<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>love_history</genre><author><first-name>Juliette</first-name><last-name>Benzoni</last-name></author><book-title>Fiora e Louren�o O Magn�fico</book-title><annotation><p>A hist�ria come�a em 1457, quando Francesco Beltrami, rico mercador florentino, faz uma paragem em Dijon. A cidade inteira est� reunida em redor de um cadafalso, onde o carrasco vai decapitar dois jovens. Marie e Jean de Br�vailles, irm� e irm�o, condenados por incesto e adult�rio. Marie � muito bela e o florentino apaixona-se. N�o a pode salvar, mas acolhe o beb� que ela caba de dar � luz na pris�o. Leva-a para casa e faz dela sua filha adoptiva: doravante ela ser� Fiora Beltrami...</p></annotation><date/><lang>pt</lang><src-lang>fr</src-lang></title-info><document-info><author><first-name>Your</first-name><last-name>Name</last-name></author><program-used>FictionBook Editor Release 2.6, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date value="2016-09-02">02 September 2016</date><id>CC88696E-80C7-44DE-8731-7D2A484DA921</id><version>1.0</version><history><p>1.0 � &#x441;&#x43E;&#x437;&#x434;&#x430;&#x43D;&#x438;&#x435; &#x444;&#x430;&#x439;&#x43B;&#x430;</p></history></document-info></description><body><title><p>Juliette Benzoni</p><p>Fiora e Louren�o O Magn�fico</p></title><epigraph><p>A todos aqueles e aquelas que gostaram de Catherine, Marianne ou Gerifalto...</p><p>Com toda a minha amizade.</p><text-author>J-B.</text-author></epigraph><section><title><p>NOTA DA AUTORA</p></title><p>Com uma �nica excep��o, os patron�micos italianos deste livro conservaram a sua ortografia e conson�ncia. Excep��o feita ao nome M�dias, cuja forma afrancesada conservei, a fim de que os meus leitores saibam que se trata da grande fam�lia florentina que deu duas soberanas a Fran�a. Tamb�m deixei com as suas caracter�sticas originais os nomes pr�prios do <emphasis>Magn�fico </emphasis>e do seu irm�o...</p></section><section><title><p>Pr�logo</p><p>O CADAFALSO</p></title><epigraph><p>Dijon 1457</p></epigraph><p>Quando os arredores da cidade apareceram no fim da antiga via romana, Francesco Beltrami apressou o passo do seu cavalo, que iniciou um trote alegre, como se adivinhasse que a estrebaria j� n�o estava longe, apesar de o dia ainda ir a meio. O pequeno grupo da sua gente e das mulas carregadas adoptou de imediato o mesmo passo.</p><p>O jovem mercador Florentino amava a Borgonha, da qual apreciava os vinhos voluptuosos e em particular Dijon, a capital, transformada numa das mais belas cidades da Europa pelos duques, se bem que eles s� residissem nela raramente. O olhar de Francesco, habituado desde a inf�ncia a procurar a beleza das coisas, reconheceu o esplendor das igrejas cujo g�tico resplandecia, as resid�ncias nobres e o magn�fico pal�cio ducal, cinzelado como um estojo sob a dupla torre esguia e a flecha, coroada de ouro, da sua Santa Capela, votada a uma ordem de cavalaria: o Tos�o de Ouro, c�lebre em todos os reinos crist�os e n�o s�.</p><p>A verdade obriga a que se acrescente que os monumentos n�o eram o �nico p�lo de atrac��o para o florentino, pois que um certo albergue da rue Porte-Guillaume desempenhava um grande papel no entusiasmo com que escolhia sempre Dijon como uma das suas etapas quando ia a Fran�a ou � Flandres, em neg�cios. Nesse albergue apreciava as especialidades culin�rias, mas tamb�m o conforto, igual, se n�o superior, ao das melhores casas particulares e o acolhimento cort�s, sorridente e amig�vel que o senhor Huguet e a sua mulher Bertillhe reservavam sempre a um dos mais fi�is clientes estrangeiros da Cruz de Ouro.</p><p>O frio era intenso naquela manh� de Dezembro. A �gua gelava nos regatos e nos beirais dos telhados carregados de neve, mas, envolto na sua espessa capa de montar, o capuz enfiado at� �s orelhas e as m�os metidas em luvas forradas. Francesco sentia-se extraordinariamente bem na sua pele e feliz por estar vivo. Talvez por ser jovem, forte, rico e despreocupado, percorria o seu caminho como um homem seguro de si, do seu presente e do seu futuro, com um tudo nada da satisfa��o ego�sta que caracteriza os celibat�rios convictos.</p><p>N�o que fosse feio, ou que as oportunidades faltassem ao herdeiro de Nicolo Beltrami, um dos mais poderosos entre os mestres da <emphasis>arte di Calimala, </emphasis>que, em Floren�a, estava no galarim. V�rias filhas de confrades, banqueiros e fam�lias nobres detinham os seus olhares naquele rapaz de 30 anos, de rosto aberto, habituado a todos os exerc�cios do corpo, ainda por cima letrado e cujos olhos negros, vivos, tinham, por vezes, a doce profundidade do veludo. O que n�o era frequente, porque Francesco desconfiava das mulheres. Naturalmente, tinha uma amante, como todos os homens novos e bem constitu�dos. N�o era sempre a mesma, mudando de vez em quando, mas escolhia-a sempre bela, para ter o prazer de a embelezar e pouco inteligente, para evitar complica��es. E sentia-se bem com esses arranjos, o que fazia suspirar o seu pai. O anci�o desejava ver o seu pal�cio urbano e a sua querida <emphasis>villa </emphasis>de Fiesole cheios de crian�as barulhentas. Infelizmente, tivera de deixar este mundo tr�s anos antes, sem ter tido essa satisfa��o. Para Francesco, a ocasi�o ainda n�o tinha chegado e Nicolo temia que nunca chegasse. � sua morte s�bita causara no jovem uma dor t�o pungente quanto inesperada. Ent�o, encontrara nos neg�cios um derivativo bastante satisfat�rio, para que se lan�asse neles impetuosamente. Os seus amigos e amantes viam-no menos frequentemente, porque passou a viajar muito tanto para aumentar o seu neg�cio, como por um gosto novo pelos grandes caminhos, pela descoberta e por uma certa forma de aventura.</p><p>Sentia-se, portanto, plenamente satisfeito com a sua sorte e consigo pr�prio ao aproximar-se da porta de Ouche, que se abria para uma das principais ruas da cidade, atravessando-a de norte a sul. Mas, mal transp�s os grandes fossos onde se detinha, a despeito do gelo, o mau cheiro das f�bricas de curtumes vizinhas e a espessa guarita de pedra ocupada por soldados enregelados, teve subitamente a impress�o de que um v�u de bruma lhe ca�a em cima e lhe apagava a alegria. Semque percebesse porqu�, o seu cora��o apertou-se, como se se aproximasse de uma amea�a. Talvez porque a cidade n�o oferecia o seu aspecto habitual...</p><p>Diante dele, a pequena pra�a de onde sa�a a rua Porte-d�Ouche estava deserta. As lojas estavam fechadas ou em vias de fechar e os raros passantes corriam de dorso curvado, as m�os metidas debaixo das roupas para as manterem quentes, como se fossem perseguidos. Iam todos na mesma direc��o e a acreditar no barulho que parecia vir do centro da cidade, para um ajuntamento qualquer. E ent�o, de repente, ouviu-se o toque de finados... As notas f�nebres ca�am lentamente do alto campan�rio da igreja de Saint-Jean, a mais pr�xima da porta.</p><p>Intrigado, Francesco aproximou-se de um dos arqueiros de guarda e levou a m�o ao seu capuz guarnecido de pele de marta:</p><p>Posso perguntar o que se passa, meu amigo? Onde vai toda esta gente? H� algum tumulto?</p><p>Soerguendo com a manopla o seu chap�u de ferro, o homem olhou por um instante para aquele viajante de uma eleg�ncia extravagante.</p><p>Se fosse um tumulto, tocava a rebate disse ele sem delicadeza excessiva. Aquilo � o toque de finados!</p><p>Eu sei reconhecer o toque de finados e v�s n�o respondestes � minha pergunta. Morreu algu�m?</p><p>Ainda n�o, mas n�o tarda muito. Vai haver uma execu��o na pra�a Morimont, perto daqui. � para l� que v�o todos e v�s far�eis bem se vos despach�sseis, se n�o quereis perder o espect�culo...</p><p>Eu n�o gosto de ver morrer pessoas. S� quero chegar � estalagem da Cruz de Ouro o mais rapidamente poss�vel...</p><p>O caminho mais curto passa pela pra�a Morimont. Caso contr�rio, � preciso voltar a sair e dar a volta a metade da cidade, para entrar pela porta Guillaume. Se eu fosse a v�s, ia a direito. N�o � uma execu��o como as outras, a que est� em prepara��o. Mestre Arny Signart, o carrasco, vai acomodar gente da nobreza: irm�o e irm�. Parece que dormiam juntos e que a rapariga � bela como os anjos acrescentou o soldado com um suspiro que traduzia a pena que sentia por n�o poder assistir ao que ele chamava de espect�culo.</p><p>Beltrami tirou da sua bolsa uma moeda, que o homem apanhou no ar com uma careta de satisfa��o, enquanto o florentino chamava, com um gesto, Marino, o seu chefe almocreve, que o acompanhava sempre nas suas viagens.</p><p>Que fazemos?</p><p>� melhor ir em frente, ser Francesco. Com os nossos animais conseguiremos passar e, de qualquer Maneira, chegaremos mais depressa do que se formos de volta.</p><p>Tens raz�o. Vamos.</p><p>Alguns instantes mais tarde, o pequeno grupo chegava ao �ngulo sudoeste do vasto espa�o rectangular onde se erguia a bela resid�ncia dos abades de Morimont, que era o local ritual das execu��es em Dijon.</p><p>Francesco j� tinha transposto aquela pra�a, habitualmente vazia, com excep��o do sinistro aparelho que ocupava o seu centro: uma longa plataforma de madeira, erguida dois metros acima do solo e que suportava, numa ponta, uma forca, na outra uma roda e, ao centro, dominado por uma cruz de pedra, o cepo destinado aos decapitados. Mas, naquele dia, uma mar� humana, dificilmente contida pelas alabardas que os soldados de guarda mantinham na horizontal, esfor�ava-se por se aproximar o mais poss�vel dos pilares do cadafalso. Havia gente em todas as janelas e nos telhados, se bem que escorregadios, das casas, sobre o moinho dos Carmes e, naturalmente, sobre os apeadeiros de cavalo da resid�ncia dos abades de Morimont, cujo titular, ausente, se encontrava ent�o na sua abadia, uma das mais poderosas da diocese de Langres.</p><p>O toque a finados continuava as suas notas f�nebres e quando o florentino, pouco interessado no espect�culo, tentou fazer passar a sua mula atrav�s da multid�o para continuar o seu caminho, encontrou uma resist�ncia rabugenta, traduzida por meio de algumas inj�rias escolhidas por parte de uma comadre, ordenando-lhe ao mesmo tempo que se mantivesse quieto at� que tudo estivesse terminado...</p><p>Mas eu n�o quero saber da vossa execu��o! exclamou Beltrami com impaci�ncia. Eu s� quero seguir o meu caminho. Deixai-me passar!</p><p>Mesmo que quis�ssemos, n�o pod�amos. Os condenados est�o a chegar. Tem calma, meu querido e deixa-nos ver!</p><p>Uma esp�cie de enorme suspiro escapou-se de todos os peitos quando a carro�a apareceu, em redor da qual as lan�as dos soldados formavam como que uma grade. Todos os pesco�os se estenderam e, em vez da gritaria que acompanhava habitualmente a apari��o dos condenados, fez-se um grande sil�ncio. S� se ouvia o sino e o ranger das rodas da sinistra atrelagem. A mulher que tinha injuriado Francesco persignou-se lentamente e murmurou com uma voz estrangulada pela emo��o:</p><p>Pobre Virgem Santa! Como eles s�o novos!... Como eles s�o belos!...</p><p>Petrificado, de olhos arregalados e a garganta subitamente seca, Francesco viu os dois jovens avan�ar para a morte. Com efeito, eram muito jovens: o rapaz n�o teria mais de 20 anos e a sua companheira devia ter 17, ou 18. Pareciam-se de Maneira impressionante, t�o impressionante como a sua extraordin�ria beleza. Os mesmos rostos de tra�os puros, os mesmos olhos cinzentos, a mesma distin��o e a mesma coragem, porque ambos olhavam firmemente para o grande cadafalso coberto com um pano negro, onde os esperava o carrasco e os seus ajudantes. Apenas os seus cabelos os diferenciavam, porque ele era t�o moreno quanto ela era loura. At� as roupas eram semelhantes: ambos estavam vestidos de veludo cinzento-claro bordado a ouro. Ele ia de cabe�a descoberta, mas ela levava na cabe�a um pequeno chap�u com um v�u de renda, o que lhe dava o ar de uma noiva a caminho do altar. N�o os tinham acorrentado e eles iam de m�os dadas. Ningu�m diria que eram condenados, de tal Maneira pareciam ir a caminho do triunfo. Atr�s deles, um velho padre chorava para as m�os coladas ao rosto.</p><p>Francesco recordou-se, ent�o, do que o soldado dissera na sua Maneira grosseira: aquelas duas crian�as eram irm�o e irm�... e amavam-se. Era pelo incesto, sem d�vida, que iam pagar com as suas vidas... Como era estranho! E mais estranha ainda a atitude daquela multid�o, que n�o gritava, n�o dizia nada, mas onde v�rias mulheres e homens choravam... De repente, ouviu-se um lamento:</p><p>Miseric�rdia! Miseric�rdia pela juventude deles!...</p><p>Outras vozes se ergueram, numerosas e entre elas ouviu-se a do viajante. Francesco viu-se parte integrante daquela multid�o desolada, com a impress�o assustadora, ainda por cima, de que a sua vida estava ligada � daquela mulher ador�vel e que nada, naquele instante, era mais importante do que arranc�-la ao que a esperava... Uma trombeta soou e o preboste, que acompanhava os condenados, gritou do alto do seu cavalo:</p><p>N�o haver� miseric�rdia! O senhor duque ordenou a morte!</p><p>A multid�o rugiu e Francesco sentiu uma esperan�a. A de ver toda aquela gente lan�ando-se ao assalto do cadafalso para lhe arrancar as suas v�timas, mas j� o rugido esmorecia, se tornava num murm�rio e depois num sil�ncio consternado. O velho duque Filipe, cognominado <emphasis>o Bom </emphasis>e que tanto amava as mulheres, tinha uma m�o pesada. Ningu�m, ali, o ignorava...</p><p>J� a jovem subia sozinha, corajosamente, na direc��o do carrasco mascarado que a esperava, erguendo um pouco o seu longo vestido num belo gesto e recusando cortesmente a ajuda do executor, cuja m�o tremia um pouco. Chegada ao alto, respirou profundamente, persignou-se e olhou por um instante para o c�u, onde um t�mido raio de sol se esfor�ava por atravessar as nuvens. Em seguida, sorriu para a multid�o e tirou o chap�u, que deixou cair. Por fim, ajoelhou-se, afastou ela pr�pria os seus carac�is brilhantes e pousou o pesco�o fr�gil no bloco grosseiro de madeira. Em baixo, com um gesto paternal, o padre agarrara o jovem pelos bra�os e escondia-lhe o rosto no ombro. A multid�o suspendeu a respira��o.</p><p>Mal teve tempo de ver luzir o a�o da pesada espada brandida a duas m�os. Tudo acabara. Os ajudantes do carrasco j� se apressavam a arranjar lugar para a pr�xima v�tima. Desajeitado, sem d�vida, ou demasiado emocionado, um deles, ao afastar o corpo da jovem, ergueu-lhe o vestido at� aos joelhos, deixando ver umas meias de seda vermelha. A multid�o rugiu, indignada. Arny Signart, o carrasco, saltou de imediato. Com toda a for�a, esbofeteou o desajeitado, que rolou para cima do pano ensanguentado, agarrando-o depois com uma m�o e obrigando-o a ajoelhar-se diante do despojo delicado em sinal de arrependimento. A multid�o murmurou, satisfeita.</p><p>Era a vez do jovem, que se desprendeu dos bra�os do padre, se ergueu para a plataforma, levantou do ch�o a cabe�a loura para lhe dar um �ltimo beijo e se deixou cair de joelhos.</p><p>Despacha-te, carrasco! Tenho pressa de me juntar a ela...</p><p>N�o receeis! N�o falta muito.</p><p>A espada ergueu-se. Outro rel�mpago, outro choque e a cabe�a do jovem rolou para perto da da jovem. Estava visto e o povo come�ou a afastar-se pelas ruas adjacentes no meio de um profundo e pouco usual sil�ncio. O toque a finados, por fim, cessou. Mas Francesco n�o se afastou. Pelo contr�rio: entregando o seu cavalo a Marino, avan�ou para o cadafalso onde o padre, de joelhos, rezava ap�s ter lan�ado uns sud�rios para cima dos corpos mutilados. O carrasco e os ajudantes olhavam para ele, n�o ousando interromper a ora��o, quando subitamente um homem ricamente vestido com um manto negro forrado de cinzento se lhes juntou. A sua voz �spera repercutiu-se no ar frio, sinistra como a voz de um corvo:</p><p>Ent�o, senhor Signart, que esperais para pegar no que vos pertence por direito? As roupas dos supliciados j� n�o pertencem aos executores?</p><p>O padre cessou a sua ora��o e ergueu para o homem um olhar pleno de terror e dor. Ao mesmo tempo, estendeu as duas m�os por cima dos corpos, num gesto de protec��o irris�rio, mas tocante:</p><p>Respeito pela morte, <emphasis>messire </emphasis>Regnault! Em nome de Deus, que sofreu na cruz, retirai-vos. A vossa vingan�a completou-se.</p><p>N�o estar� completa enquanto estes miser�veis n�o forem atirados para a fossa malcheirosa que os espera! Vamos, carrasco, tira o que te � devido! Despe-os!</p><p>Sem responder, este tirou, com um gesto enfadado, a m�scara que fazia dele o art�fice impessoal dos actos de justi�a, mostrando um rosto rude e triste, cercado por uma barba cinzenta.</p><p>N�o, <emphasis>messire, </emphasis>eu n�o quero estes despojos, por mais ricos que sejam. N�o me dariam sorte... nem a mim, nem aos meus!</p><p>O homem do manto n�o teve tempo de responder. Francesco interp�s-se subitamente entre ele e o executor, ao qual estendeu algumas moedas de ouro.</p><p>Falastes bem, mestre! Mas, como se trata de uma lei, tomai isto: eu compro-vos os trajes. Podeis enterr�-los com eles, padre!</p><p>Que tendes v�s com isso? resmungou o homem a quem o padre chamara Regnault. Eu tenho todos os direitos sobre estes dois, que foram, ali�s, condenados �s penas do inferno.</p><p>Visto de perto, Regnault estava medonho, pelo �dio que lhe torcia diabolicamente o seu longo rosto de pele amarela, de pequenos olhos cru�is e penetrantes. Aquele homem transpirava fel por todos os poros da sua pele vil. S� lhe faltava uma l�ngua b�fida saindo-lhe da grande boca de dentes enegrecidos, para se parecer com uma serpente. Uma violenta c�lera apoderou-se de Francesco, que agarrou o homem pelo manto:</p><p>Condenados �s penas do inferno? Sois Deus, por acaso?</p><p>Esta... esta mulher... foi-me dada em casamento... arquejou o homem meio estrangulado.</p><p>Entre n�s, a Igreja diz que o casamento vale at� que a morte separe os c�njuges. Foi o que aconteceu. Ide-vos!</p><p>O jovem ia atirar o homem do cadafalso abaixo quando o padre se interp�s. Docemente, mas firmemente, obrigou Francesco a largar a presa:</p><p>Dissestes o que era preciso dizer. Deixai-o ir, agora! E v�s, Regnault du Hamel, abandonai esse �dio e pedi perd�o ao Todo-Poderoso!</p><p>Massajando a garganta dorida, a personagem desagrad�vel, depois de um olhar mort�fero lan�ado a Francesco, desceu as escadas. Quando chegou l� abaixo, considerando-se suficientemente afastado daquele inimigo inesperado, mostrou-lhe o punho, zombando:</p><p>Eu n�o sei quem tu �s, estrangeiro, mas, a despeito do teu ouro, n�o poder�s fazer com que esta f�mea n�o seja atirada para a fossa dos pestilentos com o seu c�mplice. Os soldados encarregar-se-�o disso!</p><p>Com efeito, o sargento que assistira � execu��o reunia os seus homens em redor da carro�a que mandara avan�ar. Com o olhar, Francesco interrogou o padre. Este abanou a cabe�a com ar desolado:</p><p>Infelizmente, ele tem raz�o! Estas pobres crian�as n�o t�m direito a uma sepultura decente. A senten�a foi cruel a <emphasis>esse </emphasis>ponto. E eu at� tive muita dificuldade para obter o direito de as acompanhar. Mas, mesmo que mo tivessem proibido, teria vindo na mesma. N�o sabeis... mas eu vi-os nascer, tanto um como o outro.</p><p>Ent�o, eu vou convosco. Deixai-me ajudar-vos.</p><p>Por que raz�o? Eram vossos conhecidos?</p><p>Vi-os hoje pela primeira vez, mas sinto que tenho de o fazer. H� qualquer coisa que me leva a faz�-lo.</p><p>Receio que vos possais arrepender quando souberdes porque foram condenados e qual foi o seu crime.</p><p>Francesco encolheu os ombros.</p><p>Eram irm�o e irm�... e amavam-se... demasiado! Disseram-me. Mas, estamos a perder tempo.</p><p>Entre os dois envolveram os corpos supliciados nos seus sud�rios e levaram-nos para a carro�a. De repente, Francesco apercebeu, abandonado sobre o pano negro, o pequeno chap�u de renda; agarrou nele. Ao sentir nas m�os aquele ornamento encantador que ainda h� pouco adornava a beleza delicada da jovem morta, sentiu as l�grimas chegarem-lhe aos olhos. Rapidamente, escondeu-o junto do cora��o, abrigado pelo manto e juntou-se � sua gente que continuava � espera na entrada da pra�a.</p><p>Esperai-me no albergue da Cruz de Ouro disse ele a Marino. Eu j� l� vou ter. Nem uma palavra acerca do motivo da minha demora!</p><p>N�o me conheceis? Ningu�m dir� nada. Tendes a certeza que n�o precisais de ajuda?</p><p>Tenho. Tenho uma arma e ouro. � mais do que o necess�rio para me defender em caso de necessidade.</p><p>Levando o seu cavalo pela r�dea, Francesco seguiu a p� a carro�a, na qual o padre, sentado entre os dois corpos, retomara as suas ora��es. Transpuseram a porta de Ouche e os fossos e depois obliquaram na direc��o de uma constru��o meio arruinada, que se erguia n�o longe da estrada de Beaune, entre as antigas f�bricas de curtumes e um campo de estrume. O local era deserto e malcheiroso; no entanto estava l� um homem em p�, apoiado a uma enxada, o nariz e a boca escondidos por um len�o atado no pesco�o. A seus p�s, o buraco que tinha escavado na terra viscosa punha uma mancha negra na paisagem nevada. Foi na direc��o dele que se dirigiu o pequeno cortejo que o senhor du Hamel seguia a dist�ncia. Ao ver o buraco lamacento, no qual apareciam fragmentos de ossos, Francesco n�o p�de reter o seu desgosto: aproximou-se do sargento.</p><p>Ser� mesmo imposs�vel encontrar outra sepultura, em vez deste buraco infecto? perguntou ele levando a m�o � bolsa. O soldado reteve o gesto esbo�ado:</p><p>N�o, <emphasis>messire. </emphasis>O que pedis � imposs�vel, porque isto foi ordenado pela justi�a. � necess�rio que ela seja cumprida, mas acrescentou ele em voz baixa senti-vos feliz por os enterrarmos. Se tiv�ssemos escutado o marido, estes infelizes teriam sido pregados pelos sovacos ao pat�bulo que vedes al�m, � beira da estrada, para apodrecerem lentamente ao vento, � chuva e sob as pedradas que os mi�dos atiram sempre sobre os corpos que t�m este triste fim.</p><p>Francesco fez sinal de que tinha compreendido e recuou. Alguns instantes mais tarde, aquela fossa terr�vel fechava-se sobre os despojos daqueles dois seres jovens e belos que teriam podido viver longos anos felizes e despreocupados, se o amor n�o lhes tivesse estendido uma das suas mais terr�veis armadilhas: a paix�o contranatura.</p><p>Subitamente, o c�u pareceu mais cinzento a Francesco, como se acabasse de perder uma parte da sua luz e o frio tornou-se mais �spero. O jovem virou-se para o velho padre, que apertava friorentamente o seu manto negro em redor dos ombros magros:</p><p>Gostava de falar convosco, padre. A minha gente espera-me na Cruz de Ouro. Vinde comigo, temos os dois uma grande necessidade de recuperar as nossas for�as.</p><p>O velho homem quis recusar, mas n�o tinha for�as para contrariar o florentino, uma vez decidido a qualquer coisa. A despeito dos protestos, viu-se sentado em cima do cavalo daquele amigo ca�do do c�u, que segurou nas r�deas e se dirigiu a passo para a cidade, para onde j� regressavam, tamb�m, os soldados e a carro�a. Mas, ao passarem por Regnault du Hamel, que parecia esperar a sua partida, o jovem escarrou-lhe violentamente aos p�s. Nunca sentira tanta vontade de matar... nem semelhante asco por um ser humano. No entanto, uma hora antes, nunca tinha visto aquele homem. Fora preciso aquele encontro, na volta do caminho, com um rosto de anjo caminhando para o mart�rio, para que o seu pr�prio universo se tornasse num pesadelo, onde, de Maneira inexplic�vel, se viu perfeitamente �-vontade. Aquela gente tinha invadido, com o seu amor e sofrimento, a sua exist�ncia agrad�vel de epicurista e diletante um pouco ego�sta. E nem sequer sabia os seus nomes...</p><p>Eles chamavam-se Jean e Marie de Br�vailles e eu chamo-me Antoine Charruet, sou abade da aldeia e capel�o da fam�lia. Como vos disse ainda h� pouco, vi-os nascer e eram-me t�o queridos como se fossem meus pr�prios filhos. A inf�ncia deles desenrolou-se no castelo paternal, uma bela e rica mans�o que domina as �guas perigosas do Doubs. Os pais deles, Pierre de Br�vailles e Madeleine de la Vigne vivem nele como propriet�rios rurais e como fi�is s�bditos do nosso duque Filipe que Deus guarde, se bem que n�o ou�a sempre os apelos de miseric�rdia...</p><p>O padre benzeu-se e depois, pegando na sua ta�a, bebeu algumas gotas de vinho. Ele e Francesco tinham acabado a refei��o que o florentino mandara servir no seu quarto, onde um bom fogo fazia com que ali reinasse um calor agrad�vel. O rosto do anci�o, t�o p�lido ainda h� pouco, ganhara cor, mas a sua m�o tremia e era vis�vel que as l�grimas n�o estavam longe.</p><p>Preferis repousar um pouco, padre? perguntou docemente Francesco. Receio que este relato vos seja ainda mais penoso.</p><p>N�o. N�o, pelo contr�rio, faz-me bem falar deles... tentar... explic�los a algu�m que tenha compaix�o... Os Br�vailles tinham ao todo quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas. Jean, o mais velho, era tr�s anos mais velho do que Marie, mas desde tenra inf�ncia que era poss�vel ver que uma profunda afei��o, exclusiva e tenaz os unia. Os pais, assim como eu, n�o se preocupavam, limitando-se a sorrir. Chamavam-nos �g�meos�, porque se pareciam de Maneira espantosa e porque, entre todos os irm�os, eram de uma beleza extraordin�ria, como pudestes ver, <emphasis>messire. </emphasis>Foi um capricho da natureza e n�s v�amos nisso a raz�o para a prefer�ncia de Jean por Marie e de Marie por Jean. Os Br�vailles sentiam-se orgulhosos da sua beleza e citavam como exemplo a ternura m�tua, sem que por um instante pensassem que esse amor se tornasse, com os anos, menos puro. Ali�s, que pais teriam semelhante ideia?</p><p>� dif�cil de imaginar, sem d�vida, mas h� exemplos. Falou-se de um conde de Armagnac e da irm�...</p><p>Quando se pertence a uma grande fam�lia, talvez se pense que se est� acima das regras da moral e da opini�o p�blica! Entre os Br�vailles, que v�m de uma boa nobreza, n�o seria poss�vel permitir um tal esc�ndalo. Quando Jean fez 13 anos, o chanceler da Borgonha, mestre Nicolas Rollin, que � amigo da fam�lia, conseguiu que ele entrasse como pajem para o servi�o do senhor conde de Charolais, filho do duque Filipe, a fim de ali aprender ao mesmo tempo o Manejo das armas e as Maneiras da Corte. Messire de Br�vailles, que tinha renunciado �s armas depois do cerco de Compi�gne, onde foi gravemente ferido, ficou muito feliz com aquela circunst�ncia, que ia permitir ao seu filho aprender a nobre arte da cavalaria sob as ordens de um pr�ncipe fervoroso disc�pulo de tal arte. E Jean partiu para Lille.</p><p>�N�o � poss�vel descrever o que foi o desespero de Marie. O seu desgosto pela partida do irm�o foi t�o violento que a sua m�e temeu, por um instante, pela sua raz�o e a crian�a adoeceu por um per�odo de v�rios meses antes de recuperar a sa�de.</p><p>�A aus�ncia de Jean durou quatro anos. De pajem passou a escudeiro de monsenhor Carlos e quando em 1455 regressou a casa para passar o Natal com os seus, todos puderam ver que trazia uma express�o extremamente altiva. Quanto a Marie, que aprendera o canto, a dan�a, a m�sica e a economia dom�stica, a sua beleza florescera com um tal brilho, que os pedidos de casamento come�aram a afluir. Ela recusava-os todos, dizendo que n�o pretendia abandonar a casa dos seus pais, onde se sentia plenamente feliz.</p><p>�Quando Jean regressou, as coisas come�aram a tornar-se graves. Pela minha parte, tive um pressentimento, face � atitude daquelas duas crian�as. A partir do momento em que se reencontraram, nunca mais se separaram um do outro. Sentavam-se sempre um ao p� do outro de m�os dadas. Multiplicavam as ocasi�es para se isolarem e davam juntos, grandes passeios a cavalo. Uma noite... aconteceu o drama... e lamento dizer que fui eu o culpado.</p><p>Antoine Charruet afastou-se da mesa e foi sentar-se perto do fogo, para o qual estendeu as m�os magras que tinham recome�ado a tremer.</p><p>Nessa noite, Jean tinha ensinado a Marie uma dan�a da corte muito graciosa, sem d�vida, mas na qual as figuras, plenas de languidez, n�o eram para ser dan�adas entre um irm�o e uma irm�. Al�m disso, eu tinha reparado nalguma perturba��o, um certo fr�mito, quando os olhos de ambos se encontravam, ou quando as suas m�os se tocavam. Tudo aquilo fez com que me mantivesse acordado durante toda a noite. Sentia crescer o meu nervosismo e acabei por compreender que n�o conseguia conciliar o sono enquanto n�o falasse com Jean. Era preciso convenc�-lo a regressar para junto de monsenhor Charolais logo na manh� seguinte. Peguei, portanto, na minha vela e dirigi-me ao seu quarto, que se situava numa das torres, quer dizer, afastado dos da fam�lia.</p><p>Ao chegar, vi que um pouco de luz se filtrava por baixo da porta e fiquei contente, porque evitava ter de o acordar. Muito suavemente, abri a porta, pensando surpreend�-lo a ler, ou a escrever. Infelizmente, o que vi era ao mesmo tempo terr�vel e de uma beleza fascinante: no grande leito de cortinas vermelhas, � luz doce de uma vela, Jean e Marie amavam-se...</p><p>�N�o sei o que ter�eis feito no meu lugar. Eu devia, sem d�vida, ter entrado pelo quarto dentro e arrancado Marie �quele leito e �queles bra�os, nos quais ela parecia gozar uma felicidade indiz�vel. Mas n�o pude. Por um instante, contemplei-os, perdidos naquele amor que os enaltecia... e depois fechei a porta docemente, muito docemente e voltei para o meu quarto, onde rezei durante toda a noite. Ali�s, o mal estava feito e umas horas a mais ou a menos n�o teriam mudado nada.</p><p><emphasis>�De </emphasis>madrugada, fui ter com Jean, que, desta vez, estava s�. Disse-lhe o que tinha visto e ordenei-lhe, em nome do Senhor, que abandonasse imediatamente aquela casa, que ele n�o tivera pejo em macular. Ele n�o protestou. Disse apenas: �N�s amamo-nos e nada nem ningu�m no-lo impedir�. No entanto, aceitou partir. Se tivesse recusado, eu teria sido obrigado a prevenir o seu pai e ele sabia-o.</p><p>�A Marie, mergulhada em l�grimas por aquela partida t�o brutal, n�o disse nada, mas fui ter com os pais dela e dei-lhes a entender que era tempo de casar a sua filha. Para minha surpresa, encontrei-os decididos a isso. Eles tamb�m n�o tinham gostado da dan�a de corte... E, dessa vez Marie n�o teria o direito de recusar o marido que lhe iriam oferecer.</p><p>�A infelicidade quis que, entretanto, eu fosse obrigado a ausentar-me por algumas semanas, mas parti tranquilo, persuadido de que no meu regresso as coisas j� teriam reencontrado o seu curso normal. Na minha ideia, pensava que um marido jovem, belo e apaixonado faria esquecer a recorda��o de Jean. Acabara por me persuadir que a cena de que fora testemunha n�o passara de uma loucura passageira, uma criancice grave. Eles eram t�o jovens, os dois!</p><p>�Quando regressei, Marie estava noiva e, contrariamente ao que esperava, fiquei consternado. Por n�o sei que aberra��o, Pierre de Br�vailles, a despeito dos pedidos da sua mulher, decidira escolher Regnault du Hamel. V�s viste-lo, n�o preciso, portanto, de vo-lo descrever. Limito-me a dizer-vos que, como conselheiro e tenente da chancelaria com assento em Autun, bastante rico e com grandes e poderosas rela��es, era um genro desej�vel. Al�m disso, tomava Marie sem dote, o que contara na decis�o de Br�vailles. As suas finan�as, soube-o ent�o, n�o iam muito bem... Face a tudo isto, o amor n�o tinha grande peso.</p><p>�Nunca celebrei um casamento t�o dram�tico. Foi preciso, literalmente, arrastar para o altar uma Marie desfigurada pelas l�grimas, ao ponto de eu quase me recusar a celebrar. Mas du Hamel tinha um primo, c�nego em Saint-Benigne de Dijon, que se prontificou a substituir-me. Aben�oei, pois, aquele casamento e transportarei essa culpa comigo at� � minha �ltima hora.</p><p>�Porque, mal Marie entrou na casa de Autun, onde residia o seu marido, a sua vida transformou-se num inferno. Du Hamel mostrava-se de uma avareza s�rdida e de um ci�me man�aco. Marie, submetida a uma incessante espionagem, vivia fechada, mal alimentada e privada de tudo � que pode tornar agrad�vel a vida de uma jovem. O nascimento de uma rapariga, nove meses mais tarde, n�o melhorou as coisas. O marido queria um filho e responsabilizou a mulher por aquilo que ele considerava uma ofensa. Al�m disso, mais grave ainda, deu ouvidos a certos mexericos acerca da natureza real dos sentimentos que Marie alimentava pelo seu irm�o.</p><p>Onde tinha ele ouvido isso?</p><p>V�-se l� saber. Uma criada despedida, um criado subornado ou talvez uma testemunha daqueles longos passeios que as duas infelizes crian�as davam juntas, muitas vezes. Mas, a partir da�, Regnault du Hamel n�o poupou a sua mulher a inj�rias e a maus tratos. Espancada, desprezada, desonrada, Marie resistiu o melhor que p�de, mas, quando du Hamel atingiu o c�mulo da maldade ao levar-lhe a filha, a coragem abandonou-a. A algumas l�guas da sua pris�o estava a casa da sua inf�ncia e o tecto que abrigara a sua demasiado curta felicidade. Uma noite, aproveitando uma breve aus�ncia do seu carrasco, Marie conseguiu fugir com a ajuda de uma jovem criada, que tivera piedade dela. Correu sem parar at� casa dos seus pais, �vida por um ref�gio, no qual o seu corpo, martirizado e coberto de vis n�doas negras, pudesse encontrar aconchego. Ignorava que Jean, inquieto h� meses pela falta de not�cias da sua irm�, acabava de chegar. E o drama desencadeou-se. Ao reencontrarem-se, os dois jovens reencontraram tamb�m, intacto e at�, talvez, refor�ado, aquele sentimento monstruoso que os empurrava um para o outro e os Br�vailles tiveram medo. Com s�plicas e depois com amea�as, tentaram persuadir Marie a regressar a casa do seu marido. Madeleine de Br�vailles estava com o cora��o despeda�ado perante os sofrimentos da sua filha, mas du Hamel era seu marido: tinha sobre ela todos os direitos e ningu�m podia fazer nada.</p><p>Jean, esse, lutou pela irm�. Foi preciso ret�-lo � for�a, para n�o correr a Autun e matar o odioso marido. De qualquer Maneira, op�s-se fortemente a que Marie regressasse � casa conjugal e os pais deixaram de saber o que fazer: Marie amea�ava matar-se se a enviassem de volta. Foi nesse momento que chegou uma carta de Regnault. Uma carta extremamente violenta e agressiva. A terr�vel personagem acusava formalmente Marie de rela��es incestuosas com o seu irm�o e anunciava que ia apresentar queixa na justi�a ducal. Jean e Marie amedrontaram-se. Desejando colocar a maior dist�ncia poss�vel entre eles e o seu inimigo e temendo atrair graves problemas aos seus pais, fugiram. A sabedoria teria exigido que eles fossem cada um para seu lado: ele para junto do conde de Charolais, que abandonara sem autoriza��o e ela para se fechar num qualquer convento afastado. Mas n�o tiveram coragem de se separar, nem de resistir � sua paix�o. Foram para Paris, onde, confiantes no tamanho daquela cidade, se instalaram num albergue vizinho do Louvre. Ali viveram sob nome falso como marido e mulher. Lamento dizer que conheceram ali, na sua inconsci�ncia, seis meses de uma felicidade indiz�vel...</p><p>Nunca se deve lamentar a felicidade disse Francesco com gravidade. � uma coisa muito rara!</p><p>Mesmo quando o pre�o � assim t�o caro?</p><p>Se vos referis � morte deles, creio que vos enganais. Eu vi-os.</p><p>Pareciam ir para o Para�so. Sabiam que mais nada os poderia separar. Iam para a eternidade...</p><p>Sem d�vida suspirou o padre Charruet mas o que ignorais</p><p>� que essa felicidade n�o tardou a dar fruto. Essa not�cia f�-los medir o abismo que se abria entre ambos e o seu universo habitual. Com a coragem de tal tipo de almas, n�o recuaram perante as consequ�ncias e sentiram-se, pelo contr�rio, mais unidos no seu crime como nunca. Pensaram ent�o em fugir para Inglaterra para poderem viver livremente, mas o dinheiro come�ava a faltar-lhes... e depois, sem que se apercebessem, o destino apertava as suas malhas. Acreditavam-se bem escondidos na grande Paris e ignoravam que, com ouro, tudo se consegue. Regnault du Hamel, depois da queixa depositada na justi�a ducal, gastara muito dinheiro a despeito da sua avareza. Pagos por ele, alguns espi�es descobriram a pista dos fugitivos e arranjaram cumplicidades. N�o se podia, com efeito, prend�-los em pleno dia, porque n�o estavam na Borgonha. Du Hamel pagou o que foi preciso e uma noite um bando de homens mascarados invadiu o albergue, pegou nos dois jovens e atirou-os para uma barca, que subiu o Sena at� um ponto onde esperavam uns cavalos. Depois de uma viagem terr�vel, no decurso da qual Marie, gr�vida, pensou morrer cem vezes, as infelizes crian�as foram trazidas para aqui, onde as esperava, n�o apenas du Hamel triunfante, mas tamb�m a pris�o... Com efeito, aquele homem n�o queria apenas a morte dos culpados, queria tamb�m o aviltamento p�blico, queria v�-los acorrentados juntos numa fogueira, no meio de uma multid�o brutalmente alegre e insultuosa... E, de facto, eles foram condenados. O marido arranjou mais testemunhas do que as necess�rias, um punhado de miser�veis que, contra um pouco de ouro, juraram que tinham visto cem vezes Jean e Marie entregarem-se um ao outro... Ali�s, Marie estava � espera de um beb�. Corajosamente, na esperan�a de salvar o seu irm�o, ela afirmou que se tinha entregado a um amor de passagem, mas isso n�o serviu de nada. A senten�a foi apenas adiada at� ao nascimento da crian�a.</p><p>�Ent�o, eu supliquei a Pierre de Br�vailles que fosse ter com o senhor duque, pedindo que, pelo menos, lhes poupassem a vida e que os encerrassem em conventos. Mas ele recusou brutalmente. O seu orgulho fora ferido, julgava-se aviltado, desonrado e creio bem que passara a odi�-los. <emphasis>Dame </emphasis>Madeleine, a sua mulher, juntou as suas s�plicas �s minhas, mas tamb�m sem resultado. Ent�o, partimos os dois para Bruxelas. A dilig�ncia recusada pelo pai era aproveitada pela m�e com todo o seu amor intacto. Em Lille, ao sair da capela, atirou-se aos p�s do senhor duque, que lhe virou as costas sem sequer a ouvir. Aquele velho bode, que sempre ofendeu Deus com a sua lux�ria desenfreada, talvez tivesse tido piedade de Marie se ela tivesse sido sua amante. Mas s� mostrou desprezo por aquela m�e desesperada - lan�ou o padre numa s�bita explos�o de c�lera que fez sobressaltar o seu ouvinte.</p><p>- Que dissestes, padre?... Subitamente corado at� � coroa de cabelos brancos, o padre Charruet teve um t�mido sorriso:</p><p>- Nada! Perdoai-me, meu filho! Deixei-me levar por um resto da c�lera que senti perante as l�grimas de <emphasis>dame </emphasis>Madeleine, abandonada de joelhos no meio de uma galeria sumptuosa e sob os olhares trocistas dos cortes�os. Levantei-a do ch�o e sa�mos juntos, mas ela quis ainda tentar outra coisa.- Jean tinha servido, durante muito tempo, o jovem conde de Charolais, que o tratara amigavelmente. Talvez aquele jovem pr�ncipe, que diziam de costumes puros, se deixasse tocar pela piedade? Jean dizia, muitas vezes, que o seu senhor lhe queria bem...</p><p>- E ent�o?</p><p>- Dessa vez, fomos recebidos, mas a esperan�a s� durou um instante. O conde Carlos tem horror ao deboche que reina na corte do seu pai e esfor�a-se por fazer reinar no seu s�quito a dignidade e a dec�ncia. Al�m disso, � um pr�ncipe orgulhoso e Jean abandonou o seu servi�o sem lhe pedir autoriza��o. Encontr�mo-lo demasiado severo: �Os culpados de semelhante crime n�o merecem perd�o nem miseric�rdia, porque pecaram ao mesmo tempo contra o Senhor Nosso Deus e contra a natureza. A justi�a deve seguir o seu curso...� As l�grimas de uma m�e desesperada n�o encontraram o caminho daquele cora��o coura�ado e tudo o que obtivemos foi que a senten�a fosse mudada: a abomin�vel fogueira daria lugar � decapita��o pela espada, �nica morte digna de um fidalgo. E agora, j� sabeis tanto como eu...</p><p>- Ainda falta qualquer coisa, padre. A jovem estava gr�vida, disseste-lo. Ela conseguiu trazer a crian�a ao mundo?</p><p>- Conseguiu. Na pris�o, h� cinco dias, Marie deu � luz uma menina, que foi levada logo no dia seguinte para o hospital da Caridade, para onde v�o todas as crian�as abandonadas. </p><p>- Abandonadas? - insurgiu-se Francesco - mas, essa pobre pequena n�o tem av�s? Os Br�vailles n�o podem tomar conta dela? Parece-me a mim que ela tem duplamente o sangue deles?</p><p>- Por nada deste mundo <emphasis>messire </emphasis>Pierre quer essa prova sob o seu tecto e <emphasis>dame </emphasis>Madeleine, que foi duramente repreendida aquando do seu regresso da Flandres, n�o ousou afrontar a c�lera do seu marido. O que ela tenta conseguir, de momento, � que lhe confiem a crian�a que Marie deu a Regnault du Hamel.</p><p>- Ent�o e a outra pequena? Que vai ser dela?</p><p>O velho padre afastou as duas m�os, no meio das quais o vazio traduzia a sua impot�ncia:</p><p>- N�o sei. No entanto, antes de morrer, Marie suplicou-me que tomasse conta da sua filha. N�o sei qual vai ser o seu destino. As senhoras do asilo acolheram-na com alguma repugn�ncia.</p><p>- Como assim?</p><p>- Um filho do incesto � objecto de horror, produto de uma coisa diab�lica. Nenhuma ama-de-leite quis encarregar-se dela. D�o-lhe leite de cabra; morrer� dentro em breve, se j� n�o morreu. Eu podia encarregar-me dela, mas onde arranjar uma mulher que me ajude? Moro em Br�vailles e n�o tenho outra casa...</p><p>Francesco deixou explodir a sua indigna��o:</p><p>- As pessoas daqui parecem-me muito pouco crist�s. A crian�a foi baptizada?</p><p>O padre Charruet fez sinal que n�o:</p><p>- Eu queria faz�-lo; mas n�o me deixaram aproximar e...</p><p>- Isso � o que vamos ver! Conduzi-me a esse asilo onde as crian�as inspiram repugn�ncia!</p><p>- Que quereis fazer?</p><p>- Ides ver! Eh l�, Marino! Manda atrelar dois cavalos, ou antes tr�s, e prepara-te para nos acompanhares.</p><p>- � uma loucura! Em breve ser� noite, as portas v�o fechar-se e o hospital est� � entrada da estrada de Beaune - disse o padre.</p><p>- � precisamente por isso que devemos apressar-nos!</p><p>Um instante mais tarde, os tr�s homens retomavam a direc��o da porta de Ouche. Com efeito, o Hospital da Caridade, dedicado ao Esp�rito Santo, erguia a sua constru��o mesmo ao lado do rio Ouche, perto do antigo hosp�cio dos empestados. Era um velho edif�cio, fundado em 1204 pelo duque Eudes III para os peregrinos, os pobres doentes e as crian�as abandonadas. Umas religiosas do Esp�rito Santo partilhavam a obra com algumas religiosas agostinhas, que se ocupavam em particular das crian�as.</p><p>A noite ca�a quando Francesco e os seus dois companheiros chegaram � vista do antigo port�o. Subitamente, Antoine Charraet segurou no bra�o de Francesco e reteve-o. Um homem vinha a sair, acompanhado at� � soleira da porta por um religioso.</p><p>Olhai disse o padre. � Regnault du Hamel! Reconhec�-lo-ia fosse onde fosse, apesar daquele grande manto em que se abriga...</p><p>... e sob o qual esconde qualquer coisa! Sigamo-lo!</p><p>Achais que �... a crian�a?</p><p>Sou capaz de jurar! Escutai! O vento da noite permitiu-lhes ouvir, com efeito, um leve vagido, que tirou as �ltimas d�vidas ao padre. Era mesmo a crian�a que du Hamel escondia sob o seu manto e era urgente tentar saber o que iria ele fazer dela. Deixando os animais � guarda de Marino, Francesco e o seu companheiro lan�aram-se no seu encal�o. N�o era dif�cil de seguir. O local era deserto e o homem n�o se sabia espiado. Caminhava rapidamente na direc��o do velho hosp�cio <emphasis>e </emphasis>do seu cemit�rio aterrador. Francesco viu-o parar perto da fossa recentemente coberta, que a neve afastada distinguia do resto do terreno. De repente, o florentino compreendeu o que ele fora fazer ali e, empunhando o seu punhal, arrancou como uma flecha e chegou ao p� do homem num instante. Era tempo. Du Hamel tinha tirado das pregas do seu manto um beb�, que se p�s a chorar quando o miser�vel o ergueu acima da cabe�a para o esmagar contra uma pedra. Mas j� o punhal de Francesco se encostava aos seus rins...</p><p>Devagar, <emphasis>messire </emphasis>assassino! Devagarinho, se n�o quereis que vos mate. Eu j� sabia que �reis um miser�vel, mas a este ponto...</p><p>A dor devia ser grande, porque Regnault obedeceu e baixou os bra�os.</p><p>Que... quereis?</p><p>Essa crian�a. Dai-ma... e sem lhe fazer mal! Vamos! Depressa! Eu sou pouco paciente!</p><p>O punhal enterrou-se um pouco mais. O homem deixou sair um grito e largou a sua presa, que Francesco agarrou com a m�o livre, para a entregar de imediato ao velho capel�o, que tinha as suas unidas e chorava de emo��o:</p><p>Deus permitiu que cheg�sseis a tempo, <emphasis>messire! </emphasis>Na verdade, creio que sois Seu mensageiro.</p><p>Come�o a pensar o mesmo! E agora, que fazemos? Acabo com ele?</p><p>Mas, para escapar � dor que lhe verrumava os rins, du Hamel lan�ou-se para a frente, rolando na lama. O miser�vel espumava de raiva:</p><p>Miser�vel estrangeiro! H�s-de arrepender-te a vida inteira pelo que fizeste hoje! Eu sou um homem poderoso e tenho os meios para te castigar como mereces.</p><p>Sobretudo, sois um criminoso que n�s acabamos de surpreender quando �eis matar uma crian�a rugiu o padre Charruet. Testemunharei perante a justi�a de monsenhor Filipe e veremos quem tem raz�o!</p><p>Francesco p�s-se a rir e bateu as palmas para chamar Marino, que acorreu com as montadas. De uma das sacolas que os cavalos transportavam tirou uma corda:</p><p>Vamos fazer de Maneira, mestre cobarde, que n�o possas prejudicar ningu�m durante algum tempo. Ajuda-me aqui, Marino!</p><p>Antes que du Hamel pudesse fazer o menor gesto para se defender, viu-se solidamente amarrado e reduzido � impot�ncia. Como continuava a gritar, Francesco tapou-lhe a boca com dois len�os. Em seguida, os dois homens transportaram-no para o velho hosp�cio meio arruinado e abandonaram-no encostado a uma parede daquilo que fora, em tempos, o vest�bulo.</p><p>N�o temeis que ele morra de frio? inquietou-se o padre, que embalava maquinalmente o beb� abrigado sob o seu manto e que, ali�s, j� nem sequer chorava.</p><p>Isso � com ele e com Deus! N�o me pe�ais piedade para este assassino. Est� bem-vestido e est� ao abrigo das correntes de ar. Eu desconfio deste g�nero de homem e quero abandonar Dijon antes que d� in�cio �s suas amea�as. No fim de contas, tem raz�o, quando diz que eu sou aqui um estrangeiro... Mas, agora, temos de tratar deste pobre pequeno ser que ele ia massacrar de Maneira t�o selvagem. Mostrai-mo, padre!</p><p>O anci�o entreabriu o manto, descobrindo uma pequena figura redonda coroada com um caracol castanho e dois punhos min�sculos, que se agitavam docemente. Os olhos estavam fechados e a pequena boca abria-se e fechava-se, procurando mamar.</p><p>Ela tem fome disse Francesco. Regressemos depressa � Cruz de Ouro, <emphasis>Dame </emphasis>Huguet saber� cuidar dela. Dir-lhe-ei que a encontrei na rua, para evitar chocar as sensibilidades das gentes locais.</p><p>Mas, que ides fazer dela?</p><p>Francesco inclinou-se e segurou numa das m�ozitas, que se agarrou imediatamente ao seu dedo. O florentino pousou nela um beijo ligeiro, mas a sua voz era grave quando respondeu:</p><p>Vou fazer dela minha filha. N�o tenho mulher e a minha fam�lia � pequena, mas a dela tamb�m. Juntos, seremos, talvez, felizes. Pela minha parte, farei tudo por isso.</p><p>V�s sois jovem, meu filho. Um dia, haveis de vos casar.</p><p>N�o... n�o, nunca! Tomai-me por louco, se quiserdes, padre, mas eu hoje vi morrer a �nica mulher que poderia ter amado. E espero que l�, onde ela se encontra, Marie... Marie, que me parece conhecer desde sempre, me olhe, sorrindo.</p><p>Um sino tocou, ao longe. As portas da cidade fecharam-se para os tr�s cavaleiros e o seu fr�gil fardo. Dijon, confiante na solidez das suas muralhas, dispunha-se a passar uma noite tranquila.</p><p>O regresso ao Cruz de Ouro com um beb� de apenas alguns dias teve foros de acontecimento. <emphasis>Dame Ber�lle </emphasis>Huguet era muito dedicada a um cliente do qual conhecia, h� muito, a extrema generosidade e se a chegada repentina de uma crian�a ca�da do c�u lhe pareceu um pouco <emphasis>bizarra., </emphasis>absteve-se de fazer qualquer pergunta. Pelo contr�rio, comoveu-se com a triste sorte a que tinha sido votada a pequenita, declarou que j� era bela como um anjo e colocou-a nas m�os experientes de uma parente de idade madura, L�onarde, que a ajudava no albergue e que, como todas as solteironas, <emphasis>adorava </emphasis>tratar de crian�as. Encontrou nas suas malas fraldas e roupa de crian�a que tinham pertencido � sua filha, descobriu mesmo um ber�o e instalou tudo no quarto de L�onarde. Em compensa��o, mostrou um pouco de hesita��o quando Beltrami lhe declarou que era preciso encontrar com urg�ncia uma ama-de-leite que aceitasse partir para l� dos Alpes e pediu ao marido que descobrisse, fosse a que pre�o fosse, uma liteira para transportar o beb� e a ama-de-leite.</p><p>Ides partir j� amanh�? espantou-se o padre Charruet.</p><p>� claro. Pretendo p�r a crian�a em seguran�a em minha casa o mais rapidamente poss�vel, sem dar tempo a v�s sabeis quem de nos fazer mal.</p><p>Mas... e os vossos neg�cios? N�o me dissestes que est�veis a caminho de Paris para visitar a sucursal que l� tendes?</p><p>A viagem n�o tinha nada de urgente. Fi-la para n�o estar em Floren�a para as festividades do Natal. Foi nessa ocasi�o do ano que o meu pai morreu e essa recorda��o ainda me � penosa. Um dos meus servidores, a quem vou dar uma carta, conduzir� sem dificuldade o carregamento de tecidos finos at� � nossa casa da rua d�s Lombards. S� Marino ficar� comigo. Ser� suficiente para chegar a Marselha, onde me espera a minha <emphasis>carraca, </emphasis>a <emphasis>Santa Maria delFiore, </emphasis>que nos levar� at� Livorno, um pequeno porto de pesca que pertence a Floren�a desde h� 30 anos...</p><p>Um navio? Tamb�m sois armador? Pensava que �reis apenas um fabricante de tecidos finos?</p><p>Com efeito, � isso que n�s somos, os que praticamos aquilo que chamamos, entre n�s, a <emphasis>arte di Calimala. </emphasis>Importamos do estrangeiro, principalmente da Flandres e de Inglaterra tecidos em bruto, que s�o, depois, no tear, transformados em tecidos finos, t�o male�veis e suaves como a seda e que s�o muito apreciados em toda a Europa. Mas o meu pai tinha a paix�o do mar. Assim, temos dois navios, o <emphasis>Santa Maria </emphasis>e o <emphasis>Santa Madalena, </emphasis>dos quais um � para o com�rcio, enquanto o outro visita as costas de �frica ou as escalas do Levante, para de l� trazer produtos raros ou preciosos... Mais para satisfazer o seu gosto pela beleza du que para realizar grandes neg�cios. Pelo menos era o que ele dizia acrescentou Francesco com um sorriso porque o <emphasis>Santa Madalena, </emphasis>por vezes, trouxe-lhe alguns tesouros... Mas, onde ides, padre?</p><p>O anci�o tinha-se levantado e dispunha-se a partir.</p><p>Se me demoro muito disse ele a porta do convento do Petit-Clairvaux, onde me d�o hospitalidade, fecha-se e eu...</p><p>Francesco colocou-se rapidamente entre ele e a sa�da e, estendendo as m�os, fechou as do padre no s�lido abra�o das suas:</p><p>Por esta noite, suplico-vos que aceiteis a minha hospitalidade. Partilharemos este quarto...</p><p>Mas...</p><p>Por miseric�rdia, aceitai! N�o gostaria nada de vos perder j�. Amanh� deixarei esta cidade, talvez para nunca mais voltar. Pode ser que nunca mais nos encontremos neste mundo... e eu queria que me fal�sseis ainda... dela!</p><p>De... Marie?</p><p>Mal ouso pronunciar o seu nome, mas bastou um breve momento para ela se apoderar do meu cora��o, da minha vida... Ficai! Ali�s, vem a� o nosso jantar.</p><p>Com efeito, batiam � porta e quem entrou foi uma grande mulher, seca, cujo nariz pontiagudo estava adornado com um par de lunetas, que lhe conferiam uma irresist�vel parecen�a com uma cegonha. Por tr�s dos vidros rodeados de a�o, os seus olhos azuis brilhavam, cheios de vivacidade. Sobre o seu austero vestido negro, onde estava pregado um avental imaculado, o seu rosto, marcado por grandes rugas verticais, n�o tinha mais idade do que o seu corpo magro e liso. Era a tal L�onarde a quem <emphasis>dame </emphasis>Bertille tinha confiado o beb�. Ao entrar executou uma esp�cie de meia rever�ncia bastante desenvolta, mas que acompanhou com uma abertura dos l�bios que podia, com bastante boa vontade, passar por um sorriso.</p><p>Venho dizer-vos que a pequenina adormeceu, <emphasis>messire </emphasis>e que parece estar de boa sa�de, a despeito daquilo por que passou.</p><p>Agrade�o-vos por terdes tomado conta dela respondeu Francesco que, crendo que a mulher procurava uma recompensa, levou a m�o � bolsa.</p><p>Ela deteve-o com um gesto <emphasis>e </emphasis>com um breve:</p><p>Obrigada, mas n�o se trata disso!</p><p>De que se trata, ent�o?</p><p>Do que se vai passar amanh�. <emphasis>Dame </emphasis>Bertille disse-me que cont�veis partir para o vosso pa�s levando esta pobre pequena. De facto, como se chama ela?</p><p>Francesco e o padre Charruet olharam um para o outro, perplexos. Nem um, nem outro, tinham pensado naquilo... Umas l�grimas de vergonha subiram aos olhos do anci�o.</p><p>N�s n�o... sabemos. Nem sequer sabemos se foi baptizada... Uma crian�a... encontrada...</p><p>L�onarde atirou-lhe um sorriso trocista, desta vez um verdadeiro sorriso, cheio de gra�a e at� de mal�cia, o que nela era inesperado.</p><p>Um santo homem como v�s n�o devia mentir, padre. Algo me diz que o encontrastes no Asilo da Caridade, este pequeno anjo... e que, em boa justi�a, se deveria chamar Marie... ou Jeanne! Vamos, n�o fa�ais essa cara! Eu sou curiosa, mas tamb�m me sei calar. E o que se passou esta manh� na pra�a Morimont foi uma coisa bem triste. Aquelas infelizes crian�as...</p><p>Como � que adivinhastes? perguntou Francesco.</p><p>Segui o processo. Oh! n�o por curiosidade malvada, mas por compaix�o. Desejei tanto que, ao menos, lhes deixassem a vida. E vi muitas vezes <emphasis>messire </emphasis>Charruet junto deles. Da� ao beb� foi um passo.</p><p>Bruscamente, L�onarde, cuja voz tinha falhado, tirou um grande len�o da algibeira do avental e assoou-se vigorosamente.</p><p>Deixemo-los repousar em paz e vamos ao que interessa! Precisais de uma ama-de-leite, n�o � verdade, <emphasis>messire?</emphasis></p><p>Com efeito. Sen�o, terei que arranjar uma cabra.</p><p>Creio que tenho o que procurais. N�o muito longe daqui, uma pobre rapariga da minha terra foi violada por um soldado. Ela veio esconder a vergonha na cidade e eu tratei dela. O filho dela nasceu antes de ontem, mas morreu mal saiu do ventre da m�e.</p><p>Ela aceitaria amamentar a pequena? E partir para t�o longe?</p><p>Por isso respondo eu. Mas com uma condi��o: eu vou com ela. A estupefac��o fez arregalar os olhos dos dois homens:</p><p>Quereis abandonar esta casa onde vos apreciam, creio interpretou Beltrami sem sequer saber para onde ides e quem eu sou? Mas, <emphasis>perche... </emphasis>mas, porqu�?</p><p>Espero ser apreciada para onde quer que v� disse L�onarde sem se embara�ar. Al�m disso, sei julgar um homem de bem. Uma outra raz�o: se levardes Jeanette, quero poder velar por ela, porque a pobre rapariga j� sofreu bastante. Estou muito ligada a ela, mas... (e o tom da mulher mudou, fez-se grave, com uma curiosa nota de emo��o.. mas talvez menos do que ao beb� que ainda h� pouco me puseram nos bra�os e que dorme no meu quarto. Quando a vi senti-me extasiada, maravilhada. Foi como que um dom do c�u, uma resposta � ang�stia inexplic�vel que eu senti quando a m�e dela entrou nesta cidade no meio dos arqueiros, acorrentada como uma criminosa.</p><p>Francesco olhou para L�onarde com uma curiosidade nova. Na verdade, aquela mulher parecia-lhe cada vez mais espantosa:</p><p>O incesto n�o � um crime aos vossos olhos, <emphasis>donna </emphasis>L�onarde?</p><p>N�o mais do que aos vossos, aparentemente disse ela com aud�cia. Quanto a mim, s� Deus pode julgar aquilo que n�o �, no fim de contas, sen�o um excesso de amor. S� Ele tem a balan�a para pesar os cora��es. O �nico que merecia a morte era Regnault du Hamel: por excesso de �dio! Mas eu n�o vim aqui para fazer um discurso acrescentou L�onarde, reencontrando a sua brusquid�o habitual. Vou buscar Jeannette?</p><p>Fico-vos muito reconhecido. Mas, primeiro, ide buscar a crian�a... Ela est� a dormir, j� vo-lo disse. N�o tem import�ncia. E em caminho pedi a <emphasis>dome </emphasis>Bertille e a mestre Huguet que venham ao meu quarto... O jovem virou-se para o velho padre: De que precisais para celebrar um baptismo?</p><p>Quereis?... No fim de contas, por que n�o? �gua pura, sal, uma toalha branca, um padrinho e uma madrinha...</p><p>Eu serei o padrinho e <emphasis>donna </emphasis>L�onarde a madrinha... se ela quiser. Mestre Huguet e a sua mulher ser�o as testemunhas...</p><p>Por tr�s dos vidros, os olhos azuis iluminaram-se.</p><p>Vou imediatamente. E depois, vou buscar Jeanette...</p><p>Alguns instantes mais tarde, a pequenita votada ainda h� pouco � vergonha e � morte recebia o baptismo das m�os de Antoine Charruet</p><p>e os nomes de Fiora Maria, filha adoptiva de Francesco Maria Beltrami,</p><p>substituindo-se ao pai e m�e desconhecidos, sendo o padrinho o mesmo Beltrami e a madrinha L�onarde Mercet.</p><p>A testemunha abriu para a circunst�ncia uma das suas melhores garrafas de vinho de Beaune e se se mostrou surpreendido com a partida pr�xima daquela parente da sua mulher, n�o mostrou uma dor excessiva. <emphasis>Dame </emphasis>Bertille, essa, verteu tr�s l�grimas, mas pensou que, se a sua prima estava a enlouquecer, que fosse longe de um albergue cujo nome sempre fora irrepreens�vel. E se um e outro acharam estranho todo aquele rebuli�o em torno de uma crian�a encontrada ao canto de uma rua, abstiveram-se de qualquer manifesta��o em virtude da regra intang�vel de</p><p>todo o bom comerciante, que diz que o cliente tem sempre raz�o. Sobretudo um cliente t�o rico como aquele florentino...</p><p>No dia seguinte, de madrugada, uma liteira um pouco usada, mas ainda bastante apresent�vel que o senhor Huguet negociara ferozmente durante a noite com um seu parente c�nego em Saint-B�nigne e que <emphasis>dame </emphasis>Bertille encheu de almofadas, transportava o beb�</p><p>Fiora, a sua madrinha e Jeanette, sua ama-de-leite, uma jovem Borgonhesa de rosto redondo, corpo redondo, seios redondos e olhos arregalados por passar subitamente de uma vida quase miser�vel para uma prosperidade inesperada. Duas mulas s�lidas iam atreladas aos varais. I Francesco Beltrami e Marino, armados at� aos dentes, escoltavam o ve�culo, cujas cortinas de couro castanho se fecharam mal saiu do p�tio do albergue. Dirigiram-se para a porta de Ouche, enquanto os �ltimos criados do florentino, com o carregamento de tecidos finos, se dirigiam para a porta Guillaume, para l� da qual se estendia a estrada de Paris.</p><p>No momento em que a liteira atravessou a pra�a Morimont, Francesco desviou o olhar do cadafalso despojado do seu pano negro, mas onde se erguia ainda e sempre a cruz, a roda e a forca, evocat�rias de supl�cios. O aspecto daquela pra�a permaneceria para sempre gravada na sua mem�ria tal qual a vira na v�spera, servindo de pano de fundo f�nebre a um rosto resplandecente, um rosto inscrito no mais secreto do seu cora��o, tra�o a tra�o, pelo implac�vel cinzel do amor. E foi com uma esp�cie de serenidade que vislumbrou pela �ltima vez o campo de estrume onde dormiam Marie e o seu irm�o.</p><p>Efectivamente, antes de o dia despontar, Francesco fora bater � porta do carrasco. �quele anci�o severo entregara algum ouro para que, numa noite bem escura, fosse tirar os amantes malditos da sua ign�bil tumba e lhes concedesse o repouso na terra crist� que o padre Antoine Charruet lhe indicaria...</p><p>O Sol de Inverno nasceu, vermelho, grande, banhando a paisagem nevada com uma luz p�rpura. De p�, um pouco para l� da ponte levadi�a da porta de Ouche, o velho padre viu afastar-se pela estrada de Beaune o pequeno cortejo daquele homem generoso, que acabava de dar a todos uma t�o grande li��o de humanidade. Levantando subitamente o bra�o, tra�ou no ar frio o sinal da cruz e depois regressou � cidade. Quando tivesse cumprido com Arny Signart, o executor, o �ltimo desejo do florentino, regressaria a Br�vailles para levar, em segredo, algum apaziguamento � profunda dor de uma m�e e, com isso, a sua alma simples rejubilava antecipadamente. Entrou na primeira igreja que encontrou e lan�ou-se numa ac��o de gra�as, para agradecer a Deus misericordioso o ter permitido que Francesco Beltrami entrasse em Dijon � mesma hora em que Marie de Br�vailles caminhava para a morte. Pelo menos a crian�a, nascida em t�o terr�veis circunst�ncias, escapara � crueldade dos homens e poderia ter a sorte de conhecer alguns anos de felicidade.</p><p>Nem por um instante o anci�o teve vontade de ir ver o que acontecera a <emphasis>messire </emphasis>Regnault du Hamel. Esse estava nas m�os de Deus e a Penit�ncia que lhe fora infligida pelo mercador florentino fora inteiramente merecida.</p><p>Com efeito, s� no dia seguinte um campon�s, que passava perto do velho hosp�cio, ouviu uns gemidos e descobriu o conselheiro do chanceler meio morto de frio. A liteira que transportava a pequena Fiora, aninhada no rega�o de uma L�onarde desabrochada pela primeira vez na vida, j� tinha percorrido uma boa parte do caminho...</p></section><section><title><p>Primeira parte</p><p>POR UMA NOITE DE AMOR</p></title><epigraph><p>Floren�a, 1475</p></epigraph><section><title><p>CAP�TULO I</p><p>A GIOSTRA</p></title><p>Este n�o! Nem este! E muito menos este: j� me viram com ele 20 vezes. Oh! n�o! Este velho horror, n�o: fico com cem anos e com este pare�o um beb�! Procura outros!...</p><p>De p� no meio do seu quarto, em camisa e de p�s nus, de m�os nas ancas e a massa negra dos seus cabelos caindo-lhe livremente pelas costas, Fiora, de olhar tempestuoso, passava em revista os vestidos que Khatoun, a sua jovem escrava t�rtara, tirava um ap�s outro, com gestos descuidados, das grandes arcas de cedro, pintadas e douradas, que serviam de guarda-roupa. Os cetins irisados, os veludos rosa, azuis, brancos, negros ou castanhos, as musselinas bordadas, os tafet�s e os cedais sussurrantes, os samitos matizados, enfim, tudo o que a arte da seda florentina e os tecidos orientais podiam oferecer, tanto � garridice, como ao adorno de uma bela mulher, enchiam o quarto. Sa�am das <emphasis>cassoni, </emphasis>descreviam no ar uma curva graciosa e vinham, depois, cair aos p�s de Fiora para formarem sobre o azul de um grande tapete persa um maci�o colorido e cintilante, que aumentava de volume a cada instante sem conseguir alegrar a sua jovem propriet�ria.</p><p>Chegou o momento em que Khatoun, quase desaparecendo nas profundezas da arca, saiu com um �ltimo v�u e, deixando-se cair numa almofada, disse languidamente com um suspiro magoado:</p><p>� tudo, patroa. J� n�o h� mais nada. Fiora abriu uns grandes olhos incr�dulos.</p><p>Tens a certeza?</p><p>- V� tu mesma, se n�o me acreditas. Nesse caso, isto � tudo o que eu possuo?</p><p>E parece-me que j� � muito. Certamente h� princesas que n�o t�m tanto... |</p><p>Simonetta Vespucci tem mais do que eu. Ela sai sempre com uma <emphasis>toilette </emphasis>nova. � verdade que toda a Floren�a s� tem olhos para ela e que n�o cessam de lhe oferecer presentes... Sentindo umas l�grimas de c�lera subirem-lhe aos olhos, Fiora girou nos calcanhares e foi, com um ar acabrunhado, apoiar-se � graciosa janela de colunas, de onde se podia ver o curso tranquilo do Arno, brilhant^ sob o sol claro de Janeiro. Sem virar a cabe�a, ordenou: Arruma esses trastes todos! N�o vou sair. -N�o queres ir ao torneio? gemeu Khatoun, desiludida porque acompanhava Fiora a toda a parte onde ela ia e queria ver a festa guerreira. |</p><p>Nem ao torneio nem a parte nenhuma. Fico aqui. Espero que, pelo menos, vos digneis vestir-vos? Que Maneiras s�o essas, exibindo-vos em camisa � janela? Procurais apanhar frio, ou quereis que os marinheiros do rio vos vejam? <emphasis>Dame </emphasis>L�onarde acabava de entrar, trazendo num tabuleiro leite quente e fatias de p�o com mel. Os 17 anos passados sobre a dram�tica partida de Dijon n�o tinham mudado muito a prima de Bertille Huguet. Estava apenas um pouco menos angulosa e gra�as � exist�ncia generosa e confort�vel que havia no pal�cio Beltrami, adquirira umas formas mais macias e uns tra�os do rosto menos pronunciados. No entanto, a sua voz conservava a mesma entoa��o inflex�vel de comando, mesmo e sobretudo quando se dirigia a Fiora, a quem adorava, mas a quem n�o deixava passar nada.</p><p>No seguimento de uma viagem por mar, no decurso da qual acreditara ter entregado a alma ao Criador, a borgonhesa descobrira Floren�a, estendida ao sol no seu quadro de doces colinas, com um espanto que: nunca mais a abandonara. A cidade da Flor-de-lis Vermelha transbordava de cor e vida e L�onarde adoptara-a t�o espontaneamente como se pusera ao servi�o de Francesco Beltrami, cujo calor e generosidade a tinham conquistado. Amara a eleg�ncia severa do pal�cio que o negociante habitava nas margens do Arno e depois fora de surpresa em surpresa. Assim, aprendera que as escalas de valores usadas na Borgonha e em Fran�a n�o eram as mesmas na grande cidade mercantil, onde o que se chamava Artes maiores: <emphasis>Calimala, ala, a </emphasis>Seda e a Banca estavam na m� de cima. A nobreza, t�o preponderante noutros s�tios, n�o o era ali, salvo se conseguisse fazer-se admitir no �privil�gio� do com�rcio. Floren�a era uma rep�blica, ou, pelo menos, pretendia s�-lo, se bem que aceitasse obedecer a uma rainha sem coroa, uma dinastia de banqueiros poderosamente ricos, mas sem a m�nima gota de sangue aristocr�tico: os M�dicis. E L�onarde descobrira com prazer que o seu novo patr�o pertencia � fina flor da cidade, da qual tinha todas as hip�teses de vir a ser, um dia, um dos priores, ou at� o magistrado municipal, quando atingisse os 45 anos.</p><p>Na casa Beltrami, a rec�m-chegada fora adoptada com a mesma facilidade com que aprendera a l�ngua toscana, com uma rapidez incr�vel. Fizera da fa�anha de falar duas l�nguas um ponto de honra - e at� tr�s, se se contar com o latim da Igreja - parecendo-lhe um s�mbolo de dignidade e intelectualidade extremamente lisonjeiro. Mas, com Fiora, de quem unicamente se ocupara nos primeiros tempos, falava apenas em franc�s, ali�s com o acordo de Beltrami, para que a crian�a conservasse, pelo menos nesse aspecto, as suas ra�zes. O que lhe permitira nunca a tratar pelo tu habitual florentino, porque, para ela, a pequenita, para todos Fiora Beltrami, filha �natural de Francesco Beltrami e de uma nobre dama que morrera do parto�, n�o deixava de ser filha de Jean e Marie de Br�vailles, quer dizer, um puro produto da nobreza borgonhesa. Fiora assimilara as duas l�nguas com igual facilidade e at� lhes acrescentara o latim e o grego.</p><p>Cinco anos depois da chegada de L�onarde, a velha governanta de Francesco, Nanina, adormecera no seio do Senhor e a borgonhesa fora chamada a substitui-la. Desde ent�o exercia, sem a partilhar, a sua autoridade sobre as diversas casas do negociante, para plena satisfa��o de ambos. Apenas Marino Betti, o antigo recoveiro, transformado em intendente de uma propriedade, escapava � sua autoridade para seu al�vio, adivinhando nele, sen�o um inimigo, pelo menos um advers�rio. Com efeito, juntamente com o seu patr�o e a governanta, Marino era o �nico a conhecer a origem de Fiora, coisa que ele nunca admitira com sinceridade. Assim, Beltrami julgara por bem atar-lhe a l�ngua por meio de um juramento solene prestado diante do primeiro altar da Virgem encontrado na estrada, acrescentando-lhe algumas vantagens financeiras muito convincentes.</p><p>Quanto a Jeanette, a jovem ama-de-leite, a sua frescura loura conquistara um fazendeiro de Mugello. Tornara-se alegremente na signora Crespi e passara a dispensar o seu leite apenas �s crian�as que todos os anos, pontualmente, dava ao marido.</p><p>Evidentemente, as pessoas de Floren�a tinham sabido, n�o sem surpresa, a s�bita paternidade de um dos celibat�rios mais ricos da cidade, mas, herdeiras do pensamento e filosofia gregos, n�o se apegavam muito � severa moral crist� e a bastardia n�o era considerada um defeito redibit�rio, sobretudo se era acompanhada pela beleza. A crian�a revelou-se rapidamente encantadora e os numerosos amigos do seu suposto pai acolheram-na unanimemente de bra�os abertos. As mulheres tinham-se mostrado mais dif�ceis, sobretudo aquelas que tinham filhas para casar, mas muitas esperavam levar Beltrami ao altar, proclamando que era indispens�vel que a pequenita tivesse uma m�e.</p><p>Francesco fizera orelhas moucas, sem que, por isso, as mais tenazes perdessem a esperan�a. Mas havia um pequeno clube de opositoras irredut�veis, cuja chefe de fila oculta era a prima direita de Francesco, Hieronyma, que tinha contra�do matrim�nio com a nobreza ao casar com um Pazzi. As suas raz�es eram transparentes, porque, enquanto Beltrami n�o se casasse e n�o tivesse filhos, ela e o seu filho Pietro eram os seus �nicos herdeiros e a heran�a, na ocorr�ncia, n�o era daquelas a que se renuncia com facilidade.</p><p>Beltrami n�o se deixava enganar pelos seus encantos aparentes e os seus estados de alma n�o o deixavam muito preocupado. � medida que os anos iam passando, ela foi-se persuadindo que a pequena Fiora era realmente filha dele. O amor que numa terr�vel manh� de Inverno ele votara espontaneamente a uma jovem desconhecida cuja beleza o deslumbrara, transferira-o para aquela crian�a, encontrando uma alegria profunda ao v�-la crescer e desabrochar no ninho que lhe oferecera. Fiora era suficiente para a sua felicidade, enquanto esperava o dia em que Deus, fazendo-o passar para o outro lado do espelho, o faria reencontrar a bela mulher dos seus amores...</p><p>L�onarde pousou o tabuleiro sobre o leito, segurou Fiora por um bra�o e puxou-a para tr�s, fechando, com a m�o livre, a janela composta de pequenos vidros redondos, acoplados uns aos outros por meio de lamelas de chumbo.</p><p>Ides, enfim, ser razo�vel? resmungou ela.</p><p>N�o me apetece ser razo�vel protestou a jovem, torcendo-se como um verme para escapar � m�o da governanta. Ali�s, isso quer dizer exactamente o qu�, ser razo�vel?</p><p>Quer dizer que vos deveis comportar como uma jovem dama digna desse nome disse L�onarde, habituada h� muito ao character insubordinado daquela que, no seu foro interior, considerava como sua filha. Quer dizer que deveis comer o que vos trouxe.</p><p>N�o quero. N�o tenho fome.</p><p>Ora, fazei de conta! E depois, deixai que vos vistam! O vosso pai</p><p>mandou chamar-vos. N�o tencionais apresentar-vos a ele em camisa?</p><p>Como por milagre, a rebelde acalmou-se. Amava Francesco com um amor profundo, alegre e confiante. A ideia de lhe causar qualquer dor mesmo ligeira, provocava-lhe grandes acessos de c�lera e L�onarde sabia-o muito bem. Docilmente, Fiora comeu uma fatia de p�o e bebeu um pouco de leite, enquanto Khatoun, a um sinal da governanta, apanhava um dos vestidos desdenhados, preparando-se para vestir a sua patroa. Um instante mais tarde Fiora aparecia vestida com uma t�nica de cetim branco e com o vestido propriamente dito, feito de um belo veludo cor de folhas de Outono, que apertava por baixo dos seios para deixar ver o cetim da t�nica. As pesadas pregas, que rematavam numa curta cauda, eram cingidas bem alto, mesmo sob o peito, por uma fita dourada que rodeava os ombros e apertava as mangas estreitas, t�o longas que cobriam a parte de cima da m�o.</p><p>Enquanto Khatoun dava um la�o nas mangas, cujas aberturas deixavam passar no pesco�o e nos ombros o tecido de cetim branco ligeiramente tufado, L�onarde, armada com uma escova, esfor�ava-se por p�r em ordem a abundante cabeleira de um negro profundo, que ca�a em desordem pelas costas da jovem.</p><p>Estou horr�vel! declarou ela em tom dram�tico.</p><p>� o que eu digo todos os dias quando entro aqui tro�ou L�onarde. Como � que <emphasis>messer </emphasis>Francesco, que � um homem de bom gosto, pode suportar a presen�a de uma rapariga t�o feia sem ficar cego?... N�o digais asneiras!</p><p>Fiora era sincera. Educada numa cidade onde as mulheres s� sonhavam em ser louras e se davam a trabalhos infinitos para clarear os cabelos por meio de enormes quantidades de unguentos e intermin�veis banhos de sol com as cabeleiras metidas em chap�us de cart�o sem fundo, era incapaz de dar o devido valor a uma cabeleira flex�vel e brilhante, sem d�vida, mas demasiado escura.</p><p>- O meu pai ama-me murmurou ela com l�grimas nos olhos.</p><p>Mas n�o olha para mim tal qual eu sou. Eu sei que ningu�m me amar� nunca, com esta trunfa. Sobretudo...</p><p>Bruscamente, calou-se e corou por quase ter deixado escapar o segredo do seu cora��o. N�o sabia que L�onarde j� h� muito sabia desse segredo. Esta, n�o querendo aumentar o desgosto da crian�a, fez de conta que n�o tinha ouvido.</p><p>� melhor n�o fazer esperar <emphasis>messer </emphasis>Francesco disse ela docemente. Acabamos o penteado mais tarde. Em seguida, aflorando com um dedo a face da garota, acrescentou com muita ternura: Se n�o acreditais no vosso espelho, acreditai na velha L�onarde... e nesses rapazes todos que vos fazem a corte: sois mais bonita do que pensais e eu sei que, mais tarde, sereis muito bela. E agora, toca a andar!</p><p>Fiora n�o respondeu. N�o estava convencida. Evidentemente, n�o se achava horr�vel: seria preciso ser cega; evidentemente, n�o faltavam os pretendentes em redor da filha do muito rico e poderoso <emphasis>messer </emphasis>Beltrami, mas justamente porque o seu pai possu�a uma das maiores fortunas da cidade, ela n�o conseguia acreditar na sua sinceridade e teria dado alegremente toda a sua fortuna para possuir os cabelos dourado-avermelhados de Simonetta...</p><p>Na soleira da porta a jovem perguntou:</p><p>Onde est� o meu pai?</p><p>No <emphasis>studiolo.1</emphasis></p><p>Fiora saiu e viu-se na grande galeria de colunas que, no primeiro andar do pal�cio, dava a volta ao <emphasis>cortile </emphasis>o p�tio interior ornamentado com duas est�tuas antigas e laranjeiras plantadas em grandes vasos de maj�lica verdes e azuis. Apesar de se estar em pleno Inverno, o tempo estava suave e ensolarado, porque a esta��o fria, na Tosc�nia, caracterizava-se mais pela chuva do que por grandes frios e a neve era rara. Fiora, que n�o gostava de viver fechada e que passava a maior parte do seu tempo livre no jardim, respirou aquele ar leve, que trazia com ele os odores do p�o quente e das especiarias finas por cima de um fundo musical long�nquo. O dia era o vig�simo oitavo de Janeiro, dia de festa, porque Louren�o de M�dicis queria celebrar com fausto o acordo que acabava de assinar, contra <emphasis>o Turco, </emphasis>com a Seren�ssima Rep�blica de Veneza. Haveria torneios, banquetes e dan�as...</p><p>O caminho que Fiora tinha de percorrer n�o era longo: os apartamentos de Francesco eram no mesmo andar dos da sua filha, mas</p><p>1 Meio biblioteca, meio gabinete de estudo e de curiosidades, o <emphasis>studiolo </emphasis>era a sala predilecta dos italianos ricos</p><empty-line/><p>do outro lado do p�tio. Com Khatoun, que nunca a abandonava, trotando sempre nos seus calcanhares, Fiora dirigiu-se rapidamente para eles.</p><p>Khatoun era t�rtara e tinha a mesma idade da sua jovem patroa. Era uma criatura pequena, mi�da e graciosa, que, com o seu rosto triangular, olhos rasgados e nariz pequeno e achatado, se parecia com um gato. Desses felinos tinha a vivacidade e as naturais brincadeiras e meiguice. Adorava a casa Beltrami, Fiora e a vida doce que levava junto dela. O facto de ter nascido escrava n�o a atormentava minimamente, pela excelente raz�o de que ningu�m teria a ideia de lho fazer sentir. Fiora n�o o teria permitido.</p><p>Tal como em toda a It�lia, em Floren�a os escravos eram numerosos, sobretudo os do sexo feminino e a opul�ncia de uma casa avaliava-se, n�o s� pelo seu n�mero e qualidades, mas tamb�m pelo exotismo da sua apar�ncia. Alguns eram raros e eram disputados, como o casal de dan�arinos mouros e a an� negra que a duquesa de Ferrare invejava furiosamente � duquesa de Mil�o, Bianca-Maria Sforza.</p><p>Os burgueses das cidades ricas como Floren�a, Mil�o, Veneza ou G�nova, podiam oferecer a si pr�prios esse luxo caro, que fazia com que os escravos fossem muitas vezes tratados como familiares e n�o como vulgares criados. Os armadores venezianos, ou genoveses, importavam-nos dos mercados do Mar Negro, da �sia Menor, da pen�nsula balc�nica, de Espanha, onde os Mouros possu�am ainda Granada, da R�ssia ou da Tart�ria e o seu pre�o variava entre os cem e os 200 ducados de ouro. Naturalmente, se fossem cantores, dan�arinos ou bordadeiras h�beis, m�sicos ou amas-de-leite, o pre�o subia com facilidade aos 500 ou 600 ducados. Quanto a Khatoun, n�o passava de um beb� de colo quando foi comprada em Tr�bizonda pelo capit�o do Santa Madalena, emocionado com a beleza da m�e dela e trazida para Floren�a. Mas Djamal, a m�e, morreu alguns meses ap�s a sua chegada e a pequenita Khatoun foi tamb�m, ao mesmo tempo que Fiora, criada por L�onarde e destinada a ser ao mesmo tempo companheira e criada de quarto da jovem, sendo a primeira condi��o mais importante do que a segunda...</p><p>Aquela hist�ria dos escravos tinha atormentado L�onarde aquando da sua chegada a Floren�a. As suas convic��es crist�s insurgiram-se perante um tal estado de coisas, mas em breve descobriu que os escravos de Floren�a eram muitas vezes mais bem tratados, devido ao pre�o pago, do que certos assalariados, certos criados de quinta, ou certas raparigas de cozinha das casas do outro lado dos Alpes. Possuir escravos n�o perturbava minimamente os estranhos sentimentos religiosos dos florentinos, que, ao mesmo tempo que professavam uma devo��o profunda por Cristo, a Virgem e os santos, enchendo as suas igrejas com frescos, ret�bulos e obras de arte admir�veis, demonstravam um gosto muito grande pela mitologia e filosofia gregas, com Plat�o ocupando com vantagem o primeiro lugar. A borgonhesa acabara por desculpar os seus novos concidad�os, em virtude do seu profundo amor pela beleza sob todas as suas formas e isso at� nas classes mais baixas e da sua extraordin�ria alegria de viver...</p><p>Chegada diante da porta do seu pai, Fiora mandou Khatoun p�r ordem no seu quarto e depois, batendo levemente, entrou sem esperar autoriza��o; no que teve raz�o, porque poderia ter tido de esperar muito tempo. Com a m�o no queixo e o cotovelo apoiado no bra�o da sua cadeira, Francesco sonhava diante de um quadro pousado num cavalete de �bano virado para ele... O seu rosto irradiava uma tal felicidade que a jovem ficou espantada.</p><p>Pai! chamou ela docemente.</p><p>Francesco estremeceu como algu�m que � acordado subitamente, mas sorriu de imediato com aquele sorriso que dava tanto encanto ao seu rosto fatigado. Com os anos, adquirira um pouco de peso e algumas rugas, ao mesmo tempo que os seus espessos cabelos negros come�avam a ficar grisalhos, mas conservava uma grande vitalidade e uma espantosa capacidade de trabalho.</p><p>Anda ver! disse ele estendendo os bra�os para atrair a jovem: Sandro acaba de mo mandar e � uma maravilha...</p><p>Fiora aproximou-se apressadamente. Algumas semanas antes posara para um jovem pintor da vizinhan�a, que Louren�o de M�dicis distinguira e que, at� ao momento, quase s� trabalhara para ele, mas Francesco Beltrami, cuja paix�o pela pintura era conhecida, soubera conquistar a amizade daquele rapaz imaginativo e sonhador, extravagante e at�, por vezes, vers�til, que alimentava a sua obra com os seus sonhos e os dos poetas florentinos. Era filho de um curtidor do bairro de Ognissant� e chamava-se Sandro Filipepi; come�ava a ser conhecido sob o nome de Botticelli, que significa pipo e que lhe vinha de um irm�o mais velho, de 28 anos, grande bebedor e que sempre se ocupara dele, ao ponto de as pessoas acreditarem que era seu pai, passando este por seu av�. Como o garoto era conhecido como o Sandro do Botticello, ficou Botticelli.</p><p>O quadro contemplado por Beltrami era um retrato, que Fiora contenplou com um estupor onde entrava, tamb�m, uma grande dose de decep��o:</p><p>Mas... essa n�o sou eu!</p><p>O painel de madeira pintada representava, com efeito, uma jovem mulher brilhantemente loura, com um vestido de veludo cinzento bordado a ouro que Fiora nunca usara, porque de moda diferente. Diferente, tamb�m, o pequeno cone truncado de renda branca que cobria a cabe�a da desconhecida como se fosse uma coroa e de onde partia um leve len�o, que lhe tapava o rosto.</p><p>� verdade disse Francesco gravemente mas, no entanto,</p><p>�s mesmo tu, porque os tra�os s�o semelhantes. Este retrato, minha querida, � o da tua m�e. As parecen�as n�o eram evidentes quando eras pequena, mas, � medida que foste crescendo, desenvolveram-se, acentuaram-se...</p><p>Isso n�o � verdade! exclamou Fiora, quase a chorar. Enganas-te, pai. Ela � muito bela, ao passo que eu n�o...</p><p>Quem te meteu essa ideia na cabe�a? disse Beltrami, estupefacto.</p><p>Ningu�m, mas nenhuma mulher � bela com cabelos negros!</p><p>Palavra de honra, tu �s louca? Vou-te demonstrar como est�s enganada...</p><p>Levantando-se, Francesco foi at� um dos arm�rios embutidos em <emphasis>trompe-l�oeil </emphasis>nas paredes do seu <emphasis>studiolo. </emphasis>Fiora sabia, por os ter admirado muitas vezes, que aqueles arm�rios continham verdadeiras maravilhas: livros raros de preciosas encaderna��es, esmaltes luminosos, objectos de prata, marfim ou ouro, estatuetas criselefantinas, bailarinas de alabastro transl�cido e centenas de outras coisas bonitas. Beltrami tirou de um deles, que abriu com uma chave dourada pendurada no seu pesco�o por uma corrente, um pequeno cofre de prata parecido com um relic�rio, pousou-o sobre uma pequena mesa, abriu-o e tirou dele, com os gestos de um padre tocando na h�stia sagrada, o pequeno chap�u de renda Que Marie de Br�vailles usara no seu �ltimo dia de vida, olhou-o por um instante e pousou nele os l�bios. Fiora viu que as suas m�os tremiam e que havia l�grimas nos seus olhos quando ele se virou para ela. Eu ponho-to! murmurou ele.</p><p>Afastando para tr�s da fronte alta e bem desenhada a cabeleira negra da sua filha, Beltrami fixou o chap�u, envolveu o rosto com a renda e depois, tirando da parede um espelho e colocando-o junto do quadro, colocou Fiora diante dele:</p><p>- Olha! - disse ele apenas.</p><p>A renda estava um pouco amarelada, mas assim, separada do seu quadro habitual, o rosto reflectido no espelho e o do retrato eram estranhamente parecidos. Tinham a mesma tez delicada de marfim rosado, a mesma boca risonha, o mesmo nariz fino e, sobretudo, os mesmos olhos, de um cinzento enevoado.</p><p>- Ent�o? - perguntou Francesco - continuas a achar que �s feia?</p><p>- N...ao. Mas, por que raz�o n�o sou loura como ela? Se eu tivesse esses cabelos dourados, tenho a certeza que os poetas me cantariam e talvez pudesse ser, um dia, a rainha da giostra...</p><p>- Como madonna Simonetta? - sorriu Beltrami com uma chama picante nos olhos. - Espero que a minha filha n�o seja tolamente ciumenta? � verdade que toda a Floren�a admira essa mulher encantadora, mas antes de Louren�o casar com madonna Clarisa...</p><p>- Que � ruiva! - precisou Fiora, teimosa.</p><p>- Que � ruiva... e n�o muito bonita. Antes, portanto, desse casamento, todos, em Floren�a, s� tinham olhos para a bela Lucrezia Donati, que Louren�o amava e que era morena, como tu.</p><p>Com os mesmos gestos leves e piedosos de poucos minutos antes, Francesco tirou o chap�u � jovem e preparava-se para o guardar quando Fiora o interrompeu:</p><p>- Pai! Essas manchas escuras na renda, o que s�o?</p><p>Francesco ficou muito p�lido e olhou para a filha com uma esp�cie de desvario. Subitamente febril, acabou de guardar a rel�quia, fechou o cofre, guardou-o, regressou depois para junto do quadro que parecia a�ambarcar toda a luz daquele belo dia e quando pegou num grande tecido de veludo para o cobrir, Fiora interrompeu-o de novo:</p><p>- Deixa-me olhar para ela mais um bocado! - pediu a jovem. Conhe�o-a t�o pouco! Nem tu nem L�onarde me falam nunca dela. S� sei uma coisa: que era uma dama nobre da Borgonha...</p><p>- � que, v� tu, a hist�ria � muito triste, dolorosa, mesmo. S� falamos dela raramente, L�onarde e eu. Quanto a ti, ainda �s muito nova.</p><p>- Nunca se � demasiado nova para aprender a conhecer a sua m�e. S� vos tenho a v�s para me falarem dela e agora esta imagem, mas, se eu a interrogar, ela n�o me responder�, porque messer Sandro limitou-se a copiar a minha figura.</p><p>Tu �s capaz, na tua idade, de captar a mensagem de um retrato?</p><p>perguntou Francesco, surpreendido.</p><p>� claro. Eu vi em casa dela o retrato da nossa prima <emphasis>Madonna</emphasis></p><p>Hieronyma Pazzi, pintado por aquele antigo monge morto h� seis anos, <emphasis>messire </emphasis>Lippi. � um belo retrato, que faz justi�a � sua beleza; mas tamb�m diz que ela � vaidosa, �vida, de cora��o cruel e falso. Nesta imagem n�o leio nada.</p><p>Francesco estava espantado. Que a sua Fiora, que ele considerara sempre uma crian�a e que em muitos aspectos ainda o era, pudesse dar provas de um tal dom de psicologia, confundia-o... A jovem sentiu-o e quis aproveitar:</p><p>E agora acrescentou ela docemente responde-me, pe�o-te, � pergunta que te fiz... aquelas manchas escuras?... Dir-se-ia que s�o de sangue!</p><p>Beltrami virou-se e foi at� � janela de onde se via, por cima dos telhados da via delia Vigna Nuova, o magn�fico pal�cio Rucellai, um dos mais recentes de Floren�a e um dos mais belos. Fiora seguiu-o:</p><p>Responde-me, pai! Quero saber!</p><p>J� me tinha esquecido que tu tamb�m sabes dizer �quero�... Muito bem, sim, � sangue... dela. A tua m�e morreu, minha filha, em terr�veis circunst�ncias...</p><p>Que circunst�ncias?</p><p>N�o me perguntes mais nada porque n�o te responderei. Mais tarde, talvez...</p><p>Isso � quando, �mais tarde�?</p><p>Quando fores mulher. Por agora n�o passas de uma rapariga e uma rapariga s� deve ter pensamentos alegres. Sobretudo num dia de festa!... Diz-me l�, que vais usar para ir ao torneio, como se diz em Fran�a?</p><p>De regresso �s suas preocupa��es anteriores, Fiora encolheu os ombros, desiludida:</p><p>N�o sei. Confesso-te que n�o tenho muita vontade de ir.</p><p>N�o ir � <emphasis>giostra, </emphasis>quando os nossos lugares est�o marcados na melhor tribuna?</p><p>Por tr�s da rainha. Ligo pouca import�ncia a isso. Ningu�m reparar� em mim!</p><p>Excepto Domenico Accaiuoli, Marco Soderini, Tommaso SalVlati, Luca Tornabuoni e mais alguns de menor import�ncia recitou Francesco, que reencontrara o seu sorriso.</p><p>Foi isso, precisamente, que eu disse: ningu�m!</p><p>A jovem n�o acrescentou que o �nico que contava para ela, o belo o irresist�vel Giuliano de M�dicis, s� olharia para Simonetta Vespucci. Beltrami desatou a rir:</p><p>O que para a� vai! Estou a ver que �s muito dif�cil. Vai ser preciso, portanto, arranjar-te, um dia, um marido...</p><p>Fiora meteu o bra�o no do seu pai e, pondo-se em bicos dos p�s, beijou-lhe a face bem barbeada:</p><p>O �nico homem que eu amo nunca poder� casar comigo, porque �s tu!</p><p>Ah! Eis umas palavras que merecem uma recompensa! Tenho uma coisa para ti.</p><p>Afastando-se do bra�o da filha, o negociante foi buscar a um cofre um pequeno pacote envolto em seda e estendeu-o a Fiora:</p><p>Toma, contava oferecer-to para a tua festa, mas a ocasi�o parece-me oportuna...</p><p>Os olhos da jovem brilharam. Como todas as suas iguais adorava presentes, surpresas e tudo o que era inesperado. Corada de impaci�ncia, desdobrou a seda branca e descobriu um daqueles aros de ouro de que tanto gostavam as elegantes florentinas. Aquele tinha como modelo folhas de visco, cujas bagas eram outras tantas p�rolas. Uma outra, em forma de p�ra, ca�a a meio da fronte...</p><p>Oh, pai! Que maravilha! Quem fez isto?</p><p>O Engrinaldem/17. Encomendei-lho j� h� muito tempo e n�o esperava receb�-lo t�o cedo, mas o artista vai para San Gimignano, onde vai decorar a capela de Santa Fina. Sinto-me feliz por poder oferecer-ta hoje, porque j� est�s em idade de receber e usar j�ias. Como v�s, n�o tens raz�o nenhuma para me deixar ir sozinho � festa. E agora, separemo-nos. Tenho de me preparar para o banquete no pal�cio M�dicis...</p><p>Ao qual as damas n�o v�o...</p><p>Ao qual as damas n�o v�o, como sempre que monsenhor Louren�o recebe embaixadores e homens pol�ticos. Na <emphasis>giostra </emphasis>e no baile desta noite, as damas ter�o a sua vingan�a...</p><p>Era verdade que a festa prometia ser bela. Era sempre assim quando <emphasis>o Magn�fico quando </emphasis>ele tinha 20 anos j� lhe atribu�am aquele cognome</p><p>NT <emphasis>L� Gu�rlandierno </emphasis>original pintor, miniaturista e joalheiro, Domenico di Tommaso Bigordi recebeu este cognome.</p><empty-line/><p>prestigioso, decidia que a sua cidade devia viver algumas horas de folia, porque nunca se esquecia de a fazer participar em todos os acontecimentos familiares, religiosos ou pol�ticos da sua pr�pria vida. Naquela noite, ningu�m dormiria em Floren�a. Haveria bailes no pal�cio da via Larga em algumas ricas mans�es, mas tamb�m nas ruas e nas pra�as, onde o vinho correria das fontes...</p><p>Quando, ladeada por L�onarde e Khatoun, que deveriam escolt�-la at� � pra�a Santa Croce onde teria lugar a <emphasis>giostra </emphasis>e onde encontraria o seu pai, Fiora deixou o seu pal�cio, esquecera a sua manh� rabugenta e o que ela acreditava serem boas raz�es para estar de mau humor, para se deixar levar pela alegre atmosfera da cidade e pelo seu turbilh�o de cores e sons. Atrav�s do c�u azul, os sinos de todos os campan�rios tocavam at� romper os bra�os dos tocadores e em cada encruzilhada m�sicos e cantores proclamavam, ao desafio, a alegria de serem jovens, de amar e de viver em Floren�a, a mais bela cidade do mundo. As fachadas de todas as casas desapareciam sob as telas pintadas, as sedas e os panos vermelhos e brancos, que eram as cores da cidade, debruados a ouro ou prata. Tinha-se a impress�o de caminhar atrav�s de um imenso fresco cintilante, um fresco animado por uma multid�o em traje de festa, caminhando alegremente para o local do grande espect�culo. Em todas as pra�as tinham sido espetados grandes mastros de madeira dourada, dos quais pendiam longos estandartes, dos quais alguns ostentavam a flor-de-lis vermelha, emblema de Floren�a e outros o le�o de S�o Marcos, emblema de Veneza.</p><p>Nos dias de festa toda a gente andava a p�, para poder admirar melhor as decora��es e para n�o atravancar as ruas estreitas, entregues � folia popular. Louren�o de M�dicis dava o exemplo, arrastando pela cidade os seus h�spedes ilustres, ali�s com o segundo pensamento de lhes mostrar a sua popularidade, que era imensa.</p><p>Diante do pal�cio da Senhoria, que com as suas paredes severas e � seu alto campan�rio dominava as casas em redor e impunha a imagem intransigente da f�, Fiora encontrou a sua amiga Chiara Albizzi, uma rapariga encantadora da sua idade, que conhecia desde sempre e Para quem n�o tinha segredos... talvez porque a jovem Chiara era quase t�o morena como ela e olhava para as coisas e para as pessoas com o mesmo olhar curioso e agudo. Tal como Fiora, Chiara, filha da nobreza, era escoltada por uma governanta e dois criados armados. Quando o vinho corria, os maus encontros eram sempre poss�veis.</p><p>De bra�o dado, as duas jovens afastaram-se ligeiramente das suas escoltas benevolentes. L�onarde gostava imenso da companhia da gorda Colomba, a ama-de-leite de Chiara, que era, sem d�vida, a maior mexeriqueira de Floren�a e que transportava consigo, geralmente, um saco cheio de novidades, das quais a sua filha de leite era, naturalmente, a grande benefici�ria.</p><p>Pensava que n�o querias vir? perguntou Chiara. O que � que te fez mudar de ideia?</p><p>O meu pai. Ele gosta que eu apare�a ao p� dele na <emphasis>giostra. </emphasis>At� me ofereceu uma j�ia para a circunst�ncia.</p><p>Parab�ns! Mas ele tem raz�o: est�s soberba! declarou a jovem Albizzi, inspeccionando com olhos conhecedores a sinfonia de brocados e veludos cinzentos-claros, da cor exacta dos olhos da sua amiga e o sapiente edif�cio de tran�as acetinadas de ouro e p�rolas, que tinha exigido a L�onarde uma boa hora de esfor�os:</p><p>Tu tamb�m est�s soberba disse Fiora, reconhecida e, ali�s, sincera. Pareces uma aurora. Est�s toda cor-de-rosa!</p><p>Sobretudo, tenho o ar de algu�m que se vai divertir, ao passo que tu pareces decidida a sofrer. N�o consegues tirar Giuliano de M�dices da cabe�a?</p><p>Chhhh! E n�o � a minha cabe�a que sofre, � o meu cora��o. N�o podemos nada contra os batimentos do cora��o suspirou Fiora, t�o tragicamente que a sua amiga desatou a rir.</p><p>Espero bem que venhas a ter outros desses batimentos de cora��o e que n�o queiras passar a vida a suspirar por um rapaz que s� tem olhos para outra. Abandona Giuliano aos seus amores ideais... ou ent�o, tem paci�ncia!</p><p>Que queres dizer?</p><p>O que toda a gente sabe: os amores dos irm�os M�dicis n�o duram muito. Al�m disso, Marco Vespucci come�a a segregar uma certa acidez. Um marido ciumento � embara�oso. Devias saber isso, tu: o vosso pal�cio � vizinho do dos Vespucci. Em vez de esperares, farias melhor se olhasses em redor: Luca Tornabuoni � mais belo do que Giuliano e est� louco por ti. Ali�s... fale-se no diabo...</p><p>O jovem em quest�o acabava de sair de uma rua em companhia de v�rios companheiros. De imediato, as duas jovens foram rodeadas por um bando alegre e tagarela, que as separou das respectivas escoltas e as levou triunfalmente at� ao local do torneio. Luca Tornabuoni ousou, a coberto do tumulto, segurar a m�o de Fiora na sua, depois de ter pousado nela um beijo furtivo:</p><p>- Os vossos olhos ter�o hoje para mim um olhar mais doce do que habitualmente? - pediu ele em franc�s. Ela sorriu-lhe e pensou que, com efeito, ele era muito belo e alto, o que a obrigava a levantar um pouco a cabe�a, se bem que ela fosse tamb�m alta, com um perfil de medalha, com espessos cabelos negros e encaracolados e olhos sombrios, que brilhavam ao olhar para ela.</p><p>- Porqu� hoje? - perguntou ela, traquinas.</p><p>- Porque hoje � dia de festa, porque est� um dia bonito, porque v�s estais mais bela do que nunca e porque...</p><p>Quem quer ser feliz apressa-se</p><p>Porque ningu�m sabe o dia de amanh�...</p><p>O jovem terminou a sua frase trauteando aquela can��o composta por Louren�o de M�dicis, sua favorita e que se tornara o evangelho de toda a juventude de Floren�a. Mais baixo, ele acrescentou ardentemente:</p><p>- Deixai-me falar com o vosso pai, Fiora! Aceitai tornar-vos minha mulher!</p><p>- Mesmo que eu aceitasse, o meu pai n�o diria que sim. Acha que ainda sou muito nova...</p><p>- Nesse caso, dai-me, ao menos, uma esperan�a, um penhor. Eu vou combater por v�s...</p><p>Luca era um dos que iam medir-se com G�uliano de M�dicis na justa dessa tarde. Tocada, apesar de tudo, por aquela s�plica apaixonada, ela estendeu-lhe o seu len�o, que ele meteu de imediato no interior do seu gib�o:</p><p>- Obrigado, minha doce dama - exclamou ele alegremente. Agora, � preciso que eu saia vitorioso, para vos honrar...</p><p>- De qualquer maneira - observou Chiara - n�o � Fiora que te vai coroar, admitindo que ganhes. Ela n�o � a rainha da justa.</p><p>- Por que esse... admitindo? Duvidas da minha coragem?</p><p>- Nem da tua coragem nem do teu valor, belo cavaleiro, mas n�o seria nada conveniente que Giuliano perdesse, porque a sua dama � a rainha.</p><p>Logo a seguir o jovem deixou-as. Estavam a chegar � pra�a Santa Croce, � entrada da qual se erguiam tendas de seda mult�coloridas para os combatentes. Pajens vestidos de vermelho e dourado e palafreneiros cuidavam dos cavalos soberbamente ajaezados segundo as cores dos seus donos... Eram todos cavalos de grande valor, provenientes das c�lebres cavalari�as do marqu�s de M�ntua, ou �rabes, fornecidos por Veneza. Apenas Giuliano de M�d�cis montaria um admir�vel corcel alaz�o, recentemente oferecido com uma �gua da mesma cor pelo rei de Fran�a ao seu irm�o Louren�o. Lu�s XI, do qual se dizia que a sua core era a menos faustosa da Europa, era um conhecedor da mat�ria e sabia mostrar-se magn�nimo quando se tratava dos seus aliados, ou amigos. Aquele cavalo era a prova viva.</p><p>Diante da fachada de tijolos cor-de-rosa, muito simples, da igreja da Santa Croce, uma grande tribuna, coberta por panos p�rpura e ouro fora erguida para o senhor de Floren�a e seus convidados. O trono da rainha do torneio ocupava o centro. De cada lado, face a face, altos balc�es de madeira haviam sido erguidos ao longo das casas. As damas e as meninas da cidade tomavam lugar neles com os seus mais belos adornos, acompanhadas dos seus maridos, pais ou amantes. Compunham, assim, uma dupla grinalda colorida e cintilante, digna de uma corte real e o povo, que se amontoava por tr�s das barreiras cobertas de seda, com as suas roupas de cores alegres, n�o destoava do quadro. As fitas e os estandartes esvoa�avam por toda a parte, agitados por um vento ligeiro. Tudo aquilo ressoava, estremecia e Floren�a, naquele belo dia, era s� seda, ouro e prata, como uma imensa tape�aria animada pela vontade de um qualquer m�gico todo-poderoso.</p><p>Justamente, o dito m�gico ia fazer a sua apari��o. Anunciado pelo som triunfal de longas trombetas de prata, das quais pendia, num quadrado de tecido branco, a flor-de-lis vermelha de Floren�a e precedido pelos porta-estandartes que faziam voltear e lan�avam ao ar as suas bandeiras variegadas, um brilhante cortejo acabava de aparecer. � cabe�a, vestido de veludo verde-escuro orlado de zibelina, um largo colar de ouro cinzelado no pesco�o e uma fortuna em p�rolas e rubis no chap�u, caminhava Louren�o de M�d�cis, o rei sem coroa daquela estranha rep�blica, o senhor de 27 anos, ao qual a cidade dera o seu cora��o, se bem que fosse t�o feio quanto o seu irm�o era belo. Mas que fealdade formid�vel. <emphasis>O Magn�fico </emphasis>tinha, sobre o seu corpo magro e vigoroso,! um rosto quase simiesco, no qual o reflexo de um g�nio triunfal <emphasis>e </emphasis>uma </p><p>1 Foi o primeiro aspecto da igreja A fachada foi refeita mais tarde</p><empty-line/><p>intelig�ncia excepcional substitu�am a beleza. Os cabelos negros e espessos, o nariz longo e pontiagudo, os tra�os fortemente desenhados e uma grande boca de l�bios finos nada podiam contra o fasc�nio que se apoderava de todos aqueles que o conheciam e a atrac��o que exercia, com aquele aspecto enigm�tico e sombrio, nas mulheres.</p><p>O poder pol�tico fora entregue aos dois irm�os por morte do pai de ambos, Piero o Gotoso, mas essa igualdade era apenas aparente. O �nico chefe era aquele homem excepcional, nos largos ombros do qual repousava uma das maiores fortunas da Europa, a responsabilidade do poder e as ramifica��es complicadas de uma pol�tica que n�o se limitava apenas �s rela��es com os outros Estados italianos, mas tamb�m com as grandes pot�ncias, como a Fran�a, a Inglaterra, a Alemanha, Castela e Arag�o. Banqueiro dos reis que contavam com ele, o Magn�fico estreitara com a Fran�a os la�os de amizade tecidos pelo seu pai, ao qual o rei Lu�s XI concedera a gra�a insigne de poder gravar a flor-de-lis numa das sete bolas que compunham as suas armas.</p><p>Louren�o tinha chegado ao topo do poder, sabedor, no entanto, de todas as suas fraquezas. Estendera as fronteiras de Floren�a, conquistara Sarzana, sufocara as revoltas de Volteira e de Prato, vencera a fac��o dos Pitti e exilara-os, casara com uma princesa romena e o povo estava-lhe reconhecido por tudo isso. Despojara o Conselho da Rep�blica das grandes fam�lias nobres, como os Guicciardini, os Ridolfi, os Nicolini e os Pazzi, substituindo-os por gente de condi��o baixa, mas essas fam�lias, cujas fortunas eram ainda respeit�veis, ro�am o freio e conservavam uma clientela que podia sempre fazer barulho e armar assassinos. Assim, Louren�o, sob uma apar�ncia jovial e despreocupada, escondia prud�ncia, desconfian�a e estava sempre em guarda, porque, apesar de suceder a seu pai e este ao seu pr�prio pai, Cosimo o Velho, sabia que o seu poder vinha do povo e n�o do direito divino. Entretanto, reinava, qual rei sem coroa, ao mesmo tempo que o seu jovem irm�o, Giuliano, se contentava alegremente e sem procurar obter vantagens, com o papel am�vel de Pr�ncipe Encantado, papel esse que interpretava �s mil maravilhas. Floren�a amava-o pela sua beleza, eleg�ncia e at� pelas suas loucuras, porque dava dela uma imagem sedutora...</p><p>Respondendo com um sorriso e um gesto da m�o aos vivas fren�ticos com que a multid�o saudava a sua chegada, o Magn�fico avan�ou para a grande tribuna, levando pela m�o aquela que ia ser a rainha do torneio, a tal Simonetta Vespucci, a quem aclamavam quase tanto como ao seu guia e que Fiora detestava com todo o ardor ciumento dos seus 17 anos. Ainda por cima porque era obrigada a admitir, mesmo que isso lhe arrancasse o cora��o, que aquela rival inconsciente era absolutamente encantadora.</p><p>Alta e fina, de corpo t�o �gil e encantador como a pr�pria gra�a pesco�o fr�gil e flex�vel, nariz pequeno levemente arrebitado e grandes olhos castanhos, doces como os de uma cor�a, Simonetta levantava altivamente a sua pequena e perfeita cabe�a, tornada mais pesada por um cacho de cabelos de ouro-ruivo, composto de tran�as brilhantes seguras por alfinetes de p�rolas e intercaladas por um fino cord�o de ouro entran�ado, que terminava sobre a fronte numa <emphasis>brochetta, </emphasis>uma engra�ada j�ia de ouro e p�rolas que se parecia com uma min�scula pluma.</p><p>Outras p�rolas ainda ela <emphasis>amava </emphasis>as p�rolas at� � loucura enchiam o seu traje com uma brancura brilhante, bordado com finas folhas de ouro e avivado com pele imaculada de arminho. Estava t�o bela qu�o triste estava o cora��o de Fiora: nunca poderia conseguir aquela perfei��o! Simonetta era �nica, inolvid�vel...</p><p>Reconhe�o que ela � bela disse Chiara num tom descontente o que n�o impede que esse culto fixo que lhe dedicam, n�o apenas Giuliano, de quem ela �, seguramente, amante, mas tamb�m Louren�o, que n�o cessa de lhe fazer versos, sem contar com todos os imbecis, como Botticelli, ou Pollaiuolo, que se arrastam a seus p�s, seja algo chocante. Ela � casada, que diabo! E podes dizer-me onde se encontra a esta hora Marco Vespucci?</p><p>Porque Simonetta era casada. Nascida em Porto-Venere, um nome predestinado o porto de V�nus! numa rica fam�lia de armadores genoveses, os Cattanei, casara seis anos antes e aos 16 anos com Marco Vespucci, o filho mais velho de uma nobre fam�lia florentina, cujo pal�cio era vizinho do dos Beltrami. Desde a sua primeira apari��o em p�blico, por ocasi�o das festas do casamento de Louren�o de M�d�cis com a princesa romena Clarissa Orsini, que subjugava, n�o somente os dois irm�os, mas tamb�m toda a cidade, maravilhada com aquela a quem chamavam com fervor <emphasis>a Estrela de G�nova...</emphasis></p><p>J� o procurei suspirou Fiora mas n�o o vejo...</p><p>Porque n�o est� aqui. Assim como <emphasis>Madonna </emphasis>Clarissa. Ela permanece dignamente em casa enquanto o marido e o cunhado d�o festas para celebrarem a sua <emphasis>Estrela. </emphasis>N�o te iludas! O embaixador de Veneza n�o passa de um pretexto... E, por amor de Deus, p�ra de fazer essa cara! Devias levantar a cabe�a t�o alto como Simonetta. Quando compreender�s que tens o direito de estar orgulhosa de ti mesma?</p><p>instantaneamente, os olhos de Fiora encheram-se de fa�scas:</p><p>- Sinto-me orgulhosa pelo que o meu pai fez de mim e pelo meu nome. N�o � suficiente?</p><p>- N�o, � tempo de compreenderes que j� n�o �s uma mi�da, mas antes uma jovem... muito sedutora!</p><p>Fiora desatou a rir:</p><p>- O meu pai e L�onarde dizem a mesma coisa. Ainda acabo por acreditar nos tr�s.</p><p>- E farias bem. Outros se encarregar�o, ali�s, de te convencer, desde que admitas que te podem cortejar por ti e n�o pela fortuna do teu pai. Ali�s, pergunto a mim pr�pria onde foste buscar essas ideias?</p><p>- Oh! isso vem de longe. Devia ter sete ou oito anos quando um dia donnaHieronyma...</p><p>- A tua prima?</p><p>- Do meu pai, sim. Ela estava a passear com uma amiga no jardim onde eu estava a brincar e parou. Pegou numa mecha dos meus cabelos e disse: �Esta pequena � realmente muito feia! Uma verdadeira filha do Egipto! Se n�o fosse o dote que h�-de vir a ter, nenhum rapaz a quereria.�</p><p>- E tu acreditaste nela? Verdade seja dita que ela morreu pela boca: o filho dela � um monstro.</p><p>- Por favor, n�o falemos mais disso! N�o � o local nem o momento.</p><p>A grande tribuna enchia-se. A rainha tomou lugar no seu trono, ao seu lado sentou-se o Magn�fico e no outro o embaixador de Veneza, Bernardo Bembo. Francesco juntou-se �s duas jovens, em companhia do tio de Chiara, no balc�o lateral mais pr�ximo da tribuna.</p><p>- Ent�o, jovens damas? - perguntou ele com bom humor espero que estejais satisfeitas com os vossos lugares? Daqui, nada vos escapa do que se passa na justa nem na tribuna da rainha.</p><p>Era, com efeito, interessante e as duas amigas divertiram-se por um momento a enumerar todos aqueles que nela tomavam lugar. Os priores da Senhoria primeiro, com os seus gorros forrados e dalm�ticas de veludo p�rpura, acompanhados pelo magistrado municipal Peirucci.</p><p>1 Oficial de Justi�a, na Idade M�dia, das cidades republicanas italianas.</p><empty-line/><p>Depois, alguns dos homens mais nobres ou mais ricos da cidade. Estava ali o s�quito habitual do senhor: o fil�sofo-m�dico Marsile Ficino, que lhe ensinara a doutrina platoniana, o poeta helenista Angelo Poliziano que era o companheiro mais chegado do <emphasis>Magn�fico, </emphasis>encarregado por ele de educar o seu filho, as tr�s irm�s M�dicis, Bianca, Maria e Nannina, o velho s�bio Paolo Toscanelli, o astr�nomo que tinha imaginado uma nova t�cnica para os gnomons e at� tinha instalado um na igreja de Santa Maria del Fiore, a catedral de m�rmore branco, vermelho e verde, o admir�vel Duomo, pelo qual os florentinos se sentiam t�o orgulhosos e com raz�o. Toscanelli era, al�m disso, conservador da Biblioteca m�dica e Fiora conhecia-o bem por ter recebido dele li��es de astronomia, assim como tinha recebido de outros mestres cursos de grego, latim, matem�tica, canto, dan�a, metrifica��o e todas as outras coisas pouco habituais noutros lugares, que faziam das filhas das grandes casas, em It�lia, verdadeiras eruditas. Junto do velho mestre, o seu aluno favorito, Amerigo Vespucci, o jovem cunhado de Simonetta, ro�a as unhas com um ar vago e n�o olhava para nada nem para ningu�m, mas o seu gosto pelas viagens pelas estrelas era demasiado conhecido para que algu�m se preocupasse.</p><p>Uma vigorosa cotovelada p�s fim � explora��o de Fiora.</p><p>Olha! sussurrou Chiara sobreexcitada: Quem � aquele ali?...</p><p>Quem?</p><p>N�o est�s a ver aquele homem que se est� a sentar ao lado de Monsenhor Louren�o? Um estrangeiro, certamente, porque nunca o vi.</p><p>Com um am�vel gesto de convite, <emphasis>o Magn�fico </emphasis>fez sentar � sua esquerda um desconhecido de alta estatura, que podia ter entre 25 e 30 anos e cuja atitude anunciava ao mesmo tempo o senhor e o guerreiro. Sobre uns largos ombros exibia uma cabe�a arrogante, na qual os curtos cabelos castanhos deviam estar mais habituados ao elmo do que ao chap�u de veludo negro, ornamentado com uma grande medalha de ouro. O rosto de maxilares poderosos, de grande nariz desdenhoso e l�bios finos, que uma ruga trocista erguia de um lado, era demasiado assim�trico para pretender ser puramente grego, mas, quando sorria, aquela boca dura mostrava uns dentes brilhantes, e ao abrigo das pestanas direitas os olhos cor de avel� cintilavam de intelig�ncia e ironia. O grande manto que o desconhecido usava negligentemente atirado</p><p>Precursores do quadrante solar</p><empty-line/><p>para cima dos ombros punha a descoberto um gib�o de veludo negro, sobre o qual sobressa�a um grande colar de ouro, do qual pendia uma curiosa j�ia representando um carneiro dobrado em dois.</p><p>- Pai - pediu Fiora - sabes dizer-nos...</p><p>- ��������� ... quem � aquele interessante estrangeiro? - completou Beltrami, dirigindo um sorriso trocista �s duas curiosas. - Chama-se Philippe de Selongey, cavaleiro da ordem do Tos�o de Ouro e enviado extraordin�rio do muito poderoso duque Carlos de Borgonha, a quem chamam frequentemente o Grande Duque do Ocidente e mais frequentemente ainda, mas em voz mais baixa, o Temer�rio, por causa da sua coragem indom�vel e do seu orgulho desmedido, que o empurram, por vezes, para caminhos bem perigosos! Chegou apenas esta manh� e da� as armas do seu senhor n�o aparecerem ao lado das nossas e das de Veneza. E agora esquecei-o porque vai come�ar o torneio...</p><p>De novo se ouviram as trombetas, de novo os estandartes voltearam nas m�os h�beis dos seus portadores e o fabuloso cortejo dos cavaleiros que iam defrontar-se desfilou sob as aclama��es da multid�o. N�o traziam os habituais arreios de guerra, antes armas douradas, escudos redondos e elmos fant�sticos, ornamentados com quimeras, drag�es, elmos � maneira grega, como se imagina que usaria Alexandre o Grande, ornamentados com folhas de louro, ou cinzelagens complicadas. Cascatas de plumas de cores diferentes ca�am das cimeiras... As meias coura�as eram � moda antiga.</p><p>Sob a sua, que era de prata e ouro, Giuliano trazia uma t�nica de veludo vermelha e branca constelada de p�rolas e sobre o seu escudo de ouro a Gorgona cinzelada arvorava na fronte o Libro, o maior dos diamantes dos M�d�cis. O jovem brilhava de juventude e alegria. Trazia, apoiado na coxa, um grande estandarte, de significado t�o obscuro que escapava � maioria dos espectadores, mas que custara muito trabalho a Sandro Botticelli.</p><p>Era um pend�o em tafet� de Alexandria, franjado a ouro a toda a volta, que no topo tinha um sol e no meio a figura de Palias, de borzeguins azuis e t�nica dourada sobre um vestido branco, que se parecia bastante com Simonetta. Aquela figura pousava os p�s em cima de umas chamas que queimavam os ramos de uma oliveira, enquanto que no alto outros ramos estavam intactos. Tinha na cabe�a um elmo polido, � moda antiga e os cabelos entran�ados voavam ao vento. Na sua m�o direita tinha uma lan�a e na esquerda o escudo de Medusa. Junto dela havia uma pradaria cheia de flores e um tronco de oliveira, ao qual o deus do amor estava atado com cornos de ouro. A seus p�s, Eros tinha um arco, uma aljava e flechas quebradas. Por fim, num dos ramos da oliveira, algumas palavras estavam escritas em franc�s, em letras douradas: <emphasis>-La sanspar (eille)�. </emphasis>A dita Palas olhava fixamente o Sol.</p><p>Aquele monumento provocou um grande efeito, mas, do seu lugar Fiora percebeu que o embaixador veneziano perguntava ao seu vizinho, um certo Augurelli de Rimini, o que significava aquilo. O outro limitou-se a encolher os ombros num gesto de ignor�ncia. A explica��o veio quando Poliziano do alto da tribuna, come�ou a leitura de um longo poema de sua autoria, que era suposto cantar um sonho de Giuliano, isso enquanto os cavaleiros evolu�am graciosamente, �para mostrarem a sua habilidade e a beleza das suas montadas:</p><p><emphasis>Parece-lhe ver a sua dama, cruel,</emphasis></p><p><emphasis>de rosto severo e arrogante,</emphasis></p><p><emphasis>atar Cupido � coluneta verde do ditoso arbusto de Minerva,</emphasis></p><p><emphasis>de armadura sobre o vestido branco e protegendo o casto seio com a Gorgone</emphasis></p><p><emphasis>e parece-lhe que ela lhe arranca as penas das asas</emphasis></p><p><emphasis>e quebra o arco e as setas do infeliz.</emphasis></p><p>Mas, no seu sonho, Giuliano promete a Palas transportar as suas cores na li�a e assim termina o poema que foi muito aplaudido, talvez com algum al�vio. Pela sua parte, Fiora, para se distrair, observava o estrangeiro que tanto a tinha intrigado, mas tinha de desviar o olhar com frequ�ncia, porque, a maior parte das vezes, os seus olhos e os do borgonh�s encontravam-se, o que lhe provocava uma bizarra impress�o de constrangimento, misturada com um prazer secreto.</p><p>O espect�culo das justas acabou por atrair a aten��o de todos, mas aquilo foi mais um bailado bem ensaiado do que um verdadeiro combate. Os golpes eram corteses e o jovem M�dicis venceu sem grande dificuldade quase todos os seus advers�rios. Apenas dois lhe deram trabalho.</p><p>O primeiro foi Luca Tornabuoni, na cimeira do qual estava atado o pequeno len�o branco e dourado de Fiora e que se atirou com vontade ao mais jovem dos M�dicis. Mas n�o conseguiu. Tal como os outros, caiu do cavalo e Fiora sentiu-se um pouco irritada: n�o tinha dado o seu penhor �quele imbecil para ele o arrastar pela poeira...</p><p>O segundo n�o era esperado. Quando Giuliano ia ser proclamado vencedor, um cavaleiro, cuja armadura normal contrastava com os brilhantes equipamentos dos outros, apresentou-se e foi bater com a lan�a no escudo de Giuliano. Um homem novo, feio, atarracado, de cabelos negros e pele morena. Ao v�-lo, Louren�o franziu as sobrancelhas.</p><p>- Chegas muito tarde, Francesco Pazzi. Por que n�o deste a conhecer mais cedo o teu desejo de tomar parte na giostra</p><p>- Porque n�o me apetece disfar�ar-me. Apresento-me na minha hora, a menos que este torneio n�o seja aberto a todos?</p><p>- Por que n�o haveria de o ser? E se desejas medir-te com o meu irm�o...</p><p>- Com ele ou com outro qualquer, n�o tem import�ncia! O que eu quero � receber a coroa e beijar a m�o e os l�bios da bela Simonetta. A menos que os favores sejam exclusivamente reservados ao teu irm�o?</p><p>- Se os queres, vem busc�-los - rugiu Giuliano, furioso. - Mas n�o os ter�s com facilidade...</p><p>- � o que vamos ver!</p><p>O combate travado entre ambos n�o tinha nada de cort�s. Pazzi batia-se com irrita��o e Giuliano com raiva, provocando uma troca de golpes que atraiu os aplausos do p�blico. Pela sua parte, Fiora ficou satisfeita com aquela luta sem concess�es, que apagou, por fim, o meio sorriso ir�nico de Philippe de Selongey. At� ali, aquele estrangeiro parecera considerar a soberba giostra uma brincadeira de crian�as.</p><p>Por fim, Pazzi mordeu o p� e retirou-se sob os apupos da multid�o, aos quais Fiora se associou de boa vontade. O vencido era o cunhado de Hieronyma, sua prima detestada e ela acabara por detestar, tamb�m, os Pazzi em geral. Al�m disso, estes escondiam com dificuldade a sua animosidade para com os M�d�cis e dizia-se que Francesco tentara, certo dia, obter � for�a os favores de Simonetta. V�-lo vencido era bom e Fiora quase esqueceu alguma pena que sentiu quando chegou o momento que todos esperavam, o cl�max do espect�culo, que era a coroa��o do vencedor pela rainha do torneio.</p><p>Giuliano ajoelhou-se diante de Simonetta, que lhe colocou na cabe�a uma coroa de violetas, antes de lhe dar um beijo um pouco mais longo, talvez, do que o exigiam as circunst�ncias. Ao ver aquilo, a multid�o ovacionou-o, os homens gritaram, as mulheres choraram de como��o, os gorros voaram pelo ar e o entusiasmo atingiu o c�mulo quando um jovem saltou da tribuna e se foi colocar junto do trono da rainha. Era um rapaz magro, de rosto ossudo e cabelos louros indisciplinados, que pareciam de palha. Os seus olhos claros, mas severos, poderiam pertencer a um monge, ou a um profeta.</p><p>- Minha irm� - disse ele calmamente - n�o te parece que o teu lugar � em casa, junto do teu marido e n�o aqui, onde ele n�o est�?</p><p>- Meu Deus! - sussurrou Fiora encantada - eis o nosso Amerigo, que desce das suas estrelas...</p><p>- para se ocupar da de G�nova - acrescentou Chiara, para quem o menor incidente era motivo de encanto. - Ser� que nem tudo vai bem entre os Vespucci, para que o iluminado da fam�lia se intrometa?</p><p>Mas j� o Magn�fico interpelava o perturbador:</p><p>- Retira-te, Amerigo Vespucci! Simonetta reina em Floren�a pela sua beleza e os seus deviam estar orgulhosos. Se Marco, o seu esposo, n�o a quis acompanhar, lamentamos, mas n�o podemos fazer nada.</p><p>- Ele sabe que n�o seria bem-vindo! Retiro-me porque mo ordenas, mas quis que soubesses que a fam�lia n�o aprova...</p><p>Um homem aproximou-se, puxou-o pela manga e Fiora reconheceu o seu pintor. Sandro Botticelli e o jovem Vespucci eram amigos, sendo a casa de um e o pal�cio do outro vizinhos no bairro de Ognissanti. Entretanto, Fiora e Chiara preparavam-se para tomar o partido de Amerigo. O pai de uma e o tio de outra fizeram-nas acalmarem-se.</p><p>- Devias saber que esta gente perde a cabe�a quando se lhes toca no �dolo - disse Albizzi descontente. - Quanto aos M�dicis, sabes muito bem que s�o rancorosos e eu n�o quero ser exilado como o meu pai.</p><p>Francesco, esse, limitou-se a sorrir para a sua filha e a obrig�-la a sentar-se, porque o espect�culo ainda n�o tinha terminado. A jovem sentou-se e, maquinalmente, olhou para o enviado borgonh�s, mas virou a cabe�a de imediato, corada at� � raiz dos cabelos: n�o apenas o insolente se permitira sorrir-lhe, como, com a ponta dos dedos, lhe enviara um beijo...</p><p>Ao mesmo tempo que os cavaleiros mais ou menos magoados e sujos regressavam �s tendas que os esperavam, em boa ordem, o Magn�fico mandava comparecer perante o trono de Simonetta, para o felicitar, o homem que montara o faustoso espect�culo, desenhara os fatos e pintara o cen�rio: Andr�a di Cioni, chamado Verrochio. Esse homem era, ent�o, o pintor e escultor mais c�lebre de Floren�a e os alunos enchiam o seu atelier, de onde sa�ra Botticelli.</p><p>O artista apareceu sob os aplausos da multid�o e, n�o fora as suas roupas elegantes, poder-se-ia tom�-lo, sem dificuldade, por um campon�s, com a sua estatura baixa e entroncada, a grande cabe�a redonda coberta de cabelos negros e frisados. Junto dele caminhava o seu aluno preferido, que o ajudara na prepara��o da festa e esse, grande, delgado e louro, atra�a os olhares de todos, porque tinha a beleza impass�vel de uma est�tua grega. Era Hermes, de regresso � terra. E enquanto Verrochio agradecia, confundido, o deus grego recebia as felicita��es do senhor com uma sauda��o, um sorriso e nenhuma palavra.</p><p>- Meu tio - declarou Chiara - se aquele jovem � pintor, devias pedir-lhe para me pintar o retrato. Gostava de posar para ele...</p><p>- Menina tola! Pede isso ao teu marido, quando tiveres um. Ali�s, nem sequer sei o nome dele...</p><p>- Se o problema � esse - disse Beltrami - posso informar-te. � o filho de um not�rio das redondezas, com o qual tive, recentemente, um assunto a tratar. Chama-se Leonardo... Leonardo da Vinci e Verrochio estima-o muito. � um rapaz estranho, mas de muito talento...</p><p>- Leonardo? N�o gosto muito desse nome. Faz-me lembrar a tua governanta - disse Chiara com um sorriso trocista.</p><p>Fiora encolheu os ombros.</p><p>- � apenas um nome! Ainda por cima porque aquele jovem � demasiado belo para evocar dame L�onarde...</p><p>A noite aproximava-se rapidamente. De repente, como por artes da varinha de um m�gico, a pra�a iluminou-se com a chama de centenas de archotes. As trombetas lan�aram para o c�u sombrio o seu apelo triunfal e o cortejo da rainha voltou a formar-se. Louren�o ofereceu a sua m�o a Simonetta para a ajudar a descer do trono. � luz tr�mula dos archotes, a jovem brilhava como uma estrela...</p><p>- Meus amigos - lan�ou o Magn�fico com a sua voz rouca - as damas reclamam, agora, o nosso servi�o. Vamos dan�ar!</p><p>Logo a seguir, os convidados abandonaram os seus lugares. Fiora viu, ent�o, que o estrangeiro continuava a contempl�-la.</p></section><section><title><p>CAP�TULO II</p><p>O ENVIADO DA BORGONHA</p></title><p><emphasis>Madonna, </emphasis>tendes de acreditar em mim, eu preferia morrer a ser vencido perante os vossos olhos...</p><p>Luca Tornabuoni suplicava de joelhos a Fiora, sentada entre uma tape�aria de Arras franjada a ouro e uma credencia de cores quentes e joalharia preciosa carregada de vidro de Veneza na mais recuada sala do pal�cio M�dicis, onde a jovem se refugiara para encontrar um pouco de tranquilidade... Havia ali pouca gente, estando a maior parte dos convidados na sala vizinha, onde uma viva <emphasis>romanesca </emphasis>empolgava os dan�arinos ao som das violas, das harpas, das flautas e dos tambores.</p><p>Como todos os Florentinos, Fiora adorava a m�sica, mas, naquela noite, preferia ouvir a dan�ar, j� que o espect�culo de Giuliano conduzindo o baile e segurando Simonetta pela m�o n�o lhe era muito agrad�vel. Refugiara-se, portanto, naquela sala mais agrad�vel. Infelizmente, aquele grande palerma seguira-a! A jovem recompensou o seu protesto inflamado com um sorriso �cido:</p><p>Morrer, talvez... mas n�o desiludir Monsenhor Louren�o disse ela. Toda a gente sabe que Giuliano tinha de ser o vencedor do dia, porque a <emphasis>Estrela de G�nova </emphasis>era a rainha da <emphasis>giostra. </emphasis>Ela n�o podia ficar desiludida e quem desilude Simonetta, desilude Louren�o...</p><p>Estais a querer dizer... que eu me deixei vencer?</p><p>� mais ou menos isso. Ora vamos, Luca, v�s sois duas vezes mais forte do que Giuliano e uma meia cabe�a mais alto! Contra Louren�o, n�o digo nada. Mas contra o irm�o dele, v�s dev�eis vencer. Esperava que o meu penhor vos conduzisse � gl�ria. Como isso n�o aconteceu... devolvei-mo!</p><p>O jovem apoiou a m�o no peito para melhor defender o precioso penhor:</p><p>N�o sois assim t�o cruel?</p><p>Eu n�o gosto de vencidos. Vamos, devolvei-me o meu len�o! N�o foi feito para enxugar l�grimas de arrependimento.</p><p>Uma risada fez a jovem virar-se. Apoiado � tape�aria e de bra�os cruzados no peito sempre ornamentado com o colar do cordeiro dobrado em dois, Philippe de Selongey olhava para o casal com um sorriso trocista, que a jovem achou perfeitamente detest�vel. Quando viu que Fiora olhava para ele, o enviado da Borgonha bateu palmas num aplauso zombeteiro:</p><p>Bravo, menina! Parece que, a despeito da vossa tenra idade, dais provas de um singular esp�rito de perspic�cia...</p><p>Que quereis dizer? perguntou Fiora com altivez.</p><p>Que n�o vos deixastes enganar assim como eu pela com�dia marcial que nos impingiram h� pouco. O cen�rio foi �ptimo, mas os pap�is foram mal interpretados.</p><p>Isso significa o qu�? grunhiu Luca avan�ando para o perturbador, o que permitiu � jovem constatar que, se Tornabuoni era mais alto do que Giuliano, o borgonh�s ainda era mais alto do que Tornabuoni.</p><p>O sentido � claro, parece-me disse Selongey com um desd�m que fez corar as faces de Fiora vimos um belo espect�culo... que n�o se pareceu nada com um torneio digno desse nome.</p><p>Que sabeis v�s disso? N�s combatemos, se bem que com armas corteses...</p><p>Chamais �quilo armas corteses? Eu diria antes armas simb�licas... ou mesmo armas inexistentes. Se quereis saber o que � um verdadeiro torneio, ide a Bruxelas, a Bruges, a Gand ou a Dijon e podereis constatar que as nossas armas corteses podem servir em tempo de guerra... a gente como v�s!</p><p>A c�lera purpurou subitamente o belo rosto de Luca e, desembainhando o punhal que tinha � cintura, metido numa rica bainha de couro de Cordova, atirou-se, de arma em riste, ao homem que o desafiava de Maneira t�o insolente.</p><p>Ides arrepender-vos dessas palavras!</p><p>O outro nem sequer descruzou os bra�os e olhou para o agressor com o sorriso indulgente reservado �s crian�as e aos irrespons�veis:</p><p>Que pretendeis fazer? Provar o vosso valor num local como este quer dizer, fora de prop�sito... ou quereis assassinar-me?</p><p>Pretendo que lutemos agora mesmo no jardim deste pal�cio,</p><p>por exemplo, para vos mostrar se sou uma crian�a ou um louco! Vindes, ou tenho de vos for�ar?</p><p>Falais a s�rio?</p><p>Falo a s�rio!</p><p>Meu Deus, como sois chato! Tendes mesmo vontade de acabar a noite na vossa cama com um ou dois furos na pele? Parece-me que numa noite destas h� coisas melhores a fazer.</p><p>O qu�, por exemplo?</p><p>Mas... embriagar-vos, por exemplo. Os vinhos de monsenhor Louren�o, se bem que n�o sejam da Borgonha, s�o dignos de estima. Ou, ent�o, pedir a uma bela dama para dan�ar. Eu, tudo o que desejo, � que saiais daqui. � que tenho muita vontade de tomar o vosso lugar aos p�s dessa jovem donzela, que ningu�m ainda consentiu em me apresentar...</p><p>Era, aparentemente, a noite dos prop�sitos interrompidos, porque ouviu-se uma voz baixa e rouca e a alta silhueta do <emphasis>Magn�fico </emphasis>apareceu subitamente entre os dois homens, que sublinhe-se recuaram um passo em sinal de respeito, ao mesmo tempo que esbo�avam uma sauda��o:</p><p>Eis uma lacuna que eu posso preencher facilmente disse Louren�o num franc�s perfeito. Permiti, <emphasis>Madonna </emphasis>Fiora, que vos apresente o conde Philippe de Selongey, cavaleiro do Tos�o de Ouro como podeis ver e embaixador do senhor duque Carlos da Borgonha. Quanto a v�s, <emphasis>messire </emphasis>Philippe, espero que aprecieis devidamente a honra que vos � concedida por poderdes saudar <emphasis>donna </emphasis>Fiora Beltrami, um dos mais belos ornamentos desta cidade e filha de um homem que eu tenho em grande conta. Estais satisfeito?</p><p>Inteiramente, monsenhor!</p><p>E a sauda��o que Philippe ofereceu a Fiora teria satisfeito uma imperatriz.</p><p>E agora, concedei-me a gra�a de vos mandar conduzir ao meu gabinete das medalhas. Temos de falar. Eis aqui Savaglio, que vos vai levar l�. Quanto a v�s, ador�vel Fiora, concedei-me a alegria de dan�ar convosco esta <emphasis>pivd</emphasis></p><p>A atmosfera, t�o amea�adora instantes antes desanuviou-se como que por encanto. Os dois advers�rios separaram-se: Philippe de Selongey para acompanhar o capit�o da guarda do pal�cio e Luca Tornabuoni para oferecer a sua m�o a uma jovem ruiva que acabava de aparecer precisamente naquele instante. E Fiora viu-se a caminho da sala de baile, a sua fina m�o alojada na do senhor, que a segurava bem alto para que todos admirassem bem a sua dan�arina. Juntos, tomaram lugar � cabe�a da dupla fila de dan�arinos, ao mesmo tempo que os m�sicos come�avam.</p><p>As figuras de uma dan�a que exigia perfei��o de gestos manteve-os silenciosos por uns curtos momentos. Fiora abandonou-se ao prazer de evoluir ao som da m�sica com o ardor da sua juventude, mas tamb�m com uma ponta de orgulho. Era muito excitante dan�ar com aquele a quem muitos chamavam em voz baixa �o pr�ncipe� e ser, assim, o centro de todas as aten��es. A firmeza da m�o que segurava a sua comunicava-lhe uma estranha seguran�a. Pela primeira vez na sua vida a jovem gozava a alegria de se sentir bela e admirada, que lhe vinha da express�o nova que podia ver nos olhos sombrios de Louren�o. Ele olhava-a como se nunca a tivesse visto antes e, sob aquele olhar insistente, ela sentiu-se corar.</p><p>Que idade tens? perguntou subitamente Louren�o.</p><p>Dezassete anos, monsenhor.</p><p>A s�rio? Ter-te-ia dado mais. Talvez devido � Maneira como ergues altivamente a cabe�a e olhas de frente. A maior parte das raparigas da tua idade baixa os olhos � mais pequena palavra e eu sempre pensei que nessa atitude havia uma boa dose de hipocrisia. Isso n�o acontece contigo! Permaneces serena em todas as circunst�ncias... pelo menos, d�s essa impress�o.</p><p>Porque n�o desmaiei de emo��o quando me convidaste? (A jovem desatou a rir com um riso musical, ao qual o timbre quente da sua voz dava um encanto inesperado.) Quanto � minha serenidade, n�o acredites nela. Encolerizo-me com muita facilidade. E tamb�m sei corar...</p><p>Eu vi... e ficas bem bonita. O teu pai j� pensou em casar-te? Creio que, para j�, ainda n�o. E eu tamb�m n�o o desejo, senhor Louren�o, se queres saber a verdade... Ali�s, as raparigas daqui raramente se casam antes dos 20 anos. |</p><p>Que estranha criatura que tu �s! Desde os dez anos que as tuas iguais sonham com um marido e, pelo que pude ver, a ti n�o te faltam apaixonados. A prova � que dois homens estavam prontos a lutar por ti, parece-me? Nenhum deles te tocaria o cora��o?</p><p>- Nenhum. Ali�s, n�o era por mim que Luca Tornabuoni e o estrangeiro iam lutar, mas sim pela maneira como se concebem os torneios aqui e na Borgonha...</p><p>- Que coisa t�o grosseira! Se eu tivesse sabido, t�-los-ia feito parar. A uma mulher bela s� se deve falar dela. Na verdade, estou desiludido.</p><p>- Eu n�o - disse Fiora tranquilamente. - V� tu, monsenhor, que eu n�o estou certa de ser cortejada por mim mesma... Ou�o falar muito da fortuna do meu pai e sou filha �nica.</p><p>O bra�o que Louren�o acabava de passar pela cintura de Fiora, apertou um pouco o seu amplexo e a sua voz carregou-se de severidade:</p><p>- Essas ideias n�o s�o para a tua idade! Nem sequer deviam afluir ao teu esp�rito. Devias sonhar apenas com a alegria de ser jovem e encantadora, com a felicidade que um dia te atingir� e com as festas que te trar�o o amor. Na verdade, come�o a acreditar que n�o h� um �nico espelho digno desse nome no pal�cio Beltrami...</p><p>O par separou-se para a sauda��o final e Fiora recebeu em pleno rosto o sorriso trocista do Magn�fico.</p><p>- Vou-te enviar um. E agora devolvo-te a liberdade, belo passarinho, porque tenho de ir para onde me chama a pol�tica...</p><p>Os dois dan�arinos tinham parado face �s cadeiras de cerim�nia onde estavam sentadas Lucrezia Tornabuoni, a m�e de Louren�o e Giuliano, uma dama imponente, com os seus veludos negros cobertos de prata e Clarissa, a ruiva Clarissa Orsini, esposa de Louren�o, vestida de brocado escuro e linho dourado. Fiora ofereceu-lhes uma rever�ncia plena de respeito, que lhe valeu um sorriso duplo e depois afastou-se procurando Giuliano com os olhos, para ver se ele fora testemunha daquilo que ela considerava um triunfo, mas o jovem, sentado num banquinho de veludo aos p�s de Simonetta, rodeada por uma grinalda de poetas, n�o prestava qualquer aten��o � dan�a. Olhava para a bela genovesa, que se inclinava muitas vezes para ele, sorrindo.</p><p>Ambos davam uma imagem t�o perfeita daquele amor cort�s t�o caro aos romances de cavalaria, que Fiora esqueceu o seu ci�me para admirar, como um artista, o grupo formado, uma sinfonia de brancura, sobre a qual sobressa�a o cintilar das j�ias e o doce brilho das p�rolas. Mas na perfei��o da jovem havia qualquer coisa de fr�gil, que subitamente atingiu quem a observava. A pele t�o branca de Simonetta parecia mais fina, quase transparente e se o grande decote permitia admirar os seus seios encantadores, o desenho fr�gil das clav�culas parecia mais acentuado. Quanto �s m�os, uma das quais estava pousada no ombro de Giuliano, eram de uma brancura di�fana... Estaria Simonetta doente?</p><p>Longe de se alegrar com uma coisa que libertaria Giuliano, Fiora sentiu uma piedade brusca e profunda. Permitiria o Criador que uma doen�a qualquer arruinasse, na flor da idade, uma das suas obras mais bem acabadas? Simonetta era demasiado jovem e demasiado alegre para que, olhando para ela, se evocassem as trevas da tumba.</p><p>A sensa��o de uma presen�a por tr�s de si fez virar a jovem t�o bruscamente que ela embateu numa personagem que nunca tinha visto antes.</p><p>Oh! Desculpai-me! disse ela em franc�s. O homem n�o pareceu ter-se apercebido fosse do que fosse. Os olhos que ele tinha pousados no casal Giuliano-Simonetta nem sequer pestanejaram.</p><p>No entanto disse ele � fatal. Achais, jovem, que <emphasis>monna </emphasis>Simonetta � demasiado jovem para morrer? � que seria uma pena...</p><p>Como podeis saber uma coisa dessas? sussurrou Fiora, estupefacta.</p><p>N�o sei: sinto-o, ou�o-o. Acontece-me, por vezes, ouvir os pensamentos das pessoas. Quanto �quela jovem, lembrai-vos do que vos digo esta noite: ela n�o vive mais de 15 meses. Nessa altura Floren�a viver� uma afli��o, mas v�s n�o a vereis.</p><p>Uma s�bita ang�stia secou, de repente, a garganta de Fiora.</p><p>Porqu�? Estarei... tamb�m morta, eu?</p><p>Os olhos escuros do desconhecido mergulharam nos da jovem e esta teve a impress�o bizarra de que ele conseguia ler tudo o que lhe ia na alma.</p><p>N�o... mas lament�-lo-eis, talvez, porque estareis longe e n�o me parece que estareis feliz.</p><p>Estarei... longe? Mas, onde...</p><p>Ele interrompeu-a com um gesto da sua m�o ossuda e afastou-se de imediato. Fiora viu o seu traje negro, semelhante aos usados pelos m�dicos, afastar-se por entre os alegres vestidos de festa, mas conseguiu seguilo atrav�s das salas iluminadas, porque era um homem muito grande e a sua cabe�a, na qual havia um gorro alto com um gancho dourado dominava</p><p>1 Contrac��o de <emphasis>Madonna.</emphasis></p><empty-line/><p>quase todas as outras. Fiora teve vontade de se lan�ar atr�s dele, mas n�o foi capaz, porque as palavras que ele acabava de pronunciar tinham-na gelado por completo. Havia nelas uma amea�a imprecisa que a assustara, porque escapava ao entendimento humano.</p><p>A voz familiar de Chiara tirou-a daquela esp�cie de abatimento e f�-la estremecer.</p><p>- Trago-te um infeliz que nem sequer ousa apresentar-se, porque est� persuadido de que tu o desprezas. Assegurei-lhe que o teu cora��o n�o � assim t�o duro.</p><p>Fiora olhou, sem na realidade os ver, para a sua amiga e para o jovem Tornabuoni, que, de imediato, perante a palidez do seu rosto, se inquietaram. Chiara meteu o bra�o no da amiga para a amparar.</p><p>- Que te aconteceu? Est�s doente? Est�s a tremer... Vai-lhe buscar um copo de vinho, Luca! Ela vai desmaiar.</p><p>O jovem correu na direc��o de um dos grandes bufetes, dispostos em cada extremidade dos sal�es, n�o sem se virar v�rias vezes e sem se preocupar com os encontr�es que ia dando pelo caminho. Entretanto, Chiara conduzia a sua amiga at� ao v�o de uma janela para a fazer sentar num banco guarnecido de almofadas. Fiora passou uma m�o ainda tr�mula pela fronte e depois sorriu para o rosto inquieto e inclinado para si.</p><p>-J� estou melhor, tranquiliza-te. N�o sei o que me deu, creio que tive medo.</p><p>- Medo, tu, que nunca te assustas? De qu�, meu Deus?</p><p>- De um homem que nunca tinha visto, mas em quem tu, talvez, tenhas reparado. � muito grande, um pouco curvado. Tem um rosto moreno bem enquadrado por uma barba curta e por uns cabelos grisalhos e olhos da mesma cor do rosto. Tem um traje negro e um gorro alto... Ainda h� uns instantes estava aqui.</p><p>- Com efeito, vi algu�m que corresponde a essa descri��o, mas ignoro o seu nome. Por que tens medo dele?</p><p>- Porque me disse coisas terr�veis. Segundo ele, Simonetta morrer� no ano que vem. Quanto a mim, estarei longe daqui e n�o estarei feliz.</p><p>Uma pequena chama acendeu-se no olhar trigueiro de Chiara.</p><p>- Um adivinho? Isso � maravilhoso! Tenho de lhe falar, absolutamente, para que me diga...</p><p>A jovem j� se preparava para ir no encal�o do homem. Fiora reteve-a com uma m�o firme.</p><p>Fica aqui! Ele n�o � um homem a quem se pergunte pelo futuro. Quando ele olha para ti, gela-te o sangue. E, pe�o-te: nem uma palavra acerca do que te disse. Chiara condescendeu, mas, pela sua express�o, Fiora viu bem que n�o ficara convencida. Felizmente, Luca estava de regresso com um copo de vinho <emphasis>Malvasia, </emphasis>pelo qual Fiora n�o tinha, ali�s, qualquer desejo, mas do qual bebeu algumas gotas para dar prazer ao seu apaixonado, que olhava para ela com olhos de c�o fiel, feliz por constatar que um pouco de cor j� regressava aos olhos da jovem.</p><p>Isso vai melhor, n�o � verdade? E agora, quais s�o as ordens...</p><p>Tenta saber quem � uma determinada pessoa que nos interessa muito! disse Chiara, que continuava com a ideia fixa.</p><p>Qual pessoa? A jovem lan�ou-se numa descri��o t�o fiel quanto poss�vel, porque j� em segunda m�o. Fiora deteve-a:</p><p>N�o te canses. Estou a v�-lo a falar, al�m, com raesserPetrucci... Luca virou-se, olhou na direc��o indicada e franziu o sobrolho.</p><p>O magistrado municipal � a �ltima pessoa com quem o feiticeiro devia conversar. � ele que abre o caminho que vai dar � fogueira...</p><p>Um feiticeiro? E tu conhece-lo?</p><p>Eu n�o o conhe�o, mas sei que � precisou Luca altivamente! O que n�o � a mesma coisa...</p><p>Pouco importa! Fala, j� que sabes, em vez de nos deixares em brasa.</p><p>Bela palavra quando se trata de um adorador do diabo! tro�ou o jovem. Bem, ficais a saber, belas curiosas, que aquele homem chama-se Dem�trios Lascaris. � um m�dico grego e o meu primo Louren�o tem-no em grande estima por causa do seu saber. Espera que este Lascaris, que pretende descender dos imperadores de Biz�ncio, lhe devolva o olfacto de que foi privado e presenteou-o com uma casa perto de Fiesole. Mas dizem que se passam l� coisas estranhas... que evocam l� o diabo!</p><p>A voz de Luca baixava de tom � medida que falava e acabou num sussurro dram�tico. O que teve o dom de irritar Fiora:;</p><p>N�s temos uma <emphasis>villa em </emphasis>Fiesole e nunca ouvimos falar nesse m�dico grego. Quando um homem sai da mediania, � espantoso o que se diz dele...</p><p>1 Com efeito, <emphasis>o Magn�fico </emphasis>n�o tinha olfacto.</p><p>2 No sentido antigo do termo.</p><empty-line/><p>Para mal dos seus pecados, a jovem foi incapaz de dizer a raz�o que a levara a tomar, de repente, a defesa de um homem que a assustara tanto uns instantes antes. Talvez porque, educada pelo seu pai na escola da filosofia grega, achava chocantes aqueles coment�rios supersticiosos. O homem era extraordin�rio, sem d�vida e parecia ter o dom estranho da adivinha��o. Mas da� a associ�-lo a um dos feiticeiros delirantes que floresciam em certas aldeias � volta de Floren�a, era de mais!</p><p>- Talvez seja melhor n�o espalhar esse g�nero de boatos - acrescentou ela. - Espantar-me-ia muito que monsenhor Louren�o, inteligente e de esp�rito profundo como �, protegesse uma criatura demon�aca qualquer!</p><p>- Que mosca te mordeu? - protestou Chiara. - Olha para este infeliz, que tu n�o cessas de maltratar. At� tem l�grimas nos olhos...</p><p>- Nesse caso, que me perdoe. Estou nervosa, esta noite, um pouco irritada, talvez. - disse Fiora levantando-se. - H� dias e este � um deles, em que parece que nada me agrada.</p><p>- Infelizmente - disse Chiara - eu apanho sempre com esses dias!</p><p>Fiora desatou a rir e para consolar um pouco o seu adorador malfadado acariciou-lhe a face com a ponta do dedo:</p><p>- Plat�o diz que ningu�m escapa ao seu destino! Boa noite para v�s! Ide dan�ar juntos esta <emphasis>calata </emphasis>que os m�sicos come�aram a tocar! Eu vou ter com o meu pai, para lhe pedir que me leve a casa... Estou cansada!</p><p>A ligeireza com que Fiora girou nos calcanhares desmentia as suas �ltimas palavras, mas Chiara, t�o bem como Luca, sabia que era in�til tentar demov�-la do que quer que fosse quando ela n�o queria. Com o mesmo suspiro, mas com sentimentos diferentes, viram ambos o seu vestido de brocado nacarado deslizar por entre os grupos e abandonar o sal�o de festas.</p><p>- Bem - suspirou o jovem Tornabuoni - vamos dan�ar, j� que ela assim o deseja!</p><p>- � o que se pode chamar um convite galantemente formulado disse Chiara com uma careta trocista. - No fim de contas, por que n�o? Isso ou pentear um lic�rnio, � uma maneira de passar o tempo!</p><p>Fiora encontrou Francesco Beltrami na sala de m�sica. De p�, perto da chamin� onde uns escravos negros n�o cessavam de acrescentar cavacos odor�feros, conversava com Bernardo Bembo, o embaixador de Veneza, que j� encontrara v�rias vezes por ocasi�o de estadias nas margens do Adri�tico. Quando Fiora se aproximou, era este �ltimo que falava e ela n�o ousou interromp�-lo.</p><p>Desde que o papa Pio II morreu, logo depois de tentar lan�ar uma cruzada contra os Turcos, Veneza luta s� contra o infiel, que a desapossou de quase todas as col�nias da Gr�cia, ou da �sia Menor. Ningu�m parece dar o devido valor ao perigo que o Ocidente corre com um sult�o da t�mpera de Maom� II. Nem o papa Sisto IV, unicamente ocupado com a constru��o em Roma e a enriquecer os seus sobrinhos, nem Feirante de N�poles, nem o Sforza de Mil�o, nem os Genoveses, claro, que esfregam as m�os enquanto contam as nossas perdas em terras, homens e navios. Toda a gente parece esquecer que Maom� conquistou Biz�ncio e que o estandarte do Profeta flutua tamb�m sobre o Part�non e que apenas a largura do Adri�tico protege os Estados do Papa da amea�a dos Turcos, cujos ex�rcitos, h� dois anos, chegaram a Frioul.</p><p>Nessa �poca, por�m, Veneza dava provas brilhantes de coragem e for�a, expulsando o inimigo das muralhas de Scutari, que est�o mesmo por baixo do seu nariz.</p><p>Sem d�vida! Loredano, com apenas 2500 dos nossos, repeliu dez mil turcos para o mar. Mas n�o passou de um caso em mil e quem sabe se, neste momento, Scutari ainda nos pertence? Os cors�rios turcos atacam os nossos navios quase em frente dos canais do Lido. E infelizmente o nosso doge, Pietro Mocenigo, apesar de s� ter 68 anos, est� enfraquecido pelos numerosos ferimentos recebidos nas batalhas contra os cors�rios e jan�zaros de Maom�. N�o durar� muito e n�s precisamos de um chefe jovem e cheio de vida.</p><p>Seja, mas os vossos marinheiros n�o t�m rival e tendes em Bartolomeo Colleoni o maior <emphasis>condottiere </emphasis>de It�lia...</p><p>Uma nuvem passou pelo rosto de Bembo:</p><p>Colleoni acaba de morrer no seu castelo de Malpaga. A sua fama era tal que ningu�m se lembrava da sua idade. - Era assim t�o velho? Ia fazer 75 anos. Acrescento que legou � Rep�blica uma soma de cem mil ducados de ouro, para que, apesar de morto, possa continuar a participar na guerra contra os Turcos. Mas p�s uma condi��o para a sua generosidade: Veneza erigir-lhe-� uma est�tua na pra�a S�o Marcos...</p><p>Peste! disse Beltrami rindo em pleno cora��o de Veneza! N�s torne�mos a dificuldade: a est�tua erigir-se-� na pra�a Scuola</p><p>di San Marco. E se eu estou aqui �, sem d�vida, para pedir a alian�a de monsenhor Louren�o, para nos ajudar a proteger as nossas possess�es em terra firme, caso o Turco se aproxime, mas tamb�m para encomendar esta est�tua equestre ao vosso maior escultor, Verrochio. Se Floren�a o autorizar!</p><p>Tanto um, como o outro, ficar�o, certamente, encantados.</p><p>O tom de Beltrami mudou subitamente, ao mesmo tempo que atra�a para si Fiora, que se mantinha a dois passos, esperando que a conversa acabasse.</p><p>Quanto a esta jovem que, como certamente reparastes, nos escutava, ilustr�ssimo senhor, permiti que vo-la apresente: a minha �nica filha, Fiora.</p><p>O rosto do veneziano iluminou-se, ao mesmo tempo que a jovem lhe fazia uma graciosa v�nia.</p><p>J� tinha reparado, com efeito, que nos escutava, mas a curiosa � t�o bela que me senti perturbado. Espero n�o ter dito nenhuma asneira.</p><p>Ficai seguro do contr�rio. Que queres, filhinha? Por que n�o est�s a dan�ar depois da honra que monsenhor Louren�o te concedeu?</p><p>Justamente porque, depois dele, nenhum dan�arino � suficientemente bom... Depois, em voz mais baixa, a jovem pediu: Pai, eu queria voltar para casa...</p><p>A nota urgente que vibrava na voz da jovem fez compreender a Francesco que ela n�o estava a obedecer a um simples capricho.</p><p>Como queiras, mas concede-me mais alguns instantes. Partiremos assim que monsenhor Louren�o acabar de falar com o borgonh�s. A seguir, falar� com o senhor Bembo, aqui presente.</p><p>Mal ele terminou a frase, apareceu <emphasis>o Magn�fico </emphasis>na companhia de Philippe de Selongey. Louren�o vinha sorridente e af�vel como habitualmente, mas o borgonh�s vinha corado e os seus olhos brilhavam, como que dominados por uma c�lera dificilmente control�vel. Foi poss�vel ouvir-se o que eles diziam.</p><p>O que vos disse n�o retira nada ao facto de que sois meu h�sPede, senhor conde! Sois jovem e a hora pertence ao prazer das damas.</p><p>A voz de Philippe de Selongey soou como algumas horas antes as trombetas no recinto do torneio:</p><p>Agrade�o-vos, monsenhor, mas n�o seria capaz. Comovo-lo disse o duque Carlos, meu nobre senhor, est� em guerra e com ele toda a Borgonha. Eu sou um soldado, n�o um maricas e como n�o temos mais nada a dizer um ao outro, permiti que me retire... Como vos aprouver. Voltaremos a ver-nos. Achais necess�rio? perguntou Selongey com arrog�ncia. Sem d�vida. N�o ser� conveniente que eu vos entregue uma carta para o Grande Duque do Ocidente, j� que ele me deu a honra <emphasis>de </emphasis>vos enviar � minha presen�a? Uma carta... � uma prova de admira��o De admira��o? Isso pouco importa ao meu senhor, j� que n�o obteve o que desejava. O milan�s mostrou-se mais sensato ao ouvir as propostas da duquesa Yolanda de Sab�ia, aliada de Borgonha... Contra o seu pr�prio irm�o, o rei de Fran�a? A voz de M�dicis tornou-se, subitamente, cortante. Uma princesa pode, sem d�vida renegar os la�os de sangue sob os aplausos de todos. Mas eu permane�o fiel �s minhas alian�as familiares. Lembrai-vos que a flor-de-lis est� nas minhas armas! � verdade acrescentou ele com um leve sorriso de desd�m � verdade que nas da Borgonha tamb�m est�, mas parece que o vosso duque n�o se preocupa muito com isso... Desejo-vos uma boa noite, <emphasis>messire </emphasis>de Selongey! Ah! senhor Bembo, andava � vossa procura! Acompanhais-me, por favor? </p><p>Os dois homens dirigiram-se para o sal�o de festas. Fiora e o pai n�o se mexeram, para n�o embara�ar a sa�da do embaixador borgonh�s. Como todas as escadarias dos pal�cios florentinos, a da soberba mans�o dos M�dicis era estreita e �ngreme. Mas Philippe de Selongey continuava im�vel. De punhos cerrados, lutava visivelmente contra a vontade de seguir Louren�o e, talvez, vingar-se brutal e imediatamente das palavras desdenhosas que acabavam de ser pronunciadas.; Mas conteve-se, encolheu os ombros e contentou-se em dizer em voz bastante alta para poder ser ainda ouvido pelo <emphasis>Magn�fico.!</emphasis></p><p>Nem tudo ser� como v�s dizeis, senhor Louren�o! Quando monsenhor Carlos tiver vencido os su��os e fizer da Borgonha o reino que em tempos foi, aperceber-vos-eis do peso da c�lera!</p><p>Com um gesto, o borgonh�s chamou os dois homens que esperavam a um canto da sala e que faziam, sem d�vida, parte da sua escolta. Ia afastar-se quando se apercebeu da presen�a dos Beltrami e aproximou-se deles. Um sorriso iluminou-lhe o rosto t�o duro instantes antes:</p><p>Donzela Fiora, sois aquela que eu desejava ver antes de abandonar este pal�cio. Pensava, se n�o dan�ar, o que n�o sei fazer, pelo menos conversar convosco por um momento. Creio que vou protelar a minha partida por uns instantes.</p><p>Philippe ofereceu o seu punho fechado, para que Fiora depositasse nele a sua m�o. Beltrami repeliu-o suavemente.</p><p>N�o vos demoreis, <emphasis>messire! </emphasis>Acabais de pronunciar palavras que tornam a vossa presen�a nesta casa pouco desej�vel. Quanto � minha filha, n�o vejo que assunto de conversa��o possais ter com ela!</p><p>Mas... todas aquelas coisas encantadoras que podem interessar a uma jovem e, talvez, saber por que raz�o o seu rosto me � t�o familiar. Tenho a impress�o de que j� a encontrei, sem poder dizer onde nem quando... O que me envergonha. Devia ser imposs�vel esquecer uma tal beleza.</p><p>Fiora j� abria a boca para dizer que o cavaleiro teria, sem d�vida, conhecido outrora a sua m�e, mas Beltrami n�o lhe deu tempo.</p><p>Sois v�tima de uma ilus�o, <emphasis>messire. </emphasis>A minha filha s� tem 17 anos e nunca saiu deste pa�s. A menos que se trate de um estratagema... utilizado muitas vezes para meter conversa com uma desconhecida! Boa noite, <emphasis>messire! N�s </emphasis>vamo-nos embora!</p><p>A voz era cort�s, mas o tom n�o admitia r�plica. Selongey n�o insistiu e afastou-se, saudando e dando passagem ao pai e � filha. Disfar�adamente, Fiora apanhou-lhe o olhar, ao mesmo tempo sonhador e interrogativo. J� n�o sentiu a irrita��o que sentira nos encontros anteriores, antes, pelo contr�rio, uma curiosa impress�o de pena, como a que se sente quando se deixa qualquer coisa interessante por acabar. No entanto, respeitava demasiado as vontades paternais para as discutir... sen�o na intimidade.</p><p>No fundo da escadaria reencontraram os seus servidores, que os esperavam para os escoltar at� casa com archotes. Nessa noite n�o seria preciso ilumina��o, porque as ruas da cidade estavam cheias de luzes, m�sica e alegria. Festejava-se at� nas pra�as, onde, por ordem de Louren�o, se regalava o <emphasis>popolo minuto, </emphasis>o povinho e, por toda a parte, cantores e saltimbancos arrasavam cora��es ou mostravam as suas habilidades. A noite de Floren�a, em festa, estava bela e estrelada...</p><p>Diante das portas de bronze do Baptist�rio, cujas personagens douradas pareciam animar-se � luz dan�ante dos archotes, um bando alegre de estudantes, aprendizes e raparigas envolveu subitamente o negociante e a sua filha numa roda que os isolou, por instantes, dos seus servidores: H� car�cias no ar, messer Francesco exclamou, de imediato imitado pelos outros, um dos rapazes. Ainda n�o s�o horas de voltar para casa, s�o horas de dan�ar...</p><p>Eu j� n�o tenho idade para dan�ar, meus amigos lan�ou Beltrami com bom humor e a minha filha sente-se cansada... Cansada? Com esses olhos? Um dos rapazes, que trazia um ala�de �s costas, saiu da roda. P�s um joelho em terra diante de uma Fiora divertida e cantou:</p><p><emphasis>Oh rosa colhida do verde ramo. Foste plantada num jardim de amor...</emphasis></p><p>A can��o era c�lebre. Todos a entoaram em coro e Fiora, sorridente, estendeu a m�o ao jovem cantor, que a beijou. Ao mesmo tempo, Beltrami abriu a sua bolsa e tirou dela um punhado de moedas, que atirou para o c�rculo:</p><p>A noite ainda � uma menina, meus amigos! Tirai dela o maior divertimento poss�vel � nossa sa�de!</p><p>As moedas foram apanhadas rapidamente, ap�s o que o bando, ao som dos ala�des, das flautas e dos tamborins escoltou o pai e a filha at� ao seu pal�cio, onde, com a permiss�o do dono da casa, os criados portadores de archotes ofereceram de beber a todos, antes de partirem, tamb�m, para dan�ar at� ao nascer do dia. Fiora e o seu pai entraram em casa e Beltrami, tendo exprimido a sua vontade de ir trabalhar para o seu <emphasis>studiolo </emphasis>num manuscrito grego recentemente adquirido, foi seguido por Fiora. Sonhadora, ela aproximou-se do retrato, do qual retirou o v�u.</p><p>N�o s�o horas para isso! reprovou docemente Francesco. Devias ir dormir...</p><p>Por favor, pai, deixa-me contempl�-la mais um pouco! N�o v�s que acabo de a descobrir? Tu nem sequer me disseste o nome dela.</p><p>Disse-te que se chamava Marie.</p><p>H� tantas mulheres chamadas Marie! Isso n�o chega.</p><p>Para j�, chega. Mais tarde, dir-te-ei...</p><p>1 Express�o florentina que significa que se est� feliz</p><empty-line/><p>Isso, na tua boca, significa imensos anos, n�o � verdade? E eu, que queria tanto saber... Aquele estrangeiro, aquele... Philippe de Selonggy acrescentou ela corando subitamente t�-la-ia conhecido?</p><p>Admitindo que isso seja poss�vel, devia ser bastante jovem.</p><p>E a semelhan�a de que ele falou? Beltrami fechou nas suas as m�os de Fiora.</p><p>N�o insistas, minha filha! N�o me far�s dizer o que eu quero guardar para mim e acabar�s por ficar zangada! Vai dormir! Ali�s, eis <emphasis>donna </emphasis>L�onarde, que te vem buscar...</p><p>Com efeito, a porta acabava de ranger, como habitualmente, dando passagem � governanta.</p><p>N�o vos esperava antes da madrugada. Que se passou?</p><p>Nada, fui eu que quis voltar para casa. N�o me estava a divertir tanto quanto esperava disse Fiora.</p><p>Monsenhor Louren�o dan�ou com ela e ainda se queixa!</p><p>Mas L�onarde j� n�o os escutava. Tinha visto o quadro que Fiora tinha deslocado para ficar mais iluminado, perto da chamin�. Ao cabo de um instante, os seus olhos arregalados viraram-se para Beltrami:</p><p>Onde arranjastes esta imagem? perguntou ela em voz neutra.</p><p>Pintaram-mo segundo as parecen�as de Fiora. � espantoso, n�o � verdade?</p><p>Ele deu uma pequena risada falsamente desenvolta, mas L�onarde continuou a n�o o ouvir.</p><p>Porqu�?</p><p>Simplesmente porque me apeteceu. N�o � suficiente?</p><p>Um enorme suspiro, que evocava o silvo de uma forja, escapou-se do peito da governanta:</p><p>V�s sois o vosso �nico juiz, <emphasis>messer </emphasis>Francesco, mas permiti que vos diga que n�o gosto nada. Isto � tentar o destino... e at� o diabo, dar a um rosto morto as parecen�as de um rosto vivo. Se acontece alguma coisa � crian�a...</p><p>Bagatelas, tudo isso! N�o metais tais ideias na cabe�a da rapariga, que j� tem demasiada imagina��o... e curiosidade! Ela disse que estava cansada, ide deit�-la!</p><p>Fiora, que seguira o curto di�logo com a aten��o que se compreende, ofereceu a fronte ao beijo do seu pai e deixou-se levar sem protestar, mas a perturba��o de L�onarde n�o lhe escapara e, uma vez no quarto, enquanto Khatoun, estremunhada, e a governanta a despiam para a meterem na cama, ela perguntou bruscamente em franc�s, para ser compreendida apenas por L�onarde:</p><p>V�s tamb�m n�o me ides dizer nada?</p><p>Acerca de qu�?</p><p>Acerca da minha m�e. Por que raz�o n�o tenho o direito de saber o apelido dela?</p><p>J� chega que rezeis por ela. Se o vosso pai n�o vos diz nada � porque tem as suas raz�es. Tentai dormir, agora!</p><p>N�o tenho sono e acho que a hist�ria da minha m�e � uma hist�ria terr�vel.</p><p>Quem � que vos meteu essa ideia na cabe�a? �</p><p>O meu pai, com o que fez esta manh�...</p><p>E ela contou o que se passara no <emphasis>studiolo, </emphasis>quando Francesco quis demonstrar-lhe que ela era t�o bela como aquela que ele quisera perpetuar numa recorda��o.</p><p>Reparei numa mancha escura na renda e o meu pai acabou por me dizer que era sangue. O sangue da minha m�e! N�o me podeis dizer como ela morreu?</p><p>L�onarde, que durante o relato dera sinais de agita��o, persignou-se v�rias vezes:</p><p>N�o!... N�o, n�o conteis comigo para isso! Dir-vos-ei apenas isto: a vossa m�e era uma criatura doce e ador�vel, que a infelicidade perseguiu durante toda a sua exist�ncia. O amor que o vosso pai lhe devotou foi a �nica d�diva que o destino lhe deu. � por isso que rezaremos sempre por ela. E agora, dormi!</p><p>Empunhando as cortinas brancas de damasco do leito, a governanta ia fech�-las quando Fiora a impediu:</p><p>Sabeis muito bem que n�o gosto de dormir fechada. E tenho mais uma coisa para dizer: esta noite, no pal�cio M�d�cis, um homem estranho fez-me uma profecia.</p><p>Isso j� � outra coisa! Que profecia? E a jovem repetiu-lha, acrescentando:</p><p>A vossa amiga Colomba, que sabe sempre tudo, deve ter ouvido falar de Dem�trios Lascaris! Gostaria de saber o que pensa ela dele.</p><p>Certamente nada de bom! rabujou L�onarde. N�o deve passar de um charlat�o e de um mau homem! Meter semelhantes ideias na cabe�a de uma crian�a como v�s! Espero bem que n�o tenhais acreditado</p><p>nem numa palavra! Quanto a <emphasis>monna </emphasis>Simonetta, toda a Floren�a sabe que ela n�o passa bem de sa�de. Que um m�dico seja capaz de ver mais longe, � poss�vel, mas n�o tinha nada que vos dizer essas coisas. Onde hav�eis de estar no ano que vem, meu Deus, sen�o aqui, ou em Fiesole?... A menos que o vosso pai tenha decidido levar-vos numa das suas viagens e nesse caso v�s possais enjoar? N�o � preciso ir mais longe, porque monsenhor n�o vos quer casar j�.</p><p>Achais que sim? disse, aliviada, Fiora, que n�o tinha pensado naquela eventualidade.</p><p>Com certeza, meu passarinho azul. Esquecei tudo isso! Amanh� direi a <emphasis>messer </emphasis>Francesco que vigie um pouco mais as pessoas que se aproximam de v�s quando eu n�o estou convosco...</p><p>Mandando Khatoun, que n�o parava de bocejar, para o leito de almofadas e peles que ela ocupava a um canto do grande quarto, L�onarde apagou as velas, deixando apenas uma de azeite, perfumada, � cabeceira da cama. A pedido de Fiora, deixara a janela meio aberta para deixar entrar o ar fresco da noite.</p><p>Estendida no seu grande leito, Fiora, que n�o era de uma piedade extrema, murmurou uma curta ora��o e depois, sentindo que o sono lhe tornava as p�lpebras pesadas, fechou os olhos.</p><p>Reabriu-as quase de imediato. Um ru�do seco de vidros partidos, seguido de um choque surdo, f�-la sentar-se na cama e depois deslizar para fora dela. Qualquer coisa batera no batente da sua janela entreaberta, quebrando um dos pequenos quadrados e essa coisa ca�ra no tapete.</p><p>Com a ajuda da vela, Fiora descobriu uma pedra, � volta da qual estava atado um papel, bem apertado. Com o cora��o a bater com toda a for�a, a jovem apanhou-a e lan�ou, depois, um olhar na direc��o de Khatoun, mas a pequena escrava n�o ouvira nada e dormia de punhos cerrados, enroscada no seu ninho de almofadas.</p><p>Fiora foi sentar-se no seu leito, recolocou a vela no seu lugar, rasgou com os dentes a guita que fixava a estranha mensagem, desdobrou-a e leu-a. Continha apenas algumas palavras:</p><p>�Amanh� espero-vos, durante toda a manh�, na igreja da Santa Trinita. N�o poder�eis ir l� rezar? Preciso absolutamente de vos falar!� E estava assinada: Ph. de S.</p><p>Corada e confusa, como se o enviado borgonh�s tivesse entrado no seu quarto, Fiora virou e revirou o bocado de papel entre os dedos, sem perceber bem se estava furiosa ou perturbada. Que aquele desconhecido tivesse a aud�cia de lhe marcar um encontro escandalizava-a, mas sem bem se dar conta sentiu um certo de orgulho misturado com uma certa excita��o perante aquela esp�cie de aventura que se lhe apresentava. Uma aventura como as que ela soubera-o ao ouvir Leonard e Colomba conversarem aconteciam a certas jovens senhoras e raparigas da cidade. A quest�o era saber se iria ou n�o a Santa Trinita. A igreja era pr�xima e ela sabia que podia ir l� apenas na companhia de Khatoun. L�onarde ia l� regularmente, todas as manh�s, para a pequena missa da manh� e, logicamente, n�o acharia �til regressar s� porque, extraordinariamente, Fiora se sentia piedosa e disposta a ouvir o santo of�cio num outro dia que n�o ao domingo e nos dias de festa. A jovem n�o sabia, na sua candura, que, posta a pergunta naqueles termos era j� conhecer a resposta e quando, por fim, adormeceu depois de ter queimado o papel e depositado a pedra onde ela ca�ra, j� decidira ir ao encontro de Philippe de Selongey.</p><p>A dita pedra e a janela quebrada intrigaram <emphasis>dame </emphasis>L�onarde quando esta as descobriu na manh� seguinte. O ar inocente das duas raparigas bem desempenhado por parte de Fiora, mas aut�ntico por parte de Khatoun, que n�o vira nem ouvira nada convenceram-na a atribuir o incidente a um b�bedo qualquer das muitas centenas que floresciam durante as noites de festa. Evidentemente, n�o era t�o ing�nua que ignorasse que uma pedra lan�ada atrav�s de uma janela era um meio conhecido de fazer chegar uma mensagem, mas pensou que nesse caso Fiora teria feito desaparecer, tanto a pedra, como o bilhete. E tranquilizou-se ao pensar que o expedidor, a ser um galanteador, n�o podia ser sen�o Luca Tornabuoni, ou um dos outros admiradores da jovem. Em qualquer dos casos, o mal n�o era grande.</p><p>Vou mandar reparar a janela enquanto estiverdes a tomar banho.</p><p>Por favor, <emphasis>dame </emphasis>L�onarde, mandai prepar�-lo o mais rapidamente poss�vel. Queria ir ouvir missa a Santa Trinita.</p><p>Estais doente?</p><p>Se estivesse doente, <emphasis>dame </emphasis>L�onarde, ficava na cama disse Fiora com grande dignidade. Mas, depois de tudo o que me aconteceu ontem, acho que preciso de rezar.</p><p>L�onarde n�o insistiu, mas, suspeitando daquela s�bita crise de piedade por parte de uma rapariga que parecia estimar mais Plat�o, Hes�odo, ou S�focles do que os evangelistas, prometeu a si pr�pria rindo � socapa, porque se a pequena come�asse a interessar-se por outro rapaz que n�o Giuliano de M�dicis era uma boa coisa vigi�-la sem que ela se apercebesse. E mandou Khatoun preparar o banho.</p><p>Uma hora mais tarde, envolta num grande manto escuro com um capuz forrado de pele de esquilo porque o tempo refrescara bruscamente, Fiora trotava na direc��o de Santa Trinita com Khatoun nos seus calcanhares transportando uma almofada e um missal. Aquando da morte da sua m�e, a jovem t�rtara fora baptizada com o nome de Doctrov�e, que era a santa desse dia, mas nunca ningu�m a tinha chamado como tal. Khatoun sempre fora o seu nome e Khatoun continuara, mas gra�as a esse baptismo podia acompanhar Fiora nas suas devo��es � igreja.</p><p>Santa Trinita, defronte da qual todos os anos as damas e as donzelas de Floren�a celebravam o regresso da Primavera, era uma severa e nobre igreja g�tica, que seria sombria se n�o fossem os numerosos c�rios que ardiam nas diferentes capelas. Sob as ab�badas decoradas com frescos de Baldovinetti, estes formavam grandes ramos de luz, que reflectiam o ouro dos altares.</p><p>Estava a come�ar uma missa na nave e Fiora decidiu segui-la antes de ouvir o que o cavaleiro borgonh�s tinha para lhe dizer de t�o importante. Ali�s, tinha reparado imediatamente, ao entrar, na sua alta silhueta escura, plantada na segunda capela � esquerda da nave, diante dos frescos de Giovanni da Ponte. Com o nariz levantado para o magn�fico t�mulo de Federighi, esculpido por Luca delia Robbia, Selongey parecia estudar cada pormenor com a aten��o de um conhecedor, mas Fiora, hipocritamente abrigada sob o seu capuz, viu que ele lan�ava r�pidas olhadelas a cada pessoa que entrava na igreja. Ent�o, a jovem descobriu o rosto o suficiente para que ele a reconhecesse, mas n�o deu a entender que o tinha reconhecido e foi ajoelhar-se no meio da nave, um pouco atr�s <emphasis>das </emphasis>poucas pessoas que ali se encontravam...</p><p>Nunca uma missa foi seguida de modo t�o distra�do. Fiora n�o rezava e mal escutava, consciente da presen�a que sentia atr�s de si. Ela sabia, sem precisar de virar a cabe�a, que o homem, ainda ignorado vinte e quatro horas antes, estava ali muito perto dela e experimentava uma perturba��o que n�o conseguia explicar, mas que sentia com algum <emphasis>prazer... </emphasis>Khatoun, que n�o tinha qualquer raz�o para n�o se virar, cochichou:</p><p>Est� um belo senhor mesmo atr�s de n�s que n�o p�ra de olhar para ti, patroa!</p><p>Eu sei sussurrou Fiora. Ele vai falar connosco daqui a pouco, mas n�o podes dizer a ningu�m. Prometes?</p><p>Sem se preocupar com a santidade do local, Khatoun escarrou para o ch�o enquanto estendia a m�o, que era a sua maneira de prestar juramento desde que vira dois marinheiros do Arno agirem desse modo. Fiora n�o conseguiu evitar um sorriso, mas distinguiu um riso abafado mesmo nas suas costas.</p><p>Um riso que, ali�s, se extinguiu, terminando num ataque de tosse.</p><p>O of�cio chegava ao fim. Manejado vigorosamente por um jovem di�cono de cabelos em desordem, o incens�rio lan�ou alguns clar�es e umas espessas volutas de fumo odorante, que encheram a nave com um nevoeiro que encobriu a casula matizada do padre e os preciosos objectos de culto, ao mesmo tempo que, de joelhos, Fiora prosseguia numa ora��o mais aparente do que real. Uma voz em surdina chegou-lhe aos ouvidos:</p><p>Espero-vos junto da pia de �gua benta...</p><p>Ela inclinou ligeiramente a testa, mas n�o se mexeu, oferecendo a si pr�pria o prazer bem feminino de fazer esperar um pouco mais o homem que a convidara, t�o cavalheirescamente, a vir ter consigo, o que lhe permitiu esperar que a igreja se esvaziasse quase por completo. Restava apenas o sacrist�o, que estava ocupado a apagar os c�rios dos grandes candelabros com um apagador de cabo comprido, quando, com um �ltimo sinal da cruz, Fiora se levantou. Com passos contados regressou lentamente, muito lentamente, para a porta e depois, subitamente, obliquou, para se juntar �quele que a esperava na sombra de um pilar.</p><p>Quando chegou perto dele, Selongey segurou-a pela m�o <emphasis>e </emphasis>levou-a para a capela mais pr�xima, que era tamb�m aquela onde havia menos luz.</p><p>Aquela rapariga que nos segue? perguntou secamente o borgonh�s sem se preocupar com qualquer f�rmula de delicadeza. Sufocada por tanta impertin�ncia, Fiora come�ou por libertar a m�o:</p><p>� Khatoun, a minha escrava. E n�o penseis que a mando embora: ela nunca se afasta de mim!</p><p>Uma escrava? Estais numa igreja e dizeis-me isso tranquilamente? Que esp�cie de crist� sois v�s?</p><p>N�o creio que tenhais li��es a dar-nos nesse cap�tulo. Os nossos escravos s�o, parece, mais bem tratados do que os vossos dom�sticos, ou os vossos camponeses. Como os pagamos bem, tratamo-los bem.</p><p>Na verdade, sois uma gente incr�vel e...</p><p>Mudemos de conversa, <emphasis>messire! </emphasis>N�o me fizestes vir aqui esta manh� para discutir os nossos usos e costumes! � um assunto acerca do qual n�o aceito cr�ticas.</p><p>Perdoai-me! N�o queria melindrar-vos. O que quero � fazer-vos uma pergunta, se me permitis.</p><p>Tudo depende da pergunta disse Fiora, sempre na defensiva. Estava muito direita em frente do seu interlocutor, o olhar altivo fixo no de Philippe, que subitamente sorriu e murmurou com a voz mudada:</p><p>Tendes uns olhos transparentes. Deve ser poss�vel ler neles o menor movimento da vossa alma...</p><p>Isso tamb�m n�o merecia o inc�modo... Ent�o, essa pergunta? Se, na realidade, tendes uma...</p><p>Tenho uma. Disseram-me que a vossa m�e n�o era daqui, que era uma nobre dama estrangeira.</p><p>Eu sabia que as l�nguas trabalhavam depressa por aqui protestou Fiora mas ignorava at� que ponto! V�s acabais de chegar.</p><p>E vou partir muito brevemente, mas � preciso t�o pouco tempo para que uma pessoa se interesse por outra!... Ao ponto de tentar saber tudo o que lhe diz respeito. Se vos pergunto pelo nome da vossa m�e � por causa dessa vossa parecen�a com uma das recorda��es da minha juventude. Quando eu tinha 12 anos, fui pajem do senhor conde de Charolais, depois duque da Borgonha.</p><p>Pe�o-vos, continuai!</p><p>Monsenhor Carlos tinha ent�o como escudeiro um jovem muito belo... e muito triste. Raramente sorria, o que era uma pena, porque O seu sorriso era encantador... exactamente como o vosso. Nunca esqueci aquele rapaz, que, ali�s, desapareceu bruscamente. Chamava-se Jean de Br�vailles, da boa nobreza borgonhesa, mas de pouca fortuna. V�s pareceis-vos estranhamente com ele, tanto quanto uma rapariga pode parecer-se com um rapaz.</p><p>E v�s pensastes que talvez esse jovem fosse da minha fam�lia?</p><p>Com efeito. Foi por isso que vos perguntei o nome da vossa m�e, arriscando-me a parecer-vos indiscreto.</p><p>Dir-vo-lo-ia voluntariamente se o soubesse, mas o meu pai, preocupado, sem d�vida, em proteger as suas recorda��es... e talvez a honra de uma fam�lia, j� que eu nasci fora do casamento, nunca mo quis dizer. S� sei uma coisa: ela chamava-se Marie.</p><p>O sil�ncio t�o particular das igrejas vazias, cujas paredes op�em fronteiras intranspon�veis aos ru�dos do exterior, sil�ncio feito da majestade divina e do vazio enorme que as ab�badas abrigam e onde o menor som ecoa e se amplifica, estabeleceu-se entre os dois jovens. Sentindo de novo a emo��o da v�spera, Fiora reviu o rosto doce da jovem loura, enquanto Philippe, esse, olhava para Fiora. Do outro lado do pilar, onde se mantinha por discri��o, Khatoun tossiu e a igreja pareceu tossir com ela. Fiora, arrancada ao seu sonho, estremeceu e, apertando contra si pr�pria as pregas do seu manto, levantou os olhos para o cavaleiro e viu que ele continuava a olhar para ela sem que fosse poss�vel adivinhar-lhe o pensamento. O seu rosto trigueiro parecia hirto e na ruga sarc�stica da sua boca a jovem pensou ver desd�m.</p><p>N�o vos disseram que o meu pai n�o era o marido da minha m�e? Ora a� est�. Eu sou bastarda, para falar com franqueza. Acrescento que, entre n�s, isso n�o tem muita import�ncia. � verdade acrescentou ela com um meio sorriso que n�s, os Florentinos, somos uma gente estranha, meio selvagem...</p><p>A sua ironia irritou Selongey.</p><p>N�o digais asneiras! Nunca disse semelhante coisa. Ali�s, nas nossas grandes fam�lias, a bastardia tamb�m n�o � uma marca infame. Apenas conta o sangue do pai. Assim, o melhor capit�o de monsenhor Carlos � seu meio-irm�o, bastante mais idoso do que ele, ali�s: o Grande Bastardo Antoine...</p><p>Desta vez Fiora sorriu alegremente, mostrando umas covinhas nas faces e mostrando a h�mida brancura dos seus dentes.</p><p>N�o vale a pena ficar furioso por dizer isso, <emphasis>messire. </emphasis>E, como estamos de acordo, permiti que me retire. A minha governanta talvez ache a missa um pouco longa demais...</p><p>Sois assim t�o vigiada?</p><p>Sou-o tanto quanto deve ser uma rapariga da minha idade e da minha condi��o disse Fiora severamente. N�o dever�eis criticar semelhante coisa.</p><p>Nem � meu prop�sito faz�-lo. Mas, suplico-vos, n�o partais ainda. Eu...</p><p>Ele parecia hesitar e Fiora impacientou-se.</p><p>Tendes mais perguntas para me fazer? Nesse caso, pe�o-vos que as fa�ais rapidamente. Estou com pressa.</p><p>O que tenho a dizer merecia um grande desenvolvimento, mas como estais com pressa...</p><p>Antes que Fiora pudesse esbo�ar um gesto, ele tomou-a nos bra�os e beijou-a apaixonadamente. Sufocada, a jovem sentiu-se levada por uma for�a irresist�vel, ao mesmo tempo brutal e infinitamente doce, que a tornou incapaz da menor reac��o. Enquanto o menor esbo�o de car�cia, vindo de um dos seus apaixonados, desencadeava nela uma c�lera orgulhosa, aquele homem, cujo cora��o ela sentia bater pesadamente contra o seu peito, provocava-lhe uma esp�cie de embriaguez. O jovem cheirava a couro, a ar livre, a erva molhada e at� a cavalo e esse odor tinha qualquer coisa de enebriante, como enebriante era aquele beijo, o primeiro da sua vida. Ele acendeu-lhe um fogo no sangue e um deslumbramento divino na cabe�a. Um universo abria-se, subitamente, diante de si, o universo flamejante do amor dos homens, que n�o se parecia nada com os sonhos azuis de uma jovem e que n�o se alimentava de lindos versos, nem de suspiros...</p><p>Demasiado inocente para retribuir a car�cia, Fiora, vazia de for�as mas com o cora��o a bater com toda a for�a, deixou-se ir nos bra�os de Philippe e quando ele a largou t�o bruscamente como a tinha agarrado, a jovem quase caiu. Ele segurou-a e, mais docemente, apertou-a contra o peito. Erguendo-lhe o queixo com um dedo, beijou-a levemente na ponta do nariz e em cada um dos olhos:</p><p>Amo-te! murmurou ele com um ardor que a fez corar. Amo-te e quero-te...</p><p>Desta vez ele separou-se dela e depois, sem se virar, saiu da igreja a correr. Fiora, ainda sob os efeitos do sonho em que acabava de mergulhar, deixou-se cair de joelhos. Por cima dela, a est�tua de uma santa, que ela, na sua perturba��o, teria tido dificuldade em identificar, sorria-lhe � luz fraca e difusa de duas velas. E porque era preciso a qualquer Pre�o recuperar o sangue-frio e dar tempo ao seu cora��o para se acalmar, Fiora p�s-se maquinalmente a rezar...</p><p>Ent�o, Khatoun veio ajoelhar-se junto dela e pegou-lhe numa m�o, na qual encostou a face:</p><p>� tarde, patroa sussurrou ela. Temos de voltar. Fiora olhou para ela com um olhar ligeiramente distante:</p><p>Achas que sim? Eu... eu n�o me apetece voltar. Agora n�o! Ainda n�o!</p><p>A jovem t�rtara deu uma pequenina risada doce, como o arrulhar de uma pomba.</p><p>Eu sei porqu�. � porque tens medo que se veja na tua cara.</p><p>O qu�?</p><p>Que agora j� sabes o que � o amor...</p><p>�s parva! Achas que amo aquele homem? N�o sabes que eu amo Giuliano?</p><p>A jovem ficou estupefacta ao pronunciar o nome, por j� n�o lhe encontrar cor ou resson�ncia. O que sentia antes pelo jovem M�d�cis acabava de se apagar como um sonho que, de manh�, se tem dificuldade em recordar.</p><p>N�o disse Khatoun tu apenas sonhaste que o amavas. Mas este que acaba de te deixar, levou-te com ele... e tu sabe-lo bem.</p><p>Fiora n�o respondeu e escondeu o rosto nas m�os, como que para melhor se absorver na sua ora��o, mas foi apenas para n�o encontrar, naquele instante, o olhar daquela rapariga vinda do fim do mundo da �sia, que lhe falava de certezas das quais ela ainda s� tinha um vislumbre.</p></section><section><title><p>CAP�TULO III</p><p>AS SURPRESAS DO AMOR</p></title><p>No dia seguinte de manh�, Francesco Beltrami, acompanhado da sua filha, dirigiu-se � loja do livreiro Vespasiano Bisticci. De bra�o dado, ambos seguiam num passo vivo, porque a temperatura tinha baixado e estava quase frio. O que n�o tirava nada ao prazer que Fiora sentia por ir com o pai n�o seria conveniente ir sozinha ao livreiro onde se encontrava a elite intelectual da cidade. A jovem considerava aquilo uma honra e o seu gosto pelos livros encontrava ampla mat�ria com que se enriquecer.</p><p>�quela hora da manh�, a via Larga, onde Bisticci tinha a loja, estava bem animada. Donas de casa dirigiam-se ao mercado com um cesto debaixo de cada bra�o, damas de cabe�as cobertas por v�us ou capuzes sa�am de uma missa em San Lorenzo, a igreja vizinha do pal�cio M�dicis, separada da Biblioteca Laurentina por um claustro, um pastor conduzia o seu rebanho, uns pedreiros carregavam pedras para cima de uma carro�a cujo espa�o de carga era feito de grandes paus entrela�ados, alguns burgueses passavam em grandes trajes de seda negra e gorros de fita e, � esquina de uma casa, uns rapazitos jogavam ao pe�o lan�ando gritos agudos.</p><p>As sauda��es, apressadas, respeitosas, ou amig�veis assinalavam o caminho de Francesco Beltrami. Ele respondia-lhes com amabilidade e cortesia, feliz por poder, assim, medir a amplitude da sua reputa��o. Quando o pai e a filha iam a chegar � casa de Bisticci, uma vara de porcos desembocou na rua e quase os atirou, a ambos, por terra. Um rapazito corria atr�s deles. Ficou muito corado ao reconhecer o rico negociante e caiu de joelhos no meio da rua:</p><p>Oh, perd�o, <emphasis>messer </emphasis>Beltrami, mil vezes perd�o!</p><p>Parecia aterrorizado e, por pouco, quase se prostrou:</p><p>Mas, infeliz disse Francesco rindo se ficas assim de joelhos no meio da rua os porcos perdem-se. Corre atr�s deles, pequeno imbecil, em vez de me pedires desculpa! E toma! Pega l� isto, no caso de n�o os encontrares a todos. N�o vale a pena o teu patr�o bater-te...</p><p>O negociante estendeu ao rapazito assombrado um florim de ouro e afastou-se com Fiora, ao mesmo tempo que o pequeno, feliz, dava �s de vila-diogo.</p><p>Era a ti que deviam dar o cognome de Magn�ficodisse Fiora, comovida. �s o homem mais generoso do mundo.</p><p>Porque dei um florim? O verdadeiro <emphasis>Magn�fico </emphasis>teria dado dez. As coisas s�o como s�o. Um instante depois chegaram � loja do livreiro.</p><p>Vespasiano Bisticci era, em Floren�a, o grande especialista de obras antigas e os seus correspondentes vasculhavam sem descanso as cidades da Gr�cia e do Oriente em busca de manuscritos raros. Era um homem de 60 anos, grande e majestoso, muito am�vel e erudito. Os seus tra�os eram n�tidos, bem marcados por uma rede de rugas, mas os seus olhos escuros faiscavam de juventude e a sua voz era de uma grande do�ura.</p><p>O livreiro deixou a personagem com a qual conversava quando os Beltrami entraram e aproximou-se destes apressadamente.</p><p>S� bem-vindo, ser Francesco e tu tamb�m, Fiora. Confesso que, se bem que esperasse a visita do teu pai, n�o pensei que a tua presen�a a tornasse ainda mais agrad�vel. Tu �s a pr�pria imagem da Primavera...</p><p>Ainda ma tornas vaidosa protestou Francesco. Venho ver se j� terminaste aquela c�pia dos <emphasis>Commentaires </emphasis>que te pedi.</p><p>Quase. Pus nesse trabalho os meus melhores copistas e penso dar-te em breve o livro terminado, mas recebi uma coisa que, penso, te vai interessar.</p><p>De imediato, os olhos de Beltrami come�aram a brilhar.</p><p>Diz l� o que �, depressa!</p><p>Quis seguir Bisticci, que se dirigia na direc��o das profundezas da sua loja e, ao faz�-lo, deu um encontr�o na personagem a quem o livreiro falava anteriormente. De imediato se desculpou, mas o homem virou-se e Fiora reconheceu o m�dico grego de quem tivera tanto medo no baile dos M�d�cis.</p><p>N�o me deveis qualquer desculpa disse ele com a sua voz grave, ao mesmo tempo que esbo�ava uma sauda��o cort�s, eu encontrava-me na vossa passagem. � que, quando estou aqui, n�o presto aten��o sen�o �s obras que me rodeiam...</p><p>De qualquer modo, creio que vos devo uma. A nossa chegada interrompeu a vossa conversa com messer Bisticci...</p><p>N�o tem import�ncia; eu j� estava de sa�da. Na verdade, vim aqui para obter a c�pia de um precioso tratado de medicina de Ibn Sina, a quem chamam no Ocidente Avicena, cujo original <emphasis>messer </emphasis>Bisticci recusa vender-me.</p><p>Eu disse-vos que era imposs�vel, messer Lascaris, porque monsenhor Louren�o � que o tem, mas ele consente que se fa�am dele c�pias disse Bisticci que estava de regresso trazendo um volumoso pacote envolto num pano negro. Infelizmente, o meu copista de l�ngua �rabe est� de cama com uma forte febre e eu tive de pedir um adiamento para a entrega do tratado.</p><p>O importante � que ele chegue um dia disse o grego docemente. E agora retiro-me e deixo-vos conversar...</p><p>Perturbada pela sua presen�a, Fiora tinha-se afastado e fazia de conta que se interessava por um evangeli�rio grego, pousado em cima de uma estante. Dem�trios tinha de passar por ela para sair, mas, depois de se ter certificado com uma olhadela que o livreiro e o seu cliente se instalavam junto de um balc�o de carvalho encerado, em cima do qual Bisticci colocara uma grande l�mpada de azeite, aproximou-se da jovem.</p><p>Esse texto � bem austero para uns olhos t�o jovens! disse ele num excelente franc�s. Ledes grego, <emphasis>mademoiselle?</emphasis></p><p>Fiora virou-se bruscamente e fez-lhe face. Aquele homem metia-lhe sempre medo, mas isso era mais uma raz�o para n�o recuar.</p><p>� verdade. E tamb�m leio latim. E v�s, <emphasis>messire, </emphasis>continuais a ler os pensamentos dos outros, tal como fizestes com os meus na outra noite?</p><p>Um pensamento apanha-se facilmente quando nasce de uma emo��o, ou ainda quando a alma daquele, ou daquela que pensa, � pura. V�s ser�eis para mim, sem d�vida, uma aluna not�vel, se n�o f�sseis de alta condi��o... No entanto, pe�o-vos que vos lembreis do seguinte: no caso de a infelicidade bater � vossa porta, estarei sempre Pronto a ajudar-vos. O meu nome �...</p><p>Eu sei. Disseram-mo. Mas, <emphasis>messire, � </emphasis>a segunda vez que me anunciais horas sombrias. N�o me podeis dizer mais nada?</p><p>De momento n�o, porque o vosso pensamento est� demasiado ocupado com o amor e porque, enquanto isso, n�o podeis submeter-vos ao vosso destino, mas lembrai-vos de mim quando chegar a hora. Monsenhor Louren�o deu-me uma casa em Fiesole...</p><p>- N�s tamb�m temos l� uma.</p><p>Eu sei. Portanto, ser� f�cil encontrar-me.</p><p>Ap�s uma sauda��o que o curvou ligeiramente, o m�dico grego, de m�os no peito, afastou-se, enquanto Fiora, sonhadora, se juntava ao seu pai e a Bisticci, demasiado ocupados para se terem apercebido da sua r�pida conversa com Dem�trios. Com extrema precau��o, o livreiro tinha desembrulhado um grande livro de pergaminho, enriquecido com ferragens de prata e uma cruz do mesmo metal, onde estavam engastados top�zios e turquesas. Fiora ouviu-o dizer:</p><p>Um dos meus agentes conseguiu arranjar este discurso de Lysias e eu achei que tu gostarias, pelo menos, de o ver...</p><p>Com gestos de infinita do�ura, Francesco pegou no livro, pousou-o em cima de uma grande estante e olhou com espanto para a cruz da encaderna��o:</p><p>Magn�fico! De onde vem? Vejo aqui uma cruz e umas armas que, se n�o me engano, s�o abaciais?</p><p>Tu �s sempre muito curioso disse Bisticci, sorrindo. Este livro veio da abadia de Einsiedeln, mas mais n�o digo...</p><p>Pleno de venera��o, Beltrami virou as espessas folhas rangentes, sobre as quais uma m�o h�bil tinha acrescentado iluminuras delicadas ao texto grego.</p><p>Seja qual for o pre�o que me pedes, Vespasiano, fico com ele! Repara, Fiora: � admir�vel!</p><p>Bisticci p�s-se a rir:</p><p>Tinha a certeza que o quererias. Quanto ao pre�o, vou ver, mas podes lev�-lo j�, se quiseres.</p><p>N�o queres fazer uma c�pia?</p><p>J� est� feita. Queres vir agora ver como est� o teu C�sar?</p><p>Com pesar, Beltrami arrancou-se � contempla��o do livro, sobre o qual Fiora passava uma m�o acariciadora. Ambos seguiram Bisticci at� uma divis�o nas traseiras da casa, que dava para o jardim. Era uma grande sala bem iluminada por grandes vidra�as, diante das quais estava instalada uma fila de estantes. Por tr�s dessas estantes uma dezena de homens aplicava-se na transcri��o fiel de alguns manuscritos. Uns reproduziam o texto, outros as grandes letras pintadas com iluminuras, outros ainda as miniaturas. Alguns desses homens eram jovens, outros mais idosos e muitos deles eram de ra�as diferentes. Havia um alem�o de pele branca e cabelos ruivos, um grego de barba negra, um siciliano t�o escuro como uma castanha e at� um negro vindo do Sud�o. Apenas faltava o turbante branco de Ali Aslam, o copista �rabe e o seu lugar estava vago...</p><p>Geralmente, Fiora gostava muito de observar os copistas de Bisticci a trabalhar, mas aquele segundo encontro com Lascaris refor�ara a impress�o deixada pelo primeiro e provocara-lhe uma vaga ang�stia. Assim, olhou sem ver os dedos h�beis desenhando os arabescos, estendendo as cores finas e colocando no lugar os fr�geis realces dourados. Felizmente o seu pai, debru�ado sobre os ombros dos artistas e dominado por completo pelo seu amor pelos livros, louvava o seu trabalho em termos t�o calorosos, que a maior parte dos rostos iluminou-se com um sorriso. Sobretudo, claro, o velho copista, que acabava de transcrever os <emphasis>Commentaries </emphasis>de C�sar para o rico negociante e que recebeu, a t�tulo de encorajamento, uma bela moeda de ouro.</p><p>De regresso � loja, Beltrami baixou a voz:</p><p>J� conseguiste encontrar aquele famoso <emphasis>Psautier de </emphasis>Mayence, pelo qual Johannes Fust roubou os caracteres m�veis de Gutenberg?</p><p>N�o. O <emphasis>Psautier </emphasis>deve estar escondido algures e � imposs�vel consegui-lo. Nem sequer estou certo de que exista uma c�pia. Essa obra parece ainda melhor defendida do que a famosa B�blia <emphasis>de 42 Unhas, </emphasis>que � a primeira obra de Gutenberg. E tamb�m n�o sei porqu�...</p><p>Mas, enfim, devem poder ser encontradas c�pias, porque esse processo foi feito precisamente para isso? Evidentemente, nada iguala a m�o de um artista, mas podemos consider�-lo como uma curiosidade e � a esse t�tulo que me interesso...</p><p>Tamb�m eu. Todavia, penso que ser� poss�vel, em breve, satisfazer a nossa curiosidade. H� tr�s anos, mais ou menos, chegaram a Veneza dois homens: o franc�s Nicolas Jenson e o alem�o Jean de Spire e tenho a certeza que levavam com eles o processo de Gutenberg...</p><p>Nesse caso, como se explica que ainda n�o tenham publicado nada?</p><p>A Igreja, sem d�vida... e talvez, tamb�m, o Conselho dos Dez.</p><p>N�o gostam muito de novidades, em Veneza. Mas eu conto l� ir proximamente, para ver o que se passa.</p><p>Nesse caso, s� prudente! Nunca � bom, mesmo para um estrangeiro, ter contas com o Conselho dos Dez...</p><p>Dois novos clientes acabavam de entrar na loja e Bisticci apressou-se a ir ter com eles, porque se tratava de Louren�o de M�d�cis e do seu amigo Poliziano, entrados ao mesmo tempo. Trocaram-se sauda��es e cortesias de todas as esp�cies, mas Beltrami escondeu bem, dentro do seu manto, o manuscrito de Einsiedeln...</p><p>Viemos mesmo a tempo segredou ele a Fiora. Mais uns minutos e talvez o <emphasis>Lysiasme </emphasis>tivesse escapado...</p><p><emphasis>Messer </emphasis>Bisticci n�o disse que o tinha reservado para ti?</p><p>Palavras de comerciante. Quando se trata de clientes t�o importantes como Louren�o e eu, � sempre quem chega primeiro que leva as novidades...</p><p>Isso quer dizer que vais pag�-lo muito caro?</p><p>Evidentemente, mas isso n�o tem import�ncia. O dinheiro n�o �, sen�o, um meio de enriquecer a vida por meio das coisas mais belas e mais raras. Quando eu morrer, ter�s uma heran�a soberba.</p><p>Por mais soberba que seja, n�o me ser� t�o cara como a tua presen�a disse Fiora, apertando com mais for�a o bra�o do seu pai. Em todo o caso, tamb�m vou contribuir para as nossas riquezas com este soneto de Petrarca que <emphasis>messer </emphasis>Bisticci me ofereceu quando v�nhamos a sair.</p><p>Mostra!</p><p>A jovem desenrolou a fina folha de pergaminho decorada com folhas de louro como era h�bito nas obras do grande poeta e leu o que estava escrito:</p><p><emphasis>Se isto n�o � o amor, que � isto, ent�o, que eu sinto? Mas, se � o amor, por Deus, que pode o amor fazer? Se � bom, por que raz�o o seu efeito � t�o amargo e mortal? Se � mau, por que raz�o os seus tormentos s�o t�o doces?</emphasis></p><p>Ao l�-lo, Fiora sentiu-se corar. O poeta respondia demasiado bem �s perguntas que lhe atormentavam o esp�rito desde a v�spera e que, durante uma grande parte da noite, a tinham impedido de conciliar o sono. Os instantes passados nos bra�os de Philippe tinham sido divinos, mas, devolvida � solid�o, a raz�o e a l�gica, t�o caras aos seus amigos, os fil�sofos, esfor�avam-se por combater e apaziguar o desvario do seu cora��o, apanhado pela surpresa. A despeito do que dissera Khatoun, que vira no gesto apaixonado do cavaleiro borgonh�s uma esp�cie de revela��o vinda do alto, Fiora acabara por se persuadir de que selongey obedecera apenas a um impulso passageiro, ao desejo de levar consigo uma recorda��o agrad�vel de uma cidade que n�o lhe dera aquilo que ele viera buscar...</p><p>No entanto insistira Khatoun ele disse que te queria.</p><p>Disse, mas isso n�o significa que v� pedir a minha m�o ao meu pai. Estou quase certa de que partir� sem o voltarmos a ver...</p><p>Fiora sabia muito bem que n�o acreditava numa �nica palavra e que mentia a si pr�pria, mas era uma maneira como outra qualquer de tentar preservar a sua dor, caso, efectivamente, Philippe partisse sem que ela o pudesse ver de novo.</p><p>Entretanto, desejava saber sobre ele o maior n�mero de coisas poss�vel e, de tarde, conseguiu convencer L�onarde a conduzi-la ao pal�cio Albizzi, para ali passar uns momentos com Chiara. Na verdade, teve poucas dificuldades, porque a perspectiva de passar uma ou duas horas na companhia da inesgot�vel Colomba n�o desagradava � governanta. Sem contar com o prazer de saborear a compota de ameixa que a grande Colomba fazia como ningu�m.</p><p>Infelizmente, Fiora n�o soube grande coisa. O enviado do Temer�rio alojara-se com a sua escolta no melhor albergue da cidade, o Croce di Malta, junto do Velho Mercado. Levava ali uma vida de pr�ncipe, bebendo os melhores vinhos que nunca eram suficientemente bons para ele, e comendo bem, mas s� sa�ra do seu apartamento uma ou duas vezes e, mesmo isso, por um pequeno lapso de tempo.</p><p>Pareces muito interessada nesse estrangeiro observou Chiara.</p><p>Talvez porque o ache interessante. Tu n�o?</p><p>Sim, claro, mas s� por curiosidade. � verdade que � bem elegante e o seu rosto n�o � daqueles que se esquecem com facilidade, mas acho que me mete um pouco de medo...</p><p>Medo porqu�? Ele n�o tem nada de terr�vel.</p><p>Cheira a guerra. Tive a mesma impress�o quando conheci, no ano passado, o condottiere Guidobaldo da Montefeltro. Homens que s� vivem dela e para ela. E depois, essa gente do Norte n�o � como n�s, n�o gosta do que n�s gostamos...</p><p>No entanto, diz-se que a corte do duque da Borgonha � a mais brilhante da Europa e que ele � o homem mais rico...</p><p>Nesse caso, por que mandou <emphasis>messire Selongey </emphasis>pedir dinheiro aos M�dicis? O meu tio, que falou disso ontem, disse que o duque Carlos quer tornar-se rei, que n�o cessa de guerrear com esse des�gnio e <emphasis>que </emphasis>cerca, desde h� tr�s meses, a poderosa cidade de Neuss, em terras da Alemanha. A guerra custa mais dinheiro do que as festas...</p><p>N�s nunca a fazemos? J� te esqueceste do cerco de Volterra, h� poucos anos e como o nosso Louren�o tratou a cidade rendida?</p><p>Chiara desatou a rir.</p><p>N�s aqui a discutir as duas como se tiv�ssemos a nosso cargo a cidade. Decididamente, interessas-te muito por <emphasis>messire </emphasis>de Selongey. � verdade que ele olhou muito para ti, no outro dia... Voltaste a v�-lo?</p><p>N�o disse Fiora, sem hesitar perante uma t�o grande mentira, mas n�o queria partilhar com ningu�m o momento de Santa Trinita. Aqueles breves momentos eram s� dela. Eram como um tesouro escondido que n�o se podia esbanjar, mesmo com uma amiga t�o querida como Chiara. Khatoun chegaria para falar de Philippe quando ele regressasse para junto do seu senhor, o Grande Duque do Ocidente...</p><p>Ent�o, tenta n�o pensar mais nele, porque vai-se embora em breve e, segundo parece, nunca mais o voltar�s a ver. Pelo menos, serviu para tirares Giuliano da cabe�a e talvez acabes por te interessar pelo pobre Luca Tornabuoni, que definha por ti. N�o dava um excelente marido?</p><p>Por que n�o casas tu com ele, j� que o achas t�o bom?</p><p>Primeiro, porque ele n�o me ama, segundo, porque somos velhos amigos e terceiro, porque eu estou por assim dizer, sabe-lo bem, noiva do meu primo Bernardo Davanzati. Dentro de dois anos casar-nos-�o, porque assim decidiram as nossas fam�lias. � claro que n�o o vejo muitas vezes, porque ele representa, em Roma, os interesses da sua casa, mas eu sei que ele me ama.</p><p>E tu? Tu ama-lo?</p><p>N�o me desagrada. Al�m de que n�o h� qualquer raz�o para alterar seja o que for nos projectos que elaboraram para n�s. Penso que formaremos um casal muito conveniente acrescentou Chiara sorrindo.</p><p>Era, sem d�vida, uma boa coisa, ver assim diante de si a vida tra�ada numa bela linha direita. Entretanto, Fiora, � luz da sua recente experi�ncia, n�o via a sua exist�ncia da mesma maneira.</p><p>Est�s certa perguntou ela subitamente de que nunca encontrar�s um homem que fa�a mais por ti do que agradar-te? Que te fa�a bater o cora��o com mais for�a... <emphasis>e </emphasis>que tenhas vontade de seguir at� ao fim do mundo?</p><p>Chiara n�o respondeu de imediato. Os seus olhos escuros estavam fixos em Fiora com afei��o, mas tamb�m com inquieta��o. Para deixar morrer o eco das palavras reveladoras da sua amiga, foi buscar um copo de vidro azul que estava sobre um aparador, contendo ameixas de compota e depositou-o em frente de Fiora, que tirou uma. Ela pr�pria olhou por um instante para o fruto a�ucarado que tinha na ponta dos dedos finos e suspirou:</p><p>Se queres a minha opini�o, chegou a hora de um certo senhor da Borgonha regressar �s brumas do Norte!</p><p>Fiora n�o teve tempo de protestar. A entrada de L�onarde e Colomba, que se tinham demorado na cozinha onde a governanta de Chiara apurara uma nova receita para rechear os pombos, p�s fim � conversa. Colomba vinha propor �s duas jovens que acompanhassem Fiora de volta a casa, passando pela loja do botic�rio Landucci, onde ela queria comprar um determinado unguento de erva-cidreira, miraculoso para a brancura das m�os.</p><p>� uma boa ideia disse L�onarde porque n�s tamb�m j� n�o temos nenhum em casa.</p><p>Partiram pelas ruas, as duas amigas caminhando � frente. Como boas florentinas, gostavam de passear assim, pelo meio dos sons e da agita��o da cidade, cujos habitantes gostavam mais de viver no exterior do que no interior das suas casas. As mulheres conversavam de uma janela para a outra ou � entrada da porta. Os homens, quando o dia chegava ao fim, sa�am, reunindo-se entre eles para discutir os neg�cios da cidade, contar hist�rias ou trocar gracejos. Os comerciantes e os artes�os agrupavam-se no Velho Mercado, os jovens elegantes da cidade na ponte Santa Trinita, de onde viam o dia extinguir-se nas �guas do rio; quanto aos homens importantes, encontravam-se sob as arcadas da Loggia del Priori, mesmo a sombra da Senhoria e n�o era raro o <emphasis>Magn�fico </emphasis>juntar-se a eles. Tamb�m n�o era raro, quando o tempo estava bom, aparecerem umas mesas vindas das casas, onde se instalavam para jogar xadrez. Entretanto, as mulheres tratavam da refei��o da noite, ou conversavam entre elas quando o trabalho chegava ao fim. Quanto �s crian�as unicamente os rapazes, claro os seus gritos e o barulho dos seus jogos enchia as ruas e as pra�as... Depois, ao apelo do �ngelus, cada um regressava a casa, Porque n�o parecia bem errar, noite fechada, fora de casa.</p><p>A Floren�a respeit�vel adormeceria dentro das suas muralhas de 68 voltas de ronda ou defesa, guardada por soldados, ao passo que a outra a do prazer e do crime, a das raparigas p�blicas e das facadas, come�ava a viver, sairia dos seus esconderijos e infiltrar-se-ia, como uma mar�, pelas ruas mal iluminadas, de longe em longe, por uma candeia de ferro pendurada do port�o de um pal�cio.</p><p>Fora das muralhas, seria a paz das doces colinas, o vento ligeiro <emphasis>da </emphasis>noite nos ramos dos ciprestes, a ora��o nocturna de uma ave nos olivais ou nas vinhas de San Miniato ou Fiesole, respondendo ao som rachado da sineta de um mosteiro campestre, mas, na cidade, o deboche, o terror e a morte rondariam, at� que o canto dos galos expulsasse as aves da noite e as atirasse, amedrontadas e pestanejando, para os seus buracos equ�vocos. E se, durante as horas nocturnas, um grito rasgasse a sombra entre as rondas da mil�cia, os burgueses de Floren�a n�o dormiriam um sono menos tranquilo, confiantes na for�a da sua cidade e na protec��o de Santa Reparata, a sua padroeira: o sangue da valeta n�o seria mais vermelho do que a flor-de-lis de Floren�a.</p><p>Aquela Floren�a era totalmente desconhecida de Fiora e Chiara, abrigadas como estavam pelas paredes espessas dos seus pal�cios, guardadas por numerosos criados. S� conheciam dela a am�vel imagem diurna e as horas de sol, que aqueciam os m�rmores pol�cronos do Duomo, a admir�vel catedral de Santa Maria del Fiore, cujo cognome era devido � soberba c�pula de Brunelleschi.</p><p>As passeantes demoraram-se um pouco diante das jaulas de le�es instaladas por tr�s da Senhoria. Os animais reais eram os fetiches da cidade, que velava por eles com um cuidado ciumento e bastava que um deles ficasse sem apetite para que as pessoas bem informadas se pusessem a profetizar uma cat�strofe pr�xima; e se um deles morria, a <emphasis>Vacca, </emphasis>o grande sino da Senhoria, que s� tocava a rebate, balia como se tivesse rebentado uma revolu��o.</p><p>Vagueando, conversando e respondendo �s numerosas sauda��es das pessoas que encontravam pelo caminho, acabaram por chegar ao Canto del Tornaquinci, onde se situava a loja do botic�rio. Era uma encruzilhada continuamente animada gra�as � casa funer�ria ali instalada, cujos empregados jogavam � malha diante da porta, enquanto esperavam pelos clientes.</p><p>Com um gesto seguro, Colomba empurrou uma porta baixa no r�s-do-ch�o de uma casa de bela apar�ncia, com <emphasis>loggia </emphasis>e colunas de m�rmore, onde um grande letreiro, pintado com cores vivas, anunciava: �Casa das Estrelas... SerLuca Landucci, botic�rio.� E as quatro mulheres penetraram numa grande sala no n�vel inferior, sob um belo tecto esculpido e com iluminuras, porque Landucci era um homem rico e considerado, que desempenhava o seu papel na administra��o da cidade. Era tamb�m amigo de Francesco Beltrami e Fiora gostava de ir a casa dele mais ainda do que � de Bisticci, porque aquele era am�vel e alegre e porque em sua casa se respiravam maravilhosos odores de plantas secas e especiarias.</p><p>A sua loja, com as prateleiras cheias de potes de maj�lica azul e verde, frascos estreitos de longos gargalos de vidro transl�cido, almofarizes de pedra e bronze, caixas de prata ou madeira ex�tica e as grandes balan�as de cobre dispostas em cima do balc�o de bela madeira escura de carvalho admiravelmente encerada, respirava a ordem e, em geral, a tranquilidade que conv�m aos homens de saber. Ora, quando o pequeno bando ali penetrou, a casa ressoava com o tumulto de uma violenta disputa: duas mulheres, que pelas suas vestes elegantes se poderiam classificar como pertencendo � boa sociedade, discutiam com o ardor e a impetuosidade verbal das peixeiras do Mercato Nuovo.</p><p>Burra velha clamava uma eu j� te digo quem sou!</p><p>H� muito tempo que sei! A tua boca est� cheia de fel, � por isso que tens a cara t�o amarela!</p><p>Menos do que a tua! O teu defunto mijava nela todas as manh�s! A que acabava de receber a �ltima inj�ria n�o era outra sen�o Hieronyma Pazzi. Louca de raiva, procurou qualquer coisa para atirar � cabe�a da sua advers�ria e encontrou um frasco de malva�sco que a outra evitou � justa, mas que se foi quebrar nas lajes do ch�o. Ao ver aquilo, o botic�rio lan�ou-se corajosamente na batalha e procurou apaziguar as duas mulheres que, ent�o, se atacavam com as m�os.</p><p>Vinde ajudar-me, v�s! gritou ele aos dois rapazes da loja que, escondidos por baixo de um balc�o, gozavam a cena como conhecedores. Fizeram descuidadamente o que o patr�o lhes ordenava, pouco desejosos, no fundo, de ver cessar aquele combate entre a <emphasis>dame </emphasis>Pazzi e a nobre Cornelia Donati, sobretudo um combate que come�ara t�o bem. As duas mulheres odiavam-se h� muito por uma quest�o de rivalidade amorosa, na qual Cornelia tirara vantagem ao roubar a Hieronyma O homem com quem ela desejava casar. Depois, Hieronyma conseguira uma certa vantagem, porque Augusto Donati enganava a mulher comtudo o que vestisse saias e passasse ao alcance das suas m�os, mas a animosidade n�o abrandara e cada vez que as duas mulheres se encontravam estalava uma querela ao menor pretexto. Naquele dia, o archote da guerra era um inocente pote de pomada de cor encarnada para os l�bios, obra-prima da oficina de Landucci e que cada uma das duas advers�rias queria para si, mas que, infelizmente, era �nico</p><p>Conseguiram, por fim, separar as duas combatentes, que, tanto uma, como a outra, tinham deixado algumas plumas na contenda e enquanto elas retomavam o f�lego, o botic�rio acabava com o debate declarando severamente:</p><p>N�o venderei esta cor encarnada a nenhuma de v�s! <emphasis>Madonna </emphasis>Catarina Sforza, a ilustr�ssima sobrinha de Sua Santidade o papa Sisto IV acaba justamente de ma encomendar, porque a reputa��o deste unguento chegou at� ela. �, portanto, para Roma que o vou enviar!</p><p>E com um gesto pleno de majestade, tirou o pote de cima do balc�o e fechou-o num dos arm�rios de dobradi�as de ferro. Em seguida, declarou:</p><p>O que n�o quer dizer, <emphasis>Madonna </emphasis>Hieronyma, que n�o me devais o pre�o daquele frasco que haveis quebrado e do malva�sco que ele continha, que, agora, j� n�o serve para nada. Vou dizer ao meu escriba que fa�a a conta...</p><p>Eu n�o teria quebrado esse objecto se esta malvada n�o me tivesse posto fora de mim exclamou a dama Pazzi. Ela deve pagar tanto como eu!</p><p>A despeito de um olho negro, Hieronyma recobrara toda a sua seguran�a. Era uma bela mulher de 35 anos, que conservava muita da sua frescura. O seu corpo, arredondado, permanecia apetitoso e dizia-se que encontrara na viuvez algumas compensa��es, com homens discretos ou homens que ainda tinham mais interesse em esconder os seus amores secretos, quer dizer, dos criados da casa. O velho Jacopo Pazzi, o patriarca que reinava sobre a tribo, passava, com efeito, por ter a m�o singularmente pesada para aqueles da sua casa que se portavam mal. Falava-se por portas travessas, claro de um criado indelicado, t�o cruelmente mordido pelos molossos de ca�a que morrera, de uma criada demasiado faladora enterrada num bosque com a boca cheia de terra depois de ter sido estrangulada e de uma jovem prima engravidada desgra�adamente e morta de uma estranha doen�a de languidez devida ao facto de lhe terem cuidadosamente tirado todo o sangue. E se o quese dizia de Hieronyma era verdade, esta arriscava-se muito, mas a mulher era manhosa e sabia levar o sogro, sobre o qual tomara um grande ascendente, porque tinham ambos a mesma paix�o: o dinheiro.</p><p>Col�rica, Hieronyma atirou com uma moeda para cima do balc�o e dispunha-se a sair quando Fiora a deteve:</p><p>Tu n�o podes sair assim, prima! Pede ao menos a <emphasis>messer </emphasis>Lan-</p><p>ducci um unguento para dissimular esse olho. Ele tem alguns miraculosos... disse ela inocentemente.</p><p>Hieronyma n�o o tomou assim. Medindo a jovem, disse com tanta f�ria que mais parecia uma v�bora a silvar-.</p><p>O meu v�u deve chegar. Quanto a ti, vil bastarda que te permites tratar-me como tua igual, sai do meu caminho!</p><p>Fiora n�o era menina para se deixar insultar sem responder:</p><p>N�o ousarias repetir isso diante do meu pai! Com ele �s toda a��car e mel e aqui est�s em casa de um amigo dele.</p><p>Escutai-a a pairar! tro�ou a outra. Esta rapariga � uma princesa, palavra de honra...</p><p>N�o sou nenhuma princesa, visto que sou filha de Francesco Beltrami...</p><p>Tens a certeza?</p><p>Se a p�rfida pergunta perturbou Fiora, n�o o deixou transparecer. Endireitando altivamente a cabe�a, lan�ou:</p><p>O meu pai, esse, tem! � mais do que poder�o dizer certos homens...</p><p>Cornelia Donati, que se recompusera do choque do frasco, veio colocar-se ao lado da jovem.</p><p>N�o te rales a discutir com essa v�bora, pequena! O teu pai � um homem de bem, todos o sabem. Todos o estimam. O mesmo n�o se Pode dizer dos Pazzi. Desaparece, Hieronyma! J� te vimos que chegue.</p><p>Eu vou, mas voltaremos a encontrar-nos, Cornelia Donati! Quanto a essa, h�-de vir o dia em que a terei � minha merc� em minha casa e saber�, ent�o, o que custa desafiar-me publicamente.</p><p>E saiu com um grande voo de v�us e tecidos violetas, a sua cor favorita, porque achava que dava excelentemente bem com a sua opulenta cor loura. S�s, os ocupantes da loja olharam uns para os outros, estupefactos com a �ltima sa�da de Hieronyma:</p><p>- Que quis ela dizer com aquilo? perguntou Chiara. N�o � bem como poder� ela ter Fiora � merc� em sua casa?</p><p>A menos que a case com o filho? sussurrou Cornelia...</p><p>Aquele gnomo horroroso, marreco e cambado? indignou-se Chiara. Seria preciso que <emphasis>messer </emphasis>Francesco enlouquecesse., o que nunca acontecer�.</p><p>No entanto, � o que ela deseja disse a gorda Colomba. Uma das criadas disse-me duas palavras no outro dia no mercador de velas. <emphasis>Donna </emphasis>Hieronyma diz que � a melhor maneira de a fortuna dos Beltrami ficar na fam�lia. Todos sabem, com efeito, que <emphasis>donna </emphasis>Fiora � herdeira do seu pai...</p><p>O que s� � justo! afirmou Cornelia Donati. Mas compreendo que Hieronyma cobice essa fortuna, que, sem Fiora, vai para ela. Uma pessoa n�o se resigna facilmente a uma tal perda. Ainda por cima, como o seu defunto marido n�o era o filho mais velho, n�o dever� esperar grande coisa do velho Jacopo. A parte que ele lhe deixar ir� para o infeliz Pietro, o que n�o ser� grande coisa para ele e para a m�e...</p><p>Fiora n�o dizia nada. Estava hirta de horror, s� de pensar que poderia ir parar �s m�os daquela mulher. Daquela mulher, que falara como se estivesse muito segura de si. Felizmente, L�onarde apercebeu-se e envolveu-lhe os ombros com um bra�o protector:</p><p>N�o ponhais macaquinhos no s�t�o, meu cora��o! Acontece a toda a gente ter sonhos imposs�veis. O de <emphasis>donna </emphasis>Hieronyma n�o passar� do que �: um sonho...</p><p>Mas ela pr�pria n�o estava muito tranquila, porque n�o gostara da pequena frase, que deixava supor que Beltrami podia n�o ser o pai de Fiora. No entanto, tranquilizou-se: para saber a verdade, seria preciso que Hieronyma fosse o diabo, ou, pelo menos, sua filha. E prometeu a si mesma dar uma palavra a Beltrami.</p><p>Desejoso de aliviar uma atmosfera que julgava nefasta para o seu com�rcio, o bom Landucci ofereceu �s suas damas um dedo de vinho de Chipre, para as fazer esquecer o momento desagrad�vel que acabavam de viver em sua casa.</p><p>Eu achei isto divertido disse Chiara.</p><p>Eu n�o! disse o botic�rio. Donna Hieronyma bem pode procurar outro fornecedor. N�o a receberei mais.</p><p>Nesse caso, n�o h� qualquer raz�o para que eu n�o compre essa cor encarnada? perguntou Cornelia, que n�o perdia de vista a causa da batalha. Conquistei-a com luta, parece-me.</p><p>Tamb�m me parece disse Landucci, rindo. E ordenou a um dos seus rapazes que embrulhasse o pequeno frasco.</p><p>Depois das compras feitas, Fiora e L�onarde, Chiara e Colomba separaram-se. J� era tarde e se o pal�cio Beltrami era pr�ximo, o caminho ainda era longo para as habitantes do pal�cio Albizzi. A noite estava a chegar. Cornelia Donati partiu com Chiara e Colomba, ao mesmo tempo que o botic�rio dava ordem aos seus criados para fecharem a loja. Ele tinha que ir � Senhoria, a fim de se encontrar com o prior do seu bairro para uma quest�o delicada: o seu vizinho da casa funer�ria tinha-se arrogado o direito de vender certas drogas destinadas ao embalsamento dos seus clientes, drogas essas que faziam parte da exclusiva actividade do botic�rio. Landucci tinha de se despachar, porque aquele prior era seu amigo e talvez n�o estivesse apto a socorr�-lo dentro de</p><p>15 dias. Com efeito, os priores s� eram eleitos por dois meses, circunst�ncia que fazia Floren�a viver numa perp�tua agita��o eleitoral...</p><p>Tamb�m tenho que ver <emphasis>messer </emphasis>Francesco confiou ele a Fiora � guisa de adeus mas vou amanh� aos entrepostos dele na via Calimala... Certamente que ele me apoiar�.</p><p>O �ngelus soou, acompanhado pelo estalido de centenas de taipais de madeira que, um pouco por toda a parte, os comerciantes ou os seus rapazes aplicavam sobre as portas das lojas. Os elegantes passeantes da ponte Santa Trinita come�aram a abandonar o local para se dirigirem a outros locais de divertimento. Um grupo barulhento rodeou um homem jovem, pequeno e magro, mas vestido rebuscadamente com uma casaca de cetim branco sobre uns cal��es de veludo branco com renda prateada. Uma capa, botinas e um gorro de veludo rosa, este �ltimo enfeitado com uma grande pluma de gar�a-real, compunham um fato diante do qual todos os outros estavam extasiados. Com uma corrente de ouro da qual pendia uma pesada medalha e dedos em todos os an�is, o jovem elegante avan�ava com passos contados, virando a cabe�a para todos os lados, para ver se recolhia suficiente tributo de admira��o.</p><p>Fiora tamb�m o vira. Puxando bruscamente L�onarde pela manga, f�-la passar consigo sob o arco de uma casa, abrigada por uma estreita ruela.</p><p>Que vos deu? protestou a velha dama.</p><p>N�o vedes o que est� a acontecer al�m? Aquele vaidoso do Domenico Accaiuoli com o seu bando de cortes�os?</p><p>Que vos fez ele? Pensava que era um dos vossos amigos? Ele n�o vos fez a corte?</p><p>Achais que aquela esp�cie de rapaz sabe fazer a corte a uma rapariga? Far-me-ia melhor a corte se eu fosse um rapaz como ele. Ele quer uma esposa afortunada, sem d�vida, mas n�o tenho a certeza de que conseguisse fazer-lhe filhos. Em todo o caso, a pobre n�o o veria muitas vezes transpor a porta do seu quarto...</p><p>Atordoada, L�onarde olhou para Fiora com a express�o de uma galinha que se apercebe, subitamente, que chocou um pato:</p><p>Onde fostes buscar isso? N�o fui eu que vos ensinei essas coisas! Fiora p�s-se a rir e apertou com mais for�a contra si o bra�o da governanta. �</p><p>V�s sois demasiado decente! Foi Chiara que me disse. O seu primo Tommaso faz parte do bando de Domenico. E, entre raparigas, diz-se...</p><p>Com efeito, vejo que sabeis mais coisas do que eu imaginava disse L�onarde vagamente escandalizada.</p><p>N�o fa�ais essa cara! N�o gostais mais de Domenico do que eu o detesto. Podeis ficar certa de que, quando me casar, ser� com um homem digno desse nome.</p><p>Instantaneamente, o seu esp�rito evocou a poderosa silhueta de Philippe de Selongey e, ao recordar o beijo que recebera, sentiu um pequeno arrepio j� familiar. Experimentava-o sempre que evocava aqueles momentos inolvid�veis que a tinham perturbado, aqueles momentos que nunca mais, sem d�vida, voltaria a sentir...</p><p>Se n�o vedes inconveniente, talvez seja melhor voltarmos para casa rabujou L�onarde o caminho parece livre. E est� tanto frio nesta ruela; sem contar com os odores das latrinas. Pelo menos, <emphasis>messer </emphasis>Domenico cheira bem...</p><p>Ambas sa�ram do seu esconderijo e retomaram o caminho:</p><p>Demasiado bem disse Fiora. A m�e dele e as irm�s n�o andam t�o perfumadas. Um homem deve cheirar a sab�o, sem d�vida, mas tamb�m a couro, a erva fresca... e at� um pouco a cavalo acrescentou ela sonhadoramente, dando livre curso �s suas recorda��es e esquecendo que n�o estava s�.</p><p>Tamb�m foi <emphasis>donna </emphasis>Chiara que vos ensinou isso? perguntou L�onarde cada vez mais siderada.</p><p>N�o disse Fiora sorrindo ingenuamente � sua doce recorda��o. � apenas o que eu penso.</p><p>Enquanto isso, numa grande casa ocupando o �ngulo da via Calimala e do Mercato Nuovo, desenrolava-se uma cena estranha no primeiro andar, na grande sala severamente apainelada de carvalho escuro, de onde Francesco Beltrami dirigia os seus numerosos e importantes neg�cios: uma dessas cenas em que o freio da cortesia ret�m a viol�ncia dos sentimentos e n�o lhe permite, sen�o, que se traduza em palavras. Sentado numa cadeira de couro de espaldar por tr�s da grande mesa iluminada por um candelabro de bronze de seis bra�os, o negociante afrontava Philippe de Selongey, que, de bra�os cruzados no peito, se mantinha simplesmente encostado a um arm�rio.</p><p>Os dois homens observavam-se como dois duelistas, os olhos de um, dourados pelo reflexo das chamas, mergulhados nos do outro, sombrios e preocupados. E o sil�ncio reinava, cortado de longe a longe pelo rolamento de uma carro�a, pelo passo de um cavalo ou pelos gritos das crian�as que brincavam na pra�a... Beltrami parecia ouvir morrer nele mesmo o eco das �ltimas palavras do cavaleiro borgonh�s. Por fim, com um sorriso, levantou-se e dirigiu-se para a chamin� de pedra cinzenta e ali aqueceu as m�os, esfregando-as suavemente, como se as lavasse nas chamas...</p><p>Curiosa hist�ria, a que acabais de me contar, senhor conde disse ele docemente e n�s, os de Floren�a, gostamos de ouvir boas hist�rias... mas n�o vejo em que � que ela me diz respeito.</p><p>Diz-vos respeito inteiramente: est� escrito claramente nas fei��es do rosto da vossa filha.</p><p>Deixai a minha filha de fora desta conversa! Ela come�ou, se bem me lembro, pelo... embara�o em que vos encontrais, sem poderdes voltar para junto de monsenhor da Borgonha sem o dinheiro que ele solicitou...</p><p>Monsenhor Carlos nunca solicita! rugiu Selongey.</p><p>Perdoai-me essa palavra, que falta, com efeito, nas leis elementares da diplomacia! Digamos: que ele desejava obter do banco M�dico, para recrutar em It�lia tropas mercen�rias. Dinheiro que monsenhor Louren�o teve de recusar por lealdade para com o rei Lu�s de Fran�a, com quem, h� muito, a sua fam�lia fez alian�a. E v�s desejais estabelecer comigo um acordo an�logo. E eu tive que vos lembrar que � dirijo, eu, uma grande casa banc�ria e...</p><p>A mim n�o me enganais, Beltrami! V�s tamb�m sois banqueiro, assim como sois, <emphasis>tamb�m, </emphasis>armador. Para ser mais claro, a vossa fortuna �, talvez, t�o grande como a dos M�dicis. Mas n�s j� regul�mos essa quest�o e n�o percebo por que raz�o voltais a ela. Dediquemo-nos antes a esta hist�ria antiga que eu tive a honra de vos contar...</p><p>E que eu apreciei, mas que...</p><p>Basta de ast�cias, <emphasis>messire </emphasis>Francesco! Cheiram de mais a loja para me agradarem. Respondei apenas a esta pergunta: Est�veis em Dijon, h� pouco mais de 17 anos, no dia em que na pra�a do Morimont ca�ram as cabe�as de Jean e Marie de Br�vailles? E olhai que fa�o apelo � vossa honra, no sentido de que uma mentira... � uma mentira in�til.</p><p>O rosto de Beltrami ficou hirto, at� n�o parecer mais do que uma m�scara, por tr�s da qual o seu esp�rito enlouquecia. Quando aquele jovem entrara naquela casa, adivinhara, pressentira, que ele trazia consigo a infelicidade. Mas era preciso responder...</p><p>Estava, com efeito disse ele firmemente. Fiz muitas vezes escala em Dijon no decurso das minhas viagens a Paris e �s cidades flamengas. Acontece que gosto dessa cidade, se bem que nunca l� fique durante muito tempo. Parto sempre no dia seguinte.</p><p>Mas dessa vez n�o partistes s�. Levastes convosco uma crian�a rec�m-nascida, uma rapariguinha abandonada. Aquela a quem chamais agora filha. Negai-lo?</p><p>Uma brusca c�lera apoderou-se de Beltrami, varrendo toda a reserva que impusera a si pr�prio longos minutos antes:</p><p>E depois? N�o creio que isso vos diga respeito! Que quereis dizer, no fundo, com esses subentendidos, essas perguntas, que cheiram a pol�cia? Que tendes v�s a ver com aqueles dois infelizes que um pouco de piedade n�o permitiu que vivessem e com aquela crian�a que, com um pouco de humanidade, teria conservado, ao menos, uma m�e e que eu salvei do �dio de um homem infame que ia esborrach�la sobre uma tumba ign�bil, para onde a pretensa justi�a dos vossos duques tinha atirado os pais? Pensais que sou assim t�o simples que n�o seja capaz de ver o vosso jogo com clareza? Quando entrastes aqui, falastes-me de dinheiro e depois, subitamente, contastes-me essa terr�vel hist�ria, que desenterrastes sabe o diabo aonde...</p><p>Que quer isso dizer?</p><p>Que a despeito das vossas esporas douradas de cavaleiro, a despeito dessa ordem ilustre cuja ins�gnia est� suspensa do vosso peito, n�o sois mais do que um vigarista, <emphasis>messire </emphasis>de Selongey!</p><p>Philippe ficou l�vido e, maquinalmente, levou a m�o aos copos da espada que trazia � cintura:</p><p>Insultais-me!</p><p>N�o. Trato-vos segundo o que mereceis! E agora, sa�! N�o tereis de mim um �nico florim!</p><p>De p� face a face, estavam t�o pr�ximos, que um podia sentir o h�lito um pouco ofegante do outro, mas o objectivo de Selongey n�o era encostar aquele homem � parede. Virou-se, afastou-se na direc��o da janela que dava para a pra�a agora quase na escurid�o e, por um instante, observou o vaiv�m dos habitantes daquela cidade estranha, onde a nobreza de nascimento n�o significava nada e n�o tinha, obrigatoriamente, direito ao respeito. Apenas o dinheiro contava e o homem que estava na sua frente era um dos mais ricos.</p><p>Disse-vos que sa�sseis! repetiu Beltrami com uma voz onde havia algum cansa�o...</p><p>N�o. Eu exprimi-me mal e pe�o-vos perd�o. Esperava, com efeito, interessar o homem de neg�cios que sois nos do meu senhor, que � o mais nobre pr�ncipe do Ocidente. Ele ter-vos-ia reconhecido regiamente... � altura da coroa que cingir� um dia. Mas n�o foi unicamente isso que vos vim pedir esta noite...</p><p>Que quereis, ent�o?</p><p>Que me concedais a m�o da vossa filha. Quero despos�-la...</p><p>O espanto deixou o negociante sem voz e com a impress�o desagrad�vel de que as paredes come�avam a girar � sua volta. Foi at� um arm�rio dissimulado na parede e tirou dele um frasco de vinho de Chiantt e uma ta�a de prata, que encheu e esvaziou quase com um �nico movimento. Sentiu-se, ent�o, melhor para afrontar a nova batalha que se aproximava.</p><p>Meu Deus! observou Philippe com um meio sorriso. N�o esperava causar-vos uma tal emo��o!</p><p>Deixai a minha emo��o em paz. Quereis casar com Fiora? V�s?</p><p>Sim, eu.</p><p>Quando acabais de me dizer que ignorais tudo sobre as suas origens, nobres sem d�vida, mas manchadas infamemente pela m�o do carrasco?... Pelo menos segundo as leis do vosso pa�s e da vossa casta.</p><p>Segundo as leis de todos os pa�ses e de todas as castas. Acreditais que a vossa fortuna seria capaz de a salvar do desprezo se se soubesse aqui, nesta rep�blica incr�vel, que ela � fruto de um incesto e de um adult�rio que terminou no cadafalso, condenado ao mesmo tempo pela Igreja e pelo pr�ncipe?</p><p>Francesco Beltrami sentiu um arrepio gelado ao longo da espinha e voltou para o fogo como para um amigo seguro. Aquele dem�nio tinha raz�o e sabia-o.</p><p>E v�s disse ele amargamente investido da confian�a de um grande pr�ncipe, v�s, conde de Selongey, cavaleiro do Tos�o de Ouro v�s, que sois sem d�vida um dos primeiros no vosso pa�s, quereis por mulher esta crian�a, cuja nascen�a, v�s mesmo dizeis, est� marcada pela inf�mia. Porqu�?</p><p>N�o procurarei esconder-vos a verdade disse Selongey rudemente. Primeiro, porque a amo... Ora vamos! V�s s� a vistes duas vezes: na <emphasis>giostra </emphasis>e no pal�cio M�dicis...</p><p>Encontrei-a uma terceira vez na igreja da Santa Trindade. Mas um s� encontro era suficiente. A sua beleza... apertou-me o cora��o. Foi como se tivesse ficado encantado...</p><p>E pensais que isso � amor? Que basta um instante para...</p><p>Mudar a vida de um homem? Dev�eis ser o �ltimo a duvidar disso. Ou ent�o, explicai-me por que raz�o v�s, jovem, rico, livre de qualquer la�o, carregastes a vossa vida com a filha de uma gente que n�o conhec�eis, que apenas entrevistes na hora da morte? Marie de Br�vailles era muito bela, n�o � verdade? E v�s viste-la morrer...</p><p>Beltrami fechou os olhos, tentando reter as l�grimas que lhe vinham aos olhos ao recordar aquela hora terr�vel, em que o amor da sua vida tinha sido fulminado. Enxugou-os com as costas de uma m�o raivosa...</p><p>Falastes de duas raz�es... Qual � a segunda?</p><p>Quero o seu dote para as armas de monsenhor Carlos! Seguiu-se um sil�ncio, rompido ao cabo de um instante pelo riso sem alegria de Beltrami:</p><p>Eis finalmente a grande palavra. O dinheiro! Mas n�o vos darei Fiora. N�o vos deixarei lev�-la para o vosso b�rbaro pa�s, que s� a esmagaria. Ela � uma flor delicada, criada sob o sol, com cuidados infinitos. At� aqui s� conheceu a alegria, a beleza, as artes, as letras e at� as ci�ncias. Ela tem a sabedoria e o cora��o de uma rainha. Enquanto eu for vivo, esta obra feita com as minhas m�os e com a minha ternura n�o ser� destru�da. Recuso separar-me dela.</p><p>Mas eu n�o vos separarei dela. Tal nunca foi minha inten��o disse Philippe docemente.</p><p>N�o compreendo. Que quereis dizer?</p><p>N�s estamos em guerra e esta guerra � sem quartel. Borgonha vencer� ou desaparecer�. Em tais condi��es, � imposs�vel levar uma mulher comigo. Onde estaria ela melhor, sen�o junto do seu pai? Se ma concederdes, casar-nos-emos secretamente, mas sem que seja poss�vel contestar o casamento. No dia seguinte, partirei... e nunca mais me vereis.</p><p>Cada vez compreendo menos! Ainda h� um instante fal�veis do vosso amor...</p><p>Que � profundo... e ardente, mas, sem d�vida, eu vou morrer. Quereis que vos diga mais claramente os termos do contrato que quero assinar convosco? Fiora ter� o meu nome, o que a por� ao abrigo de um outro reconhecimento sempre poss�vel. Ser� condessa de Selongey, mas viver� convosco e usar� luto por mim quando chegar a hora...</p><p>E v�s, que tereis v�s, j� que quereis entregar o seu dote ao vosso duque?</p><p>Uma noite de amor! Uma �nica noite, da qual levarei a recorda��o como um tesouro, ou que talvez me exorcize de uma paix�o que me queima. Declarareis o casamento quando muito bem vos parecer. Bastante tarde, sem d�vida, se quereis evitar o ressentimento dos M�dicis, cuja atitude � uma declara��o de inimizade para com Borgonha. Foi por isso que falei num casamento secreto. Depois da minha morte, Fiora poder�, se quiser, voltar a casar...</p><p>A vossa morte, a vossa morte! Ela ainda n�o est� escrita. Por que quereis tanto morrer?</p><p>Porque quero apagar do meu sangue a n�doa com que vou manchar as minhas armas ao casar com a filha de Jean e Marie de Br�vailles. Serei o �nico a saber dessa n�doa, porque n�o tenho fam�lia. Ela desaparecer� comigo e em poucas horas darei tanto amor �quela que ser� minha mulher, que ela nunca saber� nada. A sua vida permanecer� a mesma junto de v�s e eu terei tudo o que podia esperar deste mundo...</p><p>Esqueceis uma coisa: dessa �nica noite pode nascer um filho!</p><p>Nesse caso, educ�-lo-eis at� que tenha idade para pegar em armas e servir os seus pr�ncipes. Ent�o, envi�-lo-eis ao castelo de Selongey com todos os meios para se fazer reconhecer e eu ficarei em paz, porque ser� o sinal de que os meus antepassados me perdoaram o que vou fazer...</p><p>Que rapaz estranho! Francesco sentia-se confuso com aquela mistura de cinismo e inoc�ncia, com aquela alma feudal plena de paix�o e certeza, capaz de tudo sacrificar ao seu senhor e aos seus pr�prios desejos, mas decidida a pagar o pre�o, mesmo que esse pre�o signifique a vida...</p><p>Que ides fazer? Eu ainda n�o aceitei o vosso pacto.</p><p>Mas ides aceitar. Sabei que estou pronto a tudo, entendeis, para conseguir Fiora, para que seja minha. Enquanto eu for vivo, ela n�o ser� de mais ningu�m.</p><p>At� onde sois capaz de ir? At� dardes a conhecer a todos a verdade do seu nascimento? Far-vos-�eis retalhar imediatamente...</p><p>Talvez, mas v�s n�o vos erguer�eis do esc�ndalo. Ser�eis obrigado a fech�-la num convento. Mais vale aceitar, messire Beltrami e v�s sabei-lo bem. Ficais seguro, assim, de que ela nunca vos deixar�. Isso deve ter um pre�o aos vossos olhos...</p><p>Francesco sentiu-se corar. Aquele homem tocara com o dedo no ponto sens�vel, aquela repugn�ncia que ele tinha de ver, um dia, a sua filha bem-amada ir para longe, nos bra�os de um marido que nunca saberia am�-la como o seu pai... Sabia que o cavaleiro borgonh�s ganhara, mas n�o queria ainda chegar a acordo:</p><p>O vosso amor � terr�vel, senhor conde! N�o tenho raz�o nenhuma para supor que a minha filha se queira acomodar. E eu n�o a for�arei nunca...</p><p>Por que n�o lhe perguntais? Se ela aceitar...</p><p>Nesse caso, tamb�m aceitarei disse Beltrami gravemente mas sabei que ficareis ligado a um compromisso que vos ser� imposs�vel quebrar... no caso de, mais tarde, mudardes de opini�o.</p><p>Eis o comerciante que reaparece! disse Selongey com um sorriso de desd�m. Eu s� tenho uma palavra, <emphasis>messire </emphasis>Beltrami. Uma vez dada, n�o recuo.</p><p>Nesse caso, vamos a minha casa!</p><p>Lado a lado, caminharam pelas ruas, Philippe levando o seu cavalo pela r�dea, que deixara � porta da casa de com�rcio. Nunca caminhara tanto desde que chegara a Floren�a. As pessoas daquela cidade pareciam preferir caminhar a qualquer outro meio de locomo��o. Era verdade que as ruas, com uma valeta de cada lado, estavam limpas a maior parte do tempo, mas era curioso ver os grandes homens da cidade deslocarem-se </p><p>sem qualquer dec�ncia, como as pessoas do povo. Aquilo devia vir, sobretudo, do gosto extremo que todos tinham pela conversa��o. Nunca deviam estar certos do tempo que demoravam para ir de um local para outro, porque nunca sabiam que pessoas encontrariam e quantos minutos lhes consagrariam.</p><p>Entre o Mercato Nuovo e o pal�cio das margens do Arno, o borgonh�s ouviu, mais de 20 vezes, os passantes saudarem o seu companheiro.</p><p>Uma boa noite para ti, <emphasis>messer </emphasis>Francesco! Deus te guarde e te mantenha pr�spero! Sa�de para <emphasis>messer </emphasis>Francesco e todos aqueles que ama!... As f�rmulas eram diversas, mas todas reflectiam respeito e at� afei��o.</p><p>N�o vos sabia t�o popular observou Selongey mas, por que � que aqui todos se tratam por tu?</p><p>Dir-se-ia que estais em Roma? O latim ignora o tratamento por v�s e o latim permanece aqui a l�ngua dos poetas e dos s�bios. A nossa l�ngua vulgar n�o passa de um derivado do latim, tal como o franc�s, ali�s e monsenhor Louren�o, que come�ou a fazer versos em toscano, esfor�a-se por lhe dar a devida nobreza. E n�o h� d�vida de que o conseguir�, porque � um grande artista em todas as coisas...</p><p>Tamb�m na pol�tica? Duvido. � um erro grave opor-se ao todo-poderoso duque da Borgonha...</p><p>N�o vos quero contrariar, <emphasis>messire </emphasis>de Selongey, mas maior erro seria romper a alian�a com o rei Lu�s de Fran�a, que �, talvez, o pol�tico mais fino do seu tempo!</p><p>Aquele miser�vel figur�o? disse desdenhosamente o conde. Aquilo n�o � um cavaleiro.</p><p>Quando se tem a seu cargo um reino que durante cem anos conheceu a ocupa��o inglesa, mais vale ser um grande diplomata do que um cavaleiro sem m�cula. O rei Lu�s tem coragem. Demonstrou-o em variad�ssimas ocasi�es.</p><p>Vejo que o admirais muito. Posso aconselhar-vos... como futuro genro, a que mudeis de amizades enquanto ainda � tempo? Em Julho �ltimo, o rei Eduardo IV de Inglaterra assinou com o duque Carlos um tratado, pelo qual o ingl�s se obriga a vir a Fran�a com um ex�rcito, ao mesmo tempo que a Borgonha se juntar� a ele com dez mil homens antes do pr�ximo 1 de Julho. <emphasis>Messire </emphasis>Lu�s ser� varrido e Eduardo ser� coroado rei de Fran�a em Reims como o exige a justi�a.</p><p>Mas n�o a Hist�ria! O vosso senhor deixar� que o ingl�s cinja a coroa de S�o Lu�s, de quem ele pr�prio descende? A meu ver, seria um erro grave. Ter reconhecido em tempos o jovem Henrique, em detrimento de Carlos VII, n�o trouxe sorte ao duque Filipe, <emphasis>o Bom... </emphasis>O c�u pode muito bem enviar uma outra Joana d�Arc... e, de qualquer maneira, nunca � bom uma pessoa enganar-se no rei. Enfim, Lu�s XI ainda n�o disse a sua �ltima palavra. Podeis ter a certeza que monsenhor Louren�o n�o ignora nada disso... e ele recusou ajudar o vosso senhor!</p><p>E ent�o, est� enganado! N�o vos esque�ais que a pr�pria irm� de Lu�s XI, a duquesa Yolanda de Sab�ia � aliada da Borgonha, em proveito de quem concluiu uma alian�a com o duque�de Mil�o... que � vosso aliado.</p><p>Mas n�o nosso amigo. Que belo aliado arranjastes! Galeazzo Maria � um cabe�a de vento que de Sforza s� tem o nome, sem nenhuma parecen�a com o seu pai, o grande Francesco, que era amigo de Lu�s XI. Todos os seus pensamentos giram em redor da sua favorita, a bela L�cia Marliani e nas cartas que escreve a monsenhor Louren�o s� fala de certos rubis, que pertencem aos M�dicis e que o milan�s quer para a sua amante. O vosso duque vai ter uma surpresa...</p><p>Quem n�o as tem quando se trata de uma mulher? Consciente, de repente, do que dissera, Selongey corou e calou-se.</p><p>Os dois homens chegavam � vista do port�o do pal�cio Beltrami, iluminado por duas lanternas metidas em jaulas de ferro e cujas chamas se curvavam e separavam sob o vento frio que soprava pelas ruas. Francesco ergueu o pesado batente de bronze representando uma cabe�a de le�o. Ao cair, este ressoou com um som amplo e profundo. E depois, quando a porta se abriu pela m�o de um criado, Beltrami afastou-se para dar passagem �quele h�spede inesperado:</p><p>Resta saber para qual de n�s ser� a surpresa disse o negociante gravemente.</p><p>A hora do jantar aproximava-se e Fiora esperava o seu pai na grande sala onde, diante do fogo flamejante da chamin�, a mesa estava posta. Sentada junto de um tabuleiro de �bano, marfim e ouro, jogava com Khatoun no sil�ncio religioso que se impunha para o mais s�bio dos jogos e nem sequer ouviu o ligeiro rangido da porta a abrir-se para os dois homens. Apenas L�onarde, que bordava junto das duas jovens levantou a cabe�a, mas, com um gesto, Beltrami imp�s-lhe sil�ncio para poder contemplar por um instante o quadro encantador composto pelas duas jogadoras...</p><p>O fogo agarrava-se, com os seus reflexos vivos, �s tran�as lustrosas de Fiora, � j�ia de ouro que lhe pendia da fronte e �s pregas do seu vestido de cendal, de um vermelho-profundo. As suas pestanas negras, docemente curvas, punham uma sombra doce no veludo das suas faces e os seus dentes brancos, que mordiscavam um dos seus dedos afilados, brilharam por instantes por entre os l�bios frescos. Na sua frente, Khatoun, vestida com uma t�nica e um v�u de um alegre azul-can�rio, parecia um pequeno g�nio de um conto oriental.</p><p>Beltrami, o cora��o apertado por uma s�bita ang�stia, teria querido reter indefinidamente aquele minuto de paz, aquele instante de luz, que protegiam ainda a quietude da sua vida de pai satisfeito. N�o precisava de se virar para adivinhar com que olhos ardentes o estrangeiro olhava para a sua filha. Como era poss�vel que, ainda h� pouco uma crian�a, j� suscitasse a paix�o de um homem?... Pela primeira vez olhou para Fiora com olhos diferentes, demorando-se na finura da sua cintura, na harmonia delicada do pesco�o moldado pelo tecido cintilante, na sua pele sedosa de um marfim rosado t�o suave, na delicadeza de uma m�o fina pegando numa pe�a preciosa... O pensamento de que um homem podia pretender possuir aquele milagre de gra�a e beleza, tornou-se-lhe subitamente intoler�vel. Sentiu uma vontade brutal de chamar os seus criados para que pusessem na rua o insolente pretendente... mas Khatoun tinha visto os dois homens e, com um gesto ligeiro, apontou para eles. Fiora levantou os olhos e empurrou a cadeira para tr�s...</p><p>Pai repreendeu-o ela alegremente parece-me que vens tarde e que...</p><p>Subitamente, ela reconheceu Philippe, cuja estatura dominava a de Beltrami e uma vaga de sangue purpurou-lhe as faces. Para esconder a sua perturba��o, esbo�ou uma rever�ncia.</p><p>Ignorava que ter�amos um h�spede murmurou ela. Devias ter-nos prevenido.</p><p>A minha visita � absolutamente imprevista disse suavemente Philippe e suplico-vos, <emphasis>demoiselle, </emphasis>que me perdoeis por vos encontrar desprevenida. De qualquer maneira, n�o serei vosso... h�spede durante muito tempo.</p><p>Deixai-nos, <emphasis>dame </emphasis>L�onarde disse Beltrami brevemente. Tu tamb�m, Khatoun...</p><p>Com os olhos plenos de interroga��es mudas, as duas mulheres sa�ram sem uma palavra, deixando Fiora s� face aos dois homens. Quando a porta se fechou, Beltrami aproximou-se, pegou na filha pela m�o e conduziu-a at� � cadeira que ela acabava de abandonar.</p><p>Senta-te, minha filha disse ele docemente. O que temos para te dizer � grave... de uma extrema import�ncia para o futuro...</p><p>O que... v�s... tendes para me dizer? Sois, portanto, dois a falar?</p><p>Com efeito...</p><p>Beltrami sentiu um n� na garganta e engoliu em seco nervosamente. Chegara o instante terr�vel, aquele instante que deixara que lhe impusessem, porque aquele homem conhecia o seu segredo... E de repente, teve pressa de acabar. Tudo era prefer�vel � incerteza. Ali�s, Fiora mal conhecia Selongey, nunca aceitaria casar com ele... Ia, com um sorriso, recusar, como recusava as homenagens de Luca Tornabuoni. N�o pensara que estava apaixonada por Giuliano de M�dicis? Ent�o, com uma voz clara, disse:</p><p><emphasis>Messire </emphasis>Philippe de Selongey, que v�s aqui, veio esta noite pedir-me a tua m�o...</p><p>Mal pronunciou aquelas palavras, Beltrami teve vontade de as retirar. Fiora acolheu-as com uma imensa surpresa nos olhos, mas j� uma luz se acendia, uma luz que o magoava muito...</p><p>V�s quereis... casar comigo? perguntou a jovem. Vivamente, Selongey p�s um joelho em terra:</p><p>N�o h� nada que eu mais deseje disse ele com voz vibrante. O que o vosso pai n�o disse, Fiora, � que vos amo e que nunca amarei mais ningu�m.</p><p>Nunca?... Sen�o eu?</p><p>Enquanto viver! Dou a minha palavra de cavaleiro perante Deus, que receber� os nossos votos se aceitardes ser minha!</p><p>Fiora olhou para o rosto arrogante virado para si, para aqueles olhos cuja chama a queimava, para aqueles l�bios cujo beijo a atormentava, para aquela grande m�o que se estendia para a sua. A jovem procurou o olhar do seu pai, mas Beltrami desviou-o. Philippe acrescentou, mais baixo, mas mais ardentemente:</p><p>Respondei, Fiora! Quereis ser minha mulher?</p><p>Uma alegria imensa invadiu a jovem. Era como uma daquelas grandes vagas azuis, deliciosas e t�pidas, nas quais, em Livorno, se banhara num dia de Ver�o. O sonho come�ado sob as ab�badas severas de Santa Trinita continuava e, desta vez, n�o teria fim. Com um gesto encantador e espont�neo, ela colocou as suas duas m�os nas que se lhe ofereciam:</p><p>Quero disse ela firmemente... sim, quero!</p><p>Francesco Beltrami fechou os olhos por um instante, para n�o ver Philippe beijar ternamente os pequenos dedos daquela que passava a ser a sua noiva. Estava tudo dito e era preciso ir at� ao fim. A surpresa fora para ele... Batendo subitamente com as m�os, o negociante chamou com voz forte:</p><p>Vinho! Tragam vinho!</p><p>N�o se devia celebrar com uma liba��o o pr�ximo casamento de Fiora? Mas, pela primeira vez desde h� muito tempo, Francesco Beltrami tinha vontade de chorar...</p></section><section><title><p>CAP�TULO IV</p><p>A NOITE DE FIESOLE</p></title><p>Dois dias depois, � mesma hora, Fiora, de cora��o apertado, esperava o momento em que, para sempre, seria unida ao homem que amava e que entrara na sua vida como um furac�o. Tudo fora t�o r�pido que a cabe�a ainda lhe andava um pouco � roda...</p><p>Quando dera a sua m�o a Philippe, pensava que iriam celebrar o noivado e que depois o seu futuro marido voltaria a partir para combater ao lado do seu duque. Terminada a guerra, regressaria para consagrar o casamento e, finalmente, lev�-la para o seu pa�s a fim de a apresentar na corte do Grande Duque do Ocidente. Imaginava j� as bodas faustosas, que seriam as da filha �nica do rico Francesco Beltrami...</p><p>E eis que nada se parecia com os seus sonhos de inf�ncia, que nada seria conforme a tradi��o. Nem sequer haveria um grande jantar para a imposi��o do anel, s�mbolo da uni�o, nem troca de presentes. Os jovens n�o estenderiam pela sua rua a fita ou a grinalda de flores, ao mesmo tempo que um deles, o mais belo, lhe ofereceria um ramo, ap�s o que o noivo poderia romper o fr�gil obst�culo. N�o haveria um cortejo de damas para escoltar a noiva at� ao Duomo, enquanto na <emphasis>loggia </emphasis>do Bigallo, perto do Baptist�rio, as trombetas soariam o triunfo do amor. N�o haveria um grande banquete ao som da m�sica, n�o haveria baile, n�o haveria nozes atiradas para as lajes do ch�o perto da c�mara nupcial para impedir que se ouvisse o que se passaria l� dentro, n�o haveria brincadeiras, risos, f�bulas para alegrar as pessoas, romances...</p><p>Tudo se ia passar na grande <emphasis>villa </emphasis>que Beltrami possu�a em Fiesole, de noite, quase em segredo, para que os M�dicis ignorassem aquele casamento que poderia ofender as suas amizades e escolhas pol�ticas. E Philippe tinha pressa. Amava demasiado Fiora para aceitar afastar-se dela sem se assegurar que nenhum outro homem, nunca, lha tiraria...</p><p>Teria sido a mesma coisa depois do noivado observara a jovem e mesmo sem outro compromisso que n�o a minha palavra. Teria bastado que me ped�sseis para esperar. Eu teria esperado... a vida inteira.</p><p>Talvez tenhais que o fazer durante a vida inteira. Eu posso morrer, Fiora e nunca mais voltar. Foi por isso que quis este casamento, cuja rapidez vos assusta tanto, talvez. Eu quero, depois de partir, ficar certo de que sois minha. Sentis assim tanta falta dos faustos de um casamento em pleno dia?</p><p>Sentiria, sobretudo, se n�o tiv�sseis essa pressa. Sentiria se n�o me am�sseis...</p><p>Estava tudo dito. H� uma hora que Beltrami e o seu futuro genro estavam fechados no gabinete do negociante com um not�rio que era amigo seguro. Discutiam o severo contrato que Beltrami entendia assegurar � sua filha. No seu quarto, Fiora entregava-se aos cuidados das mulheres. L�onarde, de rosto herm�tico e Khatoun, cujos dedos tremiam de excita��o, tinham-na vestido com um belo vestido de seda branca, todo bordado a ouro. Na massa dos seus cabelos, penteados ao alto, tinham penteado estrelas de esmeraldas e entran�ado uma fina grinalda dourada e na orla do decote, entre os seios juvenis, L�onarde tinha pregado um drag�o com olhos de esmeralda, cujas asas abertas estavam matizadas com as mesmas pedras. Dentro em pouco colocar-lhe-iam na cabe�a o grande v�u que tinham mandado aben�oar nessa mesma manh� no mosteiro vizinho, segundo as regras...</p><p>Desde que lhe haviam anunciado o casamento de Fiora, a velha governanta n�o deixara de cerrar os dentes, mas passara longas horas na igreja. A Fiora, que a repreendera por n�o mostrar alegria ao v�-la unir-se a um grande senhor da Borgonha que tamb�m era o seu pa�s, L�onarde tinha respondido: |</p><p>Eu sei que � um grande senhor e eu conhe�o bem o castelo de Selongey, uma poderosa fortaleza e uma nobre casa. Eu sei que casais com um homem valente e que junto dele ficareis altamente colocada. Eu sei...</p><p>Sabeis que o amo... e que ele me ama?</p><p>- Tinha que ser, para atabalhoar assim um casamento em dois dias e confesso-vos, compreendo mal como o vosso pai, um homem t�o sensato, t�o cuidadoso, deu o seu acordo a semelhante...</p><p>Loucura? Eu creio que o meu pai sabe que de uma loucura pode nascer uma grande felicidade.</p><p>L�onarde n�o respondera mais nada, mas corara um pouco. Melhor do que ningu�m, ela sabia que Francesco Beltrami era capaz de actos aparentemente insensatos e tentara falar-lhe, mas, escusando-se a qualquer explica��o, o negociante fora imposs�vel de encontrar, como se tivesse fugido. Assim, a velha dama escolhera o sil�ncio... mas Khatoun falava pelas duas.</p><p>A pequena t�rtara n�o se cansava de gabar a magnific�ncia do noivo e predizer � sua jovem patroa um universo de amor, ao mesmo tempo que cantava, acompanhada por um ala�de, todas as can��es do seu repert�rio. Tinha prometido, sem hesitar, n�o revelar a ningu�m o que se ia passar e Fiora sabia que ela preferiria deixar-se matar a trair um segredo confiado ao seu cora��o.</p><p>O mais penoso, para Fiora, era n�o poder dizer nada � sua amiga Chiara. Teria gostado, pelo menos, de ter aquela rapariga encantadora junto de si quando o seu casamento fosse aben�oado. Teria gostado de poder partilhar com Chiara toda aquela alegria, toda aquela felicidade que transbordava do seu cora��o, mas Beltrami mostrara-se intrat�vel:</p><p>N�o te esque�as que a Colomba dela � a l�ngua mais �gil da cidade! Confiar-lhe um segredo � partilh�-lo com as correntes de ar. Al�m disso, lembra-te que os Albizzi foram durante muito tempo mais ricos e poderosos do que os M�dicis, que estiveram exilados e que n�o seria nada bom met�-los neste casamento. Alguns poderiam achar isso estranho.</p><p>N�o terei, portanto, nunca, o direito de usar diante de todos o nome do meu marido? Gostava tanto...</p><p>Que saibam que �s condessa? perguntou Beltrami, sorrindo.</p><p>N�o. Que saibam que sou �sua� mulher...</p><p>Isso h�-de vir, descansa! E talvez mais depressa do que julgas. Quero apenas um certo tempo, para o anunciar eu pr�prio ao <emphasis>Magn�fico. </emphasis>Ser� mais f�cil se ele acreditar que te casaste... sem eu saber!</p><p>Dessa vez, Fiora compreendera. Conhecia suficientemente bem os M�d�cis para saber a que ponto eles eram ciosos da sua autoridade, ainda por cima porque n�o lhes fora legalmente concedida. E deixou-se ir na alegria de, em breve, ser de Philippe. Mas, � medida que a hora se aproximava, o seu cora��o batia cada vez mais depressa...</p><p>A jovem sonhava, de p� junto de uma janela de onde se via o jardim em terra�os e, mais abaixo, Floren�a, estendida como um tapete cinzento e rosa aos p�s da antiga acr�pole etrusca e romana, que fora Fiesole. Do esplendor de outrora s� restava uma cerca de muralhas cicl�picas meio arruinada e muitas pedras, provenientes do que fora um teatro. Havia vest�gios em quase todos os jardins que eram muitos, porque, se Fiesole deixara de ser uma cidadela guerreira, continuava a ser um lugar de prazer e certamente o lugar mais encantador dos arredores de Floren�a. Mesmo quando os jardins, como naquele come�o de Fevereiro, n�o tinham flores, restava a do�ura das colinas que sublinhavam os fusos negros dos ciprestes e dos teixos, as cores esbatidas da terra e das oliveiras prateadas, cujos muretes de pedras ruivas retinham as ra�zes torcidas, a eleg�ncia de algumas casas patr�cias e, na pequena pra�a daquilo que mais n�o era do que uma aldeia grande, o contraste encantador de uma velha catedral romana de campan�rio ameado junto de um gracioso pal�cio novo.</p><p>O Sol pusera-se numa gl�ria p�rpura anunciadora de vento, deixando um reflexo nos telhados do pequeno convento franciscano que coroava a colina e onde estava conservado o corpo do grande Santo Ant�nio, que toda a Floren�a venerava. Era na sua capela que, chegada a noite, Fiora e Philippe seriam casados pelo vener�vel abade...</p><p>Selongey, o seu escudeiro Mathieu de Frames, que lhe serviria de testemunha e os homens que compunham a sua escolta tinham transposto as portas de Floren�a de manh� sem esp�rito de regresso. Por um caminho desviado tinham atingido a <emphasis>villa </emphasis>de Beltrami e entrado nela pela porta de servi�o, onde iam esperar a sua verdadeira partida, prevista para o dia seguinte de madrugada. S�s, os dois nobres tinham entrado na casa, mas o que Fiora ignorava era que no cofre do seu pai repousava j� uma carta de cr�dito de cem mil florins de ouro, pag�veis no banco Fugger de Augsburgo e que representava o seu dote quase real...</p><p>Durante muito tempo, Fiora permaneceu ali, vendo morrer o dia e a noite invadir pouco a pouco o maravilhoso quadro, deixando apenas vis�veis alguns pontos luminosos, fogueiras nas muralhas, ou luzes diversas. Compunham um prolongamento do c�u, onde se acendiam as primeiras estrelas. Aquela noite que ca�a fazia cair, tamb�m, uma cortina sobre os dias despreocupados de uma inf�ncia feliz e o dia seguinte, quando voltasse, iluminaria um ser novo, nascido da misteriosa magia do amor.</p><p>Tal como a maioria das raparigas do seu tempo, Fiora sabia que n�o era a b�n��o do casamento que fazia desabrochar a mulher, mas sim a uni�o de dois corpos e que essa uni�o, pelo menos no princ�pio, podia ser dolorosa, insuport�vel por vezes, quando o acto do amor se transformava em viola��o, como tantas vezes ouvira contar nos relatos dos desacatos provocados pouco tempo antes em Volterra e Prato pelos mercen�rios de Floren�a. A jovem n�o receava nada de semelhante da parte de um homem que a amava e ao qual ela se sentia feliz por se oferecer, porque lhe bastara um beijo para a conquistar.</p><p>A entrada silenciosa de L�onarde veio, no entanto, p�r fim ao seu sonho. A governanta trazia com ela o v�u com que envolveu a jovem e uma grande capa negra com capuz, sob a qual desapareceu o vestido brilhante.</p><p>Chegou a hora! disse ela. Vinde! Esperam-vos... Depois, bruscamente, a governanta agarrou Fiora pelos ombros e abra�ou-a com uma enorme ternura.</p><p>Espero que sejais feliz, meu cordeirinho e, sobretudo, que o sejais durante muito tempo.</p><p>Nunca me senti t�o feliz! murmurou Fiora, sincera. Messire Philippe n�o tem tudo o que � preciso para assegurar essa felicidade?</p><p>Tem, mas � um soldado e isso n�o simplifica as coisas. Tereis de suportar longas aus�ncias...</p><p>Os regressos ser�o, assim, maravilhosos! E agora vamos, visto que nos esperam.</p><p>L�onarde n�o respondeu, contentando-se em abrir a porta diante daquela crian�a que ela acreditava conhecer t�o bem e que parecia mudar a cada instante. Aquele casamento, decididamente, agradava-lhe cada vez menos, mas sabia-se impotente para travar a roda do destino posta em marcha t�o bruscamente.</p><p>Quatro silhuetas negras, as de Beltrami, de Philippe, do seu amigo Prames e do not�rio Buenaventura esperavam no p�rtico de entrada. Quando as duas mulheres se lhes juntaram, o negociante pegou na m�o da filha e dirigiu-se para a entrada dos jardins, mergulhados na obscuridade. Nenhuma luz iluminava o caminho, mas a noite n�o estava demasiado escura e permitia que se deslocassem sem acidentes.</p><p>Transpostos os limites da propriedade, encontraram rapidamente a vereda que ia dar ao mosteiro. N�o se ouvia qualquer barulho. Todo o campo estava silencioso, como se retivesse a respira��o. N�o se ouvia, nem o voo de uma ave, nem o ladrar de um c�o, nem a passagem pela erva de um dos numerosos habitantes dos campos. Sob os amplos mantos que os cobriam, os seis passeantes pareciam um grupo de fantasmas... Fiora, essa, deslocava-se como num sonho...</p><p>Como num sonho, viu abrir-se a porta da pequena capela mal iluminada por uma grossa vela pousada no ch�o num candelabro de prata e por duas l�mpadas em cada lado da velha pedra do altar, coberta com uma toalha imaculada. Estava escuro e frio. Nenhuma solenidade para aquela missa nocturna, apenas os vasos sagrados, que eram preciosas pe�as de joalharia e a casula do monge que ia oficiar, mais dourada ainda do que o vestido da noiva.</p><p>Como num sonho, ouviu desenrolar-se o ritual e ofereceu a m�o ao pesado anel de ouro que Philippe lhe enfiou no dedo. As palavras do padre e as fungadelas de L�onarde, que acabara por chorar, eram as �nicas coisas que perturbavam o sil�ncio em que estava envolvido o convento. A realidade regressou com a sa�da da igreja, o regresso a casa pelo bra�o de Philippe e o rosto crispado de Francesco Beltrami, quando, no instante de subir com L�onarde e Khatone para o quarto preparado para a noite de n�pcias, Fiora ofereceu a fronte ao seu beijo e � sua b�n��o... No momento em que a sua filha o deixava para ir, n�o para o seu leito de menina, mas para o de um homem, Beltrami, p�lido at� aos l�bios, parecia um m�rtir em tormento. Que torturas poderiam ser piores do que aquelas que estava a sofrer? � humilha��o de ter sido obrigado a ceder a uma chantagem juntava-se um ci�me devorador. Naquele instante, teve vontade de matar aquele homem demasiado sedutor, que s� precisara de um momento para conquistar o cora��o de Fiora e que, agora, tinha o direito de entrar no seu quarto, como dono e senhor e possuir o seu corpo.</p><p>Porque era honesto, perguntou a si pr�prio se todos os pais experimentariam o mesmo terr�vel sentimento de frustra��o, a mesma dolorosa tens�o carnal? As recorda��es que guardava de outros casamentos responderam-lhe pela negativa e teve vergonha dos pensamentos que o tinham invadido, das imagens que a sua imagina��o febril lhe mostrara. Se Fiora tivesse sido, realmente, sua filha, tudo aquilo, certamente, lhe teria sido poupado, mas ela n�o era sua filha segundo a carne <emphasis>e ele </emphasis>reagia como um homem a quem acabavam de tirar a mulher amada. Era Marie, que ele perdia pela segunda vez...</p><p>Naquela noite, o sensato Francesco Beltrami bebeu um pouco mais do que devia enquanto esperava pela luz do dia, desse dia triunfal que lhe traria o fim do pesadelo, em que veria partir, sem esperan�a de regresso, o borgonh�s detestado, deixando-lhe Fiora durante todo o tempo que lhe restava de vida. De momento, era-lhe penoso confessar que fora aquela a �nica circunst�ncia que o incitara a aceitar a exig�ncia insensata de Selongey. O conde s� teria uma �nica noite. Ele teria a vida toda, o que nunca teria sido poss�vel com um marido florentino...</p><p>Enquanto isso, no grande quarto docemente aquecido, perfumado e ornamentado com flores e folhagem, L�onarde e Khatoun preparavam Fiora para a noite. Desfizeram o entran�ado complicado do seu penteado e depois pentearam, escovaram e lustraram os seus longos cabelos negros at� ficarem brilhantes, t�o suaves como cetim. Despojaram-na das j�ias, do vestido sumptuoso, da roupa branca e massajaram-lhe docemente o corpo e as pernas com um �leo leve e perfumado, que cheirava a floresta e erva recentemente cortada. Depois, segurando cada uma numa das suas m�os, conduziram-na, nua, at� ao grande leito de colunas com cortinas de veludo p�rpura e franja dourada que, maci�o como um altar de sacrif�cios, ocupava o centro do quarto.</p><p>Estenderam-na entre os len��is sedosos aquecidos antecipadamente, depois de exporem os seus cabelos na almofada, numa aur�ola negra e brilhante. Em seguida, L�onarde acendeu a vela de cabeceira, beijou Fiora na fronte e fechou as cortinas do leito antes de se retirar com Khatoun, que cantarolava acompanhada pelo seu ala�de...</p><p>O som do instrumento apagou-se pouco a pouco e Fiora, o cora��o batendo-lhe com toda a for�a no peito, ficou s� � luz avermelhada da vela...</p><p>N�o esperou muito tempo. Ouviu o ligeiro ranger da porta, um ru�do de passos atenuado pelos tapetes e por fim o deslizar das cortinas, afastadas com as duas m�os. Fiora fechou os olhos, mas reabriu-os logo a seguir, n�o querendo perder nenhuma imagem daquela noite �nica. E viu Philippe. De p� em frente do leito, as m�os ainda agarradas �s cortinas de veludo, olhava para ela e os seus olhos faiscavam no rosto bronzeado. Com excep��o de um curto cal��o branco, estava nu e a chama vacilante da l�mpada de azeite fazia com que os m�sculos poderosos, mas sem gordura, das coxas e do peito, onde se encaracolavam uns p�los curtos, e dos bra�os, parecessem vivos.</p><p>Fascinada, Fiora olhava para ele, pensando que era ainda mais belo do que aquela est�tua de Hermes pela qual Louren�o de M�dicis sentia tanto orgulho, mas j� ele agarrava no len�ol e na colcha e, com um gesto atirava-os para os p�s do leito... Com as faces subitamente a arder, Fiora voltou a fechar os olhos, esperando que ele falasse, que dissesse qualquer coisa, fosse o que fosse, que fizesse um gesto, mas Philippe n�o tinha pressa. Tinha pegado na vela e erguia-a por cima do corpo nervosamente hirto da jovem. O jovem viu que ela tremia e sorriu:</p><p>De que tens medo? O teu espelho nunca te disse como �s bela?... T�o bela!... T�o doce!... O borgonh�s voltou a pousar a vela e, deixando-se cair de joelhos, pousou os l�bios no ventre de Fiora, que se sentiu percorrida por um longo arrepio. Ele sentiu-o e deu uma ligeira risada:</p><p>Belo instrumento murmurou ele, envolvendo numa longa car�cia os seios palpitantes que maravilhoso canto de amor vou poder tocar em ti...</p><p>Sem abandonar a sua pose ajoelhada, cobriu-lhe o corpo todo com beijos leves, lambendo docemente as pontas cor-de-rosa que se erguiam sob os seus l�bios, ao mesmo tempo que as suas m�os exploravam as curvas das ancas e a superf�cie sedosa do ventre tenso. A boca seguiu as m�os, descendo, descendo sempre at� ao doce monte-de -v�nus, que ela abriu delicadamente. Com os olhos muito abertos e o cora��o enlouquecido, Fiora sentiu acordar em si uma tempestade, um ardor de que n�o pensava ser capaz... Todo o seu corpo gritava por aquele homem que tocava nela como num instrumento, lhe arrancava suspiros, queixumes doces e n�o sabia mais o qu�... Por fim, ele deslizou para cima dela, fechou-a nos bra�os e devorou-a com um beijo, sob o qual ela desfaleceu... O seu corpo distendeu-se e arqueou-se como se quisesse escapar ao peso que lhe era imposto sem brutalidade, Philippe martirizou-lhe a revolta e, subitamente, ela sentiu que ele entrava nela...</p><p>Uma breve, ligeira dor, cujo grito ele sufocou com um beijo. Por um momento, Philippe permaneceu im�vel, mas depois, com as m�os mergulhadas na cabeleira cujo perfume o inebriava, come�ou docemente, muito docemente, a sua dan�a de amor, � qual, em breve, Fiora se associou apaixonadamente... A onda ardente de prazer arrebatou-os e revolveu-os at� ao �ltimo paroxismo, que atingiram juntos num estertor duplo... Depois a onda abrandou, deixando-os ofegantes, naufragados na praia de len��is amarrotados, nos quais havia algumas gotas de sangue... Mas os bra�os de Philippe n�o abrandaram o seu abra�o... Aquele ser novo que ele acabava de acordar para o amor acabava de lhe oferecer, sem saber, a mais espantosa das revela��es: a das profundezas inesperadas do seu cora��o. Ele pensava amar Fiora como amara outras mulheres antes. Mas, desta vez, o ca�ador fora apanhado na pr�pria armadilha e n�o tinha vontade de se afastar dela. No entanto, teria de o fazer quando chegasse a madrugada. Teria de partir, prisioneiro da sua palavra e deixar a sua mulher, aquela que nunca pensara encontrar, prosseguir sem ele uma vida que lhe era totalmente estranha. N�o lhe permitiriam alterar fosse o que fosse no pacto que conclu�ra com Beltrami, sobretudo este. Philippe compreendera-o pelo olhar assassino que o negociante lhe lan�ara quando ele o deixara para ir ter com Fiora...</p><p>Amo-te! murmurou ele com a boca nos cabelos dela. Nunca saber�s a que ponto te amo...</p><p>Por que nunca hei-de saber? N�o mo poder�s provar durante estes anos todos que temos para viver juntos?</p><p>Saberemos n�s se teremos anos pela frente? Eu vou partir, deixar-te, porque n�o posso levar-te comigo.</p><p>No fim de contas, por que raz�o n�o podes?</p><p>Sabe-lo bem. N�o se leva uma mulher para a guerra.</p><p>Talvez se comportasse de maneira a espantar-te? Para te seguir, para estar sempre ao p� de ti, creio que seria capaz de aceitar muitos perigos.</p><p>Casei, afinal, com uma jovem leoa? perguntou ele, abra�ando-a. S� aumentas as minhas penas, meu amor, minha flor... meu doce amor. Mas tu tens de ficar... nem que seja para n�o p�r o teu pai em perigo. Diz-se que o rancor do magn�fico Louren�o pode ser tanto mais terr�vel quanto menos direito tem de exercer o poder. E tenho poucas d�vidas acerca dos seus sentimentos para com o meu duque. Se ele soubesse que o teu pai te deu a mim sem sequer lhe pedir a opini�o, as consequ�ncias, se eu julguei bem o homem, poderiam ser... desagrad�veis para v�s dois.</p><p>Nesse caso, esperarei suspirou Fiora mas, mesmo que s� dure uma semana, ser� bem longa, essa espera... Tens mesmo de partir amanh�?...</p><p><emphasis>N�o</emphasis></p><p>posso fazer outra coisa...</p><p>Nesse caso, n�o podemos perder um minuto desta noite que o destino nos d�. Ama-me! Philippe, ama-me mais e mais, para que eu possa viver de recorda��es durante todos os dias e noites que vou passar sem ti.</p><p>Philippe s� esperava aquele pedido, porque o desejo j� tinha acordado de novo nele, mas temia, dando-lhe livre curso, assustar e at� ferir aquela crian�a que se tinha abandonado a ele com tanta confian�a. E afastou-se um pouco.</p><p>N�o � preciso ter tanta pressa, minha doce... Tu �s t�o jovem, t�o nova... Tenho tanto medo de te fazer mal!</p><p>N�o me poder�s fazer mal, porque sou eu que te�chamo. � t�o doce ser tua...</p><p>Ele olhou para ela deslumbrado, maravilhado... A vela esculpia o seu corpo com sombras ternas, dourava a superf�cie delicadamente arredondada do seu corpo e fazia deslizar um raio na direc��o do v�rtice das coxas, ao mesmo tempo arredondadas e esbeltas. Com uma m�o, ele puxou para si o belo rosto t�o puro, cujos l�bios se entreabriam e ofereciam, ao mesmo tempo que as grandes pupilas claras desfaleciam. Nunca tal beleza lhe fora dada e o seu cora��o apertou-se ao pensar que ela iria desabrochar ainda mais, longe dos seus olhos:</p><p>Queres? perguntou ele com a voz rouca. Queres mesmo? Ent�o, o riso de Fiora caiu em cascatas alegres, infantis e, no entanto, perturbadoras:</p><p>� claro que quero! Plat�o diz que � bom repetir duas ou tr�s vezes as coisas boas!</p><p>A estupefac��o deixou-o sem voz. Plat�o era, de certeza, a �ltima pessoa que ele esperava ver como intruso no seu leito nupcial. Mas como imaginar que aquela ador�vel rapariga, ainda h� pouco uma crian�a, pudesse ter conhecimentos de filosofia grega? A sua cultura n�o ia al�m dos <emphasis>Comment�rios </emphasis>de C�sar e sentiu-se um pouco vexado...</p><p>E que diz Plat�o do amor? perguntou ele enquanto os seus dedos recome�avam a deslizar pela pele suave.</p><p>N�o... n�o fala muito dele ofegou Fiora, ao mesmo tempo que o seu olhar se perdia... Mas diz:...�D� e receber�s!� E... e eu dou-me a ti para sempre! E eu quero-te em mim, todo...</p><p>E ent�o ele apoderou-se dela, brutalmente, como se ela fosse uma rapariga de uma cidade qualquer conquistada. Ela gritou e ele sufocou-lhe os gritos. Ele sentiu as l�grimas correrem-lhe pelo rosto e compreendeu que lhe estava a fazer mal, mas sentia uma alegria maldosa, duplicada pelo pensamento terr�vel de que aquela rapariga, nascida do incesto e alimentada por uma filosofia her�tica talvez fosse, no fim de contas, uma enviada do diabo. Teve vontade de a matar, para se libertar das correntes com que ela, insensivelmente, lhe prendia a alma. J� as suas m�os se agarravam ao seu fr�gil pesco�o: come�ava j� a apert�-lo quando ela abriu os seus imensos olhos da cor das nuvens que as l�grimas faziam brilhar e estendeu para que ele os beijasse, os l�bios inchados...</p><p>Philippe! murmurou ela meu amor, meu senhor...</p><p>O dem�nio � que � o teu senhor! rugiu ele. Uma tal beleza n�o pode ter sido desejada por Deus...</p><p>Bruscamente l�cida, ela quis arrancar-se a ele:</p><p>Se h� um dem�nio, foste tu que o fizeste nascer disse ela t�o dolorosamente que ele teve vergonha. As l�grimas que agora corriam n�o eram l�grimas de felicidade. Ele recolheu-as uma a uma, antes de beijar longamente aquela boca tr�mula, ao mesmo tempo que, de novo, fazia explodir o prazer no corpo da jovem mulher, antes de dar livre curso � sua pr�pria satisfa��o.</p><p>Perdoa-me! sussurrou ele, por fim. Tu p�es-me louco...</p><p>Ent�o, estamos loucos os dois concluiu Fiora, consolada, aninhando a cabe�a na cova do ombro do seu marido...</p><p>Sentia-se fatigada, mas ainda n�o queria dormir. Teria todo o tempo para se abandonar ao sono quando Philippe j� ali n�o estivesse, quando o seu leito estivesse vazio e frio...</p><p>Ignorava suspirou ela que o amor pudesse dar tanta satisfa��o e eu gostaria de poder dar-te tanta quanta tu me d�s...</p><p>N�o sentes a que ponto me fazes feliz?</p><p>Talvez... mas, h� um momento, pareceu-me que me detestavas...</p><p>N�o acredites nisso... A verdade � que tu �s demasiado bela e a tua beleza mete-me medo.</p><p>Porqu�, se tudo o que eu sou te pertence inteiramente? Oh! Meu amor, ensina-me a amar-te... Diz-me como te hei-de dar tanto prazer...</p><p>Isso s�o coisas que n�o se ensinam a uma mulher honesta disse ele com uma falsa severidade...</p><p>Para que hei-de eu ser uma mulher honesta esta noite? Vou ter todo o tempo para isso. Esta noite s� quero ser a tua mulher...</p><p>Enternecido, ele guiou-lhe os primeiros gestos, mas a aluna era digna do mestre e um sil�ncio, povoado por longos suspiros, instalou-se por baixo das cortinas p�rpuras que fechavam os dois amantes, como se estivessem no cora��o de um fruto maduro. E, por tr�s vezes ainda, Philippe triunfou daquele corpo jovem que parecia insaci�vel, at� que por fim, Fiora, fulminada, adormeceu de repente, com a cabe�a fora do leito e os longos cabelos, encharcados em suor, arrastando pelo tapete. Philippe, com o cora��o a bater desordenadamente no peito, deixou-se cair de borco, o rosto nas almofadas e, por sua vez, adormeceu tamb�m.</p><p>Mas a madrugada n�o estava longe. Algures, no campo, um galo cantou, imitado por outros nos quatro cantos do horizonte... A porta da c�mara nupcial abriu-se silenciosamente sob a m�o de L�onarde, que permaneceu um momento im�vel, na soleira, fascinada pelo espect�culo que se lhe oferecia � luz decadente da vela, da concha avermelhada da alcova aberta com os dois corpos nus, que o amor parecia ter fulminado. O de Fiora, na sua pose impudica, tinha o ar do cad�ver de uma bacante e L�onarde, de sobrolho franzido, benzeu-se duas ou tr�s vezes antes de caminhar, sem o menor ru�do, na direc��o daquele leito onde, um s�culo antes, dormira uma virgem inocente...</p><p>Suavemente, tomando cuidado para n�o a acordar, a governanta endireitou a jovem, que, do fundo do seu sono, murmurou palavras indistintas e sorriu, mas, uma vez em cima da almofada, enroscou-se, como uma gata feliz por encontrar o seu ninho. L�onarde cobriu-a e depois, dando a volta ao leito, aproximou-se de Philippe, pousou-lhe uma m�o no ombro e abanou-o docemente, inclinando-se sobre a sua orelha.</p><p><emphasis>Messire </emphasis>sussurrou ela. Tendes de vos levantar! S�o horas... Habituado desde a inf�ncia pelo duro treino cavaleiresco a dormir em qualquer parte e a acordar ao primeiro chamamento, Philippe virou-se de imediato e olhou para a governanta com olhos quase l�cidos...</p><p>Que dizeis? grunhiu ele.</p><p>Shhhh!... Digo que o dia est� a nascer e que a vossa escolta est� quase pronta. <emphasis>Messire </emphasis>de Prames est� a tomar o pequeno-almo�o.</p><p>J�?... Por que partir t�o cedo?</p><p>V�s � que sabeis. Para n�o chamar a aten��o. N�o decidistes assim com <emphasis>messire </emphasis>Francesco?</p><p>Com efeito... mas isso foi antes...</p><p>O jovem inclinou-se para Fiora para a beijar, mas L�onarde deteve-o:</p><p>N�o a acordeis! Assim � mais f�cil...</p><p>Quereis que eu parta... sem lhe dizer adeus?</p><p>Sim. � melhor para ela... e para v�s! A menos que queirais ficar com a recorda��o de um rosto desfigurado pelas l�grimas?</p><p>N�o!... N�o, tendes raz�o...</p><p>Philippe levantou-se com um movimento �gil que n�o abanou o leito e bocejou, espregui�ando-se com grandes movimentos, n�o se preocupando em esconder um corpo onde se viam cicatrizes de antigos ferimentos e ligeiras arranhadelas deixadas pelas unhas de Fiora. Antes de pegar no roup�o com que entrara na v�spera naquele quarto, virou-se para a jovem que dormia tranquilamente na massa negra dos seus cabelos desordenados com uma m�o numa das faces e concedeu a si pr�prio uns �ltimos instantes de contempla��o... com as grandes olheiras azuladas que marcavam os seus belos olhos de p�lpebras fechadas, ela pareceu-lhe mais bela do que nunca e ao pensar que nunca mais a veria algo lhe apertou a garganta... Seria uma coisa muito doce passar uma vida inteira junto dela, mas o pacto, cujas cl�usulas fora ele pr�prio a ditar, s� lhe concedia uma noite... Inclinando-se rapidamente, pegou numa mecha de cabelos e pousou nela os l�bios...</p><p>Adeus!... murmurou ele... adeus, meu doce amor! Endireitando-se, viu que L�onarde, com ar bizarro, lhe estendia um par de tesouras... Ele pegou nele com um sorriso que perturbou a velha dama. Ela n�o imaginava que aquele homem, do qual n�o pensava nada de bom, pudesse ter aquele sorriso de crian�a maravilhada.</p><p>Obrigado! disse Philippe.</p><p>O borgonh�s cortou uma pequena mecha que guardou na concha da m�o e depois, entregando a tesoura a L�onarde, pegou no seu vestu�rio e abandonou o quarto sem se virar. S� com Fiora adormecida, L�onarde puxou suavemente as cortinas do leito para que a luz do dia que come�ava a nascer n�o acordasse a jovem e abandonou o quarto na ponta dos p�s...</p><p>Entretanto, no grande vest�bulo de grandes lajes de m�rmore branco e negro, Philippe de Selongey dispunha-se a despedir-se de Beltrami, Que o esperava na base da escadaria.</p><p>Tendo deitado pela cabe�a abaixo uma bacia de �gua fria, como � atestavam os cabelos ainda h�midos, Francesco conseguira afastar os vapores da embriaguez, mas os seus olhos continuavam injectados de sangue ao verem o borgonh�s, cal�ado e envolto no seu grande manto de montar, descer os �ltimos degraus, notando com c�lera que ele tinha a express�o de um homem que n�o dormira praticamente nada e que o seu passo parecia mais pesado... Aparentemente, aquela �nica noite que Selongey exigira fora em cheio e Beltrami sentiu em si um furor insano. Teve vontade de subir �quele quarto onde a sua bela Fiora jazia talvez ferida, ensanguentada, doente de desgosto, depois de ter servido de brinquedo durante horas � impiedosa lux�ria daquele homem, mas avistou L�onarde, que das sombras densas do andar superior descia lentamente e conteve-se � custa de um violento esfor�o. Apenas uma coisa era urgente: que aquele bruto desaparecesse para sempre no horizonte! � for�a de ternura, saberia fazer esquecer �quela crian�a o sofrimento por que tinha passado.</p><p>Com uma voz que se esfor�ava por manter firme, perguntou:</p><p>Dissestes-lhe adeus?</p><p>N�o... ela dorme e eu n�o quis acord�-la. Dizei-lhe v�s adeus por mim... Dizei-lhe...</p><p>O qu�? ralhou o negociante.</p><p>Philippe emitiu aquele seu sorriso engra�ado que lhe repuxava a boca s� para um lado e encolheu os ombros.</p><p>Nada! N�o saber�eis o que dizer...</p><p>De qualquer modo, n�o lhe diria nada! E farei tudo o que estiver ao meu alcance para que ela vos esque�a... o mais depressa poss�vel! V�s quisestes uma noite, tiveste-la. Agora, resta-vos cumprir a vossa promessa e deixardes-vos matar!</p><p>Eu prometi isso? perguntou Selongey com altivez.</p><p>Parece-me que sim! J� esquecestes as vossas palavras? Depois da n�doa que um casamento com a minha filha imp�e � vossa honra, n�o tendes outra solu��o sen�o lavar essa n�doa com o vosso sangue. Mudou alguma coisa?</p><p>Nada mudou! Como apresentar na corte de monsenhor Carlos uma esposa que � praticamente igual a uma m�e executada por incesto e adult�rio?... N�o, nada mudou, mas n�o imaginais at� que ponto o lamento!</p><p>Aparentemente, esta noite n�o foi suficientemente longa? perguntou Beltrami com um sorriso sarc�stico. Talvez imagineis que vos convido a regressar?</p><p>Philippe olhou por um momento em sil�ncio para aquele homem cujo sofrimento compreendia subitamente. Percebeu como aquelas bodas estranhas lhe tinham perturbado o esp�rito. Sem d�vida, o florentino acabara de descobrir que o seu amor paternal n�o era t�o paternal como isso e Philippe sentiu mais piedade do que irrita��o:</p><p>N�o receeis! N�o procurarei regressar, porque perderia a minha alma. Ficai a saber que vivi durante algumas horas toda a felicidade que poderia esperar. Nunca esquecerei esta noite... e espero que Fiora tamb�m n�o! E agora, adeus, messer Beltrami! Cuidai bem dela!</p><p>Cobrindo as m�os com as grandes luvas que levava � cintura, Philippe dirigiu-se para a porta, mas Beltrami deteve-o e, tirando do seu longo traje de veludo negro um rolo de pergaminho selado, estendeu-o ao jovem.</p><p>Um instante, senhor conde! Esqueceis-vos disto. N�o � este o pre�o dessa famosa n�doa que vos suja a honra?</p><p>Philippe empalideceu e esbo�ou um gesto de recusa. Hesitou:</p><p>Gostaria de vo-la poder atirar � cara, a vossa letra rugiu ele mas monsenhor Carlos precisa desse ouro. Mas ficai tranquilo! Esta soma ser-vos-� devolvida e com juros, quando a minha mulher, depois da minha morte, herdar os meus bens.</p><p>Raivosamente, o jovem arrancou o rolo das m�os de Beltrami, meteu-o dentro do gib�o e saiu a correr, perseguido pelo riso ir�nico do negociante. Atravessando uma pequena parte do jardim que o amanhecer tornava acinzentado, dirigiu-se para as instala��es dos criados, onde os seus homens o esperavam e onde Frames j� se encontrava.</p><p>De p� na zona sombria da escadaria onde a alterca��o dos dois homens a tinha gelado, L�onarde fez um r�pido sinal da cruz ao ouvir diminuir o som dos passos daquele estranho marido que tinham dado a Fiora. O que acabava de ouvir explicava muita coisa e percebeu os termos daquele contrato, pelo qual uma crian�a fora atirada para os bra�os de um homem que nunca vira antes. A velha dama desceu lentamente os �ltimos degraus e juntou-se a Beltrami, que, na soleira da porta, apontava um punho furioso para um jardim vazio.</p><p>Ele sabia, nesse caso? perguntou ela docemente. Francesco, que esquecera a sua presen�a, estremeceu e olhou para ela sem dizer nada. O seu bra�o caiu, sem for�a, ao longo do traje. Encolhendo os ombros, suspirou, por fim:</p><p>Se n�o soubesse, achais que lhe teria dado Fiora? Louren�o de M�dicis recusou-lhe o empr�stimo que ele veio pedir para o duque da Borgonha. A m�o da minha filha... e o seu dote foram o pre�o do seu sil�ncio! Um belo pre�o, como vedes!</p><p>Um homem com aquele nome e aquela qualidade, baixar-se a um neg�cio t�o vil? Mal consigo acreditar. Os Selongey sempre foram gente de car�cter rude, dif�ceis de conviver, mas de uma lealdade sem falha para com os seus duques e incapazes de uma baixeza. E porqu�? Por ouro? Eles nunca foram pobres e os seus privil�gios devem permanecer intactos...</p><p>� a sua �nica desculpa: ele n�o queria este ouro para ele. N�o o ouvistes? Mas agora, gra�as a Deus, foi-se embora e para sempre! Nunca mais o veremos!</p><p>Nunca mais? Ele tem inten��o, ent�o, de abandonar uma jovem esposa pela qual parece, no entanto, apaixonado...</p><p>N�o, mas tem inten��o de se deixar matar na guerra. Ele ama Fiora, ou, pelo menos, � o que ele diz e talvez seja verdade, mas acha que, ao casar com a filha de uma gente desonrada, feriu a grandeza do seu nome.</p><p>Casou com a filha de um dos maiores homens de Floren�a. N�o tem raz�o para se envergonhar, parece-me, por mais Selongey que seja? Ningu�m, aqui, ouviu falar, nunca, dos Br�vailles...</p><p>Sem d�vida, mas para ele a mancha � insuport�vel.</p><p>Como � que ele soube?</p><p>Palavra de honra que n�o sei. Diz que se sentiu surpreendido com a semelhan�a. Irm�o e irm�, os jovens Br�vailles eram muito parecidos. A filha de ambos � o retrato, tanto de um como do outro. E agora, pe�o-vos, <emphasis>dame </emphasis>L�onarde, n�o falemos mais desta personagem que eu desejo esquecer o mais depressa poss�vel.</p><p>Achais que conseguireis o mesmo por Fiora? Ela entregou-se a ele demasiado espontaneamente para que o seu cora��o ainda lhe perten�a e ela n�o � daquelas que amam duas vezes, era capaz de o jurar. Ela vai sofrer...</p><p>Agora n�o! Ainda n�o! Ela sabe que ele teve de partir para se juntar ao seu duque diante de Neuss. Vai esperar por ele. Ser� ent�o, quando souber da sua morte, que vai sofrer. S� desejo que a espera n�o seja muito longa: a dor ser�, talvez, mais violenta, mas mais breve...</p><p>Mas talvez venha a ser longa. Um cavaleiro n�o tem o direito de se entregar � morte, sob pena de perder a alma e, de certa maneira, a honra. � preciso que morra defendendo-se, que encontre quem seja mais forte do que ele. E a acreditar nas hist�rias do seu escudeiro, um tal advers�rio n�o � f�cil de encontrar... Conclu�stes um estranho neg�cio, <emphasis>ser </emphasis>Francesco! Talvez Deus se divirta a contrari�-lo...</p><p>Veremos. Por agora, alegremo-nos por a nossa Fiora n�o nos ter sido levada. Poderemos continuar a rode�-la, a proteg�-la.</p><p>Ela nunca usar� o nome do marido?</p><p>� evidente que sim. Desde que a conjuntura pol�tica o permita e sem ofender os M�dicis, declararemos o casamento.</p><p>E se o pudermos declarar ao mesmo tempo que a morte do marido, melhor, n�o � verdade? disse L�onarde com uma amargura que n�o conseguiu evitar. Acabava de compreender que, se Philippe n�o tivesse exigido a sua noite de n�pcias, Beltrami teria achado o incr�vel neg�cio a seu gosto e descobriu que o melhor dos homens podia abandonar-se a um ego�smo impiedoso. Francesco Beltrami devia ter sofrido um mart�rio naquela noite em que Fiora se entregara ao desejo de um homem, mas, agora, s� queria pensar na felicidade que representava poder ficar com a sua filha junto de si para sempre...</p><p>Bem, tudo acabou bem! suspirou ela. Mas chegou a hora de ir para o p� dela, para quando acordar. � poss�vel que ela n�o ache esta manh� t�o feliz como v�s...</p><p>L�onarde sentia grande dificuldade em dissimular a c�lera. Com quantas l�grimas iria a sua crian�a pagar uma felicidade que s� durara tr�s dias e uma noite? Beltrami n�o compreendia que ela nunca mais seria a mesma uma vez passada a soleira do amor f�sico? E se viesse um filho?</p><p>Espero que isso n�o aconte�a respondeu ela para si pr�pria. Se for m�e, Fiora nunca conseguir� esquecer este marido de poucas horas e o esquecimento � o melhor que lhe pode acontecer.</p><p>Mas n�o acreditava. Lentamente, sempre com as mesmas precau��es, regressou ao quarto onde a jovem continuava a dormir e puxou uma cadeira para o p� do leito, para ali aguardar o seu despertar. N�o queria que ela abrisse os olhos para um quarto vazio. E, com efeito, quando Fiora acordou, foi o rosto familiar de L�onarde que ela viu. Ofereceu-lhe um sorriso radioso:</p><p>Est�veis a�? J� � t�o tarde?</p><p>Quase meio-dia. Dormistes bem?</p><p>Mas Fiora j� procurava algu�m naquele leito subitamente t�o grande, mas que guardava ainda sinais de outro corpo:</p><p>Philippe!... Onde est� ele?</p><p>L�onarde saiu da cadeira e sentou-se perto da jovem.</p><p>Partiu disse ela t�o docemente quanto p�de, subitamente horrorizada ao ver os olhos de Fiora, uns instantes antes enublados, iluminarem-se rapidamente e arregalaram-se:</p><p>Partiu?... Mas n�o para...</p><p>Para se juntar a monsenhor o duque da Borgonha. Abandonou esta casa.</p><p>E v�s deixastes-me dormir?</p><p>Nunca Fiora olhara para a sua velha amiga com aqueles olhos, ardendo de c�lera.</p><p>Ele n�o quis que vos acordassem. Temia, creio, o momento sempre dif�cil da partida. Limitou-se a cortar, para levar com ele, uma mecha dos vossos cabelos...</p><p>Ele tinha mesmo de ir j�? N�o podia esperar mais algumas horas? Fomos t�o felizes juntos!... Mas talvez ainda n�o esteja longe...</p><p>Fiora saltou transtornada do leito e, sem mesmo pensar em cobrir-se com uma roupa qualquer, correu � janela, que abriu de par em par. O c�u estava cinzento e o vento varria a chuva fina que ca�a desde o meio da manh�, mas Fiora n�o quis saber:</p><p>Philippe! chamou ela em voz alta. Philippe! Regressa!</p><p>Beltrami, que dava um passeio pelo jardim para acabar de expulsar os vapores da sua noite maldita, ouviu os seus gritos, levantou a cabe�a e ficou confuso com o que viu: uma mulher nua, desgrenhada, gritando desesperada ao vento h�mido. Uma mulher que n�o era, n�o podia ser a sua filha. A voz quente e doce de Fiora n�o poderia emitir aquele clamor rouco de leoa chamando o seu macho...</p><p>Os gritos n�o cessavam, a imagem impudica e enlouquecida n�o se apagava. Ent�o, como um cego e com as duas m�os nos ouvidos para n�o ouvir mais, o infeliz enfiou-se atrav�s dos arbustos despidos pelo Inverno, at� ao abrigo prec�rio, mas surdo, de uma pequena gruta, onde, para um tanque, corria �gua de uma cabe�a de le�o. Ali, deitado na terra h�mida, Francesco Beltrami chorou as suas ilus�es perdidas. O estrangeiro s� pedira uma noite, mas essa noite fora suficiente para fazer de Fiora uma outra mulher, a mulher �dele�. E a crian�a de outros tempos nunca mais regressaria...</p></section><section><title><p>CAP�TULO V</p><p>HIERONYMA</p></title><p>Tu mudaste, Fiora... H� dias que te observo e de cada vez isso me parece mais evidente. Tinha que to dizer, hoje.</p><p>Fiora sorriu para a sua amiga. O rosto gentil de Chiara tinha, com efeito, uma ruga de preocupa��o, que lhe era pouco usual e que lhe dava uma certa gravidade.</p><p>Em que � que eu mudei assim tanto?</p><p>Ris-te menos do que antigamente e vejo que por vezes, quando estamos juntas, pareces pensar noutra coisa. N�o respondes �s perguntas que te fa�o, ou ent�o respondes por portas e travessas. Mas h� outra coisa mais grave...</p><p>Mais grave? O que �, meu Deus?</p><p>Antes de ontem, quando, perto do Baptist�rio, est�vamos a ouvir a hist�ria do contador de f�bulas, Giuliano de M�dicis, que estava de passagem com alguns amigos, veio cumprimentar-nos. Habitualmente, quando o vias ficavas vermelha como um tomate. Desta vez, mal olhaste para ele, o que o deixou vexado, creio.</p><p>Ora, e eu ralada. Para que precisa ele da aten��o e admira��o de todas as mulheres se as suas v�o exclusivamente para Simonetta? � s� presun��o, mais nada!</p><p>Que linguagem � essa? J� n�o o amas?</p><p>Eu amei-o alguma vez? Creio... que me agradava. Mas agora j� n�o... pelo menos j� n�o tanto.</p><p>Deixando a sua amiga especada de espanto, Fiora deu alguns passos na direc��o do murete de pedras baixas, de onde se via toda a cidade de Floren�a e para l�. As duas amigas, escoltadas pelas suas governantas e por Khatoun, tinham sa�do a cavalo para se dirigirem a San Miniato, como sempre que chegava a Primavera, para colher violetas e espinheiros-alvar, que cresciam em abund�ncia em redor da igreja de San Miniato al Monte e do pal�cio dos Bispos. As jovens diziam que elas eram ali mais belas, naquele local bendito, do que noutros locais e que, dali do alto, tinham a impress�o de que toda a cidade se abria como uma gigantesca flor. � luz nova da Primavera, Floren�a parecia acumular beleza como um avarento acumula o seu ouro: um pouco mais, se bem que j� haja muito...</p><p>Fiora teria preferido fazer aquele passeio tradicional com Philippe, contemplar com ele, para al�m da longa fita loura do Arno cheia de pontes que pareciam prestes a afundar-se sob a acumula��o de lojas, a confus�o de telhas vermelhas sobre o ocre-quente, o cinzento-suave ou o branco-leitoso das paredes. Era como que um tapete de rosas, de onde emergiam j�ias: o Duomo, uma bolha de coral pousada sobre uma manta de retalhos brilhante, uma flor-de-lis de prata jamais desabrochada por completo sobre o pal�cio dos Senhores, espirais de coralina cujas seteiras tinham o ar de borboletas e campan�rios que se pareciam com c�rios de P�scoa na alegria dos seus m�rmores pol�cronos. E depois, um pouco por toda a parte, a verdura nova dos jardins, onde desabrochavam as glic�nias e os lil�s, os loureiros e as cam�lias, porque em parte nenhuma, no mundo, a Primavera era mais bela do que em Floren�a... nem mais maravilhosa de admirar do que de m�o dada com o seu marido e regressar depois com ele ao cair da tarde e sob um Sol poente glorioso como o de Fiesole, prel�dio de uma noite de amor. Mas Philippe estava longe, a centenas de l�guas dos seus bra�os e Fiora nem sequer tinha a consola��o de saber onde ele estava exactamente.</p><p>H� j� dois meses que ele tinha deixado a <emphasis>villa </emphasis>Beltrami, dois meses que poderiam muito bem ser dois s�culos, porque Fiora nunca achara o tempo t�o vagaroso. Ap�s os tr�s dias que passara fechada no quarto sem consentir em sair, sem ver outra pessoa que n�o Khatoun, que lhe levava as refei��es e sem permitir que lhe mudassem sequer os len��is onde Philippe a amara, consentira, por fim, em sair quando L�onarde aparecera para lhe dizer que o seu pai se preparava para partir para Veneza. N�o podia deixar que ele se fosse embora sem o abra�ar.</p><p>Quando o reencontrou e viu virar-se para ela aquele rosto p�lido de olhos tristes como nunca tinha visto antes, teve vergonha de si pr�pria e da sua reclus�o ego�sta. Devia puni-lo s� porque a sua felicidade desaparecera? Ent�o, cedendo ao impulso da sua ternura filial, ca�ra-lhe nos bra�os e tinham ficado longos momentos abra�ados, chorando os dois l�grimas diferentes, mas que, ao fim e ao cabo, os uniam...</p><p>Ama-lo assim tanto? perguntara Francesco com a voz sem entoa��o. Ama-lo ao ponto de j� n�o me amares a mim?</p><p>N�o te amar? Oh, pai, espero que nunca tenhas acreditado em semelhante coisa? Ningu�m, nunca, te poder� substituir no meu cora��o. Ele � diferente... � meu marido. N�o � a mesma coisa. E pe�o-te perd�o por estes tr�s dias, mas eu n�o queria que me visses chorar...</p><p>Mas tu est�s a chorar neste momento, Fiora... e eu tamb�m. N�o achas que o desgosto se suporta melhor quando o partilhamos?</p><p>� por isso que partes? Para melhor o partilhar? Ou queres-me punir?</p><p>N�o. � porque Louren�o de M�dicis, tendo descoberto a minha amizade por Bernardo Bembo, me pediu para ir ter com ele por alguns dias. N�o me pe�as que te diga porqu�...</p><p>Teria sido incapaz. Aquela viagem, com efeito, n�o passava de um pretexto para se poder afastar por algum tempo de Fiora, para tentar voltar a ser ele pr�prio longe de um olhar que podia ser demasiado perspicaz. Tinha necessidade de colocar alguma dist�ncia entre ambos, para melhor se habituar �quela nova Fiora que entrevira � chuva numa manh� de dor: uma mulher ardente e apaixonada, que se entregara de corpo e alma a outro...</p><p>Por seu lado, a jovem acolhia com uma secreta satisfa��o aquela curta separa��o. Percebera que aquele casamento n�o era de todo agrad�vel ao seu pai e que n�o teria qualquer prazer em ouvi-la, a ela, cantar elogios, ao longo do dia, a um marido perfeito.</p><p>Beltrami partiu, portanto e Fiora, tendo regressado como desejava ao pal�cio nas margens do Arno, p�de dar-se � alegria de cantar o seu amor por Philippe, para benef�cio, apenas, dos ouvidos de L�onarde e Khatoun. Depois, acalmou-se. Ap�s o desgosto da partida e a alegria retrospectiva, Fiora entrou na espera do regresso que desejava pr�ximo, �u, pelo menos, de uma mensagem. Permaneceu longas horas no seu quarto, ou no jardim, escutando Khatoun que cantava para ela e contemplando o grosso anel de ouro batido com as armas dos Selongey, que Philippe lhe enfiara no dedo ao tom�-la como esposa. Era demasiado largo para o seu dedo delgado e como n�o era poss�vel mand�-lo estreitar por um joalheiro, ou sequer us�-lo em p�blico, a jovem metera-o num delgado e longo fio de ouro, que lhe permitia escond�-lo sob os vestidos. O anel pendia-lhe entre os seios e ela gostava, quando n�o lhe era poss�vel tir�-lo, apoiar-lhe a m�o em cima, para melhor sentir a sua presen�a.</p><p>Quando Francesco regressara da sua viagem, ela oferecera-lhe, para o seu beijo, uma fronte serena e a vida recome�ara, como no passado, na casa dos Beltrami. S�, L�onarde dera um grande suspiro de al�vio ao constatar que depois de mais de um m�s, a jovem n�o apresentava qualquer sinal de maternidade...</p><p>Chiara respeitou por um momento a medita��o da sua amiga. Ali�s, ela pr�pria precisava de p�r os seus pensamentos em ordem. Aproveitou para aumentar ainda mais um grande ramo de violetas que j� tinha nas m�os e depois, achando que o sil�ncio j� ia longo, lan�ou uma olhadela a L�onarde <emphasis>e </emphasis>a Colomba, que, sentadas � sombra de um pinheiro, conversavam sem parar, ao mesmo tempo que mantinham os dedos vagamente ocupados com um bordado. E meteu o bra�o no da sua amiga:</p><p>J� sonhaste o suficiente? perguntou ela alegremente. Contemplas a nossa bela cidade como se a visses pela �ltima vez.</p><p>Devias dizer, como se a visse pela primeira vez. J� viemos aqui muitas vezes por esta altura, mas este ano Floren�a tem um encanto diferente. At� as muralhas e as torres de vigia parecem participar da beleza geral. Gostaria...</p><p>De estar aqui com outra pessoa que n�o uma velha amiga! � exactamente o que eu penso: j� n�o est�s apaixonada por Giuliano porque est�s apaixonada por outro... por outro que est� longe! E aposto que � por <emphasis>messire </emphasis>Philippe de Selongey!</p><p>Inesperado, aquele nome, doravante o seu, atingiu Fiora t�o repentinamente que ela estremeceu e corou.</p><p>Fala mais baixo, por favor! Ou melhor: n�o fales de todo!</p><p>� assim t�o grave? murmurou Chiara elucidada. Desculpa-me! Pensava que era uma paixoneta passageira, como tantas outras que temos e que desaparecem com o vento, como a que tiveste por Giuliano. Sabes, ao menos, se voltas a v�-lo?</p><p>Creio que sim disse Fiora com um sorriso que se dirigia mais aos seus pr�prios pensamentos do que � amiga. E agora falemos de outra coisa! Ali�s, n�o s�o horas de voltarmos? J� temos flores suficientes para duas ou tr�s igrejas!</p><p>Elas costumavam, com efeito, oferecer todos os anos a sua recolha a Santa Maria del Fiore, acrescentando � sua oferenda perfumada um generoso donativo para as crian�as pobres, das quais se ocupavam os curas da catedral. Iam, portanto, juntar-se a Colomba e a L�onarde, que, por seu lado, j� juntavam as suas coisas, quando, subitamente, Fiora deteve a sua amiga.</p><p>Espera! disse ela com a voz oprimida...</p><p>Que � que se passa? Est�s doente?</p><p>N�o... n�o, mas tenho uma sensa��o bizarra... H� pouco, disseste que eu estava a olhar para a cidade como se a visse pela �ltima vez...</p><p>Sim... mas foi uma brincadeira. Disse aquilo porque tu tinhas uma express�o de avidez... como se quisesses absorver aquilo tudo com os olhos. E tu respondeste-me...</p><p>Eu sei... mas agora pergunto a mim pr�pria se n�o ter�s tido raz�o. Sinto qualquer coisa que me diz... que n�o regressarei a este local!</p><p>Que loucura! Continuas a pensar na profecia do m�dico grego?</p><p>N�o. Juro-te que n�o... nem sequer pensei nele... mas tive como que um pressentimento, como se Floren�a se me tornasse, subitamente, hostil... me rejeitasse, a mim, que a amo tanto!</p><p>Achas que ela te quer mal porque amas um estrangeiro, quando tantos dos seus filhos suspiram por ti? Expulsa essas ideias! Tens vivido demasiado retirada, estes �ltimos tempos. O que precisas � de uma bela festa, onde brilhes com todo o teu fogo e onde o grande M�dicis dance mais uma vez contigo! Ora ai est�! � isto, precisamente, o que te falta!</p><p>Com efeito, um grupo de jovens, conduzidos por Luca Tornabuoni em alegre cavalgada, desembocava no pequeno adro da igreja.</p><p>Tinha a certeza que vos encontraria aqui disse o jovem saltando para terra e tirando o chap�u. N�o � neste dia do ano que colheis flores para a Madona?</p><p>E v�s vindes ajudar-nos? perguntou Chiara, rindo-se.</p><p>A levar tudo isso? Certamente. E tamb�m para vos escoltar at� ao Duomo, para juntarmos as nossas ora��es �s vossas!</p><p>Eis-vos bem piedoso, ser Luca! disse L�onarde, que se juntara ao grupo. Cria-vos um disc�pulo fiel de Plat�o e eis que falais da Madona como se quis�sseis entrar para um convento.</p><p>Nunca desejei tal coisa e h� um tempo para Plat�o e um tempo para rezar. Parece-me acrescentou ele olhando ternamente para Fiora que se me ajoelhar aos Seus p�s na companhia de certa jovem ela ouvir� melhor as minhas preces...</p><p>Esperava uma risada da jovem, mas esta desviou os olhos, incomodada com a imagem que ele evocara e fez como se n�o tivesse ouvido. Pensando, ent�o, que fora demasiado arrojado, o jovem foi buscar o cavalo de Fiora e ajudou-a a subir para a sela:</p><p>Algo me diz que hoje n�o estou inspirado, Fiora murmurou ele procurando-lhe o olhar mas queria tanto que me autoriz�sseis a enviar o meu pai para falar com o vosso! Eu sei que ele vos acha ainda muito nova, mas se, pelo menos, n�s f�ssemos noivos... eu esperaria o tempo que v�s desej�sseis! O �nimo n�o nos falta, quando sabemos que podemos ter esperan�a!</p><p>Pela primeira vez ela olhou para ele com uma esp�cie de ternura. Ela, que s� podia viver de esperan�a, podia compreender o que sentia o jovem, mas n�o tinha o direito de lhe dar qualquer esperan�a.</p><p>N�o me faleis mais disso, Luca! Perdeis o vosso tempo e o vosso cora��o comigo. Eu n�o quero deixar o meu pai e...</p><p>... e n�o me amais! Como vedes, completo a vossa frase. Digo o que v�s n�o ousais dizer. Mas, se n�o me amais no momento, talvez me ameis mais tarde. V�s mesma o dissestes: ainda sois muito nova... N�o! N�o digais mais nada! Estamos na Primavera e o tempo est� lindo. Deixai-me continuar a sonhar!</p><p>O jovem regressou para o seu cavalo e o pequeno bando, carregado de grandes ramos e folhas perfumados desceu na direc��o da cidade, ao mesmo tempo que um dos rapazes cantava um romance em honra da Primavera. Todos cantaram o refr�o em coro e todos riram muito, mas Fiora n�o conseguiu afinar pelo mesmo diapas�o. � medida que avan�avam, a tristeza que se apoderara dela em San Mini�to acentuava-se, E juntava-se a ela uma impress�o de perigo iminente. Supersticiosa como todas as boas Florentinas, lembrou-se que Philippe estava na guerra, portanto em perp�tuo perigo, mas que corria um perigo talvez maior e o seu amor pressentia-o como uma premoni��o... Em breve, toda aquela alegria que a rodeava se lhe tornou insuport�vel e quando passaram a Ponte Vecchio, onde �quela hora do dia os talhos estavam fechados, pretextou um s�bito mal-estar e, sem mesmo permitir que Chiara a acompanhasse n�o era preciso que pelo menos uma das apanhadoras fosse levar as flores? tomou o caminho de casa com L�onarde e Khatoun. Tinha pressa de chegar, agora, sem poder dizer de onde lhe vinha a impaci�ncia. Mal respondeu � sauda��o alegre que lhe dirigiu Gian-Battista di Rinaldo, um barqueiro do rio que Beltrami tinha salvado da ru�na e de cujo filho ela era madrinha.</p><p>N�o lhe queirais mal gritou L�onarde, desejosa de apagar o que o bravo homem pudesse considerar como uma ofensa donna Fiora n�o est� bem e eu vou lev�-la para casa!</p><p>Que Deus a aben�oe e lhe devolva a sa�de. L� em casa rezaremos por ela, esta noite!</p><p>De qualquer maneira, umas ora��es n�o nos far�o mal resmungou L�onarde, devorando Fiora com os seus olhos inquietos. Que se passa, minha querida? Estais mesmo doente? Na verdade, estais muito p�lida...</p><p>Sim... n�o... n�o sei. Mas tenho de voltar para casa. Quero ver o meu pai!</p><p>Estais preocupada porque ele vos disse esta manh� que se sentia um pouco fatigado? Creio que exagerais...</p><p>Fiora n�o respondeu. De que serviria? Se dissesse que tinha o pressentimento de que uma infelicidade a esperava no pal�cio, L�onarde, com o seu s�lido bom senso, esfor�ar-se-ia por lhe demonstrar que estava enganada. Ali�s, estavam a chegar...</p><p>Dir-se-ia que o vosso pai tem visitantes! observou L�onarde apontando para uma mula elegantemente ajaezada de vermelho e duas outras mais modestas, que esperavam placidamente presas junto do apeadeiro de cavalos. Deus me perdoe! Creio que � a equipagem habitual da vossa prima Hieronyma. Que vem ela c� fazer? As suas visitas nunca trazem nada de bom acrescentou a governanta, que guardava na mem�ria as amea�as formuladas contra Fiora na loja do botic�rio Landucci.</p><p>Com efeito disse Fiora mas n�o tardaremos a saber. Saltando para terra por baixo da ab�bada do pal�cio, Fiora atirou as r�deas a um criado e atravessou rapidamente o p�tio interior, onde, com efeito, esperava a seguidora habitual de Hieronyma e um dos seus criados. A jovem subiu a escadaria a correr e quase deu um encontr�o em Rinaldo, que era o criado particular de Francesco Beltrami, depois de o ter sido do seu pai.</p><p>Onde est� o meu pai? perguntou ela.</p><p>Na sala do �rg�o, <emphasis>donna </emphasis>Fiora, mas n�o est� s�.</p><p>Eu sei com quem ele est�. Obrigada, Rinaldo!... disse a jovem um pouco surpreendida, porque a sala em quest�o, tal como o <emphasis>studiolo, </emphasis>era um dos locais privilegiados para onde o negociante gostava de se retirar. Aprendera em crian�a a tocar �rg�o e, de tempos a tempos, isolava-se naquela grande sala, que, com as suas paredes pintadas com frescos e o ch�o de m�rmore sem tapetes, tinha a resson�ncia de uma capela. Que recebesse nela uma prima de quem gostava pouco n�o era habitual, mas talvez tivesse sido surpreendido pela chegada inesperada da dama.</p><p>Quando se aproximou da porta, Fiora ouviu vozes e refreou o andamento. Se discutia com Hieronyma, talvez Beltrami n�o ficasse contente por ver chegar a filha... Ent�o, docemente, muito docemente, a jovem entreabriu a porta e a voz do seu pai, vibrante de c�lera, chegou at� ela facilmente:</p><p>Nunca, ouves, nunca darei a minha filha ao teu filho! Tenho muita pena daquele infeliz rapaz, que n�o � respons�vel pelo seu f�sico, mas n�o se pode pedir a uma mulher jovem e bela que passe a sua vida com um marido como ele.</p><p>Porque � coxo e disforme? Pelo menos, Piero � nobre e de nascimento puro. N�o � um bastardo!</p><p>Creio que nunca ningu�m pensou em reprovar a Fiora a sua bastardia e creio, tamb�m, que toda a gente sabe isso!</p><p>� verdade... mas nem toda a gente sabe tudo...</p><p>Seguiu-se um sil�ncio, no fundo do qual Fiora pensou ouvir a respira��o subitamente mais forte do seu pai. Sentiu vontade de entrar, mas foi incapaz, retida por uma for�a mais poderosa do que a sua vontade. A curiosidade, sem d�vida, � qual se misturava uma esp�cie de terror... Por fim, Beltrami suspirou e com a ligeira insol�ncia de um homem a quem importunam, continuou:</p><p>Esse tudo quer dizer o qu�?</p><p>� mesmo necess�rio que te explique? Empalideceste, Francesco, o que quer dizer que adivinhaste qual � o assunto de que te quero falar! N�o acreditas? Encolhes os ombros?... N�o te incomodes: eu vou falar claro. A tua preciosa Fiora, que tu educas como uma princesa, n�o � tua filha. Tu nunca tiveste nenhuma aventura com dama nenhuma fora das fronteiras deste pa�s. Ela � fruto de amores incestuosos e ad�lteros, filha de gente condenada � morte pela justi�a da Borgonha pelos seus crimes e tu apanhaste-a da lama...</p><p>Se a casa tivesse ca�do sobre Fiora o choque n�o teria sido maior. A jovem precisou, primeiro, de se agarrar a uma tape�aria e depois �s costas de uma cadeira vizinha, para n�o cair. A voz maldosa de Hieronyma ainda silvava nos seus ouvidos com toda a carga de �dio que destilava. A de Beltrami, entretanto, continuava fria:</p><p>E, naturalmente, tu tens provas do que afirmas?</p><p>Tenho melhor: uma testemunha... ocular. Algu�m que est� pronto a tudo dizer para me agradar.</p><p>Beltrami acabava de compreender. O seu esp�rito r�pido j� tinha feito a aproxima��o. Hieronyma vivia a maior parte do tempo em Montughi, na propriedade do seu sogro e, perto dessa mesma Montughi, Marino, em quem investira toda a sua confian�a, dirigia a sua propriedade agr�cola. Marino, que nunca admitira a adop��o da crian�a e a quem tivera de atar a l�ngua com um juramento prestado num altar e numerosos benef�cios. Ao mesmo tempo, lembrava-se de certos rumores, muito discretos para dizer a verdade e que ele repelira com desd�m, acerca da conduta daquela vi�va polpuda, que, privada do marido, procurava consola��o. Ainda era bela e capaz de seduzir um homem como o antigo chefe recoveiro...</p><p>Hieronyma tomou o seu sil�ncio por uma esp�cie de desalento e ironizou:</p><p>Vejo que compreendeste, meu belo primo. Agora j� sabes como sou generosa ao propor um casamento entre o meu filho e a tua bastarda, que, assim, poder� gozar a tua fortuna at� ao fim dos seus dias. A sorte dela � que, v� l� tu, o meu Piero est� apaixonado por ela e quere-a para mulher. E eu n�o quero que o meu filho se sinta infeliz. Ele esquecer� a sua desgra�a nos bra�os da tua bela feiticeira, que n�o ter� mais nada que fazer sen�o dar-lhe filhos bonitos...</p><p>E se eu recusar?</p><p>N�o recusar�s. Sabes muito bem que posso, j� amanh�, depositar uma queixa contra ti por teres mentido e achincalhado a Senhoria, ao fazeres de um dejecto da humanidade, que devia ter sido destru�do � nascen�a, uma florentina.</p><p>Incapaz de se conter por mais tempo, Francesco deixou-se levar pela c�lera:</p><p>E tu �s capaz de apresentar a tua testemunha? N�o te esque�as de uma coisa, Hieronyma. Correm rumores acerca de ti. Diz-se que n�o respeitas a tua viuvez, assim como a casa do teu sogro. Basta que Marino Betti confesse que � teu amante e poder�s saber quanto pesa a justi�a pessoal do velho Jacopo. Ele n�o brinca no cap�tulo da honra.</p><p>Mas talvez fique feliz por ver entrar para a fam�lia Pazzi uma fortuna da import�ncia da tua. Ele j� n�o � assim t�o rico e suporta-o mas. Creio que me ajudaria, pelo contr�rio, com todas as suas for�as... mas, claro est�, o casamento n�o se realizaria. N�o o admitiria. Simplesmente, depois da tua condena��o e priva��o dos teus bens, que me seriam entregues como tua herdeira natural, a tua Fiora seria entregue a Piero, para que ele se divertisse... ap�s o que nos desembara�ar�amos dela atirando-a para um bordel! Como v�s, tens todo o interesse em aceitar a minha proposta. Em seguida, prometo-te que formaremos uma fam�lia feliz... e sem hist�ria!</p><p>Sai daqui!... Fora da minha vista!</p><p>Decididamente, n�o �s razo�vel. Mas eu penso que uma longa noite de reflex�o te far� ver onde est� o teu interesse. Amanh�, por volta desta hora, virei buscar a resposta. Desejo-te uma boa noite.</p><p>Um arrepio de horror galvanizou Fiora e devolveu-lhe as for�as. Compreendendo que a mulher ia sair e n�o querendo ser surpreendida � escuta, escondeu-se por tr�s de uma tape�aria, reprimindo ao m�ximo os batimentos do seu cora��o. Um suor frio molhava-lhe a fronte e as costas, como se o abismo terr�vel do inferno acabasse de se abrir na sua frente. Afastando ligeiramente a pesada tape�aria, viu Hieronyma sair da sala do �rg�o, sem pressa. Segura da sua vit�ria, pavoneava-se com arrog�ncia, pousando sobre os m�veis e objectos preciosos, pelos quais passava, um olhar �vido de propriet�ria.</p><p>Pela primeira vez na sua jovem vida, Fiora sentiu vontade de matar, de destruir aquela mulher odiosa, percebendo por que raz�o a amea�ara em casa de Landucci. Saindo sem ru�do do seu esconderijo, pegou num pesado candelabro de bronze e avan�ou lentamente na direc��o de Hieronyma, que parara para admirar as pe�as de joalharia dispostas em cima de uma credencia, mas, como se tivesse adivinhado que um perigo se aproximava, a dama Pazzi saiu bruscamente da sala sem se virar, no momento exacto em que Beltrami entrava nela.</p><p>O negociante viu Fiora armada, prestes a lan�ar-se atr�s de Hieronyma e compreendeu o que ela queria fazer. Exclamou:</p><p>N�o Fiora! N�o fa�as isso!</p><p>� ela ou n�s, pai! Deixa-me faz�-lo!</p><p>Ent�o, ele correu para ela, arrancou-lhe o candelabro e depositou-o em cima de uma arca. Desesperada, Fiora viu que ele envelhecera dez anos e que havia l�grimas nos seus olhos. Ent�o, atirou-se-lhe ao pesco�o e apertou-o contra si, chorando ambos sobre o que a abomin�vel Hieronyma acabava de destruir, de sujar. Foi ali que L�onarde, que procurava Fiora, os encontrou.</p><p>Que se passou? perguntou ela. Acabo de me cruzar com <emphasis>donna </emphasis>Hieronyma e ela ordenou-me, chamando-me de velha alcoviteira, que come�asse a fazer as malas!</p><p>Estamos � beira da cat�strofe, minha pobre L�onarde disse Beltrami. Aquela mulher � amante de Marino. Ele disse-lhe tudo e est� pronto a testemunhar contra mim... a menos, evidentemente, que eu case Fiora com o filho dela!</p><p>Mas ela j� � casada, parece-me? � preciso dizer-lho.</p><p>Isso � a �ltima coisa a fazer. Resta-me uma t�nue esperan�a de salva��o, que � ir contar tudo a monsenhor Louren�o. Tem respeito e amizade por mim, ao passo que detesta os Pazzi. Evidentemente, o casamento torn�-lo-ia furioso, mas isso n�o lhe vou eu dizer...</p><p>Fiora, que se mantivera abra�ada a Beltrami, afastou-se dele e olhou-o com uns olhos plenos de ang�stia:</p><p>Pai!... � verdade que n�o sou tua filha? � verdade que nasci...</p><p>Ouviste tudo?</p><p>Tudo! Eu estava ali, perto da porta, que estava entreaberta. Oh, pai! Foi terr�vel e eu creio que agora ainda � pior! Eu, que me sentia t�o feliz por ser tua filha! E agora n�o sou nada... menos que nada! O mais pobre dos mendigos tem o direito de me desprezar, o...</p><p>Cala-te, Fiora! Por amor de Deus, cala-te! Enquanto n�o souberes tudo, n�o podes julgar. Quanto a mim, �s minha filha porque te quis e reconheci... e porque te amo! Vem, vem comigo! Vamos para o <emphasis>studiolo! </emphasis>� diante da imagem da tua m�e que te quero dizer a verdade. � uma hist�ria triste e dolorosa, que L�onarde conhece bem, mas que eu preciso de te contar. Vem, minha filha!</p><p>Rodeando os ombros de Fiora com o bra�o, Francesco levou-a docemente pela galeria at� � pequena sala �ntima e acolhedora, na qual reinava o sorriso de Marie de Br�vailles. L�onarde seguiu-os e mandou embora Khatoun, que esperava � porta com a ansiedade no rosto, porque havia l�grimas nos olhos de Fiora, e Fiora nunca chorava:</p><p>Espera por ela no quarto! Ela j� l� vai ter. Eu sigo-te daqui a pouco.</p><p>Eu preferia que vi�sseis connosco, L�onarde disse Beltrami. Duas mem�rias valem mais do que uma quando procuramos n�o esquecer nada...</p><p>Ent�o, juntos, entraram no <emphasis>studiolo. </emphasis>Francesco retirou o pano de veludo que cobria o retrato de Marie e foi sentar-se por tr�s da sua mesa, indicando uma cadeira a L�onarde. Fiora preferiu instalar-se numa almofada aos p�s do pai.</p><p>Vais precisar de coragem, minha querida, porque eu vou-te contar uma hist�ria terr�vel, mas, ao mesmo tempo, uma hist�ria maravilhosa e enternecedora, da qual o �dio de Hieronyma apenas reteve os tra�os mais horr�veis... Lembras-te daquele chapeuzinho de renda que te mostrei e que Sandro Botticelli reproduziu neste retrato? Tu reparaste numas manchas de sangue e eu n�o quis responder �s tuas perguntas.</p><p>Disseste que me responderias mais tarde, quando eu fosse mulher. Eu agora j� sou uma mulher.</p><p>Ainda n�o me habituei disse Francesco, acariciando-lhe os cabelos sedosos. Mas, nesse dia, menti-te. N�o tinha inten��o de te contar a verdade, fosse quando fosse, porque queria que ela desaparecesse comigo e com L�onarde. Entre os dois, essa verdade estava bem guardada. Foi preciso a trai��o de um homem que eu pensava ser fiel...</p><p>As gentes de Montughi e da regi�o murmuram que essa Hieronyma tem o fogo no rabo grunhiu L�onarde. N�s fal�mos disso, Jeanette e eu, mas o marido mandou-nos calar com medo do sogro. Talvez fosse bom inform�-lo sobre a conduta da nora?</p><p>Eu ameacei a minha prima, mas ela n�o teve medo. Ela sabe que, entre a sua m� conduta e a perspectiva de p�r a m�o nos meus bens, o velho pirata n�o hesitar�... deixa o castigo para mais tarde. Uma coisa em que ela, de qualquer maneira, devia pensar. Mas, para n�s, o mal est� feito.</p><p>Pai pediu Fiora deixemos essa mulher onde est�! V�s fizestes-me vir aqui para me contardes a hist�ria da minha m�e e tudo o que sei � que ela morreu tragicamente. Dizeis-me como?</p><p>No cadafalso, com o pesco�o cortado ao mesmo tempo que o teu verdadeiro pai. Chamavam-se Marie e Jean de Br�vailles...</p><p>Eu j� ouvi falar nesse nome...</p><p>Por favor, Fiora, n�o me interrompas mais. J� � suficientemente penoso reviver essas horas, em que tudo mudou para mim.</p><p>Em sinal de arrependimento, Fiora beijou a m�o do seu pai e depois guardou-a entre as suas, ao mesmo tempo que este, com os olhos postos no retrato, come�ava a sua hist�ria:</p><p>Durante as minhas noites sem sono, revejo muitas vezes os pormenores daquele dia de Dezembro, cinzento e frio, em que entrei na cidade de Dijon, que � a capital dos duques da Borgonha. Uma bela cidade, que eu conhecia bem e onde gostava de ficar...</p><p>Pouco a pouco, a voz do contador, a princ�pio um pouco sufocada, afirmou-se e recuperou a sua cor. Poeta como quase todos os florentinos, Francesco tinha o dom da palavra e o sentido da evoca��o. Diante dos olhos das duas mulheres que o escutavam tra�ou, com uma seguran�a espantosa, o quadro daquela pra�a coberta por uma multid�o silenciosa, enquanto o sino tocava a finados. Com uma dor que lhe fazia vibrar a voz, evocou o casal de jovens condenados, t�o belos, t�o radiosos na miser�vel carro�a do carrasco que pareciam �marchar para o seu triunfo�, a silhueta aflita do velho padre, a do carrasco, sinistra, a emo��o dos assistentes e a desordem da sua alma face � morte daquela jovem delicada. Falou de Regnault du Hamel, cujo nome encheu, ao passar, a sua boca de amargura com o seu �dio e crueldade impiedosa. Repetiu o relato de Antoine Charruet com uma emo��o que lhe fez tremer a voz, ao evocar o calv�rio suportado por Marie na casa do seu marido e os esfor�os desesperados da sua m�e para obter uma gra�a que lhe foi, por duas vezes, impiedosamente recusada. Por fim, disse como salvara o beb� da morte, como decidira fazer dele sua filha e como L�onarde, espontaneamente, se oferecera para velar pela pequenita privada de m�e.</p><p>Quando ele acabou, L�onarde chorava, mas os olhos de Fiora brilhavam de c�lera e indigna��o:</p><p>Toda aquela gente merecia mais a morte do que... os meus pobres pais! Esse du Hamel primeiro, que n�o passava de um miser�vel e depois esse pai, que n�o quis defender os seus filhos. Por fim esse duque Filipe e esse conde de Charolais, que n�o souberam ter piedade, que quiseram que a execu��o fosse p�blica e aquela fossa ign�bil, que vergonha!</p><p>O duque Filipe morreu, Fiora. Quanto ao conde de Charolais, � agora o duque Carlos, <emphasis>o Temer�rio, </emphasis>a quem <emphasis>messire de </emphasis>Selongey votou uma fidelidade absoluta...</p><p>A recorda��o do nome do seu marido trouxe Fiora de volta ao presente.</p><p>Philippe!... Foi ele que me falou de Jean de Br�vailles! Conheceu-o, quando ele pr�prio era pajem do conde de Charolais e a sua parecen�a comigo admirou-o... Ele... tamb�m sabia?</p><p>Sabia... Foi exactamente por ele saber tudo que aceitei que casasses com ele.</p><p>Fiora levantou-se t�o bruscamente que desequilibrou a mesa, de onde ca�ram alguns pap�is:</p><p>N�o me digas que ele empregou os mesmos meios que essa horr�vel Hieronyma para obter a minha m�o, essa chantagem indigna?</p><p>Beltrami procurou com os olhos a ajuda de L�onarde. Depois de tudo o que acabava de contar a Fiora, poderia ainda vibrar-lhe aquela verdade? Era ainda muito nova para a suportar... Mas L�onarde, que secara os olhos, levantou-se tamb�m e colocou-se por tr�s da jovem, como se temesse v�-la desfalecer com o choque.</p><p>� preciso dizer-lhe toda a verdade, <emphasis>ser </emphasis>Francesco. Ela � de boa t�mpera. S�o coisas que ela n�o deve descobrir por si pr�pria. Seria ainda mais duro.</p><p>Tendes raz�o suspirou Beltrami. Vou-lhe contar tudo; � verdade, Fiora, <emphasis>messire </emphasis>de Selongey empregou esse meio. Ele queria-te a qualquer pre�o e disse-me que estava pronto a qualquer ac��o, fosse ela vil, para te conseguir. A parecen�a admirou-o, � verdade, mas, sobretudo, d�-se com os Br�vailles e conseguiu descobrir, n�o sei como, o que se passou naquele dia infeliz. Sabia que a filha de Marie vivia em Floren�a com um rico mercador que fizera dela sua filha. Quando te viu, percebeu logo quem tu eras e s� te falou no jovem escudeiro para ver o que sabias...</p><p>De tudo aquilo, Fiora s� reteve uma coisa: Philippe era capaz, por ela, de ir at� ao crime! Uma felicidade infinita apoderou-se dela.</p><p>Nesse caso, ele ama-me at� esse ponto! Oh! Philippe! Outra qualquer reprovar-te-ia por teres empregado um tal meio, mas eu agrade�o-te, porque me permitiu ser tua, tua mulher, at� que a morte nos separe.</p><p>Beltrami, subitamente, n�o foi capaz de suportar aquele olhar extasiado, aquela paix�o que vibrava na voz da sua filha. O ci�me levou-o mais longe do que queria.</p><p>Nunca mais o ver�s, Fiora! Nunca, como tu pensas, ele te vir� buscar para te levar para o seu castelo e para a corte do seu senhor! S� queria de ti uma noite, uma s�, para saciar o ardor que lhe inspiravas <emphasis>e </emphasis>tu ter�s de passar a tua vida aqui, junto de mim!</p><p>Tal como uma nuvem esconde o Sol, o rosto de Fiora perdeu toda a luz. A jovem vacilou sob o golpe. Pensando que ela ia cair, L�onarde quis segur�-la nos bra�os, mas Fiora repeliu-a docemente.</p><p>Ainda n�o sei tudo, pois n�o? O not�rio, a b�n��o no convento, tudo isso n�o passou de uma com�dia, de uma ast�cia.</p><p>N�o. Tu �s verdadeiramente a condessa de Selongey e nada pode mudar esse estado de coisas... salvo a morte! O teu marido n�o voltar�, porque vai procur�-la sob as armas do duque da Borgonha.</p><p>Ele quer morrer? Mas, porqu�?</p><p>Desta vez, Beltrami hesitou. O que tinha ainda para dizer era terr�vel... mas Fiora mantinha-o sob o seu olhar, de uma dureza mineral. A jovem repetiu, quase gritando:</p><p>Eu quero saber porqu�!</p><p>N�o ousando mais suportar aquele olhar terr�vel, Beltrami virou a cabe�a para o retrato, como que pedindo socorro. A voz n�tida de L�onarde chegou-lhe como num sonho:</p><p>� preciso ir at� ao fim, ser Francesco! � preciso tirar o abcesso. A ferida sarar� mais depressa.</p><p>Ent�o, sem olhar para Fiora, Beltrami deixou sair a verdade:</p><p>Ele quer punir-se a si pr�prio por ter manchado o seu nome ao casar com a filha de Jean e Marie de Br�vailles...</p><p>Por que raz�o o fez, nesse caso? Eu apaixonei-me perdidamente por ele. Creio, Deus me perdoe, que me poderia ter tido sem essa com�dia!</p><p>Mas n�o poderia ter tido o teu dote! E ele precisa dele para financiar a guerra do seu senhor, ao qual Louren�o tinha recusado emprestar dinheiro... Evidentemente que serei reembolsado com os seus bens quando fores vi�va. Ter�s, ent�o, direito de usar o seu nome... mas n�o de ir viver para o seu castelo.</p><p>E se eu tivesse um filho?</p><p>Dev�amos educ�-lo at� que tivesse idade para servir. Ent�o, deixar-nos-ia para ir para a Borgonha, receber a sua heran�a e aprender O seu mister de cavaleiro...</p><p>Na condi��o de ser rapaz! E se fosse uma rapariga? Que far�amos? Atir�vamo-la ao rio, sem d�vida?</p><p>E Fiora, girando nos calcanhares, saiu a correr do <emphasis>studiolo </emphasis>para se ir refugiar no seu quarto. Ouviram a porta deste bater mal ela entrou.</p><p>Deixemo-la! suspirou L�onarde. Ela vai, sem d�vida, chorar e, nesse caso, a do�ura de Khatoun ser� melhor b�lsamo do que todas as minhas argumenta��es. Mas � preciso falar de novo de Hieronyma. Que contais fazer, <emphasis>ser </emphasis>Francesco?</p><p>Tendes raz�o. � preciso tentar esquecer o passado e pensar no futuro. Creio que n�o dormireis muito esta noite, <emphasis>donna </emphasis>L�onarde, porque ides preparar as bagagens de Fiora e as vossas. Isto para que elas possam ser levadas rapidamente... N�o me interrompais! Partireis com Fiora e Khatoun sob a guarda de dois criados: Ja�opo, o filho do meu velho Rinaldo e o seu primo Tommaso, anunciando, entretanto, que ides rezar ao convento de Vallombrosa, mas depois de passardes as portas, fareis um ligeiro desvio para Livorno, onde tomareis lugar a bordo do <emphasis>Santa Maria del Fiore. </emphasis>Entregar-vos-ei uma carta para o capit�o. E ali esperareis not�cias minhas. Levai pouca coisa, como conv�m a damas que s� partem por um dia. Far-vos-ei chegar o resto...</p><p>Partimos cedo?</p><p>N�o. Esperareis o meu regresso at� ao meio-dia. Amanh� de manh� vou ao pal�cio da via Larga, onde vou falar com Louren�o de M�d�cis e, salvo o casamento de Fiora, vou contar-lhe tudo. Ele � o senhor, no fim de contas e aqui todos lhe obedecem. Al�m disso, ele gosta de hist�rias de amor. Talvez a minha o enterne�a...</p><p>Nesse caso, por que enviar-nos para Livorno?</p><p>Porque n�o estou certo da sua ajuda. Ele � um homem imprevis�vel. Pode ser a bondade em pessoa, mas tamb�m pode ser de uma crueldade extrema. Tem vistas largas porque � um grande pol�tico, mas n�o sabemos como acolher� um pedido... ou uma confiss�o. Depende, muitas vezes, do lugar que o assunto possa ter no mosaico minucioso da sua pol�tica. Talvez n�o chegueis a partir e talvez preciseis de abandonar a cidade � pressa. Pe�o-vos apenas que estejais pronta.</p><p>Assim faremos, n�o receeis.</p><p>Muito bem. Depois do jantar, pedir-vos-ei para virdes aqui, a fim de regularizar convosco certos assuntos que tenho em mente. Temos de prever o caso de... eu n�o voltar a ver Fiora. O seu caso � dos que n�o pode atrair o an�tema da Igreja.</p><p>Pensava que a Igreja n�o incomodava muito ao senhor Louren�o? perguntou L�onarde, sarc�stica. Apenas os fil�sofos, os poetas e os deuses gregos t�m direito � sua venera��o...</p><p>... mas acontece-lhe retirar-se muitas vezes para uma das celas</p><p>de San Marco. � verdade que sempre suspeitei que ele ia l� para poder contemplar � vontade as pinturas divinas de Ang�lico, porque pede sempre uma cela diferente. Mas o facto � que ele vai l�, que demonstra um respeito humilde pelo prior e que tem com o bispo as melhores rela��es. Devemos desconfiar...</p><p>Depois do jantar, que comeu na companhia de L�onarde, Francesco Beltrami fechou-se com ela no <emphasis>studiolo, </emphasis>onde a vela ardeu durante uma grande parte da noite. Antes da partida dif�cil que ia jogar, o homem mais rico de Floren�a depois dos M�dicis punha os seus neg�cios em ordem com aquela solteirona encontrada um dia por sorte, mas que era a �nica pessoa do mundo, talvez, em quem ele depositava inteira confian�a, para al�m da sua filha.</p><p>Enquanto isso, estendida no seu leito e com os seus grandes olhos abertos, Fiora, que n�o derramara uma l�grima, reflectia. Sob o golpe das revela��es do seu pai vira desenrolar-se a sua inf�ncia, as suas convic��es, os seus sonhos e as suas esperan�as. Acreditava ter nascido de um dos homens mais ricos da Europa e n�o passava do fruto de amores malditos, acreditara no amor de um homem e esse homem, afinal, s� queria o seu corpo e o seu dote, estava casada e, no entanto, n�o tinha o direito de usar o nome de casada, porque aquele que lho tinha dado a desprezava, ao ponto de preferir a morte � vida a seu lado. Achava-se um cavaleiro sem medo e sem mancha, usava ao pesco�o o Tos�o de ouro que muitos pr�ncipes invejavam e, no entanto, abusara impiedosamente do seu cora��o, da sua inoc�ncia e da sua confian�a. Partira sem sequer um �ltimo beijo, sabendo que n�o regressaria e que aquela esposa de uma noite o esperaria indefinidamente, at� j� n�o ter mais l�grimas e os cabelos embranquecerem. Acordara nela a paix�o e o gosto pelo amor, mas s� lhe consentira uma noite em troca de uma quantidade enorme de ouro, que foi entregar ao seu senhor bem-amado. O mesmo senhor que n�o tivera piedade do seu jovem escudeiro e o deixara morrer miseravelmente em cima de umas miser�veis pranchas pintadas de negro, maldito � face do c�u e na comPanhia daquela irm� demasiado encantadora, que ele amava mais do que tudo no mundo...</p><p>� medida que as horas daquela noite de desespero se iam passando, Fiora fazia a lenta e amarga aprendizagem do �dio. Cansada de tentar em v�o arrancar-lhe uma palavra, Khatoun acabara por adormecer enroscada aos p�s da grande cama com o ala�de in�til entre os bra�os. Parecia t�o pequena, t�o fr�gil e perdida que Fiora, comovida, levantou-se para lhe estender por cima um cobertor. A jovem estava decidida a guardar a ternura do seu cora��o para os fracos e os que eventualmente precisassem dela.</p><p>Era mais ou menos uma hora da manh� quando L�onarde entrou no seu quarto na ponta dos p�s, pensando encontr�-la a dormir, esgotada pelas l�grimas derramadas. Ficou sobressaltada ao descobrir, � luz amarela da vela, Fiora de p�, junto da cama, como uma apari��o branca...</p><p>N�o dormis? perguntou ela sem pensar no que dizia.</p><p>Parece-me que � evidente...</p><p>Nesse caso, ides ajudar-me. E Khatoun...</p><p>Deixai-a dormir! Ela chorou muito, esta noite...</p><p>Mais do que v�s, Fiora? No entanto...</p><p>Eu n�o consigo chorar. Penso, no entanto, que gostaria, que me faria bem, mas n�o consigo. Parece-me que o meu cora��o secou de repente disse ela com uma voz queixosa. Talvez porque j� n�o sei por quem ou por que chorar: se pelos meus pais t�o vilmente assassinados, se pelo meu pai que est� agora em perigo, se por mim mesma, que...</p><p>... que estais em tanto perigo como ele! Filosofaremos sobre o valor e o interesse das l�grimas numa outra ocasi�o qualquer. Por esta noite, temos mais que fazer...</p><p>A governanta foi de novo at� � porta e regressou, puxando atr�s de si uma arca de viagem em couro, com pregos, que colocou no meio do quarto, antes de ir buscar outra, depois uma terceira e por fim uma quarta bastante mais pequena, que se podia levar com facilidade presa no ar��o de uma sela...</p><p>Que pretendeis fazer? perguntou Fiora.</p><p>As vossas malas. Amanh� ao meio-d�a partimos para Livorno, onde esperaremos not�cias do vosso pai...</p><p>Enquanto dobrava e metia nas arcas os vestidos, os mantos, a roupa branca e os sapatos de Fiora, L�onarde dava parte � jovem das decis�es de Beltrami: era preciso que a sua filha estivesse longe de Floren�a no momento em que Hieronyma fizesse a sua den�ncia. Fiora esfor�ava-se por ajud�-la, mas n�o estava verdadeiramente em si e L�onarde acabou por lhe arrancar o vestido que ela segurava, dobrando-o ela pr�pria e metendo-o numa das arcas.</p><p>Deixai que eu fa�o! Despacho-me mais depressa sem v�s!</p><p>Mas se o meu pai n�o se juntar a n�s em Livorno, que fazemos?</p><p>O capit�o do <emphasis>Santa Maria del Fiore </emphasis>ter� as suas ordens. Se ao fim de quarenta e oito horas <emphasis>messer </emphasis>Francesco n�o estiver ao p� de n�s, dever� levantar ferro para nos levar para Fran�a. Ser� uma longa viagem, porque iremos por mar e por rio at� Paris, onde nos alojaremos em casa do irm�o-de-leite do vosso pai, Agnolo Nardi, que tem l� uma sucursal da casa do vosso pai. E depois, veremos... mas, por agora, despachemo-nos...</p><p>� in�til. Eu n�o quero deixar o meu pai. Ou partimos com ele, ou n�o partimos de todo.</p><p>L�onarde, que acabava de atar as correias de uma arca, endireitou-se e, de m�os nas ancas doridas, perguntou:</p><p>V�s amais o vosso pai?</p><p>Que pergunta! Naturalmente que sim!</p><p>Nesse caso, obedecei-lhe sem procurar armar em hero�na! Se ele decidiu assim, � porque pensa que � a melhor coisa a fazer. N�o achais que ele j� se sente suficientemente infeliz com aquele dem�nio feminino que lhe pretende morder a carne? Pensais que ele n�o tem medo?</p><p>Eu n�o quero agravar-lhe as preocupa��es, mas n�o far�amos melhor se fug�ssemos todos juntos? Pod�amos ter partido ontem � noite...</p><p>Fugir � confessar que se tem culpa, ou, pelo menos, confessar que se tem medo. Talvez n�o cheguemos a partir para Fran�a. Depende de M�dicis! Imaginai que, para evitar o esc�ndalo, ele decide casar-vos com o vosso primo Piero? Se assim for, o vosso pai poder� dizer que v�s fugistes e que ignora para onde. Mas se vos sentis tentada pelo vosso primo Piero...</p><p>Como ousais falar-me assim? Eu sou casada e v�s sabei-lo bem.</p><p>Sobretudo, sei que um casamento, ainda por cima secreto, pode ser anulado. � tudo uma quest�o de dinheiro. E diz-se que o papa Sisto Iv gosta mais de dinheiro do que conv�m a um soberano pont�fice. Compreendestes?</p><p>Sim. Acabemos isto e tentemos, depois, descansar um pouco. V�s estais muito p�lida, L�onarde!</p><p>Se quereis saber a verdade, estou morta de fadiga. E ficarei contente por me deitar durante uma hora ou duas. Sobretudo se amanh� for preciso passar metade do dia a cavalo.</p><p>As malas estavam prontas. S� tinham deixado de fora as roupas para o dia seguinte. O que era necess�rio para a viagem ia na mala pequena. As outras foram arrastadas para uma arrecada��o a seguir ao quarto de Fiora. Antes de se retirar, L�onarde segurou na jovem pelos ombros para a beijar, mas n�o a largou de imediato:</p><p>O que � que vos custou mais, Fiora? perguntou ela muito s�ria. A revela��o da vossa origem... ou a conduta do vosso marido?</p><p>N�o tem compara��o. Eu amava a minha m�e sem a conhecer e creio que ainda a amo mais por tudo o que sofreu. Quanto a Philippe de Selongey... oh! s� queria v�-lo morto!</p><p>No entanto, chorareis no dia em que souberdes que ele morreu. Acreditais em mim se vos disser que ele vos ama mais do que pensava, que foi apanhado na pr�pria armadilha?</p><p>Eu sempre acreditei em v�s... mas desta vez preciso de uma prova evidente! E, mesmo assim, n�o sei se lhe perdoarei... Ide dormir!</p><p>L�onarde dispunha-se a sair quando Fiora a deteve:</p><p>Um instante, por favor!</p><p>Com dedos que n�o tremiam, tirou o fio que trazia ao pesco�o, sob a camisa, abriu-o, tirou o anel de ouro que Philippe lhe tinha dado e estendeu-o � velha solteirona:</p><p>Tomai! Fazei dele o que quiserdes! J� n�o o quero usar... L�onarde olhou-a no fundo dos olhos e leu neles, sem d�vida, uma vontade absoluta, porque pegou no anel sem dizer nada e saiu.</p><p>Depois de ficar s�, Fiora voltou a deitar-se, mas n�o conseguiu conciliar o sono a despeito do cansa�o. A ang�stia que se apoderara dela em San Miniato regressou depois de L�onarde sair, t�o dolorosa, que Fiora precisou de lutar para n�o correr atr�s da velha solteirona para lhe pedir que a deixasse dormir com ela, como quando era crian�a. O seu orgulho impediu-a. Ali�s, para sua pr�pria surpresa: seria poss�vel que ainda tivesse uma on�a de amor-pr�prio depois de tudo o que tinha ouvido naquela noite?</p><p>A jovem levantou-se, foi beber um pouco de �gua com mel, aproximou-se da janela para olhar para a noite que se estendia sobre a cidade, constelada como um manto real, escutou por um momento os sons familiares, os passos da mil�cia raspando o pavimento, o chapinhar de um remo no rio, o grito de uma gaivota, o sino de um convento tocando as matinas. O pensamento de que a partir do dia seguinte talvez nunca mais os ouvisse foi-lhe penoso: descobriu que estava amarrada �quelas coisas simples. A menos que Louren�o se mostrasse magn�nimo e agisse como verdadeiro amigo, o que ela n�o deixava de duvidar, dormiria no dia seguinte num albergue qualquer e, no outro dia a bordo do <emphasis>Santa Maria delFiore, </emphasis>o navio que a trouxera de Fran�a com a sua ama-de-leite e L�onarde e que em breve a conduziria para um destino desconhecido que a assustava um pouco, mas apenas porque temia afront�lo sem o bra�o tranquilizador do seu pai. Se Francesco fosse ter com ela, tudo seria mais f�cil...</p><p>Bruscamente, a recorda��o da profecia de Dem�trios atravessou-lhe o esp�rito. O m�dico dissera que ela estaria longe de Floren�a e que n�o seria feliz quando a morte levasse Simonetta, o que, para ela, era de uma evid�ncia cega. Ela ia partir, talvez para sempre e o seu pai n�o estaria com ela, porque deixara de ser feliz...</p><p>N�o partirei! decidiu ela em voz alta L�onarde que diga o que quiser: ficarei com o meu pai. Aconte�a o que acontecer! O desastre n�o pode ser maior do que j� �...</p><p>Decidida, voltou para o leito onde Khatoun continuava a dormir sempre protegida pela sua bem-aventurada inoc�ncia, fechou os olhos... e caiu imediatamente no sono.</p><p>Quando acordou j� era tarde e injuriou Khatoun por t�-la deixado dormir at� meio da manh�:</p><p><emphasis>Donna </emphasis>L�onarde � que mandou! queixou-se a pequena. Mas Fiora n�o a ouviu. Prometera a si pr�pria, durante a noite, ter uma conversa com o seu pai antes de ele partir para o pal�cio M�d�cis e, esperando que ainda n�o fosse tarde, lan�ou-se para fora do quarto. Rinaldo, que ela encontrou na galeria carregado com v�rios trajes para limpar, disse-lhe que Francesco partira h� mais de uma hora... Ent�o, p�s-se � procura de L�onarde, mas esta estava na cozinha e Fiora estava proibida de l� ir, salvo quando na companhia da governanta quando esta lhe ensinava os deveres de uma boa dona de casa e os segredos de administra��o de uma grande casa. Por outro lado, n�o tivera tempo de enfiar sobre a camisa outra coisa sen�o um ligeiro vestido interior e estava descal�a.</p><p>Pensando que n�o podia fazer mais nada, regressou ao quarto para se arranjar. Uma vez vestida teria mais dignidade para fazer valer a sua decis�o, que era esperar, acontecesse o que acontecesse, o regresso de Beltrami... Lamentava n�o ter podido falar-lhe antes de sair, mas Fiora decidida a n�o partir sem ver primeiro o seu pai, pensou que ainda n�o era tarde...</p><p>Compreendeu que se enganara e que j� era muito tarde quando alguns minutos mais tarde, um bando aos berros e gesticulando trouxe o corpo de Francesco Beltrami para o pal�cio. Quando trocava algumas palavras com um cliente na confus�o do Mercado Novo, uma m�o desconhecida espetou-lhe um punhal nas costas.</p></section><section><title><p>CAP�TULO VI</p><p>REQUIEM POR UM HOMEM DE BEM</p></title><p>Os homens que transportavam o corpo de Francesco Beltrami depositaram-no sobre o seu leito, ao mesmo tempo que os criados faziam recuar, com grande dificuldade, a multid�o vol�vel e excitada que lhe servira de escolta. O pal�cio ressoava com lamenta��o barulhenta e amea�as de morte, ali�s sinceras, porque o rico negociante era respeitado pela sua riqueza e amado pela sua caridade. L�onarde, que nunca perdia o sangue-frio, agradeceu do alto da escadaria, fez apelo �s ora��es de toda aquela boa gente e, finalmente, ordenou que lhes servissem bom vinho, para os reconfortar na profunda dor de que davam demonstra��o. Mandou tamb�m distribuir algumas moedas pelos mendigos que ali se encontravam e todos se retiraram louvando a generosidade das damas da casa Beltrami, lamentando a perda cruel que as atingira.</p><p>Ap�s o que a governanta regressou rapidamente para junto de Fiora que, ajoelhada junto do leito, solu�ava perdidamente, o rosto enfiado na colcha de veludo sobre a qual repousava o seu pai. Mas a jovem n�o era a �nica dentro do quarto e, ao penetrar nele, L�onarde viu que estava l� um homem, alto e magro, metido num grande traje de veludo negro, de mangas pendentes e cujo colarinho alto estava fechado por um alfinete de ouro. Um barrete a condizer cobria-lhe os cabelos grisalhos, que se juntavam a uma barba curta. Com os bra�os cruzados no peito, olhava para Fiora sem dizer nada, respeitando a sua dor, mas, ao ouvir o barulho que L�onarde fez ao entrar, virou-se para ela.</p><p>Fiquei porque tenho coisas a dizer disse ele respondendo em franc�s � muda interroga��o da velha solteirona, o que n�o deixou de a surpreender. Assisti ao crime...</p><p>E n�o detivestes o criminoso? Era, parece-me, a primeira coisa a fazer?</p><p>N�o. A primeira coisa a fazer era assegurar-me de que <emphasis>messer </emphasis>Beltrami j� estava para l� de qualquer socorro humano. Eu sou m�dico e esta jovem conhece-me acrescentou Dem�trios, apontando com o queixo para Fiora. O assassino devia seguir a sua v�tima. Aproveitou-se de uma violenta disputa entre dois mercadores de galinhas e duas peixeiras, que degenerou em pancadaria e criou um ajuntamento. N�o o vi dar a facada, mas vi subitamente um punhal no dorso do vosso patr�o, que, ali�s, nem sequer gritou. Quanto ao assassino, desapareceu na multid�o, talvez por entre as pernas das pessoas e as bancas, algumas das quais estavam de pernas para o ar. Mas hei-de encontr�-lo... gra�as a isto!</p><p>Da sua manga o grego tirou uma l�mina grande, de ponta afiada, uma faca com um punho de corno polido, sem qualquer marca distintiva, para a qual L�onarde olhou com desgosto.</p><p>Tirei esta arma do ferimento e pe�o-vos autoriza��o para a guardar. N�o penso que a sua contempla��o seja agrad�vel a <emphasis>donna </emphasis>Fiora...</p><p>Eu tamb�m n�o, mas, por que quereis guard�-la? O magistrado municipal h�-de aparecer aqui. N�o � a ele que a deveis entregar?</p><p>Ele n�o saberia o que fazer dela, ao passo que eu sou capaz de a fazer falar. A arma de um assassino pode ser mais faladora do que imaginais.</p><p>Nesse caso, ficai com ela! Se conseguirdes fazer com que apanhem o miser�vel, todos aqui vos aben�oar�o...</p><p>Sem responder, o m�dico envolveu de novo a faca no seu len�o e meteu-a na manga. Em seguida, aproximou-se de Fiora, demasiado mergulhada na sua dor para se ter apercebido da sua presen�a. Inclinou-se e pousou-lhe no ombro uma m�o firme, sob a press�o da qual a jovem se endireitou. Esta virou para ele um rosto devastado pelas l�grimas e uns olhos que n�o viam nada:</p><p>Que me queres?... N�o posso chorar em paz?</p><p>Preciso de te falar disse Dem�trios, empregando o toscano visto que ela tinha falado nessa l�ngua. Recorda-te! Eu disse-te que, se precisasses de ajuda, poderias chamar-me...</p><p>Recordo-me. O m�dico grego! Dizem que �s s�bio, mas n�o podes ressuscitar o meu pai e nada mais me interessa.</p><p>Eu n�o sou Deus, com efeito, mas tenho mais poderes do que pensas. E venho dizer-te que n�o tens tempo para l�grimas. Tens de fugir e o mais depressa poss�vel, porque �s amea�ada por um grande perigo, perigo esse que vem de uma mulher...</p><p>Fiora levantou-se para lhe fazer face:</p><p>Se sabes isso, deves poder impedir essa mulher de me fazer mal! Ela acaba de o fazer, ali�s! Tenho a certeza que foi ela que contratou o assassino...</p><p>Eu n�o posso impedir o que j� est� em marcha. Por outro lado, sou estrangeiro nesta cidade, da qual conhe�o, no entanto, a versatilidade. Amanh� poder�s ter tantos inimigos como hoje tens amigos. Portanto, afasta-te! Nem que seja para dares a ti pr�pria tempo para reflectir.</p><p>N�s dev�amos partir ao meio-dia disse L�onarde.</p><p>Eu estava decidida a n�o partir sem o meu pai disse Fiora enxugando os olhos e o rosto com um gesto maquinal. Perdoai-me por ter mudado de opini�o, querida L�onarde, mas procurei-vos h� bocado para vo-lo dizer e depois... aconteceu isto e j� n�o posso partir. Tu dizes que esta cidade pode virar-se contra mim? Talvez o fa�a, mas, se eu partir, abandonando a estranhos o corpo do meu pai, f�-lo de certeza. Eu quero prestar-lhe os �ltimos deveres de uma filha que o amava muito... e quero ving�-lo!</p><p>Se te acontecer uma desgra�a, como poder�s ving�-lo? Foge!</p><p>N�o. Quero ficar. Mais tarde, quando o meu pai puder descansar em paz, partirei, sem d�vida... porque esta justi�a que quero prestar n�o � a �nica que me � exigida.</p><p>A entrada do velho Rinaldo interrompeu-a. Ele vinha anunciar a chegada do magistrado municipal, que, um instante mais tarde, entrou no quarto.</p><p>Cesare Petrucchi era um homem de 60 anos, pequeno e robusto, que vestia com a devida majestade o manto vermelho da sua fun��o. Vindo de uma antiga fam�lia origin�ria de Siena, conseguira, gra�as a uma vontade tenaz e a uma aus�ncia total de indulg�ncia, elevar-se at� � Senhoria, onde se dizia que reinava pelo medo sobre os outros �senhores�. Tinha-os firmemente na m�o desde um certo Conselho em que, n�o conseguindo obter um voto que decidiria um assunto espinhoso, mandara trazer as chaves da sala e sentara-se em cima delas, declarando que dali s� sairiam depois de votarem convenientemente. Tudo o que consentiu em fazer foi alimentar os seus colegas, at� que eles acabaram com todas as hesita��es...</p><p>Fiora sabia que ele n�o gostava do seu pai, ao qual censurava uma fortuna demasiado grande sem ousar formular acusa��es precisas, mas a quem adoraria apanhar em falta, fosse no que fosse. Tamb�m sabia que n�o poderia esperar dele compaix�o nem verdadeira ajuda de qualquer esp�cie e que, pelo seu lado, Francesco Beltrami desprezava um pouco, ou, pelo menos, desconfiava do magistrado municipal de justi�a.</p><p>Quando ele entrou, precedido por uns guardas em casacas verdes</p><p>as cores da Senhoria Fiora saudou-o como convinha e esperou que ele falasse. Por seu lado, Petrucci come�ou por se inclinar diante do corpo e depois aproximou-se da cabeceira para o olhar mais de perto.</p><p>Apanharam o assassino? perguntou ele em tom importante.</p><p>N�o, magn�fico senhor respondeu Fiora. E os desta casa p�em doravante todas as suas esperan�as na justi�a de Floren�a, da qual tu �s a encarna��o!</p><p>Podes estar certa de que faremos essa justi�a que reclamas. O teu venerado pai, que Deus tenha na Sua Santa Guarda tinha inimigos?</p><p>Qual � o homem rico que n�o os tem? No entanto, n�o imagin�vamos que houvesse algu�m suficientemente cobarde para esfaquear de morte e por tr�s um homem que se esfor�ou pelo bem durante toda a sua vida. Um homem...</p><p>A sua voz extinguiu-se. Aquela com�dia protocolar a que a obrigavam era-lhe insuport�vel, mas era imposs�vel dispens�-la, j� que o �magn�fico senhor� era daqueles que, vindos do com�rcio, mais agarrados eram �s formas exteriores devidas � sua fun��o. Felizmente, Petrucci, pouco condo�do com a sua dor, virou-se para Dem�trios Lascaris, que, impass�vel e de m�os metidas nas mangas, o media do alto da sua estatura:</p><p>Que fazes tu aqui? perguntou azedamente o magistrado. Pertences a esta fam�lia? �s um amigo chegado?</p><p>Nem uma coisa, nem outra e tu sabe-lo bem, magn�fico senhor</p><p>respondeu o m�dico, cuja voz profunda deixou passar uma nota sarc�stica. Vim trazido pela multid�o indignada, da qual tu podes ainda, daqui, ouvir os clamores. (Com efeito, ouvia-se barulho no exterior, provando que a multid�o continuava em frente do pal�cio Beltrami.) </p><p>Acontece que eu estava no Mercato Nuovo quando <emphasis>messerBeltrami </emphasis>foi ferido e quis prestar-lhe os meus cuidados infelizmente in�teis, porque ele morreu do golpe. Enfim...</p><p>Talvez seja bom ouvirmos-te! cortou Petrucchi. Tu �s uma testemunha preciosa...</p><p>-- Que n�o te poder� dizer mais do que todos aqueles que estavam presentes. Enfim, dizia eu, pensei que monsenhor Louren�o ficaria feliz por um dos seus amigos se encontrar no local para dar um pouco de conforto �quela que acaba de ficar �rf� por causa de um crime e cuja dor merece o maior respeito. Nesta hora, <emphasis>donna </emphasis>Fiora precisa de amigos, mais do que de magistrados.</p><p>Petrucchi ficou t�o vermelho como o seu traje ao ouvir aquele reparo �s conveni�ncias e ao poder dos M�dicis. Resmungou umas vagas palavras de condol�ncias e retirou-se com grande dignidade. Os seus passos, que se queriam com a solenidade da lei, ressoaram na galeria e depois extinguiram-se. Ent�o Fiora, que queria ficar s�, virou-se para Lascaris:</p><p>Obrigada! disse ela com sinceridade. N�o sei por que te interessas tanto por mim, mas estou-te reconhecida... assim como pelo que disseste �quela personagem vaidosa.</p><p>Continuas a n�o querer seguir o meu conselho?</p><p>N�o posso, nem quero. Estou nas m�os de Deus...</p><p>H� muito tempo que sei que n�o se pode ir contra o destino e que � mais dif�cil ainda impedir que um homem siga o caminho que escolheu. Quanto �s mulheres... Lembra-te, no entanto, do que te disse: chama-me quando n�o souberes para que lado te h�s-de virar...</p><p>O m�dico saudou-a e desapareceu como uma sombra, deixando Fiora desorientada. Na verdade, a jovem n�o sabia o que pensar. Aquele homem parecia possuir o dom de ler o futuro, mas sem lhe distinguir os pormenores. Por outro lado, a jovem n�o conseguia compreender o que pretendia ele ao aproximar-se tanto dela, uma jovem florentina como tantas outras. Enfim, n�o conseguia confiar naquela personagem bizarra, nem, ali�s, sentir por ele uma verdadeira simpatia. Havia em Dem�trios qualquer coisa que a atra�a e afastava ao mesmo tempo. Mas o qu�?</p><p>L�onarde, que sa�ra para dar algumas ordens, regressou e encontrou-a s�, contemplando dolorosamente a longa forma im�vel, t�o p�lida sobre a cor p�rpura do leito, aquela apar�ncia que fora, duas horas antes, um homem cheio de intelig�ncia e vida, um homem que queria lutar pela felicidade daquela que <emphasis>elegera </emphasis>como filha... A governanta segurou-lhe gentilmente no bra�o.</p><p>Vinde, minha filha, tendes de me deixar tratar, juntamente com as outras criadas, da <emphasis>toilette </emphasis>do vosso pai. V�s mesma deveis preparar-vos, porque a jornada ser� longa <emphasis>e </emphasis>penosa, tal como a de amanh� e a de depois de amanh�. No vosso quarto, onde vos espera Khatoun, dispus tudo aquilo de que precisais... Mas, antes, repousai um pouco! Ides precisar de for�as.</p><p>Uma hora mais tarde, Fiora, vestida at� ao queixo de negro ba�o e com um v�u sobre os cabelos severamente entran�ados, esperava junto do seu pai, no quarto que haviam decorado de negro, a visita do senhor de Floren�a. Segundo o costume da Rep�blica, que queria todos os cidad�os iguais na morte, o corpo de Francesco Beltrami fora vestido com um simples tecido branco forrado de tafet� e um gorro sem qualquer ornamento na cabe�a. Nem j�ias, nem qualquer sinal de riqueza. Por baixo tinham-lhe posto a enxerga obrigat�ria, mas essa enxerga estava sobre o grande leito cor de p�rpura, que, na decora��o f�nebre, gritava como uma enorme mancha de sangue, na qual a brancura do defunto figurava como reflexo. Dois c�rios apenas, mas muito grossos, ardiam de cada lado do leito transformado em catafalco. Arderiam assim at� � hora do funeral, no qual o corpo, unicamente coberto por um pano branco, seria levado � sua sepultura. �nica derroga��o da lei, que fazia do cemit�rio comunal o �nico local do �ltimo repouso, Beltrami, o mais poderoso dos da arte de Calimala, seria enterrado na igreja de Orsanmichele, que era a da corpora��o.</p><p>Fiora j� n�o chorava. O fogo que ardia nela tinha-lhe secado as l�grimas e n�o permitia que elas corressem. Quando <emphasis>o Magn�fico </emphasis>entrou, acompanhado dos seus amigos Poliziano e Ridolfi, a jovem atirou-se-lhe aos p�s:</p><p>Justi�a, senhor Louren�o! Justi�a para o meu pai assassinado dentro da tua cidade! Eu, sua filha, n�o terei descanso at� que o seu assassino caia nas tuas m�os soberanas!</p><p>Curvando a sua alta estatura, <emphasis>o Magn�fico </emphasis>segurou nas m�os suplicantes que se estendiam para ele.</p><p>Eu, Louren�o, n�o terei descanso enquanto o assassino n�o balan�ar, pendurado pelos p�s, na varanda da Senhoria! Levanta-te, Fiora!</p><p>O teu pai era um dos melhores da nossa cidade e era meu amigo. Prometo-te vingan�a...</p><p>Segurando sempre Fiora pela m�o, <emphasis>o Magn�fico </emphasis>avan�ou para o corpo, que contemplou por um instante. A chama dos c�rios cinzelava o perfil n�tido de Francesco, que, na morte, parecia ter reencontrado a juventude.</p><p>Quem quer ser feliz, apressa-se murmurou ele porque ningu�m sabe o dia de amanh�! Francesco possu�a tudo o que pode fazer um homem feliz e, no entanto, uma m�o suficientemente criminosa e cobarde matou pelas costas aquele que nunca tinha feito mal a ningu�m. Quem ser� o dono dessa m�o?</p><p>Acabas de o dizer, senhor: um cobarde que, sem d�vida, n�o agiu por conta pr�pria.</p><p>Que significa isso?</p><p>Que se pode armar algu�m quando n�o temos coragem para o fazermos n�s pr�prios. Os rufias n�o faltam, dizem, nos bairros de m� fama e tudo se compra, mesmo a vida humana. Tudo depende do pre�o que se pretende pagar...</p><p>Louren�o olhou para Fiora com uma aten��o que o fez semicerrar os olhos m�opes:</p><p>Est�s a pensar em algu�m? Sabes que uma acusa��o sem provas � uma coisa que pode ser punida por lei?</p><p>N�o acusarei ningu�m enquanto n�o tiver provas. Mas ent�o...</p><p>Ent�o, ser� a mim que dir� respeito disse Louren�o severamente. Depois, mais docemente: Agora, est�s s�, Fiora e �s muito jovem para tanta solid�o. O teu pai n�o desejava casar-te ainda, mas agora precisas de um companheiro. N�o s� porque herdas uma grande fortuna, mas tamb�m devido a neg�cios complexos. A afina��o dos tecidos n�o chegava a Francesco. A eles juntou um banco, navios, dos quais dois est�o fundeados em Veneza, sem contar com o <emphasis>Santa Maria del Fiore, </emphasis>o seu barco pessoal, que est� atracado naquele pequeno porto de Livorno, do qual ele desejava, eu sei, fazer um grande porto mercante, uma mina de al�men em Volteira e tamb�m casas em Paris, Londres, Bruges... e talvez outras coisas, que eu ignoro. Precisas de um homem � cabe�a disso tudo... e eu sei que o meu jovem primo Luca Tornabuoni est� profundamente apaixonado por ti. Pensar�s nisso... mais tarde, quando a tua dor for menos viva?</p><p>Mais tarde... talvez. Por agora n�o quero casar-me.</p><p>A jovem ficou surpreendida com a firmeza com que aquela mentira acabava de passar pela sua boca. Nem sequer tinha corado ao dar esperan�a ao <emphasis>Magn�fico </emphasis>naquele casamento imposs�vel com o seu primo, mas, por outro lado, sentia-se um pouco chocada com a pressa posta por Louren�o na candidatura de Luca. O desgosto, para ele, era uma coisa e os neg�cios outra e desejava, evidentemente, ver o pequeno reino de Beltrami unir-se aos bens, j� imensos, da sua fam�lia.</p><p>Depois de se ter inclinado de novo perante os despojos mortais do seu amigo, Louren�o saudou Fiora e dirigiu-se para a porta, mas, subitamente, virou-se:</p><p>Ter�s tu alguma raz�o para temeres pela tua pr�pria vida, tu que �s a �nica filha de Francesco? At� esta manh� n�o tinha respondeu a jovem. Mas, agora, j� n�o sei.</p><p>Todas as precau��es s�o boas. Vou mandar-te Savaglio com alguns guardas.</p><p>Agrade�o-te, mas valer� a pena? N�o podes manter esta casa guardada indefinidamente. E eu estou rodeada de criados fi�is. Pelo menos, acho que sim...</p><p>De qualquer maneira, a presen�a de homens armados leva a desencorajar certas tentativas e precisamos de tempo para encontrar o assassino. N�o saias at� ao funeral, que ter� lugar depois de amanh�. Naturalmente, estaremos l� todos...</p><p>Agrade�o-te do fundo do cora��o. A tua protec��o e amizade s�o-me preciosas, senhor Louren�o...</p><p>Poder�o ser impotentes para te preservar, se n�o escolhes rapidamente um marido...</p><p>Ele n�o disse mais nada, mas Fiora sabia que ele era tenaz. Voltaria certamente � carga e seria preciso, um dia, dizer-lhe a verdade. Por outro lado, tinha raz�o quando dizia que era necess�rio um homem � cabe�a dos neg�cios de Beltrami e Fiora lamentou a sua ignor�ncia. Se fosse um rapaz, o seu pai, dois ou tr�s anos antes, teria come�ado a inici�-lo na sua obra, a fim de que, mais tarde, pudesse assumir a sucess�o, mas ela, t�o sabedora noutras mat�rias, n�o sabia grande coisa das dif�ceis transac��es comerciais. A morte, t�o brutal e prematura do seu pai deixara-a desarmada...</p><p>O senhor Louren�o � s�bio <emphasis>e </emphasis>s� quer a vossa felicidade disse por tr�s dela a voz tranquila de L�onarde...</p><p>Na condi��o de que essa felicidade esteja de acordo com o interesse dos seus. Por outras palavras, que eu case com Luca...</p><p>O que � imposs�vel por agora, mas talvez haja uma solu��o. Por que n�o pedir ao senhor Louren�o que ponha algu�m inteligente, algu�m de toda a confian�a na direc��o dos vossos neg�cios? Ele ficaria, certamente, lisonjeado e isso permitir-vos-ia iludir, por algum tempo, o seu projecto de casamento. Ali�s, o vosso luto n�o permitir� acender, antes de muitos meses, os archotes de um noivado.</p><p>O conselho � s�bio. Depois de o meu pai... sair desta casa para sempre, falarei nisso a Louren�o de M�dicis.</p><p>O l�gubre protocolo mortu�rio j� estava em campo. Os anunciadores da morte percorriam a cidade, parando nos mercados para proclamar o �bito de Francesco Beltrami, ao mesmo tempo que os encarregados das pompas f�nebres escolhiam as carpideiras entre as mulheres pobres dos bairros de m� fama. Entregavam-lhes grandes vestidos com capuzes de fazenda negra, cosidos de maneira a poderem em seguida fazer deles trajes decentes, mas nenhum fausto devia presidir �s ex�quias, porque n�o convinha fazer de um funeral uma festa. Todo o brilho da cerim�nia estaria reservado para aqueles que iam assistir a ela e s� seriam servidos, na refei��o tradicional, dois pratos.</p><p>As visitas aflu�am � casa. Amigos e simples curiosos chegavam continuamente, porque a not�cia da morte tr�gica do negociante n�o esperara pelos anunciadores para se difundir. Percorrera a cidade com a velocidade do vento, as pessoas amontoavam-se na rua para poderem saudar o corpo e entrar, aqueles que nunca tinham tido oportunidade, no pal�cio Beltrami, satisfazendo o seu desejo de contemplar todas aquelas riquezas. Felizmente para Fiora, o capit�o Savaglio, que Louren�o havia posto de guarda � sua casa, efectuava uma separa��o que nem sempre era isenta de brutalidade.</p><p>Se eu n�o puser ordem nisto confiou ele a L�onarde, que lho dera a entender todas as putas e rufias da cidade desfilar�o pela vossa casa. Vestem � vez um vestido ou um fato conveniente e aparecem beatificamente, porque a ocasi�o para visitar uma casa rica � demasiado bela para perder. Infelizmente para eles, conhe�o-os quase todos!</p><p>Luca Tornabuoni acorreu no rasto do <emphasis>Magn�fico. </emphasis>Fiora, j� na defensiva, esperava grandes protestos de amor e at� um imediato pedido de casamento, mas o jovem, ap�s ter saudado o defunto, inclinou-se profundamente perante a jovem, contentando-se em dizer-lhe:</p><p>Chamai-me se precisardes dos servi�os de um amigo fiel, que gostaria infinitamente de poder apaziguar, por pouco que seja, o vosso desgosto.</p><p>Ela ficou-lhe reconhecida e, espontaneamente, estendeu-lhe a m�o.</p><p>Obrigada, Luca! N�o me esquecerei...</p><p>Para sua grande surpresa, Simonetta e Marco Vespucci, flanqueados pelo primo Amerigo, tamb�m apareceram. Branca e radiosa como era seu h�bito, a despeito do vestido escuro que trazia por respeito, a Estrela de G�nova beijou Fiora com uma gentileza e uma emo��o que comoveram a jovem.</p><p>Em breve sentir-vos-eis muito s� neste grande pal�cio disse-lhe ela. Por que n�o vindes viver algum tempo para junto de mim? N�s nunca fal�mos muito uma com a outra, mas eu gostaria que v�sseis em mim uma irm� mais velha, ou, pelo menos, uma amiga verdadeira...</p><p>Fiora retribuiu-lhe o beijo com sinceridade e at� com um pouco de vergonha. Como detestara aquela jovem maravilhosa, na qual se obstinara a ver uma rival dois meses antes!... Ou dois s�culos antes!. Na verdade, nada impedia que a esposa, se bem que desdenhada, de Philippe de Selongey, se tornasse amiga de Simonetta. E a jovem sentiu subitamente uma grande pena ao recordar a profecia do grego, desejando de todo o seu cora��o que n�o se cumprisse...</p><p>Marco Vespucci apoiou o convite da sua mulher, mas o primo Amerigo, sempre a meio caminho das estrelas, causou uma ligeira perturba��o ao virar as costas a Fiora para beijar devotamente a m�o de L�onarde, que sufocou, o melhor que p�de, uma risada. Simonetta, erguendo para o tecto um olhar acabrunhado, salvou a situa��o ao arrastar o atordoado para fora da c�mara mortu�ria em passo de corrida.</p><p>Chiara, que fora de manh� cedo com o tio para a sua vinha de San Gervasio, chegou como uma bomba, trazendo a reboque a gorda Colomba e um criado carregado com uma mala de roupa.</p><p>N�o te deixo mais! declarou ela enquanto beijava Fiora. Instalo-me junto de ti at� estares farta. E n�o tentes impedir-me. Algo me diz que podes vir a precisar de ajuda dentro de pouco tempo.</p><p>Sem esperar pela resposta, foi-se ajoelhar junto do leito e, de m�os no rosto, ficou absorta numa profunda ora��o. Com o cora��o reconfortado por tanta ternura espont�nea, Fiora observou-a a rezar por uns instantes e regressou ao dever esgotante de acolher todos aqueles que se apresentavam, apesar de um cansa�o cada vez maior. Sabia, por�m, que o pior estava para vir, que a menos que acontecesse um milagre, teria, dentro de pouco tempo, de receber a odiosa Hieronyma, que ela acreditava tinha mandado assassinar o seu pai... A sua �nica esperan�a residia no facto de que no meio de todo aquele luto a dama n�o ousaria reclamar a resposta � escandalosa oferta de casamento que formulara na v�spera. Mas conhecia-a mal...</p><p>A asquerosa mulher chegou com a noite e os ecos do pal�cio encheram-se com os clamores e os solu�os de uma dor barulhenta que eri�ou a pele de Fiora. Saindo do quarto onde h� j� uma hora o pintor Sandro Botticelli, sentado a um canto, desenhava a carv�o, silencioso e com os olhos marejados de l�grimas a �ltima ef�gie de um homem que sempre acreditara no seu g�nio, a jovem foi esperar na galeria a chegada da sua inimiga. A sua inten��o era interditar-lhe o acesso � sala onde repousava o seu pai.</p><p>A vis�o de Hieronyma, envolta em roupagens f�nebres como uma matrona da Roma antiga e o rosto marejado de l�grimas, provocou-lhe v�mitos. Ia gritar, ordenar que pusessem na rua aquele monstro de hipocrisia, mas Chiara deteve-a:</p><p>Mesmo que tenhas raz�o para acreditar no que acreditas, deves receb�-la.</p><p>Eu n�o quero que ela se aproxime do meu pai!</p><p>N�o podes impedi-la. Ela � da fam�lia. N�o deves dar azo a qualquer cr�tica.</p><p>Silenciosa mas ao mesmo tempo roendo o freio, Fiora saudou com uma inclina��o de cabe�a e abriu ela pr�pria, diante da visitante, a porta do quarto, por onde esta se lan�ou, gritando:</p><p>Onde est�s, Francesco? Meu primo fraternal... meu irm�o! Nunca saber�s a que ponto me eras querido, a que ponto...</p><p>Pelo contr�rio, creio que, l� onde est�, o meu pai sabe perfeitamente quais s�o os sentimentos de cada um! disse secamente Fiora, incapaz de se calar por mais tempo. Por favor, p�e um trav�o a essa tua express�o de... dor, prima! O meu pai n�o gostava que se exteriorizassem os sentimentos.</p><p>Falas do que ignoras! N�s, os Florentinos, gostamos de dar livre curso, tanto �s nossas alegrias, como �s nossas dores. Mas, para compreender, � preciso ser do nosso sangue...</p><p>Hieronyma foi ajoelhar-se � cabeceira do leito, escondendo assim a cabe�a do defunto a Botticelli. Com um suspiro, o pintor parou. Teve de esperar um grande quarto de hora. A ora��o de Hieronyma, entrecortada de invoca��es � alma de Francesco, prolongou-se, irritante at� mais n�o para Fiora, que, de p� do outro lado do leito, observava a prima. Finalmente, esta inclinou-se, pousou um beijo na fronte fria e declamou num tom melodram�tico:</p><p>Repousa em paz, Francesco! Eu fico com o testemunho! Doravante eu � que velarei por tudo o que te era querido, juro-to!</p><p>A megera levantou-se penosamente, envolta como estava nos seus v�us f�nebres. O olhar gelado de Fiora seguia cada um dos seus movimentos:</p><p>Juramento in�til, prima! Ningu�m, aqui, te pediu nada e o meu pai menos do que ningu�m! Eu sou a mais velha da fam�lia. Doravante, sou eu o chefe e estou pronta a prov�-lo. No entanto, consinto em dar-te a escolher o futuro. Preferes vir morar sob o meu tecto, ou que venhamos, eu e os meus, instalar-nos aqui?</p><p>A impud�ncia de Hieronyma quase cortou a respira��o de Fiora, mas o �dio e a cupidez que ela via luzir nos olhos sombrios da mulher galvanizaram-na.</p><p>Nem uma coisa, nem outra! Como ousas dispor assim do que n�o te pertence e, al�m disso, da minha pessoa?</p><p>O que ainda n�o me pertence n�o tardar� a pertencer. Quanto a ti, � tempo de esqueceres esses ares de princesa. Em breve n�o passar�s da esposa submissa do meu filho Piero... como decidimos, o meu primo e eu!</p><p>Como ousas, enquanto ele continua presente e nos ouve, proferir tais mentiras? Pensas que ignoro o que foi dito, ontem, na sala do �rg�o? O meu pai repudiou com desd�m um casamento que o ofendia...</p><p>... mas que n�o podia evitar. E ele era demasiado inteligente para n�o o compreender. A partir do fim do luto, procederemos aos esponsais.</p><p>Nunca! Nunca poder�s for�ar-me! Apelarei a monsenhor Louren�o! Subitamente, Hieronyma desatou a rir:</p><p>O teu senhor n�o poder� fazer nada. N�s ainda estamos numa rep�blica, apesar dos grandes ares dele. Ter� de ceder � vontade do povo! Ver�s, ver�s... E desatou a rir a bandeiras despregadas.</p><p>Ent�o, largando o papel e o l�pis, Botticelli, p�lido de c�lera, lan�ou-se a ela para a p�r na rua.</p><p>�s louca? rugiu o pintor. Ousar rir, ousar amea�ar na c�mara de um morto? Isso n�o traz nada de bom, <emphasis>donna </emphasis>Hieronyma, <emphasis>e </emphasis>tu devias temer a c�lera de Deus!</p><p>Deixa-me, maldito pinta-monos! Fica-te bem invocar a ira do c�u, tu que vives, tal como os teus iguais, no v�cio e na lux�ria!</p><p>� sem d�vida, por essa raz�o que as igrejas e os conventos n�o cessam de nos fazer encomendas. Retira-te sem fazer barulho, <emphasis>donna </emphasis>Hieronyma! N�o tens aqui ningu�m a quem convencer e perturbas a paz de um morto!</p><p>Com um gesto furioso, Hieronyma arrancou o bra�o da m�o do pintor, p�s ordem na sua <emphasis>toilette </emphasis>depois de lan�ar a tudo o que a rodeava um olhar de amea�a, transp�s a porta que L�onarde mantinha aberta para ela:</p><p>Em breve rirei mais e mais alto do que hoje e aqui mesmo, sem que ningu�m me possa impedir! Voltar�s a ver-me, Fiora! E n�o demorar� muito!</p><p>� a segunda vez que ela te amea�a observou Chiara, que tinha seguido a cena sem dizer nada. Onde arranjou ela o direito?</p><p>Fiora n�o respondeu de imediato, hesitando ainda em confiar a uma estranha o drama que manchara o seu nascimento e perscrutando o rosto am�vel para tentar adivinhar a sua qualidade. Chiara seria suficientemente sua amiga para ir mais al�m, ou afastar-se-ia com repugn�ncia? E, subitamente, tomou a decis�o. Valia a pena tentar e se a filha dos nobres Albizzi n�o o suportasse, Fiora s� ficaria mais s� face ao desastre cada vez maior em que a sua vida parecia mergulhar a cada dia que passava:</p><p>Vem! disse ela. J� vais saber...</p><p>Acendendo uma vela na chama de um dos dois c�rios, a jovem pegou na chave do <emphasis>studiolo </emphasis>que estava dentro do pequeno cofre onde o seu pai costumava guard�-la e depois de um �ltimo olhar para o inv�lucro que abrigara uma alma t�o forte e generosa, Fiora guiou a sua amiga pela galeria mal iluminada pelos archotes que, no p�tio, ardiam dentro de garras de ferro.</p><p>A porta abriu-se sem um rangido, descobrindo o esplendor dos embutidos preciosos. Fiora fez entrar Chiara, fechou-a cuidadosamente e foi direita ao retrato. Com uma m�o, tirou o veludo protector, ao mesmo tempo que, com a outra, iluminava o rosto louro que, subitamente, pareceu ganhar vida...</p><p>Mas disse Chiara �s tu!... e, no entanto, n�o �s verdadeiramente tu... Talvez seja dos cabelos louros...</p><p>Fui eu que posei, ali�s sem desconfiar, mas este retrato � da minha m�e, Marie de Br�vailles.</p><p>Pensava que nem sequer sabias o seu nome?</p><p>� verdade. S� o soube h� pouco tempo. E agora vou, se tu quiseres, contar-te a sua hist�ria. Foi por isso que te trouxe aqui... Queres?</p><p>� guisa de resposta, Chiara instalou-se numa das cadeiras, cruzou os bra�os e esperou, enquanto Fiora acendia uma ap�s outra as l�mpadas do grande candelabro.</p><p>Por que tanta luz? perguntou Chiara.</p><p>Porque vou abrir perante ti um abismo sangrento. As sombras ser�o menos densas, at� para mim. Imagina que foi apenas ontem que o meu pai me contou tudo! Ontem... e agora parece-me que sempre o soube...</p><p>Queres mesmo falar? Podes calar-te, se preferires!</p><p>N�o. Vou contar-te tudo, mas n�o me vou sentar ao p� de ti. Vou ficar aqui, perto desta janela, para que tu n�o me vejas. Depois... quando eu acabar, poder�s deixar esta sala e esta casa sem sequer olhares para tr�s, se assim o desejares!</p><p>Mas...</p><p>N�o digas nada! Como n�o sabes, ignoras o que pensar�s quando eu acabar e eu quero que sejas livre de decidir. Acrescento apenas que, se partires, n�o quero que voltes!</p><p>Lentamente, Fiora afastou-se da zona luminosa. O seu vestido preto fundiu-se com as sombras da sala. Impressionada, Chiara apertou as m�os uma contra a outra e fechou os olhos, esperando o que se ia seguir com uma ang�stia da qual n�o se podia defender. A voz quente e calma de Fiora chegou-lhe como se viesse do fundo dos tempos.</p><p>Todos aqui acreditam que eu nasci secretamente em len��is de fino linho num castelo franc�s. Nada de mais falso! Eu abri os olhos em Dijon, na palha da pris�o onde a minha m�e aguardava a morte... e n�o sou filha de Francesco Beltrami.</p><p>Ignorando o oh� estupefacto da sua amiga, Fiora, com uma espantosa seguran�a de mem�ria, refez para ela o relato do seu pai sem omitir o menor pormenor; mas, ao passar por aquela voz jovem, umas vezes surda, outras vibrante, o romance tr�gico de Jean e Marie de Br�vailles encheu-se de cores de rara intensidade. Com os olhos fixos no retrato, Chiara mal ousava respirar, suspensa como estava daquela voz na sombra, que fazia renascer para ela as chamas de uma paix�o irresist�vel, inflamada pela atmosfera triste de um quotidiano s�rdido, a fuga para uma vida em comum imposs�vel, o cerco, enfim a senten�a de morte, a execu��o e os seus pormenores ign�beis, contra os quais se erguera o amor s�bito e total, absoluto, de um viajante. A jovem florentina pensava que estava a ouvir uma daquelas hist�rias fant�sticas que os contadores de f�bulas contavam nos mercados, mas aquela tinha as resson�ncias inimit�veis da verdade. E o encanto subsistia ainda um momento depois de a voz de Fiora se apagar. Seguiu-se um sil�ncio, profundo, que em breve se tornou insuport�vel � contadora. A espera de um veredicto que lhe metia medo, apertou-lhe a garganta. Entretanto, Chiara continuava a n�o reagir. A sua express�o estava hirta e os seus olhos arregalados contemplavam o vazio. N�o dizia nada.</p><p>Subitamente, a jovem levantou-se com um movimento brusco e o cora��o de Fiora parou... Mas, em vez de se dirigir para a porta, Chiara foi direita � amiga:</p><p>Por que pensaste que eu te ia virar as costas?</p><p>Teria todo o sentido, parece-me?</p><p>Para mim, n�o. Primeiro, responde a uma pergunta: que sentes quando pensas nos teus pais? Vergonha?</p><p>N�o... oh n�o! Uma grande piedade, na qual h� muita ternura. Eu tenho quase a idade da minha m�e quando ela morreu e mal imagino que possa ser sua filha. Os meus pais, sinto-os muito pr�ximos de mim, como um irm�o e uma irm�. Quanto aos que os levaram ao cadafalso, n�o consigo evoc�-los sem c�lera: aquele marido abomin�vel, aquele pai que n�o apenas entregou a sua filha a um tal homem, mas que n�o ousou lutar contra uma morte p�blica, que, entretanto, o desonrava. E depois aqueles pr�ncipes sem piedade, aquele duque Carlos, sobretudo, que Jean de Br�vailles tinha servido com tanta lealdade, que amava como...</p><p>A jovem mordeu os l�bios. Ia dizer �como Philippe o ama...�, mas n�o queria falar daquele homem a quem estava ligada por um casamento mentiroso e continuou muito depressa:</p><p>Quanto a esses s� tenho �dio e desejo de vingan�a...</p><p>De vingan�a? Como poder�s vingar-te? Se o duque Philippe j� morreu e tu ignoras se o senhor du Hamel e o teu av� ainda est�o vivos?</p><p>N�o o chames assim! Ele n�o tem qualquer direito. Enquanto eu viver, Francesco Beltrami ser� sempre o meu pai, o �nico que conheci e a quem amo. Mas creio que um dia, talvez em breve, irei � Borgonha para acertar as minhas contas. E se Deus ainda n�o disp�s das suas vidas, eu porei ordem nelas. Ali�s, resta um culpado: o duque Carlos!</p><p>�s louca? Queres haver-te com um pr�ncipe que, dizem, � mais poderoso do que todos os outros? Queres morrer como a tua m�e?</p><p>De qualquer maneira, ainda n�o cheg�mos l�. Primeiro, tenho de me vingar do miser�vel... ou da miser�vel que mandou matar o meu pai. � o sangue dele que grita mais forte! Os outros vir�o depois.</p><p>Chiara estremeceu, como se o frio da morte tivesse entrado subitamente na sala elegante e efeminada: �.</p><p>O teu desgosto perturba-te, Fiora! Deixa a justi�a para aqueles que a t�m a cargo! Louren�o de M�dicis n�o pretende deixar impune o assassino de <emphasis>messer </emphasis>Beltrami e tu podes ter confian�a nele. Quanto a essa infeliz hist�ria que dormia no cora��o do teu pai h� 17 anos, farias bem se pensasses nela o menos poss�vel e eu estou certa de que, se ele ainda fosse vivo...</p><p>Mas, pensa bem no que est�s a dizer! J� te esqueceste de Hieronyma? Achas que, possuindo esta arma contra mim, ela n�o se vai servir dela? Eu acabo de recusar, tal como o meu pai, um casamento com o filho dela... e tu ouviste.</p><p>� verdade. Tinha-me esquecido. Nesse caso, s� tens uma solu��o, a que o teu pai queria tentar: dizer tudo a Louren�o! Ou muito me engano, ou ele ajuda-te!</p><p>Fiora foi buscar a cobertura de veludo e, com gestos muito doces, cobriu o retrato com ela...</p><p>Vou seguir o teu conselho. Na noite do funeral vou-lhe pedir que me oi�a...</p><p>Toda a Floren�a estava na rua dois dias depois, quando Francesco Beltrami deixou a sua casa para a sua �ltima viagem, sobre uma padiola transportada por seis homens, os mais poderosos da arte de Calimala e coberto com um pano branco. O cortejo f�nebre, como o exigia a lei, era modesto: quatro monges transportando c�rios precediam o corpo, seguido por uma vintena de carpideiras conscienciosas nos seus vestidos negros mal cosidos. Por fim, Fiora, uma longa silhueta enquadrada por L�onarde e Chiara, seguia � cabe�a dos seus criados e de todos aqueles que, nas suas diversas casas, tinham trabalhado para o grande negociante. N�o havia m�sica nem c�nticos, mas, caindo do c�u cinzento, por onde corriam as nuvens e as andorinhas, ouvia-se o toque a finados de todos os sinos de Floren�a. Assim o tinha decidido <emphasis>o Magn�fico...</emphasis></p><p>Louren�o tamb�m ordenara, para que todos pudessem assistir, que a cerim�nia religiosa tivesse lugar no Duomo, antes de o defunto ser levado para a igreja de Orsanmichele, onde seria inumado.</p><p>Durante o caminho, a multid�o que assistia era heter�clita, mas em redor do fabuloso Baptist�rio e nos acessos � catedral pol�crona, todos aqueles que eram algu�m na cidade estavam ali reunidos: as Artes maiores: Calimala, a L�, a Seda, a Banca, os Juristas, os Botic�rios e os Peleiros, cada um com o seu estandarte particular e depois as Artes menores: talhantes, ferreiros, sapateiros, carpinteiros, taberneiros, estalajadeiros, curtidores, mercadores de azeite, sal e queijos, armeiros e, por fim, padeiros, que formavam a corpora��o menos apreciada da cidade, porque mais acess�vel... Toda a Senhoria ocupava a varanda do Bigallo, em frente da porta sul do Baptist�rio. Por fim, � entrada do Duomo, Louren�o e Giuliano de M�dicis, vestidos de veludo negro e rodeados pela sua fam�lia e amigos. Todos os poetas, fil�sofos e pintores estavam presentes! Sandro Botticelli estava presente, assim como Verrocchio com os seus alunos: Perugino, Leonardo da Vinci e tamb�m os aprendizes, que mo�am as tintas, limpavam os pinc�is e velavam pelo abastecimento da equipa. Tamb�m l� estava... mas era imposs�vel dar um nome a todos os rostos.</p><p>O esplendor vinha todo da igreja. Em frente das portas abertas da catedral, ao fundo da qual ardia uma floresta de c�rios, as capas douradas, os vestidos p�rpura, as mitras cintilantes do bispo e dos abades de v�rios mosteiros compunham um fresco fabuloso, evocando a magnific�ncia inaudita do para�so para o qual ia a alma de Francesco Beltrami.</p><p>O som dos sinos ca�a do alto do campan�rio esguio, cujas ricas cores o tempo cinzento do dia n�o conseguia apagar, ao mesmo tempo que no interior da igreja se elevavam as vozes profundas dos �rg�os, �s quais se juntariam as de uma trintena de meninos de coro quando o defunto penetrasse no santu�rio.</p><p>Os carregadores j� avan�avam para seguirem o cl�rigo que come�ava a entrar, quando, subitamente, uma mulher envolta em v�us negros se postou diante deles de bra�os abertos:</p><p>Para tr�s! O homem que transportais para este santo local morreu em estado de pecado! N�o entrar� aqui enquanto a verdade n�o for conhecida de todos!</p><p>Hieronyma! gemeu Fiora. Meu Deus, que vai ela fazer?</p><p>At� tenho medo de pensar murmurou L�onarde. Era todo o caso, n�o lhe falta aud�cia! Como messer Francesco morreu sem confiss�o, ela veio aqui denunci�-lo!</p><p>Tenho a certeza! Infelizmente, n�o podemos provar o contr�rio e ela sabe-o...</p><p>Entretanto, formava-se na multid�o uma ondula��o, de onde se elevava um burburinho que era imposs�vel dizer se era de c�lera ou de espanto. O capit�o Savaglio, que seguira at� ali, ladeando a multid�o, a marcha de Fiora, avan�ou para repelir a perturbadora, que se debatia vigorosamente ao mesmo tempo que berrava:</p><p>N�o me far�o calar! � preciso que se fa�a justi�a e que cesse o esc�ndalo!</p><p>Est� calada, mulher e sai daqui! bradou Savaglio. A tua conduta � que � escandalosa e sacr�lega! Se algu�m tem direito a clamar por justi�a � o morto, que assassinaram vilmente...</p><p>J� pedia ele socorro aos seus homens com um gesto quando o magistrado municipal se aproximou:</p><p>Deixa essa mulher! A lei e a honra da nossa cidade dizem que qualquer cidad�o pode exprimir-se livremente.</p><p>Livremente, sim, mas n�o em qualquer ocasi�o!</p><p>Essa tamb�m � a minha opini�o disse a voz rouca de Louren�o de M�dicis, que interveio por sua vez. N�s estamos aqui para dizer o �ltimo adeus a um dos nossos, um dos melhores e isto <emphasis>� </emphasis>indecente! Retira-te, Hieronyma Pazzi. Se tens uma queixa a fazer, ser�s ouvida mais tarde! N�o se faz esperar um morto diante da casa de Deus!</p><p>Mas Hieronyma sabia que entre aquela gente havia quem tivesse ci�mes e detestasse Francesco Beltrami e que, ao falar de um esc�ndalo, despeitava muitas curiosidades maldosas. Com toda a for�a da sua voz, gritou:</p><p>Este morto � do meu sangue. No entanto, apelo para o julgamento do povo, porque ele utilizou a mentira e o fingimento! Ele n�o merece a pompa que o espera aqui. Ele traiu Floren�a e aviltou a sua qualidade de cidad�o da nossa rep�blica ao fazer passar por sua filha uma criatura nascida nas circunst�ncias mais desonrosas!</p><p>Tu calas-te? rugiu Louren�o. A tua indigna��o virtuosa, que me parece um pouco tardia j� que Fiora Beltrami era um beb� quando Francesco a trouxe para c�, n�o vir� antes de um desejo grande de te fazeres atribuir uma heran�a interessante?</p><p>S� descobri a intrujice h� pouco tempo e...</p><p>Balelas! N�s sabemos todos que <emphasis>donna </emphasis>Fiora nasceu dos amores de Francesco com uma nobre dama francesa!</p><p>Tu dizes que s�o balelas, mas eu digo que s�o mentiras! O meu primo Beltrami recolheu esta rapariga do sangue do cadafalso onde acabavam de morrer o seu pai e a sua m�e pelo duplo crime de incesto e adult�rio!</p><p>A mulher berrara com tanta for�a que Louren�o teve um movimento de recuo, como se o sopro dela fosse o do pr�prio inferno. O magistrado municipal Petrucchi aproveitou para usar da palavra, consciente da impercept�vel mudan�a que come�ava a produzir-se na multid�o, uma multid�o florentina apaixonada e vers�til, capaz, num acesso de humor, de enviar � noite para o cadafalso aquele que idolatra pela manh�. Parecia uma daquelas vagas, curtas e r�pidas, que se erguem subitamente num mar calmo, um arrepio que anuncia a febre e pressagia a tempestade...</p><p><emphasis>Monna </emphasis>Hieronyma disse ele as palavras que acabas de pronunciar s�o muito graves e compreender�s que a Senhoria n�o as pode aceitar sem provas. Tens essas provas?</p><p>Tenho. Recebi as confid�ncias de um homem que estava presente em Dijon, na Borgonha, no dia da dupla execu��o, no dia em que o meu primo adoptou esta... esta podrid�o! Ali�s, est� aqui outra testemunha: esta mulher acrescentou ela apontando para L�onarde que veio com ele para tratar deste ser que deviam ter atirado para o esgoto e n�o coberto com o belo nome de florentina e que est� ali, atr�s do corpo do meu infeliz primo, adornada com um nome que s� pode ser devido a uma maquina��o do dem�nio...</p><p>Desta vez, a multid�o rugiu. Hieronyma sabia o que estava a fazer ao evocar as pr�ticas da feiti�aria e, com uma alegria maldosa, sentiu que estava quase a ganhar. Com um pouco de sorte, a multid�o pegaria fogo e atirar-se-ia �quela Fiora que ela odiava e que, de m�os no rosto, se esfor�ava por nada ver, para a desfazer em peda�os... Mas Louren�o, a princ�pio surpreendido, n�o tencionava deixar-se levar assim por uma mulher hist�rica, nem que o povo, que reconhecia a sua autoridade porque o enriquecera, lhe dissesse qual era o seu dever. Por fim, porque detestava desde sempre os Pazzi, dos quais desconfiava como da peste.</p><p>Chega! gritou ele. J� disse e repito que esta cena em frente de uma igreja � escandalosa e que o funeral de um homem respeitado e admirado n�o deve servir de pretexto para um ajuste de contas. Se Francesco Beltrami desrespeitou, pelo que s� pode ter sido um impulso do cora��o, as leis da nossa cidade, julg�-lo-emos mais tarde... Por agora...</p><p>Pe�o-te que me desculpes interrompeu Petrucci mas que queres dizer com esse �mais tarde�?</p><p>Quero dizer depois de Francesco Beltrami estar em repouso na tumba que o espera.</p><p>Aceitas, portanto, que logo a seguir aquela a quem chamamos sua filha, a governanta e a acusadora, assim como a testemunha desta sejam levadas � Senhoria para ali serem ouvidas e confrontadas?</p><p><emphasis>O Magn�fico </emphasis>hesitou. O seu olhar sombrio percorreu o seu grupo de amigos, de guardas e depois todas aquelas cabe�as e rostos, onde podia ler a mesma hesita��o. Viu Fiora em l�grimas, amparada por uma L�onarde l�vida e por uma Chiara Albizzi cujos olhos faiscavam de c�lera, mas j� alguns gritos se ouviam um pouco por toda a parte:</p><p>Justi�a! Que se cumpra a lei! e at�, infelizmente � morte a feiticeira!</p><p>Louren�o compreendeu que n�o ganharia nada em se opor ao pedido do magistrado municipal. Sabia muito bem que devia o seu poder � ades�o do maior n�mero poss�vel e que um assunto como aquele podia ser um excelente pretexto para uma rebeli�o.</p><p>Seja! disse ele por fim. Que se fa�a segundo a lei na nossa cidade.</p><p>Nesse caso, guardas da Senhoria, prendei estas mulheres e levaias para o pal�cio, onde elas aguardar�o que seja estatu�da a sua sorte!</p><p>Compreendendo ent�o que lhe iam roubar o direito de acompanhar o seu pai bem-amado at� � sua �ltima morada, Fiora revoltou-se:</p><p>Eu quero gritou ela assistir ao funeral do meu pai! Ele era o que eu tinha de mais querido neste mundo...</p><p>Se ele n�o era teu pai tro�ou Petrucci n�o tens nada com isso!</p><p>Eu fui legalmente adoptada perante esta mesma Senhoria.</p><p>Mas, aparentemente, sob falsas declara��es. E n�s n�o gostamos de falsas declara��es!</p><p>Talvez. No entanto, aceitais, como se fossem palavras do Evangelho, as acusa��es desta mulher, que ainda ontem pediu ao meu pai que me desse em casamento ao seu filho! A ignom�nia do meu nascimento n�o pareceu incomod�-la muito em compara��o com a fortuna que cobi�ava... e que continua a cobi�ar!</p><p>Isto � verdade? perguntou severamente Louren�o a Hieronyma.</p><p>� falso berrou ela. N�o h� nada mais falso! Eu, pertencente a uma nobre fam�lia...</p><p>Tu querias que eu fosse para tua casa como tua nora. A tua �ltima visita, na v�spera da morte do meu pai, teve testemunhas. A despeito das amea�as que proferiste, ele recusou casar-me com Piero... e, no dia seguinte, foi assassinado!</p><p>Hieronyma uivou como se uma serpente tivesse desenrolado os an�is a seus p�s.</p><p>Tu ousas acusar-me, tu, uma larva miser�vel, que vais regressar em breve para o lodo de onde sa�ste?</p><p>Eu n�o acusei ningu�m respondeu Fiora. Mas se a carapu�a te serve, a culpa n�o � minha! Quanto � tua testemunha, vai busc�la! Eu sei quem �: � Marino Betti, o intendente da nossa propriedade, um homem que o meu pai pensava ser fiel, que cumulou de benesses e que, dizem, � teu amante.</p><p>Enfurecida, pronta a bater-se diante de todos contra aquela mulher ign�bil que acabava de lan�ar a sua lama sobre o sud�rio imaculado do seu pai, Fiora ia lan�ar-se sobre ela com as garras todas de fora quando Louren�o a segurou e obrigou a ficar quieta:</p><p>A c�lera cega-te, Fiora, mas tens de compreender que tudo o que acaba de ser dito � de uma extrema gravidade e que nem com a melhor vontade do mundo podemos deixar as coisas como est�o. Submete-te de bom grado ao julgamento dos priores! Eu estarei l�, podes estar certa.</p><p>Ent�o, tamb�m tu me recusas o direito de ficar ao p� dele at� ao �ltimo instante? disse ela dolorosamente, apontando para o corpo que os seis not�veis, r�gidos como se se tivessem transformado em pedra, mantinham aos ombros.</p><p>Deixa-me substituir-te! Quando tudo voltar ao normal poder�s rezar sobre a sua tumba o tempo que quiseres...</p><p>Ela olhou-o nos olhos com um pequeno sorriso.</p><p>Depois do que acabas de ouvir, senhor Louren�o, continuas a desejar que eu me case com o teu primo? murmurou ela de maneira a ser ouvida apenas por ele. Luca diz que me ama... por�m, vai-me deixar ir sozinha para um combate do qual depende a minha vida...</p><p>Fiora n�o falava sem raz�o. Uns minutos antes, ao chegar defronte do Duomo, avistara Luca Tornabuoni � esquerda de Giuliano de M�dicis. Ele cobrira-a, ent�o, de olhares apaixonados, mas agora tinha desaparecido. Por sua vez, Louren�o procurou o jovem com os olhos e ficou corado, bruscamente, por n�o o encontrar:</p><p>Pe�o-te perd�o disse ele em voz baixa. Mas pode ser que esteja enganado... Talvez ele n�o tenha vindo. �</p><p>Mentes muito mal, senhor Louren�o...</p><p>Ele estava aqui, com efeito disse subitamente a voz tranquila de Dem�trios, que acabava de aparecer por tr�s do <emphasis>Magn�fico. Mas </emphasis>eu vi-o partir subitamente, quando esta mulher falou do teu nascimento, <emphasis>donna </emphasis>Fiora. Creio que se lembrou, de repente, que um dos seus cavalos estava doente <emphasis>e </emphasis>reclamava os seus cuidados...</p><p>Ent�o, que fazemos? impacientou-se Petrucci.</p><p>Fiora virou-se para ele depois de ter chamado L�onarde para o p� de si.</p><p>Deixemo-nos conduzir � Senhoria... magn�fico senhor! Esperarei l� a decis�o dos nobres priores. Mas n�o te esque�as de exigir que essa mulher apresente a sua testemunha!</p><p>A testemunha em quest�o n�o estava, naturalmente, longe. Saiu da multid�o de olhos no ch�o e aproximou-se daquela que diziam sua amante. Fiora perguntou-lhe, sarc�stica:</p><p>N�o receias que a sombra do meu pai te venha atormentar as noites, fiel Marino? No teu lugar, tinha cuidado...</p><p>O homem n�o respondeu e pareceu curvar-se sobre si mesmo. Mas j� os guardas da Senhoria os rodeavam, a ele e a Hieronyma, assim como tamb�m rodearam Fiora e L�onarde. O cl�rigo, desorientado pelo que acabava de acontecer, reapareceu sob o p�rtico para retomar a cabe�a do cortejo. Os carregadores, visivelmente cansados, recome�aram a marcha e Fiora, im�vel de bra�o dado com L�onarde entre quatro soldados, viu desaparecer sob o m�rmore do portal a silhueta branca do seu pai, que era for�ada a deixar ir assim, despojada do �nico amor real que ela lhe inspirava.</p><p>O sargento que comandava os soldados esperou que a igreja se enchesse, mas esta n�o podia conter aquela enorme multid�o e tiveram que deixar as portas abertas. N�o sem pena, Fiora conseguiu que Chiara se afastasse. Indignada com o que acabava de ver e ouvir, a jovem recusava-se ferozmente a abandonar a sua amiga. Pretendia que a conduzissem tamb�m a ela � Senhoria como testemunha e talvez Fiora n�o tivesse conseguido impedi-la, se o seu tio Giorgio Albizzi n�o a tivesse segurado pelo bra�o:</p><p>Vem! ordenou ele secamente. O teu lugar n�o � aqui.</p><p>A despeito da sua coragem, Fiora sentiu as l�grimas subirem-lhe aos olhos face �quela fria manifesta��o de desprezo. Albizzi fora amigo de Francesco e no entanto, � primeira acusa��o, afastava-se, retirando a Fiora um dos seus mais fi�is apoios. Por entre as l�grimas, a jovem viu desaparecer no meio da multid�o que agora olhava para ela com a curiosidade habitualmente reservada para a jaula dos le�es, o pequeno rosto em pranto da sua �nica amiga.</p><p>A jovem virou-se e, dirigindo-se ao sargento que comandava a sua guarda:</p><p>Ent�o? perguntou ela rudemente. Que esperas para nos levares?</p><p>Aquela soberba criatura tinha uma tal autoridade que o soldado, atrapalhado, respondeu-lhe:</p><p>�s tuas ordens!</p><p>Puseram-se em marcha atrav�s da multid�o, que se afastou diante deles. Pelas portas abertas do Duomo, as notas tempestuosas do <emphasis>Requiem </emphasis>acabavam de rasgar o ar.</p><p>Ap�s um instante de hesita��o, a maior parte da assist�ncia, achando o funeral bem menos interessante do que aquilo que se ia seguir, seguiu-lhes as pisadas. A dist�ncia n�o era grande do Duomo ao Pal�cio Velho, sede da Senhoria que se aproximava dos dois s�culos de exist�ncia e, pela via Calzaiuoli a rua dos fabricantes de meias percorreram-na rapidamente. Apoiada no bra�o de L�onarde, Fiora sentia refor�ar-se nela a impress�o absurda de ter deixado um mundo agrad�vel, doce e cuidadosamente arranjado, por um outro, amea�ador e estranho, povoado de vis�es hostis e bocas escarrando inj�rias. Todas aquelas pessoas, que ainda no dia anterior a saudavam com um cumprimento, um sorriso ou mesmo alguns-versos, se tinham transformado, ao ouvir a voz vingativa de Hieronyma, em outros tantos inimigos, que talvez a tivessem lapidado sem a barreira de ferro com que a tinham rodeado.</p><p>Por que raz�o murmurou L�onarde, que se esfor�ava por n�o ouvir as inj�rias que assinalavam o seu percurso por que raz�o n�o lhes dizeis que n�o sois desta cidade, que, pelo casamento, sois uma nobre dama da nossa Borgonha?</p><p>Porque n�o tenho qualquer prova do meu casamento. N�o sei onde p�s o meu pai os pap�is...</p><p>Eu sei. Na noite anterior � sua morte, o vosso pai disse-me muitas coisas...</p><p>Das quais, se calhar, n�o vos podeis servir. N�o sabemos o que vai ser de n�s e � por v�s que eu receio mais... Porque posso contar uma hist�ria diferente da de Hieronyma? N�o receeis, eu sei defender-me. Al�m disso, acredito sinceramente que podeis contar com o senhor Louren�o. Ele parece decidido a apoiarvos, defendendo a mem�ria do vosso pai...</p><p>� por isso que eu n�o posso proclamar o meu casamento com Philippe. Arriscar-me-ia a perder o meu �ltimo defensor. E o mais poderoso. Mas, lembrei-me agora: sabeis onde est� Khatoun? N�o a vejo desde que sa�mos de casa...</p><p>Ainda l� deve estar. Ela n�o queria assistir ao funeral de <emphasis>messer </emphasis>Francesco, porque teme tanto as cerim�nias f�nebres como a pr�pria morte...</p><p>Prefiro assim. Esta abomin�vel Hieronyma, que nunca foi suficientemente rica para comprar um escravo, seria capaz de a vender em leil�o p�blico j� amanh�, ou, pior ainda, acus�-la tamb�m de feiti�aria...</p><p>Estavam a chegar. A silhueta esmagadora do Pal�cio Velho, com as suas pedras salientes, o caminho de ronda e a alta e esguia torre de Arnolfo, que evocava vagamente uma flor-de-lis ainda em bot�o, erguia-se diante daquelas que bem podiam ser chamadas de prisioneiras. Uns criados em libr� verde abriram-lhes as portas e elas subiram pela estreita escadaria que ia dar � sala do Conselho onde, dentro em pouco, se jogaria o destino de Fiora e daqueles que lhe permaneciam fi�is.</p><p>Ao transpor a porta baixa da grande sala, L�onarde benzeu-se e Fiora, quase maquinalmente, imitou-a. Agora, era preciso ir at� ao fim. Mas onde estava o fim?</p></section></section><section><title><p>Segunda parte</p><p>O PESADELO</p></title><section><title><p>CAP�TULO VII</p><p>O P�O AMARGO</p></title><p>A cela era triste, cinzenta e quase nua: um colch�o de palha, pousado sobre duas cruzes de madeira, um cobertor esburacado, um crucifixo na parede cuja brancura inicial sofrera os atentados da humidade, um escabelo para a prisioneira se sentar e um outro suportando uma bacia e duas toalhas rugosas e, por fim, um bacio por baixo da cama, compunha toda a decora��o. Aquilo parecia-se tanto com uma pris�o que, uma vez l� dentro, Fiora virou-se para protestar, mas j� a porta, munida de um postigo gradeado, se fechava e ela p�de ouvir a chave girar na fechadura. Que significava aquilo?</p><p>A sess�o na grande sala da Senhoria fora das mais agitadas. Perante os priores e o magistrado municipal, reunidos numa esp�cie de tribunal, Hieronyma repetira a sua acusa��o apoiada por Marino, que, sempre sem ousar levantar a cabe�a, relatou o que vira em Dijon num l�gubre dia de Dezembro. Mas � sua maneira rancorosa: Francesco Beltrami teria matado o marido de Marie de Br�vailles para lhe tirar a crian�a. L�onarde, ent�o, metera-se. Tra�ou de Regnault du Hamel um retrato alucinante de maldade, que aumentava na mesma propor��o a imagem radiosa dos jovens amantes malditos. Falou na emo��o de Francesco Beltrami, na sua c�lera perante o assass�nio friamente decidido de uma crian�a de poucos dias. Falou no velho padre, no baptismo de Fiora num quarto da Cruz de Ouro e em todos os cuidados tomados pelo negociante florentino para garantir �quela pequenita, que ele amara instantaneamente, um futuro como o que todas as crian�as deveriam ter ao chegarem a este mundo demasiado duro para a sua fraqueza. Ele tinha confian�a naquele Marino, que agora o tra�a vilmente, a despeito das benesses recebidas, com uma mulher que, ao descer at� ele, se desonrara. </p><p>Sim, Francesco Beltrami quisera que aquela crian�a do seu cora��o se tornasse sua filha aos olhos de todos e, ao declar�-la como tal, mal mentira: n�o era ela, realmente, a filha bastarda de uma dama de sangue nobre?... Por fim, fina como era, L�onarde Mercet era a primeira vez que Fiora ouvia o nome todo da sua governanta terminara a sua arenga clamando para o servidor infiel a ira do Senhor e todas as piores maldi��es. Predisse-lhe noites sem sono, as 12 pragas do Egipto abatendo-se sobre ele e sobre os seus bens e, para concluir, a maldi��o at� ao fim dos seus dias com a satisfa��o, puramente subjectiva, ali�s, de ver o miser�vel encolher-se ao ouvir as suas palavras e perder o sangue-frio at� cair de joelhos.</p><p>Louren�o de M�dicis falara por sua vez, pedindo calorosamente pelo seu amigo defunto e pela juventude inocente da crian�a por ele eleita. Denunciara a rapacidade da dama Pazzi e o seu estranho comportamento, por, depois de um pedido de casamento recusado, ter obrigado a jovem a pedir justi�a por um acto de que n�o tivera culpa. Infelizmente, cometera o erro de englobar todos os Pazzi, que detestava, no mesmo an�tema e Petrucci chamara-lhe a aten��o asperamente.</p><p>Para a Senhoria, que contava no seu seio com muitos amigos dos M�dicis mas tamb�m com alguns dos seus inimigos, a situa��o era confusa e dif�cil de julgar. Ainda por cima porque o clero se tinha intrometido na pessoa do abade do convento de San Marco, para cujas celas, entretanto, enaltecidas pelos frescos de Ang�lico, Louren�o gostava de se retirar, mas que, como bom dominicano, se achava um ferrabr�s de Sat� e das suas criaturas. Ora, para esse monge intransigente, uma crian�a nascida de amores incestuosos e ad�lteros s� podia ser uma criatura do dem�nio, que nenhum baptismo poderia redimir, sendo que a �gua benta seria mais um sacril�gio.</p><p>A sua voz troante impressionou os �magn�ficos senhores�, dos quais alguns eram almas simples e Fiora, por um instante terr�vel, perguntou a si pr�pria se n�o iriam preparar para ela uma fogueira no Pal�cio Velho... Al�m de que, encorajada por uma ajuda inesperada, Hieronyma voltou a atacar mais venenosamente do que nunca, suplicando aos priores que n�o permitissem que um tal esc�ndalo se espalhasse por mais tempo sob os c�us de Floren�a, o que s� poderia atrair mais perigos e maldi��es...</p><p>Era mais do que Fiora se sentia capaz de suportar. Levada pela c�lera, enfrentou a sua inimiga a quem, com voz gelada, acusara <emphasis>de </emphasis>mandar assassinar o seu primo e de querer a sua perda para ficar com a heran�a fabulosa.</p><p>Ent�o, foi o tumulto, a algazarra, a mais assombrosa das desordens. Os apoiantes de ambos os lados da causa injuriaram-se e quase chegaram a vias de facto. Foi preciso que Petrucci mandasse entrar a guarda para restabelecer um pouco de calma na sala que, para dizer a verdade, j� vivera muitas situa��es semelhantes desde os tempos her�icos dos Guelfos e dos Gibelinos. Em Floren�a as pessoas gostavam quase tanto de zaragata como de festas, cortejos, grandes prociss�es e belas-artes. Era uma maneira como outra qualquer de provarem que, apesar do poderio dos M�dicis, ainda estavam numa rep�blica.</p><p>Quando, por fim, se conseguiu um certo sil�ncio, os priores decidiram-se, depois de deliberarem rapidamente com Louren�o. Na impossibilidade de resolverem uma situa��o que nunca se apresentara � sua sagacidade, decidiram que o conjunto de bens de Francesco Beltrami seria posto sob sequestro enquanto se esperava um julgamento definitivo. Por outro lado, um administrador, cuja escolha foi deixada ao banco M�dicis, seria nomeado para assegurar a continua��o dos neg�cios do negociante defunto, para que pudesse ser garantido o trabalho aos seus numerosos empregados. Quanto a Fiora, que acusara sem provas, era pass�vel de pris�o, tal como lho deu a entender o sobrolho franzido de Lorenzo. Apesar das cautelas, fora demasiado longe e <emphasis>o Magn�fico, </emphasis>apesar de toda a sua influ�ncia, teria dificuldade em salv�-la se os priores decidissem aplicar a lei em todo o seu rigor. Ent�o, houve um instante de hesita��o, mas que n�o durou muito. O abade de San Marco voltou � carga empurrando diante de si um monge que trazia, como ele, o h�bito branco, o escapul�rio negro e a cruz de prata dos dominicanos:</p><p>Permiti Vossas Senhorias falou ele pelo nariz que vos apresente Frei In�cio Ortega, que vem da nossa casa de Valladolid, em Castela, que imp�s a si pr�prio viajar por toda a cristandade, como em tempos o nosso santo fundador, para pregar o Evangelho e desmontar as armadilhas do Maligno. Frei In�cio, que � um especialista em mat�ria de diabruras, deseja propor-vos uma solu��o que talvez agrade a todos...</p><p>O rec�m-chegado apresentou-se como um homem de meia-idade, grande e um pouco curvado. Era quase calvo por completo e a sua alta fronte em forma de c�pula dominava o arco baixo das sobrancelhas.</p><p>Tinha um nariz poderoso, uma boca severa e uns olhos que, por tr�s das p�lpebras, escondiam o olhar. A sua presen�a tinha qualquer coisa de pesado e sinistro, que todos, mais ou menos, sentiram. Convidado a exprimir-se, o monge avan�ou, as m�os escondidas nas mangas brancas do h�bito, saudou como um homem que se sabe superior �queles a quem se dirige e depois esperou.</p><p>Sede duplamente bem-vindo, frei In�cio disse o mais idoso dos priores, que fazia as fun��es de presidente. Escutamos Vossa Rever�ncia com respeito.</p><p>O rec�m-chegado olhou � vez para Hieronyma e para Fiora, no rosto da qual se demorou um instante e depois, num toscano f�cil, mas que a sua voz �spera tornava curiosamente desagrad�vel, disse:</p><p>Estas duas mulheres odeiam-se demasiado para que seja poss�vel tirar-lhes a verdade, mas existe um meio de descobrir essa verdade. Proponho que apelemos ao julgamento de Deus. Submetamo-las � prova da �gua!</p><p>Seguiu-se um grande sil�ncio. Numa cidade como Floren�a, onde a liberdade de esp�rito e as luzes da filosofia grega tinham adquirido direitos de cidadania ao ponto de inquietar muitas vezes a Igreja, o ju�zo de Deus n�o era muito utilizado, j� que era considerado como uma pr�tica de outras eras. De imediato, ali�s, Louren�o protestou e todos puderam ver, pelo olhar irritado que lhe lan�ou, que o monge espanhol n�o lhe agradava mais do que a sua proposta:</p><p>N�o poderemos n�s, antes de chegar a esse extremo, dar um voto de confian�a aos homens que nesta cidade t�m a seu cargo a ordem e a justi�a: aos nossos magistrados, ao <emphasis>barguell </emphasis>e ao magistrado municipal Petrucci? Eu acho-os capazes de descobrir o assassino de Francesco Beltrami... ou os assassinos, se se trata de um executante.</p><p>Aquela lisonja fez descontrair a atmosfera, sentindo-se os priores satisfeitos por lhes devolverem os m�ritos de que eles se achavam merecedores. Louren�o, encorajado por alguns acenos de cabe�a aprovadores, ia prosseguir para explorar a sua vantagem quando Hieronyma avan�ou e se ajoelhou aos p�s de frei In�cio.</p><p>Eu estou pronta, no que me diz respeito, a submeter-me ao julgamento do Alt�ssimo e penso, muito reverendo padre, que tendes</p><p>1 o Chefe da pol�cia.</p><empty-line/><p>toda a raz�o. S� Deus me pode purificar de uma acusa��o infame, mas que n�o me espanta, vinda de tal criatura!</p><p>O estupor, face � incr�vel aud�cia daquela miser�vel, sufocou Fiora. Desprezaria ela Deus ao ponto de pretender associ�-lo ao seu crime e fazer dele seu c�mplice? Mas j� Hieronyma se levantava, triunfante e se virava para ela.</p><p>E agora tu, filha de ningu�m! Que tens a dizer?</p><p>Assim interpelada, Fiora, repelindo docemente L�onarde que tentava ret�-la, avan�ou calmamente, mas, em vez de se dirigir ao monge estrangeiro, foi diante da Senhoria que se ajoelhou:</p><p>Eu tamb�m aceito comparecer perante o tribunal de Deus e repito bem alto a minha acusa��o: o meu pai, que nunca ningu�m me impedir� de chamar assim, foi morto por ordem desta mulher e agrade�o ao vener�vel irm�o In�cio por me permitir, assim, conseguir a prova que me falta.</p><p>Subitamente, a jovem sentiu uma grande paz. Certamente, sabia que, ao aceitar o ju�zo de Deus, aceitava ao mesmo tempo a morte quase certa: dentro de dois ou tr�s dias, em camisa e estreitamente ligada por cordas que lhe interditariam qualquer movimento, seria atirada ao Arno totalmente cheio, com poucas hip�teses de reaparecer � superf�cie, mas, pelo menos, juntar-se-ia ao seu pai, deixando uma vida que j� n�o a interessava. O �nico ser capaz de a defender j� n�o existia, o homem que ela amava ridicularizara-a e rejeitara-a para sempre e, por fim, acabava de ver afastarem-se dela aqueles que diziam am�-la e a cidade inteira, que ainda ontem lhe sorria e a acarinhava, virar-se contra ela com a alegria feroz dos med�ocres que v�m abater-se subitamente um ser at� ali privilegiado.</p><p>Uma �nica coisa a consolava: ia morrer, sim, mas Hieronyma partilharia a sua sorte. A menos que... a menos que, no seu c�rebro retorcido, concebesse um meio de escapar ao afogamento. Mas, que meio seria esse?</p><p>Visivelmente, <emphasis>o Magn�fico </emphasis>fazia a si mesmo essa pergunta. O seu olhar sombrio n�o se afastava de Hieronyma e, assim como Fiora, n�o conseguia compreender o que levara aquela mulher a sujeitar-se � proposta do monge espanhol. Mas, em seguida � dupla aceita��o, o tumulto recome�ou. Toda a gente falava ao mesmo tempo e foi muito dif�cil restabelecer a calma. Apenas Louren�o e os dois monges permaneceram impass�veis, esperando que a algazarra terminasse. Por fim, os membros da Senhoria conseguiram p�r-se de acordo e decidiram que, volvidos tr�s dias, as duas mulheres seriam levadas para o meio do rio cada uma no seu barco e atiradas � �gua pela m�o do carrasco, depois de se terem confessado e ouvido missa. A decis�o da Senhoria dependeria, naturalmente, do resultado da prova. At� l�, as duas mulheres seriam conduzidas, tanto uma como outra, ao convento das dominicanas de Santa L�cia, para ali se recolherem e viverem em ora��o at� � hora do julgamento.</p><p>Fiora escondeu a sua decep��o. Esperava que a tivessem deixado aguardar em sua casa, no seu ambiente familiar, o instante supremo, mas isso fora-lhe recusado. Tal como o seu pai, a viagem come�ada de manh� seria a �ltima... Decididamente, Deus era, por vezes, cruel e a jovem n�o tinha muita esperan�a num milagre a seu favor.</p><p>Com as l�grimas nos olhos abra�ou L�onarde, que solu�ava sem reserva depois de lhe terem recusado seguir o destino da crian�a que tinha criado. A governanta tinha autoriza��o de regressar ao pal�cio Beltrami at� ao resultado da prova. Ent�o, decidiriam o seu caso.</p><p>N�o tenhas receio murmurou Louren�o de M�d�cis, que conseguira aproximar-se de Fiora eu cuidarei dela se...</p><p><emphasis>O Magn�fico </emphasis>n�o ousou formular o fim da frase, mas a jovem compreendeu que o seu cepticismo n�o acreditava muito nas interven��es celestes.</p><p>... levo-a para minha casa concluiu ele, mas L�onarde n�o estava de acordo:</p><p>Se v�s permitirdes que esta crian�a deixe a sua vida neste julgamento est�pido declarou ela em franc�s n�o ficarei nem mais um dia nesta cidade infame e at� ao meu �ltimo dia hei-de pedir a Deus que a cubra de maldi��es!</p><p>Esperemos para ver como Ele julgar�... suspirou Louren�o, imp�vido.</p><p>Mas j� os soldados se aprestavam a conduzir as duas inimigas ao convento. Fiora abra�ou uma �ltima vez L�onarde, que se agarrava a ela. Velai pela minha casa e por todos aqueles que nela moram. Cuidai de Khatoun. Ela n�o tem mais for�a do que um pequeno gato... No exterior voltaram a encontrar a multid�o, que, por qualquer mist�rio, j� sabia o que ia acontecer. A sua longa espera tornara-a ainda mais barulhenta do que durante o funeral de Beltrami e foi no meio de gra�olas e at� de inj�rias que as duas mulheres chegaram ao convento, n�o longe da porta de San Niccolo.</p><p>Nem um �nico rosto amigo se mostrou durante aquele penoso trajecto, sen�o, no �ngulo da varanda dos Priori, a grande silhueta de Dem�trios Lascaris, cujo olhar acompanhou Fiora o mais poss�vel, mas o m�dico n�o fez qualquer gesto e a jovem, recordando a ajuda que ele lhe oferecera quando ela n�o precisava, pensou que aquele homem, por mais estranho que fosse, era exactamente como os outros: preocupado, antes de mais, com a sua pr�pria seguran�a. Ali�s, pensando bem, ele n�o tinha raz�o nenhuma para se preocupar com ela... O que n�o impedia que aquele �ltimo abandono lhe fosse penoso e quando a pesada porta de Santa L�cia se fechou, Fiora teve a impress�o de ouvir fechar se a pedra da sua tumba...</p><p>Sentada no seu leito miser�vel, Fiora revivia sem cessar as horas daquele terr�vel dia. Sentia-se cansada e mo�da, como se lhe tivessem batido com um pau. Aquela cela representava para ela a �ltima decep��o, porque sabia, por ali ter ido em visita duas ou tr�s vezes com Chiara para rezar e cuja prioresa, Madre Maddalena degli Angeli, era vagamente sua prima, que as freiras e as damas que iam fazer retiro ao convento dispunham de um cub�culo austero, sem d�vida, mas de limpeza perfeita, ornamentado com imagens santas e abrindo para o claustro, no centro do qual florescia um belo jardim. A estreita janela do seu alojamento, guarnecida de duas barras de ferro em cruz, dava para o p�tio traseiro, onde se amontoavam os detritos e onde se encontravam as latrinas. O odor era penoso e, pris�o por pris�o, Fiora lamentava que n�o a tivessem fechado antes numa verdadeira masmorra, porque aquele local ign�bil era a justa medida da considera��o que tinham por ela.</p><p>As suas derradeiras ilus�es, se ainda tinha algumas, desapareceram quando, ao cair da noite, uma irm� leiga, cujo h�bito constelado de n�doas proclamava que trabalhava na cozinha, lhe trouxe um bocado de p�o duro, uma bilha de �gua e uma malga de sopa de couves, na qual nadava um peda�o de toucinho ran�oso. Enojada, Fiora repeliu a escudela:</p><p>A cozinha do convento n�o fez progressos desde a minha �ltima visita tro�ou ela. Pensava que tinha direito a outro tratamento?</p><p>Ora vejam a delambida! exclamou a irm�, que era uma rapariga vermelhuda e com bigode. A nossa madre j� faz muito ao consentir em receber aqui e alimentar uma rapariga do diabo como tu! Devias agradecer-lhe de joelhos.</p><p>Ah! Porque agora sou uma filha do diabo? Portanto, fui baptizada. Mas, n�o h� muito tempo, quando aqui vinha, n�o se poupavam a lisonjas nem a do�uras para com a filha do muito rico Francesco Beltrami. E agora tenho de agradecer de joelhos uma sopa que nem os porcos quereriam? Vai dizer � tua madre superiora que quero falar-lhe!</p><p>Ningu�m fala assim � madre superiora! Ela est� na capela para unir as suas preces �s da santa dama que nos enviaram contigo e que vai sofrer por tua culpa.</p><p>Ouvir falar de Hieronyma como de uma santa era o c�mulo! Fiora olhou para a gorda religiosa com franco nojo e encolheu os ombros:</p><p>E eu n�o tenho o direito de rezar? Quero que me levem � capela!</p><p>As feiticeiras fingem sempre que s�o melhores crist�s do que as verdadeiras. As nossas irm�s n�o querem sujar-se com a tua presen�a e, se quiseres rezar...</p><p>Com o seu dedo gordo tremendo de c�lera, designou a cruz pendurada da parede:</p><p>Reza aqui! Nosso Senhor est� em toda a parte, mas, claro, as tuas iguais s� sabem rezar ajoelhadas em almofadas de veludo e respirando o perfume do incenso...</p><p>Desaparece! gritou Fiora furiosa. E leva esta sopa ign�bil. O p�o e a �gua chegam...</p><p>Com um sorriso mau, a irm� deixou cair a escudela, que se partiu, salpicando a bainha do vestido negro de Fiora:</p><p>Vou dizer que foste tu que fizeste isto disse ela maldosamente. Espero que te d�em com o chicote!</p><p>N�o o aconselho �s tuas irm�s, sen�o dentro de tr�s dias, quando estiver diante da Senhoria, direi como fui tratada nesta casa, � qual fui confiada. Ali�s, di-lo-ei de qualquer maneira. Direi como fizestes diferen�a entre mim e a mulher que assassinou o meu pai. Ficarei surpreendida se monsenhor Louren�o ficar satisfeito.</p><p>A irm� saiu batendo com a porta, mas sem se esquecer de dar duas vezes a volta � chave. S�, Fiora foi sentar-se no leito. Nunca sentira o cora��o t�o pesado. Estava resignada a morrer, mas seria mesmo necess�rio que os seus �ltimos dias se passassem na indignidade, na sujidade e na mesquinhez? N�o seria j� suficientemente duro s� ter esperan�a na morte, quando s� tinha apenas 17 anos?</p><p>Ao mesmo tempo que se esfor�ava por se desapegar dos bens deste mundo, a sua natureza permanecia viva e reclamava o que lhe era devido. Apercebeu-se que tinha fome, ferrou os dentes no p�o que n�o estava excessivamente duro e bebeu alguns goles de �gua, que estava fresca e pura. Sentiu-se um pouco menos miser�vel, mas tinha frio. A janela n�o era mais do que uma abertura na parede e nenhuma vidra�a protegia a cela contra a temperatura exterior. Ora, a chuva, que come�ara a cair aquando da sua chegada a Santa L�cia, ca�a agora a potes, empurrada por um vento violento vindo de norte. Penetrava naquela pris�o, que n�o era outra coisa, aumentando a po�a de �gua gordurenta deixada pela escudela quebrada.</p><p>Fiora sentiu vontade de atirar os cacos de barro e os restos de comida que sujavam o ch�o pela janela fora, mas o orgulho reteve-a. N�o lhe pertencia a ela fazer o trabalho de uma servente. Pretendia proteger, ao menos, a sua dignidade o mais poss�vel. Depois do ju�zo de Deus, se sobrevivesse, a Provid�ncia, que n�o parecia mostrar grande interesse, saberia o que fazer dela. A �nica certeza que tinha era que combateria at� ao limite das suas for�as para que lhe fosse feita justi�a.</p><p>Is�crates escrevera algures: �N�o devemos perder a coragem quando nos expomos ao perigo por uma causa justa.� A recorda��o daquela frase trouxe-lhe algum conforto. Aqueles queridos fil�sofos gregos sabiam sempre o que era preciso dizer e correspondiam melhor ao seu temperamento combativo do que os preceitos resignados do Evangelho. Plat�o dizia que era preciso fugir, sem olhar para tr�s, dos maus, ao passo que Cristo recomendava que se amasse o pr�ximo como a si mesmo. Ora, era imposs�vel Fiora ter por Hieronyma sentimentos fraternais. Se tinha de morrer dentro de tr�s dias, morreria odiando-a e sem nunca lhe perdoar, assim como nunca perdoaria aos perseguidores da sua m�e ou ao homem que, por devo��o ao seu pr�ncipe, lhe fizera tanto mal.</p><p>As doces notas do �ngelus ca�ram sobre aquela alma revoltada sem lhe provocar qualquer apaziguamento. Fiora nem tinha vontade de rezar, mas, como tinha frio, enrolou-se no cobertor e deitou-se para tentar conciliar o sono. Que, ali�s, n�o se fez rogado, de tal modo o seu corpo jovem, esgotado, reclamava repouso. Alguns instantes depois de ter fechado os olhos, Fiora adormecia profundamente.</p><p>Impressionado, sem d�vida, pela ang�stia do que iria suportar em breve, o seu esp�rito arrastou-a para um pesadelo. A jovem viu-se de p�, descal�a e em camisa nas margens de um rio turbulento e sulfuroso, que s� vagamente se parecia com um rio familiar. Na outra margem, mesmo na sua frente, estava Philippe de Selongey; ele estendia-lhe os bra�os e chamava-a. Ela queria ir ter com ele, mas uns bra�os cada vez mais numerosos e mais pesados, impediam-na. E Philippe chamava sempre... Por fim, ela sentiu-se violentamente empurrada e a �gua engoliu-a; conseguiu subir � superf�cie e a corrente levou-a, mas, na outra margem, Philippe, agora, ria, ria dos esfor�os inauditos que ela fazia para chegar at� ele. A jovem viu-o estender uma m�o para uma mulher sem rosto que se aproximava dele e que, no seu sonho, Fiora sabia ser muito bela. Eles riram-se juntos e depois, virando-se, afastaram-se enla�ados. Fiora tentou gritar, mas nenhum�som lhe sa�a da boca, que se enchia cada vez mais de �gua...</p><p>Um aban�o acordou-a. Ainda ofegante do pesadelo, a jovem ergueu-se e viu que uma religiosa se encontrava junto do seu leito, ao mesmo tempo que se apercebeu de que o dia j� despontava. J� n�o era uma irm� leiga, antes uma verdadeira religiosa, cujo h�bito impec�vel vestia um corpo longo e magro. Na oval estreita deixada pelo escapul�rio branco o rosto sem idade n�o deixava de ter uma certa beleza devida � regularidade dos tra�os, mas nenhuma do�ura lhe atenuava a severidade...</p><p>Levanta-te! ordenou a dominicana e segue-me! Maquinalmente, Fiora obedeceu e ent�o viu que a gorda irm� da v�spera estava ajoelhada no ch�o, lavando-o. Ela levantou a cabe�a quando Fiora passou por ela e escarrou com uma tal express�o de �dio que um arrepio percorreu a espinha da jovem.</p><p>Onde me levas? perguntou Fiora sem obter qualquer resposta. A alta silhueta branca e negra caminhava na frente dela com um passo deslizante que apenas imprimia um ligeiro movimento ao h�bito e Fiora teve a impress�o de seguir um fantasma. Atravessaram assim alguns corredores, passaram pela capela debilmente iluminada, na qual se podiam ouvir as vozes em un�ssono das freiras cantando a ora��o da manh� e atingiram o claustro, do qual Fiora se recordava. Ali, a sua guia abriu diante dela a porta de uma cela que se encontrava no �ngulo mais afastado da capela:</p><p>Para te evitar o pecado da den�ncia, a nossa reverenda madre decidiu alojar-te aqui at� ao dia do julgamento. Bem entendido, n�o sair�s daqui, mas encontrar�s em cima da cama roupa limpa para substitu�res as tuas, sujas...</p><p>Agradece por mim � reverenda madre murmurou Fiora, acrescentando: Posso ter esperan�a de tamb�m assistir �s ora��es?</p><p>N�o pe�as demasiado! Nenhuma das nossas irm�s deseja aproximar-se de ti e eu j� te disse que n�o sair�s daqui sen�o para o ju�zo de Deus. Arrepende-te!</p><p>De qu�?</p><p>Se n�o sabes, Deus sabe! Mas eu creio que tu n�o ignoras nada. � um pecado grave acusar uma inocente!</p><p>Inocente? Que sabes tu?</p><p>Pobre mulher! Seria preciso v�-la rezar na nossa capela de bra�os cruzados, com l�grimas e s�plicas, para que a luz tocasse, enfim, o teu cora��o endurecido e visses como a sua alma � pura...</p><p>Porque ela reza por mim? articulou Fiora, siderada.</p><p>Apenas e s�. � por isso que eu te digo: arrepende-te!</p><p>E ap�s aquela �ltima imposi��o a religiosa saiu e fechou a porta daquela nova cela com tanto cuidado como a da anterior, deixando Fiora dividida entre a c�lera e a repugn�ncia. Nunca imaginara que a hipocrisia de Hieronyma pudesse atingir tais limites. Procurou � sua volta qualquer coisa � qual aplicar o seu furor, mas se aquele novo alojamento era mais confort�vel e sobretudo mais limpo, era tamb�m t�o desprovido de tudo como o precedente.</p><p>Uma cama, uma verdadeira cama desta vez, se bem que estreita como um catre, ocupava, com as suas delgadas e pequenas colunas de cortinas brancas, um dos lados; uma cama sobre a qual tinham colocado um h�bito e um v�u branco de novi�a. Havia dois escabelos e uma pequena arca, sobre a qual estavam colocados um jarro e uma bacia. Por cima da arca uma m�o desconhecida, mas inspirada pela obra de Frei Ang�lico no convento dos dominicanos de San Marco, retratara, bastante mais laboriosamente, a morte de Santa L�cia diante do prefeito Paschasius, de Siracusa. De p� junto da m�rtir ajoelhada, que olhava avidamente para o c�u, o carrasco degolava-a, fazendo esguichar um rio de sangue que o pintor enriquecera com tinta dourada para melhor mostrar at� que ponto ele era precioso. Fiora sabia que a vida da santa, dividida numa s�rie de frescos, ornamentava certas celas das religiosas, as outras contando a vida de Cristo e a de santa �gata, no t�mulo da qual L�cia fora tocada pela gra�a.</p><p>Levada pela curiosidade e sabendo que as freiras faziam voto de pobreza, Fiora tirou os utens�lios de <emphasis>toilette </emphasis>e abriu a arca, mas fechou-a</p><p>196 de imediato com um arrepio de nojo: continha, com efeito, um supl�cio, um cinto com pontas de ferro e um cil�cio de crina, destinados, os tr�s, � mortifica��o do corpo e ao castigo dos pensamentos impuros... A jovem perguntou a si pr�pria se todas as celas conteriam aquele g�nero de instrumentos e por que aberra��o umas mulheres, que se queriam esposas de um Deus de do�ura, amor e miseric�rdia, utilizavam aqueles meios. Que amores feridos, que paix�es sufocadas precisariam de recorrer � dor f�sica para apagar a sua recorda��o? O amor, tal qual ela o conhecera nos bra�os de Philippe, deixaria vest�gios t�o insuport�veis, ou, pelo contr�rio, seria a m�goa, sentida por aquelas que entravam virgens para aquela casa por n�o terem conhecido nada de semelhante?</p><p>Pela sua parte, Fiora n�o lamentava nada e, se sobrevivesse, sabia que nunca pediria a um chicote, ou a um cil�cio, que lhe arrancasse a recorda��o das car�cias que tinha conhecido. O seu estranho marido s� quisera uma noite de amor e tinha-lha dado, inesquec�vel. Nunca Fiora procuraria apagar essa recorda��o, bem pelo contr�rio e se agora desejava vingar-se era, sobretudo, pelos meios empregues para conseguir essa mesma noite... e a grossa maquia em ouro que era o seu corol�rio. Porque Philippe n�o hesitara em acordar o amor de uma jovem, sabendo muito bem que depois de a ter feito sua a abandonaria para sempre. O borgonh�s concretizara os neg�cios do seu senhor, ao mesmo tempo que satisfizera o seu pr�prio desejo. Quanto � f�bula que dizia que ele queria morrer, a jovem n�o acreditava nela. O senhor de Selongey <emphasis>amava, </emphasis>demais a vida para sonhar, sequer, perd�-la. Fazia amor demasiado bem para renunciar a ele para sempre... Outras mulheres receberiam os seus beijos, as suas car�cias e, se bem que o pensamento lhe fizesse ranger os dentes de raiva, impotente, Fiora n�o o repudiava. Philippe soubera manobrar engenhosamente o h�bil comerciante que era Beltrami, para embara�ar a sua consci�ncia com a recorda��o de um casamento mesmo desonroso que renegaria no dia seguinte. Era t�o f�cil esquecer aquela que com tanta desenvoltura ele condenara a definhar lentamente sem marido e sem filhos na v� sumptuosidade de um pal�cio florentino. O mais engra�ado era que ele ignoraria, sem d�vida durante muito tempo, sen�o para sempre, o destino tr�gico da ef�mera condessa de Selongey...</p><p>Uma ideia s�bita atravessou o esp�rito da jovem, excitado pela c�lera e pela impot�ncia: restava-lhe um meio, talvez, um �nico, de frustrar as intrigas do seu marido: Philippe levara o seu dote real, sabia-o, sob a forma de uma letra sobre o banco Fugger em Augsburgo, uma letra que, se calhar, ainda n�o tinha sido paga. Dentro de dois dias, antes de a mandarem entrar para o barco, acorrentada, proclamaria bem alto, diante dos M�d�cis, aquele casamento que os ofenderia, pedindo apenas, se ainda n�o fosse tarde, que a contrapartida em ouro dessa letra n�o fosse entregue. Assim, vingar-se-ia ao mesmo tempo de Philippe e desse <emphasis>Temer�rio, </emphasis>ao qual ele ousara sacrific�-la! Podia morrer tranquila!</p><p>Deus sabia, no entanto, que a ideia dessa morte a horrorizava. A esp�cie de estado de gra�a que conhecera quando, no seguimento de Hieronyma, decidira submeter-se ao ju�zo de Deus, desaparecera. Agora, estava face a si pr�pria: uma rapariga de 17 anos, cheia de sa�de e que diziam bela, uma rapariga que tinha uma enorme vontade de viver, de respirar o ar doce da Primavera, de sentir na pele a car�cia do sol, de rir com uma amiga da sua idade, de ler belos livros, de escutar os acordes do ala�de e o canto dos poetas... de amar, mesmo se, para ela, essa palavra se escrevesse como odiar. E, sobretudo, uma rapariga que n�o queria apodrecer no fundo das �guas amareladas pelas lamas do Inverno do rio que corria diante da janela do seu quarto...</p><p>Uma ora��o encontrou, subitamente, o caminho dos seus l�bios:</p><p>Senhor, se eu tenho raz�o, fazei com que n�o morra!</p><p>Talvez para provar a si pr�pria que continuava viva, a jovem sentiu a necessidade de se sentir ocupada, mesmo se a estreiteza da sua pris�o n�o lhe dava muito espa�o. Deitou �gua na bacia, arrancou, mais do que tirou o seu vestido de tecido fino negro que cheirava terrivelmente a couves e tratou de se lavar o melhor poss�vel. Porque n�o era f�cil com t�o pouca �gua e o sab�o grosseiro, feito de sebo e cinza de madeira, s� de longe se assemelhava aos delicados cremes perfumados que o botic�rio Landucci mandava vir de Veneza, mas ela sentiu um certo conforto ao sentir-se lavada. Em seguida, com o pente que encontrara, desenredou e alisou longamente os seus espessos cabelos negros, onde permanecia um vest�gio do perfume caro que Khatoun lhe pusera enquanto a penteava. Lamentou-o porque n�o era bom evocar as imagens de um passado agrad�vel e, esfor�ando-se por pensar noutra coisa, entran�ou os cabelos numa espessa tran�a, que deixou cair sobre o ombro esquerdo. Por fim, vestiu o h�bito branco que lhe tinham deixado. A l�, tecida no convento, era rude, mas, pelo menos, estava lavado e, no fim de contas, era agrad�vel de usar...</p><p>O tinir de uma campainha atraiu Fiora � pequena janela que dava perto da porta, para as arcadas do claustro. A jovem viu a longa fila branca e negra das religiosas dirigindo-se para a capela naquele passo silencioso provocado pelas sand�lias de corda entran�ada. Nenhuma virou a cabe�a na sua direc��o, desaparecendo por tr�s das portas da capela entoando o <emphasis>Veni Creator...</emphasis></p><p>O eco das suas vozes permaneceu mesmo depois de as portas se terem fechado e Fiora ficou ali a ouvi-las e a contemplar a ordem fresca do jardim interior, plantado com loureiros, teixos e limoeiros, rodeando os canteiros cercados de buxo, onde as freiras cultivavam plantas medicinais. No meio havia uma bacia de pedra com um delgado jacto de �gua, onde as aves iam beber. E era uma imagem t�o bela, t�o tranquila e doce, que a cativa ficou ali um longo momento a contempl�-la. Seria, sem d�vida, uma das �ltimas que lhe seria dado admirar, mas, pelo menos, os seus olhos poderiam encher-se de beleza at� ao momento da partida. Depois, n�o teria mais do que ergu�-los para o c�u e fech�-los... para n�o mais os abrir.</p><p>Mas, coisa estranha, quanto mais Fiora se esfor�ava por se resignar, menos o conseguia.</p><p>O dia foi longo. A cativa passou-o quase todo a observar o jardim e o voo dos pombos. Mas perdeu muito do seu encanto quando viu Hieronyma, sempre vestida com o seu traje f�nebre, passeando-se pelo bra�o da madre Maddalena, como se se conhecessem desde sempre... E, subitamente, a jovem recordou-se do que lhe dissera Chiara numa das suas visitas: a superiora das dominicanas dava-se, sem d�vida, com os Albizzi, mas tivera por m�e uma Pazzi. Era naquele parentesco que era preciso procurar a causa do tratamento de favor de que gozava a sua inimiga. Esta permanecia um membro da nobreza florentina, ao passo que a ela lhe recusavam o direito de se dizer filha de Francesco Beltrami. A outra era recebida como uma amiga, ao passo que Fiora era vista apenas como uma prisioneira.</p><p>Entretanto, a sua amea�a de denunciar publicamente o tratamento indigno a que a submetiam dera os seus frutos com aquela mudan�a de alojamento. E quando a meio do dia lhe trouxeram a refei��o, esta, sem ser faustosa, era farta: alm�ndegas de vitela com pur� e um bocado de p�o branco. Apenas a �gua continuava a mesma... Fiora devorou tudo, pensando que a fome n�o era uma boa companheira de combate e que se luta melhor quando se est� na plena posse das suas for�as. Aquela ideia fez-lhe companhia durante o resto do dia, mas, quando a noite caiu, reapareceu a ang�stia. Teria sido agrad�vel ter junto de si uma amiga a quem se confiar, porque naquele convento, onde ainda h� pouco lhe sorriam, nenhum rosto se queria virar para ela. Pior ainda: ningu�m se queria aproximar dela.</p><p>As freiras estavam de novo na capela para cantar as v�speras, que � a �ltima ora��o da noite, quando de s�bito, aquela que viera ter consigo de manh� apareceu de novo, sempre muito fria, sempre muito distante, de vela na m�o.</p><p>P�e esse v�u na cabe�a! ordenou ela apontando para o tecido branco com que Fiora n�o julgara �til cobrir-se e segue-me!</p><p>Onde vamos?</p><p>J� vais ver! Mas aconselho-te a que tenhas uma atitude menos arrogante! No lugar onde te vou conduzir imp�e-se um comportamento modesto e n�o esse olhar seguro e nariz arrebitado!</p><p>Desde a minha mais tenra idade que me aconselham a manter a cabe�a bem erguida... seja em que circunst�ncia for!</p><p>A religiosa encolheu os ombros, saiu da cela e encaminhou-se para a direc��o oposta � que ia dar � capela. Fiora seguiu-a. A corrente de ar que ali reinava apagou a chama da vela, ali�s in�til: a noite que banhava o jardim interior era suficientemente clara para que se orientassem e Fiora, que estava fechada desde manh�, respirou os odores frescos com del�cia. Mas, de facto, n�o foram longe: at� ao outro lado do claustro, onde a freira abriu uma porta baixa e mandou entrar a sua companheira. As duas mulheres encontraram-se na soleira de uma sala bastante grande, onde uma ab�bada romana se apoiava em pesados pilares redondos. Ali, por tr�s de uma mesa sobre a qual ardia um archote de cinco mechas, estavam sentadas duas personagens, im�veis sob as pregas negras e brancas dos seus h�bitos quase iguais: a madre Maddalena degli Angeli e o monge espanhol de San Marco: frei In�cio Ortega.</p><p>Obrigada, irm� Prisca! disse a prioresa. Quanto a ti, Fiora, aproxima-te. Aqui o nosso vener�vel irm�o In�cio deseja fazer-te algumas perguntas. N�o te esque�as, ao responder-lhe que ele � um enviado do nosso Santo Padre o Papa Sisto, que Deus queira conservar com a sua sa�de e santidade.</p><p>Fiora inclinou-se sem uma palavra, perguntando a si pr�pria que faria um enviado do Papa num convento de mulheres �quela hora. Tamb�m n�o percebia muito bem o que teria ele para lhe dizer, mas, lembrando-se que fora ele que propusera o ju�zo de Deus, pensou que era melhor ter cuidado.</p><p>Seguiu-se um sil�ncio. Apoiado na cadeira de madeira escura em que estava sentado, o monge, de olhos meio fechados, olhava para a alta e delgada silhueta branca que tinha diante de si, direita e digna, sem medo aparente, mas tamb�m sem sobranceria. As chamas do candelabro cinzelavam os tra�os do rosto delicado e punham reflexos dourados nos grandes olhos cinzentos sob a brancura do v�u de onde deslizava, para cima de um ombro, a espessa tran�a de cabelos brilhantes. Frei In�cio mordiscou os l�bios finos, que humedeceu em seguida com a ponta da l�ngua. Depois, abandonando com um suspiro a sua pose descontra�da, encostou-se � mesa:</p><p>Tu pretendes chamar-te Fiora Beltrami? perguntou ele depois de ter deitado uma olhadela a uns pap�is pousados diante de si.</p><p>Nunca me chamei outra coisa. A reverenda madre aqui presente pode atest�-lo: ela conhece-me h� muito.</p><p>Mas pode ser que tenhas abusado da reverenda madre, assim como de toda a cidade e n�o tenhas direito a esse nome.</p><p>Tenho o direito que me concedeu a Senhoria, ao assinar o acto de adop��o que o meu pai lhe entregou.</p><p>Mas esse acto de adop��o � falso, porque o teu... pai enganou conscientemente a Senhoria. Na realidade, tu �s a filha de dois miser�veis que a justi�a de Deus mergulhou no fundo dos Infernos.</p><p>S� Deus pode dizer que justi�a � a Sua e eu creio, antes de tudo, na sua miseric�rdia.</p><p>A voz de Fiora permanecia t�o firme como a sua atitude.</p><p>Erguendo as suas p�lpebras engelhadas, frei In�cio fixou-a, como se atrav�s da intensidade do seu olhar quisesse reduzi-la � submiss�o. Fiora encontrou aqueles olhos sem cor definida e n�o baixou os seus. Um ligeiro rubor coloriu as faces magras do monge espanhol.</p><p>Atitude c�moda! Ser� porque temes essa justi�a? No entanto, aceitaste com facilidade submeter-te � senten�a do ju�zo de Deus! � verdade que foste um pouco obrigada... N�o foste tu a primeira a aceitar, mas sim aquela que acusaste. Se ela est� inocente, como tudo leva a crer, tu vais morrer. N�o temes a morte?</p><p>Mentiria se dissesse que n�o. Eu tenho 17 anos, reverendo padre mas, se tenho raz�o, n�o morrerei. Hieronyma, pelo contr�rio, morrer� e � a ela que dever�eis perguntar por que raz�o o aceitou ela com tanta facilidade...</p><p>Mas, justamente, porque a sua consci�ncia � t�o pura como a sua alma exclamou a madre Maddalena e porque a sua f� em Deus � total. N�o sei se se poder� dizer o mesmo de ti!</p><p>Erguendo a m�o num gesto apaziguador, frei In�cio p�s fim � interven��o da prioresa.</p><p>Veremos isso mais tarde. Quem � o teu confessor?</p><p>Fiora hesitou. Ela confessava-se raramente, tanto ao cura de Santa Trinita como ao capel�o de Orsanmichele, sem que fosse poss�vel dizer qual tinha a sua prefer�ncia. Era uma quest�o de horas e de humor, porque, nunca tendo conhecido grandes pecados, parecia-lhe uma coisa sem interesse ir confiar os seus pensamentos mais �ntimos a um quase desconhecido. A jovem confessou francamente essa dupla participa��o na sua vida religiosa e compreendeu de imediato que acabava de escandalizar frei In�cio ao ver o seu grande nariz estremecer:</p><p>O qu�? N�o tens um director de consci�ncia?</p><p>Eu sempre tive confian�a no ju�zo e rectid�o do meu pai. Ele � que era o meu director de consci�ncia...</p><p>Um homem que mentia t�o bem? E que, naturalmente, n�o te empurrava muito na direc��o da Igreja. Era a ela que devias ter sido confiada desde o teu nascimento, para que pudesses expiar, nos rigores benfazejos de um convento, o crime e o grande pecado da tua concep��o, que o baptismo n�o foi suficiente para apagar...</p><p>O meu pai n�o achava que eu deveria pagar por um pecado que n�o cometi. Ele queria que eu acreditasse que era uma rapariga como as outras. Queria que eu fosse feliz...</p><p>� por isso, sem d�vida cortou a madre Maddalena que ele te educou nos preceitos �mpios desses fil�sofos antigos, cujo pensamento infecta esta cidade, onde se consagra a esses escritos profanos, �s artes, �s festas e ao prazer o que se devia consagrar apenas a Deus.</p><p>O sumo pont�fice sabe tudo isso, minha querida irm� e preocupa-se seriamente. A desordem espiritual de Floren�a aflige-o ainda mais porque o exemplo vem de cima. Os irm�os M�dicis fazem pouco da f� crist� e da honra das mulheres. O adult�rio e o deboche espalham-se livremente pela sua corte. Eles chamaram aos seus conselhos gente baixa, ao mesmo tempo que, por meio do ex�lio, da morte ou simplesmente do desd�m, afastaram aqueles que desde sempre contribu�ram para a riqueza e bom nome da cidade... Mas Deus n�o os esquece!</p><p>Fiora olhou com estupor para aquele monge, que parecia em estado de transe. Com os olhos postos na ab�bada, como se estivesse � espera que ela se abrisse para dar passagem ao castigo celeste, erguera-se e, apoiado com as duas m�os na mesa, vociferava o seu furor fan�tico... e o seu �dio pelos M�d�cis...</p><p>Acreditais que um dia o Anticristo se afastar� de n�s? perguntou a madre Maddalena com as m�os unidas e os olhos marejados de �gua.</p><p>Frei In�cio regressou bruscamente � terra e enxugou o suor que lhe perlava o cr�nio calvo: � o que espera Sua Santidade e eu n�o fui enviado aqui se n�o para lhe trazer o socorro dos meus olhos e dos meus ouvidos. Eu sou estrangeiro, portanto imparcial, mas o que vi e ouvi at� agora faz-me lamentar que a poderosa m�quina da Inquisi��o, t�o florescente quando estava nas nossas m�os, tenha finalmente sido confiada aos irm�os pregadores, que n�o se preocupam muito com ela. Entretanto, seria desej�vel que ela retomasse o seu rigor nestes pa�ses e ali�s, a rainha Isabel de Castela, por quem fui enviado a Roma, desejaria que o Papa autorizasse a sua instala��o nos seus reinos, nos quais ela prossegue a sua reconquista face aos Mouros infi�is... mas, parece-me que nos afast�mos um pouco do caso desta rapariga, a quem tudo isto n�o diz respeito. Ela olha para n�s com olhos arregalados, que devia aprender a baixar!</p><p>N�o t�o afastados quanto isso, muito reverendo irm�o. N�o � ela o pior exemplo daquilo que produz uma educa��o onde Deus n�o entra?</p><p>Ler livros nunca impediu fosse quem fosse de servir e amar o Senhor protestou Fiora, indignada. Eu acho que sou t�o boa crist� como...</p><p>Como eu, talvez? N�o sejas vaidosa, Fiora!...</p><p>Deixemos isso, minha irm� e acabemos com isto! cortou frei In�cio secamente. Por agora, estou aqui para tentar salvar uma alma, se ainda for a tempo. Tu disseste-me, h� pouco, que temias a morte, rapariga pecadora? Quero acreditar em ti, porque, com efeito, tu �s jovem... e bela, mesmo se essa beleza � obra do Maligno. Portanto, fa�o-te uma pergunta simples: queres viver?</p><p>Viverei se Deus quiser e se o rio n�o me engolir disse Fiora calmamente.</p><p>�s corajosa, reconhe�o-o... a menos que contes com a ajuda... do Outro?</p><p>Do Outro? Qual outro?</p><p>N�o te fa�as inocente, porque os teus olhos n�o t�m nada de inocente. Estou a falar daquele que os feiticeiros e feiticeiras invocam e tu tens tudo o que � preciso para ser uma. J� vi iguais a ti sorrirem face a uma fogueira...</p><p>Mandastes-me vir aqui para me insultar? exclamou Fiora, revoltada. Eu n�o sou nenhuma feiticeira, assim como n�o o eram os meus infelizes pais, cujo �nico crime foi amar quem lhes era proibido!</p><p>N�o te aconselho a invoc�-los muitas vezes! Mas seja, acredito em ti: tu n�o �s uma feiticeira disse o monge com a voz subitamente diferente, t�o doce e envolvente como antes dura e cortante. Tu n�o passas de uma ovelha tresmalhada, por teres maus donos. � por isso que me proponho salvar-te.</p><p>Tens, portanto, o poder de evitar que eu seja atirada � �gua, quando toda a cidade espera isso com impaci�ncia?</p><p>Vejo que n�o tens muitas ilus�es sobre o que podes esperar dos teus antigos amigos! disse frei In�cio com um pequeno sorriso. Dito isto, n�o me � poss�vel evitar o ju�zo de Deus. A �nica pessoa que o pode fazer �s tu mesma.</p><p>Eu?</p><p>Quem mais? E basta uma pequena coisa: reconhece diante de mim, aqui mesmo, que acusaste falsamente... talvez sob o imp�rio do desgosto como v�s, esfor�o-me por te compreender! aquela pobre mulher... Lembra-te que ela agarrou, como se fosse a sua �ltima hip�tese, a terr�vel prova que eu propus. Portanto, n�o pode ser culpada. Reconhece que te enganaste e eu farei com que os daqui se acalmem...</p><p>E se eu aceitar, que me acontece depois?</p><p>Primeiro, ficar�s aqui no convento, aos cuidados da madre Maddalena. Ser� mais prudente, porque tu pr�pria o disseste: estes bons florentinos s� v�em em ti... uma filha de ningu�m. N�o poder�s recuperar os bens do teu pai: M�dicis ficar� muito feliz por poder guard�-los para ele. Ser�s desonrada e atirada ao rio...</p><p>Por que raz�o seria obrigada a ficar aqui? Podia muito bem sa�r de Floren�a!</p><p>Mas, tu sair�s de Floren�a. Quando os esp�ritos estiverem um pouco mais calmos e estiveres um pouco esquecida, far-te-ei conduzir a Roma, onde Sua Santidade, a meu pedido, te acolher�. Poder�s, ent�o escolher entre um convento agrad�vel ou o servi�o de uma nobre dama qualquer. A sobrinha do Papa, por exemplo: a condessa Catarina... Ela receberia, certamente com bondade, uma jovem indignamente abandonada e espoliada pelos M�dicis.</p><p>Fiora, a princ�pio desorientada pelo tom subitamente amig�vel do monge espanhol e sem perceber os des�gnios que o levavam a tentar que ela renunciasse � sua acusa��o, compreendeu subitamente. Vindo para fazer um inqu�rito acerca da deprava��o e supostas viol�ncias de Louren�o e Giuliano, frei In�cio contava fazer dela um dos pe�es do seu jogo. Se bem que pouco a par da pol�tica, sabia o suficiente para n�o ignorar que Sisto IV, inimigo mortal dos M�dicis, porque desejoso de oferecer Floren�a ao seu sobrinho Girolamo Riario, marido de Catarina Sforza, esfor�ava-se por reunir � sua volta todos os inimigos do senhor da cidade cobi�ada. Fiora juntar-se-ia em Roma a Francesco Pazzi, o vencido da <emphasis>giostra, </emphasis>de quem se dizia que estava a ser aliciado pelo Papa para os seus neg�cios de prata e que transferira para Roma, com a b�n��o do velho Jacopo, a maior parte da fortuna familiar. Entretanto, Hieronyma, reconhecida como inocente e pura, constituiria um insulto vivo para Louren�o, que tentara defender Fiora... e, certamente, conseguiria que lhe fosse atribu�da pela Senhoria uma boa parte da fortuna dos Beltrami.</p><p>Vendo que a jovem se mantinha em sil�ncio, frei In�cio impacientou-se:</p><p>Ent�o? Que tens a dizer? Creio que a minha oferta � generosa?</p><p>Tamb�m acho disse a prioresa. Pela minha parte, aceito manter-te aqui, onde ser�s tratada como a protegida da Igreja que em breve ser�s...</p><p>Fiora olhou para um e para outro: para ela, com os seus olhos ainda h�midos por uma est�pida ternura e para ele, com o tique enervante da boca, que mordiscava e humedecia. Tanto um, como o outro, causavam-lhe repugn�ncia.</p><p>Agrade�o-vos a ambos... muito sinceramente pelo interesse generoso que tendes por mim, mas prefiro enfrentar o ju�zo de Deus. Espero que ele me permita provar que tenho raz�o!</p><p>Frei In�cio, que voltara a sentar-se, saltou da cadeira como se tivesse sido impelido por uma mola:</p><p>Pobre louca! Acabas de assinar a tua condena��o � morte! urrou ele, ao mesmo tempo que a sua companheira erguia as m�os e os olhos ao c�u.</p><p>Tu n�o sabes nada, reverendo padre! Eu posso sobreviver ao afogamento.</p><p>Mas n�o ao fogo! Eu tinha raz�o: tu n�o passas de uma feiticeira e, se por infelicidade o rio te deixar viva, ser� � fogueira que farei com que te condenem! Como farei, talvez, com que condenem um dia o M�dicis e todo o seu bando. N�o ignoro que ele tem com ele um m�dico m�gico e vidente grego, que n�o pode ser sen�o um subordinado de Satan�s! Quando o Papa estender a sua m�o sobre esta cidade maldita, todos eles arder�o... mas tu, tu arder�s antes deles, para maior gl�ria de Deus!</p><p>O monge perdera o dom�nio de si pr�prio e � luz ondulante das velas a sua boca espumante, retorcida de raiva e os seus olhos chamejantes davam-lhe o ar de um dem�nio.</p><p>Ser� o que Deus quiser. Mas tu devias deixar que Ele pr�prio se encarregue da sua gl�ria. Ele percebe certamente mais disso do que tu!</p><p>� a tua �ltima palavra? Recusas?</p><p>Recuso. E agora, com a tua autoriza��o, gostaria de regressar � minha cela. Faz-se tarde... e eu gostaria de rezar em paz.</p><p>Sacril�gio! O fogo do inferno espera-te depois do dos homens! O monge gritava t�o alto que, temendo sem d�vida que ele fosse ouvido por toda a comunidade, a madre Maddalena apressou-se a chamar de novo a irm� Prisca batendo as palmas. A religiosa n�o devia estar longe, porque apareceu imediatamente. No instante seguinte, Fiora regressava atr�s dela para o seu alojamento. Mal tinha entrado quando ouviu as freiras a sair da capela. A jovem ouviu-lhes os passos deslizantes e os cochichos: as filhas de Santa L�cia deviam perguntar a si pr�prias por que raz�o a madre superiora n�o assistira ao of�cio da noite. Depois, deixou de ouvir qualquer ru�do, sen�o, na vizinhan�a, os latidos furiosos de um c�o e, um pouco mais tarde, o apelo repetido dos soldados da guarda, que, nas muralhas, chamavam de uma torre para a outra.</p><p>Fiora viu que na sua aus�ncia lhe tinham levado o jantar. Era composto por pasta de queijo com uma salada de manjeric�o. Mas estava tudo frio. A jovem comeu um pouco. Achando o prato pegajoso, vingou-se no p�o e na �gua. A despeito de n�o se ter mexido muito durante todo o dia, sentia-se fatigada, mas era sobretudo o esp�rito que estava cansado... Quando as portas do convento se fecharam ap�s a sua entrada, Fiora esperara gozar, ao menos, um pouco de paz. Ora, desde que entrara naquele lugar dedicado � ora��o e medita��o, s� encontrara maldade, mesquinhez e desprezo. Tivera de defrontar um casal de fan�ticos, decididos a empregar todos os meios para lhe impingirem os seus des�gnios tortuosos. O monge amea�ara-a, at�, com a fogueira. Mas ela n�o cedera, apesar do medo que aquele monge lhe inspirava e sentia-se feliz...</p><p>Sentiu que s� lhe restavam dois dias e o seu cora��o apertou-se, face ao tempo que fugia inexoravelmente. O seu destino, come�ado numa pris�o, deveria mesmo acabar noutra pris�o? A jovem pensou na sua m�e e em tudo o que suportara. Como Marie devia ter sofrido, no corpo e na alma, durante as horas penosas do parto, vigiada por carcereiros sem piedade, com a ideia terr�vel de que n�o teria o direito de ver viver aquele pequeno corpo sa�do do seu ventre e que, certamente, seria votado � morte a breve trecho! Dias e noites de agonia, talvez com o gl�dio do carrasco como �nica esperan�a... Mas, pelo menos, era apoiada pelo seu amor pr�ximo, um amor que na �ltima hora pudera pegar pela m�o, ao passo que o de Fiora clamava no deserto... Como tudo teria sido diferente se Philippe a tivesse amado como Jean aquele Jean em quem ela n�o conseguia ver um pai tinha amado Marie!</p><p>Um dia, aquele estranho marido saberia que aquela Fiora, que ele jurara amar, defender e guardar em sua casa para o melhor e para o pior, morrera miseravelmente. Derramaria por ela uma l�grima? Ou teria pena? N�o, um Selongey n�o devia saber chorar. Sentiria apenas um grande al�vio. A vergonha deixaria de existir, a sujidade teria sido lavada... Ele poderia virar-se alegremente para outra mulher... uma mulher que talvez j� ocupasse a sua vida e os seus pensamentos?</p><p>Naquela noite, Fiora n�o conseguiu rezar. Deus estava demasiado longe, demasiado indiferente, j� que permitia que pesasse sobre uma inocente o peso de uma maldi��o imerecida. Quanto aos representantes da Sua gl�ria e bondade, que Ele tinha posto no caminho da sua v�tima, n�o conseguiam mostrar os doces rostos do Crucificado e da Sua Santa M�e... E foi a chorar que Fiora adormeceu.</p><p>O dia seguinte foi sombrio. De manh� cedo uma outra irm� leiga apareceu para levar a escudela ainda cheia e proceder a uma r�pida limpeza da cela, mas manteve os olhos obstinadamente baixos durante o tempo todo que durou o seu trabalho e n�o respondeu a nenhuma das perguntas que Fiora lhe fez.</p><p>Ningu�m apareceu durante o resto do dia. Constatando que n�o lhe traziam nada de comer, Fiora pensou que tinham decidido aplicar-lhe um severo regime de penit�ncia, consequ�ncia evidente da sua atitude face � esp�cie de tribunal constitu�do pela velha prioresa e pelo monge espanhol. A jovem resignou-se, lamentando apenas, quando soasse a hora do ju�zo de Deus, afrontar a prova com as for�as diminu�das.</p><p>Passou o dia todo deitada na cama. Uma chuva fria ca�a incessantemente desde manh�, alagando o jardim onde j� n�o havia aves e Fiora sentiu o seu cora��o pesar cada vez mais � medida que o tempo passava.</p><p>Para sua grande surpresa, a mesma irm� que viera de manh�, regressou � noite com p�o, �gua e uma grande escudela com uma sopa espessa, que cheirava a legumes frescos. E para sua surpresa ainda maior, falou-lhe.</p><p>Est� quente disse a leiga. Despacha-te a com�-la!</p><p>O tom era quase amig�vel e Fiora sentiu o seu cora��o aquecer. Era a primeira criatura, naquela casa, a dirigir-se-lhe como a um ser humano.</p><p>�Obrigada�, disse ela com um sorriso que n�o lhe foi devolvido. Mas n�o tinha import�ncia. Com o apetite da sua idade, atacou a sopa que lhe pareceu suculenta, se bem que tivesse um gosto um pouco invulgar, dif�cil de determinar. Mas a jovem n�o teve tempo de fazer a si pr�pria qualquer pergunta, porque, mal meteu � boca a �ltima colherada, a escudela escapou-lhe das m�os. Os seus olhos fecharam-se e Fiora caiu num sono profundo...</p></section><section><title><p>CAP�TULO VIII</p><p>O MULHER�O</p></title><p>Fiora abriu os olhos para um cen�rio t�o diferente daquele em que adormecera, que voltou a fech�-los de imediato, pensando que estava a sonhar, mas a sua cabe�a, pesada e dorida, a boca seca e uma penosa sensa��o de n�usea trouxeram-na de volta a uma realidade bem diferente. Abriu de novo as p�lpebras e tentou levantar-se, mas a tontura que lhe atingiu a cabe�a obrigou-a a deitar-se de novo com um gemido. Im�vel, ent�o, contemplou sem compreender o quadro inveros�mil no meio do qual se encontrava.</p><p>Aquilo parecia-se com uma estufa, porque havia uma grande selha de madeira pousada num solo de lajes, no qual estava escavado um rego para evacua��o de �guas, que terminava num buraco escavado na muralha. Havia tamb�m um <emphasis>braseiro, </emphasis>ali�s apagado, mas cujos fumos tinham enegrecido o tecto grosseiramente rebocado. Tamb�m se parecia com uma pris�o, porque a divis�o era mal iluminada de cima por um respiradouro e parecia-se tamb�m, finalmente, com um quarto, porque a cama, na qual Fiora estava deitada, suficientemente grande para acolher tr�s ou quatro pessoas, era confort�vel. Os len��is e cobertores estavam limpos, mas as cortinas que a rodeavam, feitas de um tecido de grandes ramagens berrantes vermelhas e amarelas, algo desfiadas, mostravam, aqui e ali, fios brilhantes, sinal de um passado mais faustoso. Sobre uma grande arca verde cuja pintura estava escamada, um candelabro de ferro, cheio de cera s�lida, suportava seis velas que iluminavam a parede, em frente da qual se encontrava o leito. Ora, essa parede estava pintada...</p><p>Grosseiramente, sem d�vida, porque n�o tinha a m�o dos jovens g�nios que faziam o orgulho de Floren�a, antes pelo contr�rio um grande sentido do realismo e um verdadeiro abuso de cores, o pintor desconhecido tinha espalhado pela parede os amores de uma ninfa roli�a e de um s�tiro membrudo. Espantada, Fiora corou e fechou os olhos com for�a, para n�o ver aquela imagem ordin�ria.</p><p>Se pretendes fingir que est�s a dormir disse uma voz de aguardente essa n�o � a maneira ideal!</p><p>Reabrindo os olhos com prud�ncia, Fiora j� n�o viu a pintura. Esta fora substitu�da por uma esp�cie de monstro: uma criatura talhada como um mercen�rio alem�o, do qual tinha a voz �spera, m�os parecidas com p�s de bater roupa, ombros de carregador e bra�os extremamente musculosos. Da posi��o alongada em que se encontrava Fiora, parecia imensa e quase t�o larga quanto alta. No entanto, tinha de se render � evid�ncia: a criatura era uma mulher! Atestavam-no os seios que apontavam como canh�es sob a seda verde-crua do vestido e os longos cabelos ruivos crespos, que enquadravam um rosto com as dimens�es do resto, mas que, talvez, tivesse alguma <emphasis>beleza </emphasis>se fosse desembara�ado da camada de pintura e se os olhos fossem maiores; pareciam-se, com efeito, com dois seixos verdes, dos quais tinham a devida ternura. Uma profus�o de j�ias tilintantes complementava a personagem, cintilando a cada um dos seus movimentos.</p><p>Eu n�o estou a fingir que durmo disse Fiora mas gostava de saber onde estou.</p><p>Isso n�� dif�cil: t�s em minha casa.</p><p>E onde � isso, a tua casa? E quem �s tu?</p><p>A mulher apoiou-se �s colunas do leito que tremeu sob o choque, provocando em Fiora uma nova dor.</p><p>Na precisas de saber onde � a minha casa! Quanto a mim, chamam-me Pippa, a grande Pippa, ou ainda <emphasis>o Mulher�o. </emphasis>Como n�o frequentamos o mesmo mundo, isso na te deve dizer grande coisa.</p><p>N�o... absolutamente nada. Mas, como vim parar aqui? Eu adormeci ontem � noite no convento.</p><p>Na foi ontem: foi antes d�ontem. Tava a ver que nunca maisacordavas... A minha opini�o � qo�as freiras tiveram a m�o demasiado pesada co�a droga...</p><p>Uma... droga? Mas porqu�?</p><p>Pippa desatou num riso relinchante, mostrando uns dentes capazes de moer o trigo:</p><p>Por pura bondade. S�o umas santas mulheres, sabes? Devem ter pensado qu�era mau neg�cio deitarem uma mercadoria t�o boa � �gua.</p><p>Queres dizer... que foram elas que me trouxeram para aqui?</p><p>N�exageres! T�s a ver umas irm�zinhas a virem aqui? E voltou a relinchar.</p><p>Por piedade gemeu Fiora cala-te! D�i-me imenso a cabe�a... e o cora��o! Parece que tenho l� na boca.</p><p>Pippa parou, franziu o sobrolho e pousou a sua pata na fronte da jovem:</p><p>� mesmo o qu�eu dizia: elas tiveram a m�o muito pesada. Vamos j� tratar disso!</p><p>A mulher regressou pouco depois com uma grande ta�a de barro, na qual fumegava um l�quido de odor agrad�vel. Colocou-a nas m�os de Fiora e depois, segurando-a pelos ombros, f�-la sentar-se.</p><p>Bebe tudo! Eu sei qu�est� quente, mas na faz mal.</p><p>Fiora queimou-se heroicamente. Amarga apesar do mel que lhe tinham acrescentado, a tisana continha uma forte dose de lim�o, mentol e uma outra subst�ncia indefin�vel. Depois de a beber toda, a jovem ficou vermelha at� � raiz dos cabelos e a transpirar como uma alcarraza. Sem querer ouvir os seus protestos, Pippa voltou a deit�-la e empilhou sobre ela tudo o que conseguiu encontrar de cobertores na arca de madeira.</p><p>Pronto! disse ela com satisfa��o. Dentro d�uma hora venho ver como � qu�est�s. E na te mexas!</p><p>Uma hora mais tarde, o leito estava ensopado e Fiora j� n�o tinha dores na cabe�a nem no peito. Em contrapartida estava morta de fome e quando a mulher regressou com len��is secos, perguntou se era poss�vel dar-lhe qualquer coisa de comer. Pippa desatou a rir:</p><p>- Isso t� melhor, ha? Prefirassim. Na gosto que tejam doentes em minha casa. J� te trazem de comer daqui a pouco. Por agora, levanta-te. � preciso mudar isto tudo!</p><p>Fiora levantou-se e constatou que continuava a usar a camisa que lhe tinham dado em Santa L�cia e que essa mesma camisa estava t�o molhada como o resto.</p><p>Tira isso! ordenou Pippa, que num abrir e fechar de olhos tinha acendido o <emphasis>braseiro, </emphasis>deitado para l� umas ervas odor�feras e feito a cama. Tudo numa atmosfera de tremor de terra.</p><p>O que � que eu visto? perguntou Fiora, procurando qualquer coisa � sua volta.</p><p>Tira! Tratamos disso depois! Vamos, depressa!</p><p>Fiora tirou a camisa e estendeu a m�o para um dos cobertores que Pippa acabava de tirar para se cobrir com ele, mas a mulher interrompeu-a com um brutal:</p><p>Quieta! Tenho de ver com�s em p�lo. Uma bela carinha � bom, mas � preciso qu�o resto tamb�m seja... Fica quieta, estou-t�a dizer! Na m�obrigues a ir j� buscar o chicote!</p><p>O chicote? exclamou Fiora, indignada. Pro�bo-te de me tocares! Imaginas que vou permitir que me chicoteiem? Eu n�o te conhe�o e quero sair daqui! Sem se preocupar com a sua nudez, a jovem j� se lan�ava na direc��o da porta, mas Pippa agarrou-a em movimento com um bra�o e Fiora sentiu-se presa num torno:</p><p>Quietinha, ha? grunhiu a mulher. Aqui faz-se o qu�eu digo e s� se sai p�ra ir ond�eu digo! Percebeste?</p><p>Fiora torceu-se sob o terr�vel aperto e s� conseguiu magoar-se ainda mais. Tinha de se manter direita e suportar o exame da mulher, retendo l�grimas de raiva. A outra largou-a e afastou-se alguns passos para a ver de p� e depois aproximou-se de novo, apalpou-lhe os seios para lhe testar a firmeza, tocou-lhe no ventre, apalpou-lhe as n�degas, acariciou-lhe as coxas e finalmente suspirou, atirando a Fiora uma camisa de seda vermelha usada:</p><p>Seu na fizer fortuna contigo, � porque sou a rainha das lorpas! Por Belzebu, tu �s um verdadeiro peda�o de reis! O cliente ficar� contente, mas vai ser preciso que tu na te estragues...</p><p>O... cliente? repetiu Fiora, espantada. Qual cliente? E, antes de mais, que casa � esta? Que queres tu de mim?</p><p>Pippa colocou-se diante dela de m�os nas ancas, dominando-a com toda a sua estatura:</p><p>O cliente � o que te meteu aqui, em casa da Pippa, a alcoviteira mais famosa do Tirreno, no Adri�tico! Ele quer desflorar-te e dormir contigo at� lhe apetecer! Ou at� que tenha mais dinheiro e eu espero bem que na demore muito, porqu�agora que te vi, na tenciono vender-te qualquer um. At� tenho uma ideia...</p><p>Contrariamente ao que Pippa pensava, o facto de descobrir o horror da sua situa��o galvanizou a coragem de Fiora:</p><p>Porque</p><p>�imaginas que eu vou deixar que me fa�am isso? gritou ela. Tu n�o sabes quem eu sou...</p><p>Quem tu eras, queres antes dizer? Porque tu j� n��s nada, Fiora Beltrami, menos que nada, at�: uma criminosa em fuga, uma feiticeira procurada pela Igreja e pela gente do Bargello. Queres que t�explique porqu�?</p><p>� claro que quero!</p><p>Ent�o, escuta! Ontem de manh� as irm�s de Santa L�cia aperceberam-se de que tu tinhas fugido pelo p�tio das cozinhas, subindo o muro co�ajuda d�uma escada. Encontraram o teu v�u por baixo da escada. Toda a gente pensa que deste �s de vila-diogo porque tinhas medo do ju�zo de Deus. O que quer dizer qu��s de m� ra�a. Como n�o estavas l�, a Senhoria condenou-te. E �tava l� o prior de San Marco com um monge espanhol e eles pediram que, se fosses encontrada, que fosses atirada p�ra Stinche, enquant�esperas pelo teu julgamento... e pela fogueira! Compreendeste, desta vez?</p><p>Fiora dobrou os joelhos e deixou-se cair em cima do monte de cobertores abandonado no ch�o. Sim, compreendera a infernal maquina��o montada contra si. Certamente pelos Pazzi, pelo velho Jacopo e pela sua infame nora. Agora compreendia por que raz�o Hieronyma reclamara o ju�zo de Deus com tanto zelo: tudo devia ter sido feito antes da cena escandalosa que tivera lugar no adro do Duomo. As cumplicidades estavam � vista, a come�ar pelas do prior de San Marco e de frei In�cio Ortega este n�o vinha de Roma, onde Francesco Pazzi tinha uma boa vida na corte? e Fiora descobriu com amargura que o poder dos M�dicis tinha p�s de barro, que era poss�vel, sen�o f�cil, neutraliz�-lo apelando para o povo, esse monstro de cem mil cabe�as e ideias vol�veis, e at� para a Senhoria, onde, entretanto, Louren�o instalara homens da sua confian�a. Se ela, Fiora, acabava de ser levada por aquela s�bita borrasca, uma outra qualquer poderia levar os pr�prios M�dicis, porque, mantidos afastados e meio arruinados, os Pazzi podiam ainda agir e ganhar.</p><p>Do alto da sua estatura <emphasis>o Mulher�o, </emphasis>de bra�os cruzados no peito, gozava o seu triunfo sobre aquela bela criatura, que ela julgava quebrada. Mas conhecia-a mal, ou mesmo de todo. Bruscamente, Fiora levantou-se e fez-lhe frente:</p><p>1 Pris�o de Floren�a.</p><empty-line/><p>Se acreditam que estou em fuga, n�o te arriscas ao manter-me aqui? perguntou ela friamente.</p><p>Na creio qu�o risco seja assim ta grande. Quem teria a ideia de procurar a filha de Beltrami numa casa com�a minha? De qualquer maneira, vale a pena. Acabo de te dizer que conto contigo para fazer definitivamente a minha fortuna...</p><p>Entregando-me aos homens que v�m a tua casa? Esqueces-te de uma coisa: muita gente me conhece em Floren�a; qualquer um pode...</p><p>Reconhecer-te? Achas-m�uma imbecil? � claro qu�isso pode acontecer, mas na penses que, para al�m daquele que te quer, te vou entregar a um qualquer, arriscando-me a qu�um b�bedo t�esventr�o pesco�o c�uma faca? Tu na �s mercadoria p�ra um marinheiro b�bedo qualquer. Se queres saber, os que te trouxeram p�ra aqui querem que, depois do que j� sabes, te leve a Ancona, onde eu tenho alguns interesses e te venda l� discretamente... mas caro, a um pirata turco qualquer.</p><p>A Ancona? Nos Estados do Papa? Que coisa t�o veros�mil!</p><p>Mais do que pensas. O nosso Santo Padre actual na se preocupa com cruzadas. Sobretudo, ele gosta � d�ouro. Ali�s, ele sabe sempre o que se passa nas suas costas... Mas, fica tranquila, tu n�o vais p�ra l�. Eu n�o vou fazer uma venda � pressa a um turco qualquer, quando h� em Roma um cardeal que � capaz de pagar o teu peso em ouro...</p><p>Um cardeal? disse Fiora, horrorizada.</p><p>Por que n�o? S�o homens como os outros e est�inda mais do que todos os outros. Basta prometer-lh�uma bela rapariga. Chama-se Rodrigo Borgia, � o cardeal vice-chanceler, um verdadeiro touro! Ver�s...</p><p>N�o verei nada gritou Fiora. Pensas que vou ficar aqui?</p><p>Na podes fazer outra coisa!</p><p>Nesse caso, mato-me!</p><p>Na ter�s ocasi�o. Vou manter-te vigiada, minha querida. Mas agora chega de conversa. Pensava que tinhas fome?</p><p>O encanto da tua conversa fez-me esquec�-la... Brutalmente, Pippa agarrou no rosto de Fiora, que apertou at� mago�-la:</p><p>Na brinques comigo! Podes arrepender-te!</p><p>Ora, ora! Tu n�o �s mulher para dar cabo da mercadoria...</p><p>H� outros meios sem ser o chicote. Por exemplo, um pimento colocado no lugar certo. E agora, vai-te deitar. J� te trazem de comer e depois podes dormir. N�o h� nada como o sono, a s�rio, e boa comida, para te dar uma boa pele. Amanh� tens de estar pronta p�ra agradar...</p><p>Mas Fiora n�o tinha vontade de dormir. Entregue a si mesma, deu a volta ao seu novo alojamento procurando uma sa�da, um buraco pelo qual deslizar para encontrar a liberdade. Pippa tinha-lhe dito que, l� fora, arriscava-se a uma pris�o mais dura do que aquela e a uma morte terr�vel, mas a jovem pensava que tudo era prefer�vel a ficar ali para ser entregue aos caprichos de um desconhecido, que ela, em v�o, tentava descobrir quem era.</p><p>Infelizmente, a evas�o parecia dif�cil, sen�o imposs�vel. A porta, baixa e �spera, com as suas dobradi�as de ferro e a sua grande fechadura era imposs�vel de for�ar. Ali�s, quando se abria podia ouvir-se o estalar dos ferrolhos exteriores. Portanto, era imposs�vel passar para o lado de l�, a menos que quisesse defrontar <emphasis>o Mulher�o </emphasis>e isso seria pura loucura: uma pessoa n�o se pode medir com uma montanha...</p><p>O respiradouro, que ela conseguiu atingir subindo para um escabelo, dava para um p�tio interior, uma esp�cie de po�o cego, mas que devia ter uma sa�da qualquer. � vista que teve permitiu, no entanto, que a jovem constatasse que o seu quarto se encontrava no r�s-do-ch�o, coisa de que duvidara antes, ali�s, devido � pouca luz que se escoava pelo buraco de escoamento das �guas. Simplesmente, para passar, seria preciso serrar, ou arrancar, pelo menos, uma das barras de ferro que impediam a passagem. Em todo o caso, Fiora abanou uma e depois outra das tr�s barras e constatou que uma mexia um pouco. Mas o barulho dos ferrolhos fez-se ouvir e ela atirou-se para a cama para n�o ser surpreendida nas suas tentativas.</p><p>Pippa encontrou-a deitada e teve um largo sorriso:</p><p>Dir-se-ia que te tornaste razo�vel? Nesse caso, talvez nos entendamos. Pega l�, trago-te galinha de <emphasis>zafferand, </emphasis>p�o branco e doce de ameixas! Amanh� ter�s <emphasis>chianti </emphasis>para te dar um pouco de cor e aquecer-t�um pouco o sangue...</p><p>A mulher colocou a escudela nos joelhos de Fiora e, para grande surpresa desta, atirou-lhe mesmo um guardanapo aquela raridade que se encontrava apenas nas casas mais refinadas! pelos ombros, acrescentando que era para evitar sujar os len��is. Em seguida, a alcoviteira observou-a enquanto a jovem pegava elegantemente nos bocados </p><p>1 A�afr�o</p><empty-line/><p>de carne com a ponta dos dedos, que mal tocavam no molho avermelhado:</p><p>V�-se que foste bem-educada! comentou ela. Uma verdadeira princesa, que est� �-vontade no mais belo dos pal�cios. � pena que na te tenham ensinado a fazer amor t�o bem, mas, depois do neg�cio d�amanh�, que talvez sej�a muito agrad�vel p�ra ti, ensino-t�a dar prazer a um homem, mesmo que ele na tenha vontade. Tenh�a certeza qu��s dotada...</p><p>Fiora fechou as portas da sua mem�ria � recorda��o sempre ardente da sua noite de n�pcias. Philippe fora um professor maravilhoso, mas ela n�o queria recordar-se daquilo ali. Ali�s, ouviam-se uns gritos nas profundezas da casa e Pippa precipitou-se para fora do quarto para ir ver o que se passava, gritando que era imposs�vel ter uns minutos de paz �neste calabou�o�. Mas, quando regressou alguns minutos mais tarde, segurava no seu punho implac�vel um conjunto de farrapos escuros, de onde partiam uns gemidos. A mulher atirou com tudo para o ch�o, perto do leito:</p><p>Encontraram ist�a rondar a casa h� uns minutos. Sabes quem �, por acaso?</p><p>O monte de len�os agitou-se, abriu-se e apareceu o rosto aterrorizado de Khatoun. Da fronte corria-lhe um fio de sangue.</p><p>Fiora lan�ou um grito e, instantaneamente, viu-se de joelhos junto da jovem t�rtara, cujo rosto se iluminou.</p><p>Khatoun! disse ela. Que te fizeram?</p><p>A jovem quis tom�-la nos bra�os para a apoiar contra o seu ombro e enxugar-lhe o sangue que corria ainda, mas Pippa repeliu-a brutalmente para tr�s:</p><p>Na toques! Primeiro, respondes �s perguntas! Quem �?</p><p>Chama-se Khatoun. O meu pai comprou a m�e dela, que era t�rtara, quando ainda estava gr�vida. Ela nasceu no pal�cio e � a minha companheira desde sempre.</p><p>Uma escrava, ha?</p><p>Sim, mas eu nunca a considerei como tal. Eu... eu gosto muito dela. � preciso tratar dela, v�-se bem que est� ferida.</p><p>A culp�� dela! Lutava com�um gato furioso quando Beppo, o meu irm�o mais novo, lhe p�s a m�o em cima. At� o arranhou. Ent�o, ele deu-lh�uma cacetada. Mas agora � preciso saber: que faz ela aqui?</p><p>Primeiro, trata dela exclamou Fiora. V�-se muito bem que ela est� quase a morrer!</p><p>Khatoun, com efeito, tentara levantar-se, mas as for�as faltaram-lhe e voltou a cair no ch�o, ao mesmo tempo que o seu pequeno rosto ficava esverdeado e as suas narinas se dilatavam... Sem responder a Fiora, Pippa inclinou-se, pegou nela pelos bra�os e pousou-a em cima do leito, resmungando que os trapos com que ela estava vestida iam estragar os len��is. Mas era, incontestavelmente, uma mulher eficaz: num abrir e fechar de olhos, sob o olhar inquieto de Fiora, lavou a ferida, besuntou-a com uma pomada que estancou o sangue e depois passeou sob o nariz da doente um frasco de sais que deviam ser particularmente vigorosos, porque Khatoun saiu do seu desfalecimento com um espirro.</p><p>Pronto! disse Pippa. Como v�s, n�o est� morta! E agora, vai ter que falar!...</p><p>Um pouco de paci�ncia! indignou-se Fiora. D�-lhe qualquer coisa de beber! Um pouco de vinho!</p><p>Mas, palavra de honra, ela agora d�-m�ordens? rugiu <emphasis>o Mulher�o, </emphasis>que foi, mesmo assim, buscar um frasco de vinho, do qual deu a beber uma ta�a a Khatoun, que, apesar de parecer completamente extenuada, recuperou o �nimo. Ent�o, contou como, a partir do dia seguinte ao funeral do seu senhor se deslocou, disfar�ada de mendiga, �s imedia��es do convento de Santa L�cia. O seu instinto, agudo como o de um animal fiel, dizia-lhe que Fiora estava em perigo naquela �santa� casa. Ficara por ali, n�o se afastando sen�o para comprar a pouca alimenta��o que as poucas moedas atiradas pelos passantes lhe permitiam...</p><p>Na tiveste sarilhos com a confraria dos mendigos? observou Pippa. Espantas-m�um pouco: os lugares diante das igrejas e os conventos s�o lugares de escolha. Isso paga-se, geralmente...</p><p>N�o vi ningu�m disse Khatoun erguendo para a imensa mulher um olhar cheio de inoc�ncia. Talvez o mendigo habitual estivesse doente?</p><p>Pouco prov�vel! Essa ra�a � s�lida. Ou se est� vivo, ou se est� morto. N�o h� meias-medidas. Mas, continua a tua hist�ria!</p><p>Pouco mais havia que contar. Na segunda noite de sentinela, a pequena escrava vira a porta abrir-se para a noite escura. Uns homens mascarados tinham-se aproximado e recebido um grande fardo escuro, que um deles tinha carregado aos ombros. Partiram silenciosamente e Khatoun tinha-os seguido at� �quela casa, onde os tinha visto entrar. Tinha a certeza, sem poder explicar porqu�, que aquele fardo n�o continha outra coisa sen�o Fiora. Compreendeu que tinha raz�o quando o tumulto col�rico da cidade lhe disse que o julgamento n�o teria lugar porque a acusada tinha fugido... Desde ent�o, ficara certa de que Fiora se encontrava naquela casa, onde vira entrar os dois homens...</p><p>Com os olhos brilhantes de esperan�a, Fiora seguiu apaixonadamente o relato da jovem t�rtara, mas n�o ousou, por prud�ncia, fazer a pergunta que lhe queimava os l�bios. Foi Pippa que a fez, negligentemente, como se se tratasse de uma coisa sem import�ncia, mas brincando ao mesmo tempo com o grande alfinete que acabava de retirar da sua coifa.</p><p>Como � poss�vel na teres pedido ajuda? N�o procuraste socorro? Khatoun baixou os olhos e as duas mulheres puderam ver umas l�grimas correndo lentamente pelas suas faces cor de marfim.</p><p>Eu regressei ao pal�cio para procurar ajuda, mas n�o pude aproximar-me. Havia soldados por todo o lado, retendo a multid�o. Uma multid�o... que gritava �� morte!... � morte a feiticeira!� E havia mais no interior: Vasculhavam tudo e... e pilhavam; Ouviam-se os m�veis, que eles atiravam para o p�tio, a quebrar... Foi... terr�vel! E eu j� n�o sabia para onde ir... e quem procurar. Pensei em <emphasis>donna </emphasis>Chiara, mas o porteiro expulsou-me. Ent�o, voltei para aqui para tentar... j� n�o sei o qu�.</p><p>Com um n� na garganta, Fiora escutara aquelas frases que lhe anunciavam a sua total ru�na e o fim das suas esperan�as. N�o era desgosto o que ela sentia o desgosto, t�o cruel pela morte do seu pai, nem sequer lhe tinham dado tempo para o sentir e ela sabia que ele voltaria � carga mais tarde era simples f�ria, uma raiva impotente. Tinham-lhe tirado tudo, deixando-lhe apenas a honra e, dentro de algumas horas, nem isso existiria. Seria profanada, aviltada, irremediavelmente suja, atirada para a lama, da qual o bom Francesco Beltrami quisera preservar um beb� inocente... A jovem acabou por explodir:</p><p>E Louren�o?... Louren�o de M�dicis, o senhor de Floren�a, que fazia ele enquanto me procuravam para me matar, enquanto pilhavam a minha casa... enquanto massacravam, sem d�vida, a minha velha L�onarde? Onde estava ele, <emphasis>o Magn�fico, </emphasis>o Todo-Poderoso? No seu jardim da Badia, ou de Careggi? A ver florir os loureiros e compondo versos de louvor � beleza? Ou ainda a ler algum livro raro? O meu pai tinha alguns admir�veis... mas talvez ele os tenha levado para a sua pr�pria biblioteca?</p><p>A jovem gritava, parecendo uma daquelas carpideiras antigas, ao mesmo tempo que umas l�grimas amargas lhe corriam dos olhos... Vivamente, Pippa fechou-lhe a boca com a sua grande m�o:</p><p>Cala-te! Queres que nos enforquem? H� gente nesta casa. As raparigas est�o a trabalhar e os clientes a chegar.</p><p>Que tens tu a temer? perguntou-lhe Fiora com amargura. Eu acabo de te dizer que os M�d�cis n�o s�o t�o poderosos como isso...</p><p>De qualquer maneira, t�m espi�es por toda a parte. � gra�as a isso que s�o os mais fortes, a isso e ao ouro! N�o t�m o sangue mais azul do qu�eu e ele sabe-o bem, esse Louren�o, que casou c�uma princesa romena p�ra arranjar semente de pr�ncipe. Vamos, acalma-te! Se te d� prazer, eu compreendo-te. Custa a engolir.</p><p>� o m�nimo que se pode dizer.</p><p>D�acordo, mas tu- ainda na perdeste tudo. Resta-t�esse palminho de cara... e o corpo. Quando eu t�ensinar a servires-te dele, ver�s que podes fazer grandes coisas com ele. Em Roma far�s uma fortuna e talvez consigas, um dia, vingar-te. Por agora, deita-t�e dorme! Quant�a esta...</p><p>Que lhe vais fazer? exclamou Fiora j� na defensiva e rodeando Khatoun com os bra�os.</p><p>Estava a pensar em mat�-la, porque s� os mortos � que na falam, mas talvez tenha outra coisa melhor p�ra ela...</p><p>O qu�?</p><p>P�ra j�, vou-lhe tirar esses len�os todos p�ra ver o qu�est� por baixo! Uma escrava t�rtara custa caro. Ela sabe fazer o qu�?</p><p>Cantar, dan�ar e tocar ala�de... Mas, pro�bo-te que a ponhas no mercado de escravos. Ela � minha e tenho muita afei��o por ela. Se nos separares, n�o conseguir�s nada de mim. Hei-de conseguir matar-me!</p><p>Sem responder, mas com um suspiro cansado, Pippa mandou Khatoun levantar-se e come�ou a despi-la. Parecia um grande macaco ruivo em vias de descascar uma noz fresca. Demasiado fatigada para perceber, Khatoun deixou-se ir, mas as suas pernas vacilaram e os seus olhos fecharam-se, a despeito dos esfor�os que fazia para os manter abertos. Sem que ela parecesse aperceber-se, <emphasis>o Mulher�o </emphasis>submeteu-a ao mesmo exame que fizera antes a Fiora. Esta esperou impacientemente que ela terminasse, mas, subitamente, sobressaltou-se, n�o acreditando no que os seus olhos viam e os ouvidos ouviam: sob as m�os de Pippa, que deslizavam docemente pelo seu corpo, Khatoun gemia e torcia-se, agora bem acordada a despeito de os seus olhos, meio transtornados, se fecharem. A garota ronronava como uma gata sob aquilo que se podia chamar car�cias. E, subitamente, deixou-se cair de joelhos afastados e as m�os agarradas aos seios, enquanto os dedos de Pippa procuravam a sua intimidade. O jovem corpo de marfim distendeu-se como um arco, ofegando como um animal �vido, caiu com um grito e contorceu-se num longo espasmo... Pippa, que se ajoelhara, levantou-se, como se o que acabava de acontecer fosse a coisa mais natural do mundo.</p><p>A mulher lan�ou a Fiora, espantada, um olhar malicioso:</p><p>Deve saber mais do que dan�ar e tocar ala�de, esta pequena! Nunca fizeste amor com ela?</p><p>Tu �s louca? exclamou Fiora, indignada. O amor s� se faz com um homem... e com um homem que se ama!</p><p>Bem, ainda tens muita coisa p�raprender! Podemos prestar grandes servi�os entre mulheres, servi�os bem agrad�veis, que fazem esquecer a brutalidade dos homens. S�o raros aqueles que sabem dar prazer. A maior parte comporta-se como soldados numa cidade conquistada. Ao passo que outra mulher... Queres que te mostre?</p><p>N�o, obrigada! disse Fiora que, agora, olhava com um certo desgosto para o corpo inerte de Khatoun, que passara sem transi��o da voluptuosidade para o sono. A jovem tinha a impress�o de que a sua pequena escrava acabava de ser emporcalhada... Pippa desatou a rir, baixou-se, pegou em Khatoun sem esfor�o aparente e atirou com ela para cima do leito:</p><p>N�o fa�as essa cara! O que acaba d�acontecer � natural, especialmente com uma rapariga da �sia. Fica com ela esta noite! Amanh� vou p�-la a trabalhar. Por agora, est� de tal modo arrebentada que nem se lembrar� do qu�acaba d�acontecer...</p><p>A mulher j� ia a sair quando se virou:</p><p>J� agora! Amanh� � noite, tu tamb�m ter�s de trabalhar! E pode n�o ter gra�a nenhuma. Mas eu ajudo-te!</p><p>Nessa noite, Fiora n�o conseguiu conciliar o sono. A casa, entregue � orgia, ressoava como um tambor, ressoando tamb�m na cabe�a da jovem. Ela ouvia as can��es dos b�bedos, os gritos, os risos e os estertores e tudo aquilo lhe metia nojo. Por volta das duas horas, grandes pancadas de p�s foram dadas na sua porta, mas a fechadura era s�lida e ningu�m entrou. A jovem tamb�m ouviu inj�rias e gemidos dolorosos e compreendeu o que Pippa quisera dizer quando falara na brutalidade dos homens... Virando-se para o outro lado, viu Khatoun a dormir profundamente e sentiu invadi-la uma grande piedade. Ao mesmo tempo, recriminou-se por t�-la desprezado por alguns instantes. Pobre pequeno ser, que acabava de lhe demonstrar uma grande devo��o, que se entregara voluntariamente ao frio, � chuva, � fadiga, ao medo, � rua, � noite e ao perigo de maus encontros para tentar, ela que era t�o fraca e t�o pobre, arrancar a sua patroa a um destino terr�vel! A ideia de que a partir do dia seguinte <emphasis>o Mulher�o </emphasis>iria faz�-la entrar no seu inferno, a entregaria aos brutos que ouvia rir e injuriar-se, aterrorizava-a. Temia mais aquilo do que o seu pr�prio destino, porque se sentia agora com uma for�a que nunca suspeitara possuir. O �dio e a cupidez de Hieronyma tinham-na arrancado ao seu mundo f�cil e elegante para a atirarem �s feras e agora sabia que, se queria viver, teria de combater com as armas que lhe viessem parar �s m�os. Mais ainda, se queria saborear um dia o sabor da vingan�a que lhe apertava o cora��o como algumas plantas m�s, cujas espiras mortais sufocam lentamente as suas irm�s, sem outra defesa que n�o as m�os do jardineiro. Mas nenhum jardineiro benfazejo viria libertar o seu cora��o, feito para o amor e que, pouco a pouco, estava a secar... a menos que a �gua da ternura viesse em seu socorro. Mas o �nico capaz de fazer esse milagre n�o queria saber e nunca quereria...</p><p>O canto do galo trouxe o sil�ncio � casa de Pippa. Fiora ouviu afastar-se o �ltimo b�bedo. O homem massacrava com uma voz atrozmente falsa uma can��o de que Fiora gostava:</p><p><emphasis>Eu andava � procura de uma flor</emphasis></p><p><emphasis>E v�s tendes tantas no vosso branco rosto...</emphasis></p><p>Ao passar por aquela voz solu�ante, o romance era praticamente irreconhec�vel. Era a imagem daquilo em que se transformara a vida de Fiora: uma caricatura, um pesadelo, um esc�rnio do qual n�o via, do fundo da cloaca em que ca�ra, como poderia sair... e em que estado! Pelo menos tinha, agora, na pessoa de Khatoun, uma companheira de mis�ria. De uma vez s�, as dist�ncias tinham desaparecido admitindo que as houvesse! entre ela e a jovem escrava, que se transformara numa irm� mais fr�gil, talvez, e que iria ser necess�rio proteger, mas com a qual seria poss�vel estabelecer um plano de fuga, visto que Khatoun, pelo menos, sabia onde era a casa de Pippa.</p><p>Fiora s� adormeceu com as primeiras luzes da madrugada, ao mesmo tempo que a casa ressoava com os roncos dos seus habitantes...</p><p>Um som de portas a bater e de �gua a correr acordou-a. Pippa, negligentemente vestida com uma esp�cie de roup�o de seda azul-vivo, estava ocupada a deitar, na tina, o conte�do das selhas de �gua que estavam diante da porta. Aparentemente, o lado estufa da estranha casa ia ter utilidade: Pippa preparava um banho.</p><p>Por entre as p�lpebras semicerradas, Fiora observou-a. Descobriu que aquela mulher tinha a estrutura de um homem, � excep��o dos dois seios de m�rmore branco que o traje descobria por instantes. Tinha uma musculatura nodosa, que lhe inchava os bra�os e os ombros, mas sem um grama de gordura e a pele, muito branca, parecia t�o lisa como a de um beb�, salvo num dos ombros, onde uma feia cicatriz, vest�gio de uma antiga facada, falava de uma exist�ncia onde o perigo tinha o seu lugar.</p><p>Quando achou que j� tinha �gua suficiente, Pippa mergulhou nela o bra�o para controlar a temperatura, desapareceu por um instante e regressou com uma caixa, da qual tirou um punhado de qualquer coisa e atirou-a para dentro da tina. O odor familiar da resina de pinheiro e das flores do loureiro L�onarde, rendida aos h�bitos florentinos, punha sempre aqueles perfumes nas lavagens para perfumar a roupa encheu o quarto. Mas n�o se tratava de uma barrela...</p><p>Sem mesmo se preocupar em ver se ela estava acordada, Pippa tirou Fiora da cama e mergulhou-a na �gua at� aos ombros, n�o sem que esta protestasse:</p><p>N�o era mais simples dizeres-me que me levantasse e entrasse no banho? perguntou ela.</p><p>N�o � bem assim. H� pessoas que na gostam de se lavar. Assim, evito discuss�es.</p><p>Mas eu gosto de me lavar e Khatoun tamb�m. Em nossa casa h� uma grande estufa. Eu tomava l� banho todos os dias!</p><p>Pippa fungou com um ar desconfiado:</p><p>Isso n�o � de mais? Um banho todos os dias deve gastar a pele!</p><p>V�s muito bem que n�o. E ouvi dizer que Zafolina, a famosa cortes� que � disputada pelos homens mais ricos da cidade, tomava, �s vezes, dois!</p><p>Desta vez, Pippa ficou completamente siderada. Segundo a sua �tica pessoal, era impens�vel que a filha de Francesco Beltrami pudesse saber que existiam cortes�s. Fiora explicou-lhe, ent�o, que Zafolina era t�o bem-educada, t�o discreta, t�o piedosa e t�o generosa, que n�o era raro ser recebida nas melhores casas. Admiravam-lhe as <emphasis>toilettes, </emphasis>as j�ias e gostavam de a ouvir falar, ou cantar. N�o tinha nada a ver...</p><p>Com o que se passa aqui? completou Pippa enquanto ensaboava vigorosamente a jovem: Bem, sabes, <emphasis>� </emphasis>essa vida qu�h�s-de ter se fizeres o qu�eu te digo. Simplesmente, h�-de ser �inda melhor, porque ser� em Roma e tu h�s-de cantar p�ro Papa! Havemos de ser ricas com�a rainha do <emphasis>Sabat...</emphasis></p><p>Do Sab�! rectificou maquinalmente Fiora, mas <emphasis>o Mulher�o </emphasis>n�o a ouvia. Enquanto lavava meticulosamente os cabelos da sua nova pensionista, sonhava acordada, vendo-se j� a dominar os neg�cios de uma Fiora coberta de ouro e j�ias e com todo o Sacro Col�gio a seus p�s. Mas, para dizer a verdade, a jovem n�o a escutava.</p><p>Fiora reflectia enquanto saboreava aquele banho quente e perfumado, do qual tinha grande necessidade. Um prazer de que n�o desfrutava h� muitos dias, porque era costume n�o ir aos banhos quando a morte passava por uma casa...</p><p>Depois do banho, no qual Khatoun a substituiu depois de ter recebido ordem para se desenvencilhar sozinha, Pippa envolveu Fiora num len�ol e instalou-a de costas para o <emphasis>braseiro para </emphasis>que secasse os cabelos:</p><p>Vou mandar massajar-te e perfumar-te daqui a pouco! declarou ela abandonando o quarto para grande satisfa��o de Fiora, que se aproximou de imediato de Khatoun, ocupada a ensaboar-se com um cuidado man�aco.</p><p>Nunca te agradecerei o suficiente pelo que fizeste disse-lhe ela. Podes dizer-me, agora, onde estamos?</p><p>No bairro San Spirito, na outra margem do Arno. A casa fica por tr�s da de um mercador de velas, a meio de uma pequena ala que desemboca em frente do grande pal�cio inacabado...</p><p>O pal�cio dos Pitti? Aquele cuja constru��o foi abandonada?</p><p>� isso. Entra-se aqui por um corredor e n�o h� nenhuma janela para a rua. H� � uma lanterna vermelha por cima da porta.</p><p>Por outras palavras, vai ser dif�cil sair daqui, sen�o imposs�vel. Quem nos vir� procurar aqui?</p><p>De qualquer maneira, h� uma pessoa que sabe... Khatoun baixou a voz v�rios tons e agitou a �gua do banho para melhor a encobrir. Um velho mendigo que conheci perto do convento. Ele foi muito bom, muito generoso. A mulher tinha raz�o: � proibido mendigar sem autoriza��o dos outros, mas ele deixou-me. Deu-me um pouco de protec��o e estava comigo quando os homens te trouxeram para aqui...</p><p>Disseste-lhe porque te tinhas instalado junto de Santa L�cia?</p><p>Disse.</p><p>E ele ajudou-te, mesmo assim?</p><p>Ajudou, mas depois aconselhou-me a voltar para casa. Mas eu n�o quis. Ent�o, ele foi-se embora, dizendo-me que, se ficasse ali, ainda me prendiam... �</p><p>Tristemente, Fiora voltou para o seu lugar junto do fogo. A t�nue esperan�a que concebera evaporara-se como o mendigo na noite. Ele tivera piedade de Khatoun, mais nada! Basear uma esperan�a no interesse de um ser t�o desprovido como um mendigo era pura loucura. Teria de tentar encontrar outra coisa. Mas o qu�?</p><p>Quando Pippa regressou, lavou os cabelos de Khatoun, mandou-a sair da �gua, tirou a rolha da tina para a esvaziar e depois, virando-se para Fiora, f�-la estender-se em cima do leito para lhe untar o corpo com um �leo perfumado, enquanto, por sua vez, Khatoun se secava. Com o nariz franzido, Fiora cheirou o odor que se escapava das m�os do <emphasis>Mulher�o.</emphasis></p><p>Que perfume � esse? O que eu usava era feito de l�rio-silvestre, verbena e um pouco de jasmim.</p><p>Isso deve cheirar bem, mas na deve valer grande coisa no amor. Isto � nardo e custa muito caro, p�ra qu�estejas p�rai a fazer caretas. Se souberes us�-lo, os homens ficam malucos...</p><p>Bruscamente, Fiora agarrou na m�o de Pippa, que se aproximava do seu ventre.</p><p>Continua a ser... esta noite?</p><p>Qu�aquele que te quer te espera? Sim, mas n�o me perguntes o nome dele: n�o to direi. N�altura saber�s...</p><p>E ela disse Fiora apontando com o queixo para a sua antiga escrava. Vais mesmo atir�-la para o inferno que eu ouvi a noite passada, dos b�bedos <emphasis>e </emphasis>dos brutos?</p><p>Na te preocupes! Vou d�-la a um que saber� apreci�-la. Uma coisinha como ela vale muito e eu posso arrancar umas massas. Al�m disso, ela gosta do amor...</p><p>N�o tens medo que a reconhe�am e que atrav�s dela venham at� mim? As escravas t�rtaras s�o muito raras e a minha pode ser conhecida. Deixa-a comigo. Mais tarde, leva-la comigo para Roma. O cardeal Borgia �, certamente, suficientemente rico para a comprar, ou eu pago-ta quando tiver ganho bastante ouro...</p><p>A Fiora custava-lhe falar aquela linguagem de cortes�, mas, para salvar Khatoun de um destino terr�vel, teria negociado com o diabo em pessoa.</p><p>Ela na pode ficar contigo esta noite respondeu Pippa, massajando energicamente os ombros e o peito da sua pensionista. E depois, ela h�-de passar uma boa noite. O cliente a quem a vou dar � um senhor muito generoso e n�� daqui. Portanto, n�� preciso ter medo...</p><p>Fiora compreendeu que n�o havia nada a fazer e calou-se, deixando Pippa prosseguir com a sua massagem. O seu corpo cheirava t�o bem como a botica de Landucci quando ele recebia um carregamento de perfumes. Ao cabo de um momento a jovem perguntou com amargura:</p><p>E eu, tamb�m devo esperar o que tu chamas uma noite agrad�vel? Pippa parou. Enxugando maquinalmente as m�os ao vestido, suspirou:</p><p>N�o. Tu pareces-m�uma rapariga bastante corajosa e eu vou-te dizer a verdade e depois mais vale estar prevenida. Tu vais passar um mau momento porque... porqu�ele � meio louco. Mas eu estarei por perto... ou, pelo menos, n�o estarei longe, p�ra evitar o pior. Quanto a ti, ter�s de pensar no qu�eu te prometi... na tua futura fortuna!</p><p>O ouro parecia, decididamente, representar para aquela mulher o bem supremo, o fim a atingir e Fiora, que por um instante pensara que talvez fosse poss�vel amolecer-lhe o cora��o, renunciou. Tinham pago a Pippa para que ela cumprisse a sua vil tarefa e se bem que tratasse a sua prisioneira com uma certa do�ura, era unicamente porque, ao v�-la, descobrira que com alguma delicadeza podia conseguir tirar dela mais ouro do que pensara.</p><p>O dia decorreu com os cuidados que Pippa n�o cessava de lhe prodigalizar, uma refei��o ligeira e algumas horas de repouso. Quando chegou a noite, o <emphasis>Mulher�o </emphasis>apareceu para vestir ou n�o vestir Fiora com uma ampla t�nica de musselina branca completamente transparente e pentear-lhe os cabelos com pequeninos ramos de jasmim e flores-de-laranjeira. Khatoun, com um vestido de seda vermelho que lhe deixava os seios livres e com uns sequins nos cabelos, tinha desaparecido...</p><p>At� pareces uma noiva rec�m-casada! disse Pippa contemplando a sua obra. Vais-lh�agradar. Ele � um tipo que gosta, sobretudo, de virgens. Gosta d�as abrir e j� lh�arranjei algumas. Desinteressa-se depressa delas, mas tu �s diferente: �s t�o bela!</p><p>Fiora quase disse que j� n�o era virgem, mas achou que isso n�o a salvaria. Se aquele homem se tinha dado a tanto trabalho para a ter era porque a queria, por uma raz�o ou por outra. Procurara, em v�o, imaginar quem poderia ser esse desconhecido, Mas, agora, tudo o que esperava era que ele fosse um ser fatal, sem d�vida, mas talvez acess�vel a certos sentimentos humanos e, esfor�ando-se por refor�ar a sua coragem, esperou, meio deitada na cama aberta e � luz doce das velas que lhe fazia brilhar os cabelos e lhe acariciava a pele aveludada.</p><p>Mas, quando a porta se abriu sob a m�o de Pippa para dar passagem ao �cliente�, Fiora lan�ou um grito de horror e, saltando da cama, refugiou-se nas cortinas, que fechou sobre si: aquele que acabava de entrar era Pietro Pazzi, o corcunda, o coxo, a criatura horr�vel que Hieronyma dera � luz, o rapaz que ela lhe queria dar como marido...</p><p>Ele s� tinha 20 anos, mas, na realidade, n�o tinha idade, porque as garras do v�cio j� lhe tinham marcado o rosto de tez macilenta. Tinha um longo nariz achatado na ponta, os cabelos ralos e lisos, umas grandes orelhas, o queixo em forma de galocha e olhos pequenos e negros, dos quais um se fechava por instantes quando um tique habitual lhe erguia um dos lados do rosto. Apenas os dentes, muito brancos, possu�am alguma beleza.</p><p>At� ao momento, Fiora sempre tivera pena de um rapaz t�o desgra�ado e que a ironia da sorte fizera com que nascesse na cidade da Europa onde a beleza tinha mais import�ncia. Ali�s, nunca era visto com os rapazes da sua idade, cuja crueldade n�o tinha sen�o tro�a e sarcasmos para a sua deformidade. As raparigas fugiam dele, pelo menos aquelas a quem o seu nome, ou a sua fortuna o permitiam. Chiara detestava-o e tinha, at�, medo dele. A jovem dizia que o diabo � que o tinha engendrado e fugia de p�r os p�s no pal�cio Beltrami quando sabia que o jovem Pazzi l� ia. O que era raro, porque ele n�o sa�a muito da propriedade do seu av�, em Montughi, onde se dizia que se dedicava � alquimia e � cria��o de c�es ferozes.</p><p>O terror de Fiora pareceu diverti-lo, porque desatou a rir.</p><p>Ent�o, minha bela noiva, � este o acolhimento devido a um apaixonado? Dir-se-ia que te meto medo?</p><p>Aquela voz sarc�stica devolveu a Fiora a c�lera, que o medo tinha expulsado por um instante. Sem abandonar o abrigo das cortinas, ripostou:</p><p>Eu nunca tive medo de ti e tu sabe-lo muito bem. Creio, at�, que sempre fui am�vel contigo...</p><p>Eu sei, eu sei! Am�vel... sim. No entanto, recusaste casar comigo. A tua �amabilidade� n�o vai at� tal ponto, n�o � verdade?</p><p>N�o se pode dar a m�o sem dar o cora��o. Sinto-me desolada, Pietro, mas n�o te amo.</p><p>N�o fiques: eu tamb�m n�o te amo... ali�s, creio, at�, que te detesto, mas queria ter-te.</p><p>S� franco! Era o meu dote que tu querias e depois a fortuna do meu pai...</p><p>N�o te deprecies tanto! disse ele com uma risada de tro�a, que passou como uma lima pelos nervos tensos da jovem. � evidente que queria a fortuna dos Beltrami e ela pertence-me, visto que tu n�o �s nada. Mas queria-te, para te ensinar a viver � minha maneira. Para te submeter a todos os meus desejos, a todos os meus caprichos... Ah, a bela vida que eu te teria proporcionado, acorrentada dias e noites � minha cama, como uma cadela... Nunca viste os meus c�es, pois n�o?... � pena... S�o belos, fortes e lambem-me as m�os para conseguirem car�cias. Terias vivido com eles, partilhando a sua ra��o... At� j� tinha mandado fazer uma bela coleira de couro bordada a prata para esse lindo pesco�o. Ah, como ter�amos sido felizes os dois! J� te via a dormir nua no tapete do meu quarto, ao lado de <emphasis>Moloch, </emphasis>o meu molosso favorito, vindo a mim ao menor estalo do chicote... Este mesmo chicote, est�s a ver?... E de sob o manto negro que trazia negligentemente atirado para cima dos ombros tirou uma longa correia de couro entran�ado, que fez estalar. Mas ainda n�o � tarde, sabes? Primeiro vou casar contigo � minha maneira, ali, naquela cama de bordel... e depois, veremos como havemos de realizar esse belo sonho... Mas, agora, vem, minha doce querida, vem ao teu senhor!</p><p>Ele era louco, n�o havia d�vida. Com os olhos esbugalhados e um fio de baba a escorrer da boca, Pietro era aterrorizador, demon�aco...</p><p>Nunca! gritou Fiora, desvairada. Pro�bo-te que te aproximes de mim!</p><p>Pro�bes-me? Tu podes proibir seja o que for ao teu senhor? Vais-te arrepender... Eu disse aqui! Aqui, de joelhos!</p><p>Pippa, assustada com a reviravolta dos acontecimentos, interveio:</p><p>Um pouco de paci�ncia, senhor! Serve-te desse chicote mais tarde, quando ela estiver mais habituada a ti disse ela com uma voz mansa, que pretendia fosse suave. Pensa que tens diante de ti uma rapariga doce, uma virgem pura, que nunca imaginou, sequer, as alegrias de uma uni�o contigo... Come�a por tom�-la! Depois, estou certa, ela ficar� doce... e submissa!</p><p>O olhar de Pietro vacilou. Respirou duas ou tr�s vezes com muita for�a e deixou cair o chicote:</p><p>Tens raz�o. Celebremos, primeiro, as bodas! Traze-la aqui! Pippa n�o se fez rogada. A despeito da defesa desesperada de Fiora,</p><p>arrancou-a ao seu abrigo prec�rio e for�ou-a a deitar-se na cama, onde a jovem imediatamente se enroscou. O seu cora��o batia-lhe com toda a for�a no peito, porque, com um grito de raiva, Pietro voltara a pegar no chicote e fustigava-lhe os ombros e o dorso que ela lhe oferecia. Ele ia voltar a fustigar, mas <emphasis>o Mulher�o, </emphasis>compreendendo que ele era capaz de matar a sua preciosa pensionista, deteve-lhe o bra�o.</p><p>J� t�aconselhei a teres um pouco de paci�ncia, senhor! � in�til bateres: o sangue sujar-te-ia. Eu seguro-ta!</p><p>Segura-a bem, ent�o! Ela � capaz de me arranhar!</p><p>N�o receies! Eu trato disso. Despe-te! e, em voz baixa, sussurrou ao ouvido de Fiora: Por amor de Deus, deixa-t�ir! El�� capaz de te matar!</p><p>Que Pippa invocasse o amor de Deus num tal lugar e num tal momento era significativo da sua inquieta��o, mas n�o precisava da ajuda de ningu�m: precisou de pouca for�a para quebrar a resist�ncia da infeliz, que se viu estendida de lado na cama com os ombros e os bra�os solidamente seguros.</p><p>Entretanto, Piero tirara o seu grande manto, que atirou para um canto:</p><p>Eu nunca me dispo para desflorar uma rapariga. Elas acham esta roupa mais agrad�vel. Excita-as!</p><p>O gib�o que ele trazia estava, com efeito, constelado de pequenas placas de ferro pontiagudas, que, sem causarem ferimentos graves, deviam arranhar cruelmente a pele das suas companheiras.</p><p>Por todos os diabos! sussurrou Pippa, estupefacta. No entanto, sabia que o filho de Hieronyma n�o era normal e, na sua casa, j� encontrara muitos homens cru�is, mas aquilo confundia-a.</p><p>Vendo que ele se aproximava, Fiora fechou os olhos com for�a e apertou nervosamente as pernas, mas o monstro abriu-lhas com um violento golpe de joelhos e depois, �-vontade, entrou nela brutalmente... mas retirou-se de imediato arranhando os seios e o ventre da jovem, que n�o conseguiu reter um gemido:</p><p>Ela n�o � virgem! urrou ele.</p><p>Ela n�o � virgem? repetiu Pippa, aturdida. Deves�tar enganado, senhor! Entraste com muita for�a!</p><p>Eu n�o sou est�pido, Pippa e sempre soube quando uma rapariga � nova, ou n�o! Esta j� serviu... mas ela vai-me dizer a quem! Ouves, putazinha porca? Com os teus grandes ares, n�o �s melhor do que as que se arrastam pelas tabernas do rio! Mas, agora, vais falar!</p><p>E atirou-se a ela de novo, apertando-lhe a garganta e come�ando a apertar, a apertar. Pippa lan�ou um grito:</p><p>Como queres tu qu�ela fale s�a estrangulas? Deixa-a... Estou-te a dizer p�ra deixares!</p><p>E <emphasis>o Mulher�o </emphasis>j� segurava no monstro pelos punhos quando, subitamente, surgiu um homem sem que ela pudesse adivinhar de onde, um homem vestido com uns trapos que lhe davam o ar de um rato careca, t�o grande e t�o negro que ela pensou ver o diabo em pessoa. E mal teve tempo de aperceber o brilho do punhal com que, por duas vezes, ele feriu Piero no dorso...</p><p>O corcunda lan�ou um grito e abateu-se. As suas m�os largaram a presa mesmo a tempo para Fiora, que sufocava. Pippa, que estava de joelhos no outro lado da cama para melhor imobilizar a jovem, ergueu-se penosamente. Os seus olhos espantados iam do corpo inerte para o homem vestido de farrapos, que, com uma m�o e sem esfor�o aparente, agarrou no morto pela gola do gib�o e afastou-o de Fiora, sobre a qual estava estendido pesadamente, para o atirar por terra com nojo, como uma coisa imunda. O corpo da jovem apareceu coberto de pequenas arranhadelas, de onde corria sangue; o homem n�o se perturbou. Com as asas do nariz meio fechadas, Fiora respirava com dificuldade...</p><p>Fizeste-a linda! murmurou Pippa, que olhava com horror para a mancha de sangue a aumentar nas costas de Pietro. E, j�gora, quem �s tu?</p><p>Algu�m que poderia mandar-te enforcar... ou, at�, queimar, se este monstro tivesse matado <emphasis>madonna </emphasis>Beltrami em tua casa. J� � suficientemente grave ter prisioneira uma mulher raptada do asilo de um convento disse tranquilamente Dem�trios, que apalpava com suavidade o pesco�o dorido, para se assegurar de que n�o havia nada quebrado. Tu �s c�mplice. Seguravas-lhe os bra�os enquanto ele a estrangulava.</p><p>N�o o teria deixad�ir at� ao fim! Juro por...</p><p>N�o jures, Pippa! � tempo perdido. Farias melhor se tratasses dela. Ele p�-la num lindo estado!</p><p>O m�dico grego tirou de sob o seu vestu�rio imundo um pequeno frasco, que aproximou dos l�bios brancos de Fiora; umas gotas deslizaram-lhe para a boca e nos segundos que se seguiram todo o corpo da jovem foi percorrido por um longo arrepio. Por fim, Fiora abriu os olhos e olhou com imensa surpresa para o rosto barbudo inclinado para si. Reteve a tempo uma exclama��o, porque Dem�trios lhe pousou rapidamente um dedo sobre a boca:</p><p>Isso vai melhor?</p><p>Sim sussurrou ela. Sim... obrigada!</p><p>Entretanto, Pippa mexia-se. Acabou de arrancar o que restava da t�nica de musselina, lavou o corpo com �gua de laranjeira e foi buscar um pequeno p�caro, do qual tirou uma noz de pomada que espalhou por todos os ferimentos, prodigalizando � v�tima palavras tranquilizadoras, sem por isso deixar de espreitar, pelo canto do olho, o seu estranho visitante:</p><p>Pronto, minha pomba! N�o � nada! Uma boa noite de sono em cima disto e desaparece logo!</p><p>Estou de acordo com a boa noite de sono disse Dem�trios mas n�o aqui! Veste-a com o que encontrares � m�o. Eu vou lev�-la!</p><p>Subitamente, Pippa reencontrou toda a sua combatividade. Pondo-se nos bicos dos p�s, fez frente ao grego, de m�os nas ancas, formid�vel e amea�adora:</p><p>Levas mas � nada! J� me fizeste muito mal ao matar assim um bom cliente. Mas ela, sou eu que fico com ela! �t�s a perceber? No fim de contas, quem �s tu? Na passas d�um mendigo e eu tenho aqui um tipo ou dois que me podem muito bem ajudar. Sem contar que posso gritar oh-da-guarda. E hei-de dizer a verdade: que mataste um nobre e � a ti qu�h�o-de enforcar! E pensando bem... por que n�o hei-de eu gritar j�?</p><p>E ia gritar, mas Dem�trios estendeu um bra�o, os dedos separados dirigidos aos olhos da mulher, que ficou de boca aberta. Sem mudar de posi��o, o grego avan�ou um passo e Pippa recuou um passo e assim sucessivamente at� que ela ficou encostada � parede, t�o hirta como uma prancha. Os olhos negros que Dem�trios dardejava sobre ela flamejavam como velas.</p><p>Tu n�o vais chamar ningu�m, Pippa disse ele com uma voz calma e sem deixar de olhar para ela. Pelo contr�rio, vais obedecer-me... Ouves a minha voz?</p><p>Sim... sim, ou�o a tua voz! Fala! Obedecerei! A voz da mulher estava diferente, long�nqua...</p><p>Ent�o, ouve: vais vestir esta jovem e depois vais acompanhar-nos at� � porta. De seguida, chamar�s o teu irm�o e quando a tua casa estiver vazia, levareis este corpo at� ao rio, para onde o atirareis depois de o terdes lastrado com uma ou duas pedras grandes. Depois, regressareis. S� ent�o acordar�s, mas ter�s esquecido tudo do que acaba de se passar aqui. Quanto � tua prisioneira, conseguiu fugir enquanto os b�bedos que entraram aqui lutavam uns com os outros...</p><p>Toda a sua for�a parecia concentrada no olhar e na m�o que pregava Pippa � parede. O m�dico destacava claramente cada s�laba, como para melhor as fazer entrar no esp�rito da mulher. Esta tinha os olhos muito abertos e estava absolutamente im�vel. Parecia uma grande est�tua, para a qual Fiora olhava com estupor. Entretanto, Dem�trios, ap�s um curto sil�ncio, perguntou:</p><p>- Compreendeste as minhas ordens?</p><p>Sim.</p><p>Execut�-las-�s? Sem faltar nada?</p><p>Sem faltar nada...</p><p>Ent�o vai, obedece! acrescentou ele com uma voz forte, deixando cair lentamente o bra�o. Pippa vacilou, como se lhe faltasse subitamente um apoio e meteu m�os � obra com gestos bizarros de aut�mato. Vestiu Fiora que n�o ousava mexer-se, vestiu-lhe a roupa que a jovem trazia � chegada e que tirou de uma arca: a sua camisa, o h�bito branco de novi�a e as sand�lias de corda entran�ada. Dem�trios pegou ent�o no manto negro que Pietro abandonara, entregou-lho para que ela envolvesse a jovem e estendeu a m�o a esta.</p><p>Vem! disse ele. E n�o temas! Ela vai, tal como lhe ordenei, acompanhar-nos at� � porta...</p><p>Pippa, com efeito, t�o indiferente como se estivesse s�, acendeu uma vela no candelabro e dirigiu-se para a porta. Mas Fiora resistiu � m�o que a levava:</p><p>E Khatoun? Eu n�o posso partir sem ela!</p><p>A pequena t�rtara que te � t�o devotada? Onde est� ela? Fiora fez um gesto vago:</p><p>N�o sei. Algures nesta casa, com um homem... um estranho. Pippa disse que ia d�-la a algu�m que a apreciaria... � preciso encontr�-la!</p><p>Dem�trios franziu as sobrancelhas:</p><p>Esta noite � imposs�vel! Esta casa � grande e n�o podemos vasculhar tudo. Al�m disso, n�o posso adormecer uma multid�o como adormeci esta mulher. Temos de partir sem ela.</p><p>N�o! disse Fiora. Recuso-me a abandon�-la. Deus sabe o que lhe pode acontecer, entregue a esses dem�nios!</p><p>N�o vejo que possas fazer grande coisa para a proteger. Mas, descansa: ela n�o arrisca nada. Pippa sabe muito bem o valor de uma rapariga bonita. Ali�s, amanh� mandarei busc�-la. <emphasis>O Mulher�o </emphasis>n�o resiste muito tempo ao ouro e vai t�-lo. E agora vem, temos pouco tempo!</p><p>Pippa esperava na soleira da porta como uma criada bem ensinada. Quando Dem�trios e Fiora se aproximaram, p�s-se em marcha precedendo-os e levando na m�o a vela para iluminar o caminho. Percorreram um corredor mergulhado na noite e que desembocava num p�tio interior, o mesmo para onde dava o quarto-estufa de Fiora. Ouviram-se gritos e risos quando passaram sob uma ab�bada onde desembocava uma escadaria. Estavam t�o pr�ximos que a fugitiva sentiu uma ang�stia ao pensar que podia abrir-se uma porta, deixando sair alguns dos que, l� dentro, faziam uma verdadeira bacanal.</p><p>N�o tenhas medo sussurrou Dem�trios. Com ela n�o temos nada a temer. Ali�s, ela evitou a grande sala... E j� estamos quase l� fora...</p><p>No fim de um �ltimo corredor, Pippa abriu uma porta e afastou-se para deixar passar os seus companheiros. Em seguida, voltou a fech�-la. Com uma alegria infinita, Fiora olhou para o grande c�u azul-escuro, ponteado de estrelas, no qual o intervalo das silhuetas das casas encostadas umas �s outras da ruela formava fitas cintilantes. A jovem respirou a plenos pulm�es o ar h�mido que arrastava odores de peixe, azeite e madeira queimada e apertou com mais for�a a m�o de Dem�trios:</p><p>Como agradecer-te... come�ou ela, mas ele f�-la calar-se.</p><p>Mais tarde teremos todo o tempo para conversar. Por agora, temos de nos abrigar at� ao fim da noite. Ao nascer do dia, quando as portas forem abertas, levar-te-ei para minha casa, em Fiesole...</p><p>Onde vamos?...</p><p>A casa do amigo a quem devo este esp�lio... e outras coisas...</p><p>Os dois sa�ram da ruela com infinitas precau��es e s� quando tiveram a certeza de que o passo da mil�cia se afastava, em lugar de se aproximar. Na sua frente estendia-se o que parecia um amontoado de ru�nas e que, de facto, era um estaleiro inacabado: o de um grande pal�cio que s� tinha o r�s-do-ch�o e uma parte do primeiro andar, mas que n�o deixava de ser impressionante pelas pedras enormes, meio desbastadas, rugosas e b�rbaras da sua constru��o. As pessoas do bairro n�o se aproximavam dele porque tinha m� fama. O homem que o quisera construir, Luca Pitti, um dos homens mais ricos de Floren�a, pedira os planos a Brunelleschi, o arquitecto genial que tinha erigido o Baptist�rio e coroado o Duomo com a sua enorme bolha cor de coral. Queria-o como o maior, o mais rico da cidade, � altura da sua ambi��o desenfreada. Ap�s a morte de Cosimo, o av� de Louren�o, Pitti conspirara com Soderini, o administrador municipal de ent�o, para arrancar o poder das m�os mais fracas de Piero o <emphasis>Gotoso, </emphasis>filho de Cosimo, mas a conspira��o fracassara e Pitti, arruinado e exilado, morrera longe da cidade amada. A imagina��o popular, que n�o se satisfazia com um fim simples, pretendia, em voz baixa, claro, que os restos mortais de Luca Pitti, assassinado pela gente dos M�dicis, estavam enterrados sob o seu pal�cio inacabado e como as lendas t�m vida longa, as mulheres benziam-se ao passar pelos muros enormes e pelas grandes arcadas vazias, para onde abriam os olhos cegos das grandes janelas rectangulares. Ningu�m se atrevia a ir buscar uma daquelas pedras abandonadas, que diziam malditas. Aquilo durava h� 35 anos...</p><p>No entanto, Dem�trios arrastou a sua companheira pelo meio do estaleiro abandonado sem se deixar impressionar pelo temor que ela manifestava.</p><p>Uma rapariga cujo esp�rito foi iluminado pela luz grega n�o se deixa perturbar por uma lenda idiota! disse-lhe ele � guisa de conforto...</p><p>Um arrastando o outro contornaram o pal�cio, encontraram um esbo�o de jardim que deveria estender-se sobre uma colina e entraram por uma das portas que nunca tinham recebido batentes. Tacteando na</p><p>1 O pal�cio Pitu foi recuperado e a sua constru��o terminada um s�culo mais tarde por Cosme de M�dias</p><empty-line/><p>escurid�o, Dem�trios viu um fino raio de luz filtrando-se por baixo de um conjunto de pranchas e bateu segundo um c�digo particular. Do interior, uma voz �spera perguntou:</p><p>Quem vem l�?</p><p><emphasis>Mendici</emphasis></p><p>Aquilo que fazia de porta abriu-se, descobrindo o que deveria ter sido uma divis�o de servi�o. A luz provinha de um pequeno fogo aceso no meio, no solo de terra batida. Quanto �quele que acolheu os visitantes, era um homenzinho esquel�tico, cujo rosto pergaminhado estava ornamentado com uma barba rala e onde se enquadravam uns longos cabelos grisalhos. O homem deitou uma r�pida olhadela aos visitantes e voltou a acocorar-se junto do fogo para mexer algo dentro de um pote de argila:</p><p>Parece que conseguiste?</p><p>Sim. Gra�as a ti, Bernardino. Mas foi mesmo a tempo. Tive de matar Pietro Pazzi. Tinha sido ele que tinha mandado raptar Fiora e ia estrangul�-la quando cheguei. A esta hora Pippa e o irm�o devem estar a atir�-lo ao Arno com algumas pedras, para evitar que volte a subir.</p><p>Menos um bandido! aprovou o velhote. Quanto a ti, rapariga, s� bem-vinda! Est�s em casa de um amigo... ali�s, tu conheces-me, porque me deste esmola v�rias vezes.</p><p>A jovem lembrava-se, com efeito, daquele velhote, que mendigava sempre perto das portas do Duomo, lamuriando sempre a mesma queixa...</p><p>Agrade�o-te disse ela mas... eu pensava que eras cego e surdo?</p><p>Ele riu docemente e depois explicou com orgulho que era preciso uma grande experi�ncia para conseguir n�o mostrar sen�o o branco dos olhos e que n�o era dif�cil parecer surdo.</p><p>E agora podes dormir um bocado, porque deves precisar. A minha cama � esta acrescentou ele apontando para um dos montes de trapos que serviam de m�veis � sua casa. Quando o galo cantar, acordo-te...</p><p>Tu acolhes-me em tua casa e, portanto, arriscas a vida. Suponho que sabes isso?</p><p>1 Mendigos</p><empty-line/><p>Arrisco menos do que imaginas, garota. N�o ligues ao cen�rio miser�vel em que vivo, porque disponho de um poder que faria inveja a muitos pr�ncipes. A confraria dos mendigos, a mais numerosa que h�, � reconhecida em todo o Mediterr�neo e para l� dele atrav�s da �nica palavra <emphasis>MendicHe </emphasis>eu reino sobre os de Floren�a: os estropiados verdadeiros ou falsos, os carteiristas e os mendigos de toda a esp�cie. � um ex�rcito cujos golpes, por serem dados muitas vezes nas trevas, n�o s�o menos tem�veis. Quando estala um motim, n�s estamos sempre no cora��o da agita��o. Mas, v� l� tu, esta vida que me � t�o cara devo-a ao homem que te acompanha, porque o seu saber salvou-me. E Bernardino paga sempre as suas d�vidas!... E agora dorme e tapa as orelhas, porque n�s temos de conversar, o grego e eu...</p><p>Estendida sobre o monte de trapos malcheirosos como sobre as almofadas mais suaves, Fiora, esquecendo o seu corpo arranhado e a garganta dorida, caiu quase de imediato no sono mais profundo. A alguns passos dela, acocorados um em frente do outro de cada lado da fogueira como estranhas aves nocturnas, o m�dico grego e o rei dos mendigos entretiveram-se em voz baixa com os seus neg�cios subterr�neos at� �s primeiras luzes da madrugada. Quando o galo fez ouvir o seu canto, Dem�trios tirou de sob os seus farrapos um punhado de florins, que pousou na garra do seu companheiro. Em seguida levantou-se e abriu os longos membros:</p><p>Achas que consegues? perguntou ele.</p><p>O outro encolheu os ombros e passou as moedas de ouro de uma m�o para a outra com deleite:</p><p>� o b�-�-b� da profiss�o. Dentro de duas horas, o clamor de que a rapariga n�o fugiu do convento e foi, em vez disso, raptada correr� por todos os adros e mercados com tanta velocidade como o vento su�o.</p><p>Tens a certeza que nem tu nem os teus irm�os se arriscam a cair nas m�os do Bargello?</p><p>N�o se pode parar o vento. Nasce sem que se saiba porqu� nem de onde vem e passa, mas n�s faremos com que n�o se extinga demasiado depressa. N�o tenhas receio! N�s somos h�beis e as comadres ganhar�o bem o seu dinheiro.</p><p>Dem�trios abanou a cabe�a, sorriu e foi acordar Fiora. Uma hora mais tarde, depois de terem atravessado toda a cidade no meio de carro�as de legumes e de cria��o a caminho do mercado, transpuseram, perante a indiferen�a geral e sem que os soldados de guarda lhes concedessem um olhar, a porta Pinti que dava para Fiesole, percorria o muro do convento dos Cam�ldulos e o do maravilhoso jardim de la Badia, constru�do outrora para Cosimo de M�d�cis.</p><p>O ar da manh� era leve, puro e transparente, com aquela bela luz irisada que anuncia um dia de sol, mas o cora��o de Fiora, se bem que livre do medo, permanecia pesado enquanto caminhava junto de Dem�trios na poeira do caminho tantas vezes percorrido outrora ao trote do seu cavalo ou no alegre carrilh�o das campainhas de uma mula. L� em cima estava a sua casa, da qual podia ver o grande telhado trigueiro, a doce casa entre os loureiros, onde Philippe lhe tinha dado algumas horas de felicidade maravilhosa e a jovem pestanejou sob a luz, como uma ave nocturna projectada, subitamente, para a luz do Sol. As coisas j� n�o tinham o mesmo rosto nem a mesma cor e Fiora via-se uma estranha, uma rainha deposta transformada numa mendiga no meio daquela bela regi�o que ela amava com todas as fibras do seu corpo, com toda a ternura do seu cora��o e que n�o a reconhecia.</p><p>Dem�trios, que a observava pelo canto do olho, ao v�-la trope�ar numa vala deixada pelas �ltimas chuvas, segurou-a pelo bra�o e n�o a largou mais:</p><p>A encosta � rude e o caminho parece-te amargo, Fiora Beltrami, porque ca�ste do alto e as tuas feridas ainda sangram, mas fica a saber que aquele que quer atingir o topo da montanha n�o pode abster-se de subir a encosta.</p><p>Cr�s que ainda pode existir um topo para mim? Estou cansada, Dem�trios...</p><p>J� to disse: ainda sangras, mas as cicatrizes tornam a pele mais dura. Eu vou curar-te e poder�s, ent�o, ver de novo o horizonte. Descobrir�s que ter�s vontade de... amar e ser amada.</p><p>Nunca! Nunca mais voltarei a amar! H� demasiada amargura no meu cora��o para que o amor possa entrar de novo nele, um dia. Tudo o que desejo, agora, � vingar o meu pai, a minha m�e e vingar-me a mim mesma. Pensa que me tiraram tudo, que a minha casa foi pilhada, devastada, que talvez tenham matado aquela que velou pela minha inf�ncia, a minha querida L�onarde, na qual mal ousava pensar naquela casa de onde tu me tiraste...</p><p>Posso assegurar-te que ningu�m foi morto quando o pal�cio Beltrami foi invadido. Os criados que n�o fugiram, dispersaram-se.</p><p>Bernardino, o mendigo, informou-se. A tua L�onarde encontrou um ref�gio.</p><p>Onde? Todas as portas se lhe devem ter fechado, at� as daquela Colomba, a governanta da minha amiga Chiara Albizzi. A menos que... que tenha podido ir para casa da sobrinha dela, a Jeanette, que casou com um fazendeiro do Mugello! Oh! Se eu pudesse ter a certeza?</p><p>Eu hei-de encontr�-la, descansa! Quanto � vingan�a, � natural que penses nela.</p><p>Eu s� penso nela! Mas j� n�o tenho nada para me ajudar a persegui-la, nada sen�o estas duas m�os acrescentou ela com amargura, estendendo diante de si os seus dedos esbeltos que, com as unhas quebradas, pareciam incrivelmente fr�geis para t�o pesada tarefa.</p><p>N�o �s capaz de confiar em mim? As armas que te faltam, encontr�-las-emos juntos. N�o percas a esperan�a! Eu sei que a estrada � longa e que te reserva muitas surpresas. Tenho muito que te ensinar...</p><p>Fiora olhou para o seu companheiro com curiosidade:</p><p>Tu �s um homem estranho e n�o � a primeira vez que reparo nisso. Eu n�o esqueci a tua profecia, na noite do baile, no pal�cio M�dicis...</p><p>Nem, espero, a promessa que te fiz, de te socorrer se precisasses?</p><p>N�o a esqueci... mas n�o acreditava nela. Perdoa-me, porque acabas de me salvar de um destino bem pior do que a morte e nunca te poderei agradecer o suficiente. No entanto, confesso-te, metes-me um certo medo. Onde arranjaste tu esses poderes estranhos? Ontem, com um simples gesto, transformaste <emphasis>o Mulher�o </emphasis>numa criada obediente e...</p><p>Chhh! Falaremos disso mais tarde. Nunca se sabe para onde o vento leva as palavras... Ficas apenas a saber o seguinte: podemos apoderar-nos facilmente do esp�rito de um ser quando ele est� sob os efeitos de uma emo��o...</p><p>Os dois prosseguiram o caminho em sil�ncio. Abandonando a estrada, Dem�trios escolheu uma vereda �ngreme entre muretes de pedra seca, que retinham a terra sob as vinhas e as oliveiras. O Sol subia no c�u. Espalhava o seu calor primaveril pelas colinas salpicadas aqui e ali de grandes ciprestes negros. Empoleirado na folhagem prateada de uma velha oliveira, um melro come�ou a cantar. Fiora parou por um instante para o escutar e tamb�m para repousar. O suor perlava-lhe a fronte, o l�bio superior e os p�s, cobertos de poeira nas suas sand�lias de corda, do�am-lhe:</p><p>Por que viemos por aqui? perguntou ela. Este caminho n�o � mais longo?</p><p>Pelo contr�rio, � mais curto para quem vai para minha casa. E depois... evita que passemos perto de uma casa que te deve ser duplamente querida? N�o foi l� que te tornaste a esposa do conde de Selongey, o enviado do <emphasis>Temer�rio?</emphasis></p><p>Fulminada por aquelas palavras, Fiora ergueu para o seu bizarro companheiro um olhar espantado e quase fez o sinal da cruz.</p><p>Para saber isso tens de ser o diabo em pessoa! murmurou ela. O m�dico grego desatou a rir e ela ficou vagamente escandalizada,</p><p>como se aquela manifesta��o humana estivesse deslocada numa personagem t�o singular que n�o podia evitar ach�-lo um pouco sulfuroso.</p><p>N�o disse ele tranquilamente. Simplesmente, sei sempre o que preciso de saber. E agora retomemos, se n�o te importas, o nosso caminho! Precisamos os dois de roupas limpas, um pouco de repouso..., e um copo de vinho fresco!</p></section><section><title><p>CAP�TULO IX</p><p>O M�DICO DE BIZ�NCIO</p></title><p>A casa do m�dico grego erguia-se afastada do burgo de Fiesole, no extremo de uma fila dupla de altos ciprestes, que erguia em redor do visitante duas muralhas de verdura. Constru�da dois s�culos antes, no tempo das lutas fratricidas entre os Guelfos e os Gibelinos, era um pequeno castelo que devia refor�ar, em tempos, a defesa das muralhas da antiga cidade etrusca. Tinha umas paredes altas, avermelhadas, cujas antigas seteiras tinham por cima um grande telhado pouco inclinado. Uma torre quadrada, coberta tamb�m ela, acentuava o aspecto guerreiro da constru��o, mas os jardins que a rodeavam n�o ficavam a dever nada aos das mais ricas casas e suavizavam as suas velhas paredes, ao ponto de as tornar agrad�veis.</p><p>Grandes pinheiros p�ra-sol, junto dos quais corria uma fonte pregui�osa, refrescavam um grande tanque quadrado e formavam um o�sis resguardado, onde desabrochavam �-vontade sebes de loureiro-rosa e loureiro-comum! moitas de roseiras-bravas, grandes �ris azuis e negras, tufos de lavanda, grandes pe�nias brancas, rom�zeiras de flores p�rpuras, limoeiros e laranjeiras plantados em grandes potes de barro vermelho e, em grandes canteiros rodeados de cord�es de buxo, todas as plantas medicinais e todos os �simples� de que um m�dico podia ter necessidade. Havia tamb�m �rvores frut�feras: cerejeiras, ameixeiras, pereiras e enfim, por tr�s de um ressalto da colina, um grande quadrado de legumes, unido pelas constru��es de uma herdade. Al�m disso, uma esp�cie de terra�o, feito a partir de uma antiga parede, estendia-se por tr�s da casa � sombra de uma velha vinha ainda vigorosa. Tal era a casa que Dem�trios devia � generosidade de Louren�o.</p><p>Como seu m�dico, possuo tamb�m um quarto no pal�cio da via Larga, assim como nas suas outras resid�ncias, mas ele sabe que eu gosto de viver livre e afastado. Foi por isso que me deu esta casa. N�o � suficientemente grande, ou bela para excitar a cobi�a e eu sinto-me bem e trabalho nela tranquilamente, ainda por cima porque as gentes daqui me arranjaram uma reputa��o de feiticeiro e mant�m-se afastadas. � verdade que no extremo do meu jardim passa o caminho que vai dar a Fontelucente...</p><p>Sobre aquele assunto, Fiora n�o precisava de explica��es. Como todos os habitantes da regi�o, a jovem sabia que as grutas de Fontelucente abrigavam uma comunidade de feiticeiros t�o c�lebre como a de Norcia, perto de Spolete. Nunca Beltrami permitira que a Sua filha dirigisse os seus passeios naquela direc��o perigosa. Portanto, n�o conhecia a casa de Dem�trios, se bem que n�o fosse muito afastada da <emphasis>villa </emphasis>Beltrami.</p><p>Um homem abriu perante os rec�m-chegados a pesada porta de grandes pregos de ferro ferrugentos que fechava a casa. Era t�o baixo e atarracado como Dem�trios era alto e magro. Tinha um rosto quadrado, de nariz partido e express�o atrevida. Com o pesco�o grosso, os ombros poderosos e a boca forte era bastante mais novo do que o seu patr�o e devia ter 35 anos. Uns cabelos negros, duros e rebeldes completavam a personagem, que os acolheu com uma alegria t�o evidente quanto aliviada:</p><p>Pensei que nunca mais voltasses, patr�o! disse o homem. Sua Senhoria de M�dicis perguntou por ti duas vezes...</p><p>E tu, que respondeste?</p><p>O que tu me disseste: que tinhas ido a Prato para tocar na Sagrada Cintura com um b�lsamo que tinhas feito para os rins dolorosos de <emphasis>madonna </emphasis>Lucrezia, a m�e de Sua Senhoria...</p><p>E da segunda vez?</p><p>Que ainda n�o tinhas regressado...</p><p>�ptimo aprovou Dem�trios com um meio sorriso. Fiora acrescentou ele pousando uma m�o no ombro do seu criado apresento-te Esteban. � de Toledo, em Espanha. Foi l� que o encontrei h� alguns anos. � ao mesmo tempo meu assistente, meu mordomo, meu jardineiro, executor das minhas vontades e, tamb�m por vezes, os meus olhos e ouvidos... Tu n�o o conheces, mas ele conhece-te bem... Foi ele que, numa certa noite de Inverno, viu umas pessoas dirigirem-se ao convento vizinho e sa�rem de l�... numa ordem diferente. Juntamente com Samia, uma escrava eg�pcia que o pal�cio M�dicis me emprestou e que �, felizmente, muda, comp�em a minha criadagem.</p><p>Esteban saudou com uma flexibilidade inesperada num homem t�o pesadamente constitu�do e depois bateu as palmas. Uma grande rapariga de pele escura, vestida com uma t�nica azul-escura e presa nas ancas por um len�o vermelho-vivo, apareceu e inclinou-se:</p><p>Esta � <emphasis>donna </emphasis>Fiora disse-lhe o grego. Dever�s servi-la t�o bem como a mim mesmo. Ela est� esgotada de fadiga, est� suja e tem fome. Sabes o que tens a fazer. Queimar�s a roupa que ela traz vestida e tratar�s, como te ensinei, os ferimentos que tem no corpo. Quanto a ti, Fiora, deves repousar <emphasis>e, </emphasis>antes de tudo, esvaziar o esp�rito. Dorme at� te apetecer. N�o h� melhor rem�dio.</p><p>Depois de se ter inclinado de novo, Samia pegou na jovem pela m�o. Juntas, atravessaram a entrada, que era uma grande sala caiada de branco sem outro ornamento que n�o umas ab�badas de arestas pintadas de vermelho e azul. O solo era feito de pequenos tijolos e nas paredes estavam penduradas arreios de cavalos, r�deas, cabrestos e chicotes, por cima de utens�lios de jardinagem pousados por terra... No extremo daquela sala, que devia ter sido em tempos uma casa da guarda, uma porta dava para um pequeno p�tio, por onde se entrava para a habita��o propriamente dita. Samia dirigiu a sua companheira para a grande cozinha, onde pairava um perfume provocado pelo guisado que fervia numa marmita por cima do fogo e pelas tran�as de cebolas, alhos, pimentos e ramos de tomilho, loureiro, manjerona e alecrim que pendiam da ab�bada.</p><p>Sabendo que qualquer conversa��o era dif�cil, sen�o imposs�vel, Fiora deixou-se conduzir. Samia despojou-a das roupas, que atirou para um canto para as queimar mais tarde, meteu-a numa grande tina onde a lavou em muita �gua, secou-a rapidamente, vestiu-lhe uma camisa fina de algod�o e pantufas de veludo um pouco grandes de mais, mas confort�veis e instalou-a � mesa para lhe servir uma grande escudela do seu guisado de carneiro com ervas, uma grande fatia de queijo e pequenos bolos de am�ndoa, tudo regado com um generoso <emphasis>Chianti, </emphasis>que devolveu as cores �s faces da evadida dos bairros de m� fama.</p><p>Fiora, que literalmente devorou aquela deliciosa refei��o, sentiu de imediato a fadiga do corpo e do esp�rito. Deixou-se levar docemente at� um quarto no andar superior, onde s� viu uma coisa: uma cama muito branca esperava-a, aberta. A jovem deitou-se com uma sensa��o de felicidade nos len��is que cheiravam a lavanda e adormeceu mal a sua cabe�a repousou na almofada.</p><p>Samia ficou por uns instantes junto dela e depois, constatando que dormia, correu as cortinas do leito e saiu do quarto para se juntar na cozinha a Dem�trios e Esteban, que, por sua vez, j� se tinham sentado � mesa. O m�dico grego tinha tirado os trapos e vestido um dos seus trajes de veludo negro de que tanto gostava, ap�s ter feito uma <emphasis>toilette </emphasis>r�pida na fonte do jardim.</p><p>Enquanto Esteban cortava grandes fatias de p�o que estava em cima da mesa, Dem�trios encheu uma ta�a de vinho, que bebeu lentamente com a vis�vel satisfa��o de um homem que h� muito n�o saboreava nada t�o bom:</p><p>A hospitalidade dos nossos amigos mendigos � generosa, mas os costumes n�o s�o os mesmos. � bom regressar a casa...</p><p>O m�dico atacou com apetite o guisado que a sua escrava lhe serviu, bebeu mais um copo e virou-se para Esteban:</p><p>Fizeste o que te ordenei?</p><p>Sim, patr�o... No outro dia, quando as duas jovens partiram para o convento de Santa L�cia, aproximei-me do homem que me tinhas designado...</p><p>Marino Betti, aquele que, a despeito do seu juramento, contou a hist�ria de Beltrami na Borgonha � dama Pazzi?</p><p>Fica tranquilo, que n�o cometi erro nenhum. No meio daquela gente, que falava toda ao mesmo tempo, ele tinha um ar desorientado. Ent�o, brinquei aos entusiastas. Disse-lhe quanto o admirava por ter cumprido o seu dever de cidad�o de Floren�a e at� de crist�o ao denunciar a fraude cometida pelo falso Beltrami, desprezando assim os seus pr�prios interesses, porque com essa atitude ia perder uma intend�ncia que n�o lhe devia dar t�o pouco dinheiro como isso... As minhas palavras tiveram o cond�o de lhe fazer subir o moral, ainda por cima porque os outros tinham tend�ncia para se afastar dele. Partimos juntos...</p><p>Esteban deteve-se para beber um gole de vinho.</p><p>E depois? perguntou Dem�trios.</p><p>Fomos para uma taberna de marinheiros na margem do rio e eu mandei vir de beber. Ele despejou duas ta�as uma atr�s da outra, como algu�m que tem grande necessidade. Naturalmente, voltei a servi-lo, ao mesmo tempo que tentava faz�-lo falar, mas ele s� me respondia por monoss�labos e havia medo no seu olhar, que lan�ava por cima do meu ombro. Ele voltou a beber, mais lentamente. Ent�o, mandei vir p�o, presunto e queijo, dizendo sempre que n�o era bom beber com o est�mago vazio e tamb�m nisso ele esteve de acordo. Come��mos a comer. Eu tirei a minha faca e ele a sua, mais ou menos igual � que me confiaste...</p><p>A do assassino!</p><p>Sim, mas a dele tinha um cabo de madeira, em vez de corno. Bebemos mais e eu fingi que estava b�bedo.</p><p>E ele?</p><p>Ele � um antigo recoveiro: aguenta bem, mas, mesmo assim, come�ou a vacilar um pouco e eu pensei que tinha chegado o momento. Pus-me a fazer grandes gestos e a faca caiu da mesa abaixo. Baixei-me para a apanhar e troquei-a pela outra. Ele n�o pareceu ter-se apercebido, de imediato, da troca. E depois, subitamente, viu-a. Ficou muito p�lido e eu at� pensei que os olhos lhe iam sair da cabe�a. Levantou-se bruscamente e pegou na arma para me esfaquear, mas eu estava prevenido e evitei o golpe. A mesa virou-se e vimo-nos frente-a-frente, armados. Ele olhou para mim com olhos de louco, mas eu esperei por ele. Pus-me a rir e disse-lhe: �Disseram-me que as pessoas daqui t�m muito medo dos fantasmas. Qualquer coisa me diz que n�o voltar�s a dormir t�o bem como antes! Um patr�o tra�do e assassinado deve ser um espectro bem desejoso de vingan�a!� N�o pensei que provocasse um tal efeito. Se alguma vez vi o terror no rosto de um homem, foi dessa vez. O homem recuou como se o fantasma em quest�o se erguesse entre ele e eu e desatou a fugir, como se todos os diabos do inferno lhe fossem no encal�o.</p><p>E tu, que fizeste?</p><p>Deixei-o ir... e paguei os estragos concluiu Esteban com filosofia. Ainda pensei correr atr�s dele para o matar, mas, em plena rua...</p><p>Fizeste bem. A vida desse miser�vel pertence �quela que dorme l� em cima...</p><p>Sem d�vida, mas ela � uma dama e n�o a vejo com uma faca na m�o. Anota que eu estou pronto a fazer esse servi�o no seu lugar!</p><p>- Ela n�o recuar�, porque est� desejosa de vingan�a. O seu hor�scopo, que eu fiz, disse-me que nesta bela mulher, feita para o amor e para a felicidade tranquila que uma bela fortuna proporciona juntamente com todos os seus atractivos, existe uma impiedosa Nemesis. Repara que bastou pouco mais de uma semana de �dio e cupidez para uma mulher lhe arrancar tudo o que ela amava, a come�ar pelo seu pai e pela sua fortuna... e a terminar no seu orgulho de mulher e na sua honra. Foi em casa de Pippa, a alcoviteira do bairro de San Spirito que a encontrei, no momento em que Pietro Pazzi, o corcunda, ia estrangul�-la, depois de a ter violado. Matei aquela coisa podre... A prop�sito de Pippa, tu vais selar o teu cavalo e vais a casa dela para lhe comprar uma pequena escrava t�rtara chamada Khatoun, que pertence a <emphasis>donna </emphasis>Fiora e que foi apanhada ao tentar libertar a dona. Leva este ouro!</p><p>Para qu�? Eu tenho uma espada e um punhal. Deve chegar como instrumento de negocia��o... �</p><p>Prefiro o ouro. <emphasis>O Mulher�o � </emphasis>capaz de ser mais forte do que tu! � perigosa e tem protectores. Al�m disso, deve andar morta de medo, desde que um Pazzi foi morto em sua casa. Se ela atira a sua gente e os clientes contra ti, n�o te safas. Antes de partires, sela a minha mula. <emphasis>O Magn�fico </emphasis>j� esperou o suficiente por mim... J� agora, sabes onde ele est�?</p><p>Ele estava na Badia, mas deve ter regressado ao Pal�cio para receber um emiss�rio do rei Eduardo de Inglaterra.</p><p>Como sempre que o tempo o permitia, Louren�o de M�dicis ia para o seu jardim. T�o bom poeta como homem de Estado, gostava de repousar os olhos e o esp�rito na verdura abundante, ouvir o canto dos p�ssaros e sentir por cima da cabe�a apenas o azul do c�u infinito. No espa�o for�osamente restrito de um pal�cio urbano, os seus jardineiros, preferindo o buxo a todas as outras plantas, tinham-no esculpido sob a forma de c�es, cervos e elefantes. Havia at� uma galera com as velas desfraldadas, tudo aquilo em redor de uma obra-prima: a <emphasis>Judite </emphasis>de Donatello, que se erguia em cima de uma grande ta�a de granito. Sob as colunas que davam acesso ao jardim, podiam ver-se tr�s sarc�fagos romanos, um antigo <emphasis>Marsyas </emphasis>habilmente restaurado e o admir�vel <emphasis>David </emphasis>de Donatello.</p><p>Quando Dem�trios chegou, parou sob aquelas colunas e procurou, at�, abrigo � sombra de <emphasis>Marsyas. O Magn�fico, </emphasis>com efeito, n�o estava s�: na sua frente e na de <emphasis>Judite, </emphasis>� qual se apoiava, estava o h�bito branco e o escapul�rio negro de frei In�cio. Mas n�o se tratava de uma reuni�o secreta, porque a voz do monge soava como a trombeta do ju�zo final, na inten��o de se fazer ouvir pelo maior n�mero de pessoas poss�vel. Dem�trios, por tr�s do seu s�tiro, n�o precisou de apurar o ouvido:</p><p>N�o tens conhecimento do rumor, vindo n�o se sabe de onde e que corre pela cidade desde esta manh�? trombeteou o espanhol. A rapariga que devia ser submetida ao ju�zo de Deus e que desapareceu do convento de Santa L�cia, n�o fugiu, o que, n�o to escondo, n�o me surpreende: foi raptada.</p><p>Eu sei. <emphasis>Madonna Lucr�zia, </emphasis>a minha m�e, ao regressar esta manh� da missa, contou-me. Mas dizes bem: n�o se sabe de onde vem o rumor. Portanto, � dif�cil acreditar nele.</p><p>Entre n�s, diz-se que n�o h� fumo sem fogo...</p><p>Tamb�m entre n�s, mas o que tu ignoras, porque n�o �s deste pa�s, � que n�o h� nenhum povo com mais imagina��o do que o de Floren�a. Ele gosta do maravilhoso, do fant�stico e sabe t�o bem contar as velhas hist�rias como inventar outras...</p><p>No seu h�bito branco, o corpo magro do monge ficou ainda mais hirto.</p><p>Parece-me que tu enfrentas este problema de �nimo bem leve! N�o achas que se imp�em buscas?</p><p>J� mandei procurar Fiora Beltrami sem resultado. A Senhoria tamb�m e tamb�m sem sucesso. A pobre crian�a deve ter deixado a cidade...</p><p>Chamas pobre crian�a �quilo que eu chamo feiticeira! Essa criatura do diabo tem aqui mesmo, na tua cidade e talvez at� no teu pal�cio, apoios que a conseguiram subtrair � justi�a de Deus, assim como � dos homens.</p><p>Um clar�o atravessou os olhos escuros do Magn�fico-.</p><p>No meu pal�cio? Est�s a insinuar que sou o autor do rapto e que a escondo aqui?</p><p>Perante a c�lera que vibrava na voz rouca de Louren�o, frei In�cio bateu em retirada:</p><p>Perdoa-me se me exprimi mal e pensa que � apenas o zelo que me inspira o servi�o de Deus que me anima. Eu n�o falei de ti. H� muita gente no teu pal�cio e tu n�o podes saber o que fazem todos os teus numerosos amigos... amigos esses que, se calhar, n�o s�o os que seria conveniente ver em redor de um grande pr�ncipe...</p><p>Eu n�o sou um pr�ncipe, apenas o primeiro dos cidad�os desta cidade. Aqui, estamos numa rep�blica, frei In�cio! Portanto, tenho o direito de escolher os amigos que me agradam!</p><p>N�o jogues com as palavras. Se n�o �s um pr�ncipe, �-o a tua esposa, os teus filhos s�-lo-�o <emphasis>e </emphasis>n�o conv�m que crian�as de alto nascimento, votadas a grandes destinos, sejam educadas fora da religi�o crist�. Ora, tu deste-lhes um indigente como mestre, sa�do n�o sei de onde, que fala grego e que lhes serve como modelo os dem�nios a quem os antigos chamavam deuses...</p><p>N�o podemos limitar-nos a um assunto? perguntou Louren�o com voz cortante. De que vieste falar-me, afinal, monge? Do rapto eventual de uma infeliz, que eu pergunto a mim mesmo, em v�o, por que raz�o a odeias tanto... ou da educa��o dos meus filhos?</p><p>Vim falar-te da tua cidade disse frei In�cio com �nfase da tua cidade, que esquece Cristo e que � menos ardente quando escuta a Sua palavra do que quando escuta can��es da tua cidade que tu arrastas para o caminho da perdi��o. � essa a maior preocupa��o de Sua Santidade...</p><p>P�ra a�, monge! Sua Santidade, como tu dizes, est� sobretudo preocupado em fazer cair Floren�a e a sua regi�o nas m�os do seu sobrinho Riario, o antigo alfandeg�rio. Da� o seu grande interesse.</p><p>Vergonha e infelicidade para ti, Louren�o de Med�cis, se n�o te decides a escutar o apelo de Deus que eu te trago! O Papa Sisto IV envia-me...</p><p>O Papa disp�e de 40 cardeais, um ex�rcito de bispos e abades e envia-te a ti, um espanhol, para me trazeres a sua palavra?</p><p>Para avaliar o que vale a minha coragem e o meu ardor no servi�o de Deus face a uma cidade de perdi��o, antes de me mandar de volta para o meu pa�s, onde a tarefa que me espera � imensa. Pelo menos, � o que eu penso. A rainha Isabel de Castela anda preocupada, com efeito, com as desordens que os judeus e os <emphasis>conversos </emphasis>andam a fazer no seu reino e pediu, atrav�s da minha voz, a ajuda de Sua Santidade, que lhe quer bem.</p><p>Um sorriso sarc�stico enrugou a grande boca de Louren�o e aproximou o seu grande nariz do queixo:</p><p>Pensava que a rainha Isabel tinha problemas mais graves do que o estado da Igreja? Coroada rainha de Castela em Dezembro �ltimo em Seg�via, contra a vontade da maioria dos seus grandes e sem ter associado a essa sagra��o o seu esposo, o pr�ncipe Fernando de Arag�o, est� hoje em guerra com o rei Afonso V de Portugal, que casou com a filha bastarda, dizem? do defunto rei de Castela Henrique IV, do qual Isabel � apenas irm�. Como v�s, estou ao corrente... como, ali�s, de tudo o que se passa na Europa.</p><p>Imagino que tens espi�es por toda a parte, mas eles andam mal informados. A rainha Isabel coloca Deus acima de tudo. Ela tenciona, em Seu nome, reconquistar tudo o que o mouro tem ainda nas garras negras e espera poder estabelecer, enfim, nos seus reinos, a Santa Inquisi��o...</p><p>Da qual tu gostarias de ser o chefe! Reconhe�o que pareces feito para isso... mas Floren�a n�o precisa de um Grande Inquisidor. Frei In�cio, pe�o-te que deixes de te meter nos meus assuntos... e, melhor ainda, pe�o-te que regresses a Roma. Entregar-te-ei, para o Papa, uma carta, atestando, tanto o teu zelo, como as tuas capacidades.</p><p>Partirei quando a filha da iniquidade se sujeitar, tal como aceitou, ao ju�zo de Deus. Manda vasculhar a cidade rua por rua, casa por casa... sem esquecer as dos teus amigos... e o teu pr�prio pal�cio! Encontra-a e eu ficarei satisfeito... por agora. S� a Igreja sabe como tratar os seres desta esp�cie.</p><p>A ela... ou � sua fortuna?</p><p>O h�bito que uso deveria poupar-me a esse g�nero de insinua��es. Que me importa a sua fortuna?</p><p>A ti, talvez n�o, mas interessa muito a um amigo pr�ximo do nosso Santo Padre, um certo Francesco Pazzi.</p><p>; Eu n�o conhe�o esse homem.</p><p>Melhor para ti. Seja como for... no caso de o encontrares mais tarde, diz-lhe que a fortuna dos Beltrami nunca ir� enriquecer os Pazzi. Quer encontremos Fiora, quer n�o!</p><p><emphasis>Donna </emphasis>Hieronyma tem todos os direitos!</p><p><emphasis>Donna </emphasis>Fiora foi adoptada oficialmente. Sob uma hist�ria falsa, talvez, mas � um ponto de direito que deve ser discutido e que talvez nunca venha a ser decidido. Entretanto, o banco M�dicis assumir� a guarda e o desenvolvimento dessa fortuna. Sob o controlo da Senhoria, claro acrescentou Louren�o com um sorriso que um observador desprevenido talvez qualificasse de diab�lico. Mas o rosto de frei In�cio era ainda menos agrad�vel de contemplar. O seu rosto tornou-se mais amarelo, como se a b�lis, deixando as suas vias naturais, se tivesse infiltrado no seu sangue. Os seus olhos faiscaram e erguendo para o c�u o seu bra�o magro descoberto pela manga:</p><p>N�o canses a paci�ncia de Deus, M�dicis! fulminou ele. Um dia...</p><p>A entrada em cena de Dem�trios cortou-lhe a palavra. O grego, pensando que a sua chegada desembara�aria, talvez, Louren�o do monge espanhol, decidira-se a abandonar o abrigo do seu <emphasis>Marsyas. </emphasis>O sorriso de Louren�o f�-lo pensar que tinha agido bem.</p><p>Disseram-me que me procuravas, senhor? Est�s doente? Perdoa-me por te ter interrompido, santo homem. � s� a pressa de trazer socorro a quem precisa. Dizias?</p><p>Frei In�cio deixara cair o bra�o amea�ador e metia agora as m�os nas mangas, mas os seus olhos tinham adquirido a dureza do granito ao olhar para o importuno. Com uma careta de desgosto, atirou:</p><p>Que um dia o raio se abata sobre este ninho de her�ticos! Como ousas dirigir a palavra a um homem de Deus, feiticeiro� ajudante de Satan�s? Para tr�s! A tua respira��o empesta o ar...</p><p>Aquele que se sente incomodado � que deve retirar-se disse calmamente Louren�o. Boa noite, frei In�cio!</p><p>Formalmente despedido, o dominicano afastou-se sem saudar, mascando maldi��es por entre os dentes cerrados. Os dois homens observaram-no enquanto atravessava as arcadas, depois o <emphasis>cortile </emphasis>e finalmente o port�o do pal�cio.</p><p>Ave agoirenta! grunhiu Dem�trios. Que veio ele fazer aqui? Louren�o desatou a rir com um riso jovem e alegre mas tonitruante</p><p>e que fez um casal de rolas cinzentas e cor-de-rosa, que se tinham empoleirado no ombro <emphasis>de Judith, </emphasis>levantar voo:</p><p>Ent�o, Dem�trios? Sabes t�o bem como eu. Pensas que n�o te vi, h� bocado, quando te refugiaste por tr�s de <emphasis>Marsyas? </emphasis>Fizeste bem, ali�s.</p><p>Abandonando por fim o apoio da est�tua, o <emphasis>Magn�fico </emphasis>reapertou em redor dos rins o cinto que retinha as pregas pesadas do seu longo traje de veludo escuro guarnecido com uma faixa de pele de marta e meteu o bra�o no do m�dico:</p><p>Vamos para dentro, meu amigo. Este monge estragou-me, por hoje, o encanto do jardim. Vamos para o meu <emphasis>studiolo...</emphasis></p><p>Lado a lado, os dois homens subiram a �ngreme escadaria que subia ao primeiro andar. Louren�o caminhava olhando para os p�s e n�o dizia nada. O m�dico respeitou o seu sil�ncio, adivinhando, em parte, os pensamentos que se agitavam sob aquela grande fronte inteligente. Juntos, percorreram as salas de recep��o atafulhadas de obras de arte e aquecidas com tape�arias preciosas e tapetes cintilantes vindos dos long�nquos mercados do Oriente e chegaram, por fim, a uma grande sala rodeada de arm�rios de carvalho com s�lidas dobradi�as de ferro, dos quais alguns, abertos, deixavam ver que estavam repletos de livros encadernados a veludo ou couro de Espanha e ricamente decorados. Um homenzinho entre duas idades, vestido como um c�nego e usando umas lunetas na ponta do nariz, trabalhava diante de um desses anu�rios, sentado a uma mesa embutida... Levantou os olhos � entrada dos dois homens, sorriu e quis levantar-se, mas a m�o de Louren�o manteve-o sentado na cadeira:</p><p>Deixa-te estar, Marsile! � o amigo, mais do que o m�dico, que eu recebo e a tua sabedoria pode ser-nos de grande ajuda.</p><p>Est� ao teu inteiro servi�o disse o homenzinho e voltou a sentar-se... Marsile Ficino, fil�sofo plat�nico, m�dico e c�nego da igreja de San Lorenzo tripla fun��o da qual se desembara�ava com originalidade vivendo como um sibarita, deixando a medicina para os outros e pregando Plat�o do p�lpito era um dos mais pr�ximos comensais do <emphasis>Magn�fico.</emphasis></p><p>Este foi sentar-se a uma mesa em cima da qual brilhava um extraordin�rio vaso talhado numa enorme ametista e engastado com p�rolas. N�o dizia nada, mas Dem�trios notou o ar com que ele procurou o apoio da mesa.</p><p>Tu sofres, senhor disse ele. Ter�s realmente necessidade do teu^m�dico, tu que �s jovem e t�o bem constitu�do? Nesse caso, perdoa o tempo que demorei em vir ao teu encontro!</p><p>A minha garganta doeu-me um pouco, mas j� est� melhor. Ali�s, disseram-me que andavas numa miss�o santa por conta da minha m�e acrescentou ele com um sorriso trocista. Ter�s achado �til aproximar esse b�lsamo destinado aos rins dolorosos dela do cinto da Virgem? Tu, que n�o cr�s em Deus nem no diabo? Espero que o meu tio Paolo, que � o grande preboste da catedral de Prato te tenha acolhido bem? Um descrente da tua qualidade!</p><p>Tinha dado ordens para que dessem essa resposta caso perguntasses por mim. Ignorava que criado encarregarias desse apelo. O recurso ao milagre � sempre bem visto pelo povo...</p><p>Bem pensado! Mas, se n�o estavas em Prato, onde estavas tu?</p><p>Trabalhava para a justi�a, ao mesmo tempo que o meu criado seguia o assassino de Francesco Beltrami.</p><p>Louren�o teve um arrepio e endireitou-se, o olhar inflamado:</p><p>Encontraste-o?</p><p>Encontrei. � Marino Betti, o intendente de Beltrami, que o traiu pelos bonitos olhos da dama Hieronyma. Ali�s, eu j� desconfiava...</p><p>Tens provas?</p><p>N�o, mas tenho a certeza absoluta...</p><p>E Dem�trios contou o que se passara na taberna da margem do rio.</p><p>Ele n�o o matou por achar que n�o era a ele que cabia fazer justi�a acrescentou ele.</p><p>Sem provas, a Senhoria nunca aceitar� mand�-lo prender. Ficou muito satisfeita por poder entregar o pal�cio Beltrami � pilhagem dos seus esbirros e, se eu n�o estivesse l�, j� teria posto a m�o na heran�a fabulosa... Cada um reclama a sua parte dos lucros.</p><p>Esteban n�o pensava nessa justi�a, pensava na que a filha da v�tima tem o direito de exercer!</p><p>Fiora? perguntou Louren�o com um encolher de ombros. Seria preciso saber o que lhe aconteceu! Desde esta manh� que correm os boatos mais contradit�rios. Diz-se que fugiu, o que me espantaria muito. Agora fala-se de rapto e h� pouco recebi a visita da jovem Chiara Albizzi. Reclamava justi�a para a sua amiga e ainda gritava mais do que o monge espanhol. Chegou mesmo a dizer que, segundo ela, Fiora Beltrami teria sido assassinada, tal como o pai.</p><p>Uma amiga fiel suspirou Dem�trios que presente dos deuses! Isso sup�e uma certa coragem, quando uma cidade inteira se transforma numa matilha sedenta de sangue lan�ada na pista de uma pobre cor�a.</p><p>Enquanto os fil�sofos n�o forem reis nas cidades citou Marsile Ficino os males dos homens n�o ter�o fim...</p><p>O gosto do sangue e o amor pela prata s�o males incur�veis, quer se seja fil�sofo, quer n�o! disse Dem�trios. E Plat�o nem sempre tem raz�o. Quanto � pequena Albizzi, talvez tenha raz�o: <emphasis>donna </emphasis>Fiora pode muito bem ter sido assassinada...</p><p>Quando? Por quem? E como � que tu sabes?</p><p>Quando? A noite passada. Por quem: Pietro Pazzi. Onde? porque tu te esqueceste de perguntar onde em casa do <emphasis>Mulher�o.</emphasis></p><p>Louren�o saltou da cadeira. O seu rosto ficou vermelho como um tomate.</p><p>Em casa dessa mulher?... Mas, o que � que...</p><p>O que � que a filha querida de Francesco Beltrami estava l� a fazer? Eis uma boa pergunta, � qual eu vou ter o prazer de responder, porque fui eu que, ao apunhal�-lo, impedi o corcunda de estrangular <emphasis>donna </emphasis>Fiora! Senta-te, senhor, para evitar a vertigem, porque vou abrir diante de ti uma extens�o do inferno que Dante se esqueceu de mencionar...</p><p>Puxando para si um escabelo sobre o qual sentou a sua grande pessoa, Dem�trios tra�ou para os seus ouvintes o calv�rio de Fiora desde que a tinham arrancado ao seu desgosto para a obrigarem a defender a pr�pria vida. F�-lo sem �nfase, com frases curtas, precisas e cortantes quanto baste. O m�dico sabia que a imagina��o dos outros dois faria o resto. Mas, muito antes do fim do seu relato, Louren�o, atirando para tr�s a sua cadeira, que caiu sobre as lajes preciosas sem que ele fizesse ten��o de a erguer, p�s-se a andar de um lado para o outro na sala, de cabe�a baixa e as m�os atr�s das costas. Quando Dem�trios se calou, o <emphasis>Magn�fico </emphasis>explodiu:</p><p>As religiosas de Santa L�cia capazes de entregarem assim um ser que lhes foi confiado! Os Pazzi tramam as suas conspira��es ign�beis na minha cidade, mesmo por baixo do meu nariz! Fiora, t�o bela, t�o pura... entregue � prostitui��o!</p><p>Louren�o cessou bruscamente o seu passeio agitado em frente do m�dico grego:</p><p>E, naturalmente, ela est� em tua casa?</p><p>Onde querias que estivesse? S� espero acrescentou Dem�trios com um sorriso que n�o o v�s dizer ao teu amigo frei In�cio? Atirava-nos aos dois para a mesma fogueira...</p><p>Pelo olhar que Louren�o lhe lan�ou, o grego compreendeu que fora longe de mais e desculpou-se, pondo a sua frase infeliz na conta da indigna��o sentida h� pouco ao escutar o monge espanhol. E acrescentou � guisa de conclus�o:</p><p>S� falta dizeres o que queres que eu fa�a.</p><p>Louren�o n�o respondeu. Reflectia. Mas o c�nego-fil�sofo tomou a palavra:</p><p>H� uma coisa que me intriga, Dem�trios e pe�o-te que me perdoes se te pare�o indiscreto. Tu j� n�o �s novo e �s um homem de ci�ncia, muito afastado das loucuras da juventude. Por que te interessaste tanto por essa jovem? Pela sua beleza? Isso pode explicar-se num grego...</p><p>� verdade que n�o suporto ver arruinar uma obra de arte. Mas, no que diz respeito a <emphasis>donna </emphasis>Fiora, h� outra coisa... Tu sabes que eu consulto os astros e que me acontece ter, do futuro, certas vis�es inexplic�veis. Ora, tive uma, quando na noite da <emphasis>giostra </emphasis>encontrei essa jovem...</p><p>O que � que tu viste? perguntou Ficino com curiosidade.</p><p>Prefiro n�o dizer. Mas no seguimento disso, consegui obter a data e o local de nascimento <emphasis>e </emphasis>fiz um hor�scopo que, em certas coisas, se parece com o meu. Soube, com toda a certeza, que ela ia perder em breve o seu defensor natural, que teria necessidade de ajuda e decidi unir-me a uma estrela cuja luz era incerta, mas que, um dia, talvez emitisse um grande brilho...</p><p>Louren�o, que se reaproximava, escutara as palavras do grego. O <emphasis>Magn�fico </emphasis>pousou-lhe uma m�o no ombro: Se sabes o destino dela, por que raz�o me perguntas o que h�s-de fazer?</p><p>Eu n�o sei tudo... e tu �s o senhor. Agora sabes a verdade no que a ela diz respeito. Por que n�o fazer-lhe justi�a? O pai dela s� tem contra si uma mentira bem natural e ela � inocente. N�o sofreu j� o suficiente?</p><p>Se entendes por justi�a restituir-lhe o pal�cio, os seus bens e p�r as coisas no estado em que estavam antes, � imposs�vel. O povo n�o o permitiria. A imagem que tem dela � a de uma criatura diab�lica. Seria preciso mant�-la escondida dia e noite. E depois... Eu n�o tenho assim tanta certeza da lealdade do defunto Beltrami...</p><p>Como � isso poss�vel? indignou-se Marsile Ficino. Ele era o homem mais generoso, mais franco e mais honesto que eu j� conheci... depois de ti!</p><p>Nesse caso, como � que explicas isto?</p><p>Louren�o foi a um arm�rio e trouxe um pequeno cofre de malaquite, do qual tirou um rolo de pergaminho, que desenrolou e estendeu diante de si entre as duas m�os:</p><p>Angelo Donati, a quem confiei, de acordo com a Senhoria, a administra��o provis�ria dos neg�cios de Beltrami, recebeu do banco Fugger, em Augsburgo, o pedido de reembolso de uma letra, aceite por Francesco Beltrami e sacada por <emphasis>messire </emphasis>Philippe de Selongey, no valor de cem mil florins de ouro...</p><p>Livra! disse Ficino: que bela soma! Um resgate real!</p><p>Por que prisioneiro? O mais curioso � que, a pedido de Selongey, a soma foi depositada directamente no tesouro do duque Carlos da Borgonha. Eis porque, hoje, duvido da lealdade de Beltrami. Ele sabia da minha estreita alian�a com o rei Lu�s de Fran�a e, no entanto, contribuiu e em que propor��es para o tesouro de guerra do seu inimigo, que, portanto, tamb�m � nosso. Se <emphasis>o Temer�rio </emphasis>conseguir levar a cabo o seu sonho de imp�rio, a guerra estalar� em breve entre n�s, Sab�ia e Mil�o e os seus aliados todo-poderosos... Eu chamo a isto trai��o!</p><p>N�o julgues enquanto n�o tiveres na m�o todos os dados do problema disse Dem�trios. Deve ter havido uma raz�o... simples, mas que te escapa por agora. Confia nesse morto de quem gostavas e diz-me o que decides acerca da filha dele!</p><p>Fica com ela em tua casa! Est� l� bem segura, na condi��o de n�o sair sob que pretexto for e que n�o veja ningu�m. Ela � conhecida em Fiesole. Depois, veremos: tenho de reflectir.</p><p>O tom era seco e Dem�trios pensou que seria pouco sensato, ou at� perigoso, insistir. Louren�o, sabia-o, podia ser extremamente cruel se se achasse tra�do e as profundezas da sua alma tinham obscuridades insuspeitadas. O m�dico levantou-se para sair e saudou profundamente:</p><p>Direi as tuas palavras a <emphasis>donna </emphasis>Fiora, mas, antes de te deixar, posso pedir-te um favor?</p><p>Pede!</p><p>Aquela pobre crian�a est� preocupada com uma certa L�onarde, que a educou e a quem � muito ligada. Essa mulher desapareceu no dia em que o pal�cio foi pilhado. Pode ser que <emphasis>donna </emphasis>Chiara Albizzi saiba onde ela est�. Ora, eu n�o posso ir a casa dela sem levantar suspeitas e desagradar, talvez, � sua fam�lia...</p><p>Se Chiara souber alguma coisa, tamb�m eu saberei. Vai em paz! Assim que ele acabou de dizer aquelas palavras, o sil�ncio que envolvia o pal�cio M�dicis explodiu sob os acordes de uma m�sica alegre e com o eco de uma can��o que acompanhava o passo dos cavalos e as campainhas das mulas. Um brilhante cortejo a cavalo atravancava a rua e acotovelava-se para penetrar no p�tio do pal�cio. Giuliano e os seus amigos regressavam de uma festa no campo e enchiam a via Larga com um espantoso fresco colorido. Os fatos eram rosa, brancos, coral, verde-p�lido ou amarelo-solar e era como se o vento, passando por todos os jardins de Floren�a, tivesse arrebatado as p�talas das flores para as depositar no cora��o da cidade. As montadas estavam arreadas de vermelho ou de azul debruado a ouro; as jovens traziam todas grandes ramos de lilases brancos, cujo perfume sensual as envolvia com uma nova sedu��o. Todos os rostos tinham a frescura da Primavera, todos os rostos sorriam em redor de Giuliano e de Simonetta, luminosa e di�fana como habitualmente, que n�o olhavam sen�o um para o outro... As flautas e as violas s� pareciam tocar para eles...</p><p>Dem�trios, que descia a escadaria, abra�ou com o olhar o grupo turbulento e notou a aus�ncia de Chiara Albizzi, o que n�o era nada de espantoso, pois a jovem estivera no pal�cio durante a tarde, mas notou, pelo contr�rio, a presen�a de Luca Tornabuoni. Soberbo numa t�nica curta amarela bordada a prata, os carac�is negros dos cabelos brilhando � luz do Sol poente, o jovem assediava visivelmente com aten��es e sorrisos uma rapariga loira de olhos azuis, que ria enquanto lhe passeava sob o nariz a haste perfumada de um ramo de lilases... Em seguida, todos desceram dos cavalos e o grego reparou de novo que, ao ajudar a companheira, Luca a manteve apertada contra si mais tempo do que o necess�rio...</p><p>Obedecendo a um impulso, Dem�trios aproximou-se dos dois jovens e, dirigindo-se � adolescente:</p><p>N�o deixes que esse rapaz te roube o cora��o, donzela, porque ele � a coisa mais inconstante que existe neste mundo!</p><p>O jovem Tornabuoni ficou rubro de c�lera:</p><p>Os privil�gios que o meu primo Louren�o te concede n�o te d�o o direito de me insultares.</p><p>Insultei-te ao dizer uma simples verdade? H� uma semana amavas outra, mas a tua chama n�o resistiu uma hora, uma hora sequer, ao vento da infelicidade... E dizes tu que �s um homem... Toma cuidado para que o destino n�o te atinja um dia e vejas os teus amigos afastarem-se de ti!</p><p>De p�rpura, Luca, sob o olhar cintilante do m�dico, tornou-se l�vido:</p><p>Que queres dizer? �s algum feiticeiro? Tens o poder de ler o futuro?</p><p>Talvez... mas n�o tem import�ncia. Tu tamb�m n�o tens import�ncia. Vive a tua vida f�til, meu rapaz, n�o foste feito para outra coisa! De qualquer maneira acrescentou ele com um sorriso sard�nico ela n�o te amava.</p><p>E girando nos calcanhares foi buscar o seu cavalo, que estava preso a um dos grossos an�is de ferro que pendiam, para o efeito, das paredes do pal�cio. Sentia uma alegria cruel por ter apagado a daquele casal despreocupado. A sua felicidade tivera nele o efeito de mais uma inj�ria dirigida �quela que, despojada de tudo, nem sequer tinha destino e esperava, l� em cima, que uma multid�o imbecil quisesse esquec�-la. Era, da sua parte, uma maneira como outra qualquer de lhe prestar homenagem.</p><p>Tamb�m n�o se sentia nada satisfeito com as reac��es de Louren�o, porque tinha a impress�o que a letra dos banqueiros de Augsbourg chegara mesmo a prop�sito, para justificar a tomada de controlo de uma fortuna que pertencia a Fiora e a mais ningu�m. Sob a tortura, Marino Betti teria confessado o seu crime e, sem d�vida, denunciado Hieronyma, mas Louren�o nem sequer queria mand�-lo prender com receio da reac��o da Senhoria e da de um povo cujo car�cter vers�til e cruel ele bem conhecia. Quem poderia dizer se, naquele receio, n�o estava a �ntima satisfa��o de poder controlar, doravante, os bens que, de outra maneira, lhe seriam sempre estranhos? Dem�trios n�o tinha nenhuma d�vida que <emphasis>o Magn�fico </emphasis>tinha medo daquela multid�o que agora o aplaudia e lisonjeava. O m�dico sabia que, quando caminhava pelas ruas, Louren�o vestia uma cota de malha sob os seus trajes de veludo, ou de tecido fino. Ele era o primeiro de uma cidade que se queria livre e n�o o tirano de uma cidadela submetida pela for�a, se bem que tivesse o devido instinto...</p><p>Deixando as r�deas descansar em cima do pesco�o do seu cavalo, Dem�trios subiu a via Larga a passo. Era a hora a que as lojas fechavam as portas e a hora a que come�avam as conversas. Pequenos grupos formavam-se � entrada das portas, enquanto outros os homens sobretudo se dirigiam isolados, ou em companhia, para as pra�as, onde estavam certos de encontrar os comensais habituais. Dem�trios afastou com as costas da m�o uma mosca precoce que anunciava um Ver�o quente, mas terminou o gesto numa sauda��o: da porta da sua loja, o livreiro Bisticci fez-lhe sinal. O m�dico aproximou-se:</p><p>Tens novidades para mim?</p><p>Tenho... e excelentes! Encontrei um jovem �rabe que tem uma caligrafia soberba. O tratado de Ibn Sina j� est� a ser copiado. T�-lo-�s dentro de um m�s ou dois!</p><p>Dem�trios mostrou uma alegria que estava longe de sentir. Esperara tanto por aquele livro... mas, dentro de dois meses, onde estaria? Um daqueles pressentimentos, que por vezes lhe fazia as vezes de segunda vis�o, dizia-lhe que por essa ocasi�o o castelo na encosta da colina estaria vazio e que ele estaria longe. Mas onde?... Ali�s, pouco lhe importava, porque desde a juventude que a sua vida era uma longa vagabundagem em busca da sabedoria, mas a entrada de Fiora na sua exist�ncia permitia-lhe poder aceder, finalmente, a um sonho: ver um dia a seus p�s o cad�ver do �ltimo daqueles duques da Borgonha, daqueles Grandes Duques do Ocidente, que enchiam o mundo com o seu esplendor, o seu poder e o seu orgulho, mas cuja presun��o matara o seu jovem irm�o Teod�sio, t�o certo como o carrasco turco que o empalara! O seu irm�ozinho! O �nico ser que jamais amara!</p><p>Separavam-nos 15 anos e, depois da morte dos seus pais, tinham ficado s�s no grande pal�cio de Phanar, em Biz�ncio, onde Teod�sio nascera. Dem�trios, esse, vira a luz do dia na ilha de C�s, p�tria de Hipocrates, onde o seu pai tinha umas propriedades. A�sua voca��o nascera l�.</p><p>Quando em 1453 o sult�o turco Maom� II cercou as muralhas de Biz�ncio, Dem�trios tinha 35 anos e Teod�sio 20. Um j� era um m�dico s�bio, enquanto o outro pertencia � juventude dourada, como convinha ao descendente de uma rica e antiga fam�lia, que tinha, um dia, acedido ao trono <emphasis>e o </emphasis>irm�o mais velho sorria com indulg�ncia face �s loucuras do mais jovem. E depois, fora preciso combater. Ambos o tinham feito, cada um no seu lugar: Teod�sio com o elmo prateado dos guardas do imperador Constantino, pelo qual tinha uma verdadeira devo��o e Dem�trios no hospital que tinha improvisado sob o seu pr�prio tecto para as dezenas de feridos que ali aflu�am todos os dias...</p><p>A not�cia da investida dos Turcos naquela triste manh� de 23 de Abril, em que os Bizantinos, espantados, se aperceberam que as galeras do inimigo navegavam no Corno de Ouro depois de terem transposto a colina, chegou como uma tempestade ao pal�cio-hospital. Dem�trios foi juntar-se aos �ltimos combatentes. No dia 29 de Maio, perto da porta de S�o Rom�o, viu cair o <emphasis>Basileu, </emphasis>que s� conservara como sinais exteriores do imp�rio as suas <emphasis>campagia </emphasis>p�rpuras, os borzeguins ornamentados com a �guia bic�fala. Conseguiu arrastar Teod�sio, que queria morrer ali.</p><p>� custa de mil dificuldades, os dois Lascaris conseguiram fugir da cidade em chamas, encontraram um barco e chegaram a Veneza, onde a not�cia da cat�strofe pesava como um sud�rio. Todo o Ocidente crist�o estava indignado, reclamava a guerra santa contra o sult�o e com</p><p>1 O Imperador</p><empty-line/><p>mais for�a ainda, talvez, do que os outros pr�ncipes, o duque Filipe da Borgonha. Teod�sio, que s� sonhava com a vingan�a, arrastara o seu irm�o mais velho at� � corte da Borgonha, onde foram bem recebidos. Os fugitivos de Biz�ncio foram festejados e disputados, sobretudo o mais novo, porque Dem�trios, com a sua clarivid�ncia, pressentiu que toda aquela agita��o era artificial. Mas Teod�sio n�o.</p><p>Ainda mais quando foi dado assistir aos dois irm�os, em Lille, � mais fabulosa festa de todos os tempos, aquela que a Hist�ria recordaria sob o nome de �o juramento do Fais�o�...</p><p>Tratava-se de um antigo costume: quando senhores e cavaleiros se empenhavam num combate maior e queriam conferir ao seu juramento uma import�ncia particular, gostavam de o fazer sobre uma ave nobre, como um fais�o, por exemplo. No decurso de um festim solene a ave era trazida assada e enfeitada com todas as suas penas. Um cavaleiro trinchava-a de maneira a que cada um dos conjurados recebesse um peda�o, estabelecendo assim uma alian�a misteriosa entre companheiros de armas e relembrando a �ltima Ceia e a T�vola Redonda.</p><p>O dia 17 de Junho de 1454 viu essa festa do Fais�o, durante a qual se usaram os trajes, decora��es e maquinarias mais magn�ficos e singulares. Sobre uma soberba ave com um colar de ouro e pedrarias, o duque Filipe, o seu filho Carlos, os cavaleiros do Tos�o de Ouro e os mais altos dignit�rios presentes juraram partir em cruzada contra Maom� II e reconquistar Biz�ncio...</p><p>Desde logo ficou tudo dito para Teod�sio, que chorou de alegria e que, encorajado pelos Borgonheses, quis partir de imediato, a fim de anunciar a boa nova ao que restava do povo dos seus antepassados e prepar�-los para a luta. Dem�trios, atormentado pelos piores pressentimentos, partiu com ele. Durante meses percorreram as terras e as ilhas gregas, anunciando a vinda da caizada como um novo Evangelho, mas esta n�o havia meio de vir... Teod�sio recusava a evid�ncia: o juramento do Fais�o n�o passara de uma ocasi�o para grandes divertimentos. Nem o duque Filipe, nem o seu filho, tinham vontade de abandonar o que era quase um reino para irem combater um inimigo long�nquo, apesar de o considerarem o Anticristo. Tinham-se limitado a dar prazer a si pr�prios, ressuscitando as antigas tradi��es cavaleirescas, �s quais tanto um como outro se proclamavam muito ligados. Nada mais!</p><p>Teod�sio n�o acreditava. Ele tinha f� num juramento solene, o qual n�o se podia quebrar sem desonra. Instalado em Atenas com o seu irm�o, esperava a chegada dos cruzados, pregando a esperan�a e a resist�ncia.</p><p>Infelizmente n�o foi a brilhante armada da cruzada que ele viu chegar, mas sim ainda e sempre o Turco invenc�vel. Em 1456, Atenas ca�a por sua vez e Teod�sio era feito prisioneiro. Dem�trios, ocupado a tratar dos feridos num outro ponto da cidade, n�o estava perto dele, mas, vira-o sofrer atrozmente, porque, prisioneiro, continuara a anunciar que o Grande Duque do Ocidente viria em breve castigar os inimigos de Cristo. Dem�trios quase enlouquecera. Chegada a noite, apunhalara Teod�sio para lhe abreviar o sofrimento e fugira. Fora a partir desse dia que deixara de acreditar em Deus e que jurara vingar-se daqueles por culpa de quem o seu jovem irm�o tivera um fim abomin�vel. Mas a Borgonha ficava longe, era rica e poderosa, os seus pr�ncipes eram bem defendidos e ele s� tinha o alforge onde guardava os instrumentos de que podia necessitar.</p><p>Ent�o, durante anos, Dem�trios esfor�ara-se por adquirir cada vez mais saber, porque esperava tirar dele o poder que lhe faltava. Procurara-o por toda a parte: no Egipto e nas areias da Ar�bia, em �frica e no �ltimo reino mouro de Espanha, junto dos judeus de Toledo onde fora iniciado na kabala, na c�lebre universidade de Montpellier onde permanecia a recorda��o dos grandes Arnauld de Villeneuve e Guy de Chauliac; procurara-o, tamb�m, nos antros negros dos feiticeiros e dos m�gicos. Estudara o curso dos astros e a sua rela��o com o destino dos homens. Desenvolvera, atrav�s do jejum muitas vezes obrigat�rio os seus dons de vid�ncia e aprendera, de um m�dico judeu de Malta, os estranhos poderes de um olhar quando unido a uma vontade inflex�vel. Pensando, ent�o, que detinha enfim esse poder t�o desejado, embarcara com Esteban, que se ligara a ele em Castela, para Marselha. Uma tempestade tinha-os atirado aos dois para o fundo do golfo de G�nova, mais despojados do que nunca e doentes. Um mercador recolhera-os, reconfortara-os e dissera a Dem�trios que um primo seu, Constantino Lascaris, c�lebre gram�tico, estava ligado � corte de Mil�o. Ele poderia, certamente, ajudar um m�dico de tanto valor.</p><p>O primo Constantino mostrara-se am�vel, mas n�o desejava ver aumentar a fam�lia Lascaris em Mil�o e obtivera do seu duque uma carta de recomenda��o que ele pr�prio escrevera, ali�s para, Louren�o de M�d�cis, sempre �vido de homens cultos vindos das <emphasis>terras </emphasis>gregas.</p><p>Dem�trios estava cansado. Desejava um pouco de repouso. Encontrara-o em Floren�a, onde <emphasis>o Magn�fico </emphasis>o tratara como amigo e instalara acima dos seus desejos. No seu castelo de Fiesole, o vagabundo encontrara sossego. Trabalhava numa obra sobre a circula��o sangu�nea, na qual refutava vigorosamente as teorias de Galileu, o todo-poderoso, o menino querido da Igreja, que elevara as suas obras ao estatuto de acto-de-f�. Quem n�o estava de acordo com as ideias do defunto m�dico de Pergamo arriscava-se a ser acusado de heresia. Mas naquela Floren�a impregnada de humanismo, Dem�trios n�o tinha raz�es para temer a ira da Igreja. Dedicava-se com ardor � sua tarefa de s�bio e, naquela paix�o que o enchia, o gosto da vingan�a esbateu-se um pouco. E depois, no mesmo dia, encontrara Fiora e aquele enviado do <emphasis>Temer�rio, </emphasis>cuja presen�a acordara o velho �dio. Espiara este �ltimo e vira desenrolar-se o breve romance com a jovem florentina, que lhe inspirara algumas vis�es.</p><p>A revela��o do seu nascimento s� confirmou o que lhe dissera o hor�scopo da jovem, que comparou, empurrado por uma das suas intui��es, ao de Carlos da Borgonha. Compreendeu ent�o que, com ela, tinha a arma que n�o esperara encontrar. E dedicara-se � tarefa de a salvar custasse o que custasse...</p><p>O grito intenso de um corvelo, afastando-se de uma moita, tirou Dem�trios do seu sonho amargo. O m�dico sacudiu-se, viu que estava na estrada e que as portas da cidade j� tinham ficado h� muito para tr�s. A noite anunciava-se nos �ltimos reflexos malva e laranja do sol. O m�dico apressou um pouco o passo da montada. Tinha pressa de chegar a casa, porque n�o repousava h� mais de 36 horas.</p><p>Encontrou Fiora sob a ramada do terra�o. A jovem usava uma t�nica de seda p�rpura pertencente a Samia, e Dem�trios concluiu que ia ser preciso arranjar-lhe alguma roupa, constatando, apesar de tudo, que aquele traje simples ia �s mil maravilhas com a sua beleza pura. Com os cabelos atados simplesmente com uma fita, parecia uma jovem grega.</p><p>Esteban estava sentado perto dela e parecia encantado. Era verdade que a jovem falava com ele em castelhano e que o antigo explorador era sens�vel a tudo o que lhe fazia lembrar um pa�s que amava, a despeito de tudo o que o fizera sofrer. Aproximando-se, Dem�trios compreendeu, pelas palavras trocadas e pelas l�grimas que brilhavam nos olhos de Fiora, que Esteban lhe dava conta da sua miss�o em casa de Pippa e que essa miss�o resultara num fracasso.</p><p>N�o a trouxeste? perguntou ele. O <emphasis>Mulher�o </emphasis>recuou? No entanto, disse-te o que tinhas a fazer.</p><p><emphasis>O Mulher�o </emphasis>n�o recusou nada. At� me teria dado a alma se lha tivesse pedido, de tal maneira queria o que eu lhe oferecia, mas a rapariga t�rtara j� n�o est� em casa dela. O cliente com quem ela passou a noite apaixonou-se, ao ponto de a querer comprar a qualquer pre�o. Como oferecesse uma bela soma, Pippa deixou-se convencer. Ainda por cima porque n�o tinha de ficar com uma testemunha t�o comprometedora...</p><p>Ela falou num estrangeiro disse Fiora. Disse, ao menos, um nome, ou para onde ia?</p><p>Para Roma, mas n�o sabe o nome dele. Sabe apenas que � um m�dico, a quem chamava serSebastiano... Tamb�m disse... que a rapariga parecia feliz por partir com aquele homem, que era jovem... e n�o era feio!</p><p>Fiora n�o disse mais nada. Sentia-se desorientada... Teria Khatoun encontrado a felicidade numa casa como a de Pippa? Ou ent�o, acreditando-se abandonada por Fiora, teria escolhido deliberadamente a primeira t�bua de salva��o que se lhe oferecia?</p><p>De qualquer maneira suspirou Dem�trios, que tinha seguido o curso dos seus pensamentos �-nos imposs�vel lan�armo-nos em sua persegui��o. Al�m disso, se ela estava contente, por que n�o dar-lhe uma hip�tese de ser feliz?</p><p>Podemos confiar numa mulher como Pippa? perguntou Fiora.</p><p>Por que n�o? Ela n�o tinha raz�o para mentir, a partir do momento em que lhe ofereciam ouro. E agora vamos jantar! Eu estou muito... cansado.</p><p>Demasiado cansado para contar a Fiora, nessa noite, o que se passara entre Marino Betti e Esteban. Aquilo podia esperar... H� muito tempo que n�o se sentia t�o cansado... Pela primeira vez pensou que j� n�o era novo...</p><p>Fiora, essa, ficou muito tempo no jardim. Tendo dormido uma parte do dia, n�o tinha sono e a noite estava magn�fica. Olhou longamente para as estrelas cuja linguagem Dem�trios conhecia, mas que, devido � sua ignor�ncia, n�o passavam de um espect�culo maravilhoso. Teria gostado, no entanto, de saber qual era a sua... e se se juntaria, um dia, � da pequena Khatoun, sua �ltima amiga e que, por a ter perdido, sentia como lhe era querida.</p></section><section><title><p>CAP�TULO X</p><p>DESCIDA AOS INFERNOS</p></title><p>Que vais fazer de mim? perguntou Fiora.</p><p>Sentado a escrever a uma grande mesa cheia de livros mais ou menos poeirentos e pap�is cheios de algarismos e desenhos estranhos, Dem�trios ergueu os olhos e olhou para a jovem.</p><p>Aborreces-te?</p><p>N�o. E n�o quero parecer-te ingrata, mas n�o posso ficar indefinidamente sentada no teu jardim a olhar para os p�ssaros, ou na tua cozinha a olhar para Samia enquanto ela prepara as refei��es. Eu preciso de fazer qualquer coisa. Nem que seja para esquecer que, de todos aqueles que amava, n�o me resta nenhum.</p><p>�Ontem disse Dem�trios com um suspiro fiz ao senhor Louren�o essa mesma pergunta.</p><p>E que respondeu ele?</p><p>Que n�o saias daqui sob nenhum pretexto e que n�o te deixes ver por ningu�m da regi�o.</p><p>Fiora encolheu os ombros com irrita��o. N�o fazer nada... esperar! Ao mesmo tempo que ardia de desejo de se lan�ar no encal�o dos seus inimigos, de atacar por sua vez...</p><p>Lembra-te das tuas palavras! N�o me prometeste dar-me as armas de que preciso para vingar os meus?</p><p>Prometi-te e mantenho a minha palavra. Mas tens de saber o seguinte: a primeira das armas � a paci�ncia. Receio que tenhas dificuldade em aprend�-lo e � normal: �s jovem, impulsiva. Pareces uma ave que acabam de meter numa gaiola para a manterem afastada do gato que a espreita. N�o compreende e voa em todas as direc��es, conseguindo apenas ferir-se. Tu sabes que est�s em perigo. Deixa que os esp�ritos se acalmem!</p><p>E que Hieronyma triunfe?</p><p>Por que n�o? N�o h� nada mais perigoso do que o triunfo! Torna as pessoas cegas, embota as faculdades, baixa as defesas, adormece-as, dando-lhes uma seguran�a enganadora... Deixa essa mulher acreditar que � vitoriosa e impune! S� chegar�s a ela com mais facilidade. Ela j� est� ferida, mesmo se o ignora ainda, porque perdeu o filho... Mas a paci�ncia � isso: esperar! Saber esperar na sombra, na noite, na ruela. Eu, h� 20 anos que espero! O qu�?</p><p>A mesma coisa que tu: uma vingan�a! Perguntaste-me por que raz�o me interesso por ti desde que te conhe�o e por que raz�o te propus, logo, a minha ajuda! Talvez tenhas imaginado que tinha inten��es equ�vocas, que a tua beleza me atra�a?</p><p>Nunca imaginei tal coisa! disse Fiora encolhendo os ombros.</p><p>E fizeste bem! N�o sinto nada por ti: nem desejo, nem amor. Talvez, agora, um pouco de amizade, porque �s corajosa. N�o, ofereci-te a minha ajuda porque sabia que ias necessitar dela, mas com o segundo pensamento de obter, em seguida, a tua ajuda para os meus pr�prios projectos. Os astros disseram-me que isso era poss�vel.</p><p>Os astros? Eles preocupam-se a esse ponto com os humanos?</p><p>Eles n�o se preocupam, mas as suas posi��es e evolu��es, no momento do nascimento, permitem aos iniciados ler muitas coisas neste grande livro que � o c�u. Repara!</p><p>Dem�trios vasculhou num arm�rio por tr�s do espaldar da sua cadeira e tirou dele uns rolos de pergaminho. Desenrolou dois e fixou-os sobre a mesa com a ajuda de diversos objectos:</p><p>Este � o meu hor�scopo e este � o teu. Tive muita dificuldade para obter a data do teu nascimento e foi-me imposs�vel descobrir a data, bem entendido. � por isso que o teu hor�scopo est� incompleto e um pouco vago, mas as linhas essenciais est�o a�. E encontro muitas concord�ncias com o meu. Os nossos destinos unem-se durante um certo lapso de tempo...</p><p>E este? perguntou Fiora, apontando para o terceiro pergaminho ainda enrolado e atado com uma fita vermelha:</p><p>Mais tarde veremos esse, se quiseres. Mas agora... sempre se quiseres e como n�o tens nada para fazer acrescentou o grego com um dos seus raros sorrisos quero contar-te uma hist�ria; a minha hist�ria! Depois, dir-me-�s se aceitas subscrever o pacto que te vou oferecer.</p><p>E se eu n�o aceitar?</p><p>Dem�trios olhou por um instante para a jovem e depois voltou a sorrir:</p><p>Pelo simples prazer de recusar, n�o � verdade? Espantar-me-ia muito, mas, se assim for, ficar�s aqui o tempo que quiseres, eu dou-te depois um pouco de dinheiro, um cavalo e abrirei a porta diante de ti, para que v�s para onde muito bem te apetecer.</p><p>Fiora desembara�ou um escabelo dos livros que se acumulavam em cima dele e sentou-se:</p><p>Sempre gostei de hist�rias disse ela simplesmente. Sou toda ouvidos!</p><p>Dem�trios retomou o lugar na sua cadeira, apoiou-se nos cotovelos e fechou os olhos:</p><p>Eu nem sempre fui esta ave nocturna em que me tornei e que mete medo �s criancinhas... e �s outras pessoas. J� fui jovem, rico e pr�ncipe, porque os Lascaris reinaram em Biz�ncio. Tinha um pal�cio, como tu, e tinha um irm�o mais novo...</p><p>E perante os olhos, primeiro frios e indiferentes e depois cada vez mais atentos da jovem, Dem�trios desenrolou a sua vida como se fosse uma grande tape�aria de personagens. A sua voz profunda possu�a uma for�a espantosa de evoca��o e a sua jovem ouvinte em breve esqueceu o cen�rio que a rodeava, a grande sala de paredes caiadas de branco com os seus arm�rios de madeira escura, o fog�o de tijolos refract�rios que ocupava um canto sob uma esp�cie de chamin� invertida de chapa enegrecida, o grande fole de pele de cabra e as prateleiras, onde se alinhavam potes de botic�rio, ramos de ervas secas e toda uma miscel�nea de retortas, frascos e almofarizes. No seu lugar viu Biz�ncio, azul e dourada, pousada como uma j�ia em cima do B�sforo e do Corno de Ouro, alfinete precioso entre a Europa e a �sia, viu os v�us vermelhos do sult�o infiel e depois a guerra, o sangue e o massacre. Viu Teod�sio, que lhe pareceu um her�i pelo seu cora��o, coragem e loucura. Viu o fausto delirante da festa do Fais�o e, de p� sobre aquele pano de fundo cintilante, os rostos dos dois homens que ela j� aprendera a detestar: o duque Filipe e o seu filho Carlos, esse homem que ignorava a piedade, esse cavaleiro que n�o cumpria os seus votos, esse pr�ncipe, enfim, por cujas l�grimas Philippe a tinha colhido e depois rejeitado...</p><p>Mas se o contador pusera chama e cor na sua hist�ria at� � morte de Teod�sio, mostrou-se conciso quanto aos acontecimentos da sua pr�pria vida, que resumiu em algumas frases. Do que tinham sido os seus estudos, as suas descobertas e daqueles a quem as devia, n�o falou. Pertenciam ao seu dom�nio privado e n�o pretendia deixar que Fiora entrasse nele. Ali�s, esta n�o fez qualquer pergunta. Quando Dem�trios se calou, contentou-se em apontar com o dedo para o rolo de pergaminho que ele n�o tinha aberto.</p><p>Esse hor�scopo � o do duque da Borgonha, n�o � verdade?</p><p>�s inteligente. Nunca duvidei.</p><p>E esse pacto de que falaste h� pouco?</p><p>Creio que j� compreendeste: ajudar-te-ei na tua vingan�a se tu me ajudares na minha.</p><p>De boa vontade, j� que tamb�m eu tenho contas � ajustar com esse a quem chamam <emphasis>o Temer�rio. </emphasis>Mas, confesso-te que n�o vejo muito bem como ser� isso poss�vel?</p><p>No entanto, ter� de ser! Tive a certeza quando vi o enviado da Borgonha dirigir-se a ti, voltar a procurar-te e, por fim, desposar-te...</p><p>N�o me fales dele! exclamou Fiora, presa de s�bita c�lera.</p><p>No entanto, � preciso falar. Tu �s, na realidade, a senhora de Selongey, sua mulher ele ter� de te acolher. Mas, deixemos isso, por agora. Aceitas o tratado que te ofere�o?</p><p>De boa vontade, j� que j� cumpriste uma parte. N�o mataste Pietro? Devo escrever o meu compromisso sob o teu ditado?</p><p>N�o. O la�o de sangue parece-me mais s�lido do que uma folha de papel. Far� de ti minha irm�, uma irm� que eu saberei tornar terr�vel, juro-te.</p><p>Os olhos negros e os olhos cinzentos cruzaram-se como duas m�os que se apertam.</p><p>Aceito! disse Fiora.</p><p>Dem�trios tirou o estilete preso � sua cintura numa bainha de couro.</p><p>D�-me a tua m�o esquerda!</p><p>A jovem obedeceu. Com um golpe leve, o m�dico fez-lhe, no punho, um pequeno corte, de onde o sangue brotou. Em seguida fez o mesmo no seu bra�o direito e juntou os dois golpes.</p><p>Os nossos sangues est�o misturados disse ele. Doravante estamos unidos, tanto no bem, como no mal!</p><p>Procurando um frasco, fez correr umas gotas do seu conte�do sobre o punho de Fiora. O sangue estancou. O m�dico fez o mesmo a si pr�prio. Fiora olhou, fascinada:</p><p>Ensinas-me alguns desses segredos? perguntou ela.</p><p>Ensinar-te-ei muitas coisas. A arte dos filtros que subjugam e dos venenos que matam, a arte de ler um car�cter nos tra�os de um rosto, a arte de...</p><p>Espera! Por que os venenos?</p><p>Podem ser muito �teis...</p><p>A mim, n�o! Conhecer as drogas que provocam o sono, sim, mas o veneno, n�o. Prefiro outras armas: as dos homens, por exemplo. Eu sou uma boa amazona, creio, mas gostaria de saber manejar a espada, servir-me de um punhal...</p><p>Pela primeira vez Fiora ouviu Dem�trios rir:</p><p>Isso � mais do dom�nio de Esteban. Ele � de uma extrema habilidade e ter� muito prazer em te ensinar: creio que o seduziste...</p><p>Em virtude do ad�gio que diz que mal se fala do burro aparecem logo as orelhas, a personagem em quest�o entrou bruscamente no gabinete...</p><p>Mestre! V�m a� dois monges!</p><p>Monges? De que esp�cie?</p><p>Pelos h�bitos s�o irm�os pregadores, como os l� de cima explicou Esteban com um movimento de cabe�a na direc��o aproximada do convento onde Fiora se tinha casado...</p><p>^Devem ter-se enganado no caminho. Vai ter com eles e indica-lhes o caminho certo! De qualquer maneira, vou ver.</p><p>Dem�trios deixou a sala nos calcanhares do seu servidor e Fiora seguiu-os at� � sala de entrada. Pela porta aberta a jovem apercebeu, � luz vermelha do Sol poente e no meio da alameda de ciprestes dois monges que, de capucho sobre o nariz, avan�avam no passo vagaroso das suas mulas. Um dos monges era magro, mas o outro, o que cavalgava � frente, devia ser bastante gordo, porque o seu h�bito era mais cheio do que o do seu companheiro. Fiora viu Esteban correr ao seu encontro, fazendo grandes gestos para explicar aos viajantes que iam pelo caminho errado, mas os monges recusaram retroceder. Ap�s terem trocado algumas palavras, toda a gente se p�s em marcha na direc��o da casa.</p><p>Esconde-te! ordenou Dem�trios � jovem. Vou ver o que nos querem.</p><p>Contrariada, Fiora retirou-se para o p�tio interior, mas de maneira a poder ver o que se passava diante da casa. Dem�trios abordou os dois cavaleiros que, ao v�-lo, tiraram os capuchos... Com um grito de alegria, Fiora, esquecendo toda a prud�ncia, lan�ou-se na sua direc��o: o monge gordo era Colomba e o outro era L�onarde...</p><p>Rindo e chorando ao mesmo tempo, a jovem caiu nos bra�os da sua velha governanta, que saltara da montada rapidamente para a receber. As duas mulheres abra�aram-se na soleira da porta sem parecerem aperceber-se dos esfor�os que Dem�trios fazia para as empurrar para o interior...</p><p>V�s? balbuciou Fiora, reencontrando automaticamente a l�ngua francesa v�s, minha L�onarde? N�o esperava voltar a ver-vos... Temia... Pensava... Oh! meu Deus! Digo cada disparate! disse ela afastando-se para melhor olhar para aquela que regressava. Mas, por que milagre?</p><p>N�o � milagre nenhum, <emphasis>donna </emphasis>Fiora ceceou Colomba s�o apenas precau��es! Na manh� seguinte � tua pris�o em Santa L�cia pobrezinha! Como est� mal servida! Tenho de lhe queimar umas velas!</p><p>que � que eu estava a dizer? Ah sim!... Na manh� seguinte, portanto, fomos a tua casa com <emphasis>donna </emphasis>Chiara e lev�mos <emphasis>donna </emphasis>L�onarde connosco. Sab�amos que lhe aconteceria qualquer coisa se ficasse sozinha no pal�cio. Os criados estavam todos mortos de medo... e, ali�s, t�nhamos raz�o. Quando penso no que aconteceu! Aqueles soldados abomin�veis, aquela bela casa toda pilhada! Realmente, h� gente que n�o teme Deus nem o diabo!</p><p>Quando Colomba se lan�ava era t�o dif�cil faz�-la parar como reter a corrente tumultuosa de um rio. Mas Fiora, desta vez, escutava-a com encanto, � espreita do primeiro sil�ncio que lhe permitisse exprimir a sua gratid�o. Segurava L�onarde por um bra�o, como se temesse v�-la desaparecer de repente. A velha solteirona, entretanto, olhava para ela com estupor:</p><p>Mas, como estais vestida, meu anjo? perguntou ela por fim.</p><p>Essa coisa vermelha... quando estais de luto?</p><p>Esta t�nica pertence a Samia, a criada de Dem�trios. N�o tenho mais nada para vestir. O meu vestido preto ficou no convento...</p><p><emphasis>Donna </emphasis>Chiara pensou nisso continuou Colomba. Trazemos connosco uma mula carregada de vestidos para ti e para L�onarda e outras pequenas coisas que conseguimos arranjar. <emphasis>Poveretta! </emphasis>Tanta coisa m� ao mesmo tempo! Nem sequer te deixaram chorar em paz... E agora ainda te v�o fazer chorar mais...</p><p>Algo gelado se colou � alegria de Fiora sem a conseguir apagar por completo, mas fazendo renascer aquela ang�stia que fora sua companheira durante todos aqueles dias passados. O seu olhar procurou o de Dem�trios, como para lhe pedir socorro. Entretanto, L�onarde repreendia a sua amiga:</p><p>Era preciso falar j� disso? Acabamos de chegar...</p><p>E precisais de repouso e comida completou o m�dico. Vinde � cozinha! Aproxima-se a hora da refei��o e Samia acrescentar� o que for preciso. Esteban vai p�r as vossas mulas na estrebaria, porque creio que n�o regressareis esta noite, pois n�o, <emphasis>donna </emphasis>Colomba? N�o seria prudente e as portas da cidade fechar-se-�o dentro de poucos instantes...</p><p>Aquela torrente de palavras, t�o pouco usual em Dem�trios, conseguiu reduzir ao sil�ncio a excelente mulher. Esta resmungou que <emphasis>donna </emphasis>Chiara s� a esperava no dia seguinte e que ficaria contente por comer qualquer coisa.</p><p>O m�dico empurrou toda a gente para a cozinha: Samia, prevenida por Esteban, meteu m�os � obra. P�s duas galinhas no espeto e come�ou a cortar espessas fatias de presunto que retirou de uma viga. Colomba olhou para aqueles preparativos todos com satisfa��o e instalou-se junto do fogo, propondo virar o espeto se quisessem dar-lhe um dedo de qualquer coisa �reconfortante�, porque o passo da sua mula fizera-lhe mal ao est�mago. Dem�trios apressou-se a satisfaz�-la indo desenganchar um garraf�o, que deixou, ali�s, em cima da mesa depois de a sua gorda visitante ter engolido de um trago meia ta�a de <emphasis>grappa... </emphasis>Colocou, at�, outras ta�as em cima da mesa, propondo a L�onarde que provasse a reconfortante bebida. A pobre mulher, com efeito, tinha a cara desfeita e os olhos avermelhados devido a l�grimas recentes, o que, na alegria do reencontro, ningu�m tinha ainda reparado, mas recusou:</p><p>Talvez daqui a pouco. O que tenho a dizer � t�o terr�vel! Fiora tamb�m pode vir a precisar...</p><p>Mas, enfim interrogou a jovem que se passou?</p><p>Um horror, que n�o tem nome em l�ngua nenhuma, meu cordeirinho. Nunca pensei que houvesse gente capaz de uma tal inf�mia, de um sacril�gio t�o abomin�vel...</p><p>Em meia d�zia de frases r�pidas que ela pareceu escarrar com medo que lhe envenenassem a boca, contou a hist�ria. Nessa manh�, ao entrar na igreja de Orsanmichele para preparar o altar para a primeira missa, o sacrist�o descobrira um espect�culo que o atirara para a rua aos gritos: a tumba ainda fresca de Francesco Beltrami fora aberta. M�os criminosas tinham tirado o corpo, tinham-no cortado em peda�os e tinham-no abandonado ali, sem sequer tentarem dissimular aquela obra abomin�vel... Branca como a cal e os olhos esbugalhados de pavor, Fiora levantara-se:</p><p>Porqu�?... mas porqu�?</p><p>Para lhe tirarem o cora��o respondeu Colomba. � uma velha ideia daqui: para impedir o fantasma de um morto de vir importunar as noites dos vivos, fazem isso. J� o expliquei a L�onarde: � preciso queimar o cora��o e atirar as cinzas ao vento... Foi certamente o assassino que o fez. Dem�trios n�o tinha qualquer d�vida, porque se lembrou da amea�a que Esteban ouvira a Marino Betti na taberna... Mas vendo que Fiora tremia dos p�s � cabe�a, f�-la sentar-se docemente e obrigou-a a beber um pouco de <emphasis>grappa.</emphasis></p><p>Encontraram cinzas na igreja? perguntou ele.</p><p>N�o respondeu Colomba o homem devia ter medo de ser descoberto se fizesse fogo dentro da igreja. Levou o cora��o com ele. Mas a cidade est� de pernas para o ar e como ningu�m sabe a quem acusar, toda a gente corre em todas as direc��es gritando �� morte!� sem saber bem porqu�.</p><p>No entanto, n�o h� qualquer mist�rio nessa abomina��o disse Dem�trios. O assassino de <emphasis>ser </emphasis>Francesco temia pela tranquilidade das suas noites...</p><p>Mas ningu�m sabe quem �? perguntou L�onarde, ao mesmo tempo que Fiora erguia para o grego um olhar cheio de censura.</p><p>Pensava que a faca te diria qualquer coisa? Tinhas prometido encontrar o assassino do meu pai.</p><p>E encontrei. Ou antes, Esteban � que o encontrou para mim. Se ainda n�o to disse foi porque queria que tu tivesses aqui alguns dias de repouso, de que tanto precisas...</p><p>Eu j� repousei o suficiente! Quem �?</p><p>Quem queres tu que seja? Marino Betti, claro. Matou o teu pai por ordem da dama Pazzi.</p><p>E o m�dico contou como Esteban tinha, na taberna do rio, adquirido a certeza da culpa do intendente. De imediato, Fiora tomou uma decis�o.</p><p>Dai-me esse h�bito de monge, querida L�onarde ordenou ela</p><p>e tu, Dem�trios, d�-me uma arma e um cavalo! A nossa propriedade s� fica a uma l�gua daqui e eu n�o quero que esse miser�vel, que tanto receia os fantasmas, veja uma nova aurora!</p><p>Calma! disse Dem�trios apoiando a m�o no ombro da jovem.</p><p>Para uma coisa dessas � preciso um pouco de prepara��o. O homem � mais forte do que tu. Tamb�m queres morrer esta noite? Montughi fica muito perto da cidade. Se houve assim tanta algazarra, Marino deve ter sido informado. E como tem medo, est� de sobreaviso. Talvez at� esteja escondido!</p><p>Bem, � preciso encontr�-lo. Sen�o ele, pelo menos a sua c�mplice, que ainda � mais criminosa do que ele. Eu quero l� ir!</p><p>E vais. Tu, eu e Esteban, mas s� na pr�xima noite. L�onarde tomou Fiora nos bra�os, mas n�o sem alguma dificuldade, porque a jovem estava hirta como uma prancha:</p><p>� a sabedoria que fala pela voz dele. Escutai-o, meu anjo e concedei-me esta noite em que nos encontr�mos. Tudo foi feito pelo vosso pobre pai por ordem de monsenhor Louren�o. O corpo, novamente benzido e incensado, foi metido de novo na tumba. Uns guardas patrulham em redor da igreja profanada, que o bispo vir� purificar amanh�. A c�lera � grande entre os da Calimala, da qual � santu�rio. Estou certa que se monsenhor Louren�o soubesse quem matou o nosso bom patr�o...</p><p>Ele sabe cortou Dem�trios. Eu disse-lhe ontem...</p><p>O m�dico aproximou-se de Fiora, que, nos bra�os de L�onarde, continuava r�gida como uma est�tua. Parecia nada ver e nada ouvir, mergulhada no horror do que acabava de ouvir numa esp�cie de transe. Inclinou-se para ela e, mergulhando o seu olhar no da jovem, segurou-lhe a cabe�a com as m�os e come�ou a massajar-lhe a testa e as fontes com os polegares, ao mesmo tempo que murmurava umas palavras que ningu�m compreendeu. Depois, docemente, acrescentou:</p><p>Volta a ti, Fiora! Volta para n�s! Deixa o teu corpo descontrair-se e acalmar-se! Acalma tamb�m essa chama que te queima! Amanh�, levar-te-ei at� ao teu inimigo e ele pagar� pelos seus crimes... Amanh�, Fiora, amanh�...</p><p>Um longo arrepio percorreu o corpo da jovem e a vida regressou ao seu olhar:</p><p>Amanh�... murmurou ela.</p><p>Em seguida, sem transi��o, abrigou-se nos bra�os de L�onarde,! sacudida por solu�os e chorando como uma fonte. Deixa-a chorar disse Dem�trios as l�grimas v�o levar para longe a amea�a que acaba de pairar sobre ela. Qual amea�a? perguntou L�onarde em voz baixa. A loucura! Ela tem sofrido muito... J� era tempo de isto parar., No dia seguinte, ca�da a noite, tr�s cavaleiros deixaram o castelo cal�ados com botas ferradas e armados. Dem�trios abandonara os seus trajes compridos por uns cal��es justos e um gib�o negro. Quanto a Fiora, descobrira com surpresa, por entre os vestidos que a sua amiga Chiara lhe enviara, um fato de rapaz de um verde-alegre, sobre o qual estava espetado, com um alfinete, um peda�o de papel com as simples palavras: �Podes vir a precisar! Gosto muito de ti...�. E ao vesti-lo, nessa noite, agradecera, de todo o seu cora��o, � previdente, louca e sincera] amiga...Fiora ia � cabe�a porque conhecia de cor o caminho que, atrav�s das colinas e do vale de Mugnone, que atravessaram perto da Badia, ia, numa dist�ncia de quatro l�guas aproximadamente, da aldeia de Fiesole � propriedade dirigida por Marino. A noite de Abril estava bela e doce. Todas as estrelas estavam presentes e envolviam os campos com um manto de veludo azul salpicado de uma quantidade enorme de pequenos diamantes. Cheirava a lil�s e a pinheiro, a terra ainda h�mida de uma breve chuva que ca�ra ao fim do dia. Por vezes, segundo os caprichos do caminho, a jovem avistava as muralhas de Floren�a onde ardiam as lanternas das sentinelas, os campan�rios e as c�pulas, que pareciam difundir luz pr�pria. A cidade aproximava-se � medida que avan�avam, mas depois de uma curva do caminho deixaram de a ver. A alguma dist�ncia do lugarejo de la Pietra, onde toda a gente dormia, Fiora meteu a sua montada por um caminho que mergulhava por | entre duas moitas de arbustos e seguiu-o durante alguns minutos, at� que se desenharam na noite as silhuetas negras das grandes constru��es da propriedade, precedidas por um imenso pinheiro cuja larga copa espalhava uma mancha cor de tinta no c�u. A jovem apontou para elas com a sua chibata:</p><p>Cheg�mos sussurrou ela. Deve estar tudo a dormir. N�o se v� luz nenhuma.</p><p>De qualquer maneira, deixemos os cavalos aqui disse Esteban que comandava a expedi��o, j� que estava mais habituado aos golpes de m�o do que o seu patr�o. Este aprovou silenciosamente.</p><p>Os tr�s cavaleiros puseram p� em terra, ataram as montadas a uma �rvore e avan�aram fazendo o menor barulho poss�vel. O caminho arenoso facilitava-lhes, ali�s, a tarefa:</p><p>N�o h� c�es? perguntou Dem�trios.</p><p>H� respondeu Fiora mas est�o no p�tio da propriedade e, ali�s, conhecem-me...</p><p>Eu, se fosse a ti, n�o me fiava. Trazes roupa a que eles n�o est�o habituados. Quanto a n�s, n�o nos conhecem de todo... Mas, descansa, tenho o que � preciso.</p><p>De qualquer maneira � estranho continuou a jovem um instante mais tarde. Por pouco barulho que fa�amos, eles deveriam ouvir-nos. Ora, nem sequer ladram... E, olhai! O port�o est� aberto!</p><p>Com efeito, o port�o duplo que vedava o acesso � propriedade estava escancarado, deixando ver um grande p�tio vazio e ao fundo uma casa baixa, cuja porta estava tamb�m aberta e que n�o dava qualquer sinal de vida.</p><p>Mas, dir-se-ia que n�o est� ningu�m? sussurrou Fiora. Onde est�o os c�es e...</p><p>Subitamente, Esteban, que ia � cabe�a, fez meia volta, regressou para junto de Fiora e colocou-se diante dela, os bra�os afastados para a impedir de avan�ar:</p><p>Leva-a para os cavalos, patr�o! Acabo de ver uma coisa que n�o � para os olhos de uma jovem dama...</p><p>Seja o que for, quero ver protestou esta. Esqueces-te que estamos em casa do assassino do meu pai e que vim aqui para o matar com as minhas m�os.</p><p>N�o ter�s esse trabalho: j� foi feito! Eu bem me parecia que este odor n�o era natural, mesmo numa quinta.</p><p>Com efeito, desde h� uns instantes que uns efl�vios ins�pidos e enjoativos expulsavam o perfume fresco dos campos. Esteban afastou-se contrariado e depois estendeu o bra�o para o grande pinheiro que dava sombra � entrada da propriedade. De um dos seus ramos pendia um fruto abomin�vel: o corpo esventrado de Marino Betti. O odor era o do sangue e o da morte.</p><p>Ao inv�s do que Esteban temera, Fiora olhou sem fraquejar o horr�vel cad�ver. O seu carrasco abrira-o do externo ao baixo ventre e de uma anca � outra. As entranhas pendiam. Al�m disso, tinham-lhe cortado o punho direito... Dem�trios tirou da algibeira uma pederneira e uma esp�cie de pavio, raspou aquela para acender este e ordenou a Esteban:</p><p>Leva-a daqui! J� viu o suficiente. Eu quero examinar umas coisas.. Contrariamente ao que os dois homens esperavam, Fiora deixou-se levar sem resist�ncia. Perante aquele acto de justi�a b�rbara, a jovem experimentara uma manifesta��o repentina de alegria selvagem, se bem que incompleta: a m�o que assassinara o seu pai fora cortada, mas a cabe�a ficara. Todavia, sentira uma esp�cie de al�vio bem natural. Nunca tendo morto ningu�m at� � data, desconfiava de si pr�pria e temera, durante o caminho todo, fraquejar no momento de ferir. Gra�as a Deus, Marino encontrara o seu castigo sem que ela tivesse de sujar as m�os, mas talvez a Provid�ncia n�o fizesse sempre o seu trabalho! No futuro, n�o poderia ceder � sua natural sensibilidade feminina.</p><p>Ent�o? perguntou ela quando Dem�trios se lhe juntou limpando os dedos a um len�o. Que descobriste?</p><p>O homem foi torturado disse ele. Queimaram-lhe os p�s. E levaram-lhe o cora��o.</p><p>Como n�o tenho nada a ver com isto, pergunto-me quem o poder� ter feito! disse Esteban. Dir-se-ia trabalho de talhante, ou de cirurgi�o, de tal modo os cortes s�o precisos...</p><p>Ou de um homem qualquer habituado a manejar armas! cortou Fiora. Para que � preciso procurar tantos pormenores? Fez-se justi�a Divina, � tudo!</p><p>Tu n�o �s curiosa observou Dem�trios. Eu inclinar-me-ia mais para a justi�a de Louren�o de M�dicis. Uma justi�a discreta mas � sua maneira, quando n�o pode fazer as coisas de outro modo. O seu capit�o, Savaglio, n�o tem hesita��es nem piedade quando se trata de um servi�o para o seu senhor. E, como muito bem disseste, Fiora, ele maneja as armas com virtuosismo. Sim, pode muito bem ter sido ele... se n�o fosse o cora��o arrancado!</p><p>Ele n�o arrancou o do meu pai? � justo, parece-me?</p><p>Talvez... mas, neste caso, n�o havia qualquer raz�o para o levar e eu n�o vi vest�gios dele. � verdade que Marino deve ter sido morto a noite passada e que os c�es devem ter passado por aqui... Ningu�m nos poder� informar. N�o h� vivalma nesta quinta. O terror fez fugir toda a gente...</p><p>O m�dico pensava em voz alta, sem se preocupar com os companheiros:</p><p>Sim... � isso, sem d�vida prosseguiu ele. A menos que Savaglio, se foi ele, tenha querido levar ao seu senhor uma prova da execu��o! Tamb�m � poss�vel, claro... no entanto, n�o acredito.</p><p>Porqu�? perguntou Fiora sem paci�ncia para aquelas cogita��es sem sentido para ela...</p><p>Porque hoje � dia 28 de Abril...</p><p>E depois?</p><p>Depois de amanh� ser� dia 30.</p><p>� evidente. E depois?</p><p>� o seguinte: a noite entre o �ltimo dia de Abril e o primeiro dia de Maio � uma grande noite para os feiticeiros de todos os pa�ses. Na Alemanha, nas montanhas do Harz onde se realiza a grande reuni�o, chamam-lhe Walpurgisnacht, a noite de Walpurgis. Depois de amanh�, os feiticeiros de Norcia encontrar-se-�o todos... assim como os de Fontelucente!</p><p>Continuo a n�o ver a rela��o entre isso e o que acabamos de ver! Sem responder, Dem�trios dirigiu-se ao seu cavalo, f�-lo virar-se</p><p>e i�ou-se para a sela. Depois, esperou que os outros fizessem o mesmo.</p><p>Sempre fui curioso por natureza disse ele tranquilamente. E qualquer coisa me diz que ser� interessante saber o que vai acontecer nessa noite...</p><p>A madrugada n�o vinha longe quando regressaram ao castelo. L�onarde, que partilhava a cama com Colomba e n�o pudera conciliar o sono, esperava debru�ada da janela. Mas apenas os seus olhos interrogaram a jovem quando esta entrou no quarto tirando o capuz � moda francesa que lhe escondia os cabelos e atirando-o para cima de uma arca. Desde que a sua �pequenina� a deixara, anunciando a sua inten��o de matar Marino Betti, a pobre mulher deixara de viver... Fiora teve para ela um meio sorriso:</p><p>Quando l� cheg�mos ele j� estava morto disse ela. Eu n�o fui perdida nem achada...</p><p>Deus seja louvado! Eu n�o suportava a ideia de que v�s, meu anjo, pud�sseis...</p><p>L�onarde! L�onarde! Pe�o-vos... tendes de compreender que j� nada � como era e nunca mais ser�. Agora j� sabeis o que aconteceu depois de nos afastarmos uma da outra. Eu j� n�o sou a Fiora inocente que v�s embalastes e vistes crescer. Agora sou outra... outra que, a bem dizer, ainda n�o conhe�o muito bem e que talvez um dia destes vos cause um desgosto.</p><p>Nunca! Nunca, fa�ais o que fizerdes! V�s sois a pequenina do meu cora��o e nada nem ningu�m... nem sequer v�s mesma, poder� mudar seja o que for. Pensai apenas que a vingan�a, se bem que tenha sempre alguma coisa de exaltante, deixa sempre um gosto amargo e Deus..</p><p>N�o me faleis de Deus! N�o me faleis d�Ele nunca mais! exclamou Fiora. N�o cessa de deixar cair em cima de mim cada vez mais golpes e sem eu ter cometido qualquer mal. Trata-me como uma inimiga, uma rejeitada! Que crimes s�o estes, que abomina��es s�o estas, que n�o cessam de me cair em cima? A vontade de Deus? Pensava que Ele era bom e misericordioso...</p><p>Ele pr�prio n�o aceitou o sofrimento ao permitir que o seu filho suportasse o supl�cio da cruz? perguntou L�onarde com uma grande tristeza.</p><p>O sofrimento de um deus � o mesmo de um homem, ou de uma mulher? S� podemos chegar a Ele pela dor, a Ele que � t�o grande? N�o, L�onarde: pe�o-vos, deixai-me com a tarefa a que me propus e n�o me faleis mais de Deus!</p><p>Se assim o quereis! Mas n�o me impedireis de Lhe falar de v�s... Dois dias depois, quando Dem�trios, depois do jantar, se preparou para ir ter com os feiticeiros, Fiora declarou-lhe que tencionava acompanh�-lo. Ele lan�ou-lhe um olhar obl�quo:</p><p>N�o estou certo de que seja um espect�culo para ti. Passam-se l� coisas desagrad�veis e, al�m disso, � perigoso.</p><p>N�o te preocupes com os meus olhos! E deixa-te de d�vidas. Quando falaste dessa reuni�o sabias muito bem que eu iria contigo.</p><p>Sim... sim, sabia, mas estou arrependido de te ter falado nela. N�o seria melhor parares por um momento e n�o ires at� ao fundo desta descida aos Infernos que come�aste? Gostaria que tu pr�pria te poupasses...</p><p>O primeiro passo � que custa. Pelo menos, verei se Dante tem raz�o no seu inferno, ao mostrar os feiticeiros com a cabe�a virada ao contr�rio, de maneira que as l�grimas lhes caem pelas costas abaixo...</p><p>Fontelucente gozava de uma detest�vel reputa��o. Era, em notoriedade e terror p�blico, o mais famoso covil de feiticeiros de toda a Tosc�nia. Tinha alinhamentos rochosos, uma gruta e cabanas onde viviam criaturas que de humano s� tinham a apar�ncia exterior. Na sua maior parte eram infelizes reduzidos pela mis�ria, pela doen�a, ou pela loucura, a uma condi��o quase larvar e que tinham tirado da sua nudez e da natureza envolvente receitas bizarras. Perseguidos e acossados por toda a parte, tinham-se afastado do c�u e de uma miseric�rdia em que j� n�o acreditavam, para tentarem manter com as for�as infernais um com�rcio que os vingava e lhes permitia semear um medo que os protegia. Tinham-no conseguido na perfei��o e o medo que inspiravam com os seus encantamentos e magia era tal que o deserto se fizera em redor daquele local risonho e f�rtil, mas que diziam maldito. No entanto, uma nascente pura, uma nascente esplendorosa brotava naquele local, sustentando uma vegeta��o espessa naquele lugar rejeitado, de onde as pessoas se afastavam com medo de sortil�gios. Apesar disso, em certas noites escuras, figuras mascaradas e envoltas em mantos sombrios deslizavam at� Fontelucente. Uma rapariga procurando esconder o fruto de amores proibidos, uma mulher ciumenta encarni�ada contra a sua rival, um rapaz apaixonado desdenhado pela sua bela e at� uma dama nobre, reduzida pelas suas paix�es a procurar um socorro infame, pago com resgate de reis. Esses conseguiam do seu medo, do seu �dio ou do seu amor a coragem para irem ter com os feiticeiros, dos quais alguns eram mais ricos do que pareciam.</p><p>A viver assim, no seio da natureza, aquela gente descobrira muitos segredos. Para n�o falar das receitas assombrosas, nas composi��es terr�veis ou repugnantes, nos filtros e nos encantos que vendiam � sua clientela. Por vezes, as suas receitas revelavam-se eficazes e o doente curava-se. Ent�o, o reconhecimento servia-lhes de salvaguarda, quase tanto como o medo.</p><p>Em datas precisas, mas mais frequentemente em noites de lua cheia, os feiticeiros reuniam-se com os confrades disseminados pela regi�o e at� com outros, vindos de muito mais longe, para festejar e venerar o seu protector, o deus das trevas, o seu pr�ncipe do mal, aquele cujo nome os humildes n�o ousavam pronunciar e a quem os da Igreja chamavam Sat� enquanto se benziam. Mas, por prud�ncia, o local de reuni�o mudava sempre e a palavra era passada por meio de mensagens de apar�ncia inocente, que percorriam os caminhos e os mercados. Assim, Dem�trios, tendo ido nessa manh� � cidade, recebera-a de Bernardino, que mendigava, como habitualmente, em frente do Duomo e lha sussurrara em troca de uma bela moeda de prata.</p><p>Desta vez tratava-se de um campo no flanco do monte Ceceri, encostado a um pequeno bosque e fechado, longe de qualquer habita��o, dentro dos velhos muros arruinados de um antigo priorado abandonado. Era quase meia-noite quando Dem�trios, Fiora e Esteban chegaram � vizinhan�a do campo. Por prud�ncia, tinham vindo a p� e por caminhos dif�ceis, que serpenteavam por silvados e alinhamentos rochosos.; O grego caminhava com passo seguro, como homem que sabe aonde vai. E parou, por fim, por tr�s de um dos muros arruinados que formava, naquele local, uma pequena concavidade coroada por espessa vegeta��o.</p><p>Daqui veremos tudo sem nos arriscarmos a ser vistos. Eu conhe�o bem este local, onde j� vim meditar algumas vezes...</p><p>Mandou Fiora sentar-se sobre uma grande pedra e mostrou-lhe como, afastando ligeiramente os ramos de um espesso comiso protegido por um matagal, teria uma vista satisfat�ria. Para melhor protec��o, a jovem, tal como os seus companheiros, trazia uma m�scara negra e as luvas espessas preconizadas por Dem�trios. Estavam, assim, invis�veis e suficientemente protegidos contra os espinhos do matagal. Em frente da jovem o campo formava um largo espa�o descoberto no meio das ru�nas de antigas constru��es conventuais, uma grande toalha sombria entre formas incertas. N�o se ouvia qualquer som, salvo, vindo do bosque vizinho, a voz triste de uma coruja que soou por tr�s vezes, provocando no campo como que uma esp�cie de grande suspiro.</p><p>Subitamente, um homem saiu das ru�nas transportando um archote, com a ajuda do qual acendeu rapidamente duas fogueiras preparadas � direita e � esquerda do prado e essa parte iluminou-se de um s� golpe, como uma cena de teatro descobrindo um cen�rio aterrador. Entre as duas fogueiras estava uma mesa grosseira feita de duas pedras e uma laje, disposta diante de um pequeno mont�culo coberto de hera, que suportava uma est�tua de madeira pintada, t�o realista, que Fiora sentiu as t�mporas apertarem-se-lhe e os cabelos eri�aram-se-lhe na cabe�a.</p><p>Era, sobre umas patas de bode inclinadas, o corpo de um homem nu com uma cabe�a hedionda. As orelhas pontiagudas, os longos cornos enrolados e a barba fibrosa eram de um bode, mas o longo nariz adunco, a boca vermelha e desdenhosa e os olhos reluzentes brancos e vermelhos eram quase humanos. Entre os cornos estavam pousadas tr�s velas que o homem acendeu, enquanto numa das suas m�os em forma de garra a est�tua tinha uma foice e na outra uma ta�a dourada...</p><p>O diabo! sussurrou Fiora que, maquinalmente, se benzeu. Mas j� Dem�trios lhe apoiava sobre a boca uma m�o perempt�ria:</p><p>Nem mais uma palavra! cochichou ele ao seu ouvido. Arriscas-te a que nos prendam...</p><p>Com efeito, o acender das fogueiras revelara, em redor do hediondo simulacro, uma fileira de fantasmas envoltos em tecidos escuros, que, num mesmo movimento, tiraram os seus mantos e fizeram aparecer, vestida de ouropel matizado, a mais estranha colec��o de figuras de pesadelo que um c�rebro febril poderia imaginar: velhas desdentadas de l�bios retra�dos, homens disformes de olhos reluzentes e cabeleiras sujas, mulheres ainda jovens mas j� secas pelo deboche, os de Fontelucente e mais alguns seus iguais estavam ali, im�veis e silenciosos como g�rgulas de catedral, pouco menos repulsivos do que o mestre a quem se tinham entregado.</p><p>Entretanto, o homem do archote espetou este no solo, afastou-se e reapareceu com um pano negro; estendeu-o por cima da mesa e colocou-lhe em cima dois candelabros de ferro com grossas velas de cera negra, que acendeu. Um fumo espesso e acre desprendeu-se e subiu na direc��o da cabe�a do �dolo. Ent�o, ouviu-se uma melopeia emitida pelas bocas fechadas dos feiticeiros, a princ�pio surda, mas que se foi ampliando e, num ritmo lento, homens e mulheres come�aram a balan�ar em conjunto, da esquerda para a direita, sempre de olhares fixos na sua frente e as m�os cruzadas em cima dos joelhos. Aquilo adquiriu um som vagamente musical, que se estendeu pela pradaria com as pesadas volutas de fumo. Pouco a pouco, o campo come�ou a animar...</p><p>�s duas, �s tr�s, ou isoladamente, silhuetas mascaradas sa�ram dos bosques e das muralhas arruinadas. Quando abriram os mantos, Fiora, cujos olhos dilatados n�o perdiam um pormenor, viu que havia ali camponeses, homens e mulheres, velhos em trajes negros e usados cujas frontes desguarnecidas e olhos fatigados tra�am longas vig�lias em busca de segredos imposs�veis de encontrar, mendigos, entre os quais ela pensou reconhecer Bernardino, rapazes robustos e algumas raparigas bonitas. Estupefacta, a jovem notou tamb�m a presen�a de tr�s mulheres mascaradas, cujo vestu�rio luxuoso tra�a uma alta condi��o e de alguns homens, tamb�m eles mascarados e de trajes bordados. Mas o mais extraordin�rio era a esp�cie de fraternidade que unia toda aquela gente, uma dama entre um mendigo esfarrapado e um campon�s, todos eles com a mesma expectativa no fundo dos olhos. <emphasis>As </emphasis>chamas das fogueiras, para as quais tinham atirado resina, emitia uma luz amarela que uniformizava os rostos. Impass�veis, os feiticeiros continuavam a balan�ar cantando a sua melopeia lenta e l�gubre que parecia n�o ter fim e que os rec�m-chegados imitavam. Fiora, fascinada, teve de se agarrar aos ramos que a escondiam para n�o fazer como eles, mas o espinho de uma silva, ao atravessar-lhe a luva, sacudiu aquela esp�cie de feiti�o... Subitamente, um som grave e profundo fez-se ouvir, parecido com o de um gongo e instantaneamente fez-se sil�ncio. Das ru�nas saiu um cortejo... � cabe�a, transportando uma cruz na qual estava pregado o cad�ver de um c�o, vinha um negro atl�tico vestido com uma casula escarlate, cujas rachas deixavam entrever o seu corpo reluzente, como bronze. Atr�s dele vinham duas raparigas quase nuas, com t�nicas brancas transparentes. Traziam coroas de hera e uma transportava um incens�rio, enquanto a outra erguia entre as m�os uma ta�a cheia de gr�os de trigo e azeitonas negras. Um homem, que parecia um padre, fechava a marcha. Este vestia a r�plica exacta de uma casula de celebrante crist�o, mas branca, debruada a escarlate e bordada com grandes chamas negras. A cruz era substitu�da por uma cabe�a fazendo uma careta hedionda. Uma esp�cie de elmo negro, apertado e ornamentado com dois cornos, cobria-lhe a cabe�a barbuda e transportava na m�o um c�lice coberto com um v�u vermelho. � sua passagem, os feiticeiros levantavam-se e inclinavam-se. Estes afastaram-se do altar, pois de um altar se tratava, para fazerem duas filas, formando duas alas de assistentes. O padre pousou o c�lice no altar, caiu de joelhos, ergueu os dois bra�os para a est�tua demon�aca e exclamou com voz forte: Pai do mal e do pecado, pai do v�cio e do crime, Sat�, deus do prazer e da riqueza, fonte eterna da virilidade e das paix�es proibidas, senhor da lux�ria e da fornica��o, vem at� n�s esta noite, a este lugar onde nos reunimos para te honrar e adorar!...</p><p>A despeito das recomenda��es de Dem�trios, Fiora teve de perguntar em voz muito baixa:</p><p>Quem � aquele homem? </p><p>Um monge despadrado. � preciso ter sido padre para poder celebrar a missa negra...</p><p>Ele vai...</p><p>Vai, mas cala-te e, por mais que vejas, n�o digas mais nada! Desenrolou-se uma nova fase da cerim�nia: primeiro os feiticeiros</p><p>e depois os assistentes, todos avan�aram dois a dois, um homem e uma mulher, para saudar o dem�nio. Prostraram-se diante do altar e da est�tua e regressaram depois aos seus lugares como fi�is numa igreja. Uma mulher ficou sozinha, a �ltima, uma das tr�s que deviam pertencer � alta sociedade. Transportava entre as m�os uma esp�cie de patena de prata, sobre a qual havia qualquer coisa indistinta. Ajoelhando-se, a mulher estendeu o pequeno prato ao padre, que o ergueu para o �dolo:</p><p>Aceita, oh pai da mentira e do crime, estes cora��es arrancados a um mentiroso e a um assassino e que a tua serva te oferece, para que a cubras com as tuas merc�s! Ela tamb�m se oferece, para que o sacrif�cio que vamos celebrar seja realizado sobre o seu corpo.</p><p>Dem�trios, sentindo Fiora tremer, rodeou-a com um bra�o e fechou-lhe, de novo, a boca com a m�o, temendo uma manifesta��o involunt�ria.</p><p>Eu disse-te sussurrou-lhe ele ao ouvido que isto era uma descida aos Infernos... Coragem!</p><p>Entretanto, � luz das fogueiras, a mulher despiu-se por completo e, nua, foi estender-se sobre o altar. A despeito da m�scara, Fiora, horrorizada, j� tinha reconhecido Hieronyma. O c�lice foi pousado sobre o seu ventre branco. Apesar de j� n�o ter 20 anos, tinha um corpo copioso mas firme, que devia atrair o desejo de muitos homens e explicava a influ�ncia que tivera sobre Marino Betti.</p><p>A missa, se assim se podia chamar �quela sucess�o de impreca��es e sacril�gios, come�ou. Fiora, com os ouvidos a zumbir, n�o ouviu grande coisa. Estava hipnotizada por aquela mulher nua, cujos cabelos artificialmente louros tocavam no solo.</p><p>Subitamente passou-se uma coisa t�o odiosa que Fiora, sob a m�o de Dem�trios, mordeu os l�bios at� sangrarem. Das primeiras filas da assist�ncia acabava de sair uma mulher com um �xtase imbecil no olhar. Nas m�os estendidas transportava um rec�m-nascido, que estendeu ao oficiante. Este pegou nele, pousou-o sobre o corpo de Hieronyma e, com um golpe r�pido de faca, abriu-lhe a garganta. Ouviu-se apenas um pequeno grito, mas uma esp�cie de arrepio percorreu toda aquela gente. Fiora pensou que era de horror, mas s� viu em todos aqueles rostos uma alegria est�pida, uma crueldade bestial, um prazer perturbador. O sangue trazia �quela monstruosidade o elemento que lhe faltava.</p><p>O padre recolheu-o no c�lice. Molhou nele os l�bios, marcou os seios de Hieronyma e passou-o a uma das suas ac�litas, para que ela o fizesse circular pela primeira fila da assist�ncia. Ao mesmo tempo, a outra rapariga trouxe um jarro cheio de um vinho no qual tinham misturado uma decoc��o que lhe duplicava a ac��o. Todos beberam e comeram uns bolos que foram distribu�dos. Em seguida puseram-se a dan�ar ao som da flauta tocada pelo grande negro. Dan�avam costas com costas, de m�os unidas e as cabe�as viradas, de modo a juntarem as faces.</p><p>O of�cio sacr�lego estava a acabar. O oficiante, desembara�ando-se da sua casula sob a qual estava nu, deitou-se em cima de Hieronyma. Foi o sinal para uma inveros�mil cena de deboche � luz vermelha dos braseiros que enfraqueciam. Os casais rolavam um pouco por toda a parte, ao acaso, sem distin��o de idades ou de estatuto social, velhos com jovens, a grande dama com um criado de quinta. Fiora, que se sentia enlouquecer, fechou os olhos. Ent�o, Dem�trios largou-a:</p><p>Sobretudo, n�o te mexas! sussurrou ele. Deixo-te com Esteban. Eu j� venho ter convosco...</p><p>Onde vais?</p><p>Como resposta ele pousou-lhe um dedo na boca e desapareceu na sombra sem sequer fazer mexer um ramo. J� n�o se ouvia, nem o canto, nem a flauta; apenas suspiros, gemidos e sons de tecido rasgado. Fiora nem sequer ousou virar os olhos para Esteban, do qual ouvia, perto de si, a respira��o entrecortada. E, subitamente, ouviu-se um grande grito:</p><p>A mil�cia! Salve-se quem puder!</p><p>Foi o p�nico. Cada um, esquecendo o seu companheiro, ou companheira de momento, s� pensou em fugir. O padre maldito arrancou-se de Hieronyma e desapareceu na noite, ao mesmo tempo que o seu ac�lito e as duas raparigas levavam o diabo de madeira pintada. Fiora viu Hieronyma, que tirara a m�scara que a sufocava, tentar levantar-se, mas uma silhueta alta e negra apareceu na sua frente com um bra�o estendido e tr�s dedos apontados para os seus olhos transtornados...</p><p>Ela tentou, em v�o, lutar contra o poder invis�vel daquele homem e voltou a cair sobre o altar, inanimada...</p><p>Dem�trios inclinou-se, agarrou no pequeno corpo do beb� sacrificado que tinha sido atirado por terra, pousou-o sobre o da mulher j� suja do seu sangue e afastou-se a correr. A luminosidade de numerosos archotes e o eco de passos ferrados fazia-se ouvir...</p><p>Um instante mais tarde, Dem�trios juntava-se a Fiora e Esteban:</p><p>Vinde! ordenou ele. Depressa! Ainda temos tempo de fugir...</p><p>� mesmo a mil�cia que est� a chegar? perguntou Fiora.</p><p>�. Mesmo � hora que eu indiquei. O senhor Louren�o seguiu bem as minhas explica��es.</p><p>Quem deu o alerta?</p><p>Eu, claro. N�o queria que todos estes infelizes, que procuram uma compensa��o para a sua mis�ria, fossem atirados para a pris�o, para a tortura e para o fogo... A dama Hieronyma acabar� a noite numa masmorra, enquanto espera que a entreguem ao carrasco...</p><p>Mas, como sabias que ela estaria aqui esta noite?</p><p>Eu disse-te que sabia sempre aquilo que preciso de saber... E agora apressemo-nos um pouco. N�o conv�m nada que venham atr�s de n�s...</p><p>Uma hora mais tarde estavam de regresso ao castelo onde L�onarde, que mandara Samia deitar-se, os esperava. Ignorando ao certo o que era aquela expedi��o em que se tinham lan�ado, acolheu-os sem uma palavra, mas serviu-lhes logo vinho quente com canela, que cozia lentamente nas cinzas da chamin�. A governanta olhou para Fiora, cujo rosto p�lido e express�o tensa lhe diziam que n�o tinha vivido momentos muito agrad�veis, mas a jovem, agarrando com os dedos gelados a ta�a cheia do l�quido fumegante, sorriu-lhe com tanta ternura que ela, vexada por n�o ter sido posta ao corrente, n�o aguentou mais:</p><p>Pareceis muito cansada, meu cordeirinho, mas h� muito tempo que n�o vos via um sorriso assim. Sentis-vos feliz, esta noite?</p><p>Sinto... e pela primeira vez desde h� muito tempo! A morte do meu pai foi vingada, minha querida L�onarde, assim como tudo o que sofri por culpa de Hieronyma. Amanh� conto-vos tudo. Por agora, morro de sono...</p><p>Sendo assim ser-vos-� feita justi�a e podereis, ent�o, regressar a casa?</p><p>N�o sei... Talvez, porque agora os meus inimigos j� n�o existem...</p><p>Continuam a existir disse Dem�trios severamente, que aquecia as longas m�os p�lidas nas chamas reanimadas. Mas � isso o que tu queres: voltar para casa, reencontrar a tua fortuna e n�o pensar em mais nada? J� te esqueceste que... Que conclu�mos um pacto? Esqueci-o tanto que agora quero reencontrar o homem que me abandonou no dia seguinte ao do nosso casamento e vingar-me daqueles que levaram os meus pais ao cadafalso. Mas confesso que gostaria, por algum tempo, de reencontrar a paz da minha casa, rever a minha amiga Chiara, poder, como antigamente, passear pelas ruas de Floren�a sem ouvir gritos de morte ou levar com pedras, ir p�r flores na tumba daquele que ser� sempre o meu pai, deixar acalmar este furor que vive em mim h�tantos dias, ser uma florentina como as outras e adquirir a certeza de que no regresso das viagens que vou empreender me sentirei em minha casa... Isso � pedir muito?</p><p>Dem�trios desviou os olhos daquele olhar que implorava uma resposta e saiu da cozinha. Ouviram os seus passos na escadaria da torre, para o topo da qual ele gostava de se retirar para observar as estrelas e prestar aten��o � sua linguagem. Mas naquele fim de noite, porque a alvorada iria em breve aparecer, o m�dico desviou o olhar do c�u para olhar para a cidade adormecida. Sabia que Floren�a j� n�o queria saber de Fiora Beltrami, mas n�o tinha coragem de lho dizer...</p></section><section><title><p>CAP�TULO XI</p><p>�ANTES DE EU ALCAN�AR A MARGEM DESEJADA...�</p></title><p>O rumor, partido do rio onde os marinheiros se afadigavam, correu pelas ruas e pra�as, atingiu primeiro a mil�cia que tinham chamado de imediato, o Bargello e a Senhoria e depois o resto da cidade, como se fosse um ti��o lan�ado para uma meda de palha: um pescador tirara do Arno o corpo de Pietro Pazzi, apunhalado entre as duas esp�duas...</p><p>Esteban, que tinha ido �s compras ao Mercato Vecchio como sempre fazia tr�s vezes por semana, ouviu-o enquanto comprava queijo, voltou a ouvi-lo na vendedeira de cria��o e ficou com as orelhas cheias quando chegou ao balc�o do talhante, mas com variantes, porque a festa do �diz-se� estava lan�ada. Cada um pretendia saber mais do que o seu vizinho e as vers�es mais fant�sticas come�avam a circular...</p><p>Esteban n�o gostava de tagarelice. Em Castela tinha causado a morte da sua m�e, acusada por um vizinho de lhe ter envenenado a �gua do po�o e de ter feito um feiti�o ao seu filho. Apesar de ser uma boa crist�, a anci� fora parar � fogueira e o seu filho, desesperado, dera tudo o que tinha em dinheiro ao carrasco para que ele a estrangulasse antes de as chamas a atingirem. Em seguida matara o vizinho, o filho e lan�ara fogo � sua quinta. Dem�trios Lascaris, que acabava de chegar ao pa�s, levara-o consigo pouco antes de o prenderem, salvando-lhe assim a vida e ganhando para sempre a sua dedica��o e reconhecimento...</p><p>N�o, Esteban n�o gostava de bisbilhotices. Odiava-as quase tanto como os padres, que a meias com o <emphasis>alcaide </emphasis>da sua terra tinham condenado a sua m�e, porque o acusador era rico e ela pobre... A sua vida ao servi�o do m�dico grego, fil�sofo, astr�logo e m�gico convinha-lhe �s mil maravilhas, porque, para al�m de pequenas tarefas dom�sticas quotidianas, tinha uma certa liberdade: nunca Dem�trios lhe reprovara o seu gosto pelo vinho e pelas mulheres e ele amava ambas as coisas quase tanto como o combate, as armas e a guerra, que eram a sua vida desde os 12 anos de idade...</p><p>Decidido a obter informa��es t�o claras quanto poss�vel, o castelhano confiou a sua mula j� carregada ao albergue da Croce di Malta onde o conheciam e dirigiu-se ao pal�cio da Senhoria e seu complemento, a <emphasis>loggia </emphasis>del Priori, onde era quase sempre certo encontrar tr�s ou quatro not�veis a conversar. Aquilo permitiu-lhe ver chegar o velho Jacopo Pazzi, que ocupava ent�o a sua casa florentina e que entrou de rompante, carregando como um touro furioso, no velho pal�cio. Saiu de l� um momento mais tarde escoltado pelo Bargello e por um esquadr�o de guardas. Um arrepio percorreu, ent�o a pra�a: o patriarca fora preso? Mas durou apenas um instante. A tropa dirigiu-se para a Ponte Vecchio. Esteban seguiu a pequena multid�o que se formara instantaneamente, o que lhe permitiu assistir � pris�o do <emphasis>Mulher�o </emphasis>e do seu irm�o. Pippa resistiu de tal modo que foram necess�rios cinco homens para a segurar. Levaram-na finalmente para a Stinche, a pris�o da cidade, vociferando e berrando impreca��es e inj�rias, �s quais os assistentes se apressaram a responder, porque, apesar de ignorarem o que se passava, os Florentinos n�o perdiam uma ocasi�o para se fazerem ouvir e manifestar. Quando algu�m era levado para a pris�o, ouvia-se sempre gritar �� morte!� ao acaso, com boas hip�teses de errar apenas uma em duas vezes.</p><p>Bastante mais frio, Esteban achou que j� tinha visto o suficiente e que j� era tempo de ir prevenir o seu patr�o do que se passava, tanto mais que o cortejo de Pippa, ao voltar a transpor a ponte, tinha mais uma unidade: frei In�cio, que se juntara ao velho Pazzi, regulando o seu passo pelo do velho e falando-lhe com loquacidade. Ora, o castelhano detestara instintivamente o seu compatriota, que achava falso, cruel e p�rfido, e n�o se enganava muito. A aproxima��o entre aqueles dois homens pareceu-lhe extremamente inquietante...</p><p>Servindo-se dos cotovelos para afastar a multid�o, o castelhano foi buscar a sua mula, ao carregamento da qual acrescentou uma pequena bilha de azeite, foi beber a sua ta�a de vinho habitual para n�o despertar a curiosidade e deixou a cidade rapidamente, n�o sem reparar no ajuntamento que j� se formava defronte do pal�cio dos M�dicis fazendo um barulho terr�vel, porque toda a gente falava ao mesmo tempo e com grandes gestos.</p><p>Ao regressar a Fiesole encontrou Dem�trios no seu gabinete, ocupado a embalar cuidadosamente alguns livros em peda�os de tecido e a guard�-los numa pequena arca pousada em cima de um escabelo. A um canto da mesa, sobre uma pele de gamo, estavam alinhados, brilhantes de uma limpeza recente e numa ordem perfeita, os instrumentos de cirurgia: lancetas, escalpelos, tr�panos, agulhas direitas ou curvas, pin�as e outros, que tinham seguido o m�dico desde Biz�ncio e que ele tinha conseguido conservar apesar das vicissitudes das suas longas peregrina��es. O velho saco de couro, que os continha habitualmente, estava pousado ao lado e aberto.</p><p>Esteban abra�ou com um olhar r�pido aqueles preparativos:</p><p>Mestre disse ele vais partir?</p><p>� preciso estar sempre pronto para partir, meu rapaz. Mas, tu, diz-me porque regressaste mais depressa do que habitualmente? Vejo pela tua cara que tens qualquer coisa para me dizer.</p><p>� verdade e tamb�m � verdade que estou preocupado.</p><p>O castelhano n�o era homem de grandes narrativas. Em meia d�zia de frases contou o que tinha visto, espreitando no rosto do grego o efeito das suas palavras. Mas Dem�trios, que acabara de encher a arca, contentou-se em fech�-la e dizer:</p><p>Ah!</p><p>Em seguida, aproximando-se dos seus instrumentos, enxugou-os cuidadosamente um a seguir ao outro e depois enrolou-os na pele de gamo, que introduziu no saco. Esteban observou-o em sil�ncio, percebendo que o m�dico reflectia. Ao cabo de um momento, Dem�trios ergueu para ele os olhos:</p><p>Vai chamar <emphasis>donna </emphasis>Fiora! Ela est� no jardim a dar de comer aos pombos...</p><p>Fiora entrou um momento mais tarde, uma silhueta delgada de negro e branco, asseada e convencional. A evadida do convento num h�bito branco e sand�lias de corda, a jovem grega de t�nica p�rpura e o pajem de gib�o verde tinham desaparecido para dar lugar �quela jovem de luto, de cabelos sensatamente entran�ados e Dem�trios surpreendeu-se a si pr�prio ao lament�-lo, mas os grandes olhos cinzentos continuavam os mesmos e o grego sabia que eles podiam reflectir todas as tempestades do c�u e que aquela apar�ncia elegante e serena escondia as chamas de um cora��o ardente e de um car�cter orgulhoso e corajoso. Como se viesse em visita, L�onarde acompanhara-a e mantinha-se perto da porta com as m�os cruzadas no rega�o, como convinha � acompanhante de uma dama nobre. Dem�trios teve a tenta��o de lhe pedir para os deixar a s�s, mas pensou que, agindo assim, aproximava-se das conven��es sociais que tanto o irritavam. Por outro lado, L�onarde j� tinha embarcado no mesmo barco batido pelos ventos e incessantemente amea�ado da sua aluna. Era in�til esconder-lhe fosse o que fosse, tanto mais que seria posta ao corrente logo depois, i O castelhano entrara atr�s dela... Esteban acaba de regressar com not�cias que eu acho inquietantes disse Dem�trios. Deves ouvi-las. Ela ouviu-as e n�o pareceu ficar muito perturbada. Apenas a men��o ao monge espanhol a fez franzir as sobrancelhas. </p><p>Ainda esse homem! suspirou ela. Como � poss�vel ele ligar-se assim � causa dos Pazzi? Parece querer defend�-los contra tudo e contra todos... Se ele � na verdade o enviado secreto do Papa Sisto IV, fica tudo explicado, porque tamb�m �, certamente, o mandat�rio do seu favorito, Francesco Pazzi... Pensava que tinhas compreendido isso? </p><p>Sem d�vida! Mas ele � um desses padres fan�ticos obcecados | pelo diabo e que v�em feiticeiros em toda a parte. Ora, a mil�cia, na | outra noite, deve ter encontrado Hieronyma no estado em que n�s a deix�mos: nua, estendida em cima de um altar sat�nico, marcada com o sangue do sacrif�cio e com o corpo do beb� degolado em cima do peito. Parece-me que isso deveria interessar frei In�cio em primeiro lugar? No entanto, Esteban viu-o a falar com Jacopo Pazzi como se fossem amigos!,|</p><p>Como se fossem amigos! aprovou Esteban como se fosse o eco. Tens raz�o, � estranho! disse Dem�trios, que se virou para o seu criado: De facto, tu n�o desempenhaste completamente a tua � miss�o. Ouviste falar na dama Hieronyma, que a mil�cia deve ter atirado para a pris�o?</p><p>O castelhano abanou a cabe�a de cabelos hirsutos:</p><p>N�o. N�o ouvi dizer nada. Tinha acabado de chegar ao mercado quando soube que o corpo do seu filho acabava de ser retirado da �gua. S� se falava disso...</p><p>Estranho! A cidade devia estar em sobressalto. Quanto ao monge, era o suficiente para pedir a cabe�a da fam�lia toda... e fala amig�velmente com o patriarca? � dif�cil de compreender!... Mas � preciso saber! Sela a mula, Esteban!</p><p>Onde vais? perguntou Fiora.</p><p>Ver o senhor Louren�o. Foi com ele que combinei a interven��o da mil�cia no monte Ceceri. Ele deve saber o que se passou a seguir!</p><p>N�o v�s! Qualquer coisa me diz que corres perigo pediu a jovem, angustiada. Est�s a ver, sou eu que, hoje, estou com um pressentimento. Eles prenderam Pippa. Sabe Deus o que essa mulher vai dizer!</p><p>Ela n�o pode dizer nada. S� viu um mendigo...</p><p>Dotado de poderes pouco comuns. Tens a certeza que n�o subsiste qualquer recorda��o depois de se acordar do sono que tu provocas? O <emphasis>Mulher�o � </emphasis>h�bil, astuto; para salvar a vida, dir� seja o que for e acusar� seja quem for...</p><p>Ou dir� que n�o sabe nada. Que o jovem Pazzi saiu de casa dela tal como entrou...</p><p>Talvez, mas uma coisa � certa: o velho Jacopo sabia tudo e por que raz�o o seu neto foi a casa de Pippa naquela noite. Fica aqui, pe�o-te! Esperemos um pouco! Louren�o, certamente, dar-te-� not�cias...</p><p>A jovem tremia e a sua emo��o atingiu Dem�trios. Ali�s, Esteban veio em seu socorro:</p><p>Ela tem raz�o, patr�o. N�o h� pressa. Deixemos passar o dia e a noite. Amanh�, se quiseres, irei saber not�cias assim que as portas se abrirem. Poder�s dar-me uma carta para eu entregar ao senhor Louren�o... N�o te reconhe�o, tu que nunca te deixas apanhar pela impaci�ncia.</p><p>O m�dico encolheu os ombros e passou pelo rosto uma m�o um pouco febril. Foi at� ao saco de couro que fechara h� pouco e apoiou-se nele como se procurasse nele a energia que lhe faltava. Em seguida, virando-se, olhou para L�onarde, que continuava junto da porta t�o muda e im�vel como uma est�tua:</p><p>E v�s, <emphasis>dame </emphasis>L�onarde disse ele em franc�s qual � o vosso conselho?</p><p>N�o sabia que a minha opini�o tinha alguma import�ncia aos vossos olhos, mas suponho que esperais um acontecimento qualquer desde esta manh�... um acontecimento que vos pode obrigar a partir. Se n�o, por que essa arca, esse saco, essas arruma��es que ainda n�o cessastes de fazer?</p><p>Eu devia saber que nenhum pormenor deste g�nero escapa ao olhar de uma boa governanta disse ele com um sorriso. � verdade: desde a noite passada que espero uma coisa qualquer sem saber dizer o qu�. Sinto que se aproxima a hora de deixar esta casa. Nesse caso, que seja de livre vontade! Segui o conselho de Esteban! Umas horas a mais ou a menos n�o mudar�o nada... Dem�trios acenou com a cabe�a e sem acrescentar mais nada, abandonou a sala. Fiora seguiu-o. Um atr�s do outro e sem trocarem uma palavra, subiram ao alto da torre. A jovem procurava compreender por que raz�o, ainda h� pouco, se opusera t�o frontalmente � partida do grego, mas uma coisa era certa: naquele instante soubera, t�o claramente como se uma voz secreta lho tivesse gritado, que, se Dem�trios fosse a Floren�a, n�o voltaria a sair de l� vivo. E a ideia de perder aquele �ltimo amigo que, para a ajudar chegara ao ponto de matar, tornara-se-lhe insuport�vel. Aquele homem estranho e curioso, do qual ela tivera medo em tempos, tinha um lugar no seu cora��o, agora. N�o era a profunda ternura sentida por seu pai nem o amor ardente que Philippe lhe inspirara e que ela suspeitava estar ainda vivo sob as cinzas, nem a afei��o que votava � sua velha L�onarde e da qual Khatoun levara um pouco, nem a alegre amizade que a ligava a Chiara Albizzi, era antes um sentimento feito de reconhecimento, amizade e tamb�m de respeito um pouco receoso, parecido com aquele que votava antigamente aos mestres que lhe tinham aberto o esp�rito para a cultura � e para a beleza. Era, em resumo, uma coisa s�lida e forte. Ali�s, n�o estavam ambos ligados por aquele pacto que tinham conclu�do e pelo qual os seus sangues se tinham misturado?... Quando chegaram ao alto da torre, Fiora chegou-se a Dem�trios, que se aproximara com um gesto familiar da velha seteira e pousou a sua m�o na dele. |</p><p>N�s dois j� n�o temos fam�lia disse ela docemente. (</p><p>Tu tens um marido... N�o. Isso foi um sonho que eu tive e que se transformou numa coisa rid�cula. Se o quero encontrar � para o fazer pagar o meu sofrimento e o seu desprezo. Ele levou-me tudo sem nada me dar, sen�o um nome que eu nunca usarei. Ao passo que tu salvaste-me e at�, com | risco da tua pr�pria seguran�a, assumiste a minha vingan�a. E como mistur�mos os nossos sangues, gostaria que visses em mim... uma filha. Uma filha! Eu podia ser teu av�, Fiora. Al�m disso, n�o sabemos | o que o futuro nos reserva... </p><p>Nem tu?</p><p>Nem eu! O v�u do destino nem sempre se ergue e o curso das estrelas omite muitos pormenores. Talvez seja melhor n�o nos deixarmos apanhar na armadilha da afei��o! Podemos vir a sofrer. Unimo-nos, os dois, para sermos companheiros de combate: tentemos ficar por a�, mas velarei por ti... como um av�. E n�o esquecerei nunca o que acabas de me oferecer: o meu primeiro instante de alegria depois da morte de Teod�sio...</p><p>Por sua vez, o m�dico pegou na m�o de Fiora, pousou nela um beijo ligeiro e depois tomou-lhe o bra�o:</p><p>� hora de comermos. Des�amos para evitar que Esteban suba c� acima para nos vir chamar.</p><p>Ao fim do dia voltaram ambos a subir � torre. Da cidade vinha um rumor juntamente com nuvens de poeira. Passava-se l� qualquer coisa que desencadeava a agita��o popular, sempre � flor da pele entre os Florentinos. N�o era um tumulto, porque a <emphasis>Vacca, </emphasis>o grande sino da Senhoria, que servia apenas para tocar a rebate, continuava mudo. Subitamente, fizeram-se ouvir toques de trombeta e Dem�trios inclinou-se, pondo� a m�o em pala diante dos olhos:</p><p>Repara! O Sol ainda n�o se p�s e j� est�o a fechar as portas... Era verdade. Mesmo �quela dist�ncia podia ouvir-se o barulho das grades que ca�am e o ranger da ponte levadi�a que subia. O olhar agudo de Dem�trios, ajudado pelo ar puro das colinas, conseguira aperceber aqueles movimentos. A cidade fechava-se mais cedo do que habitualmente. Parecia, at�, que havia mais soldados nas muralhas...</p><p>Estar� um inimigo em marcha contra n�s? perguntou Fiora.</p><p>Se assim fosse, a <emphasis>Vacca </emphasis>teria tocado para chamar �s armas. N�o, � no interior que se passa qualquer coisa e querem evitar que a agita��o se espalhe ao campo... Mas, repara! H� qualquer coisa que arde l� em baixo...</p><p>Com efeito, num ponto da cidade, perto do rio, uma espessa fumarada negra, atravessada por chamas vermelhas, subia...</p><p>Meu Deus! gemeu Fiora. � uma loucura acender uma fogueira numa cidade onde h� tantas casas de madeira! E, dir-se-ia que � perto de nossa casa...</p><p>Dem�trios n�o respondeu. Os dois ficaram ali um momento, vendo aquele fumo subir a sul e o Sol a mergulhar no mar. Os campos tornaram-se violetas e a calma da tarde permitiu distinguir melhor o alarido que reinava no interior da cidade fechada... Fascinados, o grego e a jovem n�o conseguiam desviar os olhares daquela esp�cie de caldeir�o fervilhante, onde at� os telhados, sob a poeira e � luz incerta, pareciam mover-se, como vagas. A voz ofegante de Esteban, que eles n�o tinham ouvido chegar, estalou de s�bito:</p><p>Patr�o! O senhor Louren�o acaba de chegar! Quer ver-te, a ti e a <emphasis>donna </emphasis>Fiora! Depressa!</p><p>Desceram os tr�s � pressa, mal acreditando no que estava a acontecer. Mas Louren�o tinha mesmo chegado. Metido no traje verde de que tanto gostava, estava de p� perto da janela do gabinete de Dem�trios na companhia do seu amigo Poliziano, que brincava com as suas luvas, encostado a um dos arm�rios. A preocupa��o marcava-lhe o rosto magro, mas pareceu a Fiora maior do que da �ltima vez que o vira, sob as ab�badas da Senhoria. Ao ouvi-los entrar, <emphasis>o Magn�fico </emphasis>saiu da janela e virou-se para eles:</p><p>Tu aqui, Senhor? perguntou Dem�trios inclinando-se, ao mesmo tempo que a sua companheira dobrava ligeiramente um joelho numa sauda��o r�gida. Que grande honra.</p><p>Era necess�rio que viesse, porque o tempo urge. H� pouco sa� da cidade pela Badia, onde decorre uma reuni�o da nossa Academia plat�nica, mas tendo dado ordem para que fechassem as portas logo a seguir. Elas s� se voltar�o a abrir � hora habitual, amanh�. � preciso que esta noite vos afasteis o mais poss�vel daqueles que querem a vossa morte!</p><p>Podeis dizer-nos o que se passa, senhor? perguntou Fiora com a voz gelada. Sabemos que o corpo de Pietro Pazzi foi pescado do Arno e que Pippa foi presa, mas n�o vejo por que raz�o nos querem matar, a n�s!</p><p>Porque essa mulher falou. Ela acusa-te de teres apunhalado o corcunda com a ajuda de um feiticeiro vestido de mendigo...</p><p>Eu? E como � que entrei em casa dela?</p><p>Ela diz que te conhece h� muito tempo, que tu... ias a casa dela para te encontrares com homens e que, naturalmente, foi a casa dela que foste buscar ref�gio quando fugiste do convento... Pietro era... um dos que ias encontrar l�, porque ele estava apaixonado por ti...</p><p>E que mais? exclamou a jovem. Nesta cidade, na tua cidade, pode-se dizer seja o que for? E acreditaram nela, claro?</p><p>Acredita-se sempre no que diz a popula�a.</p><p>A s�rio? Nesse caso, diz-me como � que a popula�a recebeu a not�cia da pris�o de Hieronyma? Como � poss�vel que o seu sogro tenha pintado a manta na Senhoria?</p><p>O povo n�o soube nada dessa pris�o.</p><p>Louren�o desviou os olhos daquele rosto jovem resplandecente de c�lera e a sua voz rouca pareceu ensurdecer ainda mais quando disse:</p><p>Hieronyma fugiu da Stinche antes de a not�cia se saber. Est� em fuga e ningu�m sabe por onde anda...</p><p>O qu�? gritaram ao mesmo tempo Fiora e Dem�trios, mas foi o grego que retomou a palavra:</p><p>Como foi isso poss�vel?</p><p>Na mil�cia havia dois sujeitos dos Pazzi, que preveniram imediatamente o velho Jacopo. Ele foi com a sua gente e com o monge espanhol buscar a nora, que estava inconsciente, ali�s. O que lhes permitiu dizer que ela fora v�tima de uma terr�vel maquina��o e de um sortil�gio... A repescagem do corpo de Pietro e as declara��es do <emphasis>Mulher�o </emphasis>s� serviram para deitar mais achas para a fogueira. Aquele frei In�cio pregou durante todo o dia, nas pra�as e nos mercados, para que te apanhem, Fiora, e a ti, Dem�trios...</p><p>E tu? lan�ou Fiora que fazias tu enquanto tudo isso acontecia? Tu, o senhor de Floren�a, o todo-poderoso, <emphasis>o Magn�fico? </emphasis>Que fazias tu enquanto assassinavam o teu amigo, o meu pai, que fazias tu enquanto me punham em Santa L�cia, enquanto me arrancavam do conVento para me atirarem para <emphasis>o Mulher�o, </emphasis>para ser entregue a um qualquer e, sobretudo, a esse miser�vel Pietro, que at� j� tinha come�ado a estrangular-me? Eu estaria morta sem Dem�trios, porque tu n�o fizeste nada. Tu deixaste que me despojassem de tudo, deixaste...</p><p>Que pusessem fogo ao pal�cio Beltrami disse docemente o grego. � o pal�cio Beltrami que est� a arder, n�o �?</p><p>Fiora virou-se e olhou para ele com horror:</p><p>�... a minha casa?</p><p>�, Fiora disse Louren�o � a tua casa. Quando compreender�s tu que n�s vivemos numa rep�blica e que eu n�o tenho poder, apesar de fazer esta mesma rep�blica rica, feliz e poderosa?</p><p>Estou a ver. Preferes deixar um monge estrangeiro manipular a popula��o enquanto discutes com os reis e os grandes deste mundo! Mas, sabias que esse homem, esse enviado oculto de um Papa que te odeia, ainda � mais teu inimigo do que meu? Eu sou um pe�o no xadrez dele, um pretexto, apenas.</p><p>Que sabes tu? Sei mais do que tu... E rapidamente, a jovem contou o que se passara na sala capitular de Santa L�cia. Deixa o monge acabar a sua obra! acrescentou ela com desprezo e em breve o sobrinho de Sisto IV ser� o senhor de Floren�a, um senhor que, esse, saber� impor a sua vontade! � medida que ela falava, o rosto simiesco se bem que sedutor de � | Louren�o ia ficando esverdeado, como se o seu traje de veludo tivesse, subitamente, desbotado para a sua pele.</p><p>O monge dorme em San Marco. Esta noite mesmo ser� preso e conduzido sob escolta � fronteira de Floren�a. Agrade�o-te por me teres dado a prova do que eu j� suspeitava. Dem�trios pode confirm�-lo...</p><p>Sem d�vida! disse este com ironia mas n�s continuamos sujeitos � vingan�a p�blica... ao passo que a dama Pazzi corre pela estrada fora.</p><p>Prometo-te que a mandarei procurar, mas � verdade que n�o posso fazer nada por v�s, sen�o dizer-vos que partais e que arranjeis um lugar seguro...</p><p>Eu hei-de procur�-la sozinha lan�ou Fiora furiosamente. N�o te preocupes comigo, j� que nem sequer foste capaz de vingar o meu pai, assassinado e vilipendiado...</p><p>Marino Betti est� morto. E fui eu que mandei Savaglio mat�-lo.</p><p>De noite e em casa dele, n�o em pleno dia e na pra�a p�blica! O que faz com que, aos olhos de todos, o meu pai continue a ser um miser�vel, um mentiroso e por que n�o um traidor?</p><p>Por que n�o, com efeito? perguntou Louren�o, cuja c�lera subia. Tenho todas as raz�es para suspeitar que ele traiu a rep�blica, favorecendo com o seu ouro as armas do duque da Borgonha. Os Fugger reclamaram o reembolso de uma letra de cem mil florins, pag�veis ao tesouro da Borgonha atrav�s da conta de messer Philippe de Selongey. Que tens a dizer a isto?</p><p>Nada... a n�o ser uma pergunta: a soma foi paga?</p><p>Ao banco Fugger? Certamente que n�o. O teu pai morreu e os seus bens est�o sob o controlo...</p><p>Sob o teu controlo! E sem qualquer direito!</p><p>Era a �nica maneira de evitar que ca�ssem nas m�os dos Pazzi, porque a tua adop��o est� cheia de equ�vocos! Quanto aos Fugger, tanto pior! Eles que se arranjem com o duque da Borgonha...</p><p>E assim disse Fiora lentamente o meu pai passa, n�o s� por miser�vel e mentiroso, mas tamb�m por desonesto, ele, cuja palavra nunca foi posta em d�vida? Esse dinheiro era o meu dote!</p><p>O teu dote?</p><p>- Sim. Na noite que precedeu a sua partida, aqui mesmo, na capela do convento vizinho, casei com o enviado da Borgonha. Ele sabia a verdade acerca do meu nascimento e exigiu o casamento, porque tu te tinhas recusado a ajudar o senhor dele. Eu sou a condessa de Selongey.</p><p>Provas! Tu tens provas disso? exclamou Louren�o, cujo rosto, depois de empalidecer, estava a ficar p�rpura. Fiora ia responder que n�o sabia onde estavam as provas quando uma outra voz se fez ouvir:</p><p>Ei-las aqui, senhor! disse tranquilamente L�onarde, que avan�ou com um rolo na m�o, de onde pendia uma fita verde. Encontrar�s a� a certid�o de adop��o de <emphasis>donna </emphasis>Fiora, o seu contrato de casamento assinado e selado pelo seu marido, a c�pia da carta de c�mbio e at� um atestado com a assinatura e o selo do padre Ant�nio, o prior do convento. <emphasis>Ser </emphasis>Francesco Beltrami, na v�spera da sua morte e porque se sabia vigiado por inimigos, entregou-me tudo isso...</p><p>O <emphasis>Magn�fico </emphasis>pegou no rolo e estendeu-o a Poliziano, que perdeu de imediato a sua imobilidade de est�tua e, com passo pesado, foi sentar-se na cadeira alta de bra�os de Dem�trios.</p><p>L�! disse ele apenas.</p><p>O poeta desfez o la�o da fita, percorreu os documentos com um olhar habituado e voltou a enrol�-los de novo:</p><p>Est� tudo em ordem, senhor!</p><p>Existe outra prova disse L�onarde. E, tirando do corpete o anel de ouro com as armas dos Selongey, mostrou-o a Louren�o e depois, com um tudo nada de solenidade, meteu-o no dedo de Fiora, que fechou a m�o sobre ele sem poder evitar um arrepio.</p><p>Portanto murmurou Louren�o tu �s a mulher de um dos homens mais importantes da Borgonha? O <emphasis>Magn�fico </emphasis>deu uma pequena risada sem alegria e acrescentou: Nesse caso, por que raz�o o teu marido n�o veio, quando ainda era tempo, reclamar-te diante dos que te acusavam? Por que n�o exigiu ele uma repara��o pelas armas da ofensa involunt�ria feita ao seu nome?</p><p>Porque a esta hora disse Fiora com amargura eu sou, certamente, uma vi�va. <emphasis>Messire de </emphasis>Selongey estava decidido a morrer para se punir por ter, ao casar comigo, desonrado o seu nome... Ele vendeu-se para ajudar <emphasis>o Temer�rio!</emphasis></p><p>Louren�o levantou-se, deu alguns passos para reencontrar um pouco de calma e depois, parando diante de Fiora, cujas l�grimas ca�am em sil�ncio pelo rosto im�vel:</p><p>Pobre crian�a! disse ele com infinita do�ura. Conseguir�s tu, um dia, voltar a acreditar na lealdade e no amor de um homem?</p><p>Incapaz de articular uma palavra e sentindo-se de s�bito infinitamente cansada, ela abanou a cabe�a, negativamente.</p><p>Em todo o caso continuou Louren�o se o teu marido morreu, foi h� muito pouco tempo. No dia em que o teu pal�cio foi pilhado ele estava l�!</p><p>De repente, o sangue subiu �s faces de Fiora:</p><p>� imposs�vel! disse ela com voz fraca...</p><p>N�o disse Poliziano � verdade. Eu vi-o e a princ�pio hesitei em reconhec�-lo, porque estava vestido como um homem qualquer de baixa condi��o. Estava na multid�o; olhava. E vi que falava a algu�m. Sem d�vida perguntava o que queria aquilo dizer. Como n�o sabia o que o atra�a ali, hesitei por um momento em abord�-lo. Quando me decidi, a multid�o impediu-me de me aproximar e ele desapareceu sem que lhe pudesse seguir o rasto...</p><p>Eu pensei que ele tinha vindo espiar continuou Louren�o. Mandei vasculhar os albergues e as tabernas, mas ningu�m o tinha visto, ningu�m p�de dizer o que lhe tinha acontecido...</p><p>Fiora, de olhos brilhantes, escutava aquelas palavras como se estivesse a ouvir os anjos a cantar:</p><p>Ele voltou! suspirou ela. Ele voltou, quando tinha jurado n�o me voltar a ver...</p><p>Perdoa-me o que te vou dizer, Fiora disse Louren�o mas tens a certeza que ele andava � tua procura?</p><p>E de quem havia de ser?</p><p>Do teu pai!... A cidade de Neuss continua a resistir ao borgonh�s e antes de ontem, primeiro de Maio, a tr�gua assinada h� tr�s anos entre a Fran�a e a Borgonha, e prorrogada por duas vezes, chegou ao fim... definitivamente!</p><p>Ousas insinuar que ele vinha em busca de mais dinheiro?</p><p>Que outra coisa havia de ser? Ele deve ter sabido o que te aconteceu, se perguntou �s pessoas que estavam na rua... e, no entanto, voltou a partir, sem sequer te procurar...</p><p>Ao ver Fiora oscilar nas pernas como uma grande flor sacudida pelo vento, Dem�trios interveio e, oferecendo � jovem o apoio do seu bra�o:</p><p>N�o podemos, ao menos, conceder-lhe o benef�cio da d�vida? reprovou ele. � mesmo necess�rio que ela parta desesperada? Recordo-te respeitosamente que, ao chegar aqui, tu insististe que era urgente que n�s fug�ssemos desta cidade. � grave, parece-me e j� que nos expulsam...</p><p>Eu n�o vos expulso disse Louren�o, aborrecido tento, antes, salvar-vos, porque, apesar de n�o acreditardes, sois-me muito queridos, um e outro. E a prova est� aqui!</p><p><emphasis>O Magn�fico </emphasis>tirou do traje uma carta selada com as suas armas, que estendeu a Dem�trios:</p><p>Esta carta � para o rei Lu�s de Fran�a, a quem te envio. Ele acolher� o h�bil m�dico que tu �s, porque ele sofre, sem se poder curar... de umas hemorr�idas bem incomodativas. Al�m disso, digo-lhe que tu �s meu amigo.</p><p>Agrade�o-te. E... ela? perguntou Dem�trios apontando com a cabe�a para Fiora, que L�onarde estava a ajudar a sentar.</p><p>Pensei que pudesses conduzi-la a Paris, onde ela... onde Beltrami tinha um primo, que lhe geria o balc�o local. Ali n�o lhe faltaria nada, pois Donati, que gere actualmente os neg�cios do seu pai, velaria por ela. Mas o que acabo de saber muda muitas coisas. Arranja-me com que escrever, enquanto vos preparais para a partida...</p><p>No que me diz respeito, est� tudo pronto disse Dem�trios.</p><p>N�s tamb�m! disse L�onarde.</p><p>O m�dico tinha disposto em cima da mesa o necess�rio para escrever e Louren�o j� pegava na pena quando Fiora o deteve:</p><p>Que vais fazer?</p><p>Recomendar-te ao rei Lu�s, para que...</p><p>... a mulher de Philippe de Selongey possa servir-lhe de ref�m? Tu pr�prio acabas de dizer que n�o conto nada para o homem a quem fui unida.</p><p>N�o disse Louren�o gravemente. Para lhe dizer que lhe envio a filha... infeliz de Francesco Beltrami, o amigo que perdi. O seu nome � conhecido na corte de Fran�a.</p><p>Ele ia come�ar a escrever, mas ela agarrou na folha de papel ainda virgem e rasgou-a:</p><p>Deixa nas minhas m�os o meu destino! Enquanto n�o for reconhecida inocente de tudo o que me imputaram e os meus direitos restaurados aos olhos de todos... e por ti, n�o quero saber das tuas recomenda��es.</p><p>Fiora, suplico-te.- deixa passar o tempo!</p><p>O tempo? Em que poema � que Petrarca diz: �Antes de eu alcan�ar a margem desejada, o loureiro perder� as folhas verdes...�? Tu nunca ousar�s ir contra a vontade do povo, Louren�o... mas toma cuidado, que um dia ele pode deixar-se atrair por um novo �dolo! E toma cuidado com o Papa!</p><p>Direita e orgulhosa, a cabe�a erguida como se caminhasse para a gl�ria em vez de dar os primeiros passos numa direc��o cujo destino final ignorava, Fiora virou as costas ao <emphasis>Magn�fico, </emphasis>ao homem em quem estava encarnada toda a gra�a e esplendor da sua juventude... e saiu da sala.</p><p>Um quarto de hora mais tarde, entretanto, vestida com o gib�o verde que lhe fora dado por Chiara, pousava o p� no estribo que Louren�o lhe segurava. Era o seu pr�prio cavalo que ele lhe dava, tal como Dem�trios e L�onarde recebiam os cavalos que tinham trazido Poliziano e Savaglio. Os tr�s homens regressariam a Badia a p�. Esteban tinha a sua montada habitual e a mula, que o servia a ele e ao seu patr�o indistintamente, levava as poucas bagagens.</p><p>Dem�trios, antes de o deixar, olhou para o pequeno castelo que lhe oferecera a sua primeira paragem tranquila e doce, ap�s tantos anos de vagabundagem. Ia ser fechado a menos que a multid�o furiosa lhe pegasse fogo no dia seguinte! e a bela Samia regressaria a Badia ou ao pal�cio da Via Larga. O grego sabia que, apesar de tudo, deixava algumas amizades: Poliziano abra�ara-o chorando e o pr�prio Louren�o o apertara nos bra�os... murmurando-lhe que havia ouro nas sacolas do seu cavalo, assim como nas da montada de Fiora... Mas o m�dico n�o estava triste: pensava na sua vingan�a, que ia, por fim, ser poss�vel gra�as �quela bela mulher que o c�u... ou o diabo fizera sua companheira e talvez sua c�mplice... </p><p>Al�m disso, estava demasiado habituado �s partidas frequentes para que uma tal coisa lhe fosse penosa.</p><p>Sem o querer confessar, L�onarde sentia-se feliz. Reencontrara a sua pequenina e ia rever a sua terra natal, aquela Borgonha que a beleza de Floren�a nunca conseguira faz�-la esquecer. Pelo menos, era um pa�s realmente crist�o, onde n�o se cantava a missa depois de se louvarem divindades pag�s!</p><p>Esteban n�o pensava em nada. Iria para onde fosse o homem ao qual se ligara, mas, ao mesmo tempo, estava contente por partir. Amava de mais a aventura e a zaragata para se satisfazer com os prazeres do mercado e com uma vida tranquila no seio de uma natureza agrad�vel. Era verdade que as coisas se tinham tornado mais apaixonantes com a entrada nessa vida daquela que ele chamava para si pr�prio �a <emphasis>madona </emphasis>dos olhos cinzentos�, mas ainda bem que iam para outros horizontes... Horizontes onde havia guerra.</p><p>Fiora escutava a noite. O vento levantara-se, trazendo com ele os ru�dos da cidade que n�o acalmaria t�o cedo. Conseguia ver as luzes inst�veis e os fumos leves que, apertados na cintura da muralha, evocavam a cratera de um vulc�o que desperta... Era a sua morte que pediam l� em baixo e ela bem podia perder qualquer esperan�a de regresso. No entanto, a despeito do que sofrera, as ra�zes do seu cora��o permaneceriam mergulhadas na cidadela da Flor-de-lis Vermelha. A voz de Louren�o, que segurava ainda as r�deas do cavalo, chegou-lhe como que num sonho...</p><p>N�o me dizes adeus, Fiora? Mesmo que me detestes, quero que saibas que nada ser� como dantes. Tu levas um pouco da beleza desta cidade...</p><p>Adeus, senhor Louren�o! Se amas a beleza da tua cidade, vela por Simonetta Vespucci... n�o v�s perd�-la tamb�m... disse ela, lembrando-se da profecia de Dem�trios.</p><p>Que importa Simonetta! N�o � a mim que ela ama... e tu, agora, parece-me que poderia ter-te amado...</p><p><emphasis>O Magn�fico </emphasis>entregou-lhe as r�deas e ela pegou nelas com m�o firme. Na obscuridade, ela viu brilhar os olhos escuros de Louren�o e, subitamente, obedecendo a um impulso, inclinou-se e, por um curto instante, pousou os l�bios nos do <emphasis>Magn�fico.</emphasis></p><p>Nesse caso, lembra-te de mim, monsenhor!</p><p>Ela ia afastar-se; ele reteve o cavalo com uma for�a que a sua magra silhueta n�o permitia suspeitar.</p><p>Quem me deu esse beijo? Foi Fiora Beltrami, ou foi a dama de Selongey?</p><p>Nem uma, nem outra. Foi uma filha desta terra. Uma florentina... uma simples florentina!</p><p>E porque n�o queria que ele visse as l�grimas que lhe subiam aos olhos, ela deu a volta ao cavalo e partiu a galope pela longa alameda de ciprestes, mas, chegada ao fundo, reteve o animal para esperar pelos seus companheiros. Dem�trios foi o primeiro a chegar at� ela.</p><p>Temos de ir apanhar a estrada de Prato disse ele com a sua voz baixa e tranquilizadora � preciso passar pelas colinas... Deixa-me guiar-te!</p><p>Ela sorriu-lhe:</p><p>Desde que me leves onde eu quero ir!... Hieronyma escapou, mas um dia hei-de encontr�-la. Entretanto, temos outras contas a ajustar.</p><p>Para sentir mais uma vez o ar das colinas nos cabelos, a jovem tirou o capuz e levantou a cabe�a. A noite estava bela e doce, cheia de todos os odores da Primavera. Uma noite feita para a felicidade e que, no entanto, era para ela a noite do ex�lio... Tornado ainda mais agudo pela dist�ncia, o sino do convento de Fiesole tocou para o �ltimo of�cio da noite. Fiora fechou os olhos para melhor gravar o eco na sua mem�ria. Ao mesmo tempo, a sua m�o procurou por baixo do gib�o o anel de ouro que tinha retomado o seu lugar no fio:</p><p>Philippe murmurou ela para si pr�pria e t�o baixo que nem o vento a ouviu Philippe... por que voltaste?</p><p><emphasis>Saint-Mand�, 1 de Maio de 1988.</emphasis></p></section></section></body></FictionBook>