enquanto subiam depressa uma das escadas espiraladas���Perrin n�o percebeu que estavam correndo, mas estaria avan�ando mais depressa n�o fosse por Faile agarrada a seu bra�o���ele sentiu um sopro de suor velho e um tra�o de perfume doce e enjoativo, mas n�o registrou muito bem a informa��o. Estava concentrado no que diria a Rand. <emphasis>Por que voc� tentou me matar? J� est� ficando louco?</emphasis> N�o havia maneira f�cil de fazer a pergunta, e ele n�o esperava uma resposta f�cil.</p><p>Ao adentrar um corredor escuro, quase no topo da Pedra, viu-se diante de um Gr�o-lorde de costas e dois de seus guardas pessoais. Apenas os Defensores tinham permiss�o de usar armaduras no interior da Pedra, mas esses tr�s levavam espadas nas cinturas. Isso n�o era incomum, sem d�vida, mas a presen�a deles naquele pavimento, em meio �s sombras, encarando atentamente a luz que vinha do canto oposto do corredor, n�o era nada comum. A luz vinha da antessala frontal de um dos aposentos que Rand recebera. Ou pegara. Ou fora obrigado por Moiraine a aceitar.</p><p>Perrin e Faile n�o se esfor�aram para fazer sil�ncio ao subir as escadas, mas os tr�s homens estavam t�o concentrados na vig�lia que nenhum deles notou a chegada dos dois. Ent�o um dos guarda-costas de casaco azul virou a cabe�a, como se esticasse o pesco�o com c�imbra. Quando viu o casal, escancarou a boca. O sujeito deixou escapar um xingamento e deu meia-volta para encarar Perrin, exibindo um bom peda�o da l�mina de sua espada. O outro foi apenas uma fra��o de segundo mais lento. Ambos estavam tensos, de prontid�o, mas os olhos pareciam hesitantes, incomodados, desviando-se dos de Perrin. Os homens exalavam um odor acre de medo. O Gr�o-lorde tamb�m, embora o controlasse com r�deas curtas.</p><p>O Gr�o-lorde Torean, com uma mecha branca na barba escura e pontuda, movimentava-se languidamente, como se estivesse em um baile. Puxando um len�o com perfume adocicado da manga, deu uma pancadinha no nariz cheio de calombos, que parecia pequeno se comparado �s orelhas. O refinado casaco de seda com mangas de cetim vermelho apenas ressaltava como seu rosto era comum. Ele olhou a camisa de manga de Perrin, deu outro tapinha no nariz e inclinou de leve a cabe�a.</p><p>��Que a Luz o ilumine���disse, com educa��o. Seus olhos passaram pelo olhar amarelo de Perrin e recuaram, mas a express�o do homem n�o se alterou.���Creio que esteja bem?</p><p>Talvez estivesse sendo educado demais.</p><p>Perrin n�o se importava com a educa��o do homem, mas o jeito com que Torean encarava Faile de cima a baixo, com uma esp�cie de interesse displicente, o fez apertar os punhos. Conseguiu, no entanto, manter o tom de voz firme.</p><p>��Que a Luz o ilumine, Gr�o-lorde Torean. Fico feliz em v�-lo ajudando a proteger o Lorde Drag�o. Alguns homens na sua posi��o poderiam se ressentir da presen�a dele aqui.</p><p>As finas sobrancelhas de Torean estremeceram.</p><p>��A profecia foi cumprida, e Tear ocupou seu lugar nela. Talvez o Drag�o Renascido conduza esta cidade a um destino ainda mais grandioso. Que homem se ressentiria disso? Mas j� est� muito tarde. Boa noite para voc�s.</p><p>Ele olhou Faile outra vez, fazendo beicinho, e seguiu pelo corredor um pouco depressa demais, afastando-se das luzes da antessala. Os guarda-costas o seguiram como c�es bem treinados.</p><p>��N�o precisava ser grosseiro���ralhou Faile, com uma voz severa, quando o Gr�o-lorde j� n�o podia ouvir.���Parecia que a sua l�ngua tinha congelado. Se pretende ficar aqui, � melhor aprender a lidar com os lordes.</p><p>��Ele olhou para voc� como se quisesse coloc�-la no colo. E n�o era para fazer papel de pai.</p><p>Ela fungou, desdenhosa.</p><p>��N�o � o primeiro homem que olha para mim. Se tivesse a cara de pau de tentar mais alguma coisa, eu o colocaria em seu lugar com uma cara feia. N�o preciso que me defenda, Perrin Aybara.���Mas ela n�o soava totalmente irritada.</p><p>Ele co�ou a barba e deu uma espiada em Torean, observando o Gr�o-lorde e seus guardas desaparecerem em uma curva ao longe. Ficou se perguntando como os lordes tairenos faziam para n�o suar at� a morte.</p><p>��Voc� percebeu, Faile? Os c�es de guarda s� tiraram as m�os das espadas quando ele estava a umas dez passadas da gente.</p><p>Ela o encarou, franzindo a testa, depois olhou o corredor por onde os tr�s haviam seguido e assentiu devagar.</p><p>��Tem raz�o. Mas n�o entendo. N�o s�o subservientes com voc�s do jeito que s�o com <emphasis>ele</emphasis>, mas todo mundo age com tanta cautela perto de voc� e de Mat quanto das Aes Sedai.</p><p>��Talvez ser amigo do Drag�o Renascido j� n�o garanta tanta prote��o quanto antes.</p><p>Ela n�o sugeriu outra vez que fossem embora, n�o com palavras, mas era s� o que seus olhos diziam. Perrin teve mais sucesso em ignorar a sugest�o n�o dita do que tivera com a verbalizada.</p><p>Antes de os dois chegarem ao fim do corredor, Berelain saiu correndo da antessala iluminada, os dois bra�os agarrados firmemente a um fino robe enrolado no corpo. Se a Primeira de Mayene caminhasse mais depressa, estaria correndo.</p><p>Para mostrar a Faile que podia ser educado como ela queria, Perrin se curvou em uma mesura que apostou que nem Mat teria superado. Em contraste, a de Faile n�o foi mais do que um contido aceno de cabe�a e uma flex�o m�nima dos joelhos. Ele mal notou. Quando Berelain passou por eles, sem olh�-los, o cheiro de medo, ran�oso e bruto como uma ferida pustulenta, fez suas narinas se contorcerem. Comparado �quilo, o medo de Torean n�o era nada. Aquilo era p�nico ensandecido, atado com uma corda esfarrapada. Ele se endireitou sem pressa, olhando para ela.</p><p>��Saciando os olhos?���perguntou Faile, baixinho.</p><p>Concentrado em Berelain, imaginando o que a teria feito chegar t�o perto do precip�cio, ele respondeu, sem pensar:</p><p>��Ela cheirava a�</p><p>Bem adiante, Torean apareceu de repente, vindo de um corredor lateral, e agarrou o bra�o de Berelain. Ele falava bastante, mas Perrin s� conseguiu distinguir algumas palavras isoladas, algo sobre ela pisar no pr�prio orgulho e tamb�m o que parecia um oferecimento de prote��o. A mulher dava respostas curtas, afiadas e ainda mais inaud�veis, o queixo erguido. Com um pux�o, a Primeira de Mayene se desvencilhou e foi embora, as costas eretas, parecendo ter mais dom�nio de si mesma. Torean quase come�ava a segui-la quando notou que Perrin o observava. Dando um tapinha com o len�o no nariz, o Gr�o-lorde desapareceu pelo cruzamento entre os corredores.</p><p>��N�o me interessa se ela cheirava a Ess�ncia da Manh㠗�comentou Faile, sombria.���Essa da� n�o est� interessada em ca�ar ursos, mesmo que o couro fique lindo estendido em uma parede. Ela ca�a o sol.</p><p>Ele franziu o cenho para ela.</p><p>��Sol? Urso? Do que � que voc� est� falando?</p><p>��V� sozinho. Acho que vou para a cama, afinal.</p><p>��Se � isso o que voc� quer���respondeu ele, com cautela.���Mas achei que estava t�o ansiosa quanto eu para descobrir o que aconteceu.</p><p>��Acho que n�o. N�o vou fingir que estou ansiosa para conhecer o Lo� Rand. N�o depois de evitar isso at� agora. E n�o me sinto nem um pouco ansiosa, nesse momento. Sem d�vida voc�s dois ter�o uma conversa �tima sem mim. Ainda mais se for regada a vinho.</p><p>��Voc� n�o fala coisa com coisa���resmungou Perrin, passando uma das m�os nos cabelos.���Se quiser ir para a cama, ent�o v�, mas eu queria que voc� falasse alguma coisa que eu entendesse.</p><p>Faile estudou o rosto dele por um longo instante, ent�o mordeu o l�bio de repente. Ele achou que a mo�a tentava segurar o riso.</p><p>��Ah, Perrin, �s vezes acho que o que mais gosto � essa sua inoc�ncia.���Sem d�vida, tra�os de risada enchiam a voz.���V� encontrar o� seu amigo e me conte como foi amanh� de manh�. O quanto quiser.���Ela puxou a cabe�a dele, ro�ou seus l�bios com um beijo e, com a mesma rapidez, disparou de volta pelo corredor.</p><p>Balan�ando a cabe�a, ele a observou ir embora pelas escadas, sem sinal de Torean. �s vezes ela parecia falar outra l�ngua. Ele avan�ou at� os lampi�es.</p><p>A antessala era um c�modo redondo, com cinquenta passadas de comprimento ou mais. Cem lustres dourados pendiam de correntes no teto alto. Colunas de pedra vermelha polida formavam um c�rculo interno, e o piso parecia uma imensa placa de m�rmore negro rajada de ouro. Aquela fora a antessala dos aposentos do rei na �poca em que ainda havia monarquia em Tear, antes de Artur Asa-de-gavi�o reduzir tudo, da Espinha do Mundo ao Oceano de Aryth, ao comando de um s� governante. Os reis tairenos n�o retornaram quando o imp�rio de Asa-de-gavi�o entrou em colapso, e, por mil anos, os �nicos habitantes daqueles aposentos haviam sido os ratos pisoteando a poeira. Nenhum Gr�o-lorde jamais tivera poder suficiente para ousar requerer o direito a eles.</p><p>Havia um c�rculo de cinquenta Defensores parados no meio do aposento, todos usando reluzentes placas peitorais e capacetes com abas, as lan�as inclinadas exatamente no mesmo �ngulo. Como estavam dispostos olhando para todas as dire��es, tinham a fun��o de afastar todos os intrusos do senhor da Pedra. O comandante, um capit�o identificado por duas pequenas plumas brancas no capacete, mantinha uma postura apenas um pouco menos r�gida. Ele estava parado com uma das m�os na espada e a outra na cintura, parecendo presun�oso por seu cargo. Todos cheiravam a medo e incerteza, como homens que viviam sob um penhasco em processo de desintegra��o e quase tivessem conseguido convencer a si mesmos de que a terra jamais desabaria. Pelo menos, n�o naquela noite. N�o durante a pr�xima hora.</p><p>Perrin caminhou at� eles, as botas ressoando no m�rmore. O oficial come�ou a andar em sua dire��o, depois hesitou ao ver que Perrin n�o parara ao ser desafiado. Sabia quem era o rapaz, sem d�vida. Pelo menos, sabia tanto quanto qualquer taireno. Um companheiro de viagem da Aes Sedai, amigo do Lorde Drag�o. N�o era homem de ser interpelado por um mero oficial dos Defensores da Pedra. O oficial tinha a aparente tarefa de proteger o descanso do Lorde Drag�o, naturalmente, mas, embora n�o admitisse nem a si mesmo, devia saber que ele pr�prio e sua brava armadura polida n�o passavam de uma encena��o. Os verdadeiros guardas eram os que Perrin encontrou ao passar pelas colunas e se aproximar das portas dos aposentos de Rand.</p><p>As mulheres estavam sentadas t�o im�veis atr�s das colunas que pareciam camufladas na pedra, mas os casacos e cal�as���em tons de cinza e marrom, feitos para escond�-las no Deserto���destacaram-se assim que elas se moveram. Cal�adas em botas de cadar�os macias que iam at� os joelhos, as seis Donzelas da Lan�a, mulheres Aiel que haviam escolhido a vida de guerreiras em vez de se dedicarem ao lar, deslizaram para se postar entre ele e as portas. Eram todas altas para mulheres, a maior apenas quase um palmo mais baixa que ele, de pele bronzeada e cabelos bem curtos, amarelos, vermelhos ou de alguma tonalidade intermedi�ria. Duas seguravam arcos de chifre com flechas encaixadas, mas n�o preparadas. As outras levavam pequenos broqu�is de couro e tr�s ou quatro lan�as curtas���pequenas, mas com pontas compridas o bastante para atravessarem o corpo de um homem com algumas polegadas de sobra.</p><p>��Acho que n�o posso deixar voc� entrar���disse uma mulher com cabelos de fogo, sorrindo de leve para abrandar as palavras. Os sorrisos dos Aiel n�o eram t�o largos ou frequentes quanto os dos outros povos, e seus rostos n�o tinham o costume de demonstrar demais qualquer emo��o.���Acho que ele n�o quer ver ningu�m hoje � noite.</p><p>��Eu vou entrar, Bain.���Ignorando as lan�as, ele segurou a mulher pelos bra�os. Ent�o ficou imposs�vel ignorar as lan�as, pois ela dera um jeito de pressionar a ponta de uma delas com for�a na lateral de sua garganta. Al�m disso, uma mulher ainda mais loira, chamada Chiad, de repente levou uma de suas lan�as ao outro lado do pesco�o de Perrin, como se a inten��o fosse faz�-las se encontrarem bem no centro de seu pesco�o. As outras mulheres apenas observavam, confiantes de que Bain e Chiad dariam conta da situa��o. Mesmo assim, ele fez o melhor que p�de.���N�o tenho tempo para discutir. N�o que voc�s sejam o tipo que escuta quando algu�m argumenta, pelo que me lembro. Vou entrar.</p><p>Com toda a delicadeza, ele ergueu Bain e tirou-a do caminho.</p><p>Bastava um suspiro de Chiad para que a lan�a tirasse sangue, mas, depois de arregalar os olhos azul-escuros cheios de surpresa, Bain afastou a l�mina de repente e abriu um sorriso.</p><p>��Quer aprender um jogo chamado O Beijo da Donzela, Perrin? Acho que voc� deve jogar bem. Na pior das hip�teses, pode aprender alguma coisa.</p><p>Uma das outras riu alto. A ponta da lan�a de Chiad foi afastada de seu pesco�o.</p><p>Ele inspirou fundo, torcendo para que elas n�o percebessem que era a primeira vez que respirava desde que as lan�as o tocaram. N�o usavam os v�us nos rostos���as <emphasis>shoufas</emphasis> estavam enroladas nos pesco�os como echarpes negras���mas ele n�o sabia se os Aiel precisavam fazer isso antes de matar, s� sabia que os v�us indicavam que estavam prontos.</p><p>��Quem sabe da pr�xima vez���respondeu, educadamente.</p><p>Todas sorriam como se Bain tivesse dito algo engra�ado, e o fato de ele n�o ter entendido fazia parte da piada. Thom tinha raz�o. Um homem poderia enlouquecer se tentasse entender as mulheres, n�o importava a na��o ou a posi��o que ocupassem. Era o que Thom dizia.</p><p>Quando ele estendeu a m�o para a ma�aneta em forma de le�o dourado apoiado nas patas traseiras, Bain acrescentou:</p><p>��� por sua conta e risco. Ele j� botou para fora o que a maioria dos homens consideraria companhia muito melhor do que a sua.</p><p><emphasis>� claro</emphasis>, pensou, puxando a porta. <emphasis>Berelain. Ela estava vindo daqui. Hoje � noite, tudo est� girando em torno�</emphasis></p><p>A Primeira de Mayene sumiu de seus pensamentos assim que ele viu o quarto. Espelhos quebrados pendiam das paredes, e estilha�os de vidro cobriam o ch�o, junto com cacos de porcelana e penas do colch�o rasgado. Livros abertos jaziam desordenados entre cadeiras e bancos virados. Rand estava sentado no p� da cama, apoiado em uma das colunas, os olhos fechados e as m�os ca�das sobre <emphasis>Callandor</emphasis>, apoiada em seus joelhos. Parecia ter tomado um banho de sangue.</p><p>��Chamem Moiraine!���gritou Perrin para as mulheres Aiel.</p><p>Ser� que Rand ainda estava vivo? Se estava, precisava da Cura Aes Sedai para continuar assim. Ouviu um arquejo atr�s de si, seguido de passos apressados de botas macias.</p><p>Rand ergueu a cabe�a. Seu rosto era uma m�scara de sujeira.</p><p>��Feche a porta.</p><p>��Moiraine j� vai chegar, Rand. Descanse a�. Ela j�</p><p>��Feche a porta, Perrin.</p><p>Murmurando entre si, as mulheres Aiel franziram a testa, mas se afastaram. Perrin fechou a porta, interrompendo o grito indagativo do oficial de plumas brancas.</p><p>Suas botas pisaram os cacos de vidro do carpete no caminho at� Rand. Ele rasgou uma tira de um len�ol de linho j� todo despeda�ado e o pressionou sobre a ferida aberta na lateral do corpo do amigo. Ao sentir a press�o, Rand apertou as m�os na espada transparente, depois as relaxou. O sangue empapou o tecido quase no mesmo instante. Cortes e ferimentos o cobriam dos p�s � cabe�a, lascas de vidro brilhavam em muitas das feridas. Perrin deu de ombros, impotente. N�o sabia mais o que fazer al�m de esperar Moiraine.</p><p>��O que, sob a Luz, voc� tentou fazer, Rand? Parece que tentou arrancar a pr�pria pele. E acabou quase me matando no processo.���Por um momento, pensou que Rand n�o fosse responder.</p><p>��N�o eu���disse o amigo, enfim, quase sussurrando.���Um dos Abandonados.</p><p>Perrin tentou relaxar m�sculos que n�o se lembrava de ter tensionado. O esfor�o foi apenas um pouco bem-sucedido. Mencionara os Abandonados a Faile, e n�o de uma forma muito despretensiosa, mas tentara n�o pensar muito no que poderiam fazer quando descobrissem o paradeiro de Rand. Se algum deles conseguisse abater o Drag�o Renascido, ficaria em posi��o bem superior � dos outros, quando o Tenebroso se libertasse. O Tenebroso estaria � solta, e a �ltima Batalha, perdida antes mesmo de ser travada.</p><p>��Tem certeza?���indagou, tamb�m baixinho.</p><p>��S� podia ser, Perrin. S� podia ser.</p><p>��Se um deles veio atr�s de mim e de voc� tamb�m� Onde est� Mat, Rand? Se estiver vivo e tiver passado pelo mesmo que eu, deve estar pensando o que eu pensei. Que foi voc�. Ent�o deveria estar aqui para repreender voc�.</p><p>��Ou em cima de um cavalo, a meio caminho dos port�es da cidade.���Rand esfor�ou-se para se endireitar. Os co�gulos nas feridas se romperam, e sangue fresco come�ou a escorrer por seu peito e ombros.���Se ele estiver morto, Perrin, � melhor voc� ficar o mais longe poss�vel de mim. Acho que voc� e Loial est�o certos em rela��o a isso.���Ele hesitou e observou Perrin.���Voc� e Mat devem estar desejando que eu nunca tivesse nascido. Ou, pelo menos, que nunca tivessem me conhecido.</p><p>N�o havia por que conferir, se algo tivesse acontecido a Mat, �quela altura j� estaria terminado. E Perrin achava que o curativo improvisado pressionado na lateral de Rand talvez fosse o que o manteria vivo por tempo suficiente at� a chegada de Moiraine.</p><p>��Voc� parece n�o estar ligando muito para a possibilidade de ele ter <emphasis>mesmo</emphasis> ido embora. Que me queime, ele tamb�m � importante. O que voc� vai fazer se ele tiver partido? Ou se estiver morto, a Luz permita que n�o.</p><p>��O que eles menos esperam.���Os olhos de Rand eram como a bruma da manh� sobre a aurora, uma cortina cinza-azulada atravessada por um brilho febril. A voz tinha um tom de preocupa��o.���� o que tenho que fazer, de qualquer modo. O que todos <emphasis>menos</emphasis> esperam.</p><p>Perrin inspirou lentamente. Rand tinha direito de ficar nervoso. N�o era sinal de loucura incipiente. Precisava parar de buscar sinais de loucura no amigo. Em pouco tempo eles surgiriam, e procur�-los s� faria seu est�mago ficar embrulhado.</p><p>��E o que �?���perguntou, baixinho.</p><p>Rand fechou os olhos.</p><p>��S� sei que tenho que peg�-los de surpresa. Pegar todos de surpresa���murmurou, feroz.</p><p>Uma das portas se abriu, e um Aiel alto de cabelos ruivos com um toque grisalho adentrou o quarto. Atr�s dele, as plumas do oficial taireno se agitavam enquanto o homem discutia com as Donzelas. Ele ainda parecia argumentar quando Bain fechou a porta.</p><p>Rhuarc examinou o quarto com olhos azuis penetrantes, como se suspeitasse de inimigos escondidos atr�s de uma cortina ou cadeira virada. O chefe de cl� dos Aiel Taardad n�o carregava armas vis�veis al�m da faca de l�mina grossa na cintura, mas usava a autoridade e a confian�a como armas que, embora discretas, eram t�o reais quanto se estivessem embainhadas junto � faca. A <emphasis>shoufa</emphasis> pendia sobre os ombros. Ningu�m que soubesse o m�nimo sobre os Aiel pensaria que cobrindo o rosto representava qualquer coisa al�m de perigo.</p><p>��Aquele taireno idiota do lado de fora informou ao comandante que algo tinha acontecido aqui dentro���explicou Rhuarc���e os boatos j� est�o se espalhando como musgo em uma caverna �mida. S�o bem variados, v�o desde a Torre Branca tentando matar voc� at� a �ltima Batalha sendo travada aqui neste quarto.���Perrin abriu a boca, mas Rhuarc antecipou-se, erguendo a m�o.���Por acaso, encontrei Berelain com cara de quem tinha acabado de descobrir o dia de sua morte, e ela me contou a verdade. E parece ser mesmo a verdade, embora eu tenha duvidado.</p><p>��Mandei chamar Moiraine���disse Perrin.</p><p>Rhuarc assentiu. As Donzelas sem d�vida tinham contado tudo o que ele precisava saber.</p><p>Rand soltou uma risada cheia de dor.</p><p>��Eu mandei que ela ficasse quieta. Parece que o Lorde Drag�o n�o manda em Mayene.���Ironicamente, ele soava mais bem-humorado do que qualquer outra coisa.</p><p>��Tenho filhas mais velhas do que aquela jovem���comentou Rhuarc.���Acredito que ela n�o v� contar a mais algu�m. Acho que quer esquecer tudo o que aconteceu hoje.</p><p>��E eu gostaria de saber o que aconteceu���interveio Moiraine, deslizando para dentro do quarto.</p><p>Como era pequena e esguia, Rhuarc se destacava perto dela tanto quanto o homem que a seguia: Lan, seu Guardi�o. Mas era a Aes Sedai quem dominava o ambiente. Ela devia ter corrido, para conseguir chegar t�o depressa, mas parecia pl�cida como um lago congelado. Era preciso muito para perturbar a serenidade de Moiraine. O vestido azul de seda tinha gola alta de renda e mangas com recorte em veludo de cor mais escura, mas o calor e a umidade n�o pareciam afet�-la. Uma pequena pedra azul cintilava sob a luz, suspensa em sua testa por uma delicada corrente de ouro que passava por cima dos cabelos escuros, enfatizando a completa aus�ncia de suor.</p><p>Como sempre ocorria quando os dois se encontravam, os olhares azuis e g�lidos de Lan e Rhuarc quase soltaram fa�scas. O cabelo escuro de Lan, com mechas grisalhas nas t�mporas, estava preso por um cord�o de couro tran�ado. O rosto parecia esculpido em pedra, e a espada em seu quadril, parte do corpo. Perrin n�o sabia ao certo qual dos dois homens era mais letal, mas pensava que a diferen�a era t�o pequena que mal daria para notar.</p><p>Os olhos do Guardi�o voltaram-se para Rand.</p><p>��Achei que voc� j� tivesse idade para se barbear sem ajuda.</p><p>Rhuarc abriu um sorriso. Era bem discreto, mas era o primeiro que Perrin o via dar na presen�a de Lan.</p><p>��Ele ainda � jovem. Vai aprender.</p><p>Lan olhou de volta para o homem Aiel e respondeu com um sorriso, tamb�m discreto.</p><p>Moiraine lan�ou aos dois homens um olhar breve e fulminante. N�o parecia tomar cuidado com onde pisava ao cruzar o carpete, mas caminhava de modo t�o suave, erguendo as saias, que as sapatilhas n�o trituraram sequer um caco de vidro. Os olhos varreram o quarto de uma forma que Perrin tinha certeza de que capturara os menores detalhes. Ela o analisou por um instante���o olhar n�o foi retribu�do, Moiraine sabia demais sobre ele para seu gosto���mas logo seus olhos fixaram Rand, tal e qual uma avalanche: silenciosos, suaves, g�lidos e inexor�veis.</p><p>Perrin baixou a m�o e saiu do caminho da Aes Sedai. O tecido empapado continuava na lateral do corpo de Rand, preso pelo sangue endurecido. O sangue que escorria da cabe�a aos p�s do rapaz andoriano come�ava a secar, formando listras e manchas negras. Os cacos de vidro cravados na pele reluziam � luz dos lampi�es. Com as pontas dos dedos, Moiraine tocou o tecido endurecido com o sangue seco, depois afastou a m�o como se tivesse desistido de olhar por baixo do pano. Perrin se perguntou como a Aes Sedai conseguia olhar para Rand sem fazer uma careta, mas o rosto pl�cido da mulher n�o se alterava. Ela exalava um perfume suave de sab�o de rosas.</p><p>��Pelo menos voc� est� vivo.���Naquele momento, a voz dela emanava uma musicalidade fria e raivosa.���O que aconteceu pode esperar. Tente tocar a Fonte Verdadeira.</p><p>��Por qu�?���perguntou Rand, com cautela na voz.���N�o consigo Curar a mim mesmo, mesmo que soubesse como fazer isso. Ningu�m consegue. Sei disso, pelo menos.</p><p>No intervalo que dura um suspiro, Moiraine parecia a ponto de explodir, por mais estranho que tivesse parecido. Mas, quando inspirou outra vez, j� estava tomada de uma calma t�o profunda que nada seria capaz de abal�-la.</p><p>��Apenas parte da for�a para a Cura vem do Curandeiro. O Poder pode substituir a for�a exigida do Curado. Sem ele, voc� vai passar o dia de amanh� de cama, e talvez o seguinte tamb�m. Agora busque o Poder, se puder, mas n�o fa�a nada com ele. Apenas o mantenha em contato. Use isso, se necess�rio.���Ela n�o precisou se inclinar demais para tocar <emphasis>Callandor</emphasis>.</p><p>Rand moveu a espada para longe da m�o dela.</p><p>��S� manter contato, n�o �?���Ele parecia prestes a gargalhar alto.���Muito bem.</p><p>Nada acontecia que Perrin pudesse ver, nada do que esperava que acontecesse. Rand permanecia sentado, encarando Moiraine como se tivesse sobrevivido a batalha perdida. Ela mal piscou. Esfregou os dedos nas palmas das m�os duas vezes no que parecia um gesto inconsciente.</p><p>Depois de um tempo, Rand suspirou.</p><p>��N�o consigo nem alcan�ar o Vazio. N�o estou conseguindo me concentrar.���Um sorriso r�pido rompeu o sangue que secava em seu rosto.���N�o entendo por qu�.���Um espesso fio vermelho foi descendo, sinuoso, abaixo do olho esquerdo.</p><p>��Ent�o vou fazer como sempre fiz���respondeu Moiraine, tomando a cabe�a de Rand entra as m�os, sem se preocupar com o sangue que corria por seus dedos.</p><p>Rand levantou-se de um salto, arfando, como se todo o ar tivesse sido extra�do � for�a de seus pulm�es. Arqueou tanto as costas, que a cabe�a quase se soltou das m�os de Moiraine. Um dos bra�os estava esticado para o lado, os dedos espalmados e t�o for�ados para tr�s que pareciam prestes a quebrar. A outra m�o agarrava a empunhadura de <emphasis>Callandor</emphasis>, e neste bra�o os m�sculos se retesavam em c�imbras vis�veis. Ele se sacudia feito um peda�o de pano em um vendaval. Flocos escuros de sangue seco se soltavam e ca�am, e peda�os de vidro tilintavam ao bater no ba� e no ch�o, empurrados para fora dos cortes, que se fechavam e cicatrizavam todos de uma vez.</p><p>Perrin estremeceu, como se aquele vendaval estrondeasse ao redor dele. J� vira algumas Curas antes, isso e muito mais, at� coisas maiores e piores, mas jamais acharia f�cil ver o Poder sendo usado, saber que estava sendo usado, mesmo que com essa finalidade. As muitas hist�rias de Aes Sedai contadas por guardas e cocheiros de mercadores haviam se incrustado em sua mente v�rios anos antes de ele conhecer Moiraine. Rhuarc cheirava a um desconforto pungente. Apenas Lan encarava tudo com normalidade. Lan e Moiraine.</p><p>Quase t�o logo quanto come�ou, estava terminado. Moiraine afastou as m�os, e Rand se curvou, agarrando a coluna da cama para se levantar. Era dif�cil dizer se a m�o que apertava mais firme estava na cama ou em <emphasis>Callandor</emphasis>. Quando Moiraine tentou pegar a espada para recoloc�-la no suporte ornamentado da parede, ele a puxou com for�a, at� com um pouco de viol�ncia.</p><p>Ela contraiu a boca por um instante, mas se contentou em puxar o chuma�o de tecido preso � lateral do corpo de Rand, usando-o para esfregar algumas das manchas ao redor. A antiga ferida virara outra vez uma cicatriz tenra. Os demais ferimentos haviam desaparecido. A maior parte do sangue seco que ainda cobria o corpo do rapaz era proveniente de outros.</p><p>Moiraine franziu o cenho.</p><p>��Ainda n�o funciona���murmurou, meio que para si mesma.���N�o vai curar por completo.</p><p>��� essa a que vai me matar, n�o �?���perguntou Rand, baixinho, depois citou:����O sangue do Drag�o Renascido sobre as pedras de Shayol Ghul libertar� a humanidade da Sombra��</p><p>��Voc� l� demais���retrucou ela, r�spida���e compreende de menos.</p><p>��Voc� compreende mais? Se for o caso, ent�o me explique.</p><p>��Ele s� est� tentando encontrar o pr�prio caminho���retrucou Lan, de repente.���Homem nenhum gosta de correr �s cegas sabendo que h� um penhasco em algum ponto � frente.</p><p>Perrin ficou surpreso. Lan quase nunca discordava de Moiraine, pelo menos n�o na frente dos outros. Mas ele e Rand vinham passando um bom tempo juntos, praticando com a espada.</p><p>Os olhos escuros de Moiraine faiscaram, mas ela respondeu apenas:</p><p>��Ele precisa ir para a cama. Pode mandar trazerem �gua para ele se lavar e pedir que preparem outro quarto? Este aqui precisa de uma boa limpeza e de um colch�o novo.</p><p>Lan assentiu, enfiou a cabe�a na antessala, por um instante, e falou, baixinho:</p><p>��Eu vou dormir aqui, Moiraine.���Rand soltou a coluna da cama e se levantou, fincando a ponta de <emphasis>Callandor</emphasis> no carpete coberto de sujeira e repousando as m�os no cabo. Se estava um pouco apoiado na espada, n�o transparecia muito.���N�o serei mais acossado. Nem mesmo para fora de uma cama.</p><p>��<emphasis>Tai�shar Manetheren</emphasis>���murmurou Lan.</p><p>Dessa vez at� Rhuarc pareceu surpreso, mas, se Moiraine ouviu a sauda��o que o Guardi�o fez a Rand, n�o demonstrou. Ela encarava o rapaz andoriano com o rosto suave, mas os olhos pareciam nuvens carregadas. O jovem exibia um sorrisinho intrigado, como se tentasse imaginar o que ela tentaria da pr�xima vez.</p><p>Perrin avan�ou com discri��o em dire��o �s portas. Se Rand e a Aes Sedai fossem come�ar a medir for�as, preferia ir para outro lugar. Lan n�o parecia se incomodar. Era dif�cil ter certeza com aquela postura dele, ereto e relaxado ao mesmo tempo. Podia estar tanto entediado a ponto de dormir ali mesmo como pronto para desembainhar a espada. Sua conduta sugeria qualquer uma das coisas, ou as duas. Rhuarc tinha quase a mesma postura, mas tamb�m olhava para as portas.</p><p>��Fique onde est�!</p><p>Moiraine n�o tirava os olhos de Rand, e seu dedo em riste apontava para o meio do caminho entre Perrin e Rhuarc, mas os p�s de Perrin frearam mesmo assim. Rhuarc deu de ombros e cruzou os bra�os.</p><p>��Teimoso���resmungou Moiraine. Dessa vez, era para Rand.���Muito bem. Se pretende ficar parado a� at� cair, pode usar o tempo que resta at� cair de cara no ch�o para me contar o que aconteceu aqui. N�o tenho como instruir voc�, mas, se me contar, talvez eu possa entender o que fez de errado. � uma chance pequena, mas talvez eu consiga.���A voz ficou mais afiada.���Voc� precisa aprender a ter controle, e n�o estou falando s� por causa de coisas como estas. Se n�o aprender a controlar o Poder, ele vai matar voc�. Sabe disso. Eu j� falei muitas vezes. Voc� precisa ensinar a si mesmo. Precisa buscar dentro de si mesmo.</p><p>��A �nica coisa que fiz foi sobreviver���respondeu o rapaz, com a voz seca. Ela abriu a boca, mas ele prosseguiu.���Acha que eu conseguiria canalizar sem reparar? N�o fiz isso durante o sono. Eu estava acordado.</p><p>Ele vacilou e se segurou na espada.</p><p>��Nem mesmo voc� conseguiria canalizar qualquer coisa al�m de Esp�rito, durante o sono���retrucou Moiraine, com frieza���e isso n�o foi feito com Esp�rito. Eu ia perguntar o que aconteceu <emphasis>de fato</emphasis>.</p><p>Perrin sentia os pelos da nuca se eri�arem enquanto Rand contava a hist�ria. O machado fora bem ruim, mas pelo menos era s�lido, real. Ter o pr�prio reflexo saltando de um monte de espelhos e vindo em sua dire��o� Ele remexia os p�s sem perceber, tentando n�o pisar nos cacos de vidro.</p><p>Logo depois de come�ar a falar, Rand olhou depressa para o ba� atr�s de si, como se n�o quisesse que o objeto fosse observado. No instante seguinte, as lascas de vidro prateado que estavam espalhadas no topo do ba� se reviraram e deslizaram at� o carpete, como se empurradas por uma vassoura invis�vel. Rand trocou olhares com Moiraine, depois sentou-se devagar e prosseguiu. Perrin n�o teve certeza de qual dos dois limpara o topo do ba�. N�o houve men��o a Berelain na hist�ria.</p><p>��Deve ter sido um dos Abandonados���concluiu Rand, por fim.���Talvez Sammael. Voc� disse que ele est� em Illian. A n�o ser que um deles esteja aqui em Tear. Ser� que Sammael poderia alcan�ar a Pedra, estando em Illian?</p><p>��Nem que <emphasis>ele</emphasis> empunhasse <emphasis>Callandor</emphasis>���respondeu Moiraine.���H� limites. Sammael � apenas um homem, n�o � o Tenebroso.</p><p><emphasis>Apenas um homem? N�o � uma descri��o muito boa</emphasis>, pensou Perrin. Um homem capaz de canalizar, mas que de alguma forma n�o enlouquecera, pelo menos ainda n�o, n�o que algu�m soubesse. Um homem talvez t�o forte quanto Rand, mas que j� conhecia cada truque de seus talentos, enquanto Rand ainda tentava aprender. Um homem que passara tr�s mil anos confinado na pris�o do Tenebroso, um homem que se voltara para a Sombra por escolha pr�pria. N�o. �Apenas um homem� sequer come�ava a descrever Sammael ou qualquer dos Abandonados, homem ou mulher.</p><p>��Ent�o tem um deles aqui. Na cidade.���Rand apoiou a cabe�a nas m�os, mas levantou-se de um salto, na mesma hora, os olhos cravados nas pessoas no quarto.���Eu n�o serei acossado outra vez. Agora, serei o ca�ador. Encontrarei esse homem, ou mulher, e�</p><p>��N�o foi um dos Abandonados���interrompeu Moiraine.���Acho que n�o. Isso foi muito simples. E muito complexo.</p><p>Rand respondeu, muito calmo:</p><p>��Sem charadas, Moiraine. Se n�o foi um dos Abandonados, quem foi? Ou o qu�?</p><p>O rosto da Aes Sedai poderia ter sido forjado em ferro, mas ela hesitou, buscando a melhor forma de falar. N�o havia como dizer se estava insegura a respeito da resposta ou decidindo o quanto podia revelar.</p><p>��� medida que os selos da pris�o do Tenebroso se enfraquecem���respondeu, depois de um tempo���pode ser inevit�vel que um� miasma� escape, mesmo enquanto ele ainda estiver aprisionado. S�o como bolhas subindo da mat�ria em decomposi��o no fundo de um lago. S� que essas bolhas saem flutuando pelo Padr�o at� se fixarem a um fio e explodirem.</p><p>��Luz!���Perrin n�o conseguiu se conter e deixou escapar. Os olhos de Moiraine viraram-se para ele.���Quer dizer que o que aconteceu com� com Rand vai come�ar a acontecer com todo mundo?</p><p>��N�o com todo mundo. Pelo menos, ainda n�o. Acho que no in�cio haver� s� algumas bolhas, penetrando nas rachaduras por onde o Tenebroso conseguir passar. Mas mais tarde, quem � que pode saber? E, assim como <emphasis>ta�veren</emphasis> dobram as outras tramas do Padr�o ao seu redor, acho poss�vel que um <emphasis>ta�veren</emphasis> tenha tend�ncia a atrair essas bolhas com mais for�a do que os outros.���Os olhos indicavam que a mulher sabia que Rand n�o fora o �nico a viver um pesadelo. A leve sombra de um sorriso, que sumiu quase antes de ele conseguir ver, afirmava que ele poderia manter sil�ncio, se quisesse guardar segredo. Mas ela sabia.���Ainda assim, nos meses que vir�o� Ou nos anos, se tivermos tanta sorte, temo que um bom n�mero de pessoas ver� coisas que lhes deixar�o de cabelos brancos, se sobreviverem.</p><p>��Mat���disse Rand.���Voc� sabe se ele�? Ele�?</p><p>��Saberei em breve���respondeu Moiraine, calma.���O que est� feito n�o pode ser desfeito, mas podemos ter esperan�a.���N�o importava o tom de voz, a mulher cheirava a desconforto.</p><p>At� que Rhuarc falou:</p><p>��Ele est� bem. Ou estava. Eu o vi no caminho para c�.</p><p>��Indo para onde?���perguntou Moiraine, com a voz perigosa.</p><p>��Parecia estar indo na dire��o dos alojamentos dos servi�ais���respondeu o Aiel. Ele sabia que os tr�s eram <emphasis>ta�veren</emphasis>, ainda que n�o soubesse tanto quanto achava que sabia, e conhecia Mat bem o bastante para acrescentar:���N�o foi para os est�bulos, Aes Sedai. Ia para o outro lado, na dire��o do rio. E n�o h� barco algum no cais da Pedra.���Ele n�o falava palavras como �barco� e �cais� com a mesma hesita��o que a maioria dos Aiel, embora no Deserto tais coisas s� existissem nas hist�rias.</p><p>Moiraine assentiu, como se n�o esperasse nada al�m disso. Perrin balan�ou a cabe�a. A mulher estava t�o acostumada a encobrir os verdadeiros pensamentos que parecia disfar��-los por puro h�bito.</p><p>De repente uma das portas se abriu, e Bain e Chiad entraram no aposento, sem as lan�as. Bain trazia uma grande vasilha branca e um c�ntaro largo com vapor saindo do gargalo.</p><p>��Por que � que <emphasis>voc�s</emphasis> vieram trazer isso?���inquiriu Moiraine.</p><p>Chiad deu de ombros.</p><p>��A mulher n�o quis entrar.</p><p>Rand soltou uma gargalhada.</p><p>��At� as servi�ais j� est�o espertas o bastante para querer manter dist�ncia de mim. Deixem isso em qualquer lugar.</p><p>��Seu tempo est� acabando, Rand���disse Moiraine.���Os tairenos est�o come�ando a se acostumar com voc�, de certo modo, e ningu�m teme o que � familiar da mesma forma que teme o desconhecido. Quantas semanas, ou talvez dias, v�o se passar at� algu�m tentar cravar uma flecha nas suas costas ou envenenar sua comida? Quanto tempo at� que um dos Abandonados ataque ou que outra bolha venha deslizando pelo Padr�o?</p><p>��N�o venha me atormentar, Moiraine.</p><p>Rand estava imundo e apoiava-se em <emphasis>Callandor</emphasis> para se sentar ereto, mas conseguiu preencher as palavras com uma autoridade discreta.</p><p>��Escolha logo o seu caminho���disse ela.���E, desta vez, mantenha-me informada sobre o que pretende fazer. Meu conhecimento n�o pode amparar algu�m que se recusa a aceitar minha ajuda.</p><p>��Sua ajuda?���retrucou Rand, em um tom cansado.���Aceito a sua ajuda. Mas quem decide sou eu, n�o voc�.���Ele olhou para Perrin como se tentasse lhe dizer algo sem palavras, algo que n�o queria que os outros ouvissem. Perrin n�o fazia ideia do que era. Depois de um instante, Rand suspirou e deixou a cabe�a cair um pouco.���Quero dormir. V�o embora, todos voc�s. Por favor. Conversaremos amanh�.���Os olhos dele dirigiram-se outra vez a Perrin, ressaltando as palavras.</p><p>Moiraine atravessou o quarto at� onde estavam Bain e Chiad. As duas Aiel se inclinaram mais para perto, para que a Aes Sedai pudesse cochichar em seus ouvidos. Perrin ouviu apenas um zunido e se perguntou se ela estaria usando o Poder para que ele n�o bisbilhotasse. A mulher conhecia a agudeza da audi��o dele. As suspeitas se confirmaram quando Bain sussurrou de volta, pois n�o conseguiu distinguir uma palavra. No entanto, a Aes Sedai n�o fizera nada em rela��o ao olfato. As mulheres Aiel olhavam Rand enquanto escutavam e cheiravam a cautela. N�o era medo, era mais como se Rand fosse um animal enorme que poderia se tornar perigoso se elas dessem um passo em falso.</p><p>A Aes Sedai voltou-se outra vez para Rand.</p><p>��N�s <emphasis>vamos</emphasis> conversar amanh�. Voc� n�o pode ficar sentado como um perdiz esperando a rede do ca�ador.</p><p>Antes que Rand pudesse responder, ela avan�ou em dire��o � porta. Lan olhou para o rapaz como se quisesse falar algo, mas seguiu atr�s da Aes Sedai sem dizer uma palavra.</p><p>��Rand���chamou Perrin.</p><p>��Fazemos o que � preciso.���O amigo manteve os olhos no cabo transparente entre as m�os.���Todos n�s fazemos o que � preciso.</p><p>Ele tinha cheiro de medo.</p><p>Perrin assentiu e seguiu Rhuarc para fora do quarto. Moiraine e Lan j� tinham desaparecido. O oficial taireno encarava as portas a umas dez passadas de dist�ncia, tentando fingir que estava longe por escolha pr�pria, que aquilo nada tinha a ver com as quatro Aiel a vigi�-lo. Perrin percebeu que as outras duas Donzelas ainda estavam no quarto. Ouviu vozes vindas de dentro.</p><p>��V�o embora���disse Rand, cansado.���Deixem as coisas a� e v�o embora.</p><p>��Se voc� conseguir ficar em p頗�retrucou Chiad, alegremente���n�s vamos. Basta se levantar.</p><p>Deu para ouvir o som de �gua sendo despejada em uma bacia.</p><p>��J� cuidamos de feridos antes���comentou Bain, em um tom suave.���E eu dava banho nos meus irm�os, quando eles eram pequenos.</p><p>Rhuarc fechou a porta, abafando o restante da conversa.</p><p>��Voc�s n�o o tratam do mesmo jeito que os tairenos���comentou Perrin, baixinho.���Nada de mesuras e rever�ncias. Acho que n�o ouvi nenhum de voc�s chamando Rand de Lorde Drag�o.</p><p>��O Drag�o Renascido � uma profecia dos aguacentos���respondeu Rhuarc.���A nossa fala d�Aquele Que Vem Com a Aurora.</p><p>��Pensei que era a mesma coisa. Por que vieram para a Pedra, ent�o? Que me queime, Rhuarc, voc�s Aiel s�o o Povo do Drag�o, como dizem as Profecias. Voc�s j� praticamente admitiram, mesmo que n�o digam isso em voz alta.</p><p>Rhuarc ignorou a �ltima parte.</p><p>��Nas suas Profecias do Drag�o, a queda da Pedra e a captura de <emphasis>Callandor</emphasis> proclamam o Renascimento do Drag�o. A nossa profecia afirma que a Pedra deve cair antes que Aquele Que Vem Com a Aurora surja para nos levar de volta ao que pertence a n�s. Os dois podem ser o mesmo homem, mas acho que nem mesmo as S�bias podem afirmar com certeza. Se esse homem for Rand, ele ainda vai precisar fazer algumas coisas para provar.</p><p>��Como o qu�?���inquiriu Perrin.</p><p>��Se ele for o escolhido, saber� o qu�, e far�. Se n�o for, continuaremos com a nossa busca.</p><p>Algo indecifr�vel na voz do Aiel fez Perrin ficar desconfiado.</p><p>��E se ele n�o for quem voc�s procuram? E ent�o, Rhuarc?</p><p>��Durma bem e cuide-se, Perrin.</p><p>As botas macias de Rhuarc n�o ressoavam no m�rmore negro enquanto o homem se afastava.</p><p>O oficial taireno ainda mantinha os olhos cravados um pouco atr�s das Donzelas. Ele cheirava a medo e n�o conseguia mascarar a ira e o �dio em seu rosto. Se os Aiel conclu�ssem que Rand n�o era Aquele Que Vem Com a Aurora� Perrin estudou o rosto do oficial taireno, pensou na aus�ncia das Donzelas ali, na Pedra sem os Aiel, e estremeceu. Precisava fazer Faile ir embora. Apenas isso. Ela tinha que partir, e sem ele.</p></section><section><title><p>4</p><p><image l:href="#9"/></p><p>Cord�is</p></title><p>Thom Merrilin salpicou o p� secante sobre o que escrevera, depois colocou-o com cuidado de volta no jarro e fechou a tampa. Folheou as pilhas de pap�is espalhadas pela mesa���com seis velas, inc�ndio era um perigo real, mas ele precisava da luz���e selecionou uma folha amassada e com um borr�o de tinta. Com esmero, comparou-a � folha que escrevera, depois alisou, satisfeito, o bigode longo e branco e permitiu-se abrir um sorriso. At� mesmo o Gr�o-lorde Carleon teria pensado que era sua pr�pria caligrafia.</p><p><emphasis>Cuidado. Seu marido suspeita.</emphasis></p><p>Apenas essas palavras, sem assinatura. Agora, se pudesse fazer com que o Gr�o-lorde Tedosian descobrisse a mensagem em um lugar onde sua esposa, Lady Alteima, poderia t�-la deixado por descuido�</p><p>Ouviu uma batida � porta e deu um salto. Ningu�m vinha v�-lo �quela hora da noite.</p><p>��S� um instante���gritou, enfiando depressa canetas, tintas e pap�is em um ba�.���S� um instante, preciso vestir uma camisa.</p><p>Trancou o ba�, enfiou-o debaixo da mesa, longe do alcance de qualquer olhar, e passou os olhos pelo pequeno quarto sem janelas para ver se deixara exposta qualquer coisa que n�o devesse ser vista. Argolas e bolas de malabarismo amontoavam-se na cama estreita e bagun�ada, e, junto aos aparatos para se barbear, em uma prateleira solit�ria, havia varas de fogo e pequenos itens de ilusionismo. O manto de menestrel, coberto de retalhos de mil cores diferentes, pendia de um gancho na parede junto �s roupas reserva e aos estojos de couro duro que guardavam a harpa e a flauta. Atado � tira do estojo da harpa havia um len�o feminino de seda vermelha transparente, algo que poderia ter pertencido a qualquer mulher.</p><p>Ele n�o se lembrava muito bem de quem o amarrara ali. Tentava nunca dar aten��o a uma mulher em espec�fico, sempre agia de um jeito alegre e despretensioso. <emphasis>Fa�a-as rir, fa�a-as suspirar, mas evite se enrolar</emphasis> era seu lema. N�o havia tempo para isso. Era o que ele dizia a si mesmo.</p><p>��Estou indo.���Thom foi mancando at� a porta, irritado. J� arrancara <emphasis>oohs</emphasis> e <emphasis>aahs</emphasis> de gente incapaz de acreditar, mesmo ao assisti-lo, que um velho esquel�tico de cabelos brancos pudesse plantar bananeiras e dar cambalhotas e giros com a rapidez e agilidade de um garoto. A perna que o fazia mancar pusera fim naquilo tudo, e ele odiava o modo como andava. A perna do�a ainda mais quando estava cansado. Ele abriu a porta com um solavanco e piscou, surpreso.���Ora. Entre, Mat. Pensei que estava dando duro para esvaziar as bolsas dos fidalgotes.</p><p>��Eles n�o querem mais jogar por hoje���respondeu o rapaz, azedo, desabando no banquinho de tr�s p�s que fazia as vezes de segunda cadeira.</p><p>O casaco dele estava desabotoado, e os cabelos, desgrenhados. Os olhos castanhos analisavam o ambiente, sem se deter em qualquer ponto espec�fico, mas o brilho no olhar usual, que sugeria que o rapaz achava gra�a em algo que mais ningu�m percebera, n�o estava l�.</p><p>Thom franziu a testa, pensativo. Mat nunca cruzava sua porta sem fazer um coment�rio espirituoso sobre o quarto decadente. O rapaz aceitara a explica��o de Thom de que dormir perto dos alojamentos dos servi�ais ajudaria o povo a esquecer que ele chegara ali � sombra das Aes Sedai, mas quase nunca deixava uma piadinha passar. Se tivesse se dado conta de que o quarto tamb�m garantia que ningu�m pensasse que Thom tinha qualquer liga��o com o Drag�o Renascido, Mat, sendo quem era, teria considerado o pedido bastante razo�vel. Haviam bastado duas frases de Thom, proferidas rapidamente em um instante em que ningu�m estava olhando, para que Rand percebesse o verdadeiro motivo. Todos davam ouvidos a um menestrel, todos o observavam, mas ningu�m realmente reparava nele ou lembrava com quem ele conversava, desde que fosse apenas um menestrel com a fun��o de entreter camponeses, servi�ais e, talvez, divertir as mo�as. Era assim que os tairenos pensavam. Afinal de contas, n�o era como se ele fosse um bardo.</p><p>O que estaria incomodando o rapaz para lev�-lo at� ali �quela hora? Devia ser alguma mo�a, j� com idade para ter ju�zo, que tivesse se deixado conquistar pelo sorriso malicioso de Mat. Mesmo assim, at� que o rapaz dissesse o contr�rio, Thom fingiria que aquela era uma das visitas corriqueiras.</p><p>��Vou pegar o tabuleiro de pedras. Est� tarde, mas temos tempo para um jogo.���N�o resistiu em acrescentar:���Quer apostar alguma coisa?���N�o jogaria dados com Mat nem por um cobre, mas pedras era outra hist�ria. Parecia haver muita ordem e padr�o nas pedras para a estranha sorte do rapaz.</p><p>��O qu�? Ah. N�o. Est� muito tarde para jogar� Thom� � aconteceu�? Aconteceu alguma coisa por aqui, hoje?</p><p>Apoiando o tabuleiro de pedras em um dos p�s da mesa, Thom pescou a bolsa de tabaco e o cachimbo comprido na bagun�a sobre o tampo.</p><p>��Feito o qu�?���perguntou, enchendo o fornilho.</p><p>Teve tempo de meter um peda�o de papel torcido na chama de uma das velas, acender o cachimbo e apagar o fogo do papel antes que Mat respondesse.</p><p>��Feito Rand estar enlouquecendo, � isso. N�o� se tivesse acontecido, voc� n�o precisaria perguntar.</p><p>Um arrepio fez Thom remexer os ombros, mas ele baforou um filete de fuma�a cinza-azulada com toda a calma e sentou-se na cadeira, esticando a perna manca � frente do corpo.</p><p>��O que foi que houve?</p><p>Mat respirou fundo, ent�o despejou tudo de uma vez s�:</p><p>��As cartas tentaram me matar. A Amyrlin, e o Gr�o-lorde, e� N�o foi um sonho, Thom. � por isso que aquelas gralhas emplumadinhas n�o quiseram mais jogar. Ficaram com medo de acontecer de novo. Thom, estou pensando em ir embora de Tear.</p><p>O menestrel sentiu um arrepio passar por suas costas, quase como se urtigas-vespanegra tivessem sido apertadas contra a pele. Por que ele mesmo ainda n�o havia sa�do de Tear? Seria a coisa mais s�bia a fazer. Havia centenas de aldeias por a� � espera de um menestrel para entreter e maravilhar a todos. E cada aldeia tinha uma ou duas estalagens cheias de vinho para afogar as m�goas. Por�m, se fizesse isso, deixaria Rand sem ningu�m al�m de Moiraine para impedir que os Gr�o-lordes o encurralassem e, quem sabe, cortassem sua garganta. A mulher conseguiria dar conta do recado, � claro. Por meios diferentes dos dele. Pelo menos era o que Thom achava. Era cairhiena, e decerto sua habilidade para o Jogo das Casas viera junto com o leite da m�e. E, enquanto o ajudava, amarraria mais um cordel em Rand, a ser puxado pela Torre Branca. Prenderia o rapaz � rede Aes Sedai com tanta for�a que ele jamais escaparia. Mas, se o garoto j� estava enlouquecendo�</p><p><emphasis>Idiota</emphasis>, Thom disse a si mesmo. Um completo idiota por se envolver naquela hist�ria por causa de algo que acontecera quinze anos antes. Ficar n�o mudaria nada, o que estava feito estava feito. Precisava ver Rand, cara a cara, independente do que dissera sobre manterem dist�ncia. Talvez ningu�m achasse muito esquisito se um menestrel pedisse para cantar para o Lorde Drag�o, uma can��o composta especialmente para a ocasi�o. Ele conhecia uma melodia de Kandor, obscura, e com raz�o, que exaltava algum lorde sem nome por sua grandeza e coragem, com termos pomposos que n�o revelavam atos ou locais. Devia ter sido encomendada por algum lorde sem qualquer feito digno de men��o. Bem, serviria a ele, agora. A n�o ser que Moiraine decidisse que era esquisito. Isso seria t�o ruim quanto chamar a aten��o dos Gr�o-lordes. <emphasis>Eu sou um idiota! Devia sair daqui hoje mesmo!</emphasis></p><p>Estava fervilhando por dentro, e o est�mago revirava, �cido, mas passara anos aprendendo a manter a express�o impass�vel antes mesmo de chegar a vestir um manto de menestrel. Soprou tr�s an�is de fuma�a, um dentro do outro, e disse:</p><p>��Voc� est� pensando em ir embora de Tear desde o dia em que p�s os p�s na Pedra.</p><p>Empoleirado na ponta do banquinho, Mat disparou um olhar irritado.</p><p>��E pretendo. De verdade. Por que n�o vem comigo, Thom? Tem cidades onde o povo pensa que o Drag�o Renascido ainda n�o chegou nem a dar o primeiro suspiro, lugares onde h� anos ningu�m d� a m�nima para essas porcarias de Profecias do maldito Drag�o, se � que algum dia isso aconteceu. Lugares onde o povo pensa que o Tenebroso � uma hist�ria que ouvem das vovozinhas, que os Trollocs s�o contos loucos de viajantes, que os Myrddraal cavalgam as sombras para assustar as criancinhas. Voc� poderia tocar sua harpa e contar hist�rias, e eu poderia jogar dados. Viver�amos como lordes, viajando o quanto quis�ssemos, ficando onde desej�ssemos, sem ningu�m tentando nos matar.</p><p>Aquilo o atingiu em cheio. Bem, ele era um idiota, de fato. S� precisava tirar o melhor proveito disso.</p><p>��Se quer mesmo ir, por que � que ainda n�o foi?</p><p>��Moiraine est� me vigiando���respondeu Mat, azedo.���E, quando n�o est�, manda algu�m me vigiar.</p><p>��Eu sei. Aes Sedai n�o gostam de soltar ningu�m em quem conseguiram p�r as m�os.���Era mais do que isso, tinha certeza, sem d�vida mais do que era de conhecimento geral, mas Mat negava tudo, e os outros que sabiam tamb�m n�o falavam, considerando que algu�m al�m de Moiraine soubesse. N�o importava. Ele gostava de Mat. De certo modo, tinha uma d�vida com o rapaz, por�m o jovem andoriano e seus problemas eram um teatrinho de fantoches para crian�as, em compara��o com Rand.���Mas n�o acredito que ela mande mesmo algu�m vigiar voc� o tempo todo.</p><p>��� quase isso. Sempre pergunta aos outros onde estou e o que estou fazendo. Fico sabendo dessas coisas. Sabe de algu�m que n�o conte a uma Aes Sedai o que ela deseja saber? Eu n�o. � quase o mesmo que ser vigiado.</p><p>��Se voc� se esfor�ar, pode evitar os olhares. Nunca conheci algu�m com tanto talento para andar sorrateiro. Isso foi um elogio.</p><p>��Sempre acontece alguma coisa���resmungou Mat.���Tem tanto ouro para ganhar por aqui. E tem uma garota de olhos grandes nas cozinhas que gosta de ganhar uns beijos e umas c�cegas, e uma das servi�ais tem cabelos sedosos at� a cintura, e umas curvas����A voz dele foi morrendo, como se tivesse percebido o quanto soava tolo.</p><p>��J� considerou que talvez seja porque�</p><p>��Thom, se voc� falar <emphasis>ta�veren</emphasis>, eu vou embora.</p><p>Thom mudou o que pretendia dizer.</p><p>��� que talvez seja porque Rand � seu amigo, e voc� n�o quer abandon�-lo?</p><p>��Abandon�-lo!���O rapaz se levantou de um salto, derrubando o banquinho.���Thom, ele � o maldito Drag�o Renascido! Pelo menos � isso que ele e Moiraine dizem. Talvez seja mesmo. Rand consegue canalizar e tem aquela droga de espada de vidro. Cumpriu profecias! Sei l�. S� sei que eu teria que ser t�o louco quanto esses tairenos para ficar aqui.���Ele hesitou.���Voc� n�o acha� n�o acha que Moiraine est� me prendendo aqui, acha? Com o Poder?</p><p>��Acho que ela n�o pode fazer isso���respondeu Thom, com cautela.</p><p>Sabia um bocado sobre Aes Sedai, o bastante para ter ideia de quanto desconhecia, e acreditava estar certo nessa.</p><p>Mat passou os dedos nos cabelos.</p><p>��Thom, penso em ir embora o tempo todo, mas� n�o paro de ter essas sensa��es estranhas. Quase como se algo fosse acontecer. Algo� significativo; � essa a palavra. � como ter certeza de que v�o disparar fogos de artif�cio no Dia do Sol, mas n�o saber de que tipo ser�o. Sempre que penso demais em ir embora, acontece isso. E acabo encontrando alguma raz�o para ficar mais um dia. Sempre s� mais um maldito diazinho. Isso n�o parece coisa de Aes Sedai?</p><p>Thom engoliu a palavra <emphasis>ta�veren</emphasis> e tirou o cachimbo dos dentes para analisar o tabaco fumegante. N�o sabia muito sobre <emphasis>ta�veren</emphasis>, mas ningu�m sabia, exceto as Aes Sedai, talvez alguns Ogier.</p><p>��Nunca tive muito talento para ajudar gente com problemas.���<emphasis>Muito menos para resolver os meus pr�prios</emphasis>, pensou Thom.���Com uma Aes Sedai dispon�vel, meu conselho � maioria seria pedir a ajuda dela.���<emphasis>Conselho que eu mesmo n�o seguiria.</emphasis></p><p>��Falar com Moiraine!</p><p>��Suponho que neste caso esteja fora de cogita��o. Mas Nynaeve foi sua Sabedoria, l� em Campo de Emond. Sabedorias de aldeias costumam responder �s perguntas do povo, ajudar com os problemas.</p><p>Mat soltou uma risada rouca.</p><p>��E aguentar um daqueles serm�es sobre bebida, jogatina e�? Thom, ela age como se eu tivesse dez anos. �s vezes, parece que acha que vou me casar com uma boa mo�a e me assentar na fazenda do meu pai.</p><p>��Alguns homens n�o teriam obje��es a levar uma vida assim���respondeu o menestrel, baixinho.</p><p>��Bom, eu tenho. Quero mais do que vacas, ovelhas e tabaco para o resto da vida. Quero����Mat balan�ou a cabe�a.���Todos esses espa�os em branco na minha mem�ria. �s vezes parece que, se eu pudesse preench�-los, saberia� Que me queime, n�o sei o que saberia, mas sei que quero saber. � uma charadinha bem ardilosa, n�o �?</p><p>��Acho que nem uma Aes Sedai vai pode ajud�-lo nessa. Um menestrel com certeza n�o pode.</p><p>��J� disse que nada de Aes Sedai!</p><p>Thom suspirou.</p><p>��Calma, garoto. N�o estava sugerindo.</p><p>��Eu <emphasis>vou</emphasis> embora. Assim que recolher minhas coisas e encontrar um cavalo. Nem um minuto depois.</p><p>��No meio da noite? V� de manh�.���<emphasis>Isso se voc� for mesmo embora</emphasis>, absteve-se de acrescentar.���Sente-se. Relaxe. Vamos jogar uma partida de pedras. Tem uma jarra de vinho aqui, em algum lugar.</p><p>Mat hesitou, olhando para a porta. Por fim, ajeitou o casaco.</p><p>��De manh�, ent�o.���Ele soou indeciso, mas desvirou o banquinho e pousou-o ao lado da mesa.���Mas nada de vinho para mim���acrescentou, enquanto se sentava.���J� acontecem coisas estranhas o bastante enquanto estou com a cabe�a limpa. Quero saber diferenciar os acontecimentos.</p><p>Thom, pensativo, ajeitou na mesa o tabuleiro e os sacos de pedras. O garoto era distra�do com a maior facilidade. E arrastado por um <emphasis>ta�veren</emphasis> ainda mais forte de nome Rand al�Thor, pelo que Thom podia perceber. Come�ou a pensar se estaria atado da mesma forma. Sua vida decerto n�o parecia avan�ar na dire��o da Pedra de Tear e daquele quarto quando conheceu Rand, mas desde ent�o parecia estar se enrolando como corda de pipa. Se decidisse ir embora, por exemplo, talvez se Rand tivesse mesmo enlouquecido, ser� que encontraria raz�es para continuar adiando a partida?</p><p>��O que � isso, Thom?���A bota de Mat encontrara o ba� debaixo da mesa.���Posso tirar do caminho?</p><p>��Claro que sim. V� em frente.���Estremeceu por dentro quando Mat chutou o ba� com for�a. Torceu para ter arrolhado direito todos os frascos de tinta.���Escolha���disse, estendendo os punhos.</p><p>Mat bateu no da esquerda, e Thom abriu a m�o, revelando uma pedra preta e lisa, redonda e chata. O garoto soltou uma risadinha zombeteira por ganhar o primeiro movimento e depositou a pedra no tabuleiro quadriculado. Ningu�m que visse a avidez em seu olhar teria desconfiado de que, havia apenas um instante, o rapaz estivera duas vezes mais �vido para sair dali. Um poder que ele se recusava a reconhecer estava agarrado �s suas costas, e havia uma Aes Sedai com inten��o de fazer dele um de seus animais de estima��o. O rapaz estava completamente preso.</p><p>Talvez tamb�m estivesse sendo preso, mas Thom decidiu que valeria a pena, se fosse para ajudar pelo menos um homem a se libertar das Aes Sedai. Valeria a pena, se fosse para pagar aquela d�vida de quinze anos.</p><p>De repente, com uma estranha satisfa��o, depositou uma pedra branca no tabuleiro.</p><p>��Por acaso j� contei���come�ou, com o cachimbo na boca���sobre a aposta que fiz com uma mulher domanesa? Ela tinha olhos capazes de tragar a alma de um homem. Andava por a� com um p�ssaro vermelho e esquisito que tinha comprado em um navio do Povo do Mar. Alegava que o p�ssaro conseguia prever o futuro. O bicho tinha um bic�o amarelo quase t�o comprido quanto o corpo, e�</p></section><section><title><p>5</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Interrogat�rio</p></title><p>��Elas j� deviam ter voltado, a essa altura.���Egwene abanava com for�a o leque de seda pintada, feliz por as noites serem pelo menos um pouco mais frescas que os dias. As mulheres tairenas usavam leques o tempo inteiro, pelo menos as nobres e ricas, mas parecia que estes s� faziam alguma diferen�a depois de o sol se p�r, e mesmo assim n�o era muita. At� os grandes lampi�es dourados e espelhados que pendiam de suportes prateados nas paredes pareciam esquentar ainda mais o ambiente.���Por que ainda n�o chegaram?���Moiraine lhes prometera um encontro de uma hora, pela primeira vez em dias, mas sa�ra sem dar explica��o depois de cinco m�seros minutos.���Ela deixou escapar alguma coisa sobre o motivo de estar sendo chamada, Aviendha? Ou sobre quem a chamou, pelo menos?</p><p>Sentada de pernas cruzadas no ch�o perto da porta, com os olhos verdes destacando-se no rosto bronzeado, a Aiel deu de ombros. Ela usava casaco, cal�as, botas macias e a <emphasis>shoufa</emphasis> enrolada no pesco�o, e parecia desarmada.</p><p>��Careen sussurrou a mensagem a Moiraine Sedai. N�o teria sido apropriado tentar escutar. Lamento, Aes Sedai.</p><p>Cheia de culpa, Egwene tocou o anel da Grande Serpente na m�o direita, a serpente dourada mordendo a pr�pria cauda. Como Aceita, deveria us�-lo no terceiro dedo da m�o esquerda, mas deixar os Gr�o-lordes acreditarem que havia quatro Aes Sedai plenas na Pedra garantia os bons modos com que as recebiam, ou o que quer que os nobres tairenos considerassem bons modos. Moiraine n�o mentia, naturalmente. Jamais dissera que as tr�s eram algo mais do que Aceitas. Mas tamb�m <emphasis>n�o dissera</emphasis> que eram Aceitas, deixara todos pensarem o que quisessem, acreditarem no que pensavam ver. Moiraine n�o podia mentir, mas sabia fazer a verdade dan�ar uma bela jiga.</p><p>N�o era a primeira vez que Egwene e as outras se passavam por irm�s plenas desde que haviam deixado a Torre, mas a jovem sentia-se cada vez mais desconfort�vel por enganar Aviendha. Gostava da Aiel, achava que as duas poderiam ser amigas, caso viessem a se conhecer melhor. Mas isso parecia quase imposs�vel enquanto Aviendha pensasse que Egwene era Aes Sedai. A Aiel estava ali apenas por ordem de Moiraine, para servir a seus prop�sitos secretos. Egwene suspeitava de que fosse para lhes servir de guarda-costas Aiel, como se as tr�s n�o tivessem aprendido a se defenderem sozinhas. Ainda assim, mesmo que ela e Aviendha se tornassem amigas, n�o poderia contar a verdade � mulher. A melhor forma de guardar segredo era n�o revelar nada a ningu�m, a menos que fosse absolutamente necess�rio. Esse fora outro argumento de Moiraine. Algumas vezes, Egwene se pegava desejando que as Aes Sedai estivessem erradas, completamente erradas, pelo menos uma vez. De uma forma que n�o causasse nenhum desastre, � claro. Essa era a dificuldade.</p><p>��Tanchico���murmurou Nynaeve. A tran�a escura, da grossura de um punho, pendia at� a cintura enquanto ela olhava por uma das janelas estreitas, os caixilhos virados para baixo na esperan�a de deixar entrar um pouco da brisa noturna. No largo Rio Erinin, abaixo, balan�avam-se as lanternas dos poucos botes pesqueiros que n�o ousaram desc�-lo, mas Egwene duvidava que pudessem v�-las.���Ao que parece, a �nica alternativa � irmos para Tanchico.���Nynaeve deu um pux�o inconsciente no vestido verde que deixava os ombros descobertos. Fazia isso com frequ�ncia. Negaria estar usando o vestido para Lan, o Guardi�o de Moiraine, caso Egwene ousasse sugerir tal coisa, mas verde, azul e branco pareciam ser as cores preferidas de Lan, para as mulheres, e todos os vestidos que n�o eram verdes, azuis ou brancos tinham desaparecido do guarda-roupas de Nynaeve.���N�o temos alternativa.���Ela n�o parecia contente.</p><p>Egwene percebeu que puxava o pr�prio vestido para cima. Esses vestidos que s� se sustentavam por al�as na lateral dos ombros eram estranhos. Por outro lado, ela n�o aguentaria cobrir mais o corpo. Por mais leve que fosse, o linho vermelho-claro parecia l�. Desejou ser capaz de usar aqueles vestidos transparentes que Berelain vestia. N�o que fossem apropriados para usar � vista de todos, mas sem d�vida pareciam bem frescos.</p><p><emphasis>Pare com essa choradeira por causa do desconforto</emphasis>, disse a si mesma. <emphasis>Concentre-se.</emphasis></p><p>��Talvez���disse, em voz alta.���Mas eu n�o estou muito convencida.</p><p>Uma mesa comprida e estreita, polida at� brilhar, ocupava o centro do sal�o. Havia uma cadeira alta no canto pr�ximo a Egwene, com leves entalhes e douraduras aqui e ali, bastante simples para os padr�es de Tear. Os espaldares das cadeiras laterais iam diminuindo � medida que se afastavam da mais decorada, e as do extremo oposto eram pouco maiores que banquinhos. Egwene n�o fazia ideia de qual era o prop�sito dos tairenos para aquele sal�o. Ela e as outras o usavam para interrogar as duas prisioneiras capturadas despois da queda da Pedra.</p><p>N�o conseguira se obrigar a ir at� os calabou�os, embora Rand tivesse ordenado que todos os utens�lios que decoravam o aposento da guarda fossem derretidos ou queimados. Nynaeve e Elayne tamb�m n�o tinham ficado ansiosas para retornar. Al�m do mais, este sal�o bem iluminado, com piso de azulejos brilhantes e pain�is de parede com entalhes das Tr�s Luas Crescentes de Tear, fazia enorme contraste com as pedras cinza e sombrias das celas pouco iluminadas, �midas e imundas. Aquilo deveria exercer algum efeito calmante nas duas mulheres vestidas nas pesadas roupas de l� dos prisioneiros.</p><p>Bastava o grosso vestido de l� para revelar � maioria que Joiya Byir, parada em p� do outro lado de mesa, as costas curvadas, era uma prisioneira. Ela tinha sido da Ajah Cinza, e n�o perdera nem um pouco do frio autocontrole caracter�stico de sua Ajah ao deslocar sua lealdade para a Negra. Cada tra�o de sua express�o parecia indicar que ela encarava a janela oposta por escolha pr�pria, n�o por qualquer outra raz�o. Apenas uma mulher capaz de canalizar poderia ver os robustos fluxos de Ar que prendiam os bra�os de Joiya ao lado do corpo e uniam seus tornozelos. Uma jaula tecida com Ar obrigava seus olhos a mirarem bem � frente. At� as orelhas estavam vedadas, para que ela n�o pudesse ouvir o que as outras dissessem at� que lhe fosse permitido.</p><p>Mais uma vez, Egwene conferiu o escudo de Esp�rito que impedia Joiya de tocar a Fonte Verdadeira. Estava firme como deveria. Ela pr�pria urdira todos os fluxos ao redor de Joiya, atando-os de modo que se sustentassem sozinhos, mas n�o conseguia ficar tranquila no mesmo ambiente que uma Amiga das Trevas com a capacidade de canalizar, mesmo que blindada. Pior do que uma mera Amiga das Trevas. Da Ajah Negra. Assassinato era o mais brando dos crimes de Joiya. As costas curvadas deveriam ser consequ�ncia do peso dos juramentos quebrados, vidas arruinadas e almas definhadas.</p><p>A companheira de c�rcere de Joiya, sua irm� da Ajah Negra, n�o possu�a a mesma for�a. Parada na extremidade oposta da mesa, de ombros ca�dos e cabe�a baixa, Amico Nagoyin parecia afundar em si mesma sob o olhar de Egwene. N�o havia raz�o para blind�-la. Amico fora estancada durante a captura. Ainda podia sentir a Fonte Verdadeira, mas jamais a tocaria, nunca mais poderia canalizar. O desejo e a vontade permaneceriam, t�o prementes quanto a necessidade de ar, e a sensa��o de perda estaria presente enquanto ela vivesse, com <emphasis>saidar</emphasis> eternamente fora de alcance. Egwene desejou sentir uma pontada de pena que fosse. Mas n�o se esfor�ou muito.</p><p>Amico murmurou algo por cima a mesa.</p><p>��O qu�?���inquiriu Nynaeve.���Fale alto.</p><p>Com uma express�o humilde, Amico ergueu o rosto sobre o pesco�o delgado. Ainda era uma bela mulher, com olhos grandes e negros, mas havia algo de diferente nela, algo que Egwene n�o era muito capaz de identificar. N�o era o medo que a fazia agarrar o vestido grosso de prisioneira com as duas m�os. Era algo mais.</p><p>Amico engoliu em seco e disse:</p><p>��Voc� deveria ir para Tanchico.</p><p>��Voc� j� disse isso vinte vezes���retrucou Nynaeve, com rudeza.���Cinquenta vezes. Agora conte alguma novidade. Revele nomes que a gente ainda n�o saiba. Quem da Ajah Negra ainda est� na Torre?</p><p>��Eu n�o sei. Voc�s precisam acreditar em mim.���Amico soava cansava, completamente derrotada. O que era bem diferente de quando as outras mulheres eram as prisioneiras, e ela, a carcereira.���Antes de deixarmos a Torre, eu s� sabia de Liandrin, Chesmal e Rianna. Ningu�m sabia de mais de outras duas ou tr�s, eu acho. Exceto Liandrin. Eu j� contei tudo o que sabia.</p><p>��Ent�o voc� � bem ignorante para uma mulher que esperava dominar parte do mundo depois que o Tenebroso se libertasse���retrucou Egwene, r�spida, fechando o leque com for�a para enfatizar o tom.</p><p>Ainda se espantava consigo mesma por conseguir proferir aquele nome com tanta facilidade. O est�mago ainda se revirava, e um arrepio g�lido ainda percorria sua espinha, mas ela j� n�o sentia vontade de gritar ou de fugir chorando. Era poss�vel se acostumar a qualquer coisa.</p><p>��Escutei Liandrin uma vez falando com Temaile���disse Amico, em um tom cansado, recome�ando uma hist�ria que j� contara diversas vezes. Nos primeiros dias de cativeiro, tentara aumentar a hist�ria, mas, quanto mais elaborava, mais se enrolava nas pr�prias mentiras. Agora quase sempre contava da mesma forma, palavra por palavra.���Se voc�s vissem a cara de Liandrin quando percebeu que eu estava l� Ela teria me matado ali mesmo, se achasse que eu tinha ouvido alguma coisa. E Temaile gosta de machucar os outros. Ela sente prazer. S� ouvi um pouquinho antes que as duas me vissem. Liandrin disse que havia alguma coisa em Tanchico, algo perigoso para� para ele.���Falava de Rand. N�o conseguia dizer o nome do rapaz, e a mera men��o do Drag�o Renascido era o bastante para lev�-la �s l�grimas.���Liandrin disse que tamb�m era perigoso para quem usasse. Quase t�o perigoso quanto para� ele. � por isso que ela ainda n�o foi atr�s. E ela disse que a capacidade de canalizar n�o poder� proteg�-lo. Disse que �quando o encontrarmos, a habilidade asquerosa que ele tem vai refrear o Drag�o para n�s�.</p><p>Suor escorria por sua face, mas a mulher parecia incapaz de controlar os tremores.</p><p>Nenhuma palavra mudara.</p><p>Egwene abriu a boca, mas Nynaeve falou primeiro:</p><p>��J� ouvi essa hist�ria vezes demais. Vamos ver se a outra tem algo novo a dizer.</p><p>Egwene cravou os olhos nela, e Nynaeve a encarou de volta com a mesma for�a. Nenhuma das duas piscava. <emphasis>�s vezes ela acha que ainda � a Sabedoria</emphasis>, pensou Egwene, emburrada, <emphasis>e que eu ainda sou a garotinha da aldeia a quem ela ensina sobre ervas. Seria melhor se ela percebesse que agora as coisas s�o diferentes.</emphasis> Nynaeve era forte com o Poder, mais forte do que Egwene, mas s� quando conseguia canalizar. Se n�o estivesse irritada, Nynaeve n�o podia fazer nada.</p><p>Elayne costumava acalmar os �nimos quando as coisas chegavam a esse ponto, o que acontecia com mais frequ�ncia do que deveria. Quando Egwene come�ava a pensar em acalmar os �nimos, j� estava quase borbulhando de raiva, com os p�s fincados no ch�o, e tentar ser cordata s� significaria recuar. Era assim que Nynaeve enxergava, sem d�vida. N�o conseguia se lembrar de uma �nica vez em que a antiga Sabedoria fizera qualquer movimento de retirada, ent�o por que deveria fazer isso? Dessa vez Elayne n�o estava l�. Com uma palavra e um gesto, Moiraine mandara a Filha-herdeira acompanhar a Donzela que viera chamar a Aes Sedai. Sem ela, a tens�o s� aumentava. Cada Aceita esperava que a outra piscasse primeiro. Aviendha mal respirava, parecia se esfor�ar para manter-se afastada do confronto. Decerto considerava uma quest�o de bom senso n�o se meter.</p><p>Por mais estranho que fosse, foi Amico quem desfez o impasse daquela vez, embora provavelmente s� desejasse demonstrar coopera��o. A mulher se virou e encarou a parede oposta, esperando para ser amarrada com muita paci�ncia.</p><p>A tolice da situa��o deixou Egwene subitamente impressionada. Ela era a �nica mulher no recinto capaz de canalizar���a n�o ser que Nynaeve ficasse irritada, ou que o escudo de Joiya falhasse, e, sem perceber, testou mais uma vez a trama de Esp�rito para garantir que aquilo n�o aconteceria���e mesmo assim se envolvia em uma disputa de olhares enquanto Amico aguardava para ser presa. Em outro momento, talvez tivesse rido de si mesma bem alto. Em vez disso, abriu-se a <emphasis>saidar</emphasis>, aquele brilho caloroso jamais visto mas sempre sentido, que parecia sempre prestes a ver de canto de olho. O Poder �nico a preencheu, tornando a vida duas vezes mais maravilhosa, e ela urdiu os fluxos ao redor de Amico.</p><p>Nynaeve apenas grunhiu. Era pouco prov�vel que estivesse irritada o suficiente para sentir o que Egwene estava fazendo���n�o conseguia fazer isso sem estar de cabe�a quente���mas p�de ver Amico se enrijecer quando os fluxos de Ar a tocaram, depois deixou os ombros desabarem, parcialmente sustentados pelo fluxo, como se para mostrar que oferecia pouca resist�ncia.</p><p>Aviendha estremeceu, como se habituara a fazer quando sabia que o Poder estava sendo canalizado perto dela.</p><p>Egwene urdiu barreiras para os ouvidos de Amico���interrog�-las uma de cada vez n�o ajudava em nada se fossem capazes de ouvir as hist�rias uma da outra���e virou-se para Joiya. Trocou o leque de m�o, para conseguir esfregar as duas no vestido, e parou, com uma careta de desgosto. As palmas suadas nada tinham a ver com a temperatura.</p><p>��O rosto dela���comentou Aviendha, de repente. O que foi uma surpresa, pois ela quase nunca falava, a n�o ser que fosse abordada por Moiraine ou uma das outras.���O rosto de Amico. Ela n�o tem a mesma apar�ncia de antes, como se os anos n�o a tivessem tocado. N�o era assim. Isso acontece porque ela foi� Porque ela foi estancada?</p><p>Ela parou de repente, sem f�lego. Por estar t�o pr�xima �s outras, adquirira alguns h�bitos. Nenhuma mulher da Torre conseguia falar sobre estancamento sem estremecer.</p><p>Egwene contornou a mesa at� onde pudesse ver o perfil de Amico, mas ainda fora do campo de vis�o de Joiya. O olhar da antiga Cinza sempre fazia seu est�mago virar um bloco de gelo.</p><p>Aviendha tinha raz�o, era a mesma diferen�a que ela pr�pria percebera, sem entender. Amico parecia jovem, at� mais jovem do que de fato era, mas n�o tinha mais o semblante sem idade das Aes Sedai que haviam operado o Poder �nico durante anos.</p><p>��Voc� tem olhos agu�ados, Aviendha, mas n�o sei se isso tem alguma coisa a ver com o estancamento. Suponho que sim. N�o sei o que mais poderia ter causado.</p><p>Percebeu que n�o soara muito como as Aes Sedai, que costumavam falar como se soubessem tudo. Quando uma Aes Sedai afirmava n�o saber algo, em geral dava um jeito de fazer parecer que sua ignor�ncia encobria muito conhecimento. Enquanto quebrava a cabe�a em busca de algo mais pomposo, Nynaeve veio em seu resgate.</p><p>��Relativamente poucas Aes Sedai j� foram exauridas, Aviendha, e menos ainda foram estancadas.</p><p>�Exaurir� era quando a coisa acontecia por acidente. Oficialmente, o estancamento era resultado de um julgamento e uma senten�a. Egwene n�o via motivo para essa diferencia��o, na verdade. Era como ter duas palavras para dizer �rolar escada abaixo�, e o uso dependia se a pessoa tivesse trope�ado ou sido empurrada. A maioria das Aes Sedai parecia encarar tudo de uma s� forma, ali�s, exceto ao ensinar as novi�as ou Aceitas. Eram tr�s palavras, na verdade. Os homens eram �amansados�, tinham de ser amansados antes que enlouquecessem. S� que agora havia Rand, e a Torre n�o se atrevia a amans�-lo.</p><p>Nynaeve assumira um tom professoral, sem d�vida tentando soar como uma Aes Sedai. Egwene percebeu que a amiga imitava as aulas de Sheriam, as m�os firmes na cintura e um leve sorriso a expressar que tudo era muito simples, bastava prestar aten��o.</p><p>��O estancamento n�o � algo que algu�m decide estudar, compreende?���prosseguiu Nynaeve.���Em geral � algo aceito como irrevers�vel. O que torna uma mulher capaz de canalizar, uma vez removido, n�o pode ser substitu�do, assim como uma �nica m�o perdida n�o pode voltar a existir por meio de Cura.���Pelo menos ningu�m nunca conseguira Curar um estancamento. Houve tentativas. O que Nynaeve disse era a maior parte verdade, mas algumas irm�s da Ajah Marrom estudavam quase tudo o que tinham chance, e algumas irm�s Amarelas, as melhores Curandeiras, tentavam aprender formas de Curar tudo. Por�m, nunca houvera sequer uma pontinha de sucesso nas tentativas de Curar uma mulher estancada.���Al�m desse terr�vel fato, pouco se sabe. � raro mulheres estancadas viverem mais do que alguns anos. Parecem querer deixar de viver, desistem. Como eu disse, � um assunto bastante desagrad�vel.</p><p>Aviendha mudou de posi��o, incomodada.</p><p>��S� pensei que pudesse ser isso���disse, com a voz baixa.</p><p>Egwene tamb�m pensava que poderia ser. Decidiu perguntar a Moiraine. Se a encontrasse sem Aviendha. Parecia que a farsa atrapalhava quase tanto quanto ajudava.</p><p>��Vamos ver se Joiya ainda conta a mesma hist�ria���sugeriu.</p><p>Mesmo assim, precisou se controlar antes de desfazer os fluxos de Ar urdidos em volta da Amiga das Trevas.</p><p>Joiya decerto estava dolorida por ter ficado im�vel por tanto tempo, mas virou-se para encar�-las com muita suavidade. O suor que gotejava na testa n�o era capaz de rebaixar sua presen�a e dignidade, n�o mais do que o vestido bruto de l� grossa reduzia a sensa��o de que ela estava ali por escolha pr�pria. Era uma mulher vistosa, com um ar maternal e meio reconfortante, apesar da suavidade et�rea. No entanto, os olhos escuros fincados naquele rosto faziam at� um gavi�o parecer bondoso. Ela sorriu para as duas, um sorriso que jamais chegava aos olhos.</p><p>��Que a Luz as ilumine. Que a m�o do Criador as proteja.</p><p>��N�o vou ouvir isso de voc�.���A voz de Nynaeve era quieta e calma, mas ela jogou a tran�a por cima do ombro e cerrou o punho em torno da ponta, como fazia quando estava nervosa ou incomodada. Egwene n�o achou que ela estivesse incomodada, Joiya n�o parecia fazer a pele de Nynaeve se arrepiar como fazia a de Egwene.</p><p>��Estou arrependida dos meus pecados���disse Joiya, muito calma.���O Drag�o Renasceu e empunha <emphasis>Callandor</emphasis>. As Profecias foram cumpridas. O Tenebroso deve cair. Posso ver isso agora. Meu arrependimento � real. Ningu�m pode andar tanto tempo pela Sombra que n�o seja capaz de retornar � Luz.</p><p>A cada palavra, o rosto de Nynaeve ficava mais sombrio. Egwene tinha certeza de que ela estava furiosa a ponto de canalizar, mas, se o fizesse, provavelmente seria para estrangular a Aes Sedai. Egwene n�o acreditava mais do que Nynaeve no arrependimento de Joiya, sem d�vida, mas as informa��es da mulher talvez fossem verdadeiras. Joiya era bastante capaz de tomar a fria decis�o de se voltar para o lado que julgava vencedor. Ou poderia apenas estar ganhando tempo, mentindo, na esperan�a de ser resgatada.</p><p>Uma Aes Sedai n�o deveria ser capaz de mentir, mesmo uma que tivesse perdido todo o direito a esse nome. Pelo menos, n�o mentiras deslavadas. O primeiro dos Tr�s Juramentos, feito com o Bast�o dos Juramentos nas m�os, garantia isso. Por�m, quaisquer que fossem os votos proferidos ao Tenebroso pela Ajah Negra, eles pareciam romper todos os Tr�s Juramentos.</p><p>N�o importava. A Amyrlin as enviara � ca�a da Ajah Negra, � ca�a de Liandrin e das outras doze que haviam cometido crimes e fugido da Torre. E tudo o que elas tinham agora para prosseguir era o que aquelas duas pudessem, ou quisessem, revelar.</p><p>��Conte sua vers�o de novo���ordenou Egwene.���Use palavras diferentes desta vez. Estou cansada de ouvir hist�rias decoradas.���Caso a mulher estivesse mentido, haveria uma chance maior de trope�ar nas palavras se as relatasse de outra forma.���Vamos ouvir o que voc� tem a dizer.</p><p>Isso fora para acalmar Nynaeve, que deu uma fungada alta, depois um breve aceno de cabe�a.</p><p>Joiya deu de ombros.</p><p>��Como quiser. Deixe-me ver. Palavras diferentes. O falso Drag�o, Mazrim Taim, que foi capturado em Saldaea, � capaz de canalizar com uma for�a incr�vel. Talvez tanto quanto Rand al�Thor, ou quase, se os relatos forem verdadeiros. Antes que possa ser levado a Tar Valon e amansado, Liandrin pretende libert�-lo. Ele ser� proclamado o Drag�o Renascido, seu nome ser� revelado como Rand al�Thor, e ele vai operar uma destrui��o em uma escala que o mundo n�o v� desde a Guerra dos Cem Anos.</p><p>��Isso � imposs�vel���interrompeu Nynaeve.���O Padr�o n�o vai aceitar um falso Drag�o, n�o agora que Rand se proclamou.</p><p>Egwene suspirou. As duas j� haviam debatido isso, mas Nynaeve sempre refutava esse ponto. Ela n�o sabia ao certo se a amiga de fato acreditava que Rand era o Drag�o Renascido, n�o importava o que ele dissesse, n�o importava as Profecias, <emphasis>Callandor</emphasis> ou a queda da Pedra. Nynaeve tinha idade suficiente para ter cuidado de Rand quando ele era crian�a, assim como cuidara de Egwene. Ele era de Campo de Emond, e a antiga Sabedoria ainda achava que seu maior dever era proteger o povo de l�.</p><p>��Foi isso que Moiraine lhes disse?���perguntou Joiya, com um toque de desprezo.���Moiraine passou pouco tempo na Torre desde que foi elevada, e n�o muito mais com suas irm�s, em outros locais. Suponho que ela saiba sobre o funcionamento da vida em uma aldeia, talvez at� algo da pol�tica entre na��es, mas alega certeza em rela��o a assuntos que aprendeu apenas em estudos e debates com os que de fato os conhecem. Ainda assim, talvez esteja certa. Pode muito bem ser imposs�vel que Mazrim Taim proclame a si mesmo. Mas ser� que existe alguma diferen�a se outros o fizerem por ele?</p><p>Egwene desejou que Moiraine retornasse. A mulher n�o falaria com tanta confian�a se Moiraine estivesse ali. Joiya sabia muito bem que ela e Nynaeve eram apenas Aceitas. Isso fazia diferen�a.</p><p>��Prossiga���disse Egwene, quase t�o severa quanto Nynaeve.���E lembre-se, palavras diferentes.</p><p>��� claro���respondeu Joiya, como se aceitasse um agrad�vel convite, mas os olhos cintilavam feito cacos de vidro negro.���Voc�s podem ver o resultado �bvio. Rand al�Thor ser� considerado culpado pela destrui��o de� Rand al�Thor. At� a prova de que os dois n�o s�o o mesmo homem poder� muito bem ser desconsiderada. Afinal de contas, quem � que pode dizer de que truques o Drag�o Renascido � capaz? Talvez at� possa estar em dois lugares ao mesmo tempo. At� os idiotas que vivem apoiando falsos Drag�es v�o hesitar diante do massacre indiscriminado e das coisas piores que v�o acontecer em nome dele. Os que n�o recuarem diante de tal carnificina buscar�o o Rand al�Thor que parece deleitar-se com sangue. As na��es v�o se unir, como fizeram na Guerra dos Aiel���ela lan�ou um sorriso culpado a Aviendha, o que n�o condizia com seus olhos impiedosos���mas sem d�vida muito mais depressa. Nem o Drag�o Renascido � capaz de lutar contra isso, n�o para sempre. Ele ser� esmagado antes mesmo de a �ltima Batalha come�ar, e pelos mesmos homens que deveria salvar. O Tenebroso vai se libertar, o dia de Tarmon Gai�don chegar�, e a Sombra cobrir� a terra e reorganizar� o Padr�o por todos os tempos. Este � o plano de Liandrin.���N�o havia nenhum tra�o de satisfa��o em sua voz, mas tamb�m n�o havia horror.</p><p>Era uma hist�ria plaus�vel, mais plaus�vel que o conto de Amico sobre algumas poucas frases entreouvidas, mas Egwene acreditava em Amico, n�o em Joiya. Talvez porque quisesse isso. Era mais f�cil enfrentar alguma vaga amea�a em Tanchico do que um plano completo para jogar tudo contra Rand. <emphasis>N�o</emphasis>, pensou. <emphasis>Joiya</emphasis> est� <emphasis>mentindo. Tenho certeza.</emphasis> Ainda assim n�o podiam ignorar qualquer uma das hist�rias. Mas n�o tinham como ir atr�s das duas, n�o se quisessem ter alguma chance de sucesso.</p><p>A porta se abriu de supet�o, e Moiraine entrou pisando firme, com Elayne atr�s. A Filha-herdeira encarava o ch�o diante dos pr�prios p�s com uma careta, perdida em pensamentos obscuros. Moiraine, no entanto� Pela primeira vez, a serenidade da Aes Sedai desaparecera, e seu rosto estava coberto de f�ria.</p></section><section><title><p>6</p><p><image l:href="#11"/></p><p>Portais</p></title><p>��Rand al�Thor���disse Moiraine, com uma voz baixa e tensa���� um cabe�a de mula teimoso de um� um� de um homem!</p><p>Elayne ergueu o queixo, irritada. Lini, sua ama, costumava dizer que era mais f�cil tecer seda de pelos de porco do que fazer de um homem qualquer coisa al�m de um homem. Mas isso n�o era desculpa para Rand.</p><p>��N�s os criamos desse jeito em Dois Rios.���De s�bito, Nynaeve exibiu um sorriso de satisfa��o mal contida. Nunca conseguia esconder o desagrado que sentia com as Aes Sedai t�o bem quanto pensava.���As mulheres de Dois Rios nunca t�m problemas com os homens.</p><p>Pelo olhar surpreso que Egwene lan�ou a ela, aquela era uma mentira t�o grande que seria garantia de ter a boca lavada com sab�o.</p><p>Moiraine franziu a testa, como se estivesse prestes a responder a Nynaeve de forma ainda mais dura. Elayne se mexeu, inquieta, mas n�o encontrou qualquer coisa para dizer que pudesse impedir uma discuss�o. Rand continuava dan�ando em sua mente. Mas que direito ela tinha?</p><p>Foi Egwene quem se pronunciou:</p><p>��O que foi que ele fez, Moiraine?</p><p>A Aes Sedai virou os olhos para Egwene com uma express�o t�o firme que a jovem deu um passo atr�s, abriu o leque de repente e come�ou, nervosa, a abanar o rosto. Mas o olhar de Moiraine parou em Joiya e Amico, uma a observ�-la desconfiada, a outra contida e alheia a tudo al�m da parede oposta.</p><p>Elayne levou um pequeno susto ao perceber que Joiya n�o estava impedida de ouvir e de se mover. Mais do que depressa, conferiu o escudo que bloqueava a mulher do contato com a Fonte Verdadeira. Torceu para que nenhuma das outras tivesse reparado em seu susto. Joiya a assustava muito, mas Egwene e Nynaeve n�o pareciam sentir mais medo dela do que sentiam de Moiraine. �s vezes, era dif�cil ser corajosa como era esperado da Filha-herdeira de Andor. Era comum ela se surpreender desejando conseguir lidar t�o bem com as coisas quanto as outras duas.</p><p>��Os guardas���resmungou Moiraine, como se para si mesma.���Eu os vi parados no corredor e sequer pensei.</p><p>Ela alisou o vestido, fazendo um esfor�o �bvio para se recompor. Elayne achava que nunca vira Moiraine t�o fora de si como naquela noite. Mas, tamb�m, a Aes Sedai tinha motivo. <emphasis>N�o mais do que eu. Ou ser� que eu tenho?</emphasis> Ela se pegou tentando n�o encarar Egwene nos olhos.</p><p>Caso fossem Egwene, Nynaeve ou Elayne que estivessem fora de si, Joiya sem d�vida teria dito algo, sutil e com duplo sentido, pensado para aborrec�-las ainda mais. Se estivessem sozinhas, pelo menos. Com Moiraine, ela apenas observava, silenciosa e desconfort�vel.</p><p>Moiraine caminhou ao lado da mesa, j� mais calma. Joiya era quase uma cabe�a mais alta que ela, mas, mesmo se estivesse vestida em sedas, n�o haveria d�vida a respeito de quem estava no comando da situa��o. Joiya n�o recuou, mas suas m�os apertaram as saias por um instante antes que ela as controlasse.</p><p>��Fiz alguns arranjos���disse Moiraine, baixinho.���Daqui a quatro dias voc�s v�o embarcar em um navio rio acima, em dire��o a Tar Valon e � Torre. L� n�o s�o t�o brandos quanto temos sido. Se ainda n�o descobriu a verdade at� agora, descubra antes de chegarem � Ba�a do Sul, ou sem d�vida acabar� na forca do P�tio dos Traidores. N�o vou mais falar com voc�, a n�o ser que mande me chamar para contar alguma novidade. E n�o quero ouvir mais uma palavra, nenhuma sequer, a menos que <emphasis>seja</emphasis> novidade. Acredite em mim, isso vai poupar muita dor em Tar Valon. Aviendha, pode mandar o capit�o trazer dois dos homens dele?���Elayne piscou enquanto a Aiel se levantava e desaparecia pela porta. �s vezes, Aviendha era t�o silenciosa que parecia nem estar presente.</p><p>Joiya mexia o rosto como se quisesse dizer algo, mas Moiraine a encarou, e, depois de um tempo, a Amiga das Trevas desviou os olhos. Eles reluziam como os de um corvo, cheios de mortes obscuras, mas a mulher segurou a l�ngua.</p><p>Elayne viu um brilho t�nue, branco-dourado, rodear Moiraine de repente, o brilho de uma mulher abra�ando <emphasis>saidar</emphasis>. Apenas uma pessoa treinada para canalizar era capaz de v�-lo. Os fluxos que prendiam Amico se desataram mais depressa do que Elayne poderia ter feito. Ela era mais forte que Moiraine, pelo menos em potencial. Na Torre, as mulheres que a ensinavam quase n�o acreditavam no tamanho de sua capacidade, e tamb�m na de Egwene e Nynaeve. A mulher de tran�a era a mais forte de todas���quando conseguia canalizar. No entanto, Moiraine tinha experi�ncia. Fazia de olhos fechados o que as tr�s ainda estavam aprendendo. Ainda assim, havia algumas coisas que Elayne e as outras duas eram capazes de fazer mas a Aes Sedai n�o conseguia. Era uma pequena satisfa��o diante da facilidade com que Moiraine acovardava Joiya.</p><p>Livre, em condi��es de falar, Amico se virou e percebeu pela primeira vez a presen�a de Moiraine. Com um ganido, ela se curvou em uma mesura t�o profunda quanto a de qualquer novi�a. Joiya mantinha os olhos cravados na porta, evitando o olhar das outras. Nynaeve, de bra�os cruzados, com as juntas dos dedos brancas da for�a que fazia ao agarrar a tran�a, lan�ava a Moiraine um olhar quase t�o mort�fero quanto o de Joiya. Egwene apalpou a saia e cravou os olhos na antiga Cinza. Elayne franziu o rosto, desejando ser forte como Egwene, desejando n�o sentir que tra�a a amiga. No mesmo instante, o capit�o entrou na sala com mais dois Defensores de preto e dourado. Aviendha n�o estava com eles, parecia ter aproveitado a oportunidade para escapar da Aes Sedai.</p><p>O oficial grisalho, com um elmo com abas e duas pequenas plumas brancas, encolheu-se quando seus olhos encontraram os de Joiya, embora ela sequer tivesse demonstrado que o vira. O olhar do homem saltou de mulher a mulher, indeciso. O sal�o tinha um clima de problemas, e nenhum homem s�bio quereria problemas vindos desse tipo de mulheres. Os dois soldados agarraram as lan�as compridas ao lado do corpo, quase como se temessem ter de se defender. Talvez de fato temessem.</p><p>��Voc�s, levem essas duas de volta para as celas���mandou Moiraine, falando de forma �spera com o oficial.���Repitam as instru��es. N�o quero nenhum erro.</p><p>��Sim, Ae����A garganta do capit�o travou. Ele engoliu em seco.���Sim, milady���respondeu, olhando-a com ansiedade para ver se o tratamento bastaria. Quando a mulher continuou a encar�-lo, esperando, ele soltou um suspiro alto de al�vio.���As prisioneiras n�o devem falar com ningu�m, exceto comigo, nem mesmo entre si. Vinte homens no aposento da guarda e dois do lado de fora de cada cela o tempo inteiro, quatro se a porta de alguma das celas precisar ser aberta por qualquer motivo. Eu mesmo supervisiono o preparo das refei��es e as entrego a elas. Tudo como a senhora ordenou, milady.���Uma pontada de d�vida pairava em sua voz.</p><p>Centenas de rumores corriam a Pedra em rela��o �s prisioneiras e ao motivo de as duas mulheres terem de ser vigiadas com tanto afinco. O povo tamb�m sussurrava hist�rias sobre as Aes Sedai, cada uma mais sombria do que a outra.</p><p>��Muito bem���respondeu Moiraine.���Leve as duas.</p><p>N�o estava claro quem estava mais ansioso para deixar o aposento, as prisioneiras ou os guardas. At� Joiya andava depressa, como se n�o aguentasse ficar calada ao lado de Moiraine mais nem um instante.</p><p>Elayne estava certa de que mantivera o semblante tranquilo desde que entrara no quarto, mas Egwene aproximou-se e a abra�ou.</p><p>��Qual � o problema, Elayne? Voc� parece prestes a chorar.</p><p>A preocupa��o em sua voz fez Elayne sentir que irromperia em l�grimas. <emphasis>Luz!</emphasis>, pensou. <emphasis>N�o vou ser assim t�o boba. N�o vou!</emphasis></p><p>��<emphasis>Uma mulher chorosa � um po�o sem fundo.</emphasis>���Lini sempre fora cheia de ditados como esse.</p><p>��Tr�s vezes���reclamou Nynaeve para Moiraine, com rudeza���s� tr�s! Foi o quanto voc� consentiu em nos ajudar a interrog�-las. Desta vez voc� desapareceu antes mesmo de come�armos, e agora anuncia, com toda a calma, que vai mand�-las para Tar Valon! Se n�o vai ajudar, pelo menos n�o atrapalhe!</p><p>��N�o v� presumindo que a autoridade da Amyrlin chegue t�o longe���retrucou Moiraine, com frieza.���Ela pode ter mandado voc�s irem atr�s de Liandrin, mas as tr�s ainda s�o apenas Aceitas, e desgra�adamente ignorantes, independente das cartas que carregam. Ou ser� que queriam ficar interrogando as duas para sempre, at� tomarem uma decis�o? Voc�s de Dois Rios parecem viver evitando decis�es que precisam ser tomadas.���Nynaeve abriu e fechou a boca, os olhos esbugalhados, como se refletindo sobre qual das acusa��es responderia primeiro, mas Moiraine se virou para Egwene e Elayne.���Recomponha-se, Elayne. N�o sei como voc� vai cumprir as ordens da Amyrlin se pensa que todas as terras t�m os mesmos costumes de onde nasceu. E tamb�m n�o sei por que est� t�o perturbada. N�o deixe que seus sentimentos machuquem os outros.</p><p>��Como assim?���perguntou Egwene.���Que costumes? Do que voc� est� falando?</p><p>��Berelain esteve nos aposentos de Rand���disse Elayne, em voz baixa, incapaz de se conter.</p><p>Seus olhos tr�mulos encararam Egwene. Ela sem d�vida encobria os pr�prios sentimentos. Moiraine lan�ou um olhar reprovador e suspirou.</p><p>��Eu pouparia voc� disso se pudesse, Egwene. Se Elayne n�o tivesse deixado o nojo que sentiu de Berelain afetar o ju�zo. Os costumes de Mayene n�o s�o os mesmos dos locais onde voc�s duas nasceram. Egwene, sei o que voc� sente por Rand, mas precisa compreender que agora isso n�o vai dar em nada. Ele pertence ao Padr�o e � hist�ria.</p><p>Parecendo ignorar a Aes Sedai, Egwene encarou Elayne nos olhos. A Filha-herdeira quis desviar o olhar, mas n�o conseguiu. De repente, Egwene se inclinou mais para perto, curvou a m�o em concha e sussurrou:</p><p>��Eu o amo. Como um irm�o. E a voc� como uma irm�. Desejo tudo de bom aos dois.</p><p>Os olhos de Elayne se arregalaram, e um sorriso se abriu em seu rosto. Ela respondeu ao abra�o de Elayne com outro bem forte.</p><p>��Obrigada���murmurou, baixinho.���Eu amo voc� tamb�m, irm�. Ah, muito obrigada.</p><p>��Ela entendeu errado���disse Egwene, meio para si mesma, um sorriso de satisfa��o escancarado no rosto.���Voc� j� se apaixonou, Moiraine?</p><p>Que pergunta espantosa. Elayne jamais poderia imaginar a Aes Sedai apaixonada. Moiraine era da Ajah Azul, e diziam que as irm�s azuis entregavam todas as paix�es �s suas causas.</p><p>A mulher esguia n�o se surpreendeu nem um pouco. Por um longo instante, encarou as duas de bra�os dados com muita calma. Por fim, disse:</p><p>��Eu poderia apostar que sei o rosto do homem com quem vou me casar mais do que qualquer uma de voc�s conhece o futuro marido.</p><p>Egwene ficou boquiaberta.</p><p>��Quem?���perguntou Elayne, arquejando.</p><p>A Aes Sedai pareceu arrependida do que dissera.</p><p>��Talvez eu s� tenha querido dizer que dividimos essa ignor�ncia. N�o interpretem muito de algumas poucas palavras.���Olhou contemplativa para Nynaeve.���Se eu algum dia escolher um homem, se escolher, eu disse, esse homem n�o ser� Lan. Isso � tudo o que posso dizer.</p><p>Aquilo fora dito para acalmar Nynaeve, mas ela n�o pareceu ter gostado de ouvir. A mulher emburrada tinha pela frente o que Lini chamaria de �um trecho de terra dif�cil de carpir�: n�o era apenas um Guardi�o quem amava, mas um homem que tentava negar que correspondia seu amor. Tolo como era, o homem falava da guerra contra a Sombra na qual era incapaz de parar de lutar e que jamais venceria, de sua recusa em vestir Nynaeve em roupas de vi�va no dia da festa de casamento. Coisas est�pidas do tipo. Elayne n�o entendia como a amiga conseguia aguentar. N�o era uma mulher muito paciente.</p><p>��Se j� tiverem terminado de tagarelar sobre homens���retrucou Nynaeve em um tom �cido, como se para comprovar a impaci�ncia���talvez pud�ssemos voltar ao que � importante?���Agarrando a tran�a com vigor, sua voz ganhou for�a e velocidade enquanto ela prosseguia, tal e qual uma roda-d��gua com as engrenagens soltas:���Como � que vamos descobrir se Joiya ou Amico est�o mentindo se voc� as mandar embora? Ou se as duas estiverem mentindo? Ou se nenhuma estiver? N�o aprecio essa confus�o, Moiraine, independente do que voc� pensa, mas j� pisei em muitas armadilhas para querer pisar em mais uma. E tamb�m n�o quero ficar perseguindo ilus�es. Fui eu� fomos n�s quem a Amyrlin enviou atr�s de Liandrin e suas comparsas. J� que voc� n�o parece consider�-las importantes o bastante para gastar mais de um instante para nos ajudar, o m�nimo que pode fazer � n�o nos dar uma rasteira!</p><p>A mulher parecia prestes a arrancar a tran�a e tentar estrangular a Aes Sedai com ela. Moiraine exibia uma calma cristalina e perigosa, mostrando que poderia estar prestes a ensinar a mesma li��o sobre segurar a l�ngua que ensinara a Joiya. Elayne decidiu que era hora de parar de se lamentar. N�o sabia como viera a assumir o papel de pacificadora dessas mulheres����s vezes desejava puxar todas pelos cabelos e sacudi-las���mas sua m�e sempre dizia que nenhuma boa decis�o nascia da raiva.</p><p>��Talvez queira acrescentar � lista do que deseja saber���disse Elayne���por que fomos chamadas por Rand. Ou seja, para onde Careen nos levou. Ele agora est� bem, � claro. Moiraine o Curou.���N�o p�de conter um arrepio ao pensar na breve olhadela que deu dentro do quarto, mas a distra��o funcionou �s maravilhas.</p><p>��Curou?���Nynaeve arquejou.���O que aconteceu com ele?</p><p>��Ele quase morreu���respondeu a Aes Sedai, calma como se dissesse que o homem tomara um bule de ch�.</p><p>Elayne sentiu Egwene tremendo enquanto as duas escutavam o relato sem emo��o de Moiraine, mas talvez um pouco do tremor fosse dela mesma. Maldade borbulhando pelo Padr�o. Reflexos saltando de espelhos. Rand, uma massa de sangue e feridas. Quase como uma reflex�o tardia, Moiraine acrescentou que tinha certeza de que Perrin e Mat haviam vivido algo parecido, mas conseguiram escapar ilesos. A mulher devia ter gelo correndo nas veias. <emphasis>N�o, ela estava bastante inflamada com a teimosia de Rand. E tamb�m n�o falou de casamento com frieza, por mais que tivesse tentado.</emphasis> Agora, no entanto, poderia muito bem estar refletindo se um bot�o de seda era da cor certa para um vestido.</p><p>��E essas� essas <emphasis>coisas</emphasis> v�o continuar acontecendo?���indagou Egwene, quando Moiraine terminou.���N�o h� nada que voc� possa fazer para parar? Ou que Rand possa fazer?</p><p>A pequena pedra azul que pendia dos cabelos de Moiraine se sacudiu quando ela balan�ou a cabe�a.</p><p>��N�o at� que ele aprenda a controlar suas habilidades. Talvez nem depois disso. N�o sei dizer se ele vai ser forte o bastante para empurrar o miasma para longe de si. Mas pelo menos ter� mais condi��es de se defender sozinho.</p><p>��Voc� n�o pode fazer nada para ajud�-lo?���perguntou Nynaeve.���� voc� quem deveria saber tudo, ou pelo menos fingir que sabe. N�o pode ensinar a ele? Uma parte, pelo menos? E n�o venha com esses ditados sobre p�ssaros ensinarem peixes a voar.</p><p>��Voc� saberia���respondeu Moiraine���se tivesse aproveitado melhor seus estudos. Voc� deveria saber. Quer saber como usar o Poder, Nynaeve, mas n�o se d� ao trabalho de <emphasis>aprender</emphasis> sobre o Poder. <emphasis>Saidin</emphasis> n�o � <emphasis>saidar</emphasis>. Os fluxos s�o diferentes, os caminhos de tessitura s�o diferentes. O p�ssaro tem mais chance.</p><p>Foi a vez de Egwene tentar dissolver a tens�o.</p><p>��Com o que Rand est� teimando agora?���Nynaeve abriu a boca, e Egwene acrescentou:���Ele �s vezes consegue ser teimoso como uma pedra.</p><p>Nynaeve fechou a boca de repente. Todas sabiam como aquilo era verdade.</p><p>Moiraine observou as tr�s, pensativa. �s vezes, Elayne n�o conseguia ter certeza de quanto a Aes Sedai confiava nelas. Ou em qualquer um.</p><p>��Ele precisa agir���disse a Aes Sedai, por fim.���Em vez disso, fica sentado aqui, e os tairenos j� come�aram a perder o medo dele. Ele continua sentado, e, quanto mais permanecer sem fazer nada, mais os Abandonados ver�o sua in�rcia como sinal de fraqueza. O Padr�o se move em um fluxo, apenas os mortos ficam im�veis. Ele precisa agir, ou morrer�. Com uma flechada nas costas, veneno na comida, ou com os Abandonados se reunindo em um bando para arrancar a alma de seu corpo.</p><p>Elayne se encolhia a cada perigo na lista. Saber que eram reais apenas piorava as coisas.</p><p>��E voc� sabe o que ele deve fazer, n�o sabe?���indagou Nynaeve, firme.���Voc� tem tudo planejado.</p><p>Moiraine assentiu.</p><p>��Voc� preferiria que ele sa�sse sozinho, desenfreado, mais uma vez? N�o ouso arriscar uma coisa dessas. Ele pode acabar morrendo, ou coisa pior, antes que eu o encontre.</p><p>Aquilo era bem verdade. Rand mal sabia o que estava fazendo. E Elayne tinha certeza de que Moiraine n�o queria perder a pouca orienta��o que ainda concedia a ele. O pouco que ele permitia que concedesse.</p><p>��Voc� vai compartilhar seu plano para ele conosco?���inquiriu Egwene.</p><p>Ela com certeza n�o estava mais ajudando a suavizar o clima.</p><p>��Sim, fa�a isso���concordou Elayne, surpreendendo a si mesma, ecoando o tom frio de Egwene.</p><p>Ela n�o era adepta de confrontos, quando podia evitar. A m�e sempre dizia que era melhor guiar os outros do que tentar coloc�-los na linha a marteladas.</p><p>Se os modos das mo�as irritaram Moiraine, ela n�o demonstrou.</p><p>��Desde que compreendam que precisam manter isso entre voc�s. Um plano revelado � um plano fadado ao fracasso. Sim, vejo que compreendem.</p><p>Elayne decerto compreendia. O plano era perigoso, e Moiraine n�o sabia ao certo se iria funcionar.</p><p>��Sammael est� em Illian���prosseguiu a Aes Sedai.���Os tairenos est�o sempre t�o preparados para a guerra com Illian quanto o inverso. Os dois povos j� se enfrentam de forma intermitente h� mil anos, e discutem suas chances de vencer como outros homens conversam sobre o pr�ximo festival. Duvido at� que saber da presen�a de Sammael pudesse mudar isso, n�o com o Drag�o Renascido para conduzi-los. Tear seguir� Rand ansiosamente nesta empreitada, e, se ele derrotar Sammael�</p><p>��Luz!���exclamou Nynaeve.���Voc� n�o est� querendo que ele comece uma simples guerra, quer que ele v� atr�s de um dos Abandonados! N�o me admira que Rand esteja sendo teimoso. Para um homem, ele n�o � bobo.</p><p>��Ele precisa enfrentar o Tenebroso no fim���lembrou-a Moiraine, muito calma.���Voc� acha mesmo que ele pode evitar os Abandonados? Quanto � guerra, j� h� guerras suficientes sem ele, e cada uma mais in�til que a outra.</p><p>��Toda guerra � in�til���come�ou Elayne, e hesitou de repente, ao se encher de compreens�o.</p><p>Tristeza e arrependimento tamb�m estamparam seu rosto, mas sem d�vida compreens�o. A m�e sempre lhe ensinara sobre como uma na��o era conduzida, al�m de como era governada, duas coisas muito diferentes, por�m ambas necess�rias. E, �s vezes, certas coisas muito desagrad�veis precisavam ser feitas pelo bem de ambas, e o pre�o de n�o faz�-las era ainda pior.</p><p>Moiraine lhe lan�ou um olhar complacente.</p><p>��Nem sempre � agrad�vel, n�o �? Suponho que, quando voc� quase n�o tinha idade para compreender, sua m�e tenha come�ado a ensin�-la a respeito do que teria de governar depois dela.���Moiraine crescera no Pal�cio Real em Cairhien. N�o estava destinada a reinar, mas fazia parte da fam�lia real e sem d�vida ouvira os mesmos ensinamentos.���Ainda assim, �s vezes parece que seria melhor ficar na ignor�ncia, ser uma fazendeira que n�o conhece nada al�m das fronteiras de suas terras.</p><p>��Mais charadas?���indagou Nynaeve, com desd�m.���A guerra era algo que eu costumava ouvir de mascates, uma coisa muito distante, que eu n�o entendia bem. Agora, sei o que �. Homens matando homens. Homens se comportando feito animais, reduzidos a animais. Aldeias incendiadas, fazendas e campos incendiados. Fome, doen�a e morte, tanto para inocentes quanto para culpados. O que � que torna essa sua guerra melhor, Moiraine? O que a torna mais limpa?</p><p>��Elayne?���disse Moiraine, baixinho.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a���n�o queria ser a pessoa a explicar aquilo���mas n�o sabia dizer se sua m�e, sentada no Trono do Le�o, teria se calado diante do olhar sombrio e persuasivo de Moiraine.</p><p>��A guerra vir� quer Rand a inicie ou n�o���come�ou, relutante. Egwene deu um passo atr�s com um olhar de descren�a t�o penetrante quanto o de Nynaeve. Quando Elayne prosseguiu, a incredulidade foi esvanecendo dos rostos das duas outras mulheres.���Os Abandonados n�o v�o ficar parados esperando. Sammael talvez n�o tenha sido o �nico a agarrar as r�deas de uma na��o, talvez tenha sido apenas o �nico de que sabemos. Algum dia eles vir�o atr�s de Rand, talvez em pessoa, mas sem d�vida com ex�rcitos sob seu comando. E as na��es livres dos Abandonados? Quantos v�o clamar gl�ria ao estandarte do Drag�o e acompanh�-lo a Tarmon Gai�don, e quantos v�o convencer a si mesmos de que a queda da Pedra � uma mentira, de que Rand � apenas mais um falso Drag�o que deve ser abatido, um falso Drag�o talvez forte o bastante para amea��-los, caso n�o o ataquem primeiro? De um jeito ou de outro, a guerra <emphasis>vir�</emphasis>.���Ela parou de repente. Ainda havia mais, por�m n�o podia, nem iria, contar a outra parte.</p><p>Moiraine n�o foi t�o reticente.</p><p>��Muito bom���disse, assentindo���mas incompleto. O olhar que lan�ou a Elayne revelava que ela sabia que a menina deixara aquilo de fora de prop�sito. De m�os cruzadas placidamente sobre a cintura, dirigiu-se a Nynaeve e Egwene:���Nada torna esta guerra melhor ou mais limpa. Apenas isso vai cimentar os tairenos a ele, e os illianenses acabar�o seguindo-o, assim como os tairenos fazem agora. Como n�o o fariam, depois que o estandarte do Drag�o tremeluzir por sobre Illian? Apenas a not�cia da vit�ria poder� decidir as guerras em Tarabon e Arad Doman a seu favor. Guerras que <emphasis>terminar�o</emphasis> por voc�s.</p><p>�Em um s� golpe, ele se tornar� t�o forte comparado a homens e espadas que apenas uma coaliz�o de cada na��o que restar daqui at� a Praga poder� derrot�-lo, e, com o mesmo golpe, mostrar� aos Abandonados que n�o � uma perdiz gorda e claudicante que pode ser aprisionada em uma rede. Isso os deixar� cautelosos e dar� a ele tempo para aprender a usar a pr�pria for�a. Ele precisa fazer o primeiro movimento, ser o martelo, n�o o prego.���A Aes Sedai fez uma leve careta, maculando a calma com um tra�o da irrita��o anterior.���Ele <emphasis>precisa</emphasis> fazer o primeiro movimento. E o que � que ele faz? Ele l�. L� e se afunda cada vez mais.</p><p>Nynaeve parecia abalada, como se fosse capaz de enxergar todas as batalhas e mortes. Os olhos negros de Egwene estavam arregalados, cheios de uma compreens�o horrorizada. Os rostos das outras fizeram Elayne estremecer. Uma delas vira Rand crescer, a outra crescera com ele. Agora o viam come�ando guerras. N�o o Drag�o Renascido, mas Rand al�Thor.</p><p>A luta interior que Egwene travava era vis�vel. Ela se agarrou � menor parte, � mais irrelevante de todas as que Moiraine dissera.</p><p>��Como � que ler pode causar problemas para ele?</p><p>��Ele decidiu desvendar sozinho as Profecias do Drag�o.���O rosto de Moiraine permanecia frio e impass�vel, mas de s�bito ela pareceu quase t�o cansada quanto Elayne.���Elas podem ser proibidas em Tear, mas o bibliotec�rio-chefe tinha nove tradu��es diferentes trancadas em um ba�. Rand agora est� com todas. Eu indiquei o verso que se aplica nessa situa��o, e ele o recitou para mim, de uma antiga tradu��o kandoriana. <emphasis>�Do poder da Sombra fez-se carne humana, despertada em caos, contenda e ru�na. O Renascido, marcado e sangrento, baila a espada em bruma e sonhos, acorrenta � sua vontade os Jurados pelas Sombras, da cidade, perdida e abandonada, reconduz as lan�as � guerra, quebra as lan�as e os faz enxergar a verdade h� muito oculta no velho sonho.�</emphasis> Ela fez uma careta.</p><p>��Pode se aplicar a isso tanto quanto a qualquer outra coisa. Illian, sob as ordens de Sammael, sem d�vida � uma cidade abandonada. Levar as lan�as tairenas � guerra, acorrentar Sammael, e pronto, ele realizou o verso. O velho sonho do Drag�o Renascido. Mas n�o consegue enxergar. Tem at� uma c�pia na L�ngua Antiga, como se entendesse duas palavras. Est� perseguindo sombras, e Sammael, ou Rahvin, ou Lanfear podem agarr�-lo pela garganta antes que eu consiga convenc�-lo desse erro.</p><p>��Ele est� desesperado.���O tom suave de Nynaeve n�o era por Moiraine, Elayne tinha certeza, mas por Rand.���Desesperado, tentando encontrar o caminho.</p><p>��Eu tamb�m estou desesperada���retrucou Moiraine, com firmeza.���Dediquei a vida a encontr�-lo, n�o vou permitir que ele fracasse, se eu puder evitar. Estou quase desesperada a ponto de����Ela parou, apertando os l�bios.���Basta dizer que farei o que for preciso.</p><p>��N�o basta���intrometeu-se Egwene bruscamente.���O que � que voc� vai fazer?</p><p>��Voc�s t�m outros assuntos com que se preocupar���retrucou a Aes Sedai.���A Ajah Negra�</p><p>��N�o!���A voz de Elayne era cortante e autorit�ria, e suas juntas estavam brancas onde agarravam as macias saias azuis.���Voc� guarda muitos segredos, Moiraine, mas conte este. O que pretende fazer com ele?</p><p>O lampejo de uma imagem tomou sua mente: ela agitando Moiraine e arrancando a verdade � for�a, se fosse preciso.</p><p>��Fazer com ele? Nada. Ah, muito bem. N�o h� raz�o para n�o saberem. Voc�s viram o que os tairenos chamam de A Grande Posse?</p><p>Estranhamente, para um povo que temia tanto o Poder, os tairenos guardavam na Pedra uma cole��o de objetos relacionados ao Poder quase t�o grande quanto a da Torre Branca. Elayne, por exemplo, pensava que era porque haviam sido for�ados a guardar <emphasis>Callandor</emphasis> por muito tempo, querendo ou n�o. At� a Espada Que N�o � Espada poderia parecer menos importante se fosse apenas um objeto entre tantos outros. Por�m, os tairenos jamais se viram capazes de exibir os trof�us. A Grande Posse era mantida em uma s�rie de aposentos sujos e abarrotados, enterrados em profundezas abaixo dos calabou�os. Quando Elayne os viu pela primeira vez, os cadeados nas portas estavam havia muito enferrujados, isso onde as pr�prias portas n�o haviam simplesmente desabado de t�o podres.</p><p>��Passamos um dia inteiro l� embaixo���disse Nynaeve.���Para ver se Liandrin e suas <emphasis>amigas</emphasis> tinham levado alguma coisa. Acho que n�o. Estava tudo soterrado de poeira e mofo. Ser�o necess�rios dez barcos para transportar tudo aquilo para a Torre. Talvez l� possam compreender o sentido de algumas daquelas coisas, eu sem d�vida n�o consegui.���A tenta��o de provocar Moiraine era t�o grande que ela n�o resistiu, pois acrescentou:���Voc� saberia disso tudo se tivesse nos concedido um pouco mais do seu tempo.</p><p>Moiraine n�o reparou. Parecia olhar para dentro de si, examinando os pr�prios pensamentos, e disse, quase falando sozinha:</p><p>��A Posse guarda um <emphasis>ter�angreal</emphasis> em particular, parece um batente de porta de pedra vermelha, levemente torto a olho nu. Se eu n�o conseguir fazer com que ele tome <emphasis>alguma</emphasis> decis�o, talvez precise faz�-lo entrar ali.</p><p>A pequena pedra azul em sua testa tremulava, cintilante. Ela n�o parecia ansiosa para dar esse passo.</p><p>� men��o do <emphasis>ter�angreal</emphasis>, Egwene instintivamente tocou o corpete do vestido. Ela mesma costurara ali um pequeno bolso para esconder o anel de pedra, agora guardado nele. Aquele anel era um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, poderoso ainda que pequeno, e Elayne era uma das �nicas tr�s mulheres que sabiam que ela o tinha. Moiraine n�o era uma delas.</p><p>Eram coisas estranhas, os <emphasis>ter�angreal</emphasis>, fragmentos da Era das Lendas, assim como os <emphasis>angreal</emphasis> e os <emphasis>sa�angreal</emphasis>, ainda que mais numerosos. Os <emphasis>ter�angreal</emphasis> utilizavam o Poder �nico em vez de ampli�-lo. Cada um parecia servir a uma �nica fun��o. Embora alguns ainda fossem usados, ningu�m sabia ao certo se de fato serviam aos fins para os quais haviam sido confeccionados. O Bast�o dos Juramentos, com o qual uma mulher fazia os Tr�s Juramentos ao ser elevada a Aes Sedai, era um <emphasis>ter�angreal</emphasis> que gravava os juramentos em seu sangue e carne. O �ltimo teste pelo qual passava uma novi�a para ser elevada a Aceita ocorria dentro de outro <emphasis>ter�angreal</emphasis>, que deslindava seus medos mais profundos e os fazia parecerem reais���ou talvez a levasse a um lugar onde seus medos eram <emphasis>mesmo</emphasis> reais. Coisas estranhas podiam acontecer com um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Aes Sedai j� haviam sido exauridas, mortas ou simplesmente desaparecido ao estud�-los. E ao us�-los.</p><p>��Eu vi aquele batente���disse Elayne.���No �ltimo quarto, no fim do corredor. Meu lampi�o apagou, e ca� tr�s vezes antes de conseguir chegar at� a porta.���Um rubor de constrangimento tomou seu rosto.���Eu estava com medo de canalizar ali, mesmo que fosse para reacender o fogo. Acho que muito daquilo parece lixo� parece que os tairenos pegaram quaisquer objetos que algu�m achou que tivessem rela��o com o Poder, mas pensei que, se canalizasse, poderia transferir poder por acidente a algo que n�o fosse bobagem, e sabe l� o que poderia ter acontecido.</p><p>��E se voc� tivesse trope�ado no escuro e entrado pelo batente torto?���perguntou Moiraine, com uma cara irritada.���Para isso n�o � preciso canalizar, apenas adentr�-lo.</p><p>��Com que prop�sito?���perguntou Nynaeve.</p><p>��Obter respostas. Tr�s respostas, cada uma verdadeira, sobre o passado, o presente ou o futuro.</p><p>O primeiro pensamento de Elayne foi o conto infantil, <emphasis>Bili Sob a Colina</emphasis>, mas s� por causa das tr�s respostas. Um segundo pensamento ocorreu em seguida, e n�o apenas a ela. Enquanto Nynaeve e Egwene ainda estavam abrindo as bocas, Elayne falou:</p><p>��Moiraine, isso � a solu��o do nosso problema. Podemos perguntar se Joiya ou Amico est�o falando a verdade. Podemos perguntar onde est�o Liandrin e as outras. Os nomes da Ajah Negra que ainda est�o na Torre�</p><p>��Podemos perguntar que coisa � essa que � perigosa para Rand���sugeriu Egwene.</p><p>��Por que voc� n�o contou isso antes?���acrescentou Nynaeve.���Por que permitiu que fic�ssemos escutando as mesmas hist�rias, dia ap�s dia, quando j� poder�amos ter tudo solucionado?</p><p>A Aes Sedai fez uma careta e ergueu as m�os.</p><p>��Voc�s tr�s se lan�am �s cegas em um caminho em que Lan e cem outros Guardi�es pisariam com cautela. Por que � que acham que eu ainda n�o adentrei? H� dias eu j� poderia ter perguntado o que Rand precisava fazer para sobreviver e triunfar, como ele pode derrotar os Abandonados e o Tenebroso, como pode aprender a controlar o Poder e refrear a loucura por tempo suficiente para fazer o que for preciso.���Ela parou com as m�os na cintura, deixando as tr�s absorverem as palavras. Nenhuma delas falou.���Existem regras���prosseguiu���e perigos. Ningu�m pode adentrar mais de uma vez. Apenas uma. Uma pessoa pode fazer tr�s perguntas, mas deve fazer todas as tr�s e ouvir as respostas antes de se retirar. Questionamentos fr�volos s�o punidos, ao que parece, mas tamb�m parece que o que pode ser s�rio para um pode ser fr�volo para outro. E o mais importante: perguntas que dizem respeito � Sombra t�m consequ�ncias terr�veis.</p><p>�Se perguntarem sobre a Ajah Negra, podem retornar mortas ou loucas, isso se conseguirem sair. Quanto a Rand� N�o tenho certeza se � poss�vel fazer uma pergunta sobre o Drag�o Renascido que n�o perpasse a Sombra, de alguma forma. Entendem? �s vezes h� motivos para ter cautela.</p><p>��Como � que voc� sabe disso tudo?���inquiriu Nynaeve. Com as m�os na cintura, ela confrontou a Aes Sedai.���Os Gr�o-lordes sem d�vida nunca deixaram as Aes Sedai estudarem nada que h� na Posse. Pela nojeira que � l� embaixo, deve fazer uns cem anos ou mais que aquilo ali n�o v� a luz do sol.</p><p>��Mais, imagino.���retrucou Moiraine, muito calma.���Eles pararam de colecionar h� quase trezentos anos. Foi pouco antes de pararem que adquiriram esse <emphasis>ter�angreal</emphasis>. At� ent�o, ele pertencia aos Primeiros de Mayene, que utilizavam as respostas para ajudar a manter o pa�s fora das garras de Tear. E permitiam que as Aes Sedai o estudassem. Em segredo, � claro, Mayene jamais ousou enfurecer Tear abertamente.</p><p>��Se era t�o importante para Mayene���disse Nynaeve, desconfiada �, por que � que est� aqui na Pedra?</p><p>��Porque os Primeiros tomaram boas e m�s decis�es ao tentarem manter Mayene livre de Tear. Trezentos anos atr�s, os Gr�o-lordes planejavam construir uma frota para seguir as embarca��es de Mayene e encontrar os cardumes de peixe-prego. Halvar, o ent�o Primeiro, elevou o pre�o do �leo de lampi�o muito acima do pre�o das oliveiras de Tear, e, depois, para convencer os Gr�o-senhores de que Mayene sempre colocaria os pr�prios interesses atr�s dos de Tear, presenteou-os com o <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Ele j� o usara, ent�o de nada mais lhe adiantava, e era quase t�o jovem quanto Berelain, aparentemente com um longo reinado � frente e muitos anos de necessidade da benevol�ncia tairena.</p><p>��Foi um idiota���resmungou Elayne.���Minha m�e jamais cometeria um erro desses.</p><p>��Talvez n�o���respondeu Moiraine.���Por outro lado, Andor n�o � uma pequena na��o acossada por outra muito maior e mais forte. Halvar <emphasis>foi</emphasis> um idiota, no fim das contas� Os Gr�o-lordes o assassinaram no ano seguinte. Mas sua idiotice me apresenta uma oportunidade, caso eu precise. Perigosa, mas, mesmo assim, melhor do que nada.</p><p>Nynaeve resmungou sozinha, talvez decepcionada por n�o ver a Aes Sedai trope�ar nas pr�prias palavras.</p><p>��Isso nos p�e exatamente onde est�vamos���suspirou Egwene.���Sem saber qual das duas est� mentindo ou se ambas est�o.</p><p>��Interroguem as duas de novo, se quiserem���disse Moiraine.���Voc�s t�m at� a hora em que elas entrarem no navio, embora eu duvide muito de que qualquer uma delas v� mudar o discurso. Meu conselho � que se concentrem em Tanchico. Se Joiya estiver falando a verdade, ser�o necess�rios Aes Sedai e Guardi�es para vigiar Mazrim Taim, n�o apenas voc�s tr�s. Mandei um aviso � Amyrlin por pombo-correio quando ouvi a hist�ria de Joiya pela primeira vez. Na verdade, enviei tr�s pombos, para garantir que um chegar� � Torre.</p><p>��Que gentileza sua nos manter informadas���murmurou Elayne, com frieza. A mulher fazia mesmo o que queria. O fato de as tr�s estarem apenas fingindo serem Aes Sedai plenas n�o era motivo para que Moiraine as deixasse de fora. A Amyrlin enviara <emphasis>elas tr�s</emphasis> � ca�a da Ajah Negra.</p><p>Moiraine inclinou a cabe�a em um movimento ligeiro, como se aceitasse de verdade o agradecimento.</p><p>��N�o h� de qu�. Lembrem-se de que voc�s s�o os sabujos que a Amyrlin mandou atr�s da Ajah Negra.���O leve sorriso ao notar o susto de Elayne revelava que ela sabia exatamente o que a jovem acabara de pensar.���A decis�o em rela��o ao caminho a seguir deve partir de voc�s. E voc�s tamb�m j� deixaram isso claro para mim���acrescentou, secamente.���Confio que ser� uma decis�o mais f�cil do que a minha. E confio tamb�m que voc�s tr�s dormir�o bem o sono que ainda restar antes de o dia nascer. Tenham uma boa noite.</p><p>��Essa mulher����resmungou Elayne, depois que a porta bateu atr�s da Aes Sedai.���Tem horas que sinto vontade de estrangul�-la.</p><p>Ela desabou em uma das cadeiras diante da mesa e p�s-se a encarar as m�os sobre o colo.</p><p>Nynaeve deu um grunhido, talvez em concord�ncia, enquanto andava at� uma mesa estreita na parede oposta, onde havia c�lices de prata e jarros de especiarias ao lado de dois c�ntaros. Um deles, cheio de vinho, estava dentro de um vaso de gelo j� quase todo derretido, trazido da Espinha do Mundo embalado em ba�s de serragem. Gelo no ver�o, para refrescar as bebidas dos Gr�o-senhores. Elayne mal podia imaginar tal coisa.</p><p>��Uma bebida gelada antes de dormir far� muito bem a todas n�s���disse Nynaeve, ocupando-se do vinho, da �gua e das especiarias.</p><p>Elayne ergueu a cabe�a quando Egwene tomou uma cadeira a seu lado.</p><p>��Voc� estava falando a verdade, Egwene? Em rela��o a Rand?���Egwene assentiu, e Elayne suspirou.���Voc� se lembra do que Min costumava dizer? Todas as piadas sobre dividi-lo? �s vezes eu me pergunto se isso n�o foi alguma vis�o que ela n�o quis nos contar. Achava que ela queria dizer que n�s duas o am�vamos, e sabia disso. Mas voc� tinha direito a ele, e eu n�o sabia o que fazer. Ainda n�o sei. Egwene, ele ama voc�.</p><p>��Ele vai ter que ficar a par da situa��o���respondeu Egwene, com firmeza.���Quando eu me casar, vai ser porque quero, n�o s� porque um homem espera que eu o ame. Serei delicada com ele, Elayne, mas, antes de eu terminar, ele saber� que est� livre. Quer queira ou n�o. Minha m�e diz que os homens s�o diferentes de n�s. Ela diz que n�s queremos estar apaixonadas, mas s� por aquele que escolhemos, enquanto um homem precisa estar apaixonado, mas amar� a primeira mulher que envolver seu cora��o.</p><p>��Isso � tudo muito bonito���disse Elayne, com a voz tensa���mas Berelain foi aos aposentos dele.</p><p>Egwene fungou com desd�m.</p><p>��Seja l� o que Berelain pretende, ela n�o vai manter o foco em um homem por tempo suficiente para fazer com que ele a ame. Dois dias atr�s estava lan�ando olhares para Rhuarc. Daqui a dois estar� sorrindo para algum outro. Ela � como Else Grinwell. Voc�s lembram? A novi�a que passava o tempo inteiro nos p�tios de treinamento batendo os c�lios para os Guardi�es?</p><p>��Ela n�o estava s� batendo os c�lios no quarto dele a uma hora dessas. Estava usando at� menos do que o normal, se � que isso � poss�vel!</p><p>��Ent�o vai deixar que ela fique com ele?</p><p>��N�o!���retrucou Elayne, feroz, e com vontade, mas, ao respirar outra vez, foi tomada pelo desespero.���Ah, Egwene, eu n�o sei o que fazer. Eu o amo. Quero me casar com ele. Luz! O que � que a minha m�e vai dizer? Prefiro passar uma noite na cela com Joiya do que ouvir os serm�es que a minha m�e vai me passar.</p><p>Os nobres andorianos, mesmo nas fam�lias reais, casavam-se com plebeus com tanta frequ�ncia que j� nem suscitava mais falat�rio, pelo menos n�o em Andor. No entanto, Rand n�o era exatamente o que se poderia chamar de plebeu comum. A m�e era bem capaz de acabar chamando Lini para arrast�-la de volta para casa pelos cabelos.</p><p>��Se Mat estiver dizendo a verdade, Morgase n�o est� em grandes condi��es de dar palpites em rela��o a isso���disse Egwene, em um tom reconfortante.���Ou pelo menos se estiver dizendo meia verdade. Esse Lorde Gaebril, para quem sua m�e est� se derretendo, nem parece a escolha de uma mulher inteligente como ela.</p><p>��Tenho certeza de que Mat exagerou���retrucou Elayne, empertigada.</p><p>A m�e dela era muito sagaz para ser feita de boba por qualquer homem. Se esse tal de Lorde Gaebril���de quem ela nunca ouvira falar antes de Mat mencion�-lo���se esse sujeito sonhava em obter poder por meio de Morgase, dentro em breve ela o poria nos trilhos.</p><p>Nynaeve levou at� a mesa tr�s c�lices de vinho com especiarias com got�culas de condensa��o correndo pelas laterais brilhosas, todos em pequenos suportes de palha verde e dourada tran�ada para impedir que a umidade arruinasse o polimento da madeira.</p><p>��Ent�o���disse, tomando uma cadeira���Elayne, voc� descobriu que est� apaixonada por Rand, e Egwene descobriu que n�o est�.</p><p>As duas mulheres mais jovens a olharam, boquiabertas, um par de olhos escuros e um de claros, ambos a imagem da perplexidade.</p><p>��Eu tenho olhos���disse Nynaeve, cheia de si.���E ouvidos, quando voc�s n�o se d�o ao trabalho de sussurrar.���Ela bebericou o vinho e prosseguiu, com a voz ainda mais fria:���O que pretende fazer a respeito? Se aquela desgra�ada da Berelain puser as garras nele, n�o vai ser f�cil solt�-las. Tem certeza de que quer se dar ao trabalho? Voc� sabe o que ele �. Sabe o que o aguarda, mesmo deixando as Profecias de lado. Loucura. Morte. Quanto tempo ele ainda tem? Um ano? Dois? Ou ser� que vai come�ar antes do fim do ver�o? Ele � um homem capaz de canalizar.���Ela proferiu cada palavra como ferro.���Lembre-se do que aprendeu. Lembre-se do que ele �.</p><p>Elayne ergueu a cabe�a e enfrentou Nynaeve, olho no olho.</p><p>��N�o importa. Talvez devesse importar, mas n�o importa. Talvez eu esteja sendo tola. N�o ligo. N�o posso comandar o meu cora��o, Nynaeve.</p><p>De repente, Nynaeve sorriu.</p><p>��Eu precisava ter certeza���disse, com a voz carinhosa.���Voc� precisa ter certeza. J� n�o � f�cil amar um homem qualquer, mas amar este ser� ainda mais dif�cil.���Quando ela prosseguiu, o sorriso morreu.���Minha primeira pergunta ainda est� sem resposta. O que pretende fazer a respeito? Berelain pode parecer suave, e decerto faz os homens acreditarem nisso! Mas n�o acredito que seja. Ela vai lutar pelo que quer. E � do tipo que se agarra com for�a a algo, mesmo que n�o o deseje tanto assim, apenas porque outra pessoa deseja.</p><p>��Eu queria enfiar essa mulher em um barril���resmungou Egwene, agarrando o c�lice como se fosse a garganta da Primeira���e mand�-la de volta a Mayene. Bem no fundo do por�o do navio.</p><p>A tran�a de Nynaeve balan�ou junto com a cabe�a.</p><p>��Que �timo, mas tente oferecer um conselho que ajude. Se n�o for capaz, fique em sil�ncio e deixe que ela decida o que fazer.���Egwene a encarou, e Nynaeve acrescentou:���Rand � problema de Elayne agora, n�o seu. Lembre-se, voc� se retirou.</p><p>A observa��o deveria ter feito Elayne sorrir, mas n�o fez.</p><p>��Era para isso tudo ser diferente.���Suspirou.���Pensei que fosse encontrar um homem, passaria a conhec�-lo ao longo de meses ou anos, e aos poucos perceberia que o amo. Sempre pensei que seria assim. Eu mal conhe�o Rand. N�o falei com ele mais de meia d�zia de vezes em um ano. Mas soube que o amava cinco minutos depois de p�r os olhos nele.���O que <emphasis>era</emphasis> est�pido. Mas era verdade, e ela n�o se importava que fosse est�pido. Diria o mesmo diante da m�e e de Lini. Bem, talvez n�o de Lini, que tinha uma forma dr�stica de lidar com a estupidez, e parecia pensar que Elayne ainda tinha dez anos.���Por�m, dada a situa��o atual, eu n�o tenho sequer o direito de ficar irritada com ele. Ou com Berelain.���Mas estava. <emphasis>Eu queria estapear a cara dele at� os ouvidos ficarem estalando durante um ano! Queria encher aquela mulher de varadas at� met�-la no navio de volta para Mayene!</emphasis> Mas <emphasis>n�o</emphasis> tinha esse direito, o que tornava tudo pior. Um tom lamentoso e irritante dominou sua voz:���O que � que eu posso fazer? Ele nunca nem reparou em mim.</p><p>��Em Dois Rios���come�ou Egwene, devagar���quando uma mulher deseja mostrar a um homem que est� interessada, p�e flores nos cabelos dele no Bel Tine ou no Dia do Sol. Ou borda uma camisa de festival para ele durante um dia qualquer. Ou faz quest�o de tirar apenas ele para dan�ar.���Elayne lan�ou a ela um olhar incr�dulo, e Egwene se apressou em acrescentar:���N�o estou sugerindo que voc� borde uma camisa, mas existem formas de revelar os seus sentimentos.</p><p>��O povo de Mayene acredita em falar as coisas abertamente.���A voz de Elayne parecia fr�gil.���Talvez seja o melhor caminho. Pelo menos ele vai saber como eu me sinto. Pelo menos terei algum direito de�</p><p>Ela agarrou o vinho com especiarias e o virou na boca, jogando a cabe�a para tr�s. Falar abertamente? Como uma assanhada de Mayene!? Pousou o c�lice vazio de volta no pequeno descanso, respirou fundo e murmurou:</p><p>��O que <emphasis>ser�</emphasis> que a minha m�e vai dizer?</p><p>��O mais importante���disse Nynaeve, com delicadeza���� o que voc� vai fazer quando tivermos que ir embora. Seja para Tanchico, para a Torre ou para qualquer outro lugar, teremos que partir. O que � que vai fazer se logo depois de se declarar a ele tiver de deix�-lo? E se ele pedir para voc� ficar? E se voc� quiser ficar?</p><p>��Eu vou embora.���N�o houve hesita��o na resposta de Elayne, mas um toque de rispidez. Aquela pergunta n�o era necess�ria.���Se eu devo aceit�-lo como Drag�o Renascido, ele deve aceitar que sou o que sou, e que tenho obriga��es. Quero ser Aes Sedai, Nynaeve. Isso n�o � uma divers�o passageira. Assim como a tarefa que temos de cumprir. Acha mesmo que eu abandonaria voc� e Egwene?</p><p>Egwene se apressou a assegur�-la de que o pensamento jamais passara por sua cabe�a. Nynaeve fez o mesmo, mas devagar o bastante para acreditar na pr�pria mentira.</p><p>Elayne olhou para uma, depois para a outra.</p><p>��Na verdade, temi que voc�s fossem me dizer que eu era uma idiota, choramingando por causa de uma coisa dessas enquanto temos a Ajah Negra com que nos preocupar.</p><p>Um leve tremeluzir dos olhos de Egwene revelou que o pensamento lhe ocorrera, mas Nynaeve respondeu:</p><p>��Rand n�o � o �nico que pode morrer ano que vem, ou m�s que vem. N�s tamb�m podemos. Os tempos n�o s�o mais o que eram, e tamb�m n�o podemos ser o que �ramos. Se voc� ficar sentada sonhando com o que deseja, talvez n�o chegue a ter seu sonho realizado antes do t�mulo.</p><p>Era uma esp�cie de apoio meio frio, mas Elayne assentiu. Ela <emphasis>n�o</emphasis> estava sendo boba. Se pelo menos a quest�o da Ajah Negra pudesse ser decidida com tanta facilidade. Pressionou o c�lice vazio na testa, para sentir o gelo. O que deviam fazer?</p></section><section><title><p>7</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Brincando com fogo</p></title><p>Na manh� seguinte, assim que o sol despontou no horizonte, Egwene se apresentou � porta dos aposentos de Rand, acompanhada de uma Elayne que se arrastava. A Filha-herdeira usava um vestido de seda de mangas compridas, azul-claro, cortado � moda tairena e puxado para baixo depois de um breve debate. Um colar de safiras, intensas como o c�u da manh�, e um cord�o tran�ado nos cachos louro-avermelhados ressaltavam o azul de seus olhos. Apesar do calor �mido, Egwene usava nos ombros um cachecol liso, vermelho vivo, da largura de um xale. Aviendha emprestara o cachecol e as safiras. Surpreendentemente, a Aiel possu�a uma ampla cole��o desse tipo de coisas.</p><p>Apesar de saber que os guardas Aiel estavam ali, Egwene levou um susto quando eles se levantaram, deslizando, elegantes e com rapidez espantosa. Elayne deixou escapar um pequeno arquejo, mas logo os encarou com o olhar majestoso que sabia fazer t�o bem. Parecia n�o exercer efeito algum sobre aqueles homens de peles curtidas. Os seis eram <emphasis>Shae�en M�taal</emphasis>, C�es de Pedra, e pareciam relaxados para Aiel, o que significava que pareciam olhar para todos os cantos, prontos a se mover em qualquer dire��o.</p><p>Egwene se empertigou, imitando Elayne���desejava poder fazer aquilo t�o bem quanto a Filha-herdeira���e anunciou:</p><p>��Eu� n�s� queremos ver como est�o as feridas do Lorde Drag�o.</p><p>A observa��o era claramente tola, caso os homens soubessem qualquer coisa sobre Curas, mas era pouco prov�vel. Poucas pessoas sabiam, e os Aiel decerto tinham menos conhecimento do que a maioria. N�o tinha inten��o de informar o motivo para estarem ali���j� bastava que as tomassem por Aes Sedai���mas, quando os Aiel quase saltaram do ch�o de m�rmore negro, aquilo de repente pareceu uma boa ideia. N�o que os homens estivessem fazendo qualquer movimento para impedir as duas, claro que n�o. No entanto, eram todos t�o altos, de fei��es t�o empedernidas, e levavam as lan�as curtas e os arcos de chifre como se us�-los fosse t�o natural quanto respirar, at� mais f�cil. Com aqueles olhos claros a encar�-la com tanta aten��o, era f�cil demais lembrar-se das hist�rias sobre os Aiel de v�us negros, desprovidos de compaix�o ou miseric�rdia, da Guerra dos Aiel e de homens como aqueles, que haviam derrotado at� o �ltimo ex�rcito enviado para combat�-los, que s� retornaram ao Deserto depois de lutar contra as na��es aliadas por tr�s dias e noites sangrentos, sem parar, diante de Tar Valon. Ela quase abra�ou <emphasis>saidar</emphasis>.</p><p>Gaul, o l�der dos C�es de Pedra, assentiu, olhando para ela e Elayne com certo respeito. Era um belo homem, meio maltratado pelo tempo, um pouco mais velho que Nynaeve, de olhos verdes, claros como pedras polidas, e c�lios longos, t�o escuros que pareciam delinear os olhos de preto.</p><p>��Podem estar incomodando. Ele acordou mal-humorado.���Gaul abriu um sorriso, apenas um lampejo dos dentes brancos, como se compreendesse o mau humor de um ferido.���J� acossou um grupo desses Gr�o-lordes e empurrou um deles para fora do quarto. Como era mesmo o nome?</p><p>��Torean���respondeu outro homem, ainda mais alto.</p><p>Carregava de forma quase displicente um arco curvo e curto, com uma flecha encaixada. Os olhos cinza pousaram nas duas mulheres por um instante, depois voltaram a examinar as colunas da antessala.</p><p>��Torean���concordou Gaul.���Pensei que o homem fosse deslizar at� essas belas est�tuas����Ele apontou a lan�a para o c�rculo de Defensores, parados em uma postura r�gida.���Mas parou umas tr�s passadas antes. Perdi um bom reposteiro taireno para Mangin, todo de gavi�es em fios de ouro.���O homem mais alto abriu um sorriso breve e contido.</p><p>Egwene piscou os olhos ao visualizar Rand arremessando um Gr�o-lorde pelo ch�o. O amigo nunca fora violento, muito pelo contr�rio. Ser� que estava mudado? Ela tinha andado muito ocupada com Joiya e Amico, e ele, muito ocupado com Moiraine, Lan e os Gr�o-lordes para que os dois se falassem mais do que de passagem, trocassem algumas palavras aqui e ali sobre como o festival do Bel Tine deveria ter sido aquele ano ou como seria o Dia do Sol. Tudo fora t�o breve. Ser� que ele estava mudado?</p><p>��Precisamos v�-lo���disse Elayne, com um leve tremor na voz.</p><p>Gaul fez uma mesura, tocando o m�rmore negro com a ponta de uma das lan�as.</p><p>��� claro, Aes Sedai.</p><p>Com certa hesita��o, Egwene adentrou os aposentos de Rand. O rosto de Elayne revelava o esfor�o necess�rio para dar aqueles poucos passos.</p><p>N�o restava evid�ncia do horror da noite anterior, exceto pela aus�ncia de espelhos. Quadrados mais claros marcavam os pain�is das paredes onde eles antes estavam. N�o que o quarto estivesse perto de estar arrumado, havia livros espalhados por todos os lados, em cima de tudo, alguns abertos, como se abandonados bem no meio de uma p�gina, e a cama ainda estava desfeita. As cortinas carmesim estavam abertas em todas as janelas, expondo a vista para o oeste em dire��o ao rio que era a art�ria coron�ria de Tear, e <emphasis>Callandor</emphasis> cintilava feito cristal polido em um enorme suporte dourado, incrivelmente pomposo. Egwene pensou que aquilo era a coisa mais feia que j� vira decorando um ambiente���at� notar os lobos de prata atacando um veado dourado na cornija da lareira. Brisas parcas vindas do rio mantinham o quarto surpreendentemente fresco, comparado ao restante da Pedra.</p><p>Rand estava sentado, vestido em sua camisa de manga, esparramado em uma poltrona com uma das pernas sobre o apoio para bra�os e um livro com capa de couro apoiado no joelho. Ao ouvir o som de passos, fechou o livro bruscamente, largou-o junto aos outros no tapete de arabescos e p�s-se de p�, pronto para a luta. A cara feia foi morrendo quando percebeu quem entrava.</p><p>Pela primeira vez dentro da Pedra, Egwene procurou mudan�as nele e as encontrou. Quantos meses haviam se passado desde que o vira pela �ltima vez? O suficiente para que o rosto endurecesse, para que a ingenuidade que um dia existira desaparecesse. Ele tamb�m se movia de maneira diferente, um pouco como Lan, um pouco como os Aiel. Com sua altura, cabelos vermelhos e os olhos ora azuis ora cinza, dependendo da luz, ele parecia muito com um Aiel, o bastante para causar desconforto. Mas ser� que mudara por dentro?</p><p>��Pensei que voc�s eram� outra pessoa���murmurou, trocando olhares constrangidos com as mo�as. Aquele era o Rand que ela conhecia, at� no rubor que surgia em seu rosto a cada vez que olhava para ela ou para Elayne, qualquer uma das duas.���Algumas� pessoas querem coisas que n�o posso dar. Coisas que <emphasis>n�o vou</emphasis> dar.���A desconfian�a cresceu em seu rosto com uma rapidez impressionante, e o tom de sua voz endureceu.���O que � que <emphasis>voc�s</emphasis> querem? Foi Moiraine quem as mandou? Vieram me convencer a fazer o que ela quer?</p><p>��N�o seja rid�culo���retrucou Egwene, com rispidez, sem pensar.���Eu n�o quero que voc� comece uma guerra!</p><p>Elayne acrescentou, em um tom de s�plica:</p><p>��N�s viemos� ajudar voc�, se pudermos.���Era uma das raz�es, a mais f�cil de trazer � tona, que tinham decidido no caf� da manh�.</p><p>��Voc�s sabem dos planos dela para����come�ou ele, de forma rude, depois mudou de assunto de repente.���Me ajudar? Como? � isso o que Moiraine diz.</p><p>Egwene cruzou os bra�os de forma austera, segurando com for�a o cachecol do mesmo jeito que Nynaeve fazia ao se dirigir ao Conselho da Aldeia quando pretendia, apesar da teimosia de todos, conseguir o que queria� Era tarde demais para recome�ar, restava apenas prosseguir da forma que iniciara.</p><p>��Eu lhe disse para n�o ser bobo, Rand al�Thor. Voc� pode at� ter tairenos se curvando aos seus p�s, mas eu me lembro de quando Nynaeve lhe encheu de varadas por ter deixado Mat convenc�-lo a roubar uma jarra de conhaque de ma��.���Elayne teve o cuidado de manter a express�o serena. Cuidado at� demais. Egwene tinha certeza de que ela queria soltar uma gargalhada.</p><p>Rand n�o percebeu, naturalmente. Os homens nunca percebiam. Ele abriu um sorriso para Egwene, tamb�m quase a ponto de gargalhar.</p><p>��T�nhamos acabado de fazer treze anos. Ela nos pegou dormindo atr�s do est�bulo do seu pai, e a dor de cabe�a era tanta que nem sentimos as varadas.���N�o era nem um pouco como Egwene lembrava.���N�o foi como da vez em que voc� atirou aquela tigela na cabe�a dela. Lembra? Ela deu a voc� uma dose de ch� de capim-de-c�o porque voc� estava abatida fazia uma semana, e, assim que provou o ch�, voc� deu com a melhor tigela bem na cabe�a dela. Luz, como voc� guinchou! Quando foi isso? Dois anos atr�s teve aquela�</p><p>��N�o viemos aqui para falar do passado���disse Egwene, remexendo o cachecol com irrita��o. Era de l� fina, mas bastante quente.</p><p>Realmente, ele tinha o h�bito de se lembrar das situa��es mais desastrosas. Rand sorriu, como se soubesse o que ela estava pensando, e prosseguiu, mais bem-humorado:</p><p>��Voc�s vieram me ajudar, pelo que disseram. Com o qu�? N�o creio que saibam como fazer um Gr�o-lorde manter a palavra sem que eu o fique vigiando pelo cangote. Ou ser� que sabem como impedir os sonhos desagrad�veis? Isso sem d�vida ajudaria����Com os olhos saltando de uma mulher a outra, ele fez mais uma mudan�a abrupta.���E a L�ngua Antiga? Aprenderam alguma coisa na Torre Branca?���Sem esperar resposta, come�ou a revirar os livros espalhados no carpete. Havia mais nas cadeiras, entre as roupas de cama bagun�adas.���Eu tenho um exemplar aqui� em algum lugar� de�</p><p>��Rand.���Egwene ergueu a voz.���Rand, eu n�o sei ler a L�ngua Antiga.���Ela lan�ou um olhar a Elayne, advertindo-a para que n�o revelasse nada sobre aquilo. Elas n�o haviam ido at� l� para traduzir as Profecias do Drag�o para ele. As safiras nos cabelos da Filha-herdeira balan�aram quando ela assentiu.���Tivemos outras coisas para aprender.</p><p>Ele se endireitou e soltou um suspiro.</p><p>��Seria esperar demais.</p><p>Por um instante, Rand pareceu a ponto de dizer mais alguma coisa, mas encarou as botas. Egwene se perguntou como ele conseguia lidar com toda a arrog�ncia dos Gr�o-lordes se ela e Elayne o deixavam t�o desconcertado.</p><p>��Viemos ajudar voc� com a canaliza��o���disse.���Com o Poder.</p><p>O que Moiraine alegava deveria ser verdade, uma mulher n�o podia ensinar um homem a canalizar mais do que podia ensin�-lo a gestar uma crian�a. Egwene n�o tinha tanta certeza. Uma vez sentira algo urdido a <emphasis>saidin</emphasis>. Ou melhor, n�o sentira, era algo que bloqueava seu pr�prio fluxo, concreto como uma pedra barrando um fluxo de �gua. Por�m, aprendera coisas tanto fora da Torre quanto dentro. Sem d�vida haveria algo em seus conhecimentos que pudesse ensinar a ele, alguma orienta��o que pudesse oferecer.</p><p>��Se pudermos���acrescentou Elayne.</p><p>Um lampejo de desconfian�a estampou outra vez o rosto dele. Era enervante como seu humor se alterava t�o depressa.</p><p>��Eu tenho mais chance de ler a L�ngua Antiga do que voc�s t�m de� voc�s t�m certeza de que isso n�o � coisa de Moiraine? Foi ela que as mandou aqui? Ela acha que pode me convencer comendo pelas beiradas, �? Alguma trama enredada de Aes Sedai que s� vou ser capaz de enxergar quando estiver enfiado at� a cabe�a?���Ele grunhiu com amargura e puxou um casaco verde-escuro do ch�o, de tr�s de uma das cadeiras, enfiando-se depressa sob ele.���Concordei em encontrar alguns outros Gr�o-lordes hoje de manh�. Se n�o ficar de olho, eles acabam arrumando meios de evitar fazer o que quero. Mais cedo ou mais tarde, v�o aprender. Eu governo Tear, agora. Eu. O Drag�o Renascido. Vou ensinar a eles. Queiram me desculpar.</p><p>Egwene quis sacudi-lo. Ele governava Tear? Bem, talvez governasse mesmo, se fosse o caso, mas ela se lembrava de um rapaz com um cordeiro aninhado no casaco, orgulhoso feito um galo por ter afugentado o lobo que tentava apanh�-lo. Ele era um pastor, n�o um rei, e mesmo que estivesse em condi��es de agir como se fosse superior, n�o seria bom que o fizesse.</p><p>Ela estava a ponto de dizer tudo isso a ele, mas, antes que pudesse, Elayne o fez.</p><p>��Ningu�m nos mandou. Ningu�m. Viemos porque� porque nos preocupamos com voc�. Talvez n�o funcione, mas podemos tentar. Se eu� se n�s nos importamos a ponto de tentar, voc� tamb�m pode. Ser� que isso � t�o insignificante para voc� que n�o pode nos conceder uma hora? Por sua vida?</p><p>Ele parou de abotoar o casaco e encarou a Filha-herdeira com tanta aten��o que, por um instante, Egwene achou que ele se esquecera de sua presen�a. Com um arrepio, ele desviou o olhar. Olhando para a conterr�nea, remexeu os p�s e franziu o cenho em dire��o � porta.</p><p>��Eu vou tentar���murmurou.���N�o vai adiantar nada, mas vou tentar� O que querem que eu fa�a?</p><p>Egwene respirou fundo. N�o pensava que seria t�o f�cil convenc�-lo, ele sempre agia como um rochedo soterrado em lama quando decidia fincar os p�s, o que fazia com bastante frequ�ncia.</p><p>��Olhe para mim���disse, abra�ando <emphasis>saidar</emphasis>. Deixou que o Poder a preenchesse mais completamente do que nunca, aceitando cada gota que pudesse absorver. Era como luz derramada sobre cada part�cula do corpo, como se a pr�pria Luz preenchesse cada mil�metro. A vida parecia explodir dentro dela como fogos de artif�cio. Jamais permitira que tanto Poder a enchesse. Ficou chocada ao perceber que n�o tremia, decerto n�o seria capaz de suportar aquela brandura t�o gloriosa. Queria se deleitar, dan�ar e cantar, apenas deitar e deixar tudo fluir por dentro dela, por sobre ela. For�ou-se a falar.���O que est� vendo? O que est� sentindo? Olhe para mim, Rand!</p><p>Ele ergueu a cabe�a lentamente, ainda franzindo a testa.</p><p>��Vejo voc�. O que � que eu deveria estar vendo? Voc� est� tocando a fonte? Egwene, Moiraine j� canalizou perto de mim umas cem vezes, e nunca vi nada. A n�o ser o que ela fez. N�o funciona dessa forma. At� eu sei disso.</p><p>��Eu sou mais forte que Moiraine���respondeu a menina, com firmeza.���Ela estaria choramingando no ch�o, ou desmaiada, se tentasse controlar tanto quanto estou controlando agora.���Era verdade, embora jamais tivesse tentado avaliar a habilidade da Aes Sedai com tanto rigor.</p><p>O Poder implorava para ser usado, pulsava dentro dela com mais for�a que sangue bombeado pelo cora��o. Com essa quantidade, ela era capaz de fazer coisas que Moiraine jamais poderia imaginar. A ferida na lateral do corpo de Rand, que Moiraine nunca conseguira Curar por completo. N�o entendia de Cura���era algo muito mais complexo do que qualquer coisa que j� fizera���mas observara Nynaeve Curar e, talvez, com essa gigantesca concentra��o de Poder fluindo, pudesse ver como Curar aquela ferida. N�o fazer, naturalmente, apenas ver.</p><p>Com cuidado expandiu os finos fluxos de Ar, �gua e Esp�rito, os Poderes usados na Cura, e sentiu a antiga ferida. Um toque e ela recuou, tr�mula, recolhendo a tessitura. Seu est�mago se embrulhou, como se ela desejasse regurgitar cada refei��o que j� comera na vida. Parecia que toda a escurid�o do mundo jazia ali, na lateral do corpo de Rand, todo o mal do mundo reunido em uma �lcera pustulenta coberta por um tenro tecido de cicatriz. Uma coisa como essa absorveria os fluxos de Cura feito gotas d��gua em areia seca. Como ele aguentava a dor? Por que n�o estava chorando?</p><p>Do primeiro pensamento � a��o passou-se apenas um instante. Tr�mula, tentando desesperadamente esconder o tremor, ela prosseguiu, sem parar.</p><p>��Voc� � t�o forte quanto eu. Sei disso, voc� tem que ser. Sinta, Rand. O que est� sentindo?���<emphasis>Luz, o que � que pode Curar isso? Ser� que algo pode?</emphasis></p><p>��N�o sinto nada���murmurou o jovem, remexendo os p�s.���Arrepios na pele. E � compreens�vel. N�o que eu n�o confie em voc�, Egwene, mas n�o consigo ficar tranquilo quando uma mulher est� canalizando perto de mim. Me desculpe.</p><p>Ela n�o se deu ao trabalho de explicar a diferen�a entre canalizar e apenas abra�ar a Fonte Verdadeira. Havia tanto que ele n�o sabia, mesmo comparado ao parco conhecimento dela. Era um homem cego tentando operar um tear apenas pelo toque, sem ideia de como eram as cores, as tramas e at� mesmo o pr�prio tear.</p><p>Com esfor�o, soltou <emphasis>saidar.</emphasis> E foi mesmo preciso esfor�o. Uma parte dela queria gritar pela perda.</p><p>��N�o estou tocando a Fonte agora, Rand.���Ela deu um passo � frente e o perscrutou.���Ainda est� sentindo arrepios?</p><p>��N�o. Mas foi s� porque voc� disse.���Ele deu de ombros, de repente.���Est� vendo? Comecei a pensar nisso e j� estou sentindo de novo.</p><p>Egwene sorriu, triunfante. N�o precisou olhar para Elayne para confirmar o que j� sentia, o que as duas haviam concordado em rela��o �quele momento.</p><p>��Voc� consegue sentir uma mulher abra�ando a Fonte, Rand. Elayne est� fazendo isso agora mesmo.���Ele apertou os olhos para a Filha-herdeira.���N�o importa o que voc� v� ou n�o v�. Voc� sentiu. J� temos isso. Vamos ver o que mais conseguimos encontrar. Rand, abrace a Fonte. Abrace <emphasis>saidin</emphasis>.���Ela proferiu as palavras com a voz rouca. As duas tamb�m haviam concordado com isso, ela e Elayne. Era Rand, n�o um monstro das hist�rias, e as duas haviam concordado, mas, ainda assim, pedir a um homem que� O mais espantoso fora ela ter dito as palavras, para come�ar.���Est� vendo alguma coisa?���perguntou a Elayne.���Ou sentindo alguma coisa?</p><p>Rand ainda olhava de uma para outra, ruborizado, encarando o ch�o. <emphasis>Por que</emphasis> estava t�o desconcertado? Analisando-o fixamente, a Filha-herdeira balan�ou a cabe�a.</p><p>��At� onde sei, ele pode simplesmente estar parado. Tem certeza de que est� fazendo alguma coisa?</p><p>��Ele pode ser teimoso, mas n�o � burro. Pelo menos, n�o na maior parte do tempo.</p><p>��Bom, teimoso, burro ou qualquer coisa, eu n�o estou sentindo nada.</p><p>Egwene franziu o cenho para Rand.</p><p>��Voc� disse que faria o que mand�ssemos, Rand. Est� fazendo? Se voc� sentiu algo, eu tamb�m deveria sentir, e eu����Ela parou, dando um ganido abafado. <emphasis>Algo</emphasis> apertara seu bumbum. Os l�bios de Rand se contorceram, claramente lutando contra um sorriso.���Isso���disse, �cida���n�o foi legal.</p><p>Ele tentou manter a express�o inocente, mas o sorriso escapou.</p><p>��Voc� disse que queria sentir alguma coisa, e eu pensei����O grito s�bito fez Egwene dar um salto. Ele agarrou a n�dega esquerda e mancou em c�rculos, cheio de dor.���Sangue e cinzas, Egwene! N�o precisava����Ele baixou a voz at� um murm�rio profundo e inaud�vel, que Egwene ficou satisfeita em n�o conseguir compreender.</p><p>Aproveitou a oportunidade para abanar o cachecol e pegar um pouco de ar, compartilhando um sorrisinho com Elayne. O brilho t�nue ao redor da Filha-herdeira foi enfraquecendo. As duas quase soltaram risadinhas enquanto esfregavam o corpo discretamente. Aquilo ia mostrar a ele como se comportar. Estavam em um placar de cem para um, estimou Egwene.</p><p>Virando-se de volta para Rand, p�s no rosto a express�o mais austera que tinha.</p><p>��Eu teria esperado algo assim vindo de Mat. Pensei que voc�, pelo menos, tivesse amadurecido. Viemos aqui para ajud�-lo, se pudermos. Tente cooperar. Fa�a algo com o Poder, algo que n�o seja infantil. Talvez a gente consiga sentir.</p><p>Curvado, ele cravou o olhar nas duas.</p><p>��Fa�a algo���resmungou, imitando-a.���Voc� n�o tinha direito de� Eu vou ficar mancando� Voc�s querem que eu fa�a algo?</p><p>De repente ela flutuou, e Elayne tamb�m. Ambas se encararam, os olhos arregalados, enquanto levitavam a um passo do carpete. N�o havia nada a ergu�-las, nenhum fluxo que Egwene pudesse ver ou sentir. Nada. Ela apertou os l�bios. Rand n�o tinha o direito de fazer isso. Direito nenhum, e j� era hora de aprender. O mesmo tipo de escudo que embarreirou o contato de Joiya com a Fonte tamb�m poderia det�-lo. As Aes Sedai o usavam nos raros homens capazes de canalizar que encontravam.</p><p>Ela se abriu para <emphasis>saidar</emphasis>���e seu est�mago afundou. <emphasis>Saidar</emphasis> estava ali���podia sentir o calor e a luz���mas entre ela e a Fonte Verdadeira havia algo, um nada, uma aus�ncia que a isolava da Fonte como uma muralha de pedra. Ela se sentiu oca por dentro, at� que o p�nico a tomou por inteiro. Um homem estava canalizando, e ela estava aprisionada. O homem era Rand, claro, mas, bamboleando ali feito um barquinho, indefesa, ela s� era capaz de pensar em um homem canalizando e na m�cula de <emphasis>saidin</emphasis>. Tentou gritar com ele, mas o que saiu de sua boca foi apenas um grasnido.</p><p>��Querem que eu fa�a algo?���grunhiu Rand. Um par de pequenas mesas flexionaram os p�s de um jeito estranho, a madeira rangendo, e come�aram a cambalear, como se imitando uma dan�a, as douraduras se soltando e caindo.���Est�o gostando disso?���O fogo se acendeu na lareira, preenchendo-a de um canto a outro, ardendo na pedra vazia de cinzas.���Ou disso?���O veado e os lobos sobre a cornija come�aram a derreter e desabaram. Finos fluxos de ouro e prata escorriam da massa dourada, cada vez mais finos e brilhantes, serpenteando, urdindo a si pr�prios em uma fina folha de tecido met�lico. � medida que crescia, o tecido brilhoso flutuava no ar, a extremidade mais distante ainda unida � estatueta, que derretia aos poucos sobre a cornija de pedra.���Fa�a algo���repetiu Rand.���Fa�a algo! Voc�s t�m ideia do que � tocar <emphasis>saidin</emphasis>, possu�-lo? T�m? Eu sinto a loucura me aguardando. Derramando-se sobre mim!</p><p>De repente as mesas saltitantes irromperam em chamas, parecendo tochas dan�antes. Os livros rodopiaram no ar, as p�ginas esvoa�ando. O colch�o da cama estourou, espalhando penas pelo quarto, feito neve. As penas ca�ram sobre a mesa em chamas e deixaram o quarto com um cheiro pungente de fuligem.</p><p>Por um instante, Rand encarou as mesas fulgurantes com um olhar insano. Ent�o, o que quer que estivesse erguendo Egwene e Elayne desapareceu, bem como o escudo. Os calcanhares das mo�as tocaram o carpete com um baque no mesmo instante em que as chamas se extinguiram, como se sugadas pela madeira que antes consumiam. As labaredas na lareira tamb�m se apagaram, e os livros desabaram no ch�o em um amontoado ainda mais confuso do que antes. O peda�o de tecido dourado e prateado tamb�m desabou, os fios de metal derretido j� n�o estavam mais l�quidos ou quentes. Apenas tr�s ma�arocas muito grandes, duas prateadas e uma dourada, jaziam sobre a cornija, frias e irreconhec�veis.</p><p>Egwene caiu por cima de Elayne quando as duas aterrissaram. As Aceitas se apoiaram uma na outra, mas Egwene sentiu a Filha-herdeira fazendo o mesmo que ela: abra�ando <emphasis>saidar</emphasis> o mais r�pido poss�vel. Em instantes, tinham um escudo pronto para lan�ar ao redor de Rand, caso ele sequer parecesse canalizar. O jovem, por�m, permanecia at�nito, encarando as mesas chamuscadas, penas ainda flutuando ao seu redor, salpicando o casaco.</p><p>Ele n�o parecia mais apresentar perigo, mas o quarto sem d�vida estava uma bagun�a. Ela urdiu diminutos fluxos de ar para juntar todas as plumas flutuantes, al�m das que j� estavam no carpete. Depois de pensar por um instante, acrescentou as que estavam no casaco de Rand. O restante da bagun�a seu amigo poderia mandar a majhere ajeitar, ou ele mesmo resolver.</p><p>Rand se encolheu quando as plumas passaram flutuando por ele e se alinharam nos destro�os do colch�o esfarrapado. De nada adiantou para melhorar o cheiro de plumas e madeira queimadas, mas pelo menos o quarto estava mais organizado, e as janelas abertas com a brisa fraca j� ajudavam a reduzir o odor.</p><p>��Acho que a majhere n�o vai querer me dar outro���disse o rapaz, com um riso for�ado.���Um colch�o por dia � mais do que ela est� disposta a����Ele evitava olhar para qualquer uma das duas.���Me desculpem, eu n�o pretendia� �s vezes perco o controle. Consigo tocar a fonte, e �s vezes o Poder faz coisas que eu n�o� Me desculpem. Talvez seja melhor voc�s irem. Parece que estou repetindo isso demais.���Ele enrubesceu mais uma vez e pigarreou.���N�o estou tocando a Fonte, mas talvez seja melhor voc�s irem.</p><p>��Ainda n�o terminamos���respondeu Egwene, com delicadeza.</p><p>Mais delicadeza do que sentia. Queria estapear as orelhas de Rand. Que ideia, peg�-la daquele jeito, blind�-la� e a Elayne tamb�m! Mas ele estava em desvantagem. Em rela��o a qu�, Egwene n�o sabia, e tamb�m n�o queria descobrir, n�o ali nem naquele momento. Com tanta gente espantada com o poder das duas���todos diziam que ela e Elayne estariam entre as Aes Sedai mais poderosas em mil anos ou mais, isso se n�o fossem as mais fortes���Egwene presumira que as duas fossem t�o fortes quanto o Drag�o. Ou quase isso. Acabara de receber uma demonstra��o bem rude para acabar com suas esperan�as. Talvez Nynaeve chegasse perto, se estivesse com bastante raiva, mas Egwene sabia que ela mesma jamais poderia fazer o que Rand fizera, cindir os fluxos de tantas formas diferentes, operar tantas coisas de uma vez s�. Operar dois fluxos de uma vez apresentava mais que o dobro da dificuldade de operar um da mesma magnitude. Com tr�s fluxos, era muito mais que o dobro da dificuldade do que com dois. Rand devia estar operando uns doze. E sequer parecia cansado, ainda que tamanho esfor�o com o Poder gastasse bastante energia. Egwene tinha a terr�vel sensa��o de que ele poderia manejar as duas como se fossem filhotes de gato. Filhotinhos que poderia decidir afogar, caso enlouquecesse.</p><p>Mas ela n�o tentaria, nem podia, simplesmente ir embora. Isso seria o mesmo que desistir, e ela n�o era assim. Pretendia fazer o que fora fazer���tudo �, e ele n�o iria expuls�-la sem que ela terminasse. Nem ele nem nada.</p><p>Elayne tinha os olhos azuis cheios de determina��o, e, no instante em que Egwene fez sil�ncio, acrescentou, em uma voz muito mais firme:</p><p>��E n�s n�o vamos embora at� terminarmos. Voc� disse que tentaria. Voc� precisa tentar.</p><p>��Eu disse mesmo, n�o foi?���resmungou o rapaz, depois de um tempo.���Vamos pelo menos nos sentar.</p><p>Sem olhar as mesas enegrecidas ou a faixa de tecido met�lico que jazia disforme no carpete, ele as conduziu, ligeiramente manco, at� as cadeiras de espaldar alto perto das janelas. Os tr�s tiveram de afastar alguns livros das almofadas de seda vermelha para se sentarem. A cadeira de Egwene continha o Volume Doze de <emphasis>Os tesouros da Pedra de Tear</emphasis>, um livro empoeirado e encadernado em madeira intitulado <emphasis>Viagens pelo Deserto Aiel e diversas observa��es sobre seus habitantes selvagens</emphasis>, e um volume grosso de couro esfarrapado cujo t�tulo era <emphasis>Transa��es com o territ�rio de Mayene, 500 a 700 da Nova Era</emphasis>. Elayne tinha uma pilha maior para afastar, mas Rand tirou os livros das m�os dela mais do que depressa, juntou aos que estavam em sua cadeira e deixou todos no ch�o, onde a pilha prontamente desabou. Egwene depositou os dela organizadamente ao lado dos outros.</p><p>��O que querem que eu fa�a agora?���Rand se sentou na ponta da cadeira, as m�os nos joelhos.���Prometo que desta vez n�o vou fazer nada al�m do que mandarem.</p><p>Egwene mordeu a l�ngua para n�o retrucar, dizendo que a promessa viera um pouquinho tarde demais. Talvez tivesse feito um pedido um pouco vago, mas n�o era justificativa. Ainda assim, deveriam lidar com isso em outro momento. Ela percebeu que j� pensava nele apenas como Rand outra vez, mas o rapaz tinha uma express�o de quem havia acabado de espirrar lama no melhor vestido dela e agora estava preocupado com a possibilidade de Egwene n�o acreditar que fora acidente. Ela, por�m, n�o largou <emphasis>saidar</emphasis>. Nem Elayne. N�o precisavam bancar as bobas.</p><p>��Desta vez���disse���s� queremos que fale. Como � que voc� abra�a a Fonte? Conte para a gente. Explique devagar, passo a passo.</p><p>��� mais uma luta do que um abra�o���murmurou ele, em resposta.���Passo a passo? Bem, primeiro eu imagino uma chama, depois empurro tudo para dentro dela: �dio, medo, nervosismo. Depois de tudo ser consumido, sobra um vazio, um v�cuo dentro da minha cabe�a. Eu fico no meio dele, mas tamb�m viro parte de tudo em que estou me concentrando.</p><p>��� familiar���comentou Egwene.���J� ouvi seu pai falar sobre um truque de concentra��o que usa para vencer as competi��es de arco e flecha. Algo que ele chama de Chama e Vazio.</p><p>Rand assentiu. Parecia triste. Ela achou que o amigo talvez estivesse com saudades de casa e do pai.</p><p>��Tam me ensinou primeiro. E Lan usa tamb�m, com a espada. Selene, uma mulher que conheci, chama de Unidade. Muita gente parece conhecer esse truque, seja l� o nome que tiver. Mas eu descobri sozinho que, quando estou dentro do Vazio, consigo sentir <emphasis>saidin.</emphasis> Parece uma luz no canto do olho, no meio do nada. Somos s� eu e essa luz. As emo��es e at� os pensamentos ficam todos do lado de fora. Antes eu precisava absorver de pouquinho em pouquinho, mas agora tudo vem de uma vez s�. A maior parte, pelo menos. Na maior parte do tempo.</p><p>��Vazio���repetiu Elayne, com um arrepio.���Sem emo��o. N�o parece muito com o que fazemos.</p><p>��Parece, sim���insistiu Egwene, com vigor.���Rand, fazemos um pouquinho diferente, s� isso. Eu me imagino sendo uma flor, um bot�o de rosa, imagino isso at� <emphasis>me transformar</emphasis> no bot�o de rosa. De certa forma, � como o seu vazio. As p�talas do bot�o de rosa se abrem para a luz de <emphasis>saidar</emphasis>, e eu deixo que tudo me preencha, a luz, o calor, a vida, o assombro. Eu me rendo a tudo isso, controlo tudo. Essa foi a parte mais dif�cil de aprender, na verdade: como dominar <emphasis>saidar</emphasis> me entregando a ela. Mas agora parece t�o natural que eu nem sequer penso a respeito. Essa � a chave de tudo, Rand. Tenho certeza. Voc� precisa aprender a se entregar�</p><p>Rand balan�ava a cabe�a vigorosamente.</p><p>��N�o tem nada a ver com o que eu fa�o���protestou.���Me deixar preencher? Eu preciso estender a m�o e agarrar <emphasis>saidin</emphasis>. �s vezes n�o encontro nada quando tento, nada para tocar, mas se eu n�o tentasse poderia ficar o resto da vida ali parado que nada aconteceria. Sim, a coisa me preenche quando eu a agarro, mas me entregar a ela?���Ele passou os dedos pelos cabelos.���Se eu me entregasse, mesmo que por um minuto, <emphasis>saidin</emphasis> me consumiria. � como um rio de metal derretido, um oceano de fogo, � como se toda a luz do sol se concentrasse em um �nico ponto. Preciso lutar para que ele fa�a o que eu quero, lutar para n�o ser devorado.���Rand suspirou.���Entendo o que voc� diz em rela��o a se preencher de vida, mesmo com a m�cula revirando meu est�mago. As cores s�o mais n�tidas, os cheiros, mais puros. De alguma forma, tudo � mais real. Depois que agarro, n�o quero mais soltar, mesmo que a coisa esteja tentando me engolir. Mas quanto ao resto� Encare os fatos, Egwene. A Torre tem raz�o em rela��o a isso. Aceite como verdade, porque � a verdade.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>��S� vou aceitar quando me provarem.���Ela n�o soou t�o certa quanto gostaria, nem tanto quanto estivera. O que ele contou parecia uma esp�cie de reflexo distorcido do que ela fazia, as semelhan�as apenas enfatizavam as diferen�as. Ainda assim, havia semelhan�as. Ela n�o desistiria.���Voc� consegue distinguir os fluxos? Ar, �gua, Esp�rito, Terra, Fogo?</p><p>���s vezes���respondeu ele, cauteloso.���N�o sempre. Eu s� pego o que preciso para fazer o que quero. Quase sempre tateio at� encontrar. � muito estranho. �s vezes preciso fazer algo e fa�o, mas s� depois consigo entender o que foi que fiz, ou como. Na primeira vez, � quase como lembrar uma coisa que eu j� tinha esquecido. Mas consigo me lembrar de como fazer o que j� fiz. Na maioria das vezes.</p><p>��Mas mesmo assim voc� se lembra de como fazer���insistiu Egwene.���Como foi que botou fogo naquelas mesas?</p><p>Queria mesmo era perguntar como ele as fizera dan�ar���achava que via um jeito, com Ar e �gua���mas preferiu come�ar com algo simples. Acender uma vela e apag�-la eram coisas que at� uma novi�a sabia fazer.</p><p>O rosto de Rand assumiu uma express�o de dor.</p><p>��Eu n�o sei.���Ele soou envergonhado.���Quando quero fogo para acender uma lanterna ou uma lareira, simplesmente fa�o, mas n�o sei <emphasis>como</emphasis>. N�o preciso pensar para fazer coisas com fogo.</p><p>Aquilo era quase de se esperar. Dos Cinco Poderes, Fogo e Terra eram mais fortes nos homens na Era das Lendas, e Ar e �gua, nas mulheres. Esp�rito era dividido igualmente. Egwene, depois que aprendia a fazer algo com Ar ou �gua, quase n�o precisava pensar para us�-los. Mas aquela forma de pensar n�o ajudava em nada o prop�sito delas.</p><p>Dessa vez, foi Elayne quem pressionou.</p><p>��Voc� sabe como apagou as chamas? Pareceu ter que pensar um pouco antes de elas se apagarem.</p><p>��Isso eu lembro, porque acho que nunca tinha feito. Absorvi o calor das mesas e espalhei na pedra da lareira, um lugar que quase n�o sofreria com esse tanto de calor.</p><p>Elayne prendeu a respira��o, inconscientemente levando a m�o ao bra�o esquerdo. Egwene estremeceu em solidariedade. Ela se lembrou de quando aquele bra�o ficou coberto de bolhas, porque a Filha-herdeira fizera o que Rand acabava de descrever, e s� com o lampi�o em seu quarto. Sheriam amea�ara deixar as bolhas cicatrizarem sozinhas. N�o fizera isso, mas amea�ara. Era uma das advert�ncias dadas �s novi�as: jamais atrair calor. Era poss�vel extinguir uma chama usando Ar ou �gua, mas usar Fogo para afastar o calor era sin�nimo de desastre, independente do tamanho da chama. N�o era uma quest�o de for�a, pelo que Sheriam dizia: era imposs�vel algu�m se livrar do calor absorvido. Nem mesmo a mulher mais forte que a Torre Branca produzira conseguia fazer aquilo. Algumas j� haviam se incendiado inteiras dessa forma. Mulheres j� haviam irrompido em chamas. Egwene soltou um suspiro �spero.</p><p>��Qual � o problema?���perguntou Rand.</p><p>��Acho que voc� acabou de me provar qual � a diferen�a.</p><p>Ela suspirou outra vez.</p><p>��Ah. Quer dizer que voc�s v�o desistir?</p><p>��N�o!���Egwene tentou suavizar a voz. N�o estava irritada com ele. N�o exatamente. N�o sabia com o que estava irritada.���Talvez minhas professoras tivessem raz�o, mas tem de haver uma forma. Alguma forma. S� que n�o consigo pensar em nenhuma.</p><p>��Voc� tentou���disse o rapaz, apenas.���Agrade�o por isso. N�o � culpa sua que n�o tenha dado certo.</p><p>��Tem que haver algum jeito���resmungou Egwene, e Elayne murmurou:</p><p>��N�s vamos descobrir. Sei que vamos.</p><p>��� claro que sim���concordou Rand, com anima��o for�ada.���Mas n�o hoje.���Ele hesitou.���Ent�o imagino que voc�s estejam de sa�da.���Soou meio arrependido, meio satisfeito.���Preciso mesmo falar com os Gr�o-lordes sobre impostos ainda esta manh�. Eles parecem pensar que podem tomar tanto de um fazendeiro em um ano fraco quanto em um ano bom sem lev�-lo � mis�ria. E suponho que voc�s tenham que continuar interrogando aquelas Amigas das Trevas.���Franziu a testa.</p><p>Rand n�o dissera nada, mas Egwene tinha certeza de que o amigo gostaria de mant�-las o mais longe poss�vel da Ajah Negra. Estava um pouco surpresa por ele ainda n�o ter tentado faz�-las retornar � Torre. Talvez soubesse que ela e Nynaeve lhe diriam poucas e boas se ele tentasse.</p><p>��Vamos deixar voc� prosseguir com seus afazeres���disse, com firmeza���mas n�o agora. Rand����Era hora de revelar a segunda raz�o pela qual estavam l�, mas era ainda mais dif�cil do que ela imaginara. O amigo ficaria magoado, aqueles olhos tristes e temerosos a convenciam disso. Mas precisava ser feito. Ela ajeitou o cachecol em volta do corpo, o tecido a envolvia dos ombros aos quadris.���Rand, eu n�o posso me casar com voc�.</p><p>��Eu sei���disse ele.</p><p>Egwene piscou. Ele n�o parecia t�o chateado quanto ela imaginara. Disse a si mesma que aquilo era bom.</p><p>��N�o quero magoar voc� De verdade, n�o quero� Mas n�o quero me casar com voc�.</p><p>��Eu entendo, Egwene. Sei o que sou. Nenhuma mulher poderia�</p><p>��Seu cabe�a de l�!���interrompeu ela, de repente.���N�o tem nada a ver com voc� canalizar. Eu n�o amo voc�! Pelo menos, n�o a ponto de querer me casar.</p><p>O queixo de Rand caiu.</p><p>��Voc� n�o� me ama?���Ele soava t�o surpreso quando parecia. E magoado.</p><p>��Por favor, tente compreender���come�ou ela, em um tom mais suave.���As pessoas mudam, Rand. Os sentimentos mudam. Quando as pessoas se distanciam fisicamente, �s vezes se afastam. Eu amo voc� como um irm�o, talvez at� mais do que um irm�o, mas n�o para casar. Consegue compreender?</p><p>Ele conseguiu abrir um sorriso pesaroso.</p><p>��Eu sou mesmo um idiota. Nunca pensei que voc� tamb�m pudesse mudar. Egwene, eu tamb�m n�o quero me casar com voc�. N�o queria mudar, n�o tentei mudar, mas aconteceu. Se voc� soubesse o quanto isso significa para mim. N�o ter mais que fingir. N�o ter medo de magoar voc�. Eu nunca quis fazer isso, Egwene. Nunca quis magoar voc�.</p><p>A jovem quase sorriu. Rand estava se fazendo de forte.</p><p>��Fico feliz por voc� estar encarando isso t�o bem���disse, em um tom suave.���Eu tamb�m n�o queria magoar voc�. Agora preciso mesmo ir.���Ela se levantou da cadeira e inclinou-se para dar um beijo na bochecha do amigo.���Voc� vai encontrar algu�m.</p><p>��� claro���concordou ele, levantando-se, a mentira clara na voz.</p><p>��Vai mesmo.</p><p>Ela saiu satisfeita e atravessou a antessala correndo, liberando <emphasis>saidar</emphasis> enquanto tirava o cachecol dos ombros. A coisa era t�o quente que mais parecia um pesadelo.</p><p>Rand estava no ponto para Elayne resgat�-lo como um c�ozinho perdido, se ela o tratasse da forma como as duas haviam combinado. Pensou que Elayne cuidaria bem dele, agora e sempre. Por quanto o �sempre� durasse. Algo precisava ser feito em rela��o ao controle dele. Estava disposta a admitir que o que aprendera era certo���nenhuma mulher seria capaz de ensin�-lo, eram peixe e p�ssaro���mas isso n�o era o mesmo que desistir. Algo precisava ser feito, e teria de haver alguma forma. Aquela terr�vel ferida e a loucura eram problemas para depois, mas um dia seriam tratados. De algum jeito. Todos diziam que os homens de Dois Rios eram persistentes, mas eles n�o eram p�reo para as mulheres de l�.</p></section><section><title><p>8</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Cabe�as duras</p></title><p>Pelo jeito que o rapaz olhava na dire��o de Egwene, meio perplexo, Elayne n�o sabia com certeza se Rand tinha notado que ela ainda estava no quarto. De vez em quando, ele balan�ava a cabe�a como se discutisse consigo mesmo ou se tentasse p�r os pensamentos em ordem. Ela ficou feliz em esperar. Ficaria feliz com qualquer coisa que adiasse um pouco aquele momento. Concentrava-se em manter a aparente tranquilidade, com as costas eretas e a cabe�a erguida, as m�os cruzadas no colo e uma calma no rosto que poderia rivalizar com a melhor express�o de Moiraine. O frio na barriga era t�o grande que seu est�mago podia muito bem virar gelo.</p><p>N�o era medo de que ele canalizasse. Ela soltara <emphasis>saidar</emphasis> assim que Egwene se levantou para partir. Queria confiar nele, e tinha de confiar. Era o desejo do que queria que acontecesse que a fazia tremer. Precisava se concentrar para n�o ficar mexendo no colar ou cutucando a tiara de safiras no cabelo. Ser� que o perfume estava exagerado? N�o. Egwene disse que ele gostava de cheiro de rosas. O vestido. Queria pux�-lo para cima, mas�</p><p>Rand se virou���mancando de leve, de um jeito que a fez contrair os l�bios, pensativa���viu que ela estava sentada na cadeira e levou um susto, arregalando os olhos com uma express�o quase que de p�nico. Elayne ficou contente em notar a rea��o, e fez dez vezes mais esfor�o para manter o rosto sereno assim que o rapaz p�s os olhos nela. Aqueles olhos agora estavam azuis, como um c�u matutino nebuloso.</p><p>Ele se recuperou no mesmo instante, curvando-se em uma mesura um tanto desnecess�ria e esfregando as m�os no casaco, nervoso.</p><p>��Eu n�o percebi que voc� ainda estava����Parou de falar, ruborizado. Esquecer-se da presen�a dela poderia ser tomado como insulto���Quer dizer� Eu n�o� Eu, hㅠ��Ele respirou fundo e recome�ou.���Nem sempre ajo como bobo da corte, apesar de ser isso que pare�o para voc�, milady. N�o � todo dia que algu�m revela que n�o o ama mais, milady.</p><p>Ela assumiu um tom r�gido e zombeteiro.</p><p>��Se me chamar assim mais uma vez, vou cham�-lo de Lorde Drag�o. E fazer uma rever�ncia. At� a Rainha de Andor pode se curvar diante de voc�, e eu sou s� a Filha-herdeira.</p><p>��Luz! N�o fa�a isso.���Ele pareceu incomodado demais com a amea�a.</p><p>��Eu n�o vou, Rand���respondeu a jovem, com a voz mais s�ria���se voc� me chamar pelo meu nome. Elayne. Diga.</p><p>��Elayne.���Ele proferiu a palavra com embara�o, mas tamb�m com prazer, como se saboreasse o nome.</p><p>��Bom.���Era um absurdo ficar t�o satisfeita. Afinal de contas, ele s� dissera seu nome. Havia algo que ela precisava saber, antes de prosseguir.���Doeu demais?���Percebeu que a frase poderia ser interpretada de duas formas.���O que Egwene disse, quer dizer.</p><p>��N�o. Sim. Um pouco. N�o sei. � mais do que justo, afinal de contas.���Um leve sorriso aliviou um pouco da cautela.���Estou agindo feito um bobo da corte outra vez, n�o estou?</p><p>��N�o. N�o para mim.</p><p>��Eu disse a pura verdade, mas acho que ela n�o acreditou. Acho que eu tamb�m n�o queria acreditar no que ela disse. N�o mesmo. Se isso n�o � agir como um bobo da corte, n�o sei o que �.</p><p>��Se voc� se chamar de bobo da corte mais uma vez, talvez eu comece a acreditar.���<emphasis>Ele n�o vai tentar ir atr�s dela, n�o terei que lidar com isso.</emphasis> Elayne estava com a voz calma, um tom leve o bastante para indicar que n�o falava s�rio.���J� vi o bobo da corte de um lorde cairhieno, ele usava um casaco listrado meio engra�ado, grande demais e cheio de sinos. Voc� ficaria rid�culo com um casaco de sinos.</p><p>��Acho que sim���respondeu ele, pesaroso.���Vou me lembrar disso.</p><p>O sorriso lento foi maior desta vez, aquecendo toda a express�o.</p><p>O frio na barriga era quase congelante, mas ela se ocupou em ajeitar as saias. Precisava ir devagar, com cautela. <emphasis>Sen�o ele vai pensar que sou s� uma garota. E vai ter raz�o.</emphasis> Agora havia uma verdadeira geleira em sua barriga.</p><p>��Quer uma flor?���perguntou ele, de s�bito, e a jovem piscou os olhos, confusa.</p><p>��Uma flor?</p><p>���.���Ele avan�ou at� a cama, pescou dois punhados de penas do colch�o esfarrapado e as segurou diante dela.���Eu fiz uma para a majhere, ontem � noite. Pela rea��o dava para pensar que eu tinha dado a Pedra a ela. Mas a sua ser� muito mais bonita���acrescentou, mais do que depressa.���Muito mais bonita. Eu prometo.</p><p>��Rand, eu�</p><p>��Vou tomar cuidado. Basta s� um pouquinho do Poder. S� um fiozinho, e vou tomar muito cuidado.</p><p>Confiar. Ela tinha de confiar nele. Era uma leve surpresa perceber que de fato confiava.</p><p>��Eu gostaria muito, Rand.</p><p>Por um longo instante, o rapaz encarou o montinho de plumas nas m�os com uma leve careta no rosto. De repente, deixou as plumas desabarem, batendo as palmas.</p><p>��Flores n�o s�o um presente apropriado para voc�.���disse ele. Elayne sentiu compaix�o, o rapaz claramente tentara abra�ar <emphasis>saidin</emphasis>, sem sucesso. Disfar�ando a decep��o, ele coxeou, apressado, at� o tecido met�lico e come�ou a enrol�-lo em volta do bra�o.���Esse sim � um presente apropriado para a Filha-herdeira de Andor. Voc� pode mandar uma costureira fazer����Ele se atrapalhou para dizer o que uma costureira poderia fazer com um peda�o de tecido de ouro e prata de quatro passadas e menos de dois p�s de largura.</p><p>��Tenho certeza de que a costureira ter� v�rias ideias���respondeu Elayne, diplom�tica.���Puxando um len�o de seda azul-claro da manga, ela se ajoelhou por um instante e recolheu as plumas que ele deixara cair.</p><p>��As servi�ais v�o cuidar disso���disse ele, enquanto a Filha-herdeira enfiava a pequena trouxa na bolsa do cinto.</p><p>��Bom, esse tanto est� limpo.���Como Rand poderia entender que ela queria guardar as plumas porque ele quisera fazer uma flor com elas? Ele remexeu os p�s, segurando a trouxa brilhante como se n�o soubesse o que fazer com ela.���A majhere deve ter costureiras���continuou Elayne.���Vou entregar a ela.���Rand se animou e sorriu, ela n�o via motivo para dizer que seria um presente para a outra mulher. Aquela geleira n�o a deixava mais se conter.���Rand, voc� gosta de mim?</p><p>��Gosto de voc�?���O rapaz franziu a testa.���� claro que gosto de voc�. Gosto muito.</p><p>Ele precisava mesmo fazer cara de quem n�o estava entendendo absolutamente nada?</p><p>��Eu tenho afeto por voc�, Rand.���Ficou assombrada por conseguir dizer aquilo com tanta calma. O est�mago parecia rastejar at� a garganta, e as m�os e os p�s estavam g�lidos.���Mais que afeto.</p><p>Era o suficiente, ela n�o faria papel de boba. <emphasis>Ele primeiro precisa dizer mais do que �gosto�.</emphasis> Elayne quase riu, hist�rica. <emphasis>Vou me controlar. N�o vou deixar que ele me veja com o comportamento de uma garotinha apaixonada. N�o vou.</emphasis></p><p>��Eu sinto afeto por vocꠗ�respondeu ele, com cautela.</p><p>��N�o costumo ser t�o atrevida.���N�o, isso poderia faz�-lo pensar em Berelain. As bochechas dele estavam vermelhas. Rand <emphasis>estava</emphasis> pensando em Berelain. Que o queime! A voz dela saiu suave como seda:���Em breve terei que partir, Rand. Irei embora de Tear. Talvez eu passe meses sem v�-lo.���<emphasis>Talvez nunca mais o veja</emphasis>, ressoou uma vozinha em sua cabe�a. Elayne se recusou a escut�-la.���N�o poderia ir embora sem dizer como me sinto. Eu� sinto um enorme afeto por voc�.</p><p>��Elayne, eu sinto <emphasis>mesmo</emphasis> afeto por voc� Eu quero����O vermelho em seu rosto se intensificou.���Elayne, n�o sei o que dizer, n�o sei como�</p><p>De s�bito foi o rosto dela que ardeu em brasa. Rand devia estar pensando que ela queria for��-lo a dizer algo mais. <emphasis>E n�o quer?</emphasis>, zombou a vozinha, o que fez seu rosto esquentar ainda mais.</p><p>��Rand, n�o estou pedindo para vocꅠ��Luz! Como dizer aquilo?���S� queria que voc� soubesse como me sinto. S� isso.���Berelain n�o deixaria a coisa terminar ali. �quela altura, a Primeira j� estaria enroscada no pesco�o do rapaz. Dizendo a si mesma que n�o deixaria aquela mulherzinha seminua levar a melhor, Elayne se aproximou dele, puxou o peda�o de tecido cintilante de seus bra�os e largou-o no carpete. Por alguma raz�o, o rapaz parecia mais alto do que nunca.���Rand� Rand, quero que voc� me beije.���Pronto. Estava dito.</p><p>��Beijar voc�?���repetiu ele, como se fosse a primeira vez que ouvia aquela palavra.���Elayne, n�o quero prometer mais do que� Quer dizer, n�o � como se estiv�ssemos noivos. N�o que eu esteja sugerindo que dev�ssemos ficar noivos. � s� que� Eu <emphasis>gosto</emphasis> de voc�, Elayne. Mais do que isso. S� n�o quero que voc� pense que eu�</p><p>Ela tinha que rir dele, com toda aquela confus�o t�o sincera.</p><p>��N�o sei como as coisas funcionam em Dois Rios, mas em Caemlyn ningu�m espera at� o noivado para beijar uma garota. E isso tamb�m n�o significa que os dois devam ficar noivos. Mas talvez voc� n�o saiba como se faz�</p><p>Ele a envolveu com os bra�os de um jeito quase rude, e os l�bios tocaram os dela. Elayne ficou tonta, os dedos de seus p�s tentaram se enroscar dentro das sand�lias. Algum tempo depois���ela n�o soube precisar quanto���percebeu que estava apoiada no peito dele, os joelhos tr�mulos, tentando recuperar o f�lego.</p><p>��Desculpe a interrup��o���disse o rapaz. Ela ficou contente em notar que ele parecia um pouco ofegante.���Sou s� um pastor acanhado de Dois Rios.</p><p>��Voc� � bruto���murmurou a Filha-herdeira, colada � camisa de Rand���e n�o fez a barba hoje, mas eu n�o diria que � acanhado.</p><p>��Elayne, eu�</p><p>Ela cobriu a boca de Rand com a m�o.</p><p>��N�o quero ouvir mais nada que n�o venha do seu cora��o���disse a jovem com firmeza.���Nem agora nem nunca.</p><p>Ele assentiu, n�o como se entendesse o porqu�, mas pelo menos como se compreendesse que ela estava falando s�rio. Ajeitando os cabelos���seria imposs�vel ajeitar a tira de safiras toda enroscada sem um espelho���ela se soltou do abra�o de Rand, n�o sem relutar. Seria muito f�cil permanecer ali, e ela j� se comportara de forma mais atrevida do que jamais sonhara fazer. Falando daquele jeito, pedindo um beijo. Pedindo! Ela n�o era Berelain.</p><p>Berelain. Talvez Min houvesse tido uma vis�o. O que Min via costumava acontecer, mas ela n�o o dividiria com Berelain. Talvez precisasse esclarecer mais as coisas. Indiretamente, pelo menos.</p><p>��Imagino que n�o v� lhe faltar companhia, depois que eu for embora. S� lembre-se de que algumas mulheres enxergam um homem com o cora��o, enquanto outras n�o veem nada al�m de uma bugiganga para usar, n�o muito diferente de um colar ou um bracelete. Lembre-se de que vou voltar, e sou eu quem enxerga com o cora��o.���Rand pareceu confuso de in�cio, depois um pouco assustado. Ela falara demais e muito depressa. Precisava desviar a aten��o dele.���Quer saber de uma coisa que n�o fez? Voc� n�o tentou me afugentar dizendo o quanto � perigoso. Nem tente. � tarde demais.</p><p>��N�o pensei nisso.���Mas outro pensamento passara por sua cabe�a, e os olhos dele se encresparam, desconfiados.���Voc� e Egwene tramaram isso?</p><p>Ela tentou mesclar inoc�ncia e um leve ultraje no olhar.</p><p>��Como pode pensar uma coisa dessas? Acha que ir�amos passar voc� de m�o em m�o, como um pacote? Est� se achando importante demais. Existe um limite para o excesso de orgulho.���Ele agora parecia confuso. O que era muito satisfat�rio.���Voc� lamenta o que fez conosco, Rand?</p><p>��Eu n�o pretendia assustar voc�s���respondeu ele, hesitante.���Egwene me deixou com raiva, ela nunca precisa se esfor�ar muito para isso. N�o � desculpa, eu sei. Eu disse que sentia muito, e sinto mesmo. Olhe s� o que minha atitude me custou. Mesas queimadas e outro colch�o arruinado.</p><p>��E quanto� ao belisc�o?</p><p>O rosto dele enrubesceu outra vez, mas o rapaz a encarou com firmeza, mesmo assim.</p><p>��N�o. N�o, eu n�o me sinto mal por isso. Voc�s duas falando como se eu n�o estivesse aqui, como se eu fosse um peda�o de madeira sem ouvidos. Voc�s mereceram, as duas, e n�o vou dizer o contr�rio.</p><p>Ela o contemplou por um tempo. Rand esfregou os bra�os nas mangas do casaco enquanto ela abra�ava <emphasis>saidar</emphasis> por um instante. N�o aprendera sobre Cura em nenhum grau, mas sabia algumas coisinhas aqui e ali. Canalizando, aliviou o machucado causado pelo belisc�o. Ele arregalou os olhos, surpreso, e remexeu os p�s como se testasse a aus�ncia de dor.</p><p>��Pela honestidade���disse a jovem, simplesmente.</p><p>Houve uma batida na porta, e Gaul espiou l� dentro. A princ�pio, o Aiel manteve a cabe�a baixa, mas depois de uma breve olhadela para os dois, endireitou-se. O vermelho preencheu a face de Elayne quando ela percebeu que o homem suspeitava ter interrompido algo que n�o deveria ter visto. Ela quase abra�ou <emphasis>saidar</emphasis> e ensinou uma li��o a ele.</p><p>��Os tairenos est�o aqui���anunciou Gaul.���Os Gr�o-lordes que o senhor estava esperando.</p><p>��Eu j� vou indo, ent�o���disse ela a Rand.���Voc� precisa falar com eles sobre� impostos, n�o era? Pense no que eu disse.���Ela n�o dissera �pense em mim�, mas teve certeza de que o efeito seria o mesmo.</p><p>O rapaz estendeu o bra�o como se quisesse det�-la, mas ela se desvencilhou. N�o tinha inten��o de revelar qualquer coisa na frente de Gaul. O homem era Aiel, mas o que pensaria dela, toda de perfume e safiras �quela hora da manh�? Elayne fez um grande esfor�o para n�o subir o decote do vestido.</p><p>Os Gr�o-lordes entraram assim que ela alcan�ou a porta, um grupo de homens grisalhos de barbas pontudas e casacos coloridos, ornamentados com mangas bufantes. Eles abriram caminho com mesuras relutantes, rostos imperturb�veis e murm�rios educados, sem esconder o al�vio em v�-la partir.</p><p>Ela deu uma espiada pela porta. Rand, um jovem alto e de ombros largos, vestindo um casaco verde e liso, em meio aos Gr�o-lordes de seda e listras de cetim. Mais parecia uma cegonha entre pav�es. Mas havia algo nele, uma presen�a, que proclamava seu direito de comando. Os tairenos reconheciam isso, inclinando os pesco�os r�gidos com relut�ncia. Rand achava que os homens s� deviam se curvar porque ele era o Drag�o Renascido, e talvez os pr�prios tairenos pensassem assim. Mas Elayne conhecera homens���como Gareth Bryne, o Capit�o Comandante da Guarda de sua m�e���capazes de comandar um sal�o inteiro vestidos em andrajos, sem t�tulo algum e sem que ningu�m soubesse seus nomes. Rand talvez n�o percebesse, mas era um deles. Ainda n�o era quando ela o vira pela primeira vez, mas se tornara um. Elayne fechou a porta atr�s de si.</p><p>Os Aiel ao redor da entrada a encararam, e o capit�o que comandava o c�rculo de Defensores no centro da antessala a olhou incomodado, mas ela mal percebeu. Estava feito. Ou, pelo menos, come�ara. Elayne tinha quatro dias at� que Joiya e Amico embarcassem naquele navio, quatro dias para se enroscar com tanta firmeza aos pensamentos de Rand que n�o restaria espa�o para Berelain. Ou ent�o com firmeza o suficiente para ocupar a cabe�a dele at� ter chance de fazer algo mais. Nunca imaginara que faria algo do tipo, perseguir um homem como uma ca�adora atr�s de um javali selvagem. A geleira em sua barriga continuava firme. Pelo menos n�o deixara transparecer o nervosismo. Ent�o lhe ocorreu que n�o pensara sequer um instante no que a m�e diria. Com isso, o frio na barriga desapareceu. Ela n�o se importava com o que a m�e diria. Morgase teria de aceitar que a filha era uma mulher. Isso era tudo.</p><p>Os Aiel se curvaram quando ela se afastou, e Elayne os cumprimentou com um gracioso meneio de cabe�a que teria deixado Morgase orgulhosa. At� os capit�es tairenos a encararam como se pudessem ver sua nova serenidade. Ela n�o pensou que seria incomodada pelo frio na barriga outra vez. Talvez causadas pela Ajah Negra, mas n�o por causa de Rand.</p><empty-line/><p>Ignorando o semic�rculo de Gr�o-lordes ansiosos, Rand observou, admirado, a porta se fechar atr�s de Elayne. Sonhos se tornando realidade, mesmo que fossem t�o pequenos, o deixavam desconfort�vel. Nadar na Floresta das �guas era uma coisa, mas ele jamais teria imaginado um sonho em que ela fosse at� ele daquela forma. Elayne sempre fora t�o fria e contida, e ele trope�ava na pr�pria l�ngua. E Egwene tinha os mesmos pensamentos que ele em rela��o aos dois, s� estava preocupada em n�o mago�-lo. Como as mulheres podiam se despeda�ar ou explodir de raiva pelas menores coisas e sequer piscar por outras que deixavam os homens boquiabertos?</p><p>��Meu Lorde Drag�o?���murmurou Sunamon, em um tom ainda mais desconfiado que o usual.</p><p>Os boatos daquela manh� j� deveriam ter se espalhado pela Pedra. Aquele primeiro grupo sa�ra quase em disparada, e era pouco prov�vel que Torean fosse dar as caras, ou repetir aquelas sugest�es imundas, em qualquer lugar onde Rand estivesse.</p><p>Sunamon ensaiou um sorriso agrad�vel, depois o reprimiu, secando as m�os roli�as quando Rand o encarou. O restante fingia que n�o via as mesas queimadas, o colch�o despeda�ado, os livros espalhados e os caro�os meio derretidos sobre a lareira���o que antes era uma cena mostrando o veado e os lobos. Os Gr�o-lordes tinham talento para enxergar apenas o que queriam. Carleon e Tedosian, com a humildade mais fingida que Rand j� vira, sem d�vida n�o percebiam como era suspeito n�o olharem um para o outro. Por outro lado, Rand jamais teria notado n�o fosse pelo bilhete de Thom, encontrado no bolso de um casaco que acabava de voltar da limpeza.</p><p>��O Lorde Drag�o queria nos ver?���perguntou Sunamon.</p><p>Ser� que Egwene e Elayne tinham combinado tudo? Claro que n�o. As mulheres n�o faziam esse tipo de coisa, assim como os homens. Ou ser� que faziam? S� podia ter sido coincid�ncia. Elayne ouviu que ele estava livre e decidiu se pronunciar. Era isso.</p><p>��Impostos���vociferou.</p><p>Os tairenos n�o se moveram, mas deram a impress�o de recuar um passo. Como ele odiava ter de lidar com aqueles homens. Seu desejo era mergulhar de volta nos livros.</p><p>��� um mau precedente, meu Lorde Drag�o, reduzir os impostos���comentou um homem esguio e grisalho de voz mel�flua. Meilan era alto para um taireno, apenas um palmo mais baixo que Rand, e t�o r�gido quanto qualquer Defensor. Ele se mantinha curvado na presen�a de Rand. Seus olhos escuros revelavam o quanto odiava fazer aquilo, mas tamb�m odiara quando Rand mandou os homens pararem de se agachar � sua volta. Nenhum deles se endireitou, mas Meilan n�o gostou de ser lembrado do que fazia.���Os camponeses sempre pagaram com facilidade, mas, se baixarmos os impostos, no dia em que os elevarmos ao valor original os idiotas v�o reclamar de um jeito t�o amargo quanto fariam se dobr�ssemos a taxa��o atual. Quando chegar esse dia, pode muito bem haver motins, meu Lorde Drag�o.</p><p>Rand caminhou pelo quarto e parou diante de <emphasis>Callandor</emphasis>. A espada de cristal cintilava, ofuscando o brilho das douraduras e pedras preciosas que a rodeavam. Uma lembran�a de quem ele era, do poder que era capaz de brandir. Egwene. Era bobagem ficar magoado por ela ter dito que n�o o amava mais. Por que deveria esperar que ela mantivesse sentimentos que ele n�o nutria por ela? Ainda assim, do�a. Era um al�vio, mas n�o dos mais agrad�veis.</p><p>��Voc�s ter�o ainda mais motins se tirarem os homens de suas fazendas.���Tr�s livros jaziam em uma pilha quase aos p�s de Meilan. <emphasis>Os tesouros da Pedra de Tear</emphasis>, <emphasis>Viagens pelo Deserto</emphasis> e <emphasis>Transa��es com o territ�rio de Mayene</emphasis>. As chaves estavam naqueles volumes e nas diversas tradu��es de <emphasis>O Ciclo de Karaethon</emphasis>, ainda que ele n�o as conseguisse encontrar para encaix�-las nas fechaduras corretas. Voltou a aten��o outra vez para os Gr�o-lordes.���Acham mesmo que eles v�o ficar olhando as fam�lias passando fome sem fazer nada?</p><p>��Os Defensores da Pedra j� contiveram motins antes, meu Lorde Drag�o���retrucou Sunamon, muito calmo.���Nossos pr�prios guardas podem manter a paz no interior. Os camponeses n�o v�o perturb�-lo, eu lhe dou a minha palavra.</p><p>��J� existem fazendeiros demais.���Carleon se encolheu sob o olhar de Rand.���Cairhien est� em guerra civil, meu Lorde Drag�o���explicou, mais do que depressa.���Os cairhienos n�o podem comprar gr�os, e os celeiros est�o abarrotados. A colheita deste ano vai apodrecer inteirinha. E ano que vem�? Que a minha alma queime, Lorde Drag�o, mas precisamos � que alguns daqueles camponeses parem de cavar e plantar sem parar.���Ele pareceu perceber que falara demais, embora claramente n�o fosse capaz de entender por qu�.</p><p>Rand se perguntou se o homem tinha alguma ideia de como a comida chegava em sua mesa. Ser� que via algo al�m de ouro e poder?</p><p>��O que voc�s v�o fazer quando Cairhien voltar a comprar gr�os?���perguntou Rand, com frieza.���Ali�s, ser� que Cairhien � o �nico lugar que precisa de gr�os?</p><p><emphasis>Por que</emphasis> Elayne se abrira daquela forma? <emphasis>O que</emphasis> esperava dele? Afeto, foi o que ela dissera. As mulheres, assim como as Aes Sedai, sabiam jogar com as palavras. Ser� que ela estava dizendo que o amava? N�o, isso era a mais pura bobagem. Podia at� ser orgulhoso demais, mas sem exageros.</p><p>��Meu Lorde Drag�o���come�ou Meilan, meio subserviente, meio como se explicasse algo a uma crian�a���se as guerras civis acabassem hoje, ainda assim Cairhien n�o poderia comprar mais que umas poucas barca�as carregadas pelos pr�ximos dois anos, talvez tr�s. Sempre vendemos os gr�os a Cairhien.</p><p>Sempre���por vinte anos, desde a Guerra dos Aiel. Eram t�o atrelados ao que <emphasis>sempre</emphasis> haviam feito que pareciam incapazes de enxergar uma coisa t�o simples. Ou n�o queriam ver. Quando os repolhos rebentavam feito ervas ao redor de Campo de Emond, era quase certo que uma chuva ruim ou vermes tinham assolado Trilha de Deven ou Colina da Vig�lia. Quando Colina da Vig�lia colhia nabos em profus�o, era certo que Campo de Emond ou Trilha de Deven estavam lidando com a escassez.</p><p>��Ofere�a para Illian���sugeriu. O que Elayne esperava dele?���Ou para Altara.���Gostava dela, mas da mesma forma que gostava de Min. Ou que pensava que gostava. Era imposs�vel entender o sentimento que nutria pelas duas.���Voc�s t�m navios para jogar no mar, al�m de barcos e barca�as, e, se n�o tiverem o suficiente, aluguem navios de Mayene.���Ele gostava das duas, mas, al�m disso� passara quase a vida inteira suspirando por Egwene. N�o estava disposto a embarcar nisso outra vez sem certeza. Qualquer certeza. Certeza. Se <emphasis>Transa��es com o Territ�rio de Mayene</emphasis> estivesse relatando a verdade� <emphasis>Pare com isso</emphasis>, disse a si mesmo. <emphasis>Mantenha o foco nessas fuinhas ardilosas, ou eles encontrar�o buracos por onde fugir para dar uma mordida nos seus calcanhares.</emphasis>���Paguem com gr�os. Tenho certeza de que, por um bom pre�o, a Primeira concordar�. E talvez um acordo assinado, um tratado����Era uma boa palavra, do tipo que eles usavam.���A promessa de deixar Mayene em paz em troca dos navios.���Devia isso � Primeira.</p><p>��Fazemos poucos neg�cios com Illian, meu Lorde Drag�o. S�o uma esc�ria de abutres.���Tedosian soou escandalizado. Assim como Meilan, que disse:</p><p>��Sempre lidamos com Mayene na base da for�a, meu Lorde Drag�o. Nunca dobramos os joelhos.</p><p>Rand respirou fundo. Os Gr�o-lordes ficaram tensos. Era sempre a mesma coisa. Tentava ser razo�vel com eles, e sempre dava errado. Thom dizia que os Gr�o-lordes tinham as cabe�as mais duras que a Pedra, e estava certo. <emphasis>O que � que eu sinto por ela? Fico tendo esses sonhos. Ela com certeza � linda.</emphasis> N�o sabia ao certo se pensava em Elayne ou Min.</p><p>��Primeiro voc�s v�o reduzir tr�s quartos dos impostos dos fazendeiros e metade dos de todo o resto da popula��o. N�o discutam! Fa�am! Segundo, v�o falar com Berelain e perguntar� � para perguntar! Por quanto poderiam alugar�</p><p>Os Gr�o-lordes escutaram com sorrisos falsos e rangendo os dentes, mas escutaram.</p><empty-line/><p>Egwene pensava em Joiya e Amico quando Mat surgiu ao seu lado, caminhando pelo corredor como se fosse uma enorme coincid�ncia estar passando por ali. O rapaz estava com a testa franzida e os cabelos desgrenhados, como se os tivesse bagun�ado com os dedos. Ele a encarou uma ou duas vezes, mas n�o disse uma palavra. Os servos que passavam por eles se curvavam em mesuras e rever�ncias, bem como os Gr�o-lordes e gr�-ladies, ainda que com entusiasmo menos evidente. Os olhares carrancudos de Mat aos nobres teriam lhe causado problemas se Egwene n�o estivesse ali, amigo do Lorde Drag�o ou n�o.</p><p>O sil�ncio n�o combinava com ele, n�o com o Mat que Egwene conhecia. Exceto pelo fino casaco vermelho���amassado, como se o rapaz tivesse dormido com ele���n�o parecia diferente do velho Mat, embora todos estivessem mudados. Seu sil�ncio era inquietante.</p><p>��Est� incomodado com a noite passada?���perguntou a jovem, por fim.</p><p>Mat trope�ou.</p><p>��Voc� ficou sabendo? Bom, � de se esperar, n�o �? N�o me incomodou. N�o foi nada demais. De qualquer modo, j� est� no passado.</p><p>Egwene fingiu acreditar.</p><p>��Nynaeve e eu n�o temos visto muito voc�.���Era um eufemismo e tanto.</p><p>��Tenho andado ocupado���murmurou o rapaz, e deu de ombros, constrangido, olhando para todos os lados, menos para Egwene.</p><p>��Jogando dados?���perguntou ela, desdenhosa.</p><p>��Cartas.���Uma servi�al roli�a, curvando-se em mesuras com os bra�os cheios de toalhas dobradas, olhou para Egwene e, parecendo pensar que a jovem n�o reparava, piscou para Mat. O rapaz abriu um sorriso em resposta.���Tenho andado ocupado jogando cartas.</p><p>As sobrancelhas de Egwene se ergueram. Aquela mulher deveria ser uns dez anos mais velha que Nynaeve.</p><p>��Entendi. Deve tomar bastante tempo, jogar cartas. Tempo demais para que sobre um pouco para os velhos amigos.</p><p>��Da �ltima vez que passei um tempo com voc�s, voc� e Nynaeve me prenderam com o Poder como um porco em um mercado para vasculharem meu quarto. Amigos n�o roubam de amigos.���Ele fez uma careta.���Al�m do mais, voc�s est�o sempre com aquela Elayne, toda de nariz em p�. Ou com Moiraine. Eu n�o gosto����Com um pigarro, ele lan�ou a ela um olhar de esguelha.���N�o gosto de tomar o tempo de voc�s. Pelo que andei ouvindo, est�o muito ocupadas. Interrogando Amigas das Trevas. Fazendo uma s�rie de coisas importantes, imagino. J� sabem que esses tairenos pensam que voc�s s�o Aes Sedai, n�o sabem?</p><p>Egwene balan�ou a cabe�a, pesarosa. Era das Aes Sedai que ele n�o gostava. Por mais coisas do mundo que Mat visse, nada o faria mudar.</p><p>��Pegar de volta o que estava emprestado n�o � roubar���retrucou.</p><p>��N�o me lembro de voc� ter falado qualquer coisa sobre empr�stimo. Ah, de que me adianta uma carta da Amyrlin? S� me causa problemas. Voc�s poderiam ter pedido.</p><p>Ela se conteve e n�o mencionou que de fato haviam pedido. N�o queria discutir, e nem queria que ele fosse embora emburrado. Mat n�o chamaria aquilo de pedido, naturalmente. Dessa vez, ela o deixaria seguir com a pr�pria vers�o.</p><p>��Bom, agrade�o por voc� ainda estar disposto a falar comigo. Alguma raz�o especial para me procurar hoje?</p><p>Mat enfiou os dedos nos cabelos e resmungou sozinho. Precisava era de um pux�o de orelha da m�e e uma longa conversa. Egwene recomendou a si mesma paci�ncia. Sabia ser paciente quando queria. N�o diria uma palavra antes dele, ainda que estivesse explodindo por dentro.</p><p>O corredor se abria em uma colunata de m�rmore branco com uma balaustrada que dava para um dos poucos jardins da Pedra. Grandes bot�es de flores brancas cobriam as �rvores esparsas, pequenas e de folhas moles, com aroma ainda mais doce do que os arbustos de rosas vermelhas e amarelas. Uma brisa �mida falhava em remexer os reposteiros na parede interna, mas reduzia o calor crescente e abafado da manh�. Mat sentou-se na larga balaustrada e encostou-se em uma coluna, erguendo um dos p�s � frente do corpo. Contemplando o jardim, disse, por fim:</p><p>��Eu� preciso de um conselho.</p><p>Mat queria um conselho <emphasis>dela</emphasis>? Egwene arregalou os olhos.</p><p>��O que eu puder fazer para ajudar���respondeu, a voz fraca. O rapaz virou a cabe�a para ela, que se esfor�ou para assumir a fei��o tranquila de uma Aes Sedai.���Quer um conselho a respeito de qu�?</p><p>��Eu n�o sei.</p><p>Era uma queda de dez passadas at� o jardim. Al�m do mais, havia homens l� embaixo, capinando a grama entre as rosas. Se Egwene o empurrasse, ele poderia cair em cima de um deles.</p><p>��Como � que eu vou poder aconselh�-lo, ent�o?���perguntou, com a voz aguda.</p><p>��Estou� tentando decidir o que fazer.���Ele parecia envergonhado. Na opini�o dela, estava muito certo.</p><p>��Espero que n�o esteja pensando em fugir. Voc� sabe o quanto � importante. N�o pode simplesmente fugir, Mat.</p><p>��Voc� acha que n�o sei disso? Acho que n�o poderia ir embora nem se Moiraine permitisse. Acredite em mim, Egwene, eu n�o vou a lugar nenhum. S� quero saber o que � que vai acontecer.���Ele sacudiu a cabe�a, e sua voz ficou mais firme.���O que � que acontecer� em seguida? Por que a minha mem�ria est� cheia de buracos? Alguns peda�os da minha vida nem est�o l�, eles simplesmente n�o existem, como se jamais tivessem acontecido! Por que � que eu volta e meia falo umas baboseiras? Dizem que � L�ngua Antiga, mas para mim s�o s� umas asneiras sem sentido. Eu quero saber, Egwene. Preciso saber, antes que fique t�o doido quanto Rand.</p><p>��Rand n�o est� doido���respondeu ela, sem pensar. Ent�o Mat n�o estava tentando fugir. Era uma surpresa agrad�vel. O rapaz n�o parecia acreditar em responsabilidade. Mas havia sofrimento e preocupa��o em sua voz. Mat nunca demonstrava preocupa��o, pelo menos n�o na frente de algu�m.���Eu n�o sei as respostas, Mat���disse, com gentileza.���Talvez Moiraine�</p><p>��N�o!���Ele deu um salto e se levantou.���Nada de Aes Sedai! Quer dizer� Voc� � diferente. Eu conhe�o voc�, voc� n�o � Elas n�o ensinaram nada na Torre, algum truque ou coisa assim, alguma coisa que possa servir?</p><p>��Ah, Mat, eu lamento. Eu lamento muito.</p><p>A risada dele a fez lembrar-se da inf�ncia dos dois. Mat sempre ria quando tinha as grandes expectativas frustradas.</p><p>��Ah, bem, acho que n�o importa. Ainda seria um conselho da Torre, mesmo que de segunda m�o. N�o se ofenda.</p><p>Mat sempre reclamava horrores por uma farpa no dedo, mas tratava uma perna quebrada como se n�o fosse nada demais.</p><p>��Pode ser que haja um jeito���come�ou Egwene, com cautela.���Se Moiraine concordar. Talvez ela concorde.</p><p>��Moiraine! Voc� n�o ouviu uma palavra do que eu disse? A �ltima coisa que quero � Moiraine se intrometendo. Que jeito?</p><p>Mat sempre fora impulsivo. Mas n�o queria mais do que ela pr�pria: saber. Se ele ao menos demonstrasse um pouco de cautela e bom senso, para variar. Uma nobre tairena que passava, com tran�as escuras enroladas na cabe�a e ombros desnudos acima do linho amarelo, dobrou de leve o joelho, encarando os dois sem express�o. Ela caminhava depressa, as costas rijas. Egwene a observou at� que ela sa�sse do alcance de sua voz e os dois estivessem sozinhos. A menos que os jardineiros, trinta p�s abaixo, contassem. Mat a encarava, na expectativa.</p><p>No fim, ela contou a ele sobre o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, o batente de porta retorcido que revelava respostas do outro lado. Enfatizou os riscos, as consequ�ncias das perguntas tolas e das respostas relativas � Sombra, perigos que talvez nem as Aes Sedai conhecessem. Ela estava mais do que lisonjeada por Mat t�-la procurado, mas o rapaz precisava demonstrar um pouco de bom senso.</p><p>��Lembre-se disso, Mat. Perguntas fr�volas podem acabar matando. Ent�o, se o usar, vai precisar agir com seriedade pela primeira vez na vida. E n�o pode perguntar nada relativo � Sombra.</p><p>Ele escutara com crescente incredulidade. Quando Egwene terminou, o rapaz exclamou:</p><p>��Tr�s perguntas? Voc� entra como Bili, eu suponho, passa uma noite l� e volta dez anos depois com uma bolsa cheia de dinheiro que n�o esvazia nunca e um�</p><p>��Pela primeira vez na vida, Matrim Cauthon���retrucou ela, irritada �, pare de bancar o idiota. Voc� sabe muito bem que <emphasis>ter�angreal</emphasis> n�o s�o hist�rias. Precisa tomar cuidado com os perigos. Talvez as respostas que procura estejam dentro desse, mas voc� n�o pode fazer nada sem a autoriza��o de Moiraine. Tem que me prometer isso, ou juro que arranco voc� de l� como uma truta encordoada. Sabe que eu consigo.</p><p>Ele bufou alto.</p><p>��Eu seria idiota se tentasse, mesmo com a autoriza��o de Moiraine. Entrar em uma droga de um <emphasis>ter�angreal</emphasis>? Eu quero ter menos a ver com o Poder, n�o mais. Pode ir desistindo dessa ideia.</p><p>��� o �nico jeito que eu conhe�o, Mat.</p><p>��N�o para mim, para mim n�o 頗�respondeu o rapaz, com firmeza.���Ficar sem solu��o ainda � melhor do que isso.</p><p>Apesar do tom de Mat, Egwene sentiu vontade de abra��-lo. S� que ele faria alguma piadinha �s suas custas e tentaria lhe dar um belisc�o. Ele sempre fora incorrig�vel, desde o dia em que nasceu. Mesmo assim, fora at� l� pedir ajuda.</p><p>��Eu lamento, Mat. O que � que voc� vai fazer?</p><p>��Ah, acho que jogar cartas. Se algu�m quiser jogar comigo. Jogar pedras com Thom. Dados nas tavernas. Ainda posso ir at� a cidade, pelo menos.���Ele fixou o olhar em uma servi�al mais adiante, uma garota esbelta e de olhos escuros, quase da idade deles.���Vou arrumar alguma coisa para passar o tempo.</p><p>Egwene sentiu a m�o co�ar com a vontade de dar um tapa no rapaz, mas em vez disso disse, cautelosa:</p><p>��Mat, voc� n�o est� mesmo pensando em ir embora, est�?</p><p>��Se eu estivesse, voc� contaria a Moiraine?���Ele ergueu a m�o para impedi-la se responder.���Bom, n�o tem necessidade. Eu j� disse que n�o vou. N�o posso fingir que n�o queria, mas n�o vou embora. Est� bom para voc�?���Ele franziu o cenho, pensativo.���Egwene, j� sentiu vontade de voltar para casa? J� desejou que nada disso tivesse acontecido?</p><p>Era uma pergunta surpreendente, vinda dele, mas ela sabia a resposta.</p><p>��N�o. Mesmo com tudo isso, n�o. E voc�?</p><p>��Eu seria um idiota, n�o seria?���Mat deu risada.���Eu gosto � de cidades, e esta aqui basta, por enquanto. Esta basta. Egwene, voc� n�o vai contar a Moiraine sobre isso, vai? Sobre eu vir pedir conselhos, e tudo o mais?</p><p>��Por que eu n�o deveria?���perguntou a jovem, desconfiada. Afinal de contas, era de Mat que estavam falando.</p><p>O rapaz deu de ombros, encabulado.</p><p>��Tenho mantido mais dist�ncia dela do que de� de qualquer forma, eu a tenho evitado, principalmente quando ela resolve vasculhar a minha cabe�a. Pode pensar que estou amolecendo. N�o conte a ela, est� bem?</p><p>��N�o conto���disse Egwene���se voc� me prometer que n�o vai chegar perto daquele <emphasis>ter�angreal</emphasis> sem a permiss�o dela. Eu n�o devia nem ter falado disso com voc�.</p><p>��Eu prometo.���Mat escancarou um sorriso.���S� vou chegar perto daquele treco se a minha vida estiver dependendo dele.���O rapaz concluiu a frase com uma seriedade zombeteira.</p><p>Egwene balan�ou a cabe�a. Por mais que todo o resto mudasse, Mat jamais mudaria.</p></section><section><title><p>9</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Decis�es</p></title><p>Tr�s dias se passaram, quentes e �midos, parecendo consumir a for�a at� dos tairenos. A cidade caminhava a passos lentos, let�rgicos, at� a vida na Pedra parecia rastejar. Servi�ais trabalhavam quase que dormindo. A majhere puxava as tran�as enroladas em frustra��o, mas nem mesmo ela conseguia arrumar energia para dar cascudos e puxar orelhas. Defensores da Pedra afundavam em seus postos como velas meio derretidas, e os oficiais demonstravam mais interesse em beber vinho frio do que em fazer as rondas. Os Gr�o-lordes passavam muito tempo em seus aposentos, dormindo durante a parte mais quente do dia, e uns poucos haviam deixado a Pedra e rumado para as terras relativamente frescas do leste, nas encostas da Espinha do Mundo. Estranhamente, apenas os estrangeiros, que sentiam mais calor do que todos, esfor�avam-se para seguir com suas vidas, talvez at� mais do que de costume. Para eles, a viol�ncia do calor n�o chegava nem perto do peso das horas que corriam.</p><p>Mat logo descobriu que estivera certo a respeito dos jovens lordes que viram as cartas tentarem mat�-lo. Eles n�o apenas o evitavam, tamb�m tinham espalhado a not�cia entre os amigos, uma not�cia por vezes aumentada. Todos na Pedra com duas moedas de prata na m�o apenas davam desculpas mais do que esfarrapadas enquanto se afastavam. Os boatos se espalharam para al�m dos fidalgotes. Mais de uma servi�al que apreciava um chamego agora o dispensava, e duas disseram, incomodadas, terem ouvido dizer que era perigoso ficar a s�s com ele. Perrin parecia enrolado nos pr�prios problemas, e Thom evaporava em um passe de m�gica. Mat n�o tinha ideia do que ocupava o menestrel, mas quase nunca conseguia encontr�-lo, nem de dia nem de noite. Moiraine, a �nica pessoa que Mat desejava que o ignorasse, parecia presente a cada curva que ele fazia, sempre apenas de passagem, cruzando um corredor ao longe. Mas seus olhos encontravam os dele todas as vezes, encarando-o n�o s� como se soubesse o que o rapaz pensava e o que queria, mas tamb�m como se soubesse que o convenceria a mudar de ideia e fazer exatamente o que ela queria. Nada daquilo fazia diferen�a em rela��o a uma coisa: ele sempre conseguia arrumar desculpas para adiar a partida por mais um dia. Na sua opini�o, n�o <emphasis>prometera</emphasis> a Egwene que ficaria. Mas acabava ficando.</p><p>Um dia, desceu com uma lanterna para o interior da Pedra, at� a chamada Grande Posse, e chegou � porta apodrecida no canto oposto do estreito corredor. Observou o interior sombrio por alguns minutos, as formas indistintas cobertas de lonas empoeiradas, os caixotes e barris empilhados fora de ordem, com as extremidades planas servindo de prateleiras para uma s�rie de estatuetas, esculturas e objetos esquisitos de cristal, vidro e metal. Depois de alguns instantes ali parado, ele saiu correndo, resmungando:</p><p>��Devo ser o maior idiota do mundo inteiro!</p><p>Mas nada o impedia de continuar indo � cidade, e n�o havia chance de esbarrar com Moiraine nas tavernas do cais do Maule, o distrito portu�rio, ou nas estalagens do Chalm, onde ficavam os armaz�ns pouco iluminados���a maioria locais imundos com vinho barato, cerveja ruim, brigas ocasionais e intermin�veis jogos de dados. As apostas no dado eram baixas, comparadas �s que ele estava acostumado, mas n�o era por isso que sempre voltava � Pedra depois de algumas horas. Tentava n�o pensar no que o arrastava de volta, outra vez para perto de Rand.</p><p>Perrin �s vezes avistava Mat nas tavernas da zona portu�ria, bebendo muito vinho barato, jogando dados como se n�o se importasse se ganhava ou perdia. Certa vez, parecia exibir uma faca quando um marinheiro troncudo o pressionou, querendo saber com que frequ�ncia ele de fato ganhara. N�o fazia o estilo de Mat ser t�o irritadi�o, mas Perrin o evitava, em vez de tentar descobrir o que o incomodava. N�o estava ali para beber ou jogar dados, e os homens que pensavam em brigar com ele mudavam de ideia quando viam o tamanho de seus ombros���e a cor de seus olhos. Mas ele comprava cerveja ruim para marinheiros de cal�as de couro largas, mercadores menores que usavam finas correntes de prata penduradas na frente dos casacos e qualquer homem que parecesse vir de alguma terra distante. Buscava rumores, not�cias de algo que pudesse levar Faile para longe de Tear. Para longe dele.</p><p>Tinha certeza de que, se encontrasse uma aventura para ela, algo que despertasse na mulher a ideia de que teria a chance de escrever seu nome na hist�ria, Faile partiria. Ela fingia compreender por que Perrin precisava ficar, mas volta e meia indicava que queria partir e que esperava que ele a acompanhasse. O rapaz tinha certeza de que ela morderia a isca certa, que partiria sem ele.</p><p>A maioria dos rumores ela saberia que eram distor��es atrasadas da verdade, assim como ele sabia. Diziam que a guerra que ardia no Oceano de Aryth era obra de um povo que ningu�m nunca ouvira falar chamado Sawchin, ou algo do tipo���ouvia muitas varia��es de diversos contadores���um povo estranho que talvez fosse o ex�rcito de Artur Asa-de-gavi�o retornando depois de mil anos. Um sujeito, um taraboniano de chap�u redondo e vermelho, com um bigode mais grosso que o chifre de um touro, informou, muito s�rio, que o pr�prio Asa-de-gavi�o conduzira aquela gente, empunhando a lend�ria espada da Justi�a. Havia rumores de que a lend�ria Trombeta de Valere, que supostamente convocaria os mortos dos t�mulos para lutar na �ltima Batalha, fora encontrada. Em Ghealdan, motins haviam estourado por todo o pa�s. Illian sofria de epidemias de loucura em massa. Em Cairhien, a fome reduzia a matan�a. Em algum lugar das Terras da Fronteira cresciam os ataques de Trollocs. Perrin n�o podia mandar Faile para nada daquilo, nem que fosse para tir�-la de Tear.</p><p>Os relatos dos problemas em Saldaea pareciam promissores���o pr�prio lar deveria ser atraente para a jovem, e Perrin ouvira dizer que Mazrim Taim, o falso Drag�o, fora preso por Aes Sedai���mas ningu�m sabia que tipo de problemas havia por l�. Inventar qualquer coisa n�o adiantaria de nada, n�o importava o que ele encontrasse, a mulher decerto investigaria antes de sair ca�ando. Al�m do mais, qualquer tumulto em Saldaea poderia muito bem ser t�o ruim quanto as outras coisas de que tinha ouvido falar.</p><p>Perrin tamb�m n�o podia revelar onde passava o tempo, pois Faile iria querer saber os motivos. Ela sabia que ele n�o era como Mat, que gostava de ficar circulando pelas tavernas. Perrin nunca tivera talento para mentira, por isso a enrolava o quanto podia, e a mulher j� tinha come�ado a responder com olhares longos, obl�quos e silenciosos. Tudo o que ele podia fazer era redobrar os esfor�os para encontrar uma hist�ria que a seduzisse. Precisava afast�-la de si, antes que Faile acabasse morta. Precisava.</p><p>Egwene e Nynaeve passaram mais tempo com Joiya e Amico, sem sucesso. As duas nunca mudavam as hist�rias. Sob protestos de Nynaeve, Egwene at� tentou contar a cada uma o que a outra dissera, para ver se algo se desencaixava. Amico apenas as encarou, choramingando sobre como nunca ouvira falar de tal plano. Mas acrescentou que poderia ser verdade. Poderia. A mulher suava, �vida por agradar. Joiya respondeu, com frieza, que fossem a Tanchico, se assim desejavam.</p><p>��Ouvi dizer que hoje em dia � uma cidade desagrad�vel���comentou, serena, os olhos de corvo brilhando.���O Rei n�o det�m poder sobre muito mais do que pr�pria a cidade, e soube que a Panarca desistiu de manter a ordem civil. Bra�os fortes e facas ligeiras governam Tanchico. Mas podem ir, se for a vontade de voc�s.</p><p>Nenhuma palavra vinha de Tar Valon, nada que informasse se a Amyrlin estava lidando com a poss�vel amea�a de liberta��o de Mazrim Taim. Desde que Moiraine enviara os pombos���presumindo que ela de fato o fizera���houvera bastante tempo para que uma mensagem chegasse, por um barco veloz ou um homem a cavalo. Egwene e Nynaeve debatiam em rela��o a isso; Nynaeve admitia que a Aes Sedai n�o podia mentir, mas tentava encontrar distor��es nas palavras de Moiraine. A pr�pria Moiraine parecia n�o se preocupar com a falta de resposta da Amyrlin, embora fosse dif�cil avaliar sua calma impass�vel.</p><p>Egwene se preocupava com isso, e tamb�m com a possibilidade de Tanchico ser uma pista falsa, verdadeira, ou uma armadilha. A biblioteca da Pedra guardava livros sobre Tarabon e Tanchico, mas, embora ela os tivesse lido at� cansar os olhos, n�o encontrou pista de qualquer coisa que representasse perigo para Rand. O calor e a preocupa��o n�o ajudavam seu humor. Ela �s vezes parecia t�o irritadi�a quanto Nynaeve.</p><p>Algumas coisas iam bem, naturalmente. Mat ainda estava na Pedra, era �bvio que estava amadurecendo e aprendendo a ser respons�vel. Ela se arrependia de t�-lo desapontado, mas n�o achava que qualquer mulher na Torre pudesse ter feito melhor. Compreendia a sede que ele tinha de saber, pois tamb�m a sentia, embora por outros conhecimentos, por coisas que s� poderia aprender na Torre, coisas a descobrir que ningu�m soubera fazer antes, conhecimentos perdidos que poderia reaprender.</p><p>Aviendha come�ou a visitar Egwene, aparentemente por vontade pr�pria. Se a mulher a princ�pio parecia cautelosa� Bem, ela era Aiel, afinal de contas. E, al�m do mais, pensava que Egwene fosse uma Aes Sedai plena. Ainda assim, a companhia era agrad�vel, embora Egwene �s vezes pensasse ver perguntas silenciosas em seus olhos. Ainda que Aviendha fosse reservada, logo ficou claro que era detentora de uma perspic�cia ligeira e de um senso de humor similar ao de Egwene. As duas por vezes acabavam gargalhando juntas feito garotinhas. Os modos Aiel eram muito estranhos a Egwene, o que ficou claro com o desconforto de Aviendha em sentar-se em uma cadeira e o seu choque em deparar-se com Egwene tomando banho em uma banheira com chapa de prata que a majhere trouxera. O choque n�o fora por encontrar Egwene nua���na verdade, quando ela percebeu que Egwene tinha ficado constrangida, tirou as pr�prias roupas e sentou-se no ch�o para conversar���mas por v�-la afundada na �gua at� o pesco�o. O banho desperdi�ava tanta �gua que os olhos da Aiel ficaram arregalados. Al�m disso, Aviendha recusava-se a entender por que ela e Elayne n�o haviam feito nada de dr�stico com Berelain, j� que a queriam fora de seu caminho. Era praticamente proibido a uma guerreira matar uma mulher que n�o tivesse desposado a lan�a, mas, como nem Elayne nem Berelain eram Donzelas da Lan�a, na opini�o de Aviendha, Elayne n�o teria problemas em desafiar a Primeira de Mayene a um duelo com facas, ou, se falhasse nelas, com p�s e punhos. Era melhor com facas, pelo que ela dizia. Berelain parecia o tipo de mulher que apanhava muito antes de ceder. Seria melhor desafi�-la e mat�-la de uma vez. Ou Egwene poderia fazer isso por ela, como amiga e quase irm�.</p><p>Ainda assim, era agrad�vel ter algu�m com quem rir e conversar. Elayne passava a maior parte do tempo ocupada, naturalmente. E Nynaeve, que parecia sentir a press�o do tempo de forma t�o intensa quanto Egwene, gastava o seu fazendo caminhadas com Lan pelas balaustradas ao luar e preparando ela mesma as comidas que o Guardi�o apreciava, sem falar nos xingamentos que �s vezes espantavam os cozinheiros da cozinha; Nynaeve n�o sabia cozinhar muito bem. N�o fosse por Aviendha, Egwene n�o saberia como passaria as horas mormacentas que intercalavam os interrogat�rios das Amigas das Trevas: suada, sem d�vida, e preocupada em ter de fazer algo que lhe dava pesadelos s� de pensar.</p><p>Por acordo, Elayne nunca estava presente nesses interrogat�rios. Um par de ouvidos a mais n�o faria diferen�a. Em vez disso, sempre que Rand tinha algum tempo livre, a Filha-herdeira parecia surgir por perto por acaso, fosse para conversar ou caminhar com ele de bra�os dados, mesmo que apenas de uma reuni�o com Gr�o-lordes at� algum sal�o onde outros o aguardavam, ou a uma vistoria de surpresa nos alojamentos dos Defensores. Ela adquiriu grande talento para encontrar cantos isolados onde os dois pudessem passar um tempo sozinhos. Naturalmente, o rapaz sempre tinha Aiel em seu encal�o, mas logo ela passou a se importar t�o pouco com o que eles pensavam quanto com o que a m�e poderia pensar. At� iniciara uma esp�cie de conspira��o com as Donzelas da Lan�a. As mulheres conheciam cada recanto escondido da Pedra e a informavam sempre que Rand estava desacompanhado. Pareciam considerar a brincadeira um grande passatempo.</p><p>A surpresa fora que ele perguntou a ela sobre governar na��es e escutou o que ela tinha a dizer. Isso ela gostaria que a m�e tivesse visto. Mais de uma vez, Morgase chegara a rir, meio desesperada, e dizer a ela que era preciso concentra��o. Quais embarca��es proteger, e como, e quais n�o proteger, e por qu�, poderiam ser decis�es duras, mas t�o importantes quanto como cuidar dos doentes. Talvez fosse divertido levar um lorde ou mercador teimoso a fazer o que n�o queria pensando ter sido ideia pr�pria, e talvez fosse recompensador alimentar os famintos. Mas, se fosse preciso alimentar algu�m, tamb�m seria preciso decidir quantos funcion�rios, carro��es e condutores seriam necess�rios. Outros poderiam resolver isso, mas, se cometessem algum erro, s� daria para saber quando fosse tarde demais. Ele a escutava, e com frequ�ncia seguia seus conselhos. Elayne achava que poderia t�-lo amado s� por essas duas coisas. Berelain n�o estava pondo os p�s para fora de seus aposentos, e Rand passara a abrir um sorriso no instante em que a via. Nada no mundo poderia estar melhor. S� se os dias parassem de passar.</p><p>Os tr�s dias curtos escapuliam de seus dedos feito �gua. Joiya e Amico seriam enviadas para o norte, e n�o haveria mais raz�o para permanecer em Tear. Seria hora de ela, Egwene e Nynaeve tamb�m partirem. Ela iria, quando a hora chegasse. Jamais considerara o contr�rio. Saber disso a enchia de orgulho por estar agindo feito uma mulher, e n�o uma garota. Saber disso a fazia querer chorar.</p><p>E Rand? Ele se reunia com Gr�o-lordes em seus aposentos e distribu�a ordens. Assustava-os aparecendo em reuni�es secretas de tr�s ou quatro, descobertas por Thom, apenas para reiterar alguns pontos em rela��o �s �ltimas ordens. Os nobres sorriam, faziam mesuras, suavam e se perguntavam o quanto ele saberia. Era preciso encontrar algum uso para a energia daqueles homens, antes que algum deles decidisse que Rand teria de ser morto, j� que n�o era poss�vel manipul�-lo. Faria o que fosse necess�rio para distra�-los, mas n�o daria in�cio a uma guerra. Se tivesse de confrontar Sammael, que fosse. Mas n�o come�aria uma guerra.</p><p>Montar seu plano de a��o ocupava a maior parte do tempo que n�o era dedicado a correr atr�s dos Gr�o-lordes. Algumas ideias vinham das pilhas de livros que mandava os bibliotec�rios levarem a seus aposentos, e tamb�m das conversas com Elayne. Os conselhos dela sem d�vida eram �teis em rela��o aos Gr�o-lordes. Rand percebia que os nobres reviam seus conceitos em rela��o a ele ao v�-lo exibir conhecimentos sobre coisas que os pr�prios n�o sabiam muito bem. Quando quis dar cr�dito a Elayne, a mulher n�o deixou.</p><p>��Um governante s�bio aceita conselhos���disse ela, sorrindo���mas jamais demonstra que aceita. Deixe que pensem que voc� sabe mais do que sabe. N�o far� mal algum, e ainda vai ajudar.���No entanto, pareceu satisfeita com a sugest�o.</p><p>Ele n�o tinha muita certeza de que ainda n�o estava adiando alguma decis�o, pelo menos, por causa dela. Tr�s dias de planejamentos, tentando decifrar o que ainda estava faltando. Havia algo faltando. N�o podia reagir aos Abandonados, tinha de faz�-los reagir a ele. Tr�s dias, e no quarto ela partiria���de volta para Tar Valon, esperava���mas, se ele fizesse algum movimento, suspeitava de que at� os breves momentos juntos terminariam. Tr�s dias de beijos roubados, quando ele se esquecia de que era qualquer coisa al�m de um homem com os bra�os em volta de uma mulher. Sabia que era um motivo bobo mas verdadeiro. Estava aliviado por ela n�o parecer querer nada al�m de sua companhia, mas, naqueles momentos a dois, Rand era capaz de esquecer as decis�es, esquecer o destino que aguardava o Drag�o Renascido. Mais de uma vez, considerou pedir que ela ficasse, mas n�o seria justo elevar as expectativas da mo�a, j� que nem ele fazia ideia do que queria, al�m de sua presen�a. Se ela tivesse alguma expectativa, claro. Era melhor pensar nos dois apenas como um jovem casal passeando em uma noite de festa. Assim ficava mais f�cil. �s vezes ele esquecia que ela era a Filha-herdeira, e ele, um pastor. Mesmo assim, desejava que ela n�o fosse embora. Tr�s dias. Ele precisava tomar uma decis�o. Precisava tomar uma atitude. Algo que ningu�m esperasse.</p><p>O sol come�ava a se p�r no terceiro dia. Os reposteiros semicerrados do dormit�rio de Rand reduziam o brilho amarelo-avermelhado. <emphasis>Callandor</emphasis> cintilava no suporte ornamentado como o mais puro cristal.</p><p>Rand encarou Meilan e Sunamon, depois atirou neles o grosso bolo de folhas de papel-pergaminho. Um tratado, todo escrito com esmero, apenas sem as assinaturas e os selos. O bolo atingiu Meilan no peito, que o pegou por reflexo e fez uma mesura, como se estivesse honrado, mas o sorriso tenso revelou os dentes trincados.</p><p>Sunamon trocou o peso de um p� para outro, esfregando as m�os para sec�-las.</p><p>��Est� tudo como o senhor disse, meu Lorde Drag�o���comentou o homem, ansioso.���Gr�os por navios�</p><p>��E dois mil recrutas tairenos���interrompeu Rand.����Para garantir a distribui��o apropriada dos gr�os e proteger os interesses tairenos.����A voz era g�lida, mas seu est�mago estava em ebuli��o. Quase tremia de tanta vontade de voar para cima daqueles idiotas e ench�-los de socos.���Dois mil homens. Sob o comando de Torean!</p><p>��O Gr�o-lorde Torean se interessa pelos neg�cios com Mayene, meu Lorde Drag�o���respondeu Meilan, com a voz suave.</p><p>��Ele se interessa � por for�ar a aten��o de uma mulher que nem olha para ele!���gritou Rand.���Gr�os por navios, eu disse! Nada de soldados. E sem d�vida nada do maldito Torean! Voc�s sequer falaram com Berelain?</p><p>Os homens piscaram como se n�o tivessem compreendido as palavras. Era demais. Ele agarrou <emphasis>saidin</emphasis>. O papel-pergaminho nas m�os de Meilan irrompeu em chamas. Com um berro, Meilan arremessou o bolo de folhas na lareira vazia e, mais que depressa, espanou as centelhas e os chamuscados do casaco de seda vermelha. Boquiaberto, Sunamon encarou as folhas em chamas, crepitando, cada vez mais negras.</p><p>��Voc�s v�o falar com Berelain���disse aos homens, surpreso com a calma na pr�pria voz.���At� amanh� ao meio-dia ter�o oferecido a ela o acordo que eu quero, ou mando enforcar os dois antes do p�r do sol. Se eu tiver de enforcar Gr�o-lordes dois a dois, a cada dia, vou fazer isso. Mandarei at� o �ltimo de voc�s para a forca, se n�o obedecerem. Agora saiam da minha frente.</p><p>O tom de voz calmo pareceu afetar mais os homens do que a gritaria. At� Meilan demonstrou desconforto enquanto os dois se afastavam, curvando-se em mesuras a cada dois passos, assegurando, aos murm�rios, sua eterna lealdade e perp�tua obedi�ncia. Eles o enojavam.</p><p>��Sumam daqui!���vociferou, e os homens abandonaram a dignidade, quase lutando um com o outro para abrir as portas.</p><p>Correram. Um dos guardas Aiel enfiou a cabe�a no quarto por um instante, para ver se Rand estava bem, antes de fechar a porta.</p><p>Rand estava tr�mulo. Sentia quase tanto nojo dos homens quanto de si pr�prio. Amea�ando enforcar gente que n�o fizesse o que mandava. E, pior, estava falando s�rio. Lembrava-se de quando n�o tinha esse g�nio, ou, pelo menos, quando tinha muito pouco e tentava mant�-lo sob controle.</p><p>Cruzou o quarto at� onde <emphasis>Callandor</emphasis> cintilava, a luz tremeluzindo por entre as cortinas. A l�mina parecia feita do mais fino cristal, totalmente l�mpida. Seus dedos a sentiam como a�o, afiada feito navalha. Chegara perto de peg�-la para lidar com Meilan e Sunamon. Se para us�-la como espada ou em seu prop�sito real, n�o sabia. As duas possibilidades o horrorizavam. <emphasis>Ainda n�o estou louco. Apenas irritado. Luz, estou t�o irritado!</emphasis></p><p>No dia seguinte. As Amigas das Trevas seriam enviadas em um navio. Elayne iria embora. Egwene e Nynaeve tamb�m, naturalmente. Rezava para que retornassem a Tar Valon. Com ou sem Ajah Negra, a Torre Branca deveria ser o lugar mais seguro que havia naquele momento. No dia seguinte. Nada mais de desculpas para adiar o que tinha de fazer. N�o deixaria para depois.</p><p>Ele virou as m�os, observando a gar�a marcada em cada palma. J� as examinara tantas vezes que saberia reproduzir com perfei��o cada linha. As Profecias as haviam prenunciado.</p><poem><stanza><v>Por duas e mais duas vezes ele ser� marcado,</v><v>duas vezes para viver e duas vezes para morrer.</v><v>Uma vez a gar�a, para tra�ar seu caminho.</v><v>Duas vezes a gar�a, para proclam�-lo verdadeiro.</v><v>Uma vez o Drag�o, atr�s da mem�ria perdida.</v><v>Duas vezes o Drag�o, cobrar o pre�o a ser pago.</v></stanza></poem><p>Por�m, se as gar�as o haviam �proclamado verdadeiro�, qual era a necessidade dos Drag�es? Ali�s, o que era um Drag�o? O �nico Drag�o de que ouvira falar era Lews Therin Telamon. Lews Therin Fratricida fora o Drag�o. O Drag�o era o Fratricida. S� que agora havia ele. Mas Rand n�o poderia ter colocado em si a marca de si pr�prio. Talvez a imagem no estandarte fosse um Drag�o, mas nem as Aes Sedai pareciam saber o que era a criatura.</p><p>��Voc� est� diferente da �ltima vez que o vi. Mais forte. Mais duro.</p><p>Ele deu meia-volta, olhando boquiaberto para a mulher parada diante da porta, de pele clara e cabelos e olhos escuros. Alta, toda vestida de branco e prata, ela arqueou uma sobrancelha para os montinhos de ouro e prata sobre a lareira. Rand os deixara ali para servirem de lembrete do que podia acontecer quando agia sem pensar, quando perdia o controle. De muito pouco adiantava.</p><p>��Selene.���Correu at� ela, surpreso.���De onde voc� surgiu? Como foi que entrou aqui? Pensei que ainda estava em Cairhien, ou����Ele olhou para baixo. N�o queria dizer que temia que ela estivesse morta ou refugiada, passando fome.</p><p>Um cinto de prata tran�ada cintilava ao redor da cintura fina. Pentes de prata trabalhados com estrelas e luas crescentes brilhavam em seus cabelos, ca�dos por sobre os ombros como cachoeiras de c�u noturno. Ela ainda era a mais linda mulher que Rand j� vira. Ao lado dela, Elayne e Egwene eram apenas bonitas. Mas, por alguma raz�o, a mulher n�o o afetava mais como antes. Talvez fossem os longos meses desde que a vira, em uma Cairhien ainda n�o arruinada pela guerra civil.</p><p>��Eu vou aonde desejo estar.���Ela franziu a testa.���Voc� foi marcado, mas n�o h� problema. Voc� era meu, e � meu. Qualquer uma n�o � mais do que uma cuidadora cujo tempo ao seu lado j� acabou. Agora, vou reclamar abertamente o que � meu.</p><p>Ele a encarou. Marcado? Ser� que estava falando de suas m�os? E o que estava querendo dizer? Que ele pertencia a ela?</p><p>��Selene���disse, com gentileza���passamos dias agrad�veis juntos, e tamb�m dias dif�ceis. Nunca vou me esquecer da sua coragem ou da sua ajuda. Mas nunca houve nada entre n�s al�m de companheirismo. Viajamos juntos, mas foi s� isso. Voc� vai ficar aqui na Pedra, nas melhores acomoda��es, e, quando a paz retornar a Cairhien, garantirei que suas propriedades retornem a voc�, se puder.</p><p>��Voc� <emphasis>foi</emphasis> marcado.���Ela abriu um sorriso ir�nico.���Propriedades em Cairhien? Posso haver tido propriedades naquelas terras, um dia. A terra mudou tanto que nada mais � como foi. Selene � apenas um nome que eu uso, Lews Therin. O nome que tomei para mim � Lanfear.</p><p>Rand soltou uma risada oca.</p><p>��Que piada de mau gosto, Selene. Era melhor fazer piadas a respeito do Tenebroso ser um dos Abandonados. E meu nome � Rand.</p><p>��N�s nos denominamos os Escolhidos���disse ela, muito calma.���Escolhidos para governar o mundo eternamente. <emphasis>Viveremos eternamente</emphasis>. E voc� pode viver, tamb�m.</p><p>Ele franziu o cenho, preocupado. A mulher realmente pensava que era� O sofrimento para chegar a Tear talvez a tivesse deixado atordoada. Mas ela n�o parecia irritada. Estava calma, fria, segura. Sem pensar, Rand buscou <emphasis>saidin</emphasis>. Tentou toc�-lo� e atingiu uma parede que n�o podia ver ou sentir, mas que o impedia de tocar a Fonte.</p><p>��N�o pode ser.</p><p>Ela sorriu.</p><p>��Luz���disse Rand, surpreso���voc� � <emphasis>mesmo</emphasis> um deles.</p><p>Ele recuou lentamente. Se alcan�asse <emphasis>Callandor</emphasis>, pelo menos teria uma arma. Talvez n�o funcionasse como <emphasis>sa�angreal</emphasis>, mas poderia fazer as vezes de espada. Ser� que conseguiria usar uma espada contra uma mulher, contra Selene? N�o, contra Lanfear, contra um dos Abandonados.</p><p>As costas bateram com for�a em algo, e ele deu um giro para ver o que era. N�o havia nada. Uma parede de nada, e estava encostado nela. <emphasis>Callandor</emphasis> cintilava a menos de tr�s passadas de dist�ncia���do outro lado. Socou a barreira, frustrado. Era inflex�vel como uma rocha.</p><p>��N�o posso confiar plenamente em voc�, Lews Therin. Ainda n�o.���Ela se aproximou, e Rand considerou nocaute�-la. Era de longe maior e mais forte� Mas, bloqueado como estava, ela poderia envolv�-lo com o Poder feito um gatinho a brincar com uma bola de barbante.���E muito menos com isso���acrescentou ela, fazendo uma careta para <emphasis>Callandor</emphasis>.���Existem apenas duas outras mais poderosas que podem ser usadas por um homem. Uma delas, pelo menos, sei que ainda existe. N�o, Lews Therin. Ainda n�o confio em voc� com isso.</p><p>��Pare de me chamar assim���rosnou.���Meu nome � Rand. Rand al�Thor.</p><p>��Voc� � Lews Therin Telamon. Sim, fisicamente nada � igual, a n�o ser a estatura, mas eu reconheceria a pessoa por detr�s desses olhos mesmo que a visse no ber�o.���Ela riu de repente.���Como tudo teria sido t�o mais f�cil se eu tivesse encontrado voc� naquela �poca. Se eu estivesse livre para����A risada deu lugar a um olhar de ira.���Quer ver minha verdadeira apar�ncia? Voc� tamb�m n�o se lembra dela, lembra?</p><p>Rand tentou dizer que n�o, mas a l�ngua n�o funcionou. Certa vez, vira dois dos Abandonados juntos, Aginor e Balthamel, os dois que se soltaram primeiro, depois de tr�s mil anos sob o selo da pris�o do Tenebroso. Um deles tinha uma apar�ncia t�o terr�vel que nem parecia poss�vel ainda estar vivo. O outro escondia o rosto por tr�s de uma m�scara, ocultava cada pedacinho de carne como se n�o pudesse aguentar a ideia de ver a si mesmo ou de ser visto.</p><p>O ar se encrespou em torno de Lanfear, e ela mudou. Era mais velha do que ele, sem d�vida, por�m mais velha n�o era a palavra correta. Mais madura. Mais desenvolvida. At� mais bonita, se fosse poss�vel. Uma flor vi�osa, totalmente aberta, em compara��o a um bot�o. Mesmo sabendo o que ela era, Rand sentiu a boca secar e a garganta enrijecer.</p><p>Os olhos escuros examinaram o rosto do jovem, cheios de confian�a, mas com um toque de indaga��o, como se questionasse o que ele via. Qualquer que tivesse sido sua percep��o, pareceu t�-la deixado satisfeita. Lanfear sorriu outra vez.</p><p>��Eu estava enterrada muito fundo, em um sono sem sonhos onde o tempo n�o flu�a. O girar da Roda me ultrapassou. Agora voc� me v� pelo que sou, e tenho voc� em minhas m�os.���Ela passou uma unha pelo maxilar do jovem com tanta for�a que o fez se encolher.���O tempo de jogos e subterf�gios acabou, Lews Therin. H� muito tempo.</p><p>O est�mago dele se revirou.</p><p>��Vai me matar, ent�o? Que a luz a queime, eu�</p><p>��Matar voc�?���vociferou ela, incr�dula.���Matar voc�! Eu quero possuir voc�, para sempre. Voc� era meu muito antes de aquela p�lida magricela roub�-lo. Muito antes de ela sequer v�-lo. Voc� me amava!</p><p>��E voc� amava o poder!</p><p>Por um instante, Rand se sentiu atordoado. As palavras soavam verdadeiras, e sabia que eram. Mas de onde haviam vindo?</p><p>Selene���Lanfear���pareceu t�o surpresa quanto ele, mas recuperou-se depressa.</p><p>��Voc� aprendeu bastante. Fez muitas coisas que eu n�o acreditaria que pudesse fazer sem aux�lio. Mas ainda est� tateando por um labirinto �s cegas, tentando encontrar seu caminho, e pode acabar morrendo pela pr�pria ignor�ncia. Alguns dos outros o temem demais para esperar. Sammael, Rahvin, Moghedien. Talvez outros, mas esses sem d�vida. Eles vir�o atr�s de voc�. N�o tentar�o faz�-lo mudar de ideia. Chegar�o �s escondidas, v�o destru�-lo enquanto estiver dormindo. Porque o temem. Mas h� alguns que poderiam ensin�-lo, mostrar o que voc� um dia soube. Ent�o, ningu�m ousaria se opor a voc�.</p><p>��Ensinar? Quer que eu deixe um dos Abandonados me ensinar?���Um dos Abandonados. Um homem. Um homem que fora Aes Sedai na Era das Lendas, que conhecia canaliza��o, sabia como evitar armadilhas, sabia� O mesmo fora oferecido a ele antes.���N�o! Mesmo que outro me oferecesse, eu recusaria, e sabe por qu�? Eu me oponho a eles, e a voc�! Odeio tudo o que fizeram, tudo o que simbolizam.���<emphasis>Idiota!</emphasis>, pensou. <emphasis>Aprisionado aqui, bradando provoca��es feito o imbecil de alguma hist�ria que nem suspeita que possa irritar seu captor o bastante para que ele tome alguma provid�ncia.</emphasis> Por�m, Rand n�o conseguia se for�ar a retirar as palavras. Resoluto, seguiu adiante e piorou tudo.���Eu vou destruir voc�s, se for capaz. Voc�, o Tenebroso e cada um dos Abandonados!</p><p>Um brilho perigoso lampejou nos olhos da mulher e desapareceu.</p><p>��Sabe por que alguns de n�s temem voc�? Tem ideia? Porque temem que o Grande Senhor das Trevas d� a voc� um lugar acima do deles.</p><p>Rand surpreendeu a si mesmo ao soltar uma risada.</p><p>��Grande Senhor das Trevas? Voc� tamb�m n�o consegue dizer o nome verdadeiro? Com certeza n�o � por medo de atrair a aten��o dele, como as pessoas decentes. Ou �?</p><p>��Seria blasf�mia���respondeu ela, simplesmente.���Eles t�m raz�o em temer, Sammael e os outros. O Grande Senhor quer mesmo voc�. Deseja exalt�-lo acima de todos os outros homens. Ele me contou.</p><p>��Isso � rid�culo! O Tenebroso ainda est� preso em Shayol Ghul, ou eu estaria lutando Tarmon Gai�don neste exato instante. E, se ele souber que eu existo, vai querer me ver morto. Pretendo lutar com ele.</p><p>��Ah, ele sabe. O Grande Senhor sabe mais do que voc� pode imaginar. <emphasis>�</emphasis> poss�vel falar com ele. V� at� Shayol Ghul, entre no Po�o da Perdi��o, e poder� ouvi-lo. Poder� se banhar na presen�a dele.���Um brilho diferente cintilava no rosto dela. �xtase. A mulher respirava pelos l�bios entreabertos, e, por um momento, pareceu ver algo distante e magn�fico.���N�o h� palavras para descrever a experi�ncia. Voc� precisa vivenciar para saber. Precisa.���Ela o encarava outra vez, os olhos grandes, escuros e insistentes.���Ajoelhe-se diante do Grande Senhor, e ele o erguer� mais alto do que todos os outros. Ele o deixar� livre para reinar como desejar, desde que voc� se ajoelhe diante dele apenas uma vez. Para legitim�-lo. Nada mais que isso. Ele me contou. Asmodean o ensinar� a manejar o Poder sem ser morto, o ensinar� o que pode fazer com ele. Aceite a minha ajuda. Podemos destruir os outros. O Grande Senhor n�o vai se importar. Podemos destruir todos, at� Asmodean, depois que ele lhe ensinar tudo o que precisa saber. Voc� e eu podemos governar o mundo juntos para o Grande Senhor, para sempre.���Ela baixou a voz a um sussurro, com partes iguais de medo e �nsia.���Dois <emphasis>ter�angreal</emphasis> impressionantes foram feitos pouco antes do fim. Voc� pode usar um, e eu, o outro. Muito melhores do que aquela espada. O poder vai al�m da imagina��o. Com esses, poder�amos desafiar at� At� o pr�prio Grande Senhor. At� mesmo o Criador!</p><p>��Voc� est� louca���disse Rand, esgotado.���O Pai das Mentiras diz que vai me deixar livre? Eu nasci para combat�-lo. � por isso que estou aqui, para cumprir as Profecias. Eu vou lutar contra ele, e contra todos voc�s, at� a �ltima Batalha! At� meu �ltimo f�lego!</p><p>��Isso n�o � necess�rio. Uma profecia nada mais � do que o s�mbolo da esperan�a de um povo. Cumprir as Profecias s� o atar� a um caminho que levar� a Tarmon Gai�don e � morte. Moghedien ou Sammael podem destruir seu corpo. O Grande Senhor das Trevas pode destruir sua alma. Um final derradeiro e completo. Voc� nunca mais renascer�, n�o importa o quanto a Roda do Tempo gire!</p><p>��N�o!</p><p>Lanfear o analisou pelo que pareceu um longo segundo. Rand quase podia sentir a balan�a pesando as alternativas.</p><p>��Eu poderia lev�-lo comigo���disse, por fim.���Poderia faz�-lo entregar ao Grande Senhor tudo o que deseja ou em que acredita. Existem formas de fazer isso.</p><p>Ela parou, talvez para ver se suas palavras surtiam algum efeito. O suor escorria pelas costas de Rand, mas ele mantinha o rosto impass�vel. Teria de fazer algo, houvesse ou n�o alguma chance. Uma segunda tentativa de tocar <emphasis>saidin</emphasis> se revelou in�til, encontrou outra vez a barreira invis�vel. Deixou os olhos vagarem, pensativo. <emphasis>Callandor</emphasis> estava atr�s de si, t�o distante quanto o Oceano de Aryth. A faca de cintura jazia sobre uma mesa perto da cama, junto a uma raposa inacabada que estava esculpindo. Os caro�os de metal disformes zombavam dele acima da lareira, um homem em andrajos deslizando pelas portas com uma faca nas m�os, os livros espalhados por todos os cantos. Ele virou-se de volta para Lanfear, tenso.</p><p>��Voc� sempre foi teimoso���murmurou a Abandonada.���N�o o levarei ainda. Quero que venha a mim por vontade pr�pria. Ent�o ser� meu. Qual � o problema? Est� franzindo a testa.</p><p><emphasis>Um homem deslizando pelas portas com uma faca</emphasis>. Seus olhos passaram pelo sujeito quase sem enxerg�-lo. Instintivamente, empurrou Lanfear e tentou tocar a Fonte Verdadeira. O escudo que o bloqueava desapareceu assim que tocou o poder, e a espada surgiu em suas m�os como uma chama amarelo-avermelhada. Um homem avan�ou contra ele, a faca baixa e apontando para cima, pronto para desferir um golpe mortal. Foi dif�cil manter os olhos no sujeito, mas Rand deu um rodopio suave, e O Vento Sopra Sobre a Muralha agarrou a m�o do homem que segurava a faca e cravou-a no cora��o do atacante. Por um instante, Rand encarou olhos embotados, sem vida, enquanto o cora��o ainda batia. Depois puxou a l�mina de volta.</p><p>��Um Homem Cinza.���Rand soltou uma respira��o pelo que pareceu ser a primeira vez depois de horas. O cad�ver a seus p�s era horr�vel, sangrava no carpete trabalhado em arabescos, mas agora n�o era dif�cil fixar os olhos nele. Era sempre assim com os assassinos da Sombra. Quando eram percebidos, costumava ser tarde demais.���N�o faz sentido. Voc� n�o teria dificuldade para me matar. Por que me distrair para que um Homem Cinza viesse me atacar?</p><p>Lanfear o observava, receosa.</p><p>��Os Desalmados n�o t�m serventia para mim. Eu disse que h� diferen�as de opini�es, entre os Escolhidos. Acho que meus c�lculos estavam com um dia de atraso, mas ainda h� tempo de vir comigo. De aprender. De viver. Aquela espada.���Ela olhou, quase com desprezo.���Voc� n�o faz nem a d�cima parte do que � capaz. Ou vai tentar me matar agora? Soltei voc� para que se defendesse.</p><p>Sua voz e postura indicavam que ela aguardava um ataque, ou no m�nimo que estava pronta para dar um contragolpe, mas n�o foi isso que o deteve, nem o fato de ela ter soltado as amarras. Ela era um dos Abandonados, servira o mal havia tanto tempo que fazia uma irm� Negra parecer um beb� rec�m-nascido. Ainda assim, Rand enxergava uma mulher. Chamou-se de todos os sin�nimos de tolo que conhecia, mas n�o era capaz de fazer mal a ela. Quem sabe se ela tentasse mat�-lo. Quem sabe. Mas Lanfear permanecia ali parada, olhando. Esperando. Sem d�vida pronta para fazer com o Poder coisas que ele sequer imaginava poss�veis, se tentasse det�-la. Rand conseguira bloquear Elayne e Egwene, mas aquilo fora um dos atos que fizera sem pensar, e a forma como fizera estava enterrada em algum lugar da mente. S� conseguia lembrar que o fizera, n�o como. Pelo menos agarrava <emphasis>saidin</emphasis> com for�a. A mulher n�o o surpreenderia outra vez daquele jeito. A m�cula que revirava seu est�mago n�o era nada. <emphasis>Saidin</emphasis> era vida, talvez em mais de um aspecto.</p><p>Um pensamento s�bito ebuliu dentro dele como um jorro quente. Os Aiel. Seria imposs�vel at� mesmo para um Homem Cinza passar sorrateiro pelas portas vigiadas por uma d�zia de Aiel.</p><p>��O que voc� fez com eles?���A voz rangia enquanto ele ia em dire��o �s portas, mantendo os olhos fixos em Lanfear. Se ela usasse o Poder, talvez Rand recebesse algum tipo de aviso.���O que foi que voc� fez com os Aiel do lado de fora?</p><p>��Nada���retrucou ela, com frieza.���N�o v� l� fora. Talvez isso seja s� um teste para sua vulnerabilidade, mas at� um teste pode mat�-lo, se voc� for bobo.</p><p>Ele abriu a porta da esquerda e deparou-se com o caos.</p></section><section><title><p>10</p><p><image l:href="#3"/></p><p>A Pedra resiste</p></title><p>V�rios Aiel jaziam mortos aos p�s de Rand em meio aos corpos de tr�s homens muito comuns vestindo cal�as e casacos muito comuns. Apesar da apar�ncia comum, seis Aiel���a guarda inteira���foram assassinados, alguns claramente antes de perceberem o que estava acontecendo, e cada um dos homens de apar�ncia comum tinha pelo menos duas lan�as Aiel cravadas no corpo.</p><p>Mas isso n�o era nem a metade. Assim que Rand abriu a porta, o estrondo de batalha chegou at� ele: gritos, uivos, o tinido de a�o contra a�o surgindo por entre as colunas de pedra vermelha. Sob os lustres dourados, os Defensores na antessala lutavam por suas vidas contra figuras corpulentas de malhas pretas, cabe�as e ombros mais altos que eles. Eram corpos de homens gigantescos, mas com cabe�as e faces distorcidas por chifres ou penas, com focinhos ou bicos onde devia haver boca e nariz. Trollocs. Avan�avam tanto sobre patas e cascos quanto cal�ados em botas, dilacerando os homens com estranhos machados de ponteira, l�minas curvas e espadas em forma de foice viradas para o lado errado. E, com eles, um Myrddraal, um homem de movimentos fluidos, a pele branca como a de uma larva, vestindo uma armadura negra. Parecia a morte encarnada em um corpo sem sangue.</p><p>O gongo de alarme soou em algum ponto da Pedra, depois parou, com rapidez letal. Outro ressoou, e depois outro, feito sirenes agudas.</p><p>Os Defensores lutavam, ainda superando os Trollocs em n�mero, mas havia mais homens do que Trollocs abatidos. Quando os olhos de Rand os encontraram, o Myrddraal retalhava metade da cara do capit�o taireno com apenas uma das m�os, enquanto a outra enfiava uma l�mina negra como a morte na garganta de um Defensor, escapando das lan�as dos outros tairenos feito uma serpente. Os Defensores enfrentavam o que pensavam ser apenas contos de viajantes para amedrontar criancinhas. Estavam a ponto de sucumbir. Um dos homens, que perdera o capacete, jogou longe a lan�a e tentou fugir, mas teve a cabe�a aberta feito um mel�o pelo machado descomunal do Trolloc. Outro encarou o Myrddraal e saiu em disparada, gritando. A criatura das Sombras deu um salto sinuoso para intercept�-lo. Em um instante, todos os humanos estariam correndo.</p><p>��Desvanecido!���gritou Rand.���Que tal enfrentar a mim, Desvanecido?</p><p>O Myrddraal parou como se sequer tivesse se movido e voltou a face p�lida e sem olhos para ele. Com aquele olhar, uma onda de medo percorreu seu corpo, envolvendo a bolha de calma e frieza que o encapsulava quando ele abra�ava <emphasis>saidin</emphasis>. Nas Terras da Fronteira existia um ditado: �O olhar do Sem-olhos � o medo.� J� houve um tempo em que ele acreditava que os Desvanecidos cavalgavam as sombras como cavalos e desapareciam ao virar de lado. Essas antigas cren�as n�o estavam t�o erradas.</p><p>O Myrddraal deslizou em dire��o a ele, e Rand saltou por cima dos homens mortos diante da porta para encontr�-lo, derrapando as botas no m�rmore negro cheio de sangue ao aterrissar.</p><p>��Pela Pedra!���gritou, enquanto saltava.���A Pedra resiste!</p><p>Eram os gritos de guerra que ele ouvira na noite em que a Pedra n�o resistira.</p><p>Pensou ter ouvido um grito exaltado de �idiota!� vindo do quarto de onde sa�ra, mas n�o havia tempo para pensar em Lanfear ou no que ela poderia fazer. Aquela derrapagem quase lhe custara a pr�pria vida. Sua l�mina amarelo-avermelhada aparou a negra do Myrddraal enquanto ele recuperava o equil�brio.</p><p>��Pela Pedra! A Pedra resiste!���Ele precisava manter os Defensores unidos, ou teria de enfrentar sozinho o Myrddraal e vinte Trollocs.���A Pedra resiste!</p><p>��A Pedra resiste!���Ele ouviu um eco, depois outro:</p><p>��A Pedra resiste!</p><p>O Desvanecido se movia com a fluidez de uma serpente, ilus�o que era intensificada pelas placas de armadura negra superpostas em seu peito. Mas nem mesmo uma cobra lan�a-negra seria capaz de um golpe t�o ligeiro. Durante um tempo, tudo o que Rand p�de fazer foi evitar que a ponta da l�mina do Desvanecido atingisse seu corpo desprotegido. Aquele metal negro poderia causar feridas pustulentas, quase t�o dif�ceis de serem Curadas quanto a que ardia na lateral de seu corpo. Cada vez que o a�o negro forjado em Thakan�dar, sob as colinas de Shayol Ghul, encontrava a l�mina amarelo-avermelhada forjada pelo Poder, um clar�o reluzia no sal�o, um brilho forte azul esbranqui�ado que chegava a doer os olhos.</p><p>��Desta vez voc� vai morrer���anunciou o Myrddraal, a voz mais parecia o som do desintegrar de folhas mortas.���Darei sua carne aos Trollocs e tomarei suas mulheres para mim.</p><p>Rand lutou com mais frieza e desespero do que nunca. O Desvanecido sabia manejar a espada. Ent�o houve um momento em que ele conseguiu aplicar um golpe na l�mina negra, n�o apenas afast�-la. Com um sibilo parecido com gelo em metal derretido, a l�mina amarelo-avermelhada ceifou a negra. O golpe seguinte separou a cabe�a sem olhos dos ombros. O choque dos ossos quebrando fez seus bra�os estremecerem. Sangue escuro jorrava do pesco�o. Mas a coisa n�o caiu. Atacando �s cegas com a espada quebrada, a figura sem cabe�a andava, tr�pega, golpeando o ar a esmo.</p><p>Quando a cabe�a do Desvanecido saiu rolando pelo ch�o, os Trollocs remanescentes tamb�m ca�ram, guinchando, chutando, agarrando as cabe�as com as m�os de pelos �speros. Era uma fraqueza dos Myrddraal e Trollocs. Nem mesmo os Desvanecidos confiavam nos Trollocs, por isso conectavam-se a eles de uma forma que Rand era incapaz de compreender. Ao que parecia, isso garantia a lealdade daquelas criaturas, mas os que eram conectados a um Myrddraal n�o sobreviviam por muito tempo ap�s a sua morte.</p><p>Os Defensores que ainda estavam de p�, cerca de duas dezenas, n�o esperaram. Em grupos de dois ou tr�s, golpearam os Trollocs com as lan�as, repetidas vezes, at� que parassem de se mover. Alguns tentavam derrubar o Myrddraal, mas a criatura se debatia loucamente, independentemente de onde fosse atingida. Quando os Trollocs ca�ram em sil�ncio, foi poss�vel ouvir os choros e gemidos dos poucos sobreviventes humanos. Ainda havia mais homens do que Criaturas da Sombra ca�dos no ch�o. O m�rmore negro estava escorregadio, coberto de sangue, apesar de quase n�o dar para notar, em contraste com as pedras negras.</p><p>��Deixem���disse Rand aos Defensores, que tentavam executar o Myrddraal.���Ele j� est� morto. Os Desvanecidos simplesmente n�o admitem que morreram.���Lan explicara isso, em um tempo que parecia muito distante, e ele pr�prio j� tivera provas.���V�o cuidar dos feridos.</p><p>Observando a forma sem cabe�a que se debatia, o torso todo aberto em feridas, os homens estremeceram e se afastaram, murmurando sobre os Espreitadores. Era como o povo chamava os Desvanecidos em Tear, nas hist�rias infantis. Alguns come�aram a vasculhar os humanos ca�dos em busca de sobreviventes, puxando para longe os que n�o podiam ficar de p� e ajudando os que eram capazes de se levantar. Muitos eram deixados onde estavam. Ataduras improvisadas a partir das camisas ensanguentadas dos pr�prios homens eram o �nico conforto que podia ser oferecido naquele momento.</p><p>Eles n�o pareciam t�o belos quanto antes, esses tairenos. As placas peitorais e dorsais j� n�o reluziam, estavam amassadas e arranhadas. Talhos encharcados de sangue arruinavam o que antes eram finos casacos e cal�as pretos e dourados. Alguns estavam sem capacete, e mais de um se apoiava na pr�pria lan�a, como se ela fosse a �nica coisa a mant�-lo de p�. Talvez fosse. Respiravam com dificuldade, uma express�o de desvario nos rostos, uma mistura de profundo terror e torpor cego que aflige os homens em batalha. Encaravam Rand, indecisos���com olhares temerosos, fugidios���como se ele pr�prio pudesse ter convocado aquelas criaturas da Praga.</p><p>��Limpem as lan�as���mandou o Drag�o.���O sangue de um Desvanecido queima o a�o feito �cido, se permanecer por muito tempo.</p><p>A maioria se moveu lentamente para obedec�-lo, usando o que estava dispon�vel, as mangas dos casacos dos mortos.</p><p>Mais sons de luta ecoavam pelos corredores, gritos distantes, o clangor surdo de metal contra metal. Eles o haviam obedecido duas vezes, era a hora de ver se fariam algo mais. Virando as costas, Rand avan�ou pela antessala em dire��o ao som da batalha.</p><p>��Venham comigo���ordenou. Brandiu a espada forjada em fogo para lembrar aos homens quem era, torcendo para que a lembran�a n�o acabasse levando uma lan�a �s suas costas. Precisava correr o risco.���A Pedra resiste! Pela Pedra!</p><p>Por um instante, seus passos ocos foram o �nico som dentro do recinto cheio de colunas. Ent�o, botas come�aram a segui-lo.</p><p>��Pela Pedra!���gritou um homem, e depois outro:</p><p>��Pela Pedra e pelo Lorde Drag�o!</p><p>Outros repetiram:</p><p>��Pela Pedra e pelo Lorde Drag�o!</p><p>Acelerando o passo, Rand seguiu trotando, conduzindo seu ex�rcito ensanguentado de vinte e tr�s homens �s profundezas da Pedra.</p><p>Onde estava Lanfear, e que papel teria desempenhado, nisso tudo? Ele tinha pouco tempo para reflex�es. Havia homens mortos espalhados pelos corredores da Pedra, ca�dos sobre po�as do pr�prio sangue, um aqui, mais dois ou tr�s adiante. Defensores, servi�ais, Aiel. Tamb�m viu mulheres ca�das, tanto nobres em roupas de linho quanto servi�ais cobertas de l�. Os Trollocs n�o se importavam com quem matavam, sentiam apenas prazer. Myrddraal eram piores. Os Meio-homens se regozijavam com a dor e a morte.</p><p>Um pouco mais adiante, a Pedra de Tear fervilhava. Bandos de Trollocs avan�avam, selvagens, pelos corredores, alguns sob a lideran�a de um Myrddraal, outros sozinhos, lutando contra Aiel ou Defensores, abatendo os desarmados, em busca de mais v�timas. Rand conduzia seus homens em dire��o a qualquer criatura da Sombra que encontrassem, a espada dilacerando pele grossa e malha negra com igual facilidade. Apenas os Aiel encaravam um Desvanecido sem recuar. Os Aiel e Rand. Ele passava pelos Trollocs para chegar aos Desvanecidos. Algumas vezes, um Myrddraal levava consigo uma ou duas dezenas de Trollocs ao morrer, outras, n�o levava nenhum.</p><p>Alguns Defensores ca�ram e n�o se levantavam, mas os Aiel se juntaram a eles, quase dobrando o n�mero. Grupos de homens se dividiam em batalhas furiosas, que seguiam com urros e estr�pitos, feito uma forja ensandecida. Outros homens ca�am atr�s de Rand, eram separados ou substitu�dos, at� n�o restar nenhum dos originais. �s vezes ele lutava sozinho, ou avan�ava por algum corredor vazio exceto por ele e os mortos, seguindo os sons distantes do combate.</p><p>Em dado momento, passando com dois Defensores por uma colunata que dava para uma c�mara comprida e cheia de portas, viu Moiraine e Lan rodeados por Trollocs. A Aes Sedai estava de p�, a cabe�a erguida, batalhando como a rainha de alguma hist�ria. As criaturas bestiais explodiam em chamas ao redor e na mesma hora eram substitu�das por outras, que irrompiam pelas portas, seis ou oito por vez. A espada de Lan dava conta das que escapavam do fogo de Moiraine. O Guardi�o tinha sangue dos dois lados do rosto, mas deslizava por entre as criaturas como se praticasse luta diante de um espelho. Ent�o, um Trolloc com focinho de lobo golpeou com uma lan�a tairena as costas de Moiraine. Lan deu um giro, como se tivesse olhos nas costas, e arrancou a perna do Trolloc na altura do joelho. A criatura desabou, uivando, mas conseguiu enfiar a ponta da lan�a em Lan, enquanto outro golpeou o Guardi�o, meio sem jeito, com as costas do machado, fazendo seus joelhos cederem.</p><p>Rand n�o p�de fazer nada, pois naquele instante cinco Trollocs se lan�aram para ele e seus dois companheiros, com focinhos, presas de javalis e chifres de carneiros, empurrando os humanos para fora da colunata apenas com o peso da investida. Cinco Trollocs teriam sido capazes de matar tr�s homens sem dificuldade, mas um dos homens era Rand, com uma espada que atingia a malha das criaturas como se fosse tecido. Um dos Defensores morreu, e o outro saiu atr�s de um Trolloc ferido, o �nico sobrevivente dos cinco. Quando Rand retornou correndo � colunata, havia cheiro de carne queimada vindo do aposento abaixo e muitos corpos queimados no ch�o, mas nenhum sinal de Moiraine ou de Lan.</p><p>Foi assim a disputa pela Pedra. Ou a disputa pela vida de Rand. Batalhas surgiam e desapareciam por onde haviam come�ado, ou terminavam quando um dos lados sucumbia. N�o havia apenas homens lutando contra Myrddraal. Havia homens lutando contra homens, Amigos das Trevas se colocavam ao lado de criaturas da Sombra, sujeitos malvestidos, com cara de ex-soldados e agitadores de tavernas. Pareciam ter tanto medo dos Trollocs quanto os tairenos, mas matavam t�o indiscriminadamente quanto eles, por onde passavam. Por duas vezes, Rand de fato viu Trollocs lutando contra Trollocs. S� podia presumir que os Myrddraal haviam perdido o controle sobre as criaturas, e a sede de sangue os sobrepujara. Se desejassem acabar uns com os outros, que assim fosse.</p><p>Ent�o, outra vez sozinho e � procura, ele dobrou um corredor e topou com tr�s Trollocs, cada um com o dobro de sua largura e quase o dobro da altura. Um deles, com um bico curvo de �guia projetado no que poderia ser um rosto humano, arrancava um dos bra�os do corpo de uma nobre tairena, enquanto os outros dois assistiam � cena, �vidos, lambendo os focinhos. Trollocs comiam qualquer coisa, desde que fosse carne. Era dif�cil saber quem ficara mais surpreso, Rand ou os Trollocs, mas foi ele quem se recuperou primeiro.</p><p>O que tinha o bico de �guia desabou, depois que a espada de Rand lhe atravessou a malha e a barriga. A forma chamada Lagarto no Espinheiro teria bastado para dar conta dos outros dois, mas aquele primeiro Trolloc ca�do, ainda se debatendo, deu um coice no p� de Rand, fazendo-o cambalear. A l�mina de fogo p�de apenas tra�ar um talho na malha do alvo, bem na trajet�ria do segundo Trolloc, que desabou, o focinho de lobo rosnando para o nada. A criatura o esmagou contra os azulejos de pedra, prendendo tanto bra�o quanto espada. O que ainda estava de p�, ergueu o machado com ponteira, abrindo o mais pr�ximo de um sorriso que focinho e presas de javali permitiam. Rand lutou para se mover, para respirar.</p><p>Uma espada curva em forma de foice rasgou o focinho de javali at� o pesco�o.</p><p>Dando um pux�o para libertar a l�mina, um quarto Trolloc arreganhou os dentes para ele em um rosnado, as orelhas tremulando atr�s dos chifres. Ent�o deu um salto e foi embora, os cascos afiados estalando nos azulejos do ch�o.</p><p>Rand, meio at�nito, saiu de debaixo do Trolloc morto. <emphasis>Um Trolloc me salvou. Um Trolloc?</emphasis> Estava coberto de sangue daquelas criaturas, um l�quido espesso e escuro. Bem mais � frente, no corredor, na dire��o oposta de onde viera a criatura salvadora com chifres de bode, um brilho branco-azulado cintilou onde dois Myrddraal se movimentavam. Lutavam entre si, t�o r�pido que seus bra�os n�o passavam de borr�es. Um fez o outro recuar para um cruzamento com outro corredor, e a luz intermitente sumiu de vista. <emphasis>Estou louco. � isso o que est� acontecendo. Eu estou louco, e isso � um sonho insano.</emphasis></p><p>��Est� arriscando tudo, saindo assim loucamente com essa� essa espada.</p><p>Rand virou-se e viu Lanfear. Ela assumira outra vez a apar�ncia de uma mo�a, n�o mais velha do que ele, talvez mais jovem. Ergueu as saias brancas e passou por cima da mulher tairena esquartejada. Pela express�o em seu rosto, poderia estar passando por sobre um tronco de �rvore.</p><p>��Est� construindo uma cabana de gravetos���prosseguiu a mulher���quando poderia ter pal�cios de m�rmore em um estalar de dedos. Poderia tomar as vidas e as supostas almas dos Trollocs sem o menor esfor�o, em vez disso permite que eles quase o matam. Precisa aprender. Venha comigo.</p><p>��Isso foi coisa sua?���inquiriu.���Aquele Trolloc me salvando? Aqueles Myrddraal? Foi?</p><p>Ela o observou por um instante e balan�ou a cabe�a delicadamente, com pesar.</p><p>��Se eu levar o cr�dito, voc� vai esperar que eu fa�a de novo, e isso pode ser mortal. Nenhum dos outros tem muita certeza de onde estou, e prefiro assim. N�o espere ajuda direta vinda de mim.</p><p>��Esperar ajuda?���grunhiu o rapaz.���Voc� quer que eu me volte para a Sombra. N�o vai me fazer esquecer o que voc� � com palavras gentis.</p><p>Rand canalizou, e a mulher foi arremessada at� uma tape�aria de parede com tanta for�a que soltou um gemido. Ele a segurou ali, estendida sobre a trama de uma cena de ca�a, os p�s acima do ch�o e o vestido branco como a neve todo achatado. Como foi que conseguira bloquear Egwene e Elayne? Precisava lembrar.</p><p>De repente ele voou pelo corredor e se espatifou na parede oposta a Lanfear, esmagado como um inseto por <emphasis>algo</emphasis> que mal o deixava respirar.</p><p>J� Lanfear parecia n�o ter problema algum para respirar.</p><p>��Tudo o que pode fazer, Lews Therin, eu tamb�m posso. E melhor.���Ainda que estivesse presa � parede, ela parecia imperturb�vel. O ru�do de luta ressurgiu em algum ponto pr�ximo, depois esvaneceu, � medida que a batalha foi se afastando.���Voc� usa a metade da menor fra��o do que � capaz e foge do que lhe permitiria esmagar todos que se aproximassem. Onde est� <emphasis>Callandor</emphasis>, Lews Therin? Ainda em seus aposentos, como um enfeite in�til? Acha que as suas m�os s�o as �nicas capazes de empunh�-la, agora que a libertou? Se Sammael estiver aqui, ele vai tom�-la e us�-la contra voc�. At� Moghedien a tomaria, para impedi-lo de us�-la. A mulher lucraria muito em troc�-la com qualquer homem Escolhido.</p><p>Ele lutou contra o que o prendia. Nada se mexia al�m de sua cabe�a, que se sacudia de um lado para o outro. <emphasis>Callandor</emphasis> nas m�os de um homem Abandonado. O pensamento o deixou meio louco de medo e frustra��o. Rand canalizou, tentou remover o que o prendia, mas n�o havia nada para remover. Ent�o, de repente, a coisa desapareceu. Ele deu uma guinada para longe da parede, ainda lutando, antes de perceber que estava livre. E n�o fora obra sua.</p><p>Olhou para Lanfear. Ela ainda pendia ali, t�o complacente quanto se estivesse tomando ar na margem de um c�rrego. Tentava aquiet�-lo, engan�-lo, para que ele baixasse a guarda. Rand hesitou diante dos fluxos que a continham. Se os soltasse e a liberasse, a mulher poderia derrubar metade da Pedra tentando fugir���isso se algum Trolloc no caminho n�o acabasse por mat�-la confundindo-a com algu�m de dentro da Pedra. O pensamento n�o deveria t�-lo perturbado���n�o a morte de uma Abandonada���mas a ideia de deixar uma mulher, ou qualquer pessoa, � merc� dos Trollocs lhe causava repulsa. Uma olhadela para ela, serena e impass�vel, o fez mudar de ideia. Ningu�m nem nada na Pedra faria mal �quela mulher enquanto ela fosse capaz de canalizar. Se ele pudesse encontrar Moiraine para blind�-la�</p><p>Mais uma vez, Lanfear tomou a decis�o das m�os dele. O impacto de fluxos divididos o sacudiu, e ela pousou no ch�o com delicadeza. Rand assistia enquanto a mulher se afastava da parede, alisando as saias com muita calma.</p><p>��Voc� n�o pode fazer isso���disse, ofegante como um tolo, e ela sorriu.</p><p>��Eu n�o preciso enxergar um fluxo para desfaz�-lo, se souber o que � e onde est�. Sabe, voc� tem muito o que aprender. Gosto de voc� assim. Sempre foi muito empertigado e seguro de si para o meu gosto. Era sempre melhor quando voc� tinha um pouco de d�vida em rela��o aos seus passos. Ent�o, est� se esquecendo de <emphasis>Callandor</emphasis>?</p><p>Rand ainda hesitava. Uma Abandonada estava ao seu lado. E n�o havia absolutamente nada que pudesse fazer. Ele se virou e correu para <emphasis>Callandor</emphasis>. A risada de Lanfear o acompanhou.</p><p>Dessa vez, ele n�o se virou para enfrentar Trollocs ou Myrddraal nem reduziu a marcha ensandecida pela Pedra, a n�o ser que cruzassem seus passos���era quando a espada esculpida em fogo abria caminho. Viu Perrin e Faile, ele de machado na m�o, ela atr�s, com as facas. Os Trollocs pareciam relutantes em encarar tanto os olhos amarelos de Perrin quanto a l�mina de seu machado. Rand os deixou para tr�s sem pensar duas vezes. Se um dos Abandonados tomasse <emphasis>Callandor</emphasis>, nenhum dos dois viveria para ver o sol nascer.</p><p>Sem f�lego, ele se arrastou pela antessala cheia de colunas, saltando por sobre os mortos que ainda jaziam, tanto Defensores quanto Trollocs, na �nsia de chegar at� <emphasis>Callandor</emphasis>. Abriu ambas as portas com um solavanco. A Espada Que N�o � Espada pairava em seu suporte de douraduras e pedras preciosas, cintilando � luz do sol poente. Esperando por ele.</p><p>Agora que a tinha � vista, a salvo, estava quase relutante em toc�-la. J� utilizara <emphasis>Callandor</emphasis> para seu prop�sito original. Uma �nica vez. Sabia o que o aguardava se fizesse novamente, se a usasse para atrair a Fonte Verdadeira em um n�vel muito maior do que qualquer ser humano poderia sozinho. Sentia-se quase incapaz de soltar a l�mina amarelo-avermelhada. Quando a espada desapareceu, Rand quase a chamou de volta.</p><p>Arrastando os p�s, ele contornou o corpo do Homem Cinza e pousou as m�os no cabo de <emphasis>Callandor</emphasis> com delicadeza. Era frio como cristal havia muito na escurid�o, mas n�o suave a ponto de escorregar das m�os.</p><p>Algo o fez olhar para cima. Havia um Desvanecido parado na porta, hesitante, o rosto p�lido e sem olhos cravado em <emphasis>Callandor</emphasis>.</p><p>Rand buscou <emphasis>saidin</emphasis>. Atrav�s de <emphasis>Callandor</emphasis>. A Espada Que N�o � Espada reluzia em suas m�os, como se ele segurasse o sol do meio-dia. O Poder o preencheu, atingindo seu corpo com o peso de um trov�o. A m�cula jorrou por dentro dele em uma torrente de escurid�o. Rocha fundida corria em suas veias, a frieza dentro dele seria capaz de congelar o sol. Precisava usar aquilo, ou explodiria como um mel�o podre.</p><p>O Myrddraal virou-se para fugir, e de s�bito as roupas e armadura negras desabaram no ch�o, deixando part�culas de p� oleoso flutuando no ar.</p><p>Rand sequer percebera que estava canalizando. N�o seria capaz de explicar o que fizera, nem se sua vida dependesse disso. Por�m, nada podia amea��-lo enquanto estivesse empunhando <emphasis>Callandor</emphasis>. O Poder pulsava dentro dele como o cora��o do mundo. Com <emphasis>Callandor</emphasis> nas m�os, ele podia fazer qualquer coisa. Um fluxo de canaliza��o varreu os restos mortais do Myrddraal para fora da antessala, e tamb�m as roupas e a armadura. Um fiozinho de fluxo incinerou tudo. Ele avan�ou � ca�a dos que o perseguiam.</p><p>Alguns haviam chegado at� a antessala. Outro Desvanecido e um grupo de Trollocs acovardavam-se antes de chegar �s colunas do lado oposto, encarando as cinzas que pairavam pelo ar, os �ltimos fragmentos do Myrddraal e de suas roupas. Ao verem Rand com <emphasis>Callandor</emphasis> flamejante nas m�os, os Trollocs uivaram feito bestas. O Desvanecido permanecia paralisado, em choque. Rand n�o lhes deu chance de fugir. Caminhando a passos lentos em sua dire��o, canalizou, e do m�rmore negro sob as criaturas da Sombra irromperam chamas t�o quentes que ele precisou proteger o corpo com as m�os. Quando Rand alcan�ou o grupo, as chamas j� haviam desaparecido. Nada restava al�m de c�rculos emba�ados no m�rmore.</p><p>Adentrou � Pedra mais uma vez, e cada Trolloc, cada Myrddraal que encontrou morreu coroado por chamas. Queimou os que lutavam contra Aiel ou tairenos, e tamb�m os que matavam servi�ais que tentavam se defender com lan�as ou espadas apanhadas dos mortos. Queimava-os enquanto corriam, fossem perseguindo outras v�timas ou fugindo delas. Come�ou a caminhar mais depressa, trotando, depois correndo, passando por cima dos feridos, ca�dos e abandonados, e por cima dos mortos. N�o era o bastante, n�o conseguia avan�ar com tanta rapidez. Apesar de matar Trollocs aos borbot�es, ainda sobravam muitos, mesmo que fugidos.</p><p>Parou de repente em um largo corredor, rodeado por corpos. Precisava fazer algo���algo mais. O Poder deslizava por seus ossos, pura ess�ncia de fogo. Algo mais. O Poder congelava sua medula. Algo para matar todos eles, todos de uma vez. A m�cula de <emphasis>saidin</emphasis> corria por sobre ele, uma montanha de podrid�o e imund�cie que amea�ava enterrar sua alma. Erguendo <emphasis>Callandor</emphasis>, recorreu � Fonte, recorreu a ela at� sentir que era capaz de gritar gritos de chama congelada. Precisava matar todos.</p><p>Bem abaixo do teto, logo acima de sua cabe�a, o ar come�ou a revolver lentamente, girando mais depressa, fervilhando em faixas vermelhas, pretas e prateadas. Girava em torvelinho e ru�a para dentro, fervendo com mais intensidade, gemendo ao rodopiar, cada vez menor.</p><p>O suor corria pelo rosto de Rand, que observava. N�o fazia ideia do que era, s� sabia que incont�veis fluxos correntes o conectavam � massa. Tinha massa, um peso que crescia mais e mais enquanto a <emphasis>coisa</emphasis> desabava para dentro de si mesma. <emphasis>Callandor</emphasis> tamb�m se abrilhantava cada vez mais, j� t�o reluzente que do�a olh�-la. Ele fechou os olhos, e a luz ardente ultrapassou as p�lpebras. O Poder corria por ele, uma torrente tempestuosa que amea�ava arrast�-lo inteiro. Precisava soltar. Precisava. For�ou-se a abrir os olhos, e foi como olhar para todos os trov�es do mundo reduzidos ao tamanho da cabe�a de um Trolloc. Precisava� precisava� precisava�</p><p><emphasis>Agora.</emphasis> O pensamento flutuava como uma gargalhada nos limites de sua consci�ncia. Ele separou os fluxos que sa�am de seu corpo e deixou a coisa ainda girando, gemendo como uma broca a perfurar um osso. <emphasis>Agora.</emphasis></p><p>E os raios desceram, lampejando pelo teto, avan�ando pelo lado esquerdo e pelo direito como listras prateadas. Um Myrddraal saiu de um corredor lateral, e, antes que conseguisse dar o segundo passo, meia d�zia de faixas reluzentes o golpearam, destruindo-o. As outras faixas continuaram avan�ando, espalhando-se pelas ramifica��es do corredor, substitu�das por mais e mais erup��es a cada segundo.</p><p>Rand n�o tinha ideia do que fizera, nem de como aquilo funcionava. S� conseguia ficar ali, tremendo por causa do Poder que o preenchia e da necessidade de us�-lo. Mesmo que o destru�sse. Podia sentir Trollocs e Myrddraal morrendo, sentir os raios caindo e os matando. Era capaz de mat�-los em todos os lugares, em todos os lugares do mundo. Sabia disso. Com <emphasis>Callandor</emphasis>, podia fazer qualquer coisa. E, com a mesma certeza, sabia que poderia morrer se tentasse.</p><p>Os raios esvaneceram e morreram com a �ltima criatura da Sombra. A massa girante implodiu com um baque alto de ar corrente. Mas <emphasis>Callandor</emphasis> ainda reluzia como o sol. Rand tremia com o Poder.</p><p>Moiraine estava l�, a doze passadas de dist�ncia, encarando-o. O vestido estava limpo, cada vinco de seda azul no lugar, mas algumas mechas dos cabelos estavam desarrumadas. Ela parecia cansada���e chocada.</p><p>��Como�? O que voc� fez, eu acreditava que n�o fosse poss�vel.���Lan veio quase trotando pelo corredor, espada em punho, rosto ensanguentado, casaco rasgado. Sem tirar os olhos de Rand, Moiraine ergueu a m�o, fazendo o Guardi�o parar pr�ximo a ela. E a certa dist�ncia de Rand. Como se o rapaz fosse perigoso demais at� para que Lan se aproximasse.���Voc� est� bem, Rand?</p><p>O rapaz desviou o olhar, que acabou recaindo sobre o corpo de uma menina de cabelos escuros, quase ainda uma crian�a. Ela estava deitada de barriga para cima, os olhos arregalados encarando o teto, sangue escuro no decote do vestido. Com tristeza, Rand se inclinou e afastou uns fios de cabelo do rosto da garota. <emphasis>Luz, � s� uma crian�a. Cheguei tarde demais. Por que n�o fiz isso mais cedo? Uma crian�a!</emphasis></p><p>��Vou garantir que algu�m cuide dela, Rand���disse Moiraine, com a voz gentil.���Voc� n�o pode ajud�-la agora.</p><p>Sua m�o sacudiu <emphasis>Callandor</emphasis> com tanta for�a que ele mal conseguia segur�-la.</p><p>��Com isso, eu posso fazer qualquer coisa.���A voz era dura at� para seus pr�prios ouvidos.���Qualquer coisa!</p><p>��Rand!���retrucou Moiraine, com urg�ncia na voz.</p><p>Ele n�o deu ouvidos. O Poder estava dentro dele. <emphasis>Callandor</emphasis> cintilava, e ele <emphasis>era</emphasis> o Poder. Canalizou, direcionando fluxos para o corpo da crian�a, buscando, tentando, revirando. A menina deu uma guinada e se levantou, os bra�os e pernas estranhamente r�gidos e desconjuntados.</p><p>��Rand, voc� n�o pode fazer isso. N�o isso!</p><p><emphasis>Respirar. Ela precisa respirar.</emphasis> O peito da garota subia e descia. <emphasis>Cora��o. Tem que bater.</emphasis> O sangue, j� grosso e escuro, jorrou da ferida no peito. <emphasis>Viva. Viva, que se queime! Eu n�o queria que fosse tarde demais.</emphasis> Os olhos dela o encararam, embotados. Sem vida. L�grimas desciam pelo rosto de Rand.</p><p>��Ela tem que viver! Cure a garota, Moiraine. N�o sei fazer. Cure a garota!</p><p>��N�o h� Cura para a morte, Rand. Voc� n�o � o Criador.</p><p>Encarando aqueles olhos mortos, o rapaz retirou os fluxos lentamente. O corpo estava r�gido. O corpo. Ele jogou a cabe�a para tr�s e uivou, louco como um Trolloc. Um fogo tran�ado silvou pelas paredes e o teto enquanto ele se debatia de dor e frustra��o.</p><p>Desconsolado, soltou <emphasis>saidin</emphasis>, afastou-o. Era como empurrar um rochedo, como repelir a vida. Suas for�as se exauriram junto com o Poder. No entanto, a m�cula permanecia, o peso de uma mancha negra sobre seus ombros. Precisou fincar <emphasis>Callandor</emphasis> nos azulejos do ch�o e apoiar-se nela para conseguir se manter de p�.</p><p>��Os outros.���Era dif�cil falar, a garganta do�a.���Elayne, Perrin, o restante? Eu tamb�m cheguei tarde demais para eles?</p><p>��Voc� n�o chegou tarde demais���disse Moiraine, muito calma. Mas n�o se aproximava, e Lan parecia preparado para saltar entre ela e Rand.���Voc� n�o deve�</p><p>��Eles ainda est�o vivos?���gritou Rand.</p><p>��Est�o���garantiu a mulher.</p><p>Ele assentiu, exausto e aliviado. Tentou n�o encarar o corpo da menina. Tr�s dias de espera para aproveitar alguns beijos roubados. Se tivesse feito algum movimento tr�s dias antes� Mas aprendera coisas durante esses tr�s dias, coisas que poderia usar se fosse capaz de coloc�-las em ordem. Se. Pelo menos n�o fora tarde demais para os amigos. N�o fora tarde demais para eles.</p><p>��Como foi que os Trollocs entraram? Acho que eles n�o sabem escalar paredes como os Aiel, n�o com o c�u ainda claro.���Sacudiu a cabe�a para dissipar um pouco da confus�o.���N�o importa. Os Trollocs. Como?</p><p>Foi Lan quem respondeu.</p><p>��Oito imensas barca�as de gr�os atracaram no cais da Pedra hoje � tarde. Parece que ningu�m pensou em perguntar por que barca�as abarrotadas de gr�os estariam <emphasis>descendo</emphasis> o rio���disse ele, a voz cheia de desprezo���nem por que atracaram na Pedra, ou por que as tripula��es mantiveram as escotilhas fechadas quase at� o cair do sol. Al�m disso, um comboio de carro��es chegou h� cerca de duas horas. Eram trinta, supostamente trazendo as coisas de algum lorde do campo de volta � Pedra. Quando as lonas foram erguidas, viram que estavam cheias de Meio-homens e Trollocs. Se chegaram por algum outro meio, eu ainda n�o sei.</p><p>Rand assentiu outra vez, e o esfor�o o fez dobrar os joelhos. Lan se aproximou de repente, puxando o bra�o de Rand pelos ombros para ergu�-lo. Moiraine segurou seu rosto. Um arrepio percorreu seu corpo. N�o era a explos�o gelada da Cura plena, mas um calafrio que levou a fadiga embora. A maior parte da fadiga. Um gr�ozinho permanecera, como se ele tivesse passado o dia carpindo tabaco. Rand soltou o apoio, que n�o era mais necess�rio. Lan o observava, receoso, para verificar se o rapaz era mesmo capaz de manter-se de p�, ou talvez o Guardi�o n�o estivesse muito certo do perigo que ele representava, de sua sanidade.</p><p>��Deixei um pouco de prop�sito���disse Moiraine.���Voc� precisa dormir hoje � noite.</p><p>Dormir. Havia muito a fazer para dormir. Mas ele assentiu mais uma vez. N�o queria v�-la em sua cola. Ainda assim, o que disse foi:</p><p>��Lanfear esteve aqui. Isso n�o foi obra dela. Ela disse, e eu acredito. Voc� n�o parece surpresa, Moiraine.���Ser� que a oferta de Lanfear a surpreenderia? Ser� que algo a surpreenderia?���Lanfear esteve aqui, e n�s conversamos. Ela n�o tentou me matar, e eu n�o tentei mat�-la. E voc� n�o est� surpresa.</p><p>��Duvido que voc� fosse capaz de mat�-la. Por enquanto.���Ela lan�ou a <emphasis>Callandor</emphasis> um olhar de esguelha, um mero tremeluzir de olhos.���N�o sem ajuda. E duvido que ela tente matar voc�. Por enquanto. Sabemos muito pouco sobre qualquer um dos Abandonados, e menos ainda sobre Lanfear, mas sabemos que ela amava Lews Therin Telamon. Dizer que voc� est� a salvo dela sem d�vida � um exagero, pois ela pode machuc�-lo de in�meras formas sem precisar mat�-lo, mas acho que ela n�o � capaz de mat�-lo enquanto pensar que pode ter Lews Therin de volta.</p><p>Lanfear o desejava. A Filha da Noite, usada por m�es que mal acreditavam em sua exist�ncia para amedrontar as crian�as. Ela sem d�vida o amedrontava. Aquilo era quase o bastante para faz�-lo rir. Sempre se sentira culpado por olhar para qualquer mulher que n�o fosse Egwene, e agora Egwene n�o o queria, mas a Filha-herdeira de Andor desejava beij�-lo, no m�nimo, e uma Abandonada dizia que o amava. Era quase engra�ado, mas n�o muito. Lanfear parecia sentir ci�mes de Elayne, Chamava-a de p�lida e medrosa. Loucura. Tudo loucura.</p><p>��Amanh�.</p><p>Ele come�ou a se afastar.</p><p>��Amanh�?���perguntou Moiraine.</p><p>��Amanh� vou contar a voc�s o que farei.���Uma parte, pelo menos. Ao pensar na express�o que Moiraine faria caso ele revelasse tudo, sentiu vontade de rir. Isso se ele mesmo soubesse de tudo. Lanfear quase lhe entregara a �ltima pe�a, sem saber. Mais um passo, hoje � noite. A m�o que segurava <emphasis>Callandor</emphasis> a seu lado tremia. Com aquela espada, ele poderia fazer qualquer coisa. <emphasis>Ainda n�o enlouqueci. Ainda n�o enlouqueci a este ponto.</emphasis>���Amanh�. Queira a luz que todos tenhamos uma boa noite.</p><p>No dia seguinte, come�aria a liberar outro tipo de raios. Raios que talvez fossem capazes de salv�-lo. Ou mat�-lo. Ainda n�o enlouquecera.</p></section><section><title><p>11</p><p><image l:href="#4"/></p><p>O que Jaz escondido</p></title><p>Vestida apenas com sua an�gua folgada, Egwene respirou fundo e deixou o anel de pedra ao lado de um livro aberto no criado-mudo. Todo rajado de marrom, vermelho e azul, era largo demais usar no anelar e tinha uma forma estranha, meio achatado e torto, de modo que, se algu�m passasse um dedo pela borda de fora, acabaria percorrendo tamb�m a de dentro. Havia <emphasis>apenas</emphasis> uma borda, por mais imposs�vel que parecesse. Ela n�o estava deixando o anel ali porque sem ele poderia falhar, nem porque desejava falhar. Faria isso porque, mais cedo ou mais tarde, precisaria tentar sem o anel, ou jamais conseguiria fazer mais que molhar os dedos nas �guas onde sonhava nadar. Poderia muito bem ser agora. Era essa a raz�o. Era essa.</p><p>O livro grosso de capa dura era <emphasis>Uma jornada para Tarabon</emphasis>, de Eurian Romavni, nativo de Kandor���pela data informada pelo autor na primeira linha, o livro fora escrito cinquenta e tr�s anos antes, mas pouco mudara em Tanchico, em t�o pouco tempo. Al�m do mais, fora o �nico volume que a jovem conseguira encontrar com ilustra��es �teis. A maioria dos livros continha apenas retratos de reis ou imagens fantasiosas de batalhas reproduzidas por homens que n�o as haviam assistido.</p><p>A escurid�o cobria ambas as janelas, mas os lampi�es forneciam luz mais do que suficiente. Uma comprida vela de cera de abelha queimava em um casti�al dourado na mesinha de cabeceira. Ela mesma a apanhara, aquela n�o era uma boa-noite para pedir velas aos servi�ais. A maioria estava cuidando dos feridos, pranteando os entes queridos ou sendo, eles mesmos, cuidados. O n�mero era grande demais, ent�o s� era poss�vel Curar os que corriam risco de vida.</p><p>Elayne e Nynaeve aguardavam em cadeiras de espaldar alto dispostas de cada lado da cama larga e de colunas altas com entalhes de andorinhas. Tentavam, com diferentes graus de sucesso, esconder o nervosismo. Elayne exibia uma tranquilidade majestosa e bem razo�vel, estragada apenas pelo franzir do cenho e pelas mordidas nos l�bios quando pensava que Egwene n�o estava olhando. Nynaeve demonstrava uma confian�a quase r�spida, que costumava ser reconfortante para a pessoa que ela ajudava a botar de repouso em uma cama macia, mas Egwene reconheceu a express�o em seus olhos. Eles revelavam seu medo.</p><p>Aviendha estava sentada de pernas cruzadas ao lado da porta, os tons marrons e cinza destacando-se no azul-escuro do carpete. Dessa vez, a Aiel levava a faca de l�mina comprida em um dos lados do cinto e uma aljava no outro, al�m de quatro lan�as curtas que se encontravam sobre seus joelhos. O pequeno broquel redondo estava � m�o, disposto em cima de um arco de chifre enfiado em um estojo de couro trabalhado, com tiras para prender nas costas. Depois da noite que tiveram, Egwene n�o a culpava por andar armada. Ela mesma desejava ter um raio prontinho para arremessar.</p><p><emphasis>Luz, o que</emphasis> foi <emphasis>que Rand fez? Que o queime, ele me assustou quase tanto quanto os Desvanecidos. Talvez at� mais. N�o � justo ele ser capaz de fazer algo assim e eu n�o conseguir sequer ver os fluxos.</emphasis></p><p>Ela subiu na cama, apoiou o livro de capa de couro nos joelhos e franziu o cenho para um mapa de Tanchico. Na verdade, n�o havia nada de muito �til marcado. Uma d�zia de fortalezas ao redor do ancoradouro, guardando a cidade em suas tr�s pen�nsulas montanhosas, Verana a leste, Maseta no centro e Calpene mais perto do mar. In�teis. V�rias pra�as grandes, algumas �reas abertas que pareciam ser parques, diversos monumentos a governantes que havia muito tinham virado p�. Tudo in�til. Alguns pal�cios e outras coisas que pareciam estranhas. O Grande C�rculo, por exemplo, em Calpene. No mapa era apenas um c�rculo, mas Mestre Romavni o descrevia como uma enorme assembleia capaz de reunir milhares de espectadores para corridas de cavalos ou exibi��es de fogos de artif�cio dos Iluminadores. Havia tamb�m um C�rculo do Rei, em Maseta, que era ainda maior que o Grande C�rculo, e um C�rculo da Panarca, em Verana, que era apenas um pouquinho menor. A Casa do Cap�tulo da Guilda de Iluminadores tamb�m estava marcada. Era tudo in�til. O texto sem d�vida tamb�m n�o tinha serventia.</p><p>��Tem certeza de que quer tentar sem o anel?���perguntou Nynaeve, baixinho.</p><p>��Tenho���respondeu Egwene, com toda a calma que p�de. Seu est�mago estava t�o embrulhado quanto no instante em que vira o primeiro Trolloc aquela noite, erguendo a pobre mulher pelos cabelos e cortando sua garganta como se ela fosse um coelho. A mulher tamb�m gritara feito um coelho. Matar o Trolloc n�o adiantara de nada, a mulher continuava t�o morta quanto a criatura. Mas o guincho penetrante que ela soltara n�o sa�a de sua cabe�a.���Se n�o funcionar, sempre d� para tentar de novo, com o anel.���Ela se inclinou e marcou a vela com o polegar.���Me acordem quando queimar at� aqui. Luz, queria que a gente tivesse um rel�gio.</p><p>Elayne soltou uma risada, um gorjeio jovial que quase soou for�ado.</p><p>��Rel�gio dentro do quarto? Minha m�e tem um monte de rel�gios, mas nunca ouvi falar de um que ficasse dentro de um quarto.</p><p>��Bom, meu pai tem um rel�gio s󠗠resmungou Egwene���o �nico da aldeia inteira, e eu queria t�-lo aqui comigo. Ser� que a vela queima isso tudo em uma hora? N�o quero dormir mais do que isso. Me acordem assim que a chama atingir a marca. Assim que atingir!</p><p>��Pode deixar���disse Elayne, confortando-a.���Eu prometo.</p><p>��O anel de pedra���disse Aviendha, de repente.���J� que voc� n�o est� usando, Egwene, ser� que algu�m� alguma de n�s� n�o poderia usar para ir com voc�?</p><p>��N�o���murmurou Egwene. <emphasis>Luz, queria que todas elas pudessem vir comigo.</emphasis>���Mas obrigada por pensar nisso.</p><p>��� s� voc� quem pode usar o anel, Egwene?���perguntou a Aiel.</p><p>��Qualquer uma de n�s pode���respondeu Nynaeve���at� voc�, Aviendha. N�o � preciso que uma mulher saiba canalizar, basta dormir com o anel tocando a pele. Pelo que sabemos, pode ser que at� um homem consiga. Mas n�o conhecemos <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> t�o bem quanto Egwene, n�o sabemos as regras de l�.</p><p>Aviendha assentiu.</p><p>��Entendo. Uma mulher pode cometer erros em lugares desconhecidos, e esses erros podem acabar causando a morte de outros ou dela mesma.</p><p>��Isso mesmo���concordou Nynaeve.���O Mundo dos Sonhos � um lugar perigoso. Isso, pelo menos, n�s sabemos.</p><p>��Mas Egwene vai tomar cuidado���acrescentou Elayne, dirigindo-se a Aviendha, mas obviamente falando para a pr�pria Egwene.���Ela prometeu. Vai olhar a �rea com bastante cautela, nada mais.</p><p>Egwene se concentrou no mapa. Com cautela. Se n�o tivesse tanto ci�me de seu anel de pedra���considerava-o seu. Talvez o Sal�o da Torre n�o concordasse, mas n�o sabiam que ela o possu�a���se tivesse deixado Elayne ou Nynaeve usarem-no mais de uma ou duas vezes, talvez elas j� soubessem o suficiente para irem com ela. Contudo, n�o era arrependimento que a fazia evitar encarar as outras mulheres. N�o queria que elas vissem o medo em seus olhos.</p><p><emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. O Mundo Invis�vel. O Mundo dos Sonhos. N�o os sonhos das pessoas comuns, embora �s vezes elas tocassem <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> por um breve momento, em sonhos que pareciam verdadeiros como a vida. Porque eram. No Mundo Invis�vel, o que acontecia era real, de uma forma estranha. Nada do que acontecia l� afetava o que existia���uma porta aberta no Mundo Invis�vel permaneceria fechada no mundo real, uma �rvore derrubada l� ainda estaria de p� ali���mas uma mulher podia ser morta nesse outro mundo, ou at� estancada. �Estranho� era muito pouco para descrever. No Mundo Invis�vel o mundo inteiro jazia aberto, e talvez tamb�m outros mundos. Era poss�vel chegar a qualquer lugar. Ou, pelo menos, o reflexo da pessoa no Mundo dos Sonhos podia chegar a qualquer lugar. L�, a trama do Padr�o podia ser lida���passado, presente e futuro���por qualquer um que tivesse essa capacidade. Por um Sonhador. N�o houvera um Sonhador na Torre desde Corianin Nedeal, quase quinhentos anos antes.</p><p><emphasis>Quatrocentos e setenta e tr�s anos, para ser mais exata</emphasis>, pensou Egwene. <emphasis>Ou ser� que j� faz quatrocentos e setenta e quatro? Quando foi que Corianin morreu?</emphasis> Se Egwene houvesse tido a chance de terminar o treinamento de novi�a na Torre e de estudar l� como Aceita, talvez soubesse. E j� poderia ter aprendido tantas outras coisas.</p><p>Havia uma lista na bolsa de Egwene com todos os <emphasis>ter�angreal</emphasis>���a maioria pequena o bastante para caber dentro de um bolso���que haviam sido roubados pelas integrantes da Ajah Negra que fugiram da Torre. Cada uma das tr�s tinha uma c�pia. Treze dos <emphasis>ter�angreal</emphasis> roubados eram acompanhados das observa��es �uso desconhecido� e ��ltima an�lise realizada por Corianin Nedeal�. Por�m, ainda que Corianin Sedai de fato n�o tivesse desvendado a serventia dos objetos, Egwene tinha certeza de uma coisa que faziam. Permitiam a entrada em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Talvez n�o com a mesma facilidade do anel de pedra, e talvez n�o sem a necessidade de canalizar, mas permitiam.</p><p>Haviam recuperado dois itens da lista com Joiya e Amico: um disco de ferro de tr�s polegadas de comprimento com uma espiral estreita tra�ada de ambos os lados e uma placa pouco menor que sua m�o com uma mulher adormecida entalhada no meio. Essa segunda era de um material que parecia ser �mbar-claro, mas firme o bastante para arranhar a�o. Amico falara abertamente a respeito deles. Joiya tamb�m, depois de uma sess�o a s�s com Moiraine em sua cela, o que deixara a Amiga das Trevas p�lida e quase cort�s. Quem canalizasse um fluxo de Esp�rito em cada um dos <emphasis>ter�angreal</emphasis> ca�a no sono e entrava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Elayne tentara usar ambos por um tempo, com sucesso, mas conseguiu ver apenas o interior da Pedra e do Pal�cio Real de Morgase, em Caemlyn.</p><p>Egwene n�o queria que ela tentasse, por mais fugaz que fosse a visita, mas n�o por ci�mes. N�o fora muito eficaz no debate, pois tivera medo de que Elayne e Nynaeve percebessem o que havia em sua voz.</p><p>Dois recuperados significavam que onze ainda estavam com a Ajah Negra. Esse era o ponto que Egwene tentara defender. Onze <emphasis>ter�angreal</emphasis> capazes de levar uma mulher a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, todos nas m�os das irm�s Negras. Em suas breves viagens pelo Mundo Invis�vel, Elayne poderia ter encontrado a Ajah Negra � sua espera ou ido na dire��o delas antes de saber que estavam l�. O pensamento fez o est�mago de Egwene se revirar. As mulheres podiam estar esperando por ela naquele exato momento. N�o era prov�vel, pelo menos, n�o de prop�sito���como saberiam que ela estava chegando? Mas poderiam estar l� quando ela entrasse. Conseguia enfrentar uma sozinha, a n�o ser que fosse pega de surpresa, e n�o permitiria tal coisa. Mas e se duas a surpreendessem? Ou tr�s? Liandrin e Rianna, Chesmal Emry e Jeane Caide, ou todas as outras ao mesmo tempo?</p><p>Franzindo a testa para o mapa, ela afrouxou os punhos, que j� estavam com as juntas brancas. Depois dos acontecimentos daquela noite, o tempo urgia. Se as criaturas da Sombra conseguiam atacar a Pedra, se algum dos Abandonados podia aparecer de repente ali no meio, Egwene n�o podia se dar ao luxo de sucumbir ao medo. As tr�s precisavam saber o que fazer. Tinham de ter algo para se basear al�m da vaga hist�ria de Amico. Alguma coisa. Se ao menos ela pudesse descobrir onde estava Mazrim Taim, em que ponto da viagem a Tar Valon, ou se conseguisse dar um jeito de entrar nos sonhos da Amyrlin e falar com ela. Talvez essas coisas fossem poss�veis para uma Sonhadora. Se eram, ela n�o sabia como. Tanchico era tudo o que tinha para trabalhar.</p><p>��Preciso ir sozinha, Aviendha. Preciso.���Pensou que a voz estava firme e calma, mas Elayne deu um tapinha em seu ombro.</p><p>Egwene n�o sabia por que verificava tanto o mapa. J� o decorara, j� sabia se orientar perfeitamente. O que quer que existisse neste mundo, existia no Mundo dos Sonhos, e �s vezes ainda mais, sem d�vida. Ela j� escolhera o lugar para onde ia. Folheou o livro at� chegar � �nica figura que mostrava o interior de um edif�cio nomeado no mapa, o Pal�cio da Panarca. N�o adiantaria de nada acabar em um edif�cio sem saber sua localiza��o na cidade. De nada ajudaria, em nenhum dos casos. Tirou a ideia da cabe�a. Tinha de acreditar que havia alguma chance.</p><p>A gravura mostrava um amplo sal�o com p�-direito alto. Uma corda estendida entre pilares da altura de sua cintura impedia qualquer um de se aproximar dos objetos expostos em suportes e arm�rios abertos nas paredes. A maioria dos objetos n�o tinha uma forma muito distinta, exceto o que se encontrava no canto extremo do recinto. O artista se esfor�ara muito para retratar o gigantesco esqueleto, como se o resto da criatura tivesse desaparecido naquele exato instante. Tinha quatro pernas de ossos robustos, mas n�o se parecia com qualquer animal que Egwene j� vira. Para come�ar, de p� deveria ter pelo menos duas bra�as de altura, bem mais que o dobro da dela. O cr�nio redondo, afundado nos ombros como o de um touro, parecia grande o suficiente para comportar uma crian�a, e, na imagem, quatro globos oculares despontavam. O esqueleto distinguia o aposento em rela��o a todos os outros, n�o havia como confundi-lo. Fosse l� o que fosse. Se Eurian Romavni sabia o que era aquilo, n�o tinha registrado a informa��o no livro.</p><p>��O que � uma panarca, afinal?���perguntou, deitando o livro de lado. Examinara a figura mais de dez vezes.���Todos esses autores parecem presumir que a gente j� saiba.</p><p>��A Panarca de Tanchico tem autoridade equivalente � do rei���recitou Elayne.���Ela � respons�vel por coletar impostos e taxas alfandeg�rias, enquanto ele os gasta de forma apropriada. Ela controla a Guarda Civil e os tribunais, exceto o Alto Tribunal, que � do rei. O ex�rcito � dele, claro, exceto pela Legi�o da Panarca. Ela�</p><p>��Na verdade, eu n�o estava interessada.���Egwene suspirou. S� estava puxando papo para adiar por alguns instantes o que teria de fazer. A vela queimava, desperdi�ando minutos preciosos. Sabia como sair do sonho quando quisesse, como acordar sozinha, mas o tempo passava de forma diferente no Mundo dos Sonhos, e era f�cil perder a no��o.���Assim que atingir a marca���disse, e Elayne e Nynaeve murmuraram em concord�ncia.</p><p>Ajeitando-se nos travesseiros de plumas, a princ�pio apenas encarou o teto pintado de azul-celeste, com nuvens e andorinhas voejantes. Mas n�o reparou nos desenhos.</p><p>Seus sonhos andavam muito ruins ultimamente, pelo menos a maioria. Rand estava neles, sem d�vida. Rand do tamanho de uma montanha, caminhando pelas cidades, esmagando pr�dios sob seus p�s, com gente diminuta feito formigas gritando e fugindo dele. Rand acorrentado, gritando. Rand construindo um muro, ele de um lado e ela do outro, junto com Elayne e outras mulheres indistingu�veis. �Preciso fazer isso�, dizia ele, enquanto empilhava as pedras. �N�o vou deixar voc�s me impedirem.� Esses n�o eram os �nicos pesadelos. Egwene sonhara com Aiel lutando entre si, matando uns aos outros, at� largando as armas e correndo, como se tivessem enlouquecido. Mat lutando com uma mulher Seanchan que o prendera a uma corrente invis�vel. Um lobo, que tinha certeza de que era Perrin, lutando com uma mulher cujo rosto ficava se transformando. Galad envolvendo a si mesmo em um pano branco, como se vestisse a pr�pria mortalha, e Gawyn com os olhos cheios de sofrimento e �dio. Sua m�e chorando. Esses eram os sonhos realistas, os que ela sabia que queriam dizer alguma coisa. Eram terr�veis, e Egwene n�o sabia o significado de nenhum. Como pudera deduzir que encontraria qualquer dica ou resposta em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>? Mas n�o havia escolha. A �nica alternativa era a ignor�ncia, e n�o podia escolher isso.</p><p>Apesar da ansiedade, dormir n�o era problema: estava exausta. Era s� quest�o de fechar os olhos e respirar profundamente, de forma regular. Fixou os pensamentos no aposento do Pal�cio da Panarca e no imenso esqueleto. Respira��es profundas e regulares. Podia lembrar como era a sensa��o de usar o anel, o passo para adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Respira��es���profundas���regulares.</p><empty-line/><p>Egwene deu um passo atr�s, ofegante, com uma das m�os na garganta. De perto, o esqueleto parecia ainda maior do que ela imaginara, os ossos brancos, secos e descorados. Estava parada bem diante dele, dentro da corda. Uma corda branca, da grossura de seu pulso, que parecia ser de seda. N�o teve d�vida de que estava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Os detalhes eram sutis como a realidade, mesmo do que ela via com o canto do olho. At� o fato de ter consci�ncia das diferen�as entre este sonho e outro comum informavam onde estava. Al�m do mais, parecia� certo.</p><p>Egwene abriu-se a <emphasis>saidar</emphasis>. Se cortasse o dedo no Mundo dos Sonhos, o corte ainda existiria quando ela acordasse. N�o haveria como acordar de um golpe mortal com o Poder, ou mesmo de uma espada ou porrete. E n�o pretendia ficar vulner�vel por um instante sequer.</p><p>Em vez do vestido, usava algo muito mais parecido com a indument�ria de Aviendha, mas em seda vermelha brocada. Mesmo as botas macias, amarradas at� os joelhos, eram de um couro vermelho flex�vel, usado em luvas, com costuras e rendas douradas. Ela riu para si mesma, baixinho. As roupas em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> eram o que a pessoa desejava que fossem. Parecia que uma parte dela queria ser capaz de se movimentar com agilidade, enquanto a outra queria estar pronta para um baile. N�o era uma boa escolha. O vermelho esvaneceu para tons de cinza e marrom, casaco, cal�as e botas se transformaram em c�pias exatas das usadas pelas Donzelas. N�o era melhor, na verdade, n�o em uma cidade. De s�bito, viu-se dentro de uma r�plica dos vestidos que Faile costumava usar, escuros, com saias estreitas e divididas, mangas compridas e um corpete alto e flex�vel. <emphasis>� bobagem me preocupar com isso. Ningu�m vai me ver, a n�o ser dentro dos sonhos, e poucos sonhos comuns chegam aqui. N�o faria diferen�a se eu estivesse nua.</emphasis></p><p>Por um instante, <emphasis>ficou</emphasis> nua. Seu rosto enrubesceu de vergonha. N�o havia ningu�m ali para v�-la, despida como se fosse tomar banho, e ela mais que depressa trouxe de volta o vestido escuro, mas deveria ter se lembrado de como os pensamentos perdidos eram capazes de afetar as coisas por aqui, sobretudo quando abra�ada ao Poder. Elayne e Nynaeve pensavam que ela sabia tantas coisas. Egwene conhecia algumas regras do Mundo Invis�vel, mas sabia que havia outras centenas, milhares, desconhecidas. Precisava dar um jeito de aprend�-las, se quisesse ser a primeira Sonhadora da Torre desde Corianin.</p><p>Olhou o cr�nio imenso mais de perto. Crescera em uma vila do interior e sabia que aspecto tinham os ossos de animais. N�o eram quatro globos oculares, afinal. Dois na verdade pareciam ser buracos para algum tipo de presa, de cada um dos lados onde houvera um nariz. Algum tipo de javali monstruoso, talvez, embora n�o se parecesse com o cr�nio de qualquer porco que ela j� vira. Parecia antigo. Muito antigo.</p><p>Abra�ando o Poder, era capaz de sentir coisas como essa, nesse lugar. A habitual exacerba��o dos sentidos ainda acontecia, � claro. Podia sentir rachaduras diminutas nos ornamentos de gesso dourado que cobriam o teto, a cinquenta p�s de altura, e o polimento liso do ch�o de pedras brancas. Rachaduras infinitesimais, invis�veis aos olhos, espalhadas tamb�m pelas pedras do ch�o.</p><p>O aposento era gigantesco, talvez com duzentas passadas de comprimento e quase a metade de largura, ostentando fileiras de colunas estreitas e brancas. Aquela corda branca circulava por toda a extens�o, exceto onde havia portas, com arcos de duas pontas. Mais cordas envolviam suportes de madeira polida e arm�rios contendo outros objetos expostos. Bem em cima, sob o teto, uma padronagem elaborada de pequeninos entalhes perfurava as paredes, deixando entrar bastante luz. Ao que parecia, ela se transportara em sonho a uma Tanchico durante o dia.</p><p>�Uma grande exposi��o de artefatos de Eras h� muito findadas, da Era das Lendas e de Eras anteriores, abertas a todos, at� aos plebeus, por tr�s dias no m�s e em dias de festival�, escrevera Eurian Romavni. Ele fizera elogios � inestim�vel cole��o de estatuetas <emphasis>cuendillar</emphasis>, seis delas, que ficava em um estojo de vidro no centro do sal�o, sempre vigiada por quatro dos guardas pessoais da Panarca, quando era permitida a entrada de pessoas, e passara duas p�ginas discorrendo sobre as ossadas de bestas fabulosas �jamais vistas com vida pelos olhos dos homens�. Egwene estava vendo algumas dessas. Em um dos cantos do sal�o, havia o esqueleto de algo que parecia um urso, se ursos tivessem dois dentes frontais do tamanho de seu antebra�o. Do lado oposto, jazia a ossada de alguma besta esguia de quatro patas, com um pesco�o t�o comprido que o cr�nio chegava � metade da altura das paredes. Havia mais, espalhados pelas paredes do sal�o, igualmente fant�sticos. Todos pareciam antigos o bastante para fazer a Pedra de Tear parecer rec�m-constru�da. Ela se abaixou por sob a barreira de cordas e percorreu o sal�o lentamente, olhando tudo.</p><p>Uma estatueta desgastada pelo tempo exibia uma mulher aparentemente sem roupas, envolta em cabelos que ca�am at� os tornozelos. A princ�pio era similar �s outras que estavam no mesmo estojo, todas n�o muito maiores do que a m�o de Egwene. No entanto, emitia uma impress�o de calor suave que ela reconhecia. Era um <emphasis>angreal</emphasis>, teve certeza. Perguntou-se por que a Torre n�o conseguira tom�-lo da Panarca. Um colar de elos delicados e dois braceletes de metal preto fosco, sozinhos em um suporte, a fizeram estremecer. Ela sentiu escurid�o e dor associados a eles���uma dor aguda e muito, muito antiga. Uma coisa prateada em outro arm�rio, algo que mais parecia uma estrela de tr�s pontas dentro de um c�rculo, n�o era feita de qualquer subst�ncia que ela conhecesse. Era mais macia que metal, toda arranhada e cheia de goivaduras, por�m ainda mais antiga do que qualquer um dos ossos. A dez passadas de dist�ncia, podia sentir orgulho e vaidade.</p><p>Uma coisa de fato parecia familiar, embora ela n�o fosse capaz de identificar o motivo. Enfiada em um canto de um dos arm�rios, como se quem a tivesse posto ali n�o soubesse ao certo se era digna de ser exibida, jazia a metade superior de uma estatueta quebrada, entalhada em alguma pedra branca brilhante. Retratava uma mulher com uma das m�os erguidas, segurando uma esfera de cristal com a express�o calma, cheia de dignidade e de s�bia autoridade. Quando inteira, deveria ter um p� de altura. Mas por que era t�o familiar? O objeto parecia quase convidar Egwene a peg�-lo.</p><p>Foi s� depois que os dedos de Egwene se fecharam na estatueta quebrada que ela percebeu que passara por cima da corda. <emphasis>Uma tolice, se n�o sei o que �</emphasis>, pensou, mas j� era tarde demais.</p><p>Quando a m�o agarrou a estatueta, o Poder jorrou em torrente para dentro dela, de volta para a figura quebrada, depois para ela, para a figura e de volta, para dentro e de volta. A esfera de cristal tremeluzia em clar�es espasm�dicos e sombrios, e seu c�rebro sofreu pontadas dolorosas a cada clar�o. Com um solu�o de agonia, ela soltou a estatueta e apertou as m�os na cabe�a.</p><p>A esfera de cristal se estilha�ou quando a estatueta caiu no ch�o e partiu-se em peda�os, e as pontadas em seu c�rebro cessaram, deixando apenas uma lembran�a embotada da dor e uma n�usea que fez seus joelhos tremerem. Egwene fechou os olhos com for�a para n�o ver o quarto se deslocando. A estatueta s� podia ser um <emphasis>ter�angreal</emphasis>, mas por que a machucara daquela forma simplesmente ao toc�-la? Talvez porque estivesse quebrado. Talvez, quebrado, n�o pudesse fazer aquilo a que se destinava. Ela nem mesmo queria pensar qual teria sido seu prop�sito. Testar <emphasis>ter�angreal</emphasis> era sempre perigoso. Pelo menos deveria estar irremediavelmente quebrado. Ali, pelo menos. <emphasis>Por que ele parecia me chamar?</emphasis></p><p>A n�usea foi embora, e ela abriu os olhos. A estatueta estava de volta na prateleira, t�o inteira quanto da primeira vez em que a vira. Coisas estranhas aconteciam em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas aquilo era mais estranho do que o que ela desejava ver. E n�o fora por isso que viera. Primeiro precisava encontrar a sa�da do Pal�cio da Panarca. Passando de volta por cima da corda, ela saiu depressa do sal�o, tentando n�o correr.</p><p>N�o havia sinal de vida no pal�cio, naturalmente. De vida humana, pelo menos. Peixes coloridos nadavam em grandes fontes, que esguichavam �gua, alegremente, nos p�tios rodeados por varandas e cal�adas cercadas de colunas delicadas, protegidas por trabalhos de cantaria que mais pareciam renda entalhada em padronagens intrincadas. Nas �guas, flutuavam l�tus com flores brancas do tamanho de pratos de jantar. No Mundo dos Sonhos, os lugares eram como no chamado mundo real. S� n�o havia gente. Lustres dourados muito elaborados ocupavam os corredores com pavios ainda n�o queimados, mas ela sentia o aroma do �leo perfumado. Seus p�s n�o levantavam poeira dos carpetes luminosos, que sem d�vida nunca haviam sido pisados. N�o ali.</p><p>Em dado momento, viu outra pessoa caminhando � sua frente, um homem de armadura de placa e malha douradas e ornamentadas, levando debaixo do bra�o um capacete dourado e pontudo com uma crista de plumas de gar�ota branca.</p><p>��Aeldra.���chamou o homem, sorrindo.���Aeldra, venha olhar para mim. Fui nomeado Senhor Capit�o da Legi�o da Panarca. Aeldra?���Ele deu mais um passo � frente, ainda chamando, e de repente desapareceu. N�o era um Sonhador. N�o era sequer algu�m usando um <emphasis>ter�angreal</emphasis> como seu anel de pedra ou o disco de ferro de Amico. Era apenas um homem cujo sonho chegara a um lugar do qual ele n�o tinha consci�ncia, com perigos que desconhecia. Era comum que pessoas que morriam de repente durante o sono na verdade tivessem ido a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em seus sonhos e morrido por l�. Mas ele j� se fora, de volta a um sonho comum.</p><p>Em Tear, a vela queimava ao lado da cama. Seu tempo em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> estava se extinguindo.</p><p>Egwene apressou o passo e chegou diante de portas altas e entalhadas que levavam ao exterior, a uma ampla escadaria branca e uma imensa pra�a vazia. Tanchico se expandia para todas as dire��es ao longo de colinas �ngremes, pr�dios brancos atr�s de pr�dios brancos, todos reluzentes sob o sol, pontuados por centenas de torres finas e quase a mesma quantidade de domos pontiagudos, alguns dourados. O C�rculo da Panarca, uma muralha alta e redonda de pedra branca, ficava � plena vista, a menos de meia milha de dist�ncia. Era apenas um pouco mais baixa que o Pal�cio da Panarca, que erguia-se no topo de uma das colinas mais elevadas. No topo da gigantesca escadaria, Egwene estava a uma altura suficiente para ver �gua brilhando a oeste, as ba�as que a separavam de outros dedos montanhosos onde ficava o restante da cidade. Tanchico era maior que Tear, talvez maior que Caemlyn.</p><p>Tanto a vasculhar, e ela nem sequer sabia em busca de qu�. De algo que sugerisse a presen�a da Ajah Negra ou que indicasse algum tipo de perigo para Rand, se ambos existissem por ali. Se fosse uma Sonhadora de verdade, treinada no uso de seu talento, saberia o que procurar, saberia como interpretar o que via. Mas n�o restara ningu�m para ensin�-la. As S�bias Aiel supostamente sabiam decifrar sonhos. Aviendha fora t�o relutante em falar sobre as S�bias que Egwene n�o perguntara a nenhuma das outras Aiel. Talvez uma S�bia pudesse instru�-la. Se ela conseguisse encontrar alguma.</p><p>Deu um passo em dire��o � pra�a e de repente viu-se em outro lugar.</p><p>Imensas torres de pedra erguiam-se � sua volta, produzindo um calor que sugava toda a umidade da respira��o. O sol parecia ass�-la por baixo do vestido, e a brisa que soprava em seu rosto parecia sa�da de um forno. Havia �rvores retorcidas aqui e ali, e a paisagem quase n�o tinha vegeta��o, exceto por esparsos trechos de grama grossa e algumas plantas espinhosas que Egwene n�o soube identificar. Mas reconheceu o le�o, ainda que nunca tivesse visto um em carne e osso. O animal estava deitado em uma fresta na rocha, a menos de vinte passadas de dist�ncia, abanando o rabo escuro e peludo despretensiosamente, olhando n�o para ela, mas para algo cem passadas atr�s. O enorme javali de pelos grossos fu�ava e fungava a terra na base de um arbusto espinhento, sem notar a mulher Aiel subindo, sorrateira com uma lan�a, pronta para golpe�-lo. Vestida como os Aiel da Pedra, ela usava a <emphasis>shoufa</emphasis> em volta da cabe�a, mas tinha o rosto descoberto.</p><p><emphasis>O Deserto</emphasis>, pensou Egwene, incr�dula. <emphasis>Estou no Deserto Aiel! Quando � que vou aprender a tomar cuidado com o que penso por aqui?</emphasis></p><p>A Aiel congelou. Agora tinha os olhos fixos em Egwene, n�o no javali. Isso se o bicho fosse um javali, n�o parecia ter a forma certa.</p><p>Egwene teve certeza de que a mulher n�o era uma S�bia. E tamb�m n�o se vestia como as Donzelas. Pelo que ouvira falar, uma Donzela da Lan�a que quisesse se tornar S�bia teria de �abrir m�o da lan�a�. Decerto era apenas uma Aiel que adentrara <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em seu sonho, como o sujeito no pal�cio. Ele tamb�m a teria visto, se tivesse se virado. Egwene fechou os olhos e se concentrou na �nica imagem clara de Tanchico que tinha, aquele enorme esqueleto no amplo sal�o.</p><p>Ao abrir os olhos de novo, encarava as imensas ossadas. Dessa vez, percebeu que os ossos estavam amarrados uns aos outros. E de forma muito habilidosa, pois os fios mal apareciam. A estatueta partida com a esfera de cristal ainda estava na prateleira. Egwene n�o se aproximou da pe�a, nem do colar e dos braceletes negros que emanavam tanta dor e sofrimento. O <emphasis>angreal</emphasis>, a mulher de pedra, era uma tenta��o. <emphasis>O que voc� vai fazer com ela? Luz, est� aqui para olhar, para procurar! Nada al�m disso. Siga em frente, mulher!</emphasis></p><p>Dessa vez encontrou depressa o caminho de volta � pra�a. O tempo passava de forma diferente ali. Elayne e Nynaeve a acordariam a qualquer momento, e ela ainda mal come�ara. N�o podia perder mais um minuto sequer. Teria de tomar cuidado com seus pensamentos dali em diante. Nada de pensar nas S�bias. At� essa repreens�o fez tudo dar uma guinada ao seu redor. <emphasis>Mantenha o foco no que est� fazendo</emphasis>, disse a si mesma, com firmeza.</p><p>Ela avan�ou pela cidade vazia, caminhando depressa, �s vezes quase correndo. Ruas de pedra sinuosas se inclinavam para cima e para baixo, cheias de curvas, todas vazias, exceto por pombos imperiais de asas verdes e gaivotas cinza-claro, que al�aram voo ruidosamente quando ela se aproximou. Por que p�ssaros, e n�o pessoas? Moscas zuniam pr�ximas, e ela p�de ver baratas e besouros correndo pelas sombras. Um grupo de c�es magros, todos de cores diferentes, avan�ava depressa pela rua, bem � frente. Por que c�es?</p><p>Ela retrocedeu um pouco e concentrou-se no motivo de estar ali. Quais seriam os sinais da Ajah Negra? Ou do perigo que Rand poderia estar correndo? A maioria dos pr�dios brancos era caiada, com o reboco rachado e lascado que revelava em muitos pontos a madeira desgastada pelo tempo ou os tijolos marrom-claros. Apenas as torres e estruturas maiores���pal�cios, sup�s���eram feitas de pedra, ainda que tamb�m branca. No entanto, at� mesmo as pedras���pelo menos a maioria���exibiam pequeninas fissuras, rachaduras �nfimas demais para serem percebidas a olho nu, mas Egwene podia senti-las com o Poder. Formavam uma teia por cima dos domos e torres. Talvez isso significasse algo. Talvez significasse que Tanchico era uma cidade negligenciada por seus habitantes. Como todo o resto.</p><p>Deu um salto quando um homem de repente despencou do c�u bem � sua frente, berrando. S� teve tempo de registrar as cal�as brancas e largas e o bigode grosso coberto por um v�u transparente antes que o homem desaparecesse, uma passada acima da cal�ada. Se tivesse chegado ao ch�o em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, teria sido encontrado morto em sua cama.</p><p><emphasis>Ele deve ter tanto a ver com a situa��o quanto as baratas</emphasis>, disse a si mesma.</p><p>Talvez algo dentro dos pr�dios. Era uma �nfima possibilidade, uma esperan�a louca, mas ela estava desesperada o suficiente para tentar qualquer coisa. Quase qualquer coisa. Tempo. Quanto tempo ainda tinha? Come�ou a correr de porta em porta, enfiando a cabe�a em lojas, estalagens e casas.</p><p>Mesas e bancos ocupavam os sal�es � espera de clientes, t�o organizadas quanto os pratos e canecas de peltre meio foscos nas prateleiras. As lojas estavam limpas, como se fosse o in�cio do dia, mas, enquanto a mesa do alfaiate exibia rolos de tecido e as do cuteleiro ostentava facas e tesouras, os ganchos do a�ougue estavam vazios, e as prateleiras, desocupadas. Quem passasse o dedo por qualquer m�vel n�o encontraria poeira. Egwene achou que tudo estava limpo at� para os padr�es de sua m�e.</p><p>Nas ruas mais estreitas havia casas, constru��es simples e pequenas, caiadas, com tetos planos e nenhuma janela para a rua, prontas para receber fam�lias para sentarem-se em bancos diante de lareiras frias, ou em volta de mesas estreitas com p�s entalhados, onde a melhor travessa ou vasilhame ocupava lugar de destaque. Roupas pendiam de ganchos, panelas pendiam de tetos e ferramentas jaziam sobre bancos, � espera.</p><p>Sem pensar, Egwene refez os passos, s� para ver no que daria, voltando por uma d�zia de portas. Espiou pela segunda vez a casa de alguma mulher no mundo real. Estava quase do mesmo jeito de antes. Quase. O vasilhame de listras vermelhas que antes ocupava a mesa agora era um vaso azul estreito. Um dos bancos, antes perto da lareira, sustentando um arreio quebrado e as ferramentas para consert�-lo, agora ocupava um canto ao lado da porta e apoiava uma cesta de remendos e um vestido de crian�a bordado.</p><p><emphasis>Por que as mudan�as?,</emphasis> perguntou-se. <emphasis>Ali�s, por que tudo deveria permanecer igual? Luz, eu n�o sei de nada!</emphasis></p><p>Havia um est�bulo do outro lado da rua, com a cal branca rachada revelando grandes nacos de tijolos da parede. Egwene correu at� l� e abriu uma das enormes portas. O ch�o batido estava coberto de palha, como em qualquer est�bulo que ela j� vira, mas as baias estavam vazias. Sem cavalos. Por qu�? Algo farfalhou na palha, e ela percebeu que, na verdade, as baias n�o estavam vazias. Ratos. Dezenas de ratos, encarando-a com aud�cia, os narizes testando o ar para captar seu cheiro. Nenhum deles fugiu, sequer recuou. Comportavam-se como se tivessem mais direitos do que ela, naquele lugar. Por impulso, Egwene deu um passo atr�s. <emphasis>Pombos, gaivotas, c�es, moscas e ratos. Talvez uma S�bia entendesse o porqu�.</emphasis></p><p>Em um piscar de olhos, estava de volta ao Deserto.</p><p>Com um berro, desabou assim que a criatura peluda parecida com um javali���quase do tamanho de um p�nei pequeno���deu um salto em sua dire��o. N�o era um porco, notou, quando o bicho pulou com agilidade por cima dela. O focinho era pontudo demais e cheio de dentes afiados, e tinha quatro dedos em cada pata. N�o foi um pensamento alarmante, mas ela estremeceu quando a besta galopou, apressada, por entre as pedras. Era grande o bastante para t�-la esmagado com as patas, quebrando ossos e tudo o mais. Aqueles dentes eram t�o capazes de dilacerar e despeda�ar quanto os de qualquer lobo. Ela teria acordado ferida. Isso se chegasse a acordar.</p><p>A rocha arenosa sob suas costas era como um fog�o escaldante. Ela se levantou apressada, irritada consigo mesma. Se n�o fosse capaz de se concentrar no que estava fazendo, n�o obteria resultado algum. Tanchico era onde deveria estar, precisava se concentrar nisso. Em nada mais.</p><p>Ela parou de esfregar as m�os nas saias quando viu a mulher Aiel observando-a a dez passadas de dist�ncia, os olhos azuis e agu�ados. A mulher tinha a idade de Aviendha, n�o muito mais velha do que a pr�pria Egwene, mas os cachos de cabelo que despontavam por baixo da <emphasis>shoufa</emphasis> eram t�o claros que pareciam quase brancos. A lan�a em suas m�os parecia pronta para ser atirada, e, �quela dist�ncia, com certeza n�o erraria o alvo.</p><p>Dizia-se que os Aiel eram mais do que duros com os que adentravam o Deserto sem permiss�o. Egwene sabia que era capaz de envolver tanto a mulher quanto a lan�a em Ar, mant�-la presa para garantir a pr�pria seguran�a, mas ser� que os fluxos se manteriam por tempo suficiente quando ela come�asse a esvanecer? Ou ser� que apenas irritariam a mulher a ponto de faz�-la atirar a lan�a na primeira chance, talvez antes que Egwene sumisse por completo? De muito adiantaria retornar a Tanchico com uma lan�a Aiel cravada no peito. Se urdisse os fluxos, a mulher ficaria presa em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> at� que eles fossem desfeitos, impotente, caso o le�o ou a criatura parecida com um javali retornasse.</p><p>N�o. Apenas precisava que a mulher baixasse a lan�a, s� por tempo suficiente para que se sentisse segura em fechar os olhos e retornar a Tanchico. De volta para o que deveria estar fazendo. N�o tinha mais tempo para esses voos e fantasias. N�o sabia muito bem como algu�m cujos sonhos apenas tocavam <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> poderia fazer mal a ela da mesma forma que tudo o mais que havia l�, mas n�o arriscaria descobrir na ponta da lan�a de uma Aiel. A mulher provavelmente desapareceria em alguns instantes. Precisava de algo para desestabiliz�-la at� l�.</p><p>Mudar de roupa era f�cil. Assim que o pensamento veio, Egwene percebeu que usava os mesmos marrons e cinza que a mulher.</p><p>��N�o vou lhe fazer mal���disse, aparentemente tranquila.</p><p>A mulher n�o baixou a arma. Em vez disso, franziu a testa e disse:</p><p>��Voc� n�o tem o direito de usar <emphasis>cadin�sor</emphasis>, garota.���Ent�o Egwene ficou sem roupas, o sol a arder sua cabe�a, o ch�o a queimar seus p�s descal�os.</p><p>Por um instante, abriu a boca, incr�dula, pulando de p� em p�. N�o pensava que desse para alterar coisas em outra pessoa. Tantas possibilidades, tantas regras que ela n�o sabia. Mais do que depressa, voltou os pensamentos aos cal�ados robustos e ao vestido escuro de saias divididas, e ao mesmo tempo fez as roupas da mulher Aiel desaparecerem. Precisou recorrer a <emphasis>saidar</emphasis>, pois a mulher devia estar concentrada em manter Egwene nua. Preparou um fluxo prestes a agarrar a lan�a, caso a outra mulher fizesse men��o de jog�-la.</p><p>Foi a vez de a Aiel parecer chocada. Ela deixou a lan�a desabar na lateral do corpo, e Egwene aproveitou o momento para fechar os olhos e se transportar de volta a Tanchico, de volta ao esqueleto daquele imenso javali. Ou o que fosse. Dessa vez, mal olhou para o bicho. Estava ficando cansada de coisas que pareciam javalis mas n�o eram. <emphasis>Como ela</emphasis> conseguiu <emphasis>fazer aquilo? N�o! Ficar pensando sobre como e por que � que me desvia do caminho. Dessa vez vou me manter firme.</emphasis></p><p>Mas ela hesitou. Enquanto fechava os olhos, teve a impress�o de ver outra mulher, atr�s da Aiel, a vigi�-las. Uma mulher de cabelos dourados com um arco de prata na m�o. <emphasis>Agora j� est� se deixando dominar por fantasias loucas. Andou escutando muitas hist�rias de Thom Merrilin.</emphasis> Birgitte estava morta havia muito tempo, n�o retornaria at� que a Trombeta de Valere a invocasse do t�mulo. Mulheres mortas, mesmo as hero�nas lend�rias, com certeza n�o eram capazes de adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em seus sonhos.</p><p>No entanto, fora apenas um instante de pausa. Deixando de lado as especula��es in�teis, ela correu de volta para a pra�a. Quanto tempo ainda restaria? A cidade inteira para vasculhar, o tempo se esvaindo, e ela t�o ignorante quanto come�ara. Se pelo menos fizesse alguma ideia do que procurar. Ou de onde. Correr n�o parecia deix�-la cansada no Mundo dos Sonhos, mas, por mais depressa que corresse, n�o conseguiria percorrer a cidade inteira antes que Elayne e Nynaeve a acordassem. N�o queria ter de voltar.</p><p>De repente surgiu uma mulher no meio do bando de pombos que se aglomerara na pra�a. Usava um vestido verde-claro, t�o fino e drapejado que quase poderia agradar Berelain, e os cabelos escuros estavam presos em dezenas de finas tran�as, o rosto coberto at� os olhos por um v�u transparente, igual ao do homem que ca�ra do c�u. Os pombos levantaram voo, e tamb�m a mulher, deslizando com eles pelos telhados mais pr�ximos, antes de desaparecer de s�bito.</p><p>Egwene sorriu. Sempre sonhava que estava voando como um p�ssaro, e, afinal de contas, aquilo era um sonho. Saltou no ar e continuou subindo, em dire��o aos telhados. Vacilou um pouco ao pensar no quanto aquilo era rid�culo���voar? As pessoas n�o voavam!���depois recuperou a estabilidade, for�ando-se a manter a confian�a. Estava conseguindo, e isso era o que importava. Era um sonho, e ela estava voando. O vento corria por seu rosto, e ela sentia vontade de rir.</p><p>Passou os olhos pelo C�rculo da Panarca, onde fileiras de bancos de pedra estavam dispostos desde a alta muralha at� um amplo campo de terra batida, bem no centro. Imaginou como seria ver tanta gente reunida, como seria assistir a uma exibi��o de fogos de artif�cio da pr�pria Guilda de Iluminadores. Em casa, fogos de artif�cio eram um luxo raro. Lembrava-se do bocado de vezes em que os vira em Campo de Emond, quando os adultos ficavam t�o animados quanto as crian�as.</p><p>Voou por sobre os telhados como um falc�o, percorreu pal�cios e mans�es, habita��es e lojas, armaz�ns e est�bulos. Deslizou por sobre domos cobertos de ponteiras douradas e cata-ventos, por torres cercadas de varandas de pedra trabalhada como renda. Carros e carro��es pontilhavam os p�tios, � espera. Navios abarrotavam o enorme porto e os dedos de �gua entre as pen�nsulas da cidade, al�m de enfileirarem-se no ancoradouro. Tudo parecia em p�ssimas condi��es, desde os carros at� os navios, mas ela n�o viu qualquer coisa que indicasse a Ajah Negra. At� onde podia perceber.</p><p>Considerou tentar pressentir Liandrin���conhecia muito bem aquele rostinho de boneca, com as in�meras tran�as louras, olhos castanhos cheios de satisfa��o e uma boca de bot�o de rosa, sempre com um sorriso malicioso���tentar visualiz�-la na esperan�a de ser conduzida at� a irm� Negra. Por�m, se aquilo funcionasse, poderia encontrar Liandrin em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, e talvez tamb�m as outras. N�o estava pronta para isso.</p><p>De s�bito lhe ocorreu que, se qualquer Ajah Negra estivesse em Tanchico, na Tanchico de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, Egwene estaria revelando sua presen�a para elas. Qualquer par de olhos que observasse o c�u notaria uma mulher voando, uma mulher que n�o desapareceria depois de alguns instantes. Seu voo suave se desestabilizou, e ela mergulhou, sob o n�vel dos telhados. Seguiu flutuando pelas ruas, agora mais devagar, por�m ainda mais ligeira que o galope de um cavalo. Poderia estar correndo em dire��o �s outras, mas n�o podia se for�ar a parar e esperar por elas.</p><p><emphasis>Idiota!</emphasis>, ralhou consigo mesma, furiosa. <emphasis>Idiota! Elas podem saber que estou aqui agora. Podem j� estar preparando uma armadilha.</emphasis> Considerou sair do sonho e voltar para a cama em Tear, mas n�o encontrara qualquer resposta. Isso se houvesse respostas para encontrar.</p><p>Uma mulher alta de repente surgiu na rua � sua frente. Era magra, vestia uma volumosa saia marrom e uma blusa branca solta no corpo, com um xale marrom ao redor dos ombros e um cachecol dobrado em volta da testa, para segurar os cabelos brancos que desciam at� a cintura. Apesar das roupas simples, a mulher usava muitos colares e braceletes de ouro, marfim ou ambos. De m�os plantadas na cintura, encarava Egwene nos olhos, franzindo a testa.</p><p><emphasis>Outra mulher tola cujos sonhos a levaram onde ela n�o tinha o direito de estar e que n�o acredita no que v�</emphasis>, pensou Egwene. Tinha as descri��es de todas as mulheres que haviam fugido com Liandrin, e esta sem d�vida n�o correspondia a nenhuma delas. No entanto, a mulher n�o desapareceu. Ficou ali parada enquanto Egwene se aproximava depressa. <emphasis>Por que ainda n�o sumiu? Por que ela�? Ah, Luz! Ela est� mesmo�!</emphasis> Agarrou os fluxos para urdir raios, para envolver a mulher em Ar, alarmada e afobada.</p><p>��Ponha os p�s no ch�o, garota���vociferou a mulher.���J� tive trabalho demais para encontrar voc� de novo sem que sa�sse voando feito um passarinho.</p><p>Egwene parou de voar de repente. Os p�s tocaram o ch�o com um baque, e ela cambaleou. Era a voz da mulher Aiel, mas agora mais velha. N�o t�o velha quanto Egwene pensara a princ�pio���na verdade, parecia muito mais jovem do que os cabelos brancos sugeriam. Mas a voz e aqueles agu�ados olhos azuis a faziam ter certeza de que se tratava da mesma pessoa.</p><p>��Voc� est� diferente���disse.</p><p>��Aqui voc� pode ser o que quiser.���A mulher soava constrangida, mas s� um pouco.���Certas horas, eu gosto de me lembrar� N�o importa. Voc� � da Torre Branca? Faz tempo que n�o se v� uma Andarilha dos Sonhos por l�. Muito Tempo. Eu sou Amys, do ramo dos Nove Vales, dos Aiel Taardad.</p><p>��Voc� � uma S�bia? �, sim! E conhece os sonhos, conhece <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>! Voc� pode� Meu nome � Egwene. Egwene al�Vere. Eu����Ela respirou fundo. Amys n�o parecia uma mulher a quem se pudesse contar mentiras.���Sou Aes Sedai. Da Ajah Verde.</p><p>A express�o de Amys n�o se alterou, na verdade. Um leve enrugar de olhos, talvez por ceticismo. Egwene n�o parecia ter idade suficiente para ser uma Aes Sedai completa. No entanto, o que disse foi:</p><p>��Eu pretendia deixar voc� pelada at� que me pedisse roupas apropriadas. Usar <emphasis>cadin�sor</emphasis> desse jeito, como se fosse� Voc� me surpreendeu se soltando, virando minha pr�pria lan�a contra mim. Mas ainda n�o foi ensinada, n�o �? Por mais forte que seja. Caso contr�rio, n�o teria aparecido daquele jeito no meio da minha ca�ada, onde obviamente n�o desejava estar. E esse voo por a�? Voc� veio at� aqui, a <emphasis>Tel�aran�rhiod!</emphasis>, para ficar olhando essa cidade, seja l� qual for?</p><p>��� Tanchico���respondeu Egwene, com a voz fraca. <emphasis>Ela n�o sabia.</emphasis> Mas como fora que Amys a seguira, ou como a encontrara? Estava �bvio que a mulher sabia muito mais do que Egwene sobre o Mundo dos Sonhos.���Voc� pode me ajudar. Estou tentando encontrar mulheres da Ajah Negra, Amigas das Trevas. Acho que elas est�o aqui, e preciso encontr�-las, se estiverem.</p><p>��Ent�o � verdade.���Amys quase sussurrou.���Uma Ajah de Mensageiras das Sombras na Torre Branca.���Ela balan�ou a cabe�a.���Voc� parece uma garota rec�m-desposada com a lan�a que pensa que agora pode lutar com homens e saltar montanhas. Para ela, isso significa alguns hematomas e uma valiosa li��o de humildade. Para voc�, aqui, pode significar a morte.���Amys olhou as constru��es brancas ao redor e fez uma careta.���Tanchico? Em� Tarabon? Esta cidade est� morrendo, devorando a si mesma. H� uma escurid�o aqui, uma maldade. � pior do que os homens s�o capazes de criar. Ou as mulheres.���A Aiel encarou Egwene com um olhar penetrante.���Voc� n�o consegue ver nem ouvir, n�o �? E quer ca�ar Mensageiros das Sombras em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p>��Maldade?���perguntou Egwene, mais do que depressa.���Podem ser elas. Tem certeza? Se eu contar como elas s�o, ser� que voc� pode se certificar de que s�o elas? Posso descrev�-las. Posso descrever uma por uma at� o �ltimo fio da tran�a.</p><p>��Uma crian�a���murmurou Amys���exigindo do pai um bracelete de prata neste exato instante, sem saber nada sobre neg�cios ou sobre a feitura de braceletes. Voc� tem muito que aprender. Muito mais do que posso come�ar a ensin�-la agora. Venha � Terra da Trindade. Espalharei a not�cia de que uma Aes Sedai de nome Egwene al�Vere deve ser trazida a mim, at� o Forte das Pedras Frias. Diga seu nome e mostre o anel da Grande Serpente, ent�o poder� seguir em seguran�a. N�o estou l� agora, mas voltarei de Rhuidean antes de voc� chegar.</p><p>��Por favor, voc� tem que me ajudar. Preciso saber se elas est�o aqui. Preciso saber.</p><p>��Mas n�o posso lhe dizer. N�o as conhe�o, nem conhe�o este lugar, esta Tanchico. Voc� precisa vir at� mim. O que faz � perigoso, muito mais perigoso do que imagina. Voc� precisa� Aonde est� indo? Fique!</p><p>Algo pareceu agarrar Egwene, pux�-la para a escurid�o.</p><p>A voz de Amys a acompanhou, fraca e minguante.</p><p>��Voc� precisa vir at� mim e aprender. Voc� precisa�</p></section><section><title><p>12</p><p><image l:href="#7"/></p><p>Tanchico ou A Torre</p></title><p>Elayne soltou um suspiro aliviado quando Egwene enfim se mexeu e abriu os olhos. Ao p� da cama, o rosto de Aviendha perdeu o qu� de frustra��o e ansiedade, e ela abriu um breve sorriso, que Egwene retribuiu. A vela passara da marca fazia apenas alguns minutos, mas mais parecia uma hora.</p><p>��Voc� n�o estava acordando���explicou Elayne, atordoada.���Eu a sacudi v�rias vezes, mas voc� n�o acordava.���Ela soltou uma risadinha.���Ah, Egwene, voc� assustou at� Aviendha.</p><p>Egwene p�s a m�o no bra�o da amiga e o apertou, tranquilizando-a.</p><p>��Agora voltei.���Ela soava cansada, e as roupas estavam molhadas de suor.���Acho que tive motivos para ficar um pouco mais do que t�nhamos planejado. Tomarei mais cuidado da pr�xima vez. Juro.</p><p>Nynaeve p�s de volta a jarra de �gua do lavat�rio de forma brusca, deixando espirrar um pouco para fora. Estivera a ponto de jogar a �gua na cara sonolenta de Egwene. Seu rosto estava sereno, mas a jarra fez o lavat�rio chacoalhar, e ela n�o secou a �gua derramada que pingava no carpete.</p><p>��Foi alguma coisa que voc� encontrou? Ou foi�? Egwene, se o Mundo dos Sonhos pode prend�-la de alguma forma, talvez seja muito perigoso voltar at� que aprenda mais sobre ele. Talvez, quanto mais voc� v� at� l�, mais dif�cil seja retornar. Talvez� Eu n�o sei. Mas sei que n�o podemos arriscar que voc� acabe se perdendo.</p><p>Ela cruzou os bra�os, pronta para uma discuss�o.</p><p>��Eu sei���respondeu Egwene, quase submissa.</p><p>Elayne ergueu as sobrancelhas. Egwene jamais demonstrava submiss�o a Nynaeve. Muito pelo contr�rio.</p><p>A Sonhadora lutou para sair da cama, recusando a ajuda de Elayne, e caminhou at� o lavat�rio para molhar rosto e bra�os na �gua relativamente fresca. Elayne encontrou um vestido seco no guarda-roupas, enquanto Egwene tirava o encharcado.</p><p>��Conheci uma S�bia, uma mulher chamada Amys.���A voz de Egwene saiu abafada quando a cabe�a passou pela abertura do vestido.���Ela disse que eu deveria ir encontr�-la, para aprender sobre <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Em um lugar do Deserto chamado Forte das Pedras Frias.</p><p>Elayne percebeu um brilho nos olhos de Aviendha � men��o do nome da S�bia.</p><p>��Voc� a conhece? Amys?</p><p>O meneio de cabe�a da Aiel podia ser descrito apenas como relutante.</p><p>��Uma S�bia. Uma Andarilha dos Sonhos. Amys era <emphasis>Far Dareis Mai,</emphasis> at� abrir m�o da lan�a e seguir para Rhuidean.</p><p>��Uma Donzela!���exclamou Egwene.���Ent�o � por isso que ela� N�o importa. Ela disse que est� em Rhuidean. Voc� sabe onde fica esse Forte das Pedras Frias, Aviendha?</p><p>��Mas � claro. Pedras Frias � o forte de Rhuarc. Rhuarc � marido de Amys. Eu �s vezes vou l� visitar os dois. Costumava ir. Minha irm�-da-m�e, Lian, � esposa-irm� de Amys.</p><p>Elayne trocou olhares confusos com Egwene e Nynaeve. A Filha-herdeira um dia pensara saber bastante sobre os Aiel, tudo aprendido com os professores em Caemlyn, mas desde que conhecera Aviendha descobrira que sabia muito pouco. Os costumes e rela��es de parentesco eram um labirinto. Irm�s-primeiras era um termo que indicava filhas da mesma m�e, mas era poss�vel que duas amigas <emphasis>se tornassem</emphasis> irm�s-primeiras ao firmar compromisso diante de uma S�bia. Irm�s-segundas, por sua vez, indicava que as m�es de duas mulheres eram irm�s. Se os pais � que fossem irm�os, as mulheres eram irm�s-paternas, e n�o eram consideradas t�o pr�ximas quanto irm�s-segundas. Depois disso, a coisa ficava bem incompreens�vel.</p><p>��O que quer dizer �esposa-irm�?���perguntou, hesitante.</p><p>��Que as duas t�m o mesmo marido.���Aviendha franziu o cenho pela forma como Egwene arquejou, e os olhos de Nynaeve se arregalaram ao m�ximo. Elayne, de certo modo, j� esperava a resposta, mas mesmo assim se pegou ajeitando as saias, que j� estavam perfeitamente lisas.���Isso n�o � parte dos costumes de voc�s?���perguntou a Aiel.</p><p>��N�o���respondeu Egwene, com a voz fraca.���N�o, n�o �.</p><p>��Mas voc� e Elayne cuidam uma da outra como se fossem irm�s-primeiras. O que fariam se uma das duas n�o estivesse disposta a abrir m�o de Rand al�Thor? Lutariam por ele? Deixariam um homem destruir os la�os que existem entre voc�s? N�o seria melhor se ambas pudessem se casar com ele?</p><p>Elayne olhou para Egwene. Pensou em� Ser� que conseguiria fazer uma coisa dessas? Mesmo com Egwene? Sabia que estava com as bochechas vermelhas. Egwene parecia apenas surpresa.</p><p>��Mas eu quis abrir m�o���respondeu.</p><p>Elayne sabia que a observa��o era tanto para ela quanto para Aviendha, mas o pensamento persistia. Ser� que Min tivera uma vis�o? O que faria, se fosse mesmo o caso? <emphasis>Se for Berelain, vou estrangular aquela mulher. E Rand tamb�m! Se tiver de ser algu�m, por que n�o poderia ser Egwene? Luz, o que � que estou pensando?</emphasis> Sabia que estava ficando aturdida e, para disfar�ar, suavizou a voz.</p><p>��Voc� fala como se o homem n�o tivesse escolha.</p><p>��Ele pode dizer n�o���retrucou Aviendha, como se fosse �bvio���mas, se desejar se casar com uma, tem de se casar com as duas que pedirem. Por favor, n�o se ofendam, mas fiquei chocada quando descobri que, nas suas terras, um homem pode pedir uma mulher em casamento. Um homem deve deixar seu interesse claro, depois esperar que a mulher se pronuncie. � claro, algumas mulheres levam um homem a perceber o pr�prio interesse, mas o direito do pedido � dela. Na verdade, n�o entendo muito dessas coisas. Quero ser <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> desde crian�a. Tudo o que quero na vida s�o a lan�a e minhas irm�s-de-lan�a���concluiu, um tanto feroz.</p><p>��Ningu�m vai tentar obrigar voc� a se casar���disse Egwene, acalmando-a.</p><p>Aviendha lhe lan�ou um olhar surpreso.</p><p>Nynaeve pigarreou alto. Elayne se perguntou se a mulher estivera pensando em Lan, j� que suas bochechas estavam obviamente coradas.</p><p>��Egwene���come�ou Nynaeve, em um tom um pouco en�rgico demais �, suponho que voc� n�o tenha encontrado o que estava procurando, ou j� teria comentado.</p><p>��N�o encontrei���concordou Egwene, lamentosa.���Mas Amys disse� Aviendha, como � essa Amys?</p><p>A Aiel come�ou a analisar o carpete.</p><p>��Amys � dura como as montanhas e impiedosa como o sol���disse, sem olhar para cima.���� uma Andarilha dos Sonhos. Pode ensinar sobre o assunto. Mas assim que puser as m�os em voc�, vai arrast�-la pelos cabelos em dire��o ao que ela quer. Rhuarc � o �nico capaz de enfrent�-la. At� as outras S�bias agem com cautela quando Amys come�a a falar. Mas ela pode lhe ensinar.</p><p>Egwene balan�ou a cabe�a.</p><p>��Eu queria saber se estar em um lugar estranho a deixaria incomodada, nervosa? Estar em uma cidade? Ela veria coisas que n�o existem?</p><p>Aviendha deu uma risada �cida.</p><p>��Nervosa? Nem acordar ao lado de um le�o deixaria Amys nervosa. Ela era uma Donzela, Egwene, e n�o se abrandou nem um pouco, pode ter certeza.</p><p>��O que foi que essa mulher viu?���perguntou Nynaeve.</p><p>��N�o foi bem algo que ela viu���come�ou Egwene, escolhendo as palavras.���<emphasis>Acho</emphasis> que n�o. Ela disse que Tanchico carrega uma maldade. Algo pior do que os homens s�o capazes de fazer. Isso pode ser a Ajah Negra. N�o discuta comigo, Nynaeve���acrescentou, em um tom firme.���Os sonhos precisam ser interpretados. Pode muito bem ser a Ajah Negra.</p><p>Nynaeve j� come�ara franzir a testa assim que Egwene mencionou o mal em Tanchico, express�o que se transformou em um olhar fixo e inflamado quando a jovem mandou que ela n�o discutisse. �s vezes, Elayne tinha vontade de sacudir aquelas duas. Intrometeu-se depressa, antes que a mais velha acabasse explodindo.</p><p>��Pode muito bem ser, Egwene. Voc� realmente encontrou algo. Mais do que Nynaeve ou eu pens�vamos que poderia. N�o foi, Nynaeve? Voc� n�o acha?</p><p>��Pode ser���respondeu a outra, emburrada.</p><p>��Pode ser.���Egwene n�o soava feliz. Ela respirou fundo.���Nynaeve tem raz�o. Preciso aprender o que estou fazendo. Se eu soubesse o que deveria saber, n�o precisaria ser informada sobre essa maldade. Se eu soubesse o que deveria saber, poderia ter encontrado o local exato onde est� Liandrin, seja ele qual for. Amys pode me ensinar. � por isso� � por isso que eu tenho de ir at� ela.</p><p>��Ir at� ela?���Nynaeve soou horrorizada.���At� o Deserto?</p><p>��Aviendha pode me levar direto para esse Forte das Pedras Frias.���O olhar de Egwene, meio desafiador, meio ansioso, saltava entre Elayne e Nynaeve.���Se eu tivesse certeza de que elas est�o em Tanchico, n�o as deixaria irem sozinhas. Isso se voc�s decidirem ir. Mas, com Amys para me ajudar, talvez eu consiga descobrir onde elas est�o. Talvez eu consiga� � isso, nem mesmo sei o que conseguirei fazer, s� tenho certeza de que ser� muito mais do que imagino. N�o estou abandonando voc�s. Podem levar o anel. Voc�s conhecem a Pedra o suficiente para voltar para c� em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Posso encontrar voc�s em Tanchico. Seja l� o que Amys me ensinar, posso repassar o conhecimento a voc�s. Por favor, digam que compreendem. Eu posso aprender bastante com Amys e depois posso usar o que aprender para ajudar. Ser� como se n�s tr�s tiv�ssemos recebido o mesmo treinamento. Ela � uma Andarilha dos Sonhos, uma mulher com <emphasis>conhecimento</emphasis>! Liandrin e as outras s�o apenas criancinhas perto disso, elas n�o sabem nem um quarto do que saberemos.���Ela mordeu o l�bio, pensativa.���Voc�s n�o acham que eu estou abandonando voc�s, acham? Se for isso, eu n�o vou.</p><p>��� claro que voc� tem que ir���respondeu Elayne.���Vou sentir saudades, mas ningu�m nos prometeu que ficar�amos juntas at� o fim.</p><p>��Mas voc�s duas� indo sozinhas� Eu devia ir com voc�s. Se elas estiverem mesmo em Tanchico, eu tenho que ir com voc�s.</p><p>��Bobagem���retrucou Nynaeve, com certa rudeza.���Voc� precisa � de treinamento. Isso vai nos ajudar muito mais a longo prazo do que sua companhia at� Tanchico. E n�s nem temos certeza se alguma delas est� mesmo em Tanchico. Se estiverem, Elayne e eu nos sairemos muito bem juntas, mas podemos chegar l� e descobrir que esta maldade, no fim das contas, n�o � nada al�m da pr�pria guerra. Sabe a Luz que a guerra j� representa maldade suficiente para qualquer um. De repente, podemos at� voltar para a Torre antes de voc�. Mas tome cuidado no Deserto���acrescentou, em um tom experiente.���� um lugar perigoso. Aviendha, voc� vai cuidar dela?</p><p>Antes que a Aiel pudesse abrir a boca, ouviram uma batida na porta, e logo depois Moiraine entrou. A Aes Sedai as encarou com um olhar que pesava, media e avaliava as quatro e o que estavam fazendo, tudo sem sequer uma piscadela que indicasse suas conclus�es.</p><p>��Joiya e Amico est�o mortas���anunciou.</p><p>��Ent�o foi esse o motivo do ataque?���perguntou Nynaeve.���Tudo isso para matar as duas? Ou talvez para mat�-las caso elas n�o pudessem ser libertadas. Eu tinha certeza de que toda aquela confian�a de Joiya era porque ela esperava ser resgatada. No fim das contas, devia estar mesmo mentindo. Nunca acreditei que estivesse arrependida.</p><p>��Talvez n�o tenha sido o motivo principal���retrucou Moiraine.���O capit�o, muito sabiamente, manteve os homens em suas posi��es nos calabou�os durante o ataque. Eles n�o viram nem um �nico Trolloc ou Myrddraal. Mas encontraram as duas mortas depois do acontecido. Com as gargantas dilaceradas. E as l�nguas pregadas na porta da cela.���Pelo tom de voz, ela poderia estar falando do remendo de um vestido.</p><p>O est�mago de Elayne se embrulhou com a descri��o impass�vel.</p><p>��Eu n�o desejava isso a elas. N�o desse jeito. Que a Luz ilumine suas almas.</p><p>��Elas venderam as almas para a Sombra h� muito tempo���retrucou Egwene, com a voz severa. Mas apertava a barriga com ambas as m�os.���Como� Como foi que fizeram isso? Foram os Homens Cinza?</p><p>��Duvido que at� Homens Cinza conseguissem fazer uma coisa dessas���respondeu Moiraine, seca.���Ao que parece, os recursos da Sombra v�o muito al�m do que sabemos.</p><p>���.���Egwene alisou o vestido e amansou a voz.���Se n�o houve tentativa de resgate, � poss�vel que ambas estivessem dizendo a verdade. Elas morreram por causa do que revelaram.</p><p>��Ou para serem impedidas de revelar���acrescentou Nynaeve, taciturna.���Tomara que eles n�o saibam que essas duas nos contaram alguma coisa. Talvez Joiya tenha mesmo se arrependido, mas eu n�o acredito.</p><p>Elayne engoliu em seco, pensando em como seria estar dentro de uma cela, com a cara imprensada na porta para que a l�ngua fosse puxada e� estremeceu, mas se obrigou a dizer:</p><p>��Talvez elas tenham sido mortas simplesmente como puni��o por terem sido capturadas.���N�o revelou que pensava que tamb�m poderia ter sido para fazer com que elas acreditassem nas hist�rias de Joiya e de Amico, pois j� tinham d�vidas demais em rela��o ao que fazer.���Tr�s possibilidades, e apenas uma sugere que a Ajah Negra saiba que as duas soltaram a l�ngua. Como todas as tr�s s�o semelhantes, as chances s�o de que n�o saibam.</p><p>Egwene e Nynaeve pareciam chocadas.</p><p>��Como <emphasis>puni��o</emphasis>?���perguntou a mais velha, incr�dula.</p><p>As duas eram muito mais fortes do que Elayne, em diversos aspectos���e ela as admirava por isso���mas n�o haviam crescido assistindo �s intrigas da corte de Caemlyn, nem ouvindo hist�rias sobre a crueldade de cairhienos e tairenos no Jogo das Casas.</p><p>��Acho que a Ajah Negra pode ser muito pouco gentil com falhas de qualquer tipo���respondeu.���Posso imaginar Liandrin dando a ordem. Joiya sem d�vida teria cumprido sem pestanejar.</p><p>Moiraine a encarou por um instante, parecendo reavaliar os pensamentos.</p><p>��Liandrin���disse Egwene, em um tom completamente inexpressivo.����, d� para imaginar Liandrin ou Joiya dando essa ordem.</p><p>��Qualquer que tenha sido o caso, voc�s n�o tinham mais muito tempo para interrog�-las���anunciou Moiraine.���As duas embarcariam no navio ao meio-dia de amanh�.���Uma ponta de raiva tocou sua voz, e Elayne percebeu que Moiraine talvez enxergasse a morte das irm�s Negras como uma fuga da justi�a.���Espero que tomem uma decis�o depressa. Tanchico ou a Torre.</p><p>Elayne encarou Nynaeve e assentiu brevemente.</p><p>Nynaeve assentiu de volta, mais assertiva, antes de se virar para a Aes Sedai.</p><p>��Elayne e eu iremos para Tanchico assim que encontrarmos um navio. Um veloz, espero. Egwene e Aviendha seguir�o para o Forte das Pedras Frias, no Deserto Aiel.���Ela n�o deu motivos, e Moiraine ergueu as sobrancelhas.</p><p>��Jolien pode lev�-la���disse Aviendha, diante do sil�ncio moment�neo. Evitava olhar para Egwene.���Ou Sefela, ou Bain e Chiad. Eu� Pensei em ir com Elayne e Nynaeve. Se houver guerra em Tanchico, elas v�o precisar de uma irm� para proteg�-las.</p><p>��Se � isso o que quer, Aviendha���retrucou Egwene, escolhendo as palavras. Parecia surpresa e magoada, por�m n�o mais surpresa do que Elayne. Achava que aquelas duas estavam se tornando amigas.</p><p>��Fico feliz pela vontade de ajudar, Aviendha, mas � voc� quem deve levar Egwene at� o Forte das Pedras Frias.</p><p>��Ela n�o vai nem para Tanchico, nem para o Forte���interveio Moiraine, tirando uma carta da bolsa e desdobrando as p�ginas.���Isso chegou �s minhas m�os h� uma hora. O jovem Aiel que a trouxe disse que a recebeu h� um m�s, antes de que qualquer uma de n�s tivesse chegado a Tear. Mas tem meu nome no envelope, junto com o endere�o da Pedra.���Ela olhou a �ltima folha.���Aviendha, voc� conhece Amys, do ramo dos Nove Vales, dos Aiel Taardad; Bair, do ramo Haido dos Aiel Shaarad; Melaine, do ramo Jhirad, dos Aiel Goshien; e Seana, do ramo Penhasco Negro, dos Aiel Nakai? Est� assinada por elas.</p><p>��S�o todas S�bias, Aes Sedai. Todas Andarilhas dos Sonhos.</p><p>A postura de Aviendha se tornara mais cautelosa, mas ela n�o percebeu. Parecia pronta para lutar ou fugir.</p><p>��Andarilhas dos Sonhos���meditou Moiraine.���Talvez isso explique. J� ouvi falar nisso.���Ela virou a segunda p�gina da carta.���Ou�am o que elas dizem de voc�. O que disseram antes de voc� sequer decidir vir at� Tear. �Entre as Donzelas da Lan�a acampadas na Pedra de Tear h� uma garota voluntariosa chamada Aviendha, do ramo dos Nove Vales, dos Aiel Taardad. Ela deve vir at� n�s. N�o pode mais haver espera ou desculpas. N�s a aguardaremos nas encostas de Chaendaer, acima de Rhuidean.� Ainda h� mais sobre voc�, mas basicamente dizem que devo envi�-la a elas sem demora. Emitem ordens como a Amyrlin, essas suas S�bias.</p><p>Moiraine deu um grunhido exaltado, o que levou Elayne a imaginar se as S�bias tamb�m teriam tentado dar ordens � Aes Sedai. Era improv�vel. E improv�vel que conseguissem, caso tentassem. Ainda assim, algo naquela carta deixava a mulher irritada.</p><p>��Eu sou <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>���disse Aviendha, irritada.���N�o saio correndo como uma criancinha quando algu�m chama meu nome. Se quiser, irei para Tanchico.</p><p>Elayne apertou os l�bios, pensativa. Aquilo era novo, vindo da Aiel. N�o a raiva���j� vira Aviendha irritada, ainda que n�o a esse ponto���mas a insinua��o. S� podia chamar aquilo de ressentimento. Parecia t�o improv�vel quanto vindo de Lan, mas l� estava.</p><p>Egwene tamb�m percebeu. Deu um tapinha no bra�o de Aviendha.</p><p>��Est� bem. Se voc� quiser ir a Tanchico, ficarei feliz por saber que est� protegendo Elayne e Nynaeve.</p><p>Aviendha lan�ou a ela um olhar genuinamente angustiado.</p><p>Moiraine balan�ou a cabe�a bem de leve, ainda deliberando.</p><p>��Mostrei isso a Rhuarc.���Aviendha abriu a boca, o rosto irado, mas a Aes Sedai elevou a voz e prosseguiu, serena:���Conforme a carta solicita que eu fa�a. Apenas o trecho referente a voc�, � claro. Ele parece bastante determinado que voc� fa�a o que a carta diz. O que ela ordena. Acho que � mais s�bio ceder ao desejo dele e das S�bias, Aviendha. Voc� n�o concorda?</p><p>A jovem passou os olhos por todo o quarto, desesperada, como se estivesse presa em uma armadilha.</p><p>��Eu sou <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>���murmurou, e saiu pisando duro pela porta, sem dizer outra palavra.</p><p>Egwene deu um passo, erguendo um pouco a m�o para tentar impedir a mulher, e deixou-a cair quando a porta bateu.</p><p>��O que � que querem com ela?���perguntou a Moiraine.���Voc� sempre sabe mais do que deixa transparecer. O que est� escondendo dessa vez?</p><p>��Qualquer que seja o motivo das S�bias���respondeu Moiraine, com frieza����, sem d�vida, uma quest�o entre elas e Aviendha. Se a menina quisesse que voc�s soubessem, teria contado.</p><p>��Voc� n�o consegue parar de tentar manipular os outros���disse Nynaeve, amarga.���Agora est� manipulando Aviendha, n�o est�?</p><p>��Eu, n�o. As S�bias. E Rhuarc.���Moiraine dobrou a carta e a devolveu � bolsa do cinto, com um toque de rispidez nos modos.���Ela sempre tem a op��o de recusar. Um chefe de cl� n�o � o mesmo que um rei, pelo que sei dos costumes Aiel.</p><p>��Tem?���perguntou Elayne. Rhuarc a fazia se lembrar de Gareth Bryne. O Capit�o-General da Guarda Real de sua m�e quase n�o batia o p�, mas, quando batia, nem mesmo Morgase era capaz de dobr�-lo sem uma ordem real. N�o haveria ordem do trono dessa vez, n�o que Morgase j� tivesse emitido alguma a Gareth Bryne, quando ele decidira que tinha raz�o, agora que Elayne pensava no assunto. E, sem ordem, imaginava que Aviendha iria �s encostas de Chaendaer, acima de Rhuidean.���Pelo menos ela pode viajar com voc�, Egwene. Amys n�o poder� encontr�-la no Forte das Pedras Frias se est� planejando esperar por Aviendha em Rhuidean. Voc�s podem ir encontrar Amys juntas.</p><p>��Mas n�o quero que ela v᠗�disse Egwene, com tristeza.���N�o se ela n�o quiser ir.</p><p>��Seja l� o que voc�s decidam���interveio Nynaeve���temos trabalho a fazer. Voc�s v�o precisar de muitas coisas para viajar pelo Deserto, Egwene. Lan poder� me dizer o qu�. E Elayne e eu precisamos nos preparar para embarcar para Tanchico. Acho que conseguiremos encontrar um navio amanh�, mas isso significa que teremos de decidir o que p�r na mala hoje � noite.</p><p>��Tem um navio dos Atha�an Miere no cais do Maule���disse Moiraine.���Um forcador. N�o h� navio mais veloz. Voc�s queriam uma embarca��o ligeira.</p><p>Nynaeve assentiu, emburrada.</p><p>��Moiraine���disse Elayne���o que � que Rand vai fazer? Depois desse ataque� Ele vai come�ar a guerra que voc� quer?</p><p>��Eu n�o quero guerra nenhuma���retrucou a Aes Sedai.���Quero que ele permane�a vivo para lutar em Tarmon Gai�don. Rand diz que amanh� contar� a todos o que pretende fazer.���Ela franziu a testa muito de leve.���Amanh�, todos saberemos mais do que sabemos hoje.</p><p>Ela partiu sem demora, sem aviso.</p><p><emphasis>Amanh�</emphasis>, pensou Elayne. <emphasis>O que ser� que Rand far� quando eu disser a ele? O que dir�? Ele precisa compreender.</emphasis> Determinada, juntou-se �s outras duas para discutir os preparativos.</p></section><section><title><p>13</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Rumores</p></title><p>Os neg�cios da taverna corriam t�o bem quanto qualquer outro no Maule, como um carro��o de gansos e cer�micas descendo colina abaixo noite adentro. O burburinho de vozes competia com as ofertas musicais de tr�s tambores variados, dois salt�rios e um salt�rio que emanava vibra��es lamentosas. As gar�onetes com vestidos escuros na altura dos tornozelos, cuja gola ia at� o queixo, e aventais brancos curtos andavam apressadas entre as mesas apinhadas, segurando montes de canecas de cer�mica sobre a cabe�a para conseguirem se espremer e passar pelo meio da clientela. Doqueiros descal�os com coletes de couro misturavam-se a rapazes de casacos justos at� a cintura e a homens de peitos nus com grandes cintur�es prendendo as cal�as largas. T�o perto do cais, era poss�vel avistar na multid�o indiv�duos de todos os lugares. Golas altas do norte e camisas de bot�o do oeste, casacos com correntes de prata e coletes com sinos, botas at� os joelhos e botas at� as coxas, colares ou brincos nos homens, casacos e camisas de renda. Um sujeito de ombros largos e barriga grande ostentava uma barba loura e forcada, e outro passara alguma coisa no bigode, para curv�-lo dos dois lados do rosto estreito e faz�-lo brilhar � luz dos lampi�es. Dados rolavam e ca�am em tr�s cantos do sal�o e em diversas mesas, e a prata trocava depressa de m�os sob o ru�do de berros e gargalhadas.</p><p>Mat estava sentado sozinho, encostado na parede de onde podia ver todas as portas, embora encarasse apenas uma caneca de vinho escuro ainda intocada. N�o se aproximara dos jogos de dados, nem dera sequer uma olhadela para os tornozelos das gar�onetes. Com a taverna t�o abarrotada, de vez em quando alguns homens consideravam dividir a mesa com ele, mas uma boa olhada em seu rosto os fazia dar meia-volta para amontoarem-se em algum outro banco.</p><p>Ele mergulhou um dedo no vinho e desenhou com o l�quido no topo da mesa, distra�do. Aqueles idiotas n�o faziam ideia do que acontecera na Pedra, naquela noite. Ouvira uns poucos tairenos mencionarem uma confus�o qualquer, palavras ligeiras que morreram em risos nervosos. Os homens n�o sabiam, nem queriam saber. Ele quase desejou tamb�m n�o saber. N�o, queria ter uma ideia melhor do que acontecera. As imagens ficavam lampejando em sua mente, lampejando pelos buracos em sua mem�ria, sem fazer sentido.</p><p><emphasis>Um estr�pito de luta em algum ponto distante ecoou pelo corredor, abafado pelas tape�arias nas paredes. Com a m�o tr�mula, retirou a faca do corpo do Homem Cinza. Um Homem Cinza em seu encal�o. S� podia estar em seu encal�o. Homens Cinza n�o vagavam por a� matando a esmo, seguiam para seus alvos t�o certeiros como flechas. Ele se virou para correr e viu um Myrddraal avan�ando ligeiro em sua dire��o, parecendo uma serpente negra com pernas, o rosto l�vido e sem olhos fazendo-o se arrepiar at� os ossos. A trinta passadas de dist�ncia, Mat arremessou uma faca bem onde deveria haver um olho. �quela dist�ncia, acertaria o buraco de uma �rvore do tamanho de um olho quatro vezes a cada cinco tentativas.</emphasis></p><p><emphasis>A espada negra do Desvanecido turvou ao jogar a adaga longe de forma quase casual. A criatura sequer reduziu o passo.</emphasis></p><p><emphasis>��Hora de morrer, Soador da Trombeta.���A voz da coisa era um silvo seco de v�bora vermelha, um aviso de morte.</emphasis></p><p><emphasis>Mat recuou. Estava com uma faca em cada m�o, mas n�o se lembrava de t�-las desembainhado. N�o que facas fossem p�reo para uma espada, mas, se corresse, seria t�o certo ter aquela l�mina negra cravada em suas costas quanto cinco seis ganhavam de quatro tr�s. Desejou ter um bom bast�o nas m�os. Ou um arco. Queria ver aquela coisa tentando desviar da flecha de um arco longo de Dois Rios. Desejou estar em outro lugar. Iria morrer ali.</emphasis></p><p><emphasis>De repente, mais de dez Trollocs sa�ram urrando de um corredor lateral, lan�ando-se sobre o Desvanecido em um frenesi de machados cortantes e espadas golpeantes. Mat ficou encarando, embasbacado e incr�dulo. O Meio-homem lutava como um furac�o de armadura negra. Mais da metade dos Trollocs estava morta ou morrendo antes de o Desvanecido desabar, contorcendo-se. Um dos bra�os estava dobrado e se debatia feito uma cobra agonizante a tr�s passadas de dist�ncia do corpo, ainda com o punho fechado na espada negra.</emphasis></p><p><emphasis>Um Trolloc com chifres de carneiro olhou na dire��o de Mat, o focinho erguido para farejar o ar. Rosnou para ele, depois gemeu e come�ou a lamber o enorme corte que se abrira no antebra�o peludo por baixo da malha rasgada. Os outros terminaram de degolar os feridos, e um deles urrou algumas palavras rudes e guturais. Sem olhar outra vez para Mat, eles se viraram e sa�ram trotando, cascos e botas ecoando no ch�o de pedras.</emphasis></p><p>Para longe dele. Mat estremeceu. Trollocs ao resgate. Em que Rand o metera dessa vez? Olhou para o desenho que fizera com o vinho���uma porta aberta���e o apagou, irritado. Precisava sair dali. Precisava. Sentia tamb�m aquele impulso persistente, dizendo que era hora de voltar para a Pedra. Afastou a sensa��o, cheio de raiva, mas ela continuava o importunando.</p><p>Pescou um trecho da conversa da mesa � direita, onde o sujeito de rosto fino e bigode enrolado monologava, com forte sotaque de Lugard.</p><p>��Agora, este Drag�o de voc�s � um grande homem, sem d�vida, isso eu n�o nego, mas n�o � p�reo para Logain. Ora, Logain levou Ghealdan inteira � guerra, e metade de Amadicia e Altara tamb�m. Fez a terra engolir cidades inteiras que resistiram, ah, fez. Pr�dios, gente, tudo, tudo. E o sujeito de Saldaea, Maseem? Ora, dizem que o homem fez o sol parar at� derrotar o ex�rcito do Lorde de Bashere. � fato, � o que dizem.</p><p>Mat balan�ou a cabe�a. A Pedra destru�da, <emphasis>Callandor</emphasis> nas m�os de Rand, e aquele idiota ainda pensava que era mais um falso Drag�o. Desenhara outra vez a tal porta. Apagou o desenho com a m�o, agarrou a caneca de vinho e parou com ela erguida a meio caminho da boca. No meio da balb�rdia, seus ouvidos captaram um nome familiar proferido em uma mesa pr�xima. Abandonando o banco outra vez, caminhou at� a mesa de caneca na m�o.</p><p>O povo ali em volta era o tipo de estranha mistura encontrada nas tavernas do Maule. Dois marinheiros descal�os usando casacos impermeabilizados com cera sobre os peitorais nus, um deles com uma robusta corrente de ouro bem perto do pesco�o. Um homem que j� fora gordo, com uma papada ca�da, vestia um casaco cairhieno escuro com listras vermelhas, douradas e verdes cruzando o peito, o que poderia indicar que era um nobre, embora uma das mangas estivesse rasgada no ombro. Muitos refugiados cairhienos haviam ido para bem longe. Uma mulher grisalha, vestida toda de azul-escuro, com rosto severo, olhar penetrante e pesados an�is de ouro nos dedos. E o orador, o sujeito da barba forcada que tinha na orelha um rubi do tamanho de um ovo de pombo. As tr�s correntes de prata que cruzavam o peito estufado do casaco escuro e avermelhado indicavam que era um mestre mercador kandoriano. Havia uma guilda de mercadores em Kandor.</p><p>O falat�rio cessou, e todos os olhos voltaram-se para Mat quando ele parou diante da mesa.</p><p>��Ouvi voc�s mencionarem Dois Rios.</p><p>O Barba Forcada deu uma olhada r�pida nele, os cabelos desgrenhados, a express�o tensa, o vinho na m�o, as botas pretas reluzentes, o casaco verde com arabescos dourados aberto at� a cintura, revelando uma camisa branca de linho, os dois muito amarrotados. Em resumo, o retrato de um jovem nobre passeando em meio � plebe.</p><p>��Eu mencionei, milorde���disse, com voz cordial.���Estava dizendo que n�o vai sair tabaco de l� este ano, aposto. Mas tenho vinte barris da melhor folha de Dois Rios, e n�o existe melhor. Conseguirei um pre�o excelente mais para a frente no ano. Se o milorde desejar um barril para o pr�prio estoque����Ele puxou uma ponta da barba amarela e passou um dedo pelo nariz.���Tenho certeza de que eu poderia�</p><p>��Voc� aposta, �?���indagou Mat, baixinho, interrompendo o homem.���Por que � que n�o haveria tabaco fora de Dois Rios?</p><p>��Ora, os Mantos-brancos, milorde. Os Filhos da Luz.</p><p>��O que t�m os Mantos-brancos?</p><p>O mestre mercante olhou ao redor da mesa, pedindo ajuda. Havia uma nota de perigo naquele tom tranquilo. Os marinheiros pareciam prontos para partir, se arranjassem coragem. O cairhieno encarava Mat, sentado ereto, alisando o casaco surrado e se balan�ando���a caneca vazia diante dele obviamente n�o era a primeira. A mulher grisalha levou uma bebida � boca, os olhos penetrantes observando Mat com muita aten��o.</p><p>Tentando fazer uma mesura sentado, o mercador come�ou a falar, em um tom bajulador:</p><p>��Os rumores, milorde, s�o de que os Mantos-brancos invadiram Dois Rios. � ca�a do Drag�o Renascido, pelo que dizem. Mas � claro que isso n�o pode ser, j� que o Drag�o Renascido est� aqui em Tear.���Ele encarou Mat para ver como ele recebia a informa��o. A express�o do rapaz n�o se alterou.���Esses boatos podem ser bem loucos, milorde. Talvez seja apenas tempestade em copo d��gua. Os mesmos rumores afirmam que os Mantos-brancos est�o tamb�m atr�s de algum Amigo das Trevas de olhos amarelos. O senhor j� ouviu falar de um homem com olhos amarelos, milorde? Muito menos eu. Tempestade em copo d��gua.</p><p>Mat pousou a caneca na mesa e inclinou-se para perto do homem.</p><p>��Quem mais est�o ca�ando? De acordo com esses rumores. O Drag�o Renascido. Um homem de olhos amarelos. Quem mais?</p><p>Gotas de suor se formaram no rosto do mercador.</p><p>��Ningu�m, milorde. Ningu�m, que eu saiba. S� boatos, milorde. Palha ao vento, nada mais. Um sopro de fuma�a que logo vai embora. Ser� que posso ter a honra de presentear milorde com um barril de tabaco de Dois Rios? Um gesto de gratid�o� A honra de� Para expressar meu�</p><p>Mat jogou uma coroa de ouro andoriana na mesa.</p><p>��Bebam por minha conta at� esse dinheiro acabar.</p><p>Ao virar as costas, ouviu murm�rios.</p><p>��Achei que ele iria me degolar. Voc�s sabem como s�o esses fidalgotes quando est�o cheios de vinho���disse o mercador de barba forcada.</p><p>��Estranho esse rapaz���comentou a mulher.���Perigoso. N�o invente moda com esse tipo, Paetram.</p><p>��Acho que ele n�o � nenhum lorde���sugeriu outro homem, petulante. O cairhieno, Mat sup�s.</p><p>Fez uma careta. Lorde? N�o seria lorde nem se lhe oferecessem. <emphasis>Mantos-brancos em Dois Rios. Luz! Que a Luz nos ajude!</emphasis></p><p>Ele abriu caminho at� a porta e pegou um par de tamancos de madeira da pilha encostada na parede. N�o fazia ideia se era o par com que entrara���eram todos iguais���nem se importava. Cabiam em suas botas.</p><p>Come�ou a chover l� fora, uma pancada leve que deixava a escurid�o ainda mais escura. Mat levantou a gola e saiu patinhando pelas ruas lamacentas do Maule a um trote esquisito, passando por tavernas barulhentas, estalagens iluminadas e casas com janelas escuras. Quando a lama deu lugar ao pavimento de pedras, perto do muro que marcava a entrada da cidade, ele chutou os tamancos, largou-os na rua e seguiu caminhando. Os Defensores que guardavam o port�o de acesso � Pedra mais pr�ximo o deixaram passar sem uma palavra, sabiam quem ele era. Correu at� o quarto de Perrin e abriu a porta depressa, mal notando a fissura lascada na madeira. Os alforjes de Perrin jaziam na cama, e ele estava enfiando camisas e meias dentro. Havia apenas uma vela acesa, mas ele n�o percebeu o brilho.</p><p>��Ah, ent�o voc� ficou sabendo���disse Mat.</p><p>Perrin n�o parou o que estava fazendo.</p><p>��Sobre nossa casa? Fiquei sabendo. Desci para farejar algum boato para Faile. Depois desta noite, mais do que nunca, preciso que ela����O rosnado, bem no fundo da garganta, fez eri�arem os pelos da nuca de Mat. Ele parecia um lobo nervoso.���N�o importa. Fiquei sabendo. Talvez isso tamb�m funcione.</p><p><emphasis>Tamb�m funcione para qu�?</emphasis>, perguntou-se Mat.</p><p>��Voc� acredita?</p><p>Por um instante, Perrin olhou para cima. Seus olhos captaram a luz da vela, refletindo um reluzente amarelo-dourado.</p><p>��Para mim, parece que n�o h� muita d�vida. Est� tudo muito perto da verdade.</p><p>Mat se remexeu, incomodado.</p><p>��Ser� que Rand sabe?���Perrin apenas assentiu e voltou a empacotar as coisas.���Bem, o que foi que ele disse?</p><p>Perrin parou, encarando o manto dobrado nas m�os.</p><p>��Come�ou a resmungar sozinho. �Ele disse que faria. Disse, sim. Eu devia ter acreditado.� Alguma coisa assim. N�o fez sentido. Ent�o me agarrou pela gola e disse que tinha de fazer �o que eles n�o esperam�. Queria que eu entendesse, mas acho que nem ele entende. Pareceu n�o ligar se eu ficaria ou iria embora. N�o, retiro o que disse. Acho que ele est� aliviado por eu estar partindo.</p><p>��No frigir dos ovos, ele n�o vai fazer nada���disse Mat.���Luz, com <emphasis>Callandor</emphasis> ele poderia explodir uns mil Mantos-brancos! Voc� viu o que ele fez com aqueles malditos Trollocs. Est� indo, �? De volta para Dois Rios? Sozinho?</p><p>��A n�o ser que voc� venha tamb�m.���Perrin enfiou o manto nos alforjes.���Voc� vem?</p><p>Em vez de responder, Mat marchou de um lado a outro, o rosto ora � meia-luz, ora mergulhado nas sombras. A m�e e o pai estavam em Campo de Emond, e tamb�m as irm�s. Os Mantos-brancos n�o tinham motivo para fazer mal a eles. Se fosse para casa, tinha a sensa��o de que nunca sairia de l� outra vez, que sua m�e o faria casar antes que ele pudesse piscar. Por�m, se n�o fosse e os Mantos-brancos machucassem sua fam�lia� Um rumor era o suficiente para os Mantos-brancos, pelo que ouvira dizer. Mas por que haveria qualquer rumor a seu respeito? At� os Coplin, mentirosos e encrenqueiros, gostavam de seu pai. Todos gostavam de Abell Cauthon.</p><p>��Voc� n�o precisa���disse Perrin, baixinho.���Nada do que ouvi fazia men��o a voc�. S� a Rand e a mim.</p><p>��Que me queime, eu v����Ele n�o conseguia dizer. Pensar em partir era f�cil, mas dizer em voz alta? A garganta apertou para estrangular as palavras.���Voc� acha f�cil, Perrin? Quer dizer, acha f�cil ir embora? Voc� n�o� Sente nada? Tentando prend�-lo? Tentando convenc�-lo a n�o ir?</p><p>��Demais, Mat. Mas sei que, no fim das contas, tudo se resume a Rand e aos <emphasis>ta�veren</emphasis>. Voc� n�o admite isso, n�o �? Cem motivos para ficar, mas um motivo para ir pesa mais do que tudo. Os Mantos-brancos est�o em Dois Rios e v�o machucar as pessoas tentando me encontrar. Eu posso impedir isso, se for para l�.</p><p>��Por que � que os Mantos-brancos querem voc� a ponto de machucar algu�m? Luz, se eles sa�rem perguntando por algu�m de olhos amarelos, ningu�m em Campo de Emond vai saber de quem est�o falando! E como � que voc� pode impedir alguma coisa? Um par de m�os a mais n�o vai adiantar muito. Aaah! Os Mantos-brancos est�o muito enganados se pensam que podem amea�ar o povo de Dois Rios.</p><p>��Eles sabem meu nome���disse Perrin, baixinho. Olhou para o canto da parede onde estavam o machado, o cinto amarrado em volta do cabo e o gancho. Ou talvez estivesse encarando o martelo, apoiado na parede sob o machado, Mat n�o tinha certeza.���Podem encontrar minha fam�lia. Quanto ao porqu�, eles t�m seus motivos, Mat. Assim como tenho os meus. Quem � que pode dizer quem tem os melhores motivos?</p><p>��Que me queime, Perrin. Que me queime! Eu quero i-i� Est� vendo? N�o consigo nem falar. Se eu conseguir falar, vou fazer. N�o consigo nem tirar a ideia da cabe�a!</p><p>��Caminhos diferentes. J� fomos enviados por caminhos diferentes antes.</p><p>��Malditos sejam os caminhos diferentes���resmungou Mat.���J� estou por aqui com Rand e as Aes Sedai me enfiando os malditos caminhos goela abaixo. Quero poder ir aonde eu quiser, para variar, fazer o que eu bem entender!</p><p>Ele se virou para a porta, mas a voz de Perrin o deteve.</p><p>��Espero que seu caminho seja feliz, Mat. Que a Luz envie belas garotas e homens tolos com quem jogar.</p><p>��Ah, que me queime, Perrin. Que a luz lhe envie o que voc� desejar.</p><p>��Espero que sim.</p><p>Ele n�o soava feliz com a perspectiva.</p><p>��Pode avisar meu pai que est� tudo bem comigo? E minha m�e? Ela sempre se preocupou. E cuide das minhas irm�s. Elas costumavam me espionar e me dedurar para a nossa m�e, mas n�o quero que nada ruim lhes aconte�a.</p><p>��Eu prometo, Mat.</p><p>O rapaz matreiro fechou a porta atr�s de si e saiu vagando sem rumo pelos corredores. Suas irm�s. Eldrin e Bodewhin estavam sempre prontas para sairem correndo gritando �Mam�e, Mat arrumou confus�o de novo, Mat est� fazendo coisa errada, mam�e�. Sobretudo Bod. Deveriam estar com dezesseis e dezessete anos. Em pouco tempo come�ariam a pensar em casamento, j� com algum fazendeiro paspalho escolhido, quer o sujeito soubesse ou n�o. Estava mesmo longe havia tanto tempo? �s vezes n�o parecia. �s vezes, ele sentia que sa�ra de Campo de Emond havia apenas uma ou duas semanas. Em outros momentos, parecia que anos haviam se passado, e o lugar j� se esvanecia na mem�ria. Ele se lembrava de Eldrin e Bod dando risadinhas ao v�-lo receber surras de vara, mas j� n�o podia ver seus rostos com clareza. Os rostos das pr�prias irm�s. Esses malditos buracos na mem�ria eram buracos na vida.</p><p>Viu Berelain vindo em sua dire��o e sorriu sem nem pensar. Apesar de toda a afeta��o, ela era uma bela mulher. Aquela seda colada ao corpo era fina o bastante para um lencinho de m�o, sem mencionar o decote cavado que expunha boa parte de um admir�vel busto p�lido.</p><p>Ele dispensou a melhor mesura que tinha, elegante e formal.</p><p>��Boa noite para a senhora, milady.���Berelain come�ou a deslizar para longe sem nem olhar para ele, que se endireitou, irritado.���Al�m de cega � surda, mulher? N�o sou um carpete por onde se passa por cima, e me fiz ouvir muito bem. Se eu beliscar esse seu traseiro, voc� tem todo o direito de me dar um tapa na cara, mas at� ent�o espero que palavras corteses seja correspondida com palavras corteses!</p><p>A Primeira parou onde estava, encarando-o daquele jeito que s� as mulheres sabiam fazer. Com aquele olhar, poderia ter adivinhado suas medidas, seu peso e quando ele tomara banho pela �ltima vez. Ent�o virou as costas, murmurando algo para si mesma. Tudo o que Mat pescou foi �muito parecido comigo�.</p><p>Ele a encarou, estupefato. Nenhuma palavra para ele! Aquele rosto, aquele caminhar, o nariz t�o empinado que era de se admirar que os p�s dela tocassem o ch�o. Era isso que ele ganhava falando com gente da esp�cie de Berelain e Elayne. Nobres que consideravam lixo quem n�o tivesse um pal�cio e a mesma linhagem sangu�nea de Artur Asa-de-gavi�o. Bem, ele conhecia uma ajudante de cozinha roli�a���roli�a na medida certa���que n�o o considerava lixo. Dara tinha um jeito de mordiscar as orelhas que�</p><p>Parou na hora de pensar naquilo. Considerara ver se Dara estava acordada para um chamego. Pensara em flertar com Berelain���Berelain! E as �ltimas palavras que dissera a Perrin. <emphasis>Cuide das minhas irm�s.</emphasis> Como se j� tivesse decidido, como se j� soubesse o que fazer. S� que n�o tinha decidido. E n�o decidiria, n�o com essa facilidade. Talvez houvesse um jeito.</p><p>Pescou uma moeda de ouro do bolso, jogou-a para o alto e apanhou de volta, batendo-a no dorso da outra m�o. Um marco de Tar Valon, notou logo de primeira, e estava encarando a Chama de Tar Valon, estilizada como uma l�grima.</p><p>��Que se queimem todas as Aes Sedai!���anunciou, aos berros.���E que se queime Rand al�Thor por me meter nessa!</p><p>Um servi�al de uniforme preto e dourado parou no meio do corredor e o encarou com express�o preocupada. O homem trazia uma bandeja de prata com pilhas de ataduras e potes de unguento. Assim que percebeu que Mat o vira, deu um salto.</p><p>O rapaz andoriano jogou o marco de ouro na bandeja do homem.</p><p>��Presente do maior idiota do mundo. Gaste direito, em mulheres e vinho.</p><p>��O-obrigado, milorde���gaguejou o homem, at�nito.</p><p>Mat o deixou ali, parado. <emphasis>O maior idiota do mundo. Sou mesmo!</emphasis></p></section><section><title><p>14</p><p><image l:href="#20"/></p><p>Costumes de Mayene</p></title><p>Perrin balan�ou a cabe�a depois que a porta se fechou atr�s de Mat. O amigo preferia dar na pr�pria cabe�a com um martelo do que voltar para Dois Rios. A n�o ser que fosse obrigado. Perrin tamb�m queria que houvesse jeito de n�o ter que voltar para casa. Mas n�o tinha como, a falta de op��o era um fato mais duro e menos clemente que ferro. A diferen�a entre eles era que Perrin estava disposto a aceitar isso, mesmo sem querer.</p><p>Tirar a camisa o fez soltar um grunhido, por mais cuidadoso que tivesse sido. Uma grande ferida, j� descolorida a tons de marrom e amarelo, manchava todo o ombro esquerdo. Um Trolloc escapara do machado, e apenas a agilidade de Faile com a faca impedira que algo pior acontecesse. O ombro tornava a hora de se lavar dolorida para Perrin, mas pelo menos n�o havia risco de �gua gelada em Tear.</p><p>Estava pronto e de mala feita, apenas uma muda de roupas para a manh� seguinte separada do lado de fora dos alforjes. Assim que o sol nascesse, sairia para encontrar Loial. N�o havia motivo para incomodar o Ogier � noite. O amigo decerto j� estava deitado, e Perrin pretendia fazer o mesmo em breve. Faile era o �nico problema com o qual ainda n�o decidira como lidar. At� ficar em Tear seria melhor para ela do que ir com ele.</p><p>A porta se abriu, surpreendendo-o. Uma lufada de perfume o atingiu assim que uma frestinha m�nima surgiu no batente. Perrin pensou em trepadeiras floridas em uma noite quente de ver�o. Um aroma tentador, n�o muito pesado, n�o para qualquer um al�m dele, mas nada que combinasse com Faile. Mesmo assim, surpreendeu-se ainda mais ao ver Berelain adentrar o quarto.</p><p>Ela piscou, fazendo-o perceber o quanto a luz estava fraca.</p><p>��Vai a algum lugar?���perguntou a mulher, hesitante.</p><p>Com a luz dos lampi�es do corredor atr�s dela, era dif�cil n�o encar�-la.</p><p>��Vou, milady.���Ele fez uma mesura n�o muito suave, mas tanto quanto dava. Faile podia fungar o quanto quisesse, mas ele n�o via motivo para n�o ser educado.���De manh�.</p><p>��Eu tamb�m.���Ela fechou a porta e cruzou os bra�os. Perrin virou o rosto e continuou a observ�-la de canto de olho, para que ela n�o o visse de olhos arregalados. A mulher prosseguiu, sem notar a rea��o do rapaz. A chama da �nica vela refletia em seus olhos escuros.���Depois de hoje � noite� parto amanh� mesmo de carruagem para Godan, e de l� embarco num navio para Mayene. J� deveria ter ido h� dias, mas pensei que devia haver algum jeito de consertar as coisas. N�o houve, � claro. Eu devia ter percebido isso antes. Hoje � noite me convenci. O jeito como ele� Todos aqueles raios pelos corredores. Vou embora amanh�.</p><p>��Milady���disse Perrin, confuso���por que est� me contando isso?</p><p>O jeito como ela jogou a cabe�a para tr�s o fez lembrar-se de uma �gua que �s vezes selava em Campo de Emond. O bicho sempre tentava arrancar peda�o.</p><p>��Para que conte ao Lorde Drag�o, � claro.</p><p>Aquilo n�o fazia sentido.</p><p>��A senhora mesma pode contar���disse, com pouco mais do que uma leve exaspera��o.���N�o terei tempo de levar recados antes de partir.</p><p>��Eu� acho que n�o ele quer me ver.</p><p>Qualquer homem desejaria v�-la, ela era linda de olhar e sabia disso. Perrin achou que ela tinha come�ado a falar outra coisa. Ser� que estava assustada com que ocorrera nos aposentos de Rand? Ou era por causa do ataque e da forma como o amigo acabara com tudo? Talvez, mas, pelo olhar frio que dispensava a ele, n�o era uma mulher que se assustava com facilidade.</p><p>��D� o recado a um servi�al. Duvido que eu v� ver Rand de novo. N�o antes de partir. Qualquer servi�al pode levar o recado a ele.</p><p>��Seria melhor vindo de voc�, amigo do Lorde�</p><p>��D� a um servi�al. Ou a um dos Aiel.</p><p>��Voc� n�o vai fazer o que estou pedindo?���perguntou ela, incr�dula.</p><p>��N�o. N�o escutou o que eu disse?</p><p>Ela jogou a cabe�a para tr�s de novo, mas dessa vez foi diferente. Berelain o observou atentamente e murmurou, meio que para si mesma:</p><p>��Que olhos surpreendentes.</p><p>��O qu�?���De repente ele percebeu que estava ali parado, nu at� a cintura. O escrut�nio intenso da mulher de s�bito o fez parecer a um cavalo analisado antes da compra. Dali a pouco ela estaria pegando em seus tornozelos e avaliando os dentes. Agarrou a camisa que separara para a manh� seguinte em cima da cama e passou-a pela cabe�a.���D� a mensagem a algum servi�al. Estou indo dormir. Pretendo acordar cedo. Antes de amanhecer.</p><p>��Para onde vai?</p><p>��Para casa. Dois Rios. Est� tarde. Se voc� tamb�m quiser partir amanh�, imagino que queira dormir um pouco. Estou cansado.���Ele bocejou.</p><p>A mulher n�o fez men��o de ir at� a porta.</p><p>��Voc� � ferreiro? Vou precisar de um ferreiro em Mayene. Para trabalhos de ornamento em ferro. Quer passar uma temporada curta l�, antes de voltar a Dois Rios? Voc� acharia Mayene� divertida.</p><p>��Eu vou para casa���respondeu, com firmeza���e voc� vai voltar para o seu quarto.</p><p>Ela deu de ombros de leve, e Perrin desviou o olhar outra vez, exasperado.</p><p>��Talvez algum outro dia. Sempre consigo o que quero, no fim. E acho que quero����Ela fez uma pausa e o olhou de cima a baixo.���Trabalho em ferro ornamentado. Para as janelas dos meus aposentos.</p><p>Berelain abriu um sorriso t�o inocente, que Perrin sentiu um gongo de alarme dentro da cabe�a.</p><p>A porta se abriu outra vez, e Faile entrou.</p><p>��Perrin, fui at� a cidade procurar voc� e ouvi um falat�rio����Ela parou, petrificada, e encarou Berelain com o olhar firme.</p><p>A Primeira a ignorou. Aproximou-se de Perrin e passou a m�o por seu bra�o e ombro. Por um instante, ele achou que a mulher puxaria sua cabe�a para beij�-lo���a doida chegou a erguer a cabe�a, como se quisesse um beijo���mas apenas acariciou seu pesco�o depressa e se afastou. Antes que ele pudesse se mexer para impedi-la, Berelain parou.</p><p>��Lembre-se���disse, baixinho, como se os dois estivessem sozinhos���eu sempre consigo o que quero.���E passou deslizando por Faile e saiu do quarto.</p><p>Ele aguardou uma explos�o da mulher, mas ela olhou para os alforjes abarrotados na cama e disse:</p><p>��Estou vendo que voc� j� ouviu o falat�rio. � <emphasis>s�</emphasis> falat�rio, Perrin.</p><p>��Olhos amarelos aumentam a coisa toda.</p><p>Faile deveria estar queimando de raiva, como um monte de galhos secos em uma fogueira. Por que estava t�o calma?</p><p>��Muito bem. Ent�o Moiraine � o pr�ximo problema. Ser� que vai tentar impedir voc�?</p><p>��N�o se n�o souber. E eu vou, mesmo que ela tente. Tenho fam�lia e amigos, Faile. N�o vou deix�-los nas m�os dos Mantos-brancos. Mas espero que ela n�o descubra at� eu estar bem longe da cidade.</p><p>At� os olhos da mo�a estavam calmos, como lagos negros em uma floresta. Os pelos da nuca de Perrin se eri�aram.</p><p>��Mas esse boato levou semanas para chegar a Tear, e ser�o semanas de cavalgada at� Dois Rios. At� l�, os Mantos-brancos podem j� ter ido embora. Bem, ando com vontade de ver longe daqui. Eu n�o devia reclamar. S� quero que saiba o que esperar.</p><p>��N�o levar� semanas, n�o pelos Caminhos���disse.���Dois dias, talvez tr�s.</p><p>Dois dias. Achava que n�o havia como ser mais r�pido.</p><p>��Voc� est� t�o louco quanto Rand al�Thor���afirmou ela, descrente. Desabando no p� da cama, Faile cruzou as pernas e falou como se ele fosse uma crian�a.���Se for pelos Caminhos, voltar� irremediavelmente louco. Isso se conseguir voltar, o que � mais prov�vel que n�o aconte�a. Os Caminhos est�o maculados, Perrin. Est�o na escurid�o h� o qu�? Uns trezentos anos? Quatrocentos? Pergunte a Loial. Ele saber� dizer. Foram os Ogier que constru�ram os Caminhos, ou cultivaram, ou o que quer que seja. Nem eles os usam, hoje em dia. Ora, mesmo que voc� conseguisse passar por l� inc�lume, s� a Luz sabe onde � que voc� sairia.</p><p>��Eu j� viajei pelos Caminhos, Faile.���E que viagem assustadora.���Loial pode me conduzir. Ele sabe decifrar as sinaliza��es, foi assim que fizemos da outra vez. Ele far� isso por mim de novo quando souber o quanto � importante.</p><p>Loial tamb�m estava �vido por sair de Tear, parecia ter medo de que a m�e descobrisse onde estava. Perrin tinha certeza de que ele colaboraria.</p><p>��Bem����retrucou ela, esfregando as m�os com for�a.���Bem, eu queria uma aventura, e essa sem d�vida � uma. Deixar a Pedra de Tear e o Drag�o Renascido, viajar pelos Caminhos para enfrentar Mantos-brancos. Ser� que conseguimos convencer Thom Merrilin a vir tamb�m? Se n�o podemos ter um bardo, um menestrel serve. Ele poderia escrever a hist�ria, e n�s dois ser�amos os protagonistas. Nenhum Drag�o Renascido nem Aes Sedai para roubar a cena. Quando partiremos? De manh�?</p><p>Perrin respirou fundo para manter a voz firme.</p><p>��Eu vou sozinho, Faile. S� Loial e eu.</p><p>��Vamos precisar de um cavalo de carga���continuou a jovem, como se ele n�o tivesse dito nada.���Dois, eu acho. Os Caminhos s�o escuros. Precisaremos de duas lanternas e de bastante �leo. Seu povo de Dois Rios. S�o fazendeiros? V�o enfrentar os Mantos-brancos?</p><p>��Faile, eu disse�</p><p>��Eu ouvi o que voc� disse���retrucou ela, irritada. As sombras davam a ela uma express�o perigosa, com olhos obl�quos e ma��s do rosto elevadas.���Eu ouvi, e acho que n�o faz sentido. E se esses fazendeiros n�o lutarem? Ou se n�o souberem lutar? Quem � que vai ensin�-los? Voc�? Sozinho?</p><p>��Farei o que precisa ser feito���respondeu, com paci�ncia.���Sem voc�.</p><p>Faile p�s-se de p� t�o depressa que Perrin pensou que ela estava prestes a agarrar sua garganta.</p><p>��Voc� acha que Berelain vai junto com voc�? Que vai proteg�-lo? Ou talvez prefira que ela sente no seu colo e gema? Ponha essa camisa para dentro, seu idiota peludo! Por que isso aqui est� t�o escuro? Berelain gosta de meia-luz, n�o �? Ela vai ser de muita ajuda contra os Filhos da Luz!</p><p>Perrin abriu a boca para protestar, mas mudou de ideia.</p><p>��Ela parece muito boa de abra�ar, a Berelain. Que homem n�o iria querer t�-la no colo?���A m�goa no rosto de Faile envolveu seu peito em ferro, mas ele se for�ou a prosseguir.���Quando terminar o que tenho de fazer em casa, talvez eu v� at� Mayene. Ela me chamou para ir, e talvez eu v�.</p><p>Faile n�o disse uma palavra. Encarou-o com o rosto petrificado, depois deu um giro e saiu correndo, batendo a porta atr�s de si com um estrondo.</p><p>Por impulso, Perrin come�ou a ir atr�s dela, depois parou, agarrando o batente da porta at� sentir dor nos dedos. Encarando o talho que o machado fizera na porta, viu-se dizendo � madeira o que n�o fora capaz de dizer � Faile.</p><p>��Eu matei Mantos-brancos. Eles teriam me matado se eu n�o tivesse feito isso, mas ainda assim foi assassinato. Vou para casa para morrer, Faile. � o �nico jeito que tenho de impedi-los de fazer mal � minha fam�lia. N�o posso deixar que voc� veja isso. Voc� pode at� tentar impedir, e eles poderiam�</p><p>Bateu a cabe�a na porta. Agora Faile n�o lamentaria se n�o o visse mais. Era isso que importava. Ela encontraria sua aventura em outro canto, a salvo de Mantos-brancos, <emphasis>ta�veren</emphasis> e bolhas de maldade. Era isso o que importava. Perrin desejou n�o querer soltar um uivo de lamento.</p><empty-line/><p>Faile seguia depressa pelos corredores, quase correndo, alheia � quem passava ou tinha de desviar de seu caminho. Perrin. Berelain. Perrin. Berelain. <emphasis>Ele quer uma megera branquela que anda por a� seminua, � isso? Ele n�o sabe o que quer. Idiota peludo! Buf�o cabe�a-dura! Ferreiro! E aquela porca dissimulada da Berelain. Aquela cabra pretensiosa!</emphasis></p><p>N�o percebeu aonde ia at� ver Berelain � frente, deslizando dentro daquele vestido que n�o deixava nada � imagina��o, rebolando, como se aquele caminhar n�o fosse friamente calculado para atrair os olhos esbugalhados dos machos. Antes que Faile se desse conta do que estava fazendo, disparou at� a Primeira e virou-se para encar�-la, no cruzamento entre dois corredores.</p><p>��Perrin Aybara � meu���vociferou.���Leve essas suas m�os e sorrisos para longe dele!</p><p>Faile corou at� a raiz dos cabelos quando ouviu o que dissera. Prometera a si mesma que nunca faria uma coisa dessas, nunca brigaria por um homem como uma camponesa rolando na terra durante a colheita.</p><p>Berelain arqueou a sobrancelha, impass�vel.</p><p>��� seu? Que estranho, n�o vi coleira nele. Voc�s, servi�ais� Ou ser� que voc� � a filha de algum fazendeiro? Voc�s t�m uma ideia mais estranha que a outra.</p><p>��Servi�al? Servi�al! Eu sou����Faile mordeu a l�ngua para segurar as palavras enfurecidas. A Primeira de Mayene, muito bem. Havia estados em Saldaea maiores que Mayene. Ela n�o duraria uma semana nas cortes de l�. Ser� que conseguia recitar poesias enquanto ca�ava? Conseguia cavalgar o dia inteiro durante a ca�a, depois tocar c�tara � noite enquanto debatia como combater invas�es de Trollocs? Achava que conhecia os homens, n�o achava? Ser� que conhecia a linguagem dos leques? Ser� que era capaz de mandar um homem vir, ir, ficar, e mais centenas de outras coisas, apenas girando o punho e posicionando um leque de renda? <emphasis>Que a Luz brilhe sobre mim, o que � que estou pensando? Jurei que jamais seguraria um leque outra vez!</emphasis> Mas havia outros costumes em Saldaea. Faile ficou surpresa ao ver a faca em sua m�o. Aprendera a n�o desembainhar uma faca a menos que tivesse inten��o de us�-la.���As fazendeiras de Saldaea t�m um jeito de lidar com mulheres que roubam os homens das outras. Se n�o jurar esquecer Perrin Aybara, raspo seus cabelos at� deixar voc� careca como um ovo. Talvez os rapazes que cuidam das galinhas passem a desej�-la depois disso!</p><p>N�o soube ao certo como foi que Berelain agarrou seu pulso, mas de repente saiu voando pelos ares. O ch�o que se chocou contra suas costas tirou todo o ar de seus pulm�es.</p><p>Berelain ficou sorrindo, batendo com a l�mina da faca de Faile na palma da m�o.</p><p>��Um costume de Mayene. Os tairenos gostam muito de contratar assassinos, e nem sempre h� guardas por perto. Detesto ser atacada, fazendeira, ent�o eis o que vou fazer. Vou tirar o ferreiro de voc� e fazer dele meu bichinho de estima��o, enquanto ele me mantiver entretida. Juramento de Ogier, fazendeira. Ele � extasiante, de fato� Aqueles ombros, aqueles bra�os� sem falar nos olhos. E, mesmo que falte um pouco de cultura, isso eu posso consertar. Meus cortes�os podem ensin�-lo a se vestir e livr�-lo daquela barba horrenda. Aonde quer que ele v�, eu o encontrarei e o tomarei para mim. Voc� pode ficar com ele depois que eu terminar. Isso se ele ainda a quiser, � claro.</p><p>Enfim conseguindo respirar, Faile p�s-se de p� com dificuldade e desembainhou uma segunda faca.</p><p>��Ah, mas eu vou arrastar voc� at� ele, depois de rasgar isso que voc� diz serem roupas, e a fazer dizer que n�o passa de uma porca!���<emphasis>Que a Luz me ajude, estou me comportando como uma fazendeira e falando igualzinho a uma!</emphasis> A pior parte era que ela tinha inten��o de fazer aquilo mesmo.</p><p>Berelain posicionou-se, cautelosa. Pretendia lutar com as m�os, obviamente, n�o com a faca. Segurava-a como um leque. Faile avan�ou nas pontas dos p�s.</p><p>De repente, Rhuarc surgiu no meio das duas, alto como uma torre, agarrando as facas antes que as mulheres percebessem sua chegada.</p><p>��Ser� que j� n�o viram bastante sangue por hoje?���perguntou, em um tom frio.���De todos os que imaginei que encontraria perturbando a paz, voc�s duas eram as �ltimas da lista.</p><p>Faile encarou o homem, boquiaberta. Sem avisar, deu um rodopio e mirou o punho nas costelas baixas de Rhuarc. Ali, o dur�o sentiria.</p><p>O Aiel se moveu sem sequer olhar para ela, agarrou sua m�o e girou o bra�o para o lado com for�a. Ela se enrijeceu no mesmo instante, rezando para que o homem n�o deslocasse o seu bra�o.</p><p>Como se nada tivesse acontecido, o Aiel se dirigiu a Berelain.</p><p>��V� para o seu quarto e n�o saia de l� antes de o sol despontar no horizonte. N�o vou deixar que sirvam seu caf� da manh�. Um pouco de fome servir� muito bem para lembrar que h� hora e lugar para brigas.</p><p>Berelain aprumou-se, indignada.</p><p>��Eu sou a Primeira de Mayene. N�o receberei ordens como uma�</p><p>��V� para o seu quarto. Agora���interrompeu Rhuarc, impass�vel. Faile se perguntou se conseguiria chut�-lo. Com certeza tensionara o corpo, pois, assim que a ideia surgiu, ele aumentou a press�o em seu punho, e ela se elevou nas pontas dos p�s.���Caso contr�rio���continuou, para Berelain���repassaremos nossa primeira conversa juntos, eu e voc�. Aqui mesmo.</p><p>O rosto de Berelain se alternava entre o branco e o vermelho.</p><p>��Muito bem���disse, r�gida.���Se voc� insiste, eu talvez possa�</p><p>��N�o estou propondo um debate. Se eu ainda conseguir v�-la depois de contar at� tr�s� Um.</p><p>Dando um guinchinho, Berelain ergueu as saias e saiu correndo. At� correndo a mulher conseguia rebolar.</p><p>Faile encarou a Primeira, estupefata. Quase valia a pena ter o bra�o prestes a sair da junta. Rhuarc tamb�m observava Berelain ir embora, um sorrisinho contente nos l�bios.</p><p>��Vai me segurar a noite inteira?���perguntou Faile. O homem a soltou, depois guardou as facas no cinto.���S�o minhas!</p><p>��N�o mais���disse o homem.���A puni��o de Berelain pela briga foi que voc� a visse enxotada para o quarto feito uma criancinha teimosa. A sua ser� perder essas facas pelas quais tem tanto apre�o. Sei que tem outras. Se discutir, posso acabar levando elas tamb�m. N�o permitirei que a paz seja quebrada.</p><p>Faile olhou feio para Rhuarc, mas suspeitou que ele tivesse mesmo inten��o de faz�-lo. Aquelas facas foram feitas para ela por um homem muito competente, tinham equil�brio perfeito.</p><p>��Que �primeira conversa� foi essa que voc�s tiveram? Por que foi que ela correu daquele jeito?</p><p>��Isso � entre mim e ela. Voc� n�o se aproximar� de Berelain de novo, Faile. Duvido que ela tenha come�ado essa briga, essa da� n�o luta com facas. Se alguma de voc�s criar problemas outra vez, colocarei as duas para transportar v�sceras. Alguns tairenos pensaram que poderiam continuar com os duelos depois que declarei paz aqui neste lugar, mas o cheiro das carro�as de refugo logo os fez perceber seu erro. Cuide para n�o ter de aprender do mesmo jeito.</p><p>Faile esperou at� o homem sair para tratar do ombro. Ele a fazia lembrar do pai. N�o que o pai j� houvesse torcido seu bra�o, mas tinha pouca toler�ncia com os encrenqueiros, independentemente de sua posi��o, e ningu�m jamais o pegava de surpresa. Ela se perguntou se seria capaz de jogar alguma isca para Berelain, s� para ver a Primeira de Mayene suando no meio das carro�as de refugo. Mas Rhuarc dissera �ambas�. O pai dela tamb�m n�o dizia nada que n�o levasse a s�rio. Berelain. Uma das falas da Primeira ainda ecoava em sua cabe�a. Juramento de Ogier. Era isso. Ogier jamais quebravam um juramento. Dizer �Ogier sem palavra� era como dizer �covarde corajoso� ou �idiota s�bio�.</p><p>N�o p�de evitar a risada alta.</p><p>��Voc� vai tir�-lo de mim, sua pavoa imbecil? Quando o vir de novo, isso se algum dia o vir, ele ser� meu outra vez.</p><p>Rindo para si mesma e alisando o ombro de vez em quando, Faile seguiu seu caminho o cora��o leve.</p></section><section><title><p>15</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Passando pelo batente</p></title><p>Segurando bem alto o lampi�o de vidro, Mat espiou pelo corredor estreito que ficava no n�cleo da Pedra. <emphasis>S� se minha vida estivesse dependendo disso. Foi isso que prometi. Ora, que me queime, agora � justamente o caso!</emphasis> Antes que a d�vida pudesse se abater mais uma vez sobre ele, o rapaz avan�ou depressa. Passou por portas apodrecidas e quase tombadas, e por outras que eram apenas tiras de madeira presas a dobradi�as enferrujadas. O ch�o fora varrido havia pouco tempo, mas o ar ainda cheirava a poeira velha e mofo. Algo passou deslizando pela escurid�o, e Mat sacou a faca antes de perceber que era apenas um rato fuj�o, sem d�vida correndo para algum buraco j� familiar.</p><p>��Se me mostrar a sa�da���sussurrou para o bichinho���eu vou com voc�.</p><p><emphasis>Por que estou sussurrando? N�o tem ningu�m aqui para me ouvir.</emphasis> Mas ali parecia o tipo de lugar onde era preciso fazer sil�ncio. Dava para sentir todo o peso da Pedra sobre sua cabe�a, pressionando-o.</p><p>A �ltima porta, ela dissera. Tamb�m estava inclinada. Mat deu um chute, e a t�bua de madeira se despeda�ou. O lugar estava cheio de formas definidas, al�m de caixotes, barris e pilhas altas de coisas encostadas nas paredes e espalhadas pelo ch�o. E de poeira. <emphasis>A Grande Posse! Parece o por�o de uma fazenda abandonada, s� que pior.</emphasis> Ficou surpreso por Egwene e Nynaeve n�o terem limpado e arrumado tudo quando estiveram ali. As mulheres estavam sempre limpando e arrumando, at� quando n�o era necess�rio. Havia pegadas cruzando o ch�o, algumas de botas. As tr�s sem d�vida haviam chamado homens para carregar os itens mais pesados. Nynaeve gostava de arrumar trabalho para os homens, devia ter feito quest�o de convocar alguns sujeitos que estavam se divertindo.</p><p>O que ele procurava parecia se destacar no meio da mix�rdia. Um batente de porta alto, feito de pedra vermelha, estranhamente imponente � luz do lampi�o. Quando se aproximou, viu que a coisa ainda parecia estranha. Parecia retorcida. Os olhos n�o queriam percorrer o objeto, cujos cantos n�o pareciam se encaixar muito bem. O ret�ngulo comprido e oco parecia prestes a despencar ao menor sopro, mas, quando ele deu um empurr�o para testar, permaneceu firme. Mat deu outro empurr�o, mais forte, sem saber ao certo se queria ou n�o derrubar a coisa, e um dos lados ro�ou a poeira no ch�o. Arrepios percorreram seus bra�os. Quase parecia haver um fio vindo do teto amarrado ao topo do batente, suspendendo-o. Ergueu o lampi�o para verificar. Nada de fio. <emphasis>Pelo menos n�o vai cair enquanto eu estiver l� dentro. Luz, eu vou mesmo entrar, n�o vou?</emphasis></p><p>Um monte de estatuetas e pequenos objetos envoltos em panos apodrecidos ocupavam o topo de um barril alto, ca�do perto de onde Mat estava. Ele empurrou a bagun�a para um dos lados, para apoiar a lanterna, e examinou o batente. O <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Se Egwene soubesse do que estava falando. Devia saber, sem d�vida aprendera todo tipo de esquisitice na Torre, por mais que negasse. <emphasis>Ela agora nega as coisas, veja s�. Aprendendo a ser Aes Sedai. Mas n�o negou isso, n�o foi?</emphasis> Se apertasse os olhos, o treco parecia um batente de porta de pedra mal polida e todo empoeirada. S� um batente de porta comum. Bem, n�o t�o comum assim. Tr�s entalhes fundos e sinuosos cobriam cada pilar de pedra de cima a baixo. J� vira trabalhos mais bonitos em casas de fazenda. Era quase certo que atravessaria a estrutura e ainda estaria dentro daquele sal�o empoeirado.</p><p><emphasis>S� vou saber se tentar, n�o �? Sorte!</emphasis> Ele respirou fundo���deu uma tossida por causa da poeira���e avan�ou um passo.</p><p>Parecia passar por uma folha de luz branca brilhante, infinitamente brilhante, infinitamente espessa. Por um instante intermin�vel, n�o enxergou nada. Um bramido encheu seus ouvidos, todos os sons do mundo reunidos de uma vez. Aquilo s� durou a extens�o de um passo infinito.</p><p>Deu outro passo cambaleante e olhou em volta, estupefato. O <emphasis>ter�angreal</emphasis> ainda estava l�, mas aquele com certeza n�o era lugar onde entrara no arco. O batente de pedra retorcido estava no centro de um sal�o redondo, cujo teto era t�o alto que se perdia nas sombras. O lugar era rodeado por estranhas colunas amarelas espiraladas que serpenteavam pela escurid�o, como imensas trepadeiras tran�ando pilares que j� n�o estavam ali. Uma luz fraca emanava de esferas brilhantes apoiadas no alto de suportes, tamb�m espiralados, feitos de algum metal branco, mas que n�o era prata���o material era fosco demais. E nada indicava o que produzia o brilho das esferas. N�o parecia fogo, elas simplesmente reluziam. Os azulejos do ch�o exibiam listras brancas e amarelas, dispostas em uma espiral que se originava no <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Havia um perfume pesado no ar, penetrante, seco e n�o muito agrad�vel. Mat quase deu meia-volta para retornar ao por�o.</p><p>��Quanto tempo.</p><p>Dando um salto, Mat desembainhou uma faca e espiou por entre as colunas � procura da voz sussurrada que pronunciara aquelas palavras de forma t�o dura.</p><p>��Muito tempo, e os que buscam ainda retornam atr�s de respostas. Os questionadores voltaram outra vez.���Uma silhueta se moveu por detr�s das colunas. Mat achou que fosse um homem.���Bom. Voc� n�o trouxe lampi�es nem tochas, conforme foi acordado, como � e sempre ser�. N�o tem ferro? Nenhum instrumento musical?</p><p>A figura emergiu, alta e descal�a, os bra�os, pernas e corpo envoltos em camadas de tecido amarelo, e Mat de s�bito n�o soube dizer se era homem. Ou se era humano. Parecia humano � primeira vista, embora talvez gracioso demais, al�m de muito magro para a pr�pria altura, com um rosto estreito e alongado. A pele, e tamb�m os cabelos negros e lisos, captavam a luz p�lida de forma que remetia �s escamas de uma serpente. Assim como os olhos, cujas pupilas eram apenas fendas negras verticais. N�o, n�o era humano.</p><p>��Ferro. Instrumentos musicais. N�o tem nenhum?</p><p>Mat se perguntou o que a criatura achava que a faca era. Sem d�vida n�o parecia preocupada. Bem, a l�mina era feita de bom a�o, n�o de ferro.</p><p>��N�o. Nada de ferro, nem instrumentos mus� Por qu�?���Ele parou de repente. Tr�s perguntas, dissera Egwene. N�o gastaria uma com �ferro� ou �instrumentos musicais�. <emphasis>De que importa a ele se eu trouxesse doze m�sicos no bolso e uma ferraria nas costas?</emphasis>���Vim aqui em busca de respostas verdadeiras. Se voc� n�o for aquele que pode dar essas respostas, leve-me a quem que pode.</p><p>O homem���era macho, pelo menos, Mat sabia���abriu um leve sorriso. N�o mostrou os dentes.</p><p>��Conforme o acordo. Venha.���Fez um gesto com uma das m�os de dedos longos.���Venha comigo.</p><p>Mat fez a faca desaparecer por baixo da manga.</p><p>��Voc� conduz, e eu vou atr�s.���<emphasis>S� fique na minha frente, e � vista. Este lugar me d� arrepios.</emphasis></p><p>Enquanto seguia o estranho sujeito, viu que n�o havia nada reto em lugar algum, exceto pelo ch�o. At� o teto era abobadado, e as paredes, curvas. Os corredores eram todos em curva, as portas, redondas, as janelas, c�rculos perfeitos. Os azulejos formavam espirais e linhas sinuosas, e, no teto, parecia haver placas de bronze ornamentado com uma padronagem de intrincados arabescos. N�o havia qualquer imagem, nenhuma pintura ou tape�aria nas paredes. Apenas padronagens, e sempre curvas.</p><p>Mat n�o viu vivalma al�m do guia silencioso. Dava para pensar que o local estava vazio, exceto por eles dois. De algum lugar, teve a vaga lembran�a de percorrer corredores que havia centenas de anos n�o viam a marca de um p� humano, e ali sentia a mesma coisa. S� que �s vezes captava algum m�nimo movimento com o canto do olho. No entanto, por mais r�pido que se virasse, nunca havia ningu�m � vista. Fingiu co�ar o antebra�o e conferiu as facas nas mangas do casaco, por seguran�a.</p><p>O que via atrav�s das janelas redondas era ainda pior. �rvores compridas e delgadas apenas com um guarda-chuva de galhos pendendo do topo, e outras que pareciam imensos leques de folhas rendadas, um emaranhado de vegeta��o que lembrava o cora��o de uma mata espinhosa qualquer, tudo sob uma luz fraca e nebulosa, embora n�o parecesse haver nuvens no c�u. Sempre havia janelas, e sempre ao longo de apenas um dos lados do corredor curvo, mas �s vezes o lado mudava, e o que deveria dar vista para quartos ou p�tios dava vista para aquela floresta. Atrav�s daquelas janelas, Mat n�o conseguia ter sequer um vislumbre de qualquer outra parte do pal�cio���ou o que quer que fosse aquele lugar���ou outra constru��o, exceto�</p><p>Por uma das janelas, viu tr�s torres altas e prateadas, cada uma curvada em dire��o �s outras, de modo que as tr�s extremidades terminavam no mesmo ponto. N�o era poss�vel enxerg�-las da janela seguinte, a tr�s passadas de dist�ncia, mas, alguns instantes depois, ap�s ele e o guia fazerem curvas suficientes para estarem voltados em outra dire��o, viu as torres de novo. Tentou se convencer de que eram tr�s torres diferentes, mas entre as constru��es e ele havia uma daquelas �rvores em formato de leque com um galho quebrado, pendurado. Uma �rvore que estivera no mesmo ponto da primeira vez. Depois de ver as torres e a estranha �rvore de galho quebrado pela terceira vez, dez passadas mais adiante, s� que do outro lado do corredor, tentou parar de descobrir o que havia l� fora.</p><p>A caminhada parecia intermin�vel.</p><p>��Quando�? Estamos�?���Mat rangeu os dentes. Tr�s perguntas. Era dif�cil saber qualquer coisa sem fazer perguntas.���Espero que esteja me levando para os que podem responder minhas perguntas. Que meus ossos queimem, espero mesmo. Para o meu bem e para o seu, a Luz sabe como � verdade.</p><p>��Aqui���disse o estranho sujeito envolto em amarelo, uma das m�os magras apontando para uma porta redonda com o dobro da largura de qualquer outra que Mat vira no corredor. Os estranhos olhos analisavam o rapaz com aten��o. A criatura abriu a boca e inspirou, lenta e demoradamente. Mat franziu o cenho, e o estranho deu de ombros em um espasmo.���Aqui voc� encontrar� as respostas. Entre. Entre e pergunte.</p><p>Mat tamb�m respirou fundo, depois fez uma careta e esfregou o nariz. Aquele odor forte e pungente era ran�oso e inc�modo. Deu um passo hesitante em dire��o � porta comprida e virou-se outra vez para olhar o guia. O sujeito desaparecera. <emphasis>Luz! N�o sei por que ainda fico surpreso com o que acontece neste lugar. Bem, que me queime se acham que vou embora agora.</emphasis> Tentando n�o pensar se seria ou n�o capaz de reencontrar o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, adentrou o recinto.</p><p>Era outro aposento redondo, com azulejos vermelhos e brancos em espiral sob um teto em domo. N�o havia colunas ou qualquer tipo de mob�lia, exceto por tr�s pedestais robustos e espiralados dispostos em volta do ponto exato onde se originavam as espirais no ch�o. Mat n�o via outra forma de alcan�ar o topo que n�o escalando as espirais, mas em cima de cada uma delas havia um homem parecido com o guia, todos sentados de pernas cruzadas, s� que envoltos em vermelho. Nem todos eram homens, concluiu, olhando com mais aten��o. Dois daqueles rostos compridos de olhos estranhos definitivamente tinham apar�ncia feminina. Os tr�s o encaravam com olhares intensos e penetrantes e respiravam profundamente, quase ofegantes. Mat pensou na possibilidade de estar deixando os tr�s nervosos. <emphasis>Meio dif�cil que seja isso. Mas eles sem d�vida me incomodam.</emphasis></p><p>��Quanto tempo���disse a mulher da direita.</p><p>��Muito���acrescentou a da esquerda.</p><p>O homem assentiu.</p><p>��E eles continuam vindo.</p><p>Os tr�s tinham a mesma voz sussurrada do guia���quase id�ntica, na verdade���e a mesma forma dura de pronunciar as palavras. Falavam em un�ssono, e as vozes poderiam muito bem estar saindo da mesma boca.</p><p>��Entre e pergunte, conforme o antigo acordo.</p><p>Se Mat achava que ficara arrepiado mais cedo, agora tinha certeza de que seus pelos estavam todos eri�ados. Obrigou-se a se aproximar. Com muito cuidado���tentando n�o dizer qualquer coisa que sequer soasse como uma pergunta���exp�s a situa��o aos tr�s. Os Mantos-brancos, que com certeza estavam em sua aldeia natal, sem d�vida � ca�a de seus amigos, talvez at� dele pr�prio. Um de seus amigos indo ao encontro dos Mantos-brancos, e o outro, n�o. A fam�lia provavelmente fora de perigo, mas, com os malditos Filhos da maldita Luz por perto� Um <emphasis>ta�veren</emphasis> puxando-o de tal forma que ele mal conseguia se mover. N�o via raz�o para citar nomes ou para mencionar que Rand era o Drag�o Renascido. A primeira pergunta���e as outras duas, ali�s���j� decidira antes de descer � Grande Posse.</p><p>��Eu devo ir para casa ajudar meu povo?���perguntou, enfim.</p><p>Os tr�s pares de olhos verticais pararam de observ�-lo���meio relutantes, ao que pareceu���e se ergueram para analisar o ar acima de sua cabe�a. Por fim, a mulher da esquerda respondeu:</p><p>��Voc� deve ir a Rhuidean.</p><p>Assim que ela falou, todos os olhos baixaram para observ�-lo outra vez, e os tr�s se inclinaram para a frente de novo, respirando fundo. Por�m, um sino dobrou naquele instante, produzindo um som agudo e forte que ressoou pelo sal�o. Eles balan�aram os corpos para cima, entreolhando-se, depois encararam outra vez o ar acima da cabe�a de Mat.</p><p>��Ele � outro���sussurrou a mulher da esquerda.���A press�o. A press�o.</p><p>��O sabor���comentou o homem.���Faz tempo.</p><p>��Ainda h� tempo���interveio a outra mulher. Parecia tranquila, assim como todos os outros, mas sua voz assumiu um tom severo quando ela se virou de volta para Mat.���Pergunte. Pergunte.</p><p>Mat cravou os olhos no tr�s, furioso. <emphasis>Rhuidean? Luz!</emphasis> Era um lugar l� pelo Deserto, s� a Luz e os Aiel sabiam onde ficava. Era tudo o que ele sabia. No Deserto! A raiva incitou perguntas sobre como se afastar das Aes Sedai e como recuperar as partes perdidas de sua mem�ria.</p><p>��Rhuidean!���vociferou.���Que a Luz transforme meus ossos em cinzas, se acham que quero ir a Rhuidean! E que meu sangue jorre no ch�o, se acham que vou! Por que eu deveria ir? Voc�s n�o est�o respondendo minhas perguntas. O papel de voc�s � responder, n�o me devolver charadas!</p><p>��Se voc� n�o for a Rhuidean���respondeu a mulher da direita���vai morrer.</p><p>O sino dobrou outra vez, agora mais alto. Mat sentiu o tremor dentro das botas. Os tr�s trocaram olhares claramente ansiosos. Ele abriu a boca, mas as criaturas estavam preocupadas apenas consigo mesmas.</p><p>��A press�o���disse uma das mulheres, apressada.���� muito forte.</p><p>��O sabor dele���completou a outra, na ponta dos p�s.���Faz tanto, tanto tempo.</p><p>Antes que ela terminasse, o homem se pronunciou:</p><p>��A press�o � muito grande. Muito grande. Pergunte. Pergunte!</p><p>��Queime essa sua alma, seu covarde���resmungou Mat.���J� vou perguntar! Por que � que vou morrer se n�o for a Rhuidean? Devo morrer � se for. N�o faz�</p><p>O homem o interrompeu e se pronunciou, afoito:</p><p>��Voc� ter� se desviado da trama do destino, ter� deixado seu destino � deriva nos ventos do tempo e ser� morto pelos que n�o querem que este destino seja cumprido. Agora, v�! Voc� precisa ir! Depressa!</p><p>De repente o guia coberto de amarelo surgiu ao lado de Mat, puxando a manga do rapaz com as m�os compridas.</p><p>Mat desvencilhou-se dele.</p><p>��N�o! Eu n�o vou! Voc�s me desviaram das perguntas que eu queria fazer e me deram respostas sem sentido! N�o pode ficar por isso mesmo. Que destino � esse de que est�o falando? Vou receber pelo menos uma resposta clara dos tr�s!</p><p>O sino dobrou uma terceira vez, pesaroso, e o aposento inteiro estremeceu.</p><p>��V�!���gritou o homem.���Voc� j� recebeu suas respostas. Precisa ir, antes que seja tarde demais!</p><p>De repente, uma d�zia de homens envoltos em amarelo surgiram ao redor de Mat. Pareciam ter brotado do nada, agora tentavam arrast�-lo para a porta. O rapaz lutou com punhos, cotovelos e joelhos.</p><p>��Que destino? Que queimem esses seus cora��es, que destino?���O recinto inteiro ribombava, as paredes e o ch�o estremeciam, quase derrubando Mat e seus agressores.���Que destino?</p><p>Os tr�s se levantaram nos topos dos pedestais, e Mat n�o soube dizer quem gritava cada resposta.</p><p>��Casar-se com a Filha das Nove Luas!</p><p>��Morrer e viver de novo, viver outra vez uma parte do que foi!</p><p>��Abrir m�o de metade da luz do mundo para salvar o mundo!</p><p>Juntos, os tr�s uivaram como vapor escapando sob press�o.</p><p>��V� para Rhuidean, filho das batalhas! V� para Rhuidean, trapaceiro! V�, jogador! V�!</p><p>Os agressores de Mat o ergueram pelos bra�os e pernas e correram, levantando-o acima das cabe�as.</p><p>��Me soltem, seus branquelos filhos de umas cabras!���gritou, debatendo-se.���Que seus olhos queimem! Que a Sombra leve suas almas, me soltem! Vou tirar suas tripas para fazer uma sela!���Por�m, por mais que xingasse e se contorcesse, aqueles dedos longos o mantinham-se firmes como ferro.</p><p>O sino ressoou uma vez mais���ou quem sabe o pal�cio. Tudo tremia como em um terremoto, as paredes badalavam com reverbera��es ensurdecedoras, cada uma mais alta que a anterior, e os captores de Mat trope�avam, quase ca�am, mas nunca interrompiam a corrida destrambelhada. O rapaz nem mesmo via aonde era levado, at� que as criaturas pararam de repente e o arremessaram pelo ar. Foi ent�o que viu o batente retorcido, o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, enquanto voava na dire��o dele.</p><p>A luz branca o cegou, e o bramido preencheu sua cabe�a at� levar embora todos os pensamentos.</p><p>Mat caiu com um baque em um ch�o empoeirado, � meia-luz, e chocou-se contra o barril que sustentava o lampi�o que trouxera, j� na Grande Posse. O barril rolou, fazendo pacotes e estatuetas desabarem no ch�o, produzindo uma barulheira de pedras, marfim e porcelana se estilha�ando. Com um salto, ele se levantou e lan�ou-se de volta ao batente de pedras.</p><p>��Que se queimem, voc�s n�o podem me jogar�!</p><p>Ele atravessou o arco correndo� E esbarrou nos barris e caixotes do outro lado. Sem parar, deu um giro e saltou de novo. Obteve o mesmo resultado. Dessa vez, amparou-se no barril onde estava o lampi�o, que quase caiu por cima dos objetos j� quebrados amontoados no ch�o sob suas botas. Agarrou o lampi�o a tempo, queimando a m�o, e conseguiu equilibr�-lo com mais firmeza.</p><p><emphasis>Que me queime se acham que quero ficar aqui embaixo neste escuro</emphasis>, pensou, lambendo os dedos. <emphasis>Luz, do jeito que minha sorte vai, � prov�vel que eu come�asse um inc�ndio e morresse queimado!</emphasis></p><p>Cravou os olhos no <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Por que n�o estava funcionando? Talvez o pessoal do outro lado tivesse dado um jeito de tranc�-lo. N�o tinha entendido quase nada do que acontecera l�. Aquele sino, o p�nico geral. Parecia que as criaturas estavam com medo de que o teto desabasse sobre suas cabe�as. Pensando bem, isso quase tinha acontecido. E Rhuidean, e todo o resto. O Deserto j� era ruim o bastante, mas as coisas disseram que ele estava destinado a se casar com uma tal de Filha das Nove Luas. Casar! E com uma nobre, pelo nome. Preferia se casar com uma porca do que com uma nobre. E aquele neg�cio de nascer e viver de novo. <emphasis>Que bom que acrescentaram essa �ltima parte!</emphasis> Se algum Aiel de v�us negros o matasse no caminho para Rhuidean, saberia se aquela hist�ria era mesmo verdade. Tudo bobagem, ele n�o acreditava sequer em uma palavra. S� que� A maldita porta o levara <emphasis>mesmo</emphasis> a algum lugar, e os tr�s s� responderam tr�s perguntas, exatamente como Egwene dissera que seria.</p><p>��N�o vou me casar com nobre nenhuma!���disse ao <emphasis>ter�angreal</emphasis>.���Vou me casar quando j� estiver velho demais para me divertir, e � isso! Rhuidean � a droga do meu�!</p><p>Uma bota brotou para fora do batente de pedra retorcido, seguida pelo restante do corpo de Rand, com aquela espada flamejante nas m�os. A l�mina desapareceu quando o corpo do amigo surgiu por inteiro, soltando um suspiro de al�vio. No entanto, mesmo � meia-luz, dava para ver que estava atormentado. Ao notar o amigo ali, Rand levou um susto.</p><p>��S� bisbilhotando, Mat? Ou tamb�m entrou?</p><p>O rapaz o encarou por um instante, desconfiado. Pelo menos a espada sumira. Ele n�o parecia estar canalizando���mas quem podia afirmar?���nem particularmente louco. Na verdade, parecia bastante com o que Mat lembrava. O rapaz precisou lembrar a si mesmo que os dois j� n�o estavam em casa, que Rand <emphasis>n�o era</emphasis> o mesmo de antes.</p><p>��Ah, sim, eu entrei. Um bando de mentirosos desgra�ados, se voc� quer saber! O que � que eles s�o? Pareciam umas cobras.</p><p>��N�o s�o mentirosos, eu acho.���Rand soava como se desejasse que fossem.���N�o, n�o � isso. Estavam com medo de mim desde o in�cio. E, quando aquele sino come�ou� A espada impediu que eles se aproximassem, as criaturas sequer olhavam para ela. A evitavam. Escondiam os olhos. Voc� conseguiu suas respostas?</p><p>��Nada que fizesse sentido���resmungou Mat.���E voc�?</p><p>De repente, Moiraine brotou do <emphasis>ter�angreal</emphasis>, como se emergisse graciosamente do nada, flutuando. Seria uma excelente mulher para conduzir em uma dan�a, se n�o fosse Aes Sedai. Ela contraiu os l�bios ao v�-los.</p><p>��Voc�s! Voc�s dois estavam aqui. � por isso�!���Ela soltou um silvo exaltado.���Um de voc�s j� teria sido ruim o bastante, mas dois <emphasis>ta�veren</emphasis> de uma vez� Voc�s poderiam ter desfeito a conex�o e ficado presos l�. Rapazes imprest�veis brincando com coisas cujos perigos desconhecem. Perrin! Perrin est� aqui tamb�m? Ele compartilhou dessa� <emphasis>explora��o</emphasis>?</p><p>��Da �ltima vez que vi Perrin���respondeu Mat���ele estava pronto para dormir.</p><p>Talvez o amigo fosse desmenti-lo pulando de dentro da coisa, o que tamb�m poderia desviar a irrita��o da Aes Sedai. O amigo n�o precisava passar por isso tamb�m. <emphasis>Talvez pelo menos Perrin consiga escapar, se for embora antes que Moiraine descubra o que ele est� fazendo. Que mulher maldita! Aposto que</emphasis> ela <emphasis>nasceu na nobreza.</emphasis></p><p>N�o havia d�vida de que Moiraine estava irritada. O sangue desaparecera de seu rosto, e os olhos eram duas brocas negras perfurando Rand.</p><p>��Pelo menos voc�s sa�ram de l� com vida. Quem foi que lhes contou disso aqui? Qual delas? Vou faz�-la desejar ter o couro arrancado feito luva.</p><p>��Foi um livro que me contou���respondeu Rand, muito calmo. Sentou-se na beirada de um caixote, que emitiu um rangido alarmante com seu peso, e cruzou os bra�os. Parecia muito tranquilo, e Mat desejou ser capaz de imit�-lo.���Dois livros, na verdade. <emphasis>Tesouros da Pedra</emphasis> e <emphasis>Transa��es com o Territ�rio de Mayene</emphasis>. � incr�vel o que a gente desenterra dos livros se ler bastante, n�o � mesmo?</p><p>��E voc�?���Moiraine voltou aquele olhar perfurante a Mat.���Tamb�m leu em um livro? Voc�?</p><p>��Eu �s vezes leio���retrucou o rapaz, seco. N�o seria totalmente contra Egwene e Nynaeve terem o couro arrancado. Depois do que fizeram para for��-lo a dizer onde escondera a carta da Amyrlin. Prend�-lo com o poder j� tinha sido bem ruim, mas o resto! S� que era mais divertido implicar com Moiraine.���<emphasis>Tesouros</emphasis>. <emphasis>Transa��es</emphasis>. Tem muita coisa nos livros.���Por sorte, a mulher n�o pediu que ele repetisse os t�tulos. Mat tinha parado de prestar aten��o quando Rand come�ou a falar em livros.</p><p>Em vez disso, ela se virou de volta para Rand.</p><p>��E as suas respostas?</p><p>��S�o minhas���retrucou ele, depois franziu o cenho.���Mas n�o foi f�cil. Eles trouxeram uma� mulher� para interpretar, mas ela falava como um livro velho. Mal consegui entender algumas palavras. N�o tinha pensado na possibilidade de eles falarem outra l�ngua.</p><p>��A L�ngua Antiga���disse Moiraine.���Quando falam com os homens, eles usam a L�ngua Antiga. Na verdade, falam um dialeto meio tosco. E voc�, Mat? Foi mais f�cil compreender seu int�rprete?</p><p>Mat precisou se concentrar para a umidade voltar � boca.</p><p>��A L�ngua Antiga? Era isso? Eu n�o tive int�rprete. Na verdade, n�o cheguei a fazer perguntas. Aquele sino come�ou a tocar e sacudiu as paredes, e aquelas coisas me arrastaram apressados, como se eu estivesse despejando esterco de vaca nos carpetes.���Moiraine ainda o encarava, os olhos perfurando sua cabe�a. A mulher sabia que ele �s vezes deixava escapar alguma coisa na L�ngua Antiga.���Eu� quase entendi uma palavra aqui e ali, mas n�o a ponto de reconhecer. Voc� e Rand tiveram respostas. O que � que eles ganharam com isso? As serpentes com pernas. N�o vamos subir essas escadas e descobrir que se passaram dez anos, que nem a hist�ria de Bili, n�?</p><p>��Sensa��es���retrucou Moiraine, com uma careta.���Sensa��es, emo��es, experi�ncias. Eles as vasculham, d� para sentir quando o fazem, d� para sentir os arrepios na pele. Talvez, de certa forma, eles se alimentem disso. A Aes Sedai que estudou este <emphasis>ter�angreal</emphasis> quando estava em Mayene descreveu um forte desejo de se banhar em seguida. Eu sem d�vida pretendo fazer isso.</p><p>��Mas as respostas s�o verdadeiras?���perguntou Rand, quando ela come�ou a virar as costas.���Tem certeza? Os livros s� sugerem que sim, mas ser� que eles s�o mesmo capazes de fornecer respostas verdadeiras sobre o futuro?</p><p>��As respostas s�o verdadeiras���respondeu Moiraine, escolhendo as palavras���desde que digam respeito ao seu pr�prio futuro. Isso � garantido.���Ela observou Rand, e tamb�m Mat, pesando o efeito de suas palavras.���Quanto � forma como isso acontece, existem apenas especula��es. Aquele mundo � dobrado� de um jeito estranho. N�o tenho como ser mais clara. Pode ser que as criaturas saibam ler a trama de uma vida humana, decifrar as variadas formas com que ela pode ser tecida para dentro do Padr�o. Ou talvez seja um talento de alguns daquele povo. Mas as respostas, em geral, s�o obscuras. Se precisar de ajuda para decifrar o que as suas significam, ofere�o meus servi�os.</p><p>Os olhos dela oscilaram, tr�mulos, de um para o outro, e Mat quase praguejou. Moiraine n�o acreditava que ele n�o conseguira respostas. A n�o ser que fosse s� uma suspeita comum de Aes Sedai.</p><p>Rand abriu um sorriso pregui�oso.</p><p>��E voc� pode me dizer o que perguntou, e o que eles responderam?</p><p>Como resposta, Moiraine lan�ou um olhar firme e perscrutador, depois rumou em dire��o � porta. Uma pequena bola de luz, brilhante como um lampi�o, de repente come�ou a flutuar sobre sua cabe�a, iluminando o caminho.</p><p>Mat sabia que devia deixar aquilo de lado, por hora. Apenas deix�-la partir e torcer para que a mulher esquecesse que ele esteve ali embaixo. Por�m, a raiva ainda ardia dentro dele. Todas aquelas coisas rid�culas que as criaturas disseram. Bem, talvez fossem verdade, se Moiraine dissera que era, mas ele queria agarrar aqueles sujeitos pela gola, ou fosse l� o que fizesse as vezes de gola naquelas roupas, e for��-los a explicar algumas coisas.</p><p>��Por que n�o d� para entrar duas vezes, Moiraine?���perguntou.���Por qu�?</p><p>E tamb�m quase perguntou por que as criaturas estavam preocupadas com ferro e instrumentos musicais, mas mordeu a l�ngua. N�o podia saber dessas coisas, se fosse continuar alegando que n�o entendera nada do que as criaturas disseram.</p><p>A Aes Sedai parou diante da porta do corredor, e foi imposs�vel saber se encarava Rand ou o <emphasis>ter�angreal</emphasis>.</p><p>��Se eu soubesse tudo, Matrim, n�o precisaria fazer perguntas.</p><p>Moiraine observou o quarto por mais um instante. Estava mesmo olhando para Rand. Depois saiu, deslizando com eleg�ncia, sem dizer outra palavra.</p><p>Por um tempo, Mat e Rand se entreolharam em sil�ncio.</p><p>��Voc� <emphasis>conseguiu</emphasis> encontrar o que queria?���perguntou Rand, por fim.</p><p>��Voc� conseguiu?</p><p>Uma chama luminosa surgiu de repente, equilibrada sobre a palma do ruivo. N�o a esfera suave de luz cintilante da Aes Sedai, mas uma chama mais rude, como uma tocha. Quando o amigo se virou para sair, Mat acrescentou outra pergunta.</p><p>��Voc� vai mesmo simplesmente deixar os Mantos-brancos fazerem o que quiserem l� em casa? Sabe que eles est�o indo para Campo de Emond. Isso se j� n�o estiverem l�. Olhos amarelos, o maldito Drag�o Renascido. � coisa demais.</p><p>��Perrin vai fazer� o que for preciso para salvar Campo de Emond���respondeu Rand, com a voz sofrida.���E eu preciso fazer o que � preciso, ou Campo de Emond n�o ser� o �nico lugar a cair, e nas m�os de coisas bem piores do que os Mantos-brancos.</p><p>Mat ficou observando a luz daquela chama esvanecer pelo corredor, at� que se lembrou de onde estava. Agarrou o lampi�o e saiu correndo. <emphasis>Rhuidean! Luz, o que � que eu vou fazer?</emphasis></p></section><section><title><p>16</p><p><image l:href="#17"/></p><p>Despedidas</p></title><p>Deitado em len��is encharcados de suor, olhando para o teto, Perrin percebeu que a escurid�o j� se acinzentava. Em breve o sol despontaria no horizonte. Manh�. Momento de novas esperan�as, momento de agir. Novas esperan�as. Ele quase riu. H� quanto tempo estava acordado? Uma hora ou mais, com certeza. Co�ando a barba encaracolada, Perrin estremeceu. O ombro ferido estava r�gido, e ele se sentou devagar. O rosto pingava suor enquanto ele alongava o bra�o. Mas prosseguiu at� conseguir mexer o bra�o livremente���mesmo que sem conforto���com movimentos met�dicos, sufocando ganidos e, vez ou outra, obrigando-se a n�o praguejar.</p><p>O pouco sono que conseguira dormir fora entrecortado e agitado. Quando acordado, vira o rosto de Faile, os olhos negros acusadores, o sofrimento que ele lhes infligira fazendo com que se encolhesse por dentro. Ao dormir, sonhou que subia em uma forca enquanto Faile assistia, ou pior, tentava impedi-lo, tentava enfrentar os Mantos-brancos com as lan�as e espadas. E Perrin gritava enquanto os homens passavam a corda por seu pesco�o, gritava porque os Mantos-brancos estavam matando Faile. �s vezes, ela assistia ao enforcamento com um sorriso de raiva e satisfa��o. N�o era de se admirar que esses sonhos o fizeram acordar com um sobressalto. Em dado momento, sonhara com lobos saindo em disparada da floresta, tentando salvar tanto Faile quanto ele���e acabando furados pelas lan�as dos Mantos-brancos, abatidos pelas flechas. N�o fora uma noite tranquila. Perrin lavou-se e vestiu-se o mais depressa que p�de, deixando o quarto para tr�s como se esperasse deixar tamb�m as lembran�as dos sonhos.</p><p>L� fora, restavam poucos ind�cios do ataque da noite anterior. Uma tape�aria retalhada por espadas ali, um ba� com um canto destro�ado por um machado acol�, um trecho mais claro no ch�o de pedras onde antes havia um carpete que ficara manchado de sangue. A majhere seguia com seu ex�rcito de servi�ais uniformizados, trabalhando � toda, embora muitos estivessem enfaixados enquanto varriam, esfregavam, limpavam e rearrumavam. Ela andava mancando, apoiada em um cajado. Era uma mulher grande, os cabelos grisalhos puxados para cima feito um chap�u redondo sobre a ferida enfaixada na cabe�a, emitindo ordens em um tom firme, com clara inten��o de remover cada vest�gio da segunda viola��o da Pedra. Viu Perrin e dispensou-lhe uma mesura quase impercept�vel. Nem mesmo os Gr�o-lordes recebiam muita aten��o dela, mesmo quando estava tudo bem. Apesar de toda a faxina e esfrega��o, sob o cheiro de ceras, graxas, verniz e fluidos de limpeza, Perrin ainda podia captar o odor fraco de sangue, sangue humano pungente e met�lico, sangue f�tido de Trollocs e sangue �cido de Myrddraal���um fedor que queimava as narinas. Seria bom sair dali.</p><p>A porta do quarto de Loial tinha uma bra�a de largura e mais de duas de comprimento, com uma ma�aneta gigantesca no formato de vinhas entrela�adas bem na altura da cabe�a de Perrin. A Pedra tinha alguns quartos de h�spedes para Ogier, mas raramente eram utilizados. A Pedra de Tear precedia at� mesmo a era dos famosos trabalhos de cantaria dos Ogier, mas era um grande prest�gio usar pedreiros daquela ra�a, pelo menos de vez em quando. Perrin bateu � porta e, ao chamado de �entre� em uma voz que soava como uma pequena avalanche, ergueu a m�o e obedeceu.</p><p>O quarto tinha a mesma escala da porta, em todas as dimens�es. Mas Loial, parado no centro do carpete, vestindo a camisa de manga e carregando um cachimbo comprido nos dentes, reduzia tudo a um tamanho aparentemente normal. O Ogier ficava mais alto que um Trolloc com as botas largas at� as coxas, ainda que n�o fosse t�o largo. J� n�o era estranho aos olhos de Perrin o casaco verde-escuro, abotoado at� a cintura, com as barras abertas ca�das at� o topo das botas, que mais parecia um kilt por sobre as cal�as largas. Por�m bastava um olhar para informar que n�o se tratava de um homem comum em um quarto comum. O nariz do Ogier era t�o grande que parecia um focinho, e sobrancelhas, compridas feito bigodes, pendiam dos lados dos olhos do tamanho de x�caras de ch�. As orelhas peludas despontavam dos cabelos negros e desgrenhados, que ca�am quase at� os ombros. Ao avistar Perrin, a criatura abriu um sorriso de orelha a orelha, ainda com o cachimbo na boca.</p><p>��Bom dia, Perrin���disse, retumbante, tirando o cachimbo da boca.���Dormiu bem? Nada f�cil, depois de uma noite dessas. Eu mesmo passei metade da noite acordado, escrevendo sobre o ocorrido.���Ele tinha uma caneta na outra m�o e manchas de tinta nos dedos grandes como salsichas.</p><p>Havia livros por toda parte, espalhados nas cadeiras pr�prias para Ogier, na imensa cama e na mesa que batia no peito de Perrin. Aquilo n�o era surpresa, mas o mais espantoso foram as flores. Flores de todo tipo, de todas as cores. Vasos, cestas, buqu�s amarrados com fitas ou barbantes, grandes montes de flores entrela�adas dispostas como um muro de jardim. Perrin nunca vira algo parecido dentro de um quarto. O aroma preenchia o ar. Mas o que realmente chamou a aten��o foi o incha�o na cabe�a de Loial, do tamanho do punho de um homem, e a forma coxa com que caminhava. Loial estava machucado demais para viajar� Perrin sentiu vergonha em pensar dessa forma���o Ogier era seu amigo���mas era necess�rio.</p><p>��Voc� se machucou, Loial? Moiraine pode Curar voc�. Tenho certeza de que ela vai fazer isso.</p><p>��Ah, eu consigo caminhar sem problemas. E tinha tanta gente precisando da ajuda dela de verdade. Eu n�o queria atrapalhar. Claro que n�o � isso que vai atrapalhar meu trabalho.���Loial olhou para a mesa, onde um grande livro com encaderna��o em tecido estava aberto ao lado de um frasco de tinta desarrolhado. O objeto parecia grande para Perrin, mas caberia em um dos bolsos do casaco do Ogier.���Espero ter escrito tudo direitinho. N�o vi muita coisa ontem, s� depois de terminar.</p><p>��Loial���disse Faile, surgindo por detr�s de um dos montes de flores com um livro nas m�os���� um her�i.</p><p>Perrin deu um salto. As flores haviam mascarado o perfume dela. Loial fez �shhh�, pedindo � jovem que se calasse, e abanou as m�os enormes, as orelhas tremelicando de vergonha. No entanto, Faile prosseguiu, com a voz fria e os olhos, c�lidos, fixos no rosto de Perrin:</p><p>��Ele levou todas as crian�as que conseguiu, e tamb�m algumas m�es, para um sal�o enorme e ficou protegendo a porta sozinho contra Trollocs e Myrddraal. A batalha toda. Essas flores s�o das mulheres da Pedra, como s�mbolo de respeito � sua coragem inabal�vel, � sua lealdade.���Faile fez as palavras �inabal�vel� e �lealdade� estalarem como a�oites.</p><p>Perrin quase n�o conseguiu evitar o corpo de se encolher. Fizera a coisa certa, mas n�o dava para esperar que ela entendesse. Mesmo que Faile soubesse o motivo, n�o entenderia. <emphasis>Foi a coisa certa. Foi sim.</emphasis> S� queria se sentir melhor em rela��o � coisa toda. N�o era justo que estivesse certo mas se sentisse mal.</p><p>��N�o foi nada.���As orelhas de Loial tremelicaram.���Foi s� porque as crian�as n�o podiam se defender sozinhas. S� isso. Nada de hero�smo. Nada.</p><p>��Bobagem.���Faile marcou a p�gina do livro com o dedo e aproximou-se do Ogier. A jovem n�o batia nem no peitoral de Loial.���N�o existe uma mulher na Torre que n�o se casaria com voc� se fosse um humano, e algumas se casariam mesmo n�o sendo. Sabe, Loial voc� � mesmo muito leal, nem a rima fraca abala essa sua qualidade. Qualquer mulher amaria isso.</p><p>As orelhas do Ogier se enrijeceram de surpresa, e Perrin abriu um sorriso. Faile obviamente passara a manh� inteira derramando doce para cima de Loial, na esperan�a de que o Ogier concordasse em lev�-la com eles, a despeito da vontade de Perrin. Mas, ao tentar bajul�-lo, a mo�a, sem saber, acabara de tocar em um ponto sens�vel.</p><p>��Tem not�cias de sua m�e, Loial?���perguntou Perrin.</p><p>��N�o.���Loial conseguia soar aliviado e preocupado ao mesmo tempo.���Mas vi Laefar na cidade, ontem. Ele ficou t�o surpreso em me ver quanto eu fiquei em v�-lo, n�o somos figuras comuns em Tear. Ele veio do Pouso Shangtai para negociar uns reparos em algum trabalho de cantaria Ogier em um dos pal�cios. Tenho certeza de que as primeiras palavras que sair�o de sua boca quando ele voltar para o <emphasis>pouso</emphasis> ser�o �Loial est� em Tear�.</p><p>��Isso � preocupante���comentou Perrin, e o Ogier assentiu, desconsolado.</p><p>��Laefar contou que os Anci�es disseram que sou um fugitivo, e que minha m�e prometeu me casar e me acalmar. Ela j� at� escolheu uma esposa. Laefar n�o sabia quem. Pelo menos disse que n�o sabia. Ele acha isso tudo muito engra�ado. Minha m�e pode chegar em menos de um m�s.</p><p>O rosto de Faile era o retrato da confus�o, o que quase fez Perrin abrir outro sorriso. Ela achava que sabia muito mais do que ele a respeito do mundo���bem, na verdade sabia���mas n�o conhecia Loial. O Pouso Shangtai era a casa de Loial, na Espinha do Mundo, e, como o Ogier estava com pouco mais de noventa anos, ainda n�o tinha idade para sair de l� sozinho. Seu povo vivia por muito tempo. Para os padr�es deles, Loial devia ser da idade de Perrin, talvez mais mo�o. Por�m, o Ogier partira mesmo assim, queria ver o mundo, mas seu maior medo era que a m�e o encontrasse e o arrastasse de volta para o <emphasis>pouso</emphasis>, para se casar e nunca mais sair de l�.</p><p>Enquanto Faile tentava entender o que estava acontecendo, Perrin quebrou o sil�ncio.</p><p>��Preciso voltar a Dois Rios, Loial. Sua m�e n�o vai encontrar voc� l�.</p><p>��Sim. Isso � verdade.���O Ogier deu de ombros, constrangido.���Mas meu livro. A hist�ria de Rand. E sua, e de Mat. Eu j� tenho tantas anota��es, mas����Loial foi para tr�s da mesa, espiou o livro aberto, as p�ginas preenchidas com a caligrafia caprichada.���Serei o autor da verdadeira hist�ria do Drag�o Renascido, Perrin. O �nico livro escrito por algu�m que viajou com ele, que de fato viu tudo se desenrolar. <emphasis>O Drag�o Renascido</emphasis>, de Loial, filho de Arent, filho de Halan, do Pouso Shangtai.���Franzindo a testa, ele se inclinou por cima do livro e mergulhou a pena no frasco de tinta.���Isso aqui n�o est� certo. Foi mais�</p><p>Perrin p�s a m�o sobre a p�gina onde Loial iria escrever.</p><p>��Voc� n�o vai escrever livro nenhum se sua m�e encontr�-lo. Pelo menos, n�o sobre Rand. E eu preciso de voc�, Loial.</p><p>��Precisa, Perrin? N�o estou entendendo.</p><p>��H� Mantos-brancos em Dois Rios. Atr�s de mim.</p><p>��Atr�s de voc�? Mas por qu�?���Loial parecia quase t�o confuso quanto Faile estivera. A jovem, por outro lado, revestira-se de uma soberba complacente e perturbadora. Perrin prosseguiu mesmo assim.</p><p>��O motivo n�o importa. O fato � que est�o atr�s de mim. Podem machucar algu�m, minha fam�lia, procurando por mim. Conhecendo os Mantos-brancos, sei que v�o fazer isso. Posso impedir, se conseguir chegar depressa, mas ser logo. S� a Luz sabe o que � que eles j� fizeram. Preciso que me leve at� l�, Loial, pelos Caminhos. Voc� um dia me disse que havia um Portal dos Caminhos por aqui, e sei que havia um em Manetheren. Ainda deve existir, nas montanhas acima de Campo de Emond. Nada � capaz de destruir um Portal dos Caminhos, voc� mesmo disse. Preciso de voc�, Loial.</p><p>��Bom, � claro que vou ajudar���respondeu o Ogier.���Os Caminhos.���Ele soltou uma bufada ruidosa, e as orelhas esmoreceram um pouco.���Quero escrever sobre aventuras, n�o viv�-las. Mas acho que uma vezinha n�o vai doer. Queira a Luz���concluiu, com fervor.</p><p>Faile pigarreou com delicadeza.</p><p>��N�o est� se esquecendo de nada, Loial? Voc� me prometeu levar aos Caminhos quando eu pedisse, e prometeu que o faria antes de levar qualquer outra pessoa.</p><p>��Eu prometi mesmo que a levaria para ver o Portal dos Caminhos���disse Loial���e como � tudo l� por dentro. Voc� pode fazer isso quando Perrin e eu formos. Acho que poderia vir com a gente, mas a viagem pelos Caminhos n�o � nada f�cil, Faile. Eu mesmo n�o entraria l� se Perrin n�o estivesse precisando.</p><p>��Faile n�o pode ir���rebateu Perrin, com firmeza.���S� voc� e eu, Loial.</p><p>Ignorando-o, a mulher sorriu para o Ogier, como se ele estivesse brincando com ela.</p><p>��Voc� me prometeu mais do que olhar, Loial. Prometeu que me levaria para onde eu quisesse, quando eu quisesse, e antes de qualquer outra pessoa. Voc� jurou.</p><p>��Foi mesmo, mas s� porque voc� se recusou a acreditar que eu o faria���protestou Loial.���Voc� disse que s� acreditaria se eu jurasse. Cumprirei minha promessa, mas tenho certeza de que voc� n�o vai querer passar na frente de Perrin, j� que ele precisa tanto.</p><p>��Voc� jurou���retrucou Faile, com a voz tranquila.���Pela sua m�e, e pela m�e da sua m�e, e pela m�e da m�e da sua m�e.</p><p>��Sim, Faile, eu jurei, mas Perrin�</p><p>��Voc� jurou, Loial. Vai quebrar o juramento?</p><p>A express�o do Ogier era s� desgra�a. Os ombros curvaram, as orelhas ca�ram, os cantos da enorme boca desabaram, e as pontas das compridas sobrancelhas foram parar nas bochechas.</p><p>��Ela fez voc� de trouxa, Loial.���Perrin se perguntou se dava para os dois ouvirem o ranger de seus dentes.���Ela fez voc� de trouxa de prop�sito.</p><p>Uma placa vermelha se formou as bochechas de Faile, mas a jovem ainda teve o descaramento de dizer:</p><p>��S� porque foi preciso, Loial. S� porque um idiota de um homem acha que pode ordenar minha vida como bem entender. Se n�o fosse isso, eu n�o teria agido assim. Voc� precisa acreditar em mim.</p><p>��O fato de que ela ludibriou voc� n�o muda nada?���inquiriu Perrin, e Loial balan�ou tristemente a cabe�a enorme.</p><p>��Os Ogier <emphasis>mant�m</emphasis> a palavra���disse Faile.���E Loial vai me levar para Dois Rios. Ou para o Portal dos Caminhos no Manetheren, pelo menos. Estou com vontade de conhecer Dois Rios.</p><p>Loial se aprumou.</p><p>��Ent�o isso significa que posso ajudar Perrin, no fim das contas. Faile, por que enrolou tanto? Nem Laefar acharia isso engra�ado.���Havia um toque de irrita��o em sua voz, e precisava de muito para deixar um Ogier irritado.</p><p>��Se ele pedir���retrucou ela, determinada.���Isso fazia parte da promessa, Loial. Ningu�m al�m de n�s dois, a menos que me pedissem. Ele tem que pedir.</p><p>��N�o���disse Perrin, enquanto Loial ainda estava abrindo a boca.���N�o, eu n�o vou pedir. Prefiro ir para Campo de Emond a cavalo. Vou a p�! Pode ir desistindo dessa palha�ada. Enganar Loial. Tentar for�ar sua presen�a onde� onde n�o � bem-vinda.</p><p>A calma da mo�a deu lugar � raiva.</p><p>��E, quando voc� chegar l�, Loial e eu j� teremos acabado com os Mantos-brancos. Tudo vai estar acabado. Pe�a, seu ferreiro cabe�a-de-bigorna. Basta pedir, e poder� vir com a gente.</p><p>Perrin se segurou. N�o havia maneira de convenc�-la de seu ponto de vista, mas ele n�o ia pedir. Faile tinha raz�o���levaria semanas para chegar a Dois Rios a cavalo, e eles poderiam estar l� em dois dias, quem sabe, pelos Caminhos���mas n�o ia pedir. <emphasis>N�o depois de ela fazer Loial de bobo e tentar me intimidar!</emphasis></p><p>��Ent�o vou viajar sozinho pelos Caminhos at� Manetheren. Vou atr�s de voc�s dois. Se mantiver dist�ncia suficiente para seguir afastado, n�o estarei quebrando o juramento de Loial. Voc�s n�o podem me impedir de segui-los.</p><p>��Isso � perigoso, Perrin���disse Loial, preocupado.���Os Caminhos s�o escuros. Se voc� perder uma curva ou pegar a ponte errada por acidente, pode acabar se perdendo para sempre. Ou at� <emphasis>Machin Shin</emphasis> apanh�-lo. Pe�a a ela, Perrin. Faile disse que voc� pode vir se pedir. Pe�a.</p><p>A voz retumbante do Ogier estremeceu ao mencionar o nome <emphasis>Machin Shin</emphasis>, e um arrepio percorreu as costas de Perrin. O Vento Negro. Nem mesmo as Aes Sedai sabiam se era uma criatura da Sombra ou algo que se desenvolvera a partir da corrup��o dos Caminhos. <emphasis>Machin Shin</emphasis> era o motivo pelo qual a viagem que fariam podia ser um risco de vida, era o que as Aes Sedai diziam. O Vento Negro devorava almas, e isso Perrin sabia que era verdade. Por�m, manteve a voz firme e a express�o impass�vel. <emphasis>Que me queime se vou deixar que ela perceba minha fraqueza.</emphasis></p><p>��N�o posso, Loial. Seja como for, n�o vou fazer isso.</p><p>O Ogier fez uma careta.</p><p>��Faile, ser� perigoso para ele, se tentar nos seguir. Por favor, ceda um pouco e deixe que ele�</p><p>��N�o.���A jovem o interrompeu bruscamente.���Se ele � cabe�a-dura demais para pedir, por que eu deveria? Por que � que eu deveria sequer me preocupar, caso ele se perca?���Ela se virou para Perrin.���Pode viajar perto da gente. O quanto precisar, desde que fique claro que est� nos seguindo. At� pedir, vai ficar me seguindo feito um cachorrinho. Por que simplesmente n�o pede?</p><p>��Humanos teimosos���resmungou o Ogier.���Afobados e teimosos, mesmo quando a afoba��o acaba levando a um ninho de vespas.</p><p>��Gostaria de partir hoje mesmo, Loial���disse Perrin, sem olhar para Faile.</p><p>��� melhor irmos logo���concordou Loial, encarando pesaroso o livro na mesa.���Acho que posso organizar minhas anota��es durante a viagem. Sabe a Luz o que vou perder ficando longe de Rand.</p><p>��Voc� ouviu o que eu disse, Perrin?���inquiriu Faile.</p><p>��Vou recolher meu cavalo e pegar alguns suprimentos. Podemos partir no meio da manh�.</p><p>��Que se queime, Perrin Aybara, me responda!</p><p>Loial olhou para ela, apreensivo.</p><p>��Perrin, tem certeza de que n�o pode�</p><p>��N�o���interrompeu Perrin, com educa��o.���Ela � turrona e gosta de joguinhos. N�o vou bancar o palha�o para ela.���O rapaz ignorou o som que sa�a das profundezas da garganta de Faile, que mais parecia um gato encarando um c�o estranho, a postos para o ataque.���Aviso assim que estiver pronto.</p><p>Come�ou a se dirigir � porta, e Faile gritou, furiosa:</p><p>���Quando� sou eu quem decide, Perrin Aybara. Eu e Loial. Est� ouvindo? � melhor que esteja pronto em duas horas, ou vamos deixar voc� para tr�s. Pode nos encontrar no est�bulo do Port�o da Muralha do Drag�o, se for. Est� me ouvindo?</p><p>Perrin sentiu-a se aproximando e bateu a porta atr�s de si no mesmo instante que algo se chocou com for�a contra a madeira. Um livro, pensou. Loial daria um ataque por causa disso. Era melhor bater na cabe�a do Ogier do que estragar algum de seus livros.</p><p>Por um instante, ficou apoiado na porta, desesperado. Tudo o que fizera, tudo por que passara, ter que fazer Faile odi�-lo, e, no fim das contas, ela estaria l� para v�-lo morrer. A parte boa � que agora talvez Faile ficasse contente com isso. <emphasis>Mulher teimosa, turrona!</emphasis></p><p>Ao se virar, viu um Aiel se aproximando, um homem alto, de cabelos ruivos e olhos verdes, que poderia ser um primo mais velho de Rand, ou um tio jovem. Conhecia o homem e gostava dele, ainda que fosse porque Gaul jamais tivesse feito qualquer men��o de ter notado seus olhos amarelos.</p><p>��Que a manh� lhe traga boa sombra, Perrin. A majhere disse que voc� tinha vindo para estes lados, mas acho que ficou se co�ando para enfiar uma vassoura nas minhas m�os. Dura como uma S�bia, aquela mulher.</p><p>��Que a manh� lhe traga boa sombra, Gaul. As mulheres s�o todas umas cabe�as-duras, se quer saber.</p><p>��Talvez, se n�o soubermos como contorn�-las. Ouvi dizer que voc� est� indo para Dois Rios.</p><p>��Luz!���grunhiu Perrin, antes que o Aiel pudesse dizer outra coisa.���Ser� que a Pedra inteira est� sabendo? Se Moiraine souber�</p><p>Gaul balan�ou a cabe�a.</p><p>��Rand al�Thor falou comigo em particular e pediu que eu n�o contasse a ningu�m. Acho que ele tamb�m falou com outros, mas n�o sei quantos v�o querer ir com voc�. Passamos muito tempo deste lado da Muralha do Drag�o, e muitos est�o ansiando pela Terra da Trindade.</p><p>��Ir comigo?���Perrin ficou espantado. Se tivesse a companhia dos Aiel� Era uma possibilidade que jamais ousara considerar.���Rand pediu que fossem comigo? Para Dois Rios?</p><p>Gaul balan�ou a cabe�a outra vez.</p><p>��Ele s� disse que voc� estava indo e que alguns homens talvez tentassem mat�-lo. Mas quero ir junto, se voc� aceitar minha companhia.</p><p>��Se eu aceitar?���Perrin quase deu uma risada.���Eu aceito. Entraremos nos Caminhos em algumas horas.</p><p>��Nos Caminhos?���A express�o de Gaul n�o se alterou, mas ele piscou.</p><p>��Faz alguma diferen�a?</p><p>��A morte chega para todos, Perrin.���N�o era uma resposta reconfortante.</p><empty-line/><p>��N�o posso acreditar que Rand seja t�o cruel���disse Egwene.</p><p>��Pelo menos ele n�o tentou impedir vocꠗ�acrescentou Nynaeve. Sentadas na cama da Sabedoria, elas terminavam a divis�o do ouro que Moiraine providenciara. Quatro bolsas gordas seriam transportadas nos bolsos cerzidos sob as saias de Elayne, e quatro nos de Nynaeve, al�m de uma menor para cada, para n�o chamar a aten��o, que seria levada no cinto. Egwene ficara com uma quantia menor, j� que no Deserto havia menos necessidade de ouro.</p><p>Elayne franziu o cenho para as duas trouxas cuidadosamente amarradas e o alforje de couro ao lado da porta. Ali estavam todas as suas roupas e algumas outras coisas. Faca e garfo embalados em um estojo, escova e pente de cabelos, agulhas, alfinetes, linha, dedal, tesouras. Um acendedor e uma segunda faca, melhor que a que ela levava no cinto. Sab�o, talco e� Era rid�culo repassar a lista outra vez. O anel de pedra de Egwene estava enfiado no bolso. Estava pronta para partir. N�o havia nada a det�-la.</p><p>��N�o, ele n�o tentou.</p><p>Elayne estava orgulhosa de como soava calma e serena. <emphasis>Ele pareceu quase aliviado! Aliviado! E tive que entregar aquela carta, deixar meu cora��o aberto, feito uma tonta, completamente cega. Pelo menos ele n�o vai abri-la antes que eu v� embora.</emphasis> Pulou ao sentir a m�o de Nynaeve tocar seu ombro.</p><p>��Queria que ele pedisse a voc� para ficar? Sabe qual teria sido a resposta. N�o sabe?</p><p>Elayne apertou os l�bios.</p><p>��� claro que sei. Mas ele n�o precisava parecer feliz com minha partida.���N�o tivera inten��o de dizer isso.</p><p>Nynaeve lan�ou um olhar compreensivo.</p><p>��Os homens s�o dif�ceis, na melhor das hip�teses.</p><p>��Ainda assim, n�o consigo acreditar que ele seria t�o� t�o����come�ou Egwene, em um resmungo irritado.</p><p>Elayne nunca soube o que ela pretendia dizer, pois naquele momento a porta se abriu com tanta for�a, que quicou na parede.</p><p>Elayne abra�ou <emphasis>saidar</emphasis> antes de a surpresa passar, depois sentiu um instante de vergonha quando a porta ricocheteou, batendo forte na palma da m�o de Lan. Mais um instante, e decidiu agarrar-se � Fonte um pouco mais. O Guardi�o preenchia o batente com os ombros largos, o rosto parecia uma tempestade. Se aqueles olhos azuis pudessem disparar os raios que amea�avam, teriam explodido Nynaeve. O brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> tamb�m envolvia Egwene, sem esvanecer.</p><p>Lan parecia n�o ver ningu�m al�m de Nynaeve.</p><p>��Voc� me fez acreditar que estava voltando para Tar Valon���disse, com a voz �spera.</p><p>��Voc� pode ter pensado isso���respondeu ela, muito calma���mas eu n�o falei nada.</p><p>��N�o falou? N�o falou! Voc� falava que iria embora hoje, e sempre sugeria uma rela��o com a partida daquelas Amigas das Trevas que seriam levadas a Tar Valon. Sempre! O que achou que eu fosse pensar?</p><p>��Mas eu n�o disse�</p><p>��Luz, mulher!���vociferou ele.���N�o discuta comigo!</p><p>Elayne trocou olhares aflitos com Egwene. Aquele homem tinha autocontrole de ferro, mas estava a ponto de explodir. Era Nynaeve quem sempre se deixava levar pelas emo��es, mas a mulher o encarou com frieza, a cabe�a erguida e os olhos serenos, as m�os firmes nas saias de seda verde.</p><p>Lan se recomp�s com esfor�o evidente. Parecia mais impass�vel do que nunca, com total controle sobre si mesmo���e Elayne tinha certeza de que era tudo superficial.</p><p>��Eu n�o teria descoberto para onde voc� ia se n�o tivesse ouvido falar que mandou chamar uma carruagem. Para lev�-la a um navio rumo a Tanchico. N�o sei por que a Amyrlin permitiu que voc�s deixassem a Torre, para in�cio de conversa, nem por que Moiraine envolveu as tr�s no interrogat�rio das irm�s Negras, mas voc�s s�o Aceitas. Aceitas, n�o Aes Sedai. Tanchico hoje em dia n�o � lugar para algu�m que n�o seja uma Aes Sedai completa, com um Guardi�o para ajud�-la. Eu n�o vou deixar voc� se meter nisso!</p><p>��Ent�o���respondeu Nynaeve, em um tom suave���voc� est� questionando as decis�es de Moiraine, e tamb�m as do Trono de Amyrlin. Talvez esse tempo todo eu estivesse entendendo mal os Guardi�es. Achei que voc�s juravam aceitar e obedecer, entre outras coisas. Lan, entendo a sua preocupa��o, e sou muito grata, mais do que grata, mas todas n�s temos tarefas a cumprir. Estamos indo, e voc� precisa se conformar.</p><p>��Por qu�? Pelo amor da Luz, pelo menos me diga por qu�! Tanchico!</p><p>��Se Moiraine n�o contou���respondeu Nynaeve, gentil���talvez ela tenha suas raz�es. Temos que cumprir nossas tarefas, assim como voc� tem que cumprir as suas.</p><p>Lan tremeu���de verdade!���e apertou a mand�bula com for�a. Ao falar, revelou uma estranha hesita��o.</p><p>��Voc�s v�o precisar de algu�m para ajud�-las em Tanchico. Algu�m que possa evitar que um ladr�o de rua taraboniano crave uma faca em suas costas para roubar as bolsas. Tanchico tinha dessas coisas antes de a guerra come�ar, e deve estar ainda pior, de acordo com tudo o que ouvi. Eu poderia� Poderia proteger voc�, Nynaeve.</p><p>As sobrancelhas de Elayne se ergueram. Ele n�o poderia estar sugerindo� simplesmente n�o poderia.</p><p>Nynaeve reagiu como se o homem n�o tivesse dito nada de extraordin�rio.</p><p>��Seu lugar � com Moiraine.</p><p>��Moiraine.���O rosto r�gido do Guardi�o estava coberto de suor, e ele lutava com as palavras.���Eu posso� Eu preciso� Nynaeve, eu� Eu�</p><p>��Voc� <emphasis>vai</emphasis> ficar com Moiraine���disse a mulher, com firmeza���at� que ela o libere do elo. Vai fazer o que estou dizendo.���Ela puxou da bolsa um papel cuidadosamente dobrado e empurrou-o na m�o do homem. Lan franziu o rosto, leu, depois piscou e leu outra vez.</p><p>Elayne sabia o que estava escrito.</p><cite><p>O que o portador fizer � sob meu comando e autoridade. Obede�a e mantenha o sil�ncio, por ordem minha.</p><text-author>Siuan Sanche</text-author><text-author>Vigia dos Selos</text-author><text-author>Chama de Tar Valon</text-author><text-author>O Trono de Amyrlin</text-author></cite><p>O outro papel igual estava na bolsa de Egwene, mas nenhuma delas tinha certeza de que adiantaria muito em seu destino.</p><p>��Mas isso permite que voc� fa�a o que bem entender���protestou Lan.���Voc� pode falar em nome da Amyrlin. Por que ela entregaria isso a uma Aceita?</p><p>��N�o fa�a perguntas que eu n�o posso responder���retrucou Nynaeve, depois acrescentou, com um leve sorriso:���S� considere sorte sua eu n�o mandar voc� dan�ar para mim.</p><p>Elayne abafou um sorriso. Egwene emitiu um som sufocado, que parecia uma risada contida. Fora isso o que Nynaeve dissera quando a Amyrlin lhes entregara as cartas pela primeira vez. <emphasis>Eu poderia fazer um Guardi�o dan�ar, com isso aqui.</emphasis> Nenhuma delas tivera d�vida de qual Guardi�o a antiga Sabedoria tinha em mente.</p><p>��E n�o manda? Est� me descartando como se n�o fosse nada demais. Meu elo, meus juramentos. Esta carta.</p><p>Lan exibia um brilho perigoso nos olhos, que Nynaeve pareceu n�o notar ao tomar a carta de volta e guard�-la na bolsa do cinto.</p><p>��Voc� � muito cheio de si, al�Lan Mandragoran. Fazemos o que � preciso, assim como voc�.</p><p>��Cheio de mim, Nynaeve al�Meara? <emphasis>Eu</emphasis> sou cheio de mim?���Lan avan�ou t�o depressa em dire��o � mulher que Elayne quase cedeu ao impulso de envolv�-lo em fluxos de Ar. Em um instante a antiga Sabedoria estava parada, apenas olhando, embasbacada, para o homem alto que deslizava em sua dire��o, e no instante seguinte estava a um p� de dist�ncia do ch�o, envolta em um beijo profundo. A princ�pio ela chutou as canelas de Lan e o socou, com protestos fren�ticos e furiosos, mas os chutes diminu�ram, depois pararam, e logo Nynaeve ficou enroscada nos ombros dele, sem o menor protesto.</p><p>Egwene baixou os olhos, encabulada, mas Elayne observou a cena com interesse. Ser� que era assim que ela ficava quando Rand� <emphasis>N�o! N�o vou pensar nele.</emphasis> Ela se perguntou se haveria tempo de escrever mais uma carta ao rapaz, retirando tudo o que dissera na primeira, deixando bem claro que n�o se contentaria com ninharias. Mas ser� que queria isso?</p><p>Depois de um tempo, Lan p�s Nynaeve de volta no ch�o. A mulher cambaleou um pouco enquanto ajeitava o vestido e o cabelo, furiosa.</p><p>��Voc� n�o tem o direito����come�ou, com a voz ofegante, depois parou e engoliu.���Voc� n�o pode fazer uma coisa dessas comigo diante de todos. Ah, n�o!</p><p>��N�o s�o todos���retrucou Lan.���Mas, se podem ver, tamb�m podem ouvir. Voc� ocupou um lugar no meu cora��o onde eu achava que j� n�o cabia mais nada. Fez brotar flores onde cultivei poeira e pedras. Lembre-se disso durante essa viagem que insiste em fazer. Se voc� morrer, eu n�o sobreviverei por muito mais tempo.���Ele abriu um de seus raros sorrisos para a mulher. Se n�o suavizou seu rosto, pelo menos o deixou com apar�ncia um pouco menos r�gida.���E tamb�m lembre-se de que n�o sou sempre t�o f�cil de comandar, nem mesmo por cartas da Amyrlin.���Ele fez uma mesura elegante. Por um instante, Elayne pensou que o homem de fato pretendia se ajoelhar e beijar o anel da Grande Serpente de Nynaeve.���Como a senhora ordenar���murmurou���assim farei.���Era dif�cil dizer se o homem estava ou n�o sendo debochado.</p><p>Assim que a porta se fechou atr�s dele, Nynaeve afundou na beirada da cama, como se finalmente deixasse os joelhos cederem. Encarou a porta com uma carranca pensativa.</p><p>���Insista em cutucar o cachorro mais manso����citou Elayne����e ele morder�.� N�o que Lan seja muito manso.</p><p>Ela arrancou um olhar penetrante e uma fungada de Nynaeve.</p><p>��Ele � inacredit�vel���disse Egwene.����s vezes �. Nynaeve, por que fez isso? Ele estava quase indo com voc�. Sei que o que mais quer � libertar esse homem de Moiraine. N�o tente negar.</p><p>Nynaeve n�o tentou. Em vez disso, remexeu no vestido e alisou a manta sobre a cama.</p><p>��N�o assim���respondeu, por fim.���Quero que ele seja meu. Por inteiro. N�o quero que fique do meu lado lembrando-se de que quebrou o juramento feito a Moiraine. N�o aceitarei isso entre n�s dois. Tanto por ele, quanto por mim.</p><p>��Mas vai fazer alguma diferen�a se voc� persuadi-lo a pedir que Moiraine o libere do elo?���perguntou Egwene.���Lan � o tipo de homem que n�o veria diferen�a nisso. S� resta dar um jeito de fazer com que ela o libere por vontade pr�pria. Como � que voc� vai conseguir fazer isso?</p><p>��Eu n�o sei.���Nynaeve firmou a voz.���Mas o que precisa ser feito pode ser feito. Sempre existe uma forma. Isso � para outra hora. Temos trabalho a fazer, e ficamos aqui neste tormento por causa de homens. Tem certeza de que j� pegou tudo o que precisa para o Deserto, Egwene?</p><p>��Aviendha est� aprontando tudo���respondeu a jovem.���Ela ainda parece infeliz, mas disse que conseguiremos chegar em Rhuidean em pouco mais de um m�s, se tivermos sorte. A essa altura, voc�s j� v�o estar em Tanchico.</p><p>��Talvez antes���disse Elayne���se o que dizem sobre os forcadores do Povo do Mar for verdade. Voc� vai tomar cuidado, Egwene? Mesmo com Aviendha de guia, o Deserto n�o � muito seguro.</p><p>��Eu vou. Voc�s tamb�m tomem cuidado. As duas. Tanchico j� n�o � muito mais segura do que o Deserto.</p><p>De repente, as tr�s estavam se abra�ando, repetindo os alertas de cuidado, conferindo se todas se lembravam do calend�rio dos encontros na Pedra de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p>Elayne enxugou as l�grimas do rosto.</p><p>��Ainda bem que Lan foi embora���disse, com uma risada tr�mula.���Ele acharia que somos umas bobas.</p><p>��N�o, n�o acharia���retrucou Nynaeve, puxando as saias para ajeitar uma bolsa de ouro no bolso.���Ele pode ser homem, mas n�o � t�o tolo.</p><p>Devia haver tempo dali at� a carruagem para encontrar papel e pena, decidiu Elayne. Encontraria tempo. Nynaeve tinha raz�o. Os homens precisavam de r�dea firme. Rand saberia que n�o poderia se livrar dela com tanta facilidade. E que n�o seria t�o f�cil rastejar o caminho de volta �s suas boas gra�as.</p></section><section><title><p>17</p><p><image l:href="#9"/></p><p>Trapa�as</p></title><p>Mancando da perna direita, Thom curvou-se em uma rever�ncia, dando um floreio do manto de menestrel que fazia tremular os retalhos coloridos. Os olhos ardiam, mas for�ou-se a falar com alegria:</p><p>��Bom dia a todos.���Aprumando-se, massageou o longo bigode branco, cheio de pompa.</p><p>Os servi�ais de uniformes preto e dourado ficaram surpresos. Os dois rapazes musculosos que estavam prestes a erguer o ba� de verniz vermelho salpicado de dourado com a tampa danificada pararam na mesma hora, e as tr�s mulheres com os esfreg�es tamb�m ficaram im�veis. O corredor estava vazio, exceto por eles, e qualquer desculpa para interromper o trabalho era boa, ainda mais �quela hora. Pareciam t�o cansados quanto Thom se sentia, com ombros ca�dos e olheiras profundas.</p><p>��Bom dia para o senhor, menestrel���disse a mais velha das mulheres. Um pouco roli�a e de rosto comum, talvez, mas tinha um belo sorriso, por mais cansada que estivesse.���Em que podemos servi-lo?</p><p>Thom tirou quatro bolas coloridas da manga bufante do casaco e come�ou a mex�-las nas m�os.</p><p>��Estou s� tentando melhorar o �nimo. Um menestrel precisa fazer o que pode.���Teria usado mais de quatro bolas, mas estava cansado at� para se concentrar nisso. Quanto tempo fazia que quase deixara cair a quinta? Duas horas? Abafou um bocejo e o transformou em um sorriso reconfortante.���Uma noite terr�vel, e precisamos melhorar o �nimo.</p><p>��O Lorde Drag�o nos salvou���disse uma das mulheres mais jovens.</p><p>Era bonita e magra, mas com um brilho predat�rio nos olhos escuros e sombrios que servia de aviso para Thom controlar o sorriso. Claro, ela poderia ser �til, se fosse ao mesmo tempo ambiciosa e honesta, pois continuaria fiel depois de comprada. Era sempre bom ter mais um par de m�os onde p�r uma nota, uma l�ngua que contasse o que ouvia e depois dissesse o que ele quisesse, onde quisesse. <emphasis>Velho tolo! J� tem m�os e ouvidos suficientes, ent�o pare de pensar em um belo par de seios e lembre-se da express�o no olhar dela!</emphasis> O mais interessante foi que a mulher parecia estar sendo sincera, e um dos rapazes mais jovens assentiu.</p><p>��Sim���disse Thom.���Qual Gr�o-lorde ser� que ficou encarregado do cais ontem?���Quase deixou cair as bolas, de t�o irritado consigo mesmo. Perguntar assim, sem mais nem menos. Estava muito cansado, deveria estar na cama. Deveria ter ido para a cama tr�s horas antes.</p><p>��O cais � responsabilidade dos Defensores���afirmou a mulher mais velha.���O senhor n�o sabe disso, � claro. Os Gr�o-lordes n�o se preocupam.</p><p>Thom sabia muito bem.</p><p>��Ah, � mesmo? Bem, n�o sou taireno, claro.���Ele mudou a manobra, e as bolas passaram de um simples c�rculo a uma volta dupla. Parecia mais dif�cil do que era, e a mo�a de olhar predat�rio bateu palmas. Agora que ele come�ara, era melhor seguir em frente. Mas depois disso daria por encerradas as atividades da noite. Da noite? O sol j� despontava.���Mesmo assim, � uma pena que ningu�m tenha perguntado por que aquelas barca�as estavam no cais. Com as escotilhas abaixadas, escondendo tantos Trollocs. N�o que eu esteja insinuando que algu�m sabia que os Trollocs estavam l�.���A volta dupla deu uma bamboleada, e ele logo retornou aos c�rculos. Luz, como estava cansado.���Seria de se imaginar que um dos Gr�o-lorde tivesse perguntado, no entanto.</p><p>Os dois rapazes franziram o cenho um para o outro, pensativos, e Thom sorriu para si mesmo. Outra semente plantada, f�cil assim, ainda que de forma meio desastrada. Outro boato iniciado, independentemente de qual fosse a informa��o verdadeira que tivessem a respeito do encarregado do cais. E boatos se espalhavam���um desses n�o ficaria limitado � cidade���ent�o seria mais um tantinho de suspeita entre plebeus e nobres. A quem os plebeus se voltariam, se n�o ao homem que, todos sabiam, os nobres odiavam? O homem que salvara a Pedra das criaturas da Sombra. Rand al�Thor. O Lorde Drag�o.</p><p>Era hora de deixar o que semeara. Se a coisa j� tivesse criado ra�zes no grupo, nada do que dissesse seria capaz de arranc�-las, e ele espalhara outras sementes naquela noite. Mas n�o seria nada bom se algu�m descobrisse que era ele quem andava fazendo o plantio.</p><p>��Eles lutaram bravamente ontem � noite, os Gr�o-lordes. Ora, eu vi����A voz dele morreu quando as mulheres deram um salto e voltaram a esfregar o ch�o, e os homens se aprumaram e sa�ram apressados.</p><p>��Tamb�m posso arrumar trabalho para menestr�is���disse a majhere, atr�s dele.���M�os ociosas s�o m�os ociosas.</p><p>Ele deu um giro gracioso, apesar da perna, e curvou-se em uma mesura profunda. A cabe�a da mulher batia abaixo de seu ombro, mas ela provavelmente tinha uma vez e meia o peso dele. Tinha cara de bigorna���que ficava mais acentuada com a atadura envolta nas t�mporas���queixo duplo e olhos fundos que pareciam lascas de pederneira negra.</p><p>��Tenha um bom dia, graciosa senhora. Uma pequena lembran�a deste dia novo e fresco.</p><p>Thom fez um floreio com as m�os e tirou uma flor amarelo-alaranjada da manga do casaco���um pouco amassada pelo tempo que passara l᠗�e prendeu-a nos cabelos grisalhos acima da atadura da mulher. A majhere a arrancou dos cabelos, naturalmente, e a analisou, desconfiada, mas era exatamente o que o menestrel queria. Enquanto a mulher hesitava, deu tr�s passos largos e mancos, e, quando ela o chamou outra vez, aos gritos, ele n�o deu ouvidos nem reduziu o passo.</p><p><emphasis>Mulher horr�vel</emphasis>, pensou. <emphasis>Se a tiv�ssemos jogado no meio dos Trollocs, ela os teria feito sair varrendo e esfregando.</emphasis></p><p>Bocejou por detr�s da m�o, fazendo ranger o maxilar. Estava velho demais para isso. Estava cansado, e o joelho n�o parava de doer. Noites sem dormir, batalhas, tramoias. Velho demais. Deveria estar vivendo tranquilo em alguma fazenda. Com galinhas. Fazendas sempre tinham galinhas. E ovelhas. N�o devia ser dif�cil tomar conta delas, os pastores pareciam sempre alegres, passavam o tempo todo tocando gaita. Ele tocaria harpa, � claro, n�o gaita. Ou a flauta, j� que o ar livre n�o era muito bom para a harpa. E haveria uma cidadezinha por perto, com uma estalagem onde poderia divertir a clientela do sal�o. Fez um floreio com o manto ao passar por duas servi�ais. A �nica raz�o para usar a pesada pe�a de tecido naquele calor era poder mostrar �s pessoas que era um menestrel. Elas se agitaram ao v�-lo, naturalmente, esperando que ele parasse para entret�-las por um momento. O que era muito gratificante. Sim, uma fazenda tinha seu valor. Era um lugar tranquilo. Ningu�m para incomodar. Contanto que houvesse uma cidade por perto.</p><p>Empurrou a porta do quarto e parou na mesma hora. Moiraine se aprumou, como se tivesse todo o direito de revirar os pap�is espalhados na escrivaninha, e ajeitou as saias com muita calma enquanto se sentava no banquinho. L� estava uma bela mulher, com toda a eleg�ncia que um homem poderia desejar, incluindo as risadas de seus gracejos. <emphasis>Tolo! Velho tolo! Ela � uma Aes Sedai, e voc� est� cansado demais para pensar direito.</emphasis></p><p>��Bom dia, Moiraine Sedai���cumprimentou, pendurando o manto em um gancho. Evitou olhar o ba� onde guardava seus escritos, ainda onde o deixara, embaixo da mesa. N�o havia por que fazer com que ela percebesse sua import�ncia. Ali�s, era prov�vel que n�o houvesse motivos para conferi-lo depois que ela fosse embora, a mulher poderia ter canalizado para abrir e fechar a tranca, e ele jamais saberia. Cansado como estava, n�o conseguia nem lembrar se deixara algo incriminat�rio no ba�. Nem em qualquer outro lugar, na verdade. Tudo no quarto estava no lugar exato em que ficava. Thom achava que n�o era tolo o bastante para deixar algo de fora. As portas dos alojamentos dos servi�ais n�o tinham trancas nem trincos.���Eu ofereceria uma bebida refrescante, mas temo que n�o tenha nada al�m de �gua.</p><p>��N�o estou com sede���respondeu a Aes Sedai, em uma voz agrad�vel e melodiosa. Ent�o se inclinou para a frente. O quarto era pequeno o bastante para ela p�r a m�o no joelho direito de Thom, que sentiu um arrepio frio percorrer o corpo.���Queria que houvesse uma boa Curandeira por perto quando isso aconteceu. Agora j� � tarde demais, lamento.</p><p>��Uma d�zia de Curandeiras n�o teria sido suficiente���retrucou.���Foi um Meio-homem que fez.</p><p>��Eu sei.</p><p><emphasis>O que mais ela sabe?</emphasis>, perguntou-se Thom. Virando-se para puxar a �nica cadeira de tr�s da mesa, abafou um xingamento. Sentia-se como se houvesse tido uma boa-noite de sono, e a dor desaparecera do joelho. A manqueira permanecia, mas a junta estava mais flex�vel do que quando fora ferido. <emphasis>Ela sequer perguntou se eu queria ser Curado. Que me queime, o que � que ela quer?</emphasis> Recusou-se a dobrar a perna. J� que Moiraine n�o pedira permiss�o, ele n�o agradeceria pelo presente.</p><p>��Um dia interessante ontem���comentou a mulher, enquanto ele se sentava.</p><p>��Eu n�o chamaria Trollocs e Meios-homens de interessantes���retrucou Thom, secamente.</p><p>��N�o estava falando disso. Mais cedo. O Gr�o-lorde Carleon morto em um acidente de ca�a. Ao que parece, seu bom amigo Tedosian o confundiu com um javali. Ou talvez com um cervo.</p><p>��N�o fiquei sabendo.���Thom manteve a voz calma. Mesmo que Moiraine tivesse encontrado o bilhete, n�o poderia conect�-lo a ele. At� Carleon acreditaria que era sua pr�pria caligrafia. Achava que ela n�o deveria ter descoberto o bilhete, mas lembrou-se mais uma vez de que Moiraine era uma Aes Sedai. Como se fosse preciso se lembrar disso, com aquele rosto belo e pl�cido diante dele, os olhos negros e serenos a perscrut�-lo, cheio de tantos segredos.���Os alojamentos dos servi�ais fervilham de fofocas, mas eu quase nunca escuto.</p><p>��N�o escuta?���murmurou a mulher, em voz branda.���Ent�o n�o ouviu dizer que Tedosian caiu doente menos de uma hora depois de retornar � Pedra, logo depois que sua mulher lhe entregou um c�lice de vinho para lavar a poeira da ca�ada. Dizem que ele chorou ao descobrir que a esposa decidiu ela mesma cuidar dele e aliment�-lo com as pr�prias m�os. Sem d�vida l�grimas de alegria, diante de tamanho amor. Ouvi falar que ela fez votos de n�o sair do lado do marido at� que ele se levante outra vez. Ou at� que morra.</p><p>Moiraine sabia. Ele n�o tinha como dizer de que forma ela descobrira, mas a mulher sabia. Por que estava revelando isso a ele?</p><p>��Que trag�dia���comentou, em um tom igualmente brando.���Rand vai precisar de todos os Gr�o-lordes leais que puder encontrar, eu acho.</p><p>��Carleon e Tedosian n�o eram muito leais. Nem um ao outro, ao que parece. Eles lideravam a fac��o que pretende matar Rand e tentar esquecer que ele um dia viveu.</p><p>��Voc� acha? Eu presto pouqu�ssima aten��o a essas coisas. A vida dos poderosos n�o � assunto para um simples menestrel.</p><p>O sorriso dela era quase uma risada, mas as palavras pareciam recitadas de um livro.</p><p>��Thomdril Merrilin. Um dia chamado de Raposa Gris, pelos que o conheciam, ou que ouviam falar dele. Bardo da Corte no Pal�cio Real de Andor, em Caemlyn. Amante de Morgase por algum tempo, depois da morte de Taringail. Foi uma sorte para Morgase, a morte de Taringail. N�o creio que ela algum dia tenha descoberto que o homem queria que ela morresse para se tornar o primeiro rei de Andor. Mas est�vamos falando de Thom Merrilin, um homem que, ao que se dizia, era capaz de jogar o Jogo das Casas dormindo. � uma pena que tal homem se considere um simples menestrel. Mas que arrog�ncia manter o mesmo nome.</p><p>Thom esfor�ou-se para mascarar o choque. O quanto ela sabia? J� era demais, ainda que n�o soubesse mais uma palavra. Por�m, Moiraine n�o era a �nica que detinha conhecimento.</p><p>��Falando de nomes���retrucou, muito calmo���� impressionante o quanto pode se descobrir a partir de um nome. Moiraine Damodred. Lady Moiraine da Casa Damodred, em Cairhien. Meia-irm� mais nova de Taringail. Sobrinha do Rei Laman. E Aes Sedai, n�o podemos esquecer. Uma Aes Sedai que est� auxiliando o Drag�o Renascido desde antes de saber que ele era algo al�m de um pobre infeliz capaz de canalizar. Uma Aes Sedai com altas conex�es na Torre Branca, eu diria, ou n�o arriscaria o que tem. Algu�m no Sal�o da Torre? Mais de uma pessoa, eu diria. S� pode ser. Uma not�cia assim abalaria o mundo. Mas por que causar problemas? Talvez seja melhor deixar um velho menestrel enfiado em sua toca nos alojamentos dos servi�ais. S� um velho menestrel, tocador de harpa e contador de hist�rias. Hist�rias que n�o fazem mal a ningu�m.</p><p>Se conseguira faz�-la hesitar uma fra��o que fosse, a mulher n�o demonstrara.</p><p>��Especula��es sem fatos s�o sempre perigosas���respondeu, serena.���Eu n�o uso o nome de minha Casa por op��o. A Casa Damodred j� tinha m� reputa��o, e merecida, antes de Laman cortar <emphasis>Avendoraldera</emphasis> e perder o trono e a vida por isso. Desde a Guerra dos Aiel a coisa apenas piorou, tamb�m merecidamente.</p><p>Ser� que nada abalava aquela mulher?</p><p>��O que � que voc� quer de mim?���inquiriu Thom, irritado.</p><p>Moiraine apenas piscou.</p><p>��Elayne e Nynaeve embarcam num navio para Tanchico hoje. Uma cidade perigosa, Tanchico. Seus conhecimentos e habilidades talvez salvem a vida delas.</p><p>Ent�o era isso. A mulher queria afast�-lo de Rand, deixar o rapaz exposto �s suas manipula��es.</p><p>��Concordo, Tanchico est� perigosa, mas sempre foi assim. Desejo o melhor �s duas mo�as, mas n�o tenho vontade alguma de meter a cabe�a em um ninho de v�boras. Estou velho demais para este tipo de coisa. Andei pensando em virar fazendeiro. Uma vida tranquila. Segura.</p><p>��Acho que uma vida tranquila mataria voc�.���Visivelmente bem-humorada, Moiraine se ocupou em rearrumar as dobras da saia com as m�os pequenas e delgadas. Thom tinha a impress�o de que ela escondia um sorriso.���Mas Tanchico, n�o. Eu garanto, e pelo Primeiro Juramento, que voc� sabe que � verdadeiro.</p><p>Thom franziu o cenho para ela, apesar do enorme esfor�o em manter o rosto impass�vel. Moiraine n�o era capaz de mentir, mas como ela poderia saber? Tinha certeza de que ela n�o podia Prever, tinha certeza de que a ouvira negar ter tal Talento. Mas a mulher dissera aquilo. <emphasis>Que se queime, mulher!</emphasis></p><p>��Por que eu deveria ir para Tanchico?���Moiraine podia passar sem o vocativo respeitoso.</p><p>��Para proteger Elayne? A filha de Morgase?</p><p>��N�o vejo Morgase h� quinze anos. Elayne era uma menina quando sa� de Caemlyn.</p><p>A Aes Sedai hesitou, mas, quando falou, a voz estava firme e implac�vel.</p><p>��E seus motivos para deixar Andor? Um sobrinho chamado Owyn, eu presumo. Um desses pobres coitados de quem voc� falou que s�o capazes de canalizar. As irm�s Vermelhas deveriam lev�-lo a Tar Valon, como acontece com qualquer homem desse tipo, mas em vez disso o amansaram onde ele estava e o abandonaram �� merc� de seus vizinhos.</p><p>Thom derrubou a cadeira ao se levantar, depois precisou se apoiar na mesa, pois os joelhos tremiam. Owyn n�o vivera por muito tempo depois de ser amansado, levado de casa pelos supostos amigos, que n�o foram capazes de suportar ter entre si nem ao menos um homem que j� n�o podia mais canalizar. Nada que Thom fizesse poderia impedir Owyn de n�o querer viver, nem evitar que sua jovem esposa o seguisse para o t�mulo em menos de um m�s.</p><p>��Por que�?���Pigarreou de repente, tentando fazer a voz soar menos �spera.���Por que est� me dizendo isso?</p><p>Havia compaix�o no rosto de Moiraine. Quem sabe at� arrependimento? Com certeza n�o. N�o vindo de uma Aes Sedai. A compaix�o tamb�m deveria ser falsa.</p><p>��Eu n�o teria feito isso se voc� estivesse disposto a ir apenas para ajudar Elayne e Nynaeve.</p><p>��Por qu�, que se queime! Por qu�?</p><p>��Se voc� for com Elayne e Nynaeve, revelarei os nomes das irm�s Vermelhas da pr�xima vez que nos virmos, al�m do nome de quem emitiu as ordens. Elas n�o agiram sozinhas. E <emphasis>nos veremos</emphasis> outra vez. Voc� vai sobreviver a Tarabon.</p><p>Ele soltou um suspiro irregular.</p><p>��De que me vai adiantar saber os nomes delas?���perguntou, com a voz inexpressiva.���Nomes de Aes Sedai, rodeadas pelo poder da Torre Branca.</p><p>��Um jogador habilidoso e perigoso do Jogo das Casas pode encontrar utilidade para eles���respondeu a mulher, baixinho.���Elas n�o deviam ter feito o que fizeram. N�o deviam ter sido perdoadas por isso.</p><p>��Voc� pode ir embora, por favor?</p><p>��Mostrarei a voc� que nem todas as Aes Sedai s�o como aquelas Vermelhas, Thom. Voc� precisa aprender isso.</p><p>��Por favor?</p><p>Ele continuou apoiado na mesa depois que ela se foi, sem querer deixar que Moiraine o visse desabar de joelhos, desajeitado, ou notasse as l�grimas correndo pelo velho rosto. <emphasis>Ah, Luz. Owyn.</emphasis> Enterrara aquilo o mais fundo que pudera. <emphasis>N�o consegui chegar l� a tempo. Estava muito ocupado. Muito ocupado com o maldito Jogo das Casas.</emphasis> Esfregou o rosto, irritado. Moiraine era uma das melhores no Jogo. Mexendo com ele daquele jeito, puxando cada corda que ele pensava estar perfeitamente escondida. Owyn, Elayne. A filha de Morgase. Sentia apenas afei��o por Morgase, talvez um pouco mais, por�m era dif�cil algu�m se desligar de uma crian�a que carregara no colo. <emphasis>Aquela garota, em Tanchico? Ela n�o � p�reo para a cidade, mesmo que n�o houvesse guerra. Agora deve estar um covil de lobos raivosos. E Moiraine vai revelar os nomes.</emphasis> Tudo o que tinha de fazer era deixar Rand nas m�os da Aes Sedai. Assim como deixara Owyn. Ela o encurralara, Thom mais parecia uma serpente com um graveto cravado no corpo, condenado, por mais que se contorcesse para escapar. <emphasis>Que se queime, essa mulher.</emphasis></p><empty-line/><p>Carregando uma cesta bordada no bra�o, Min juntou as saias com a outra m�o e saiu do sal�o de jantar, logo ap�s o caf� da manh�, em um passo suave, empertigada. Poderia equilibrar um c�lice cheio de vinho na cabe�a sem derrubar uma gota sequer. Em parte, porque n�o conseguia dar um passo decente dentro daquele vestido, todo de seda azul-clara, de corpete apertado, mangas e uma saia cheia cuja bainha bordada arrastava no ch�o se n�o fosse erguida. Em parte, tamb�m, porque tinha certeza de que sentia os olhos de Laras em suas costas.</p><p>Uma olhadela para tr�s comprovou que estava certa. A Mestra das Cozinhas, um barril de vinho com pernas, a encarava da porta do sal�o de jantar com um sorriso. Quem diria que a mulher fora uma beldade na juventude, ou que teria um lugar em seu cora��o para mocinhas belas e sedutoras? �Vivazes�, como as chamava. Quem suspeitaria que ela decidiria acolher �Elmindreda� sob as asas robustas? N�o era uma posi��o confort�vel. Laras mantinha o olho atento e protetor em Min, um olho que parecia encontr�-la em qualquer lugar dentro dos muros da Torre. Min sorriu de volta e passou as m�os nos cabelos, um capacete redondo de cachos negros. <emphasis>Que a queime, mulher! Ser� que ela n�o tem alguma coisa para cozinhar, ou algum ajudante de cozinha com quem berrar?</emphasis></p><p>Laras acenou para ela, que acenou de volta. N�o podia dar-se ao luxo de ofender algu�m que a observava t�o de perto, pois n�o fazia ideia de quantos erros podia acabar cometendo. Laras sabia todos os truques das mulheres �vivazes� e ensinava a Min os que a garota n�o conhecia.</p><p><emphasis>Um dos maiores erros</emphasis>, refletiu a jovem, enquanto se sentava no banco de m�rmore debaixo de um salgueiro alto, <emphasis>foi o bordado</emphasis>. N�o do ponto de vista de Laras, mas do dela pr�pria. Puxando da cesta o aro de bordado, examinou com pesar o trabalho do dia anterior, v�rios malmequeres amarelos inclinados e algo que era para ser um bot�o de rosa amarelo-claro, embora ningu�m fosse capaz de adivinhar sem a devida explica��o. Com um suspiro, come�ou a desfazer os pontos. Leane tinha raz�o, sup�s. Uma mulher poderia passar horas sentada com um aro de bordado, observando a tudo e a todos, e ningu�m acharia estranho. Por�m, ajudaria bastante se Min tivesse um m�nimo de talento para a coisa.</p><p>Pelo menos era uma manh� perfeita para ficar ao ar livre. O sol dourado acabara de despontar no horizonte, em um c�u com poucas nuvens, brancas e fofas, que pareciam ordenadas para enfatizar a perfei��o. Uma brisa leve captava o aroma de rosas e revolvia os altos arbustos com grandes flores vermelhas e brancas. Em breve, os caminhos de cascalho perto da �rvore estariam repletos de gente absorta em suas tarefas, de Aes Sedai a cavalari�os. Uma manh� perfeita, e um local perfeito para observar sem ser vista. Talvez hoje notasse algo de �til.</p><p>��Elmindreda?</p><p>Min deu um salto e enfiou o dedo furado na boca. Deu um giro no banco, preparada para xingar Gawyn por aparecer sorrateiro, mas as palavras congelaram em sua boca. Galad estava com ele. O rapaz era mais alto que Gawyn, tinha pernas compridas e se movia com a gra�a de um dan�arino e com uma for�a esguia e musculosa. As m�os tamb�m eram compridas e elegantes, por�m fortes. E o rosto� Ele era, simplesmente, o homem mais bonito que Min j� vira.</p><p>��Pare de chupar o dedo���disse Gawyn, sorrindo.���Sabemos que � uma menininha bonita, n�o precisa provar.</p><p>Enrubescida, Min puxou a m�o depressa, quase disparando um olhar furioso, o que seria totalmente inadequado para Elmindreda. Gawyn n�o precisara de amea�as ou ordens da Amyrlin para manter o segredo dela, bastou pedir, mas o rapaz aproveitava todas as oportunidades que tinha para provoc�-la.</p><p>��N�o � certo zombar, Gawyn���disse Galad���Ele n�o quis ofender, Srta. Elmindreda. Perdoe-me a confus�o, mas ser� que j� nos vimos antes? Quando franziu a testa para Gawyn, agora h� pouco, de maneira t�o feroz, quase tive a sensa��o de que j� a conhecia.</p><p>Min baixou os olhos, recatada.</p><p>��Ah, eu jamais esqueceria que conheci <emphasis>o senhor</emphasis>, milorde Galad���disse, com a melhor voz de garotinha tonta.</p><p>O tom t�mido e a raiva por conta do pr�prio deslize enviaram uma onda de calor que enrubesceu seu rosto, deixando o disfarce ainda melhor.</p><p>N�o parecia em nada consigo mesma, e o vestido e o cabelo eram apenas parte do disfarce. Leane comprara cremes, talcos e toda sorte de coisas incr�veis com perfumes misteriosos na cidade, depois a treinara at� que Min fosse capaz de usar tudo aquilo de olhos fechados. Agora, a jovem tinha ma��s do rosto, al�m de mais cor nos l�bios do que a natureza concedera. Um creme escuro delineava as p�lpebras e um p� fino enfatizava os c�lios e fazia os olhos parecerem maiores. Bem diferente do que era de fato. Algumas das novi�as haviam elogiado sua beleza, admiradas, e at� umas poucas Aes Sedai a chamaram de �uma crian�a muito bonita�. Odiava aquilo. Admitia que o vestido era bem bonito, mas de resto odiava tudo o mais. No entanto, n�o faria sentido usar um disfarce se n�o o sustentasse.</p><p>��Tenho certeza de que voc� se lembraria���disse Gawyn, com a voz seca.���Eu n�o queria ter atrapalhado seu bordado� S�o andorinhas, n�o s�o? Andorinhas <emphasis>amarelas</emphasis>?���Min enfiou o aro de volta na cesta.���Mas eu queria pedir sua opini�o a respeito disso aqui.���Ele enfiou nas m�os dela um pequeno livro com capa de couro, velho e surrado, e de s�bito sua voz pareceu mais s�ria.���Diga ao meu irm�o que isso � uma bobagem. Talvez ele escute voc�.</p><p>Min examinou o livro. <emphasis>O Caminho da Luz</emphasis>, de Lothair Mantelar. Abriu em uma p�gina ao acaso e leu.</p><p>��Por conseguinte, abjure todo o prazer, pois a bondade � pura abstra��o, um ideal perfeito e cristalino, turvado por emo��es vis. N�o d� prazer � carne. A carne � fraca, mas o esp�rito � forte. A carne � in�til quando � forte o esp�rito. O pensamento correto � afogado em sensa��es, e as a��es corretas, estorvadas pelas paix�es. Busque toda a alegria na retid�o, apenas nela.���Parecia mesmo pura bobagem.</p><p>Min sorriu para Gawyn e at� conseguiu soltar um risinho nervoso.</p><p>��Quantas palavras. Receio saber pouco sobre livros, milorde Gawyn. Sempre tive inten��o de ler algum� Tenho mesmo.���Suspirou.���Mas tenho t�o pouco tempo. Ora, levo horas s� para arrumar o cabelo a contento. Os senhores acham que est� bonito?</p><p>O espanto indignado no rosto do rapaz quase a fez gargalhar, mas ela conseguiu transformar a rea��o em uma risadinha. Era um prazer virar a mesa, para variar. Precisava fazer isso mais vezes. O disfarce guardava possibilidades que n�o considerara. A estadia na Torre se tornara completamente tediosa e irritante. Min merecia <emphasis>alguma</emphasis> divers�o.</p><p>��Lothair Mantelar���explicou Gawyn, com a voz tensa���fundou os Mantos-brancos. Os Mantos-brancos!</p><p>��Ele foi um grande homem���retrucou Galad, com firmeza.���Um fil�sofo de ideais nobres. Mesmo que os Filhos da Luz �s vezes sejam� desmedidos� desde a �poca dele, isso n�o muda o fato.</p><p>��Minha nossa. Mantos-brancos���disse Min, arquejante, acrescentando um leve arrepio.���S�o homens muito brutos, pelo que ouvi dizer. N�o consigo imaginar um Manto-branco dan�ando. Acham que h� alguma chance de termos dan�a por aqui? As Aes Sedai tamb�m n�o parecem ligar muito para festas, e gosto tanto de dan�ar�</p><p>A frustra��o nos olhos de Gawyn era um deleite.</p><p>��Acho que n�o���respondeu Galad, tomando o livro das m�os dela.���As Aes Sedai est�o muito ocupadas com� Seus pr�prios neg�cios. Se eu ouvir falar em alguma boa dan�a na cidade, posso levar a senhorita, se desejar. N�o precisa ter medo de ser incomodada por aqueles dois grosseir�es.</p><p>O rapaz sorriu para ela, sem perceber o que fazia, e Min de repente ficou sem ar de verdade. Os homens n�o deveriam ter permiss�o para sorrir desse jeito.</p><p>Precisou de um instante para se lembrar a que dois grosseir�es ele se referia. Os dois homens que supostamente haviam pedido a m�o de Elmindreda em casamento, que quase duelaram entre si porque a garota n�o conseguia tomar uma decis�o e a pressionaram a ponto de ela precisar buscar abrigo na Torre. Era apenas toda a justificativa pela qual estava ali. <emphasis>� esse vestido</emphasis>, disse a si mesma. <emphasis>Eu conseguiria pensar direito se estivesse usando minhas roupas.</emphasis></p><p>��Percebi que a Amyrlin fala com a senhorita todos os dias���comentou Gawyn, de repente.���Ela mencionou nossa irm�, Elayne? Ou Egwene al�Vere? Disse alguma coisa a respeito de onde est�o?</p><p>Min desejou socar Gawyn bem no olho. O rapaz n�o sabia por que ela estava disfar�ada, � claro, mas concordara em ajud�-la a ser aceita como Elmindreda, e agora a estava ligando a mulheres que muita gente na Torre sabia serem amigas de Min.</p><p>��Ah, o Trono de Amyrlin � uma mulher t�o bonita���respondeu, com do�ura, abrindo os dentes em um sorriso.���Ela sempre pergunta como tenho passado o tempo, e sempre elogia meu vestido. Acho que torce para que eu tome logo uma decis�o em rela��o a Darvan e Goemal, mas eu simplesmente n�o consigo.���Arregalou os olhos, tentando parecer confusa e desamparada.���Os dois s�o t�o doces. De quem foi que o senhor falou? De sua irm�, Lorde Gawyn? A Filha-herdeira em pessoa? Acho que nunca ouvi o Trono de Amyrlin mencion�-la. Qual foi o outro nome?</p><p>Dava para ouvir o ranger dos dentes de Gawyn.</p><p>��N�o dever�amos incomodar a Senhorita Elmindreda com isso���disse Galad.���Isso � problema nosso, Gawyn. Cabe a n�s descobrirmos a mentira e lidarmos com ela.</p><p>Min mal escutou o rapaz, pois de s�bito voltou o olhar para um homem corpulento, de cabelos compridos e cacheados por cima dos ombros curvados, vagando sem rumo por um dos caminhos de cascalho em meio �s �rvores, sob o olhar atento de uma Aceita. J� vira Logain antes, um homem de rosto triste, que um dia fora alegre e animado, sempre em companhia de uma Aceita. O papel da mulher era impedi-lo de se matar, bem como evitar sua fuga. Apesar de seu tamanho, Logain n�o parecia tramar fuga alguma. Mas era a primeira vez que Min via um halo flamejante em volta da cabe�a do homem, radiante, dourado e azul. Aparecera apenas por um instante, mas fora o suficiente.</p><p>Logain se proclamara o Drag�o Renascido, ent�o fora capturado e amansado. Qualquer gl�ria que obtivera como falso Drag�o j� estava havia muito perdida. Tudo o que restava para ele era o desespero do amansamento���como um homem de quem foram roubados a vis�o, a audi��o e o paladar���e o desejo de morrer, esperando a morte que inevitavelmente chegaria em poucos anos, como sempre acontecia com esses homens. Ele a encarou, talvez sem v�-la. Seus olhos pareciam desconsolados e introspectivos. Ent�o por que ostentava um halo que prenunciava gl�ria e poder? Min precisava contar aquilo � Amyrlin.</p><p>��Pobre sujeito���murmurou Gawyn.���N�o consigo deixar de sentir pena. Luz, seria um gesto de miseric�rdia deixar que ele acabasse com tudo. Por que o obrigam a continuar vivendo?</p><p>��Ele n�o � digno de pena���retrucou Galad.���Voc� se esqueceu do que ele foi, do que fez? Quantos milhares morreram antes de ele ser capturado? Quantas cidades foram incendiadas? Mant�-lo vivo serve de aviso para os outros.</p><p>Gawyn assentiu, mas com relut�ncia.</p><p>��E mesmo assim houve homens que o seguiram. Algumas dessas cidades foram incendiadas, depois que se declararam a favor dele.</p><p>��Eu preciso ir���disse Min, levantando-se, e Galad na mesma hora se mostrou sol�cito e preocupado.</p><p>��Perdoe-nos, Senhorita Elmindreda. N�o tivemos a inten��o de assust�-la. Logain n�o pode fazer mal � senhorita. Eu lhe dou minha garantia.</p><p>��Eu� �, ele me deixou um pouco tonta. Me desculpem. Preciso mesmo me deitar.</p><p>A express�o de Gawyn era extremamente c�tica, mas ele pegou a cesta antes que ela pudesse toc�-la.</p><p>��Deixe-me pelo menos acompanh�-la em um trecho do caminho���disse, com uma voz que transbordava falsa preocupa��o.���Esta cesta deve estar muito pesada, tonta como a senhorita est�. N�o quero que acabe desmaiando.</p><p>Min queria agarrar a cesta e dar na cara dele, mas Elmindreda jamais reagiria assim.</p><p>��Ah, obrigada, milorde Gawyn. O senhor � t�o gentil. T�o gentil. N�o, n�o, milorde Galad. N�o permitam que eu seja um estorvo. Sente-se a� e leia seu livro. Diga que o far�. N�o admito que seja de outra forma.���Ela at� bateu os c�lios.</p><p>Deu um jeito de empurrar Galad no banco de m�rmore e ir embora, mas com Gawyn em seus calcanhares. As saias a deixavam irritada, tinha vontade de pux�-las at� o joelho e sair correndo, mas Elmindreda jamais sairia correndo, nem exporia uma parte t�o grande das pernas, a n�o ser que estivesse dan�ando. Laras a instru�ra com muito rigor sobre isso. Uma s� corrida, e destruiria completamente a imagem de Elmindreda. E Gawyn�!</p><p>��Passe essa cesta para c�, seu cretino desmiolado���rosnou, assim que os dois sa�ram da vista de Galad, puxando-a dos bra�os do jovem antes que ele pudesse acatar a ordem.���Que hist�ria � essa de perguntar por Elayne e Egwene na frente dele? Elmindreda n�o conhece essas duas. Elmindreda n�o se importa com elas. Elmindreda n�o quer ser mencionada na mesma frase que elas! Ser� que n�o d� para voc� entender?</p><p>��N�o���respondeu o jovem.���N�o, j� que voc� n�o me explica nada. Mas lamento muito.���Min n�o sentiu arrependimento suficiente na voz dele.���S� estou preocupado. Onde � que elas est�o? Essa not�cia que veio do norte do rio sobre um falso Drag�o em Tear n�o me deixa nem um pouco tranquilo. Elas est�o por a�, em algum lugar, sabe a Luz onde, e fico me perguntando� E se estiverem no meio da fogueira em que Logain transformou Ghealdan?</p><p>��E se ele n�o for um falso Drag�o?���perguntou Min, com cautela.</p><p>��Est� dizendo isso por causa das hist�rias que afirmam que ele tomou a Pedra de Tear? Os boatos sempre d�o um jeito de aumentar as coisas. S� vou acreditar quando vir com meus pr�prios olhos, e mesmo assim ser� preciso mais do que isso para me convencer. At� a Pedra poderia ruir. Luz, n�o acredito que Elayne e Egwene estejam mesmo em Tear, mas essa incerteza corr�i meu est�mago feito �cido. Se ela estiver ferida�</p><p>Min n�o soube dizer a qual �ela� o rapaz se referia, e suspeitava que ele tamb�m n�o soubesse. Apesar das provoca��es, sentia pena dele, mas nada podia fazer.</p><p>��Se voc� pelo menos pudesse fazer o que eu digo e�</p><p>��Eu sei. Confiar na Amyrlin. Confiar!���Ele exalou um longo suspiro.���Est� sabendo que Galad tem ido �s tavernas beber com os Mantos-brancos? Qualquer um pode cruzar as pontes se vier em paz, at� os Filhos da maldita Luz.</p><p>��Galad?���perguntou, incr�dula.���Nas tavernas? Bebendo?</p><p>��N�o passa de um ou dois canecos, tenho certeza. Ele n�o consegue sair da linha mais do que isso, nem na festa do dia do seu nome.���Gawyn franziu a testa, como se n�o soubesse ao certo se aquilo era uma cr�tica a Galad.���A quest�o � que ele anda falando com Mantos-brancos. E agora esse livro. Segundo a dedicat�ria, foi Eamon Valda em pessoa quem deu o livro a ele. �Espero que voc� encontre o caminho.� Valda, Min. O comandante dos Mantos-brancos do outro lado das pontes. Essa incerteza tamb�m est� corroendo Galad. Dando ouvidos a Mantos-brancos� Se alguma coisa acontecer � nossa irm�, ou a Egwene����Ele balan�ou a cabe�a.���Voc� sabe onde elas est�o, Min? Me contaria se soubesse? Por que est� escondendo isso?</p><p>��Porque levei dois homens � loucura com a minha beleza e sou incapaz de me decidir���respondeu, �cida.</p><p>Galad soltou uma meia risada amarga, depois disfar�ou-a, abrindo um sorriso.</p><p>��Bem, pelo menos nisso eu posso acreditar.���Deu uma risadinha e passou um dedo pelo queixo dela.���Voc� � uma garota muito linda, Elmindreda. Uma garotinha linda e sagaz.</p><p>Min cerrou o punho e tentou soc�-lo no olho, mas o rapaz desviou, e ela trope�ou nas pr�prias saias e quase caiu.</p><p>��Seu touro descerebrado desgra�ado de um homem!���rosnou.</p><p>��Que movimento gracioso, Elmindreda���comentou ele, rindo.���Que voz mais doce, parece at� um rouxinol, ou uma pombinha arrulhando � noite. Que homem n�o seria arrebatado pela vis�o de Elmindreda?���A alegria foi-se embora, e ele a encarou com sobriedade.���Se descobrir algo, por favor me conte. Por favor? Vou implorar de joelhos, Min.</p><p>��Eu conto���respondeu. <emphasis>Se puder. Se for seguro para elas. Luz, como odeio este lugar. Por que n�o posso simplesmente voltar para Rand?</emphasis></p><p>Saiu de perto de Gawyn e adentrou a Torre sozinha, como era apropriado, os olhos atentos a Aes Sedai ou Aceitas que pudessem questionar por que ela n�o estava no t�rreo e aonde ia. A not�cia de Logain era importante demais para aguardar at� que a Amyrlin a encontrasse, aparentemente por acidente, em algum momento no fim da tarde, como de costume. Pelo menos, foi o que disse a si mesma. A impaci�ncia era demais.</p><p>Viu poucas Aes Sedai dobrando qualquer corredor � frente ou adentrando algum aposento a dist�ncia, o que era excelente. Ningu�m chegava sem avisar para ver o Trono de Amyrlin. Os poucos servi�ais por quem passou, todos alvoro�ados com suas tarefas, n�o a questionaram, naturalmente, sequer a olharam duas vezes, exceto para curvar-se em r�pidas mesuras, quase sem parar.</p><p>Abriu a porta do gabinete da Amyrlin. Tinha na ponta da l�ngua uma historinha boba, caso houvesse algu�m com Leane, mas a antessala estava vazia. Correu at� a porta interna e meteu a cabe�a para dentro. A Amyrlin e a Curadora estavam sentadas uma de cada lado da mesa de Siuan, abarrotada de pequenas tiras de papel fino. As duas viraram as cabe�as bem depressa em sua dire��o e cravaram os olhos nela feito quatro pregos.</p><p>��O que est� fazendo aqui?���inquiriu a Amyrlin, bruscamente.���Voc� deveria ser uma garotinha boba em busca de prote��o, n�o minha amiga de inf�ncia. N�o deve existir qualquer tipo de contato entre n�s, exceto pelo mais fortuito e casual. Se for necess�rio, vou mandar que Laras a vigie como uma ama vigia as crian�as. Ela adoraria, eu acho, mas duvido que voc� fosse gostar.</p><p>Min estremeceu s� de pensar. De s�bito, Logain n�o parecia t�o urgente. Era muito pouco prov�vel que o homem fosse conquistar qualquer gl�ria nos pr�ximos dias. N�o era ele o motivo real de sua visita. Na realidade, era apenas uma desculpa, mas n�o voltaria mais atr�s. Fechando a porta atr�s de si, relatou, aos trope�os, o que vira e o que a vis�o significava. Ainda se sentia desconfort�vel em faz�-lo na frente Leane.</p><p>Siuan balan�ou a cabe�a, cansada.</p><p>��Mais uma coisa com que me preocupar. Fome em Cairhien. Uma irm� desaparecida em Tarabon. Ataques de Trollocs aumentando de novo nas Terras da Fronteira. Esse idiota que se intitula o Profeta provocando motins em Ghealdan. Ao que parece, ele anda pregando que o Drag�o Renasceu como lorde shienarano���disse, incr�dula.���At� as menores coisas s�o terr�veis. A guerra em Arad Doman acabou com os neg�cios com Saldaea, e esse aperto est� criando agita��o em Maradon. Pode at� ser que Tenobia seja deposta do trono. A �nica boa not�cia que ouvi foi que a Praga encolheu, por algum motivo. Duas milhas ou mais de campos para al�m das pedras da fronteira sem qualquer tra�o de corrup��o ou pestil�ncia, de Saldaea at� Shienar. � a primeira vez que algo assim acontece. Mas creio que as boas not�cias tenham que ser equilibradas pelas m�s. Quando um barco tem um furo, � certo que n�o � o �nico. Eu s� gostaria que houvesse equil�brio. Leane, reforce a vigil�ncia sobre Logain. N�o imagino que tipo de problemas ele poderia causar, mas tamb�m n�o quero descobrir.���Ela voltou o olhar penetrante para Min.���Por que veio correndo para c� feito uma gaivota assustada batendo as asas? Logain poderia ter esperado. � pouco prov�vel que o homem alcance poder e gl�ria antes de o dia nascer.</p><p>O eco de seus pensamentos fez Min se remexer, incomodada.</p><p>��Eu sei���disse. Leane ergueu as sobrancelhas em advert�ncia, e ela acrescentou apressada:���M�e.</p><p>A Curadora assentiu em aprova��o.</p><p>��Isso n�o esclarece o motivo, crian�a���retrucou Siuan.</p><p>Min se preparou.</p><p>��M�e, nada do que eu vi desde o primeiro dia foi muito importante. Sem d�vida n�o vi nada que aponte para a Ajah Negra.���O nome ainda lhe causava calafrios.���J� contei tudo o que sei sobre qualquer tipo de desastre que voc�s Aes Sedai vir�o a enfrentar, e o resto � simplesmente in�til.���Precisou parar e engolir em seco, com aquele olhar penetrante a encar�-la.���M�e, n�o h� motivo para eu n�o partir. E h� motivo para eu ir. Talvez Rand possa aproveitar de verdade as minhas habilidades. Se <emphasis>tiver</emphasis> tomado a Pedra� M�e, pode ser que ele precise de mim.���<emphasis>Pelo menos eu preciso dele, que me queime por ser t�o idiota!</emphasis></p><p>Deu para ver o tremor da Curadora � men��o do nome de Rand. Siuan, por outro lado, soltou uma bufada alta.</p><p>��Suas vis�es t�m sido muito �teis. � importante saber a respeito de Logain. Voc� encontrou o criado que estava roubando antes que as suspeitas reca�ssem sobre qualquer outro. E aquela novi�a de cabelos vermelhos que ia acabar carregando uma crian�a no ventre�! Sheriam a impediu� a garota n�o vai sequer pensar em homens at� concluir o treinamento. Mas, sem voc�, n�o saber�amos at� que fosse tarde demais. N�o, voc� n�o pode ir. Mais cedo ou mais tarde, suas vis�es tra�ar�o um mapa at� a Ajah Negra e, enquanto isso n�o acontece, ainda compensam bastante.</p><p>Min suspirou, e n�o apenas porque a Amyrlin pretendia mant�-la ali. Da �ltima vez que vira aquela novi�a de cabelos vermelhos, a garota estava saindo sorrateira com um guarda musculoso para um matagal pr�ximo � Torre. Os dois iriam se casar, talvez antes do fim do ver�o. Min soube disso assim que os viu sozinhos, mas a Torre jamais deixaria uma novi�a ir embora at� que estivesse pronta para solt�-la ao mundo, mesmo se a mo�a n�o fosse mais capaz de avan�ar no treinamento. Havia uma fazenda no futuro daquele casal, e um bando de crian�as, mas era in�til discutir com a Amyrlin.</p><p>��Ser� que a senhora poderia pelo menos mandar informar a Galad e Gawyn que a irm� deles est� bem, M�e?���A pergunta a aborrecia, e seu tom de voz tamb�m. Parecia uma crian�a a quem tinham negado uma fatia de bolo e pedia um biscoitinho para compensar.���Pelo menos conte a eles alguma coisa al�m daquela hist�ria rid�cula de cumprir penit�ncia em uma fazenda.</p><p>��Eu j� disse que isso n�o � da sua conta. N�o me obrigue a dizer outra vez.</p><p>��Eles sabem tanto quanto eu que n�o � verdade���deixou escapar Min, antes que o sorriso seco da Amyrlin pudesse cal�-la. N�o era um sorriso bem-humorado.</p><p>��Est� sugerindo que eu mude o local onde elas supostamente est�o? Depois de deixar todos pensarem que est�o em uma fazenda? Acha que isso n�o vai levantar suspeitas? Todo mundo aceita, a n�o ser esses rapazes. E voc�. Bem, Coulin Gaidin ter� de faz�-los trabalhar com mais afinco. M�sculos doloridos e bastante suor desviam a aten��o da maioria dos homens de outras perturba��es. E das mulheres tamb�m. Se continuar fazendo perguntas demais, vou acabar descobrindo o que alguns dias esfregando panelas podem fazer por voc�. Melhor perder seus pr�stimos por dois ou tr�s dias do que v�-la enfiando o nariz onde n�o � chamada.</p><p>��A senhora sequer sabe se elas est�o correndo perigo, n�o �? Ou Moiraine.</p><p>N�o era de Moiraine que estava falando.</p><p>��Garota���come�ou Leane, em tom de advert�ncia, mas Min n�o seria detida.</p><p>��Por que n�o escutamos nada? Os boatos come�aram dois dias atr�s. Dois dias! Por que � que um desses pap�is na sua mesa n�o cont�m uma mensagem dela? Ela n�o tem pombos? Pensei que voc�s, Aes Sedai, tivessem gente com pombos-correios o tempo todo. Se n�o tem nenhuma mensagem dela em Tear, deveria ter. Um homem a cavalo j� poderia ter chegado a Tar Valon. Por que�</p><p>O baque seco da palma de Siuan na mesa a interrompeu.</p><p>��Voc� � muit�ssimo obediente���disse, ir�nica.���Crian�a, at� escutarmos o contr�rio, presuma que o rapaz est� bem. Reze para que esteja.���Leane estremeceu outra vez.���Existe um ditado no Maule, crian�a���prosseguiu a Amyrlin.����N�o d� problemas aos problemas at� que os problemas lhe deem problemas.� Guarde bem essas palavras, crian�a.</p><p>Ouviu-se uma t�mida batida na porta.</p><p>A Amyrlin e a Curadora se entreolharam, depois se voltaram para Min. A presen�a dela era um problema. Decerto n�o havia onde se esconder. Dava para ver at� a varanda com muita clareza de todo o aposento.</p><p>��Uma raz�o para sua presen�a aqui���murmurou Siuan���que n�o a fa�a parecer outra coisa que n�o a garota tola que deveria ser. Leane, fique a postos na porta.���Ela e a Curadora estavam de p�, juntas, Siuan dando a volta na mesa enquanto Leane se encaminhava para a porta.���Sente-se na cadeira de Leane, garota. Ande logo, crian�a. Ande logo. Agora fa�a uma cara emburrada. N�o irritada, emburrada! Fa�a beicinho e fique encarando o ch�o. Vou fazer voc� usar fitas no cabelo, arcos enormes, vermelhos. Isso mesmo. Leane.���A Amyrlin p�s as m�os na cintura e ergueu a voz.���E se voc� entrar aqui sem ser anunciada mais uma vez, crian�a, eu vou�</p><p>Leane abriu a porta e revelou uma novi�a escura que se encolheu ao ouvir a bronca da Amyrlin e curvou-se em uma mesura profunda.</p><p>��Mensagens para a Amyrlin, Aes Sedai���ganiu a mocinha.���Dois pombos chegaram no celeiro.���Era uma das mo�as que haviam elogiado a beleza de Min. De olhos arregalados, ela tentava identificar o que ocorria atr�s da Curadora.</p><p>��Isso n�o � da sua conta, crian�a���disse Leane, rude, tomando os pequenos cilindros de osso das m�os da garota.���De volta para o celeiro.���Antes que a novi�a terminasse de se levantar, Leane fechou a porta, depois se apoiou nela e suspirou.���Dou um pulo a cada som inesperado desde que voc� me disse����Ela se aprumou e retornou � mesa.���Mais duas mensagens, M�e. Devo�?</p><p>��Sim, pode abrir���respondeu a Amyrlin.���Morgase sem d�vida decidiu invadir Cairhien, afinal. Ou os Trollocs invadiram as Terras da Fronteira. Seria condizente com todo o resto.���Min permaneceu sentada. Siuan tinha feito algumas amea�as parecerem bastante realistas.</p><p>Leane examinou o selo de cera vermelha no canto de um dos pequenos cilindros, n�o maior do que a junta do pr�prio dedo. Ao convencer-se de que n�o fora adulterado, quebrou-o com a unha do polegar. Extraiu o papel enrolado dentro do tubo com um palito de marfim.</p><p>��Quase t�o ruins quanto os Trollocs, M�e���disse, praticamente no instante em que come�ou a ler.���Mazrim Taim fugiu.</p><p>��Luz!���vociferou Siuan.���Como?</p><p>��Aqui s� diz que ele foi levado em uma a��o furtiva no meio da noite, M�e. Duas irm�s est�o mortas.</p><p>��Que a Luz ilumine suas almas. Mas temos pouco tempo para prantear os mortos quando criaturas como Taim est�o vivas e n�o amansadas. Onde, Leane?</p><p>��Em Denhuir, M�e. Uma aldeia a leste das Montanhas Negras, na Estrada de Maradon, acima das nascentes do Antaeo e do Luan.</p><p>��S� podem ter sido alguns de seus seguidores. Idiotas. Por que n�o admitem a derrota? Escolha uma d�zia de irm�s confi�veis, Leane����A Amyrlin fez uma careta.���Confi�veis���resmungou.���Se eu soubesse quem � mais confi�vel do que um l�cio, n�o teria os problemas que tenho. Fa�a o melhor, Leane. Doze irm�s. E quinhentos guardas. N�o, mil.</p><p>��M�e���come�ou a Curadora, em um tom preocupado���os Mantos-brancos�</p><p>��N�o tentariam cruzar as pontes nem se eu as deixasse totalmente sem vigia. Teriam medo de uma armadilha. N�o h� como dizer o que est� acontecendo por l�, Leane. Quero que meus enviados estejam prontos para qualquer coisa. E Leane� Mazrim Taim deve ser amansado assim que for capturado, dessa vez.</p><p>Leane arregalou os olhos, chocada.</p><p>��A lei.</p><p>��Conhe�o a lei t�o bem quanto voc�, mas n�o vou arriscar que ele seja solto de novo sem ter sido amansado. N�o arriscarei outro Guaire Amalasan, n�o com tudo o que est� acontecendo.</p><p>��Sim, M�e���respondeu Leane, com a voz fraca.</p><p>A Amyrlin pegou o segundo cilindro de osso, rompeu-o em dois com um estalido e tirou a mensagem de dentro.</p><p>��At� que enfim uma boa not�cia!���Ela suspirou, com um sorriso no rosto.���Uma boa not�cia. �A lan�a foi usada. O pastor det�m a espada.�</p><p>��Rand?���perguntou Min, e Siuan assentiu.</p><p>��� claro, garota. A Pedra caiu. Rand al�Thor, o pastor, det�m <emphasis>Callandor</emphasis>. Agora posso avan�ar. Leane, quero o Sal�o da Torre reunido hoje � tarde. N�o, agora de manh�.</p><p>��N�o estou entendendo���disse Min.���A senhora sabia que os rumores eram sobre Rand. Por que est� convocando o Sal�o agora? O que pode fazer agora que n�o podia antes?</p><p>Siuan riu feito uma garotinha.</p><p>��O que posso fazer agora � contar a eles que recebi not�cias de uma Aes Sedai de que a Pedra de Tear caiu e um homem empunhou <emphasis>Callandor</emphasis>. Profecia cumprida. O suficiente para o meu objetivo, pelo menos. O Drag�o Renasceu. Elas v�o vacilar, v�o discutir, mas ningu�m pode se opor � minha declara��o oficial de que a Torre deve guiar este homem. Enfim poderei me ocupar dele abertamente. Pelo menos em grande parte.</p><p>��Estamos fazendo a coisa certa, M�e?���perguntou Leane, de repente.���Eu sei� Se ele det�m <emphasis>Callandor</emphasis>, deve ser o Drag�o Renascido. Mas ele � capaz de canalizar, M�e. Um homem capaz de canalizar. Eu s� o vi uma vez, mas mesmo naquela �poca j� havia algo de diferente nele. Algo mais do que <emphasis>ta�veren</emphasis>. M�e, no fim das contas, ser� que ele � t�o diferente assim de Taim?</p><p>��A diferen�a � que ele <emphasis>�</emphasis> o Drag�o Renascido, filha���respondeu a Amyrlin, baixinho.���Taim � um lobo, e decerto raivoso. Rand al�Thor � o sabujo que usaremos para derrotar a Sombra. Guarde este nome com voc�, Leane. � melhor n�o revelar tanto t�o cedo.</p><p>��Como a senhora quiser, M�e���disse a Curadora, ainda desconfort�vel.</p><p>��Agora v�. Quero o Sal�o reunido em uma hora.���Siuan observou a mulher mais alta sair, pensativa.���Pode haver mais resist�ncia do que eu gostaria���disse, quando a porta se fechou.</p><p>Min lan�ou a ela um olhar penetrante.</p><p>��A senhora n�o quer dizer�</p><p>��Ah, nada s�rio, crian�a. N�o enquanto n�o souberem h� quanto tempo estou envolvida com esse rapaz, al�Thor.���Ela encarou outra vez a folha de papel, depois largou-a na mesa.���Queria que Moiraine tivesse dito mais.</p><p>��Por que foi que ela n�o disse mais? E por que n�o ouvimos not�cias antes?</p><p>��L� vem voc� com mais perguntas. Esta voc� deve fazer a Moiraine. Ela sempre seguiu os pr�prios caminhos. Pergunte a Moiraine, crian�a.</p><empty-line/><p>Sahra Covenry carpia com a enxada sem muita habilidade, franzindo a testa para os min�sculos brotos de margaridinhas-amarelas e p�s-de-galinha, come�ando a sair da terra entre as fileiras de repolhos e beterrabas. N�o que a Senhora Elward fosse uma capataz severa���n�o era pior do que a m�e de Sahra, e era sem d�vida mais branda do que Sheriam���mas a menina n�o fora at� a Torre Branca para acabar em uma fazenda carpindo legumes antes de o sol nascer completamente. Os vestidos brancos de novi�a estavam guardados, ela usava uma l� marrom que podia muito bem ter sido cerzida pela pr�pria m�e, a saia amarrada na altura dos joelhos para ficar longe da lama. E n�o fizera nada para merecer aquilo.</p><p>Remexendo os dedos dos p�s no solo revirado, cravou os olhos em um p�-de-galinha teimoso e canalizou, tentando queim�-lo para remov�-lo da terra. Fa�scas cintilaram ao redor do broto folhoso, que murchou. Mais do que depressa, removeu a coisa do solo e da mente. Se houvesse alguma justi�a no mundo, Lorde Galad viria at� a fazenda durante alguma ca�ada.</p><p>Apoiada na enxada, ela se perdeu em um devaneio em que Curava as feridas de Galad, decorrentes de uma queda de cavalo���n�o causada por ele, � claro, o rapaz era um ex�mio cavaleiro. O Lorde, ent�o, a erguia na sela, frente a frente, e declarava que seria seu Guardi�o���ela seria da Ajah Verde, sem d�vida���e�</p><p>��Sahra Covenry?</p><p>Sahra deu um salto ao ouvir a voz severa, mas n�o era a Senhora Elward. A menina fez a melhor rever�ncia que conseguiu improvisar com as saias erguidas.</p><p>��Sauda��es, Aes Sedai. A senhora veio me levar de volta para a Torre?</p><p>A mulher se aproximou, sem se importar com as saias arrastando pela terra da horta. Apesar do calor da manh�, usava um manto, o capuz puxado para encobrir a face.</p><p>��Pouco antes de deixar a Torre, voc� levou uma mulher ao Trono de Amyrlin. Uma mulher chamada Elmindreda.</p><p>��Sim, Aes Sedai���respondeu Sahra, em um leve tom interrogativo. N�o apreciava a forma com que a mulher falara, como se ela tivesse ido embora da Torre para sempre.</p><p>��Conte tudo o que viu e ouviu, garota, desde o instante em que a cumprimentou. Tudo.</p><p>��Mas eu n�o ouvi nada, Aes Sedai. A Curadora me mandou embora assim que a����Foi tomada pela dor e cravou os p�s na terra, arqueando as costas. O espasmo durou apenas alguns instantes, mas pareceu infinito. Esfor�ando-se para respirar, percebeu que o rosto estava colado no ch�o e que os dedos, ainda tr�mulos, escavavam o solo. N�o se lembrava da queda. Podia ver a cesta de roupas limpa da Senhora Elward ca�da de lado perto da casa, toda de pedra. Pe�as de linho �midas espalhadas pelo ch�o. Atordoada, pensou na estranheza daquilo. Moria Elward nunca deixaria as roupas limpas no ch�o daquele jeito.</p><p>��Tudo, garota���mandou a Aes Sedai, com frieza. Estava de p� bem perto de Sahra, mas n�o fazia men��o de ajud�-la a se levantar. A mulher a machucara, e n�o era para ser assim.���Cada pessoa com quem essa Elmindreda falou, cada palavra que disse, cada entretom e express�o.</p><p>��Ela falou com Lorde Gawyn, Aes Sedai���choramingou Sahra, com a cara na terra.���Isso � tudo o que eu sei, Aes Sedai. Tudo.</p><p>A menina come�ou a solu�ar de verdade, certa de que aquilo n�o seria o suficiente para satisfazer a mulher. Estava certa. N�o parou de gritar por um bom tempo, e, quando a Aes Sedai partiu, j� n�o havia som algum na fazenda al�m do das galinhas. Nem mesmo os ru�dos de respira��o.</p></section><section><title><p>18</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Pelos Caminhos</p></title><p>Abotoando o casaco, Perrin parou e encarou o machado ainda preso � parede, onde o deixara desde que o arrancara da porta. N�o apreciava a ideia de carregar a arma outra vez, mas mesmo assim tirou o cintur�o do pino e o afivelou. Prendeu o martelo aos alforjes, j� cheios. Com os alforjes cobertos por um pano e o rolo do cobertor nos ombros, recolheu a aljava cheia e o arco longo sem corda que estavam em um canto.</p><p>O sol nascente vertia luz e calor pelas janelas estreitas. A cama amarrotada era a �nica prova de que algu�m estivera ali. O quarto j� conseguira perder a ess�ncia de Perrin, at� parecia cheirar a vazio, apesar de ainda ter seu cheiro nos len��is. O rapaz nunca ficava tempo suficiente em um lugar para deixar que aquela ess�ncia se fixasse mais do que a prontid�o para partir. Nunca ficava tempo suficiente para criar ra�zes, para estabelecer qualquer tipo de lar. <emphasis>Bom, agora estou voltando para meu lar.</emphasis></p><p>Virou as costas para o quarto, que j� parecia desocupado, e saiu.</p><p>Gaul ergueu-se com facilidade de onde estava acocorado, encostado em uma parede sob uma tape�aria de homens a cavalo ca�ando le�es. Levava todas as suas armas e dois cantis de couro. Tamb�m carregava um cobertor enrolado e uma pequena ca�arola amarrados ao lado do estojo do arco, trabalhado em couro, �s suas costas. Ele estava sozinho.</p><p>��E os outros?���perguntou Perrin.</p><p>Gaul balan�ou a cabe�a.</p><p>��� muito longe da Terra da Trindade. Eu avisei, Perrin. Essa sua terra � muito molhada, respirar o ar � como respirar �gua. H� muita gente, todos muito perto uns dos outros. Eles j� viram mais lugares estranhos do que gostariam.</p><p>��Compreendo���disse Perrin, embora o que compreendesse era que n�o haveria resgate, no fim das contas, nenhuma ajuda dos Aiel para tirar os Mantos-brancos de Dois Rios. Engoliu o desapontamento. Era um golpe duro, depois de pensar que conseguira escapar do pr�prio destino, mas n�o tinha como dizer que n�o estava preparado para a alternativa. N�o havia por que chorar por um ferro cindido, era preciso forj�-lo outra vez.���Teve algum problema para fazer o que pedi?</p><p>��Nenhum problema. Mandei um taireno levar cada uma das coisas que voc� pediu at� o est�bulo do Port�o da Muralha do Drag�o, sem contar a ningu�m. Eles todos se encontrar�o por l�, mas v�o pensar que � tudo para mim e manter�o o sil�ncio. O Port�o da Muralha do Drag�o. D� a impress�o de que a Espinha do Mundo fica logo ali no horizonte, em vez de a umas cem l�guas ou mais de dist�ncia.���O Aiel hesitou.���A garota e o Ogier n�o est�o fazendo segredo sobre os preparativos, Perrin. Ela est� indo atr�s do menestrel, contando a todos que pretende viajar pelos Caminhos.</p><p>Co�ando a barba, Perrin soltou um suspiro fundo, bem parecido com um rosnado.</p><p>��Se ela me dedurar para Moiraine, juro que vou deix�-la uma semana sem poder sentar.</p><p>��A garota � muito habilidosa com aquelas facas���retrucou Gaul, em um tom neutro.</p><p>��N�o o bastante. N�o se me dedurar.���Perrin hesitou. N�o teria a companhia dos Aiel. As forcas ainda o aguardavam.���Gaul, se alguma coisa acontecer comigo, se eu der o comando, leve Faile embora. Ela talvez n�o queira ir, mas leve-a mesmo assim. Tire-a de Dois Rios em seguran�a. Promete?</p><p>��Farei o que for poss�vel, Perrin. Em nome da maldita d�vida que tenho com voc�, farei o que puder.���Gaul soava hesitante, mas Perrin achava que as facas de Faile n�o seriam suficientes para det�-lo.</p><p>Sempre que poss�vel, optavam por atravessar corredores secund�rios e as escadas estreitas destinadas � circula��o discreta dos servi�ais. Perrin lamentou que os tairenos tamb�m n�o tivessem corredores para os servi�ais. Ainda assim, viram pouca gente, mesmo nos amplos corredores com suportes de ilumina��o dourados e tape�arias ornamentadas. N�o encontraram um �nico nobre.</p><p>Comentou sobre essa aus�ncia, e Gaul explicou:</p><p>��Rand al�Thor os convocou para o Cora��o da Pedra.</p><p>Perrin apenas grunhiu, mas torcia para que Moiraine estivesse entre os convocados. Ele se perguntou se era aquele o jeito de Rand de ajud�-lo a escapar da Aes Sedai. Qualquer que fosse a raz�o, estava bastante satisfeito por tirar alguma vantagem.</p><p>Eles desceram a �ltima escadaria apertada at� o piso t�rreo da Pedra, onde corredores cavernosos, largos como estradas, levavam a todos os port�es externos. N�o havia tape�arias por ali. Lampi�es de ferro pendiam de suportes triangulares do mesmo material escuro, iluminando as passagens sem janelas, e o ch�o era revestido de pedras grandes e brutas, que n�o se desgastavam com os cascos dos cavalos. Perrin apertou o passo. Os est�bulos ficavam logo adiante, no fim do grande t�nel. Depois, dava para ver o imenso Port�o da Muralha do Drag�o aberto, com apenas um punhado de Defensores montando guarda. Moiraine n�o podia mais intercept�-los, a n�o ser que tivesse a sorte do pr�prio Tenebroso.</p><p>A porta aberta do est�bulo era um arco de quinze passadas de largura. Perrin deu um passo para dentro e parou.</p><p>O ar estava pesado, com o cheiro de palha e feno se misturando ao de gr�os e aveia, couro e esterco de cavalo. Estrebarias cheias dos melhores animais tairenos, valorizados em qualquer lugar, alinhavam-se ao longo das paredes, e outras fileiras ocupavam o centro do amplo aposento. Havia dezenas de cavalari�os trabalhando, esfregando e escovando, limpando estrume, amarrando r�deas. Sem parar o que faziam, um ou outro �s vezes olhava para onde estavam Faile e Loial, j� de botas cal�adas e prontos para viajar. Ao lado deles estavam Bain e Chiad, que, como Gaul, carregavam armas e cobertores, cantis e ca�arolas.</p><p>��� por causa delas que voc� s� disse que iria tentar?���perguntou Perrin, baixinho.</p><p>Gaul deu de ombros.</p><p>��Vou fazer o poss�vel, mas elas v�o tomar o lado de Faile. Chiad � Goshien.</p><p>��O cl� dela faz diferen�a?</p><p>��O cl� dela e o meu t�m rixas de sangue, Perrin, e n�o sou irm� de lan�a dela. Mas talvez os juramentos de �gua a impe�am. N�o dan�arei lan�as com ela, a n�o ser que ela ofere�a.</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a. Que povo estranho. O que era um juramento de �gua? Por�m, o que disse foi:</p><p>��Por que elas est�o com Faile?</p><p>��Bain diz que desejam ver mais das suas terras, mas acho que est�o fascinadas � pela briga entre voc� e a garota. Gostam de Faile, e, quando ouviram falar da viagem, decidiram ir com ela, n�o com voc�.</p><p>��Bem, desde que a deixem fora de confus�o.</p><p>Perrin ficou surpreso quando Gaul jogou a cabe�a para tr�s e gargalhou. Aquilo o fez co�ar a barba, preocupado.</p><p>Loial foi andando na dire��o deles, as sobrancelhas compridas vergadas de ansiedade. Os bolsos do casaco estavam salientes, como era comum quando ele viajava, quase todos marcados com os formatos dos livros. Pelo menos a manqueira parecia melhor.</p><p>��Faile est� ficando impaciente, Perrin. Acho que ela pode querer partir a qualquer momento. Por favor, apresse-se. Voc� n�o vai conseguir nem encontrar o Portal dos Caminhos sem mim. N�o que deva tentar, claro que n�o. Voc�s humanos me deixam t�o agitado que mal consigo manter a cabe�a no lugar. Por favor, apresse-se.</p><p>��Eu n�o vou sair sem ele���gritou Faile.���Por mais que seja teimoso e est�pido demais para pedir um simples favor. Por causa disso, Perrin vai me seguir feito um cachorrinho perdido. Prometo afagar as orelhas e tomar conta dele.</p><p>As Aiel se contorceram de rir.</p><p>Gaul levantou-se de um salto, chutando alto, duas passadas ou mais acima do ch�o, enquanto girava uma das lan�as.</p><p>��Vamos seguir feito gatos-bravos���gritou���feito lobos de ca�a.</p><p>O homem pousou com leveza e graciosidade. Loial o encarou, estupefato.</p><p>Bain, por sua vez, passou os dedos pelos cabelos curtos cor de fogo.</p><p>��Tenho uma bela pele de lobo cobrindo minha cama���contou a Chiad, em voz entediada.���� f�cil abater lobos.</p><p>Um grunhido surgiu na garganta de Perrin, fazendo com que os olhos das duas Aiel se fixassem nele. Por um instante, Bain pareceu estar a ponto de dizer algo mais, mas franziu a testa para os olhos amarelos e manteve a paz. N�o parecia com medo, e sim subitamente alerta.</p><p>��Esse filhote ainda n�o est� muito bem treinado���confidenciou Faile �s outras mulheres.</p><p>Perrin recusou-se a olh�-la. Em vez disso, foi at� a baia onde estava o garanh�o castanho, t�o alto quanto os animais tairenos, por�m mais robusto nos ombros e no lombo. Dispensando um cavalari�o, p�s a r�dea em Galope e o levou sozinho para fora. Os criados haviam passeado com o cavalo, sem d�vida, mas o animal estava confinado havia tempo o bastante para come�ar a cabriolar ainda naqueles poucos passos, fazendo jus ao nome que recebera de Perrin. O rapaz afagou o animal com a confian�a firme de um homem que j� ferrara muitos cavalos. N�o foi problema encaixar a sela de patilho alto e amarrar os alforjes e o cobertor atr�s.</p><p>Gaul assistia, impass�vel. N�o montaria em um cavalo a menos que precisasse, e, se o fizesse, n�o avan�aria um passo a mais do que fosse absolutamente necess�rio. Aiel algum faria isso. Perrin n�o entendia por qu�. Talvez por orgulho da habilidade de correr longas dist�ncias. Os Aiel faziam parecer que era mais do que isso, mas ele suspeitava que nenhum deles fosse capaz de explicar.</p><p>O cavalo de carga tamb�m teria de ser aprontado, naturalmente, mas isso era f�cil, pois tudo o que Gaul solicitara estava aguardando em uma pilha organizada. Comida e cantis. Aveia e gr�os para os cavalos. Nada daquilo estaria dispon�vel nos Caminhos. Algumas outras coisinhas, como correntes, medicamentos para cavalos, por garantia, acendedores reserva e coisas do tipo. A maioria do espa�o das cestas de vime estava ocupada por cantis de couro como os que os Aiel usavam para carregar �gua, por�m maiores e cheias de �leo de lampi�o. Quando as lanternas, em varetas compridas, foram amarradas acima de tudo, os dois estavam prontos.</p><p>Perrin enfiou o arco sem cordas sob a cilha e montou na sela de Galope com a guia do animal de carga na m�o. Depois teve de esperar, fervendo de raiva.</p><p>Loial j� estava montado em um cavalo imenso de boletos peludos���muitas m�os mais alto que qualquer outro no est�bulo, mas que parecia um p�nei quando montado pelo Ogier. Houve uma �poca em que Loial era quase t�o resistente � montaria quanto os Aiel, mas com o tempo ficara � vontade em cima de um cavalo. Era Faile quem demorava, examinando a montaria como se nunca tivesse visto a �gua negra e brilhosa, embora Perrin soubesse que ela testara o animal antes de compr�-lo, logo que chegaram � Pedra. A �gua, chamada Andorinha, era um belo exemplar de cria tairena, com tornozelos delgados e pesco�o arqueado, um cavalo de andar afetado e apar�ncia ligeira e resistente, mas com ferraduras leves demais para o gosto de Perrin. Aquele metal n�o ia durar. Era s� mais um esfor�o para coloc�-lo no seu devido lugar, fosse qual fosse esse lugar que Faile achava ser o dele.</p><p>Quando a jovem enfim montou, com as saias justas divididas, tomou as r�deas da �gua e aproximou-se de Perrin. Ela cavalgava bem, mulher e cavalo moviam-se como um s�.</p><p>��Por que n�o pede, Perrin?���perguntou, baixinho.���Tentou me afastar do meu lugar, por isso agora precisa pedir. Por que dificultar uma coisa t�o simples?</p><p>A Pedra estremeceu, soando como um sino monstruoso, o ch�o do est�bulo saltou, o teto estremeceu quase a ponto de desabar. Galope tamb�m deu um salto, relinchando e sacudindo a cabe�a, e Perrin teve dificuldade de se manter na sela. Cavalari�os se levantaram desajeitados e correram, desesperados para acalmar os animais, que empinavam, guinchavam e tentavam pular a grade das baias. Loial agarrou-se ao pesco�o do cavalo imenso, mas Faile permaneceu sentada em Andorinha, r�gida, enquanto a �gua dan�ava e trinia loucamente.</p><p>Rand. Perrin sabia que era ele. A for�a de <emphasis>ta�veren</emphasis> o atra�a, dois redemoinhos em um c�rrego, cada um puxando o outro. Tossindo em meio � poeira, sacudiu a cabe�a o mais forte que p�de, dando tudo de si para n�o descer do cavalo e correr de volta para a Pedra.</p><p>��Vamos cavalgar!���gritou, enquanto o tremor ainda abalava a fortaleza.���Vamos cavalgar, Loial! Agora.</p><p>Faile parecia n�o ver mais motivo para adiar a partida. Bateu os calcanhares na �gua e saiu do est�bulo logo atr�s do cavalo alto do Ogier puxando os dois animais de carga, todos galopando at� alcan�ar o Port�o da Muralha do Drag�o. Os Defensores deram uma olhada e se dispersaram, alguns ainda agachados ou de joelhos. Sua obriga��o era manter o povo fora da Pedra, e n�o tinham ordens para impedir aquelas pessoas de sa�rem. N�o que estivessem em condi��es de pensar com clareza, caso houvesse recebido tal ordem. N�o depois dos tremores, que come�avam a diminuir, a Pedra ainda urrando sobre suas cabe�as.</p><p>Perrin vinha logo atr�s, puxando o pr�prio cavalo de carga, desejando que o animal do Ogier fosse capaz de avan�ar mais depressa, desejando poder deixar para tr�s a montaria lenta de Loial e fugir da for�a que tentava arrast�-lo de volta, aquele empuxo de <emphasis>ta�veren</emphasis> para <emphasis>ta�veren</emphasis>. Galoparam juntos pelas ruas de Tear, em dire��o ao sol nascente, quase sem reduzir a marcha para evitar carro�as e carruagens. Homens de casacos justos e mulheres com aventais em camadas, todos ainda abalados pela reviravolta, encaravam os passantes, atordoados, �s vezes mal tendo tempo de desviar.</p><p>Nos muros da cidade interior, as pedras das cal�adas davam lugar � terra, e os sapatos e casacos, aos p�s descal�os, peitos desnudos e cal�as largas presas por grandes cintur�es. Mas o povo desviava deles com a mesma ligeireza, pois Perrin s� deixou Galope reduzir a marcha depois que haviam ultrapassado os muros da cidade, as casas simpl�rias de pedra e as lojas que se amontoavam do lado de fora da cidade propriamente dita, adentrando uma �rea campestre de fazendas isoladas e matos tran�ados, fora a influ�ncia de <emphasis>ta�veren</emphasis>. Foi s� ent�o, respirando quase com tanta dificuldade quanto o cavalo agitado, que puxou a r�dea e reduziu o passo de Galope a um caminhar.</p><p>As orelhas de Loial estavam r�gidas de choque. Faile umedeceu os l�bios e encarou o Ogier, depois Perrin, p�lida.</p><p>��O que aconteceu? Isso foi� ele?</p><p>��Eu n�o sei���mentiu Perrin. <emphasis>Eu preciso ir, Rand. Voc� sabe disso. Olhou nos meus olhos quando eu avisei que ia e falou que eu tinha de fazer o que fosse preciso.</emphasis></p><p>��Onde est�o Bain e Chiad?���perguntou Faile.���V�o levar uma hora para nos alcan�ar. Queria que elas concordassem em cavalgar. Eu me ofereci para comprar cavalos, mas as duas pareceram ofendidas. Bem, teremos de reduzir o passo dos cavalos de todo modo, depois disso, para acalm�-los um pouco.</p><p>Perrin conteve-se para n�o dizer que a mulher n�o sabia tanto sobre os Aiel quanto imaginava. Podia ver as muralhas da cidade atr�s deles e a Pedra erguida acima, feito uma montanha. Distinguia at� o contorno sinuoso do estandarte que drapejava no alto da fortaleza e os p�ssaros solit�rios voejando ao redor, algo que ningu�m mais conseguia. N�o era dif�cil ver tr�s pessoas correndo na dire��o deles, devorando o ch�o em passos largos, cujo ritmo era desmentido pela facilidade com que deslizavam. Sabia que n�o poderia correr t�o depressa, n�o por muito tempo, mas os Aiel deviam ter mantido a velocidade desde a Pedra, para estarem t�o perto.</p><p>��N�o precisaremos esperar tanto assim���disse.</p><p>Faile franziu a testa em dire��o � cidade.</p><p>��S�o eles? Tem certeza?���De repente, a testa franzida voltou-se para ele, desafiando-o a responder. Perguntar era quase admitir que ele era parte do grupo, naturalmente.���Ele se gaba muito da vis�o���explicou a Loial���mas a mem�ria n�o � muito boa. Tem horas que acho que ele se esqueceria de acender uma vela � noite, se eu n�o o lembrasse. Acho que Perrin viu alguma pobre fam�lia correndo do que pensam ter sido um terremoto, voc� n�o acha?</p><p>Loial se remexeu sobre a sela, incomodado, suspirando pesado, e resmungou algo sobre os humanos que Perrin duvidou que fosse um elogio. � claro que Faile n�o percebeu.</p><p>Poucos minutos depois, ela come�ou a encarar Perrin com estranheza���isso foi logo que os tr�s Aiel se aproximavam o bastante para que ela os distinguisse���mas n�o disse nada. Com aquele humor, n�o admitiria que ele tivesse raz�o a respeito de coisa alguma, nem mesmo sobre o c�u ser azul. Os Aiel sequer arfavam quando reduziram o passo e pararam junto aos cavalos.</p><p>��Pena que a corrida n�o foi maior.</p><p>Bain e Chiad compartilharam um sorriso, e ambas lan�aram a Gaul um olhar dissimulado.</p><p>��Ou deixar�amos este C�o de Pedra na poeira���explicou Chiad, como se estivesse concluindo a frase da outra mulher.���� por isso que os C�es de Pedra fazem o juramento de n�o retroceder. Ossos de pedra e cabe�as de pedra os deixam pesados demais para correr.</p><p>Gaul n�o se ofendeu, por�m Perrin percebeu que o Aiel permaneceu em uma posi��o de onde conseguia observar Chiad.</p><p>��Sabe por que as Donzelas atuam tanto como batedoras, Perrin? Porque correm dist�ncias muito longas. Correm assim porque t�m medo de que algum homem v� querer se casar com elas. As Donzelas conseguem correr cem milhas s� para evitar um casamento.</p><p>��Muito s�bio da parte delas���retrucou Faile, em um tom �cido.���Precisam descansar?���Perguntou �s mulheres Aiel, surpreendendo-se com a negativa. Ent�o se virou para O Ogier.���Est� pronto para ir? Que bom. Encontre esse Portal dos Caminhos, Loial. J� ficamos tempo demais aqui. Se deixamos um filhote desgarrado ficar muito perto, ele logo come�a a pensar que vamos cuidar dele, o que n�o vai acontecer.</p><p>��Faile���interveio Loial���ser� que voc� n�o est� levando isso longe demais?</p><p>��Vou levar isso at� onde for preciso, Loial. O Portal dos Caminhos?</p><p>De orelhas murchas, o Ogier soltou um suspiro pesado e girou o cavalo outra vez para o leste. Perrin deixou que ele e Faile se distanciassem umas doze passadas antes de come�ar a segui-los com Gaul. Jogaria de acordo com as regras dela, mas seria t�o bom jogador quanto ela.</p><p>As fazendas, trechinhos de terra apertados com casas de pedra bruta que Perrin n�o usaria nem para abrigar animais, ficavam mais escassas � medida que avan�avam para leste, e a vegeta��o, cada vez mais esparsa. At� que n�o havia mais fazendas nem �rvores, apenas um pasto ondulante e montanhoso. A grama ia at� onde os olhos podiam ver, exceto por trechos de arbustos aqui e ali em uma encosta.</p><p>Cavalos tamb�m pontilhavam as encostas verdes, em grupos de dez ou bandos de cem, o famoso rebanho taireno. Grandes ou pequenos, cada grupo estava sob a vigia de um ou dois garotos descal�os, montando um cavalo em pelo. Os garotos usavam chicotes de cabo comprido para manter os cavalos juntos ou manobr�-los, estalando-os com habilidade sem sequer aproximar as pontas do couro dos animais. Mantinham os bichos longe do grupo de viajantes, recuando quando necess�rio, mas vigiavam, com a ousada curiosidade caracter�stica da inf�ncia, a passagem da estranha comitiva���dois humanos e um Ogier a cavalo, mais tr�s dos ferozes Aiel que, de acordo com as hist�rias, tomaram a Pedra.</p><p>Era uma vis�o agrad�vel para Perrin. Ele gostava de cavalos. Parte da raz�o pela qual quisera ser aprendiz de Mestre Luhhan fora a oportunidade de trabalhar com cavalos, ainda que n�o houvesse tantos em Campo de Emond, nem t�o belos.</p><p>Loial, por�m, n�o parecia concordar. O Ogier come�ou a resmungar sozinho, subindo o tom conforme avan�avam pelas colinas cobertas de grama, at� que irrompeu em um rugido profundo e retumbante.</p><p>��Acabou! Acabou tudo, e para qu�? Grama. Isso aqui j� foi um bosque Ogier. N�o fizemos grandes trabalhos aqui, n�o comparados aos de Manetheren ou da cidade que voc�s chamam de Caemlyn, mas o suficiente para que um bosque fosse plantado. �rvores de todos os tipos, de todas as terras, de todos os lugares. As Grandes �rvores se elevavam centenas de bra�as para o c�u. Tudo muito bem cuidado, para lembrar meu povo do <emphasis>pouso</emphasis> de onde haviam partido para construir coisas para os homens. Os homens acham que gostamos � do trabalho de cantaria, mas isso � uma coisa superficial que aprendemos durante o Longo Ex�lio, depois da Ruptura. S�o as �rvores que amamos. Os homens acham que o Manetheren � o maior triunfo do meu povo, mas sab�amos que era o bosque que havia l�. Agora est� tudo acabado. Como esse. Acabado, e n�o vai voltar a existir.</p><p>Loial encarou as colinas, vazias exceto pela grama e os cavalos, com uma express�o r�gida, as orelhas para tr�s, coladas na cabe�a. Cheirava a� f�ria. A maioria das hist�rias descrevia os Ogier como pac�ficos, quase tanto quanto o Povo Errante, mas algumas poucas os denominavam inimigos implac�veis. Perrin s� vira Loial furioso uma vez. Talvez o amigo tivesse ficado furioso na noite anterior, defendendo aquelas crian�as. Olhando para o rosto de Loial, um antigo ditado lhe veio � mem�ria.</p><p>�Irritar um Ogier e provocar a ira das montanhas.� Todos interpretavam a frase como se falasse de tentar fazer algo imposs�vel. Perrin pensou que talvez o significado tivesse mudado com os anos. Talvez, no in�cio, fosse �Irritar um Ogier � como provocar a ira das montanhas�. Algo dif�cil de fazer, por�m mortal. Pensou que nunca gostaria de ver Loial���seu amigo gentil e atrapalhado, com o enorme nariz sempre enfiado em um livro���irritado com ele.</p><p>Foi Loial quem assumiu a lideran�a quando chegaram ao local do bosque desaparecido dos Ogier, dobrando o caminho um pouco para o sul. N�o havia pontos de refer�ncia, mas ele tinha certeza da dire��o, e ficava mais confiante a cada passo dos cavalos. Os Ogier pressentiam um Portal dos Caminhos, sentiam-no de alguma forma, encontravam-no com a mesma certeza de que uma abelha era capaz de encontrar a colmeia. Quando Loial enfim desceu do cavalo, a grama batia um pouco acima de seus joelhos. Havia apenas um montinho de arbustos frondosos � volta, mais altos que a maioria, amontoados folhosos da altura do Ogier. Ele arrancou tudo quase sem remorso, empilhando-os do outro lado.</p><p>��Talvez os meninos dos cavalos possam usar como lenha, depois que secarem.</p><p>E l� estava o Portal dos Caminhos.</p><p>Enfiado na lateral da colina, parecia mais um pared�o cinza do que um port�o, a parede de um pal�cio, melhor dizendo, coberta de entalhes de folhas e vinhas t�o refinados que pareciam t�o vivos quanto os arbustos. Estavam ali havia pelo menos tr�s mil anos, mas nem um tra�o de desgaste danificava a superf�cie. Aquelas folhas pareciam poder ondear com a pr�xima brisa.</p><p>Por um instante, todos encararam o Portal dos Caminhos em sil�ncio, at� que Loial respirou fundo e pousou a m�o sobre uma das folhas, diferente de todas as outras. A folha de tr�s pontas de <emphasis>Avendesora</emphasis>, a lend�ria �rvore da Vida. Parecia entalhada como as outras at� a m�o enorme toc�-la. Ent�o saiu sem dificuldade.</p><p>Faile soltou um ru�do de assombro, e at� os Aiel murmuraram. O ar cheirava a desconforto, e n�o havia como dizer de quem vinha. De todos eles, talvez.</p><p>As folhas de pedra pareciam se mexer com uma brisa inexistente, e adquiriram um tom verde de vida. Aos poucos, uma rachadura apareceu bem no centro, e as metades do Portal dos Caminhos se abriram, revelando n�o a colina por detr�s, mas um reflexo emba�ado e bruxuleante da imagem do grupo.</p><p>��Dizem que antigamente���murmurou Loial���os Portais brilhavam como espelhos, e os que adentravam os Caminhos andavam pelo sol e pelo c�u. Nada disso existe hoje em dia. Como o bosque.</p><p>Puxando depressa um dos lampi�es j� repletos de �leo transportados pelo cavalo de carga, Perrin iluminou o local.</p><p>��Est� muito abafado aqui���disse.���Uma sombrinha seria bom.</p><p>Conduziu Galope em dire��o ao Portal dos Caminhos. Pensou ter ouvido Faile soltar uma exclama��o.</p><p>O garanh�o castanho empacou, aproximando-se do pr�prio reflexo turvo, mas Perrin cravou os calcanhares para que ele prosseguisse. Devagar, lembrou. A coisa tinha que ser feita devagar. O nariz do cavalo encostou na pr�pria imagem, hesitante, depois se fundiu com ela, como se adentrasse um espelho. Perrin aproximou-se de si mesmo, tocou� Um frio g�lido percorreu a pele, envolvendo-o at� os cabelos, o tempo se espichou.</p><p>O frio desapareceu como uma bolha estourada, e ele se viu em meio � escurid�o sem-fim. A luz do lampi�o era uma po�a chapada � sua volta. Galope e o cavalo de carga relincharam, nervosos.</p><p>Gaul adentrou com muita calma e come�ou a preparar outro lampi�o. Atr�s dele, havia algo que parecia uma l�mina de vidro enfuma�ado. Era poss�vel ver os outros do lado de l�, Loial montando outra vez no cavalo, Faile segurando as r�deas, todos deslizando furtivos, quase sem se mover. O tempo nos Caminhos era muito diferente.</p><p>��Faile est� aborrecida com vocꠗ�comentou Gaul, depois de acender a lanterna. N�o acrescentou muita ilumina��o. A escurid�o sorvia a luz, engolia.���Est� pensando que voc� quebrou algum tipo de acordo. Bain e Chiad� N�o fique sozinho com elas. As duas est�o querendo lhe dar uma li��o, por causa de Faile, e voc� n�o vai conseguir se sentar nesse animal com tanta facilidade se elas conseguirem fazer o que est�o planejando.</p><p>��Eu n�o concordei com nada, Gaul. Estou fazendo o que Faile est� me for�ando a fazer, e tudo por causa de um truque dela. Logo teremos que voltar a seguir Loial, como ela quer que aconte�a, mas pretendo tomar a lideran�a pelo m�ximo de tempo que puder.���Ele apontou para uma linha grossa e branca sob os cascos de Galope. Intermitente e bastante esburacada, ela seguia adiante e desaparecia na escurid�o, algumas passadas � frente.���Isso leva ao primeiro poste de sinaliza��o. Teremos que esperar Loial por l�, para que ele o interprete e decida qual ponte tomar, mas � Faile quem vai nos seguir at� esse primeiro poste.</p><p>��Ponte���murmurou Gaul, pensativo.���Conhe�o essa palavra. Tem �gua l�?</p><p>��N�o. N�o � bem esse tipo de ponte. Parece igual, mais ou menos, mas� Talvez Loial consiga explicar melhor.</p><p>O Aiel co�ou a cabe�a.</p><p>��Voc� sabe o que est� fazendo, Perrin?</p><p>��N�o���admitiu o rapaz���mas n�o tem por que Faile ficar sabendo disso.</p><p>Gaul deu uma risada.</p><p>��� divertido ser t�o jovem, n�o �, Perrin?</p><p>Franzindo a testa, sem saber ao certo se o homem estava ca�oando dele, Perrin cravou os calcanhares em Galope, arrastando o cavalo de carga atr�s de si. A luz do lampi�o n�o seria mais vis�vel em vinte ou trinta passadas. Queria j� estar fora de vista quando Faile passasse pelo Portal. Queria deix�-la pensar que decidira prosseguir sem ela. Ficar preocupada por alguns minutos, pelo menos at� encontr�-lo no poste de sinaliza��o, era o m�nimo que ela merecia.</p></section><section><title><p>19</p><p><image l:href="#8"/></p><p>O Bailador das Ondas</p></title><p>Com o sol dourado ainda despontando no horizonte, a carruagem reluzente, coberta de verniz preto, parou com um chacoalh�o ao p� do cais, atr�s dos quatro cavalos cinzentos que a levavam, e o cocheiro magrelo, de cabelos escuros e casaco de listras pretas e douradas, saltou para abrir a porta. Nenhum s�mbolo a adornava, obviamente. Os nobres tairenos apenas ajudavam as Aes Sedai quando coagidos, por mais efusivos que fossem os sorrisos, e ningu�m queria ter nome ou casa ligados � Torre.</p><p>Elayne desceu, agradecida, sem esperar por Nynaeve, alisando o manto de viagem de ver�o de linho azul. As ruas do Maule estavam cheias de carros e carro��es, e as molas da carruagem n�o estavam muito boas. A brisa que soprava no Erinin era quase fria em compara��o ao calor da Pedra. A jovem n�o tinha inten��o de deixar �bvios os efeitos da dif�cil viagem, mas, depois que ficou de p�, foi imposs�vel n�o dar uma massageada na lombar. <emphasis>Pelo menos a chuva de ontem � noite ainda est� segurando a poeira</emphasis>, pensou. Suspeitava que tivessem recebido uma carruagem sem cortinas de prop�sito.</p><p>A norte e sul, outros ancoradouros se estendiam pelo rio, como largos dedos de pedra. O ar cheirava a corda, piche, peixes, especiarias, azeite de oliva e coisas inomin�veis apodrecidas sob a �gua estagnada entre os p�eres. Atr�s dela, frutas estranhas, compridas, verde-amareladas, aglomeravam-se em imensos cachos diante do armaz�m de pedra. Apesar de ainda ser cedo, homens com coletes de couro sobre ombros desnudos corriam para l� e para c�, levando enormes trouxas nas costas curvadas ou empurrando carrinhos de m�o repletos de caixotes e barris. Ningu�m dispensava a elas mais do que um olhar emburrado de passagem, baixando os olhos escuros depressa e tocando a testa de m� vontade. A maioria sequer erguia a cabe�a. Elayne ficou triste com isso.</p><p>Os nobres tairenos lidavam muito mal com o povo. N�o lidavam, era mais apropriado dizer. Em Andor, ela teria esperado sorrisos simp�ticos e alguma sauda��o respeitosa concedidos de boa vontade por homens de costas eretas que sabiam seu pr�prio valor e o dela. Aquilo era quase suficiente para faz�-la se arrepender de ter partido. Fora criada para liderar, talvez um dia governar um povo orgulhoso, e sentiu um �mpeto de ensinar um pouco de dignidade �quela gente. Mas essa tarefa era de Rand, n�o dela. <emphasis>E, se ele n�o a fizer direito,</emphasis> darei <emphasis>uma bela bronca nele. Uma bronca daquelas.</emphasis> Pelo menos o rapaz come�ara, seguindo seu conselho. E Elayne tinha de admitir que ele sabia tratar o povo. Seria interessante ver o que ele conseguira, quando ela retornasse. <emphasis>Isso se houver raz�o para retornar.</emphasis></p><p>De onde estava, dava para ver bem uns dez navios, e ainda mais distante, havia outros. Mas um deles, atracado na ponta do ancoradouro para onde estava virada, com a proa pontuda apontando rio acima, foi uma vis�o de encher os olhos. O forcador do Povo do Mar devia ter pelo menos cem passadas de comprimento e uma vez e meia a largura da embarca��o ao lado, com tr�s mastros imensos no meio do navio e um menor no conv�s elevado na popa. J� estivera em outros navios, mas nunca em um t�o grande, e nunca em um que rumasse para o mar. O nome dos propriet�rios j� remetia a terras distantes e portos estrangeiros. Os Atha�an Miere. O Povo do Mar. As hist�rias mais ex�ticas sempre mencionavam o Povo do Mar, a n�o ser as que falavam dos Aiel.</p><p>Nynaeve desceu da carruagem atr�s dela, amarrando um manto de viagem verde no pesco�o e resmungando para si mesma e para o cocheiro:</p><p>��Sacodindo feito galinhas num vendaval! Socadas feito um tapete empoeirado! Como foi que o senhor conseguiu a proeza de cair em todos os buracos desde a Pedra at� aqui, meu bom homem? Isso requer uma baita habilidade. � uma pena que n�o tenha o mesmo dom para o manejo dos cavalos.</p><p>O cocheiro tentou estender a m�o para ajud�-la a descer, com o rosto estreito emburrado, mas ela recusou ajuda. Com um suspiro, Elayne dobrou o n�mero de moedas de prata que tirava da bolsa.</p><p>��Obrigada por nos trazer at� aqui a salvo e t�o depressa.���Ela sorriu, empurrando as moedas na m�o do homem.���Pedimos que viesse r�pido, e foi o que o senhor fez. O estado das ruas n�o � culpa sua, e o senhor fez um excelente trabalho sob condi��es t�o prec�rias.</p><p>Sem olhar as moedas, o sujeito dispensou uma mesura profunda, um olhar de gratid�o e um �obrigado, milady� baixinho, tanto pelas palavras quanto pelo dinheiro, Elayne tinha certeza. Aprendera que palavras delicadas e um pouco de elogios costumavam ser t�o bem recebidos quanto a prata, se n�o mais. No entanto, para se certificar de que entenderiam o agradecimento, sempre usava prata, que raramente era desprezada.</p><p>��Queira a Luz que fa�am uma viagem segura, milady���acrescentou o homem.</p><p>O mais sutil piscar de olhos em dire��o a Nynaeve indicava que o desejo era dirigido apenas a Elayne. A outra mulher precisava aprender a fazer concess�es e ter mais considera��o.</p><p>Depois que o cocheiro retirou as trouxas e os pertences das mo�as da carruagem, contornou os animais e come�ou a ir embora, Nynaeve comentou, contrariada:</p><p>��Acho que n�o devia ter sido t�o brusca com o homem. Nem um p�ssaro atravessaria essas ruas com facilidade. N�o em uma carruagem, de todo modo. Mas, depois de quicar durante todo o trajeto at� aqui, eu me sinto como se tivesse passado uma semana em cima do lombo de um cavalo.</p><p>��O homem n�o tem culpa por voc� ter essa� dor nas costas���disse Elayne, com um sorriso que dissipava qualquer provoca��o, enquanto reunia seus pertences.</p><p>Nynaeve soltou uma risada amarga.</p><p>��Eu j� disse isso, n�o disse? Espero que voc� n�o queira que eu saia correndo atr�s dele para me desculpar. O tanto de prata que entregou com certeza aliviar� qualquer sentimento ferido. Voc� precisa aprender a ser mais cuidadosa com dinheiro, Elayne. N�o temos todos os recursos do Reino de Andor � disposi��o. Uma fam�lia pode viver com conforto durante um m�s inteiro com a quantia que voc� entrega a qualquer um que faz o trabalho que foi pago para fazer.���A Filha-herdeira dispensou um olhar bastante indignado a Nynaeve. A mulher sempre parecia pensar que elas tinham de viver de forma pior que os servi�ais, a menos que houvesse motivo para o contr�rio, em vez de ser o oposto, como fazia sentido. Por�m, a mulher mais velha n�o pareceu notar a express�o que sempre fazia a Guarda Real pisar em ovos. Em vez disso, Nynaeve ergueu as trouxas e as pesadas sacolas de tecido e virou-se em dire��o ao cais.���Pelo menos a viagem nesse navio ser� mais suave. Espero que seja. Vamos embarcar?</p><p>As duas come�aram a avan�ar at� o p�er, entre trabalhadores, barris empilhados e carrinhos e abarrotados de mercadorias, e Elayne disse:</p><p>��Nynaeve, o Povo do Mar pode ser muito sens�vel at� conhecer melhor os outros, pelo menos foi o que me ensinaram. Voc� acha que poderia tentar ser um pouco�</p><p>��Um pouco o qu�?</p><p>��Diplom�tica, Nynaeve.���A Filha-herdeira deu um passo mais comprido para pular por cima de onde algu�m cuspira, no ancoradouro � frente. N�o havia como dizer qual dos homens fizera aquilo: quando ela olhou em volta, viu todos de cabe�as baixas, trabalhando duro. Sendo ou n�o maltratados pelos Gr�o-lordes, ela teria dito umas poucas e afiadas palavras que o culpado levaria muito tempo para esquecer, se o tivesse encontrado.���Pode tentar ser um pouco diplom�tica uma vez na vida.</p><p>��Claro.���Nynaeve come�ou a subir na prancha de embarque do forcador, gradeada por cordas.���Desde que n�o me sacudam para l� e para c�.</p><p>O primeiro pensamento de Elayne ao chegar ao conv�s foi que o forcador parecia estreito demais para o comprimento. N�o entendia muito de navios, na verdade, mas para ela aquele parecia uma lasca gigante. <emphasis>Ah, Luz, essa coisa vai sacudir mais do que a carruagem, por maior que seja.</emphasis> O segundo pensamento foi em rela��o � tripula��o. Ouvira hist�rias a respeito dos Atha�an Miere, mas nunca tinha visto um deles. Um povo misterioso e muito discreto, quase t�o misterioso quanto os Aiel. Apenas as terras para al�m do Deserto podiam ser mais estranhas, e tudo o que se sabia a respeito deles era que o Povo do Mar trazia marfim e seda de l�.</p><p>Esses Atha�an Miere eram homens sombrios, andavam descal�os e sem camisas, todos de barbas feitas, com cabelos lisos e escuros e m�os tatuadas. Moviam-se com a seguran�a de quem conhecia muito bem o pr�prio trabalho, a ponto de faz�-lo com os p�s nas costas, embora dedicassem toda aten��o � tarefa em quest�o. Havia uma gra�a fluida em seus movimentos, como se, mesmo com o navio parado, sentissem o balan�o do mar. A maioria usava correntes de ouro ou prata no pesco�o e brincos nas orelhas, �s vezes dois ou tr�s em cada, alguns com pedras polidas.</p><p>Tamb�m havia mulheres entre os tripulantes, em mesmo n�mero que os homens, erguendo cordas e enrolando linhas, com as mesmas m�os tatuadas, vestindo as mesmas cal�as largas de algum tecido escuro e imperme�vel, presas por cintur�es estreitos e coloridos e abertas no tornozelo. Al�m das cal�as, as mulheres tamb�m usavam blusas largas e coloridas, todas de tons brilhantes de vermelho, verde e azul. Exibiam pelo menos tantas correntes e brincos quanto os homens. Inclusive, Elayne notou com um leve choque duas ou tr�s mulheres com argolas presas � lateral do nariz.</p><p>A gra�a das mulheres ofuscava at� a dos homens, e fez Elayne se lembrar de algumas hist�rias que ouvira quando crian�a, ao escutar o que n�o devia. As mulheres dos Atha�an Miere eram, naqueles contos, a personifica��o da beleza sedutora e da tenta��o, perseguidas por todos os homens. As mulheres naquele navio n�o eram mais belas do que quaisquer outras, mas, ao v�-las em movimento, Elayne conseguia acreditar nas hist�rias.</p><p>Duas das mulheres paradas no conv�s elevado na popa com certeza n�o eram tripulantes comuns. Tamb�m andavam descal�as e usavam roupas com o mesmo corte dos outros, mas uma delas estava toda vestida de seda azul brocada, e a outra, de verde. A mais velha, a que usava verde, exibia quatro pequenas argolas de ouro em cada orelha e uma na narina esquerda, todas reluzentes sob o sol da manh�. Uma delicada corrente ia do pequeno aro em seu nariz at� uma das orelhas, sustentando uma fileira de diminutos pingentes em forma de medalh�es de ouro, e uma das correntes em volta do pesco�o continha uma caixinha de ouro furada, como se fosse renda dourada, que ela erguia para cheirar de tempos em tempos. A outra mulher, a mais alta, usava apenas seis brincos e sua corrente tinha menos medalh�es. A caixinha furada que cheirava, por�m, era feita do mesmo ouro finamente forjado. Ex�tico, sem d�vida. Elayne estremeceu s� de pensar naqueles aros no nariz. E naquela corrente!</p><p>Algo estranho no pr�prio deque chamou sua aten��o, mas a princ�pio ela n�o soube dizer o que era. Ent�o, viu. O leme n�o tinha cana. Havia um tipo de roda radiada atr�s das duas mulheres, amarrada embaixo para que n�o girasse, mas sem cana. <emphasis>Como � que eles conduzem?</emphasis> At� o menor barquinho que j� vira tinha cana. E tamb�m todos os outros navios alinhados no cais. Cada vez mais misterioso, aquele Povo do Mar.</p><p>��N�o esque�a o que Moiraine disse a vocꠗ�alertou Elayne, enquanto as duas se aproximavam do conv�s da popa. N�o fora muita coisa, mesmo as Aes Sedai sabiam pouco sobre os Atha�an Miere. Mas Moiraine transmitira as express�es apropriadas, o que deveria ser dito como sinal de boas maneiras.���E n�o se esque�a da diplomacia���acrescentou, em um sussurro firme.</p><p>��Eu vou me lembrar���retrucou Nynaeve, com rispidez.���Eu consigo ser diplom�tica.</p><p>Elayne torcia para que fosse verdade.</p><p>As duas mulheres do Povo do Mar as aguardavam no topo das escadas���as aguardavam no portal�, corrigiu-se Elayne. Era chamado assim mesmo quando eram escadas. N�o entendia por que os navios tinham nomes diferentes para coisas comuns. O ch�o era o ch�o, fosse de um celeiro, um pal�cio ou uma estalagem. Por que n�o era assim em um navio? Uma nuvem de perfume envolveu as duas, um aroma leve de alm�scar que vinha das caixinhas de ouro rendado. As tatuagens nas m�os das mulheres eram estrelas e aves-marinhas rodeadas pelas curvas e remoinhos de ondas estilizadas.</p><p>Nynaeve inclinou a cabe�a.</p><p>��Sou Nynaeve al�Meara, Aes Sedai da Ajah Verde. Procuro a Mestra das Velas desta embarca��o para garantir passagens, se for desejo da Luz. Esta � minha amiga e companheira, Elayne Trakand, tamb�m Aes Sedai da Ajah Verde. Que a Luz as ilumine e � sua embarca��o e mande ventos para aceler�-la.</p><p>Era quase igual ao que Moiraine instru�ra que dissessem. Menos a parte de serem Aes Sedai da Ajah Verde���Moiraine parecera mais resignada com isso do que com qualquer outra coisa, al�m de achar gra�a na escolha da Ajah.</p><p>A mulher mais velha, com toques grisalhos nos cabelos negros e rugas nos cantos dos grandes olhos castanhos, inclinou a cabe�a com a mesma formalidade. Por�m, parecia analisar as duas da cabe�a aos p�s, sobretudo o anel da Grande Serpente que cada uma usava na m�o direita.</p><p>��Sou Coine din Jubai Ventos Rebeldes, Mestra das Velas do <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis>. Esta � Jorin din Jubai Asa Branca, minha irm� de sangue e Chamadora de Ventos do <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis>. Podemos oferecer passagens, se for a vontade da Luz. Que a Luz as ilumine e as conduza em seguran�a at� o fim da jornada.</p><p>Era uma surpresa que as duas fossem irm�s. Elayne conseguia ver a semelhan�a, mas Jorin parecia muito mais jovem. Desejou que a Chamadora de Ventos fosse a �nica com quem tivessem de lidar. Ambas as mulheres tinham a mesma reserva, mas algo a respeito da Chamadora de Ventos lembrava Aviendha. Era absurdo, sem d�vida. As mulheres n�o eram mais altas do que ela pr�pria, a cor n�o poderia ser mais distinta da cor da Aiel, e a �nica arma que cada uma tinha � vista era a faca robusta que levavam no cintur�o, uma l�mina que denunciava sua efici�ncia no trabalho bra�al, apesar dos entalhes e fios de ouro incrustados no cabo. De todo modo, Elayne n�o p�de evitar a sensa��o de similaridade entre Jorin e Aviendha.</p><p>��Vamos conversar ent�o, Mestra das Velas, se lhe aprouver���disse Nynaeve, seguindo a f�rmula de Moiraine���sobre navega��es, portos e o presente de passagem.</p><p>O Povo do Mar n�o cobrava pela passagem, segundo Moiraine. Era um presente, que, por coincid�ncia, poderia ser trocado por outro de igual valor.</p><p>Coine olhou para o lado, depois para a popa virada para a Pedra e o estandarte branco que ondulava acima da fortaleza.</p><p>��Vamos conversar na minha cabine, Aes Sedai, se lhes aprouver.���Ela gesticulou indicando uma escotilha aberta atr�s da estranha roda do leme.���Meu navio lhes d� boas-vindas, e que a gra�a da Luz esteja com voc�s at� deixarem este conv�s.</p><p>Outra escada estreita���dessa vez, uma comum���levava at� um quarto organizado, maior do que o que Elayne esperava, por experi�ncia em embarca��es menores, com janelas que davam para a popa e lampi�es com suportes girat�rios nas paredes. Quase tudo parecia embutido, exceto por alguns ba�s envernizados de tamanhos diversos. A cama larga e baixa ficava bem debaixo das janelas da popa, e uma mesa estreita rodeada de cadeiras ocupava o centro do quarto.</p><p>Havia pouca bagun�a. Alguns mapas enrolados sobre a mesa, algumas esculturas de marfim em forma de animais estranhos em prateleiras gradeadas e meia d�zia de espadas com l�minas � mostra, de diferentes tipos, algumas que Elayne nunca vira, expostas em ganchos nas paredes. Havia um gongo de lat�o quadrado, com entalhes estranhos, pendurado em uma das vigas da cama. E, logo � frente das janelas da popa, como se em lugar de destaque, jazia um capacete em uma cabe�a de madeira entalhada para esse prop�sito, um capacete que parecia a cabe�a de um inseto monstruoso, envernizado em vermelho e verde, com uma pequena pena branca de cada lado, uma delas quebrada.</p><p>Elayne reconheceu o capacete.</p><p>��Seanchan���disse, sem f�lego, sem pensar.</p><p>Nynaeve lan�ou a ela um olhar irritado, e n�o sem raz�o. As duas haviam concordado que faria mais sentido e conferiria mais veracidade � hist�ria se Nynaeve, por ser mais velha, assumisse a lideran�a e cuidasse da conversa.</p><p>Coine e Jorin trocaram olhares indecifr�veis.</p><p>��J� ouviu falar deles?���perguntou a Mestra das Velas.���� claro. � esperado que Aes Sedais saibam dessas coisas. T�o longe a leste, ouvimos muitas hist�rias, e as melhores n�o passam de meias verdades.</p><p>Elayne sabia que devia deixar a coisa quieta, mas sua l�ngua estava co�ando de curiosidade.</p><p>��Como foi que conseguiram o capacete? Se me permitem a pergunta.</p><p>��O <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> encontrou um navio Seanchan no ano passado���respondeu Coine.���Eles queriam lev�-lo, mas eu n�o quis abrir m�o.���Ela deu de ombros, um movimento �nfimo.���Trouxe o capacete de recorda��o, e o mar levou os Seanchan, que a Luz tenha miseric�rdia de todos os navegantes. Nunca mais chego perto de um navio com velas com talas.</p><p>��Voc�s tiveram sorte���disse Nynaeve, em um tom seco.���Os Seanchan capturam mulheres capazes de canalizar e as transformam em arma. Se houvesse uma dessas naquele navio, voc�s teriam se arrependido de t�-lo visto.</p><p>Elayne fez uma careta para a amiga, embora fosse tarde demais. N�o sabia dizer se as mulheres do Povo do Mar haviam ficado ofendidas com o tom de Nynaeve. A dupla mantinha a mesma express�o neutra, mas Elayne come�ava a perceber que seus rostos n�o demonstravam muito, pelo menos n�o a estranhos.</p><p>��Vamos falar de passagens���disse Coine.���Se aprouver � Luz, pode ser que venham a visitar o local aonde desejam chegar. Todas as coisas s�o poss�veis, pela Luz. Vamos nos sentar.</p><p>As cadeiras ao redor da mesa n�o deslizavam para tr�s, tudo estava preso ao ch�o���ao conv�s. Em vez disso, os bra�os se abriam como port�es e se aferrolhavam de volta. O arranjo parecia corroborar as terr�veis previs�es de Elayne em rela��o aos balan�os e sacolejos. Ela lidava muito bem com isso, sem d�vida, mas o balan�o do rio j� fazia o est�mago de Nynaeve se revirar. Deveria ser muito pior no oceano do que em um rio, por mais feroz que fosse o vento, e, quanto pior ficasse o est�mago da amiga, pior seria o temperamento. Nynaeve passando mal e furiosa ao mesmo tempo: na opini�o de Elayne, poucas coisas eram mais tem�veis.</p><p>As duas foram convidadas a sentar-se de cada um dos lados da mesa, com a Mestra das Velas e a Chamadora de Ventos nas cabeceiras. A princ�pio, a disposi��o pareceu estranha, mas ent�o Elayne percebeu que dessa forma ambas olhariam para quem estivesse falando, permitindo que a outra as observasse sem ser vista. <emphasis>Ser� que sempre lidam dessa forma com os passageiros, ou ser� que � porque somos Aes Sedai? Bem, porque pensam que somos.</emphasis> Era um aviso de que as coisas com essa gente poderiam n�o ser t�o simples quanto desejavam. Torceu para que Nynaeve tivesse percebido.</p><p>Elayne n�o notara qualquer ordem sendo passada, mas uma mo�a esguia com apenas um aro em cada orelha surgiu equilibrando uma bandeja com um bule de ch� de asa de lat�o e grandes canecas sem asa, n�o de porcelana do Povo do Mar, como seria de se esperar, mas de cer�mica grossa. <emphasis>Mais dif�cil de quebrar com tempo ruim</emphasis>, pensou, desanimada. Mas foi a jovem que chamou sua aten��o e que quase a fez perder o ar. Estava nua da cintura para cima, assim como os homens l� no conv�s. Elayne achou que tinha escondido muito bem o choque, mas Nynaeve fungou alto.</p><p>A Mestra das Velas esperou a mo�a servir ch�, fervido at� ficar negro, depois disse:</p><p>��Por acaso j� zarpamos, Dorele, sem que eu tenha sido informada? N�o h� mais terra � vista?</p><p>A mulher esguia ficou vermelha.</p><p>��H� terra, Mestra das Velas.���Foi um sussurro infeliz.</p><p>Coine assentiu.</p><p>��At� que n�o haja mais terra � vista e que assim fique por um dia inteiro, voc� vai trabalhar limpando os por�es, onde as vestimentas s�o obst�culo. Est� dispensada.</p><p>��Sim, Mestra das Velas���disse a garota, ainda mais desolada. Ela se virou, tirando o cintur�o, desconsolada, enquanto passava pela porta, no outro extremo do aposento.</p><p>��Compartilhem este ch�, se lhes aprouver���disse a Mestra das Velas���e que conversemos em paz.���Ela bebericou do pr�prio copo e prosseguiu, enquanto Elayne e Nynaeve provavam os delas.���Pe�o que perdoem qualquer ofensa, Aes Sedai. Esta � a primeira viagem de Dorele para fora das ilhas. A jovem com frequ�ncia esquece os costumes dos costeiros. Posso aumentar a puni��o dela, caso se sintam ofendidas.</p><p>��N�o � necess�rio���respondeu Elayne, mais do que depressa, usando a desculpa para deixar a caneca na mesa. O ch� era ainda mais forte do que parecia, muito quente, sem a��car e bastante amargo.���N�o ficamos ofendidas, de jeito nenhum. Povos diferentes t�m costumes diferentes.���<emphasis>Queira a Luz que n�o sejam mais tantos t�o diferentes assim! Luz, e se eles tirarem toda a roupa quando o navio zarpar? Luz!</emphasis>���Apenas um tolo se ofenderia ao se deparar com costumes diferentes dos pr�prios.</p><p>Nynaeve lan�ou a ela um olhar firme, com a calma imperturb�vel de uma Aes Sedai, como fingiam ser, deu um longo gole na caneca e disse apenas:</p><p>��Por favor, vamos deixar isso de lado.���N�o era poss�vel dizer se ela se dirigia a Elayne ou �s mulheres do Povo do Mar.</p><p>��Ent�o vamos falar sobre passagens, se lhes aprouver���disse Coine.���A qual porto desejam navegar?</p><p>��Tanchico���respondeu Nynaeve, um pouco mais brusca do que deveria.���Sei que talvez n�o tenham inten��o de ir at� l�, mas precisamos chegar depressa, t�o depressa quanto s� um forcador � capaz, e sem parar, se for poss�vel. Ofere�o este pequeno presente pelo inconveniente.���Ela puxou um peda�o de papel do cinto da bolsa, desdobrou-o e o empurrou na mesa para a Mestra das Velas.</p><p>Moiraine dera a elas aquele papel e outro igual: cartas de cr�ditos. Cada uma permitia que o portador retirasse at� tr�s mil coroas de ouro dos banqueiros e prestamistas em v�rias cidades, embora fosse pouco prov�vel que qualquer um daqueles homens e mulheres soubesse que era dinheiro da Torre Branca. Elayne arregalara os olhos com a quantia���e Nynaeve ficara de queixo ca�do���mas Moiraine disse que talvez fosse necess�rio para fazer a Mestra das Velas abandonar o destino a que pretendia chegar.</p><p>Coine tocou a carta-de-direitos com um dedo e leu.</p><p>��Uma grande quantia pelo presente da passagem���murmurou �, mesmo levando em conta que est�o me pedindo para alterar nossa rota. Estou ainda mais surpresa do que antes. Voc�s sabem que � raro levarmos Aes Sedai em nossos navios. Muito raro. De todos que pedem passagem, apenas Aes Sedai podem ser recusadas, e quase sempre s�o, desde o primeiro dia da primeira partida. Aes Sedai sabem disso, por isso quase nunca pedem.���Ela encarava a x�cara de ch�, n�o as duas, mas Elayne olhou para o outro lado e surpreendeu a Chamadora de Ventos analisando as m�os das duas pousadas sobre a mesa. N�o, os an�is.</p><p>Moiraine n�o falara sobre isso. Apontara o forcador como o navio mais ligeiro que havia dispon�vel e as encorajara a utiliz�-lo. Por outro lado, entregara essas cartas-de-direitos, que deviam ser suficientes para comprar uma frota de navios como aquele. Bem, muitos navios, pelo menos. <emphasis>Ser� que foi porque ela sabia que precisaria de tudo isso para convenc�-las a nos levar?</emphasis> Mas por que guardara segredo? Que pergunta tola, Moiraine sempre guardava segredos. Mas por que faz�-las perder tempo?</p><p>��Pretende recusar nossa passagem?���Nynaeve trocara a diplomacia pela brusquid�o.���Se n�o levam Aes Sedai, por que nos trouxeram at� aqui? Por que n�o disseram l� em cima e acabaram logo com isso?</p><p>A Mestra das Velas soltou um dos bra�os da cadeira, levantou-se e foi espiar a Pedra pelas janelas da popa. Os brincos e os medalh�es na face esquerda reluziam � luz do sol nascente.</p><p>��Ele � capaz de manejar o Poder �nico, pelo que ouvi dizer, e det�m a Espada Que N�o Pode Ser Tocada. Os Aiel vieram at� a Muralha do Drag�o ao seu chamado. Vi muitos pelas ruas, e dizem que abarrotaram a Pedra. A Pedra de Tear caiu, e a guerra irrompeu pelas na��es. Os que outrora governaram est�o de volta, e foram recha�ados pela primeira vez. A Profecia est� sendo cumprida.</p><p>A mudan�a de assunto deixou Nynaeve e Elayne confusas.</p><p>��As Profecias do Drag�o?���indagou a Aceita mais nova, depois de um instante.���Sim, est�o sendo cumpridas. Ele � o Drag�o Renascido, Mestra das Velas.���<emphasis>� um homem teimoso que esconde os sentimentos t�o bem que eu n�o consigo encontr�-los, � isso o que ele �!</emphasis></p><p>Coine se virou.</p><p>��N�o as Profecias do Drag�o, Aes Sedai. A Profecia Jendai, a profecia do Coramoor. N�o a que voc�s aguardam e temem, a que n�s buscamos, o arauto de uma nova Era. Na Ruptura do Mundo, nossos ancestrais fugiram para a seguran�a do mar, enquanto a terra se erguia e rebentava como fazem as ondas das tempestades. Dizem que eles n�o sabiam nada sobre os navios que pegaram para fugir, mas a Luz estava com eles, e todos sobreviveram. N�o viram terra outra vez at� o mundo se acalmar, e a� muita coisa estava mudada. Tudo, absolutamente tudo, o mundo inteiro estava � deriva, na �gua e no vento. Foi nos anos depois disso que a Profecia Jendai foi enunciada pela primeira vez. Temos de vagar pelas �guas at� que o Coramoor retorne, e servi-lo quando ele voltar.</p><p>�Estamos presos ao mar, a �gua salgada corre em nossas veias. A maioria de n�s n�o p�e os p�s na terra, a n�o ser para aguardar outro navio, para navegar de novo. Homens fortes choram quando precisam servir em terra firme. As mulheres em terra firme v�o aos navios para ter seus filhos, ou at� em um bote a remos, se n�o houver mais nada dispon�vel, pois precisamos nascer na �gua, precisamos morrer nela e ser entregues a ela quando morrermos.</p><p>�A Profecia est� sendo cumprida. Ele � o Coramoor. Aes Sedai servem a ele. Voc�s s�o prova disso, j� que est�o aqui nesta cidade. Isto tamb�m est� na Profecia. A Torre Branca ser� destru�da em nome dele, e as Aes Sedai se ajoelhar�o para lavar seus p�s e sec�-los com os cabelos.</p><p>��Vai esperar sentada se acha que vai me ver lavar o p� de qualquer homem���rebateu Nynaeve secamente.���O que isso tem a ver com nossas passagens? Voc�s v�o nos levar ou n�o?</p><p>Elayne se encolheu, mas a Mestra das Velas respondeu com a mesma franqueza:</p><p>��Por que querem viajar para Tanchico? No momento, � um porto bem desagrad�vel aonde chegar. Atraquei l� no inverno passado. O povo da costa quase invadiu minha embarca��o querendo passagem para sair dali para qualquer lugar. N�o se importavam, desde que fosse para longe de Tanchico. N�o acho que as condi��es estejam muito melhores.</p><p>��Voc� sempre questiona tanto seus passageiros?���perguntou Nynaeve.���Ofereci o suficiente para comprar uma aldeia. Duas aldeias! Se quiserem mais, digam seu pre�o.</p><p>��N�o � um pre�o���sussurrou Elayne, no ouvido dela.���� um presente!</p><p>Se Coine ficou ofendida, ou se sequer ouviu, n�o deu sinal.</p><p>��Por qu�?</p><p>Nynaeve deu um pux�o forte na tran�a, mas Elayne segurou seu bra�o. Tinham planejado manter alguns segredos entre si, mas sem d�vida haviam descoberto muitas coisas desde que se sentaram naquelas cadeiras, o suficiente para alterar qualquer plano. Havia momentos para segredos e momentos para a verdade.</p><p>��Ca�amos a Ajah Negra, Mestra das Velas. Acreditamos que algumas delas est�o em Tanchico.���Enfrentou o olhar irado de Nynaeve com muita calma.���Precisamos encontr�-las, ou elas podem fazer mal� Ao Drag�o Renascido. Ao Coramoor.</p><p>��Que a Luz nos leve seguras at� o ancoradouro���suspirou a Chamadora de Ventos. Era a primeira vez que falava, e Elayne a encarou, surpresa. Jorin franzia o cenho e n�o olhava para ningu�m em especial, mas falava com a Mestra das Velas.���Podemos lev�-las, minha irm�. Devemos.</p><p>Coine assentiu.</p><p>Elayne trocou olhares com Nynaeve e viu os pr�prios questionamentos espelhados nos olhos da outra mulher. Por que era a Chamadora de Ventos quem decidia? Por que n�o a Mestra das Velas? Ela era a capit�, qualquer que fosse o t�tulo. Pelo menos conseguiriam as passagens, no fim das contas. <emphasis>Por quanto?</emphasis>, perguntou-se Elayne. <emphasis>Qual ser� o valor do �presente�?</emphasis> Desejou que Nynaeve n�o tivesse revelado que tinham mais do que estava escrito na carta-de-direitos. <emphasis>E ela ainda me acusa de ficar jogando ouro ao vento.</emphasis></p><p>A porta se abriu, deixando entrar um homem grisalho e corpulento vestindo cal�as largas de seda verde e cintur�o, agitando um ma�o de pap�is. Quatro aros de ouro decoravam cada uma das orelhas, e tr�s pesadas correntes de ouro pendiam do pesco�o, incluindo uma com um frasco de perfume. Uma cicatriz comprida e enrugada atravessava seu rosto e as duas facas curvas enfiadas no cintur�o conferiam a ele um ar perigoso. O homem amarrou nas orelhas uma arma��o peculiar que sustentava lentes transparentes diante dos olhos. O Povo do Mar fazia as melhores lupas, lentes ust�rias e coisas do tipo em algum lugar de suas ilhas, mas Elayne nunca vira nada parecido com aquele aparato. Ele espiou os pap�is atrav�s das lentes e come�ou a falar, sem olhar para cima.</p><p>��Coine, este tolo est� disposto a trocar quinhentas peles de raposa-das-neves de Kandor por aqueles tr�s barrizinhos de tabaco de Dois Rios que consegui em Ebou Dar. Quinhentas! Pode traz�-las ao meio-dia.���Ele ergueu os olhos e levou um susto.���Perdoe-me, esposa. Eu n�o sabia que tinha convidadas. Que a Luz esteja com todas voc�s.</p><p>��Ao meio-dia, marido���retrucou Coine���estarei descendo o rio. Ao cair da noite, j� estarei no mar.</p><p>Ele se aprumou.</p><p>��Ser� que eu ainda sou o Mestre de Cargas, esposa, ou ser� que meu lugar foi tomado enquanto eu n�o estava olhando?</p><p>��Voc� � Mestre de Cargas, marido, mas precisa interromper os neg�cios agora e come�ar a se preparar para partir. Vamos zarpar para Tanchico.</p><p>��Tanchico!���Os pap�is amassaram em suas m�os, e ele fez esfor�o para manter o controle.���Esposa� n�o! Mestra das Velas, voc� me disse que nosso pr�ximo porto seria o de Mayene, e que depois rumar�amos a leste, para Shara. Fiz meus neg�cios com isso em mente. Shara, Mestra das Velas, n�o Tarabon. O que tenho em minha posse n�o valer� muito em Tanchico. Talvez nada! Posso saber por que � que meus neg�cios t�m que ser arruinados, e o <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis>, levado � fal�ncia?</p><p>Coine hesitou, mas quando falou a voz ainda era formal.</p><p>��Eu sou a Mestra das Velas, meu marido. O <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> navega quando e para onde eu ordenar. Por enquanto, isso � tudo.</p><p>��Como quiser, Mestra das Velas���retrucou ele, num tom �spero���que assim seja.</p><p>O homem p�s a m�o no cora��o���Elayne pensou ter visto Coine se encolher���e se retirou com as costas t�o r�gidas quanto um dos mastros do navio.</p><p>��Precisarei compens�-lo���murmurou Coine, baixinho, olhando para a porta.���� claro, � agrad�vel fazer as pazes com ele. Costuma ser. Ele me saudou como um servente, irm�.</p><p>��Sentimos muito por causar problemas, Mestra das Velas���disse Elayne, escolhendo as palavras.���E lamentamos ter testemunhado isso. Se tivermos causado qualquer constrangimento, por favor, aceite nossas desculpas.</p><p>��Constrangimento?���Coine parecia surpresa.���Aes Sedai, eu sou Mestra das Velas. Duvido que a presen�a de voc�s deixe Toram constrangido, e eu n�o pediria desculpas a ele por isso, se fosse o caso. Os neg�cios s�o dele, mas a Mestra das Velas sou eu. Preciso compens�-lo, e isso n�o ser� f�cil, j� que preciso manter o motivo em segredo. Ele estava certo, e n�o consegui pensar depressa o suficiente para dar uma raz�o para a partida que n�o uma resposta irritada. Aquela cicatriz no rosto ele ganhou tirando os Seanchan do conv�s do <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis>. Mas h� cicatrizes mais antigas que ele ganhou defendendo meu navio, e, gra�as aos seus neg�cios, eu s� preciso estender a m�o para receber ouro. � pelas coisas que n�o posso dizer que preciso compens�-lo, porque ele merece saber.</p><p>��Eu n�o entendo���disse Nynaeve.���Pedir�amos que mantivesse a Ajah Negra em segredo����Ela lan�ou a Elayne um olhar firme, que prometia palavras duras quando estivessem sozinhas. A Filha-herdeira tamb�m tinha inten��o de dizer algumas palavras sobre o significado de diplomacia����Mas sem d�vida tr�s mil coroas � raz�o suficiente para nos levar at� Tanchico.</p><p>��Guardarei seu segredo, Aes Sedai. O que s�o e por que viajam. Muitos em minha tripula��o consideram Aes Sedai m� sorte. Se soubessem que n�o est�o apenas levando Aes Sedai, mas as est�o levando at� a um porto onde outras podem estar servindo ao Pai das Tempestades� A gra�a da Luz brilhou sobre n�s, para que ningu�m estivesse perto para me ouvir cham�-las para c�. Voc�s se ofenderiam se eu pedisse para ficarem aqui embaixo o m�ximo poss�vel e para n�o usarem os an�is no conv�s?</p><p>Como resposta, Nynaeve puxou o anel da Grande Serpente do dedo e guardou-o dentro da bolsa do cinto. Elayne fez o mesmo, um pouco mais relutante. Gostava que outros vissem o anel. Sem confiar muito no estoque de diplomacia que ainda restava a Nynaeve, ela se pronunciou, antecipando-se � amiga:</p><p>��Mestra das Velas, oferecemos um presente pela passagem, se lhe aprouver. Caso contr�rio, posso perguntar o que lhe aprazeria?</p><p>Coine retornou � mesa para olhar outra vez a carta-de-direitos, depois a empurrou para Nynaeve.</p><p>��Fa�o isso pelo Coramoor. Levarei as duas em seguran�a para onde desejarem, se aprouver � Luz. Ser� feito.���Ela levou os dedos da m�o direita aos l�bios.���Est� acordado, sob a Luz.</p><p>Jorin emitiu um ru�do abafado.</p><p>��Minha irm�, algum Mestre de Cargas j� liderou um motim contra sua Mestra das Velas?</p><p>Coine lan�ou a ela um olhar inexpressivo.</p><p>��Cederei o presente da passagem de meu pr�prio ba�. E, se Toram algum dia ficar sabendo, minha irm�, mando voc� para o por�o com Dorele. Para limpar o lastro, talvez.</p><p>Quando a Chamadora de Ventos soltou uma gargalhada, ficou confirmado que as duas mulheres do Povo do Mar haviam abandonado as formalidades.</p><p>��E depois sua pr�xima parada seria em Chachin, minha irm�, ou em Caemlyn, pois seria incapaz de encontrar �gua sem mim.</p><p>A Mestra das Velas dirigiu-se a Elayne e Nynaeve com pesar.</p><p>��O apropriado, Aes Sedai, j� que servem ao Coramoor, seria que eu as honrasse como honraria a Mestra das Velas e a Chamadora de Ventos de outro navio. Dever�amos nos banhar juntas, beber vinho melado e contar hist�rias para nos fazer rir e chorar. Mas agora preciso me aprontar para zarparmos, e�</p><p>O <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> fez jus ao pr�prio nome, pulando e saltando contra o ancoradouro. Elayne sacolejou para tr�s e para a frente na cadeira, perguntando-se, enquanto o balan�o n�o passava, se aquilo era mesmo melhor do que ser jogada ao conv�s.</p><p>Ent�o tudo terminou, os saltos come�aram a ficar menos bruscos. Coine se levantou e correu para a escada, com Jorin atr�s, j� berrando ordens de buscar avarias no casco.</p></section><section><title><p>20</p><p><image l:href="#19"/></p><p>Ventos Crescentes</p></title><p>Elayne abriu o trinco de um dos bra�os de sua cadeira com certa dificuldade e ent�o disparou atr�s das outras, quase esbarrando em Nynaeve na escada. O navio ainda se balan�ava, mas n�o com a viol�ncia de antes. Querendo saber se estavam afundando, empurrou Nynaeve para a frente, obrigando-a a subir mais depressa.</p><p>No conv�s, a tripula��o estava em polvorosa, conferindo os cordames, esticando o corpo para fora para conferir o casco, berrando sobre terremotos. Os doqueiros tamb�m berravam, mas Elayne sabia do que se tratava, apesar da confus�o de objetos rolando nos p�eres e nos navios ainda ancorados.</p><p>Olhou em dire��o � Pedra. A imensa fortaleza estava im�vel, exceto pela massa de p�ssaros assustados que voavam em volta e pelo estandarte claro a drapejar, quase pregui�oso, ao sabor da brisa. Nenhum sinal de que algo atingira a massa montanhosa. Mas havia sido Rand. Ela tinha certeza.</p><p>Virou-se, viu Nynaeve a encar�-la, e, por um longo instante, os olhares das duas se encontraram.</p><p>��Bela artimanha, se ele tiver danificado o navio���disse Elayne, enfim.���Como � que vamos chegar a Tanchico se ele continuar jogando os navios de um lado para o outro?</p><p><emphasis>Luz, tomara que esteja tudo bem com ele. N�o h� o que eu possa fazer se n�o estiver. Ele est� bem. Est�.</emphasis></p><p>Nynaeve tocou o bra�o da outra, para tranquiliz�-la.</p><p>��� claro que aquela sua segunda carta mexeu com ele. Os homens sempre exageram nas rea��es quando s�o tomados pelas emo��es. � o pre�o que pagam por cont�-las tanto, como sempre fazem. Rand pode ser o Drag�o Renascido, mas tem que aprender, de homem para mulher, que� O que � que <emphasis>eles</emphasis> est�o fazendo aqui?</p><p>�Eles� eram dois homens parados junto ao Povo do Mar, no meio do tumulto no conv�s. Um era Thom Merrilin, com o manto de menestrel e os estojos de harpa e flauta nas costas, al�m de uma trouxa a seus p�s, ao lado de uma caixa de madeira surrada, trancada com um cadeado. O outro era um taireno de meia-idade, um homem esguio e bonito, de pele escura, com um chap�u de palha c�nico e um daqueles casacos de plebeus, que ficavam bem presos � cintura e largos mais embaixo, como uma saia curta. Uma adaga quebra-espada dentada pendia do cinto passado por cima do casaco, e o homem se apoiava em um cajado de madeira colada e estriada, com sua altura exata e a espessura de seu polegar. Um embrulho quadrado balan�ava no ombro, preso a um la�o. Elayne o conhecia, seu nome era Juilin Sandar.</p><p>Parecia �bvio que os dois homens n�o se conheciam. Apesar de estarem quase lado a lado, pareciam r�gidos e relutantes. No entanto, as aten��es pareciam igualmente dividias entre acompanhar o avan�o da Mestra das Velas at� o conv�s da popa e espiar Elayne e Nynaeve, cuja �bvia inseguran�a era mascarada por sua autoconfian�a brusca. Thom exibia um grande sorriso e afagava o longo bigode, assentindo cada vez que olhava as duas. Sandar, por sua vez, se curvava em mesuras firmes e solenes.</p><p>��N�o houve danos���anunciou Coine, subindo a escada.���Posso partir em uma hora, se lhes aprouver. At� antes, se conseguir encontrar um piloto taireno. Se n�o encontrar, navego sem ele, embora isso signifique que nunca mais voltarei a Tear.���Ela investigou com os olhos o que as duas Aceitas encaravam, virando-se para os dois homens.���Pediram passagens. O menestrel quer ir para Tanchico, e o ca�ador de ladr�es, para onde voc�s duas forem. N�o posso recus�-los, mas����Ela encarou Nynaeve e Elayne.���Se quiserem, farei isso.���Em sua voz, a relut�ncia em romper o costume parecia travar uma batalha com o desejo� de ajud�-las? De servir ao Coramoor?���O ca�ador de ladr�es � um homem bom, mesmo sendo costeiro. N�o se ofendam, pela Luz. O menestrel eu n�o conhe�o, mas um menestrel pode dar vida a uma viagem e animar as horas cansadas.</p><p>��Conhece Mestre Sandar?���perguntou Nynaeve.</p><p>��Por duas vezes ele capturou ladr�es que nos roubaram, e bem depressa. Outro costeiro teria levado mais tempo para poder cobrar mais. E parece �bvio que voc�s tamb�m o conhecem. Desejam que eu recuse passagem?���A relut�ncia ainda estava l�.</p><p>��Primeiro vamos descobrir por que eles est�o aqui���respondeu Nynaeve, em uma voz impass�vel que nada de bom prenunciava em rela��o aos homens.</p><p>��Talvez seja melhor eu falar���sugeriu Elayne, gentil, por�m firme.���Assim voc�s podem ficar de olho e ver se eles est�o escondendo alguma coisa.���N�o explicou que desse jeito evitaria que Nynaeve fosse tomada pela irrita��o, mas o sorriso ir�nico que a outra Aceita abriu denunciava que entendera exatamente isso.</p><p>��Muito bem, Elayne. Ficar vigiando. Talvez voc� possa se inspirar ao ver como mantenho a calma. Voc� sabe como fica quando est� exausta.</p><p>A Filha-herdeira teve que rir.</p><p>Os dois homens se aprumaram quando ela e Nynaeve se aproximaram. Ao redor deles, a tripula��o circulava em polvorosa, correndo at� os cordames, erguendo cordas, amarrando umas coisas e desamarrando outras, tudo sob as ordens da Mestra das Velas. Circulavam pelos quatro costeiros sem sequer olh�-los.</p><p>Elayne franziu a testa para Thom Merrilin, pensativa. Tinha certeza de que nunca vira o menestrel antes de sua apari��o na Pedra, mas sentira algo familiar nele logo que o notara. Era pouco prov�vel. Menestr�is eram artistas de aldeia, e a m�e jamais receberia um no pal�cio em Caemlyn. O �nico menestrel que Elayne recordava ter visto fora nas aldeias perto das propriedades rurais da m�e, e tinha certeza de que aquele gavi�o grisalho nunca passara por l�.</p><p>Decidiu falar primeiro com o ca�ador de ladr�es. Lembrou-se de que o homem insistia naquele t�tulo. O que era considerado apanhador de ladr�es em todos os outros lugares, em Tear era chamado de ca�ador de ladr�es, e a distin��o parecia importante para aquele em especial.</p><p>��Mestre Sandar���cumprimentou, em um tom grave.���Pode ser que n�o se lembre de n�s. Sou Elayne Trakand, e esta � minha amiga, Nynaeve al�Meara. Compreendo que o senhor pretende viajar para o mesmo destino que n�s. Posso saber o motivo? Da �ltima vez que nos vimos, o senhor n�o nos serviu muito bem.</p><p>O homem n�o piscou ao ouvi-la sugerir que poderia n�o se lembrar delas. Levou os olhos �s m�os das mo�as e notou a aus�ncia de an�is. Aqueles olhos escuros captavam e registravam tudo de forma indel�vel.</p><p>��Eu me lembro, Senhorita Trakand, e muito bem. Mas, se me perdoam, a �ltima vez que as servi foi na companhia de Mat Cauthon, quando tiramos as duas da �gua antes de serem acatadas por l�cios.</p><p>Nynaeve pigarreou, mas n�o muito alto. Fora em uma cela, n�o na �gua, e fora a Ajah Negra, n�o l�cios. A antiga Sabedoria n�o gostava de ser lembrada da ajuda de que haviam precisado naquele epis�dio. Decerto n�o teriam ido parar naquela cela se n�o fosse Juilin Sandar. N�o, n�o era justo dizer aquilo. Era verdade, mas n�o era justo.</p><p>��Muito bem���respondeu Elayne, de repente���mas o senhor ainda n�o disse por que quer ir para Tanchico.</p><p>Ele respirou fundo e encarou Nynaeve, desconfiado. Elayne n�o sabia se gostava muito de v�-lo ter mais cautela com a outra mulher do que com ela.</p><p>��Fui arrancado de casa menos de uma hora atr�s���explicou, escolhendo as palavras com cautela���por um homem que voc�s conhecem, eu acho. Um homem alto e com rosto de pedra, chamado Lan.���As sobrancelhas de Nynaeve se ergueram de forma bastante sutil.���Falou em nome de outro homem que voc�s conhecem. Um� pastor, pelo que disse. Recebi uma boa quantia de ouro para acompanh�-las. As duas. Ele me disse que, se voc�s n�o voltarem dessa viagem a salvo� Bem, vamos dizer que ser� melhor eu me matar afogado do que voltar para l�. Lan foi muito enf�tico, e o� pastor, n�o deixou a desejar na mensagem que enviou. A Mestra das Velas disse que s� posso seguir no navio se voc�s permitirem. Tenho habilidades que podem ser �teis.���O cajado rodopiou em suas m�os, um borr�o assobiante, e ent�o parou de repente. Ele tocou a adaga quebra-espada na cintura. Parecia uma espada curta, por�m sem ponta, com fendas para prender l�minas.</p><p>��Os homens sempre d�o um jeito de contornar nossas ordens���resmungou Nynaeve, mas n�o soou descontente.</p><p>Elayne apenas fechou a cara, irritada. Rand o mandara? Ainda n�o devia ter lido a segunda carta, quando o fez. <emphasis>Que o queime! Por que � que ele fica nesse pula-pula? N�o d� tempo de mandar outra carta, e � prov�vel que ele s� ficasse mais confuso. E me faria parecer ainda mais idiota. Que o queime!</emphasis></p><p>��E o senhor, Mestre Merrilin?���perguntou Nynaeve.���O pastou tamb�m mandou um menestrel atr�s da gente? Ou foi o outro homem? Para nos entreter com malabarismos e engoli��o de fogo, talvez.</p><p>Thom estivera observando Sandar com aten��o, mas desviou o olhar, pl�cido, e curvou-se em uma mesura elegante, estragando-a apenas com um floreio demasiado elaborado do manto coberto de retalhos.</p><p>��N�o foi o pastor, Senhorita al�Meara. Uma senhora que n�s dois conhecemos me pediu� <emphasis>pediu</emphasis>� para que eu acompanhasse as senhoritas. A mesma senhora que a encontrou em Campo de Emond, junto com o pastor.</p><p>��Por qu�?���perguntou Nynaeve, desconfiada.</p><p>��Eu tamb�m tenho habilidades �teis���respondeu Thom, dando uma olhadela para o ca�ador de ladr�es.���Al�m do malabarismo, quer dizer. E j� estive em Tanchico muitas vezes. Conhe�o bem a cidade. Sei onde encontrar boas estalagens, quais distritos s�o perigosos durante o dia, quais s�o perigosos � noite e quem precisa ser subornado para que a Guarda Civil n�o fique muito interessada nas suas atividades. Eles prestam muita aten��o aos estrangeiros. Posso ajudar em muitas coisas.</p><p>Aquela familiaridade deixou Elayne desconfiada outra vez. Antes de se dar conta do que estava fazendo, ergueu a m�o e deu um pux�o no longo bigode branco do homem. Thom se assustou, e ela levou as m�os � boca, vermelha de vergonha.</p><p>��Perdoe-me. Eu� eu me lembrei de j� ter feito isso antes. Quer dizer� Sinto muito, <emphasis>mesmo</emphasis>.���<emphasis>Luz, por que eu fiz isso? Ele deve estar pensando que sou uma idiota.</emphasis></p><p>��Eu� me lembraria���respondeu o menestrel, bem r�gido.</p><p>A Filha-herdeira torceu para que ele n�o tivesse se sentido afrontado. Era dif�cil decifrar sua express�o. Os homens conseguiam se ofender quando deveriam rir e rir quando deveriam se ofender. Se todos estavam indo viajar juntos� Foi a primeira vez que percebeu j� ter decidido que os dois poderiam acompanh�-las.</p><p>��Nynaeve?���chamou.</p><p>A outra mulher sem d�vida entendeu a pergunta n�o dita. Analisou os dois homens com muita aten��o, depois assentiu.</p><p>��Eles podem vir. Contanto que concordem em fazer o que dissermos. N�o vou aceitar que um homem descerebrado qualquer tome a frente e nos ponha em perigo.</p><p>��Como a senhorita ordenar, Senhorita al�Meara���respondeu Sandar, na mesma hora, fazendo uma mesura.</p><p>Thom, por�m, disse:</p><p>��Um menestrel � uma alma livre, Nynaeve, mas posso prometer que n�o as porei em perigo. Longe disso.</p><p>��� para fazer o que dissermos���repetiu Nynaeve, enf�tica.���Quero sua palavra, ou vai ver esse navio zarpar l� do p�er.</p><p>��Os Atha�an Miere n�o recusam passagem a ningu�m, Nynaeve.</p><p>��Acha que n�o? Ser� que o apanhador de ladr�es���Sandar fez careta���foi o �nico a ouvir que nossa permiss�o era necess�ria? � para fazer o que dissermos, <emphasis>Senhor</emphasis> Merrilin.</p><p>Thom jogou a cabe�a branca para tr�s feito um cavalo irritado e soltou uma bufada forte, mas enfim assentiu:</p><p>��Tem minha palavra, <emphasis>Senhorita</emphasis> al�Meara.</p><p>��Muito bem, ent�o���concluiu Nynaeve, com a voz revigorada.���Combinado. Voc�s dois v�o atr�s da Mestra das Velas pedir que ela por favor arrume um cub�culo bem longe das nossas vistas para enfiar voc�s. Agora saiam daqui. Depressa.</p><p>Sandar fez outra mesura e saiu. Thom estremeceu visivelmente antes de juntar-se a ele, r�gido.</p><p>��Ser� que n�o est� sendo muito dura com eles?���indagou Elayne, assim que os homens se afastaram o bastante para n�o ouvi-las. N�o precisaram ir muito longe, com todo o burburinho do conv�s.���Afinal de contas, teremos que viajar todos juntos. �Palavras suaves suavizam as companhias.�</p><p>��Melhor come�ar a agir como pretendemos prosseguir. Elayne, Thom Merrilin sabe muito bem que n�o somos Aes Sedai completas.���Ela baixou a voz e olhou em volta ao proferir as palavras. Ningu�m da tripula��o sequer olhava para elas, exceto pela Mestra das Velas, l� perto do conv�s da popa, onde ouvia o que diziam o alto menestrel e o ca�ador de ladr�es.���Os homens adoram uma fofoca, ent�o Sandar tamb�m vai ficar sabendo logo, logo. Eles n�o representariam nenhum problema para Aes Sedai, mas para duas Aceitas�? Na primeira chance, os dois come�ariam a tomar atitudes que pensam ser para o bem, independente do que diss�ssemos. N�o pretendo dar a eles sequer essa primeira chance.</p><p>��Talvez voc� tenha raz�o. Acha que sabem por que estamos indo a Tanchico?</p><p>Nynaeve fungou com desd�m.</p><p>��N�o, acho que se soubessem n�o estariam t�o animados. E acho melhor n�o contarmos at� que seja necess�rio.���Ela lan�ou a Elayne um olhar significativo. N�o havia necessidade de dizer que tamb�m n�o teria contado � Mestra das Velas, se tivesse sido escolha sua.���Ou�a bem esse ditado: �Se procurar problemas, encontrar� dezenas.�</p><p>��Voc� fala como se n�o confiasse neles, Nynaeve.���Elayne tinha vontade de dizer que a outra estava se comportando feito Moiraine, mas Nynaeve n�o apreciaria a compara��o.</p><p>��E podemos confiar? Juilin Sandar j� nos traiu antes. Sim, sim, eu sei que homem algum teria evitado aquilo, mas mesmo assim aconteceu. E Liandrin e as outras conhecem a cara dele. Vou ter que vesti-lo com roupas diferentes. Talvez mand�-lo deixar o cabelo crescer um pouco. Quem sabe um bigode, como aquele tro�o infestando a cara do menestrel. Talvez ajude.</p><p>��E Thom Merrilin?���perguntou Elayne.���Acho que podemos confiar nele. N�o sei por qu�, mas tenho essa sensa��o.</p><p>��Ele confessou que foi enviado por Moiraine���concordou Nynaeve, parecendo cansada.���Mas o que foi que n�o confessou? O que ela disse que ele n�o nos contou? Veio para nos ajudar, ou est� aqui por outro motivo? Moiraine est� sempre com aqueles jogos dela, ent�o confio nela quase tanto quanto em Liandrin. Moiraine vai usar n�s duas, eu e voc�, se for para ajudar a causa de Rand. Ou melhor, se for para servir aos planos que tem para Rand. Ela o levaria na coleira feito um cachorrinho, se pudesse.</p><p>��Moiraine sabe o que precisa ser feito, Nynaeve.���Pela primeira vez, Elayne ficou relutante em admitir aquilo. O que Moiraine sabia que tinha de ser feito podia muito bem acelerar os passos do Drag�o em dire��o a Tarmon Gai�don. Em dire��o � morte, talvez. Rand e o mundo estavam em lados opostos de uma balan�a. Era ing�nuo e infantil ela considerar os dois lados dessa balan�a equilibrados. E mesmo assim n�o ousava mov�-los, nem em sua mente, porque n�o tinha certeza de qual teria mais peso para ela.���Moiraine sabe mais do que ele���disse, com a voz firme.���Mais do que n�s.</p><p>��Talvez.���Nynaeve suspirou.���Mas n�o sou obrigada a gostar disso.</p><p>Cordas foram jogadas na proa, onde velas triangulares se abriram de repente, e o <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> afastou-se do ancoradouro. Mais velas apareceram, quadrados e tri�ngulos brancos e imensos, as cordas da popa foram desamarradas. Logo o navio adentrou o rio, fazendo uma grande curva em volta das embarca��es que aguardavam a hora de zarpar ancoradas no cais���um arco suave que terminou apontando para o sul, rio abaixo. O Povo do Mar conduzia o navio como um mestre cavaleiro conduziria um belo corcel. Aquela roda estranha e cheia de raios de madeira pontudos guiava o leme sempre que um dos tripulantes sem camisa a girava. Um homem, Elayne ficou aliviada em ver. A Mestra das Velas e a Chamadora de Ventos ficavam paradas de um dos lados da roda, e Coine emitia algumas ordens, �s vezes depois de uma consulta sussurrada � irm�. Toram observou durante um tempo, com uma express�o que parecia esculpida na t�bua de um deque, depois saiu do conv�s pisando duro.</p><p>Havia um taireno no conv�s da popa, um homem gorducho e de apar�ncia abatida, vestindo um casaco amarelo desbotado com mangas cinza bufantes e esfregando as m�os, nervoso. Fora levado a bordo �s pressas, enquanto a prancha de embarque era erguida. Um piloto que supostamente deveria conduzir o <emphasis>Bailador</emphasis> rio abaixo. De acordo com a lei tairena, navio algum tinha permiss�o de passar pelas Garras do Drag�o sem um piloto taireno a bordo. A falta de anima��o do homem decerto vinha de ficar sem fazer nada, pois mesmo que fornecesse alguma instru��o, o Povo do Mar n�o lhe daria ouvidos.</p><p>Murmurando algo sobre ir ver como era a cabine, Nynaeve desceu as escadas para o andar de baixo���para o deque inferior���mas Elayne ficou apreciando a brisa no conv�s e a sensa��o de partir. Viajar, conhecer lugares que nunca vira, era uma alegria. Jamais pensara que o faria, n�o daquele jeito. A Filha-herdeira de Andor talvez fizesse algumas visitas a outros reinos, al�m de tantas mais depois de subir ao trono, mas teria de ficar sempre presa �s conven��es e formalidades. N�o seriam como aquela experi�ncia. Gente do Povo do Mar descal�a e um navio zarpando em dire��o ao oceano.</p><p>A margem do rio deslizava bastante depressa enquanto o sol se erguia, e um ou outro conglomerado de casas de fazenda feitas de pedra ou de celeiros desertos e solit�rios surgiam e desapareciam logo em seguida. Mas n�o passaram por aldeia alguma. Tear n�o permitiria a exist�ncia de qualquer aldeia, por menor que fosse, no rio entre a cidade e o mar, pois at� a menorzinha de todas poderia algum dia competir com a capital. Os Gr�o-lordes controlavam os tamanhos das aldeias e cidades por todo o pa�s com uma taxa predial, que subia na mesma propor��o em que o n�mero de constru��es aumentava. Elayne tinha certeza de que nunca teriam permitido a prosperidade de Godan, na Ba�a de Remara, n�o fosse a suposta necessidade de uma presen�a de peso para vigiar Mayene de perto. De certa forma, era um al�vio deixar para tr�s um povo t�o tolo. Se pelo menos n�o tivesse que deixar um homem tolo para tr�s, junto com aquele povo.</p><p>O n�mero de barcos de pesca, a maioria pequenos���e todos cercados por nuvens de gaivotas e p�ssaros pescadores���aumentava � medida que o <emphasis>Bailador</emphasis> avan�ava, sobretudo depois que a embarca��o adentrou o labirinto de canais chamado de Garras do Drag�o. Os p�ssaros e os mastros compridos que prendiam as redes eram a �nica vista al�m dos juncos e capim-navalha balan�ando com a brisa, a n�o ser por algumas ilhas baixas onde cresciam �rvores estranhas e retorcidas, as ra�zes emaranhadas brotando do ch�o. Muitos barcos ficavam bem entre os juncos, mas trabalhavam sem redes. Em dado momento, Elayne avistou alguns perto da �gua limpa, onde homens e mulheres jogavam linhas com ganchos entre as algas e as puxavam de volta com peixes serpenteantes de listras escuras, todos do tamanho de um bra�o.</p><p>O piloto taireno come�ou a andar de um lado para o outro, ansioso, quando chegaram ao delta, com o sol a pino, e torceu o nariz para a tigela de peixe cozido com especiarias e o p�o que lhe ofereceram. Elayne comeu com vontade, limpando a tigela de cer�mica com os �ltimos peda�os de p�o, embora compartilhasse do inc�modo do homem. Passagens amplas e estreitas pareciam levar a todas as dire��es. Algumas terminavam de repente, ainda � vista, em uma muralha de juncos. N�o havia como dizer quais das outras desapareceriam da mesma forma abrupta ap�s a curva seguinte. Apesar disso, Coine n�o reduzia a velocidade do <emphasis>Bailador,</emphasis> nem hesitava em tra�ar o caminho. Era �bvio que sabia em quais canais entrar���ou a Chamadora de Ventos sabia���mas o piloto continuava resmungando sozinho, como se pensasse que fossem encalhar a qualquer momento.</p><p>Era fim de tarde quando a boca do rio surgiu � frente de s�bito, revelando a infinita superf�cie do Mar das Tempestades. O Povo do Mar fez um movimento com as velas, e o navio estremeceu de leve e parou de vez. Foi s� ent�o que Elayne percebeu um grande bote a remos deslizando depressa, parecia uma barata d��gua cheia de pernas. A pequena embarca��o sa�a de uma ilha onde algumas constru��es solit�rias estavam espalhadas ao redor de uma torre estreita e comprida. No topo, homens que pareciam pequeninos a dist�ncia esperavam sob o estandarte de Tear, tr�s luas crescentes em um campo vermelho e dourado. O piloto pegou a bolsa que Coine ofereceu sem dizer uma palavra e desceu correndo uma escada de cordas para o bote. Assim que ele subiu a bordo, as velas se abriram outra vez, e o <emphasis>Bailador</emphasis> enfrentou as primeiras ondas do mar aberto, erguendo-se de leve, abrindo caminho. O Povo do Mar correu at� os cordames e ergueu mais velas, e o navio disparou para o sudoeste, para longe da cidade.</p><p>Quando a �ltima faixa estreita de terra desapareceu no horizonte, as mulheres do Povo do Mar tiraram as blusas. Todas elas, at� a Mestra das Velas e a Chamadora de Ventos. Elayne n�o sabia para onde olhar. Todas as mulheres andavam para l� e para c�, seminuas, sem se preocuparem com os homens ao redor. Juilin Sandar parecia t�o constrangido quanto ela, e olhava, embasbacado, das mulheres para os pr�prios p�s, at� que saiu correndo para o deque inferior. Elayne n�o se deixaria abalar. Optou, em vez disso, por olhar para o lado e observar o mar.</p><p><emphasis>Costumes diferentes</emphasis>, lembrou a si mesma. <emphasis>Desde que n�o esperem que eu fa�a o mesmo. S� o pensamento quase a fez soltar uma risada hist�rica. De certo modo, era mais f�cil pensar na Ajah Negra do que nisso. Costumes diferentes. Luz!</emphasis></p><p>O c�u ficou roxo, com o sol opaco no horizonte. Golfinhos escoltavam a embarca��o, dando voltas e saltando logo ao lado. Mais adiante, cardumes de uma esp�cie de peixe brilhante azul-prateado irrompiam da superf�cie, deslizando pelo ar com as barbatanas esticadas por cinquenta passadas ou mais antes de mergulhar de volta na �gua azul-acinzentada e turbulenta. Elayne assistiu a uns doze mergulhos, estupefata, at� que os bichos n�o apareceram mais.</p><p>Os golfinhos, no entanto, com contornos reluzentes, eram uma maravilha, uma guarda de honra a conduzir o <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> de volta ao lugar a que pertencia. Ela os reconheceu pelas descri��es nos livros. Diziam que, se encontrassem algu�m se afogando, puxavam de volta para a costa. N�o sabia ao certo se acreditava, mas era uma bela hist�ria. Seguiu os animais pela lateral do navio at� a proa, onde eles brincavam com as ondas formadas e rolavam de lado para encar�-la, sem se afastar uma polegada sequer.</p><p>Chegara quase no ponto mais estreito da proa quando percebeu que Thom Merrilin estava bem � sua frente, sorrindo para os golfinhos com certa tristeza, o manto drapejando ao vento como a nuvem de velas acima. O homem j� guardara seus pertences. Parecia muito familiar. De verdade.</p><p>��N�o est� contente, Senhor Merrilin?</p><p>Ele a olhou de esguelha.</p><p>��Por favor, milady, pode me chamar de Thom.</p><p>��Est� bem, Thom. Mas n�o milady. Aqui sou apenas a senhorita Trakand.</p><p>��Como queira, Senhorita Trakand���concordou ele, esbo�ando um sorriso.</p><p>��Como pode ficar triste olhando esses golfinhos, Thom?</p><p>��Eles s�o livres���murmurou o homem, em um tom que n�o deixava claro se era uma resposta.���N�o precisam tomar decis�es, n�o t�m pre�os a pagar. Nenhuma preocupa��o na vida al�m de encontrar peixes para comer. E os tubar�es, imagino.</p><p>E os peixes-le�o. E provavelmente uma centena de coisas que desconhe�o. Na verdade, talvez n�o seja uma vida t�o invej�vel assim.</p><p>��Voc� os inveja?���O menestrel n�o respondeu, mas, de todo modo, n�o era a pergunta correta. Precisava faz�-lo sorrir outra vez. Ou melhor, gargalhar. De algum jeito, sabia que, se pudesse faz�-lo gargalhar outra vez, acabaria por lembrar-se de onde o conhecia. Escolheu outro assunto, um que talvez tocasse mais fundo o cora��o daquele homem.���Pretende compor a epopeia de Rand, Thom?���Epopeias eram para bardos, n�o menestr�is, mas um pouco de lisonja n�o faria mal.���A epopeia do Drag�o Renascido. Loial quer escrever um livro, sabia?</p><p>��Talvez eu fa�a isso, Senhorita Trakand. Talvez. Mas nem minha poesia nem o livro do Ogier far�o diferen�a a longo prazo. A longo prazo, nossas hist�rias n�o v�o sobreviver. Quando a pr�xima Era come�ar����Ele fez uma careta e deu um pux�o no bigode���Pensando bem, isso pode ser daqui a um ou dois anos. Como � que se marca o fim de uma Era? N�o pode sempre ser um cataclismo como a Ruptura. Por outro lado, se as Profecias forem verdade, este de agora ser�. Este � o problema com todo tipo de profecia. As originais est�o todas na L�ngua Antiga, e talvez at� em Alto Canto, portanto, quando n�o se sabe de antem�o o significado de alguma coisa, n�o h� como decifr�-la. Ser� que a inten��o era dizer o que est� escrito, ou ser� que foi apenas uma forma floreada de dizer algo completamente diferente?</p><p>��Voc� estava falando da sua epopeia���lembrou Elayne, tentando traz�-lo de volta, mas Thom balan�ou os cabelos brancos e desgrenhados.</p><p>��Estava falando de mudan�as. Minha epopeia, se eu a compuser, e tamb�m o livro de Loial, n�o ser�o nada al�m de sementes, isso se tivermos sorte. Os que conhecem a verdade morrer�o, e os netos de seus netos se lembrar�o de algo diferente. E os netos dos netos <emphasis>deles</emphasis>, de algo ainda mais diferente. Depois de duas dezenas de gera��es, talvez seja voc� a hero�na da hist�ria, n�o Rand.</p><p>��Eu?���Elayne deu risada.</p><p>��Ou talvez Mat, ou Lan. Talvez at� eu.���Thom abriu um sorriso, iluminando o rosto envelhecido.���Thom Merrilin. N�o um menestrel� mas o qu�? Quem � que pode dizer? Em vez de comer fogo, soltando pelas ventas. Jogando-o para l� e para c�, como uma Aes Sedai.���Ele fez um floreio com o manto.���Thom Merrilin, o her�i misterioso, derrubando montanhas e erguendo reis.���O sorriso virou uma sonora gargalhada.���Rand al�Thor vai ter � sorte se a pr�xima Era se lembrar do nome dele.</p><p>Elayne estava certa, n�o era coisa de sua cabe�a. Aquele rosto, aquela risada contagiante� Ela se lembrava do homem. Mas de onde? Thom precisava continuar falando.</p><p>��Sempre acontece assim? Acho que ningu�m tem d�vidas de que, por exemplo, Artur Asa-de-gavi�o conquistou um imp�rio. O mundo inteiro, ou quase.</p><p>��Asa-de-gavi�o, jovem Senhorita? Ele conquistou um imp�rio, sem d�vida, mas acha mesmo que fez tudo que os livros, hist�rias e epopeias afirmam? Da forma como descrevem? Que matou os cem melhores homens do ex�rcito inimigo, um a um? Que os dois ex�rcitos simplesmente ficaram ali parados enquanto um dos generais, um rei, duelava com cem homens?</p><p>��Os livros dizem que sim.</p><p>��N�o d� tempo entre o nascer e o p�r do sol para um �nico homem lutar cem duelos, garota.���Elayne quase o interrompeu� <emphasis>garota</emphasis>? Ela era a Filha-herdeira de Andor, n�o uma <emphasis>garota</emphasis>. Mas Thom parecia muito envolvido no discurso.���E isso foi s� mil anos atr�s. Vamos pensar ainda mais no passado, nas hist�rias mais antigas que conhe�o, da Era antes da Era das Lendas. Ser� que Mosk e Merk lutaram mesmo com lan�as de fogo, e ser� que eram gigantes? Elsbet foi mesmo rainha do mundo inteiro? E Anla, foi mesmo irm� dela? Ser� que Anla era a S�bia Conselheira, ou ser� que era outra pessoa? � o mesmo que perguntar de que tipo de animal vem o marfim, ou de que tipo de planta cresce a seda. Talvez a seda tamb�m venha de algum animal.</p><p>��N�o sei dessas outras quest�es���disse Elayne, um pouco s�ria, ainda com o ran�o de ter sido chamada de garota���mas voc� pode perguntar ao Povo do Mar sobre o marfim e a seda.</p><p>Thom riu outra vez���como ela esperava, embora a risada ainda n�o fizesse mais do que enfatizar a certeza de que o conhecia���mas, em vez de cham�-la de tola, como Elayne achava que aconteceria, o homem respondeu:</p><p>��Pr�tica e direta, como a m�e. Com os dois p�s no ch�o e poucos devaneios fantasiosos.</p><p>Ela ergueu um pouco o queixo e assumiu uma express�o mais fria. � certo que aceitara ser apenas a Senhorita Trakand, mas isso era demais. Aquele era um senhor agrad�vel, e ela queria resolver o enigma que o envolvia, mas tamb�m era um menestrel, afinal de contas, e n�o deveria falar de uma rainha em tom t�o �ntimo. Era estranho e revoltante, mas o homem parecia estar se divertindo. Se divertindo!</p><p>��Os Atha�an Miere tamb�m n�o sabem���continuou.���Eles s� veem umas poucas milhas das terras para al�m do Deserto Aiel, ao redor do punhado de portos onde t�m permiss�o de atracar. Esses lugares possuem muralhas altas, t�o bem vigiadas que eles sequer podem subir para ver o que h� do outro lado. Se um de seus navios� Ou melhor, se qualquer navio, j� que s� o Povo do Mar tem permiss�o de ir at� l�, aportar em qualquer outro lugar, o tal navio e a tripula��o n�o s�o vistos outra vez. E isso � praticamente tudo o que sei, depois de passar mais anos do que gosto de lembrar fazendo perguntas. Os Atha�an Miere guardam seus segredos, mas n�o acho que saibam muita coisa. Pelo que consegui descobrir, os cairhienos eram tratados da mesma forma quando ainda tinham o direito de cruzar o Caminho da Seda, pelo Deserto. Os mercadores cairhienos nunca viram nada al�m de uma cidade murada, e os que desviaram de seu caminho nunca mais voltaram.</p><p>Elayne percebeu que analisava o homem da mesma forma que analisara os golfinhos. Que tipo de homem era aquele? J� devia ter rido dela umas duas vezes���e <emphasis>estava</emphasis> se divertindo, por mais que ela odiasse admitir���mas, em vez disso, falava com a seriedade de� Bem, de um pai falando com uma filha.</p><p>��Pode ser que voc� encontre algumas respostas neste navio, Thom. Eles estavam indo para o leste antes de convencermos a Mestra das Velas a nos levar at� Tanchico. Estavam indo para Shara, a leste de Mayene pelo que disse o Mestre de Cargas. Isso deve ser depois do Deserto.</p><p>Thom a encarou por um instante.</p><p>��Shara, voc� disse? Nunca ouvi esse nome. Shara � uma cidade, um pa�s, ou os dois? Talvez eu aprenda um pouco mais.</p><p><emphasis>O que foi que eu falei?</emphasis>, perguntou-se a jovem. <emphasis>Eu disse algo que o fez pensar. Luz! Contei a ele que convencemos Coine a mudar os planos.</emphasis> Poderia n�o fazer diferen�a alguma, mas mesmo assim repreendeu a si mesma. Uma palavra descuidada a esse bom senhor talvez n�o fosse prejudic�-las, mas um deslize assim poderia mat�-la em Tanchico, e a Nynaeve tamb�m, sem falar no ca�ador de ladr�es e no pr�prio Thom. Se ele fosse mesmo um bom senhor.</p><p>��Thom, por que voc� veio com a gente? S� porque Moiraine pediu?</p><p>O homem sacudiu os ombros, e Elayne percebeu que ele estava rindo sozinho.</p><p>��Quanto a isso, quem � que pode dizer? N�o � f�cil resistir a um pedido de uma Aes Sedai. Talvez tenha sido a perspectiva dessa sua companhia agrad�vel durante a viagem. Ou talvez eu tenha decidido que Rand j� tem idade suficiente para se cuidar sozinho, por um tempo.</p><p>Thom riu alto, e ela teve que rir junto. A ideia de este senhorzinho de cabe�a branca cuidando de Rand. A sensa��o de que podia confiar nele veio outra vez, mais forte do que nunca, enquanto o menestrel olhava para ela. N�o porque o homem era capaz de rir de si mesmo, ou n�o s� por causa disso. N�o tinha qualquer motivo al�m do fato de que, ao olhar para aqueles olhos azuis, n�o conseguia se convencer de que aquele homem faria qualquer mal a ela.</p><p>O �mpeto de puxar o bigode dele outra vez era quase incontrol�vel, mas Elayne for�ou as m�os a ficarem im�veis. Afinal de contas, n�o era uma crian�a. Uma crian�a. Ela abriu a boca���e de repente a cabe�a esvaziou-se de tudo o mais.</p><p>��Por favor, Thom, me d� licen�a���disse, mais do que depressa.���Eu preciso� Com licen�a.</p><p>Ela disparou depressa em dire��o � popa, sem esperar resposta. O homem deve ter pensado que o balan�o do navio a deixada de est�mago embrulhado. O <emphasis>Bailador</emphasis> ia para cima e para baixo cada vez mais r�pido, abrindo caminho mais depressa entre as grandes ondas do mar enquanto o vento refrescava o conv�s.</p><p>Havia dois homens diante da roda no conv�s da popa, e era necess�ria a for�a dos dois para manter a embarca��o em curso. A Mestra das Velas n�o estava por perto, mas a Chamadora de Ventos, sim, apoiada no gradil em frente aos condutores, seminua, assim como os homens, estudando o c�u onde nuvens intumescidas pareciam mais intensas do que o oceano. Pela primeira vez, n�o foi a vestimenta de Jorin���ou a falta dela���que incomodou Elayne. O brilho de uma mulher tocando <emphasis>saidar</emphasis> a envolveu, claramente vis�vel apesar da luz ofuscante. Fora isso o que sentira, o que a atra�ra. Uma mulher canalizando.</p><p>Elayne parou perto do conv�s da popa para observar o que a mulher fazia. Os fluxos de Ar e �gua que a Chamadora de Ventos urdia eram delgados, mas a trama era intrincada, quase delicada, e tocava as �guas at� onde os olhos podiam ver, uma teia que o ligava ao c�u. O vento aumentou mais e mais. Os condutores mantinham a firmeza, e o <emphasis>Bailador</emphasis> voava mar adentro. A urdidura parou, o brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> desapareceu, e Jorin desabou no gradil, apoiada nas pr�prias m�os.</p><p>Elayne subiu as escadas em sil�ncio, mas a mulher do Povo do Mar comentou em voz suave, sem virar a cabe�a, assim que ela se aproximou o suficiente para ouvir:</p><p>��No meio do trabalho, pensei que voc� estivesse me observando. N�o podia parar, pois poderia ter acontecido uma tempestade que nem o <emphasis>Bailador</emphasis> seria capaz de contornar. O Mar das Tempestades tem um nome muito apropriado, e j� descarrega muitos ventos ruins sem que eu precise ajudar. Eu n�o tinha a menor vontade de fazer isso, mas Coine disse que precisamos ir depressa. Por voc�s, e pelo Coramoor.���Ela ergueu os olhos e encarou o c�u.���Esse vento vai durar at� amanh�, se aprouver � Luz.</p><p>��� por isso que o Povo do Mar n�o leva Aes Sedai?���perguntou Elayne, sentando-se no gradil, ao lado da mulher.���Para que a Torre n�o descubra que as Chamadoras de Ventos conseguem canalizar. � por isso que foi voc� quem deu a palavra final em rela��o � nossa viagem, e n�o sua irm�. Jorin, a Torre n�o vai tentar impedir voc�s. N�o existe qualquer lei na Torre que impe�a uma mulher de canalizar, mesmo que n�o seja Aes Sedai.</p><p>��Sua Torre Branca vai interferir. Vai tentar vir atr�s dos nossos navios, onde somos livres da terra e dos homens da terra. Vai tentar nos atar a ela e nos afastar do mar.���Ela soltou um suspiro pesado.���N�o tem como chamar de volta a onda que j� passou.</p><p>Elayne desejou poder dizer � mulher que n�o era assim, mas a Torre ia mesmo atr�s de mulheres e meninas que pudessem aprender a canalizar para aumentar o n�mero de Aes Sedai���atualmente em decl�nio, em compara��o ao que um dia fora���e tamb�m por causa do perigo de aprender sem orienta��o. Na verdade, uma mulher capaz de aprender a tocar a Fonte Verdadeira costumava ir parar na Torre independentemente de sua vontade, pelo menos at� obter treinamento suficiente para n�o matar a si mesma ou outros por acidente.</p><p>Depois de um instante, Jorin prosseguiu:</p><p>��N�o somos todas n�s. S� algumas. Mandamos algumas meninas para Tar Valon, para que as Aes Sedai n�o venham procurar entre n�s. Nenhum navio leva Aes Sedai se a Chamadora de Ventos for capaz de urdir o vento. Quando voc�s se apresentaram, achei que deviam me conhecer, mas n�o disseram nada e pediram passagem, ent�o pensei que talvez n�o fossem Aes Sedai, apesar dos an�is. Que esperan�a mais tola. Eu devia ter sentido a for�a das duas. E agora a Torre Branca vai saber.</p><p>��N�o posso prometer guardar seu segredo, mas farei todo o poss�vel.���A mulher merecia mais.���Jorin, juro pela honra da Casa Trakand, de Andor, que farei o poss�vel para proteger seu segredo de qualquer um que possa fazer mal a voc� ou ao seu povo. Se tiver que revel�-lo a algu�m, farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger seu povo de qualquer interfer�ncia. A Casa Trakand tem muita influ�ncia, mesmo na Torre.���<emphasis>E farei a m�e usar essa influ�ncia se for preciso. De alguma forma.</emphasis></p><p>��Tudo ficar� bem, se aprouver � Luz���respondeu Jorin, em um tom fatal�stico.���Tudo ficar� bem, e todos ficar�o bem, e tudo que for coisa ou criatura ficar� bem, se aprouver � Luz.</p><p>��Tinha uma <emphasis>damane</emphasis> naquele navio Seanchan, n�o tinha?���A Chamadora de Ventos a encarou com um olhar intrigado.���Uma das mulheres prisioneiras capazes de canalizar.</p><p>��Voc� � capaz de enxergar os detalhes mais profundos, para algu�m t�o jovem. � por isso que de in�cio pensei que n�o fosse Aes Sedai, porque � muito jovem. Tenho filhas mais velhas do que voc�, eu acho. N�o sabia que a mulher era prisioneira. Saber disso me faz querer ter sido capaz de salv�-la. J� t�nhamos ouvido falar dos Seanchan e de seus navios com velas acanaladas, de como eles exigiam juramentos estranhos e puniam os que n�o eram capazes de conced�-los. O <emphasis>Bailador</emphasis> ultrapassou a embarca��o Seanchan com facilidade, a princ�pio. Mas ent�o a� <emphasis>damane</emphasis>? Ela quebrou dois dos nossos mastros, e a tripula��o embarcou com espadas. Consegui botar fogo na embarca��o Seanchan. Para mim, � muito dif�cil urdir Fogo para fazer qualquer coisa al�m de acender um lampi�o, mas aprouve � Luz que fosse o suficiente, e Toram conduziu a tripula��o para lutar com os Seanchan e mand�-los de volta ao pr�prio conv�s. Soltamos os ganchos de bordo, e o navio saiu � deriva, em chamas. Estavam muito ocupados em proteg�-lo para se incomodar com nosso afastamento atribulado. Mas eu me arrependi de v�-lo incendiar e naufragar, acho que era um excelente navio para mares violentos. Agora me arrependo porque dever�amos ter salvado a mulher, a <emphasis>damane</emphasis>. Mesmo que tenha danificado o <emphasis>Bailador</emphasis>, talvez n�o tivesse feito isso se estivesse solta. Que a Luz ilumine sua alma, e que as �guas a levem em paz.</p><p>Contar a hist�ria deixara a mulher triste. Ela precisava ser distra�da.</p><p>��Jorin, por que os Atha�an Miere s� d�o nomes masculinos aos navios? Os nossos nomes s�o sempre femininos� Acho que n�o faz muita diferen�a, mas por qu�?</p><p>��Os homens v�o dar uma explica��o diferente���explicou a Chamadora de Ventos, sorrindo���v�o falar de for�a, grandeza, essas coisas, mas a verdade � a seguinte: um navio tem vida pr�pria, � como um homem; tem o cora��o de um verdadeiro homem.���Ela esfregou o gradil com carinho, como se afagasse um ser vivo, algu�m que pudesse sentir seu cuidado.���Trate-o bem, cuide dele direito, e o ver� lutar por voc� com o mais terr�vel dos mares. O navio lutar� por sua vida mesmo depois que o mar tiver desferido o golpe de morte. Negligencie-o, ignore os pequenos avisos que ele emite quando oferece perigo, e o navio afundar� mesmo em um mar plano sob o c�u azul.</p><p>Elayne esperou que Rand n�o fosse assim, t�o caprichoso. <emphasis>Ent�o por que ele fica pulando para l� e para c�, ora feliz em me ver ir embora ora mandando Juilin Sandar atr�s de mim?</emphasis> Disse a si mesma para parar de pensar no rapaz. Rand estava muito longe. Nada podia ser feito em rela��o a ele, naquele momento.</p><p>Olhou por cima do ombro em dire��o � proa. Thom n�o estava mais l�. Tinha certeza de que encontrara a chave daquele enigma logo antes de sentir a Chamadora de Ventos canalizando. Algo a ver com o sorriso dele. O que quer que fosse, j� n�o estava mais l�. Bem, pretendia encontrar a resposta outra vez antes que eles chegassem a Tanchico, mesmo que tivesse de montar guarda no homem. Mas ele ainda estaria l� de manh�.</p><p>��Jorin, quanto tempo falta at� chegarmos em Tanchico? Ouvi dizer que os forcadores s�o os navios mais velozes do mundo, mas qu�o r�pidos s�o?</p><p>��Em Tanchico? Para servir ao Coramoor, n�o vamos fazer paradas em nenhum porto no caminho. Talvez dez dias, se eu conseguir tecer bem os ventos, se aprouver � Luz que eu encontre as boas correntes. Talvez at� em sete ou oito, com a gra�a da Luz.</p><p>��Dez dias?���repetiu Elayne, surpresa.���N�o pode ser.</p><p>Ela vira os mapas, afinal.</p><p>O sorriso da Chamadora era metade orgulho, metade satisfa��o.</p><p>��Como voc� mesma disse, s�o os navios mais velozes do mundo. O segundo mais veloz leva esse tempo e mais metade para cruzar qualquer trecho, e a maioria leva mais que o dobro de dias. As embarca��es que navegam perto da costa e ancoram nas �guas rasas toda noite����a mulher fungou, com desd�m���levam dez vezes mais.</p><p>��Jorin, voc� me ensinaria a fazer o que acabou de fazer?</p><p>A Chamadora de Ventos a encarou, os olhos negros cintilando � luz fraca.</p><p>��Ensinar voc�? Mas voc� � Aes Sedai.</p><p>��Jorin, nunca urdi um fluxo com a metade da espessura desses que voc� estava manipulando. E com esse alcance! Estou impressionada.</p><p>A Chamadora de Ventos encarou Elayne por mais um instante, estupefata, parecendo tentar gravar o rosto da mo�a na mem�ria. Enfim beijou os dedos da m�o direita e pressionou-os aos l�bios de Elayne.</p><p>��Se aprouver � Luz, ambas aprenderemos.</p></section><section><title><p>21</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Dentro do Cora��o</p></title><p>A nobreza tairena lotava a grande c�mara subterr�nea, cujas imensas colunas de pedra vermelha polida, cada uma com dez p�s de espessura, avultavam-se na escurid�o acima dos lustres dourados, pendendo de correntes tamb�m douradas. Gr�o-lordes e Gr�-ladies estavam ordenados em c�rculo, uma massa compacta de gente sob o enorme domo no cora��o da c�mara, os menos nobres mais atr�s. Havia fileiras e mais de fileiras de gente entre a selva de colunas, todos em seus melhores veludos e rendas, com mangas largas, golas bufantes e chap�us pontudos, todos murmurando, inquietos, os grasnados nervosos ecoando pelo teto alto. Apenas os Gr�o-lordes j� haviam sido convocados �quele lugar, o Cora��o da Pedra, e ali compareciam n�o mais que quatro vezes por ano, atendendo ao mesmo tempo �s demandas da lei e dos costumes. Todos os que n�o se encontravam em algum lugar do interior tinham vindo, convocados por seu novo senhor, que criava novas leis e quebrava os costumes.</p><p>A multid�o amontoada abriu caminho para Moiraine assim que viram quem era, de forma que ela e Egwene avan�aram com bastante espa�o entre as pessoas. A aus�ncia de Lan irritava Moiraine. N�o era t�pico do homem desaparecer quando ela poderia precisar dele. Lan costumava trat�-la como se ela fosse incapaz de se defender sem um guardi�o, inclusive. Se n�o pudesse sentir o elo que os unia e saber que ele n�o estava muito distante da Pedra, teria ficado preocupada.</p><p>Lan lutava contra as cordas que Nynaeve amarrava nele com o mesmo vigor com que combatera os Trollocs na Praga, mas, por mais que negasse, a jovem o prendera com tanta for�a quanto a ela pr�pria, embora de outras formas. Tentar desfazer aqueles elos era o mesmo que se dispor a romper a�o com as m�os. Moiraine n�o era ciumenta, n�o exatamente, mas Lan fora seu bra�o armado, escudo e companheiro por muitos anos para que abrisse m�o dele assim, t�o f�cil. <emphasis>Fiz o que tinha de fazer. Se eu morrer, ela ficar� com ele. Mas n�o antes disso. Onde est� esse homem? E fazendo o qu�?</emphasis></p><p>Uma mulher de vestido vermelho rendado, uma Senhora da Terra com cara de cavalo, chamada Leitha, ergueu as saias com um zelo um pouco excessivo, e Moiraine a encarou. Fez isso muito brevemente e sem reduzir o passo, mas a mulher estremeceu e baixou os olhos. A Aes Sedai assentiu para si mesma. Conseguia entender que aquelas pessoas odiavam as Aes Sedai, mas n�o toleraria grosserias descaradas al�m do menosprezo velado. Al�m do mais, o restante se retraiu um pouco mais depois de ver Leitha baixar o rosto.</p><p>��Tem certeza de que ele n�o comentou nada sobre o que pretende anunciar?���perguntou, baixinho.</p><p>No meio do burburinho, ningu�m a tr�s passadas de dist�ncia seria capaz de distinguir uma palavra. Os tairenos estavam a essa dist�ncia. Ela n�o gostava de ser entreouvida.</p><p>��Nada���respondeu Egwene, tamb�m baixinho. Soava t�o irritada quanto Moiraine.</p><p>��Houve rumores.</p><p>��Rumores? Que tipo de rumores?</p><p>A garota n�o era muito boa em controlar a express�o ou a voz, e claramente n�o ouvira os boatos sobre os acontecimentos em Dois Rios. Mas pensar o mesmo de Rand seria como deixar o cavalo solto e torcer para ele n�o fugir.</p><p>��Egwene, deveria encoraj�-lo a dividir seus pensamentos com voc�. Ele precisa de um ouvido amigo. Pode ser de alguma ajuda falar dos problemas com algu�m de confian�a.</p><p>A Aceita lan�ou um olhar de esguelha a Moiraine. Estava se tornando sofisticada demais para m�todos t�o simples. Ainda assim, a Aes Sedai dissera a verdade nua e crua: o rapaz de fato precisava de algu�m para ouvi-lo, algu�m que, ao faz�-lo, suavizasse o peso de seus fardos. E isso poderia funcionar.</p><p>��Ele n�o divide nada com ningu�m, Moiraine. Esconde as dores que sente, espera ser capaz de lidar com elas antes que algu�m perceba.���A raiva faiscou no rosto de Egwene.���Aquela mula cabe�a de l�!</p><p>Moiraine sentiu uma leve compaix�o. N�o dava para esperar que a garota aceitasse ver Rand e Elayne passeando de bra�os dados e trocando beijos pelos cantos, quando pensavam n�o estar sendo vistos. E Egwene n�o sabia nem da metade. A pena n�o durou. Havia muitas outras coisas importantes com que se preocupar do que uma garota choramingando pelo que n�o poderia ter, mesmo se quisesse.</p><p>�quela altura, Elayne e Nynaeve deviam estar a bordo do forcador, fora do caminho. A viagem esclareceria se as suspeitas que tinha acerca das Chamadoras de Ventos estavam corretas. Mas aquilo era um ponto menos importante. Na pior das hip�teses, as duas tinham dinheiro o bastante para comprar um navio e contratar uma tripula��o���o que talvez fosse necess�rio, dados os rumores em rela��o a Tanchico���com bastante de sobra para os subornos, uma necessidade t�o frequente para lidar com os oficiais tarabonianos. O quarto de Thom Merrilin estava vazio, e os informantes de Moiraine relataram t�-lo ouvido resmungando sobre Tanchico ao sair da Pedra. O menestrel garantiria que as mo�as arrumariam uma boa tripula��o e encontrariam os oficiais certos. O suposto plano para Mazrim Taim era a mais prov�vel das duas possibilidades, mas suas mensagens � Amyrlin decerto tinham dado conta disso. As duas jovens estariam mais aptas a lidar com a chance muito menos prov�vel de um perigo misterioso oculto em Tanchico, al�m de n�o a perturbarem mais e estarem longe de Rand. Moiraine s� achava ruim que Egwene tivesse se recusado a ir com as duas. Tar Valon teria sido o melhor destino para as tr�s, mas Tanchico estava de bom tamanho.</p><p>��Falando em cabe�a de l�, voc� pretende seguir em frente com esse plano de ir para o Deserto?</p><p>��Pretendo���respondeu a garota, com firmeza.</p><p>Egwene precisava voltar � Torre, treinar sua for�a. <emphasis>O que Siuan tinha na cabe�a? Quando eu perguntar, ela deve responder com um dos seus ditados sobre barcos e peixes.</emphasis></p><p>Pelo menos Egwene tamb�m ficar� fora do caminho, e a garota Aiel vai cuidar dela. Talvez as S�bias possam mesmo ensinar a ela algo sobre os Sonhos. A carta que recebera fora muito surpreendente, mas n�o podia se dar ao luxo de seguir quase nada do que fora pedido. A longo prazo, a viagem de Egwene at� o Deserto poderia ser �til.</p><p>A �ltima fileira de tairenos abriu passagem, formando um pequeno v�o, e ela e Egwene encararam a �rea livre sob a imensa ab�bada. A inquieta��o dos nobres era mais evidente, ali na frente. Muitos olhavam os pr�prios p�s, como crian�as emburradas, outros encaravam o nada, mirando tudo, menos o ponto onde as duas estavam. Era ali que ficava <emphasis>Callandor,</emphasis> antes de Rand tomar posse dela. Ali, sob aquele domo, intocada por qualquer m�o por mais de tr�s mil anos, intoc�vel por qualquer m�o que n�o a do Drag�o Renascido. Os tairenos n�o gostavam de admitir a exist�ncia do Cora��o da Pedra.</p><p>��Coitada���murmurou Egwene.</p><p>Moiraine acompanhou o olhar da mo�a. A Gr�-lady Alteima, j� no vestido rufado, capa e chap�u de um branco reluzente que era moda das vi�vas tairenas, embora o marido ainda persistisse, devia ser a mais composta de todas as nobres. Era uma mulher esguia e encantadora���ainda mais por conta do sorrisinho triste���com grandes olhos castanhos e cabelos negros e compridos at� a cintura. Uma mulher alta, embora Moiraine admitisse que tendia a julgar essas coisas de acordo com a pr�pria altura, e de seios um tanto fartos. Os cairhienos n�o eram um povo de estatura alta, e a Aes Sedai era considerada baixa mesmo entre eles.</p><p>��Sim, coitada���disse, mas n�o por compaix�o.</p><p>Era bom ver que Egwene ainda n�o tinha sofistica��o suficiente para sempre ver o que havia por sob a superf�cie. A garota j� era muito menos male�vel do que deveria continuar a ser por muitos anos. Precisava ser moldada antes de endurecer.</p><p>Thom falhara com Alteima. Ou talvez tivesse se obrigado a n�o ver, pois parecia sentir uma estranha relut�ncia em enfrentar mulheres. A Gr�-lady Alteima era muito mais perigosa do que o marido ou o amante, ambos manipulados por ela sem notarem. Talvez fosse mais perigosa do que qualquer um em Tear, homem ou mulher. Ela em breve encontraria outros a quem usar. Era o estilo de Alteima se manter nos bastidores e manejar os cordames. Algo precisava ser feito em rela��o a ela.</p><p>Moiraine correu os olhos pelas fileiras de Gr�o-lordes e Gr�-ladies at� encontrar Estanda, vestida em sedas amarelas brocadas, com um babado imenso de renda marfim e um pequenino chap�u combinando. Uma rigidez marcava a beleza de seu rosto, e os olhares que ela volta e meia disparava a Alteima eram duros como ferro. O sentimento de uma pela outra ultrapassava a mera rivalidade. Se fossem homens, havia muito j� teriam derramado sangue em um duelo. Se esse antagonismo pudesse ser refor�ado, Alteima ficaria ocupada demais para arranjar problemas para Rand.</p><p>Por um instante, Moiraine se arrependeu de ter mandado Thom embora. N�o gostava de ter que perder tempo com aquelas quest�es menores. Mas o menestrel tinha muita influ�ncia sobre Rand, e o rapaz precisava depender da orienta��o dela. Somente dela. A Luz sabia que ele j� era dif�cil o bastante sem interfer�ncia. Thom estava ajudando o rapaz a se aquietar e governar Tear, mas o Drag�o deveria estar buscando feitos maiores. Contudo, por enquanto, o assunto estava encerrado. A quest�o de p�r Thom Merrilin na linha podia ser contornada mais tarde. Rand era o dilema, no momento. O que pretendia anunciar?</p><p>��Onde � que ele est�? Pelo que vejo, j� aprendeu a primeira arte dos reis: fazer os outros esperarem.</p><p>N�o percebeu que falara em voz alta at� notar o olhar surpreso de Egwene. Na mesma hora, suavizou a irrita��o no rosto. Uma hora Rand apareceria, e ela descobriria o que ele queria fazer. Junto com todo mundo. Moiraine quase rangeu os dentes. Aquele garoto cego e tolo, avan�ando impetuosamente no meio da noite, sem se importar com os desfiladeiros, sem jamais pensar que poderia arrastar o mundo junto consigo. Se ao menos pudesse evitar que ele voltasse correndo para salvar a pr�pria aldeia. Ele iria querer, mas n�o podia se dar ao luxo de faz�-lo agora. Talvez n�o soubesse do acontecido, dava para ter essa esperan�a.</p><p>Mat estava diante delas, do outro lado do c�rculo, despenteado e com a postura meio curvada, as m�os nos bolsos do casaco verde de gola alta, que usava meio desabotoado, como de costume, e as botas estavam todas arranhadas. Era um contraste com a eleg�ncia estudada � sua volta. Ele se remexeu, nervoso, quando notou que Moiraine o encarava, depois escancarou um de seus sorrisos desaforados. Pelo menos estava ali, � vista dela. Era muito exaustivo manter o olho vivo em Mat Cauthon, ele se esquivava f�cil de seus espi�es. Jamais dava ind�cios de notar a presen�a deles, mas os agentes de Moiraine relatavam que o rapaz escapava sorrateiro sempre que se aproximavam demais.</p><p>��Acho que ele dorme de casaco���comentou Egwene, com desaprova��o na voz.���E de prop�sito. Onde ser� que est� Perrin?���Ela subiu nas pontas dos p�s, tentando perscrutar por sobre o ajuntamento de cabe�as.���N�o consigo encontr�-lo.</p><p>Franzindo o cenho, Moiraine fez uma varredura na multid�o, ainda que n�o fosse capaz de distinguir muita coisa atr�s da primeira fileira. Lan poderia estar l� atr�s, entre as colunas. Mas n�o iria se esfor�ar muito nem erguer-se nas pontas dos p�s, feito uma crian�a ansiosa. Lan ouviria um belo serm�o quando pusesse as m�os nele. Com Nynaeve puxando para um lado e os <emphasis>ta�veren</emphasis>���Rand, pelo menos���aparentemente puxando para o outro, ela �s vezes se perguntava como andava a for�a do elo entre eles dois. Pelo menos o tempo que ele passara com Rand fora �til, deu a ela mais uma corda para amarrar o jovem.</p><p>��Talvez ele esteja com Faile���continuou Egwene.���Ele n�o teria fugido, Moiraine. Perrin tem um senso de dever muito forte.</p><p>Quase t�o forte quanto o de um Guardi�o, Moiraine sabia, por isso que n�o mantinha seus olhos-e-ouvidos t�o atentos a ele como fazia com Mat.</p><p>��Faile tem tentado convenc�-lo a ir embora, garota.���Era muito prov�vel que Perrin estivesse com ela, quase sempre estava.���N�o fa�a essa cara de surpresa. Eles conversam e discutem muito em locais onde podem ser ouvidos.</p><p>��Minha surpresa n�o � por voc� saber���retrucou Egwene, em um tom seco���mas por Faile estar tentando dissuadi-lo de algo que ele sabe que tem de fazer.</p><p>��Talvez ela n�o acredite nisso tanto quanto ele.</p><p>A pr�pria Moiraine a princ�pio n�o acreditou, nem percebeu. Tr�s <emphasis>ta�veren</emphasis>, todos da mesma idade, sa�dos da mesma aldeia. Ela s� podia estar cega para n�o ter percebido que estavam conectados. Tudo ficara muito complicado depois que descobriu isso. Era como tentar equilibrar tr�s daquelas bolas coloridas de Thom em uma �nica m�o���e com os olhos vendados. J� vira Thom fazer isso, mas n�o sentia vontade de tentar. N�o havia qualquer orienta��o a respeito da forma como eles se conectavam ou do que deveriam fazer, as Profecias nunca mencionaram companheiros.</p><p>��Eu gosto dela���comentou Egwene.���Faile � boa para ele, � justo o que Perrin precisa. E se importa muito com ele.</p><p>��Creio que sim.</p><p>Se Faile come�asse a criar muitos problemas, Moiraine teria uma conversinha com ela sobre os segredos que a jovem andava escondendo de Perrin. Ou deixaria seus olhos-e-ouvidos fazerem esse trabalho. Isso a sossegaria.</p><p>��Voc� fala como se n�o acreditasse. Eles se amam, Moiraine. Voc� n�o v�? Ser� que n�o � capaz nem de reconhecer um sentimento humano?</p><p>Moiraine lan�ou a ela um olhar firme, o suficiente para faz�-la parar de ficar na ponta dos p�s, o que foi bem satisfat�rio. A garota sabia t�o pouco e pensava que sabia tanto. Moiraine estava prestes a dizer isso a ela sem meias-palavras, mas arquejos assustados e temerosos se elevaram entre os tairenos.</p><p>A multid�o abriu caminho depressa, mais do que �vida, os da frente empurrando sem piedade os que estavam mais atr�s, formando um caminho largo at� o espa�o sob a ab�bada. Rand caminhou por esse corredor a passos largos, olhando para a frente, imperioso, em um casaco vermelho bordado com arabescos dourados nas mangas, trazendo <emphasis>Callandor</emphasis> nas m�os feito um cetro. Por�m, n�o era apenas para ele que os tairenos abriam caminho. Atr�s vinham cem Aiel, trazendo nas m�os lan�as e arcos com flechas encaixadas, as cabe�as envoltas em <emphasis>shoufas</emphasis>, v�us negros que escondiam tudo, menos os olhos. Moiraine pensou ter reconhecido Rhuarc na dianteira, logo atr�s de Rand, mas apenas pelos movimentos. Estavam todos an�nimos. Prontos para matar. Estava claro, independentemente de qual fosse o recado, que Rand pretendia reprimir qualquer resist�ncia antes que houvesse chance de ganhar for�a.</p><p>Os Aiel pararam de repente, mas Rand seguiu em frente at� ficar abaixo do centro do domo, depois passou os olhos pela multid�o. Pareceu surpreso ao ver Egwene, talvez transtornado, mas lan�ou a Moiraine um sorriso que a deixou furiosa, e, a Mat um que fez os dois parecerem garotos quando este sorriu de volta. Os tairenos estavam p�lidos, sem saber se encaravam Rand e <emphasis>Callandor</emphasis> ou os Aiel velados. Ambos podiam trazer a morte.</p><p>��O Gr�o-lorde Sunamon���come�ou Rand de repente, em um tom alto, fazendo o sujeito gordinho dar um salto���me garantiu um acordo com Mayene seguindo � risca minhas diretrizes. Ele deu a vida como garantia.���Rand riu como se contasse uma piada, e a maioria dos nobres o acompanhou. Mas n�o Sunamon, que parecia bem enjoado.���Em caso de falha���continua o rapaz���ele concorda que ser� enforcado, e vai aceitar seu destino.</p><p>Os risos pararam. O rosto de Sunamon assumiu um tom esverdeado, meio doente. Egwene lan�ou a Moiraine um olhar aflito enquanto agarrava a saia com ambas as m�os. A Aes Sedai apenas esperava: Rand n�o reunira todos os nobres em um raio de dez milhas para revelar um acordo, nem para amea�ar um gordo idiota. Ela se for�ou a tirar as m�os das saias.</p><p>Rand foi se virando em c�rculo, ponderando os rostos que via.</p><p>��Por conta deste acordo, em breve haver� navios dispon�veis para levar os gr�os tairenos para oeste, � busca de novos mercados.���Ouviu-se alguns murm�rios apreciativos que logo foram sufocados.���Mas tem mais. Os ex�rcitos de Tear entrar�o em marcha.</p><p>Houve uma vibra��o de aplausos, gritos tumultuados ecoaram pelo teto. Os homens pulavam, at� mesmo os Gr�o-lordes, sacudindo as m�os sobre as cabe�as e jogando para cima os chap�us pontudos de veludo. As mulheres, sorrindo com o mesmo entusiasmo dos homens, beijavam nas bochechas os que iriam para a guerra e cheiravam delicadamente as pequenas garrafinhas de porcelana com sais, sem as quais mulher alguma vivia, fingindo ter ficado tontas com a not�cia.</p><p>��Illian cair�!���gritou algu�m, e centenas de vozes se seguiram como trov�es:</p><p>��Illian cair�! Illian cair�! Illian cair�!</p><p>Moiraine viu os l�bios de Egwene se mexendo, as palavras abafadas pelo j�bilo da multid�o. Mas conseguia l�-los.</p><p>��N�o, Rand. N�o, por favor. N�o, por favor.</p><p>Do lado oposto do rapaz, Mat exibia uma carreta silenciosa e desaprovadora. Os dois e ela eram os �nicos que n�o estavam comemorando, al�m dos Aiel, sempre observadores, e do pr�prio Rand. O rapaz exibia um sorriso desdenhoso que n�o chegava aos olhos. Suor fresco gotejava em seu rosto. Ela encontrou seu olhar sard�nico e aguardou. Haveria mais, e ela suspeitava que n�o seriam not�cias muito agrad�veis.</p><p>Rand ergueu a m�o esquerda. Aos poucos, o sil�ncio se abateu, os da frente �vidos em calar os de tr�s. Ele esperou o sil�ncio se tornar absoluto.</p><p>��Os ex�rcitos marchar�o para o norte, em dire��o a Cairhien. O Gr�o-lorde Meilan vai comand�-los, e, abaixo dele, os Gr�o-lordes Gueyam, Aracome, Hearne, Maraconn e Simaan. Os ex�rcitos ser�o financiados gra�as � generosidade do Gr�o-lorde Torean, o mais rico de todos, que vai acompanh�-los para verificar se seu dinheiro est� sendo gasto com sabedoria.</p><p>O pronunciamento foi recebido com sil�ncio sepulcral. Ningu�m se mexia, embora Torean, inexpressivo, parecia estar tendo problemas para manter-se de p�.</p><p>Moiraine teve de dedicar uma rever�ncia mental a Rand, pelas escolhas. Mandar aqueles sete para fora de Tear fora uma jogada genial para desarticular as sete tramas mais poderosas contra ele, e nenhum daqueles homens confiava um no outro a ponto de operar tramas entre si. Thom Merrilin dera bons conselhos, seus espi�es decerto haviam deixado escapar alguns dos bilhetes que o menestrel deslizara para dentro dos bolsos de Rand. Mas e o resto? Era loucura. O rapaz n�o poderia ter obtido essa resposta do outro lado daquele <emphasis>ter�angreal</emphasis>. N�o era poss�vel, sem d�vida.</p><p>Estava claro que Meilan concordava com ela, ainda que n�o pelos mesmos motivos. O homem deu um passo � frente, hesitante. Era esguio e forte, mas estava t�o assustado que dava para ver todo o branco de seus olhos.</p><p>��Meu Lorde Drag�o����Ele parou, engoliu em seco e recome�ou, a voz um tantinho mais firme.���Meu Lorde Drag�o, intervir em uma guerra civil � adentrar um p�ntano. Uma d�zia de fac��es disputam o Trono do Sol, com igual n�mero de alian�as em constante mudan�a e uma trai��o por dia. Al�m disso, os bandidos infestam Cairhien como pulgas em um javali selvagem. Camponeses famintos deixaram a terra seca. Obtive informa��es seguras de que eles t�m comido folhas e cascas de �rvores. Meu Lorde Drag�o, um �p�ntano� n�o � o bastante sequer para come�ar a descrever�</p><p>Rand interrompeu o homem.</p><p>��Voc� n�o quer estender o dom�nio de Tear at� a Adaga do Fratricida, Meilan? Muito bem. J� sei quem quero ver sentado no Trono do Sol. Voc� n�o vai para conquistar, Meilan, e sim para restaurar a ordem e a paz. E para dar de comer aos famintos. H� mais gr�os nos celeiros do que Tear � capaz de vender, e os fazendeiros v�o colher muitos outros este ano, a n�o ser que voc� me desobede�a. Os carro��es transportar�o os gr�os para o norte atr�s dos ex�rcitos, e esses <emphasis>camponeses</emphasis>� esses <emphasis>camponeses</emphasis> n�o ter�o mais que comer casca de �rvore, <emphasis>Lorde</emphasis> Meilan.���O alto Gr�o-lorde abriu a boca outra vez, e Rand girou <emphasis>Callandor</emphasis> para baixo, enfiando a ponta de cristal no ch�o diante dele.���Alguma pergunta, Meilan?</p><empty-line/><p>Balan�ando a cabe�a, Meilan recuou at� a multid�o, como se tentasse se esconder.</p><p>��Sabia que ele n�o come�aria uma guerra���disse Egwene, enf�tica.���Sabia.</p><p>��Acha que isso vai trazer menos mortes?���murmurou Moiraine. O que o rapaz estava tramando? Pelo menos n�o tinha corrido para salvar sua aldeia enquanto os Abandonados faziam o que queriam com o resto do mundo.���Os corpos v�o se empilhar da mesma forma, garota. Voc� n�o vai ver a menor diferen�a entre isso e uma guerra.</p><p>Um ataque a Illian e Sammael o faria ganhar tempo, mesmo que a coisa chegasse a um impasse. Tempo para conhecer o poder que tinha, talvez at� para derrotar um de seus mais fortes inimigos e acovardar o resto. O que Rand ganharia com isso? Paz na terra onde ela nascera, cairhienos famintos alimentados. Em outro momento, Moiraine o teria aplaudido. Era humano e louv�vel���e, na presente situa��o, completamente insensato. Derramamento de sangue in�til, em vez do confronto com um inimigo que o destruiria � menor chance. Por qu�? Lanfear. O que Lanfear dissera a ele? O que fizera? As possibilidades davam calafrios profundos em Moiraine. Rand precisaria ser mais vigiado do que nunca. Ela n�o permitiria que ele se voltasse para a Sombra.</p><p>��Ah, sim���comentou Rand, como se acabasse de se lembrar de algo.���Os soldados n�o entendem muito sobre esse neg�cio de alimentar os famintos, n�o �? Por isso, acho que o bom cora��o de uma mulher se faz necess�rio. Milady Alteima, lamento ter que atrapalhar o seu luto, mas ser� que a senhora poderia empreender a supervis�o da distribui��o de alimentos? A senhora ter� uma na��o inteira para alimentar.</p><p><emphasis>E poder a ganhar</emphasis>, pensou Moiraine. Fora o primeiro deslize. � parte a decis�o de Cairhien no lugar de Illian, sem d�vida. Alteima decerto retornaria a Tear em p� de igualdade com Meilan ou Gueyam, pronta para outras tramoias. Rand morreria a mando dela antes disso, se n�o tomasse cuidado. Talvez desse para organizar um acidente em Cairhien.</p><p>Alteima curvou-se em uma mesura graciosa, abrindo as saias brancas e exibindo apenas um toque de surpresa.</p><p>��Como meu Lorde Drag�o ordenar, assim o farei. Ser� um enorme prazer servir ao Lorde Drag�o.</p><p>��Tenho certeza disso���retrucou Rand, ir�nico.���Por mais que ame o marido, n�o deve quer�-lo com voc� em Cairhien. As condi��es ser�o dif�ceis para um homem doente. Tomei a liberdade de transferi-lo para os cuidados da Gr�-lady Estanda, que tomar� conta dele enquanto a senhora estiver ausente e o mandar� ao seu encontro, em Cairhien, quando ele estiver melhor.</p><p>Estanda abriu um sorriso contido e triunfal. Deu para ver o branco dos olhos de Alteima quando ela desmaiou de repente.</p><p>Moiraine balan�ou a cabe�a de leve. O rapaz estava mesmo mais r�gido que antes. Mais perigoso. Egwene come�ou a ir em dire��o � mulher ca�da, mas Moiraine p�s a m�o em seu bra�o.</p><p>��Acho que ela est� apenas tomada pela emo��o. Veja bem, sei reconhecer esse tipo de coisa. As outras nobres est�o cuidando dela.</p><p>Muitas nobres haviam se reunido em volta da mulher, dando tapinhas em seus pulsos e segurando sais arom�ticos debaixo do nariz. Alteima deu uma tossidela e abriu os olhos, mas pareceu prestes a desmaiar outra vez quando viu Estanda parada de p� � sua frente.</p><p>��Acho que Rand fez uma coisa muito esperta���comentou Egwene, em um tom inexpressivo.���E muito cruel. Ele est� certo em parecer envergonhado.</p><p>E parecia mesmo. De cara feia, encarava as pedras do ch�o abaixo das pr�prias botas. Talvez n�o fosse t�o severo quanto tentava ser.</p><p>��Mas n�o foi por falta de merecimento���observou Moiraine. A garota era promissora em captar o que n�o compreendia, mas ainda precisava aprender a controlar as pr�prias emo��es para ver o que tinha de ser feito t�o bem quanto via o que desejava que fosse feito.���Vamos torcer para que ele tenha terminado com as espertezas por hoje.</p><p>Foram poucos no grande sal�o que entenderam exatamente o que havia acontecido, sabia-se apenas que o desmaio de Alteima irritara o Lorde Drag�o. Uns poucos nos fundos ergueram clamores de �Cairhien cair�!�, mas a manifesta��o n�o se sustentou.</p><p>��Sob sua lideran�a, Lorde Drag�o, vamos conquistar o mundo!���gritou um homem de rosto encaro�ado, em quem Torean se apoiava um pouco. Estean, filho mais velho de Torean. A semelhan�a nas fei��es era clara, mas o pai ainda resmungava sozinho.</p><p>Erguendo a cabe�a depressa, Rand mostrou surpresa. Ou talvez irrita��o.</p><p>��N�o irei com voc�s. Vou� me ausentar por um tempo.���Aquilo sem d�vida trouxe o sil�ncio de volta. Todos os olhos pairavam sobre ele, mas a aten��o do Drag�o jazia em <emphasis>Callandor</emphasis>. A multid�o se encolheu quando ele ergueu a espada de cristal diante do rosto. Suor escorria por sua face, muito mais do que antes.���A Pedra j� guardava <emphasis>Callandor</emphasis> antes da minha chegada. A Pedra a guardar� uma vez mais, at� meu retorno.</p><p>De s�bito, a espada transparente brilhou em suas m�os como se pegasse fogo. Ele elevou o cabo, girou-a e baixou-a de novo. Cravou-a no ch�o de pedra. Raios azulados se estenderam em arcos violentos em dire��o ao domo acima. A pedra ressoou alto, e a Pedra estremeceu, dan�ando, erguendo do ch�o o povo aos berros.</p><p>Moiraine empurrou para longe de si Egwene enquanto os tremores reverberavam pela c�mara e equilibrou-se, ereta. <emphasis>O que</emphasis> Rand fizera? E por qu�? Estava indo embora? Era o pior dos pesadelos.</p><p>Os Aiel j� estavam de p� outra vez. Todo o restante ainda estava deitado, at�nito, ou apoiado de quatro. Exceto Rand. Ele estava ajoelhado, ambas as m�os envoltas no punho de <emphasis>Callandor</emphasis>, a l�mina a meio caminho do piso de pedras. A espada era outra vez de cristal transparente. O rosto dele brilhava de suor. O rapaz abriu um dedo de cada vez e envolveu o cabo com as m�os em concha, sem toc�-lo. Por um instante, Moiraine pensou que ele seguraria a espada novamente, mas, em vez disso, Rand se for�ou a se levantar. Precisou se for�ar, ela tinha certeza.</p><p>��Olhem para isso enquanto eu estiver longe.���A voz dele era mais suave, mais parecida com o tom que tinha quando o encontrara na aldeia, mas n�o menos firme ou confiante do que estivera momentos antes.���Olhem e lembrem-se de mim. Lembrem que voltarei para busc�-la. Se algu�m quiser tomar meu lugar, basta tir�-la daqui.���Ele abanou um dedo para a audi�ncia e abriu um sorriso quase malicioso.���Mas lembrem-se do pre�o do fracasso.</p><p>Ele girou nos calcanhares e marchou para fora do aposento levando os Aiel atr�s. Encarando a espada que se erguia do ch�o do Cora��o, os tairenos se levantaram mais devagar. A maioria parecia pronta para correr, mas assustada demais para isso.</p><p>��Aquele homem!���grunhiu Egwene, espanando a poeira do vestido de linho verde.���Ele est� louco?���Ent�o p�s a m�o na boca mais do que depressa.���Ah, Moiraine, ele n�o est�, n�o �? Est�? N�o ainda.</p><p>��Queira a Luz que n�o���murmurou Moiraine. N�o conseguia tirar os olhos da espada, assim como os tairenos. Que a Luz o acompanhe. Por que ele n�o podia continuar sendo o rapaz obediente que encontrara em Campo de Emond? Come�ou a ir atr�s de Rand.���Mas vou descobrir.</p><p>Quase correndo, as duas logo alcan�aram o grupo em um amplo corredor cheio de tape�arias enfileiradas. Os Aiel, agora com os v�us soltos, mas de um jeito que daria para os erguerem sem a menor dificuldade, caso fosse preciso, chegaram para o lado, sem reduzir o passo. Olharam para ela e Egwene com os rostos severos e impass�veis, mas com os olhares cautelosos que os Aiel sempre exibiam perto de Aes Sedai.</p><p>Ela n�o entendia como conseguiam ficar desconfort�veis ao lado dela e acompanhar Rand com tranquilidade. Era dif�cil saber mais do que alguns fragmentos a respeito deles. O povo respondia �s perguntas sem o menor problema���mas nunca sobre algo que fosse de interesse dela. Seus informantes nada captavam, nem mesmo ela ouvia algo de �til ao bisbilhotar, e sua rede de olhos-e-ouvidos nem mais tentava. N�o desde que uma mulher fora amarrada, amorda�ada e presa pelos tornozelos a uma ameia, deixada para encarar de olhos arregalados uma queda de quatrocentos p�s, e n�o desde o homem que simplesmente desaparecera. O homem sumira. A mulher, que agora se recusava a sair do piso t�rreo, fora um lembrete constante at� que Moiraine a mandasse para o interior.</p><p>Assim como os Aiel, Rand n�o reduziu o passo quando ela e Egwene se postaram uma de cada lado dele. O rapaz tamb�m tinha o olhar cauteloso, mas de um jeito diferente, com certa raiva exasperada.</p><p>��Pensei que voc� tinha ido embora���disse a Egwene.���Pensei que tinha ido com Elayne e Nynaeve. Deveria ter ido. At� Tanchico � Por que ficou?</p><p>��N�o vou ficar por muito mais tempo���retorquiu Egwene.���Estou indo para o Deserto com Aviendha, para Rhuidean, vou aprender com as S�bias.</p><p>Ele trope�ou quando a garota mencionou o Deserto, olhou para ela, indeciso, depois prosseguiu. Parecia controlado, at� demais. Era como um bule de ch� fervente tampado e com a biqueira fechada.</p><p>��Voc� se lembra de nadar na Floresta das �guas?���perguntou, baixinho.���Eu boiava de barriga para cima em uma piscininha e pensava que a coisa mais dif�cil a fazer era arar um campo, talvez tosquiar ovelhas. Tosquiar do amanhecer at� a hora de dormir, quase sem parar para comer at� ter terminado tudo.</p><p>��Fiar���respondeu Egwene.���Odiava isso mais do que esfregar o ch�o. Torcer os fios deixa os dedos t�o doloridos.</p><p>��Por que voc� fez isso?���inquiriu Moiraine, antes que os dois pudessem prosseguir com as lembran�as da inf�ncia.</p><p>Rand a olhou de esguelha, com um sorriso debochado feito os de Mat.</p><p>��Dava mesmo para eu mandar enforcar a mulher, por tentar matar um homem que estava tramando contra mim? Haveria mais justi�a nisso do que no que fiz?���Ele tirou o sorriso do rosto.���Ser� que existe justi�a em alguma coisa que eu fa�o? Sunamon vai para a forca se falhar. Porque eu mandei. E vai merecer, depois da forma como tentou levar vantagem, sem dar a m�nima em ver o pr�prio povo morrendo de fome, mas n�o vai para a forca por isso. Ser� enforcado porque eu mandei. Porque eu mandei.</p><p>Egwene pousou a m�o no bra�o dele, mas Moiraine n�o permitiria que Rand se esquivasse.</p><p>��Voc� sabe que n�o foi isso o que eu quis dizer.</p><p>Ele assentiu. Dessa vez abriu um sorriso sombrio, quase assustador.</p><p>��<emphasis>Callandor</emphasis>. Com ela nas m�os, posso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa. Sei que posso fazer qualquer coisa. Mas agora � um peso a menos em meus ombros. Voc� n�o entende, n�o �?���Moiraine n�o entendia, mas ficava irritada em saber que Rand percebia isso. Manteve o sil�ncio, e ele prosseguiu.���Talvez ajude se voc� souber que vem das Profecias:</p><poem><stanza><v>�Dentro do cora��o ele finca a espada,</v><v>dentro do cora��o, para ganhar os cora��es.</v><v>Aquele que a retirar seguir� logo atr�s</v><v>Que m�o pode agarrar a l�mina temerosa?�</v></stanza></poem><p>��Est� vendo? Direto das Profecias.</p><p>��Est� se esquecendo de uma coisa���retrucou Moiraine, severa.���Voc� empunhou <emphasis>Callandor</emphasis> em cumprimento � Profecia. As salvaguardas que a mantiveram � sua espera por mais de tr�s mil anos j� n�o existem. Ela j� n�o � a Espada Que N�o Pode Ser Tocada. Eu mesma poderia canalizar e solt�-la. Pior, qualquer um dos Abandonados poderia fazer isso. E se Lanfear retornar? Ela n�o pode usar <emphasis>Callandor</emphasis> mais do que eu posso, mas conseguir� peg�-la.���Rand n�o reagiu ao nome. Seria porque n�o a temia, e nesse caso estava sendo um tolo, ou por alguma outra raz�o?���Se Sammael, Rahvin ou qualquer outro dos homens Abandonados puser as m�os em <emphasis>Callandor</emphasis>, poder� empunh�-la t�o bem quanto voc�. Pense em enfrentar o poder do qual abre m�o sem sequer se preocupar. Pense nesse poder nas m�os da Sombra.</p><p>��Quase espero que eles tentem.���Um brilho amea�ador cintilou em seus olhos, que pareciam nuvens cinzentas de tempestade.���Tem uma surpresa � espera de qualquer um que tente tirar <emphasis>Callandor</emphasis> da Pedra com canaliza��o, Moiraine. Nem pense em lev�-la para Torre s� por garantia, a armadilha n�o faz distin��es. Basta o Poder para acion�-la e armar de novo, pronta para disparar outra vez. N�o estou abrindo m�o de <emphasis>Callandor</emphasis> para sempre. S� at酠��Ele respirou fundo.���<emphasis>Callandor</emphasis> ficar� aqui at� que eu volte para busc�-la. Ficando aqui, lembrando a eles quem eu sou e o que sou, vai garantir meu retorno sem a companhia de um ex�rcito. Uma esp�cie de abrigo, com gente como Alteima e Sunamon para me dar as boas-vindas � casa. Isso se Alteima sobreviver � justi�a que seu marido e Estanda aplicar�o, e Sunamon sobreviver � minha. Luz, que confus�o.</p><p>Ele n�o podia ou n�o queria tornar a armadilha seletiva? Moiraine estava determinada a n�o subestimar o que Rand talvez fosse capaz de fazer. <emphasis>Callandor</emphasis> pertencia � Torre, se ele n�o fosse manej�-la como deveria, e ficaria na Torre at� que ele fosse capaz. �S� at� o qu�? Rand ia dizer algo diferente de �at� eu voltar�. Mas o qu�?</p><p>��E para onde � que voc� vai? Ou pretende manter isso em segredo?</p><p>J� come�ava a murmurar o juramento de que n�o o deixaria fugir outra vez, que daria um jeito de faz�-lo voltar, caso o rapaz pretendesse sair correndo para Dois Rios, quando Rand a surpreendeu.</p><p>��N�o � segredo, Moiraine. Pelo menos, n�o para voc� e Egwene.���Ele encarou Egwene e disse uma palavra:���Rhuidean.</p><p>A garota arregalou os olhos, pasma, como se nunca tivesse ouvido aquela palavra. Moiraine, ali�s, n�o exibia uma express�o muito diferente. Houve um burburinho entre os Aiel, mas, quando ela olhou para tr�s, eles caminhavam a passos largos, os rostos inexpressivos. Desejou poder obrig�-los a ir embora, mas o grupo n�o obedeceria a sua ordem, e ela n�o pediria a Rand que os mandasse sair. N�o a ajudaria pedir nada a ele, ainda mais sabendo que seu pedido poderia muito bem ser recusado.</p><p>��Voc� n�o � um chefe de cl� Aiel, Rand���disse, com firmeza���nem tem necessidade disso. Sua luta � deste lado da Muralha do Drag�o. A n�o ser que� Isso � coisa das respostas que obteve no <emphasis>ter�angreal</emphasis>? Cairhien, <emphasis>Callandor</emphasis> e Rhuidean? Eu disse que essas respostas podem estar codificadas. Voc� pode estar interpretando errado, o que pode ser fatal. Para outros, n�o s� para voc�.</p><p>��Voc� precisa confiar em mim, Moiraine. Como eu tantas vezes precisei confiar em voc�.</p><p>Aquele rosto poderia muito bem pertencer aos Aiel, pelo que ela conseguia ler nele.</p><p>��Vou confiar, por hora. S� n�o espere para pedir minha orienta��o quando for tarde demais.���<emphasis>N�o vou deix�-lo ir para a Sombra. Trabalhei muito duro para permitir isso. Custe o que custar.</emphasis></p></section><section><title><p>22</p><p><image l:href="#15"/></p><p>Fora da Pedra</p></title><p>Foi uma estranha prociss�o que Rand liderou para fora da Pedra em dire��o ao leste, com nuvens brancas encobrindo o sol do meio-dia e lufadas de ar revolvendo pela cidade. Por ordem dele, n�o houvera an�ncio ou proclama��o, mas aos poucos se espalhava a not�cia de que <emphasis>algo estava acontecendo</emphasis>: os cidad�os paravam tudo o que estivessem fazendo e corriam para ganhar vantagem. Os Aiel estavam marchando pela cidade, para fora da cidade. Cada vez mais gente que n�o os vira chegar no meio da noite, que sequer acreditava que estivessem na Pedra, enfileirava-se nas ruas ao longo do trajeto, enchia as janelas ou at� mesmo escalava os telhados de ripa, escarranchando-se nos topos e nos cantos. Burburinhos percorriam a multid�o que contava a quantidade de Aiel. Aquelas poucas centenas n�o poderiam ter tomado a Pedra. O estandarte do Drag�o ainda drapejava sobre a fortaleza. Ainda deveria haver milhares l� dentro. Junto com o Lorde Drag�o.</p><p>Rand cavalgava tranquilo em camisa de manga, com a certeza de que nenhum dos curiosos o tomaria como algu�m fora do comum. Um forasteiro com dinheiro suficiente para cavalgar���em um imponente garanh�o sarapintado, o melhor dos puros-sangues tairenos���um homem rico viajando com as mais estranhas companhias, por�m sem d�vida apenas mais um. N�o era sequer l�der da estranha comitiva, o t�tulo sem d�vida pertencia a Lan ou Moiraine, apesar de eles cavalgarem a certa dist�ncia dele, logo � frente dos Aiel. Os sussurros baixinhos de temor que acompanhavam sua passagem decerto eram dirigidos aos Aiel, n�o a ele. Aquele povo taireno poderia at� tom�-lo por um criado a conduzir o cavalo do mestre. Bem, n�o. Isso n�o. N�o assim, na frente, como ele seguia. De todo modo, era um belo dia. N�o estava abafado, apenas t�pido. Ningu�m esperava que ele fosse fazer justi�a ou governar uma na��o. Podia simplesmente aproveitar a viagem no anonimato, gozar da brisa escassa. Por um instante, podia esquecer a sensa��o das gar�as marcadas nas palmas das m�os, que seguravam as r�deas. <emphasis>Pelo menos por mais um pouquinho</emphasis>, pensou. <emphasis>S� mais um pouquinho.</emphasis></p><p>��Rand���disse Egwene���acha mesmo que foi certo deixar os Aiel levarem todas aquelas coisas?</p><p>O rapaz se virou enquanto ela cravava os calcanhares na �gua cinzenta, Bruma, e se aproximava dele pela lateral. Conseguira arranjar um vestido verde-escuro com saias justas e divididas, e uma fita de veludo verde prendia seus cabelos na altura da nuca.</p><p>Moiraine e Lan ainda se mantinham algumas passadas atr�s. A mulher avan�ava sobre a �gua branca, no vestido de montaria de saia inteira, feito de seda azul com listras verdes, os cabelos escuros presos em uma rede dourada. Lan estava montado no imenso cavalo negro de batalha, usando o manto furta-cor dos Guardi�es, que sem d�vida arrancava tantos �oohs� e �aahs� quanto os Aiel. Quando a brisa balan�ava o manto, nuances de verde, marrom e cinza o percorriam. Parado, os tons do manto pareciam se mesclar aos de fundo, de modo que o olho enxergava <emphasis>atrav�s</emphasis> de Lan e de seu cavalo. N�o era uma vis�o confort�vel.</p><p>Mat tamb�m fazia parte do cortejo, afundado na sela com um semblante resignado, tentando manter dist�ncia do Guardi�o e da Aes Sedai. Escolhera um cap�o castanho desinteressante, um animal que chamava de Pips. Era preciso aten��o para perceber o peito estufado e a cernelha robusta, promessas de que Pips, com seu nariz achatado, n�o deixava a dever ao garanh�o de Rand ou ao de Lan em termos de for�a e velocidade. A decis�o de Mat em acompanh�-los fora surpreendente, e Rand ainda n�o entendia o motivo. Por amizade, talvez, mas, por outro lado, talvez n�o. Mat �s vezes fazia as coisas por motivos que s� ele entendia.</p><p>��Sua amiga Aviendha n�o explicou sobre �o quinto�?���perguntou ele.</p><p>��Ela mencionou alguma coisa, mas� Rand, voc� n�o acha que ela� <emphasis>pegou</emphasis>� coisas tamb�m?</p><p>Atr�s de Moiraine e Lan, atr�s de Mat, atr�s de Rhuarc, que liderava os Aiel, os homens do Deserto caminhavam em fileiras compridas de cada um dos lados das mulas de carga, uma atr�s da outra, quatro lado a lado. Quando os Aiel dominavam um cl� inimigo no Deserto, era costume���ou talvez fosse lei, Rand n�o entendia muito bem���que levassem consigo um quinto de tudo o que havia, exceto pela comida. Eles n�o viam motivo para deixar de fazer o mesmo com a Pedra. N�o que as mulas estivessem levando mais do que a menor fra��o da fra��o de um quinto dos tesouros de Tear. Rhuarc dizia que a gan�ncia matara mais homens do que o a�o. Os grandes cestos de vime, cobertos com carpetes e tape�arias enrolados, n�o iam muito carregados. Adiante, haveria uma dura travessia pela Espinha do Mundo e uma �rdua viagem pelo Deserto.</p><p><emphasis>Quando � que conto para eles?</emphasis>, perguntou-se o rapaz. <emphasis>Logo, tem de ser logo.</emphasis> Moiraine sem d�vida consideraria um lance ousado, audacioso. Ela pensava que conhecia o plano dele todo e n�o fazia quest�o de esconder a desaprova��o. Sem d�vida queria ver tudo acabado o quanto antes. Mas os Aiel� <emphasis>E se eles se recusarem? Bem, se isso acontecer, paci�ncia. Preciso fazer.</emphasis> Quanto ao quinto� achava que n�o teria sido poss�vel impedir os Aiel de levarem, mesmo que quisesse, o que n�o foi o caso. Aquele povo merecia as recompensas, e ele n�o se deu ao trabalho de ajudar os lordes tairenos a defenderem o que passaram gera��es arrancando do povo.</p><p>��Eu vi que ela mostrou uma tigela de prata a Rhuarc���disse Rand, em voz alta.���Pelo barulho que o saco fez quando ela enfiou a tigela, havia mais prata l� dentro. Ou talvez ouro. Voc� desaprova?</p><p>��N�o.���A palavra saiu lenta, com um toque de d�vida, mas depois Egwene firmou a voz.���Eu s� n�o tinha pensado que ela era� Os tairenos n�o levariam apenas um quinto, se fosse o contr�rio. Teriam arrematado tudo que n�o fosse trabalho de cantaria e roubado todos os carro��es para transportar a pilhagem. N�o � porque os costumes de um povo s�o diferentes que devem ser considerados errados, Rand. Voc� deveria saber disso.</p><p>Rand riu baixinho. Era quase como antigamente: ele estava pronto para explicar por que e como Egwene estava errada, e ela tomava a dianteira e respondia toda a explica��o n�o dita. O garanh�o deu alguns passos dan�antes, captando o humor do cavaleiro. Rand deu um tapinha no pesco�o arqueado e malhado. Era um bom dia.</p><p>��� um belo cavalo���comentou a jovem.���Que nome voc� deu a ele?</p><p>��Jeade�en���respondeu ele, cauteloso, perdendo um pouco do bom humor.</p><p>Tinha certa vergonha do nome, de suas raz�es para escolh�-lo. <emphasis>As Jornadas de Jain, o Viajante</emphasis> sempre fora um de seus livros favoritos, e o grande peregrino dera a seu cavalo o nome de Jeade�en���que na L�ngua Antiga significava Verdadeiro Descobridor���pois o animal sempre conseguia encontrar o caminho de casa. Seria bom pensar que Jeade�en poderia um dia lev�-lo de volta para casa. Bom, mas pouco prov�vel, e ele n�o queria que ningu�m suspeitasse qual era o motivo do nome. N�o havia mais lugar em sua vida para fantasias infantis. N�o havia muito lugar para qualquer coisa que n�o o que ele precisava fazer.</p><p>��Um bom nome���disse Egwene, distra�da.</p><p>Rand sabia que ela tamb�m lera o livro, e em parte esperava que a amiga reconhecesse o nome, mas ela parecia matutar sobre outra coisa, mordendo o l�bio inferior, pensativa.</p><p>Ele ficou satisfeito com o sil�ncio. Os �ltimos vest�gios da cidade deram lugar a fazendas de campo isoladas, todas em estado deplor�vel. Nem mesmo os Congar ou os Coplin, famosos em Dois Rios pela pregui�a, entre outras coisas, deixariam que o lugar ficasse t�o decadente quanto essas casas de pedra bruta, com as paredes inclinadas, parecendo prestes a desabar sobre as galinhas que ciscavam a terra. Celeiros vergados se inclinavam por cima de loureiros e benjoeiros. Os telhados de ripas partidas e rachadas pareciam cheios de vazamentos. Cabras baliam, desconsoladas, em currais de pedra que pareciam ter sido erguidos �s pressas ainda aquela manh�. Homens e mulheres descal�os, de ombros ca�dos, carpiam campos abertos, sem olhar para cima nem mesmo para ver o grande grupo passar. Os cantos dos sabi�s e bicos-vermelhos, que chilreavam nos pequenos arbustos, n�o era o suficiente para aliviar a sensa��o de opress�o e melancolia.</p><p><emphasis>Preciso fazer algo a respeito disso. Eu� N�o, n�o agora. Vamos por partes. J� fiz o que podia por essas pessoas, nessas poucas semanas. N�o h� mais nada que possa fazer, por ora.</emphasis> Tentou n�o olhar para as fazendas caindo aos peda�os. Ser� que os bosques de oliveiras do sul estavam t�o ruins quanto aquilo? O povo que trabalhava neles sequer era dono das terras, tudo pertencia aos Gr�o-lordes. <emphasis>N�o. A brisa. � bom como ela alivia o calor. Posso aproveitar mais um pouquinho. Tenho que contar a eles logo.</emphasis></p><p>��Rand���chamou Egwene, de supet�o���quero falar com voc�.���Pela express�o dela, parecia s�rio. Aqueles olhos escuros cravados nele o faziam lembrar um pouco de Nynaeve, quando estava prestes a passar um serm�o.���Quero conversar sobre Elayne.</p><p>��O que tem ela?���perguntou, desconfiado.</p><p>Tocou a bolsa, onde havia duas cartas amassadas contra um objeto pequeno e r�gido. Se ambas n�o tivessem a mesma caligrafia fluida e elegante, ele n�o teria acreditado que haviam sido escritas pela mesma mulher. Depois de tantos beijos e carinhos. Era mais f�cil entender os Gr�o-lordes do que as mulheres.</p><p>��Por que voc� deixou que ela fosse embora daquele jeito?</p><p>Intrigado, Rand a encarou.</p><p>��Ela quis ir. Se eu quisesse impedir, teria que amarr�-la. Al�m do mais, Elayne ficar� mais segura em Tanchico do que perto de mim. Ou de Mat, se estivermos mesmo atraindo essas bolhas de mal, como Moiraine disse. E voc� tamb�m ficaria melhor l�.</p><p>��N�o estou falando disso. � claro que ela quis ir. E voc� n�o tinha direito de impedi-la. Mas por que n�o disse que queria que ela ficasse?</p><p>��Ela quis ir���repetiu o rapaz, e ficou ainda mais confuso ao ver Egwene revirar os olhos, como se ele estivesse falando abobrinhas.</p><p>Se n�o teria direito de impedir Elayne, e ela queria ir, por que deveria tentar convenc�-la do contr�rio? Ainda mais se ela ficasse mais segura longe.</p><p>Logo atr�s dele, Moiraine falou:</p><p>��Est� pronto para me contar o pr�ximo segredo? Est� bem claro que voc� anda escondendo alguma coisa de mim. Pelo menos vou poder preveni-lo, caso esteja nos guiando para um precip�cio.</p><p>Rand suspirou. N�o ouvira ela e Lan se aproximando. E nem Mat, embora o rapaz ainda mantivesse dist�ncia da Aes Sedai. O rosto de Mat era um misto de reflex�o, d�vida, relut�ncia e determina��o sombria alternados, sobretudo quando olhava para Moiraine. Ele nunca olhava direto para ela, s� a observava pelo canto do olho.</p><p>��Tem certeza de que quer vir, Mat?���perguntou Rand.</p><p>O rapaz deu de ombros e abriu um sorriso falso, que n�o foi dos mais confiantes.</p><p>��Quem abriria m�o da chance de ver a droga de Rhuidean?���Egwene ergueu as sobrancelhas para ele.���Ah, desculpe o linguajar, <emphasis>Aes Sedai</emphasis>. J� ouvi voc� falar coisa pior, e aposto que por muito menos.</p><p>Egwene o encarou, indignada, mas a vermelhid�o em seu rosto revelava que Mat acertara em cheio.</p><p>��Fique feliz por Mat <emphasis>estar</emphasis> aqui���disse Moiraine a Rand, com a voz fria, mas n�o satisfeita.���Voc� cometeu um erro grave em deixar Perrin ir embora e esconder a partida dele de mim. O mundo repousa sobre seus ombros, mas ambos devem estar prontos para lhe oferecer ajuda, ou voc� cair�, e o mundo cair� junto.</p><p>Mat se encolheu, e Rand pensou que o rapaz estivera prestes a dar meia-volta com o cap�o para ir embora naquele instante.</p><p>��Sei qual � o meu dever���disse a ela. <emphasis>E sei qual � o meu destino</emphasis>, pensou, mas n�o disse em voz alta, n�o precisava de compaix�o.���Um de n�s tinha que voltar, Moiraine, e Perrin quis ir. Voc� est� disposta a abrir m�o de qualquer coisa para salvar o mundo. Eu� Eu fa�o o que � preciso.</p><p>O Guardi�o assentiu, mas n�o disse uma palavra. Lan jamais discordava de Moiraine na frente dos outros.</p><p>��E o pr�ximo segredo?���insistiu a Aes Sedai.</p><p>N�o desistiria at� deslindar o que era, e Rand j� n�o tinha motivos para esconder. N�o aquela parte.</p><p>��Pedras-portais���foi tudo que disse���se tivermos sorte.</p><p>��Ah, Luz!���ganiu Mat.���Maldita Luz chamejante! N�o me venha com essa careta, Egwene! Sorte? Uma vez j� n�o basta, Rand? Voc� quase matou a gente, est� lembrado? N�o, pior que isso. Eu preferia voltar at� uma daquelas fazendas e passar o resto da vida empregado como lavador de porcos.</p><p>��Voc� pode seguir seu caminho se quiser, Mat���retrucou Rand. O rosto calmo de Moiraine era uma m�scara cobrindo a f�ria, mas ele ignorou o olhar congelante que tentava silenciar sua l�ngua. At� mesmo Lan parecia ter um ar desaprovador, apesar de as fei��es duras n�o terem mudado muito. O Guardi�o acreditava que o dever vinha antes de qualquer coisa. Rand cumpriria seu dever, mas seus amigos� N�o gostava de obrigar os outros a fazerem o que quer que fosse, n�o faria isso com seus amigos. Isso, pelo menos, poderia evitar.���N�o tem motivo para voc� vir para o Deserto.</p><p>��Ah, tem sim. Pelo menos� Ah, que me queime! Eu tenho uma vida para desperdi�ar, n�o tenho? Por que n�o desse jeito?���Mat soltou uma risada nervosa, meio louca.���Malditas Pedras-portais! Luz!</p><p>Rand franziu o cenho. Todos diziam que ele acabaria louco, mas era o amigo quem parecia � beira da insanidade.</p><p>Egwene piscou para Mat, preocupada, mas inclinou-se na dire��o de Rand.</p><p>��Rand, Verin Sedai me contou um pouco sobre as Pedras-portais. Ela contou sobre a� viagem que voc� fez. Voc� tem certeza?</p><p>��� o que preciso fazer, Egwene.</p><p>Tinha que avan�ar depressa, e n�o havia forma mais r�pida do que as Pedras-portais, vest�gios de uma Era mais antiga que a Era das Lendas. Ao que parecia, nem mesmo os Aes Sedai da Era das Lendas as compreendiam. Mas n�o havia caminho mais r�pido. Se funcionasse como ele esperava.</p><p>Moiraine escutara a conversa com paci�ncia. Especialmente a parte de Mat, embora Rand n�o entendesse por qu�. Ela ent�o disse:</p><p>��Verin tamb�m me contou sobre sua viagem com as Pedras-portais. Disse que havia apenas algumas pessoas e cavalos, n�o centenas, e que, embora voc� n�o tenha quase matado todo mundo, como Mat disse, parece ter sido uma experi�ncia que ningu�m quer repetir. E que n�o teve o resultado que voc� esperava. Tamb�m foi necess�ria uma grande quantidade de Poder, quase o bastante para matar pelo menos voc�, pelo que Verin disse. Mesmo que voc� deixe a maioria dos Aiel para tr�s, tem coragem de arriscar?</p><p>��Eu preciso���respondeu ele, tateando a bolsa no cinto, sentindo o objeto pequeno e compacto entre as cartas.</p><p>Mas Moiraine prosseguiu como se ele n�o tivesse dito uma palavra.</p><p>��Tem certeza de que <emphasis>existe</emphasis> uma Pedra-portal no Deserto? Verin sem d�vida sabe mais sobre isso do que eu, mas nunca ouvi falar em uma. Se existe, ser� que vai nos levar mais para perto de Rhuidean do que estamos agora?</p><p>��Uns seiscentos anos atr�s, mais ou menos���come�ou ele���um mascate tentou dar uma espiada em Rhuidean.���Em outro momento, teria sido um prazer dar aula para Moiraine, para variar um pouco. N�o dessa vez. Havia muito que ele n�o sabia.���Parece que esse sujeito n�o viu nada, mas alegou ter visto uma cidade dourada sobre as nuvens, flutuando acima das montanhas.</p><p>��N�o h� cidades no Deserto���disse Lan���nem nas nuvens, nem no ch�o. Eu j� lutei contra os Aiel. Eles n�o t�m cidades.</p><p>Egwene assentiu.</p><p>��Aviendha me disse que nunca tinha visto uma cidade antes de sair do Deserto.</p><p>��Pode at� ser���retorquiu Rand���mas o mascate tamb�m viu alguma coisa se projetando pela lateral de uma das montanhas. Uma Pedra-portal. Ele a descreveu com exatid�o. N�o existe nada parecido com uma Pedra-portal. Quando descrevi uma para o bibliotec�rio-chefe da Pedra����o que fez sem nomear o que buscava, mas n�o acrescentou essa informa��o���ele reconheceu na hora, mesmo sem saber o que era. Foi o suficiente para me mostrar quatro delas em um antigo mapa de Tear�</p><p>��Quatro?���Moiraine soou surpresa.���Todas em Tear? Pedras-portais n�o s�o t�o comuns assim.</p><p>��Quatro���respondeu Rand, confiante. O bibliotec�rio velho e ossudo estava certo, chegara at� a desenterrar um manuscrito amarelado que descrevia os esfor�os para mover os �artefatos desconhecidos de uma Era antiga� at� a Grande Posse. Todas as tentativas foram fracassadas, e os tairenos enfim desistiram. Aquilo era uma confirma��o para Rand, as Pedras-portais eram resistentes ao deslocamento.���Uma delas fica a menos de uma hora de viagem de onde estamos���prosseguiu.���Os Aiel permitiram que o mascate fosse embora, pois era um mascate, e ele partiu com uma das mulas e o m�ximo de �gua que conseguiu levar nas costas. O homem deu um jeito de viajar at� um <emphasis>pouso</emphasis> na Espinha do Mundo, onde conheceu um sujeito chamado Soran Milo, que estava escrevendo um livro chamado <emphasis>Os assassinos do v�u negro</emphasis>. O bibliotec�rio trouxe uma c�pia surrada quando pedi livros sobre os Aiel. Parece que Milo baseou o livro inteiro nos Aiel que iam ao <emphasis>pouso</emphasis> fazer neg�cios. De todo modo, Rhuarc disse que o homem entendeu tudo errado, mas n�o tem como uma Pedra-portal ser nada al�m de uma Pedra-portal.</p><p>Ele examinara outros mapas e manuscritos, dezenas deles, com a desculpa de que estudava Tear e sua hist�ria, tentando aprender sobre a terra. <emphasis>Ningu�m</emphasis> poderia ter imaginado o que ele pretendia at� poucos minutos antes.</p><p>Moiraine fungou, e Aldieb, a �gua branca, deu alguns passos coiceados, captando a irrita��o da cavaleira.</p><p>��Uma suposta hist�ria contada por um suposto mascate que alegou ter visto uma cidade dourada flutuando nas nuvens. Rhuarc j� viu essa Pedra-portal? Ele j� esteve em Rhuidean. Mesmo que esse mascate tenha ido para o Deserto, e mesmo que tenha visto uma Pedra-portal, poderia ter sido em qualquer lugar. Os homens costumam tentar aumentar as verdades quando contam hist�rias. Uma cidade flutuando nas nuvens?</p><p>��Como � que voc� sabe que n�o existe?���indagou Rand.</p><p>Rhuarc rira de todas as coisas erradas que Milo escrevera sobre os Aiel, mas n�o falara muito abertamente sobre Rhuidean. N�o, mais do que isso. Ou melhor, menos: os Aiel haviam se recusado at� mesmo a comentar os trechos do livro que supostamente mencionavam o lugar. Rhuidean, nas terras dos Aiel Jenn, o cl� que n�o �, era quase tudo que Rhuarc falava a respeito. Rhuidean n�o era um lugar a ser mencionado.</p><p>A Aes Sedai n�o demonstrou muita satisfa��o com a observa��o petulante, mas Rand n�o se incomodou. A pr�pria mulher guardara segredos demais e por muitas vezes o obrigara a confiar nela �s cegas. Era a vez dela. Moiraine precisava aprender que ele n�o era um cachorrinho. <emphasis>Vou aceitar o conselho dela quando achar que devo, mas n�o vou mais dan�ar guiado pelos cord�is de Tar Valon.</emphasis> Rand morreria em seus pr�prios termos.</p><p>Egwene chegou mais perto com a �gua cinza, seguindo quase que com o joelho colado ao dele.</p><p>��Rand, voc� quer mesmo arriscar nossas vidas por uma� possibilidade? Rhuarc n�o contou nada a voc�, contou? Quando pergunto a Aviendha sobre Rhuidean, ela fica com a boca mais fechada que uma noz.</p><p>Mat parecia enjoado.</p><p>Rand manteve a express�o impass�vel, sem deixar transparecer o lampejo de vergonha. N�o era sua inten��o assustar os amigos.</p><p>��Existe uma Pedra-portal l᠗�repetiu.</p><p>Esfregou outra vez o objeto compacto na bolsa. Tinha que funcionar.</p><p>Os mapas do bibliotec�rio eram antigos, mas foram de alguma ajuda. Os pastos por onde cavalgavam ainda eram florestas quando os mapas foram desenhados, mas restavam algumas �rvores, bosques irregulares e esparsos de carvalhos brancos, pinheiros, avencas e �rvores altas e solit�rias que ele n�o reconhecia, com troncos retorcidos e espichados. Rand conseguia distinguir o formato da terra sem dificuldade, a maioria das colinas j� estava coberta por mato alto.</p><p>Nos mapas, dois cumes altos e inclinados, um bem pr�ximo do outro, apontavam para o amontoado de colinas arredondadas onde estava a Pedra-portal. Isso se os mapas estivessem bem-feitos. E se o bibliotec�rio tivesse de fato reconhecido a descri��o que ele dera. E se a marca��o do losango verde indicasse mesmo as ru�nas antigas, como o homem alegava. <emphasis>Por que ele mentiria? Estou ficando muito desconfiado. N�o, preciso ser desconfiado. T�o desconfiado quanto uma v�bora, e igualmente frio.</emphasis> Mas n�o gostava disso.</p><p>A norte, s� conseguia enxergar colinas, sem �rvore alguma, todas salpicadas de silhuetas em movimento que deveriam ser cavalos. As manadas dos Gr�o-lordes, pastando no local onde ficava o antigo bosque Ogier. Desejou que Perrin e Loial tivessem partido em seguran�a. <emphasis>Ajude-os, Perrin</emphasis>, pensou. <emphasis>D� um jeito de ajud�-los, porque eu n�o posso.</emphasis></p><p>O bosque Ogier indicava que os cumes deveriam estar pr�ximos, e logo os avistou um pouco ao sul. Pareciam duas flechas, uma passando por dentro da outra, com as poucas �rvores ao longo do topo formando uma linha fina no c�u. Depois disso, um amontoado de colinas baixas e arredondadas que mais pareciam bolhas cobertas de grama. Mais colinas do que no antigo mapa. Muitas mais, apesar de o peda�o de papel abranger menos de uma milha quadrada. Se n�o correspondiam �s do mapa, ao lado de qual estaria a Pedra-portal?</p><p>��Os Aiel est�o em grande n�mero���comentou Lan, baixinho���e t�m olhos agu�ados.</p><p>Com um aceno de gratid�o, Rand puxou a r�dea de Jeade�en e recuou para expor o problema para Rhuarc. Ele apenas descreveu a Pedra-portal, sem dizer o que era. Haveria tempo suficiente para isso quando ela fosse encontrada. Agora sabia guardar segredos. De todo modo, Rhuarc decerto n�o tinha ideia do que era uma Pedra-portal. Poucos tinham, exceto pelas Aes Sedai. Ele tamb�m n�o sabia, at� que algu�m lhe explicara.</p><p>Avan�ando ao lado do garanh�o malhado, o Aiel franziu o rosto de leve���o equivalente a uma careta de preocupa��o, em qualquer outro homem���depois assentiu.</p><p>��Podemos encontrar isso.���E elevou a voz.���<emphasis>Aethan Dor! Far Aldazar Din! Duadhe Mahdi�in! Far Dareis Mai! Seia Doon! Sha�mad Conde!</emphasis></p><p>Enquanto o homem gritava, os integrantes das sociedades guerreiras nomeadas avan�aram, at� que um bom quarto dos Aiel se postou ao redor dele e de Rand. Escudos Vermelhos. Irm�os da �guia. Buscadores das �guas. Donzelas da Lan�a. Olhos Negros. Andarilhos do Trov�o.</p><p>Rand reconheceu a amiga de Egwene, Aviendha, uma mulher alta e bonita de olhar arrogante e sisudo. As Donzelas haviam vigiado a porta de seu quarto, mas ele achou que nunca vira aquela mulher antes de os Aiel se reunirem para deixar a Pedra. Ela correspondeu o olhar, orgulhosa como um gavi�o de olhos verdes, depois girou a cabe�a e voltou a aten��o ao chefe de cl�.</p><p><emphasis>Bem, eu quis mesmo ser normal outra vez</emphasis>, pensou, um pouco pesaroso. Os Aiel sem d�vida lhe permitiam isso. At� mesmo ao chefe de cl� ofereciam apenas uma aten��o respeitosa, sem a defer�ncia elaborada que um lorde cobraria, e uma obedi�ncia que parecia existir entre iguais. Rand n�o esperava que lhe dessem algo mais.</p><p>Rhuarc deu instru��es em poucas palavras, e os Aiel que escutavam se dispersaram � frente, pelo trecho de colinas, correndo a um passo tranquilo. Alguns colocando o v�u, s� por garantia. O restante aguardou, de p� ou acocorados ao lado das mulas de carga.</p><p>Representavam quase todos os cl�s���exceto os Aiel Jenn, naturalmente; Rand n�o entendia muito bem se o Jenn existia ou n�o, pois, pelas raras men��es que os Aiel faziam, podia ser uma coisa ou a outra���incluindo alguns que disputavam rixas de sangue e outros que com frequ�ncia lutavam entre si. Era o m�ximo que sabia sobre eles. J� n�o era a primeira vez que se perguntava o que os mantivera unidos por tanto tempo. Seriam apenas as profecias da queda da Pedra e da busca por Aquele Que Vem Com a Aurora?</p><p>��Mais do que isso���respondeu Rhuarc, e Rand percebeu que expressara os pensamentos em voz alta.���A profecia nos levou al�m da Muralha do Drag�o, e o nome que n�o � pronunciado nos conduziu at� a Pedra de Tear.���O nome a que ele se referia era �Povo do Drag�o�, uma denomina��o secreta para os Aiel. Apenas os chefes dos cl�s e as S�bias o conheciam ou usavam, e parecia que o faziam com pouca frequ�ncia e apenas entre si.���Quanto ao resto? Ningu�m pode derramar o sangue de outro da mesma sociedade, � claro, mas misturar Shaarad com Goshien, Taardad e Nakai com Shaido� At� eu teria dan�ado as lan�as com os Shaido, se as S�bias n�o tivessem obrigado todos que cruzaram a Muralha do Drag�o a jurar pela �gua que deste lado das montanhas tratariam qualquer Aiel como se fosse da mesma sociedade. At� esses Shaido sorrateiros����Ele deu de ombros, bem de leve.���Est� vendo? N�o � f�cil, nem para mim.</p><p>��Esses Shaido s�o seus inimigos?���Rand se atrapalhou com a denomina��o. Na Pedra, os Aiel se dividiam em sociedades, n�o cl�s.</p><p>��N�s evitamos as rixas de sangue���explicou Rhuarc���mas os Taardad e os Shaido nunca foram pr�ximos. Alguns ramos �s vezes atacam os outros de repente, roubam cabras ou gado. Mas os juramentos frearam tr�s rixas de sangue e mais de dez antigas disc�rdias entre cl�s ou ramos. Vai ser um pouco mais f�cil por estarmos indo para Rhuidean, mesmo que alguns nos deixem antes disso. � proibido derramar o sangue dos que estejam a caminho de Rhuidean ou vindo de l�.���O Aiel encarou Rand com o rosto inexpressivo.���Pode ser que em breve nenhum de n�s derrame o sangue do outro.</p><p>Era imposs�vel dizer se ele considerava a perspectiva agrad�vel.</p><p>Uma das Donzelas deu um berro assustador. Ela estava parada no topo de uma colina, gesticulando com os bra�os.</p><p>��Parece que elas encontraram sua coluna de pedra���disse Rhuarc.</p><p>Juntando as r�deas, Moiraine lan�ou a Rand um olhar firme quando ele passou por ela, �vido, os calcanhares cravados em Jeade�en para faz�-lo galopar. Egwene guiou a �gua para perto de Mat, inclinada sobre a sela, com uma das m�os no cepilho alto do amigo, para conversar bem de perto. Parecia tentar faz�-lo contar alguma coisa ou admitir algo. Pela veem�ncia nos gestos de Mat, ou ele era inocente feito uma crian�a, ou estava mentindo descaradamente.</p><p>Pulando para fora da sela, Rand subiu correndo a colina baixa para examinar o que a Donzela���Aviendha���encontrara meio enterrado no ch�o, encoberto pela grama alta. Uma coluna de pedra cinza desgastada com pelo menos tr�s bra�as de comprimento e uma passada de espessura. S�mbolos estranhos cobriam cada polegada exposta, e todos eram envolvidos por uma linha estreita com o que Rand pensou serem palavras. Mesmo que pudesse ler a l�ngua���se � que era uma l�ngua���a inscri��o���se � que era isso mesmo���j� estava ileg�vel de t�o desgastada. Os s�mbolos, conseguia distinguir um pouco mais. Mas s� alguns, muitos podiam muito bem ser marcas da chuva e do vento.</p><p>Ele foi puxando a grama aos punhados para ver melhor e olhou para Aviendha. A jovem deixara a <emphasis>shoufa</emphasis> solta sobre os ombros, desnudando os cabelos avermelhados, e o observava com uma express�o severa e inexpressiva.</p><p>��Voc� n�o gosta de mim���constatou ele.���Por qu�?</p><p>Havia um s�mbolo que ele precisava achar, o �nico que conhecia.</p><p>��N�o gosto de voc�?���retrucou ela.���Voc� pode ser Aquele Que Vem Com a Aurora, um homem destinado. Quem pode gostar ou n�o gostar disso? Al�m do mais, voc� caminha livre, um aguacento, apesar do rosto, mas vai para Rhuidean atr�s de honra, enquanto eu�</p><p>��Enquanto voc� o qu�?���perguntou ele, quando a mulher parou de falar.</p><p>Foi procurando devagar pela pedra. Onde estava? Duas linhas onduladas cruzadas em um �ngulo, como um garrancho. <emphasis>Luz, se isso estiver enterrado, levaremos horas para virar.</emphasis> De repente, riu. N�o horas. Poderia canalizar e erguer a coisa do ch�o, ou Moiraine o faria, ou Egwene. Uma Pedra-portal oferecia resist�ncia para ser movida, mas sem d�vida ele seria capaz de tir�-la do lugar. Por�m, canalizar n�o ajudaria a encontrar as linhas onduladas. Apenas sentir o caminho tra�ado na pedra adiantaria alguma coisa.</p><p>Em vez de responder, a mulher Aiel se acocorou, tranquila, as lan�as curtas sobre os joelhos.</p><p>��Voc� tratou Elayne mal. Eu n�o ligaria, mas Elayne � quase irm� de Egwene, que � minha amiga. S� que Egwene ainda gosta de voc�, ent�o, por ela, vou tentar.</p><p>Ainda correndo os dedos pela pedra, ele balan�ou a cabe�a. De novo aquela hist�ria de Elayne. �s vezes, achava que as mulheres pertenciam a uma guilda, feito os artes�os das cidades. Se agisse mal com uma, as outras dez que encontrasse pela frente saberiam e desaprovariam.</p><p>Os dedos pararam e retornaram ao trechinho que acabara de examinar. Estava desgastado de forma quase irreconhec�vel, mas teve certeza de que eram as linhas onduladas. Representavam uma Pedra-portal na Ponta de Toman, n�o no Deserto, mas ficavam no ponto que havia sido a base da coluna, quando ela ficava de p�. Os s�mbolos do topo representavam mundos, os da base, Pedras-portais. Com um s�mbolo do topo e um da base, ele supostamente poderia viajar para determinada Pedra-portal em determinado mundo. Com apenas um da base, sabia que poderia alcan�ar uma Pedra-portal no seu mundo. A Pedra-portal perto de Rhuidean, por exemplo. Se soubesse o s�mbolo referente a ela. Agora precisava de sorte, daquele empuxo <emphasis>ta�veren</emphasis> manipulando a sorte a seu favor.</p><p>Uma m�o tocou seu ombro, e Rhuarc disse, com voz relutante:</p><p>��Essas duas s�o usadas para simbolizar Rhuidean, nos escritos antigos. H� muito tempo, nem mesmo o nome era escrito.���Ele tra�ou dois tri�ngulos, cada um contornando o que pareciam ser raios forcados, um apontado para a esquerda, o outro, para a direita.</p><p>��Voc� sabe o que � isso?���perguntou Rand. O Aiel desviou o olhar.���Que me queime, Rhuarc, preciso saber. Sei que voc� n�o quer falar a respeito, mas precisa me dizer. Diga, Rhuarc. J� viu uma dessas?</p><p>O homem respirou fundo antes de responder:</p><p>��J� vi uma igual.���Cada palavra saiu arrastada.���Quando um homem vai para Rhuidean, as S�bias e os homens do cl� o aguardam nas encostas de Chaendaer, perto de uma pedra parecida com essa.���Aviendha se levantou e foi embora, r�gida. Rhuarc a encarou de cara feia.���N�o sei de mais nada, Rand al�Thor. Que eu jamais veja sombra se souber de qualquer outra coisa.</p><p>Rand analisou a inscri��o indecifr�vel ao redor dos tri�ngulos. Qual delas? Apenas uma o levaria para onde desejava ir. A segunda poderia deix�-lo do outro lado do mundo ou no fundo do oceano.</p><p>O restante dos Aiel se reunira ao p� da colina, levando as mulas de carga. Moiraine e os outros desceram dos cavalos e subiram a encosta suave, conduzindo os animais. Mat levava Jeade�en junto com seu pr�prio cap�o castanho, mantendo o garanh�o bem distante do Mandarb de Lan. Agora que estavam sem seus donos, os dois se encaravam com ferocidade.</p><p>��Voc� n�o sabe mesmo o que est� fazendo, sabe?���protestou Egwene.���Moiraine, impe�a-o. Podemos cavalgar at� Rhuidean. Por que est� deixando ele ir adiante com isso? Por que n�o fala alguma coisa?</p><p>��O que voc� sugere que eu fa�a?���retorquiu a Aes Sedai, em tom seco.���N�o posso pux�-lo pelas orelhas. Podemos estar prestes a ver se os Sonhos s�o mesmo �teis.</p><p>��Sonhos?���indagou Egwene, r�spida.���O que os Sonhos t�m a ver com isso?</p><p>��Ser� que voc�s duas podem ficar quietas?���Rand tentava soar paciente.���Estou tentando decidir.</p><p>Egwene o encarou, indignada. Moiraine n�o exibia emo��o alguma, mas observava com aten��o.</p><p>��Temos que fazer desse jeito?���perguntou Mat.���O que � que voc� tem contra cavalgar?���Rand apenas o encarou, e o rapaz deu de ombros, constrangido.���Ah, que me queime. Se est� tentando decidir����Segurando as r�deas dos dois cavalos, ele tirou uma moeda do bolso, um marco de ouro de Tar Valon, e suspirou.���Tinha que ser a mesma moeda, n�o �?���Ele a rolou para o dorso da m�o.���Eu� tenho sorte �s vezes, Rand. Deixe minha sorte decidir. Cara, a que est� apontando para a direita, chama, a outra. O que me diz?</p><p>��Isso � a coisa mais rid�cula����come�ou Egwene, mas Moiraine a silenciou com um toque no bra�o.</p><p>Rand assentiu.</p><p>��Por que n�o?</p><p>Egwene resmungou qualquer coisa. Ele s� conseguiu ouvir �homens� e �garotos�, mas a frase n�o parecia um elogio.</p><p>A moeda girou no ar acima do polegar de Mat, brilhando meio fosca sob o sol. L� no alto, Mat a agarrou de volta e a devolveu ao dorso da outra m�o com um tapa, depois hesitou.</p><p>��Mas que maldi��o a gente ter que ficar confiando em uma moeda, Rand.</p><p>Rand p�s a palma em um dos s�mbolos, sem olhar.</p><p>��Este aqui���disse.���Voc� escolheu este.</p><p>Mat espiou a moeda e piscou os olhos.</p><p>��Isso mesmo. Como � que voc� sabia?</p><p>��Mais cedo ou mais tarde, tem que funcionar para mim.</p><p>Nenhum deles entendia, Rand sabia, mas n�o se importava. Ergueu a m�o e olhou para o que ele e Mat haviam escolhido. O tri�ngulo apontando para a esquerda. O sol j� passara do �pice. Precisava acertar. Bastava um erro, e todos perderiam tempo, em vez de ganhar. Essa devia ser a pior consequ�ncia. Tinha que ser.</p><p>De p�, Rand revirou a bolsa e puxou o pequeno objeto s�lido, uma pedra verde-escura entalhada que cabia sem dificuldade na palma da m�o, um homem de cara e corpo redondos, sentado de pernas cruzadas com uma espada sobre os joelhos. Esfregou o polegar na cabe�a careca da figura.</p><p>��Re�na todos aqui perto. Todos. Rhuarc, mande-os trazer os animais de carga para c�. Todo mundo tem que ficar o mais pr�ximo poss�vel de mim.</p><p>��Por qu�?���indagou o Aiel.</p><p>��Estamos indo para Rhuidean.���Rand jogou a escultura para o ar e logo a pegou de novo, ent�o inclinou-se para tocar a Pedra-portal.���Para Rhuidean. Agora mesmo.</p><p>Rhuarc o encarou com um olhar longo e inexpressivo, depois se endireitou para chamar os outros Aiel.</p><p>Moiraine deu um passo e aproximou-se da encosta gramada.</p><p>��O que � isso?���perguntou, curiosa.</p><p>��Um <emphasis>angreal</emphasis>���disse Rand, virando-o nas m�os.���Um que funciona com homens. Encontrei na Grande Posse quando estava procurando aquele batente de porta. Foi a espada que me fez peg�-lo, ent�o eu soube. Se voc� est� se perguntando como pretendo canalizar Poder suficiente para levar todo mundo, incluindo Aiel, mulas de carga e tudo o mais, a resposta � isso aqui.</p><p>��Rand���come�ou Egwene, preocupada���n�o tenho a menor d�vida de que voc� pensa estar fazendo o que � melhor, mas tem certeza de que quer mesmo fazer isso? Tem certeza de que esse angreal � forte o suficiente? Nem d� para saber se � mesmo um angreal. Acredito em voc� se diz que �, mas essas coisas variam, Rand. Pelo menos, os que as mulheres usam variam. Alguns s�o mais potentes que outros, e n�o d� para se guiar pelo tamanho ou pela forma.</p><p>��� claro que tenho certeza���mentiu.</p><p>N�o houvera meio de testar, n�o para esse objetivo, n�o sem que metade de Tear soubesse que ele estava tramando alguma coisa, mas ele achava que iria funcionar. Por pouco. E, como era pequeno, ningu�m perceberia que j� n�o estava na Pedra, a n�o ser que decidissem inventariar a Posse. O que era pouco prov�vel.</p><p>��Voc� deixa <emphasis>Callandor</emphasis> para tr�s e traz isso���resmungou Moiraine.���Parece que est� sabendo bastante sobre como usar Pedras-portais. Mais do que eu pensei.</p><p>��Verin me explicou muitas coisas���retrucou ele.</p><p>E era verdade, mas fora Lanfear quem explicara primeiro. Naquela �poca, ele a conhecia como Selene, mas n�o pretendia contar isso a Moiraine, muito menos sobre a oferta de ajuda da mulher. A Aes Sedai recebera a not�cia do aparecimento de Lanfear com tranquilidade at� demais, mesmo para ela. E mantinha aquele olhar ponderador, como se o pesasse em sua balan�a mental.</p><empty-line/><p>��Tome cuidado, Rand al�Thor���disse Moiraine, em sua voz g�lida e musical.���Qualquer <emphasis>ta�veren</emphasis> molda o Padr�o a um �ngulo ou outro, mas um <emphasis>ta�veren</emphasis> como voc� pode abrir um rasg�o na Renda da Era que durar� toda a eternidade.</p><p>Ele desejou saber o que a Aes Sedai estava pensando. Desejou saber o que <emphasis>ela</emphasis> estava planejando.</p><p>Os Aiel subiram a colina com as mulas de carga, tomando toda a encosta ao se amontarem em um c�rculo em torno dele e da Pedra-portal, os ombros colados uns nos outros, menos em Moiraine e Egwene. Para as duas, eles deixaram um pouco mais de espa�o. Rhuarc assentiu, como se dissesse: <emphasis>Pronto, agora est� nas suas m�os</emphasis>.</p><p>Ele ergueu o <emphasis>angreal</emphasis> verde e brilhante e pensou em mandar os Aiel deixarem os animais para tr�s, mas n�o sabia se eles o fariam, e tamb�m queria chegar ao fim da jornada com todos, ter a sensa��o de que os tratara com respeito. Boa vontade talvez fosse um recurso escasso no Deserto. Os Aiel o observavam com os rostos imperturb�veis. Alguns, no entanto, haviam posto os v�us. Mat, rolando sem cessar o marco de Tar Valon por entre os dedos, e Egwene, com o rosto empapado de suor, eram os �nicos que pareciam nervosos. N�o havia motivo para esperar mais. Rand precisava agir mais depressa do que qualquer um pensava que ele poderia.</p><p>Envolveu a si mesmo no Vazio e tentou tocar a Fonte Verdadeira, aquela luz tr�mula e nauseante que estava sempre ali, espreitando atr�s de si. O Poder o preencheu, um sopro de vida, um vento que arranca carvalhos do solo, um vento de ver�o com aroma doce de flores, o bafo f�tido que emana de um monte de esterco. Flutuando no Vazio, ele fixou os olhos no tri�ngulo reluzente diante de si e alcan�ou o <emphasis>angreal</emphasis>, sorvendo a torrente furiosa de <emphasis>saidin</emphasis>. Tinha que levar todos. Tinha que funcionar. Agarrado � figura, ele sugou o Poder �nico, puxou-o para dentro de si at� ter certeza de que iria explodir. Puxou mais. Mais.</p><p>O mundo piscou e cessou de existir.</p></section><section><title><p>23</p><p><image l:href="#13"/></p><p>Al�m da Pedra</p></title><p>Egwene cambaleou, passando os bra�os em volta do pesco�o de Bruma quando o ch�o se inclinou sob seus p�s. Ali � volta, os Aiel tentavam conter as mulas de carga, que zurravam enquanto deslizavam por uma encosta de pedras �ngreme, onde nada crescia. O calor que ela se lembrava de ter sentido em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> a golpeava. O ar quente emanava do solo ardente sob os p�s, penetrando as solas dos sapatos, o vapor reluzindo diante de seus olhos. Sentiu a pele pinicar por um instante, e logo o suor come�ou a brotar de todos os poros, empapou o vestido e come�ou a evaporar na mesma hora.</p><p>Os Aiel, muito altos, e as mulas que se debatiam quase a impediam de ver os arredores, mas Egwene conseguia vislumbrar algumas cenas nos espa�os entre eles. Uma espessa coluna inclinada de pedra cinza emergia do solo a menos de tr�s passadas. Fora de tal modo erodida pela areia soprada pelo vento que n�o havia como saber se era igual � Pedra-portal em Tear. Montanhas escarpadas, todas com encostas retas, como se entalhadas por machados gigantes, tostavam sob o sol ardente do c�u sem nuvens. Ainda assim, bem abaixo deles, no meio do vale comprido e �rido, pairava uma massa de n�voa densa, intumescida como as nuvens. O sol escaldante deveria t�-la dissipado em quest�o de segundos, mas a n�voa continuava intocada. Para al�m daquele cinza turvo erguiam-se topos de torres, alguns espiralados, outros interrompidos de repente, como se ainda n�o tivessem sido terminados.</p><p>��O mascate tinha raz�o���murmurou para si mesma.���Uma cidade nas nuvens.</p><p>Agarrado � r�dea do cap�o, Mat olhava tudo � volta com os olhos arregalados.</p><p>��Conseguimos!���Ele riu para ela.���Conseguimos, Egwene, e sem nenhuma� Que me queime, conseguimos!���Ele soltou o la�o na gola da camisa.���Luz, como est� quente. Que me queime, est� quente mesmo!</p><p>De s�bito, Egwene percebeu que Rand estava ajoelhado, mantendo a cabe�a baixa, apoiado no ch�o por uma das m�os. Puxando a �gua, foi avan�ando por entre os Aiel at� o amigo, enquanto Lan o ajudava a se levantar. Moiraine j� estava l�, analisando Rand e parecendo calma���mas a leve contra��o nos cantos dos l�bios indicava que ela estava com vontade de esbofetear as orelhas dele.</p><p>��Consegui���disse Rand, ofegante, olhando em volta.</p><p>Ele s� se mantinha de p� gra�as ao Guardi�o. Seu rosto estava esgotado e tenso, parecia um homem no leito de morte.</p><p>��Voc� chegou bem perto���retrucou Moiraine em um tom frio. Muito frio.���O <emphasis>angreal</emphasis> n�o deu conta da tarefa. N�o repita isso. Se for para correr riscos, que sejam calculados e com um objetivo firme. S� se for assim.</p><p>��Eu n�o corro riscos, Moiraine. Isso � com Mat.���Rand fez for�a para abrir a m�o. O <emphasis>angreal</emphasis>, o homenzinho gordo, cravara a ponta da espada em sua carne, bem em cima da marca da gar�a.���Talvez voc� tenha raz�o. Talvez eu precisasse mesmo de um <emphasis>angreal</emphasis> um pouco mais forte. S� um pouquinho, quem sabe����Ele soltou uma risada irritada.���Funcionou, Moiraine. � o que importa. Fui mais r�pido que eles. Funcionou.</p><p>��� o que importa���repetiu Lan, assentindo com a cabe�a.</p><p>Egwene fez um muxoxo de reprova��o. Homens. Um quase se matava, depois tentava fazer piada, e o outro lhe dizia que fora a decis�o certa. Ser� que eles nunca cresciam?</p><p>��A fadiga da canaliza��o n�o � como outros tipos de cansa�o���explicou Moiraine.���N�o posso livrar voc� dela por completo, n�o depois do tanto que voc� canalizou, mas vou fazer o poss�vel. Talvez o que restar possa servir de lembran�a para que tenha mais cuidado no futuro.���Ela <emphasis>estava</emphasis> com raiva; havia um toque muito n�tido de satisfa��o em sua voz.</p><p>O brilho de <emphasis>saidar</emphasis> envolveu a Aes Sedai quando ela se levantou e tomou a cabe�a de Rand nas m�os. O rapaz soltou um arquejo tr�mulo, tremeu incontrolavelmente, depois deu um solavanco e se livrou dela e de Lan.</p><p>��Pe�a, Moiraine���disse Rand, em um tom frio, enfiando o <emphasis>angreal</emphasis> de volta na bolsa do cinto.���Primeiro, pe�a. N�o sou seu cachorrinho, para voc� fazer o que quiser, a hora que quiser.���Ele esfregou as m�os para limpar um filete de sangue.</p><p>Egwene fez outro muxoxo de irrita��o. Infantil, e ainda por cima ingrato. Rand passara a se aguentar em p�, embora os olhos ainda parecessem cansados, e ela n�o precisava ver a palma da m�o dele para saber que o furinho desaparecera como se jamais tivesse existido. Um completo ingrato. Surpreendentemente, Lan n�o o repreendeu por falar com Moiraine daquele jeito.</p><p>Ocorreu a ela que os Aiel, tendo acalmado as mulas, estavam em sil�ncio absoluto. Olhavam para fora do grupo com desconfian�a. N�o se voltavam para o vale ou a cidade coberta de n�voa, que devia ser Rhuidean, mas para dois acampamentos, um de cada lado, talvez a meia milha de dist�ncia. Os dois agrupamentos, com dezenas e mais dezenas de tendas baixas e abertas dos lados, cada uma maior do que a outra, avan�avam encosta acima e quase desapareciam no meio da montanha. Ainda assim, dava para ver com clareza os Aiel marrom-acinzentados ao redor das tendas, as lan�as curtas e arcos de chifre encaixados nas flechas, uns j� com v�us nos rostos, outros ainda colocando-os. Pareciam suspensos nas pontas dos p�s, prontos para atacar.</p><p>��A paz de Rhuidean���gritou uma voz feminina do alto da encosta, e Egwene p�de sentir o al�vio da tens�o nos Aiel � sua volta. Os que estavam entre as tendas come�aram a baixar os v�us, embora ainda observassem com cautela.</p><p>Notou que havia um terceiro acampamento mais adiante, bem menor, com algumas tendas baixas em um pequeno trecho plano. Quatro mulheres vinham andando de l�, serenas e altivas, com saias pesadas e escuras e blusas brancas soltas, xales marrons ou cinza nos ombros���apesar do calor que come�ava a deixar Egwene meio tonta���e muitos colares e braceletes de marfim e ouro. Duas tinham os cabelos brancos, e uma, da cor do sol, caindo pelas costas at� a cintura e presos por len�os amarrados na testa.</p><p>Egwene reconheceu uma das mulheres de cabelos brancos: Amys, a S�bia que encontrara em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Mais uma vez ficou impressionada com o contraste entre as fei��es de Amy, escurecidas pelo sol, e seus cabelos brancos. A S�bia n�o parecia velha o bastante para aquele grisalho. A segunda mulher de cabelos brancos tinha o rosto mais enrugado, quase de av�, e uma das outras, com mechas grisalhas nos cabelos, parecia t�o velha quanto. Tinha certeza de que todas as quatro eram S�bias, muito provavelmente as mesmas que haviam assinado a carta para Moiraine.</p><p>As mulheres Aiel pararam na subida da encosta, ainda a dez passadas do grupo ao redor da Pedra-portal, e a que tinha jeito de av� estendeu as m�os abertas e disse, com uma voz envelhecida por�m poderosa:</p><p>��Que a paz de Rhuidean esteja com voc�s. Quem vem a Chaendaer pode retornar a seus fortes em paz. N�o haver� derramamento de sangue.</p><p>Com isso, os Aiel de Tear come�aram a se separar, distribuindo depressa os animais de carga e os conte�dos dos cestos. J� n�o estavam divididos em sociedades. Egwene viu Donzelas separando-se entre os diversos grupos, e alguns deles come�aram a contornar a montanha, evitando uns aos outros e os acampamentos, com ou sem paz de Rhuidean. Outros avan�aram em dire��o a algum dos grandes agrupamentos de tendas, onde enfim as armas foram baixadas.</p><p>Nem todos estavam certos da paz de Rhuidean. Lan soltou o cabo da espada ainda embainhada, embora Egwene n�o o tivesse visto p�r as m�os nela, e Mat mais que depressa deslizou um par de facas de volta para dentro das mangas. Rand estava parado com os polegares enfiados atr�s do cinto, mas o al�vio em seus olhos era claro.</p><p>Egwene procurou Aviendha para fazer algumas perguntas antes de se aproximar de Amys. Sem d�vida ali, em sua pr�pria terra, a Aiel falaria um pouco mais abertamente sobre as S�bias. Avistou a Donzela, levando um grande saco de juta que tilintava e duas tape�arias de parede enroladas sobre o ombro enquanto avan�ava, a passos decididos, em dire��o a um dos acampamentos.</p><p>��Voc� vai ficar, Aviendha���berrou a S�bia de cabelos grisalhos.</p><p>Aviendha parou na mesma hora, sem olhar para ningu�m.</p><p>Egwene fez men��o de caminhar at� ela, mas Moiraine murmurou:</p><p>��� melhor n�o interferir. Duvido que ela queira compaix�o ou que pense que � qualquer outra coisa que voc� est� oferecendo.</p><p>Egwene assentiu, por instinto. Aviendha parecia mesmo querer ficar sozinha. O que as S�bias queriam com ela? A jovem teria violado alguma regra, alguma lei?</p><p>Ela pr�pria n�o teria se incomodado em ter mais companhia. Sentia-se muito exposta, ali, parada, sem nenhum Aiel � volta, com tantos observando por entre as tendas. Os Aiel que tinham ido � Pedra haviam sido educados, mesmo que n�o exatamente simp�ticos, mas os vigias n�o pareciam nem uma coisa nem outra. Sentia a tenta��o de abra�ar <emphasis>saidar</emphasis>. Apenas Moiraine, fria e serena como sempre, apesar do suor no rosto, e Lan, t�o impass�vel quanto as rochas ao redor, evitavam que o fizesse. Se houvesse algum perigo, eles saberiam. Enquanto aceitassem a situa��o, ela tamb�m aceitaria. No entanto, queria que os Aiel parassem de encar�-los.</p><p>Rhuarc subiu a encosta com um sorriso.</p><p>��Estou de volta, Amys, mas aposto que n�o do jeito que voc� esperava.</p><p>��Eu sabia que voc� estaria aqui hoje, sombra do meu cora��o.���Ela se espichou para tocar o rosto dele, deixando o xale marrom cair por sobre os bra�os.���Minha esposa-irm� manda lembran�as.</p><p>��Foi isso que voc� quis dizer sobre os Sonhos���disse Egwene, baixinho, para Moiraine. Lan era o �nico perto o bastante para escutar.���Foi por isso que estava disposta a deixar Rand tentar nos trazer at� aqui pela Pedra-portal. Elas sabiam disso e contaram a voc� naquela carta. N�o, isso n�o faz sentido. Se tivessem mencionado uma Pedra-portal, voc� n�o teria tentado dissuadir Rand. Mas elas sabiam que estar�amos aqui hoje.</p><p>Moiraine assentiu, sem tirar os olhos das S�bias.</p><p>��Elas escreveram que nos encontrariam aqui, em Chaendaer, hoje. Achei� improv�vel� at� Rand mencionar as Pedras. Quando ele se mostrou certo de que havia uma aqui, mesmo comigo tentando dissuadi-lo� Digamos apenas que de repente pareceu <emphasis>muito</emphasis> prov�vel que chegar�amos a Chaendaer ainda hoje.</p><p>Egwene inspirou o ar quente. Ent�o essa era uma das coisas que os Sonhadores podiam fazer. Mal podia esperar para come�ar a aprender. Queria ir atr�s de Rhuarc e se apresentar para Amys���se reapresentar���mas Rhuarc e Amys se olhavam de uma forma que exclu�a intrusos.</p><p>De cada um dos acampamentos sa�ra um homem. Um era alto, de ombros largos, cabelos de fogo, perto da meia-idade, o outro, mais velho e mais moreno, tinha a mesma altura, embora fosse mais magro. Os dois pararam a poucos passos de Rhuarc e das S�bias, um de cada lado. O mais velho, de rosto curtido, n�o trazia arma vis�vel al�m da faca de cintura de l�mina grossa, mas o outro portava lan�as e broquel de couro e mantinha na cabe�a erguida uma express�o de desprezo, feroz e orgulhosa, direcionada a Rhuarc, que o ignorou e virou-se para o homem mais velho.</p><p>��Vejo voc�, Heirn. Ser� que algum dos chefes dos ramos decidiu que j� morri? Quem � que est� querendo ocupar meu lugar?</p><p>��Vejo voc�, Rhuarc. Ningu�m do Taardad adentrou Rhuidean, nem deseja. Amys disse que viria encontrar voc�s aqui hoje, e as outras S�bias viajaram com ela. Trouxe esses homens do ramo Jindo para garantir que chegariam em seguran�a.</p><p>Rhuarc assentiu, solene. Egwene teve a sensa��o de que algo importante acabara de ser dito���ou insinuado. As S�bias n�o olharam para o homem de cabelos de fogo, nem Rhuarc ou Heirn, mas, a julgar pelo vermelho que surgiu nas bochechas do sujeito, todos poderiam muito bem estar com os olhos fixos nele. Egwene olhou para Moiraine e recebeu um meneio m�nimo de cabe�a em resposta: a Aes Sedai tamb�m n�o estava entendendo.</p><p>Lan inclinou-se entre as duas e falou baixinho.</p><p>��Uma S�bia � capaz de ir em seguran�a a qualquer lugar, a qualquer forte, independente do cl�. Acho que nem mesmo uma rixa de sangue atinge uma S�bia. Este tal de Heirn veio proteger Rhuarc de quem quer que sejam as pessoas do outro acampamento, mas n�o seria honroso admitir isso.���Moiraine ergueu uma sobrancelha apenas um mil�metro, ent�o ele acrescentou:���N�o sei muita coisa sobre eles, mas era frequente lutarmos um contra os outros antes de nos conhecermos. Voc� nunca me perguntou sobre os Aiel.</p><p>��Vou corrigir isso���retrucou a Aes Sedai, em um tom seco.</p><p>Virar-se de volta para olhar as S�bias e os tr�s homens foi o suficiente para deixar Egwene tonta. Lan empurrou um cantil de couro desarrolhado em suas m�os, e ela inclinou a cabe�a para beber, agradecida. A �gua estava t�pida e cheirava a couro, mas, naquele calor, parecia fresca como se sa�da da nascente. Ofereceu o cantil meio vazio para Moiraine, que bebeu com parcim�nia e o devolveu. Egwene ficou satisfeita em beber o resto de um gole s�, de olhos fechados. Sentiu um l�quido escorrendo por sua cabe�a, e abriu os olhos depressa. Lan esvaziava outro cantil em cima dela, e o cabelo de Moiraine j� estava pingando.</p><p>��Este calor pode matar, quando n�o se est� acostumado���explicou o Guardi�o, enquanto molhava um par de len�os de linho branco que puxara do casaco.</p><p>Sob suas instru��es, ela e Moiraine amarraram os len�os encharcados ao redor da testa. Rand e Mat faziam o mesmo. Lan deixou a pr�pria cabe�a desprotegida. Nada parecia perturbar aquele homem.</p><p>O sil�ncio entre Rhuarc e os Aiel que o acompanhavam se prolongou, mas o chefe de cl� enfim virou-se para o homem de cabelos de fogo.</p><p>��Ent�o os Shaido est�o sem chefe de cl�, Couladin?</p><p>��Suladric est� morto���respondeu o homem.���Muradin adentrou Rhuidean. Se ele falhar, eu irei.</p><p>��Voc� n�o pediu, Couladin���disse a S�bia que parecia uma av�, com aquela voz aguda por�m firme.���Se Muradin falhar, pe�a. Somos quatro, o bastante para dizer sim ou n�o.</p><p>��Eu tenho esse direito, Bair���retrucou Couladin, irritado.</p><p>Tinha o olhar de um homem que n�o estava acostumado a ser impedido.</p><p>��Voc� tem o direito de pedir���retrucou a voz fina da mulher���e n�s, de responder. Creio que n�o ter� permiss�o de entrar, seja l� o que acontecer com Muradin. Voc� est� estragado por dentro, Couladin.</p><p>A velha mexeu o xale cinza, encobrindo outra vez os ombros angulosos, como se sugerindo que estava falando mais do que o necess�rio.</p><p>O rosto do homem de cabelos de fogo ficou vermelho.</p><p>��Meu irm�o-primeiro voltar� marcado como chefe de cl�, e levaremos os Shaido a conquistar grandes honras! Pretendemos�!���Ele fechou a boca mais do que depressa, quase tremendo.</p><p>Egwene pensou que ficaria de olho no homem se o visse por perto. O sujeito a fazia lembrar dos Congar e Coplin da aldeia, sempre convencidos e arrumando confus�es. Sem d�vida nunca vira um Aiel t�o inflamado.</p><p>Amys parecia j� t�-lo dispensado.</p><p>��H� uma pessoa que veio com voc�, Rhuarc���disse.</p><p>Egwene esperava que a mulher falasse com ela, mas os olhos de Amys foram direto para Rand. Moiraine obviamente n�o demonstrou surpresa. Egwene se perguntou o que haveria naquela carta das quatro S�bias que a Aes Sedai n�o tinha revelado.</p><p>Rand foi pego de surpresa e hesitou por um instante, mas ent�o avan�ou pela colina a passos largos e postou-se ao lado de Rhuarc, olhando as mulheres nos olhos. O suor colava a camisa branca ao corpo e empapava as cal�as com manchas escuras. Com um peda�o de pano branco torcido e amarrado em volta da cabe�a, ele decerto n�o parecia t�o grandioso quanto l� no Cora��o da Pedra. Fez uma mesura estranha, com a m�o esquerda no joelho e a direita espalmada para cima.</p><p>��Por direito do sangue���disse���pe�o permiss�o para adentrar Rhuidean, pela honra de nossos ancestrais e pela mem�ria do que foi.</p><p>Amys piscou, claramente surpresa, e Bair murmurou:</p><p>��Uma forma antiga, mas o pedido foi feito. Respondo que sim.</p><p>��Eu tamb�m respondo que sim, Bair���disse Amys.���Seana?</p><p>��Esse homem n�o � Aiel���interveio Couladin, cheio de raiva. Egwene suspeitou que o sujeito passasse quase o tempo todo irritado.���Para ele, � a morte estar nesta terra! Por que Rhuarc o trouxe aqui? Por que�?</p><p>��Voc� deseja ser uma S�bia, Couladin?���perguntou Bair, fazendo uma cara feia que acentuava as rugas do rosto.���Ponha um vestido e venha falar comigo, que vejo se voc� pode ser treinado. At� l�, permane�a em sil�ncio quando as S�bias est�o falando!</p><p>��Minha m�e era Aiel���respondeu Rand, com a voz tensa.</p><p>Egwene o encarou. Ela mal sa�ra do ber�o quando Kari al�Thor morrera, mas, se a mulher de Tam tivesse sido Aiel, ela decerto teria ouvido falar disso. Olhou para Moiraine. A Aes Sedai observava com o rosto pl�cido e calmo. At� que Rand se parecia bastante com os homens de Aiel. Era alto, de olhos azuis acinzentados e cabelos ruivos, mas a ideia era rid�cula.</p><p>��Sua m�e, n�o���disse Amys, devagar.���Seu pai.���Egwene balan�ou a cabe�a. A coisa beirava a loucura. Rand abriu a boca, mas Amys n�o o deixou falar.���Seana, o que voc� diz?</p><p>��Sim���respondeu a mulher de mechas grisalhas.���Melaine?</p><p>A �ltima das quatro, uma bela mulher de cabelos loiro-acobreados, n�o mais de dez ou quinze anos mais velha que Egwene, hesitou:</p><p>��Precisa ser feito���respondeu por fim, relutante.���Respondo que sim.</p><p>��Voc� obteve sua resposta���disse Amys, dirigindo-se a Rand.���Pode adentrar Rhuidean, e�</p><p>Ela parou de repente, quando Mat se levantou e imitou, desajeitado, a mesura de Rand.</p><p>��Tamb�m pe�o para adentrar Rhuidean���disse, tr�mulo.</p><p>As quatro S�bias o encararam. Rand virou a cabe�a para o lado em um solavanco de surpresa. Egwene pensou n�o haver ningu�m mais chocado que ela, mas Couladin provou que estava errada. Com uma careta de desd�m, ele ergueu uma das lan�as para golpear o peito de Mat.</p><p>O brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> rodeou Amys e Melaine, e o homem com cabelos cor de fogo foi erguido por fluxos e arremessado cerca de doze passadas para tr�s.</p><p>Egwene observava, de olhos arregalados. Elas podiam canalizar. Pelo menos duas delas. De repente, as fei��es suaves e joviais de Amys, emolduradas pelos cabelos brancos, saltaram aos olhos de Egwene pelo que realmente eram: algo muito pr�ximo do ar et�reo das Aes Sedai. Moiraine estava completamente im�vel. Egwene, por�m, era quase capaz de ouvir os pensamentos dela. Estava claro que aquilo era t�o surpreendente para a Aes Sedai quanto para ela pr�pria.</p><p>Couladin ergueu-se o bastante para permanecer agachado.</p><p>��Voc�s aceitam esse estrangeiro como se fosse um de n�s���disse, com a voz rouca, apontando para Rand com a lan�a que tentara usar contra Mat.���Se � isso o que dizem, ent�o que seja. Ele ainda � um aguacento fraco, e Rhuidean vai mat�-lo.���A lan�a balan�ou na dire��o de Mat, que tentava tirar uma faca da manga sem que ningu�m notasse.���Mas ele� � a morte para ele, estar aqui, e � sacril�gio que ele sequer <emphasis>pe�a</emphasis> para adentrar Rhuidean. Ningu�m al�m dos do sangue podem entrar. Ningu�m!</p><p>��Volte para sua tenda, Couladin���retrucou Melaine, com frieza.���E voc�, Heirn. Voc� tamb�m, Rhuarc. Este � um assunto das S�bias e de mais nenhum homem, a n�o ser os que pediram. V�o!</p><p>Rhuarc e Heirn assentiram e foram em dire��o ao grupo menor de tendas, caminhando juntos. Couladin olhou feio para Rand, Mat e as S�bias, depois virou-se de repente e saiu a passos firmes em dire��o ao acampamento maior.</p><p>As S�bias se entreolharam. Egwene diria que pareciam perturbadas, embora tivessem quase tanto talento quanto as Aes Sedai em manter as express�es impass�veis quando queriam.</p><p>��N�o � permitido���respondeu Amys, enfim.���Meu jovem, voc� n�o sabe o que fez. Volte com os outros.</p><p>Ela olhou para Egwene, Moiraine e Lan, agora sozinho com os cavalos, perto da Pedra-portal erodida pelo vento. Egwene n�o conseguiu identificar nada naquele olhar.</p><p>��Eu n�o posso.���Mat soava desesperado.���J� vim at� aqui, mas isso n�o conta, n�o �? Preciso ir a Rhuidean.</p><p>��N�o � permitido���retrucou Melaine, com rispidez, os longos cabelos louro-acobreados balan�ando enquanto fazia que n�o com a cabe�a.���Voc� n�o tem sangue Aiel nas veias.</p><p>Rand estivera observando Mat o tempo todo.</p><p>��Ele vem comigo���disse, de repente.���Voc�s me deram permiss�o, e ele vem comigo quer deixem ou n�o.</p><p>Rand olhou de volta para as S�bias, n�o de forma desafiadora, apenas firme e decidida. Egwene o conhecia daquele jeito: Rand n�o cederia, independente do que elas dissessem.</p><p>��N�o � permitido���retrucou Melaine com firmeza, dirigindo-se �s irm�s. Puxou o xale para cobrir a cabe�a.���A lei � clara. Mulher alguma pode ir a Rhuidean mais de duas vezes, homem algum, mais de uma, e ningu�m que n�o tenha o sangue Aiel.</p><p>Seana balan�ou a cabe�a.</p><p>��Muita coisa j� mudou, Melaine. Os costumes antigos�</p><p>��Se ele � o escolhido���disse Bair���a Hora da Mudan�a est� chegando. H� Aes Sedai em Chaendaer, e tamb�m <emphasis>Aan�allein,</emphasis> com o manto furta-cor. Ser� que ainda podemos nos prender aos dias de outrora? Mesmo sabendo a mudan�a que nos aguarda?</p><p>��N�o podemos nos prender���disse Amys.���Tudo se apoia no limiar da mudan�a. Melaine?���A mulher de cabelos acobreados olhou para as montanhas ao redor, para a cidade oculta pela n�voa, depois suspirou e assentiu.���Est� feito���disse Amys, virando-se para Rand e Mat.���Voc�s���come�ou, depois parou.���Como � que se chamam?</p><p>��Rand al�Thor.</p><p>��Mat. Mat Cauthon.</p><p>Amys assentiu.</p><p>��Voc�, Rand al�Thor, vai para o cora��o de Rhuidean, para o pr�prio centro. Se deseja ir com ele, Mat Cauthon, que seja, mas saiba que a maioria dos homens que l� adentram n�o retorna, e alguns voltam loucos. Voc�s n�o podem levar comida ou �gua, em mem�ria de nossas peregrina��es depois da Ruptura. Devem entrar em Rhuidean desarmados, com apenas as m�os e cora��es, para honrar o Jenn. Se tiverem armas, depositem-nas no ch�o diante de n�s. Elas estar�o aqui quando voltarem. Se voltarem.</p><p>Rand desembainhou a faca de cintura e deitou-a aos p�s de Amys, ent�o, depois de um instante, acrescentou a estatueta de pedra verde do homenzinho redondo.</p><p>��� o melhor que posso fazer���disse.</p><p>Mat come�ou com a faca de cintura e prosseguiu, puxando facas das mangas, de dentro do casaco e at� uma da nuca, formando uma pilha que pareceu impressionar at� as Aiel. Ele pareceu prestes a parar, ent�o olhou as mulheres e tirou mais duas, uma de cada bota.</p><p>��Esqueci essas���disse, abrindo um enorme sorriso e dando de ombros.</p><p>Os olhares im�veis das S�bias fizeram o sorriso desaparecer.</p><p>��Est�o jurados a Rhuidean���disse Amys, em um tom formal, olhando por cima das cabe�as dos homens.</p><p>��Rhuidean pertence aos mortos���responderam as outras tr�s, juntas.</p><p>��N�o podem falar com os vivos at� retornarem���entoou a mulher.</p><p>��Os mortos n�o falam com os vivos���responderam as outras, uma vez mais.</p><p>��N�o podemos v�-los at� retornarem para o meio dos vivos.</p><p>Amys cobriu os olhos com o xale, e, uma a uma, as outras tr�s fizeram o mesmo. De rostos cobertos, todas falaram, em un�ssono:</p><p>��Saiam do meio dos vivos, e n�o nos assombrem com lembran�as do que se perdeu. N�o falem do que os mortos veem.</p><p>As quatro permaneceram ali, em sil�ncio, segurando os xales e esperando.</p><p>Rand e Mat se entreolharam. Egwene queria ir at� eles, falar com os dois���que exibiam a express�o firme demais que os homens fazem quando n�o querem mostrar que est�o incomodados ou assustados���mas isso poderia quebrar a cerim�nia.</p><p>Enfim, Mat soltou uma risada.</p><p>��Bem, suponho que os mortos possam conversar entre si, ao menos. Ser� que isso conta como� N�o importa. Voc� acha tem problema irmos a cavalo?</p><p>��Acho que tem���respondeu Rand.���Acho que teremos que ir a p�.</p><p>��Ah, que queime meus p�s doloridos. Ent�o � melhor irmos andando de uma vez. Vamos levar metade da tarde para chegar l�. Se tivermos sorte.</p><p>Rand abriu um sorriso reconfortante para Egwene quando come�aram a descer a montanha, como se para convenc�-la de que n�o havia perigo algum. O sorriso escancarado de Mat era o tipo que ele usava quando fazia algo especialmente idiota, como tentar dan�ar em cima de um telhado.</p><p>��Voc� n�o vai fazer nenhuma� <emphasis>loucura</emphasis>� vai?���perguntou Mat.���Pretendo voltar vivo.</p><p>��Eu tamb�m���respondeu Rand.���Eu tamb�m.</p><p>As vozes dos dois foram sumindo, e eles ficavam menores � medida que desciam. Quando se reduziram a figuras min�sculas e quase indistingu�veis, as S�bias baixaram os xales.</p><p>Alisando o vestido e desejando n�o estar t�o suada, Egwene subiu a curta dist�ncia at� elas, levando Bruma.</p><p>��Amys? Sou Egwene al�Vere. Voc� disse que eu deveria�</p><p>Amys ergueu a m�o para interromp�-la e olhou para Lan, que seguia com Mandarb, Pips e Jeade�en atr�s de Moiraine e Aldieb.</p><p>��Isso � assunto de mulheres, <emphasis>Aan�allein</emphasis>. Voc� precisa se afastar. V� para as tendas. Rhuarc lhe oferecer� �gua e sombra.</p><p>Lan aguardou o leve aceno de cabe�a de Moiraine antes de curvar-se em uma mesura e seguir para onde Rhuarc fora. O manto furta-cor que pendia de suas costas �s vezes lhe conferia a apar�ncia de uma cabe�a e bra�os sem corpo flutuando diante dos tr�s cavalos.</p><p>��Por que o chama assim?���perguntou Moiraine, quando Lan j� n�o podia ouvi-las.���Homem �nico. Voc�s o conhecem?</p><p>��N�s o conhecemos, Aes Sedai.���Amys fez o t�tulo soar como um tratamento entre iguais.���O �ltimo dos Malkieri. O homem que n�o abrir� m�o de sua guerra contra a Sombra, embora sua na��o tenha h� muito sido destru�da por ela. � um homem de muita honra. Soube pelo sonho que, se voc� viesse, era quase certo que <emphasis>Aan�allein</emphasis> tamb�m viria, mas n�o sabia que ele a obedecia.</p><p>��Ele � meu Guardi�o���disse Moiraine, simplesmente.</p><p>Egwene achou que a Aes Sedai estava incomodada, apesar do tom, e sabia por qu�. Era <emphasis>quase</emphasis> certo que Lan viria com Moiraine? Lan sempre seguia a mulher, ele a seguiria at� o Po�o da Perdi��o sem pestanejar. Mas quase t�o interessante para Egwene era o �<emphasis>se voc� viesse</emphasis>�. As S�bias sabiam ou n�o que estavam a caminho? Talvez a interpreta��o dos Sonhos n�o fosse t�o direta quanto imaginava. Estava prestes a perguntar quando Bair se pronunciou:</p><p>��Aviendha? Venha c�.</p><p>Aviendha estava acocorada, inclinada com os bra�os ao redor dos joelhos, encarando o ch�o, desconsolada. Levantou-se devagar. Se Egwene n�o conhecesse bem a amiga, diria que ela estava com medo. Aviendha foi se arrastando at� as S�bias e deitou a bolsa e as tape�arias no ch�o, a seus p�s.</p><p>��Est� na hora���disse Bair, com delicadeza. Ainda assim, n�o havia condescend�ncia nos olhos azul-claros.���Voc� correu com as lan�as o quanto p�de. Mais do que deveria.</p><p>Aviendha ergueu a cabe�a, desafiadora.</p><p>��Sou uma Donzela da Lan�a. N�o quero ser S�bia. N�o serei!</p><p>Os rostos das S�bias endureceram. Egwene lembrou-se do C�rculo das Mulheres, em casa, confrontando uma mulher que se metia em alguma confus�o.</p><p>��Voc� j� foi tratada com mais gentileza do que se fazia no meu tempo���disse Amys, com a voz dura como pedra.���Eu tamb�m recusei meu chamado. Minhas irm�s de lan�a quebraram minhas lan�as diante de meus olhos. Levaram-me at� Bair e Coedelin com m�os e p�s amarrados, completamente nua.</p><p>��E uma bonequinha linda enfiada debaixo do bra�o���completou Bair, em um tom seco���para lembrar o quanto estava sendo infantil. Se bem me lembro, voc� fugiu nove vezes no primeiro m�s.</p><p>Amys assentiu, de cara feia.</p><p>��E a cada vez me fizeram chorar feito uma garotinha. No segundo m�s, fugi apenas cinco. Pensava que tinha tanta for�a e dureza quanto uma mulher era capaz de ter. Mas n�o era esperta, levei meio ano para aprender que voc�, Bair, era mais forte e mais dura do que eu jamais poderia ser. Por fim, aprendi qual era meu dever, minha obriga��o com os outros. Assim como voc� aprender�, Aviendha. Voc� n�o � crian�a. J� est� na hora deixar de lado as bonecas e as lan�as e se tornar a mulher que est� destinada a ser.</p><p>De repente, Egwene soube por que sentira uma afinidade t�o grande com Aviendha desde a primeira vez que a vira, soube por que Amys e as outras queriam que ela se tornasse S�bia. Aviendha podia canalizar. Assim como ela pr�pria, Elayne e Nynaeve���e at� Moiraine���aquela Aiel era uma das raras mulheres que n�o apenas podiam ser treinadas a canalizar, mas que nasciam com a habilidade, de modo que um dia tocavam a Fonte Verdadeira, sabendo ou n�o o que estavam fazendo. O rosto de Moiraine estava tranquilo e pl�cido, mas Egwene viu a confirma��o em seus olhos. A Aes Sedai sem d�vida soubera desde a primeira vez que se aproximou da Aiel. Egwene percebeu que sentia aquela mesma afinidade com Amys e Melaine, mas n�o com Bair e Seana. Apenas as duas primeiras eram capazes de canalizar, tinha certeza. E agora sentia o mesmo com Moiraine. Era a primeira vez que sentia uma coisa dessas. A Aes Sedai era uma mulher distante.</p><p>Algumas das S�bias, pelo menos, pareciam ver algo mais no rosto de Moiraine.</p><p>��Voc� pretendia lev�-la para sua Torre Branca���disse Bair���para torn�-la uma de voc�s. Ela � Aiel, Aes Sedai.</p><p>��Com o treinamento correto, pode se tornar muito forte���retorquiu Moiraine.���Tanto quanto Egwene. Na Torre, ela pode alcan�ar essa for�a.</p><p>��Tamb�m podemos trein�-la, Aes Sedai.���A voz de Melaine era bastante suave, mas havia um toque de desprezo nos olhos verdes e resolutos.���E melhor. J� conversei com Aes Sedai. Voc�s mimam as mulheres, na Torre. A Terra da Trindade n�o � lugar para isso. Conosco, Aviendha logo aprender� do que � capaz. Com voc�s, passaria anos na fase das brincadeiras.</p><p>Egwene lan�ou a Aviendha um olhar preocupado. A jovem encarava os pr�prios p�s, a rebeldia desaparecera. Se as S�bias achavam que as mulheres treinadas na Torre era <emphasis>mimadas</emphasis>� Trabalhara mais duro e fora mais disciplinada como novi�a do que em toda a vida. Sentiu uma pontada genu�na de compaix�o pela Aiel.</p><p>Amys estendeu as m�os, e Aviendha, relutante, entregou as lan�as e o broquel, encolhendo-se quando a S�bia os jogou no ch�o com viol�ncia. Bem devagar, Aviendha foi deslizando o estojo do arco das costas e o entregou, depois desafivelou o cinto que continha a aljava e a faca embainhada. Amys pegou cada objeto ofertado e atirou no ch�o, como lixo. A cada vez, Aviendha estremecia. Uma l�grima tremulava no canto do olho verde-azulado.</p><p>��Precisa trat�-la desse jeito?���inquiriu Egwene, irritada. Amys e as outras a olharam, impass�veis, mas ela n�o seria intimidada.���Est�o tratando coisas importantes para ela como se fossem lixo.</p><p>��Ela precisa v�-las como lixo���disse Seana.���Quando retornar, se retornar, vai queim�-las e espalhar as cinzas. O metal, dar� para um ferreiro fazer objetos simples, mas n�o armas. Nem mesmo uma faca de cozinha. Fivelas, panelas, quebra-cabe�as para crian�as. Coisas que ela mesma vai passar adiante, com as pr�prias m�os, depois de prontas.</p><p>��A Terra da Trindade n�o � delicada, Aes Sedai���disse Bair.���Aqui, a delicadeza definha.</p><p>��O <emphasis>cadin�sor</emphasis>, Aviendha.���Amys apontou para as armas descartadas.���Suas roupas novas aguardar�o seu retorno.</p><p>Aviendha se despiu com movimentos mec�nicos, jogando casaco, cal�as, botas macias, tudo na pilha. Ent�o parou, nua, sem mexer um dedo sequer, embora Egwene sentisse que os pr�prios p�s estavam prestes a explodir em bolhas dentro dos sapatos. Lembrou-se de quando assistira � incinera��o das roupas que usara para ir � Torre Branca, rompendo os elos com sua vida pregressa, mas n�o fora assim, desse jeito. N�o t�o duro.</p><p>Quando Aviendha come�ou a juntar o saco e as tape�arias de parede � pilha, Seana os tomou de sua m�o.</p><p>��Isso voc� pode pegar de volta. Se retornar. Se n�o, ir�o para a sua fam�lia, como recorda��o.</p><p>Aviendha assentiu. N�o parecia com medo. Parecia relutante, irada, at� mesmo emburrada, mas n�o com medo.</p><p>��Em Rhuidean���disse Amys���voc� encontrar� tr�s aros, dispostos da seguinte forma.���Ela desenhou tr�s linhas no ar, que se uniam ao centro.���Entre em qualquer um. Ver� seu futuro diante de si, e de novo, e de novo, com varia��es. Sua vida n�o ser� toda guiada por eles, pois se juntam e desvanecem como hist�rias ouvidas h� muito tempo, e � melhor assim. Mas voc� se lembrar� o bastante para saber de algumas coisas necess�rias a voc�, por mais que as menospreze, e outras desnecess�rias, por serem esperan�as alimentadas. Isso � o come�o, para ser considerada s�bia. Algumas mulheres jamais retornam dos aros, talvez n�o sejam capazes de encarar o futuro. Algumas que sobrevivem aos aros n�o sobrevivem � segunda viagem a Rhuidean, ao cora��o. Voc� n�o est� abrindo m�o de uma vida dif�cil e perigosa por uma mais branda, e sim por uma ainda mais dif�cil e mais perigosa.</p><p>Um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Amys estava descrevendo um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Que tipo de lugar era essa Rhuidean? Egwene percebeu que queria ir at� l� para descobrir. Era bobagem. N�o estava ali para correr riscos desnecess�rios com <emphasis>ter�angreal</emphasis> sobre os quais nada sabia.</p><p>Melaine tomou o queixo de Aviendha nas m�os e virou o rosto da jovem para si.</p><p>��Voc� tem a for�a���disse, com uma convic��o tranquila.���Suas armas agora s�o a mente forte e o cora��o forte, mas voc� deve manej�-los com a seguran�a com que sempre manejou a lan�a. Lembre-se delas, use-as, e ser�o suficientes para voc�.</p><p>Egwene estava surpresa. Das quatro, a mulher de cabelos dourados seria a �ltima que imaginaria ser capaz de demonstrar compaix�o.</p><p>Aviendha assentiu e at� conseguiu abrir um sorriso.</p><p>��Vou chegar em Rhuidean antes desses homens. Eles n�o sabem correr.</p><p>Cada uma das S�bias beijou-a com delicadeza, uma vez em cada face, e murmurou:</p><p>��Volte para n�s.</p><p>Egwene apertou a m�o de Aviendha e foi correspondida. Ent�o a Aiel desceu a montanha aos saltos. Parecia que iria mesmo alcan�ar Rand e Mat. Egwene a observou ir, preocupada. Era como ser elevada a Aceita, pelo que via, por�m sem qualquer treinamento como novi�a, sem ningu�m para consol�-la no fim. Como teria sido ser elevada a Aceita em seu primeiro dia na Torre? Achava que teria enlouquecido. Fora assim com Nynaeve, por conta da for�a da mulher. Achava que ao menos um pouco do desprezo da amiga pelas Aes Sedai vinha dessa experi�ncia. <emphasis>Volte para n�s</emphasis>, pensou. <emphasis>Seja firme.</emphasis></p><p>Quando Aviendha desapareceu de vista, Egwene suspirou e virou-se de volta para as S�bias. Tinha seus pr�prios motivos para estar ali, e adiar as coisas n�o ajudaria em nada.</p><p>��Amys, em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> voc� me disse que eu deveria vir at� voc� para aprender. Aqui estou.</p><p>��Pressa���respondeu a mulher de cabelos brancos.���T�nhamos pressa porque Aviendha lutou por tanto tempo contra sua <emphasis>toh</emphasis> e porque tem�amos que os Shaido pudessem p�r os v�us, mesmo aqui, se n�o mand�ssemos Rand al�Thor a Rhuidean antes que pudessem pensar.</p><p>��Acredita que teriam tentado mat�-lo?���perguntou Egwene.���Mas voc�s mandaram gente para a Muralha do Drag�o atr�s dele. Aquele Que Vem Com a Aurora.</p><p>Bair mexeu no xale.</p><p>��Talvez ele seja. Veremos. Se ele viver.</p><p>��Ele tem os olhos da m�e���disse Amys���e muito de suas fei��es, al�m de alguns tra�os do pai, mas Couladin s� v� nele as roupas e o cavalo. Os outros Shaido tamb�m teriam visto isso, e talvez at� os Taardad. Estrangeiros n�o podem pisar neste solo, e agora h� cinco de voc�s. N�o, quatro. Rand al�Thor n�o � estrangeiro, independente de onde tenha crescido. Mas j� permitimos a entrada de um em Rhuidean, o que tamb�m � proibido. As mudan�as v�m como avalanches, independentemente de nossa vontade.</p><p>��S�o necess�rias���disse Bair, sem soar feliz.���O Padr�o nos finca onde deseja.</p><p>��Voc�s conheceram os pais de Rand?���perguntou Egwene, com cautela.</p><p>Fosse l� o que as mulheres dissessem, ela ainda via Tam e Kari al�Thor como pais de Rand.</p><p>��Essa hist�ria � dele���respondeu Amys���se ele quiser ouvir.</p><p>Pela firmeza de seus l�bios, ficava claro que a mulher n�o diria outra palavra sobre o assunto.</p><p>��Venha���disse Bair.���N�o h� motivo para pressa, agora. Venha. Oferecemos �gua e sombra.</p><p>Os joelhos de Egwene quase cederam � men��o de sombra. O len�o em sua testa, antes encharcado, estava quase seco. Sentia o topo da cabe�a assando, e o restante do corpo estava quase l�. Moiraine parecia igualmente grata em acompanhar as S�bias at� um dos pequenos grupos de tendas baixas e abertas nas laterais.</p><p>Um homem alto de sand�lias e t�nica branca com capuz tomou os cavalos delas pelas r�deas. As fei��es Aiel pareciam estranhas dentro do capuz fundo e macio, e ele mantinha os olhos baixos.</p><p>��D� �gua para os animais���disse Bair, antes de se abaixar para entrar na tenda baixa e sem paredes, e o homem fez uma mesura por tr�s dela, tocando a pr�pria testa.</p><p>Egwene hesitou em deixar o homem levar Bruma para longe. Ele parecia seguro, mas o que um Aiel sabia sobre cavalos? De todo modo, achava que o sujeito n�o poderia fazer mal aos animais, e o interior da tenda parecia muit�ssimo mais escuro e agrad�vel. E estava mesmo, al�m de oferecer um frescor delicioso em compara��o com o lado de fora.</p><p>O teto da tenda formava uma ponta em torno de um buraco, mas mesmo ali quase n�o havia espa�o para ficarem de p�. Como se para compensar as cores pardas que os Aiel vestiam, grandes almofadas vermelhas com borlas douradas jaziam espalhadas sobre tapetes coloridos, dispostos em camadas suficientes para acolchoar o ch�o duro que havia por baixo. Egwene e Moiraine imitaram as S�bias, afundando no tapete e apoiando o cotovelo em uma almofada. Dispuseram-se em um c�rculo, quase perto o bastante umas das outras para se tocarem.</p><p>Bair soou um pequeno gongo de lat�o, e duas jovens entraram com bandejas de prata, inclinando-se com movimentos graciosos, vestidas de branco, com capuzes na cabe�a e olhando para baixo, assim como o homem que levara os cavalos. Ajoelhando-se no centro da tenda, uma delas serviu uma pequena caneca de prata com vinho para cada uma das mulheres reclinadas nas almofadas, enquanto a outra servia canecas maiores com �gua. As duas sa�ram sem dizer uma palavra, curvando-se em mesuras, deixando as bandejas e jarras reluzentes e cobertas de gotinhas de condensa��o.</p><p>��Eis �gua e sombra���disse Bair, erguendo a �gua���dadas de bom grado. Que n�o haja obst�culos entre n�s. Todas s�o bem-vindas, assim como irm�s-primeiras s�o bem-vindas.</p><p>��Que n�o haja obst�culos���murmuraram Amys e as outras duas. Depois de um gole d��gua, as mulheres Aiel se apresentaram formalmente: Bair, do ramo Haido dos Aiel Shaarad; Amys, do ramo dos Nove Vales dos Aiel Taardad; Melaine, do ramo Jhirad dos Aiel Goshien; e Seana, do ramo Penhasco Negro dos Aiel Nakai.</p><p>Egwene e Moiraine seguiram o ritual, embora Moiraine tenha apertado os l�bios quando a jovem se intitulou Aes Sedai da Ajah Verde.</p><p>O clima na tenda se alterou visivelmente, como se a �gua e os nomes compartilhados tivessem derrubado uma muralha. Sorrisos das mulheres Aiel, um s�bito al�vio na tens�o, e foi o fim das formalidades.</p><p>Egwene ficou mais grata pela �gua do que pelo vinho. A tenda podia estar mais fresca do que o lado de fora, mas s� de respirar ela j� ficava com a garganta seca. A um gesto de Amys, ela serviu uma segunda caneca com avidez.</p><p>As pessoas de branco tinham sido uma surpresa. Era bobagem, mas percebeu que pensava que, exceto pelas S�bias, os Aiel fossem todos como Rhuarc e Aviendha: guerreiros. Sem d�vida havia ferreiros, tecel�es e outros artes�os, tinha de haver. Por que n�o servi�ais? S� que Aviendha desdenhara dos servi�ais da Pedra e evitara que eles fizessem tudo o que ela fosse capaz de fazer sozinha. Aquela gente de comportamento humilde n�o agia nem um pouco como Aiel. Ela n�o se lembrava de ter visto ningu�m de branco nos dois acampamentos grandes.</p><p>��S�o s� as S�bias que t�m servi�ais?���perguntou.</p><p>Melaine engasgou com o vinho.</p><p>��Servi�ais?���perguntou, ofegante.���Elas s�o <emphasis>gai�shain</emphasis>, n�o servi�ais���respondeu, como se isso explicasse tudo.</p><p>Moiraine franziu o cenho de leve por sobre a caneca de vinho.</p><p>��<emphasis>Gai�shain</emphasis>? Como se traduz isso? �Os que juraram paz na batalha�?</p><p>��S�o apenas <emphasis>gai�shain</emphasis>���disse Amys. Pareceu perceber que as outras n�o haviam compreendido.���Desculpem, mas voc�s sabem do <emphasis>ji�e�toh</emphasis>?</p><p>��Honra e obriga��o���respondeu Moiraine, prontamente.���Ou talvez honra e dever.</p><p>��Sim, s�o essas as palavras. Mas o significado. Vivemos pelo <emphasis>ji�e�toh</emphasis>, Aes Sedai.</p><p>��N�o tente explicar tudo a elas, Amys���advertiu Bair.���Uma vez passei um m�s inteiro tentando explicar o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> a uma aguacenta, e no fim ela estava com mais d�vidas do que no in�cio.</p><p>Amys assentiu.</p><p>��Vou falar o b�sico. Se quiser que eu explique, Moiraine.</p><p>Egwene preferia come�ar a falar de Sonhos e do treinamento, mas, para sua irrita��o, a Aes Sedai respondeu:</p><p>��Sim, por favor.</p><p>Com um aceno de cabe�a para Moiraine, Amys come�ou:</p><p>��Vou seguir apenas a linha do <emphasis>gai�shain</emphasis>. Na dan�a das lan�as, a maior <emphasis>ji</emphasis>, ou seja, honra, � recebida ao tocar um inimigo armado sem mat�-lo ou machuc�-lo.</p><p>��� a maior honra porque � muito dif�cil���explicou Seana, com os olhos cinza-azulados apertados em ironia���e por isso � muito raro de acontecer.</p><p>��A menor honra vem da morte���prosseguiu Amys.���Uma crian�a ou um tolo s�o capazes de matar. A meio caminho est� a captura de um prisioneiro. Estou simplificando, veja bem. H� muitos graus. Os <emphasis>gai�shain</emphasis> s�o prisioneiros capturados, embora um guerreiro que tenha sido tocado pode �s vezes exigir que seja levado como <emphasis>gai�shain</emphasis> para reduzir a honra de seu inimigo e sua pr�pria perda.</p><p>��As Donzelas da Lan�a e os C�es de Pedra s�o bem conhecidos por isso���acrescentou Seana, arrancando de Amys um olhar penetrante.</p><p>��Sou eu que estou contando, ou voc�? Continuemos. Alguns n�o podem ser levados como <emphasis>gai�shain</emphasis>, � claro. Uma S�bia, um ferreiro, uma crian�a, uma mulher com filhos ou uma que tenha filhos com menos de dez anos. Um <emphasis>gai�shain</emphasis> tem uma <emphasis>toh</emphasis> para com seu captor. Para os <emphasis>gai�shain</emphasis>, isso significa servir durante um ano e um dia, obedecendo com humildade, sem tocar em qualquer arma e sem praticar atos de viol�ncia.</p><p>Egwene ficou instintivamente interessada.</p><p>��Eles n�o tentam fugir? Eu sem d�vida tentaria.���<emphasis>Nunca mais deixarei que me fa�am prisioneira de novo!</emphasis></p><p>As S�bias pareceram chocadas.</p><p>��J� aconteceu���respondeu Seana, r�gida���mas n�o h� honra nisso. Um <emphasis>gai�shain</emphasis> fugitivo seria devolvido por seu ramo para recome�ar o per�odo de um ano e um dia. A perda da honra � t�o grande que um irm�o-primeiro ou irm�-primeira pode ir como <emphasis>gai�shain</emphasis> tamb�m, para dispersar a <emphasis>toh</emphasis> do ramo. Mais de um, se sentirem que a perda de <emphasis>ji</emphasis> � muito grande.</p><p>Moiraine parecia absorver tudo com muita calma, bebericando a �gua, mas Egwene precisava de muito esfor�o para n�o sacudir a cabe�a. Os Aiel eram loucos, n�o havia como negar. E a coisa piorava.</p><p>��Alguns <emphasis>gai�shain</emphasis> agora fazem dessa humildade uma demonstra��o de arrog�ncia���explicou Melaine, em tom desaprovador.���Pensam que assim podem obter honra, levando a obedi�ncia e a submiss�o ao ponto da zombaria. � uma novidade, e muito idiota. N�o tem lugar no <emphasis>ji�e�toh</emphasis>.</p><p>Bair riu, um som forte e assustador, comparado � voz aguda normal.</p><p>��Idiotas n�o s�o nenhuma novidade. Quando eu era menina, os Shaarad e os Tomanelle todas as noites roubavam o gado e as cabras um do outro, ent�o Chenda, a senhora do teto da Faixa do Mainde, foi empurrada por um jovem Haido Buscador das �guas durante uma incurs�o. A mulher foi at� ao Vale Dobrado e exigiu que o rapaz a fizesse de <emphasis>gai�shain</emphasis>, pois n�o permitiria que ele ganhasse a honra de t�-la tocado, j� que <emphasis>tinha uma faca de cozinha nas m�os durante o ocorrido</emphasis>. Uma faca de cozinha! Era uma arma, alegava a mulher, como se fosse uma Donzela. O rapaz n�o teve escolha a n�o ser atender � exig�ncia, apesar de toda a zombaria quando isso aconteceu. N�o d� para mandar uma senhora do teto de volta, descal�a, para seu forte. Antes que o ano e o dia se passassem, os ramos Haido e Jenda trocaram lan�as, e o rapazote logo se casou com a filha mais velha de Chenda. E com a segunda-m�e ainda lhe servindo como <emphasis>gai�shain</emphasis>. O garoto tentou d�-la � esposa como parte do dote, mas as duas mulheres alegaram que ele estava tentando lhes roubar a honra. Ele quase precisou tomar a pr�pria esposa como <emphasis>gai�shain</emphasis>. Haido e Jenda quase se atacaram outra vez, antes que a <emphasis>toh</emphasis> fosse dispensada.</p><p>As mulheres Aiel quase rolavam de tanto rir, e Amys e Melaine secavam as l�grimas dos olhos.</p><p>Egwene entendeu pouca coisa da hist�ria���e com certeza n�o o motivo da gra�a���mas tentou dar uma risada educada.</p><p>Moiraine deixou a �gua de lado e pegou a pequena caneca de vinho.</p><p>��Ouvi homens contarem sobre lutas com os Aiel, mas nunca tinha ouvido falar disso. Sem d�vida n�o de um Aiel se rendendo por ter sido tocado.</p><p>��N�o � rendi��o���retrucou Amys, enf�tica.���� <emphasis>ji�e�toh</emphasis>.</p><p>��Ningu�m pediria para servir como <emphasis>gai�shain</emphasis> a um aguacento���disse Melaine.���Os estrangeiros n�o conhecem o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>.</p><p>As Aiel trocaram olhares. Estavam incomodadas. <emphasis>Por qu�?</emphasis>, perguntou-se Egwene. <emphasis>Ah.</emphasis> Para aquela gente, desconhecer o <emphasis>ji�e�toh</emphasis> devia ser como n�o ter honra ou boas maneiras.</p><p>��H� homens e mulheres honrados entre n�s���disse Egwene.���A maioria. Sabemos distinguir certo e errado.</p><p>��� claro que sabem���murmurou Bair, em um tom que informava que aquilo estava longe de ser a mesma coisa.</p><p>��Voc�s enviaram uma carta para mim em Tear���disse Moiraine���fizeram isso antes mesmo de eu chegar l�. Disseram muitas coisas, e algumas se provavam verdadeiras. Incluindo o pedido, ou melhor, a ordem para que eu as encontrasse aqui hoje. Praticamente exigiram minha presen�a. Mesmo assim, mais cedo, disseram �se eu viesse�. Quanta certeza voc�s realmente tinham do que escreveram?</p><p>Amys suspirou e deixou de lado a caneca de vinho, mas foi Bair quem falou.</p><p>��Muita coisa � incerta, at� para uma Andarilha dos Sonhos. Amys e Melaine s�o as melhores de n�s, e nem mesmo elas enxergam tudo o que � ou tudo o que pode ser.</p><p>��O presente � muito mais claro do que o futuro, mesmo em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>���explicou a S�bia de cabelos acobreados.���O que <emphasis>est�</emphasis> acontecendo ou come�ando a acontecer � mais f�cil de ver do que o que <emphasis>vai</emphasis> ou <emphasis>pode</emphasis> acontecer. N�o vimos nada sobre Egwene ou Mat Cauthon. E a vinda do jovem que se apresenta como Rand al�Thor era uma mera possibilidade. Se ele n�o viesse, era certo que morreria, e os Aiel tamb�m. Mas ele veio, e, se sobreviver a Rhuidean, pelo menos alguns dos Aiel sobreviver�o. Isso sabemos. Se voc�s n�o tivessem vindo, ele teria morrido. Se <emphasis>Aan�allein</emphasis> n�o tivesse vindo, voc� teria morrido. Se voc� n�o passar pelos aros����Ela parou de repente, como se tivesse mordido a l�ngua.</p><p>Egwene inclinou-se para a frente, concentrada. Moiraine tinha que entrar em Rhuidean? Mas a Aes Sedai pareceu n�o perceber, e Seana falou depressa, para encobrir o deslize de Melaine.</p><p>��N�o h� ningu�m com a trajet�ria do futuro estabelecida. O Padr�o faz a mais fina renda parecer um tecido r�stico e �spero, ou um emaranhado de cord�es. Em <emphasis>Tel�aran�rhiod,</emphasis> � poss�vel ver algumas formas de tessitura do destino. Nada mais.</p><p>Moiraine tomou um gole de vinho.</p><p>��Em geral � dif�cil traduzir a L�ngua Antiga.���Egwene a encarou. A L�ngua Antiga? Mas e os aros, o <emphasis>ter�angreal</emphasis>? Moiraine, por�m, prosseguiu:���<emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> significa o Mundo dos Sonhos, ou talvez o Mundo Invis�vel. Nenhuma das duas express�es � muito exata, � mais complexo do que isso. <emphasis>Aan�allein</emphasis>. Homem �nico, mas tamb�m O Homem Que � um Povo Inteiro, al�m de mais duas ou tr�s tradu��es. E tem as palavras corriqueiras que usamos, mas nunca pensamos no que significam na L�ngua Antiga. Guardi�es s�o chamados de �Gaidin�, cujo significado era �irm�os de batalha�. Aes Sedai significava �servo de todos�. E �Aiel� era �Dedicado�, na L�ngua Antiga. Uma palavra mais forte do que isso, que sugere um juramento incrustado em seu cerne. Sempre me perguntei a que os Aiel s�o dedicados.���Os rostos das S�bias pareciam duros e inexpressivos como a�o, mas Moiraine prosseguiu.���E �Aiel Jenn�, que � �O verdadeiro dedicado�, mas na verdade algo mais forte do que isso. Talvez �o �nico verdadeiro dedicado�. O �nico verdadeiro Aiel?</p><p>Ela encarou as outras com uma express�o questionadora, como se as S�bias n�o tivessem adquiridos olhares de pedra de repente. Nenhuma falou.</p><p>O que Moiraine estava fazendo? Egwene n�o pretendia permitir que a Aes Sedai arruinasse suas chances de aprender o que as S�bias tivessem a ensinar.</p><p>��Amys, podemos falar de Sonhos agora?</p><p>��Hoje � noite teremos bastante tempo���respondeu Amys.</p><p>��Mas�</p><p>��� noite, Egwene. Voc� pode ser Aes Sedai, mas ter� de virar aluna de novo. Ainda nem consegue pegar no sono quando deseja, nem tem o sono leve o bastante para saber o que ver� quando acordar. Quando o sol come�ar a se p�r, come�arei a lhe ensinar.</p><p>Abaixando a cabe�a, Egwene espiou pela beirada do tecido da tenda. Naquela penumbra profunda, a luz l� de fora parecia golpe�-la por entre o ar quente e tremeluzente. O sol n�o estava nem a meio caminho do topo das montanhas.</p><p>De s�bito, Moiraine se levantou, levou as m�os �s costas e come�ou a desamarrar o vestido.</p><p>��Presumo que eu deva ir como Aviendha foi���disse, n�o como uma pergunta.</p><p>Bair lan�ou a Melaine um olhar duro, que a mulher mais jovem encarou por apenas um instante antes de baixar os olhos. Seana respondeu, em uma voz resignada:</p><p>��N�o deveriam ter contado a voc�. Agora, est� feito. Mudan�a. Um dos que n�o tem o sangue foi para Rhuidean, e agora outro.</p><p>Moiraine parou.</p><p>��Faz alguma diferen�a eu saber?</p><p>��Talvez fa�a uma grande diferen�a���disse Bair, relutante���talvez nenhuma. � comum guiarmos, mas nunca contamos. Quando a vimos indo at� os aros, era sempre voc� quem mencionava, exigindo o direito, embora n�o tenha o sangue. Agora uma de n�s mencionou primeiro. J� est�o havendo mudan�as em rela��o a tudo o que vimos. Quem � que pode dizer quais s�o?</p><p>��E o que voc�s viram que acontece caso eu n�o v�?</p><p>O rosto enrugado de Bair continuava inexpressivo, mas havia compaix�o nos p�lidos olhos azuis.</p><p>��J� falamos demais, Moiraine. O que uma Andarilha dos Sonhos v� � o que � prov�vel que aconte�a, n�o o que � certo. Os que caminham com muito entendimento sobre o futuro inevitavelmente encontram calamidades, seja por complac�ncia em rela��o ao que pensam que vir� ou por seus esfor�os para mudar a situa��o.</p><p>��� por clem�ncia dos an�is que as lembran�as esvanecem���disse Amys.���Uma mulher sabe de certas coisas, bem poucas, que v�o acontecer. Outras, ela n�o reconhecer� at� ver a decis�o diante de si, se for o caso. A vida � feita de incerteza e luta, escolha e mudan�a. Se houvesse mulher capaz de entender como sua vida � urdida no Padr�o da mesma forma que entende como um fio � cerzido em um carpete, ela levaria a vida de um animal. Isso se n�o enlouquecesse. A humanidade foi talhada para incerteza, luta, escolha e mudan�a.</p><p>Moiraine ouvia sem demonstrar impaci�ncia, mas Egwene suspeitou que a Aes Sedai se sentisse dessa forma. Ela estava acostumada a discursar, n�o a ouvir discursos. Ficou em sil�ncio enquanto Egwene a ajudava a tirar o vestido, sem falar nada at� ajoelhar-se, nua, na beirada do carpete, encarando a descida da montanha em dire��o � cidade enevoada no vale. Ent�o, disse:</p><p>��N�o deixem Lan ir atr�s de mim. Se ele me vir, vai tentar.</p><p>��Tudo vai ser como ser᠗�respondeu Bair. A voz aguda era fria e categ�rica.</p><p>Depois de um instante, Moiraine meneou a cabe�a, de m� vontade, e saiu da tenda para debaixo do sol inclemente. No mesmo instante come�ou a correr, descal�a, descendo a colina ardente.</p><p>Egwene fez uma careta. Rand e Mat, Aviendha, e at� Moiraine, todos indo para Rhuidean.</p><p>��Ela vai� sobreviver? Se voc�s sonharam com isso, devem saber.</p><p>��Existem alguns lugares em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> onde n�o se pode entrar���respondeu Seana.���Rhuidean. <emphasis>Pousos</emphasis> Ogier. E alguns outros. O que acontece l� n�o pode ser visto pelos olhos de uma Andarilha dos Sonhos.</p><p>Aquilo n�o era resposta���elas poderiam t�-la visto saindo de Rhuidean �, mas estava claro que era o m�ximo que conseguiria arrancar.</p><p>��Muito bem. Eu tamb�m devo ir?���Ela n�o apreciava a ideia de passar pela experi�ncia dos an�is, seria como ser elevada a Aceita outra vez. Mas, se todo mundo estava indo�</p><p>��N�o seja tola���respondeu Amys, com vigor.</p><p>��N�o vimos nada disso para vocꠗ�acrescentou Bair, em um tom mais suave.���Nem sequer vimos voc�.</p><p>��E eu n�o deixaria, se voc� pedisse���Amys prosseguiu.���Precisa da permiss�o de quatro, e eu n�o daria. Voc� veio para aprender a caminhar pelos sonhos.</p><p>��Nesse caso���disse Egwene, acomodando-se de volta na almofada���me ensinem. Deve haver algum ponto por onde come�ar ainda antes do anoitecer.</p><p>Melaine franziu o cenho para ela, mas Bair deu uma risadinha seca.</p><p>��Ela � t�o �vida e impaciente como voc�, quando decidiu aprender, Amys.</p><p>Amys assentiu.</p><p>��Espero que ela consiga preservar a avidez e abandonar a impaci�ncia, para seu pr�prio bem. Ou�a o que eu digo, Egwene. Embora seja dif�cil, voc� precisa esquecer que � Aes Sedai, se quiser aprender. Precisa escutar, recordar e seguir nossas orienta��es. Acima de tudo, n�o pode adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> outra vez at� que uma de n�s lhe d� permiss�o. � capaz de aceitar isso?</p><p>N�o seria dif�cil esquecer que era Aes Sedai, j� que n�o era mesmo. Quanto ao resto, parecia abomin�vel, como voltar a ser novi�a.</p><p>��Posso aceitar.���Torceu para n�o ter soado indecisa.</p><p>��Bom���disse Bair.���Agora vou falar sobre os caminhos dos sonhos e <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> de forma bem geral. Quando terminar, voc� repetir� tudo o que eu disse. Se falhar em detalhar todos os pontos, esfregar� as panelas no lugar da <emphasis>gai�shain,</emphasis> hoje � noite. Se sua mem�ria estiver fraca a ponto de voc� n�o conseguir repetir o que eu disser depois de ouvir pela segunda vez� Bem, vamos debater o que acontecer� quando isso acontecer. Preste aten��o.</p><p>�Quase qualquer um pode tocar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas poucos podem de fato adentr�-lo. De todas as S�bias, apenas n�s quatro somos capazes de caminhar pelos sonhos, e faz quase quinhentos anos que sua Torre n�o produz uma Andarilha dos sonhos. N�o � uma coisa ligada ao Poder �nico, embora as Aes Sedai acreditem que seja. N�o sou capaz de canalizar, nem Seana, mas caminhamos pelos sonhos t�o bem quanto Amys ou Melaine. Muitas pessoas ro�am o Mundo dos Sonhos durante o sono. Como o contato � t�nue, acordam com dores quando deveriam ter ossos quebrados ou ferimentos mortais. Uma Andarilha adentra o sonho por completo, por isso acorda com ferimentos reais. Para quem entra no sonho por completo, seja ou n�o Andarilha, morrer l� � o mesmo que morrer aqui. Mas h� como adentrar o sonho de forma completa demais, perdendo o contato com a carne. N�o h� caminho de volta, e a carne definha. Dizem que havia gente que era capaz de adentrar o sonho em carne, saindo completamente deste mundo. Isso era algo maligno, pois eles praticavam o mal. Voc� jamais deve tentar uma coisa dessas, mesmo que acredite ser poss�vel, pois cada vez perder� uma parte do que a torna humana. Deve aprender a adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> quando desejar, com a intensidade que desejar. Deve aprender a encontrar o que precisa e a interpretar o que v�, a adentrar os sonhos de algu�m pr�ximo para ajudar a cur�-lo, a reconhecer os que no sonho s�o concretos o bastante para machuc�-la, a��</p><p>Egwene escutou com muita aten��o. Era fascinante e deixava entrever coisas que jamais suspeitara serem poss�veis. E, al�m disso, ela n�o tinha inten��o alguma de esfregar panelas. De certo modo, n�o era justo. Fosse l� o que Rand, Mat e as outras tivessem que enfrentar em Rhuidean, ningu�m os mandaria esfregar panelas. <emphasis>E eu</emphasis> concordei <emphasis>com isso!</emphasis> Simplesmente n�o era justo. Por outro lado, tinha suas d�vidas de que os outros aprenderiam mais em Rhuidean do que ela com aquelas mulheres.</p></section><section><title><p>24</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Rhuidean</p></title><p>A pedrinha lisa na boca de Mat j� n�o estava mais ajudando a produzir saliva havia algum tempo. Ele a cuspiu, agachou-se ao lado de Rand e encarou a enorme muralha cinzenta cerca de trinta passadas diante deles. N�voa. Torcia para que ao menos estivesse mais fresco l�. Um pouco de �gua tamb�m cairia bem. Os l�bios estavam rachando. Puxou o len�o que envolvia a cabe�a e enxugou o rosto, mas j� n�o havia muito suor para empapar o tecido. N�o restava muito suor em seu corpo. Um lugar para se sentar. Os p�s dentro das botas pareciam salsichas cozidas. Ali�s, ele sentia o corpo inteiro bastante cozido. A n�voa se estendia � esquerda e � direita para mais de uma milha, avolumando-se por cima de sua cabe�a como um pared�o imenso. Um pared�o de n�voa densa no meio de um vale �rido e escaldante. Devia haver �gua por l�.</p><p><emphasis>Por que � que ela n�o se dissipa, com esse calor? N�o gostava nada daquilo. Estava ali por ter brincado com o Poder, e pelo visto teria de brincar outra vez. Quero me livrar do Poder e das Aes Sedai. Que me queime, eu quero!</emphasis> Qualquer coisa para passar mais um minuto sem ter que pensar em entrar naquela n�voa.</p><p>��Foi <emphasis>mesmo</emphasis> aquela amiga Aiel de Egwene que eu vi correndo���grasnou. Correndo! Naquele calor. S� de pensar nisso, os p�s do�am ainda mais.���Aviendha. Seja l� que nome for.</p><p>��Se voc� diz���respondeu Rand, observando a neblina. Parecia falar com a boca cheia de poeira, tinha o rosto queimado pelo sol e bamboleava sem firmeza, agachado.���Mas o que ela estaria fazendo ali embaixo? E <emphasis>nua</emphasis>?</p><p>Mat deixou para l�. Rand n�o a vira���mal tirara os olhos do nevoeiro ondulante desde que come�aram a descer a montanha���e tampouco acreditava que Mat a vira. Correndo feito uma louca e mantendo dist�ncia dos dois. Rumando para aquela n�voa estranha, ao que parecia. O amigo n�o demonstrava estar mais ansioso do que ele para adentr�-la. Perguntou-se se estava com uma cara t�o ruim quanto a de Rand. Tocando o rosto, estremeceu. Achava que sim.</p><p>��Vamos passar a noite toda aqui fora? Este vale � muito fundo. Daqui a umas horas estar� escuro aqui. Talvez refresque um pouco, mas acho que n�o quero topar com as criaturas que passeiam por aqui � noite. Deve ter le�es. Ouvi dizer que tem le�es no Deserto.</p><p>��Tem certeza de que quer fazer isso, Mat? Voc� ouviu o que as S�bias disseram. Pode acabar morrendo l�, ou enlouquecendo. Pode voltar para as tendas, se quiser. Deixou garrafas e uma bolsa d��gua na sela de Pips.</p><p>Mat desejou que Rand n�o o tivesse lembrado disso. Era melhor n�o pensar em �gua.</p><p>��Que me queime, n�o, n�o quero voltar. <emphasis>Preciso ir</emphasis>. E voc�? J� n�o est� de bom tamanho ser o maldito Drag�o Renascido? Tinha que virar um chefe de cl� Aiel tamb�m? Por que veio para c�?</p><p>��Porque preciso, Mat. Preciso.���Havia resigna��o na voz ressecada, mas tamb�m algo mais. Uma pontada de ansiedade. O homem estava mesmo louco, <emphasis>queria</emphasis> fazer aquilo.</p><p>��Rand, talvez essa seja a resposta que d�o para todos. Estou falando daquelas pessoas que parecem com cobras. V� para Rhuidean. Talvez a gente nem tenha que estar aqui, na verdade.���N�o acreditava realmente nisso, mas com aquela n�voa o encarando de frente�</p><p>Rand virou-se para olh�-lo, sem dizer palavra. Enfim, falou:</p><p>��Eles nunca mencionaram Rhuidean para mim, Mat.</p><p>��Ah, que me queime���resmungou.</p><p>De uma forma ou de outra pretendia encontrar um caminho de volta por aquele batente de porta torto em Tear. Sem pensar, pescou o marco de ouro de Tar Valon do bolso do casaco, rolou-o pelos dedos e o guardou de volta. Aquele povo venenoso lhe daria mais algumas respostas, quisessem ou n�o. De algum jeito.</p><p>Sem mais uma palavra, Rand se levantou e come�ou a caminhar em dire��o ao nevoeiro com passos hesitantes, os olhos fixos � frente. Mat correu atr�s dele. <emphasis>Que me queime. Que me queime.</emphasis> N�o <emphasis>quero fazer isso.</emphasis></p><p>Rand deslizou de uma vez para dentro da n�voa densa, mas Mat hesitou por um instante antes de ir atr�s. No fim das contas, s� podia ser o Poder que sustentava o nevoeiro, com as beiradas fervilhantes, mas sem nunca avan�ar nem recuar uma polegada sequer. A porcaria do Poder, e nenhuma porcaria de op��o. O primeiro passo foi um al�vio, fresco e �mido. Ele abriu a boca para deixar a n�voa umedecer sua l�ngua. Tr�s passos depois, e come�ou a se preocupar. � frente de seu nariz havia apenas um cinza indistinto. N�o conseguia distinguir sequer uma sombra que pudesse ser o amigo.</p><p>��Rand?</p><p>O som poderia n�o ter sa�do de sua boca, a neblina parecia engoli-lo antes de alcan�ar os pr�prios ouvidos. N�o tinha nem mais certeza da dire��o que seguia, e costumava ter um bom senso de orienta��o. Poderia haver qualquer coisa diante dele. Ou sob seus p�s. N�o conseguia ver os pr�prios p�s, a n�voa o encobria por completo da cintura para baixo. Apesar disso, apertou o passo. E de repente adentrou uma luz peculiar, sem sombra, ao lado de Rand.</p><p>O nevoeiro formava um imenso domo oco a encobrir o c�u, e do lado de dentro havia uma superf�cie borbulhante que reluzia em um tom de azul p�lido. Rhuidean nem de perto era t�o grande quanto Tear ou Caemlyn, mas as ruas vazias eram as mais largas que ele j� vira, com amplas faixas de terra batida no centro, como se ali um dia tivesse havido �rvores e grandes fontes com est�tuas. Imensas constru��es flanqueavam as ruas, pal�cios estranhos com paredes planas de m�rmore, cristal e vidro trabalhado elevando-se por centenas de p�s, formando degraus de escadas e pared�es. N�o havia sequer um pr�dio pequeno, nada que pudesse ter sido uma simples taverna, estalagem ou est�bulo. Apenas pal�cios imensos, com colunas reluzentes de cinquenta p�s de espessura, vermelhas, brancas ou azuis, escalando o c�u a cem passadas de altura, e torres grandiosas, caneluradas e espiraladas, algumas perfurando as nuvens fulgurantes acima.</p><p>Apesar de todo o esplendor, a cidade jamais fora conclu�da. Muitas das imensas estruturas terminavam em paredes incompletas, feito constru��es abandonadas. Vidros coloridos formavam imagens em algumas das imensas janelas: homens e mulheres serenos e majestosos de trinta p�s ou mais de altura, s�is nascentes e c�us noturnos estrelados. Outros pr�dios tinham janelas escancaradas, os interiores vazios. Incompletos e abandonados havia muito. N�o jorrava �gua das fontes. O sil�ncio cobria a cidade t�o completamente quanto o domo de n�voa. O ar era mais frio do que do lado de fora, mas tinha a mesma aridez. A poeira arranhava as solas dos p�s nas pedras lisas e claras do pavimento.</p><p>Mesmo assim, Mat foi at� a fonte mais pr�xima a passos r�pidos, apenas por desencargo de consci�ncia, e inclinou-se na borda branca, que batia na altura da cintura. Tr�s mulheres nuas, duas do tamanho dele, equilibrando na cabe�a um peixe estranho, de boca aberta, espiavam uma bacia larga e empoeirada, n�o menos seca do que sua boca.</p><p>��� claro���disse Rand, atr�s dele.���Eu devia ter pensado nisso antes.</p><p>Mat olhou para tr�s por sobre o ombro.</p><p>��Pensado em qu�?���Rand encarava a fonte, sacudindo-se em uma risada silenciosa.���Componha-se, Rand. Voc� n�o enlouqueceu no �ltimo minuto. Devia ter pensado em qu�?</p><p>Um gorgolejo oco fez Mat olhar a fonte de novo. De repente come�ou a jorrar �gua pela boca do peixe, uma torrente da espessura da perna de Mat. Correu at� a bacia e postou-se sob o aguaceiro, inclinando a cabe�a para tr�s e escancarando a boca. A �gua era doce e fria, fria o bastante para faz�-lo tremer, mais doce que vinho. Encharcou seus cabelos, casaco, cal�as. Ele bebeu at� achar que ia se afogar, ent�o saiu cambaleando para se apoiar, arfante, na perna de pedra de uma das mulheres.</p><p>Rand ainda estava parado, encarando a fonte, o rosto vermelho e os l�bios rachados, rindo baixinho.</p><p>��Nada de �gua, Mat. Disseram que n�o pod�amos trazer �gua, mas ningu�m falou sobre o que j� existia aqui.</p><p>��Rand? Voc� n�o vem beber?</p><p>Rand levou um susto, depois entrou na bacia, agora com �gua at� os tornozelos, e patinhou at� onde Mat estivera, bebendo da mesma forma, os olhos fechados e a cabe�a inclinada para cima, para deixar a �gua escorrer pelo corpo.</p><p>Mat o observou, preocupado. N�o estava exatamente louco, ainda n�o. Mas por quanto tempo Rand teria ficado ali parado, rindo, com a sede petrificando a garganta, se ele n�o o tivesse chamado? Mat deixou-o ali e saiu da fonte. Um pouco da �gua que ensopava as roupas se infiltrara para dentro das botas. Ignorou o barulho que fazia a cada passo, n�o sabia se conseguiria cal�ar as botas outra vez, caso as tirasse. Al�m do mais, era uma sensa��o agrad�vel.</p><p>Espiando a cidade, ele se perguntou o que estava fazendo ali. Aquela gente dissera que ele morreria se n�o fosse, mas ser� que apenas estar em Rhuidean era o suficiente? <emphasis>Ser� que preciso fazer alguma coisa? O qu�?</emphasis></p><p>As ruas vazias e os pal�cios inacabados n�o formavam sombras sob a p�lida luz azul-celeste. Sentiu um leve arrepio. Todas aquelas janelas vazias a observ�-lo, todas as fileiras espremidas de constru��es abandonadas. Poderia haver qualquer coisa escondida ali, e, em um lugar como aquele, qualquer coisa poderia ser� <emphasis>Qualquer coisa mesmo, maldi��o.</emphasis> Desejou pelo menos ainda ter as facas nas botas. Mas aquelas mulheres, aquelas S�bias, haviam olhado para ele como se soubessem que escondia alguma coisa. E haviam canalizado, uma ou todas. N�o era sensato contrariar mulheres capazes de canalizar, se fosse poss�vel evitar. <emphasis>Que me queime, se eu pudesse me livrar das Aes Sedai, nunca mais pediria nada na vida. Bem, pelo menos n�o por um bom tempo. Luz, ser� que tem alguma coisa escondida aqui?</emphasis></p><p>��O cora��o s� pode ficar para aquele lado, Mat.</p><p>Rand sa�a da bacia, encharcado.</p><p>��O cora��o?</p><p>��As S�bias disseram que devo ir at� o cora��o. Elas deviam estar se referindo ao centro da cidade.���Rand olhou de novo para a fonte, e o fluxo de �gua de repente se reduziu a um filete, depois cessou.���Tem um oceano de �gua boa l� embaixo. Bem fundo. T�o fundo que quase n�o consegui encontrar. Se eu conseguisse trazer tudo para cima� De qualquer forma, n�o h� por que desperdi�ar. Podemos voltar para tomar mais quando estiver na hora de ir embora.</p><p>Mat mudou de posi��o, incomodado. <emphasis>Idiota! De onde voc� achou que isso tinha vindo? � claro que o desgra�ado canalizou. Ou voc� pensou que a �gua tinha simplesmente come�ado a jorrar depois de sabe a Luz quanto tempo?</emphasis></p><p>��Centro da cidade. � claro. V� na frente.</p><p>Os dois seguiram pelo meio da rua larga, caminhando ao longo de faixas de terra batida, passando por outras fontes secas, algumas s� com a bacia de pedra e uma base de m�rmore onde as est�tuas deveriam estar. N�o havia nada quebrado na cidade, ela era apenas� incompleta. Os pal�cios se avultavam dos dois lados, como pared�es. Tinha que haver coisas dentro deles. Mob�lias, talvez, se n�o tivessem apodrecido. Talvez ouro. Facas. Facas n�o enferrujariam, com o ar seco, por mais tempo que tivessem passado ali.</p><p><emphasis>Pode haver um chamejado de um Myrddraal l� dentro, at� onde voc� sabe. Luz, por que eu tinha que pensar nisso?</emphasis> Se pelo menos tivesse pensado em trazer consigo um bast�o, quando deixou a Pedra. Talvez pudesse ter convencido as S�bias de que era apenas um cajado. Mas n�o adiantava mais pensar nisso. Uma �rvore serviria, se ele pudesse dar um jeito de arrancar e limpar um bom galho. <emphasis>Se</emphasis>, mais uma vez. Ele se perguntou se as pessoas que tinham constru�do a cidade haviam conseguido plantar alguma �rvore. Trabalhara tempo suficiente na fazenda do pai para saber reconhecer um solo bom. As faixas compridas de terra exposta eram fracas, ruins para plantar qualquer coisa al�m de ervas, e mesmo assim n�o muitas. No momento, nenhuma.</p><p>Depois de caminharem uma milha, a rua terminou de repente em uma grande pra�a, talvez da extens�o do trecho que haviam percorrido, toda rodeada por aqueles pal�cios de m�rmore e cristal. Era surpreendente, mas havia uma enorme �rvore na pra�a. Tinha uns cem p�s de altura, espalhando os galhos grossos e folhosos sobre a camada de pedras brancas e empoeiradas do pavimento, pr�xima ao que pareciam an�is conc�ntricos feitos de colunas de vidro transparente e brilhante, finos como agulhas, se comparados � altura, que era quase igual � da �rvore. Ele teria se perguntado como uma �rvore poderia crescer ali, sem a luz do sol, se n�o estivesse muito ocupado encarando a mix�rdia impressionante que ocupava o restante da pra�a.</p><p>Cada rua que Mat conseguia ver ia at� os aros em coluna, mas nos trechos entre elas havia est�tuas dispostas ao acaso, em diversos tamanhos, de propor��es reais ou at� a metade disso, feitas de pedra, cristal ou metal, apoiadas diretamente na cal�ada. Por entre elas havia� � primeira vista, ele n�o soube como chamar. Um aro liso prateado, de dez p�s de comprimento, fino como uma l�mina. Um plinto de cristal afilado de uma passada de altura que poderia ter sustentado uma das est�tuas menores. Uma torre de metal negro e reluzente, fina como uma lan�a e do comprimento de uma, mas apoiada de p�, como se estivesse fincada. Centenas de objetos, talvez milhares, de todas as formas e materiais imagin�veis, preenchiam a enorme pra�a, e havia menos de doze p�s de dist�ncia entre cada um.</p><p>Foi a lan�a negra de metal, erguida de forma t�o estranha que de s�bito revelou o que todos aqueles objetos deveriam ser. <emphasis>Ter�angreal</emphasis>. Algum tipo de coisa a ver com o Poder, pelo menos. Alguns s� podiam ser isso. Aquele batente de porta torto no Grande Por�o da Pedra tamb�m ficava inclinado, quase caindo.</p><p>Estava prestes a se virar e ir embora, mas Rand continuou, mal olhando para o que havia no caminho. O rapaz fez uma pausa e encarou duas estatuetas que destoavam do resto. Duas figuras de talvez um p� de altura, um homem e uma mulher, cada um segurando uma esfera de cristal no ar, acima de uma das m�os. Ele se inclinou um pouco, como se fosse toc�-las, mas se endireitou t�o depressa que Mat achou que poderia ter sido imagina��o sua.</p><p>Depois de um minuto, Mat foi atr�s, correndo para alcan��-lo. Quanto mais perto chegavam dos an�is de colunas cintilantes, mais tenso ficava. Todas aquelas coisas ao redor deviam ter algo a ver com o Poder, e tamb�m as colunas. Ele simplesmente sabia. Aquelas hastes altas e de uma finura absurda reluziam � luz azulada, ofuscando a vista. <emphasis>Elas s� disseram que eu tinha que vir para c�. Bem, estou aqui. N�o disseram nada sobre a droga do Poder.</emphasis></p><p>Rand parou t�o de repente que Mat avan�ou mais tr�s passos para perto dos aros em coluna sem perceber. O amigo olhava para a �rvore, notou. A �rvore. Mat percebeu que chegava mais e mais perto, como se estivesse sendo puxado. N�o havia �rvore com aquelas folhas em forma de trevo. N�o havia �rvores assim, apenas uma, que era lend�ria.</p><p>��<emphasis>Avendesora</emphasis>���disse Rand, baixinho.���A �rvore da Vida. Est� aqui.</p><p>Sob os galhos espalhados, Mat deu um salto para pegar uma das folhas, os dedos esticados chegaram bem perto do galho mais baixo. Ficou satisfeito em adentrar aquele teto de folhas e recostar-se no tronco robusto. Depois de um instante, deslizou e sentou-se, encostando-se nele. As hist�rias antigas eram verdade. Ele sentia� alegria. Paz. Bem-estar. At� os p�s j� n�o incomodavam tanto.</p><p>Rand sentou-se perto dele, as pernas cruzadas.</p><p>��D� para acreditar nas hist�rias. Ghoetam, que ficou sentado debaixo de <emphasis>Avendesora</emphasis> por quarenta anos para ganhar sabedoria. Neste exato instante, d� para acreditar.</p><p>Mat deixou a cabe�a pender para tr�s e encostar no tronco.</p><p>��Mas n�o sei se eu confiaria nos p�ssaros para trazerem comida. Em algum momento ele teria que se levantar.���<emphasis>Mas uma horinha n�o seria nada mau. Ou mesmo o dia inteiro.</emphasis>���Mesmo assim, n�o faz sentido. Que tipo de comida os p�ssaros poderiam trazer? Que p�ssaros?</p><p>��Talvez Rhuidean n�o tenha sido sempre assim, Mat. Talvez� N�o sei. Talvez <emphasis>Avendesora</emphasis> ficasse em algum outro lugar, antigamente.</p><p>��Em algum outro lugar���murmurou Mat.���Eu n�o me incomodaria de estar em algum outro lugar.���<emphasis>Mas� � bom.</emphasis></p><p>��Algum outro lugar?���Rand se virou para olhar as colunas compridas e finas, que reluziam bem pr�ximas. Ent�o suspirou.���O dever � mais pesado que a montanha.</p><p>Era parte de um ditado que ele aprendera nas Terras da Fronteira.</p><p>��A morte � mais leve que a pluma. O dever, mais pesado que a montanha.���Soava como uma grande bobagem para Mat, mas Rand estava se levantando, ent�o ele o imitou, relutante.���O que acha que vamos encontrar l�?</p><p>��Acho que tenho de seguir sozinho a partir daqui���disse Rand, devagar.</p><p>��Como assim?���inquiriu Mat.���Eu j� vim at� aqui, n�o vim? N�o vou embora agora, de repente.���<emphasis>Mas bem que eu queria!</emphasis></p><p>��N�o � isso, Mat. Se voc� entrar, sai de l� como um chefe de cl� ou morre. Ou sai louco. N�o acredito que exista alternativa. A n�o ser que as S�bias entrem l�.</p><p>Mat hesitou. <emphasis>Morrer e viver de novo.</emphasis> Foi o que eles disseram. No entanto, n�o tinha a menor inten��o de tentar ser chefe de cl� Aiel. Os Aiel provavelmente enfiariam as lan�as nele.</p><p>��Vamos deixar na m�o da sorte���disse, pescando do bolso o marco de Tar Valon.���Essa est� virando minha moeda da sorte. Chama, eu vou com voc�. Cara, fico aqui fora.���Ele girou a moeda depressa, antes que Rand pudesse fazer obje��es.</p><p>De alguma forma, n�o conseguiu agarr�-la. A moeda deu uma guinada, caiu no ch�o, quicou duas vezes� E caiu de p�.</p><p>Ele cravou em Rand um olhar acusat�rio.</p><p>��Voc� faz esse tipo de coisa de prop�sito? N�o sabe se controlar?</p><p>��N�o.���A moeda caiu, revelando um rosto et�reo de mulher rodeado por estrelas.���Parece que dessa vez voc� fica de fora, Mat.</p><p>��Voc� canaliz�?���Queria que Rand n�o canalizasse perto dele.���Ah, que me queime, se quer que eu fique de fora, eu fico.���Agarrou a moeda e meteu-a de volta no bolso.���Escute, voc� entra, faz o que tem que fazer e volta. Quero dar o fora desse lugar, n�o vou ficar aqui para sempre girando os dedos e esperando. E nem pense que vou entrar para resgatar voc�, ent�o � melhor tomar cuidado.</p><p>��Eu n�o pensaria isso de voc�, Mat���disse Rand.</p><p>Ele encarou o amigo, desconfiado. Por que estava rindo?</p><p>��Desde que voc� compreenda que n�o vou. Aaah, v� logo e vire um chefe Aiel. Voc� j� tem cara, mesmo.</p><p>��N�o entre l�, Mat. Aconte�a o que acontecer, n�o entre.���Rand esperou o amigo assentir com a cabe�a e se virou.</p><p>Mat ficou ali parado, observando-o caminhar por entre as colunas reluzentes. Pareceu sumir sob a luz ofuscante quase na mesma hora. <emphasis>Ilus�o de �tica</emphasis>, Mat disse a si mesmo. Era s� isso. <emphasis>Uma porcaria de uma ilus�o de �tica.</emphasis></p><p>Come�ou a examinar a cole��o de objetos, mantendo a dist�ncia, olhando e se esfor�ando para avistar Rand outra vez.</p><p>��Olhe l� o que vai fazer���gritou.���Se me deixar sozinho no Deserto com Moiraine e os malditos Aiel, estrangulo voc�, Drag�o Renascido ou n�o!���Depois de um minuto, acrescentou:���N�o vou entrar a� para salvar sua pele se voc� se meter em confus�o! Est� me ouvindo?���N�o houve resposta. <emphasis>Se ele n�o aparecer aqui fora em uma hora�</emphasis>���� um louco s� por entrar a����resmungou.���Bom, n�o serei eu que livrarei a pele dele do fogo. Ele � quem sabe canalizar. Se enfiar a droga da cabe�a em um ninho de vespas, sabe canalizar para se livrar.���<emphasis>Vou dar uma hora.</emphasis></p><p>Ent�o iria embora, estando Rand de volta ou n�o. Iria simplesmente se virar e ir embora. Simplesmente iria embora. Era isso o que faria. Ah, iria.</p><p>Pela forma como as finas lan�as de vidro captavam a luz azulada, refratando e refletindo, s� encar�-las era o bastante para ficar com dor de cabe�a. Mat se virou e foi andando pelo caminho por onde viera, encarando com desconfian�a os <emphasis>ter�angreal</emphasis>���ou o que fossem���que preenchiam a pra�a. O que estava fazendo ali? Por qu�?</p><p>De repente parou onde estava e encarou um dos estranhos objetos. Um largo batente de porta feito de pedra vermelha polida, retorcido de um jeito que ele n�o conseguia entender muito bem, de modo que o olho parecia escorregar ao tentar acompanhar a linha do objeto. Foi se aproximando bem devagar, passando por entre torres facetadas reluzentes, da altura de sua cabe�a, e molduras baixas douradas preenchidas com o que pareciam folhas de vidro. Quase n�o as notava, n�o tirava os olhos do batente.</p><p>Era igual. A mesma pedra vermelha polida, o mesmo tamanho, os mesmos cantos esquisitos. Ao longo de cada ripa corriam tr�s fileiras de tri�ngulos com as pontas para baixo. O de Tear tinha isso? N�o conseguia se lembrar. Da outra vez, n�o estava tentando decorar cada detalhe. <emphasis>Era</emphasis> igual, s� podia ser. Talvez n�o entrasse no outro de novo, mas e naquele�? Outra chance de encontrar aqueles caras de cobra, de faz�-los responderem mais algumas perguntas.</p><p>Espremendo os olhos por conta da claridade, espiou outra vez as colunas. Uma hora, fora o que dera a Rand. Em uma hora, poderia entrar e sair daquela coisa com tempo de sobra. Talvez nem funcionasse, j� que usara o g�meo. <emphasis>Os dois</emphasis> s�o <emphasis>iguais.</emphasis> Por outro lado, talvez funcionasse. Era s� mais uma esfregadinha no Poder.</p><p>��Luz���murmurou.���<emphasis>Ter�angreal</emphasis>. Pedras-portais. Rhuidean. Que diferen�a pode fazer ir mais uma vez?</p><p>Deu um passo para dentro. Atravessou uma muralha de luz branca ofuscante, um rugido t�o imenso que aniquilava o som.</p><p>Piscando, analisou os arredores e engoliu o xingamento mais vil que conhecia. Onde quer que estivesse, n�o era o lugar para onde fora da outra vez.</p><p>O batente retorcido jazia no centro de um imenso aposento que parecia ter formato de estrela, pelo que p�de distinguir em meio � floresta de colunas espessas, cada uma com oito caneluras profundas e extremidades amarelas pontiagudas emanando uma luz suave. Todas eram pretas e brilhantes, exceto pelas pontinhas reluzentes, erguendo-se de um ch�o branco e fosco e se avultando na escurid�o acima de sua cabe�a, em um ponto t�o alto que at� as faixas amarelas esvaneciam. Colunas e ch�o quase pareciam feitos de vidro, mas, quando ele se inclinou para esfregar o ch�o, percebeu que era pedra. Pedra empoeirada. Limpou a m�o no casaco. O ar cheirava a bolor, e as �nicas marcas que havia na poeira eram de suas pr�prias pegadas. Fazia muito tempo que algu�m pisava.</p><p>Desapontado, virou-se de volta para o <emphasis>ter�angreal</emphasis>.</p><p>��Quanto tempo.</p><p>Mat deu um giro, agarrando a manga do casaco em busca da faca que estava no ch�o da montanha. O homem parado de p� entre as colunas n�o se parecia em nada com o povo com jeito de serpentes. Ele fez Mat se arrepender de ter entregado as �ltimas facas �s S�bias.</p><p>O sujeito era alto, mais alto que um Aiel, e vigoroso, mas com ombros largos demais para o quadril fino, e a pele mais branca que o papel mais delicado. Tiras de couro claro enfeitadas com tachas de prata cruzavam os bra�os e o peito nu, e um saiote pregueado ca�a at� os joelhos. Os olhos grandes demais e quase sem cor estavam cravados fundo no rosto de maxilar estreito. Os cabelos curtos e avermelhados apontavam para cima, feito uma escova, e as orelhas, coladas � cabe�a, eram meio pontudas. Ele se inclinou na dire��o de Mat, inspirando, abrindo a boca para sorver mais ar e mostrando os dentes pontiagudos. A impress�o que o homem dava era a de uma raposa prestes e pular em cima de uma galinha encurralada.</p><p>��Quanto tempo���disse ele, endireitando-se. A voz era bruta, quase um rosnado.���Voc� aceita os tratados e acordos? Est� trazendo ferro, instrumentos musicais ou aparatos para produzir luz?</p><p>��N�o tenho nada disso���respondeu Mat, lentamente. N�o era o mesmo lugar, mas o sujeito perguntava as mesmas coisas. E se comportava da mesma forma, sempre cheirando e cheirando. <emphasis>Revirando todas as minhas experi�ncias, n�o �, maldi��o? Ora, que seja. Talvez ele d� uma avivada na minha mem�ria, para que eu possa lembrar tamb�m.</emphasis> Ele se perguntou se estava falando na L�ngua Antiga outra vez. Era inc�modo n�o saber, n�o ser capaz de dizer.���Se puder me levar aonde eu possa ter respostas para algumas perguntas, mostre o caminho. Se n�o, vou seguir adiante e pe�o desculpas por incomodar.</p><p>��N�o!���Os olhos grandes e descoloridos piscaram, agitados.���Voc� n�o pode ir. Venha. Vou lev�-lo aonde vai encontrar o que precisa. Venha.���O homem se afastou, gesticulando com as duas m�os.���Venha.</p><p>Olhando de relance para o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, Mat foi atr�s. Desejou que o homem n�o tivesse aberto um sorriso enorme naquele instante. Talvez estivesse s� querendo tranquiliz�-lo, mas aqueles dentes� Decidiu que nunca mais deixaria para tr�s <emphasis>todas</emphasis> as facas, nem pelas S�bias, nem pelo Trono de Amyrlin em pessoa.</p><p>O grande batente de porta de cinco lados mais parecia a boca de um t�nel, pois o corredor adiante era exatamente do mesmo tamanho e forma, com as faixas de brilho t�nue e amarelado correndo pelas dobras, margeando o ch�o e o teto. Parecia estender-se indefinidamente para a frente, esvanecendo e escurecendo a dist�ncia, interrompido em intervalos por outros grandes batentes de porta de cinco lados. O homem de saia n�o assumiu a lideran�a at� que ambos estivessem no corredor, e mesmo assim continuava olhando por cima do ombro largo, como se para certificar-se de que Mat ainda estava l�. O ar n�o estava mais bolorento. Em vez disso, guardava um leve toque de algo desagrad�vel, algo um tanto familiar, mas n�o t�o forte que ele pudesse reconhecer.</p><p>Ao passar pelo primeiro batente, Mat deu uma espiada e suspirou. Para al�m das colunas negras em forma de estrela, um batente de porta retorcido de pedra vermelha jazia em um ch�o de vidro fosco, onde a poeira revelava as pegadas de um par de botas que sa�a do <emphasis>ter�angreal</emphasis> em dire��o ao corredor, conduzido por pegadas de p�s descal�os. Ele olhou por cima do ombro. Em vez de terminar cinquenta passadas atr�s em outro aposento como aquele, o corredor continuava at� onde a vista alcan�ava, uma imagem espelhada do que havia adiante. O guia abriu o sorriso de dentes pontudos. O sujeito parecia faminto.</p><p>Sabia que deveria esperar algo daquele tipo, depois do que vira do outro lado do batente de porta da Pedra. Aquelas torres se movendo de onde deveriam estar para onde, por quest�o de l�gica, n�o poderiam estar. Se as torres se mexiam, por que n�o os aposentos? <emphasis>Eu devia ter ficado l� fora esperando Rand, � isso que eu devia ter feito. Eu devia ter feito muitas coisas.</emphasis> Pelo menos, se todas as entradas � frente eram iguais, n�o teria problemas em encontrar o <emphasis>ter�angreal</emphasis> outra vez.</p><p>Espiou a entrada seguinte e viu as colunas negras, o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de pedra vermelha e suas pegadas e as do guia na poeira. Quando o homem de mand�bula estreita olhou outra vez por sobre o ombro, Mat abriu um sorriso cheio de dentes.</p><p>��Nunca pense que pegou um filhote na armadilha. Se tentar levar a melhor, arranco seu couro para fazer um forro de sela.</p><p>O sujeito levou um susto, arregalou os olhos p�lidos, depois deu de ombros e ajustou as tiras cravejadas de prata no peito, o sorriso debochado parecia ter como objetivo enfatizar o que estava fazendo. De s�bito, Mat se pegou imaginando de onde viria aquele couro claro. Sem d�vida n�o� <emphasis>Ah, Luz, acho que �.</emphasis> Conseguiu dar um jeito de se impedir de engolir em seco, mas por pouco.</p><p>��V� guiando, seu filho de uma cabra. Seu couro n�o vale essa prata cravejada. Pode me levar aonde eu quero ir.</p><p>O homem soltou um rosnado e apertou o passo, mantendo as costas eretas. Mat n�o se importou se o sujeito estava ofendido. Mas continuava desejando ter pelo menos uma faca. <emphasis>Que me queime se vou deixar um descerebrado com cara de raposa arrancar meu couro para fazer arreio.</emphasis></p><p>N�o dava para dizer por quanto tempo os dois caminharam. O corredor nunca mudava, continuava com as mesmas paredes inclinadas e faixas amarelas reluzentes. Cada porta exibia o aposento id�ntico, o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, as pegadas, tudo o mais. A mesmice acabou fazendo-o perder a no��o do tempo. Mat ficou preocupado em saber quanto havia se passado. Sem d�vida mais do que a hora que estabelecera. As roupas agora estavam apenas �midas, as botas j� n�o emitiam aquele barulho de couro molhado. Mas continuou andando, olhando as costas do guia e andando.</p><p>De s�bito o corredor terminou � frente, em mais um batente de porta. Mat piscou. Poderia jurar que um instante antes o corredor se estendia at� onde a vista alcan�ava. Mas andara observando mais o sujeito dos dentes pontudos do que o que havia adiante. Olhou para tr�s e quase soltou um xingamento. O corredor seguia at� que as faixas amarelas reluzentes pareciam se juntar em um ponto. E n�o havia qualquer abertura vis�vel em nenhum trecho ao longo.</p><p>Quando se virou, estava sozinho diante do grande batente de cinco lados. <emphasis>Que me queime, queria que eles n�o fizessem isso.</emphasis> Respirou fundo e adentrou.</p><p>Era outro aposento de piso branco em formato de estrela, n�o t�o grande quanto o anterior���ou anteriores���mas com as mesmas colunas. Havia uma estrela de oito pontas com um pedestal preto de vidro em cada ponta, parecendo um peda�o de duas bra�as de altura tirado de uma daquelas colunas. Faixas amarelas cintilantes percorriam as extremidades pontiagudas do aposento e dos pedestais. O cheiro desagrad�vel era mais forte no ambiente, agora o reconhecia. O cheiro do covil de um animal selvagem. Mal reparou, no entanto, pois a c�mara estava vazia exceto por ele.</p><p>Mat se virou lentamente e franziu o cenho para os pedestais. Sem d�vida algu�m deveria estar nos topos, quem quer que fosse responder �s perguntas. Estava sendo enganado. Se conseguira chegar at� ali, conseguiria obter algumas respostas.</p><p>De repente, deu um giro e procurou n�o os pedestais, mas as paredes lisas e cor de cinza. O batente de porta desaparecera, n�o havia sa�da.</p><p>No entanto, antes que ele completasse a segunda volta, surgiu algu�m em cima de cada um dos pedestais, pessoas como o guia, mas vestidas de forma diferente. Quatro eram homens, e o restante, mulheres, com os cabelos eri�ados formando um topete e descendo pelas costas. Todos usavam saias compridas e brancas que escondiam os p�s. As mulheres usavam blusas brancas que ca�am abaixo dos quadris, com golas altas de renda e babados claros nos punhos. Os homens usavam ainda mais tiras do que o guia, e eram mais largas e cravejadas de ouro. Cada arreio sustentava um par de facas desembainhadas no peito de cada homem. De bronze, achou ele, pela cor, mas teria dado todo o ouro em sua posse por apenas uma delas.</p><p>��Fale���disse uma das mulheres, a voz soando como um rosnado.���Pelo antigo tratado, aqui o acordo � feito. Do que necessita? Fale.</p><p>Mat hesitou. N�o fora assim que o povo das cobras havia falado. Todos o encaravam feito raposas encarando o jantar.</p><p>��Quem � a Filha das Nove Luas, e por que tenho que me casar com ela?</p><p>Esperou que eles contassem como uma pergunta s�.</p><p>Ningu�m respondeu. Nenhum deles falou. Apenas continuaram a encar�-lo com aqueles olhos descoloridos.</p><p>��Voc�s deviam me responder���disse. Sil�ncio.���Que seus ossos virem cinzas, me respondam! Quem � a Filha das Nove Luas, e por que tenho que me casar com ela? Como � que vou morrer e nascer outra vez? O que significa que tenho que abrir m�o de metade da luz do mundo? Essas s�o minhas tr�s perguntas. Falem alguma coisa!</p><p>Sil�ncio mortal. Ele ouvia a pr�pria respira��o, o sangue pulsando nos pr�prios ouvidos.</p><p>��N�o tenho a menor inten��o de me casar. E tamb�m n�o tenho inten��o de morrer, vivendo de novo ou n�o. Ando por a� com esses buracos na mem�ria, buracos na vida, e voc�s ficam me encarando feito idiotas. Se eu pudesse escolher, preencheria esses buracos, mas pelo menos respostas �s minhas perguntas poderiam preencher alguns buracos no futuro. Voc�s t�m que me responder�!</p><p>��Feito���grunhiu um dos homens, e Mat piscou.</p><p>Feito? O que foi feito? O que ele quis dizer?</p><p>��Que seus olhos queimem���resmungou.���Que suas almas queimem! Voc�s s�o ruins como as Aes Sedai. Bem, quero um jeito de me livrar das Aes Sedai e do Poder, e quero me afastar de voc�s e voltar para Rhuidean, j� que n�o v�o me responder. Abram uma porta e me deixem�</p><p>��Feito���disse outro homem.</p><p>��Feito���ecoou uma das mulheres.</p><p>Mat observou as paredes, depois cravou os olhos, irritado, em cada um deles, de p� nos pedestais, encarando-o de cima.</p><p>��Feito? O que � que foi feito? N�o estou vendo porta nenhuma. Seus mentirosos filhos de umas cab�</p><p>��Tolo���disse uma mulher, em um rosnado sussurrado, e outros repetiram. Tolo. Tolo. Tolo.</p><p>��Foi s�bio pedir para ir embora sem determinar pre�o, nem termos.</p><p>��Mas tolo por n�o acordar o valor antes.</p><p>��Vamos decidir o pre�o.</p><p>Eles falavam t�o depressa que Mat n�o sabia quem estava falando o qu�.</p><p>��O que foi pedido ser� concedido.</p><p>��O pre�o ser� pago.</p><p>��Que se queimem���gritou ele���do que voc�s est�o falando�</p><p>A escurid�o se fechou � volta dele, total e completa. Algo envolvia sua garganta. Ele n�o conseguia respirar. Ar. N�o conseguia�</p></section><section><title><p>25</p><p><image l:href="#12"/></p><p>A rota para a Lan�a</p></title><p>Rand n�o hesitou ao alcan�ar a primeira fileira de colunas, for�ando-se a caminhar por entre elas. N�o podia mais voltar, n�o podia mais olhar para tr�s. <emphasis>Luz, o que � que vai acontecer aqui? O que � que isso realmente faz?</emphasis></p><p>L�mpidas como o vidro mais delicado, talvez com um p� de espessura e a tr�s passadas ou mais de dist�ncia, as colunas eram uma floresta de luzes ofuscantes que ondeavam em cascata, clar�es e estranhos arco-�ris. O ar era mais frio ali, o bastante para faz�-lo querer um casaco, mas a mesma poeira arenosa cobria as pedras brancas e lisas debaixo das botas. Nem a mais leve brisa soprava, mas algo fazia cada pelo em seu corpo se eri�ar, mesmo sob a camisa.</p><p>� frente e � direta, viu outro homem, nos mesmos tons de cinza e marrom dos Aiel, parado, r�gido feito uma est�tua sob a luz intermitente. Devia ser Muradin, irm�o de Couladin. Parado e r�gido, <emphasis>alguma coisa</emphasis> estava acontecendo. Era estranho, mas, mesmo com o fulgor da luz, Rand n�o conseguia distinguir as fei��es do Aiel com clareza. De olhos arregalados, rosto contra�do, a boca tr�mula quase em um rosnado. Fosse l� o que o homem estivesse vendo, n�o estava gostando. Mas Muradin j� sobrevivera at� ali, pelo menos. Se ele era capaz, Rand tamb�m seria. O homem estava no m�ximo seis ou sete passadas � frente dele. Perguntando-se por que ele e Mat n�o haviam visto Muradin entrar, avan�ou mais um passo.</p><empty-line/><p>Andava atr�s de um par de olhos, sentindo um corpo, mas sem control�-lo. O dono dos olhos acocorou-se por entre os pedregulhos de uma encosta �rida, sob o c�u ensolarado, olhando para estranhas estruturas de pedra inacabadas���<emphasis>N�o!</emphasis> Menos <emphasis>que inacabadas. Isso � Rhuidean, mas sem n�voa, bem no comecinho.</emphasis> O sujeito olhava com desd�m. Ele era Mandein, jovem para um chefe de cl�, com quarenta anos. A no��o de separa��o se esvaiu, a aceita��o veio. Era Mandein.</p><p>��Voc� precisa concordar���disse Sealdre, mas ele a ignorou por ora.</p><p>Os Jenn haviam constru�do coisas que puxavam a �gua e a despejavam em grandes bacias de pedra. Ele j� entrara em batalhas por menos �gua do que cabia em um daqueles tanques, com gente que andava por a� como se a �gua fosse algo insignificante. Uma estranha floresta de vidro se erguia no centro da atividade, cintilando sob o sol, e, perto dela, estava a �rvore mais alta que j� vira, com pelo menos tr�s bra�as de altura. Parecia que cada uma das estruturas de pedra era projetada para abrigar uma fortaleza inteira, um ramo inteiro, depois de prontas. Loucura. Essa Rhuidean era indefens�vel. N�o que algu�m fosse atacar os Jenn, naturalmente. A maioria os evitava como evitavam os malditos Perdidos, que vagavam � procura das can��es que alegavam poder trazer de volta os dias antigos.</p><p>Uma prociss�o sa�a furtiva de Rhuidean em dire��o � montanha, poucas dezenas de Jenn e duas liteiras, cada uma carregada por oito homens. Nelas havia madeira suficiente para doze cadeiras de chefe. Ouvira dizer que ainda havia Aes Sedai entre os Jenn.</p><p>��Voc� deve concordar com o que eles pedirem, marido���disse Sealdre.</p><p>Ele olhou a mulher, desejando ter um instante para passar as m�os por seus longos cabelos louros, vendo a menina risonha que deitara a coroa nupcial a seus p�s e o pedira em casamento. Mas ela agora estava s�ria, atenta e preocupada.</p><p>��Os outros vir�o?���perguntou.</p><p>��Alguns. A maioria. Conversei com minhas irm�s em sonho, e todas sonhamos o mesmo. Os chefes que n�o vierem, os que n�o concordarem� seus ramos v�o morrer, Mandein. Virar�o p� em tr�s gera��es, e seus fortes e gado passar�o a pertencer a outros ramos. Eles perder�o seus nomes.</p><p>Ele n�o gostava que ela falasse com as S�bias de outros ramos, nem mesmo em sonhos. Mas os sonhos das S�bias diziam a verdade. Quando elas sabiam, era verdade.</p><p>��Fique aqui���disse.���Se eu n�o voltar, ajude nossos filhos e filhas a manterem o ramo unido.</p><p>Ela tocou sua face.</p><p>��Vou fazer isso, sombra da minha vida. Mas n�o esque�a. Voc� precisa concordar.</p><p>Mandein acenou, e uma centena de silhuetas veladas o seguiram encosta abaixo, sumindo de rochedo em rochedo, arcos e lan�as prontos, marrom e cinza misturados � terra �rida, desaparecendo at� da vista dele. Eram todos homens, deixara com Sealdre as mulheres do ramo que carregavam a lan�a junto aos homens. Caso alguma coisa desse errado, e ela decidisse fazer algo insensato para salv�-lo, os homens provavelmente a seguiriam. As mulheres a levariam de volta ao forte, sem ligar para seu desejo, assegurando a prote��o do forte e do ramo. Esperava que elas fossem capazes. Elas �s vezes conseguiam ser mais ferozes do que qualquer homem, mas tamb�m mais tolas.</p><p>A prociss�o vinda de Rhuidean j� parara no baixio de barro rachado quando ele alcan�ou a encosta mais baixa. Fez um gesto para que os homens se abaixassem e prosseguiu sozinho, baixando o v�u. Estava ciente de que havia outros homens percorrendo a montanha, � esquerda e � direita, e avan�ando pelo solo seco, vindos de outras dire��es. Quantos seriam? Cinquenta? Talvez cem? Esperava que alguns rostos estivessem ausentes. Sealdre estava certa, como de costume. Alguns n�o tinham dado aten��o ao sonho de suas S�bias. Havia rostos que ele nunca vira antes, e rostos de homens que tentara matar e de outros que haviam tentado mat�-lo. Pelo menos nenhum usava o v�u. Matar algu�m na frente de um Jenn era quase t�o ruim quanto matar um Jenn. Desejou que os outros se lembrassem disso. Se um cometesse uma trai��o, os v�us seriam erguidos. Os guerreiros trazidos por cada chefe viriam das montanhas, e a terra ressecada ficaria encharcada de sangue. De certo modo, esperava a qualquer momento sentir uma lan�a entre as costelas.</p><p>Mesmo tentando ficar atento a uma centena de possibilidades de morte, foi dif�cil n�o encarar as Aes Sedai quando os carregadores baixaram ao ch�o as cadeiras com entalhes ornamentados. Mulheres de cabelos t�o brancos que pareciam quase transparentes. Rostos et�reos com peles que poderiam ser rasgadas pelo vento. Ouvira dizer que os anos n�o afetavam as Aes Sedai. Qual seria a idade das duas? O que elas j� haviam visto? Ser� que se lembravam de quando seu av�, Comran, encontrou pela primeira vez os <emphasis>pousos</emphasis> Ogier na Muralha do Drag�o e come�ou a negociar com eles? Ou talvez de quando o av� de Comran, Rhodric, liderou os Aiel para matar os homens vestidos em camisas de ferro que haviam cruzado a Muralha do Drag�o? As Aes Sedai voltaram os olhos para ele���azul penetrante e castanho muito, muito escuro, o primeiro par de olhos escuros que vira���e pareceram ver dentro de seu cr�nio, dentro de seus pensamentos. Sabia que fora escolhido, mas n�o sabia por qu�. Com esfor�o, desviou o olhar dos das mulheres, que o conheciam mais do que conhecia a si mesmo.</p><p>Um homem encovado de cabelos brancos, alto, mas curvado, veio andando do grupo de Jenn. Era flanqueado por duas mulheres grisalhas que poderiam ser irm�s, com os mesmos pares de olhos verdes e o mesmo jeito de inclinar a cabe�a ao olhar para alguma coisa. Os outros Jenn encaravam o ch�o, inquietos, em vez de olhar para os Aiel, mas n�o esses tr�s.</p><p>��Sou Dermon���disse o homem, com a voz forte e profunda. O escrut�nio em seus olhos azuis era firme como o de qualquer Aiel.���Essas s�o Mordaine e Narisse.���Ele apontou para as mulheres a seu lado, uma de cada vez.���Falamos por Rhuidean e pelos Aiel Jenn.</p><p>Uma inquietude percorreu os homens � volta de Mandein. A maioria, como ele, n�o gostava que os Jenn alegassem ser Aiel.</p><p>��Por que nos chamou aqui?���inquiriu, embora sentisse a l�ngua queimar ao admitir ter sido convocado.</p><p>Em vez de responder, Dermon perguntou:</p><p>��Por que n�o porta espada?���A frase ocasionou murm�rios irritados.</p><p>��� proibido���vociferou Mandein.���At� os Jenn deviam saber disso.���Ergueu as lan�as e tocou a faca em sua cintura e o arco nas costas.���Essas armas bastam para um guerreiro.</p><p>Os murm�rios tornaram-se aprovativos, incluindo alguns vindos dos homens que haviam jurado mat�-lo. Ainda matariam, se tivessem chance, mas aprovaram o que ele dissera. E pareciam satisfeitos em deix�-lo falar, com aquelas Aes Sedai observando.</p><p>��Voc� n�o sabe por quꠗ�disse Mordaine, e Narisse acrescentou:</p><p>��H� muito que voc� n�o sabe. Mas precisa saber.</p><p>��O que voc�s querem?���inquiriu Mandein.</p><p>��Voc�s.���Dermon passou os olhos pelos Aiel, dirigindo as palavras a todos.���Seja quem for o l�der entre voc�s, ele deve ir a Rhuidean para saber de onde viemos e por que voc�s n�o portam espadas. Quem n�o puder aprender, n�o poder� viver.</p><p>��Suas S�bias falaram com voc�s���disse Mordaine���ou n�o estariam aqui. Sabem que pre�o pagam os que se recusam.</p><p>Charendin foi abrindo caminho para avan�ar, os olhos cravados ora em Mandein, ora nos Jenn. Fora Mandein quem pusera aquela cicatriz franzida em seu rosto, e os dois quase se mataram tr�s outras vezes.</p><p>��Basta ir at� voc�s?���indagou Charendin.���Quem de n�s for at� voc�s comandar� os Aiel?</p><p>��N�o.���A palavra saiu feito um sussurro, mas com for�a suficiente para chegar a todos os ouvidos. Veio da Aes Sedai de olhos escuros, sentada na cadeira entalhada com um cobertor sobre as pernas, como se sentisse frio sob o sol escaldante.���Esse vir� depois���disse.���A pedra que nunca cai cair� para anunciar sua chegada. Sa�do do sangue, mas n�o criado no sangue, ele vir� de Rhuidean ao amanhecer e unir� todos com elos que n�o poder�o ser desfeitos. Ele os trar� de volta e os destruir�.</p><p>Alguns chefes dos ramos fizeram men��o de partir, mas nenhum avan�ou mais que alguns passos. Cada um escutara a S�bia de seu ramo. <emphasis>Concordem, ou seremos destru�dos como se nunca tiv�ssemos existido. Concordem, ou causaremos nossa pr�pria destrui��o.</emphasis></p><p>��Que belo truque���gritou Charendin. Baixou a voz diante dos olhares das Aes Sedai, mas ainda falava com raiva.���Voc�s querem ter controle sobre os ramos. Os Aiel n�o se ajoelham diante de homens ou mulheres.���Ele virou a cabe�a de repente, evitando encarar as Aes Sedai.���De ningu�m���murmurou.</p><p>��N�o buscamos controle���retrucou Narisse.</p><p>��Nossos dias est�o definhando���disse Mordaine.���Chegar� o dia em que n�o haver� mais Jenn, e restar�o apenas voc�s para lembrar os Aiel. Voc�s precisam permanecer, ou tudo ser� em v�o e estar� perdido.</p><p>A insipidez de sua voz, firme e tranquila, silenciou Charendin, mas Mandein ainda tinha uma pergunta.</p><p>��Por qu�? Se voc� sabe da ru�na, por que fazer isso?���Apontou para as estruturas que se erguiam a dist�ncia.</p><p>��� nosso prop�sito���respondeu Dermon, calmo.���Procuramos este lugar por longos anos, e agora o preparamos, ainda que n�o para o prop�sito que imagin�vamos. Fazemos o que � necess�rio e mantemos a f�.</p><p>Mandein observou o rosto do homem. N�o havia medo.</p><p>��Voc�s s�o Aiel���disse, e quando alguns dos outros chefes arquejaram, ergueu a voz.���Vou at� os Aiel Jenn.</p><p>��N�o se pode entrar em Rhuidean armado���disse Dermon.</p><p>Mandein riu alto da temeridade do homem. Pedir a um Aiel que fosse desarmado. Ele largou as armas e deu um passo adiante.</p><p>��Leve-me at� Rhuidean, Aiel. Farei frente � sua coragem.</p><empty-line/><p>Rand piscou os olhos sob a luz tr�mula. Ele <emphasis>tinha sido</emphasis> Mandein, podia sentir o desprezo pelos Jenn dando lugar � admira��o. Eram os Jenn Aiel, ou n�o eram? Pareciam iguais, altos, de olhos claros e rostos queimados pelo sol, vestidos nas mesmas roupas, mas sem os v�us. Por�m n�o portavam armas, apenas facas simples de cintura, pr�prias para o trabalho. N�o havia algo como um Aiel sem armas.</p><p>Adentrara as colunas mais longe do que um simples passo poderia levar, estava mais perto de Muradin do que antes. O olhar fixo do Aiel se transformara em uma careta l�gubre.</p><p>Quando Rand se aproximou, a terra granulosa do ch�o arranhou as solas de suas botas.</p><empty-line/><p>Seu nome era Rhodric, e tinha quase vinte anos. O sol brilhava forte no c�u, mas mantinha o v�u erguido e os olhos alertas. As lan�as estavam prontas���uma na m�o direita, tr�s no pequeno broquel de couro de boi���e ele tamb�m. Jeordam estava no baixio de grama marrom ao sul das colinas, onde a maior parte dos arbustos era fr�gil e murcha. O velho tinha cabelos brancos, feito aquela coisa chamada neve de que os antigos falavam, mas tinha olhos argutos, ent�o observar os cavadores do po�o erguendo bolsas cheias d��gua n�o ocupava toda a sua aten��o.</p><p>Montanhas se erguiam a norte e a leste. A cadeia a nordeste era alta, pontuda e de cumes brancos, mas parecia pequena se comparada �s montanhas do leste. Elas faziam parecer que o mundo tentava tocar os c�us, e talvez tentasse. Aquele branco seria neve? N�o pretendia descobrir. Diante das circunst�ncias, os Jenn teriam que virar a leste. Haviam trilhado rumo ao norte ao longo daquela muralha montanhosa por longos meses, arrastando penosamente os carro��es atr�s de si, tentando denegar os Aiel que os seguiam. Pelo menos encontraram �gua ao cruzar um rio, ainda que n�o muita. J� fazia anos que Rhodric n�o via um rio que n�o pudesse cruzar, a maioria era apenas barro seco e rachado, distante das montanhas. Torcia para que as chuvas viessem outra vez, que o verde crescesse outra vez. Lembrava-se de quando o mundo era verde.</p><p>Ouviu os cavalos antes de v�-los, tr�s homens cavalgando pelas colinas marrons em camisas de couro com discos de metal costurados ao longo de todo o comprimento, dois com lan�as. Conhecia o comandante. Era Garam, filho do chefe da cidade. Acabara de desaparecer pelo caminho de onde os outros vinham, n�o muito mais velho que ele. Eram cegos, esses cidad�os. N�o viram os Aiel que se remexeram depois de sua passagem, logo voltando a ser quase invis�veis sobre a terra ressequida. Rhodric baixou o v�u. N�o haveria matan�a, a n�o ser que os cavaleiros come�assem. N�o se arrependia���n�o exatamente���mas n�o podia confiar em homens que viviam em casas e cidades. Houvera muitas batalhas com esses tipos. As hist�rias diziam que fora sempre assim.</p><p>Garam puxou as r�deas e ergueu a m�o direita em sauda��o. Era um homem pequeno e de olhos escuros, assim como os dois acompanhantes, mas todos os tr�s pareciam fortes e aptos.</p><p>��Ei, Rhodric. Seu povo j� terminou de encher os cantis?</p><p>��Vejo voc�, Garam.���Manteve a voz firme e inexpressiva. Aquilo o incomodava, ver homens montados em cavalos era ainda pior do que v�-los portando espadas. Os Aiel possu�am animais de carga, mas havia algo de pouco natural em sentar-se em cima de um cavalo. As pernas de um homem bastavam.���Estamos perto. Seu pai retira a permiss�o para pegarmos �gua de suas terras?���Nenhuma outra terra jamais concedera permiss�o. A �gua tinha de ser disputada se houvesse homens por perto, assim como tudo o mais. E, se havia �gua, havia homens por perto. N�o seria f�cil derrubar aqueles tr�s sozinho. Mudou de posi��o, pronto para dan�ar e provavelmente morrer.</p><p>��N�o retira���disse Garam. Nem percebera que Rhodric se remexera.���Temos uma nascente forte na cidade, e meu pai diz que, quando voc�s forem embora, teremos os novos po�os que cavaram at� irmos embora tamb�m. Mas seu av� parecia querer saber se os outros come�aram a se mudar, e come�aram.���Ele se inclinou para a frente, com um cotovelo apoiado na sela.���Diga, Rhodric, eles s�o o mesmo povo que voc�s?</p><p>��Eles s�o os Aiel Jenn. N�s somos os Aiel. Somos iguais, mas diferentes. N�o posso explicar mais nada, Garam.���Ele mesmo n�o entendia muito bem.</p><p>��Para que lado est�o indo?���perguntou Jeordam.</p><p>Rhodric curvou-se em uma mesura tranquila para seu av�. Ouvira o som de passos, o som de uma bota macia, e sabia que pertenciam a um Aiel. Mas os cidad�os n�o tinham notado a aproxima��o de Jeordam, e puxaram as r�deas com um solavanco, surpresos. Apenas o gesto lento de Garam impediu os outros dois de puxarem as lan�as. Rhodric e seu av� aguardaram.</p><p>��Leste���disse Garam, depois de assumir o controle sobre o cavalo outra vez.���Cruzando a Espinha do Mundo.���Ele apontou para as montanhas que penetravam o c�u.</p><p>Rhodric estremeceu, mas Jeordam disse, tranquilo:</p><p>��O que h� do outro lado?</p><p>��O fim do mundo, pelo que sei���respondeu Garam.���N�o sei muito bem se existe como atravessar a montanha.���Ele hesitou.���Os Jenn levam Aes Sedai com eles. Dezenas, pelo que ouvi dizer. N�o acha desconfort�vel viajar perto de Aes Sedai? Ouvi dizer que o mundo era diferente, mas elas o destru�ram.</p><p>As Aes Sedai deixavam Rhodric muito nervoso, mas ele manteve o rosto impass�vel. Eram apenas quatro, n�o dezenas, mas o bastante para faz�-lo recordar as hist�rias de que os Aiel haviam decepcionado as Aes Sedai de alguma forma que ningu�m entendia. As Aes Sedai deviam saber, quase n�o sa�ram dos carro��es dos Jenn durante o ano que se passara desde sua chegada, mas, quando sa�am, olhavam os Aiel com tristeza. Rhodric n�o era o �nico que tentava evit�-las.</p><p>��N�s vigiamos os Jenn���disse Jeordam.���S�o eles que viajam com Aes Sedai.</p><p>Garam assentiu, como se aquilo fizesse diferen�a, depois inclinou-se outra vez para a frente e baixou a voz.</p><p>��Meu pai tem uma conselheira Aes Sedai, embora tente esconder isso da cidade. Ela disse que devemos sair dessas colinas e rumar para o leste. Disse que os rios secos voltar�o a correr, e que vamos construir uma grande cidade ao lado de um. Ela disse muitas coisas. Ouvi dizer que as Aes Sedai planejam erguer uma cidade, que encontraram Ogiers que v�o ergu�-la para elas. Ogiers!���Ele balan�ou a cabe�a, saindo das lendas e voltando � realidade.���Acham que elas querem governar o mundo outra vez? As Aes Sedai? Acho que dever�amos matar todas antes que elas nos destruam de novo.</p><p>��Devem fazer o que acharem melhor.���A voz de Jeordam n�o dava pista de seus pensamentos.���Preciso aprontar meu povo para cruzar essas montanhas.</p><p>O homem de cabelos escuros se endireitou sobre a sela, claramente decepcionado. Rhodric suspeitou que ele quisesse a ajuda dos Aiel para matar as Aes Sedai.</p><p>��A Espinha do Mundo���disse Garam, de repente.���Tem outro nome. Alguns a chamam de Muralha do Drag�o.</p><p>��Um nome apropriado���retrucou Jeordam.</p><p>Rhodric encarou as montanhas que se agigantavam a dist�ncia. Um nome apropriado para os Aiel. Seu pr�prio nome secreto, jamais revelado a ningu�m, era Povo do Drag�o. Ele n�o sabia por qu�, s� sabia que o nome n�o era pronunciado em voz alta, a n�o ser quando algu�m recebia as lan�as. O que havia para al�m da Muralha do Drag�o? Pelo menos haveria gente com quem lutar. Sempre havia. No mundo inteiro, havia apenas Aiel, Jenn e inimigos. Apenas isso. Aiel, Jenn e inimigos.</p><empty-line/><p>A respira��o de Rand saiu profunda e arranhada, como se ele tivesse passado A respira��o de Rand saiu profunda e arranhada, como se ele tivesse passado horas sem respirar. Raios de luz ofuscantes subiam depressa pelas colunas � volta. As palavras ainda ecoavam em sua mente. Aiel, Jenn e inimigos, assim era o mundo. Aquele lugar n�o era o Deserto, sem d�vida. Ele tinha visto���e vivido���uma �poca antes de os Aiel chegarem � Terra da Trindade.</p><p>Estava ainda mais pr�ximo de Muradin. Os olhos do Aiel se remexiam, incomodados, e ele parecia lutar para n�o dar o pr�ximo passo.</p><p>Rand seguiu em frente.</p><empty-line/><p>Jeordam acocorou-se, confort�vel, na encosta coberta de branco, ignorando o frio e observando cinco pessoas caminharem a passos pesados em dire��o a ele. Tr�s homens de mantos e duas mulheres em vestidos robustos atravessando a neve com dificuldade. O inverno deveria ter acabado havia tempos, segundo os antigos, mas eles contavam hist�rias sobre as esta��es n�o estarem se comportando da forma habitual. Diziam tamb�m que nos velhos tempos a terra se sacudia, e as montanhas se erguiam ou afundavam, como quando algu�m joga uma pedra em um laguinho no ver�o. Jeordam n�o acreditava. Tinha dezoito anos, nascera nas tendas, e aquela era a �nica vida que conhecia. A neve, as tendas e o dever de proteger.</p><p>Baixou o v�u e levantou-se devagar, apoiado na lan�a longa para n�o assustar o povo no carro��o, mas mesmo assim eles pararam de repente, encarando a lan�a, o arco atravessado em suas costas e a aljava na cintura. Nenhum parecia mais velho do que ele.</p><p>��Precisam de n�s, Jenn?���gritou.</p><p>��Voc� nos chama assim para zombar���gritou de volta um homem alto de nariz pontudo���mas � verdade. <emphasis>Somos</emphasis> os �nicos verdadeiros Aiel. Voc�s abriram m�o do Caminho.</p><p>��Isso � mentira!���bradou Jeordam, de repente.���Nunca ergui uma espada!���Ele respirou fundo para se acalmar. N�o estava ali para se irritar com os Jenn.���Se estiverem perdidos, seus carro��es est�o para o lado de l�.���Apontou para o sul com a lan�a.</p><p>Uma mulher tocou o bra�o do homem de nariz pontudo e falou baixinho. Os outros assentiram, e, por fim, o homem fez o mesmo, embora relutante. Ela era bonita, tinha mechas de cabelo loiro escapando pelo xale escuro que envolvia o pesco�o. Olhando para Jeordam, a mulher disse:</p><p>��N�o estamos perdidos.</p><p>De repente ela o perscrutou, como se o visse pela primeira vez, e apertou o xale no corpo.</p><p>Ele assentiu, n�o achava que estivessem. Os Jenn sempre davam um jeito de evitar qualquer um que viesse das tendas, mesmo quando precisavam de ajuda. Os poucos que n�o evitavam se aproximavam apenas por desespero, em busca da ajuda que n�o podiam encontrar em nenhum outro lugar.</p><p>��Venham comigo.</p><p>As tendas de seu pai ficavam a uma milha de caminhada pelas colinas, contornos baixos parcialmente cobertos pela �ltima nevada, que se agarrava �s encostas. Seu povo olhava receoso para os rec�m-chegados, mas isso n�o os fez parar o que faziam, estivessem cozinhando, cuidando das armas, ou brincando de guerra de neve com uma crian�a. Jeordam tinha orgulho de seu ramo, formado por quase duzentos, o maior dos dez acampamentos espalhados ao norte dos carro��es. Mas os Jenn n�o pareciam muito impressionados. Ele ficava irritado em ver que havia muitos mais Jenn que Aiel.</p><p>Lewin saiu de sua tenda, um homem alto, grisalho e de fei��es severas. Ele nunca sorria, pelo que diziam, e Jeordam nunca o vira sorrir. Talvez o homem sorrisse, antes de a m�e de Jeordam morrer por causa de uma febre, mas o rapaz achava que n�o.</p><p>A mulher de cabelos loiros���seu nome era Morin���contou uma hist�ria bem parecida com a que Jeordam esperava. Os Jenn haviam feito neg�cios com uma aldeia, um lugar com uma muralha de troncos, e os homens da aldeia voltaram durante a noite e tomaram de volta o que haviam trocado, al�m de levarem outras coisas. Os Jenn sempre achavam que podiam confiar no povo que morava em casas, achavam que o Caminho os protegeria. Os mortos foram enumerados���pais, uma m�e, irm�os-primeiros. Os ref�ns���irm�s-primeiras, uma irm�-da-m�e, uma filha. A �ltima surpreendeu Jeordam. Foi Morin quem falou em tom amargo sobre uma filha de cinco anos levada para ser criada por alguma outra mulher. Analisando-a mais de perto, somou alguns anos � idade que pensara que Morin tivesse.</p><p>��Vamos traz�-los de volta���prometeu Lewin. Pegou uma pilha de lan�as que lhe foi entregue e empurrou-as no ch�o, de ponta para baixo.���Podem ficar conosco, se desejarem, desde que estejam dispostos a defender a si mesmos e aos outros. Se ficarem, n�o poder�o voltar aos carro��es.���O sujeito de nariz pontudo se virou e retornou por onde haviam vindo. Lewin prosseguiu, era raro que apenas um fosse embora nesse momento.���Os que desejarem vir conosco at� essa aldeia, peguem uma lan�a. Mas lembrem-se, se usarem a lan�a contra um homem, ter�o que ficar conosco.���Sua voz e seus olhos estavam petrificados.���Ter�o morrido para os Jenn.</p><p>Um dos homens restantes hesitou, mas cada um deles enfim puxou uma lan�a do ch�o. Morin tamb�m. Jeordam a encarou, boquiaberto, e at� Lewin piscou.</p><p>��N�o precisa pegar uma lan�a s� para ficar���disse Lewin���ou para que tragamos seus familiares de volta. Pegar uma lan�a indica disposi��o para lutar, n�o apenas para se defender. Pode baixar, n�o precisa ter vergonha.</p><p>��Eles levaram minha filha���respondeu Morin.</p><p>Para espanto de Jeordam, Lewin mal pausou antes de assentir.</p><p>��Para tudo existe uma primeira vez. Para tudo. Ent�o que seja.</p><p>O pai come�ou a dar pancadinhas nos ombros dos homens, caminhando pelos acampamentos e convocando-os a visitar a tal aldeia murada com troncos. Jeordam foi o primeiro. Desde que passou a ter idade suficiente para segurar uma lan�a, o pai sempre o escolhia em primeiro lugar. E nunca teria feito o contr�rio.</p><p>Morin estava tendo problemas com a lan�a, cujo cabo se embolara em suas longas saias.</p><p>��Voc� n�o precisa ir���disse Jeordam.���Nenhuma mulher nunca foi. Traremos sua filha de volta.</p><p>��Quero tirar Kirin de l� pessoalmente���respondeu ela, feroz.���Voc�s n�o v�o me impedir.</p><p>Que mulher teimosa.</p><p>��Nesse caso, dever� se vestir assim.���Ele apontou para o casaco e as cal�as que usava.���N�o d� para cruzar as terras no meio da noite usando um vestido.���Ent�o tomou a lan�a da m�o da mulher antes que ela pudesse reagir.���N�o � f�cil aprender a lan�a.���Os dois homens que tinham vindo com ela, desajeitados ao receberem instru��es, quase trope�ando nos pr�prios p�s, eram prova disso. Jeordam pegou um machadinho e cortou um peda�o do cabo, deixando apenas quatro p�s e mais quase um p� de l�mina.���Espete as pessoas com ela. Nada mais que isso. S� espete. O cabo tamb�m � usado para bloquear, mas vou encontrar alguma coisa para voc� usar de escudo na outra m�o.</p><p>Ela o encarou de um jeito estranho.</p><p>��Quantos anos voc� tem?���perguntou, revelando ainda mais estranheza.</p><p>Jeordam lhe disse, e a mulher apenas assentiu, pensativa.</p><p>Depois de um instante, ele perguntou:</p><p>��Algum desses homens � seu marido?</p><p>Os dois Jenn ainda trope�avam nas pr�prias lan�as.</p><p>��Meu marido j� est� de luto por Kirin. D� mais import�ncia �s �rvores do que � pr�pria filha.</p><p>���rvores?</p><p>��As �rvores da Vida.���Jeordam ficou olhando para ela, at�nito, e a mulher balan�ou a cabe�a.���Tr�s arvorezinhas plantadas em barris. Eles cuidam delas quase t�o bem quanto de si mesmos. Pretendem plant�-las quando encontrarem um lugar seguro, dizem que os dias antigos retornar�o quando isso acontecer. Eles. Eu disse eles. Est� certo. N�o sou mais Jenn.���Morin ergueu a lan�a de cabo encurtado.���Isso aqui agora � meu marido.���Encarando-o de perto, ela perguntou:���Se algu�m levasse um filho seu, voc� ficaria falando do Caminho da Folha e do sofrimento que foi enviado para nos testar?���Jeordam balan�ou a cabe�a, e a mulher completou:���Foi o que pensei. Voc� ser� um pai excelente. Agora me ensine a usar a lan�a.</p><p>Uma mulher estranha, por�m bonita. Ele tomou a lan�a e come�ou a ensin�-la, explicando tudo o que fazia. A lan�a ficava ainda mais �gil e ligeira com o cabo curto.</p><p>Morin o observava com aquele sorriso estranho, mas a lan�a requeria toda a aten��o de Jeordam.</p><p>��Vi seu rosto no sonho���disse a mulher, baixinho, mas ele n�o escutou.</p><p>Com uma lan�a daquelas, era mais r�pido do que um homem com uma espada. No olho da mente, via os Aiel derrotando todos os homens com espadas. Ningu�m ofereceria resist�ncia. Ningu�m.</p><empty-line/><p>Luzes cegantes piscaram pelas colunas de vidro. Muradin estava apenas um passo ou dois adiante, os dentes arreganhados, rosnando em sil�ncio. As colunas os levavam de volta para a hist�ria Aiel perdida no tempo. Os p�s de Rand se moviam por vontade pr�pria. Em frente. E voltando no tempo.</p><empty-line/><p>Lewin arrumou o v�u no rosto e espiou o pequeno acampamento onde o carv�o que sobrara de uma fogueira extinta ainda ardia sob uma panela de ferro. O vento trazia cheiro de cozido meio queimado. Montinhos de cobertores jaziam em volta do carv�o ao luar. N�o havia cavalos � vista. Desejou ter trazido um pouco de �gua, mas apenas as crian�as tinham permiss�o de beber �gua fora das refei��es. Ele se lembrou vagamente de um tempo em que havia mais �gua, quando os dias n�o eram t�o quentes e secos, e o vento n�o soprava o tempo inteiro. A noite trazia apenas um pequeno al�vio, trocando o sol vermelho, ardente e �gneo pelo frio. Apertou contra o corpo a capa feita de peles de cabra-selvagem que usava como cobertor.</p><p>Os companheiros trope�aram mais para perto, enrolados em trouxas, como ele, chutando pedras e resmungando at� ele ter certeza de que acordariam os homens embaixo. Lewin n�o reclamou, estava t�o pouco acostumado quanto eles. V�us cobriam suas faces, mas ele podia distinguir quem era quem. Luca, cujos ombros tinham o dobro da largura dos outros, gostava de pregar pe�as. Gearan, desengon�ado feito uma cegonha, o melhor corredor entre carro��es. Charlin e Alijha, id�nticos como reflexos, exceto pelo h�bito de Charlin de inclinar a cabe�a quando fica preocupado, como fazia no momento. A irm� deles, Colline, estava no acampamento l� embaixo. Assim como Maigran, irm� de Lewin.</p><p>Quando as mochilas das garotas foram encontradas no ch�o, destro�adas por uma luta, todos os outros se puseram de luto e seguiram em frente, como haviam feito tantas vezes. At� mesmo o av� de Lewin. Se Adan soubesse o que os cinco planejavam, teria impedido. Adan s� fazia resmungar sobre manter a lealdade a Aes Sedai que Lewin jamais vira e tentar manter os Aiel vivos. Os Aiel como um povo, mas nenhum em particular. Nem mesmo Maigran.</p><p>��Eles est�o em quatro���sussurrou Lewin.���As garotas est�o deste lado da fogueira. Vou acord�-las sem fazer barulho, e n�s as levaremos embora enquanto os homens est�o dormindo.���Os amigos se entreolharam e assentiram. Achava que o grupo deveria ter bolado um plano antes, mas s� conseguiam pensar em resgatar as garotas e em como sair dos carro��es sem serem vistos. N�o tinha certeza de que seriam capazes de seguir aqueles homens ou encontr�-los antes que retornassem � aldeia de onde haviam sa�do, um ajuntamento de cabanas toscas de onde os Aiel foram expulsos a paus e pedras. N�o haveria nada a fazer se os captores tivessem chegado t�o longe.</p><p>��E se eles acabarem acordando?���perguntou Gearan.</p><p>��N�o vou abandonar Colline���disse Charlin, bruscamente, e seu irm�o acrescentou, mais baixo:</p><p>��Vamos lev�-la de volta, Gearan.</p><p>��Vamos mesmo���concordou Lewin.</p><p>Luca cutucou a costela de Gearan, que assentiu.</p><p>Caminhar no escuro n�o era tarefa f�cil. Galhos finos e secos se quebravam sob seus p�s, pedras e seixos rolavam pela encosta ressequida diante deles. Quanto mais Lewin tentava se movimentar em sil�ncio, mais barulho parecia fazer. Luca caiu em um espinheiro que se despeda�ou com um estalido alto, mas conseguiu se reerguer com apenas um arquejo. Charlin escorregou e foi deslizando para baixo, at� a metade do caminho. No entanto, nada se movia no acampamento.</p><p>Lewin parou bem pr�ximo aos homens que dormiam, trocou olhares ansiosos com os amigos, ent�o adentrou o acampamento nas pontas dos p�s. A pr�pria respira��o ressoava em seus ouvidos feito um trov�o, alta como os roncos que vinham de uma das quatro sali�ncias. Ele congelou quando os roncos altos pararam e uma das sali�ncias se ergueu. O homem se ajeitou, o ronco recome�ou, e Lewin p�de respirar outra vez.</p><p>Com muito cuidado, agachou-se ao lado de um dos montinhos menores e levantou um cobertor de l� bruta, duro de terra. Maigran o encarou, o rosto ferido e inchado, o vestido todo rasgado, em trapos. Ele tapou a boca da menina com a m�o para impedi-la de gritar, mas ela apenas continuou a encar�-lo, at�nita, sem nem piscar.</p><p>��Vou retalhar voc� feito um porco, garoto.���Um dos montinhos mais altos tombou para o lado, e um homem de barba desgrenhada e roupas imundas p�s-se de p�, segurando uma faca comprida que brilhava de leve sob o luar, captando o cintilar vermelho dos carv�es. O homem chutou os montinhos de ambos os lados, gerando grunhidos e agita��o.���Feito um porco. Voc� guincha, garoto, ou seu povo s� sabe correr?</p><p>��Corra���disse Lewin, mas a irm� apenas o encarou, paralisada. Fren�tico, ele agarrou a menina pelos ombros e tentou pux�-la at� onde os outros aguardavam.���Corra!</p><p>Ela saiu de debaixo dos cobertores, r�gida, quase um peso morto. Colline estava acordada���ele conseguia ouvi-la choramingar���mas ela parecia apertar os cobertores sujos ainda mais contra o corpo, tentando se esconder sob eles. Maigran continuava parada, olhando para o nada, vendo nada.</p><p>��Parece que nem isso voc�s sabem fazer.</p><p>Abrindo um sorriso largo, o homem come�ou a contornar a fogueira, mantendo a faca abaixada. Os outros estavam sentados nos cobertores, rindo e assistindo � cena.</p><p>Lewin n�o sabia o que fazer. N�o podia deixar a irm�. S� poderia morrer. Talvez isso desse a Maigran uma chance de correr.</p><p>��Corra, Maigran! Por favor, corra!���A garota n�o se mexeu. N�o parecia sequer ouvi-lo. O que haviam feito com ela?</p><p>O homem barbado se aproximou com muita calma, rindo, saboreando cada passo lento.</p><p>��N��������ooooooo!���Charlin irrompeu da escurid�o com viol�ncia, abra�ando o homem com a faca e derrubando-o no ch�o.</p><p>Os outros levantaram-se depressa. Um, cuja cabe�a raspada reluzia � luz fraca, ergueu uma espada para golpear Charlin.</p><p>Lewin n�o entendeu bem como a coisa aconteceu. De alguma forma, conseguira erguer o caldeir�o pesado pelo cabo de ferro e balan��-lo. Golpeou a cabe�a raspada com um baque alto. O homem desabou, como se os ossos tivessem se liquefeito. Lewin cambaleou, tonto, tentando evitar o fogo, e caiu bem ao lado do homem, largando o panel�o. Um homem escuro de cabelos tran�ados ergueu outra espada, pronto para fur�-lo. Ele recuou de costas, feito uma aranha, os olhos cravados na l�mina afiada da espada, as m�os, fren�ticas, buscando algo para conter o golpe do homem, um peda�o de pau, qualquer coisa. Sentiu a palma da m�o tocar uma madeira redonda. Girou-a com for�a e a empurrou para cima do homem rosnento. Ele arregalou os olhos escuros, e seu punho largou a espada. O sangue jorrava da boca. N�o era um peda�o de pau. Era uma lan�a.</p><p>As m�os de Lewin soltaram o cabo assim que percebeu o que era. Tarde demais. Rastejou para tr�s, tentando evitar que o homem ca�sse por cima dele, e o encarou, tr�mulo. Um homem morto. Um homem morto por ele. O vento estava muito frio.</p><p>Depois de um tempo, come�ou a se perguntar por que nenhum dos outros o havia matado. Ficou surpreso em ver o restante dos amigos ali, em volta do carv�o. Gearan, Luca e Alijha, ofegantes e de olhos arregalados por cima dos v�us. Colline ainda solu�ava e fungava sob o cobertor, e Maigran encarava os homens, paralisada. Charlin estava encolhido, ajoelhado, em posi��o fetal. Todos os quatro alde�es� Lewin olhou os corpos inertes e ensanguentados, um a um.</p><p>��N�s� os matamos.���A voz de Luca tremia.���N�s� Que a miseric�rdia da Luz esteja conosco.</p><p>Lewin rastejou at� Charlin e tocou seu ombro.</p><p>��Est� ferido?</p><p>O amigo desabou. As m�os, �midas e vermelhas, agarravam-se ao cabo da faca cravada na barriga.</p><p>��Est� doendo, Lewin���sussurrou. Ele estremeceu uma vez, e os olhos pararam de ver.</p><p>��O que vamos fazer?���perguntou Gearan.���Charlin est� morto, e n�s� Luz, o que foi que fizemos? O que vamos fazer?</p><p>��Vamos levar as garotas de volta para os carro��es.���Lewin n�o conseguia parar de encarar o olhar vidrado de Charlin.���Vamos fazer isso.</p><p>Reuniram tudo o que tinha utilidade, que era basicamente o panel�o e as facas. Era dif�cil encontrar objetos de metal.</p><p>��Podemos muito bem fazer isso���disse Alijha, de repente.���Eles com certeza roubaram isso de algu�m igual a n�s.</p><p>Quando Alijha fez men��o de pegar uma das espadas, Lewin o deteve.</p><p>��N�o, Alijha. Isso � uma arma, feita para matar. N�o tem outra finalidade.���Alijha ficou em sil�ncio, mas os olhos percorreram os quatro corpos e se fixaram nas lan�as que Luca enrolava nos cobertores, para carregar o corpo de Charlin. Lewin se recusava a encarar os alde�es.���Uma lan�a pode p�r comida nas panelas, Alijha. Uma espada, n�o. � proibida pelo Caminho.</p><p>Alijha permaneceu em sil�ncio, mas Lewin pensou ter visto um olhar de desprezo por tr�s do v�u. Ainda assim, quando todos enfim adentraram a noite, as espadas jaziam ao lado das fogueiras apagadas e dos homens mortos.</p><p>Foi uma longa caminhada de volta pela escurid�o, carregando Charlin na maca improvisada, as rajadas de vento por vezes erguendo nuvens sufocantes de poeira. Maigran ia na frente, cambaleante, os olhos fixos adiante. N�o sabia onde estava, nem quem eles eram. Colline parecia com medo, mesmo do pr�prio irm�o, e pulava quando algu�m a tocava. N�o fora assim que Lewin imaginara o retorno. Em sua cabe�a, as meninas estariam sorridentes, felizes em retornar aos carro��es. Todos estariam gargalhando. N�o carregando o corpo de Charlin. N�o silenciados pelas lembran�as do que haviam feito.</p><p>As luzes das fogueiras surgiram ao longe, depois os carro��es, os arreios j� estendidos para que os homens tomassem seus lugares ao nascer do sol. Ningu�m deixava o abrigo dos carro��es depois de anoitecer, por isso Lewin se surpreendeu ao ver tr�s silhuetas correndo em dire��o a eles. Os cabelos brancos de Adan se destacavam na escurid�o. As outras duas eram Nerrine, m�e de Colline, e Saralin, m�e dele e de Maigran. Lewin baixou o v�u com um pressentimento ruim.</p><p>As mulheres correram para as filhas, com bra�os amorosos e murm�rios doces. Colline rendeu-se ao abra�o da m�e com um suspiro delicado, Maigran mal pareceu notar Saralin, que encarava os hematomas no rosto da filha quase aos prantos.</p><p>Adan franziu o cenho para os jovens, as rugas permanentes de preocupa��o formando sulcos profundos na face.</p><p>��Em nome da Luz, o que aconteceu? Quando vimos que voc�s tamb�m tinham ido embora����A voz do homem foi morrendo quando ele viu a maca que levava Charlin.���O que aconteceu?���perguntou ele outra vez, como se temesse a resposta.</p><p>Lewin abriu a boca devagar, mas Maigran falou primeiro:</p><p>��Eles os mataram.���Ela fixava o olhar em algo a dist�ncia e falava com a voz sincera de uma crian�a.���Os homens maus machucaram a gente. Eles� Depois Lewin chegou e matou todos.</p><p>��N�o diga esse tipo de coisa, crian�a���retrucou Saralin, com delicadeza.���Vocꅠ��Ela parou, encarando a filha nos olhos, depois virou-se para olhar Lewin, indecisa.���Isso �? Isso � verdade?</p><p>��Foi necess�rio���respondeu Alijha, com a voz cheia de pesar.���Eles tentaram nos matar. Mataram Charlin.</p><p>Adan deu um passo atr�s.</p><p>��Voc�s� mataram? Mataram <emphasis>homens</emphasis>? Mas e o Pacto? N�s n�o machucamos ningu�m. Ningu�m! N�o h� motivo para justificar a morte de outro ser humano. Nenhum!</p><p>��Eles levaram Maigran, av����retrucou Lewin.���Levaram Maigran e Colline e as machucaram. Eles�</p><p>��N�o h� motivo!���vociferou Adan, tremendo de raiva.���Precisamos aceitar o que vem. Os sofrimentos s�o enviados para testar nossa lealdade. N�s aceitamos e resistimos! N�o matamos! Voc�s n�o se desgarraram do Caminho, voc�s o abandonaram. N�o s�o mais Da�shain. Foram corrompidos, e n�o permitirei que os Aiel sejam corrompidos por voc�s. Deixem-nos, estranhos. Assassinos! Voc�s n�o s�o bem-vindos nos carro��es dos Aiel.���O homem deu as costas ao grupo e foi embora pisando firme, como se eles j� n�o existissem. Saralin e Nerrine foram atr�s em disparada, levando as meninas.</p><p>��M�e���chamou Lewin, encolhendo-se quando ela virou o rosto para tr�s, encarando-o com olhos frios.���M�e, por favor�</p><p>��Quem � voc� para se dirigir a mim dessa forma? Esconda seu rosto de mim, estranho. J� tive um filho, um dia, de rosto igual ao seu. N�o desejo v�-lo em um assassino.</p><p>Ela levou Maigran atr�s dos outros.</p><p>��Ainda sou Aiel���gritou Lewin, mas eles n�o olharam para tr�s. Pensou ter ouvido Luca chorando. O ventou soprou, remexendo a terra, e ele cobriu o rosto com o v�u.���Eu sou Aiel!</p><empty-line/><p>O movimento r�pido de luzes atingiu os olhos de Rand. A dor da perda de Lewin ainda o dominava, e sua mente se revolvia, furiosa. Lewin n�o estava armado. N�o sabia como usar uma arma. A matan�a o aterrorizava. N�o fazia sentido.</p><p>Estava quase ao lado de Muradin, mas o homem n�o o percebera. Muradin mantinha a boca contra�da num rosnado, um riso for�ado, e seu corpo tremia, como se ele quisesse correr.</p><p>Os p�s de Rand o levaram em frente, e de volta.</p></section><section><title><p>26</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Os dedicados</p></title><p>Em frente, e de volta.</p><p>Adan estava ca�do no vale de areia, agarrado aos filhos chorosos de seu filho morto, apertando os olhos deles no casaco esfarrapado. L�grimas tamb�m corriam por seu rosto, mas silenciosas, enquanto observava a fronteira com cautela. Aos cinco e seis anos, Maigran e Lewin tinham o direito de chorar. Adan surpreendeu-se em ver que ainda restavam a ele algumas l�grimas.</p><p>Alguns carro��es estavam pegando fogo. Os mortos jaziam onde haviam ca�do. Os cavalos j� tinham sido retirados, exceto pelos ainda presos a alguns carro��es, que tinham sido esvaziados no ch�o. Pela primeira vez, n�o notou os objetos encaixotados que as Aes Sedai haviam entregado aos cuidados dos Aiel, jogados de qualquer jeito no ch�o de terra. N�o era a primeira vez que via aquilo, ou mesmo Aiel mortos, mas dessa vez n�o se importava. Os homens com espadas, lan�as e arcos, os homens que haviam executado a matan�a, levavam os carro��es vazios. Com mulheres. Viu Rhea, sua filha, sendo jogada em um deles junto �s outras, onde ficavam, imprensadas feito animais, presas por assassinos �s gargalhadas. A �ltima de seus filhos. Elwin morrera de fome aos dez anos, Sorelle, aos vinte, da febre que os sonhos prenunciaram, e Jaren se atirou de um penhasco um ano antes, aos dezenove, quando descobriu que podia canalizar. Marind morrera aquela manh�.</p><p>Adan quis gritar. Quis correr at� l� e impedi-los de levar sua �ltima filha. Dar um jeito de impedi-los. E se surgisse de repente? Eles o matariam e levariam Rhea mesmo assim. Poderiam matar as crian�as, tamb�m. Alguns daqueles corpos espalhados no pr�prio sangue eram pequeninos.</p><p>Maigran agarrou-se a ele como se pressentisse que o av� poderia deix�-la, e Lewin se enrijeceu, como se quisesse abra��-lo forte, mas se achasse velho demais. Adan alisou os cabelos dos dois e manteve os rostinhos apertados no casaco. Mas obrigou-se a assistir � cena, at� os carro��es seguirem caminho, rodeados de cavaleiros aos berros, at� depois que os cavalos j� estavam quase sumindo de vista rumo �s montanhas fumegantes que se enfileiravam no horizonte.</p><p>S� ent�o se levantou e soltou as crian�as.</p><p>��Esperem por mim aqui���disse a elas.���Esperem at� eu voltar.</p><p>Agarrados um ao outro, os dois o encararam com os rostos l�vidos e molhados de l�grimas e assentiram, ainda em d�vida.</p><p>Ele caminhou at� um dos corpos e o rolou para o lado com delicadeza. Siedre poderia estar dormindo, o rosto era o mesmo que ele via a seu lado todas as manh�s ao acordar. Era sempre uma surpresa notar os fios cinza nos cabelos acobreados. Ela era seu amor, sua vida, sempre jovem e nova para ele. Adan tentou n�o olhar o sangue que empapava a frente do vestido e a ferida aberta debaixo dos seios.</p><p>��O que vai fazer agora, Adan? Diga! O qu�?</p><p>Ele afastou os cabelos de Siedre do rosto���ela gostava de se arrumar���e p�s-se de p�, virando devagar para confrontar o bando de homens raivosos e assustados. Sulwin era o l�der, um homem alto e de olhos fundos. Ele deixara os cabelos crescerem, como se para disfar�ar que era Aiel. V�rios homens tinham feito o mesmo. N�o fazia diferen�a, nem para esses �ltimos invasores, nem para os que haviam vindo antes.</p><p>��Vou enterrar nossos mortos e seguir em frente, Sulwin.���Ele voltou os olhos para Siedre outra vez.���O que mais h� para fazer?</p><p>��Seguir em frente, Adan? Como � que podemos seguir em frente? N�o temos cavalos. Quase n�o temos �gua nem comida. Tudo o que temos s�o carro��es cheios de coisas que as Aes Sedai nunca mais v�o voltar para pegar. O que s�o essas coisas, Adan? O que s�o, para termos de dar nossas vidas para lev�-las pelo mundo, com medo at� de toc�-las? N�o podemos seguir em frente como antes!</p><p>��Podemos!���Gritou Adan.���E iremos! Temos pernas, temos costas. Vamos puxar os carro��es, se for preciso. Seremos leais ao dever!</p><p>Ficou espantado ao ver o pr�prio punho em riste. Um punho. A m�o tremia quando ele a abriu e baixou novamente.</p><p>Sulwin deu um passo atr�s, depois recusou-se a ceder, mantendo-se firme com seus companheiros.</p><p>��N�o, Adan. Nossa miss�o � encontrar um lugar seguro, e alguns de n�s querem fazer isso. Meu av� contava hist�rias que ouvia quando garoto, de quando viv�amos seguros, e as pessoas vinham nos ouvir cantar. Queremos encontrar um lugar onde possamos viver em seguran�a e cantar outra vez.</p><p>��Cantar?���zombou Adan.���Tamb�m j� ouvi essas velhas hist�rias, de que o canto dos Aiel era uma coisa magn�fica, mas voc�, assim como eu, n�o conhece essas antigas can��es. Elas j� se foram. N�o vamos abandonar o dever que temos com as Aes Sedai para sair em busca de algo que est� perdido para sempre.</p><p>��Alguns de n�s v�o, Adan.���Os outros atr�s de Sulwin assentiram.���Queremos encontrar este lugar seguro. E as can��es. N�s vamos!</p><p>Um barulho fez Adan virar a cabe�a. Outros comparsas de Sulwin estavam descarregando um dos carro��es, e um caixote imenso desabara, abrindo um pouco e revelando o que parecia ser um batente de porta de pedra vermelha, escura e polida. Outros carro��es estavam sendo esvaziados, por pessoas que n�o os amigos de Sulwin. Pelo menos um quarto das pessoas que via estava trabalhando duro para esvaziar os carro��es de tudo o que n�o fosse �gua ou comida.</p><p>��N�o tente nos impedir���advertiu Sulwin.</p><p>Adan abriu a m�o que se fechara em punho outra vez.</p><p>��Voc�s n�o s�o Aiel���disse.���Tra�ram tudo. Seja l� o que forem, n�o s�o mais Aiel!</p><p>��N�s seguimos o Caminho da Folha t�o bem quanto voc�, Adan.</p><p>��V�o embora!���gritou o homem.���V�o! Voc�s n�o s�o Aiel! Est�o perdidos! Perdidos! N�o quero mais olhar para voc�s! Sumam!</p><p>Sulwin e os outros sa�ram correndo, aos trope�os, para bem longe dele.</p><p>Seu cora��o pesava mais e mais � medida que ia inspecionando os carro��es e mortos que jaziam em meio � confus�o. Tantos mortos, tantos feridos gemendo enquanto eram tratados. Sulwin e seus perdidos estavam ocupados em descarregar os carro��es. Os homens que portavam espadas haviam aberto os caixotes, at� que perceberam que n�o havia ouro ou comida dentro. Comida era mais preciosa que ouro. Adan analisou o batente de pedra, as pilhas de estatuetas de pedra amontoadas, as figuras estranhas de cristal ao lado dos vasos com mudas de �rvores de cora, sem utilidade alguma para Sulwin e os outros. Havia prop�sito para algum daqueles objetos? Era para isso que estavam sendo leais? Se era, ent�o que fosse. Poderiam salvar alguns. N�o havia como dizer quais deles as Aes Sedai consideravam mais importantes, mas poderiam salvar alguns.</p><p>Viu Maigran e Lewin puxando a saia da m�e. Estava feliz em ver Saralin viva para cuidar deles. Seu �ltimo filho, marido dela, pai das crian�as, morrera naquela manh�, atingido pela primeira flecha. Poderiam salvar alguns. Ele salvaria os Aiel, n�o importava o custo.</p><p>Ele se ajoelhou e tomou Siedre nos bra�os.</p><p>��Ainda somos leais, Aes Sedai���sussurrou.���Por quanto tempo teremos que ser leais?</p><p>Ent�o apoiou a cabe�a entre os seios de sua esposa e chorou.</p><empty-line/><p>L�grimas ardiam nos olhos de Rand. Em sil�ncio, apenas movendo os l�bios, disse:</p><p>��<emphasis>Siedre.</emphasis></p><p>O Caminho da Folha? Aquela n�o era uma cren�a Aiel. Ele n�o conseguia pensar direito. Mal conseguia pensar, na verdade. As luzes giravam cada vez mais depressa. A boca de Muradin, a seu lado, estava aberta em um uivo silencioso. O Aiel estava com os olhos arregalados, como se testemunhasse a morte de tudo. Juntos, os dois deram um passo � frente.</p><empty-line/><p>Jonai estava parado na beirada do despenhadeiro, olhando para oeste por sobre a �gua iluminada pelo sol. Comelle ficava a cem l�guas naquela dire��o. Ficara. A cidade se estendia pelas montanhas que davam para o mar. Cem l�guas a oeste, onde o mar agora corria. Se Alnora ainda estivesse viva, talvez fosse mais f�cil suportar aquilo. Sem os sonhos dela, ele mal sabia aonde ir ou o que fazer. Sem ela, ele pouco se importava em viver. Sentia cada fio de cabelo grisalho ao se arrastar penosamente de volta aos carro��es, que aguardavam a uma milha de dist�ncia. Menos carro��es agora, e deteriorados. Menos gente, tamb�m, alguns poucos milhares, e antes havia dezenas. Mas ainda eram muitos, para os carro��es que restavam. Ningu�m mais cavalgava, exceto as crian�as pequenas demais para caminhar.</p><p>Adan o encontrou no primeiro carro��o. Era um jovem alto, de olhos azuis bastante cautelosos. Jonai sempre esperava ver Willim, quando se virava depressa. Mas Willim fora mandado embora, claro, anos antes, quando come�ou a canalizar, mesmo tentando se conter. Ainda havia muitos homens capazes de canalizar no mundo, e eles precisavam mandar embora os meninos que exibiam os sinais. Era preciso. Mas desejava ter os filhos de volta. Quando foi que que Esole morrera? T�o pequeno para jazer em uma cova cavada �s pressas, corro�do por uma doen�a que Aes Sedai nenhuma podia Curar.</p><p>��Os Ogier chegaram, pai���disse Adan, animado. Jonai suspeitou que o filho sempre tivesse achado que as hist�rias de Ogier eram apenas hist�rias.���Vieram do norte.</p><p>Adan o conduziu a um bando sujo e enlameado de n�o mais de cinquenta Ogiers, com rostos fundos, olhos tristes e orelhas peludas esmorecidas. Ele se acostumara com as fei��es tensas e exauridas e as roupas remendadas do pr�prio povo, mas ver o mesmo nos Ogier o deixara chocado. No entanto, tinha gente de quem cuidar e seu dever com as Aes Sedai. Quanto tempo fazia que n�o via uma Aes Sedai? Logo depois que Alnora morrera. Tarde demais para Alnora. A mulher havia Curado os doentes que ainda viviam, recolhido alguns dos <emphasis>sa�angreal</emphasis> e seguido seu caminho, dando uma risada amarga quando ele perguntou em que lugar poderiam ficar seguros. O vestido dela estava remendado e gasto na bainha. Jonai n�o soube dizer se a mulher estava l�cida. Ela afirmou que um dos Abandonados estava preso, mas apenas em parte, ou talvez na verdade nem estivesse. Ishamael ainda tocava o mundo, dissera a mulher. S� podia estar t�o louca quanto os Aes Sedai homens restantes.</p><p>Voltou o pensamento outra vez aos Ogier, parados ali, com as pernas compridas bamboleando. Suas ideias vagavam demais, desde a morte de Alnora. Eles tinham p�es e tigelas nas m�os. Jonai ficou chocado em sentir uma pontada de raiva por algu�m ter compartilhado o parco estoque de comida. Quantas pessoas de seu povo daria para alimentar com o que cinquenta Ogier consumiam? N�o. O certo era dividir. Dar, de gra�a. Cem pessoas? Duzentas?</p><p>��Voc�s t�m mudas de cora���disse um dos Ogier. Os dedos grossos percorreram delicadamente os trevos das duas plantas em vasos presos a um carro��o.</p><p>��Alguns���respondeu Adan, com rudeza.���Elas morrem, mas o povo antigo corta novas antes de morrerem de vez.���Ele n�o tinha tempo para �rvores. Tinha um povo para cuidar.���Como est�o as coisas no norte?</p><p>��Ruins���respondeu uma mulher Ogier.���As Terras Praguejadas cresceram para o sul, e h� Myrddraal e Trollocs.</p><p>��Pensei que estivessem todos mortos.</p><p>Ent�o n�o deviam ir para o norte. N�o podiam ir para l�. E o sul? O Mar de Jeren ficava dez dias a sul. Ou ser� que ainda ficava? Estava cansado. T�o cansado.</p><p>��Voc�s vieram do leste?���perguntou outro Ogier. Ele limpou a tigela com uma ponta de p�o e engoliu.���Como est�o as coisas por l�?</p><p>��Ruins���respondeu Jonai.���Mas talvez n�o tanto para voc�s. Dez, n�o, vinte dias atr�s, umas pessoas pegaram um ter�o dos nossos cavalos antes de conseguirmos fugir. Tivemos que abandonar os carro��es.���Aquilo o afligia. Carro��es deixados para tr�s, junto com o que havia neles. As coisas que as Aes Sedai haviam entregado aos cuidados dos Aiel, abandonadas. E n�o era a primeira vez, o que s� tornava tudo pior.���Quase todo mundo que conhecemos leva coisas, leva o que deseja. Mas talvez n�o ajam assim com os Ogier.</p><p>��Talvez���disse uma mulher Ogier, como se n�o acreditasse. Jonai tamb�m n�o sabia muito bem se acreditava, n�o havia lugar seguro.���Sabe onde fica algum dos <emphasis>pousos</emphasis>?</p><p>Jonai a encarou.</p><p>��N�o. N�o, n�o sei. Mas sem d�vida voc�s v�o conseguir encontrar.</p><p>��J� viajamos para t�o longe, por tanto tempo���disse um Ogier, nos fundos do aglomerado.</p><p>��A terra j� mudou tanto���acrescentou outro, em um ressoar lamentoso.</p><p>��Acho que precisamos encontrar um <emphasis>pouso</emphasis> logo, ou vamos morrer���completou a primeira Ogier.���Sinto uma� Saudade em meus ossos. Precisamos encontrar um <emphasis>pouso</emphasis>. Precisamos.</p><p>��N�o posso ajud�-los���respondeu Jonai com tristeza.</p><p>Sentia um aperto no peito. A terra mudava tanto que j� estava irreconhec�vel, a plan�cie percorrida no ano anterior poderiam ser as montanhas de hoje. As Terras Praguejadas cresciam. Myrddraal e Trollocs ainda vivos. Gente roubando, gente com cara de animais, gente que n�o reconhecia Da�shain, que sequer os conhecia. Ele mal conseguia respirar. Os Ogier, perdidos. Os Aiel, perdidos. Tudo perdido. O aperto tornou-se dor, e ele caiu de joelhos e se encolheu, agarrando o peito. Um punho comprimia seu cora��o com for�a.</p><p>Adan ajoelhou-se ao lado dele, preocupado.</p><p>��Pai, o que houve? Qual � o problema? O que posso fazer?</p><p>Jonai conseguiu agarrar a gola pu�da do filho e puxou seu rosto para perto.</p><p>��Leve� o povo� para o sul.���Precisou se for�ar a expelir as palavras, entre espasmos que pareciam rasgar o cora��o.</p><p>��Pai, � o senhor que�</p><p>��Escute! Escute! Leve-os� para o sul. Leve� os Aiel� para a seguran�a. Mantenha� o Pacto. Cuide� do que as Aes Sedai� nos deram� at� elas voltarem para buscar. O Caminho� da Folha. Voc� precisa�</p><p>Ele tinha tentado. Solinda Sedai precisava entender. Ele tinha tentado. Alnora.</p><empty-line/><p>Alnora. O nome foi morrendo, e a dor no peito de Rand, aliviando. N�o fazia sentido. Nenhum sentido. Como esse povo poderia ser Aiel?</p><p>As colunas piscavam em lampejos cegantes. O ar revolvia e turbilhonava.</p><p>Ao lado dele, Muradin mantinha a boca esticada, em um esfor�o para gritar. O Aiel agarrou o v�u, agarrou o pr�prio rosto, deixando arranh�es profundos e ensanguentados.</p><p>� frente.</p><empty-line/><p>Jonai correu pelas ruas vazias, tentando n�o olhar os pr�dios depredados e as �rvores cora mortas. Todas mortas. O �ltimo dos compridos carros jo abandonados fora arrastado para longe. Os abalos secund�rios ainda agitavam o solo sob seus p�s. Ele usava as roupas de trabalho, o <emphasis>cadin�sor</emphasis>, naturalmente, embora o trabalho que recebera n�o fosse nada para o qual tivesse sido treinado. Tinha sessenta e tr�s anos, estava no auge da vida, ainda sem idade para cabelos brancos, mas se sentia um velho cansado.</p><p>Ningu�m questionou seu ingresso no Sal�o dos Servos, n�o havia vivalma na enorme entrada colunada para fazer perguntas ou dar as boas-vindas. Muita gente se agitava do lado de dentro, os bra�os cheios de pap�is ou caixas, os olhos ansiosos, mas ningu�m sequer olhou para ele. Havia uma sensa��o de p�nico nas pessoas, que aumentava de forma percept�vel cada vez que o ch�o tremia. Angustiado, ele cruzou a antessala e subiu as escadas correndo. A lama sujou a pedra branca marmorizada. Ningu�m podia perder tempo. Talvez ningu�m se importasse.</p><p>N�o havia necessidade de bater � porta que procurava. N�o era nenhuma das grandes portas douradas que davam para um sal�o central, mas uma porta lisa e discreta. Mas ele entrou sem fazer barulho, e ficou feliz por ter feito isso. Havia meia d�zia de Aes Sedai ao redor da mesa comprida, e pareciam n�o perceber o tremor do edif�cio. Eram todas mulheres.</p><p>Ele sentiu um arrepio ao pensar se algum dia os homens poderiam participar de uma reuni�o como aquela. Quando viu o que havia na mesa, o arrepio transformou-se em tremor. Uma espada de cristal���talvez um objeto do Poder, talvez apenas um enfeite, n�o tinha como dizer���fixava o estandarte do Drag�o de Lews Therin Fratricida, estirado feito uma toalha de mesa e espalhado no ch�o. Seu cora��o enrijeceu. O que aquilo estava fazendo ali? Por que n�o fora destru�do, junto com a mem�ria daquele homem amaldi�oado?</p><p>��De que adiantam suas Previs�es���quase gritava Oselle���se n�o pode dizer quando?���Ela balan�ava os longos cabelos negros ao tremer de raiva.���O mundo depende disso! O futuro! A pr�pria Roda!</p><p>Deindre, de olhos escuros, a encarou com uma calma mais corriqueira.</p><p>��Eu n�o sou o Criador. S� posso dizer o que Prevejo.</p><p>��Paz, irm�s.���Solinda era a mais calma de todas, o antigo vestido de estraite era uma n�voa azul-clara. Os cabelos acobreados que ca�am por sobre os quadris eram quase da cor dos dele. Seu av� servira a ela quando jovem, mas a mulher parecia mais mo�a do que ele, pois era Aes Sedai.���O tempo de disputas entre n�s passou. Jaric e Haindar estar�o aqui amanh�.</p><p>��O que significa que n�o podemos nos permitir cometer erros, Solinda.</p><p>��Temos que saber�</p><p>��H� alguma chance de�?</p><p>Jonai parou de escutar. Elas o veriam quando estivessem prontas. N�o era o �nico no sal�o, al�m das Aes Sedai. Someshta estava encostado na parede perto da porta, uma forma gigantesca que parecia feita de vinhas e folhas. Mesmo sentado, a cabe�a dele batia um pouco acima da de Jonai. Uma fissura seca, chamuscada de marrom e preto, corria pelo rosto do Nym e formava um sulco na grama verde de seus cabelos. Quando ele encarou Jonai, os olhos de avel� demonstraram preocupa��o.</p><p>O homem assentiu para ele, e o Nym tocou a fissura e franziu o cenho.</p><p>��Conhe�o voc�?���perguntou, baixinho.</p><p>��Sou seu amigo���respondeu Jonai, com tristeza. N�o via Someshta havia anos, mas tinha ouvido falar. A maioria dos Nym estava morta, pelo que ouvira.���O senhor me carregou nos ombros quando eu era pequeno. N�o se lembra?</p><p>��Cantoria���respondeu Someshta.���Havia cantoria? Tanta coisa j� se foi. As Aes Sedai dizem que algumas retornar�o. Voc� � um Filho do Drag�o, n�o �?</p><p>Jonai estremeceu. Aquele nome j� causara problemas, ainda mais porque n�o era verdadeiro. Mas quantos cidad�os agora acreditavam que os Aiel Da�shain um dia haviam servido apenas ao Drag�o, nenhum outro Aes Sedai?</p><p>��Jonai?</p><p>Ele se virou ao ouvir a voz de Solinda e ajoelhou-se enquanto ela se aproximava. As outras ainda debatiam, por�m em um tom mais baixo.</p><p>��Est� tudo pronto, Jonai?���indagou a mulher.</p><p>��Tudo, Aes Sedai. Solinda Sedai����Ele hesitou e respirou fundo.���Solinda Sedai, alguns de n�s desejam permanecer. Ainda podemos servir.</p><p>��Voc� sabe o que aconteceu com os Aiel em Tzora?���Jonai assentiu, e a mulher deu um suspiro e estendeu o bra�o para afagar seus cabelos curtos, como se ele fosse uma crian�a.���� claro que sabe. Voc�s Da�shain t�m mais coragem do que� Dez mil Aiel de bra�os dados, cantando, tentando fazer um louco se lembrar de quem eram e de quem ele havia sido, tentando transform�-lo com seus corpos e uma can��o. Jaric Mondoran os matou. Ele ficou ali parado, olhando, como se aquilo fosse um quebra-cabe�as, matando todos, e os Aiel continuaram apertando as fileiras e cantando. Ouvi dizer que ele escutou o �ltimo Aiel por quase uma hora, antes de aniquil�-lo. Depois disso, Tzora ardeu em chamas, um fogar�u que consumiu pedra, metal e carne. H� uma folha de vidro onde um dia existiu a segunda maior cidade do mundo.</p><p>��Muita gente teve tempo de fugir, Aes Sedai. Os Da�shain ganharam tempo para fugir. N�o temos medo.</p><p>Solinda apertou a m�o nos cabelos no homem, cheia de pesar.</p><p>��Os cidad�os j� fugiram para Paaren Disen, Jonai. Al�m do mais, os Da�shain ainda t�m um papel a desempenhar, se pelo menos Deindre conseguisse ver o suficiente para dizer o que �. Pretendo salvar algo daqui, e esse algo � voc�.</p><p>��Como quiser���respondeu ele, relutante.���Vamos cuidar do que voc�s nos confiaram at� que voltem para buscar.</p><p>��� claro. As coisas que demos a voc�s.���Ela sorriu para ele e abriu a m�o, alisando os cabelos mais uma vez antes de entrela�ar os dedos na outra m�o.���Voc�s levar�o as� coisas� para um lugar seguro, Jonai. Continuem andando, sempre andando, at� encontrarem um local seguro, onde ningu�m possa lhes fazer mal.</p><p>��Como quiser, Aes Sedai.</p><p>��E Coumin, Jonai? Ele est� mais calmo?</p><p>A �nica alternativa era contar a ela. Preferia arrancar a pr�pria l�ngua.</p><p>��Meu pai est� escondido em algum lugar da cidade. Ele tentou nos convencer a� resistir. Ele n�o escuta, Aes Sedai. N�o escuta. Encontrou uma lan�a de choque em algum lugar e�</p><p>Jonai n�o conseguia continuar. Achou que a mulher fosse ficar irritada, mas os olhos dela se encheram de l�grimas.</p><p>��Mantenha o Pacto, Jonai. Se os Da�shain perderem todo o resto, garanta a continuidade do Caminho da Folha. Prometa isso.</p><p>��Claro, Aes Sedai���respondeu, chocado. O Pacto era os Aiel, e os Aiel eram o Pacto. Abandonar o Caminho seria abandonar sua ess�ncia. Coumin era uma aberra��o. O pai estava estranho desde que Jonai era crian�a, pelo que diziam, quase n�o era Aiel, embora ningu�m soubesse por qu�.</p><p>��Ent�o v�, Jonai. Quero voc� longe de Paaren Disen at� amanh�. E n�o se esque�a: continue andando. Proteja os Aiel.</p><p>Ele fez uma mesura onde estava, ajoelhado, mas Solinda j� voltara para o debate.</p><p>��Podemos confiar em Kodam e seus companheiros, Solinda?</p><p>��Temos que confiar, Oselle. Eles s�o jovens e inexperientes, mas ainda n�o foram tocados pela m�cula, e� n�o temos escolha.</p><p>��Ent�o faremos o que for preciso. A espada deve esperar. Someshta, temos uma tarefa para o �ltimo dos Nym, se voc� puder cuidar disso. J� pedimos bastante a voc�, mas agora precisamos pedir mais.</p><p>Jonai retirou-se com uma mesura formal enquanto o Nym se levantava, a cabe�a ro�ando no teto. J� imersas nos pr�prios planos, as Aes Sedai n�o olharam para ele, que lhes dispensou a �ltima honraria mesmo assim. Achava que n�o as veria nunca mais.</p><p>Ele saiu correndo do Sal�o dos Servos e seguiu at� a cidade, onde a grande multid�o aguardava. Milhares de carro��es estendiam-se em dez fileiras, por mais de duas l�guas, carro��es abarrotados de comida e barris de �gua, carro��es carregados com os caixotes que as Aes Sedai haviam confiado aos Aiel���<emphasis>angreal</emphasis>, <emphasis>sa�angreal</emphasis> e <emphasis>ter�angreal</emphasis>, todas as coisas que tinham de ser mantidas longe das m�os dos homens, que enlouqueciam quando manejavam o Poder �nico. Antes havia outras formas de carreg�-los: carros jo, saltadores, moscardos e imensas asas sho. Agora, tinham de se contentar com carro��es e cavalos reunidos a muito custo. Havia gente entre os carro��es. Estavam em n�mero suficiente para encher uma cidade, mas talvez fossem todos os Aiel vivos que restavam no mundo.</p><p>Cem vieram ao seu encontro, homens e mulheres, representantes que exigiam saber se as Aes Sedai haviam concedido permiss�o para que alguns ficassem.</p><p>��N�o���disse. Alguns franziram o rosto, relutantes, e ele acrescentou:���Temos que obedecer. Somos Aiel Da�shain e obedecemos os Aes Sedai.</p><p>Eles se dispersaram lentamente de volta para os carro��es, e Jonai pensou ter ouvido algu�m mencionar o nome de Coumin, mas n�o podia deixar que aquilo o atormentasse. Correu at� o pr�prio carro��o, na dianteira de uma das fileiras centrais. Os cavalos estavam nervosos com os tremores intervalados do ch�o.</p><p>Os filhos j� estavam sentados���Willim, de quinze, com as r�deas, e Adan, de dez, ao lado dele, ambos com sorrisos escancarados de nervosismo e empolga��o. A pequena Esole brincava com uma boneca em cima da lona que cobria os pertences da fam�lia���e o mais importante, a carga das Aes Sedai. N�o havia espa�o para ningu�m al�m dos jovens e dos muito velhos. Havia uma d�zia de mudas de cora com ra�zes em potes de barro, acomodados atr�s do assento do carro��o, para serem plantados quando encontrassem um local seguro. Uma coisa tola de levar, talvez, mas cada carro��o continha potes com as mudas. Era algo de um tempo havia muito acabado, s�mbolo de um tempo melhor por vir. O povo precisava de esperan�a e de s�mbolos.</p><p>Alnora aguardava ao lado dos animais, os cabelos negros e brilhosos caindo por sobre os ombros, fazendo com que Jonai se lembrasse da primeira vez que a vira, quando menina. Mas no momento havia rugas de preocupa��o em volta dos olhos da esposa.</p><p>Tentou abrir um sorriso, escondendo a preocupa��o no pr�prio cora��o.</p><p>��Tudo vai ficar bem, esposa do meu cora��o.���Ela n�o respondeu, e Jonai acrescentou:���Voc� sonhou?</p><p>��H� algum tempo que n�o acontece���murmurou a mulher.���Tudo vai ficar bem, tudo vai ficar bem, e toda sorte de coisas vai ficar bem.���Com um sorriso tr�mulo, ela tocou seu rosto.���Com voc�, eu sei que vai ser assim, marido do meu cora��o.</p><p>Jonai acenou por cima da cabe�a, e o sinal ondulou pelas fileiras. Lentamente, os carro��es come�aram a se movimentar, e os Aiel come�aram a deixar Paaren Disen.</p><empty-line/><p>Rand balan�ou a cabe�a. Era demais. Lembran�as juntas, amontoadas. O ar parecia repleto de rel�mpagos difusos. O vento levantava a poeira e a transformava em redemoinhos dan�antes. Muradin tinha sulcos profundos na face. Agora, suas unhas penetravam os olhos. � frente.</p><empty-line/><p>Coumin ajoelhou-se na beira do ch�o arado vestindo as roupas de trabalho���um casaco liso cinza-amarronzado, cal�as e botas macias de cadar�o. Estava ao lado de outros vestidos como ele, rodeando o campo, dez homens dos Aiel Da�shain a dois bra�os de dist�ncia um do outro e um Ogier formavam um c�rculo. Dava para ver o campo seguinte, com pessoas dispostas da mesma forma, � frente dos soldados com lan�as de choque largadas em cima dos carros jo blindados. Um moscardo zunia, patrulhando acima, uma vespa de metal mort�fera com dois homens dentro. Ele tinha dezesseis anos, e as mulheres haviam decidido que sua voz enfim estava grave o suficiente para que participasse das can��es de semeadura.</p><p>Os soldados o deixavam fascinado, humanos e Ogier���talvez fosse o mesmo fasc�nio exercido por uma cobra venenosa multicolorida. Eles <emphasis>matavam</emphasis>. O av� de seu pai, Charn, alegava que nos tempos de outrora n�o havia soldados, mas Coumin n�o acreditava. Se n�o havia soldados, quem impedia os Cavaleiros da Noite e os Trollocs de matarem todo mundo? � claro que Charn dizia que naquela �poca tamb�m n�o havia Myrddraals ou Trollocs. Nenhum Abandonado, nenhum Forjado das Sombras. Muitas hist�rias que ele contava eram de uma �poca antes dos soldados, dos Cavaleiros da Noite e dos Trollocs, quando dizia que o Senhor do T�mulo estava preso bem longe e ningu�m sabia seu nome ou conhecia a palavra �guerra�. Coumin n�o conseguia imaginar um mundo desses, a guerra j� era antiga quando nascera.</p><p>Ele gostava das hist�rias de Charn, mesmo sem acreditar nelas, mas algumas rendiam ao velho umas broncas e caras feias. Como quando alegou ter servido a um dos Abandonados. N�o qualquer Abandonado, mas Lanfear em pessoa. E tamb�m disse que servira a Ishamael. Se Charn precisava inventar hist�rias, Coumin preferia que dissesse que serviu ao pr�prio Lews Therin, o grande l�der. Decerto todos perguntariam por que n�o estava servindo ao Drag�o agora, mas isso j� melhoraria as coisas. Coumin n�o gostava da forma como os cidad�os encaravam Charn, quando ele dizia que Lanfear nem sempre fora m�.</p><p>Um burburinho no extremo do campo revelou que o Nym se aproximava. A grande figura, de cabe�a, ombros e peito mais altos que qualquer Ogier, pisou no ch�o cheio de sementes, e Coumin n�o precisou olhar para saber que ele deixava pegadas cheias de brotos. Era Someshta, rodeado por nuvens de borboletas brancas, amarelas e azuis. Murm�rios entusiasmados surgiram entre os cidad�os e os donos dos campos, ali reunidos para assistir. Cada campo teria seu pr�prio Nym.</p><p>Coumin se perguntou se poderia falar com Someshta sobre as hist�rias de Charn. Tinha conversado uma vez com o Nym, e Someshta j� tinha idade para saber se Charn dizia ou n�o a verdade���os Nym eram mais velhos que todos. Alguns diziam que eles n�o morriam, pelo menos n�o enquanto as plantas continuavam crescendo. Mas aquela n�o era hora de pensar em questionar um Nym.</p><p>O Ogier come�ou, como era apropriado, ficando de p� para cantar, os sons graves ressoavam feito o ribombar da terra. Os Aiel se levantaram, e vozes masculinas se elevaram na pr�pria can��o, e mesmo os mais graves eram um tom mais agudo que o do Ogier. Ainda assim, as can��es se entrela�aram, e Someshta tran�ou as tramas em sua dan�a, deslizando pelo campo em passos impetuosos, os bra�os abertos, as borboletas voejando ao redor, pousando nos dedos espalmados.</p><p>Coumin conseguia ouvir as can��es de semeadura nos outros campos, as mulheres batendo palmas para encorajar os homens, no ritmo da batida de uma nova vida, mas aquele conhecimento estava longe dele. A m�sica o arrebatou, e Coumin quase sentiu que era a ele, n�o aos sons que emitia, que Someshta urdia sob o solo e ao redor das �rvores. J� n�o eram sementes. Brotos de zemai cobriam o campo, maiores onde o p� do Nym pisara. Praga nenhuma tocaria aquelas plantas, inseto algum. Depois de cantadas, elas cresceriam at� o dobro da altura de um homem e encheriam os celeiros. Fora para isso que ele nascera, para aquela e as outras can��es de semeadura. N�o lamentava o fato de os Aes Sedai o terem recusado aos dez anos de idade, alegando que ele n�o tinha o poder. Seria maravilhoso se tornar Aes Sedai, mas sem d�vida n�o mais incr�vel do que aquele momento.</p><p>A can��o foi morrendo aos poucos, os Aiel conduzindo o final. Someshta dan�ou mais alguns passos depois que as vozes cessaram, e a can��o ainda parecia pairar de leve no ar, enquanto ele se movia. Ent�o o Nym parou, e estava acabado.</p><p>Coumin ficou surpreso em ver que o povo da cidade fora embora, mas n�o teve tempo para se perguntar aonde tinham ido ou por qu�. As mulheres vinham, risonhas, parabenizar os homens. Ele era um dos homens agora, n�o mais um garoto, embora as mulheres se alternassem entre beijos em seus l�bios e afagos nos cabelos curtos e ruivos.</p><p>Foi ent�o que viu o soldado, apenas algumas passadas � frente, a observ�-los. Deixara em algum lugar a lan�a de choque e a capa de batalha de tecido fluido, mas ainda usava o capacete���parecia a cabe�a de algum inseto monstruoso cujo maxilar escondia a face do homem, mesmo com a viseira antichoque levantada. Como se percebesse que ainda chamava a aten��o, o soldado arrancou o capacete, revelando um rapaz jovem e escuro, n�o mais de quatro ou cinco anos mais velho que Coumin. Os olhos castanhos do soldado, sem nunca piscar, encontraram os dele, e Coumin sentiu um tremor. O rosto era apenas quatro ou cinco anos mais velho, mas aqueles olhos� O soldado devia ter sido selecionado para come�ar o treinamento aos dez. Coumin ficou feliz de os Aiel serem poupados da sele��o.</p><p>Um dos Ogier, se aproximou. Era Thomada, com as orelhas peludas inclinadas para frente, curiosas.</p><p>��Trouxe not�cias, homem da guerra? Percebi a anima��o nos carros jo, enquanto cant�vamos.</p><p>O soldado hesitou.</p><p>��Acho que posso dizer, embora n�o tenha sido confirmado. Fomos informados de que Lews Therin conduziu os Companheiros a um ataque em Shayol Ghul, hoje de manh� cedo. Algo est� atrapalhando a comunica��o, mas a informa��o � de que o Bore foi selado com a maior parte dos Abandonados do lado de l�. Talvez todos.</p><p>��Ent�o acabou.���Thomada suspirou.���Enfim acabou, que a Luz seja louvada.</p><p>��Sim.���O soldado olhou em volta, parecendo perdido de repente.���Acho que sim. Eu acho����Ele olhou as pr�prias m�os, depois deixou-as desabar outra vez ao lado do corpo. Parecia cansado.���O povo local mal podia esperar para comemorar. Se a not�cia for verdade, a comemora��o pode durar dias. Ser� que�? N�o, n�o v�o querer soldados se juntando a eles. E voc�s?</p><p>��Para hoje � noite, talvez���respondeu Thomada.���Mas temos mais tr�s cidades para visitar antes de completar o circuito.</p><p>��� claro. Voc�s ainda t�m trabalho a fazer. Ainda t�m isso.���O soldado olhou outra vez ao redor.���Ainda h� Trollocs. Mesmo que os Abandonados tenham ido embora, ainda h� Trollocs. E Cavaleiros da Noite.���Assentindo para si mesmo, o homem come�ou a voltar para os carros jo.</p><p>Thomada n�o parecia nem um pouco animado, mas Coumin sentia-se t�o at�nito quanto o jovem soldado. A guerra tinha terminado? Como seria o mundo, sem guerra? De s�bito, precisou falar com Charn.</p><p>Os sons da festan�a vieram encontr�-lo antes que chegasse � cidade���risos, cantoria. Os sinos da torre da prefeitura come�aram a ressoar, exuberantes. O povo dan�ava nas ruas, homens, mulheres e crian�as. Coumin abria caminho entre eles, � procura. Charn escolhera ficar em uma das estalagens onde os Aiel estavam hospedados, em vez de participar da cantoria���nem as Aes Sedai podiam fazer algo pelas dores em seus velhos joelhos���mas decerto sairia para ver isso.</p><p>De repente Coumin sentiu algo golpear sua boca, e as pernas cederam. Ele desabou de joelhos antes de perceber que estava ca�do. A m�o que levou � boca retornou ensanguentada. Olhou para cima e deparou-se com um cidad�o enraivecido de p� diante dele, alisando o punho.</p><p>��Por que voc� fez isso?���perguntou.</p><p>O cidad�o cuspiu nele.</p><p>��Os Abandonados est�o mortos. Mortos, est� me ouvindo? Lanfear n�o vai mais proteger voc�. Extirparemos todos voc�s que serviam aos Abandonados enquanto fingiam estar do nosso lado e trataremos todos que nem tratamos aquele velho maluco.</p><p>Uma mulher puxava o bra�o do homem.</p><p>��Venha, Thoma. Vamos embora, e segure essa sua l�ngua besta! Quer que os Ogier venham atr�s de voc�?</p><p>Parecendo desconfiado de repente, o homem deixou que ela o puxasse em dire��o � multid�o.</p><p>Coumin levantou-se com dificuldade e come�ou a correr, sem dar aten��o ao sangue que jorrava pelo queixo.</p><p>A estalagem estava vazia, silenciosa. Nem mesmo o estalajadeiro estava l�, e nem a cozinheira e suas ajudantes. Coumin correu pelo edif�cio, gritando:</p><p>��Charn? Charn? <emphasis>Charn?</emphasis></p><p>Nos fundos, talvez. Charn gostava de sentar-se debaixo das �rvores de ma��-picante atr�s da estalagem e contar hist�rias sobre sua juventude.</p><p>Coumin correu at� a porta dos fundos, trope�ou e caiu de cara no ch�o. Era uma bota descal�ada que estava no caminho. Uma das botas vermelhas que Charn usava o tempo inteiro, agora que n�o participava mais da cantoria. Algo fez Coumin olhar para cima.</p><p>O corpo de Charn, de cabelos brancos, pendia de uma corda amarrada na cumeeira, um p� sem a bota que ele descal�ara aos chutes, os dedos de uma das m�os agarrados com for�a ao pesco�o, tentando soltar a corda.</p><p>��Por qu�?���perguntou Coumin.���Somos Da�shain. Por qu�?</p><p>N�o havia ningu�m para responder. Ele apertou a bota contra o peito, ajoelhou-se e ficou ali, encarando Charn, enquanto o som da festan�a o envolvia.</p><empty-line/><p>Rand estremeceu. A luz das colunas era um azul enevoado e tremulante que parecia s�lido, parecia agarrar seus nervos e arranc�-los da pele. O vento uivou, um redemoinho vasto a sug�-lo para dentro. Muradin conseguira p�r o v�u, e as �rbitas ensanguentadas encaravam �s cegas por cima do tecido negro. O Aiel mastigava alguma coisa, uma espuma sangrenta escorria pelo peito. � frente.</p><empty-line/><p>Charn descia pela lateral da rua ampla e lotada, andando debaixo das �rvores de cora, os trevos espalhando paz e alegria nas sombras dos pr�dios prateados que tocavam o c�u. Uma cidade sem coras seria triste como um descampado. Carros jo zuniam baixinho pela rua, e grandes asas sho brancas disparavam pelo c�u, levando cidad�os a Comelle, Tzora ou algum outro lugar. Era raro ele usar as asas���se precisasse ir para muito longe, em geral uma Aes Sedai viajava junto���mas naquela noite iria para M�jinn. Era seu vig�simo-quinto dia do nome, e naquela noite pretendia aceitar o �ltimo pedido de casamento de Nalla. Ele se perguntou se ela ficaria surpresa. Passara um ano se esquivando com evasivas, sem querer sossegar. Isso significaria passar a servir a Zorelle Sedai, a quem Nalla servia, mas Mierin Sedai j� concedera sua b�n��o.</p><p>Ele fez uma curva e s� teve tempo de ver um homem escuro, de ombros largos, com uma barba fina e elegante, antes que o ombro do homem o arremessasse pelo ar e ele ca�sse de costas, batendo a cabe�a na cal�ada, vendo estrelas. Ficou ali, parado, atordoado.</p><p>��Tome cuidado por onde anda���reclamou o homem barbado, irritado, ajustando o casaco vermelho sem mangas e sacudindo a renda nos punhos.</p><p>Os cabelos negros que ca�am sobre os ombros estavam presos atr�s da cabe�a. Era a �ltima moda, e o mais perto que algu�m que n�o tivesse prestado juramento ao Pacto chegaria de imitar um Aiel.</p><p>A mulher de cabelos claros ao lado do homem p�s a m�o no bra�o dele, o vestido de estraite branco brilhante foi escurecendo com o s�bito constrangimento.</p><p>��Jom, olhe o cabelo dele. Ele � Aiel, Jom.</p><p>Apalpando a cabe�a para ver se estava quebrada, Charn tocou os cabelos curtos e acobreados. Em vez de sacudir a cabe�a, deu um pux�o no rabo comprido atr�s da nuca. <emphasis>Uma contus�o</emphasis>, pensou, <emphasis>nada grave</emphasis>.</p><p>��� verdade.���A irrita��o do homem deu lugar � consterna��o.���Pe�o perd�o, Da�shain. Eu � que deveria tomar cuidado por onde ando. Deixe que eu o ajudo a se levantar.���O homem j� fazia jus �s palavras, erguendo Charn.���Est� tudo bem? Posso chamar um saltador para lev�-lo aonde quiser.</p><p>��N�o estou ferido, cidad�o���disse Charn, em um tom brando.���A culpa foi minha, de verdade.���E tinha sido, correndo daquele jeito. Poderia ter machucado o homem.���Eu machuquei o senhor? Por favor, me perdoe.</p><p>O homem abriu a boca para protestar���os cidad�os sempre faziam isso, pareciam achar que os Aiel eram feitos de vidro���mas, antes que ele conseguisse falar, o ch�o se agitou sob seus p�s. O ar tamb�m, em ondas difusas. O homem olhou em volta, desconfiado, e envolveu o pr�prio corpo e o da esposa com o manto estiloso, de modo que a impress�o era de ver duas cabe�as sem corpos.</p><p>��O que � isso, Da�shain?</p><p>Outros que tinham visto os cabelos de Charn se reuniram ao redor dele, ansiosos, fazendo as mesmas perguntas, mas ele os ignorou sem nem se preocupar se estaria sendo rude. Come�ou a empurrar a multid�o para abrir passagem, mantendo o olhar fixo no Sharom���a esfera branca de mil p�s de di�metro flutuava t�o alta quanto os domos azuis e prateados do Collam Daan.</p><p>Mierin dissera que aquele era o dia. Dissera que tinha encontrado uma nova fonte de Poder �nico. Aes Sedai homens e mulheres seriam capazes de tocar a mesma fonte, e n�o metades separadas. O que homens e mulheres poderiam fazer unidos seria ainda maior. E, naquele dia, ela e Beidomon a tocariam pela primeira vez���a �ltima que homens e mulheres trabalhariam juntos manejando Poderes diferentes. Naquele mesmo dia.</p><p>Algo que parecia uma pequena lasca branca jorrou do Sharom em um jato de fogo negro, depois foi caindo, parecendo lenta e insignificante. Ent�o um esguicho de centenas de gotas voou por todos os lados em volta da imensa esfera. O Sharom se quebrou como um ovo e come�ou a cair, desabar, um inferno de obsidianas. A escurid�o tomou o c�u, engolindo o sol em uma noite artificial, como se a luz daquelas chamas fosse a escurid�o. Pessoas gritavam, gritavam em todo lugar.</p><p>No primeiro jato de fogo, Charn arrancou em disparada em dire��o a Collam Daan, mas sabia que era tarde demais. Jurou servir aos Aes Sedai, mas estava atrasado. As l�grimas escorriam por seu rosto enquanto corria. Piscando para afastar os borr�es que atrapalhavam sua vis�o, Rand apertou a cabe�a com ambas as m�os. A imagem ainda flutuava em sua mente, aquela esfera gigante caindo, preta e incandescente. <emphasis>Ser� que vi mesmo o buraco sendo aberto na pris�o do Tenebroso? Ser�?</emphasis> Ficou parado na beirada das colunas de vidro, encarando <emphasis>Avendesora. Uma �rvore cora. Uma cidade � uma selva sem �rvores cora. E agora existe apenas uma.</emphasis> As colunas cintilavam no t�nue brilho azul formado pelo domo de n�voa acima, embora mais uma vez a luz parecesse ser apenas reflexos brilhantes. N�o havia sinal de Muradin, mas ele n�o achava que o Aiel tivesse sa�do da floresta de vidro. Ou que algum dia sairia.</p><p>De repente algo chamou sua aten��o, na parte mais baixa dos galhos da �rvore da Vida. Uma silhueta oscilava lentamente. Era um homem, suspenso em uma estaca entre dois galhos por uma corda amarrada ao pesco�o.</p><p>Com um rugido sem palavras, ele correu at� a �rvore, agarrando <emphasis>saidin</emphasis>, a espada de fogo surgindo em sua m�o enquanto saltava, rompendo a corda. Ele e Mat ca�ram no ch�o de pedras brancas coberto de terra com dois baques surdos. A estaca se soltou e desabou ao lado deles com um claque. N�o era uma estaca, era uma lan�a estranha de cabo preto com uma l�mina curta de espada no lugar da l�mina normal, o metal levemente curvo e afiado de um lado s�. Rand n�o teria dado a m�nima nem se fosse feita de ouro e <emphasis>cuendillar</emphasis> e cravejada de safiras e gotas de fogo.</p><p>Largou a espada e o Poder, soltou a corda do pesco�o de Mat e apertou a orelha contra o peito do amigo. Nada. Desesperado, rasgou o casaco e a camisa de Mat, rompendo o cord�o de couro com um medalh�o de prata que repousava no peito do jovem. Atirou longe o medalh�o e escutou outra vez. Nada. O cora��o n�o batia. Morto. <emphasis>N�o! Ele estaria bem se eu n�o o tivesse deixado me seguir at� aqui. N�o posso deix�-lo morrer!</emphasis></p><p>Com toda a for�a que tinha, esmurrou o peito de Mat, depois escutou. Nada. Golpeou mais uma vez, escutou. Sim. Um sinal. Um pulso fraco. T�o fraco, t�o lento. E enfraquecendo mais. Por�m Mat <emphasis>ainda</emphasis> estava vivo, apesar da forte marca roxa ao redor do pesco�o. Talvez ainda pudesse continuar vivo.</p><p>Rand encheu os pulm�es e soprou ar com dificuldade para dentro da boca de Mat, o mais forte que p�de. De novo. E de novo. Ent�o foi para cima do amigo, mantendo uma perna de cada lado do corpo inerte, agarrou a cintura dele pelas cal�as e puxou para cima, erguendo os quadris de Mat do ch�o. Para cima e para baixo, tr�s vezes, depois soprou ar outra vez para dentro da boca do amigo. Poderia ter canalizado, talvez assim fosse capaz de fazer alguma coisa. A lembran�a daquela garota na Pedra o impediu. Queria Mat vivo. Vivo, n�o feito uma marionete comandada pelo Poder. Uma vez, em Campo de Emond, vira Mestre Luhhan ressuscitar um garoto encontrado boiando nas �guas do Fonte de Vinho. Ent�o soprava ar e puxava, soprava ar e puxava, rezando.</p><p>De s�bito Mat deu um salto, tossindo. Rand ajoelhou-se ao lado dele, levou as duas m�os � garganta do amigo e rolou para o lado, sugando o ar em um chiado agoniado.</p><p>Mat levou uma das m�os ao peda�o de corda e estremeceu.</p><p>��Esses malditos� filhos de umas� cabras���resmungou com a voz rouca.���Tentaram� me matar.</p><p>��Quem?���perguntou Rand, olhando ao redor, desconfiado. Os pal�cios inacabados em volta da grande pra�a o encararam de volta. Era certo que Rhuidean estava vazia, exceto pelos dois. A n�o ser que Muradin ainda estivesse vivo em algum lugar.</p><p>��O povo� do outro lado� daquele� batente retorcido.���Engolindo em seco, cheio de dor, Mat se sentou e soltou uma respira��o profunda e inst�vel.���Tem um aqui tamb�m, Rand.���Ele ainda soava como se tivesse a garganta ferida.</p><p>��Voc� conseguiu passar? Eles responderam alguma pergunta?���Aquilo poderia ser �til. Estava desesperado por mais respostas. Tinha mil perguntas, e pouqu�ssimas respostas.</p><p>��Nenhuma resposta���respondeu Mat, com a voz rouca.���Eles trapacearam. E tentaram me matar.���Apanhou o medalh�o, uma cabe�a de raposa prateada quase do tamanho da palma da m�o, e um instante depois a enfiou no bolso, abrindo um sorriso.���Pelo menos tirei alguma coisa deles.���Puxando a estranha lan�a para si, passou os cinco dedos pelo cabo negro. Em sua extens�o corria uma linha com alguma inscri��o esquisita em letra cursiva, margeada por um par de p�ssaros gravados em um metal ainda mais escuro que a madeira. <emphasis>Corvos</emphasis>, pensou Rand. Havia outro par deles gravado na l�mina. Com uma risada seca e amarga, Mat levantou-se, meio apoiado no cabo da lan�a, cuja l�mina de espada despontava na mesma altura que sua cabe�a. N�o se deu ao trabalho de amarrar a camisa ou abotoar o casaco.���Tamb�m vou ficar com isso. A charada � deles, mas vou ficar.</p><p>��A charada?</p><p>Mat assentiu.</p><p>��A inscri��o diz o seguinte:</p><poem><stanza><v>�Eis o que foi acordado, tratado sa�do a contento.</v><v>O pensamento � a flecha do tempo, a lembran�a jamais se apaga.</v><v>O que foi pedido est� dado. O pre�o assim se paga.�</v></stanza></poem><p>Depois de recitar, Mat continuou:</p><p>��Bela charada, n�o �? Vou fazer aqueles espertinhos provarem do pr�prio veneno, se tiver chance. Vou mostrar a eles o que � �pensamento e lembran�a�.���Mat estremeceu e passou a m�o pelos cabelos.���Luz, minha cabe�a est� doendo demais. Est� girando como mil pedacinhos de sonho, e cada um � uma agulha. Voc� acha que Moiraine faria algo a respeito, se eu pedisse?</p><p>��Tenho certeza de que sim���respondeu Rand, devagar. Mat devia estar sentindo muita dor, se queria a ajuda da Aes Sedai. Olhou outra vez o cabo escuro da lan�a. A maior parte da inscri��o estava encoberta pela m�o de Mat, mas n�o tudo. O que quer que fosse, n�o tinha ideia do que dizia. Como era que Mat sabia? As janelas vazias de Rhuidean o encaravam, com um ar zombeteiro. Ainda escondemos muitos segredos, pareciam dizer. Mais do que voc� imagina. Piores do que imagina.���Vamos voltar, Mat. N�o me importo se tivermos de cruzar o vale � noite. Como voc� disse, estar� mais fresco. N�o quero mais ficar aqui.</p><p>��Por mim est� �timo���respondeu Mat, tossindo.���Desde que a gente tome mais um gole da �gua daquela fonte.</p><p>Rand acompanhou o passo de Mat, a princ�pio lento e claudicante, com a estranha lan�a servindo de bengala. Parou uma vez para olhar as duas estatuetas de um homem e uma mulher segurando esferas de cristal, mas deixou-as l�. N�o ainda. N�o por um bom tempo, se tivesse sorte.</p><p>Depois que deixaram a pra�a para tr�s, os pal�cios inacabados erguidos ao longo da rua ganharam um aspecto amea�ador, com os topos denteados parecendo as muralhas de imensas fortalezas. Rand abra�ou <emphasis>saidin</emphasis>, embora n�o visse amea�a real. Mas sentia, como se olhos assassinos o vigiassem pelas costas. Rhuidean jazia, vazia e pac�fica, sem sombras sob o t�nue brilho azul do teto de n�voa. A terra nas ruas se encrespava com o vento� O vento. N�o havia vento.</p><p>��Ah, que me queime���resmungou Mat.���Acho que estamos com problemas, Rand. � isso o que ganho, ficando perto de voc�. Voc� sempre me arruma problemas.</p><p>As ondas vieram mais r�pidas, ajuntando-se e formando camadas mais espessas, tr�mulas e quietas.</p><p>��Voc� consegue andar mais depressa?���perguntou Rand.</p><p>��Andar? Sangue e cinzas, eu consigo correr.���Inclinando a lan�a junto ao peito, Mat fez jus �s palavras e irrompeu em um trote.</p><p>Correndo a seu lado, Rand formou outra vez a espada, sem saber o que poderia fazer com ela contra camadas de terra ondulante, sem saber se seria mesmo necess�ria. Era apenas terra. <emphasis>N�o, mas que desgra�a, n�o �. � uma daquelas bolhas. O mal do Tenebroso, flutuando pelo Padr�o atr�s de malditos</emphasis> ta�veren<emphasis>. Sei que � isso.</emphasis></p><p>Ao redor deles, a poeira levantava e tremia, cada vez mais espessa, agrupando-se. De s�bito, bem diante dos dois, uma silhueta se ergueu na bacia de uma fonte seca, um s�lido contorno masculino, escuro e sem fei��es, com dedos como garras afiadas. Sem fazer barulho, a coisa saltou para cima deles.</p><p>Rand se moveu instintivamente���a Lua Nasce Sobre a �gua���e a l�mina de Poder retalhou a figura escura. Em um segundo era apenas uma nuvem de poeira grossa pairando sobre a cal�ada.</p><p>Mas ela foi substitu�da por outras, silhuetas negras e sem rosto irrompendo ligeiras por todos os lados, nenhuma id�ntica, mas todas com garras estendidas. Rand dan�ou as formas entre elas, a espada tecendo padr�es intrincados no ar, deixando para tr�s part�culas de p� flutuantes. Mat usou a lan�a como porrete, rodopiando-a em um borr�o indistinto, mas valendo-se da l�mina da espada, como se sempre tivesse usado a arma. As criaturas morreram���ou pelo menos retornaram ao p󠗠mas eram muitas, e muito �geis. Sangue escorria pelo rosto de Rand, e a antiga ferida na lateral do corpo ardia a ponto de abrir. O rosto de Mat tamb�m estava todo vermelho, assim como o peito. Eram muitas, e muito �geis.</p><p><emphasis>Voc� n�o faz a d�cima parte do que j� � capaz.</emphasis> Foi o que Lanfear dissera. Ele riu ao dan�ar as formas. Aprender com um dos Abandonados. Poderia fazer isso, mas n�o do jeito que ela pretendia. Sim, poderia. Canalizava, urdia fios de Poder e mandava um redemoinho para o centro de cada silhueta negra. Elas explodiam em nuvens de poeira que o faziam tossir. At� onde ele p�de ver, a poeira se assentava no ar.</p><p>Mat, ferido e arfante, apoiou-se na lan�a de cabo escuro.</p><p>��Foi voc� que fez isso?���indagou, sem f�lego, limpando o sangue dos olhos.���J� n�o era sem tempo. Se sabia fazer, por que n�o fez logo de cara, maldi��o?</p><p>Rand come�ou a rir outra vez. <emphasis>Porque n�o pensei nisso. Porque</emphasis> n�o sabia <emphasis>at� fazer</emphasis>. Por�m, a risada congelou na boca. A poeira se agitou no ar e, ao tocar o ch�o, come�ou a ondear.</p><p>��Corra���disse.���Temos que sair daqui. Corra!</p><p>Lado a lado, os dois dispararam pela n�voa, golpeando qualquer filete de poeira que se adensava, chutando, fazendo qualquer coisa que as impedisse de se juntarem. Rand mandou redemoinhos em todas as dire��es, em um turbilh�o ensandecido. A poeira espalhada come�ou a tremer e se reunir de volta na mesma hora, antes mesmo de tocar o solo. Os dois continuaram correndo pelo nevoeiro e o atravessaram, irrompendo em uma luz fraca, com sombras cortantes.</p><p>Cheio de dor na lateral do corpo, Rand deu uma guinada, pronto para lan�ar raios, fogo, ou qualquer coisa. Nada passou pelo nevoeiro atr�s deles. Talvez a n�voa fosse uma muralha contra aquelas criaturas escuras. Talvez as contivesse. Talvez� N�o sabia. N�o se importava, na verdade, desde que as coisas n�o os seguissem.</p><p>��Que me queime���resmungou Mat, com a voz �spera���ficamos l� a noite inteira. O sol j� est� quase nascendo. N�o achei que tivesse passado tanto tempo.</p><p>Rand encarou o c�u. O sol ainda n�o despontara nas montanhas. Uma nuvem t�o brilhante que fazia os olhos doerem delineava os picos dentados. Sombras compridas cobriam o ch�o do vale. <emphasis>Ele emergir� de Rhuidean ao amanhecer, e unir� a todos com elos que n�o poder�o ser desfeitos. Ele os trar� de volta e os destruir�.</emphasis></p><p>��Vamos subir a montanha���disse, baixinho.���Eles estar�o esperando por n�s.���<emphasis>Por mim.</emphasis></p></section><section><title><p>27</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Por dentro dos Caminhos</p></title><p>A escurid�o dos Caminhos reduzia a luz do lampi�o de Perrin a uma po�a de luz angulosa em volta dele e de Gaul. O rangido da sela e o estalido arenoso dos cascos na pedra pareciam n�o ir al�m do limite da luz. N�o havia cheiro no ar, nada. O Aiel caminhava tranquilamente a passos largos ao lado de Galope, mantendo um olho no brilho fraco do lampi�o do grupo de Loial, mais adiante. Perrin recusava-se a pensar nele como o �grupo de Faile�. Os Caminhos n�o pareciam incomodar Gaul, apesar da m� fama. O pr�prio Perrin n�o conseguia parar de escutar, como fizera por quase dois dias���ou o que pareceram dois dias, naquele lugar sombrio. Suas orelhas seriam as primeiras a captar o som que indicava que todos morreriam, ou pior, o som do vento soprando onde vento algum jamais soprara. Nenhum vento al�m de <emphasis>Machin Shin</emphasis>, o Vento Negro devorador de almas. N�o conseguia parar de pensar que viajar pelos Caminhos era uma loucura, mas a defini��o de asneira mudava de acordo com a necessidade.</p><p>A fraca luz � frente parou, e Perrin puxou a r�dea bem no meio do que parecia uma antiga ponte de pedra subindo em arco em meio � escurid�o total e completa, antiga por conta das fendas nas laterais, dos buracos e crateras rasas que pontilhavam o ch�o gasto. Ela devia ter aguentado firme por quase tr�s mil anos, mas parecia prestes a desabar. Talvez ca�sse naquele exato instante.</p><p>O cavalo de carga correu atr�s de Galope: os animais relincharam uns para os outros e reviraram os olhos, inquietos, para a escurid�o ao redor. Perrin sabia como os cavalos se sentiam. A companhia de mais algumas pessoas aliviaria um pouco o peso daquela noite sem fim. Mesmo assim, nem se estivesse sozinho teria se aproximado das lanternas � frente. N�o arriscaria repetir o ocorrido na primeira Ilha, logo depois de adentrar o Portal dos Caminhos em Tear. Co�ou a barba cacheada, irritado. N�o sabia ao certo o que esperar, mas n�o�</p><p><emphasis>O lampi�o pendurado � haste balan�ou quando ele desceu da sela e conduziu Galope e o cavalo de carga ao Guia, uma t�bua alta de pedra branca coberta de riscos prateados que lembravam vagamente vinhas e folhas, todas esburacadas como se tivessem sido corro�das por �cido. N�o conseguiu ler, naturalmente���Loial tinha de fazer isso, era uma inscri��o Ogier���e depois de um momento ficou caminhando ao redor, analisando a Ilha. Era igual �s outras que vira, com um muro de pedras brancas na altura de seu peitoral decorado com um padr�o intrincado de curvas e c�rculos simples encaixados. Aqui e ali, pontes perfuravam o muro, perpassando a escurid�o, e rampas sem gradil corriam para cima ou para baixo sem que ele pudesse ver o que as sustentava. Havia rachaduras por todos os lados, buracos desiguais e crateras rasas, como se a pedra estivesse apodrecendo. O movimento dos cavalos produziu um som arranhado de pedra se soltando por baixo dos cascos. Gaul espiou a escurid�o sem aparentar afli��o, mas, por outro lado, n�o sabia o que poderia haver por ali. Perrin sabia, e muito bem.</emphasis></p><p><emphasis>Quando Loial e as outras chegaram, Faile saltou da �gua negra na mesma hora e caminhou a passos firmes at� Perrin, os olhos fixos em seu rosto. Ele j� estava se arrependendo de t�-la deixado preocupada, mas a mulher n�o parecia nem um pouco preocupada. N�o saberia dizer que express�o havia naquele rosto al�m de firmeza.</emphasis></p><p><emphasis>��Decidiu falar direto comigo, em vez de�?</emphasis></p><p><emphasis>O tapa cheio o fez ver estrelas.</emphasis></p><p><emphasis>��O que voc� estava pensando����Faile praticamente cuspiu as palavras.���Correndo para dentro feito um javali selvagem? Voc� n�o tem considera��o. Nenhuma!</emphasis></p><p><emphasis>Ele respirou fundo, bem devagar.</emphasis></p><p><emphasis>��J� pedi a voc� para n�o fazer isso.</emphasis></p><p><emphasis>Os olhos escuros e obl�quos da mo�a se arregalaram, como se ele tivesse dito algo enervante. Perrin ainda esfregava o rosto quando o segundo tapa veio pelo outro lado, quase deslocando sua mand�bula. Os Aiel observavam com interesse, e Loial os olhava com as orelhas ca�das.</emphasis></p><p><emphasis>��J� disse para n�o fazer isso���grunhiu.</emphasis></p><p><emphasis>A m�o em punho dela n�o era muito grande, mas o soco repentino na boca do est�mago o fez perder quase todo o ar dos pulm�es. Perrin se dobrou ao meio, de lado, e Faile se preparou para um novo soco. Com um rosnado, ele a puxou pelo pesco�o e�</emphasis></p><p>Bem, a culpa era dela. J� tinha pedido para n�o ser estapeado, avisara. A culpa era dela. No entanto, ficou surpreso por Faile n�o ter tentado puxar uma das facas���parecia levar tantas quanto Mat.</p><p>Ela tinha ficado furiosa, naturalmente. Furiosa com Loial, por tentar intervir���sabia se cuidar sozinha, muito obrigada. Furiosa com Bain e Chiad por <emphasis>n�o</emphasis> intervirem���e ficara surpresa quando as duas disseram ter pensado que ela n�o esperaria interfer�ncias em uma briga que havia come�ado. <emphasis>Quando voc� come�a a briga</emphasis>, dissera Bain, <emphasis>deve aceitar as consequ�ncias, ganhando ou perdendo.</emphasis> Mas Faile n�o parecia mais nem um tantinho irritada com ele. Isso o afligia. A mulher apenas o fitava, os olhos negros brilhando com l�grimas n�o vertidas, o que o fez sentir-se culpado, o que por consequ�ncia o deixou com raiva. Por que deveria se sentir culpado? Tinha que ficar ali parado e deixar que ela o enchesse de sopapos como bem entendesse? Faile montara em Andorinha e ficara l� sentada, de costas rijas, recusando-se a se apoiar direito no cavalo, encarando-o com uma express�o indecifr�vel. Isso o deixava muito nervoso. Quase desejou que Faile tivesse puxado uma faca. Quase.</p><p>��Est�o se mexendo outra vez���disse Gaul.</p><p>Perrin voltou depressa ao presente. A outra luz <emphasis>estava</emphasis> se mexendo. Agora parara. Um deles percebera que sua luz ainda n�o estava seguindo. Decerto Loial. Faile talvez n�o se importasse se ele se perdesse, e por duas vezes as Aiel tinham tentado convenc�-lo a se juntar a elas mais � frente. Perrin n�o precisara do m�nimo meneio de cabe�a de Gaul para recusar. Cravara os calcanhares em Galope, que avan�ou, conduzindo o cavalo de carga.</p><p>Esse Guia era ainda mais esburacado que a maioria dos que vira antes, mas seguiu cavalgando sem prestar muita aten��o. A luz das outras lanternas j� come�ava a descer uma das rampas pouco �ngremes, e ele foi atr�s, com um suspiro. Odiava as rampas. Ladeado apenas pela escurid�o, o ch�o come�ou a fazer uma curva para baixo, dando a volta, com nada distingu�vel al�m da luz contida da lanterna que balan�ava sobre sua cabe�a. Algo lhe dizia que uma queda dali de cima seria infinita. Galope e o cavalo de carga se mantiveram no centro, sem pressa, e at� Gaul evitava a beirada. Pior, quando a rampa terminava, em outra Ilha, n�o havia como escapar da conclus�o de que ela estava exatamente sob a que haviam acabado de sair. Gostou de ver Gaul olhando para cima, de n�o ser o �nico a se perguntar o que sustentava aquelas Ilhas no alto e se era mesmo firme.</p><p>Mais uma vez, as lanternas de Loial e Faile pararam perto do Guia, ent�o ele puxou a r�dea de novo, logo na sa�da da rampa. Dessa vez, por�m, o grupo da frente n�o se moveu. Depois de alguns instantes, a voz de Faile chamou:</p><p>��Perrin.</p><p>Ele e Gaul se entreolharam, e o Aiel deu de ombros. A mulher n�o falava com Perrin desde que ele�</p><p>��Perrin, venha c�.���N�o era bem um tom perempt�rio, mas tamb�m n�o parecia pedir.</p><p>Bain e Chiad estavam agachadas, tranquilas, junto ao Guia, e Loial e Faile assentaram os cavalos ali perto, com os lampi�es em m�os. O Ogier segurava as r�deas dos cavalos de cargas, e as orelhas peludas se contorciam enquanto olhava de Faile para Perrin, depois de volta para Faile. A jovem, por outro lado, parecia absorta em ajustar as luvas de cavalgada, de couro verde macio e com falc�es dourados bordados no dorso. Tamb�m trocara de vestido. O novo tinha o mesmo corte, com gola alta e saias divididas, mas era de uma seda brocada verde-escura, e parecia enfatizar o busto. Perrin nunca a vira naquele vestido.</p><p>��O que � que voc� quer?���perguntou, desconfiado.</p><p>Faile olhou para cima, como se estivesse surpresa em v�-lo, inclinou a cabe�a, pensativa, depois sorriu, como se acabasse de lhe ocorrer a resposta.</p><p>��Ah, sim. Queria saber se voc� aprendia a vir quando chamo.</p><p>Ela alargou o sorriso, decerto porque ouvira o ranger dos dentes de Perrin, que esfregou o nariz. Havia um cheiro fraco de ran�o por ali.</p><p>Gaul deu uma risadinha baixa.</p><p>��� feito tentar entender o sol, Perrin. Ele apenas existe, n�o � para ser compreendido. Voc� n�o pode viver sem ele, mas tem um pre�o. Assim s�o as mulheres.</p><p>Bain se inclinou para cochichar no ouvido de Chiad, e as duas gargalharam. Pelo jeito como olhavam para ele e Gaul, Perrin achou que n�o gostaria de ouvir o que as mulheres tinham achado t�o engra�ado.</p><p>��N�o � nada disso���ressoou Loial, as orelhas se remexendo, impacientes. Ele disparou um olhar acusat�rio para Faile, o que n�o a deixou nem um pouco desconcertada. A mulher abriu um sorriso vago em resposta e retornou �s luvas, ajeitando cada dedo mais uma vez.���Me desculpe, Perrin. Ela insistiu em chamar. � que chegamos.���Ele apontou para a base do Guia, atravessado por uma rachadura branca, n�o em dire��o � ponte ou � rampa, mas � escurid�o.���Aqui � o Portal dos Caminhos de Manetheren, Perrin.</p><p>Perrin assentiu, sem dizer uma palavra. N�o iria sugerir que seguissem adiante, para que Faile n�o o acusasse de tentar tomar a lideran�a. Esfregou o nariz outra vez, absorto���aquele cheiro de ran�o, quase impercept�vel, era irritante. N�o daria sequer a sugest�o mais sutil. Se Faile queria liderar, que liderasse. Mas a mulher subiu na sela, brincando com as luvas, obviamente esperando que ele se pronunciasse para que pudesse fazer alguma observa��o mordaz. Faile gostava disso, mas Perrin preferia dizer o que de fato pensava. Irritado, girou Galope, com a inten��o de prosseguir sem ela e Loial. A linha levava ao Portal dos Caminhos, e ele poderia pegar a folha de <emphasis>Avendesora</emphasis> sozinho e abrir o Portal.</p><p>De repente, seu ouvido captou um som abafado de cascos na escurid�o, e o cheiro f�tido fez sentido.</p><p>��Trollocs!���gritou.</p><p>Gaul deu um rodopio suave e deslizou uma lan�a na malha do peitoral de um Trolloc com focinho de lobo que irrompeu na luz erguendo uma espada em forma de foice. Com o mesmo movimento tranquilo, o Aiel puxou de volta a l�mina e desviou, deixando a enorme massa desabar no ch�o. Mas outros vieram, com seus focinhos de bode e presas de javali, bicos cru�is e chifres retorcidos, trazendo espadas curvas, machados com ponteiras e lan�as enganchadas. Os cavalos se agitavam e relinchavam.</p><p>Erguendo o lampi�o bem alto���a ideia de encarar aquelas coisas na escurid�o o fazia suar frio���Perrin agarrou uma arma e virou-se para um rosto distorcido por um focinho cheio de dentes afiados. Ficou surpreso ao perceber que fora o martelo que desamarrara dos alforjes, mas, mesmo sem a ponta afiada do machado, dez libras de a�o no bra�o de um ferreiro ainda serviam para afastar os Trollocs, que sa�am cambaleantes, guinchando e agarrando os rostos destru�dos.</p><p>Loial acertou a haste do lampi�o em uma cabe�a com chifres de bode, e o lampi�o se quebrou. Banhado em �leo fervente, o Trolloc disparou escurid�o adentro, uivando. O Ogier continuou rodopiando a haste pesada���uma vara em suas m�os gigantescas, mas que produzia o ru�do de ossos sendo partidos ao atingir o alvo. Uma das facas de Faile irrompeu em olhos demasiado humanos sobre um focinho com presas afiadas. Os Aiel dan�avam com as lan�as, j� tendo encontrado tempo para erguer os v�us. Perrin golpeava, golpeava e golpeava. Um redemoinho de morte que durou� Um minuto? Cinco? Parecia uma hora. Mas de repente viram os Trollocs ca�dos, e os que ainda n�o estavam mortos se contorciam em espasmos.</p><p>Perrin sugou o ar para dentro dos pulm�es. Sentia como se o peso do martelo fosse arrancar o bra�o direito. Havia uma sensa��o de queima��o no rosto, e algo �mido escorria pela lateral do corpo e pela perna, onde fora ferido pelo a�o dos Trollocs. Cada Aiel tinha pelo menos uma mancha �mida e escura nas roupas marrons e cinza, e Loial tinha um talho profundo na coxa. Os olhos de Perrin passaram por todos, em busca de Faile. Se ela estivesse ferida� A mulher estava sentada na �gua negra, com uma faca nas m�os, pronta para atir�-la. Conseguira tirar as luvas e enfi�-las atr�s do cinto. Perrin n�o viu uma �nica ferida em seu corpo. N�o teria conseguido identificar o sangue de Faile em meio ao cheiro de todos os outros���de humanos, Ogier, Trollocs���mas conhecia o aroma da garota, que n�o exalava cheiro de dor e feridas. As luzes brilhantes machucavam os olhos dos Trollocs, que n�o se adaptavam muito depressa. Era prov�vel que a �nica raz�o pela qual estivessem vivos, e os Trollocs, mortos, fosse a passagem abrupta da escurid�o para a luz.</p><p>Foi todo o tempo que tiveram. Um instante de tr�gua, o suficiente para olhar em volta e respirar. Com um estrondo como cem libras de ossos triturados em um gigantesco moedor de carne, um Desvanecido irrompeu na luz, a mirada sem olhos era uma encarada da morte, a espada negra cintilando como um raio. Os cavalos relincharam, tentando fugir em disparada.</p><p>Gaul quase n�o conseguiu aparar o golpe da l�mina com o broquel, e uma lasca da lateral se soltou como se as camadas de couro de boi curtido fossem de papel. Ele golpeou, esquivou-se de um golpe���por pouco���e golpeou outra vez. Flechas brotaram no peito do Myrddraal. Bain e Chiad haviam prendido as lan�as nos arreios �s costas, onde estavam os estojos com os arcos, e usavam os arcos de chifre curvados. Mais flechas alfinetaram o peitoral do Meio-homem. A lan�a de Gaul saltava e golpeava. De repente, uma das facas de Faile irrompeu no rosto de verme, liso e branco. O Desvanecido n�o sucumbia, n�o desistia de tentar matar. S� conseguiam evitar que aquela espada se cravasse em seus corpos gra�as �s guinadas fren�ticas.</p><p>Perrin arreganhou os dentes em um rosnado inconsciente. Odiava Trollocs como um inimigo de sangue, mas um Desnascido�? Para matar um Desnascido, valeria a pena morrer. <emphasis>Cravar meus dentes naquela garganta�</emphasis>! Sem perceber se ficava no caminho das flechas de Bain e Chiad, conduziu Galope para perto das costas do Desnascido, for�ando a aproxima��o do cavalo relutante com as r�deas e os joelhos. A criatura rodopiou para longe de Gaul no �ltimo instante, parecendo ignorar a ponta de uma lan�a sendo fincada entre seus ombros e despontando abaixo da garganta, encarando Perrin com a express�o sem olhos que aterrorizava a alma de qualquer homem. Tarde demais. O martelo de Perrin desceu, destro�ando de uma vez s� a cabe�a e o rosto sem olhos.</p><p>Mesmo abatido e praticamente sem cabe�a, o Myrddraal ainda se debatia com viol�ncia, golpeando a esmo com a espada forjada em Thakan�dar. Galope dan�ava para tr�s, relinchando, nervoso, e Perrin sentiu-se como se fosse ensopado em �gua congelante. Aquela l�mina negra causava feridas que at� mesmo Aes Sedai tinham dificuldade em Curar, e ele avan�ara sem se preocupar. <emphasis>Meus dentes naquela� Luz, preciso manter o controle. Preciso!</emphasis></p><p>Ainda ouvia os sons abafados da escurid�o no extremo oposto da Ilha, o clangor de patas ferradas, o raspar de botas, respira��es entrecortadas e murm�rios guturais. Mais Trollocs. Quantos, n�o sabia precisar. Pena que n�o estivessem ligados ao Myrddraal, mas talvez hesitassem em atacar, sem ele a conduzi-los. Trollocs sozinhos quase sempre eram covardes, preferiam apostas certas e mortes f�ceis. Por�m, mesmo na falta de um Myrddraal, acabariam por organizar um retorno.</p><p>��O Portal dos Caminhos���disse Perrin.���Precisamos sair antes que decidam o que fazer sem isso.���Ele apontou com o martelo ensanguentado para o Desvanecido, que ainda se debatia. Faile puxou a r�dea de Andorinha na mesma hora para dar meia-volta, e ele ficou t�o surpreso que disse, sem pensar:���N�o vai discutir?</p><p>��N�o discuto quando voc� � sensato���retrucou a mo�a, de repente.���N�o quando voc� � sensato. Loial?</p><p>O Ogier guiou o grupo montado no animal alto e de boletos peludos. Perrin seguiu com Galope atr�s de Faile e Loial, o martelo na m�o, os Aiel a seu lado, todos com os arcos preparados. A mescla de cascos e botas os acompanharam na escurid�o, al�m de murm�rios duros em um idioma bruto demais para as l�nguas humanas. Os Trollocs voltavam, reunindo coragem, os murm�rios cada vez mais pr�ximos.</p><p>Outro som flutuou at� Perrin, parecia um ro�ar de seda contra seda. Sentiu os ossos se arrepiarem. O som crescia, era a respira��o de um gigante, subindo, descendo, subindo mais.</p><p>��Corram!���gritou.���Corram!</p><p>��Estou correndo���vociferou Loial.���Eu� Esse som! Ʌ? Que a Luz ilumine nossas almas, e que a m�o do Criador nos proteja! Est� abrindo! Est� abrindo! Tenho que ser o �ltimo. Saiam! Saiam! Mas n�o t�o� n�o, Faile!</p><p>Perrin arriscou uma olhadela por cima do ombro. Dois port�es iguais se abriam. Pareciam feitos de folhas vivas e revelavam a vis�o enevoada de um campo montanhoso. Loial desceu da montaria para remover a folha de <emphasis>Avendesora</emphasis> e destrancar o port�o, e Faile tomou as r�deas dos animais de carga e do imenso animal do Ogier.</p><p>��Venham comigo! R�pido!���gritou, apressada, cravando as botas nas costelas de Andorinha, e a �gua tairena deu um salto em dire��o � abertura.</p><p>��V�o atr�s dela���disse Perrin, aos Aiel.���Corram! Voc�s n�o podem lutar contra isso.���Sabiamente, eles hesitaram apenas uma fra��o de segundos antes de desaparecer. Gaul ia agarrado � guia do cavalo de carga. Galope veio lado a lado com Loial.���Voc� consegue dar um jeito de trancar a passagem? Bloque�-la?</p><p>Os murm�rios �speros revelavam uma tens�o fren�tica���os Trollocs tamb�m haviam reconhecido o som. <emphasis>Machin Shin</emphasis> estava chegando. Para viver, era preciso sair dos Caminhos.</p><p>��Consigo���disse Loial.���Consigo. Mas saia daqui! Saia!</p><p>Perrin levou Galope de costas depressa de volta em dire��o ao Port�o, mas, antes de perceber o que fazia, jogou a cabe�a para tr�s e liberou um uivo provocativo e desafiador. <emphasis>Tolo, tolo, tolo!</emphasis> Ainda assim, manteve os olhos fixos na escurid�o profunda e recuou com Galope at� o Portal dos Caminhos. Uma onda g�lida percorreu todo o seu corpo, at� os fios de cabelo, e o tempo se alongou. O solavanco da sa�da dos Caminhos o atingiu, como se passasse de um galope intenso � parada em um passo s�.</p><p>Os Aiel ainda se viravam para encarar o Portal dos Caminhos, espalhados pela encosta com as flechas encaixadas nos arcos, em meio a arbustos baixos e �rvores atrofiadas, pinheiros, abetos e folhas-de-couro deformados pelo vento. Faile se levantava de onde rolara da sela de Andorinha, a �gua negra apertando-a com o focinho. Sair de um Portal dos Caminhos era no m�nimo t�o ruim quanto entrar, ela teve sorte de n�o quebrar o pesco�o, e a �gua tamb�m. O imenso cavalo de Loial e os animais de carga tremiam como se tivessem levado um murro na cara. Perrin abriu a boca, e Faile cravou os olhos nele, desafiando-o a fazer qualquer coment�rio que fosse, muito menos um solid�rio. Ele fez uma careta ir�nica e, sabiamente, permaneceu em sil�ncio.</p><p>De repente, Loial foi expelido com viol�ncia do Portal dos Caminhos, saltando de um espelho fosco e prateado com o pr�prio reflexo avultando-se por tr�s, e rolou pelo ch�o. Quase na cola dele surgiram dois Trollocs���um com chifres e focinhos de carneiro, outro com bico de �guia e cristas emplumada, mas, antes que mais da metade de seus corpos aparecesse do outro lado, a superf�cie reluzente transformou-se em negro profundo, borbulhante e intumescido, agarrando-se a eles.</p><p>Vozes sussurraram na cabe�a de Perrin, mil vozes insanas balbuciando em seu cr�nio. <emphasis>Sangue amargo. T�o amargo. Beba o sangue e quebre o osso. Quebre o osso e sugue o tutano. Tutano amargo, gritos doces. Melodia de gritos. Cante os gritos. Almas diminutas. Almas pungentes. Devore todas. Dor t�o doce.</emphasis> E continuava, e continuava.</p><p>Ganindo e uivando, os Trollocs tentavam golpear o negrume que ebulia � sua volta, arranhando-o para tentar se libertar enquanto eram sugados com mais e mais for�a, at� que restou apenas uma m�o peluda, agarrando o nada em frenesi, depois apenas a escurid�o saliente, perscrutadora. Bem lentamente, os port�es surgiram, deslizando juntos, espremendo a escurid�o de volta para dentro. As vozes na cabe�a de Perrin enfim cessaram. Loial correu � frente, bem depressa e p�s n�o um, mas dois trevos entre as ervas-pinheirinhas e vinhas. O Portal dos Caminhos tornou-se pedra outra vez, um trecho de muro de pedra com entalhes intrincados, isolado em meio a uma montanha com �rvores esparsas. Entre as ervas-pinheirinhas e vinhas havia n�o uma, mas duas folhas de <emphasis>Avendesora</emphasis>. Loial recolocara o trevo de dentro do lado de fora.</p><p>O Ogier soltou um suspiro profundo de al�vio.</p><p>��� o melhor que consigo fazer. Agora s� pode ser aberto por este lado.���Lan�ou a Perrin um olhar ao mesmo tempo ansioso e firme.���Eu poderia ter trancado a porta para sempre se n�o tivesse recolocado as folhas, mas n�o vou estragar um Portal dos Caminhos, Perrin. N�s cultivamos e cuidamos dos Caminhos. Talvez eles um dia possam ser purificados. N�o posso arruinar um Portal dos Caminhos.</p><p>��Est� bom assim���respondeu Perrin.</p><p>Ser� que os Trollocs estavam indo para aquele Portal dos Caminhos, ou fora apenas obra do acaso? De todo modo, estava bom daquele jeito.</p><p>��Isso foi�?���come�ou Faile, insegura, depois parou para engolir em seco.</p><p>At� os Aiel pareciam abalados, para variar.</p><p>��<emphasis>Machin Shin</emphasis>���respondeu Loial.���O Vento Negro. Uma criatura da Sombra, ou uma coisa criada pela pr�pria m�cula dos Caminhos� ningu�m sabe. Sinto pena dos Trollocs. Mesmo sendo o que s�o.</p><p>Perrin n�o sabia ao certo se sentia pena, nem mesmo com uma morte dessas. J� vira o que Trollocs deixavam para tr�s quando punham as m�os em humanos. Trollocs comiam qualquer coisa, desde que fosse carne, e �s vezes gostavam de dilacerar a carne ainda viva. N�o se permitiria sentir pena deles.</p><p>Os cascos de Galope trituraram a terra arenosa quando Perrin o virou para ver onde estavam.</p><p>Montanhas cobertas por nuvens se erguiam ao redor. Eram as nuvens sempre presentes que lhe conferiam o nome���Montanhas da N�voa. O ar era frio �quela altitude, mesmo no ver�o, sobretudo se comparado a Tear. O sol de fim de tarde j� se assentava nos cumes a oeste, cintilando nos c�rregos que desciam para o rio que corria no fundo do extenso vale abaixo. O Manetherendrelle tinha esse nome depois que deixava as montanhas e descia para bem longe, a oeste e sul, mas Perrin crescera chamando o intervalo que corria pela divisa sul de sua cidade de Rio Branco���um trecho de corredeiras intranspon�veis e �guas revoltas e espumosas. O Manetherendrelle. �guas da Casa da Montanha.</p><p>Tanto onde as pedras nuas surgiam no vale abaixo quanto nas encostas circundantes, o rio reluzia feito cristal. J� existira uma cidade, ali, cobrindo vale e montanhas. Manetheren, cidade de torres sublimes e fontes exuberantes, capital da grande na��o de mesmo nome, talvez a mais bela do mundo, segundo as antigas hist�rias Ogier. Agora n�o restava um resqu�cio sequer, exceto pelo Portal dos Caminhos quase indestrut�vel, situado no bosque Ogier. O lugar fora queimado at� virar terra �rida mais de dois mil anos antes, enquanto as Guerras dos Trollocs ainda devastavam tudo, destru�do pelo Poder �nico ap�s a morte de seu �ltimo rei, Aemon al Caar al Thorin, que pereceu em sua �ltima batalha sangrenta contra a Sombra. Campo de Aemon fora o nome que os homens deram ao lugar, onde agora fica a aldeia chamada Campo de Emond.</p><p>Perrin estremeceu. Aquilo fora h� muito tempo. Os Trollocs haviam voltado apenas uma vez desde ent�o, em uma Noite Invernal mais de um ano antes, na v�spera da noite em que ele, Rand e Mat foram obrigados a fugir com Moiraine escurid�o adentro. Agora parecia ter acontecido havia muito tempo. N�o poderia acontecer outra vez, com o Portal dos Caminhos trancado. � com Mantos-brancos que tenho que me preocupar, n�o com Trollocs.</p><p>Um par de gavi�es de asas brancas sobrevoaram o extremo oposto do vale. Os olhos de Perrin quase n�o perceberam o tra�o de uma flecha subindo. Um dos gavi�es rodopiou e caiu, e o rapaz franziu o cenho. Por que algu�m daria uma flechada em um gavi�o, ali nas montanhas? Em uma fazenda, se o bicho estivesse atr�s das galinhas ou dos gansos, tudo bem; mas ali? Por que haveria algu�m por ali? O povo de Dois Rios evitava as montanhas.</p><p>O segundo gavi�o desceu em uma arremetida de asas brancas como a neve em dire��o ao ponto onde o companheiro ca�ra, mas logo subiu de volta, desesperado. Uma nuvem negra de corvos irrompeu das �rvores, uma multid�o ensandecida rodeando a ave, e, quando se acalmaram outra vez, o gavi�o havia desaparecido.</p><p>Perrin for�ou-se a respirar. J� tinha visto corvos e outros p�ssaros atacarem um gavi�o que chegara perto demais de seus ninhos, mas n�o podia acreditar que dessa vez fosse s� isso. As aves tinham surgido de onde viera a flecha. Corvos. A Sombra usava animais como espi�es, �s vezes. Em geral, ratos e outros que se alimentavam de morte. Sobretudo corvos. Tinha lembran�as v�vidas de fugir de fileiras de corvos que o ca�avam como se tivessem intelig�ncia.</p><p>��O que est� olhando?���perguntou Faile, protegendo os olhos com as m�os para espiar pelo vale.���Aquilo eram p�ssaros?</p><p>��S� p�ssaros���respondeu.</p><p><emphasis>Talvez fossem apenas p�ssaros. N�o posso assustar todo mundo at� ter certeza. N�o com todos ainda abalados por causa do</emphasis> Machin Shin<emphasis>.</emphasis></p><p>Percebeu que ainda segurava o machado ensanguentado, escorregadio com o sangue negro do Myrddraal. Os dedos encontraram sangue seco na bochecha, endurecendo na barba rente. Quando desceu do cavalo, sentiu dor na perna e no lado direito do corpo. Encontrou uma camisa nos alforjes e limpou o machado antes que o sangue do Desvanecido causticasse o metal. Em um instante descobriria se havia algo a temer nas montanhas. Se fosse algo al�m de homens, os lobos saberiam.</p><p>Faile come�ou a desabotoar o casaco dele.</p><p>��O que voc� est� fazendo?���perguntou Perrin.</p><p>��Cuidando de suas feridas���respondeu a mulher, de um jeito brusco.���N�o deixarei que sangre at� a morte na minha frente. Isso seria bem t�pico de voc�, morrer e me deixar o trabalho de enterr�-lo. N�o tem um pingo de considera��o. Fique parado.</p><p>��Obrigado���disse Perrin, baixinho, e ela o encarou, surpresa.</p><p>Faile o fez se despir quase inteiro, deixando apenas as cuecas, para lavar as feridas e esfreg�-las com o unguento que pegou nos alforjes. Perrin n�o conseguia ver o talho no pr�prio rosto, naturalmente, mas parecia pequeno e superficial, ainda que inc�modo, por estar muito perto dos olhos. Mas o corte no lado esquerdo do corpo era mais comprido que sua m�o, estendido ao longo de uma costela, e o buraco que a lan�a infligira em sua coxa direita estava bem profundo. Nesse, Faile precisou dar pontos com agulha e linha tiradas do conjunto de costura. Perrin aceitou os pontos com resigna��o���era ela quem se encolhia a cada agulhada. Enquanto trabalhava, a mulher resmungava, entre dentes, irritada, sobretudo ao esfregar o creme escuro e ardido na bochecha do rapaz. Era quase como se as feridas estivessem em seu corpo, e a culpa fosse dele, mas mesmo assim enrolou as ataduras nas costelas e na coxa com a m�o gentil. Era um contraste impressionante, o toque suave e os resmungos furiosos. Muito confuso.</p><p>Enquanto ele vestia uma camisa limpa e uma cal�a reserva que pegara nos alforjes, Faile continuava passando o dedo pelo talho na lateral do casaco. Duas polegadas para a esquerda e ele n�o teria deixado aquela Ilha. Batendo os p�s para ajeit�-los dentro das botas, Perrin esticou o bra�o para pegar o casaco���e Faile o atirou em cima dele.</p><p>��Nem pense que vou costurar isso para voc�. J� costurei tudo o que queria! Est� me ouvindo, Perrin Aybara?</p><p>��Eu n�o pedi�</p><p>��Nem pense nisso! E chega!���A mulher saiu pisando firme para ajudar os Aiel a cuidarem uns dos outros e de Loial. Era um estranho grupo: o Ogier com as cal�as largas arriadas, Gaul e Chiad se olhando feito gatos estranhos, Faile passando o unguento e aplicando ataduras enquanto disparava olhares acusadores para ele. O que teria feito dessa vez?</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a. Gaul tinha raz�o, concluiu: era como tentar entender o sol.</p><p>Mesmo sabendo o que tinha de fazer, estava relutante, ainda mais depois do que acontecera nos Caminhos, com os Desvanecidos. J� vira um homem que se esquecera de que era humano. O mesmo poderia acontecer com ele. <emphasis>Idiota. Voc� s� precisa aguentar mais uns dias. S� at� encontrar os Mantos-brancos.</emphasis> E tinha que saber. Aqueles corvos.</p><p>Enviou as perguntas mentais pelo vale, em busca dos lobos. Sempre havia lobos onde n�o havia homens, e, se eles estivessem por perto, poderiam conversar. Os lobos evitavam os homens, ignorando-os o quanto fosse poss�vel, mas odiavam os Trollocs, criaturas n�o naturais, e desprezavam os Myrddraal com um �dio profundo e incontrol�vel. Se houvesse criaturas da Sombra nas Montanhas da N�voa, os lobos poderiam avis�-lo.</p><p>Mas n�o encontrou lobos. Nenhum. Deveriam estar por a�, nessa selva in�spita. Via cervos pastando pelo vale. Talvez apenas n�o houvesse lobo por perto. Eles conseguiam conversar a certa dist�ncia, mas at� uma milha j� era longe demais. Talvez a dist�ncia limite fosse ainda menor nas montanhas. Talvez fosse isso.</p><p>Seu olhar varreu os picos cobertos de nuvens e pousou no extremo oposto do vale, de onde os corvos haviam sa�do. Talvez encontrasse lobos no dia seguinte. N�o queria pensar nas alternativas.</p></section><section><title><p>28</p><p><image l:href="#20"/></p><p>Para a Torre de Ghenjei</p></title><p>Com a noite chegando, n�o restou escolha sen�o acampar na montanha pr�xima ao Portal dos Caminhos. Em dois grupos separados, por insist�ncia de Faile.</p><p>��Chega���protestou Loial, em um rosnado insatisfeito.���J� sa�mos dos Caminhos, e mantive minha promessa. Agora, chega.</p><p>Faile assumiu uma de suas express�es teimosas, com o queixo erguido e as m�os na cintura.</p><p>��Deixa para l�, Loial���disse Perrin.���Eu posso acampar ali.</p><p>Loial olhou de soslaio para Faile, que se virara para as duas Aiel assim que ouviu Perrin concordar, depois balan�ou a cabe�a enorme e fez men��o de ir se juntar a Perrin e Gaul. Perrin o impediu com um gesto discreto, que torceu para que nenhuma das mulheres tivesse percebido.</p><p>Ele se afastou um tantinho, menos de vinte passadas. O Portal dos Caminhos estava trancado, mas ainda havia os corvos e mais o que quer que eles prenunciassem. Queria ficar por perto, para o caso de haver necessidade de intervir. Se Faile quisesse reclamar, que reclamasse. Estava t�o firme em ignorar os protestos da mulher que ficou aborrecido quando ela n�o protestou.</p><p>Ignorando as pontadas na perna e na lateral do corpo, ele soltou a sela de Galope, descarregou o outro cavalo, prendeu os dois animais e deu um saco de ra��o com punhados de aveia e cevada a cada um. N�o havia pastagem por ali, obviamente, mas o que havia ao redor� Ele amarrou a corda no arco, apoiou-o ao lado da aljava e soltou o machado do passante do cinto.</p><p>Gaul o ajudou a fazer uma fogueira, e, em sil�ncio, os dois comeram p�o e queijo com tiras de carne e beberam �gua. O sol j� deslizava por tr�s das montanhas, transformando os picos em silhuetas negras e avermelhando os cantos das nuvens. Sombras cobriam o vale, e o ar come�ava a esfriar.</p><p>Perrin limpou o farelo das m�os e puxou o manto de l� verde e quente de dentro dos alforjes. Talvez estivesse mais acostumado com o calor de Tear do que pensara. As mulheres n�o comiam em sil�ncio ao redor de sua fogueira oculta pelas sombras: dava para ouvir as gargalhadas, e os trechinhos de conversa que Perrin conseguia pescar deixavam suas orelhas quentes. Elas conversavam sobre tudo, n�o tinham papas na l�ngua. Loial se afastara o m�ximo poss�vel das tr�s sem sair do alcance da luz e tentava mergulhar em um livro. As mulheres nem deviam perceber que estavam deixando o Ogier constrangido, deviam pensar que estavam falando baixinho, que Loial n�o estava ouvindo.</p><p>Resmungando sozinho, Perrin sentou-se outra vez diante do fogo, de frente para Gaul. O Aiel parecia n�o notar o frio.</p><p>��Voc� conhece alguma hist�ria engra�ada?</p><p>��Hist�ria engra�ada? N�o consigo pensar em nenhuma assim, de repente.���Gaul olhou de soslaio a outra fogueira, ouvindo as risadas.���Eu entenderia, se pudesse. Como o sol, lembra?</p><p>Perrin soltou uma gargalhada alta e respondeu, no mesmo tom:</p><p>��Sei. Mulheres! H�!</p><p>A divers�o do outro acampamento pareceu esmorecer por um instante, depois avivou-se outra vez. Elas deviam ter aprendido a li��o. Os outros tamb�m sabiam rir. Perrin encarou a fogueira com um olhar desanimado. Suas feridas do�am.</p><p>Depois de um instante, Gaul comentou:</p><p>��Isso aqui est� come�ando a parecer mais com a Terra da Trindade do que com a maioria das terras aguacentas. Ainda tem bastante �gua e muitas �rvores grandes demais, mas n�o � t�o estranho quanto os lugares que voc�s chamam de florestas.</p><p>O solo ali era pobre, era o local onde Manetheren morrera em meio �s chamas, e as �rvores muito esparsas tinham troncos grossos e atarracados deformados pelo vento. Nenhuma tinha mais de trinta passadas de altura. Perrin achava que era o lugar mais desolado que j� tinha visto.</p><p>��Queria um dia conhecer sua Terra da Trindade, Gaul.</p><p>��Talvez voc� conhe�a, quando sairmos daqui.</p><p>��Talvez.</p><p>N�o havia grandes chances, era �bvio. Nenhuma, na realidade. Ele poderia ter dito isso ao Aiel, mas n�o queria falar sobre o assunto, muito menos pensar nele.</p><p>��Era aqui que Manetheren ficava? Voc� tem sangue de Manetheren?</p><p>��Isso aqui era Manetheren���respondeu Perrin.���E sim, acho que tenho.���Era dif�cil acreditar que as pequenas aldeias e fazendas tranquilas de Dois Rios abrigavam o resqu�cio do sangue de Manetheren, mas fora o que Moiraine dissera. Segundo ela, o sangue antigo corria forte em Dois Rios.���Mas isso faz muito tempo, Gaul. Somos fazendeiros e pastores, n�o uma grande na��o. N�o somos grandes guerreiros.</p><p>Gaul abriu um leve sorriso.</p><p>��Se voc� diz. J� o vi dan�ar as lan�as, assim como Rand al�Thor e o rapaz chamado Mat. Mas, se voc� diz�</p><p>Perrin mudou de posi��o, incomodado. Quanto ele mudara desde que deixara a aldeia? E Rand e Mat? N�o estava se referindo a seus olhos, aos lobos, ou a Rand canalizar; n�o era nisso que pensava. Quanto do que existia dentro deles mudara? Mat era o �nico que ainda parecia o mesmo, quase igual.</p><p>��Voc� sabe sobre Manetheren?</p><p>��Sabemos mais sobre o mundo do que voc� imagina. E menos do que pens�vamos. Muito antes de cruzar a Muralha do Drag�o, li alguns livros trazidos por mascates. Eu j� sabia que havia �navios�, �rios� e �florestas�, ou pensava que sabia.���Gaul fazia as palavras parecerem pertencer a uma l�ngua estranha.���Era assim que eu imaginava uma �floresta�.���Ele indicou as �rvores esparsas, muito mais baixas do que o normal.���Acreditar em algo n�o o torna real. E quanto ao Cavaleiro da Noite e as crias do Mata-folhas? Acha que foi coincid�ncia eles estarem perto deste Portal dos Caminhos?</p><p>��N�o.���Perrin suspirou.���Vi corvos l� embaixo, no vale. Talvez fossem s� corvos, mas prefiro n�o arriscar. N�o depois dos Trollocs.</p><p>Gaul assentiu.</p><p>��Podiam ser Olhos da Sombra. Se voc� se preparar para o pior, todas as surpresas s�o boas.</p><p>��Seria �timo ter uma boa surpresa.���Perrin tentou sentir os lobos mais uma vez e, mais uma vez, n�o conseguiu.���Talvez eu descubra alguma coisa hoje � noite. Talvez. Se algo acontecer por aqui, pode ser que voc� precise me acordar aos chutes.���Percebeu que aquilo soava estranho, mas o Aiel apenas assentiu outra vez.���Gaul, voc� nunca mencionou meus olhos, sequer deu aten��o a eles. Assim como todos os outros Aiel.</p><p>Sabia que seus olhos brilhavam amarelos � luz da fogueira.</p><p>��O mundo est� mudando���respondeu Gaul, baixinho.���Rhuarc, Jheran, que � o chefe do meu cl�, e as S�bias tamb�m, todos tentaram disfar�ar, mas pareciam preocupados quando nos mandaram at� a Muralha do Drag�o em busca d�Aquele Que Vem Com a Aurora. Acho que talvez a mudan�a n�o seja como sempre acreditamos que seria. N�o sei qual vai ser a diferen�a, mas sei que vai ser diferente. O Criador nos colocou na Terra da Trindade para nos moldar e tamb�m para pagarmos por nossos pecados, mas para o que fomos moldados?���Ele balan�ou a cabe�a com pesar.���Colinda, a S�bia do forte das �guas Quentes, diz que penso demais para um C�o de Pedra, e Bair, a S�bia mais velha dos Shaarad, fica amea�ando me mandar para Rhuidean quando Jheran morrer, independente de minha vontade. Considerando isso tudo, Perrin, que import�ncia tem a cor dos olhos de um homem?</p><p>��Queria que todo mundo pensasse assim.</p><p>As risadas enfim cessaram na outra fogueira. Uma das Aiel, Perrin n�o soube dizer qual, assumira o primeiro turno de vigia, de costas para a luz, e as outras mulheres tinham se recolhido para dormir. Fora um dia cansativo. Seria f�cil cair no sono, entrar no sonho de que ele precisava. Esticou-se junto ao fogo e enrolou o manto no corpo, ent�o virou-se para Gaul.</p><p>��N�o esque�a. Pode me acordar aos chutes, se for preciso.</p><p>O sono o envolveu ainda enquanto Gaul assentia, e o sonho veio ao mesmo tempo.</p><empty-line/><p>Era dia, e ele estava sozinho perto do Portal dos Caminhos, que parecia um enorme muro com entalhes elegantes, destoando da paisagem da montanha. N�o fosse por isso, n�o haveria qualquer sinal de presen�a humana na encosta. O c�u estava limpo e claro, e uma brisa suave que soprava do vale trazia o aroma de cervos e coelhos, pombas e codornas, al�m de mil odores distintos���de �gua, terra e �rvores. Era o sonho de lobo.</p><p>Por um instante, Perrin foi tomado pela sensa��o de <emphasis>ser</emphasis> um lobo. Tinha patas, e� <emphasis>N�o!</emphasis> Passou as m�os pelo corpo e ficou aliviado ao encontrar apenas o pr�prio contorno, vestido com o casaco e o manto. E usando o largo cintur�o onde sempre prendia o machado, mas era o cabo do martelo que estava preso no passante.</p><p>Ele franziu o cenho e ficou surpreso ao ver o machado tremeluzir no lugar do martelo, indistinto e enevoado. De repente, voltou a ser o martelo. Umedecendo os l�bios, Perrin torceu para que permanecesse assim. O machado podia ser uma arma melhor, mas ele preferia o martelo. N�o se lembrava de algo assim j� ter acontecido, essa mudan�a de algum item do cen�rio, mas sabia pouco a respeito daquele lugar estranho. Isso se pudesse mesmo ser chamado de lugar. Era um sonho de lobo, e coisas esquisitas aconteciam ali���decerto t�o esquisitas quanto em qualquer sonho comum.</p><p>Como se o pensamento fosse capaz de desencadear mais uma estranheza, um trecho do c�u por tr�s das montanhas escureceu de repente, transformando-se em uma janela para outro lugar. Rand estava ali no meio, de bra�os erguidos, provocando vendavais e gargalhando feito louco. Pequenas silhuetas douradas e vermelhas, muito parecidas com o estranho desenho no estandarte do Drag�o, corriam pelo vento. Rand era observado por olhos escondidos, e n�o havia como dizer se o rapaz os notava. A estranha �janela� piscou e desapareceu, logo substitu�da por outra, mais adiante, que mostrava Nynaeve e Elayne avan�ando sorrateiras por uma paisagem louca com constru��es retorcidas e sombreadas, � ca�a de alguma besta perigosa. Perrin n�o fazia ideia de como sabia que era perigosa, mas sabia. A outra �janela� desapareceu, e mais uma mancha negra se espalhou pelo c�u. Mat apareceu naquela, parado diante da bifurca��o de uma estrada. O rapaz girou uma moeda e come�ou a avan�ar por uma das vias, e de repente usava um chap�u de aba larga, caminhava apoiado em um cajado e portava uma espada de l�mina curta. Mais uma �janela�, e Egwene e uma mulher de cabelos brancos e compridos o encararam, surpresas, enquanto a Torre Branca se desintegrava atr�s delas, pedra por pedra. Ent�o as duas tamb�m desapareceram.</p><p>Perrin respirou fundo. J� vira coisas parecidas por ali, no sonho de lobo, e achava que as vis�es eram reais, ou pelo menos que tinham algum significado. O que quer que fossem, os lobos nunca as notavam. Moiraine tinha sugerido que o sonho de lobo era o mesmo que uma coisa chamada <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas n�o chegara a falar mais sobre o assunto. Perrin j� ouvira Egwene e Elayne conversando sobre sonhos, mas Egwene j� sabia demais sobre ele e os lobos, talvez tanto quanto Moiraine. N�o podia conversar sobre aquilo, nem mesmo com ela.</p><p>Havia uma pessoa com quem ele poderia ter conversado. Gostaria de poder encontrar Elyas Machera, o homem que o apresentara aos lobos. Elyas devia saber sobre aquelas coisas. Ao pensar no homem, sentiu por um instante que ouvia o pr�prio nome sussurrado no vento, mas, quando prestou mais aten��o, encontrou apenas ventania. Era um som solit�rio. Ele estava s�, ali.</p><p>��Saltador!���chamou, repetindo mentalmente: <emphasis>Saltador!</emphasis></p><p>O lobo tinha morrido, mas n�o estava morto ali. O sonho de lobo era aonde os lobos iam depois da morte, para aguardar o renascimento. Na verdade, para os lobos era mais do que isso: eles pareciam ter alguma consci�ncia do sonho, mesmo quando acordados. Para eles, um mundo era quase t�o real���talvez t�o real���quanto o outro.</p><p>��Saltador!</p><p><emphasis>Saltador!</emphasis> Mas Saltador n�o veio.</p><p>Aquilo tudo era in�til. Ele estava ali por uma raz�o, e era melhor seguir em frente. Na melhor das hip�teses, levaria horas para descer at� o local onde avistara os corvos.</p><p>Deu um passo���a terra ao redor perdeu o foco���e seus p�s pisaram ao lado de um pequeno c�rrego escondido por cicutas atrofiadas e arbustos de salgueiro, enquanto topos imensos e enevoados despontavam acima. Ele ficou um instante parado, observando, estupefato. Estava no extremo oposto do vale, na dire��o do Portal dos Caminhos. Na verdade, estava no ponto exato em que queria estar, no lugar de onde vira os corvos saindo e de onde fora lan�ada a flecha que matou o primeiro gavi�o. Aquilo nunca acontecera. Ser� que estava aprendendo mais sobre os sonhos de lobo���Saltador sempre o chamava de ignorante���ou ser� que aquele era diferente?</p><p>Foi mais cauteloso ao dar o passo seguinte, mas foi apenas um passo. N�o havia sinal do arqueiro ou dos corvos, nenhuma pegada, pena ou cheiro. Perrin n�o sabia ao certo o que tinha esperado. N�o haveria pista, a menos que eles tamb�m tivessem passado pelo sonho. Por�m, se encontrasse lobos por ali, poderia conseguir alguma ajuda para achar seus irm�os e irm�s no mundo desperto, e esses lobos poderiam dizer se havia crias da Sombra nas montanhas. Talvez ouvissem seu chamado, se ele fosse mais para o alto da montanha.</p><p>Com os olhos fixos no topo mais alto das montanhas que margeavam o vale, logo abaixo das nuvens, deu um passo adiante. O mundo virou um borr�o, e ele se viu de p� na encosta da montanha, com a massa de nuvens a menos de cinco bra�as de sua cabe�a. Sem se dar conta do que fazia, deu risada. Aquilo era divertido. Dali de cima, dava para ver toda a extens�o do vale.</p><p>��Saltador!</p><p>Sem resposta.</p><p>Pulou at� a montanha seguinte, chamando, e depois at� a pr�xima e a seguinte, sempre rumo a leste, na dire��o de Dois Rios. Saltador n�o respondia. E, o que era mais preocupante, Perrin tamb�m n�o sentia qualquer outro lobo. Sempre havia lobos no sonho de lobo. Sempre.</p><p>Ele avan�ou de pico em pico, movendo-se em um borr�o indistinto, chamando, procurando. As montanhas ao redor estavam vazias, exceto por cervos e outras ca�as. Ainda assim, volta e meia via sinais de homens. Sinais antigos. Por duas vezes, encontrou enormes figuras entalhadas ocupando quase um lado inteiro da encosta, e, em outro ponto, estranhas letras angulosas de duas bra�as de altura haviam sido gravadas em um despenhadeiro���um trabalho bem fino e suave. O tempo desgastara as fei��es dos rostos das figuras entalhadas, e olhos menos agu�ados que os dele talvez tivessem tomado as letras por obra do vento e da chuva. Montanhas e desfiladeiros deram lugar �s Colinas de Areia, imensos morros ondulantes com uma cobertura esparsa de grama grossa e arbustos tenazes, que, antes da Ruptura, formavam a costa de um grande mar. De repente, ao olhar para o topo de um monte de areia, Perrin viu outro homem.</p><p>O sujeito estava longe demais para ele enxergar com clareza, era apenas um homem alto de cabelos escuros, n�o um Trolloc ou qualquer coisa do tipo. Estava usando casaco azul e levava um arco nas costas. Parecia inclinando sobre algo encoberto pelos arbustos baixos do ch�o. Mas havia alguma coisa familiar naquele homem.</p><p>O vento soprou, e Perrin captou o cheiro fraco do homem. Um aroma frio���era a �nica forma de descrever. Frio e n�o exatamente humano. De repente, o rapaz notou que segurava o pr�prio arco, j� com uma flecha encaixada, e uma aljava cheia pesava em seu cinto.</p><p>O outro homem olhou para cima e viu Perrin. Ele hesitou por uma fra��o de segundo, depois se virou e se transformou em um raio, que desapareceu entrecortando as montanhas.</p><p>Perrin saltou para onde o homem estivera e examinou o que o sujeito andara observando. Foi atr�s dele sem nem pensar, deixando para tr�s o corpo meio esfolado de um lobo. Um lobo morto no sonho de lobo. Aquilo era impens�vel. O que poderia causar a morte de um lobo naquele lugar? Algo maligno.</p><p>Sua presa corria � frente dando passos que cobriam milhas, quase sempre no limite do alcance da vis�o. Saiu das colinas e seguiu pela emaranhada Floresta do Oeste, com as fazendas espa�adas. Passou por pastos limpos, campos de cerca-viva e pequenos arbustos, indo al�m de Colina da Vig�lia. Era estranho ver as casas de sap� da aldeia cobrindo a montanha, mas n�o ver gente nas ruas. As casas de fazenda pareciam abandonadas. Ele manteve os olhos no homem que fugia � sua frente. Acostumara-se de tal forma �quela persegui��o que n�o se surpreendeu quando um passo o levou � margem sul do Rio Taren, e o seguinte o deixou no meio de colinas �ridas, sem �rvores ou grama. Corria para norte e leste, avan�ando por cima de c�rregos, estradas, aldeias e rios, concentrado apenas no homem � frente. A terra ia ficando plana e gramada, interrompida por moitas esparsas, sem qualquer sinal de presen�a humana. Ent�o algo cintilou � frente, reluzindo sob o sol: uma torre de metal. A presa avan�ou em linha reta at� ela e desapareceu. Dois saltos levaram Perrin at� l�.</p><p>A torre de quarenta passadas de largura se elevava a duzentos p�s, lustrosa feito a�o reluzente. Podia muito bem ser uma coluna s�lida de metal. Perrin a contornou duas vezes sem ver qualquer abertura, n�o havia sequer rachaduras ou marcas naquela superf�cie lisa e reluzente. Mas o cheiro pairava no ar, aquele fedor frio, inumano. A trilha acabava ali. O homem���se � que era homem���dera um jeito de entrar. Perrin s� precisava encontrar o caminho para segui-lo.</p><p><emphasis>Pare!</emphasis> N�o foi uma palavra, foi uma torrente de emo��es que sua mente traduziu. <emphasis>Pare!</emphasis></p><p>Ele se virou a tempo de ver um imenso lobo cinza, t�o alto que batia em sua cintura, grisalho e cheio de cicatrizes, pousando como se acabasse de saltar do c�u. Talvez tivesse, mesmo. Saltador sempre invejara as �guias e sua capacidade de voar, e, ali, ele tamb�m podia navegar pelos c�us. Olhos amarelos encontraram olhos amarelos.</p><p>��Por que eu tenho que parar, Saltador? Ele matou um lobo.</p><p><emphasis>Homens j� mataram lobos, e lobos mataram homens. Por que a raiva corr�i sua garganta feito fogo, desta vez?</emphasis></p><p>��Eu n�o sei���respondeu Perrin, pensando.���Talvez por ter sido aqui. Eu n�o sabia que era poss�vel matar um lobo aqui. Pensei que os lobos estavam seguros no sonho.</p><p><emphasis>Voc� persegue o Matador, Jovem Touro. Ele est� aqui em carne e � capaz de matar.</emphasis></p><p>��Em carne? Quer dizer que n�o est� apenas em sonho? Como � que ele pode estar aqui em carne?</p><p><emphasis>Eu n�o sei. � uma fraca lembran�a de muito tempo atr�s, que ressurge como muitas outras. Coisas da Sombra caminham pelo sonho, agora. Criaturas do Presa-do-cora��o. N�o h� lugar seguro.</emphasis></p><p>��Bom, agora ele entrou.���Perrin analisou a torre lisa de metal.���Se eu descobrir como conseguiu, posso dar um fim nele.</p><p><emphasis>Filhote tolo, fu�ando um ninho de vespas. Este lugar � maligno. Todos sabem disso. E voc� adentraria o mal para ca�ar o mal. O Matador pode matar.</emphasis></p><p>Perrin parou. Havia um senso de finalidade nas emo��es que sua mente evocava ao pensar na palavra �matar�.</p><p>��Saltador, o que acontece com um lobo que morre no sonho?</p><p>O lobo ficou em sil�ncio por um tempo. <emphasis>Se morremos aqui, morremos para sempre, Jovem Touro. N�o sei se o mesmo vale para voc�, mas acredito que sim.</emphasis></p><p>��Um lugar perigoso, arqueiro. A Torre de Ghenjei � um lugar ruim para a humanidade.</p><p>Perrin deu um giro, j� erguendo o arco, at� que viu a mulher parada a poucas passadas de dist�ncia, os cabelos loiros presos em uma tran�a grossa que batia na cintura, quase � moda das mulheres de Dois Rios, mas em um tran�ado mais intrincado. Suas roupas tinham um corte estranho; um casaco branco e curto e cal�as volumosas de algum material fino, amarelo-claro, preso aos tornozelos por cima de botas de cano curto. O manto escuro parecia esconder algo prateado que reluzia ao lado do corpo.</p><p>Ela se mexeu, e o brilho met�lico desapareceu.</p><p>��Voc� tem olhos agu�ados, arqueiro. Foi o que pensei da primeira vez que o vi.</p><p>Por quanto tempo aquela mulher o estivera observando? Era constrangedor pensar que ela tivesse se aproximado sem que ele ouvisse. No m�nimo, Saltador poderia t�-lo avisado. O lobo estava deitado na grama, que de t�o alta chegava aos joelhos, mantendo o focinho enfiado entre as patas dianteiras, observando-o.</p><p>A mulher era vagamente familiar, embora Perrin tivesse certeza de que se lembraria, se j� a conhecesse. Quem era ela, para estar no sonho de lobo? Ou ser� que ali tamb�m era o <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> de Moiraine?</p><p>��Voc� � Aes Sedai?</p><p>��N�o, arqueiro.���A mulher riu.���Eu s� vim para alert�-lo, apesar dos preceitos. Mesmo no mundo dos homens, j� � dif�cil o bastante sair da Torre de Ghenjei. Aqui, � quase imposs�vel. Voc� tem a coragem de um porta-estandarte, o que alguns afirmam ser dif�cil distinguir de pura tolice.</p><p>Imposs�vel sair? Tinha certeza de que o sujeito���o Matador���entrara. Por que faria isso, se n�o tivesse como sair?</p><p>��Saltador tamb�m disse que � perigoso. Torre de Ghenjei? O que � isso?</p><p>Ela arregalou os olhos e encarou o lobo, que continuava estirado no ch�o, ignorando-a, observando Perrin.</p><p>��Voc� consegue falar com os lobos? Isso � uma coisa perdida nas lendas. Ent�o foi assim que chegou aqui. Eu deveria ter percebido. A torre? � um portal, arqueiro, para os reinos dos Aelfinn e dos Eelfinn.���Ela pronunciou os nomes como se Perrin devesse reconhec�-los. Quando ele a encarou sem parecer entender, a mulher explicou:���J� jogou Cobras e Raposas?</p><p>��Toda crian�a j� jogou. Pelo menos em Dois Rios. Mas todas desistem assim que crescem um pouco e percebem que n�o h� como ganhar.</p><p>��S� d� para ganhar quebrando as regras���completou a mulher����Coragem para fortificar, fogo para cegar, m�sica para encantar, ferro para selar.�</p><p>��� uma rima do jogo. N�o estou entendendo. O que isso tem a ver com a torre?</p><p>��Esses s�o os caminhos para vencer as cobras e as raposas. O jogo remonta �s antigas transa��es. Isso n�o importa, desde que voc� fique longe dos Aelfinn e dos Eelfinn. Eles n�o s�o t�o maus quanto a Sombra, mas s�o t�o diferentes da humanidade que chegam perto. Eles n�o s�o confi�veis, arqueiro. Fique longe da Torre de Ghenjei. Evite o Mundo dos Sonhos, se puder. Coisas obscuras passeiam por aqui.</p><p>��Como o homem que eu estava perseguindo? O Matador?</p><p>��Um bom nome para ele. Esse Matador n�o � velho, arqueiro, mas sua maldade � antiga.���Ela quase parecia se apoiar em um objeto invis�vel, talvez a coisa prateada que ele n�o conseguira ver direito.���Parece que estou revelando muito. N�o sei nem por que falei, para come�o de conversa. Ah, � claro. Voc� � um <emphasis>ta�veren</emphasis>, arqueiro?</p><p>��Quem � voc�?���Ela parecia saber bastante sobre a torre e o sonho de lobo. <emphasis>Mas ficou surpresa em ver que eu conseguia falar com Saltador.</emphasis>���Acho que j� vi voc� em algum lugar.</p><p>��J� quebrei muitos preceitos, arqueiro.</p><p>��Preceitos? Que preceitos?</p><p>Uma sombra pousou no ch�o atr�s de Saltador, e Perrin deu um giro ligeiro, irritado por ter sido pego de surpresa mais uma vez. N�o havia ningu�m ali. Mas ele tinha visto: era a sombra de um homem com os cabos de duas espadas se elevando acima dos ombros. Havia algo familiar naquela imagem.</p><p>��Ele tem raz�o���disse a mulher atr�s de Perrin.���Eu n�o deveria estar falando com voc�.</p><p>Quando ele se virou de novo, ela havia desaparecido. At� onde a vista alcan�ava havia apenas grama e moitas espa�adas. E a torre prateada reluzente.</p><p>Ele franziu a testa para Saltador, que finalmente ergueu a cabe�a.</p><p>��Nossa, eu fico surpreso por voc� n�o ser atacado por esquilos���resmungou Perrin.���O que achou dela?</p><p><emphasis>Ela? Uma mulher?</emphasis> Saltador se levantou, olhando em volta. <emphasis>Onde?</emphasis></p><p>��Eu estava conversando com ela. Bem aqui. Agora mesmo.</p><p><emphasis>Voc� estava fazendo barulhos para o vento, Jovem Touro. N�o havia mulher alguma aqui. Ningu�m al�m de n�s dois.</emphasis></p><p>Perrin co�ou a barba, irritado. A mulher estivera ali. Ele n�o falara sozinho.</p><p>��Coisas estranhas acontecem aqui���disse a si mesmo.���Ela concordou com voc�, Saltador. Me mandou ficar longe desta torre.</p><p><emphasis>Ela � s�bia.</emphasis> Havia um elemento de d�vida naquele pensamento, pois Saltador ainda n�o acreditava que existira uma �ela�.</p><p>��Eu me afastei demais de onde pretendia ir���resmungou Perrin.</p><p>Explicou sua necessidade de encontrar lobos em Dois Rios ou nas montanhas acima, ent�o contou sobre os corvos e os Trollocs nos Caminhos.</p><p>Quando terminou, Saltador permaneceu em sil�ncio por um bom tempo, mantendo o rabo frondoso baixo e r�gido. Por fim� <emphasis>Evite sua antiga casa, Jovem Touro.</emphasis> A imagem que a mente de Perrin chamou de �casa� foi o territ�rio marcado por uma matilha. <emphasis>N�o h� lobos l�, agora. Os que estavam l� e n�o fugiram est�o mortos. O Matador caminha por l�, nos sonhos.</emphasis></p><p>��Eu tenho que ir para casa, Saltador. Tenho que ir.</p><p><emphasis>Cuidado, Jovem Touro. O dia da �ltima Ca�ada est� chegando. Vamos correr juntos na �ltima Ca�ada.</emphasis></p><p>��Vamos, sim���afirmou Perrin, com tristeza. Seria bom poder ir para aquele lugar depois de morrer. Ele j� era metade lobo, ou pelo menos �s vezes parecia ser.���Agora tenho que ir, Saltador.</p><p><emphasis>Que voc� encontre boas ca�as, Jovem Touro, e f�meas para lhe dar muitos filhotes.</emphasis></p><p>��Adeus, Saltador.</p><empty-line/><p>Ele abriu os olhos sob a luz fraca dos carv�es na encosta da montanha. Gaul estava acocorado bem no limiar da claridade, observando a noite. Faile estava acordada no outro acampamento, cumprindo seu turno de vigia. A lua pairava sobre as montanhas, transformando as nuvens em sombras peroladas. Perrin calculou que tivesse dormido por duas horas.</p><p>��Eu vigio um pouco���disse, jogando o manto para o lado. Gaul assentiu e se ajeitou no ch�o onde estava.���Gaul?���O Aiel levantou a cabe�a.���Talvez a coisa esteja pior do que eu pensei em Dois Rios.</p><p>��Em geral � assim���respondeu Gaul, baixinho.���A vida � assim.</p><p>Muito tranquilo, o Aiel baixou a cabe�a para dormir.</p><p>Matador. Quem era ele? O que era ele? Crias da Sombra no Portal dos Caminhos, corvos nas Montanhas da N�voa e aquele homem chamado Matador passeando em Dois Rios. N�o podia ser coincid�ncia, por mais que desejasse que fosse.</p></section><section><title><p>29</p><p><image l:href="#7"/></p><p>Volta para casa</p></title><p>A viagem at� a Floresta do Oeste���que no sonho de lobo fora feita em no m�ximo meia d�zia de passos���saindo das montanhas e cruzando as Colinas de Areia, levou tr�s longos dias a cavalo. Os Aiel n�o tinham problemas em acompanh�-los a p�, mas, na verdade, os animais n�o conseguiam avan�ar muito depressa com tantas ondula��es no terreno. As feridas de Perrin co�avam demais enquanto cicatrizavam. O unguento de Faile parecia estar funcionando.</p><p>No geral, foi uma viagem silenciosa, interrompida mais pelos rosnados das raposas � ca�a ou pelos gritos dos gavi�es do que pela voz humana. Pelo menos n�o viram mais corvos. Mais de uma vez, Perrin pensou que Faile parecia prestes a se aproximar em sua �gua e dizer alguma coisa, mas acabava se contendo. Ficou feliz por isso. Queria falar com ela mais do que tudo, mas e se acabassem em sua �gua fazendo as pazes? Censurou-se por querer fazer as pazes. Faile o enganara e fizera o mesmo com Loial. A mulher tornaria tudo pior, muito mais dif�cil. Perrin queria poder beij�-la outra vez. Queria que Faile se cansasse dele e fosse embora. Por que ela tinha que ser t�o teimosa?</p><p>Faile e as duas Aiel avan�avam em sil�ncio. Bain e Chiad caminhavam uma de cada lado de Andorinha, e volta e meia uma das duas seguia na frente. As tr�s �s vezes cochichavam entre si, depois faziam tanta quest�o de n�o olhar para Perrin que seria mais �bvio se atirassem pedras. A pedido dele, Loial ainda seguia com as mulheres, embora estivesse claro que a situa��o o incomodava demais. As orelhas do Ogier se contorciam como se ele desejasse nunca ter ouvido falar nos humanos. Gaul parecia achar a coisa toda muito engra�ada. Sempre que Perrin olhava para o Aiel, notava que o homem parecia estar se divertindo.</p><p>Perrin viajava imerso em preocupa��es, mantendo o arco encordoado passado no cepilho alto da sela. Ser� que o tal de Matador vagava por Dois Rios apenas no sonho de lobo, ou tamb�m estava l� no mundo real? Suspeitava da �ltima alternativa, achava que fora o tal de Matador que acertara o gavi�o sem motivo aparente. Era mais uma complica��o que preferia n�o ter, ainda mais com os Filhos da Luz j� envolvidos na hist�ria.</p><p>Sua fam�lia morava em uma grande fazenda a mais de um dia de viagem de Campo de Emond, quase na Floresta das �guas. L� viviam o pai, a m�e, as irm�s e o irm�ozinho ca�ula. Paetram estava com nove anos, sem d�vida protestando com mais vigor do que nunca ao ser chamado de �irm�ozinho�. Deselle fizera doze anos e j� devia estar uma mocinha, e Adora, com dezesseis, com certeza estava pronta para tran�ar os cabelos. L� tamb�m viviam, junto com os filhos, o tio Eward, irm�o de seu pai, e a tia Magde, ambos corpulentos e muito parecidos. A tia Neain, que visitava o t�mulo de tio Carlin todas as manh�s, morava l� com os filhos. Tamb�m tinha a tia-av� Ealsin, que nunca se casara, de faro agu�ado e olhar mais ainda, sempre descobrindo o que todos estavam aprontando em um raio de milhas. Quando era aprendiz de Mestre Luhhan, Perrin os via apenas nos dias de festa, j� que a dist�ncia era grande demais para visit�-los com frequ�ncia, e sempre havia trabalho a fazer. Se os Mantos-brancos estivessem � ca�a dos Aybaras, seria f�cil encontr�-los. Tinha que se preocupar com a fam�lia, n�o com esse Matador. Era o m�ximo que podia fazer. Proteger sua fam�lia e Faile. Isso vinha em primeiro lugar. Depois vinham a aldeia e os lobos, e, por �ltimo, o tal de Matador. N�o tinha como um �nico homem dar conta de tudo.</p><p>A Floresta do Oeste crescia sobre um solo pedregoso entremeado por afloramentos cobertos de amoreiras silvestres, uma terra dura, de �rvores robustas, com poucas fazendas ou trilhas. Quando menino, Perrin percorrera aquelas matas densas. �s vezes ia sozinho, outras, com Mat e Rand. Os tr�s ca�avam com arco ou funda, montavam armadilhas para coelhos ou apenas vagavam por simples prazer. Esquilos com rabos peludos guinchavam nas �rvores, tordos-pintados chilreavam nos galhos, tordos-negros e codornas-de-costas-azuis cantavam de detr�s dos arbustos � frente dos viajantes���tudo o fazia lembrar-se de casa. At� mesmo o cheiro da terra levantada pelos cascos dos cavalos era familiar.</p><p>Perrin poderia ter seguido direto at� Campo de Emond, mas desviou um pouco mais para o norte, pela floresta, cruzando a faixa de terra larga e acidentada chamada Estrada da Pedreira s� quando o sol descia em dire��o aos topos das �rvores. Porque da �pedreira� ningu�m em Dois Rios sabia. Na verdade nem parecia uma estrada, era s� um trechinho mirrado que a pessoa nem notava que n�o tinha �rvores, at� avistar os sulcos formados pelos in�meros carros e carro��es. �s vezes surgiam resqu�cios de um antigo pavimento no ch�o. Talvez aquela estrada j� tivesse conduzido a uma pedreira de Manetheren.</p><p>A fazenda que Perrin buscava n�o ficava longe da estrada, por detr�s das fileiras de macieiras e pereiras j� cheias de frutas. Sentiu o cheiro da fazenda antes de v�-la. Cheiro de carv�o. N�o era recente, mas um ano inteiro n�o seria o bastante para suavizar aquele odor.</p><p>Freou o cavalo na beirada das �rvores e ficou ali parado, examinando a situa��o antes de se for�ar a seguir at� o que fora a fazenda al�Thor, puxando o cavalo de carga atr�s do seu. Apenas o redil das ovelhas, com paredes de pedra, continuava de p�. O port�o gradeado estava aberto e preso apenas a uma dobradi�a. A chamin�, negra de fuligem, formava uma sombra torta nas vigas chamuscadas e ca�das da casa. O celeiro e a estufa de cura de tabaco estavam reduzidos a cinzas. As ervas daninhas haviam tomado o campo de tabaco e a horta, que parecia ter sido pisoteada. Tudo o que n�o era chic�ria ou rabo-de-gato estava destru�do e amarronzado.</p><p>Ele nem sequer pensou em encaixar uma flecha no arco. O inc�ndio ocorrera semanas antes, e a madeira queimada estava oleosa e fosca por conta das chuvas. A trepadeira-sufocante levava quase um m�s para crescer at� aquela altura e j� tinha at� envolvido o ancinho e o arado que jaziam ao lado do campo, t�o enferrujados que dava para ver os pontos vermelhos por sob as folhas brancas estreitas.</p><p>Mas os Aiel vasculharam o lugar com cautela, de lan�as prontas e olhos atentos, percorrendo o ch�o e cutucando as cinzas. Quando Bain emergiu das ru�nas da casa, olhou para Perrin e balan�ou a cabe�a. Pelo menos Tam al�Thor n�o morrera ali dentro.</p><p><emphasis>Eles sabem. Eles sabem, Rand. Voc� devia ter vindo.</emphasis> Era quase imposs�vel n�o fazer Galope sair correndo e seguir direto at� a fazenda de sua fam�lia. Ou pelo menos tentar: at� mesmo Galope cairia morto antes de conseguir cavalgar por tanto tempo. Talvez aquilo fosse obra de Trollocs. Se fosse, talvez sua fam�lia ainda estivesse na fazenda, trabalhando, em seguran�a. Respirou fundo, mas o cheiro de queimado obliterava qualquer outro odor.</p><p>Gaul parou ao lado dele.</p><p>��Seja l� quem tenha feito isso, j� est� bem longe. Mataram algumas ovelhas e afugentaram o resto. Algu�m veio depois para reunir o bando e lev�-lo para o norte. Dois homens, acho, mas as pegadas est�o muito velhas para ter certeza.</p><p>��Temos alguma pista de quem foi?</p><p>Gaul balan�ou a cabe�a. Poderiam ter sido Trollocs. Era estranho desejar uma coisa dessas. E tolo. Os Mantos-brancos sabiam o nome dele e parecia que tamb�m sabiam o de Rand. <emphasis>Eles sabem o meu nome.</emphasis> Perrin olhou para as cinzas da fazenda dos al�Thor e guiou Galope com as m�os tremendo nas r�deas.</p><p>Loial descera do cavalo ao chegar no limite do pomar, mas sua cabe�a permanecia escondida entre galhos. Faile avan�ou em dire��o a Perrin, analisando o rosto do rapaz. Sua �gua pisava com delicadeza.</p><p>��Isso aqui �? Voc� conhece as pessoas que moravam aqui?</p><p>��Rand e o pai dele.</p><p>��Ah. Pensei que pudesse ser����O al�vio e a compaix�o na voz dela eram suficientes para concluir a frase.���Sua fam�lia mora aqui por perto?</p><p>��N�o���respondeu Perrin, com certa rudeza, e Faile se retraiu como se tivesse levado um tapa.</p><p>Mas a jovem continuou a observ�-lo, � espera. O que ele precisava fazer para afast�-la? Se n�o conseguira at� ent�o, devia estar al�m do seu poder.</p><p>As sombras j� se alongavam, o sol deitava nos topos das �rvores. Ele deu meia-volta com Galope, dando as costas para ela com grosseria.</p><p>��Gaul, teremos que acampar aqui por perto, essa noite. Quero partir cedo, amanh�.���Ele olhou sorrateiro por cima do ombro. Faile ia de volta at� Loial, sentada r�gida na sela.���Em Campo de Emond, devem saber����Onde estavam os Mantos-brancos, para que ele pudesse se entregar antes que machucassem sua fam�lia. Isso se estivesse tudo bem com sua fam�lia. Se a fazenda onde ele nascera j� n�o estivesse igual � da fam�lia de Rand. N�o. Tinha que ter chegado a tempo de impedir aquilo.���Devem saber como est�o as coisas.</p><p>��Ent�o sairemos cedo.���Gaul hesitou.���Voc� n�o vai conseguir afast�-la. Aquela ali � quase <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, e, por mais que corra, � imposs�vel fugir de uma Donzela que ama voc�.</p><p>��Pode deixar que eu cuido de Faile.���Ele suavizou a voz. N�o era de Gaul que queria se livrar.���Partiremos bem cedo. Enquanto Faile ainda estiver dormindo.</p><p>Ambos os acampamentos sob as macieiras se aquietaram durante a noite. V�rias vezes uma ou outra das Aiel se levantava e observava a pequena fogueira onde ele e Gaul estavam sentados, mas o piar de uma coruja e as pisadas dos cavalos eram os �nicos sons nos arredores. Perrin n�o conseguiu dormir. Ainda faltava uma hora para clarear e a lua cheia ainda estava chegando ao horizonte quando ele e Gaul partiram. O Aiel avan�ava silencioso com as botas macias, e os cascos dos cavalos tamb�m faziam pouco barulho. Bain, ou talvez Chiad, os viu partir. Perrin n�o soube dizer quem era, mas a Aiel n�o acordou Faile, e ele ficou grato.</p><p>O sol j� estava bastante alto quando sa�ram da Floresta do Oeste, ainda um pouco abaixo da aldeia, despontando por entre caminhos e trilhas de carro�as, a maioria ladeada por cercas-vivas ou muros baixos de pedra bruta. A fuma�a formava colunas suaves sobre as chamin�s das casas de fazenda. Pelo cheiro, as donas de casa estavam preparando o caf�. Homens ponteavam os campos de tabaco e cevada, e meninos vigiavam os rebanhos de ovelhas de cara negra dispersos pelos pastos. Alguns notavam a passagem deles, mas Perrin manteve o passo de Galope ligeiro, na esperan�a de que ningu�m se aproximasse o bastante para reconhec�-lo ou perceber a estranheza das roupas e das lan�as de Gaul.</p><p>As ruas em Campo de Emond deviam estar movimentadas �quela hora, ent�o Perrin deu a volta a leste, passando longe da vila, das ruas de terra batida e dos telhados de palha aglomerados ao redor do Campo, onde a pr�pria Fonte de Vinho manava do afloramento de uma pedra com for�a suficiente para derrubar um homem, dando origem ao rio de mesmo nome. A destrui��o que ele se lembrava de ter visto na Noite Invernal, no ano anterior, com casas incendiadas e telhados chamuscados, desaparecera: tudo fora reformado e reconstru�do. Parecia at� que os Trollocs nunca tinham passado por ali. Ele rezou para que ningu�m tivesse que passar por aquilo outra vez. A Estalagem Fonte de Vinho ficava praticamente no ponto mais a leste de Campo de Emond, entre a Ponte das Carro�as de madeira robusta, que cruzava o rio, e uma antiga funda��o de pedra, um lugar gigantesco com um enorme carvalho crescendo no meio. Havia mesas dispostas sob os grandes galhos da �rvore, onde o povo se sentava nas tardes amenas e assistia a partidas de boleada. �quela hora da manh�, as mesas estavam vazias, naturalmente. Havia apenas algumas casas mais a leste. O primeiro andar da estalagem era todo de pedra, e o segundo andar era de paredes caiadas, dando para um telhado vermelho de onde despontavam v�rias chamin�s. Era o �nico telhado de telhas em um raio de milhas.</p><p>Amarrando Galope e o cavalo de carga a um poste pr�ximo � porta da cozinha, Perrin observou o est�bulo de telhado de palha. Dava para ouvir homens trabalhando l�. Deviam ser Hu e Tad, limpando esterco das baias onde Mestre al�Vere guardava o grande grupo de Dhurran que alugava para puxar cargas pesadas. Tamb�m ouvia sons vindos do outro lado da estalagem, o burburinho de vozes no Campo, o grasnido dos gansos, o ranger de um carro��o. Deixou a carga nos cavalos, seria uma parada ligeira. Acenou para que Gaul o seguisse e correu para dentro, carregando o arco, antes que os dois cavalari�os aparecessem.</p><p>A cozinha estava vazia, com os dois fog�es de ferro e todas as lareiras, exceto uma, apagados, embora o aroma de p�o assado ainda pairasse no ar. P�o e torta de mel. A estalagem quase n�o recebia h�spedes, a n�o ser pelos mercadores que vinham de Baerlon para comprar l� e tabaco ou algum mascate que vinha a cada m�s se a neve n�o impedisse o acesso � estrada. Tamb�m tinha o povo da aldeia, que chegava no fim do dia para tomar um trago e comer alguma coisa, mas eles decerto estavam trabalhando duro �quela hora. Por�m, devia haver algu�m l�, ent�o Perrin avan�ou nas pontas dos p�s pelo pequenino corredor que levava da cozinha at� o sal�o e abriu uma fresta da porta para espiar l� dentro.</p><p>J� vira aquele sal�o quadrado mil vezes, com a lareira feita de seixos de rio ocupando metade da extens�o, o lintel da altura do ombro de um homem, a caixa polida de tabaco e o estimado rel�gio de Mestre al�Vere apoiados na cornija. Mas, de alguma forma, tudo parecia menor. As cadeiras de espaldar alto diante da lareira abrigavam as reuni�es do Conselho da Aldeia. Os livros de Brandelwyn al�Vere jaziam em uma prateleira oposta � lareira���Perrin j� fora incapaz de imaginar que houvesse mais livros em um lugar s� do que aquelas poucas dezenas de exemplares surrados���e os barris de cerveja e vinho estavam empilhados na outra parede. Coceira, o gato amarelo da estalagem, dormia esparramado sobre um deles, como de costume.</p><p>Exceto pelo pr�prio Bran al�Vere e sua esposa, Marin, que poliam a prata e o peltre da estalagem em uma das mesas, vestidos em aventais brancos e compridos, o sal�o estava vazio. Mestre al�Vere era um homem robusto e gorducho, com esparsos cabelos grisalhos cobrindo o topo da cabe�a. A senhora al�Vere era magra e tinha porte de m�e; sua tran�a grossa e grisalha estava jogada por cima de um dos ombros. Ela exalava cheiro de assado e um aroma mais discreto de rosas. Perrin lembrava-se deles como pessoas sorridentes, mas os dois pareciam concentrados, e o Prefeito estava com a testa franzida de um jeito que com certeza nada tinha a ver com a ta�a de prata em suas m�os.</p><p>��Mestre al�Vere?���Ele empurrou a porta e entrou.���Senhora al�Vere. Sou eu, Perrin.</p><p>Eles se levantaram de um salto, derrubando as cadeiras e fazendo Coceira dar um pulo. A Senhora al�Vere cobriu a boca com a m�o. Ela e o marido ficaram t�o boquiabertos ao v�-lo quanto ao notar Gaul. Foi o bastante para Perrin trocar o arco de m�o, constrangido. Ainda mais quando Bran correu at� uma das janelas da frente���o homem se movia com uma leveza surpreendente para algu�m de seu tamanho���e afastou as cortinas de ver�o para espiar, como se esperasse ver mais Aiel do lado de fora.</p><p>��Perrin���murmurou a Senhora al�Vere, incr�dula.���� voc� <emphasis>mesmo</emphasis>. Quase n�o o reconheci, com essa barba, e esses� Seu rosto! Voc� se mach�? Egwene est� com voc�?</p><p>Perrin tocou o corte meio cicatrizado na bochecha, constrangido, desejando ter se lavado ou pelo menos deixado o arco e o machado na cozinha. N�o tinha pensado que eles poderiam ficara assustados com sua apar�ncia.</p><p>��N�o. Isso n�o tem nada a ver com ela. Egwene est� em seguran�a.���Estaria mais se tivesse voltado para Tar Valon do que se tivesse permanecido em Tear com Rand, mas, de todo modo, estava em seguran�a. Imaginou que devia � m�e de Egwene algo mais do que aquela declara��o seca.���Senhora al�Vere, Egwene est� estudando para ser Aes Sedai. Nynaeve tamb�m.</p><p>��Eu sei���respondeu ela, baixinho, tocando o bolso do avental.���Ela me mandou tr�s cartas de Tar Valon. Pelo que escreveu, enviou outras. E Nynaeve mandou pelo menos uma, mas s� chegaram essas tr�s de Egwene. Ela contou um pouco sobre o treinamento, que parece muito r�gido, devo dizer.</p><p>��� o que ela quer fazer.</p><p>Tr�s cartas? A culpa o fez encolher os ombros, constrangido. N�o escrevera nenhuma carta desde os bilhetes que deixara para sua fam�lia e Mestre Luhhan na noite em que Moiraine o levou embora de Campo de Emond. Nenhuma.</p><p>��Parece que sim, mesmo n�o sendo o que imaginei para o futuro dela. N�o � algo que eu possa contar para muita gente, n�o �? De todo modo, Egwene disse que fez amigas. Parecem ser boas meninas. Elayne e Min. Voc� as conhece?</p><p>��Sim, conhe�o. Acho que d� para dizer que s�o boas meninas.</p><p>Quanto Egwene dissera naquelas cartas? N�o muito, evidentemente. A Senhora al�Vere que pensasse o que quisesse, ele n�o tinha a menor inten��o de preocup�-la com coisas a respeito das quais ela nada poderia fazer. O passado ficara no passado. Egwene estava segura o bastante.</p><p>Percebendo de repente que Gaul estava parado ali, Perrin mais do que depressa fez as apresenta��es. Bran piscou quando ele disse que Gaul era Aiel e franziu o cenho para as lan�as e o v�u negro preso � <emphasis>shoufa,</emphasis> ca�do sobre o peito, mas sua esposa disse apenas:</p><p>��Mestre Gaul, seja bem-vindo a Campo de Emond e � Estalagem Fonte de Vinho.</p><p>��Que a senhora sempre encontre �gua e sombra, senhora do teto���respondeu Gaul educadamente.���Pe�o permiss�o para defender seu teto e seu forte.</p><p>A mulher hesitou por apenas um instante, antes de responder, como se estivesse muito acostumada �quele linguajar.</p><p>��� uma oferta muito cort�s. Mas devo ser eu a decidir quando essa prote��o � ou n�o necess�ria.</p><p>��Como quiser, senhora do teto. Sua honra � minha.���De dentro do casaco, Gaul tirou um saleiro de ouro, uma pequena tigela equilibrada nas costas de um le�o esculpido com muita eleg�ncia, e o estendeu a ela.���Ofere�o este pequeno presente para seu teto.</p><p>Marin al�Vere aceitou o objeto como faria com qualquer presente, quase sem demonstrar o choque. Perrin duvidou de que houvesse alguma pe�a similar �quela em toda Dois Rios, e decerto n�o em ouro. Havia pouqu�ssimas moedas de ouro em Dois Rios, quanto mais ornamentos. Torceu para que a mulher jamais descobrisse que aquilo tinha sido saqueado da Pedra de Tear. Ele podia apostar que o objeto vinha de l�.</p><p>��Meu rapaz���disse Bran���talvez eu devesse dizer �seja bem-vindo de volta�, mas por que foi que voc� voltou?</p><p>��Fiquei sabendo dos Mantos-brancos, senhor���respondeu Perrin, simplesmente.</p><p>O Prefeito e a esposa trocaram olhares soturnos, e Bran continuou:</p><p>��Mais uma vez, por que foi que voc� voltou? Voc� n�o pode impedir nada, meu rapaz, nem mudar o que j� aconteceu. � melhor ir embora. Se n�o tiver um cavalo, eu lhe dou um. Se tiver, monte nele e siga para o norte. Achei que os Mantos-brancos estivessem vigiando a Barca do Taren� foram eles que enfeitaram seu rosto?</p><p>��N�o. Foi�</p><p>��Ent�o n�o importa. Se passou por eles quando chegou, pode passar por eles de volta, na sa�da. O acampamento principal est� l� para cima, em Colina da Vig�lia, mas as patrulhas podem aparecer em qualquer lugar. V� logo, meu rapaz.</p><p>��N�o se demore, Perrin���acrescentou a Senhora al�Vere, em um tom baixo, por�m firme, naquela voz que em geral conseguia fazer com que os outros a obedecessem.���Nem mesmo uma hora. Vou preparar um embrulho para voc� levar. P�o fresco e queijo, um pouco de presunto e rosbife, uns picles. Voc� precisa ir, Perrin.</p><p>��Eu n�o posso. Voc�s sabem que eles est�o atr�s de mim, ou n�o me mandariam embora.���Os dois n�o tinham tecido coment�rios a respeito de seus olhos, nem para perguntar se ele estava doente. A Senhora al�Vere quase n�o parecera surpresa. Eles sabiam.���Se eu me entregar, posso impedir algumas coisas. Posso ajudar minha fam�lia�</p><p>Ele deu um salto quando a porta se abriu com um baque e Faile adentrou, seguida de Bain e Chiad.</p><p>Mestre al�Vere passou a m�o pela cabe�a careca. Mesmo assimilando as roupas femininas das Aiel e obviamente julgando que as jovens eram como Gaul, n�o pareceu muito perplexo por serem mulheres. Sobretudo, parecia irritado com a invas�o. Coceira se sentou para observar os estranhos, desconfiado. Perrin se perguntou se o gato tamb�m o considerava um estranho. E tamb�m como as tr�s o haviam encontrado e onde estava Loial. Qualquer coisa para evitar a quest�o de como lidaria com Faile naquele momento.</p><p>A mulher lhe deu pouco tempo para ponderar, plantando-se diante de Perrin com as m�os na cintura. Estava fazendo aquele truque feminino de parecer mais alta s� porque estava furiosa.</p><p>��Se entregar? Se entregar! Voc� estava planejando isso desde o in�cio? Estava, n�o estava? Seu idiota! Seu c�rebro congelou, Perrin Aybara. J� era mesmo s� m�sculo e cabelo, mas agora n�o � nem isso. Se os Mantos-brancos est�o mesmo atr�s de voc�, v�o enforc�-lo quando voc� se render. Mas por que estariam atr�s de voc�?</p><p>��Porque eu matei Mantos-brancos.���Olhando para baixo, ele ignorou o arquejo da Senhora al�Vere.���Aquela noite em que eu conheci voc�, e duas vezes antes. Eles sabem disso, Faile, e acham que sou um Amigo das Trevas.���A mulher acabaria sabendo, mais cedo ou mais tarde. Depois de ter revelado isso, Perrin poderia ter explicado por que assassinara aqueles homens, se os dois estivessem sozinhos. Pelo menos dois Mantos-brancos, Geofram Bornhald e Jaret Byar, suspeitavam de sua liga��o com os lobos. Nem de longe suspeitavam de tudo, mas aquele pouco j� bastava para eles. Um homem que corria com os lobos s� podia ser Amigo das Trevas. Talvez um, ou ambos, estivesse com os Mantos-brancos de Campo de Emond.���� isso o que acham.</p><p>��Voc� � t�o Amigo das Trevas quanto eu���sussurrou Faile, com rispidez.���O sol � mais Amigo das Trevas do que n�s.</p><p>��N�o faz diferen�a, Faile. Eu tenho que fazer o que � preciso.</p><p>��Seu idiota cabe�a-oca! Voc� n�o <emphasis>tem</emphasis> que fazer nada! Seu c�rebro de ganso! Se tentar, eu mesma enforco voc�!</p><p>��Perrin���interveio a Senhora al�Vere, baixinho���ser� que pode nos apresentar a essa jovem que tem voc� em t�o boa conta?</p><p>O rosto de Faile ficou completamente vermelho quando ela percebeu que estava ignorando o Senhor e a Senhora al�Vere, e a jovem come�ou uma s�rie de mesuras elaboradas e pedidos desculpas com floreios. Bain e Chiad repetiram o gesto de Gaul, pedindo permiss�o para defender o teto da Senhora al�Vere e dando a ela uma pequena tigela de ouro com desenhos de folhagens e um pimenteiro de prata maior que os dois punhos de Perrin, com uma criatura ex�tica no topo, metade cavalo, metade peixe.</p><p>Bran al�Vere encarou, franziu o rosto, esfregou a cabe�a e resmungou sozinho. Perrin captou a palavra �Aiel� mais de uma vez, em um tom incr�dulo. O Prefeito continuava espiando pelas janelas. N�o devia estar pensando em encontrar mais Aiel, pois ficara surpreso em saber que Gaul era um. Talvez estivesse preocupado com os Mantos-brancos.</p><p>Marin al�Vere, por outro lado, aceitou tudo sem problemas, tratando Faile, Bain e Chiad como quaisquer jovens viajantes que aparecessem na estalagem, comiserando-se delas pelo cansa�o da viagem, elogiando Faile pelo vestido de montaria���que naquele dia era de seda azul-escuro���e dizendo �s Aiel o quanto admirava a cor e o brilho de seus cabelos. Perrin suspeitou que Bain e Chiad n�o soubessem muito bem o que pensar da mulher, mas, em pouco tempo, com uma esp�cie de firmeza tranquila e maternal, a senhora al�Vere acomodou as tr�s a uma mesa e trouxe toalhas molhadas para limparem a poeira da viagem das m�os e dos rostos enquanto bebericavam o ch� servido em um grande bule rajado de vermelho de que ele se lembrava muito bem.</p><p>Poderia ter sido divertido ver aquelas mulheres ferozes���inclusive Faile����vidas por assegurar � Senhora al�Vere que estavam mais do que confort�veis, perguntando se n�o havia nada que pudessem fazer para ajudar, dizendo que ela estava tendo trabalho demais. Todas mantinham os olhos arregalados, feito crian�as, e, como crian�as, eram incapazes de resistir � mulher mais velha. Teria sido divertido se a senhora al�Vere n�o tivesse inclu�do ele e Gaul na recep��o, arrastando-os com a mesma firmeza at� a mesa, insistindo para que limpassem as m�os e o rosto antes de tomar uma x�cara de ch�. Gaul exibia um sorriso malicioso. Os Aiel tinham um senso de humor estranho.</p><p>Por mais surpreendente que parecesse, a mulher n�o chegou a olhar o arco e o machado de Perrin e nem as armas dos Aiel. Era raro ver algu�m com sequer um arco em Dois Rios, e ela sempre insistia para que esses objetos fossem postos de lado antes de qualquer um se sentar a uma de suas mesas. Sempre. Daquela vez, por�m, simplesmente ignorara as armas.</p><p>Outra surpresa veio quando Bran empurrou uma caneca de prata com conhaque de ma�� para perto de Perrin, n�o com o traguinho que os homens costumavam beber na estalagem, que mal chegava � junta do polegar, mas cheia at� a metade. Antes de ele ir embora, o m�ximo que lhe ofereciam era cidra de ma��, quando n�o leite ou �s vezes um vinho bem aguado. E apenas metade da caneca, junto com as refei��es, ou uma inteira em dias de festa. Era gratificante ser reconhecido como adulto, mas ele apenas segurou a caneca. J� estava acostumado com vinho, mas era raro beber qualquer coisa mais forte.</p><p>��Perrin���disse o Prefeito, sentando-se em uma cadeira ao lado da esposa���ningu�m acredita que voc� seja um Amigo das Trevas. Ningu�m com ju�zo. N�o h� motivo para voc� se deixar ser enforcado.</p><p>Faile assentiu com vigor em concord�ncia, mas Perrin a ignorou.</p><p>��Eu n�o vou mudar de ideia, Mestre al�Vere. Os Mantos-brancos est�o atr�s de mim e, se n�o conseguirem me pegar, podem acabar atacando o pr�ximo Aybara que virem pela frente. Eles n�o precisam de muito para decidir que algu�m � culpado. N�o s�o pessoas agrad�veis.</p><p>��Sabemos disso���retrucou a Senhora al�Vere, baixinho.</p><p>O marido encarou as m�os pousadas em cima da mesa.</p><p>��Perrin, sua fam�lia se foi.</p><p>��Se foi? Quer dizer que a fazenda j� foi incendiada?���Perrin cerrou o punho na caneca de prata.���Eu esperava chegar a tempo. Acho que devia ter imaginado. Muito tempo se passou antes de eu ouvir as not�cias. Talvez eu consiga ajudar meu pai e o tio Eward a reconstru�rem o lugar. Com quem eles est�o? Quero v�-los primeiro, ao menos.</p><p>Bran fez uma careta, e a esposa afagou seu ombro, confortando-o. Por�m, estranhamente, ela manteve os olhos em Perrin, cheios de tristeza e consolo.</p><p>��Eles morreram, meu rapaz���disse Bran, sem rodeios.</p><p>��Morreram? N�o. N�o pode ser.���Perrin franziu a testa quando o l�quido espirrou de repente, e encarou a caneca amassada como se n�o soubesse de onde ela viera.���Me desculpem. Eu n�o queria����Ele for�ou a prata achatada, tentando pux�-la de volta para a forma original. O que n�o daria certo. Claro que n�o. Com muito cuidado, depositou o objeto no centro da mesa.���Vou repor isso aqui. Posso����Ele limpou a m�o no casaco e de repente percebeu que alisava o machado que pendia do cinto. Por que todos o estavam encarando daquele jeito estranho?���Tem certeza?���Sua voz soava distante.���Adora e Deselle? Paet? Minha m�e?</p><p>��Todo mundo���respondeu Bran.���Seus tios e tias tamb�m, e seus primos. Todos da fazenda. Eu ajudei a enterr�-los, meu rapaz. Na colina baixa, aquela com as macieiras.</p><p>Perrin enfiou o polegar na boca. Que coisa idiota se cortar com o pr�prio machado.</p><p>��Minha m�e gosta de flor de macieira. Os Mantos-brancos. Por que eles�? Que me queime, Paet tinha s� nove anos. As meninas�</p><p>Sua voz estava inexpressiva. Perrin achou que deveria haver alguma emo��o naquelas palavras. Qualquer emo��o.</p><p>��Foram Trollocs���disse a Senhora al�Vere, mais do que depressa.���Eles voltaram, Perrin. N�o como fizeram quando voc� foi embora, n�o atacaram a aldeia. Foram para o campo. A maioria das fazendas sem vizinhos pr�ximos foi abandonada. Ningu�m sai de casa � noite, nem se for para algum lugar perto da aldeia. E � a mesma coisa descendo, para Trilha de Deven, e subindo, para Colina da Vig�lia, talvez at� Barca do Taren. Os Mantos-brancos, por piores que sejam, s�o nossa �nica prote��o de verdade. Fiquei sabendo que salvaram duas fam�lias que tiveram as fazendas atacadas pelos Trollocs.</p><p>��Eu queria� eu esperava����Ele n�o conseguia se lembrar muito bem do que queria. Tinha algo a ver com Trollocs. Ele n�o queria se lembrar. Os Mantos-brancos estavam protegendo Dois Rios? Era quase suficiente para faz�-lo rir.���O pai de Rand. A fazenda de Tam. Aquilo tamb�m foi obra dos Trollocs?</p><p>A Senhora al�Vere abriu a boca, mas Bran a interrompeu.</p><p>��Ele merece saber a verdade, Marin. Foram os Mantos-brancos, Perrin. Na casa dos Cauthon tamb�m.</p><p>��A fam�lia de Mat. A fam�lia de Rand, de Mat e a minha.���Que estranho. Ele soava como se estivesse refletindo sobre se ia ou n�o chover.���Eles tamb�m est�o mortos?</p><p>��N�o, meu rapaz. N�o. Abell e Tam est�o escondidos em algum lugar da Floresta do Oeste. E a m�e e as irm�s de Mat� elas tamb�m est�o vivas.</p><p>��Est�o escondidas?</p><p>��N�o h� necessidade de entrarmos nesse assunto���interveio a Senhora al�Vere, de repente.���Bran, sirva outra dose de conhaque para ele. E trate de beber dessa vez, Perrin.���O homem ficou sentado onde estava, mas a mulher olhou feio para o marido e prosseguiu.���Eu ofereceria uma cama, mas n�o � seguro. Tem gente que vai sair correndo � procura de Lorde Bornhald se souber que voc� est� aqui. Eward Congar e Hari Coplin bajulam os Mantos-brancos feito cachorrinhos, �vidos por agradar e apontar nomes. E Cenn Buie n�o � muito melhor. Wit Congar tamb�m faz fofoca, se Daise n�o puser um freio nele. Ela � a Sabedoria, agora. Perrin, � melhor voc� ir embora. Acredite em mim.</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a devagar: era demais para absorver. Daise Congar, a nova Sabedoria? A mulher parecia um touro. Mantos-brancos protegendo Campo de Emond. Hari, Eward e Wit cooperando. N�o dava para esperar muita coisa dos Congar e Coplin, mas Cenn Buie era do Conselho da Aldeia. Lorde Bornhald. Ent�o Geofram Bornhald estava l�. Faile o observava com olhos grandes e chorosos. Por que a mulher estava � beira das l�grimas?</p><p>��Tem mais, Brandelwyn al�Vere���disse Gaul.���Seu rosto est� dizendo que tem.</p><p>��Tem, sim���concordou Bran.���N�o, Marin���acrescentou com firmeza, quando a mulher balan�ou a cabe�a de leve.���Ele merece saber a verdade. Toda a verdade.</p><p>A senhora al�Vere cruzou os bra�os e suspirou. Ela quase sempre conseguia o que queria, exceto quando Bran assumia uma express�o firme, como agora, com as sobrancelhas contra�das para baixo, duras feito arado.</p><p>��Que verdade?���indagou Perrin.</p><p>Sua m�e gostava de flores de macieira.</p><p>��Antes de tudo, preciso dizer que Padan Fain est� com os Mantos-brancos���disse Bran.���Ele agora se chama Ordeith e n�o responde mais pelo pr�prio nome, mas � ele. Continua olhando de cima para os outros.</p><p>��Ele � Amigo das Trevas���comentou Perrin, distra�do. Na primavera, Adora e Deselle sempre punham flores de macieira nos cabelos.���Foi ele mesmo quem disse. Ele � que trouxe os Trollocs aqui, na Noite Invernal.</p><p>Paet gostava de escalar as macieiras. Ele atirava ma��s l� de cima nos passantes distra�dos.</p><p>��Ah, � mesmo?���perguntou o Prefeito, com uma carranca.���Que coisa interessante. Ele tem alguma autoridade com os Mantos-brancos. A primeira vez que ouvimos dizer que estavam aqui foi depois que incendiaram a fazenda de Tam. Aquilo foi obra de Fain, foi ele quem liderou os Mantos-brancos que botaram fogo. Tam flechou quatro ou cinco antes de conseguir entrar na floresta, e chegou � fazenda dos Cauthon bem a tempo de impedir que pegassem Abell. Mas prenderam Natti e as meninas. Junto com Haral Luhhan e Alsbet. Acho que Fain teria enforcado todos, mas Lorde Bornhald n�o permitiu. S� que tamb�m n�o os liberta. Eles n�o est�o feridos, pelo que pude descobrir, mas est�o sendo mantidos no acampamento dos Mantos-brancos, bem no alto de Colina da Vig�lia. Por alguma raz�o, Fain odeia voc�, Rand e Mat. Ofereceu cem moedas de ouro por qualquer um que tivesse rela��o com os tr�s, e duzentas por Tam ou Abell. Lorde Bornhald parece especialmente interessado em voc�. Quando uma patrulha dos Mantos-brancos vem at� aqui, ele geralmente vem junto e faz perguntas a seu respeito.</p><p>��Sim���disse Perrin.���� claro que ele faz isso.���Perrin, de Dois Rios, que corria com os lobos. Amigo das Trevas. Fain devia ter contado o restante. <emphasis>Fain est� com os Filhos da Luz?</emphasis> Era um pensamento distante. Mas era melhor que pensar em Trollocs. Encarou as m�os e franziu a testa, for�ando-se a mant�-las firmes no tampo da mesa.���Eles protegem voc�s dos Trollocs.</p><p>Marin al�Vere inclinou-se para perto dele, franzindo o cenho.</p><p>��Perrin, n�s precisamos dos Mantos-brancos. Sim, eles incendiaram a fazenda de Tam e a de Abell, prenderam gente e marcham por a� como se fossem donos de tudo, mas Alsbet, Natti e os outros n�o est�o feridos, apenas presos, e isso a gente pode dar um jeito de consertar. A Presa do Drag�o foi rabiscada em algumas portas, mas ningu�m al�m dos Congar e dos Coplin d� aten��o, e � prov�vel que eles � que tenham feito os rabiscos. Tam e Abell podem ficar escondidos at� os Mantos-brancos irem embora. Mais cedo ou mais tarde, eles v�o ter que ir. Mas, enquanto houver Trollocs por aqui, precisaremos deles. Por favor, entenda isso. N�o � que a gente n�o prefira ter voc� aqui, em vez deles, mas precisamos deles. E n�o queremos que voc� seja enforcado.</p><p>��A senhora chama isso de prote��o, senhora do teto?���perguntou Bain.���Se a senhora pedir a um le�o que a proteja dos lobos, estar� escolhendo apenas terminar em uma barriga, em vez de outra.</p><p>��Voc�s n�o s�o capazes de se proteger sozinhos?���acrescentou Chiad.���J� vi Perrin lutar, assim como Mat Cauthon e Rand al�Thor. Eles t�m o mesmo sangue que voc�s.</p><p>Bran deu um suspiro profundo.</p><p>��Somos fazendeiros, gente simples. Lorde Luc fala de organizar homens para lutar contra os Trollocs, mas isso significa que deixar�amos nossas fam�lias desprotegidas enquanto partimos com ele, e ningu�m gosta muito da ideia.</p><p>Perrin estava confuso. Quem era Lorde Luc? Ele perguntou, e a Senhora al�Vere respondeu:</p><p>��Ele chegou na mesma �poca que os Mantos-brancos. � um Ca�ador da Trombeta. Sabe a hist�ria da <emphasis>Grande Ca�ada</emphasis>? Lorde Luc acha que a Trombeta de Valere est� em algum lugar das Montanhas da N�voa, acima de Dois Rios. Mas abandonou a ca�ada por conta dos nossos problemas. Lorde Luc � um grande cavalheiro, um homem muito refinado.</p><p>Alisando os cabelos, ela abriu um sorriso de aprova��o. Bran a olhou de esguelha e soltou um grunhido azedo.</p><p>Ca�adores da Trombeta. Trollocs. Mantos-brancos. Dois Rios nem parecia o mesmo lugar que ele deixara.</p><p>��Faile tamb�m � uma Ca�adora da Trombeta. Voc� conhece esse Lorde Luc, Faile?</p><p>��Para mim, j� chega���anunciou a jovem. Perrin franziu o cenho enquanto ela se levantava, dava a volta na mesa e se colocava ao lado dele. Faile agarrou sua cabe�a e puxou o rosto dele contra sua barriga.���Sua m�e morreu���disse, baixinho.���Seu pai morreu. Suas irm�s morreram, e seu irm�o tamb�m. Sua fam�lia est� morta, e voc� n�o pode mudar isso. E vai poder fazer menos ainda se morrer tamb�m. Permita-se chorar a perda deles. N�o guarde tudo a� dentro, s� vai apodrecer.</p><p>Perrin a segurou pelos bra�os com a inten��o de afast�-la, mas por alguma raz�o suas m�os se apertaram at� que aqueles punhos agarrados a ela fossem as �nicas coisas a sustent�-lo. Foi s� naquele momento que percebeu que estava chorando, solu�ando no vestido de Faile feito um beb�. O que ela pensaria dele? Abriu a boca para dizer que estava tudo bem, para se desculpar por ter sucumbido � tristeza, mas o que saiu foi:</p><p>��N�o consegui chegar mais depressa. N�o consegui� Eu����Ele trincou os dentes para se calar.</p><p>��Eu sei���murmurou ela, afagando seus cabelos como se ele fosse uma crian�a.���Eu sei.</p><p>Perrin queria parar, mas quanto mais Faile sussurrava em compreens�o, mais ele solu�ava, como se aquelas m�os macias em seus cabelos estivessem arrancando as l�grimas de seus olhos.</p></section><section><title><p>30</p><p><image l:href="#7"/></p><p>Depois do carvalho</p></title><p>Com Faile segurando sua cabe�a sob os seios, Perrin perdeu a no��o de por quanto tempo chorou. Imagens de sua fam�lia perpassavam seus pensamentos; o pai sorrindo enquanto o ensinava a erguer um arco, a m�e cantando e enrolando l�, Adora e Deselle implicando com ele na primeira vez em que se barbeou, Paet arregalando os olhos para um menestrel no Dia do Sol, muito tempo atr�s. Imagens de t�mulos frios e solit�rios enfileirados. Ele chorou at� esgotar as l�grimas. Quando enfim se afastou, os dois estavam sozinhos, exceto por Coceira, que se lambia em cima do barril de cerveja. Ficou feliz em ver que os outros n�o haviam permanecido para assistir � cena. Faile ter visto j� era ruim o bastante. De certa forma, estava feliz por ela ter ficado. S� queria que ela n�o tivesse visto nem ouvido.</p><p>Faile segurou as m�os dele e sentou-se na cadeira ao lado. Era t�o linda, com aqueles olhos levemente obl�quos, grandes e escuros, e as ma��s do rosto altas. Perrin n�o sabia como poderia se redimir depois da forma como a tratara naqueles �ltimos dias. Sem d�vida a mulher encontraria uma forma de faz�-lo pagar.</p><p>��Voc� desistiu da ideia de se entregar para os Mantos-brancos?���perguntou ela.</p><p>Sua voz n�o dava ind�cios de que acabara de assisti-lo chorar feito um beb�.</p><p>��Parece que n�o adiantaria de nada. N�o importa o que eu fa�a, eles ir�o atr�s dos pais de Rand e Mat. Minha fam�lia����Ele soltou depressa as m�os dela, mas Faile sorriu, em vez de contrair o rosto.���Preciso libertar Mestre Luhhan e a mulher dele, se puder. E a m�e e as irm�s de Mat. Prometi a ele que cuidaria delas. E quero dar um jeito nos Trollocs.���Talvez aquele Lorde Luc tivesse algumas ideias. Pelo menos o Portal dos Caminhos estava bloqueado, nada mais viria dos Caminhos. E ele queria mesmo fazer algo em rela��o aos Trollocs.���N�o imagino nada disso acontecendo se eu deixar que eles me enforquem.</p><p>��Fico feliz que voc� veja isso���respondeu a mulher, em um tom seco.���Mais alguma ideia idiota a respeito de me mandar embora?</p><p>��N�o.</p><p>Ele se preparou para a briga, mas Faile apenas assentiu, como se aquela resposta fosse tudo o que desejasse e esperasse ouvir. Como se fosse uma besteira, nada por que valesse a pena discutir. Faile o faria pagar caro.</p><p>��Somos cinco, Perrin, seis se Loial estiver disposto a lutar. E, se conseguirmos encontrar Tam al�Thor e Abell Cauthon� Eles s�o t�o bons no arco quanto voc�?</p><p>��Melhores���respondeu Perrin, e falava a verdade.���Muito melhores.</p><p>Ela assentiu de leve com a cabe�a, um pouco descrente.</p><p>��J� somos oito. � um come�o. Talvez outros se juntem a n�s. E tamb�m tem o Lorde Luc. Ele deve querer assumir a lideran�a, mas, se n�o for um completo idiota, n�o tem problema. S� que nem todo mundo que fez o Juramento do Ca�ador � razo�vel. Conheci alguns que acham que sabem de tudo, al�m de serem teimosos feito mulas.</p><p>��Disso eu sei.���Faile lan�ou a ele um olhar penetrante, mas Perrin conseguiu manter a seriedade.���Sei que voc� conheceu alguns assim, foi o que quis dizer. Vi dois deles, uma vez, lembra?</p><p>��Ah, aqueles. Bom, vamos torcer para que Lorde Luc n�o seja um mentiroso que gosta de contar vantagem.���Os olhos de Faile assumiram um brilho determinado, e ela segurou firme a m�o de Perrin. N�o de um jeito inc�modo, mas como se tentasse juntar as for�as dos dois.���Voc� vai querer visitar a fazenda da sua fam�lia, a sua casa. E eu vou com voc�, se deixar.</p><p>��Quando eu puder, Faile.���Mas n�o agora. N�o ainda. Se olhasse aqueles t�mulos sob as macieiras agora� Era estranho. Sempre se achara muito forte, mas percebia que na verdade n�o era nem um pouco forte. Bem, j� terminara de chorar feito um beb�. J� passava da hora de fazer alguma coisa.���Vamos por partes. Acho que, primeiro, precisamos encontrar Tam e Abell.</p><p>Mestre al�Vere enfiou a cabe�a para dentro do sal�o e adentrou o aposento ao v�-los sentados, separados.</p><p>��Tem um Ogier na cozinha���disse a Perrin, com um olhar perplexo.���Um Ogier. Tomando ch�. Mesmo a maior caneca parece����Ele ergueu dois dedos como se segurasse um dedal.���Marin pode at� conseguir fingir que todos os dias aparece um Aiel por aqui, mas quase desmaiou quando viu esse tal de Loial. Dei a ela uma dose dupla de conhaque, e Marin virou tudo como se fosse �gua. Quase tossiu at� morrer, ela n�o tem h�bito de beber nada al�m de vinho. Acho que teria tomado mais, se eu tivesse dado.���Ele apertou os l�bios e fingiu interesse em um ponto inexistente no longo avental branco.���Est� melhor agora, meu rapaz?</p><p>��Estou bem, sim, senhor���respondeu Perrin, mais do que depressa.���Mestre al�Vere, n�o podemos ficar aqui por mais muito tempo. Algu�m pode contar aos Mantos-brancos que voc�s me deram abrigo.</p><p>��Ah, n�o tem muita gente que faria uma coisa dessas. Nem todos os Coplin s�o assim. E d� para contar at� com alguns dos Congar.</p><p>Mas ele n�o sugeriu que ficassem.</p><p>��Sabe onde consigo encontrar Mestre al�Thor e Mestre Cauthon?</p><p>��Eles ficam em algum lugar da Floresta do Oeste���respondeu Bran, com certa cautela.���� s� o que eu sei com certeza. Est�o sempre mudando de esconderijo.���Ele entrela�ou os dedos sobre a barriga volumosa e inclinou a cabe�a grisalha para o lado.���Ent�o voc�s n�o v�o embora? Bem. Eu disse a Marin que n�o iriam, mas ela n�o acreditou. Minha esposa acha que � melhor voc�s irem� Acha que seria melhor para voc� E, como a maioria das mulheres, Marin tem certeza de que voc� vai acabar fazendo o que ela quer, se pedir muitas vezes.</p><p>��Ora, Mestre al�Vere���respondeu Faile, em um tom doce���eu, por exemplo, sempre vi os homens como criaturas razo�veis que s� precisam que lhes mostrem o caminho certo uma �nica vez.</p><p>O Prefeito brindou a mo�a com um sorriso bem-humorado.</p><p>��Ent�o vai convencer Perrin a ir embora? Marin tem raz�o, � o melhor a fazer, se ele quiser evitar a forca. A �nica raz�o para ficar � que �s vezes um homem � incapaz de correr. N�o � mesmo? Bem, voc� com certeza sabe o que � melhor.���Ele ignorou o olhar azedo da mo�a.���Venha comigo, rapaz. Vamos dar as boas novas a Marin. Prepare-se para a luta e mantenha-se firme em seus prop�sitos, pois ela n�o vai desistir f�cil.</p><p>Na cozinha, Loial e os Aiel estavam sentados no ch�o de pernas cruzadas. N�o havia na estalagem cadeira em que o Ogier coubesse, e ele estava sentado com um bra�o apoiado na mesa da cozinha. Mesmo naquela posi��o, era alto o bastante para encarar Marin al�Vere de frente. Bran exagerara no tamanho da caneca nas m�os de Loial, mas, ao olhar mais atentamente, Perrin reparou que era uma tigela de sopa esmaltada em branco.</p><p>A Senhora al�Vere ainda estava se esfor�ando para fingir que Aiel e Ogier eram visitantes habituais, correndo de um lado a outro com uma bandeja de p�o, queijo e picles, certificando-se de que todos estavam comendo, mas seus olhos se arregalavam cada vez que pousavam em Loial, embora o Ogier tentasse deix�-la confort�vel fazendo elogios � comida. As orelhas peludas se remexiam nervosas toda vez que a mulher o encarava, e Marin dava um pulinho a cada vez que isso acontecia, ent�o balan�ava a cabe�a, e a grossa tran�a grisalha se sacudia vigorosamente. Em algumas horas, um acabaria nocauteando o outro com tantas sacudidelas.</p><p>Ao ver Perrin, Loial soltou um suspiro grave e profundo de al�vio e pousou a caneca���a tigela���de ch� sobre a mesa. No entanto, no instante seguinte, seu enorme rosto pareceu murchar de tristeza.</p><p>��Lamento muito a sua perda, Perrin. E compartilho da sua dor. A Senhora al�Vere����as orelhas se remexiam como doidas, mesmo sem ele olhar para a mulher, e Marin levou outro susto���� estava me contando que voc� vai embora, agora que n�o tem mais nada que o prenda aqui. Se quiser, posso cantar para as macieiras antes de irmos.</p><p>Bran e Marin trocaram olhares surpresos, e o Prefeito at� limpou a orelha com o dedo.</p><p>��Obrigado, Loial. Ficarei muito grato, e podemos fazer isso, quando houver tempo. Mas tenho trabalho a fazer antes de ir.���A Senhora al�Vere pousou a bandeja na mesa com um estalido e o encarou, mas ele prosseguiu, explicando seus planos: encontrar Tam e Abell e resgatar os prisioneiros dos Mantos-brancos. N�o mencionou os Trollocs, mas tamb�m, seus planos para eles ainda eram vagos. Talvez n�o <emphasis>t�o</emphasis> vagos. N�o pretendia ir embora enquanto ainda houvesse um Trolloc ou Myrddraal vivo em Dois Rios. Enganchou os dedos no cinto para evitar alisar o machado.���N�o vai ser f�cil���concluiu.���Apreciarei muito sua companhia, mas vou entender se voc� quiser ir embora. Essa luta n�o � sua, e voc� j� passou por problemas demais ficando perto do povo de Campo de Emond. E n�o vai dar para escrever muito do seu livro, por aqui.</p><p>��Aqui ou l�, acho que a luta � a mesma���respondeu Loial.���O livro pode esperar. Talvez eu escreva um cap�tulo sobre voc�.</p><p>��Eu disse que o acompanharia���respondeu Gaul, mesmo sem ser perguntado���e n�o estava pensando em ficar apenas at� a jornada parecer mais dif�cil. Tenho uma d�vida de sangue com voc�.</p><p>Bain e Chiad encararam Faile com uma express�o indagativa e, quando ela assentiu, as duas expressaram sua decis�o de ficar.</p><p>��Tolos e teimosos���resmungou a Senhora al�Vere���todos voc�s. � muito prov�vel que acabem enforcados, isso se viverem para tanto. Sabem disso, n�o sabem?���Quando o grupo apenas a encarou, ela desamarrou o avental e passou-o por cima da cabe�a.���Bem, se forem burros o bastante para ficar, acho melhor mostrar a voc�s onde se esconder.</p><p>O marido a olhou com surpresa diante da rendi��o repentina, mas se recuperou depressa.</p><p>��Pensei no antigo hospital, Marin. Ningu�m mais vai l�, e acho que o teto ainda est� quase todo inteiro.</p><p>Desde que Perrin era garotinho, o lugar que chamavam de novo hospital, para onde eram levadas as pessoas que pegavam alguma doen�a contagiosa, ficava a leste da aldeia, para al�m do moinho do Mestre Thane. O antigo, na Floresta do Oeste, fora quase todo destru�do em um vendaval. Perrin se lembrava do lugar meio tomado por trepadeiras e arbustos espinhentos, com p�ssaros empoleirados no que restara do sap� do telhado e uma toca de texugo debaixo da escada dos fundos. Daria um bom esconderijo.</p><p>A Senhora al�Vere lan�ou a Bran um olhar penetrante, parecendo surpresa por ele ter pensado nisso.</p><p>��Acho que pode funcionar, sim. Pelo menos por esta noite. Vou lev�-los para l�.</p><p>��N�o precisa, Marin. Posso conduzi-los sem problemas, se Perrin n�o se lembrar do caminho.</p><p>���s vezes voc� se esquece de que � o Prefeito, Bran. Voc� chama a aten��o, o povo sempre quer saber para onde voc� est� indo e o que est� fazendo. Por que n�o fica aqui, e, se algu�m aparecer, d� conta de mand�-los embora achando que tudo est� nos conformes? Tem cozido de carneiro na panela e uma sopa de lentilha que � s� aquecer. Mas n�o mencione o hospital a ningu�m, Bran. � melhor que ningu�m nem se lembre de que ele existe.</p><p>��Eu n�o sou idiota, Marin���retrucou o homem, r�gido.</p><p>��Eu sei que n�o, meu bem.���Ela afagou o rosto do marido, mas o olhar terno se endureceu ao desviar de Bran para o restante do grupo.���Como voc�s d�o trabalho���murmurou antes de come�ar a dar as instru��es.</p><p>Eles viajariam em grupos menores, para n�o chamar aten��o. Marin cruzaria a aldeia sozinha e os encontraria na floresta, do outro lado. Os Aiel garantiram que conseguiriam encontrar o carvalho fendido por um raio que ela descrevera e deslizaram, sorrateiros, pela porta dos fundos. Perrin conhecia o carvalho, uma �rvore imensa a uma milha dos limites da aldeia, uma �rvore que parecia ter sido cortada ao meio por um machado, mas que de alguma forma continuava viva e at� dando flores. Tinha certeza de que conseguiria seguir direto at� o hospital sem maiores problemas, mas a Senhora al�Vere insistiu para que todos fossem ao ponto de encontro.</p><p>��Se sair vagando por a� sozinho, Perrin, sabe a Luz com o que pode topar.���Ela olhou para Loial, de p�, com os cabelos desgrenhados ro�ando as vigas do teto, e suspirou.���Queria que pud�ssemos fazer algo em rela��o � sua altura, Mestre Loial. Sei que est� quente, mas o senhor se importaria de usar seu manto com o capuz levantado? Mesmo hoje em dia, a maioria se convence r�pido de que n�o viu alguma coisa, se n�o for o esperado. Mas, se algu�m vir o rosto do senhor� N�o que o senhor n�o seja bonito, disso n�o tenho d�vidas, mas o senhor nunca passaria por gente de Dois Rios.</p><p>O sorriso de Loial ia de orelha a orelha.</p><p>��O dia n�o est� nem um pouco quente para um manto, Senhora al�Vere.</p><p>Agarrando um xale leve de tric� com franjados azuis, Marin acompanhou Perrin, Faile e Loial at� o est�bulo para v�-los partir, e, por um instante, pareceu que todos os seus esfor�os em manter segredo haviam ido por �gua abaixo. Cenn Buie, que parecia feito de velhas ra�zes retorcidas, examinava os cavalos com olhos apertados. Dava aten��o especial ao enorme cavalo de Loial, t�o grande quanto os Dhurran de Bran. Cenn co�ou a cabe�a, encarando a imensa sela do caval�o.</p><p>Seus olhos se arregalaram quando viram Loial, e ele ficou boquiaberto.</p><p>��Tr-Tr-Trolloc!���conseguiu enfim dizer.</p><p>��N�o seja um velho tolo, Cenn Buie���retorquiu Marin, com firmeza, dando um passo para o lado para chamar a aten��o do telhador para si. Perrin manteve a cabe�a baixa, analisando o arco, e n�o se moveu.���Eu ficaria parada diante da minha pr�pria porta se fosse um Trolloc?���Ela deu uma fungada desdenhosa.���Mestre Loial � um Ogier, como voc� saberia se n�o fosse um bestalh�o intrat�vel que prefere ficar reclamando por a� em vez de ver o que est� bem diante do pr�prio nariz. Ele est� de passagem, e n�o tem tempo para ser incomodado por gente da sua esp�cie. Retorne aos seus afazeres e deixe nossos h�spedes em paz. Voc� sabe muito bem que Corin Ayellin est� h� meses atr�s de voc� por conta do trabalho porco que fez no telhado dela.</p><p>Cenn reproduziu a palavra �Ogier� sem fazer qualquer som, piscando v�rias vezes. Por um instante, pareceu que o homem se pronunciaria em defesa do trabalho que fizera, mas logo encarou Perrin e apertou os olhos.</p><p>��Ele! � ele! Est�o atr�s de voc�, sua cria de patife, fugindo com Aes Sedai e virando Amigo das Trevas. Foi naquela �poca que os Trollocs apareceram por aqui. Agora voc� est� de volta, e eles tamb�m. Vai me dizer que � coincid�ncia? Qual � o problema com os seus olhos? Est� doente? Arrumou alguma doen�a e trouxe para c�, para matar todos n�s? Como se os Trollocs n�o fossem o bastante! Os Filhos da Luz v�o dar um jeito em voc�. Veja s� se n�o v�o.</p><p>Perrin sentiu Faile ficando tensa e mais do que depressa p�s uma das m�os em seu bra�o, ao perceber que a mulher estava puxando uma faca. O que ela pensava que estava fazendo? Cenn era um velho imbecil e irasc�vel, mas n�o havia motivo para facas. Faile sacudiu a cabe�a, exasperada, mas pelo menos deixou a situa��o se desenrolar.</p><p>��J� chega, Cenn���retrucou Marin, r�spida.���Guarde o que viu para si mesmo. Ou ser� que come�ou a correr para os Mantos-brancos com hist�rias, feito Hari e seu irm�o, Darl? Tenho as minhas suspeitas sobre por que os Mantos-brancos vieram revirar os livros de Bran. Levaram seis com eles e passaram um serm�o em Bran sobre blasf�mia debaixo do nosso pr�prio teto. Blasf�mia, � inacredit�vel! E tudo porque n�o concordaram com o que estava em um dos livros. Voc� tem sorte de eu n�o mand�-lo repor os que foram levados. Os Mantos-brancos cavoucaram a estalagem inteira feito doninhas. Estavam procurando mais <emphasis>textos blasfemantes</emphasis>, pelo que disseram, como se algu�m fosse esconder um livro. Reviraram todos os colch�es das camas e bagun�aram meus arm�rios de len��is. E tem � sorte de eu n�o arrastar voc� pela orelha para colocar tudo de volta no lugar.</p><p>Cenn se encolhia um pouco mais a cada frase da mulher, at� dar a impress�o de que tentava puxar os ombros ossudos por cima da cabe�a.</p><p>��Eu n�o contei nada a eles, Marin���protestou.���S� porque um homem menciona� quer dizer, eu s� disse� por acaso, s� assim, de passagem����Ele estremeceu, ainda evitando o olhar da mulher, mas recobrando um pouco dos modos de antes.���Pretendo levar isso ao Conselho, Marin. Estou falando desse a�.���Ele apontou um dedo torto para Perrin.���Enquanto ele estiver por aqui, estamos todos correndo perigo. Se os Filhos descobrirem que voc�s est�o dando abrigo a ele, podem culpar todos n�s. A� n�o vai bastar revirar arm�rios.</p><p>��Isso � assunto do C�rculo das Mulheres.���Marin ajeitou o xale em volta dos ombros e virou-se para encarar o telhador. O homem era um pouco mais alto do que ela, mas o s�bito ar de grave formalidade deu vantagem � mulher. Ele tartamudeou, mas Marin atropelou suas tentativas de emitir alguma palavra.���� assunto do C�rculo, Cenn Buie. Se pensa que n�o, ou se ousar pensar em me chamar de mentirosa, v� segurando essa sua l�ngua. Se soprar qualquer palavra dos assuntos do C�rculo das Mulheres, seja para quem for, incluindo o Conselho da Aldeia�</p><p>��O C�rculo n�o tem o direito de interferir nos assuntos do Conselho!���gritou Cenn.</p><p>Marin n�o o deixou falar.</p><p>��� E veja l� se sua mulher n�o vai deixar voc� dormindo no celeiro. E comendo as sobras das vacas leiteiras. Acha que o Conselho tem prioridade sobre o C�rculo? Vou mandar Daise Congar persuadir voc� do contr�rio, se � isso que est� querendo.</p><p>Cenn se encolheu, e com raz�o. Se Daise Congar era a Sabedoria, a mulher provavelmente enfiaria misturas amargas pela goela dele todos os dias pelo pr�ximo ano, e Cenn era franzino demais para impedi-la. Alsbet Luhhan era a �nica mulher em Campo de Emond maior que Daise, que tinha inclina��o a ser perversa e um g�nio dif�cil. Perrin n�o conseguia imagin�-la como Sabedoria. Nynaeve decerto teria um ataque quando descobrisse quem a substitu�ra. A mulher sempre acreditara que era a �nica que agia com bom senso.</p><p>��N�o tem motivo para grosseria, Marin���murmurou Cenn, botando panos quentes.���Se quiser que eu fique quieto, eu fico. Mas, com ou sem C�rculo das Mulheres, voc� est� correndo o risco de que os Filhos destruam todos n�s.</p><p>Marin apenas ergueu as sobrancelhas, e, depois de um instante, Cenn foi embora, ainda resmungando entre dentes.</p><p>��Muito bem���disse Faile, quando Cenn dobrou a curva da estalagem e desapareceu.���Acho que preciso fazer umas aulas com a senhora. Quando lido com Perrin, n�o tenho nem a metade do talento que a senhora tem com Mestre al�Vere e aquele sujeito.</p><p>Ela sorriu para Perrin, mostrando que estava brincando. Pelo menos, ele esperou que fosse isso.</p><p>��Voc� precisa saber quando lev�-los na r�dea curta���respondeu a mulher mais velha, absorta���e quando n�o h� nada a fazer sen�o deix�-los livres. Deixar que fa�am o que querem quando a coisa n�o tem import�ncia torna mais f�cil control�-los quando tem.���Ela franziu a testa na dire��o de Cenn, sem prestar muita aten��o ao que estava dizendo, exceto talvez quando acrescentou:���E alguns deveriam ser amarrados a uma baia e largados por l�.</p><p>Perrin logo se meteu na conversa. Faile n�o estava precisando de conselhos desse tipo.</p><p>��A senhora acha que ele vai segurar a l�ngua, Senhora al�Vere?</p><p>A mulher respondeu, hesitante:</p><p>��Acredito que sim. Cenn � meio irritante desde que nasceu, e a coisa s� piora com a idade, mas ele n�o � como Hari Coplin e seu bando.</p><p>Ela n�o parecia ter certeza do que dissera.</p><p>��Seria melhor irmos logo���disse Perrin.</p><p>Ningu�m discutiu.</p><p>O sol estava mais alto do que ele esperava, j� passado da altura do meio-dia, o que significava que a maioria do povo j� estaria em casa para comer. Os poucos ainda na rua, na maioria garotos cuidando de ovelhas ou vacas, estavam ocupados comendo o que haviam trazido em embrulhos de pano, muito absortos na pr�pria comida e muito longe das trilhas das carro�as para prestar aten��o em quem estivesse passando. Ainda assim, Loial foi alvo de alguns olhares, apesar do capuz que escondia seu rosto. Mesmo em cima de Galope, Perrin batia abaixo do peito do Ogier, na imensa montaria. Para quem os via a dist�ncia, o grupo deveria parecer composto de um adulto com duas crian�as, todos em cima de p�neis, conduzindo p�neis de carga, o que sem d�vida n�o era uma vis�o corriqueira, mas Perrin esperou que o povo pensasse que n�o passavam disso. O falat�rio atrairia aten��o. Precisava evit�-la at� libertar a Senhora Luhhan e os outros. Se pelo menos Cenn se mantivesse quieto. Perrin tamb�m manteve o capuz do manto levantado. Aquilo era mais uma coisa que poderia atrair falat�rio, mas n�o tanto quanto se algu�m notasse sua barba e percebesse que ele n�o era uma crian�a. Pelo menos o dia n�o estava quente demais. Depois de Tear, o clima quase parecia de primavera, e n�o de ver�o.</p><p>Perrin n�o teve problemas para encontrar o carvalho rachado, as duas metades pendendo uma para cada lado feito uma enorme tesoura, com o lado de dentro preto e duro como ferro, e o ch�o limpo sob os enormes galhos que se espalhavam. Cruzar a aldeia era um caminho muito mais curto do que dar a volta, por isso a Senhora al�Vere j� estava aguardando, remexendo o xale, um tantinho impaciente. Os Aiel tamb�m estavam l�, acocorados no ch�o adubado com folhas de carvalho velhas e cascas de noz mastigadas pelos esquilos. Gaul mantinha-se afastado das duas mulheres. As Donzelas e o C�o de Pedra se observavam quase com tanta aten��o quanto olhavam a floresta ao redor. Perrin n�o teve d�vidas de que os Aiel tinham dado um jeito de chegar ali sem serem vistos. Desejou ter a mesma habilidade. Era capaz de avan�ar furtivamente nas florestas, mas para os Aiel parecia n�o fazer diferen�a se era floresta, campo ou cidade. Quando n�o queriam ser vistos, encontravam uma forma.</p><p>A Senhora al�Vere insistiu para que percorressem o restante do caminho a p�, alegando que era muito cheio de vegeta��o para cavalgar. Perrin n�o concordou, mas desceu da montaria mesmo assim. Sem d�vida n�o seria confort�vel conduzir o pessoal a cavalo estando a p�. De qualquer modo, sua cabe�a estava nos v�rios planos. Precisava dar uma olhada no acampamento dos Mantos-brancos na Colina da Vig�lia antes de decidir como resgataria a Senhora Luhhan e os outros. E onde Tam e Abell estariam escondidos? Nem Bran e nem a Senhora al�Vere tinham dito. Talvez n�o soubessem. Se Tam e Abell ainda n�o tinham libertado os prisioneiros, era porque n�o era tarefa f�cil. Mas precisava dar um jeito de fazer isso. Depois poderia voltar a aten��o aos Trollocs.</p><p>Fazia anos que ningu�m da aldeia seguia por aquelas bandas, e a trilha desaparecera, mas as �rvores altas mantinham a vegeta��o rasteira. Os Aiel deslizavam furtivos perto dos outros, cedendo � insist�ncia da Senhora al�Vere de que todos permanecessem juntos. Loial murmurava em aprova��o ao ver os grandes carvalhos ou abetos e folhas-de-couro especialmente altas. Volta e meia ouviam o cantarolar de um tordo ou um pisco-de-peito-ruivo no alto das �rvores, e Perrin chegou a sentir o cheiro de uma raposa que os observava passar.</p><p>De s�bito, sentiu um odor humano que n�o estava ali instantes antes e ouviu um fraco farfalhar. Os Aiel ficaram tensos e se agacharam, com as lan�as a postos. Perrin levou a m�o � aljava.</p><p>��Fiquem calmos���disse a Senhora al�Vere, com urg�ncia, fazendo gestos para que as armas fossem baixadas.���Por favor, fiquem calmos.</p><p>De repente, surgiram dois homens diante do grupo. Um alto, moreno e magro � esquerda, outro baixo, troncudo e grisalho � direita. Os dois traziam arcos com flechas encaixadas, prontos para erguer e atirar, as aljavas de contrapeso para as espadas na cintura. Ambos usavam mantos que pareciam esvanecer nas folhagens ao redor.</p><p>��Guardi�es!���exclamou Perrin.���Por que n�o contou que havia Aes Sedai por aqui, Senhora al�Vere? Mestre al�Vere tamb�m n�o as mencionou. Por qu�?</p><p>��Porque ele n�o sabe���respondeu a mulher, apressada.���N�o menti quando disse que esse era um assunto do C�rculo das Mulheres.���Ela voltou a aten��o aos dois Guardi�es, que ainda n�o haviam relaxado a postura.���Tomas, Ihvon, voc�s me conhecem. Baixem esses arcos. Sabem que eu n�o traria aqui algu�m que quisesse fazer mal.</p><p>��Um Ogier���disse o homem grisalho���tr�s Aiel, um homem de olhos amarelos, sem d�vida o que os Mantos-brancos est�o procurando, e uma jovem feroz com uma faca.���Perrin olhou para Faile, que portava uma faca pronta para atirar, mas dessa vez ele concordava. Aqueles homens podiam ser Guardi�es, mas ainda n�o davam sinais de que iriam baixar os arcos, e os rostos poderiam ter sido esculpidos em bigornas. Os Aiel se mostravam prontos para come�ar a dan�ar as lan�as, sem nem esperar para subir os v�us.���Um grupo estranho, Senhora al�Vere���prosseguiu o Guardi�o mais velho.���Vejamos. Ihvon?</p><p>O homem mais magro assentiu e desapareceu na vegeta��o baixa. Perrin mal ouviu o sujeito caminhar. Os Guardi�es se deslocavam silenciosos como a pr�pria morte, quando queriam.</p><p>��O que a senhora quer dizer com �assunto do C�rculo das Mulheres�? Sei que os Mantos-brancos causariam problemas se soubessem sobre as Aes Sedai, por isso a senhora n�o disse nada a Hari Coplin, mas por que guardar segredo do Prefeito? E de n�s?</p><p>��Porque foi o combinado���respondeu a Senhora al�Vere, irritada. A irrita��o parecia dirigida igualmente a Perrin e ao Guardi�o que ainda os vigiava (n�o havia palavra melhor para descrever o que o homem fazia) e um pouco ainda sobrava para as Aes Sedai.���Eles estavam em Colina da Vig�lia quando os Mantos-brancos chegaram. Ningu�m por l� sabia quem eram, exceto o C�rculo local, que os mandou at� aqui, para serem escondidos por n�s. De todos, Perrin. A melhor forma de manter um segredo � revel�-lo a poucos. Que a Luz me proteja, conhe�o duas mulheres que deixaram de compartilhar a cama com os maridos por medo de falarem durante o sono. Concordamos em manter isso em segredo.</p><p>��E por que mudou de opini�o?���perguntou o Guardi�o de cabelos grisalhos, com a voz severa.</p><p>��Por raz�es que considero boas e suficientes, Tomas.���Pela forma como Marin mexeu no xale, Perrin suspeitou que a mulher esperasse que o C�rculo e as Aes Sedai tamb�m pensassem assim. Corria � boca pequena que o C�rculo conseguia ser ainda mais severo com suas integrantes do que com o restante da aldeia.���Que lugar melhor para esconder voc�, Perrin, do que com as Aes Sedai? Est� claro que voc� n�o tem medo delas, n�o depois de ter sa�do daqui com uma. E� Bem, voc� logo vai descobrir. S� precisa confiar em mim.</p><p>��Existem Aes Sedai e Aes Sedai���retrucou Perrin.</p><p>Mas as que ele considerava piores, as da Ajah Vermelha, n�o formavam elos com Guardi�es. A Ajah Vermelha n�o gostava muito de homens. Esse Tomas tinha olhos escuros e resolutos. O grupo poderia atac�-lo ou simplesmente ir embora, mas o Guardi�o sem d�vida cravaria uma flecha no primeiro que fizesse algo que ele desaprovasse, e Perrin apostava que o homem tinha mais flechas � m�o para encaixar no arco sem dificuldade. Os Aiel pareciam pensar o mesmo: estavam prontos para agir, mas tamb�m davam a impress�o de que poderiam permanecer parados ali at� o sol congelar. Perrin deu um tapinha no ombro de Faile.</p><p>��Vai ficar tudo bem.</p><p>��� claro que vai���respondeu a mulher, com um sorriso. Ela guardara a faca.���Se a Senhora al�Vere diz, confio nela.</p><p>Perrin torceu para que Faile tivesse raz�o. N�o confiava em tanta gente quanto antes. E muito menos nas Aes Sedai. Talvez nem mesmo em Marin al�Vere. Mas quem sabe essas Aes Sedai n�o o ajudariam a derrotar os Trollocs? Confiaria em qualquer um que fizesse isso. Mas at� onde poderia confiar naquelas mulheres que lidavam com o Poder? Elas tinham suas pr�prias raz�es para fazer o que faziam. Dois Rios era a casa dele, mas, para elas, podia ser apenas uma pedra no tabuleiro. Mas Faile e Marin al�Vere pareciam confiar, e os Aiel aguardavam. Ele n�o parecia ter muitas op��es.</p></section><section><title><p>31</p><p><image l:href="#16"/></p><p>Garantias</p></title><p>Ihvon retornou em poucos minutos.</p><p>��Pode seguir em frente, Senhora al�Vere���foi tudo o que disse antes de desaparecer outra vez com Tomas nos arbustos, sem fazer farfalhar sequer uma folha.</p><p>��Eles s�o muito bons���murmurou Gaul, ainda olhando em volta, desconfiado.</p><p>��At� uma crian�a poderia se esconder a����disse Chiad, batendo em um ramo de frutinhas vermelhas. Mesmo assim, a mulher observava a vegeta��o rasteira com a mesma aten��o de Gaul.</p><p>Nenhum dos Aiel parecia ansioso para prosseguir. N�o estavam exatamente relutantes, e com certeza n�o se sentiam amedrontados, mas n�o pareciam ansiosos. Perrin esperava um dia descobrir o que os Aiel sentiam em rela��o �s Aes Sedai. Um dia. Ele pr�prio n�o se sentia particularmente entusiasmado, naquele momento.</p><p>��Vamos l� encontrar essas suas Aes Sedai���falou para a Senhora al�Vere, em um tom �spero.</p><p>O antigo hospital estava ainda mais destru�do do que ele se lembrava, um �nico andar torto feito um b�bado, com metade dos quartos a c�u aberto e um tupelo-negro de quarenta p�s despontando de dentro de um deles. A floresta era densa em volta das ru�nas. Uma grossa rede de trepadeiras e arbustos espinhentos serpenteava pelas paredes, cobrindo de verde o que restava do sap� do teto, e Perrin considerou que talvez fosse aquilo que sustentasse a constru��o. Mas a porta da frente estava intacta. Dava para sentir cheiro de cavalos e um aroma suave de feij�es e presunto, mas, estranhamente, n�o havia odor de lenha queimada.</p><p>Eles amarraram os animais em galhos baixos e seguiram a Senhora al�Vere para dentro, onde as janelas encobertas pelas trepadeiras deixavam passar apenas uma luz fraca. O sal�o da frente era grande e estava sem mob�lia, com sujeira nos cantos e algumas teias de aranha que haviam escapado de uma limpeza que claramente fora feita �s pressas. Havia quatro rolos de cobertor jogados no ch�o, com selas, alforjes e trouxas muito bem amarradas apoiados na parede, e um pequeno caldeir�o no fog�o de pedra da sala exalava aromas de cozinha, apesar da aus�ncia de fogo. Um caldeir�o ainda menor parecia estar cheio de �gua para ch�, j� quase fervente. Duas Aes Sedai os aguardavam. Marin al�Vere curvou-se em uma mesura apressada e deu in�cio a uma cascata ansiosa de apresenta��es e explica��es.</p><p>Perrin apoiou o queixo no arco. Reconhecia as Aes Sedai. Uma delas era Verin Mathwin, roli�a e de rosto quadrado, com mechas grisalhas nos cabelos castanhos, apesar das fei��es suaves e et�reas de Aes Sedai. Ela era da Ajah Marrom, e, como todas as Marrons, metade do tempo parecia perdida na busca por conhecimento, fosse novo ou antigo e distante. �s vezes, por�m, seus olhos escuros tra�am aquela vaga express�o sonhadora. Como naquele momento, em que ela os cravava nele, por tr�s de Marin, feito dois pregos. A mulher era uma das duas Aes Sedai al�m de Moiraine que com certeza sabiam sobre Rand, e Perrin suspeitava que a mulher soubesse mais a respeito dele mesmo do que deixava transparecer. Os olhos da Aes Sedai assumiram outra vez aquela leve express�o vaga enquanto ela escutava Marin, mas no instante anterior haviam julgado a presen�a de Perrin ali, pesando-a e avaliando-a em rela��o a seus pr�prios planos. Ele precisaria ser muito cauteloso perto de Verin.</p><p>N�o conhecia a outra, uma mulher escura e esguia, usando um vestido de montaria de seda de um tom de verde profundo que contrastava bastante com o marrom simples de Verin, que tinha manchas de tinta nos punhos. Vira aquela Aes Sedai apenas uma vez. Alanna Mosvani era da Ajah Verde, se n�o lhe falhava a mem�ria. Era uma bela mulher, com longos cabelos negros e olhos escuros e penetrantes. Aqueles olhos tamb�m o perscrutavam enquanto a dona escutava Marin. Lembrou-se de algo que Egwene dissera. <emphasis>Algumas Aes Sedai que n�o deveriam saber sobre Rand demonstram interesse demais por ele. Elaida, por exemplo, e Alanna Mosvani. Acho que n�o confio em nenhuma das duas.</emphasis> Talvez fosse melhor guiar-se por Egwene at� descobrir algo diferente.</p><p>Marin chamou sua aten��o ao dizer, ainda apreensiva:</p><p>��Voc� estava perguntando sobre ele, Verin Sedai. Perrin. Perguntou sobre os tr�s rapazes, mas Perrin estava entre eles. E na hora pareceu que a maneira mais f�cil de evitar que ele acabasse morto era traz�-lo at� voc�. N�o havia tempo de perguntar. Diga que compreen�</p><p>��Est� tudo bem, Senhora al�Vere���interrompeu Verin, em um tom tranquilizador.���A senhora tomou a decis�o certa. Perrin est� em boas m�os. Al�m disso, vou adorar a oportunidade de aprender mais sobre os Aiel, e � sempre um prazer conversar com um Ogier. Precisarei tirar umas d�vidas com o senhor, Loial. Descobri umas coisas fascinantes em livros Ogier.</p><p>Loial abriu um sorriso, pois qualquer coisa que tivesse a ver com livros o agradava. Gaul, por outro lado, trocava olhares cautelosos com Chiad.</p><p>��N�o tem problema, desde que voc� n�o fa�a isso de novo���interveio Alanna, com firmeza.���A n�o ser que� voc� est� sozinho?���perguntou a Perrin, em um tom que exigia uma resposta imediata.���Os outros dois tamb�m voltaram?</p><p>��Por que voc�s est�o aqui?���inquiriu ele, em resposta.</p><p>��Perrin!���exclamou a Senhora al�Vere, com irrita��o.���Olhe os modos! Voc� pode ter adquirido uns h�bitos grosseiros a� pelo mundo, mas vai ter que deixar tudo de lado, agora que voltou para casa.</p><p>��N�o se preocupe���interveio Verin.���Perrin e eu somos velhos amigos. Eu o compreendo.</p><p>Por um instante, os olhos escuros da Aes Sedai cintilaram para o rapaz.</p><p>��Vamos cuidar dele.���As palavras frias de Alanna pareciam abertas � interpreta��o.</p><p>Verin sorriu e deu um tapinha no ombro de Marin.</p><p>��� melhor a senhora ir voltando para a aldeia. N�o queremos que ningu�m fique imaginando o motivo de seu passeio pela floresta.</p><p>A Senhora al�Vere assentiu. Parando por um instante ao lado de Perrin, ela p�s uma das m�os em seu ombro e disse, gentilmente:</p><p>��Voc� sabe que tem a minha compaix�o. N�o se esque�a de que morrer n�o vai ajudar em nada. Fa�a o que as Aes Sedai mandarem.</p><p>Perrin murmurou algo evasivo em resposta, mas a mulher pareceu satisfeita.</p><p>Depois que a Senhora al�Vere foi embora, Verin disse:</p><p>��Voc� tamb�m tem a nossa compaix�o, Perrin. Ter�amos feito alguma coisa, se pud�ssemos.</p><p>Ele n�o queria pensar na fam�lia, naquele momento.</p><p>��Voc� ainda n�o respondeu minha pergunta.</p><p>��Perrin!���Faile conseguiu reproduzir o tom da Senhora al�Vere quase � perfei��o, mas ele n�o deu aten��o.</p><p>��Por que est�o aqui? Est� parecendo coincid�ncia demais. Mantos-brancos, Trollocs e voc�s duas aparecendo aqui na mesma hora.</p><p>��N�o � coincid�ncia���respondeu Verin.���Ah, a �gua para o ch� est� pronta.���A �gua parou de ferver quando ela jogou um punhado de folhas no bule, indicando a Faile o lugar para apanhar canecas de metal, em uma das trouxas encostadas na parede. Alanna, de bra�os cruzados, n�o tirava os olhos de Perrin. Seu olhar era quente, em compara��o com a frieza de seu rosto.���A cada ano���prosseguiu Verin���encontramos menos garotas capazes de aprender a canalizar. Sheriam acredita que talvez tenhamos passado os �ltimos tr�s mil anos reduzindo a incid�ncia dessa habilidade na humanidade ao amansarmos todos os homens capazes de canalizar que encontr�vamos. A prova disso, segundo ela, � que agora encontramos pouqu�ssimos homens assim. Ora, at� uns trezentos anos atr�s havia registro de dois ou tr�s por ano, e h� quinhentos anos�</p><p>Alanna pigarreou.</p><p>��E o que mais podemos fazer, Verin? Deixar que eles enlouque�am? Seguir as ideias loucas das Brancas?</p><p>��Creio que n�o���respondeu Verin, com a voz calma.���Mesmo se pud�ssemos encontrar mulheres dispostas a conceber filhos de homens amansados, n�o h� garantia de que as crian�as tamb�m seriam capazes de canalizar, ou que seriam meninas. O que eu sugeri foi que, se quisessem aumentar os n�meros, as Aes Sedai � que deveriam come�ar a ter filhos. E que as que apresentaram as ideias deviam come�ar dando o exemplo. Alviarin n�o ficou contente.</p><p>��E nem poderia���respondeu Alanna, rindo. O s�bito brilho de divers�o, que fez o olhar escuro e impetuoso se dissipar por um instante, foi surpreendente.���Queria ter visto a cara dela.</p><p>��A express�o que ela fez foi� interessante���respondeu a irm� Marrom, contemplativa.���Fique calmo, Perrin. J� vou dar o resto da resposta. Ch�?</p><p>Tentando acalmar a express�o irritada, ele acabou sentado no ch�o, com o arco ao lado e uma caneca de metal cheia de ch� forte na m�o. Todos estavam sentados em c�rculo no centro do sal�o. Alanna retomou a explica��o sobre a presen�a delas, talvez para evitar a tend�ncia da outra Aes Sedai em se desviar do assunto.</p><p>��Aqui em Dois Rios, um lugar que suspeito que n�o recebia a visita de uma Aes Sedai h� mil anos, Moiraine encontrou duas mulheres n�o apenas capazes de aprender a canalizar, mas nascidas com a habilidade. Ela tamb�m ouviu falar de uma outra, que morreu por n�o ter conseguido aprender sozinha.</p><p>��Isso sem falar nos tr�s <emphasis>ta�veren</emphasis>���murmurou Verin, tomando o ch�.</p><p>��Voc� faz alguma ideia���prosseguiu Alanna���de quantas cidades e aldeias normalmente temos que visitar para encontrar tr�s meninas nascidas com a habilidade? O que me espanta � que tenhamos levado tanto tempo para voltar aqui e procurar mais. O sangue antigo � muito forte em Dois Rios. Chegamos em Colina da Vig�lia apenas uma semana antes de os Filhos aparecerem e tomamos o cuidado de n�o revelar quem �ramos para ningu�m fora do C�rculo das Mulheres, mas mesmo assim encontramos quatro garotas que podem ser treinadas, al�m de uma crian�a que acho que nasceu com a habilidade.</p><p>��� dif�cil ter certeza���acrescentou Verin���pois a menina s� tem doze anos. Nenhuma delas tem nem de longe o potencial de Egwene ou de Nynaeve, mas ainda assim o n�mero n�o � menos que impressionante. E pode ser que tenha mais duas ou tr�s nos arredores de Colina da Vig�lia. Ainda n�o tivemos a oportunidade de examinar as garotas aqui, ou mais para o sul. A Barca do Taren foi uma decep��o, devo dizer. Muitos cruzamentos de linhagens sangu�neas com o exterior, acho.</p><p>Perrin teve de admitir que fazia sentido. Mas aquilo n�o respondia todas as perguntas, nem sanava todas as d�vidas. Ele mudou de posi��o, esticando a perna. A ferida da lan�a em sua coxa ainda do�a.</p><p>��N�o entendo por que voc�s est�o escondidas. Tem Mantos-brancos prendendo gente inocente, e voc�s ficam aqui, sentadas. Trollocs devastam Dois Rios de cima a baixo, pelo que parece, e voc�s ficam aqui, sentadas.���Loial resmungou algo entre dentes, um murm�rio. Perrin pescou �irritar Aes Sedai� e �ninho de vespas�, mas continuou a martelar suas ideias.���Por que n�o est�o fazendo nada? Voc�s s�o Aes Sedai! Que me queime, por que n�o est�o fazendo nada?</p><p>��Perrin!���sibilou Faile, contrariada, antes de abrir um sorriso escusat�rio para Verin e Alanna.���Por favor, perdoem Perrin. Moiraine Sedai o mimou muito. Ela � um pouco tranquila demais, eu acho, e o deixa fazer o que quer. Por favor, n�o se irritem com ele. Ele vai melhorar.���Ela cravou nele um olhar penetrante, indicando que o recado era tanto para ele quanto para as Aes Sedai, talvez at� mais. Perrin devolveu o olhar de cara fechada. Faile n�o tinha o direito de interferir.</p><p>��Tranquila demais?���indagou Verin, piscando.���Moiraine? Nunca percebi.</p><p>Alanna fez um gesto para que Faile se calasse.</p><p>��Naturalmente, voc� n�o entende���retrucou a Aes Sedai, em um tom severo.���N�o entende as restri��es sob as quais trabalhamos. Os Tr�s Juramentos n�o s�o apenas palavras. Eu trouxe dois Guardi�es para este lugar.���As Verdes eram a �nica Ajah na qual uma mulher podia estabelecer elos com mais de um Guardi�o. Perrin j� ouvira de umas poucas que tinham tr�s ou quatro.���Os Filhos pegaram Owein cruzando um campo aberto. Senti todas as flechas que o acertaram, at� ele morrer. Eu o senti morrer. Se estivesse l�, eu poderia ter defendido a n�s dois com o Poder, mas n�o posso usar o Poder para vingan�a. Os Juramentos n�o permitem. Os Filhos s�o quase t�o vis quanto homens conseguem ser vis. S�o quase Amigos das Trevas, mas n�o s�o exatamente Amigos das Trevas, e � por essa raz�o que est�o protegidos do Poder, exceto em defesa pr�pria. Por mais que a gente tente aumentar um pouco a verdade, n�o d� para aumentar demais.</p><p>��Quanto aos Trollocs���acrescentou Verin���destru�mos alguns deles, e tamb�m dois Myrddraal, mas existem limites. Os Meios-homens conseguem sentir a canaliza��o, de certo modo. Se conseguirmos atrair cem Trollocs para n�s, h� pouco que podemos fazer al�m de correr.</p><p>Perrin co�ou a barba. Ele deveria ter esperado isso, deveria saber. J� tinha visto Moiraine enfrentar Trollocs, e fazia alguma ideia do que ela era capaz. Percebeu que estivera pensando em como Rand matara todos os Trollocs na Pedra, s� que Rand era mais forte do que qualquer uma daquelas Aes Sedai, talvez at� mais do que as duas juntas. Bem, com a ajuda delas ou n�o, ele ainda pretendia acabar com cada Trolloc em Dois Rios. Depois de resgatar a fam�lia de Mat e os Luhhan. Se pensasse no assunto com bastante cuidado, encontraria um jeito. A dor na coxa estava terr�vel.</p><p>��Voc� est� ferido.���Alanna apoiou a caneca no ch�o, ajoelhou-se diante dele e tomou sua cabe�a nas m�os. Um arrepio percorreu seu corpo.���Isso. Estou vendo. Voc� n�o conseguiu esse corte se barbeando, pelo que parece.</p><p>��Foram os Trollocs, Aes Sedai���respondeu Bain.���Quando sa�mos dos Caminhos, nas montanhas.���Chiad tocou seu bra�o, e Bain parou.</p><p>��Eu tranquei o Portal dos Caminhos���acrescentou Loial, mais do que depressa.���Ningu�m vai us�-lo at� que seja aberto do lado de c�.</p><p>��Imaginei que eles estivessem vindo por l᠗�murmurou Verin, meio que para si mesma.���Bem que Moiraine sugeriu que estivessem usando os Caminhos. Mais cedo ou mais tarde, isso vai nos trazer problemas de verdade.</p><p>Perrin se perguntou o que ela achava que a situa��o atual era.</p><p>��Os Caminhos���comentou Alanna, ainda segurando a cabe�a dele.���<emphasis>Ta�veren</emphasis>! Jovens her�is!���Ela fez as palavras soarem ao mesmo tempo como uma aprova��o e um xingamento.</p><p>��Eu n�o sou her�i���retrucou Perrin, impass�vel.���Os Caminhos eram o meio mais r�pido para chegar aqui. S� isso.</p><p>A irm� Verde prosseguiu, como se ele n�o tivesse dito nada.</p><p>��Eu nunca vou entender por que o Trono de Amyrlin deixou voc�s tr�s irem embora. Elaida est� tendo ataques por causa dos tr�s, e n�o � a �nica, s� a mais veemente. Com os selos se enfraquecendo e a �ltima Batalha chegando, n�o precisamos de tr�s <emphasis>ta�veren</emphasis> correndo � solta por a�. Eu teria amarrado uma corda em cada um e at� mesmo estabelecido um elo, se fosse preciso.���Perrin tentou se afastar, mas ela apertou ainda mais as m�os e sorriu.���Ainda n�o abandonei os costumes a ponto de estabelecer um elo com um homem contra sua vontade. Ainda n�o.���Ele n�o sabia ao certo at� que ponto aquilo era s�rio, pois n�o conseguia enxergar o sorriso dela. Alanna tocou o corte meio cicatrizado em seu rosto.���J� tem muito tempo que esse aqui foi feito. At� a Cura vai deixar cicatriz.</p><p>��Eu n�o preciso ficar bonito���murmurou em resposta. S� precisava ficar bem para fazer o que tinha de fazer.</p><p>Faile soltou uma risada alta.</p><p>��Quem foi que disse isso?</p><p>Foi uma surpresa v�-la trocando sorrisos com Alanna.</p><p>Perrin franziu o cenho e ficou se perguntando se as mulheres estavam ca�oando dele, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a Cura o atingiu como um raio congelante. Tudo o que p�de fazer foi arquejar. Os poucos instantes at� Alanna solt�-lo pareceram intermin�veis.</p><p>Quando recuperou o f�lego, a irm� Verde segurava a cabe�a com cabelos de fogo de Bain, Verin cuidava de Gaul, e Chiad testava o bra�o esquerdo, girando-o para frente e para tr�s com uma express�o satisfeita.</p><p>Faile tomou o lugar de Alanna ao lado de Perrin e passou o dedo em seu rosto, ao longo da cicatriz abaixo do olho.</p><p>��Uma marquinha charmosa���disse ela, com um leve sorriso.</p><p>��O qu�?</p><p>��Ah, s� uma coisa que as mulheres domanesas fazem com maquiagem. Foi s� um coment�rio.</p><p>Apesar do sorriso dela, ou talvez por causa dele, Perrin fechou a cara, desconfiado. Faile <emphasis>estava</emphasis> ca�oando, mas ele n�o entendia bem como.</p><p>Ihvon chegou, sussurrou algo no ouvido de Alanna e desapareceu assim que ela sussurrou em resposta. O homem quase n�o fez barulho, mesmo no ch�o de madeira. Poucos instantes depois, o ro�ar de botas nos degraus anunciou novas chegadas.</p><p>Perrin se levantou de um salto quando Tam al�Thor e Abell Cauthon surgiram ao p� da porta, com os arcos nas m�os, as roupas amarrotadas e as barbas grisalhas e por fazer t�picas de homens que andaram dormindo mal. Os dois tinham estado ca�ando; quatro coelhos pendiam do cinto de Tam e tr�s do de Abel. Era �bvio que j� esperavam encontrar as Aes Sedai e alguns visitantes, mas cravaram olhos estupefatos em Loial, que tinha a altura de uma pessoa e meia, al�m de orelhas peludas e um nariz enorme que quase parecia um focinho. Um lampejo de reconhecimento perpassou o rosto impass�vel e enrugado de Tam ao ver os Aiel.</p><p>No entanto, o olhar contemplativo do pai de Rand se deteve neles por apenas um instante antes de pousar em Perrin, com uma express�o de surpresa quase t�o grande quanto a que fizera ao ver Loial. Tam era um homem robusto e de peitoral largo e, apesar do cabelo quase todo grisalho, parecia algu�m que s� seria derrubado por um terremoto e que precisaria de muito mais do que isso para ficar at�nito.</p><p>��Perrin, meu rapaz! Rand est� com voc�?</p><p>��E Mat?���acrescentou Abell, ansioso.</p><p>O homem parecia um Mat mais velho e grisalho, por�m de olhos mais s�rios. N�o estava muito enrijecido pela idade e se movia com agilidade.</p><p>��Eles est�o bem���respondeu Perrin.���Est�o em Tear.���Ele captou a express�o de Verin com o canto do olho. A mulher sabia muito bem o que Tear significava para Rand. Alanna parecia mal prestar aten��o.���Eles teriam vindo comigo se a gente soubesse que as coisas estavam t�o ruins assim.���Era verdade, Perrin tinha certeza.���Mat passa o tempo beijando as mo�as e jogando dados, que ganha sempre. Rand� bem, da �ltima vez que o vi, ele estava usando um casaco chique e tinha uma loira bonita nos bra�os.</p><p>��Isso � a cara do meu Mat���comentou Abell, com uma risadinha.</p><p>��Talvez tenha sido melhor eles n�o terem vindo���acrescentou Tam, mais devagar���por causa dos Trollocs. E dos Mantos-brancos����Ele deu de ombros.���Voc�s est�o sabendo que os Trollocs voltaram?���Perrin assentiu.���Aquela Aes Sedai estava certa? Moiraine. Eles estavam mesmo atr�s de voc�s, naquela Noite Invernal? Chegaram a descobrir por qu�?</p><p>A irm� Marrom lan�ou a Perrin um olhar de advert�ncia. Alanna parecia absorta em revirar os pr�prios alforjes, mas o rapaz achava que agora ela estava escutando. No entanto, n�o foi aquilo que o fez hesitar. Simplesmente n�o havia como dizer a Tam que o filho dele era capaz de canalizar, que Rand era o Drag�o Renascido. Como contar uma coisa dessas a um homem? Em vez disso, respondeu:</p><p>��O senhor vai ter que perguntar isso a Moiraine. As Aes Sedai n�o revelam nada al�m do necess�rio.</p><p>��Eu percebi���respondeu Tam, em um tom seco.</p><p>As duas Aes Sedai definitivamente estavam ouvindo, e n�o escondiam mais. Alanna arqueou uma sobrancelha g�lida para Tam, e Abell mudou de posi��o como se pensasse que Tam estava contando demais com a pr�pria sorte. Mas era preciso mais que um olhar para incomodar Tam.</p><p>��Podemos conversar l� fora?���perguntou Perrin aos dois homens.���Quero tomar um pouco de ar fresco.���Ele queria falar sem Aes Sedai bisbilhotando e observando, mas n�o podia dizer isso.</p><p>Tam e Abell concordaram, talvez t�o ansiosos quanto ele para fugir do escrut�nio de Verin e Alanna, mas antes de tudo havia a quest�o dos coelhos, que foram todos entregues a Alanna.</p><p>��Pretend�amos ficar com dois���comentou Abell���mas parece que voc�s t�m mais bocas para alimentar.</p><p>��N�o h� necessidade disso.���A irm� Verde soou como se j� tivesse dito essa mesma frase v�rias vezes.</p><p>��Gostamos de pagar pelo que recebemos���respondeu Tam, no mesmo tom.���As Aes Sedai fizeram a gentileza de aplicar um pouco de sua Cura em n�s���acrescentou para Perrin���e queremos acumular cr�dito para caso precisemos de novo.</p><p>Perrin assentiu. Entendia que algu�m n�o quisesse aceitar um presente de uma Aes Sedai. �Aes Sedai com uma oferta � isca na certa�, o antigo ditado lembrava muito bem. Ora, ele sabia que era verdade. Mas de fato n�o fazia muita diferen�a entre aceitar o presente ou pagar por ele, pois as Aes Sedai sempre davam um jeito de fisgar a pessoa. Verin o observava com um sorrisinho, como se soubesse o que ele estava pensando.</p><p>Quando os tr�s homens come�aram a se dirigir para fora, levando os arcos, Faile se levantou para ir atr�s. Perrin balan�ou a cabe�a, e ficou surpreso ao ver que ela se sentou de volta. Ficou se perguntando se a mo�a estava doente.</p><p>Depois de pararem para que Tam e Abell admirassem Galope e Andorinha, os tr�s caminharam at� um ponto sob as �rvores. O sol pendia para oeste, alongando as sombras. Os homens mais velhos fizeram algumas piadas sobre a barba de Perrin, mas n�o mencionaram os olhos. Por mais estranho que parecesse, a omiss�o n�o o incomodou. Ele tinha preocupa��es mais importantes do que algu�m estranhar seus olhos.</p><p>Respondendo � pergunta de Abell, se �aquela coisa� servia para coar sopa, ele esfregou a barba e disse, em um tom suave:</p><p>��Faile gosta.</p><p>��Aaah����respondeu Tam, com uma risadinha.���� a garota, n�o �? Parece bem en�rgica, rapaz. Vai fazer voc� passar noites em claro tentando distinguir o reto do torto.</p><p>��S� tem um jeito de lidar com esse tipo���comentou Abell, assentindo.���Deixe-a pensar que est� no comando. Assim, quando for uma quest�o importante e voc� discordar dela, a mo�a vai ficar t�o surpresa que, quando se recuperar do choque, vai ser tarde demais para come�ar a perturb�-lo para mudar de ideia.</p><p>Perrin achou aquilo muito parecido com o que a Senhora al�Vere dissera a Faile sobre como lidar com os homens. Ele se perguntou se Abell e Marin algum dia j� haviam comparado suas ideias. Era prov�vel que n�o. Talvez valesse a pena tentar com Faile. Mas a mulher parecia acabar sempre fazendo o que queria, de qualquer modo.</p><p>Olhou por cima do ombro. O hospital estava quase encoberto pelas �rvores. Eles com certeza estavam protegidos dos ouvidos das Aes Sedai. Escutou atentamente e respirou fundo. Um pica-pau martelou em algum lugar ao longe. Havia esquilos nos galhos frondosos acima, e uma raposa passara por ali com sua ca�a, um coelho, n�o fazia muito tempo. Al�m deles tr�s, n�o havia qualquer odor humano, nada que indicasse um Guardi�o escutando � espreita. Talvez Perrin estivesse sendo cauteloso demais, mas, com ou sem motivos, n�o podia deixar passar a coincid�ncia das duas Aes Sedai serem mulheres que ele j� conhecera, uma delas algu�m em quem Egwene n�o confiava, a outra, algu�m em quem <emphasis>ele</emphasis> n�o sabia ao certo se confiava.</p><p>��Voc�s ficam aqui?���perguntou.���Com Verin e Alanna?</p><p>��Quase nunca���respondeu Abell.���Como � que um homem conseguiria dormir sob o mesmo teto que uma Aes Sedai? Ou o que sobrou do teto.</p><p>��Achamos que esse seria um bom esconderijo���comentou Tam���mas elas chegaram primeiro. Acho que esses Guardi�es teriam matado n�s dois se Marin e algumas outras do C�rculo das Mulheres n�o estivessem aqui, quando chegamos.</p><p>Abell fez uma careta.</p><p>��Acho que o que os impediu foi as Aes Sedai terem descoberto quem �ramos. Quem eram nossos filhos, quer dizer. Elas demonstram interesse demais por voc�s, para o meu gosto.���Ele hesitou, passando o dedo pelo arco.���Aquela Alanna deixou escapar que voc�s s�o <emphasis>ta�veren</emphasis>. Todos os tr�s. Ouvi dizer que Aes Sedai n�o conseguem mentir.</p><p>��N�o vi nenhum sinal disso em mim���respondeu Perrin, em um tom amargo.���Nem em Mat.</p><p>Tam olhou para ele ao n�o ouvir men��o a Rand. Perrin precisava aprender a mentir melhor, se quisesse guardar os pr�prios segredos e os dos outros. Mas o homem disse apenas:</p><p>��Talvez voc�s s� n�o saibam o que procurar. Como foi que voc� passou a viajar com um Ogier e tr�s Aiel?</p><p>��O �ltimo mascate que vi disse que havia Aiel deste lado da Espinha do Mundo���explicou Abell���mas n�o acreditei. Ele contou que ouviu dizer que havia Aiel em Murandy, por incr�vel que pare�a, ou talvez em Altara. N�o tinha muita certeza de onde, exatamente, mas era bem longe do Deserto.</p><p>��Essas coisas n�o t�m nada a ver com ser <emphasis>ta�veren</emphasis>���respondeu Perrin.���Loial � um amigo que veio me ajudar. Gaul tamb�m � um amigo, acho. Bain e Chiad vieram com Faile, n�o comigo. � tudo meio complicado, mas simplesmente aconteceu. N�o tem nada a ver com essa hist�ria de <emphasis>ta�veren</emphasis>.</p><p>��Bom, seja qual for a raz�o���retrucou Abell���as Aes Sedai est�o interessadas em voc�s tr�s. Tam e eu viajamos at� Tar Valon, no ano passado, at� a Torre Branca, pois quer�amos descobrir onde voc�s estavam. Foi dif�cil fazer uma delas admitir que sabia seus nomes, mas ficou claro que as mulheres escondiam alguma coisa. A Curadora das Cr�nicas nos despachou em um barco rio abaixo com os bolsos cheios de dinheiro e as cabe�as cheias de garantias vazias antes mesmo de conseguirmos nos despedir. Eu n�o gosto da ideia de que a Torre possa estar usando Mat de alguma forma.</p><p>Perrin desejou poder dizer ao pai de Mat que nada daquilo estava acontecendo, mas n�o sabia ao certo se conseguiria contar tamanha mentira com a cara lavada. Moiraine n�o estava de olho em Mat porque gostava do sorriso dele, mas o rapaz estava t�o profundamente atrelado � Torre quanto o pr�prio Perrin, talvez at� mais. Os tr�s estavam amarrados, e a Torre movia os cord�is.</p><p>Um sil�ncio se abateu sobre eles, at� que Tam disse, baixinho:</p><p>��Rapaz, sobre a sua fam�lia. Tenho not�cias tristes.</p><p>��Eu sei���respondeu Perrin, mais do que depressa, e o sil�ncio se abateu outra vez, cada um a encarar as pr�prias botas. Era um sil�ncio necess�rio. Eles precisavam de alguns instantes para se afastar das emo��es dolorosas e do constrangimento de t�-las desveladas diante de todos.</p><p>Eles ouviram asas batendo, e Perrin olhou para cima e viu um grande corvo pousando em um carvalho a cinquenta passadss de dist�ncia, com os olhos negros e mi�dos perscrutando, penetrantes, os tr�s homens. Sua m�o voou at� a aljava, mas, no momento em que levava a flecha ao rosto, outras duas derrubaram o corvo do poleiro. Tam e Abell j� estavam encaixando novas flechas nos arcos, os olhos varrendo as �rvores e o c�u � procura de mais p�ssaros negros. N�o havia nada.</p><p>A flechada de Tam acertara o corvo na cabe�a, o que n�o era surpresa ou acidente. Perrin n�o mentira quando dissera a Faile que aqueles dois homens eram melhores do que ele com o arco. Ningu�m em Dois Rios era p�reo para a pontaria de Tam.</p><p>��Criaturas imundas���resmungou Abell, pisando no p�ssaro para soltar a flecha. Limpou a ponta na terra e devolveu-a � aljava.���Est�o para tudo que � lado, hoje em dia.</p><p>��As Aes Sedai nos contaram o que s�o���explicou Tam���explicaram que eles espionam para os Desvanecidos, e n�s espalhamos a not�cia. O C�rculo das Mulheres tamb�m. Mas ningu�m deu muita bola at� eles come�arem a atacar as ovelhas, arrancando os olhos e at� matando algumas. A tosquia j� vai ser ruim o bastante sem isso, esse ano. N�o que importe muito, acho. Com esses Mantos-brancos e Trollocs, duvido que v� aparecer algum mercador atr�s da nossa l�, este ano.</p><p>��Algum idiota ficou doido por causa disso���acrescentou Abell.���Talvez mais de um. Encontramos todo tipo de animais mortos. Coelhos, cervos, raposas, at� um urso. Foram mortos e largados para apodrecer. N�o tiraram nem a pele da maioria. Foi um homem, ou mais de um, e n�o Trollocs. Encontrei pegadas. Um homem grande, mas pequeno demais para ser um Trolloc. Uma vergonha e um desperd�cio.</p><p>Matador. Matador estava ali, e n�o apenas no sonho de lobo. Matador e Trollocs. O homem no sonho tinha sido familiar. Perrin arrastou terra e folhas com a bota por cima do corvo morto. Haveria tempo para lidar com os Trollocs depois. Uma vida inteira, se fosse preciso.</p><p>��Eu prometi a Mat que cuidaria de Bo e de Eldrin, Mestre Cauthon. Ser� que vai ser muito dif�cil libertar as duas e os outros?</p><p>��Dif�cil.���Abell suspirou, deixando o rosto desabar. Ele de repente pareceu muito mais velho.���Dif�cil demais. Cheguei perto o bastante para dar uma olhada em Natti, depois que a levaram. Andei ao redor da tenda onde est�o todos presos. Consegui v�-la, mas havia uns duzentos Mantos-brancos entre n�s. Fui um pouco descuidado, e um deles acertou uma flecha em mim. Se Tam n�o tivesse me arrastado c�, de volta para as Aes Sedai�</p><p>��� um acampamento bem grande���comentou Tam���fica bem abaixo de Colina da Vig�lia. Setecentos ou oitocentos homens. Patrulhas noite e dia, com a maior concentra��o na descida de Colina at� Campo de Emond. Se estivessem mais espalhados, seria mais f�cil para n�s, mas, a n�o ser por algumas centenas de homens que ficaram em Barca do Taren, os Filhos basicamente entregaram o restante de Dois Rios para os Trollocs. As coisas est�o ruins l� em Trilha de Deven, pelo que ouvi dizer. Toda noite uma fazenda � incendiada. O mesmo entre Colina da Vig�lia e o Rio Taren. Trazer Natti e os outros vai ser dif�cil, e depois ainda vamos ter que torcer para as Aes Sedai deixarem que todos fiquem aqui. Aquelas duas n�o gostam muito que os outros saibam onde est�o.</p><p>��Tenho certeza de que algu�m vai escond�-los���protestou Perrin.���N�o v�o me dizer que todo mundo virou as costas para voc�s. Ningu�m acredita realmente que voc�s sejam Amigos das Trevas.</p><p>Assim que disse aquilo, Perrin lembrou-se de Cenn Buie.</p><p>��N�o, isso n�o���concordou Tam���a n�o ser por alguns idiotas. Muita gente nos d� refei��es ou nos deixa passar a noite no celeiro, �s vezes at� cedem uma cama, mas voc� precisa entender que todos ficam desconfort�veis em ajudar algu�m que est� sendo ca�ado pelos Mantos-brancos. E n�o se pode culp�-los. As coisas est�o dif�ceis demais, a maioria dos homens est� tentando cuidar de suas fam�lias da melhor forma que pode. Pedir que algu�m acolha Natti e as meninas, Haral e Alsbet� bom, pode ser pedir demais.</p><p>��Eu pensava melhor do povo de Dois Rios���resmungou Perrin.</p><p>Abell abriu um sorriso fraco.</p><p>��A maioria do pessoal est� se sentindo meio imprensada entre duas pedras de moinho, Perrin. Est�o s� torcendo para n�o serem mo�dos entre Mantos-brancos e Trollocs at� virarem farinha.</p><p>��Deveriam parar de torcer e fazer alguma coisa.���Por um instante, Perrin sentiu vergonha. N�o morava ali havia um tempo, n�o fazia ideia de como estavam as coisas. Mesmo assim, tinha raz�o. Enquanto o povo se escondesse atr�s dos Filhos da Luz, teria de tolerar que eles fizessem o que quisessem, fosse confiscar livros ou prender mulheres e crian�as.���Amanh� vou dar uma olhada nesse acampamento dos Mantos-brancos. Deve haver algum jeito de libertar o pessoal. Assim que eles estiverem livres, podemos nos preocupar com os Trollocs. Certa vez, um Guardi�o me contou que os Trollocs chamam o Deserto Aiel de �Campo da Morte�. Quero que tamb�m chamem Dois Rios assim.</p><p>��Perrin���come�ou Tam, depois parou, parecendo perturbado.</p><p>Perrin sabia que seus olhos refletiam a luz, mesmo ali nas sombras sob o carvalho. Sentiu o rosto duro feito pedra.</p><p>Tam suspirou.</p><p>��Primeiro vamos cuidar de Natti e dos outros. Depois decidimos o que fazer com os Trollocs.</p><p>��N�o deixe que isso o consuma por dentro, garoto���murmurou Abell.���Se a gente deixar, o �dio cresce at� queimar tudo o mais dentro da gente.</p><p>��N�o tem nada me consumindo���respondeu Perrin, com a voz firme.���S� quero fazer o que � preciso.</p><p>Ele passou o polegar pela extremidade do machado. Fazer o que era preciso.</p><empty-line/><p>Dain Bornhald se endireitou na sela enquanto o cento que levara para a patrulha se aproximavam de Colina da Vig�lia. Agora eram menos de cem. Onze selas levavam corpos amarrados e envoltos em mantos, e vinte e tr�s outros homens estavam feridos. Os Trollocs tinham armado uma emboscada muito boa, e era prov�vel que se sa�ssem bem-sucedidos contra soldados menos bem treinados, menos resistentes que os Filhos. O que o deixava incomodado era que aquela era a terceira patrulha a sofrer um ataque poderoso. N�o fora um encontro fortuito, n�o ocorrera durante os inc�ndios e matan�as dos Trollocs, fora um ataque planejado. E isso acontecera apenas a patrulhas que ele liderava. Os Trollocs tentavam evitar os outros. Era algo que levantava quest�es preocupantes, e as explica��es que ele encontrava n�o forneciam muitas solu��es.</p><p>O sol estava se pondo. Umas poucas luzes j� surgiam na aldeia que cobria a colina de cima a baixo com telhados de palha. O �nico de telhas ficava bem no cume, era da estalagem Javali Branco. Fosse outra noite, ele teria ido at� l� tomar uma caneca de vinho, apesar do sil�ncio nervoso que se abatia no local com a chegada de um Manto-branco com um raio de sol dourado. Ele quase n�o bebia, mas �s vezes gostava de ficar na companhia de outras pessoas al�m dos Filhos. Depois de um tempo, eles pareciam se esquecer um pouco de sua presen�a e voltavam a rir e conversar entre si. Mas apenas se fosse outra noite. Naquela, queria ficar sozinho para pensar.</p><p>Havia atividade entre os cerca de cem carro��es coloridos agrupados a menos de uma milha do cume da montanha. Homens e mulheres vestidos em tons ainda mais coloridos que os carro��es examinavam cavalos e arreios, guardando as cargas que haviam passado semanas no ch�o do acampamento. Parecia que o Povo Errante pretendia fazer jus ao pr�prio nome, e provavelmente partir � primeira luz do dia.</p><p>��Farran!���O robusto centuri�o cravou os calcanhares no cavalo para se aproximar, e Bornhald inclinou a cabe�a em dire��o � caravana Tuatha�an.���Informe ao Buscador que, se ele quiser mover seu povo, que sigam para o sul.���Seus mapas informavam que n�o havia como cruzar o Taren exceto por Barca do Taren, mas, assim que cruzou o rio, come�ou a perceber como os mapas eram velhos. Ningu�m deixaria Dois Rios para levar seus homens a uma armadilha, n�o enquanto ele pudesse impedir.���E, Farran? N�o h� necessidade de botas ou punhos, est� bem? Basta usar palavras. Este Raen tem ouvidos.</p><p>��O senhor � quem manda, Lorde Bornhald.���O centuri�o soou apenas um pouco desapontado.</p><p>Farran levou o punho com manoplas ao cora��o e seguiu em dire��o ao acampamento Tuatha�an. N�o gostava da ordem, mas obedeceria. Por mais que desprezasse o Povo Errante, era um bom soldado.</p><p>A vis�o do pr�prio acampamento trouxe um instante de orgulho para Bornhald, as fileiras compridas e organizadas de tendas brancas em formato de tri�ngulo, as fileiras de piquetes para os cavalos ordenadas com precis�o. Mesmo ali, naquele canto do mundo abandonado pela Luz, os Filhos se cuidavam, sem jamais se permitir afrouxar a disciplina. Era mesmo um lugar abandonado pela Luz. Os Trollocs eram a prova. Se incendiavam fazendas, significava apenas que parte do povo ali era pura. Parte. O restante se curvava em mesuras, dizendo �sim, meu senhor�, �como quiser, meu senhor� e depois faziam, teimosamente, o que queriam assim que ele virava as costas. Al�m do mais, estavam escondendo uma Aes Sedai. No segundo dia que passaram ao sul do Taren, mataram um Guardi�o. O manto furta-cor era prova suficiente. Bornhald odiava Aes Sedai, mulheres mexendo com o Poder como se uma Ruptura do Mundo j� n�o tivesse sido suficiente. Fariam tudo de novo, se ningu�m as impedisse. O bom humor moment�neo evaporou feito neve na primavera.</p><p>Seus olhos buscaram a tenda onde os prisioneiros estavam sendo mantidos, de onde s� sa�am por um breve per�odo di�rio para se exercitar, e um de cada vez. Ningu�m tentaria fugir se tivesse que deixar os outros para tr�s. N�o que fossem conseguir correr mais de doze passadas���havia um guarda em cada extremidade da tenda, e, a doze passadas para todas as dire��es, havia mais pelo menos vinte Filhos���mas Bornhald queria o m�nimo de confus�o poss�vel. Confus�o gera confus�o. Se fosse preciso tratar os prisioneiros com brutalidade, talvez houvesse ressentimentos na aldeia a ponto de algo acabar precisando ser feito. Byar era um idiota. Ele���e outros, sobretudo Farran���queriam interrogar os prisioneiros. Bornhald n�o era um Questionador e nem gostava de usar os m�todos deles. N�o pretendia deixar Farran chegar perto daquelas garotas, mesmo que fossem Amigas das Trevas, como Ordeith alegava.</p><p>Amigas das Trevas ou n�o, Bornhald cada vez mais se dava conta de que s� estava atr�s de um Amigo das Trevas. Mais do que Trollocs e do que Aes Sedai, queria Perrin Aybara. N�o conseguia dar cr�dito �s hist�rias do homem correndo com os lobos que Byar contara, mas ele afirmara com toda clareza que Aybara atra�ra o pai de Bornhald para uma armadilha dos Amigos das Trevas. Perrin levara Geofram Bornhald � morte em Ponta de Toman pelas m�os de Amigos das Trevas Seanchan e suas aliadas Aes Sedai. Talvez, se nenhum dos Luhhan abrisse o bico logo, deixaria Byar fazer o que quisesse com o ferreiro. O homem, ou a mulher, que teria de assistir, acabaria cedendo. Um deles revelaria como encontrar Perrin Aybara.</p><p>Quando ele desceu do cavalo diante da tenda, viu Byar, r�gido e magricela, mais parecendo um espantalho, � sua espera. Bornhald lan�ou um olhar de desgosto na dire��o de um grupo muito menor de tendas, mais afastado do resto. O vento vinha daquela dire��o, e dava para sentir o cheiro do outro acampamento. Eles n�o cuidavam nem das fileiras de piquetes, nem de si mesmos.</p><p>��Ordeith voltou, ao que parece.</p><p>��Sim, milorde Bornhald.���Byar fez uma pausa, e Bornhald o encarou com um olhar questionador.���Relataram uma escaramu�a com Trollocs ao sul. Dois mortos. Seis feridos, pelo que dizem.</p><p>��E quem foram os mortos?���perguntou Bornhald, baixinho.</p><p>��O Filho Joelin e o Filho Gomanes, milorde Bornhald.���A express�o encovada de Byar n�o se alterou.</p><p>Bem devagar, Bornhald removeu as manoplas com dorso de a�o. Aqueles dois haviam sido enviados para acompanhar Ordeith, para ver o que ele fazia em suas incurs�es para o sul. Sempre cauteloso, ele n�o ergueu a voz.</p><p>��Meus cumprimentos ao Mestre Ordeith, Byar, e� n�o! Nada de cumprimentos. Diga a ele, nestas palavras, que quero ver seus ossos magros na minha frente agora mesmo. Diga isso, Byar, e traga-o aqui nem que tenha de prend�-lo junto com aquela gente nojenta que desgra�a os Filhos. V�.</p><p>Bornhald conteve a raiva at� adentrar a tenda e baixar a aba, ent�o varreu os mapas e o estojo de escrita de cima da mesa com um rosnado. Ordeith devia tom�-lo por um imbecil. J� duas vezes enviara homens para acompanhar o sujeito, e por duas vezes eles foram as �nicas mortes em uma �escaramu�a com Trollocs� que n�o deixara qualquer outro ferido como prova. Sempre ao sul. O homem estava obcecado com Campo de Emond. Ora, ele mesmo teria estabelecido acampamento por l�, n�o fosse por� Bem, n�o servia de nada pensar naquilo. Estava com os Luhhan. Eles lhe entregariam Perrin Aybara, de um jeito ou de outro. Colina da Vig�lia era um lugar muito melhor, caso precisasse seguir para Barca do Taren depressa. Os aspectos militares deviam ficar acima das motiva��es pessoais.</p><p>Pela mil�sima vez, Bornhald se perguntou por que o Senhor Capit�o Comandante o enviara at� ali. O povo n�o era diferente do que j� vira em centenas de outros lugares. A diferen�a era que apenas o povo de Barca do Taren demonstrava entusiasmo em eliminar os Amigos das Trevas que caminhavam entre os moradores. Os outros ficavam olhando, teimosos e rabugentos, ao ver a Presa do Drag�o rabiscada em uma porta. O povo de uma aldeia sempre sabia quem eram seus indesej�veis. Com um pouco de encorajamento, estavam sempre prontos a se purificar, e quaisquer Amigos das Trevas sem d�vida seriam varridos com os outros que o povo quisesse ver longe. Mas n�o ali. A marca preta de uma presa arranhada em uma porta poderia muito bem ser uma nova pintura, considerando o pouco efeito que causava. E os Trollocs. Ser� que Pedron Niall sabia que os Trollocs viriam, quando escreveu aquelas ordens? Como poderia saber? No entanto, se n�o sabia, por que enviara Filhos em n�mero suficiente para conter uma pequena rebeli�o? E por que, sob a Luz, o Senhor Capit�o Comandante dera a ele a responsabilidade de cuidar de um assassino louco?</p><p>A borda da tenda se abriu, e Ordeith adentrou. O fino casaco cinza tinha bordados em prata, mas estava bastante manchado. O pesco�o franzino tamb�m estava sujo, esticando-se para fora da gola, o que o fazia parecer uma tartaruga.</p><p>��Boa noite para o senhor, milorde Bornhald. Uma noite excelente e espl�ndida.���O sotaque de Lugard estava forte.</p><p>��O que houve com o Filho Joelin e o Filho Gomanes, Ordeith?</p><p>��Uma coisa terr�vel, milorde. Quando avan�amos para os Trollocs, o Filho Gomanes bravamente����Bornhald o acertou na cara com as manoplas. Cambaleante, o homem ossudo levou a m�o ao l�bio ferido, depois examinou o vermelho que escorria nos dedos. O sorriso em seu rosto j� n�o era de zombaria. Era trai�oeiro.���Est� se esquecendo de quem assinou minha comiss�o, fidalgote? Pedron Niall pode enforcar o senhor nas tripas da sua m�e a uma s� palavra minha, e isso depois de esfolar os dois ainda vivos.</p><p>��Isso se voc� viver para dizer alguma coisa, n�o �?</p><p>Ordeith soltou um rosnado, agachando-se feito um selvagem e espumando bolhas de saliva. Depois de um tempo se sacudiu, e, bem devagar, endireitou a postura.</p><p>��Precisamos trabalhar juntos.���O sotaque de Lugard desaparecera, substitu�do por um tom mais grandioso e autorit�rio. Bornhald preferia o sotaque de esc�rnio de Lugard do que aquele, levemente bajulador, com um desprezo quase velado.���A Sombra nos envolve por toda parte, neste lugar. N�o apenas Trollocs e Myrddraal. Eles s�o o menor dos males. Tr�s males foram gerados aqui, Amigos das Trevas criados para abalar o mundo, sua cria��o foi supervisionada pelo pr�prio Tenebroso por mil anos ou mais. Rand al�Thor. Mat Cauthon. Perrin Aybara. Voc� sabe os nomes deles. Neste lugar, h� for�as que v�o perturbar o mundo. Criaturas da Sombra caminham pela noite, maculando os cora��es dos homens, corrompendo os sonhos. Flagele esta terra. Flagele-a, e eles vir�o. Rand al�Thor. Mat Cauthon. Perrin Aybara.���Sua voz pronunciou o �ltimo nome quase como uma car�cia.</p><p>Bornhald soltou um suspiro entrecortado. N�o sabia ao certo como Ordeith descobrira o que ele queria naquele lugar. Um dia, o homem simplesmente revelara que j� sabia.</p><p>��Eu encobri o que voc� fez na fazenda dos Aybara�</p><p>��Flagele tudo.���Havia um toque de loucura naquela voz majestosa, e a testa de Ordeith pingava de suor.���Fustigue tudo, e os tr�s vir�o.</p><p>Bornhald ergueu a voz.</p><p>��Eu encobri porque foi preciso.���N�o tivera escolha. Se a verdade viesse � tona, teria de lidar com mais do que olhares emburrados. A �ltima coisa de que precisava era uma rebeli�o declarada para se somar aos Trollocs.���Mas n�o vou perdoar a morte de Filhos. Est� me ouvindo? O que voc� est� fazendo, que precisa se esconder dos Filhos?</p><p>��O senhor duvida de que a Sombra v� fazer o que for preciso para me impedir?</p><p>��O qu�?</p><p>��O senhor duvida?���Ordeith inclinou-se para a frente, com o olhar intenso.���O senhor viu os Homens Cinza.</p><p>Bornhald hesitou. Cinquenta Filhos � sua volta, no meio de Colina da Vig�lia, e ningu�m percebera os dois com adagas. Ele olhara direto para eles e n�o os vira. At� Ordeith mat�-los. O sujeitinho franzino ganhara bastante respeito dos homens com aquilo. Mais tarde, Bornhald cavou um buraco bem fundo para enterrar as adagas. Aquelas l�minas pareciam de a�o, mas seu toque causticava como metal incandescente. A primeira leva de terra jogada por cima delas ardera com muitos chiados.</p><p>��Acha que estavam atr�s de voc�?</p><p>��Ah, sim, milorde Bornhald. Estavam atr�s de mim. Far�o o que for preciso para me impedir. A pr�pria Sombra quer me deter.</p><p>��Isso ainda n�o � desculpa para a matan�a de�</p><p>��Preciso fazer o que fa�o em segredo.���Foi um sussurro, quase um sibilo.���A Sombra consegue penetrar as mentes dos homens para me descobrir, consegue penetrar os pensamentos e sonhos dos homens. O senhor gostaria de morrer em um sonho? Pode acontecer.</p><p>��Voc� est� louco.</p><p>��O senhor me d� carta branca, e eu lhe entrego Perrin Aybara. � isso que requerem as ordens de Pedron Niall. Carta branca para mim, e coloco Perrin Aybara nas suas m�os.</p><p>Bornhald ficou em sil�ncio por um longo instante.</p><p>��N�o quero olhar para a sua cara���disse, por fim.���Saia daqui.</p><p>Depois que Ordeith foi embora, Bornhald estremeceu. O que o Senhor Capit�o Comandante estaria aprontando junto com aquele homem? Mas, se isso fosse trazer Aybara para suas m�os� Jogou as manoplas no ch�o e come�ou a vasculhar os pr�prios pertences. Guardara um frasco de conhaque em algum lugar.</p><empty-line/><p>O homem que se intitulava Ordeith, que �s vezes at� pensava em si mesmo como Ordeith, esgueirou-se furtivo pelas tendas dos Filhos da Luz, observando os homens de manto branco com um olhar cauteloso. Eram instrumentos �teis, instrumentos ignorantes, mas nada confi�veis. Sobretudo Bornhald, que teria de ser descartado se come�asse a causar muitos problemas. Seria bem mais f�cil de lidar com Byar. Mas n�o ainda. Havia outras quest�es mais importantes. Alguns dos soldados assentiam com um olhar respeitoso quando ele passava. Ordeith mostrava os dentes no que os homens pensavam ser um sorriso amistoso. Instrumentos imbecis.</p><p>Seus olhos, famintos, percorreram a tenda que abrigava os prisioneiros. Eles podiam esperar. Mais um pouquinho. S� mais um pouquinho. Eram apenas um aperitivo, de todo modo. Isca. Deveria ter se refreado na fazenda Aybara, mas Con Aybara tinha rido na cara dele, e Joslyn o chamara de idiota de mente suja por ter acusado o filho dela de ser Amigo das Trevas. Bom, eles tinham aprendido a li��o, tinham gritado e queimado. Sem perceber, Ordeith soltou uma risadinha entre dentes. Aperitivos.</p><p>Podia sentir que um daqueles que odiava estava em algum ponto ao sul, seguindo na dire��o de Campo de Emond. Mas qual? N�o importava. Rand al�Thor era o �nico importante de verdade. Saberia se fosse Rand al�Thor. Os boatos ainda n�o o haviam atra�do, mas isso logo aconteceria. Ordeith sentiu um arrepio de desejo. Tinha de ser assim. Mais hist�rias teriam que atravessar os guardas de Bornhald em Barca do Taren, mais informes sobre a limpa em Dois Rios tinham que ser enviados, para que aquilo tudo chegasse aos ouvidos de Rand al�Thor e se fixasse em seu c�rebro. Primeiro, al�Thor, depois, a Torre, pelo que haviam tirado dele. Tomaria de volta tudo o que era seu por direito.</p><p>Tudo estivera caminhando em um compasso perfeito, como um bom rel�gio, mesmo com os impedimentos de Bornhald. At� que aquele novo obst�culo viesse, trazendo seus Homens Cinza. Ordeith passou os dedos ossudos pelo cabelo ensebado. Por que n�o podia ao menos ter os pr�prios sonhos? N�o era mais uma marionete manejada por Myrddraal e Abandonados, ou at� pelo pr�prio Tenebroso. Agora, puxava as pr�prias cordas. Eles n�o tinham como impedi-lo, n�o tinham como mat�-lo.</p><p>��Nada pode me matar���murmurou, com uma careta de desprezo.���N�o a mim. Tenho sobrevivido desde as Guerras dos Trollocs.</p><p>Bem, parte dele tinha, mesmo. Soltou uma risada estridente, ouvindo a loucura naquele cacarejo, consciente dela, sem se importar.</p><p>Um jovem oficial Manto-branco franziu o cenho para ele. Dessa vez, os dentes arreganhados de Ordeith n�o estampavam sorriso algum, e o rapaz de face peluda recuou. Ordeith seguiu apressado, se esgueirando.</p><p>Moscas zuniam em volta das tendas, e olhos sombrios e cheios de suspeita desviaram dos seus. Os Mantos-brancos ali eram uns porcos. Mas as espadas eram afiadas, e a obedi�ncia, imediata e incondicional. Bornhald achava que aqueles homens ainda lhe pertenciam. Pedron Niall tamb�m acreditava nisso, acreditava que Ordeith era uma criatura que ele subjugara. Imbecis.</p><p>Balan�ando a lona da tenda, Ordeith entrou para examinar seu prisioneiro, estirado entre dois ganchos de parede grossos o suficiente para sustentar uma junta de carro�as. A corrente de a�o bom estremeceu quando ele conferiu os elos, mas tomara o cuidado de calcular quanto era necess�rio, depois dobrara a conta. Ainda bem que o fizera. Uma volta a menos, e aqueles robustos elos de a�o teriam se rompido.</p><p>Com um suspiro, sentou-se na beirada da cama. Os lampi�es j� estavam acesas, mais de uma d�zia, sem deixar sombra em lugar algum. Do lado de dentro, a tenda estava iluminada como se fosse meio-dia.</p><p>��Pensou na minha proposta? Aceite, e sai daqui livre. Recuse e� bem, sei como machucar os da sua laia. Posso fazer voc� gritar em uma morte sem fim. Morte sem fim, gritos sem fim.</p><p>Um solavanco fez as correntes tilintarem. As estacas, cravadas firmemente no ch�o, rangeram.</p><p>��Muito bem.���A voz do Myrddraal era como o sibilo seco e decr�pito de uma serpente.���Eu aceito. Me solte.</p><p>Ordeith sorriu. A criatura achava que ele era idiota. Ah, ela aprenderia a li��o. Todos aprenderiam.</p><p>��Primeiro, vamos concluir� digamos, nosso acordo?���Enquanto ele falava, o Myrddraal come�ou a suar.</p></section><section><title><p>32</p><p><image l:href="#7"/></p><p>Perguntas a serem feitas</p></title><p>��Em breve partiremos para Colina da Vig�lia���anunciou Verin, na manh� seguinte, com o sol nascente perolizando o c�u l� fora���ent�o nada de enrola��o.���Perrin ergueu os olhos do mingau frio e encontrou um olhar firme, que indicava que a Aes Sedai n�o esperava discuss�o. Depois de um instante, ela acrescentou, pensativa:���N�o pense que isso significa que vou ajudar em qualquer insensatez. Voc� � um jovem trai�oeiro. N�o v� tentando me enrolar.</p><p>Tam e Abell pararam com as colheres a meio caminho da boca, trocando olhares surpresos. Estava �bvio que, antes de Perrin chegar, eles tinham seguido seu caminho e as Aes Sedai, o delas. Depois de um instante, os dois voltaram a comer, embora mantivessem os cenhos franzidos. N�o expressaram qualquer obje��o. Mesmo assim, Tomas, cujo manto de Guardi�o j� estava guardado nos alforjes, lan�ou a eles���e a Perrin���um olhar duro, como se antecipasse uma discuss�o e quisesse impedi-la. Os Guardi�es faziam tudo o que fosse necess�rio para que as Aes Sedai conseguissem o que queriam.</p><p>Verin queria se intrometer na hist�ria, � claro���Aes Sedai sempre faziam isso���mas sem d�vida era melhor t�-la � vista do que pelas costas. Quando as Aes Sedai decidiam meter o dedo nas coisas, era quase imposs�vel evitar que se envolvessem. A �nica coisa a fazer era tentar us�-las enquanto elas o usavam, ficar atento, � espera da oportunidade de pular fora se elas decidissem enfi�-lo de cabe�a, feito um fur�o, em uma toca de coelho. �s vezes, a toca se revelava o covil de um texugo, o que era ainda mais dif�cil para o fur�o.</p><p>��Voc� tamb�m seria bem-vinda���disse Perrin a Alanna, mas a mulher respondeu com um olhar g�lido que o fez se calar.</p><p>A Verde rejeitara o mingau e se sentara diante de uma das janelas encobertas por trepadeiras, admirando a paisagem por tr�s da moldura folhosa.</p><p>Perrin n�o sabia dizer se a mulher aprovava seus planos de fazer um reconhecimento da �rea. Era quase imposs�vel dizer o que ela pensava. Aes Sedai deveriam ser a pr�pria express�o da serenidade, e Alanna era, mas �s vezes, quando menos se esperava, apareciam lampejos de seu g�nio dif�cil e humor imprevis�vel, como rel�mpagos estourando e desaparecendo. �s vezes, ela o encarava de um jeito que, se n�o fosse Aes Sedai, o faria pensar que a mulher o estivava admirando. Outras vezes, era como se ele fosse algum mecanismo complicado que Alanna queria desmontar para descobrir como funcionava. At� Verin era melhor, nesse ponto. Na maioria das vezes, a Marrom era apenas indecifr�vel. De vez em quando a mulher dava nos nervos, mas pelo menos Perrin n�o precisava ficar se perguntando se ela saberia como encaixar suas pe�as de volta, depois que o desmontasse.</p><p>Desejou poder fazer Faile ficar por l᠗�n�o era a mesma coisa que deix�-la para tr�s, s� queria mant�-la a salvo dos Mantos-brancos���mas a mulher j� estava com a mand�bula cerrada e um brilho perigoso nos olhos obl�quos.</p><p>��Estou ansiosa para conhecer um pouco da sua terra. Meu pai cria ovelhas.���O tom era decisivo: Faile s� ficaria l� se fosse amarrada.</p><p>Por um instante, Perrin quase considerou fazer isso, mas o perigo dos Mantos-brancos n�o devia ser t�o grande assim, j� que ele pretendia apenas observar naquele dia.</p><p>��Pensei que ele fosse mercador���retrucou.</p><p>��Ele cria ovelhas tamb�m.</p><p>Duas manchas carmesim brotaram nas bochechas da jovem. Talvez o pai dela fosse um homem pobre, n�o um mercador. Perrin n�o entendia por que Faile mentiria sobre isso, mas, se era o que ela queria fazer, n�o tentaria impedi-la. Mas, envergonhada ou n�o, continuava teimosa.</p><p>Ele se lembrou do m�todo de Mestre Cauthon.</p><p>��N�o sei o quanto voc� vai ver. Acho que algumas fazendas j� devem estar na �poca da tosquia. N�o deve ser nem um pouco diferente do que o seu pai faz. De qualquer modo, ficarei feliz com a sua companhia.���O espanto no rosto da mo�a ao perceber que ele n�o discutiria quase fez valer a pena a preocupa��o de lev�-la. Talvez Abell tivesse raz�o.</p><p>No entanto, Loial era um problema bem diferente.</p><p>��Mas eu quero ir���protestou o Ogier, quando disseram que ele n�o poderia.���Quero ajudar, Perrin.</p><p>��Voc� vai se destacar muito, Mestre Loial���explicou Abell.</p><p>��Precisamos evitar atrair ainda mais aten��o���acrescentou Tam.</p><p>As orelhas de Loial desabaram, desalentadas.</p><p>Perrin puxou o amigo para o lado, o mais para longe dos outros que o sal�o permitia. Os cabelos desgrenhados do Ogier ro�aram as vigas do teto, at� que o rapaz fez um gesto para que ele se abaixasse. Perrin sorriu, apenas para tentar alegr�-lo. Esperou que fosse nisso que todos acreditassem.</p><p>��Quero que fique de olho em Alanna���disse, quase em um sussurro. Loial levou um susto, e Perrin agarrou a manga do Ogier, ainda sorrindo feito bobo.���Mostre os dentes, Loial. N�o estamos falando nada importante, certo?���O Ogier conseguiu abrir um sorriso hesitante. Teria de bastar.���As Aes Sedai t�m suas pr�prias raz�es para fazer o que fazem, Loial.���E podia ser o que as pessoas menos esperavam, ou o total oposto do que acreditavam que seria.���Quem � que sabe o que ela pode enfiar na cabe�a? J� tive surpresas o bastante desde que voltei para casa, e n�o quero somar ao montante nada que venha dela. N�o espero que voc� a impe�a de fazer o que quer que seja, s� fique de olho em qualquer coisa fora do comum.</p><p>��Obrigado por isso���resmungou Loial em um tom amargo, as orelhas se remexendo.���N�o acha melhor s� deixar as Aes Sedai fazerem o que quiserem?���Era f�cil para ele dizer, j� que as mulheres n�o conseguiam canalizar dentro de um <emphasis>pouso</emphasis> Ogier. Perrin apenas o encarou. Depois de um instante, Loial deu um suspiro.���Acho que n�o. Ah, est� bem. N�o d� para dizer que andar com voc� n�o seja� interessante.���A enorme criatura se endireitou, esfregou o dedo grosso no nariz e se dirigiu aos outros:���Acho que eu atrairia olhares demais, mesmo. Bom, pelo menos vou ter chance de trabalhar em meus escritos. Faz dias que n�o escrevo nada do livro.</p><p>Verin e Alanna trocaram olhares indecifr�veis, depois voltaram rostos com express�es id�nticas para Perrin, sem piscar. N�o havia como dizer o que as duas pensavam.</p><p>Os animais de carga tiveram de ser deixados para tr�s, naturalmente. Cavalos de carga sem d�vida atrairiam coment�rios sobre uma viagem longa, e ningu�m de Dois Rios viajava para muito longe de casa, mesmo nas melhores esta��es. Alanna os observou selar as montarias com um sorriso sutil de satisfa��o, decerto pensando que os animais e os cestos de palha o prenderiam ao antigo hospital, a ela e a Verin. Se fosse o caso, a Verde teria uma bela surpresa. Perrin j� vivera muito tempo de apenas um alforje, desde que sa�ra de casa. Ali�s, j� vivera da bolsa do cinto e dos bolsos dos casacos.</p><p>Ao se levantar, depois de ajeitar a cilha da sela de Galope, levou um susto. Verin o observava com uma express�o astuta, nem um pouco vaga, como se soubesse o que ele estava pensando e se divertisse com aquilo. J� era ruim o bastante quando Faile fazia esse tipo de coisa, mas era cem vezes pior quando a express�o vinha de uma Aes Sedai. No entanto, a mulher parecia intrigada com o martelo amarrado junto ao rolo do cobertor e os alforjes. Perrin ficou contente em ver que havia alguma coisa que ela parecia n�o compreender. Por outro lado, podia ter evitado deix�-la t�o desconfiada. Que fasc�nio poderia um martelo exercer sobre uma Aes Sedai?</p><p>Com apenas os animais de cavalgada para preparar, n�o demorou muito para estarem prontos para partir. Verin tinha um cap�o castanho comum, t�o simpl�rio para um olhar destreinado quanto as vestimentas da dona, mas o peito pronunciado e as ancas robustas sugeriam a mesma resist�ncia do cavalo de seu Guardi�o, um cinzento de olhar feroz, alto e elegante. Galope bufou para o outro garanh�o at� Perrin dar uns tapinhas no pesco�o dele. O cinza tinha mais disciplina���e a mesma prontid�o para lutar, se Tomas permitisse. O Guardi�o controlava o animal tanto com os joelhos quanto com as r�deas, e os dois quase pareciam um s�.</p><p>Mestre Cauthon observava o cavalo de Tomas com interesse���n�o era muito comum ver animais treinados para a guerra por aquelas bandas���mas o de Verin ganhou um aceno de cabe�a aprovativo � primeira olhada. Abel era o melhor avaliador de cavalos que havia em Dois Rios. Sem d�vida fora ele quem escolhera os animais que ele e Tam usavam, cavalos de couro espesso, n�o t�o grandes quanto os outros, por�m robustos e com uma marcha que indicava boa velocidade e resist�ncia.</p><p>Os tr�s Aiel deslizaram � frente do grupo com eleg�ncia quando chegou a hora de rumar para o norte. Deram passos largos que os fizeram desaparecer depressa no meio da mata, ainda banhada nas compridas sombras da manh�, sob o brilho do sol nascente. De vez em quando dava para ver um lampejo de marrom e cinza por entre as �rvores. Era provavelmente de prop�sito, para informar aos outros que estavam l�. Tam e Abell assumiram a lideran�a, mantendo os arcos atravessados no cepilho alto das selas, com Perrin e Faile atr�s e Verin e Tomas cuidando da retaguarda.</p><p>Perrin preferia n�o ter o olhar de Verin fixado �s suas costas. Sentia os olhos da mulher perfurando suas omoplatas. Perguntou-se se ela sabia sobre os lobos. N�o era um pensamento confort�vel. Supunha-se que as Marrons sabiam coisas que as outras Ajahs desconheciam, coisas obscuras e conhecimentos antigos. Talvez Verin soubesse como ele poderia evitar se perder, perder para os lobos o que possu�a de humano. Exceto por reencontrar Elyas Machera, talvez a Marrom fosse sua melhor op��o. Perrin s� precisava confiar nela. A mulher faria uso de qualquer informa��o que tivesse, e com toda certeza seria de forma a ajudar a Torre Branca, ou talvez para ajudar Rand. O �nico problema era que ajudar Rand talvez n�o trouxesse o que Perrin queria. Tudo teria sido muito mais simples sem Aes Sedai por perto.</p><p>Seguiram em sil�ncio, a n�o ser pelos sons da floresta, pelos esquilos, pica-paus e eventuais cantorias de p�ssaros. Em dado momento, Faile olhou para tr�s.</p><p>��Ela n�o vai fazer mal a vocꠗ�afirmou, o tom suave contrastando com o brilho feroz em seus olhos escuros.</p><p>Perrin piscou. Faile queria proteg�-lo. Das Aes Sedai. Nunca compreenderia aquela mulher, nem saberia o que esperar em seguida. Ela �s vezes era t�o confusa quanto as Aes Sedai.</p><p>Sa�ram da Floresta do Oeste talvez quatro ou cinco milhas a norte de Campo de Emond, com o sol alto, brilhando nos topos das �rvores para o leste. Grupos de �rvores isolados, formados quase apenas de folhas-de-couro, pinheiros e carvalhos, se espalhavam entre eles e os campos mais pr�ximos de cevada, aveia, tabaco e grama alta para feno. Por estranho que fosse, n�o havia gente � vista, nem fuma�a se erguendo das chamin�s das fazendas para al�m dos campos. Perrin conhecia o pessoal que morava por ali. Os al�Lora ocupavam duas das casas grandes, os Barstere, as outras. Gente trabalhadora. Se houvesse algu�m naquelas casas, j� estariam ocupados com suas tarefas desde muito cedo. Gaul acenou nos limites de um dos aglomerados de �rvores, depois desapareceu por entre os troncos.</p><p>Perrin cravou os calcanhares em Galope e aproximou-se de Tam e Abell.</p><p>��Ser� que a gente n�o devia ficar debaixo das �rvores pelo m�ximo de tempo poss�vel? Seis pessoas a cavalo n�o v�o passar despercebidas.</p><p>Os animais avan�avam a uma velocidade constante.</p><p>��N�o tem muita gente aqui para reparar em n�s, rapaz���retrucou o Mestre al�Thor.���Basta ficarmos longe da Estrada do Norte. Muitas fazendas foram abandonadas, aqui t�o perto da floresta. De qualquer forma, ningu�m viaja sozinho esses dias, nem vai para muito longe da porta de casa. Ningu�m iria dar muita aten��o a dez pessoas viajando juntas, nesses tempos, embora a maioria viaje com carro��es, quando muito.</p><p>��Vamos levar quase o dia todo para chegar em Colina da Vig�lia nesse passo���explicou Mestre Cauthon���isso j� sem tentar cobrir a dist�ncia pela floresta. Pela estrada seria um pouco mais r�pido, mas tamb�m ter�amos mais chances de topar com algum Manto-branco. Mais chances de algu�m querer nos entregar para levar a recompensa.</p><p>Tam assentiu.</p><p>��Mas tamb�m temos amigos por esses lados. Calculamos uma parada na fazenda de Jac al�Seen, l� pelo meio-dia, para dar um descanso para os cavalos e esticar as pernas. E chegaremos em Colina da Vig�lia ainda com luz suficiente para enxergar.</p><p>��Vai ter luz suficiente���comentou Perrin, distra�do. Sempre havia luz suficiente para ele. Girou em cima da sela para espiar as fazendas atr�s. Abandonadas, mas n�o incendiadas ou saqueadas, pelo que ele podia ver. Cortinas ainda pendiam nas janelas. Janelas intactas. Os Trollocs gostavam de destruir as coisas, e as casas vazias eram sempre um convite. Ervas daninhas j� haviam crescido bastante por entre a cevada e a aveia, mas os campos n�o haviam sido devastados.���Os Trollocs chegaram a atacar Campo de Emond?</p><p>��N�o, n�o houve ataques���respondeu Mestre Cauthon, em um tom agradecido.���Mas, veja bem, n�o teria sido f�cil para eles, se atacassem. O povo aprendeu a ficar de olho vivo, naquela Noite Invernal antes da �ltima. Atr�s de cada porta tem um arco, lan�as e tudo o mais. Al�m disso, os Mantos-brancos descem com a ronda at� Campo de Emond a cada dois, tr�s dias. Por mais que eu odeie admitir, eles afugentam os Trollocs.</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a.</p><p>��O senhor tem alguma ideia de quantos Trollocs s�o?</p><p>��Um j� � demais���resmungou Abell.</p><p>��Talvez duzentos���respondeu Tam.���Talvez mais. Deve ter mais.���Mestre Cauthon parecia surpreso.���Pense s�, Abell. N�o sei quantos os Mantos-brancos mataram, mas os Guardi�es alegam que eles e as Aes Sedai deram cabo de quase cinquenta, al�m de dois Desvanecidos. E, pelo que ouvimos, isso n�o reduziu o n�mero de inc�ndios. Acho que deve ser mais, mas voc� fa�a suas contas.</p><p>O outro homem assentiu, pesaroso.</p><p>��Ent�o por que n�o atacaram Campo de Emond?���perguntou Perrin.���Se duzentos ou trezentos viessem no meio da noite, poderiam incendiar a aldeia inteira e desaparecer antes que os Mantos-brancos em Colina da Vig�lia ficassem sabendo. Seria ainda mais f�cil atacar Trilha de Deven. Voc�s disseram que os Mantos-brancos n�o descem t�o longe.</p><p>��Sorte���murmurou Abell, mas parecia preocupado.���Foi isso. Tivemos sorte. O que mais poderia ter sido? Onde � que voc� quer chegar, garoto?</p><p>��Ele est� tentando dizer���interveio Faile, aproximando-se dos homens���� que deve haver uma raz�o.���Andorinha era bem mais alto que os cavalos de Dois Rios, de modo que a mo�a encarava Tam e Abell de frente, com um olhar firme.���J� vi as consequ�ncias dos ataques dos Trollocs em Saldaea. Eles saqueiam o que n�o � incendiado, matam ou sequestram pessoas e animais das fazendas, tudo e todos que n�o estiverem protegidos. Vilas inteiras desapareceram, em anos ruins. Eles procuram o local mais debilitado, onde a matan�a possa ser maior. Meu pai����Ela se refreou, respirou fundo e continuou.���Perrin notou o que voc�s j� deveriam ter notado.���Ela lhe dirigiu um sorriso orgulhoso.���Se os Trollocs n�o atacaram suas aldeias, deve ter algum motivo.</p><p>��J� pensei nisso���murmurou Tam���mas n�o consigo imaginar qual seja. At� que a gente saiba, sorte � uma resposta t�o boa quanto qualquer outra.</p><p>��Talvez seja uma isca���falou Verin, juntando-se a eles. Tomas ainda estava um pouco mais para tr�s, os olhos escuros vasculhando o campo por onde passavam, implac�veis como os de um Aiel. O Guardi�o tamb�m observava o c�u, pois sempre havia a possibilidade de um corvo aparecer. Quase sem parar, o olhar de Verin passou de Perrin para os dois homens mais velhos.���Not�cias de problemas incessantes, not�cias de Trollocs, tudo isso vai atrair as aten��es para Dois Rios. Andor sem d�vida vai enviar soldados para enfrentar os Trollocs t�o longe ao sul, e talvez outras na��es fa�am o mesmo. Isso se os Filhos estiverem permitindo que qualquer not�cia corra, � claro. Suponho que os guardas da Rainha Morgase n�o fiquem muito mais animados com a perspectiva de encontrar tantos Mantos-brancos do que ficariam com encontrar Trollocs.</p><p>��Guerra���murmurou Abell.���O que temos j� � bastante ruim, mas voc� est� falando de guerra.</p><p>��Pode ser���respondeu Verin, complacente.���Pode ser.</p><p>Com a testa franzida de preocupa��o, ela tirou do bolso uma caneta de ponta de a�o e um pequeno livro com encaderna��o em tecido, depois abriu um estojinho de couro preso ao cinto que continha tinta e areeiro. Limpou a caneta na manga, absorta, e come�ou a rabiscar nas p�ginas, apesar do desconforto de escrever montada a cavalo. Parecia alheia a qualquer preocupa��o que pudesse ter causado. E talvez estivesse, mesmo.</p><p>Mestre Cauthon continuou murmurando �guerra� entre dentes, espantado, e Faile, com olhos tristes, tocou o bra�o de Perrin em um gesto reconfortante.</p><p>Mestre al�Thor apenas grunhiu. Perrin ouvira dizer que o homem j� estivera em uma guerra, mas n�o sabia exatamente onde ou como. Sabia apenas que, quando jovem, o pai de Rand fora para algum lugar fora de Dois Rios, de onde retornou anos depois com uma esposa e um filho, Rand. Pouca gente de Dois Rios sa�a de l�. Perrin duvidava de que algu�m da cidade soubesse o que significava uma guerra, a n�o ser pelo que ouviam dos mascates, mercadores e dos guardas e condutores dos carro��es. Por�m, ele sabia. J� presenciara uma guerra, l� em Ponta de Toman. Abell estava certo. O que tinham j� era bastante ruim, mas n�o chegava sequer perto de uma guerra.</p><p>Manteve-se calmo. Talvez Verin estivesse certa, mas talvez s� quisesse que os outros parassem de especular. Se a investida dos Trollocs em Dois Rios fosse isca para uma armadilha, s� podia ser para Rand. Nesse caso as Aes Sedai j� saberiam. Esse era um dos problemas com Aes Sedai: elas iam soltando �ses� e �talvezes� at� que todos tivessem certeza de que elas haviam afirmado claramente o que fora apenas sugerido. Bem, se os Trollocs���ou quem os tivesse mandado. Um dos Abandonados, talvez?���quisessem pegar Rand em uma armadilha, teriam de lidar com Perrin preso nela, em vez disso. Um simples ferreiro em vez do Drag�o Renascido. E ele n�o pretendia cair em armadilha alguma.</p><p>Cavalgaram em sil�ncio pelo resto da manh�. Naquela regi�o, as fazendas eram esparsas, com �s vezes uma milha ou mais de dist�ncia entre uma e outra. Todas estavam abandonadas, com os campos sufocados de ervas e as portas dos celeiros se balan�ando ao sabor das brisas errantes. Apenas uma fora incendiada, e dela nada restava al�m de chamin�s, dedos negros de fuligem avultando-se em meio �s cinzas. Os que morreram ali���os Ayellin, primos dos que moravam em Campo de Emond���tinham sido enterrados perto das pereiras atr�s da casa. Os poucos que haviam sido encontrados. Abell teve de ser pressionado para falar a respeito, e Tam n�o se pronunciou. Pareciam pensar que aquilo o deixaria chateado. Perrin sabia o que os Trollocs comiam. Qualquer tipo de carne. Passou o dedo pelo machado, distra�do, at� que Faile pegou sua m�o. Por alguma raz�o, era ela quem parecia perturbada. Achava que ela soubesse mais a respeito de Trollocs.</p><p>Os Aiel conseguiam ficar fora de vista at� nos trechos entre os aglomerados de �rvores, a menos que desejassem ser vistos. Quando Tam come�ou a tra�ar um �ngulo em dire��o ao leste, Gaul e as duas Donzelas acompanharam o grupo.</p><p>Como Mestre Cauthon previra, a fazenda dos al�Seen surgiu ao longe antes de o sol alcan�ar a altura m�xima. N�o havia outra fazenda � vista, embora algumas colunas de fuma�a bem espa�adas se erguessem a norte e a leste. Por que aquelas pessoas insistiam em ficar, mesmo isoladas daquele jeito? Se os Trollocs viessem, a �nica esperan�a seria de que os Mantos-brancos por acaso estivessem pr�ximos.</p><p>Enquanto a grande fazenda ainda parecia pequena, a dist�ncia, Tam puxou a r�dea e acenou para que os Aiel se juntassem a eles, ent�o sugeriu que encontrassem um lugar onde ficar at� que os outros sa�ssem da fazenda.</p><p>��Ningu�m vai comentar sobre mim ou Abell, mas voc�s tr�s v�o gerar o falat�rio mais intenso do mundo.</p><p>Isso era para dizer o m�nimo, considerando as roupas estranhas, as lan�as e o fato de que entre os Aiel havia duas mulheres. Um coelho balan�ava ao lado da aljava de cada um, embora Perrin n�o entendesse como os Aiel haviam arrumado tempo para ca�ar e ainda se manter � frente dos cavalos. Ali�s, eles pareciam menos cansados que os cavalos.</p><p>��Muito bem���disse Gaul.���Vou arrumar um lugar para comer e fico atento, esperando voc�s sa�rem.</p><p>Ele se virou na mesma hora e come�ou a caminhar a passos largos. Bain e Chiad se entreolharam. Depois de um instante, Chiad deu de ombros, e as duas foram atr�s.</p><p>��Eles n�o est�o juntos?���perguntou o pai de Mat, co�ando a cabe�a.</p><p>��� uma longa hist�ria���respondeu Perrin.</p><p>Era melhor do que dizer ao homem que Chiad e Gaul podiam decidir matar um ao outro por uma rixa. Torcia para que o juramento de �gua contivesse os dois. Precisava se lembrar de perguntar a Gaul o que era um juramento de �gua.</p><p>A fazenda dos al�Seen era t�o grande quanto as outras de Dois Rios, com tr�s celeiros altos e cinco galp�es de cura de tabaco. O redil de paredes de pedra, cheio de ovelhas de caras pretas, tinha a largura de alguns pastos, e p�tios gradeados separavam as vacas leiteiras de manchas brancas do gado preto de corte. Porcos grunhiam contentes, chafurdando na lama; galinhas circulavam por todo lado e gansos brancos nadavam em um laguinho de bom tamanho.</p><p>A primeira coisa estranha que Perrin notou foram os garotos nos telhados de palha da casa e dos celeiros. Eram oito ou nove, e portavam arcos e aljavas. Deram gritos de aviso assim que avistaram os cavaleiros, e as mulheres entraram apressadas com as crian�as e estreitaram os olhos para ver quem estava chegando. Os homens se reuniram no p�tio da fazenda, alguns com arcos, outros com ancinhos e foices erguidos como se fossem armas. Muita gente. Muita mesmo, at� para uma fazenda t�o grande. Perrin lan�ou a Mestre al�Thor um olhar indagativo.</p><p>��Jac acolheu o pessoal de seu primo, Wit���explicou Tam���porque a fazenda de Wit ficava muito perto da Floresta do Oeste. Da� veio o pessoal de Flann Lewin, depois que a fazenda deles foi atacada. Os Mantos-brancos expulsaram os Trollocs antes que mais do que os celeiros fossem incendiados, mas Flann decidiu que era hora de ir. Jac � um bom homem.</p><p>Quando adentraram o p�tio da fazenda, Tam e Abell foram reconhecidos, e os homens e mulheres se aglomeraram � volta deles com sorrisos e cumprimentos enquanto todos desciam dos cavalos. Ao ver a cena, as crian�as sa�ram correndo da casa, seguidas das mulheres que tomavam conta delas e de outras, que sa�am da cozinha ainda limpando as m�os nos aventais. Todas as gera��es estavam representadas, desde Astelle al�Seen, de cabe�a branca e corcunda, mas usando o cajado mais para afastar os outros do que para se apoiar, at� um beb� todo enroladinho nos bra�os de uma mulher muito robusta e de sorriso contagiante.</p><p>Perrin passou os olhos pela mulher robusta e sorridente e seguiu para outra pessoa, ent�o virou a cabe�a para tr�s de repente. Quando deixou Dois Rios, Laila Dearn era uma garota magricela, capaz de dan�ar com tr�s rapazes quase ao mesmo tempo. Apenas os olhos e o sorriso eram os mesmos. Ele sentiu um calafrio. Houve uma �poca em que sonhava em se casar com Laila, e ela de certa forma correspondia ao sentimento. A verdade era que a mulher se apegara � ideia por mais tempo que ele. Por sorte, Laila estava extasiada demais com o beb� e o rapaz ainda mais corpulento ao seu lado para prestar muita aten��o em Perrin. Ele tamb�m reconheceu o homem. Natley Lewin. Ent�o agora Laila era uma Lewin. Que estranho. Nat nunca dan�ava. Agradecendo � Luz por ter fugido, Perrin olhou em volta em busca de Faile.</p><p>Encontrou-a girando as r�deas de Andorinha, absorta, enquanto a �gua fu�ava seu ombro. Mas a mulher estava ocupada demais abrindo um sorriso de admira��o para Wil al�Seen, um primo das bandas de Trilha de Deven, para reparar no animal, e Wil sorria de volta. Era um rapaz bonito. Bem, era um ano mais velho que Perrin, mas bonito a ponto de ter uma apar�ncia meio juvenil. Quando Wil vinha a Campo de Emond para as dan�as, as garotas ficavam suspirando por ele. Do jeitinho que Faile estava fazendo. Tudo bem que a mulher n�o estava suspirando, mas seu sorriso era decididamente de aprova��o.</p><p>Perrin se aproximou e envolveu-a com um dos bra�os, pousando a outra m�o no machado.</p><p>��Como vai, Wil?���perguntou, esfor�ando-se ao m�ximo para sorrir.</p><p>N�o havia motivo para deixar Faile pensar que estava com ci�mes. N�o que estivesse.</p><p>��Tudo bem, Perrin.���Os olhos de Wil desviaram dos dele e saltaram para o machado, e uma express�o assustada invadiu seu rosto.���Tudo �timo.</p><p>Evitando olhar para Faile outra vez, o rapaz saiu apressado para juntar-se � multid�o ao redor de Verin.</p><p>Faile encarou Perrin, apertando os l�bios, depois tocou sua barba com uma das m�os e balan�ou sua cabe�a delicadamente.</p><p>��Perrin, Perrin, Perrin���murmurou baixinho.</p><p>Ele n�o entendeu bem o que ela quis dizer, mas achou que seria mais s�bio n�o perguntar. A pr�pria Faile parecia n�o saber se estava irritada ou� talvez satisfeita? Era melhor n�o obrig�-la a se decidir.</p><p>Wil n�o foi o �nico a observar seus olhos disfar�adamente, claro. Parecia que todo mundo, jovem ou velho, homem ou mulher, levava um susto a primeira vez que reparava neles. A velha Senhora al�Seen o cutucou com o cajado e arregalou os olhos negros, surpresa, quando Perrin grunhiu. Talvez achasse que ele n�o fosse real. No entanto, ningu�m disse uma palavra.</p><p>Os cavalos logo foram levados para um dos celeiros���Tomas levou o cinzento pessoalmente, j� que o animal parecia n�o aceitar que ningu�m mais encostasse em suas r�deas���e todos, exceto os meninos nos telhados, reuniram-se dentro da casa, lotando-a. Os adultos ocuparam o c�modo da frente, em duas fileiras, Lewin e al�Seen intercalados sem qualquer ordena��o especial, as crian�as nos colos das m�es ou relegadas a espiar por entre as pernas dos adultos que se amontoavam nas entradas para observar.</p><p>Ch� forte e cadeiras de espaldar alto com assentos de junco foram providenciados para os rec�m-chegados, mas Verin e Faile receberam almofadas bordadas. Foi consider�vel a empolga��o em rela��o a Verin, Tomas e Faile. O lugar foi tomado de murm�rios que mais pareciam grasnados de gansos, e todos encararam os tr�s como se eles portassem coroas ou fossem sair fazendo truques a qualquer instante. Estranhos eram sempre vistos com curiosidade em Dois Rios. A espada do Guardi�o suscitou sussurros que Perrin ouvia sem a menor dificuldade. N�o era comum ver espadas por ali, pelo menos n�o antes da chegada dos Mantos-brancos. Alguns acharam que Tomas fosse um Manto-branco, outros, um lorde. Um garotinho que batia na cintura dos adultos mencionou Guardi�es antes que os mais velhos o calassem com suas risadas.</p><p>Assim que os convidados se acomodaram, Jac al�Seen plantou-se diante da imensa lareira de pedra. Era um homem troncudo, de ombros quadrados, com menos cabelo que Mestre al�Vere, mas igualmente grisalho. Um rel�gio tiquetaqueava entre dois grandes c�lices de prata na cornija atr�s de sua cabe�a, provas de seu sucesso como fazendeiro. O burburinho parou quando ele ergueu a m�o, mas seu primo Wit, quase seu g�meo, s� que sem cabelo algum, e Flann Lewin, um varapau curtido de cabe�a cinza, mandaram todos se calarem mesmo assim.</p><p>��Senhora Mathwin, Lady Faile���cumprimentou Jac, curvando-se em uma mesura desajeitada para cada uma���as senhoras s�o bem-vindas aqui, pelo tempo que quiserem. Mas preciso alert�-las. As senhoras sabem dos problemas que enfrentamos no campo. � melhor que rumem direto para Campo de Emond ou para Colina da Vig�lia e que fiquem por l�. S�o lugares grandes demais para serem importunados. Eu as aconselharia a n�o ficar em nenhuma parte de Dois Rios, mas sei que os Filhos da Luz n�o est�o deixando ningu�m cruzar o Taren. N�o sei por qu�, mas � assim.</p><p>��Mas h� tantas boas hist�rias no campo���respondeu Verin, piscando amigavelmente.���Eu perderia todas se ficasse em uma aldeia.</p><p>Sem mentir nem uma vez, a Marrom conseguira dar a impress�o de que fora a Dois Rios em busca de antigas hist�rias, o mesmo que Moiraine fizera no que parecia tanto tempo atr�s. O anel da Grande Serpente estava pendurado na bolsa do cinto, mas Perrin duvidava de que qualquer daquelas pessoas soubesse o que ele significava.</p><p>Elisa al�Seen alisou o avental branco e abriu um sorriso solene para Verin. Embora seus cabelos fossem menos grisalhos que o do marido, ela parecia mais velha que a Aes Sedai, com um rosto enrugado e maternal. E devia mesmo pensar que era.</p><p>��� uma honra receber uma verdadeira acad�mica sob o nosso teto, mas Jac tem raz�o���disse, com firmeza.���Voc�s s�o muito bem-vindos aqui, mas, quando partirem, devem seguir para uma aldeia na mesma hora. N�o � seguro ficar viajando por a�. E digo o mesmo para a senhorita, milady���acrescentou, dirigindo-se a Faile.���Trollocs n�o s�o coisa que duas mulheres devam enfrentar com apenas um punhado de homens para proteg�-las.</p><p>��Vou pensar no assunto���respondeu Faile, muito calma.���Agrade�o a considera��o.</p><p>Ela bebericou o ch�, t�o despreocupada quanto Verin, que voltara a rabiscar o livrinho, apenas olhando para cima para sorrir na dire��o de Elisa e murmurar �o campo tem tantas hist�rias�. Faile aceitou um biscoito amanteigado de uma garotinha al�Seen, que fez uma mesura e corou intensamente, encarando a jovem com os olhos arregalados de admira��o.</p><p>Perrin sorriu para si mesmo. Toda vestida em seda verde de montaria, Faile era tomada pelo povo por uma nobre de ber�o, e ele tinha de admitir que ela representava o papel com muito esmero. Quando queria. A garota talvez n�o fosse t�o admirada se flagrada durante uma de suas explos�es de raiva, quando a l�ngua podia fustigar o couro de um condutor de carro��o.</p><p>A Senhora al�Seen virou-se para o marido, balan�ando a cabe�a. Faile e Verin n�o seriam convencidas. Jac olhou para Tomas.</p><p>��O senhor consegue convenc�-las a partir?</p><p>��Eu vou aonde ela manda���respondeu Tomas.</p><p>Mesmo sentado com uma x�cara de ch� na m�o, o Guardi�o parecia prestes a desembainhar a espada.</p><p>Mestre al�Seen deu um suspiro e mudou o foco de sua aten��o.</p><p>��Perrin, quase todos j� encontramos voc� vez ou outra l� por Campo de Emond. De certo modo, conhecemos voc�. Ou pelo menos o conhec�amos, antes de sua partida, no ano passado. Ouvimos algumas coisas preocupantes, mas imagino que Tam e Abell n�o estariam com voc� se fossem verdadeiras.</p><p>A esposa de Flann, Adine, uma mulher roli�a de olhar complacente, fungou alto.</p><p>��Tamb�m ouvi umas coisas sobre Tam e Abell. E sobre os filhos deles, que fugiram com Aes Sedai. Com Aes Sedai! Uma d�zia delas! Voc�s todos se lembram de como Campo de Emond queimou at� o talo. Sabe a Luz em que tipo de coisa eles podem ter se metido. Ouvi dizer que sequestraram a menina dos al�Vere.</p><p>Flann balan�ou a cabe�a, resignado, e lan�ou a Jac um olhar pesaroso.</p><p>��Se voc� acredita nisso���respondeu Wit, ir�nico���vai acreditar em qualquer coisa. Conversei com Marin al�Vere duas semanas atr�s, e ela me disse que a filha foi embora por conta pr�pria. E s� havia uma Aes Sedai.</p><p>��O que � que voc� est� sugerindo, Adine?���Elisa al�Seen p�s as m�os na cintura.���Fale de uma vez.���Havia mais do que um simples toque de desafio em sua voz.</p><p>��Eu n�o falei que acreditava���protestou Adine, com vigor���s� falei que ouvi dizer. Algumas perguntas precisam ser feitas. Os Filhos n�o est�o na cola daqueles tr�s por terem sorteado os nomes no palitinho.</p><p>��Se voc� escutar, para variar um pouco, pode ter uma ou duas respostas���retrucou Elisa, com firmeza.</p><p>Adine se p�s a ajeitar as saias de novo, mas, embora resmungasse baixinho, segurou a l�ngua.</p><p>��Algu�m mais tem algo a dizer?���perguntou Jac, com uma impaci�ncia muito mal disfar�ada. Quando ningu�m se pronunciou, ele prosseguiu.���Perrin, ningu�m aqui acredita que voc� seja Amigo das Trevas, assim como n�o acreditamos que Tam ou Abell sejam.���Ele disparou um olhar duro a Adine, e Flann p�s a m�o no ombro da esposa. A mulher ficou em sil�ncio, mas seus l�bios se apertaram com tudo que n�o foi dito. Jac resmungou sozinho antes de continuar.���Mesmo assim, Perrin, acho que temos o direito de escutar o motivo para os Mantos-brancos estarem falando essas coisas. Eles acusam voc�, Mat Cauthon e Rand al�Thor de serem Amigos das Trevas. Por qu�?</p><p>Faile abriu a boca, irritada, mas Perrin gesticulou para que ela ficasse em sil�ncio. A obedi�ncia o surpreendeu tanto que ele a encarou por um instante antes de responder. Talvez ela <emphasis>estivesse mesmo</emphasis> doente.</p><p>��Os Mantos-brancos n�o precisam de muita coisa, Mestre al�Seen. Se voc� n�o se desmanchar em mesuras e ficar fora do caminho deles, ent�o deve ser Amigo das Trevas. Se n�o disser o que eles querem nem pensar o que eles querem, deve ser Amigo das Trevas. Eu n�o sei por que eles pensam que Rand e Mat s�o.���Aquela era a pura verdade. Se os Mantos-brancos soubessem que Rand era o Drag�o Renascido, seria o suficiente, mas n�o havia como eles saberem. A hist�ria de Mat o deixava muito confuso. S� podia ser coisa de Fain.���Quanto a mim, eu matei alguns deles.���Perrin ficou espantado ao notar que os arquejos que se ergueram no sal�o n�o o constrangeram, e nem a ideia do que tinha feito.���Eles mataram um amigo meu e teriam me matado. Eu n�o deixei. Simples assim.</p><p>��D� para entender o motivo���respondeu Jac, devagar.</p><p>Mesmo com Trollocs � solta, o povo de Dois Rios n�o estava acostumado a matar. Alguns anos antes, uma mulher matara o marido porque queria se casar com outro homem. Pelo que Perrin sabia, tinha sido a �ltima vez que algu�m morreu por um ato de viol�ncia em Dois Rios. At� chegarem os Trollocs.</p><p>��Os Filhos da Luz t�m muito talento para uma coisa: fazer um povo que viveu junto a vida inteira come�ar a suspeitar uns dos outros���interveio Verin.</p><p>Todos os camponeses a encararam, e alguns assentiram, depois de um instante.</p><p>��Ouvi dizer que tem um homem com eles���completou Perrin.���Padan Fain. O mascate.</p><p>��Ouvi falar nisso���respondeu Jac.���Tamb�m me disseram que ele usa outro nome, hoje em dia.</p><p>Perrin assentiu.</p><p>��Ordeith. Mas, seja Fain ou Ordeith, ele <emphasis>�</emphasis> Amigo das Trevas. Ele mesmo admitiu isso, admitiu ter trazido os Trollocs na Noite Invernal do ano passado. E ele anda com os Mantos-brancos.</p><p>��� muito f�cil para voc� alegar isso���retrucou Adine Lewin, r�spida.���D� para chamar qualquer um de Amigo das Trevas.</p><p>��E em quem voc� acredita?���indagou Tomas.���Naqueles que chegaram h� algumas semanas, prenderam gente que voc� conhece e incendiaram suas fazendas? Ou em um jovem que cresceu bem aqui?</p><p>��Eu n�o sou Amigo das Trevas, Mestre al�Seen���disse Perrin���mas, se o senhor quiser que eu v� embora, eu vou.</p><p>��N�o���respondeu Elisa, mais do que depressa, lan�ando um olhar significativo para o marido. E um congelante para Adine, o que a fez engolir o que estava prestes a dizer.���N�o. Voc� pode ficar aqui pelo tempo que quiser.���Jac hesitou, depois assentiu em concord�ncia. Ela se aproximou, baixou o olhar para Perrin e pousou as m�os em seus ombros.���Voc� tem a nossa compaix�o���disse baixinho.���Seu pai era um homem bom. Sua m�e era minha amiga, e uma boa mulher. Sei que ela iria querer que voc� ficasse com a gente, Perrin. Os Filhos quase n�o v�m para estas bandas e, se vierem, os meninos no telhado v�o nos avisar a tempo de voc� se esconder no s�t�o. Voc� vai estar seguro aqui.</p><p>A mulher estava sendo sincera. De verdade. Perrin olhou para Mestre al�Seen, que assentiu outra vez.</p><p>��Obrigado���disse ele, com um n� na garganta.���Mas eu tenho� coisas a fazer. Preciso cuidar de algumas pend�ncias.</p><p>Ela suspirou, afagando-o com delicadeza.</p><p>��� claro. S� tome cuidado para n�o acabar� se machucando. Bom, pelo menos eu posso ver voc� partir de barriga cheia.</p><p>N�o havia mesas o suficiente para todos na casa, por isso a refei��o do meio-dia foi entregue em tigelas de cozido de cordeiro com peda�os de p�o e advert�ncias para que ningu�m derramasse nada no ch�o. Todos comeram onde estavam, sentados ou de p�. Antes do fim da refei��o, um garoto magrelo com os punhos para fora da camisa e um arco maior do que ele irrompeu no sal�o. Perrin achou que fosse Win Lewin, mas n�o teve certeza. Os meninos cresciam muito depressa nessa idade.</p><p>��� o Lorde Luc���exclamou o garoto, animado.���Lorde Luc est� chegando.</p></section><section><title><p>33</p><p><image l:href="#12"/></p><p>Uma nova trama no Padr�o</p></title><p>O lorde em pessoa entrou logo atr�s do garoto. Era um homem alto de meia-idade, com ombros largos, rosto severo e anguloso e cabelos vermelho-escuros com mechas grisalhas nas t�mporas. Havia um toque de arrog�ncia em seus olhos azul-escuros, e ele de fato parecia pertencer � nobreza. Estava vestido em um casaco verde com discretos bordados em arabescos dourados nas mangas e manoplas trabalhadas em fios-de-ouro. A bainha da espada tamb�m era envolta em ouro trabalhado, bem como as bocas das botas polidas. O homem conseguia tornar o simples ato de entrar pela porta algo grandioso. Perrin o desprezou logo � primeira vista.</p><p>Todos os al�Seen e Lewin correram para saudar o lorde, homens, mulheres e crian�as amontoando-se � volta dele com sorrisos, mesuras e rever�ncias, tagarelando uns por cima dos outros sobre a honra de sua presen�a, a grande honra da visita de um Ca�ador da Trombeta. Pareciam muito empolgados. Estar sob o mesmo teto que um lorde podia ser empolgante, mas estar com um que jurara ca�ar a lend�ria Trombeta de Valere���aquilo parecia sa�do de uma hist�ria. Perrin n�o se lembrava de ter visto o povo de Dois Rios bajulando ningu�m, mas aquela gente estava bem perto disso.</p><p>O tal Lorde Luc claramente tomava aquilo como nada mais que o esperado, talvez menos. Ali�s, como algo at� cansativo. O povo da fazenda n�o parecia notar ou talvez simplesmente n�o reconhecesse a express�o meio cansada, o sorriso meio condescendente. Talvez todos s� pensassem que era daquele jeito que lordes se portavam. Era bem verdade que muitos se comportavam assim, mas Perrin sentiu-se irritado em assistir �quela gente���a sua gente���aceitar uma coisa daquelas.</p><p>Quando a como��o come�ou a diminuir, Jac e Elisa apresentaram os outros h�spedes���menos Tam e Abell, que j� o conheciam���a Lorde Luc de Chiendelna, afirmando que o homem estava aconselhando o povo sobre como se proteger dos Trollocs, que os encorajava a enfrentar os Mantos-brancos e a se defender. Murm�rios de aprova��o emergiam pelo sal�o. Se Dois Rios estivesse atr�s de um rei, Lorde Luc teria o apoio de todos os al�Seen e Lewin. E o homem tamb�m sabia disso. Por�m, o aparente fastio e a complac�ncia n�o duraram muito.</p><p>� primeira olhadela no rosto pl�cido de Verin, Luc enrijeceu-se de leve, e seus olhos desceram �s m�os da mulher t�o depressa que muitos n�o teriam notado. O lorde quase deixou cair as luvas bordadas. Gorducha e de roupas simples, a mulher poderia ser apenas mais uma dona de casa camponesa, mas Luc sabia distinguir as fei��es et�reas de uma Aes Sedai. O canto de seu olho esquerdo estremeceu quando o homem ouviu a Senhora al�Seen apresentar a mulher como �Senhora Mathwin�, �uma acad�mica de fora�.</p><p>Verin sorriu para ele com uma express�o meio sonolenta.</p><p>��Muito prazer���murmurou a Marrom.���Casa Chiendelna. Onde fica? Parece um nome das Terras da Fronteira.</p><p>��Nada t�o grandioso���respondeu Luc, mais do que depressa, curvando-se em uma �nfima mesura cautelosa.���Sou de Murandy, na verdade. Uma casa menor, por�m antiga.</p><p>Luc pareceu pouco � vontade em tirar os olhos da mulher durante o restante das apresenta��es.</p><p>Mas o homem mal olhou para Tomas. Devia saber que ele era o Guardi�o da �Senhora Mathwin�, mas descartou o homem sem titubear, com um desprezo t�o claro quanto se houvesse sido declarado aos berros. Foi bem estranho. Por mais talento que Luc tivesse com a espada que levava, ningu�m tinha habilidade o bastante para fazer pouco caso de um Guardi�o. Arrog�ncia. O sujeito possu�a a arrog�ncia de dez homens. E provou isso pela forma como se comportou com Faile, pelo que Perrin viu.</p><p>O sorriso que Luc ofereceu a ela era sem d�vida mais do que confiante, era tamb�m amig�vel e �ntimo. Na verdade, era amig�vel e �ntimo demais. O lorde tomou a m�o de Faile nas suas e fez uma mesura, encarando-a como se tentasse enxergar dentro de sua cabe�a. Por um instante, Perrin achou que a namorada estivesse prestes a retribuir o gesto com arrog�ncia, mas ela devolveu o olhar do lorde com as bochechas vermelhas, fingindo tranquilidade, e um leve meneio de cabe�a.</p><p>��Eu tamb�m sou Ca�adora da Trombeta, milorde���disse Faile, soando um tantinho ofegante.���Acha que vai encontr�-la por aqui?</p><p>Luc pareceu surpreso e soltou a m�o da mulher.</p><p>��Pode ser, milady. Quem � que sabe onde a Trombeta pode estar?���Faile pareceu um pouco surpresa, talvez desapontada, com a s�bita perda de interesse do homem.</p><p>Perrin manteve a express�o neutra. Se ela quisesse sorrir para Wil al�Seen e corar para lordes idiotas, que fosse. Podia se fazer de idiota o quanto quisesse e olhar abobada para qualquer homem que aparecesse. Ent�o Luc queria saber onde estava a Trombeta de Valere? Estava escondida na Torre Branca, era l� que estava. Ficou tentado a revelar ao homem, s� para faz�-lo ranger os dentes de frustra��o.</p><p>Se Luc ficara surpreso em descobrir quem eram os outros convidados na casa al�Seen, sua rea��o ao ser apresentado a Perrin foi, para dizer o m�nimo, peculiar. O homem levou um susto ao olhar seu rosto, a express�o foi de puro choque. Entretanto, a n�o ser por um leve tremor no canto do olho, toda a surpresa desapareceu em um instante, mascarada por tr�s da soberba senhoril. O problema era que n�o fazia sentido. N�o foram os olhos amarelos que surpreenderam Luc, Perrin tinha certeza. Era mais como se o sujeito o conhecesse e estivesse espantado em v�-lo ali, mas ele nunca vira aquele tal de Luc na vida. Mais do que isso, Perrin teria apostado que Luc estava com medo dele. N�o fazia sentido.</p><p>��Foi o Lorde Luc quem sugeriu que os garotos ficassem nos telhados���comentou Jac.���Se algum Trolloc chegar perto, os rapazes v�o dar o alerta.</p><p>��E quanto tempo esse alerta lhes d�?���perguntou Perrin, em um tom seco. Aquele era um exemplo dos conselhos do grande Lorde Luc?���Os Trollocs enxergam no escuro feito gatos. J� v�o estar aqui dentro, chutando as portas, antes que seus garotos consigam soltar sequer um berro de aviso.</p><p>��N�s fazemos o poss�vel���vociferou Flann.���Pare de ficar tentando nos meter medo. Tem crian�as escutando. Pelo menos o Lorde Luc oferece sugest�es �teis. Ele estava na minha casa na v�spera da vinda dos Trollocs, cuidando para que todos estivessem posicionados da melhor maneira poss�vel. Sangue e cinzas! Se n�o fosse por ele, os Trollocs teriam matado todos n�s.</p><p>Luc n�o pareceu ouvir o elogio feito a ele. Observava Perrin com aten��o enquanto remexia as manoplas, inquieto, enfiando-as por detr�s da fivela do cintur�o, ornada com a cabe�a dourada de um lobo. Faile tamb�m o encarava, mas com uma leve carranca. Ele a ignorava.</p><p>��Achei que tinham sido os Mantos-brancos que salvaram voc�s, Mestre Lewin. Achei que uma patrulha dos Mantos-brancos tivesse chegado bem na hora e expulsado os Trollocs.</p><p>��Bom, eles chegaram.���Flann passou a m�o nos cabelos grisalhos.���Mas o Lorde Luc� Se os Mantos-brancos n�o tivessem chegado, n�s poder�amos� Pelo menos ele n�o tenta nos meter medo���murmurou.</p><p>��Ent�o ele n�o mete medo em voc�s���disse Perrin.���Bem, os Trollocs me metem medo. E os Mantos-brancos afugentam os Trollocs para voc�s. Quando conseguem.</p><p>��Quer dar cr�dito aos Mantos-brancos?���Luc cravou em Perrin um olhar frio, como se atacasse uma fraqueza.���Quem voc� acha que � respons�vel pelos rabiscos da Presa do Drag�o nas portas das casas? Tudo bem, as m�os deles nunca seguraram o carv�o, mas eles est�o por tr�s disso. Invadem as casas dessa boa gente fazendo perguntas e exigindo respostas como se estivessem debaixo do pr�prio teto. Eu acho que essa gente � dona de si mesma, n�o c�es que os Mantos-brancos podem p�r na linha. Deixe que eles patrulhem o campo, e acho at� muito bom, mas v� encontr�-los no port�o e informe de quem � a terra onde est�o pisando. � isso o que eu acho. Se voc� quiser ser um c�ozinho dos Mantos-brancos, v� em frente, mas n�o se ressinta dessa gente pela liberdade que t�m.</p><p>Perrin retribuiu o olhar de Luc.</p><p>��Eu n�o nutro afei��o pelos Mantos-brancos. Eles querem me enforcar, ou ser� que n�o ficou sabendo?</p><p>O homem alto piscou como se n�o tivesse ouvido falar naquilo, ou como se talvez tivesse esquecido, na �nsia de brilhar aos olhos do povo.</p><p>��Ent�o o que voc� est� propondo, exatamente?</p><p>Perrin deu as costas ao homem e foi postar-se diante da lareira. N�o queria discutir com Luc. Era melhor que todos ouvissem. Toda aquela gente j� estava encarando-o, mesmo. Diria o que estava pensando, e ponto final.</p><p>��Voc�s precisam depender dos Mantos-brancos, precisam esperar que eles mantenham os Trollocs longe, torcer para que eles cheguem a tempo caso os Trollocs ataquem. Por qu�? Porque cada homem est� tentando proteger sua pr�pria fazenda, se puder, ou, se n�o puder, quer ficar o mais perto dela poss�vel. Voc�s est�o espalhados em v�rios grupinhos, feito cachinhos de uva esperando para serem colhidos. Enquanto for assim, enquanto voc�s tiverem que rezar para os Mantos-brancos conseguirem impedir que os Trollocs pisoteiem todos at� virarem vinho, voc�s n�o t�m escolha a n�o ser deixar que perguntem o que quiserem e exijam as respostas que quiserem. � por isso que voc�s precisam ficar parados, s� assistindo a gente inocente ser levada embora. Ou ser� que algu�m aqui acha que Haral e Alsbet Luhhan s�o Amigos das Trevas? Natti Cauthon? Bodewhin e Eldrin?</p><p>Abell lan�ou ao sal�o um olhar que desafiava qualquer um a deixar entrever que sim, mas n�o era necess�rio. At� Adine Lewin estava prestando aten��o em Perrin. Luc se dividia entre franzir o cenho para ele e examinar as rea��es das pessoas aglomeradas no sal�o.</p><p>��Eu sei que eles n�o deveriam ter prendido Natti, Alsbet e todos os outros���interveio Wit���mas isso j� acabou.���Ele passou a m�o pela cabe�a careca e olhou preocupado para Abell.���Quer dizer, s� falta fazer com que soltem todo mundo. Mas eles n�o prenderam mais ningu�m, pelo menos n�o que eu saiba.</p><p>��Acha mesmo que isso significa que j� acabou?���perguntou Perrin.���Acha mesmo que v�o se satisfazer com os Cauthon e os Luhhan? Com duas fazendas incendiadas? Quem de voc�s vai ser o pr�ximo? Talvez sejam levados por dizer a coisa errada, ou apenas para servir de exemplo. Podiam ser Mantos-brancos jogando tochas nesta casa, em vez de Trollocs. Ou talvez qualquer noite dessas a Presa do Drag�o apare�a rabiscada na porta. Sempre tem gente que acredita nesse tipo de coisa.���V�rios olhares se voltaram para Adine, que remexeu os p�s e deu de ombros.���Mesmo que isso signifique apenas ter de baixar a cabe�a para todos os Mantos-brancos que aparecerem, voc�s querem mesmo viver assim? Querem que seus filhos vivam assim? Voc�s est�o � merc� dos Trollocs, � merc� dos Mantos-brancos e � merc� de qualquer um que guarde rancor. Enquanto um deles tiver controle sobre voc�s, todos os tr�s ter�o. Voc�s est�o escondidos no por�o torcendo para que um c�o raivoso os proteja de outro, torcendo para que os ratos n�o apare�am no meio da noite e ataquem.</p><p>Jac trocou olhares preocupados com Flann e Wit, depois com os outros homens no sal�o, ent�o respondeu, sem pressa:</p><p>��Se acha que estamos fazendo algo errado, o que � que sugere, ent�o?</p><p>Perrin n�o esperava a pergunta���tinha certeza de que todos ficariam irritados���mas logo come�ou a explicar sua ideia.</p><p>��Re�nam o povo. Recolham as ovelhas, vacas, galinhas e tudo o mais. Juntem tudo e levem para um local seguro. V�o para Campo de Emond. Ou para Colina da Vig�lia, j� que � mais perto, embora l� voc�s v�o ficar bem sob a mira dos Mantos-brancos. Enquanto houver vinte pessoas aqui e cinquenta l�, voc�s ser�o presa para os Trollocs. Se centenas se juntarem, ter�o uma chance. E isso sem ter que abaixar a cabe�a para os Mantos-brancos.���Aquilo gerou a explos�o que ele esperava.</p><p>��Abandonar minha fazenda?���gritou Flann, por cima de Wit, que dizia:</p><p>��Voc� est� louco!</p><p>As palavras se atropelavam, vindas deles, de seus irm�os e primos.</p><p>��Ir para Campo de Emond? Aqui j� estou longe demais para sequer conferir os campos todos os dias!</p><p>��As ervas daninhas v�o tomar tudo!</p><p>��J� nem sei como vai ser a colheita, do jeito que est�!</p><p>��� se a chuva vier�!</p><p>��� tentar reconstruir�!</p><p>��� tabaco vai apodrecer�!</p><p>��� ter que abandonar a tosquia�!</p><p>O baque do punho de Perrin socando o lintel da lareira silenciou a algazarra.</p><p>��Eu n�o vi nenhum campo destru�do, nem queimado, nem sequer uma casa ou celeiro que tenha sido incendiado com gente dentro. � de gente que os Trollocs v�m atr�s. E da� se eles incendiarem tudo? Voc�s podem plantar uma nova safra. Pedra, argamassa e madeira podem ser reconstru�dos. E isso, d� para reconstruir?</p><p>Ele apontou para o beb� de Laila, que apertou a crian�a contra o peito, cravando os olhos em Perrin como se ele � que fosse uma amea�a para seu filho. No entanto, os olhares que ela lan�ou ao marido e a Flann eram de terror. Um burburinho desconfort�vel se ergueu.</p><p>��Ir embora���murmurou Jac, balan�ando a cabe�a.���N�o sei, n�o, Perrin.</p><p>��A escolha � de voc�s, Mestre al�Seen. A terra ainda vai estar aqui quando voc�s voltarem. Os Trollocs n�o t�m como lev�-la embora. Mas ser� que d� para dizer o mesmo em rela��o �s fam�lias de voc�s?</p><p>O burburinho elevou-se a uma algazarra. In�meras mulheres confrontavam os maridos, a maioria com uma ou duas crian�as a tiracolo. Nenhum dos homens parecia discutir.</p><p>��Um plano interessante���comentou Luc, analisando Perrin. Pela express�o do homem, n�o havia como dizer se ele aprovava.���Ficarei observando o desenrolar dos acontecimentos. Agora, Mestre al�Seen, preciso ir andando. S� passei para ver como voc�s estavam.���Jac e Elisa o levaram at� a porta, mas os outros estavam muito ocupados com os pr�prios debates para prestar aten��o.</p><p>Luc foi embora com uma express�o irritada, e Perrin teve a sensa��o de que as partidas do homem em geral eram t�o grandiosas quanto as chegadas.</p><p>Jac foi da porta direto at� Perrin.</p><p>��Esse seu plano � muito audacioso. Devo admitir que n�o me entusiasmei muito com a ideia de abandonar minha fazenda, mas o que voc� disse faz sentido. S� n�o sei o que os Filhos v�o pensar disso. Para mim, eles parecem muito desconfiados. Se nos reunirmos, eles podem pensar que estamos todos tramando alguma coisa contra eles.</p><p>��Deixe que pensem���retrucou Perrin.���Uma aldeia cheia de gente pode seguir o conselho de Luc e mand�-los ir cuidar de seus assuntos em outro lugar. Ou � melhor ficarem vulner�veis s� para garantir a boa-vontade dos Mantos-brancos, como j� fazem?</p><p>��N�o. N�o, eu concordo. Voc� me convenceu. E a todo mundo, pelo que vejo.</p><p>E parecia mesmo verdade. O burburinho das discuss�es estava se aquietando, mas apenas porque todos pareciam estar entrando em acordo. At� Adine j� gritava com as filhas, dando ordens para arrumar as coisas imediatamente. Ela at� deu a Perrin um aceno de cabe�a rabugento e aprovativo.</p><p>��Quando pretendem ir?���perguntou Perrin a Jac.</p><p>��Assim que todos conseguirem se aprontar. Podemos chegar � casa de Jon Gaelin, na Estrada do Norte, antes de anoitecer. Vou contar a Jon o que voc� disse, e tamb�m a todos de Campo de Emond. Melhor l� que em Colina da Vig�lia. Se quisermos sair do controle dos Mantos-brancos, assim como dos Trollocs, � melhor ficarmos longe das vistas deles.���Jac passou um dedo pela franja curta.���Perrin, eu n�o acredito que os Filhos fariam algum mal a Natti Cauthon, �s meninas e aos Luhhan, mas fico preocupado. Se eles realmente pensarem que estamos tramando, quem � que sabe o que pode acontecer?</p><p>��Pretendo libertar todos eles assim que puder, Mestre al�Seen. Ali�s, pretendo o mesmo para todos os outros que os Mantos-brancos levarem presos.</p><p>��Um plano audacioso���repetiu Jac.���Bom, � melhor eu fazer esse povo andar, se quiser chegar � casa de Jon antes de anoitecer. V� com a Luz, Perrin.</p><p>��Um plano muito audacioso���concordou Verin, aproximando-se enquanto Mestre al�Seen sa�a apressado, dando ordens para que puxassem os carro��es e embalassem tudo o que pudessem carregar.</p><p>A Marrom analisou Perrin com interesse, inclinando a cabe�a para o lado, mas n�o parecia menos interessada do que Faile, a seu lado. A mulher o olhava como se nunca o tivesse visto.</p><p>��N�o sei por que todo mundo fica repetindo isso���respondeu ele.���A respeito do plano, quer dizer. Aquele Luc estava falando um monte de bobagens. Desafiar Mantos-brancos no port�o. Garotos no telhado vigiando Trollocs. Portas abertas para a desgra�a. A �nica coisa que fiz foi chamar a aten��o para isso. Eles deviam ter feito o que sugeri desde o in�cio. Aquele homem����Ele se refreou para n�o dizer que Luc o irritava. N�o na frente de Faile: ela poderia ter a impress�o errada.</p><p>��� claro���concordou Verin, serena.���Eu n�o tive oportunidade de ver isso em funcionamento, antes. Ou talvez tenha tido, mas na hora n�o sabia.</p><p>��Do que voc� est� falando? Ver o que em funcionamento?</p><p>��Perrin, quando chegamos aqui, as pessoas estavam prontas para se agarrarem a este lugar a qualquer custo. Voc� os encheu de bom senso e determina��o, mas acha que o mesmo teria acontecido se partisse de mim, Tam ou Abell? De todos n�s, voc� � o que mais compreende como o povo de Dois Rios sabe ser teimoso. Voc� alterou o curso que os acontecimentos teriam seguido em Dois Rios sem sua presen�a. Com umas poucas palavras proferidas em um tom� irritado? <emphasis>Ta�veren</emphasis> realmente arrastam as vidas dos outros para dentro do pr�prio padr�o. � fascinante. Espero ter oportunidade de observar Rand.</p><p>��Seja l� o que for���murmurou Perrin���� para o bem. Quanto mais gente reunida em um lugar s�, maior a seguran�a.</p><p>��� claro. Rand est� com a espada, imagino?</p><p>Perrin franziu o cenho, mas n�o havia motivo para n�o contar a ela. Verin sabia a respeito de Rand, e sabia o que Tear devia significar.</p><p>��Est�.</p><p>��Tome cuidado com Alanna, Perrin.</p><p>��O qu�?���As mudan�as r�pidas de assunto da Aes Sedai estavam come�ando a confundi-lo, sobretudo quando ela resolvia mand�-lo fazer algo que ele j� havia pensado fazer, mas planejava manter em segredo.���Por qu�?</p><p>O rosto de Verin n�o se alterou, mas seus olhos escuros de s�bito assumiram um brilho agu�ado, como os de um p�ssaro.</p><p>��H� muitos� esquemas na Torre Branca. Nem todos s�o malignos, nem de longe, mas �s vezes � dif�cil saber at� j� ser tarde demais. E mesmo o mais benevolente com frequ�ncia permite o rompimento de alguns fios na trama, ou descarta alguns fios de junco na hora de fazer a cesta. Um <emphasis>ta�veren</emphasis> � um junco �til a um grande n�mero de poss�veis planos.���T�o de repente quanto come�ara a dar conselhos, Verin passou a olhar meio confusa para o tumulto � volta, mais � vontade com um livro ou com seus pr�prios pensamentos do que no mundo real.���Ah, minha nossa. Mestre al�Seen n�o perde tempo, n�o � mesmo? Vou l� ver se ele pode ceder algu�m para pegar nossos cavalos.</p><p>Faile estremeceu quando a irm� Marrom se afastou.</p><p>���s vezes as Aes Sedai me deixam meio� desconfort�vel���murmurou.</p><p>��Desconfort�vel?���perguntou Perrin.���Na maioria das vezes elas quase me matam de medo.</p><p>A jovem riu baixinho e come�ou a brincar com um bot�o do casaco dele, dando muita aten��o ao objeto.</p><p>��Perrin, eu� tenho sido� uma idiota.</p><p>��Como assim?���Faile o encarou, prestes a arrancar o bot�o de tanto torc�-lo, e ele acrescentou prontamente:���Voc� � uma das pessoas menos idiotas que eu conhe�o.</p><p>Ele fechou a boca antes que acabasse acrescentando um �quase sempre�, e ficou contente quando ela sorriu.</p><p>��� muito bom ouvir isso de voc�, mas eu fui, sim.���Ela deu um tapinha no bot�o e come�ou a arrumar o casaco, o que n�o era preciso, e a alisar as lapelas, o que tamb�m n�o era preciso.���Voc� foi t�o bobo���continuou, falando r�pido���s� porque aquele rapaz olhou para mim. S�rio, ele � muito garotinho, nada parecido com voc�. Ent�o pensei que voc� ficaria com ci�mes, s� um pouquinho, se eu fingisse, s� fingisse, estar interessada em Lorde Luc. Eu n�o devia ter feito isso. Voc� me perdoa?</p><p>Ele tentou ordenar o amontoado de palavras. Era bom que ela achasse Wil um garotinho���se tentasse deixar a barba crescer, decerto seria rala���mas ela n�o mencionara a forma como correspondera ao olhar de Wil. E, se tinha fingido estar atra�da por Luc, por que corara daquele jeito?</p><p>��� claro que eu perdoo���disse ele. Um brilho perigoso surgiu nos olhos dela.���Quer dizer, n�o tem nada para perdoar.���O brilho cintilou mais forte. O que ela queria que ele dissesse?���E voc�, me perdoa? Quando eu estava tentando afastar voc�, disse coisas que n�o deveria ter dito. Voc� me perdoa por isso?</p><p>��Voc� <emphasis>disse</emphasis> coisas que precisam de perd�o?���indagou Faile, em um tom doce, e Perrin soube que estava em apuros.���N�o consigo pensar no que possa ter sido, mas levarei o pedido em considera��o.</p><p>Em considera��o? Ela soou bastante como uma nobre. Talvez o pai trabalhasse para algum lorde e ela tivesse podido estudar a maneira como as ladies falavam. Perrin n�o fazia ideia do que Faile tinha querido dizer. E nunca descobriria a tempo, tinha certeza.</p><p>Foi um al�vio montar de volta na sela de Galope, em meio � confus�o de grupos de carro��es sendo erguidos, gente debatendo sobre o que podia ou n�o ser transportado e crian�as perseguindo galinhas e gansos, amarrando suas pernas para lev�-los. Uns garotos j� conduziam o gado para o leste, e outros arrebanhavam as ovelhas para fora do redil.</p><p>Faile n�o fez men��o ao que fora dito l� dentro. Apenas abriu um sorriso para ele e comparou a cria��o das ovelhas dali com as de Saldaea, e, quando uma das meninas veio lhe trazer um buqu� de pequeninas flores vermelhas, rubor-do-cora��o, tentou enfiar algumas na barba dele, rindo de seus esfor�os para impedi-la. Em resumo, Faile o deixara absolutamente chocado. Ele precisava de outra conversa com Mestre Cauthon.</p><p>��V� com a Luz���disse Mestre al�Seen, quando eles estavam prontos para partir���e cuide dos garotos.</p><p>Quatro dos jovens rapazes haviam decidido ir com eles, montados em cavalos de pelagem tosca nem de longe t�o bons quanto os de Tam e Abell. Perrin n�o sabia ao certo por que era ele quem deveria cuidar dos quatro. Eram todos mais velhos do que ele, ainda que por pouco. Um deles era Wil al�Seen, acompanhado do primo, Ban, um dos filhos de Jac���que tinha nariz pela fam�lia inteira���e dois dos Lewin, Tell e Dannil, t�o parecidos com Flann que poderiam ser seus filhos, em vez de sobrinhos. Perrin tentara dissuadir os rapazes, sobretudo quando eles deixaram claro que queriam ajudar a resgatar os Cauthon e os Luhhan dos Mantos-brancos. Pareciam pensar que seria uma quest�o de cavalgar at� o acampamento dos Filhos e exigir a soltura de todos. Oprimir a oposi��o, como disse Tell, o que quase fez Perrin ficar de cabelo em p�. Aquela gente tinha ouvido muitos contos de menestr�is. Dado muita aten��o a idiotas como Luc. Suspeitou que Wil tivesse mais alguma raz�o para ir, embora o rapaz tentasse fingir que Faile n�o existia, mas as outras j� eram ruins o bastante.</p><p>Ningu�m mais fez qualquer obje��o. A �nica preocupa��o de Tam e Abell parecia ser a de que todos soubessem usar os arcos que carregavam e pudessem se manter em cima de um cavalo, enquanto Verin apenas observava e fazia anota��es em seu caderninho. Tomas parecia estar se divertindo, e Faile estava ocupada tran�ando uma coroa com as flores de rubor-do-cora��o, que no final das contas entregou a Perrin. Com um suspiro, ele ajeitou as flores no cepilho da sela.</p><p>��Vou cuidar deles da melhor maneira que puder, Mestre al�Seen���prometeu.</p><p>A uma milha da fazenda al�Seen, Perrin pensou que perderia um ou dois ali mesmo, quando Gaul, Bain e Chiad surgiram de uma moita de repente, andando a passos largos para juntar-se ao grupo. Achou que os perderia para as lan�as Aiel, j� que Wil e seus amigos deram uma olhadela para os rec�m-chegados e logo come�aram a encaixar flechas nos arcos. Sem reduzir o passo, os Aiel prepararam as lan�as e ergueram os v�us. Foram precisos alguns minutos para desfazer o mal-entendido. Gaul e as duas Donzelas pareceram achar tudo muito engra�ado depois dos esclarecimentos e gargalharam animadamente, o que perturbou tanto os Lewin e al�Seen quanto a descoberta de que os tr�s eram Aiel, ainda mais com duas mulheres guerreiras. Wil ensaiou um sorriso para Bain e Chiad, que se entreolharam e trocaram breves acenos de cabe�a. Perrin n�o entendeu o que estava acontecendo, mas decidiu deixar quieto, a menos que Wil come�asse a tentar ser degolado. Interviria a tempo de impedir que uma das Aiel desembainhasse a faca. Talvez ensinasse uma ou duas coisinhas a Wil, a respeito de sorrisos.</p><p>Pretendia acelerar o passo at� Colina da Vig�lia, mas, a cerca de uma milha a norte da casa dos al�Seen, avistou uma das fazendas soltando aquelas cortinas de fuma�a pela chamin�. Tam estava mantendo o grupo bem afastado, de modo que as pessoas ao redor da fazenda eram apenas silhuetas. Menos para os olhos de Perrin, que conseguia ver as crian�as no jardim. E Jac al�Seen era o vizinho mais pr�ximo. Ou fora, at� ent�o. Ele hesitou, depois puxou a r�dea de Galope em dire��o � fazenda. Era prov�vel que n�o adiantasse de nada, mas tinha que tentar.</p><p>��O que � que voc� vai fazer?���perguntou Tam, franzindo o cenho.</p><p>��Dar a eles o mesmo conselho que dei a Mestre al�Seen. N�o vai levar nem um minuto.</p><p>Tam assentiu, e os outros se viraram com ele. Verin analisava Perrin, pensativa. Os Aiel se separaram perto da fazenda para esperar mais ao norte, Gaul um pouco afastado das Donzelas.</p><p>Perrin n�o conhecia os Torfinn, nem eles o conheciam, mas, para sua surpresa, assim que a empolga��o com os estranhos e os olhares curiosos na dire��o de Tomas, Verin e Faile cessaram, todos escutaram com aten��o e depois come�aram a puxar cavalos para dois carro��es e para um par de carro�as de rodas altas antes mesmo que ele e os outros partissem.</p><p>Por mais tr�s vezes, Perrin parou quando a rota os levou perto das casas de fazenda, uma das vezes em um agrupado de cinco. Era sempre a mesma coisa. O povo reclamava que n�o podia simplesmente abandonar as fazendas, mas ele sempre partia deixando para tr�s um tumulto de pacotes e ajuntamento de animais de carga.</p><p>Algo mais aconteceu tamb�m. Ele n�o p�de impedir Wil, o primo ou os Lewin de conversar com os jovens das fazendas. O grupo deles aumentou em treze, Torfinn e al�Dai, Ahan e Marwin, todos armados com arcos e cavalgando uma sele��o heterog�nea de p�neis e cavalos de arado, �vidos por resgatar os prisioneiros dos Mantos-brancos.</p><p>Claro que nem tudo correu t�o tranquilamente. Wil e os outros da fazenda al�Seen consideraram uma injusti�a que ele avisasse os rec�m-chegados sobre os Aiel, estragando a divers�o que esperavam ter ao v�-los pular de susto. Para Perrin, eles ainda se assustaram o bastante, e o jeito com que os rapazes perscrutavam cada arbusto e cada grupo de �rvores deixava claro que pensavam haver mais Aiel, n�o importava o que ele dissesse. A princ�pio, Wil tentou dar uma de lorde para cima dos Torfinn e dos outros, alegando que fora o primeiro a se juntar a Perrin���um dos primeiros, pelo menos, admitiu quando Ban e os Lewin cravaram os olhos nele���enquanto os outros haviam chegado depois.</p><p>Perrin deu um fim �quilo dividindo-os em dois grupos mais ou menos iguais e colocando Dannil e Ban no comando de cada um, embora no in�cio tamb�m tivesse havido um pouco de resmungos a respeito. Os al�Dai achavam que os l�deres deveriam ser escolhidos de acordo com a idade���Bili al�Dai era um ano mais velho que todos���enquanto outros indicavam Hu Marwin como o melhor rastreador e Jaim Torfinn como o melhor arqueiro. Al�m disso, Kenley Ahan j� estivera na Colina da Vig�lia v�rias vezes, antes da vinda dos Mantos-brancos, e saberia circular pela aldeia. Eles pareciam pensar que tudo era uma brincadeira. A frase de Tell sobre oprimir a oposi��o foi repetida mais de uma vez.</p><p>Por fim, Perrin virou-se para eles com uma raiva fria, for�ando todos a parar no prado entre dois bosques.</p><p>��Isso aqui n�o � um jogo, nem uma dan�a do Bel Tine. Voc�s fa�am o que lhes for mandado, ou ent�o voltem para casa. Eu n�o sei qual � a serventia de voc�s, e n�o tenho inten��o de acabar morto porque voc�s acham que sabem o que est�o fazendo. Agora fa�am uma fila e calem essas bocas. Est�o parecendo o C�rculo das Mulheres reunido dentro de um roupeiro.</p><p>Eles obedeceram, formando duas fileiras atr�s de Ban e Dannil. Wil e Bili armaram caretas de insatisfa��o, mas guardaram para si quaisquer obje��es que tivessem. Faile deu a Perrin um aceno de cabe�a aprovativo, e Tomas tamb�m. Verin observou toda a cena com uma express�o pl�cida e indecifr�vel, decerto imaginando que estava assistindo a um <emphasis>ta�veren</emphasis> em a��o. Perrin n�o viu necessidade de dizer � mulher que s� tentara pensar no que teria dito um shienarano que ele conhecia, um soldado chamado Uno, embora sem d�vida Uno teria colocado a coisa em palavras mais duras.</p><p>Come�aram a encontrar um n�mero maior de fazendas � medida que se aproximavam de Colina da Vig�lia, cada vez menos distantes entre si, at� aparecerem uma depois da outra, como era perto de Campo de Emond: uma miscel�nea de gramados com cercas-vivas ou muros de pedra separados por alamedas, umas para pedestres, outras para carro�as. Mesmo com as paradas nas quatro fazendas, ainda restava um pouco de luz do dia, ent�o ainda havia homens trabalhando nos campos e garotos conduzindo ovelhas e gado dos pastos para dentro, para o pernoite. Ningu�m deixava os animais do lado de fora, naqueles tempos.</p><p>Tam sugeriu que Perrin parasse de alertar as pessoas, e ele concordou, relutante. O povo rumaria de l� para Colina da Vig�lia, alertando os Mantos-brancos. Vinte e tantas pessoas cavalgando juntas por rotas secund�rias atra�am olhares suficientes, embora a maioria parecesse muito ocupada para dar mais que uma olhadela. Mas aquilo teria de ser feito mais cedo ou mais tarde, e quanto mais cedo, melhor. Enquanto o povo permanecesse no campo, precisando da prote��o dos Mantos-brancos, os Filhos teriam vantagem sobre Dois Rios, algo de que talvez n�o quisessem abrir m�o.</p><p>Perrin manteve o olhar atento para qualquer sinal de patrulhas de Mantos-brancos, mas, exceto por uma nuvem de poeira na dire��o na Estrada do Norte, rumo ao sul, n�o viu vest�gios dos Filhos. Depois de um tempo, Tam sugeriu que descessem dos cavalos e os guiassem andando. A p� haveria menos chances de serem vistos, pois as cercas-vivas e at� mesmo os muros baixos de pedra formariam uma barreira.</p><p>Tam e Abell conheciam um bosque que dava uma boa vis�o do acampamento dos Mantos-brancos, um emaranhado de carvalhos, tupelos e folhas-de-couro que cobria tr�s ou quatro hidas a pouco mais de uma milha ao sul e a oeste de Colina da Vig�lia, com vista para um trecho de campo aberto. Eles entraram no bosque pelo sul, apressados. Perrin torceu para que ningu�m os tivesse visto entrando, n�o queria ningu�m se perguntando por que n�o sa�ram e espalhando o que vira.</p><p>��Fiquem aqui���disse a Wil e aos outros rapazes, enquanto o grupo amarrava os cavalos �s �rvores.���Mantenham os arcos � m�o e fiquem a postos para correr se ouvirem um grito. Mas s� se mexam se me ouvirem gritar. E se algu�m fizer qualquer barulho, vou esmurrar a cabe�a do sujeito feito uma bigorna. A gente est� aqui para observar, n�o para ficar esbarrando feito touros cegos e atrair os Mantos-brancos.</p><p>Os rapazes tocaram os arcos e assentiram, nervosos. Talvez come�assem a se dar conta do que estavam fazendo. Os Filhos da Luz n�o seriam muito am�veis se encontrassem gente de Dois Rios circulando armada.</p><p>��Voc� j� foi soldado?���perguntou Faile baixinho, intrigada.���Alguns dos� guardas do meu pai falam desse jeito.</p><p>��Eu sou um ferreiro.���Perrin riu.���Mas j� ouvi soldados falando. Parece que funciona.</p><p>At� Wil e Bili observavam os arredores, preocupados, sem ousar se mexer.</p><p>Ele e Faile foram atr�s de Tam e Abell, esgueirando-se de �rvore em �rvore at� onde os Aiel estavam agachados, perto do limite mais ao norte do bosque. Verin tamb�m estava l�, assim como Tomas, naturalmente. A folhagem formava uma tela fina que era o bastante para escond�-los, mas sem impedir a observa��o.</p><p>O acampamento dos Mantos-brancos se estendia pelo sop� de Colina da Vig�lia feito uma verdadeira aldeia. Centenas de homens, alguns com armaduras, se moviam por entre fileiras compridas de tendas brancas, al�m de filas de cavalos, cada uma com cinco animais presos em estacas a leste e oeste. Cavalos sendo desselados e escovados indicavam o fim do dia das patrulhas, enquanto uma coluna dupla de talvez cem homens, limpos e arrumados, partia em dire��o � Floresta das �guas a passos vigorosos, segurando as lan�as todas no mesmo �ngulo. Guardas de mantos brancos marchavam para cima e para baixo, patrulhando os arredores do acampamento em pontos intervalados, com as lan�as apoiadas nos ombros e os capacetes polidos reluzindo sob o sol poente.</p><p>Um estrondo chegou aos ouvidos de Perrin. Bem a oeste, vinte cavaleiros surgiram galopando, vindos dos lados de Campo de Emond, correndo em dire��o �s tendas. Vinham da dire��o de onde Perrin e os outros haviam chegado. Se tivessem levado mais alguns minutos, sem d�vida teriam sido vistos. Uma trombeta soou, e homens come�aram a se encaminhar para as fogueiras.</p><p>Um pouco adiante, de um dos lados, havia um acampamento bem menor, com as tendas desordenadas. Fosse l� quem vivesse ali, a maioria j� fora embora. Apenas alguns cavalos, e espantando as moscas com os rabos, presos a uma corda curta amarrada em um piquete indicavam que houvera algu�m por ali. N�o Mantos-brancos. Os Filhos da Luz eram r�gidos e ordenados demais para aquele acampamento.</p><p>Entre o bosque em que estavam e os dois acampamentos havia um grande trecho de grama e flores silvestres. Era muito prov�vel que os fazendeiros locais usassem aquele trecho para pastagem. Mas n�o o faziam mais, j� que a vegeta��o estava muito rasteira. Se os Mantos-brancos galopassem como aquela patrulha, poderiam cobrir o trecho em um minuto.</p><p>Abell chamou a aten��o de Perrin para o acampamento maior.</p><p>��Est� vendo aquela tenda perto do meio, com um homem montando guarda de cada lado? Est� conseguindo ver?���Perrin assentiu. O sol baixo projetava sombras angulosas ao leste, mas ele enxergava bem.���� ali que est�o Natti e as meninas. E os Luhhan. J� os vi entrando e saindo. Um de cada vez, e sempre com um guarda, at� mesmo para ir � latrina.</p><p>��J� tentamos entrar � noite tr�s vezes���comentou Tam���mas eles vigiam todo o per�metro do acampamento com muita aten��o. Da �ltima vez, quase n�o conseguimos fugir.</p><p>Tentar aquilo seria como enfiar a cabe�a em um formigueiro querendo evitar ser atacado. Perrin sentou-se na base de uma grande folha-de-couro, apoiando o arco nos joelhos.</p><p>��Quero pensar um pouco sobre isso. Mestre al�Thor, o senhor pode acomodar Wil e os rapazes? N�o deixe que nenhum deles meta na cabe�a a ideia de sair correndo para casa. Eles provavelmente iriam direto para a Estrada do Norte, sem nem pensar, e da� meia centena desses Mantos-brancos viriam at� aqui para investigar. Se algu�m tiver pensado em trazer comida, fa�a com que comam alguma coisa. Se tivermos que fugir, talvez seja preciso passar o resto da noite na sela.</p><p>Ele de repente percebeu que estava dando ordens, mas, quando tentou se desculpar, Tam abriu um sorriso e respondeu:</p><p>��Perrin, voc� assumiu a lideran�a l� na casa de Jac. Essa n�o � a primeira vez que sigo um homem mais jovem capaz de ver o que precisa ser feito.</p><p>��Voc� est� indo bem, Perrin���completou Abell, antes que os dois homens mais velhos sumissem outra vez por entre as �rvores.</p><p>Perplexo, Perrin co�ou a barba. Ele tinha assumido a lideran�a? Agora, pensando bem, nem Tam, nem Abell haviam tomado qualquer decis�o desde que o grupo deixara a fazenda dos al�Seen, apenas oferecido sugest�es e deixado a escolha nas m�os dele. Al�m disso, nenhum dos dois o chamara de �rapaz� desde ent�o.</p><p>��Interessante���comentou Verin, apanhando o caderninho.</p><p>Perrin desejou ter uma chance de ler o que ela escrevia ali.</p><p>��Vai me alertar outra vez sobre alguma tolice?���perguntou � Marrom.</p><p>Em vez de responder, Verin disse, em um tom meditativo:</p><p>��Vai ser ainda mais interessante ver o que voc� far� em seguida. N�o posso dizer que est� alterando as funda��es do mundo, como Rand al�Thor, mas Dois Rios sem d�vida est� se mexendo. Eu me pergunto se voc� tem alguma ideia de para onde est� indo.</p><p>��Quero libertar os Luhhan e os Cauthon���respondeu ele, irritado.���S� isso!���Mas ainda tinha os Trollocs. Ele deixou a cabe�a pender para tr�s, encostada no tronco da folha-de-couro, e fechou os olhos.���S� estou fazendo o que tenho que fazer. Dois Rios vai continuar onde sempre esteve.</p><p>��� claro���retrucou Verin.</p><p>Perrin a ouviu se afastar junto com Tomas, sand�lias e botas fazendo o mesmo barulho suave no ch�o coberto de folhas do ano anterior. Abriu os olhos. Faile encarava as figuras se afastando, e n�o parecia muito satisfeita.</p><p>��Ela n�o vai deixar voc� em paz���resmungou.</p><p>A coroa de rubores-do-cora��o tran�ados que Perrin deixara sobre a sela pendia das m�os dela.</p><p>��Aes Sedai nunca deixam ningu�m em paz���respondeu ele.</p><p>Faile o encarou com um olhar desafiador.</p><p>��Imagino que voc� esteja querendo resgat�-los hoje � noite.</p><p>Tinha de ser feito imediatamente. Porque ele andara passando o aviso adiante, e o povo sabia quem era o mensageiro. Talvez os Mantos-brancos n�o machucassem os prisioneiros. Talvez. Ele n�o confiava nem um pouco na miseric�rdia dos Filhos. Olhou para Gaul, que assentiu.</p><p>��Tam al�Thor e Abell Cauthon se movimentam bem para aguacentos, mas acho que esses Mantos-brancos s�o r�gidos demais para enxergar qualquer coisa que se mova no escuro. Imagino que estejam esperando os inimigos surgirem em grande n�mero, bem onde possam ser vistos.</p><p>Chiad voltou os olhos cinzentos e bem-humorados para o Aiel.</p><p>��Est� querendo andar feito o vento, C�o de Pedra? Vai ser divertido ver um C�o de Pedra tentando se mover a passos leves. Quando minha irm� de lan�a e eu resgatarmos os prisioneiros, pensaremos em voltar para salvar voc�, se estiver velho demais para encontrar o caminho.</p><p>Bain tocou o bra�o de Chiad, que encarou a mulher de cabelos de fogo com surpresa. Depois de um instante, seu rosto ruborizou de leve. As duas voltaram os olhos para Faile, de cabe�a erguida e bra�os cruzados, ainda observando Perrin.</p><p>Ele deu um longo suspiro. Se dissesse que n�o queria que a namorada fosse, era quase certo que Bain e Chiad tamb�m n�o iriam. Ainda estavam se esfor�ando para deixar claro que seguiam Faile, n�o ele. Talvez a pr�pria Faile estivesse fazendo o mesmo. Talvez ele e Gaul pudessem resolver tudo sozinhos, mas n�o conseguia enxergar um jeito de faz�-la ficar, se ela n�o quisesse. Faile, sendo quem era, provavelmente o seguiria escondida.</p><p>��Voc� vai ficar perto de mim���disse Perrin, com firmeza.���Quero resgatar prisioneiros, n�o deixar outros para tr�s.</p><p>Com uma risada, ela desabou ao lado dele, aninhando o ombro sob seu bra�o.</p><p>��Ficar perto de voc� parece uma �tima ideia.</p><p>Faile encaixou a coroa de flores vermelhas na cabe�a dele, e Bain deu uma risadinha.</p><p>Perrin revirou os olhos. Via a ponta da coisa pendurada na testa. Devia estar parecendo um idiota, mas deixou o tro�o ali.</p><p>O sol descia, lento como uma bolha no mel. Abell trouxe um pouco de p�o e queijo���no fim das contas, mais da metade dos aspirantes a her�is havia trazido algo para comer���e eles comeram e esperaram. A noite veio, iluminada por uma lua j� alta, mas encoberta pelas nuvens que corriam. Perrin esperou. As luzes se apagaram no acampamento dos Mantos-brancos e em Colina da Vig�lia, deixando um punhado de janelas acesas do outro lado do monte escuro. Ele reuniu Tam, Faile e os Aiel. Via todos os rostos muito bem. Verin estava perto o bastante para escutar. Abell e Tomas permaneceram com o outro grupo de Dois Rios, mantendo todos em sil�ncio.</p><p>Ele se sentia meio estranho dando ordens, por isso manteve a simplicidade. Tam deveria preparar todo o grupo para sair em cavalgada no instante em que Perrin retornasse com os prisioneiros. Os Mantos-brancos iriam atr�s deles assim que descobrissem o que tinha acontecido, ent�o precisavam de um lugar para se esconder. Tam conhecia um, uma casa de fazenda vazia nos limites da Floresta do Oeste.</p><p>��Tentem n�o matar ningu�m, se conseguirem.���Perrin advertiu os Aiel.���Os Mantos-brancos j� v�o ficar bastante irritados por perderem os prisioneiros. Se tamb�m perderem homens, v�o tacar fogo no sol.</p><p>Gaul e as Donzelas assentiram como se mal pudessem esperar. Que gente estranha. Os tr�s desapareceram no meio da noite.</p><p>��Tome cuidado���disse Verin, baixinho, enquanto ele pendurava o arco nas costas.���<emphasis>Ta�veren</emphasis> n�o quer dizer imortal.</p><p>��Tomas poderia ajudar, voc� sabe.</p><p>��Acha que um a mais faria diferen�a?���perguntou ela, contemplativa.���Al�m do mais, eu preciso que ele fa�a outras coisas.</p><p>Balan�ando a cabe�a, ele saiu do bosque. Passou a rastejar assim que se afastou dos arbustos, apoiado nos cotovelos e joelhos, quase colado ao ch�o. Faile, ao seu lado, o imitava. A grama e as flores silvestres tinham altura suficiente para cobri-los. Perrin ficou contente por ela n�o conseguir enxergar seu rosto. Estava desesperadamente apavorado. N�o por si mesmo, mas se alguma coisa acontecesse a ela�</p><p>Como duas novas sombras formadas pelo luar, eles rastejaram pelo campo aberto, parando ao sinal de Perrin. Estavam a cerca de dez passadas de onde os guardas caminhavam para cima e para baixo, com os mantos reluzindo sob o brilho fraco da luz, bem perto da primeira fileira de tendas. Dois deles se encararam, quase na frente de Perrin, e pararam de repente.</p><p>��Tudo bem com a noite���anunciou um.���Que a Luz nos ilumine e proteja da Sombra.</p><p>��Tudo bem com a noite���repetiu o outro.���Que a Luz nos ilumine e proteja da Sombra.</p><p>Os dois se viraram e marcharam de volta, sem olhar para a esquerda nem para a direita.</p><p>Perrin deixou cada um dos homens caminhar cerca de doze passadas, depois tocou o ombro de Faile e se levantou, quase sem se permitir respirar. Tamb�m n�o ouvia muito da respira��o dela. Quase nas pontas dos p�s, os dois correram para o meio das tendas, agachando-se logo depois de passar pela primeira. Dentro delas, homens roncavam ou resmungavam durante o sono. Exceto por isso, o acampamento estava mergulhado em sil�ncio. O caminhar pesado das botas dos guardas era bem aud�vel. O cheiro das fogueiras extintas pairava no ar, e tamb�m os odores de lona, cavalos e homens.</p><p>Silenciosamente, Perrin fez um gesto para que Faile o seguisse. Na escurid�o, as cordas das tendas eram armadilhas para p�s desatentos, mas seus olhos as enxergavam com clareza e Perrin foi tra�ando um caminho por entre elas.</p><p>Tinha memorizado a localiza��o dos prisioneiros, ent�o come�ou a avan�ar com cuidado na dire��o certa. Era perto do centro do acampamento. Longe para chegar e longe para sair.</p><p>O ru�do de botas esmagando a terra e um grunhido de Faile o fizeram dar um giro bem a tempo de ser derrubado pela investida de uma imensa silhueta de manto branco, um homem t�o musculoso quanto Mestre Luhhan. Dedos de ferro envolveram sua garganta enquanto os dois rolavam pelo ch�o. Perrin agarrou o queixo do homem com uma das m�os e for�ou a cabe�a para tr�s, tentando empurr�-lo. Querendo aliviar o aperto em sua garganta, socou as costelas do sujeito, arrancando grunhidos do oponente, mas nenhuma outra rea��o. O ru�do do pr�prio sangue sendo bombeado invadiu suas orelhas, manchas escuras tomaram as laterais de sua vis�o. Perrin tentou apalpar o machado, mas sentia os dedos dormentes.</p><p>De repente, o homem deu um solavanco e desabou em cima dele. Perrin empurrou o corpo inerte para longe e encheu os pulm�es com o ar doce da noite.</p><p>Faile largou no ch�o um peda�o de madeira e esfregou a lateral da cabe�a.</p><p>��Ele achou que bastava me derrubar, a� n�o precisava mais se preocupar���sussurrou.</p><p>��Um idiota���sussurrou Perrin, de volta.���Mas um idiota bem forte.���Passaria dias sentindo aqueles dedos em seu pesco�o.���Voc� est� bem?</p><p>��Claro. N�o sou uma bonequinha de porcelana.</p><p>De fato, ele achava que n�o.</p><p>Perrin arrastou depressa o homem inconsciente para junto de uma tenda, torcendo para que ningu�m o encontrasse por um bom tempo, depois tirou o manto branco do sujeito e amarrou as m�os e os p�s dele com cordas de arco reservas. Um len�o que encontrou no bolso do homem fez as vezes de morda�a. N�o estava muito limpo, mas a culpa era dele mesmo. Erguendo o arco acima da cabe�a, Perrin envolveu os ombros com o manto. Se mais algu�m o notasse, o confundiria com um dos Filhos. O manto tinha um n� dourado de patente sob o raio de sol brilhante. Um oficial. Melhor ainda.</p><p>Ele caminhou por entre as tendas bem depressa e sem se esconder. Encoberto ou n�o, o sujeito poderia ser encontrado a qualquer instante, fazendo o alarme ser acionado. Faile avan�ava ligeira a seu lado, mais parecia uma sombra, observando o acampamento em busca de sinais de vida, t�o alerta quanto ele. As sombras da lua, sempre fluidas, obscureciam os espa�os entre as tendas, at� mesmo para os olhos de Perrin.</p><p>Ao aproximar-se da tenda da pris�o, o rapaz reduziu o passo para n�o agitar os guardas. Havia um homem de manto branco no canto, e a ponta da lan�a de outro se erguia por cima do topo da tenda.</p><p>De repente, a ponta da lan�a desapareceu. N�o houve som. Ela simplesmente caiu.</p><p>Um piscar de olhos depois, duas sombras escuras se transformaram em Aiel de v�us no rosto, nenhum deles com a altura de Gaul. Antes que o guarda pudesse se mexer, uma das silhuetas saltou no ar e o chutou no rosto. O homem desabou de joelhos, cambaleante, e a outra Donzela deu um giro e o chutou tamb�m. O guarda caiu, meio mole. As Donzelas se agacharam e olharam em volta, de lan�as a postos, para ver se haviam despertado algu�m.</p><p>Quase partiram para cima de Perrin ao avist�-lo de manto branco, mas ent�o viram Faile. Uma delas balan�ou a cabe�a e sussurrou para a outra, que pareceu dar uma risada silenciosa.</p><p>Perrin disse a si mesmo que n�o deveria ficar irritado, mas Faile primeiro o salvara do estrangulamento e agora evitava que lhe cravassem uma lan�a bem no f�gado. Para algu�m que supostamente estava liderando uma miss�o de resgate, ele estava mesmo indo muito bem.</p><p>Afastou a lona da tenda e enfiou a cabe�a l� dentro, onde estava ainda mais escuro do que do lado de fora. Mestre Luhhan dormia na entrada da tenda, com as mulheres aninhadas juntas mais para o fundo. Perrin tapou a boca de Haral Luhhan com uma das m�os e, quando os olhos do homem se abriram, fez sinal de sil�ncio.</p><p>��Acorde os outros���disse em voz baixa.���Sem barulho. Vamos tirar voc�s daqui.</p><p>Mestre Luhhan finalmente o reconheceu e assentiu.</p><p>Ao sair da tenda, Perrin puxou o manto do guarda ca�do no ch�o. O homem ainda respirava, um ru�do rouco, e estava cheio de bolhas de sangue no nariz quebrado, mas n�o acordou com seu toque. Precisavam correr. Gaul estava l�, vestindo o manto de outro guarda. Os tr�s Aiel vigiavam as outras tendas, cautelosos. Faile praticamente dan�ava de tanta impaci�ncia.</p><p>Quando Mestre Luhhan trouxe a esposa e as outras mulheres para fora, todas olhando em volta na escurid�o, nervosas, Perrin apressou-se em cobrir o ferreiro com um dos mantos. Mal cabia nele���Haral Luhhan parecia feito de troncos de �rvores���mas teria de servir. O outro manto foi posto sobre os ombros de Alsbet Luhhan. Ela n�o era t�o grande quanto o marido, mas, mesmo assim, era t�o grande quanto a maioria dos homens. O rosto redondo a princ�pio expressou surpresa, mas depois ela assentiu, puxou o capacete c�nico da cabe�a do guarda ca�do e o encaixou na sua, espremendo-o por cima da tran�a grossa. Eles amarraram os dois guardas, depois os amorda�aram com tiras de cobertor e os deixaram no interior da tenda.</p><p>Voltar pelo caminho por onde tinham vindo seria imposs�vel, como Perrin sabia desde o in�cio. Mesmo se Mestre e a Senhora Luhhan pudessem avan�ar sem fazer barulho���o que ele duvidava���Bo e Eldrin estavam agarradas uma � outra, chocadas e incr�dulas com o resgate. Apenas os balbucios suaves da m�e impediam que as duas irrompessem em l�grimas prematuras de al�vio. Ele previra isso antes de chegarem ao acampamento. Precisariam de cavalos, tanto para sair depressa dali quanto para levar todos, mais tarde. Havia cavalos nas fileiras de piquetes.</p><p>Os Aiel desapareceram adiante, e ele seguiu atr�s com Faile e os Cauthon. Haral e Alsbet tomaram a retaguarda. � primeira vista, pelo menos, pareciam tr�s Mantos-brancos escoltando quatro mulheres.</p><p>Os cavalos amarrados aos piquetes estavam sendo vigiados, mas apenas do lado mais distante das tendas. Afinal de contas, por que proteg�-los dos homens que os conduziam? Aquilo sem d�vida facilitou o trabalho de Perrin. Eles simplesmente caminharam at� a fileira de animais mais pr�xima das tendas, que estavam todos presos por uma corda que fazia as vias de focinheira, e soltaram um para cada, menos para os Aiel. A parte mais dif�cil foi ajudar a Senhora Luhhan a montar sem sela. Perrin e Mestre Luhhan tiveram que ajudar, e a mulher ficava tentando puxar as saias para baixo para cobrir os joelhos. Natti e as meninas subiram sem dificuldade, assim como Faile, naturalmente. Os guardas que supostamente vigiavam os cavalos seguiam com as rondas calculadas, gritando uns para os outros que a noite estava tranquila.</p><p>��Quando eu mandar���come�ou Perrin, ent�o algu�m no acampamento gritou. Depois gritou outra vez, mais alto. Uma corneta soou, e homens sa�ram das tendas aos berros. N�o fazia diferen�a se haviam descoberto que os prisioneiros tinham fugido ou encontrado o homem inconsciente que os atacara.���Venham comigo!���urrou, cravando os calcanhares no cap�o escuro que escolhera para si.���Cavalguem!</p><p>Foi uma correria fren�tica, mas ele tentou ficar de olho em todos. Mestre Luhhan cavalgava quase t�o mal quanto a esposa. Os dois ficavam quicando, quase caindo, enquanto os cavalos disparavam. Bo ou Eldrin, uma das duas, gritava com toda a for�a, e era imposs�vel saber se de empolga��o ou de terror. Por sorte, os guardas n�o estavam esperando problemas vindo de dentro do acampamento. Um homem de manto branco que perscrutava a escurid�o se virou bem a tempo de sair do caminho dos cavalos em disparadas, soltando um grito quase t�o estridente quanto o da menina dos Cauthon. Mais cornetas urraram atr�s deles, e gritos que agora com certeza soavam como ordens martelaram a noite bem antes que o grupo chegasse ao abrigo do matagal. N�o que o abrigo fosse lhes dar muito mais cobertura.</p><p>Tam deixara todos montados e preparados, conforme Perrin instru�ra. Ou ordenara. Perrin pulou direto do cap�o para Galope. Verin e Tomas eram os �nicos que n�o quicavam nas selas, uma vez que seus cavalos eram os �nicos que n�o dan�avam com o nervosismo dos cavaleiros. Abell tentava abra�ar a mulher e as filhas de uma s� vez, todas as tr�s, e o grupo ria e chorava ao mesmo tempo. Mestre Luhhan tentava cumprimentar todos que encontrava. Todos exceto os Aiel, Verin e seu Guardi�o cumprimentavam os outros, como se estivesse tudo terminado.</p><p>��Ora, Perrin, � <emphasis>mesmo</emphasis> voc�!���exclamou a Senhora Luhhan. O rosto redondo ficava estranho sob o capacete, torto por conta da tran�a.���O que � isso no seu rosto, meu jovem? Sou mais do que grata, mas voc� n�o pense que vai sentar � minha mesa parecendo um�</p><p>��N�o h� tempo para isso���interrompeu Perrin, ignorando o choque no rosto da mulher. N�o era algu�m que costumasse ser interrompida, mas o som das cornetas dos Mantos-brancos era mais do que um alerta. Tinha se tornado um grito curto e repetitivo, agudo e insistente. Algum tipo de comando.���Tam, Abell, levem Mestre Luhhan e as mulheres para aquele esconderijo que voc�s conhecem. Gaul, v� com eles. Faile tamb�m.���Isso inclu�a automaticamente Bain e Chiad.���E Hu e Jaim.���Seria suficiente para se manterem a salvo.���Avancem em sil�ncio. Isso ser� melhor que a rapidez, pelo menos por um tempo. Mas v�o agora mesmo.</p><p>Os que ele nomeou partiram para oeste sem discutir, embora a Senhora Luhhan, agarrada com ambas as m�os � crina de seu cavalo, tivesse disparado um olhar firme para ele. Foi a aquiesc�ncia de Faile que o espantou, tanto que ele levou um instante para perceber que chamara Mestre al�Thor e Mestre Cauthon pelos primeiros nomes.</p><p>Verin e Tomas tinham ficado para tr�s, e ele encarou a mulher com um olhar penetrante.</p><p>��Alguma chance de voc� me dar uma ajudinha?</p><p>��Talvez n�o do jeito que voc� imagina���retrucou a Aes Sedai, muito calma, como se o acampamento dos Mantos-brancos n�o estivesse uma balb�rdia a uma milha de dist�ncia.���Meus motivos de hoje n�o s�o diferentes dos de ontem. Mas acho que pode chover em� ah� cerca de meia hora. Talvez menos. Acho que vai ser um p� d��gua daqueles.</p><p>Meia hora. Perrin grunhiu e virou-se para os rapazes de Dois Rios que continuavam l�. Estavam todos praticamente tremendo de tanta vontade de fugir e seguravam os arcos com os punhos brancos nas juntas. Torceu para que todos tivessem se lembrado de trazer cordas reserva, pelo menos, j� que iria chover.</p><p>Ent�o anunciou a todos eles:</p><p>��N�s vamos atrair os Mantos-brancos para longe, para que a Senhora Cauthon, a Senhora Luhhan e os outros consigam fugir em seguran�a. Vamos lev�-los para o sul, margeando a Estrada do Norte, at� podermos despist�-los no meio da chuva. Se algu�m quiser pular fora, � melhor come�ar a cavalgar.���Algumas m�os se remexeram nas r�deas, mas todos permaneceram sentados nas selas, olhando para ele.���Muito bem. Gritem feito loucos, para que nos escutem. Gritem at� chegarmos � estrada.</p><p>Aos berros, Perrin virou Galope em dire��o � estrada. A princ�pio n�o teve muita certeza se os outros iriam seguir, mas uivos selvagens abafaram seus urros e o estrondo dos cascos de Galope. Se os Mantos-brancos n�o escutassem aquilo, deviam estar surdos.</p><p>Nem todos pararam de gritar quando chegaram ao caminho de terra batida da Estrada do Norte e se viraram para o sul, correndo ensandecidos pela noite. Alguns gargalhavam e comemoravam. Perrin soltou o manto branco dos ombros e o deixou cair. As cornetas soaram outra vez, um pouco mais fracas.</p><p>��Perrin���chamou Wil, inclinando-se sobre o pesco�o do cavalo���o que vamos fazer agora? Qual � o pr�ximo passo?</p><p>��Ca�ar Trollocs!���gritou Perrin, por cima do ombro.</p><p>Pelo jeito como as risadas redobraram, achou que os outros n�o tinham acreditado. Mas p�de sentir os olhos de Verin perfurando suas costas. A mulher sabia. O trov�o no c�u noturno ecoou os cascos dos cavalos.</p></section><section><title><p>34</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Aquele Que Vem Com a Aurora</p></title><p>As sombras da alvorada ficavam mais curtas e p�lidas enquanto Rand e Mat corriam pelo vale �rido, escuro e quieto, deixando para tr�s Rhuidean, a cidade coberta de n�voa. O ar seco prenunciava o calor, mas a brisa fraca parecia fria contra a pele de Rand, que estava sem casaco. Aquilo n�o duraria muito, em breve o dia escaldante se avultaria sobre eles. Os dois corriam o mais r�pido que podiam, na esperan�a de ultrapassar o calor, mas Rand achava que n�o conseguiriam. O mais r�pido que podiam n�o era l� muito veloz.</p><p>Mat mancava dolorosamente. Uma mancha escura se espalhava por metade do rosto, e o casaco pendia aberto, revelando a camisa desamarrada e colada ao peito por mais sangue seco. De vez em quando, o rapaz tocava o verg�o grosso ao redor da garganta com cuidado. O ferimento j� estava quase roxo. Grunhindo entre dentes, ele cambaleava bastante e se agarrava � estranha lan�a de cabo preto, apertando a cabe�a. Mas n�o reclamava, o que era um mau sinal. Mat vivia reclamando dos menores desconfortos. Se estava em sil�ncio, significava que sentia dor de verdade.</p><p>Rand sentia como se algo se espalhasse por dentro da velha ferida meio cicatrizada na lateral do corpo, e os cortes no rosto e na cabe�a ardiam. No entanto, enquanto avan�ava a um passo meio arrastado, inclinado para o lado que do�a, quase n�o pensava nos pr�prios ferimentos. Estava muito consciente do sol que se erguia atr�s de si e dos Aiel � espera na encosta nua da montanha � frente. L� havia �gua e sombra, al�m de ajuda para Mat. O sol se erguia atr�s deles e os Aiel estavam � frente. A aurora e os Aiel.</p><p>Aquele Que Vem Com a Aurora. Aquela Aes Sedai que ele vira, ou que sonhara que vira, antes de o povo chegar a Rhuidean���ela falara como se fizesse uma Previs�o. <emphasis>Ele unir� todos voc�s. Ele os unir� e destruir�.</emphasis> Palavras ditas como uma profecia. Destru�-los. Segundo a Profecia, ele causaria outra vez a Ruptura do Mundo. A ideia o deixava horrorizado. Talvez conseguisse escapar dessa parte, ao menos, mas a guerra, a morte e a destrui��o j� manavam de seus passos. Tear fora o primeiro lugar no que parecia muito tempo onde ele n�o deixara um rastro de caos, homens morrendo e aldeias incendiadas.</p><p>Rand percebeu que desejava poder montar em Jeade�en e fugir o mais depressa que o garanh�o conseguisse lev�-lo. N�o era a primeira vez. <emphasis>Mas n�o posso fugir</emphasis>, pensou. <emphasis>Tenho que fazer isso, porque n�o existe ningu�m mais que possa. Ou eu fa�o, ou o Tenebroso vence.</emphasis> Uma barganha dif�cil, mas era a �nica que havia. <emphasis>Mas por que eu destruiria os Aiel? Como?</emphasis></p><p>O �ltimo pensamento o fez sentir um calafrio. Era como se j� aceitasse que o faria, que deveria fazer. E n�o queria fazer mal aos Aiel.</p><p>��Luz!���exclamou, em um tom r�spido.���N�o quero destruir ningu�m.���Sentiu outra vez como se a boca estivesse cheia de terra.</p><p>Mat o encarou em sil�ncio. Com um olhar cauteloso.</p><p><emphasis>Eu ainda n�o enlouqueci</emphasis>, pensou Rand, taciturno.</p><p>Mais acima, na encosta, os Aiel despertavam nos tr�s acampamentos. A verdade nua e crua era que Rand precisava deles. Fora por isso que come�ara a contemplar aquela ideia, quando descobriu que o Drag�o Renascido e Aquele Que Vem Com a Aurora poderiam muito bem ser a mesma pessoa. Precisava de gente em quem pudesse confiar, gente que o seguisse por outra raz�o que n�o medo ou sede de poder. Gente que n�o pretendesse us�-lo para seus pr�prios fins. Fizera o necess�rio, e agora os usaria. Porque precisava. Ainda n�o estava louco���n�o achava que estivesse���mas muitos pensariam que sim, antes de aquilo terminar.</p><p>A luz do sol, forte e ofuscante, ultrapassou os dois antes que come�assem a subir para Chaendaer. O calor os a�oitava feito um porrete. Rand subia o mais depressa poss�vel a encosta irregular, com seus aclives, declives e afloramentos r�sticos. Sua garganta j� se esquecera da �ltima vez que bebera algo, e o sol secava a camisa t�o r�pido quanto o suor a molhava. Mat tamb�m n�o precisava de incentivo para correr. Havia �gua, l� em cima. Bair estava parada diante das tendas baixas da S�bia, segurando uma bolsa de �gua brilhante de condensa��o. Lambendo os l�bios rachados, Rand tinha certeza de poder ver o brilho.</p><p>��Onde � que ele est�? O que foi que voc� fez com ele?</p><p>O urro fez Rand parar na mesma hora. O homem de cabelos de fogo, Couladin, estava em cima de uma sali�ncia de granito que se projetava da montanha. Havia outros do cl� Shaido agrupados na base da sali�ncia, todos encarando Mat e Rand. Alguns tinham os rostos velados.</p><p>��De quem voc� est� falando?���gritou Rand, em resposta. Sua voz estava �spera de sede.</p><p>Os olhos de Couladin arregalaram-se, ultrajados.</p><p>��De Muradin, aguacento! Ele entrou dois dias antes de voc�, e mesmo assim voc� saiu primeiro. Ele n�o pode ter falhado se voc� sobreviveu! Voc� deve t�-lo matado!</p><p>Rand pensou ter ouvido um berro vindo das tendas da S�bia, mas, antes de sequer conseguir piscar, Couladin se espichou feito uma serpente e atirou uma lan�a para cima dele. Outras duas dispararam em seguida, vindas dos Aiel na base da sali�ncia de granito.</p><p>Por instinto, Rand agarrou <emphasis>saidin</emphasis> e a espada forjada em fogo surgiu em suas m�os. Fez a l�mina rodopiar���Redemoinho na Montanha, um nome apropriado���fatiando em dois um par de cabos de lan�a. A l�mina negra de Mat apenas rodopiou e desviou a terceira.</p><p>��A prova!���uivou Couladin.���Eles adentraram Rhuidean armados! � proibido! Olhem como est�o cobertos de sangue! Eles mataram Muradin!���Ao mesmo tempo em que falava, o homem arremessava outra lan�a. Dessa vez, foi uma entre dez outras.</p><p>Rand jogou-se para o lado, consciente de Mat saltando para o outro. Um instante antes de os dois tocarem o ch�o, as lan�as se amontoaram onde Rand estivera parado e chocaram-se uma contra as outras. Ele rolou, levantou-se e viu as lan�as cravadas no ch�o de pedras. Formaram um c�rculo perfeito que rodeava o ponto de onde ele saltara. Por um instante, at� Couladin ficou at�nito e paralisado.</p><p>��Parem!���gritou Bair, avan�ando correndo durante aquele segundo. A saia longa e pesada n�o atrapalhava seus movimentos, muito menos a idade. A S�bia foi descendo a encosta aos saltos, feito uma menina, apesar dos cabelos brancos. Tinha inclusive a f�ria de uma menina.���A paz de Rhuidean, Couladin!���Sua voz aguda era como uma vara de ferro.���J� � a segunda vez que voc� tenta destru�-la. Mais uma, e ser� considerado fora da lei! Dou minha palavra! Voc� e qualquer um que erguer a m�o!���Ela parou derrapando perto de Rand, encarando os Shaido com a bolsa d��gua erguida feito um porrete, como se fosse acert�-los.���Quem duvidar de mim, que erga a arma! Quem fizer isto ser� privado de sombra, como dita o Acordo de Rhuidean, e ter� negado abrigo, suporte e tenda. Seu pr�prio ramo vai ca��-lo feito uma besta selvagem.</p><p>Alguns dos Shaido logo desvelaram o rosto���alguns���mas Couladin n�o foi dissuadido.</p><p>��Eles est�o armados, Bair! Entraram em Rhuidean armados! Isso �!</p><p>��Sil�ncio!���Bair ergueu o punho para o homem.���Voc� se atreve a falar de armas? Voc�, que ia quebrar a Paz de Rhuidean e matar com a cara exposta? Eles n�o levaram arma nenhuma para l�, eu mesma garanto isso.���Ela deu as costas para o homem, em um movimento deliberado, mas o olhar que lan�ou a Mat e Rand n�o foi mais suave do que o dado a Couladin. A mulher fez uma careta para a estranha lan�a com l�mina de espada de Mat e murmurou:���Voc� encontrou isso em Rhuidean, rapaz?</p><p>��Eu ganhei, <emphasis>velha</emphasis>���rosnou Mat de volta, com a voz rouca.���Paguei por ela, e pretendo ficar com ela.</p><p>A S�bia fungou.</p><p>��Voc�s dois parecem que acabaram de rolar em capim-navalha. O que�? N�o, isso voc�s me contam depois.���Ela encarou a espada de Rand, forjada no Poder, e estremeceu.���Livre-se disso. E mostre os sinais a eles, antes que o idiota do Couladin tente elevar os �nimos outra vez. Do jeito que ele � nervoso, o homem faria o cl� inteiro quebrar as leis em um piscar de olhos. R�pido!</p><p>Rand a encarou por um instante, pasmo. Sinais? Ent�o lembrou-se do que Rhuarc lhe mostrara, um dia, a marca de um homem que sobrevivera a Rhuidean. Deixou a espada desaparecer, desatou o la�o do punho esquerdo da camisa e puxou a manga at� o cotovelo.</p><p>Em volta do antebra�o serpenteava uma imagem igual � do estandarte do Drag�o, uma figura sinuosa de crina dourada, com escamas vermelhas e douradas. J� esperava por aquilo, sem d�vidas, mas ainda assim era um choque. A coisa parecia fazer parte de sua pele, como se a pr�pria criatura inexistente tivesse se entranhado nele. O bra�o n�o lhe parecia diferente, mas as escamas cintilavam sob o sol como metal polido. Parecia que, se tocasse aquela crina dourada perto do pulso, sentiria cada fio de seus pelos.</p><p>Ergueu o bra�o assim que o descobriu, bem alto, para que Couladin e seu povo pudessem enxergar. Um burburinho se elevou entre os Shaido, e Couladin soltou um rosnado. O n�mero de pessoas na sali�ncia de granito aumentava, pois mais Shaido vinham correndo das tendas. Rhuarc permaneceu com Heirn e os Jindo um pouco mais acima, na encosta. Eles observavam os Shaido com desconfian�a, e encaravam Rand com um ar de expectativa que o bra�o erguido n�o diminuiu. Lan estava parado a meio caminho entre os dois grupos, as m�os pousadas no cabo da espada, a express�o no rosto como a de uma tempestade prestes a cair.</p><p>Quando Rand come�ou a perceber que os Aiel queriam algo mais, Egwene e as outras tr�s S�bias chegaram at� ele, descendo a montanha. As mulheres Aiel pareciam desconcertadas por terem tido que correr, al�m de t�o irritadas quanto Bair estivera. Amys cravou os olhos em Couladin, enquanto Melaine, com cabelos da cor do sol, encarou Rand com ar de reprova��o. Seana parecia furiosa. Egwene, com um len�o amarrado na cabe�a e ca�do ao redor dos ombros, encarava Mat e ele, meio consternada, meio como se tivesse pensado que nunca mais os veria.</p><p>��Homem idiota���resmungou Bair.���<emphasis>Todos</emphasis> os sinais.</p><p>Ela atirou a bolsa d��gua para Mat, agarrou o bra�o direito de Rand e puxou a manga, expondo um desenho espelhado da criatura em seu bra�o esquerdo. A mulher segurou o f�lego, depois o soltou em um longo suspiro. Parecia equilibrada no fio da navalha entre o al�vio e a apreens�o. N�o havia d�vida: ela esperava ver a segunda marca, mas ficara com medo. Amys e as outras duas S�bias ecoaram o som que ela fez quase de forma id�ntica. Era estranho ver um Aiel com medo.</p><p>Rand quase riu. N�o que estivesse achando a situa��o engra�ada. �Por duas e mais duas vezes ele ser� marcado.� Era o que diziam as Profecias do Drag�o. Uma gar�a marcada em cada palma, e agora isso. Uma das criaturas peculiares���Drag�es, como chamava a Profecia���deveria representar �a mem�ria perdida�. Rhuidean sem d�vida fornecera isso, a hist�ria perdida das origens Aiel. A outra era para �cobrar o pre�o a ser pago�. <emphasis>Quando ser� que eu terei que pagar?</emphasis>, perguntou-se. <emphasis>E quantos ter�o que pagar comigo?</emphasis> Sempre havia outros, mesmo quando ele tentava pagar sozinho.</p><p>Apreensiva ou n�o, Bair n�o parou antes de erguer o outro bra�o dele acima de sua cabe�a e proclamar em voz alta:</p><p>��Contemplem o que nunca antes foi visto. Um <emphasis>Car�a�carn</emphasis> foi escolhido, um chefe dos chefes. Nascido de uma Donzela, ele veio de Rhuidean com a aurora, conforme a profecia, para unir os Aiel! O cumprimento da profecia come�ou!</p><p>A rea��o dos outros Aiel n�o foi nada do que Rand antevira. Couladin o encarou de cima, ainda mais cheio de �dio do que antes, se � que era poss�vel, depois saltou da sali�ncia, subiu a encosta a passos pesados e desapareceu por entre as tendas Shaido. Os pr�prios Shaido come�aram a se dispersar, encarando Rand com semblantes indecifr�veis antes de retornar �s tendas. Heirn e os guerreiros do ramo Jindo fizeram o mesmo, sem hesitar. Dentro de instantes, restava apenas Rhuarc, com o olhar perturbado. Lan foi at� o chefe do cl�. Pela express�o, o Guardi�o parecia n�o dar muita import�ncia a ele. Rand n�o sabia muito bem o que estava esperando, mas sem d�vida era algo diferente daquilo.</p><p>��Que me queime!���resmungou Mat.</p><p>Ele pareceu enfim notar que estava com a bolsa d��gua nas m�os. Arrancando a tampa, ergueu a bolsa de couro, deixando verter quase tanta �gua no rosto quanto para dentro da boca. Quando enfim baixou-a de volta, olhou outra vez as marcas nos bra�os de Rand e balan�ou a cabe�a, repetindo �que me queime� enquanto empurrava a bolsa cheia d��gua para o amigo.</p><p>Rand encarou os Aiel, consternado, mas ficou mais do que feliz em beber. Os primeiros goles fizeram a garganta doer, de t�o seca que estava.</p><p>��O que aconteceu com voc�s?���inquiriu Egwene.���Muradin atacou os dois?</p><p>��� proibido falar sobre o que acontece em Rhuidean���retorquiu Bair, em um tom r�spido.</p><p>��N�o foi Muradin���respondeu Rand.���Onde est� Moiraine? Achei que ela fosse ser a primeira a vir nos encontrar.���Ele esfregou o rosto. Flocos negros de sangue seco se soltaram em sua m�o.���Pela primeira vez, n�o vou me importar se ela me Curar sem pedir permiss�o.</p><p>��Nem eu���concordou Mat, com a voz rouca. Ele cambaleou, se apoiou na lan�a e pressionou a testa com a base da palma.���Estou tonto.</p><p>Egwene fez uma careta.</p><p>��Acho que ela ainda est� em Rhuidean. Mas, se voc�s finalmente sa�ram, talvez ela chegue logo. Moiraine entrou logo depois de voc�s. Aviendha tamb�m. Todos ficaram bastante tempo fora.</p><p>��Moiraine foi para Rhuidean?���perguntou Rand, incr�dulo.���E <emphasis>Aviendha</emphasis>? Por que�?���De repente ele registrou o restante do que Egwene dissera.���Como assim, �bastante tempo�?</p><p>��Hoje � o s�timo dia���respondeu a jovem.���O s�timo dia desde que voc�s desceram o vale.</p><p>Ele deixou a bolsa d��gua cair. Seana a agarrou antes que mais do que um pouco do conte�do, t�o precioso no Deserto, escorresse pela encosta de pedra. Rand mal notou. Sete dias. Qualquer coisa poderia ter acontecido em sete dias. <emphasis>Eles podem estar se aproximando, podem ter descoberto o que planejo. Preciso seguir em frente. E logo. Preciso continuar na dianteira. N�o cheguei t�o longe para falhar.</emphasis></p><p>Todos o encaravam, at� Mat e Rhuarc, os rostos repletos de preocupa��o. E cautela. N�o era de se admirar. Quem poderia dizer o que ele faria, ou se ainda estava s�o? Apenas a cara fechada de Lan n�o se alterou.</p><p>��Eu disse que era Aviendha, Rand. Nua como veio ao mundo.���A voz de Mat tinha um tom rouco e dolorido, e as pernas n�o pareciam muito firmes.</p><p>��Em quanto tempo ser� que Moiraine volta?���perguntou Rand.</p><p>Se a Aes Sedai sa�ra na mesma hora, deveria retornar em breve.</p><p>��Se ela n�o voltar at� o d�cimo dia���respondeu Bair���n�o volta mais. Ningu�m nunca voltou depois de dez dias.</p><p>Mais tr�s dias, talvez. Mais tr�s dias, e ele j� perdera sete. <emphasis>Deixe que venham, agora. N�o vou fracassar!</emphasis> Mal conteve o rosnado.</p><p>��Voc�s conseguem canalizar. Uma de voc�s, pelo menos. Vi como lidaram com Couladin. Podem Curar Mat?</p><p>Amys e Melaine trocaram olhares que ele s� p�de classificar como pesarosos.</p><p>��N�s n�o seguimos esse caminho���respondeu Amys, pesarosamente.���H� S�bias que poderiam fazer o que voc� est� pedindo, de certo modo, mas n�o estamos entre elas.</p><p>��Como assim?���perguntou ele, em um tom irritado.���Voc�s canalizam como Aes Sedai. Por que n�o podem Cur�-lo? Nem queriam que ele fosse para Rhuidean, para come�o de conversa. Acham que podem deix�-lo morrer por causa disso?</p><p>��Eu vou sobreviver���argumentou Mat, mas seus olhos estavam contra�dos de dor.</p><p>Egwene p�s a m�o no bra�o de Rand.</p><p>��Nem todas as Aes Sedai conseguem Curar muito bem���explicou, com uma voz consoladora.���As melhores Curandeiras s�o todas da Ajah Amarela. Sheriam, a Mestra das Novi�as, n�o consegue Curar nada mais s�rio que um hematoma ou um cortezinho. N�o existem duas mulheres com os mesmos Talentos e habilidades.</p><p>O tom dela o irritou. Rand n�o era uma criancinha impertinente, para ser acalmado. Franziu o cenho para as S�bias. Se n�o podiam ou n�o queriam Curar, n�o importava. Mat e ele teriam de esperar Moiraine. Isso se a mulher j� n�o tivesse sido morta por aquela bolha de mal, aquelas criaturas das cinzas. �quela altura, j� devia ter se dissipado, como acontecera com a de Tear. <emphasis>Aquelas coisas n�o a derrubariam. Moiraine poderia canalizar e passar. Ela sabe o que est� fazendo, n�o precisa ficar descobrindo tudo aos poucos, feito eu.</emphasis> Mas ent�o por que ainda n�o retornara? Por que fora, para come�o de conversa, e por que ele n�o a vira? Que pergunta idiota. Centenas de pessoas podiam ter estado em Rhuidean sem serem vistas. Teria muitas perguntas e nenhuma resposta at� ela retornar, suspeitava Rand. Se � que teria respostas depois.</p><p>��Existem ervas e pomadas���disse Seana.���Saia do sol, e vamos cuidar de seus ferimentos.</p><p>��Sair do sol���resmungou Rand.���Sim.���Ele estava sendo malcriado, mas n�o se importava. Por que Moiraine havia entrado em Rhuidean? N�o confiava que ela pararia de empurr�-lo na dire��o que pensava ser a melhor, e que o Tenebroso o carregasse se tentasse discutir. Se ela estava na velha cidade, ser� que poderia ter afetado as vis�es dele? T�-las alterado de alguma forma? Se a mulher sequer suspeitasse do que ele planejava�</p><p>Come�ou a caminhar em dire��o �s tendas dos Jindo���era improv�vel que o pessoal de Couladin lhe oferecesse um canto para descansar���mas Amys o direcionou para a plan�cie mais acima, onde ficavam as tendas das S�bias.</p><p>��Talvez eles ainda n�o se sintam muito confort�veis em ter voc� por perto���explicou.</p><p>Rhuarc, que se aproximava, assentiu em concord�ncia.</p><p>Melaine olhou para Lan.</p><p>��Isso n�o � da sua conta, <emphasis>Aan�allein</emphasis>. Voc� e Rhuarc levem Matrim e�</p><p>��N�o���interrompeu Rand.���Quero eles comigo.���Em parte porque desejava respostas do chefe do cl�, e em parte por pura teimosia. As S�bias queriam mant�-lo em r�dea curta, assim como Moiraine. N�o estava disposto a tolerar aquilo. As mulheres se entreolharam, depois assentiram, como se aquiescessem a um pedido. Se pensavam que ele seria um bom menino porque ganhara um doce, estavam enganadas.���Pensei que voc� estaria com Moiraine���disse a Lan, ignorando as S�bias e seus acenos de cabe�a.</p><p>Um lampejo de vergonha tomou a face do Guardi�o.</p><p>��As S�bias conseguiram esconder a partida dela at� quase o p�r do sol���disse, r�gido.���Ent�o� me convenceram de que n�o adiantaria ir atr�s. Disseram que, mesmo que eu fosse, n�o conseguiria encontr�-la at� ela estar de volta. E que Moiraine j� n�o precisaria de mim. N�o tenho mais muita certeza se deveria ter dado ouvidos.</p><p>��Dado ouvidos!���Melaine bufou com desd�m. Os braceletes de ouro e marfim chocalhavam enquanto ela ajustava o xale, irritada.���N�o d� para pensar que um homem v� dizer algo sensato. Voc� muito provavelmente teria morrido, e acabaria por mat�-la tamb�m.</p><p>��Melaine e eu tivemos de segur�-lo por metade da noite, at� que ele escutasse���comentou Amys. Ela mantinha um sorrisinho ao mesmo tempo bem-humorado e azedo.</p><p>O rosto de Lan poderia ter sido talhado em nuvens carregadas. N�o era de se admirar, j� que as S�bias haviam usado o Poder nele. <emphasis>O que</emphasis> Moiraine estava fazendo l�?</p><p>��Rhuarc���come�ou Rand���como � que vou poder unir os Aiel? Eles n�o querem nem olhar na minha cara.���Ergueu os antebra�os descobertos por um instante. As escamas dos Drag�es cintilaram � luz forte do sol.���Isso aqui confirma que sou Aquele Que Vem Com a Aurora, mas todos praticamente evaporaram assim que mostrei as marcas.</p><p>��Uma coisa � saber que a profecia um dia ser� cumprida���respondeu o chefe de cl�, medindo as palavras���outra � ver isso acontecendo bem diante dos pr�prios olhos. Dizem que voc� vai reunir os cl�s em um s� povo outra vez, como era h� muito tempo, mas lutamos uns contra os outros h� tantos anos quanto lutamos contra o restante do mundo. E, para alguns de n�s, h� ainda mais.</p><p><emphasis>Ele os unir� e os destruir�.</emphasis> Rhuarc tamb�m devia ter ouvido isso. Assim como os outros chefes dos cl�s e as S�bias, se tamb�m haviam adentrado aquela floresta de colunas de vidro reluzente. Isso se Moiraine n�o tivesse arrumado uma vis�o especial para ele.</p><p>��Todo mundo v� as mesmas coisas dentro daquelas colunas, Rhuarc?</p><p>��N�o!���interrompeu Melaine, em um tom brusco, os olhos feito a�o verde.���Fique quieto, ou mande <emphasis>Aan�allein</emphasis> e Matrim embora. Voc� tamb�m ter� que ir, Egwene.</p><p>��N�o � permitido���come�ou a explicar Amys, em um tom levemente mais suave���falar sobre o que acontece dentro de Rhuidean, a n�o ser com os que j� estiveram l�.���S� um tantinho mais suave, talvez.���Mesmo assim, poucos falam a respeito, e muito raramente.</p><p>��Pretendo mudar o que � permitido e o que n�o 頗�retrucou Rand, muito calmo.���Acostumem-se.���Viu Egwene resmungando sobre ele precisar levar uns tapas na orelha e abriu um sorriso para a amiga.���Egwene pode ficar tamb�m, j� que pediu com tanta delicadeza.</p><p>A jovem mostrou a l�ngua para ele, depois enrubesceu ao perceber o que fizera.</p><p>��Mudan�a���comentou Rhuarc.���Voc� sabe que ele traz mudan�a, Amys. N�o saber o que muda, nem como, � o que nos deixa feito crian�as sozinhas no escuro. J� que tem de ser, que comece agora. Nunca conversei com dois chefes de cl� que tenham visto a coisa exatamente com os mesmos olhos, Rand, ou que tenham visto exatamente as mesmas coisas. At� mesmo a partilha da �gua e a reuni�o onde aconteceu o Acordo de Rhuidean. Se o mesmo vale para as S�bias, j� n�o sei, mas suspeito que sim. Acho que � uma quest�o de linhagens de sangue. Acredito que eu tenha visto pelos olhos de meus ancestrais, e voc�, pelos dos seus.</p><p>Amys e as outras S�bias o encararam em sil�ncio, furiosas e emburradas. Mat e Egwene tinham a express�o igualmente confusa. Apenas Lan parecia sequer escutar. Seus olhos estavam perdidos em pensamentos, decerto cheios de preocupa��o com Moiraine.</p><p>O pr�prio Rand se sentia um pouco estranho. Ver pelos olhos de seus ancestrais. Ele j� sabia fazia algum tempo que Tam al�Thor n�o era seu verdadeiro pai, que ele fora encontrado rec�m-nascido nas encostas do Monte do Drag�o depois da �ltima grande batalha da Guerra dos Aiel. Um rec�m-nascido ao lado da m�e morta, uma Donzela da Lan�a. Alegara ter sangue Aiel para ganhar acesso a Rhuidean, mas apenas agora o fato lhe saltava aos olhos. Seus ancestrais. Aiel.</p><p>��Ent�o voc� tamb�m viu Rhuidean come�ar a ser constru�da���disse.���E as duas Aes Sedai. Voc� ouviu o que uma delas disse.���<emphasis>Ele os destruir�.</emphasis></p><p>��Ouvi.���Rhuarc tinha um semblante resignado, como um homem que acabava de saber que precisaria amputar a perna.���Eu sei.</p><p>Rand mudou de assunto.</p><p>��O que foi �a partilha da �gua�?</p><p>As sobrancelhas do chefe de cl� se ergueram, surpresas.</p><p>��Voc� n�o reconheceu? Bem, acho que n�o tinha mesmo como reconhecer. Voc� n�o cresceu ouvindo as hist�rias. Segundo as mais antigas, desde o dia em que a Ruptura do Mundo come�ou at� o dia em que adentramos a Terra da Trindade, apenas um povo n�o nos atacou. Um povo nos concedeu �gua de gra�a, sempre que precisamos. Levamos muito tempo para descobrir quem eram. Agora, isso acabou. O compromisso de paz foi destru�do, os assassinos da �rvore cuspiram na nossa cara.</p><p>��Cairhien���disse Rand.���Est� falando dos cairhienos, de <emphasis>Avendoraldera</emphasis>, e de Laman derrubando a �rvore.</p><p>��Laman teve a morte como puni��o���disse Rhuarc, em um tom inexpressivo.���Os que quebraram os juramentos morreram.���Ele olhou de esguelha para Rand.���Alguns, como Couladin, tomam isso como prova de que n�o podemos confiar em ningu�m que n�o seja Aiel. Isso explica, em parte, por que ele odeia voc�. Em parte. Ele toma seu rosto e seu sangue por mentiras. Ou afirma que toma.</p><p>Rand balan�ou a cabe�a. Moiraine �s vezes falava sobre a complexidade da Renda de uma Era, o Padr�o de uma Era urdido pela Roda do Tempo com os fios das vidas humanas. Se os ancestrais dos cairhienos n�o tivessem cedido �gua para os Aiel, trezentos anos antes, Cairhien nunca teria conquistado o direito de usar o Caminho da Seda para cruzar o Deserto, com uma muda de <emphasis>Avendesora</emphasis> para selar o acordo. Sem acordo, o Rei Laman n�o teria tido a �rvore para cortar. A Guerra dos Aiel n�o teria acontecido, e ele n�o teria nascido na encosta do Monte do Drag�o nem sido levado embora e criado em Dois Rios. Quantos outros pontos como esse haviam acontecido, onde uma simples decis�o para um lado ou outro afetou a trama do Padr�o por milhares de anos? Mil vezes mil diminutos pontos de ramifica��o, vezes mil outra vez, tudo contorcendo o Padr�o em um desenho diferente. Ele mesmo era um ponto de ramifica��o, talvez Mat e Perrin tamb�m. O que faziam ou deixavam de fazer reverberava pelos anos, pelas Eras.</p><p>Ele encarou Mat, que mancava ao subir a encosta, apoiado na lan�a, de cabe�a baixa e olhos apertados de dor. <emphasis>O Criador n�o devia estar pensando direito quando p�s o futuro nos ombros de tr�s garotos fazendeiros. N�o posso deix�-lo cair. Preciso carregar o fardo, custe o que custar.</emphasis></p><p>Ao chegarem �s tendas baixas e sem paredes das S�bias, as mulheres se curvaram para entrar, murmurando sobre �gua e sombra. Elas praticamente puxaram Mat para dentro. Como prova do quanto sua cabe�a e garganta do�am, o rapaz n�o s� obedeceu como tamb�m o fez em sil�ncio.</p><p>Rand come�ou a segui-lo, mas Lan pousou a m�o em seu ombro.</p><p>��Voc� a viu l� dentro?���perguntou o Guardi�o.</p><p>��N�o, Lan. Sinto muito, mas n�o vi. Moiraine vai sair de l� s� e salva, se os outros sa�ram.</p><p>Lan grunhiu e recolheu a m�o.</p><p>��Cuidado com Couladin, Rand. Conhe�o o tipo. A ambi��o o corr�i por dentro. Ele sacrificaria o mundo para conquist�-lo.</p><p>��<emphasis>Aan�allein</emphasis> diz a verdade���comentou Rhuarc.���Os Drag�es nos seus bra�os n�o valer�o de nada se voc� morrer antes que os chefes dos cl�s saibam. Vou me certificar de que alguns Jindo de Heirn estejam sempre perto de voc� at� chegarmos a Pedras Frias. Mesmo l�, Couladin deve tentar arrumar confus�o. E os Shaido, pelo menos, v�o segui-lo. Talvez outros fa�am o mesmo. A Profecia de Rhuidean diz que voc� cresceria com gente que n�o � do sangue, mas Couladin n�o deve ser o �nico a enxerg�-lo como um aguacento.</p><p>��Vou tentar me cuidar���retrucou Rand, em um tom seco.</p><p>Nas hist�rias, quando algu�m cumpria uma profecia, todos gritavam �Vejam s�!� e pronto, s� restava lidar com os vil�es. Na vida real parecia que n�o funcionava do mesmo jeito.</p><p>Quando adentraram a tenda, Mat j� estava sentado em uma almofada vermelha com borlas douradas, sem casaco nem camisa. Uma mulher com robe branco de capuz j� terminara de lavar o sangue de seu rosto e come�ava a fazer o mesmo no peito. Amys tinha um pil�o de pedra entre os joelhos e misturava algum unguento enquanto Bair e Seana observavam de perto as ervas que ferviam em um bule de �gua quente.</p><p>Melaine fez uma careta para Lan e Rhuarc, depois fixou os olhos verdes e frios em Rand.</p><p>��Tire a roupa da cintura para cima���disse, �spera.���Os cortes na sua cabe�a n�o parecem t�o ruins, mas deixe-me ver o que est� lhe deixando corcunda.���Ela golpeou um pequeno gongo de lat�o, e outra mulher de robe branco entrou pelos fundos da tenda, trazendo uma bacia de prata fumegante nas m�os e roupas por cima do bra�o.</p><p>Rand escolheu uma almofada e sentou-se, com a coluna ereta.</p><p>��N�o � nada com que se preocupar���assegurou para a S�bia.</p><p>A segunda mulher de branco ajoelhou-se graciosamente a seu lado e, resistindo aos esfor�os do rapaz em aceitar o peda�o de pano �mido que ela torcera na bacia, come�ou a lavar o rosto dele com delicadeza. Rand se perguntou quem seria a mulher. Parecia Aiel, mas decerto n�o agia como tal. Os olhos cinza revelavam uma submiss�o determinada.</p><p>��� uma ferida antiga���disse Egwene � S�bia de cabelos dourados.���Moiraine nunca conseguiu Cur�-la direito.</p><p>O olhar que a jovem lan�ou a Rand dizia que teria sido educado da parte dele contar isso. Mas, pelos olhares que as S�bias trocaram, ele julgou que a amiga j� falara mais do que o suficiente. Uma ferida que uma Aes Sedai n�o fora capaz de Curar. Aquilo era um enigma para elas. Moiraine parecia saber mais sobre Rand do que ele pr�prio, e o rapaz tinha dificuldade de lidar com a Azul. Talvez fosse mais f�cil com as S�bias, que n�o sabiam tanto sobre ele.</p><p>Mat estremeceu assim que Amys come�ou a esfregar o unguento nos cortes em seu peito. Se a sensa��o fosse t�o ruim quanto o cheiro, Rand imaginou que o amigo tinha motivo para se encolher. Bair empurrou uma caneca de prata para o rapaz.</p><p>��Beba, <emphasis>meu jovem</emphasis>. Se alguma coisa pode ajudar com as dores de cabe�a, s�o ra�zes de tom�sia e de folha-de-prata.</p><p>Ele n�o hesitou antes de engolir tudo de uma vez. Em seguida, se arrepiou e fez careta.</p><p>��Tem gosto de sola de bota.���Mas fez uma mesura para a mulher, ainda sentado, com formalidade suficiente para um taireno, � exce��o do torso nu e de ele ter aberto um sorriso de repente.���Agrade�o, S�bia. E n�o vou perguntar se a senhora acrescentou alguma coisa para dar este� sabor� memor�vel.���O riso baixinho de Bair e Seana poderia ter sido porque tinham ou n�o acrescentado, mas, como sempre, Mat arranjara um jeito de amaciar as mulheres. At� Melaine deu um breve sorriso.</p><p>��Rhuarc���disse Rand���se Couladin est� pensando em tornar as coisas mais dif�ceis, preciso me antecipar a ele. Como posso contar aos outros chefes de cl�s? Sobre mim. Sobre isso.���Girou os bra�os envoltos pelos Drag�es.</p><p>A mulher de robe branco, a seu lado, agora limpando o talho comprido em sua cabe�a, evitava encarar as marcas.</p><p>��N�o existe um protocolo���respondeu Rhuarc.���Como poderia existir um protocolo para algo que s� vai acontecer uma vez? Quando � preciso haver reuni�o entre os chefes dos cl�s, existem locais como os fortes da Paz de Rhuidean. O mais perto de Pedras Frias, de Rhuidean, � Alcair Dal. Voc� pode mostrar as provas para os chefes dos cl�s e dos ramos l�.</p><p>��<emphasis>Al�cair Dal</emphasis>?���perguntou Mat, com um sotaque distinto.���A Bacia de Ouro?</p><p>Rhuarc assentiu.</p><p>��Um c�nion redondo, mas n�o h� nada de dourado por l�. Em uma das pontas tem uma sali�ncia, e um homem de p� ali pode ser ouvido por qualquer um no c�nion sem precisar erguer a voz.</p><p>Rand franziu o cenho para os Drag�es em seus antebra�os. N�o fora o �nico a ser marcado de alguma forma em Rhuidean. Mat parara de volta e meia proferir algumas palavras na L�ngua Antiga sem saber o que estava dizendo. Desde Rhuidean, entendia o idioma, embora parecesse n�o perceber. Egwene observava Mat com uma express�o pensativa. Passara tempo demais com Aes Sedai.</p><p>��Rhuarc, pode enviar mensageiros aos chefes dos cl�s?���perguntou Rand.���Quanto tempo leva para convocar todos para Alcair Dal? Como podemos garantir que eles ir�o?</p><p>��Mensageiros levar�o semanas, e mais outras semanas at� que todos se re�nam.���Rhuarc fez um gesto, indicando as quatro S�bias.���Elas podem falar com todos os chefes de cl� em sonhos em uma s� noite, com todos os chefes dos ramos. E todas as S�bias, para garantir que nenhum homem tome o sonho como apenas um sonho.</p><p>��Aprecio sua confian�a de que podemos mover montanhas, sombra do meu cora��o���interveio Amys, com ironia, acomodando-se ao lado de Rand com o unguento���mas a coisa n�o � bem assim. Levaria muitas noites para fazer o que voc� est� sugerindo, com pouco tempo de descanso no meio.</p><p>Rand tomou a m�o da mulher assim que ela come�ou a esfregar a mistura de cheiro pungente em seu rosto.</p><p>��Pode fazer isso?</p><p>��Est� t�o ansioso assim para nos destruir?���inquiriu a S�bia, depois mordeu o l�bio, irritada. A mulher de capuz branco do outro lado de Rand levou um susto.</p><p>Melaine bateu palmas duas vezes.</p><p>��V�o embora���disse com rispidez, e as mulheres de branco sa�ram, fazendo mesuras e levando as bacias e roupas.</p><p>��Voc� me irrita como um amaranto espinhoso arranhando a pele���disse Amys a Rand, em um tom amargo.���N�o importa o que seja dito a elas, essas mulheres v�o come�ar a falar sobre o que n�o deveriam saber.</p><p>Ela soltou a m�o e come�ou a esfregar o unguento com mais energia do que deveria ser necess�rio. A ard�ncia era pior que o cheiro.</p><p>��N�o pretendia irrit�-la���respondeu Rand���mas n�o temos tempo. Os Abandonados est�o � solta, Amys, e se descobrirem onde eu estou ou o que estou planejando����As mulheres Aiel n�o pareceram surpresas. Ser� que j� sabiam?���Nove ainda vivem. S�o muitos, e os que n�o querem me matar acham que podem me usar. N�o tenho tempo. Se eu soubesse como trazer todos os chefes dos cl�s para c� agora mesmo e faz�-los me aceitarem, faria.</p><p>��Qual � o plano?���A voz de Amys soou t�o inflex�vel quanto o rosto.</p><p>��Vai pedir� mandar� os chefes seguirem para Alcair Dal?</p><p>A mulher o encarou por um longo instante. Quando enfim assentiu, foi de m� vontade.</p><p>M� vontade ou n�o, um pouco da tens�o em Rand se dissipou. N�o havia como recuperar sete dias perdidos, mas talvez conseguisse evitar perder ainda mais. Por�m, Moiraine, ainda em Rhuidean com Aviendha, o prendia �quele lugar. N�o podia simplesmente abandon�-la.</p><p>��A senhora conheceu a minha m�e���disse.</p><p>Egwene inclinou-se para a frente, t�o atenta quanto ele, e Mat balan�ou a cabe�a.</p><p>Amys parou a m�o que percorria o rosto dele.</p><p>��Conheci.</p><p>��Me fale dela. Por favor.</p><p>A S�bia voltou a aten��o ao corte acima da orelha de Rand. Se uma carranca tivesse o poder de Curar, a pomada seria desnecess�ria. Enfim, disse:</p><p>��A hist�ria de Shaiel, como conhe�o, come�a quando eu ainda era <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>, mais de um ano antes de eu abrir m�o da lan�a. Havia muitas de n�s juntas, quase chegando � Muralha do Drag�o. Um dia vimos uma mulher, uma jovem aguacenta de cabelos loiros, toda vestida em sedas, levando cavalos de carga e cavalgando uma linda �gua. Se fosse um homem, ter�amos matado, � claro, mas ela n�o levava arma al�m de uma faca comum no cinto. Algumas quiseram bot�-la para correr para a Muralha do Drag�o, nua����Egwene piscou, parecia continuamente surpresa com a dureza dos Aiel. Amys prosseguiu, sem pausar:���� mas a mulher parecia muito determinada na busca de algo. Curiosas, n�s a seguimos, dia ap�s dia, sem que ela visse. Os cavalos morreram, a comida acabou, a �gua tamb�m, mas ela n�o retrocedeu. Seguiu a p�, cambaleante, at� que caiu e n�o conseguiu mais se levantar. Decidimos dar �gua a ela, depois perguntamos sua hist�ria. A mulher estava quase morrendo e levou um dia inteiro para conseguir falar.</p><p>��O nome dela era Shaiel?���perguntou Rand quando a mulher fez uma pausa.���De onde ela vinha? Por que veio para c�?</p><p>��Shaiel���respondeu Bair���foi o nome que ela adotou. Nunca nos deu outro nome durante todo o tempo em que a conheci. Na L�ngua Antiga, significa Mulher Que � Dedicada.���Mat assentiu, parecendo n�o perceber o que acabara de fazer. Lan o observou, pensativo, por sobre uma caneca de prata cheia d��gua.���Havia uma amargura em Shaiel, no in�cio.</p><p>Agachada, apoiando-se nos calcanhares ao lado de Rand, Amys assentiu.</p><p>��Ela falava de uma crian�a abandonada, um filho que amava. Um marido que n�o amava. Mas n�o dizia onde. Acho que Shaiel nunca se perdoou por ter deixado a crian�a. Contava pouco al�m do necess�rio. Era por n�s que andava procurando, pelas Donzelas da Lan�a. Uma Aes Sedai de nome Gitara Moroso, que tinha o dom da Previs�o, dissera a ela que um desastre se abateria sobre suas terras e seu povo, talvez sobre o mundo, se ela n�o fosse viver com as Donzelas da Lan�a sem contar a ningu�m aonde estava indo. Shaiel deveria se tornar uma Donzela e n�o poderia retornar � pr�pria terra at� que as Donzelas fossem para Tar Valon.</p><p>A S�bia balan�ou a cabe�a, pensativa.</p><p>��� importante que voc� entenda como isso soava, na �poca. Donzelas indo para Tar Valon? Nenhum Aiel cruzara a Muralha do Drag�o desde o dia em que chegamos � Terra da Trindade. Levaria mais quatro anos at� que o crime de Laman nos trouxesse de volta �s terras aguacentas. E sem d�vida ningu�m que n�o fosse Aiel jamais se tornara uma Donzela da Lan�a. Algumas de n�s pensamos que ela tinha enlouquecido com a insola��o. Mas Shaiel era teimosa, e de alguma forma acabamos concordando em deix�-la tentar.</p><p>Gitara Moroso. Uma Aes Sedai com o dom da Previs�o. J� ouvira aquele nome em algum lugar, mas onde? E tinha um irm�o. Um meio-irm�o. Quando pequeno, sempre se perguntava como seria ter um irm�o ou irm�. Quem, e onde? Mas Amys prosseguiu.</p><p>��Quase toda garota sonha em se tornar Donzela e aprende a usar arco e lan�a pelo menos de forma rudimentar e a lutar com m�os e p�s. Mesmo assim, as que d�o o passo final e desposam a lan�a descobrem que n�o sabem nada. Foi ainda mais dif�cil para Shaiel. Ela sabia lidar bem com o arco, mas nunca correra mais do que uma milha nem vivera do que encontrasse no caminho. Uma garota de dez anos conseguia derrot�-la, e ela sequer sabia quais plantas indicavam a presen�a de �gua. Ainda assim, Shaiel perseverou. Em um ano fez os votos � lan�a, tornou-se uma Donzela e foi adotada pelo ramo Chumai dos Taardad.</p><p>E em algum momento, Shaiel partira para Tar Valon com as Donzelas, para morrer nas encostas do Monte do Drag�o. Era uma meia resposta, e deixava novas perguntas. Se ao menos ele tivesse visto o rosto da m�e�</p><p>��Voc� parece um pouco com ela���comentou Seana, como se lesse os pensamentos dele. Ela se sentara de pernas cruzadas e bebia de uma pequena caneca de vinho.���E menos com Janduin.</p><p>��Janduin? Meu pai?</p><p>��Isso���respondeu Seana.���Era o chefe do cl� dos Taardad, na �poca, o mais jovem de que se tem lembran�a. Mas tinha um jeito especial, um poder. As pessoas o escutavam e seguiam, at� os que n�o eram do cl�. Ele acabou com a rixa de sangue de duzentos anos entre os Taardad e os Nakai e fez alian�as com eles e com os Reyn, com quem tinha quase uma rixa de sangue tamb�m. Quase conseguiu acabar com a desaven�a entre os Shaarad e os Goshien, e poderia ter levado Laman a n�o cortar a �rvore. Por mais jovem que fosse, foi ele quem levou os Taardad, os Nakai, os Reyn e os Shaarad a tentar fazer Laman pagar sua d�vida de sangue.</p><p>Foi. Ent�o ele tamb�m tinha morrido. O rosto de Egwene estava cheio de compaix�o. Rand ignorou, n�o queria compaix�o. Como poderia sentir a perda de gente que sequer conhecera? Mas sentia.</p><p>��Como foi que Janduin morreu?</p><p>As S�bias trocaram olhares hesitantes. Por fim, Amys disse:</p><p>��Foi no in�cio do terceiro ano da busca por Laman, quando Shaiel descobriu que estava gr�vida. Pela lei, ela deveria ter retornado � Terra da Trindade. Uma Donzela � proibida de carregar a lan�a quando carrega uma crian�a. Mas Janduin n�o conseguia proibi-la de nada. Se ela pedisse a lua em um colar, ele tentaria dar a ela. Ent�o ela ficou e, na �ltima luta, antes de Tar Valon, se perdeu, e a crian�a foi junto. Janduin n�o conseguiu se perdoar por n�o t�-la obrigado a obedecer a lei.</p><p>��Ele abriu m�o de sua posi��o como chefe de cl㠗�continuou Bair.���Ningu�m nunca fizera tal coisa. Disseram que ele n�o podia fazer aquilo, mas Janduin simplesmente foi embora. Seguiu para o norte com os jovens, para ca�ar Trollocs e Myrddraal na Praga. � uma coisa que os homens mais desvairados fazem, assim como as Donzelas com mais coragem que ju�zo. Os que retornaram disseram que ele foi morto por um homem. Disseram que Janduin alegou que o homem parecia Shaiel e n�o ergueu a lan�a quando o sujeito partiu para cima dele.</p><p>Mortos, ent�o. Ambos mortos. Ele nunca deixaria de amar Tam, nunca deixaria de pensar nele como pai, mas queria poder ter visto Janduin e Shaiel pelo menos uma vez.</p><p>Egwene tentou confort�-lo, naturalmente, como as mulheres sempre faziam. N�o adiantaria tentar faz�-la compreender que ele perdera algo que nunca tivera. Como lembran�a dos pais, tinha a risada baixinha de Tam al�Thor e a fraca mem�ria das m�os suaves de Kari. Era tudo o que um homem poderia querer ou precisar. Mas sua amiga parecia decepcionada, at� um pouco chateada com ele, e as S�bias de uma forma ou outra compartilhavam do sentimento, pelo que deixava transparecer a careta de desaprova��o de Bair e a fungada e remexida ostentosa no xale de Melaine. As mulheres nunca entendiam. Rhuarc, Lan e Mat, sim. Eles o deixaram sozinho, como queria.</p><p>Por alguma raz�o, Rand estava sem apetite quando Melaine trouxe comida, ent�o foi se deitar na beirada da tenda, com uma das almofadas sob o cotovelo, de onde podia observar a encosta e a cidade enevoada. O sol inundava o vale e as montanhas vizinhas, incendiando as sombras. O ar que remoinhava para dentro da tenda parecia vir de um forno.</p><p>Mat se aproximou depois de um tempo, j� com uma camisa limpa. Sentou-se ao lado de Rand sem dizer palavra, perscrutando o vale abaixo, a estranha lan�a apoiada no joelho. Vez ou outra passava o dedo pela inscri��o cursiva entalhada no cabo preto.</p><p>��Como est� a cabe�a?���perguntou Rand, e Mat deu um salto.</p><p>��Ʌ n�o est� doendo mais.���Ele tirou os dedos do entalhe de repente e entrela�ou as m�os no colo.���N�o muito, de todo modo. Seja l� o que elas tenham feito, funcionou.</p><p>Ele fez sil�ncio outra vez, e Rand o deixou quieto. Tamb�m n�o queria falar. Quase podia sentir o tempo passando, gr�os de areia em uma ampulheta caindo um por um, de t�o lentamente. Mas tudo tamb�m parecia tremular, a areia prestes a explodir em uma torrente. Bobagem. Estava apenas sendo afetado pela n�voa quente que subia da rocha nua da montanha. Os chefes de cl� n�o conseguiriam chegar a Alcair Dal mais cedo, mesmo se Moiraine surgisse diante dele naquele instante. De todo modo, aqueles homens eram apenas uma parte do plano, talvez a menos importante. Pouco depois, percebeu Lan agachado em cima da mesma sali�ncia de granito que Couladin usara, sem dar aten��o ao sol. O Guardi�o tamb�m estava vigiando o vale. Outro homem que n�o queria falar.</p><p>Rand tamb�m recusou a refei��o do meio-dia, embora Egwene e as S�bias se revezassem para tentar faz�-lo comer. Pareciam aceitar a recusa com bastante calma, mas, quando ele sugeriu retornar a Rhuidean para procurar Moiraine���e tamb�m Aviendha���Melaine explodiu.</p><p>��Seu idiota! Homem nenhum pode ir duas vezes para Rhuidean. Nem voc� retornaria vivo! Ah, morra de fome, se quiser!</p><p>Ela arremessou na cabe�a dele metade de um peda�o redondo de p�o. Mat o pegou no ar e come�ou a comer com muita calma.</p><p>��Por que voc� me quer vivo?���perguntou Rand a ela.���Sabe o que aquela Aes Sedai disse diante de Rhuidean. Vou destruir voc�s. Por que n�o est�o tramando com Couladin para me matar?</p><p>Mat engasgou, e Egwene plantou as m�os na cintura, pronta para passar um serm�o, mas Rand manteve a aten��o em Melaine. Em vez de responder, a S�bia cravou os olhos nele e saiu da tenda.</p><p>Foi Bair quem falou.</p><p>��Todo mundo pensa que conhece a Profecia de Rhuidean, mas o que o povo sabe � o que as S�bias e os chefes de cl� v�m contando por gera��es. N�o s�o mentiras, mas n�o � a verdade completa. A verdade pode destruir at� o homem mais forte.</p><p>��Qual � a verdade completa?���insistiu Rand.</p><p>Ela olhou para Mat, depois disse:</p><p>��Neste caso, a verdade completa, a verdade que apenas as S�bias e os chefes dos cl�s conheciam, � que voc� � a nossa ru�na. Nossa ru�na e nossa salva��o. Sem voc�, ningu�m do povo vai sobreviver � �ltima Batalha. Talvez nem chegue � �ltima Batalha. Essa � a profecia e a verdade. Com voc� �Ele derramar� o sangue daqueles que se denominam Aiel como �gua na areia e os destruir� como a ramos secos, mas o que restar do restante ele salvar�, e eles viver�o.� Uma profecia dura, mas esta nunca foi uma terra branda.���A mulher o encarou, sem hesitar. Uma terra dura, e uma mulher dura.</p><p>Ele se virou para o lado de novo e voltou a perscrutar o vale. Os outros haviam ido embora, exceto por Mat.</p><p>No meio da tarde ele enfim avistou uma silhueta subindo a montanha, escalando com cansa�o e dificuldade. Aviendha. Mat tinha raz�o, a jovem <emphasis>estava</emphasis> nua como veio ao mundo. E tamb�m exibia efeitos do sol, Aiel ou n�o. Apenas o rosto e as m�os estavam escurecidos pelo sol, e o restante parecia bastante vermelho. Rand ficou contente em v�-la. A mulher n�o gostava dele, mas s� porque achava que ele destratara Elayne. O mais simples dos motivos. N�o pela profecia ou pela ru�na, n�o pelos Drag�es em seu bra�o ou porque ele era o Drag�o Renascido. Por um motivo simples e humano. Rand quase ansiava por aqueles olhares frios e desafiadores.</p><p>Quando ela o viu, congelou, e n�o havia nada de frio em seus olhos azul-esverdeados. O olhar dela fez o sol parecer frio. Rand deveria ter sido transformado em cinzas ali mesmo onde estava.</p><p>��Ʌ Rand?���murmurou Mat.���Acho que eu n�o viraria as costas para ela, se fosse voc�.</p><p>Um suspiro cansado escapou de seus l�bios. Claro. Se ela tinha passado por aquelas colunas de vidro, sabia. Bair, Melaine, as outras���todas tiveram anos para se acostumar � ideia. Para Aviendha, era uma ferida nova e sem cicatriz. <emphasis>N�o � de se admirar que ela agora me odeie.</emphasis></p><p>As S�bias correram ao encontro de Aviendha e a levaram depressa para dentro de outra tenda. Quando Rand a viu outra vez, a mulher estava usando uma saia marrom pesada e uma blusa branca larga, com um xale passado nos bra�os. N�o parecia muito feliz com as roupas. Aviendha notou que ele a observava, e a ira em seu rosto���pura f�ria animal���foi suficiente para faz�-lo desviar os olhos.</p><p>As sombras come�avam a se espichar na dire��o das montanhas mais distantes quando Moiraine apareceu, caindo e se reerguendo, cambaleante, enquanto subia a encosta. Estava t�o queimada de sol quanto Aviendha. Rand ficou espantado em ver que a Aes Sedai tamb�m estava sem roupa. As mulheres eram loucas, essa era a verdade.</p><p>Lan saltou da sali�ncia de pedra e correu at� ela, ent�o tomou-a nos bra�os e subiu a encosta depressa, talvez mais depressa do que descera, xingando e gritando pelas S�bias, uma ap�s a outra. A cabe�a de Moiraine pendia sobre o ombro do Guardi�o. As S�bias vieram peg�-la, e Melaine barrou a passagem de Lan quando ele tentou segui-las para dentro da tenda. O Guardi�o foi deixado do lado de fora, andando de um lado para outro, a m�o em punho socando a palma da outra.</p><p>Rand virou-se de costas e encarou o teto baixo da tenda. Tr�s dias poupados. Deveria estar contente por Moiraine e Aviendha terem voltado, mas o al�vio que sentia era pelos tr�s dias poupados. Tempo era tudo. Ele precisava poder escolher o pr�prio caminho. Talvez ainda pudesse.</p><p>��O que voc� vai fazer agora?���perguntou Mat.</p><p>��Uma coisa que acho que voc� vai gostar. Vou quebrar as regras.</p><p>��Estava querendo saber se voc� ia pegar alguma coisa para comer. Porque eu estou com fome.</p><p>Rand soltou uma risada, mesmo sem querer. Alguma coisa para comer? N�o daria a m�nima se nunca mais comesse na vida. Mat o encarou como se ele estivesse louco, e aquilo s� o fez gargalhar mais alto. N�o estava louco. Pela primeira vez, <emphasis>algu�m</emphasis> aprenderia o que significava ele ser o Drag�o Renascido. Ele infringiria as regras de uma forma que <emphasis>ningu�m</emphasis> esperava.</p></section><section><title><p>35</p><p><image l:href="#13"/></p><p>Li��es severas</p></title><p>O Cora��o da Pedra em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> era como Egwene se lembrava no mundo real: imensas colunas de pedra vermelha polida que subiam e subiam at� chegar a um teto distante, e, sob o grande domo central, <emphasis>Callandor</emphasis> cravada nas pedras claras do ch�o. S� que n�o havia gente. Os lampi�es dourados n�o estavam acesos, mas havia uma esp�cie de luz, ao mesmo tempo forte e fraca, que parecia emanar de todos os lugares e de lugar nenhum. Em geral, os ambientes fechados em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> eram assim.</p><p>O que ela n�o esperava encontrar era a mulher de p�, do outro lado da espada reluzente de cristal, e espiando as sombras p�lidas por entre as colunas. Egwene ficou surpresa com a forma como ela estava vestida. P�s descal�os e cal�as largas de seda amarela com brocados. Acima do cintur�o amarelo, mais escuro, a mulher estava nua, exceto pelas correntes douradas que pendiam do pesco�o. Pequeninas argolas de ouro decoravam as orelhas em fileiras cintilantes, e, o mais espantoso de tudo, outra argola perfurava o nariz, e uma fina corrente de medalh�es enfileirados ia da argola do nariz at� uma das da orelha esquerda.</p><p>��Elayne?���indagou Egwene, em um arquejo, envolvendo o corpo com o xale como se fosse ela que estivesse sem blusa. Estava vestida como uma S�bia, desta vez, mas sem motivo aparente.</p><p>A Filha-herdeira deu um salto, e, quando parou de frente para Egwene, estava usando um recatado vestido verde-claro de gola alta e bordada, com mangas compridas cujas pontas cobriam as m�os. Sem brincos. Sem argola no nariz.</p><p>��� assim que as mulheres do Povo do Mar se vestem a bordo���explicou, mais do que depressa, com um rubor intenso no rosto.���Eu queria saber como �, e aqui pareceu o melhor lugar para testar. Afinal de contas, n�o dava para fazer isso no navio.</p><p>��E como �?���perguntou Egwene, curiosa.</p><p>��Bem frio, para dizer a verdade.���Elayne olhou as colunas ao redor.���E parece que todo mundo est� olhando para voc�, mesmo quando n�o tem ningu�m em volta.���Ela de repente come�ou a rir.���Pobres Thom e Juilin. Eles ficam sem saber para onde olhar. Metade da tripula��o � de mulheres.</p><p>Analisando as colunas, Egwene deu de ombros, incomodada. Parecia mesmo que as duas estavam sendo observadas. Decerto porque eram as �nicas pessoas na Pedra. Ningu�m que tivesse acesso a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> esperaria ver algu�m por ali.</p><p>��Thom? Thom Merrilin? E Juilin Sandar? <emphasis>Eles</emphasis> est�o com voc�?</p><p>��Ah, Egwene, Rand mandou os dois. Rand e Lan. Bom, Moiraine mandou Thom, na verdade, mas Rand mandou Mestre Sandar. Para nos ajudar. Nynaeve est� bastante tensa com isso, com essa hist�ria do Lan, mas � claro que n�o demonstra.</p><p>Egwene conteve um sorrisinho. <emphasis>Nynaeve,</emphasis> tensa? O rosto de Elayne estava radiante, e o vestido mudara outra vez para um com decote <emphasis>muito</emphasis> mais baixo. Aparentemente, acontecera sem que ela percebesse. O <emphasis>ter�angreal</emphasis>, o anel de pedra retorcido, ajudava a Filha-herdeira a encontrar o Mundo dos Sonhos com tanta facilidade quanto Egwene tinha para faz�-lo, mas n�o conferia controle. Isso tinha que ser aprendido. Pensamentos aleat�rios���como o que ela gostaria de usar para Rand���ainda eram capazes de alterar a apar�ncia de Elayne.</p><p>��Como ele est�?���A voz da Filha-herdeira era uma estranha mistura de desinteresse for�ado e apreens�o.</p><p>��Bem, acho que estᅠ��Egwene deu o relat�rio completo. As Pedras-portais, Rhuidean, tudo o que sabia pelo que escutara e o que conseguia inferir a partir das conversas sobre ver com os olhos dos ancestrais. Falou da estranha criatura do estandarte do Drag�o marcada nos antebra�os de Rand, da revela��o de Bair de que ele seria a ru�na dos Aiel e da convoca��o dos chefes dos cl�s para Alcair Dal. Amys e as outras S�bias deviam estar cuidando disso naquele instante, pelo menos ela torcia para que estivessem. Contou at� a estranha hist�ria dos pais verdadeiros de Rand, s� que em uma vers�o resumida.���Mas n�o sei, n�o. Desde que ouviu sobre isso, ele anda mais estranho do que nunca, e Mat n�o fica muito atr�s. N�o estou dizendo que Rand enlouqueceu, mas� Ele � t�o duro quanto Rhuarc ou Lan, talvez mais, pelo menos em alguns aspectos. Acho que est� planejando alguma coisa, algo que n�o quer que ningu�m saiba. E est� com pressa de p�r em pr�tica. � preocupante. �s vezes, tenho a sensa��o de que ele n�o v� mais pessoas, s� pe�as em um tabuleiro.</p><p>Elayne n�o parecia preocupada, pelo menos n�o com isso.</p><p>��Ele � o que �, Egwene. Um rei ou um general nem sempre pode se dar ao luxo de ver as pessoas. Quando um governante precisa fazer o que � certo para a na��o, �s vezes alguns acabam feridos em prol do que for melhor para todos. Rand � um rei, Egwene, mesmo que sem na��o. Isso sem contar Tear. E, se ele n�o fizer nada que machuque ningu�m, vai acabar machucando todos.</p><p>Egwene fungou. Podia fazer sentido, mas ela n�o era obrigada a gostar da ideia. Pessoas eram pessoas e precisavam ser vistas como tal.</p><p>��E tem mais. Algumas S�bias conseguem canalizar. N�o sei quantas, mas suspeito que mais do que umas poucas, at� certo grau. Pelo que Amys contou, elas encontram todas as mulheres que nascem com a centelha.���Nenhuma Aiel morria tentando aprender sozinha a canalizar, tentando usar o Poder sem nem saber o que estava fazendo. N�o existiam bravias entre as Aiel. Os homens que se descobriam capazes de canalizar enfrentavam um destino mais sombrio: rumavam para o norte, para a Grande Praga. Ou talvez mais al�m, para as Terras Devastadas e Shayol Ghul. Iam matar o Tenebroso, diziam. Nenhum sobrevivia por tempo suficiente para enlouquecer.���Parece que Aviendha � uma das que t�m a centelha. Acho que ela ser� muito forte. Amys concorda.</p><p>��Aviendha?���repetiu Elayne, espantada.���Mas � claro. Eu deveria ter percebido. Senti a mesma afinidade com Jorin que senti com ela, � primeira vista. E com voc�, ali�s.</p><p>��Jorin?</p><p>Elayne fez uma careta.</p><p>��Prometi que guardaria o segredo dela, mas solto a l�ngua na primeira oportunidade. Bem, suponho que voc� n�o v� fazer mal a ela nem �s suas irm�s. Jorin � Chamadora de Ventos do <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis>, Egwene. Ela � capaz de canalizar, assim como algumas das outras que exercem a mesma fun��o.���A Filha-herdeira olhou as colunas ao redor, e o decote de repente subiu de volta at� o queixo. Ela ajustou um xale de renda escura que n�o estava l� um instante antes, cobrindo os cabelos e escondendo o rosto.���Egwene, voc� n�o pode contar a ningu�m. Jorin tem medo de que a Torre as force a se tornar Aes Sedai ou que tente dar um jeito de control�-las. Prometi que faria o poss�vel para n�o deixar isso acontecer.</p><p>��N�o vou contar���respondeu Egwene, devagar.</p><p>S�bias e Chamadoras de Vento. Havia mulheres capazes de canalizarem entre elas, e nenhuma tinha feito os Tr�s Juramentos, nenhuma estava ligada ao Bast�o dos Juramentos. Os Juramentos serviam para que as pessoas confiassem nas Aes Sedai, ou pelo menos para que n�o temessem seu poder, mas ainda era frequente as mulheres da Torre precisarem se deslocar em segredo. As S�bias���e Egwene apostava que o mesmo valia para as Chamadoras de Ventos���ocupavam lugar de honra em suas sociedades. Sem que precisassem jurar para supostamente manter a seguran�a. Era algo a se pensar.</p><p>��Nynaeve e eu tamb�m estamos adiantadas, Egwene. Jorin est� me ensinando a manipular o clima. Voc� n�o acreditaria no tamanho dos fluxos de Ar que ela consegue urdir! E, c� entre n�s, a gente p�s o <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> para correr mais depressa do que nunca, o que � <emphasis>bem</emphasis> r�pido. Devemos chegar em Tanchico em mais uns tr�s dias, talvez dois, segundo Coine. Ela � a Mestra das Velas, a capit�. Dez dias de Tear at� Tanchico, mais ou menos. Isso parando para falar com todos os navios dos Atha�an Miere que encontramos. Egwene, o Povo do Mar acha que Rand � o Coramoor.</p><p>��Ah, �?</p><p>��Coine interpretou errado algumas coisas que aconteceram em Tear. Ela est� presumindo que as Aes Sedai servem a Rand, por exemplo. Nynaeve e eu achamos que era melhor n�o esclarecer o erro, mas, assim que ela contar para outra Mestra das Velas, todos v�o espalhar a not�cia e servir a Rand. Acho que far�o qualquer coisa que ele pedir.</p><p>��Queria que os Aiel aceitassem a quest�o com a mesma facilidade���suspirou Egwene.���Rhuarc acha que alguns v�o se recusar a reconhec�-lo, com ou sem Drag�es de Rhuidean. Tem um sujeito, um homem chamado Couladin, que tenho certeza de que mataria Rand em um instante, se tivesse chance.</p><p>Elayne deu um passo � frente.</p><p>��Voc� n�o vai deixar isso acontecer.���N�o era uma pergunta, nem um pedido. Havia um brilho penetrante nos olhos azuis e uma adaga desembainhada na m�o da Filha-herdeira.</p><p>��Farei o melhor que posso. Rhuarc est� fornecendo guarda-costas a ele.</p><p>Elayne pareceu ver a adaga pela primeira vez e levou um susto. A l�mina desapareceu.</p><p>��Voc� precisa me ensinar o que Amys estiver ensinando a voc�, Egwene. � desconcertante ver as coisas ficarem aparecendo e sumindo, ou perceber de repente que estou usando roupas diferentes. Simplesmente acontece.</p><p>��Vou ensinar. Quando tiver tempo.���Ela j� estava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> havia tempo demais.���Elayne, se eu n�o estiver aqui quando for hora de nos encontrarmos outra vez, n�o se preocupe. Vou tentar, mas talvez eu n�o consiga vir. N�o se esque�a de contar a Nynaeve. Se eu n�o vier, confira todas as noites seguintes. N�o vou atrasar mais do que um ou dois dias, tenho certeza.</p><p>��Se voc� diz���respondeu Elayne, desconfiada.���Com certeza levaremos semanas para descobrir se Liandrin e as outras est�o em Tanchico ou n�o. Thom acha que a cidade vai estar muito confusa.���Ela pousou os olhos em <emphasis>Callandor</emphasis>, enfiada no ch�o at� a metade.���Por que ser� que ele fez isso?</p><p>��Rand disse que isso vai prender os tairenos a ele. Enquanto souberem que est� a�, saber�o que ele vai voltar. Talvez ele saiba o que est� dizendo. Espero que sim.</p><p>��Ah. Eu pensei que� talvez� ele estivesse irritado� com alguma coisa.</p><p>Egwene franziu o cenho para a amiga. Aquela s�bita timidez n�o combinava nada com Elayne.</p><p>��Irritado com o qu�?</p><p>��Ah, nada. S� passou pela minha cabe�a. Egwene, entreguei duas cartas a Rand antes de ir embora de Tear. Voc� sabe como ele reagiu?</p><p>��N�o, n�o sei. Voc� disse alguma coisa que possa t�-lo irritado?</p><p>��Claro que n�o.���Elayne deu uma risada alegre, mas pareceu for�ada. O vestido de s�bito transformou-se em um novo, de l� escura, pesado o bastante para um inverno rigoroso.���Eu teria que ser muito tonta para escrever alguma coisa que o deixasse irritado.���A jovem n�o tinha reparado, mas seus cabelos voavam para todos os lados, feito uma coroa insana.���Estou tentando fazer com que ele me ame, afinal de contas. S� tentando faz�-lo me amar. Ah, por que os homens n�o podem ser mais simples? Por que precisam causar tantas dificuldades? Pelo menos ele est� longe de Berelain.���A l� voltou a ser seda, com um decote ainda mais profundo que o anterior. Seus cabelos cintilavam sobre os ombros, brilhando t�o forte que quase apagavam o vestido. A Filha-herdeira hesitou, mordiscando o l�bio inferior.���Egwene? Se voc� tiver chance, pode dizer a ele que eu estava falando s�rio quando disse que� Egwene? Egwene!</p><p>Algo agarrou Egwene. O Cora��o da Pedra definhou at� escurecer por completo, como se ela estivesse sendo puxada pelos cabelos.</p><empty-line/><p>Egwene acordou de repente, com um arquejo. Estava com o cora��o aos saltos, encarando o teto baixo da tenda envolta pela noite. Apenas um tantinho de luar entrava pelas laterais abertas. Estava debaixo das cobertas���o Deserto era t�o frio � noite quanto era quente durante o dia, e o braseiro que exalava o odor adocicado de adubo seco queimando n�o aquecia muito. Continuava exatamente onde se deitara para dormir. Mas o que a puxara de volta?</p><p>De s�bito, deu-se conta de Amys, sentada de pernas cruzadas a seu lado, envolta em sombras. O rosto da S�bia, tomado pela escurid�o, parecia t�o sombrio e perigoso quanto a noite.</p><p>��Foi voc� que fez isso, Amys?���perguntou, cheia de raiva.���Voc� n�o tem o direito de sair me puxando. Eu sou uma Aes Sedai da Ajah Verde����A mentira agora sa�a com facilidade de seus l�bios.���E voc� n�o tem o direito�</p><p>Amys a interrompeu com uma voz sombria.</p><p>��Para al�m da Muralha do Drag�o, na Torre Branca, voc� � Aes Sedai. Aqui, � uma aprendiz ignorante, uma crian�a tola rastejando em um ninho de cobras.</p><p>��Sei que disse que n�o entraria em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> sem vocꠗ�retrucou Egwene, tentando soar racional���mas�</p><p>Algo a puxou pelos tornozelos e a ergueu no ar de cabe�a para baixo. Os cobertores rolaram para longe, o vestido desceu e se embolou em suas axilas. Ela pendia de cabe�a para baixo, com o rosto na mesma altura do de Amys. Furiosa, abriu-se para <emphasis>saidar</emphasis>���e viu que estava blindada.</p><p>��Voc� queria ir sozinha���sibilou Amys, baixinho.���Foi avisada, mas quis ir.���Os olhos dela pareciam cintilar no escuro, mais e mais brilhantes.���Sem se importar com o que poderia estar � espera. Existem coisas nos sonhos que dilaceram o cora��o mais valente.���Em volta dos olhos que mais pareciam brasa azul, o rosto dela derreteu e se esticou. Escamas brotaram onde antes havia pele, e sua mand�bula se projetou, cheia de dentes afiados.���Coisas que <emphasis>devoram</emphasis> o cora��o mais valente���rosnou.</p><p>Aos berros, Egwene esmurrou em v�o o escudo que a isolava da Fonte Verdadeira. Tentou socar aquela cara horr�vel, aquela coisa que n�o podia ser Amys, mas algo agarrava seus punhos e a prendia, tesa e tr�mula, no ar. Tudo o que conseguia fazer era ganir, enquanto aquela bocarra se fechava ao redor de seu rosto.</p><empty-line/><p>Egwene sentou-se, gritando, agarrando as cobertas. Com esfor�o, conseguiu fechar a boca, mas n�o p�de fazer nada contra o tremor que a dominava. Estava na tenda���mas ser� que estava mesmo? L� estava Amys, de pernas cruzadas na escurid�o, envolta no brilho de <emphasis>saidar</emphasis>���ser� que era ela mesmo? Desesperada, Egwene abriu-se � Fonte e quase soltou um urro quando percebeu outra vez a barreira. Jogando os cobertores de lado, engatinhou at� as mantas no ch�o e revirou as roupas dobradas com ambas as m�os. Tinha uma faca de cintura. Onde estava? Onde? Ali!</p><p>��Sente-se���disse Amys, em um tom duro���antes que eu lhe d� um calmante. Voc� n�o vai gostar do sabor.</p><p>Egwene virou-se e se apoiou nos joelhos, segurando a faca curta com as duas m�os, que teriam tremido se n�o estivessem agarradas no punho da arma.</p><p>��� voc� mesma, desta vez?</p><p>��Eu sou eu mesma, agora e antes. As li��es severas s�o as melhores. Est� pensando em me esfaquear?</p><p>Hesitante, Egwene embainhou a faca.</p><p>��Voc� n�o tem o direito de�</p><p>��Eu tenho todo o direito! Voc� me deu sua palavra. Eu n�o sabia que Aes Sedai podiam mentir. Se estou aqui para ensin�-la, preciso ter certeza de que vai fazer o que eu mandar. N�o vou assistir uma aprendiz minha degolar a si mesma!���Amys deu um suspiro. O brilho t�nue � sua volta se dissipou, assim como a barreira entre Egwene e <emphasis>saidar</emphasis>.���N�o consigo mais manter a blindagem. Voc� � muito mais forte do que eu. Com o Poder �nico. Voc� quase conseguiu destruir meu escudo. Mas, se n�o for capaz de manter sua palavra, n�o sei se vou querer instru�-la.</p><p>��Vou manter minha palavra, Amys. Prometo. Mas preciso encontrar minhas amigas em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Tamb�m prometi isso a elas. Amys, elas podem precisar da minha ajuda, do meu aconselhamento.���N�o era f�cil enxergar o rosto de Amys na escurid�o, mas Egwene n�o o viu se abrandar.���Por favor, Amys. Voc� j� me ensinou tantas coisas. Acho que agora consigo encontr�-las onde estiverem. Por favor, n�o pare quando ainda h� tanto para eu aprender. Fa�o o que voc� quiser.</p><p>��Trance o cabelo���disse a S�bia, em um tom impass�vel.</p><p>��Meu cabelo?���indagou Egwene, receosa.</p><p>Sem d�vida n�o seria problema algum, mas por qu�? Ela o usava solto, ca�do por cima dos ombros, mas n�o fazia muito tempo desde que quase explodira de orgulho no dia em que o C�rculo das Mulheres disse que ela j� tinha idade para tran�ar os cabelos, como Nynaeve ainda fazia. Em Dois Rios, a tran�a era sinal de que uma menina j� podia ser considerada mulher.</p><p>��Uma em cima de cada orelha.���A voz de Amys ainda era dura feito pedra.���Se n�o tiver fitas para amarrar as tran�as, posso arranjar algumas. � assim que nossas garotinhas fazem com os cabelos. Garotinhas novas demais para manter a palavra. Quando me provar que � capaz de manter a sua, pode soltar os cabelos. Mas, se mentir para mim outra vez, farei voc� cortar as saias como um vestidinho de menina e carregar uma boneca. Quando decidir se comportar como uma mulher, ser� tratada como uma. Concorde com isso, ou n�o lhe ensino mais nada.</p><p>��Vou concordar se voc� me acompanhar quando eu precisar encontrar�</p><p>��Concorde, <emphasis>Aes Sedai</emphasis>! N�o negocio com crian�as, nem com quem n�o sabe manter a palavra. Voc� vai me obedecer, vai aceitar o que escolho dar a voc� e mais nada. Ou ent�o v� embora e se mate sozinha. Eu. N�o. Vou. Ajudar nisso!</p><p>Egwene ficou grata pela escurid�o, que escondia sua careta emburrada. <emphasis>Dera</emphasis> sua palavra, mas aquilo era t�o injusto. Ningu�m estava tentando cercear Rand com regrinhas idiotas. Bem, talvez <emphasis>ele</emphasis> fosse diferente. De todo modo, n�o tinha certeza se trocaria as ordens de Amys por ter Couladin querendo lhe cravar uma lan�a. Mat decerto n�o toleraria as regras dos outros. Ainda assim, <emphasis>ta�veren</emphasis> ou n�o, Mat n�o tinha nada para aprender. S� precisava viver. Era muito prov�vel que se recusasse a aprender qualquer coisa, se lhe fosse dada a chance, a menos que tivesse algo a ver com comida ou jogatina. Egwene queria aprender. �s vezes parecia uma fome insaci�vel, por mais que absorvesse. S� que nada disso tornava a situa��o justa. <emphasis>� assim que as coisas s�o</emphasis>, pensou com pesar.</p><p>��Eu concordo���disse.���Farei como voc� quer, aceitarei o que me der e nada mais.</p><p>��Bom.���Depois de uma longa pausa, como se esperasse para ver se algo mais sa�a de Egwene, que sabiamente segurou a l�ngua, Amys acrescentou:���Pretendo ser dura com voc�, Egwene, mas n�o sem prop�sito. S� de voc� achar que j� lhe ensinei muita coisa mostra como sabia pouco. Voc� tem um talento forte para Sonhar, e � muito prov�vel que um dia v� muito mais longe do que qualquer uma de n�s. Mas, se n�o aprender o que posso lhe ensinar, o que n�s quatro podemos lhe ensinar, jamais vai desenvolver plenamente esse talento. � mais prov�vel que n�o viva o suficiente para isso.</p><p>��Vou tentar, Amys.���Ela achou que conseguira soar submissa o bastante. Por que a mulher n�o dizia o que ela queria ouvir? Se Egwene n�o pudesse adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> sozinha, Amys teria de ir tamb�m, quando ela fosse encontrar Elayne de novo. Ou talvez fosse Nynaeve, da pr�xima vez.</p><p>��Bom. Tem algo mais a dizer?</p><p>��N�o, Amys.</p><p>A pausa foi mais longa desta vez. Egwene aguardou com toda a paci�ncia que tinha, as m�os cruzadas sobre os joelhos.</p><p>��Ent�o voc� � capaz de conter suas exig�ncias quando quer���disse a S�bia, por fim���mesmo que fique se contorcendo feito um bode com coceira. Estou enganada quanto � causa? Posso sugerir uma pomada para isso, se for o caso. N�o? Muito bem. Vou acompanh�-la quando voc� precisar encontrar suas amigas.</p><p>��Obrigada���disse Egwene, empertigada. Um bode com coceira, ora essa!</p><p>��Caso n�o tenha escutado da primeira vez que eu disse, o aprendizado n�o ser� f�cil, nem r�pido. Voc� acha que trabalhou nestes �ltimos dias. Agora prepare-se para se esfor�ar de verdade.</p><p>��Amys, vou aprender o quanto voc� puder me ensinar e vou trabalhar duro sempre que voc� quiser, mas, entre Rand e os Amigos das Trevas� ter tempo para aprender pode acabar se tornando um luxo, e minha bolsa pode acabar vazia.</p><p>��Eu sei���retrucou Amys, em um tom cansado.���Ele j� est� nos trazendo problemas. Venha. Voc� j� perdeu tempo demais com essa sua criancice. H� assuntos de mulher a serem discutidos. As outras est�o esperando.</p><p>Pela primeira vez, Egwene percebeu que Moiraine n�o estava entre suas cobertas. Ela estendeu a m�o para pegar o vestido, mas Amys interveio:</p><p>��Isso n�o vai ser necess�rio. N�o vamos muito longe. Jogue uma manta nos ombros e venha. J� trabalhei muito por Rand al�Thor e ainda preciso fazer mais depois que terminarmos.</p><p>Enrolando um cobertor nos ombros, desconfiada, Egwene acompanhou a mulher mais velha pela noite. Estava <emphasis>frio</emphasis>. Com a pele arrepiada, ela foi saltando de p� em p�, descal�a no ch�o de pedras que quase pareciam de gelo. Depois do calor do dia, a noite parecia fria como o meio de um inverno em Dois Rios. Sua respira��o se transformava em n�voa fina diante da boca, absorvida imediatamente pelo ar. Frio ou n�o, ainda era bem seco.</p><p>Nos fundos do acampamento das S�bias havia uma pequena tenda que Egwene n�o vira antes. Era baixa como as outras, mas estava presa com estacas nas beiradas. Para sua surpresa, Amys come�ou a tirar a roupa e fez um gesto para que ela o imitasse. Cerrando os dentes para n�o bater o queixo, Egwene aos poucos seguiu o exemplo de Amys. Depois que a Aiel se despiu por completo, ficou ali parada, como se a noite n�o estivesse congelante, respirando fundo e agitando os bra�os. At� que entrou. Egwene disparou atr�s dela com vontade.</p><p>O calor a atingiu como uma pancada na testa. Come�ou a suar por todos os poros.</p><p>Moiraine j� estava l�, assim como as outras S�bias e Aviendha, todas nuas e suadas, sentadas em torno de um grande caldeir�o de ferro cheio at� a boca de pedras escuras. Tanto o caldeir�o quanto as pedras irradiavam calor. A Aes Sedai parecia quase recuperada de seu supl�cio, mas havia uma tens�o em seus olhos que n�o estava presente antes.</p><p>Enquanto Egwene procurava, cautelosa, um lugar para se sentar���n�o havia mantas, apenas ch�o de pedras���Aviendha fechou as m�os em concha, apanhou um punhado de �gua de um caldeir�o menor e jogou no maior. A �gua evaporou com um chiado, sem deixar sequer um pontinho �mido nas pedras. Aviendha mantinha uma express�o azeda. Egwene sabia como ela se sentia. As novi�as da Torre tamb�m recebiam tarefas, e ela n�o sabia dizer se odiava mais esfregar o ch�o do que as panelas, ou se era o contr�rio. Aquela tarefa nem de longe parecia t�o onerosa.</p><p>��Precisamos discutir o que fazer em rela��o a Rand al�Thor���disse Bair, depois que Amys tamb�m se sentou.</p><p>��Fazer em rea��o a ele?���indagou Egwene, alarmada.���Ele tem os sinais. � por ele que voc�s estavam procurando.</p><p>��� ele���concordou Melaine, em um tom sombrio, afastando mechas longas de cabelo louro-avermelhado do rosto empapado.���Precisamos tentar garantir que o m�ximo de pessoas do nosso povo sobreviva � vinda dele.</p><p>��E n�o menos importante���completou Seana���precisamos garantir que ele sobreviva para cumprir o restante da profecia.���Melaine cravou os olhos nela, e Seana acrescentou, em um tom paciente:���Ou nenhum de n�s vai sobreviver.</p><p>��Rhuarc tinha dito que colocaria alguns Jindo de guarda-costas���comentou Egwene.���Ele mudou de ideia?</p><p>Amys balan�ou a cabe�a.</p><p>��N�o mudou. Rand al�Thor est� dormindo nas tendas dos Jindo, com cem homens acordados para garantir que ele tamb�m acorde amanh�. Mas os homens quase sempre veem as coisas de maneira diferente de n�s. Rhuarc vai segui-lo, talvez discorde de decis�es que considere erradas, mas n�o vai tentar gui�-lo.</p><p>��Voc� acha que ele precisa ser guiado?���Moiraine arqueou uma sobrancelha ao ouvir isso, mas Egwene a ignorou e prosseguiu:���At� agora, ele fez o que tinha de fazer sem orienta��o.</p><p>��Rand al�Thor n�o conhece nossos costumes���retrucou Amys.���Existem centenas de erros que poderia cometer para virar um chefe ou um cl� contra si, para faz�-los enxergar um aguacento em vez d�Aquele Que Vem Com a Aurora. Meu marido � um homem bom e um excelente chefe, mas n�o � um apaziguador treinado para guiar homens em f�ria a baixar suas lan�as. Precisamos manter algu�m pr�ximo de Rand al�Thor para sussurrar em seus ouvidos quando ele estiver prestes a dar um passo em falso.���Ela fez um gesto para que Aviendha jogasse mais �gua nas pedras quentes. A mulher mais jovem obedeceu, calada e graciosa.</p><p>��E temos que vigi�-lo���acrescentou Melaine, com rispidez.���Precisamos ter alguma ideia do que ele pretende fazer antes que fa�a. O cumprimento da Profecia de Rhuidean come�ou, e n�o pode ser interrompido perto do fim, de maneira alguma. Mas pretendo garantir que o m�ximo poss�vel da nossa gente sobreviva. Como isso vai acontecer depende das inten��es de Rand al�Thor.</p><p>Bair inclinou-se em dire��o a Egwene. Era uma mulher ossuda e musculosa.</p><p>��Voc� o conhece desde a inf�ncia. Ele confia em voc�?</p><p>��Duvido���respondeu Egwene.���Ele n�o confia nas pessoas como antes.���Evitava olhar para Moiraine.</p><p>��Ela nos contaria, se ele confiasse?���inquiriu Melaine.���N�o quero acirrar os �nimos, mas Egwene e Moiraine s�o Aes Sedai. O que elas buscam pode n�o ser o que buscamos.</p><p>��J� servimos �s Aes Sedai, um dia���retrucou Bair simplesmente.���Falhamos com elas naquela �poca. Talvez seja preciso servir de novo.���Melaine enrubesceu, claramente constrangida.</p><p>Moiraine n�o deu sinal de que vira, nem de que ouvira as palavras anteriores da mulher. Exceto por aquela tens�o no olhar, a Azul parecia uma pedra de gelo.</p><p>��Vou ajudar como puder���disse, em um tom frio���mas tenho pouca influ�ncia com Rand. Hoje em dia, ele urde o Padr�o a seu pr�prio modo.</p><p>��Ent�o temos que vigi�-lo de perto e ter esperan�a.���Bair suspirou.���Aviendha, voc� vai encontrar Rand al�Thor todos os dias quando ele acordar. E n�o o deixar� at� que ele se deite � noite. Vai ficar mais colada nele que cabelos na cabe�a. Receio que seu treinamento ter� de ser feito como for poss�vel. Vai ser um fardo para voc� fazer as duas coisas, mas n�o podemos evitar. Se conversar com Rand, sobretudo se escut�-lo, n�o ter� problemas em permanecer perto dele. Poucos homens rejeitam uma bela mulher que os escuta. Talvez Rand deixe escapar alguma coisa.</p><p>A cada palavra, Aviendha se enrijecia mais e mais. Quando Bair terminou, ela retrucou, irritada:</p><p>��Eu n�o vou!</p><p>Fez-se um sil�ncio mortal, e todos os olhos voltaram-se para ela, mas a jovem os encarou de volta, desafiadora.</p><p>��N�o vai?���retrucou Bair baixinho.���N�o vai.���Ela parecia estranhar o gosto das palavras na boca.</p><p>��Aviendha���disse Egwene com delicadeza���ningu�m est� pedindo para voc� trair Elayne, s� para falar com ele.</p><p>Se aquilo teve algum efeito, foi o de fazer a antiga Donzela da Lan�a parecer ainda mais �vida para encontrar uma arma.</p><p>��� essa a disciplina que as Donzelas aprendem, hoje em dia?���perguntou Amys, em um tom r�spido.���Se for, voc� vai descobrir que somos muito mais r�gidas. Se houver alguma raz�o pela qual voc� n�o possa ficar perto de Rand al�Thor, fale.���A rebeldia de Aviendha esmoreceu um pouquinho, e ela emitiu um resmungo inaud�vel. A voz de Amys assumiu um tom cortante.���Fale, estou mandando!</p><p>��Eu n�o gosto dele!���gritou Aviendha.���Eu o odeio! Odeio!</p><p>Se Egwene n�o conhecesse a Aiel, teria pensado que a mo�a estava prestes a cair no choro. Mas as palavras a chocaram. Aviendha n�o podia estar falando s�rio.</p><p>��N�o estamos pedindo para voc� am�-lo, nem para lev�-lo para a cama���retorquiu Seana, em um tom �cido.���Estamos <emphasis>mandando</emphasis> voc� <emphasis>escutar</emphasis> o homem. E voc� vai obedecer!</p><p>��Criancice!���rosnou Amys.���Que tipo de mulher o mundo est� criando hoje em dia? Ser� que <emphasis>nenhuma</emphasis> de voc�s cresce?</p><p>Bair e Melaine foram ainda mais duras. A mais velha amea�ou amarrar Aviendha ao cavalo de Rand, no lugar da sela���e soava como se pretendesse cumprir a promessa. Melaine sugeriu que, em vez de dormir, Aviendha pudesse passar a noite cavando buracos e os tapando de volta, para clarear as ideias. Egwene percebeu que as amea�as n�o tinham a inten��o de coagi-la; aquelas mulheres esperavam e pretendiam ser obedecidas. Qualquer trabalho in�til que Aviendha acabasse tendo que fazer seria por pura teimosia de sua parte. A teimosia pareceu diminuir com os quatro pares de olhos de S�bias a encar�-la. A jovem se agachou em uma posi��o mais defensiva, de joelhos, mas continuava firme.</p><p>Egwene inclinou-se e pousou a m�o no ombro de Aviendha.</p><p>��Voc� me disse que �ramos quase irm�s, e acho que somos. Faria isso por mim? Pense como se fosse cuidar dele para Elayne. Voc� tamb�m gosta dela, eu sei. Pode contar a ele que ela me contou que quis mesmo dizer o que disse nas cartas. Ele vai gostar de saber.</p><p>O rosto de Aviendha sofreu um espasmo.</p><p>��Eu fa�o���disse, assumindo uma postura derrotada.���Vigio Rand por Elayne. Por Elayne.</p><p>Amys se agitou.</p><p>��Bobagem. Voc� vai vigi�-lo porque n�s mandamos, garota. Se pensa que tem outro motivo, vai descobrir que est� redondamente enganada. Mais �gua. O vapor est� se dissipando.</p><p>Aviendha jogou mais �gua nas pedras, como se estivesse atirando uma lan�a. Egwene ficou contente em ver a energia da amiga retornando, mas pensou em adverti-la quando as duas estivessem sozinhas. Era bom ter energia, mas havia algumas mulheres���essas quatro S�bias, por exemplo, e Siuan Sanche���com as quais era sensato se controlar. Dava para gritar o dia inteiro com o C�rculo das Mulheres e mesmo assim acabar fazendo a vontade delas e desejando ter ficado de boca calada.</p><p>��Agora que isso est� resolvido���continuou Bair���vamos desfrutar do vapor em sil�ncio, enquanto podemos. Algumas de n�s ainda t�m muito a fazer, hoje � noite e pelas noites que vir�o, se pretendemos convocar uma reuni�o em Alcair Dal para Rand al�Thor.</p><p>��Os homens sempre arrumam um jeito de dar trabalho �s mulheres���comentou Amys.���Por que Rand al�Thor seria diferente?</p><p>Fez-se sil�ncio na tenda, exceto pela chiadeira quando Aviendha jogava mais �gua nas pedras quentes. As S�bias se sentaram com as m�os nos joelhos, respirando fundo. O calor �mido, a sensa��o purificante e escorregadia do suor na pele, era de fato muito agrad�vel, at� relaxante. Egwene pensou que valia a pena perder um pouco de sono.</p><p>Moiraine, contudo, n�o parecia relaxada. Encarava o caldeir�o fumegante como se visse algo mais, bem ao longe.</p><p>��Foi ruim?���perguntou Egwene, baixinho, para n�o incomodar as S�bias.���Rhuidean, quer dizer.</p><p>Aviendha olhou para cima depressa, mas ficou em sil�ncio.</p><p>��As lembran�as se esvaem���disse Moiraine, tamb�m baixinho. N�o desviou os olhos que encaravam o nada, e sua voz quase anulava o calor do ar, de t�o fria.���A maioria j� se foi. De algumas, eu j� sabia. De outras� h� de ser o que a Roda tecer, somos apenas o fio do Padr�o. Dediquei minha vida a encontrar o Drag�o Renascido, encontrar Rand, e v�-lo pronto para lutar a �ltima Batalha. Verei isso acontecer, custe o que custar. Nada e nem ningu�m pode ser mais importante do que isso.</p><p>Tr�mula, apesar do suor, Egwene fechou os olhos. A Aes Sedai n�o queria ser confortada. Era um bloco de gelo, n�o uma mulher. Egwene se acomodou e tentou recapturar aquela sensa��o prazerosa. Suspeitava que momentos como esse seriam raros, nos pr�ximos dias.</p></section><section><title><p>36</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Desorienta��es</p></title><p>Os Aiel levantaram acampamento cedo e j� estavam longe de Rhuidean quando o sol ainda por nascer formava um contorno anguloso nas montanhas distantes. Em tr�s grupos, eles contornaram Chaendaer, descendo por plan�cies serrilhadas intercaladas com montes, eleva��es de pedra e colinas de topo achatado. A terra era cinza, marrom e todas as tonalidades intermedi�rias, algumas partes rajadas de espirais compridas em tons de vermelho e ocre. Volta e meia, um grande arco natural se avultava enquanto os grupos se moviam para norte e oeste, ou imensas e estranhas placas de pedra se equilibravam temerariamente, quase � beira da queda. Em cada ponto que Rand olhava, montanhas recortadas se erguiam a dist�ncia. Todos os destro�os da Ruptura do Mundo pareciam reunidos ali, no lugar chamado de Deserto Aiel. Onde o solo duro n�o era de barro rachado, amarelo, marrom ou de algum tom intermedi�rio, era de um material escuro e pedregoso, dividido em v�rios pontos por valas e depress�es secas. A vegeta��o isolada era baixa e escassa, toda de arbustos espinhosos e galhos sem folhas cheios de espinhos. As poucas flores, brancas, vermelhas ou amarelas, eram surpreendentes naquele isolamento. De vez em quando, a grama grossa cobria alguns trechos do solo, e raramente se via uma �rvore���em geral atrofiada e tamb�m com espinhos. Comparado a Chaendaer e ao vale de Rhuidean, o lugar era quase exuberante. O ar era t�o limpo, e a terra t�o �rida que Rand achava que podia ver milhas e milhas ao longe.</p><p>Aquele ar, por�m, n�o era menos seco, o calor n�o era menos implac�vel, e o sol era uma massa de ouro fundido no alto de um c�u sem nuvens. Rand enrolara uma <emphasis>shoufa</emphasis> na cabe�a, em uma tentativa de se proteger do sol, e com frequ�ncia bebia da bolsa d��gua na sela de Jeade�en. Por estranho que fosse, o casaco parecia ajudar. Ele n�o suava menos, mas a camisa permanecia molhada sob a l� vermelha, o que refrescava um pouco. Mat usava uma tira de tecido para amarrar um grande len�o branco na cabe�a, feito um estranho gorro que descia pela nuca e protegia os olhos da claridade. Trazia consigo a estranha lan�a com l�mina de espada, a coronha enfiada no estribo.</p><p>O grupo deles consistia de cerca de quatrocentos Jindo. Rand e Mat cavalgavam � frente, lado a lado com Rhuarc e Heirn. Os Aiel caminhavam, naturalmente, levando as tendas e algumas pilhagens de Tear em mulas e cavalos de carga. Algumas Donzelas dos Jindo seguiam � frente como batedoras, e os C�es de Pedra iam atr�s, vigiando a retaguarda. A coluna principal era cercada por olhos atentos, lan�as a postos e arcos com flechas encaixadas. A Paz de Rhuidean supostamente valia at� que todos os que tinham partido para Chaendaer retornassem os pr�prios fortes, mas, como Rhuarc explicara a Rand, j� haviam acontecido mal-entendidos, e nem desculpas nem o pre�o do sangue traziam os mortos de volta dos t�mulos. Rhuarc parecia achar que era ainda mais prov�vel que algum mal-entendido ocorresse daquela vez, sem d�vida em parte por causa do grupo dos Shaido.</p><p>As terras dos Shaido ficavam depois das terras dos Taardad, na mesma dire��o de Chaendaer, e os Shaido avan�avam em paralelo �s terras dos Jindo, a cerca de um quarto de milha de dist�ncia. Segundo Rhuarc, Couladin deveria ter esperado mais um dia, para ver se o irm�o voltaria. O fato de Rand ter visto Muradin depois de ele ter arrancado os pr�prios olhos n�o fazia diferen�a, dez dias era o tempo protocolar. Partir antes disso era abandonar quem tivesse adentrado Rhuidean. Ainda assim, Couladin pusera os Shaido para dobrar as tendas assim que viu os animais de carga dos Jindo sendo aprontados. Os Shaido viajavam com seus pr�prios batedores e vigias na retaguarda, aparentemente ignorando os Jindo, mas o espa�o entre os dois grupos nunca aumentava mais do que trezentas passadas. Era comum haver testemunhas de talvez meia d�zia dos maiores ramos quando um homem reclamava a marca de um chefe de cl�, e o povo de Couladin ultrapassava os Jindo em n�mero: a vantagem era de pelo menos dois homens para um. Rand suspeitava que o terceiro grupo, entre os Shaido e os Taardad, fosse a raz�o pela qual o intervalo n�o se estreitava s�bita e violentamente.</p><p>As S�bias caminhavam como qualquer Aiel, incluindo aqueles homens e mulheres estranhos de robes brancos, que Rhuarc chamava de <emphasis>gai�shain</emphasis>, conduzindo os cavalos de carga. N�o eram bem servos, mas Rand n�o sabia se de fato entendera a explica��o de Rhuarc sobre honra, obriga��o e prisioneiros. Heirn fora ainda mais confuso, como se tentasse explicar por que a �gua era molhada. Moiraine, Egwene e Lan seguiam com as S�bias, ou pelo menos as duas mulheres seguiam. O Guardi�o conduzia o cavalo de batalha um pouco para o lado dos Shaido, observando-os com a mesma aten��o com que examinava a paisagem escarpada. �s vezes, Moiraine, Egwene ou ambas desciam para conversar um pouco com as S�bias. Rand teria dado sua �ltima moeda para ouvir o que diziam. Elas com frequ�ncia olhavam em sua dire��o, de soslaio, decerto para que ele n�o notasse. Por alguma raz�o, Egwene usava os cabelos em duas tran�as, amarrados por fitas vermelhas compridas, feito os de uma noiva. Ele n�o sabia por qu�. Comentara sobre os cabelos dela antes de sair de Chaendaer���apenas mencionara���e a amiga quase arrancara sua cabe�a.</p><p>��Elayne � a mulher para voc�.</p><p>Ele encarou Aviendha, confuso. O olhar desafiador estava de volta aos olhos verde-azulados, mas ainda misturado a desgosto. Ela estava esperando do lado de fora da tenda quando ele acordou, naquela manh�, e desde ent�o n�o se afastara mais de tr�s passadas. Estava claro que as S�bias a haviam mandado espionar, e ainda mais claro que n�o era para ele reparar. A Aiel era bonita, e ele era considerado tolo o bastante para n�o enxergar nada al�m disso. Sem d�vida era por essa raz�o que ela estava de saias e n�o portava arma al�m da faca de cintura. As mulheres pareciam pensar que a mente masculina carecia de sofistica��o. Pensando bem, nenhum dos outros Aiel comentara sobre a mudan�a no vestu�rio de Aviendha, mas at� Rhuarc evitava encar�-la por muito tempo. Deviam saber por que ela estava l�, ou tinham um palpite sobre o plano das S�bias, e n�o queriam mencionar o assunto.</p><p>Rhuidean. Ele ainda n�o sabia por que a jovem tinha ido at� l�. Rhuarc murmurou algo sobre �assuntos das mulheres�, claramente relutante em conversar sobre aquilo perto dela. Considerando como a jovem estava colada em Rand, aquilo significava que n�o discutiriam coisa alguma. O chefe de cl� sem d�vida estava escutando a conversa, assim como Heirn e todos os Jindo por perto. �s vezes, era dif�cil interpretar os Aiel, mas ele achava que todos pareciam estar achando gra�a. Mat assobiava baixinho, deixando bem claro que encarava tudo, menos os dois. Mesmo assim, era a primeira vez no dia que Aviendha falava com ele.</p><p>��Como assim?���indagou Rand.</p><p>As saias pesadas n�o a impediam de caminhar ao lado de Jeade�en. N�o, Aviendha n�o caminhava. Perseguia. Se fosse um gato, estaria balan�ando o rabo.</p><p>��Elayne � uma aguacenta, como voc�.���Ela balan�ou a cabe�a, arrogante. O rabo curto que os guerreiros Aiel usavam na nuca n�o estava mais l�. O len�o dobrado em torno das t�mporas quase tapava seus cabelos.���A mulher certa para voc�. Ela n�o � bonita? Tem a postura ereta, membros esguios e fortes, l�bios vermelhos como uma fruta-do-amor suculenta. Seus cabelos s�o como fios de ouro, e os olhos, safiras azuis. A pele � mais macia que a seda mais delicada, os seios s�o lindos e redondos. Os quadris�</p><p>Rand a interrompeu bruscamente, com o rosto ardendo.</p><p>��Eu sei que ela � bonita. O que voc� est� fazendo?</p><p>��Descrevendo Elayne.���Aviendha franziu o cenho para ele.���Voc� j� a viu no banho? N�o preciso descrev�-la se voc� j� a tiver visto�</p><p>��Eu <emphasis>n�o</emphasis> vi!</p><p>Rand desejou n�o ter soado irritado. Rhuarc e os outros <emphasis>estavam</emphasis> escutando, os rostos impass�veis demais para quem n�o estava se divertindo. Mat revirou os olhos com um sorriso escancarado e malicioso.</p><p>A mulher deu de ombros e ajeitou o xale.</p><p>��Ela deveria ter providenciado isso. Mas eu vi, e vou agir como se fosse quase-irm� <emphasis>dela</emphasis>.���A �nfase parecia indicar que aquilo era o mesmo que <emphasis>dele</emphasis> poderia se dizer �quase-irm� dele. Os costumes Aiel eram estranhos, mas isso era loucura!���Os quadris dela�</p><p>��Pare com isso!</p><p>Aviendha disparou um olhar de esguelha furioso para ele.</p><p>��Elayne � a mulher certa para voc�. Ela p�s o cora��o aos seus p�s por uma grinalda matrimonial. Acha que existe algu�m na Pedra de Tear que n�o saiba disso?</p><p>��Eu n�o quero falar sobre Elayne���retrucou, com firmeza. Ainda mais se ela pretendesse continuar da forma como come�ara. O pensamento fez seu rosto esquentar outra vez. A mulher n�o parecia se importar com <emphasis>o que</emphasis> dizia, nem com quem escutava!</p><p>��Tem mais � que corar, mesmo, por deixar a mo�a de lado quando ela desnudou o cora��o para voc�.���A voz de Aviendha era r�spida e desdenhosa.���Ela escreveu duas cartas, expondo tudo, como se tivesse se despido debaixo do teto de sua m�e. Voc� a atrai para os cantos para beij�-la, depois a rejeita. Elayne foi honesta em cada palavra daquelas cartas, Rand al�Thor! Egwene me contou. Ela foi honesta em cada palavra. O que � que voc� quer com ela, aguacento?</p><p>Rand esfregou a m�o nos cabelos e precisou ajeitar a <emphasis>shoufa</emphasis>. Elayne fora honesta em cada palavra? Nas duas cartas? Era imposs�vel. Uma contradizia a outra quase ponto a ponto! De repente, levou um susto. <emphasis>Egwene</emphasis> contara a ela? Sobre as cartas de Elayne? As mulheres conversavam sobre essas coisas? Planejavam juntas as melhores maneiras de confundir um homem?</p><p>Percebeu que sentia falta de Min. Min nunca o fizera parecer um idiota. Bem, n�o mais de uma ou duas vezes. E nunca o insultara. Bem, ela o chamara de �pastor� algumas vezes. Mas Rand se sentia � vontade perto dela, confort�vel, de um jeito estranho. Ela jamais o fizera se sentir um completo idiota, como Elayne e Aviendha.</p><p>O sil�ncio dele pareceu irritar ainda mais a Aiel, se tal coisa fosse poss�vel. Resmungando sozinha, caminhando a passos largos como se quisesse esmagar alguma coisa, ela arrumou e rearrumou o xale meia d�zia de vezes. Enfim os resmungos cessaram. Em vez disso, ela passou a encar�-lo. Feito um abutre. Rand n�o sabia como ela n�o trope�ava e ca�a de cara no ch�o.</p><p>��Por que voc� est� me olhando desse jeito?</p><p>��Estou escutando, Rand al�Thor, j� que voc� quer que eu fique em sil�ncio.���Aviendha sorriu, rangendo os dentes.���N�o gosta que eu escute voc�?</p><p>Ele olhou para Mat, que balan�ou a cabe�a atr�s dela. Era imposs�vel entender as mulheres, ponto final. Rand tentou refletir sobre o que o aguardava, mas era dif�cil, com os olhos da mulher em cima dele. Seriam belos olhos, se n�o estivessem cheios de rancor, mas ele preferiria que Aviendha estivesse encarando outra coisa.</p><empty-line/><p>Protegendo os olhos do brilho do sol, Mat fazia o poss�vel para n�o encarar Rand e a Aiel que caminhava a passos largos entre os cavalos dos dois. N�o entendia por que Rand a aguentava. Aviendha era muito bonita, sem d�vida���mais do que bonita, ainda mais agora que usava um arremedo de roupas decentes���mas tinha uma l�ngua ferina e um temperamento que fazia Nynaeve parecer d�cil. Achava �timo que Rand estivesse preso � mulher, e n�o ele.</p><p>Puxou o len�o da cabe�a e enxugou o suor do rosto, depois amarrou-o de volta. O calor e o sol incessante nos olhos estavam come�ando a irrit�-lo. Ser� que n�o havia uma �nica sombra naquela terra inteira? O suor fazia as feridas arderem. Ele recusara a Cura na noite anterior, quando Moiraine o acordara depois de ele finalmente conseguir pegar no sono. Uns poucos cortes eram um pre�o baixo para n�o ter o Poder usado em si, e o ch� nojento das S�bias dera um al�vio na dor de cabe�a. Bem, de certo modo. N�o acreditava que Moiraine fosse capaz de fazer algo a respeito da outra coisa que o afligia, e tamb�m n�o tinha inten��o de contar a ela at� que ele mesmo tivesse compreendido. Se � que contaria depois. N�o queria nem pensar a respeito.</p><p>Moiraine e as S�bias o observavam. Observavam Rand, na verdade, mas a sensa��o era a mesma. Foi uma surpresa notar que a de cabelos dourados, Melaine, montara em Aldieb atr�s da Aes Sedai e cavalgava desajeitada, segurando Moiraine pela cintura, enquanto as duas conversavam. Ele n�o sabia que os Aiel cavalgavam. Uma mulher muito bonita, Melaine, com aqueles olhos verdes impetuosos. Exceto, naturalmente, pelo fato de que ela conseguia canalizar. S� mesmo um completo idiota para se meter com uma dessas. Remexendo-se na sela de Pips, lembrou a si mesmo que o que os Aiel faziam n�o era de sua conta.</p><p><emphasis>Estive em Rhuidean. Fiz o que aquela gente trai�oeira disse que eu tinha de fazer.</emphasis> E o que ganhara com aquilo? <emphasis>Essa porcaria de lan�a, um medalh�o de prata e� Eu podia ir embora agora. Se tiver algum bom senso, eu vou.</emphasis></p><p>Ele poderia ir. Tentar encontrar sozinho a sa�da do Deserto, antes que morresse de sede ou insola��o. Poderia, se Rand ainda n�o o estivesse puxando, segurando. A maneira mais f�cil de descobrir seria simplesmente tentar ir embora. Encarando a paisagem sombria, ele fez uma careta. Um vento se elevou���parecia soprar de um forno superaquecido���e pequenos torvelinhos afunilados de poeira amarela subiram do ch�o rachado. A n�voa quente fazia as montanhas ao longe cintilarem. Talvez fosse melhor ficar um pouquinho mais.</p><p>Uma das Donzelas que sa�ra como batedora voltou correndo e inclinou-se ao lado de Rhuarc, falando apenas em seu ouvido. A mulher abriu um sorriso para Mat, ao terminar, e ele se ocupou em puxar um carrapicho da crina de Pips. Lembrava-se muito bem dela, uma Donzela de cabelos ruivos chamada Dorindha, mais ou menos da idade de Egwene. Dorindha fora uma das que tentara convenc�-lo a jogar O Beijo da Donzela. Cobrara a primeira prenda. N�o que ele n�o quisesse cruzar os olhos com os da mo�a, e n�o que n�o pudesse, mas era importante tirar os carrapichos do cavalo, e tudo o mais.</p><p>��Mascates���anunciou Rhuarc, quando Dorindha voltou feito uma flecha por onde viera.���Carro��es de mascates vindo nesta dire��o.���Ele n�o parecia satisfeito.</p><p>Mat, no entanto, se viu bastante animado. Um mascate poderia ser muito bem o que ele precisava. Se o sujeito conhecia o caminho de entrada, conhecia o de sa�da. Ele se perguntou se Rand suspeitava de suas ideias. O amigo estava t�o impass�vel quanto qualquer Aiel.</p><p>Os Aiel apertaram um pouco o passo���o povo de Couladin seguiu o ritmo dos Jindo e do grupo das S�bias sem hesitar; decerto seus batedores tamb�m tinham levado a not�cia. Todos caminhavam r�pido o bastante para que os cavalos tivessem de manter um ritmo ligeiro. O sol n�o incomodava os Aiel, nem mesmo os <emphasis>gai�shain</emphasis> de robes brancos. Eles deslizavam pelo solo rachado.</p><p>A menos de duas milhas, os carro��es surgiram em seu campo de vis�o. Dezoito deles, enfileirados. Todos pareciam exibir os sinais de desgaste de uma viagem dif�cil, com as rodas reserva surradas em todos os pontos. Apesar da camada de poeira amarela, os dois primeiros pareciam caixas brancas sobre rodas, ou mesmo casinhas, com degraus de madeira nos fundos e uma chamin� de metal projetando-se do teto. Os tr�s �ltimos, puxados por engates de vinte mulas, pareciam apenas imensos barris, tamb�m brancos, decerto cheios d��gua. Os que iam no meio teriam se passado por carro��es de mascates em Dois Rios, com rodas raiadas altas e pesadas e amontoados de panelas e outras coisas de metal tilintando nas grandes redes presas �s coberturas de lona comprida.</p><p>Os condutores dos carro��es frearam as r�deas assim que avistaram os Aiel, esperando que se aproximassem. Um homem pesado de casaco cinza-claro e chap�u escuro de aba larga desceu dos fundos do primeiro carro��o e ficou observando, de vez em quando tirando o chap�u para secar a testa com um grande len�o branco. Se estava nervoso, j� que encarava uns mil e quinhentos Aiel deslizando em sua dire��o, Mat n�o o culpava. O mais estranho eram as express�es nos rostos dos Aiel mais perto de Mat. Rhuarc, trotando adiante do cavalo de Rand, fechara a cara e estava com o rosto soturno, e Heirn tinha uma express�o capaz de detonar pedregulhos.</p><p>��N�o entendo���comentou Mat.���Parece que voc�s v�o matar algu�m.���Aquilo sem d�vida era o fim de todas as esperan�as.���Pensei que houvesse tr�s tipos de gente que voc�s Aiel deixavam entrar aqui no Deserto: mascates, menestr�is e o Povo Errante.</p><p>��Mascates e menestr�is s�o bem-vindos���retrucou Heirn, em um tom �spero.</p><p>Se aquilo eram boas-vindas, Mat n�o queria ver os Aiel quando n�o estavam sendo hospitaleiros.</p><p>��E o Povo Errante?���perguntou, curioso. Quando Heirn manteve o sil�ncio, ele acrescentou:���Latoeiros? Os Tuatha�an?</p><p>O rosto do chefe de ramo ficou ainda mais r�gido antes de ele voltar o olhar outra vez para os carro��es. Aviendha fuzilou Mat com os olhos, como se ele fosse um idiota.</p><p>Rand aproximou Jeade�en de Pips.</p><p>��Se eu fosse voc�, n�o mencionaria os latoeiros perto dos Aiel���disse baixinho.���Ʌ um assunto delicado.</p><p>��Se voc� diz.���Por que <emphasis>latoeiros</emphasis> eram um assunto delicado?���Para mim, parece que eles j� est�o bastante irritados com esse mascate. Mascate! Eu me lembro de mercadores que apareciam em Campo de Emond com menos carro��es.</p><p>��Ele entrou no Deserto.���Rand deu uma risadinha. Jeade�en jogou a cabe�a para tr�s e deu uns passos bambos.���Ser� que vai sair?</p><p>O sorriso de Rand n�o chegava aos olhos. �s vezes, Mat quase desejava que o amigo decidisse de uma vez se estava ou n�o louco e acabasse logo com tudo. Quase.</p><p>A trezentas passadas dos carro��es, Rhuarc fez um gesto para que o grupo parasse, e ele e Heirn prosseguiram sozinhos. Pelo menos, aquela parecia ter sido a inten��o do homem, mas Rand cravou os calcanhares no garanh�o sarapintado e foi atr�s dos dois, e a centena de inevit�veis guarda-costas Jindo o acompanhou. E Aviendha, naturalmente, que estava colada em Rand como se estivesse amarrada � sela de Jeade�en. Mat foi cavalgando com os outros. Se Rhuarc mandasse o camarada fazer as malas, n�o pretendia perder a chance de ir junto.</p><p>Couladin veio trotando do grupo dos Shaido. Sozinho. Talvez tivesse a inten��o de fazer o mesmo que Rhuarc e Heirn, mas Mat suspeitou que o homem chamava a aten��o para o fato de que ia sozinho aonde Rand precisava de cem guardas. A princ�pio, pareceu que Moiraine tamb�m se aproximaria, mas ela e as S�bias trocaram algumas palavras e ficaram onde estavam. S� que observavam, atentas. A Aes Sedai desceu da montaria, mexendo em um objeto pequeno e reluzente, e Egwene e as S�bias se agruparam � volta dela.</p><p>Ao chegar perto, Mat viu que, apesar de ficar secando o rosto, o homem grande de casaco cinza n�o parecia incomodado, embora tivesse se sobressaltado quando Donzelas surgiram do nada e rodearam os carro��es. Os condutores, sujeitos de rostos duros e mais do que uma boa cota de cicatrizes e narizes quebrados, pareciam prontos para se esconder sob os assentos. Comparados aos lobos Aiel, eles n�o eram mais que cachorros de rua selvagens. O mascate se recuperou depressa. N�o era gordo, apesar do tamanho. Todo aquele peso eram m�sculos. Rand e Mat, em cima dos cavalos, foram alvo de seus olhares curiosos, mas ele distinguiu Rhuarc logo de primeira. O nariz curvo e aquilino e os olhos escuros e obl�quos conferiam um ar predat�rio ao rosto quadrado e moreno do homem, que n�o se suavizou quando ele abriu um sorriso largo e deslizou da cabe�a o chap�u de aba larga, em uma mesura.</p><p>��Sou Hadnan Kadere, mascate���anunciou.���Procuro o Forte das Pedras Frias, bons senhores, mas fa�o neg�cios com qualquer um e com todos. Tenho muitos produtos excelentes�</p><p>Rhuarc cortou o homem feito uma faca afiada.</p><p>��Voc� est� muito longe das Pedras Frias ou de qualquer forte. Como foi que chegou t�o longe da Muralha do Drag�o sem um guia?</p><p>��Eu n�o sei, bom senhor.���Kadere n�o fechou o sorriso, mas contraiu um pouco os cantos da boca.���Tenho viajado sem disfarce. Esta � minha primeira visita t�o ao sul da Terra da Trindade. Pensei que talvez aqui n�o houvesse guias.</p><p>Couladin bufou alto e rodopiou uma das lan�as pregui�osamente. Kadere encolheu os ombros, como se j� sentisse o a�o deslizando pelo corpo compacto.</p><p>��Sempre h� guias���respondeu Rhuarc, com frieza.���Voc� teve sorte de chegar t�o longe sem um. Sorte de n�o estar morto, nem de precisar voltar nu em pelo para a Muralha do Drag�o.���Kadere abriu um sorriso constrangido, cheio de dentes, e o chefe de cl� continuou.���Teve sorte de nos encontrar. Se tivesse continuado por esse caminho por mais um ou dois dias, teria chegado at� Rhuidean.</p><p>O rosto do mascate ficou cinza.</p><p>��Eu ouvi����Ele parou para engolir.���Eu n�o sabia, bons senhores. Os senhores t�m de acreditar, eu n�o faria tal coisa. Nem mesmo por acidente���acrescentou depressa.���Que a Luz ilumine minhas verdadeiras palavras, bons senhores, eu n�o faria!</p><p>��O que � bom���retrucou Rhuarc���pois as penalidades s�o severas. Voc� pode viajar comigo at� as Pedras Frias. N�o seria bom se perder. A Terra da Trindade pode ser um lugar perigoso para os que n�o a conhecem.</p><p>Couladin ergueu a cabe�a, desafiador.</p><p>��Por que n�o comigo?���retrucou, em uma voz penetrante.���Os Shaido est�o em maior n�mero, Rhuarc. Por costume, ele viaja comigo.</p><p>��Voc� virou chefe do cl� enquanto eu n�o estava olhando?���O Shaido de cabelos de fogo enrubesceu, mas Rhuarc n�o demonstrou qualquer sinal de satisfa��o, apenas prosseguiu com aquela voz impass�vel.���O mascate procura as Pedras Frias. Ele seguir� comigo. Os Shaido que est�o com voc� podem negociar com ele enquanto viajamos. Os Taardad n�o est�o t�o famintos por mascates a ponto de querermos estes s� para n�s.</p><p>O rosto de Couladin ficou ainda mais sombrio, mas ele moderou o tom, ainda que o esfor�o o fizesse falar em um ganido.</p><p>��Acamparei perto das Pedras Frias, Rhuarc. Aquele Que Vem Com a Aurora diz respeito a <emphasis>todos</emphasis> os Aiel, n�o apenas aos Taardad. Os Shaido ter�o o lugar que merecem. Os Shaido tamb�m seguir�o Aquele Que Vem Com a Aurora.</p><p>Mat percebeu que o homem n�o reconhecera que era de Rand que falava. Espiando os carro��es, seu amigo parecia n�o escutar a conversa.</p><p>Rhuarc fez sil�ncio por um instante.</p><p>��Os Shaido ser�o h�spedes bem-vindos nas terras dos Taardad, se decidirem seguir Aquele Que Vem Com a Aurora.���Isso tamb�m era amb�guo.</p><p>Kadere passara o tempo todo esfregando o rosto, decerto vendo-se no meio de uma batalha entre Aiel. O homem pontuou o convite de Rhuarc com um suspiro pesado de al�vio.</p><p>��Obrigado, bons senhores. Obrigado.���Sem d�vida, por n�o o terem matado.���Quem sabe os senhores gostariam de ver o que meus carro��es t�m a oferecer? Algo especial que possam estar querendo?</p><p>��Mais tarde���disse Rhuarc.���Passaremos a noite em Parada de Imre, e l� voc� pode mostrar suas mercadorias.���Couladin foi se afastando a passos firmes depois de ouvir o nome Parada de Imre, fosse l� o que fosse. Kadere come�ou a p�r o chap�u de volta na cabe�a.</p><p>��Um chap�u���disse Mat, puxando as r�deas de Pips mais para perto do mascate. Se tinha de permanecer mais algum tempo no Deserto, pelo menos poderia proteger os olhos do maldito sol.���Dou um marco de ouro por um chap�u feito esse.</p><p>��Fechado!���gritou uma voz de mulher, rouca e melodiosa.</p><p>Mat olhou em volta e levou um susto. A �nica mulher � vista, al�m de Aviendha e as Donzelas, vinha caminhando do segundo vag�o, mas sem d�vida n�o combinava com a voz, uma das mais encantadoras que ele j� ouvira. Rand franziu o cenho para ela e balan�ou a cabe�a, e havia motivo. A mulher era um p� mais baixa que Kadere e devia pesar o mesmo, ou mais. As camadas de gordura quase escondiam os olhos escuros, sem deixar entrever se eram ou n�o obl�quos, mas o nariz fazia o do mascate parecer pequeno. Usava um vestido de seda cor de creme todo justo no corpanzil, um xale de renda branca sobre a cabe�a e elaborados pentes de marfim enfiados nos cabelos grossos e negros. Ela se movia com uma leveza inesperada, quase feito uma Donzela.</p><p>��Uma boa oferta���disse a mulher, naquele tom musical.���Sou Keille Shaogi, mascate.���Ela arrancou o chap�u de Kadere e empurrou-o para Mat.���� bem grosso, meu bom senhor, e quase novo. O senhor vai precisar de um assim para sobreviver � Terra da Trindade. Um homem pode morrer de repente, neste lugar.���Ela estalou os dedos gordos, para enfatizar a rapidez com que a morte poderia chegar.���A risada s�bita tinha a mesma caracter�stica gutural e amorosa da voz.���Ou uma mulher. Um marco de ouro, o senhor disse.���Quando Mat hesitou, os olhos meio escondidos da mulher cintilaram, negros como os de um corvo.���� raro eu oferecer duas vezes a mesma barganha.</p><p>Uma mulher peculiar, para dizer o m�nimo. Kadere n�o protestou, exceto por uma leve careta. Se Keille era sua parceira, n�o havia d�vida de quem mandava. E, se o chap�u evitasse que a cabe�a de Mat torrasse, realmente valia o pre�o, em sua opini�o. Antes de soltar o chap�u a mulher mordeu o marco taireno que ele lhe entregou. Incrivelmente, o chap�u serviu. E, ainda que aquela aba larga n�o refrescasse, pelo menos proporcionava uma sombra aben�oada. Guardou o len�o no bolso do casaco.</p><p>��Algo para os outros?���A mulher robusta passou os olhos pelos Aiel.���Que bela crian�a���murmurou para Aviendha, com um esgar de dentes que talvez fosse um sorriso. Para Rand disse, com do�ura:���E o senhor?���A voz que sa�a daquele rosto era realmente dissonante, sobretudo quando assumia o tal tom aveludado.���Algo para proteg�-lo desta terra desesperadora?���Virando Jeade�en para poder olhar os condutores dos carro��es, Rand apenas balan�ou a cabe�a. Com aquela <emphasis>shoufa</emphasis> enrolada no rosto, ele de fato parecia um Aiel.</p><p>��� noite, Keille���disse Kadere.���Abriremos os neg�cios � noite, em um lugar chamado Parada de Imre.</p><p>��Ah, abriremos, �?���Ela espiou a fileira de Shaido por um longo instante, depois encarou o grupo das S�bias por um instante ainda mais longo. Ent�o se virou para o pr�prio carro��o e falou por sobre o ombro, para o outro mascate:���Ent�o por que � que voc� est� atrasando esses bons senhores? Mexa-se, Kadere. Mexa-se.</p><p>Rand a encarou, balan�ando a cabe�a outra vez.</p><p>Havia um menestrel ao fundo, perto do carro��o dela. Mat piscou, pensando que o calor o estava afetando, mas o sujeito n�o desapareceu. Era um homem de meia-idade, com cabelos escuros, usando um manto coberto de retalhos. O homem observava a reuni�o, apreensivo, at� que Keille o empurrou para dentro do carro��o � frente. Kadere encarou o carro��o branco da mulher com o rosto mais impass�vel do que o de um Aiel antes de seguir at� o seu pisando firme. Sem d�vida, um bando esquisito.</p><p>��Voc� viu o menestrel?���perguntou Mat a Rand, que assentiu distra�do, encarando a fileira de carro��es como se nunca tivesse visto um. Rhuarc e Heirn j� estavam retornando para o restante dos Jindo. A centena que rodeava Rand aguardava pacientemente, dividindo a aten��o entre ele e qualquer coisa que pudesse esconder um ratinho que fosse. Os condutores come�aram a pegar as r�deas, mas Rand n�o se mexeu.���Povo estranho esses mascates, voc� n�o acha, Rand? Mas imagino que seja preciso ser estranho para vir para o Deserto. Olhe s� para n�s.���O coment�rio fez Aviendha esbo�ar uma careta, mas Rand pareceu n�o ter ouvido. Mat queria que ele dissesse algo. Qualquer coisa. Aquele sil�ncio era enervante.���Voc� imaginava que escoltar um mascate fosse uma honra t�o grande a ponto de fazer Rhuarc e Couladin brigarem? Entende alguma coisa desse <emphasis>ji�e�toh</emphasis>?</p><p>��Voc� � <emphasis>mesmo</emphasis> um imbecil���resmungou Aviendha.���N�o teve nada a ver com o <emphasis>ji�e�toh</emphasis>. Couladin est� tentando se comportar como um chefe de cl�. Rhuarc n�o pode permitir isso at� que� <emphasis>a n�o ser que</emphasis> ele v� para Rhuidean. Os Shaido roubariam ossos de um cachorro, roubariam os ossos <emphasis>e</emphasis> o cachorro, mas at� eles merecem um chefe de verdade. E, gra�as a Rand al�Thor, temos que dar permiss�o a mil deles para assentarem as tendas em nossas terras.</p><p>��Os olhos dele���comentou Rand, sem desviar o olhar dos carro��es.���Homem perigoso.</p><p>Mat franziu o cenho para ele.</p><p>��Os olhos de quem? De Couladin?</p><p>��De Kadere. Todo aquele suor, a cara branca. Mas os olhos dele n�o se alteraram. A gente sempre tem que prestar aten��o nos olhos. N�o na apar�ncia.</p><p>��Claro, Rand.���Mat se remexeu na sela, meio erguendo as r�deas, como se fosse cavalgar. Talvez o sil�ncio n�o fosse t�o ruim.���Temos que prestar aten��o nos olhos.</p><p>Rand desviou a aten��o para os topos dos montes e colinas mais pr�ximos, girando a cabe�a de um lado para outro.</p><p>��O risco � o tempo���murmurou.���O tempo prepara armadilhas. Preciso evitar as deles enquanto apronto a minha.</p><p>N�o havia nada por l� que Mat pudesse distinguir al�m de alguns poucos arbustos espa�ados e, vez ou outra, uma �rvore mirrada. Aviendha franziu o cenho para os cumes, depois para Rand, ajustando o xale.</p><p>��Armadilhas?���perguntou Mat. <emphasis>Luz, permita que ele me d� uma resposta que n�o seja louca.</emphasis>���Quem � que est� preparando armadilhas?</p><p>Por um instante, Rand o encarou como se n�o compreendesse a pergunta. Os carro��es dos mascates come�aram a avan�ar com uma escolta de Donzelas trotando ao lado, virando-se para seguir os Jindo que passavam a passos largos, seguidos pelos Shaido. Mais Donzelas dispararam na frente, para escolt�-los. Apenas os Aiel ao redor de Rand ficaram parados, embora o grupo das S�bias se movesse bem devagar, observando. Pelos gestos de Egwene, Mat achou que ela queria ir at� eles e conferir como estavam.</p><p>��N�o d� para ver, nem sentir���respondeu Rand, por fim. Ele inclinou-se um pouco em dire��o a Mat e sussurrou alto, como se estivesse fingindo.���Cavalgamos com o mal, agora, Mat. Tome cuidado.</p><p>O rapaz exibia aquele sorriso estranho outra vez, enquanto observava os carro��es se arrastando.</p><p>��Acha que esse Kadere � <emphasis>mau</emphasis>?</p><p>��� um homem perigoso, Mat, os olhos sempre denunciam, mas quem � que pode dizer? Por�m, que motivo eu tenho para me preocupar, com Moiraine e as S�bias olhando por mim? E n�o podemos nos esquecer de Lanfear. Ser� que algum homem j� esteve sob olhares t�o atentos?���De s�bito, Rand se endireitou na sela.���Come�ou���murmurou ele.���Eu queria ter a sua sorte, Mat. Come�ou, e agora n�o d� para voltar atr�s, n�o importa para que lado a espada caia.���Assentindo para si mesmo, ele arrancou com o cavalo sarapintado atr�s de Rhuarc. Aviendha foi trotando ao lado, e os cem Jindo seguiram atr�s.</p><p>Mat ficou bastante satisfeito em ir tamb�m. Melhor do que ser deixado ali, sem d�vida. O sol queimava no alto de um c�u azul e cruel. Ainda havia um longo caminho pela frente at� o p�r do sol. Tinha come�ado? O que ele queria dizer com isso? Tinha come�ado em Rhuidean. Ou melhor, em Campo de Emond, na Noite Invernal, um ano antes. �Cavalgando com o mal� e �n�o d� para voltar atr�s�? E Lanfear? Rand estava caminhando no fio da navalha, agora. Sem sombra de d�vida. Tinha de haver um jeito de sair do Deserto antes que fosse tarde demais. De tempos em tempos, Mat examinava os carro��es dos mascates. Antes que fosse tarde demais. Isso se j� n�o fosse.</p></section><section><title><p>37</p><p><image l:href="#18"/></p><p>A Parada de Imre</p></title><p>O sol ainda estava alto no horizonte irregular a oeste quando Rhuarc informou que a Parada de Stand, onde pretendia passar a noite, estava a cerca de apenas uma milha.</p><p>��Por que j� estamos parando?���perguntou Rand.���Ainda faltam horas para escurecer.</p><p>Foi Aviendha, caminhando ao lado de Jeade�en, do lado oposto ao chefe de cl�, quem respondeu, no tom zombeteiro que ele esperava:</p><p>��Tem �gua na Parada Imre. � melhor acampar perto d��gua, quando h� oportunidade.</p><p>��E os carro��es dos mascates n�o v�o aguentar avan�ar muito mais���acrescentou Rhuarc.���Eles precisam parar quando as sombras se alongam, sen�o come�am a quebrar as rodas e as pernas das mulas. N�o quero deix�-los para tr�s. N�o tenho como destacar homens para cuidar deles, e Couladin tem gente de sobra.</p><p>Rand se remexeu na sela. Agora flanqueados pelos <emphasis>Duadhe Mahdi�in</emphasis> dos Jindo, os Buscadores das �guas, os carro��es seguiam, pesados, algumas centenas de passadas ao lado, balan�ando e levantando uma cortina alta de poeira amarelada. A maioria dos fossos era muito funda ou tinha pared�es �ngremes demais, for�ando os condutores a contorn�-los, por isso o comboio se contorcia feito uma cobra b�bada. Xingamentos eram ouvidos por toda a fileira vacilante, a maioria culpando as mulas pela coisa toda. Kadere e Keille ainda estavam em seus carro��es pintados de branco.</p><p>��N�o���disse Rand���voc� n�o quer mesmo fazer isso.</p><p>Ele riu baixinho, a contragosto.</p><p>Mat o encarava de um jeito estranho por sob a aba larga do novo chap�u. Rand abriu o que esperava ser um sorriso reconfortante, mas a express�o do rapaz n�o se alterou. <emphasis>Ele vai ter de se cuidar sozinho</emphasis>, pensou Rand. <emphasis>Tem coisa demais acontecendo.</emphasis></p><p>Por falar em cuidar� Deu-se conta de que Aviendha, com o xale enrolado na cabe�a feito uma <emphasis>shoufa,</emphasis> o observava com aten��o. Endireitou-se outra vez. Moiraine decerto a mandara para paje�-lo, mas ele tinha a impress�o de que a mulher estava esperando para v�-lo cair. Sem d�vida acharia engra�ado se isso acontecesse, dado o humor dos Aiel. Queria pensar que ela apenas se ressentia por ter sido enfiada em um vestido e mandada para vigi�-lo, mas o brilho raivoso em seus olhos parecia ter uma motiva��o pessoal demais para isso.</p><p>Pela primeira vez, Moiraine e as S�bias <emphasis>n�o</emphasis> estavam observando Rand. A meio caminho entre os Jindo e os Shaido, Moiraine e Egwene caminhavam com Amys e as outras, todas as seis encarando algo que a Aes Sedai trazia nas m�os. O objeto captava a luz do sol poente e cintilava feito uma pedra preciosa. As mulheres de fato pareciam concentradas, como qualquer garota admirando uma bela joia. Lan cavalgava ao fundo, entre os <emphasis>gai�shain</emphasis> e os cavalos de carga, como se as mulheres o tivessem dispensado.</p><p>A cena deixou Rand incomodado. J� estava acostumado a ser o centro das aten��es daquele grupo. O que teriam encontrado de mais interessante? Sem d�vida nada que fosse deix�-lo feliz, n�o com Moiraine envolvida, e decerto n�o com Amys ou as outras. Todas tinham planos para ele. Egwene era a �nica em quem ele confiava de verdade. <emphasis>Luz, espero que eu ainda possa confiar nela.</emphasis> A �nica pessoa em quem ele de fato podia confiar era em si mesmo. <emphasis>Quando aparece o javali, � s� voc� e a sua lan�a.</emphasis> Dessa vez, a risada teve um toque de amargor.</p><p>��Acha a Terra da Trindade divertida, Rand al�Thor?���Aviendha mostrou brevemente os dentes brancos, em um sorriso.���Ria enquanto pode, aguacento. Quando esta terra come�ar a destru�-lo, voc� ter� a puni��o adequada pela forma como tratou Elayne.</p><p>Por que a mulher n�o dava uma tr�gua?</p><p>��Voc� n�o mostra qualquer respeito pelo Drag�o Renascido���retrucou Rand, bruscamente���mas podia tentar ter um pouco pelo <emphasis>Car�a�carn</emphasis>.</p><p>Rhuarc deu uma risadinha.</p><p>��Um chefe de cl� n�o � um rei aguacento, Rand, nem o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Existe respeito, embora as mulheres costumem demonstrar o m�nimo poss�vel. Qualquer um pode falar com um chefe.���Ainda assim, o homem mostrou uma carranca para a jovem do outro lado do cavalo de Rand.���S� que alguns for�am os limites da honra.</p><p>Aviendha decerto percebeu que a �ltima frase fora para seus ouvidos. Seu rosto virou uma pedra. No entanto, ela seguiu caminhando sem dizer uma palavra, com os punhos cerrados ao lado do corpo.</p><p>Um par de Donzelas batedoras apareceu, correndo de volta at� o grupo. Estava claro que as duas n�o estavam trabalhando juntas: uma rumou direto para os Shaido, e a outra, para os Jindo. Rand a reconheceu, uma mulher de cabelos loiros chamada Adelin, vistosa, por�m de fei��es severas, com uma cicatriz tra�ando uma linha fina na bochecha queimada de sol. Era uma das que tinham estado na Pedra, por�m mais velha do que a maioria das outras Donzelas, talvez uns dez anos mais do que ele. O r�pido olhar que a mulher lan�ou a Aviendha antes de se postar ao lado de Rhuarc, um misto de curiosidade e compaix�o, fez Rand se arrepiar. Se Aviendha concordara em espionar para as S�bias, decerto n�o merecia compaix�o. A companhia dele n�o era t�o onerosa assim. Adelin o ignorou por completo.</p><p>��H� problemas na Parada de Imre���disse a Rhuarc, ligeira e �spera.���N�o h� ningu�m por l�. Ficamos escondidas e n�o nos aproximamos.</p><p>��Bom���respondeu Rhuarc.���Informe as S�bias.</p><p>Sem nem perceber que erguia as lan�as, o homem retornou ao grupo principal dos Jindo. Aviendha resmungou para si mesma e puxou as saias, obviamente querendo juntar-se a ele.</p><p>��Acho que elas j� sabem���comentou Mat quando Adelin correu em dire��o ao grupo das S�bias.</p><p>Pela agita��o das mulheres ao redor de Moiraine, Rand achou que o amigo estivesse certo. Todas pareciam falar ao mesmo tempo. Egwene protegia os olhos com a m�o, fitando ou Adelin ou ele, e mantinha a outra m�o na boca. Como elas tinham ficado sabendo era uma pergunta a ser respondida depois.</p><p>��Que tipo de problema?���perguntou a Aviendha. Ainda resmungando sozinha, a jovem n�o respondeu.���Aviendha? Que tipo de problema?���Nada.���Que a queime, mulher, voc� consegue responder uma pergunta simples! Que tipo de problema?</p><p>A mo�a enrubesceu, mas a resposta veio em um tom firme.</p><p>��Est� com cara de ter sido um ataque �s cabras ou �s ovelhas. Dava para criar ambas em Imre para pasto, mas � mais prov�vel que fossem cabras, por causa da �gua. Devem ter sido os Chareen, o ramo da Montanha Branca, ou os Jarra. Eles ficam mais perto daqui. Ou pode ter sido um ramo dos Goshien. Acho que os Tomanelle est�o longe demais para isso.</p><p>��Vai haver luta?���Ele buscou <emphasis>saidin</emphasis>; a doce torrente de Poder o inundou. O ran�o da m�cula jorrou por seu corpo, e suor fresco brotou por todos os poros.���Aviendha?</p><p>��N�o. Adelin teria nos contado se os invasores ainda estivessem l�. O rebanho e os <emphasis>gai�shain</emphasis> j� est�o a milhas daqui, a essa altura. N�o podemos recuperar o rebanho porque temos que acompanhar voc�.</p><p>Ele se perguntou por que ela n�o dissera nada sobre resgatar os prisioneiros, os <emphasis>gai�shain</emphasis>, mas n�o gastou muito tempo nisso. O esfor�o para manter-se de p� enquanto se agarrava a <emphasis>saidin</emphasis>, para n�o esmorecer e ser arrebatado, n�o deixava espa�o para devaneios.</p><p>Rhuarc e os Jindo dispararam na frente, j� cobrindo o rosto com o v�u, e Rand seguiu mais devagar. Aviendha lhe lan�ava olhares impacientes, mas Rand conduzia Jeade�en apenas a um passo ligeiro. N�o sairia galopando em dire��o a uma armadilha. Pelo menos Mat n�o estava com pressa. O rapaz hesitou, encarando os carro��es dos mascates, antes de arrancar com Pips a meio galope. Rand n�o olhava para os carro��es.</p><p>Os Shaido ficaram para tr�s, reduzindo o passo at� que as S�bias recome�assem a se movimentar. Claro. Aquela terra era dos Tardaad. Couladin n�o se importaria se houvesse um ataque ali. Rand torceu para que os chefes dos cl�s pudessem se reunir logo em Alcair Dal. Como poderia unir um povo que n�o parava de brigar entre si? Essa agora era a menor de suas preocupa��es.</p><p>Quando a Parada de Imre enfim entrou em seu campo de vis�o, foi uma surpresa. Uns poucos rebanhos isolados de cabras com longos pelos brancos pastavam em trechos de grama dura e at� nas folhas de arbustos espinhentos. De in�cio, Rand n�o viu a constru��o de pedra bruta erigida na base de um monte alto. As pedras se mesclavam perfeitamente, e v�rios espinheiros haviam fincado raiz no teto coberto de poeira. N�o era muito grande, tinha seteiras no lugar de janelas e apenas uma porta vis�vel. Depois de um instante, ele avistou outra constru��o do mesmo tamanho, cravada em uma sali�ncia umas vinte passadas acima. Uma fresta profunda corria pela sali�ncia e seguia para tr�s da casa de pedra na base. N�o havia outro caminho � vista para chegar at� l�.</p><p>Rhuarc, parado a cerca de vinte passadas do monte, de v�u baixado, era o �nico Jindo vis�vel. N�o significava que os outros n�o estivessem ali, claro. Rand cavalgou at� ele e desceu do cavalo. O chefe de cl� continuou a analisar as constru��es de pedra.</p><p>��As cabras���disse Aviendha, em um tom preocupado.���Saqueadores n�o teriam deixado nenhuma para tr�s. A maioria sumiu, mas est� quase parecendo que o rebanho foi deixado solto.</p><p>��Por dias���concordou Rhuarc, desviando os olhos da constru��o���ou haveria mais. Por que ningu�m aparece? Eles deveriam ver meu rosto e me reconhecer.</p><p>O homem arrancou � frente, sem fazer obje��o quando Rand juntou-se a ele, guiando Jeade�en. Aviendha mantinha uma das m�os na faca de cintura, e Mat, cavalgando atr�s, segurava a lan�a de cabo preto como se achasse que fosse precisar dela.</p><p>A porta era de madeira bruta, formada de t�buas pequenas e estreitas. Algumas das ripas robustas de suporte estavam partidas, destru�das por machados. Rhuarc hesitou um instante antes de abrir. Mal olhou para dentro antes de correr os olhos pelo campo � volta.</p><p>Rand p�s a cabe�a para dentro. N�o havia ningu�m. O interior, iluminado por feixes que entravam pelas seteiras, era composto de apenas um c�modo. Claramente n�o era uma habita��o, somente um local para os pastores se abrigarem e se defenderem, em caso de ataque. N�o se via mob�lia, nada de mesas ou cadeiras. Havia uma lareira aberta abaixo de um buraco no teto, com as paredes negras de fuligem. A ampla abertura da parte de tr�s exibia marcas de pegadas na fuligem da pedra cinzenta. O lugar fora saqueado. Roupas de cama, cobertores, panelas, tudo estava espalhado pelo ch�o de pedra, em meio a almofadas e travesseiros destru�dos. Algum l�quido fora derramado por cima de tudo, inclusive nas paredes e no teto, e agora estava seco e negro.</p><p>Quando percebeu o que era, Rand deu um salto para tr�s, e a espada forjada no Poder surgiu em suas m�os antes mesmo de ele pensar em invoc�-la. Sangue. Tanto sangue. Um massacre ocorrera ali, algo mais brutal do que tudo que ele poderia imaginar. Nada se movia al�m das cabras.</p><p>Aviendha se afastou na mesma velocidade com que entrara.</p><p>��Quem?���inquiriu, incr�dula, os grandes olhos azul-esverdeados cheios de f�ria.���Quem faria uma coisa dessas? Cad� os mortos?</p><p>��Trollocs���murmurou Mat.���Para mim, parece coisa de Trollocs.</p><p>Ela soltou uma bufada de desd�m.</p><p>��Trollocs n�o entram na Terra da Trindade, aguacento. Pelo menos, n�o avan�am mais que algumas milhas para al�m da Praga, e muito raramente. Ouvi dizer que eles chamam a Terra da Trindade de Campo da Morte. N�s ca�amos Trollocs, aguacento; n�o o contr�rio.</p><p>Nada se movia. Rand largou a espada e afastou <emphasis>saidin</emphasis>. Era dif�cil. A do�ura do Poder era quase suficiente para suplantar a imund�cie da m�cula; o j�bilo absoluto era quase o bastante para que ele n�o se importasse. Mat tinha raz�o, independentemente do que Aviendha dissesse. Mas aquilo era coisa antiga, os Trollocs j� n�o estavam ali. Trollocs no Deserto, em um lugar onde ele iria. N�o era idiota a ponto de pensar que era coincid�ncia. <emphasis>Mas, se pensarem que eu sou, talvez acabem se descuidando.</emphasis></p><p>Rhuarc fez um gesto para que os Jindo entrassem���eles pareceram brotar do ch�o���e, algum tempo depois, surgiram os outros, os Shaido, os carro��es dos mascates e o grupo das S�bias. Logo correu a not�cia do que havia sido encontrado, e a tens�o entre os Aiel aumentou. Eles se moviam como se aguardassem um ataque iminente, talvez vindo de si pr�prios. Batedores se dispersaram em todas as dire��es. Soltando os arreios das mulas, os condutores dos carro��es olhavam em volta, agitados, parecendo prontos para pular debaixo dos carro��es ao primeiro berro.</p><p>Por um tempo o lugar mais parecia um formigueiro agitado. Rhuarc fez os mascates alinharem os carro��es nos limites do acampamento dos Jindo. Couladin o encarou, furioso, pois aquilo significava que qualquer Shaido que quisesse negociar teria que ir at� os Jindo, mas n�o discutiu. Talvez mesmo ele percebesse que, naquele momento, isso poderia levar todos a dan�arem as lan�as. As tendas dos Shaido estavam a cerca de um quarto de milha, com as S�bias no meio, como de costume. As S�bias examinaram o interior das constru��es, assim como Moiraine e Lan, mas, se haviam chegado a alguma conclus�o, n�o revelaram a ningu�m.</p><p>A �gua na Parada de Imre era um diminuto c�rrego atr�s da fenda, alimentando um laguinho fundo e meio redondo, com cerca de duas passadas de di�metro, que Rhuarc chamava de tanque. Suficiente para pastores, suficiente para os Jindo encherem alguns cantis. Nenhum Shaido se aproximou. Nas terras dos Taardad, os Jindo tinham prefer�ncia no direito � �gua. Parecia que as cabras conseguiam se hidratar apenas com as folhas grossas dos arbustos espinhentos. Rhuarc garantiu a Rand que haveria muito mais �gua na parada seguinte.</p><p>Kadere trouxe uma surpresa enquanto os condutores dos carro��es soltavam as parelhas e apanhavam baldes dos carro��es d��gua. Ao sair do seu, Kadere veio acompanhado por uma jovem de cabelos escuros, em um vestido de seda e sand�lias de veludo vermelho mais apropriadas para um pal�cio do que o Deserto. Um len�o fino enrolado quase como uma <emphasis>shoufa</emphasis> e um v�u n�o a protegiam do sol, nem encobriam o rosto belo e p�lido em formato de cora��o. Agarrada ao bra�o do mascate, ela rebolava, provocante, no caminho at� o c�modo banhado de sangue; Moiraine e as outras haviam seguido para onde os <emphasis>gai�shain</emphasis> estavam erguendo o acampamento das S�bias. Quando a dupla saiu do c�modo, a jovem tremia delicadamente. Rand teve certeza de que era fingimento, bem como teve certeza de que ela pedira para ver a obra do carniceiro. A demonstra��o de repulsa durou no m�ximo dois segundos, e logo a mulher encarava os Aiel com interesse.</p><p>Parecia que o pr�prio Rand era uma das coisas que ela queria ver. Kadere estava pronto para levar a mulher de volta ao carro��o, mas, em vez disso, ela o conduziu at� Rand. Um sorriso sedutor era claramente vis�vel por sob o v�u di�fano.</p><p>��Hadnan andou me contando a seu respeito���disse a mulher, com a voz nebulosa. Ela podia estar de bra�os dados com o mascate, mas os olhos escuros perscrutavam Rand com aud�cia.���Voc� � o homem de quem os Aiel andam falando. Aquele Que Vem Com a Aurora.</p><p>Keille e o menestrel sa�ram do segundo carro��o e permaneceram lado a lado, observando a dist�ncia.</p><p>��Parece que sim���respondeu Rand.</p><p>��Que estranho.���O sorriso da mulher ganhou um tom perverso e malicioso.���Achei que seria mais bonito.���Tocando o rosto de Kadere, ela suspirou.���Esse calor horr�vel � desgastante. N�o demore.</p><p>Kadere n�o falou at� que a mulher tivesse subido os degraus e voltado ao carro��o. O chap�u fora substitu�do por um len�o branco comprido amarrado no alto da cabe�a, com as pontas ca�das pelo pesco�o.</p><p>��Perdoe Isendre, bom senhor. Ela as vezes � muito atrevida.���A voz do homem era apaziguadora, mas os olhos eram como os de uma ave de rapina. Ele hesitou, depois prosseguiu.���Ouvi outras coisas. Ouvi dizer que o senhor tirou <emphasis>Callandor</emphasis> do Cora��o da Pedra.</p><p>Os olhos do homem nunca se alteravam. Se ele sabia sobre <emphasis>Callandor</emphasis>, sabia que Rand era o Drag�o Renascido, que era capaz de manejar o Poder �nico. E os olhos n�o se alteravam. Um homem perigoso.</p><p>��Ouvi dizer���retrucou Rand���que n�o se deve acreditar em nada do que se escuta e s� na metade do que se v�.</p><p>��Uma regra s�bia���respondeu Kadere, depois de um instante.���Contudo, para conquistar a grandeza, um homem tem de acreditar em algo. A cren�a e o conhecimento pavimentam a estrada para o sucesso. O conhecimento talvez seja o artigo mais valioso do mundo. Todos buscamos o cobre do conhecimento. Pe�o perd�o, meu bom senhor. Isendre n�o � uma mulher paciente. Talvez tenhamos outra oportunidade de conversar.</p><p>Antes que o homem tivesse dado tr�s passos, Aviendha ralhou, em um tom baixo e duro:</p><p>��Voc� pertence a Elayne, Rand al�Thor. Por acaso olha assim para todas as mulheres que aparecem na sua frente, ou s� para as que andam seminuas? Se eu tirar a roupa, vai olhar desse jeito para mim? Voc� pertence a Elayne!</p><p>Ele se esquecera de que a jovem estava ali.</p><p>��Eu n�o <emphasis>perten�o</emphasis> a ningu�m, Aviendha. E quanto a Elayne? Parece que ela n�o est� conseguindo se decidir.</p><p>��Elayne desnudou o cora��o a voc�, Rand al�Thor. Mesmo que n�o tenha mostrado isso na Pedra de Tear, n�o mandou cartas que revelaram o que sente? Voc� � dela, e de mais ningu�m.</p><p>Rand jogou as m�os para o alto com impaci�ncia e afastou-se da mulher a passos firmes. Pelo menos, tentou. Aviendha disparou atr�s dele, uma sombra condenadora sob o fulgor do sol.</p><p>Espadas. Os Aiel podiam ter esquecido o motivo pelo qual n�o portavam espadas, mas mantinham o desprezo por elas. Espadas talvez a fizessem deix�-lo em paz. Procurou Lan no acampamento das S�bias e pediu que o Guardi�o lhe assistisse trabalhar as formas. Bair era a �nica das quatro � vista, e uma carranca acentuava as rugas de seu rosto. Egwene tamb�m n�o estava por perto. Moiraine exibia uma m�scara de tranquilidade, com os olhos castanhos frios. N�o tinha como dizer se ela aprovava.</p><p>N�o estava ali para ofender os Aiel, ent�o instalou-se com Lan entre as tendas das S�bias e as dos Jindo. Usou uma das espadas de treinamento que Lan levava na bagagem, com tornos atados frouxamente no lugar da l�mina. Mas o peso e as propor��es estavam corretos, e ele p�de se perder nos movimentos da dan�a de forma em forma, a espada de pr�tica ganhando vida em suas m�os, parecendo parte de seu corpo. Em geral era assim. Naquele dia, o sol era uma fornalha no c�u, assando a umidade e a for�a. Aviendha acocorou-se de um dos lados, abra�ando os joelhos junto ao peito e encarando-o.</p><p>Por fim, arfante, Rand baixou os bra�os.</p><p>��Voc� perdeu a concentra��o���comentou Lan.���� preciso mant�-la, mesmo que seus m�sculos virem �gua. O dia em que perd�-la ser� o dia de sua morte. E provavelmente nas m�os de um fazendeiro que vai estar tocando em uma espada pela primeira vez.</p><p>O Guardi�o de repente abriu um sorriso, o que parecia estranho naquele rosto empedernido.</p><p>��Sei. Bem, n�o sou mais um fazendeiro, n�o �?���Os dois haviam conquistado um p�blico, ainda que a dist�ncia. Aiel estavam enfileirados no acampamento dos Shaido e no dos Jindo. O corpanzil cor de creme de Keille encontrava-se entre os Jindo, e o menestrel estava atr�s dela, com seu manto de retalhos coloridos. Quem escolheria? N�o queria que vissem que estava observando-os.���Como � que os Aiel lutam, Lan?</p><p>��Com firmeza���respondeu o Guardi�o, em um tom seco.���Nunca perdem a concentra��o. Olhe aqui.���Com a espada, o homem desenhou um c�rculo e setas no ch�o de terra seca e rachada.���Os Aiel mudam de t�tica de acordo com as circunst�ncias, mas esta aqui � uma das preferidas. Eles se deslocam em colunas, divididos em quatro grupos. Quando encontram um inimigo, o primeiro grupo corre para peg�-lo, enquanto o segundo e o terceiro se afastam, um para cada lado, atacando os flancos e a retaguarda. O �ltimo grupo fica aguardando, na reserva, �s vezes sem nem assistir � luta, a n�o ser pelo l�der. Quando algum ponto fraco se abre, seja um espa�o ou qualquer coisa, o grupo reserva ataca ali. Fim!���Ele golpeou um c�rculo j� cheio de setas trespassadas com a espada.</p><p>��Como � que algu�m derrota isso?���perguntou Rand.</p><p>��Com dificuldade. Ao primeiro embate, considerando que s� com muita sorte algu�m avista os Aiel antes do ataque, � preciso mandar cavaleiros para impedir, ou pelo menos atrasar, o ataque aos flancos. Se mantiver a maioria de seu contingente atr�s e derrotar o ataque, � poss�vel se voltar contra os outros grupos, um de cada vez, e derrot�-los tamb�m.</p><p>��Por que voc� quer aprender a combater os Aiel?���gritou Aviendha, de repente.���Voc� n�o � Aquele Que Vem Com a Aurora, aquele que vai nos reunir e recuperar nossas antigas gl�rias? Al�m do mais, se quer saber como lutar contra um Aiel, pergunte a um Aiel, n�o a um aguacento. O jeito dele n�o funciona.</p><p>��Tem funcionado bastante bem com os homens das Terras da Fronteira, de tempos em tempos.���As botas macias de Rhuarc quase n�o faziam barulho no ch�o duro. Ele trazia um cantil debaixo do bra�o.���Sempre somos mais permissivos com algu�m que sofre uma decep��o, Aviendha, mas existe um limite para o luto. Voc� abriu m�o da lan�a pela obriga��o que tem para com o povo e o sangue. Um dia, sem d�vida, vai for�ar um chefe de cl� a fazer as suas vontades, em vez das dele. Mas se em vez disso voc� se tornar S�bia do menor forte do menor ramo dos Taardad, a obriga��o permanece, e n�o pode ser cumprida com arroubos de mau-humor.</p><p>Uma S�bia. Rand sentiu-se um idiota. Era �bvio que fora por isso que a jovem adentrara Rhuidean. No entanto, ele nunca teria imaginado que Aviendha escolheria abrir m�o da lan�a. Mas aquilo sem d�vida explicava por que ela fora escolhida para espion�-lo. De s�bito surpreendeu-se imaginando se ela seria capaz de canalizar. Parecia que Min era a �nica mulher em sua vida, desde a Noite Invernal, que n�o canalizava.</p><p>Rhuarc arremessou o cantil cheio d��gua para ele. A �gua t�pida desceu pela garganta feito vinho frio. Rand tentou n�o derramar nada no rosto para n�o desperdi�ar, mas foi dif�cil.</p><p>��Achei que voc� ia gostar de aprender a lan�a���comentou Rhuarc, quando Rand enfim baixou o cantil de couro meio vazio.</p><p>Pela primeira vez, Rand percebeu que o chefe de cl� portava apenas duas lan�as e um par de broqu�is. N�o eram lan�as de treinamento, isso se tal coisa existia. Em cada uma delas havia uma l�mina afiada de um p� de comprimento.</p><p>A�o ou madeira, os m�sculos de Rand gritavam por descanso. As pernas pediam para que ele se sentasse, e a cabe�a queria repousar em uma almofada. Keille e o menestrel tinham ido embora, mas Aiel de ambos os acampamentos ainda observavam. Eles o tinham visto treinar com uma espada, o que desprezavam, ainda que fosse de madeira. Eram o povo dele. Rand n�o os conhecia, mas eram seu povo, e em mais de um sentido. Aviendha ainda o observava, encarando-o furiosa, como se o culpasse pela bronca que levara de Rhuarc. N�o que ela tivesse qualquer coisa a ver com sua decis�o de treinar, claro. Os Jindo e os Shaido o observavam, era isso.</p><p>��A montanha �s vezes fica incrivelmente pesada���comentou, suspirando, e apanhou uma lan�a e um broquel de Rhuarc.���Quando � que a gente consegue alivi�-la um pouquinho?</p><p>��Quando morremos���Lan respondeu, simplesmente.</p><p>For�ando as pernas a se mexerem���e tentando ignorar Aviendha���Rand posicionou-se para enfrentar Rhuarc. Ainda n�o pretendia morrer. N�o, n�o por um bom tempo.</p><empty-line/><p>Recostado em uma roda alta � sombra de um dos carro��es dos mascates, Mat olhava a fileira de Jindo que observava Rand. Agora s� via as costas dos homens. O rapaz era um idiota completo, pulando de um lado a outro naquele calor. Qualquer homem sensato procuraria sombra e algo para beber. Ele se ajeitou � sombra, espiou a caneca de cerveja que comprara de um dos condutores e fez uma careta. Cerveja quente feito sopa e com um gosto estranho. Pelo menos era l�quido. A �nica outra compra, al�m do chap�u, fora um cachimbo de haste curta e fornilho trabalhado em prata, agora enfiado no bolso do casaco com a bolsinha de tabaco. N�o estava com vontade de negociar. A menos que fosse uma passagem para fora do Deserto, artigo que os carro��es dos mascates pareciam n�o oferecer no momento.</p><p>As vendas estavam firmes, ainda que n�o de cerveja. Os Aiel n�o se incomodavam com a temperatura do l�quido, mas pareciam considerar a bebida fraca. A maioria era de Jindo, mas havia um fluxo constante de Shaido vindos do outro acampamento. Couladin e Kadere ficaram conversando aos sussurros por um longo tempo, mas n�o chegaram a acordo algum, pois Couladin fora embora de m�os vazias. Kadere decerto n�o apreciou ter perdido a negocia��o, e ficou encarando Couladin com aqueles olhos de gavi�o com tanta aten��o que um Jindo precisou cham�-lo tr�s vezes at� ser ouvido.</p><p>Os Aiel n�o tinham muito dinheiro, mas os mascates aceitaram sem pestanejar tigelas de prata, estatuetas de ouro e belas tape�arias de parede saqueadas de Tear, e das bolsas dos Aiel sa�am pepitas de ouro e prata que chamaram a aten��o de Mat. No entanto, um Aiel que perdesse nos dados podia muito bem resolver recorrer � lan�a. Ele ficou se perguntando onde estariam as minas. De onde um homem tirava ouro, outro tamb�m poderia tirar. Mas devia dar um trabalh�o extrair o metal. Tragando uma grande golada de cerveja quente, ele se recostou de volta na roda do carro��o.</p><p>Era interessante ver o que vendia e o que n�o vendia, e a que pre�o. Os Aiel n�o eram est�pidos a ponto de trocar um saleiro de ouro, por exemplo, por um peda�o de tecido. Tinham no��o do valor das coisas e eram duros na barganha, embora tivessem os pr�prios desejos. Os livros sa�am depressa; nem todos os queriam, mas os que buscavam os volumes limpavam todos os carro��es. Rendas e veludos desapareciam assim que eram expostos, vendidos por quantias assombrosas de ouro e prata, e adornos por n�o menos, mas as sedas mais delicadas n�o tinham sa�da. Era mais barato negociar seda a leste, ouvira um Shaido dizer a Kadere. Um condutor corpulento de nariz quebrado tentou convencer uma Donzela Jindo a levar um bracelete de marfim entalhado. A mulher puxou da bolsa um maior, mais grosso e ainda mais ornamentado, e sugeriu ao sujeito que lutassem pelo par. O homem hesitou antes de recusar, mostrando a Mat que era ainda mais burro do que aparentava. Agulhas e alfinetes eram comprados depressa, mas as panelas e a maioria das facas recebiam olhares de desprezo; os ferreiros Aiel faziam um trabalho melhor. Tudo trocava de m�os, de frascos de perfume e sais de banho a barris de conhaque. Vinho e conhaque eram vendidos a um bom pre�o. Mat ficou surpreso em ouvir Heirn pedir tabaco de Dois Rios, que os mascates n�o tinham.</p><p>Um condutor ficou tentando oferecer aos Aiel uma besta pesada, trabalhada em ouro, sem sucesso. A arma chamou a aten��o de Mat, com todos aqueles le�es dourados entalhados e pedras que pareciam rubis no lugar dos olhos���pedras pequenas, mas ainda assim rubis. Claro, com um bom arco longo de Dois Rios dava para disparar seis flechadas enquanto o homem com a besta ainda estava girando a manivela da arma para preparar o segundo disparo. Por outro lado, uma besta daquele tamanho tinha um alcance de umas cem passadas a mais. Com dois homens s� ajudando a recarregar as flechas e lanceiros pesados para refrear a cavalaria�</p><p>Fazendo uma careta, Mat apoiou a cabe�a nos raios da roda atr�s de si. De novo aquilo. Precisava sair do Deserto e tomar dist�ncia de Moiraine, de qualquer Aes Sedai. Quem sabe voltar para casa por um tempo? Talvez conseguisse chegar a tempo de ajudar na quest�o dos Mantos-brancos. <emphasis>Duvido muito, a n�o ser que eu use aqueles malditos Caminhos ou alguma droga de Pedra-portal.</emphasis> De todo modo, aquilo n�o solucionaria seus problemas. Em primeiro lugar, n�o havia respostas em Campo de Emond para o que aquele povo trai�oeiro quisera dizer sobre ele se casar com a Filha das Nove Luas, nem sobre morrer e viver de novo. Ou sobre Rhuidean.</p><p>Esfregou o medalh�o de cabe�a de raposa que voltara a pendurar no pesco�o por baixo do casaco. A pupila do olho da raposa era um min�sculo c�rculo cortado por uma linha sinuosa, um lado polido e brilhoso, o outro meio fosco. O antigo s�mbolo dos Aes Sedai, antes da Ruptura. Pegou a lan�a de cabo preto com dois corvos gravados na l�mina de espada, que estava encostada a seu lado, e deitou-a nos joelhos. Outra obra de Aes Sedai. Rhuidean n�o fornecera respostas, apenas mais perguntas, e�</p><p>Antes de Rhuidean sua mem�ria estava cheia de buracos. Antes, ao tentar for�ar a mem�ria, conseguia se lembrar de adentrar uma porta pela manh� e retornar � noite, mas de nada mais que acontecera entre isso. Agora havia algo no meio, preenchendo todos aqueles buracos. Devaneios, ou algo parecido. Era como se conseguisse se lembrar de dan�as, batalhas, ruas e cidades, mas nada que vira com os pr�prios olhos, nada de cuja exist�ncia tivesse certeza. Pareciam fragmentos da mem�ria de cem homens diferentes. Talvez fosse melhor pensar que eram sonhos���um pouco melhor���por�m tinha tanta certeza dessas lembran�as quanto das pr�prias. A maioria era de batalhas, e �s vezes elas chegavam sorrateiras, como acontecera com a besta. Ele se pegava olhando um ponto no ch�o e planejando como prepararia uma armadilha ali, ou como se defenderia de uma, ou como reuniria um ex�rcito para a batalha. Era insano.</p><p>Sem olhar, correu o dedo pela inscri��o gravada no cabo negro da lan�a. J� conseguia l�-la com tanta facilidade quanto qualquer livro, embora tivesse levado a viagem inteira de volta a Chaendaer para perceber. Rand n�o comentara, mas Mat suspeitava que se entregara, l� em Rhuidean. Agora conhecia a L�ngua Antiga, peneirada de todos aqueles sonhos. <emphasis>Luz, o que eles fizeram comigo?</emphasis></p><p>��<emphasis>Sa souvraya niende misain ye</emphasis>���disse em voz alta.���Estou perdido em minha pr�pria mente.</p><p>��Um estudioso, no dia e na Era de hoje.</p><p>Mat olhou para cima e notou o menestrel a encar�-lo, com olhos escuros e fundos. O sujeito era mais alto que a maioria, de meia-idade e provavelmente atraente �s mulheres, mas tinha um jeito estranho e apreensivo de manter a cabe�a inclinada, como se tentasse olhar os outros de rabo do olho.</p><p>��S� uma coisa que ouvi por a����respondeu Mat. Precisava ser mais cuidadoso. Se Moiraine decidisse mand�-lo para a Torre Branca para estudo, nunca mais conseguiria sair de l�.���A gente ouve uns trechos das coisas e guarda na cabe�a. Eu sei algumas frases.���Aquilo daria conta de quaisquer deslizes que ele fosse imbecil o bastante para cometer.</p><p>��Sou Jasin Natael. Menestrel.���Natael n�o fazia floreios com a capa como Thom; poderia estar se apresentando como carpinteiro ou consertador de rodas.���Posso me juntar a voc�?���Mat indicou o ch�o a seu lado com a cabe�a, e o menestrel se agachou, enfiando a capa debaixo das pernas para se sentar. Parecia fascinado com os Jindo e os Shaido fervilhando � volta dos carro��es, a maioria ainda carregando lan�as e broqu�is.���Aiel���murmurou.���N�o s�o como eu imaginava. Ainda n�o consigo acreditar.</p><p>��J� faz semanas que estou com eles���comentou Mat���e nem eu mesmo sei se acredito. Povo estranho. Se alguma das Donzelas convidar voc� para jogar O Beijo da Donzela, meu conselho � que recuse. Educadamente.</p><p>Natael franziu a testa para ele, indagativo.</p><p>��Voc� leva uma vida intrigante, ao que parece.</p><p>��Como assim?���perguntou Mat, receoso.</p><p>��Voc� n�o acha que � segredo, acha? S�o poucos os homens que viajam em companhia de� uma Aes Sedai. Aquela Moiraine Damodred. E tamb�m tem Rand al�Thor. O Drag�o Renascido. Aquele Que Vem Com a Aurora. Quem sabe quantas profecias ele supostamente vai cumprir? Um companheiro de viagem incomum, sem d�vida.</p><p>Os Aiel tinham falado, estava claro. Qualquer um falaria. Ainda assim, era um pouco inquietante ver um estranho comentando sobre Rand com aquela tranquilidade.</p><p>��Por enquanto me interessa viajar com Rand. Se estiver curioso, converse com ele. Eu, por mim, prefiro nem pensar no assunto.</p><p>��Talvez eu converse. Mais tarde, quem sabe? Vamos falar de voc�. Soube que foi a Rhuidean, onde faz tr�s mil anos que ningu�m entra, a n�o ser os Aiel. Foi l� que conseguiu isso?���Ele tentou pegar a lan�a dos joelhos de Mat, mas deixou a m�o cair quando o rapaz a desembainhou de leve.���Muito bem. Conte o que viu.</p><p>��Por qu�?</p><p>��Sou um menestrel, Matrim.���Natael mantinha a cabe�a inclinada para o lado daquele jeito, mas a voz guardava irrita��o por ter que se explicar. Ele ergueu uma ponta da capa com os retalhos coloridos, como se fosse uma comprova��o.���Voc� viu o que ningu�m viu, a n�o ser um punhado de Aiel. Que hist�rias posso criar com o que seus olhos viram? Posso at� transform�-lo em her�i, se desejar.</p><p>Mat bufou com desd�m.</p><p>��N�o quero ser nenhuma porcaria de her�i.</p><p>Por�m, n�o havia raz�o para permanecer em sil�ncio. Amys e aquele bando podiam tagarelar � vontade sobre n�o comentar o que acontecia em Rhuidean, mas ele n�o era Aiel. Al�m do mais, talvez fosse vantajoso ter algu�m entre os mascates que nutrisse alguma boa vontade em rela��o a ele, algu�m que pudesse falar em seu favor quando fosse preciso.</p><p>Contou a hist�ria desde a chegada � muralha de n�voa at� a sa�da, deixando alguns detalhes de fora. N�o tinha qualquer inten��o de contar a mais algu�m sobre aquele <emphasis>ter�angreal</emphasis> de batente de porta retorcido, e tamb�m preferia esquecer as nuvens de poeira formando as criaturas que tentaram mat�-lo. Falar sobre a estranha cidade de imensos pal�cios sem d�vida seria suficiente, al�m de mencionar <emphasis>Avendesora</emphasis>.</p><p>Natael n�o mostrou interesse na �rvore da Vida, mas fez Mat repassar o restante diversas vezes, perguntando mais e mais detalhes, desde como exatamente ele se sentira transpondo a neblina e quanto tempo levara para alcan�ar a luz sem sombra da cidade at� descri��es de tudo o que Mat podia se lembrar de ter visto na imensa pra�a no cora��o da cidade. Essas partes, Mat revelou com relut�ncia; qualquer deslize e acabaria falando sobre o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, e quem saberia aonde aquilo poderia levar? Mesmo assim, tomou a cerveja quente at� o fim e continuou falando at� sentir a garganta seca. A forma como relatou fez a coisa toda parecer meio idiota, como se simplesmente tivesse entrado l� e esperado Rand, depois sa�do de novo, mas Natael parecia concentrado em escarafunchar at� o �ltimo detalhe. O homem lembrava Thom, que era capaz de se concentrar em algu�m como se quisesse espremer tudinho.</p><p>��Era isso que voc� deveria estar fazendo?</p><p>Mat deu um salto ao ouvir a voz de Keille, austera por sob o tom mel�fluo. A mulher o deixava tenso, e agora parecia prestes a arrancar seu cora��o e o do menestrel.</p><p>Natael levantou-se com dificuldade.</p><p>��Este jovem estava me contando coisas fascinantes sobre Rhuidean. A senhora n�o vai acreditar.</p><p>��N�o estamos aqui por causa de Rhuidean.���As palavras sa�ram mais afiados que o nariz pontudo da mulher. Pelo menos agora ela s� encarava Natael.</p><p>��Vou lhe contar�</p><p>��N�o vai me contar nada.</p><p>��N�o tente me calar!</p><p>Ignorando Mat, os dois se afastaram por entre os carro��es, discutindo em voz baixa e gesticulando irritados. Keille parecia ter sido calada com palavras duras e j� se fechara em uma careta silenciosa quando a dupla desapareceu no interior de seu carro��o.</p><p>Mat estremeceu. N�o conseguia se imaginar compartilhando um alojamento com aquela mulher. Seria como morar com um urso com dor de dente. J� Isendre� aquele rosto, aqueles l�bios, aquele andar provocante. Se conseguisse afast�-la de Kadere, talvez a mulher descobrisse um her�i. Para ela, as criaturas de poeira poderiam ter dez p�s de altura. Mat daria cada detalhe que pudesse lembrar ou inventar, seria um her�i jovem e bonito, muito mais atraente do que um mascate velho e enfadonho. Era uma ideia a ser considerada.</p><p>O sol deslizou para tr�s do horizonte, e pequenas fogueiras de gravetos espinhosos formavam po�as de luz amarela no meio das tendas. O cheiro de comida tomou o acampamento; carne de cabra assada com pimentas secas. O frio tamb�m dominou o lugar, o frio da noite do Deserto. Era como se o sol tivesse levado todo o calor consigo. Mat n�o imaginara que desejaria um manto pesado ao separar as roupas para sair da Pedra. Talvez os mascates tivessem um. Talvez Natael aceitasse apostar o dele nos dados.</p><p>Comeu junto � fogueira de Rhuarc, com Heirn e Rand. E Aviendha, claro. Os mascates estavam por perto, Natael ficou ao lado de Keille, e Isendre parecia quase enrolada em Kadere. Talvez fosse mais dif�cil separar Isendre do narigudo do que ele pensara���ou mais f�cil. Enroscada no sujeito ou n�o, a mulher tinha os olhos escuros fixos em Rand, e em mais ningu�m. Parecia at� que ela j� tinha furado as orelhas dele, marcado-o como uma ovelha de seu rebanho. Nem Rand nem Kadere pareciam notar; o mascate mal tirava os olhos de Rand. Aviendha percebia, e encarava Rand. Pelo menos o fogo provia algum calor.</p><p>Quando o assado de cabra acabou���e tamb�m um tipo de pur� granuloso e amarelo, mais apimentado do que parecia���Rhuarc e Heirn encheram os cachimbos de haste curta, e o chefe de cl� pediu uma can��o a Natael.</p><p>Por um momento, o menestrel apenas piscou, confuso.</p><p>��Ora, � claro. � claro. Deixe-me pegar a harpa.���Sua capa se elevou com a brisa fria e seca enquanto ele sumia em dire��o ao carro��o de Keille.</p><p>O sujeito sem d�vida era diferente de Thom Merrilin. Era raro Thom sair da cama sem a flauta, a harpa ou as duas. Mat encheu o cachimbo de prata de tabaco e j� baforava alegremente quando Natael retornou e postou-se em uma pose digna de um rei. Isso sim lembrava Thom. Dedilhando um acorde, o menestrel come�ou: �</p><poem><stanza><v>Doces ventos, um toque primaveril.</v><v>Doces chuvas, como l�grimas do c�u.</v><v>Doces, os anos passam jubilosos,</v><v>sem o pren�ncio das tempestades por vir,</v><v>sem o pren�ncio da f�ria dos vendavais,</v><v>chuvas de a�o e trov�es de batalha,</v><v>guerra para os cora��es desunir.</v></stanza></poem><p>Era �O Vau de Midean�. Uma can��o antiga sobre Manetheren, por mais estranho que fosse. Falava de guerras anteriores �s Guerras dos Trollocs. Natael fez justi�a � m�sica; nada como os recitais melodiosos de Thom, sem d�vida, mas as palavras suaves atra�ram um bom n�mero de Aiel � beira da luz da fogueira. O maligno Aedomon liderou os saferianos por Manetheren sem levantar suspeitas, saqueando e incendiando, sempre avan�ando, at� que o Rei Buiryn reuniu a for�a de Manetheren, e seus homens enfrentaram os saferianos no Vau de Midean. Resistiram, embora em n�mero muito menor, por tr�s dias de batalhas incessantes, enquanto o rio se avermelhava e os abutres enegreciam o c�u. No terceiro dia, em n�mero ainda menor, j� com a esperan�a definhando, Buiryn e seus homens lutaram para cruzar o vau em uma viagem desesperada, abrindo caminho pela horda de Aedomon, tentando for�ar o inimigo a recuar ao matar seu comandante. Por�m, for�as muito poderosas para se subjugar se abateram sobre eles, encurralando-os, reduzindo-os a um pequeno grupo. Eles continuaram a luta, protegendo seu rei e o estandarte da �guia Vermelha, recusando-se a se entregar mesmo quando a derrota era certa.</p><p>Natael cantou como a coragem daqueles homens tocou at� o cora��o de Aedomon, e como, enfim, o vil�o permitiu que os sobreviventes fossem libertos e retornou com seu ex�rcito para Safer, em honra deles. �</p><poem><stanza><v>De volta pelas �guas cor de sangue,</v><v>marchando de cabe�a erguida.</v><v>Sem rendi��o de bra�o ou espada,</v><v>sem rendi��o de alma ou cora��o.</v><v>Que a honra, ao final, seja deles,</v><v>honra que se espalhar� por todas as Eras.</v></stanza></poem><p>Ele tangeu o �ltimo acorde, e os Aiel assobiaram em aprova��o, rufando broqu�is com as lan�as, alguns evocando gritos ululantes.</p><p>N�o fora daquele jeito, claro. Mat lembrava���<emphasis>Luz, eu n�o quero!</emphasis> Mas a mem�ria veio mesmo assim���ele se lembrava de aconselhar Buiryn a n�o aceitar a oferta, e de receber a resposta de que a menor chance j� era melhor do que nenhuma. Aedomon, com a barba negra e brilhosa pendendo por sob a malha de a�o que lhe encobria o rosto, afastou os lanceiros, esperando at� que os homens de Manetheren estivessem perto do vau e exaustos antes que os arqueiros escondidos se erguessem e a cavalaria avan�asse. Quanto a retornar a Safer� Mat achava que n�o. Sua �ltima lembran�a do vau era a de tentar manter-se de p�, afundado at� a cintura no rio com tr�s flechas cravadas no corpo. Mas havia um fragmento posterior. Ver Aedomon, j� de barba grisalha, derrotado em uma luta acirrada em uma floresta, caindo do cavalo empinado com uma lan�a cravada nas costas por um garoto sem armadura e de cara lisa. Aquilo era pior do que os buracos na mem�ria.</p><p>��N�o gostou da can��o?���perguntou Natael.</p><p>Mat levou um instante para perceber que o homem estava falando com Rand, n�o com ele. Rand esfregou as m�os, encarando a fogueira diminuta antes de responder.</p><p>��N�o sei muito bem se � s�bio depender da generosidade de um inimigo. O que voc� acha, Kadere?</p><p>O mascate hesitou, lan�ando um olhar � mulher pendurada em seu bra�o.</p><p>��Eu n�o penso nessas coisas���disse por fim.���Penso em lucro, n�o em batalhas.</p><p>Keille soltou uma risada rouca. Pelo menos at� ver o sorriso de Isendre, que tra�a o desprezo da jovem pela mulher que dava tr�s dela. Logo em seguida os olhos escuros da senhora roli�a adquiriram um brilho perigoso por detr�s das camadas de gordura.</p><p>De s�bito, gritos de advert�ncia se ergueram na escurid�o, mais � frente das tendas. Os Aiel ergueram os v�us. Um instante depois, Trollocs brotaram da noite, com focinhos e cabe�as chifrudas, avultando-se por sobre os humanos, urrando e balan�ando as espadas em forma de foice, golpeando com lan�as curvas e tridentes farpados, entalhando com machados com ponteiras. Myrddraal circulavam por entre eles, feito serpentes mort�feras sem olhos. O ataque aconteceu em um segundo, mas os Aiel lutaram como se tivessem tido uma hora para se preparar, enfrentando a amea�a com as lan�as �geis.</p><p>Mat teve a vaga no��o de que Rand invocara aquela espada flamejante, mas logo foi arrastado para o turbilh�o, manejando sua arma negra tanto como lan�a quanto como bast�o, golpeando e retalhando, o cabo a rodopiar. Pela primeira vez, ficou satisfeito em ter as lembran�as dos sonhos. O manejo daquela arma lhe parecia familiar, e ele precisava de toda a habilidade que pudesse reunir. Era insano e ca�tico.</p><p>Trollocs surgiam e sucumbiam diante de sua lan�a ou de uma lan�a Aiel, ou disparavam de volta para a confus�o de berros, uivos e clangor de metais. Myrddraal o enfrentavam, as espadas negras se chocando contra seu a�o gravado com corvos, produzindo lampejos de luz azul que mais pareciam raios. Enfrentavam-no, e depois desapareciam no tumulto. Por duas vezes, uma lan�a curta passou como um raio por cima de sua cabe�a para golpear um Trolloc prestes a atac�-lo pelas costas. Mat enfiou a espada curta no peito de um Myrddraal e soube que iria morrer quando a criatura n�o caiu, apenas sorriu com aqueles l�bios sem sangue, com aquele olhar sem olhos que o fazia tremer de medo at� os ossos. A criatura ergueu a espada negra. Um instante depois, o Meio-homem estremeceu ao ser perfurado por lan�as Aiel, um solavanco que durou a fra��o de tempo necess�ria para Mat se afastar da coisa, que caiu ainda tentando golpe�-lo, golpear o que fosse.</p><p>Por dez vezes o cabo preto da lan�a, duro como ferro, desviou por pouco uma investida de Trollocs. Era obra de Aes Sedai, e ele achava aquilo �timo. A raposa prateada em seu peito parecia pulsar, fria como gelo, como se para lembr�-lo de que tamb�m portava a marca das Aes Sedai. Que fosse, ele n�o ligava. Se fosse preciso trabalho de Aes Sedai para mant�-lo vivo, estava pronto para ir atr�s de Moiraine feito um cachorrinho.</p><p>N�o sabia dizer se a luta durara minutos ou horas, mas de s�bito n�o se via um Myrddraal ou Trolloc ainda de p�, embora gritos e urros vindos da escurid�o indicassem uma persegui��o. Mortos e moribundos se amontoavam no ch�o, Aiel e Criaturas da Sombra. Os Meios-homens ainda se agitavam violentamente. Gemidos de dor preenchiam o ar. De repente, Mat percebeu que sentia os m�sculos moles feito �gua e que os pulm�es estavam em chamas. Desabou de joelhos, ofegante, apoiado na lan�a. As chamas haviam transformado em fogueiras tr�s carro��es dos mascates, todos cobertos por lonas, um deles com um condutor preso � lateral por uma lan�a de Trolloc, e algumas tendas estavam pegando fogo. Gritos vindos do acampamento dos Shaido e brilhos fortes demais para serem fogueiras de acampamento indicavam que eles tamb�m haviam sido atacados.</p><p>Com a espada flamejante ainda nas m�os, Rand aproximou-se de Mat, ainda ajoelhado.</p><p>��Tudo bem com voc�?</p><p>Aviendha foi atr�s, como uma sombra de Rand. Ela conseguira encontrar uma lan�a e um broquel e erguera um peda�o do xale no rosto, feito um v�u. At� de saias a mulher parecia letal.</p><p>��Ah, estou bem���murmurou Mat, levantando-se com dificuldade.���Nada como uma dancinha com Trollocs para chamar o sono. N�o �, Aviendha?</p><p>Descobrindo a face, a jovem lan�ou a ele um sorriso tenso. Decerto a mulher <emphasis>gostara</emphasis> da luta. Ele estava empapado de suor, e achou que toda aquela �gua fosse congelar em seu corpo.</p><p>Moiraine e Egwene surgiram com duas das S�bias, Amys e Bair, circulando entre os feridos. Por onde a Aes Sedai passava, pessoas tremiam ao serem Curadas, embora Moiraine �s vezes mal mexesse a cabe�a e logo seguisse em frente.</p><p>Rhuarc aproximou-se a passos firmes, com uma carranca.</p><p>��M�s not�cias?���perguntou Rand, baixinho.</p><p>O chefe de cl� grunhiu.</p><p>��Al�m dos Trollocs, que deveriam estar a duzentas l�guas ou mais de dist�ncia? Talvez. Uns cinquenta Trollocs atacaram o acampamento das S�bias. O bastante para subjug�-las, n�o fosse por Moiraine Sedai e pela sorte. No entanto, parece que os Shaido foram atacados por um n�mero menor do que o que veio a n�s. S� que, como o acampamento deles � o maior, deveria ter sido o contr�rio. Quase d� para pensar que eles foram atacados s� para n�o virem nos ajudar. N�o que a ajuda deles fosse certa, n�o os Shaido, mas os Trollocs e Mensageiros da Noite talvez n�o saibam disso.</p><p>��E, se sabiam que havia uma Aes Sedai com as S�bias���comentou Rand���esse ataque tamb�m pode ter sido para afast�-la. Eu trago inimigos comigo, Rhuarc. Lembre-se disso. N�o importa onde eu esteja, meus inimigos nunca est�o longe.</p><p>Isendre enfiou a cabe�a para fora do carro��o principal. Um instante depois, Kadere saiu, passando por ela, que voltou para dentro, fechando a porta pintada de branco atr�s do homem. O mercador encarou a carnificina, a luz nos carro��es em chamas deixando sombras bruxuleantes em seu rosto. O grupo ao redor de Mat foi o que mais lhe chamou a aten��o. Os carro��es pareciam n�o interess�-lo nem um pouco. Natael tamb�m desceu do carro��o de Keille, e da escada foi falando com a mulher que ainda estava do lado de dentro, com os olhos fixos em Mat e nos outros.</p><p>��Imbecis���resmungou Mat, meio que para si mesmo.���Escondidos dentro dos carro��es, como se isso fosse fazer alguma diferen�a para um Trolloc. Poderiam ter sido tostados vivos, simples assim.</p><p>��Eles ainda est�o vivos���comentou Rand, e Mat percebeu que o amigo tamb�m vira o grupo.���Isso � sempre importante, Mat, quem sobrevive. � como nos dados. N�o d� para ganhar sem jogar, e n�o d� para jogar se estiver morto. Quem sabe dizer que jogo os mascates jogam?���Ele riu baixinho, e a espada flamejante desapareceu de suas m�os.</p><p>��Eu vou dormir um pouco���disse Mat, j� virando as costas.���Me acorde se os Trollocs aparecerem outra vez. Ou melhor, deixe que me matem debaixo das cobertas. Estou muito cansado para acordar.</p><p>Rand definitivamente estava perdendo o controle. Talvez os acontecimentos da noite convencessem Keille e Kadere a ir embora. Se eles fossem, Mat pretendia ir junto.</p><empty-line/><p>Rand deixou Moiraine examin�-lo, murmurando sozinha, embora n�o estivesse machucado. Com tantos feridos, a Aes Sedai n�o podia gastar for�as com o Poder �nico para aliviar o cansa�o dele.</p><p>��Voc� foi o alvo desse ataque���comentou ela, rodeada pelos gemidos dos feridos.</p><p>Os Trollocs estavam sendo arrastados pela noite, pelos cavalos de carga e as mulas dos mascates. Os Aiel pareciam ter a inten��o de deixar os Myrddraal onde estavam at� que parassem de se sacudir, para certificar-se de que de fato estavam mortos. O vento se ergueu em uma rajada, como gelo seco.</p><p>��� mesmo?���indagou o rapaz.</p><p>Os olhos da Aes Sedai brilharam � luz da fogueira antes que ela se voltasse outra vez para os feridos.</p><p>Egwene aproximou-se dele, mas apenas para dizer, em um sussurro baixo e furioso:</p><p>��Seja l� o que voc� estiver fazendo para irrit�-la, pare com isso!</p><p>O olhar que ela lan�ou a Aviendha, um pouco atr�s de Rand, n�o deixava d�vida do que ela queria dizer, e a mo�a se afastou para ajudar Bair e Amys antes que ele pudesse explicar que n�o tinha feito nada. Egwene estava rid�cula com aquelas duas tran�as enroladinhas com fitas. Os Aiel tamb�m pareciam achar, e alguns abriam sorrisos quando ela dava as costas.</p><p>Cambaleante e tr�mulo, ele procurou sua tenda. Nunca se sentira t�o cansado. A espada quase n�o viera. Esperava que fosse o cansa�o. �s vezes, falhava ao tentar tocar a Fonte, e �s vezes o Poder n�o fazia o que ele queria, mas quase que desde o in�cio a espada surgira praticamente sem que ele pensasse. Dessa vez, entre todas as outras� s� podia ser o cansa�o.</p><p>Aviendha insistiu em segui-lo at� a tenda, e quando ele acordou na manh� seguinte, a jovem estava sentada do lado de fora, de pernas cruzadas, mas sem a lan�a e o broquel. Espi� ou n�o, Rand se alegrou em v�-la. Pelo menos sabia quem e o que Aviendha era, e o que sentia por ele.</p><empty-line/><image l:href="#21"/></section><section><title><p>38</p><p><image l:href="#5"/></p><p>Rostos ocultos</p></title><p>O Jardim das Brisas de Prata n�o era bem um jardim, mas uma imensa adega, grande demais at� para ser chamada assim. Ficava no topo de uma colina no meio de Calpene, a mais ocidental das tr�s pen�nsulas de Tanchico, abaixo do Grande C�rculo. Pelo menos uma parte do nome era por causa das brisas que sopravam no lado da constru��o em que colunas de m�rmore polido rajadas de verde e balaustradas substitu�am a parede, exceto no andar mais alto. Cortinas douradas de seda imperme�vel podiam ser baixadas, em caso de chuva. A colina formava um declive acentuado daquele lado, e as mesas ao longo das balaustradas forneciam uma ampla vis�o do imenso ancoradouro para al�m dos domos e pin�culos brancos, agora apinhado de mais navios do que nunca. Tanchico precisava de tudo, desesperadamente, de modo que ali se podia ganhar muito ouro���at� que o ouro e o tempo se acabassem.</p><p>Com seus lampi�es dourados e tetos marchetados com gregas de lat�o lustradas para emitir um brilho amarelado, al�m dos servi�ais���homens e mulheres, escolhidos pela gra�a, beleza e discri��o���o Jardim das Brisas de Prata j� era a adega mais cara da cidade mesmo antes de os problemas come�arem. Atualmente, o pre�o era ultrajante. Por�m, ainda recebia visitas dos que negociavam altas somas, dos que negociavam poder e influ�ncia ou dos que pensavam negociar. Em alguns aspectos havia menos para se negociar do que antes, em outros, mais.</p><p>Muretas baixas cercavam cada uma das mesas, formando pequenas ilhas pelos azulejos verdes e dourados. As muretas eram cobertas de entalhes delicados como renda, o que permitia ver por tr�s delas, impedindo assim que algum bisbilhoteiro escutasse sem ser visto, e tinham altura apenas o suficiente para ocultar os ocupantes da mesa de eventuais olhares dos passantes. Ainda assim, a clientela em geral permanecia mascarada, sobretudo nos �ltimos tempos, e alguns sentavam-se � mesa com um guarda-costas���tamb�m mascarado para evitar ser reconhecido, se o cliente fosse prudente, e sem l�ngua, pelo que diziam os rumores, em nome de uma prud�ncia ainda maior. Nenhum guarda estava visivelmente armado. A propriet�ria do Jardim das Brisas de Prata, uma mulher insinuante de idade indeterminada que se chamava Selindrin, n�o permitia a entrada de armas. A regra n�o era quebrada, ao menos n�o abertamente.</p><p>De sua mesa habitual, junto � balaustrada, Egeanin observava os navios no ancoradouro, especialmente os que estavam em movimento. V�-los lhe dava vontade de estar em um conv�s, bradando ordens. A mulher jamais esperara que o dever a levasse �quele ponto.</p><p>Distra�da, ajustou a m�scara de veludo que encobria a metade superior do rosto. Sentia-se rid�cula usando aquela coisa, mas era um acess�rio essencial para se misturar, at� certo ponto. A m�scara azul, para combinar com o vestido de seda de gola alta, o pr�prio vestido e os cabelos escuros, agora na altura dos ombros, eram o m�ximo de mudan�a que ela podia se for�ar a assumir. Passar-se por taraboniana era desnecess�rio, pois Tanchico estava entupida de refugiados, boa parte estrangeiros varridos pelos conflitos. E, de todo modo, era mais do que conseguiria fazer. Aquelas pessoas eram animais; n�o tinham disciplina, nem ordem.</p><p>Pesarosa, Egeanin virou-se do ancoradouro para seu companheiro de mesa, um sujeito de rosto fino e sorriso ambicioso e dissimulado. O colarinho pu�do de Floran Gelb destoava do Jardim das Brisas de Prata, e ele n�o parava de secar as m�os no casaco. A mulher sempre marcava de encontrar ali os sujeitinhos ensebados com quem era for�ada a lidar. Era uma recompensa para eles, al�m de um meio de desestabiliz�-los.</p><p>��O que o senhor tem para mim, Mestre Gelb?</p><p>O homem secou as m�os mais uma vez, ergueu uma bolsa de juta tosca sobre a mesa e a encarou, ansioso. Egeanin depositou a bolsa a seu lado antes de abri-la. Dentro havia um <emphasis>a�dam</emphasis> de metal prateado, coleira e bracelete unidos por uma corrente de encaixes finos e bem-trabalhados. Ela fechou a bolsa e depositou-a no ch�o. Com esse, Gelb j� recuperara tr�s. Mais do que qualquer outro.</p><p>��Muito bem, Mestre Gelb.���Uma pequena bolsa cruzou a mesa no outro sentido, e o homem a fez desaparecer por baixo do casaco como se ela contivesse a coroa da Imperatriz, em vez de um punhado de prata.���O senhor tem mais alguma coisa?</p><p>��As mulheres. Essas que a senhora quer que eu procure?���Egeanin j� estava acostumada com a fala r�pida daquela gente, mas gostaria que o homem parasse de passar a l�ngua nos l�bios daquele jeito. N�o prejudicava a compreens�o, mas era desagrad�vel.</p><p>Quase disse ao homem que n�o estava mais interessada. Mas era um dos motivos pelos quais estava em Tanchico, afinal. Talvez agora fosse o �nico.</p><p>��O que tem elas?���Bastou notar que estava pensando em se esquivar de suas obriga��es para come�ar a falar com mais dureza do que pretendia, e Gelb se encolheu.</p><p>��Eu� eu acho que encontrei mais uma.</p><p>��Tem certeza? J� tivemos alguns� erros.</p><p>�Erros� era pouco. As quase doze mulheres que se pareciam vagamente com as descri��es haviam se mostrado estorvos que ela dispensou assim que p�s os olhos em cada uma. Exceto aquela nobre, refugiada de propriedades incendiadas na guerra. Gelb sequestrara a mulher na rua, pensando que ganharia mais por entreg�-la do que se revelasse sua localiza��o. Em defesa dele, Lady Leilwin era muit�ssimo parecida com uma das mulheres que Egeanin buscava, mas ela j� especificara que as procuradas n�o tinham qualquer sotaque familiar e decerto n�o teriam sotaque taraboniano. Egeanin n�o queria matar a mulher, mas at� em Tanchico algu�m poderia dar ouvidos � hist�ria dela. Leilwin fora amarrada, amorda�ada e posta em um dos barcos mensageiros na calada da noite���era jovem e bonita, e algu�m encontraria melhor uso para ela do que um talho na garganta. Ainda assim, Egeanin n�o estava em Tanchico para encontrar servi�ais para o Sangue.</p><p>��Nada de erros, Senhora Elidar���respondeu o homem, mais do que depressa, abrindo aquele sorriso cheio de dentes.���N�o desta vez. Mas� preciso de um pouco de ouro. Para ter certeza. Para me aproximar. Quatro ou cinco coroas?</p><p>��Eu pago por resultados���retrucou Egeanin, com firmeza.���Depois dos seus� erros, o senhor tem sorte de receber qualquer pagamento meu.</p><p>Gelb passou a l�ngua nos l�bios, nervoso.</p><p>��A senhora disse� Logo quando come�amos, a senhora disse que daria umas moedas para quem fizesse trabalhos <emphasis>especiais</emphasis>.���Um m�sculo da face do homem estremeceu, e seus olhos corriam de um lado a outro, como se algu�m pudesse estar escutando a conversa por tr�s da parede rendada que rodeava tr�s lados da mesa. Ele baixou a voz a um sussurro rouco.���Cavucar problemas, por assim dizer? Um sujeito que � camareiro de Lorde Brys me contou um boato sobre a Assembleia e a escolha da nova Panarca. Acho que deve ser verdade. O homem estava b�bado, e, quando percebeu o que tinha dito, quase se borrou todo. Mesmo que n�o seja verdade, arrasaria Tanchico inteira.</p><p>��O senhor acha mesmo que h� necessidade de arrumar problemas nessa cidade?���Tanchico era um jambo podre, prestes a desabar ao primeiro vento. Toda aquela terra miser�vel era igual. Por um instante, Egeanin ficou tentada a acreditar no tal �boato�. Sua tarefa era negociar qualquer mercadoria ou informa��o que surgisse, e ela at� vendera algumas, por ali. Mas lidar com Gelb a deixava enojada. E suas pr�prias d�vidas a amedrontavam.���Basta, Mestre Gelb. O senhor sabe como me contatar, caso encontre outra dessas.���Ela tocou o saco de tecido r�stico.</p><p>Em vez de se levantar, o homem ficou sentado a encar�-la, tentando ver por sob a m�scara.</p><p>��De onde a senhora �, Senhora Elidar? Seu jeito de falar, todo suave e arrastado� pe�o perd�o, n�o quero ofender� n�o consigo identificar o sotaque.</p><p>��Basta, Gelb.</p><p>Talvez fosse a voz de conv�s, ou talvez a m�scara n�o tivesse escondido bem seu olhar frio, mas Gelb deu um salto, curvando-se em mesuras e gaguejando desculpas enquanto abria, desajeitado, a porta na parede rendada.</p><p>Egeanin ficou ali, sentada, depois que o homem foi embora, dando tempo para que ele sa�sse do Jardim das Brisas de Prata. Algu�m o acompanharia at� o lado de fora, para ter certeza de que ele n�o estava esperando para segui-la. Toda essa hist�ria de se esgueirar e se esconder a enojava. Egeanin quase desejava que algo acabasse com seu disfarce e a brindasse com um embate cara a cara.</p><p>Um novo navio deslizava pelo ancoradouro abaixo, um forcador do Povo do Mar com mastros imponentes e nuvens de vela. Ela j� tinha examinado o modelo do barco, quando capturaram um. Teria dado quase qualquer coisa para dar uma volta em um forcador, embora imaginasse que seria preciso ter uma tripula��o do Povo do Mar para guiar o navio. Os Atha�an Miere eram teimosos na hora de fazer os juramentos, e n�o seria a mesma coisa se ela tivesse que comprar uma tripula��o. Comprar uma tripula��o, que ideia! A quantidade de ouro que chegava para ela pelos barcos mensageiros estava lhe subindo � cabe�a.</p><p>Egeanin pegou a bolsa de juta e come�ou a se levantar, depois sentou-se apressada ao ver um homem grande e de ombros largos deixando outra mesa. Os cabelos escuros na altura dos ombros e uma barba que deixava seu l�bio superior descoberto emolduravam o rosto redondo de Bayle Domon. Ele n�o estava mascarado, naturalmente. O homem liderava uma d�zia de embarca��es costeiras que entravam e sa�am de Tanchico e parecia n�o se importar com quem soubesse onde ele estava. A m�scara. Egeanin n�o estava em seu ju�zo perfeito. Domon n�o a reconheceria por tr�s de uma m�scara. Ainda assim, ficou esperando ele ir embora para deixar a mesa. Talvez ainda tivesse de lidar com Domon, se o homem se tornasse uma amea�a.</p><p>Selindrin aceitou o ouro oferecido com um sorriso insinuante e murmurou votos de poder receb�-la novamente. De cabelos escuros presos em dezenas de trancinhas, a propriet�ria do Jardim das Brisas de Prata usava uma seda branca colada ao corpo, quase fina o bastante para uma servi�al, e um daqueles v�us transparentes que sempre deixavam Egeanin com vontade de perguntar �s tarabonianas que dan�as elas apresentavam. As Dan�arinas do Shea usavam v�us quase id�nticos e pouca coisa mais. Ainda assim a mulher era sagaz, pensou Egeanin, enquanto avan�ava em dire��o � rua. Do contr�rio, n�o teria conseguido circular em meio aos cardumes de Tanchico, servindo a cada fac��o sem ganhar a inimizade de nenhuma.</p><p>Um bom lembrete disso era o homem alto em um manto branco, grisalho nas t�mporas, mas de rosto e olhos severos, que passou por Egeanin e foi cumprimentado por Selindrin. O manto de Jaichim Carridin ostentava um raio de sol dourado no peito, com tr�s n�s dourados embaixo e uma bengala carmesim atr�s. Inquisidor da M�o da Luz, alto oficial dos Filhos da Luz. O mero conceito dos Filhos era um ultraje para Egeanin: um corpo militar que respondia apenas a si pr�prio. Mas Carridin e suas poucas centenas de soldados detinham certa influ�ncia em Tanchico, onde na maior parte do tempo parecia haver um v�cuo de poder. A Guarda Civil j� n�o patrulhava as ruas, e o ex�rcito���por mais que ainda fosse leal ao Rei���estava muito ocupado protegendo as fortalezas ao redor da cidade. Egeanin percebeu que Selindrin sequer olhou para a espada na cintura de Carridin. O homem definitivamente era poderoso.</p><p>Assim que p�s os p�s na rua, os carregadores vieram correndo com sua cadeira do meio do grupo que aguardava os clientes, e os guarda-costas se fecharam em torno dela com as lan�as. Eram um grupo desarm�nico, alguns de elmos toscos, tr�s usando camisas de couro costuradas com escamas de a�o. Eram homens de rostos duros, poss�veis desertores do ex�rcito, mas cientes de que a barriga cheia e a prata para gastar dependiam da seguran�a cont�nua da mulher. At� os carregadores da cadeira portavam facas robustas e porretes presos aos cintur�es. Ningu�m que parecesse ter dinheiro ousava sair �s ruas sem guardas. De qualquer modo, se ela se desse ao trabalho de arriscar, apenas atrairia aten��o para si mesma.</p><p>Os guardas for�aram caminho pela multid�o sem problemas. O povo circulava pelas ruas estreitas que entrela�avam as colinas da cidade, fazendo amplos desvios ao redor das liteiras cercadas por guarda-costas. Havia poucas carruagens � vista. Cavalos estavam se tornando uma extravag�ncia.</p><p>Surrada era a �nica descri��o adequada para a massa fervilhante���surrada e fren�tica. Rostos surrados, roupas surradas e olhos muito brilhantes e fren�ticos, desesperados, esperan�osos, mesmo sabendo que n�o havia esperan�a. Muitos estavam resignados, agachados e encostados nas paredes, aninhados nos batentes das portas, agarrados �s esposas, aos maridos, �s crian�as. N�o apenas surrados, mas esfarrapados e inexpressivos. �s vezes, erguiam-se o bastante para pedir a algum passante por uma moeda, um peda�o de p�o, qualquer coisa.</p><p>Egeanin manteve os olhos � frente, confiante de que os guarda-costas detectariam qualquer perigo. Corresponder ao olhar de um pedinte significava ter vinte deles rodeando sua cadeira, esperan�osos. Jogar uma moeda significava cem amontoados, chorando e clamando. Ela j� estava usando parte do dinheiro que os barcos mensageiros traziam para bancar uma cozinha que distribu�a sopa, como se fosse uma do Sangue. Estremeceu ao pensar o que a descoberta daquela extrapola��o de sua posi��o poderia significar. Bem como p�r um vestido brocado e raspar a cabe�a.</p><p>Tudo isso poderia ser resolvido sem maiores problemas depois da queda de Tanchico, com todos alimentados, todos postos em seus devidos lugares. E ela poderia abandonar os vestidos e as coisas que n�o conhecia nem queria conhecer e voltar para seu navio. Ao menos Tarabon, e talvez at� Arad Doman, estava prestes a desmoronar com um toque, feito seda carbonizada. Por que a Gr�-lady Suroth estava se contendo? Por qu�?</p><empty-line/><p>Jaichim Carridin descansava em sua cadeira, com o manto estendido por sobre os bra�os definidos, estudando os nobres tarabonianos que ocupavam as outras cadeiras do sal�o privativo. Eles permaneciam sentados, r�gidos, em seus casacos bordados, com as bocas contra�das sob m�scaras trabalhadas com capricho para se assemelhar a caras de gavi�es, le�es e leopardos. Jaichim tinha mais preocupa��es do que aqueles homens, mas conseguia manter a conduta tranquila. Fazia tr�s meses que recebera a not�cia de um primo encontrado esfolado vivo na pr�pria cama, e dois desde que sua irm� mais nova, Dealda, fora levada de sua festa de casamento por um Myrddraal. O camareiro da fam�lia escrevera, incr�dulo, assustado com toda a trag�dia que se abatia sobre a Casa Carridin. Dois meses. Desejava que Dealda tivesse recebido a sorte de uma morte r�pida. Diziam que as mulheres n�o mantinham a sanidade por muito tempo, nas m�os dos Myrddraal. Dois meses inteiros. Qualquer outro que n�o fosse Jaichim Carridin estaria suando sangue.</p><p>Cada homem segurava um c�lice dourado de vinho, mas n�o havia servi�ais presentes. Selindrin servira os homens antes de se retirar, garantindo que eles n�o seriam incomodados. De fato, n�o havia mais ningu�m ali, no andar mais alto do Jardim das Brisas de Prata. Dois homens que tinham vindo acompanhar os nobres���integrantes da Guarda do Rei, a menos que Carridin estivesse enganado���permaneciam postados ao p� da escada para assegurar que a privacidade n�o fosse perturbada.</p><p>Carridin bebericou o vinho. Nenhum dos tarabonianos tocara nas ta�as.</p><p>��Ent�o���murmurou���o Rei Andric deseja que os Filhos da Luz ajudem a restaurar a ordem na cidade. N�o � sempre que nos deixamos envolver nas quest�es internas de uma na��o.���Ao que ele sabia, pelo menos, n�o abertamente.���Sem d�vida n�o consigo me lembrar de tal pedido. N�o sei o que o Senhor Capit�o Comandante vai dizer.���Pedron Niall diria que fizessem o necess�rio, que se certificassem de que os tarabonianos soubessem que estavam em d�vida com os Filhos e de que a d�vida fosse paga integralmente.</p><p>��N�o h� tempo para o senhor pedir instru��es a Amador���disse um homem de m�scara negra com estampa de leopardo, em tom de urg�ncia. Ningu�m se apresentara, mas Carridin n�o precisava que o fizessem.</p><p>��O que pedimos � necess�rio���completou outro, bruscamente. Dava para ver um bigode grosso por baixo da m�scara de gavi�o, conferindo-lhe o aspecto de uma estranha coruja.���Voc� precisa entender que n�o estar�amos fazendo este pedido se n�o fosse de extrema necessidade. Precisamos de mais unidade, n�o de mais desuni�o, sim? H� muitos elementos que causam divis�o, mesmo dentro de Tanchico. Eles precisam ser suprimidos, se quisermos que haja a menor esperan�a de impor a paz no campo.</p><p>��A morte da Panarca dificultou ainda mais a quest�o���acrescentou o primeiro sujeito.</p><p>Carridin ergueu uma sobrancelha, em d�vida.</p><p>��J� descobriram quem a matou?</p><p>Ele pr�prio supunha que Andric fosse o respons�vel, acreditando que a Panarca estivesse dando vantagens a um dos rebeldes requerentes ao trono. Talvez o Rei estivesse certo, mas Carridin descobrira, depois de convocar o m�ximo poss�vel da Assembleia de Lordes���um bom n�mero estava no campo com algum dos grupos de rebeldes���que a alta sociedade estava bastante reticente em ratificar a decis�o do Rei. Mesmo que Lady Amathera n�o estivesse dividindo a cama com Andric, a elei��o do Rei e da Panarca era o �nico poder real que a Assembleia possu�a, e os nobres n�o pareciam querer abrir m�o disso. As dificuldades em rela��o a Lady Amathera n�o deveriam vir � tona. At� a Assembleia percebia que a not�cia poderia desencadear motins.</p><p>��Um dos loucos Devotos do Drag�o, sem d�vida���respondeu o homem que parecia uma coruja, dando um pux�o violento no bigode.���Nenhum verdadeiro taraboniano faria mal � Panarca, sim?���Ele soava quase como se acreditasse mesmo no que dizia.</p><p>��� claro���respondeu Carridin, sereno. Tomou outro golinho de vinho.���Se vou proteger o Pal�cio da Panarca para a ascens�o de Lady Amathera, preciso ouvir do Rei em pessoa. Do contr�rio, pode parecer que os Filhos da Luz estavam buscando poder em Tarabon, quando a �nica coisa que buscamos �, como voc�s dizem, um fim � desuni�o, al�m da paz sob a Luz.</p><p>Um leopardo mais velho, de maxilar quadrado e cabelos loiros com mechas brancas, se pronunciou, em um tom frio:</p><p>��Ouvi dizer que Pedron Niall busca uni�o contra os Devotos do Drag�o. Uni�o subordinada a ele, n�o �?</p><p>��O Senhor Capit�o Comandante n�o quer dominar nada���retrucou Carridin, no mesmo tom frio.���Os Filhos servem � Luz, assim como todos os homens de boa vontade.</p><p>��N�o pode haver d�vida���interveio o primeiro leopardo���sobre Tarabon se sujeitar a Amador, de qualquer forma que seja. N�o pode!</p><p>Murm�rios irritados em concord�ncia ressoaram de praticamente todas as cadeiras.</p><p>��� claro que n�o���concordou Carridin, como se a ideia jamais tivesse passado por sua cabe�a.���Se quiserem meu aux�lio, eu dou, mas sob as condi��es que j� expus. Se n�o quiserem, sempre haver� trabalho para os Filhos. Servir � Luz � um trabalho que nunca acaba, pois a Sombra est� sempre � espreita.</p><p>��O senhor ter� as garantias assinadas e seladas pelo Rei���disse um homem grisalho de m�scara de le�o, proferindo suas primeiras palavras.</p><p>Era, naturalmente, o pr�prio Andric, embora Carridin n�o devesse saber. O Rei n�o conseguia se reunir com um Inquisidor da M�o da Luz sem gerar falat�rio, muito menos visitar uma adega, ainda que fosse o Jardim das Brisas de Prata.</p><p>Carridin assentiu.</p><p>��Quando o documento estiver em minhas m�os, protegerei o Pal�cio da Panarca, e os Filhos eliminar�o quaisquer� elementos divisores� que tentem interferir na investidura. Eu juro sob a Luz.</p><p>A tens�o entre os tarabonianos pareceu se aliviar visivelmente. Os nobres baixaram os c�lices como se quisessem mais vinho, at� mesmo Andric.</p><p>At� onde o povo de Tarabon sabia, os Filhos seriam culpados pelas inevit�veis mortes, n�o o Rei, nem o ex�rcito de Tarabon. Uma vez que Amathera recebesse a Coroa e o Cajado da �rvore, mais uns poucos da Assembleia poderiam at� se unir aos rebeldes, mas se o restante admitisse que n�o a elegera, a novidade incendiaria Tanchico. Bem como quaisquer hist�rias contadas pelos fugitivos. Ora, os rebeldes eram capazes de espalhar todo tipo de mentiras trai�oeiras. E o Rei e a Panarca de Tarabon acabariam ambos se balan�ando nos cord�is que Carridin entregaria a Pedron Niall para usar como bem entendesse.</p><p>N�o era um pr�mio t�o grandioso como teria sido quando o Rei de Tarabon ainda controlava mais do que umas poucas centenas de milhas quadradas ao redor de Tanchico, mas poderia voltar a ser. Com a ajuda dos Filhos���seriam necess�rias pelo menos uma ou duas legi�es, n�o apenas os quinhentos homens de que Carridin dispunha���os Devotos do Drag�o ainda poderiam ser aniquilados, e os diversos rebeldes, derrotados. At� a guerra com Arad Doman poderia ser levada adiante com sucesso. Isso se os dois territ�rios sequer percebessem que ainda estavam lutando um contra o outro. Arad Doman estava em piores condi��es do que Tarabon, pelo que Carridin ouvira.</p><p>Na verdade, ele n�o dava a m�nima se Tarabon sucumbiria ao dom�nio dos Filhos, ou Tanchico, ou nenhum dos dois. Havia protocolos a cumprir e coisas a fazer que eram sua obriga��o, mas era dif�cil pensar em algo al�m do momento em que ele pr�prio seria degolado. Talvez ansiasse por isso. J� haviam se passado dois meses inteiros desde as �ltimas not�cias.</p><p>Ele n�o ficou para beber com os tarabonianos, apenas se despediu do modo mais breve poss�vel. Se os outros haviam se ofendido, precisavam demais dele para demonstrar. Selindrin o levou para baixo, e um jovem cavalari�o vinha trotando com o cavalo at� a porta dianteira quando ele chegou � rua. Carridin atirou um cobre para o garoto e p�s o cavalo a meio-galope com uma esporada. O povo em andrajos nas ruas emaranhadas abria caminho para ele, o que era bom���n�o sabia ao certo se notaria, caso pisoteasse algu�m. N�o que fosse ser uma grande perda. A cidade estava apinhada de pedintes, mal dava para respirar sem sentir o fedor de sujeira e suor velho e azedo. Tamrin tinha de varr�-los para fora dali, deixar os rebeldes do campo acabarem com eles.</p><p>Era no campo que estavam seus pensamentos, mas n�o nos rebeldes. Seria bem f�cil lidar com eles depois que a not�cia de que esse ou aquele era Amigo das Trevas come�asse a se espalhar. E, quando conseguisse entregar alguns � M�o da Luz, veria esses poucos se postarem diante de todos e confessar adorar o Tenebroso, comer criancinhas, absolutamente qualquer coisa que a M�o lhes ordenasse. Os rebeldes n�o durariam muito depois disso, e os fals�rios ainda no campo acordariam e se veriam sozinhos. Mas os Devotos do Drag�o, homens e mulheres que de fato haviam se declarado em favor do Drag�o Renascido, n�o desistiriam por conta de uma acusa��o de serem Amigos das Trevas. A maioria j� os considerava assim, por jurarem seguir um homem capaz de canalizar.</p><p>O verdadeiro problema era o homem que haviam jurado seguir, o homem cujo nome sequer sabiam. Rand al�Thor. Onde ele estava? Havia cem bandos de Devotos do Drag�o � solta, pelo menos dois grandes o bastante para serem considerados ex�rcitos, todos lutando contra o ex�rcito do Rei���que ainda permanecia leal a Andric���ou contra os rebeldes���que estavam t�o ocupados lutando entre si quanto contra Andric ou os Devotos do Drag�o. Mas Carridin n�o fazia ideia de qual dos bandos estava com Rand al�Thor. Ele poderia estar na Plan�cie de Almoth ou em Arad Doman, onde a situa��o era a mesma. Se estivesse, Jaichim Carridin seria um homem morto, com toda a certeza.</p><p>No pal�cio em Verana que requisitara como quartel-general dos Filhos, ele jogou as r�deas para um dos guardas de manto branco e avan�ou para o interior, sem retribuir as sauda��es. O propriet�rio daquela massa de domos claros, torres rendadas e jardins de sombras frescas e fartas apresentara uma reivindica��o ao Trono da Luz, e ningu�m mais se queixou da ocupa��o do pal�cio. Muito menos o propriet�rio: o que restava de sua cabe�a ainda adornava uma lan�a no alto da Escada dos Traidores, em Maseta.</p><p>Dessa vez, Carridin mal olhou para os delicados tapetes tarabonianos, as mob�lias ornadas em ouro e marfim, os p�tios onde as fontes de �gua produziam um som de frescor. Amplos corredores com lampi�es dourados e tetos altos, cheios de arabescos com delicados trabalhos em ouro, n�o o deixavam minimamente interessado. O pal�cio podia fazer jus aos mais refinados de Amadicia, qui�� aos maiores, mas o principal pensamento de Carridin naquele instante era o conhaque forte que ficava no aposento que ele definira como gabinete.</p><p>Estava atravessando um carpete de valor inestim�vel, todo em padronagens azuis, vermelhas e douradas, com os olhos fixos no arm�rio entalhado que guardava um frasco prateado de conhaque de dupla destila��o, quando de s�bito percebeu que n�o estava sozinho. Uma mulher de vestido vermelho-claro colado ao corpo estava parada perto das janelas altas e estreitas que davam para um dos jardins arborizados, os cabelos cor de mel e tran�ados ro�avam-lhe os ombros. Um peda�o de v�u di�fano n�o era suficiente para esconder seu rosto. Jovem e bela, com uma boca de bot�o de rosa e grandes olhos castanhos, a mulher n�o era servi�al, nem se vestia como uma.</p><p>��Quem � voc�?���inquiriu Carridin, irritado.���Como veio parar aqui? V� embora de uma vez, ou vou jogar voc� na rua.</p><p>��Amea�as, Bors? Voc� deveria receber melhor seus convidados, sim?</p><p>Aquele nome o abalou dos p�s � cabe�a. Antes mesmo de pensar, j� desembainhara a espada e avan�ara para a garganta da mulher.</p><p>Algo o deteve���o ar se transformou em uma geleia espessa���algo o fez desabar de joelhos e o envolveu do pesco�o para baixo. A coisa apertou seu punho at� os ossos estalarem. Carridin abriu a m�o e a espada caiu. O Poder. A mulher estava usando o Poder �nico nele. Uma bruxa de Tar Valon. E, se ela conhecia aquele nome�</p><p>��Voc� acaso se lembra���come�ou ela, aproximando-se���de uma reuni�o onde Ba�alzamon em pessoa apareceu e nos mostrou os rostos de Matrim Cauthon, Perrin Aybara e Rand al�Thor?���Ela praticamente cuspiu os nomes, sobretudo o �ltimo. Seu olhar era capaz de esburacar uma placa de a�o.���Est� vendo? Sei quem voc� �, sim? Voc� jurou a alma ao Grande Senhor das Trevas, Bors.</p><p>A mulher soltou uma risada repentina, que soava como o tilintar de sinos.</p><p>Suor brotou da face do homem. N�o era apenas uma bruxa desprez�vel de Tar Valon. Uma Ajah Negra. A mulher era da Ajah Negra. Achara que um Myrddraal viria atr�s dele. Pensara que ainda havia tempo. Mais tempo. N�o ainda.</p><p>��Eu tentei matar o garoto���balbuciou.���Rand al�Thor. Eu tentei! Mas n�o consigo encontr�-lo. N�o consigo! Disseram que matariam minha fam�lia se eu fracassasse, um a um. Prometeram que eu seria o �ltimo! Eu ainda tenho primos. Sobrinhos. Sobrinhas. Tenho mais uma irm�! Voc�s precisam me dar mais tempo!</p><p>A mulher ficou ali parada, observando-o com os olhos castanhos e penetrantes, sorrindo com a boquinha carnuda, escutando-o revelar onde estava Vanora, onde ficava seu dormit�rio, como ela gostava de cavalgar sozinha na floresta para al�m de Carmera. Talvez, se ele gritasse, algum dos guardas viesse. Talvez a matassem. Ele escancarou a boca� e aquela geleia espessa e invis�vel jorrou para dentro, for�ando sua mand�bula at� os ouvidos zunirem. Com as narinas infladas ao m�ximo, Carridin sorvia o ar freneticamente. Ainda conseguia respirar, mas n�o podia gritar. Tudo o que sa�a eram ganidos abafados, feito o lamento de uma mulher por tr�s de uma parede. Ele queria gritar.</p><p>��Voc� � muito divertido���disse a mulher de cabelos cor de mel, por fim.���Jaichim. � um nome bom para um cachorro, eu acho. Quer ser meu cachorro, Jaichim? Se for um bom c�ozinho, um dia posso deixar voc� assistir a Rand al�Thor morrer, sim?</p><p>Ele levou um momento para absorver o que a mulher estava dizendo. Se teria a chance de assistir � morte de Rand al�Thor, ent�o ela n�o iria� ela n�o iria mat�-lo, esfol�-lo vivo, fazer as coisas que a mente dele maquinara e que tornariam a morte um al�vio. L�grimas rolaram por seu rosto. Solu�os de al�vio o sacudiram���ao menos o quanto era poss�vel, preso como estava. A armadilha desapareceu de repente, e Carridin desabou no ch�o, de quatro, ainda solu�ando. N�o conseguia parar.</p><p>A mulher ajoelhou-se ao lado dele, entrela�ou uma das m�os em seus cabelos e puxou sua cabe�a.</p><p>��Agora me escute, sim? A morte de Rand al�Thor � para o futuro, e voc� s� vai assistir se for um bom c�ozinho. Voc� vai transferir os Mantos-brancos para o Pal�cio da Panarca.</p><p>��C-c-como a s-s-senhora sabe d-d-disso?</p><p>A mulher sacudiu a cabe�a dele de um lado para o outro, sem delicadeza.</p><p>��Um bom cachorro n�o questiona a dona. Eu jogo o graveto, voc� pega o graveto. Eu mando matar, voc� mata. Sim? Sim.���A mulher exibiu os dentes em um sorriso r�pido.���Vai ser dif�cil tomar o Pal�cio? A Legi�o da Panarca est� l�, mil homens, dormindo nos corredores, nas salas de exposi��o, nos p�tios. Voc� n�o tem todo esse n�mero de Mantos-brancos.</p><p>��Eles����Carridin precisou parar e engolir.���Eles n�o v�o criar problemas. V�o acreditar que Amathera foi escolhida pela Assembleia. � a Assembleia que�</p><p>��N�o me mate de t�dio, Jaichim. N�o me importa se voc� matar a Assembleia inteira, desde que ocupe o Pal�cio da Panarca. Quando voc� se muda?</p><p>��Ʌ vai levar tr�s ou quatro dias para Andric dar a garantia.</p><p>��Tr�s ou quatro dias���murmurou a mulher, meio que para si mesma.���Muito bem. Um pouco mais de atraso n�o vai prejudicar.���Ele j� estava se perguntando sobre que atraso a mulher falava quando ela removeu o pouco de ch�o que ainda restava sob seus p�s.���Voc� vai controlar o Pal�cio e expulsar os bons soldados da Panarca.</p><p>��Imposs�vel���disse, arquejante, e a mulher deu um pux�o t�o forte em sua cabe�a que ele n�o soube se o pesco�o quebraria ou se o couro cabeludo seria arrancado primeiro. N�o ousou resistir. Mil agulhas invis�veis o ferroavam, no rosto, no peito, nas costas, nos bra�os, nas pernas, no corpo inteiro. Invis�veis, mas sem d�vida n�o menos reais.</p><p>��Imposs�vel, Jaichim?���perguntou a mulher, baixinho.���Imposs�vel � uma palavra que eu n�o gosto de ouvir.</p><p>As agulhas se retorceram com mais for�a. Carridin ganiu, mas precisava explicar. O que a mulher queria <emphasis>era</emphasis> imposs�vel. Ele arfava, afobado.</p><p>��Quando Amathera for empossada como Panarca, vai controlar a Legi�o. Se eu tentar controlar o Pal�cio, ela vai mandar todos para cima de mim, e Andric vai ajudar. N�o h� como enfrentar a Legi�o da Panarca e o que Andric conseguir destacar das fortalezas circulares.</p><p>A mulher o analisou por tanto tempo que ele come�ou a suar. N�o ousava se encolher, muito menos piscar. Aquelas mil agulhinhas n�o permitiam.</p><p>��Vamos resolver a quest�o da Panarca���respondeu ela, enfim.</p><p>As agulhas sumiram, e a mulher se levantou.</p><p>Carridin tamb�m se levantou, tentando manter o equil�brio. Talvez conseguisse negociar, j� que a mulher agora parecia disposta a escutar a voz da raz�o. Suas pernas tremiam por conta do choque, mas ele tentou impostar a voz com a maior firmeza poss�vel.</p><p>��Mesmo que a senhora consiga influenciar Amathera�</p><p>Ela o interrompeu.</p><p>��Eu mandei voc� n�o perguntar, Jaichim. Um bom cachorro obedece a dona, sim? Eu prometo que, se voc� n�o me obedecer, vai implorar para que eu encontre um Myrddraal para jogar o graveto. Est� entendendo?</p><p>��Estou���respondeu Carridin, em um tom sombrio. A mulher continuou a encar�-lo, e, depois de um instante, ele compreendeu.���Vou fazer o que est� mandando� senhora.���O sorriso da mulher, breve e aprovativo, o fez ruborizar. Ela se virou para a porta, dando-lhe as costas como se ele de fato fosse um cachorro, e sem dentes.���Qual� qual � o seu nome?</p><p>Desta vez, o sorriso foi doce e debochado.</p><p>��Sim. Um cachorro tem que saber o nome da dona. O meu � Liandrin. Mas esse nome jamais deve tocar a boca de um cachorro. Se isso acontecer, ficarei muito contrariada.</p><p>Quando a porta se fechou atr�s dela, Carridin cambaleou at� uma cadeira de espaldar alto com entalhes em marfim e se sentou. Deixou o conhaque onde estava; do jeito que sentia o est�mago se revirar, acabaria vomitando. Que interesse Liandrin podia ter no Pal�cio da Panarca? Uma pergunta perigosa, talvez. Mas, ainda que os dois servissem ao mesmo mestre, ele n�o conseguia sentir nada al�m de repulsa por uma bruxa de Tar Valon.</p><p>A mulher n�o sabia tanto quanto pensava. Com as garantias do Rei em m�os, Carridin poderia manter Tamrin e o ex�rcito bem longe de seu pesco�o com a amea�a de revela��o, e Amathera tamb�m. No entanto, os dois ainda poderiam incitar a massa. E o Senhor Capit�o Comandante talvez mostrasse mais do que desaprova��o pela coisa toda, talvez acreditasse que ele estava atr�s de poder para si. Carridin apoiou a cabe�a nas m�os, antevendo Niall assinando a ordem de sua morte. Seus pr�prios homens o prenderiam e enforcariam. Se conseguisse provocar a morte da bruxa� Mas a mulher prometera proteg�-lo dos Myrddraal. Ele quis chorar outra vez. Liandrin sequer estava l�, mas o prendia com a mesma for�a de sempre, as mand�bulas de a�o agarradas �s duas pernas e um n� de forca amarrado a seu pesco�o.</p><p>Tinha de haver uma sa�da, mas, para cada canto que olhava, ele s� via mais armadilhas.</p><empty-line/><p>Liandrin percorreu os corredores como um fantasma, sem grandes dificuldades em evitar servi�ais e Mantos-brancos. Ao sair por uma pequena porta dos fundos que dava para um beco estreito atr�s do pal�cio, o homem alto e jovem de guarda a encarou com um misto de al�vio e apreens�o. O truquezinho de deixar os outros abertos �s suas sugest�es���s� um pinguinho do a�oite do Poder���n�o fora necess�rio com Carridin, mas n�o teve problemas em convencer aquele idiota a autorizar sua entrada. Sorrindo, ela fez um gesto para que o homem se aproximasse. O grosseir�o desengon�ado abriu um sorriso largo, como se esperasse um beijo. O sorriso congelou quando a faca de Liandrin atravessou seu olho.</p><p>Ela deu um salto �gil para tr�s quando o homem caiu. Assim, o guarda n�o falaria dela nem por acidente. Nem uma m�sera gotinha de sangue sujara suas m�os. Ela desejou ter a habilidade de Chesmal para matar com o Poder, ou mesmo o talento inferior de Rianna. Era estranho que a capacidade de matar com o Poder, de parar um cora��o ou ferver o sangue nas veias, fosse t�o intimamente ligada � Cura. Liandrin n�o era capaz de Curar mais do que arranh�es ou hematomas���n�o que tivesse qualquer interesse nisso.</p><p>Sua liteira, coberta de verniz vermelho e com entalhes em ouro e marfim, a aguardava no fim da viela junto com os guarda-costas, uma d�zia de homens enormes com express�es de lobos famintos. Uma vez na rua, eles abriram caminho sem esfor�o pela multid�o, as lan�as golpeando quem n�o se afastasse depressa o bastante. Eram todos devotos do Grande Senhor das Trevas, sem d�vida, e, ainda que n�o soubessem muito bem quem ela era, sabiam que outros homens haviam desaparecido, homens que tinham falhado em servi-la de maneira apropriada.</p><p>A casa que Liandrin e as outras haviam ocupado, dois amplos andares de pedra, massa branca e teto reto em uma encosta na base de Verana, a pen�nsula mais a leste de Tanchico, pertencia a um mercador que tamb�m prestara juramentos ao Grande Senhor. Liandrin preferiria um pal�cio. Um dia, talvez, possu�sse o Pal�cio do Rei, em Maseta. Crescera invejando os pal�cios dos Lordes, mas por que deveria se contentar com um daqueles? Apesar de suas prefer�ncias, no entanto, fazia mais sentido manterem-se um tempo escondidas. N�o tinha como as idiotas de Tar Valon suspeitarem de sua presen�a em Tarabon, mas a Torre sem d�vida ainda estava atr�s delas, e as menininhas de Siuan Sanche poderiam estar farejando por qualquer lugar.</p><p>Os port�es se abriram para um pequeno p�tio, com janelas apenas no andar superior. Liandrin deixou os guardas e carregadores do lado de fora e correu para dentro. O mercador fornecera alguns poucos servi�ais���todos jurados ao Grande Senhor, garantiu o homem, mas um n�mero pequeno demais para servir a onze mulheres que quase n�o sa�am. Uma das servas, uma mulher bonita, robusta e de tran�as escuras chamada Gyldin, varria os azulejos vermelhos e brancos do sagu�o de entrada quando Liandrin chegou.</p><p>��Onde est�o as outras?���inquiriu a rec�m-chegada.</p><p>��Na sala de estar da frente.</p><p>Gyldin apontou para a porta dupla em arco � direita, como se Liandrin pudesse n�o saber onde a sala ficava.</p><p>Liandrin apertou os l�bios. A mulher nunca fazia mesuras ou utilizava pronomes de tratamento. A bem da verdade, Gyldin n�o sabia quem Liandrin de fato era, mas sem d�vida deveria saber que era importante o suficiente para dar ordens e ser obedecida, para fazer aquele mercador gordo se curvar, se arrastar e mandar a fam�lia embora para alguma choupana.</p><p>��Voc� deveria estar limpando, sim? N�o circulando por a�? Ora, ent�o limpe! Tem poeira para tudo que � lado. Ora, sua vaca, se eu encontrar um gr�ozinho de poeira esta noite mando espancar voc�!���Liandrin cerrou os dentes com for�a. Passara tanto tempo imitando a forma como os nobre e ricos falavam que �s vezes esquecia que seu pai vendia frutas em um carrinho. No entanto, em momentos de ira o linguajar da plebe lhe escapava. Era muita tens�o. Muita espera.���V� trabalhar!���gritou por fim, ent�o entrou na sala de estar e bateu a porta atr�s de si.</p><p>As outras n�o estavam <emphasis>todas</emphasis> l�, o que a deixou ainda mais irritada, mas havia o bastante delas. Eldrith Jhondar, de rosto redondo, estava sentada a uma mesa marchetada em l�pis-laz�li sob uma tape�aria presa a uma parede caiada, e, com muita aten��o, tomava notas a partir de um manuscrito esfarrapado. Vez ou outra, a mulher, distra�da, limpava a ponta da pena na manga do vestido de l� escura. Marillin Gemalphin estava sentada junto a uma das janelas estreitas, os olhos azuis e sonhadores fixos na diminuta fonte no pequeno p�tio, afagando, absorta, as orelhas de um gato amarelo e magro, aparentemente alheia aos pelos que o bicho deixava em seu vestido de seda verde. Ela e Eldrith eram Marrons. Mesmo assim, caso Marillin algum dia descobrisse que Eldrith era a raz�o pela qual os gatos de rua que ela trazia continuavam a desaparecer, haveria problemas.</p><p>Elas tinham sido Marrons. �s vezes era dif�cil lembrar que j� n�o eram, ou que ela mesma j� n�o era Vermelha. Muitas das caracter�sticas �bvias que as identificavam como integrantes das antigas Ajahs ainda permaneciam, mesmo agora que todas estavam abertamente comprometidas com a Ajah Negra. As duas antigas Verdes, por exemplo: de pele acobreada e pesco�o longo feito o de um cisne, Jeaine Caide usava o vestido de seda mais fino e justo que conseguia arranjar���o de hoje era branco���e dava risada, dizendo que os vestidos teriam de servir, j� que n�o havia qualquer coisa dispon�vel em Tarabon para atrair a aten��o dos homens. Jeaine era de Arad Doman, e as mulheres domanesas eram conhecidas por suas roupas escandalosas. Asne Zeramene, com os olhos escuros e obl�quos e o nariz pronunciado, parecia quase t�mida e retra�da em um traje cinza claro, de corte simples e gola alta, mas Liandrin j� a ouvira se lamentar mais de uma vez por ter deixado os Guardi�es para tr�s. Quanto a Rianna Andomeran� Os cabelos negros com uma mecha completamente branca por sobre a orelha emolduravam um rosto com a express�o confiante, fria e arrogante que apenas uma Branca era capaz de exibir.</p><p>��Pronto���anunciou Liandrin.���Jaichim Carridin deslocar� os Mantos-brancos para o Pal�cio da Panarca e o ocupar� para n�s. Ele ainda n�o sabe que teremos convidados� � claro.���Algumas fizeram caretas; a mudan�a de Ajah n�o alterara os sentimentos de nenhuma delas em rela��o aos homens que odiavam mulheres capazes de canalizar.���Tem um detalhe interessante. O homem achou que eu tinha ido at� l� para mat�-lo. Por ter falhado em acabar com Rand al�Thor.</p><p>��Isso n�o faz sentido���comentou Asne, de cenho franzido.���Temos que prend�-lo, control�-lo, n�o mat�-lo.���De repente ela soltou uma risada baixa e suave, recostando-se de volta na cadeira.���Isso <emphasis>se</emphasis> houver um meio de control�-lo. E olha que eu n�o me importaria de prend�-lo a mim. � um rapaz muito bonito, pelo pouco que vi.</p><p>Liandrin fungou. N�o gostava nem um pouco de homens.</p><p>Rianna balan�ou a cabe�a, preocupada.</p><p>��Faz sentido e � preocupante. As ordens que recebemos da Torre foram expl�citas, mas tamb�m est� claro que Carridin recebeu outras. Posso apenas pressupor que haja diverg�ncias entre os Abandonados.</p><p>��Os Abandonados���murmurou Jeaine, cruzando os bra�os com irrita��o. A seda fina e branca moldava os seios, deixando-os ainda mais � mostra.���De que adiantam as promessas de governarmos o mundo quando o Grande Senhor retornar se acabarmos no meio das disputas entre Abandonados? Ser� que algu�m acredita que temos condi��es de enfrentar qualquer um deles?</p><p>��Fogo devastador.���Asne olhou em volta, os olhos escuros desafiadores.���O fogo devastador pode destruir mesmo um dos Abandonados. E temos como produzi-lo.</p><p>Um dos <emphasis>ter�angreal</emphasis> que haviam levado da Torre, uma barra preta pregueada de um passo de comprimento, possu�a esse fim. Nenhuma delas sabia por que haviam recebido ordem para lev�-lo, nem mesmo Liandrin. Estavam �s cegas com muitos dos <emphasis>ter�angreal</emphasis>: haviam recebido ordens de lev�-los sem qualquer raz�o aparente, mas certas ordens tinham de ser cumpridas. Liandrin desejou que tivessem conseguido ficar com pelo menos um dos <emphasis>angreal</emphasis>.</p><p>Jeaine fungou alto, com desd�m.</p><p>��Isso se alguma de n�s conseguir control�-lo. Ou voc� j� se esqueceu de que eu quase morri na �nica vez em que nos atrevemos a tentar? Isso sem falar no buraco dos dois lados do navio, que foi aberto antes que eu conseguisse controlar o inc�ndio? Teria sido uma beleza se a gente naufragasse antes de chegar em Tanchico.</p><p>��Que necessidade temos de usar fogo devastador?���perguntou Liandrin.���Se conseguirmos controlar o Drag�o Renascido, poderemos deixar os Abandonados pensando em como v�o lidar conosco.���De repente ela notou mais uma presen�a na sala. Era a tal Gyldin, esfregando uma cadeira entalhada e de espaldar baixo, em um canto.���O que est� fazendo aqui, mulher?</p><p>��Limpando.���A mulher de tran�as escuras se endireitou, displicente.���A senhora me mandou limpar.</p><p>Liandrin quase a atacou com o Poder. Quase. Mas Gyldin decerto n�o sabia que elas eram Aes Sedai. O que a mulher teria ouvido? Nada de importante.</p><p>��V� at� o cozinheiro���mandou, com a voz g�lida���e mande o homem bater em voc�. Bem forte! E vai ficar sem comer at� limpar toda essa poeira.���Mais uma vez a mulher a fizera falar feito uma plebeia.</p><p>Marillin se levantou, encostando o nariz do gato amarelo no dela, e entregou a criatura a Gyldin.</p><p>��D� a ele uma tigela de nata, depois que o cozinheiro terminar com voc�. E um pouco daquele cordeiro gostoso. Corte em peda�os pequenos, n�o restaram muitos dentes no bichano, pobrezinho.���Gyldin encarou a mulher sem piscar, e ela acrescentou:���Alguma coisa que voc� n�o tenha entendido?</p><p>��Eu entendi.���Gyldin apertou os l�bios. Talvez enfim tivesse entendido que era uma servente, n�o uma igual.</p><p>Liandrin aguardou um instante depois que a mulher se retirou com o gato aninhado nos bra�os, ent�o abriu uma das portas com viol�ncia. O corredor estava vazio. Gyldin n�o estava bisbilhotando. N�o confiava na mulher, por outro lado, n�o conseguia pensar em algu�m em quem de fato confiasse.</p><p>��Precisamos nos ocupar de nossas ocupa��es���disse com firmeza, fechando a porta.���Eldrith, encontrou mais alguma pista nessas p�ginas? Eldrith?</p><p>A mulher roli�a levou um susto, depois olhou em volta, piscando. Era a primeira vez que erguia a cabe�a do manuscrito amarelo surrado, e parecia surpresa em ver Liandrin.</p><p>��O qu�? Pista? Ah. N�o. J� � uma dificuldade entrar na Biblioteca do Rei, se eu arrancasse uma m�sera p�gina, as bibliotec�rias perceberiam na hora. Mas, se me livrasse delas, nunca encontraria nada. Aquele lugar � um labirinto. N�o, encontrei isso com um livreiro perto do Pal�cio do Rei. � um tratado interessante sobre�</p><p>Abra�ando <emphasis>saidar</emphasis>, Liandrin soprou as folhas para longe, espalhando-as pelo ch�o.</p><p>��A n�o ser que seja um tratado sobre como controlar Rand al�Thor, deixe que queime! O que foi que voc� descobriu sobre o que estamos buscando?</p><p>Eldrith fitou os pap�is espalhados.</p><p>��Bom, est� no Pal�cio da Panarca.</p><p>��Voc� descobriu isso dois dias atr�s.</p><p>��E deve ser um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Controlar algu�m capaz de canalizar requer o uso do Poder e, como � um uso especializado, isso significa que deve ser um <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Deve estar na sala de exposi��es, ou talvez com a cole��o da Panarca.</p><p>��Alguma novidade, Eldrith.���Com esfor�o, Liandrin impostou a voz em um tom menos estridente.���Encontrou alguma novidade? Qualquer uma?</p><p>A mulher de rosto redondo piscou, indecisa.</p><p>��Na verdade� n�o.</p><p>��N�o importa���interveio Marillin.���Daqui a poucos dias, quando tiverem empossado sua preciosa Panarca, poderemos dar in�cio � nossa busca, e encontraremos o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, nem que tenhamos de vasculhar cada casti�al. Estamos muito perto, Liandrin. Prenderemos Rand al�Thor em uma coleira e o ensinaremos a sentar e a rolar.</p><p>��Ah, sim���concordou Eldrith, com um sorriso contente.���Numa coleira.</p><p>Liandrin torcia para que conseguissem. Estava cansada de esperar, cansada de se esconder. Que o mundo soubesse de uma vez quem ela era. Que o povo se ajoelhasse, como fora prometido quando trocou os juramentos antigos pelos novos.</p><empty-line/><p>Egeanin percebeu que n�o estava sozinha assim que p�s os p�s na cozinha da pequena casa, mas largou a m�scara e a bolsa de juta sobre a mesa e caminhou at� um balde d��gua que jazia ao lado da lareira de tijolos. Quando se agachou para apanhar a concha de cobre, a m�o direita passou depressa por um buraco fundo atr�s do balde, onde dois tijolos haviam sido removidos. Ela deu um giro e se levantou com uma pequena besta nas m�os. Tinha n�o mais do que um p� de comprimento e pouco poder ou alcance, mas Egeanin sempre a mantinha preparada, e o pequeno borrat�o na ponta da l�mina afiada era suficiente para matar em um piscar de olhos.</p><p>Se o homem encostado displicentemente � parede do canto notara a besta, n�o deu sinal. Tinha cabelos claros e olhos escuros, era de meia-idade e bem-apessoado, embora muito magro para o gosto dela. Estava claro que a vira cruzar o p�tio estreito at� a janela com grades de ferro a seu lado.</p><p>��Me considera uma amea�a?���indagou o homem, depois de um instante.</p><p>Egeanin reconheceu o sotaque familiar de sua terra natal, mas n�o baixou a arma.</p><p>��Quem � voc�?</p><p>Como resposta, o homem enfiou dois dedos na bolsa do cinto, com muito cuidado���pareceu finalmente ter visto a arma���e retirou um objeto pequeno e liso. Ela fez um gesto para que ele o deixasse sobre a mesa e se afastasse outra vez.</p><p>Somente depois que o homem j� estava de volta no canto foi que ela se aproximou para pegar o que ele deixara. Sem tirar os olhos nem a besta da dire��o dele, ergueu o objeto para ver melhor. Uma pequena placa de marfim com bordas de ouro e um corvo e uma torre gravados. Os olhos do corvo eram safiras negras. Um corvo, s�mbolo da fam�lia Imperial. Era a Torre dos Corvos, s�mbolo da justi�a Imperial.</p><p>��Em geral isso seria suficiente���disse ela ao homem���mas estamos bem longe de Seanchan, em uma terra onde o bizarro � quase lugar-comum. Que outra prova o senhor pode oferecer?</p><p>Com um sorriso silencioso que revelava seu divertimento, o homem retirou o casaco, desamarrou o la�o da camisa e a despiu. Em cada ombro havia uma tatuagem do corvo e da torre.</p><p>A maioria dos Inquiridores da Verdade ostentava corvos e a torre, mas nem mesmo algu�m que ousasse roubar uma placa de Inquiridor marcaria o pr�prio corpo daquela forma. Usar os corvos significava marcar-se como propriedade da fam�lia Imperial. Havia uma antiga hist�ria sobre dois jovens tolos, um lorde e uma lady, que ficaram muito b�bados e se tatuaram, uns trezentos anos antes. Quando a Imperatriz soube, mandou levar os dois at� a Corte das Nove Luas e os p�s para esfregar o ch�o. Esse sujeito talvez fosse um de seus descendentes. A marca do corvo era para sempre.</p><p>��Pe�o desculpas, Inquiridor���disse a mulher, abaixando a besta.���Por que est� aqui?</p><p>N�o perguntou o nome do homem; qualquer que ele fornecesse poderia ou n�o ser o verdadeiro.</p><p>Ele deixou a mulher segurando a placa enquanto vestia a blusa, bem devagar. Um lembrete sutil. Egeanin era capit�, e ele era propriedade, mas tamb�m era um Inquiridor, e, aos olhos da lei, tinha autoridade para mand�-la para interrogat�rio. Aos olhos da lei, tinha o direito de mand�-la comprar a corda para se amarrar para interrog�-la ali mesmo, e ficaria esperando que ela retornasse com a encomenda. Fugir de um Inquiridor era crime. Recusar-se a cooperar com um Inquiridor era crime. Egeanin nunca cogitara cometer um crime, n�o mais do que cogitara trair o Trono de Cristal. Por�m, se o homem fizesse as perguntas erradas, se exigisse as respostas erradas� a besta ainda estava ao alcance de suas m�os, e Cantorin estava bem longe. Ideias loucas. Ideias perigosas.</p><p>��Eu sirvo � Gr�-lady Suroth e � <emphasis>Corenne</emphasis>, pela Imperatriz���anunciou ele.���Estou conferindo o progresso dos agentes que a Gr�-lady designou para atuar nestas terras.</p><p>Conferindo? O que havia para ser conferido, ainda mais por um Inquiridor?</p><p>��Os barcos mensageiros n�o trouxeram not�cias de sua vinda.</p><p>O sorriso do homem se alargou, e Egeanin corou. �bvio que as tripula��es n�o falariam sobre um Inquiridor. Mesmo assim ele respondeu, enquanto amarrava a camisa.</p><p>��Os barcos mensageiros n�o devem ser postos em risco com minhas viagens. Pedi passagem nas embarca��es de um contrabandista local, um homem chamado Bayle Domon. O navio dele para em todos os pontos de Tarabon e Arad Doman, e tamb�m entre os dois lugares.</p><p>��Ouvi falar desse homem���respondeu ela, calma.���Foi tudo bem?</p><p>��Agora est� tudo bem. Fico feliz por voc�, ao menos, ter entendido suas instru��es corretamente. Entre os outros, apenas os Inquiridores foram capazes de entend�-las. � uma pena que n�o haja mais Inquiridores com a <emphasis>Hailene</emphasis>.���O homem ajeitou o casaco nos ombros, ent�o tomou a placa de Inquiridor das m�os de Egeanin.���Houve certo constrangimento em rela��o ao retorno das <emphasis>sul�dam</emphasis> desertoras. Tais deser��es n�o devem se tornar do conhecimento de todos. � melhor que essas mulheres tenham simplesmente desaparecido.</p><p>Ela s� conseguiu manter a express�o pl�cida porque teve um pouco de tempo para pensar. <emphasis>Sul�dam</emphasis> haviam sido deixadas para tr�s no fiasco de Falme, pelo que ouvira dizer. Algumas deviam ter desertado. A instru��o, dada pela Gr�-lady Suroth em pessoa, fora a de enviar de volta todas as que fossem encontradas, quisessem elas ou n�o, ou, caso n�o fosse poss�vel, livrar-se delas. O que parecera apenas uma alternativa em �ltimo caso. At� agora.</p><p>��Lamento que estas terras n�o conhe�am kaf���comentou o homem, tomando um lugar � mesa.���Mesmo em Cantorin, s� o Sangue ainda toma kaf. Pelo menos a situa��o estava assim, quando fui embora. Talvez alguns navios de suprimentos tenham chegado de Seanchan. Mas ch� est� de bom tamanho. Fa�a um ch� para mim.</p><p>Egeanin quase o derrubou da cadeira. O homem era propriedade. E Inquiridor. Ela coou o ch�. Ent�o serviu-o, permanecendo com o bule ao lado da cadeira para manter a x�cara cheia. Ficou surpresa por ele n�o t�-la mandado p�r um v�u e dan�ar em cima da mesa.</p><p>Enfim obteve permiss�o para se sentar, depois de apanhar pena, tinta e papel. Isso foi apenas para rascunhar mapas de Tanchico e suas defesas, desenhar todas as aldeias e cidades sobre as quais n�o sabia muita coisa. Listou as mais diversas for�as no campo, enunciando o quanto sabia sobre seu tamanho e lealdade e o que deduzira de sua ordena��o.</p><p>Quando Egeanin terminou, o homem enfiou tudo no bolso, mandou-a enviar o conte�do do saco de juta no pr�ximo barco mensageiro e saiu dando um daqueles sorrisos satisfeitos, dizendo que talvez conferisse o progresso dela dentro de algumas semanas.</p><p>Egeanin permaneceu sentada durante um bom tempo depois da sa�da do Inquiridor. Cada mapa que rascunhara e cada lista que fizera eram c�pias de pap�is enviados havia muito por barcos mensageiros. Mand�-la fazer tudo de novo sob sua inspe��o talvez tivesse sido a puni��o do homem por ela t�-lo for�ado a exibir as tatuagens. Os Guardas da Vig�lia da Morte exibiam seus corvos, mas era raro os Inquiridores o fazerem. Talvez tivesse sido isso. Pelo menos o homem n�o tinha descido ao por�o antes de ela chegar. Ou ser� que tinha? Ser� que estava apenas esperando que ela falasse?</p><p>O robusto cadeado de ferro, aparentemente intocado, pendia da porta do corredor logo na sa�da da cozinha, mas corria � boca mi�da que os Inquiridores conseguiam abrir cadeados sem chaves. Egeanin tirou a chave da bolsa do cinto, abriu o cadeado e desceu a escada estreita.</p><p>Uma lumin�ria em uma prateleira clareava o por�o empoeirado. Apenas quatro paredes de tijolos, sem nada que pudesse auxiliar a fuga. O leve odor vindo do balde de necessidades pairava no ar. Do lado oposto do lampi�o, uma mulher em um vestido imundo estava sentada, melanc�lica, sobre alguns cobertores de l� crua. Ela ergueu a cabe�a ao ouvir os passos de Egeanin, os olhos escuros cheios de medo e s�plica. Tinha sido a primeira <emphasis>sul�dam</emphasis> que ela encontrara. A primeira e �nica. Egeanin praticamente parou de procurar, depois de encontrar Bethamin. E Bethamin estava naquele por�o desde ent�o, enquanto os barcos mensageiros iam e vinham.</p><p>��Algu�m desceu aqui?���perguntou.</p><p>��N�o. Ouvi uns passos l� em cima, mas� n�o.���Bethamin estendeu as m�os para ela.���Por favor, Egeanin. Isso tudo � um engano. Voc� me conhece h� dez anos. Tire essa coisa de mim.</p><p>Uma coleira de prata envolvia seu pesco�o, ligada por uma grossa corrente a um bracelete que estava preso a um pino alguns p�s acima de sua cabe�a. Prender a mulher naquilo fora quase um acidente, apenas um meio de cont�-la por alguns instantes. Ent�o Bethamin conseguira dar um jeito de derrubar Egeanin, em um movimento brusco, na tentativa de se libertar.</p><p>��Se voc� o trouxer at� mim, eu tiro���respondeu Egeanin, cheia de raiva. Sentia raiva de muitas coisas, n�o de Bethamin.���Traga o <emphasis>a�dam</emphasis> aqui, e eu tiro.</p><p>Bethamin estremeceu e deixou as m�os ca�rem.</p><p>��� um engano���sussurrou.���Um engano terr�vel.</p><p>Mas a mulher n�o fez qualquer movimento em dire��o ao bracelete. A primeira tentativa de fuga a deixara se contorcendo no ch�o do andar superior, assolada pela n�usea, e Egeanin ficara estupefata.</p><p>As <emphasis>Sul�dam</emphasis> controlavam as <emphasis>damane</emphasis>, mulheres capazes de canalizar, com o aux�lio do <emphasis>a�dam</emphasis>. Eram as <emphasis>damane</emphasis> que podiam canalizar, n�o as <emphasis>sul�dam</emphasis>. No entanto, um <emphasis>a�dam</emphasis> s� podia controlar uma mulher capaz de canalizar. Nenhuma outra mulher ou homem���os jovens rapazes com essa habilidade eram executados, naturalmente���apenas mulheres capazes de canalizar. As que tinham essa habilidade e eram encolaradas n�o conseguiam se deslocar mais do que alguns passos sem o bracelete no pulso de uma <emphasis>sul�dam</emphasis> para completar o elo.</p><p>Egeanin sentia-se bastante cansada ao subir as escadas e trancar a porta outra vez. Queria um pouco de ch�, mas o pouco que o Inquiridor deixara estava frio, e ela n�o queria fazer mais. Em vez disso, sentou-se e tirou o <emphasis>a�dam</emphasis> de dentro da bolsa de juta. Para ela, era apenas um peda�o de prata muito bem soldada. N�o podia us�-lo, e o objeto s� podia feri-la caso algu�m o usasse para golpe�-la.</p><p>O simples fato de se ligar a um <emphasis>a�dam,</emphasis> �quela altura, mesmo sem a capacidade de o objeto control�-la, era o suficiente para que um arrepio percorresse sua espinha. Mulheres capazes de canalizar eram animais perigosos, n�o pessoas. Elas � que tinham provocado a Ruptura do Mundo. Tinham de ser controladas, ou transformariam todos em suas propriedades. Fora isso que ela aprendera, o que era ensinado em Seanchan havia mil anos. Era estranho que o mesmo parecesse n�o ter acontecido por ali. N�o. Essa era uma linha de pensamento perigosa e insensata.</p><p>Enfiou o <emphasis>a�dam</emphasis> de volta na bolsa e limpou as lou�as do ch� para organizar a mente. Gostava de organiza��o e sentia uma pequena satisfa��o em manter a cozinha limpa. Antes que reparasse, estava coando um ch� para tomar. N�o queria pensar em Bethamin, o que tamb�m era perigoso e insensato. Sentando-se de volta � mesa, misturou mel a uma x�cara do ch� mais preto que conseguiu coar. N�o era kaf, mas servia.</p><p>Apesar das nega��es, apesar das justificativas, Bethamin sabia canalizar. Ser� que outras <emphasis>sul�dam</emphasis> tamb�m sabiam? Teria sido por isso que Gr�-lady Suroth desejava a morte das que haviam sido deixadas para tr�s, em Falme? Era inconceb�vel. Era imposs�vel. Os testes anuais em toda Seanchan identificavam cada menina que portava a centelha da canaliza��o: todas foram removidas do rol de cidad�os, apagadas dos registros familiares, levadas para se tornarem <emphasis>damane</emphasis> encolaradas. Os mesmos testes haviam localizado as meninas capazes de aprender a usar o bracelete de <emphasis>sul�dam</emphasis>. Nenhuma mulher escapava de ser testada a cada ano, at� ter idade para come�ar a canalizar, caso a centelha estivesse presente. Como uma garota sequer poderia ter sido tomada por <emphasis>sul�dam</emphasis> se, na verdade, era <emphasis>damane</emphasis>? Ainda assim, Bethamin estava no por�o, presa a um <emphasis>a�dam</emphasis> como a uma �ncora.</p><p>Uma coisa era certa. As possibilidades que se apresentavam eram potencialmente fatais. Aquilo envolvia o Sangue e os Inquiridores. Talvez at� o Trono de Cristal. Ser� que a Gr�-lady Suroth teria coragem de esconder uma informa��o daquelas da Imperatriz? Uma simples capit� de navio poderia ser torturada at� a morte por exibir um olhar de desagrado diante de algu�m de tal n�vel, ou passar a ser propriedade por um mero capricho. Precisava descobrir mais, se quisesse evitar a Morte das Dez Mil L�grimas. Para come�ar, isso significava dar mais dinheiro a Gelb e a outros bisbilhoteiros covardes feito ele, encontrar mais <emphasis>sul�dam</emphasis> e ver se elas podiam ser contidas por <emphasis>a�dam</emphasis>. Al�m disso� Al�m disso, estava navegando por mares inexplorados, sem ningu�m na proa para conduzir.</p><p>Tocando a besta, ainda preparada com o ferrolho letal, percebeu que havia outra certeza. N�o permitiria que os Inquiridores a matassem. N�o para simplesmente ajudar a Gr�-lady Suroth a guardar segredo. Talvez por motivo nenhum. Era um pensamento assustadoramente pr�ximo da trai��o, mas que n�o lhe sa�a da cabe�a.</p></section><section><title><p>39</p><p><image l:href="#9"/></p><p>Uma ta�a de vinho</p></title><p>Quando Elayne chegou ao deque, com os pertences embrulhados em uma trouxa organizada, o sol poente parecia encostar na �gua logo al�m da entrada do porto de Tanchico. Al�m disso, nos �ltimos cabos grossos estavam sendo amarradas para acomodar o <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> a um embarcadouro cheio de navios enfileirados, apenas um de muitos ao longo da pen�nsula mais ocidental da cidade. Alguns tripulantes recolhiam as �ltimas velas. Atr�s dos cais compridos, a cidade se erguia sobre as montanhas, branca e reluzente, cheia de domos e pin�culos, com cata-ventos polidos cintilando ao sol. Mais ou menos uma milha ao norte dava para distinguir muralhas altas e arredondadas. Era o Grande C�rculo, se n�o lhe falhava a mem�ria.</p><p>Ela pendurou a trouxa no mesmo ombro onde estava o alforje de couro e foi se juntar a Nynaeve, Coine e Jorin na prancha de embarque. Era um tanto estranho ver as irm�s vestidas outra vez, em blusas brilhosas de seda brocada combinando com as cal�as largas. J� estava acostumada com os brincos e pingentes de nariz, e a bela corrente de ouro que cruzava a face escura de cada uma das duas j� quase n�o lhe causava afli��o.</p><p>Thom e Juilin permaneciam afastados, carregando as pr�prias trouxas, os semblantes um tanto emburrados. Nynaeve tinha raz�o. Eles tinham tentado criticar suas escolhas desde que o real prop�sito da viagem, ou parte dele, lhes fora revelado, dois dias antes. Nenhum dos dois parecia pensar que duas jovens mulheres tinham compet�ncia���<emphasis>compet�ncia!</emphasis>���para ca�ar a Ajah Negra. Bastou uma amea�a de Nynaeve de transferi-los a outro navio do Povo do Mar, navegando no sentido oposto, para cortar o mal pela raiz. Pelo menos depois que Toram e uma d�zia de tripulantes se uniram para obrigar os dois a entrar em um barquinho a remo para fazer a transfer�ncia de navios. Elayne lan�ou a eles um olhar indagativo. O ar emburrado indicava rebeli�o; aqueles dois ainda causariam mais problemas.</p><p>��Para onde v�o agora, Coine?���perguntou Nynaeve, quando Elayne as alcan�ou.</p><p>��Para Dantora, para as Aile Jafar���respondeu a Mestra das Velas���depois seguiremos at� Cantorin e as Aile Somera para espalhar as not�cias do Coramoor, se aprouver � Luz. Mas preciso deixar Toram fazer neg�cios aqui, ou ele vai explodir.</p><p>O marido dela estava no cais, sem as estranhas lentes no aro de arame presas ao rosto, de dorso nu e cheio de an�is, conversando com muita empolga��o com homens em cal�as brancas largas e casacos com ombros bordados em arabescos. Os homens de Tanchico usavam um quepe escuro e cil�ndrico e um v�u transparente cobrindo o rosto. Os v�us conferiam um aspecto meio rid�culo, sobretudo aos que tinham bastos bigodes.</p><p>��Que a luz permita que voc�s viajem em seguran�a���desejou Nynaeve, ajeitando a trouxa nas costas.���Se detectarmos qualquer amea�a antes de voc�s zarparem, mandaremos um aviso.</p><p>Coine e a irm� pareciam bastante tranquilas. Saber da Ajah Negra quase n�o as atormentava. Era Rand, o Coramoor, a not�cia mais importante.</p><p>Jorin beijou as pontas dos dedos e apertou-os contra os l�bios de Elayne.</p><p>��Queira a Luz que nos vejamos de novo.</p><p>��Queira a Luz���respondeu Elayne, imitando o gesto da Chamadora de Ventos.</p><p>Ainda era estranho, mas tamb�m era uma honra, um cumprimento usado somente entre familiares pr�ximos ou amantes. Sentiria falta da mulher do Povo do Mar. Aprendera bastante, e tamb�m ensinara um pouquinho. Jorin com certeza estava muito melhor em urdir Fogo.</p><p>Quando chegaram � base da prancha de embarque, Nynaeve soltou um suspiro de al�vio. Uma po��o oleosa feita por Jorin havia acalmado seu est�mago depois de dois dias no mar, mas, mesmo assim, a antiga Sabedoria passara a viagem de olhos e boca bem fechados, at� Tanchico surgir � vista.</p><p>Os dois homens na mesma hora se posicionaram um � frente e um atr�s das duas, sem qualquer instru��o. Juilin tomou a lideran�a com a trouxa nas costas, segurando o cajado claro e da largura de um polegar com ambas as m�os, os olhos escuros alertas. Thom assumiu a retaguarda, exibindo uma express�o amea�adora, apesar dos cabelos brancos, da manqueira e do manto de menestrel.</p><p>Nynaeve apertou os l�bios por um instante, mas n�o disse uma palavra, o que Elayne considerou bastante s�bio. Antes de darem cinquenta passos pelo comprido cais de pedra, j� tinha visto um sem-n�mero de homens de aspecto faminto e olhos semicerrados a estud�-las, em meio aos nativos e forasteiros transportando caixotes, fardos e sacas para o desembarcadouro. Suspeitou que qualquer um deles estivesse disposto a degol�-la na esperan�a de que um vestido de seda pusesse dinheiro em seus bolsos. Os homens n�o a assustavam; ela podia dar conta de dois ou tr�s, tinha certeza. No entanto, tanto ela quanto Nynaeve levavam os an�is da Grande Serpente nas bolsas, e seria in�til fingir que n�o possu�am liga��o com a Torre Branca, se come�assem a canalizar diante de cem homens. Era melhor que Juilin e Thom fizessem as caras mais bravas que pudessem. N�o teria se incomodado se estivessem acompanhadas por mais uns dez deles.</p><p>De s�bito, ouviu-se um estrondo vindo do conv�s de um dos navios menores.</p><p>��Voc�s! S�o voc�s mesmo!</p><p>Um homem largo e de rosto redondo, vestindo um casaco verde de seda, pulou no cais, ignorando o cajado erguido de Juilin e encarando Elayne e Nynaeve. Uma barba sem bigode o identificava como illianense, al�m do sotaque. O sujeito parecia vagamente familiar.</p><p>��Mestre Domon?���perguntou Nynaeve, depois de um instante, dando um pux�o forte na tran�a.���Bayle Domon?</p><p>O homem assentiu.</p><p>���. Pensei que nunca veria as duas de novo. Eu� Eu esperei o quanto pude em Falme, mas teve um momento em que era ir embora ou ver meu navio pegar fogo.</p><p>Elayne agora o reconhecia. O homem concordara em lev�-las embora de Falme, mas o caos assolara a cidade antes que conseguissem chegar � embarca��o. O casaco dava provas de que o homem n�o passara dificuldades, desde ent�o.</p><p>��Que prazer ver o senhor outra vez���disse Nynaeve, em um tom frio���mas, se nos d� licen�a, temos que procurar hospedagem na cidade.</p><p>��Vai ser dif�cil. Tanchico est� explodindo de gente. Mas, no caso, conhe�o um lugar onde minha conversa talvez valha de alguma coisa. Eu nem devia mesmo ficar mais tempo em Falme, mas, no caso, sinto que estou em d�vida com as duas.���Domon fez uma pausa, franzindo o sobrolho com uma inquieta��o repentina.���E com voc�s estando aqui� vai acontecer o mesmo que em Falme?</p><p>��N�o, Mestre Domon���respondeu Elayne, quando Nynaeve hesitou.���� claro que n�o. E ficamos felizes em aceitar sua ajuda.</p><p>Uma parte dela esperou que Nynaeve protestasse, mas a mulher mais velha apenas assentiu, pensativa, e deu instru��es aos homens. O manto de Thom fez Domon erguer as sobrancelhas���por um instante, Elayne quase achou que ele reconhecera o menestrel���mas a indument�ria tairena de Juilin gerou uma carranca que foi retribu�da � altura. Ainda assim, nenhum dos homens disse uma palavra. Talvez conseguissem manter a animosidade entre Tear e Illian fora de Tanchico. Se n�o, ela teria de lidar com os dois com muita firmeza.</p><p>Enquanto acompanhava o grupo pelo desembarcadouro, Domon contou o que lhe acontecera desde Falme. O homem de fato vinha prosperando.</p><p>��No caso, os coletores de impostos da Panarca s� conhecem uns doze bons navios costeiros���comentou ele, rindo���mas nem sequer conhecem quatro de �guas profundas.</p><p>O homem n�o podia ter ficado t�o sincero em t�o pouco tempo. Elayne ficou chocada ao ouvi-lo falar t�o abertamente em um cais cheio de homens.</p><p>���, no caso, eu fa�o contrabando mesmo, e ganho como nunca imaginei. Boto um d�cimo do que eu gastaria em impostos nos bolsos dos homens da alf�ndega e isso j� deixa todo mundo de bico calado.</p><p>Dois tanchicanos com os tais v�us e chap�us redondos passaram por eles, as m�os cruzadas nas costas. Cada um levava uma pesada chave de lat�o pendurada em uma corrente grossa no pesco�o, que parecia simbolizar algum of�cio. Os dois cumprimentaram Domon com um aceno de cabe�a. Thom estava bem-humorado, mas Juilin tinha os olhos cravados tanto em Domon quanto nos dois sujeitos de Tanchico. Como ca�ador de ladr�es, ele tinha um desprezo particular pelos que zombavam da lei.</p><p>��Mas nem acredito que vai durar muito mais tempo���comentou Domon, depois que os tanchicanos passaram.���No caso, as coisas est�o ainda piores em Arad Doman do que aqui, e olha que j� est�o bem ruins por aqui. Talvez o Lorde Drag�o nem tenha come�ado a pr�xima Ruptura do Mundo ainda, mas com certeza j� rompeu Arad Doman e Tarabon.</p><p>Elayne quis responder com um coment�rio mordaz, mas o grupo chegava ao p� do cais, ent�o ela aguardou em sil�ncio enquanto Domon contratava liteiras, carregadores e uma d�zia de homens com cajados pesados e rostos severos. Guardas com espadas e lan�as estavam parados no fim do cais, e tinham jeito de guarda-costas, n�o de soldados. Do outro lado da rua larga, ao longo da fileira de desembarcadouros, centenas de rostos encovados e abatidos encaravam os guardas. �s vezes, alguns olhos titubeavam na dire��o dos navios, mas em geral se mantinham fixos nos homens que os impediam de chegar �s embarca��es. Lembrando-se do que Coine dissera sobre o povo cercando sua embarca��o, todos desesperados para comprar passagens para qualquer lugar longe de Tanchico, Elayne sentiu um calafrio. Quando aqueles olhos famintos encaravam os navios, a necessidade ardia dentro deles. Elayne permanecia r�gida na cadeira, sacolejando ao passar pela multid�o que se abria diante dos cutuc�es dos cajados, tentando n�o olhar para qualquer coisa em particular. N�o queria ver aqueles rostos. Onde estava o rei deles? Por que n�o cuidava de seu povo?</p><p>Domon levou o grupo a uma estalagem de parede caiada logo abaixo do Grande C�rculo, cuja placa acima do port�o apresentava o lugar como o Jardim das Tr�s Ameixeiras. O �nico jardim que Elayne via era um quintal de paredes altas, todo pavimentado de pedras que ficava na frente da estalagem, uma constru��o quadrada de tr�s andares, sem janelas no t�rreo e cujas janelas de cima ostentavam ex�ticas grades de ferro. Do lado de dentro, homens e mulheres lotavam o sal�o, a maioria em trajes t�picos de suas terras, e o burburinho de vozes quase abafava a melodia de um salt�rio.</p><p>Nynaeve arquejou quando viu a estalajadeira, uma bela mulher, n�o muito mais velha do que ela pr�pria, de olhos castanhos, pequenas tran�as cor de mel, e um v�u que n�o escondia os l�bios carnudos e rosados. Elayne tamb�m se assustou, mas n�o era Liandrin. Estava claro que a mulher���que se chamava Rendra���conhecia Domon muito bem. Com sorrisos receptivos para Elayne e Nynaeve e dando aten��o demais ao fato de Thom ser um menestrel, ela forneceu ao grupo os dois �ltimos quartos a um pre�o que Elayne suspeitou ser menor que o habitual. Elayne certificou-se de que ela e Nynaeve pegassem o de cama maior. J� dividira a cama com a amiga, que se mexia demais.</p><p>Rendra tamb�m serviu o jantar em uma sala privada, que foi trazido por dois jovens servi�ais com v�us. Elayne se viu diante de um prato de cordeiro assado com geleia de ma�� apimentada e algum tipo de feij�o comprido e amarelado, preparado com pinh�es. N�o conseguiu tocar a comida. Todos aqueles rostos esfomeados� Domon n�o se fez de rogado, com seu contrabando e seu ouro. Thom e Juilin tamb�m n�o tiveram reservas.</p><p>��Rendra���chamou Nynaeve, baixinho���algu�m aqui ajuda os pobres? Posso contribuir com um bom punhado de ouro, se for de alguma ajuda.</p><p>��Pode doar para a cozinha de Bayle���respondeu a estalajadeira, abrindo um sorriso para Domon.���O homem foge de todos os impostos, mas cobra de si mesmo. Para cada coroa que d� de suborno, devolve duas para a sopa e o p�o dos pobres. J� at� me convenceu a doar, e olhe que <emphasis>eu</emphasis> pago meus impostos.</p><p>��No caso, desembolso menos que os impostos���resmungou Domon, curvando os ombros na defensiva.���Tenho mesmo lucros muito generosos, e que a Sorte me espicace se eu estiver mentindo.</p><p>��Que bom que o senhor gosta de ajudar os outros, Mestre Domon���comentou Nynaeve, depois que Rendra e os serventes se retiraram. Thom e Juilin se levantaram para conferir se eles tinham mesmo sa�do. Com uma meia mesura, Thom deixou Juilin abrir a porta; o corredor do lado de fora estava vazio. Nynaeve prosseguiu na mesma hora.���Talvez tamb�m precisemos da ajuda do senhor.</p><p>A faca e o garfo do illianense pararam de cortar um peda�o de cordeiro.</p><p>��Como?���perguntou o homem, desconfiado.</p><p>��N�o sei exatamente, Mestre Domon. O senhor tem navios. Deve ter homens. Talvez precisemos de olhos e ouvidos. Pode muito bem haver integrantes da Ajah Negra em Tanchico, e temos que encontr�-las, se for o caso.</p><p>Nynaeve levou � boca uma garfada de feij�o, como se tivesse dito a coisa mais trivial do mundo. Parecia estar contando a todo mundo sobre a Ajah Negra, ultimamente.</p><p>Domon ficou de queixo ca�do para a mulher, depois olhou incr�dulo para Thom e Juilin, que retornavam �s cadeiras. Quando os dois assentiram, ele empurrou o prato de lado e apoiou a cabe�a nos bra�os. Ele estava prestes a ganhar um soco de Nynaeve, se a forma como ela apertava os l�bios era algum indicativo, e Elayne n�o a culparia. Por que o homem precisaria olhar os outros dois para confirmar as palavras dela?</p><p>Por fim, Domon se endireitou.</p><p>��Vai acontecer outra vez. Falme, tudo de novo. Talvez, no caso, seja hora de eu me preparar para partir. Se eu levar meus navios de volta para Illian, tamb�m serei um homem rico por l�.</p><p>��Duvido que o senhor considere Illian um bom destino���retrucou Nynaeve, em um tom firme.���Fiquei sabendo que Sammael agora governa tudo por l�, ainda que n�o abertamente. O senhor talvez n�o fa�a bom proveito de sua riqueza, sob o dom�nio de um dos Abandonados.���Os olhos de Domon quase saltaram das �rbitas, mas ela prosseguiu.���N�o existem mais lugares seguros. O senhor pode correr feito um coelho, mas n�o pode se esconder. Ser� que n�o � melhor fazer o poss�vel para lutar como um homem?</p><p>Nynaeve estava sendo muito dura. Ela sempre achava melhor intimidar os outros. Elayne sorriu e se inclinou para tocar o bra�o de Domon.</p><p>��N�o � nossa inten��o intimid�-lo, Mestre Domon, mas pode ser que precisemos mesmo de sua ajuda. Sei que o senhor � um homem corajoso, ou n�o teria esperado tanto tempo por n�s, como fez em Falme. Ficaremos muito gratas.</p><p>��Voc�s s�o muito boas nessa coisa toda���resmungou Domon.���Uma d� o a�oite de um boiadeiro, a outra vem com o mel de uma rainha. Ah, muito bem. No caso, vou ajudar como puder. Mas de jeito nenhum vou ficar para ver outra Falme.</p><p>Thom e Juilin come�aram a interrogar o capit�o a respeito de Tanchico, durante o resto da refei��o. Juilin, pelo menos, o fazia de modo indireto, sugerindo perguntas para Thom sobre quais distritos os ladr�es, lar�pios e trapaceiros frequentavam, quais adegas usavam e quem comprava suas mercadorias roubadas. O ca�ador de ladr�es argumentava que era comum tais grupos saberem mais do que se passava em uma cidade do que as pr�prias autoridades. Ele parecia n�o querer falar diretamente com o illianense. Domon, por sua vez, bufava sempre que respondia a uma das perguntas do taireno feita pelo menestrel. E s� respondia <emphasis>depois</emphasis> que Thom as verbalizava.</p><p>Os questionamentos do pr�prio Thom n�o faziam sentido, pelo menos n�o vindos de um menestrel. Ele perguntava sobre nobres e fac��es, sobre quem era aliado de quem e quem se opunha a quem, sobre quem tinha quais objetivos declarados, no que suas a��es resultavam e se os resultados eram diferentes do que supostamente desejavam. N�o era nem de longe o tipo de pergunta que Elayne esperava ouvir dele, mesmo depois de todas as conversas no <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis>. O homem estivera bastante disposto a conversar com ela���e at� parecia gostar do papo���mas, de alguma maneira, toda vez que Elayne pensava que conseguiria cavar alguma coisa sobre o passado do menestrel, ele a irritava e a fazia ir embora. Domon respondia a Thom com mais vivacidade do que a Juilin. De toda forma, conhecia Tanchico muito bem, tanto os lordes e oficiais quanto a esc�ria. Pelo que falava, parecia haver pouca diferen�a entre os dois grupos.</p><p>Depois que os dois homens espremeram o contrabandista at� o talo, Nynaeve pediu a Rendra que trouxesse pena, papel e tinta e rascunhou uma lista descrevendo cada uma das irm�s Negras. Segurando as folhas com muito cuidado em uma das m�os enormes, Domon franziu o sobrolho, preocupado, como se os nomes fossem as pr�prias mulheres. Ainda assim, prometeu mandar seus homens que estavam no porto ficarem de olhos bem abertos. Quando Nynaeve lembrou a Bayle que todos deveriam tomar extremo cuidado, ele deu risada do mesmo modo que riria se a mulher o tivesse mandado n�o se ferir com a pr�pria espada.</p><p>Juilin saiu na cola de Domon, rodopiando o bast�o claro e dizendo que a noite era a melhor hora para encontrar ladr�es e o povo que vivia dos ladr�es. Nynaeve anunciou que estava se retirando para o quarto���<emphasis>seu</emphasis> quarto���para deitar um pouco. Parecia um tanto vacilante, e de s�bito Elayne percebeu por qu�. A mulher se acostumara ao balan�o do <emphasis>Bailador,</emphasis> e agora estava com dificuldade de caminhar no ch�o que <emphasis>n�o</emphasis> balan�ava. O est�mago de Nynaeve n�o era uma companhia de viagem agrad�vel.</p><p>Elayne acompanhou Thom at� o sal�o, onde ele prometera a Rendra que se apresentaria. Por um milagre, a mulher encontrou um banco em uma mesa vazia, e bastaram alguns olhares frios para afastar os homens que de repente come�aram a querer sentar ali. Rendra trouxe para ela uma caneca de prata com vinho, e a Filha-herdeira bebericou enquanto ouvia Thom tocar a harpa, entoando cantigas de amor como �A Primeira Rosa do Ver�o� e �O Vento que Balan�a o Salgueiro�, al�m de outras can��es divertidas, como �Apenas Uma Bota� e �O Velho Ganso Grisalho�. A plateia vibrava, batendo nas mesas em aplausos. Depois de um tempo, Elayne tamb�m come�ou a imit�-los. N�o chegara nem � metade do vinho, mas um belo atendente sorriu para ela e encheu sua caneca. Tudo era ex�tico e excitante. Durante toda a vida, n�o estivera mais de cinco vezes no sal�o de uma estalagem, e nunca bebendo e se divertindo como uma plebeia.</p><p>Agitando a capa para tremular os retalhos multicoloridos, Thom contou hist�rias, como �Mara e os Tr�s Reis Tolos� e muitos contos de Anla, a Conselheira S�bia. Ele tamb�m recitou um longo trecho de <emphasis>A Grande Ca�ada � Trombeta</emphasis>, fazendo-o de modo que os cavalos pareceram empinar e os trompetes estrondearam ali mesmo no sal�o, e homens e mulheres lutaram, amaram e morreram. Ele seguiu noite adentro, cantando e recitando, com pequenas pausas aqui e ali para molhar a garganta com um gole de vinho enquanto os fregueses clamavam por mais. A mulher que antes tocava o salt�rio estava sentada em um canto, com o instrumento nos joelhos e uma express�o azeda no rosto. O povo jogava muitas moedas para Thom, que convocara um rapazote para apanh�-las, e era pouco prov�vel que tivessem feito o mesmo pela m�sica da mulher.</p><p>Tudo aquilo parecia combinar bastante com Thom, sobretudo a harpa e o recital. Bem, ele era um menestrel, mas parecia ser mais do que isso. Elayne poderia jurar que j� ouvira o homem recitar <emphasis>A Grande Ca�ada</emphasis>, mas em Alto Canto, n�o em Simples. Como era poss�vel? Ele era apenas um velho menestrel.</p><p>Enfim, j� �s altas horas da noite, Thom fez uma mesura e um �ltimo floreio com a capa e rumou para as escadas, em meio a uma algazarra de punhos golpeando as mesas. Elayne batia na dela com o mesmo vigor dos outros presentes.</p><p>Em seguida, tentou se levantar e escorregou, ent�o caiu sentada de novo, franzindo o cenho para a caneca de prata. Estava cheia de vinho. Ela bebera um pouco, tinha certeza. Sentia-se tonta por algum motivo. Sim. Aquele jovem simp�tico com doces olhos castanhos tinha enchido a caneca���quantas vezes? N�o que isso importasse. Ela nunca bebera mais do que uma caneca de vinho. Estava assim por ter sa�do do <emphasis>Bailador</emphasis> e voltado � terra firme. Estava tendo a mesma rea��o de Nynaeve.</p><p>Ela se levantou com cuidado���recusando as mais sol�citas ofertas de ajuda do jovem simp�tico���e conseguiu subir as escadas, apesar do balan�o dos degraus. Sem parar no segundo andar, onde ficava o quarto dela e de Nynaeve, subiu at� o terceiro e bateu � porta de Thom. O menestrel abriu uma fresta e espiou o corredor, desconfiado. Parecia levar uma faca nas m�os, que desapareceu depressa. Estranho. Ela agarrou o bigode comprido do homem.</p><p>��Eu me lembro���disse. Sua l�ngua parecia n�o estar funcionando direito, as palavras sa�am� embaralhadas.���Eu estava sentada no seu joelho e puxei o seu bigode����Ela deu um pux�o para demonstrar, e o homem se encolheu.���E minha m�e se apoiou no seu ombro e riu de mim.</p><p>��Acho melhor a senhorita voltar para o quarto���disse Thom, tentando soltar a m�o dela.���Acho que est� precisando dormir um pouco.</p><p>Ela se recusa a solt�-lo. Na verdade, parecia ter empurrado o homem de volta para dentro do quarto. Pelo bigode.</p><p>��Minha m�e tamb�m sentava no seu joelho. Eu vi. Eu me lembro.</p><p>��� melhor ir dormir, Elayne. A senhorita vai se sentir melhor de manh�.���Thom conseguiu soltar a m�o da mo�a e foi tentando conduzi-la at� a porta, mas ela deu um giro para contorn�-lo. A cama n�o tinha colunas. Se houvesse uma coluna onde se segurar, talvez o quarto parasse de rodopiar.</p><p>��Quero saber por que a minha m�e se sentava no seu joelho.���O homem deu um passo atr�s, e ela percebeu que estava tentando puxar seu bigode outra vez.���O senhor � um menestrel. Minha m�e n�o se sentaria no joelho de um menestrel.</p><p>��V� dormir, crian�a.</p><p>��Eu n�o sou crian�a!���Ela bateu o p� com for�a e quase caiu. O ch�o estava mais baixo do que parecia.���N�o sou crian�a. O senhor vai me contar. Agora!</p><p>Thom suspirou e balan�ou a cabe�a. Por fim disse, em um tom formal:</p><p>��Eu nem sempre fui menestrel. J� fui bardo, por um tempo. Bardo da corte. Em Caemlyn, na verdade. Para a Rainha Morgase. Voc� era uma crian�a. Est� apenas se lembrando do jeito errado, � s�.</p><p>��O senhor era amante dela, n�o era?���O tremor nos olhos de Thom foi o bastante.���Era! Eu sempre soube de Gareth Bryne. Pelo menos, deduzia. Sempre torci para que ela se casasse com ele. Gareth Bryne, o senhor e esse Lorde Gaebril, para quem Mat falou que ela agora olha toda derretida, e� quantos mais? Quantos? O que a faz diferente de Berelain, que joga na cama todo homem que cruza seu caminho? Ela � igualzinha����A vis�o de Elayne ficou turva, e sua cabe�a zuniu. Levou um instante para perceber que tinha levado um tapa. Um <emphasis>tapa</emphasis>! Ela se recomp�s, desejando que o homem parasse de balan�ar.���Como voc� ousa? Eu sou a Filha-herdeira de Andor, e n�o serei�</p><p>��Voc� � uma garotinha que encheu a cara de vinho e est� tendo um ataque de raiva���retrucou o menestrel.���E se eu ouvir voc� falar qualquer coisa desse tipo sobre Morgase, b�bada ou s�bria, vou lhe dar umas palmadas, n�o importa o quanto canalize! Morgase � uma boa mulher, t�o boa quanto qualquer outra!</p><p>��Ah, �?���A voz de Elayne estremeceu, e ela percebeu que chorava.���Ent�o por que ela� por qu�?���Percebeu que enfiara o rosto no casaco dele, que alisava seus cabelos.</p><p>��Porque ser rainha � muito solit�rio���respondeu Thom, baixinho.���Porque a maioria dos homens que se sentem atra�dos por uma rainha enxerga poder, n�o uma mulher. Eu via uma mulher, e ela sabia disso. Suponho que Bryne visse o mesmo, e esse tal de Gaebril tamb�m. Voc� precisa entender, crian�a. Todo mundo quer ter algu�m na vida, algu�m de quem gostar. At� uma rainha.</p><p>��Por que o senhor foi embora?���murmurou Elayne, apoiada no peito dele.���O senhor me fazia rir. Eu me lembro disso. E tamb�m a fazia rir. E me carregava no ombro.</p><p>��� uma longa hist�ria.���Thom soltou um suspiro sofrido.���Outra hora eu conto. Se voc� perguntar. Com sorte, vai ter se esquecido de tudo amanh� de manh�. Est� na hora de ir para a cama, Elayne.</p><p>Ele a conduziu at� a porta, e ela aproveitou a oportunidade para dar mais um pux�o em seu bigode.</p><p>��Assim���disse, satisfeita.���Eu puxava bem assim.</p><p>���, puxava mesmo. Consegue descer as escadas sozinha?</p><p>��Claro que consigo.</p><p>Ela lan�ou o olhar mais altivo que tinha, por�m Thom pareceu mais inclinado do que nunca a acompanh�-la at� o corredor. Para provar que n�o havia necessidade, Elayne avan�ou com muito cuidado at� o topo da escada. Parado na porta, Thom ainda exibia uma careta de preocupa��o quando ela come�ou a descer.</p><p>Por sorte, Elayne n�o trope�ou at� sair do alcance da vista do homem, mas passou direto pela porta de seu quarto e precisou voltar. Aquela geleia de ma�� devia ter algo de errado, sabia que n�o devia ter comido tanto. Lini sempre dizia� N�o conseguia lembrar o que Lini sempre dizia, mas era alguma coisa sobre comer doces demais.</p><p>Duas lamparinas queimavam no quarto, uma na mesinha redonda ao lado da cama e outra na cornija caiada acima da lareira de tijolos. Nynaeve estava estirada na cama, por cima das cobertas, toda vestida. E de bra�os abertos, Elayne notou.</p><p>Ela disse a primeira coisa que lhe veio � cabe�a.</p><p>��Rand deve me achar uma louca, Thom � um bardo e Morgase n�o � minha m�e, afinal de contas.���Nynaeve a encarou, curiosa.���Estou meio tonta, n�o sei por qu�. Um rapaz simp�tico com lindos olhos castanhos se ofereceu para me trazer aqui em cima.</p><p>��Aposto que sim���comentou Nynaeve, irritada. Ela se levantou e passou o bra�o em torno dos ombros de Elayne.���Venha c� um instante. Tem uma coisa que voc� precisa ver.���Parecia haver um balde extra de �gua perto do lavat�rio.���Aqui. Vamos nos ajoelhar, para voc� ver melhor.</p><p>Elayne olhou, mas n�o havia nada no balde al�m de seu reflexo n��gua. Ela ficou se perguntando por que estava com um sorriso t�o grande. Ent�o sentiu a m�o de Nynaeve em sua nuca, e sua cabe�a foi enfiada na �gua.</p><p>Ela sacudiu os bra�os e tentou se levantar, mas o punho de Nynaeve parecia uma barra de ferro. O correto era prender a respira��o, quando se estava debaixo d��gua. Elayne sabia disso. S� n�o conseguia se lembrar de como fazer. S� conseguia se debater, gorgolejar e sufocar.</p><p>Nynaeve puxou-a de volta, a �gua escorrendo pelo rosto, e Elayne encheu os pulm�es.</p><p>��Como� voc� ousa����arquejou.���Eu sou� a Filha-herdeira����Ela conseguiu emitir um ganido antes que sua cabe�a retornasse � �gua, molhando tudo ao redor. Agarrar o balde com as duas m�os e empurr�-lo n�o adiantava. Bater os p�s no ch�o n�o adiantava. Ia se afogar. Nynaeve ia afog�-la.</p><p>Depois de uma Era, retornou ao ar. Seu rosto estava cheio de fios de cabelo encharcados.</p><p>��Acho���come�ou, com a voz mais firme poss�vel���que vou vomitar.</p><p>Bem a tempo, Nynaeve puxou a grande bacia esmaltada em branco do lavat�rio e segurou a cabe�a de Elayne, que punha para fora tudo o que j� comera na vida. Um ano depois���ou pelo menos algumas horas depois, de todo modo, parecera tempo demais���Nynaeve come�ou a lavar seu rosto, limpando a boca, banhando as m�os e os pulsos. No entanto, n�o havia nada de delicado na voz dela.</p><p>��Como voc� p�de fazer isso? Que ideia foi essa? Eu n�o ficaria surpresa se um homem bebesse at� n�o conseguir parar em p�, mas voc�? E esta noite, ainda por cima.</p><p>��Eu s� tomei uma caneca���resmungou Elayne.</p><p>Mesmo com aquele rapaz mantendo-a cheia, n�o podia ter sido mais de duas. Com certeza n�o.</p><p>��Uma caneca do tamanho de uma jarra.���Nynaeve fungou e a ajudou a se levantar. Puxou-a, na verdade.���Voc� consegue ficar acordada? Vou procurar Egwene, e ainda n�o tenho certeza se consigo sair de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> sem algu�m para me acordar.</p><p>Elayne piscou. As duas tinham procurado Egwene, sem sucesso, todas as noites desde que ela desaparecera de repente daquele encontro no Cora��o da Pedra.</p><p>��Ficar acordada? Nynaeve, � a minha vez de procurar, e � melhor que eu v�. Voc� sabe que s� consegue canalizar se estiver irritada, e����Ent�o percebeu que a outra mulher estava envolta no brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>. E achou que j� estava assim havia algum tempo. Sua cabe�a parecia cheia de palha, e o pensamento tinha que escavar para passar. Mal conseguia sentir a Fonte Verdadeira.���Acho que � melhor voc� ir. Eu fico acordada.</p><p>Nynaeve franziu a testa, mas acabou assentindo. Elayne tentou ajud�-la a se despir, mas seus dedos n�o estavam conseguindo soltar aqueles bot�ezinhos. Resmungando entre dentes, Nynaeve desabotoou tudo sozinha. S� de camisola, ela enroscou o retorcido anel de pedra no cord�o de couro que usava no pesco�o, ao lado de um anel masculino, pesado e dourado. Era o anel de Lan, e Nynaeve sempre o usava pendurado no pesco�o.</p><p>Elayne puxou um banquinho baixo de madeira para o lado da cama enquanto Nynaeve se deitava outra vez no colch�o. De fato sentia-se bastante sonolenta, mas n�o cairia no sono sentada ali. O problema parecia ser n�o cair no ch�o.</p><p>��Vou acordar voc� depois do que parecer uma hora.</p><p>Nynaeve assentiu, ent�o fechou os olhos, as m�os agarradas aos dois an�is. Depois de um tempo, sua respira��o se tornou profunda.</p><empty-line/><p>O Cora��o da Pedra estava bastante vazio. Espiando a escurid�o por entre as grandes colunas, Nynaeve circulou <emphasis>Callandor</emphasis>, que brilhava sobre as pedras do piso, antes de perceber que ainda estava de camisola, o cord�o de couro com os dois an�is pendurado no pesco�o. Ela franziu o cenho e, depois de um instante, viu-se em um vestido de Dois Rios feito de boa l� castanha, al�m de usar sapatos pesados. Tanto Elayne quanto Egwene pareciam achar aquele tipo de coisa f�cil, mas n�o era f�cil para ela. Passara momentos constrangedores em visitas anteriores a <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, a maioria depois de ter pensamentos aleat�rios a respeito de Lan, mas trocar de roupa por vontade pr�pria exigia concentra��o. Bastava isso���a lembran�a de Lan���para o vestido passar a ser de seda, t�o transparente quanto o v�u de Rendra. Berelain teria ficado envergonhada. E Nynaeve tamb�m ficou, ao pensar em Lan vendo-a daquele jeito. Foi um esfor�o trazer a l� castanha de volta.</p><p>E pior, a raiva passara���aquela garota idiota; ser� que n�o percebia o que acontecia quando algu�m bebia vinho demais? Ser� que nunca estivera sozinha em um sal�o? Bem, provavelmente n�o���e a Fonte Verdadeira podia muito bem ter parado de existir. Talvez n�o importasse. Incomodada, encarou a floresta de imensas colunas de pedra vermelhas, que dobravam em uma curva em um ponto distante. O que fizera Egwene ir embora t�o de repente?</p><p>A Pedra estava silenciosa, com um vazio oco. Ela ouvia o sangue pulsando nos pr�prios ouvidos. Mesmo assim, sentia um leve calafrio entre as omoplatas, como se algu�m a observasse.</p><p>��Egwene?���O grito ecoou no sil�ncio entre as colunas.���Egwene?���Nada.</p><p>Ao esfregar as m�os na saia, percebeu que segurava um graveto retorcido com um calombo na ponta. Nossa, que coisa mais �til. No entanto, segurou o graveto com for�a. Uma espada seria melhor���por um instante, o graveto tremeluziu, quase virando uma espada���mas era algo que ela n�o sabia usar. Riu sozinha, pesarosa. Um porrete servia tanto quanto uma espada, por ali: ambos eram praticamente in�teis. Canalizar era a �nica defesa, al�m de correr. O que lhe deixava apenas uma escolha, no momento.</p><p>Queria correr, ainda mais com aquela sensa��o de ser observada, mas n�o se entregaria t�o f�cil. Por�m, o que fazer? Egwene n�o estava ali. Estava em algum lugar do Deserto. Rhuidean, dissera Elayne. Onde quer que isso ficasse.</p><p>Entre um passo e outro, ela de s�bito chegou � encosta de uma montanha, com o sol escaldante se erguendo sobre outras montanhas para al�m do vale abaixo, cozinhando o ar seco. O Deserto. Estava no Deserto. Por um instante, ficou surpresa com o sol, mas o Deserto ficava bem a leste, de modo que o sol poderia estar nascendo l�, e ainda ser noite em Tanchico. De toda forma, em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> n�o fazia diferen�a. At� onde sabia, o dia e a noite ali n�o tinham qualquer rela��o com o que se passava no mundo real.</p><p>Sombras compridas e p�lidas ainda cobriam quase que metade do vale, mas uma estranha massa de n�voa se adensava l� embaixo, aparentemente inalterada pelo calor do sol. Grandes torres se elevavam na neblina, algumas pareciam inacabadas. Uma cidade. No Deserto?</p><p>Apertando os olhos, conseguiu distinguir outra pessoa no vale. Um homem, embora �quela dist�ncia s� fosse poss�vel enxergar algu�m que parecia vestir cal�as e um casaco azul-claro. Decerto n�o era Aiel. O homem caminhava no limiar da neblina, vez ou outra parando para cutuc�-la. Ela n�o tinha certeza, mas parecia que a m�o do homem sempre parava um pouco antes de chegar � neblina. Talvez aquilo n�o fosse uma n�voa.</p><p>��Voc� tem que sair daqui���disse uma voz premente de mulher.���Se aquele ali vir voc�, vai acabar morta, ou pior.</p><p>Nynaeve deu um salto e rodopiou, o porrete erguido, quase perdendo o equil�brio na encosta.</p><p>A mulher de p� um pouco acima dela usava um casaco branco curto e cal�as volumosas amarelo-claras espremidas acima de botas curtas. O manto se avolumou com uma lufada de vento seco. Foram os longos cabelos loiros, presos em uma tran�a intrincada, e o arco prateado nas m�os da mulher que fizeram um nome sair da boca incr�dula de Nynaeve.</p><p>��<emphasis>Birgitte</emphasis>?���Birgitte, hero�na de uma centena de hist�rias, e seu arco de prata que jamais falhava. Birgitte, uma das hero�nas mortas que a Trombeta de Valere convocaria de volta da tumba para lutar na �ltima Batalha.���Imposs�vel. Quem � voc�?</p><p>��N�o temos tempo, mulher. Voc� tem que ir antes que ele a veja.���Em um movimento suave, ela puxou uma flecha de prata da aljava na cintura, encaixou-a, e a aproximou da orelha. A flecha de prata ficou apontada direto para o cora��o de Nynaeve.���Ande!</p><p>Nynaeve disparou.</p><p>N�o soube ao certo como, mas viu-se em Campo de Emond, no meio do campo, encarando a estalagem Fonte de Vinho, com as chamin�s e o teto de telhas vermelhas. Telhados de palha rodeavam o campo, onde a nascente Fonte de Vinho brotava de um afloramento de pedras. O sol estava bem alto ali, embora Dois Rios ficasse bem a leste do Deserto. Mesmo assim, apesar do c�u sem nuvens, uma sombra escura se abatia sobre a aldeia.</p><p>Teve apenas um instante para se perguntar como o povo estaria passando sem ela. Captou um r�pido movimento com o canto do olho, um lampejo prateado, e viu uma mulher se agachando atr�s da curva da casa asseada de Ailys Candwin, perto do Rio Fonte de Vinho. Birgitte.</p><p>Nynaeve n�o hesitou. Correu at� uma das pontes que cruzavam o c�rrego estreito e agitado. Seus sapatos pisoteavam as t�buas de madeira.</p><p>��Volte aqui���gritou.���Pode voltar aqui e me responder! Quem era aquele homem? Pode voltar aqui, ou vai mesmo virar uma hero�na! Acerto um soco t�o forte nessa sua cara que voc� vai pensar que viveu uma aventura!</p><p>Contornou a casa de Ailys, mas sem muita esperan�a de ver Birgitte. O que n�o esperava era ver um homem de casaco escuro trotando em sua dire��o, a menos de cem passadas, vindo pela rua de terra batida. Prendeu a respira��o. Lan. N�o era ele, mas tinha o mesmo formato de rosto, os mesmos olhos. O homem parou, ergueu o arco, e disparou uma flechada. Na dire��o dela. Gritando, Nynaeve se jogou para o lado, desesperada para acordar.</p><empty-line/><p>Quando Nynaeve gritou e se sentou na cama, com os olhos arregalados, Elayne levantou-se de um salto, derrubando o banquinho.</p><p>��O que houve, Nynaeve? O que houve?</p><p>A mulher estremeceu.</p><p>��Parecia Lan. Parecia Lan, e tentou me matar.���Ela levou a m�o tr�mula ao bra�o esquerdo, onde gotejava sangue de um corte superficial, um pouco abaixo do ombro.���Se eu n�o tivesse pulado, teria acertado meu cora��o.</p><p>Elayne sentou-se na beirada da cama e examinou o corte.</p><p>��N�o foi feio. Vou lavar e enfaixar para voc�.���A jovem desejou saber Curar. Tentar sem saber poderia piorar ainda mais a ferida. De qualquer jeito, n�o passava de um cortezinho. Sem mencionar que sua cabe�a ainda parecia cheia de geleia. Geleia mole.���N�o era Lan. Fique calma. Seja l� quem fosse, n�o era Lan.</p><p>��Eu sei���retrucou Nynaeve, em um tom �cido.</p><p>Relatou o que acontecera com a mesma voz nervosa. N�o sabia ao certo se o homem que atirara nela em Campo de Emond e o homem que vira no Deserto eram a mesma pessoa. A pr�pria Birgitte j� tinha sido bastante inacredit�vel.</p><p>��Tem certeza?���indagou Elayne.���Birgitte?</p><p>Nynaeve suspirou.</p><p>��A �nica coisa de que tenho certeza � que n�o encontrei Egwene. E que n�o vou voltar hoje.���Ela socou a pr�pria coxa.���Onde ela est�? O que aconteceu com ela? Se tiver cruzado com aquele sujeito do arco� ah, Luz!</p><p>Elayne teve que pensar por um minuto; queria muito dormir, e seus pensamentos vagueavam.</p><p>��Ela disse que poderia n�o estar por l� quando fosse hora de encontr�-la de novo. Talvez seja por isso que tenha sa�do t�o depressa. Seja l� por que n�o p�de� quer dizer����N�o estava conseguindo falar coisa com coisa, n�o conseguia se expressar direito.</p><p>��Espero que sim���disse Nynaeve, em um tom cansado. Ela encarou Elayne e acrescentou:���Melhor voc� ir para a cama. Est� com cara de quem vai desmaiar.</p><p>Elayne ficou grata em ser ajudada a se despir. Lembrou-se de enfaixar o bra�o de Nynaeve, mas a cama estava t�o convidativa que n�o conseguiu pensar em mais nada. De manh� talvez o quarto j� tivesse parado de girar. O sono veio assim que a cabe�a encostou no travesseiro.</p><p>De manh�, queria estar morta.</p><p>O sol mal despontara no c�u, e o sal�o estava vazio, exceto por Elayne. Com a cabe�a nas m�os, encarou a caneca que Nynaeve colocara em cima da mesa antes de sair para procurar o estalajadeiro. A cada inspira��o sentia o cheiro, e seu nariz tentava se fechar. Sentia a cabe�a� n�o era poss�vel descrever. Se algu�m se oferecesse para arranc�-la, Elayne seria capaz de agradecer.</p><p>��Tudo bem?</p><p>Ela deu um pulo ao ouvir a voz de Thom e quase n�o conseguiu conter um choramingo.</p><p>��Tudo muito bem, obrigada.���Falar fazia a cabe�a latejar. Ele remexeu o bigode, desconfiado.���Suas hist�rias de ontem foram maravilhosas, Thom. Pelo menos o que eu me lembro delas.���Conseguiu esbo�ar uma risadinha de autocensura.���Receio que n�o me lembre de muita coisa, exceto de ficar sentada escutando. Acho que comi uma geleia de ma�� estragada.</p><p>N�o pretendia admitir que bebera todo aquele vinho, ainda n�o fazia ideia de quanto fora. Nem que fizera papel de idiota no quarto dele. Principalmente essa parte. O homem pareceu acreditar, pela forma aliviada como se sentou em uma cadeira.</p><p>Nynaeve apareceu, entregou um pano �mido a Elayne e se sentou. Tamb�m empurrou mais para perto a caneca com aquele neg�cio horroroso. Elayne, grata, pressionou o pano na testa.</p><p>��Algum de voc�s viu Mestre Sandar agora de manh�?���perguntou a mulher mais velha.</p><p>��Ele n�o dormiu no quarto���respondeu Thom.���Pelo que devo ser grato, considerando o tamanho da cama.</p><p>Como se as palavras o tivessem invocado, Juilin surgiu � porta da frente, o rosto cansado e o casaco justo amarrotado. Tinha um hematoma sob o olho esquerdo, e os cabelos curtos e negros, que costumavam ficar esticados na cabe�a, pareciam ter sido ajeitados �s pressas com os dedos, mas ele sorriu ao se juntar ao grupo.</p><p>��Tem mais ladr�es nesta cidade do que peixinhos em um junco, e eles abrem a boca se ganharem uma caneca de qualquer coisa. Conversei com dois homens que disseram ter visto uma mulher com mecha branca no cabelo em cima da orelha esquerda. Acho que acredito em um.</p><p>��Ent�o elas est�o aqui���disse Elayne, mas Nynaeve balan�ou a cabe�a.</p><p>��Talvez. V�rias mulheres podem ter uma mecha branca no cabelo.</p><p>��Ele n�o soube precisar a idade dela���completou Juilin, escondendo um bocejo com a m�o.���N�o tinha idade, pelo que ele disse. Brincou que talvez fosse Aes Sedai.</p><p>��Voc� vai com muita sede ao pote���retrucou Nynaeve, em um tom severo.���N�o vai adiantar de nada se acabar nos expondo.</p><p>Juilin ruborizou.</p><p>��Estou sendo cuidadoso. N�o quero que Liandrin ponha as m�os em mim outra vez. N�o fa�o perguntas, s� falo. �s vezes de mulheres que conheci. Dois homens morderam a isca da mecha branca, e nenhum dos dois sequer imaginou que fosse algo mais do que conversa fiada com uns goles de cerveja barata. Hoje � noite talvez algum outro nade at� minha rede, s� que dessa vez pode ser que a conversa seja sobre uma cairhiena fr�gil com olhos bem grandes e azuis.���Era Temaile Kinderode.���Pouco a pouco, vou estreitar os pontos onde elas foram vistas, at� saber onde est�o. Vou encontr�-las.</p><p>��Ou eu vou.���Thom parecia pensar que isso era muito mais prov�vel.���Em vez de ladr�es, ser� que elas n�o est�o se metendo com nobres e pol�ticos? Algum lorde dessa cidade vai come�ar a fazer algo que n�o lhe � habitual, o que vai me levar direto at� elas.</p><p>Os dois homens se entreolharam. Em outro momento, Elayne teria esperado que um dos dois chamasse o outro para a briga. Homens! Primeiro, Juilin e Domon, agora, Juilin e Thom. S� faltava Thom e Domon entrarem em uma queda de bra�o, para completar. Homens! Era o �nico coment�rio em que conseguia pensar.</p><p>��Talvez eu e Elayne as encontremos sem a ajuda de voc�s���retrucou Nynaeve, em um tom seco.���Vamos come�ar a procurar hoje mesmo.���Ela desviou os olhos para Elayne.���Pelo menos, eu vou. Elayne talvez precise descansar mais um pouco para se recuperar� da viagem.</p><p>Elayne ajeitou o peda�o de pano com muito cuidado, depois usou ambas as m�os para apanhar a caneca � sua frente. O l�quido grosso e verde tinha um gosto pior do que o cheiro. Tr�mula, se for�ou a continuar engolindo. Quando a bebida bateu no est�mago, por um instante ela se sentiu como um manto drapejando em um vento forte.</p><p>��Dois pares de olhos enxergam melhor do que um���disse a Nynaeve, batendo a caneca vazia na mesa com um tinido.</p><p>��E cem enxergam ainda melhor���apressou-se em dizer Juilin���e se aquela enguia illianense de fato mandar seu pessoal vasculhar, teremos pelos menos esse tanto de olhos, contando com os ladr�es e lar�pios.</p><p>��Eu� <emphasis>n�s</emphasis>� vamos encontrar essas mulheres para voc�s, se for poss�vel encontr�-las���completou Thom.���N�o h� necessidade de sa�rem da estalagem. Essa cidade oferece muitos perigos, mesmo sem Liandrin por perto.</p><p>��Al�m do mais���acrescentou Juilin���se elas estiverem por aqui, v�o reconhecer as duas. Conhecem seus rostos. � melhor que fiquem aqui na estalagem, fora das vistas.</p><p>Elayne encarou os dois, estupefata. Um minuto antes tentavam derrubar um ao outro com olhares, agora haviam virado aliados. Nynaeve estava certa sobre os dois causarem problemas. Bem, a Filha-herdeira de Andor n�o se esconderia atr�s de Mestre Juilin Sandar e de Mestre Thom Merrilin. Ela abriu a boca para dizer isso, mas Nynaeve falou primeiro.</p><p>��Voc�s t�m raz�o���respondeu ela, com voz calma. Elayne a encarou, incr�dula. Thom e Juilin pareciam ao mesmo tempo surpresos e, o que era muito desagrad�vel, satisfeitos.���Elas de fato nos conhecem���prosseguiu Nynaeve.���Mas j� cuidei disso hoje de manh�, acho. Ah, chegou a Senhora Rendra com o nosso caf�.</p><p>Thom e Juilin trocaram olhares desconcertados, mas n�o conseguiram dizer nada com a estalajadeira sorrindo por detr�s do v�u.</p><p>��E aquilo que lhe pedi?���perguntou Nynaeve enquanto a mulher punha uma tigela de mingau de cereal com mel � sua frente.</p><p>��Ah, sim. N�o ser� problema encontrar roupas que sirvam nas duas. E os cabelos� as duas t�m cabelos t�o lindos, t�o compridos� bom, n�o vai demorar nem um pouco para ajeitar.���Ela passou os dedos pelas pr�prias tran�as, compridas e douradas.</p><p>As caras que Thom e Juilin fizeram provocaram um sorriso no rosto de Elayne. Os dois podiam estar prontos para discutir, mas n�o teriam defesa contra o fato de serem ignorados. J� sentia a cabe�a um pouco melhor a mistura horrenda de Nynaeve parecia estar fazendo efeito. Enquanto ela e Rendra discutiam sobre custos, cortes e tecidos���a estalajadeira queria copiar seu vestido justo, hoje em um tom verde-claro, e Nynaeve se opunha, mas estava meio indecisa���Elayne engoliu uma colher de mingau para tirar o gosto ruim da boca. Aquilo a fez lembrar de que estava com fome.</p><p>Tinha um problema que nenhum deles mencionara, um que Thom e Juilin desconheciam. Se a Ajah Negra estava em Tanchico, ent�o o que representava perigo a Rand tamb�m estava. Algo capaz de at�-lo com seu pr�prio Poder. Encontrar Liandrin e as outras n�o era o bastante. Elas tamb�m teriam de identificar esse perigo. De repente, o apetite rec�m-adquirido foi embora por completo.</p></section><section><title><p>40</p><p><image l:href="#18"/></p><p>O ca�ador de Trollocs</p></title><p>Resqu�cios da chuva do in�cio da manh� ainda gotejavam das folhas das macieiras, e um tentilh�o roxo pulava sobre um galho onde cresciam frutos que n�o seriam colhidos naquele ano. O sol estava bem alto, mas escondido por detr�s de espessas nuvens cinzentas. Sentado no ch�o, de pernas cruzadas, Perrin testou a corda de seu arco sem nem perceber. As cordas enceradas e bem-enroladas tendiam a afrouxar no clima �mido. A tempestade que Verin invocara para escond�-los da persegui��o, na noite anterior, surpreendera at� a pr�pria Verin pela ferocidade, e chovera forte outras tr�s vezes, nos seis dias subsequentes. Perrin achava que tinham sido seis dias. N�o pensava direito desde aquela noite, s� fora levado pelos acontecimentos, reagindo ao que se apresentava. O lado cego da l�mina do machado estava apertando a lateral de seu corpo, mas ele mal percebia.</p><p>Montes baixos e cobertos de grama marcavam as gera��es de Aybaras enterrados ali. A mais antiga das l�pides de madeira entalhada, rachada e pouco leg�vel, era datada de quase trezentos anos antes, acima de covas indistingu�veis no solo liso. Mas eram os montinhos suavizados pelas chuvas, ainda quase sem grama, que apunhalavam seu cora��o. Gera��es de Aybaras tinham sido enterradas ali, mas nunca quatorze de uma s� vez. Tia Neain jazia acima da cova de tio Carlin, um pouco mais antiga, com os dois filhos ao lado. A tia-av�, Ealsin, estava na mesma fileira que o tio Eward e a tia Magde, com seus tr�s filhos. A fileira mais comprida continha sua m�e e seu pai, al�m de Adora, Deselle e o pequeno Paet. Uma fileira extensa de montinhos de terra nua, ainda �mida, ainda quase sem grama. Perrin tocou as flechas que restavam na aljava e as contou. Dezessete. Muitas tinham sido danificadas, e s� valia a pena consert�-las por causa das pontas de a�o. N�o tinha tempo para fazer as pr�prias ponteiras em breve teria que visitar o flecheiro de Campo de Emond. Buel Dowtry fazia boas flechas, bem melhores que as de Tam.</p><p>Um farfalhar baixo vindo de tr�s o fez fungar.</p><p>��O que � que foi, Dannil?���perguntou, sem se virar.</p><p>Um arquejar breve, um momento de surpresa e susto, antes que Dannil Lewin dissesse:</p><p>��A Lady est� aqui, Perrin.</p><p>Ningu�m se acostumava com o fato de ele saber quem estava perto antes de ver, ainda mais no escuro, mas Perrin j� n�o ligava para o que os outros consideravam estranho.</p><p>Ele franziu o cenho, olhando por cima do ombro. Dannil parecia mais magro. Os fazendeiros n�o tinham o suficiente para alimentar grupos t�o grandes, e, com as ca�adas, as refei��es ou eram banquetes ou eram inexistentes. Em geral, inexistentes.</p><p>��Que Lady?</p><p>��Lady Faile. E tamb�m Lorde Luc. Vieram de Campo de Emond.</p><p>Perrin se levantou devagar e caminhou a passos largos, for�ando Dannil a se apressar para acompanh�-lo. Conseguiu n�o olhar para a casa. As vigas de madeira chamuscadas e as chamin�s cheias de fuligem que um dia foram o lar onde ele cresceu. Por�m, vasculhou as �rvores em busca dos batedores, os que estavam mais pr�ximos da fazenda. Como era t�o pr�xima da Floresta das �guas, a terra ali tinha muitos carvalhos altos e cicutas, al�m de freixos e baios de bom tamanho. A folhagem espessa escondia bem os rapazes, e a l� grossa das roupas de fazenda ajudava. Ent�o at� ele teve dificuldade em localiz�-los. Teria de conversar com os rapazes em breve; a fun��o deles era garantir que ningu�m se aproximasse sem ser anunciado. Nem mesmo Faile e aquele Lorde Luc.</p><p>O acampamento, disposto em um amplo matagal que ele um dia fingira ser uma selva distante, era um espa�o bruto entre a vegeta��o rasteira, com alguns cobertores estendidos sobre cordas, para formar abrigos, e outros espalhados no ch�o entre as pequenas fogueiras. Os galhos tamb�m gotejavam por ali. A maioria dos quase cinquenta homens do acampamento, todos jovens, estava de barba. Fosse para imitar Perrin, ou porque era desagrad�vel se barbear com �gua fria. Eram bons ca�adores���os que n�o eram, Perrin mandara de volta para casa���por�m, estavam desacostumados a passar mais de uma ou duas noites na natureza. E desacostumados com o que ele os estava mandando fazer.</p><p>L� estavam eles, parados diante de Faile e Luc, encarando-os de boca aberta, apenas quatro ou cinco com o arco longo nas m�os. O restante dos arcos jazia sobre a roupa de cama, assim como quase todas as aljavas. Luc permanecia absorto, mexendo nas r�deas de um garanh�o preto alto, com pinta de indolente. O sujeito de casaco vermelho era a personifica��o da arrog�ncia, seus olhos azuis e frios ignoravam os homens � volta. O cheiro do sujeito se sobressa�a entre os outros, tamb�m frio e destacado, quase como se ele n�o tivesse nada em comum com aqueles homens, nem mesmo a humanidade.</p><p>Faile foi correndo at� Perrin, escancarando um sorriso, as saias estreitas e divididas farfalhando, um barulho de seda cinza ro�ando seda. Tinha o perfume suave de um doce sab�o herb�reo, misturado a seu pr�prio cheio.</p><p>��Mestre Luhhan disse que talvez encontr�ssemos voc� aqui.</p><p>Perrin queria perguntar o que a mo�a estava fazendo ali, mas viu-se abra�ando Faile e dizendo, entre os cabelos dela:</p><p>��Que bom ver voc�. Eu estava com saudades.</p><p>Ela se afastou o suficiente para encar�-lo.</p><p>��Voc� parece cansado.</p><p>Perrin ignorou o coment�rio. N�o tinha tempo para se sentir cansado.</p><p>��Todos chegaram a salvo em Campo de Emond?</p><p>��Est�o todos na estalagem Fonte de Vinho.���Faile de repente abriu um sorriso.���Mestre al�Vere encontrou uma antiga alabarda e disse que, se os Mantos-brancos quisessem peg�-los de volta, teriam de passar por cima dele. Est� todo mundo na aldeia, Perrin. Verin, Alanna e os Guardi�es. Est�o fingindo ser outras pessoas, claro. E Loial. Ele causou uma como��o. At� mais do que Bain e Chiad.���O sorriso se transformou em uma carranca.���Loial me pediu para trazer um recado. Alanna desapareceu duas vezes sem dizer uma palavra, e estava sozinha em uma delas. Loial disse que Ihvon pareceu surpreso quando soube que a Aes Sedai n�o estava por l�. E que n�o era para eu deixar mais ningu�m saber disso.���Ela analisou o rosto dele.���O que isso quer dizer, Perrin?</p><p>��Nada, talvez. S� que n�o posso ter certeza se d� para confiar nela. Verin me alertou sobre ela, mas ser� que posso confiar em Verin? Voc� disse que Bain e Chiad est�o em Campo de Emond? Acho que isso significa que ele sabe a respeito delas.���Perrin inclinou a cabe�a, indicando Luc. Alguns poucos homens haviam se aproximado dele, fazendo perguntas acanhadas, que o lorde respondia com um sorriso condescendente.</p><p>��Elas vieram com a gente���respondeu Faile, receosa.���Est�o vigiando os arredores do acampamento. Acho que as duas n�o pensam muito bem dos seus sentinelas. Perrin, por que n�o quer que Luc saiba sobre os Aiel?</p><p>��Conversei com v�rias pessoas que tiveram as casas incendiadas.���Luc estava muito longe para ouvir, mas ele manteve a voz baixa.���Contando com a de Flann Lewin, Luc esteve em pelo menos cinco no dia do ataque, ou no dia anterior.</p><p>��Perrin, o sujeito � um imbecil arrogante em v�rios aspectos, ouvi dizer at� que ele andou insinuando que teria direito a um dos tronos das Terras da Fronteira, e, pelo que ele contou, � de Murandy. Mas voc� n�o pode acreditar que o homem seja Amigo das Trevas. Ele deu excelentes conselhos em Campo de Emond. Quando eu disse que todo mundo estava l�, quis dizer todo mundo mesmo.���Ela balan�ou a cabe�a, espantada.���Centenas e mais centenas de pessoas vieram do norte e do sul, de todos os cantos, trazendo o gado e as ovelhas, todos falando dos avisos de Perrin Olhos-Dourados. Sua aldeiazinha est� se preparando para se defender, caso seja preciso. E Luc andou por todos os cantos nos �ltimos dias.</p><p>��Perrin quem?���Ele ofegou, fazendo careta. Tentou mudar de assunto, dizendo:���Do sul? Mas isso aqui � o mais distante que j� estive, ao sul. N�o conversei com nenhum fazendeiro mais de uma milha abaixo do Rio Fonte de Vinho.</p><p>Faile deu uma risada e um pux�o na barba dele.</p><p>��As not�cias voam, meu belo general. Acho que metade dessa gente est� esperando que voc� organize um ex�rcito e persiga os Trollocs at� a Grande Praga. V�o contar hist�rias sobre voc� em Dois Rios pelos pr�ximos mil anos. Perrin Olhos-Dourados, o ca�ador de Trollocs.</p><p>��Luz!���murmurou ele.</p><p>Ca�ador de Trollocs. At� ent�o, fizera pouco para justificar a alcunha. Dois dias depois de libertar a Senhora Luhhan e os outros, no dia em que Verin e Tomas seguiram seu pr�prio caminho, chegaram �s ru�nas de uma fazenda ainda enfuma�ada, ele e os quinze rapazes de Dois Rios que o seguiam. Depois de enterrar o que encontraram em meio �s cinzas, foi bem simples ir atr�s dos Trollocs. Mais ainda com ajuda das habilidades de rastreamento de Gaul e o faro do pr�prio Perrin. O odor ocre e f�tido dos Trollocs n�o tivera tempo de se dissipar, n�o para ele. Alguns dos rapazes come�aram a ficar relutantes ao perceber que ele estava falando s�rio em rela��o a ca�ar Trollocs. Se aquelas criaturas estivessem muito longe, Perrin suspeitava que a maioria dos rapazes teria fugido quando ningu�m estivesse olhando. Mas a trilha levava a um matagal a pouco menos de tr�s milhas de onde estavam. Os Trollocs n�o tinham se dado o trabalho de designar sentinelas���n�o havia Myrddraal para intimid�-los a deixarem de pregui�a���e os homens de Dois Rios sabiam como chegar perto da presa sem fazer barulho. Trinta e dois Trollocs morreram, muitos sob os cobertores imundos, perfurados por flechas antes de conseguirem dar sequer um uivo, muito menos erguer uma espada ou um machado. Dannil, Ban e os outros estavam prontos para celebrar o grande triunfo� At� descobrirem o que estava cozinhando no imenso caldeir�o sobre os resqu�cios da fogueira. A maioria bateu em retirada para vomitar, e mais de um come�ou a chorar bem ali, na frente de todos. Perrin cavou a cova sozinho. Apenas uma: n�o havia como dizer o que pertencia a quem. Por mais calmo que se sentisse, n�o sabia ao certo se teria sido capaz de se manter tranquilo se os peda�os estivessem reconhec�veis.</p><p>Mais tarde, no mesmo dia, ningu�m hesitou quando ele escolheu outra trilha f�tida, embora alguns tivessem resmungado, perguntando-se o que ele estaria procurando. At� Gaul encontrar pegadas de cascos e botas grandes demais para serem de homens. Outro matagal, perto da Floresta das �guas, abrigava quarenta e um Trollocs e um Desvanecido. Tinha sentinelas bem posicionadas, mas a maioria estava roncando em seus postos. N�o teria feito diferen�a, se estivessem todos acordados. Gaul matou os que estavam despertos, deslizando por entre as �rvores feito uma sombra, e os homens de Dois Rios j� formavam um grupo de quase trinta. Al�m do mais, os que n�o tinham visto o caldeir�o tinham ouvido a respeito. Os homens gritavam enquanto atiravam, exibindo uma satisfa��o pouco menos selvagem do que os uivos guturais dos Trollocs. O Myrddraal de vestes negras tinha sido o �ltimo a morrer, um porco-espinho de flechas. Ningu�m se deu ao trabalho de recolher qualquer ponteira cravada na criatura, mesmo depois de ela finalmente parar de se debater.</p><p>Naquela noite, caiu a segunda chuva. Foram horas de um p� d��gua violento em um c�u repleto de nuvens negras e turvas cortadas por rel�mpagos. Perrin n�o sentia cheiro de Trollocs desde ent�o, e as pegadas j� tinham sido lavadas do ch�o. O grupo gastou a maior parte do tempo tentando evitar as patrulhas dos Mantos-brancos, que todos diziam ser mais numerosas do que antes. Os fazendeiros com quem Perrin tinha conversado afirmaram que as patrulhas pareciam mais interessadas em recuperar os prisioneiros e descobrir quem os libertara do que em ca�ar Trollocs.</p><p>Muitos dos homens estavam reunidos em volta de Luc. O Lorde era alto o bastante para que os cabelos acobreados se destacassem por sobre as cabe�as escuras dos fazendeiros. Pelo que parecia, Luc falava enquanto os outros ouviam. E assentiam.</p><p>��Vamos ver o que ele tem a dizer���disse Perrin, fechando a cara.</p><p>Os homens de Dois Rios abriram caminho para Faile e ele sem que os dois tivessem que usar muito os cotovelos. Estavam todos atentos ao lorde de casaco vermelho, que realmente falava sem parar.</p><p>��� ent�o a aldeia est� bastante segura. Muita gente se reuniu para defend�-la. Devo dizer que gosto de dormir debaixo de um teto, quando tenho a chance. A Senhora al�Vere, na estalagem, faz refei��es muito saborosas. E um dos melhores p�es que j� comi. N�o existe nada melhor do que um p�o quentinho com manteiga fresquinha� E depois botar os p�s para cima, � noite, com uma bela caneca de vinho ou uma das excelentes cervejas pretas de Mestre al�Vere.</p><p>��Lorde Luc est� dizendo que a gente devia ir para Campo de Emond, Perrin���comentou Kenley Ahan, esfregando o nariz vermelho com as costas da m�o encardida.</p><p>O homem n�o era o �nico que n�o tinha conseguido se lavar com a frequ�ncia desejada, e nem o �nico resfriado.</p><p>Luc sorriu para Perrin do mesmo jeito que teria sorrido para um cachorro prestes a dar a patinha.</p><p>��A aldeia est� <emphasis>mesmo</emphasis> segura, mas sempre h� necessidade de mais respaldo.</p><p>��Estamos ca�ando Trollocs���retrucou Perrin, com frieza.���Nem todo mundo deixou as fazendas, e cada bando que encontramos significa menos fazendas incendiadas e mais gente com chance de ficar em seguran�a.</p><p>Wil al�Seen soltou uma risada. J� n�o estava t�o bonito, com o nariz vermelho e inchado e uma barba falha crescendo por dias.</p><p>��N�o <emphasis>sentimos cheiro</emphasis> de Trolloc h� dias. Seja sensato, Perrin. Talvez a gente j� tenha matado todos.���Houve murm�rios de aprova��o.</p><p>��N�o � minha inten��o semear a disc�rdia.���Luc estendeu as m�os, com um ar de inoc�ncia.���Sem d�vida voc� obteve muitos bons resultados al�m desses de que ouvimos falar. Centenas de Trollocs mortos, imagino. Pode muito bem ser que tenham espantado todos. Posso garantir que as pessoas em Campo de Emond est�o prontas para receber voc�s como verdadeiros her�is. O mesmo vale para Colina da Vig�lia, para os que moram por aquelas bandas. Algu�m aqui � de Trilha de Deven?���Wil assentiu, e Luc deu um tapinha em seu ombro, em um ato fr�volo de camaradagem.���Um verdadeiro her�i, sem sombra de d�vida.</p><p>��Quem quiser ir para casa, pode ir���respondeu Perrin, em um tom firme. Faile franziu a testa em advert�ncia, encarando-o. N�o era atitude de um general. Mas ele n�o queria um grupo com ningu�m que n�o quisesse estar ali. Ali�s, n�o queria nem ser general.���Eu n�o acredito que o trabalho esteja encerrado, mas a escolha � de voc�s.</p><p>Ningu�m discutiu. Wil parecia prestes a retrucar, mas outros vinte homens encararam o ch�o e arrastaram as botas no cobertor de folhas, ca�das no ano anterior.</p><p>��Bem���come�ou Luc, com um ar despretensioso���se n�o t�m mais Trollocs para ca�ar, talvez seja hora de voltarem as aten��es aos Mantos-brancos. Eles n�o est�o nada satisfeitos com essa hist�ria de o povo de Dois Rios decidir se defender sozinho. E fiquei sabendo que pretendem enforcar o bando de voc�s como criminosos, pelo roubo dos prisioneiros.</p><p>Caretas de ansiedade dominaram as express�es de v�rios dos rapazes de Dois Rios.</p><p>Foi ent�o que Gaul apareceu, abrindo caminho entre a multid�o, seguido de perto por Bain e Chiad. N�o que os Aiel precisassem abrir caminho, claro. Os homens se afastaram assim que perceberam quem estava chegando. Luc franziu o cenho para Gaul, talvez com um pouco de desaprova��o. O Aiel o encarou de volta, impass�vel. Wil, Dannil e os outros se animaram ao ver os Aiel. A maioria ainda acreditava que centenas deles estavam escondidos em algum ponto dos matagais e das florestas. Ningu�m jamais questionou por que todos aqueles Aiel estariam se escondendo, e Perrin nunca tocava no assunto. Se a cren�a no refor�o de algumas poucas centenas de Aiel os ajudava a manter a coragem, era melhor deix�-los pensar o que quisessem.</p><p>��O que foi que voc�s encontraram?���perguntou Perrin.</p><p>Gaul estivera fora desde o dia anterior. O Aiel se deslocava com a rapidez de um homem a cavalo, e ia ainda mais depressa no meio da mata. Al�m disso, enxergava melhor.</p><p>��Trollocs���respondeu Gaul, como se reportasse a presen�a de ovelhas���seguindo pela Floresta das �guas, que, por sinal, � um nome bem apropriado. Est�o indo em dire��o ao sul. S�o no m�ximo trinta, e acredito que pretendam acampar nos limites da floresta e atacar hoje � noite. Alguns homens ao sul ainda est�o apegados �s terras.���Ele abriu um sorriso repentino, meio perigoso.���Eles n�o me viram. Estar�o desprevenidos.</p><p>Chiad inclinou-se para perto de Bain.</p><p>��At� que ele consegue correr bem, para um C�o de Pedra���sussurrou, alto o bastante para ser ouvida a vinte p�s de dist�ncia.���Faz um pouco menos de barulho que um touro manco.</p><p>��E ent�o, Wil?���perguntou Perrin.���Quer ir para Campo de Emond? L� voc� vai poder fazer a barba, talvez at� dar uns beijos em alguma garota. Tudo isso enquanto os Trollocs jantam, hoje � noite.</p><p>O rosto de Wil ficou de um tom vermelho-escuro.</p><p>��Hoje � noite, estarei onde voc� estiver, Aybara���respondeu, com a voz dura.</p><p>��Ningu�m quer ir para casa enquanto ainda houver Trollocs por a�, Perrin���acrescentou Kenley.</p><p>Perrin olhou os outros � sua volta e viu apenas acenos de cabe�a aprovativos.</p><p>��E voc�, Luc? Seria um prazer ter um lorde Ca�ador da Trombeta com a gente. Voc� pode nos mostrar como � que se faz.</p><p>Luc abriu um pequeno sorriso, um talho na rocha que n�o chegou aos frios olhos azuis.</p><p>��Infelizmente, as defesas de Campo de Emond ainda necessitam de mim. Preciso garantir a prote��o de seu povo, caso os Trollocs apare�am por l� em um n�mero maior do que trinta. Ou os Filhos da Luz. Milady Faile?���Ele estendeu a m�o para ajud�-la a montar, mas a jovem balan�ou a cabe�a.</p><p>��Vou ficar com Perrin, Lorde Luc.</p><p>��Que pena���murmurou o homem, dando de ombros como se para expressar que gosto de mulher n�o se discute. Cal�ando as manoplas adornadas com lobos com gestos bruscos, ele montou na sela do garanh�o negro em um movimento suave.���Boa sorte para voc�, Mestre Olhos-Dourados. Espero que voc�s tenham muita sorte.���Com uma meia mesura para Faile, ele deu um rodopio pomposo no cavalo alto e enfiou as esporas nos flancos do animal, impelindo-o a um galope que for�ou alguns dos homens a saltarem para o lado para abrir caminho.</p><p>Faile franziu o cenho para Perrin, sugerindo que faria um serm�o sobre grosseria, quando os dois estivessem sozinhos. O rapaz prestou aten��o aos sons do cavalo de Luc at� n�o conseguir mais ouvir, depois virou-se para Gaul.</p><p>��Ser� que a gente consegue ultrapassar os Trollocs? Podemos ficar esperando em algum ponto, antes que eles cheguem aonde pretendem parar?</p><p>��A dist�ncia � razo�vel, se partirmos agora���respondeu Gaul.���Eles est�o avan�ando sem pressa, em linha reta. Tem um Mensageiro da Noite com eles. Vai ser mais f�cil surpreend�-los debaixo das cobertas do que tentar encarar o bando acordado.���Ele queria dizer que seria mais f�cil para os homens de Dois Rios. O Aiel n�o cheirava a medo.</p><p>Mas sem d�vida alguns dos outros estavam com cheiro de medo. Ainda assim, ningu�m sugeriu que um confronto com Trollocs alerta e despertos, ainda por cima com um Myrddraal, pudesse n�o ser o melhor plano. O grupo levantou acampamento assim que ele emitiu a ordem, apagando as fogueiras e espalhando as cinzas, reunindo as poucas panelas e juntando o estranho grupo de cavalos e p�neis. Eram quase setenta, contando os sentinelas���Perrin fez uma anota��o mental de que precisava ter aquela conversa com eles���sem d�vida um n�mero grande o suficiente para armar uma emboscada para trinta Trollocs. Ban al�Seen e Dannil ainda lideravam metade cada um���parecia a melhor forma de evitar discuss�es���e Bili al�Dai, Kenley e outros iam � frente de uns dez. Wil tamb�m. Ele n�o era um mau rapaz, quando conseguia tirar a cabe�a das garotas.</p><p>Faile conduziu Andorinha para perto de Galope assim que o grupo arrancou em dire��o ao sul, com os Aiel na dianteira.</p><p>��Voc� n�o confia mesmo nele���comentou���Acha que � Amigo das Trevas.</p><p>��Confio em voc�, no meu arco e no meu machado���respondeu Perrin. A jovem assumiu uma express�o ao mesmo tempo triste e satisfeita, mas aquilo era a pura verdade.</p><p>Durante duas horas, Gaul conduziu o grupo para o sul, antes de entrar na Floresta das �guas, um emaranhado de imensos carvalhos, pinheiros e folhas-de-couro, com baios frondosos e oleastros-vermelhos em forma de cone, freixos altivos de copas redondas, groselheiras e salgueiros-negros, nos troncos de trepadeiras. Mil esquilos chilreavam nos galhos, e sabi�s, tentilh�es e tordos-ruivos voavam por todos os lados. Perrin sentia cheiro de cervos e coelhos, al�m de raposas. Uma profus�o de diminutos c�rregos cruzava a floresta, com po�as e laguinhos com bordas de junco pontilhando o lugar, em geral encobertos, mas �s vezes expostos. Alguns mediam menos de dez passadas, outros chegavam a quase cinquenta. O solo estava encharcado depois de tanta chuva, e os cascos dos cavalos chapinhavam na lama.</p><p>Gaul parou entre uma grande po�a rodeada de carvalhos e um riacho estreito de um passo de largura, cerca de duas milhas para dentro da mata. Os Trollocs passariam por ali se continuassem seguindo pelo mesmo caminho. Os tr�s Aiel desapareceram por entre as �rvores para se certificar e trazer avisos da aproxima��o dos inimigos.</p><p>Deixando Faile e uns dez homens para vigiar os cavalos, Perrin posicionou os outros em um meio-c�rculo estreito, uma armadilha para onde os Trollocs decerto marchariam. Depois de garantir que todos os homens estavam bem escondidos e sabiam o que ele pretendia fazer, Perrin se posicionou no ponto central do lugar, ao lado de um carvalho com um tronco que tinha mais de largura do que ele de altura.</p><p>Ele afrouxou o passante do cinto que prendia o machado, encaixou uma flecha no arco e esperou. Uma brisa leve soprou em seu rosto, aumentou, depois diminuiu. Ele decerto conseguiria farejar os Trollocs muito antes de surgirem � vista. As criaturas deviam estar seguindo direto por aquele caminho. Perrin tocou o machado outra vez e esperou. Minutos se passaram. Uma hora. Mais. Quanto tempo at� que as Criaturas da Sombra aparecessem? Se passassem muito mais tempo naquela umidade, as cordas dos arcos teriam de ser trocadas.</p><p>Os p�ssaros desapareceram por um instante, antes de os esquilos se calarem. Perrin respirou fundo e franziu o cenho. Nada. Com aquela brisa, sem d�vida conseguiria farejar os Trollocs assim que os animais os notassem.</p><p>Uma lufada de vento errante trouxe o odor p�trido, feito centenas de anos de suor e decomposi��o. Dardo meia-volta, Perrin gritou:</p><p>��Eles est�o atr�s de n�s! Corram at� mim! Dois Rios, venham a mim!���Estavam atr�s dos cavalos.���Faile!</p><p>Gritos e guinchos irromperam de todos os lados, uivos e urros selvagens. Um Trolloc com chifres de carneiro saltou � vista a vinte passadas de dist�ncia, erguendo um arco comprido e curvo. Perrin levou o arco � orelha e disparou a flecha em um movimento suave, apanhando outra assim que soltou a primeira. A lan�a de ponta parruda acertou o Trolloc bem entre os olhos, e a criatura soltou um berro ao desabar. A flecha que ele soltara, do tamanho de uma lan�a pequena, atingiu a lateral de Perrin como um golpe de martelo.</p><p>O rapaz se curvou, ofegante com o choque, e largou o arco e a nova flecha. A dor se expandia a partir da ponteira da flecha de penas negras, que tremulava quando ele respirava, e cada movimento enviava novas ondas de dor.</p><p>Mais dois Trollocs saltaram por cima do companheiro morto, focinhos de lobo e chifres de bode, silhuetas envoltas em malha negra com o dobro da altura e largura de Perrin. Os dois partiram para cima do rapaz, urrando, as espadas curvas em riste.</p><p>Perrin obrigou-se a ficar de p�, rangeu os dentes, quebrou a parte da flecha grossa que estava para fora, soltou o machado e arrancou na dire��o dos dois. Percebeu vagamente que uivava. Uivava, cheio de uma f�ria que deixava seus olhos vermelhos. As criaturas se avultaram por cima dele, as armaduras cravadas de pregos nos ombros e cotovelos, mas Perrin rodopiou o machado em frenesi, como se a cada golpe tentasse derrubar uma �rvore. Por Adora. Por Deselle.</p><p>��Pela minha m�e!���gritou.���Que o queime! Pela minha m�e!</p><p>De s�bito, percebeu que golpeava massas ensanguentadas no ch�o. Rosnando, obrigou-se a parar, tremendo tanto pelo esfor�o quanto pela dor na lateral do corpo. Agora havia menos gritos. Menos uivos. Ser� que sobrara algu�m al�m dele?</p><p>��Venham a mim! Dois Rios, venham a mim!</p><p>��Dois Rios!���gritou algu�m, em um urro fren�tico, saindo da mata �mida, e depois mais algu�m:</p><p>��Dois Rios!</p><p>Dois. Apenas dois.</p><p>��Faile!���gritou ele.���Ah, Luz, Faile!</p><p>O lampejo de um movimento fluido por entre as �rvores anunciou a vinda de um Myrddraal antes que ele pudesse ver a criatura com clareza, a armadura negra envolvendo o corpo feito uma serpente, o manto escuro sem se alterar com os movimentos. Ao se aproximar, o Meio-homem reduziu o passo a um caminhar sinuoso e confiante. A criatura sabia que Perrin estava ferido, sabia que era presa f�cil. O olhar sem olhos na face branca o a�oitava com golpes de medo.</p><p>��Faile?���repetiu a criatura, em um tom debochado. A voz fez o nome soar como carne queimada e desintegrada.���Sua Faile� estava uma del�cia.</p><p>Rugindo, Perrin partiu para cima do Meio-homem. Uma espada de l�mina negra aparou o primeiro golpe. E o segundo. E o terceiro. O rosto da criatura, branco feito um verme, estava firme e concentrado, mas o Myrddraal se movia feito uma v�bora, feito um raio. Por ora, Perrin mantinha o Meio-homem na defensiva. Por ora. O sangue pingava da lateral do corpo, que ardia como fogo das forjas. Perrin n�o conseguiria aguentar. E, quando sua for�a falhasse, aquela espada seria cravada em seu cora��o.</p><p>Seu p� resvalou na lama sob as botas, e o Desvanecido ergueu a l�mina. Ent�o uma espada indistinta quase degolou aquela cabe�a sem olhos, que desabou por cima de um dos ombros em uma fonte de sangue negro. Desferindo golpes cegos, o Myrddraal cambaleou para a frente, tr�pego, recusando-se a morrer, o corpo instintivamente tentando matar.</p><p>Perrin saiu do caminho da criatura com dificuldade, mas sua aten��o estava toda no homem que limpava a espada com frieza, usando um punhado de folhas. Era Ihvon, o manto furta-cor pendendo sobre os ombros.</p><p>��Alanna me mandou atr�s de voc�s. Quase n�o consegui, com tantos deslocamentos, mas setenta cavalos deixam bons rastros.���O Guardi�o magro e escuro mantinha a mesma compostura que teria se estivesse acendendo o cachimbo diante de uma lareira.���Os Trollocs n�o estavam ligados a esse����Ele apontou com a espada para o Myrddraal; a criatura estava ca�da no ch�o, mas ainda golpeava a esmo.���� uma pena, mas, se voc� conseguir reunir seu povo, os Trollocs talvez n�o tenham disposi��o para tentar atacar todos sem o Sem-rosto para instig�-los. Eu diria que s�o uns cem, para come�ar. Um pouco menos, agora. Voc� retalhou esses a�.</p><p>Ihvon come�ou a inspecionar as sombras sob as �rvores, muito calmo, apenas a espada em sua m�o indicava que havia algo fora do comum.</p><p>Por um breve instante, Perrin ficou de queixo ca�do. Alanna queria falar com ele? Mandara Ihvon. Bem a tempo de salvar sua vida. Tr�mulo, ele elevou a voz outra vez.</p><p>��Dois Rios, venham a mim! Pelo amor da Luz, venham a mim! Aqui! Venham! Aqui!</p><p>Dessa vez, continuou a berrar at� surgirem rostos familiares, cambaleando por entre as �rvores. Mais rostos sujos de sangue do que limpos. Rostos em choque, com os olhos arregalados. Alguns homens chegavam apoiados em outros, e uns tinham perdido os arcos. Os Aiel estavam entre eles. Pareciam ilesos, exceto por Gaul, que mancava de leve.</p><p>��Eles n�o vieram como o esperado���foi tudo o que disse o Aiel. A noite foi mais fria do que o esperado. Choveu mais do que o esperado. Foi nesse tom.</p><p>Faile pareceu se materializar junto com os cavalos. Com metade dos cavalos, incluindo Galope e Andorinha, e nove dos onze homens que Perrin deixara com ela. Tinha um arranh�o em uma das bochechas, mas estava viva. Perrin tentou abra��-la, mas ela afastou seus bra�os, resmungando irritada sobre a flecha quebrada mesmo enquanto afastava o casaco de Perrin com cuidado, tentando examinar onde a lan�a robusta acertara.</p><p>Perrin observou os homens � sua volta. Ningu�m mais chegou, mas ainda havia rostos ausentes. Kenley Ahan. Bili al�Dai. Teven Marwin. For�ou-se a nomear os ausentes, obrigou-se a cont�-los. Vinte e sete. Vinte e sete n�o estavam l�.</p><p>��Trouxeram todos os feridos?���perguntou, a voz embotada.���Tem mais algu�m por a�?</p><p>A m�o de Faile tremeu ao lado dele. A jovem encarava a ferida com uma careta que era um misto de preocupa��o e f�ria. Tinha o direito de estar irritada. Ele nunca deveria t�-la metido naquilo.</p><p>��S� os mortos���respondeu Ban al�Seen, com uma voz t�o pesada quanto a express�o em seu rosto.</p><p>Wil parecia franzir o cenho para algo um pouco mais adiante.</p><p>��Eu vi Kenley���disse.���A cabe�a dele estava enfiada no galho de um carvalho, mas o resto do corpo estava ca�do no ch�o. Eu vi. Ele n�o vai mais sofrer com o resfriado.���O rapaz fungou, parecendo assustado.</p><p>Perrin soltou um longo suspiro, mas logo desejou n�o ter suspirado. A dor que subiu pela lateral o fez cerrar os dentes. Faile, com um len�o de seda verde e dourado enrolado na m�o, tentava puxar sua camisa para fora da cal�a. Ele afastou as m�os dela, apesar da cara feia que recebeu em resposta. N�o havia tempo para cuidar de machucados.</p><p>��Coloquem os feridos nos cavalos���mandou, quando conseguiu falar.���Ihvon, eles v�o nos atacar?���A floresta parecia quieta demais.���Ihvon?</p><p>O Guardi�o surgiu, conduzindo um cap�o cinza-escuro de olhar feroz. Perrin repetiu a pergunta.</p><p>��Talvez sim. Talvez n�o. Quando est�o sem l�der, os Trollocs matam quem for mais f�cil. Sem um Meio-homem no comando, provavelmente v�o preferir encontrar uma fazenda do que algu�m que possa cravar flechas neles. Deixe um arco com uma flecha encaixada nas m�os de cada um que conseguir se manter de p�, mesmo os que n�o souberem usar. Eles podem considerar o pre�o da divers�o muito alto.</p><p>Perrin sentiu um calafrio. Se os Trollocs de fato atacassem, se divertiriam tanto quanto ele em uma dan�a no Dia do Sol. Ihvon e os Aiel eram os �nicos realmente prontos para lutar. E Faile, com os olhos negros cintilando de f�ria. Ele tinha de lev�-la para um lugar seguro.</p><p>O Guardi�o n�o ofereceu o pr�prio cavalo para os feridos, o que fazia sentido. Era prov�vel que o animal n�o deixasse mais ningu�m montar em seu lombo, e, al�m disso, um cavalo treinado para a batalha com o pr�prio mestre na sela seria uma arma excelente, caso os Trollocs viessem outra vez. Perrin tentou montar Faile em Andorinha, mas ela o impediu.</p><p>��Voc� falou que os feridos iam a cavalo���sussurrou ela.���Lembra?</p><p>Para seu desgosto, a mo�a insistiu para que ele conduzisse Galope. Perrin esperou que os outros protestassem, depois de terem sido levados ao desastre, mas ningu�m o fez. Havia cavalos suficientes, tanto para os incapazes de andar quanto para os incapazes de andar muito. Perrin admitiu, de m� vontade, que estava no segundo grupo, ent�o acabou montado. Metade dos outros cavaleiros teve de fazer o mesmo. Ele se sentou, rangendo os dentes para manter-se ereto.</p><p>Os que caminhavam ou cambaleavam, al�m de alguns que cavalgavam, permaneciam agarrados aos arcos como se eles fossem a salva��o. Perrin levava um, e Faile tamb�m, mas o rapaz duvidava que ela soubesse sequer empunhar um arco longo de Dois Rios. Era a apar�ncia que contava. A ilus�o poderia garantir a seguran�a do grupo. Assim como Ihvon, alerta como um chicote enrolado, os tr�s Aiel deslizavam � frente com eleg�ncia, aparentemente impass�veis, com as lan�as nas costas, enfiadas nos arreios dos estojos dos arcos de chifre, que iam em m�os e a postos. Os outros, o pr�prio Perrin incluso, eram um bando de esfarrapados, nada que lembrasse o grupo que ele conduzira at� ali, t�o confiantes e cheios de orgulho. Ainda assim a ilus�o teve o mesmo efeito da realidade. Na primeira milha que avan�aram por entre a mata tran�ada, a brisa trouxe o fedor dos Trollocs, o odor de Trollocs seguindo-os, � espreita. Ent�o o cheiro foi se esvaindo aos poucos e desapareceu enquanto os Trollocs se afastavam, iludidos por uma miragem.</p><p>Faile andava ao lado de Galope, com uma das m�os na perna de Perrin como se o segurasse no lugar. Vez ou outra, erguia a cabe�a e olhava para ele com um sorriso encorajador, mas havia uma ruga de preocupa��o em sua testa. Perrin devolvia o sorriso da melhor forma poss�vel, tentando faz�-la acreditar que estava tudo bem. Vinte e sete. N�o conseguia parar de listar os nomes na cabe�a. Colly Garren e Jared Aydaer; Dael al�Taron e Rend Chandin. Vinte e sete rapazes de Dois Rios mortos por conta de sua estupidez. Vinte e sete.</p><p>O grupo pegou a rota mais direta para sair da Floresta das �guas, chegando a campo aberto em algum momento da tarde. Era dif�cil precisar a hora, com o c�u ainda coberto de cinza e o terreno envolto em uma sombra t�nue. � frente deles se estendia um pasto de grama alta pontilhado de �rvores, al�m de ovelhas isoladas e umas poucas casas de fazenda ao longe. N�o subia fuma�a de nenhuma das chamin�s. Se houvesse algu�m naquelas casas, tamb�m haveria refei��es cozinhando na lareira. A cortina de fuma�a mais pr�xima se erguia a pelo menos cinco milhas dali.</p><p>��Vamos encontrar uma fazenda para passar a noite���sugeriu Ihvon.���Algum lugar coberto, para o caso de chover outra vez. Uma fogueira. Comida.���Ele encarou os homens de Dois Rios e acrescentou:����gua e curativos.</p><p>Perrin apenas assentiu. O Guardi�o sabia melhor do que ele a coisa certa a se fazer. O velho Bili Congar, com a cara cheia de cerveja, devia saber melhor que ele a coisa certa a se fazer. Perrin deixou Galope seguir o cinzento de Ihvon.</p><p>Antes de o grupo avan�ar pouco mais de uma milha, um fiapinho de m�sica chegou aos ouvidos de Perrin, rabecas e flautas entoando melodias alegres. A princ�pio, imaginou que estava sonhando, mas ent�o os outros tamb�m ouviram e trocaram olhares incr�dulos, depois abriram sorrisos aliviados. M�sica significava pessoas, e, pelo som, eram pessoas alegres, celebrando. O fato de algu�m poder ter algo a celebrar foi o bastante para animar um pouco a caminhada.</p></section><section><title><p>41</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Entre os Tuatha�an</p></title><p>Um agrupamento de carro��es surgiu � vista, um pouco afastado para o sul, feito casinhas sobre rodas, caixas altas de madeira pintadas e envernizadas em tons berrantes de vermelho, azul, verde e amarelo, todas dispostas em um c�rculo amplo e meio torto em torno de alguns carvalhos de galhos compridos. Era dali que vinha a m�sica. Perrin j� ouvira dizer que havia latoeiros, o Povo Errante, em Dois Rios, mas ainda n�o os vira por l�. Cavalos mancos pastavam pela grama comprida dos entornos.</p><p>��Vou dormir em outro lugar���disse Gaul, r�gido, ao ver que Perrin pretendia seguir at� os carro��es, e se afastou depressa sem dizer outra palavra.</p><p>Bain e Chiad falaram com Faile baixinho, mas em tom urgente. Perrin captou o suficiente para entender que as duas estavam tentando convenc�-la a passar a noite com elas em alguma moita apertada, em vez de com os �Perdidos�. Pareciam horrorizadas com a ideia de falar com os latoeiros, ainda mais comer ou dormir com eles. Faile apertava sua perna com a m�o enquanto recusava, baixinho, em um tom firme. As duas Donzelas se entreolharam, os cenhos franzidos, olhos azuis e cinza se encarando com bastante preocupa��o, mas, antes que os carro��es do Povo Errante ficassem muito pr�ximos, elas sa�ram a passos r�pidos atr�s de Gaul. No entanto, pareciam ter recuperado um pouco do humor. Perrin ouviu Chiad sugerindo que as duas induzissem Gaul a participar de um jogo chamado O Beijo da Donzela. As duas estavam rindo quando sa�ram do alcance de seus ouvidos.</p><p>Homens e mulheres trabalhavam no campo, costurando, lavando roupas, dando banho em crian�as, erguendo um carro��o para trocar uma das rodas. Outras crian�as corriam, brincando, ou dan�avam ao som da melodia de uma d�zia de homens que tocavam flautas e rabecas. Dos mais velhos aos mais novos, as roupas eram ainda mais coloridas do que os tons dos carro��es, em combina��es espalhafatosas de doer os olhos, que s� podiam ter sido escolhidas �s cegas. Nenhum homem em s� consci�ncia combinaria aqueles tons, e quase nenhuma mulher.</p><p>Quando o bando de maltrapilhos se aproximou dos carro��es, um sil�ncio se abateu, o povo parou onde estava para olhar com uma express�o preocupada, as mulheres agarraram seus beb�s, e as crian�as correram para se esconder atr�s dos adultos, espiando por detr�s das pernas altas ou cobrindo os rostos debaixo das saias longas. Um homem magro, grisalho e baixo deu um passo � frente e curvou-se em uma mesura solene, com ambas as m�os no peito. Usava um casaco de gola alta azul-claro e cal�as largas, de um verde quase cintilante, enfiadas nas botas.</p><p>��Bem-vindos �s nossas fogueiras. Voc� conhece a can��o?</p><p>Por um instante, tentando n�o se curvar com a flecha cravada no corpo, Perrin s� conseguiu encarar o homem. Ele o conhecia: era o Mahdi, ou o Buscador, daquele grupo. <emphasis>Qual a chance disso acontecer?</emphasis>, perguntou-se. <emphasis>De todos os latoeiros do mundo, quais as chances de ser o justo os que eu conhe�o?</emphasis> As coincid�ncias o incomodavam. Quando o Padr�o produzia coincid�ncias, a Roda parecia for�ar os acontecimentos. <emphasis>Estou come�ando a ficar igual a uma droga de uma Aes Sedai.</emphasis> N�o era capaz de manejar o arco, mas lembrava-se do ritual.</p><p>��Suas boas-vindas aquecem meu esp�rito, Raen, assim como suas fogueiras aquecem o corpo, mas eu n�o conhe�o a can��o.</p><p>Faile e Ihvon o encararam, surpresos, por�m n�o menos que os homens de Dois Rios. A julgar pelos resmungos que ouviu de Ban, Tell e os outros, acabara de lhes dar mais uma raz�o para falat�rio.</p><p>��Ent�o ainda buscamos���entoou o homem magro.���Como foi, assim h� de ser, se lembrarmos, buscarmos e encontrarmos.���Com uma careta, ele examinou os rostos ensanguentados a confront�-lo, desviando os olhos das armas. O Povo Errante n�o tocava nada que considerasse arma.���Bem-vindos �s nossas fogueiras. Temos �gua quente, ataduras e cataplasma. Voc� sabe o meu nome���acrescentou, perscrutando Perrin.���� claro. Seus olhos.</p><p>A esposa de Raen se aproximara enquanto ele falava, uma mulher roli�a, de cabelos grisalhos, mas de fei��es suaves, uma cabe�a mais alta que o marido. A blusa vermelha, a saia amarelo-clara e o xale de franjas verdes faziam doer os olhos, mas a mulher tinha um jeito maternal.</p><p>��Perrin Aybara!���exclamou a mulher.���Sabia que conhecia seu rosto. Elyas veio com voc�?</p><p>Perrin balan�ou a cabe�a.</p><p>��Eu n�o o vejo h� muito tempo, Ila.</p><p>��Ele leva uma vida de viol�ncia���observou Raen, com tristeza.���Assim como voc�. Uma vida de viol�ncia � uma vida manchada, ainda que longa.</p><p>��N�o tente traz�-lo para o Caminho da Folha agora, Raen���retrucou Ila, com firmeza, mas delicadamente.���Ele est� ferido. Todos est�o.</p><p>��Onde � que estou com a cabe�a?���murmurou Raen. Erguendo a voz, ele chamou:���Venham, povo. Venham ajudar. Eles est�o feridos. Venham ajudar.</p><p>Homens e mulheres se aproximaram depressa, expressando sua compaix�o enquanto ajudavam os feridos a descer dos cavalos e os guiavam at� os carro��es, carregando-os quando necess�rio. Wil e alguns dos outros ficaram preocupados em se separar, mas Perrin, n�o. Viol�ncia era algo fora de cogita��o entre os Tuatha�an. Eles jamais ergueriam a m�o contra algu�m, mesmo que para salvar a pr�pria vida.</p><p>Perrin descobriu que precisava da ajuda de Ihvon para descer do cavalo. Apear fez ondas de dor irradiarem pela lateral do corpo.</p><p>��Raen���disse, um pouco ofegante���voc�s n�o deveriam estar aqui. Enfrentamos Trollocs a menos de cinco milhas deste ponto. Leve seu povo para Campo de Emond. L�, eles estar�o seguros.</p><p>Raen hesitou���e pareceu surpreso com isso���antes de balan�ar a cabe�a.</p><p>��Mesmo que eu desejasse, Perrin, o povo n�o iria querer. Tentamos acampar longe at� da menor aldeia, e n�o apenas porque os alde�es podem nos acusar falsamente de roubar seus objetos perdidos ou de tentar convencer seus filhos a encontrar o Caminho. Onde os homens constroem dez casas juntas, sempre h� potencial para viol�ncia. Desde a Ruptura, os Tuatha�an sabem disso. A seguran�a est� em nossos carro��es e no deslocamento cont�nuo, na busca cont�nua pela can��o.���Seu rosto foi tomado por uma express�o melanc�lica.���Ouvimos not�cias de viol�ncia por todos os cantos, Perrin. N�o s� aqui em Dois Rios. O mundo est� com ar de mudan�a, de destrui��o. Est� claro que precisamos encontrar logo a can��o. Sen�o, acho que nunca a encontraremos.</p><p>��Voc�s v�o encontr�-la���respondeu Perrin, baixinho. Talvez eles abominassem demais a viol�ncia para serem atropelados por um <emphasis>ta�veren</emphasis>. Talvez nem um <emphasis>ta�veren</emphasis> fosse capaz lutar contra o Caminho da Folha. Um dia, tamb�m se sentira atra�do por aquela vida.���Espero de verdade que voc�s encontrem.</p><p>��O que ser�, ser᠗�respondeu Raen.���Todas as coisas morrem no devido tempo. Talvez at� a can��o.���Ila envolveu o marido em um abra�o reconfortante, mas seus olhos estavam t�o preocupados quanto os dele.</p><p>��Venham���chamou ela, tentando esconder a inquieta��o���vamos levar voc�s para dentro. Os homens tagarelam at� com os casacos pegando fogo.���Para Faile, ela disse:���Voc� � muito bonita, crian�a. Talvez deva tomar cuidado com Perrin. S� vejo esse rapaz na companhia de belas garotas.���Faile lan�ou a Perrin um olhar inexpressivo e pensativo, depois tentou disfar�ar depressa.</p><p>Ele foi at� o carro��o de Raen���amarelo com remates vermelhos, raios das rodas em vermelho e amarelo, e aros vermelhos, al�m de ba�s vermelhos e amarelos amarrados do lado de fora, pr�ximos a uma fogueira bem no meio do acampamento���mas, assim que p�s o p� no primeiro degrau de madeira dos fundos, seus joelhos cederam. Ihvon e Raen praticamente o carregaram para dentro, seguidos depressa por Faile e Ila, e o deitaram na cama embutida na parte da frente do carro��o, com espa�o apenas para a passagem at� a porta de correr, que levava ao assento do condutor.</p><p>Parecia mesmo uma casinha, at� com cortinas rosa-claras nas duas janelinhas de cada lado. Ele ficou olhando para o teto. Ali, tamb�m, os latoeiros abusavam das cores: o teto era pintado de verniz azul-celeste, e os arm�rios altos, de verde e amarelo. Faile desafivelou o cinto dele e pegou o machado, enquanto Ila revirava um dos arm�rios. Perrin n�o conseguia ficar interessado no que as duas estavam fazendo.</p><p>��Qualquer um pode ser surpreendido���disse Ihvon.���Aprenda com isso, mas n�o se abale demais. Nem Artur Asa-de-gavi�o ganhou todas as batalhas.</p><p>��Artur Asa-de-gavi�o.���Perrin tentou rir, mas o que acabou saindo foi um ganido.���Pois 頗�conseguiu dizer.���Eu com certeza n�o sou Artur Asa-de-gavi�o, sou?</p><p>Ila encarou o Guardi�o com uma careta���ou melhor, encarou a espada com uma careta: parecia consider�-la ainda pior do que o machado de Perrin. Ent�o foi at� a cama com um chuma�o de gazes dobradas. Ao puxar a camisa de Perrin para longe do toco da flecha, a mulher estremeceu.</p><p>��Acho que n�o tenho compet�ncia para remover isso. Est� muito fundo.</p><p>��Farpadas���comentou Ihvon, com naturalidade.���Os Trollocs n�o costumam usar arcos, mas, quando usam, as flechas s�o farpadas.</p><p>��Fora���mandou a mulher roli�a com firmeza, contornando-o.���E voc� tamb�m, Raen. Cuidar dos doentes n�o � coisa de homens. Por que n�o v�o ver se Moshea j� colocou aquela roda no carro��o dele?</p><p>��Boa ideia���respondeu Raen.���Talvez tenhamos vontade de partir amanh�. Nesse �ltimo ano, as viagens foram bem dif�ceis���confessou a Perrin.���Fomos at� Cairhien, voltamos para Ghealdan e depois subimos at� Andor. Amanh�, eu acho.</p><p>Quando a porta se fechou atr�s dele e de Ihvon, Ila virou-se para Faile, preocupada.</p><p>��Se for farpada, acho que n�o consigo mesmo remover. Se tiver que tentar, eu tento, mas, se houver algu�m por perto que entenda mais dessas coisas�</p><p>��Tem uma pessoa em Campo de Emond���garantiu Faile.���Mas ser� que � seguro deix�-lo desse jeito at� amanh�?</p><p>��Mais seguro do que eu cort�-lo, talvez. Posso preparar uma mistura para ele beber, para diminuir a dor, e fazer um cataplasma contra infec��o.</p><p>Com os olhos cravados nas duas mulheres, Perrin chamou:</p><p>��Al�? Est�o lembradas de mim? Estou bem aqui. Parem de falar como se eu n�o estivesse.</p><p>As duas o encararam por um instante.</p><p>��N�o deixe que ele se mexa���disse Ila, a Faile.���Tudo bem ele falar, mas n�o permita que se mexa. Ele pode acabar se machucando ainda mais.</p><p>��Pode deixar���respondeu a jovem.</p><p>Perrin rangeu os dentes e fez o melhor que p�de para ajud�-las a remover o casaco e a camisa, mas o trabalho maior ficou com as duas. Sentia-se fraco como o ferro mais mal forjado, prestes a envergar � menor press�o. Quatro polegadas de flecha da espessura de um polegar despontavam bem acima de sua �ltima costela, projetando-se de um corte inchado e cheio de sangue seco. As duas empurraram a cabe�a dele de volta para o travesseiro; pareciam, por algum motivo, n�o desejar que ele assistisse � cena. Faile lavou a ferida enquanto Ila preparava o b�lsamo, com pil�o e almofariz���de pedra lisa e cinza, as primeiras coisas que vira no acampamento dos latoeiros que n�o eram de uma cor berrante. As duas passaram o b�lsamo em torno da flecha e envolveram Perrin em ataduras, para fixar.</p><p>��Raen e eu dormiremos debaixo do carro��o, esta noite���disse a mulher Tuatha�an, por fim, limpando as m�os. Olhando feio para o toco de flecha que brotava das ataduras, ela balan�ou a cabe�a.���Cheguei a pensar que ele poderia encontrar o Caminho da Folha, um dia. Era um rapaz tranquilo, eu acho.</p><p>��O Caminho da Folha n�o � para todos���respondeu Faile, com delicadeza, mas Ila balan�ou a cabe�a outra vez.</p><p>��Seria para todos, sim���retrucou, com a mesma delicadeza e certa tristeza���se as pessoas o conhecessem.</p><p>Ela foi embora, e Faile permaneceu sentada na beirada da cama, secando o rosto dele com um peda�o de pano dobrado. Por algum motivo, Perrin estava suando bastante.</p><p>��Eu fiz uma asneira���disse ele, depois de um tempo.���N�o, isso � muito pouco. Eu n�o sei a palavra certa.</p><p>��Voc� n�o fez asneira nenhuma���respondeu a jovem, com firmeza.���Voc� fez o que achou certo no momento. N�o consigo imaginar como foi que eles apareceram atr�s da gente. Gaul n�o costuma se enganar em rela��o � localiza��o dos inimigos. Ihvon tinha raz�o, Perrin. Ningu�m est� livre de descobrir que as circunst�ncias mudaram de repente. Voc� manteve todos unidos. Voc� nos liderou.</p><p>Ele sacudiu a cabe�a com for�a, o que fez a lateral do corpo doer ainda mais.</p><p>��Ihvon nos liderou. O que eu fiz foi causar a morte de vinte e sete homens���respondeu, em um tom amargo, tentando sentar-se para encar�-la.���Alguns eram meus amigos, Faile. E eu matei todos eles.</p><p>A jovem jogou o peso por cima dos ombros dele, para empurr�-lo de volta. A facilidade com que ela o segurava era prova de como estava fraco.</p><p>��Teremos bastante tempo para isso de manh㠗�disse, em um tom firme, observando-o com aten��o���quando teremos que fazer voc� montar no cavalo. Ihvon n�o nos liderou. Na verdade, eu n�o acho que ele se importava com mais algu�m al�m dele mesmo e de voc�. Esses homens teriam se dispersado para todos os lados, n�o fosse voc�, e a� todos ter�amos sido ca�ados. Eles n�o ficariam unidos por Ihvon, um estranho. Quanto aos seus amigos����Ela suspirou e se sentou outra vez.���Perrin, meu pai diz que um general pode cuidar dos vivos ou chorar pelos mortos, mas n�o pode fazer as duas coisas.</p><p>��Eu n�o sou general, Faile. Sou um ferreiro idiota que achou que poderia ter a ajuda de outras pessoas para ir atr�s de justi�a, ou talvez de vingan�a. Ainda quero isso, mas n�o quero mais usar ningu�m.</p><p>��Voc� acha que os Trollocs v�o embora porque voc� decidiu que n�o tem motivos genu�nos o bastante?���A f�ria na voz dela o fez erguer a cabe�a, mas Faile empurrou-a de volta no travesseiro quase com brutalidade.���Eles v�o ficar menos vis? Voc� precisa de uma raz�o mais genu�na para lutar do que o que eles representam? Outra coisa que meu pai diz. O maior pecado que um general pode cometer, pior que asneiras, pior que perder, pior que qualquer coisa, � abandonar os homens que dependem dele.</p><p>Ouviu-se uma batida na porta, e um jovem latoeiro belo e esguio, vestido em um casaco de listras azuis e vermelhas, p�s a cabe�a para dentro. Abriu um sorriso para Faile, cheio de charme e dentes brancos, antes de olhar para Perrin.</p><p>��O meu av� disse que era voc�. Achei que era aqui onde Egwene disse que tinha nascido.���Ele fechou a cara de repente, em desaprova��o.���Seus olhos. Estou vendo que foi mesmo atr�s de Elyas, para correr com os lobos. Sempre soube que voc� nunca encontraria o Caminho da Folha.</p><p>Perrin o conhecia: era Aram, neto de Raen e Ila. N�o gostava dele. O rapaz tinha o mesmo sorriso de Wil.</p><p>��V� embora, Aram. Estou cansado.</p><p>��Egwene veio com voc�?</p><p>��Egwene agora � Aes Sedai, Aram���grunhiu���e arrancaria seu cora��o fora com o Poder �nico, se voc� a tirasse para uma dan�a. V� embora!</p><p>Aram piscou e bateu a porta depressa. Ficou do lado de fora.</p><p>Perrin deixou a cabe�a desabar.</p><p>��Ele sorri demais���resmungou.���N�o consigo tolerar um homem que sorri tanto.</p><p>Faile emitiu um som abafado, e ele a encarou, desconfiado. Ela estava mordendo o l�bio inferior.</p><p>��Estou com alguma coisa na garganta���comentou ela, em uma voz abafada, levantando-se depressa. Correu at� a grande prateleira sob o p� da cama, onde Ila preparara o cataplasma, e p�s-se de costas para ele, servindo �gua de uma jarra verde e vermelha em uma caneca azul e amarela.���Quer alguma coisa para beber? Ila deixou esse p� para a dor. Vai ajudar a dormir.</p><p>��N�o quero p� nenhum���respondeu ele.���Faile, quem � o seu pai?</p><p>Ela enrijeceu as costas. Depois de um momento, virou-se de novo, segurando a caneca nas duas m�os, uma express�o indecifr�vel nos olhos obl�quos. Outro minuto se passou, ent�o a jovem respondeu:</p><p>��Meu pai � Davram, da Casa Bashere, Lorde de Bashere, Tyr e Sidona, Guardi�o da Fronteira da Praga, Defensor da Terra do Cora��o, Marechal-General da Rainha Tenobia, de Saldaea. E tio dela.</p><p>��Luz! E aquela hist�ria toda de ele ser comerciante de madeira, ou mercador de peles? Acho que me lembro de voc� tamb�m dizer que ele trabalhava com pimenta-de-gelo.</p><p>��N�o era mentira���respondeu ela, r�spida. Depois, em um tom mais brando:���S� n�o era� toda a verdade. As propriedades do meu pai realmente produzem serragem de madeira e madeira fina, pimenta-de-gelo, pele e muito mais. E os administradores realizam as vendas, ent�o ele � mesmo comerciante. De certo modo.</p><p>��Por que foi que voc� n�o me contou? Ficou escondendo as coisas. Mentindo. Voc� � uma lady!���Perrin disparou um olhar acusat�rio. N�o estava esperando por isso. Que o pai dela fosse um pequeno mercador, um ex-soldado, talvez, mas n�o isso.���Luz, o que voc� est� fazendo, correndo por a� fingindo ser Ca�adora da Trombeta? N�o me diga que o Lorde de Bashere e tudo o mais mandou voc� embora para procurar uma aventura.</p><p>Ainda segurando a caneca, Faile voltou e se sentou ao lado dele. Por alguma raz�o, parecia muito concentrada em seu rosto.</p><p>��Perrin, os meus dois irm�os mais velhos morreram. Um, lutando contra Trollocs, o outro, em uma queda do cavalo de ca�a. Com isso, virei a mais velha, e acabei tendo que estudar neg�cios e livros de contabilidade. Meus irm�os mais novos estavam virando soldados, se preparando para aventuras, e eu tinha que aprender a administrar as propriedades! Essa � a obriga��o do mais velho. <emphasis>Obriga��o</emphasis>! � enfadonho, frio, chato. Ficar afundada em papelada de escrit�rio.���Ela continuou:���Quando meu pai levou Maedin, que � dois anos mais novo que eu, com ele para a Fronteira da Praga, para mim foi a gota d��gua. As garotas de Saldaea n�o aprendem a lutar com espadas ou a enfrentar a guerra, mas meu pai nomeou um antigo soldado de seu primeiro comando como meu criado de libr�, e Eran sempre teve prazer em me ensinar a usar facas e lutar com as m�os. Acho que isso o divertia. De todo modo, quando meu pai levou Maedin com ele, chegaram not�cias convocando para a Grande Ca�ada � Trombeta, ent�o eu� fui embora. Escrevi uma carta para minha m�e, explicando meus motivos, e� fui. E cheguei em Illian a tempo de fazer o juramento de Ca�ador����Ela apanhou o peda�o de pano e limpou outra vez o suor do rosto dele.���Voc� devia mesmo dormir, se conseguir.</p><p>��Imagino que voc� seja a Lady Bashere, ou algo do tipo?���indagou ele.���Como foi que passou a gostar de um simples ferreiro?</p><p>��A palavra � �amar�, Perrin Aybara.���A firmeza de sua voz contrastava com a gentileza do pano deslizando no rosto dele.���E acho que voc� n�o � um ferreiro t�o comum assim.���O peda�o de pano parou.���Perrin, o que aquele sujeito quis dizer com �correndo com os lobos�? Raen tamb�m mencionou esse tal de Elyas.</p><p>Por um instante, Perrin ficou paralisado, sem respirar. No entanto, acabara de censur�-la por guardar segredos dele. Era isso o que ganhava por ser precipitado e nervoso. Girar um martelo na pressa fazia o sujeito acertar o pr�prio polegar. Deu um suspiro profundo e contou a ela. Como conhecera Elyas Machera e descobrira ser capaz de falar com os lobos. Como seus olhos mudaram de cor, ficaram mais agu�ados, e como o mesmo acontecera com a audi��o e o olfato, ficando como os de um lobo. E contou sobre os sonhos de lobo. Sobre o que aconteceria se ele perdesse o contato com seu lado humano.</p><p>��� t�o f�cil. �s vezes, ainda mais no sonho, esque�o que sou um homem, e n�o um lobo. Se em um desses momentos eu n�o me lembrar depressa, se eu perder o contato, vou <emphasis>mesmo</emphasis> virar lobo. Pelo menos na minha cabe�a. Uma esp�cie de lobo distorcido. N�o vai sobrar mais nada de <emphasis>mim</emphasis>.���Ele parou, esperando que Faile se encolhesse, que se afastasse.</p><p>��Se seus ouvidos s�o mesmo t�o agu�ados���respondeu ela, tranquila���� melhor eu prestar aten��o nas coisas que falo perto de voc�.</p><p>Perrin segurou a m�o dela, para que a jovem parasse de lhe dar tapinhas com o pano.</p><p>��Voc� ouviu alguma coisa que eu disse? O que � que o seu pai e a sua m�e v�o pensar, Faile? Um ferreiro que � metade lobo. Voc� � uma lady! Luz!</p><p>��Eu ouvi cada palavra. Meu pai vai aprovar. Ele sempre disse que o sangue da nossa fam�lia est� ficando fraco, que n�o � mais como antigamente. Sei que ele me acha incrivelmente mole.���Faile abriu um sorriso feroz at� para um lobo.���E, � claro, minha m�e sempre quis que eu me casasse com um rei capaz de partir Trollocs em dois com um s� golpe de espada. Acho que seu machado basta, mas ser� que voc� pode dizer a ela que � o rei dos lobos? Acho que n�o vai aparecer ningu�m para disputar o trono. Na verdade, acho que partir Trollocs em dois j� est� de bom tamanho para minha m�e, mas acredito que ela v� preferir a coisa do rei.</p><p>��Luz!���exclamou Perrin, com a voz rouca. Faile soava quase s�ria. N�o, soava s�ria. Se estivesse falando pelo menos <emphasis>meio</emphasis> s�rio, talvez os Trollocs fossem uma op��o melhor do que conhecer os pais dela.</p><p>��Aqui���disse a jovem, levando a caneca de �gua at� os l�bios dele.���Voc� parece estar com a garganta seca.</p><p>Perrin engoliu e acabou se engasgando com o gosto amargo. Faile misturara o p� de Ila! Tentou parar, mas a namorada encheu sua boca com o l�quido, e era uma quest�o de engolir ou engasgar. Quando conseguiu empurrar a caneca, Faile j� esvaziara a metade por sua goela abaixo. Por que os rem�dios sempre tinham um gosto t�o horrendo? Suspeitava que as mulheres fizessem isso de prop�sito. Apostava que os que elas tomavam n�o eram t�o ruins assim.</p><p>��Eu falei que n�o queria isso. Argh!</p><p>��Ah, foi? Acho que n�o ouvi. Mas, querendo ou n�o a bebida, voc� tem que dormir.���Ela afagou seus cabelos cacheados.���Durma, meu Perrin.</p><p>O rapaz tentou dizer a ela que tinha falado, sim, e que ela o ouvira, mas as palavras pareceram se enroscar na boca. Quis fechar os olhos. Na verdade, n�o conseguia mais mant�-los abertos. A �ltima coisa que ouviu foram os murm�rios delicados de Faile:</p><p>��Durma, meu rei dos lobos. Durma.</p></section><section><title><p>42</p><p><image l:href="#20"/></p><p>Uma folha a menos</p></title><p>Perrin estava parado perto dos carro��es dos Tuatha�an, sob o sol forte, sozinho, sem flecha nem dor no corpo. No meio dos carro��es havia lenha empilhada j� pronta para ser acesa sob panelas de ferro penduradas em trip�s, e roupas estavam penduradas nos varais. N�o se via gente nem cavalos. Perrin n�o usava casaco ou blusa, e sim um comprido colete de ferreiro que deixava os bra�os � mostra. Aquele poderia ser qualquer sonho, talvez, exceto pela consci�ncia de que era um sonho. E Perrin conhecia a sensa��o do sonho de lobo, a realidade e a concretude da grama alta ao redor de suas botas, da brisa que soprava do oeste e bagun�ava seus cabelos cacheados, dos carvalhos e pinheiros espalhados pelo campo aberto. No entanto, os carro��es berrantes dos latoeiros n�o pareciam reais, tinham um ar de insubstancialidade, passavam a sensa��o de que iriam piscar e desaparecer a qualquer momento. Os latoeiros nunca permaneciam muito tempo em um lugar. Nenhum solo os segurava.</p><p>Perguntando-se quanta influ�ncia a terra exercia sobre ele, Perrin pousou a m�o no machado���e olhou para baixo, surpreso. O que pendia no passante do cinto era o pesado martelo de ferreiro, n�o o machado. Ele franziu a testa. Um dia teria escolhido esse caminho, at� pensara que tinha, mas sem d�vida n�o era mais o caso. O machado. Escolhera o machado. A cabe�a do martelo de s�bito transformou-se em uma l�mina em meia-lua e uma ponteira grossa, ent�o tremulou e reassumiu a forma do cilindro robusto de a�o frio, depois flutuou entre as duas. Por fim, repousou como machado, e ele expirou lentamente. Isso nunca acontecera antes. Ali, conseguia alterar as coisas com facilidade, pelo menos as que tinham rela��o com ele mesmo.</p><p>��E eu quero o machado���disse com firmeza.���O machado.</p><p>Ao olhar em volta, Perrin viu apenas uma casa de fazenda ao sul, com cervos pastando no campo de cevada, rodeado por um muro de pedra bruta. N�o sentia a presen�a de lobos, e n�o chamou Saltador. O lobo poderia vir ou n�o, poderia nem ouvir, mas havia grandes chances de o Matador estar em algum canto por ali. Sentiu de repente o peso de uma aljava r�stica, com o couro ainda coberto do pelo do animal, em seu cintur�o do lado oposto ao machado, e em sua m�o surgiu um arco longo robusto, com uma flecha de ponta chata j� encaixada. Uma bra�adeira comprida de couro cobria seu antebra�o esquerdo. Nada se movia al�m dos cervos.</p><p>��Pouco prov�vel que eu acorde logo���resmungou para si mesmo. Fosse o que fosse a tal coisa que Faile dera a ele, o nocauteara de vez. Perrin lembrava-se do que acontecera t�o bem que era como se estivesse na sua frente.���Me empurrou aquele tro�o pela goela como se eu fosse um bebꠗ�grunhiu.���<emphasis>Mulheres!</emphasis></p><p>Deu uma de suas longas passadas���a paisagem ao redor ficou turva���e adentrou o p�tio da fazenda. Havia duas ou tr�s galinhas � solta, correndo como se fossem selvagens. O curral de ovelhas, com paredes de pedra, permanecia vazio, e os dois celeiros com telhado de palha estavam fechados com barras. Apesar das cortinas ainda nas janelas, a casa de dois andares parecia vazia. Se aquilo era um reflexo real do mundo desperto���e os sonhos de lobo, estranhamente, costumavam ser���ent�o j� n�o havia gente ali h� dias. Faile tinha raz�o. Sua advert�ncia se espalhara para al�m dos lugares onde ele tinha ido.</p><p>��Faile���murmurou, assombrado. Filha de um lorde. N�o, n�o s� um lorde. Tr�s vezes lorde, general e tio de uma rainha.���Luz, e ela ainda � prima de uma rainha!���E amava um simples ferreiro. As mulheres eram estranhas e surpreendentes.</p><p>Procurando ver at� onde as not�cias tinham chegado, Perrin ziguezagueou por mais da metade do caminho at� Trilha de Deven, uma milha ou mais a cada passada, retornando e entrecortando o caminho de ida. A maioria das fazendas que via mostravam o mesmo vazio. Em menos de uma a cada cinco havia sinais de algum habitante, como janelas e portas abertas, bonecas, argolas e cavalos esculpidos em madeira ca�dos na soleira de uma porta. Os brinquedos, em especial, faziam seu est�mago revirar. Ainda que n�o tivessem acreditado no aviso dele, sem d�vida poderiam ter acreditado nas muitas fazendas incendiadas, pilhas de vigas de madeira desabadas, chamin�s pretas de fuligem, mais parecendo dedos mortos e r�gidos.</p><p>Ele se inclinou para ajeitar uma boneca de rosto v�treo e sorridente e um vestido com bordado de flores���alguma mulher amava muito a pr�pria filha, para ter todo aquele trabalho de costura���e piscou. A mesma boneca permanecia nos degraus de pedra bruta de onde acabara de apanh�-la. Quando estendeu o bra�o, a que estava em sua m�o sumiu.</p><p>Lampejos negros no c�u o distra�ram de seu espanto. Corvos, um grupo de vinte ou trinta, voavam em dire��o � Floresta do Oeste. Em dire��o �s Montanhas da N�voa, onde tinha visto o Matador pela primeira vez. Perrin observou com frieza enquanto os corvos se esvaneciam at� virar pontinhos negros e desaparecer. Ent�o partiu atr�s deles.</p><p>A cada passada ligeira e comprida, avan�ava cinco milhas, a paisagem ao redor toda borrada, exceto nos momentos entre um passo e outro. Seguia pela Floresta do Oeste, rochosa e repleta de �rvores, cruzando as Colinas de Areia, cheias de arbustos, adentrando as montanhas enevoadas onde abetos, pinheiros e folhas-de-couro revestiam os vales e as encostas. Avan�ou at� chegar ao mesmo vale onde vira pela primeira vez o homem que Saltador chamava de Matador, at� a encosta da montanha por onde retornara a Tear.</p><p>O Portal dos Caminhos permanecia ali, fechado, a folha de <emphasis>Avendesora</emphasis> aparentemente apenas uma entre uma mir�ade de folhas e trepadeiras entalhadas com detalhes intrincados. �rvores isoladas, encarquilhadas e marcadas pelo vento pontilhavam o solo esparso na pedra polida onde Manetheren fora incendiada. A luz do sol cintilava sobre as �guas do Manetherendrelle, mais abaixo. Um vento fraco vindo do vale trazia cheiro de cervos, coelhos e raposas. Nada se movia, que ele pudesse ver.</p><p>J� a ponto de ir embora, parou. A folha de <emphasis>Avendesora</emphasis>. <emphasis>Uma folha</emphasis>. Loial trancara o Portal dos Caminhos colocando as duas folhas daquele lado. Ele se virou, e os pelos de sua nuca se eri�aram. Viu o Portal dos Caminhos aberto, duas massas iguais de folhagem viva revolvendo com a brisa, expondo aquela superf�cie prateada e opaca. Seu reflexo brilhava sobre ela. <emphasis>Como assim?</emphasis>, perguntou-se. <emphasis>Loial trancou essa porcaria.</emphasis></p><p>Sem se dar conta de que cruzara a dist�ncia at� a entrada, viu-se de s�bito bem diante do Portal dos Caminhos. A folha de tr�s pontas n�o estava no meio do emaranhado verdejante do lado de dentro dos dois port�es. Era estranho pensar que, naquele mesmo instante, no mundo desperto, algu�m���ou algo���estava passando bem onde ele se encontrava. Perrin tocou a superf�cie opaca e grunhiu. Poderia muito bem ser um espelho. Sua m�o deslizou na superf�cie como deslizaria por sobre o vidro mais delicado.</p><p>De canto de olho, notou que de repente a folha de <emphasis>Avendesora</emphasis> voltara ao lugar, do lado de dentro, e deu um salto para tr�s no exato instante em que o Portal dos Caminhos come�ou a se fechar. Algu�m���ou algo���sa�ra� ou entrara. <emphasis>Saiu. S� pode ter sa�do.</emphasis> Queria duvidar que fossem mais Trollocs e Desvanecidos a caminho de Dois Rios. Os port�es se fundiram, transformando-se outra vez em pedra entalhada.</p><p>A sensa��o de estar sendo observado foi a �nica advert�ncia que teve. Saltou para o lado. Teve uma vis�o borrada de algo passando feito um raio onde seu peito estivera. Uma flecha. Tinha dado um daqueles saltos que transformavam o mundo ao redor em um borr�o, e pousou em uma encosta ao longe. Ent�o, saltou outra vez, saindo do vale de Manetheren e entrando em uma plan�cie com imensos abetos. Depois, repetiu o movimento. Corria, pensando depressa, reprisando em sua mente o vale e aquele breve vislumbre da flecha. Tinha vindo <emphasis>daquela</emphasis> dire��o, e tinha <emphasis>aquele</emphasis> �ngulo quando o alcan�ou, ent�o s� podia ter vindo de�</p><p>Um �ltimo salto o levou de volta a uma encosta acima da sepultura de Manetheren. Ficou agachado entre uns poucos pinheiros entortados pelo vento, o arco preparado para atirar. Abaixo dele, de entre as �rvores mirradas e os pedregulhos, a flecha fora disparada. O Matador devia estar em algum ponto ali embaixo. Tinha de estar�</p><p>Sem pensar, Perrin saltou para longe, e as montanhas se transformaram em um borr�o cinza, marrom e verde.</p><p>��Quase���grunhiu.</p><p>Quase repetira o erro da Floresta das �guas. Mais uma vez, pensara que um inimigo se deslocaria de acordo com sua vontade, que o esperaria onde Perrin desejasse.</p><p>Dessa vez, correu o mais depressa que p�de, apenas tr�s saltos muito velozes at� a beirada das Colinas de Areia, torcendo para n�o ter sido visto. Ent�o deu a volta, saindo em um ponto mais alto da mesma encosta, bem acima, onde o ar era mais rarefeito, e as poucas �rvores eram arbustos de troncos grossos, a cinquenta passadas de dist�ncia uma da outra ou mais. Estava bem no alto, onde um homem poderia se posicionar para vigiar outro que pretendesse chegar sorrateiro ao local de onde aquela flecha fora disparada.</p><p>E l� estava sua presa, cem passos abaixo, cabelos e casaco escuros. Um homem alto, acocorado ao lado de um afloramento de granito do tamanho de uma mesa, o arco na m�o, analisando a encosta mais abaixo com uma paci�ncia dedicada. Era a primeira vez que Perrin dava uma boa olhada no sujeito. Cem passadas era uma dist�ncia curta para seus olhos. O casaco daquele Matador tinha o estilo das Terras da Fronteira, e o rosto parecia tanto com o de Lan que os dois poderiam ser irm�os. S� que Lan n�o tinha irm�os���ou nenhum parente vivo, at� onde Perrin sabia���e, ainda que tivesse, o sujeito n�o estaria ali. Pois bem, o homem era das Terras da Fronteira. Talvez shienarano, embora seus cabelos fossem mais compridos, sem as laterais raspadas de forma a restar apenas o rabo de cavalo, e presos com uma corda de couro, como os de Lan. O homem n�o podia ser malkieri. Lan era o �ltimo malkieri vivo.</p><p>Fosse l� de onde o sujeito viesse, Perrin n�o sentiu remorso algum em preparar o arco e mirar a flecha de ponta larga para as costas do Matador. O homem tentara mat�-lo em uma emboscada. Um disparo encosta abaixo seria complicado.</p><p>Talvez tivesse demorado demais, ou talvez o sujeito tivesse sentido o olhar frio que Perrin lhe direcionava, mas de s�bito o Matador tornou-se um borr�o, disparando para longe em dire��o ao leste.</p><p>Perrin soltou um palavr�o e saiu atr�s, tr�s passadas at� as Colinas de Areia, mais uma at� a Floresta do Oeste. O Matador desapareceu por entre os carvalhos, as folhas-de-couro e a vegeta��o rasteira.</p><p>Perrin parou e escutou. Sil�ncio. Os esquilos e p�ssaros estavam im�veis. Inspirou profundamente. Um pequeno bando de cervos passara por ali havia pouco tempo. Tamb�m sentiu o leve tra�o de algo. Era humano, por�m frio demais para ser um homem, desprovido demais de emo��o. Um odor cuja familiaridade instigava seu pensamento. O Matador estava pr�ximo. O ar parecia t�o inerte quanto a floresta. N�o havia qualquer brisa para informar de onde vinha aquele cheiro.</p><p>��Belo truque, Olhos-Dourados, trancar o Portal dos Caminhos.</p><p>Perrin ficou tenso, apurando os ouvidos. N�o havia como dizer de que ponto daquele denso matagal viera a voz. Nem uma �nica folha se mexia.</p><p>��Se voc� soubesse quantos Forjados das Sombras morreram tentando sair dos Caminhos por ali, ficaria feliz. <emphasis>Machin Shin</emphasis> se refestelou naquele port�o, Olhos-Dourados. Mas n�o foi um truque bom o bastante. Voc� mesmo viu: o port�o agora est� aberto.</p><p>Ali, � direita. Perrin deslizou pelas �rvores, t�o silencioso como quando ca�ara pelo lugar.</p><p>��No come�o, foram s� umas poucas centenas, Olhos-Dourados. S� o suficiente para desestabilizar aqueles imbecis dos Mantos-brancos e garantir a morte do renegado.���A voz do Matador se encheu de raiva.���Que a Sombra me consuma se aquele homem n�o tiver mais sorte que a Torre Branca.���De repente, o sujeito soltou uma risada.���Mas voc�, Olhos-Dourados� sua presen�a foi uma surpresa. Tem gente que quer ver sua cabe�a em um espeto. Sua preciosa Dois Rios ser� arrasada de ponta a ponta, para que voc� seja arrancado de l�. O que me diz, Olhos-Dourados?</p><p>Perrin permanecia parado ao lado do tronco retorcido de um grande carvalho. Por que o homem falava tanto? Por que estava falando? <emphasis>Est� me atraindo para ele.</emphasis></p><p>Colando as costas no tronco robusto do carvalho, ele examinou a floresta. Nenhum movimento. O Matador <emphasis>queria</emphasis> que ele se aproximasse. Com certeza era uma emboscada. E Perrin queria encontrar o homem e dilacerar a garganta dele. No entanto, poderia acabar morrendo, e, se isso acontecesse, ningu�m saberia que o Portal dos Caminhos estava aberto, nem que os Trollocs estavam avan�ando �s centenas, talvez aos milhares. N�o entraria no jogo do Matador.</p><p>Com um sorriso infeliz, saiu do sonho de lobo, se for�ando a acordar, e�</p><p>� Faile passou os bra�os ao redor de seu pesco�o e mordiscou sua barba com os dentinhos brancos, enquanto as rabecas dos latoeiros entoavam uma melodia c�lida e alegre ao redor das fogueiras. <emphasis>O p� de Ila. N�o consigo acordar!</emphasis> A consci�ncia de que estava sonhando se esvaneceu. Rindo, tomou Faile nos bra�os e a conduziu para as sombras, onde a grama era macia.</p><empty-line/><p>O despertar foi um processo lento, embalado pela dor indistinta na lateral do corpo. A luz do dia entrava pelas pequenas janelas. Luz clara. Manh�. Ele tentou se sentar e desabou de volta, com um grunhido.</p><p>Faile saltou de um banquinho baixo. Pelo aspecto dos olhos negros, n�o tinha dormido.</p><p>��Fique deitado���mandou.���Voc� j� se debateu demais durante o sono. N�o dei tudo de mim tentando impedir voc� de rolar e acabar enfiando esse tro�o ainda mais para dentro s� para voc� fazer isso agora, acordado.���Ihvon permanecia parado, encostado na porta feito uma l�mina negra.</p><p>��Me ajude a levantar���pediu Perrin. Falar do�a, mas respirar tamb�m, e ele precisava falar.���Preciso ir at� as montanhas. At� o Portal dos Caminhos.</p><p>Faile p�s a m�o na testa dele, franzindo o rosto.</p><p>��Sem febre���murmurou. Depois, mais alto:���Voc� vai para Campo de Emond, onde uma Aes Sedai vai poder Cur�-lo. Voc� <emphasis>n�o</emphasis> vai se matar tentando cavalgar at� as montanhas com uma flecha cravada no corpo. Est� me escutando? Se eu ouvir mais uma palavra que seja sobre montanhas ou Portais dos Caminhos, vou mandar Ila preparar outra mistura para voc� voltar a dormir, e a� voc� viajar em cima de uma liteira. Talvez at� fosse melhor, mesmo.</p><p>��Os Trollocs, Faile! O Portal dos Caminhos est� aberto outra vez! Preciso impedi-los!</p><p>A mulher sequer hesitou antes de balan�ar a cabe�a.</p><p>��Voc� n�o pode fazer nada em rela��o a isso, n�o no estado em que se encontra. Voc� vai para Campo de Emond e ponto final.</p><p>��Mas�!</p><p>��N�o me venha com �mas�, Perrin Aybara. Nem mais uma palavra.</p><p>Ele rangeu os dentes. O pior era que a mulher estava certa. Se n�o conseguia se levantar sozinho de uma cama, como poderia ir at� Manetheren montado em uma sela?</p><p>��Campo de Emond���concordou calmamente, mas Faile ainda fungou e resmungou algo sobre �cabe�a-dura�. O que ela queria? <emphasis>Eu fui delicado, e que a Luz a queime por ser t�o teimosa!</emphasis></p><p>��Ent�o chegar�o mais Trollocs���comentou Ihvon, pensativo. N�o perguntou como Perrin sabia. Depois balan�ou a cabe�a, como se dispensasse a informa��o.���Avisarei aos outros que voc� acordou.���Saiu depressa, fechando a porta atr�s de si.</p><p>��Ser� que eu sou o �nico que v� o perigo?���resmungou Perrin.</p><p>��Eu vejo uma flecha cravada em vocꠗ�retrucou Faile, com firmeza.</p><p>O lembrete trouxe uma pontada de dor. Perrin sufocou um ganido e ela meneou a cabe�a, satisfeita. Satisfeita!</p><p>Queria se levantar e partir naquele instante. Quanto mais cedo fosse Curado, mais cedo poderia ir fechar o Portal dos Caminhos, e dessa vez seria definitivamente. Faile insistiu em lhe dar o caf� da manh� na boca, um caldo espesso com pur� de vegetais, pr�prio para um bebezinho banguela. Uma colherada de cada vez, com pausas para limpar o queixo. E n�o permitiu que ele comesse sozinho. Quando ele protestava ou pedia que ela acelerasse o ritmo, Faile o fazia engolir de volta as palavras com mais uma colherada de papa. N�o permitiu sequer que ele lavasse o pr�prio rosto. Quando come�ou a escovar seus cabelos e pentear a barba, Perrin j� havia ca�do em um sil�ncio digno.</p><p>��Voc� fica lindo de mau humor���comentou ela. E beliscou seu nariz!</p><p>Ila, que naquela manh� usava blusa verde e saia azul, subiu no carro��o trazendo o casaco e a camisa dele, ambos limpos e cerzidos. Para sua irrita��o, precisou da ajuda das duas mulheres para se vestir. Precisou de ajuda para se <emphasis>sentar</emphasis> para se vestir, o casaco desabotoado e a camisa para fora da cal�a, emboladinha em volta do toco da flecha.</p><p>��Obrigado, Ila���disse, passando os dedos pelos remendos caprichados.���A costura est� excelente.</p><p>��Est� mesmo���concordou a mulher.���Faile � muito habilidosa com a agulha.</p><p>A jovem enrubesceu, e Perrin abriu um sorriso, pensando em como ela fora firme em dizer que nunca remendaria as roupas dele. Um lampejo nos olhos da garota o fez segurar a l�ngua. �s vezes, o sil�ncio era a atitude mais s�bia.</p><p>��Obrigado, Faile���disse, em vez de zombar, em um tom s�rio.</p><p>A jovem enrubesceu ainda mais.</p><p>Depois que as mulheres o puseram de p�, Perrin conseguiu chegar � porta sem maiores dificuldades, mas precisou se apoiar nas duas para descer os degraus de madeira. Pelo menos os cavalos estavam selados, e todos os rapazes de Dois Rios, reunidos, os arcos pendurados nas costas. De caras e roupas limpas, com apenas alguns curativos � mostra.</p><p>Uma noite com os Tuatha�an fora claramente suficiente para melhorar os �nimos do grupo, mesmo dos que ainda pareciam n�o conseguir caminhar nem cem passos. Os olhos mostravam apenas um resqu�cio do esgotamento que era evidente na noite anterior. Wil tinha uma bela garota latoeira de olhos grandes em cada bra�o, � claro, e Ban al�Seen, com aquele nariz e uma atadura na cabe�a que fazia o cabelo escuro ficar eri�ado como um arbusto, estava de m�os dadas com uma terceira, de sorriso t�mido. A maioria dos outros rapazes segurava tigelas com um cozido espesso de vegetais, que eles comiam com gosto.</p><p>��Isso � bom, Perrin���comentou Dannil, entregando a tigela vazia para uma mulher latoeira. Ela gesticulou, querendo saber se o varapau comeria mais, e ele balan�ou a cabe�a, mas disse:���Acho que nunca me cansaria de comer isso, e voc�?</p><p>��J� estou satisfeito���respondeu Perrin, em um tom amargo. Pur� de vegetais e caldo.</p><p>��As garotas latoeiras dan�aram, ontem � noite���comentou Tell, irm�o de Dannil, os olhos arregalados.���Todas as solteiras, e algumas das casadas! Voc� devia ter visto, Perrin.</p><p>��J� vi latoeiras dan�ando antes, Tell.</p><p>Aparentemente, n�o conseguira disfar�ar o que sentira vendo as mo�as, pois Faile retrucou, em um tom seco:</p><p>��Voc� j� viu a tiganza, foi? Um dia, se for bonzinho, eu dan�o a sa�sara para voc�. A� vai ver o que � uma dan�a de verdade.���Ila soltou um arquejo ao reconhecer o nome, e Faile ficou ainda mais corada do que ficara no quarto.</p><p>Perrin apertou os l�bios. Se essa sa�sara fizesse o cora��o bater mais forte do que o gingado l�nguido dos quadris das latoeiras� tiganza, era isso? Definitivamente iria querer assistir a uma dan�a de Faile. Teve a prud�ncia de n�o olhar para a jovem.</p><p>Raen chegou, vestindo o mesmo casaco verde-claro, por�m com cal�as mais vermelhas do que qualquer uma que Perrin j� tivesse visto. A combina��o dava dor de cabe�a.</p><p>��Por duas vezes voc� visitou nossas fogueiras, Perrin, e, pela segunda vez, vai embora sem uma festa de despedida. Precisa voltar logo, para podemos corrigir esse erro.</p><p>Afastando-se de Faile e Ila���conseguia ao menos ficar de p� sozinho���Perrin pousou a m�o no ombro do homem forte.</p><p>��Venham com a gente, Raen. Ningu�m em Campo de Emond far� mal a voc�s. Pelo menos � mais seguro do que aqui fora, com os Trollocs.</p><p>Raen hesitou, depois sacudiu o corpo, murmurando:</p><p>��N�o sei como voc� consegue a proeza de me fazer sequer considerar esse tipo de coisa.���Ele se virou e disse, em voz alta:���Povo, Perrin nos chamou para ir com ele at� sua aldeia, onde estaremos a salvo dos Trollocs. Quem deseja ir?���Rostos em choque o encararam de volta. Algumas mulheres puxaram as crian�as para perto, que se esconderam debaixo das saias das m�es, como se a mera ideia j� as assustasse.���Entende, Perrin?���perguntou Raen.���Para n�s, a seguran�a est� no deslocamento, n�o nas aldeias. Garanto a voc� que n�o passamos duas noites no mesmo lugar, e viajamos o dia inteiro at� parar de novo.</p><p>��Talvez isso n�o seja o bastante, Raen.</p><p>O Mahdi deu de ombros.</p><p>��Sua preocupa��o me comove, mas n�s vamos ficar a salvo, se for o que a Luz desejar.</p><p>��O Caminho da Folha n�o existe apenas para que n�o haja viol�ncia���interveio Ila, com gentileza���mas para que aceitemos o que vem. A folha cai na hora certa, sem reclamar. A Luz vai nos proteger enquanto n�o for a nossa hora.</p><p>Perrin quis discutir, mas debaixo de toda a ternura e compaix�o em seus rostos havia uma firmeza r�gida. Achava que conseguiria for�ar Bain e Chiad a usar vestidos e abandonar as lan�as���ou at� mesmo Gaul!���antes de fazer aquela gente ceder um tantinho que fosse.</p><p>Raen apertou a m�o de Perrin, e, com isso, as mulheres come�aram a dar abra�os de despedida nos rapazes de Dois Rios e at� em Ihvon, e os homens trocaram apertos de m�os, todos rindo e desejando boa viagem, esperando que retornassem. Quase todos. Aram permaneceu afastado em um canto, a testa franzida e as m�os enfiadas nos bolsos do casaco. Na �ltima vez em que o encontrara, Perrin achou que o homem parecia meio azedo, o que era estranho para um latoeiro.</p><p>Os homens n�o se contentaram em apertar a m�o de Faile, tamb�m a abra�aram. Perrin conseguiu manter a express�o serena quando alguns dos rapazes mais jovens exageraram no entusiasmo, apenas cerrando um pouco os dentes. Conseguiu sorrir. Nenhuma mulher mais jovem que Ila o abra�ou. Mesmo quando Faile permitia que algum magrela de casaco pomposo a abra�asse e tentasse dar uns apert�es em suas bochechas, parecia dar um jeito de vigi�-lo feito um c�o de guarda. As mulheres sem cabelos grisalhos davam uma olhadela para o rosto dela e escolhiam outra pessoa. Enquanto isso, Wil parecia beijar todas as mulheres do acampamento. Ban tamb�m, com aquele nariz. Ali�s, at� Ihvon estava se divertindo. Seria bem feito para Faile se algum daqueles sujeitos quebrasse suas costelas.</p><p>Enfim os latoeiros se afastaram, exceto por Raen e Ila, abrindo um espa�o em torno do pessoal de Dois Rios. O homem magro e grisalho se curvou em uma mesura formal, com as m�os no peito.</p><p>��Voc�s vieram em paz. Partam agora em paz. Nossas fogueiras sempre os receber�o. O Caminho da Folha � a paz.</p><p>��Que a paz esteja sempre com voc�s���respondeu Perrin���e com todo o Povo.���<emphasis>Luz, que assim seja.</emphasis>���Eu encontrarei a can��o, ou outro a encontrar�, mas a can��o ser� cantada, este ano ou em um ano por vir.���Ele se perguntou se algum dia tinha havido uma can��o, ou se o in�cio da jornada dos Tuatha�an fora em busca de outra coisa. Elyas dissera que eles n�o sabiam que can��o era, mas saberiam quando a encontrassem. <emphasis>Que encontrem seguran�a, ao menos.</emphasis>���Assim como foi um dia, assim haver� de ser novamente, neste mundo sem fim.</p><p>��Mundo sem fim���responderam os Tuatha�an, em um murm�rio solene.���Mundo e tempo sem fim.</p><p>Alguns abra�os e apertos de m�o finais foram trocados enquanto Ihvon e Faile ajudavam Perrin a montar em Galope. Mais alguns beijos de Wil. E Ban. Ban! Mesmo com <emphasis>aquele</emphasis> nariz! Outros, os bastante feridos, foram erguidos nos cavalos. Os latoeiros acenavam como se dessem adeus a vizinhos que partiam em uma longa viagem.</p><p>Raen veio apertar a m�o de Perrin.</p><p>��Voc� n�o quer reconsiderar?���indagou o rapaz de Dois Rios.���Lembro que disse uma vez que havia maldade solta no mundo. Est� pior agora, Raen, e est� aqui.</p><p>��Que a paz esteja convosco, Perrin���respondeu Raen, com um sorriso.</p><p>��E convosco���retrucou o rapaz, em um tom triste.</p><p>Os Aiel s� apareceram quando o grupo j� estava uma milha a norte do acampamento dos latoeiros. Bain e Chiad olharam para Faile antes de seguir adiante, at� a posi��o de sempre. Perrin n�o sabia ao certo o que as duas pensavam que poderia acontecer com Faile no meio dos Tuatha�an.</p><p>Gaul postou-se ao lado de Galope, caminhando a passos largos sem esfor�o. O grupo n�o avan�ava muito depressa, com metade dos homens a p�. Ele lan�ou um olhar avaliativo a Ihvon, como de costume, antes de virar-se para Perrin.</p><p>��Sua ferida melhorou?</p><p>A ferida do�a terrivelmente. Cada passo do cavalo dava um solavanco naquele toco de flecha.</p><p>��Estou �timo���respondeu, sem cerrar os dentes.���Talvez consiga at� dan�ar em Campo de Emond, hoje � noite. E voc�? Passou uma noite boa jogando O Beijo da Donzela?���Gaul trope�ou e quase caiu de cara no ch�o.���O que houve?</p><p>��Quem foi que voc� ouviu sugerir esse jogo?���perguntou o Aiel, baixinho, com o olhar fixo � frente.</p><p>��Chiad. Por qu�?</p><p>��Chiad���resmungou Gaul.���A mulher � Goshien. Goshien! Eu devia lev�-la de volta �s �guas Quentes como <emphasis>gai�shain</emphasis>.���As palavras pareciam raivosas, mas n�o no tom singular do homem.���Chiad.</p><p>��Pode me dizer qual � o problema?</p><p>��Um Myrddraal tem menos ast�cia que uma mulher���respondeu Gaul, impass�vel���e um Trolloc luta com mais honra.���Depois de um instante acrescentou, em um tom feroz e mais baixo:���E um bode � mais sensato.</p><p>Ent�o apressou o passo e correu adiante para juntar-se �s Donzelas. N�o falou com elas, pelo que Perrin p�de perceber, apenas reduziu a marcha para caminhar ao lado das duas.</p><p>��Voc� entendeu alguma coisa?���perguntou Perrin a Ihvon.</p><p>O Guardi�o balan�ou a cabe�a.</p><p>Faile fungou com desd�m.</p><p>��Se ele est� pensando em causar problemas a elas, as duas v�o pendur�-lo de cabe�a para baixo em um galho, para esfriar a cabe�a.</p><p>��Voc� entendeu?���perguntou Perrin. Faile continuou andando, sem olhar para ele nem responder, o que Perrin interpretou como uma negativa.���Acho que talvez precise cruzar outra vez com o acampamento de Raen. Tem muito tempo que n�o vejo a tiganza. Foi� interessante.</p><p>Ela resmungou algo entre dentes, mas ele entendeu: �Voc� � que devia ser pendurado de cabe�a para baixo!�</p><p>Perrin olhou para baixo e abriu um sorriso.</p><p>��Mas n�o vou precisar. Voc� prometeu dan�ar essa tal de sa�sara para mim.���Um rubor subiu pelo rosto da jovem.���� parecida com a tiganza? Quer dizer, se n�o for, n�o faz muito sentido.</p><p>��Seu idiota descerebrado!���gritou ela, de repente, cravando os olhos em Perrin.���Homens deitaram seus cora��es e fortunas aos p�s de mulheres que dan�aram a sa�sara. Se minha m�e suspeitasse que sei dan�ar�</p><p>Faile cerrou os dentes, como se tivesse falado demais, e voltou a olhar para a frente. O rubor a cobria por inteiro, desde os cabelos escuros at� o decote do vestido.</p><p>��N�o tem motivo para voc� dan�ar���murmurou ele.���Meu cora��o e fortuna j� est�o inteirinhos a seus p�s.</p><p>Faile trope�ou, depois riu baixinho e pressionou o rosto contra a panturrilha dele, coberta pela bota.</p><p>��Voc� � esperto demais���sussurrou.���Um dia vou dan�ar para voc�, e seu sangue vai ferver.</p><p>��Voc� j� faz isso comigo���respondeu Perrin, e a jovem riu outra vez.</p><p>Ela enfiou o bra�o por tr�s do estribo e abra�ou a perna dele enquanto caminhava.</p><p>Depois de um tempo, nem a ideia de Faile dan�ando���ele imaginou como seria, exagerando a dan�a das latoeiras, mas tinha que ser muito impressionante para superar���era capaz de competir com a dor na lateral do corpo. Cada passo de Galope era uma agonia. Ele se aguentava com as costas bem retas. Parecia doer um pouquinho menos se sentasse desse jeito. Al�m do mais, n�o queria estragar a inje��o de �nimo que os Tuatha�an tinham dado ao grupo. Os outros homens tamb�m estavam empertigados nas selas, mesmo os que no dia anterior pareciam cabisbaixos e coxos. E Ban, Dannil e os outros caminhavam de cabe�a erguida. Perrin n�o seria o primeiro a esmorecer.</p><p>Wil come�ou a assobiar �Voltando da Falha de Tarwin�, e uns tr�s ou quatro o acompanharam. Depois de um tempo, Ban come�ou a cantar, a voz grave e clara:</p><poem><stanza><v>�Minha casa espera por mim,</v><v>e a mo�a que deixei para tr�s.</v><v>Dos tesouros que esperam por mim,</v><v>esse � o que desejo mais.</v><v>De olhos alegres e um sorriso para ado�ar,</v><v>com abra�os quentes e lindo caminhar,</v><v>e beijos ferventes para me amansar.</v><v>Tesouro maior em minha mente n�o h�.�</v></stanza></poem><p>Outros se juntaram no segundo verso, e logo todos estavam cantando, at� Ihvon. E Faile. N�o Perrin, naturalmente. Muita gente j� tinha dito que ele cantava igual a um sapo esmagado. Alguns at� come�aram a caminhar no compasso da can��o.</p><poem><stanza><v>�Ora, a sombria Fenda de Tarwin eu vi,</v><v>E uma horda de Trollocs conheci.</v><v>De um Meio-homem um ataque sofri,</v><v>e na cara fria da morte sorri.</v><v>Mas uma linda garota espera por mim</v><v>na macieira, para uma dan�a e beijos sem fim��</v></stanza></poem><p>Perrin balan�ou a cabe�a. Um dia antes, eles estavam prontos para fugir e se esconder. Hoje, cantavam sobre uma batalha t�o antiga que deixara em Dois Rios apenas a lembran�a dessa can��o. Talvez estivessem virando soldados. Teriam de virar, a menos que ele conseguisse fechar o Portal dos Caminhos.</p><p>Fazendas come�aram a aparecer com mais frequ�ncia, mais pr�ximas, at� que o grupo se viu cruzando um trecho de terra batida entre campos margeados por cercas-vivas ou muros baixos de pedra bruta. Fazendas abandonadas. Ningu�m ali era apegado � terra.</p><p>O grupo chegou � Estrada Velha, que corria a norte do Rio Branco, o Manetherendrelle, por Trilha de Deven at� Campo de Emond. Enfim come�aram a ver ovelhas nos pastos, agrupadas aos montes como se fossem rebanhos de doze homens reunidos, com dez pastores onde antes teriam visto um, metade deles homens feitos. Pastores levando arcos os observaram passar, cantando a plenos pulm�es, sem saber muito bem o que pensar.</p><p>Perrin tamb�m n�o soube o que pensar de sua primeira vis�o de Campo de Emond, e, pelo jeito como a cantoria titubeou e morreu, nem os outros homens de Dois Rios.</p><p>As �rvores, cercas e sebes mais pr�ximas da aldeia haviam simplesmente desaparecido, sido cortadas. As casas mais a oeste de Campo de Emond um dia estiveram rodeadas das �rvores da orla da Floresta do Oeste. Os carvalhos e folhas-de-couro entre as casas permaneciam, mas a floresta come�ava a quinhentos passos, a dist�ncia de uma flechada longa, e os machados ressoavam enquanto os homens trabalhavam para cortar ainda mais troncos. Fileiras e mais fileiras de estacas da altura da cintura de um homem, cravadas inclinadas no ch�o, rodeavam a aldeia a curta dist�ncia das casas, formando um cercado cont�nuo de pontas afiadas, exceto onde passava a estrada. Nos intervalos entre as estacas havia homens parados feito guardas, alguns vestindo partes de armaduras antigas ou camisas de couro com discos de a�o enferrujado costurados, uns poucos usando quepes velhos e amassados, com lan�as de ca�a, alabardas desenterradas dos s�t�os ou ganchos presos a bast�es compridos. Mais homens, e tamb�m alguns garotos, todos com arcos nas m�os, vigiavam do alto de alguns dos telhados de sap�. Levantaram-se ao avistar Perrin e os outros chegando e gritaram para os que estavam embaixo.</p><p>Ao lado da estrada, atr�s das estacas, havia uma geringon�a feita de madeira e uma corda grossa retorcida e, bem perto, uma pilha de pedras maiores que uma cabe�a humana. Ihvon percebeu a cara fechada de Perrin, enquanto se aproximavam.</p><p>��Catapultas���comentou o Guardi�o.���J� s�o seis. Seus carpinteiros souberam o que fazer, quando Tomas e eu mostramos como eram as m�quinas. As estacas impedir�o a investida dos Trollocs ou dos Mantos-brancos, qualquer um dos dois.���Pelo tom, o homem poderia estar falando sobre a possibilidade de mais chuvas.</p><p>��Eu disse que sua aldeia estava se preparando para se defender sozinha.���Faile soava firme e orgulhosa, como se a aldeia fosse dela.���Um povo forte, para uma terra t�o branda. Quase poderiam ser de Saldaea. Moiraine sempre disse que o sangue de Manetheren ainda corre forte por aqui.</p><p>Perrin s� conseguiu balan�ar a cabe�a.</p><p>As ruas de terra batida estavam quase apinhadas o bastante para uma cidade, os espa�os entre as casas, repletos de carros e carro��es. Dava para ver ainda mais gente atr�s das portas abertas e janelas sem cortinas. A multid�o abriu espa�o para Ihvon e os Aiel, e murm�rios e sussurros os acompanharam pela rua.</p><p>��� Perrin Olhos-Dourados.</p><p>��Perrin Olhos-Dourados.</p><p>Queria que o povo n�o fizesse aquilo. Aquela gente o conhecia, ao menos alguns deles. O que pensavam que estavam fazendo? L� estava Neysa Ayellin, com sua cara de cavalo, que lhe dera umas palmadas no bumbum aos dez anos de idade, naquela vez em que Mat o convencera a roubar uma de suas tortas de groselha. E Cilia Cole, com bochechas rosadas e olhos grandes, a primeira garota que beijara, ainda roli�a e atraente. E Pel Aydaer, com seu cachimbo e sua cabe�a careca, que ensinara Perrin a ca�ar trutas com as m�os. Al�m da pr�pria Daise Congar, uma mulher alta e corpulenta que fazia Alsbet Luhhan parecer meiga, e seu marido, Wit, um homem magrelo, sempre sobrepujado pela esposa. Todos o encaravam e sussurravam para o povo de fora, que talvez n�o soubesse quem ele era. Quando o velho Cenn Buie ergueu um garoto nos ombros, apontando para Perrin e falando de um jeito animado, o rapaz grunhiu. Estavam todos loucos.</p><p>O povo da aldeia acompanhou seu grupo, uma marcha que suscitou uma onda de murm�rios. Galinhas corriam por todos os cantos, por entre os p�s das pessoas. Os gritos de bezerros e guinchos de porcos nos currais competiam com o barulho dos humanos. Ovelhas se apinhavam pelo campo comunit�rio, e vacas leiteiras malhadas pastavam a grama na companhia de gansos cinza e brancos.</p><p>Bem no meio do campo comunit�rio havia um poste comprido com um estandarte branco de bordas vermelhas no topo. O tecido tremulava devagar, exibindo a cabe�a vermelha de um lobo. Perrin encarou Faile, mas a jovem balan�ou a cabe�a, t�o surpresa quanto ele.</p><p>��Um s�mbolo.</p><p>Perrin n�o tinha ouvido Verin se aproximar, mas agora percebia os sussurros baixinhos de �Aes Sedai� ao redor dela. Ihvon n�o parecia surpreso. O povo a encarava, assombrado.</p><p>��O povo precisa de s�mbolos���prosseguiu Verin, pousando a m�o no ombro de Galope.���Quando Alanna contou aos alde�es o quanto os Trollocs temiam os lobos, todo mundo come�ou a achar esse estandarte uma �tima ideia. Voc� n�o concorda, Perrin?���Haveria uma frieza na voz dela? Seus olhos escuros o encaravam, feito os de um p�ssaro. Um p�ssaro prestes a apanhar um verme?</p><p>��Fico me perguntando o que a Rainha Morgase vai pensar disso���comentou Faile.���Isso aqui faz parte de Andor. Rainhas n�o gostam muito de ver estandartes estranhos sendo erguidos em seus dom�nios.</p><p>��S�o s� linhas num mapa���retrucou Perrin. Era bom estar parado. A flecha parecia ter diminu�do um pouquinho o latejar.���Eu nem sabia que essa terra era parte de Andor antes de ir a Caemlyn. E duvido que muita gente por aqui saiba.</p><p>��Os governantes t�m a tend�ncia de acreditar nos mapas, Perrin.���N�o havia d�vidas quanto � frieza na voz de Faile.���Quando eu era pequena, havia algumas partes de Saldaea que n�o viam um coletor de impostos h� cinco gera��es. Quando meu pai conseguiu desviar a aten��o da Praga por um tempinho, Tenobia garantiu que o povo de l� soubesse quem era a rainha.</p><p>��Isso aqui � Dois Rios���respondeu ele, abrindo um sorriso���n�o Saldaea.���Eles pareciam muito amea�adores, esse povo de Saldaea. Quando Perrin virou-se de volta para Verin, o sorriso transformou-se em uma careta de desgosto.���Pensei que voc� estivesse� escondendo� quem �.���N�o sabia o que era mais perturbador: uma Aes Sedai em segredo, ou uma Aes Sedai �s claras.</p><p>A m�o da mulher pairou a um mil�metro do toco de flecha quebrada que se projetava da lateral do corpo de Perrin. O entorno da ferida come�ou a formigar.</p><p>��Ah, isso n�o � bom���murmurou.���Acertou a costela e infeccionou, apesar do cataplasma. Acho que vou precisar de Alanna.���Ela piscou e recolheu a m�o. O formigamento tamb�m desapareceu.���O qu�? Escondendo? Ah. Com tudo o que veio � tona, n�o conseguimos mais permanecer escondidas. Acho que poder�amos ter� ido embora. Mas voc� n�o iria querer isso, n�o � mesmo?���L� estava outra vez aquele olhar penetrante e avaliador, feito o de um p�ssaro.</p><p>Perrin hesitou, mas enfim soltou um suspiro.</p><p>��Acho que n�o.</p><p>��Ah, que bom ouvir isso���respondeu a mulher, com um sorriso.</p><p>��Por que voc� veio para c�, Verin, de verdade?</p><p>A Aes Sedai pareceu n�o ouvi-lo. Ou n�o quis ouvir.</p><p>��Agora temos que ver esse seu problema. E esses outros rapazes tamb�m precisam de cuidados. Alanna e eu vamos tratar dos piores, mas�</p><p>Os outros homens ficaram t�o at�nitos com o que encontraram quanto ele. Ban co�ou a cabe�a ao olhar o estandarte, e alguns ficaram apenas olhando ao redor, estupefatos. Mas a maioria encarava Verin, todos apreensivos e de olhos arregalados. Sem d�vida haviam ouvido os sussurros de �Aes Sedai�. O pr�prio Perrin percebeu que n�o escapava totalmente �queles olhares, j� que estava de conversa com uma Aes Sedai, como se fosse qualquer mulher da aldeia.</p><p>Verin devolveu o olhar do grupo, ent�o, de s�bito, sem nem olhar, esticou o bra�o para tr�s e apanhou uma garota de uns dez ou doze anos dentre os espectadores. A garota, de cabelos longos e escuros presos com fitas azuis, enrijeceu com o choque.</p><p>��Voc� conhece Daise Congar, garota?���perguntou Verin.���Bom, v� atr�s dela e diga que tem homens feridos precisando de umas ervas da Sabedoria. E mande-a se apressar. Diga que n�o tenho paci�ncia para a emp�fia dela. Entendeu? Agora v�.</p><p>Perrin n�o reconheceu a garota, mas era evidente que ela conhecia Daise, pois se encolheu com a mensagem. Ainda assim, Verin era Aes Sedai. Depois de um instante avaliando o que era pior���Daise Congar ou uma Aes Sedai���a menina disparou pela multid�o.</p><p>��Alanna vai dar um jeito em vocꠗ�disse Verin, encarando-o outra vez.</p><p>Perrin desejou que as palavras dela n�o dessem margem a tantas interpreta��es.</p></section><section><title><p>43</p><p><image l:href="#7"/></p><p>Cuidar dos vivos</p></title><p>Verin tomou a r�dea de Galope e conduziu-o at� a estalagem Fonte de Vinho, a multid�o se abrindo como uma onda para lhe dar passagem. Dannil, Ban e os outros vinham em seguida, a cavalo e a p�, j� com os parentes se aproximando. Por mais pasmos que estivessem com as mudan�as em Campo de Emond, os rapazes ainda exibiam seu orgulho ao avan�ar, fosse mancando ou empertigando-se nas selas; haviam enfrentado Trollocs e retornado para casa. As mulheres, por�m, tocavam os filhos, sobrinhos e netos, com frequ�ncia engolindo o choro, e seus gemidos baixos formavam um murm�rio suave e dolorido. Homens de olhos apertados tentavam esconder as preocupa��es por detr�s de sorrisos orgulhosos, com tapinhas nos ombros e exclama��es a respeito das barbas rec�m-surgidas, mas seus abra�os por vezes acabavam se tornando uma busca por consolo. As namoradas iam, �s pressas, ao encontro deles, em meio a beijos e gritos, exibindo a mesma dose de alegria e comisera��o, e irm�os e irm�s mais novos, confusos, alternavam ataques de choro e agarravam, com olhos arregalados de admira��o, o irm�o que todos pareciam considerar um her�i.</p><p>Foram as outras vozes que Perrin desejou n�o ouvir.</p><p>��Onde est� Kenley?���A Senhora Ahan era uma bela mulher, com mechas brancas na tran�a quase negra, mas perscrutava os rostos com o cenho franzido, tomado pelo medo, enquanto via outros olhares se desviarem do dela.���Onde est� o meu Kenley?</p><p>��Bili!���chamou, indeciso, o velho Hu al�Dai.���Algu�m viu Bili al�Dai?</p><p>��� Hu�!</p><p>��� Jared�!</p><p>��� Tim�!</p><p>��� Colly�!</p><p>Na frente da estalagem, Perrin desceu da sela, precisando escapar de todos aqueles nomes, sem nem sequer ver que m�os o haviam resgatado.</p><p>��Me leve para dentro!���exclamou ele.���Para dentro!</p><p>��� Teven�!</p><p>��� Haral�!</p><p>��� Had�!</p><p>A porta cortou o som dos lamentos desconsolados e dos gritos da m�e de Dael al�Taron pedindo que lhe dissessem onde estava seu filho.</p><p><emphasis>No caldeir�o de um Trolloc</emphasis>, pensava Perrin enquanto era colocado em uma cadeira no sal�o. <emphasis>Na barriga de um Trolloc, onde eu o coloquei, Senhora al�Taron. Onde eu o coloquei.</emphasis> Faile segurou seu rosto e o observou, preocupada. <emphasis>Cuidar dos vivos</emphasis>, ele pensou. <emphasis>Depois eu choro pelos mortos. Depois.</emphasis></p><p>��Eu estou bem���disse a ela.���S� fiquei um pouco tonto com a descida. Nunca fui muito bom cavaleiro.</p><p>Ela n�o parecia acreditar.</p><p>��Voc� n�o pode fazer alguma coisa?���inquiriu Faile a Verin.</p><p>A Aes Sedai balan�ou a cabe�a calmamente.</p><p>��Acho melhor n�o, crian�a. Uma pena que nenhuma de n�s seja Amarela, mas Alanna ainda � bem melhor Curandeira do que eu. Meus Talentos est�o em outras �reas. Ihvon foi busc�-la. Seja paciente, crian�a.</p><p>O sal�o havia sido transformado em uma esp�cie de arsenal. Exceto diante da lareira, as paredes todas haviam se transformado em uma massa s�lida de lan�as de todos os tipos penduradas, com algumas alabardas no meio, al�m de var�es com l�minas em formatos estranhos, muitas esburacadas e descoloridas onde ferrugens antigas haviam sido removidas. E, mais surpreendente, um barril pr�ximo ao p� da escada continha espadas amontoadas, a maioria sem bainha; cada uma diferente da outra. Cada s�t�o em um raio de cinco milhas decerto fora revirado em busca de rel�quias acumulando poeira por gera��es. Perrin suspeitava de que n�o houvesse sequer cinco espadas em todo o territ�rio de Dois Rios. Pelo menos n�o antes da chegada dos Mantos-brancos e Trollocs.</p><p>Gaul arrumou um cantinho e ficou ali, perto das escadas que levavam aos quartos da estalagem e aos aposentos dos al�Vere, observando Perrin, mas tamb�m claramente atento a Verin e a todos os seus movimentos. Do outro lado do sal�o, observando Faile e todos os outros, as duas Donzelas apoiaram suas lan�as na dobra do cotovelo e assumiram uma postura relaxada, que parecia displicente, por�m muito segura. Os tr�s jovens que haviam-no carregado para dentro moviam-se perto da porta, encarando Perrin, a Aes Sedai e os Aiel com olhos igualmente arregalados. Isso era tudo.</p><p>��Os outros���disse Perrin.���Eles precisam�</p><p>��Eles v�o receber cuidados���interrompeu Verin, com delicadeza, sentando-se diante de outra mesa.���V�o querer ficar com as fam�lias. � bem melhor ter por perto seus entes queridos.</p><p>Perrin sentiu uma pontada de dor���um lampejo dos t�mulos sob as macieiras lhe veio � mente���mas ele a repeliu. <emphasis>Cuidar dos vivos</emphasis>, lembrou a si mesmo severamente. A Aes Sedai pegou sua pena e tinta e come�ou a rabiscar anota��es naquele livrinho, com uma caligrafia precisa. Ele se perguntou se para ela fazia diferen�a quantas pessoas de Dois Rios morreriam, contanto que ele permanecesse vivo para ser usado nos planos que a Torre Branca tinha para Rand.</p><p>Faile lhe apertou a m�o, mas foi com a Aes Sedai que ela falou:</p><p>��N�o � melhor lev�-lo para uma cama?</p><p>��Ainda n�o���respondeu Perrin, irritado. Verin ergueu os olhos e abriu a boca, e ele repetiu, em um tom mais firme:���Ainda n�o.���A Aes Sedai deu de ombros e retornou �s anota��es.���Algu�m sabe onde est� Loial?</p><p>��O Ogier?���perguntou um dos tr�s parados na porta. Dav Ayellin era mais troncudo que Mat, mas tinha aquele mesmo brilho nos olhos escuros. Tinha tamb�m o mesmo aspecto amarrotado e despenteado de Mat. Nos velhos tempos, as travessuras que Mat n�o aprontava acabavam nas m�os de Dav, embora em geral Mat as liderasse.���Est� l� fora com os homens, abrindo a Floresta do Oeste. A cada �rvore que cortamos, parece que � um irm�o dele que est� sendo derrubado, mas ele derruba tr�s de uma vez com aquele machado monstruoso que mandou Mestre Luhhan fazer. Se quiser que ele venha, eu vi Jaim Thane correndo para contar a eles que voc� chegou. Aposto que v�o todos vir dar uma olhada em voc�.���Espiando o cotoco de flecha, ele se contraiu e esfregou a lateral do pr�prio corpo em solidariedade.���Est� doendo muito?</p><p>��O bastante���respondeu Perrin, curto e grosso. Vir dar uma olhada nele. <emphasis>E eu sou o qu�, um menestrel?</emphasis>���E Luc? N�o quero v�-lo, mas ele est� aqui?</p><p>��Receio que n�o.���O segundo homem, Elam Dowtry, esfregou o nariz comprido. Apesar do casaco de l� de fazendeiro e do topete, ele portava uma espada no cinto; o cabo fora envolto recentemente em couro cru, e a bainha de couro estava descamada e pu�da.���Lorde Luc est� ca�ando a Trombeta de Valere, eu acho. Ou talvez Trollocs.</p><p>Dav e Elam eram amigos de Perrin, ou haviam sido, companheiros de ca�a e pesca, ambos de idade bastante pr�xima � dele, mas os sorrisos emocionados os faziam parecer mais jovens. Tanto Mat quanto Rand poderiam se passar por pelo menos cinco anos mais velhos. Talvez ele tamb�m pudesse.</p><p>��Espero que ele volte logo���prosseguiu Elam.���Est� me ensinando a usar uma espada. Voc� sabia que ele � Ca�ador da Trombeta? E seria rei, se valessem seus direitos. De Andor, ouvi dizer.</p><p>��Andor tem rainhas���resmungou Perrin, distra�do, encarando Faile �, n�o reis.</p><p>��Ent�o ele n�o est� aqui���disse ela. Gaul se remexeu sutilmente; de olhos azuis e g�lidos, parecia pronto para ir atr�s de Luc. Perrin n�o teria se surpreendido se Bain e Chiad baixassem os v�us ali mesmo onde estavam.</p><p>��N�o���disse Verin, distra�da, manifestando mais interesse nas anota��es do que no que estava dizendo.���N�o que ele n�o ajude de vez em quando, mas sempre d� um jeito de arrumar confus�o quando est� presente. Ontem, sem que ningu�m soubesse, ele conduziu uma delega��o at� uma patrulha de Mantos-brancos e disse que Campo de Emond estava fechado para eles. Aparentemente mandou que n�o se aproximassem mais de dez milhas. Eu n�o aprovo os Mantos-brancos, mas suponho que n�o tenham aceitado isso muito bem. N�o � sensato hostiliz�-los mais que o estritamente necess�rio.���Ela franziu o rosto para o que havia escrito e esfregou o nariz, aparentemente sem perceber que o sujara de tinta.</p><p>Perrin n�o estava ligando muito para como os Mantos-brancos aceitavam qualquer coisa.</p><p>��Ontem.���Ele suspirou. Se Luc tinha voltado para a aldeia no dia anterior, n�o seria muito prov�vel que tivesse qualquer coisa a ver com a chegada inesperada dos Trollocs. Quanto mais Perrin pensava em como aquela emboscada se desenrolara, mais pensava que os Trollocs deviam estar � espera do grupo. E mais sentia vontade de culpar Luc.���Para transformar pedra em queijo n�o basta s� querer���murmurou ele.���Mas esse sujeito ainda me cheira a queijo.</p><p>Dav e os outros dois se entreolharam, desconfiados. Perrin sup�s que n�o estava soando muito sensato.</p><p>��Foi um bando de Coplin, basicamente���afirmou o terceiro rapaz com uma voz profunda e assustada.���Darl, Hari, Dag e Ewal. E Wit Congar. Daise deu uma bronca nele.</p><p>��Ouvi dizer que todos eles gostavam dos Mantos-brancos.���Perrin achou que o sujeito de voz grave era familiar. Era uns dois ou tr�s anos mais mo�o que Elam e Dav, al�m de uma polegada mais alto, de rosto magro, mas ombros largos.</p><p>��Gostavam.���O sujeito deu uma risada.���Voc� sabe como eles s�o. Tendem a simpatizar com qualquer coisa que cause problemas aos outros. Desde que Lorde Luc come�ou o falat�rio, ficaram todos a favor de marchar at� Colina da Vig�lia e mandar os Mantos-brancos ca�rem fora de Dois Rios. Ou, pelo menos, ficaram a favor de algu�m marchar at� l�. Acho que n�o pretendiam estar na dianteira do grupo.</p><p>Se aquele rosto fosse mais redondo e aquele corpo meio p� mais baixo�</p><p>��Ewin Finngar!���exclamou Perrin. N�o podia ser; Ewin era uma praga gordinha, que vivia guinchando e tentando se meter nas reuni�es dos mais velhos. E aquele rapaz ali, quando parasse de crescer, teria o tamanho de Perrin ou mais.���� voc�?</p><p>Ewin assentiu, escancarando um sorriso.</p><p>��Ouvimos falar de voc�, Perrin, enfrentando Trollocs e vivendo todo tipo de aventuras pelo mundo, ao que dizem���comentou o rapaz, com aquela voz surpreendentemente grave.���Ainda posso chamar voc� de Perrin, n�o posso?</p><p>��Luz, pode!���exclamou ele. Estava mais do que cansado daquela hist�ria de Olhos-Dourados.</p><p>��Queria ter ido com voc� no ano passado.���Dav esfregou as m�os, ansioso.���Voltar para casa com Aes Sedai, e Guardi�es, e um Ogier.���Ele falava como se fossem trof�us.���Eu s� fa�o pastorear e ordenhar vacas, pastorear e ordenhar vacas. E capinar, e cortar lenha. Voc� tirou a sorte grande.</p><p>��Como � que foi?���perguntou Elam, esbaforido.���Alanna Sedai disse que voc�s foram at� a Grande Praga, e ouvi dizer que viram Caemlyn e Tear. Como � uma cidade? � mesmo dez vezes maior que Campo de Emond? Voc� viu algum pal�cio? H� Amigos das Trevas nas cidades? A Praga � mesmo cheia de Trollocs, e Desvanecidos, e Guardi�es?</p><p>��Foi um Trolloc que deixou essa cicatriz em voc�?���Com voz de touro ou n�o, Ewin conseguiu emitir uma esp�cie de guincho de empolga��o.���Eu queria ter uma cicatriz. Voc� viu alguma rainha? Ou rei? Acho que eu ia preferir ver uma rainha, mas um rei tamb�m seria incr�vel. Como � a Torre Branca? � grande feito um pal�cio?</p><p>Faile sorria, bem-humorada, mas Perrin piscava diante da enxurrada de perguntas. Teriam eles se esquecido dos Trollocs na Noite Invernal, se esquecido dos Trollocs no campo naquele exato momento? Elam agarrou o punho da espada como se quisesse partir para a Praga imediatamente, Dav p�s-se nas pontas dos p�s, os olhos brilhando, e Ewin quase agarrou a gola de Perrin. Aventura? Que idiotas. No entanto, tempos dif�ceis estavam por vir, mais dif�ceis do que Dois Rios viu at� ent�o, temia. N�o faria mal se demorasse um pouquinho mais at� que descobrissem a verdade.</p><p>A lateral de seu corpo do�a, mas ele tentou responder. Os rapazes se decepcionaram ao saber que ele nunca tinha visto a Torre Branca, nem um rei ou uma rainha. Ele achava que Berelain poderia se passar por rainha, mas na presen�a de Faile n�o havia meio de mencionar a mulher. Outros assuntos que ele evitou: Falme, o Olho do Mundo, os Abandonados, <emphasis>Callandor</emphasis>. Eram assuntos perigosos, que levavam inevitavelmente ao Drag�o Renascido. Ele p�de contar um pouco sobre Caemlyn, no entanto, e sobre Tear, as Terras da Fronteira e a Praga. Era estranho o que o grupo aceitava e o que n�o aceitava. A paisagem corrompida da Praga, que parecia apodrecer a vista de todos, eles engoliram, e os soldados shienaranos de rabos de cavalo, e os <emphasis>pousos</emphasis> Ogier onde as Aes Sedai n�o conseguiam manejar o Poder e os Desvanecidos eram relutantes em adentrar. J� o tamanho da Pedra de Tear e a imensid�o das cidades�</p><p>Sobre suas pr�prias supostas aventuras, ele disse:</p><p>��Basicamente, venho tentando n�o ter a cabe�a decepada. � isso o que as aventuras s�o. Isso, e encontrar um lugar para dormir � noite e algo para comer. Viver aventuras d� bastante fome, e inclui dormir com muito frio, ou molhado, ou os dois.</p><p>Eles pareceram n�o gostar muito, nem acreditar mais do que acreditavam que a Pedra era do tamanho de uma pequena montanha. Ele lembrou a si mesmo que tamb�m conhecia pouqu�ssimo do mundo antes de deixar Dois Rios. N�o foi de muita ajuda. Jamais havia se impressionado daquele jeito. Ou j�? O sal�o estava quente. Ele teria tirado o casaco, mas se mexer demandava esfor�o demais.</p><p>��E Rand e Mat?���inquiriu Ewin.���Se tudo se resume a sentir fome e pegar chuva, por que eles tamb�m n�o voltaram para casa?</p><p>Tam e Abell haviam entrado, Tam com uma espada presa no cintur�o do casaco, ambos portando arcos���por mais estranho que fosse, a espada parecia apropriada a Tam, com ou sem casaco de fazendeiro���ent�o ele contou o mesmo que tinha contado antes: Mat em jogatinas e bebedeiras nas tavernas, atr�s de garotas, e Rand de casaco chique, com uma bela loura nos bra�os. Descreveu Elayne como uma lady, imaginando que eles jamais acreditariam que se tratava da Filha-herdeira de Andor, e as express�es de incredulidade dos homens comprovaram suas suspeitas. Ainda assim tudo pareceu satisfat�rio, o tipo de coisa que eles queriam ouvir, e a descren�a se esvaiu um pouco quando Elam apontou que Faile era uma lady e parecia gostar mesmo de Perrin. Isso o fez abrir um sorriso; ele se perguntou o que os homens diriam se soubessem que ela era prima de uma rainha.</p><p>Faile, por alguma raz�o, j� n�o parecia mais estar se divertindo. Virou-se para os homens com um olhar de fazer frente ao mais altivo de Elayne, obstinado e impass�vel.</p><p>��Voc�s j� o atormentaram demais. Ele est� ferido. Saiam daqui, agora.</p><p>Espantosamente, os homens curvaram-se em mesuras desajeitadas���Dav entortou a perna de um jeito estranho, parecendo um completo idiota���murmuraram pedidos de desculpa afobados���para ela, n�o para ele!���e viraram-se para sair. A partida foi retardada pela chegava de Loial, que inclinou-se para passar pelo batente, os cabelos desgrenhados ro�ando a viga de cima. Os homens encararam o Ogier quase como se o estivessem vendo pela primeira vez���depois olharam para Faile e partiram, apressados. Aquele seu olhar frio de lady funcionava muito bem.</p><p>Quando Loial se empertigou, sua cabe�a quase bateu no teto. Os espa�osos bolsos do casaco exibiam, como de costume, o formato quadrado dos montes de livros, mas ele trazia um imenso machado. O cabo era quase da altura de Perrin, e a cabe�a, do formato da de um machado de cortar madeira, era pelo menos do tamanho de seu machado de batalha.</p><p>��Voc� est� ferido���disse ele, com a voz estrondosa, assim que seu olhar parou em Perrin.���Me disseram que tinha voltado, mas n�o que estava ferido, sen�o eu teria vindo mais depressa.</p><p>O machado deu um susto em Perrin. Entre os Ogier, a express�o �p�r um cabo longo no machado� significava estar com pressa ou com raiva���os Ogier, por alguma raz�o, pareciam n�o conseguir enxergar diferen�a entre as duas coisas. Loial de fato parecia irritado, com as orelhas peludas para tr�s e as sobrancelhas ca�das por cima das imensas bochechas, contra�das em uma carranca. Por ter de cortar �rvores, sem d�vida. Perrin queria ficar sozinho com ele e descobrir se tinha visto algo mais a respeito do comportamento de Alanna. Ou de Verin. Ele esfregou o rosto e ficou surpreso em encontr�-lo seco; sentia como se estivesse suando.</p><p>��Ele tamb�m � teimoso���disse Faile, virando-se para Perrin com o mesmo olhar controlador que havia usado com Dav, Elam e Ewin.���Voc� deveria estar na cama. Onde est� Alanna, Verin? Se ela � quem vai Cur�-lo, onde ela est�?</p><p>��Ela vai vir.���A Aes Sedai n�o ergueu o olhar. Estava outra vez com o livrinho, de cenho franzido, pensativa, a caneta suspensa.</p><p>��Ele ainda deveria estar numa cama!</p><p>��Vou ter tempo para isso depois���retrucou Perrin com firmeza. Sorriu para ela, para suavizar as palavras, mas o sorriso s� conseguiu deix�-la preocupada e resmungando �teimoso� entre dentes. Ele n�o podia perguntar a Loial sobre a Aes Sedai na frente de Verin, mas havia outra coisa pelo menos t�o importante quanto.���Loial, o Portal dos Caminhos est� aberto, e os Trollocs est�o vindo. Como pode uma coisa dessas?</p><p>As sobrancelhas do Ogier afundaram ainda mais, e suas orelhas murcharam.</p><p>��Culpa minha, Perrin���respondeu ele, com o vozeir�o, em tom de pesar.���Eu coloquei as duas folhas de <emphasis>Avendesora</emphasis> do lado de fora. Assim tranquei o Portal dos Caminhos por dentro, mas por fora qualquer um ainda poderia abrir. Os Caminhos permaneceram obscuros por muitas gera��es, mas ainda assim n�s os cultivamos. N�o tive coragem de destruir o Portal. Me desculpe, Perrin. � tudo culpa minha.</p><p>��Eu nem acreditava que um Portal dos Caminhos <emphasis>pudesse</emphasis> ser destru�do���disse Faile.</p><p>��N�o quis dizer exatamente destruir.���Loial apoiou o corpo no machado de cabo longo.���Uma vez um Portal dos Caminhos foi destru�do, menos de quinhentos anos depois da Ruptura, segundo Damelle, filha de Ala, filha de Soferra, porque o Portal ficava perto de um <emphasis>pouso</emphasis> que havia sucumbido � Praga. Existem dois ou tr�s Portais perdidos na Praga. Mas ela escreveu que foi muito dif�cil e requereu o trabalho conjunto de treze Aes Sedai com um <emphasis>sa�angreal</emphasis>. Outra tentativa sobre a qual ela escreveu, com apenas nove Aes Sedai, durante as Guerras dos Trollocs, danificou o Portal de tal forma que as Aes Sedai foram arrastadas����Ele parou, as orelhas retorcidas de constrangimento, e cutucou o narig�o. Todos o encaravam, at� Verin e os Aiel.����s vezes eu me empolgo. O Portal dos Caminhos. Sim. Eu n�o consigo destru�-lo, mas, se eu remover completamente as duas folhas de <emphasis>Avendesora</emphasis>, elas v�o morrer.���Ele fez uma careta, pensativo.���O �nico meio de abrir outra vez o Port�o � os Anci�es trazerem o Talism� do Crescimento. Embora eu suponha que uma Aes Sedai consiga fazer um buraco nele.���Dessa vez ele estremeceu. Danificar um Portal dos Caminhos talvez fosse para ele o mesmo que despeda�ar um livro. Um instante depois a express�o sombria retornou a seu rosto.���Vou para l� agora.</p><p>��N�o!���disse Perrin bruscamente. A ponta da flecha latejava, mas na verdade j� n�o do�a mais. Ele estava falando demais; tinha a garganta seca.���H� Trollocs l�, Loial. Podem meter um Ogier num caldeir�o tanto quanto um humano.</p><p>��Mas, Perrin, eu�</p><p>��N�o, Loial. Como � que voc� vai escrever seu livro se for embora e acabar morrendo?</p><p>As orelhas de Loial se contorceram.</p><p>��� minha responsabilidade, Perrin.</p><p>��A responsabilidade � minha���disse Perrin, com delicadeza.���Voc� me falou o que estava fazendo com o Portal dos Caminhos, e eu n�o sugeri nada diferente. Al�m do mais, do jeito que voc� pula toda vez que algu�m menciona a sua m�e, n�o quero que ela venha atr�s de mim. Eu vou, assim que Alanna me Curar e tirar essa flecha do meu corpo.���Ele limpou a testa, depois franziu o cenho e olhou a m�o. Sem suor.���Posso beber um pouco d��gua?</p><p>Em um instante Faile estava a seu lado, os dedos frios onde antes estivera a m�o dele.</p><p>��Ele est� ardendo em febre! Verin, n�o podemos esperar Alanna. Voc� precisa�!</p><p>��Estou aqui���anunciou a Aes Sedai de pele escura, surgindo pela porta dos fundos do sal�o, com Marin al�Vere e Alsbet Luhhan a seu lado e Ihvon logo atr�s. Perrin sentiu a fisgada do Poder antes que a m�o de Alanna substitu�sse a de Faile, e ela acrescentou, em um tom frio e sereno:���Leve-o para a cozinha. A mesa l� � bem grande para que possamos deit�-lo. R�pido. N�o temos muito tempo.</p><p>Perrin ficou tonto, e de s�bito percebeu que estava sendo erguido e carregado por Loial, que havia apoiado o machado ao lado da porta.</p><p>��O Portal dos Caminhos � meu, Loial.���<emphasis>Luz, mas que sede.</emphasis>���Minha responsabilidade.</p><p>O toco de flecha de fato n�o do�a tanto quanto antes, mas seu corpo inteiro estava dolorido. Loial o levava a algum lugar, abaixando-se ao passar pelas portas. Havia a Senhora Luhhan mordendo o l�bio, os olhos apertados como se fosse chorar. Ele se perguntou por qu�. Ela nunca chorava. A Senhora al�Vere tamb�m parecia preocupada.</p><p>��Senhora Luhhan���murmurou ele���minha m�e diz que eu posso ser aprendiz de Mestre Luhhan.���N�o. Aquilo foi muito tempo antes. Era� o que era? Ele n�o se lembrava direito.</p><p>Estava deitado em uma superf�cie r�gida, escutando Alanna falar:</p><p>��� tem farpas tanto no osso quanto na carne, e a ponta da flecha est� retorcida. Preciso realinh�-la com a primeira ferida e pux�-la. Se ele n�o morrer de choque, posso Curar o estrago causado, bem como todo o resto. N�o tem outro jeito. Ele est� � beira do colapso.���Nada a ver com ele.</p><p>Faile sorria para ele, tr�mula, com o rosto de cabe�a para baixo. Algum dia pensara que ela tinha a boca grande demais? Era do tamanho ideal. Ele queria tocar o rosto dela, mas a senhora al�Vere e a senhora Luhhan por alguma raz�o seguravam seus punhos, prendendo-o com o peso do corpo. Havia tamb�m algu�m apoiado em suas pernas, e as imensas m�os de Loial lhe engoliam os ombros, pressionando-os com for�a contra a mesa. Mesa. Isso. A mesa da cozinha.</p><p>��Morda, querido���disse Faile de longe.���Vai doer.</p><p>Ele queria perguntar o que ia doer, mas ela enfiou um peda�o de pau enrolado em couro em sua boca. Ele cheirou o couro, o benjoeiro e ela. Ser� que ela iria ca�ar com ele, correndo pelas infinitas plan�cies gramadas atr�s de infinitas hordas de cervos? Um frio congelante o fez estremecer; ele reconheceu vagamente a sensa��o do Poder �nico. Ent�o veio a dor. Ele ouviu a madeira estalar entre seus dentes antes de a escurid�o dominar tudo.</p></section><section><title><p>44</p><p><image l:href="#18"/></p><p>Irrompe a tempestade</p></title><p>Perrin abriu os olhos devagar, encarando o teto branco caiado. Levou um instante para perceber que estava em uma cama com quatro colunas, deitado em um colch�o de penas com um travesseiro de plumas de ganso. Uma mir�ade de aromas dan�ava em seu nariz: as plumas, a l� do cobertor, um assado de ganso, p�o e tortas de mel assando. Um dos quartos da estalagem Fonte de Vinho. A luz inconfund�vel da manh� entrava pelas cortinas brancas das janelas. Manh�. Ele se virou de lado, desajeitado. Seus dedos tocaram a pele curada, mas ele se sentia mais fraco do que nunca desde que fora atingido. Um pre�o pequeno demais, no entanto, e uma troca bem justa. Tamb�m sentia a garganta seca.</p><p>Quando ele se mexeu, Faile saltou de uma cadeira ao lado da pequena lareira de pedras, deixando cair um cobertor vermelho, e se espregui�ou. A mo�a havia trocado o vestido por outro mais escuro, com uma saia estreita de montaria, e a seda cinza amarrotada revelava que ela havia dormido naquela cadeira.</p><p>��Alanna falou que voc� precisava dormir���disse ela. Ele estendeu a m�o em dire��o � jarra branca que havia na mesinha ao lado da cama e ela correu para servir um copo d��gua e segurou-o para que ele bebesse.���Voc� vai ter de ficar quieto por mais uns dois ou tr�s dias, at� recuperar as for�as.</p><p>As palavras soavam normais, exceto por uma estranheza no tom que ele quase n�o notou, uma leve tens�o nos olhos dela.</p><p>��O que foi que houve?</p><p>Ela recolocou a caneca com cuidado na mesinha de cabeceira e ajeitou o vestido.</p><p>��N�o houve nada.���A tens�o sob sua voz era ainda mais aparente.</p><p>��Faile, n�o minta para mim.</p><p>��N�o estou mentindo!���retrucou ela, bruscamente.���Vou mandar vir seu caf� da manh� e tem sorte que eu fa�a isso, mesmo com voc� me chamando de�</p><p>��Faile.���Ele pronunciou o nome dela da forma mais severa poss�vel, e ela hesitou; o olhar firme e arrogante virou uma ruga na testa, depois retornou. Ele a encarou com firmeza; ela n�o iria se safar dessa usando com ele o truque daquela sua altivez de lady.</p><p>Enfim, ela suspirou.</p><p>��Acho que voc� tem o direito de saber. Mas vai continuar na cama at� Alanna e eu permitirmos que levante. Loial e Gaul se foram.</p><p>��Se foram?���Ele piscou, confuso.���Como assim, se foram? Eles <emphasis>foram embora</emphasis>?</p><p>��De certo modo. Os vigias os viram partindo hoje de manh�, assim que o sol nasceu, indo em dire��o � Floresta do Oeste. Nenhum deles achou nada demais; sem d�vida ningu�m tentou impedi-los, um Ogier e um Aiel. Ouvi essa hist�ria faz menos de uma hora. Eles estavam conversando sobre �rvores, Perrin. Sobre como o Ogier cantava para as �rvores.</p><p>���rvores?���grunhiu Perrin.���� aquele maldito Portal dos Caminhos! Que me queime, eu falei para ele n�o� Eles v�o acabar morrendo antes de chegar l�!</p><p>Ele atirou o cobertor para longe, sentou-se na cama com os p�s no ch�o e em seguida p�s-se de p�, cambaleante. N�o estava vestindo nada, percebeu, nem as roupas de baixo. No entanto, se elas achavam que iriam mant�-lo preso debaixo de um cobertor, estavam redondamente enganadas. Ele podia ver seus trajes dobradinhos na cadeira de espaldar alto pr�xima � porta, com as botas do lado e o machado pendendo do cinto em um gancho na parede. Cambaleou at� as roupas e come�ou a se vestir, o mais depressa poss�vel.</p><p>��O que est� fazendo?���indagou Faile.���Volte j� para a cama!���Com uma das m�os na cintura, ela apontou para a cama, como se o dedo erguido pudesse transport�-lo at� l�.</p><p>��Eles n�o devem ter ido muito longe. N�o a p�. Gaul n�o monta e Loial sempre disse que confiava mais nos pr�prios p�s do que em qualquer cavalo. Com Galope eu os alcan�o at� no m�ximo o meio-dia.���Puxando a camisa pela cabe�a, ele vestiu-a, deixando-a solta para fora da cal�a e sentou-se para cal�ar as botas. Desabou na cadeira, na realidade.</p><p>��Voc� enlouqueceu, Perrin Aybara! Que chance tem de encontrar os dois naquela floresta?</p><p>��Eu at� que n�o sigo rastros assim t�o mal. Consigo encontrar os dois.���Ele sorriu, mas ela n�o aceitou.</p><p>��Voc� pode acabar morto, seu imbecil cabeludo! Olhe s� para voc�. Mal consegue ficar de p�. Iria desabar da sela antes de cavalgar uma milha!</p><p>Disfar�ando o esfor�o, ele se levantou e bateu o p� para ajeitar as botas. Galope faria todo o trabalho; ele s� teria de se segurar.</p><p>��Bobagem. Estou forte feito um cavalo. Pare de tentar me intimidar.���Ele deu de ombros para ajeitar o casaco ao corpo e pegou o machado e o cinto. Faile segurou-lhe o bra�o quando ele abriu a porta e foi levada junto, tentando em v�o pux�-lo de volta.</p><p>���s vezes voc� tem o c�rebro de um cavalo���disse ela, arfando.���Pior ainda! Perrin, voc� tem que me escutar. Voc� tem�</p><p>O quarto ficava a apenas poucos passos das escadas que levavam ao sal�o vazio no estreito corredor, e foram as escadas que o tra�ram. Quando ele dobrou o joelho para descer aquele primeiro degrau, a perna n�o parou de dobrar; ele se desequilibrou para a frente, tentando, sem sucesso, agarrar o corrim�o, puxando Faile junto, aos berros. Os dois sa�ram rolando, batendo nas escadas, at� desabar com um baque contra o barril no ch�o, Faile completamente estirada por cima dele. O barril cambaleou e girou, fazendo chocalhar as espadas que estavam dentro, antes de assentar com um tinido final.</p><p>Perrin levou um instante at� reunir f�lego para conseguir falar.</p><p>��Tudo bem com voc�?���perguntou, ansioso. Ela jazia esparramada sobre o peito dele. Ele a sacudiu delicadamente.���Faile, voc� est�?</p><p>Ela ergueu a cabe�a devagar e afastou umas mechinhas de cabelo escuro do rosto, depois o encarou atentamente.</p><p>��Est� tudo bem com <emphasis>voc�</emphasis>? Porque, se estiver, talvez eu seja bastante violenta�</p><p>Perrin bufou; ela decerto estava menos ferida do que ele. Cauteloso, tocou o ponto onde antes estivera a flecha, mas o local n�o estava pior do que o restante. Naturalmente, o restante estava doendo da cabe�a aos p�s.</p><p>��Saia de cima de mim, Faile. Preciso pegar Galope.</p><p>Em vez disso, ela agarrou a gola dele com ambas as m�os e aproximou-se at� seus narizes quase se tocarem.</p><p>��Escute aqui, Perrin���disse ela, em tom de urg�ncia.���Voc� n�o� pode� fazer� tudo. Se Loial e Gaul foram trancar o Portal dos Caminhos, voc� tem que deixar. Seu lugar � aqui. Mesmo que estivesse forte o bastante, e n�o est�! Est� me ouvindo? Voc� n�o est� forte o bastante! Mas, mesmo que estivesse, n�o deveria ir atr�s deles. Voc� n�o pode fazer tudo!</p><p>��Ora, o que � que voc�s dois est�o fazendo?���perguntou Marin al�Vere. Limpando as m�os no comprido avental branco, ela vinha da porta dos fundos do sal�o na dire��o deles. As sobrancelhas da mulher pareciam tentar escalar os cabelos.���Eu esperava ver Trollocs depois de toda essa algazarra, mas n�o isso.���Ela soava meio escandalizada, meio bem-humorada.</p><p>Perrin percebeu que, com Faile deitada por cima dele daquele jeito, as cabe�as juntinhas, os dois pareciam um casal aos beijos. No ch�o do sal�o.</p><p>Um rubor subiu pelas bochechas de Faile, e ela se levantou mais que depressa, espanando o vestido.</p><p>��Ele � teimoso feito um Trolloc, Senhora al�Vere. Eu avisei que estava muito fraco para se levantar. Ele precisa voltar para a cama imediatamente. Tem de aprender que n�o pode fazer tudo sozinho, ainda mais quando n�o consegue nem descer um lance de escadas.</p><p>��Ah, querida���disse a Senhora al�Vere, balan�ando a cabe�a���esse n�o � o jeito certo.���Ela se aproximou da mulher mais jovem e sussurrou, baixinho, embora Perrin pudesse ouvir cada palavra.���Ele era um rapazinho f�cil de levar, na maioria das vezes, se a gente lidasse com ele da maneira certa, mas era s� tentar for��-lo que ele empacava feito qualquer mula de Dois Rios. Os homens n�o mudam tanto assim, s� ficam mais altos. Se voc� cismar em dizer o que ele <emphasis>tem</emphasis> e o que <emphasis>n�o tem</emphasis> de fazer, ele decerto vai p�r as orelhas para tr�s e travar as patas no ch�o. Deixe-me mostrar.���Marin virou-se para ele com um sorriso radiante, ignorando sua carranca.���Perrin, voc� n�o acha os meus colch�es de penas de ganso melhores que esse ch�o? Vou levar para voc� um peda�o da minha torta de rim assim que o colocarmos de volta na cama. Deve estar com fome, depois de ficar sem jantar ontem � noite. Aqui. Posso ajudar voc� a se levantar?</p><p>Ele empurrou as m�os das duas e levantou-se sozinho. Bem, com a ajuda da parede. Achou que talvez tivesse distendido metade dos m�sculos do corpo. Teimoso feito uma mula? Ele jamais agira assim na vida.</p><p>��Senhora al�Vere, a senhora poderia mandar Hu ou Tad selar Galope?</p><p>��Quando voc� estiver melhor���disse ela, tentando vir�-lo em dire��o �s escadas.���N�o acha que seria bom descansar s� mais um pouquinho?���Faile lhe tomou o outro bra�o.</p><p>��Trollocs!���O grito veio do lado de fora, abafado pelas paredes e ecoado por uma d�zia de vozes.���Trollocs! Trollocs!</p><p>��Voc� n�o tem de se preocupar com isso hoje���disse a Senhora al�Vere, ao mesmo tempo firme e delicada. Aquilo o fez querer ranger os dentes.���As Aes Sedai v�o cuidar de tudo. Daqui a um ou dois dias voc� j� vai estar de p�. Vai ver s�.</p><p>��Meu cavalo���retrucou Perrin, tentando se libertar. As duas agarravam com for�a as mangas de seu casaco; ele s� conseguia balan�ar os bra�os para a frente e para tr�s.���Pelo amor da Luz, podem parar de me puxar e me deixar pegar meu cavalo? Me soltem.</p><p>Olhando para ele, Faile deu um suspiro e soltou-lhe o bra�o.</p><p>��Senhora al�Vere, a senhora poderia mandar selar e trazer o cavalo dele?</p><p>��Mas, minha querida, ele realmente precisa�</p><p>��Por gentileza, Senhora al�Vere���disse Faile, com firmeza.���E o meu tamb�m.���As duas mulheres se entreolharam como se ele n�o existisse. Por fim, a Senhora al�Vere assentiu.</p><p>Perrin franziu o cenho pelas costas da mulher enquanto ela corria pelo sal�o e desaparecia rumo � cozinha e ao est�bulo. O que Faile dissera de diferente dele? Voltando a aten��o para ela, ele disse:</p><p>��Por que foi que voc� mudou de ideia?</p><p>Enfiando a camisa dele para dentro da cal�a, ela resmungou, entre dentes. Sem d�vida Perrin n�o escutava t�o bem a ponto de entender.</p><p>��N�o � para eu falar, �? Quando ele estiver sendo teimoso demais para enxergar com clareza, eu devo gui�-lo com do�ura e sorrisos, n�o �?���Ela lhe disparou um olhar que certamente n�o continha do�ura alguma, depois abruptamente abriu um sorriso t�o doce que ele quase deu para tr�s.���Meu querido���ela quase arrulhou, endireitando-lhe o casaco���o que quer que esteja acontecendo l� fora, espero muito que voc� permane�a em sua sela, e o mais longe dos Trollocs que puder. Ainda n�o est� muito em condi��es de enfrentar um Trolloc, n�o �? Talvez amanh�. Por favor, lembre que voc� � um general, um l�der, e um verdadeiro s�mbolo para o seu povo, assim como aquele estandarte l� fora. Se permanecer � vista do povo, vai dar uma inje��o de �nimo em todo mundo. E � muito mais f�cil enxergar o que precisa ser feito e dar ordens quando voc� mesmo n�o est� no campo de batalha.���Ela pegou o cinto dele do ch�o e afivelou-o em sua cintura, ajeitando com cuidado o machado em seus quadris. E tamb�m piscou para ele!���Por favor, diga que vai fazer isso. Por favor?</p><p>Ela estava certa. Ele n�o duraria dois minutos diante de um Trolloc. Diante de um Desvanecido, era mais prov�vel que durasse dois segundos. E, por mais que odiasse admitir, n�o duraria duas milhas na sela atr�s de Loial e Gaul. <emphasis>Ogier est�pido. Voc� � um escritor, n�o um her�i.</emphasis></p><p>��Est� bem���disse ele. Um impulso malicioso tomou conta de si. A forma como ela e a Senhora al�Vere estavam falando por cima dele e dando piscadelas como se ele fosse um imbecil.���N�o consigo recusar nada quando voc� sorri assim, t�o linda.</p><p>��Fico <emphasis>muito</emphasis> feliz.���Ainda sorrindo, ela alisou o casaco dele e removeu umas bolinhas que ele n�o conseguia ver.���Porque, se voc� recusar, e ainda conseguir sobreviver, vou fazer com voc� o mesmo que fez comigo naquele primeiro dia nos Caminhos. Acho que voc� ainda n�o est� com for�a suficiente para me impedir.���Ela abriu aquele sorriso radiante para ele, todo doce e primaveril.���Est� entendendo?</p><p>A contragosto, ele soltou uma risadinha.</p><p>��Parece que � melhor deixar que eles me matem.���Ela n�o pareceu achar gra�a.</p><p>Hu e Tad, os cavalari�os desengon�ados, levaram Galope e Andorinha logo depois que o casal saiu. Todos os outros estavam reunidos no extremo oposto da aldeia, para al�m do Campo, com suas ovelhas, vacas e gansos, e o estandarte vermelho e branco com a cabe�a do lobo balan�ava ao sabor da brisa da manh�. Assim que ele e Faile montaram nos cavalos, os cavalari�os sa�ram correndo pela mesma dire��o, sem dizer uma palavra.</p><p>O que quer que estivesse acontecendo, estava claro que n�o se tratava de um ataque. Ele via mulheres e crian�as entre a multid�o, e os gritos de �Trolloc� haviam se esva�do a um murm�rio, que ecoava feito o grasnido de gansos. Ele avan�ou devagar, tentando n�o balan�ar em cima da sela; Faile seguia bem perto com Andorinha, de olho nele. Se havia sido capaz de mudar de ideia uma vez sem motivo aparente, poderia faz�-lo de novo, e ele n�o queria discutir se deveria ou n�o estar ali.</p><p>A multid�o balbuciante de fato parecia composta de toda a popula��o de Campo de Emond, tanto alde�es quanto fazendeiros, todos espremidos, ombro com ombro, mas o grupo abriu caminho para ele e Faile ao reconhec�-lo. Perrin virou assunto do burburinho, em geral com o nome de Olhos-Dourados. Tamb�m pescou a palavra �Trollocs�, mas em um tom mais de fascina��o do que de medo. De cima da sela de Galope ele tinha uma boa vis�o de suas cabe�as.</p><p>A massa de gente aglomerada se estendia por todo o trecho depois das �ltimas casas at� as sebes de estacas espinhosas. Os limites da floresta, quase seiscentos passos para al�m de um campo de tocos quase no n�vel do ch�o, estava silenciosa, sem homens com machados. Eles formavam um c�rculo de peitorais suados e desnudos em torno de Alanna, Verin e dois homens. Jon Thane, o moleiro, limpava uma mancha de sangue das costelas, com a lanterna apontada para o peito para enxergar o que as pr�prias m�os faziam. Alanna se empertigava diante do outro homem, um sujeito de cabelos grisalhos que Perrin n�o reconheceu e que pulou de p� e dan�ou um passinho, hesitante. Tanto ele quanto o moleiro encaravam as Aes Sedai com espanto.</p><p>Havia gente demais em torno das Aes Sedai para que o povo pudesse abrir espa�o para Galope e Andorinha, mas havia uns espa�os livres em volta de Ihvon e Tomas, um de cada lado de seus cavalos de batalha. O povo n�o queria chegar muito perto daqueles animais de olhos ferozes, ambos com cara de quem s� estava aguardando uma oportunidade de pisotear e abocanhar.</p><p>Perrin conseguiu aproximar-se de Tomas sem muito esfor�o.</p><p>��O que foi que houve?</p><p>��Um Trolloc. S� um.���Apesar do tom displicente do Guardi�o grisalho, seus olhos escuros n�o pararam em Perrin e Faile, perscrutando com igual aten��o Verin e a linha das �rvores.���Eles n�o s�o muito espertos sozinhos. S�o safos, mas n�o espertos. O grupo cortando �rvores o espantou antes que ele fizesse mais do que tirar um pouco de sangue.</p><p>Das �rvores surgiram as duas mulheres Aiel, correndo, as cabe�as envoltas em <emphasis>shoufas</emphasis> e v�us de modo que ele n�o conseguia dizer quem era quem. Elas reduziram o passo e seguiram serpenteando entre as estacas pontudas, depois deslizaram com destreza pelo meio da multid�o, e o povo foi abrindo caminho como p�de naquela balb�rdia. Quando chegaram perto de Faile, as mulheres j� haviam tirado os v�us, e ela se inclinou para escut�-las.</p><p>��Talvez uns quinhentos Trollocs���disse Bain���provavelmente n�o mais de uma ou duas milhas atr�s de n�s.���Sua voz era firme, mas os olhos azul-escuros cintilavam, �vidos. Os cinza de Chiad tamb�m.</p><p>��Como eu imaginei���disse Tomas, calmamente.���Aquele ali provavelmente se afastou do grupo, na esperan�a de arrumar algo para comer. O resto deve vir em breve.���As Donzelas assentiram.</p><p>Perrin apontou consternado para a multid�o.</p><p>��Ent�o essa gente n�o deveria estar aqui. Por que voc�s n�o os afastaram?</p><p>Foi Ihvon, aproximando o cinzento do grupo, quem respondeu:</p><p>��O seu povo n�o est� querendo escutar ningu�m de fora, n�o quando est�o com a aten��o toda voltada para as Aes Sedai. Sugiro que veja o que pode fazer.</p><p>Perrin tinha certeza de que eles poderiam ter imposto algum tipo de ordem, se tivessem realmente tentado. Verin e Alanna sem d�vida poderiam. <emphasis>Ent�o por que esperaram e deixaram a coisa na minha m�o, se estavam prevendo Trollocs?</emphasis> Seria muito f�cil p�r tudo na conta de um <emphasis>ta�veren</emphasis>���f�cil e tolo. Ihvon e Tomas n�o deixariam Trollocs matarem o povo���nem Verin nem Alanna���enquanto ficavam esperando que um <emphasis>ta�veren</emphasis> lhes dissesse o que fazer. As Aes Sedai o estavam manipulando, colocando todos em risco, talvez at� a si pr�prias. Mas com que objetivo? Ele e Faile se entreolharam, e ela assentiu sutilmente, como se soubesse o que ele estava pensando.</p><p>Agora n�o havia tempo para tentar descobrir. Ele perscrutou a multid�o e avistou Bran al�Vere entre Tam al�Thor e Abell Cauthon. O Prefeito trazia uma lan�a comprida nos ombros e usava um elmo redondo amassado. Um colete de couro bem apertado com discos de a�o costurados por toda parte lhe comprimia o peitoral.</p><p>Todos os tr�s olharam para cima quando Perrin conduziu Galope pela multid�o at� eles.</p><p>��Bain disse que os Trollocs est�o vindo nesta dire��o, e os Guardi�es est�o achando que vamos ser atacados em breve.���Ele precisou gritar por conta do zunido incessante de vozes. Alguns dos que estavam mais perto ouviram e se calaram; o sil�ncio se espalhou com os murm�rios de �Trollocs� e �ataque�.</p><p>Bran piscou.</p><p>��Pois �. Tinha que acontecer, n�o tinha? Sim, bom, n�s sabemos o que fazer.���O homem poderia ter sido uma figura c�mica, com a costura do colete prestes a arrebentar e o elmo balan�ando quando ele mexia a cabe�a, mas na verdade parecia apenas determinado. Erguendo a voz, ele anunciou:���Perrin disse que os Trollocs v�o chegar em breve. Voc�s todos sabem os seus lugares. Vamos l�, agora. Vamos l�.</p><p>A multid�o come�ou a circular, as mulheres levando as crian�as de volta para as casas, os homens fervilhando por todas as dire��es. A confus�o pareceu aumentar, em vez de diminuir.</p><p>��Vou cuidar para que os pastores venham���disse Abell a Perrin e sumiu no meio da multid�o.</p><p>Cenn Buie abriu caminho por entre o povo, usando uma alabarda para arrebanhar o carrancudo Hari Coplin, o irm�o de Hari, Darl, e o velho Bili Congar, que cambaleava como se estivesse cheio de cerveja j� pela manh�, o que decerto era o caso. Dos tr�s, era Bili quem segurava a lan�a como se pretendesse us�-la. Cenn tocou a testa quando viu Perrin, em uma esp�cie de sauda��o. V�rios homens fizeram o mesmo. Aquilo o deixava desconfort�vel. Dannil e os outros rapazes eram uma coisa, mas esses homens tinham pelo menos metade a mais que a idade dele.</p><p>��Voc� est� indo bem���disse Faile.</p><p>��Eu queria saber o que Verin e Alanna est�o tramando���resmungou ele.���E n�o estou falando de agora.���Duas das catapultas que os Guardi�es haviam montado ficavam naquele canto da aldeia, geringon�as quadradas mais altas que um homem, feitas de vigas robustas de madeira e cordas grossas e retorcidas. De cima dos cavalos, Ihvon e Tomas viam as pesadas vigas de madeira sendo suspensas. As duas Aes Sedai estavam mais interessadas nas imensas pedras, de quinze ou vinte libras cada, que eram carregadas em suportes nas extremidades das alavancas.</p><p>��Elas querem que voc� lidere���respondeu Faile, baixinho.���Foi para isso que voc� nasceu, eu acho.</p><p>Perrin bufou. Ele tinha nascido para ser ferreiro.</p><p>��Eu ficaria bem mais confort�vel se soubesse por que elas querem isso.���As Aes Sedai o encaravam; Verin, de cabe�a inclinada, feito um p�ssaro, Alanna com um olhar mais direto e um sorrisinho. Estariam as duas querendo a mesma coisa, pela mesma raz�o? Esse era um dos problemas com Aes Sedai. Havia sempre mais perguntas que respostas.</p><p>A ordem se imp�s com surpreendente rapidez. Ao longo do lado oeste da aldeia, cerca de cem de homens se apoiavam em um dos joelhos bem atr�s das estacas erguidas, batendo os dedos, inquietos, nas lan�as, alabardas e armas feitas com foices ou machados curvos. Aqui e ali algum deles usava um capacete ou um peda�o de armadura. Atr�s, o dobro de homens formava duas fileiras, segurando bons arcos longos de Dois Rios, cada um com um par de aljavas no cinto. Uns rapazinhos vieram correndo das casas com pacotes de mais flechas, que os homens acomodaram no ch�o a seus p�s, com as pontas para baixo. Tam parecia no comando, alinhando as fileiras e dizendo algumas palavras a cada homem, mas Bran marchava com ele, oferecendo o pr�prio apoio. Perrin viu que ele n�o era nem um pouco necess�rio ali.</p><p>Para sua surpresa, Dannil, Ban e todos os outros rapazes que haviam cavalgado com ele surgiram da aldeia a galope, rodeando Perrin e Faile, todos com os arcos a postos. Estavam meio estranhos, de certa forma. Aparentemente as Aes Sedai haviam Curado os que tinham ferimentos mais graves, deixando os menos feridos para os cataplasmas e unguentos de Daise, portanto os rapazes que mal conseguiam montar em uma sela no dia anterior agora caminhavam animadamente, enquanto Dannil, Tell e outros ainda mancavam ou usavam ataduras. Mesmo surpreso em v�-los, ficou aborrecido ao notar o que portavam. Leof Torfinn, com a bandagem que lhe envolvia a cabe�a formando um gorro claro acima dos olhos fundos, trazia o arco pendurado nas costas e um cajado comprido com uma vers�o menor do estandarte de bordas vermelhas e cabe�a de lobo.</p><p>��Acho que uma das Aes Sedai mandou fazer���disse Leof quando Perrin perguntou onde ele conseguira aquilo.���Milli Ayellin trouxe para o pai de Will, mas Wil n�o quis carregar.���Wil al�Seen arqueou um pouco os ombros.</p><p>��Eu tamb�m n�o ia querer���retrucou Perrin, secamente. Todos riram como se ele tivesse contado uma piada, at� mesmo Wil, depois de um minuto.</p><p>A cerca de estacas parecia bastante forte, mas por outro lado parecia um esfor�o ris�vel para afastar os Trollocs. Talvez at� fosse funcionar, mas ele n�o queria Faile ali se eles conseguissem ultrapassar. Quando ele a encarou, no entanto, ela exibia outra vez aquele olhar, como se pudesse ler seus pensamentos. E n�o estivesse gostando. Se ele tentasse mand�-la embora, ela iria discutir, empacar e se recusar a agir com sensatez. No estado fraco em que ele se encontrava, ela decerto teria mais chance de lev�-lo de volta para a estalagem do que o contr�rio. Pela forma como permanecia sentada na sela, t�o ferozmente, era prov�vel que <emphasis>ela o</emphasis> defendesse caso os Trollocs avan�assem. Ele teria de ficar de olho nela; era s� o que podia fazer.</p><p>De repente Faile sorriu, e Perrin co�ou a barba. Talvez ela conseguisse <emphasis>mesmo</emphasis> ler os pensamentos dele.</p><p>O tempo passou, o sol veio avan�ando devagar, o calor do dia aumentou. De vez em quando uma mulher chamava de dentro das casas para perguntar o que estava acontecendo. Volta e meia algum homem resolvia se sentar, mas Tam ou Bran se postava diante do sujeito antes que ele conseguisse cruzar as pernas, convocando-o de volta para as fileiras. N�o mais de uma ou duas milhas, Bain dissera. Ela e Chiad estavam sentadas perto das estacas, jogando algum jogo que aparentemente envolvia uma faca no ch�o no meio das duas. Sem d�vida, se os Trollocs estivessem vindo, j� teriam chegado, �quela altura. Ele estava come�ando a ter dificuldade de se sentar ereto. Ciente dos olhos atentos de Faile, manteve as costas rijas.</p><p>Uma corneta soou, alta e aguda.</p><p>��Trollocs!���gritaram meia d�zia de vozes e uma torrente de formas bestiais em malhas negras irrompeu da Floresta do Oeste, uivando e avan�ando pelo ch�o repleto de tocos, balan�ando espadas em forma de foice, machados com ponteiras, lan�as e tridentes.</p><p>Tr�s Myrddraal vinham em seguida, montados em cavalos negros. Disparavam de um lado a outro, como se conduzissem o fluxo de Trollocs a sua frente. O manto negro mortal permanecia im�vel, n�o importava o quanto eles se movimentassem e girassem nas selas. A corneta continuava soando, seus berros agudos e instigantes.</p><p>Vinte flechas foram atiradas assim que o primeiro Trolloc apareceu e o disparo mais forte caiu a quase cem passos de dist�ncia.</p><p>��Esperem, seus desmiolados!���gritou Tam. Bran pulou e lan�ou um olhar surpreso, n�o menos incr�dulo do que os dos amigos e vizinhos de Tam; alguns resmungaram sobre n�o aceitar quietos esse tipo de coisa, com ou sem Trollocs. Tam, por�m, ignorou os protestos.���Segurem at� eu dar a ordem, do jeito que mostrei a voc�s!���Ent�o, como se n�o houvesse centenas de Trollocs guinchantes galopando em dire��o a ele, Tam virou-se com toda a calma para Perrin.���Trezentos passos?</p><p>Perrin assentiu rapidamente. O homem estava perguntando a ele? Trezentos passos. Em quanto tempo um Trolloc percorria trezentos passos? Ele soltou o machado do cinto. A corneta soava sem parar. Os lanceiros permaneciam acocorados atr�s das estacas, como se for�ando a si mesmos a n�o recuar. Os Aiel velaram as faces.</p><p>A horda urrante avan�ava, cabe�as com chifres e caras com focinhos ou bicos, cada criatura com uma vez e meia a altura de um homem, cada uma ganindo por sangue. Quinhentos passos. Quatrocentos. Alguns corriam mais � frente. Eram r�pidos como cavalos. O Aiel estava certo? Haveria somente quinhentos? Pareciam milhares.</p><p>��Preparar!���gritou Tam, e duzentos arcos foram erguidos. Os rapazes junto a Perrin mais que depressa entraram em forma diante dele, imitando os mais velhos, alinhados com aquele estandarte est�pido.</p><p>Trezentos passos. Perrin via aqueles rostos disformes, contorcidos de f�ria e frenesi, como se estivessem em cima dele.</p><p>��Disparar!���gritou Tam. As cordas dos arcos estalaram como um gigantesco a�oite. Com dois estrondos de madeira contra madeira coberta de couro, as catapultas dispararam.</p><p>Flechas de pontas largas ca�ram sobre os Trollocs. As criaturas monstruosas foram derrubadas, por�m algumas se reergueram e avan�aram, cambaleantes, impulsionadas pelos Desvanecidos. O som da corneta se misturava a seus urros guturais, fomentando a matan�a. As pedras das catapultas ca�am por cima deles���e explodiam em fogo e estilha�os, abrindo buracos no meio do aglomerado. Perrin n�o foi o �nico a pular de susto; ent�o era isso o que as Aes Sedai estavam fazendo com as catapultas. Ele se perguntou, ansioso, o que aconteceria se elas deixassem cair uma daquelas pedras que preparavam para lan�ar.</p><p>Outra saraivada de flechas foi disparada, e outra, e mais outra, e de novo e de novo, e mais pedras das catapultas, ainda que em um ritmo mais lento. Explos�es de fogo dilaceravam os Trollocs. Choviam neles pontas largas de flechas. E eles avan�avam; ganindo, uivando, caindo e morrendo, mas sempre avan�ando. Agora estavam mais perto, t�o perto que os arqueiros se dispersaram, n�o mais atirando ao mesmo tempo, mas escolhendo os alvos. Os homens urravam sua pr�pria ira, urravam diante da morte e atiravam.</p><p>Ent�o n�o se viu mais Trollocs de p�. Apenas um Desvanecido, cravejado de flechas, por�m ainda cambaleando a esmo. Os ganidos agudos do cavalo ca�do de um Myrddraal competiam com os gemidos dos Trollocs abatidos, � beira da morte. A corneta enfim se calara. Aqui e ali, em meio ao campo repleto de tocos, um Trolloc arquejava e ca�a para tr�s. Sob todos os sons, Perrin ouvia homens ofegantes, como se tivessem corrido dez milhas. Seu pr�prio cora��o parecia querer sair do peito.</p><p>De s�bito algu�m gritou um �viva� bem alto, e com isso os homens come�aram a saltar e berrar, euf�ricos, balan�ando sobre as cabe�as os arcos ou o que tivessem nas m�os, jogando os quepes para o alto. As mulheres sa�ram correndo das casas, rindo e comemorando, e tamb�m as crian�as, todos celebrando e dan�ando com os homens. Alguns correram para apertar a m�o de Perrin e cumpriment�-lo.</p><p>��Voc� nos conduziu a uma grande vit�ria, meu rapaz.���Bran sorriu para ele. Trazia o elmo pendurado na nuca.���Suponho que n�o deva cham�-lo assim agora. Uma grande vit�ria, Perrin.</p><p>��Eu n�o fiz nada���protestou ele.���S� fiquei sentado no meu cavalo. Quem fez foram voc�s.���Bran n�o o escutava mais do que os outros. Constrangido, Perrin ergueu o corpo, fingindo esquadrinhar o campo, e depois de um tempo eles o deixaram em paz.</p><p>Tam n�o havia se juntado � comemora��o; permaneceu bem atr�s das estacas, analisando os Trollocs. Os Guardi�es tamb�m n�o estavam rindo. As silhuetas de malhas negras se aglomeravam no campo, em meio aos tocos baixos. Poderia haver uns quinhentos deles. Talvez menos. Alguns, poucos, talvez tivessem voltado para a floresta. Nenhum jazia a menos de quinhentos passos da sebe de estacas. Perrin encontrou os outros dois Desvanecidos se debatendo no ch�o. Com esses, eram tr�s. Uma hora aceitariam a pr�pria morte.</p><p>O povo de Dois Rios come�ou a lhe dar vivas.</p><p>��Perrin Olhos-Dourados! Viva! Viva! Viva!</p><p>��Eles tinham de saber���murmurou ele. Faile o encarou, indagativa.���Os Meios-homens tinham de saber que isso n�o ia funcionar. Olhe l�. At� eu consigo ver, agora; eles deviam estar vendo desde o in�cio. Se isso era tudo o que tinham, por que tentaram? E, se h� mais Trollocs por a�, por que n�o vieram todos? Se viessem o dobro, n�s ter�amos de lutar com eles quando chegassem �s estacas. O dobro, e talvez eles tivessem tomado a aldeia.</p><p>��Voc� tem um bom olho���disse Tomas, puxando a r�dea para o lado dele.���Isso foi um teste. Para ver se voc� cederia frente a uma investida, talvez para medir a rapidez da sua rea��o, ou como est�o organizadas as suas defesas, ou talvez por algum motivo que eu nunca tenha cogitado, mas ainda assim um teste. Agora eles sabem.���Ele apontou para o c�u, onde um corvo solit�rio sobrevoava o campo. Um corvo normal teria se refestelado com os mortos. O p�ssaro completou uma �ltima volta e partiu em dire��o � floresta.���O pr�ximo ataque n�o vai chegar imediatamente. Eu vi dois ou tr�s Trollocs entrando na floresta, ent�o as not�cias disso aqui v�o se espalhar. Os Meios-homens ter�o de lembr�-los que eles t�m mais medo de Myrddraal do que da morte. Por�m, o ataque vai acontecer, e sem d�vida vai ser mais violento que esse. O tamanho da viol�ncia vai depender de quantos os Sem-rosto tiverem trazido pelos Caminhos.</p><p>Perrin fez uma careta.</p><p>��Luz! E se estiverem em dez mil?</p><p>��Pouco prov�vel���respondeu Verin, indo afagar o pesco�o da montaria de Tomas. O cavalo de batalha permitiu o toque da mulher com a mansid�o de um p�nei.���Pelo menos por enquanto. Nem um Abandonado conseguiria conduzir um grupo t�o grande pelos Caminhos em seguran�a, eu suponho. Um homem sozinho at� corre o risco de morrer ou enlouquecer entre os Portais dos Caminhos mais pr�ximos, mas� digamos� mil homens, ou mil Trollocs, muito provavelmente atrairiam <emphasis>Machin Shin</emphasis> em quest�o de minutos, feito uma abelha monstruosa em um pote de mel. � muito mais prov�vel que n�o viagem mais de dez ou vinte juntos, cinquenta no m�ximo, e em grupos bem espa�ados. � claro, ainda resta a pergunta de quantos grupos est�o trazendo e do intervalo que est�o dando entre um grupo e outro. Seja como for, v�o perder alguns. Pode ser que as Criaturas da Sombra atraiam <emphasis>Machin Shin</emphasis> menos do que os humanos, mas� hmmm. Pensamento fascinante. Ser� que����Com um tapinha na perna de Tomas bem similar ao que daria no cavalo, ela se virou, j� perdida em seus estudos. O Guardi�o cravou os calcanhares no cavalo e foi atr�s dela.</p><p>��Se voc� cavalgar uma passada que seja na dire��o da Floresta do Oeste���disse Faile, calmamente���eu mesma vou traz�-lo de volta para a estalagem, arrastado pelas orelhas, e enfi�-lo naquela cama.</p><p>��Eu n�o estava pensando nisso���mentiu Perrin, fazendo Galope dar as costas para a floresta. Um homem e um Ogier poderiam passar despercebidos, chegar em seguran�a at� a montanha. Poderiam. O Portal dos Caminhos teria de ser trancado permanentemente para que Campo de Emond tivesse qualquer chance.���Voc� me fez mudar de ideia, lembra?���Talvez outro homem pudesse encontr�-los, sabendo que estavam por l�. Tr�s pares de olhos poderiam ver melhor que dois, ainda mais um par de olhos como o dele, e Perrin sem d�vida n�o estava fazendo nada ali. Daria no mesmo se em cima de Galope estivesse um monte de palha vestida com as roupas dele.</p><p>De repente, acima da gritaria e da algazarra ao redor, ele ouviu berros mais agudos, um clamor vindo do sul, pr�ximo � Estrada Velha.</p><p>��Ele disse que n�o viriam de novo t�o cedo!���rosnou, cravando os calcanhares nos flancos de Galope.</p></section><section><title><p>45</p><p><image l:href="#16"/></p><p>A espada do Latoeiro</p></title><p>Galopando pela aldeia com Faile atr�s de si, Perrin encontrou os homens do lado sul amontoados, perscrutando os campos e resmungando, alguns com os arcos j� meio preparados. Dois carro��es bloqueavam o v�o por onde a Estrada Velha passava no meio das estacas afiadas. A cerca de pedras mais pr�xima que ainda estava de p�, junto a um campo de tabaco, ficava a quinhentos passos de dist�ncia, e n�o era mais alta do que o restolho de cevada no caminho. No solo pr�ximo a ela, flechas brotavam feito ervas. Uma fuma�a se erguia a dist�ncia, cerca de dez espessas cortinas negras, algumas com tamanho suficiente para ser campos incendiados.</p><p>Cenn Buie estava l�, e tamb�m Hari e Darl Coplin. Bili Congar envolvia os ombros de seu primo Wit, o marido magrelo de Daise, que parecia preferir que Bili n�o respirasse em seu cangote. Ningu�m cheirava a medo, apenas a empolga��o. E Bili, a cerveja. Pelo menos dez homens tentaram contar a Perrin, ao mesmo tempo, o que havia acontecido; alguns falavam mais alto que os outros.</p><p>��Os Trollocs tentaram aqui tamb�m���gritou Hari Coplin���mas a gente deu uma li��o neles, n�o foi?���Ouviu-se numerosos murm�rios em concord�ncia, mas talvez tantos ou mais se entreolharam, indecisos, e remexeram os p�s.</p><p>��Tamb�m temos uns her�is aqui���disse Darl, em um tom alto e �spero.���O seu grupo l� na floresta n�o � o �nico.���Era um homem maior que o irm�o, por�m com o mesmo rosto fino dos Coplin, parecendo uma doninha, e a mesma boca contra�da, como se tivesse acabado de morder um caqui verde. Quando achou que Perrin n�o estava vendo, disparou-lhe um olhar raivoso. Aquilo n�o significava que o homem de fato desejasse ter estado na batalha diante da Floresta do Oeste; Darl, Hari e a maioria de seus familiares em geral davam um jeito de ficar para tr�s, independentemente de qual fosse a situa��o.</p><p>��Isso pede uma bebida!���anunciou o velho Bili, depois franziu o rosto, desapontado, quando ningu�m respondeu.</p><p>Uma cabe�a surgiu por cima do muro, ao longe, e se abaixou depressa, mas n�o antes que Perrin distinguisse um casaco amarelo brilhante.</p><p>��N�o s�o Trollocs���grunhiu ele, indignado.���Latoeiros! Voc� estavam atirando em Tuatha�an. Tirem esses carro��es do caminho.���Por cima do estribo, ele levou as m�os � boca em concha e gritou:���Podem vir! Est� tudo bem! Ningu�m vai machucar voc�s! Eu mandei afastar os carro��es���dirigiu-se rispidamente aos homens que o encaravam, parados. Confundindo latoeiros com Trollocs!���E v�o pegar suas flechas; mais cedo ou mais tarde voc�s v�o precisar delas de verdade.���Alguns come�aram a se movimentar lentamente, obedecendo, e ele gritou outra vez:���Ningu�m vai machucar voc�s! Est� tudo bem! Podem vir!���Os carro��es rolaram para ambos os lados com o rangido dos eixos necessitados de uma graxa.</p><p>Alguns Tuatha�an, em vestimentas alegres, pularam pela cerca, depois mais outros, e come�aram a rumar at� a aldeia em uma meia corrida cansada, parecendo temer o que os aguardava tanto quanto o que quer que houvessem deixado para tr�s. Eles se agruparam todos ao ver homens vindo da aldeia, quase a ponto de recuar, mesmo quando o povo de Dois Rios chegou trotando, encarando-os com curiosidade, e come�ou a puxar as flechas cravadas no ch�o. Mesmo ent�o, eles hesitaram.</p><p>As entranhas de Perrin congelaram. Duzentos homens e mulheres, talvez, alguns carregando crian�as pequenas, e um bocado de crian�as mais velhas correndo tamb�m, as roupas de cores vibrantes todas rasgadas e com manchas de sujeira. E algumas com sangue, ele viu quando o grupo se aproximou. Eram todos. De um total de quantos da caravana? Ao menos Raen estava l�, se arrastando como se meio atordoado, guiado por Ila, que exibia um hematoma inchado e escuro em uma das faces. Pelo menos haviam sobrevivido.</p><p>Bem perto da passagem, os Tuatha�an pararam, encarando, indecisos, as estacas afiadas e a massa de homens armados. Algumas crian�as se agarraram aos adultos e esconderam os rostos. Cheiravam a medo, a terror. Faile saltou do cavalo e correu at� eles; Ila a abra�ou, por�m n�o se aproximou mais. A mulher mais velha parecia estar sendo confortada pela mais jovem.</p><p>��N�o vamos machucar voc�s���disse Perrin. <emphasis>Eu devia t�-los for�ado a vir. Que a Luz me queime, eu devia t�-los for�ado!</emphasis>���Voc�s s�o bem-vindos �s nossas fogueiras.</p><p>��Latoeiros.���Hari contorceu a boca com desd�m.���O que queremos com um bando de latoeiros ladr�es? Eles levam tudo o que n�o estiver preso com pregos.</p><p>Darl abriu a boca, decerto para apoiar Hari, mas antes que pudesse falar, algu�m na multid�o gritou:</p><p>��Voc� tamb�m, Hari! E ainda leva os pregos!���Risos esparsos calaram a boca de Darl. N�o muitos riram, no entanto, e os que riram olharam os Tuatha�an sujos e enlameados com constrangimento.</p><p>��Hari tem raz�o!���gritou Daise Congar, for�ando passagem, empurrando os homens para fora de seu caminho.���Os latoeiros roubam, e n�o s� coisas! Eles roubam crian�as!���Abrindo caminho aos empurr�es at� Cenn Buie, ela balan�ou um dedo, grosso feito o polegar de Cenn, debaixo do nariz dele. O homem se afastou o quanto p�de no meio da multid�o; ela era uma cabe�a mais alta do que ele e pesava metade a mais.���Voc� pode at� fazer parte do Conselho da Aldeia, mas, se n�o quiser escutar a Sabedoria, vou meter o C�rculo das Mulheres nessa hist�ria, e n�s vamos cuidar disso.���Alguns dos homens assentiram, resmungando.</p><p>Cenn co�ou a cabe�a de cabelos finos, encarando a Sabedoria de soslaio.</p><p>��Aaah� bem� Perrin���disse ele, lentamente, com aquela voz estridente���os latoeiros de fato t�m uma reputa��o, voc� sabe, e����Ele parou, dando um salto para tr�s enquanto Perrin girava Galope para encarar o povo de Dois Rios.</p><p>V�rios deles se dispersaram diante do castanho, mas Perrin n�o deu a m�nima.</p><p>��N�o vamos mandar ningu�m embora���disse ele, em um tom duro.���Ningu�m! Ou voc�s querem despachar crian�as para os Trollocs?���Uma das crian�as Tuatha�an come�ou a chorar, um lamento agudo, e ele desejou n�o ter dito aquilo, mas Cenn corou feito uma beterraba, e at� Daise exibia uma express�o envergonhada.</p><p>��� claro que n�s vamos acolh�-los���disse o telhador, em um tom bronco. Ent�o virou-se para Daise, todo emplumado, feito um galo pronto para enfrentar um c�o de guarda.���E, se voc� quiser colocar o C�rculo das Mulheres no meio, o Conselho da Aldeia vai p�r voc�s no seu devido lugar! Voc� vai ver s� se n�o vamos!</p><p>��Voc� sempre foi um velho tolo, Cenn Buie.���Daise bufou.���Acha que ir�amos deixar voc� mandar crian�as para os Trollocs?���Cenn abriu e fechou a boca v�rias vezes, mas antes que ele pudesse dizer uma palavra, Daise p�s a m�o no peito magro do homem e lhe deu um empurr�o. Abrindo um sorriso, ela avan�ou at� os Tuatha�an e envolveu Ila em um abra�o reconfortante.���Venham comigo, vou arranjar para voc�s todos um banho quente e um lugar para descansar. As casas est�o lotadas, mas vamos encontrar lugar para todo mundo. Venham.</p><p>Marin al�Vere veio correndo pela multid�o, e tamb�m Alsbet Luhhan, Natti Cauthon, Neysa Ayellin e mais mulheres, tomando as crian�as ou abra�ando as mulheres Tuatha�an, levando-as consigo, ralhando com os homens de Dois Rios para que sa�ssem da frente. N�o que algu�m estivesse propositalmente barrando a passagem; apenas levava tempo para que tanta gente se apertasse e abrisse caminho.</p><p>Faile olhou Perrin com admira��o, mas ele balan�ou a cabe�a. N�o tinha nada a ver com ser <emphasis>ta�veren</emphasis>; o povo de Dois Rios talvez �s vezes precisasse ser direcionado para o caminho certo, mas eles eram capazes de enxerg�-lo. At� mesmo Hari Coplin, observando os latoeiros serem acolhidos, tinha uma express�o menos azeda do que antes. Bem, um pouco menos. Tamb�m n�o havia motivo para esperar um milagre.</p><p>Mancando, atordoado, Raen encarou Perrin.</p><p>��O Caminho da Folha <emphasis>�</emphasis> o caminho certo. Tudo morre em seu devido tempo, e����A voz dele foi falhando, como se ele n�o pudesse se lembrar do que estava dizendo.</p><p>��Eles vieram ontem � noite���disse Ila, com a fala arrastada por conta do rosto inchado. Seus olhos estavam quase t�o embotados quanto os do marido.���Os cachorros talvez tivessem nos ajudado a fugir, mas os Filhos mataram todos os cachorros, e� n�o pudemos fazer nada.���Atr�s dela, Aram tremia dentro do casaco de listras amarelas, encarando os homens armados. A maioria das crian�as latoeiras agora chorava.</p><p>Perrin franziu o cenho para a fuma�a que se erguia do sul. Remexendo-se na sela, ele conseguia distinguir mais ao norte e ao leste. Mesmo que a maioria representasse casas j� abandonadas, os Trollocs haviam passado a noite bem ocupados. Quantos seriam necess�rios para incendiar tantas fazendas, mesmo correndo entre uma e outra e levando apenas o tempo necess�rio para atirar uma tocha em uma casa vazia ou um campo desabitado? Talvez tantos quanto eles tinham matado hoje. O que isso dizia a respeito do n�mero de Trollocs que j� se encontrava em Dois Rios? N�o parecia poss�vel que um bando s� tivesse feito tudo, queimado todas aquelas casas e ainda destru�do a caravana do Povo Errante.</p><p>Com os olhos fixos nos Tuatha�an que iam sendo levados, ele sentiu uma pontada de vergonha. Aquele povo havia visto a morte de amigos e fam�lia na noite anterior, e l� estava ele pensando friamente em n�meros. Ouviu alguns homens de Dois Rios murmurando, tentando descobrir a que fazenda correspondia cada fuma�a. A todo aquele povo os inc�ndios representavam perdas reais, vidas a serem reconstru�das, se poss�vel, n�o apenas n�meros. Ele era in�til ali. Agora, com Faile ocupada em ajudar a cuidar dos latoeiros, era o momento de partir atr�s de Loial e Gaul.</p><p>Mestre Luhhan, vestido com o colete de ferreiro e o comprido avental de couro, puxou a r�dea de Galope.</p><p>��Perrin, voc� precisa me ajudar. Os Guardi�es querem que eu fa�a mais componentes para as catapultas, mas estou com vinte homens me pedindo para consertar uns peda�os de armaduras que os imbecis dos av�s de seus av�s compraram dos guardas de algum mercador imbecil.</p><p>��Gostaria de poder dar uma m�ozinha���disse Perrin���mas h� outra coisa que preciso fazer. De qualquer modo, provavelmente estou meio enferrujado. N�o trabalhei muito com ferragem no ano passado.</p><p>��Luz, n�o foi isso que eu quis dizer. N�o � para voc� pegar em um martelo.���O ferreiro parecia chocado.���Toda vez que mando um daqueles cabe�as de ganso embora depois de dizer poucas e boas, o sujeito volta dez minutos depois e torna a discutir. N�o consigo trabalhar. Eles v�o escutar voc�.</p><p>Perrin duvidava, se os homens n�o estavam escutando Mestre Luhhan. Al�m de pertencer ao Conselho da Aldeia, Haral Luhhan era grande o bastante para pegar praticamente qualquer homem em Dois Rios e atirar longe, se fosse preciso. No entanto, ele avan�ou at� uma ferraria provis�ria que Mestre Luhhan havia montado em um galp�o aberto, erguido �s pressas perto do Campo. Havia seis homens aglomerados em volta das bigornas resgatadas da ferraria incendiada pelos Mantos-brancos, e outro sujeito, absorto, soprava os enormes foles de couro, at� que o ferreiro o afugentou com um berro. Para surpresa de Perrin, os homens de fato lhe deram ouvidos quando ele os mandou sair, e n�o foi preciso nenhum discurso para submet�-los � sua vontade de <emphasis>ta�veren</emphasis>, bastou declarar que Mestre Luhhan estava ocupado. Sem d�vida o ferreiro poderia ter feito isso sozinho, mas ele apertou a m�o de Perrin e agradeceu muito antes de voltar ao trabalho.</p><p>Perrin desceu da sela de Galope, agarrou um dos homens pelo ombro, um fazendeiro careca chamado Get Eldin, e lhe pediu que ficasse e expulsasse qualquer um que tentasse incomodar Mestre Luhhan. Get devia ter o triplo da idade dele, mas o sujeito, de rosto enrugado e curtido, apenas assentiu e se postou pr�ximo ao martelo de Haral, que jazia envolto em ferro quente. Finalmente poderia ir embora, antes que Faile descobrisse.</p><p>Assim que Perrin conseguiu virar Galope, Bran apareceu, de lan�a no ombro e elmo debaixo do bra�o robusto.</p><p>��Perrin, deve haver um jeito mais r�pido de trazer os pastores e vaqueiros para c�, se formos atacados de novo. Mesmo mandando os mais ligeiros da aldeia, Abell n�o conseguiria trazer nem metade deles de volta antes de aqueles Trollocs sa�rem da mata.</p><p>Aquilo era f�cil de resolver: era s� pegar um clarim antigo que Cenn Buie tinha pendurado na parede, j� quase preto de t�o deslustrado, e emitir um sinal de tr�s toques longos que at� o pastor mais distante fosse capaz de ouvir. Tamb�m seria poss�vel emitir sinais para outras coisas, naturalmente, como mandar todos aos seus lugares caso houvesse um ataque iminente. Era s� quest�o de saber quando haveria um ataque iminente. Bain, Chiad e os Guardi�es se revelaram bastante satisfat�rios como sentinelas, mas quatro n�o era o suficiente, ent�o era preciso encontrar bons lenhadores e rastreadores e equip�-los com cavalos, para que pudessem chegar a Campo de Emond antes de qualquer Trolloc que avistassem.</p><p>Depois disso, Buel Dowtry precisou ser acalmado. O velho flecheiro, de cabelos brancos e nariz aquilino feito a ponta de uma lan�a, sabia muito bem que a maioria dos fazendeiros costumava fabricar as pr�prias flechas, mas estava determinado a n�o deixar ningu�m ajud�-lo ali na aldeia, como se tivesse condi��es de preencher sozinho todas as aljavas. Perrin n�o soube ao certo como conseguiu suavizar a irrita��o de Buel, mas acabou dando um jeito de deixar o sujeito ensinando alegremente um bando de garotos a amarrar e colar as flechas de pena de ganso.</p><p>Eward Candwin, o corpulento tanoeiro, tinha um problema diferente. Com tanta gente precisando de �gua, o homem tinha mais baldes e barris a fazer do que daria conta em semanas sozinho. N�o foi preciso muito tempo para encontrar m�os confi�veis pelo menos para chanfrar peda�os de pau, por�m, logo veio mais gente, com perguntas e quest�es para as quais pareciam achar que Perrin era o �nico que tinha as respostas. Desde onde p�r fogo nos corpos dos Trollocs mortos at� se era seguro retornar �s fazendas para resgatar o que fosse poss�vel. A essa �ltima pergunta, sempre que surgia, ele respondia com um firme �n�o����e ela era mais frequente do que qualquer outra, feita por homens e mulheres que encaravam de cenho franzido a fuma�a que subia pelo campo���mas na maioria das vezes ele apenas retrucava perguntando qual o sujeito achava que seria a melhor solu��o e o mandava fazer exatamente aquilo. Poucas vezes foi de fato necess�rio fornecer alguma resposta; o povo sabia o que fazer, mas tinha a ideia besta de que era preciso perguntar a ele.</p><p>Dannil, Ban e os outros o encontraram e insistiram em ficar na cola dele com aquele estandarte, como se o outro, imenso, que havia no topo do Campo n�o fosse bastante, at� que ele resolveu mand�-los vigiar os homens que haviam voltado para derrubar mais �rvores na Floresta do Oeste. Parecia que Tam lhes contara alguma hist�ria a respeito de algo chamado os Companheiros, em Illian, soldados que cavalgavam com o general de um ex�rcito illianense e eram atirados em qualquer batalha que estivesse pegando fogo. Tam, logo ele! Pelo menos o grupo levou junto o estandarte. Perrin se sentia um completo imbecil com aquela coisa o perseguindo.</p><p>No meio da manh� apareceu Luc, todo louro e cheio de arrog�ncia, com leves meneios de cabe�a em resposta a uns poucos cumprimentos, embora o que levasse algu�m a querer cumpriment�-lo fosse um mist�rio. Ele trazia um trof�u, que puxou de uma bolsa de couro e ajeitou em cima de uma lan�a, bem na beirada do Campo, para que todos olhassem, boquiabertos. A cabe�a sem olhos de um Myrddraal. O sujeito estava bastante modesto, de um jeito meio condescendente, mas deixou escapar que havia matado o Desvanecido ao dar de cara com um bando de Trollocs. Um admirado s�quito o levou para ver a cena da batalha que ocorrera ali���estavam chamando assim���onde cavalos arrastavam Trollocs para imensas piras que j� mandavam para cima colunas de fuma�a negra e oleosa. Luc tamb�m admirava tudo, respeitoso, fazendo apenas uma ou duas cr�ticas em rela��o � distribui��o que Perrin fizera de seus homens; fora essa a hist�ria que o povo de Dois Rios contara, sobre Perrin formando todo mundo em fila e dando ordens que decerto jamais dera.</p><p>Para Perrin, Luc abriu um sorriso superior de aprova��o.</p><p>��Voc� foi muito bem, meu rapaz. Teve sorte, � claro, mas existe mesmo uma coisa chamada sorte de principiante, n�o �?</p><p>Quando o homem se recolheu para o quarto na estalagem Fonte de Vinho, Perrin pegou a cabe�a e a enterrou. N�o era coisa para o povo ficar olhando, ainda mais as crian�as.</p><p>As perguntas se estenderam ao longo do dia, que foi se arrastando, at� que Perrin de repente percebeu que o sol j� estava bem no alto do c�u e ele n�o havia comido nada. Seu est�mago estava mandando recados.</p><p>��Senhora al�Caar���come�ou ele, de cima do estribo, em um tom cansado, chamando a mulher de rosto comprido.���Acho que as crian�as podem brincar em qualquer lugar, desde que algu�m fique de olho para evitar que elas avancem para al�m das �ltimas casas. Luz, mulher, a senhora sabe disso. � claro que conhece as crian�as bem mais do que eu! Do contr�rio, como teria conseguido criar os seus quatro?���O mais novo dela era seis anos mais velho do que ele!</p><p>Nela al�Caar franziu o cenho e balan�ou a cabe�a, sacudindo a tran�a de mechas grisalhas. Por um instante ele pensou que a mulher fosse lhe dar um cascudo por falar com ela daquele jeito. Ele quase desejou que ela o fizesse, para ser diferente de todos os outros que queriam a opini�o dele para tudo.</p><p>��� claro que conhe�o as crian�as���disse ela.���S� quero garantir que tudo seja feito da forma que voc� desejar. Vai ser assim, ent�o.</p><p>Com um suspiro, ele apenas esperou a mulher dar as costas para virar a r�dea de Galope na dire��o da estalagem Fonte de Vinho. Duas ou tr�s vozes o chamaram, mas ele se recusou a dar ouvidos. Da forma que ele desejasse. Qual era o problema daquela gente? O povo de Dois Rios n�o agia daquele jeito. Sem d�vida n�o os campeiros. Arrumavam confus�o com tudo. Os debates diante do Conselho da Aldeia, ou entre os integrantes do Conselho, tinham de chegar �s vias de fato antes de gerar falat�rio. E, ainda que o C�rculo das Mulheres acreditasse ter mais cautela com as pr�prias quest�es, n�o havia um homem que n�o soubesse o que significavam mulheres de dentes cerrados pisando firme, de tran�as eri�adas, feito rabos de gatos nervosos.</p><p><emphasis>O que eu desejo?</emphasis>, pensou, irritado. <emphasis>O que eu desejo � algo para comer, um lugar onde ningu�m venha tagarelar no meu ouvido.</emphasis> Ao pisar diante da estalagem, cambaleou e pensou que poderia acrescentar uma cama a essa listinha. Era apenas meio-dia, Galope estava fazendo todo o trabalho, e ele j� se sentia cansado at� os ossos. Talvez Faile tivesse raz�o, afinal de contas. Talvez ir atr�s de Loial e Gaul fosse mesmo m� ideia.</p><p>Quando Perrin adentrou o sal�o, a Senhora al�Vere deu uma olhadela nele e quase o empurrou em uma cadeira, com um sorriso maternal.</p><p>��J� est� na hora de voc� parar um pouco de dar ordens por a����disse ela, com firmeza.���Campo de Emond pode muito bem sobreviver uma hora por conta pr�pria, enquanto voc� p�e um pouco de comida para dentro.���Ela saiu, apressada, antes que ele conseguisse retrucar que Campo de Emond podia muito bem sobreviver sem ele, ponto.</p><p>O sal�o estava quase vazio. Natti Cauthon estava sentada a uma mesa, enrolando peda�os de atadura e montando uma pilha, mas sem tirar o olho das filhas, do outro lado do sal�o, embora ambas j� tivessem idade para usar tran�as. O motivo era muito simples. Bo e Eldrin estavam sentadas uma de cada lado de Aram, incentivando o latoeiro a comer. Dando comida na boca, na verdade, e limpando o queixo do homem. Pelo jeito com que sorriam para o sujeito, Perrin ficou surpreso em n�o ver Natti � mesa com as duas, de tran�as ou n�o. O rapaz era bonito, ele achava; talvez at� mais do que Wil al�Seen. Bo e Eldrin sem d�vida pensavam o mesmo. Aram, por sua vez, retribu�a os sorrisos de vez em quando���as duas mocinhas eram belas e bem-feitas de corpo; o homem teria de ser cego para n�o enxergar, e Perrin n�o imaginava que Aram n�o tivesse olhos para belas garotas���por�m mal engolia uma colherada sem cravar os olhos arregalados nas lan�as e armas de haste apoiadas nas paredes. Para um Tuatha�an devia ser uma vis�o terr�vel.</p><p>��A Senhora al�Vere falou que voc� finalmente se cansou da sela���disse Faile, irrompendo pela porta da cozinha. Espantosamente, usava um avental branco comprido, feito o de Marin; as mangas da blusa estavam dobradas at� os cotovelos, e ela tinha as m�os sujas de farinha. Como se de repente se desse conta daquilo, ela arrancou o avental, limpando as m�os nele depressa, e pendurou-o no encosto de uma cadeira.���Nunca assei nada antes���disse, baixando as mangas e juntando-se a ele.���Misturar massa de farinha � muito divertido. Acho que vou querer fazer de novo um dia desses.</p><p>��Se voc� n�o assar���respondeu ele���como � que a gente vai comer p�o? N�o pretendo passar a vida inteira viajando, comprando comida nem comendo o que conseguir capturar em armadilhas e acertar com arco e funda.</p><p>Ela sorriu, como se ele tivesse dito algo muito am�vel, mas nem por um decreto ele foi capaz de enxergar o qu�.</p><p>��A cozinheira vai assar, � claro. Imagino que uma das ajudantes, na verdade, mas a cozinheira vai supervisionar.</p><p>��A cozinheira���murmurou ele, balan�ando a cabe�a.���Ou uma das ajudantes. Claro. Como � que n�o pensei nisso?</p><p>��O que foi que houve, Perrin? Voc� parece preocupado. Acho que as defesas est�o t�o refor�adas quanto � poss�vel sem uma muralha.</p><p>��N�o � isso. Faile, esse neg�cio de Perrin Olhos-Dourados est� saindo de controle. N�o sei quem eles pensam que sou, mas ficam me perguntando o que fazer, se est� tudo certo, quando j� sabem o que deve ser feito, quando s�o capazes de descobrir se pararem para pensar por dois minutos.</p><p>Ela analisou o rosto dele por um longo instante, com aqueles olhos obl�quos e escuros, ent�o disse:</p><p>��Quantos anos faz desde que a Rainha de Andor de fato governou isso aqui?</p><p>��A Rainha de Andor? N�o sei ao certo. Uns cem, talvez. Duzentos. O que � que isso tem a ver?</p><p>��Esse povo n�o se lembra de como � lidar com uma rainha� ou um rei. Est�o tentando descobrir. Voc� precisa ter paci�ncia com eles.</p><p>��Rei?���disse, em um tom fraco. Deixou a cabe�a desabar nos bra�os, em cima da mesa.���Ah, Luz!</p><p>Com uma risadinha, Faile lhe afagou os cabelos.</p><p>��Bom, talvez n�o isso. Duvido muito que Morgase aprovaria. Um l�der, pelo menos. Mas ela sem d�vida aprovaria um homem que recuperasse terras que seu trono n�o controla h� mais de cem anos. Ela certamente faria desse homem um lorde. Perrin da Casa Aybara, Lorde de Dois Rios. Soa muito bem.</p><p>��Dois Rios n�o precisa de lorde nenhum���respondeu ele, com um grunhido, debru�ado na mesa de carvalho.���Nem de reis nem de rainhas. Somos homens livres!</p><p>��Homens livres tamb�m podem precisar���respondeu ela, com do�ura.���Quase todos os homens desejam acreditar em algo maior do que eles mesmos, algo mais vasto que seus pr�prios campos. � por isso que existem as na��es, Perrin, e os povos. At� Raen e Ila se consideram parte de algo maior do que as caravanas que conduzem. Eles perderam os carro��es e quase toda a fam�lia e os amigos, mas outros Tuatha�an ainda buscam a can��o, e eles tamb�m v�o voltar a buscar, porque pertencem a algo maior do que alguns carro��es.</p><p>��Isso aqui � de quem?���perguntou Aram subitamente.</p><p>Perrin levantou a cabe�a. Viu o jovem latoeiro de p�, encarando incomodado as lan�as apoiadas nas paredes.</p><p>��Elas s�o de quem quiser, Aram. Ningu�m vai machucar voc� com nenhuma dessas, pode acreditar.���Ele n�o soube ao certo se Aram havia acreditado, pelo jeito como o rapaz come�ou a caminhar lentamente pelo sal�o, com as m�os enfiadas nos bolsos, olhando de soslaio as lan�as e alabardas.</p><p>Perrin ficou mais do que grato em cravar os talheres no prato de assado de ganso fatiado que Marin trouxe, com nabos, ervilhas e um bom p�o de crosta crocante. Ou teria cravado, pelo menos, se Faile n�o tivesse lhe enfiado um guardanapo com bordados floridos na camisa, feito um babador, e afanado garfo e faca das m�os dele. Ela parecia achar gra�a em dar comida na boca de Perrin, feito Bo e Eldrin haviam feito com Aram. As meninas Cauthon deram risadinhas para ele, e Natti e Marin tamb�m exibiam sorrisinhos. Perrin n�o enxergava o que havia de t�o engra�ado. No entanto, estava disposto a acatar a vontade de Faile, ainda que comer sozinho tivesse sido mais f�cil. Ela o fazia esticar o pesco�o para pegar a comida no garfo.</p><p>Aram, em passadas lentas, deu tr�s voltas em torno do sal�o antes de parar bem ao p� da escada, encarando o barril de espadas. Ent�o se aproximou e puxou uma delas do amontoado, erguendo-a, meio sem jeito. O cabo envolto em couro era t�o comprido que era poss�vel segur�-lo com ambas as m�os.</p><p>��Posso usar essa aqui?���perguntou ele.</p><p>Perrin quase engasgou.</p><p>Alanna surgiu no topo da escada, acompanhada por Ila; a mulher Tuatha�an tinha uma express�o cansada, mas j� n�o se via o hematoma em seu rosto.</p><p>��� a melhor coisa � dormir���dizia a Aes Sedai.���O que o perturba mais � a lembran�a, e isso eu n�o consigo Curar.</p><p>Os olhos de Ila pararam no neto, no que ele segurava, e a mulher gritou como se aquela l�mina tivesse sido cravada em sua carne.</p><p>��N�o, Aram! N���ooo!���A mulher quase caiu, na �nsia de descer as escadas, e atirou-se em cima de Aram, tentando arrancar a espada das m�os dele.���N�o, Aram���dizia, desesperada.���N�o fa�a isso. Ponha isso no ch�o. O Caminho da Folha. N�o fa�a isso! O Caminho da Folha! Por favor, Aram! Por favor!</p><p>Aram dan�ava com a mulher, defendendo-se, meio desajeitado, tentando afastar dela a espada.</p><p>��Por que n�o?���gritou ele, cheio de raiva.���Eles mataram a mam�e! Eu vi! Eu poderia ter impedido, se tivesse uma espada. Eu poderia ter salvado a minha m�e!</p><p>As palavras partiram o cora��o de Perrin. Um latoeiro com uma espada era algo anormal, quase o bastante para lhe arrepiar os pelos da nuca, mas aquelas palavras� a m�e dele.</p><p>��Deixe o rapaz quieto���disse, com mais rispidez do que pretendia.���Todo homem tem o direito de se defender, de defender sua� ele tem o direito.</p><p>Aram estendeu a espada para Perrin.</p><p>��Voc� pode me ensinar a usar?</p><p>��Eu n�o sei usar���respondeu Perrin.���Mas voc� pode encontrar algu�m.</p><p>L�grimas corriam pelo rosto de Ila.</p><p>��Os Trollocs levaram a minha filha���disse ela, aos solu�os, o corpo inteiro tremendo���e todos os meus netos, menos um, e agora voc� est� levando o �ltimo. Ele est� Perdido, e por culpa sua, Perrin Aybara. Voc� j� � um lobo, em seu cora��o, e agora ele tamb�m vai virar um.���A mulher se virou e subiu de volta os degraus, cambaleante, ainda solu�ando.</p><p>��Eu poderia ter salvado a mam�e!���gritou Aram para ela.���Av�! Eu poderia!���Ela n�o olhou para tr�s, e, ao v�-la desaparecer no corredor, o rapaz desabou sobre o corrim�o, chorando.���Eu poderia, vov�. Eu poderia ter salvado�</p><p>Perrin percebeu que Bo tamb�m chorava, com o rosto enfiado nas m�os, e as outras mulheres o encaravam de cenho franzido, como se ele tivesse feito algo errado. N�o, n�o todas. Alanna, do alto da escada, o observava com aquela calma indecifr�vel de Aes Sedai, e Faile exibia uma express�o igualmente impass�vel.</p><p>Ele limpou a boca, largou o guardanapo na mesa e se levantou. Ainda havia tempo de dizer a Aram que largasse a espada e fosse pedir perd�o a Ila. Tempo de dizer a ele� O qu�? Que talvez, da pr�xima vez, ele n�o estivesse presente para assistir � morte de seus entes queridos? Que talvez ele pudesse apenas retornar para procurar suas covas?</p><p>Ele pousou a m�o no ombro de Aram, e o homem se encolheu, envolvendo a espada como se esperasse que Perrin fosse tom�-la. O cheiro do latoeiro trazia diversas emo��es: medo, �dio e uma tristeza profunda. Perdido, foi assim que Ila o chamara. O olhar dele estava perdido.</p><p>��Limpe o rosto, Aram. Depois v� encontrar Rand al�Thor. Diga que eu pedi a ele para lhe ensinar a usar a espada.</p><p>O outro homem ergueu a cabe�a, lentamente.</p><p>��Obrigado���gaguejou, esfregando as l�grimas do rosto com a manga.���Obrigado. Nunca vou me esquecer disso. Nunca. Eu juro.���Subitamente ele ergueu a espada e beijou a l�mina reta; o pomo do cabo tinha o formato de uma cabe�a de lobo.���Eu juro. N�o � assim que se faz?</p><p>��Suponho que sim���respondeu Perrin, pesaroso, se perguntando qual seria a raz�o do pesar. O Caminho da Folha era uma bela cren�a, como um sonho de paz, mas, assim como o sonho, n�o resistiria � viol�ncia. Ele n�o conhecia nenhum lugar assim. Era um sonho para outro homem, em outro lugar. Em outra Era, talvez.���V�, Aram. Voc� tem muito o que aprender, e talvez n�o haja muito tempo.���Ainda balbuciando agradecimentos, o latoeiro n�o esperou que as l�grimas secassem para sair correndo da estalagem, erguendo com ambas as m�os a espada diante de si.</p><p>Ciente da cara de desprezo de Eldrin, das m�os de Marin na cintura e da carranca de Natti, sem mencionar o choro de Bo, Perrin retornou � cadeira. Alanna havia sa�do do topo da escada. Faile o observou pegar o garfo e a faca.</p><p>��Voc� desaprova?���perguntou ele, baixinho.���Um homem tem o direito de se defender, Faile. At� mesmo Aram. Ningu�m pode obrig�-lo a seguir o Caminho da Folha se ele n�o quiser.</p><p>��Eu n�o gosto de ver voc� sofrer���disse ela, bem baixinho.</p><p>Ele parou de cortar o peda�o de ganso. Sofrer? Aquele sonho n�o era para ele.</p><p>��S� estou cansado���respondeu, com um sorriso. N�o achou que ela tivesse acreditado.</p><p>Antes que ele tivesse tempo de dar a segunda garfada, Bran enfiou a cabe�a pela porta da frente. Usava outra vez o elmo tosco.</p><p>��Cavaleiros chegando pelo norte, Perrin. Muitos cavaleiros. Acho que devem ser os Mantos-brancos.</p><p>Faile deu um salto ao mesmo tempo em que Perrin se levantou, e quando ele surgiu do lado de fora montado em Galope, com o Prefeito resmungando sozinho sobre o que pretendia dizer aos Mantos-brancos, ela saiu pela lateral da estalagem, conduzindo a �gua negra. Havia mais gente correndo para o norte do que concentrada em suas tarefas. Perrin n�o estava com muita pressa. Os Filhos da Luz poderiam muito bem ter chegado para lev�-lo preso. Provavelmente era isso. Ele n�o pretendia ser algemado, mas n�o estava ansioso para pedir ao povo que lutasse com os Mantos-brancos por causa dele. Avan�ou atr�s de Bran e juntou-se ao fluxo de homens, mulheres e crian�as que cruzavam a Ponte do Carro��o sobre o rio Fonte de Vinho, com os cascos de Galope e Andorinha ressoando nas t�buas pesadas. Uns poucos salgueiros compridos cresciam ali, � beira d��gua. A ponte marcava o in�cio da Estrada do Norte, depois seguia adiante para Colina da Vig�lia e al�m. Algumas das colunas de fuma�a a dist�ncia haviam se transformado em filetes, sobre as fogueiras que se esva�am.</p><p>No ponto onde a estrada se afastava da aldeia, ele encontrou um par de carro��es a bloque�-la e homens cheirando a ansiedade reunidos atr�s de estacas afiadas cravadas no ch�o, com arcos, lan�as e afins, conversando em murm�rios, todos amontoados para observar o que vinha pela estrada: uma longa fileira dupla de cavaleiros de mantos brancos seguiam deixando uma nuvem de poeira, os capacetes c�nicos e as placas e malhas polidas, reluzentes a cintilar sob o sol da tarde, as lan�as com ponta de a�o todas inclinadas na mesma angula��o. Na lideran�a vinha um jovem, empertigado e de rosto severo, que era vagamente familiar a Perrin. Com a chegada do Prefeito, o burburinho cessou no mesmo instante. Ou talvez tivesse sido a chegada de Perrin que causou o sil�ncio.</p><p>A cerca de duzentas passadas das estacas, o homem de rosto severo ergueu a m�o, e a primeira coluna parou, com a ordem ecoando pelas fileiras. Ele avan�ou na companhia de apenas meia d�zia de Mantos-brancos, correndo o olhar pelos carro��es, as estacas afiadas e os homens atr�s. A atitude indicava algu�m importante, mesmo sem os n�s de patente sob o raio de sol flamejante que havia em seu manto.</p><p>Luc surgiu de algum lugar, resplandecente sobre o garanh�o negro de pelo brilhoso, vestido em l� vermelha com bordados dourados. Talvez fosse muito natural que o oficial dos Mantos-brancos escolhesse se dirigir a Luc, embora seus olhos escuros continuassem a sondar.</p><p>��Eu sou Dain Bornhald���anunciou o homem, puxando as r�deas���Capit�o dos Filhos da Luz. Os senhores prepararam isso para n�s? Ouvi dizer que Campo de Emond est� fechado para os Filhos, sim? � claro que uma aldeia da Sombra estaria fechada aos Filhos da Luz.</p><p>Dain Bornhald, n�o Geofram. Seu filho, talvez. N�o que fizesse diferen�a. Perrin sup�s que tanto um quanto o outro fossem tentar lev�-lo preso. Como esperado, o olhar de Bornhald passou batido por ele, depois retornou depressa. O homem pareceu ter sido tomado por um espasmo; uma das m�os protegidas por manoplas avan�ou at� a espada, os l�bios contra�dos em um rosnado silencioso, e por um instante Perrin achou que o sujeito estivesse prestes a atac�-lo, dando um pinote com o cavalo em dire��o � barreira de tocos pontudos para alcan��-lo. O homem parecia nutrir um �dio pessoal por Perrin. De perto, aquele rosto guardava um toque de indol�ncia, um brilho nos olhos que Perrin se recordava de ver em Bili Congar. Achou que sentia cheiro de conhaque.</p><p>O homem de rosto encovado ao lado de Bornhald era mais do que familiar. Perrin jamais esqueceria aqueles olhos fundos, feito duas brasas negras. Alto, abatido e duro feito uma bigorna. Jaret Byar de fato o encarava com �dio. Quer Bornhald fosse ou n�o um fan�tico, Byar sem d�vida era.</p><p>Luc aparentemente teve o bom senso de n�o tentar usurpar o lugar de Bran���ele de fato se preocupou mais em examinar a fileira de Mantos-brancos depois que a poeira baixou, revelando mais Filhos ao longo da estrada���para desgosto de Perrin, por�m Bran o encarou���o aprendiz de ferreiro���e esperou seu meneio de cabe�a antes de responder. O <emphasis>Prefeito</emphasis>! Bornhald e Byar claramente perceberam a movimenta��o silenciosa.</p><p>��Campo de Emond n�o est� exatamente fechado para os senhores���respondeu Bran, empertigado, com a lan�a apoiada na lateral do corpo.���N�s decidimos nos defender sozinhos, e hoje de manh� conseguimos. Se quiserem ver nosso trabalho, olhem ali.���Ele apontou na dire��o da fuma�a que se erguia das piras dos Trollocs. Um odor adocicado e enjoativo de carne queimada pairava, mas ningu�m al�m de Perrin parecia notar.</p><p>��Voc�s mataram alguns Trollocs?���perguntou Bornhald com desd�m.���Sua sorte e habilidade me impressionam.</p><p>��Mais do que alguns!���gritou algu�m do povo de Dois Rios.���Centenas!</p><p>��Foi uma batalha!���gritou mais algu�m, e outras d�zias se manifestaram, raivosas, uma por cima da outra.</p><p>��N�s lutamos e vencemos!</p><p>��Onde � que voc�s estavam?</p><p>��Podemos nos defender sem nenhum Manto-branco!</p><p>��Dois Rios!</p><p>��Dois Rios e Perrin Olhos-Dourados!</p><p>��Olhos-Dourados!</p><p>��Olhos-Dourados!</p><p>Leof, que deveria estar protegendo os lenhadores, come�ou a abanar o estandarte carmesim com a cabe�a de lobo.</p><p>O olhar de Bornhald, fervente de �dio, era dirigido a todos os homens, mas Byar aproximou do grupo o cap�o baio, rosnando.</p><p>��Voc�s, fazendeiros, pensam que sabem lutar?���vociferou ele.���Ontem � noite uma das suas aldeias quase foi eliminada por Trollocs! Esperem s� at� eles chegarem aos montes e v�o desejar que suas m�es nunca tivessem beijado seus pais!���Com um gesto cansado de Bornhald, o homem se calou, feito um sabujo treinado obedecendo ao mestre, mas suas palavras aquietaram o povo de Dois Rios.</p><p>��Que aldeia?���A voz de Bran exibia ao mesmo tempo dignidade e preocupa��o.���Todos n�s conhecemos gente em Colina da Vig�lia e em Trilha de Deven.</p><p>��Colina da Vig�lia n�o foi atingida���respondeu Bornhald���e eu n�o sei nada a respeito da Trilha de Deven. Hoje de manh� um cavaleiro me trouxe a not�cia de que Barca do Taren n�o existe mais. Se tiverem amigos por l�, muita gente conseguiu escapar pelo rio. Pelo rio.���O homem contraiu o rosto por um instante.���Eu mesmo perdi quase cinquenta bons soldados.</p><p>A not�cia produziu alguns murm�rios de desagrado; ningu�m gostava de ouvir aquele tipo de coisa, mas, por outro lado, ningu�m ali conhecia gente de Barca do Taren. Decerto jamais haviam ido t�o longe.</p><p>Luc avan�ou com seu cavalo, e o garanh�o tentou morder Galope. Perrin segurou forte a r�dea do animal antes que os dois come�assem a brigar, por�m Luc n�o pareceu perceber, nem se importar.</p><p>��Barca do Taren?���perguntou, a voz inexpressiva.���Os Trollocs atacaram Barca do Taren ontem � noite?</p><p>Bornhald deu de ombros.</p><p>��Eu falei, n�o falei? Parece que os Trollocs enfim decidiram invadir as aldeias. Que sorte voc�s aqui terem sido avisados a tempo de preparar essa excelente defesa.���Ele correu o olhar pela cerca de estacas e pelos homens atr�s dela antes de encarar Perrin.</p><p>��O homem chamado Ordeith estava em Barca do Taren ontem � noite?���perguntou Luc.</p><p>Perrin o encarou. Ele n�o sabia que Luc sequer conhecia Padan Fain, ou o nome que o sujeito usava agora. Mas as pessoas falavam, ainda mais quando algu�m conhecido como mascate retornava cheio de autoridade entre os Mantos-brancos.</p><p>A rea��o de Bornhald foi t�o estranha quanto a pergunta. Seus olhos cintilaram, destilando um �dio t�o forte quanto o demonstrado por Perrin, mas seu rosto empalideceu, e ele esfregou os l�bios com o dorso da m�o, como se tivesse esquecido que estava usando manoplas de a�o.</p><p>��O senhor conhece Ordeith?���perguntou, inclinando-se para a sela de Luc.</p><p>Foi a vez do Lorde dar de ombros, com um ar despretensioso.</p><p>��J� o vi aqui e ali, desde que vim para Dois Rios. Um homem de p�ssima reputa��o, e os que o seguem n�o v�o muito al�m. O tipo que me parece descuidado o bastante para permitir o sucesso de uma incurs�o de Trollocs. Ele estava l�? Se estava, esperemos que tenha morrido por conta dessa asneira. Caso contr�rio, esperemos que o senhor o tenha trazido at� aqui, bem debaixo dos seus olhos.</p><p>��Eu n�o sei onde ele est᠗�retrucou Bornhald, bruscamente.���E nem me importo! N�o vim at� aqui para falar de Ordeith!���O cavalo deu um pinote, nervoso, quando Bornhald ergueu a m�o e apontou para Perrin.���Voc� est� preso como Amigo das Trevas. Ser� levado at� Amador, e l� ser� interrogado sob o Domo da Verdade.</p><p>Byar encarou seu Capit�o, incr�dulo. Por detr�s da barreira que separava os Mantos-brancos dos homens de Dois Rios se elevaram murm�rios de raiva; lan�as e alabardas foram empunhadas, arcos, erguidos. Os Mantos-brancos mais distantes come�aram a se dispersar, em uma fileira reluzente, sob os gritos de ordem de um sujeito t�o grande dentro da armadura quanto Mestre Luhhan, deslizando as lan�as para os suportes das selas, desencaixando os arcos curtos de montaria. �quela dist�ncia, eles conseguiriam pouco mais do que proteger a fuga de Bornhald e seus homens, caso de fato resolvessem fugir, por�m Bornhald parecia ignorar o perigo, ou qualquer outra coisa que n�o fosse Perrin.</p><p>��N�o vai haver pris�o nenhuma���retrucou Bran com rispidez.���N�s decidimos isso. Ningu�m mais vai preso sem que haja uma prova do crime, e uma prova em que <emphasis>n�s</emphasis> acreditemos. Os senhores jamais v�o conseguir me convencer de que Perrin � Amigo das Trevas, ent�o � melhor baixarem as armas.</p><p>��Ele traiu meu pai e o levou � morte em Falme���gritou Bornhald. A raiva o consumia.���Ele o atirou para Amigos das Trevas e bruxas de Tar Valon que assassinaram mil Filhos com o Poder �nico!���Byar assentia vigorosamente.</p><p>Alguns dos homens de Dois Rios se movimentavam, indecisos; havia rumores a respeito do que Verin e Alanna tinham feito aquela manh�, e os falat�rios sempre aumentavam os fatos. Fosse l� o que pensassem de Perrin, as centenas de hist�rias sobre Aes Sedai, quase todas falsas, facilitavam a cren�a de que elas haviam destru�do mil Mantos-brancos. E, se o povo acreditasse nisso, talvez chegasse a acreditar no restante.</p><p>��Eu n�o tra� ningu�m���respondeu Perrin em um tom de voz alto, para que todos ouvissem.���Se o seu pai morreu em Falme, os que o mataram se chamam Seanchan. N�o sei se eles s�o Amigos das Trevas, mas sei que usam o Poder �nico nas batalhas.</p><p>��Mentiroso!���Bornhald chegava a cuspir.���Os Seanchan s�o uma hist�ria inventada pela Torre Branca para encobrir suas mentiras imundas! Voc� � Amigo das Trevas!</p><p>Bran balan�ou a cabe�a, espantado, empurrando para o lado o elmo para co�ar a franja grisalha.</p><p>��Eu n�o sei nada sobre esses� Seanchan? Sobre esses Seanchan. O que eu sei � que Perrin n�o � Amigo das Trevas, e os senhores n�o v�o prender ningu�m.</p><p>A situa��o estava ficando mais perigosa a cada minuto, Perrin percebeu. Byar viu, deu um pux�o no bra�o de Bornhald e sussurrou algo para ele, mas o capit�o dos Mantos-brancos n�o iria recuar, ou talvez n�o pudesse, agora que tinha Perrin bem diante de seus olhos. Bran e os homens de Dois Rios tamb�m estavam com os p�s bem firmes no ch�o; talvez n�o estivessem dispostos a permitir que os Mantos-brancos o levassem preso, nem se ele confessasse tudo o que Bornhald alegava. A menos que algu�m jogasse �gua depressa, tudo iria explodir feito um punhado de palha seca em uma fogueira de forja.</p><p>Ele odiava ter de pensar depressa. Loial tinha raz�o. A afoba��o s� trazia problemas. Por�m, acreditava estar vislumbrando uma sa�da.</p><p>��Est� disposto a adiar um pouco a minha pris�o, Bornhald? At� derrotarmos os Trollocs? Eu n�o vou a lugar nenhum at� ent�o.</p><p>��Por que � que eu deveria fazer isso?���O homem estava cego de �dio. Se ele seguisse adiante, muitos morreriam, inclusive ele, provavelmente, e o sujeito n�o enxergava. Era in�til tentar convenc�-lo. Em vez disso, Perrin perguntou:</p><p>��O senhor n�o viu todas as fazendas pegando fogo hoje de manh�?���Fez um gesto que abrangia todas as colunas de fuma�a, j� minguando.���Olhe em volta. O senhor mesmo disse. Os Trollocs n�o ficam mais satisfeitos em atacar uma ou duas fazendas toda noite. Est�o atacando aldeias. Se os senhores tentarem voltar para a Colina da Vig�lia, pode ser que n�o consigam chegar l�. J� tiveram sorte de chegar t�o longe. Mas, se voc�s ficarem aqui, em Campo de Emond����Bran se aproximou dele, e outros homens gritaram �n�o� bem alto; Faile aproximou-se e lhe tomou o bra�o, mas ele ignorou todos.���Voc�s v�o saber onde eu estou, e seus soldados ser�o bem-vindos para auxiliar as nossas defesas.</p><p>��Tem certeza disso, Perrin?���perguntou Bran, agarrando o estribo de Galope. Do outro lado, Faile disse, em tom de urg�ncia:</p><p>��N�o, Perrin! � um risco muito grande. Voc� n�o pode� quer dizer� por favor, n�o� Ah, que a Luz me queime at� virar cinzas! Voc� <emphasis>n�o pode</emphasis> fazer uma coisa dessas!</p><p>��N�o vou colocar homens uns contra os outros, se conseguir impedir���respondeu ele, com firmeza.���N�o vamos fazer o trabalho dos Trollocs por eles.</p><p>Faile praticamente empurrou o bra�o dele. Com uma express�o de desprezo para Bornhald, tirou uma pedra pontuda da bolsa e uma faca de algum lugar e come�ou a amolar a l�mina, com um som suave de <emphasis>vush-vush-vush</emphasis>.</p><p>��Hari Coplin n�o vai saber o que pensar agora���disse Bran, em um tom ir�nico. Endireitou o capacete redondo, virou-se de novo para os Mantos-brancos e fincou a ponta da lan�a no ch�o.���Os senhores ouviram as condi��es dele. Agora ou�am as minhas. Se vierem para Campo de Emond, n�o v�o prender ningu�m sem o aval do Conselho da Aldeia, o que n�o ter�o, ent�o n�o v�o prender ningu�m. N�o v�o entrar na casa de ningu�m sem serem convidados. N�o v�o arrumar problemas, e se juntar�o �s defesas quando e onde lhes for mandado. E eu n�o quero nem sentir o <emphasis>cheiro</emphasis> da Presa do Drag�o! Os senhores concordam? Se n�o concordarem, podem retornar de onde vieram.���Byar encarava o homem rechonchudo, como se tivesse acabado de ver uma ovelha se erguer nas patas traseiras e cham�-lo para a briga.</p><p>Bornhald n�o tirava os olhos de Perrin.</p><p>��Feito���disse, por fim.���At� que a amea�a dos Trollocs acabe, trato feito!���Ele deu um pux�o violento no cavalo e galopou de volta em dire��o � fileira de homens, com o manto branco drapejando atr�s de si.</p><p>Quando o Prefeito ordenou que os carro��es fossem movidos, Perrin percebeu que Luc o encarava. O sujeito estava afundado na sela, com a m�o l�nguida sobre o punho da espada, os olhos azuis cheios de satisfa��o.</p><p>��Achei que fosse fazer obje��o���disse Perrin���pela forma como ouvi dizer que anda repudiando os Mantos-brancos na frente do povo.</p><p>Luc estendeu as m�os placidamente.</p><p>��Se essa gente quer viver no meio dos Mantos-brancos, que vivam no meio dos Mantos-brancos. Mas voc� precisa ter cuidado, jovem Olhos-Dourados. Eu entendo um pouco sobre acolher um inimigo no nosso seio. Ele crava a espada mais depressa quando est� por perto.���Com uma risada, o homem guiou o garanh�o de volta � aldeia, entre a multid�o.</p><p>��Ele tem raz�o���disse Faile, ainda amolando a faca na pedra.���Talvez esse Bornhald mantenha a palavra de n�o prender voc�, mas o que impede um dos homens dele de lhe cravar uma faca pelas costas? Voc� n�o devia ter feito isso.</p><p>��Eu tive que fazer���retrucou ele.���� melhor do que fazer o trabalho dos Trollocs.</p><p>Os Mantos-brancos come�aram a entrar, encabe�ados por Bornhald e Byar. Os dois o encaravam com um �dio incessante, e tamb�m os outros, avan�ando aos pares� olhos frios e duros em rostos frios e duros se viravam para encar�-lo. N�o o odiavam, mas olhavam para ele e enxergavam um Amigo das Trevas. E Byar, pelo menos, era capaz de qualquer coisa.</p><p>Ele precisara fazer aquilo, mas pensou que talvez n�o fosse uma ideia t�o ruim deixar Dannil, Ban e os outros o acompanharem como desejavam. N�o conseguiria dormir sossegado sem algu�m de vigia na porta. Guardas. Feito uma porcaria de um lorde. Pelo menos Faile ficaria contente. Se ao menos conseguisse dar um jeito de convenc�-los a largar aquele estandarte�</p></section><section><title><p>46</p><p><image l:href="#5"/></p><p>V�us</p></title><p>A multid�o se adensava nas ruas estreitas e sinuosas de Calpene, pr�ximas ao Grande C�rculo. O motivo era a fuma�a das in�meras fogueiras de cozinha que se erguia por sobre as muralhas brancas. O odor acre de fuma�a, comida e suor velho pairava pesado no ar �mido da manh� e, somado ao choro de crian�as e ao burburinho indistinto comum em grandes multid�es, abafava o canto agudo das gaivotas que sobrevoavam o local. Fazia tempo que as lojas daquela �rea haviam fechado de vez as grades de suas portas.</p><p>Enojada, Egeanin seguia a p� por entre as pessoas. Era terr�vel ver que a desordem tomara conta da cidade a ponto de os refugiados miser�veis se apoderarem dos c�rculos, dormindo nos bancos de pedra. Era t�o ruim quanto os governantes permitirem que o povo passasse fome. Ela deveria estar satisfeita, pois aquela gente desalentada nunca resistiria � <emphasis>Corenne</emphasis>, e ent�o a ordem seria restaurada, mas odiava olhar aquilo tudo.</p><p>A maioria do povo maltrapilho � sua volta parecia ap�tica demais para reparar em uma mulher de vestido de montaria azul, limpo e bem cerzido, de corte simples, por�m de seda. Homens e mulheres em trajes que j� tinham sido refinados, mas que agora estavam sujos e amarrotados, apareciam vez ou outra entre a multid�o, por isso talvez ela n�o se destacasse tanto. Os poucos que pareciam se perguntar se aquelas roupas seriam sin�nimo de dinheiro no bolso eram dissuadidos pela compet�ncia com que ela carregava o pesado cajado da sua altura. Guardas, cadeiras e carregadores tiveram de ser dispensados, naquele dia. Floran Gelb sem d�vida teria percebido que estava sendo seguido pelo grupo. Pelo menos o vestido de saias divididas lhe dava um pouco de liberdade de movimento.</p><p>N�o perder de vista o homenzinho esquivo era f�cil at� mesmo no meio de toda aquela gente, apesar de ser necess�rio desviar de carros de boi ou de algum carro��o, a maioria puxada por homens sem camisa suando em bicas, n�o por animais. Gelb e sete ou oito companheiros, todos homens corpulentos e de fei��es duras, avan�avam juntos, atropelando o povo com empurr�es, e uma profus�o de xingamentos acompanhava o bando. Os sujeitos a faziam fervilhar de raiva. Gelb pretendia tentar mais um sequestro. Encontrara tr�s mulheres, desde que Egeanin lhe enviara o ouro requisitado, todas apenas um pouco parecidas com as da lista, e reclamara por todas as recusadas. Ela jamais deveria ter pagado o homem por aquela primeira que ele apanhara na rua. A cobi�a e a lembran�a do ouro aparentemente haviam apagado a reprimenda arrasadora que viera com a bolsa de dinheiro.</p><p>Gritos �s suas costas a fizeram virar a cabe�a e apertar o cajado com mais for�a. Um pequeno espa�o se abrira na multid�o, como acontecia quando ocorria algum problema. Um homem aos berros em um casaco em frangalhos, mas que um dia fora refinado, estava ca�do de joelhos no meio da rua, agarrando o bra�o direito dobrado em um �ngulo n�o natural. Jogada por cima dele, protegendo-o com o pr�prio corpo, uma mulher chorosa de vestido verde esfarrapado gritava para um sujeito de v�u que j� se misturava � multid�o:</p><p>��Ele s� pediu uma moeda! S� pediu!���O povo voltou a se movimentar � volta deles.</p><p>Com uma careta, Egeanin virou as costas para a cena. E parou, soltando um xingamento que atraiu alguns olhares de espanto. Gelb e seus companheiros tinham desaparecido. Ela abriu caminho em dire��o a uma pequena fonte de pedra ao lado de uma adega de telhado plano, com um peixe de bronze cuspindo �gua, empurrou, rudemente duas das mulheres que enchiam c�ntaros e saltou para dentro da c�pula, ignorando os xingamentos indignados. De l�, dava para ver por cima das cabe�as da multid�o. Ruelas estreitas se espalhavam por todas as dire��es, entrela�ando as colinas. Curvas e constru��es de um branco caiado limitavam o campo de vis�o a menos de cem passadas, na melhor das hip�teses, mas Gelb n�o poderia ter ido mais longe do que isso naqueles poucos instantes.</p><p>Egeanin o encontrou de repente, escondido embaixo do umbral de uma porta a trinta passadas de dist�ncia, nas pontas dos p�s para tentar espiar a rua. A partir da� foi muito f�cil localizar os outros. Estavam encostados em pr�dios de ambos os lados da rua, tentando passar despercebidos. N�o eram os �nicos enfileirados nas paredes, mas, enquanto os outros se encolhiam, tomados pelo des�nimo, seus rostos de nariz quebrado e cheios de cicatrizes pareciam ansiosos.</p><p>Ent�o era ali que ocorreria o sequestro. Sem d�vida ningu�m interferiria, n�o mais do que o povo interferira quando o bra�o daquele sujeito fora quebrado. Mas quem seria levado? Se Gelb tivesse finalmente encontrado algu�m da lista, Egeanin poderia ir embora e aguardar que ele fosse fazer a venda da mulher, aguardar a chance de ver se um <emphasis>a�dam</emphasis> de fato seria capaz de dominar outra <emphasis>sul�dam</emphasis> al�m de Bethamin. Entretanto, n�o pretendia enfrentar outra vez a escolha de degolar alguma infeliz ou mand�-la embora para ser vendida.</p><p>Havia muitas mulheres subindo a rua na dire��o de Gelb, a maioria usando tran�as e com o rosto coberto por v�us transparentes. N�o precisou de muito para Egeanin descartar duas que iam em liteiras, com guarda-costas marchando ao lado. Os comparsas de Gelb n�o enfrentariam homens em um n�mero pr�ximo ao deles, nem enfrentariam espadas estando de m�os vazias. Seu alvo decerto n�o estaria acompanhado por mais de dois ou tr�s homens, quando muito, e nenhum armado. Isso parecia incluir todas as outras mulheres � vista, fosse em andrajos, vestidos de camponesa de l� grossa ou no estilo mais justo adotado pelas tarabonianas.</p><p>De s�bito, duas mulheres que viravam uma esquina ao longe, conversando, atra�ram o olhar de Egeanin. Com os cabelos presos em tran�as finas e rostos cobertos por v�us transparentes, elas pareciam tarabonianas, mas se destacavam na multid�o. Os escandalosos vestidos finos e drapeados, um verde, outro azul, eram de seda, n�o de linho ou trama fina de l�. Mulheres com trajes assim andavam em liteiras, n�o a p�. Ainda mais por ali. E tamb�m n�o levariam bast�es nos ombros, feito tacos.</p><p>Egeanin descartou a de cabelos acobreados e analisou a outra. As tran�as escuras iam quase at� a cintura, comprimento pouco comum. �quela dist�ncia, a mulher parecia muito com uma <emphasis>sul�dam</emphasis> chamada Surine. Mas n�o era Surine. A mulher n�o batia nem no queixo de Surine.</p><p>Resmungando entre dentes, Egeanin deu um salto para descer da fonte e come�ou a empurrar para abrir caminho pela massa de gente entre ela e Gelb. Com sorte, conseguiria alcan�ar o homem a tempo de mand�-lo abortar a miss�o. Aquele idiota. Aquele idiota ambicioso e ignorante!</p><empty-line/><p>��A gente devia ter alugado liteiras, Nynaeve���repetiu Elayne, perguntando-se pela cent�sima vez como as tarabonianas conseguiam conversar sem que o v�u grudasse na boca. Cuspindo o tecido, acrescentou:���Vamos ter que usar essas coisas.</p><p>Um sujeito de rosto franzino avan�ava pela multid�o em dire��o a elas, mas parou quando Nynaeve ergueu o bast�o cil�ndrico amea�adoramente.</p><p>��� para isso que essas coisas servem.���O olhar dela talvez tivesse desencorajado o homem. Ela afastou as tran�as escuras dos ombros, desajeitada, e fez um som irritado. Elayne n�o sabia quando a amiga se acostumaria a n�o ter apenas uma tran�a grossa para puxar.���E os p�s s�o para andar. Como conseguir�amos olhar as coisas e fazer perguntas sendo carregadas feito porcos � venda? Eu ia me sentir uma idiota nessas cadeirinhas bestas. De todo modo, prefiro confiar na minha pr�pria intelig�ncia do que na de homens que n�o conhe�o.</p><p>Elayne tinha certeza de que Bayle Domon teria providenciado homens de confian�a. E o Povo do Mar sem d�vida faria isso. Preferia que o <emphasis>Bailador das Ondas</emphasis> n�o tivesse zarpado, mas a Mestra das Velas e sua irm� estavam ansiosas para espalhar a not�cia do Coramoor por Dantora e Cantorin. Vinte guarda-costas teriam lhe ca�do muito bem.</p><p>Ela mais pressentiu do que sentiu algo ro�ando a bolsa em seu cinto; agarrou a bolsa com uma das m�os e deu um giro, erguendo o bast�o. A multid�o se afastou um tantinho ao redor, acotovelando-se, mas sem nem olh�-la. Por�m, n�o havia sinal do suposto ladr�o. Pelo menos ainda sentia as moedas dentro da bolsa. Se habituara a usar o anel da Grande Serpente e o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de pedra retorcida em um cord�o em volta do pesco�o, imitando Nynaeve, depois da primeira vez que quase perdera uma bolsa. Nos cinco dias que as duas passaram em Tanchico, j� perdera tr�s. Vinte guardas estariam de bom tamanho. E uma carruagem. Com cortinas nas janelas.</p><p>Retomando a lenta subida pela rua ao lado de Nynaeve, ela disse:</p><p>��Ent�o a gente n�o devia estar usando esses vestidos. Eu me lembro de uma vez que voc� me enfiou em um vestido de camponesa.</p><p>��D� um bom disfarce���respondeu Nynaeve, em um tom rude.���A gente se mistura.</p><p>Elayne deu uma fungadinha de desd�m. Como se usando vestidos mais simples n�o fosse ainda mais f�cil se misturar. Nynaeve n�o admitiria estar gostando de usar sedas e belos vestidos. Elayne s� queria que a amiga n�o tivesse levado a coisa t�o longe. A bem da verdade, todo mundo achava que eram tarabonianas���pelo menos at� as duas abrirem a boca���mas, mesmo com a gola alta e cheia de babados, aquela renda verde justa no m�nimo <emphasis>parecia</emphasis> mais reveladora do que qualquer coisa que ela usara na vida. Sem d�vida mais do que qualquer coisa que usara em p�blico. Nynaeve, por outro lado, cruzava as ruas espremidas como se ningu�m as estivesse olhando. Bem, talvez ningu�m estivesse, mesmo, pelo menos n�o por conta dos vestidos, mas a sensa��o era de que estavam.</p><p>Suas roupas de baixo eram quase t�o decentes quanto aqueles vestidos. Com o rosto quente, tentou parar de pensar em como a seda se moldava ao corpo. <emphasis>Pare com isso! Est� muito decente. Est�, sim!</emphasis></p><p>��Essa tal Amys n�o contou nada que pudesse nos ajudar?</p><p>��Eu j� disse o que ela contou.</p><p>Elayne suspirou. Nynaeve a obrigara a ficar acordada at� o raiar do dia, conversando sobre a S�bia Aiel que estivera com Egwene em <emphasis>Tel�aran�rhiod,</emphasis> na noite anterior, depois ainda retomara a conversa quando as duas se sentaram para o caf� da manh�. Egwene, por algum motivo com os cabelos presos em duas tran�as e disparando olhares emburrados para a S�bia, n�o dissera quase nada al�m de que Rand estava bem e que Aviendha estava cuidando dele. Amys, a mulher grisalha, falara o tempo todo, dando um serm�o duro a respeito dos perigos do Mundo dos Sonhos que quase fizera Elayne sentir-se outra vez uma menininha de dez anos flagrada por Lini, sua antiga ama, fugindo da cama para roubar doces. Em seguida, a mulher emendara o discurso com avisos a respeito de concentra��o e controle dos pensamentos ao adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Como controlar os pensamentos?</p><p>��Eu achava que Perrin estava com Rand e Mat.���Aquela fora a maior surpresa, depois da apari��o de Amys. Ao que parecia, Egwene pensara que Perrin estava com ela e Nynaeve.</p><p>��Ele e aquela garota devem ter ido para algum lugar onde ele possa ser ferreiro em paz���retrucou Nynaeve, mas a Filha-herdeira balan�ou a cabe�a.</p><p>��Acho que n�o.</p><p>Elayne tinha fortes suspeitas em rela��o a Faile, e, se estivesse pelo menos cinquenta por cento certa, a mulher n�o se contentaria em ser a esposa de um ferreiro. Ela cuspiu o v�u, que se prendera entre os l�bios outra vez. Que coisa mais idiota.</p><p>��Bem, seja l� onde ele estiver���retrucou Nynaeve, remexendo as tran�as���espero que esteja bem e em seguran�a. Mas ele n�o est� aqui, nem pode nos ajudar. Voc� pelo menos <emphasis>perguntou</emphasis> a Amys se ela sabia um jeito de usar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> para�?</p><p>Um homem corpulento e careca, em um casaco marrom surrado, surgiu de repente, empurrando a multid�o, e tentou envolv�-la com os bra�os robustos. Ela ergueu o bast�o cil�ndrico e acertou a cara larga do homem, que cambaleou para tr�s, apertando o nariz que decerto acabara, no m�nimo, de sofrer a segunda fratura.</p><p>Elayne ainda estava tomando f�lego para soltar um grito de espanto quando um segundo homem, t�o corpulento quanto o primeiro e com um bigode grosso no rosto, empurrou-a para alcan�ar Nynaeve. Ela se esqueceu do medo. Cerrou os dentes, tomada de f�ria, e, assim que as m�os do homem tocaram a amiga, desceu o bast�o na cabe�a do sujeito com toda a for�a. O homem dobrou as pernas e caiu de cara no ch�o de um jeito que a deixou bem satisfeita.</p><p>A multid�o se dispersou, ningu�m queria ser envolvido nos problemas dos outros. Obviamente, ningu�m ofereceu ajuda. E elas precisavam, Elayne percebeu. O homem que Nynaeve acertara ainda estava de p�, a boca contorcida em um rosnado, lambendo o sangue que escorria pelo nariz, flexionando as m�os robustas como se �vido por apertar um pesco�o. E, pior, n�o estava sozinho. Sete outros homens as cercaram para impedir qualquer fuga. Todos, exceto um, eram do tamanh�o do primeiro, cheios de cicatrizes e com m�os que pareciam ter passado anos sendo marteladas em pedra. Um sujeitinho magrelo e de rosto fino, com os dentes arreganhados feito uma raposa nervosa, n�o parava de gritar, ofegante:</p><p>��N�o deixe a mo�a escapar. Ela vale ouro, estou lhe dizendo. Ouro!</p><p>Os homens sabiam quem ela era. N�o estavam tentando afanar sua bolsa, queriam se livrar de Nynaeve e sequestrar a Filha-herdeira de Andor. Sentiu Nynaeve abra�ando <emphasis>saidar</emphasis>���se aquilo n�o a tivesse deixado irritada o bastante para canalizar, nada mais deixaria���e se abriu para a Fonte Verdadeira. Uma torrente do Poder �nico a invadiu, e o doce jato a preencheu dos p�s � cabe�a. Uns poucos fluxos de Ar de cada uma dariam conta daqueles rufi�es.</p><p>No entanto, ela n�o canalizou, nem Nynaeve. Juntas, as duas seriam capazes de dar uma sova naqueles sujeitos como suas m�es deveriam ter feito. Ainda assim, n�o ousariam, a menos que n�o houvesse outra escolha.</p><p>Se algu�m da Ajah Negra estivesse perto o suficiente para ver� j� haviam se tra�do s� com o brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>. Canalizar o pouco necess�rio para urdir aqueles fluxos de Ar bastaria para denunci�-las a uma irm� Negra � espreita em qualquer rua a cem passadas ou mais de dist�ncia, dependendo de sua for�a e sensibilidade. Isso era basicamente o que as duas tinham feito nos �ltimos cinco dias: percorrido a cidade, tentando sentir alguma mulher canalizando, na esperan�a de que isso as levasse at� Liandrin e as outras.</p><p>Al�m do mais, tamb�m era preciso considerar as pessoas ao redor. Umas poucas ainda passavam de cada lado, bem coladas �s paredes. O restante circulava a esmo, procurando outro caminho. Apenas algumas pessoas perceberam as duas em perigo e desviaram os olhos, constrangidas. No entanto, se vissem homenzarr�es sendo arremessados por algo invis�vel�</p><p>A reputa��o das Aes Sedai e do Poder �nico n�o andava muito boa em Tanchico, n�o com os rumores sobre Falme ainda pairando no ar e as hist�rias recentes a respeito do apoio da Torre Branca aos Devotos do Drag�o no interior. Aquela gente poderia sair correndo se visse o Poder sendo manejado. Ou come�ar uma arrua�a. Mesmo que ela e Nynaeve conseguissem evitar ser esquartejadas ali mesmo���o que n�o tinha muita certeza de que seria poss�vel���n�o haveria maneira de encobrir o feito. Antes do anoitecer, a Ajah Negra j� estaria ouvindo falar de Aes Sedai em Tanchico.</p><p>Posicionando-se de costas para as costas de Nynaeve, Elayne agarrou o bast�o com for�a. Sentia vontade de dar uma risada hist�rica. Se Nynaeve ousasse mencionar sair sozinha outra vez���<emphasis>a p�</emphasis>���iria ver como era bom ter a cabe�a enfiada em um balde d��gua. Pelo menos nenhum daqueles grosseir�es parecia ansioso em ser o primeiro a ter a cabe�a rachada feito o sujeito ca�do na cal�ada de pedras.</p><p>��Andem!���gritou o homem de rosto fino, apressado, gesticulando para que avan�assem.���Andem logo! S�o s� duas mulheres!���No entanto, ele pr�prio n�o fez men��o de se meter na briga.���Andem, estou dizendo. S� precisamos de uma. Ela vale ouro, estou dizendo.</p><p>De repente, elas ouviram um baque, e um dos rufi�es caiu de joelhos, cambaleante, levando as m�os � cabe�a, onde fora atingido. Uma mulher de vestido azul, com cabelos escuros e rosto austero, deslizou por ele e virou-se depressa para golpear outro sujeito com o dorso da m�o, bem na boca. Em seguida, deu uma rasteira com um cajado e acertou o sujeito na cabe�a quando ele desabou.</p><p>J� era espantoso que recebessem ajuda, ainda mais daquela fonte, mas Elayne n�o estava em condi��es de reclamar. Nynaeve irrompeu por detr�s dela com um rugido gutural e avan�ou intempestiva, gritando:</p><p>��Avante o Le�o Branco!���E partiu para espancar o grosseir�o mais pr�ximo com toda a for�a e rapidez poss�veis. O homem ergueu os bra�os para se defender, com uma express�o de choque absoluto.���Avante o Le�o Branco!���gritou outra vez, o grito de batalha de Andor, e o homem se virou e correu.</p><p>Soltando uma risada involunt�ria, Nynaeve deu um rodopio, procurando mais algu�m para espancar. Apenas dois ainda n�o tinham sa�do correndo ou desabado no ch�o. Aquele primeiro sujeito de nariz quebrado virou-se para fugir, e Nynaeve desferiu um �ltimo golpe firme nas costas dele. A mulher de rosto austero deu um jeito de enroscar o cajado no bra�o e no ombro do outro, puxando-o ao mesmo tempo para perto e para cima. O sujeito pesava o dobro dela e era uma cabe�a mais alto, mesmo com os p�s plantados no ch�o, mas ela bateu tr�s vezes com for�a no queixo do homem usando a base da m�o livre, em r�pida sucess�o. Ele desmaiou, mas, enquanto desabava, Elayne viu o sujeito de rosto fino se levantando do ch�o da rua. Estava com o nariz sangrando e os olhos meio vidrados, mas puxou uma faca do cinto e partiu para dar um bote nas costas da mulher.</p><p>Sem pensar, Elayne canalizou. Um punho de Ar mandou o homem e sua faca rodopiando em uma cambalhota. A mulher de rosto austero deu um giro para se defender, mas o homem j� sa�ra correndo, meio sem jeito, e logo conseguiu se levantar e se misturar � multid�o, mais adiante na rua. O povo havia parado para assistir � estranha luta, mas ningu�m fez men��o ajudar al�m da mulher de cabelos escuros. Ela encarava Elayne e Nynaeve, indecisa. A Filha-herdeira se perguntou se a mulher teria percebido que o homem magrelo fora derrubado pelo que parecia ter sido um monte de nada.</p><p>��Agrade�o a ajuda���disse Nynaeve, meio ofegante, e aproximou-se da mulher, ajeitando o v�u.���Acho que precisamos sair daqui. Sei que a Guarda Civil n�o vem muito �s ruas, mas n�o quero ter que explicar, se eles aparecerem. Nossa estalagem � aqui perto. Quer vir com a gente? Uma x�cara de ch� � o m�nimo que podemos oferecer a algu�m que ainda ajuda os outros nessa cidade abandonada pela Luz. Meu nome � Nynaeve al�Meara, e esta � Elayne Trakand.</p><p>A mulher estava visivelmente hesitante. Ela <emphasis>tinha</emphasis> percebido.</p><p>��Eu� eu� gostaria. Sim. Gostaria.���A mulher tinha um jeito arrastado de falar, dif�cil de entender, mas vagamente familiar. Era mesmo encantadora, ainda mais com o contraste entre cabelos escuros e pele clara. Um pouco r�gida demais para ser chamada de beldade. Os olhos azuis eram intensos, como se estivesse acostumada a dar ordens. Uma mercadora, talvez, naquele vestido.���Eu me chamo Egeanin.</p><p>Egeanin n�o demonstrou hesita��o em acompanhar as duas at� a rua mais pr�xima. O povo j� come�ava a se reunir ao redor dos homens ca�dos. Elayne imaginou que os sujeitos acordariam despidos de qualquer coisa de valor, at� mesmo das botas e roupas. Queria saber como eles tinham descoberto sua identidade, mas n�o havia como trazer um deles para interrogar. <emphasis>Definitivamente</emphasis> precisavam de guarda-costas, de agora em diante, independentemente do que Nynaeve dissesse.</p><p>Egeanin talvez n�o estivesse hesitante, mas parecia desconfort�vel. Elayne via nos olhos da mulher, enquanto as tr�s avan�avam pelo meio do povo.</p><p>��Voc� viu, n�o foi?���perguntou. A mulher trope�ou. Foi a confirma��o de que Elayne precisava, e ela logo acrescentou:���N�o lhe faremos mal algum. Ainda mais depois de voc� ter nos ajudado.���Precisou cuspir o v�u outra vez. Nynaeve n�o parecia ter o mesmo problema.���N�o precisa fazer careta para mim, Nynaeve. Ela viu o que eu fiz.</p><p>��Eu sei disso���respondeu Nynaeve secamente.���E foi a coisa certa a se fazer. Mas a gente n�o est� enfiada no pal�cio da sua m�e, a salvo dos bisbilhoteiros.���Ela fez um gesto, indicando todo o povo � volta delas. Vendo o cajado de Egeanin e seus bast�es, a maioria evitava se aproximar das tr�s. Para Egeanin, a mulher disse:���A maioria dos boatos que voc� talvez tenha ouvido n�o � verdadeira. Pouca coisa �. N�o precisa ter medo da gente, mas � bom entender que existem assuntos que n�o podemos abordar aqui na rua.</p><p>��Medo de voc�s?���Egeanin parecia surpresa.���Eu n�o achei que precisava ter. Farei sil�ncio at� voc�s decidirem falar.</p><p>Ela manteve a palavra. As tr�s caminharam caladas em meio aos murm�rios do povo, cruzando a pen�nsula at� retornarem ao Jardim das Tr�s Ameixeiras. Toda aquela hist�ria de andar para cima e para baixo estava deixando os p�s de Elayne doloridos.</p><p>Apesar de ainda ser cedo, havia homens e mulheres sentados no sal�o, bebericando vinho ou cerveja. A mulher tocando salt�rio estava acompanhada de um homem magro que tocava flauta; um som agudo que combinava com seu f�sico franzino. Juilin estava sentado a uma mesa perto da porta, fumando um cachimbo de haste curta. Ele ainda n�o retornara da incurs�o noturna quando as duas sa�ram. Elayne ficou satisfeita em ver que, pela primeira vez, o homem n�o exibia um corte ou hematoma novo. O submundo de Tanchico, como ele chamava, parecia ainda mais cruel do que a face que a cidade apresentava ao mundo. A �nica concess�o de Juilin � moda da cidade fora substituir o chap�u reto de palha por um quepe c�nico e escuro, que usava empoleirado na nuca.</p><p>��Encontrei as mulheres���comentou, dando um salto do banco e agarrando o quepe, antes de perceber que as duas estavam acompanhadas.</p><p>Ele encarou Egeanin, estreitando os olhos, e fez uma pequena mesura. Ela retribuiu com um meneio de cabe�a e um olhar t�o reservado quanto o dele.</p><p>��Encontrou?���perguntou Nynaeve, espantada.���Tem certeza? Desembuche, homem. O gato comeu sua l�ngua?���E ela com as advert�ncias sobre falar na frente dos outros.</p><p>��Eu deveria ter dito que descobri onde elas est�o.���Julian n�o olhou Egeanin outra vez, mas escolheu as palavras com cuidado.���A mulher de mecha branca no cabelo me levou at� uma casa onde estava hospedada com v�rias outras mulheres, embora poucas dessem as caras na rua. O povo local acha que s�o fugitivas ricas do interior. N�o tem mais muita coisa l� al�m de alguns restos de comida na despensa. At� as servi�ais foram embora� Mas, por uma pista aqui, outra ali, eu diria que elas foram embora ontem, no fim do dia, ou logo ao cair da noite. Duvido que aquelas ali tenham medo da noite em Tanchico.</p><p>Nynaeve agarrou um punhado das tran�as finas. As juntas dos dedos ficaram brancas, de tanta for�a.</p><p>��Voc� entrou na casa?���perguntou, em um tom firme.</p><p>Elayne achou que a amiga estivesse a um passo de erguer o bast�o que bamboleava a seu lado.</p><p>Juilin parecia pensar o mesmo. Encarando o bast�o, ele respondeu:</p><p>��Voc�s sabem muito bem que eu n�o corro riscos com essas mulheres. Uma casa vazia tem um certo jeito, passa uma sensa��o de vazia, n�o importa o tamanho. N�o tem como ca�ar ladr�es h� tanto tempo quanto eu ca�o sem aprender a ver como eles.</p><p>��E se voc� tivesse acionado alguma armadilha?���Nynaeve praticamente sibilava.���Esse seu grande talento para <emphasis>sentir</emphasis> as coisas se aplica tamb�m a armadilhas?���O rosto escuro de Juilin ficou um pouco cinza. Ele umedeceu os l�bios, como se fosse se explicar ou se defender, mas a mulher o interrompeu.���Vamos conversar sobre isso mais tarde, <emphasis>Mestre</emphasis> Sandar.���Ela desviou os olhos na dire��o de Egeanin com muita sutileza. Enfim se lembrara de que havia outros ouvidos ali.���Diga a Rendra que tomaremos ch� na Sala das Flores Ca�das.</p><p>��C�mara das Flores Ca�das���corrigiu Elayne, baixinho, e Nynaeve disparou um olhar feio para ela.</p><p>A not�cia de Juilin a deixara de mau humor.</p><p>O homem se curvou em uma mesura profunda, com as m�os espalmadas.</p><p>��Como a senhora ordenar, Senhora al�Meara, obede�o de cora��o���respondeu, cheio de ironia, botou o quepe escuro de volta no topo da cabe�a e saiu batendo o p�, as costas expressivamente indignadas. Devia ser muito desagrad�vel para um sujeito receber ordens de uma mulher com quem j� tentara flertar.</p><p>��Aquele idiota!���grunhiu Nynaeve.���A gente devia ter largado esses dois no cais de Tear.</p><p>��Ele � seu servi�al?���perguntou Egeanin, receosa.</p><p>��ɠ��respondeu Nynaeve, com rudeza.</p><p>��N�o���disse Elayne, ao mesmo tempo.</p><p>As duas se olharam, Nynaeve ainda de cenho franzido.</p><p>��Talvez ele seja, de certa forma���retrucou Elayne, com um suspiro.</p><p>��Acho que n�o, afinal de contas���resmungou Nynaeve, por cima da outra.</p><p>��Ah� entendi���disse Egeanin.</p><p>Rendra avan�ou apressada por entre as mesas, com um sorriso nos l�bios rosados por baixo do v�u. Elayne preferia que a mulher n�o se parecesse tanto com Liandrin.</p><p>��Ah, as senhoritas est�o lindas hoje. Que vestidos magn�ficos. Lindas.���Como se a mulher de cabelos cor de mel n�o tivesse influenciado a escolha do tecido e corte tanto quanto elas duas. O que ela vestia tinha um tom de vermelho adequado para uma latoeira, e sem d�vida pouco apropriado para ser exibido em p�blico.���Mas as senhoritas fizeram bobagem outra vez, sim? � por isso que Juilin, aquele cavalheiro, est� com uma carranca. As senhoritas n�o deveriam preocup�-lo tanto assim.���Um brilho em seus grandes olhos castanhos denunciava que Juilin encontrara outro flerte.���Venham. Tomem o ch� de voc�s no fresquinho e na privacidade, e, se precisarem sair outra vez, as senhoritas me permitam providenciar carregadores e guardas, sim? A bela Elayne n�o teria perdido tantas bolsas se as senhoritas estivessem mais bem protegidas. Mas n�o vamos falar dessas coisas agora. Seu ch�, ele est� quase pronto. Venham.</p><p>S� podia ser uma habilidade adquirida, aos olhos de Elayne. Tinha que aprender a falar sem engolir o v�u.</p><p>A C�mara das Flores Ca�das, localizada no fim de um corredorzinho que sa�a do sal�o principal, era uma sala pequena e sem janelas, com uma mesa baixa e cadeiras entalhadas com almofadas vermelhas nos assentos. Era ali que Elayne e Nynaeve faziam as refei��es���com Thom, Juilin, ou ambos, quando Nynaeve n�o estava �s turras com os dois. As paredes de tijolo caiado, pintadas com um verdadeiro bosque de ameixeiras soltando uma chuva de flores, eram grossas o bastante para impedir qualquer bisbilhotice. Elayne praticamente arrancou o v�u e atirou o peda�o de pano di�fano sobre a mesa antes de se sentar. Nem mesmo as tarabonianas tentavam beber com aquilo no rosto. Nynaeve apenas desprendeu o dela de um dos lados do rosto.</p><p>Rendra continuou tagarelando enquanto as mo�as eram servidas, mencionando t�picos que iam desde a nova costureira capaz de aprontar vestidos da �ltima moda com a seda mais incrivelmente delicada���ela sugeriu que Egeanin experimentasse e recebeu em resposta um olhar firme, que n�o a intimidou nem um pouco���at� a raz�o pela qual elas deveriam dar ouvidos a Juilin, j� que a cidade era perigosa demais para uma mulher sair sozinha, mesmo � luz do dia, e falando de passagem sobre um sab�o perfumado que dava mais brilho aos cabelos. Elayne �s vezes se perguntava como a mulher conseguia gerenciar uma estalagem t�o bem-sucedida pensando apenas em cabelo e roupas. Que ela conseguia era �bvio, o intrigante era como. A mulher sem d�vida usava belas roupas, s� n�o eram inteiramente <emphasis>adequadas</emphasis>. O servi�al que trouxe o ch�, as x�caras de porcelana azul e os bolinhos em uma bandeja era o homem esbelto e de olhos escuros que enchera a caneca de Elayne naquela noite constrangedora. E tentara encher de novo, mais de uma vez, embora ela tivesse prometido a si mesma que nunca mais beberia mais de uma caneca. Era um homem bonito, mas a jovem lan�ou a ele o olhar mais frio que tinha, e o homem saiu correndo do sal�o.</p><p>Egeanin observou em sil�ncio at� que Rendra tamb�m sa�sse.</p><p>��Voc�s n�o s�o o que eu imaginava���disse ela por fim, equilibrando a x�cara nos dedos de um jeito estranho.���A estalajadeira fica tagarelando frivolidades como se voc�s tr�s fossem irm�s, como se fossem idiotas feito ela, e voc�s permitem. O homem escuro� ele � uma esp�cie de servi�al, ao que me parece� e debocha de voc�s. Aquele rapazote as encara com um apetite voraz, e voc�s permitem. Voc�s s�o� Aes Sedai, n�o s�o?���Sem esperar a resposta, ela fixou os penetrantes olhos azuis em Elayne.���E voc� � voc� � da nobreza. Nynaeve falou sobre o pal�cio da sua m�e.</p><p>��Esse tipo de coisa n�o importa muito na Torre Branca���respondeu Elayne, com pesar, limpando depressa umas migalhas de bolo do queixo. Era um bolo bem condimentado, quase �cido.���Se uma rainha fosse l� para estudar, teria de esfregar o ch�o como qualquer outra novi�a e fazer tudo o que mandassem.</p><p>Egeanin assentiu devagar.</p><p>��Ent�o � assim que voc�s governam. Governando os governantes. Muitas� rainhas� s�o treinadas dessa forma?</p><p>��Nenhuma que eu conhe�a���respondeu Elayne, com uma risada.���Mas � tradi��o em Andor mandar a Filha-herdeira. Na verdade, muitas mulheres nobres v�o, s� que em geral n�o querem que ningu�m saiba, e a maioria vai embora sem sequer conseguir sentir a Fonte Verdadeira. Foi s� um exemplo.</p><p>��Voc� tamb�m � da� � nobre?���perguntou Egeanin, e Nynaeve bufou.</p><p>��Minha m�e era fazendeira, e meu pai pastoreava ovelhas e plantava tabaco. Pouca gente de onde eu venho consegue sobreviver sem l� e tabaco para vender. E os seus pais, Egeanin?</p><p>��Meu pai era soldado, e minha m�e era� era oficial de um navio.���Por um momento, a mulher bebericou o ch� n�o ado�ado, observando as outras duas.���Voc�s est�o procurando algu�m���disse, por fim.���Essas mulheres que o sujeito escuro mencionou. Eu negocio, entre outras coisas, informa��es. Tenho fontes que me contam as coisas. Talvez eu possa ajudar. N�o cobraria nada, a n�o ser um pedido para que me falem mais sobre as Aes Sedai.</p><p>��Voc� j� ajudou bastante���respondeu Elayne, mais do que depressa, lembrando-se de Nynaeve ter contado quase tudo a Bayle Domon.���Eu sou <emphasis>mesmo</emphasis> muito grata, mas n�o podemos aceitar mais nada.���Informar aquela mulher a respeito da Ajah Negra e deix�-la se envolver sem saber estavam igualmente fora de cogita��o.���N�o podemos, de verdade.</p><p>Boquiaberta, Nynaeve cravou os olhos em Elayne.</p><p>��Eu ia falar exatamente a mesma coisa���disse, em um tom inexpressivo, depois prosseguiu, com mais energia.���Nossa gratid�o sem d�vida se estende a responder perguntas, Egeanin. Tantas quantas pudermos.���Ela decerto queria dizer que havia muitas perguntas para as quais n�o tinham resposta, mas a interpreta��o de Egeanin foi diferente.</p><p>��� claro. N�o me intrometerei nos assuntos secretos da sua Torre Branca.</p><p>��Voc� parece bastante interessada nas Aes Sedai���comentou Elayne.���N�o consigo sentir a habilidade em voc�, mas talvez possa aprender a canalizar.</p><p>Egeanin quase deixou a x�cara de porcelana cair.</p><p>��Ʌ � poss�vel <emphasis>aprender</emphasis>? Eu n�o sab� N�o. N�o, eu n�o quero� aprender.</p><p>A agita��o da mulher entristeceu Elayne. Mesmo entre os que n�o tinham medo das Aes Sedai, muitos ainda temiam qualquer coisa que tivesse rela��o com o Poder �nico.</p><p>��E <emphasis>o que</emphasis> voc� quer saber, Egeanin?</p><p>Antes que a mulher pudesse falar, ouviu-se uma batida r�pida na porta, e Thom entrou, vestido com a opulenta capa que ele se habituara a usar para sair. Sem d�vida atra�a menos aten��o do que a de menestrel, toda cheia de retalhos. Na verdade, conferia a ele um aspecto bastante ilustre, com aquela crina de cabelos brancos, embora o ideal fosse escov�-los com mais frequ�ncia. Imaginando-o mais mo�o, Elayne se achou capaz de enxergar o que atra�ra a m�e. O que n�o absolvia o homem por ter ido embora, claro. Ela suavizou a express�o antes que Thom percebesse a cara feia.</p><p>��Fui informado de que voc�s n�o estavam sozinhas���comentou, encarando Egeanin com um olhar cauteloso, id�ntico ao de Juilin. Os homens sempre suspeitavam de qualquer um que n�o conheciam.���Mas achei que gostariam de saber que os Filhos da Luz cercaram o Pal�cio da Panarca hoje de manh�. O povo nas ruas j� est� come�ando a comentar. Parece que Lady Amathera ser� empossada como Panarca amanh�.</p><p>��Thom���come�ou Nynaeve, em um tom cansado���a n�o ser que essa Amathera na verdade seja Liandrin, n�o quero nem saber se ela vai virar Panarca, Rei e Sabedoria de Dois Rios, tudo de uma vez s�.</p><p>��O mais interessante���prosseguiu Thom, coxeando at� a mesa���� o boato de que a Assembleia se recusou a escolher Amathera. Se recusou. Ent�o por que � que ela vai ser empossada? Uma coisa t�o estranha assim � digna de aten��o, Nynaeve.</p><p>Assim que o homem come�ou a se abaixar para se sentar em uma cadeira, ela disse, baixinho:</p><p>��Estamos conversando em particular, Thom. Tenho certeza de que voc� vai julgar o sal�o mais apropriado.</p><p>Ela tomou um gole do ch�, encarando-o por cima da x�cara, claramente esperando que ele partisse.</p><p>Ruborizado, o homem se levantou sem nem ter chegado a se sentar de fato, mas n�o saiu imediatamente.</p><p>��Quer a Assembleia tenha ou n�o mudado de ideia, isso sem d�vida vai gerar revolta. O povo nas ruas ainda acredita que Amathera foi rejeitada. Se voc�s insistirem em ir para as ruas, n�o v�o poder sair sozinhas.���Apesar de o homem estar encarando Nynaeve, Elayne teve a impress�o de que ele quase apoiou a m�o em seu ombro.���Bayle Domon est� atolado naquele quartinho perto do estaleiro, concluindo os neg�cios para caso tenha que fugir, mas concordou em providenciar cinquenta homens escolhidos a dedo, sujeitos dur�es, acostumados a brigar e muito h�beis com facas ou espadas.</p><p>Nynaeve abriu a boca, mas Elayne a interrompeu:</p><p>��Ficamos muito gratas, Thom, tanto a voc� quanto a Mestre Domon. Por favor, diga a ele que aceitamos essa oferta t�o gentil e generosa.���Ela retribuiu o olhar impass�vel de Nynaeve e acrescentou, em um tom expressivo:���Eu n�o quero ser sequestrada no meio da rua, em plena luz do dia.</p><p>��N�o���respondeu Thom.���Ningu�m quer uma coisa dessas.���Elayne pensou ter ouvido o homem come�ar a dizer �crian�a� ao final da frase, e, dessa vez, ele de fato a tocou no ombro, com um �gil ro�ar de dedos.���Na verdade���prosseguiu���os sujeitos j� est�o esperando do lado de fora. Estou tentando encontrar uma carruagem; essas cadeiras deixam a pessoa dentro muito vulner�vel.���O homem parecia saber que fora longe demais ao trazer os sujeitos de Domon antes do consentimento delas, sem falar na hist�ria de arrumar uma carruagem sem sequer ter tocado no assunto com as duas, mas as encarou feito um velho lobo acuado, as sobrancelhas frondosas meio ca�das.���Eu� ficaria� pessoalmente arrependido caso alguma coisa acontecesse a voc�s. A carruagem estar� aqui assim que eu conseguir encontrar uma parelha. Se houver alguma � disposi��o.</p><p>De olhos arregalados, Nynaeve estava claramente em d�vida entre dar ou n�o uma reprimenda que o homem jamais esqueceria, e Elayne n�o teria se incomodado em acrescentar uma admoesta��o mais suave. Um pouco mais suave. Crian�a, ora essa!</p><p>Thom tirou vantagem da hesita��o das duas para deslizar em uma mesura que teria encantado os habitantes de qualquer pal�cio e foi embora enquanto dava tempo.</p><p>Egeanin depositara a x�cara de ch� na mesa e encarava as duas, consternada. Elayne sup�s que n�o haviam deixado uma impress�o muito boa das Aes Sedai, permitindo que Thom as intimidasse.</p><p>��Eu tenho que ir���disse a mulher, levantando-se e apanhando o cajado apoiado na parede.</p><p>��Mas voc� n�o fez as perguntas que queria���protestou Elayne.���N�s lhe devemos respostas, no m�nimo.</p><p>��Outra hora���respondeu Egeanin, depois de um instante.���Se me permitirem, voltarei outra hora. Preciso aprender sobre voc�s. Voc�s n�o s�o o que eu esperava.</p><p>As duas garantiram que ela poderia voltar em qualquer hor�rio que estivessem por l� e tentaram convenc�-la a ficar mais um pouco para terminar o ch� e o bolinho, mas a mulher foi insistente em afirmar que precisava ir embora.</p><p>Nynaeve a levou at� a porta, depois virou as costas e p�s as m�os na cintura.</p><p>��Sequestrar voc�? Caso tenha esquecido, Elayne, aqueles homens tentaram <emphasis>me</emphasis> agarrar!</p><p>��Para tirar voc� do caminho e poder me pegar���retrucou Elayne.���Caso voc� tenha esquecido, <emphasis>eu</emphasis> sou a Filha-herdeira de Andor. Minha m�e teria dado uma fortuna para aqueles homens pelo meu resgate.</p><p>��Pode ser���resmungou Nynaeve, indecisa.���Bom, pelo menos eles n�o tinham nada a ver com Liandrin. Aquelas l� n�o mandariam um bando de grosseir�es para tentar nos meter dentro de um saco. Por que eles nunca perguntam, antes de fazer? Ser� que os pelos no peito os deixam idiotas?</p><p>A mudan�a s�bita de assunto n�o deixou Elayne confusa.</p><p>��De todo modo, n�o teremos que nos preocupar em encontrar guarda-costas. Voc� concorda que � necess�rio, mesmo que Thom tenha passado um pouco dos limites?</p><p>��Acho que sim.���Nynaeve demonstrava um desgosto not�vel em admitir que estava errada. Pensara que os homens estavam atr�s <emphasis>dela</emphasis>, por exemplo.���Elayne, voc� percebe que ainda n�o temos nada al�m de uma casa vazia? Se Juilin ou Thom cometerem um deslize e deixarem que algu�m os descubra� Temos que encontrar as irm�s Negras sem que elas suspeitem, sen�o nunca teremos a chance de segui-las at� essa tal coisa que representa perigo para Rand.</p><p>��Eu sei���respondeu Elayne, com paci�ncia.���N�s <emphasis>j�</emphasis> conversamos sobre isso.</p><p>A mulher mais velha franziu o cenho para o nada.</p><p>��Ainda n�o temos a menor ideia do que �, nem de onde est�.</p><p>��Eu sei.</p><p>��Mesmo que a gente pudesse acabar com Liandrin e as outras nesse exato instante, n�o poder�amos deixar essa tal coisa por a�, esperando que mais algu�m a encontre.</p><p>��Eu sei disso, Nynaeve.���Lembrando a si mesma que devia ser paciente, Elayne suavizou o tom.���N�s vamos encontr�-las. Elas v�o acabar cometendo algum deslize, e, entre os boatos de Thom, os ladr�es de Juilin e os marujos de Bayle Domon, vamos ficar sabendo.</p><p>A express�o irritada de Nynaeve tornou-se pensativa.</p><p>��Voc� percebeu o olhar de Egeanin quando Thom falou de Domon?</p><p>��N�o. Voc� acha que ela conhece Domon? Por que n�o comentaria?</p><p>��Eu n�o sei���respondeu Nynaeve, exaltada.���O rosto dela n�o se alterou, mas os olhos� Ela ficou surpresa. Conhece esse homem. Eu fico me perguntando����Algu�m bateu � porta.���Ser� que todo mundo de Tanchico vai vir falar com a gente?���resmungou, abrindo a porta com um solavanco.</p><p>Rendra se assustou com a express�o de Nynaeve, mas seu sorriso sempre presente retornou no mesmo instante.</p><p>��Pe�o perd�o por incomodar as senhoritas, mas tem uma mulher l� embaixo perguntando por voc�s. N�o disse seus nomes, mas as descreveu direitinho. E disse que acha que conhece voc�s. Ela 酠��Rendra fez beicinho, os l�bios pareciam um bot�o de flor na leve careta.���Me esqueci de perguntar o nome. Esta manh� estou burra feito uma cabrita. � uma mulher bem vestida, ainda n�o est� na meia-idade. N�o � de Tarabon.���Ela sentiu um arrepio.���Achei bem s�ria. Quando me viu pela primeira vez, me encarou com o mesmo olhar que minha irm� mais velha fazia quando �ramos crian�as e ela pensava em prender as minhas tran�as nas moitas.</p><p>��Ou ser� que elas nos encontraram primeiro?���perguntou Nynaeve, baixinho.</p><p>Elayne abra�ou a Fonte Verdadeira sem pensar e estremeceu de al�vio por conseguir, por n�o ter sido blindada sem perceber. Se a mulher no andar de baixo fosse da Ajah Negra� Por outro lado, se fosse, por que se anunciaria? Mesmo assim, desejou que o brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> tamb�m envolvesse Nynaeve. Se ao menos a amiga conseguisse canalizar sem estar irritada�</p><p>��Mande entrar���disse Nynaeve, e Elayne percebeu que ela estava muito consciente de sua defici�ncia, al�m de preocupada.</p><p>Quando Rendra deu as costas, Elayne come�ou a urdir fluxos de Ar, grossos feito cabos e prontos para servir de amarras, e fluxos de Esp�rito para blindar outras pessoas da Fonte. Se essa mulher tivesse um m�nimo de semelhan�a com alguma da lista, se tentasse canalizar uma fa�sca que fosse�</p><p>A mulher que adentrou a C�mara das Flores Ca�das, em um vestido preto de seda brilhosa e corte pouco familiar, n�o era ningu�m que Elayne j� tivesse visto, e sem d�vida n�o estava na lista de mulheres que haviam partido com Liandrin. Os cabelos escuros, soltos, ca�dos nos ombros, emolduravam um rosto forte e bonito, meio masculino, com olhos grandes e bochechas suaves, mas sem o ar et�reo de Aes Sedai. Sorrindo, a mulher fechou a porta atr�s de si.</p><p>��Me perdoem, mas achei que voc�s estivessem�</p><p>O brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> a envolveu, e ela�</p><p>Elayne soltou a Fonte Verdadeira. Havia algo muito imponente naqueles olhos escuros, no halo � volta dela, o resplendor p�lido do Poder �nico. Era a mulher mais majestosa que Elayne j� vira. A Filha-herdeira percebeu que se curvava em mesuras afobadas, ruborizada por ter considerado� O que tinha considerado? Era dif�cil lembrar.</p><p>A mulher analisou as outras duas por um instante, depois assentiu com satisfa��o e deslizou at� a mesa, puxando uma cadeira entalhada pelo topo do espaldar.</p><p>��Venham para onde eu possa ver voc�s mais de perto���mandou, em um tom perempt�rio.���Venham. Isso. Isso mesmo.</p><p>Elayne percebeu que estava parada ao lado da mesa, olhando de cima para a mulher de olhos escuros brilhantes. Esperava mesmo que estivesse tudo bem. Do outro lado da mesa, Nynaeve segurava firme um punhado das tran�as compridas e finas, mas encarava a visitante com uma express�o meio boba e extasiada. Elayne sentiu vontade de rir.</p><p>��Mais ou menos o que eu imaginava���comentou a mulher.���Pouco mais do que garotas, e obviamente sem nem metade do treinamento. Mas s�o fortes. Fortes o bastante para causar muitos problemas. Principalmente voc�.���Ela cravou os olhos em Nynaeve.���Talvez um dia se torne algu�m. Mas tem um bloqueio, n�o tem? Ter�amos arrancado isso de voc�, mesmo que gritasse feito louca.</p><p>Nynaeve ainda segurava firme as tran�as, mas sua express�o passou de um sorriso contente, infantil e exaltado para um tremor de l�bios cheio de vergonha.</p><p>��Pe�o desculpas pelo meu bloqueio���disse, quase em um choramingo.���Eu tenho medo� de tanto poder� do Poder �nico� como eu posso�?</p><p>��Fique quieta, a n�o ser que eu fa�a alguma pergunta���retrucou a mulher, com firmeza.���E n�o comece a chorar. Voc� est� feliz em me ver, extasiada. S� o que deseja � me agradar e responder �s minhas perguntas.</p><p>Nynaeve assentiu vigorosamente, sorrindo, ainda mais extasiada do que antes. Elayne percebeu que tamb�m estava. Tinha certeza de que conseguiria responder �s perguntas primeiro. Qualquer coisa para agradar a mulher.</p><p>��Pois bem. Voc�s est�o sozinhas? Tem alguma outra <emphasis>Aes Sedai</emphasis> com voc�s?</p><p>��N�o���respondeu Elayne � primeira pergunta, mais que depressa, e emendou com a resposta � segunda:���N�o tem nenhuma Aes Sedai com a gente.</p><p>Talvez devesse ter contado que as duas tamb�m n�o eram de fato Aes Sedai. Mas n�o fora essa a pergunta. Nynaeve cravou os olhos nela, as juntas brancas agarradas �s tran�as, furiosa por ter ficado para tr�s.</p><p>��Por que est�o nesta cidade?���perguntou a mulher.</p><p>��Estamos ca�ando irm�s Negras���vociferou Nynaeve, disparando um olhar de triunfo para Elayne.</p><p>A mulher bonita soltou uma risada.</p><p>��Ent�o foi por isso que n�o senti voc�s canalizarem antes. Muito s�bio manterem a discri��o, sendo onze contra duas. Eu mesma sempre fui dessa pol�tica. Deixar os idiotas chamarem a aten��o at� ser descobertos. Da� eles s�o abatidos por uma aranha escondida nas frestas, que s� enxergam quando j� � tarde demais. Contem o que descobriram sobre essas irm�s Negras, tudo o que sabem sobre elas.</p><p>Elayne despejou tudo, lutando com Nynaeve para ser a primeira. N�o era muita coisa. As descri��es das mulheres, os <emphasis>ter�angreal</emphasis> que haviam roubado, os crimes na Torre e o medo de que houvesse mais irm�s Negras � solta, auxiliando um dos Abandonados em Tear, antes da queda da Pedra, a fuga delas at� ali em busca de algo que representava perigo a Rand.</p><p>��Estavam todas juntas em uma casa���concluiu Elayne, ofegante���mas sa�ram de l� ontem � noite.</p><p>��Parece que voc�s chegaram bem perto���comentou a mulher, escolhendo as palavras.���Muito perto. <emphasis>Ter�angreal</emphasis>. Virem as bolsas na mesa, esvaziem.���Elas obedeceram, e a mulher passou os dedos pelas moedas, conjuntos de costura, len�os e afins.���Voc�s t�m algum <emphasis>ter�angreal</emphasis> em seus quartos? <emphasis>Angreal</emphasis> ou <emphasis>sa�angreal</emphasis>?</p><p>Elayne estava ciente do anel de pedra retorcida pendurado entre os seios e do <emphasis>ter�angreal</emphasis> da placa de �mbar, com a mulher dormindo entalhada, bem guardado em um bolso dentro da saia. Nynaeve levava o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de disco de ferro em um bolso sob as saias. Essas coisas n�o podiam ficar soltas em qualquer lugar. Mas n�o fora essa a pergunta.</p><p>��N�o���respondeu. N�o havia nada do tipo nos quartos.</p><p>A mulher empurrou tudo para longe e inclinou-se para tr�s, falando sozinha:</p><p>��Rand al�Thor. Ent�o esse � o nome dele, agora.���Ela contraiu o rosto em uma careta que durou poucos segundos.���Um homem arrogante que fedia a bondade e piedade. Ele ainda � assim? N�o, n�o se deem ao trabalho de responder. Pergunta in�til. Ent�o Be�lal est� morto. O outro, para mim, parece que � Ishamael. Todo esse orgulho em n�o estar totalmente preso, sem se importar com o pre�o. Quando o encontrei, vi que restava menos humanidade nele do que em qualquer um de n�s. Acho que uma parte dele acreditava ser o Grande Senhor das Trevas. Todos esses tr�s mil anos de maquina��es para acabar perseguido por um garoto destreinado. O meu jeito � melhor. Suave, suave, nas sombras. Algo que controle um homem capaz de canalizar. Sim, teria de ser isso.���Ela estreitou os olhos, analisando as mulheres uma de cada vez.���Pois bem. Tenho que decidir o que fazer com voc�s.</p><p>Elayne aguardou, paciente. Nynaeve exibia um sorrisinho bobo, os l�bios abertos, na expectativa. Parecia ainda mais bobo pelo modo como ela agarrava as tran�as.</p><p>��Voc� � muito forte para se desperdi�ar, talvez um dia seja �til. Eu adoraria ver a cara de Rahvin no dia em que a vir desbloqueada���comentou a mulher, encarando Nynaeve.���Eu afastaria voc�s dessa ca�ada, se pudesse. Uma pena que a compuls�o seja t�o limitada. De qualquer jeito, com o pouco que aprenderam, voc�s est�o muito atr�s das outras. Suponho que possa vir busc�-las mais tarde e garantir um� novo treinamento.���Ela parou, e de repente o corpo inteiro de Elayne come�ou a tremer. Seu c�rebro parecia tiritar, e ela n�o tinha consci�ncia de nada al�m da voz da mulher, ressoando em seus ouvidos a grande dist�ncia.���Voc�s v�o recolher as coisas da mesa e, depois de recoloc�-las nos lugares, n�o v�o se lembrar de nada do que aconteceu aqui, exceto que vim pensando que eram duas amigas do interior. Eu estava enganada, tomei uma x�cara de ch� e fui embora.</p><p>Elayne piscou e se perguntou por que estava amarrando a bolsa atr�s do corpo, junto � bolsa do cinto. Nynaeve encarava as pr�prias m�os, ajeitando a bolsa com o cenho franzido.</p><p>��Uma mulher muito gentil���comentou Elayne, esfregando a testa. Sentia o in�cio de uma dor de cabe�a.���Ela disse como se chamava? Eu n�o me lembro.</p><p>��Gentil?���Nynaeve ergueu a m�o e deu um pux�o forte nas tran�as. Depois encarou o membro se ele tivesse vontade pr�pria.���Eu� acho que n�o disse.</p><p>��Sobre o que a gente estava conversando, quando ela chegou?</p><p>Egeanin tinha abado de partir. Qual era o assunto?</p><p>��Eu me lembro do que ia dizer.���A voz de Nynaeve assumiu um tom mais firme.���Temos que encontrar as irm�s Negras sem que elas desconfiem de nossa presen�a, ou nunca vamos ter qualquer chance de segui-las at� essa tal coisa que representa perigo para Rand.</p><p>��Eu sei���respondeu Elayne, com paci�ncia. Ser� que j� dissera isso? Claro que n�o.���N�s <emphasis>j�</emphasis> conversamos sobre isso.</p><empty-line/><p>Diante dos port�es em arco que levavam ao pequeno p�tio da estalagem, Egeanin fez uma pausa e analisou os homens de fei��es duras que descansavam, descal�os e quase todos sem camisa, entre o povo que vadiava daquele lado da rua estreita. Pareciam h�beis com os sabres presos nos cintos ou enfiados nas faixas de couro da cintura, por�m nenhum dos rostos lhe era familiar. Se algum daqueles homens estivera no navio de Bayle Domon quando rumou com ele at� Falme, n�o lembrava. Se algum deles tivesse viajado com ela, seria de se esperar que n�o ligassem a mulher de vestido de montaria � mulher de armadura que capturara a embarca��o.</p><p>De s�bito, percebeu que estava com as m�os �midas. Aes Sedai. Mulheres capazes de manejar o Poder sem estarem devidamente controladas. Sentara-se � mesa com elas, conversara com elas. As duas n�o eram nada do que ela esperava. Era imposs�vel tirar esse pensamento da cabe�a. Elas conseguiam canalizar, portanto eram perigosas � ordem, portanto tinham que ser devidamente encolaradas. Mas, ainda assim� n�o eram nada do que ela pensara que seriam. Era poss�vel <emphasis>aprender</emphasis>. Aprender! Contanto que conseguisse evitar Bayle Domon���o homem decerto a reconheceria���poderia retornar. Precisava saber mais. Mais do que nunca, precisava saber mais.</p><p>Desejando ter um manto com capuz, segurou firme o cajado e foi andando pela rua, abrindo caminho pela multid�o. Nenhum dos marujos reparou nela, que os observou para ter certeza.</p><p>Egeanin n�o viu o homem de cabelos claros em trajes imundos de Tanchico, agachado na frente de uma adega de paredes caiadas, do outro lado da rua. Seus olhos azuis, aparecendo por cima de um v�u encardido e de um bigode grosso preso com cola, a seguiram antes de deslizar de volta para o interior do Jardim das Tr�s Ameixeiras. O sujeito ficou parado, depois atravessou a rua, ignorando a forma asquerosa com que o povo esbarrava nele. Egeanin quase o notara quando ele perdera a cabe�a e quebrara o bra�o daquele coitado. Um do Sangue, como era reconhecido por aquelas bandas, reduzido a pedinte, sem honra suficiente para abrir as pr�prias veias. Asqueroso. Talvez ele conseguisse descobrir mais sobre o que a mulher estava aprontando ali na estalagem, quando os clientes descobrissem que tinha mais moedas do que suas roupas sugeriam.</p></section><section><title><p>47</p><p><image l:href="#7"/></p><p>A verdade de uma Vis�o</p></title><p>Os pap�is espalhados na mesa de Siuan Sanche lhe despertavam pouco interesse, mas ela perseverava. Outras pessoas cuidavam da rotina di�ria da Torre Branca, naturalmente, de modo a deixar o Trono de Amyrlin livre para as decis�es importantes, mas ela sempre tivera o h�bito de conferir uma ou duas coisinhas aleat�rias todos os dias, sem aviso pr�vio, e n�o o abandonaria agora. N�o se deixaria distrair por preocupa��es. Tudo estava funcionando como planejado. Ela remexeu a estola listrada, mergulhou com cuidado a pena na tinta e assinalou mais um total corrigido.</p><p>Hoje estava examinando listas de compras de cozinha, al�m do relat�rio do pedreiro para o anexo da biblioteca. O n�mero de pequenas infra��es que as pessoas pensavam poder cometer despercebidas sempre a impressionava. E tamb�m o n�mero que de fato passava despercebido �s mulheres encarregadas dessas quest�es. Por exemplo, Laras, ao que parecia, achava que controlar as contas j� n�o era sua fun��o, depois que fora oficialmente promovida de simples cozinheira-chefe a Mestra das Cozinhas. Por sua vez, Danelle, a irm� Marrom respons�vel por supervisionar Mestre Jovarin, o pedreiro, decerto estava se deixando distrair pelos livros que o sujeito ficava encontrando para ela. Essa era a �nica explica��o para seu fracasso em questionar o n�mero de trabalhadores que Jovarin alegara ter contratado, com os primeiros carregamentos de pedra vinda de Kandor acabados de chegar ao Porto do Norte. Seria poss�vel reconstruir a biblioteca inteira com aquela quantidade de homens. Danelle era sonhadora demais, mesmo para uma Marrom. Talvez um tempinho em uma fazenda pagando penit�ncias a despertasse. Laras seria mais dif�cil de disciplinar; a mulher n�o era Aes Sedai, portanto sua autoridade com os cozinheiros subalternos, ajudantes de cozinha e serventes iria para o brejo em dois tempos. No entanto, talvez ela tamb�m pudesse ser enviada para um �descanso� no interior. Seria�</p><p>Bufando de desgosto, Siuan baixou a caneta, franzindo o cenho para o borr�o deixado em uma folha com v�rias colunas de totais organizados.</p><p>��Que perda de tempo ficar aqui decidindo se mando Laras catar ervas���resmungou.���A mulher mal consegue se agachar, de t�o gorda!</p><p>N�o fora o peso de Laras que a deixara irritada, e ela sabia disso; a mulher n�o estava mais pesada do que antes, ao que parecia, e seu peso nunca a impedira de correr pelas cozinhas. A falta de not�cias. Era isso o que a deixava feito um p�ssaro-pescador que tivera a presa afanada. Uma mensagem de Moiraine informando que o rapaz al�Thor estava com <emphasis>Callandor</emphasis>, depois nada nas semanas seguintes, embora o falat�rio nas ruas j� come�asse a denunciar o nome dele. Nada ainda.</p><p>Erguendo a tampa articulada da caixa de madeira negra entalhada, onde guardava os pap�is mais secretos, ela revirou o interior. Um pequeno dente preso � caixa garantia que nenhuma outra m�o al�m da dela pudesse abri-la.</p><p>O primeiro papel que puxou era um relat�rio informando que a novi�a que presenciara a chegada de Min havia desaparecido da fazenda para onde fora enviada, assim como a propriet�ria da fazenda. N�o era incomum novi�as fujonas, mas o sumi�o da fazendeira era inquietante. Sahra teria de ser encontrada, sem d�vida���ela n�o havia progredido o suficiente no treinamento para ser deixada � solta���mas n�o havia de fato motivo para manter o relat�rio na caixa. Ele n�o mencionava nem o nome de Min nem a raz�o pela qual a garota fora mandada para carpir repolhos, mas ela o guardou de volta mesmo assim. Naqueles dias era preciso tomar cuidados que pareceriam irracionais em qualquer outra ocasi�o.</p><p>O relato de uma reuni�o em Ghealdan para ouvir o homem que se intitulava o Profeta do Lorde Drag�o. Aparentemente, o sujeito se chamava Masema. Era um nome shienarano. Quase dez mil pessoas apareceram para ouvi-lo falando alto de uma encosta, proclamando o retorno do Drag�o, um discurso seguido por uma batalha com soldados que tentavam dispers�-los. Al�m do fato de que os soldados aparentemente levaram a pior, o interessante era que o tal Masema sabia o nome de Rand al�Thor. Isso definitivamente voltava para a caixa.</p><p>Um relat�rio informando que nada ainda havia sido descoberto a respeito de Mazrim Taim. Nenhuma raz�o para permanecer na caixa. Outro sobre o agravamento nas condi��es de Arad Doman e Tarabon. O sumi�o de navios na costa do Oceano de Aryth. Rumores de ataques tairenos a Cairhien. Ela estava adquirindo o h�bito de colocar tudo naquela caixa; nada daquilo de fato precisava ser mantido em segredo. Duas irm�s haviam desaparecido em Illian, e outra em Caemlyn. Ela sentiu um arrepio, perguntando-se onde estariam os Abandonados. Muitos de seus agentes haviam se calado. Havia peixes-le�es � solta, e ela seguia nadando no escuro. L� estava. A folha fina de papel de seda estalou quando ela a desenrolou. <emphasis>A funda foi usada. O pastor det�m a espada.</emphasis> O Sal�o da Torre havia votado conforme ela esperava, por unanimidade, sem que fosse necess�rio for��-las, muito menos invocar sua autoridade. Se um homem havia empunhado <emphasis>Callandor</emphasis>, s� poderia ser o Drag�o Renascido, e tal homem teria de ser controlado pela Torre Branca. Tr�s Votantes de Ajahs diferentes haviam proposto manter todos os planos sob controle do Sal�o, antes mesmo que ela sugerisse; a �nica surpresa fora o fato de que uma delas era Elaida, mas, por outro lado, as Vermelhas certamente iriam querer amarrar bem firme um homem capaz de canalizar. A �nica quest�o fora impedir o envio de uma delega��o a Tear para tom�-lo com as pr�prias m�os, o que acabara n�o sendo muito dif�cil, quando p�de dizer que uma Aes Sedai j� havia conseguido se aproximar do homem.</p><p>No entanto, o que ele estaria fazendo naquele exato momento? Por que Moiraine n�o tinha mandado mais not�cias? A impaci�ncia pairava t�o pesada no Sal�o que ela praticamente esperava que o ar faiscasse. Manteve a ira sob controle. <emphasis>Que se queime a mulher! Por que n�o mandou not�cias?</emphasis></p><p>A porta se abriu com um estrondo, e ela se endireitou, furiosa, enquanto mais de doze mulheres adentravam seu gabinete a passos firmes, lideradas por Elaida. Todas usavam seus xales, a maioria de franjas vermelhas, mas Alviarin, uma Branca de express�o fria, vinha ao lado de Elaida, e logo atr�s seguiam Joline Maza, uma Verde esbelta, e Shemerin, uma gordinha Amarela, ao lado de Danelle, com os olhos azuis nada sonhadores. Na realidade, Siuan via pelo menos uma mulher de cada Ajah, exceto pela Azul. Algumas pareciam nervosas, mas a maioria exibia sorrisos determinados. Os olhos escuros de Elaida continham uma confian�a r�gida, um ar de triunfo.</p><p>��Mas o que � isso?���perguntou Siuan, bruscamente, fechando a caixa de madeira preta com um estalido. Ela p�s-se de p� no mesmo instante e caminhou at� a escrivaninha, pisando firme. Primeiro Moiraine, agora isso!���Se � sobre quest�es <emphasis>tairenas</emphasis>, Elaida, eu esperava mais de voc� do que ficar metendo outras nisso. E entrar aqui como se estivesse na cozinha da sua m�e! Pe�a desculpas e saia, antes que eu fa�a voc� desejar voltar a ser uma novi�a ignorante!</p><p>A ira g�lida da mulher deveria ter posto todas as outras para correr, mas, embora algumas remexessem os p�s, meio incomodadas, ningu�m fez men��o de sair. A pequena Danelle, inclusive, deu um sorrisinho malicioso. Tranquilamente, Elaida estendeu a m�o e puxou a estola listrada dos ombros de Siuan.</p><p>��Voc� n�o vai mais precisar disso aqui. Voc� nunca foi digna dela, Siuan.</p><p>O choque petrificou a l�ngua de Siuan. Aquilo era loucura. Era imposs�vel. Furiosa, ela se abriu para <emphasis>saidar</emphasis>� e sofreu o segundo choque. Havia uma barreira entre ela e a Fonte Verdadeira, feito uma parede espessa de vidro. Ela encarou Elaida, incr�dula.</p><p>Como se fosse um deboche, o brilho de <emphasis>saidar</emphasis> surgiu em Elaida. Ela permaneceu impotente enquanto a irm� Vermelha urdia fluxos de Ar ao seu redor, dos ombros � cintura, esmagando seus bra�os na lateral do corpo. Ela mal conseguia respirar.</p><p>��Voc�s est�o loucas!���gritou.���Todas! Vou arrancar o couro de voc�s por isso! Me soltem!���Ningu�m respondeu; as mulheres praticamente a ignoravam.</p><p>Alviarin revirou os pap�is na mesa, rapidamente, por�m sem pressa. Joline, Danelle e outras come�aram a derrubar os livros nos suportes e chacoalh�-los para ver se alguma coisa ca�a de dentro. A irm� Branca soltou um pequeno chiado de irrita��o por n�o encontrar o que procurava na mesa, ent�o abriu a caixa de madeira preta. No mesmo instante a caixa irrompeu em chamas.</p><p>Alviarin pulou para tr�s, gritando e sacudindo a m�o, j� com bolhas se formando.</p><p>��Protegida���resmungou, com mais raiva do que Siuan jamais vira uma Branca demonstrar.���T�o fraco que eu s� senti tarde demais.���Nada restava da caixa e seu conte�do al�m de um monte de cinza sobre um quadrado chamuscado na mesa.</p><p>O rosto de Elaida n�o exibia frustra��o.</p><p>��Eu prometo a voc�, Siuan, que vai me contar cada palavra do que foi queimado, para quem era dirigida e com que objetivo.</p><p>��Voc�s s� podem estar possu�das pelo Drag�o!���vociferou Siuan.���Vou arrancar o seu couro por isso, Elaida. O de todas voc�s! Voc�s ter�o sorte se o Sal�o da Torre n�o votar pelo estancamento de todas!</p><p>O sorrisinho de Elaida n�o lhe alcan�ava os olhos.</p><p>��O Sal�o se reuniu n�o faz nem uma hora, com qu�rum de Votantes dentro da lei, e por vota��o un�nime, conforme requerido, voc� n�o � mais Amyrlin. Est� feito, e viemos aqui para executar a decis�o.</p><p>O est�mago de Siuan congelou, e uma vozinha em sua mente ganiu: <emphasis>O que � que elas sabem? Luz, quanto ser� que elas sabem? Idiota! Mulher cega, idiota!</emphasis> Ela manteve a express�o serena, no entanto. N�o era a primeira vez que se via encurralada. Uma menina de quinze anos munida apenas de uma faca de peixe, arrastada para um beco por quatro grosseir�es de olhos duros e barrigas cheias de vinho���aquela havia sido uma situa��o muito mais dif�cil de escapar. Foi o que disse a si mesma.</p><p>��De acordo com a lei?���questionou, com desprezo.���Um qu�rum m�nimo, cheio das suas amigas e das que voc� consegue influenciar ou intimidar.���O fato de Elaida ter convencido um pequeno n�mero de Votantes que fosse j� era suficiente para lhe secar a garganta, mas ela n�o deixaria isso transparecer.���Quando o Sal�o inteiro se reunir, com todas as Votantes, voc� vai perceber o seu erro. Tarde demais! Nunca houve uma rebeli�o dentro da Torre; daqui a mil anos elas v�o usar o seu destino para ensinar �s novi�as o que acontece com as dissidentes.���Express�es de d�vida se formaram em alguns rostos; parecia que Elaida n�o conduzia suas conspiradoras com o pulso t�o firme quanto imaginava.���Est� na hora de voc� parar de tentar furar o casco e come�ar a baldear a �gua. N�o � tarde demais nem para voc�, Elaida.</p><p>Elaida aguardou com uma frieza contida at� a outra terminar. Ent�o um tapa forte acertou o rosto de Siuan; ela cambaleou, e pontinhos pretos e prateados lhe emba�aram a vis�o.</p><p>��Voc� est� acabada���declarou Elaida.���Voc� achou que eu� que n�s ir�amos permitir que destru�sse a Torre? Levem essa mulher!</p><p>Siuan trope�ou quando duas Vermelhas a empurraram. Mal conseguindo equilibrar-se, ela cravou os olhos nas duas, mas seguiu na dire��o que mandaram. Com quem teria de falar a respeito daquilo? Fosse l� que acusa��es as mulheres tivessem feito, seria capaz de refut�-las, em seu dado momento. At� as acusa��es que envolviam Rand; n�o era poss�vel envolv�-la em algo mais que rumores, e ela havia jogado o Grande Jogo por muito tempo para ser derrubada por rumores. A n�o ser que elas estivessem com Min; Min poderia transformar os rumores em verdades. Ela rangeu os dentes. <emphasis>Que a minha alma queime, vou jogar esse bando aos peixes!</emphasis></p><p>Na antessala, ela trope�ou de novo, mas dessa vez n�o foi por conta de um empurr�o. Guardava certa esperan�a de que Leane estivesse fora de seu posto, mas a Curadora estava parada na mesma posi��o que Siuan, com os bra�os r�gidos ao lado do corpo, a boca se mexendo sem som, furiosa, envolta em uma morda�a de Ar. Ela decerto sentira Leane sendo presa e nem percebera; na Torre sempre havia mulheres canalizando.</p><p>No entanto, n�o foi a vis�o de Leane que a fez trope�ar, mas o homem alto, magro e grisalho ca�do no ch�o com uma faca cravada nas costas. Alric fora seu Guardi�o durante quase vinte anos, e jamais reclamara por terem que permanecer na Torre, jamais resmungara quando o trabalho de Guardi�o da Amyrlin o faria ficar a l�guas de dist�ncia dela, algo que nenhum Gaidin apreciava.</p><p>Ela pigarreou para limpar a garganta, por�m sua voz ainda saiu rouca:</p><p>��Vou mandar arrancar seu couro e estirar no sol por isso, Elaida. Eu juro!</p><p>��Pense no seu pr�prio couro, Siuan���retrucou Elaida, aproximando-se para encar�-la.���Tem mais coisa nessa hist�ria do que foi revelado at� agora. Eu sei disso. E voc� vai me contar tudinho, at� o fim. At� o� fim.���A calma s�bita em sua voz era mais aterradora do que todos os olhares severos.���Eu prometo, Siuan. Levem a mulher para baixo!</p><empty-line/><p>Agarrada a rolos de seda azul, Min adentrou o Port�o Norte perto do meio-dia, com um sorrisinho j� pronto para os guardas com a Chama de Tar Valon no peitoral, al�m do floreio nas saias verdes, como Elmindreda fazia. Inclusive, j� come�ara o floreio antes de perceber que n�o havia guardas. A pesada porta com correias de ferro do posto de guarda, em formato de estrela, estava aberta; o posto em si parecia vazio. Era imposs�vel. Nunca um port�o de entrada para os muros da Torre ficava desguarnecido. A meio caminho da imensa coluna branca da Torre propriamente dita, uma cortina de fuma�a se erguia das �rvores. Parecia pr�xima dos alojamentos dos jovens que treinavam com os Guardi�es. Talvez o fogo tivesse atra�do os guardas.</p><p>Ainda um pouco incomodada, ela come�ou a descer a trilha sem pavimento da parte arborizada dos muros, ajeitando os panos de seda. Na verdade, n�o queria outro vestido, mas como poderia recusar quando Laras enfiara uma bolsa de prata em suas m�os e a mandara usar na compra da tal seda que a mulher robusta tinha visto? Alegava ser bem da cor que ressaltaria o tom de pele de �Elmindreda�. Se ela queria ou n�o ter seu tom de pele ressaltado n�o importava tanto quanto preservar a boa vontade de Laras.</p><p>Um clangor de espadas, vindo das �rvores, chegou aos seus ouvidos. Os Guardi�es deviam estar exigindo que seus alunos praticassem mais do que o habitual.</p><p>Era tudo muito irritante. Laras e suas dicas de beleza, Gawyn e suas piadas, Galad sempre fazendo elogios sem perceber o efeito que seu rosto e sorriso exerciam sobre os batimentos card�acos de uma mulher. Seria assim que Rand a desejava? O rapaz de fato <emphasis>repararia</emphasis> nela, se ela usasse vestido e ficasse rindo para ele feito uma boboca oferecida?</p><p><emphasis>Ele n�o tem o direito de esperar uma coisa dessas</emphasis>, ela pensou, furiosa. Era tudo culpa dele. Ela n�o estaria ali naquele momento, com um vestido est�pido daqueles e sorrindo feito uma idiota, n�o fosse por ele. <emphasis>Eu uso casaco e cal�as, e ponto final! Talvez possa at� usar um vestido de vez em quando���talvez!���mas n�o para atrair o olhar de um homem! Aposto que neste exato instante ele est� encarando alguma tairena com metade dos seios de fora. Eu posso usar um vestido assim. Vamos ver o que ele vai dizer quando me vir nessa seda azul. Vou mandar fazer um decote at�</emphasis> O que ela estava pensando? O homem havia roubado seu ju�zo! O Trono de Amyrlin a mantinha ali, sem fun��o alguma, e Rand al�Thor estava lhe embaralhando as ideias! <emphasis>Que o queime! Que o queime por estar fazendo isso comigo!</emphasis></p><p>O som das espadas surgiu outra vez a dist�ncia, e ela parou quando uma horda de rapazes irrompeu do meio das �rvores portando lan�as e facas, com Gawyn na dianteira. Ela reconheceu outros dentre os que tinham vindo treinar com os Guardi�es. Uma gritaria se elevou de outro ponto das depend�ncias da Torre, o rugido de homens irados.</p><p>��Gawyn! O que � que est� havendo?</p><p>Ao ouvir a voz de Min, ele deu um giro. Seus olhos azuis se encheram de medo e preocupa��o, e seu rosto exibia uma m�scara de determina��o em n�o ceder a esses sentimentos.</p><p>��Min. O que est� fazendo�? Saia daqui, Min. � perigoso.���Um bocado dos jovens seguiu correndo, mas a maioria ficou aguardando Gawyn, com impaci�ncia. Parecia que quase todos os alunos dos Guardi�es estavam ali.</p><p>��Me diga o que est� acontecendo, Gawyn!</p><p>��A Amyrlin foi deposta hoje de manh�. Saia daqui, Min!</p><p>Os rolos de seda ca�ram das m�os dela.</p><p>��Deposta? N�o pode ser! Como? Por qu�? Em nome da Luz, por qu�?</p><p>��Gawyn!���chamou um dos rapazes, e outros ecoaram, brandindo as armas.</p><p>��Gawyn! O Javali Branco! Gawyn!</p><p>��Eu n�o tenho tempo, Min���disse ele, apressado.���Lutas est�o acontecendo por todo canto. Est�o dizendo que Hammar est� tentando libertar Siuan Sanche. Preciso ir para a Torre, Min. V� embora! Por favor!</p><p>Ele se virou e disparou em dire��o � Torre. Os outros foram atr�s, eri�ados, de armas em riste, alguns ainda gritando:</p><p>��Gawyn! O Javali Branco! Gawyn! Avante os Jovem Guarda!</p><p>Min encarou o grupo.</p><p>��Voc� n�o disse de que lado est�, Gawyn���sussurrou ela.</p><p>Agora que ela prestava aten��o, a luta ressoava mais alto e com mais nitidez, e os gritos, urros e o baque de metal contra metal pareciam vir de todas as dire��es. O clamor fez sua pele se arrepiar e seus joelhos tremerem; aquilo n�o podia estar acontecendo, n�o ali. Gawyn tinha raz�o. A coisa mais segura e mais sensata seria sair imediatamente das depend�ncias da Torre. No entanto, n�o havia como saber quando ou se ela poderia retornar, e ela n�o conseguia imaginar o que poderia fazer do lado de fora.</p><p>��De que me adianta ficar aqui dentro?���perguntou a si mesma, furiosa.</p><p>Min, no entanto, n�o se virou em dire��o ao port�o. Deixando a seda onde havia ca�do, correu para a mata, procurando um lugar para se esconder. N�o achava que algu�m enfiaria �Elmindreda� em um espeto, feito um ganso���com calafrios, desejou n�o ter pensado naquilo���mas n�o havia por que se arriscar � toa. Cedo ou tarde a luta haveria de cessar, e quando isso acontecesse ela teria de decidir o que fazer em seguida.</p><empty-line/><p>Na completa escurid�o da cela, Siuan abriu os olhos, se remexeu, estremeceu e parou. J� seria dia l� fora? A pergunta persistia havia um bom tempo. Ela tentara esquecer a dor, diante do luxo de saber que ainda respirava. Por�m, a pedra bruta sob seu corpo lhe arranhava os hematomas e ferimentos nas costas. O suor fazia arder todos eles���ela sentia uma massa s�lida de dor, dos joelhos at� os ombros���e o ar frio por cima a fazia tiritar. <emphasis>Elas pelo menos podiam ter me deixado com a roupa de baixo.</emphasis> O ar cheirava a poeira e mofo seco, velho. Uma das celas no subsolo. Ningu�m fora confinado ali desde a �poca de Artur Asa-de-gavi�o. N�o desde Bonwhin.</p><p>Siuan fez uma careta na escurid�o; n�o havia como esquecer. Rangendo os dentes, ergueu o corpo, sentou-se no ch�o de pedra e tateou em busca de uma parede para se apoiar. Os blocos de pedra da parede estavam frios contra suas costas. <emphasis>Coisinhas pequenas</emphasis>, disse a si mesma. <emphasis>Pense em coisinhas pequenas. Calor. Frio. Quando ser� que v�o me trazer um pouco de �gua? Se � que trar�o.</emphasis></p><p>Ela n�o resistiu e tentou sentir o anel da Grande Serpente. J� n�o estava em seus dedos. N�o que ela esperasse encontr�-lo; achava que se lembrava do instante em que ele fora removido. As coisas haviam ficado meio nebulosas, depois de um tempo. Nebulosas, ainda bem. Mas ela se lembrava de ter contado tudo �s outras, no fim das contas. Quase tudo. O triunfo de preservar uma coisinha aqui, outra ali. Entre as respostas berradas, a �nsia de responder, se ao menos elas parassem, mesmo que por um pouquinho, se ao menos� ela abra�ou o pr�prio corpo para parar de tremer; n�o adiantou muito. <emphasis>Vou manter a calma. N�o estou morta. Preciso me lembrar disso acima de qualquer outra coisa. N�o estou morta.</emphasis></p><p>��M�e?���A voz tr�mula de Leane surgiu da escurid�o.���Est� acordada, M�e?</p><p>��Estou���respondeu Siuan, com um suspiro. Esperava que as outras tivessem libertado Leane, mandado-a para fora da cidade. Foi castigada pela culpa ao sentir certo conforto pela presen�a da outra mulher na cela.���Lamento muito ter metido voc� nisso, filh����N�o. J� n�o tinha o direito de se dirigir a ela daquela forma.���Eu lamento muito, Leane.</p><p>Houve um longo instante de sil�ncio.</p><p>��A senhora est� passando bem, M�e?</p><p>��Siuan, Leane. S� Siuan.���Sem perceber, ela tentou abra�ar <emphasis>saidar</emphasis>. N�o havia nada. N�o para ela. Somente um vazio por dentro. Nunca mais. Uma vida inteira de dedica��o, e agora estava desorientada, � deriva em um mar muito mais obscuro que aquela cela. Ela limpou uma l�grima do rosto, cheia de raiva por t�-la deixado cair.���N�o sou mais o Trono de Amyrlin, Leane.���Um pouco da raiva revelou-se em sua voz.���Suponho que Elaida v� ser elevada em meu lugar. Isso se j� n�o tiver sido. Eu juro, um dia vou servir essa mulher de comida para os l�cios!</p><p>A resposta de Leane foi apenas um suspiro longo e desesperador.</p><p>O rangido de uma chave no cadeado enferrujado fez Siuan erguer a cabe�a; ningu�m havia pensado em passar um �leo nas dobradi�as antes de jogar as duas l� dentro, e as partes corro�das n�o queriam girar. Taciturna, ela se for�ou a se levantar.</p><p>��Levante-se, Leane. Levante-se.���Depois de um instante ouviu a outra mulher aquiescendo e resmungando sozinha entre gemidos baixinhos.</p><p>Em um tom de voz levemente mais alto, Leane disse:</p><p>��De que vai adiantar?</p><p>��Pelo menos n�o v�o encontrar a gente encolhida no ch�o, chorando.���Ela tentou manter a voz firme.���Podemos lutar, Leane. Enquanto estivermos vivas, podemos lutar.���<emphasis>Ah, Luz, elas me estancaram! Elas me</emphasis> estancaram<emphasis>!</emphasis></p><p>For�ando-se a esvaziar a mente, ela cerrou os punhos e tentou cravar os dedos dos p�s no ch�o de pedras irregulares. Desejou que o som que sa�a de sua garganta n�o soasse tanto como um lamento.</p><empty-line/><p>Min colocou suas trouxas no ch�o e jogou o manto para tr�s, para segurar a chave com ambas as m�os. Era duas vezes maior que suas m�os e t�o enferrujada quanto o cadeado, feito todas as outras chaves no grande aro de ferro. O ar estava frio e �mido, como se o ver�o ainda n�o tivesse chegado t�o ao sul.</p><p>��R�pido, crian�a���murmurou Laras, erguendo a lanterna para Min no corredor escuro de pedra e espiando nas duas dire��es. Era dif�cil acreditar que a mulher, com todo aquele queixo, algum dia fora uma beldade, mas Min sem d�vida a considerava bela agora.</p><p>Lutando com a chave, ela balan�ou a cabe�a. Havia encontrado Laras enquanto corria sorrateira de volta para o quarto para colocar o vestido simples e cinza de montaria que usava no momento, al�m de fazer outras coisinhas. Na verdade, encontrara a mulher corpulenta procurando por <emphasis>ela</emphasis>, em um surto de preocupa��o com �Elmindreda�, gritando que Min era muito sortuda por estar em seguran�a e praticamente sugerindo que ela se trancasse no quarto at� que aquela loucura terminasse, para que continuasse segura. Ela ainda n�o sabia ao certo como Laras conseguira descobrir suas inten��es, nem estava plenamente recuperada do choque que sentira quando a mulher anunciara, relutante, ter condi��es de ajudar. <emphasis>Uma mulher arrojada, de fato, seguindo o pr�prio cora��o. Bem, espero que ela consiga���como foi que ela disse mesmo?���me manter fora do caldeir�o de salmoura.</emphasis> A maldita chave <emphasis>n�o</emphasis> girava; ela for�ou todo o peso do corpo na tentativa.</p><p>Em verdade, Min era grata a Laras sob diversos aspectos. Era pouco prov�vel que desse conta de aprontar tudo sozinha, ou at� mesmo de encontrar qualquer coisa, decerto n�o com aquela rapidez. Al�m do mais� al�m do mais, quando topou com Laras, j� estava come�ando a se convencer de que tinha sido uma idiota de sequer pensar em fazer uma coisa daquelas, que deveria estar montada em um cavalo rumo a Tear enquanto era tempo, antes que algu�m decidisse acrescentar sua cabe�a �s que decoravam a frente da Torre. Suspeitava que fugir teria sido o tipo de coisa imposs�vel de se esquecer. S� aquilo j� a tornava grata a ponto de n�o ter feito qualquer obje��o quando Laras acrescentou alguns belos vestidos aos que ela j� havia guardado na trouxa. Os rouges e p�s sempre podiam ser �perdidos� em algum canto. <emphasis>Por que � que essa maldita chave n�o gira? Talvez Laras consiga�</emphasis></p><p>A chave girou subitamente, fazendo um barulho t�o alto que Min temeu que alguma parte tivesse se quebrado. No entanto, a porta de madeira bruta se abriu com um empurr�o. Ela agarrou as trouxas, adentrou a cela vazia de pedra� e parou, confusa.</p><p>A luz da lanterna revelou duas mulheres vestidas apenas em hematomas roxos e arranh�es vermelhos, protegendo os olhos da s�bita ilumina��o, mas por um instante Min n�o soube ao certo se eram as duas que procurava. Uma era alta, de pele acobreada, a outra mais baixa, mais corpulenta, mais p�lida. Os rostos pareciam os certos���quase os certos���e intocados pelo que os corpos haviam sofrido, ent�o ela deveria ter certeza. Por�m, o aspecto de idade indefinida que era a marca das Aes Sedai parecia ter desaparecido; aquelas mulheres decerto eram apenas seis ou sete anos mais velhas do que ela, no m�ximo, e n�o eram Aes Sedai. Seu rosto ficou quente de vergonha diante do pensamento. Ela n�o viu imagens nem auras em torno das duas; o que sempre havia quando se tratava de Aes Sedai. <emphasis>Pare com isso</emphasis>, disse a si mesma.</p><p>��Onde�?���come�ou a perguntar uma das duas, espantada, depois fez uma pausa para pigarrear.���Como foi que voc� conseguiu essas chaves?���Era a voz de Siuan Sanche.</p><p>��� ela.���Laras soava incr�dula. Cutucou Min com um dedo grosso.���Ande, crian�a! Estou muito velha e muito lenta para essas aventuras.</p><p>Min disparou um olhar surpreso; a mulher havia <emphasis>insistido</emphasis> em ir, dissera que n�o seria deixada de fora. Min queria perguntar a Siuan por que as duas de repente pareciam t�o mais novas, mas n�o havia tempo para perguntas fr�volas. <emphasis>Maldi��o, estou ficando muito acostumada a ser Elmindreda!</emphasis></p><p>Ela empurrou uma das trouxas para a mulher nua e disse, depressa:</p><p>��Roupas. Vistam-se o mais r�pido poss�vel. N�o sei quanto tempo temos. Deixei o guarda pensar que eu daria uns beijos nele pela chance de me vingar de uma desfeita de voc�s, e enquanto ele estava distra�do Laras chegou por tr�s e deu na cabe�a do homem com um rolo de macarr�o. N�o sei por quanto tempo ele vai dormir.���Ela inclinou o corpo em dire��o � porta e espiou, preocupada, o corredor que levava aos aposentos dos guardas.���� melhor a gente correr.</p><p>Siuan j� havia desamarrado a trouxa e come�ado a vestir as roupas. Exceto por um vestido de linho, eram todas de l� simples em tons de marrom, adequadas �s camponesas que vinham � Torre Branca aconselhar-se com as Aes Sedai, embora as saias divididas para montaria fossem um pouco incomuns. Laras havia cerzido a maior parte; Min dera conta apenas de furar os dedos. Leane tamb�m estava se vestindo, por�m parecia mais interessada na faca de l�mina curta que pendia do cinto do que nas roupas em si.</p><p>Tr�s mulheres vestidas em roupas simples teriam a chance, pelo menos, de sair da Torre sem chamar aten��o. Um punhado de requerentes e gente pedindo ajuda havia ficado preso na Torre por conta do conflito; tr�s a mais que sa�ssem dos esconderijos seriam, na pior das hip�teses, jogadas rapidamente na rua. Contanto que n�o fossem reconhecidas. Os rostos das outras mulheres poderiam ajudar tamb�m. Era pouco prov�vel que algu�m tomasse um par de jovens���aparentemente, pelo menos���pelo Trono de Amyrlin e a Curadora das Cr�nicas. A antiga Amyrlin e a antiga Curadora, ela lembrou a si mesma.</p><p>��S� um guarda?���perguntou Siuan, estremecendo enquanto cal�ava meias grossas.���Estranho. At� um ladr�o seria mais bem vigiado.���Com os olhos em Laras, ela enfiou os p�s nos sapatos pesados.���� bom ver que tem gente que n�o acredita nas acusa��es que est�o fazendo a mim. Sejam elas quais forem.</p><p>A mulher corpulenta franziu o cenho e baixou o queixo, completando o pensamento:</p><p>��Eu sou leal � Torre���disse, severamente.���Essas quest�es n�o me dizem respeito. Sou s� uma cozinheira. Essa menina insensata me faz lembrar muito de quando eu mesma era uma garota insensata. Acho� vendo voc�s� que est� na hora de lembrar que j� n�o sou uma mocinha graciosa.���Ela empurrou a lanterna nas m�os de Min.</p><p>Min agarrou o bra�o robusto da mulher quando ela se virou para sair.</p><p>��Laras, voc� n�o vai nos entregar, vai? N�o agora, depois de tudo o que voc� fez.</p><p>O rosto largo da mulher se abriu em um sorriso meio saudoso, meio pesaroso.</p><p>��Ah, Elmindreda, voc� de fato me faz lembrar de mim mesma quando tinha a sua idade. Cada coisa est�pida, e �s vezes eu quase acabava enforcada. N�o vou trair voc�s, crian�a, mas tenho que viver aqui. Quando a Segunda soar, vou mandar uma garota com vinho para o guarda. O que vai lhes dar mais do que uma hora, se ele n�o tiver acordado ou sido descoberto at� ent�o.���Ela se virou para as outras duas, de s�bito com a mesma carranca que Min via dirigida aos cozinheiros subalternos e afins.���Fa�am bom uso dessa hora, est�o ouvindo? Elas est�o querendo enfiar voc�s duas na �rea de servi�o, pelo que entendi, para que possam servir de exemplo. Isso n�o me importa, de todo modo, pois s�o assuntos de Aes Sedai, n�o de cozinheiras, e para mim tanto faz uma Amyrlin ou a outra. Mas, se voc�s deixarem algu�m capturar essa menina, podem esperar que vou mandar esfolar seus couros do dia at� a noite sempre que n�o estiverem com a cara enfiada em panelas engorduradas ou limpando jarros de lavagem! Voc�s v�o desejar que elas tivessem lhes arrancado fora as cabe�as antes que eu termine com as duas. E n�o pensem que elas v�o acreditar que eu ajudei. Todo mundo sabe que eu n�o saio das minhas cozinhas. Lembrem-se bem do que eu disse, e se virem!���O sorriso retornou ao rosto da mulher, que deu um belisc�ozinho na bochecha de Min.���Voc� apresse essas duas, crian�a. Ah, como vou sentir falta de vestir voc�. Uma menina t�o bonita.���Com um �ltimo e vigoroso belisc�o, saiu da cela, bamboleando quase em um trote.</p><p>Min esfregou a bochecha, irritada; odiava quando Laras fazia aquilo. A mulher era forte feito um cavalo. Quase <emphasis>enforcada</emphasis>? Que tipo de �mo�a vivaz� Laras havia sido?</p><p>Puxando o vestido com cuidado pela cabe�a, Leane fungou alto.</p><p>��E pensar que ela p�de falar com a senhora dessa maneira, M�e!���Sua cabe�a surgiu no topo, carrancuda.���Me espanta que ela tenha ajudado, para come�o de conversa, j� que pensa assim.</p><p>��Mas ajudou���respondeu Min.���N�o se esque�am disso. E acho que ela vai manter a palavra de n�o nos entregar. Tenho certeza.</p><p>Leane fungou outra vez.</p><p>Siuan balan�ou o manto em torno dos ombros.</p><p>��Ela falou assim, Leane, porque n�o tenho mais direito ao t�tulo. Amanh� voc� e eu podemos ser duas serventes dela.���Leane apertava as m�os, para evitar que tremessem, sem olhar a outra mulher. Siuan prosseguiu calmamente, ainda que em um tom seco.���Tamb�m acho que Laras vai manter a palavra em rela��o a� outras coisas� ent�o, mesmo que voc�s n�o se importem em ver Elaida nos enforcar, feito um par de tubar�es em uma rede, diante do mundo inteiro, sugiro que se mexam. Quanto a mim, eu odiava panelas gordurentas quando era crian�a, e tenho certeza de que ainda odeio.</p><p>Leane, de cara fechada, come�ou a amarrar os la�os do vestido de camponesa.</p><p>Siuan voltou a aten��o a Min.</p><p>��Talvez voc� n�o fique t�o ansiosa para nos ajudar depois de eu contar que fomos ambas� estancadas.���A voz da mulher n�o falhou, mas soou dura pelo esfor�o de pronunciar a palavra, e seus olhos, al�m de cheios de sofrimento, estavam perdidos. Era um choque perceber que aquela calma era toda superficial.���Qualquer uma das Aceitas poderia amarrar n�s duas debaixo de um rolo compressor, Min. A maioria das novi�as conseguiria fazer isso.</p><p>��Eu sei���disse Min, com cuidado para n�o deixar escapar o menor tom de compaix�o que fosse. Compaix�o em um momento daqueles poderia destruir o que ainda restava de autocontrole nas mulheres, e ela precisava que as duas se controlassem.���Foi anunciado pelos quatro cantos da cidade e exibido em todos os lugares onde era poss�vel afixar not�cias. Mas voc�s ainda est�o vivas.���Leane soltou uma risada amarga, que ela ignorou.���� melhor irmos. O guarda pode ter acordado, ou algu�m pode ter ido conferir como ele est�.</p><p>��V� na frente, Min���disse Siuan.���Estamos nas suas m�os.���Depois de um instante, Leane fez um breve meneio de cabe�a e cobriu depressa os ombros com o manto.</p><p>Nos alojamentos dos guardas, ao final do corredor escuro, o guarda solit�rio jazia estirado, de cara no ch�o sujo. O capacete que o teria protegido de uma contus�o na cabe�a estava sobre a mesa de t�buas brutas, ao lado da �nica lanterna que fornecia a ilumina��o do aposento. O homem parecia respirar normalmente. Min mal passou os olhos por ele, mas esperou que n�o estivesse muito ferido; o guarda n�o tentara tirar vantagem da oferta dela.</p><p>Ela conduziu Siuan e Leane depressa at� a porta mais distante, toda de t�buas grossas e tiras largas de ferro, e as tr�s subiram a escadaria estreita de pedra. Tinham de seguir andando. Passar por requerentes n�o as pouparia de perguntas se fossem vistas vindo das celas.</p><p>Elas n�o viram outros guardas, nem ningu�m, quando sa�ram das profundezas da Torre, mas Min percebeu que continuou prendendo a respira��o at� as tr�s chegarem � pequena porta que levava � Torre em si. Ela abriu a porta, apenas o suficiente para meter a cabe�a, depois espiou os dois lados do corredor.</p><p>Havia suportes dourados de lampi�es pendurados nas paredes de m�rmore branco frisado. � direita, duas mulheres sa�ram rapidamente de vista, sem olhar para tr�s. A firmeza de seus passos indicava que eram Aes Sedai, ainda que n�o pudesse ver seus rostos; na Torre, at� uma rainha vacilava ao caminhar. Na outra dire��o, uma dezena de homens usando capas se afastava a passos firmes, claramente Guardi�es, caminhando com a gra�a de lobos, sumindo pelos arredores.</p><p>Ela esperou at� os Guardi�es irem embora, tamb�m, antes de passar depressa pela porta.</p><p>��Caminho livre. Venham. Mantenham o capuz erguido e a cabe�a baixa. Ajam como se estivessem um pouco assustadas.���Da parte dela, n�o era fingimento. Pela forma como as outras duas a seguiram, ela tamb�m n�o achou que estivessem precisando fingir.</p><p>Os corredores da Torre raramente estavam cheios, por�m agora pareciam vazios. De vez em quando algu�m surgia por um instante, adiante delas ou por algum corredor lateral, mas quer fossem Aes Sedai, Guardi�es ou servi�ais, estavam sempre apressados, muito concentrados nas pr�prias tarefas para notar algu�m. Al�m disso, a Torre estava silenciosa.</p><p>Em seguida passaram por um corredor perpendicular, onde pingos escuros de sangue seco pontilhavam os azulejos verde-claros do ch�o. Havia tamb�m duas manchas mais compridas, feito borr�es, como se corpos tivessem sido arrastados por ali.</p><p>Siuan parou e encarou.</p><p>��O que aconteceu?���inquiriu.���Diga, Min!���Leane agarrou o punho da faca de cintura e olhou em volta, como se esperasse um ataque.</p><p>��Luta���respondeu Min, relutante. Esperava que as mulheres estivessem fora dos muros da Torre, at� mesmo da cidade, antes de ficarem sabendo. Ela foi contornando as manchas e seguiu empurrando as duas, que tentavam olhar para tr�s.���Come�ou ontem, logo depois que voc�s foram levadas, e s� acabou umas duas horas atr�s. E n�o totalmente.</p><p>��Est� falando dos Gaidin?���perguntou Leane, espantada.���Guardi�es lutando <emphasis>entre si</emphasis>?</p><p>��Guardi�es, guardas, todo mundo. Come�ou quando uns homens chegaram alegando ser pedreiros, uns duzentos ou trezentos, e tentaram tomar a Torre inteira depois que a pris�o de voc�s foi anunciada.</p><p>Siuan franziu o cenho.</p><p>��Danelle! Eu devia ter percebido que havia mais coisa nela do que falta de aten��o.���A mulher contorceu ainda mais o rosto, e Min pensou que ela fosse come�ar a chorar.���Artur Asa-de-gavi�o n�o conseguiu, mas n�s mesmas fizemos.���� beira das l�grimas ou n�o, ela manteve a voz firme.���Que a Luz nos ajude, n�s destru�mos a Torre.���Seu longo suspiro pareceu esvazi�-la de ar, e de raiva.���Acho���prosseguiu, triste, depois de um instante���que devo ficar contente pelo apoio recebido por algumas da Torre, mas estou quase desejando que n�o tivessem feito isso.���Min tentou manter o rosto inexpressivo, mas aqueles olhos azuis penetrantes pareciam interpretar at� a mais sutil batida de c�lios.���Ou ser� que est�o me apoiando mesmo, Min?</p><p>��Algumas est�o.���Ela n�o tinha qualquer inten��o de revelar qu�o poucas eram, pelo menos por enquanto. Mas precisava impedir Siuan de crer que ainda tinha partid�rias na Torre.���Elaida n�o quis esperar para descobrir se a Ajah Azul ficaria ou n�o a seu favor. N�o restou nenhuma irm� Azul na Torre, pelo menos n�o viva, isso eu sei.</p><p>��Sheriam?���perguntou Leane, ansiosa.���Anaiya?</p><p>��Eu n�o sei. Tamb�m n�o sobraram muitas Verdes. Pelo menos n�o na Torre. As outras Ajahs se dividiram, cada uma foi para um canto. A maioria das Vermelhas ainda est� por aqui. At� onde sei, todas que se opuseram a Elaida fugiram ou est�o mortas. Siuan����Parecia estranho cham�-la assim. Leane resmungou, irritada, entre dentes� mas cham�-la de M�e agora seria apenas zombaria.���Siuan, a senhora e Leane est�o sendo acusadas de organizar a fuga de Mazrim Taim. Logain escapou durante a luta, e a senhora tamb�m est� levando a culpa por isso. Ningu�m est� chamando a senhora de Amiga das Trevas, pois acho que isso seria muito pr�ximo da Ajah Negra, mas n�o est� muito longe disso. Mas acho que � isso o que o povo todo vai imaginar.</p><p>��N�o v�o nem sequer admitir a verdade���disse Siuan, baixinho���que pretendem fazer exatamente as coisas das quais est�o me acusando.</p><p>��Amigos das Trevas?���murmurou Leane, assombrada.���Elas chamaram a gente de�?</p><p>��E por que n�o chamariam?���retrucou Siuan, em um sussurro.���Por que n�o ousariam, se j� ousaram tanto?</p><p>Elas curvaram os ombros enfiados nos mantos e deixaram que Min as conduzisse para onde fosse. Ela s� queria que as duas n�o estivessem t�o sem esperan�as.</p><p>Enquanto as tr�s se aproximavam de uma sa�da, Min come�ou a respirar com mais facilidade. Tinha escondido cavalos em um matagal pr�ximo aos muros, n�o muito longe de um dos port�es ocidentais. Ainda n�o sabia se seria f�cil escapar cavalgando, mas quando chegassem aos cavalos ela sentiria algo muito pr�ximo de liberdade. Sem d�vida os guardas dos port�es n�o impediriam tr�s mulheres de sair. Ela n�o parava de dizer isso a si mesma.</p><p>A porta que procurava surgiu adiante���pequena, de t�buas lisas, que conduzia a um caminho pouco utilizado, no extremo oposto do ponto em que aquela sala onde estavam cruzava com o amplo corredor que levava � Torre���e ela viu de relance o rosto de Elaida, deslizando pelo corredor externo em dire��o a ela.</p><p>Os joelhos de Min desabaram no piso de azulejos com um baque, e ela se encolheu, olhando para o ch�o, o rosto encoberto pelo capuz, o cora��o martelando em seu peito. <emphasis>Uma requerente, � s� isso que eu sou. S� uma mulher comum, sem nenhuma liga��o com o que aconteceu. Ah, Luz, por favor!</emphasis> Ela ergueu a cabe�a apenas o bastante para espiar por uma brecha do capuz, meio na expectativa de ver Elaida a encar�-la com uma satisfa��o maligna.</p><p>A mulher passou com o passo leve, sem nem olhar na dire��o de Min, com a estola larga e listrada do Trono de Amyrlin em torno dos ombros. Alviarin seguia atr�s, usando a estola da Curadora das Cr�nicas, branca, para caracterizar sua Ajah. Uma dezena ou mais de Aes Sedai passou bem na cola de Alviarin, a maioria Vermelha, embora Min tivesse visto dois xales de franjas amarelas, um de verdes e outro de marrons. Seis Guardi�es flanqueavam a prociss�o, com as m�os nos punhos das espadas e os olhos alertas. Olhos que passaram de relance pelas tr�s mulheres ajoelhadas e as descartaram.</p><p>As tr�s estavam de joelhos, Min notou isso, e tamb�m notou que praticamente esperava que Siuan e Leane partissem para cima de Elaida. Ambas ergueram a cabe�a apenas o bastante para ver a prociss�o seguir pelo corredor.</p><p>��Pouqu�ssimas mulheres foram estancadas���disse Siuan, como se para si mesma���e nenhuma sobreviveu por muito tempo, mas dizem que uma das formas de sobreviver � encontrar um desejo t�o forte quanto o de canalizar.���J� n�o se via aquela express�o perdida em seus olhos.���No in�cio, achei que queria estripar Elaida e pendur�-la no sol para secar. Agora sei que n�o quero absolutamente nada al�m de um dia poder dizer �quela sanguessuga que ela vai viver uma longa vida servindo como exemplo do que acontece com quem me chama de Amiga das Trevas. Absolutamente nada al�m!</p><p>��E Alviarin���completou Leane com a voz dura.���E Alviarin!</p><p>��Eu tive medo de que elas me sentissem���prosseguiu Siuan���mas agora n�o tenho nada que elas possam sentir. Uma vantagem em ter sido� estancada, ao que parece.���Leane balan�ou a cabe�a, irritada, e Siuan acrescentou:���Precisamos usar todas as vantagens poss�veis. E ser gratas por elas.���A �ltima frase soou como se a mulher estivesse tentando convencer a si mesma.</p><p>O �ltimo Guardi�o desapareceu na curva ao longe, e Min engoliu o n� que se formou na garganta.</p><p>��Podemos falar sobre as vantagens depois���afirmou, com um grasnido, e parou para engolir mais uma vez.���Vamos at� os cavalos. Isso <emphasis>s� pode</emphasis> ter sido a pior parte.</p><p>De fato, enquanto sa�am da Torre em dire��o ao sol do meio-dia, parecia que o pior havia mesmo passado. Uma coluna de fuma�a que ia em dire��o ao c�u l�mpido a leste dos muros da Torre era o �nico sinal dos problemas que haviam ficado para tr�s. Grupos de homens se moviam a dist�ncia, mas nenhum prestou muita aten��o �s tr�s mulheres que passavam ligeiras pela biblioteca, constru�da no formato de ondas suspensas congeladas na pedra. Um caminho levava ao lado ocidental dos muros, mais escondido, at� uma floresta de carvalhos e �rvores perenes que poderiam existir � margem de qualquer cidade. Min agilizou os passos ao encontrar os tr�s cavalos selados, ainda amarrados ao local onde Laras os deixara, em uma pequena clareira rodeada por folhas-de-couro e cajeputes.</p><p>Siuan avan�ou imediatamente at� uma �gua forte e peluda, duas m�os menor do que as outras.</p><p>��Uma montaria adequada �s minhas condi��es atuais. E parece mais calma que as outras; nunca fui boa cavaleira.���Ela afagou o nariz da �gua, e o animal fungou na m�o da mulher.���Qual � o nome dela, Min? Voc� sabe?</p><p>��Bela. Ela � de�</p><p>��O cavalo dela.���Gawyn surgiu por detr�s de um cajepute de tronco grosso, com uma das m�os no comprido cabo de sua espada. O rosto estava sujo de sangue, id�ntico � vis�o que Min tivera no primeiro dia em Tar Valon.���Eu sabia que voc� devia estar aprontando alguma, Min, quando vi o cavalo dela.���Seus cabelos louro-avermelhados tamb�m estavam ensanguentados, e os olhos azuis, meio atordoados, mas ele caminhou calmamente em dire��o �s mulheres, um homem alto com o andar gracioso de um gato. Um gato � ca�a de ratos.</p><p>��Gawyn���come�ou Min���n�s�</p><p>A espada do rapaz deslizou da bainha, fazendo esvoa�ar o capuz de Siuan, e a l�mina afiada pousou na lateral da garganta dela, tudo mais depressa do que Min foi capaz de acompanhar. Siuan fez um barulho ao prender a respira��o e permaneceu im�vel, com os olhos voltados para ele, de apar�ncia t�o serena quanto teria se ainda usasse a estola.</p><p>��N�o, Gawyn!���disse Min, em um arquejo.���Voc� n�o pode fazer isso!���Ela deu um passo em dire��o a ele, mas o homem ergueu a m�o livre sem olhar para ela, que parou. Estava r�gido feito uma bobina de a�o, pronto para avan�ar em qualquer dire��o. Min percebeu que Leane havia encoberto uma das m�os com o manto e rezou para que a mulher n�o fosse est�pida a ponto de desembainhar a faca de cintura.</p><p>Gawyn analisou o rosto de Siuan, depois assentiu devagar.</p><p>��� voc�. Eu n�o tinha certeza, mas �. Esse� disfarce� n�o pode����Ele n�o pareceu se mover, mas um s�bito arregalar dos olhos de Siuan revelou que a l�mina fora pressionada com mais for�a.���Onde est�o minha irm� e Egwene? O que voc�s fizeram com elas?���O mais assustador para Min era que, mesmo com a m�scara de sangue e os olhos vidrados, mesmo com o corpo quase tr�mulo de t�o tenso e a m�o meio erguida, como se tivesse se esquecido de baix�-la, Gawyn jamais alterava a voz nem a revestia de qualquer emo��o. Apenas soava cansado; ela nunca vira ningu�m t�o cansado.</p><p>A voz de Siuan soou t�o neutra quanto a dele.</p><p>��Da �ltima vez que eu soube delas, as duas estavam s�s e salvas. N�o posso dizer onde est�o agora. Voc� preferia que estivessem aqui, no meio dessa confus�o?</p><p>��Nada de joguinhos de palavras de Aes Sedai���retrucou ele, baixinho.���Diga onde elas est�o, sem rodeios, para eu saber se voc� est� falando a verdade.</p><p>��Illian���respondeu Siuan, sem hesitar.���Na cidade propriamente dita. Est�o estudando com uma Aes Sedai chamada Mara Tomanes. Ainda devem estar l�.</p><p>��N�o est�o em Tear���murmurou ele. Por um instante pareceu pensativo. De forma abrupta, completou:���Est�o dizendo que voc� � Amiga das Trevas. Ajah Negra, n�o � isso?</p><p>��Se realmente acredita nisso���respondeu Siuan calmamente���� melhor arrancar a minha cabe�a.</p><p>Min quase soltou um berro quando ele apertou as juntas embranquecidas de tanta for�a no cabo da espada. Devagar, estendeu a m�o e pousou os dedos no bra�o teso do rapaz, com cuidado, para n�o dar a entender que pretendia fazer algo al�m de toc�-lo. Foi como encostar em uma pedra.</p><p>��Gawyn, voc� me conhece. N�o pode achar que eu ajudaria a Ajah Negra.���Ele n�o desviou o olhar do rosto de Siuan, sequer piscou.���Gawyn, Elayne apoia Siuan e tudo o que ela fez at� agora. Sua pr�pria irm�, Gawyn.���Ele ainda estava duro feito pedra.���Egwene tamb�m acredita nela, Gawyn.���O pulso do rapaz estremeceu sob os dedos de Min.���Eu juro, Gawyn. Egwene acredita.</p><p>Ele olhou de relance para ela, depois de volta para Siuan.</p><p>��Por que � que eu n�o devo arrastar voc� pelos cabelos? Me d� uma raz�o.</p><p>Siuan o encarou de volta muito mais calma do que Min.</p><p>��Voc� poderia, e creio que eu me defenderia com a for�a de um gatinho. Ontem eu era uma das mulheres mais poderosas do mundo. Talvez a mais poderosa. Reis e rainhas viriam ao meu chamado, mesmo que odiassem a Torre e tudo o que ela simbolizava. Hoje, receio n�o ter nada para comer � noite e vou precisar dormir em uma moita. Em um dia fui reduzida da mulher mais poderosa do mundo a algu�m que espera encontrar uma fazenda onde possa trabalhar em troca de comida. Seja l� o que voc� ache que eu fiz, ser� que isso j� n�o � uma puni��o suficiente?</p><p>��Talvez���disse ele, depois de um instante. Min respirou fundo, aliviada, quando o rapaz embainhou a espada de volta, em um movimento fluido.���Mas n�o � por isso que vou deixar voc� escapar ir. Elaida talvez ainda arranque a sua cabe�a, e n�o posso permitir isso. Quero as suas informa��es � m�o, caso precise.</p><p>��Gawyn���disse Min���venha com a gente.���Um espadachim treinado por um Guardi�o poderia ser �til nos pr�ximos dias.���Assim voc� teria Siuan por perto para responder �s suas perguntas.���Piscando, embora n�o exatamente indignada, Siuan olhou para ela, mas sem desviar por inteiro as aten��es de Gawyn; Min prosseguiu, en�rgica:���Gawyn, Egwene e Elayne acreditam nela. Ser� que voc� n�o pode acreditar tamb�m?</p><p>��N�o pe�a mais do que eu posso dar���respondeu ele, baixinho.���Vou levar os tr�s ao port�o mais pr�ximo. Voc�s nunca conseguiriam sair sem mim. � s� isso que eu posso fazer, Min, e � mais do que eu deveria. A sua pris�o foi ordenada, voc� sabia disso?���Ele voltou a olhar para Siuan.���Se acontecer alguma coisa com elas���prosseguiu o rapaz, naquele tom de voz inexpressivo���Egwene ou com minha irm�, eu vou encontr�-la, seja l� onde estiver se escondendo, e vou garantir que o mesmo lhe aconte�a.���Ele se afastou abruptamente, a passos firmes, e plantou-se a uns doze passos de dist�ncia, de bra�os cruzados e cabe�a baixa, como se n�o suportasse mais encar�-las.</p><p>Siuan levou uma das m�os � garganta; um filete vermelho sobre a pele clara marcava o ponto onde a l�mina pousara.</p><p>��Passei tempo demais com o Poder���disse ela, um tantinho insegura.���Tinha me esquecido de como � enfrentar algu�m capaz de pegar a gente e despeda�ar feito um peda�o de pano.���Ela ent�o encarou Leane, como se a visse pela primeira vez, e tocou o rosto como se n�o tivesse certeza das pr�prias fei��es.���Pelo que li, deveria demorar mais para esvanecer, mas talvez o tratamento intenso de Elaida tenha algo a ver com isso. Ele chamou de disfarce, e talvez seja mesmo essa a fun��o.���Ela montou com dificuldade no lombo de Bela, segurando as r�deas como se a �gua peluda fosse um garanh�o destemido.���Outra vantagem, ao que parece, de ser� eu tenho de aprender a dizer isso sem me contrair� Fui estancada.���Ela proferiu as palavras lenta e deliberadamente, depois assentiu.���Pronto. Se Leane for um bom par�metro, devo ter perdido uns bons quinze anos, talvez mais. Conhe�o mulheres que pagariam qualquer pre�o por isso. Terceira vantagem.���Ela olhou Gawyn. Ele ainda estava parado de costas, mas de todo modo a mulher baixou a voz.���E tamb�m soltei um pouco a l�ngua, n�o � verdade? Fazia anos que eu n�o pensava em Mara. Uma amiga de inf�ncia.</p><p>��A senhora agora vai envelhecer como o resto de n�s?���perguntou Min enquanto montava na sela. Era melhor do que comentar sobre a mentira. Melhor simplesmente lembrar que agora ela <emphasis>conseguia</emphasis> mentir. Leane subiu na terceira �gua com pl�cida habilidade e deu uma volta com ela, testando seus passos; ela com certeza j� montara um cavalo.</p><p>Siuan balan�ou a cabe�a.</p><p>��Eu realmente n�o sei. Nenhuma mulher estancada viveu o suficiente para descobrir. Eu pretendo viver.</p><p>��Voc�s v�m comigo?���perguntou Gawyn, em um tom r�spido.���Ou v�o ficar aqui tagarelando?���Sem esperar a resposta, ele saiu a passos firmes em dire��o �s �rvores.</p><p>Elas cravaram os calcanhares nas �guas e sa�ram atr�s dele, Siuan puxando o capuz bem para a frente para esconder o rosto. Disfar�ada ou n�o, ela parecia n�o estar querendo se arriscar. Leane j� estava completamente coberta. Depois de um instante, Min imitou as duas. Elaida queria a pris�o <emphasis>dela</emphasis>? Isso s� podia significar que ela sabia que �Elmindreda� era Min. Havia quanto tempo que a mulher sabia? Por quanto tempo Min circulara pensando estar disfar�ada enquanto Elaida observava e ria de sua idiotice? O pensamento lhe deu calafrios.</p><p>Quando as mulheres alcan�aram Gawyn, em um caminho de seixos, vinte ou mais homens apareceram, avan�ando na dire��o dos quatro, uns talvez um pouco mais velhos do que ele, outros praticamente garotos. Min suspeitou de que alguns desses �ltimos ainda nem sequer precisavam se barbear, pelo menos n�o com frequ�ncia. Todos portavam espadas nos cintos ou nas costas, no entanto, e tr�s ou quatro usavam placas peitorais. Mais de um exibia ataduras ensanguentadas, e a maioria tinha as roupas manchadas de sangue. Todos tinham o mesmo olhar fixo de Gawyn. Ao avist�-lo, eles pararam e bateram no peito com o bra�o direito. Sem reduzir o passo, Gawyn assentiu, retribuindo a sauda��o, e os jovens formaram uma fila atr�s dos cavalos das mulheres.</p><p>��Os alunos?���murmurou Siuan.���Eles tamb�m tomaram partido na luta?</p><p>Min assentiu, mantendo a express�o impass�vel.</p><p>��Eles est�o se denominando de Jovem Guarda.</p><p>��Nome bem apropriado���observou Siuan, com um suspiro.</p><p>��Alguns n�o passam de crian�as���resmungou Leane.</p><p>Min n�o pretendia contar a elas que os Guardi�es das Ajahs Azul e Verde haviam planejado libert�-las antes que as duas fossem estancadas, nem que talvez tivessem obtido sucesso se Gawyn n�o tivesse incitado os alunos, tamb�m �crian�as�, e os levado at� a Torre para impedir. A luta fora das mais perigosas, alunos contra professores, sem miseric�rdia, sem clem�ncia.</p><p>Os Port�es de Alindrelle, altos e com pinos de bronze, estavam abertos, mas muito bem vigiados. Alguns guardas exibiam a Chama de Tar Valon no peitoral; outros usavam casacos de oper�rio, com placas peitorais e capacetes descombinados. Guardas e sujeitos que tinham vindo disfar�ados de pedreiros. Os dois grupos pareciam duros e habilidosos, bem familiarizados com suas armas, mas permaneciam distantes, encarando uns aos outros com desconfian�a. Um oficial grisalho se destacava dos outros guardas da Torre, de bra�os cruzados, observando a aproxima��o de Gawyn e dos outros.</p><p>��Material para escrita!���disse Gawyn bruscamente.���R�pido!</p><p>��Ora, voc�s devem ser dessa Jovem Guarda de quem eu ouvi falar���comentou o homem grisalho.���Um belo bando de frangotes, mas recebi ordens de n�o deixar ningu�m ultrapassar os muros da Torre. Ordem assinada pelo Trono de Amyrlin em pessoa. Quem voc�s pensam que s�o para desmandar?</p><p>Gawyn ergueu a cabe�a lentamente.</p><p>��Eu sou Gawyn Trakand de Andor���respondeu, baixinho.���E pretendo deixar essas mulheres sa�rem, ou voc� morre.���Os outros da Jovem Guarda avan�aram atr�s dele, espalhando-se para encarar os guardas, com as m�os nas espadas, os olhos sem piscar, talvez sem se preocupar em estar em menor n�mero.</p><p>O sujeito grisalho se remexeu, incomodado, e um dos outros murmurou:</p><p>��� ele que est�o dizendo que matou Hammar e Coulin.</p><p>Depois de um instante, o oficial deu uma guinada com a cabe�a em dire��o ao posto de guarda, e um dos guardas correu para dentro e retornou com uma prancheta e um bast�ozinho vermelho, com cera de lacre queimando, em um suporte de lat�o ao lado. Gawyn deixou o homem segurando a prancheta enquanto rabiscava furiosamente.</p><p>��Isso vai permitir que voc�s passem pelos guardas da ponte���disse, deixando uma po�a de cera vermelha respingada ao lado da assinatura. Pressionou com firmeza no papel o sinete com a assinatura.</p><p>��Voc� matou Coulin?���perguntou Siuan em um tom frio, apropriado ao cargo que costumava ocupar.���E Hammar?</p><p>O cora��o de Min disparou. <emphasis>Fique quieta, Siuan! Lembre-se de quem voc� � agora e fique quieta!</emphasis></p><p>Gawyn deu um giro para encarar as tr�s mulheres, com os olhos azuis em chamas.</p><p>��Matei���disse ele, irritado.���Eles eram meus amigos, e eu os respeitava, mas ficaram do lado� de Siuan Sanche, e eu tive que����Subitamente ele empurrou o papel lacrado nas m�os de Min.���V�o! V�o, antes que eu mude de ideia!���Deu um tapa na �gua de Siuan e foi fazer o mesmo com as outras, enquanto o animal de Min saltava pelos port�es abertos.���Andem!</p><p>Min conduziu a �gua pela enorme esplanada que rodeava os muros da Torre em um trote ligeiro, com Siuan e Leane logo atr�s. A esplanada estava vazia, assim como as ruas adiante. O som dos cascos dos cavalos nas pedras do ch�o produzia um eco seco. Os que j� n�o haviam fugido da cidade permaneciam escondidos.</p><p>Ela analisou o papel de Gawyn enquanto as tr�s cavalgavam. A gota de cera exibia o carimbo de um javali correndo.</p><p>��Aqui diz que temos permiss�o para sair. Podemos usar tanto nas pontes quanto para embarcar em um navio.���Parecia inteligente seguir por um caminho que ningu�m imaginasse, nem mesmo Gawyn. Ela n�o achava que o rapaz de fato fosse mudar de ideia, mas ele estava irritadi�o, prestes a estilha�ar se levasse um golpe indevido.</p><p>��Pode ser uma boa ideia���disse Leane.���Sempre achei que Galad fosse o mais perigoso daqueles dois, mas j� n�o tenho tanta certeza. Hammar e Coulin����Ela sentiu um arrepio.���Um navio nos levaria mais longe, e mais depressa do que esses cavalos.</p><p>Siuan balan�ou a cabe�a.</p><p>��A maioria das Aes Sedai que fugiram cruzaram as pontes, sem d�vida. � a forma mais r�pida de sair da cidade quando se est� sendo perseguido, mais r�pida do que esperar um a tripula��o desatracar um navio. Preciso ficar perto de Tar Valon, se quiser encurral�-las.</p><p>��Ningu�m vai apoiar vocꠗ�disse Leane em um tom monoc�rdio, carregado de significado.���Voc� n�o tem mais direito � estola. Nem mesmo ao xale ou ao anel.</p><p>��Eu posso n�o usar mais a estola���retrucou Siuan, no mesmo tom �, mas ainda sei preparar uma tripula��o para a tempestade. E, j� que n�o posso usar a estola, preciso garantir que seja escolhida a mulher certa para ocupar o meu lugar. N�o vou deixar Elaida se intitular Amyrlin sem fazer nada. Tem de ser algu�m forte com o Poder, algu�m que enxergue as coisas da maneira certa.</p><p>��Ent�o voc� pretende continuar apoiando esse� esse <emphasis>Drag�o</emphasis>!���vociferou Leane.</p><p>��E o que mais voc� acha que eu deveria fazer? Me encolher em um canto e esperar a morte?</p><p>Leane estremeceu como se tivesse acabado de levar um tapa na cara, e as tr�s seguiram em sil�ncio por um tempo. Todas aquelas constru��es magn�ficas ao redor, feito penhascos esculpidos pelo vento, ondas e imensos voos de p�ssaros, avultavam-se, intimidadores, sem ningu�m nas ruas al�m das tr�s e de um sujeito solit�rio que seguia correndo, dobrando as curvas adiante delas, avan�ando de porta em porta como se as escoltasse pelo caminho. Ele n�o atenuava a sensa��o de vazio, apenas a intensificava.</p><p>��O que mais podemos fazer?���questionou Leane, enfim. Ela agora cavalgava curvada sobre a sela, feito um saco de gr�os.���Estou me sentindo t�o� vazia. T�o vazia.</p><p>��Encontre alguma coisa para preencher esse vazio���retrucou Siuan com firmeza.���Qualquer coisa. Cozinhe para os pobres, cuide dos doentes, arrume um marido e encha a casa de crian�as. Quanto a mim, pretendo que Elaida n�o se safe dessa. Eu quase seria capaz de perdo�-la, se ela realmente acreditasse que eu representava algum perigo � Torre. Quase seria. Quase. Mas ela foi tomada pela inveja desde que fui elevada a Amyrlin em seu lugar. � isso o que a motiva, mais do que qualquer coisa, e por isso eu pretendo derrub�-la. � isso que me preenche, Leane. Isso, e saber que Rand al�Thor n�o pode cair nas m�os dela.</p><p>��Talvez isso baste.���A mulher de pele acobreada soou indecisa, mas se aprumou. O contraste entre sua �bvia experi�ncia e a postura inst�vel de Siuan na �gua menor dava a impress�o de que ela era a l�der.���Mas como vamos sequer conseguir come�ar? Temos tr�s cavalos, a roupa do corpo e seja l� o que Min tiver na bolsa. Nem perto do suficiente para desafiar a Torre.</p><p>��Fico feliz que voc� n�o tenha se decidido pelo marido e um lar. Vamos encontrar outras����Siuan fez uma careta.���Vamos encontrar Aes Sedai fugitivas, vamos encontrar o que precisamos. Temos mais do que voc� pensa, Leane. Min, o que diz a� no passe que Gawyn nos concedeu? Menciona tr�s mulheres? O que diz? Depressa, garota.</p><p>Min cravou o olhar nas costas dela. Siuan estivera espiando o homem que corria adiante, o sujeito de cabelo escuro, bem-vestido, mas todo em tons s�brios de marrom. A mulher soava como se ainda fosse Amyrlin. <emphasis>Bom, eu queria que ela encontrasse sua determina��o, n�o queria?</emphasis></p><p>Siuan virou-se para encar�-la com aqueles olhos azuis penetrantes. Por algum motivo, eles n�o pareciam menos intimidadores do que antes.</p><p>���As portadoras t�m autoriza��o para sair de Tar Valon, sob minha autoridade����disse Min rapidamente, puxando pela mem�ria.����Quem as impedir responder� a mim.� Assinado�</p><p>��O nome dele eu sei���retrucou Siuan bruscamente.���Venham comigo.���Ela cravou os calcanhares nos flancos de Bela, quase desabando quando a �gua peluda come�ou a avan�ar em um galope lento. No entanto, a mulher permaneceu firme, sacudindo-se desajeitadamente e batendo os calcanhares pedindo mais velocidade.</p><p>Min trocou um olhar surpreso com Leane, e ambas seguiram galopando atr�s dela. O homem olhou para tr�s ao ouvir o som dos cascos correndo e come�ou a correr tamb�m, mas Siuan e Bela o ultrapassaram. Com um grunhido, ele desviou da �gua. Min alcan�ou as duas bem a tempo de ouvir Siuan dizer:</p><p>��N�o pensava encontrar voc� aqui, Logain.</p><p>O queixo de Min desabou. <emphasis>Era</emphasis> ele. Aqueles olhos desesperadores e aquele rosto que um dia fora bonito, emoldurado pelos cachos escuros que iam at� os ombros, eram inconfund�veis. Exatamente quem elas precisavam encontrar. Um homem que a Torre queria tanto quanto queria Siuan.</p><p>Logain desabou de joelhos, como se suas pernas cansadas n�o fossem mais capazes de sustent�-lo.</p><p>��Eu n�o posso mais fazer mal a ningu�m���disse o homem, em um tom cansado, encarando as pedras do ch�o sob os cascos de Bela.���S� queria fugir, morrer em paz em algum canto. Se voc�s soubessem o que � perder����Leane puxou as r�deas, irritada, enquanto a voz dele foi morrendo. Sem aviso, o homem recome�ou a falar:���As pontes est�o todas vigiadas. N�o v�o deixar ningu�m passar. N�o me conheciam, mas n�o me deixaram passar. Eu tentei com todos eles.���Subitamente ele riu, cansado, mas como se de fato achasse gra�a.���Tentei com todos.</p><p>��Eu acho���disse Min, com cuidado���que temos que ir. Ele provavelmente vai querer evitar os <emphasis>que devem estar atr�s ele</emphasis>.���Siuan disparou um olhar que quase a fez frear o cavalo, os olhos frios e o queixo erguido. Seria mais agrad�vel se a mulher tivesse conservado um pouco da incerteza que exibira antes.</p><p>O grandalh�o ergueu a cabe�a e encarou uma de cada vez, com uma carranca se formando lentamente.</p><p>��Voc�s n�o s�o Aes Sedai. Quem s�o voc�s? O que querem de mim?</p><p>��Sou a mulher que pode tirar voc� de Tar Valon���respondeu Siuan.���E talvez lhe dar a chance de se vingar da Ajah Vermelha. Voc� gostaria de ter a chance de pegar as mulheres que o capturaram, n�o gostaria?</p><p>O homem se arrepiou.</p><p>��O que � que eu devo fazer?���perguntou, devagar.</p><p>��Venha comigo���respondeu ela.���Venha comigo, e lembre que sou a �nica pessoa no mundo inteiro que vai lhe dar a chance de se vingar.</p><p>De joelhos, o homem inclinou a cabe�a para analis�-las, examinando cada um dos rostos, depois se levantou, com os olhos fixos em Siuan.</p><p>��Vou com voc�s���disse, simplesmente.</p><p>O rosto de Leane estava t�o incr�dulo quanto Min se sentia. Que uso, pela Luz, Siuan poderia ter para um homem de sanidade question�vel que j� havia falsamente se proclamado o Drag�o Renascido? O sujeito, no m�nimo, seria capaz de se voltar contra elas para roubar um dos cavalos! Encarando a altura dele e a largura de seus ombros, Min achou que seria melhor manter as facas de cintura � m�o. De s�bito, por um instante, aquele halo flamejante dourado e azul cintilou sobre a cabe�a do homem, indicando gl�rias futuras, t�o certamente quanto na primeira vez que Min o vira. Ela estremeceu. Vis�es. Imagens.</p><p>Ela olhou para tr�s, na dire��o da Torre, a coluna robusta e branca que dominava a cidade, por�m destru�da, t�o destru�da quanto se estivesse em ru�nas. Por um instante ela se deixou pensar nas imagens que vislumbrara, apenas por um instante, tremeluzindo sobre a cabe�a de Gawyn. Gawyn ajoelhado aos p�s de Egwene de cabe�a baixa, em uma mesura, e Gawyn quebrando o pesco�o de Egwene; primeiro uma, depois a outra, como se qualquer das duas pudesse representar o futuro.</p><p>As coisas que ela via raramente tinham um significado t�o claro quanto essas duas, e ela jamais tivera vis�es que vinham e voltavam, de modo que nem mesmo a vis�o fosse capaz de afirmar qual seria o futuro verdadeiro. E pior, ela tinha uma sensa��o quase concreta de que suas a��es daquele dia voltaram Gawyn na dire��o daqueles dois caminhos.</p><p>Apesar do sol, ela estremeceu outra vez. <emphasis>O que est� feito est� feito.</emphasis> Olhou as duas Aes Sedai���ex-Aes Sedai. Ambas observavam Logain como se ele fosse um c�o de ca�a treinado, feroz, possivelmente perigoso, mas �til. Siuan e Leane viraram os cavalos na dire��o do rio, e Logain seguiu avan�ando a passos largos no meio das duas. Min acompanhava os tr�s, mais lentamente. <emphasis>Luz, espero que isso tenha valido a pena.</emphasis></p></section><section><title><p>48</p><p><image l:href="#13"/></p><p>Uma oferta recusada</p></title><p>��� desse tipo de mulher que voc� gosta?���perguntou Aviendha, com desd�m. Rand baixou a cabe�a e encarou a mulher, que caminhava junto ao estribo de Jeade�en vestida nas saias pesadas, com o xale marrom enrolado na cabe�a. Os olhos azul-esverdeados o encararam por baixo do turbante largo. Ela parecia desejar ainda ter em m�os a lan�a que usara durante o ataque dos Trollocs, que a fizera ouvir um serm�o das S�bias.</p><p>�s vezes, Rand se sentia desconfort�vel por t�-la caminhando ao seu lado enquanto cavalgava. At� tentara caminhar ao lado dela, e seus p�s ficaram muito gratos ao voltar para o cavalo. De vez em quando���<emphasis>muito</emphasis> de vez em quando���conseguia convenc�-la a montar atr�s dele, reclamando que estava com o pesco�o doendo de tanto conversar olhando para baixo. Montar em um cavalo n�o era exatamente uma viola��o dos costumes, afinal de contas, mas o desprezo por aqueles que n�o usavam as pr�prias pernas fazia a jovem seguir a p� na maior parte do tempo. Uma risada de qualquer companheiro Aiel, sobretudo de uma Donzela, mesmo que a pessoa estivesse olhando para o outro lado, era suficiente para ela descer de Jeade�en em um piscar de olhos.</p><p>��Ela � mole, Rand al�Thor. Fraca.</p><p>Rand olhou outra vez por cima do ombro, examinando o carro��o branco em formato de caixa que liderava o comboio dos mascates, uma cobra sinuosa avan�ando pela paisagem destru�da e empoeirada, outra vez escoltada pelas Donzelas dos Jindo. Isendre seguia na frente, com Kadere e o condutor, sentada no colo do mascate atarracado, o queixo batendo no ombro do homem, que segurava um pequeno guarda-sol de seda azul para proteg�-la���e a si mesmo���do sol forte. Mesmo de casaco branco, Kadere n�o parava de secar o suor do rosto com um len�o grande, mais afetado pelo sol do que a mulher de vestido lustroso e justo, que combinava com o guarda-sol. Rand n�o estava perto o suficiente para ter certeza, mas achou que os olhos escuros de Isendre o observavam por baixo do len�o enrolado cobrindo seu rosto e cabe�a. Ela sempre parecia estar olhando para ele. Kadere n�o parecia se importar.</p><p>��N�o acho que Isendre seja mole���respondeu, baixinho, ajeitando a <emphasis>shoufa.</emphasis> O tecido de fato protegia a cabe�a do sol escaldante. Ele resistira a usar outros trajes da indument�ria Aiel, ainda que fossem muito mais apropriados ao clima do que o casaco de l� vermelha. N�o importava seu sangue e nem as marcas em seus antebra�os, ele n�o era Aiel, nem fingiria ser. Fosse o que tivesse de fazer, poderia manter esse m�nimo de dec�ncia.���N�o, eu n�o diria isso.</p><p>No assento do condutor do segundo carro��o, Keille, a mulher gorda, e Natael, o menestrel, discutiam mais uma vez. Natael segurava as r�deas, mas n�o conduzia t�o bem quanto o homem que costumava assumir a fun��o. �s vezes os dois tamb�m encaravam Rand com olhadelas r�pidas, antes de retomar o debate. Bem, todo mundo encarava Rand. A longa fileira dos Jindo, do outro lado, as S�bias, mais adiante, com Moiraine, Egwene e Lan. Na fileira mais numerosa de Shaido, mais ao longe, ele achava que tamb�m via cabe�as voltadas em sua dire��o. Aquilo n�o o surpreendia mais, j� estava acostumado. Ele era Aquele Que Vem Com a Aurora. Todos queriam saber o que iria fazer. Em breve descobririam.</p><p>��Mole���grunhiu Aviendha.���Elayne n�o � mole. Voc� pertence a Elayne, n�o devia estar trocando olhares melosos com aquela meretriz branquela.���A jovem balan�ou a cabe�a com vigor, resmungando, meio que para si mesma.���Nossos modos a deixam chocada. Ela n�o consegue aceitar. Por que eu deveria me importar com isso? N�o quero ter nada a ver com isso! <emphasis>N�o pode</emphasis> acontecer! Se eu pudesse, tomaria voc� como <emphasis>gai�shain</emphasis> e entregaria para Elayne!</p><p>��Por que Isendre deveria aceitar o jeito de ser dos Aiel?</p><p>Aviendha disparou um olhar t�o arregalado e surpreso que ele quase soltou uma risada. Na mesma hora, a jovem fechou a cara, como se ele tivesse feito algo irritante. As mulheres Aiel sem d�vida n�o eram mais f�ceis de entender do que as outras.</p><p>��J� voc� n�o � nada mole, Aviendha����Ela deveria tomar aquilo como um elogio: �s vezes, era dura feito uma pedra de amolar.���Me explique outra vez essa hist�ria de senhora do teto. Se Rhuarc � o chefe do cl� dos Taardad e o chefe do Forte das Pedras Frias, por que o forte pertence � esposa, e n�o a ele?</p><p>A jovem aprendiz de S�bia o encarou furiosa por mais um instante, mexendo os l�bios enquanto resmungava entre dentes, antes de responder.</p><p>��Porque ela � a <emphasis>senhora do teto</emphasis>, seu aguacento ignorante. Um homem n�o pode ser dono de um teto, assim como n�o pode ser dono de terras! Voc�s, aguacentos, �s vezes parecem uns selvagens.</p><p>��Mas se Lian � a senhora do teto das Pedras Frias porque � esposa de Rhuarc�</p><p>��Isso � diferente! Ser� que voc� nunca vai entender? At� uma crian�a entende!</p><p>Aviendha respirou fundo e arrumou o xale ao redor do rosto. Era uma bela mulher, mas quase sempre o encarava como se ele tivesse cometido algum crime contra ela. Que crime poderia ser esse, Rand n�o sabia. Bair, de cabelos brancos e rosto curtido, sempre t�o relutante em falar sobre Rhuidean, enfim revelara, de m� vontade, que Aviendha <emphasis>n�o</emphasis> visitara as colunas de vidro, nem visitaria at� estar pronta para se tornar S�bia. Ent�o por que a jovem o odiava? Era um mist�rio para o qual Rand gostaria de ter uma resposta.</p><p>��Vou abordar sua d�vida por outro �ngulo���resmungou ela.���Quando uma mulher est� para se casar, se ela ainda n�o for dona de um teto, a fam�lia constr�i um para ela. No dia do casamento, o marido a leva nos ombros para longe da fam�lia enquanto seus irm�os seguram as irm�s da noiva. Mas, quando chega na porta, coloca ela no ch�o e pede permiss�o para entrar. O teto � <emphasis>dela</emphasis>. Ela pode�</p><p>As aulas sobre os Aiel estavam sendo a parte mais prazerosa da intera��o dos dois durante os onze dias e onze noites desde o ataque dos Trollocs. N�o que Aviendha quisesse falar: a princ�pio, s� fazia longos discursos criticando o suposto descaso dele em rela��o a Elayne, seguido de mais um serm�o embara�oso para convenc�-lo de que a Filha-herdeira era a mulher perfeita. At� que Rand comentou por alto com Egwene que, j� que Aviendha nem se dignava a falar com ele, seria melhor que parasse de encar�-lo. Uma hora depois, uma <emphasis>gai�shain</emphasis> de veste branca veio chamar a jovem Aiel.</p><p>Fosse l� o que as S�bias tivessem dito a ela, Aviendha retornara tr�mula de raiva, exigindo���exigindo!���que ele permitisse que ela ensinasse a ele os h�bitos e costumes Aiel. Sem d�vida na esperan�a de que ele revelasse algo acerca dos pr�prios planos com as perguntas que fizesse. Depois das trai��es sutis de Tear, a franqueza da espionagem das S�bias era revigorante. Por outro lado, sem d�vida era sensato aprender o que pudesse. E conversar com Aviendha era agrad�vel, sobretudo nas ocasi�es em que a mulher parecia esquecer o desprezo que sentia por ele, fosse l� por que motivo. Mas, naturalmente, toda vez que Aviendha percebia que os dois tinham come�ado a conversar feito duas pessoas normais, em vez de ca�a e ca�ador, n�o tardava em ter um acesso de f�ria, como se ele a tivesse atra�do para uma armadilha.</p><p>Mesmo assim as conversas eram agrad�veis, ainda mais quando comparadas ao restante da viagem. Rand estava at� come�ando a achar os chiliques dela divertidos, embora tivesse o bom senso de n�o deixar que a mulher percebesse. Aviendha o odiava, mas pelo menos estava muito concentrada em odi�-lo para ver que ele era Aquele Que Vem Com a Aurora ou o Drag�o Renascido. Notava apenas Rand al�Thor. Fosse como fosse, a mulher sabia o que sentia por ele. N�o era como Elayne, com uma carta que o deixara corado at� as orelhas e outra, no mesmo dia, que o fizera conferir se n�o tinha se transformado em um Trolloc com presas e chifres.</p><p>Min era praticamente a �nica mulher que conhecera que n�o confundira completamente seu ju�zo. No entanto, ela estava na Torre���a salvo, pelo menos���um lugar que ele pretendia evitar. �s vezes, Rand pensava que a vida seria mais simples se conseguisse esquecer de vez as mulheres. Agora Aviendha come�ara a invadir seus sonhos, como se sonhar com Min e Elayne j� n�o estivesse de bom tamanho. As mulheres embaralhavam suas emo��es, e ele agora precisava ficar l�cido. L�cido e frio.</p><p>Rand percebeu que encarava Isendre outra vez. A mulher apontou os dedos magros e serpenteantes para ele, por detr�s da orelha de Kadere. Rand teve certeza de ver aqueles l�bios carnudos se contorcendo em um sorriso. <emphasis>Ah, sim. Perigosa. Tenho que ser frio e duro feito a�o. A�o cortante.</emphasis></p><p>Onze dias e noites, indo para o d�cimo-segundo, e nada mais se alterara. Dias e noites de estranhas forma��es rochosas, pin�culos de pedra com topos achatados e montes que se erguiam de uma terra d�bil e falha, entrecortada por montanhas que pareciam ter sido cravadas ao acaso. Dias de sol escaldante e ventos impiedosos, noites de um frio de gelar os ossos. Tudo o que crescia tinha pontas, espinhos ou irritava a pele. Aviendha dizia que algumas plantas eram venenosas, e a lista era maior que a das comest�veis. S� havia �gua em nascentes e tanques escondidos, mas a jovem Aiel apontara algumas plantas como ind�cio de que um buraco fundo cavado ali se preencheria de gotinhas, bem lentamente, o suficiente para a sobreviv�ncia de um ou dois homens, al�m de outras plantas que, quando mascadas, soltavam uma polpa aguada e azeda.</p><p>Certa noite, dois cavalos de carga dos Shaido foram mortos por le�es, que logo foram afastados das presas e botados para correr rugindo pela escurid�o da terra entrecortada. Na quarta noite, o condutor de um carro��o ati�ou uma pequena cobra marrom enquanto o grupo montava acampamento. Era uma dois-passos, como Aviendha explicou depois, alcunha que foi devidamente comprovada. O sujeito gritou e tentou correr at� os carro��es, mesmo vendo Moiraine avan�ando em sua dire��o. No segundo passo, o homem caiu de cara no ch�o, morto, antes mesmo que a Aes Sedai conseguisse descer da �gua branca. Aviendha listava cobras, aranhas e lagartos venenosos. Lagartos venenosos! Certa vez, encontrou um e mostrou a ele. O bicho tinha dois p�s de comprimento e era robusto, com listras amarelas correndo pelas escamas marrons. Ela prendeu o animal com displic�ncia sob uma das botas macias, cravou a faca na cabe�a larga do lagarto e o levantou, para que Rand visse o fluido transparente e oleoso que jorrava dos dentes afiados em sua boca protuberante. A mordida de um <emphasis>gara</emphasis>, explicou a mulher, era capaz de perfurar uma bota e matar um boi. Havia bichos piores, sem d�vida. O <emphasis>gara</emphasis> era lento, e n�o t�o perigoso assim, se a pessoa n�o fosse idiota o bastante para pisar nele.</p><p>Quando ela sacudiu o imenso lagarto para fora da l�mina, o animal amarelo e marrom sumiu no ch�o de lama rachada. Ah, sim. Era s� n�o ser idiota o bastante para pisar em um.</p><p>Moiraine dividia o tempo entre as S�bias e Rand, em geral tentando intimid�-lo, do jeito costumeiro das Aes Sedai, para que revelasse seus planos.</p><p>��H� de ser o que a Roda tecer���dissera a Azul, ainda naquela manh�, com a voz fria e calma, o rosto et�reo e sereno, mas os olhos escuros estavam incandescentes ao encar�-lo por sobre a cabe�a de Aviendha���mas um bobo pode estrangular a si mesmo no Padr�o. Cuidado para n�o tecer uma corda no pr�prio pesco�o.</p><p>A Aes Sedai adquirira um manto claro, quase branco como os dos <emphasis>gai�shain.</emphasis> O tecido reluzia sob o sol, e, por baixo do largo capuz, Moiraine usava um len�o �mido, branco feito neve, amarrado na testa.</p><p>��N�o vou enrolar nada no pesco�o.���Ele deu uma risada, e a mulher virou Aldieb t�o depressa que a �gua quase derrubou Aviendha, depois seguiu de volta para o grupo das S�bias, o manto drapejando atr�s de si.</p><p>��� muita burrice irritar uma Aes Sedai���resmungou a Aiel, esfregando o pr�prio ombro.���Eu n�o sabia que voc� era burro.</p><p>��Vamos esperar para ver se eu sou burro ou n�o���respondeu Rand, j� sem vontade de rir. Burro? Era necess�rio correr certos riscos.���Vamos esperar para ver.</p><p>Era raro Egwene sair de perto das S�bias. A jovem caminhava com elas com a mesma frequ�ncia com que cavalgava Bruma, �s vezes levando uma das mulheres na garupa, por um tempo. Rand enfim descobrira que ela estava se passando por Aes Sedai completa outra vez. Amys, Bair, Seana e Melaine pareciam aceitar sem contestar, assim como os tairenos, mas de um jeito totalmente diferente. �s vezes, uma das S�bias discutia com ela em um tom de voz t�o alto que Rand quase compreendia o conte�do da gritaria que se passava a mais de cem passadas de dist�ncia. Eram quase os mesmos modos que usavam com Aviendha, embora com a Aiel fosse mais um processo de intimida��o do que uma discuss�o de fato. Por outro lado, volta e meia dava para ouvir debates bem acalorados entre as S�bias e Moiraine. Especialmente envolvendo a loura, Melaine.</p><p>Na d�cima manh�, Egwene enfim desmanchou as duas tran�as dos cabelos. Foi uma cena muito esquisita. As S�bias conversaram com ela por um tempo enorme, sozinhas, enquanto os <emphasis>gai�shain</emphasis> dobravam as tendas e Rand selava Jeade�en. Se n�o conhecesse bem a amiga, teria pensado que aquela postura de cabe�a baixa era uma tentativa de submiss�o, mas essa palavra s� valia para Egwene se relacionada a Nynaeve. E talvez Moiraine. De s�bito, a amiga bateu palmas, rindo e abra�ando cada uma das S�bias antes de correr para desfazer as tran�as.</p><p>Quando Rand perguntou a Aviendha o que estava acontecendo���a jovem estava sentada do lado de fora da tenda quando ele acordou���a Aiel resmungou, em um tom azedo:</p><p>��Elas decidiram que Egwene cresceu.���Ela parou de falar de repente, disparou um olhar firme para Rand, cruzou os bra�os e prosseguiu:���� assunto de S�bias, Rand al�Thor. Pergunte a elas, se quiser saber, mas prepare-se para ouvir que n�o � da sua conta.</p><p>Egwene crescera o qu�? Os cabelos? N�o fazia sentido. Aviendha n�o disse mais uma palavra sobre o assunto. Em vez disso, raspou um peda�o de l�quen cinza de uma pedra e come�ou a explicar como us�-lo para cataplasma. Ela estava pegando o jeito das S�bias muito depressa para o gosto de Rand. As pr�prias S�bias davam pouca aten��o a ele. Claro que n�o era preciso muita dedica��o, com Aviendha praticamente empoleirada no ombro dele.</p><p>O restante dos Aiel, pelo menos os Jindo, tornavam-se um pouco menos reservados a cada dia, talvez um pouco menos incomodados com o que Aquele Que Vem Com a Aurora representava, mas Aviendha era a �nica que de fato falava com ele. Todas as noites, Lan vinha praticar a espada, e Rhuarc, ensinar a lan�a e o estranho jeito Aiel de lutar com as duas m�os e os dois p�s. O Guardi�o sabia um pouco da luta, ent�o juntava-se �s sess�es de treinamento. A maioria dos outros evitava Rand, sobretudo os condutores dos carro��es, que tinham descoberto que ele era o Drag�o Renascido, um homem capaz de canalizar. Quando Rand pegava um daqueles homens de fei��es duras com os olhos cravados nele, parecia que o sujeito estava encarando o pr�prio Tenebroso. Mas Kadere n�o fazia isso, e nem o menestrel.</p><p>Quase todas as manh�s, quando sa�am, o mascate se aproximava montado em uma das mulas dos carro��es incendiados pelos Trollocs, o rosto parecendo ainda mais escuro por causa do len�o branco comprido amarrado na cabe�a, caindo pelo pesco�o. Com Rand, o homem era muito educado, mas seus olhos frios e impass�veis conferiam ao nariz adunco o aspecto de um verdadeiro bico de �guia.</p><p>��Lorde Drag�o���come�ara ele, na manh� seguinte ao ataque. Ent�o limpara o suor do rosto com o sempre presente lencinho e se remexera, incomodado, sobre a sela surrada que encontrara em algum lugar e pusera na mula.���Posso chamar o senhor assim?</p><p>Os destro�os chamuscados dos tr�s carro��es j� despareciam � dist�ncia, ao sul. Com eles, iam sumindo as sepulturas de dois homens de Kadere e um bom n�mero de Aiel. Os Trollocs haviam sido arrastados para fora dos acampamentos e largados para os carniceiros, criaturas orelhudas e esgani�adas que Rand n�o sabia se eram raposas grandes ou c�es pequenos���pareciam um pouco de cada���e os abutres com asas com pontas vermelhas. Alguns ainda circundavam o c�u, parecendo receosos de aterrissar no meio da confus�o.</p><p>��Me chame do que quiser���respondera Rand.</p><p>��Lorde Drag�o. Andei pensando no que o senhor disse ontem.���Kadere olhara em volta como se temesse ser ouvido, ainda que Aviendha estivesse com as S�bias, e os pares de orelha mais pr�ximos fossem do comboio de carro��es, a cinquenta passadas ou mais de dist�ncia. Mesmo assim, o homem baixara o tom de voz quase a um sussurro, limpando o rosto com nervosismo. Seus olhos, no entanto, n�o se alteraram.���O que o senhor disse sobre o conhecimento ser valioso e pavimentar a estrada para o sucesso. � verdade.</p><p>Rand encarara o homem por um longo instante, sem piscar, mantendo o rosto inexpressivo.</p><p>��Foi voc� quem disse isso, n�o eu���respondera, por fim.</p><p>��Bom, talvez tenha sido. Mas � verdade, n�o � mesmo, Lorde Drag�o?���Rand assentira, e o mascate continuara, ainda sussurrando, os olhos atentos aos bisbilhoteiros.���Mas pode haver perigo no conhecimento. Em dar mais do que receber. Um homem que vende conhecimento n�o precisa apenas ter seu pre�o, mas tamb�m alguma salvaguarda. Garantias e seguran�as contra� repercuss�es. O senhor n�o concorda?</p><p>��Tem algum conhecimento que queira� vender, Kadere?</p><p>O homem atarracado franzira o cenho para o pr�prio comboio. Keille descera para caminhar um pouco, apesar do calor crescente. O corpanzil estava coberto de branco, e um xale de renda branca fora preso nos cabelos grossos e escuros por pentes de marfim. Ela volta e meia dava uma olhadela para os dois homens cavalgando juntos, a express�o indecifr�vel �quela dist�ncia. Ainda era estranho ver uma pessoa t�o corpulenta com movimentos t�o �geis. Isendre subira no banco do condutor do primeiro carro��o e observava os dois de forma menos discreta, esticando o corpo para se segurar no canto do carro��o branco, que balan�ava e sacolejava.</p><p>��Essa mulher ainda vai acabar me matando���resmungara Kadere.���Talvez possamos conversar de novo mais tarde, Lorde Drag�o, se o senhor estiver disposto.���Ele cravou os calcanhares das botas com for�a na mula, seguiu trotando at� o primeiro carro��o e subiu no assento do condutor com agilidade surpreendente, amarrando as r�deas da mula a um aro de ferro na lateral do grande caixote que era o carro��o. Ele e Isendre desapareceram no interior do ve�culo e n�o sa�ram at� a parada da noite.</p><p>Ele retornou no dia seguinte, e em outros dias em que viu Rand sozinho, sempre deixando entrever o tal conhecimento que poderia vender a um pre�o apropriado, se tivesse as salvaguardas apropriadas. Uma das vezes, chegou ao ponto de dizer que qualquer coisa���assassinato, trai��o, qualquer coisa mesmo���poderia ser perdoada em troca de conhecimento, e pareceu bastante nervoso quando Rand discordou da afirma��o. Fosse l� o que o homem desejasse vender, ele parecia querer que Rand o protegesse das consequ�ncias de quaisquer crimes que j� tivesse cometido na vida.</p><p>��Eu n�o sei se quero comprar conhecimento���respondera Rand, mais de uma vez.���Sempre tem a quest�o do pre�o, n�o �? Tem alguns pre�os que eu talvez n�o esteja disposto a pagar.</p><p>Natael chamou Rand para um canto naquela primeira noite, depois que as fogueiras foram acesas e o aroma de comida come�ou a pairar por sobre as tendas baixas. O menestrel parecia quase t�o nervoso quando Kadere.</p><p>��Pensei bastante a seu respeito���disse ele, olhando para Rand de esguelha, a cabe�a inclinada para o lado.���Sua hist�ria deveria ser contada em uma grande epopeia. O Drag�o Renascido. Aquele Que Vem Com a Aurora. Um homem de sabe-se l� quantas profecias, nesta Era e em outras.���O menestrel envolveu o corpo com o manto, os retalhos coloridos esvoa�ando com a brisa. O crep�sculo era breve, no Deserto. A noite e o dia surgiam ligeiros e bem pr�ximos.���Como se sente em rela��o ao seu destino profetizado? Eu preciso saber, se vier a compor esta epopeia.</p><p>��Como eu me sinto?���Rand olhou o acampamento em volta, os Jindo circulando entre as tendas. Quantos deles estariam mortos antes do fim?���Cansado. Eu me sinto cansado.</p><p>��N�o � uma emo��o muito heroica���murmurou Natael.���Mas esperada, dado o seu destino. Levando o mundo nos ombros, com a maioria disposta a mat�-lo, se tivesse chance, e o restante dos idiotas pensando que pode us�-lo como trampolim para o poder e a gl�ria.</p><p>��E qual desses � voc�, Natael?</p><p>��Eu? Eu sou um simples menestrel.���O homem erguera uma ponta do manto coberto de retalhos, como se para comprovar.���N�o tomaria o seu lugar nem que me oferecessem o mundo inteiro, n�o com o destino que vem junto. Morte, loucura ou ambos. �Seu sangue nas pedras de Shayol Ghul�� � isso que diz o <emphasis>Ciclo de Karaethon</emphasis>, as Profecias do Drag�o, n�o �? Que voc� vai morrer para salvar uns idiotas que v�o suspirar aliviados depois da sua morte. N�o, eu n�o aceitaria isso nem por todo o poder do mundo, ou por mais.</p><p>��Rand���disse Egwene, emergindo da escurid�o profunda, a capa clara enrolada no corpo e o capuz erguido sobre a cabe�a���viemos ver como voc� est� se sentindo, depois da Cura, com o calor que est� fazendo hoje.���Moiraine viera com ela, o rosto encoberto pelo imenso capuz da capa branca, assim como Bair, Amys, Melaine e Seana, as cabe�as embrulhadas em xales escuros, todas as observ�-lo, calmas e frias feito a noite. At� Egwene. A jovem ainda n�o tinha o ar et�reo de uma Aes Sedai, mas os olhos, sim.</p><p>Ele n�o reparara em Aviendha, que vinha sorrateira atr�s das outras. Por um instante, pensou ter visto compaix�o no rosto dela, mas, se era real, desaparecera assim que a Aiel o vira a encarando. Imagina��o. Ele <emphasis>estava</emphasis> cansado.</p><p>��Outra hora���dissera Natael, falando com Rand, mas olhando para as mulheres daquele jeito peculiar, de esguelha.���Conversaremos outra hora.���Ele dera um meneio de cabe�a bastante sutil e fora embora pisando duro.</p><p>��O futuro o incomoda, Rand?���perguntou Moiraine, baixinho, depois de o menestrel se retirar.���As profecias t�m uma linguagem floreada, obscura. Nem sempre querem dizer o que parecem.</p><p>��H� de ser o que a Roda tecer���respondeu.���Farei o que for preciso. Lembre-se disso, Moiraine. Farei o que for preciso.���A mulher pareceu satisfeita, mas era dif�cil dizer, com as Aes Sedai. Ainda assim, n�o ficaria nem um pouco satisfeita quando descobrisse tudo.</p><p>Natael retornou na noite seguinte, e na seguinte, e na seguinte, sempre falando sobre a epopeia que comporia, por�m com certa morbidez, querendo saber como Rand pretendia enfrentar a loucura e a morte. Ao que parecia, a hist�ria seria uma trag�dia. Rand decerto n�o queira revelar seus medos aos quatro cantos. O que havia em sua cabe�a e em seu cora��o poderia permanecer enterrado por l�. Por fim, o menestrel pareceu se cansar de ouvi-lo dizer que faria o que fosse preciso, e parou de ir v�-lo. Aparentemente, o homem n�o queria compor uma epopeia que n�o fosse cheia de dor e sofrimento. Parecia frustrado quando lhe deu as costas pela �ltima vez, caminhando a passos firmes, o manto drapejando furiosamente atr�s de si.</p><p>O sujeito era estranho, mas, a julgar por Thom Merrilin, todos os menestr�is eram assim. Natael sem d�vida exibia outras caracter�sticas de menestrel. Por exemplo, ficava bem �bvio que tinha a si mesmo em muito boa conta. Rand n�o se importava em ser ou n�o chamado por t�tulos, mas Natael tratava Rhuarc e Moiraine���nas poucas vezes em que se encontrava com a Azul���como iguais. Isso era t�pico de Thom, sem tirar nem p�r. O homem acabou desistindo de se apresentar para os Jindo e come�ou a passar quase todas as noites no acampamento dos Shaido. Os Shaido estavam em maior n�mero, explicara a Rhuarc, como se fosse a coisa mais �bvia do mundo. Audi�ncia maior. Nenhum dos Jindo gostou de saber daquilo, mas nem mesmo Rhuarc podia fazer algo a respeito. Na Terra da Trindade, um menestrel podia fazer qualquer coisa que n�o cometer assassinato sem precisar responder por seus atos.</p><p>Aviendha passava as noites com as S�bias, e �s vezes cerca de uma hora do dia caminhando com todas reunidas ao seu redor, at� Moiraine e Egwene. A princ�pio, Rand achou que elas estivessem aconselhando a mo�a a respeito de como lidar com ele, como arrancar as informa��es que desejavam. Ent�o, um dia, com o sol escaldante a pino, uma bola de fogo do tamanho de um cavalo irrompeu de repente por entre o grupo das S�bias e saiu girando e rolando, deixando um sulco no solo ressequido, at� que definhou e se apagou.</p><p>Alguns dos condutores frearam os comboios de supet�o, assustados, e pararam para assistir, chamando uns aos outros com um misto de medo, confus�o e xingamentos rudes. Murm�rios reverberaram por entre os Jindo, que, assim como os Shaido, encaravam as mulheres, mas as duas colunas de Aiel continuaram se deslocando quase sem parar. Era entre as S�bias que a verdadeira empolga��o estava evidente. As quatro se agruparam ao redor de Aviendha, todas parecendo falar ao mesmo tempo e gesticulando bastante. Moiraine e Egwene, conduzindo os cavalos, tentavam se intrometer. Mesmo sem ouvir, Rand sabia que Amys respondera de forma bem direta, sacudindo um dedo furioso de censura, para que ficassem fora daquilo.</p><p>Encarando o sulco negro que se estendia em linha reta por meia milha, Rand sentou-se de volta na sela. Ensinando Aviendha a canalizar. Claro. Era isso o que estavam fazendo. Ele esfregou o suor da testa com o dorso da m�o���e n�o tinha nada a ver com o sol. Quando aquela bola de fogo se materializou, ele instintivamente se agarrou � Fonte Verdadeira. Fora como tentar coar �gua com uma peneira rasgada. Ele agarrara <emphasis>saidin</emphasis>, mas poderia muito bem ter agarrado o ar. Um dia aquilo poderia acontecer quando precisasse desesperadamente do Poder. Tamb�m estava aprendendo, mas sem professor. Aprendendo a usar e usando para aprender. Come�ou a rir t�o alto que alguns dos Jindo o encararam, preocupados.</p><p>Rand teria apreciado a companhia de Mat em qualquer momento durante aqueles onze dias e onze noites, mas o amigo n�o se aproximara por mais de um minuto ou dois. Mantinha a aba larga do chap�u de topo reto puxada para baixo, para esconder os olhos, e a lan�a de cabo preto com a estranha marca do corvo apoiada no cepilho da sela de Pips. A l�mina forjada pelo Poder parecia uma espada curta e curva.</p><p>��Se o seu rosto ficar um pouquinho mais curtido de sol, voc� <emphasis>vai</emphasis> virar um Aiel de verdade���dizia ele �s vezes, rindo. Ou ent�o falava algo como:���Est� pretendendo passar o resto da vida aqui? Tem um mundo inteiro do outro lado da Muralha do Drag�o. Vinho? Mulheres? Voc� se lembra dessas coisas?</p><p>Mat, no entanto, parecia bastante desconfort�vel, al�m de ainda mais relutante do que as S�bias em falar sobre Rhuidean ou sobre o que acontecera l�. Ele apertava a m�o no cabo preto da lan�a � menor men��o da cidade de domos enevoados, alegando n�o se lembrar de nada da viagem pelo <emphasis>ter�angreal</emphasis>. Ent�o prosseguia, dizendo:</p><p>��Fique longe dele, Rand. N�o � como o da Pedra, nem um pouco. Eles s�o trapaceiros. Que me queime, eu queria nunca ter visto aquilo!</p><p>Na �nica vez em que Rand mencionou a L�ngua Antiga, Mat vociferou:</p><p>��Que o queime, eu n�o sei nada sobre a droga da L�ngua Antiga!���E saiu galopando de volta para os carro��es dos mascates.</p><p>Era l� que Mat passava a maior parte do tempo, jogando dados com os condutores���at� eles perceberem que o rapaz ganhava muito mais do que perdia, n�o importava de quem fossem os dados���aproveitando cada oportunidade de engatar conversas com Kadere ou Natael, perseguindo Isendre. Estava muito claro o que Mat tinha em mente desde a primeira vez que sorrira para a mulher, ajeitando o chap�u, na manh� seguinte ao ataque dos Trollocs. Desde ent�o, falava com ela todas as noites pelo m�ximo de tempo que conseguia. E arrumara tantos furos nos dedos arrancando flores brancas de um arbusto espinhento que passara quase dois dias sem conseguir manejar as r�deas direito, mas recusava-se a deixar que Moiraine o Curasse. Isendre n�o chegava a encorajar o rapaz, mas seu sorriso l�nguido e provocante tamb�m n�o era calculado para afast�-lo. Kadere via e n�o dizia uma palavra, embora �s vezes seus olhos seguissem os de Mat feito um abutre. Os outros comentavam.</p><p>Ao fim de certa tarde, enquanto o grupo soltava as r�deas das mulas e erguia as tendas, Rand tirava a sela de Jeade�en quando viu Mat parado perto de Isendre, na sombra esparsa de um dos carro��es com cobertura de lona. O amigo estava bem pr�ximo dela. Rand balan�ou a cabe�a, observando enquanto escovava o garanh�o sarapintado. O sol ardia baixo no horizonte, e os pin�culos altos formavam sombras compridas pelo acampamento.</p><p>Isendre mexia no len�o di�fano no pesco�o com displic�ncia, como se cogitasse remov�-lo, sorrindo, os l�bios carnudos meio unidos em um biquinho, prontos para um beijo. Encorajado, Mat abriu um sorriso, confiante, e aproximou-se ainda mais. A mulher deixou cair a m�o e balan�ou a cabe�a devagar, mas o sorrisinho convidativo n�o sa�a de seus l�bios. Nenhum dos dois ouviu Keille se aproximando, os p�s muito leves, apesar do peso.</p><p>��� isso o que deseja, bom senhor? Ela?���Os dois se afastaram depressa ao ouvir aquela voz mel�flua, e a mulher riu no mesmo tom musical, igualmente inapropriado a seu rosto.���Uma barganha para o senhor, Matrim Cauthon. Um marco de Tar Valon, e ela � sua. Uma sirigaita dessas n�o pode valer mais de dois, ent�o � uma boa pechincha.</p><p>Mat fez careta, como se desejasse estar em qualquer lugar que n�o ali.</p><p>Isendre, no entanto, virou-se devagar para encarar Keille, um gato-da-montanha encarando um urso.</p><p>��Voc� passa dos limites, velha���respondeu, baixinho, os olhos firmes por cima do len�o.���N�o vou mais aturar essa sua l�ngua. Tome cuidado. Ou talvez esteja querendo ficar aqui pelo Deserto.</p><p>Keille abriu um sorriso largo, exibindo uma alegria que destoava dos olhos de obsidiana cintilando por tr�s das gordas bochechas.</p><p>��E <emphasis>voc�</emphasis>, est� querendo?</p><p>Com um meneio de cabe�a decidido, Isendre respondeu:</p><p>��Um marco de Tar Valon.���Sua voz era dura como ferro.���Vou mandar lhe entregarem um marco de Tar Valon quando a deixarmos aqui. S� queria poder v�-la tentando tirar �gua dele.���A mulher deu as costas, foi pisando firme at� o primeiro carro��o, sem o rebolado sedutor, e desapareceu dentro dele.</p><p>Keille a encarou at� a porta se fechar, o rosto redondo indecifr�vel, ent�o de s�bito virou-se para Mat, que estava a ponto de sair de fininho.</p><p>��Poucos homens j� recusaram uma oferta minha uma vez, muito menos duas. Reze para que eu n�o decida fazer alguma coisa a respeito.���Gargalhando, a mulher se levantou e beliscou a bochecha de Mat com os dedos gordos com tanta for�a que o rapaz quase se encolheu, ent�o virou-se para Rand.���Diga a ele, Lorde Drag�o. Tenho a sensa��o de que voc� sabe algo a respeito dos perigos de desprezar uma mulher. Aquela garota Aiel que o segue para cima e para baixo e n�o tira os olhos do senhor. Ouvi dizer que o senhor pertence a outra. Talvez ela se sinta desprezada.</p><p>��Eu duvido, minha senhora���respondeu Rand, r�spido.���Aviendha cravaria uma faca em minhas costelas se achasse que penso nela dessa forma.</p><p>A mulher imensa soltou uma risada estrondosa. Mat se encolheu quando ela estendeu o bra�o outra vez para toc�-lo, mas Keille apenas deu um tapinha na bochecha que antes beliscara.</p><p>��Est� vendo, bom senhor? Despreze a oferta de uma mulher, e talvez ela n�o pense nada a respeito, mas talvez����ela fez um giro com a m�o���� use a faca. Uma li��o que qualquer homem pode aprender. N�o � mesmo, Lorde Drag�o?</p><p>Com uma risada resfolegante, Keille saiu apressada para conferir os homens que cuidavam das mulas.</p><p>��S�o <emphasis>todas</emphasis> loucas���resmungou Mat, esfregando o rosto.</p><p>Em seguida, retirou-se tamb�m. No entanto, n�o abandonou a ca�a a Isendre.</p><p>E assim foi, por onze dias, rumo ao d�cimo-segundo, cruzando uma terra �rida e dura. Viram outras duas plataformas, constru��es de pedra bruta muito similares a Parada de Imre, posicionadas para facilitar a defesa contra o lado �ngreme do pin�culo ou monte. Em uma delas havia trezentas ovelhas ou mais, al�m de homens que se mostraram t�o surpresos em saber sobre Rand quanto sobre os Trollocs na Terra da Trindade. A outra estava vazia. N�o fora invadida, s� estava desocupada. Diversas vezes, Rand avistou a dist�ncia cabras, ovelhas, ou gado de chifres longos. Aviendha dizia que os rebanhos pertenciam a fortes pr�ximos de ramos Aiel, mas ele n�o via gente, muito menos qualquer estrutura que merecesse ser chamada de forte.</p><p>O d�cimo-segundo dia chegou, com as robustas fileiras de Jindo e Shaido flanqueando o grupo das S�bias, os carro��es dos mascates sacolejando enquanto Keille e Natael discutiam, e Isendre encarando Rand, sentada no colo de Kadere.</p><p>��� e � assim que 頗�disse Aviendha, assentindo para si mesma.���Garanto que agora voc� j� entende tudo sobre as senhoras do teto.</p><p>��N�o exatamente���admitiu Rand. Percebeu que j� fazia algum tempo que apenas escutava a voz dela, sem prestar aten��o nas palavras.���Mas tenho certeza de que tudo funciona direitinho.</p><p>A jovem grunhiu para ele.</p><p>��Quando voc� se casar���disse, em um tom r�spido���com esses Drag�es nos seus bra�os para confirmar seu sangue, vai seguir o sangue, ou vai exigir ser dono de tudo, exceto o vestido da esposa, feito um aguacento selvagem?</p><p>��N�o � nem de longe assim que funciona���protestou o rapaz.���E qualquer mulher de onde venho arrancaria a cabe�a de um homem que pensasse assim. De todo modo, voc� n�o acha que isso tem de ser acordado entre mim e a mulher com quem eu <emphasis>decidir</emphasis> me casar?</p><p>Aviendha apenas fez uma careta de desgosto ainda maior do que a anterior.</p><p>Para al�vio de Rand, Rhuarc veio trotando � frente deles, vindo do grupo dos Jindo.</p><p>��Chegamos���anunciou o Aiel, com um sorriso���ao Forte das Pedras Frias.</p></section><section><title><p>49</p><p><image l:href="#13"/></p><p>O Forte das Pedras Frias</p></title><p>Rand olhou em volta, de cenho franzido. Uma milha � frente havia um agrupado de montes altos e �ngremes, todos bem juntinhos, ou talvez fosse um s� monte imenso entrecortado por fissuras. � esquerda, a terra corria em retalhos de grama grossa e plantas sem folhas e com espinhos, arbustos espinhosos isolados e �rvores baixas, formando colinas �ridas e vales recortados, al�m das imensas colunas de pedra bruta e montanhas irregulares ao longe. � direita, a terra era igual, exceto pelo fato de que o solo de lama seca e amarelada era mais plano, e as montanhas, mais pr�ximas. Poderia ser qualquer trecho do Deserto que tinham visto desde que sa�ram de Chaendaer.</p><p>��Onde?���perguntou.</p><p>Rhuarc olhou para Aviendha, que encarava Rand como se ele tivesse perdido o ju�zo.</p><p>��Venha. Deixe que seus pr�prios olhos lhe mostrem as Pedras Frias.</p><p>Baixando a <emphasis>shoufa</emphasis> at� os ombros, o chefe de cl� se virou e saiu a passos r�pidos, a cabe�a descoberta, em dire��o � parede de rocha fissurada adiante.</p><p>Os Shaido j� tinham parado de avan�ar e moviam-se de um lado para o outro, come�ando a erguer as tendas. Heirn e os Jindo chegaram logo atr�s de Rhuarc, trotando com as mulas de carga, descobrindo as cabe�as e gritando palavras desconexas. As Donzelas que escoltavam os mascates gritavam para que os condutores apressassem os comboios e seguissem os Jindo. Uma das S�bias ergueu as saias at� os joelhos e correu para junto de Rhuarc���Rand achou que fosse Amys, pelos cabelos brancos; Bair com certeza n�o conseguia se deslocar com tanta agilidade���por�m o restante do grupo manteve o passo original. Por um instante, pareceu que Moiraine dispararia em dire��o a Rand, mas a mulher hesitou, discutindo com uma das outras S�bias, os cabelos ainda encobertos pelo xale. Por fim, a Aes Sedai puxou as r�deas da �gua branca e foi para o lado da cinzenta de Egwene e do garanh�o preto de Lan, logo � frente dos <emphasis>gai�shain</emphasis> de robes brancos que puxavam os animais de carga. No entanto, seguiam na mesma dire��o que Rhuarc e os outros.</p><p>Rand se inclinou e estendeu a m�o para Aviendha. Quando a mulher balan�ou a cabe�a, ele disse:</p><p>��Se continuarem fazendo essa barulheira toda, n�o vou conseguir ouvir voc� a� embaixo. E se eu cometer algum erro idiota por n�o conseguir ouvir o que voc� est� dizendo?</p><p>Resmungando entre dentes, a mulher olhou para as Donzelas ao redor dos carro��es dos mascates, soltou um suspiro e agarrou o bra�o dele. Rand a i�ou, ignorando o ganido furioso que veio dela, e, com um balan�o, assentou-a na garupa da sela de Jeade�en. Toda vez que Aviendha tentava montar sozinha, acabava quase o derrubando da sela. Esperou um momento para que a jovem ajeitasse as saias pesadas, ainda que, na melhor das hip�teses, as pernas ficassem descobertas bem acima das botas macias, na altura dos joelhos, e cravou os calcanhares no garanh�o sarapintado, que partiu em meio-galope. Era a primeira vez que Aviendha ia mais depressa que um caminhar suave. Ela agarrou a cintura de Rand e segurou firme.</p><p>��Ai de voc� se me deixar com cara de tonta diante de minhas irm�s, aguacento���rosnou ela, em advert�ncia.</p><p>��Por que que voc� ficaria com cara de tonta? J� vi Bair, Amys e as outras cavalgando atr�s de Moiraine ou Egwene, para conversar.</p><p>Depois de um instante, Aviendha respondeu:</p><p>��Voc� tem mais facilidade para aceitar as mudan�as do que eu, Rand al�Thor.</p><p>O rapaz n�o soube bem o que pensar daquilo.</p><p>Quando conduziu Jeade�en at� Rhuarc, Heirn e Amys, um pouco � frente dos Jindo, que ainda gritavam, ficou surpreso em ver Couladin correndo tranquilo pela lateral, os cabelos cor-de-fogo � mostra. Aviendha puxou a <emphasis>shoufa</emphasis> de Rand at� os ombros.</p><p>��Para adentrar um forte � preciso estar com o rosto � mostra. Eu j� lhe disse isso. E fazer barulho. J� fomos vistos h� tempos, e v�o saber quem somos, mas � um costume para demonstrar que n�o estamos tentando tomar o forte de surpresa.</p><p>Rand assentiu, mas segurou a l�ngua. Nem Rhuarc, nem os tr�s com ele abriram a boca, muito menos Aviendha. Al�m disso, os Jindo j� faziam barulho suficiente para serem ouvidos a milhas de dist�ncia.</p><p>Couladin girou a cabe�a na dire��o dele. Uma centelha de desprezo tomou a face curtida de sol, al�m de algo mais. �dio e desd�m Rand j� esperava, mas divers�o? O que Couladin estava achando divertido?</p><p>��Shaido imbecil���resmungou Aviendha, atr�s dele. Talvez tivesse raz�o, talvez a divers�o fosse por v�-la em cima de um cavalo. Rand, por�m, achava que n�o.</p><p>Mat veio galopando com o chap�u abaixado, deixando um rastro de poeira amarelada, a lan�a comprida apoiada no ferro do estribo, na vertical, feito um arp�o.</p><p>��Que lugar � esse, Rand?���perguntou em voz alta, para ser ouvido por cima da gritaria.���Essas mulheres s� sabem dizer �mais r�pido, mais r�pido�.</p><p>Rand explicou ao amigo, franzindo o cenho em dire��o �s rochas que se avultavam pela lateral da colina.</p><p>��Acho que daria para sustentar esse lugar durante anos com provis�es, mas isso aqui n�o � um retalho na Pedra, nem o Tora Harad.</p><p>��Tora o qu�?���perguntou Rand.</p><p>Mat deu de ombros antes de responder.</p><p>��S� uma coisa que escutei certa vez.���Ele se ergueu no estribo para espiar o comboio dos mascates por sobre as cabe�as dos Jindo.���Pelo menos eles ainda est�o com a gente. Fico aqui pensando quanto tempo temos at� eles terminarem os neg�cios e irem embora.</p><p>��N�o v�o antes de Alcair Dal. Rhuarc disse que acontece uma esp�cie de feira quando os chefes dos cl�s se re�nem, mesmo que sejam dois ou tr�s. Com todos os vinte juntos, imagino que Kadere e Keille n�o v�o querer perder.</p><p>Mat n�o pareceu contente com a not�cia.</p><p>Rhuarc liderou o caminho at� a maior fissura do pared�o �ngreme de pedra, dez ou doze passadas de largura na parte maior, imersa nas sombras formadas pelas laterais escarpadas, avan�ando cada mais vez mais fundo, o caminho cada vez mais escuro e frio por baixo de uma nesga de c�u. Era estranho estar sob uma sombra t�o grande. Os gritos indistintos dos Aiel se avolumaram, amplificados pelas muralhas marrons acinzentadas. Quando eles enfim se calaram, o sil�ncio, rompido apenas pelo som dos cascos das mulas e pelo rangido das rodas dos carro��es bem atr�s, parecia alto demais.</p><p>Dobraram outra curva, e a fissura abriu-se de repente em um c�nion largo, comprido e quase plano. De todos os lados, gritos estridentes e ululantes sa�ram das bocas de centenas de mulheres. Uma multid�o formou uma fila indicando o caminho, as mulheres de saias pesadas e xales enrolados na cabe�a, os homens com casacos e cal�as marrom-acinzentados, assim como o <emphasis>cadin�sor</emphasis> e Donzelas da Lan�a, todos acenando as boas-vindas, batendo em panelas ou no que fizesse barulho.</p><p>Rand ficou boquiaberto, e n�o s� por causa do pandem�nio. Os pared�es do c�nion eram verdes, com a metade inferior coberta de plataformas. Logo, o rapaz percebeu que em todas eram de fato plataformas: algumas eram telhados planos de casas pequenas de pedra cinza ou barro amarelo que pareciam praticamente empilhadas umas nas outras, todas emboladas, separadas por pequenas trilhas sinuosas. Em cada telhado havia uma horta de feij�es, ab�boras, pimentas, mel�es e plantas que ele n�o conhecia. Galinhas corriam � solta, mais vermelhas do que as que ele via em casa, junto com algum outro tipo de ave, maior e rajada de cinza. Crian�as, a maioria vestida como os adultos, e <emphasis>gai�shain</emphasis> de robes brancos circulavam entre as fileiras com imensos jarros de barro. Pareciam estar regando plantas muito inusitadas. Sempre ouvira dizer que os Aiel n�o tinham cidades, mas aquilo era no m�nimo uma cidade de tamanho consider�vel, ainda que mais estranha do que todas que ele j� tinha visto. O alarido era grande demais para que ele fizesse qualquer uma das perguntas que lhe vinham � cabe�a. O que eram aquelas frutas redondas, vermelhas e brilhantes demais para serem ma��s, crescendo em arbustos baixos e claros? E aqueles caules retos de folhas largas com brotos compridos, enfileirados, de borlas amarelas? Rand fora fazendeiro por muito tempo para n�o querer saber.</p><p>Rhuarc e Heirn, assim como Couladin, reduziram o passo a um caminhar ligeiro, enfiando as lan�as nos arreios das costas, que serviam de estojo para os arcos. Amys corria na frente, rindo feito uma menina, enquanto os homens continuavam a avan�ar a um passo firme pelo ch�o do c�nion. Uma multid�o se alinhava, os gritos das mulheres do forte vibrando no ar e quase abafando o batuque das panelas. Rand os seguiu, como Aviendha o mandara fazer. Mat parecia estar querendo dar meia-volta e retornar por onde viera.</p><p>Na outra extremidade do c�nion, o pared�o se inclinava para dentro, formando um bols�o fundo e sombrio. O sol nunca iluminava aquele lado, pelo que Aviendha dissera, e as pedras ali, sempre frias, eram o que dava nome ao forte. Amys parou diante de outra mulher sobre um largo rochedo cinza com o topo aplainado, feito uma plataforma.</p><p>A outra mulher, esbelta debaixo das saias pesadas, com os cabelos louros que ca�am abaixo da cintura e de t�mporas brancas envoltas em um len�o, parecia ser mais velha do que Amys, embora sem d�vida fosse mais que vistosa, com algumas rugas finas nos cantos dos olhos cinzentos. Estava vestida como Amys, com um xale marrom e liso por sobre os ombros. Os colares e braceletes de ouro e marfim entalhado n�o eram mais refinados, mas a mulher era Lian, a senhora do teto do Forte das Pedras Frias.</p><p>Os gritos agudos e hesitante cessaram de vez quando Rhuarc parou diante do rochedo, uma passada mais � frente do que Heirn e Couladin.</p><p>��Pe�o permiss�o para adentrar seu forte, senhora do teto���anunciou, bem alto.</p><p>��Voc� tem minha permiss�o, chefe de cl㠗�respondeu a mulher de cabelos loiros, com formalidade, no mesmo tom alto. Sorrindo, acrescentou, mais suave:���Sombra do meu cora��o, voc� sempre ter� minha permiss�o.</p><p>��Eu agrade�o, senhora do teto do meu cora��o.���O tom dele tamb�m n�o pareceu particularmente formal.</p><p>Heirn deu um passo � frente.</p><p>��Senhora do teto, pe�o permiss�o para me abrigar sob o seu teto.</p><p>��Tem minha permiss�o, Heirn���respondeu Lian ao homem parrudo.���Sob o meu teto h� �gua e sombra para voc�s. O ramo Jindo sempre ser� bem-vindo aqui.</p><p>��Eu agrade�o, senhora do teto.���Heirn deu um tapinha no ombro de Rhuarc e foi se reunir com seu povo. Ao que parecia, a cerim�nia Aiel era curta e bastante direta.</p><p>Com um andar afetado, Couladin foi se juntar a Rhuarc.</p><p>��Pe�o permiss�o para adentrar o seu forte, senhora do teto.</p><p>Lian piscou, franzindo o cenho para ele. Um burburinho se ergueu atr�s de Rand, um murm�rio de espanto sa�do de centenas de goelas. Uma s�bita sensa��o de perigo pairou no ar. Mat sem d�vida tamb�m percebeu, pois dedilhou a lan�a e virou o corpo meio de lado, para ver o que a massa de Aiel estava fazendo.</p><p>��Qual � o problema?���perguntou Rand, baixinho, por cima do ombro.���Por que ela n�o respondeu?</p><p>��Ele fez a pergunta como se fosse um chefe de cl㠗�sussurrou Aviendha, incr�dula.���Esse homem � <emphasis>mesmo</emphasis> um idiota. S� pode estar louco! Se ela recusar, vai dar problema com os Shaido. E ela pode muito bem fazer isso, por causa de um insulto desses. N�o � uma rixa de sangue, pois, por mais que se ache o tal, Couladin n�o � o chefe do cl�. Mas pode dar problema.���Entre uma e outra respira��o, a voz dela assumiu um tom mais penetrante.���Voc� n�o estava escutando, n�o �? N�o estava! Ela poderia ter recusado at� mesmo a entrada de Rhuarc, e ele teria que sair. Isso desuniria o cl�, mas � poder dela. Ela pode recusar at� Aquele Que Vem Com a Aurora, Rand al�Thor. Nossas mulheres n�o t�m nada de impotentes, ao contr�rio das suas aguacentas, que precisam ser rainhas, nobres ou dan�ar para um homem, caso queiram ter o que comer!</p><p>Rand balan�ou a cabe�a devagar. Sempre que estava a ponto de dar uma bronca em si mesmo pelo pouco que aprendera sobre os Aiel, Aviendha se pronunciava, lembrando-o de qu�o pouco ela mesma sabia sobre qualquer um que n�o fosse Aiel.</p><p>��Um dia vou apresentar voc� ao C�rculo das Mulheres de Campo de Emond. Vai ser� interessante� ouvir voc� dizer a elas como s�o impotentes.���Ele sentiu Aviendha se remexer atr�s dele, tentando encar�-lo e teve o cuidado de manter a express�o serena.���Talvez elas tamb�m lhe expliquem algumas coisinhas.</p><p>��Voc� tem a minha permiss�o���come�ou Lian, e Couladin sorriu e se aprumou���para se abrigar sob o meu teto. Arrumaremos �gua e sombra para voc�.</p><p>Os arquejos baixos de centenas de bocas formaram um som bem expressivo.</p><p>O homem de cabelos de fogo estremeceu como se acabasse de levar um golpe, o rosto vermelho de f�ria. Parecia n�o saber o que fazer. Deu um passo � frente, desafiador, encarando Lian e Amys, agarrando os pr�prios antebra�os, como se para manter as m�os longe das lan�as. Ent�o deu as costas e caminhou de volta para o grupo, pisando firme, cravando os olhos aqui e ali, desafiando qualquer um a abrir a boca. Por fim, parou perto de onde sa�ra e encarou Rand. Os olhos azuis pareciam mais incandescentes do que carv�o.</p><p>��Como algu�m sozinho e sem amigos���sussurrou Aviendha.���Ela o acolheu como um pedinte. � o maior insulto para ele, mas n�o para os Shaido.���De repente, ela deu um soco nas costelas de Rand com tanta for�a que ele soltou um grunhido.���Mexa-se, aguacento. Voc� carrega a honra que pus em suas m�os. Todo mundo vai saber que fui eu quem o ensinei. Mexa-se!</p><p>Rand balan�ou uma perna, desceu do lombo de Jeade�en e avan�ou para o lado de Rhuarc. <emphasis>Eu n�o sou Aiel</emphasis>, pensou. <emphasis>N�o os compreendo, nem posso me permitir gostar demais deles. N�o posso.</emphasis></p><p>Ao contr�rio dos outros homens, ele fez uma mesura para Lian. Era assim que fora criado.</p><p>��Senhora do teto, pe�o permiss�o para me abrigar sob o seu teto.</p><p>Ele ouviu Aviendha prender a respira��o. Deveria ter dito a outra coisa, o que Rhuarc dissera. O chefe de cl� estreitou os olhos, preocupado, encarando a esposa, e o rosto vermelho de Couladin se contorceu em um sorriso de esc�rnio. Os murm�rios baixos da multid�o pareciam intrigados.</p><p>A senhora do teto encarou Rand com um olhar ainda mais avaliativo do que o que dispensara a Couladin, analisando-o da cabe�a aos p�s. Olhou a <emphasis>shoufa</emphasis> sobre um casaco vermelho que com certeza jamais seria usado por um Aiel. Lan�ou um olhar interrogativo para Amys, que assentiu.</p><p>��Tamanha mod�stia���comentou Lian���cai muito bem em um homem. � raro os homens saberem onde encontr�-la.���Ela puxou as saias escuras e fez uma mesura meio desajeitada em retribui��o � dele. N�o era comum entre as Aiel, mas ainda assim era uma mesura.���O <emphasis>Car�a�carn</emphasis> tem permiss�o para adentrar meu forte. Para o chefe dos chefes, sempre h� �gua e sombra nas Pedras Frias.</p><p>Outra s�rie de gritos ululantes elevou-se da multid�o de mulheres, mas Rand n�o soube dizer se era para ele ou para a cerim�nia. Couladin parou para encar�-lo com um �dio implac�vel, depois foi embora a passos firmes, dando um esbarr�o em Aviendha enquanto ela descia desajeitada do garanh�o sarapintado. Ele logo se mesclou � multid�o que se dispersava.</p><p>Mat desmontou mais devagar, encarando o homem.</p><p>��Cuidado com esse a�, Rand���sussurrou.���Estou falando s�rio.</p><p>��Todo mundo me diz isso���respondeu Rand. Os mascates j� estavam se assentando para as negocia��es no centro do c�nion, e, na entrada, Moiraine e o restante do grupo das S�bias chegavam com alguns poucos gritos e umas panelas batendo, mas nada como o berreiro com que Rhuarc fora recebido.���N�o � com ele que eu tenho que me preocupar.</p><p>O perigo n�o estava entre os Aiel. <emphasis>Moiraine de um lado e Lanfear de outro. O que pode ser mais perigoso do que isso?</emphasis> Foi quase o bastante para ele soltar uma risada.</p><p>Amys e Lian tinham descido do palanque, e, para surpresa de Rand, Rhuarc passou um bra�o ao redor dos ombros de cada uma. Ambas eram altas, como a maioria das mulheres Aiel, por�m n�o mais altas do que o ombro do chefe de cl�.</p><p>��Voc� conheceu minha esposa Amys���disse a Rand.���Agora precisa conhecer minha esposa Lian.</p><p>Rand percebeu que estava de queixo ca�do e fechou a boca depressa. Depois que Aviendha dissera que a senhora do teto das Pedras Frias era esposa de Rhuarc e se chamava Lian, teve certeza de que entendera errado todo aquele di�logo, em Chaendaer, de �sombra do meu cora��o� para l� e para c�, entre ele e Amys. De todo modo, estava com outras coisas na cabe�a. Mas isso�</p><p>��<emphasis>As duas</emphasis>?���deixou escapar Mat.���Luz! Duas! Ah, que me queime! Ou esse � o homem mais sortudo do mundo, ou o maior idiota desde a cria��o!</p><p>��Eu achava���comentou Rhuarc, de cenho franzido���que Aviendha estava ensinando nossos costumes a voc�. Parece que ela est� deixando muita coisa de fora.</p><p>Inclinando-se para olhar por tr�s do marido���do marido <emphasis>das duas</emphasis>���Lian ergueu uma sobrancelha para Amys, que respondeu, em um tom seco:</p><p>��Aviendha parecia ideal para explicar o que ele precisa saber. Al�m disso, era uma forma de evitar que ela tentasse fugir de volta para as Donzelas quando n�o estiv�ssemos de olho. Agora parece que vou precisar ter uma longa conversa com ela, em algum lugar tranquilo. Ela sem d�vida anda ensinando baboseiras sobre as Donzelas ou como ordenhar um <emphasis>gara</emphasis>.</p><p>Ligeiramente enrubescida, Aviendha balan�ou a cabe�a para tr�s com irrita��o. Os cabelos vermelho-escuros tinham crescido por cima das orelhas e j� balan�avam em uma franja sob o len�o da cabe�a.</p><p>��Tivemos assuntos mais importantes para tratar do que casamentos. Al�m do mais, esse homem n�o me escuta.</p><p>��Ela est� sendo uma boa professora���acrescentou Rand, mais do que depressa.���Aprendi bastante coisa sobre os seus costumes e a Terra da Trindade.���Baboseiras?���Qualquer erro que eu cometa � culpa minha, n�o dela.���Como se ordenhava um lagarto venenoso de dois p�s de comprimento? E por qu�?���Ela est� sendo uma boa professora, e gostaria de mant�-la, se poss�vel.</p><p><emphasis>Pela Luz, Por que, foi que eu disse isso?,</emphasis> perguntou-se. Aviendha at� era agrad�vel �s vezes, ao menos quando se soltava. No restante do tempo era um carrapicho debaixo de seu casaco. No entanto, pelo menos com ela ali, sabia quem as S�bias tinham mandado para vigi�-lo.</p><p>Amys o analisou, os olhos azuis penetrantes como os de uma Aes Sedai. Claro, ela sabia canalizar. O rosto n�o tinha aquele aspecto et�reo, apenas parecia mais jovem do que era, mas talvez a mulher fosse t�o Aes Sedai quanto uma Aes Sedai.</p><p>��Para mim parece uma boa combina��o���disse.</p><p>Aviendha abriu a boca, encrespada de indigna��o, e fechou-a outra vez, carrancuda, quando a S�bia se virou para encar�-la. Talvez a mo�a tivesse dado o tempo dela com ele por acabado, agora que haviam chegado �s Pedras Frias.</p><p>��Voc� deve estar cansado da viagem���disse Lian, olhando para Rand com uma express�o maternal nos olhos cinzentos���e faminto. Venha.���O sorriso se estendeu a Mat, que estava um pouco atr�s e j� come�ava a encarar os carro��es dos mascates.���Venham se abrigar sob o meu teto.</p><p>Rand agarrou os alforjes e deixou Jeade�en aos cuidados de uma <emphasis>gai�shain</emphasis>, que tamb�m apanhou Pips. Mat deu uma �ltima olhada para os carro��es antes de jogar os alforjes sobre os ombros e seguir em frente.</p><p>O teto de Lian, sua casa, ficava no n�vel mais alto do lado oeste, com o pared�o �ngreme do c�nion se erguendo umas cem passadas acima. Lar do chefe do cl� e da senhora do teto ou n�o, do lado de fora parecia um ret�ngulo modesto de enormes tijolos de barro amarelado com janelas estreitas, sem vidro, cobertas por cortinas brancas simples, com uma hortinha no teto plano e outra na frente de uma pequena sacada, separada da casa por um caminho estreito, pavimentado com pedras cinza lisas. Grande o bastante para dois quartos, talvez. A n�o ser pelo gongo quadrado de bronze, pendurado ao lado da porta, parecia muito com as outras constru��es que Rand via. Daquele ponto, podia enxergar toda a extens�o do vale abaixo. Uma casa pequena, simples. Do lado de dentro, era outra coisa.</p><p>Por tr�s da parede de tijolos havia um c�modo amplo com piso de azulejos marrom-avermelhados, mas para dentro da pedra havia mais c�modos, com teto alto e surpreendentemente frescos, com batentes de entrada altos, em forma de arco, e lampi�es de prata que exalavam um aroma campestre. Rand viu apenas uma cadeira. Era de espaldar alto, laqueada de vermelho e dourado e com aspecto de que n�o era muito usada. A cadeira do chefe, como Aviendha chamara. N�o havia muitos outros itens de madeira al�m de umas poucas caixas e ba�s polidos ou laqueados, e livros abertos repousavam em prateleiras baixas para leitura, dispostas de um jeito que o leitor teria de se deitar no ch�o. Carpetes com tramas intrincadas cobriam o ch�o, al�m de tapetes vistosos, dispostos uns sobre os outros. Rand reconheceu algumas padronagens de Tear, Cairhien e Andor, at� de Illian e Tarabon, mas outros desenhos n�o eram familiares: listras largas recortadas e sem cores repetidas, ou quadrados vazados em tons de cinza, marrom e preto. Em forte contraste com a mesmice de fora do vale, as cores eram todas muito v�vidas. As tape�arias de parede ele tinha certeza de serem do outro lado da Espinha do Mundo���talvez obtidas da mesma forma que as tape�arias da Pedra de Tear���e as almofadas eram de todos os tamanhos e tons, em geral com borlas, franjas ou ambas, em seda vermelha ou dourada. Aqui e ali, em nichos presos �s paredes, via-se um fino vaso de porcelana, uma tigela de prata ou uma escultura de marfim, em geral de algum animal ex�tico ou coisa do tipo. Ent�o essas eram as �tocas� de que os tairenos falavam. Poderia ter sido uma vis�o berrante e espalhafatosa como Tear���ou os latoeiros���mas era nobre, ao mesmo tempo formal e informal.</p><p>Com um sorrisinho para mostrar a Aviendha que <emphasis>sim</emphasis>, escutava o que ela dizia, Rand puxou um presente para Lian de dentro de seus alforjes: um le�o de ouro finamente trabalhado. Fora saqueado de Tear e comprado de um Buscador das �guas Jindo, mas, se ele era o governante de Tear, talvez fosse como ter roubado de si mesmo. Depois de um instante de hesita��o, Mat tamb�m exibiu um presente: um colar taireno com flores de prata, sem d�vida vindo da mesma fonte, e sem d�vida algo que planejara dar de presente a Isendre.</p><p>��Primoroso.���Lian abriu um sorriso, erguendo o le�o.���Sempre apreciei o artesanato taireno. Rhuarc me trouxe duas pe�as, muitos anos atr�s.���Em um tom de voz adequado a uma dona de casa que recordava de frutinhas vermelhas especialmente deliciosas, ela disse ao marido:���Voc� pegou da tenda de um Gr�o-lorde, pouco antes da decapita��o de Laman, n�o foi? Uma pena que n�o tenha chegado a Andor. Eu sempre quis uma pe�a de prata andoriana. Este colar tamb�m � muito bonito, Mat Cauthon.</p><p>Ouvindo a mulher louvar de uma s� vez os dois presentes, Rand escondeu o choque. Apesar das saias e do olhar maternal, ela era t�o Aiel quanto qualquer Donzela da Lan�a.</p><p>Quando Lian terminou, Moiraine e as outras S�bias chegaram com Lan e Egwene. A espada do Guardi�o gerou uma olhadela desaprovadora, mas a senhora do teto o recebeu calorosamente depois que Bair o chamou de <emphasis>Aan�allein</emphasis>. Ainda assim, n�o foi nada se comparado � sauda��o a Egwene e Moiraine.</p><p>��As senhoras honram meu teto, Aes Sedai.���O tom da senhora do teto fez parecer que o que dizia era �bvio. Ela se curvou em uma mesura para as outras.���Dizem que servimos �s Aes Sedai antes da Ruptura do Mundo e que falhamos com elas, e, por conta dessa falha, fomos enviados para c�, para a Terra da Trindade. Sua presen�a � prova de que talvez nosso pecado n�o seja imperdo�vel.</p><p>Mas claro. Ela n�o estivera em Rhuidean. Aparentemente, a proibi��o de comentar sobre o que acontecia em Rhuidean com quem n�o estivera l� valia at� entre marido e mulher. E entre esposas-irm�s, ou qualquer que fosse o relacionamento entre Amys e Lian.</p><p>Moiraine tamb�m tentou dar um presente a Lian: pequeninos frascos de cristal e prata com perfume de Arad Doman. Mas a mulher ergueu as m�os.</p><p>��A sua presen�a j� � um presente de valor inestim�vel, Aes Sedai. Aceitar mais do que isso seria uma desonra para mim e para o meu teto. Eu n�o poderia tolerar a vergonha.���Ela soava absolutamente s�ria, al�m de preocupada com a possibilidade de Moiraine insistir em presente�-la com o perfume.</p><p>Era um indicativo da diferen�a de import�ncia entre um <emphasis>Car�a�carn</emphasis> e uma Aes Sedai.</p><p>��Como queira���respondeu Moiraine, devolvendo os frascos � bolsa do cinto. Estava fria feito gelo, serena, vestida em seda azul, o manto claro jogado para tr�s.���Voc�s, povo da Terra da Trindade, com certeza ver�o mais Aes Sedai. Antes, n�o t�nhamos motivos para vir.</p><p>Amys n�o parecia nada satisfeita com tudo aquilo, e a ruiva Melaine encarava Moiraine feito um gato de olhos verdes ponderando se poderia fazer algo a respeito do cachorr�o que invadira seu celeiro. Bair e Seana trocaram olhares preocupados, mas nada como as duas que eram capazes de canalizar.</p><p>Uma bando de <emphasis>gai�shain</emphasis>���homens e mulheres graciosos em robes brancos com capuzes, os olhos estranhamente submissos para rostos de Aiel���pegou os mantos de Moiraine e Egwene, depois trouxe toalhas �midas para suas m�os e faces, pequeninas x�caras de prata com �gua para ser bebida formalmente, e, por fim, uma refei��o em tigelas de prata e bandejas dignas de um pal�cio, mas que foi comida em lou�as de barro com uma faixa esmaltada em azul. Todos comiam deitados no ch�o, onde azulejos brancos tinham sido presos a uma pedra, para formar uma mesa. Todos de cabe�as juntas, almofadas embaixo do peito, formando em c�rculo, feito uma roda raiada, enquanto os <emphasis>gai�shain</emphasis> deslizavam no meio de todos para servir os pratos.</p><p>Mat se remexia para l� e para c� sobre as almofadas, desconfort�vel, mas Lan estava muito � vontade, como se sempre comesse deitado daquele jeito, e Moiraine e Egwene pareciam quase t�o confort�veis quanto ele. Sem d�vida haviam praticado nas tendas das S�bias. Rand achava estranho, mas a comida em si era peculiar o bastante para tomar quase toda sua aten��o.</p><p>O cozido de cabra, escuro e apimentado, era pouco familiar, por�m nada esquisito, e ervilhas eram ervilhas em qualquer lugar, assim como ab�bora. O mesmo n�o podia ser dito do p�o amarelo, duro e farelento, nem dos feij�es vermelhos e brilhantes misturados com os verdes, ou da tigela de caro�os amarelos e peda�os de uma polpa vermelha que Aviendha chamou de <emphasis>zemai</emphasis> e <emphasis>t�mat</emphasis>. Muito menos do fruto doce e bulboso, de casca verde e dura, oriundo das plantas espinhosas e sem folhas chamadas de <emphasis>kardon</emphasis>. Ainda assim, era tudo gostoso.</p><p>Poderia ter aproveitado mais a refei��o se Aviendha n�o tivesse ficado explicando tudo. N�o sobre esposas-irm�s. Aquilo ficara a cargo de Amys e Lian, uma deitada de cada lado de Rhuarc, sorrindo tanto uma para a outra quanto para o marido. Ainda que as duas tivessem se casado com ele para n�o desfazer a amizade, estava claro que ambas o amavam. Rand n�o conseguia ver Elayne e Min chegando a tal acordo. Ele se perguntou por que sequer pensara naquilo. O sol devia ter fritado seu c�rebro.</p><p>Por�m, mesmo que Aviendha tivesse deixado essa explica��o �s outras duas mulheres, explicou <emphasis>todo</emphasis> o restante nos m�nimos detalhes. Talvez o considerasse um imbecil por n�o saber sobre as esposas-irm�s. Virada para a direita, para encar�-lo, ela sorria quase com a mesma do�ura de quando explicara que a colher podia ser usada para comer o cozido ou o <emphasis>zemai</emphasis> e o <emphasis>t�mat</emphasis>, mas seus olhos cintilavam com um brilho que informava que apenas a presen�a das S�bias ali a impedia de atirar uma das tigelas na cabe�a dele.</p><p>��Eu n�o sei o que fiz a vocꠗ�sussurrou Rand. Estava bastante ciente de Melaine, do outro lado, aparentemente absorta na conversa sussurrada com Seana. Bair dizia alguma coisa de vez em quando, mas Rand achava que ela tamb�m estava tentando entreouvi-lo.���Mas, se voc� odeia tanto ser minha professora, n�o � obrigada. Eu s� falei. Tenho certeza de que Rhuarc ou as S�bias encontrar�o outra pessoa.</p><p>As S�bias sem d�vida encontrariam, se ele se livrasse de sua espi�.</p><p>��Voc� n�o me fez nada����Aviendha arreganhou os dentes para ele. Se pretendia ter aberto um sorriso, n�o fora muito bem-sucedida.���Nem nunca vai fazer. Pode se deitar para comer como achar mais confort�vel e conversar com todo mundo � sua volta. Exceto com os que precisam instruir em vez de compartilhar a comida, � claro. � considerado de bom tom conversar com as pessoas dos dois lados.���Por detr�s dela, Mat olhou para Rand e revirou os olhos, claramente aliviado por estar sendo poupado daquilo.���A n�o ser que voc� seja for�ado a ficar olhando para uma pessoa em particular para instru�-la, por exemplo. Pegue a comida com a m�o direita, a n�o ser que precise se inclinar no cotovelo direito, e�</p><p>Era uma tortura, e ela parecia gostar. Os Aiel pareciam dar muita import�ncia a presentes. Talvez, se Rand desse um presente a ela�</p><p>��� todos conversam por um tempo, depois de terminada a refei��o, a n�o ser que um de n�s precise ensinar alguma coisa, e�</p><p><emphasis>Suborno.</emphasis> N�o parecia justo ter de subornar algu�m que o estava espionando, mas, se ela quisesse continuar daquele jeito, falando pelos cotovelos, valeria a pena fazer isso em troca de um pouco de paz.</p><p>Quando a refei��o foi recolhida pelos <emphasis>gai�shain</emphasis>, que trouxeram canecas prateadas de vinho escuro, Bair abriu um sorriso para Aviendha por cima dos azulejos brancos, e a mo�a baixou a cabe�a, amuada. Egwene se ajoelhou para se esticar por cima de Mat e lhe dar alguns tapinhas encorajadores, o que n�o pareceu ajudar. Pelo menos a mulher estava quieta. Egwene lan�ou um olhar duro a Rand. Ou sabia o que ele estava pensando, ou o julgava culpado pela cara feia de Aviendha.</p><p>Rhuarc apanhou o cachimbo de haste curta e a bolsa de tabaco, encheu o fornilho, pressionando-o com o polegar, depois passou a bolsa de couro para Mat, que pegou o pr�prio cachimbo de prata.</p><p>��Teve gente profundamente tocada pela not�cia a seu respeito, Rand al�Thor, e depressa, ao que parece. Lian disse ter recebido informa��es de que Jheran, chefe do cl� dos Aiel Shaarad, e Bael, dos Goshien, j� est�o em Alcair Dal. Erim, dos Chareen, est� a caminho.</p><p>Ele permitiu que uma <emphasis>gai�shain</emphasis> esbelta acendesse seu cachimbo com um graveto em brasa. Pelos movimentos da mo�a, com uma graciosidade distinta da das outras pessoas de robes brancos, Rand suspeitou que ela tivesse sido Donzela da Lan�a n�o muito tempo antes. Ficou se perguntando quanto tempo faltaria para o fim do servi�o de um ano e um dia daquela mo�a, toda humilde e submissa.</p><p>Mat abriu um sorriso para a mulher, quando ela se ajoelhou para acender o cachimbo dele. Das profundezas do capuz, a mo�a lhe devolveu um olhar que nada tinha de submisso, e ele logo fechou o sorriso. Irritado, virou-se de barriga para baixo, um filete de fuma�a azul subia pelo cachimbo. Pena que n�o chegou a ver a satisfa��o no rosto da mulher, que logo fechou a cara, enrubescida, diante da carranca de Amys. A jovem de olhos verdes saiu apressada, absolutamente constrangida. E Aviendha, que tamb�m odiava ter aberto m�o da lan�a e ainda se considerava irm�-de-lan�a das Donzelas de todos os cl�s� Franziu o rosto para a <emphasis>gai�shain</emphasis> que sa�a de cena, exatamente como a Senhora al�Vere faria para algu�m que visse cuspindo no ch�o. Povo estranho. Egwene foi a �nica que Rand viu olhar a mulher com um pouco de compaix�o.</p><p>��Os Goshien e os Shaarad���murmurou Rand, para seu vinho. Rhuarc explicara que cada chefe de cl� traria uns poucos guerreiros para o Vale Dourado, pela honra, assim como cada chefe de ramo. Todos juntos talvez somassem mil de cada cl�. Doze cl�s. Doze mil homens e Donzelas, no fim das contas, todos presos � sua estranha honra e prontos para dan�ar as lan�as ao mero espirro de um gatinho. Talvez mais, por conta da feira. Ele olhou para cima.���Eles t�m uma rixa, n�o t�m?���Rhuarc e Lan assentiram.���Rhuarc, eu sei que voc� disse que em Alcair Dal vigora algo similar � Paz de Rhuidean, mas eu vi at� onde essa paz chegou com os Couladin e os Shaido. Talvez seja melhor eu ir para l� agora mesmo. Se os Goshien e os Shaarad come�arem a brigar� uma coisa desse tipo pode se espalhar. Eu quero <emphasis>todos</emphasis> os Aiel comigo, Rhuarc.</p><p>��Os Goshien n�o s�o os Shaido���respondeu Melaine, em um tom r�spido, balan�ando a cabeleira acobreada feito uma leoa.</p><p>��E nem os Shaarad.���A voz aguda de Bair era mais fina do que a da mulher mais jovem, por�m n�o menos perempt�ria.���Jheran e Bael podem tentar matar um ao outro antes de retornarem a seus fortes, mas n�o em Alcair Dal.</p><p>��Nada disso responde a pergunta de Rand al�Thor���disse Rhuarc.���Se voc� for para Alcair Dal antes de todos os chefes chegarem, os que ainda n�o estiverem l� cair�o em desonra. N�o � uma boa forma de anunciar que voc� � o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, desonrando homens que pede que o sigam. Os Nakai est�o vindo de mais longe. Mais um m�s, e todos estaremos em Alcair Dal.</p><p>��Menos���disse Seana, sacudindo a cabe�a com vigor.���J� entrei duas vezes nos sonhos de Alsera, e ela disse que Bruan pretende percorrer o caminho todo correndo, desde o Forte Shiagi. Menos de um m�s.</p><p>��Um m�s at� sairmos, para termos certeza���disse Rhuarc.���Depois mais tr�s dias at� Alcair Dal. Talvez quatro. Ent�o todos estaremos l�.</p><p>Um m�s. Ele esfregou o queixo. Tempo demais. Tempo demais, e op��es de menos. Nas hist�rias, tudo sempre acontecia conforme os planos do her�i, aparentemente na hora que ele queria. Na vida real quase nunca era assim, mesmo que ele fosse <emphasis>ta�veren</emphasis> e supostamente com a profecia agindo a seu favor. Na vida real, era preciso esfor�o e esperan�a, al�m da sorte de �s vezes encontrar metade do que se precisava. Ainda assim, uma parte do plano era seguir o caminho que pretendia. A parte mais perigosa.</p><p>Moiraine, estirada entre Lan e Amys, bebericava o vinho pregui�osamente, os olhos meio ca�dos, parecendo sonolenta. Rand n�o acreditou. Ela via tudo, ouvia tudo. Mas no momento ele n�o tinha nada a dizer que ela n�o pudesse ouvir.</p><p>��Quantos resistir�o, Rhuarc? Ou se opor�o a mim? Voc� arriscou um palpite, mas nunca disse com certeza.</p><p>��N�o d� para ter certeza���respondeu o chefe de cl�, com o cachimbo na boca.���Quando voc� mostrar os Drag�es, eles o reconhecer�o. N�o h� como imitar os Drag�es de Rhuidean.���Os olhos de Moiraine teriam se movido?���� de voc� que as profecias falam. Vou apoi�-lo, e Bruan sem d�vida tamb�m, assim como Dhearic, dos Aiel Reyn. Os outros�? Sevanna, esposa de Suladric, levar� os Shaido, j� que o cl� n�o tem chefe. Ela � jovem para ser a senhora do teto de um forte, e sem d�vida n�o est� nada satisfeita em passar a ter apenas um teto, e n�o um forte inteiro, quando no substituto de Suladric for escolhido. E Sevanna � astuta e indigna de confian�a, como qualquer Shaido que j� nasceu. Mas, mesmo que ela n�o cause problemas, voc� sabe que Couladin vai causar. Ele age como chefe de cl�, e pode ser que alguns Shaido acabem seguindo o tolo, mesmo que ele n�o adentre Rhuidean. Os Shaido s�o idiotas o bastante para uma coisa dessas. Han, dos Tomanelle, pode ir para qualquer dire��o. Ele � o tipo de homem de pavio curto, dif�cil de conhecer e de lidar, e�</p><p>Rhuarc parou de falar quando Lian murmurou, baixinho:</p><p>��Tem algum outro tipo?</p><p>Rand imaginou que n�o fosse para o chefe de cl� escutar. Amys escondeu um sorriso por tr�s da m�o, e a esposa-irm� enterrou o rosto inocentemente na caneca de vinho.</p><p>��Como eu estava dizendo���continuou Rhuarc, olhando resignado para as esposas���n�o d� para ter certeza. A maioria vai seguir voc�. Talvez todo mundo. Talvez at� os Shaido. Esperamos tr�s mil anos pelo homem que tem a marca de dois Drag�es. Quando voc� mostrar os bra�os, ningu�m vai duvidar de que foi enviado para nos unir.���E para destru�-los. Mas o Aiel n�o mencionou essa parte.���A quest�o � como eles v�o decidir reagir.���Ele bateu com o fornilho do cachimbo nos dentes, pensativo.���Voc� n�o vai mudar de ideia e vestir o <emphasis>cadin�sor</emphasis>?</p><p>��E mostrar o que a eles, Rhuarc? Um falso Aiel? � melhor vestir Mat de Aiel.���Mat engasgou com o pr�prio cachimbo.���N�o vou fingir. Eu sou o que sou, e eles v�o ter que me aceitar como eu sou.���Rand ergueu os punhos, e as mangas do casaco ca�ram e revelaram as cabe�as de crinas douradas logo acima das costas das m�os.���Isso aqui prova quem eu sou. Se n�o for suficiente, nada mais ser�.</p><p>��Onde voc� pretende �guiar as lan�as outra vez para a guerra�?���perguntou Moiraine, de repente.</p><p>Mat engasgou de novo, agarrando o cachimbo e encarando a mulher. Os olhos escuros da Aes Sedai j� n�o estavam mais semicerrados.</p><p>Rand cerrou os punhos at� estalar as juntas. Tentar ser esperto com ela era perigoso, j� devia ter aprendido isso havia muito tempo. A mulher recordava cada palavra que ouvia, arquivava, recuperava e examinava at� entender exatamente o significado.</p><p>Ele se levantou devagar. Todos o observavam. Egwene parecia ainda mais preocupada do que Mat, mas os Aiel apenas assistiam. Falar de guerra n�o os incomodava. Rhuarc parecia� pronto. E o rosto de Moiraine guardava uma calma fria.</p><p>��Se voc�s me d�o licen�a���disse���eu vou caminhar um pouco.</p><p>Aviendha ficou de joelhos, e Egwene se levantou, mas nenhuma das duas foi atr�s dele.</p></section><section><title><p>50</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Armadilhas</p></title><p>Fora da casa, no caminho pavimentado de pedras entre a casa de tijolos amarelos e a horta da plataforma, Rand parou para observar o c�nion abaixo, mas n�o via muita coisa al�m das sombras do fim de tarde que subiam aos poucos pelo ch�o. Se pelo menos pudesse confiar que Moiraine n�o o entregaria � Torre em uma coleira� N�o tinha d�vidas de que ela seria capaz disso, e sem usar o Poder uma �nica vez, caso ele desse a menor brecha. A mulher conseguiria fazer um touro a entrar na toca de um rato sem que o animal sequer percebesse. Poderia ser �til. <emphasis>Luz, sou t�o ruim quanto ela. Usar os Aiel. Usar Moiraine. Se pelo menos eu pudesse confiar nela.</emphasis></p><p>Foi andando em dire��o � entrada do c�nion, descendo todos as ladeiras que levavam at� l�. Eram caminhos estreitos, pavimentados de pedras pequenas, os mais �ngremes com degraus entalhados. O ecoar de martelos em diversas ferrarias soava familiar. Nem todas as constru��es eram casas. Por uma porta aberta, viu diversas mulheres trabalhando em teares, e, por outra, uma prateira pendurando os martelinhos e goivas. Por uma terceira, um homem diante de uma roda de oleiro, com as m�os no barro e fornos quente de olaria atr�s. Homens e meninos, exceto pelos muito jovens, usavam o <emphasis>cadin�sor</emphasis>, uma faca pequena de cintura ou l�mina nenhuma, �s vezes uma <emphasis>shoufa</emphasis> sem o v�u preto amarrado. Ainda assim, ao observar um ferreiro p�r o cabo na lan�a para a qual acabara de preparar uma l�mina de um p� de comprimento, Rand n�o teve d�vidas de que o homem seria capaz de utilizar a arma com tanta agilidade quanto a fabricara.</p><p>Os caminhos n�o estavam cheios, mas havia bastante gente transitando. Crian�as gargalhavam, correndo e brincando, as garotinhas menores carregavam tanto bonecas quanto lan�as de brinquedo. <emphasis>Gai�shain</emphasis> levavam enormes jarros de barro na cabe�a ou podavam os jardins, em geral sob o comando de uma crian�a de dez ou doze anos. Homens e mulheres seguiam com suas vidas, nada muito diferente das coisas que talvez fizessem em Campo de Emond, como varrer a soleira da porta de casa ou consertar uma parede. As crian�as mal olhavam para ele, apesar do casaco vermelho e das botas de sola grossa, e os <emphasis>gai�shain</emphasis> eram t�o discretos que ficava dif�cil dizer se o notavam ou n�o. No entanto, os artes�os e os combatentes, homens e mulheres adultos, o encaravam com ares de especula��o, com uma pontada de d�vida e expectativa.</p><p>Garotos muito jovens corriam descal�os, vestidos em robes bastante parecidos com os dos <emphasis>gai�shain</emphasis>, mas no tom marrom acinzentado do <emphasis>cadin�sor,</emphasis> em vez de brancos. As meninas mais novas tamb�m corriam descal�as para l� e para c�, em vestidinhos curtos que �s vezes n�o chegavam a cobrir os joelhos. Uma coisa nas meninas lhe chamou a aten��o: as que tinham menos de doze anos, mais ou menos, usavam os cabelos em duas tran�as amarradas com fitas de cores vivas, uma sobre cada orelha. Exatamente como as que Egwene usara. S� podia ser coincid�ncia. Ela devia ter desfeito as tran�as porque as S�bias contaram a ela que era assim que as menininhas Aiel usavam os cabelos. De todo modo, era uma bobagem pensar a respeito. Ele agora tinha uma mulher com quem lidar. Aviendha.</p><p>Na base do c�nion, os mascates estavam engajados em negocia��es animadas com a multid�o de Aiel que fervilhava ao redor dos carro��es com coberturas de lona. Pelo menos os condutores estavam. Keille, com um xale de renda azul preso aos pentes de marfim, barganhava com firmeza em um tom de voz alto. Kadere estava sentado em um barril virado para baixo, � sombra do carro��o branco. Usava um casaco cor-de-creme e n�o parava de secar o suor do rosto, sem fazer qualquer esfor�o para vender. Olhou para Rand e fez men��o de se levantar, mas afundou de volta no barril. Isendre n�o estava em qualquer canto � vista, mas, para surpresa de Rand, Natael estava por l�, o manto coberto de retalhos atraindo uma tropa de crian�as e alguns adultos. Aparentemente, o encanto de uma nova e maior audi�ncia o afastara dos Shaido. Ou talvez Keille apenas n�o o quisesse fora de vista. Por mais absorta que estivesse na negocia��o, a mulher ainda encontrava tempo de franzir o cenho para o menestrel.</p><p>Rand evitou os carro��es. Ao perguntar aos Aiel, descobriu aonde os Jindo tinham ido: cada um para o teto de sua sociedade, ali nas Pedras Frias. O Teto das Donzelas ficava na metade do caminho at� a muralha leste do c�nion, um lugar ainda bastante iluminado. Era um ret�ngulo de pedra cinza encimado por um jardim, sem d�vida maior por dentro do que parecia por fora. N�o que desse para ver o interior. Um par de Donzelas acocoradas ao lado da porta, portando lan�as e broqu�is, barrou sua entrada, achando muito engra�ado e escandaloso que um homem desejasse entrar, mas uma delas concordou em repassar seu pedido.</p><p>Poucos minutos depois, sa�ram de l� as Donzelas dos Jindo e dos Nove Vales que tinham ido para a Pedra. E tamb�m todas as outras Donzelas do ramo dos Nove Vales que estavam no Forte das Pedras Frias, amontoando-se dos dois lados do caminho e pelo teto entre as fileiras de hortali�as para espiar, de sorrisos escancarados, como se esperassem se divertir. <emphasis>Gai�shain</emphasis> homens e mulheres serviam pequenas x�caras de ch� escuro. Qualquer que fosse a regra que impedia os homens de adentrar o Teto das Donzelas, n�o valia para os <emphasis>gai�shain</emphasis>.</p><p>Depois de Rand examinar diversas ofertas, Adelin, a mulher Jindo de cabelos louros com uma pequena cicatriz no rosto, exibiu um enorme bracelete de marfim com entalhes profundos de rosas. Ele achou que combinava com Aviendha, pois o escultor tivera o cuidado de entalhar os espinhos por entre as flores.</p><p>Adelin era alta, mesmo para uma Aiel, com os olhos apenas um palmo mais baixos que os de Rand. Quando soube a raz�o pela qual ele queria o bracelete���ou melhor, soube em parte: Rand disse apenas que era um presente pelos ensinamentos de Aviendha, n�o para amansar o temperamento da mulher e torn�-la uma companhia mais toler�vel���Adelin olhou em volta, para as outras Donzelas. Todas fecharam os sorrisos, exibindo express�es indecifr�veis.</p><p>��N�o aceito pagamento por isso aqui, Rand al�Thor���declarou, colocando o bracelete na m�o dele.</p><p>��Isso � errado?���perguntou o rapaz. Como os Aiel enxergariam aquele gesto?���Eu n�o quero desonrar Aviendha de forma alguma.</p><p>��N�o vai desonr�-la.���A mulher acenou para uma <emphasis>gai�shain</emphasis> que carregava uma bandeja de prata com ta�as e uma jarra de cer�mica. Serviu duas ta�as e entregou uma a ele.���Lembre-se da honra���disse, bebendo da ta�a dele.</p><p>Aviendha nunca mencionara nada parecido com aquilo. Indeciso, ele tomou um golinho do ch� amargo e repetiu:</p><p>��Lembre-se da honra.���Parecia o mais seguro a dizer.</p><p>Para sua surpresa, a mulher o beijou delicadamente em cada face.</p><p>Uma Donzela mais velha, de cabelos grisalhos, mas ainda de fei��es firmes, surgiu diante dele.</p><p>��Lembre-se da honra���disse, e bebericou.</p><p>Ele precisou repetir o ritual com todas as Donzelas presentes. No fim, apenas tocava a ta�a com os l�bios. As cerim�nias Aiel podiam ser curtas e diretas, mas, quando era preciso repeti-las com setenta e tantas mulheres, at� os golinhos acabavam deixando o sujeito entupido. As sombras j� se erguiam pelo leste do c�nion quando ele conseguiu escapar.</p><p>Encontrou Aviendha perto da casa de Lian, batendo vigorosamente um carpete de listras azuis pendurado em um varal, com outros empilhados a seu lado, em uma variedade de cores. Afastando uma mecha de cabelo suado da testa, a jovem o encarou, sem express�o, quando ele lhe entregou o bracelete e disse que era um presente pelos ensinamentos.</p><p>��Eu j� dei braceletes e colares a amigas que n�o carregavam a lan�a, Rand al�Thor, mas nunca usei um.���A voz dela era absolutamente inexpressiva.���Essas coisas chacoalham e fazem barulho, entregam a gente quando � preciso fazer sil�ncio. Elas agarram quando a gente se mexe muito r�pido.</p><p>��Mas voc� pode usar agora, j� que vai ser uma S�bia.</p><p>���.���Ela girou o aro de marfim como se n�o soubesse muito bem o que fazer com ele, ent�o passou-o pela m�o de repente e ergueu o bra�o para olh�-lo. Poderia estar encarando uma algema.</p><p>��Se voc� n�o gostou� Aviendha, Adelin disse que isso n�o mancharia sua honra. Ela at� pareceu aprovar.���Rand mencionou a cerim�nia dos golinhos do ch�, e a jovem estreitou os olhos e se arrepiou toda.���Qual � o problema?</p><p>��Elas acham que voc� est� tentando atrair o meu interesse.���Rand n�o acreditava que a voz dela estivesse t�o impass�vel. Os olhos n�o esbo�avam qualquer emo��o.���Elas todas aprovaram voc�, como se eu ainda portasse a lan�a.</p><p>��Luz! Era mais simples esclarecer as coisas. Eu n�o����Ele parou de falar ao ver os olhos da mulher ardendo de raiva.</p><p>��N�o! Voc� aceitou a aprova��o delas, agora vai rejeitar? <emphasis>Isso sim</emphasis> me desonraria! Voc� acha que � o primeiro homem que tenta me cortejar? Elas agora t�m que continuar pensando o que est�o pensando. N�o quer dizer nada.���Com uma carranca, Aviendha agarrou o batedor de tapete tran�ado com as duas m�os.���Saia daqui.���Olhando o bracelete, ela acrescentou:���Voc� n�o entende nada mesmo, n�o �? N�o entende nada. A culpa n�o � sua.���Ela parecia estar repetindo algo que escutara, ou tentando convencer a si mesma.���Me desculpe por ter estragado o seu jantar, Rand al�Thor. Por favor, saia daqui. Amys disse que preciso limpar todos esses tapetes e carpetes, leve o tempo que levar. Vai levar a noite inteira, se voc� ficar aqui plantado falando comigo.</p><p>Aviendha virou as costas para ele e deu uma pancada violenta no carpete listrado, o bracelete de marfim balan�ando em seu pulso.</p><p>Rand n�o sabia se o pedido de desculpas fora por causa do presente ou por ordem de Amys���suspeitava da segunda hip�tese���mas soara sincero. Ficou claro que Aviendha n�o estava satisfeita, a julgar pelo grunhido agudo de esfor�o que acompanhava cada girada em cheio com o batedor, por�m n�o expressara sua raiva nenhuma vez. Podia estar irritada, intimidada e at� furiosa, mas n�o com raiva. Era melhor do que nada. Uma hora a mulher recuperaria a civilidade.</p><p>Quando ele adentrou o sal�o principal da casa de Lian, pavimentado com azulejos marrons, viu as S�bias todas juntas, conversando, as quatro com xales soltos por cima dos ombros. Um sil�ncio se abateu quando ele apareceu.</p><p>��Vou mostrar seu quarto a vocꠗ�disse Amys.���Os outros j� foram para os deles.</p><p>��Obrigado.���Ele olhou de volta para a porta, o cenho levemente franzido.���Amys, voc� mandou Aviendha se desculpar comigo pelo jantar?</p><p>��N�o. Ela fez isso?���Os olhos azuis da mulher ficaram pensativos por um instante. Rand achou que Bair estava quase sorrindo.���Eu n�o mandaria uma coisa dessas, Rand al�Thor. Desculpas for�adas n�o s�o desculpas.</p><p>��N�s mandamos a garota bater tapetes at� acalmar um pouco os �nimos���respondeu Bair.���Qualquer coisa a mais partiu dela mesma.</p><p>��E provavelmente foi feita na esperan�a de escapar das tarefas���acrescentou Seana.���Ela tem que aprender a controlar a raiva. Uma S�bia precisa dominar suas emo��es, n�o se deixar controlar por elas.</p><p>Com um leve sorriso, Seana olhou de esguelha para Melaine. A mulher de cabelos dourados apertou os l�bios e fungou.</p><p>Elas estavam tentando convenc�-lo de que Aviendha seria uma �tima companhia dali em diante. Seria poss�vel que pensassem que ele estava cego?</p><p>��Voc�s devem saber que eu j� sei. Sobre ela. Que voc�s mandaram Aviendha para me espionar.</p><p>��Voc� n�o sabe tanto quanto pensa que sabe���respondeu Amys, como uma verdadeira Aes Sedai, escondendo inten��es.</p><p>Melaine ajeitou o xale, avaliando-o de cima a baixo. Rand sabia um pouco sobre Aes Sedai e, se aquela ali fosse uma, seria da Ajah Verde.</p><p>��Eu admito���come�ou ela���que no in�cio pensamos que voc� n�o veria nada al�m de uma bela mulher. E voc� tamb�m � bastante bonito, de modo que Aviendha acharia a sua companhia mais interessante que a nossa. N�o cont�vamos com a l�ngua dela. Nem com outras coisas.</p><p>��Ent�o por que querem tanto que ela continue comigo?���A voz dele saiu em um tom mais violento do que o pretendido.���Voc�s n�o podem achar que depois disso eu vou contar a ela qualquer coisa que n�o queira que voc�s saibam.</p><p>��Por que voc� permite que ela fique?���perguntou Amys, muito calma.���Caso se recusasse a aceit�-la, como poder�amos for��-la a passar tempo com voc�?</p><p>��Pelo menos assim eu sei quem � o espi�o.���Poder vigiar Aviendha era melhor do que ficar tentando descobrir qual dos Aiel estava tentando vigi�-lo. Sem a mulher, decerto suspeitaria de que todos os coment�rios displicentes de Rhuarc fossem tentativas de espionagem. Ora, j� n�o havia como dizer que n�o eram. Rhuarc era casado com uma daquelas mulheres. De repente, sentiu-se contente por n�o ter confiado mais no chefe de cl�. E triste por pensar em uma coisa desses. Por que tinha acreditado que seria mais simples lidar com os Aiel do que com os Gr�o-lordes tairenos?���Fico feliz em deixar a situa��o exatamente como est�.</p><p>��Ent�o todos estamos felizes���respondeu Bair.</p><p>Rand encarou a mulher de rosto bronzeado com desconfian�a. Sentira um tom de algo mais em sua voz, como se Bair soubesse mais do que ele.</p><p>��Ela n�o vai descobrir o que voc�s querem.</p><p>��O que n�s queremos?���indagou Melaine, de repente. Os longos cabelos balan�aram quando ela jogou a cabe�a para tr�s.���A profecia diz que �o que restar do restante ele salvar�. O que n�s queremos, Rand al�Thor, <emphasis>Car�a�carn</emphasis>, � salvar o m�ximo poss�vel do nosso povo. Seja l� que sangue e que rosto voc� tenha, n�o sente nada por n�s. Eu vou fazer voc� encarar nosso sangue como seu nem que tenha que botar�</p><p>��Eu acho���interrompeu Amys, com delicadeza���que Rand deve estar com vontade de ver o quarto dele. Parece um pouco cansado.���Ela bateu palmas com vigor, e uma <emphasis>gai�shain</emphasis> graciosa apareceu.���Mostre a este homem o quarto que foi preparado para ele. Providencie o que ele precisar.</p><p>As S�bias rumaram para a porta e o deixaram ali parado, sozinho. Bair e Seana olharam irritadas para Melaine, feito integrantes do C�rculo das Mulheres encarando algu�m a quem pretendiam repreender duramente por algum mau comportamento. A mulher as ignorou. Quando a porta se fechou atr�s delas, estava resmungando algo que soou como �p�r algum ju�zo naquela garota idiota�.</p><p>Que garota idiota? Aviendha? Mas ela j� estava fazendo o que as mulheres queriam. Egwene, talvez? Sabia que Egwene estava estudando alguma coisa com as S�bias. E o que Melaine estava disposta a �botar� para faz�-lo �encarar o sangue Aiel como dele�? Como botar alguma coisa em algum lugar o faria decidir ser Aiel? <emphasis>Botar uma armadilha a seus p�s, talvez? Idiota! Ela n�o falaria com tanta franqueza se pretendesse lev�-lo para uma armadilha. Que tipo de coisas podem ser �botadas�? Galinhas botam ovos</emphasis>, pensou, rindo baixinho. Estava cansado. Cansado demais para fazer perguntas. Passara doze dias e parte do d�cimo-terceiro em cima de uma sela, todos escaldantes e secos. N�o queria pensar em como se sentiria se tivesse caminhado toda aquela dist�ncia no mesmo ritmo. Aviendha devia ter pernas de a�o. Ele queria uma cama.</p><p>A <emphasis>gai�shain</emphasis> era bonita, apesar da fina cicatriz enviesada logo acima de um dos olhos azuis, adentrando pelos cabelos t�o finos que quase pareciam de prata. Outra Donzela, s� que n�o era Donzela no momento.</p><p>��Por favor, queira me acompanhar���murmurou a mulher, olhando para o ch�o.</p><p>O quarto n�o era um dormit�rio, naturalmente. Como era de se esperar, a �cama� consistia de um catre grosso aberto sobre uma pilha de tapetes de cores fortes. A <emphasis>gai�shain</emphasis>���seu nome era Chion���ficou chocada quando ele pediu �gua para se lavar, mas Rand estava cansado dos banhos de suor. Podia apostar que Moiraine e Egwene n�o precisaram se sentar em uma tenda cheia de vapor para se limparem. Ainda assim, Chion trouxe �gua quente em um grande c�ntaro marrom, usado para regar o jardim, e um imenso vaso branco como lavat�rio. Ele a p�s para fora quando a mulher se ofereceu para banh�-lo. Que povo mais estranho!</p><p>O quarto n�o tinha janelas e era iluminado por lampi�es prateados que pendiam de suportes nas paredes, mas Rand sabia que ainda n�o devia estar totalmente escuro l� fora quando terminou de se lavar. N�o importava. Havia apenas dois cobertores sobre o catre, nenhum muito grosso. Sem d�vida um sinal da dureza dos Aiel. Ao lembrar-se das noites frias que passara nas tendas, vestiu-se outra vez, exceto pelo casaco e as botas, antes de apagar os lampi�es e se enfiar debaixo dos cobertores, na mais completa escurid�o.</p><p>Por mais cansado que estivesse, n�o conseguia parar de pensar e se revirar. O que Melaine pretendia botar? Por que as S�bias n�o ligavam para o fato de ele saber que Aviendha era uma espi�? Uma bela mulher, s� que mais intrat�vel do que uma mula com os quatro cascos machucados. Sua respira��o ficou mais lenta, e os pensamentos, enevoados. Um m�s. Tempo demais. Sem escolha. Honra. Isendre sorrindo. Kadere olhando. Armadilha. Botar uma armadilha a seus p�s. Que armadilha? De quem? Armadilhas. Se ao menos ele pudesse confiar em Moiraine. Perrin. Casa. Perrin devia estar nadando no�</p><empty-line/><p>De olhos fechados, Rand passou as m�os pela �gua. Fresca e agrad�vel. E t�o molhada. Parecia que nunca se dera conta de como era bom sentir o <emphasis>molhado</emphasis>. Ergueu a cabe�a e olhou em volta, a fileira de salgueiros de um dos lados do laguinho e o imenso carvalho do outro, extenso e robusto, os galhos formando sombras na �gua. A Floresta das �guas. Era bom estar em casa. Tinha a sensa��o de que estivera longe, n�o sabia ao certo onde, mas tamb�m n�o era importante. Subira at� a Colina da Vig�lia. Isso. Nunca fora mais longe do que isso. Fresco e molhado. E sozinho.</p><p>De repente, dois corpos se lan�aram ao ar, os joelhos encolhidos contra o peito, e mergulharam, chapinhando a �gua e embotando sua vis�o. Ele limpou a �gua dos olhos e viu Elayne e Min sorrindo, uma de cada lado, apenas as cabe�as aparecendo sobre a superf�cie verde-clara. Estava a duas bra�adas de cada mulher. Uma de cada lado. N�o podia amar as duas. Amar? Por que aquilo surgira em seus pensamentos?</p><p>��Voc� n�o sabe quem ama.</p><p>Ele se virou, remexendo a �gua. Aviendha estava na ribanceira, vestindo um <emphasis>cadin�sor</emphasis>, em vez de saia e blusa. N�o o encarava irritada, no entanto, apenas o olhava.</p><p>��Venha para a �gua���chamou ele.���Vou lhe ensinar a nadar.</p><p>Risadas musicais atra�ram sua aten��o para a margem oposta. A mulher que estava ali, p�lida e nua, era a mais bela que ele j� vira. Tinha grandes olhos escuros que o deixaram completamente desnorteado. Rand achou que a conhecia.</p><p>��Devo permitir que voc� seja infiel a mim, mesmo em sonhos?���perguntou ela.</p><p>Mesmo sem olhar, Rand de alguma forma sabia que Elayne, Min e Aviendha j� n�o estavam mais l�. Aquilo estava come�ando a ficar muito estranho.</p><p>A mulher o observou por um longo instante, sem reparar na pr�pria nudez. Lentamente, p�s-se nas pontas dos p�s, com os bra�os para tr�s, e mergulhou direto no laguinho. Quando sua cabe�a emergiu � superf�cie, os cabelos n�o estavam molhados. Rand ficou surpreso por um instante. Ent�o a mulher se aproximou dele���teria nadado, ou simplesmente <emphasis>surgira</emphasis> a seu lado?���e enroscou os bra�os e as pernas em seu corpo. A �gua estava fria, e o corpo dela, quente.</p><p>��Voc� n�o pode escapar de mim���murmurou ela. Aqueles olhos escuros pareciam muito mais fundos do que o laguinho.���Voc� vai gostar tanto que n�o vai me esquecer nunca mais, nem dormindo, nem acordado.</p><p>Nem dormindo, nem�? Tudo se deslocou, virou um borr�o. A mulher se agarrou a ele com ainda mais for�a, e o borr�o desaparecem. Tudo estava como antes. Juncos preenchiam uma das margens do laguinho. Na outra, folhas-de-couro e pinheiros cresciam quase at� a beira da �gua.</p><p>��Eu conhe�o vocꠗ�comentou, devagar. Achava que conhecia, do contr�rio, por que deixaria a mulher fazer aquilo?���Mas eu n�o� isso n�o est� certo.���Tentou se desvencilhar dela, mas bastava soltar um bra�o para a mulher agarr�-lo outra vez.</p><p>��Eu preciso marcar voc�.���Havia um toque de f�ria na voz dela.���Primeiro aquela covarde da Ilyena, e agora� Em quantas mulheres voc� pensa?</p><p>A mulher de repente cravou os dentes brancos e pequenos no pesco�o dele.</p><p>Urrando, Rand a empurrou e agarrou o pr�prio pesco�o. Tinha arrancado pele. Estava sangrando.</p><p>��� assim que voc� se diverte enquanto eu me pergunto aonde foi?���indagou uma voz masculina, carregada de desprezo.���Por que eu deveria manter minha palavra se voc� p�e o nosso plano em risco desse jeito?</p><p>A mulher apareceu na margem de repente, vestida de branco, com um cinto de prata tran�ada envolvendo a cintura fina, al�m de estrelas e luas de prata nos cabelos escuros como a meia-noite. Atr�s dela, o ch�o elevava um pouco, formando um bosque de freixos por sobre um monte. Rand n�o se lembrava de ter visto freixos antes. A mulher encarava� um borr�o. Um borr�o indistinto flutuando no ar, espesso, cinzento, do tamanho de um homem. Estava tudo� errado, por assim dizer.</p><p>��Em risco���repetiu ela, com desprezo.���Voc� tem tanto medo de se arriscar quanto Moghedien, n�o �? Rasteja feito a pr�pria Aranha. Se eu n�o tivesse arrancado voc� daquele buraco, ainda estaria se escondendo, esperando para conseguir agarrar umas migalhas.</p><p>��Se voc� n�o � capaz de controlar seu� apetite���disse o borr�o, com uma voz masculina���por que eu deveria me aliar a voc�, para come�o de conversa? Se tiver que correr riscos, eu quero uma recompensa maior do que ficar puxando os cord�is de uma marionete.</p><p>��Como assim?���perguntou a mulher, em um tom amea�ador.</p><p>O borr�o tremeluziu. De alguma forma, Rand sabia que era hesita��o, incerteza por ter falado demais. De s�bito, desapareceu. A mulher olhou para Rand, ainda enfiado no laguinho at� o pesco�o. Ent�o apertou os l�bios, irritada, e sumiu.</p><empty-line/><p>Rand acordou com um susto e ficou ali parado, perscrutando a escurid�o. Um sonho. Mas fora um sonho comum, ou algo mais? Ele mexeu a m�o por debaixo das cobertas e tocou a lateral do pesco�o, sentindo as marcas dos dentes e o filete fino de sangue. Fosse qual fosse o tipo de sonho, a mulher estivera nele. Lanfear. N�o tinha sonhado <emphasis>com ela</emphasis>. E aquele outro, um homem. Um sorriso frio surgiu em seu rosto. <emphasis>Armadilhas por todos os cantos. Armadilhas para p�s desatentos. Eu preciso olhar por onde ando.</emphasis> Tantas armadilhas. E criadas por todo mundo.</p><p>Rindo baixinho, Rand virou de lado para voltar a dormir���e ficou im�vel, prendendo a respira��o. N�o estava sozinho no quarto. <emphasis>Lanfear</emphasis>.</p><p>Em um frenesi, tentou agarrar a Fonte Verdadeira. Por um instante, temeu ser derrotado pelo pr�prio medo. Ent�o adentrou a calma g�lida do Vazio e foi preenchido por uma torrente tempestuosa de Poder. Ele se levantou de um salto e atacou. Os lampi�es se acenderam.</p><p>Aviendha estava sentada diante da porta, de pernas cruzadas, com a boca escancarada, e os olhos verdes, arregalados, voltados para os lampi�es e os fluxos, invis�veis a ela, que a envolviam por completo. N�o conseguia sequer mexer a cabe�a. Rand esperara encontrar algu�m de p�, e a teia ultrapassara a cabe�a dela. Ele soltou os fluxos de Ar no mesmo instante.</p><p>A jovem se levantou, afobada, quase derrubando o xale.</p><p>��Eu� eu acho que nunca vou me acostumar com����Ela apontou para os lampi�es.���Vindo de um homem.</p><p>��Voc� j� me viu manejar o Poder antes.���A ira jorrou pela superf�cie do Vazio que o circundava. Invadindo sorrateira o quarto, na escurid�o. Quase o fazendo morrer de susto. Aviendha tivera sorte de n�o acabar machucada ou morta por acidente.���� melhor voc� ir se acostumando. Eu sou Aquele Que Vem Com a Aurora, queira admitir ou n�o.</p><p>��Isso n�o � parte�</p><p>��Por que voc� est� aqui?���perguntou ele, em um tom frio.</p><p>��As S�bias est�o se revezando para vigiar voc� do lado de fora. Querem continuar vigiando dos����A voz dela foi morrendo, e a face, enrubescendo.</p><p>��De onde?���A mulher apenas o encarava, com o rosto cada vez mais carmesim.���Aviendha, de ond�?���Andarilhas dos sonhos. Por que aquilo nunca lhe ocorrera?���De dentro dos meus sonhos���disse, em um tom frio.���H� quanto tempo andam espionando dentro da minha cabe�a?</p><p>A jovem soltou um suspiro alto e pesado.</p><p>��N�o era para eu deixar voc� saber. Se Bair descobrir� Seana disse que esta noite seria muito perigoso. Eu n�o entendo: n�o consigo entrar em sonhos sem a ajuda de alguma delas. A �nica coisa que sei � que algo perigoso ocorrer� hoje � noite. � por isso que elas est�o se revezando do outro lado da porta. Est�o todas preocupadas.</p><p>��Voc� ainda n�o respondeu a minha pergunta.</p><p>��Eu n�o sei por que estou aqui���resmungou ela.���Se voc� precisar de prote��o����Ela olhou para a faca de cintura curta e tocou o cabo. O bracelete de marfim parecia irrit�-la, e Aviendha cruzou os bra�os para prend�-lo na axila.���Eu n�o poderia proteger voc� muito bem com uma faquinha t�o pequena, e Bair disse que se eu tocar em outra lan�a sem estar sendo atacada, vai usar o meu couro para fazer um cantil. N�o sei nem por que deveria abrir m�o do meu sono para proteger voc�, para come�o de conversa. Por sua causa, fiquei batendo tapetes at� menos de uma hora atr�s. E s� com as luz do luar!</p><p>��N�o foi essa a pergunta. H� quanto tempo�?���Rand parou de falar de repente.</p><p>Havia uma sensa��o no ar, uma sensa��o de algo errado. De algo maligno. Podia ser imagina��o, algum resqu�cio do sonho. Podia ser.</p><p>Aviendha prendeu a respira��o quando a espada de chamas vermelhas surgiu nas m�os dele, a l�mina levemente curva com a marca da gar�a. Lanfear o acusara de usar apenas a d�cima parte do que era capaz, e ainda assim a maioria dessa d�cima parte vinha de sensa��es e suposi��es. Ele nem ao menos <emphasis>sabia</emphasis> a d�cima parte do que poderia fazer. Mas sabia usar a espada.</p><p>��Fique atr�s de mim.���Percebeu que a mulher come�ara a desenbainhar a faca de cintura enquanto ele percorria o quarto, descal�o, mas com meias, sem fazer barulho nos carpetes. Estranhamente, o ar n�o estava mais frio do que quando se deitara para dormir. Talvez aquelas muralhas de pedra conservassem o calor, pois, quanto mais longe ele ia, mais frio ficava.</p><p>At� os <emphasis>gai�shain</emphasis> deviam ter ido se deitar, �quela hora. Os corredores e aposentos estavam vazios e silenciosos, a maioria com a ilumina��o fraca dos lampi�es espalhados que ainda queimavam. Ali, onde lampi�es apagados significavam escurid�o total, mesmo ao meio-dia, ainda havia luzes acesas. A sensa��o era vaga, mas n�o ia embora. Algo maligno.</p><p>Ele parou de repente sob o grande arco que levava ao sal�o de entrada, pavimentado com os azulejos marrons. Um lampi�o prateado em cada extremidade do sal�o fornecia uma luz p�lida. No meio do aposento havia um homem alto, parado de p�, com a cabe�a inclinada sobre a mulher em seu bra�os cobertos por um manto negro. A cabe�a dela pendia para tr�s, e um capuz branco estava ca�do enquanto o homem acariciava sua garganta. Os olhos de Chion estavam quase fechados, e a mulher exibia um sorriso de �xtase. Um arroubo de constrangimento irrompeu pela superf�cie do Vazio. Ent�o, o homem ergueu a cabe�a.</p><p>Os olhos negros observaram Rand, grandes demais para o rosto p�lido e encovado. Na boca, os l�bios enrugados e vermelhos se abriram em um arremedo de sorriso, revelando dentes afiados. Chion caiu no ch�o quando o manto da criatura se desdobrou e expandiu, feito asas de morcego. O Draghkar pisou em cima da mulher. Era t�o branco, as m�os alvas estendidas para Rand, os dedos longos e finos com garras nas pontas. Mas garras e dentes n�o eram o perigo. Era o beijo do Draghkar que matava, e pior.</p><p>Sua can��o baixa e hipn�tica agarrou-se com for�a ao Vazio. As asas escuras e curtidas avan�aram para envolv�-lo quando Rand deu um passo � frente. Um instante de choque lampejou naqueles imensos olhos negros, e a espada forjada no Poder atravessou o cr�nio do Draghkar, entrando pela ponte do nariz.</p><p>Uma l�mina de a�o teria ficado presa, mas a espada forjada em fogo se soltou com facilidade assim que a criatura caiu. Por um instante, nas profundezas do cora��o do Vazio, Rand examinou a coisa a seus p�s. Aquela can��o. Se n�o estivesse protegido das emo��es, se o Vazio n�o o mantivesse distante e desapaixonado, aquela can��o teria arrebatado sua mente. O Draghkar sem d�vida acreditava que tinha, quando veio avan�ando com tanto desejo.</p><p>Aviendha saiu correndo, passou por ele e ajoelhou-se ao lado de Chion. Ela buscou o pulso da <emphasis>gai�shain</emphasis>.</p><p>��Morta���anunciou, fechando as p�lpebras da mulher.���Talvez tenha sido melhor assim. Os Draghkar devoram a alma, antes de consumir a vida. Um Draghkar! Aqui!���Ela cravou os olhos na criatura, ainda agachada.���Trollocs na Parada de Imre, e, agora, um Draghkar aqui. Voc� est� trazendo um tempo ruim para a Terra da�</p><p>Com um urro, a mulher se jogou por cima de Chion no segundo em que Rand ergueu a espada.</p><p>Uma barra de fogo s�lido disparou da l�mina da espada, por cima de Aviendha, e acertou o peito do Draghkar que apareceu � porta. Irrompendo em chamas, a Criatura da Sombra cambaleou para tr�s, gritando, trope�ando, batendo as asas flamejantes.</p><p>��Acorde todo mundo���disse Rand, muito calmo. Chion lutara? At� onde sua honra a levara? N�o fazia diferen�a. Era mais f�cil matar Draghkar que Myrddraal, mas eles eram mais perigosos, � sua pr�pria maneira.���Se souber soar o alarme, fa�a isso.</p><p>��O gongo perto da porta�</p><p>��Pode deixar que eu fa�o. Acorde todo mundo. Pode haver mais do que dois.</p><p>Aviendha assentiu e disparou por onde haviam vindo, gritando:</p><p>��Lan�as a postos! Acordem, lan�as a postos!</p><p>Rand saiu, receoso, com a espada pronta, preenchido pelo Poder, exaltado. Enjoado. Queria rir, queria vomitar. A noite estava congelante, mas ele mal notava o frio.</p><p>O Draghkar em chamas jazia esparramado na horta do terra�o, fedendo a carne queimada, somando a luz de seu fogo baixo ao luar. Um pouco mais abaixo jazia Seana, os longos cabelos grisalhos espalhados feito um leque, encarando o c�u de olhos arregalados, sem piscar. A faca de cintura estava ca�da a seu lado, mas a arma n�o tinha chance contra um Draghkar.</p><p>Ao mesmo tempo em que Rand agarrou o malho pendurado ao lado do gongo quadrado de bronze, o pandem�nio irrompeu na entrada do c�nion: berros humanos e uivos de Trollocs, clangor de a�o, gritaria. Ele soou o gongo com for�a, um badalo sonoro ecoou pelo c�nion. Quase no mesmo instante, outro gongo soou, depois outro, e de dezenas de bocas irrompeu o chamado:</p><p>��Lan�as a postos!</p><p>Gritos confusos se ergueram ao redor dos carro��es dos mascates, abaixo. Ret�ngulos de luz apareceram, e portas se abriram nos dois carro��es em forma de caixotes, emitindo um brilho branco ao luar. Algu�m gritava de raiva l� embaixo���uma mulher, mas Rand n�o soube dizer quem.</p><p>Asas bateram no ar acima dele. Rosnando, Rand ergueu a espada de fogo. Sentiu o Poder �nico arder dentro de si, e fogo emanou da l�mina. O Draghkar, curvado, explodiu em chamas, em uma chuva de nacos grossos que desapareceram na escurid�o abaixo.</p><p>��Aqui���disse Rhuarc. Os olhos do chefe estavam inflex�veis por cima do v�u negro. Todo vestido, ele carregava broquel e lan�as. Mat vinha logo atr�s, sem casaco nem chap�u, com a camisa meio para fora das cal�as, piscando, hesitante, agarrando a lan�a de punho preto com as duas m�os.</p><p>Rand pegou a <emphasis>shoufa</emphasis> que Rhuarc oferecia, ent�o largou-a no ch�o. Uma silhueta com asas de morcego deu um giro, cruzou a lua e desceu na outra extremidade do c�nion, esvanecendo em meio �s sombras.</p><p>��Eles est�o me ca�ando. Deixe que vejam o meu rosto.���O Poder oscilou dentro dele, a espada em sua m�o tremulou, parecia um pequeno sol a ilumin�-lo.���N�o v�o poder me encontrar se n�o souberem onde estou.</p><p>Rindo, pois os outros eram incapazes de entender a piada, Rand saiu correndo, descendo em dire��o ao som da batalha.</p><empty-line/><p>Puxando a lan�a do peito de um Trolloc com focinho de javali, Mat se agachou, os olhos vasculhando a escurid�o iluminada pelo luar perto da entrada do c�nion, � procura de outro. <emphasis>Que o queime, Rand!</emphasis> Nenhuma das silhuetas que vira se movendo era grande o suficiente para ser um Trolloc. <emphasis>Sempre me atirando em cima dessas malditas criaturas!</emphasis> Gemidos baixos vinham dos feridos. Uma forma sombreada, que ele pensou ser Moiraine, ajoelhou-se ao lado de um Aiel ca�do. As bolas de fogo que ela atirava eram impressionantes, quase tanto quanto a tal espada de Rand, jorrando barras de fogo. A coisa ainda reluzia, e um c�rculo de luz rodeava o homem. <emphasis>Eu devia ter ficado debaixo das cobertas, era isso que eu devia ter feito. Est� um frio desgra�ado, e eu n�o tenho nada a ver com essa hist�ria!</emphasis> Outros Aiel come�aram a aparecer, mulheres de saias vindo ajudar os feridos. Algumas portavam lan�as. Talvez n�o lutassem em condi��es normais, mas, se a batalha tomava o forte, n�o ficavam paradas assistindo.</p><p>Uma Donzela parou ao lado dele e removeu o v�u. Mat n�o conseguiu distinguir seu rosto, todo envolto em sombras.</p><p>��Voc� dan�a muito bem com a lan�a, jogador. Dias estranhos, com Trollocs chegando �s Pedras Frias.���Ela olhou a silhueta sombreada que Mat pensava ser Moiraine.���Sem as Aes Sedai, talvez eles tivessem for�ado uma avan�ada.</p><p>��N�o estavam em n�mero suficiente para isso���respondeu ele, sem pensar.���A inten��o era chamar a aten��o para c�.���<emphasis>Para que os tais Draghkar ficassem livres para atacar Rand?</emphasis></p><p>��Acho que voc� tem raz�o���respondeu a Donzela, receosa.���Voc� � algum l�der de batalha entre os aguacentos?</p><p>Mat desejou ter ficado de boca fechada.</p><p>��Eu li um livro, uma vez���balbuciou, virando as costas. <emphasis>Porcarias de trechos de lembran�as de outros homens.</emphasis> Talvez os mascates quisessem ir embora, depois disso.</p><p>Quando parou pr�ximo aos carro��es, no entanto, n�o viu Keille nem Kadere por ali. Os condutores estavam aglomerados, passando jarras de algo que cheirava como o bom conhaque que andavam vendendo, em um burburinho agitado, como se os Trollocs tivessem chegado bem perto deles. Isendre estava parada no topo dos degraus do carro��o de Kadere, olhando emburrada para o nada. At� de cenho franzido a mulher era bonita, por detr�s daquele len�o fino. Mat ficou satisfeito em ver que pelo menos suas lembran�as de mulheres permaneciam inalteradas.</p><p>��Os Trollocs j� eram���comentou, apoiando-se na lan�a de modo que a mulher pudesse v�-la claramente. <emphasis>N�o faz sentido arriscar o pesco�o desse jeito se eu n�o ganhar nada em troca.</emphasis> N�o precisou de esfor�o para soar cansado.���Uma luta dif�cil, mas agora voc� est� a salvo.</p><p>Isendre o encarou, com o rosto inexpressivo, os olhos reluzentes ao luar feito duas pedras negras polidas. Sem dizer uma palavra, a mulher deu as costas, entrou no carro��o e bateu a porta. Com for�a.</p><p>Mat soltou um suspiro longo e cansado, depois afastou-se dos carro��es. O que precisava fazer para impressionar aquela mulher? Queria era uma cama. Voltar para debaixo das cobertas e deixar Rand cuidar dos Trollocs e dos malditos Draghkar. O sujeito parecia at� <emphasis>gostar</emphasis>. Rindo daquele jeito.</p><p>Rand veio subindo pelo c�nion, o brilho da espada parecia um lampi�o a envolv�-lo pela noite. Aviendha correu para encontr�-lo, com as saias puxadas por cima dos joelhos. Ent�o parou, largou as saias, ajeitou-as e postou-se ao lado de Rand, enrolando o xale na cabe�a. O jovem pareceu n�o t�-la notado, e a mulher tinha o rosto duro feito pedra. Os dois se mereciam.</p><p>��Rand���chamou uma sombra com a voz de Moiraine, quase t�o melodiosa quanto a de Keille, mas de uma melodia fria. O rapaz se virou, � espera, e a Aes Sedai seguiu devagar para onde pudesse ser vista com clareza, adentrando a luz, majestosa o bastante para qualquer pal�cio.���A situa��o est� ficando mais perigosa, Rand. Pode ser que o ataque � Parada de Imre tenha sido para os Aiel, apesar de pouco prov�vel, mas esta noite o alvo dos Draghkar sem d�vida foi voc�.</p><p>��Eu sei.���Simples assim. Com a mesma calma dela, at� mais frio.</p><p>Moiraine apertou os l�bios, e suas m�os ficaram completamente im�veis sobre as saias. Ela n�o estava nem um pouco satisfeita.</p><p>��A profecia � mais perigosa quando tentamos fazer com que ela aconte�a. Voc� n�o aprendeu isso em Tear? O Padr�o se tece � sua volta, mas, quando tenta tec�-lo, nem voc� mesmo consegue sustentar. Se for�ar demais o Padr�o, a press�o aumenta. Pode explodir, com toda a for�a, afetando todos os lados. Quem pode afirmar quanto tempo vai levar at� tudo se ajeitar e focar outra vez em voc�, ou o que vai acontecer antes disso?</p><p>��T�o clara quanto a maioria das suas explica��es���comentou Rand, em um tom seco.���O que voc� quer, Moiraine? Est� tarde, e eu estou cansado.</p><p>��Quero que voc� confie em mim. Voc� acha que j� aprendeu tudo o que h� para aprender no pouco mais de um ano desde que saiu da sua aldeia?</p><p>��N�o, eu ainda n�o aprendi nada.���Ele parecia estar se divertindo. �s vezes, Mat n�o sabia ao certo se Rand ainda estava t�o l�cido quanto aparentava.���Quer que eu confie em voc�, Moiraine? Muito bem. Seus Tr�s Juramentos n�o a deixar�o mentir. Diga que, n�o importa o que eu revelar, voc� n�o vai tentar me impedir e nem obstruir meu caminho de forma alguma. Diga que n�o vai me usar para os prop�sitos da Torre. Diga isso com muita clareza, para eu saber que � verdade.</p><p>��Eu n�o vou fazer nada para impedir voc� de cumprir seu destino. Devotei a minha vida a isso. Mas n�o vou prometer ficar parada, olhando voc� bater a cabe�a em uma t�bua de corte.</p><p>��N�o est� de bom tamanho, Moiraine. N�o est� de bom tamanho. Mas, ainda que eu pudesse me abrir com voc�, n�o faria isso aqui. A noite tem ouvidos.���Havia gente se movendo por todos os lados na escurid�o, mas ningu�m parecia estar perto o bastante para ouvir.���At� os sonhos t�m ouvidos.</p><p>Aviendha puxou o xale para a frente, cobrindo o rosto. Ao que parecia, at� os Aiel sentiam frio.</p><p>Rhuarc adentrou a luz, o v�u negro suspenso.</p><p>��Os Trollocs serviram apenas para desviar a aten��o dos Draghkar, Rand al�Thor. Eram muito poucos para n�o ser isso. Os Draghkar vieram atr�s de voc�, suponho. O Mata-folhas n�o quer voc� vivo.</p><p>��O perigo est� aumentando���murmurou Moiraine.</p><p>O chefe de cl� olhou para a Aes Sedai, antes de prosseguir.</p><p>��Moiraine Sedai est� certa. J� que os Draghkar falharam, receio que podemos esperar que os pr�ximos a vir sejam os Sem-alma, os que voc�s chamam de Homens Cinza. Quero voc� rodeado por lan�as o tempo todo. Por alguma raz�o, as Donzelas se ofereceram para essa tarefa.</p><p>O frio estava <emphasis>mesmo</emphasis> afetando Aviendha. De ombros ca�dos, ela mantinha as m�os enfiadas sob as axilas.</p><p>��Se elas desejarem���respondeu Rand.</p><p>O rapaz soou um pouco incomodado por sob toda a frieza. Mat n�o o culpava: n�o se colocaria nas m�os das Donzelas outra vez, nem pela seda de todos os navios do Povo do Mar.</p><p>��Elas v�o vigiar melhor do que qualquer outro que fosse nomeado para a tarefa���disse Rhuarc.���Mas n�o pretendo deixar que fa�am isso sozinhas. Colocarei todos montando guarda. Acredito que ser�o os Sem-alma da pr�xima vez, mas isso n�o significa que n�o possa ser alguma outra coisa. Dez mil Trollocs, em vez de algumas centenas.</p><p>��E os Shaido?���Todos encararam Mat, que desejou n�o ter aberto a boca. Talvez sequer tivessem notado sua presen�a, at� ent�o.���Sei que voc�s n�o gostam deles, mas, se acham que h� mesmo chance de um ataque maior, ser� que n�o seria melhor t�-los aqui do que do lado de fora?</p><p>Rhuarc grunhiu. Para ele, aquilo equivalia ao que a maioria dos homens expressaria praguejando.</p><p>��Eu n�o traria quase mil Shaido para dentro das Pedras Frias nem que o pr�prio Queima-grama estivesse a caminho. De todo modo, n�o teria como. Couladin e os Shaido desfizeram as tendas assim que a noite caiu. Estamos livres deles. Mandei batedores para garantir que saiam da terra dos Taardad sem afanar cabras ou ovelhas.</p><p>Aquela espada desapareceu da m�o de Rand, e a luz cegante de s�bito fez-se ausente. Mat apertou os olhos para ajud�-los a se adaptar, mas, quando os abriu de novo o luar ainda parecia escuro.</p><p>��Para que lado eles foram?���perguntou Rand.</p><p>��Norte���respondeu Rhuarc.���Couladin sem d�vida pretende encontrar Sevanna no caminho de Alcair Dal, para fazer a cabe�a dela contra voc�. Talvez consiga. O �nico motivo pelo qual ela deitou a grinalda nupcial aos p�s de Suladric, em vez de aos dele, foi porque pretendia se casar com um chefe de cl�. Mas eu avisei que ela traria problemas. Sevanna sente prazer em arrumar confus�o. Isso n�o deveria importar. Mesmo que os Shaido n�o sigam voc�, s�o uma perda pequena.</p><p>��Eu pretendo ir para Alcair Dal���declarou Rand, com firmeza.���Agora. Pedirei desculpas a todos os chefes que se sentirem desonrados por terem chegado atrasados, mas n�o deixarei Couladin chegar l� um minuto sequer antes de mim, se tiver condi��es. Ele n�o vai parar depois de fazer a cabe�a de Sevanna, Rhuarc. N�o posso me dar ao luxo de dar um m�s para ele fazer isso.</p><p>Depois de um instante, o Aiel respondeu:</p><p>��Talvez voc� tenha raz�o. Voc� traz mudan�as, Rand al�Thor. Partiremos ao nascer do sol, ent�o. Escolherei dez Escudos Vermelhos para me honrar, e as Donzelas prover�o sua cota.</p><p>��Pretendo partir quando a primeira luz despontar no c�u, Rhuarc. E com todas as m�os capazes de empunhar uma lan�a ou erguer um arco.</p><p>��O costume�</p><p>��Nenhum costume vai me amparar, Rhuarc.���Daria para quebrar uma pedra com a voz de Rand, ou congelar uma ta�a de vinho.���Preciso criar novos costumes.���Ele riu sem humor. Aviendha parecia chocada, e at� Rhuarc piscou, surpreso. Apenas Moiraine n�o estava afetada, com aqueles olhos perscrutadores.���� melhor algu�m avisar aos mascates���continuou Rand.���N�o v�o querer perder a feira, mas, se n�o impedirem aqueles sujeitos de beber mais, eles acabar�o b�bados demais para conduzir as r�deas. E voc�, Mat? Voc� vem?</p><p>Mat n�o tinha a menor inten��o de se perder dos mascates. Eram seu meio de sair do Deserto.</p><p>��Ah, eu vou logo atr�s de voc�, Rand.���O pior de tudo era que dizer aquilo parecia certo. <emphasis>Maldito</emphasis> ta�veren <emphasis>me puxando!</emphasis> Como Perrin se libertara? <emphasis>Luz, eu queria estar com ele.</emphasis>���Acho que vou.</p><p>Mat p�s a lan�a nos ombros e saiu do c�nion a passos firmes. Ainda havia tempo de dormir um pouco, pelo menos. Ouviu a risadinha de Rand atr�s de si.</p></section><section><title><p>51</p><p><image l:href="#10"/></p><p>Revela��es em Tanchico</p></title><p>Elayne remexia desajeitadamente os dois pauzinhos pintados com verniz vermelho, tentando ajeit�-los a contento nos dedos. <emphasis>Sursas</emphasis>, lembrou a si mesma. <emphasis>N�o s�o pauzinhos, s�o sursas. Seja l� o nome que for, � um jeito bem est�pido de se comer.</emphasis></p><p>Do outro lado da mesa na C�mara das Flores Ca�das, Egeanin franzia o cenho para as pr�prias sursas, segurando uma em cada m�o, viradas para cima, como se realmente fossem pauzinhos. Nynaeve segurava as duas aninhadas na m�os, do jeito que Rendra lhe ensinara, mas at� ent�o s� conseguira levar at� a boca uma fatia de carne e algumas pimentas cortadas; ela tinha os olhos espremidos de determina��o. Um grande n�mero de tigelinhas brancas cobria a mesa, cada uma cheia de fatias de carne e pequenas lascas de vegetais, alguns em molhos claros ou escuros. Elayne achou que levaria o resto do dia para terminar a refei��o. Deu � estalajadeira de cabelos cor de mel um sorriso de gratid�o quando a mulher se inclinou sobre seu ombro para posicionar as sursas da forma adequada.</p><p>��Sua terra est� em guerra com Arad Doman���disse Egeanin, em um tom quase de irrita��o.���Por que voc� serve os pratos t�picos do seu inimigo?</p><p>Rendra deu de ombros, fazendo um bico de desagrado por detr�s do v�u; naquele dia a mulher usava o tom de vermelho mais claro poss�vel, e contas da mesma cor nas tran�as finas, que faziam uns estalidos quando ela mexia a cabe�a.</p><p>��� a mais nova moda. Quatro dias atr�s o Jardim das Brisas de Prata come�ou com isso, e agora todos os fregueses pedem comida domanesa. Acho que talvez seja para conquistar a culin�ria domanesa, j� que n�o conseguimos conquistar os domaneses. Talvez em Bandar Eban eles comam o cordeiro com o molho de mel e as ma��s em calda, sim? Daqui a mais quatro dias, pode ser que seja outra coisa. A moda hoje em dia muda r�pido, e se algu�m come�ar a incitar o povo contra isso����Ela deu de ombros outra vez.</p><p>��Voc� acha que vai haver <emphasis>mais</emphasis> motins?���perguntou Elayne.���Por conta do tipo de comida que as estalagens est�o servindo?</p><p>��Elas est�o ind�ceis, as ruas���afirmou Rendra, gesticulando de um jeito fatalista.���Quem � que sabe o que vai ati�ar esse povo outra vez? O alvoro�o de anteontem, ele veio de um boato de que Maracru tinha se declarado em favor do Drag�o Renascido, ou talvez sucumbido aos Devotos do Drag�o, ou talvez aos rebeldes. Como, exatamente, parece que fez pouca diferen�a, mas a� a multid�o ataca o povo de Maracru? N�o. Eles saem se atacando pelas ruas, puxando gente das carruagens, depois incendeiam o Grande Sal�o da Assembleia. Talvez chegue a not�cia de que o ex�rcito ganhou ou perdeu uma batalha, e o povo se rebele contra quem serve comida domanesa. Ou talvez incendeie armaz�ns no cais de Calpene. Quem � que sabe?</p><p>��A ordem foi-se embora���resmungou Egeanin, encaixando as sursas com firmeza entre os dedos da m�o direita. Pela express�o em seu rosto, poderiam ser adagas que ela usaria para golpear a comida nas tigelas. Um peda�o de carne caiu das sursas de Nynaeve bem pr�ximo � boca; rosnando, ela o pegou do colo, dando uma batidinha na seda cor de creme com o guardanapo.</p><p>��Aah, ordem���comentou Rendra, com uma risada.���Eu me lembro da ordem. Talvez retorne algum dia, sim? Alguns pensavam que a Panarca Amathera colocaria a Guarda Civil de volta aos seus afazeres, mas, se eu fosse ela, com a lembran�a do povo brigando do lado de fora da minha investidura� os Filhos da Luz, eles mataram muitos dos desordeiros. Talvez isso seja ind�cio de que n�o vai haver outro motim, mas talvez signifique que o pr�ximo motim, ele vai ser duas vezes maior, ou dez vezes. Eu acho que eu, tamb�m, manteria a Guarda e os Filhos bem perto de mim. Mas isso n�o � conversa para perturbar o jantar.���Examinando a mesa, a mulher assentiu para si mesma, as contas nas trancinhas chacoalhando. Ao virar-se para a porta, ela parou, com um sorriso singelo.���� moda comer a comida domanesa com as sursas, e � claro que a gente segue a moda. Mas� n�o tem ningu�m aqui para ver al�m de voc�s mesmas, n�o �? Se por acaso desejarem as colheres e os garfos, est�o debaixo do guardanapo.���Ela apontou para a bandeja na extremidade da mesa.���Aproveitem.</p><p>Nynaeve e Egeanin esperaram at� que a porta se fechasse atr�s da estalajadeira, depois sorriram uma para a outra e agarraram a bandeja, com uma afoba��o decidida e indecorosa. Elayne conseguiu alcan�ar os talheres primeiro; nenhuma das outras tivera de comer depressa, nos poucos minutos entre as tarefas e as aulas de uma novi�a.</p><p>��At� que � bem gostoso���disse Egeanin, na primeira garfada cheia �, quando a gente consegue colocar na boca.���Nynaeve riu com ela.</p><p>Nos sete dias desde que encontraram a mulher de cabelos escuros, olhos azuis penetrantes e fala arrastada, as duas passaram a gostar dela. Era um refresco da tagarelice de Rendra a respeito de cabelos, roupas e tons de pele, ou das olhadelas do povo nas ruas que parecia que degolaria as duas em troca de um cobre. Era a quarta visita dela desde aquele primeiro encontro, e Elayne havia gostado de todas. Egeanin tinha uma franqueza e um ar de independ�ncia que ela admirava. A mulher podia ser apenas uma pequena negociante de tudo o que lhe cruzasse o caminho, mas seria capaz de desafiar Gareth Bryne dizendo o que lhe vinha � mente e n�o se curvando diante de ningu�m.</p><p>Ainda assim, Elayne preferia que as visitas n�o fossem t�o frequentes. Ou pelo menos que ela e Nynaeve n�o tivessem passado tanto tempo no Jardim das Tr�s Ameixeiras, � disposi��o de Egeanin. No entanto, os motins quase constantes desde a investidura de Amathera praticamente impossibilitaram a circula��o pela cidade, apesar da prote��o dos marujos dur�es de Domon. At� Nynaeve havia admitido, depois que as duas chegaram ao ponto de precisar fugir de uma chuva de pedras do tamanho de punhos. Thom ainda prometia encontrar uma carruagem e parelha para elas, mas Elayne n�o estava muito confiante de que o homem estivesse procurando com afinco. Tanto ele quanto Juilin pareciam insuportavelmente satisfeitos em ver as duas presas dentro da estalagem. <emphasis>Eles voltam machucados e sangrando e n�o querem que a gente d� nem sequer uma topada com o ded�o</emphasis>, pensou ela, ir�nica. Por que os homens sempre achavam que era correto manter as mulheres mais seguras do que mantinham a si mesmos? Por que consideravam os ferimentos deles menos importantes?</p><p>Pelo sabor da carne, ela imaginou que Thom encontraria na cozinha os cavalos que procurava. A ideia de comer cavalos lhe deu um embrulho no est�mago. Ela escolheu uma tigela que continha apenas vegetais, pedacinhos de cogumelos escuros, piment�es e um tipo de broto com folhas verdes em um molho claro e de sabor forte.</p><p>��O que vamos conversar hoje?���perguntou Nynaeve a Egeanin.���Voc� j� fez quase todas as perguntas que eu posso imaginar.���De qualquer modo, todas para as quais elas tinham resposta.���Se quiser saber mais sobre Aes Sedai, vai ter de ir para a Torre e virar novi�a.</p><p>Egeanin se encolheu inconscientemente, como fazia ao ouvir qualquer palavra que a ligasse ao Poder. Por um instante, a mulher revirou o conte�do de uma das tigelinhas, encarando-a de cenho franzido.</p><p>��Voc�s n�o fizeram nenhum esfor�o real���disse ela, devagar���para esconder de mim que est�o � procura de algu�m. Mulheres. Sem querer me intrometer nos seus planos, gostaria de saber����Ela parou de falar ao ouvir uma batida na porta.</p><p>Bayle Domon entrou a passos firmes, sem esperar, com uma satisfa��o l�gubre lutando com o desconforto em seu rosto redondo.</p><p>��Eu encontrei as mulheres���come�ou ele, ent�o levou um susto ao ver Egeanin.���Voc�!</p><p>Surpreendentemente, Egeanin deu um salto, derrubando a cadeira, e golpeou Domon com o punho cerrado, quase mais ligeira do que um piscar de olhos. Domon conseguiu dar um jeito de agarrar o pulso da mulher com a m�o grande e torceu-o���houve um instante em que os dois pareciam tentar enganchar o tornozelo um do outro com o p�; Egeanin tentou golpe�-lo na garganta e acabou caindo de cara no ch�o, a bota de Domon em seu ombro e o bra�o alavancado bem para o alto, contra o joelho dele. Apesar disso, conseguiu soltar a faca de cintura.</p><p>Elayne soltou fluxos de Ar ao redor dos dois antes que ela mesma percebesse que havia abra�ado <emphasis>saidar</emphasis>, imobilizando-os.</p><p>��O que significa isso?���indagou, no tom mais g�lido poss�vel.</p><p>��Como o senhor ousa, Mestre Domon?���A voz de Nynaeve era igualmente fria.���Solte a mulher!���Em um tom mais terno e preocupado, acrescentou:���Egeanin, por que foi que voc� tentou bater nele? Eu j� disse para solt�-la, Domon!</p><p>��Ele n�o consegue, Nynaeve.���Elayne desejava muito que a outra pudesse pelo menos enxergar com clareza os fluxos sem estar irritada. <emphasis>Ela</emphasis> realmente <emphasis>tentou bater nele antes.</emphasis>���Egeanin, por qu�?</p><p>A mulher de cabelos escuros ficou ali parada, os olhos fechados e a boca contra�da. Ela agarrava a faca com tanta for�a que as juntas de seus dedos estavam brancas.</p><p>Domon cravou os olhos em Elayne, depois em Nynaeve, com a estranha barba de illianense quase toda eri�ada. Elayne s� deixara a cabe�a do homem livre.</p><p>��Essa mulher � uma Seanchan!���grunhiu.</p><p>Elayne e Nynaeve trocaram olhares surpresos. Egeanin? Seanchan? Era imposs�vel. S� podia ser imposs�vel.</p><p>��Tem certeza?���perguntou Nynaeve, devagar e baixinho. Soava t�o at�nita quanto Elayne se sentia.</p><p>��Eu nunca vou esquecer o rosto dela���respondeu Domon com firmeza.���A capit� de um navio. No caso, foi ela quem me levou para Falme, eu e meu navio, como prisioneiros dos Seanchan.</p><p>Egeanin n�o se esfor�ou para negar, apenas continuou ali parada, agarrada � faca. Seanchan. <emphasis>Mas eu gosto dela!</emphasis></p><p>Com cuidado, Elayne remexeu a trama de fluxos at� que a m�o de Egeanin que erguia a faca ficasse descoberta at� o pulso.</p><p>��Largue a faca, Egeanin���disse ela, ajoelhando-se ao lado da mulher.���Por favor.���Depois de um instante, Egeanin abriu a m�o. Elayne pegou a faca e se afastou, soltando os fluxos por completo.���Mestre Domon, solte a mulher.</p><p>��Ela � Seanchan, senhora���protestou ele���e dura feito uma ponteira de ferro.</p><p>��Solte.</p><p>Resmungando entre dentes, Domon soltou o pulso de Egeanin, afastando-se mais que depressa, como se esperasse que ela o atacasse outra vez. No entanto, a mulher de cabelos escuros���a mulher <emphasis>Seanchan</emphasis>���simplesmente ficou ali parada. Alongou o ombro do bra�o que ele havia torcido, encarando-o, pensativa, olhou para a porta, depois ergueu a m�o e esperou, aparentando profunda calma. Era dif�cil n�o admir�-la.</p><p>��Seanchan���grunhiu Nynaeve. Agarrou um punhado das longas tran�as, depois olhou surpresa para a m�o e as soltou, mas sua testa ainda estava franzida, e os olhos, inflex�veis.���Seanchan! Conquistando de mansinho a nossa amizade. Achei que todos voc�s tinham ido embora por onde vieram. Por que est� aqui, Egeanin? O nosso encontro foi mesmo acidental? Por que nos procurou? Estava pretendendo atrair a gente at� algum lugar onde a sua <emphasis>sul�dam</emphasis> imunda pudesse encolarar os nossos pesco�os?���Os olhos de Egeanin se arregalaram infimamente.���Pois sim���acrescentou Nynaeve, com rispidez.���N�s sabemos sobre voc�s, Seanchan, sobre suas <emphasis>sul�dam</emphasis> e <emphasis>damane</emphasis>. Sabemos mais do que voc�s. Seu povo acorrenta mulheres capazes de canalizar, mas as que s�o usadas para control�-las tamb�m s�o capazes de canalizar, Egeanin. Para cada mulher capaz de canalizar, acorrentada feito um animal, voc�s cruzam com mais dez ou vinte todos os dias, sem nem perceber.</p><p>��Eu sei���respondeu Egeanin simplesmente, e o queixo de Nynaeve caiu.</p><p>Elayne achou que seus pr�prios olhos iriam saltar das �rbitas.</p><p>��Voc� sabe?���Ela respirou fundo e prosseguiu, em um tom mais composto do que o ganido incr�dulo de antes.���Egeanin, acho que voc� est� mentindo. Eu n�o topei com muitos Seanchan antes, e nunca por mais de alguns minutos, mas conhe�o uma pessoa que j� topou. Os Seanchan nem sequer odeiam as mulheres que canalizam. Eles as consideram animais. Voc� n�o estaria assim t�o calma se soubesse, ou no m�nimo se acreditasse.</p><p>��As mulheres que podem usar o bracelete s�o mulheres capazes de aprender a canalizar���respondeu Egeanin.���Eu n�o sabia que <emphasis>podia</emphasis> ser aprendido, pois me ensinaram que ou uma mulher pode ou n�o pode, mas quando voc�s me disseram que as meninas que n�o nasceram com a capacidade precisam ser instru�das, eu tirei minhas conclus�es. Posso me sentar?���T�o fria.</p><p>Elayne assentiu, e Domon levantou a cadeira de Egeanin e permaneceu de p� atr�s da mulher enquanto ela se sentava. Olhando para ele por sobre o ombro, a mulher de cabelos escuros disse:</p><p>��Voc� n�o foi um oponente t�o� dif�cil� da �ltima vez que nos vimos.</p><p>��Voc� estava trazendo vinte soldados armados ao meu conv�s, mais uma <emphasis>damane</emphasis> pronta para detonar o meu navio com o Poder. N�o � porque eu consigo pescar um tubar�o que vou comprar briga com ele.���Surpreendentemente, o homem sorriu para ela, esfregando a lateral do corpo, onde a mulher decerto acertara um golpe que Elayne n�o tinha visto.���Voc� tamb�m nem foi uma oponente t�o f�cil quanto eu pensei que seria sem a sua armadura e a espada.</p><p>Aquelas conclus�es certamente tinham abalado seu mundo, mas a mulher estava encarando tudo de forma bastante objetiva. Elayne n�o conseguia imaginar algo que pudesse virar o mundo dela de pernas para o ar daquela forma, mas esperava, caso acontecesse, ser capaz de manter a calma e a reserva de Egeanin. <emphasis>Preciso parar de gostar dela. Ela � Seanchan. Teria me encolarado feito um bichinho, se pudesse. Luz, como � que se para de gostar de algu�m?</emphasis></p><p>Nynaeve n�o aparentava enfrentar a mesma dificuldade. Ela cravou os punhos na mesa e inclinou-se na dire��o de Egeanin com tanta f�ria que as tran�as bambolearam para dentro das tigelinhas.</p><p>��Por que voc� est� aqui em Tanchico? Achei que todos voc�s tinham fugido depois de Falme. E por que tentou se infiltrar no meio de n�s e conquistar a nossa confian�a, feito uma cobra devoradora de ovos? Se est� pensando que pode nos encolarar, � melhor repensar!</p><p>��Essa nunca foi a minha inten��o���respondeu Egeanin, r�gida.���Tudo o que sempre quis de voc�s foi aprender sobre as Aes Sedai. Eu����Pela primeira vez a mulher parecia hesitante, insegura. Apertando os l�bios, olhou de Nynaeve para Elayne e balan�ou a cabe�a.���Voc�s n�o s�o como me ensinaram. Que a Luz me domine, eu� gosto de voc�s.</p><p>��Voc� gosta da gente.���Nynaeve fazia aquilo soar um crime.���Isso n�o responde nenhuma das minhas perguntas.</p><p>Egeanin hesitou outra vez, depois ergueu a cabe�a, desafiando as duas a fazer o pior que pudessem.</p><p>��V�rias <emphasis>Sul�dam</emphasis> foram deixadas para tr�s em Falme. Algumas fugiram depois do desastre. Algumas de n�s fomos mandadas para resgat�-las. Eu s� encontrei uma, mas descobri um <emphasis>a�dam</emphasis> capaz de domin�-la.���Ao ver Nynaeve cerrar os punhos, ela acrescentou, rapidamente:���Eu soltei a mo�a ontem � noite. Vou pagar muito caro se algu�m um dia descobrir isso, mas depois das conversas com voc�s eu n�o conseguiria����Ela fez uma careta e sacudiu a cabe�a.���Foi por isso que fiquei com voc�s depois que Elayne se revelou. Eu sabia que Bethamin era <emphasis>sul�dam</emphasis>. Descobrir que o <emphasis>a�dam</emphasis> a dominava, que ela podia� Eu tinha de saber, de entender, a respeito das mulheres capazes de canalizar.���Ela respirou fundo.���O que voc�s pretendem fazer comigo?���As m�os dela, dobradas sobre a mesa, n�o tremiam.</p><p>Nynaeve abriu a boca, cheia de raiva, e fechou-a de novo, devagar. Elayne compreendia a dificuldade. Nynaeve podia estar odiando Egeanin agora, mas o que as duas fariam com ela? N�o estava claro que a mulher cometera crime algum em Tanchico, e de todo modo a Guarda Civil n�o parecia interessada em nada al�m de salvar a pr�pria pele. Ela era Seanchan, havia usado <emphasis>sul�dam</emphasis> e <emphasis>damane</emphasis>, mas por outro lado alegava ter soltado a tal Bethamin. Por qual crime elas poderiam puni-la? Por fazer perguntas que elas haviam respondido de bom grado? Por faz�-las se afei�oarem a ela?</p><p>��Eu queria arrancar o seu couro at� voc� brilhar feito o sol���Nynaeve grunhiu. Abruptamente, virou a cabe�a para Domon.���O senhor encontrou as mulheres? Disse que tinha encontrado. Onde?���Ele remexeu os p�s e lan�ou um olhar expressivo por tr�s da cabe�a de Egeanin, as sobrancelhas erguidas e indagativas.</p><p>��N�o creio que ela seja Amiga das Trevas���disse Elayne quando Nynaeve hesitou.</p><p>��E n�o sou mesmo!���Egeanin disparou um olhar feroz e escandalizado.</p><p>Cruzando os bra�os para evitar puxar as tran�as, Nynaeve cravou os olhos na mulher, depois lan�ou uma carranca acusadora para Domon, como se aquela confus�o fosse toda culpa dele.</p><p>��N�o tem nenhum canto onde prend�-la���disse ela, por fim���e � claro que Rendra iria exigir uma explica��o. Prossiga, Mestre Domon.</p><p>O homem lan�ou uma �ltima olhadela indecisa para Egeanin.</p><p>��No Pal�cio da Panarca, um dos meus homens, no caso, viu duas mulheres da sua lista. A dos gatos, e tamb�m a de Saldaea.</p><p>��Tem certeza?���perguntou Nynaeve.���No Pal�cio da Panarca? Preferia que o senhor tivesse visto com seus pr�prios olhos. Tem outras mulheres al�m de Marillin Gemalphin que gostam de gatos. E Asne Zeramene n�o � a �nica mulher de Saldaea em toda Tanchico.</p><p>��Uma mulher de rosto fino, olhos azuis e nariguda, dando de comer a doze gatos, nessa cidade onde o povo come gatos? Na companhia de outra com aquele nariz de Saldaea e olhos obl�quos? N�o � uma dupla t�o comum assim, Senhora al�Meara.</p><p>��N�o mesmo. Mas no Pal�cio da Panarca? Mestre Domon, caso o senhor tenha esquecido, tem quinhentos Mantos-brancos vigiando aquele lugar, comandados por um Inquisidor da M�o da Luz! Jaichim Carridin e os oficiais dele no m�nimo devem saber reconhecer uma Aes Sedai s� de olhar. Ser� que elas permaneceriam l� se eles vissem a Panarca dando abrigo para Aes Sedai?���O homem abriu a boca, mas o argumento de Nynaeve era forte, e ele n�o disse uma palavra.</p><p>��Mestre Domon���disse Elayne���o que � que um dos seus homens estava fazendo no Pal�cio da Panarca?</p><p>Ele puxou a barba de um jeito constrangido, depois esfregou um dos dedos largos no l�bio superior.</p><p>��Vejam voc�s, a Panarca Amathera, no caso, gosta de pimenta-de-gelo, daquele tipo branco que � muito ardente, e mesmo que ela nem seja receptiva a presentes, os sujeitos da alf�ndega acabam sabendo quem � que d� presentes a ela, da� eles pr�prios ficam mais receptivos.</p><p>��Presentes?���perguntou Elayne, em seu tom mais reprovador.���No cais, o senhor foi mais honesto, chamou de subornos.���Surpreendentemente, Egeanin havia se virado na cadeira para tamb�m lan�ar ao homem um olhar de reprova��o.</p><p>��Que a Sorte me espicace���resmungou o homem���voc�s nem me pediram para abrir m�o dos neg�cios. E nem eu faria se me pedissem, nem se pusessem minha velha m�e na minha frente pedindo. Um homem tem direito aos seus neg�cios.���Egeanin bufou com desd�m e endireitou-se na cadeira.</p><p>��Os subornos dele n�o s�o problema nosso, Elayne.���Nynaeve soava exasperada.���N�o estou nem a� se ele subornar a cidade inteira e contrabandear����Uma batida na porta a interrompeu. Olhando os outros com cautela, ela vociferou para Egeanin:���Fique sentada a� quieta.���Ent�o, ergueu a voz:���Entre.</p><p>Juilin enfiou a cabe�a para dentro do quarto com aquele quepe cil�ndrico idiota, encarando Domon com a carranca costumeira. O corte em sua bochecha escura, com o sangue j� seco, tamb�m n�o era incomum; as ruas nos �ltimos tempos andavam t�o perigosas � luz do dia quanto eram antigamente � noite.</p><p>��Posso falar com a senhora a s�s, Senhora al�Meara?���perguntou ele quando viu Egeanin sentada � mesa.</p><p>��Ah, pode entrar���retrucou Nynaeve rispidamente.���Depois do que ela j� ouviu, n�o vai dar em nada se ouvir um pouco mais. O senhor tamb�m encontrou as mulheres no Pal�cio da Panarca?</p><p>Enquanto fechava a porta, ele disparou um olhar indecifr�vel para Domon, com a boca contra�da. O contrabandista sorriu, revelando todos os dentes. Por um instante, parecia que os dois iriam chegar �s vias de fato.</p><p>��Ent�o o illianense chegou na minha frente���resmungou Juilin, ressentido. Ignorando Domon, ele dirigiu-se a Nynaeve:���Eu disse que a mulher de mecha branca iria me levar a elas. Era evidente. E eu vi a mulher domanesa l� tamb�m. A dist�ncia, porque n�o sou idiota a ponto de me meter em um cardume de l�cios, mas n�o posso acreditar que haja outra domanesa al�m de Jeane Caide em toda a Tarabon.</p><p>��Ent�o quer dizer que elas <emphasis>est�o</emphasis> no Pal�cio da Panarca?���perguntou Nynaeve.</p><p>O rosto de Juilin n�o se alterou, mas seus olhos negros se arregalaram de leve e tremularam na dire��o de Domon.</p><p>��Ent�o ele n�o tinha prova���murmurou Juilin, em um tom de satisfa��o.</p><p>��Eu tinha prova, sim.���Domon evitava encarar o taireno.���Se a senhora se recusou a aceitar a prova antes desse pescador chegar, Senhora al�Meara, a culpa nem � minha.</p><p>Juilin se empertigou, mas Elayne interrompeu o ca�ador de ladr�es antes que ele come�asse a falar.</p><p>��Voc�s dois encontraram as mulheres, e os dois trouxeram provas. Muito provavelmente nenhuma seria suficiente sem a outra. Agora n�s sabemos onde elas est�o, gra�as a voc�s dois.���Se muito, os dois pareciam ainda mais insatisfeitos do que antes. Os homens �s vezes conseguiam ser absolutamente idiotas.</p><p>��O Pal�cio da Panarca.���Nynaeve puxou um punhado das compridas tran�as, depois jogou-as para tr�s com um balan�ar da cabe�a.���O que elas est�o procurando deve estar l�. Mas, se j� pegaram, por que ainda est�o em Tanchico? O pal�cio � imenso. Talvez ainda n�o tenham encontrado. N�o que isso ajude, j� que estamos aqui fora enquanto elas est�o l� dentro!</p><p>Thom, como de costume, entrou sem bater, encarando todos ao mesmo tempo.</p><p>��Senhora Egeanin���murmurou ele, com uma mesura cuja eleg�ncia n�o era reduzida pela manqueira.���Nynaeve, se eu puder falar com voc� a s�s, tenho uma not�cia importante.</p><p>O hematoma recente em seu rosto curtido deixou Elayne ainda mais irritada do que o novo rasg�o em seu bom manto marrom. O homem estava velho demais para ficar enfrentando as ruas de Tanchico. Ou qualquer rua perigosa, para falar a verdade. J� era hora de ela arranjar uma pens�o para ele, e um lugar seguro e confort�vel onde viver. Nada de continuar peregrinando de aldeia em aldeia como menestrel. Ela daria um jeito nisso.</p><p>Nynaeve lan�ou um olhar penetrante a Thom.</p><p>��N�o tenho tempo para isso agora. As irm�s Negras est�o no Pal�cio da Panarca, e, at� onde sei, Amathera est� ajudando na busca, do s�t�o ao por�o.</p><p>��Descobri a mesma coisa menos de uma hora atr�s���disse ele, incr�dulo.���Como foi que voc�s�?���Encarou Domon e Juilin, ambos ainda furiosos, feito dois garotos disputando para si um bolo inteiro.</p><p>Estava �bvio que ele rejeitava ambos como fonte de informa��o de Nynaeve. Elayne sentiu vontade de abrir um sorriso. O homem era t�o confiante de que conhecia todos os esquemas ocultos, todas as entrelinhas.</p><p>��A Torre tem seus pr�prios m�todos, Thom���retrucou ela, fria e misteriosa.���� melhor n�o investigar muito a fundo os m�todos de uma Aes Sedai.���Ele fechou a express�o, e suas sobrancelhas frondosas desabaram, indecisas. O que foi bastante satisfat�rio. Ela percebeu que Juilin e Domon tamb�m a encaravam de testa franzida, e de s�bito tudo o que ela conseguiu fazer foi n�o corar. Se eles conversassem, ela <emphasis>sem d�vida</emphasis> iria parecer uma imbecil. Eles acabariam conversando; os homens conversavam. Era melhor enterrar a coisa depressa e aguardar.���Thom, voc� ouviu algo que pudesse indicar que Amathera � Amiga das Trevas?</p><p>��Nada.���Ele deu um pux�o no longo bigode, irritado.���Ao que parece, ela n�o tem visto Andric desde que assumiu a Coroa da �rvore. Talvez os problemas nas ruas tornem a viagem entre o Pal�cio do Rei e o da Panarca muito perigosa. Talvez ela tenha simplesmente percebido que agora o poder dela � equivalente ao dele e j� n�o seja t�o submissa quanto antes. Nada que informe quais s�o as alian�as dela.���Com uma olhadela para a mulher de cabelos escuros sentada na cadeira, ele acrescentou:���Sou muito grato pela ajuda que a Senhora Egeanin deu a voc�s duas com esses ladr�es, mas at� agora eu estava pensando que ela era apenas uma amizade casual. Posso perguntar quem ela � para ter sido inclu�da nisso tudo? Se bem me lembro, voc� amea�ou amarrar as l�nguas mais descuidadas, Nynaeve.</p><p>��Ela � Seanchan���respondeu Nynaeve.���Feche essa boca antes que entre uma mosca, Thom, e sente-se. Podemos comer enquanto decidimos o que fazer.</p><p>��Na frente dela?���indagou Thom.���Seanchan?���Ele ouvira Elayne contar algumas hist�rias de Falme, s� algumas, e decerto ouvira os rumores que estavam correndo por l�; analisou Egeanin como se tentasse imaginar onde a mulher guardava os chifres. Se os olhos de Juilin forneciam alguma pista do que ele sentia, o homem estar prestes a sufocar; ele sem d�vida tamb�m ouvira os rumores correntes em Tanchico.</p><p>��Voc� sugere que eu pe�a a Rendra para trancar a mulher em um dep�sito?���perguntou Nynaeve calmamente.���<emphasis>Isso sim</emphasis> geraria falat�rio, n�o �? Tenho plena certeza de que tr�s homens peludos e grandalh�es s�o capazes de proteger n�s duas se ela resolver tirar um ex�rcito Seanchan do bolso. Sente-se, Thom, ou ent�o coma de p�, mas pare de ficar encarando. Todos voc�s, sentem-se. N�o quero comer comida fria.</p><p>Eles se sentaram, Thom com uma cara de desagrado igualzinha � de Juilin e Domon. �s vezes o jeito intimidador de Nynaeve parecia surtir efeito. Talvez <emphasis>at�</emphasis> Rand fosse suscet�vel a uma intimida��o, de vez em quando.</p><p>Afastando Rand da cabe�a, Elayne decidiu que era hora de fazer algum coment�rio de valor.</p><p>��N�o consigo enxergar como as irm�s Negras podem estar no Pal�cio da Panarca sem o conhecimento de Amathera���comentou, puxando a cadeira para perto de si.���Do meu ponto de vista, temos tr�s possibilidades. A primeira, Amathera � Amiga das Trevas. A segunda, ela pensa que as outras s�o Aes Sedai. E a terceira, ela � prisioneira delas.���Por algum motivo, o fato de Thom ter assentido a confortou. Que bobagem. Mesmo conhecendo o Jogo das Casas, ele era s� um bardo idiota que jogara tudo para o alto para virar menestrel.���Em qualquer um dos casos, ela vai ajudar as outras em sua busca, mas me parece que, se estiver pensando que as mulheres s�o Aes Sedai, pode ser que a gente consiga a ajuda dela revelando a verdade. E, se ela for prisioneira, podemos conseguir se a libertarmos. Nem Liandrin e suas companheiras poderiam ficar no pal�cio se a Panarca ordenasse a expuls�o delas, e a� <emphasis>n�s</emphasis> ter�amos o caminho livre para vasculhar.</p><p>��O problema � descobrir se ela � aliada, tapeada ou prisioneira���disse Thom, gesticulando com o par de sursas na m�o. Ele sabia usar aqueles palitinhos perfeitamente!</p><p>Juilin balan�ou a cabe�a.</p><p>��O problema real � como chegar at� ela, seja qual for a situa��o. Jaichim Carridin p�s quinhentos Mantos-brancos em volta do pal�cio feito peixes-pescadores rodeando um cais. A Legi�o da Panarca tem quase duas vezes mais do que isso, e a Guarda Civil, praticamente o mesmo n�mero. Poucas fortalezas circulares s�o vigiadas sequer com a metade desse contingente.</p><p>��N�s n�o vamos lutar com eles���respondeu Nynaeve secamente.���Pare de pensar com os seus pelos do peito. No momento, precisamos de c�rebro, n�o de m�sculos. Eu acho que�</p><p>O debate se estendeu jantar adentro, continuando depois que a �ltima tigela foi esvaziada. Egeanin at� contribuiu com coment�rios convincentes, depois de algum tempo em sil�ncio, sem comer e aparentemente sem escutar. A mulher era sagaz, e Thom prontamente aceitou todas as sugest�es com as quais concordou, embora fosse teimoso a ponto de rejeitar por completo todas das quais discordava, da mesma forma que fazia com os outros. At� Domon, surpreendentemente, apoiou Egeanin quando Nynaeve quis que a mulher se calasse.</p><p>��No caso, ela at� tem bom senso, Senhora al�Meara. S� os tolos rejeitam o bom senso, seja l� de onde ele venha.</p><p>Infelizmente, saber o paradeiro das irm�s Negras n�o ajudava muito se n�o soubessem se Amathera estava ou n�o do lado delas, tampouco ajudava a saber o que estavam buscando. No fim, quase duas horas de debate n�o levaram a muitas conclus�es al�m de poucas sugest�es sobre como descobrir a respeito de Amathera. Todas as sugest�es, ao que parecia, a serem utilizadas pelos homens com suas redes de contatos que entrecortavam Tanchico.</p><p>Nenhum dos idiotas queria deixar as duas sozinhas com uma Seanchan���at� que Nynaeve se irritou o suficiente para envolver os tr�s em fluxos de Ar enquanto eles se embolavam diante da porta.</p><p>��Voc�s n�o acham���come�ou ela, g�lida, rodeada pelo brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>���que uma de n�s pode fazer o mesmo com ela, se ela disser �bu�?���Ela n�o soltou nenhum deles antes que os tr�s assentissem, com o tantinho de movimentos que podiam fazer com a cabe�a.</p><p>��Sua tripula��o anda na linha���disse Egeanin, assim que a porta se fechou atr�s deles.</p><p>��Cale a boca, Seanchan!���Nynaeve cruzou os bra�os com for�a; parecia ter desistido de puxar as tran�as quando se irritava.���Fique a� sentada� e quieta!</p><p>Era frustrante esperar, encarando as ameixeiras e as flores ca�das pintadas nas paredes sem janelas, andando ou observando Nynaeve andar, enquanto Thom, Juilin e Domon estavam na rua, fazendo alguma coisa concreta. Por�m, o pior era quando cada homem chegava, em intervalos diferentes, para informar que mais um rastro dera em nada, mais um fio se rompera, depois ouvia o que os outros haviam descoberto e sa�a apressado novamente.</p><p>Da primeira vez que Thom retornou���com um segundo hematoma roxo, na outra bochecha���Elayne disse:</p><p>��Ser� que n�o seria melhor voc� ficar aqui, Thom, para ouvir o que Juilin e Mestre Domon trouxerem de informa��o? Voc� poderia avaliar muito melhor do que Nynaeve e eu.</p><p>Ele balan�ou a extravagante cabeleira branca enquanto Nynaeve fungava alto o bastante para ser ouvida no corredor.</p><p>��Peguei a pista de uma casa em Verana, onde Amathera supostamente foi se esconder algumas noites antes de ser empossada como Panarca.���E saiu, antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa.</p><p>Quando retornou���claramente mancando mais���informando que a casa era onde vivia a antiga ama de Amathera, Elayne disse, com a voz mais firme que p�de:</p><p>��Thom, quero que voc� se sente. Vai ficar aqui. Eu n�o vou permitir que voc� se machuque.</p><p>��Machuque?���indagou ele.���Crian�a, eu nunca me senti t�o bem em toda a minha vida. Diga a Juilin e Bayle que, ao que parece, existe uma mulher chamada Cerindra, em algum lugar dessa cidade, que diz saber todos os segredos ocultos de Amathera.���E l� foi ele, claudicante, com o manto drapejando atr�s de si. Tamb�m havia um rasg�o novo no tecido. Teimoso, que velhote teimoso.</p><p>Em dado momento, um clamor penetrou as paredes robustas, urros brutais e gritos vindos da rua. Rendra irrompeu pela porta no exato instante em que Elayne havia decidido descer e ver com os pr�prios olhos o que estava havendo.</p><p>��Um probleminha l� fora. N�o se incomodem. Os homens de Bayle Domon, eles resolvem para a gente, sim? N�o queria preocupar voc�s.</p><p>��Um motim, aqui?���perguntou Nynaeve mais que depressa. A vizinhan�a em torno da estalagem era uma das �reas mais tranquilas da cidade.</p><p>��N�o se preocupem���respondeu Rendra, em um tom suave.���Devem estar querendo comida. Vou informar o local da cozinha de sopas de Bayle Domon, e eles v�o embora.</p><p>A barulheira de fato diminuiu depois de um tempo, e Rendra mandou um pouco de vinho. S� quando o servi�al estava saindo, com uma express�o emburrada, foi que Elayne percebeu que era o tal jovem de belos olhos castanhos. O homem havia come�ado a reagir aos olhares frios dela como se fossem sorrisos. Ele realmente achava que ela estava com tempo para reparar nele?</p><p>Esperando e andando, andando e esperando. Cerindra acabou se revelando uma camareira demitida por roubo; nem um pouco grata por n�o ter sido levado presa, a mulher faria qualquer acusa��o que lhe fosse sugerida contra Amathera. Um sujeito que alegava ter provas de que Amathera era Aes Sedai e da Ajah Negra tamb�m afirmava que os mesmos documentos provavam que o Rei Andric era o Drag�o Renascido. As mulheres com quem Amathera costumava se encontrar em segredo eram amigas que Andric desprezava, e a chocante descoberta de que ela financiara diversas embarca��es contrabandistas n�o levou a nada. Quase todos os nobres, exceto o pr�prio Rei, tinham um dedinho no contrabando. Todas as pistas acabavam no mesmo ponto. O pior que Thom conseguiu descobrir foi que Amathera havia convencido dois belos jovens lordes de que eram o amor de sua vida e que Andric apenas representava os meios para se alcan�ar os fins. Por outro lado, ela concedera audi�ncias no Pal�cio da Panarca a v�rios lordes, tanto sozinha quanto na companhia de diversas mulheres identificadas como Liandrin e as outras da lista e, segundo not�cias, pedira e aceitara conselhos em rela��o a suas decis�es. Aliada ou prisioneira?</p><p>Quando Juilin retornou, umas boas tr�s horas ap�s o p�r do sol, girando um cajado de madeira sulcada da espessura de um polegar e resmungando sobre algum sujeito de cabelo claro que havia tentado roub�-lo, Thom e Domon j� estavam arriados � mesa, desconsolados, com Egeanin.</p><p>��Isso aqui vai ser igual a Falme���resmungou Domon. O pesado porrete que ele havia adquirido em algum lugar jazia � sua frente, e ele agora portava uma pequena espada no cinto.���Aes Sedai. Ajah Negra. Se metendo com a Panarca. Se nem encontrarmos nada amanh�, eu pretendo dar adeus a Tanchico. Amanh� � certo, nem que a minha pr�pria irm� me pedisse para ficar!</p><p>��Amanh㠗�disse Thom, cansado, de cotovelos na mesa e queixo apoiado nos pulsos.���Estou cansado demais para pensar com a cabe�a. Me peguei escutando um lavadeiro do Pal�cio da Panarca que alegava ter ouvido Amathera entoando can��es indecentes, do tipo que a gente ouve nas tavernas mais xexelentas do cais. Eu realmente fiquei escutando o homem.</p><p>��Bem���disse Juilin, virando uma cadeira e sentando-se nela ao contr�rio, com as pernas abertas���pretendo fazer mais buscas hoje � noite. Encontrei um telhador que disse que a companheira dele tamb�m era camareira de Amathera. Segundo ele, Amathera dispensou todas as camareiras sem aviso pr�vio, na mesma noite em que foi empossada como Panarca. Ele vai me levar para conversar com ela depois de terminar um trabalho na casa de um mercador.</p><p>Nynaeve caminhou at� a ponta da mesa, de m�os na cintura.</p><p>��Voc� n�o vai a lugar nenhum hoje � noite, Juilin. Voc�s tr�s v�o se alternar montando guarda na nossa porta.���Os homens protestaram enfaticamente, claro, todos de uma vez.</p><p>��Eu, no caso, tenho meus pr�prios neg�cios a fazer, e se tiver que passar os dias fazendo perguntas para as senhoras�</p><p>��Senhora al�Meara, essa mulher � a primeira pessoa que encontrei que de fato esteve com Amathera desde que ela foi empossada�</p><p>��Nynaeve, j� vai ser muito dif�cil eu <emphasis>conseguir</emphasis> encontrar algum rumor amanh�, que dir� partir atr�s dele, se passar a noite tocando�</p><p>Ela deixou os tr�s falarem � vontade. Quando as vozes come�aram a morrer, obviamente pensando t�-la convencido, ela disse:</p><p>��J� que n�o temos nenhum outro lugar onde deixar a mulher Seanchan, ela vai ter de dormir aqui com a gente. Elayne, pode pedir a Rendra que mande preparar um catre? No ch�o j� est� de bom tamanho.���Egeanin a encarou, por�m n�o disse nem uma palavra.</p><p>Os homens estavam sem op��es; ou se recusavam por completo e rompiam solenemente a promessa de fazer o que Nynaeve mandasse, ou ent�o continuavam argumentando, feito grandes resmung�es. Eles a encararam, furiosos, balbuciaram� e aquiesceram.</p><p>Rendra ficou claramente surpresa por ter sido solicitado apenas um catre, mas aceitou a hist�ria de que Egeanin tinha medo de se arriscar nas ruas � noite. Thom assentou-se no corredor, ao lado da porta.</p><p>��Aqueles sujeitos, eles n�o entraram, por mais que tenham tentado. Eu disse que a cozinha de sopas iria lev�-los embora daqui, sim? Os h�spedes do Jardim das Tr�s Ameixeiras n�o t�m necessidade de guarda-costas nos quartos.</p><p>��Decerto que n�o���respondeu Elayne, gentilmente tentando empurrar a mulher porta afora.���� s� porque Thom e os outros dois realmente se preocupam. A senhora sabe como s�o os homens.���Thom disparou um olhar amea�ador por sob as espessas sobrancelhas grisalhas, mas Rendra fungou, indicando que sabia, e deixou Elayne fechar a porta.</p><p>Nynaeve virou-se imediatamente para Egeanin, que estava estendendo o catre do lado oposto � cama.</p><p>��Tire as roupas, Seanchan. Quero ter certeza de que voc� n�o tem outra faca escondida.</p><p>Egeanin ergueu-se calmamente e despiu-se at� a roupa de baixo, de linho. Nynaeve examinou o vestido minuciosamente, depois insistiu em revistar Egeanin tamb�m, e de maneira nada gentil. Mesmo n�o encontrando nada, ela n�o se tranquilizou.</p><p>��M�os nas costas, Seanchan. Elayne, prenda-a.</p><p>��Nynaeve, eu acho que ela n�o�</p><p>��Prenda-a com o Poder, Elayne���ordenou Nynaeve, em um tom firme���sen�o eu corto umas tiras do vestido dela e amarro as m�os e os tornozelos. Voc� se lembra de como ela lidou com aqueles sujeitos na rua. Provavelmente mercen�rios contratados por ela mesma. Ela poderia nos matar durante o sono com as pr�prias m�os.</p><p>��S�rio, Nynaeve, com Thom do lado de fora�</p><p>��Ela � Seanchan, Elayne!���Nynaeve soava como se a mulher de cabelos escuros tivesse uma falha de car�ter, o que n�o fazia sentido. Egwene estivera nas m�os deles, mas n�o Nynaeve. A dureza de seu maxilar indicava que a amiga pretendia fazer a coisa do jeito dela, com o Poder ou com cordas, se conseguisse encontr�-las.</p><p>Egeanin j� havia unido os punhos nas costas, complacente, por�m n�o submissa. Elayne urdiu um fluxo de Ar em torno das m�os da mulher e as atou; pelo menos seria mais confort�vel do que com tiras arrancadas do vestido. Egeanin dobrou levemente os bra�os, testando os elos que era incapaz capaz de ver, e estremeceu. Eram t�o f�ceis de quebrar quanto correntes de a�o. Ela deu de ombros, deitou-se meio desajeitada no catre e virou-se de costas para as outras.</p><p>Nynaeve come�ou a desabotoar o pr�prio vestido.</p><p>��Me deixe ficar com o anel, Elayne.</p><p>��Tem certeza, Nynaeve?���Ela encarou Egeanin com um olhar expressivo. A mulher parecia n�o estar prestando aten��o nelas.</p><p>��Ela n�o vai sair correndo para nos entregar hoje � noite.���Com uma pausa para puxar o vestido pela cabe�a, Nynaeve sentou-se na beirada da cama com a roupa de baixo de fina seda taraboniana e foi tirar as meias.���Hoje � a noite que combinamos. Egwene vai esperar uma de n�s, e est� na minha vez. Ela vai ficar preocupada se ningu�m aparecer.</p><p>Elayne pescou do decote do vestido o cord�o de couro preso em seu pesco�o. O anel de pedra, todo salpicado e listrado de azul, marrom e vermelho, jazia ao lado da serpente dourada engolindo a pr�pria cauda. Ela desamarrou a corda apenas pelo tempo de entregar o <emphasis>ter�angreal</emphasis> a Nynaeve, amarrou de volta e recolocou no lugar. Nynaeve amarrou o <emphasis>ter�angreal</emphasis> com seu pr�prio anel da Grande Serpente e o pesado anel de ouro de Lan e deixou os dois penderem entre os seios.</p><p>��Me d� uma hora depois de ter certeza de que estou dormindo���disse, estirando-se por sobre o cobertor azul.���N�o deve levar mais tempo que isso. E fique de olho nela.</p><p>��O que � que ela pode fazer amarrada, Nynaeve?���Elayne hesitou antes de acrescentar:���Duvido que ela tentaria nos machucar, mesmo se estivesse solta.</p><p>��Voc� n�o ouse!���Nynaeve ergueu a cabe�a para encarar Egeanin pelas costas, depois deitou a cabe�a de volta nos travesseiros.���Uma hora, Elayne.���Fechou os olhos e se remexeu, buscando uma posi��o mais confort�vel.���Isso deve dar tempo mais que de sobra.���murmurou ela.</p><p>Escondendo um bocejo com a m�o, Elayne chegou o banquinho baixo mais para perto do p� da cama, onde podia enxergar Nynaeve e tamb�m Egeanin, embora n�o parecesse necess�rio. A mulher jazia encolhida no catre com os joelhos encolhidos, as m�os bem presas. Aquele fora um dia estranho e cansativo, considerando que elas nem sequer tinham sa�do da estalagem. Nynaeve j� estava murmurando baixinho, dormindo. Com os cotovelos apontados para fora.</p><p>Egeanin ergueu a cabe�a e olhou por cima do ombros.</p><p>��Ela me odeia, eu acho.</p><p>��V� dormir.���Elayne abafou outro bocejo.</p><p>��Voc�, n�o.</p><p>��N�o seja t�o segura de si���disse ela com firmeza.���Voc� est� levando isso com muita calma. Como pode ficar t�o tranquila?</p><p>��Tranquila?���A outra mulher mexeu as m�os involuntariamente, retorcendo os elos tran�ados com Ar.���Estou t�o aterrorizada que poderia at� chorar.���N�o parecia. Ainda assim, soou como a mais pura verdade.</p><p>��N�o vamos machucar voc�, Egeanin.���Fosse l� o que Nynaeve quisesse, ela n�o deixaria que isso acontecesse.���V� dormir.���Depois de um instante, Egeanin baixou a cabe�a.</p><p>Uma hora. N�o seria correto preocupar Egwene sem necessidade, mas ela preferia que aquela hora fosse gasta com o problema delas, em vez de vagando � toa em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Caso elas n�o conseguissem descobrir se Amathera era prisioneira ou ref�m� <emphasis>Deixe isso para l�; eu n�o vou descobrir isso aqui fora.</emphasis> Quando elas de fato descobrissem, como poderiam entrar no pal�cio com todos aqueles soldados e a Guarda Civil, sem mencionar Liandrin e as outras?</p><p>Nynaeve havia come�ado a roncar baixinho, um h�bito que negava com ainda mais �dio do que negava que remexia demais os cotovelos. Pela respira��o longa e lenta de Egeanin, a mulher j� estava em sono profundo. Abafando mais um bocejo com o dorso da m�o, Elayne se remexeu no banquinho duro de madeira e come�ou a planejar como entraria no Pal�cio da Panarca.</p></section><section><title><p>52</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Necessidade</p></title><p>Por um instante, Nynaeve permaneceu parada no Cora��o da Pedra, sem ver e sem pensar em nada de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Egeanin era Seanchan. Uma daquelas pessoas vis que haviam encolarado Egwene e tentado fazer o mesmo com ela. Ter no��o daquilo ainda a deixava deprimida. A mulher era Seanchan e havia conquistado o afeto de Nynaeve, sorrateira feito uma serpente. Era t�o dif�cil encontrar bons amigos desde que sa�ra de Campo de Emond. Descobrir uma nova amiga e perd�-la daquele jeito�</p><p>��Eu a odeio por isso, mais do que tudo���resmungou, cruzando os bra�os com for�a.���Ela me conquistou, e agora eu n�o consigo desgostar dela, e a odeio por isso!���Aquilo parecia n�o fazer sentido quando pronunciado em voz alta.���Eu n�o sou obrigada a fazer sentido.���Ela deu uma risada baixinha e balan�ou a cabe�a, pesarosa.���Sou uma pretensa Aes Sedai.���Mas n�o devia se perder em devaneios feito uma garotinha boba.</p><p><emphasis>Callandor</emphasis> cintilava, a espada de cristal jazia cravada nas pedras do ch�o sob o imenso domo, e as robustas colunas de pedra vermelha esvaneciam em fileiras escuras, � luz fraca e indistinta que vinha de todos os cantos. Era f�cil recordar a sensa��o de estar sendo observada, imagin�-la novamente. Isso se da outra vez tivesse sido imagina��o. Isso se agora fosse. Podia haver qualquer coisa escondida ali. Um bast�o bom e pesado surgiu em suas m�os enquanto ela espiava pelas colunas. Onde estava Egwene? Era bem t�pico da garota faz�-la esperar daquele jeito. Naquela escurid�o. At� onde sabia, podia haver algo prestes a saltar em cim�</p><p>��Que vestido mais estranho, Nynaeve.</p><p>Sufocando um gritinho, ela deu meia-volta, emitindo um clangor met�lico, o cora��o pulando na garganta. Egwene estava parada do outro lado de <emphasis>Callandor</emphasis>, na companhia de duas mulheres de saias volumosas e xales escuros por sobre as blusas brancas, os cabelos brancos como neve batendo na cintura e presos por len�os dobrados. Nynaeve engoliu em seco, esperando que nenhuma delas percebesse, e tentou voltar a respirar normalmente. Chegar de mansinho daquele jeito!</p><p>Uma das mulheres Aiel ela conhecia, pela descri��o de Elayne; o rosto de Amys era muito jovem para aquele cabelo, mas aparentemente ela fora grisalha quase desde a inf�ncia. A outra, magra e ossuda, tinha olhos azul-claros e um rosto curtido e enrugado. Devia ser Bair. A mais forte das duas, Nynaeve julgou depois de v�-las. N�o que a tal Amys parecesse muito� Vestido estranho? <emphasis>Eu fiz barulho?</emphasis></p><p>Ela olhou para si mesma e perdeu o f�lego. Seu vestido guardava vaga semelhan�a com a indument�ria de Dois Rios; isso se as mulheres de Dois Rios usassem vestidos confeccionados em malhas de a�o, com peda�os de placas de armadura como as que ela vira em Shienar. Como os homens conseguiam correr e pular nas selas vestidos naquelas coisas? A roupa lhe pesava nos ombros como se tivesse umas cem libras. O bast�o era agora de metal, com pregos na ponta, feito um capim-carrapicho de a�o brilhante. Mesmo sem tocar a pr�pria cabe�a ela sabia que usava algum tipo de capacete. Enrubescendo furiosamente, se concentrou e trocou tudo para a boa l� de Dois Rios e um cajado de passeio. Era bom ter os cabelos de volta em uma �nica tran�a, ca�da por cima do ombro.</p><p>��Pensamentos soltos causam problemas quando voc� caminha nos sonhos���disse Bair, em um tom de voz agudo e forte.���Voc� tem de aprender a control�-los se quiser seguir em frente.</p><p>��Eu consigo controlar muito bem os meus pensamentos, obrigada���retrucou Nynaeve, toda encrespada.���Eu����N�o era apenas a voz de Bair que estava ficando fina. As duas S�bias pareciam� quase nebulosas, e Egwene, em um vestido de montaria azul-claro, estava quase transparente.���O que foi que houve com voc�? Por que est� assim?</p><p>��Tente adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> semiadormecida, em cima de uma sela���respondeu Egwene, seca. Parecia tremeluzir.���J� amanheceu na Terra da Trindade, e n�s estamos viajando. Eu tive de convencer Amys a me deixar vir, na verdade, pois estava com medo de que voc� ficasse preocupada.</p><p>��J� � uma tarefa bastante dif�cil, sem o cavalo���observou Amys���dormir um sono leve quando nosso desejo � estar acordada. Egwene ainda n�o aprendeu completamente.</p><p>��Eu vou aprender���respondeu ela, enraivecida e determinada. Era sempre muito teimosa e afobada, naquela �nsia de aprender; se essas S�bias n�o a controlassem, ela decerto acabaria arrumando todo tipo de problema.</p><p>Nynaeve parou de se preocupar com Egwene arrumar problemas assim que a mais jovem come�ou a falar do ataque de Trollocs e Draghkar ao Forte das Pedras Frias. Seana, uma S�bia Andarilha dos Sonhos, entre os mortos. Rand apressando os Aiel Taardad em dire��o ao tal Alcair Dal, no que parecia uma viola��o de todos os costumes, e enviando mensageiros para buscar outros ramos. O rapaz n�o confiava a ningu�m suas inten��es, os Aiel estavam apreensivos, e Moiraine, furiosa. A frustra��o de Moiraine at� seria certo al�vio para Nynaeve���que tinha esperan�as de que Rand conseguisse dar um jeito de escapar da influ�ncia daquela mulher���se Egwene n�o estivesse exibindo uma carranca t�o fechada.</p><p>��N�o sei se � um plano ou se � loucura���concluiu Egwene.���Se eu soubesse, poderia at� suportar o que quer que fosse. Nynaeve, admito que n�o � a profecia, nem Tarmon Gai�don, que est� me deixando ansiosa no momento. Talvez seja bobagem, mas prometi a Elayne que cuidaria dele, e n�o estou sabendo como.</p><p>Nynaeve deu a volta na espada de cristal para abra�ar Egwene. Pelo menos a amiga estava s�lida, por mais que parecesse o reflexo de um espelho emba�ado. A sanidade de Rand. N�o havia nada que ela pudesse fazer a respeito, nenhum conforto que pudesse oferecer. Era Egwene quem estava l� para v�-lo.</p><p>��O melhor que voc� pode fazer por Elayne � pedir que ele leia o que ela escreveu. �s vezes ela fica preocupada com isso; n�o diz nada, mas acho que est� com medo de ter revelado mais do que deveria. Se ele acreditar que ela est� completamente enrabichada, � mais prov�vel que sinta o mesmo por ela, o que n�o a prejudica de forma alguma. Pelo menos temos algumas boas not�cias em Tanchico. Algumas.���Quando ela explicou, no entanto, pareceu muito pouco para justificar �algumas�.</p><p>��Ent�o voc�s ainda n�o sabem o que � que elas est�o procurando���disse Egwene, depois que a outra terminou���mas, mesmo que soubessem, elas est�o em vantagem e ainda t�m chance de encontrar antes.</p><p>��N�o se eu puder evitar.���Nynaeve encarou as duas S�bias com um olhar firme e l�cido. Pelo que Elayne dissera a respeito da relut�ncia de Amys em n�o fornecer nada al�m de advert�ncias, ela precisaria de firmeza para lidar com as duas. Elas estavam t�o enturvadas que uma lufada de ar mais forte seria capaz de sopr�-las para longe, feito uma n�voa.���Elayne acha que voc�s conhecem todo tipo de truque com os sonhos. Ser� que existe alguma forma de eu entrar nos sonhos de Amathera e descobrir se ela � Amiga das Trevas?</p><p>��Garota tonta.���Os longos cabelos de Bair sacudiram quando ela balan�ou a cabe�a.���Aes Sedai, mas ainda assim boba. � muito perigoso adentrar os sonhos de algu�m, a menos que a pessoa conhe�a voc� e esteja � sua espera. O sonho � <emphasis>dela</emphasis>, n�o � feito aqui. L�, essa Amathera det�m o controle de tudo. At� de voc�.</p><p>Ela estivera t�o certa de que esse era o caminho. Era irritante descobrir o contr�rio. E �garota tonta�?</p><p>��Eu n�o sou uma garota���retrucou, bruscamente. Quis puxar a tran�a com for�a, mas em vez disso cravou o punho na cintura. Por alguma raz�o, andava se sentindo estranhamente incomodada em puxar os cabelos nos �ltimos tempos.���Eu fui Sabedoria de Campo de Emond antes de� me tornar Aes Sedai.���Ela j� quase n�o trope�ava na pr�pria mentira.���E controlava e calava a boca de mulheres t�o velhas quanto voc�s. Se sabem como me ajudar, ent�o digam, em vez de ficarem despejando baboseiras <emphasis>tontas</emphasis> sobre o que � perigoso. Eu sei reconhecer o perigo.</p><p>De s�bito, ela percebeu que sua �nica tran�a havia sido dividida em duas, uma por cima de cada orelha, com fitas vermelhas entrela�adas nas pontas. Vestia uma saia t�o curta que deixava � mostra seus joelhos, al�m de uma blusa branca larga feito as das S�bias. Seus sapatos e meias haviam sumido. De onde viera <emphasis>isso</emphasis>? Ela decerto jamais pensara em usar nada parecido. Egwene levou depressa a m�o � boca. Estava horrorizada? Sem d�vida n�o estava sorrindo.</p><p>��Pensamentos soltos���disse Amys���de fato podem trazer muitos problemas, Nynaeve Sedai, at� voc� aprender.���Apesar do tom suave, a mulher retorceu os l�bios, disfar�ando muito mal que estava se divertindo.</p><p>Nynaeve esfor�ou-se para manter a express�o serena. Elas n�o podiam ter nada a ver com aquilo. <emphasis>N�o podem!</emphasis> Ela lutou para se trocar outra vez, e foi <emphasis>mesmo</emphasis> uma luta, como se algo a aprisionasse naquele estado. Suas bochechas foram ficando mais e mais vermelhas. De repente, no exato instante em que ela se viu a ponto de sucumbir e pedir um conselho, ou at� uma ajuda, suas roupas e cabelos voltaram ao estado de antes. Ela remexeu os ded�es com gratid�o dentro dos bons sapatos robustos. Tinha <emphasis>mesmo</emphasis> sido apenas um pensamento estranho e aleat�rio. De todo modo, n�o pretendia externar qualquer suspeita; as tr�s j� estavam se divertindo bastante com aquilo, at� Egwene. <emphasis>N�o estou aqui para participar de uma competi��o idiota. N�o vou ficar aplaudindo essas tr�s.</emphasis></p><p>��J� que n�o posso entrar no sonho dela, ser� que posso traz�-la at� o Mundo dos Sonhos? Preciso dar um jeito de falar com ela.</p><p>��N�o ensinar�amos isso a voc� nem que soub�ssemos���respondeu Amys, com um pux�o irritado no xale.���O que voc� pede � uma perversidade, Nynaeve Sedai.</p><p>��Ela seria t�o in�til aqui quanto voc� no sonho dela.���A voz fina de Bair parecia uma barra de ferro.���Desde a primeira Andarilha dos Sonhos se transmite a instru��o de que ningu�m jamais deve ser <emphasis>trazido</emphasis> para um sonho. Dizem que esse era o costume da Sombra nos �ltimos dias da Era das Lendas.</p><p>Nynaeve remexeu os p�s sob aqueles olhares severos; percebendo que tinha um dos bra�os em torno de Egwene, permaneceu im�vel. N�o pretendia deixar Egwene pensar que elas a tinham deixado desconfort�vel. N�o que tivessem. Se ela pensasse nas reprimendas que levava do C�rculo das Mulheres antes de ser escolhida Sabedoria, as S�bias n�o eram nada demais. Firmeza era o que� Elas a encaravam. Enturvadas ou n�o, essas mulheres poderiam disputar um duelo de olhares com Siuan Sanche. Sobretudo Bair. N�o que a intimidassem, mas Nynaeve via motivo para ser prudente.</p><p>��Elayne e eu estamos precisando de ajuda. A Ajah Negra est� prestes a encontrar alguma coisa que pode prejudicar Rand. Se elas descobrirem antes de n�s que coisa � essa, talvez sejam capazes de control�-lo. Se houver algo que voc�s possam fazer para ajudar, algo que possam me dizer� qualquer coisa mesmo.</p><p>��Aes Sedai���disse Amys���voc� consegue fazer com que um pedido de ajuda pare�a uma exig�ncia.���Nynaeve apertou os l�bios. Exig�ncia? Ela havia praticamente implorado. Exig�ncia, pois sim! No entanto, as mulheres Aiel n�o pareceram notar sua express�o. Ou escolheram ignorar.���Por outro lado, um perigo para Rand al�Thor� n�o podemos permitir que a Sombra detenha isso. Existe um caminho.</p><p>��Perigoso.���Bair sacudiu a cabe�a vigorosamente.���Essa jovem sabe menos do que Egwene sabia quando chegou at� n�s. � muito perigoso para ela.</p><p>��Ent�o talvez eu pudesse����come�ou Egwene, e as duas a cortaram de uma s� vez.</p><p>��Voc� vai concluir o seu treinamento; est� muito afoita para ir al�m do que j� sabe���disse Bair com rispidez ao mesmo tempo em que Amys vociferou, em um tom nem um pouco mais leve:</p><p>��Voc� n�o est� l� em Tanchico, n�o conhece o lugar e n�o pode se apossar da necessidade de Nynaeve. Ela � a ca�adora.</p><p>Sob olhares r�gidos feito ferro, Egwene assentiu, amuada, e as duas S�bias se entreolharam. Por fim, Bair deu de ombros e ergueu o xale at� o rosto; estava claramente lavando as m�os em rela��o �quilo tudo.</p><p>��� perigoso���disse Amys. Do jeito que elas falavam, parecia que at� respirar era perigoso em <emphasis>Tel�aran�rhiod.</emphasis></p><p>��Eu�!���Nynaeve fechou a boca ao ver os olhos de Amys ainda mais severos; realmente n�o imaginava que tal coisa fosse poss�vel. Ela manteve firme a imagem das roupas que estava usando; era claro que as mulheres n�o tinham nada a ver com aquilo, por�m achou sensato garantir que seu vestido n�o se alterasse. E mudou o que estava prestes a dizer.���Eu vou tomar cuidado.</p><p>��N�o � poss�vel���respondeu Amys em um tom inexpressivo���mas eu n�o conhe�o outro jeito. A chave � a necessidade. Quando um forte est� cheio demais, o ramo precisa se dividir, e a necessidade � ter �gua no novo forte. Se ningu�m conhecer um local que tenha �gua, uma de n�s pode ser convocada a encontr�-lo. A chave, ent�o, � a necessidade de um vale ou c�nion apropriado, n�o muito distante do primeiro, com �gua. Concentrar-se nessa necessidade � o que aproxima a pessoa do que ela quer. Concentrar-se outra vez na necessidade aproxima ainda mais. Cada passo aproxima mais, at� que por fim a pessoa se v� n�o apenas dentro do vale, mas bem ao lado de onde encontrar� �gua. Pode ser mais dif�cil para voc�, porque n�o sabe exatamente o que � que est� buscando, mas a intensidade da necessidade pode compensar isso. E voc� faz uma ideia de onde est�: nesse pal�cio. O perigo � esse, e voc� precisa estar atenta a ele.���A S�bia inclinou-se em dire��o a Nynaeve, concentrada, fazendo-se clara em suas palavras, t�o penetrantes quanto seu olhar.���Cada passo � dado �s cegas, com os olhos fechados. Voc� n�o tem como saber onde estar� quando abrir os olhos. E n�o adianta nada encontrar a �gua se parar em cima de um ninho de v�boras. As presas de uma rainha-da-montanha matam t�o depressa nos sonhos quanto no mundo desperto. Acho que essas mulheres de quem Egwene fala matam mais depressa que a cobra.</p><p>��Eu fiz isso!���exclamou Egwene. Nynaeve sentiu-a pular quando as mulheres Aiel dispararam os olhares em sua dire��o.���Antes de conhecer voc�s���acrescentou mais que depressa.���Antes de irmos para Tear.</p><p>Necessidade. Nynaeve sentia mais afei��o pelas mulheres Aiel agora que uma delas lhe fornecera algo de �til.</p><p>��Voc�s t�m de ficar de olho em Egwene���disse ela �s duas, abra�ando a mais jovem para demostrar que falara de maneira carinhosa.���Voc� tem raz�o, Bair. Ela vai tentar fazer mais do que sabe. Sempre foi assim.���Por algum motivo, Bair arqueou uma sobrancelha branca para <emphasis>ela</emphasis>.</p><p>��Eu n�o acho que ela seja assim���disse Amys, em um tom seco.���� uma aluna obediente agora. N�o � mesmo, Egwene?</p><p>A boca de Egwene se fechou, formando uma linha teimosa. Essas S�bias n�o a conheciam muito bem se acreditavam que uma mulher de Dois Rios podia ser considerada obediente. Ainda assim, n�o disse nada. Aquilo era inesperado. T�o dif�ceis quanto as Aes Sedai, ao que parecia, eram essas s�bias Aiel.</p><p>A hora de que Nynaeve dispunha estava passando, e ela borbulhava de impaci�ncia para testar o m�todo de uma vez; se Elayne a acordasse, ela talvez levasse horas para voltar a dormir.</p><p>��Daqui a sete dias���disse���uma de n�s vai vir encontrar voc� aqui de novo.</p><p>Egwene assentiu.</p><p>��Daqui a sete dias, Rand vai ter se apresentado aos chefes dos cl�s como Aquele Que Vem Com a Aurora, e os Aiel todos o apoiar�o.���Os olhos das S�bias tremularam sutilmente, e Amys ajeitou o xale; Egwene n�o reparou.���S� a Luz sabe o que ele pretende fazer depois disso.</p><p>��Daqui a sete dias���disse Nynaeve���Elayne e eu j� vamos ter tirado das m�os daquelas mulheres o que Liandrin est� procurando.���Do contr�rio, muito provavelmente a Ajah Negra conseguiria encontrar o que quer que fosse. E, pelo visto, as S�bias tinham tanta certeza de que os Aiel apoiariam Rand quanto Egwene tinha dos planos dele. N�o existia certeza em lugar algum. De todo modo, n�o havia raz�o para sobrecarregar Egwene com mais d�vidas.���Quando uma de n�s retornar para encontrar voc�, elas todas j� estar�o sendo levadas � Torre para julgamento.</p><p>��Tente tomar cuidado, Nynaeve. Sei que voc� n�o sabe como, mas mesmo assim tente. E tamb�m diga a Elayne que eu falei isso. Ela n�o � t�o� valente� quanto voc�, mas chega perto.���Amys e Bair pousaram uma das m�os em cada ombro de Egwene, e as tr�s desapareceram.</p><p>Tentar tomar cuidado? Que boba. Ela sempre tomava cuidado. O que Egwene pretendera dizer em vez de valente? Nynaeve cruzou os bra�os com for�a, em vez de puxar a tran�a. Decerto era melhor n�o saber.</p><p>Ela percebeu que n�o havia contado a Egwene sobre Egeanin. Talvez fosse melhor n�o suscitar em Egwene as lembran�as do cativeiro. Nynaeve recordava muito bem os pesadelos que a outra mulher tivera durante semanas depois de ter sido solta, acordando aos gritos, dizendo que n�o seria acorrentada. Era melhor deixar esse assunto adormecido. Egwene n�o precisaria mesmo algum dia encontrar a Seanchan. <emphasis>Que se queime aquela mulher! Que se queime Egeanin at� virar cinzas! Que se queime!</emphasis></p><p>��Assim n�o estou usando o meu tempo com sabedoria���disse, em voz alta. As palavras ecoaram pelas colunas compridas. Com a partida das outras, as colunas pareciam ainda mais agourentas do que antes, um esconderijo para espreitadores e coisas prestes a pular nela. Era hora de partir.</p><p>Antes, por�m, ela mudou os cabelos para um conjunto de trancinhas compridas e finas, e o vestido para um bem apertado de seda verde-escura. Um v�u transparente lhe cobria a boca e o nariz, ondeando de leve quando ela respirava. Com uma careta, ela acrescentou contas de jade verde �s tran�as delgadas. Se alguma das irm�s Negras usasse o <emphasis>ter�angreal</emphasis> roubado para adentrar o Mundo dos Sonhos e a visse no Pal�cio da Panarca, pensaria tratar-se apenas de uma taraboniana que se transportara para l� em sonho, da forma mais costumeira poss�vel. Algumas, no entanto, a conheciam de vista. Ela ergueu um punhado das tran�as com contas e abriu um sorriso. Cor de mel. N�o sabia que aquilo era poss�vel. <emphasis>Como ser� que eu estou? Ser� que elas ainda conseguem me reconhecer?</emphasis></p><p>De s�bito um espelho de ch�o comprido surgiu ao lado de <emphasis>Callandor</emphasis>. No reflexo, seus grandes olhos castanhos se arregalaram de choque, sua boca de bot�o de rosa se escancarou. Ela tinha o rosto de Rendra! Suas fei��es mudavam, depois retornavam, os olhos e os cabelos se alteravam, mais escuros; com esfor�o, ela os transformou nos da estalajadeira. Agora ningu�m a reconheceria. E Egwene achando que ela n�o sabia como tomar cuidado.</p><p>Fechou os olhos e se concentrou em Tanchico, no Pal�cio da Panarca, na necessidade. Algo perigoso para Rand, para o Drag�o Renascido, necessidade� Ao redor, <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> mudou; ela <emphasis>sentiu</emphasis> uma guinada deslizante e abriu os olhos, ansiosa para ver o que havia encontrado.</p><p>Era um dormit�rio, grande como todos os seis do Jardim das Tr�s Ameixeiras, as paredes de massa branca trabalhadas com frisos pintados, lampi�es dourados pendurados no teto por correntes tamb�m douradas. Os compridos pilares da cama exibiam entalhes de galhos e folhas em um dossel sobre os colch�es. Uma mulher que sequer chegara � meia-idade estava parada ao p� da cama, rija, encostada em um dos pilares; era de fato bastante encantadora, com aquele tipo de beicinho que a pr�pria Nynaeve adotara. Por sobre as tran�as escuras usava uma coroa de folhas de tr�s pontas cravejada de rubis e p�rolas, com uma pedra-da-lua maior que um ovo de ganso, e em seu pesco�o pendia uma ampla estola que ca�a at� os joelhos, com bordados de �rvores em toda a extens�o. Al�m de coroa e estola, a mulher usava apenas uma camada brilhante de suor.</p><p>Seus olhos tr�mulos estavam fixos em uma segunda mulher, deitada confortavelmente em um sof� baixo. Esta segunda mulher estava de costas para Nynaeve, t�o nebulosa quanto Egwene estivera antes. Era pequena e esguia; os cabelos escuros ca�am soltos pelos ombros, e o vestido amarelo-claro de saias largas sem d�vida n�o era taraboniano. Nynaeve n�o precisava ver o rosto da mulher para saber que tinha grandes olhos azuis e um aspecto sagaz, tampouco era preciso ver as tramas de Ar prendendo a primeira � coluna da cama, para saber que estava olhando para Temaile Kinderode.</p><p>��� aprender esse tanto quando voc� usa os seus sonhos em vez de desperdi�ar o sono���dizia Temaile com um sotaque cairhieno, em meio a risadas.���N�o est� se divertindo? O que � que vou lhe ensinar agora? J� sei. �Eu amei mil marinheiros�.���Ela balan�ou um dedo em advert�ncia.���Aprenda a letra toda bem direitinho, Amathera. Voc� sabe que eu n�o iria querer� o que � que voc� est� olhando?</p><p>De repente Nynaeve percebeu que a mulher presa � coluna da cama���Amathera? A Panarca?���tinha os olhos cravados nela. Temaile se mexeu lentamente, como se fosse virar a cabe�a.</p><p>Nynaeve fechou os olhos com for�a. Necessidade.</p><p><emphasis>Mudan�a.</emphasis></p><p>Apoiando-se contra a coluna estreita, Nynaeve tragou o ar como se tivesse corrido vinte milhas, sem sequer se perguntar onde estava. Seu cora��o batia feito um tambor ensandecido. Aquilo era de fato como aterrissar em um ninho de v�boras. Temaile Kinderode. A irm� Negra que Amico dissera gostar de infligir dor, e ao ponto de suscitar o coment�rio de outra mulher da Ajah Negra. E ela ali, incapaz de canalizar uma fa�sca que fosse. Poderia ter acabado decorando uma daquelas colunas da cama ao lado de Amathera. <emphasis>Luz!</emphasis> Ela estremeceu, visualizando a cena. <emphasis>Acalme-se, mulher! Voc� j� saiu de l�, e mesmo que Temaile tenha visto voc�, viu uma mulher de cabelos cor de mel que sumiu, s� uma taraboniana que adentrou</emphasis> Tel�aran�rhiod <emphasis>em sonho.</emphasis> Decerto que Temaile n�o poderia ter notado Nynaeve por tempo suficiente para sentir sua capacidade de canalizar; mesmo sem conseguir, a habilidade estava presente e podia ser sentida por qualquer uma que tamb�m a tivesse. Apenas um instante. E, com sorte, insuficiente.</p><p>Pelo menos ela agora sabia qual era a situa��o de Amathera. Estava claro que a mulher n�o era aliada de Temaile. Esse m�todo de busca j� tinha valido a pena. Mas n�o fora o bastante, ainda n�o. Controlando o m�ximo poss�vel a respira��o, ela olhou ao redor.</p><p>Fileiras de finas colunas brancas corriam por toda a largura e extens�o de um imenso aposento, quase quadrado, com ch�o de pedras polidas brancas, bem lisas, e teto alto cheio de lustres com ornamentos dourados. Uma corda grossa de seda branca corria ao longo do sal�o, presa em estacas de madeira escura polida, na altura dos quadris, menos onde teriam bloqueado os arcos de duas pontas de entrada. Nas paredes se viam fileiras de prateleiras, arm�rios abertos e ossos de bestas ex�ticas, al�m de haver outros mostradores no ch�o, tamb�m isolados por cordas. O principal sal�o de exibi��es do pal�cio, segundo a descri��o de Egwene. O que ela buscava devia estar naquele exato aposento. Seu pr�ximo passo n�o seria t�o cego quanto o primeiro; certamente n�o havia ali nenhuma v�bora, nenhuma Temaile.</p><p>De repente, uma mulher vistosa surgiu ao lado de um estojo de vidro com quatro p�s entalhados, no meio do c�modo. N�o era uma taraboniana. Seus cabelos escuros ca�am em ondas sobre os ombros, mas n�o foi isso o que fez o queixo de Nynaeve desabar. O vestido da mulher era meio indistinto, ora prateado e opaco, ora cinza e t�o transparente que revelava com clareza seu corpo, bra�os e pernas. Fosse l� de que canto o sonho da mulher a tivesse trazido, ela sem d�vida tinha uma imagina��o bastante v�vida para conceber aquilo! Nem os vestidos escandalosos das domanesas de que Nynaeve ouvira falar se igualavam �quele.</p><p>A mulher sorriu para o estojo de vidro, depois continuou avan�ando pelo sal�o e parou no canto oposto para examinar alguma coisa que Nynaeve n�o conseguia distinguir, algo escuro que havia sobre um suporte de pedra branca.</p><p>De cenho franzido, Nynaeve abriu a m�o que agarrava um punhado de tran�as cor de mel. A mulher iria desaparecer a qualquer momento; poucos que adentravam <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> em sonho permaneciam por muito tempo. Naturalmente, n�o importaria se a mulher a visse; ela decerto n�o era nenhuma da lista de irm�s Negras. No entanto, parecia, de certa forma� Nynaeve percebeu que havia agarrado mais um punhado de tran�as. A mulher� A m�o de Nynaeve deu um pux�o, por vontade pr�pria���e com for�a���e ela a encarou, estupefata; as juntas estavam brancas, a m�o estremecia. Era quase como se pensar naquela mulher� A m�o, no bra�o tr�mulo, tentou puxar o cabelo outra vez. <emphasis>Por qu�, sob a Luz?</emphasis></p><p>A mulher obscura ainda permanecia parada na frente do distante pedestal branco. O tremor do bra�o de Nynaeve subiu para o ombro. Era claro que ela nunca tinha visto a mulher antes. No entanto� Ela tentou abrir os dedos; eles apenas se fecharam com mais for�a. Sem d�vida nunca tinha visto. Tremendo dos p�s � cabe�a, envolveu o corpo com o bra�o livre. Sem d�vida� Seus dentes queriam tiritar. A mulher parecia� Ela quis chorar. A mulher�</p><p>Imagens irromperam em sua cabe�a, em uma explos�o; ela afundou junto � coluna a seu lado, como se as imagens tivessem for�a f�sica; seus olhos se arregalaram. Ela viu a cena outra vez. A C�mara das Flores Ca�das e aquela mulher bonita e vigorosa, rodeada pelo brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>. Ela pr�pria e Elayne, tagarelando feito crian�as, brigando para responder primeiro, despejando tudo o que sabiam. O quanto teriam revelado? Era dif�cil lembrar os detalhes, mas ela se recordava vagamente de ter guardado algumas coisas. N�o deliberadamente; teria dito qualquer coisa � mulher, feito qualquer coisa que pedisse. Seu rosto ficou quente de vergonha e raiva. Se ela tinha sido capaz de omitir qualquer fragmento, fora porque estivera t�o� <emphasis>ansiosa</emphasis>� para responder cada pergunta, que ignorara a anterior.</p><p><emphasis>N�o faz sentido</emphasis>, disse uma vozinha bem no fundo de sua cabe�a. <emphasis>Se ela � alguma irm� Negra da qual eu n�o estou sabendo, por que � que n�o nos entregou a Liandrin? Ela poderia. N�s ter�amos ido com ela feito cordeirinhos.</emphasis></p><p>A raiva inconsciente n�o a deixava escutar. Uma irm� Negra a fizera dan�ar feito uma marionete, depois pedira que ela esquecesse. Ordenara que ela esquecesse. E ela esquecera! Bem, agora a mulher iria descobrir como era encontr�-la bem preparada e advertida!</p><p>Antes que ela conseguisse tocar a Fonte Verdadeira, Birgitte surgiu subitamente ao lado da coluna pr�xima, vestindo seu casaco branco curto e as cal�as amarelas pregueadas nos tornozelos. Birgitte ou alguma mulher sonhando que era Birgitte, com os cabelos dourados em uma tran�a elaborada. Com um dedo pressionado nos l�bios em sinal de advert�ncia, apontou para Nynaeve, depois com urg�ncia na dire��o de uma das entradas em arco duplo que havia atr�s. Com seus convincentes olhos azul-claros, a mulher desapareceu.</p><p>Nynaeve sacudiu a cabe�a. Quem quer que fosse a mulher, n�o havia tempo. Ela se abriu para <emphasis>saidar</emphasis>, e deu um giro, quase transbordando com o Poder �nico e uma ira justificada. A mulher nebulosa tinha ido embora. Embora! Porque aquela loura idiota a havia distra�do! Talvez ainda estivesse por ali, esperando por ela. Envolta no Poder, avan�ou pela entrada que a mulher indicara.</p><p>A mulher de cabelos dourados aguardava em um corredor luminoso e acarpetado, onde lampi�es dourados apagados exalavam o aroma de �leo perfumado. Ela agora segurava um arco prateado, e uma aljava com flechas prateadas pendia de sua cintura.</p><p>��Quem � voc�?���inquiriu Nynaeve furiosamente. Daria � mulher uma chance de se explicar. Depois lhe daria uma li��o que ela n�o esqueceria t�o cedo!���Voc� � a mesma idiota que atirou em mim no Deserto, alegando que era Birgitte? Eu estava prestes a ensinar boas maneiras a uma integrante da Ajah Negra quando voc� a deixou escapar!</p><p>��Eu sou Birgitte���disse a mulher, inclinando-se sobre o pr�prio arco.���Pelo menos esse � o nome que voc� reconheceria. E a li��o poderia ter sido sua, sem d�vida tanto aqui quanto na Terra da Trindade. Recordo as vidas que vivi como se fossem livros bem-lidos, as mais antigas mais nebulosas que as mais recentes, mas me lembro muito bem de quando lutei ao lado de Lews Therin. Jamais esquecerei o rosto de Moghedien, assim como n�o esquecerei o de Asmodean, o homem que voc� quase perturbou em Rhuidean.</p><p>Asmodean? Moghedien? Aquela mulher era uma Abandonada? Uma Abandonada em Tanchico. E um em Rhuidean, no Deserto! Egwene sem d�vida teria dito alguma coisa, se soubesse. N�o havia como adverti-la, n�o nos pr�ximos sete dias. A raiva���e <emphasis>saidar</emphasis>���irrompeu dentro dela.</p><p>��O que � que voc� est� fazendo aqui? Eu sei que voc�s todos desapareceram depois que a Trombeta de Valere os chamou, mas voc� estᅠ��Ela foi baixando a voz, um pouco desconcertada com o que estivera prestes a dizer, mas a outra mulher completou a frase tranquilamente para ela.</p><p>��Morta? Aqueles de n�s que est�o ligados � Roda n�o morrem da mesma forma que os outros. Que lugar melhor h� para esperarmos at� que a Roda nos te�a em novas vidas do que no Mundo dos Sonhos?���Birgitte soltou uma risada s�bita.���Estou come�ando a falar feito uma fil�sofa. Em quase todas as vidas sou capaz de lembrar que nasci como uma simples garota que escolheu o arco. Sou uma arqueira, nada mais.</p><p>��Voc� � a hero�na de cem hist�rias���disse Nynaeve.���E eu vi o que as suas flechas fizeram em Falme. As Seanchan canalizando n�o atingiram voc�. Birgitte, n�s estamos enfrentando quase uma d�zia da Ajah Negra. E um dos Abandonados tamb�m, ao que parece. A sua ajuda pode nos ser muito �til.</p><p>A outra mulher fez uma careta, incomodada e pesarosa.</p><p>��Eu n�o posso, Nynaeve. N�o posso tocar o mundo da carne, a n�o ser que a Trombeta me chame outra vez. Ou que a Roda me te�a para fora. Se isso acontecesse agora, voc� encontraria apenas uma crian�a choramingando no seio da m�e. Em rela��o a Falme, a Trombeta nos chamou; n�o est�vamos l� como voc�, em carne e osso. Por isso o Poder n�o p�de nos tocar. J� aqui, <emphasis>tudo</emphasis> faz parte do sonho, e o Poder �nico me destruiria com tanta facilidade quanto a voc�. Mais, at�. Eu lhe disse; sou uma arqueira, um soldado de ocasi�o, nada mais.���Sua complexa tran�a dourada balan�ou quando ela sacudiu a cabe�a.���N�o sei por que estou explicando. Eu n�o devia nem estar falando com voc�.</p><p>��Por que n�o? J� falou comigo antes. E Egwene achou que tinha visto voc�. Era voc�, n�o era?���Nynaeve franziu o cenho.���Como � que sabe o meu nome? Voc� simplesmente <emphasis>sabe</emphasis> as coisas?</p><p>��Eu sei o que vejo e ou�o. Via e ouvia voc� sempre que conseguia encontr�-la. Voc�, as duas outras mulheres e o rapaz com os lobos. Segundo as normas, n�o podemos falar com ningu�m que saiba que est� em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. E, ainda assim, o mal caminha no sonho tanto quanto no mundo da carne; voc�s que o combatem me atraem. Mesmo sabendo que n�o sou capaz de fazer nada, eu me pego querendo ajudar voc�s. Mas n�o posso. Isso viola as normas, as normas que me conservam h� tantas e tantas voltas da Roda, que me permitem, mesmo nas mem�rias mais antigas e desbotadas, saber que j� vivi cem outras vezes, ou mil. Falar com voc� viola normas s�lidas como leis.</p><p>��� verdade���disse uma voz dura e masculina.</p><p>Nynaeve deu um salto e quase disparou um golpe com o Poder. O homem era escuro e muito musculoso e forte, e com longos cabos de duas espadas enfiadas por detr�s dos ombros foi caminhando na dire��o de Birgitte, que estava a poucas passadas do ponto de onde ele surgira. Com o que ela ouvira de Birgitte, as espadas eram o bastante para identific�-lo como Gaidal Cain, mas enquanto Birgitte, de pele clara e cabelos louros, era t�o bela quanto nas hist�rias, ele definitivamente n�o era. Na verdade, talvez fosse o homem mais feio que Nynaeve j� vira, o rosto largo e chato, o nariz imenso e pesad�o, e a boca um talho, esgar�ada demais. Birgitte sorriu para o homem, no entanto; seu toque no rosto dele carregava mais do que afei��o. Foi uma surpresa ver que ele era o mais baixo. Troncudo e musculoso, de movimentos vigorosos, o homem dava a impress�o de ser mais alto do que era.</p><p>��N�s estivemos ligados quase sempre���disse Birgitte a Nynaeve, sem tirar os olhos dos de Cain.���Ele costuma nascer logo antes de mim, por isso sei que a minha hora est� chegando outra vez quando n�o consigo encontr�-lo, e normalmente eu o odeio da primeira vez que o vejo encarnado. Mas n�s quase sempre terminamos amantes ou casados. Uma hist�ria simples, mas creio que j� a tenhamos prolongado com mil varia��es.</p><p>Cain ignorou Nynaeve como se ela n�o existisse.</p><p>��As regras existem por uma raz�o, Birgitte. Ningu�m conseguiu nada al�m de problemas e disc�rdia ao infringi-las.���A voz dele era mesmo dura, Nynaeve percebeu. Nada parecida com a do homem das hist�rias.</p><p>��Talvez eu n�o consiga ficar sentada enquanto o mal segue lutando���disse Birgitte, baixinho.���Ou talvez eu simplesmente anseie pela carne de novo. Faz muito tempo desde que nascemos pela �ltima vez. A Sombra ascende novamente, Gaidal. Ascende aqui. Temos de combat�-la. � por essa raz�o que estamos ligados � Roda.</p><p>��Quando a Trombeta nos convocar, n�s vamos lutar. Quando a Roda nos tecer, n�s vamos lutar. At� l�, n�o!���Ele a encarou, furioso.���Voc� se esqueceu da promessa de Moghedien quando fomos atr�s de Lews Therin? Eu a vi, Birgitte. Ela vai reconhecer voc� aqui.</p><p>Birgitte virou-se para Nynaeve.</p><p>��Vou ajud�-la como puder, mas n�o espere muita coisa. <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis> � o meu mundo inteiro, e aqui eu posso fazer menos do que voc�.</p><p>Nynaeve piscou; o homem forte e escuro n�o havia se mexido, n�o que ela tivesse visto, mas ele de s�bito parou a duas passadas de dist�ncia, passando uma pedra de amolar em uma de suas espadas, com um som suave e sedoso de raspagem. Claramente, at� onde ele sabia, Birgitte estava conversando com o ar.</p><p>��O que voc� pode contar sobre Moghedien, Birgitte? Eu preciso saber tudo o que puder, para enfrent�-la.</p><p>Inclinando-se sobre o arco, Birgitte franziu o cenho, pensativa.</p><p>��Enfrentar Moghedien � dif�cil, e n�o � s� porque ela � uma Abandonada. Ela se esconde e n�o se arrisca. S� ataca onde enxerga fraquezas e se move apenas nas sombras. Se ela teme a derrota, foge, n�o � do tipo que luta at� o fim, mesmo quando se apresenta a chance de vit�ria. Uma chance n�o basta para Moghedien. Mas n�o a leve na brincadeira. Ela � uma serpente enrolada na grama alta, aguardando o momento de dar o bote, e tem menos compaix�o do que uma cobra. Especialmente aqui, n�o a subestime. Lanfear sempre reivindicou a posse de <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, mas aqui Moghedien podia fazer muito mais coisas do que Lanfear, embora n�o tenha a mesma for�a no mundo da carne. Acho que ela n�o correria o risco de confrontar Lanfear.</p><p>Nynaeve estremeceu, o medo lutando com a raiva que a permitia reter o Poder. Moghedien. Lanfear. Essa mulher falava dos Abandonados com tanta naturalidade.</p><p>��Birgitte, o que foi que Moghedien prometeu a voc�?</p><p>��Ela sabia o que eu era, ainda que eu n�o soubesse. Como, eu n�o sei.���Birgitte olhou Cain; ele parecia absorto na pr�pria espada, mas ela baixou a voz mesmo assim.���Ela prometeu me fazer chorar sozinha enquanto a Roda girar. Como se fosse um fato que simplesmente ainda n�o aconteceu.</p><p>��E mesmo assim voc� est� disposta a ajudar.</p><p>��Como eu puder, Nynaeve. Lembre que eu lhe disse para n�o esperar muita coisa.���Mais uma vez ela olhou o homem que afiava a espada.���N�s vamos nos encontrar de novo, Nynaeve. Se voc� tomar cuidado e sobreviver.���Erguendo o arco de prata, ela p�s um bra�o em torno dos ombros de Cain e murmurou em seu ouvido. Fosse l� o que tivesse dito, Cain estava rindo quando os dois desapareceram.</p><p>Nynaeve balan�ou a cabe�a. Cuidado. Todos a estavam mandando tomar cuidado. Uma hero�na lend�ria que dizia poder ajudar, mas que n�o havia muito a fazer. E um dos Abandonados em Tanchico.</p><p>Pensar em Moghedien, no que a mulher fizera a ela, fortaleceu sua ira at� que o Poder �nico estivesse ardendo feito o sol em seu corpo. Abruptamente ela se viu de volta no imenso sal�o onde estivera antes, quase desejando que a mulher tivesse retornado. Por�m, o sal�o estava vazio de vida exceto por ela mesma. A f�ria e o Poder estrondeavam tanto dentro dela que parecia que sua pele iria enegrecer em chamas. Moghedien, ou qualquer uma das irm�s Negras, podia teria mais facilidade de senti-la se ela estivesse agarrada ao Poder, mas ela o agarrou mesmo assim. Quase desejava ser encontrada, para que pudesse atac�-las. Temaile muito provavelmente ainda estava em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>. Se ela retornasse �quele dormit�rio, poderia acabar com Temaile de uma vez por todas. Poderia acabar com Temaile� e mandar um aviso �s outras. Foi o bastante para faz�-la rosnar.</p><p>O que fizera Moghedien sorrir? Ela avan�ou a passos firmes at� o estojo, uma grande caixa de vidro em uma mesa entalhada, e espiou do lado de dentro. Havia estatuetas descombinadas em um c�rculo debaixo do vidro. Uma mulher nua de um p� de altura se equilibrava nos dedos de um dos p�s, dan�ando, de silhueta toda harmoniosa, e um pastor de menos da metade do tamanho dela, tocando gaita, com o cajado no ombro e uma ovelha a seus p�s; estatuetas t�o comuns quanto quaisquer outras. No entanto, ela n�o teve d�vidas a respeito do que atra�ra o sorriso da Abandonada.</p><p>No centro do c�rculo, um suporte de madeira em laca vermelha continha um disco do tamanho da m�o de um homem, dividido em duas metades por uma linha sinuosa, um lado cintilando mais branco que a neve, o outro mais negro que piche. Era feito de <emphasis>cuendillar</emphasis>, ela sabia; j� vira outros parecidos, e somente sete haviam sido feitos. Um dos selos da pris�o do Tenebroso; um foco para uma das trancas que o mantinham alijado do mundo, em Shayol Ghul. Essa talvez fosse uma descoberta t�o importante quanto a respeito do que amea�ava Rand. Aquilo tinha de ficar longe da Ajah Negra.</p><p>De s�bito ela tomou consci�ncia do pr�prio reflexo. A tampa do estojo era do vidro mais delicado, sem bolhas, e refletia uma imagem t�o clara quanto um espelho, ainda que mais desbotada. Peda�os de seda verde-escura lhe cobriam o corpo de modo a revelar cada curva de seus seios, quadris e coxas. Tran�as compridas cor de mel repletas de contas de jade emolduravam um rosto com grandes olhos castanhos e um beicinho carnudo. O brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> n�o aparecia, claro. Disfar�ada de maneira irreconhec�vel a si pr�pria, ela caminhava quase com uma placa que indicava: �Aes Sedai�.</p><p>��Eu <emphasis>consigo</emphasis> ser cuidadosa���resmungou ela. Ainda assim, aguentou mais um instante. O Poder que a preenchia era como vida borbulhando em seus membros, todos os prazeres que ela algum dia conhecera penetrando sua carne. Por fim sentiu-se t�o boba que sua raiva foi consumida a ponto de permiti-la soltar o Poder. Ou talvez atenuada a ponto de ela n�o ser mais capaz de segur�-lo.</p><p>Qualquer que fosse a raz�o, aquilo n�o ajudava sua busca. O que ela estava procurando tinha de estar em algum lugar daquele imenso sal�o, entre aqueles expositores. Ela desviou os olhos do que pareciam os ossos de um lagarto cheio de dentes de dez passadas de comprimento, e ent�o os fechou. Necessidade. Perigo para o Drag�o Renascido, para Rand. Necessidade.</p><p><emphasis>Mudan�a.</emphasis></p><p>Ela se viu parada do lado de dentro da corda branca de seda que contornava as paredes, com a base de um pedestal de pedra branca lhe tocando o vestido. O que havia em cima n�o parecia t�o perigoso ao primeiro olhar���um colar e dois braceletes com juntas de metal negro���mas ela n�o podia chegar mais perto do que estava. <emphasis>A n�o ser que eu me sente em cima</emphasis>, ela pensou, com ironia.</p><p>Nynaeve esticou a m�o para tocar os objetos���<emphasis>Dor. M�goa. Sofrimento.</emphasis>���e deu um pulo para tr�s, arquejante, as emo��es brutais ainda ecoando em seu pensamento. At� a mais leve d�vida esvaneceu. Era isso o que a Ajah Negra estava ca�ando. E, se o objeto ainda jazia sobre este pedestal em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, tamb�m estava ali no mundo desperto. Ela as havia derrotado. Aquele pedestal de pedra branca.</p><p>Com um giro, ela encarou o estojo de vidro que continha o lacre de <emphasis>cuendillar</emphasis> e localizou o ponto onde estivera parada da primeira vez em que vira Moghedien. A mulher estava encarando o mesmo pedestal, os braceletes e a coleira. Era claro que Moghedien sabia. Mas�</p><p>Tudo ao redor come�ou a girar e emba�ar, desaparecendo.</p><empty-line/><p>��Acorde, Nynaeve���murmurou Elayne, abafando um bocejo enquanto sacudia os ombros da mulher adormecida.���J� deve ter passado uma hora. Quero dormir um pouco tamb�m. Acorde, sen�o vai ver como � bom ter a cabe�a enfiada em um balde d��gua.</p><p>Nynaeve arregalou os olhos e encarou a outra.</p><p>��Se ela sabe o que �, por que n�o entregou a elas? Se elas sabem quem <emphasis>ela</emphasis> �, por que � que ela tem de procurar o objeto em <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>? Ser� que ela tamb�m est� se escondendo delas?</p><p>��Do que � que voc� est� falando?</p><p>Com as tran�as sacudindo enquanto ela se remexia para se sentar, com a cabe�a encostada na cabeceira da cama, Nynaeve ajeitou a roupa de baixo com for�a.</p><p>��Vou contar do que � que estou falando.</p><p>O queixo de Elayne foi caindo � medida que Nynaeve revelava a hist�ria sobre o desenrolar de seu encontro com Egwene. Procurando com necessidade. Moghedien. Birgitte e Gaidal Cain. O colar e os braceletes de metal negro. Asmodean no Deserto. Um dos selos da pris�o do Tenebroso no Pal�cio da Panarca. Elayne j� estava afundada no canto do colch�o, sem for�as, bem antes que Nynaeve chegasse a Temaile e � Panarca, praticamente jogadas � trama como uma lembran�a tardia. E a mudan�a de apar�ncia, o disfarce de Rendra. Se o rosto de Nynaeve n�o estivesse t�o s�rio e soturno, Elayne teria pensado que se tratava de alguma hist�ria maluca de Thom.</p><p>Egeanin, sentada de pernas cruzadas, vestida nas roupas de baixo de linho, as m�os nos joelhos, parecia bastante incr�dula. Elayne esperou que Nynaeve n�o come�asse uma briga porque ela havia soltado os pulsos da mulher.</p><p>Moghedien. Essa era a parte mais horrenda. Uma Abandonada em Tanchico. Uma Abandonada tran�ando o Poder em torno delas duas, fazendo-as revelar tudo. Elayne n�o conseguia se lembrar de nadica daquilo. O pensamento foi suficiente para faz�-la apertar o est�mago com as duas m�os, subitamente enjoada.</p><p>��Eu n�o sei se Moghedien���<emphasis>Luz, ela p�de mesmo simplesmente ter entrado e nos feito�?</emphasis>���est� se escondendo de Liandrin e das outras, Nynaeve. Pode ser, pelo que Birgitte���<emphasis>Luz,</emphasis> Birgitte <emphasis>dando conselhos!</emphasis>���disse a respeito dela.</p><p>��Seja l� o que Moghedien estiver aprontando���disse Nynaeve, em um tom r�gido���pretendo deixar dela s� os ossos.���Ela se apoiou contra a cabeceira da cama com entalhes de flores.���Em todo caso, precisamos manter esse selo bem longe delas, assim como o colar e os braceletes.</p><p>Elayne balan�ou a cabe�a.</p><p>��Como � que umas joias podem representar perigo a Rand? Voc� tem certeza? Ser� que s�o algum tipo de <emphasis>ter�angreal</emphasis>? Como era exatamente o aspecto delas?</p><p>��Eram um colar e braceletes���vociferou Nynaeve, exasperada.���Dois braceletes articulados feitos de algum metal preto, e um colar largo, feito uma coleira preta����Os olhos dela saltaram para Egeanin, por�m n�o antes dos de Elayne.</p><p>Impass�vel, a mulher de cabelos escuros ajoelhou-se e sentou nos calcanhares.</p><p>��Nunca ouvi falar de um <emphasis>a�dam</emphasis> feito para um homem, nem de um parecido com o que voc� descreveu. Ningu�m tenta controlar um homem capaz de canalizar.</p><p>��� exatamente para isso que aquilo serve���respondeu Elayne lentamente. <emphasis>Ah, Luz, acho que eu tinha a esperan�a de que isso n�o existisse.</emphasis> Pelo menos Nynaeve havia encontrado antes; pelo menos elas tinham a chance de impedir que aquilo fosse usado contra Rand.</p><p>Nynaeve apertou os olhos ao perceber as m�os livres de Egeanin, mas n�o disse nada.</p><p>��Moghedien deve ser a �nica que sabe. Do contr�rio, n�o faz nenhum sentido. Se encontrarmos um jeito de entrar no pal�cio, conseguimos pegar o selo e o� seja l� que nome tenha isso. E, se conseguirmos libertar Amathera tamb�m, Liandrin e as camaradas dela v�o encontrar a Legi�o da Panarca, a Guarda Civil e talvez os Mantos-brancos fechando o cerco. Elas n�o v�o conseguir escapar canalizando! O problema � a gente entrar sem que ningu�m perceba.</p><p>��Eu andei tendo umas ideias em rela��o a isso���disse Elayne���mas receio que os homens v�o nos criar alguns empecilhos.</p><p>��Deixe os homens comigo.���Nynaeve retrucou.���Eu����Uma algazarra se ergueu no corredor, e um homem gritou; na mesma rapidez, o sil�ncio se abateu novamente. Thom estava de vigia do lado de fora.</p><p>Elayne deu um salto para abrir a porta, abra�ando <emphasis>saidar</emphasis> ao sair em disparada, mas Nynaeve se arrastou da cama logo atr�s dela. Egeanin tamb�m.</p><p>Thom estava se levantando, com uma das m�os na cabe�a. Juilin, com seu bast�o, e Bayle Domon, com seu porrete, se encontravam em cima de um homem de cabelos loiro-claros ca�do de cara no ch�o, inconsciente.</p><p>Elayne correu at� Thom e tentou delicadamente ajud�-lo a se levantar. Ele retribuiu com um sorrido de gratid�o, mas afastou as m�os da mo�a, de um jeito teimoso.</p><p>��Eu estou muito bem, crian�a.���Muito bem? O homem estava com um galo na cabe�a!���O sujeito veio pelo corredor e de repente me deu um chute na cabe�a. Estava atr�s da minha bolsa, eu suponho.���Simples assim. Tinha levado um chute na cabe�a e estava bem.</p><p>��E teria conseguido levar a bolsa���disse Juilin���se eu n�o tivesse vindo ver se Thom queria dar uma descansada.</p><p>��Se <emphasis>eu</emphasis> n�o tivesse���resmungou Domon. A hostilidade entre os dois parecia um pouco atenuada, para variar.</p><p>Elayne levou apenas um instante para perceber o motivo. Nynaeve e Egeanin estavam no corredor, de roupas de baixo. Juilin encarava as duas, com uma express�o de aprova��o que teria causado problemas se Rendra visse, mas pelo menos o homem estava tentando n�o ser muito �bvio. Domon n�o se esfor�ou nem um pouco para disfar�ar sua honesta avalia��o de Egeanin, cruzando os bra�os e fazendo um nojento beicinho enquanto a olhava de cima a baixo.</p><p>A situa��o logo ficou clara para as outras mulheres, mas as tr�s tiveram rea��es bastante diferentes. Nynaeve, vestida na fina seda branca, disparou ao ca�ador de ladr�es um olhar irritadi�o e saiu andando a passos firmes para o quarto, enfiando o rosto meio ruborizado de volta pela porta. Egeanin, cujo vestido de baixo de linho era consideravelmente mais comprido e grosso do que o de Nynaeve���Egeanin, que se mantivera fria e serena durante seu cativeiro, que lutara feito um Guardi�o���arregalou os olhos e corou furiosamente, prendendo a respira��o, horrorizada. Elayne encarou, estupefata, quando a Seanchan soltou um ganido mortificado e <emphasis>pulou</emphasis> de volta para dentro.</p><p>Portas se abriram de repente, e as cabe�as que despontaram no corredor desapareceram no mesmo instante, fechando as portas atr�s de si, diante da vis�o de um homem estirado no ch�o e outros parados de p� por cima dele. O som de algo pesado se arrastando sugeriu que o povo estava se protegendo do lado de dentro, com camas e arm�rios.</p><p>Longos instantes depois, Egeanin enfim espreitou pelo lado oposto a Nynaeve, ainda vermelha at� a raiz dos cabelos. Elayne realmente n�o compreendia. A mulher estava de roupas de baixo, verdade, mas quase t�o coberta quanto Elayne no vestido de taraboniana. Ainda assim, Juilin e Domon n�o tinham o direito de cobi��-la. Ela disparou aos dois um olhar severo que os poria imediatamente em seus devidos lugares.</p><p>Infelizmente, Domon estava muito ocupado dando risadinhas e esfregando o l�bio superior para perceber. Pelo menos Juilin chegou a ver, mesmo soltando um suspiro pesado, como os homens faziam quando consideravam que estavam sendo injusti�ados. Evitando os olhos dela, ele se inclinou para alcan�ar as costas do camarada louro. Um homem bastante bonito, esbelto.</p><p>��Eu conhe�o esse sujeito!���exclamou Juilin.���Esse � o homem que tentou me roubar. Ou pelo menos foi o que eu pensei���acrescentou, mais lentamente.���N�o acredito em coincid�ncias. N�o, a menos que o Drag�o Renascido esteja na cidade.</p><p>Elayne e Nynaeve trocaram olhares carrancudos. Sem d�vida o estranho n�o estava a servi�o de Liandrin; a Ajah Negra n�o usaria homens para vigiar os corredores em segredo� assim como n�o contrataria brig�es de rua. Elayne desviou o olhar para Egeanin, de forma indagativa. O de Nynaeve era ainda mais inquisidor.</p><p>��Ele � Seanchan���disse Egeanin, depois de um instante.</p><p>��Uma tentativa de resgate?���perguntou Nynaeve, em um murm�rio seco, mas a outra mulher balan�ou a cabe�a.</p><p>��N�o duvido que ele estivesse procurando por mim, s� que n�o para me resgatar, eu acho. Se ele estiver sabendo, ou sequer suspeitar, que eu libertei Bethamin, ia querer vir� conversar comigo.���Elayne imaginou que fosse mais do que conversar, o que foi confirmado quando Egeanin acrescentou:���Talvez seja melhor se voc�s o degolarem. Ele pode tentar causar problemas a voc�s tamb�m, se considerar que s�o meus amigos ou se descobrir que voc�s s�o Aes Sedai.���O grande contrabandista illianense disparou a ela um olhar chocado, e o queixo de Juilin quase desabou no peito. Thom, por outro lado, assentiu, de forma pensativa e perturbadora.</p><p>��N�o estamos aqui para degolar nenhum Seanchan���disse Nynaeve, como se pudesse mudar de ideia mais tarde.���Bayle, Juilin, levem o homem l� para fora, para o beco atr�s da estalagem. Quando ele acordar, vai ter sorte se ainda estiver com as roupas de baixo. Thom, v� encontrar Rendra e diga a ela que queremos um ch� bem forte na C�mara das Flores Ca�das. E pergunte se ela tem casca de salgueiro ou acem; vou preparar alguma coisa para a sua cabe�a.���Os tr�s homens a encararam.���Ora, mexam-se!���vociferou ela.���N�s temos planos a fazer!���Ela mal deu a Elayne tempo de voltar para dentro antes de fechar a porta com um baque e come�ar a p�r o vestido pela cabe�a. Egeanin se enfiou dentro das roupas como se os homens ainda a estivessem encarando.</p><p>��A melhor coisa � ignorar, Egeanin���disse Elayne. Era estranho dar conselhos a uma pessoa mais velha que Nynaeve. No entanto, por mais competente que a Seanchan fosse em outros aspectos, estava claro que ela sabia pouco sobre os homens.���Do contr�rio, voc� s� vai encoraj�-los. Eu n�o sei por quꠗ�admitiu���mas � assim. Sua roupa estava bastante decente. De verdade.</p><p>A cabe�a de Egeanin surgiu na parte de cima do vestido.</p><p>��Decente? Eu n�o sou uma servi�al. N�o sou nenhuma dan�arina de shea!���A carranca da mulher se transformou em um olhar de desagrado e perplexidade.���Na verdade, ele at� que � bem bonito. Eu n�o tinha percebido isso antes.</p><p>Perguntando-se o que seria uma dan�arina de shea, Elayne foi ajud�-la com os bot�es.</p><p>��Vai dar motivo para Rendra falar, se permitir que Juilin flerte com voc�.</p><p>A mulher de cabelos escuros disparou um olhar surpreso por cima do ombro.</p><p>��O ca�ador de ladr�es? Eu estava falando de Bayle Domon. Um homem de porte muito adequado. Mas contrabandista.���Ela soltou um suspiro, lamentosa.���Um fora da lei.</p><p>Elayne supunha que gosto n�o se discutia���Nynaeve sem d�vida amava Lan, e o homem era intimidador e empedernido at� demais���mas Bayle Domon? O sujeito parecia um arm�rio, quase t�o grande quanto um Ogier!</p><p>��Est� parecendo Rendra com essa tagarelice, Elayne���vociferou Nynaeve. Com dificuldade, ela tentava fechar o vestido, as duas m�os nas costas.���Se j� terminaram de falar abobrinhas sobre homens, talvez n�o se incomodem de pular o assunto da costureira nova que voc�s encontraram? Temos planos a fazer. Se esperarmos at� estarmos com os homens, eles v�o tentar assumir o controle, e eu n�o estou com a menor vontade de perder tempo colocando aqueles l� em seus devidos lugares. J� terminou com ela? Tamb�m estou precisando de ajuda aqui.</p><p>Elayne fechou depressa o �ltimo bot�ozinho de Egeanin, depois foi calmamente at� Nynaeve. Ela <emphasis>n�o</emphasis> ficava falando sobre homens e vestidos. Nem <emphasis>perto</emphasis> de quanto Rendra falava. Afastando as tran�as, Nynaeve lhe disparou uma carranca quando ela puxou com for�a o vestido para aboto�-lo. A fileira tripla e estreita de bot�es que subia pelas costas era necess�ria, n�o um simples ornamento. Nynaeve <emphasis>realmente</emphasis> deixava Rendra convenc�-la a usar os corpetes mais apertados, que estavam na moda. E depois dizia que <emphasis>os outros</emphasis> passavam o tempo todo pensando em roupas. <emphasis>Ela</emphasis> certamente pensava em outras coisas.</p><p>��Andei pensando em como podemos entrar no pal�cio sem ser notadas, Nynaeve. Podemos ficar quase invis�veis.</p><p>Enquanto ela falava, a carranca de Nynaeve se suavizou. A pr�pria Nynaeve havia imaginado um meio de entrar no pal�cio. Quando Egeanin deu algumas sugest�es, Nynaeve apertou os l�bios, mas as ideias eram sensatas, e nem ela foi capaz de rejeit�-las por completo. Ao terminarem de se aprontar para descer at� a C�mara das Flores Ca�das, as tr�s j� haviam combinado um plano e n�o tinham a menor inten��o de deixar os homens mudarem absolutamente nada. Fosse Moghedien, a Ajah Negra, ou quem quer que estivesse comandando as coisas no Pal�cio da Panarca, iria perder o pr�mio antes mesmo de saber o que havia acontecido.</p></section><section><title><p>53</p><p><image l:href="#20"/></p><p>O pre�o de uma partida</p></title><p>Apenas tr�s velas e dois lampi�es iluminavam o sal�o da estalagem Fonte de Vinho, j� que o estoque de velas e de �leo estava baixo. As lan�as e outras armas tinham sumido das paredes, e o barril que continha espadas antigas estava vazio. Os lampi�es estavam dispostos em duas das mesas empurradas juntas para a frente da comprida lareira de pedra, onde Marin al�Vere, Daise Congar e outras integrantes do C�rculo das Mulheres repassavam listas da pouca comida que restava em Campo de Emond. Perrin tentava n�o ouvir.</p><p>Em outra mesa, a pedra de amolar de Faile produzia um som baixinho de <emphasis>vush-vush</emphasis> enquanto a mulher afiava uma de suas facas. Diante dela havia um arco, e uma aljava de cerdas pendia do cinto. Ela acabara revelando ter uma mira bastante boa, mas Perrin esperava que Faile jamais descobrisse que o arco era infantil. Ela n�o seria capaz de empunhar um arco longo masculino de Dois Rios, por mais que se recusasse a admitir.</p><p>Mudando o machado de posi��o para n�o machucar a lateral do corpo, Perrin voltou a aten��o ao que estava debatendo com os homens ao redor da mesa. N�o que todos estivessem mantendo a aten��o onde deveriam.</p><p>��Elas t�m lampi�es���resmungou Cenn���e a gente tem que se virar com cera derretida.���O velho resmung�o cravou os olhos no par de velas em candelabros de lat�o.</p><p>��Deixe para l�, Cenn���respondeu Tam, em um tom cansado, puxando o cachimbo e a bolsa de tabaco de tr�s do cintur�o.���Deixe para l� uma vez na vida.</p><p>��Se tiv�ssemos que ler ou escrever���completou Abell, com a voz menos paciente do que as palavras���ter�amos lampi�es.���Uma atadura estava enrolada em suas t�mporas.</p><p>Como se para lembrar ao telhador de que ele era o Prefeito, Bran ajustou o medalh�o de prata com duas gradua��es pendurado no peitoral largo.</p><p>��Atenha-se ao assunto em pauta, Cenn. N�o vou dar corda para voc� gastar o tempo de Perrin.</p><p>��Eu s� acho que a gente deveria ter lampi�es���reclamou Cenn.���Perrin me diria se eu estivesse gastando o tempo dele.</p><p>Perrin suspirou. A noite tentava fechar suas p�lpebras. Desejou que fosse a vez de outra pessoa representar o Conselho da Aldeia, Haral Luhhan, Jon Thane, Samel Crawe ou qualquer um que n�o Cenn, com aquelas reclama��es sem import�ncia. Por outro lado, �s vezes desejava que um daqueles homens virasse para ele e dissesse: �<emphasis>Isso � assunto para o Prefeito e o Conselho, rapazinho. Voc� fa�a o favor de voltar para a forja. Depois lhe diremos o que fazer.</emphasis>� Em vez disso, os homens estavam preocupados com faz�-lo perder tempo, falavam cheios de dedos. Tempo. Quantos ataques aconteceram nos sete dias que se passaram desde aquele primeiro? J� n�o tinha certeza.</p><p>A atadura na cabe�a de Abell deixava Perrin irritado. As Aes Sedai estavam Curando apenas os ferimentos mais graves. Caso o sujeito conseguisse sobreviver sem Cura, deixavam como estava. N�o que ainda houvesse muita gente gravemente ferida, mas, como observara Verin, com amargura, at� a for�a das Aes Sedai tinha limite. Ao que parecia, o truque com as pedras das catapultas exigira tanto quanto a Cura. Para variar, ele n�o queria ser lembrado dos limites da for�a das Aes Sedai. N�o havia muitos com ferimentos feios. Ainda.</p><p>��Como estamos com as flechas?���perguntou. Era nisso que deveria estar pensando.</p><p>��Bastante bem���respondeu Tam, acendendo o cachimbo com uma das velas.���Ainda recuperamos a maior parte das que disparamos, pelo menos � luz do dia. � noite, eles arrastam muitos mortos para longe. Imagino que sirvam de forragem para as panelas� Com isso, acabamos perdendo as flechas.</p><p>Os outros homens tamb�m puxavam cachimbos e tabaco das bolsas e bolsos dos casacos, e Cenn murmurava que achava que tinha esquecido a bolsa. Resmungando, Bran passou a dele adiante, a cabe�a careca reluzindo � luz das velas.</p><p>Perrin co�ou a testa. O que pretendia perguntar em seguida? As estacas. Agora havia luta nas estacas na maioria dos ataques, sobretudo � noite. Quantas vezes os Trollocs quase invadiram? Tr�s? Quatro?</p><p>��Algu�m ainda tem lan�a ou algum tipo de arma de haste? O que sobrou para fabricar mais?���A resposta foi sil�ncio, e ele baixou a m�o. Os outros homens o encaravam.</p><p>��Voc� perguntou isso ontem���respondeu Abell, com delicadeza.���E Haral explicou que n�o tem mais nenhuma foice ou ancinho na aldeia que n�o tenha sido transformado em arma. Na verdade, temos mais armas do que m�os.</p><p>��Sim. � claro. S� me fugiu da cabe�a.</p><p>Um pedacinho da conversa do C�rculo das Mulheres chamou sua aten��o.</p><p>��� n�o � para deixar os homens ficarem sabendo���dizia Marin, baixinho, como se repetisse um aviso proferido antes.</p><p>��Claro que n�o���Daise resfolegou, por�m n�o muito mais alto.���Se os bobos descobrirem que as mulheres est�o sobrevivendo com meias-por��es, v�o insistir em comer o mesmo, e n�o podemos�</p><p>Perrin fechou os olhos e tentou ignorar o que ouvia. Claro. Os homens lutavam. Precisavam manter a for�a. Simples. Pelo menos por enquanto, nenhuma das mulheres tivera que lutar. Exceto as duas Aiel, naturalmente, e Faile, mas ela era esperta o bastante para manter dist�ncia quando se tratava de empurrar lan�as por entre as estacas. Fora por esse motivo que Perrin dera o arco a ela. Faile tinha o cora��o de um leopardo e mais coragem do que dois homens juntos.</p><p>��Acho que est� na hora de voc� se deitar, Perrin���sugeriu Bran.���N�o pode continuar desse jeito, dormindo uma hora aqui, outra ali.</p><p>Perrin esfregou a barba com for�a, tentando parecer alerta.</p><p>��Mais tarde eu durmo.���Quando tudo acabasse.���Os homens est�o dormindo o suficiente? Vi alguns sentados enquanto deveriam estar�</p><p>A porta da frente se abriu com um baque e Dannil Lewin adentrou pela noite, de arco na m�o, todo agitado. Usava uma das espadas do barril na cintura. Tam dava algumas aulas, quando havia tempo, e �s vezes algum dos Guardi�es fazia o mesmo.</p><p>Antes que Dannil pudesse abrir a boca, Daise falou, irritada:</p><p>��Voc� foi criado em um celeiro, Dannil Lewin?</p><p>��Sei que tem condi��es de tratar minha porta com um pouco mais de gentileza.���Marin dividiu o olhar expressivo entre o homem magricela e Daise, em uma lembran�a de que a porta era <emphasis>dela</emphasis>.</p><p>Dannil baixou a cabe�a e pigarreou.</p><p>��Me desculpe, Senhora al�Vere���pediu, mais do que depressa.���Me desculpe, Sabedoria. Me desculpem por entrar desse jeito, mas tenho um recado para Perrin.���Ele correu at� a mesa de homens, como se estivesse com medo de que as mulheres fossem impedi-lo outra vez.���Os Mantos-brancos trouxeram um sujeito que quer falar com voc�, Perrin. N�o aceita falar com mais ningu�m. Est� muito ferido. E s� o trouxeram at� o limite da aldeia. Acho que ele n�o tem condi��es de vir at� a estalagem.</p><p>Perrin se levantou com esfor�o.</p><p>��Estou indo.���Nenhum outro ataque, ao menos. Eram piores � noite.</p><p>Faile agarrou o arco e juntou-se a Perrin antes que ele chegasse � porta. Aram permaneceu de p�, hesitante, em meio �s sombras, no p� das escadas. �s vezes, Perrin se esquecia de que o homem estava l�, de t�o quieto que ele ficava. Parecia estranho com aquela espada presa �s costas por sobre o casaco encardido de latoeiro, listrado de amarelo, com olhos muito vivazes, quase sem piscar, e o rosto inexpressivo. Nem Raen nem Ila haviam falado com o neto desde o dia em que ele apanhara a espada. Nem com Perrin.</p><p>��Se for para vir, venha���disse, de modo grosseiro, e Aram disparou atr�s dele.</p><p>O homem o seguia feito um sabujo toda vez que n�o estava atazanando Tam, Ihvon ou Tomas para ensin�-lo a usar a espada. Era como se tivesse substitu�do seu povo e sua fam�lia por Perrin. O rapaz dispensaria essa responsabilidade se pudesse, mas l� estava o latoeiro.</p><p>O luar brilhava nos telhados de palha. Poucas casas tinham mais de uma janela iluminada. A quietude dominava a aldeia. Cerca de trinta Companheiros montavam guarda do lado de fora da estalagem, de arcos nas m�os, e o mesmo n�mero portava as espadas que puderam encontrar. Todos haviam adotado o nome, e, para seu pr�prio desgosto, Perrin tamb�m se surpreendia usando-o. A raz�o para os guardas na estalagem, ou onde Perrin estivesse, estava no campo comunit�rio, j� n�o t�o apinhado de ovelhas e vacas. Algumas fogueiras subiam pelas margens do Fonte de Vinho, para al�m de onde aquele estandarte idiota com a cabe�a do lobo jazia pendurado, im�vel. C�rculos de luz no meio da escurid�o, nos quais mantos claros reluziam ao luar.</p><p>Ningu�m queria Mantos-brancos em suas casas, j� abarrotadas, e, de todo modo, Bornhald n�o queria dividir seus soldados. O homem parecia pensar que a aldeia se voltaria contra ele e os Filhos a qualquer momento. Se o povo estava com Perrin, decerto eram Amigos das Trevas. Nem os olhos de Perrin conseguiram distinguir os rostos em torno das fogueiras, mas ele achou que sentia o olhar fixo de Bornhald, cheio de �dio e expectativa.</p><p>Dannil aprontou dez Companheiros para escoltar Perrin, jovens rapazes que deveriam estar rindo e bebendo com ele, todos com arcos prontos para defend�-lo. Aram n�o se juntou ao grupo liderado por Dannil no caminho pela rua escura de terra batida. O rapaz estava com Perrin, mais ningu�m. Faile permanecia r�gida ao lado do namorado, os olhos escuros cintilando ao luar, esquadrinhando os arredores como se <emphasis>ela</emphasis> fosse sua �nica prote��o.</p><p>No ponto onde a Estrada Velha adentrava Campo de Emond, os carro��es que formavam o bloqueio haviam sido afastados para permitir a entrada da patrulha dos Filhos da Luz, vinte homens vestidos em mantos brancos feito neve, portando lan�as, sentados sobre os cavalos em armaduras reluzentes, n�o menos impacientes do que as montarias, que batiam os cascos no ch�o. Eles se destacavam no meio da noite, e a maioria dos Trollocs enxergava t�o bem no escuro quanto Perrin, mas os Mantos-brancos insistiam nas patrulhas. �s vezes, os batedores traziam avisos, e talvez seu ass�dio deixasse os Trollocs um pouco atordoados. Ainda assim, seria bom ficar sabendo o que os Filhos estavam fazendo antes que fosse tarde demais.</p><p>Um grupo de alde�es e fazendeiros vestindo partes de armaduras antigas e capacetes enferrujados estava aglomerado ao redor de um homem estirado na estrada, com casaco de fazendeiro. Eles abriram caminho para Faile e Perrin, que foi se ajoelhar ao lado do homem.</p><p>O cheiro de sangue era forte. O suor brilhava no rosto do homem sob o vago reflexo da lua. A flecha de um Trolloc, da espessura de um polegar e parecida com uma pequena lan�a, jazia cravada em seu peito.</p><p>��Perrin� Olhos-Dourados���murmurou o homem, rouco, com dificuldade de respirar.���Preciso� falar� com Perrin� Olhos-Dourados.</p><p>��Algu�m j� foi chamar uma Aes Sedai?���inquiriu Perrin, erguendo o homem com a maior delicadeza poss�vel, sustentando sua cabe�a. N�o escutou resposta. N�o achava que o sujeito aguentaria at� a chegada de uma Aes Sedai.���Eu sou Perrin.</p><p>��Olhos-Dourados? Eu� n�o estou� enxergando� muito bem.</p><p>Os olhos do homem, fren�ticos e arregalados, estavam fixos no rosto de Perrin. Se pudesse enxergar qualquer coisa que fosse, o sujeito veria seus olhos dourados reluzindo na escurid�o.</p><p>��Eu sou Perrin Olhos-Dourados���respondeu o rapaz, relutante.</p><p>O homem agarrou a gola de sua camisa e puxou o rosto para mais perto com uma for�a surpreendente.</p><p>��N�s estamos� vindo. Vim� avisar voc�. Estamos vin�</p><p>A cabe�a do homem desabou para tr�s, os olhos fixos encarando o nada.</p><p>��Que a Luz acompanhe sua alma���murmurou Faile, guardando o arco nas costas.</p><p>Depois de um instante Perrin soltou com dificuldade os dedos do homem.</p><p>��Algu�m o conhece?���Os homens de Dois Rios se entreolharam e fizeram que n�o com a cabe�a. Perrin olhou para cima, para os Mantos-brancos montando em seus cavalos.���Ele disse mais alguma coisa enquanto voc�s o traziam? Onde o encontraram?</p><p>Jaret Byar olhou para baixo e encarou Perrin. Tinha o rosto encovado e olhos fundos, a imagem da morte. Os outros Mantos-brancos desviavam o olhar, mas Byar sempre encarava seus olhos amarelos de frente, sobretudo � noite, quando eles reluziam. Byar grunhiu entre dentes���Perrin ouviu �Criatura da Sombra!����e cravou as botas nos flancos do cavalo. A patrulha galopou para dentro da aldeia, t�o �vida em se afastar de Perrin quanto dos Trollocs. Aram encarou o bando, inexpressivo, com uma das m�os sobre o ombro, tocando o punho da espada.</p><p>��Eles disseram que o encontraram tr�s ou quatro milhas ao sul.���Dannil hesitou, ent�o acrescentou:���Est�o dizendo que os Trollocs est�o dispersos em pequenos bandos, Perrin. Talvez finalmente estejam desistindo.</p><p>Perrin deitou o estranho de volta no ch�o. <emphasis>Estamos vindo.</emphasis></p><p>��Fiquem de olho. Talvez alguma fam�lia ainda agarrada � fazenda esteja chegando.���N�o acreditava que algu�m pudesse ter sobrevivido l� fora por tanto tempo, mas talvez fosse isso.���N�o atirem contra ningu�m por engano.���Ele se levantou, cambaleante, e Faile pousou a m�o em seu ombro.</p><p>��Voc� j� devia estar na cama, Perrin. Alguma hora voc� tem que dormir.</p><p>O rapaz apenas a encarou. Devia t�-la obrigado a ficar em Tear. Devia ter dado um jeito. Se tivesse pensado direito, teria conseguido.</p><p>Um dos mensageiros, um garoto de cabelos enrolados, na altura do peito, passou deslizando pelos homens de Dois Rios e foi puxar a manga da camisa de Perrin. Ele n�o o conhecia. Muitas fam�lias tinham vindo do interior.</p><p>��Tem algo se mexendo na Floresta do Oeste, Lorde Perrin. Eles me mandaram para avisar o senhor.</p><p>��N�o me chame assim���retrucou Perrin, com rispidez. Se n�o refreasse as crian�as, logo os Companheiros tamb�m come�ariam a usar o termo.���V� dizer a eles que estou indo.���O garoto saiu em disparada.</p><p>��O seu lugar � na cama���informou Faile, com a voz firme.���Tomas consegue muito bem dar conta de qualquer ataque.</p><p>��N�o � um ataque, sen�o o garoto teria falado, e algu�m estaria soando o clarim de Cenn.</p><p>Ela se pendurou no bra�o dele, tentando pux�-lo em dire��o � estalagem, por isso foi arrastada junto quando ele saiu andando para o lado oposto. Depois de alguns minutos de tentativa in�til, Faile desistiu e fingiu que estivera o tempo todo apenas segurando o bra�o do rapaz. Mas resmungava sozinha. Ao que parecia, ainda achava que ele n�o ouviria se ela falasse bem baixinho. Come�ou com �idiota�, �cabe�a de mula� e �descerebrado�, ent�o as ofensas foram aumentando. Era quase uma pequena prociss�o: Faile resmungando, Aram em sua cola, e os dez Companheiros a rode�-lo feito uma guarda de honra. Se n�o estivesse t�o cansado, Perrin estaria se sentindo um verdadeiro idiota.</p><p>Havia guardas espalhados em pequenos grupos por toda a extens�o da cerca de estacas pontudas, perscrutando a noite, cada um fazendo um garoto de mensageiro. Na extremidade a oeste da aldeia, os homens em guarda estavam reunidos do lado de dentro da extensa barreira, tocando os arcos e lan�as enquanto espiavam a Floresta do Oeste. Mesmo sob o luar, as �rvores eram um negrume total a seus olhos.</p><p>A capa de Tomas parecia fazer certas partes de seu corpo desaparecerem em meio � noite. Bain e Chiad estavam com ele. Por alguma raz�o, as duas Donzelas passaram todas as noites naquela extremidade de Campo de Emond desde a partida de Loial e Gaul.</p><p>��Eu n�o teria mandado incomodar vocꠗ�come�ou o Guardi�o, dirigindo-se a Perrin���mas parece que s� tem uma criatura a� fora, e achei que voc� talvez pudesse�</p><p>Perrin assentiu. Todos sabiam sobre sua vis�o, que era ainda melhor � noite. O povo de Dois Rios parecia pensar que era algo muito especial, algo que o identificava como um her�i idiota. E ele n�o fazia ideia do que os Guardi�es pensavam, ou as Aes Sedai. Estava cansado demais, aquela noite, para se importar. Sete dias, e quantos ataques?</p><p>A fronteira da Floresta do Oeste ficava a quinhentas passadas de dist�ncia. Mesmo aos olhos dele, as �rvores pareciam muito juntas em meio �s sombras. Algo se movia. Algo grande o bastante para ser um Trolloc. Uma imensa forma carregando� A carga ergueu um bra�o. Um ser humano. Uma imensa sombra carregando um ser humano.</p><p>��N�o vamos atirar!���gritou. Queria gargalhar. Na verdade, percebeu que estava gargalhando.���Venha! Venha, Loial!</p><p>A silhueta indistinta moveu-se para frente mais r�pido do que um homem era capaz de correr, transformando-se no Ogier, disparando em dire��o � aldeia com Gaul nos bra�os.</p><p>Homens de Dois Rios gritavam palavras de encorajamento, como se fosse uma corrida.</p><p>��Corra, Ogier! Corra! Corra!</p><p>Talvez fosse uma corrida: mais de um ataque viera daquela mata.</p><p>Pr�ximo �s estacas, Loial reduziu o passo e deu uma guinada. Virou-se de lado. Mal havia espa�o para que suas pernas grossas ultrapassassem a barreira. Uma vez dentro do per�metro da aldeia, soltou o Aiel e desabou no ch�o, recostando-se na cerca, sem f�lego, as orelhas peludas ca�das de cansa�o. Gaul foi mancando at� conseguir se sentar, com Bain e Chiad examinando sua coxa esquerda, onde a cal�a estava rasgada e preta por causa do sangue seco. Ele tinha apenas duas lan�as, e a aljava aberta estava vazia. O machado de Loial tamb�m sumira.</p><p>��Seu Ogier tolo���disse Perrin, com uma risada afetuosa.���Saindo daquele jeito. Vou deixar Daise Congar dar umas varadas em voc�, seu fugitivo. Pelo menos est� vivo. Pelo menos est� de volta.���Com isso, ele se calou.</p><p>Vivo. E de volta em Campo de Emond.</p><p>��N�s conseguimos, Perrin���disse Loial, ofegante, soando como o ribombar de um tambor cansado.���H� quatro dias. Fechamos o Portal dos Caminhos. Agora s� os Anci�es ou uma Aes Sedai conseguiriam abri-lo outra vez.</p><p>��Ele me carregou por quase todo o caminho desde as montanhas���comentou Gaul.���Um Mensageiro da Noite e talvez uns cinquenta Trollocs nos perseguiram pelos primeiros tr�s dias, mas Loial conseguiu deixar todos para tr�s.</p><p>O Aiel tentava afastar as Donzelas, sem sucesso.</p><p>��Fique quieto, Shaarad���vociferou Chiad���ou vou falar que encostei em voc� armada e deixar voc� decidir como fica a sua honra.</p><p>Faile soltou uma gargalhada. Perrin n�o entendeu, mas a observa��o reduziu o Aiel imperturb�vel a um homem tartamudo. Ele deixou as Donzelas cuidarem de sua perna.</p><p>��Est� tudo bem, Loial?���perguntou Perrin.���Voc� est� ferido?</p><p>O Ogier se levantou com esfor�o vis�vel e, por um instante, bamboleou feito uma �rvore prestes a desabar. As orelhas ainda pendiam, fl�cidas.</p><p>��N�o, Perrin, n�o estou ferido. S� cansado. N�o se preocupe comigo. Passei tempo demais longe do <emphasis>pouso</emphasis>. Visitar n�o � o suficiente.���Ele balan�ou a cabe�a como se seus pensamentos tivessem come�ado a vagar. A m�o imensa engolfou o ombro de Perrin.���Vou ficar bem depois de dormir um pouquinho.���Ele baixou a voz. Isso �, para um Ogier, j� que ainda parecia o zunido de uma abelha imensa.���Est� muito ruim por l�, Perrin. Seguimos os �ltimos bandos na volta, na maior parte do tempo. Trancamos o portal, mas acho que j� deve haver centenas de Trollocs em Dois Rios, e talvez uns cinquenta Myrddraal.</p><p>��Nem tanto���anunciou Luc, em voz alta. Ele subira a galope, beirando as casas, vindo da dire��o da Estrada do Norte. Puxou as r�deas do garanh�o preto, fazendo-o empinar de repente e parar, batendo os cascos dianteiros no ch�o.���Sem d�vida o senhor tem muito talento para cantar para as �rvores, Ogier, mas combater Trollocs � bem diferente. Estimo que agora sejam menos de mil. Uma for�a formid�vel, sem sobra de d�vida, mas nada que essas defesas robustas e os homens valentes n�o sejam capazes de manter encurralados. Mais um trof�u para o senhor, Lorde Perrin Olhos-Dourados.���Com uma risada, ele atirou um saco de tecido saliente para Perrin. A parte de baixo refletia um brilho molhado ao luar.</p><p>Perrin agarrou o saco em pleno ar e atirou-o bem para longe das estacas, apesar do peso. Quatro ou cinco cabe�as de Trolloc, n�o restava d�vida, e talvez a de um Myrddraal. O homem trazia trof�us todas as noites, decerto na esperan�a de que fossem exibidos para o povo contemplar. Um bando dos Coplins e Congars ofereceram uma festa na noite em que Luc chegou com as cabe�as de um par de Desvanecidos.</p><p>��E eu, tamb�m n�o entendo nada de luta?���inquiriu Gaul, levantando-se com dificuldade.���<emphasis>Eu</emphasis> estou dizendo que h� muitos milhares.</p><p>Luc exibiu os dentes brancos em um sorriso.</p><p>��Quantos dias voc� passou na Praga, Aiel? Eu j� passei muitos.���Talvez fosse mais um rosnado do que um sorriso.���Muitos. Acredite no que quiser, Olhos-Dourados. Os dias sem fim trar�o o que for, como sempre foi.</p><p>Ele fez o garanh�o empinar outra vez, ent�o deu um giro e saiu galopando por entre as casas e �rvores que um dia haviam sido a margem da Floresta do Oeste. Os homens de Dois Rios se remexiam, inquietos, encarando o homem ou a noite.</p><p>��Ele est� errado���disse Loial.���Gaul e eu sabemos o que vimos.</p><p>O Ogier vergou o rosto cansado, a boca enorme ca�da, as compridas sobrancelhas desabando por cima das bochechas. N�o era de se admirar, posto que Loial carregara Gaul por tr�s ou quatro dias.</p><p>��Voc� j� fez muito, Loial���disse Perrin���tanto voc� quanto Gaul. Muito. Receio que o seu quarto esteja abarrotado com meia d�zia de latoeiros, mas a Senhora al�Vere vai preparar um catre para voc�. Est� na hora de dormir um pouco, como voc� estava querendo.</p><p>��E voc� tamb�m, Perrin Aybara.���As nuvens ligeiras faziam as sombras brincarem no nariz acentuado e nas ma��s do rosto proeminentes de Faile. Ela era t�o bonita. Mas sua voz estava dura feito a cama de um carro��o.���Se n�o for agora, vou p�r Loial para carregar voc�. Voc� mal se aguenta em p�.</p><p>Gaul estava com dificuldade de caminhar com a perna ferida. Bain o apoiava de um dos lados. Ele tentou impedir que Chiad o sustentasse do outro, mas a mulher murmurou algo que soou feito �<emphasis>gai�shain</emphasis>�, em um tom intimidador. Bain soltou uma risada, e o Aiel permitiu que as duas o ajudassem, grunhindo baixinho, cheio de raiva. Fosse l� o que as Donzelas estivessem falando, Gaul fora obrigado a engolir.</p><p>Tomas bateu no ombro de Perrin.</p><p>��V�, homem. Todo mundo precisa dormir.</p><p>O pr�prio Tomas parecia estar acordado havia bem mais que tr�s dias.</p><p>Perrin assentiu.</p><p>Deixou que Faile o conduzisse de volta � estalagem Fonte de Vinho, com Loial e os Aiel atr�s, al�m de Aram, Dannil e os dez Companheiros a rode�-lo. N�o soube ao certo em que momento os outros o deixaram, mas Faile e ele acabaram sozinhos em seu quarto, no segundo andar da estalagem.</p><p>��Tem fam�lias inteiras se ajeitando em espa�os menores que esse���murmurou. Uma vela queimava sobre a cornija de pedra da pequena lareira. Os outros se viravam sem vela, mas Marin acendia uma ali assim que a noite ca�a, para que ele n�o se incomodasse em pedir.���Eu posso dormir l� fora com Dannil, Ban e os outros.</p><p>��N�o seja idiota���retrucou Faile, com um tom afetuoso.���Se Alanna e Verin t�m quartos pr�prios, voc� tamb�m tem que ter o seu.</p><p>Percebeu que a namorada tirara seu casaco e estava desamarrando os la�os da camisa.</p><p>��Eu n�o estou t�o cansado a ponto de n�o conseguir tirar a roupa.</p><p>Gentilmente, Perrin a empurrou para fora.</p><p>��� para tirar tudo���ordenou Faile.���Tudo, est� me ouvindo? N�o tem como dormir direito todo vestido, do jeito que voc� acha que d� para fazer.</p><p>��Vou tirar���prometeu Perrin.</p><p>Quando fechou a porta, ele ao menos arrancou as botas antes de apagar a vela e se deitar. Marin n�o gostaria de botas sujas em cima da coberta.</p><p>Milhares, tinham dito Gaul e Loial. Ainda assim, o quanto eles dois teriam sido capazes de enxergar, percorrendo as montanhas escondidos e correndo no caminho de volta? Talvez no m�ximo mil, alegava Luc, mas Perrin n�o conseguia confiar nele, apesar de todos os trof�us que o homem trazia. Espalhados, segundo os Mantos-brancos. O quanto teriam se aproximado, com as capas e armaduras reluzindo feito lanternas na escurid�o?</p><p>Talvez houvesse um meio de saber por si mesmo. Evitara o sonho de lobo desde a �ltima visita. O desejo de ca�ar o tal Matador reaparecia toda vez que ele pensava em retornar, e suas responsabilidades estavam ali, em Campo de Emond. Mas agora, quem sabe� o sonho o envolveu enquanto ele ainda considerava a ideia.</p><empty-line/><p>Estava no campo comunit�rio, banhado pelo sol da tarde j� baixo no c�u, com algumas nuvens brancas suspensas. N�o havia gado ou ovelha ao redor da estaca comprida onde uma brisa fazia tremular o estandarte vermelho com a cabe�a de lobo, mas uma mosca-azul passou zunindo diante de seu rosto. N�o havia vivalma entre as casas de sap�. Pequenas pilhas de madeira seca por cima de cinzas marcavam as fogueiras dos Mantos-brancos. Quase nunca via qualquer coisa queimando no sonho de lobo, apenas o que estava prestes a queimar ou j� enegrecido. Nenhum corvo no c�u.</p><p>Enquanto procurava os p�ssaros, um peda�o do c�u escureceu, tornando-se uma janela para algo mais. Egwene estava parada entre um grupo de mulheres, os olhos cheios de medo. Bem devagar, as mulheres se ajoelharam � volta dela. Nynaeve estava entre elas, e Perrin achou que tinha visto os cabelos louro-avermelhados de Elayne. A janela sumiu e foi substitu�da. Mat apareceu, nu e amarrado, rosnando. Uma estranha lan�a de cabo preto estava presa �s suas costas, e um medalh�o de prata com a cabe�a de uma raposa jazia pendurado em seu peito. O amigo desapareceu, e surgiu Rand. Perrin achou que era Rand. Vestia trapos e um manto tosco, e uma atadura cobria seus olhos. A terceira janela sumiu. O c�u era apenas o c�u, vazio, exceto pelas nuvens.</p><p>Perrin estremeceu. As vis�es dos sonhos de lobo nunca pareciam ter rela��o com nada que ele soubesse que estava acontecendo. Talvez ali, onde tudo podia mudar com tanta facilidade, sua preocupa��o com os amigos se transformasse em algo que ele podia ser. Fosse o que fosse, estava perdendo tempo em se afligir com aquilo.</p><p>N�o ficou surpreso em descobrir que usava um colete comprido de ferreiro, de couro, sem camisa por baixo. Mas, ao levar a m�o ao cinto, encontrou o martelo, n�o o machado. Franzindo o cenho, concentrou-se na l�mina comprida em meia-lua e na ponteira grossa. Era do que precisava. O que ele era. O martelo foi mudando aos poucos, mas, quando o machado enfim surgiu, pendendo no passante grosso do cinto, emanava um brilho perigoso. Por que tanta luta? Perrin sabia o que queria. Uma aljava cheia apareceu do outro lado da cintura, um arco longo na m�o, um bra�al de couro no antebra�o esquerdo.</p><p>Tr�s passos bem ligeiros, fazendo a terra passar feito um borr�o, o levaram aonde supostamente ficavam os campos de Trollocs mais pr�ximos, a tr�s milhas da aldeia. O �ltimo passo o deixou no meio de quase uma d�zia de pilhas altas de madeira, que jaziam sobre cinzas antigas de cevada pisoteada, os troncos misturados a cadeiras quebradas, pernas de mesa e at� a porta de uma casa de fazenda. Imensos caldeir�es de ferro negro pareciam prontos para ser pendurados sobre as fogueiras. Caldeir�es vazios, naturalmente, embora ele soubesse o que seria picado dentro deles, o que seria cravado nos robustos espetos de ferro e estirado por sobre uma das fogueiras. A quantos Trollocs aquelas fogueiras serviriam? N�o havia tendas, e os cobertores espalhados pelos cantos, imundos e fedendo a suor velho e acre de Trolloc, n�o fornecia pistas. Muitos dormiam feito animais, no ch�o, e �s vezes at� cavavam buracos na terra para se deitar.</p><p>Em passos menores, que cobriam menos de cem passadas, fazendo a terra parecer apenas um pouco nebulosa, Perrin circundou Campo de Emond de fazenda em fazenda. Passou por pastos, campos de cevada e fileiras de tabaco. Percorreu bosques de �rvores isoladas atr�s de rastros de carro��es e pegadas, encontrando cada vez mais grupos de fogueiras de Trollocs � espreita enquanto se movia em espiral para fora da aldeia. Muitas fogueiras. Centenas. Aquilo s� podia significar muitos milhares de Trollocs. Cinco mil, ou dez, ou o dobro� N�o faria muita diferen�a para Campo de Emond, se todos chegassem ao mesmo tempo.</p><p>Mais adiante, ao sul, os sinais de Trollocs desapareceram. Ao menos, os sinais de sua presen�a imediata. Poucas casas de fazenda e celeiros n�o haviam sido incendiados. Campos isolados de restolho chamuscado se estendiam onde a cevada ou o tabaco haviam sido queimados, enquanto em outros, grandes faixas de colheita tinham sido pisoteadas. N�o havia raz�o para aquilo al�m do prazer de destruir. O povo j� n�o estava por ali havia muito, quando tudo aquilo fora feito. Em dado momento, Perrin aterrissou entre enormes trechos de terra coberta de cinzas, as rodas de algum carro��o ainda exibindo toques de cores vivas aqui e ali. O local da destrui��o da caravana dos Tuatha�an lhe trouxe ainda mais pesar do que as casas de fazenda. Deveria ter havido uma chance para o Caminho da Folha. Mas n�o ali. Sem se permitir olhar, saltou uma milha ou mais em dire��o ao sul.</p><p>Por fim, chegou a Trilha de Deven, com fileiras de casas de telhado de palha rodeando um campo e um laguinho abastecido por uma nascente cercada de pedras, o excedente esguichando de aberturas muito gastas, maiores do que quando tinham sido criadas. A estalagem na beira do campo, Ganso e Gaita, tamb�m tinha telhado de palha, mas era um pouco maior do que a Fonte de Vinho, embora Trilha de Deven sem d�vida recebesse menos visitantes que Campo de Emond. A aldeia decerto n�o era maior. Carros e carro��es perto de todas as casas indicavam que os fazendeiros haviam fugido para l� com suas fam�lias. Outros carro��es bloqueavam as ruas e os espa�os entre as casas por todo o caminho ao longo das divisas da aldeia. As precau��es n�o teriam sido o bastante para impedir sequer um dos ataques feitos a Campo de Emond nos �ltimos sete dias.</p><p>Dando tr�s voltas ao redor da aldeia, Perrin encontrou apenas meia d�zia de acampamentos de Trollocs. O bastante para manter o povo dentro das casas. Encurral�-los at� acabarem com Campo de Emond. Ent�o os Trollocs poderiam lan�ar-se sobre Trilha de Deven ao bel prazer dos Desvanecidos. Talvez pudesse arranjar uma forma de avisar os alde�es. Se eles fugissem para o sul, talvez encontrassem caminho pelo Rio Branco. Quem sabe tentar cruzar a Floresta das Sombras abaixo do rio, onde n�o havia como deixar rastro, fosse melhor do que esperar a morte.</p><p>O sol dourado n�o se movera uma polegada sequer. O tempo ali passava diferente.</p><p>Perrin correu para o norte o mais r�pido que podia, e passou feito um borr�o por Campo de Emond. Em Colina da Vig�lia, uma vila redonda e proeminente, carro��es e carros tamb�m margeavam as casas, tal e qual em Trilha de Deven. Um estandarte tremulava pregui�osamente ao sabor da brisa, em um mastro comprido diante da estalagem Javali Branco, no topo da colina. Uma �guia vermelha voando por um campo azul. A �guia Vermelha fora o s�mbolo de Manetheren. Talvez Alanna ou Verin tivessem contado hist�rias antigas quando estiveram l�.</p><p>Ali, tamb�m, encontrou alguns acampamentos de Trollocs. O suficiente para acuar os alde�es. De l� havia uma sa�da mais f�cil do que tentar cruzar o Rio Branco, com sua infind�vel estirada de corredeiras.</p><p>Correu rumo ao norte, para a Barca do Taren, na ribanceira do Tarendrelle, que ele crescera chamando de Rio Taren. As casas eram altas e estreitas, constru� das sobre funda��es de pedra para escapar da cheia anual do Taren, quando a neve derretia nas Montanhas da N�voa. Quase metade dessas funda��es sustentava apenas pilhas de cinzas e vigas chamuscadas sob aquela luz permanente da tarde. N�o havia carro��es ali, nem qualquer sinal de defesa. Nem acampamentos de Trollocs que ele pudesse ver. Talvez n�o tivesse sobrado ningu�m na vila.</p><p>Na beirada da �gua havia um deque robusto de madeira, com uma corda pesada ca�da no rio ligeiro. A corda corria pelos aros de ferro de uma barca�a de soalho plano acomodada no deque. A barca ainda estava ali, ainda utiliz�vel.</p><p>Um salto o levou para o outro lado do rio, onde sulcos de rodas marcavam a margem e objetos dom�sticos jaziam pelo ch�o. Cadeiras e espelhos, ba�s, at� algumas mesas e um guarda-roupas polido com entalhes de p�ssaros nas portas, todas as coisas que o povo desesperado tentara salvar, depois abandonara para poder avan�ar mais depressa. Todos deviam estar espalhando a not�cia do que acontecera ali, do que estava acontecendo em Dois Rios. �quela altura, alguns j� deviam ter chegado a Baerlon, umas cem milhas ou mais ao norte, e sem d�vida �s fazendas e aldeias entre Baerlon e o rio. As not�cias corriam. Em mais um m�s talvez chegassem a Caemlyn e � Rainha Morgase, com sua Guarda da Rainha e seu poder para reunir ex�rcitos. Um m�s, com sorte. E outro m�s para retornar, se Morgase acreditasse. Tarde demais para Campo de Emond. Talvez tarde demais para toda Dois Rios.</p><p>Ainda assim, quase n�o fazia sentido que os Trollocs deixassem algu�m escapar. Ou os Myrddraal, na verdade. Os Trollocs n�o pareciam pensar muito para al�m do momento presente. Imaginava que destruir a barca teria sido a primeira tarefa dos Desvanecidos. Como poderiam ter certeza de que n�o havia soldados suficientes em Baerlon para derrot�-los?</p><p>Ele se abaixou para pegar uma boneca de madeira com o rosto pintado, e uma flecha zuniu por onde estivera seu peito.</p><p>Perrin se levantou com um salto e disparou margem acima, um borr�o se formando pela floresta. Parou cem passadas � frente para se acocorar sob uma imensa folha-de-couro. Arbustos e �rvores tombadas para dentro d��gua e cobertas de trepadeiras revestiam o ch�o da floresta � sua volta.</p><p>Matador. Perrin encaixou uma flecha no arco, sem saber se a puxara de dentro da aljava ou simplesmente imaginara que estava ali. Matador.</p><p>Quando estava prestes a saltar novamente, parou. Matador saberia mais ou menos onde ele estava. Perrin j� seguira o borr�o formado pelo homem com bastante facilidade. A faixa alongada era bem n�tida quando a pessoa estava parada olhando. Por duas vezes, entrara no jogo do outro e quase levara a pior. Matador que jogasse, dessa vez. Ele aguardou.</p><p>Corvos mergulhavam por sobre os topos das �rvores, vasculhando e gritando. Nenhum movimento o entregava; nem sequer um leve tremor. Apenas seus olhos se moviam, perscrutando a floresta ao redor. Uma lufada de ar errante trouxe um cheiro frio, ao mesmo tempo humano e inumano, e Perrin sorriu. Nenhum som ainda, exceto o dos corvos. Esse Matador era um �timo espreitador. Mas n�o estava acostumado a ser ca�ado. O que mais o sujeito esquecera, al�m dos cheiros? Sem d�vida n�o esperava que Perrin permanecesse onde aterrissara. Os animais fugiam do ca�ador. At� mesmo os lobos.</p><p>Um ind�cio de movimento, e, por um instante, um rosto surgiu por cima de um pinheiro ca�do a uns cinquenta passos de dist�ncia. A luz obl�qua iluminava com clareza. Cabelos escuros e olhos azuis, um rosto todo r�gido e anguloso, t�o parecido com o de Lan. S� que, naquele breve instante, o Matador umedeceu os l�bios duas vezes, franziu a testa, e arregalou os olhos, � procura. Lan n�o deixaria transparecer a inquieta��o nem que estivesse sozinho diante de mil Trollocs. Apenas um instante, e o rosto sumiu outra vez. Os corvos saltaram e revoaram pelo c�u, como se compartilhassem a ansiedade de Matador, com medo de descer al�m das copas das �rvores.</p><p>Perrin aguardava e observava, im�vel. Sil�ncio. Apenas o cheiro frio informava que n�o estava sozinho com os corvos acima de sua cabe�a.</p><p>O rosto de Matador surgiu outra vez, espiando por detr�s de um carvalho de tronco robusto � esquerda. Os carvalhos matavam quase tudo o que crescia � volta, apenas uns cogumelos e ervas daninhas brotavam no h�mus folhoso sob seus galhos. O homem surgiu bem devagar, e as botas n�o emitiam som.</p><p>Em um s� movimento, Perrin apontou e disparou. Os corvos emitiram gritos de aviso, e o Matador girou para receber a flecha no peito, mas n�o no cora��o. O homem soltou um uivo e agarrou a flecha com as duas m�os. Penas negras ca�ram no ch�o quando os corvos bateram as asas em frenesi. O Matador esvaneceu com um grito, tornando-se nebuloso, transparente, desaparecendo. Os guinchos dos corvos pararam de repente, como se tivessem sido cortados com uma faca. A flecha que perfurara o homem caiu no ch�o. Os corvos tamb�m desapareceram.</p><p>Com uma segunda flecha meio erguida, Perrin exalou lentamente, relaxando a tens�o da corda do arco. A morte era assim, por ali? A pessoa simplesmente desaparecia, sumia para sempre?</p><p>��Pelo menos acabei com ele���murmurou Perrin.</p><p>E se desviara do objetivo. O Matador n�o estava entre os motivos pelo qual viera ao sonho de lobo. Pelo menos agora os lobos estavam seguros. Os lobos� e talvez alguns outros.</p><p>Ele saiu do sonho�</p><empty-line/><p>� e acordou encarando o teto, a camisa toda suada e grudada no corpo. O luar iluminava um pouco pelas janelas. Em algum ponto da aldeia havia rabecas tocando uma alegre melodia dos latoeiros. Eles n�o lutavam, mas tinham encontrado uma forma de ajudar, animando o povo.</p><p>Perrin sentou-se devagar, cal�ando as botas no breu parcamente iluminado. Como fazer o que era preciso? Seria dif�cil. Teria que ser astuto. No entanto, n�o sabia se algum dia na vida tinha sido astuto. Levantou-se e pisou firme para ajeitar as botas.</p><p>Gritos s�bitos do lado de fora e o som indistinto de cascos o fizeram correr at� a janela mais pr�xima e erguer o caixilho. Os Companheiros estavam em polvorosa l� embaixo.</p><p>��O que est� havendo?</p><p>Trinta rostos se viraram para ele, e Ban al�Seen gritou:</p><p>��Foi o Lorde Luc, Lorde Perrin. Quase atropelou Wil e Tell. Acho que nem viu os dois. Estava todo corcunda em cima da sela, parecia ferido. Esporeava aquele cavalo com toda a for�a.</p><p>Perrin co�ou a barba. Luc sem d�vida n�o estava ferido mais cedo. Luc� o Matador? Era imposs�vel. O Matador, com seus cabelos escuros, parecia primo ou irm�o de Lan. Se Luc, com aquele cabelo louro-avermelhado, parecia algu�m, talvez fosse Rand. Ao menos um pouco. Os dois n�o podiam ser mais diferentes um do outro. E, ainda assim� aquele cheiro frio. Eles n�o tinham o mesmo cheiro, mas ambos exalavam um aroma g�lido, quase inumano. Seus ouvidos captaram o som de carro��es sendo puxados para abrir caminho na Estrada Velha, al�m de gritos de pressa. Mesmo que Ban e os Companheiros corressem, j� n�o conseguiriam alcan�ar o homem. Cascos galoparam com for�a para o sul.</p><p>��Ban���gritou���se Luc aparecer outra vez, o mantenham sob vigil�ncia.���Ele fez uma pausa meio longa e acrescentou:���E n�o me chame assim!</p><p>Em seguida, baixou o caixilho de volta, com um estrondo.</p><p>Luc e o Matador; o Matador e Luc. Como poderiam ser a mesma pessoa? Era <emphasis>realmente</emphasis> imposs�vel. Por outro lado, menos de dois anos antes ele sequer acreditava em Trollocs ou Desvanecidos. Havia tempo suficiente para se preocupar, caso pusesse outra vez as m�os no sujeito. Agora havia Colina da Vig�lia, Trilha de Deven e� Alguns poderiam ser salvos. Nem todos em Dois Rios precisavam morrer.</p><p>A caminho do sal�o, ele fez uma pausa no topo da escada. Aram estava parado no �ltimo degrau, observando-o, aguardando para seguir suas ordens. Gaul jazia estirado em um catre pr�ximo � lareira, com uma atadura grossa na coxa esquerda, aparentemente dormindo. Faile e as duas Donzelas estavam sentadas no ch�o perto dele, de pernas cruzadas, conversando baixinho. Havia um catre bem maior do outro lado do sal�o, mas Loial estava sentado em um banco, as pernas esticadas para caber debaixo de uma das mesas, quase todo envergado para poder rascunhar com uma pena � luz de uma vela. Sem d�vida estava registrando o que acontecera na viagem para fechar o Portal dos Caminhos. E, se Perrin conhecia Loial, o relato do Ogier atribuiria todos os feitos a Gaul, n�o importava se era verdade ou n�o. Loial parecia acreditar que nada do que fazia era de fato corajoso ou digno de nota. Exceto por eles, o sal�o estava vazio. Ainda dava para ouvir as rabecas. Pensou reconhecer a melodia. J� n�o era uma can��o latoeira. �Meu amor � uma rosa selvagem�.</p><p>Assim que Perrin desceu o primeiro degrau, Faile ergueu os olhos e subiu graciosamente para encontr�-lo. Aram sentou-se outra vez ao ver que Perrin n�o fizera qualquer movimento em dire��o � porta.</p><p>��Sua camisa est� molhada���comentou Faile, em tom acusat�rio.���Voc� dormiu com ela, n�o foi? E de botas, n�o duvido. N�o faz nem uma hora que deixei voc� no quarto. Volte j� para cima, antes que acabe caindo no ch�o.</p><p>��Voc� viu Luc sair?���perguntou.</p><p>A mulher apertou os l�bios, mas �s vezes a �nica sa�da era ignor�-la. Quando discutiam, Faile ganhava com muito mais frequ�ncia.</p><p>��Passou correndo faz alguns minutos e saiu disparado pela cozinha���respondeu ela, por fim. As palavras foram essas, e o tom informava que o assunto �ele e a cama� ainda n�o havia terminado.</p><p>��Ele parecia� ferido?</p><p>��Parecia���respondeu ela, receosa.���Estava cambaleante, agarrando alguma coisa no peito, por baixo do casaco. Uma atadura, talvez. A Senhora Congar est� l� na cozinha, mas, pelo que eu ouvi, ele praticamente a atropelou. Como voc� sabe disso?</p><p>��Eu sonhei.���Os olhos obl�quos de Faile assumiram um brilho perigoso. Ela n�o deveria estar pensando direito. Sabia sobre o sonho de lobo. Ser� que esperava que ele explicasse bem ali, na frente de Bain e Chiad, de Aram e Loial? Bem, talvez n�o de Loial. O Ogier estava t�o absorto nas anota��es que n�o teria percebido nem se um rebanho de ovelhas irrompesse pelo sal�o.���E Gaul?</p><p>��A Senhora Congar deu alguma coisa para ele dormir, al�m de um cataplasma para a perna. Quando as Aes Sedai acordarem, amanh� de manh�, uma delas vai Cur�-lo, se considerarem s�rio a esse ponto.</p><p>��Venha se sentar, Faile. Quero que voc� fa�a uma coisa para mim.</p><p>A jovem o encarou, desconfiada, mas se deixou ser conduzida at� uma cadeira. Quando os dois se sentaram, Perrin se inclinou por cima da mesa, tentando soar s�rio, mas n�o desesperado. Nem um pouco desesperado.</p><p>��Quero que entregue uma mensagem a Caemlyn para mim. No caminho, pode dar not�cias a Colina da Vig�lia de como est�o as coisas por aqui. Na verdade, talvez seja melhor se o povo de l� cruzar o Taren at� isso tudo terminar.���Ele passou o tom de preocupa��o apropriado. Apenas um pouco mais, por conta do calor do momento.���Quero que pe�a � Rainha Morgase para enviar alguns Guardas da Rainha. Sei que estou pedindo uma coisa perigosa, mas Bain e Chiad podem levar voc� em seguran�a at� Barca do Taren, e a barca ainda est� l�.���Chiad se levantou, encarando-o com ansiedade. Por que estava assim?</p><p>��Voc� n�o vai precisar se separar dele���disse Faile para a Donzela. Depois de um instante, a Aiel assentiu e sentou-se de volta ao lado de Gaul. Chiad e Gaul? Eram inimigos de sangue. Nada estava fazendo sentido, aquela noite.���Caemlyn fica muito longe daqui���prosseguiu a jovem, baixinho. Seus olhos estavam concentrados nos dele, mas o rosto poderia ser de madeira, de t�o inexpressivo.���Levaria semanas para cavalgar at� l�, mais sabe-se l� quanto tempo at� encontrar Morgase e convenc�-la. E mais umas semanas para retornar com a Guarda da Rainha.</p><p>��A gente consegue aguentar esse tempo���respondeu Perrin. <emphasis>Que me queime por n�o conseguir mentir t�o bem quanto Mat!</emphasis>���Luc tinha raz�o. N�o pode haver mais do que mil Trollocs por a�. O <emphasis>sonho</emphasis>?���Faile assentiu. Enfim entendia.���A gente consegue aguentar por muito tempo, mas, enquanto isso, eles v�o incendiar colheitas e fazer sabe a Luz mais o qu�. Para nos livrarmos completamente deles, precisaremos da Guarda da Rainha. Voc� � a op��o mais l�gica para ir at� l�. Vai saber conversar com uma rainha, por ser prima de uma, e tudo o mais. Faile, eu sei que o que estou pedindo � perigoso����N�o tanto quanto ficar.���Mas � s� voc� chegar at� a barca e j� vai estar no caminho.</p><p>Perrin n�o ouviu Loial se aproximando at� que o Ogier deitou o caderno de notas diante de Faile.</p><p>��Eu n�o pude evitar ouvir, Faile. Se voc� for a Caemlyn, pode levar isso aqui? Para proteg�-lo at� eu conseguir buscar.���Encarando o livrinho quase com ternura, Loial acrescentou:���L� em Caemlyn fabricam livros muito bons. Me desculpe a interrup��o, Perrin.���No entanto, o Ogier tinha os olhos compridos fixos na jovem, n�o nele.���Faile combina com voc�. Voc� tem que voar livre, feito um falc�o.���Com um tapinha no ombro de Perrin, Loial murmurou, em um ressoar profundo:���Ela tem que voar livre.���Ent�o retornou ao catre e se deitou, virado para a parede.</p><p>��Ele est� muito cansado���disse Perrin, tentando fazer a frase parecer apenas um coment�rio. O Ogier idiota poderia p�r tudo a perder!���Se voc� partir hoje � noite, conseguir� chegar a Colina da Vig�lia quando o dia nascer. Tem que seguir pelo leste. L�, os Trollocs est�o em menor n�mero. Isso � muito importante para mim� Quer dizer, para Campo de Emond. Voc� vai?</p><p>Faile o encarou em sil�ncio durante tanto tempo que ele se perguntou se a namorada tinha inten��o de responder. Os olhos dela pareciam reluzir. Ent�o a jovem se levantou, sentou-se no colo dele e afagou sua barba.</p><p>��Est� precisando aparar. Eu gosto de voc� assim, mas n�o quero que chegue at� o peito.</p><p>O queixo de Perrin praticamente desabou. Ela sempre mudava de assunto, mas em geral era quando estava perdendo a discuss�o.</p><p>��Faile, por favor. Preciso que voc� leve essa mensagem at� Caemlyn.</p><p>A jovem apertou a m�o na barba dele e meneou a cabe�a, como se estivesse discutindo consigo mesma em pensamento.</p><p>��Eu vou���disse, por fim���mas vou cobrar por isso. Voc� sempre me obriga a fazer as coisas do jeito mais dif�cil. Em Saldaea, n�o seria eu a fazer o pedido. Meu pre�o � um casamento. Eu quero me casar com vocꠗ�concluiu ela, apressada.</p><p>��E eu com voc�.���Perrin sorriu.���Podemos fazer os votos de noivado diante do C�rculo das Mulheres ainda hoje � noite, mas receio que o casamento tenha que esperar um ano. Quando voc� voltar de Caemlyn�</p><p>Faile quase arrancou um punhado de barba do queixo dele.</p><p>��Voc� vai virar meu marido esta noite���declarou, em um tom baixo e firme���ou eu n�o saio daqui at� isso acontecer!</p><p>��Se houvesse como, eu faria���protestou Perrin.���Daise Congar acabaria comigo, se eu tentasse quebrar a tradi��o. Pelo amor da Luz, Faile, s� leve a mensagem. Eu me caso com voc� no primeiro dia que puder.</p><p>E se casaria. Se esse dia viesse a chegar.</p><p>De s�bito, a mulher se concentrou na barba dele, alisando-a, sem olh�-lo nos olhos. Come�ou a falar devagar, mas logo ganhou velocidade, feito um cavalo em fuga.</p><p>��Por acaso� eu mencionei� assim, por alto� s� <emphasis>mencionei</emphasis> � Senhora al�Vere o tanto de tempo que est�vamos viajando juntos. N�o sei como isso aconteceu. E a� ela disse, e a Senhora Congar concordou� Mas eu n�o falei com todo mundo, n�o! Ela disse que � prov�vel que n�s, quase com certeza, f�ssemos considerados casados de acordo com o costume de voc�s. Esse ano � s� para garantir que o casal se entenda bem, e a gente se entende, como todo mundo pode ver. Ent�o aqui estou eu, atirada como uma dessas domanesas, como uma garota tairena. E se voc� <emphasis>pensar</emphasis> em Berelain� Ah, Luz, estou falando um monte de abobrinhas, e voc� nem�</p><p>Perrin a interrompeu com um beijo intenso, como sabia muito bem fazer.</p><p>��Quer se casar comigo?���perguntou, sem f�lego, ao terminar.���Hoje � noite?</p><p>O beijo decerto fora muito melhor do que Perrin imaginava. Teve de repetir a frase seis vezes, com Faile rindo contra o pesco�o dele e exigindo que ele repetisse, antes que enfim compreendesse.</p><p>E foi assim que Perrin se viu, menos de meia hora depois, ajoelhado diante dela no sal�o, na frente de Daise Congar, Marin al�Vere, Alsbet Luhhan, Neysa Ayellin e todo o C�rculo das Mulheres. Loial se levantara para ficar ao lado dele com Aram, e Bain e Chiad ficaram ao lado de Faile. N�o havia flores para os cabelos dela nem os dele, mas Bain, a mando de Marin, passou uma longa faixa nupcial vermelha por seu pesco�o. E Loial tran�ou outra nos cabelos escuros de Faile, com os dedos grossos surpreendentemente h�beis e delicados. As m�os de Perrin tremiam quando ele segurou as dela.</p><p>��Eu, Perrin Aybara, prometo meu amor a voc�, Faile Bashere, enquanto eu viver.���<emphasis>Enquanto eu viver, e mais.</emphasis>���Tudo o que possuo neste mundo, dou a voc�.���<emphasis>Um cavalo, um machado, um arco. Um martelo. N�o � muito para uma noiva. Eu lhe dou a minha vida, o meu amor. � tudo o que tenho.</emphasis>���Eu a segurarei em meus bra�os e cuidarei de voc�, socorrerei e zelarei por voc�, eu a protegerei e abrigarei por todos os dias de minha vida.���<emphasis>N�o posso segur�-la em meus bra�os. A �nica forma de proteger voc� � mand�-la embora.</emphasis>���Eu sou seu, para sempre e eternamente.</p><p>Quando terminou, suas m�os estavam visivelmente tr�mulas.</p><p>Faile moveu as m�os para cobrir as dele.</p><p>��Eu, Zarine Bashere���foi uma surpresa, Faile odiava esse nome���prometo meu amor a voc�, Perrin Aybara����As m�os dela n�o tremiam nem um pouco.</p></section><section><title><p>54</p><p><image l:href="#5"/></p><p>No Pal�cio</p></title><p>Sentada na traseira da carro�a de rodas altas que seguia lentamente por uma rua sinuosa de Tanchico, atr�s de quatro homens suados, Elayne tinha a express�o emburrada por detr�s do v�u sombrio que cobria seu rosto inteiro; ela batia os p�s, irritada. A cada guinada nas pedras do pavimento seu corpo inteiro balan�ava; quanto mais se agarrava �s t�buas de madeira do estrado da carro�a, pior ficava. Nynaeve n�o parecia muito incomodada; sacolejava feito Elayne, mas mal parecia notar, o rosto levemente franzido e o olhar introspectivo. E Egeanin, espremida do outro lado de Nynaeve, com o rosto velado e os cabelos escuros em tran�as compridas at� os ombros, aguentava com facilidade cada solavanco, mantendo os bra�os cruzados. Por fim, Elayne conseguiu imitar a Seanchan; inevitavelmente balan�ava-se para cima de Nynaeve, mas a viagem j� n�o trazia a sensa��o de que acabaria quebrando os dentes.</p><p>Ela teria ficado feliz em caminhar, at� mesmo descal�a, mas Bayle Domon dissera que n�o seria apropriado; o povo se perguntaria por que as mulheres n�o estavam sendo carregadas, se havia tanto espa�o, e a �ltima coisa de que precisavam era chamar muita aten��o. Decerto que o homem n�o estava sacolejando feito um saco de nabos; seguia caminhando adiante da carro�a, com dez dos vinte marujos que trouxera para escolt�-lo. Mais do que isso pareceria suspeito, ele alegara. Ela suspeitou que ele n�o teria trazido tantos, n�o fosse por ela e as outras duas mulheres.</p><p>O c�u sem nuvens ainda estava cinzento, embora a primeira luz j� tivesse surgido antes de eles partirem; as ruas ainda estavam bastante vazias e silenciosas, exceto pelo ribombo da carro�a e o rangido do eixo. Quando o sol despontasse no horizonte, as pessoas come�ariam a sair, mas agora as poucas que ela via eram bandos de homens vestidos em cal�as largas e quepes escuros cil�ndricos, caminhando depressa, com o ar furtivo de quem andara fazendo poucas e boas durante a madrugada. A lona velha que cobria a carga da carro�a fora posicionada com esmero, de modo que qualquer um podia ver que ali havia apenas tr�s cestas grandes, mas mesmo assim um ou outro desses grupinhos parava, feito um bando de cachorros, aproximando os rostos velados, os olhos acompanhando a carro�a. Aparentemente, enfrentar vinte homens com espadas de madeira e porretes era demais, pois todos acabavam se afastando depressa.</p><p>As rodas passaram por um enorme buraco onde as pedras do pavimento haviam sido arrancadas em um dos motins; debaixo de Elayne, a carro�a afundou. Ela quase mordeu a l�ngua com a forte pancada no estrado. E Egeanin toda tranquila com aqueles bra�os cruzados! Agarrada � borda do estrado, Elayne franziu o cenho para a Seanchan. E se deparou com a mulher de l�bios apertados, tamb�m se segurando com ambas as m�os.</p><p>��N�o � nada comparado a ficar parada no conv�s���comentou Egeanin, dando de ombros.</p><p>Nynaeve fez uma leve careta e tentou se afastar da mulher, embora n�o soubesse como fazer isso sem subir no colo de Elayne.</p><p>��Vou falar com Mestre Domon���murmurou, como se a carro�a n�o tivesse sido sugest�o dela, para come�o de conversa. Uma nova guinada a fez cerrar os dentes.</p><p>As tr�s vestiam l� grossa marrom, de trama fina, por�m meio �spera e n�o muito limpa, vestidos de fazendeiras pobres, que mais pareciam sacos disformes se comparados �s sedas justas ao gosto de Rendra. Refugiadas do interior que comiam o que fosse poss�vel; era essa a imagem que precisavam passar. O al�vio de Egeanin ao ver os vestidos pela primeira vez fora bastante evidente, al�m de quase t�o estranho quanto sua presen�a na carro�a. Elayne jamais imaginara que aquilo fosse acontecer.</p><p>Houvera um grande debate���como os homens chamaram���na C�mara das Flores Ca�das, por�m ela e Nynaeve rebateram a maioria das obje��es idiotas que eles apresentaram e ignoraram o resto. Elas duas tinham de adentrar o Pal�cio da Panarca, e o mais depressa poss�vel. Foi quando Domon apresentou outra obje��o, n�o t�o idiota quanto as outras.</p><p>��Como � que voc�s v�o entrar no pal�cio sozinhas?���resmungou o contrabandista barbudo, encarando os pr�prios punhos sobre a mesa.���Voc�s dizem que de jeito nenhum v�o canalizar, a menos que seja preciso, para evitar chamar a aten��o dessas Aes Sedai Negras.���Nenhuma delas tinha visto qualquer necessidade de mencionar os Abandonados.���Ent�o v�o precisar de m�sculos para girar um bast�o, se a necessidade, no caso, se apresentar, e olhos para vigiar o entorno tamb�m seriam uma boa ideia. Eu sou conhecido por l�, entre os servi�ais. E tamb�m levei presentes para a antiga Panarca. Vou com voc�s.���Sacudindo a cabe�a, ele reclamou:���Voc�s realmente me fazem colocar o pesco�o no cadafalso do carrasco porque larguei voc�s em Falme. Que a Sorte me espicace se estiver mentindo! Bem, agora est� decidido, nem pensem em discutir! Vou entrar com voc�s.</p><p>��Voc� � um imbecil, illianense���disse Juilin com desprezo antes que ela ou Nynaeve pudesse abrir a boca.���Acha que os tarabonianos v�o permitir que voc� fique zanzando pelo pal�cio como bem entender? Um contrabandista imundo de Illian? Eu conhe�o os h�bitos dos servi�ais, sei baixar a cabe�a e fazer os nobres ignorantes pensarem����Ele pigarreou afobado e prosseguiu, sem olhar para Nynaeve, nem para Elayne!���Sou eu quem deve ir com elas.</p><p>Thom riu dos outros dois homens.</p><p>��Voc�s acham que <emphasis>algum</emphasis> dos dois poderia se passar por taraboniano? Eu posso; isso aqui funciona bem.���Ele cutucou o longo bigode.���Al�m do mais, voc�s n�o podem andar pelo Pal�cio da Panarca carregando porretes ou bast�es. � necess�rio um� m�todo� mais sutil de prote��o.���Ele fez um floreio com a m�o, e uma faca de repente surgiu, girando e desaparecendo com a mesma rapidez; de volta pela manga, Elayne imaginou.</p><p>��Voc�s todos sabem o que devem fazer���disse Nynaeve, r�spida���e n�o d� para fazer tentando nos vigiar feito um par de gansos � venda!���Ela respirou fundo e prosseguiu, em um tom mais amistoso.���Se houvesse meio de um de voc�s vir com a gente, eu apreciaria os olhos extras, no m�nimo, mas n�o tem como. Temos que ir sozinhas, ao que parece, e ponto final.</p><p>��Eu posso acompanhar voc�s���anunciou Egeanin de repente, do canto do quarto, onde Nynaeve a for�ara a ficar. Todos se viraram para encar�-la; a mulher retribuiu o olhar com a express�o fechada, como se ela pr�pria n�o estivesse muito segura.���Essas mulheres s�o Amigas das Trevas. Precisam ser punidas.</p><p>Elayne ficou apenas surpresa com a oferta, mas Nynaeve, com os cantos da boca j� p�lidos, parecia prestes a dar uma surra na mulher por conta daquilo.</p><p>��Voc� acha que confiar�amos em voc�, Seanchan?���perguntou com frieza.���Antes de irmos embora, voc� vai ficar bem trancadinha em um dep�sito, por mais falat�rio que isso�</p><p>��Eu juro pela minha confian�a em um nome maior���interrompeu Egeanin, levando as m�os ao cora��o, uma sobre a outra���que n�o vou trair voc�s de maneira alguma, que vou obedecer e proteger voc�s at� sa�rem em seguran�a do Pal�cio da Panarca.���Ent�o ela fez tr�s mesuras, profundas e formais. Elayne n�o fazia ideia do que significava �confian�a em um nome maior�, mas a Seanchan sem d�vida parecia muito comprometida.</p><p>��Ela � capaz���disse Domon, devagar e relutantemente. Encarou Egeanin e balan�ou a cabe�a.���Que a Sorte me espicace se existir, no caso, mais de dois ou tr�s homens em quem eu arrisque apostar contra ela.���Nynaeve franziu o cenho para a pr�pria m�o, que agarrava uma d�zia das longas trancinhas, depois deu-lhes um pux�o, bastante deliberadamente.</p><p>��Nynaeve���disse Elayne, com firmeza���voc� mesma disse que gostaria de ter mais um par de olhos, e eu sem d�vida gostaria. Al�m do mais, se formos fazer tudo isso sem canalizar, eu n�o vou me incomodar de ter algu�m capaz de lidar com algum guarda bisbilhoteiro, se for preciso. Eu n�o tenho condi��es de socar um homem com meus pr�prios punhos, e nem voc�. Voc� lembra como ela sabe lutar.</p><p>Nynaeve cravou os olhos em Egeanin, franziu o cenho para Elayne, depois encarou os homens como se eles tivessem tramado aquilo pelas costas dela. Por fim, no entanto, assentiu.</p><p>��Bom���disse Elayne.���Mestre Domon, isso implica em tr�s vestidos, n�o dois. Agora, � melhor voc�s tr�s irem embora. Pretendemos estar a caminho quando o dia nascer.</p><p>A carro�a parou com um solavanco que despertou Elayne de suas lembran�as.</p><p>Havia Mantos-brancos desmontados dos cavalos, interrogando Domon. Naquele trecho, a rua corria para o interior de uma pra�a atr�s do Pal�cio da Panarca, uma pra�a muito menor do que a que havia na frente. Mais adiante se erguia o pal�cio, em pilhas de m�rmore branco, torres delgadas envoltas em trabalhos de cantaria rendada, domos revestidos de neve, rematados de ouro e encimados por pin�culos dourados ou cata-ventos. As ruas de cada um dos lados eram muito mais largas do que a maioria em Tanchico, e tamb�m mais retas.</p><p>O lento <emphasis>clop-clop</emphasis> dos cascos de um cavalo nas amplas pedras do pavimento da pra�a anunciou outro cavaleiro, um homem alto, de capacete reluzente, armadura cintilando por sob o manto branco com o raio de sol dourado e um cajado carmesim de pastor. Elayne baixou a cabe�a; os tr�s n�s de patente debaixo do sol flamejante informaram que se tratava de Jaichim Carridin. O homem jamais a vira, mas, se pensasse que ela estava encarando, poderia se perguntar o motivo. Os cascos percorreram a pra�a sem parar.</p><p>Egeanin tamb�m baixou o rosto, mas Nynaeve franziu o cenho abertamente para o Inquisidor.</p><p>��Aquele homem est� muito preocupado com alguma coisa���murmurou ela.���Espero que ele n�o tenha ouvido�</p><p>��A Panarca est� morta!���gritou um homem de algum ponto da pra�a.���Mataram a Panarca!</p><p>N�o havia como dizer de quem, nem de onde vinha o grito. As ruas que Elayne conseguia ver estavam bloqueadas por Mantos-brancos a cavalo.</p><p>Ela olhou para tr�s, para a rua que a carro�a acabara de subir, e desejou que os guardas interrogassem Domon mais depressa. Na primeira curva, come�ava a se formar um aglomerado de pessoas que espiavam a pra�a. Thom e Juilin deviam ter feito um bom trabalho espalhando os boatos durante a noite. Com sorte, as coisas n�o explodiriam enquanto elas estivessem sentadas ali, no meio do burburinho. Se uma rebeli�o come�asse naquele momento� suas m�os s� n�o tremiam porque estavam agarradas com for�a ao estrado da carro�a. <emphasis>Luz, um tumulto aqui fora e a Ajah Negra dentro, talvez Moghedien� estou com tanto medo que a minha boca est� seca.</emphasis> Nynaeve e Egeanin tamb�m observavam a multid�o se avolumar no meio da rua, sem nem piscar, muito menos tremer. <emphasis>Eu n�o vou me acovardar. N�o vou!</emphasis></p><p>A carro�a seguiu adiante, barulhenta, e ela soltou um suspiro aliviado. Levou um instante para perceber que tamb�m ouvira as outras duas suspirarem.</p><p>Diante de port�es n�o muito mais largos do que a carro�a, Domon foi interrogado outra vez, por homens com capacetes pontudos e placas peitorais ornadas com uma �rvore pintada de dourado. Soldados da Legi�o da Panarca. As perguntas dessa vez foram mais breves; Elayne pensou ter visto uma bolsinha trocar de m�os, e logo eles estavam todos l� dentro, avan�ando, barulhentos, pelo p�tio de pavimento tosco, do lado de fora das cozinhas. Exceto por Domon, os marujos permaneceram do lado de fora, com os soldados.</p><p>Elayne deu um salto assim que a carro�a parou, e pisou o ch�o descal�a; as pedras irregulares eram <emphasis>duras</emphasis>. Era dif�cil acreditar que a sola fina de uma sand�lia fizesse tanta diferen�a. Egeanin escalou a carro�a com dificuldade para passar as cestas para fora, e Nynaeve pegou a primeira e p�s nas costas, com uma das m�os contorcida por debaixo e a outra por cima do ombro, agarrada ao aro. Compridas pimentas brancas, um pouco mirradas por conta da longa viagem desde Saldaea, preenchiam as cestas quase at� a boca.</p><p>Enquanto Elayne pegava a dela, Domon veio at� o canto da carro�a e fingiu estar inspecionando as pimentas-de-gelo.</p><p>��Os Mantos-brancos e a Legi�o da Panarca, no caso, est�o quase chegando �s vias de fato, ao que parece���murmurou, dedilhando as pimentas.���Aquele tenente disse que a Legi�o poderia proteger a Panarca sozinha, se a maior parte da Legi�o nem tivesse sido mandada para as fortalezas circulares. Jaichim Carridin, no caso, tem acesso � Panarca, ao contr�rio do Senhor Capit�o da Legi�o. E eles nem est�o contentes porque todos os guardas l� dentro s�o da Guarda Civil. Algu�m desconfiado poderia dizer que est�o querendo que os guardas da Panarca vigiem uns aos outros, mais do que qualquer outra coisa.</p><p>��Bom saber disso���respondeu Nynaeve, sem olhar para ele.���Eu sempre disse que d� para descobrir muita coisa ouvindo as fofocas dos homens.</p><p>Domon grunhiu, azedo.</p><p>��Vou levar voc�s para dentro, depois tenho que retornar aos meus homens antes que eles se metam no meio da multid�o.</p><p>Cada marinheiro de cada navio que pertencia a Domon estava misturado � multid�o em volta do pal�cio.</p><p>Elayne suspendeu a pr�pria cesta nas costas e acompanhou as outras duas mulheres atr�s dele, mantendo a cabe�a baixa e se encolhendo a cada passo, at� chegar nos azulejos marrom-avermelhados da cozinha. Os aromas de especiarias, molhos e cozido de carne dominavam o ambiente.</p><p>��Pimentas-de-gelo para a Panarca���anunciou Domon.���Presente de Bayle Domon, um bom dono de navios dessa cidade.</p><p>��Mais pimenta-de-gelo?���perguntou uma mulher corpulenta, de tran�as escuras, avental branco e o sempre presente v�u, mal tirando os olhos de uma bandeja de prata onde arrumava um guardanapo branco dobrado, todo ornamentado, entre travessas de porcelana fina e dourada do Povo do Mar. Havia na cozinha uma dezena ou mais de outras mulheres de avental, bem como um par de rapazes virando assados suculentos em espetos diante de duas das seis lareiras, mas aquela era claramente a cozinheira-chefe.���Bem, ela parece ter gostado das �ltimas, a Panarca. Guardem no dep�sito ali.���Ela fez um gesto vago para uma das portas do lado oposto do recinto.���N�o tenho tempo de me amofinar com voc�s agora.</p><p>Elayne olhava para baixo enquanto caminhava atr�s de Nynaeve e Egeanin, suando, e n�o por conta do calor dos fornos e lareiras de ferro. Uma mulher muito magra, vestida em seda cortada � moda diferente de Tarabon, se encontrava parada ao lado de uma das grandes mesas, co�ando as orelhas de um gato cinza magrelo que lambia creme de uma tigela de porcelana. O gato a denunciava, bem como seu rosto estreito e nariz largo. Marillin Gemalphin, antes da Ajah Marrom, agora da Negra. Se a mulher tirasse os olhos do animal, se olhasse para cima e de fato as percebesse ali, saberia que as duas eram capazes de canalizar sem que elas precisassem faz�-lo; com essa proximidade, sem d�vida poderia sentir a habilidade em si.</p><p>Suor pingava da ponta do nariz de Elayne no momento em que ela empurrou com o quadril a porta da despensa para fech�-la.</p><p>��Voc�s viram a mulher?���perguntou, baixinho, quase deixando a cesta cair no ch�o. Ornatos em gregas entalhados na parede caiada logo abaixo do teto permitiam a entrada de uma luz fraca vinda da cozinha. Fileiras de prateleiras altas preenchiam o amplo sal�o, abarrotadas de sacas, redes com vegetais e grandes jarros de especiarias. Barris e ton�is se espalhavam por todo lado, e uma d�zia de cordeiros e o dobro de gansos temperados jaziam pendurados em ganchos. Segundo o rascunho da planta que Domon e Thom haviam desenhado, aquela era a menor despensa de comida do pal�cio.���Que nojento���disse.���Sei que Rendra mant�m a cozinha cheia, mas pelo menos compra s� o que precisa. Essa gente est� se refestelando enquanto�</p><p>��Contenha a sua afli��o at� poder fazer alguma coisa a respeito���retrucou Nynaeve, em um sussurro veemente. Ela havia apoiado a cesta no ch�o e estava tirando o vestido tosco de camponesa. Egeanin j� estava de roupas de baixo.���Eu vi a mulher. Se voc� estiver querendo que ela venha at� aqui para ver que barulheira � essa, continue falando.</p><p>Elayne deu uma fungada de desd�m, mas n�o respondeu. N�o estivera fazendo tanto barulho assim. Tirou o pr�prio vestido e derramar no ch�o as pimentas e o que mais estava escondido debaixo delas. Entre outras coisas, um vestido branco com cinto verde, de trama fina de l�, com uma �rvore verde de galhos frondosos sobre o contorno de uma folha de tr�s pontas bordada acima do seio esquerdo. O v�u encardido foi substitu�do por um limpo, de linho, quase t�o transparente quanto seda. Sand�lias brancas de sola acolchoada foram bem-vindas nos p�s feridos pela caminhada da carro�a � cozinha.</p><p>A Seanchan fora a primeira a tirar as roupas velhas, mas a �ltima a vestir a indument�ria branca, resmungando o tempo o todo coisas como �indecente� e �servi�al�, o que n�o fazia sentido algum. Os vestidos <emphasis>eram</emphasis> de servi�ais; a quest�o era que as serventes podiam circular por todos os cantos, e como o pal�cio tinha muitas, dificilmente as tr�s chamariam aten��o. E, quanto a indec�ncia� Elayne se lembrava de ter hesitado um pouco em usar a moda taraboniana em p�blico, mas logo acostumara-se, mesmo que a l� fina n�o grudasse ao corpo feito a seda. Egeanin parecia ter umas ideias bastante estritas a respeito do que era mod�stia.</p><p>Por fim, no entanto, a mulher desfez o �ltimo la�o, e as roupas de camponesa foram enfiadas nas cestas e cobertas com pimentas-de-gelo.</p><p>Marillin Gemalphin havia sa�do da cozinha, mas o gato cinza de orelhas rasgadas ainda lambia creme em cima da mesa. Elayne e as outras duas rumaram para a porta que levava aos interiores do pal�cio.</p><p>Uma das ajudantes de cozinha olhava de cara feia para o gato, as m�os na larga cintura.</p><p>��Queria estrangular esse gato���resmungou a mulher, as tran�as marrom-claras balan�ando enquanto ela sacudia a cabe�a, irritada.���Ele come o creme, e como coloquei um tantinho de creme nas frutinhas para o caf� da manh�, agora vou passar a p�o e �gua!</p><p>��D�-se por satisfeita em n�o estar por a� na rua ou pendurada numa forca.���O tom da cozinheira-chefe n�o era solid�rio.���Se uma lady diz que voc� roubou, ent�o voc� roubou, mesmo que seja o creme do gato dela, sim? Ei, voc�s a�!</p><p>Elayne e as duas companheiras congelaram com o berro.</p><p>A mulher de tran�as escuras balan�ou uma colher de pau comprida na dire��o delas.</p><p>��Voc�s entram na minha cozinha e ficam andando como se estivessem dando um passeio no jardim, suas porcas pregui�osas? Vieram para o caf� da manh� de Lady Ispan, sim? Se n�o estiver pronto quando ela acordar, voc�s v�o aprender a saltar alto. Sim?���A mulher fez um gesto para a bandeja de prata sobre a qual estivera trabalhando antes, agora coberta com um peda�o de linho branco como a neve.</p><p>Elas n�o podiam falar; se alguma abrisse a boca, as primeiras palavras denunciariam que elas n�o eram tarabonianas. Elayne pensou depressa, fez uma mesura como se fosse uma servi�al e pegou a bandeja; uma servi�al carregando qualquer coisa estava cuidando de seu trabalho, portanto n�o poderia ser interrompida ou receber outras ordens. Lady Ispan? N�o era um nome incomum em Tarabon, mas havia uma Ispan na lista das irm�s Negras.</p><p>��Quer dizer que est� debochando de mim, sua inconveniente?���vociferou a grandalhona, partindo para contornar a mesa com a pesada e amea�adora colher de pau.</p><p>N�o havia nada a fazer sem que ela se denunciasse; nada, a n�o ser ficar e ser a�oitada, ou correr. Elayne saiu em disparada da cozinha segurando a bandeja, com Nynaeve e Egeanin atr�s. Os gritos da cozinheira acompanharam as tr�s, por�m a mulher, n�o, por uma gra�a. A imagem das tr�s correndo pelo pal�cio, fugindo da persegui��o da grandalhona, fez Elayne sentir vontade de soltar uma gargalhada hist�rica. <emphasis>Debochando?</emphasis> Ela tinha certeza de que fora a mesma mesura que as servi�ais haviam lhe dispensado milhares de vezes.</p><p>Havia outros dep�sitos enfileirados no estreito corredor da cozinha, al�m de arm�rios compridos com espadas e esfreg�es, baldes e sab�es, toalhas de mesa de linho e todo tipo de coisa. Nynaeve encontrou em um dos arm�rios um espanador de penas. Egeanin pegou de outro um punhado de toalhas dobradas, e de um terceiro saiu um pil�o de pedra pesado que estava dentro de um almofariz. Egeanin escondeu o pil�o debaixo das toalhas.</p><p>���s vezes um porrete vem a calhar���disse ela, quando Elayne ergueu a sobrancelha.���Ainda mais quando inesperado.</p><p>Nynaeve deu uma fungada, mas n�o disse nada. Praticamente fingia que Egeanin n�o existia desde que concordara em traz�-la com elas.</p><p>Nos rec�nditos do pal�cio, os corredores eram mais largos e mais altos, as paredes, brancas e entalhadas com frisos, e os tetos, ornados em reluzentes arabescos em ouro. Carpetes compridos e esplendorosos cobriam os pisos de azulejos brancos. Lampi�es douradas com ornamentos pendiam de suportes, tamb�m dourados, provendo luz e o aroma de �leo perfumado. �s vezes o corredor se abria em p�tios circundados por caminhos com colunas delgadas cheias de caneluras, sob varandas gradeadas por trabalhos de cantaria filigranados. Imensas fontes jorravam �gua; peixes vermelhos, brancos e dourados nadavam por sob os nen�fares com enormes flores brancas. Completamente diferente do lado de fora da cidade.</p><p>De vez em quando, elas viam outros servi�ais, homens e mulheres de branco com a �rvore e a folha bordadas em um dos ombros, apressados em suas tarefas, ou homens com os casacos cinza e os quepes de a�o da Guarda Civil portando bast�es e porretes. Ningu�m lhes dirigia a palavra, nem sequer reparava nelas, tr�s servi�ais claramente trabalhando.</p><p>Enfim chegaram � estreita escadaria dos servi�ais assinalada no mapa rascunhado.</p><p>��N�o esque�a���disse Nynaeve, baixinho���se houver guardas na porta dela, v� embora. Se ela n�o estiver sozinha, v� embora. Ela est� longe de ser nossa prioridade aqui.���Respirou fundo, for�ando-se a olhar para Egeanin.���Se voc� deixar qualquer coisa acontecer com ela�</p><p>Ouviu-se o som fraco de uma corneta do lado de fora. Um instante depois um gongo soou l� dentro, e gritos de ordem ecoaram pelo corredor. Homens em quepes de a�o passaram correndo.</p><p>��Talvez a gente n�o tenha que se preocupar com os guardas na porta���comentou Elayne. O motim havia come�ado nas ruas. Os boatos espalhados por Thom e Juilin para reunir a multid�o. Os marujos de Domon a encoraj�-los. Ela lamentava que fosse necess�rio, mas a desordem afastaria a maioria dos guardas do pal�cio, com sorte todos. Sem desconfiar, aquela gente estava lutando em uma batalha para salvar sua cidade da Ajah Negra e do mundo da Sombra.���Egeanin devia ir com voc�, Nynaeve. O seu papel <emphasis>�</emphasis> o mais importante. Se alguma de n�s duas precisa de algu�m para servir de respaldo, � voc�.</p><p>��N�o preciso de nenhuma Seanchan!���Nynaeve ergueu o espanador por cima do ombro, feito um pique, e saiu pisando firme pelo corredor. N�o tinha nem de longe a postura de uma servi�al; n�o andando naquela marcha combativa.</p><p>��N�o � melhor a gente seguir com a nossa tarefa?���perguntou Egeanin.���O motim n�o vai desviar a aten��o por muito tempo.</p><p>Elayne assentiu. Nynaeve havia feito uma curva, desaparecendo de vista.</p><p>As escadas eram estreitas e escondidas na parede, para manter os servi�ais t�o invis�veis quanto fosse poss�vel. Os corredores do segundo andar eram muito parecidos com os do primeiro, exceto pelo fato de que os arcos de pontas duplas levavam tanto a varandas com treli�as de pedra quanto a quartos. O n�mero de servi�ais parecia diminuir � medida que elas seguiam para o lado oeste do pal�cio, e nenhum lhes dispensava mais do que uma olhadela. Surpreendentemente, o corredor do lado de fora dos aposentos da Panarca estava vazio. N�o havia guardas diante das amplas portas com entalhes de �rvores, emolduradas por um batente duplo. N�o que ela pretendesse recuar caso houvesse, a despeito do que dissera a Nynaeve, mas isso simplificava as coisas.</p><p>Um instante depois, ela j� n�o tinha tanta certeza. Conseguia sentir algu�m canalizando naqueles aposentos. N�o eram fluxos fortes, mas sem d�vida algu�m estava urdindo o Poder ou talvez sustentando uma trama. Poucas mulheres conheciam o truque de reter uma trama.</p><p>��Qual � o problema?���perguntou Egeanin.</p><p>Elayne se deu conta de que havia parado.</p><p>��Tem uma irm� Negra a� dentro.���Uma ou mais? Somente uma canalizando, sem d�vida. Ela se espremeu contra as portas. Havia uma mulher <emphasis>cantando</emphasis> l� dentro. Grudou a orelha na madeira entalhada e ouviu palavras roucas, abafadas, por�m claramente intelig�veis. �</p><poem><stanza><v>Meus seios s�o redondos, minha cintura tamb�m.</v><v>A taifa de um navio inteiro domino como ningu�m.</v></stanza></poem><p>Ela deu um pulo para tr�s, espantada, fazendo as travessas de porcelana sambarem na bandeja, sob o tecido. Teria ela ido para o quarto errado? N�o, ela havia memorizado o desenho. Al�m do mais, as �nicas portas com entalhes de �rvores no pal�cio eram as que davam para os aposentos da Panarca.</p><p>��Ent�o temos que ir embora���disse Egeanin.���N�o d� para fazer nada sem que as outras percebam sua presen�a.</p><p>��Talvez eu consiga. Se elas me sentirem canalizando, v�o achar que � a pessoa que est� l� dentro.���Ela franziu o cenho e mordeu o l�bio inferior. Quantas mulheres havia ali? Ela conseguia fazer umas tr�s ou quatro coisas de uma vez com o Poder, marco que somente Egwene e Nynaeve eram capazes de alcan�ar. Ela pensou em uma lista de rainhas de Andor que haviam demonstrado coragem diante de grandes perigos, at� que percebeu que eram todas as rainhas de Andor. <emphasis>Serei rainha um dia; sou t�o corajosa quanto elas.</emphasis> Ela se preparou e disse:���Abra as portas, Egeanin, e depois se abaixe para que eu possa ver tudo.���A Seanchan hesitou.���Abra a porta.���Elayne foi surpreendida pela pr�pria voz. N�o tentara <emphasis>fazer</emphasis> nada, mas soou quieta, calma, imperiosa. Egeanin assentiu, quase com uma mesura, e mais que depressa escancarou as duas portas.</p><poem><stanza><v>��Meus quadris s�o fortes, fortes feito uma �ncora.</v><v>Meu beijo � explosivo�</v></stanza></poem><p>A cantora de tran�as escuras, envolta em fluxos de Ar at� o pesco�o e usando um vestido taraboniano de seda vermelha, manchado e amassado, foi interrompida pelas portas que se fecharam com um estrondo. Uma mulher de apar�ncia fr�gil, em um vestido azul-claro de gola alta e corte cairhieno, estirada em um banco comprido com almofadas, parou de balan�ar a cabe�a ao som da m�sica e p�s-se de p� em um salto, o grande sorriso em seu rosto dando lugar a uma express�o de afronta.</p><p>O brilho de <emphasis>saidar</emphasis> j� rodeava Temaile, mas ela n�o teve chance. Horrorizada com o que viu, Elayne abra�ou a Fonte Verdadeira e disparou fortes fluxos de Ar, envolvendo a mulher dos ombros aos tornozelos, depois urdiu um escudo de Esp�rito e empurrou-o entre a mulher e a Fonte. O brilho t�nue que envolvia Temaile esvaneceu, e ela saiu voando pelo banco como se tivesse acabado de ser golpeada por um cavalo a galope, revirando os olhos, e aterrissou de costas no ch�o, a tr�s passos de dist�ncia, inconsciente, no carpete verde e dourado. A mulher de tran�as escuras levou um susto quando os fluxos em torno dela tremeluziram e desapareceram. Espantada e incr�dula, ela olhava para Temaile, Elayne e Egeanin.</p><p>Afrouxando a trama que envolvia Temaile, Elayne correu para o quarto, os olhos � procura de outras da Ajah Negra. Atr�s dela, Egeanin fechou as portas. N�o parecia haver mais ningu�m.</p><p>��Ela estava sozinha?���inquiriu � mulher de vermelho. Era a Panarca, pela descri��o de Nynaeve, que <emphasis>tinha</emphasis> mencionado <emphasis>algo</emphasis> a respeito de uma can��o.</p><p>��Voc�s n�o est�o� com elas?���perguntou Amathera, hesitante, os olhos escuros reparando nos vestidos das mulheres.���Voc�s tamb�m s�o Aes Sedai?���Ela parecia disposta a duvidar, apesar da evid�ncia de Temaile.���Mas n�o est�o com elas?</p><p>��Ela estava sozinha?���perguntou Elayne, bruscamente, e Amathera deu um pulinho.</p><p>��Sim. Sozinha. Sim, ela����A Panarca fez uma careta.���As outras me obrigaram a sentar no trono e proferir as palavras que colocavam na minha boca. Elas se divertiam em me fazer, algumas vezes, ser justa e, em outras, enunciar injusti�as terr�veis, decis�es que v�o causar conflitos durante gera��es, se eu n�o consert�-las. Mas ela!���Aquela boca pequena e carnuda se abriu em um rosnado.���Ela, as outras puseram para me vigiar. Ela me machuca com o �nico objetivo de me fazer chorar. Me fez comer uma bandeja inteira de pimentas-de-gelo e n�o me deixou beber nem um gole d��gua at� eu implorar de joelhos, enquanto ela ria! Eu sonho que ela me leva para o topo da Torre da Manh� pelos tornozelos e me joga l� de cima. � um sonho, mas parece real, e a cada vez ela me solta, gritando, um pouco mais perto do ch�o. E gargalha! Me obriga a aprender dan�as lascivas, can��es imundas, e ri quando diz que antes de irem embora ela vai me fazer cantar e dan�ar para entreter os����Ganindo feito um gato arisco, ela subiu no banco e partiu para cima da mulher amarrada, enchendo-a de tapas e murros.</p><p>Egeanin, de bra�os cruzados diante das portas, parecia disposta a deixar aquilo seguir em frente, mas Elayne urdiu fluxos de Ar em torno da cintura de Amathera. Para a pr�pria surpresa, conseguiu afast�-la da outra, j� inconsciente, e a colocou de p�. Talvez aprender a manejar tramas pesadas com Jorin tivesse aumentado a for�a dela.</p><p>Amathera seguiu chutando na dire��o de Temaile, cravando o olhar em Elayne e Egeanin quando os p�s cal�ados j� n�o a acertavam.</p><p>��Eu sou a Panarca de Tarabon e pretendo dispensar justi�a a essa mulher!���A boca de bot�o de rosa tinha um aspecto emburrado. A mulher teria se esquecido de quem era, de sua posi��o? Ela era equivalente a um rei, um governante!</p><p>��E eu sou a Aes Sedai que veio resgatar vocꠗ�respondeu Elayne, com frieza. Ao perceber que ainda segurava a bandeja, colocou-a no ch�o mais que depressa. A mulher j� parecia ter dificuldade suficiente para enxergar al�m dos vestidos brancos de servi�al. O rosto de Temaile estava bastante vermelho; ela acordaria com hematomas. Sem d�vida menos do que merecia. Elayne desejou uma forma de levar Temaile com elas. Uma forma de levar pelo menos uma � Torre, por justi�a.���N�s viemos tirar voc� daqui. E nos arriscamos bastante! Depois pode ir procurar o Senhor Capit�o da Legi�o da Panarca, e Andric e o ex�rcito dele, e pode ir atr�s dessas mulheres. Talvez tenhamos a sorte de conseguir levar algumas delas a julgamento. Mas primeiro precisamos tirar voc� daqui.</p><p>��Eu n�o preciso de Andric���resmungou Amathera. Elayne poderia jurar que a mulher quase dissera �agora�.���A minha Legi�o tem soldados rodeando o pal�cio. Eu sei disso. N�o me permitiram falar com nenhum deles, mas quando me virem e ouvirem a minha voz v�o fazer o que tem de ser feito, sim? Voc�s, Aes Sedai, n�o podem usar o Poder �nico para fazer mal����A voz dela foi morrendo, e ela fez uma cara emburrada de desprezo para Temaile.���Pelo menos voc�s n�o podem usar o Poder como arma, sim? Eu sei disso.</p><p>Elayne surpreendeu a si mesma urdindo min�sculos fluxos de Ar, um para cada tran�a de Amathera. As tran�as flutuaram, e a bei�udinha besta n�o teve escolha a n�o ser acompanh�-las nas pontas dos p�s. Elayne a fez caminhar daquele jeito at� a mulher parar diante dela, com os olhos escuros arregalados e indignados.</p><p>��Escute bem, Panarca Amathera de Tarabon���disse ela, em um tom g�lido.���Se tentar ir at� os soldados, as comparsas de Temaile podem muito bem embrulhar voc� em uma trouxa e mand�-la de volta para ela. E pior, elas v�o saber que eu e minhas amigas estamos aqui, e isso eu n�o vou permitir. Vamos sair daqui <emphasis>de fininho</emphasis>, e se voc� n�o concordar com isso, vou amarr�-la e amorda��-la aqui, do lado de Temaile, para que as amigas dela encontrem.���<emphasis>Tinha</emphasis> de haver alguma forma de levar Temaile tamb�m.���Est� me entendendo?</p><p>Amathera assentiu sutilmente, ainda emburrada. Egeanin emitiu um sonzinho de aprova��o.</p><p>Elayne soltou os fluxos; os calcanhares da mulher tocaram o ch�o.</p><p>��Agora vamos ver se encontramos alguma coisa para voc� usar que seja adequada � fuga.���Amathera assentiu outra vez, mas com um bico ainda maior. Elayne desejou que Nynaeve estivesse passando momentos mais tranquilos.</p><empty-line/><p>Nynaeve adentrou o grande sal�o de exibi��o com sua infinidade de colunas delgadas, j� abanando o espanador de penas. A cole��o decerto sempre precisava ser espanada, e sem d�vida uma mulher fazendo seu trabalho n�o despertaria a aten��o de ningu�m. Ela espiou ao redor, os olhos atra�dos para uns ossos presos por arames que pareciam um cavalo de pernas compridas e um pesco�o que deslocava o cr�nio uns vinte p�s para cima. O amplo aposento estava vazio.</p><p>A qualquer momento, no entanto, algu�m poderia entrar; servi�ais que de fato estivessem ali para trabalhar, ou Liandrin e todas as comparsas para vasculhar. Ainda erguendo o espanador com proemin�ncia, s� por garantia, ela correu at� o pedestal de pedra branca que abrigava a coleira e os braceletes foscos. S� percebeu que prendia a respira��o quando exalou o ar ao ver que tudo continuava l�. A mesinha lateral de vidro, que continha o selo de <emphasis>cuendillar</emphasis>, jazia a uns cinquenta passos de dist�ncia, mas o pedestal ficava mais perto.</p><p>Ela ultrapassou a corda de seda branca, t�o grossa quanto um punho, e tocou a coleira, espessa e articulada. <emphasis>Sofrimento. Agonia. Ang�stia.</emphasis> As sensa��es a percorreram; ela quis chorar. Que tipo de coisa poderia absorver toda aquela dor? Afastando a m�o, cravou o olhar no metal negro. Feito para controlar um homem capaz de canalizar. Liandrin e suas irm�s Negras pretendiam us�-lo para controlar Rand, volt�-lo para a Sombra, for��-lo a servir ao Tenebroso. Uma pessoa de sua aldeia, controlada e usada por Aes Sedai! Ajah Negra, mas ainda assim Aes Sedai, feito Moiraine com suas tramoias! <emphasis>Egeanin, me fazendo gostar de uma Seanchan imunda!</emphasis></p><p>O s�bito contrassenso do �ltimo pensamento a tomou; de repente ela se deu conta de que estava deliberadamente provocando raiva em si mesma, raiva suficiente para canalizar. Abra�ou a Fonte; o Poder a preencheu. E uma servi�al com a �rvore e a folha no ombro adentrou o sal�o cheio de colunas.</p><p>Tr�mula com o �mpeto de canalizar, Nynaeve aguardou, chegando a erguer o espanador e passando as penas pela coleira e os braceletes. A servi�al come�ou a avan�ar pelo piso de pedras claras; sairia em um instante, e Nynaeve poderia� o qu�? Meter os objetos na bolsa do cinto e lev�-los, mas�</p><p>A servi�al iria sair? <emphasis>Por que eu pensei que ela iria sair e n�o ficar aqui trabalhando?</emphasis> Ela olhou de esguelha para a mulher que vinha em sua dire��o. Claro. Nenhuma vassoura, nenhum esfreg�o, nenhum espanador ou pano de p�. <emphasis>Seja l� por que ela est� aqui, n�o pode levar mui�</emphasis></p><p>De repente, ela enxergou claramente o rosto da mulher. Robusto e vistoso, emoldurado por tran�as escuras. Com um sorriso quase amistoso, mas distra�do. De forma alguma amea�ador, sem d�vida. N�o era bem o mesmo rosto, mas ela o reconheceu.</p><p>Nynaeve atacou sem nem pensar, tecendo um fluxo de Ar duro feito um martelo para esmagar aquela cara. Em um instante o brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> cercou a outra mulher, a express�o dela se alterou���de certa forma agora mais majestosa, mais imponente, o rosto verdadeiro de Moghedien; ela estava at�nita e surpresa por n�o ter conseguido chegar despercebida���e o fluxo de Nynaeve veio rente como o fio de uma navalha. Ela cambaleou sob o ricochete do a�oite, feito um golpe f�sico, e a Abandonada rebateu com uma complexa trama de Esp�rito entremeada de �gua e Ar. Nynaeve n�o tinha ideia do que aquilo causaria; fren�tica, tentou interromp�-lo como vira a outra mulher fazer, com uma trama de Esp�rito violenta. Por um brev�ssimo instante, ela sentiu amor, devo��o, venera��o pela magn�fica mulher que concederia permiss�o para que ela�</p><p>A trama intrincada se rompeu, e Moghedien trope�ou. Ainda havia um resqu�cio dentro da mente de Nynaeve, uma esp�cie de lembran�a v�vida, uma vontade de obedecer, de agradar, de se rastejar, de repetir o que acontecera no primeiro encontro entre elas; aquilo inflamou seu �dio. O escudo afiado que Egwene utilizara para estancar Amico Nagoyin formou-se de repente, mais arma do que escudo, prestes a cortar para sempre o contato de Moghedien com a Fonte, mas no �ltimo segundo o fluxo de Esp�rito foi aparado por outro semelhante. Mais um contragolpe partiu da Abandonada, dilacerante feito um machado, planejado para apartar Nynaeve da mesma forma. Para sempre. Desesperada, Nynaeve bloqueou.</p><p>De s�bito ela percebeu que, por baixo da raiva, estava apavorada. Refrear as tentativas da outra mulher de estanc�-la enquanto tentava fazer o mesmo lhe consumia todas as for�as. O Poder ebulia de tal forma dentro de si que ela achava que iria explodir; seus joelhos tremiam com o esfor�o para manter-se de p�. E o foco era atacar e se defender; ela n�o podia dispensar nem o suficiente para acender uma vela. O machado de Esp�rito de Moghedien ora ficava mais afiado, ora menos, mas n�o faria a menor diferen�a se ela conseguisse acert�-la; Nynaeve n�o via nenhuma real distin��o entre ser estancada pela mulher ou ser apenas���<emphasis>apenas!</emphasis>���blindada e submetida a ela. A for�a da outra ro�ou o fluxo de Poder da Fonte que havia dentro dela, feito uma faca pairando sobre o pesco�o esticado de uma galinha. A imagem era bastante adequada; ela desejou n�o ter pensado naquilo. No fundinho de sua cabe�a, uma vozinha balbuciou. <emphasis>Ah, Luz, n�o deixe que ela consiga. N�o deixe! Luz, por favor, isso n�o!</emphasis></p><p>Por um instante, considerou desistir de tentar estancar Moghedien���um dos motivos era a necessidade de manter seu fluxo afiado como a ponta de uma navalha, o que estava muito dif�cil���e usar toda a for�a para conter o ataque de Moghedien, for��-lo a recuar, talvez romp�-lo. Por�m, se tentasse isso, a outra mulher n�o precisaria se defender e poderia acrescentar aquela for�a ao seu pr�prio ataque. E ela era uma Abandonada; n�o s� uma irm� Negra. Uma mulher que tinha sido Aes Sedai na Era das Lendas, quando os Aes Sedai eram capazes de fazer coisas que nos dias atuais eram impens�veis. Se Moghedien a atacasse com toda a sua for�a �</p><p>Um homem que entrasse ali naquele instante, ou qualquer mulher incapaz de canalizar, teria visto apenas duas mulheres se encarando, uma de cada lado da corda de seda, a uma dist�ncia de menos de dez p�s. Duas mulheres se encarando em um enorme sal�o cheio de objetos estranhos. Ningu�m enxergaria nenhuma evid�ncia de um duelo. Nada de pulos ou golpes de espadas, como as lutas masculinas, nada destru�do ou quebrado. Apenas duas mulheres paradas de p�. Por�m, ainda assim, um duelo, e talvez um duelo de morte. Contra uma Abandonada.</p><p>��Todo o meu cuidadoso plano arruinado���disse Moghedien subitamente, em um tom tenso e raivoso, com as m�os agarradas �s saias.���No m�nimo vou precisar fazer um esfor�o incalcul�vel para que tudo volte a ser como antes. Talvez n�o seja poss�vel. Ah, eu pretendo fazer voc� pagar muito caro por isso, Nynaeve al�Meara. Esse tem sido um esconderijo muito confort�vel, e essas mulheres ap�ticas t�m um bom n�mero de itens muito �teis, ainda que n�o����Ela sacudiu a cabe�a, os l�bios arreganhados em um esgar de dentes.���Acho que vou levar voc� comigo dessa vez. J� sei. Vou usar voc� como banquinho vivo de montaria. Voc� vai ficar de quatro, e eu vou pisar nas suas costas para subir na minha sela. Ou talvez entregue voc� a Rahvin. Ele sempre retribui os favores. Agora est� com uma rainhazinha que o entret�m, mas belas mulheres sempre foram o ponto fraco dele. Ele gosta de ter umas duas, ou tr�s, ou quatro dan�arinas a seu servi�o. O que voc� acha disso? Passar o resto da vida competindo pelos favores de Rahvin. Voc� vai querer, quando ele puser as m�os em voc�; ele tem l� seus truquezinhos. Sim, acho que voc� deve ficar com Rahvin.</p><p>A raiva se avultou em Nynaeve. Suor escorria de sua face, e suas pernas tremiam como se fossem ceder, mas a raiva lhe deu for�as. Cheia de f�ria, ela conseguiu impulsionar a arma de Esp�rito a um triz de apartar Moghedien da Fonte, antes que a mulher o bloqueasse novamente.</p><p>��Ent�o quer dizer que voc� descobriu essa pequena joia atr�s de vocꠗ�comentou Moghedien, em um instante de t�nue equil�brio. Surpreendentemente, sua voz tinha um tom quase natural.���Fico me perguntando como foi que conseguiu. N�o importa. Voc� veio lev�-la embora? Ou talvez destru�-la? N�o se pode destru�-la. Isso a� n�o � metal, e sim uma das formas de <emphasis>cuendillar</emphasis>. Nem fogo devastador consegue destruir <emphasis>cuendillar</emphasis>. E, se voc� pretende us�-lo, existem algumas� desvantagens, por assim dizer. � verdade, ao colocar a coleira em um homem capaz de canalizar, uma mulher que use os braceletes vai poder obrig�-lo a fazer o que bem entender, mas isso n�o vai impedir que ele enlouque�a. Al�m disso, existe um fluxo no sentido contr�rio. Uma hora o homem tamb�m vai come�ar a controlar voc�, que vai acabar em uma eterna batalha. N�o � muito palat�vel quando ele come�a a enlouquecer. � claro, sempre d� para passar o bracelete para outra mulher, de modo que nenhuma se exponha demais, mas isso significa confiar que outra pessoa fique com o homem. Os homens sempre praticam muito bem a viol�ncia; fabricam armas maravilhosas. Ou ent�o duas mulheres podem usar um bracelete cada, se houver algu�m em quem voc� confie o bastante; isso reduz consideravelmente a velocidade dessa vaz�o, pelo que sei, mas tamb�m reduz o controle sobre o homem, mesmo que as duas operem em perfeita sintonia. Por fim, voc�s duas v�o se encontrar disputando com ele o controle, precisando que ele remova de voc�s seu bracelete do mesmo jeito que ele precisa que lhe removam a coleira.���Ela inclinou a cabe�a para a frente e ergueu uma sobrancelha, intrigada.���Est� me acompanhando, creio eu? Controlar Lews Therin, ou Rand al�Thor, como � chamado agora, seria extremamente �til, mas valeria a pena? Pode imaginar por que deixei a coleira e os braceletes onde est�o.</p><p>Tr�mula por tentar reter o Poder e manter os fluxos urdidos, Nynaeve franziu o cenho. Por que a mulher estava dizendo tudo aquilo a ela? Estaria achando que n�o importava, pois sairia vencedora? Por que aquela s�bita mudan�a, da ira para o falat�rio? Tamb�m havia suor no rosto de Moghedien. Muito suor, a brotar em sua testa larga e a correr pelas bochechas.</p><p>De repente, tudo mudou na cabe�a de Nynaeve. A voz de Moghedien n�o estava tensa por conta da raiva; estava tensa por conta do esfor�o. Moghedien n�o iria subitamente atirar toda a sua for�a nela: j� tinha feito isso. A mulher estava fazendo tanto esfor�o quanto ela. Nynaeve estava enfrentando uma Abandonada, mas, longe de ser depenada feito um ganso para o jantar, n�o havia perdido nem uma pena sequer. Estava diante de uma Abandonada, e de igual para igual! Moghedien estava tentando distra�-la, ganhar vantagem antes que sua pr�pria for�a se esva�sse! Se ao menos Nynaeve conseguisse fazer o mesmo� Enquanto ainda tinha for�a.</p><p>��Sabe como sei de tudo isso? A coleira e os braceletes foram feitos depois que fui� bem, n�o vamos falar sobre isso. Depois que me libertei, a primeira coisa que fiz foi procurar informa��es sobre esses �ltimos dias. �ltimos anos, na verdade. Existem muitos fragmentos aqui e ali que n�o fazem nenhum sentido para quem n�o tem ideia de nada, para come�o de conversa. A Era das Lendas. Que nome fant�stico voc�s deram � minha �poca. S� que nem as suas hist�rias mais extraordin�rias revelam sequer a metade. Eu j� estava viva havia duzentos anos quando o Bore foi aberto, e ainda era jovem para uma Aes Sedai. As suas �lendas� n�o s�o mais do que fracas imita��es do que n�s pod�amos fazer. Por que�</p><p>Nynaeve parou de escutar. Uma forma de distrair a mulher. Mesmo que ela conseguisse pensar em algo para dizer, Moghedien estaria bem precavida contra o m�todo que ela mesma estava usando. N�o podia dispender esfor�o para urdir nem mais um fiapinho de trama, n�o mais do que� n�o mais do que Moghedien. Uma mulher da Era das Lendas, uma mulher habituada por muito tempo a manejar o Poder �nico. Talvez habituada a fazer quase tudo com o Poder, antes de ser aprisionada. Escondida desde que fora libertada. Quanto essa mulher ainda estaria acostumada a fazer as coisas sem o Poder?</p><p>Nynaeve deixou as pernas desabarem. Largando o espanador, agarrou o pedestal para se segurar. Quase n�o precisava fingir.</p><p>Moghedien sorriu e deu um passo adiante.</p><p>��� viajar para outros mundos, at� mundos no c�u. Voc� sabe que as estrelas s�o����T�o confiante, aquele sorriso. T�o triunfante.</p><p>Nynaeve agarrou a coleira, ignorando o solavanco de emo��es dolorosas que jorraram para dentro dela, e a arremessou, tudo em um movimento s�.</p><p>A Abandonada apenas come�ara a escancarar o queixo quando o grande aro negro a atingiu entre os olhos. N�o foi um golpe forte, decerto insuficiente para derrub�-la, mas foi inesperado. O controle de Moghedien sobre seus fluxos fraquejou, muito brevemente, apenas por um instante. Ainda assim, por esse pequeno instante o equil�brio entre as duas se desfez. O escudo de Esp�rito deslizou entre Moghedien e a Fonte; o halo que a rodeava esvaneceu.</p><p>Os olhos da mulher se arregalaram. Nynaeve esperou que ela pulasse em sua garganta; era o que ela deveria ter feito. Mas Moghedien apenas suspendeu as saias at� os joelhos e saiu correndo.</p><p>Sem precisar se defender, bastou um pouco de esfor�o de Nynaeve para urdir uma trama de Ar em torno da mulher em fuga. A Abandonada congelou, bem no meio de uma passada.</p><p>Mais que depressa, Nynaeve firmou a trama. Tinha conseguido. <emphasis>Eu enfrentei uma Abandonada e venci</emphasis>, pensou, incr�dula. Ao olhar a mulher presa do pesco�o para baixo por ar r�gido feito pedra, inclinada para a frente, com um dos p�s erguidos, ela teve dificuldade de acreditar. Ao examinar o que havia feito, viu que n�o tinha sido uma vit�ria completa, como gostaria. Sua l�mina de esp�rito se enfraquecera um pouco antes de surtir efeito completo. Moghedien estava capturada e blindada, por�m n�o estancada.</p><p>Tentando n�o cambalear, ela deu a volta e p�s-se diante da outra. Moghedien ainda tinha um ar majestoso, mas feito uma rainha muito assustada, lambendo os l�bios, os olhos esquadrinhando todos os lados.</p><p>��Se� se voc� m-me soltar, p-podemos ch-chegar a um acordo. Eu p-posso ensinar m-muita coisa a voc�</p><p>Impiedosa, Nynaeve a interrompeu, urdindo uma morda�a de Ar que impedia a mulher de fechar a boca.</p><p>��Um banquinho vivo de montaria. N�o foi isso o que voc� disse? Acho �tima ideia. Gosto de montar.���Ela sorriu para a mulher, que tinha os olhos prestes a saltar das �rbitas.</p><p>Banquinho de montaria! Depois que Moghedien fosse levada � Torre para ser julgada e estancada���n�o havia d�vida sobre a senten�a para um Abandonado���ela fatalmente seria condenada a fazer algum trabalho �til nas cozinhas, nos jardins ou nos est�bulos, a n�o ser quando fosse exibida para servir de exemplo de que nem os Abandonados escapavam da justi�a, nem eram tratados de maneira diferente de qualquer outro servi�al. E, al�m do mais, seria vigiada. No entanto, era melhor que a mulher achasse que Nynaeve era t�o cruel quanto ela. Que achasse isso at� de fato ser levada a�</p><p>A boca de Nynaeve se contorceu. Moghedien n�o seria levada a julgamento. N�o naquele momento, pelo menos. A n�o ser que ela conseguisse descobrir alguma forma de remov�-la do Pal�cio da Panarca. A mulher pareceu crer que a careta fosse press�gio de alguma maldade; as l�grimas corriam de seus olhos, e ela remexia a boca, tentando for�ar algumas palavras por detr�s da morda�a.</p><p>Enojada consigo mesma, Nynaeve caminhou cambaleante de volta para onde estava a coleira preta e enfiou-a depressa na bolsa do cinto, antes que as severas emo��es que o objeto encerrava fossem capazes de algo mais do que impression�-la. Em seguida tomou os braceletes, com a mesma sensa��o de sofrimento e m�goa. <emphasis>Eu estava prestes a torturar essa mulher fazendo-a pensar que eu a torturaria! Ela merece, sem d�vida, mas eu n�o sou assim. Ou sou? Eu n�o sou melhor do que Egeanin?</emphasis></p><p>Ela se virou com um pulo, furiosa por sequer ter considerado tal coisa, e caminhou a passos firmes at� a mesa com tampo de vidro, passando por Moghedien. Tinha de haver um meio de levar aquela mulher � justi�a.</p><p>Havia sete estatuetas no estojo. Sete, e nenhum selo.</p><p>Por um instante, Nynaeve s� conseguiu encar�-las. Uma das figuras, um animal estranho com o formato tosco de um porco, por�m de focinho largo e redondo e p�s da mesma grossura das pernas, estava no mesmo lugar onde estivera o selo, no centro da mesa. De s�bito, ela apertou os olhos. O objeto n�o se encontrava ali de fato; era urdido a partir de Ar e Fogo, em fluxos t�o diminutos que faziam teias de aranha parecer cabos grossos. Mesmo concentrada, ela mal conseguia v�-los. Duvidou de que Liandrin ou qualquer uma das outras irm�s Negras conseguissem. A menor resvalada com o Poder e o animal gordo desapareceu, deixando em seu lugar o selo branco e preto sobre o suporte de laca vermelha. Moghedien, a escondedora, o ocultara bem � vista. O fogo derreteu um buraco no vidro, e o selo tamb�m foi para o bolso dela, que come�ou a ficar saliente e puxando o cinto para baixo.</p><p>Franzindo o cenho para a mulher suspensa no ded�o de uma das sand�lias, ela tentou pensar em algum meio de lev�-la tamb�m. Mas Moghedien n�o caberia em seu bolso, e ela imaginou que levantaria suspeitas, mesmo que conseguisse erguer a outra mulher. Aquela imagem atrairia alguns olhares desconfiados. Ainda assim, durante o trajeto at� a porta em arco mais pr�xima, ela n�o p�de evitar olhar para tr�s a cada passo. Se pelo menos houvesse alguma forma� Diante da porta, parou, lan�ou uma �ltima olhadela pesarosa e virou-se para sair.</p><p>A porta se abriu em um p�tio com uma fonte cheia de nen�fares. Do outro lado da fonte, uma mulher esguia, de pele acobreada, em um vestido taraboniano cor de creme que teria feito Rendra enrubescer, erguia uma haste preta canelurada de um passo de comprimento. Nynaeve reconheceu Jeaine Caide. E mais ainda, reconheceu a haste.</p><p>Em desespero, ela se atirou para o lado mais que depressa, com tanta for�a que saiu deslizando pelas pedras brancas lisas do ch�o at� ser parada com um estrondo por uma das colunas delgadas. Uma barra branca, da espessura de uma perna, passou zunindo por onde ela estivera, como se o ar tivesse se transformado em metal fundido, e foi acertando tudo no caminho at� o sal�o de exibi��o; fragmentos das colunas simplesmente sumiam por onde a barra passava, e artefatos de valor inestim�vel desapareciam. Nynaeve arremessou fluxos de Fogo para tr�s �s cegas, na esperan�a de acertar alguma coisa, qualquer coisa que estivesse no p�tio, e foi cruzando o sal�o de volta, engatinhando, cambaleante. Um pouco mais alta do que a cintura dela, a barra varou o sal�o, formando uma faixa de uma parede � outra; entre as duas, estojos, arm�rios e esqueletos aramados desabaram e se partiram. Colunas cindidas estremeceram; algumas desabaram, mas o que ca�a por cima daquela terr�vel espada n�o sobrevivia para esmagar os mostradores e pedestais no ch�o. A mesa de tampo vidro desabou antes que o feixe fundido desaparecesse, deixando uma linha arroxeada que parecia fixada na vis�o de Nynaeve; apenas as estatuetas de <emphasis>cuendillar</emphasis> sobreviveram �quele feixe de luz derretido, e ca�ram quicando no ch�o.</p><p>As estatuetas n�o se quebraram, naturalmente. Parecia que Moghedien tinha raz�o; nem o fogo devastador era capaz de destruir <emphasis>cuendillar</emphasis>. Aquela haste preta era um dos <emphasis>ter�angreal</emphasis> roubados. Nynaeve se lembrou do aviso anexado � lista delas em uma caligrafia firme. <emphasis>Produz fogo devastador. Perigoso e quase imposs�vel de controlar.</emphasis></p><p>Moghedien parecia tentar gritar por detr�s da morda�a invis�vel, a cabe�a ricocheteando para a frente e para tr�s no frenesi da batalha contra as amarras de Ar, mas Nynaeve n�o lhe dispensou mais do que uma olhadela. Assim que o fogo devastador desapareceu, ela se levantou o suficiente para espiar o outro lado, pela rachadura aberta na parede do sal�o. Ao lado da fonte, Jeane Caide cambaleava, com uma das m�os na cabe�a, a haste negra quase caindo da outra. Por�m, antes que Nynaeve pudesse atac�-la, a mulher j� havia erguido a haste canelurada outra vez; o fogo devastador irrompeu de uma das pontas, destruindo tudo no caminho pelo aposento.</p><p>Quase encostando a barriga no ch�o, Nynaeve engatinhou at� o outro lado o mais r�pido que p�de, por entre os estrondos e estampidos das colunas e alvenarias que desabavam. Aos arquejos, disparou para um corredor aberto entre duas paredes rachadas. N�o havia como dizer at� onde ia a fenda aberta pelo fogo devastador; at� a sa�da do pal�cio, talvez. Ela avan�ou, toda contorcida, por um tapete formado de fragmentos de pedra e espiou cuidadosamente pela lateral da entrada.</p><p>O fogo devastador havia desaparecido outra vez. O sil�ncio dominou o sal�o de exibi��o em ru�nas, exceto no instante em que um peda�o de pedra cedeu e desabou no ch�o j� repleto de entulhos. N�o havia sinal de Jeaine Caide, embora um peda�o bem grande da parede oposta tivesse desabado, revelando claramente o p�tio com a fonte. Nynaeve n�o iria se arriscar a conferir se o <emphasis>ter�angreal</emphasis> havia matado a mulher enquanto ela o utilizava. Ela foi recuperando o f�lego, com a respira��o irregular, e seus bra�os e pernas tremiam tanto que ela se satisfez em simplesmente ficar ali parada um instante. A canaliza��o requeria tanta energia quanto qualquer outro trabalho; quanto mais se canalizava, mais energia ia embora. E, quanto mais cansada estivesse, menos condi��es de canalizar. Ela n�o tinha total certeza de que ainda seria capaz de enfrentar Jeaine Caide naquele momento.</p><p>Que idiota ela havia sido. Lutando contra Moghedien com o Poder, sem pensar que canalizar com aquela for�a poderia atrair todas as irm�s Negras do pal�cio para cima dela. Fora uma grande sorte a domanesa n�o ter chegado com o <emphasis>ter�angreal</emphasis> enquanto Nynaeve ainda estava concentrada em dar conta da Abandonada. Muito provavelmente as duas teriam morrido antes que percebessem que a terceira mulher estava ali.</p><p>De repente, seus olhos incr�dulos se petrificaram. Moghedien havia sumido! O fogo devastador n�o se aproximara mais de dez p�s da mulher, mas ela n�o estava mais ali. Era imposs�vel. Ela tinha sido blindada.</p><p>��Como posso saber o que � imposs�vel?���resmungou Nynaeve.���Era imposs�vel que eu derrotasse uma Abandonada, mas derrotei.</p><p>Ainda n�o havia sinal de Jeaine Caide.</p><p>Ela se levantou e correu at� o local do encontro. Se pelo menos Elayne n�o tivesse se metido em nenhum problema, elas poderiam sair dali em seguran�a, no final das contas.</p></section><section><title><p>55</p><p><image l:href="#19"/></p><p>Nas profundezas</p></title><p>Nynaeve seguia em disparada pelos corredores, que fervilhavam com servi�ais, todos desesperados, querendo saber o que estava acontecendo. Podiam n�o ser capazes de sentir o Poder sendo canalizado, mas sem d�vida haviam sentido o pal�cio sendo destru�do. Ela foi abrindo caminho pela multid�o. At� onde todos sabiam, ela era apenas mais uma servi�al em p�nico.</p><p>Sentiu <emphasis>Saidar</emphasis> se esvaindo enquanto avan�ava ligeira pelos corredores e cruzava os p�tios. Ater-se � raiva era dif�cil, pois estava cada vez mais apreensiva com a situa��o de Elayne. Se as irm�s Negras tivessem encontrado a menina� N�o tinha como saber que armas elas portavam al�m do <emphasis>ter�angreal</emphasis> que produzia fogo devastador. A lista que tinham recebido n�o informava os usos de todos os objetos.</p><p>Em certo momento, viu Liandrin, com as tran�as cor de mel claro, e Rianna, com a mecha branca nos cabelos negros, descendo apressadas um lance da escadaria de m�rmore. N�o conseguiu ver o brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis> a rode�-las, mas, pela forma como os servi�ais gritavam e saltavam para dar passagem, as duas claramente for�avam caminho com um a�oite de Poder. Ficou satisfeita por n�o ter tentado tocar a Fonte: as outras a teriam percebido no meio da multid�o por conta do brilho de <emphasis>saidar</emphasis>, e ela n�o seria capaz de enfrentar qualquer uma delas antes de conseguir descansar um pouco, muito menos as duas juntas. Estava de posse do que tinha ido buscar. Aquelas mulheres teriam que esperar.</p><p>Quando Nynaeve chegou ao ponto de encontro, em um estreito corredor no lado leste do pal�cio, a multid�o j� minguara e desaparecera. Elayne e a Seanchan a aguardavam junto a uma pequena porta com batente de bronze, trancada com um grande cadeado de ferro. Traziam Amathera, parada de p�, bem r�gida, com uma capa de linho leve e o capuz erguido. O vestido branco da Panarca poderia passar por uma vestimenta de servi�al, se ningu�m olhasse com aten��o e reparasse que era de seda, e o v�u, que n�o escondia o rosto, sem d�vida era feito do linho usado para os servi�ais. O som de gritos abafados vinha pela porta. Ao que parecia, o motim ainda estava acontecendo. Se ao menos os homens estivessem fazendo a parte deles�</p><p>Nynaeve ignorou Egeanin e se jogou em cima de Elayne, envolvendo-a em um abra�o r�pido.</p><p>��Eu estava t�o preocupada. Correu tudo bem?</p><p>��Foi tudo �timo���respondeu Elayne. Egeanin se remexeu de leve, e a Filha-herdeira lan�ou um olhar significativo a ela, depois acrescentou:���Amathera deu um pouquinho de trabalho, mas a gente resolveu.</p><p>Nynaeve franziu o cenho.</p><p>��Trabalho? Por que ela daria trabalho? Por que voc� daria trabalho?���A �ltima frase foi para a Panarca, que mantinha a cabe�a erguida, recusando-se a encarar as outras.</p><p>Elayne parecia igualmente relutante.</p><p>Foi a Seanchan quem respondeu.</p><p>��Ela tentou fugir para incitar os soldados a atacar os Amigos das Trevas. Depois de ter sido advertida contra isso.</p><p>Nynaeve recusou-se a olhar para Egeanin.</p><p>��N�o fa�a essa cara feia, Nynaeve���ralhou Elayne.���Eu fui atr�s dela bem depressa, e tivemos uma conversinha. Acho que agora ela est� totalmente de acordo comigo.</p><p>A Panarca fez cara de desgosto.</p><p>��Estou de acordo, Aes Sedai���apressou-se em dizer a mulher.���Farei exatamente o que voc� mandou, e lhes entregarei uns pap�is para garantir que at� os rebeldes as deixem passar sem maiores problemas. N�o precisaremos mais� conversar.</p><p>Elayne assentiu, como se tudo aquilo fizesse sentido, e fez um gesto para que a mulher se calasse. Ao que a Panarca prontamente fechou a boca. Parecia um tantinho emburrada, mas talvez fosse apenas o formato natural. Estava claro que muita coisa estranha havia acontecido, e Nynaeve pretendia descobrir tudo o que se passara. Mas depois. Os dois lados do corredor estreito ainda estavam vazios, mas gritos de p�nico continuavam a ecoar das profundezas do pal�cio. A turba ressoava do outro lado da portinhola.</p><p>��Mas e voc�?���perguntou Elayne, de testa franzida.���Deveria ter chegado meia hora atr�s. Foi voc� quem causou isso tudo? Senti duas mulheres canalizando Poder suficiente para destruir o pal�cio, e logo depois algu�m realmente tentou destru�-lo. Achei que tivesse sido voc�. Tive que proibir Egeanin de sair correndo em seu encal�o.</p><p>Egeanin? Nynaeve hesitou, depois for�ou-se a tocar o ombro da Seanchan.</p><p>��Obrigada.���A mulher parecia n�o estar entendendo muito bem o que ela mesma fizera, mas assentiu sem demora.���Moghedien me encontrou, e eu comecei a pensar em como faria para lev�-la a julgamento, ent�o Jeaine Caide quase arrancou minha cabe�a com fogo devastador.���Elayne soltou um arquejo baixo, e ela se apressou para tranquiliz�-la.���Mas nem chegou perto, para falar a verdade.</p><p>��Voc� <emphasis>capturou</emphasis> Moghedien? Voc� capturou uma Abandonada?</p><p>��Capturei, mas ela fugiu.���Pronto. Contara tudo. Consciente dos olhares que a outras lan�avam a ela, Nynaeve se remexeu, incomodada. N�o gostava de errar. Sobretudo, n�o gostava de errar e ser a primeira a admitir o pr�prio erro.���Elayne, eu sei o que falei sobre tomar cuidado, mas, quando vi aquela mulher nas minhas m�os, tudo o que eu conseguia pensar era em lev�-la a julgamento.���Ela respirou fundo e assumiu um tom de quem se desculpava. Odiava fazer aquilo. Onde estavam aqueles homens idiotas?���Pus tudo em risco porque n�o consegui me concentrar no objetivo, mas, por favor, n�o brigue comigo.</p><p>��N�o vou brigar���respondeu Elayne, com firmeza.���Desde que voc� se lembre de tomar cuidado no futuro.���Egeanin pigarreou.���Ah, sim���acrescentou, ligeira. A espera parecia incomod�-la. Suas bochechas estavam salpicadas de pontinhos vermelhos.���Voc� encontrou a coleira e o selo?</p><p>��Estou com eles.���Nynaeve deu um tapinha na bolsa. A gritaria l� fora parecia aumentar. Assim como os berros que ecoavam nos corredores. Liandrin devia estar virando o pal�cio de cabe�a para baixo, tentando descobrir o que acontecera.���O que est� atrasando esses homens?</p><p>��A minha Legi�o���respondeu Amathera.</p><p>Elayne encarou a mulher, que fechou a boca de repente. Qualquer que fosse a conversa que as duas tinham levado, parecia ter sido s�ria. A Panarca fez bico, feito uma garotinha com medo de ser mandada para a cama sem jantar.</p><p>Nynaeve olhou para Egeanin. A mulher Seanchan vigiava a porta atentamente. Tivera vontade de ir em seu resgate. <emphasis>Por que ela n�o me deixa odi�-la? Ser� que somos t�o diferentes assim?</emphasis></p><p>De repente, a porta se abriu. Juilin, que estava agachado, puxou duas finas barras de metal envergadas de dentro fechadura e se levantou. Sangue escorria pela lateral de seu rosto.</p><p>��R�pido. Precisamos sair daqui antes que a coisa saia de controle.</p><p>Olhando para tr�s do homem, com olhos arregalados, Nynaeve se perguntou o que ele considerava fora de controle. Os marujos de Bayle Domon, pelo menos trezentos deles, formavam um semic�rculo de duas filas perto da porta, com o pr�prio Domon balan�ando um porrete, gritando para encoraj�-los. Tinha de gritar, diante da tamanha algazarra que dominava a rua larga. Homens se acotovelavam, lutavam e gritavam em uma massa furiosa, e os tacos e bast�es dos marujos n�o eram suficientes para afast�-los. N�o que os homens estivessem de fato interessados nos marujos. Espalhados pela multid�o, grupos de Mantos-brancos a cavalo brandiam espadas para os que os rodeavam com ancinhos e ripas de barris, al�m de alguns de m�os vazias. Uma chuva de pedras desabava em cima deles, �s vezes acertando um capacete, mas n�o faziam muito barulho em meio ao tumulto. O cavalo de um Manto-branco solit�rio de s�bito relinchou, empinou-se e caiu para tr�s, depois se reergueu depressa, sem o cavaleiro. Outros animais sem cavaleiros pontilhavam a massa de homens. Era isso o que haviam desencadeado apenas para se proteger? Tentou lembrar-se do motivo, pondo a m�o na bolsa para sentir o selo de <emphasis>cuendillar</emphasis>, a coleira e os braceletes, mas era dif�cil. Com certeza alguns homens estavam morrendo, ali na frente.</p><p>��Ser� que d� para voc�s se mexerem, mulheres?���gritou Thom, acenando para que elas sa�ssem. Um corte vertia sangue por cima de uma das sobrancelhas frondosas, talvez causado por uma pedra, e a capa marrom j� n�o servia nem como pano de ch�o.���Se a Legi�o da Panarca parar de avan�ar, isso pode virar uma bagun�a.</p><p>Amathera soltou um som de espanto, logo antes de Elayne empurr�-la com for�a para fora. Nynaeve e Egeanin foram atr�s. Assim que as quatro estavam do lado de fora, os marujos as rodearam, formando um c�rculo compacto, come�ando a lutar para sair do pal�cio. Tudo o que Nynaeve podia fazer era tentar n�o trope�ar, espremida pelos homens que se esfor�avam para proteg�-la. Em dado momento, Egeanin cambaleou e quase caiu. Nynaeve segurou o bra�o da Seanchan, ajudou-a a se levantar e recebeu um grande sorriso de gratid�o. <emphasis>N�o somos t�o diferentes</emphasis>, pensou. <emphasis>N�o somos iguais, mas n�o somos t�o diferentes assim.</emphasis> Ela n�o precisou se esfor�ar para devolver um sorriso encorajador � mulher.</p><p>A massa fervilhante se estendia por muitas ruas fora do pal�cio, mas, quando o grupo se afastou, encontraram as ruas estreitas e sinuosas quase vazias. Quem n�o estava de fato envolvido no tumulto demonstrava sabedoria para manter dist�ncia. Os marujos abriram um pouco o c�rculo, dando mais espa�o para as mulheres. No entanto, qualquer sujeito errante que olhasse na dire��o do grupo era encarado com olhares furioso. As ruas de Tanchico ainda eram as ruas de Tanchico. De certa forma, aquilo surpreendeu Nynaeve. Parecia que passara v�rias semanas dentro do pal�cio. Parecia certo que a cidade estaria diferente.</p><p>Quando o burburinho come�ou a ficar para tr�s, Thom se curvou em uma mesura bastante elegante para Amathera, enquanto coxeava.</p><p>��� uma honra, Panarca���disse.���Se eu puder ser de qualquer serventia, � s� a senhora falar.</p><p>Com uma express�o de choque, Amathera encarou Elayne, fez uma leve careta e respondeu:</p><p>��O senhor est� se confundindo, meu bom senhor. Sou apenas uma pobre refugiada do campo, resgatada por essas boas mulheres.</p><p>Thom trocou olhares surpresos com Juilin e Domon, mas, quando abriu a boca para falar, Elayne o cortou:</p><p>��Ser� que a gente pode ir para a estalagem, Thom? Aqui � um p�ssimo lugar para conversar.</p><p>Quando o grupo chegou ao Jardim das Tr�s Ameixeiras, todos ficaram igualmente surpresos ao ouvir Elayne apresentar a Panarca a Rendra como Thera, uma refugiada sem dinheiro que carecia de um catre e talvez de trabalho em troca de comida. A estalajadeira deu de ombros, resignada, mas, enquanto conduzia �Thera� �s cozinhas, come�ou a elogiar seus lindos cabelos e a dizer como ela ficaria bonita no vestido adequado.</p><p>Nynaeve aguardou at� que todos estivessem dentro da C�mara das Flores Ca�das, com a porta fechada, para se pronunciar.</p><p>��<emphasis>Thera</emphasis>? E ela entrou no jogo! Elayne, Rendra vai mandar a mulher servir mesas no sal�o!</p><p>Elayne n�o parecia surpresa.</p><p>��Vai mesmo, � bem prov�vel.���A Filha-herdeira afundou em uma cadeira, soltou um suspiro, chutou as sand�lias e come�ou a massagear os p�s.���N�o foi dif�cil convencer Amathera a ficar escondida por alguns dias. De �a Panarca est� morta� para �morte � Panarca� � um pulinho s�. Acho que ver o motim tamb�m ajudou. Ela n�o quer depender de Andric para subir outra vez ao trono, quer que seus pr�prios soldados fa�am isso, mesmo que ela precise se esconder at� poder entrar em contato com o Senhor Capit�o da Legi�o. Acho que Andric vai se surpreender bastante com ela. Pena que <emphasis>ele</emphasis> n�o v� surpreend�-la. Ela merece.</p><p>Domon e Juilin trocaram olhares e balan�aram a cabe�a, intrigados. Egeanin assentiu para si mesma, como se ela, ao menos, compreendesse e aprovasse.</p><p>��Mas por qu�?���inquiriu Nynaeve.���Voc�s podem at� ter ficado irritadas porque ela tentou fugir sozinha, mas isso? Como ela conseguiu a fugir, para come�o de conversa, com voc�s duas na cola dela?</p><p>Os olhos de Egeanin se voltaram na dire��o de Elayne, t�o depressa que Nynaeve n�o soube ao certo se realmente acontecera.</p><p>Elayne inclinou-se para co�ar a sola do p�. O gesto decerto doera um pouco, pois ela ficou com as bochechas vermelhas.</p><p>��Nynaeve, essa mulher n�o faz ideia de como � a vida dos plebeus.���Como se ela fizesse!���Parece preocupada de verdade com a justi�a, acredito que sim, mas n�o demonstrou o menor inc�modo com o fato de haver comida suficiente para um ano dentro do pal�cio. Eu mencionei a cozinha de sopas, mas ela n�o sabia do que eu estava falando! Uns poucos dias trabalhando em troca de comida far�o muito bem a ela.���Elayne esticou as pernas por baixo da mesa e remexeu os p�s descal�os.���Ah, como isso � bom. N�o que ela v� ter muitos dias, eu imagino. N�o se tiver que reunir a Legi�o da Panarca para arrancar Liandrin e as outras � for�a de dentro do pal�cio. Uma pena, mas � assim que �.</p><p>��Bom, ela vai ter que fazer isso���retrucou Nynaeve, com firmeza. Era bom se sentar, mas ela n�o conseguia entender o cuidado da outra garota com os p�s. Quase n�o haviam caminhado.���E, quanto mais cedo, melhor. Precisamos da Panarca, e n�o de uma ajudante extra na cozinha de Rendra.</p><p>N�o achava que havia qualquer necessidade de se preocupar com Moghedien. A mulher tivera todas as oportunidades de se revelar, depois de se libertar. Isso ainda a intrigava. Decerto fora descuidada ao urdir o escudo. Mas, se Moghedien n�o estivera disposta a enfrent�-la naquele momento, quando sabia que Nynaeve estava quase exaurida, era pouco prov�vel que fosse partir atr�s dela. N�o por algo que pensava n�o valer muito a pena. O mesmo, no entanto, n�o valia para Liandrin. Se a mulher ficasse sabendo de metade do que acontecera, <emphasis>iria</emphasis> atr�s delas.</p><p>��A justi�a da Filha-herdeira���murmurou Thom���pode suplantar a justi�a da Panarca. Havia uma torrente de homens passando por aquela porta, quando fomos embora. Vi fuma�a saindo de v�rias janelas. Esta noite, veremos pouca coisa al�m de umas ru�nas destru�das pelo fogo. N�o precisaremos arranjar soldados para ca�ar a Ajah Negra, e, assim, �Thera� pode tirar uns dias para aprender a li��o que voc� quer ensinar. Um dia voc� ser� uma excelente rainha, Elayne de Andor.</p><p>O sorriso satisfeito de Elayne sumiu quando ela olhou para o menestrel. A jovem se levantou, atravessou a sala a passos firmes, revirou os bolsos do casaco de Thom em busca de um len�o e come�ou a secar o sangue da testa do homem, apesar dos protestos dele.</p><p>��Fique quieto���ralhou ela, no tom exato de uma m�e tentando cuidar de uma crian�a rebelde.</p><p>��Ser� que a gente pode pelo menos ver as coisas pelas quais arriscamos nossas peles?���perguntou o menestrel, quando ficou claro que Elayne faria exatamente o que queria.</p><p>Nynaeve abriu a bolsa do cinto e disp�s o conte�do sobre a mesa. O disco branco e preto que ajudava a encerrar a pris�o do Tenebroso, a coleira e os braceletes que lhe enviaram ondas de sofrimento antes que ela os soltasse. Todos se reuniram para observar.</p><p>Domon tocou o selo.</p><p>��Eu j� tive uma coisa igual a essa.</p><p>Nynaeve duvidou. Apenas sete haviam sido fabricados. Tr�s foram destru�dos, fossem ou n�o feitos de <emphasis>cuendillar</emphasis>. Um estava com Moiraine. Restavam quatro. Ser� que esses quatro dariam conta de manter a pris�o em Shayol Ghul bem trancada? Que pensamento arrepiante.</p><p>Egeanin tocou a coleira e empurrou os braceletes para longe. Se sentia alguma emo��o aprisionada neles, n�o demonstrou. Talvez a sensibilidade viesse apenas com a capacidade de canalizar.</p><p>��Isso aqui n�o � um <emphasis>a�dam</emphasis>���declarou a Seanchan.���� feito em uma s� pe�a de um metal coberto de prata.</p><p>Nynaeve desejou que a mulher n�o tivesse mencionado o <emphasis>a�dam</emphasis>.</p><p><emphasis>Mas ela nunca usou o bracelete de um</emphasis> a�dam<emphasis>. E de fato soltou aquela coitada de quem nos falou. Coitada. Era</emphasis> ela���<emphasis>a tal Bethamin���quem controlava as mulheres com o</emphasis> a�dam. Egeanin demonstrara mais piedade do que Nynaeve jamais teria.</p><p>��Isso � t�o parecido com um <emphasis>a�dam</emphasis> quanto eu sou com voc�, Egeanin.</p><p>A Seanchan ficou espantada, mas, depois de um instante, assentiu. N�o t�o diferentes assim. Duas mulheres, cada uma fazendo o melhor que podia.</p><p>��Voc� pretende continuar atr�s de Liandrin?���Juilin estava sentado, os bra�os cruzados sobre a mesa, analisando os objetos dispostos.���Ela pode at� ir embora de Tanchico, mas ainda estar� � solta. E as outras tamb�m. S� que esses objetos parecem importantes demais para serem deixados por a�. Eu sou apenas um ca�ador de ladr�es, mas acho que eles devem ser levados � Torre Branca, s� por garantia.</p><p>��N�o!���Nynaeve se espantou com a pr�pria veem�ncia. Os outros tamb�m, pela maneira como a encararam. Devagar, ela apanhou o selo e o recolocou na bolsa.���Isso aqui vai para a Torre. Mas aqueles����Ela n�o queria tocar outra vez nos objetos pretos. Se chegassem � Torre, as Aes Sedai poderiam decidir fazer o mesmo uso deles que a Ajah Negra imaginara. Controlar Rand. Moiraine faria isso? Siuan Sanche? Ela n�o pretendia correr o risco.���Eles s�o muitos perigosos para que a gente arrisque v�-los outra vez nas m�os de Amigos das Trevas. Elayne, consegue destru�-los? Derreta. N�o me interessa se v�o queimar a mesa. S� destrua essas coisas!</p><p>��Concordo com vocꠗ�respondeu Elayne, com uma careta.</p><p>Nynaeve duvidava. Elayne acreditava na Torre de todo o cora��o. Mas tamb�m acreditava em Rand.</p><p>Nynaeve n�o viu o brilho t�nue de <emphasis>saidar</emphasis>, claro, mas a forma atenta como a garota encarava os objetos vis era sinal de que estava canalizando. Os braceletes e o colar jaziam ali. Elayne franziu o cenho, e seu olhar ficou mais concentrado. De repente, ela sacudiu a cabe�a. Aproximou a m�o por um instante, hesitante, de um dos braceletes, antes de apanh�-lo. E soltou-o outra vez, com um arquejo.</p><p>��A sensa��o � de� � cheio de����Ela respirou fundo e continuou:���Eu fiz o que voc� pediu, Nynaeve. Se fosse um martelo, estaria derretido, pelo tanto de Fogo que urdi em cima, mas isso aqui n�o est� nem quente.</p><p>Ent�o Moghedien n�o tinha mentido. Sem d�vida pensara que n�o havia necessidade, que sua vit�ria era garantida. <emphasis>Como a mulher se soltou?</emphasis></p><p>O que fazer com aquelas coisas? Ela n�o as deixaria cair nas m�os de <emphasis>ningu�m</emphasis>.</p><p>��Mestre Domon, o senhor conhece uma parte do mar bem profunda?</p><p>��Conhe�o, sim, Senhora al�Meara���respondeu o homem, relutante.</p><p>Com cautela, tentando n�o sentir qualquer emo��o, Nynaeve empurrou a coleira e os braceletes pela mesa em dire��o a ele.</p><p>��Ent�o jogue isso no mar, onde ningu�m nunca mais conseguir� pescar de volta.</p><p>Depois de um instante, o homem assentiu.</p><p>��Pode deixar.���Ele enfiou os objetos depressa no bolso do casaco, claramente incomodado de tocar algo com uma rela��o t�o estreita com o Poder.���Na profundeza mais profunda do mar que eu conhe�o, perto de Aile Somera.</p><p>Egeanin encarou o ch�o, de cenho franzido, decerto pensando na partida do illianense. Nynaeve n�o se esquecera de que a mulher chamara Domon de �um homem de porte muito adequado�. At� ela sentia vontade de rir. Estava quase acabado. Assim que Domon pudesse sair com o navio, a coleira e os braceletes odiosos iriam embora para sempre. Ela e Elayne poderiam partir para Tar Valon. E depois� Depois voltar para Tear, ou para onde al�Lan Mandragoran estivesse. Enfrentar Moghedien, perceber qu�o perto estivera da morte ou de coisa pior, apenas fizera crescer sua urg�ncia em resolver as coisas com ele. Um homem ela precisava dividir com uma mulher que odiava. No entanto, se Egeanin podia olhar com afei��o para um homem a quem fizera prisioneiro���e Domon sem d�vida a olhava com interesse���e se Elayne era capaz de amar um homem fadado a enlouquecer, ent�o ela poderia descobrir uma forma de desfrutar do que Lan fosse capaz de lhe dar.</p><p>��Vamos descer e conferir se �Thera� est� se saindo bem como servi�al?���sugeriu.</p><p>Em breve, partiria rumo a Tar Valon. Em breve.</p></section><section><title><p>56</p><p><image l:href="#20"/></p><p>Olhos-Dourados</p></title><p>O sal�o da estalagem Fonte de Vinho estava silencioso, exceto pelo som dos rabiscos da caneta de Perrin. Silencioso e vazio, a n�o ser por ele e Aram. A luz do fim da manh� entrava pelas janelas. Da cozinha n�o vinha aroma algum. N�o havia fog�es acesos na aldeia, e at� os carv�es enfiados nas cinzas haviam sido encharcados. N�o havia motivo para deixar o dom do fogo � m�o. O latoeiro���ele �s vezes se perguntava se era adequado ainda pensar em Aram como um latoeiro, mas um homem n�o podia deixar de ser o que era, portando uma espada ou n�o���permanecia encostado na parede, perto da porta principal, observando Perrin. O que ele esperava? O que queria? Mergulhando a pena no potinho de pedra cheio de tinta, Perrin p�s de lado a terceira folha de papel e come�ou a rabiscar a quarta.</p><p>Ban al�Seen abriu a porta, de arco na m�o, e esfregou um dedo inquieto no nariz, para cima e para baixo.</p><p>��Os Aiel est�o de volta���anunciou, baixinho, mas seus p�s se remexiam como se tivessem vida pr�pria.���Trollocs est�o vindo do norte e do sul. Milhares deles, Lorde Perrin.</p><p>��N�o me chame assim���retrucou o rapaz, distra�do, o cenho franzido para a folha de papel.</p><p>N�o tinha jeito com as palavras. Com certeza n�o sabia dizer as coisas do jeito rebuscado que as mulheres gostavam. S� conseguia escrever o que sentia. Mergulhou a pena outra vez no tinteiro e acrescentou mais algumas linhas.</p><cite><p>N�o vou pedir seu perd�o pelo que fiz. N�o sei se voc� seria capaz de me perdoar, mas n�o vou pedir isso. Voc� � mais preciosa para mim que minha pr�pria vida. N�o pense que eu a abandonei. Quando o sol brilhar em seu rosto, ser� o meu sorriso. Quando voc� ouvir a brisa soprando nas flores das macieiras, serei eu sussurrando �eu te amo�. O meu amor � seu, para sempre.</p><text-author>Perrin</text-author></cite><p>Por um instante, analisou o que escrevera. N�o era o bastante, mas teria de servir. N�o tinha as palavras certas, e tamb�m n�o tinha tempo.</p><p>Com muito cuidado, secou a tinta molhada com um mata-borr�o e dobrou as p�ginas. Quase escreveu �Faile Bashere� do lado de fora, mas trocou para �Faile Aybara�. Percebeu que sequer sabia se as esposas tomavam o nome dos maridos, em Saldaea. Havia lugares onde isso n�o acontecia. Bem, Faile se casara com ele em Dois Rios, e teria que aturar os costumes de Dois Rios.</p><p>Deixou a carta no centro da cornija da lareira. Talvez chegasse at� ela, um dia. Ajeitou a faixa nupcial vermelha por detr�s da gola da camisa, para que ca�sse pela lapela do jeito certo. Deveria us�-la por sete dias, para que todos vissem que estava rec�m-casado.</p><p>��Vou tentar���disse � carta, baixinho.</p><p>Faile tentara amarrar uma faixa na barba dele. Perrin desejou que a tivesse deixado.</p><p>��Como, Lorde Perrin?���indagou Ban, ainda remexendo os p�s, ansioso.���Eu n�o ouvi.</p><p>Aram mordia os l�bios, os olhos arregalados e assustados.</p><p>��� hora de cuidar das tarefas do dia���anunciou Perrin. Talvez a carta chegasse a ela. De alguma forma. Apanhou o arco da mesa e jogou-o nas costas. Machado e aljava j� pendiam do cinto.���E n�o me chame assim!</p><p>Na frente da estalagem, encontrou os Companheiros reunidos, j� montados nos cavalos. Wil al�Seen levava aquele estandarte idiota com a cabe�a do lobo, o cajado longo apoiado no ferro do estribo. N�o fazia muito tempo que Wil tinha se recusado a carregar aquela coisa. Os sobreviventes dos que haviam se juntado a ele no primeiro dia agora detinham, orgulhosamente o direito. Wil, com o arco nas costas e uma espada na cintura, parecia t�o orgulhoso quanto qualquer idiota.</p><p>Enquanto Ban subia na sela, desajeitado, Perrin o ouviu dizer:</p><p>��O homem � frio feito um lago de inverno. Feito gelo. Talvez n�o seja t�o ruim assim, hoje.</p><p>Ele mal prestou aten��o. As mulheres estavam reunidas no campo.</p><p>Estavam dispostas em um c�rculo de cinco ou seis fileiras ao redor do mastro comprido onde o estandarte maior com a cabe�a vermelha de lobo tremulava ao vento. Cinco ou seis fileiras, ombro a ombro, levando armas de haste feitas de foices e ancinhos, al�m de machados de cortar madeira e robustas facas de cozinha e cutelos. Com um n� na garganta, ele montou em Galope e cavalgou na dire��o delas. As crian�as formavam uma massa espremida dentro do c�rculo de mulheres. Todas as crian�as de Campo de Emond.</p><p>Ao cavalgar lentamente por entre as fileiras, Perrin sentiu os olhos das mulheres a acompanh�-lo, e tamb�m os das crian�as. Cheiro de medo e preocupa��o, coisa que estava evidente nos rostinhos infantis, mas o odor emanava de todos. Puxou a r�dea, parando onde estavam Marin al�Vere, Daise Congar e o restante do C�rculo das Mulheres. Alsbet Luhhan levava nos ombros um dos martelos do marido, e, na cabe�a, o capacete de Manto-branco adquirido na noite de seu resgate, um pouco torto por conta da tran�a grossa. Neysa Ayellin segurava com firmeza uma faca de entalhar de l�mina comprida e trazia mais duas presas no cinto, �s costas.</p><p>��N�s j� planejamos o que vamos fazer���anunciou Daise, encarando Perrin como se esperasse uma discuss�o que n�o pretendia permitir. Segurava um ancinho amarrado a uma vara quase tr�s p�s maior que ela, apoiado na vertical.���Se os Trollocs invadirem por algum lugar, voc�s, homens, v�o ficar ocupados, ent�o levaremos as crian�as embora. Os mais velhos j� sabem o que fazer, e todos j� brincaram de esconde-esconde na floresta. S� para mant�-los seguros at� poderem sair outra vez.</p><p>Os mais velhos. Meninos e meninas de treze e quatorze anos levavam os pequeninos amarrados �s costas e seguravam as m�os dos maiores. Garotas mais velhas do que isso estavam nas fileiras com as mulheres. Bo Cauthon segurava um machado de lenha com as duas m�os, e sua irm�, Eldrin, portava uma lan�a de javali de ponta larga. Os rapazes mais velhos estavam com os homens ou trepados nos telhados de sap�, de arcos em punho. Os latoeiros permaneciam com suas crian�as, dentro das casas. Perrin olhou para Aram, parado ao lado do estribo. Aquela gente n�o lutaria, mas cada adulto carregava dois beb�s amarrados �s costas e mais um aninhado no bra�o. Raen e Ila, abra�ados, n�o o encaravam. Era s� para mant�-los seguros at� poderem sair outra vez.</p><p>��Pe�o desculpas.���Ele precisou parar e pigarrear. N�o era sua inten��o que a coisa chegasse �quele ponto. Por mais que refletisse, n�o conseguia pensar em nada de diferente que pudesse ter feito. Nem se entregar aos Trollocs teria impedido a matan�a e os inc�ndios. O fim teria sido o mesmo.���N�o foi justo o que fiz com Faile, mas eu tive que fazer. Por favor, entenda isso. Eu tive que fazer.</p><p>��N�o seja bobo, Perrin���respondeu Alsbet, enf�tica, mas com um sorriso afetuoso no rosto redondo.���Eu n�o aguento quando voc� come�a de bobeira. Acha que esperar�amos outra coisa de voc�?</p><p>Com um pesado cutelo em uma das m�os, Marin estendeu a outra para dar um tapinha no joelho de Perrin.</p><p>��Qualquer homem a quem valha a pena cozinhar uma boa refei��o teria feito o mesmo.</p><p>��Obrigado.���Luz, como sua voz. Dali a pouco estaria fungando feito uma criancinha. Ainda assim, por algum motivo, estava embargada n�o conseguiu suavizar o tom. As mulheres deviam estar pensando que ele era um idiota.���Obrigado. Eu n�o deveria ter enganado a senhora, mas Faile n�o teria ido embora se tivesse suspeitado.</p><p>��Ah, Perrin.���Marin riu. Uma risada de verdade, mesmo com tudo o que estava enfrentando, com todo o cheiro de medo que exalava. O rapaz desejou ter metade da coragem daquela mulher.���N�s sab�amos qual era a sua inten��o antes mesmo de voc� fazer a garota montar no cavalo, e n�o posso afirmar com certeza que a pr�pria Faile n�o sabia. As mulheres acabam fazendo muitas coisas que n�o querem fazer s� para agradar voc�s, homens.���Ent�o acrescentou, com firmeza:���Agora v� cuidar do que tem que fazer. Isso aqui � assunto do C�rculo das Mulheres.</p><p>Perrin conseguiu dar um jeito de retribuir o sorriso.</p><p>��Sim, senhora���respondeu, co�ando a testa.���Me perdoe. Eu sei muito bem que � melhor n�o meter o bedelho nessas coisas.</p><p>As mulheres � volta de Marin riram, achando gra�a, e ele deu meia-volta com Galope.</p><p>Percebeu que Ban e Tell vieram cavalgando logo atr�s, trazendo o restante dos Companheiros na cola de Wil e do estandarte. Fez um gesto para que os dois se aproximassem.</p><p>��Se as coisas ficarem ruins hoje���anunciou, com um de cada lado���os Companheiros devem voltar para c� e ajudar as mulheres.</p><p>��Mas�</p><p>Ele interrompeu o protesto de Tell.</p><p>��Fa�am o que eu mandei! Se alguma coisa der errado, saiam daqui com as mulheres e as crian�as! Est�o me ouvindo?���Os homens assentiram. Relutantes, mas assentiram.</p><p>��E voc�?���perguntou Ban, baixinho.</p><p>Perrin o ignorou.</p><p>��Aram, voc� fica com os Companheiros.</p><p>Avan�ando entre Galope e o cavalo peludo de Tell, o latoeiro sequer olhou para cima.</p><p>��Eu n�o vou sair do seu lado���respondeu ele, simplesmente, mas em um tom que n�o deixava espa�o para discuss�o. O rapaz n�o mudaria de ideia, n�o importava o que ele dissesse, e Perrin se perguntou se os lordes de verdade passavam pelo mesmo tipo de problema.</p><p>Na ponta oeste do Campo, os Filhos estavam montados nos cavalos, os mantos reluzindo com o raio de sol dourado, os capacetes e armaduras brilhando, as pontas das lan�as cintilando. Formavam uma longa coluna de duas parelhas que se estendia at� o meio das casas mais pr�ximas. Deviam ter passado a noite inteira polindo as armaduras. Dain Bornhald e Jaret Byar moveram os cavalos para virar-se de frente para Perrin. Bornhald permanecia sentado ereto sobre a sela, mas cheirava a conhaque de ma��. O rosto encovado de Byar se contorceu, com uma raiva ainda mais profunda do que de costume, quando ele encarou Perrin.</p><p>��Achei que voc�s j� estariam em suas posi��es���disse Perrin.</p><p>Bornhald torceu o nariz e encarou a crina do cavalo, sem responder. Depois de um instante, Byar retrucou:</p><p>��Estamos indo embora daqui, Criatura da Sombra.���Um burburinho raivoso come�ou a se elevar entre os Companheiros, mas o homem de olhos fundos os ignorou, assim como ignorou Aram, que passou a m�o pelo ombro para agarrar o punho da espada.���Vamos passar pelos seus amigos no caminho de volta para Colina da Vig�lia e nos unir ao restante dos nossos homens.</p><p>Indo embora. Mais de quatrocentos soldados indo embora. Eram Mantos-brancos, mas eram soldados montados, n�o fazendeiros. Soldados que haviam concordado���Bornhald concordara!���em apoiar os homens de Dois Rios onde quer que a batalha ebulisse. Se Campo de Emond quisesse ter a menor chance que fosse, Perrin teria de contar com aqueles homens. Galope deu um tranco com a cabe�a e bufou, como se captasse o humor do dono.</p><p>��Voc� ainda acredita que eu sou Amigo das Trevas, Bornhald? Quantos ataques viu at� agora? Esses Trollocs tentaram me matar da mesma forma que tentaram matar os outros.</p><p>Bornhald ergueu a cabe�a devagar, os olhos perturbados e ao mesmo tempo meio vidrados. As m�os protegidas pelas manoplas de a�o se flexionaram nas r�deas, em um movimento inconsciente.</p><p>��Voc� acha que a essa altura eu j� n�o descobri que essas defesas foram erguidas sem voc�? Nada disso foi coisa sua, sim? Eu n�o vou manter meus homens aqui para ver voc� jogar seus pr�prios alde�es na boca dos Trollocs. Voc� vai dan�ar em cima da pilha de corpos quando isso tudo acabar, Criatura da Sombra? Ah, n�o em cima dos nossos! Pretendo viver por tempo suficiente para ver voc� ser levado � justi�a!</p><p>Perrin deu um tapinha no pesco�o de Galope, tentando acalmar o garanh�o. Precisava daqueles homens.</p><p>��Voc�s querem me levar? Muito bem. Quando isso tudo acabar, quando os Trollocs estiverem derrotados, n�o vou resistir se voc�s tentarem me prender.</p><p>��N�o!���gritaram Ban e Tell, ao mesmo tempo.</p><p>Atr�s deles, ergueu-se um estrondo de protestos. Aram encarou Perrin, perturbado.</p><p>��Uma promessa vazia���retrucou Bornhald, encarando-o com desprezo.���Voc� quer que todo mundo morra aqui, exceto voc� mesmo!</p><p>��E voc� nunca vai saber se fugir, n�o � mesmo?���Perrin assumiu um tom �spero e desdenhoso.���Vou manter a minha promessa, mas, se voc� for embora, pode ser que nunca volte a me encontrar. V�, se quiser! Fuja e tente esquecer o que est� acontecendo aqui! Toda aquela conversa de proteger o povo dos Trollocs� Quantos morreram nas m�os dos Trollocs, depois que voc� chegou? A minha fam�lia n�o foi a primeira, e com certeza n�o ser� a �ltima. Fuja! Ou fique, se for capaz de lembrar que � homem. Se precisar encontrar coragem, olhe s� para essas mulheres, Bornhald. Qualquer uma delas tem mais coragem do que todos voc�s, Mantos-brancos, juntos!</p><p>Bornhald tremia como se cada palavra fosse um golpe. Perrin achou que o homem fosse desabar da sela. Ereto e cambaleante, o Manto-branco o encarou.</p><p>��Eu vou ficar���anunciou, com a voz rouca.</p><p>��Mas, meu Lorde Bornhald����protestou Byar.</p><p>��Uma morte honrada!���rosnou Bornhald.���Se temos que morrer aqui, teremos uma morte honrada!���Ele virou a cabe�a com viol�ncia de volta para Perrin, com saliva nos l�bios.���N�s vamos ficar. Mas, no fim, eu verei voc� morto, Criatura da Sombra! Pela <emphasis>minha</emphasis> fam�lia, pelo <emphasis>meu</emphasis> pai, eu� verei� voc� <emphasis>morto</emphasis>!</p><p>Ele puxou o cavalo bruscamente e retornou a meio-galope at� a fileira de Mantos-brancos. Byar arreganhou os dentes para Perrin, em um rosnado silencioso, antes de seguir seu comandante.</p><p>��Voc� pretende manter essa promessa?���perguntou Aram.���Voc� n�o pode.</p><p>��Preciso ver como est�o todos���comentou Perrin. N�o havia muita chance de que vivesse o bastante para manter a promessa.���N�o temos muito tempo.</p><p>Ele cravou as botas nos flancos de Galope, e o cavalo deu um pinote para a frente, em dire��o ao lado oeste da aldeia.</p><p>Atr�s das estacas pontudas voltadas para a Floresta do Oeste, homens permaneciam agachados com suas lan�as, alabardas e armas de haste confeccionadas por Haral Luhhan, que tamb�m estava l�, com o colete de ferreiro e uma l�mina de foice presa � ponta de uma vara de oito p�s de comprimento. Atr�s deles estavam os homens com arcos, em fileiras entremeadas por quatro catapultas. Abell Cauthon caminhava devagar por entre elas, falando com cada um dos homens.</p><p>Perrin freou as r�deas ao lado de Abell.</p><p>��A not�cia � que eles est�o vindo do norte e do sul���murmurou���mas fique de olho.</p><p>��Vamos vigiar. E estou pronto para mandar metade dos meus homens para onde for preciso. Eles v�o ver que o povo de Dois Rios n�o � presa f�cil.</p><p>O sorriso escancarado de Abell era muito parecido com o do filho.</p><p>Para o constrangimento de Perrin, os homens urraram um comprimento ressonante enquanto ele avan�ava, com os Companheiros e o estandarte logo atr�s.</p><p>��Olhos-Dourados! Olhos-Dourados!���gritavam.</p><p>Volta e meia surgia um �Lorde Perrin!� em meio � algazarra. Sabia que deveria ter batido o p� mais forte no in�cio.</p><p>Tam assumira a lideran�a ao sul, com o rosto mais sombrio que o de Abell, avan�ando quase como um Guardi�o, a m�o apoiada no punho da espada. Aquela gra�a mortal e voraz parecia estranha no fazendeiro corpulento e grisalho. Ainda assim, suas palavras para Perrin n�o foram t�o diferentes das de Abell.</p><p>��N�s de Dois Rios somos muito mais fortes do que a maioria pensa���murmurou.���N�o se preocupe, hoje seremos motivo de muito orgulho.</p><p>Alanna estava parada ao lado de uma das seis catapultas erguidas naquela �rea, toda preocupada com uma grande pedra que era i�ada para dentro de um dos suportes na ponta de uma das vigas robustas. Ihvon parou o cavalo perto dela, com a capa furta-cor de Guardi�o, esguio feito uma l�mina de a�o e alerta como um gavi�o. N�o havia d�vida de que ele escolhera seu lugar���onde quer que Alanna estivesse���e sua luta���preservar a vida dela, independentemente do que acontecesse. O homem mal olhou para Perrin. Mas, quando ele passou, a Aes Sedai fez uma pausa, as m�os suspensas sobre a pedra, os olhos a acompanh�-lo. O rapaz quase p�de senti-la avaliando-o, medindo-o, julgando-o. Os urros tamb�m o acompanhavam ali.</p><p>No ponto onde a cerca de estacas ficava � frente das poucas casas a leste da estalagem Fonte de Vinho, Jon Thane e Samel Crawe dividiam o comando. Perrin disse aos dois o mesmo que dissera a Abell, e recebeu a mesma resposta. Jon, vestido em uma cota de malha com buracos em diversos pontos, vira a fuma�a de seu moinho incendiado, e Samel, com cara de cavalo e nariz comprido, tinha certeza de ter visto a fuma�a de sua fazenda. Nenhum dos dois esperava que o dia fosse f�cil, mas ambos estavam cobertos de um manto r�gido de determina��o.</p><p>Perrin decidiu que sua luta seria no norte. Dedilhando a fita que pendia de uma lapela, espiou na dire��o de Colina da Vig�lia, na dire��o que Faile seguira, e se perguntou por que teria escolhido o lado norte. <emphasis>Voe livre, Faile. Voe livre, meu cora��o.</emphasis> Imaginou que aquela �rea seria t�o apropriada para morrer quanto qualquer outra.</p><p>Bran supostamente assumira a lideran�a daquelas bandas, com seu elmo e colete com discos de metal cerzidos, mas parou de conferir os homens ao longo da cerca para dispensar uma mesura a Perrin, a maior que sua circunfer�ncia corporal permitia. Gaul e Chiad permaneciam a postos, as cabe�as envoltas nas <emphasis>shoufas,</emphasis> os rostos encobertos at� os olhos por detr�s dos v�us negros. Lado a lado, percebeu Perrin. Fosse l� o que tivesse se passado entre os dois, parecia se sobrepor � rixa de sangue dos cl�s. Loial portava um par de machados de madeira, pequenos se comparados �s suas m�os imensas. As orelhas peludas se inclinavam para a frente, cheias de f�ria, e o rosto largo estava fechado.</p><p><emphasis>Voc� acha que eu fugiria?</emphasis>, perguntara ele, quando Perrin sugerira que o Ogier poderia escapulir no meio da noite atr�s de Faile. As orelhas haviam ca�do, cheias de pesar e cansa�o. <emphasis>Eu vim com voc�, Perrin, e vou ficar at� voc� ir embora.</emphasis> Ent�o soltara uma risada repentina, um som grave e retumbante que quase sacudira as lou�as. <emphasis>Talvez algu�m at� conte uma hist�ria a meu respeito, um dia. N�o � frequente acontecer com meu povo, mas acho que pode haver um her�i Ogier. Uma piada, Perrin! Eu fiz uma piada! Ria! Venha, vamos contar umas piadas, rir um pouco e pensar em Faile voando livre.</emphasis></p><p>��N�o � piada, Loial���murmurou Perrin, enquanto cavalgava entre as fileiras de homens, tentando n�o escutar a algazarra.���Voc� � um her�i, queira ou n�o.</p><p>O Ogier abriu um sorriso largo e tenso antes de deitar os olhos outra vez no ch�o limpo em frente � cerca. Peda�os de pau rajados de branco marcavam intervalos de cem a quinhentas passadas. Para al�m disso, havia campos forrados de tabaco e cevada, a maioria esmagada por ataques anteriores, al�m de sebes, cercas baixas de pedra e bosques de folhas-de-couro, pinheiros e carvalhos.</p><p>Perrin conhecia muitos rostos naquelas fileiras de homens � espera. O corpulento Eward Candwin junto de Paet al�Caar, de queixo-quadrado, erguendo lan�as. Buel Dowtry, o flecheiro grisalho, estava ao lado dos arqueiros, claro. E Jac al�Seen, forte e grisalho, estava junto com seu primo careca, Wit. Tamb�m tinha Flann Lewin, um senhor enrugado, um varapau magricela como todos os homens de sua fam�lia. Jim Torfinn e Hu Marwin, dois dos primeiros a acompanh�-lo, estavam muito constrangidos para se juntar aos Companheiros. Como se a falha em detectar a emboscada na Floresta das �guas tivesse aberto uma esp�cie de abismo entre eles e os outros. Elam Dowtry, Dav Ayellin e Ewin Finngar tamb�m estavam l�. Assim como Hari Coplin e seu irm�o, Darl, al�m do velho Bili Congar. Perrin tamb�m viu Berin Thane, o irm�o do moleiro; Athan Dearn, o gordo; Kevrim al�Azar, cujos netos j� tinham filhos crescidos; Tuck Padwhin, o carpinteiro; e�</p><p>Ele se obrigou a parar de enumerar os homens e cavalgou at� onde estava Verin, ao lado de uma das catapultas, sob o olhar atento de Tomas, montado no garanh�o cinzento. A Aes Sedai roli�a, vestida de marrom, analisou Aram por um instante antes de voltar o olhar a Perrin. Parecia uma ave de rapina, com uma sobrancelha erguida, como se questionasse por que ele viera incomod�-la.</p><p>��Estou um pouco surpreso em ver voc� e Alanna ainda aqui���comentou Perrin.���Ir atr�s de garotas capazes de aprender a canalizar n�o pode ser algo pelo qual valha a pena acabar morrendo. Nem se prender a um <emphasis>ta�veren</emphasis>.</p><p>��� isso que estamos fazendo?���Ela apoiou as m�os na cintura e inclinou a cabe�a para o lado, pensativa.���N�o���disse, por fim���acho que ainda n�o d� para irmos embora. Voc� � um estudo muito interessante. Tanto quanto Rand, a seu pr�prio modo. E o jovem Mat. Se eu pudesse me dividir em tr�s, ficaria colada a cada um e acompanharia cada momento, dia e noite, mesmo que tivesse de me casar com voc�s.</p><p>��Eu j� tenho uma esposa.���Era estranho dizer aquilo. Estranho e bom. Tinha uma esposa, e ela estava em seguran�a.</p><p>Verin despeda�ou o devaneio de Perrin.</p><p>��Verdade, tem mesmo. Mas n�o sabe o que significa se casar com Zarine Bashere, n�o �?���Ela estendeu o bra�o para virar o machado dele, preso ao cinto, e analis�-lo.���Quando vai trocar isso aqui pelo martelo?</p><p>Encarando a Aes Sedai, Perrin puxou a r�dea de Galope, para afast�-lo um passo, e puxou o machado das m�os da mulher antes que percebesse o que fazia. <emphasis>O que</emphasis> se casar com Faile significava? Largar o machado? O que ela queria dizer? O que ela sabia?</p><p>��ISAM!���O urro gutural se ergueu como um trov�o. Trollocs surgiram, cada um com metade a mais da altura de um homem e o dobro da largura, trotando pelos campos e parando al�m do alcance de uma flechada. Era uma massa imensa, protegida por malha negra, espalhando-se por toda a extens�o da aldeia. Havia milhares agrupados, as caras imensas distorcidas por bicos e focinhos, as cabe�as com chifres ou cristas emplumadas. Tinham pregos nos ombros e cotovelos, espadas curvas feito foices e machados com ponteiras, lan�as retorcidas e tridentes farpados, um verdadeiro mar de armas letais. Atr�s deles, Myrddraal galopavam para cima e para baixo em cavalos negros como a meia-noite, as capas negras feito corvos, im�veis enquanto seus donos rodopiavam em cima das montarias.</p><p>��ISAM!</p><p>��Interessante���murmurou Verin.</p><p>Perrin n�o achou que fosse a palavra certa para descrever a cena. Era a primeira vez que os Trollocs gritavam qualquer coisa compreens�vel. N�o que ele tivesse a mais vaga ideia do significado.</p><p>Alisando a faixa nupcial, for�ou-se a cavalgar com calma at� o centro da fileira de Dois Rios. Os Companheiros entraram em forma��o atr�s dele. A brisa erguia o estandarte com a cabe�a vermelha de lobo. Aram empunhava a espada com as duas m�os.</p><p>��A postos!���gritou Perrin. Sua voz saiu firme, ele n�o p�de acreditar.</p><p>��ISAM!</p><p>A onda negra avan�ou, emitindo uivos incompreens�veis.</p><p>Faile estava em seguran�a. Nada mais importava. N�o se permitiria ver os rostos dos homens que se alinhavam de cada lado. Ouviu os mesmos urros vindos do sul. De duas dire��es ao mesmo tempo. Os inimigos nunca tinham tentado isso. Faile estava a salvo.</p><p>��A quatrocentas passadas�!���Em todas as fileiras, os arcos se ergueram de uma s� vez. A massa urrante se aproximou ainda mais, as pernas compridas e grossas devorando o ch�o. Mais perto.���Disparar!</p><p>O estr�pito das cordas dos arcos se perdeu em meio ao rugido dos Trollocs, mas uma chuva de flechas de penas de ganso varou o c�u, caindo em arco em dire��o � horda de malhas negras. Pedras das catapultas estouraram em bolas chamejantes e fragmentos pontiagudos em cima das fileiras que fervilhavam com as Criaturas das Trevas. Trollocs desabaram. Perrin os viu caindo, esmagados em meio a botas e cascos. At� alguns Myrddraal ca�ram. Ainda assim, a onda continuava avan�ando, fechando os buracos e v�os, sem parecer ter qualquer baixa.</p><p>N�o foi necess�rio ordenar outra saraivada. Uma segunda se seguiu � primeira com tanta rapidez quanto os homens conseguiram encaixar as flechas nos arcos, uma nova chuva de pontas largas se erguendo antes que a primeira tivesse ca�do, a terceira vindo logo em seguida, a quarta, a quinta. O fogo irrompia por entre os Trollocs com tanta rapidez quanto era poss�vel baixar os bra�os das catapultas. Verin galopava de uma a outra, inclinada na sela. Mas as imensas silhuetas urrantes avan�avam, gritando em uma l�ngua que Perrin era incapaz de compreender, mas sabia que gritavam por sangue, sangue e carne humanos. Os homens agachados atr�s das estacas se aprontaram, erguendo as armas.</p><p>Perrin sentiu um calafrio. J� via o solo atr�s da avan�ada dos Trollocs tomado pelos mortos e moribundos, mas o n�mero de criaturas parecia n�o diminuir. Galope empinava, nervoso, mas Perrin n�o conseguia ouvir o relincho do garanh�o por conta dos urros dos Trollocs em disparada. O machado veio para sua m�o com suavidade, a l�mina comprida em meia-lua e a ponteira grossa reluzindo � luz do sol. Ainda n�o era nem meio-dia. <emphasis>Meu cora��o � para sempre seu, Faile.</emphasis> Desta vez, ele n�o achou que as estacas fossem�</p><p>Sem sequer reduzir a marcha, a fileira dianteira de Trollocs partiu para cima das estacas afiadas, as caras deformadas pelos focinhos e bicos se contorcendo com guinchos e uivos quando os corpos eram espetados. As criaturas foram sendo derrubadas por outras, ainda mais imensas, que se amontoavam por detr�s delas, ca�am por cima das estacas e iam sendo substitu�das por mais, sempre mais. Uma �ltima saraivada de flechas foi disparada, quase � queima-roupa. Em seguida veio a investida com lan�as, alabardas e armas de haste caseiras, que eram enfiadas e cravadas nos imensos corpos cobertos de malha negra. Os Trollocs iam desabando enquanto os arqueiros atiravam como podiam nas caras inumanas, uns por cima dos outros. At� os garotos em cima dos telhados disparavam flechas. Loucura, morte, urros, gritos e uivos ensurdecedores se espalhavam. Lenta e inexoravelmente, a coluna de Dois Rios foi sendo empurrada. Se os Trollocs, em qualquer um dos pontos�</p><p>��Recuem!���gritou Perrin.</p><p>Um Trolloc com focinho de javali, j� sangrando, for�ou passagem por entre as fileiras de homens, guinchando e golpeando com a espada grossa e curva. O machado de Perrin acertou seu focinho, dividindo a cabe�a ao meio. Galope tentava recuar, dando berros inaud�veis em meio ao estrondo.</p><p>��Recuem!</p><p>Darl Coplin caiu, agarrado � coxa perfurada por uma lan�a da grossura de um punho. O velho Bili Congar tentou arrast�-lo para tr�s enquanto manejava uma lan�a de javali com dificuldade. Hari Coplin balan�ava a alabarda para defender o irm�o, a boca escancarada no que parecia um grito sem som.</p><p>��Recuem para as casas!</p><p>N�o soube ao certo se outros ouviram a ordem e passaram adiante ou se a montanha opressora de Trollocs pressionou ainda mais, mas, bem devagar, um passo relutante de cada vez, os humanos foram recuando. Loial balan�ava os machados ensanguentados feito malhos, a imensa boca contorcida em um rosnado. Ao lado do Ogier, Bran golpeava com sua lan�a. O homem tinha um ar sombrio: perdera o elmo tosco, e sangue escorria da franja de cabelos grisalhos. De cima do garanh�o, Tomas abriu um espa�o em volta de Verin. A Aes Sedai, com os cabelos despenteados feito uma louca, perdera o cavalo, mas bolas de fogo sa�am de suas m�os, e cada Trolloc atingido explodia em chamas como se estivesse embebido em �leo. N�o era suficiente para se defender. Os homens de Dois Rios recuavam aos poucos, acotovelando-se ao redor de Galope. Gaul e Chiad lutavam de costas um para o outro. A Donzela empunhava apenas uma lan�a, enquanto o C�o de Pedra golpeava e cortava com a faca pesada. Recuar. A leste e oeste, os homens haviam sa�do das linhas de defesa para evitar que os Trollocs os flanqueassem, mas continuavam disparando flechas. N�o era suficiente. Recuar.</p><p>De s�bito, uma silhueta com chifres de carneiro come�ou a tentar puxar Perrin para fora da sela, a tentar montar atr�s dele. Debatendo-se, Galope desabou com o peso dos dois. Com a perna presa embaixo da montaria, quase a ponto de quebrar, morrendo de dor, Perrin fez esfor�o para puxar o machado, para afastar da garganta aquelas m�os maiores que as de um Ogier. O Trolloc gritou quando a espada de Aram foi cravada em seu pesco�o. O latoeiro deu um giro suave e acertou outro Trolloc, bem no meio do corpo, ao mesmo tempo em que a primeira criatura desabava ao lado de Perrin, jorrando sangue.</p><p>Grunhindo de dor, Perrin sacudiu as pernas para se libertar, ajudado por Galope, que logo se p�s de p�. No entanto, n�o houve tempo para pensar em montar outra vez. Perrin mal conseguira girar o corpo quando os cascos de um cavalo negro pisotearam o local onde sua cabe�a estivera apenas segundos antes. P�lido, o rosto sem olhos contorcido em um rosnado, o Desvanecido se inclinou na sela enquanto Perrin tentava se levantar, brandindo a espada negra feito a morte, a l�mina ro�ando em seus cabelos quando o rapaz caiu. Sem piedade, Perrin balan�ou o machado, arrancando uma das pernas do cavalo da criatura. Cavalo e cavaleiro desabaram para a frente, juntos. Durante a queda, o ferreiro enfiou o machado onde deveriam ficar os olhos, no rosto do Meio-homem.</p><p>Perrin soltou o machado com um pux�o a tempo de ver as pontas do ancinho de Daise Congar acertarem a garganta de um Trolloc com focinho de bode. A criatura agarrou o cabo longo com uma das m�os e partiu para cima da mulher com uma lan�a farpada na outra, mas Marin al�Vere interrompeu o golpe, muito tranquila, com uma investida do cutelo. A perna do Trolloc cedeu, e, com a mesma frieza, a mulher retalhou a espinha da Criatura das Trevas bem na base do pesco�o. Outro Trolloc ergueu Bo Cauthon no ar, pela tran�a. Com a boca escancarada em um grito apavorado, a jovem cravou o machado de lenha no ombro da criatura, protegido pela malha, enquanto sua irm�, Eldrin, enfiava a lan�a de javali no peito da criatura, e Neysa Ayellin, de tran�as grisalhas, fazia o mesmo com uma faca grossa de a�ougueiro.</p><p>De um extremo a outro da fileira, at� onde Perrin podia ver, as mulheres estavam presentes. Era gra�as a elas que a fileira ainda resistia, recuada quase at� o meio das casas. Mulheres entre homens, ombro a ombro. Algumas ainda era garotas, mas, por outro lado, alguns daqueles �homens� tamb�m nunca sequer tinham feito a barba. Alguns jamais viriam a fazer. Onde estavam os Mantos-brancos? <emphasis>As crian�as!</emphasis> Se as mulheres estavam ali, n�o havia ningu�m para proteger as crian�as. <emphasis>Onde est�o os malditos Mantos-brancos?</emphasis> Se chegassem naquele instante, eles pelo menos conseguiriam mais alguns minutos. Uns poucos minutos para remover as crian�as.</p><p>Um garoto, o mesmo mensageiro de cabelinhos escuros que viera at� ele na noite anterior, agarrou seu bra�o quando Perrin se virou para procurar os Companheiros. Os Companheiros precisavam abrir caminho para remover as crian�as. Ele os enviaria para cuidar das crian�as e faria o poss�vel por ali.</p><p>��Lorde Perrin!���gritou o garoto, em meio ao barulho ensurdecedor.���Lorde Perrin!</p><p>Perrin tentou se desvencilhar, depois agarrou o bra�o do garoto esperneante. O lugar dele era com as outras crian�as. Divididos em fileiras espremidas que se estendiam de casa a casa, Ban, Tell e os outros Companheiros atiravam, de cima das selas, por sobre as cabe�as dos homens e mulheres. Wil enfiara o mastro do estandarte no ch�o para poder manejar o arco. Tell conseguira dar um jeito de alcan�ar Galope, e as r�deas do castanho estavam amarradas �s de seu cavalo. O garoto poderia ir na traseira do animal.</p><p>��Lorde Perrin! Por favor, escute! Mestre al�Thor disse que tem algu�m atacando os Trollocs! Lorde Perrin!</p><p>Perrin estava se virando para Tell, mancando da perna ferida, quando a mensagem chegou a seu c�rebro. Enfiou o cabo do machado no cinto para erguer o garoto pelos ombros e ficar frente a frente com ele.</p><p>��Atacando? Quem?</p><p>��Eu n�o sei, Lorde Perrin. Mestre al�Thor mandou dizer ao senhor que ele achou que tinha ouvido algu�m gritar �Trilha de Deven�.</p><p>Aram agarrou o bra�o de Perrin e, sem dizer uma palavra, apontou com a espada ensanguentada. Perrin virou-se a tempo de ver uma chuva de flechas cair em cima dos Trollocs. Vinda do norte. Outra saraivada j� se erguia rumo ao ponto mais alto da trajet�ria em arco.</p><p>��V� ficar com as outras crian�as���mandou, recolocando o garoto no ch�o. Precisava se posicionar onde conseguisse ver.���V�! Voc� fez muito bem, garoto!���acrescentou, enquanto corria desajeitado at� Galope.</p><p>O garotinho disparou de volta para a aldeia, com um sorriso enorme no rosto. Cada passo gerava mais uma pontada de dor que subia pela perna de Perrin. Talvez <emphasis>estivesse</emphasis> quebrada, mas ele n�o tinha tempo de se preocupar com isso.</p><p>Agarrando as r�deas que Tell atirou, alavancou o pr�prio corpo at� a sela. Ent�o se perguntou se estava vendo o que queria ver, em vez do que de fato estava acontecendo.</p><p>Sob um estandarte de �guia vermelha, no limite de onde antes ficavam as planta��es, compridas fileiras de homens vestidos em roupas de fazendeiros disparavam flechas metodicamente. Ao lado do estandarte, Faile estava sentada sobre a sela de Andorinha, com Bain junto ao estribo. S� podia ser Bain por detr�s daquele v�u negro, e dava para ver muito bem o rosto de Faile. A mulher estava empolgada, receosa, aterrorizada e exuberante. Estava linda.</p><p>Myrddraal tentavam fazer alguns Trollocs se virarem para liderar uma investida contra os homens de Colina da Vig�lia, mas era in�til. At� os Trollocs que se viravam ca�am antes de avan�ar cinquenta passos. Um Desvanecido e seu cavalo desabaram, abatidos n�o pelas flechas, mas pelas m�os e lan�as dos Trollocs em p�nico. Agora eram as Criaturas das Sombras que recuavam, correndo em frenesi, fugindo dos disparos de ambos os lados que come�aram depois que os homens de Campo de Emond tamb�m conseguiram erguer os arcos. Trollocs ca�am, Myrddraal tombavam. Era uma carnificina, mas Perrin nem reparava. Faile.</p><p>O mesmo garoto apareceu em seu estribo.</p><p>��Lorde Perrin!���gritou ele. Tentava ser ouvido por sobre os gritos de vit�ria, homens e mulheres comemorando a alegria e o al�vio ao verem os �ltimos Trollocs desabarem, atingidos pelos arcos. Perrin acreditava que poucos tinham conseguido escapar, mas mal conseguia pensar. Faile. O garoto puxou uma perna de sua cal�a.���Lorde Perrin! Mestre al�Thor mandou dizer ao senhor que os Trollocs est�o perdendo! E eles <emphasis>est�o mesmo</emphasis> gritando �Trilha de Deven�! Os homens, quer dizer. Eu ouvi!</p><p>Perrin se inclinou para afagar os cabelos cacheados do menino.</p><p>��Qual � o seu nome, rapaz?</p><p>��Jaim Aybara, Lorde Perrin. Sou seu primo, eu acho. Mais ou menos.</p><p>Perrin estreitou os olhos para evitar as l�grimas. Quando os abriu de novo, suas m�os ainda tremiam por sobre a cabe�a do garoto.</p><p>��Bem, primo Jaim, conte aos seus filhos o que aconteceu aqui hoje. Conte aos seus netos e aos filhos dos seus netos.</p><p>��Eu n�o vou ter filhos���retrucou Jaim, com vigor.���As garotas s�o horrorosas. Elas riem da gente e n�o gostam de fazer nada de bom, e nunca d� para entender o que elas est�o dizendo.</p><p>��Acho que um dia voc� vai descobrir que elas s�o o oposto de horrorosas. Algumas coisas n�o v�o mudar, mas isso vai.</p><p>Faile.</p><p>Jaim estava meio desconfiado, mas logo um sorriso iluminou seu rosto.</p><p>��Espere s� at� eu contar a Had que o Lorde Perrin me chamou de primo!���E saiu saltitante para contar a Had, que tamb�m teria filhos, e a todos os garotos que um dia tamb�m teriam filhos.</p><p>O sol estava a pino. Uma hora se passara, talvez. Tudo aquilo levara menos de uma hora. Parecia uma eternidade.</p><p>Galope avan�ou, e Perrin notou que provavelmente cravara os calcanhares no animal. O povo em polvorosa abriu espa�o para o garanh�o, mas Perrin mal ouvia seus gritos de alegria. Havia imensos buracos onde os Trollocs tinham destru�do as estacas com o mero peso de seus numerosos corpos. Ele passou por um desses buracos e contornou um montinho de Trollocs mortos sem nem perceber. Trollocs mortos cravados de flechas formavam um tapete no ch�o, e aqui e ali um Desvanecido todo espetado se debatia violentamente. Mas ele n�o viu nada daquilo. S� tinha olhos para uma coisa. Faile.</p><p>A mulher disparou por entre os homens de Colina da Vig�lia, fez uma pausa para pedir a Bain que n�o a seguisse e avan�ou cavalgando ao encontro dele. Vinha t�o graciosa, como se a �gua negra fosse parte de seu corpo, empertigada e esbelta, conduzindo Andorinha mais com os joelhos do que com as r�deas, que estavam presas displicentemente a uma das m�os. A faixa nupcial vermelha ainda estava tran�ada em seus cabelos, as pontas ca�das por sobre os ombros. Perrin precisava encontrar umas flores para ela.</p><p>Por um instante, aqueles olhos obl�quos o analisaram, e a boca� Ela n�o poderia estar insegura, poderia? Mas ele sentiu o cheiro.</p><p>��Eu falei que iria���disse ela, por fim, de cabe�a erguida. Andorinha dan�ou para os lados, o pesco�o arqueado, e Faile dominou a �gua sem nem perceber.���N�o falei para onde. Voc� n�o pode dizer que eu falei para onde.</p><p>Perrin n�o conseguiu responder. Faile era t�o bonita. S� queria olhar para ela, v�-la, linda, viva e a seu lado. Ela cheirava a suor limpo com o mais leve sab�o herb�reo. O rapaz n�o sabia ao certo se queria rir ou chorar. Talvez as duas coisas. Queria sugar todo o aroma de Faile para dentro de seus pulm�es.</p><p>De cenho franzido, a mulher prosseguiu:</p><p>��Eles estavam preparados, Perrin. Estavam mesmo, de verdade. Eu quase n�o precisei dizer nada para convenc�-los a vir. Os Trollocs nem chegaram a incomod�-los, mas eles viram a fuma�a. A viagem foi dura para mim e Bain. Chegamos a Colina da Vig�lia bem antes de o dia raiar e come�amos a voltar assim que o sol nasceu.���O cenho franzido de Faile se abriu em um sorriso largo, cheio de orgulho e ansiedade. Que sorriso mais lindo. Os olhos escuros cintilavam.���Eles me seguiram, Perrin. Eles me seguiram! Nem Tenobia liderou homens em batalha. Ela quis, uma vez, quando eu tinha oito anos, mas meu pai conversou com ela a s�s, em seus aposentos, e, quando ele partiu para a Praga, ela acabou ficando.���Com um sorriso pesaroso, a jovem acrescentou:���Acho que voc� e ele �s vezes usam os mesmos m�todos. Tenobia o baniu, mas ela s� tinha s� dezesseis anos, e o Conselho de Lordes conseguiu convenc�-la a mudar de ideia depois de umas semanas. Ela vai ficar azul de inveja quando eu contar isso.���Faile fez outra pausa, desta vez respirando fundo e plantando uma m�o na cintura.���Voc� n�o vai dizer nada?���inquiriu, impaciente.���S� vai ficar a� sentado, feito um palerma peludo? Eu n�o disse que sairia de Dois Rios. Voc� disse isso, n�o eu. Voc� n�o tem o direito de ficar bravo comigo porque eu n�o fiz uma coisa que nunca cheguei a prometer! E voc� me mandou embora porque pensou que iria morrer! Eu voltei para�</p><p>��Eu te amo.���Foi tudo o que ele conseguiu dizer, mas, estranhamente, pareceu o bastante.</p><p>As palavras mal haviam acabado de sair da boca de Perrin quando Faile conduziu Andorinha para bem perto dele, abra�ou-o e apertou o rosto contra seu peito. A mulher parecia estar tentando dividi-lo em dois com o aperto. Ele acariciou os cabelos da esposa delicadamente, sentindo a maciez, apenas sentindo Faile.</p><p>��Eu estava com tanto medo de ser tarde demais���comentou ela, com o rosto enfiado no casaco de Perrin.���Os homens de Colina da Vig�lia marcharam o mais depressa que puderam, mas, quando a gente chegou, eu vi os Trollocs lutando bem no meio das casas, tantos deles, como se a aldeia estivesse sendo soterrada por uma avalanche. E n�o consegui ver vocꅠ��Ela inspirou, tr�mula, e exalou devagar. Quando voltou a falar, a voz estava mais calma. Um pouco.���Os homens de Trilha de Deven vieram?</p><p>Ele levou um susto, e sua m�o parou de alisar os cabelos de Faile.</p><p>��Vieram, sim. Como � que voc� sabia? Voc� organizou isso tamb�m?���Ela come�ou a tremer; Perrin levou um instante para perceber que ela estava rindo.</p><p>��N�o, meu cora��o, mas teria feito isso, se pudesse. Quando aquele homem passou o recado� �estamos vindo�� eu achei� torci para que fosse isso o que ele estivesse querendo dizer.���Ela afastou um pouco o rosto e o encarou, muito s�ria.���Eu n�o podia contar a voc�, Perrin. N�o podia encher voc� de esperan�as, quando tudo o que tinha era uma suspeita. Teria sido muito cruel se� N�o fique com raiva de mim, Perrin.</p><p>Rindo, ele a ergueu da sela e sentou-a de lado em cima de Galope. Faile protestou, gargalhando, e se esticou em cima do cepilho alto para abra��-lo.</p><p>��Eu nunca, jamais, vou ficar com raiva de voc�, eu ju�</p><p>Ela p�s a m�o sobre a boca de Perrin, para interromp�-lo.</p><p>��Minha m�e diz que a pior coisa que meu pai fez na vida foi jurar nunca sentir raiva dela. Levou um ano para ela conseguir obrig�-lo a retirar o que tinha dito, mas diz que muito antes disso j� era insuport�vel conviver com ele, de tanto ressentimento que ele guardava. Voc� <emphasis>vai</emphasis> sentir raiva de mim, Perrin, e eu de voc�. Se quiser me fazer outra jura de casamento, jure que n�o vai tentar disfar�ar a raiva que estiver sentindo. Eu n�o tenho como enfrentar as coisas que voc� esconder de mim, meu marido. Meu marido���repetiu ela, com satisfa��o, aconchegando-se nele.���Gosto muito de dizer isso.</p><p>Perrin notou que Faile n�o prometera que <emphasis>ela pr�pria</emphasis> n�o esconderia a raiva. Segundo as experi�ncias anteriores, ele teria de descobrir a irrita��o da esposa da pior maneira, pelo menos na metade das vezes. Al�m do mais, a mulher tamb�m n�o prometera n�o esconder mais nada dele. Naquele momento, nada disso importava, contanto que Faile estivesse ao seu lado.</p><p>��Eu n�o vou esconder de voc� quando estiver com raiva, minha esposa���prometeu o rapaz.</p><p>Faile o olhou de soslaio, como se n�o soubesse ao certo como receber a promessa. <emphasis>Voc� nunca vai conseguir entend�-las, primo Jaim, mas n�o vai nem ligar.</emphasis></p><p>De s�bito, ele se deu conta dos Trollocs mortos ao redor, um campo negro de ervas daninhas, com os Myrddraal se debatendo, ainda se recusando a finalmente morrer. Girou Galope, receoso. A extens�o da carnificina de Criaturas da Sombra ocupava centenas de passadas, em todas as dire��es. Os corvos j� chegavam, pulando pelo ch�o, e os abutres revoavam logo acima, em uma nuvem gigantesca e fervilhante. N�o era pagamento suficiente para a morte de Deselle, de Adora, do pequeno Paet, ou� N�o era suficiente, nunca seria. Nada jamais poderia pagar aquilo. Ele abra�ou Faile com tanta for�a que a mulher grunhiu, mas, quando tentou solt�-la, ela segurou seus bra�os, apertando-os com a mesma for�a. Faile era suficiente.</p><p>O povo sa�a correndo de Campo de Emond. Bran mancava, usando a lan�a como cajado, Marin sorria, com um bra�o em volta dele. Daise era abra�ada pelo marido, Wit. Gaul e Chiad estavam de m�os dadas, com os v�us baixados. As orelhas de Loial estavam ca�das, abatidas, Tam tinha sangue no rosto, e Flann Lewin s� se mantinha de p� com ajuda da esposa, Adine. Quase todos estavam cobertos de sangue e usavam ataduras feitas �s pressas. No entanto, a multid�o avan�ava. Elam e Dav, Ewin e Aram, Eward Candwin e Buel Dowtry, Hu e Tad, os cavalari�os da estalagem Fonte de Vinho, Ban e Tell, junto com os Companheiros a cavalo, ainda carregando aquele estandarte. Desta vez, Perrin n�o notou os rostos que faltavam, apenas os que ainda estavam ali. Verin e Alanna em seus cavalos, com Tomas e Ihvon seguindo logo atr�s. O velho Bili Congar balan�ava uma moringa que decerto continha cerveja, ou, melhor ainda, conhaque. Cenn Buie resmungava mais do que nunca, mesmo machucado. Jac al�Seen abra�ava a esposa, e seus filhos e filhas seguiam ao redor dele, com as esposas e maridos. Rael e Ila ainda levavam os beb�s nas costas. E outros. Rostos que ele sequer reconhecia, homens que deviam ser de Trilha de Deven e fazendeiros que moravam perto de l�. Meninos e meninas corriam � volta deles, gargalhando.</p><p>Eles se espalharam para os dois lados, formando um enorme c�rculo oco com os homens de Colina da Vig�lia, Faile e Perrin no centro. A multid�o evitava os Desvanecidos agonizantes, mas era como se n�o vissem as Criaturas da Sombra ca�das por todos os cantos, apenas o casal em cima de Galope. Em sil�ncio, ficaram observando at� Perrin come�ar a ficar nervoso. <emphasis>Por que ningu�m diz nada? Por que est�o me encarando desse jeito?</emphasis></p><p>Os Mantos-brancos apareceram, cavalgando devagar para fora da aldeia em fileiras de parelhas, extensas e reluzentes. Dain Bornhald vinha na lideran�a, com Jaret Byar. Cada Manto-branco brilhava como se tivesse acabado de se lavar, e cada lan�a estava apontada precisamente para o mesmo �ngulo. Murm�rios taciturnos se ergueram pela multid�o, mas o povo se afastou para que eles adentrassem o c�rculo.</p><p>Bornhald ergueu a m�o protegida pela manopla de a�o, parando a fileira em um tinido de r�deas e rangidos de selas, e encarou Perrin.</p><p>��Acabou, Critura da Sombra.���A boca de Byar estremecia quase a ponto de se abrir em um rosnado, mas o rosto de Bornhald n�o se alterava, a voz n�o se elevava.���Os Trollocs foram derrotados, por aqui. Conforme combinamos, prenderei voc� como Amigo das Trevas e assassino.</p><p>��N�o!���Faile se virou para encarar Perrin, os olhos cheios de f�ria.���Como assim �conforme <emphasis>combinamos�</emphasis>?</p><p>Suas palavras quase foram abafadas pelo estrondo que veio de todos os cantos.</p><p>��N�o! N�o!</p><p>��Voc�s n�o podem lev�-lo!</p><p>��Olhos-Dourados!</p><p>Com o olhar fixo em Bornhald, Perrin ergueu uma das m�os, e o sil�ncio lentamente se abateu sobre a multid�o. Quando tudo se aquietou, ele disse:</p><p>��Eu falei que n�o resistiria se voc�s ajudassem.���A calma em sua voz era surpreendente, mas por dentro ele fervilhava com uma raiva lenta e fria.���Se voc�s <emphasis>ajudassem</emphasis>, Manto-branco. Onde voc�s estavam?</p><p>O homem n�o respondeu.</p><p>Daise Congar e Wit sa�ram do meio da multid�o que os rodeava, o homem se apoiava na esposa como se nunca mais pretendesse solt�-la. E o bra�o robusto de Daise envolvia os ombros do marido com a mesma intensidade. Foi uma cena estranha quando ela, uma cabe�a mais alta do que o homem, plantou o ancinho-arma com firmeza no ch�o, segurando o marido, consideravelmente mais baixo, como se pretendesse proteg�-lo.</p><p>��Eles ficaram no campo���anunciou a mulher, em voz alta���todos enfileirados e sentadinhos nos cavalos, feito belas mocinhas prontas para dan�ar no Dia do Sol. Nem se mexeram. Foi isso o que nos fez ir at� voc�s����um murm�rio furioso de concord�ncia se elevou, vindo das mulheres���Quando vimos que estavam a ponto de serem esmagados, e eles continuavam ali, parados, feito blocos de madeira!</p><p>Bornhald n�o tirou os olhos de Perrin nem por um instante. O homem sequer piscava.</p><p>��Voc� acha que eu confiaria em voc�?���indagou ele, com desprezo.���Seu plano s� falhou porque os outros chegaram, sim? A� voc� p�de alegar que n�o teve participa��o nisso.���Faile se remexeu. Sem desviar os olhos do homem, Perrin encostou um dedo na boca da esposa assim que ela a abriu. Faile mordeu o dedo com for�a, mas nada disse. Por fim, a voz de Bornhald come�ou a se elevar.���Eu verei voc� enforcado, Criatura da Sombra. Verei voc� enforcado, custe o que custar. Verei voc� morto, nem que o mundo se queime!���A �ltima frase saiu em um berro.</p><p>A espada de Byar deslizou um tantinho para fora da bainha. Um Manto-branco corpulento atr�s dele, que Perrin pensava se chamar Farran, desembainhou a pr�pria arma por completo, dando um sorriso de satisfa��o, em vez do esgar de dentes desdenhoso de Byar.</p><p>Eles congelaram ao ouvir o clangor das flechas sendo puxadas das aljavas. Arcos se elevaram por todo o c�rculo, flechas foram levadas �s orelhas e cada lan�a de ponta larga foi apontada para um Manto-branco. Por toda a extens�o da coluna robusta, as selas de patilho alto rangeram quando os homens em cima delas se remexeram, receosos. Bornhald n�o demonstrava sinal de medo, tampouco exalava cheiro de medo. Seu odor era todo de �dio. Ele passou os olhos quase febris pelo povo de Dois Rios, ao redor de seus homens, depois voltou a encarar Perrin, com a mesma f�ria e o mesmo rancor.</p><p>Perrin fez um gesto para que o povo baixasse as armas. Relutantes, eles foram afrouxando a tens�o das cordas, baixando os arcos devagar.</p><p>��Voc�s n�o ajudaram.���Sua voz era fria como a�o e dura feito uma bigorna.���Desde que chegaram a Dois Rios, a ajuda que forneceram foi quase insignificante. Nunca se importaram de verdade com as pessoas incendiadas e mortas, desde que arrumassem algu�m para chamar de Amigo das Trevas.���Bornhald estremeceu, mas seus olhos ainda faiscavam.���Est� na hora de voc�s irem embora. N�o s� de Campo de Emond. Est� na hora de recolherem seus Mantos-brancos e sa�rem de Dois Rios. Agora, Bornhald. Voc�s v�o embora agora.</p><p>��Eu <emphasis>ainda verei</emphasis> voc� enforcado���murmurou o comandante dos Filhos da Luz.</p><p>Ele fez um gesto brusco com a m�o, para reunir a fileira, cravou as botas no cavalo e avan�ou, como se pretendesse passar por cima de Perrin.</p><p>Perrin afastou Galope para o lado. Queria aqueles homens fora dali, sem mais matan�a. Se o sujeito quisesse fazer um gesto final de provoca��o, que fosse.</p><p>Bornhald nem virou a cabe�a para olh�-lo, mas Byar, com o rosto encovado, encarou Perrin em sil�ncio, cheio de �dio. Por alguma raz�o, Farran parecia olhar para ele com arrependimento. Os outros mantiveram o olhar fixo � frente ao passar s� se ouvia o barulho das r�deas e o clangor dos cascos dos cavalos. Em sil�ncio, o c�rculo abriu caminho para eles, que rumavam para o norte.</p><p>Logo que o �ltimo Manto-branco passou, um bando de dez ou doze homens aproximou-se de Perrin a p�, alguns vestindo partes desconexas de armaduras, todos com sorrisos ansiosos. Ele n�o reconheceu os rostos. Um sujeito de nariz largo e pele curtida parecia ser o l�der, com os cabelos brancos � mostra, usando uma cota de malha que ia at� os joelhos, mas com a gola de um casaco de fazendeiro aparecendo no pesco�o. O homem se curvou em uma mesura esquisita por cima do arco.</p><p>��Jerinvar Barstere, Lorde Perrin. Jer, � como me chamam.���O homem falava depressa, como se temesse ser interrompido.���Pe�o perd�o por incomodar o senhor. Alguns de n�s decidimos acompanhar a partida dos Mantos-brancos, se o senhor concordar. E muitos querem ir para casa, mesmo n�o tendo como chegar l� entes de escurecer. Tem o mesmo n�mero de Mantos-brancos em Colina da Vig�lia, eles apareceram por l� de novo, mas n�o quiseram vir para c�. Tinham ordens de n�o sair de l�, pelo que disseram. Um bando de idiotas, se o senhor quer saber, e j� estamos cansados de t�-los por perto, metendo o nariz dentro das casas das pessoas e tentando fazer vizinhos se acusarem de alguma maldade. Se o senhor concordar, a gente quer tir�-los de l�.���Ele lan�ou a Faile um olhar constrangido e baixou o queixo largo, mas o fluxo de palavras n�o diminuiu.���Pe�o perd�o, Lady Faile. N�o tive a inten��o de incomodar a senhora e o seu marido. S� queria que ele soubesse que estamos do lado dele. O senhor tem uma bela esposa, Lorde Perrin. Pe�o perd�o outra vez, Lady Faile.���O homem fez outra mesura e logo foi imitado pelos outros. O grupo foi embora sob a lideran�a do homem, que os apressava, resmungando:���N�o temos tempo de ficar incomodando o lorde e sua lady. Ainda temos trabalho a fazer.</p><p>��Quem � ele?���perguntou Perrin, um pouco at�nito com a torrente de palavras. Nem Daise e Cenn juntos eram capazes de falar tanto.���Voc� conhece esse homem, Faile? � de Colina da Vig�lia?</p><p>��Mestre Barstere � o Prefeito de Colina da Vig�lia, e os outros s�o do Conselho da Aldeia. O C�rculo das Mulheres de l� vai enviar uma delega��o designada pela Sabedoria delas, quando tiverem certeza de que � seguro. Para ver se �o tal Lorde Perrin� � o melhor para Dois Rios, pelo que disseram, mas todos queriam que eu explicasse como fazer rever�ncias a voc�. E a Sabedoria, Edelle Gaelin, est� trazendo umas tortas de ma�� desidratada que ela faz.</p><p>��Ah, que me queime!���Perrin soltou um suspiro. Aquela hist�ria estava se espalhando. Sabia que deveria ter impedido tudo logo no in�cio.���N�o me chamem assim! �gritou, para os homens que partiam.���Eu sou um ferreiro! Est�o me ouvindo? Um ferreiro!</p><p>Jer Barstere se virou para acenar para ele e assentir, antes de voltar a apressar os outros.</p><p>Com uma risada divertida, Faile puxou a barba de Perrin.</p><p>��Voc� � um bobinho, Lorde Ferreiro. Agora � tarde para voltar atr�s.���De repente, o sorriso dela adquiriu um tom de profunda mal�cia.���Ali�s, ser� que tem alguma possibilidade de voc� ficar a s�s comigo, dentro em breve? Acho que esse casamento me deixou atrevida que nem as domanesas! Sei que voc� deve estar cansado, mas����Ela parou de falar, deu um gritinho e se agarrou ao casaco de Perrin, que cravou as botas em Galope.</p><p>O cavalo saiu trotando em dire��o � estalagem Fonte de Vinho. Pela primeira vez, as sauda��es que se seguiram n�o o incomodaram nem um pouco.</p><p>��Olhos-Dourados! Lorde Perrin! Olhos-Dourados!</p><empty-line/><p>Do galho robusto de um frondoso carvalho, � margem da Floresta do Oeste, Ordeith encarava Campo de Emond, uma milha ao sul. Era imposs�vel. <emphasis>Flagele-os. Fustigue-os.</emphasis> Tudo estivera de acordo com o plano. At� Isam jogara seu jogo. <emphasis>Por que o idiota parou de trazer Trollocs? Devia ter trazido o suficiente para transformar Dois Rios em um mar negro!</emphasis> Saliva escorria de seus l�bios, mas ele n�o percebia, assim como n�o percebia a m�o se remexendo no cinto. <emphasis>Destrua-os at� explodir seus cora��es! Devaste-os at� o ch�o, aos berros!</emphasis> Tudo planejado para trazer Rand al�Thor at� ele, e acabava assim! Dois Rios n�o sofrera sequer um arranh�o. Umas poucas fazendas incendiadas n�o contavam, nem uns fazendeiros enfiados vivos nos caldeir�es dos Trollocs. <emphasis>Eu quero que Dois Rios</emphasis> queime<emphasis>, queime tanto que o fogo viva na mem�ria dos homens por mil anos!</emphasis></p><p>Ele analisou o estandarte que tremulava por cima da aldeia e o outro, logo abaixo. A cabe�a escarlate de um lobo em um fundo branco de bordas escarlates e uma �guia vermelha. Vermelha, pois era preciso verter o sangue de Dois Rios para fazer Rand al�Thor urrar. E Manetheren. <emphasis>Esse deveria ser o estandarte de Manetheren.</emphasis> Algu�m tinha contado a eles sobre Manetheren, n�o tinha? O que os tolos sabiam a respeito da gl�ria de Manetheren? <emphasis>Manetheren. Isso mesmo.</emphasis> Havia mais de uma maneira de destru�-los. O homem riu t�o intensamente que quase caiu de cima do carvalho, antes de perceber que n�o estava se segurando com as duas m�os. Uma estava agarrada ao cinto, onde deveria haver uma adaga. A gargalhada se transformou em um rosnado quando ele encarou aquela m�o. A Torre Branca estava de posse do que lhe fora roubado. Do que era dele por direito, desde as Guerras dos Trollocs.</p><p>Ele deixou-se cair no ch�o, depois montou sem jeito no cavalo e encarou seus companheiros. Seus sabujos. Os cerca de trinta Mantos-brancos que restavam n�o usavam mais os mantos brancos, naturalmente. As placas e malhas estavam foscas e enferrujadas. Bornhald nunca teria reconhecido os rostos taciturnos, desconfiados, imundos e barbados. Os humanos observavam Ordeith com desconfian�a, por�m cheios de medo, sem nem olhar para o Myrddraal entre eles, com o rosto sem olhos, branco feito um verme, t�o frio e duro quanto os dos pr�prios humanos. O Meio-homem temia que Isam descobrisse o que se passara. Isam n�o ficara nem um pouco satisfeito quando a invas�o a Barca do Taren deixara que tantos escapassem para levar a not�cia do que estava acontecendo em Dois Rios. Ordeith deu uma risadinha ao pensar em Isam incomodado. O homem era problema para outra hora, se ainda estivesse vivo.</p><p>��N�s vamos para Tar Valon���anunciou, de repente. Avan�ariam depressa para chegar antes de Bornhald � barca. O estandarte de Manetheren, erguido outra vez em Dois Rios depois de tantos s�culos. Como a �guia Vermelha o arrasara, tantos anos antes.���Mas, primeiro, Caemlyn!</p><p><emphasis>Flagele-os e fustigue-os!</emphasis> Que Dois Rios pagasse primeiro, depois Rand al�Thor, depois�</p><p>�s gargalhadas, Ordeith galopou para o norte pela floresta, sem olhar para tr�s e conferir se os outros o seguiam. Eles seguiriam. J� n�o tinham para onde ir.</p></section><section><title><p>57</p><p><image l:href="#13"/></p><p>Uma ruptura na Terra da Trindade</p></title><p>O sol liquefeito da tarde torrava o Deserto, projetando sombras ligeiras pelas montanhas do norte, agora logo � frente. Os morros �ridos passavam sob os cascos de Jeade�en, subindo e descendo feito marolas de um oceano de argila seca, com muitas milhas se estendendo ao longe. As montanhas haviam atra�do os olhos de Rand desde a primeira vez em que as avistou. N�o tinham neve por cima, n�o eram t�o altas quanto as Montanhas da N�voa e muito menos a Espinha do Mundo. Ainda assim, as placas denteadas de pedra marrom e cinza, rajadas em algumas partes de amarelo, vermelho ou pontinhos brilhosos, se inclinavam de tal modo que era mais f�cil um sujeito considerar subir a Muralha do Drag�o a p�. Com um suspiro, ele montou na sela e ajustou a <emphasis>shoufa</emphasis> que usava com o casaco vermelho. Alcair Dal ficava naquelas montanhas. Logo haveria uma esp�cie de fim, ou de in�cio. Possivelmente ambos. Logo, talvez.</p><p>Adelin, de cabelos loiros, seguia tranquila � frente do garanh�o sarapintado, e nove outras <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> de pele curtida formavam um c�rculo ao seu redor, todas com broqu�is e lan�as nas m�os, os arcos guardados em estojos presos �s costas e v�us negros balan�ando por cima do peito, prontos para ser erguidos. A guarda de honra de Rand. Os Aiel n�o chamavam assim, mas as Donzelas estavam indo a Alcair Dal pela honra de Rand. Tantas diferen�as, sendo que metade ele sequer chegava a compreender, quando as notava.</p><p>Um bom exemplo era o comportamento de Aviendha com as Donzelas e a forma como era correspondida. Na maior parte do tempo, feito agora, a mulher caminhava junto ao cavalo dele, as m�os cruzadas dentro do xale que envolvia os ombros, os olhos verdes concentrados nas montanhas � frente por baixo do len�o escuro na cabe�a. Ela n�o trocava mais de uma ou duas palavras com as Donzelas, mas o mais estranho n�o era isso: os bra�os cruzados, isso era o principal. As Donzelas sabiam que ela estava usando o bracelete de marfim, mas pareciam fingir n�o notar. Aviendha n�o tirava o objeto do bra�o, mas escondia o pulso sempre que tinha a impress�o de que uma das outras estava olhando.</p><p><emphasis>Voc� n�o tem sociedade</emphasis>, dissera Adelin a Rand, quando ele sugerira que sua escolta fosse fornecida por outras pessoas, n�o as Donzelas da Lan�a. Cada chefe, fosse de cl� ou de ramo, ia acompanhado por homens da sociedade � qual pertencia antes de se tornar chefe. <emphasis>Voc� n�o tem sociedade, mas sua m�e era Donzela</emphasis>. A mulher loura e as outras nove n�o haviam olhado para Aviendha, algumas passadas distante do sal�o de entrada do teto de Lian. Elas <emphasis>n�o</emphasis> haviam olhado com aten��o. <emphasis>Por incont�veis anos, mulheres que n�o abriam m�o da lan�a davam seus beb�s para as S�bias, para que elas os entregassem a outras mulheres, sem nem saber para onde a crian�a iria, nem ao menos se era menino ou menina. Agora, o filho de uma Donzela retornou para n�s, e n�s o conhecemos. Iremos a Alcair Dal por sua honra, filho de Shaiel, Donzela do Chumai Taardad.</emphasis> O rosto da mulher estava t�o determinado���os de todas, inclusive o de Aviendha���que ele achou que elas o convidariam para dan�ar a lan�a, caso ele recusasse.</p><p>Depois que ele aceitou, elas o fizeram passar outra vez pelo tal ritual de �Lembre-se da honra�, desta vez com uma bebida chamada <emphasis>oosquai</emphasis>, feita de <emphasis>zemai</emphasis>, e ele bebeu todo o conte�do de uma pequena ta�a de prata com cada uma das mulheres. Dez Donzelas, dez tacinhas. A coisa parecia uma �gua tingida de marrom-claro e at� tinha gosto de �gua, mas era mais forte que conhaque de destila��o dupla. Depois do ritual, Rand mal conseguia caminhar em linha reta, e as mulheres o levaram para a cama, rindo, ainda que ele tivesse protestado o quanto p�de e quase n�o conseguisse respirar, com todas lhe fazendo tantas c�cegas. Todas, exceto Aviendha. N�o que ela tivesse ido embora: a mulher assistiu � cena toda, com a cara dura feito pedra. Quando Adelin e as outras enfim o meteram nos cobertores e sa�ram, Aviendha abriu as saias pesadas e escuras, sentou-se perto da porta e p�s-se a observ�-lo, com o rosto empedernido, at� ele adormecer. Quando Rand acordou, a mulher ainda estava ali, ainda observando. E se recusou a falar sobre Donzelas, <emphasis>oosquai</emphasis> ou qualquer outra coisa. Para ela, nada daquilo tinha acontecido. Mas se as Donzelas teriam sido t�o reticentes em conversar sobre o assunto Rand n�o sabia: como encarar dez mulheres e perguntar por que elas o haviam embebedado e brincado de tirar suas roupas e deit�-lo na cama?</p><p>Tantas diferen�as, t�o poucas com algum sentido que ele fosse capaz de ver, e Rand n�o conseguia saber quais poderiam passar uma rasteira nele e arruinar todos os seus planos. Ainda assim, n�o podia se dar ao luxo de esperar. Olhou para tr�s. O que estava feito, estava feito. <emphasis>E quem pode dizer o que ainda est� por vir?</emphasis></p><p>Bem atr�s, os Taardad o acompanhavam. N�o apenas os Taardad dos Nove Vales e os Jindo, mas tamb�m os Miadi, os Quatro Pedras, os Chumai, os �guas Sangrentas e outros, avan�ando em largas colunas ao redor dos carro��es sacolejantes dos mascates e do grupo das S�bias, duas milhas atr�s, sob o brilho tr�mulo e nebuloso formado pelo calor do solo, rodeado por batedores e mensageiros. A cada manh� mais gente surgira em resposta aos mensageiros que Rhuarc enviara naquele primeiro dia, uma centena de homens e Donzelas ali, trezentos acol�, quinhentos, de acordo com o tamanho de cada ramo e da necessidade de seguran�a de cada forte.</p><p>A dist�ncia, a sul e a oeste, outro grupo se aproximava correndo, deixando um rastro de poeira. Talvez fosse mais um cl� a caminho de Alcair Dal, mas ele achou que n�o. Apenas dois ter�os dos ramos estavam representados, mas Rand estimava que houvesse mais de mil e quinhentos Aiel Taardad enfileirados atr�s dele. Um ex�rcito em marcha, ainda crescendo. Quase um cl� inteiro vindo a uma reuni�o de chefes, uma viola��o de todos os costumes.</p><p>De s�bito, Jeade�en chegou ao topo de uma encosta. Um vale comprido e fundo se estendia abaixo, onde ficava a feira reunida para o encontro. Nas colinas mais adiante, ficavam os acampamentos dos cl�s e chefes de ramo que j� haviam chegado.</p><p>Espalhados por entre duzentas ou trezentas tendas baixas, sem paredes e espa�adas, estendiam-se pavilh�es do mesmo material marrom-acinzentado, altos o bastante para ficar de p� sob eles, com mercadorias expostas � sombra, em cima de cobertores; cer�micas esmaltadas brilhantes, tapetes ainda mais brilhantes e joias de ouro ou de prata. Artefatos Aiel, na maioria, mas tamb�m havia coisas de fora do Deserto, inclusive talvez seda e marfim vindos de bem longe a leste. Ningu�m parecia estar negociando. Os poucos homens e mulheres � vista permaneciam sentados em um ou outro dos pavilh�es, em geral sozinhos.</p><p>Dos cinco acampamentos espalhados nos aclives que rodeavam a feira, quatro pareciam igualmente vazios. Apenas umas poucas d�zias de homens ou Donzelas transitavam por entre as tendas, armadas para cerca de mil pessoas. O quinto acampamento se estendia pelo dobro do espa�o ocupado pelos outros, com centenas de pessoas � vista e provavelmente o mesmo n�mero dentro das tendas.</p><p>Rhuarc veio correndo atr�s de Rand, subindo a encosta com seus dez <emphasis>Aethan Dor</emphasis>, Escudos Vermelhos, seguido por Heirn com dez <emphasis>Tain Shari</emphasis>, Sangues Verdadeiros, e mais uns quarenta chefes de ramo com suas escoltas de honra, todos portando lan�as, broqu�is, arcos e aljavas. Um n�mero formid�vel, maior do que a for�a que tomara a Pedra de Tear. Alguns dos Aiel nos acampamentos e entre os pavilh�es espiavam o topo da encosta. Rand suspeitou que n�o encaravam os Aiel reunidos l� em cima. Olhavam para ele, um homem a cavalo. Algo raro de ver na Terra da Trindade. E ele lhes mostraria outras coisas, antes de terminar.</p><p>Rhuarc pousou o olhar no maior acampamento, onde mais Aiel vestidos em <emphasis>cadin�sor</emphasis> fervilhavam para fora das tendas, todos indo olhar o ponto onde o grupo estava.</p><p>��Shaido, a n�o ser que eu esteja enganado���murmurou Rhuarc.���Couladin. Voc� n�o � o �nico a violar os costumes, Rand al�Thor.</p><p>��Talvez eu tenha feito bem em agir assim.���Rand puxou a <emphasis>shoufa</emphasis> do pesco�o e enfiou-a no bolso do casaco, por cima do <emphasis>angreal</emphasis>, a escultura de um homem de rosto redondo com uma espada sobre os joelhos. O sol come�ou a queimar sua cabe�a descoberta, mostrando o quanto o peda�o de tecido fornecia prote��o.���Se tiv�ssemos vindo de acordo com os costumes����Os Shaido seguiam em dire��o �s montanhas, deixando para tr�s tendas aparentemente vazias e causando certo rebuli�o nos outros acampamentos e na feira. Os Aiel desistiram de encarar um homem a cavalo para espiar os Shaido.���Voc� teria conseguido for�ar caminho at� Alcair Dal tendo eles dois homens ou mais para cada um dos seus, Rhuarc?</p><p>��N�o antes do cair da noite���respondeu o chefe de cl�, pensativo���nem contra os ladr�es dos Shaido. Isso � mais que violar os costumes! At� os Shaido deveriam ser mais honrados que isso!</p><p>Murm�rios irritados de aprova��o se ergueram dos outros Taardad no topo da colina. Exceto das Donzelas. Por alguma raz�o, elas haviam se reunido ao redor de Aviendha, em um cantinho, e conversavam muito s�rias. Rhuarc disse algumas palavras em tom baixo a um de seus Escudos Vermelhos, um sujeito de olhos verdes cujo rosto parecia ter sido usado para bater estacas de cerca no ch�o. O homem se virou para a descida da colina e correu de volta em dire��o aos Taardad que se aproximavam.</p><p>��Voc� esperava por isso?���perguntou Rhuarc a Rand, assim que o Escudo Vermelho foi embora.���Foi por isso que convocou o cl� inteiro?</p><p>��N�o era bem isso que eu esperava, Rhuarc.���Os Shaido come�aram a formar fileiras diante de uma abertura estreita nas montanhas. Estavam subindo os v�us.���Mas n�o havia qualquer outra raz�o para que Couladin escapulisse durante a noite, a n�o ser que estivesse ansioso para estar em outro lugar. E onde mais poderia querer estar do que aqui, me arrumando problemas? Os outros j� est�o em Alcair Dal? Por qu�?</p><p>��A oportunidade apresentada pelo encontro dos chefes n�o � algo a se desperdi�ar, Rand al�Thor. Vai haver debates sobre disputas de fronteiras, direitos de pastagens, uma s�rie de coisas. �gua. Se dois Aiel de cl�s diferentes se encontram, debatem sobre �gua. Tr�s de tr�s cl�s diferentes debatem sobre �gua e pastagens.</p><p>��E quatro?���perguntou Rand.</p><p>J� havia cinco cl�s representados, e, com os Taardad, seis.</p><p>Rhuarc hesitou por um instante, erguendo uma das lan�as curtas sem perceber.</p><p>��Quatro dan�am as lan�as. Mas isso n�o deve acontecer aqui.</p><p>Os Taardad se afastaram para deixar as S�bias prosseguirem, com os xales nas cabe�as. Moiraine, Lan e Egwene cavalgavam atr�s. Egwene e a Aes Sedai usavam aqueles panos brancos em volta das t�mporas, em uma fraca imita��o dos len�os das mulheres Aiel. Mat tamb�m seguia o grupo, isolado, a lan�a de cabo negro atravessada no cepilho. O chap�u de aba larga escondia seu rosto, que analisava o que havia � frente.</p><p>O Guardi�o assentiu para si mesmo ao ver os Shaido.</p><p>��Isso pode gerar confus�o���murmurou. O garanh�o negro girou o olho para o sarapintado de Rand. Foi um movimento breve, mas Lan, atento �s fileiras de Aiel diante do v�o, ainda assim deu um tapinha reconfortante no pesco�o de Mandarb.���Mas n�o agora, eu acho.</p><p>��N�o agora���concordou Rhuarc.</p><p>��Se pelo menos voc� me <emphasis>permitisse</emphasis> ir junto.���Exceto por aquela lev�ssima inflex�o, a voz de Moiraine estava serena como sempre. Uma calma fria estampava suas fei��es et�reas, mas os olhos escuros encaravam Rand como se aquele mero olhar fosse capaz de for��-lo a ceder.</p><p>Os cabelos longos e claros de Amys, ca�dos por baixo do xale, balan�aram quando ela sacudiu a cabe�a com firmeza.</p><p>��Essa decis�o n�o � dele, Aes Sedai. Isso � assunto dos chefes, assunto de homens. Se permitirmos que a senhora v� a Alcair Dal agora, da pr�xima vez que as S�bias ou as senhoras dos tetos se reunirem, algum chefe de cl� vai querer meter o bedelho. Eles acham que a gente se intromete nos assuntos deles, e costumam tentar se intrometer nos nossos.</p><p>A mulher abriu um sorrisinho para Rhuarc, com a inten��o de deixar claro que o coment�rio n�o o inclu�a. A falta de express�o do marido informou a Rand que ele estava pensando o contr�rio.</p><p>Melaine segurou o xale por debaixo do queixo, encarando Rand com o olhar firme. Ainda que n�o concordasse com Moiraine, tamb�m desconfiava do que ele iria fazer. Rand mal havia dormido desde que deixara as Pedras Frias. Se elas tinham invadido os sonhos dele, encontraram apenas pesadelos.</p><p>��Tome cuidado, Rand al� Thor���disse Bair, como se lesse seus pensamentos.���Um homem cansado comete erros. Voc� n�o pode se dar ao luxo de cometer erros, hoje.���Ela puxou o xale por sobre os ombros magros, e sua voz fina assumiu um tom quase irritado.���<emphasis>N�s</emphasis> n�o podemos permitir que voc� cometa erros. Os Aiel n�o podem se dar ao luxo.</p><p>A chegada de mais cavaleiros no topo da encosta atra�ra novos olhares para ele. Entre os pavilh�es, muitas centenas de Aiel, homens em <emphasis>cadin�sor</emphasis> e mulheres de cabelos compridos vestindo saias, blusas e xales, formavam uma multid�o vigilante. A aten��o foi desviada quando o carro��o empoeirado de Kadere surgiu por detr�s do grupo de mulas � direita, com o mascate corpulento de casaco cor de creme no assento do condutor e Isendre toda vestida em seda branca, segurando um guarda-sol do mesmo estilo. O carro��o de Keille vinha atr�s, com Natael manejando as r�deas ao lado dela. A isso se seguiam os carro��es com cobertura de lona e, por fim, os tr�s carro��es de �gua, que mais pareciam imensos barris sobre rodas, puxados pelas parelhas compridas de mulas. O grupo encarou Rand quando os carro��es passaram fazendo barulho, em um rangido de eixos precisando de graxa. Kadere e Isendre, Natael e seu manto de menestrel coberto de retalhos, o corpanzil de Keille envolto em uma indument�ria branca feito a neve, com um xale de renda branca por cima dos pentes de marfim. Rand deu um tapinha no pesco�o arqueado de Jeade�en. Homens e mulheres come�avam a sair da feira, l� embaixo, para encontrar os carro��es que se aproximavam. Os Shaido estavam esperando. Faltava pouco.</p><p>Egwene aproximou a �gua cinzenta de Jeade�en, e o garanh�o sarapintado tentou fossar Bruma, mas acabou levando uma rosnadela em resposta, pelo aborrecimento.</p><p>��Voc� n�o me deu chance de conversarmos desde as Pedras Frias, Rand.���O rapaz n�o respondeu. Egwene agora era Aes Sedai, e n�o era s� porque se denominava assim. Ele se perguntou se a mo�a tamb�m espionava seus sonhos. A jovem tinha o rosto r�gido, os olhos escuros cansados.���N�o guarde as coisas em segredo, Rand. Voc� n�o est� lutando sozinho. Outras pessoas tamb�m est�o lutando por voc�.</p><p>De cenho franzido, o rapaz tentou n�o olhar para a amiga. O primeiro pensamento que lhe veio foi Campo de Emond e Perrin, mas n�o via como a mulher poderia saber para onde Perrin fora.</p><p>��Como assim?���indagou, por fim.</p><p>��Eu luto por vocꠗ�respondeu Moiraine, antes que Egwene pudesse abrir a boca���e Egwene tamb�m.���As duas mulheres trocaram um olhar r�pido.���Tem gente que luta por voc� sem saber que est� lutando, muita gente que voc� nem sequer conhece. N�o percebe o que significa for�ar a forma��o da Renda da Era, n�o �? As ondas das suas a��es, as ondas da sua mera exist�ncia se propagam por todo o Padr�o e alteram a trama dos fios da vida de pessoas que voc� nem imagina. Essa batalha est� muito longe de ser s� sua. Mas voc� est� no cora��o desta teia do Padr�o. Se fracassar e sucumbir, tudo o mais vai fracassar e sucumbir. Como eu n�o posso ir com voc� at� Alcair Dal, deixe que Lan v�. Mais um par de olhos para lhe dar respaldo.</p><p>O Guardi�o girou de leve por cima da sela, o cenho franzido para a Aes Sedai. Com os Shaido velados para matar, ele n�o estava muito ansioso em deix�-la sozinha.</p><p>Rand achou que n�o deveria ter visto aquela troca de olhares entre Moiraine e Egwene. Ent�o elas tinham um segredo que estavam escondendo dele. Egwene tinha <emphasis>mesmo</emphasis> olhos de Aes Sedai, misteriosos e indecifr�veis. Aviendha e as Donzelas haviam retornado at� ele.</p><p>��Deixe que Lan fique com voc�, Moiraine. As <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> carregam minha honra.</p><p>Moiraine apertou os cantos dos l�bios, mas, ao que parecia, aquilo era a coisa exata a ser dita, de acordo com as Donzelas. Adelin e as outras exibiram sorrisos largos.</p><p>Mais abaixo, os Aiel se amontoavam ao redor dos condutores dos carro��es, que come�avam a desatrelar as mulas. Nem todos prestavam aten��o aos Aiel. Keille e Isendre encaravam uma � outra junto aos carro��es. Natael falava em um tom urgente com uma das mulheres, e Kadere, com a outra, at� que as duas enfim cessaram o duelo de olhares. Elas j� estavam agindo assim havia algum tempo. Se fossem homens, Rand imaginava que j� teriam chegado �s vias de fato muito tempo antes.</p><p>��Fique a postos, Egwene���disse Rand.���Todos voc�s, fiquem a postos.</p><p>��Nem mesmo os Shaido v�o incomodar Aes Sedai���respondeu Amys���n�o mais do que incomodam Bair, Melaine ou a mim. Algumas coisas est�o al�m do alcance at� dos Shaido.</p><p>��S� fiquem a postos!</p><p>Ele n�o pretendia ser t�o r�spido. At� Rhuarc o encarou. Ningu�m entendeu, e ele n�o ousava explicar. Quem acionaria a armadilha primeiro? Tinha de p�r em risco todos ali, e tamb�m a si pr�prio.</p><p>��E eu, Rand?���perguntou Mat, de repente, rolando uma moeda de ouro pelos dedos de uma das m�os, em um gesto meio inconsciente.���Voc� faz alguma obje��o se eu for com voc�?</p><p>��Voc� quer ir? Achei que preferiria ficar com os mascates.</p><p>Mat franziu o cenho para os carro��es abaixo e olhou para os Shaido enfileirados diante da brecha na montanha.</p><p>��N�o acho que v� ser t�o f�cil sair daqui, se voc� acabar morrendo. Que me queime se voc� n�o acabar me metendo no caldeir�o de banha de um jeito ou de� <emphasis>Dovienya</emphasis>���murmurou Mat. Rand j� o ouvira dizer isso antes. Lan contou que significava �sorte� na L�ngua Antiga. Mat jogou a moeda de ouro para cima. Quando tentou apanh�-la de volta, ela quicou em seus dedos e caiu no ch�o. Por mais improv�vel que fosse, a moeda caiu de p� e foi rolando encosta abaixo, saltando pelas rachaduras no ch�o de lama seca, cintilando � luz do sol. De l�, seguiu descendo at� os carro��es, onde finalmente tombou.���Que me queime, Rand���rosnou���preferia que voc� n�o fizesse isso!</p><p>Isendre apanhou a moeda e come�ou a manuse�-la, espiando o topo da encosta. Os outros tamb�m olhavam para l�, Kadere, Keille e Natael.</p><p>��Voc� pode vir���disse Rand.���Rhuarc, j� n�o est� na hora?</p><p>O chefe de cl� olhou para tr�s.</p><p>��Est�. Bem����Atr�s dele, flautas come�aram a tocar uma melodia lenta e dan�ante.���Agora.</p><p>Uma cantoria uniu-se �s flautas de p�. Os garotos Aiel paravam de cantar quando chegavam � idade adulta, exceto em certas ocasi�es. Depois de botar as m�os na lan�a, um homem de Aiel entoava apenas can��es de batalha e lamentos para os mortos. Sem d�vida havia muitas vozes de Donzelas naquela melodia bela e harmoniosa, mas vozes graves e masculinas as faziam desaparecer.</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as���ao subir do sol.</v><v>Banhem as lan�as���ao cair do sol.�</v></stanza></poem><p>Meia milha � direita e � esquerda surgiram os Taardad, correndo em duas largas fileiras no ritmo da can��o, as lan�as a postos, os rostos velados. Pareciam colunas infinitas avan�ando em dire��o �s montanhas.</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as���quem teme morrer?</v><v>Banhem as lan�as���que eu saiba, ningu�m!�</v></stanza></poem><p>Nos acampamentos dos cl�s e na feira, Aiel observavam, estupefatos. Algo na forma como se portavam dava a Rand a certeza de que estavam em sil�ncio. Alguns condutores de carro��es permaneciam parados, meio at�nitos, enquanto outros soltavam as mulas e corriam de volta para os carro��es. Keille e Isendre, Kadere e Natael ainda observavam Rand.</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as���enquanto a vida pulsa.</v><v>Banhem as lan�as���at� que a vida acabe.</v><v>Banhem as lan�as��</v></stanza></poem><p>��Vamos?</p><p>Ele n�o esperou a confirma��o de Rhuarc para cravar as botas em Jeade�en, que come�ou a descer a montanha, com Adelin e as outras Donzelas logo atr�s. Mat hesitou por um instante antes de disparar com Pips, mas Rhuarc e os chefes dos ramos dos Taardad, cada um com seus dez guerreiros, arrancaram na mesma hora que o sarapintado. Em dado momento, a meio caminho das tendas da feira, Rand olhou o topo da encosta atr�s de si. Moiraine e Egwene permaneciam em cima dos cavalos, com Lan. Aviendha estava parada com as tr�s S�bias. Todos de olhos fixos nele. Quase se esquecera de como era n�o ter ningu�m a encar�-lo.</p><p>Enquanto cavalgava no mesmo n�vel da feira, surgiu uma delega��o de dez ou doze mulheres vestidas em saias e blusas, os corpos enfeitados com muito ouro, prata e marfim, e o mesmo n�mero de homens vestidos nos tons cinza e marrom dos <emphasis>cadin�sor</emphasis>, por�m desarmados, exceto pelas facas de cintura menores que a arma de l�mina bruta de Rhuarc. O grupo, no entanto, assumia uma postura que for�ou Rand e os outros a pararem, e pareciam ignorar os Taardad velados que avan�avam a leste e a oeste.</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as���a vida � um sonho.</v><v>Banhem as lan�as���todo sonho tem fim.�</v></stanza></poem><p>��Eu n�o esperava isso de voc�, Rhuarc���disse um homem corpulento e grisalho. N�o era gordo, seu peso era todo m�sculos. Rand nunca vira um Aiel gordo.���At� vindo dos Shaido foi uma surpresa, mas de voc�?</p><p>��Os tempos mudam, Mandhuin���retrucou o chefe de cl�.���H� quanto tempo os Shaido est�o aqui?</p><p>��Chegaram logo ao nascer do sol. Quem pode explicar por que viajaram � noite?���Mandhuin fechou um pouco a cara para Rand e inclinou a cabe�a na dire��o de Mat.���Realmente, Rhuarc, s�o tempos estranhos.</p><p>��Quem est� aqui, al�m dos Shaido?���perguntou Rhuarc.</p><p>��N�s, Goshien, chegamos primeiro. Depois vieram os Shaarad.���O homem corpulento fez uma careta ao dizer o nome dos inimigos de sangue, sem deixar de analisar os dois aguacentos.���Os Chareen e os Tomanelle vieram depois. E, por �ltimo, os Shaido, como eu disse. Faz pouco tempo que Sevanna convenceu os chefes a virem. Bael n�o viu motivo para esse encontro de hoje, e alguns dos outros tamb�m n�o.</p><p>Uma mulher de meia-idade, com rosto largo e os cabelos mais loiros que os de Adelin, p�s as m�os na cintura, com um clangor de braceletes de marfim e ouro. Usava tantos braceletes e colares quanto Amys e sua esposa-irm� juntas.</p><p>��Ouvimos dizer que Aquele Que Vem Com a Aurora saiu de Rhuidean, Rhuarc.���Ela franziu o rosto para Rand e Mat. Toda a delega��o fez o mesmo.���Ouvimos dizer que o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> ser� anunciado hoje. Antes da chegada de todos os cl�s.</p><p>��Ent�o algu�m lhe fez uma profecia���interveio Rand.</p><p>Ele tocou os flancos do sarapintado com os calcanhares, e a delega��o abriu caminho.</p><p>��<emphasis>Dovienya</emphasis>���murmurou Mat.���<emphasis>Mia dovienya nesodhin soende.</emphasis>���Fosse l� o que aquilo significasse, soava como um desejo fervoroso.</p><p>As fileiras de Taardad tinham subido at� o topo, pelos dois lados dos Shaido, e virado de frente para eles, a algumas centenas de passadas de dist�ncia, ainda velados, ainda cantando. N�o faziam qualquer movimento que pudesse ser considerado amea�a. Na realidade, apenas permaneciam ali parados. Havia quinze ou vinte vezes o n�mero de Shaido, todos cantando, as vozes ressoando na harmonia da can��o.</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as� at� a sombra acabar.</v><v>Banhem as lan�as� at� a �gua secar.</v><v>Banhem as lan�as� qu�o longe de casa?</v><v>Banhem as lan�as� at� eu sucumbir!�</v></stanza></poem><p>Ao se aproximar dos Shaido de v�us negros, Rand viu Rhuarc levar uma das m�os ao pr�prio v�u.</p><p>��N�o, Rhuarc. N�o estamos aqui para lutar com eles.</p><p>Ele quis dizer que n�o esperava que chegassem a esse ponto, mas o Aiel interpretou de maneira diferente.</p><p>��Tem raz�o, Rand al�Thor. N�o h� honra para os Shaido.���Deixando o v�u pender, Rhuarc elevou a voz.���N�o h� honra para os Shaido!</p><p>Rand n�o virou a cabe�a para olhar, mas teve a sensa��o de que v�us negros estavam sendo baixados atr�s dele.</p><p>��Ah, sangue e cinzas!���murmurou Mat.���Sangue e malditas cinzas!</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as���at� o sol morrer.</v><v>Banhem as lan�as���at� a �gua correr.</v><v>Banhem as lan�as��</v></stanza></poem><p>As fileiras de Shaido se remexeram, incomodadas. Fosse l� o que Couladin ou Sevanna tivessem dito, os homens do cl� sabiam contar. Dan�ar as lan�as com Rhuarc e seus companheiros era uma coisa, mesmo que fosse contra todos os costumes. Enfrentar Taardad suficientes para varr�-los para fora do mapa feito uma avalanche era outra. Eles se retiraram relutantes, afastando-se para deixar Rand avan�ar, dando um passo atr�s para abrir um caminho largo.</p><p>Rand soltou um suspiro de al�vio. Adelin e as outras Donzelas, pelo menos, caminhavam com o olhar fixo � frente, como se os Shaido n�o existissem.</p><poem><stanza><v>�Banhem as lan�as���enquanto eu respirar.</v><v>Banhem as lan�as���meu a�o vai brilhar.</v><v>Banhem as lan�as��</v></stanza></poem><p>A cantoria foi diminuindo atr�s deles at� virar um murm�rio, enquanto o grupo passava pela garganta estreita, profunda e sombria que serpenteava por entre as montanhas. Durante alguns minutos, os sons mais altos eram o clangor dos cascos na pedra e o sussurro das botas macias dos Aiel. De repente, a passagem estreita deu lugar a Alcair Dal.</p><p>Rand entendeu porque o c�nion fora chamado de bacia de ouro, embora n�o houvesse nenhum reflexo dourado ali. Era um c�rculo quase perfeito, com uma muralha cinza formando uma encosta em quase toda a circunfer�ncia, exceto no trecho mais afastado, onde a parede fazia uma curva para dentro, feito uma onda gigante. Grupos de Aiel pontilhavam toda a encosta, cabe�as e rostos descobertos. Havia muitos mais grupos do que cl�s. Os Taardad que tinham vindo com os chefes dos ramos come�aram a se afastar em dire��o a cada um do seu. Segundo Rhuarc, agrupar-se por sociedade, n�o por cl�, ajudava a manter a paz. Apenas seus Escudos Vermelhos e as Donzelas permaneceram com Rand e os chefes dos Taardad.</p><p>Os chefes dos ramos dos outros cl�s se sentaram de pernas cruzadas, todos com seus respectivos grupos, diante de uma grande sali�ncia abaixo da encosta abaulada. Seis pequenos grupos, um de Donzelas, permaneciam entre os chefes dos ramos e a sali�ncia. Eram, supostamente, os Aiel que tinham ido pela honra dos chefes dos cl�s. Seis, embora apenas cinco cl�s estivessem representados. Sevanna teria uma escolta de Donzelas���embora mas Aviendha tivesse feito um r�pido coment�rio sobre como Sevanna nunca fora <emphasis>Far Dareis Mai</emphasis> �, mas o grupo extra� havia onze homens ali, n�o dez. Mesmo vendo apenas as costas de uma cabe�a cheia de cabelos cor de fogo, Rand teve certeza de que era Couladin.</p><p>Na sali�ncia em si, uma mulher de cabelos louros estava parada, portando tantas joias quanto a mulher nas tendas da feira, o xale cinza por cima dos ombros. Era Sevanna, claro, junto de mais quatro chefes de cl�, nenhum armado, exceto pela comprida faca de cintura. Um deles era o homem mais alto que Rand j� vira na vida. Bael, dos Aiel Goshien, pelas descri��es que Rhuarc fornecera. O sujeito devia ser pelo menos uma m�o mais comprido que Rhuarc ou que ele pr�prio. Sevanna estava falando, e algum efeito criado pelo formato do c�nion transportava suas palavras para todos os cantos com clareza.</p><p>��� deixar que ele fale!���Sua voz era dura e tensa. De cabe�a erguida e costas r�gidas, ela tentava dominar o espa�o com a for�a de sua vontade.���Eu exijo isso como meu direito! At� que um novo chefe seja escolhido, assumo o posto de Suladric, representando os Shaido. Exijo o meu direito!</p><p>��Voc� ocupa o lugar de Suladric at� um novo chefe ser escolhido, senhora do teto.���O homem de cabelos brancos que respondia em um tom irasc�vel era Han, chefe de cl� dos Tomanelle. Com um rosto que parecia couro escuro e curtido, ele era mais alto que a m�dia de Dois Rios, mas era baixo para um Aiel, ainda que corpulento.���N�o duvido que voc� conhe�a bem os direitos de uma senhora do teto, mas talvez n�o conhe�a t�o bem os de um chefe de cl�. S� algu�m que j� adentrou Rhuidean pode falar aqui. E voc�, que est� no lugar de Suladric.���Han n�o parecia contente com aquilo, mas por outro lado, era o tipo de homem que parecia quase nunca feliz.���Mas as andarilhas dos sonhos disseram �s nossas S�bias que Couladin teve o direito de adentrar Rhuidean recusado.</p><p>Couladin soltou um berro indecifr�vel, por�m claramente furioso���pelo visto, o truque do c�nion funcionava apenas na sali�ncia. Erim, dos Chareen, com a metade dos cabelos vermelho-claros j� grisalha, interrompeu-o com rispidez.</p><p>��Acaso n�o tem respeito pela lei e pelos costumes, Shaido? N�o tem honra? Fa�a o sil�ncio aqui.</p><p>Uns poucos olhos na encosta se viraram para ver quem eram os rec�m-chegados. Uma onda de empurr�es trouxe mais gente para ver dois forasteiros a cavalo � frente dos chefes dos ramos, um deles seguido de perto por Donzelas. Rand se perguntou quantos Aiel o observavam. Tr�s mil? Quatro? Mais? Ningu�m fazia som algum.</p><p>��Estamos aqui reunidos para ouvir um pronunciamento muito importante���disse Bael���que acontecer� quando todos os cl�s tiverem chegado.���Seus cabelos vermelho-escuros tamb�m estavam ficando grisalhos. N�o havia jovens entre os chefes dos cl�s. Sua altura e voz grave atra�ram os olhares para ele.���Quando todos os cl�s tiverem chegado. Se a �nica coisa que Sevanna quer agora � pedir que deixemos Couladin falar, voltarei para as minhas tendas e aguardarei a hora.</p><p>Jheran, dos Shaarad, inimigo de sangue dos Goshien de Bael, era um homem delgado, com muitas mechas cinzentas nos cabelos castanho-claros. Ele se pronunciou em um tom tamb�m delgado, feito uma l�mina de a�o, dirigindo-se a ningu�m em particular.</p><p>��Digo que n�o devemos retornar �s nossas tendas. J� que Sevanna nos trouxe para c�, vamos debater algo que � s� um pouco menos importante que o an�ncio que aguardamos. �gua. Quero debater sobre a �gua da Plataforma da Cordilheira de Espinha�o.</p><p>Bael virou-se para o homem, em uma postura amea�adora.</p><p>��Imbecis!���vociferou Sevanna.���Eu cansei de esperar! Eu�</p><p>Foi ent�o que os que ocupavam a sali�ncia perceberam os rec�m-chegados. Observaram a aproxima��o em total e completo sil�ncio, os chefes dos cl�s de cenho franzido, Sevanna com uma careta de desprezo. Era uma bela mulher, quase de meia-idade, mas que parecia mais jovem, em meio a homens bem mais velhos. Ainda assim, ela parecia voraz. Os chefes dos cl�s eram nobres, mesmo Han, com seu jeito meio amargo, mas os olhos azul-claros da mulher guardavam uma express�o calculista. Ao contr�rio das outras Aiel que Rand j� vira, ela usava a blusa branca solta aberta em um decote avantajado, o colo bronzeado emoldurado pelos muitos colares. Pela postura dos homens, dava para identific�-los como chefes de cl�. E, mesmo que Sevanna fosse uma senhora do teto, sem d�vida n�o era nada parecida com Lian.</p><p>Rhuarc avan�ou direto at� a sali�ncia, entregou as lan�as, o broquel, o arco e a aljava para os Escudos Vermelhos e come�ou a subir. Rand entregou as r�deas a Mat.</p><p>��Sorte para n�s!���murmurou o rapaz, enquanto olhava os Aiel � volta.</p><p>Adelin deu um aceno de cabe�a encorajador para Rand, que foi de sua sela direto para a sali�ncia. Um murm�rio de surpresa se ergueu pelo c�nion.</p><p>��O que � que voc� est� fazendo, Rhuarc���inquiriu Han, com uma express�o de desprezo���trazendo este aguacento para c�? Se n�o vai mat�-lo, pelo menos n�o o deixe se portar feito um chefe de cl�.</p><p>��Este homem, Rand al�Thor, veio falar com os chefes dos cl�s. As Andarilhas dos Sonhos n�o contaram a voc� que ele viria comigo?���As palavras de Rhuarc provocaram um burburinho entre os ouvintes.</p><p>��Melaine me contou muitas coisas, Rhuarc���respondeu Bael, receoso, franzindo o cenho para Rand.���Disse que Aquele Que Vem Com a Aurora tinha sa�do de Rhuidean. Voc� n�o pode estar querendo dizer que este homem����Ele foi baixando a voz, incr�dulo.</p><p>��Se o aguacento pode falar���interrompeu Sevanna, mais do que depressa���ent�o Couladin tamb�m pode.</p><p>Ela ergueu uma m�o macia e delicada, e Couladin subiu at� a sali�ncia, com o rosto vermelho de raiva.</p><p>Han virou-se para ele.</p><p>��Fique a� embaixo, Couladin! J� � ruim o bastante ver Rhuarc violando os costumes sem que voc� fa�a o mesmo!</p><p>��Est� na hora de abandonar esses h�bitos desgastados!���gritou o Shai do de cabelos cor de fogo, tirando o casaco marrom e cinza. N�o havia raz�o para gritar, pois suas palavras ecoavam pelo c�nion, mas ele n�o baixou a voz.���Eu sou Aquele Que Vem Com a Aurora!���Ele puxou as mangas da camisa para cima e ergueu os dois bra�os. Em torno de cada antebra�o estava enroscada uma criatura serpenteante de escamas douradas e carmesins, com patas met�licas e reluzentes, cada uma com cinco garras douradas, as cabe�as de crina dourada no dorso dos punhos de Couladin. Dois Drag�es perfeitos.���Eu sou o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>!</p><p>O estrondo que se elevou foi como um trov�o, os Aiel levantando-se aos saltos e gritando de alegria. Os chefes dos cl�s tamb�m se levantaram, os Taardad se agruparam, preocupados, os outros gritando na mesma intensidade.</p><p>Os chefes dos cl�s pareciam at�nitos, inclusive Rhuarc. Adelin e suas nove Donzelas empunharam as lan�as, como se esperassem us�-las a qualquer momento. Encarando o v�o � frente, Mat puxou o chap�u para baixo e conduziu os dois cavalos para perto da sali�ncia, fazendo um gesto disfar�ado para que Rand subisse na sela outra vez.</p><p>Sevanna abriu um sorriso presun�oso e arrumou o xale enquanto Couladin avan�ava para a frente da sali�ncia, com os bra�os erguidos.</p><p>��Eu trago a mudan�a!���gritou ele.���Conforme a profecia, eu trago novos dias! Vamos cruzar a Muralha do Drag�o outra vez e recuperar o que nos pertence! Os aguacentos s�o moles, mas s�o ricos! Voc�s se lembram da riqueza que foi trazida de volta, na �ltima vez que adentramos as terras aguacentas! Desta vez, traremos tudo! Desta vez�!</p><p>Rand deixou-se inundar pela declama��o do homem. De todas as coisas poss�veis, jamais suspeitara disso. <emphasis>Como?</emphasis> A palavra ficava ressoando em sua mente, mas ele n�o conseguia acreditar na pr�pria compostura. Bem devagar, tirou o casaco, hesitando por um instante antes de apanhar o <emphasis>angreal</emphasis> do bolso. Enfiou o entalhe no c�s da cal�a, deixou cair o casaco no ch�o e caminhou para a dianteira da sali�ncia, desfazendo os la�os da camisa com muita calma. Quando ergueu os bra�os para o alto da cabe�a, as mangas deslizaram para baixo.</p><p>Os Aiel reunidos levaram um instante para perceber os Drag�es que tamb�m serpenteavam pelos bra�os de Rand, reluzentes sob o sol. O sil�ncio foi se abatendo aos poucos, mas, por fim, dominou o ambiente. O queixo de Sevanna desabou. Ela n�o sabia. Obviamente Couladin n�o pensara que Rand viria t�o depressa, n�o dissera a ela que outro tamb�m portava as marcas. <emphasis>Como?</emphasis> O homem decerto acreditara que teria tempo. Depois que estivesse estabelecido, Rand seria rejeitado como fraude. <emphasis>Luz, como?</emphasis> Se a senhora do teto do Forte de Comarda estava at�nita, os chefes dos cl�s tamb�m estavam, exceto por Rhuarc. Dois homens marcados, enquanto a profecia rezava que apenas um poderia existir.</p><p>Couladin prosseguia com seu discurso inflamado, abanando os bra�os para garantir que todos vissem suas marcas.</p><p>��� n�o vamos parar ao dominar as terras dos violadores de juramentos! Vamos arrasar tudo at� o Oceano de Aryth! Os aguacentos n�o poder�o oferecer resist�ncia����De s�bito, ele notou o sil�ncio onde antes haviam gritos inflamados. Sabia o motivo. Sem se virar para encarar Rand, gritou:���Aguacento! Olhem as roupas dele! � um aguacento!</p><p>��Um aguacento���concordou Rand. N�o ergueu a voz, mas o c�nion a conduziu a todos. O Shaido pareceu surpreso por um instante, mas logo escancarou um sorriso triunfante, at� que Rand prosseguiu.���O que diz a Profecia de Rhuidean? �Nascido do sangue.� Minha m�e era Shaiel, uma Donzela dos Taardad Chumai.���<emphasis>Quem era ela, na verdade? De onde viera?</emphasis>���Meu pai era Janduin, do ramo da Montanha de Ferro, chefe do cl� dos Taardad.���<emphasis>Meu pai � Tam al�Thor. Ele me encontrou, me criou, me amou. Queria ter podido conhecer o senhor, Janduin, mas o meu pai � Tam.</emphasis>����Nascido do sangue, por�m criado fora do sangue.� Onde foi que as S�bias mandaram me procurar? Nos fortes da Terra da Trindade? Elas mandaram procurar para al�m da Muralha do Drag�o, n o local onde fui criado. Exatamente como a profecia.</p><p>Bael e os outros tr�s assentiram devagar, mas com relut�ncia. Havia ainda a quest�o de Couladin tamb�m estampar os Drag�es, e sem d�vida eles prefeririam que fosse um deles. Sevanna tinha o rosto r�gido. N�o importava quem portasse as marcas verdadeiras, n�o havia d�vida a respeito de quem ela apoiava.</p><p>A confian�a de Couladin n�o esmoreceu. O homem encarara Rand com desprezo desde a primeira vez que o vira.</p><p>��Faz quanto tempo que a Profecia de Rhuidean foi revelada pela primeira vez?���Ele ainda parecia acreditar que precisava gritar.���Quem pode dizer o quanto as palavras mudaram? Minha m�e era <emphasis>Far Dareis Mai,</emphasis> antes de abrir m�o da lan�a. Quanto do restante mudou? Ou foi mudado? Dizem que um dia servimos �s Aes Sedai. Eu digo que elas querem nos atar a elas mais uma vez! Esse aguacento foi escolhido porque se parece com a gente! Ele n�o � do sangue! Veio em companhia de Aes Sedai, preso numa coleira! E as S�bias as receberam como se fossem irm�s-primeiras! Voc�s todos ouviram falar de S�bias capazes de fazer coisas al�m de qualquer compreens�o. As Andarilhas dos S onhos usaram o Poder �nico para me manter longe desse aguacento! Usaram o Poder �nico, como dizem que as Aes Sedai fazem! As Aes Sedai trouxeram esse aguacento aqui para nos prender com falsidades! E as andarilhas dos sonhos as ajudaram!</p><p>��Isso � loucura!���Rhuarc avan�ou a passos largos atr�s de Rand, enca rando a multid�o ainda em sil�ncio.���Couladin nunca p�s os p�s em Rhuidean. Eu ouvi quando as S�bias recusaram sua entrada. Mas Rand al�Thor foi. Eu o vi sair de Chaendaer e retornar, marcado, como voc�s tamb�m podem ver.</p><p>��E por que elas recusaram minha entrada?���indagou Couladin, com um rosnado.���Porque as Aes Sedai mandaram! Rhuarc n�o conta a voc�s que uma das Aes Sedai desceu de Chaendaer com esse aguacento! Foi por isso que ele retornou com os Drag�es! Bruxaria de Aes Sedai! Meu irm�o, Muradin, morreu debaixo de Chaendaer, assassinado por esse aguacento e a Aes Sedai Moiraine. E as S�bias, ordenadas pelas Aes Sedai, deixaram os dois impunes! Quando a noite caiu, eu fui at� Rhuidean. N�o me revelei at� agora porque este aqui � o lugar apropriado para o <emphasis>Car�a�carn</emphasis> aparecer! Eu <emphasis>sou</emphasis> o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>!</p><p>Mentiras entremeadas com fragmentos de verdade. O homem ostentava uma confian�a vitoriosa, e sem d�vida teria resposta para qualquer coisa.</p><p>��Voc� diz que foi a Rhuidean sem a permiss�o das S�bias?���inquiriu Han, de cara feia. O imenso Bael exibia o mesmo olhar de desaprova��o, com os bra�os cruzados, e Erim e Jheran pareciam apenas um tantinho menos irritados. Mas, pelos menos os chefes dos cl�s ainda hesitavam. Sevanna agarrou a faca de cintura, cravando os olhos em Han como se quisesse enfi�-la em suas costas.</p><p>Couladin, no entanto, tinha uma resposta.</p><p>��Isso mesmo, sem a permiss�o delas! Aquele Que Vem Com a Aurora traz a mudan�a! � isso o que diz a profecia! Os costumes in�teis t�m que mudar, e vou mudar todos eles! Eu n�o cheguei aqui com a aurora?</p><p>Os chefes dos cl�s permaneciam indecisos, e tamb�m os Aiel que observavam, todos de p� aos milhares, observando em sil�ncio, aguardando. Se Rand n�o fosse capaz de convenc�-los, era certo que n�o sairia vivo de Alcair Dal. Mat indicou outra vez a sela de Jeade�en. Rand sequer deu-se ao trabalho de balan�ar a cabe�a. Havia mais coisa a levar em conta al�m de sair dali vivo: ele precisava daquele povo, precisava de sua lealdade. <emphasis>Precisava</emphasis> ter gente que o seguisse por acreditar nele, n�o para us�-lo ou pelo que ele tivesse para dar. Precisava.</p><p>��Rhuidean���disse. A palavra preencheu todo o c�nion.���Voc� est� alegando que foi a Rhuidean, Couladin. O que viu por l�?</p><p>��Todos sabem que � proibido falar a respeito de Rhuidean���retrucou Couladin, mais do que depressa.</p><p>��N�s podemos nos afastar���sugeriu Erim���e conversar em particular, para que voc� possa nos contar�</p><p>O Shaido o interrompeu bruscamente, o rosto vermelho de raiva.</p><p>��Eu n�o vou falar com ningu�m. Rhuidean � um lugar sagrado, e o que eu vi � sagrado. <emphasis>Eu</emphasis> sou sagrado!���Ele ergueu outra vez os bra�os com as marcas do Drag�o.���Isso aqui me torna sagrado!</p><p>��Eu caminhei por colunas de vidro ao lado de <emphasis>Avendesora</emphasis>.���Rand falava baixinho, mas as palavras chegavam a todos os cantos.���Eu vi a hist�ria dos Aiel pelos olhos dos meus ancestrais. O que foi que voc� viu, Couladin? Eu n�o tenho medo de falar. Voc� tem?</p><p>O Shaido tremia de f�ria, o rosto estava quase da cor de seus cabelos.</p><p>Olhares indecisos percorreram Bael e Erim, Jheran e Han.</p><p>��Para isso, teremos que nos afastar���murmurou Han.</p><p>Couladin n�o parecia perceber que perdera vantagem com os quatro, mas Sevanna, sim.</p><p>��Foi Rhuarc que contou tudo isso a ele���vociferou a mulher.���Uma das esposas de Rhuarc � Andarilha dos Sonhos, uma dessas que ajudam as Aes Sedai! Rhuarc contou tudo a ele!</p><p>��Rhuarc n�o faria isso���retrucou Han, bruscamente.���Ele � o chefe do cl�, � um homem honrado. N�o fale do que n�o sabe, Sevanna!</p><p>��Eu n�o estou com medo!���gritou Couladin.���Nenhum homem pode me dizer que sinto medo! Eu tamb�m vi pelos olhos dos meus ancestrais! Eu vi nossa chegada � Terra da Trindade! Vi nossa gl�ria! A gl�ria que vou trazer de volta a n�s!</p><p>��Eu vi a Era das Lendas���anunciou Rand���e o in�cio da jornada dos Aiel at� a Terra da Trindade.���Rhuarc agarrou seu bra�o, mas ele se desvencilhou do chefe de cl�. Aquele momento estivera fadado a acontecer desde que os Aiel se reuniram diante de Rhuidean pela primeira vez.���Eu vi os Aiel quando eram chamados de Aiel Da� shain, e seguiam o Caminho da Folha.</p><p>��N�o!���O gritou se elevou de fora do c�nion e se propagou em um estrondo.���N�o! N�o!���Vinha de milhares de gargantas. As pontas das lan�as erguidas refletiam a luz do sol. At� alguns chefes de ramo dos Taardad gritavam.</p><p>Adelin encarou Rand, aflita. Mat gritou alguma coisa para ele, mas o grito se perdeu no estrondo. O rapaz gesticulava com prem�ncia para que ele montasse na sela.</p><p>��Mentiroso!���O formato do c�nion conduzia o berro de Couladin, c�lera misturada a triunfo, por sobre os gritos da multid�o. Balan�ando a cabe�a freneticamente, Sevanna estendeu o bra�o para ele. �quela altura, devia ter pelo menos imaginado que ele era o falso, por�m, se conseguisse mant�-lo quieto, talvez obtivessem sucesso. Como Rand esperava, Couladin a repeliu. O homem sabia que Rand fora a Rhuidean. N�o era capaz de acreditar em sequer metade da pr�pria hist�ria, mas tamb�m n�o acreditava no que Rand dissera.���A prova de que ele � uma fraude vem da pr�pria boca! N�s sempre fomos guerreiros! Sempre! Desde o in�cio dos tempos!</p><p>O estrondo se elevou, as lan�as balan�ando, mas Bael, Erim, Jheran e Han permaneceram em completo sil�ncio. Agora sabiam. Sem se dar conta de seus olhares, Couladin abanou os bra�os coroados com os Drag�es para os Aiel reunidos, exultante com a adula��o.</p><p>��Por qu�?���indagou Rhuarc, baixinho, ao lado de Rand.���Voc� n�o entendeu por que n�o falamos de Rhuidean? N�o queremos encarar que um dia fomos t�o diferentes de tudo em que acreditamos agora, que �ramos iguais aos Perdidos desprez�veis que voc�s chamam de Tuatha�an. Rhuidean mata os que n�o s�o capazes de enfrent�-la. Dos homens que v�o a Rhuidean, nem um em tr�s consegue sobreviver. E agora voc� falou para todos ouvirem. N�o vai parar por aqui, Rand al�Thor. A coisa vai se espalhar. Quantos ter�o for�a suficiente para aguentar?</p><p><emphasis>Ele os unir� e os destruir�.</emphasis></p><p>��Eu trago a mudan�a���respondeu Rand, com tristeza.���N�o paz, e sim desordem.���<emphasis>A destrui��o me acompanha aonde vou. Ser� que existe algum lugar que eu n�o vou destruir?</emphasis>���O que for, ser�, Rhuarc. Eu n�o posso mudar.</p><p>��O que for, ser᠗�murmurou o Aiel, depois de um instante.</p><p>Couladin ainda andava para cima e para baixo a passos firmes, gritando para os Aiel sobre gl�ria e conquista, sem perceber os chefes dos cl�s que o encaravam pelas costas. Sevanna sequer olhava para Couladin. Seus olhos verde-claros estavam concentrados nos chefes dos cl�s, os l�bios contra�dos em um esgar, os seios se elevando com respira��es ansiosas. Ela sem d�vida sabia o significado daqueles olhares silenciosos.</p><p>��Rand al�Thor���disse Bael em voz alta, o nome retalhando os gritos de Couladin, cortando o estrondo da multid�o feito uma l�mina. Ele parou para pigarrear, balan�ando a cabe�a como se procurasse uma sa�da para tudo aquilo. Couladin se virou e cruzou os bra�os, confiante, decerto � espera de uma senten�a de morte para o aguacento. O imenso chefe de cl� respirou fundo.���Rand al�Thor � o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>. Rand al�Thor � Aquele Que Vem Com a Aurora.</p><p>Os olhos de Couladin se arregalaram, incr�dulos e furiosos.</p><p>��Rand al�Thor � Aquele Que Vem Com a Aurora���anunciou Han, com o rosto curtido igualmente relutante.</p><p>��Rand al�Thor � Aquele Que Vem Com a Aurora���repetiu Jheran, taciturno.</p><p>��Rand al�Thor � Aquele Que Vem Com a Aurora���disse Erim.</p><p>��Rand al�Thor���enunciou Rhuarc���� Aquele Que Vem Com a Aurora.���E, em um tom baixo demais at� para ecoar pela sali�ncia, acrescentou:���E que a Luz tenha piedade de n�s.</p><p>Por um longo e lento instante, o sil�ncio se abateu. Ent�o Couladin saltou da sali�ncia, rosnando, agarrou uma lan�a de um de seus <emphasis>Seia Doon</emphasis> e avan�ou direto para Rand. Por�m, enquanto ele avan�ava, Adelin deu um salto. A ponta da lan�a do Aiel enfurecido perfurou as camadas do couro do broquel que a mulher estendera, atirando-a para longe.</p><p>Um pandem�nio irrompeu no c�nion, homens gritavam, empurrando uns aos outros. As demais Donzelas Jindo pularam ao lado de Adelin, formando uma prote��o na frente de Rand. Sevanna descera para gritar com Couladin, pendurando-se no bra�o do homem enquanto ele tentava liderar os Shaido Olhos Negros contra as Donzelas que estavam entre ele e Rand. Heirn e mais uma d�zia de chefes de ramos Taardad juntaram-se a Adelin, de lan�as a postos, mas outros gritavam alto. Mat se levantou, desajeitado, e agarrou a lan�a de cabo preto com a ponta marcada pela gar�a, urrando o que deveriam ser xingamentos na L�ngua Antiga. Rhuarc e os outros chefes dos cl�s ergueram a voz, tentando em v�o restaurar a ordem. O c�nion ebulia feito um caldeir�o. Rand viu homens e mulheres velando o rosto. Uma lan�a reluziu no meio de um golpe. Outra. Ele precisava impedir aquilo.</p><p>Tentou tocar <emphasis>saidin</emphasis>, e a energia fluiu dentro de seu corpo at� ele achar que iria explodir, se n�o se incendiasse primeiro. A imund�cie da m�cula que o dominou parecia prestes a petrificar seu sangue. As ideias flutuaram para fora do Vazio. Ideias frias. �gua. Ali, onde a �gua era t�o escassa, os Aiel sempre falavam disso. At� mesmo naquele ar seco havia alguma �gua. Ele canalizou, sem saber ao certo o que fazia, tateando �s cegas.</p><p>Um raio lancinante estalou sobre Alcair Dal, e o vento soprou com viol�ncia, vindo de todos os lados, chiando pela beirada do c�nion, abafando os gritos dos Aiel. Um vento que trouxe diminutos pingos de �gua, depois mais e mais, at� acontecer algo que homem nenhum jamais vira por ali. Uma cerra��o de chuva come�ou a descer. O vento acima uivava e remoinhava. Rel�mpagos ind�mitos varavam o c�u. E a chuva foi ficando mais e mais forte, at� virar um p� d��gua, desabando pela sali�ncia da encosta, colando os cabelos de Rand � cabe�a e a camisa �s costas, turvando a vis�o de tudo a cinquenta passadas de dist�ncia.</p><p>De s�bito, a chuva parou de a�oit�-lo; um domo invis�vel formara-se ao redor dele, afastando Mat e os Taardad. Sob a �gua que corria pelas laterais, mal dava para ver Adelin, que esmurrava o domo, tentando entrar � for�a.</p><p>��Seu idiota, brincando com esses outros idiotas! Desperdi�ando todo o meu esfor�o e planejamento!</p><p>A �gua escorria por seu rosto quando Rand se virou e encarou Lanfear. O vestido branco com cinto de prata estava perfeitamente seco, as ondas negras dos cabelos entre as estrelas e luas prateadas estavam intocadas pelas gotas de chuva. Aqueles olhos negros o encaravam com f�ria; a ira contorcia seu belo rosto.</p><p>��N�o imaginei que voc� fosse se revelar t�o cedo���murmurou ele. O Poder ainda o preenchia. Ele manuseou a torrente que o a�oitava, agarrando-se ao Poder com um desespero que n�o chegava � voz. N�o era necess�rio puxar mais Poder. Ele apenas o deixou fluir at� sentir os ossos prestes a torrarem e virarem cinzas. N�o sabia se a mulher podia blind�-lo enquanto <emphasis>saidin</emphasis> corria por seu corpo, mas deixou-se preencher contra essa possibilidade.���Sei que voc� n�o est� sozinha. Onde ele est�?</p><p>A bela boca de Lanfear se contraiu.</p><p>��Eu sabia que ele se entregaria quando entrou no seu sonho. Eu poderia ter cuidado da situa��o, se o p�nico dele�</p><p>��Eu soube desde o in�cio���retrucou ele, interrompendo-a.���Esperei por isso desde o dia em que sa� da Pedra de Tear. Aqui, onde qualquer um podia ver que eu estava concentrado em Rhuidean e nos Aiel. Acha que eu n�o estava esperando que um de voc�s viesse atr�s de mim? Mas a armadilha � <emphasis>minha</emphasis>, Lanfear, n�o sua. Onde ele est�?���A pergunta saiu em um berro.</p><p>As emo��es deslizavam incontrol�veis em torno do Vazio que o rodeava por dentro, o vazio que n�o era t�o vazio, preenchido pelo Poder.</p><p>��Se voc� sabia���vociferou ela, em resposta���por que o afugentou com a conversa de cumprir seu destino, de fazer <emphasis>o que tem que ser feito</emphasis>?���As palavras vinham feito pedras, repletas de esc�rnio.���Eu trouxe Asmodean para ensin�-lo, mas ele sempre teve a mania de abandonar os planos dif�ceis. Agora acha que encontrou algo melhor em Rhuidean. E foi l� pegar, enquanto voc� est� aqui. Couladin, os Draghkar, tudo para prender sua aten��o enquanto ele se certifica de que alcan�ar� o que deseja. Todos os meus planos foram para nada, porque voc� n�o podia ser mais teimoso! Tem alguma ideia do esfor�o que vou ter que fazer para convenc�-lo outra vez? Tem que ser ele. Demandred, Rahvin ou Sammael matariam voc� antes de ensin�-lo a erguer a m�o, a n�o ser que o prendessem feito um cachorro na coleira!</p><p>Rhuidean. Sim. Claro. Rhuidean. Quantas semanas at� o sul? Por�m, certa vez, ele fizera uma coisa� Se conseguisse lembrar como�</p><p>��E voc� o deixou ir? Depois toda a conversa sobre me ajudar?</p><p>��N�o abertamente, j� disse. O que ele poderia encontrar em Rhuidean que fizesse valer a pena minha revela��o? Quando voc� concordar em ficar comigo, teremos bastante tempo. Lembre-se do que eu disse a voc�, Lews Therin.���A voz dela assumiu um tom sedutor. Os l�bios carnudos se curvaram, os olhos negros tentaram trag�-lo, pareciam lagos sem fundo.���Dois excelentes <emphasis>sa�angreal</emphasis>. Com esses, juntos, podemos desafiar����Desta vez, ela parou de falar sozinha.</p><p>Rand tinha se lembrado.</p><p>Com o Poder, <emphasis>cingiu</emphasis> a realidade, <emphasis>flexionou</emphasis> um pequeno fragmento do real. Uma porta se abriu debaixo do domo, bem na frente dele. Era a �nica forma de descrever. Uma abertura para a escurid�o, para outro lugar.</p><p>��Voc� se lembra de algumas coisas, ao que parece.���Ela encarou a abertura, depois olhou para ele, exibindo uma desconfian�a repentina.���Por que est� t�o ansioso? O que h� em Rhuidean?</p><p>��Asmodean���respondeu ele, sombrio.</p><p>Por um instante, hesitou. N�o conseguia enxergar atrav�s do domo encharcado de chuva. O que estava acontecendo l� fora? E Lanfear. Se ao menos conseguisse se lembrar de como blindara Egwene e Elayne. <emphasis>Se ao menos eu fosse capaz de matar uma mulher que s� est� me olhando feio. Ela � uma Abandonada!</emphasis> N�o conseguia mat�-la agora mais do que conseguira na Pedra.</p><p>Saiu pela porta e a fechou atr�s de si, largando a mulher na sali�ncia. Claro que ela sabia fazer uma igual, mas isso a atrasaria.</p></section><section><title><p>58</p><p><image l:href="#12"/></p><p>As armadilhas de Rhuidean</p></title><p>A escurid�o o envolveu assim que a porta desapareceu, um negrume que se estendia para todos os lados, mas ele ainda conseguia enxergar. N�o havia sensa��o de frio nem calor, mesmo que ele estivesse encharcado; n�o sentia nada. Apenas exist�ncia. Degraus de pedra lisa e cinza se ergueram diante dele, todos suspensos, sem base, formando um arco que esvanecia at� desaparecer. Ele j� havia visto aqueles degraus antes, ou outros parecidos; de algum modo, ele sabia que o levariam aonde era preciso. Subiu correndo as escadas imposs�veis, e cada degrau que as pegadas �midas de suas botas deixavam para tr�s desaparecia, se esva�a. Apenas os degraus � frente o aguardavam, apenas aqueles que o levariam aonde ele tinha de ir. Isso tamb�m era igual a antes.</p><p><emphasis>Ser� que eu</emphasis> fiz <emphasis>isso com o Poder, ou esses degraus existem de alguma outra forma?</emphasis></p><p>Com o pensamento, a pedra cinza sob seu p� come�ou a se apagar, e todas as outras � frente tremeluziram. Desesperado, ele se concentrou nelas, pedras cinza e reais. Reais! O bruxuleio cessou. As pedras agora n�o eram t�o planas, mas polidas, e tinham nas bordas um entalhe refinado, que ele pensou ser parecido com algo que j� vira.</p><p>Sem se importar para onde���sem saber ao certo se ousaria pensar a respeito por muito tempo���ele correu o mais depressa que p�de, subindo tr�s degraus de cada vez pela escurid�o sem-fim. A escada o conduziria aonde ele quisesse, mas quanto tempo levaria? Quanta vantagem Asmodean tinha? Os Abandonados conheciam um meio mais r�pido de viajar? Aquele era o problema. Os Abandonados detinham todo o conhecimento; para Rand, s� restava o desespero.</p><p>Ao olhar adiante, ele estremeceu. Os degraus haviam se ajustado aos seu passados compridas, e agora havia entre eles amplos v�os que tornavam necess�rios aqueles saltos, por sobre um negrume profundo como� como o qu�? Uma queda ali talvez n�o tivesse fim. Ele se for�ou a ignorar os v�os, a continuar correndo. A antiga ferida meio cicatrizada na lateral do corpo come�ou a latejar, trazendo uma vaga consci�ncia. Por�m, se ele estava envolto em <emphasis>saidin</emphasis> e meramente a percebia, a ferida deveria estar prestes a se abrir. <emphasis>Ignore.</emphasis> O pensamento flutuou pelo Vazio dentro dele. N�o se permitiria perder aquela corrida, nem que acabasse morto. Os degraus n�o acabariam nunca? Quanto j� havia avan�ado?</p><p>De repente, ele viu uma figura a dist�ncia, um pouco para a esquerda. Parecia um homem de casaco e botas vermelhas, parado de p� em uma plataforma prateada e reluzente que deslizava pela escurid�o. Rand n�o precisou olhar muito de perto para ter certeza de que era Asmodean. O Abandonado n�o estava correndo feito um fazendeirinho cansado; estava cavalgando, fosse l� o qu�.</p><p>Rand parou onde estava, em um dos degraus de pedra. N�o tinha ideia do que era aquela plataforma, reluzente feito metal polido, mas� os degraus � sua frente desapareceram. O peda�o de pedra sob suas botas come�ou a deslizar para a frente, ganhando velocidade. N�o havia vento em seu rosto para indicar que ele estava se deslocando, nada naquela vastid�o negra que sequer denunciasse algum movimento� a n�o ser o fato de que ele come�ava a alcan�ar Asmodean. Rand n�o sabia se estava operando aquilo com o Poder; simplesmente acontecia. O degrau bamboleou, e ele parou de se questionar. <emphasis>Ainda n�o sei o suficiente.</emphasis></p><p>O homem de cabelos negros permanecia tranquilo, com uma das m�os no quadril e um dedo no queixo, pensativo. Um peda�o de renda branca pendia de seu pesco�o; outros encobriam um pouco suas m�os. O casaco vermelho de gola alta brilhava mais que cetim de seda e tinha um corte estranho, com uma cauda que ia quase at� os joelhos. Algo parecido com fios negros, feito finos arames de a�o, sa�am do homem e desapareciam na escurid�o � sua volta. Rand tinha certeza de que j� vira aqueles fios antes.</p><p>Asmodean girou a cabe�a, e Rand o encarou, boquiaberto. Os Abandonados eram capazes de mudar suas fei��es���ou pelo menos exibir um rosto diferente; ele j� vira Lanfear fazendo isso���mas aquele era o rosto de Jasin Natael, o menestrel. Ele tivera certeza de que seria Kadere, com aquele olhar predat�rio que jamais se alterava.</p><p>Asmodean encarou Rand no mesmo instante e levou um susto. O poleiro de prata do Abandonado deu um tranco para a frente� e de s�bito um len�ol de fogo, feito uma fatia fin�ssima de chama monstruosa, disparou para tr�s na dire��o de Rand, com uma milha de altura e uma de largura.</p><p>Ele canalizou desesperadamente na dire��o das chamas; no exato instante em que estava prestes a ser golpeado, o len�ol se rompeu em fragmentos, expelidos com viol�ncia para longe dele e desaparecendo. Por�m, assim que a cortina de fogo esvaneceu, outra surgiu, avan�ando at� ele. Ele a estilha�ou, revelando mais uma; dilacerou a terceira e uma quarta se formou. Asmodean estava fugindo, Rand tinha certeza. Ele n�o conseguia ver o Abandonado, por conta do fogar�u. A raiva deslizou pela superf�cie do Vazio, e ele canalizou.</p><p>Uma onda de fogo envolveu a cortina carmesim que deslizava em sua dire��o e rolou, levando-a para longe. N�o era um fragmento fino, mas gotas imensas e desenfreadas, como se chicoteando por uma ventania. Ele estremeceu com o Poder que ressoava dentro de si; a ira de Asmodean foi se agarrando � superf�cie do Vazio.</p><p>Um buraco se formou na superf�cie em erup��o. N�o, n�o exatamente um buraco. Asmodean e sua plataforma reluzente permaneciam bem no centro, mas, conforme a onda de fogo avan�ava, a terra voltou a se unir. O Abandonado havia erguido algum tipo de escudo ao seu redor.</p><p>Rand for�ou-se a ignorar a raiva distante do lado de fora do Vazio. Apenas na calma fria ele conseguia tocar <emphasis>saidin</emphasis>; admitir a ira destruiria o Vazio. As imensas gotas de fogo sumiram quando ele parou de canalizar. Precisava pegar o homem, n�o mat�-lo.</p><p>O degrau de pedra deslizava ainda mais depressa pela escurid�o. Asmodean se aproximava.</p><p>De s�bito, a plataforma do Abandonado parou. Um v�o reluzente surgiu diante dele, e o homem saltou; a coisa prateada desapareceu, e a porta come�ou a se fechar.</p><p>Rand disparou ataques desenfreados com o Poder. Precisava manter a porta aberta; depois que ela se fechasse, n�o teria ideia do paradeiro de Asmodean. A contra��o cessou. Era u m quadrado de luz solar bem forte, grande o suficiente para entrar. Ele tinha que manter a porta aberta, tinha de alcan��-la antes que Asmodean conseguisse ir muito longe�</p><p>No mesmo instante em que Rand pensou em parar, o degrau parou. Estancou, por�m ele continuou avan�ando e passou voando pela porta. Algo puxou sua bota, e ele saiu rolando em cambalhotas pelo ch�o duro, at� por fim aterrissar embolado, sem f�lego.</p><p>Tentando desesperadamente encher os pulm�es, ele fez for�a para se levantar, sem ousar perder a a��o nem sequer por um instante. O Poder �nico ainda o preenchia com vida e maldade; seus ferimentos pareciam t�o long�nquos quanto a luta para respirar, t�o distante, quanto a poeira amarela que cobria suas roupas �midas e seu corpo inteiro. Ao mesmo tempo, por�m, ele estava consciente de cada m�sero movimento do ar abafado, cada gr�o de poeira, cada diminuta fresta no ch�o de barro rachado. O sol j� secava toda a umidade, absorvendo-a de sua camisa e cal�as. Ele estava no Deserto, no vale abaixo de Chaendaer, a menos de cinquenta passadas da nebulosa Rhuidean. A porta havia desaparecido.</p><p>Ele deu um passo em dire��o � muralha de n�voa e parou, erguendo o p� esquerdo. O calcanhar de sua bota fora decepada. O pux�o que ele sentira; a porta se fechando. Rand estava vagamente ciente de que tiritava, apesar do calor. N�o imaginava que fosse assim t�o perigoso. O Abandonado detinha todo o conhecimento. Asmodean n�o escaparia dele. Irritado, ajeitou as roupas, enfiou com firmeza o homenzinho entalhado e a espada no lugar, correu para a neblina e a adentrou. Uma cegueira cinzenta o envolveu. O Poder que o preenchia n�o o ajudava a enxergar melhor. Ele corria �s cegas.</p><p>De repente, alcan�ando se atirou para baixo e rolou para fora da n�voa, alcan�ando as pedras de um pavimento arenoso. Estirado no ch�o, olhou para cima e viu tr�s fitas brilhantes, de um azul-prateado, � estranha luz de Rhuidean, bem esticadas na horizontal, flutuando. Quando ele se levantou, viu que as fitas estavam na altura de sua cintura, peito e pesco�o, t�o finas que quase sumiam, quando vistas de lado. Ele podia ver como haviam sido feitas e presas ali, ainda que n�o compreendesse. Duras feito a�o, t�o afiadas que faziam uma navalha parecer uma pena. Se ele tivesse avan�ado at� elas de p�, teria sido dilacerado. Uma pequenina explos�o do Poder, e as fitas prateadas viraram p�. Uma raiva fria do lado de fora do Vazio; do lado de dentro, frieza, determina��o e o Poder �nico.</p><p>O brilho azulado do domo de neblina projetava sua luz sem sombras nos pal�cios inacabados de laterais planas, feitos de m�rmore, cristal e vidro recortado, e nas torres caneluradas e espiraladas que arranhavam o c�u. Asmodean corria pela ampla rua � frente passando por fontes secas, em dire��o � enorme esplanada no cora��o da cidade.</p><p>Rand canalizou���foi estranhamente dif�cil; ele agarrou <emphasis>saidin</emphasis> e deu-lhe um pux�o violento, e o contorceu at� que foi invadido���e raios robustos e dentados irromperam das nuvens em domo. N�o foram em cima de Asmodean. Logo adiante do Abandonado, pilares reluzentes em vermelho e branco de cinquenta p�s de espessura e cem passadas de altura, erigidos s�culos antes, explodiram e tombaram para a frente, formando um entulho e nuvens de poeira.</p><p>De imensas janelas de vidro colorido, figuras de homens e mulheres, serenos e majestosos, pareciam lan�ar a Rand um olhar de reprova��o.</p><p>��Eu tenho que impedi-lo���disse Rand a eles; sua voz pareceu ecoar nos pr�prios ouvidos.</p><p>Asmodean parou, mas logo voltou a correr, escalando estrutura que colapsava. A poeira que pairava sobre ele n�o tocava seu casaco vermelho vivo, mas se fragmentava ao redor, deixando o ar limpo.</p><p>Um fogo come�ou a brotar em torno de Rand, envolvendo-o. O ar <emphasis>se tornou</emphasis> uma chama� que desapareceu antes que ele sequer tivesse consci�ncia de como fizera aquilo. Suas roupas estavam secas e quentes; ele sentia o cora��o chamuscado, e a poeira esturricada pelo calor desabava a cada passo seu. Asmodean subia apressado a pedra esfacelada que bloqueava a rua; mais raios foram disparados, lan�ando para cima de Rand estilha�os das pedras do pavimento, rachando as paredes do pal�cio de cristal, que desabavam em ru�nas diante dele.</p><p>O Abandonado n�o reduziu o passo. Enquanto ele se afastava, raios piscavam nas nuvens cintilantes em dire��o a Rand, atacando-o �s cegas, por�m enviados para matar. Correndo, Rand urdiu um escudo � sua volta. Fragmentos de pedra ricocheteavam enquanto ele desviava dos raios azuis que irrompiam e saltava pelos buracos abertos no ch�o. O pr�prio ar cintilava; os pelos de seus bra�os estavam eri�ados, os cabelos em sua cabe�a, desalinhados.</p><p>Algo se formou na barreira de colunas estilha�adas. Ele enrijeceu o escudo em torno de si. Imensos nacos de pedra vermelha e branca que vinham rolando explodiram quando ele tentou escal�-las, uma explos�o de pura luz e pedras voando. Seguro dentro de sua bolha, ele seguiu correndo, apenas vagamente consciente do estrondo das constru��es que colapsavam. Precisava deter Asmodean. Com esfor�o���e era preciso muito esfor�o���ele atirou um raio � frente, depois ondas de bolas de fogo expelidas do ch�o, qualquer coisa para retardar o sujeito de casaco vermelho. Ele estava chegando perto. Adentrou a esplanada somente umas doze passadas atr�s do homem. Tentando aumentar a velocidade, Rand redobrou os esfor�os para retardar Asmodean, e, em fuga, o Abandonado lutava para mat�-lo.</p><p>O <emphasis>ter�angreal</emphasis> e outros objetos preciosos pelos quais os Aiel deram suas vidas para levar at� ali foram arremessados com os raios, lan�ados em fren�ticos redemoinhos de fogo. Formas de prata e cristal se estilha�avam, estranhas silhuetas de metal desabavam enquanto o ch�o estremecia e irrompia em imensas fendas.</p><p>Asmodean corria, em uma busca desenfreada. Ent�o jogou-se no que parecia o objeto menos importante de todo aquele entulho. Uma estatueta de pedra branca entalhada de talvez um p� de altura, ca�da de costas, um homem segurando uma esfera de cristal com a m�o erguida. Asmodean cerrou as m�os no objeto com um grito exultante.</p><p>Uma fra��o de segundo depois, as m�os de Rand tamb�m o agarraram. Por um mil�simo de segundo, Rand encarou o rosto do Abandonado; a apar�ncia era a mesma de quando o sujeito era menestrel, exceto por um desespero incontrol�vel nos olhos escuros. Era um homem de certa beleza, de meia-idade���nada que denunciasse um Abandonado. O mais breve instante e ambos buscaram o poder naquela estatueta, naquele <emphasis>ter�angreal</emphasis>, tentando alcan�ar um dos dois mais poderosos <emphasis>sa�angreal</emphasis> j� produzidos.</p><p>Rand percebeu vagamente a imagem de uma grande est�tua, semienterrada na distante Cairhien, e a imensa esfera de cristal na m�o da figura, reluzindo sob o sol, pulsando com o Poder �nico. E o Poder nele explodiu, feito as tempestades de todos os mares do mundo. Com aquilo, ele decerto seria capaz de qualquer coisa; e decerto poderia inclusive ter Curado aquela crian�a morta. A m�cula tamb�m se avolumou, envolvendo cada part�cula de seu corpo, dominando cada fresta em sua alma. Ele queria urrar; queria explodir. No entanto, controlava apenas metade do que aquele <emphasis>sa�angreal</emphasis> era capaz; a outra metade preenchia Asmodean. Eles lutaram, avan�ando e recuando, trope�ando e caindo em v�rios <emphasis>ter�angreal</emphasis> espalhados e destru�dos. Nenhum dos dois ousava desprender um dedo sequer da estatueta, temendo que o outro fosse tom�-la para si. No entanto, enquanto rolavam sem parar, chocando-se contra um batente de porta vermelho que de alguma forma ainda se mantinha de p�, depois contra uma est�tua de cristal ca�da, por�m intocada, de uma mulher nua segurando uma crian�a ao seio, enquanto lutavam pela posse do <emphasis>ter�angreal</emphasis>, a batalha era disputada em outro n�vel.</p><p>Rand era atacado por martelos de Poder grandes o suficiente para demolir montanhas e por espadas capazes de perfurar o centro da terra; torqueses invis�veis tentavam apartar sua mente de seu corpo, tentavam lacerar sua alma. Cada fragmento de Poder que ele conseguia evocar ia para recha�ar aqueles ataques. Qualquer investida poderia destru�-lo como se ele jamais tivesse existido; n�o havia d�vida. Para onde iam, ele n�o sabia ao certo. O ch�o ricocheteava sob os dois, sacudindo-os em meio � luta, um emaranhado de m�sculos r�gidos e contorcidos. Ele tinha vaga consci�ncia dos poderosos estrondos, dos mil zunidos lamentosos, como uma melodia estranha. As colunas de vidro tr�mulas, vibrantes. N �o conseguia se importar com elas.</p><p>Todas aquelas noites sem dormir come�aram a fazer efeito nele, e tamb�m a corrida que empreendera. Rand estava cansado, e se tinha consci�ncia disso mesmo dentro do Vazio, era porque estava perto da exaust�o. Sacudido pelo tremor da terra, ele percebeu que j� n�o estava tentando arrancar o <emphasis>ter�angreal</emphasis> de Asmodean, apenas o segurava. Logo sua for�a iria embora. Mesmo que conseguisse manter o punho cerrado na figura de pedra, teria de largar <emphasis>saidin</emphasis> ou seria arrebatado por sua torrente, destru�do t�o certamente quanto seria por Asmodean. Ele n�o podia puxar outro fio do <emphasis>ter�angreal</emphasis>; ele e Asmodean estavam em perfeito equil�brio, cada um com metade do que o grande <emphasis>sa�angreal</emphasis> em Cairhien era capaz de dispender. Asmodean arfava na face de Rand, rosnando; o suor pingava da testa do Abandonado e escorria pelo rosto. O homem tamb�m estava cansado. Mas tanto quanto ele?</p><p>A terra descontrolada ergueu Rand por um instante, e, com a mesma rapidez, girou Asmodean para o alto, mas naquele breve instante Rand sentiu uma press�o entre os dois. A ponta da espada do homenzinho redondo, ainda enfiado no c�s de sua cal�a. Uma coisa insignificante perto do imenso Poder que eles manejavam. Uma x�cara d��gua comparada a um vasto rio, a um oceano. Ele sequer sabia se podia usar o objeto enquanto estivesse ligado ao grandioso <emphasis>sa�angreal</emphasis>. E se pudesse? Asmodean arreganhou os dentes. N�o era uma careta, mas um esgar; o homem achava que estava vencendo. Talvez estivesse. Os dedos de Rand tremiam, fraquejando em torno do <emphasis>ter�angreal</emphasis>; tudo o que ele conseguia era agarrar-se a <emphasis>saidin</emphasis>, mesmo preso como estava ao imenso <emphasis>sa�angreal</emphasis>.</p><p>Ele n�o tinha visto aquelas coisas estranhas em torno de Asmodean, feito fios de a�o negro, desde que deixara o local escuro, por�m mesmo no Vazio era capaz de visualiz�-las, de envolver o Abandonado nelas mentalmente. Tam lhe ensinara que o Vazio era um aux�lio � arte do arco e flecha, uma forma de unir-se ao arco, � flecha, ao alvo. Ele se tornou um s� com aqueles fios negros imagin�rios. Mal viu a cara franzida de Asmodean. O homem devia estar se perguntando por que o rosto de Rand havia ficado t�o sereno; a calma sempre dominava o instante antes de a flecha ser solta. Ele tocou o pequenino <emphasis>angreal</emphasis> no c�s da cal�a, e mais Poder fluiu para ele. N�o perdeu tempo em se entusiasmar; era um fluxo t�o pequeno junto ao que ele j� tinha dentro de si, mas era o fluxo final. Iria requerer sua for�a final. Ele forjou uma esp�cie de espada com o Poder, uma espada de Luz, e golpeou; unido � espada, unido aos fios imagin�rios.</p><p>Asmodean arregalou os olhos e emitiu um uivo profundo de pavor; feito um gongo atingido, o Abandonado estremeceu. Por um instante, pareceu dividir-se em dois corpos, apartados e tr�mulos; em seguida os dois se uniram outra vez. Ele desabou de costas, os bra�os estendidos dentro do casaco vermelho, j� imundo e esfarrapado, o peito ofegante; seus olhos encaravam o nada, aparentemente perdidos.</p><p>Quando ele desabou, Rand perdeu a posse de <emphasis>saidin</emphasis>, e o Poder o abandonou. Ele mal teve for�a suficiente para apertar o <emphasis>ter�angreal</emphasis> contra o peito e rolar para longe de Asmodean. Ao levantar-se, parecia carregar o peso de uma montanha. Ele se aninhou em torno da figura com a esfera de cristal.</p><p>A terra parou de se mover. As colunas de vidro ainda estavam de p頗�ele sentiu-se grato por isso; destru�-las teria sido como obliterar a hist�ria dos Aiel���mas <emphasis>Avendesora</emphasis>, que vivera por tr�s mil anos em verdade e lenda, ardia em chamas feito uma tocha. Quanto ao restante de Rhuidean�</p><p>Na esplanada, tudo parecia ter sido revirado por um gigante ensandecido. Metade dos imensos pal�cios e torres eram s� pilhas de entulho, algumas adentrando a pra�a; gigantescas colunas tombadas desfiguravam as outras, havia paredes desmoronadas, e buracos abertos onde antes havia imensas janelas de vidro colorido. Uma rachadura percorria um caminho por toda a cidade, uma fenda no ch�o de cinquenta passadas de largura. A destrui��o n�o terminava ali. O domo de n�voa que encobrira Rhuidean por tantos s�culos estava se dissipando; seu interior j� n�o cintilava, e a luz r�gida do sol entrava pelas novas e imensas frestas. Logo adiante, o cume de Chaendaer parecia diferente, mais baixo. Do outro lado do vale, algumas das montanhas sem d�vida estavam mais baixas. Onde antes existia uma delas, na ponta mais a norte do vale, se estirava um leque de pedras e poeira.</p><p><emphasis>Eu destruo. Eu sempre destruo! Luz, isso n�o vai acabar nunca?</emphasis></p><p>Asmodean rolou de barriga para baixo e se ergueu, de quatro. Seus olhos encontraram Rand e o <emphasis>ter�angreal</emphasis>, e ele amea�ou engatinhar na dire��o deles.</p><p>Rand n�o podia canalizar nem uma fa�sca, mas havia aprendido a lutar antes de ter o primeiro pesadelo com a canaliza��o. Ergueu o punho.</p><p>��Nem ouse pensar nisso.</p><p>O Abandonado parou, o corpo tremendo, cansado. Seu rosto desabou, mas o desespero e o desejo guerreavam dentro dele; �dio e medo cintilavam em seus olhos.</p><p>��Eu gosto muito de ver homens lutando, mas voc�s dois n�o conseguem nem ficar de p�.���Lanfear posicionou-se � vista de Rand, avaliando a destrui��o.���Fizeram o trabalho completo. Conseguem sentir os vest�gios? Este lugar foi blindado, de alguma forma. Voc�s n�o deixaram nem o suficiente para eu poder dizer como.���Os olhos escuros da mulher de s�bito se iluminaram, e ela ajoelhou-se diante de Rand, encarando o que ele segurava.���Ent�o era disso que ele estava atr�s. Pensei que estavam todos destru�dos. S� resta a metade do �nico que eu j� vi; �tima armadilha para uma Aes Sedai desatenta.���Ela estendeu a m�o, e ele agarrou o <emphasis>ter�angreal</emphasis> com mais for�a. Ela sorria, mas um sorriso falso.���Fique com ele, claro. Para mim, � s� uma estatueta.���Ela se levantou e sacudiu a poeira das saias, embora n�o fosse necess�rio. Quando percebeu que ele a observava, a mulher parou de perscrutar a esplanada tomada de entulho e escancarou ainda mais o sorriso.���O que voc� usou foi um dos dois <emphasis>sa�angreal</emphasis> sobre os quais lhe falei. Sentiu a <emphasis>imensid�o</emphasis> dele? Sempre imaginei como deve ser.���Ela parecia ignorar a avidez da pr�pria voz.���Com esses dois juntos, podemos destituir o Grande Senhor das Trevas em pessoa. N�s podemos, Lews Therin! Juntos.</p><p>��Me ajude!���Asmodean engatinhou em dire��o a ela, cambaleante, o rosto erguido tomado de pavor.���Voc� n�o sabe o que ele fez. Tem que me ajudar. Eu n�o teria vindo at� aqui se n�o fosse por voc�.</p><p>��O que foi que ele fez?���perguntou ela, com uma fungada.���Espancou voc� feito um cachorro, e n�o foi nem a metade do que merecia. Voc� nunca esteve destinado � grandeza, Asmodean, apenas a seguir os grandes.</p><p>Rand deu um jeito de se levantar, apertando contra o peito a figura de pedra e cristal. N�o continuaria de joelhos na presen�a daquela mulher.</p><p>��Voc�s, <emphasis>Escolhidos</emphasis>���sabia que era perigoso insult�-la, mas n�o p�de evitar���entregaram a alma para o Tenebroso. Deixaram que ele se unisse a voc�s.���Quantas vezes ele reencenara a batalha contra Ba�alzamon? Quantas vezes, antes de come�ar a imaginar o que eram aqueles fios negros?���Eu o desconectei do Tenebroso, Lanfear. Eu cortei o elo!</p><p>Ela arregalou os olhos em choque, encarando Rand e em seguida Asmodean, sem parar. O homem tinha come�ado a chorar.</p><p>��Eu n�o achava que isso fosse poss�vel. Por qu�? Voc� acha que vai trazer <emphasis>Asmodean</emphasis> para a Luz? Voc� n�o mudou nada nele.</p><p>��Ele ainda � o mesmo homem que se entregou para a Sombra, l� no in�cio���concordou Rand.���Voc� me contou que <emphasis>Escolhidos</emphasis> confiam muito pouco uns nos outros. Por quanto tempo mais ele conseguiria manter isso em segredo? Quantos de voc�s acreditariam que ele pr�prio n�o teria feito isso sozinho? Fico contente por voc� considerar uma coisa dessas imposs�vel; talvez o restante tamb�m considere. Foi voc� quem me deu a ideia, Lanfear. Um homem para me ensinar a controlar o Poder. Mas n�o vou aprender de um homem ligado ao Tenebroso. Agora eu n�o preciso. Ele pode at� ser o mesmo homem, mas n�o tem muita escolha, n�o �? Pode ficar e me instruir, torcer para que eu ven�a, me ajudar a vencer, ou pode ficar esperando que voc�s n�o usem isso como justificativa para se voltar contra ele. O que voc� acha que ele vai escolher?</p><p>Asmodean encarou Rand, encolhido, com os olhos arregalados, depois vociferou uma s�plica para Lanfear.</p><p>��Eles v�o acreditar em voc�! Pode contar para eles! Eu n�o estaria aqui se n�o fosse por voc�! Precisa contar a eles! Eu sou fiel ao Grande Senhor das Trevas!</p><p>Lanfear tamb�m encarou Rand. Pela primeira vez, viu que ela estava indecisa.</p><p>��De quanto <emphasis>voc�</emphasis> se lembra, Lews Therin? O quanto disso � voc�, e o quanto � o pastor? Esse � o tipo de plano que voc� deveria ter bolado quando n�s����Ela respirou fundo e virou a cabe�a para Asmodean.���Sim, eles v�o acreditar em mim. Quando eu contar que voc� resolveu ficar do lado de Lews Therin. Todo mundo sabe que voc� se vira para onde acredita ter mais chances. Pois bem.���Ela assentiu com satisfa��o.���Outro presentinho para voc�, Lews Therin. Esse escudo vai permitir que passe apenas um tantinho de cada vez, o suficiente para ele instru�-lo. Vai se dissipar com o tempo, mas durante meses ele n�o vai ser capaz de desafiar voc�, e a essa altura ele n�o vai <emphasis>mesmo</emphasis> ter outra escolha a n�o ser permanecer com voc�. Ele nunca teve muito talento para quebrar escudos; voc� deve estar disposto a aceitar a dor, e ele jamais esteve.</p><p>��N���ooo!���Asmodean rastejou em dire��o a ela.���Voc� n�o pode fazer isso comigo! Por favor, Mierin! Por favor!</p><p>��Meu nome � <emphasis>Lanfear</emphasis>!���A ira deformou o rosto da mulher a uma cara horrenda, e o homem foi i�ado no ar, com os bra�os e pernas abertos; suas roupas grudaram no corpo, e a carne de seu rosto se contorceu, achatada feito um naco de manteiga.</p><p>Rand n�o podia permitir que ela matasse o homem, mas estava muito cansado para tocar a Fonte Verdadeira sem aux�lio; mal conseguia senti-la, um brilho muito fraco praticamente fora do alcance de sua vis�o. Por um instante, suas m�os agarraram o homenzinho de pedra com a esfera de cristal. Se ele tocasse o imenso <emphasis>sa�angreal</emphasis> em Cairhien agora, aquela quantidade de Poder poderia destru�-lo. Em vez disso, ele tocou a estatueta no c�s da cal�a; com o <emphasis>angreal</emphasis> vinha um fluxo fraco, um fio de cabelo comparado ao outro, mas ele estava muito cansado para extrair mais. Despejou tudo entre os dois Abandonados, na inten��o de pelo menos desviar a aten��o da mulher.</p><p>Uma barra de fogo de dez p�s de comprimento acertou o v�o entre os dois, formando um borr�o envolto por raios azuis distorcidos e abrindo um sulco de um passo de profundidade em torno da pra�a, uma fenda de superf�cie lisa e reluzente, cheia de terra e pedras derretidas; a barra de luz causticante acertou a parede de listras verdes de um pal�cio e explodiu, ressoando um estrondo no m�rmore que se rompia. De um dos lados da fenda derretida, Asmodean desabou no ch�o com um salto tr�mulo, o sangue escorrendo de seu nariz e orelhas; do outro, Lanfear cambaleou para tr�s, como se tivesse sido atingida, depois virou-se para Rand. Ele bamboleou com o esfor�o do que havia feito, e perdeu <emphasis>saidin</emphasis> mais uma vez.</p><p>Por um instante, a ira dominou o rosto da mulher de maneira t�o profunda quanto acontecera com Asmodean. Por um instante, Rand permaneceu � beira da morte. Ent�o a f�ria desapareceu com uma rapidez impressionante, soterrada por detr�s de um sorriso sedutor.</p><p>��N�o, eu n�o preciso mat�-lo. N�o depois do que passamos com tanto esfor�o.���Ela se aproximou e estendeu a m�o para afagar o pesco�o dele, onde a mordida que ela lhe dera em sonho estava cicatrizando; ele n�o tinha deixado Moiraine saber.���Voc� ainda tem a minha marca. Ser� que eu devo torn�-la permanente?</p><p>��Voc� machucou algu�m em Alcair Dal ou nos acampamentos?</p><p>Ela n�o paro de sorrir, mas o carinho mudou, e seus dedos se ergueram de repente, como se ela fosse lhe arrancar a garganta.</p><p>��Como quem? Pensei que voc� tivesse percebido que n�o amava aquela camponesinha. Ou ser� que � a tal Aiel indecente?���Uma v�bora. Uma v�bora assassina que o amava� <emphasis>que a Luz me ajude!</emphasis> E cuja mordida ele n�o sabia como impedir, independentemente de quem fosse o alvo.</p><p>��Eu n�o quero ningu�m ferido. Ainda preciso deles. Posso us�-los.���Era doloroso dizer essa frase, pela verdade que ela carregava. No entanto, para manter as garras de Lanfear longe de Egwene e Moiraine, longe de Aviendha e de quem mais fosse pr�ximo dele, valia a pena sofrer um pouco.</p><p>Jogando a bela cabe�a para tr�s, ela soltou uma risada que mais parecia o repique de sinos.</p><p>��Eu me lembro de quando voc� tinha cora��o mole demais para usar qualquer pessoa que fosse. Era excelente na batalha, duro feito pedra e arrogante como uma montanha, mas aberto e de cora��o mole, igualzinho a uma garota! N�o, eu n�o machuquei nenhuma das suas preciosas Aes Sedai, nem de seus preciosos Aiel. Eu n�o mato sem motivo, Lews Therin. Nem sequer machuco sem motivo.���Ele teve o cuidado de n�o encarar Asmodean; de rosto p�lido, exalando suspiros entrecortados, o homem estava apoiado em uma das m�os e usava a outra para limpar sangue da boca e do queixo.</p><p>Lanfear deu um giro lento e analisou a grande pra�a.</p><p>��Voc� destruiu esta cidade bem como qualquer ex�rcito poderia ter feito.���Mas n�o eram os pal�cios em ru�nas que ela encarava, embora fingisse que sim; era a pra�a destru�da com o amontoado de <emphasis>ter�angreal</emphasis> e tudo o mais que havia ali. Quando ela se virou de volta para Rand, tinha os cantos da boca contra�dos; seus olhos negros guardavam uma centelha de raiva reprimida.���Use bem esses ensinamentos, Lews Therin. Os outros ainda est�o por a�, Sammael, cheio de inveja de voc�, Demandred, cheio de �dio, Rahvin, sedento de poder. Eles v�o ficar mais �vidos por derrot�-lo, ainda mais se� quando descobrirem que voc� est� de posse disso.</p><p>O olhar dela tremulou em dire��o � figura de um p� de altura que ele tinha nas m�os, e por um instante Rand achou que ela estivesse considerando peg�-la. N�o para evitar que os outros fossem atr�s dele, mas porque com aquilo ele poderia tornar-se poderoso demais para ela. Naquele exato momento ele n�o sabia se seria capaz de det�-la caso ela lutasse apenas com as pr�prias m�os. Em um instante ela ponderava se deveria deixar o <emphasis>ter�angreal</emphasis> com ele, em outro, avaliava o grau de cansa�o de Rand. Por mais que dissesse que o amava, a mulher iria querer manter a dist�ncia quando ele voltasse a ganhar for�a suficiente para usar aquilo. Ela lan�ou outra olhadela ligeira � esplanada, de l�bios contra�dos. Ent�o, de s�bito, uma porta se abriu a seu lado; n�o uma porta para a escurid�o, mas em dire��o ao que parecia o aposento de um pal�cio, todo em m�rmore branco entalhado e tape�arias de seda branca.</p><p>��Qual deles voc� era?���perguntou Rand, enquanto a mulher adentrava o aposento, e ela parou e olhou para tr�s, encarando-o com um sorriso quase recatado.</p><p>��Voc� acha que eu aguentaria ser aquela gorda e feia da Keille?���Ela correu as m�os pelo corpo magro e sinuoso, para enfatizar.���Isendre, pois sim. A bela e esbelta Isendre. Achei que, se voc� fosse suspeitar, suspeitaria dela. Meu orgulho aguenta um pouquinho de gordura, quando � necess�rio.���O sorriso transformou-se em um esgar de dentes.���Isendre achava que estava lidando s� com Amigos da Sombra. N�o me surpreende se agora mesmo ela estiver tentando explicar a alguma Aiel enfurecida por que uma enorme quantidade de seus colares e braceletes de ouro est�o enfiados no fundo do ba� dela. Ela de fato roubou alguns sozinha.</p><p>��Achei que voc� tinha dito que n�o machucaria ningu�m!</p><p>��L� vem o seu cora��o mole se revelando. Eu consigo ser uma mulher de cora��o afetuoso, quando quero. Voc� n�o vai poder evitar que ela leve uma surra, eu acho� ela merece isso, pelo menor dos olhares que me disparou. Mas, se retornar depressa, pode evitar que ela seja expulsa daquela terra maldita com um m�sero cantil d��gua. Eles s�o bem duros com os ladr�es, ao que parece, esses Aiel.���Ela soltou uma risada de satisfa��o e sacudiu a cabe�a, admirada.���T�o diferentes do que eram. Quando algu�m estapeava a cara de um Da�shain, a �nica coisa que ele fazia era perguntar o que tinha feito de errado. Quando batiam de novo, ele perguntava se tinha feito algo ofensivo. E continuaria assim, durante o resto do dia.���Ela lan�ou a Asmodean um olhar desdenhoso de soslaio e acrescentou:���Aprenda bem e depressa, Lews Therin. Pretendo governar junto com voc�, n�o quero que fiquemos esperando Sammael vir mat�-lo ou Graendal som�-lo � sua cole��o de belos jovens. Aprenda bem e depressa.���Ela adentrou o aposento de m�rmore e seda branca, e a porta pareceu girar de lado, estreitou-se e desapareceu.</p><p>Rand respirou fundo pela primeira vez desde a chegada da mulher. Mierin. Um nome que ele recordava das colunas de vidro. A mulher que encontrara a pris�o do Tenebroso na Era das Lendas, que adentrara a pris�o. Ser� que ela sabia o que era? Como havia escapado daquela ru�na incandescente que ele vira? Ela tinha se entregado ao Tenebroso ainda assim?</p><p>Asmodean lutava para se levantar, cambaleante, quase caindo outra vez. J� n�o sangrava, mas o sangue ainda tra�ava linhas finas que iam das orelhas at� as laterais do pesco�o, formando uma mancha em sua boca e queixo. Seu casaco vermelho estava imundo e esfarrapado, a renda branca, rasgada e com os fios puxados.</p><p>��Foi o meu elo com o Grande Senhor que me permitiu tocar <emphasis>saidin</emphasis> sem enlouquecer���disse ele, com a voz rouca.���A �nica coisa que voc� fez foi me deixar t�o vulner�vel quanto voc�. Pode muito bem me libertar. N�o sou bom professor. Ela s� me escolheu porque����Ele contorceu os l�bios, tentando engolir as palavras de volta.</p><p>��Porque n�o tem mais ningu�m���concluiu Rand, virando as costas para o homem.</p><p>Com as pernas cambaleantes, Rand cruzou a ampla pra�a, abrindo caminho por entre os entulhos. Ele e Asmodean haviam percorrido metade do entorno da floresta de colunas de vidro desde <emphasis>Avendesora</emphasis>. Plintos de cristal jaziam ao lado de est�tuas derrubadas de homens e mulheres, algumas despeda�adas, outras nem sequer lascadas. Havia um imenso aro liso de metal prateado jogado por cima de cadeiras de a�o e pedra, objetos com formas estranhas de metal, cristal e vidro, todos misturados em uma pilha de estilha�os, e um cabo de metal negro, apoiado na vertical, equilibrado sobre a pilha de maneira improv�vel. A esplanada inteira estava daquele jeito.</p><p>Nos arredores da grande �rvore, bastou ele procurar um pouco no meio da mix�rdia para encontrar o que buscava. Chutou longe peda�os do que pareciam ser tubos de vidro espiralados, jogou uma cadeira vermelha de cristal entalhado para o lado e apanhou uma estatueta de um p� de altura, uma mulher de rosto sereno usando um vestido, toda trabalhada em pedra branca, com uma esfera transparente em uma das m�os. Intocada. T�o in�til para ele ou para qualquer homem quanto seu par masculino era para Lanfear. Ele considerou quebr�-la. Um movimento com o bra�o poderia estilha�ar aquela bola de cristal nas pedras do pavimento, sem d�vida.</p><p>��Ela estava procurando por isso.���Ele n�o havia percebido que Asmodean havia ido atr�s dele. Tr�mulo, o homem esfregou a boca ensanguentada.���Ela vai arrancar seu cora��o fora para conseguir colocar as m�os nisso.</p><p>��Ou o seu, por ter guardado segredo dela. Ela me <emphasis>ama</emphasis>.���<emphasis>Que a Luz me ajude. Gostar de ser amado por um lobo raivoso!</emphasis> Depois de um instante ele guardou a est�tua feminina sob a dobra do bra�o, junto � masculina. Deveria haver algum uso para aquilo. <emphasis>E eu n�o quero destruir mais nada.</emphasis></p><p>No entanto, ao olhar em volta, viu algo al�m da destrui��o. A n�voa tinha se dissipado quase por completo da cidade em ru�nas; apenas umas camadas finas pairavam por entre as constru��es que ainda se mantinham de p� sob o sol po ente. O ch�o do vale agora descrevia uma inclina��o brusca para o sul, e a �gua jorrava da enorme fenda que percorria a cidade, a fenda que seguia por todo o caminho at� onde jazia um profundo oceano de �guas rec�nditas. A extremidade mais baixa do vale j� estava cheia. Um lago. Talvez, eventualmente, chegasse � cidade. Um lago de cerca de tr�s milhas de extens�o, em uma terra onde uma pocinha de dez p�s de di�metro j� atra�a o povo. O povo viria viver naquele vale. Ele quase podia ver as montanhas ao redor j� plenas de verde e planta��es a crescer. O povo cuidaria de <emphasis>Avendesora</emphasis>, a �ltima �rvore de cora. Talvez at� reerguesse Rhuidean. O Deserto teria uma cidade. Talvez ele at� vivesse para ver tudo isso.</p><p>Com o <emphasis>angreal</emphasis>, o homenzinho redondo com a espada, ele conseguiu abrir uma porta para a escurid�o. Asmodean adentrou com ele, relutante, encarando com vago desprezo ao ver surgir um �nico degrau de pedra entalhada, com largura suficiente apenas para os dois. Ainda era o mesmo homem que havia se entregado ao Tenebroso. Seus olhares calculistas e obl�quos eram boas lembran�as disso, se Rand precisasse de alguma.</p><p>Eles se falaram apenas duas vezes enquanto o degrau seguiu flutuando pela escurid�o.</p><p>��N�o posso chamar voc� de Asmodean���disse Rand, em dado momento.</p><p>O homem estremeceu.</p><p>��Meu nome era Joar Addam Nesossin���respondeu ele, por fim. Soava como se tivesse se desnudado ou perdido alguma coisa.</p><p>��Tamb�m n�o posso usar esse. Quem sabe que resqu�cios de outros lugares esse nome guarda? A ideia � evitar que algu�m mate voc� por ser um Abandonado.���E evitar que algu�m soubesse que ele tinha um Abandonado como professor.���Voc� vai ter que continuar sendo Jasin Natael, eu acho. Menestrel do Drag�o Renascido. � um bom pretexto para manter voc� por perto.���Natael fez uma careta, mas n�o retrucou.</p><p>Pouco tempo depois, Rand disse:</p><p>��A primeira coisa que voc� vai me ensinar � como proteger os meus sonhos.</p><p>O homem apenas assentiu, taciturno. Ele causaria problemas, mas n�o poderiam ser maiores do que os causados pela ignor�ncia.</p><p>O degrau reduziu a velocidade, parou, e Rand <emphasis>cingiu</emphasis> outra vez. A porta se abriu na sali�ncia de Alcair Dal.</p><p>A chuva havia parado, embora o ch�o do c�nion, encoberto pelas sombras da noite, ainda estivesse encharcado, transformado em lama pelos p�s dos Aiel. Menos Aiel do que antes, talvez um quarto a menos. Mas n�o lutavam. Encaravam a sali�ncia, onde Moiraine e Egwene, Aviendha e as S�bias haviam se juntado aos chefes dos cl�s, que conversavam com Lan. Mat estava agachado um pouco afastado deles, a aba do chap�u puxada para baixo e a lan�a de cabo preto apoiada no ombro, com Adelin e suas Donzelas paradas de p� ao seu redor. Elas ficaram boquiabertas ao ver Rand saindo da porta, e encararam mais ainda quando Natael veio atr�s, vestindo o casaco vermelho vivo todo arrebentado e a renda branca. Mat levantou-se de um salto e escancarou um sorriso, e Aviendha ergueu a m�o um tantinho em dire��o a ele. Os Aiel no c�nion observavam em sil�ncio.</p><p>Antes que algu�m pudesse falar, Rand disse:</p><p>��Adelin, pode mandar algu�m at� a feira e ordenar que parem de bater em Isendre? Ela n�o � t�o ladra como elas pensam.���A mulher de cabelos louros o encarou, mas na mesma hora falou com uma das Donzelas, que saiu em disparada.</p><p>��Como � que voc� sabia disso?���perguntou Egwene.</p><p>E no mesmo instante Moiraine inquiriu:</p><p>��Onde � que voc� estava? Como?���Seus olhos grandes e escuros saltaram dele para Natael; n�o havia nenhuma evid�ncia da calma de uma Aes Sedai. E as S�bias�? Melaine, com seus cabelos da cor do sol, parecia pronta para arrancar as respostas de Rand com as pr�prias m�os. Bair fechou uma carranca como se pretendesse ench�-lo de varadas. Amys remexia o xale e corria os dedos pelos cabelos claros, incapaz de decidir se estava preocupada ou aliviada.</p><p>Adelin entregou a ele seu casaco, ainda �mido. Rand enrolou nele as duas figuras de pedra. Moiraine observava os dois objetos tamb�m. Ele n�o sabia se ela sequer imaginava o que fossem, mas pretendia escond�-los o melhor poss�vel de qualquer pessoa. Se ele n�o era capaz de confiar nem em si mesmo com o poder de <emphasis>Callandor</emphasis>, menos ainda poderia com o grandioso <emphasis>ter�angreal</emphasis>. N�o antes que ele tivesse aprendido mais sobre como control�-lo, e a si mesmo.</p><p>��O que foi que aconteceu aqui?���perguntou ele, e a Aes Sedai apertou a boca ao ser ignorada. Egwene tamb�m n�o parecia muito satisfeita.</p><p>��Os Shaido foram embora, atr�s de Sevanna e Couladin���disse Rhuarc.���Todos os que permaneceram reconhecem voc� como o <emphasis>Car�a�carn</emphasis>.</p><p>��Os Shaido n�o foram os �nicos que fugiram.���O rosto curtido de Han se contorceu, cheio de amargura.���Alguns dos meus Tomanelle tamb�m se foram. E Goshien, e Shaarad, e Chareen.���Jheran e Erim assentiram, quase t�o soturnos quanto Han.</p><p>��N�o foram com os Shaido���completou o comprido Bael, em sua voz retumbante���mas foram. Eles v�o espalhar a hist�ria sobre o que aconteceu aqui, sobre o que voc� revelou. Isso foi um descuido. Eu vi homens largarem suas lan�as e correrem!</p><p><emphasis>Ele os unir� e os destruir�.</emphasis></p><p>��Nenhum Taardad foi embora���acrescentou Rhuarc, n�o em tom de orgulho, mas como a mera constata��o de um fato.���Estamos prontos para ir aonde voc� nos levar.</p><p>Aonde ele os levasse. Rand n�o havia terminado com os Shaido, com Couladin ou com Sevanna. Perscrutando os Aiel por todo o c�nion, via rostos abalados, apesar de terem escolhido ficar. Como estariam os que haviam fugido? Os Aiel, por�m, eram apenas os meios para um fim. Ele precisava se lembrar disso. <emphasis>Eu tenho que ser ainda mais duro do que eles.</emphasis></p><p>Jeade�en aguardava ao lado da sali�ncia com o cap�o de Mat. Fazendo um gesto para que Natael n�o se afastasse, Rand montou a sela, o embrulho feito com o casaco preso firmemente debaixo do bra�o. Com a boca contorcida, o outrora Abandonado veio se postar ao lado do estribo esquerdo de Rand. Adelin e as Donzelas remanescentes desceram para se enfileirar em torno dele, e surpreendentemente Aviendha foi tomar seu lugar de costume � direita de Rand. Mat pulou na sela de Pips com um balanceio s�.</p><p>Rand olhou para tr�s, para o povo no alto da sali�ncia, todos observando, aguardando.</p><p>��Vai ser uma longa viagem de volta.���Bael virou o rosto.���Longa e sangrenta.���As express�es dos Aiel n�o se alteravam. Egwene estendeu um pouco a m�o em dire��o a ele, com os olhos cheios de dor, mas ele a ignorou.���Quando o resto dos chefes dos cl�s vier, vai come�ar.</p><p>��J� come�ou h� muito tempo���retrucou Rhuarc, baixinho.���A pergunta � onde e como vai acabar.</p><p>Para isso, Rand n�o tinha resposta. Ele girou o sarapintado e cavalgou lentamente pelo c�nion, rodeado por sua peculiar comitiva. Os Aiel partiram na frente dele, observando, aguardando. O frio da noite j� come�ava a cair.</p><empty-line/><cite><p>E quando o sangue foi derramado no solo onde nada crescia, os Filhos do Drag�o come�aram a brotar, o Povo do Drag�o, armados para dan�ar com a morte. E ele os convocou desde as terras des�rticas, e eles abrasaram o mundo com batalhas.</p><text-author>��de <emphasis>A Roda do Tempo,</emphasis> por Sulamein so Bhagad Historiador-chefe da Corte do Sol, a Quarta Era</text-author></cite><subtitle>Fim do Quarto Livro de <emphasis>A Roda do Tempo</emphasis></subtitle></section><section><title><p>Gloss�rio</p></title><p>Uma nota sobre datas neste gloss�rio. O Calend�rio Tomano (elaborado por Toma dur Ahmid) foi adotado aproximadamente dois s�culos depois da morte do �ltimo Aes Sedai e registrava os anos Depois da Ruptura do Mundo (DR). Muitos registros foram destru�dos nas Guerras dos Trollocs, tanto que, ao fim das Guerras, havia controv�rsia sobre o ano exato conforme o antigo sistema. Um novo calend�rio foi proposto por Tiam de Gazar, comemorando a liberta��o da amea�a dos Trollocs e registrando cada ano como um Ano Livre (AL). O Calend�rio Gazarano ganhou ampla aceita��o nos vinte anos seguintes ao fim das Guerras. Artur Asa-de-gavi�o tentou estabelecer um novo calend�rio com base na funda��o de seu imp�rio (DF, Desde a Funda��o), mas apenas historiadores o conhecem. Ap�s a destrui��o e as mortes provocadas pela Guerra dos Cem Anos, um terceiro calend�rio foi desenvolvido por Uren din Jubai Gaivota-Voadora, acad�mico do Povo do Mar, e promulgado pela Panarca Farede de Tarabon. O Calend�rio de Farede, que data do fim arbitrariamente decidido da Guerra dos Cem Anos e registra os anos da Nova Era (NE), encontra-se atualmente em uso.</p><empty-line/><p><strong>Abandonados, os:</strong> Nome dado a treze dos mais poderosos Aes Sedai da Era das Lendas, o que os classifica entre os mais poderosos de todos os tempos. Aes Sedai que passaram para o lado do Tenebroso durante a Guerra da Sombra diante da promessa de imortalidade. De acordo com as lendas e fragmentos de registros, foram aprisionados com o Tenebroso quando a pris�o dele foi resselada. Seus nomes ainda s�o usados para assustar crian�as. Eles s�o: Aginor, Asmodean, Balthamel, Be�lal, Demandred, Graendal, Ishamael, Lanfear, Mesaana, Moghedien, Rahvin, Sammael, e Semirhage.</p><p><strong>Adelin:</strong> Mulher do ramo Jindo dos Aiel Taardad. Uma Donzela da Lan�a que foi at� a Pedra de Tear.</p><p><strong>Aile Jafar:</strong> Um grupo de ilhas do Povo do Mar, aproximadamente a oeste de Tarabon.</p><p><strong>Aile Somera:</strong> Um grupo de ilhas do Povo do Mar, aproximadamente a oeste de Ponte de Toman.</p><p><strong>Alteima:</strong> Gr�-lady de Tear, ambiciosa e preocupada com a sa�de do marido.</p><p><strong>Alviarin:</strong> Aes Sedai da Ajah Branca.</p><p><strong>Andarilha dos Sonhos:</strong> Nome Aiel para uma mulher capaz de adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>.</p><p><strong>angreal:</strong> Objetos remanescentes da Era das Lendas que permitem a qualquer um capaz de canalizar manipular uma quantidade maior do Poder do que seria poss�vel ou seguro sem ajuda. Alguns foram fabricados para uso de mulheres, outros, de homens. Os rumores de <emphasis>angreal</emphasis> us�veis tanto por homens quanto por mulheres nunca foram confirmados. N�o se sabe mais como fabric�-los. Restam poucos. <emphasis>Ver tamb�m sa�angreal</emphasis>; <emphasis>ter�angreal.</emphasis></p><p><strong>Arad Doman:</strong> Na��o do Oceano de Aryth. Atualmente arruinada pela guerra civil e por guerras simult�neas contra aqueles que se declararam a favor do Drag�o Renascido e contra Tarabon. A maioria dos mercadores domaneses s�o mulheres, e, segundo o ditado, �permitir que um homem negocie com uma domanesa� � extremamente insensato. As domanesas s�o famosas���ou infames���pela beleza, sedu��o e vestimentas escandalosas.</p><p><strong>Atha�an Miere:</strong><emphasis>Ver</emphasis> Povo do Mar.</p><p><strong>Avendesora:</strong> Na L�ngua Antiga, a ��rvore da Vida�. Mencionada em muitas hist�rias e lendas, que lhe fornecem v�rias localiza��es.</p><p><strong>Avendoraldera:</strong> Uma �rvore que cresceu na cidade de Cairhien de um ramo de <emphasis>Avendesora</emphasis>, um presente dos Aiel em 566 NE, apesar de nenhum registro revelar qualquer liga��o entre os Aiel e <emphasis>Avendesora</emphasis>. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerra dos Aiel<emphasis>.</emphasis></p><p><strong>Ba�alzamon:</strong> Na l�ngua dos Trollocs, �Cora��o das Trevas�. A maioria acredita, erroneamente, que seja que os Trollocs d�o ao Tenebroso.</p><p><strong>cadin�sor:</strong> Indument�ria dos guerreiros Aiel composta de casaco e cal�as marrom e cinza que se camuflam junto �s pedras e sombras, bem como botas macias at� os joelhos, presas com cadar�os. Na L�ngua Antiga, �roupas de trabalho�.</p><p><strong>Cairhien:</strong> Nome de uma na��o nos limites da Espinha do Mundo, cuja capital recebe o mesmo nome. A cidade foi incendiada e saqueada durante a Guerra dos Aiel, assim como muitas outras cidades e aldeias. O consequente abandono de terras cultiv�veis pr�ximas da Espinha do Mundo tornou necess�ria a importa��o de gr�os. O Assassinato do Rei Galldrian (998 NE) resultou em uma guerra civil pela sucess�o do Trono do Sol, na interrup��o dos carregamentos de gr�os e na fome. Cairhien tem como estandarte um sol nascente com muitos raios em um fundo de c�u azul.</p><p><strong>Carridin, Jaichim:</strong> Inquisidor da M�o da Luz, alto oficial dos Filhos da Luz.</p><p><strong>Chaendaer:</strong> Uma montanha no Deserto Aiel, acima do vale de Rhuidean.</p><p><strong>Chama de Tar Valon:</strong> S�mbolo de Tar Valon, do Trono de Amyrlin e das Aes Sedai. � uma representa��o estilizada de uma chama, uma l�grima branca com a ponta para cima.</p><p><strong>comprimento, unidades de:</strong> 10 polegadas = 1 p�; 3 p�s = 1 passada; 2 passadas = 1 bra�a; 1000 bra�as = 1 milha; 4 milhas = 1 l�gua.</p><p><strong>cuendillar:</strong> Subst�ncia indestrut�vel criada durante a Era das Lendas. Qualquer for�a utilizada na tentativa de destru�-la � absorvida, deixando-a ainda mais forte. Tamb�m chamada de pedra-do-cora��o.</p><p><strong>Era das Lendas:</strong> A Era que terminou com a Guerra da Sombra e a Ruptura do Mundo. Uma �poca em que Aes Sedai realizavam maravilhas com as quais atualmente s� se pode sonhar. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Roda do Tempo; Ruptura do Mundo; Guerra da Sombra<emphasis>.</emphasis></p><p><strong>Espinha do Mundo, a:</strong> Cadeia de alt�ssimas montanhas, com poucos pontos de travessia, que separa o Deserto Aiel das terras a oeste.</p><p><strong>Far Dareis Mai:</strong> Literalmente �Donzelas da Lan�a�. Sociedade guerreira dos Aiel que, ao contr�rio de todas as demais, admite apenas mulheres. Uma Donzela n�o pode se casar e permanecer na sociedade, nem lutar enquanto estiver gr�vida. Qualquer crian�a nascida de uma Donzela � entregue a outra mulher para que esta a crie, de modo que ningu�m saiba quem era a m�e da crian�a. (�Voc� n�o pode pertencer a nenhum homem, nem homem algum pode lhe pertencer, nem qualquer crian�a. A lan�a � sua amante, sua filha e sua vida.�) <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> sociedades guerreiras dos Aiel.</p><p><strong>Fonte Verdadeira:</strong> For�a motriz do universo que faz girar a Roda do Tempo. � dividida em uma metade masculina, <emphasis>saidin</emphasis>, e outra feminina, <emphasis>saidar</emphasis>, que trabalham ao mesmo tempo com e contra a outra. Apenas homens podem recorrer a <emphasis>saidin</emphasis>, e apenas mulheres a <emphasis>saidar</emphasis>. Desde o Tempo da Loucura, <emphasis>saidin</emphasis> est� maculado pelo toque do Tenebroso.</p><p><strong>Gaidin:</strong> Literalmente �Irm�o nas Batalhas�. T�tulo usado pelas Aes Sedai para os Guardi�es.</p><p><strong>Grande Ca�ada � Trombeta, A:</strong> Ciclo de hist�rias sobre a lend�ria busca pela Trombeta de Valere, que ocorreu nos anos entre o fim das Guerras dos Trollocs e o in�cio da Guerra dos Cem Anos. Se contado por inteiro, o ciclo pode durar v�rios dias.</p><p><strong>Grande Serpente:</strong> S�mbolo do tempo e da eternidade, que j� era antigo antes do in�cio da Era das Lendas. Consiste em uma serpente mordendo a pr�pria cauda. Um anel na forma da Grande Serpente � dado �s Aceitas entre as Aes Sedai.</p><p><strong>Gr�o-lordes de Tear:</strong> Com atua��o semelhante � de um conselho, os Gr�o-lordes s�o, historicamente, os governantes da na��o de Tear, onde n�o h� rei ou rainha. Seu n�mero n�o � fixo, varia de tantos quanto vinte a t�o poucos quanto seis. N�o devem ser confundidos com os Senhores da Terra, que s�o lordes menores tairenos.</p><p><strong>Guerra da Sombra:</strong> Tamb�m conhecida como Guerra do Poder. Come�ou pouco depois da tentativa de libertar o Tenebroso, e logo envolveu o mundo inteiro. Em um mundo em que mesmo as lembran�as do que era a guerra haviam sido esquecidas, todas as facetas foram redescobertas, muitas vezes distorcidas pelo toque do Tenebroso no mundo, e o Poder �nico foi usado como arma. A guerra terminou com a renova��o do selo da pris�o do Tenebroso.</p><p><strong>Guerra do Segundo Drag�o:</strong> A guerra lutada (939�43 AL) contra o falso Drag�o Guaire Amalasan. Durante ela, um jovem rei chamado Artur Tanreall Paendrag, mais tarde conhecido como Artur Asa-de-gavi�o, ganhou import�ncia significativa.</p><p><strong>Guerra dos Aiel:</strong> Quando o Rei Laman de Cairhien cortou <emphasis>Avendoraldera</emphasis>, quatro cl�s dos Aiel cruzaram a Espinha do Mundo. Eles saquearam e incendiaram a capital de Cairhien, bem como muitas outras cidades e vilarejos, e o conflito se estendeu at� Andor e Tear. A opini�o geral � de que os Aiel foram finalmente derrotados na Batalha das Muralhas Reluzentes, diante de Tar Valon, mas a verdade � que Laman foi morto naquela batalha, e, tendo cumprido seu objetivo, os Aiel cruzaram a Espinha de volta. <emphasis>Ver tamb�m Avendoraldera</emphasis>; Cairhien.</p><p><strong>Guerra dos Cem Anos:</strong> S�rie de guerras concomitantes entre alian�as em constante mudan�a, iniciada pela morte de Artur Asa-de-gavi�o e a subsequente disputa por seu imp�rio. A guerra deixou grande parte das terras entre o Oceano de Aryth e o Deserto Aiel quase desabitadas, do Mar das Tempestades � Grande Praga. A destrui��o foi tanta que restam apenas alguns registros da �poca. O imp�rio de Artur Asa-de-gavi�o se fragmentou com as guerras, e as na��es dos dias atuais se formaram. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Artur Asa-de-gavi�o.</p><p><strong>Guerras dos Trollocs:</strong> S�rie de guerras iniciadas em torno de 1000 DR que duraram mais de trezentos anos, ao longo dos quais os ex�rcitos dos Trollocs arrasaram o mundo. Com o tempo, os Trollocs foram mortos ou for�ados a retornar � Grande Praga, mas algumas na��es desapareceram, enquanto outras ficaram quase desabitadas. Todos os registros da �poca s�o fragmentados.</p><p><strong>hida:</strong> unidade de medida de �rea de terras equivalente a cem passadas por cem passadas.</p><p><strong>Illian:</strong> Grande porto no Mar das Tempestades, capital da na��o de mesmo nome.</p><p><strong>Inquiridores da Verdade:</strong> Esp�cie de pol�cia/organiza��o de espi�es do Trono Imperial Seanchan. Embora a maioria seja propriedade da fam�lia Imperial, possuem amplos poderes. At� algu�m do Sangue (os nobres Seanchan) pode ser preso por falha em responder alguma pergunta feita por um Inquiridor ou por recusar-se a cooperar com um. A defini��o de coopera��o � imposta pelos pr�prios Inquiridores, sujeita apenas � revis�o da Imperatriz.</p><p><strong>Jogo das Casas, o:</strong> Nome dado �s arma��es, tramas e manipula��es feitas pelas Casas Nobres na busca de poder. Nele, � dado grande valor � dissimula��o, � busca de uma coisa enquanto parece estar atr�s de outra e ao alcance dos objetivos com o menor esfor�o vis�vel. Tamb�m conhecido como Grande Jogo e, �s vezes, por seu nome na L�ngua Antiga: <emphasis>Daes Dae�mar</emphasis>.</p><p><strong>Juramentos, Tr�s:</strong> Juramentos feitos por uma Aceita ao ser elevada a Aes Sedai. S�o proferidos enquanto ela segura o Bast�o dos Juramentos, um <emphasis>ter�angreal</emphasis> que confirma seu compromisso com os votos. S�o eles: (1) N�o dizer palavra que n�o seja verdadeira. (2) N�o criar arma com a qual um homem possa matar outro. (3) Nunca usar o Poder como arma exceto contra Crias da Sombra ou, em casos extremos, em defesa da pr�pria vida, da vida de seu Guardi�o ou de outra Aes Sedai. O segundo juramento foi o primeiro a ser adotado, em rea��o � Guerra da Sombra. O primeiro juramento, embora levado ao p� da letra, em geral pode ser contornado por um discurso cuidadoso. Acredita-se que os dois �ltimos sejam inviol�veis.</p><p><strong>Kaf:</strong> Bebida Seanchan de coadura escura e servida a temperatura escaldante, �s vezes ado�ada, por�m com frequ�ncia servida natural. Uma bebida estimulante.</p><p><strong>Malkier:</strong> Na��o que um dia fez parte das Terras da Fronteira, hoje consumida pela Praga. O s�mbolo de Malkier era um grou dourado em pleno voo.</p><p><strong>Manetheren:</strong> Uma das Dez Na��es que formaram o Segundo Pacto e o nome de sua capital. Tanto a cidade quanto a na��o foram destru�das nas Guerras dos Trollocs. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Guerras dos Trollocs.</p><p><strong>massa, unidades de:</strong> 10 on�as = 1 libra; 10 libras = 1 pedra; 10 pedras = 1 cem-pesos; 10 cem-pesos = 1 tonelada.</p><p><strong>Mayene:</strong> Cidade-estado no Mar das Tempestades, circundada e historicamente oprimida por Tear. Deve sua riqueza e independ�ncia ao conhecimento sobre a localiza��o de cardumes de peixe-prego, que rivalizam em import�ncia econ�mica com os bosques de oliveiras em Tear, Illian e Tarabon. Peixes-prego e oliveiras fornecem quase todo o �leo para os lampi�es. A governante de Mayene � denominada �Primeira�. As Primeiras alegam ser descendentes de Artur Asa-de-gavi�o. Seu estandarte � um gavi�o dourado em pleno voo sobre um campo azul.</p><p><strong>Padr�o de uma Era:</strong> A Roda do Tempo tece os fios das vidas humanas no Padr�o de uma Era, muitas vezes chamado simplesmente de Padr�o, que forma a subst�ncia da realidade para aquela Era. <emphasis>Ver tamb�m ta�veren</emphasis>.</p><p><strong>Povo do Mar:</strong> O nome mais adequado � Atha�an Miere. Um povo misterioso. Habitantes das ilhas do Oceano de Aryth e do Mar das Tempestades, passam pouco tempo em terra firme, levando grande parte de suas vidas nos navios. A maioria do com�rcio mar�timo � feita nos navios do Povo do Mar.</p><p><strong>Questionadores, os:</strong> Ordem dentro dos Filhos da Luz cujos objetivos s�o descobrir a verdade, quando controversa, e revelar Amigos das Trevas. Em sua busca pela verdade e pela Luz, o m�todo usual de interrogat�rio � a tortura. Costumam agir como se j� soubessem a verdade e precisassem apenas de uma confiss�o. Os Questionadores referem-se a si mesmos como a M�o da Luz, a M�o que desenterra a verdade, e por vezes agem como se fossem completamente independentes dos Filhos e do Conselho dos Ungidos, que os comanda. O l�der dos Questionadores � o Gr�o-inquisidor, que ocupa uma cadeira no Conselho dos Ungidos. T�m como s�mbolo o cajado vermelho-sangue de um pastor.</p><p><strong>Renda da Era:</strong> Nome alternativo para o Padr�o. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Padr�o de uma Era<emphasis>.</emphasis></p><p><strong>Roda do Tempo, a:</strong> O tempo � uma roda com sete bra�os, cada um uma Era. Conforme a roda gira, as Eras v�m e v�o, deixando lembran�as que desvanecem e se tornam lendas, que desvanecem e se tornam mitos, e que j� est�o h� muito esquecidos quando a Era que lhes deu origem retorna. O Padr�o de uma Era � um pouco diferente a cada vez que ela retorna, e a cada vez ele � sujeito a mudan�as maiores.</p><p><strong>Ruptura do Mundo, a:</strong> Durante o Tempo da Loucura, os Aes Sedai, tomados pela loucura e capazes de usar o Poder �nico em um grau que hoje � desconhecido, desfiguraram a terra. Arrasaram antigas cadeias de montanhas e constru�ram novas, ergueram terra onde havia oceanos e fizeram os oceanos invadirem a terra. Muitas partes do mundo ficaram completamente despovoadas, e os sobreviventes se dispersaram como poeira ao vento. Essa destrui��o � lembrada em contos, lendas e na hist�ria como a Ruptura do Mundo.</p><p><strong>sa�angreal:</strong> Remanescentes da Era das lendas que permitem a canaliza��o de muito mais do Poder �nico do que seria poss�vel ou seguro de outra forma. Um <emphasis>sa�angreal</emphasis> � semelhante a um <emphasis>angreal</emphasis>, por�m mais poderoso. O volume do poder que pode ser canalizado com um <emphasis>sa�angreal</emphasis> est� para o que se canaliza com um <emphasis>angreal</emphasis> como o que se canaliza com um <emphasis>angreal</emphasis> est� para o que se canaliza sem ajuda. O segredo de sua fabrica��o foi perdido. Assim como ocorre com os <emphasis>angreal</emphasis>, existem <emphasis>sa�angreal</emphasis> de uso masculino e de uso feminino. Restam apenas alguns, que s�o muito mais raros que os <emphasis>angreal</emphasis>.</p><p><strong>sa�sara:</strong> Dan�a indecente de Saldaea. In�meras rainhas de Saldaea j� tentaram em v�o decret�-la ilegal. A hist�ria de Saldaea registra tr�s guerras, duas rebeli�es e incont�veis uni�es e/ou rixas entre casas nobres, bem como um sem-n�mero de duelos, todos animados por mulheres dan�arinas da sa�sara. Diz-se que uma dessas rebeli�es foi contida quando uma rainha derrotada dan�ou para o general vitorioso: ele a desposou e devolveu-lhe o trono. Essa hist�ria n�o � encontrada em nenhum registro oficial e foi negada por todas as rainhas de Saldaea.</p><p><strong>Sabedoria:</strong> Nas aldeias, � a mulher escolhida para participar do C�rculo das Mulheres por seu conhecimento em �reas como a cura e a previs�o do tempo, assim como seu bom senso. Geralmente � considerada equivalente ao Prefeito, e em algumas aldeias � sua superior. O cargo � vital�cio, e � muito raro que uma Sabedoria deixe o of�cio antes de morrer. Dependendo da regi�o o t�tulo pode ser outro, como Guia, Curandeira, S�bia ou Buscadora.</p><p><strong>S�bia:</strong> Entre os Aiel, as S�bias s�o mulheres escolhidas por outras S�bias e treinadas para a cura, uso de ervas e outras habilidades, de forma muito similar �s Sabedorias. Em geral h� apenas uma S�bia por cl� ou ramo. Algumas s�o consideradas portadoras de habilidades de cura e capazes de feitos aparentemente milagrosos. S�o detentoras de grande autoridade e responsabilidade, bem como de forte influ�ncia entre os chefes dos ramos e cl�s, embora esses homens com frequ�ncia as acusem de intrometer-se em seus assuntos.</p><p><strong>Senhores do Medo:</strong> Homens e mulheres que, capazes de canalizar o Poder �nico, passaram para o lado da Sombra durante as Guerras dos Trollocs, agindo como generais das for�as dos Trollocs e dos Amigos das Trevas. �s vezes s�o confundidos com os Abandonados pelos menos instru�dos.</p><p><strong>Servos, Sal�o dos:</strong> Na Era das Lendas, o grande sal�o de reuni�es das Aes Sedai.</p><p><strong>Shayol Ghul:</strong> Montanha nas Terras Devastadas, local da pris�o do Tenebroso.</p><p><strong>sociedades guerreiras dos Aiel:</strong> Todos os guerreiros Aiel s�o membros de uma das sociedades guerreiras, como os C�es de Pedra (<emphasis>Shae�en M�taal</emphasis>), os Escudos Vermelhos (<emphasis>Aethan Dor</emphasis>), os Buscadores das �guas (<emphasis>Duahde Mahdi�in</emphasis>) e as Donzelas da Lan�a (<emphasis>Far Dareis Mai</emphasis>). Cada sociedade tem seus pr�prios costumes e, �s vezes, deveres espec�ficos. Por exemplo, os Escudos Vermelhos agem como pol�cia. Os C�es de Pedra muitas vezes s�o usados para cuidar da retaguarda durante a retirada de um grupo de investida, enquanto as Donzelas com frequ�ncia assumem a fun��o de batedoras. � frequente os cl�s invadirem o territ�rio um dos outros e lutarem entre si, mas membros da mesma sociedade n�o se enfrentam, ainda que os cl�s o fa�am. Dessa forma, h� sempre alguma esp�cie de relacionamento entre cl�s, mesmo quando em guerra declarada.</p><p><strong>sursas:</strong> Dupla de palitos finos utilizados em Arad Doman em substitui��o aos talheres. Alguns afirmam que a dificuldade de comer com as <emphasis>sursas</emphasis> s�o a fonte da c�lebre perseveran�a dos mercadores domaneses, enquanto outros atribuem aos objetos a raz�o do igualmente c�lebre temperamento do povo doman�s.</p><p><strong>ta�maral�ailen:</strong> Na L�ngua Antiga, �Teia do Destino�. Uma grande mudan�a no Padr�o de uma Era, centrada em uma ou mais pessoas, denominadas <emphasis>ta�veren</emphasis>. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Padr�o de uma Era; <emphasis>ta�veren.</emphasis></p><p><strong>ta�veren:</strong> Pessoa em torno da qual a Roda do Tempo tece todas os fios de vidas pr�ximos, talvez TODOS os fios de todas as vidas, para formar uma Teia do Destino. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Padr�o de uma Era.</p><p><strong>Talentos:</strong> Habilidades relativas ao uso do Poder �nico em �reas espec�ficas. O mais conhecido de todos � o da Cura. Alguns, como o de Viajar (habilidade de ir de um lugar a outro sem cruzar o espa�o interveniente), foi perdida. Outros, como o da Profecia (capacidade de predizer eventos futuros, mas de forma geral) s�o muito raros. Outro Talento que h� muito se pensava n�o mais existir era o de Sonhar, que envolve, entre outras coisas, a interpreta��o dos sonhos do Sonhador para prever eventos futuros de maneira mais espec�fica do que as Profecias. Alguns Sonhadores t�m a habilidade de adentrar <emphasis>Tel�aran�rhiod</emphasis>, o Mundo de Sonhos, e (ao que se diz) at� mesmo os sonhos de outras pessoas. O �ltimo Sonhador de que se tem not�cia foi Corianin Nedeal, que morreu em 526 NE, por�m, agora existe outro, ainda muito pouco conhecido.</p><p><strong>Tarabon:</strong> Na��o no Oceano de Aryth. Capital: Tanchico. Outrora local de grandes negocia��es, fonte de tapetes, tintas e fogos de artif�cio produzidos pela Guilda de Iluminadores, entre outros produtos. Atualmente assolada pela guerra civil, bem como por guerras simult�neas contra Arad Doman e o povo jurado ao Drag�o Renascido.</p><p><strong>Tarmon Gai�don:</strong> A �ltima Batalha. <emphasis>Ver tamb�m</emphasis> Drag�o, o; Drag�o, Profecias do; Trombeta de Valere.</p><p><strong>Tear:</strong> Grande cidade portu�ria no Mar das Tempestades. Capital do pa�s de mesmo nome. O estandarte de Tear � composto de tr�s luas crescentes brancas que se inclinam por um campo metade vermelho, metade dourado.</p><p><strong>Tel�aran�rhiod:</strong> Na L�ngua Antiga, �Mundo Invis�vel� ou �Mundo dos Sonhos�. Um mundo vislumbrado em sonhos que os antigos acreditavam permear e circundar todos os outros mundos poss�veis. Ao contr�rio dos outros sonhos, o que acontece �s criaturas vivas no Mundo dos Sonhos � real: uma ferida sofrida l� ainda existir� ao despertar, e quem l� morre n�o acorda jamais.</p><p><strong>Tenebroso:</strong> Nome mais comum, usado em todas as terras, para Shai�tan. A fonte de todo mal, ant�tese do Criador. Aprisionado em Shayol Ghul pelo Criador no momento da cria��o. Uma tentativa de libert�-lo causou a Guerra da Sombra, a m�cula de <emphasis>saidin</emphasis>, a Ruptura do Mundo e o fim da Era das Lendas.</p><p><strong>ter�angreal:</strong> Objeto remanescente da Era das Lendas que utiliza o Poder �nico. Diferente dos <emphasis>angreal</emphasis> e <emphasis>sa�angreal</emphasis>, cada <emphasis>ter�angreal</emphasis> foi feito para determinado objetivo. Alguns s�o usados pelas Aes Sedai, mas o prop�sito original �, em grande medida, desconhecido. Alguns requerem canaliza��o, enquanto outros podem ser usados por qualquer pessoa. Alguns matar�o qualquer mulher que os use ou destruir�o sua habilidade de canalizar. <emphasis>Ver tamb�m angreal</emphasis>; <emphasis>sa�angreal</emphasis>.</p><p><strong>Terras da Fronteira, as:</strong> As na��es que fazem fronteira com a Grande Praga: Saldaea, Arafel, Kandor e Shienar.</p><p><strong>Torean:</strong> Gr�o-lorde de Tear. Um homem que deseja o que nem sua vasta fortuna, nem seu rosto ir�o lhe conceder.</p></section></body><binary id="cover" 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