<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>love_history</genre><author><first-name>Juliette</first-name><last-name>Benzoni</last-name></author><book-title>Fiora e Lu�s XI, Rei de Fran�a</book-title><annotation><p>Eis que chega o quarto e �ltimo volume da s�rie A FLORENTINA e que tanto sucesso tem alcan�ado junto do p�blico. Desta feita, Fiora - ap�s conseguir escapar da pris�o em Roma - consegue avisar Louren�o de M�dicis da conspira��o, comandada pelo Papa, que visava o exterm�nio da casa de M�dicis. Em sinal de gratid�o, Louren�o instala Fiora em Floren�a e os dois acabam por se envolver amorosamente.Mas os acontecimentos v�o precipitar-se com a chegada a Floren�a do embaixador de Fran�a que n�o s� traz uma not�cia surpreendente como ainda lhe transmite a ordem de Lu�s XI para que regresse � corte francesa... </p></annotation><date/><lang>pt</lang><src-lang>fr</src-lang></title-info><document-info><author><first-name/><last-name/></author><program-used>FictionBook Editor Release 2.6, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date value="2016-09-08">08 September 2016</date><id>08718D74-2B88-4A22-BE0C-A453E50E7AB3</id><version>1.0</version><history><p>1.0 � &#x441;&#x43E;&#x437;&#x434;&#x430;&#x43D;&#x438;&#x435; &#x444;&#x430;&#x439;&#x43B;&#x430;</p></history></document-info></description><body><title><p>Juliette Benzoni</p><p>Fiora e Lu�s XI, Rei de Fran�a</p></title><section><title><p>Primeira parte</p><p>A PEDRA ARRANCADA</p></title><section><title><p>CAP�TULO I</p><p>UMA PRIMAVERA PODRE</p></title><p>Floren�a nunca vira uma coisa daquelas. Desde o monstruoso Domingo de P�scoa 16 de Abril de 1478 em que o Sol iluminara impiedosamente o sacril�gio e os massacres de que a cidade fora testemunha e depois int�rprete for�ada, que o c�u, envolto em nuvens negras e baixas e cobrindo o horizonte de uma ponta � outra, n�o parecia capaz de oferecer uma r�stia, que fosse, de azul.</p><p>Era verdade que a semana santa fora cinzenta, triste e h�mida. Era uma coisa demasiado corrente para que as pessoas ligassem. Mas que, desde a manh� da Ressurrei��o, o tempo se tivesse transformado numa coisa t�o terr�vel, era o suficiente para que os Florentinos sentissem nisso um sinal da c�lera divina... Porque a chuva que surgira e persistia n�o era uma daquelas chuvas de Primavera, doces e finas, que penetram na terra, fazem inchar a seiva e surgir, espessas e vivazes, a erva saborosa dos pastos, o trigo e o centeio, as folhas novas das �rvores e os min�sculos gr�os verdes das oliveiras sob a sua cabeleira prateada. Era uma chuva pesada, raivosa, trazida pelo sopro furioso de um vento maldito, que arrancava a terra das encostas das colinas apesar dos muretes de pedra e a fazia descer, como um rio amarelo, na direc��o da cidade e do rio que n�o cessava de engrossar.</p><p>O Arno transbordava. O seu leito enervava-se, agressivo, e levava para o mar tudo aquilo de que se podia apoderar � passagem: barcos mal amarrados, redes de pesca, barris, peda�os de madeira arrancados �s margens, carca�as de animais e destro�os de toda a esp�cie pertencentes �s tabernas ribeirinhas ou �s caves das lojas das pontes. Os pal�cios, gra�as �s pedras cicl�picas sobre as quais repousavam, faziam de diques ou at� de far�is. A �gua contornava-os e insinuava-se pelas ruas cada vez at� mais longe, cada vez at� mais alto. Come�aram a ouvir-se ora��es nas igrejas e, sobretudo, claro, no Duomo, Santa Maria del Fiore, purificado, entretanto, do sangue derramado gra�as a grandes quantidades de incenso e �gua benta. Quanto ao povo, andava a cavalo, de burro ou de mula se tinha meios para isso, ou, na maior parte dos casos, ensopava o cal�ado se tinha necessidade de ir � parte baixa da cidade.</p><p>Fiora desceu de Fiesole, nesse dia, apesar dos esfor�os de Dem�trios para a impedir. O isolamento severo a que a sujeitavam a prud�ncia do m�dico grego e a paix�o desconfiada de Louren�o de M�dicis pesava-lhe. Tr�s semanas depois de um golpe de punhal ter posto fim a Hieronyma! Tr�s longas semanas a ver, de manh� � noite, a chuva alagar a paisagem e os terra�os do seu jardim! Entretanto, a vida continuava na cidade estendida a seus p�s. E ela tinha de continuar ali, esperando a noite que lhe traria ou n�o um amante sobrecarregado de preocupa��es e responsabilidades. Reduzida ao papel inactivo e at� passivo de uma mulher de har�m, Fiora decidira que estava farta e que precisava de se mexer sob pena de enlouquecer. Al�m disso, h� muito que desejava ir rezar junto do t�mulo do seu pai. N�o faltaria mais a esse dever de amor. Assim, por volta do meio-dia, p�s-se a caminho, escoltada por Esteban. Mas teve de prometer que n�o se demoraria muito, porque desde o assassinato de Giuliano de M�dicis durante a missa do Domingo de P�scoa Floren�a n�o era uma cidade segura, podendo inflamar-se ao menor gesto infeliz.</p><p>A igreja d�Or San Michele, onde Francesco Beltrami repousava entre outros not�veis das Artes Maiores, poderia passar por um pal�cio medieval sem as admir�veis est�tuas de santos, obras de Donatello ou de Louren�o Ghiberti que, nos seus nichos, adornavam as suas quatro fachadas. Constru�da durante o s�culo xIv no local do antigo orat�rio Santa Maria in Oito e de um mercado de cereais, era o �nico santu�rio florentino a possuir um celeiro sobre a sua nave dupla. Talvez fosse, tamb�m, a mais bem ornamentada, porque os mestres mais ilustres das quatro grandes corpora��es tinham contribu�do com dinheiro para o seu embelezamento.</p><p>Or San Michele seria sombria, j� que as suas aberturas eram raras e estreitas, se as muitas velas a arder n�o iluminassem, com as suas pequenas chamas douradas, a magnific�ncia da sua decora��o interior. O conjunto cintilava, brilhava e aureolava uma maravilha: o tabern�culo g�tico de Andr�a Orcagna, incrustado de mosaicos e ornamentado com baixos-relevos. Era a gl�ria da nave do lado direito.</p><p>A laje sob a qual repousava Francesco Beltrami n�o estava longe desse tabern�culo, junto do qual ardia um c�rio. Com uma emo��o profunda, Fiora deixou-se cair de joelhos. Era a primeira vez que podia ir ali rezar, j� que n�o tivera o direito, no dia de c�lera do funeral, de acompanhar o seu pai. Primeiro prisioneira, depois escondida e, finalmente, levada para longe de Floren�a pela tempestade que quase a destru�ra, sonhara muitas vezes, com l�grimas no cora��o, com aquele t�mulo, profanado pelo �dio supersticioso de Hieronyma, onde repousava um corpo cujo peito fora esventrado para oferecer a um dem�nio de madeira e cart�o um cora��o que batera ao ritmo generoso de um homem de bem.</p><p>Curvando-se at� que a sua boca e as suas l�grimas tocassem na pedra fria, a jovem permaneceu prostrada por longos momentos, envolta no seu v�u negro, toda a cidade estava de luto por Giuliano de M�d�cis um v�u que, naquele momento, assumia um significado duplo.</p><p>Pai murmurou ela meu pai! Eu amava-te, sabes, e continuo a amar-te... Amo-te, amo-te, amo-te... Se, ao menos, as minhas l�grimas te pudessem devolver a vida! Se, ao menos, eu pudesse partilhar a minha! Oh, pai, por que nos separaram? �ramos t�o felizes, os dois!...</p><p>Sacudida por solu�os, teria ficado ali at� ao fim do dia sem que a dor diminu�sse, se duas m�os, pousadas nos seus ombros, n�o fizessem men��o de a erguer.</p><p>Ver Fiora e Louren�o, o Magn�fico.</p><empty-line/><p>N�o fa�as mal a ti pr�pria, Fiora! sussurrou uma voz doce. N�o fiques aqui! Vem comigo!</p><p>Um pouco cansada devido � sua longa prostra��o, Fiora endireitou-se, enxugando com a manga as l�grimas que lhe corriam pelas faces, e ofereceu um sorriso � rec�m-chegada.</p><p>Chiara! �s tu? �s mesmo tu?</p><p>Num impulso, atirou-se para os bra�os da amiga reencontrada e as duas jovens abra�aram-se com o entusiasmo nascido, sempre, de uma longa separa��o. Um pouco mais longe, a gorda Colomba, em tempos governanta de Chiara Albizzi e agora sua criada, chorava de alegria, ao mesmo tempo que agradecia aos C�us, com a sua volubilidade habitual, aquela alegria que tinha o privil�gio de testemunhar. Fiora tamb�m a beijou e depois, levando as duas mulheres por um bra�o, como se temesse v�-las desaparecer, arrastou-as para um dos bancos encostados �s paredes da igreja.</p><p>Que alegria, ver-vos de novo! suspirou ela. Como sab�eis que eu estava aqui? Foi o acaso que vos conduziu aqui?</p><p>N�o disse Chiara. Toda a Floren�a sabe que tu regressaste. Fala-se quase tanto de ti como dos Pazzi.</p><p>E eu que esperava passar despercebida!</p><p>Tu... ou Louren�o?</p><p>Ah!... Tamb�m sabes?</p><p>Chiara desatou a rir e Colomba, que se esfor�ava por parecer que estava a rezar, sorriu para os anjos:</p><p>Como toda a Floren�a! Querida inocente! Esqueces-te que, sempre que o nosso pr�ncipe espirra, toda a cidade pergunta a si pr�pria de onde ter� vindo a corrente de ar? Toda a gente sabe que est�s em Fiesole.</p><p>Nesse caso, por que n�o me foste ver?</p><p>Por discri��o e tamb�m... por prud�ncia. Louren�o n�o � o mesmo desde a morte do irm�o e tu fazes parte de uma vida secreta que ele preserva ciosamente. O que n�o � dif�cil de compreender: quando dois seres se amam...</p><p>Mas eu n�o estou muito certa de que nos amemos! Ca�mos nos bra�os um do outro na noite do assass�nio e assim temos ficado desde ent�o. Mas esta situa��o deve-se a que ele precisava de mim e eu dele. De qualquer maneira, n�o durar� muito.</p><p>Porqu�?</p><p>Porque eu devo partir em breve. Tenho, em Fran�a, um filho de nove meses.</p><p>Tu tens um filho? Oh, meu Deus! Que sorte! Um filho! Eu gostava tanto de ter um filho!</p><p>Mas... tu n�o �s casada?</p><p>N�o. Bernardo Davanzati, com quem eu devia casar, morreu de peste em Roma, o ano passado.</p><p>Oh, tenho tanta pena!</p><p>N�o tenhas! Eu n�o lhe tinha amor. Por�m, representava a minha �nica hip�tese de n�o ficar solteirona, porque o meu dote n�o � grande coisa.</p><p>A despeito da serenidade do tom, Fiora juraria ter visto uma nuvem passar pelo rosto encantador da sua amiga e depositou-lhe um beijo leve na face.</p><p>Perdoa-me! disse ela.</p><p>Esque�amos isso! Tens muito que me contar, sem d�vida? Por que n�o vens passar alguns dias a nossa casa? O meu tio gostaria muito de te ver de novo. E depois... para dizer a verdade, foi com esse fim que te mandei espiar concluiu Chiara, sorrindo.</p><p>Espiar?</p><p>N�o tenhas medo! Foi uma coisa inocente. Eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, virias aqui rezar e assim que soube do teu regresso perguntei por ti ao sacrist�o, mas ele ainda n�o te tinha visto. Ent�o, paguei-lhe para que me prevenisse se tu aparecesses... e foi o que ele fez. Mais nada! E agora, levo-te comigo?</p><p>Fiora n�o hesitou. Uma curta estadia em casa de Chiara f�-la-ia recordar os dias felizes de outros tempos. Al�m disso, sentia-se encantada por ter a oportunidade de afirmar uma certa independ�ncia face a Louren�o. Na noite anterior ele mostrara-se distra�do e, assim, um pouco menos ardente. Ao ir-se embora, explicara aquela ligeira desaten��o, anunciando que n�o iria ter com ela na noite seguinte: a chuva incessante provocara um deslizamento de terras no vale do Mugello e pusera a descoberto um ombro de m�rmore branco que devia pertencer, sem d�vida, a uma est�tua antiga.</p><p>Preveniram-me ontem � noite disse Louren�o, cujos olhos escuros brilhavam de excita��o e prometi ir l� esta manh�. E n�o voltarei a sair de l�, compreendes, antes de o conjunto ser totalmente descoberto.</p><p>Compreender? Seria preciso n�o conhecer Louren�o, a sua busca incessante da beleza, da raridade e o seu amor pelos vest�gios dos tempos antigos, para n�o compreender. Dem�trios tinha raz�o ao comparar Fiora com a flor preciosa roubada do jardim do Magn�fico antes de ele a ter podido cheirar, e regressada por uma esp�cie de milagre. N�o era o amor que unia os dois amantes, antes um desejo violento, exaltado pelo orgulho de possuir, um, uma mulher de uma beleza excepcional durante muito tempo cobi�ada, a outra um homem prodigioso, que qualquer rainha gostaria de ver a seus p�s. Ambos amavam o amor, e os abra�os que uniam os seus corpos podiam atingir a perfei��o de um poema, mas o cora��o de Fiora n�o batia apressadamente � aproxima��o do Magn�fico, mesmo quando o seu corpo se abria �s suas car�cias na expectativa deliciosa de uma realiza��o que a faria atingir o c�mulo do prazer. Quanto a Louren�o, como conhecer os pensamentos que se agitavam no interior da sua grande fronte abaulada?</p><p>Ele escrevia poemas dedicados a Fiora; enchia-a de presentes e divertia-se a ornament�-la, mas raramente ficava satisfeito com as j�ias sumptuosas nas quais se esfor�ava por engastar a sua beleza, porque ela triunfava sempre. Uma noite, n�o aparecera s�: Sandro Botticelli, com uma cartolina debaixo do bra�o, acompanhava-o e Fiora, corada de confus�o, teve de posar para aquele jovem pintor, nua e de p� sobre um pequeno tamborete, em redor do qual Louren�o acendera umas velas para que a luz dourasse a sua pele e a fizesse brilhar com mais intensidade. Depois, mal o pintor se eclipsara, amara-a com um ardor esfomeado que assustara, at�, um pouco a jovem. E como ela lho dissesse docemente, ele suspirara:</p><p>Que homem n�o sonhou em possuir uma deusa na esperan�a insensata de conseguir chegar � fonte da sua beleza e conseguir roubar-lhe uma parcela? Infelizmente, V�nus n�o � generosa e guarda tudo para ela.</p><p>N�o me digas que o lamentas? Tu n�o precisas de ser belo. O que tu possuis � muito mais poderoso. Elas s�o muitas, n�o s�o, as que desejam atrair o teu olhar?</p><p>Porque eu sou o senhor? Mas, se eu n�o passasse de um mo�o de fretes, ou de um barqueiro do Arno, quantas delas me concederiam a sua aten��o?</p><p>Mais do que pensas. Ou ent�o, seria preciso n�o serem mulheres.</p><p>Ele agradecera-lhe com um beijo e acrescentara:</p><p>No entanto, sei que a sede de beleza que tenho na alma nunca se extinguir�.</p><p>Agora, a sua busca incessante levara-o at� uma est�tua e se Fiora n�o se sentira surpreendida, sentira-se, mesmo assim, um pouco vexada. O convite de Chiara vinha mesmo a prop�sito. A jovem come�ava a sentir a necessidade de colocar uma certa dist�ncia entre si e aquela aventura apaixonante que a invadia e lhe ocupava demasiado o esp�rito; e que esperava o momento certo, talvez, para se instalar no seu cora��o. Fiora n�o queria ligar-se a Louren�o: sabia que sofreria, mais tarde ou mais cedo. Al�m disso, a sua vida, a sua verdadeira vida, esperava-a algures, junto do seu pequeno Philippe, e o seu dever era fazer dele um homem. E isso n�o era compat�vel com a exist�ncia de favorita oficial que vislumbrava no horizonte.</p><p>De bra�o dado, as duas jovens amigas sa�ram da igreja com Colomba nos seus calcanhares. Fiora procurou Esteban com os olhos, que fora fazer umas compras no bairro e que deveria regressar para a esperar. N�o o vendo, pensou, com um pouco de aborrecimento, que devia ter ficado numa das suas amadas tabernas. N�o devia estar longe, porque as duas mulas continuavam presas no telheiro onde ele as tinha abrigado. Fiora n�o queria ir � procura dele, mas era preciso dar-lhe a saber que ia para casa dos Albizzi em vez de regressar a Fiesole.</p><p>A chuva cessara, mas as nuvens que sobrevoavam a rua estreita prometiam outro aguaceiro e seria uma pena n�o aproveitar aquela aberta:</p><p>Talvez possamos dizer uma palavra aos rapazes que trabalham aqui? segredou Colomba, apontando para uma casa situada em frente do adro da igreja e onde se viam, por uma janela aberta, as cabe�as dos empregados inclinadas sobre os grandes registos. Era o pal�cio em forma de torre, sede da Arte della Lana a arte da l� cujo prior, messer Buonacc�rsi, era amigo dos Albizzi.</p><p>As duas jovens iam, em consequ�ncia, subir os degraus que iam dar � porta encimada pelas armas da corpora��o, quando viram chegar Esteban. O servo vinha dos entrepostos de tinturaria, que eram junto d�Or San Michele. Uma ruela, pouco mais larga do que uma passagem estreita separava ambos, escavada ao meio por um ribeiro por onde corriam os restos dos banhos de cor das meadas de l� penduradas de travessas e dentro de uma esp�cie de jaulas providas de tecto. O ribeiro era de uma cor violeta, encarnada ou azul-escura, segundo os girass�is, a ruiva-dos-tintureiros ou o pastel-dos-tintureiros utilizados pelos oper�rios. Naquele dia era de um vermelho-profundo de rubi quando o castelhano o atravessou de um salto para se reunir �s duas damas.</p><p>Perdoai-me! disse ele e o seu rosto perturbado estava branco como a cal. Fiz-vos esperar e sinto-me desolado.</p><p>Que se passa, Esteban? perguntou Fiora. Sentis-vos mal?</p><p>N�o... n�o, mas acabo de ver uma coisa t�o terr�vel que voltei atr�s para ver melhor. Ouvis estes gritos?</p><p>Com efeito, chegavam por cima dos telhados, e ao longo das ruas, clamores, indistintos mas ferozes: �dio e uma alegria selvagem, transformados em risos dementes. As tr�s mulheres persignaram-se.</p><p>Dir-se-ia que o tumulto vem da Senhoria! disse Chiara. Ter�o encontrado mais gente para enforcar?</p><p>N�o. Encontraram melhor do que isso!</p><p>E Esteban contou como um bando de homens e de mulheres, chegado do campo na sua maior parte, acabava de violar, na igreja da Santa Croce, o t�mulo de Jacopo Pazzi, tirando de l� o corpo do anci�o que se dizia ter blasfemado, antes de ser enforcado, e ter vendido a alma ao diabo. Aquela gente considerava um sacril�gio terem confiado � terra crist� os despojos de um apoiante de Satan�s e atribu�a a isso as violentas intemp�ries que tinham desabado sobre a regi�o de Floren�a.</p><p>Que v�o eles fazer? murmurou Fiora com repugn�ncia.</p><p>N�o sei. Para j�, arrastam aqueles despojos horr�veis e malcheirosos pelas ruas e v�o lev�-los perante os priores. Por isso, se me perdoais que vos apresse, penso que � melhor regressar a casa.</p><p>Ide sem mim! Eu fico para passar alguns dias em casa de dona Chiara, no pal�cio Albizzi. Dizei a Dem�trios que n�o se preocupe e, se n�o vos importardes de voltar aqui amanh�, dizei tamb�m a Samia que me prepare alguma roupa.</p><p>O sorriso de Esteban foi um sinal de aprova��o para a sua escapadela:</p><p>Far-vos-� bem estar algum tempo com outras mulheres declarou ele. Mas, no entanto, vou escoltar-vos at� ao pal�cio Albizzi. Ficarei mais tranquilo.</p><p>Oh! Vede! exclamou Colomba, apontando um dedo tr�mulo de excita��o para o c�u. O Sol! O Sol regressa!</p><p>Com efeito, as nuvens acabavam de se afastar, como que rasgadas por um brusco golpe de vento e um raio luminoso acendeu rutil�ncias no fundo do ribeiro dos tintureiros. Na Senhoria ouviu-se um imenso grito de triunfo, saudando aquela apari��o inesperada.</p><p>Eles v�o receber este raio como um sinal dos c�us e como um encorajamento grunhiu o castelhano. At� que decidam desenterrar outros, vai um passo...</p><p>Quando, a caminho da casa de Chiara, chegaram ao Borgo degli Albizzi, cujo mais belo ornamento fora o pal�cio Pazzi, Fiora n�o p�de evitar um movimento de piedade. O magn�fico edif�cio, come�ado nos meados do s�culo por Brunelleschi e terminado por Giuliano da Maiano, sofrera cruelmente a ira popular. As janelas tinham perdido as vidra�as. Por cima da porta esventrada tinham martelado as armas da fam�lia e subsistiam, por toda a parte, vest�gios do inc�ndio que devastara o interior. No grande p�tio quadrado os destro�os amontoavam-se, restos sem interesse de objectos antes preciosos, destru�dos por falta de conhecimento. N�o passava de uma concha vazia, as vi�vas e as crian�as tinham fugido, em busca de ref�gio, para o campo ou para uma caridosa casa qualquer.</p><p>N�o te comovas! disse Chiara, que seguira o pensamento da sua amiga. Esta gente destruiu o teu pr�prio pal�cio, hoje bem mais arruinado do que este. Al�m disso, as mulheres deles n�o ser�o perseguidas, como tu. Com excep��o... pelo menos assim espero, da infernal Hieronyma, que as pessoas dizem ter regressado.</p><p>Essa est� morta disse Fiora. Apunhalada em casa de Marino Betti por um dos meus amigos quando tentava estrangular-me.</p><p>Olha, n�o sabia! exclamou Colomba, que continuava a ser a comadre mais bem informada de Floren�a. Por que � que n�o se fala disso nos mercados?</p><p>Porque monsenhor Louren�o assim o quis respondeu Fiora. De acordo com as suas ordens, Savaglio e mais alguns dos seus homens fizeram desabar a casa sobre o seu cad�ver, que n�o ter� qualquer outra sepultura. Permanecer� pregado ao ch�o pelo punhal que a atravessou e que o seu possuidor recusou retirar. Parece que foi colocado um letreiro sobre os escombros.</p><p>E que diz ele, esse letreiro? perguntou Colomba, extremamente interessada.</p><p>�Aqui foi aplicada a justi�a de Floren�a. Passante, afasta-te!�</p><p>� quase demasiado belo para aquela criatura abomin�vel observou Chiara. Em seguida, � guisa de ora��o f�nebre, concluiu com satisfa��o: De qualquer maneira, � bom que esteja morta.</p><p>Mais do que imaginas! disse a sua amiga.</p><p>Ver-se de novo em casa dos Albizzi, naquele quadro familiar onde s� conhecera bons momentos, deu a Fiora a impress�o deliciosa de que o tempo parara e que o passado regressara. Nada mudara, os objectos continuavam no mesmo s�tio e o odor da cera virgem e da resina de pinheiro era o mesmo que respirara em tempos. As compotas, obra de arte de Colomba, que lhe ofereceram � entrada, continuavam deliciosas. At� o tio de Chiara, o velho serLodovico, continuava o mesmo, n�o envelhecera. De regresso para a refei��o da noite, beijou Fiora como se a tivesse visto na v�spera, felicitou-a pelo seu bom aspecto e desapareceu no seu studiolo com a pressa de um homem cujo tempo � precioso. Era um naturalista apaixonado, que considerava tempo perdido aquele que n�o consagrava � bot�nica, aos minerais e �s diferentes fam�lias de borboletas. Bom e simples, ing�nuo como uma crian�a, nunca se esquecia, antes de se atirar ao trabalho, de rezar a Deus para que lhe desse for�as e intelig�ncia. Louren�o gostava muito dele, do mesmo modo que o seu pai e o seu av�, e era em grande parte gra�as a ele que os outros membros do cl� Albizzi, em tempos exilados, tinham podido regressar a Floren�a.</p><p>Tamb�m incrivelmente distra�do, os acontecimentos exteriores passavam por ele sem deixar vest�gios. Assim, durante o jantar, durante qual Colomba serviu pombos recheados com ervas finas, uma das suas gl�rias, mostrou-se extremamente surpreendido por ter encontrado, no seu caminho, ao sair de casa do seu amigo s�bio Toscanelli, o cad�ver do velho Pazzi, arrastado por um bando de homens e mulheres.</p><p>Foi-me dif�cil reconhec�-lo, o cad�ver est� em muito mau estado. Ali�s, n�o percebi bem o que estava ali o cad�ver do Pazzi a fazer, porque nem sequer sabia que ele tinha morrido.</p><p>Meu querido tio disse Chiara, rindo-se que cataclismo seria necess�rio para te arrancar aos teus estudos e interessar-te pela vida da cidade? Depois da morte do irm�o, Louren�o de M�dicis e a Senhoria decidiram exterminar os Pazzi. J� te esqueceste que o pal�cio deles ardeu h� quinze dias?</p><p>E verdade! J� me lembro, na ocasi�o pensei que tinha sido uma das nossas chamin�s que se tinha incendiado. Em todo o caso, aquele bravo Petrucci desatou a berrar, dizendo que era preciso parar aquele passeio repugnante porque o Sol tinha regressado e ent�o n�o compreendi mais nada. O que � que o Sol tem a ver com aquilo tudo? O Sol n�o brilha todos os dias em Floren�a?</p><p>H� mais de um m�s que n�o brilhava, mas parece que n�o deste por isso? Aquela pobre gente pensava que a chuva incessante era provocada pelo facto de terem enterrado Pazzi, c�mplice de Satan�s, numa igreja. Espero, de qualquer modo, que o enterrem noutro lado qualquer!</p><p>Ah bom! Ah!... Muito bem! Enterr�-lo? Sim, creio que Petrucci disse qualquer coisa acerca disso. V�o enterrar o velho bandido perto das muralhas, para os lados da porta San Ambrogio, parece. Colomba! D�-me mais meio pombo...</p><p>Terminada a refei��o, foi em busca de um grande gato preto e branco que dormitava em frente da chamin�, meteu-o debaixo do bra�o e regressou ao seu gabinete de trabalho ap�s ter desejado uma boa noite �s duas raparigas.</p><p>Estas partilharam o leito de Chiara, tal como noutros tempos. Tinham sempre que dizer uma � outra e naquela noite, claro, mais do que nunca. Desse modo se passou uma boa parte da noite. Uma bela noite, tranquila, a primeira desde h� muitas semanas e o luar, velado por uma ligeira n�voa de reflexos nacarados, iluminava o quarto com uma luz ligeiramente misteriosa. Uma ac�cia branca metia um ramo pela janela de Chiara, deixando cair no tapete as suas fr�geis flores de perfume delicado. Naquela atmosfera plena da do�ura de outros tempos, Fiora abandonou o seu cora��o � amiga como nunca antes, mesmo a Dem�trios. Chiara, sendo mulher, podia compreender os arrebatamentos secretos de outra mulher como nenhum homem.</p><p>Tal como o m�dico, Chiara encorajou a sua amiga a manter secreto o seu infeliz casamento com Carlo Pazzi.</p><p>N�s vamos ter guerra e Roma vai estar, em breve, muito mais longe de Floren�a do que est� na realidade. Tens todas as hip�teses de nunca mais ver esse pobre rapaz.</p><p>N�o deixo de estar menos casada e ele comportou-se como um amigo. E sei que se sente infeliz longe da sua querida casa de Trespiano. Se, ao menos, eu conseguisse que lha devolvessem!</p><p>Compreendo a tua preocupa��o, mas espera ainda um pouco. Louren�o parece um esfolado vivo depois do crime. Tu ado�as-lhe as noites, sem d�vida, mas deves desconfiar das suas reac��es. Por outro lado, como pensas organizar o teu futuro? N�o podes continuar nessa situa��o falsa provocada pela... pela paix�o dele!</p><p>Queres dizer capricho e eu creio que essa � a palavra certa. Quem era a amante de Louren�o antes de eu regressar? Porque estou certa de que ele tinha uma?</p><p>Tinha. Bartolommea del Nasi. Uma bela rapariga, n�o muito astuta, mas a fam�lia �-o o suficiente por ela. Eles podem achar desagrad�vel o facto de a tua presen�a ter feito secar a sua fonte de rendimento. Arriscas-te a ficar em perigo.</p><p>N�o me parece que queiram ficar com um crime na consci�ncia. Mais tarde ou mais cedo, afastar-me-ei de Louren�o. Simplesmente, n�o o quero ferir.</p><p>S� franca! Nem renunciar ao que encontras junto dele?</p><p>� verdade. Gostaria que esta situa��o se prolongasse mais um pouco. Ali�s, pelo que diz, tamb�m ele deseja que isto dure muito tempo; prop�s-me mandar algu�m a Plessis para trazer o meu filho e L�onarde, mas eu ainda n�o me resolvi a aceitar. N�o sei porqu�, porque seria no interesse da crian�a. Educado aqui, receberia, naturalmente, toda a educa��o necess�ria para continuar os neg�cios do meu pai.</p><p>N�o est�s a falar a s�rio?</p><p>Estou. Desde que nasceu que desejo fazer dele um homem igual ao meu pai: corajoso, letrado, humano, generoso e aberto � beleza. Parece-te inveros�mil?</p><p>� a minha vez de ser franca: sim.</p><p>Mas porqu�?</p><p>N�o fui eu que casei com messire de Selongey! Esqueces-te que o teu filho tamb�m � dele, que tem um grande nome no seu pa�s, mesmo que perten�a a um homem que pagou com o cadafalso a sua fidelidade a uma causa perdida. N�o podes fazer dele um burgu�s florentino...</p><p>N�o vejo que isso o possa diminuir?</p><p>� poss�vel que n�o, mas ele ver�, um dia. Quando for grande far� perguntas �s quais ter�s de responder. E ent�o, quem te diz que ele n�o preferir� uma vida miser�vel, uma vida de proscrito de acordo com a escolha do pai, � vida faustosa que tu sonhas para ele, mas na qual n�o se reconhecer�? Tu foste desenraizada e sabes o que isso custa. N�o fa�as com que o teu filho sofra o mesmo! Educa-o no amor e na recorda��o do teu marido...</p><p>E isso � incompat�vel com a vida de alta personagem da nossa cidade?</p><p>Talvez n�o, na condi��o de que n�o sejas ent�o, e h� muito tempo, a amante de Louren�o. Eu sei acrescentou Chiara, sorrindo que parece que te estou a votar a uma austeridade para a qual n�o foste feita, mas creio que, se tivesse um filho, dedicar-me-ia a ele com alegria...</p><p>Sem responder, Fiora passou um bra�o pelo pesco�o da amiga, beijou-a e deixou o seu rosto encostado ao dela, sem se dar conta de que as l�grimas lhe corriam pelas faces.</p><p>N�o chores disse Chiara. Estou certa que ainda tens belos dias pela frente... E agora, se dorm�ssemos? A alvorada est� a chegar.</p><p>N�o foi o dia que as acordou, antes um verdadeiro uivo lan�ado por Colomba. Num abrir e fechar de olhos, viram-se de p�s nus e em camisa nos degraus de m�rmore da escadaria, correndo na direc��o da grande porta do pal�cio, aberta, na entrada da qual estava Colomba desmaiada. Uma criada dava-lhe pancadinhas nas faces sem convic��o, ao mesmo tempo que, no exterior, um criado erguia o punho e lan�ava inj�rias. Um jovem elegante juntara a sua voz � do servo e de Lodovico Albizzi que, em roup�o e com o gato debaixo do bra�o, batia com os p�s no ch�o e lan�ava gritos inarticulados.</p><p>Ao juntarem-se-lhes, as duas jovens viram um bando de rapazes que se afastava dan�ando e arrastando uma coisa qualquer na ponta de uma corda.</p><p>O que � que se passa, meu tio? perguntou Chiara, inquieta ao ver o anci�o vermelho de furor.</p><p>Ah, � o velho diabo do Jacopo Pazzi! Continuam a arrast�-lo pelas ruas! Nunca vi um morto mexer-se tanto...</p><p>Fiora soube o que se passara pela boca de Colomba, enquanto a obrigava a beber umas gotas de aguardente. Enquanto velava pela prepara��o da primeira refei��o, a governanta de Chiara ouvira, na rua, um bando de rapazes a cantar. Um instante depois, a aldraba da porta era vigorosamente agitada. Colomba fora abrir e fora ent�o que lan�ara o grito que acordara uma parte da casa: preso na corrente da campainha, balou�ava um cad�ver meio decomposto, ao mesmo tempo que, em redor, os rapazes riam e gritavam:</p><p>Bate � porta, ser Jacopo! Bate � porta! Abri a messer Jacopo di Pazzi!</p><p>A chegada intempestiva do elegante jovem a cavalo p�-los em fuga. Apressaram-se a retirar o seu trofeu odioso e levaram-no, arrastando-o, mas o odor pavoroso parecia ter ficado colado �s pedras da soleira e Fiora, por sua vez, sentiu-se empalidecer:</p><p>N�o poderemos levar donna Colomba para dentro? perguntou ela, ao mesmo tempo que Chiara se esfor�ava por fazer com que o seu tio entrasse tamb�m, obstinado em continuar a gesticular e em chamar a Mil�cia.</p><p>Evidentemente exclamou o jovem, que puxou o criado por um dos bra�os. � para j�!</p><p>Fiora afastou-se e os dois, entre eles, transportaram Colomba, cujas pernas tr�mulas pareciam incapazes, para o interior da casa. Mas, ao ergu�-la, o seu olhar encontrou o da jovem e n�o conseguiu suster a doente:</p><p>Madona Sant�ssima! �s tu?... Tinham-me dito que tinhas regressado, mas n�o acreditei.</p><p>Porqu�? Pensavas que tinha morrido? Seria, evidentemente, mais c�modo para a tua tranquilidade de esp�rito.</p><p>O olhar ir�nico de Fiora media, com mais divertimento do que rancor, o seu antigo apaixonado. Luca Tornabuoni continuava t�o belo como nos tempos em que lutava ardentemente pela m�o de Fiora; talvez estivesse, ainda, mais belo, porque, em tr�s anos, perdera aquele aspecto um pouco fr�gil da juventude e, ao mesmo tempo, o seu lado ternurento. No entanto, Fiora sabia da cobardia que se escondia por tr�s daquele rosto cujo perfil era digno de ser esculpido em bronze. No dia da cat�strofe em que mergulhara a sua vida, Luca apressara-se a desaparecer no meio da multid�o sem tentar socorrer aquela de quem, entretanto, se dizia t�o apaixonado.</p><p>Ent�o, que esperais? exclamou Albizzi, que se decidira a entrar. Um pouco de nervo, que diabo! Ainda deixais cair a pobre mulher. E v�s, as raparigas, que estais a� a fazer? acrescentou ele na direc��o da sobrinha e de Fiora. Talvez seja distra�do, mas n�o ao ponto de n�o reparar que estais ambas em camisa! Em camisa! E na rua! Toca a andar! Para dentro!</p><p>De m�os dadas, as duas jovens voltaram a subir a escadaria a correr e a rir, ao mesmo tempo que Luca gritava:</p><p>D�-me autoriza��o para te vir ver, Fiora! Tenho de te falar! Diz-me que posso vir!</p><p>Inclinando-se no corrim�o, a interpelada lan�ou:</p><p>Eu n�o estou em minha casa. Al�m disso, n�o me apetece ver-te!</p><p>Aquela declara��o definitiva n�o impediu Luca de regressar durante o dia, mas Fiora recusou receb�-lo, assim como no dia seguinte. A jovem procurou compreender por que raz�o aquele rapaz, em tempos seu cavaleiro ardente e cujas homenagens ela aceitava porque era belo e decorativo, mas sem lhe retribuir os sentimentos, desejava tanto aproximar-se de novo. Ainda por cima porque, segundo Chiara, era casado e pai de uma crian�a.</p><p>Se come�o a ter rela��es com todos os homens casados da cidade, a minha reputa��o desaparece num instante confiou ela a Chiara. Al�m disso, n�o tenho vontade nenhuma de lhe falar.</p><p>O bom tempo regressara e instalava-se para satisfa��o geral, se bem que as pessoas s�rias se recusassem a ver uma rela��o entre os caprichos do c�u e os despojos mortais de Jacopo Pazzi. Que, ali�s, abandonara Floren�a definitivamente pela via do rio, para onde o magistrado de justi�a o mandara atirar do alto da ponte Rubaconte.</p><p>Nesse dia, as duas amigas, que sa�am de boa vontade para as ruas de uma Floren�a enfim tranquilizada, decidiram subir a San Miniato. O tempo dos espinheiros-alvar e das violetas j� tinha passado, mas Fiora e Chiara tinham a mesma predilec��o por aquele local encantador de onde se desfrutava, sobre Floren�a, a mais bela vista da regi�o. As chuvadas recentes n�o tinham causado grandes estragos em redor da velha igreja e do velho pal�cio dos bispos. Ciprestes orgulhosos enegreciam o alto da colina, qual barreira erguida contra o assalto da vegeta��o que tr�s dias de sol tinham tornado exuberante.</p><p>Do alto do pequeno terra�o da igreja as duas jovens contemplaram por um momento a cidade estendida a seus p�s e irisada de uma pequena bruma anunciadora de calor. O perfume das ervas, da erva-cidreira, da hortel� e do funcho subia vindo das hortas situadas mais abaixo. O ar era de uma do�ura delicada e no grande c�u azul as andorinhas passavam como delgadas flechas negras.</p><p>Sentada na erva por baixo de um pinheiro e mascando uma das suas agulhas, Fiora sentia-se entorpecida sob o prazer daquele instante, em que voltava a encontrar a cidade que amava, onde podia, sem ideias preconcebidas, deixar-se invadir pela sua gra�a e beleza. Nem Chiara, nem ela, sentiam a necessidade de falar, certas da harmonia tranquila por onde vogavam os seus esp�ritos. Instalada um pouco mais longe, Colomba dormia encostada a uma �rvore, o nariz encostado ao grande rega�o.</p><p>Fiora estava quase a imitar a governanta quando uma sombra se interp�s entre ela e a paisagem. A jovem teve um sobressalto ao reconhecer Luca Tornabuoni, que acabava de p�r um joelho em terra para estar � sua altura. De imediato irritada, a sua reac��o foi instant�nea:</p><p>Vai-te! J� te disse que n�o te queria ver mais!</p><p>Um instante, Fiora! � s� um instante! Eu sei que tu me queres mal.</p><p>Quero-te mal? Eu j� me tinha esquecido da tua exist�ncia. N�o foi boa ideia fazeres-ma recordar!</p><p>N�o sejas t�o dura! Eu sei que me portei mal contigo, mas tenho sofrido tanto desde ent�o...</p><p>Sofrido? Tu sabes l� o que isso quer dizer! Basta olhar para ti para ver como tens sofrido estes �ltimos anos: tens um aspecto soberbo, aparentas uma bela prosperidade e disseram-me que tens uma esposa jovem e um filho! Na verdade, tudo isso � de chorar.</p><p>Deixa-me, ao menos, defender a minha causa! Chiara, pe�o-te, deixa-me uns momentos a s�s com ela.</p><p>Mas esta, em vez de se afastar, estendeu-se sobre a erva:</p><p>Por minha f�, n�o! Estou aqui muito bem. De qualquer maneira, ela n�o te quer ouvir. Ela n�o gosta de poltr�es.</p><p>Eu n�o sou um poltr�o e sabei-lo muito bem, as duas! Eu bato-me galhardamente nos torneios.</p><p>Isso est� ao alcance de qualquer imbecil, desde que tenha m�sculos, armas e um cavalo bem treinado disse Fiora em tom cortante. A coragem n�o � isso.</p><p>Que devia fazer, ent�o? Afrontar sozinho uma multid�o encolerizada? Aquilo foi terr�vel...</p><p>Achas que eu n�o sei? Que devias ter feito? Correr para mim, estender essa m�o, de que eu necessitava tanto, em meu socorro. Ficar a meu lado. Mas fugiste como um coelho perseguido. Se n�o fosse Louren�o...</p><p>Que fez ele de extraordin�rio, o meu primo? Podia salvar-te e n�o o fez disse Luca com amargura.</p><p>Fez mais do que imaginas e se hoje estou viva, a ele o devo.</p><p>E tu pagas-lhe regiamente, pelo que dizem? Tornaste-te amante dele. � verdade, de facto, mas n�o vejo que isso te diga respeito?</p><p>Mas, eu amo-te! Nunca deixei de te amar e estou arrependido. Queria ir em teu socorro, mas o meu pai fechou-me e...</p><p>E tu achaste mais confort�vel continuar fechado. Ap�s o que te apressaste a oferecer os teus votos a outra. Ou o meu amigo Dem�trios sonhou ao ver-te na companhia de uma bela ruiva? Acabemos com isto, Luca! Eu ouvia-te com prazer, antigamente, mas n�o te amava. Nunca te amei. Como queres tu, agora, que me interesse por ti?</p><p>A jovem levantara-se para se afastar dele. Ele estendeu as m�os suplicantes para a reter, mas a seda do seu vestido negro deslizou-lhe por entre os dedos. Chiara levantou-se, tamb�m ela, e colocou-se entre os dois, naturalmente. Pousou uma m�o apaziguadora pelo ombro do jovem:</p><p>Esquece-a, Luca! Tu apaixonaste-te outra vez quando a viste, mas pareces uma crian�a que reclama um brinquedo durante muito tempo desdenhado s� porque o d�o a um irm�o, e que tem uma birra para o recuperar. N�o se for�a o cora��o de uma mulher...</p><p>Ah sim? E ela amava Louren�o, naquele tempo? No entanto, agora � dele!</p><p>Eu n�o sou de ningu�m... sen�o de uma recorda��o! exclamou Fiora quase a perder a paci�ncia. Talvez, com efeito, eu devesse qualquer coisa ao teu primo, mas a ti n�o devo nada! Portanto, deixa de me importunar e vai-te embora! Regressa para junto dos teus! Eu n�o quero voltar a ver-te ou a ouvir-te.</p><p>Uma brusca c�lera corou o belo rosto de Luca e incendiou-lhe os olhos negros:</p><p>Nunca te ver�s livre de mim, Fiora! E por S�o Lucas, meu patrono, saberei levar-te aonde quero!</p><p>O teu santo patrono era m�dico. Pede-lhe que te cure, porque est�s em vias de perder o esp�rito. Seria a coisa mais sensata!</p><p>Metendo o bra�o no de Chiara, a jovem encaminhou-se para junto de Colomba que, devido �s vozes exaltadas, j� h� muito estava acordada e seguia a cena com as fei��es esfomeadas de um amador apaixonado por romances. Compreendendo que n�o ganhava nada em insistir, Luca Tornabuoni dirigiu-se para o seu cavalo, que estava preso a um dos an�is de bronze do pal�cio episcopal. O gesto que dirigiu ao grupo formado pelas tr�s mulheres tanto podia significar um adeus como uma amea�a.</p><p>Podes dizer-me o que lhe deu? perguntou Fiora, encolhendo os ombros.</p><p>V�-se l� saber! Talvez seja sincero quando diz que nunca te esqueceu, se bem que Cec�lia, a mulher dele, seja encantadora. Sobretudo, acredito que a sua atitude actual se explica de tr�s maneiras: viu-te de novo, sabe que Louren�o � teu amante... e aborrece-se, como acontece quando se � rico, pouco culto e n�o se sabe o que fazer do tempo de que se disp�e. No entanto, tem cuidado: o amor de uma crian�a estragada pode tornar-se uma fonte de sarilhos. Sobretudo se decidires instalar-te aqui.</p><p>Veremos! Posso sempre regressar a Fran�a.</p><p>De regresso ao pal�cio Albizzi, Fiora encontrou um bilhete que lhe tinha sido enviado � hora do meio-dia. Continha apenas algumas palavras e ela corou um pouco ao l�-las, sem poder conter um sorriso:</p><p>�S� penso em ti! Vem! A est�tua � muito menos bela do que tu. Ou est�s amanh� � noite nos meus bra�os, ou vou-te buscar. L.</p><p>A jovem dobrou o bilhete e meteu-o no corpete com um gesto um pouco nervoso de mais. Chiara desatou a rir:</p><p>Ele reclama-te?</p><p>Sim.</p><p>E... tu n�o tens vontade nenhuma de o fazer esperar?</p><p>N�o...</p><p>Entendido! Amanh� acompanhar-te-emos at� �s muralhas, Colomba e eu, e dar-te-ei dois criados para te acompanharem o resto do caminho.</p><p>Por que n�o vens, tu, passar uns dias comigo a Fiesole?</p><p>Talvez mais tarde... Louren�o n�o gostaria nada da minha presen�a e a mim n�o me apetece nada desagradar-lhe.</p><p>No dia seguinte, na via Calzaiuoli, Fiora, Chiara e Colomba, que tinham ido comprar tecidos ligeiros a pensar nos calores do Ver�o, sa�am de uma loja e encaminhavam-se para as suas mulas guardadas por dois criados quando a rua se encheu de uma multid�o aos berros e gesticulando, armada de paus, de facas e objectos diversos, que gritava �Morte aos Pazzi. Justi�a!... Liberdade!... � morte o Pazzi e a rapariga amarela!�</p><p>Jesus! gemeu Chiara. Ei-los que recome�am! Dir-se-ia que encontraram mais um!</p><p>O efeito dos gritos foi m�gico. Num abrir e fechar de olhos, os artigos foram retirados das montras, as persianas estalaram e o local ficou deserto.</p><p>Talvez fiz�ssemos bem em fugir, tamb�m n�s? tentou Colomba, que tentava subir para a sua mula ajudada por um dos criados. Mas Fiora, j� na sua sela, n�o a ouviu. Pelo contr�rio, a jovem fez avan�ar o seu animal alguns passos na direc��o da multid�o.</p><p>N�o! gritou Chiara, inquieta. Vais fazer com que te fa�am em postas!</p><p>Olha quem lidera a multid�o! disse ela, apontando com a chibata para o cavaleiro que marchava � cabe�a da horda e que se virava para vigiar qualquer coisa.</p><p>Chiara juntou-se � amiga.</p><p>� Luca! sussurrou ela, estupefacta. O que � que lhe deu para brincar aos caudilhos? E um caudilho bem encarni�ado!</p><p>Com efeito, a voz de Tornabuoni parecia dar ordens:</p><p>Ainda n�o! N�o vamos mat�-los j�! Degol�-los-emos sobre a tumba de Giuliano e levaremos as suas cabe�as ao meu primo Louren�o!</p><p>Um grito de aprova��o saudou aquelas palavras ferozes que encheram de repugn�ncia a alma de Fiora. Nunca imaginara que o seu antigo apaixonado fosse capaz de esconder sob um rosto de deus grego uma alma negra e os apetites dos mesmos Pazzi que queria degolar. Resolutamente, a jovem avan�ou para ele e colocou a sua mula de trav�s na rua. Chiara seguiu-a e os dois criados fizeram o mesmo, abandonando a pobre Colomba, persuadida de que as duas jovens iam ser massacradas e invocando os santos do Para�so com grandes gritos e l�grimas.</p><p>Esta �, sem d�vida, uma das facetas da tua coragem? lan�ou Fiora, desdenhosa, quando ficou suficientemente perto para se fazer ouvir. Quem pretendes tu degolar?</p><p>Olha! Fiora? Pensei que n�o quisesses dirigir-me mais a palavra? disse Luca com um sorriso que ela achou medonho.</p><p>N�o � a ti que eu estou a falar: � a um assassino em pot�ncia...</p><p>Subitamente, a jovem sentiu-se desmaiar, porque acabava de reconhecer os dois infelizes, um homem e uma mulher, que uns brutos obrigavam a caminhar � for�a a despeito da sua evidente fraqueza. Estavam ambos cobertos de poeira, esfarrapados e tinham os rostos cobertos de sangue. Mas eram, incontestavelmente, Carlo Pazzi e Khatoun. Com um grito de horror, Fiora for�ou a sua mula atrav�s da multid�o sem se preocupar com o que os cascos do animal pudessem esmagar. Como Chiara e os dois criados a seguissem, as pessoas afastaram-se, tanto mais que alguns sussurravam � sua passagem: �� a Fiora!... a amiguinha de monsenhor Louren�o... Chegada junto das duas v�timas que, esgotadas, se tinham deixado cair por terra de joelhos, a jovem desmontou e agarrou-se a Khatoun. E como um dos brutos tentasse impedi-la, ela lan�ou-lhe:</p><p>Atreve-te a tocar-me e ser�s enforcado! Esta jovem nunca foi uma Pazzi. Chama-se Khatoun, � t�rtara e � minha escrava.</p><p>Em seguida, virando-se, furiosa, na direc��o de Luca que se tinha aproximado:</p><p>N�o me digas que n�o a reconheceste? Viste-a mais de cem vezes em casa do meu pai!</p><p>Oh, � poss�vel! grunhiu ele mas, que faz ela com ele? N�o me digas que ele tamb�m n�o � um Pazzi? � o lament�vel Carlo, o aborto que a fam�lia escondia com tanto cuidado. Reconheci-o quando o vi atravessar a ponte com a rapariga.</p><p>Nesse caso, a culpa disto tudo � tua?</p><p>Pois claro! Nenhum Pazzi deve ficar vivo nesta terra que eles sujaram lan�ou ele com grande eloqu�ncia. Reconhe�o que posso ter cometido um erro no que diz respeito � tua escrava e, como tal, devolvo-ta. Leva-a e deixa-nos, para acabarmos com o outro!</p><p>Chiara j� se tinha apoderado da pobre pequena e os seus criados levavam-na para a loja de um botic�rio que acabava de se abrir para ela. Dava pena olhar para o pobre Carlo. Com as longas e esguias pernas dobradas, os olhos fechados e o rosto da cor da cinza, respirava com dificuldade e s� o punho dos seus carrascos o impediam de se abater. Fiora compreendeu que o combate ainda n�o terminara:</p><p>Est� fora de quest�o tu e os teus... amigos disporem da sua vida. Essa decis�o pertence a monsenhor Louren�o.</p><p>J� disse que lhe levaremos a sua cabe�a.</p><p>Mas eu n�o tenho a certeza, de que isso lhe agradar�. Ele proibiu os actos de justi�a demasiado expeditos e mais vale n�o desencadear a sua c�lera.</p><p>A sua c�lera? Por esta esc�ria da humanidade? Est�s a esquecer-te de uma coisa: foi a sua fortuna que pagou os assassinos de Giuliano.</p><p>Uma fortuna de que ele n�o dispunha. Ele era ref�m de Francesco Pazzi e � por isso que eu digo que s� o Magn�fico pode decidir da sua sorte. Estais a ouvir? acrescentou ela, erguendo a voz. Vamos, todos juntos, conduzir Carlo Pazzi ao pal�cio da Via Larga! Podeis estar certos de que o nosso pr�ncipe ficar� mais reconhecido perante uma homenagem viva do que perante uma homenagem morta!</p><p>Os gritos de descontentamento que se tinham erguido quando ela se tinha atirado para a batalha apaziguaram-se sensivelmente. A jovem falava em nome do senhor de Floren�a e aquela gente pensava que ela tinha esse direito. Fiora conseguiu, at�, alguns grunhidos de aprova��o ao acrescentar que, provavelmente, Louren�o saberia recompens�-los. Mas as coisas quase pioraram de novo quando ela pediu que Carlo fosse i�ado para a sua mula.</p><p>Ele aguentou at� aqui, pode muito bem aguentar at� ao pal�cio! exclamou uma esp�cie de colosso cujos bra�os nus, ostentando braceletes de couro e cuja t�nica, manchada de sangue enegrecido, o classificavam como pertencente � corpora��o dos carniceiros.</p><p>Fiora encolheu os ombros:</p><p>Ent�o, leva-o tu! �s suficientemente forte para isso. N�o v�s que ele est� meio-morto? Um cad�ver n�o te render� nenhuma moeda.</p><p>A jovem conseguiu o que queria: Carlo foi atirado como um saco para a garupa da mula cujas r�deas ela mesma segurava. Fiora sabia que a situa��o era dif�cil, mas por nada deste mundo, mesmo que tivesse de perder o amor de Louren�o, abandonaria �queles brutos o estranho rapaz que se declarara seu amigo quando a terra inteira se unia contra ela. Nesse instante, Chiara saiu da loja do botic�rio e abarcou a cena com um simples olhar, mas Fiora n�o lhe deu tempo para emitir a sua opini�o.</p><p>Leva Khatoun para tua casa, por favor! pediu ela docemente. Eu vou l� ter daqui a pouco.</p><p>N�o vais regressar a Fiesole?</p><p>N�o. Preciso de ver, antes, Louren�o.</p><p>E a jovem retomou o seu caminho � cabe�a de uma multid�o agora mais curiosa do que verdadeiramente excitada. Luca Tornabuoni marchava a seu lado com fei��es amuadas e o carniceiro ia do outro lado da mula. Ningu�m disse uma palavra at� que, ao virar de uma esquina, a silhueta imponente e familiar do pal�cio M�dicis apareceu com as suas enormes pedras aparelhadas e as suas janelas abobadadas. Em tempos, qualquer um teria podido transpor a soleira e penetrar, pelo menos, no grande p�tio quadrado, mas agora o port�o era guardado por guardas armados. A nobre morada devia ao assassinato de Giuliano o facto de ter perdido o car�cter am�vel e bondoso que a tornava t�o atraente. Ganhara a severidade altiva que Fiora vira nos pal�cios romanos. Decididamente, Floren�a mudara muito! Bem entendido, os soldados cruzaram as armas � chegada daquela multid�o sombria e vagamente amea�adora. E s� as descruzaram quando Luca Tornabuoni se deu a conhecer, mas Fiora reclamou Savaglio e o capit�o da guarda apareceu. Fiel ao seu h�bito, este foi de um humor massacrante:</p><p>Que se passa? gritou ele. Eu j� disse que n�o queria reuni�es em frente desta casa. Dispersai! Deixa-me, ao menos, entrar com esta mula e estes dois homens lan�ou Fiora. Quero ver monsenhor Louren�o.</p><p>O olhar de Savaglio, vivo e acerado, deteve-se em cada uma das tr�s fisionomias e depois no corpo inerte:</p><p>Ser Luca. n�o precisa de autoriza��o para ver o primo e tu tamb�m n�o, donna Fiora, mas esses dois outros n�o me parecem familiares. E essa gente?</p><p>Eles esperar�o tranquilamente enquanto eu lhe falo a s�s</p><p>- insistiu a jovem. Ele est�?</p><p>No seu gabinete. Eu levo-te l�...</p><p>Eu tamb�m quero ir! exclamou Tornabuoni e n�o percebo por que...</p><p>Vamos! Primeiro as damas! disse o chefe da guarda e o seu sorriso de lobo dizia da pouca estima que sentia pelo jovem. Estou certo que donna Fiora n�o demorar� muito. Tu podes bem esperar mais um momento...</p><p>Sempre a falar, Savaglio deu a volta � mula, procurando aperceber o rosto do homem que o animal transportava:</p><p>Est� morto?</p><p>N�o. Simplesmente desmaiado, creio eu, mas talvez precise de alguns cuidados! � Carlo Pazzi, messer Savaglio. Acabava de entrar em Floren�a quando foi atacado...</p><p>Cuidados a um Pazzi! D�s-te conta, Savaglio?</p><p>Fiora aproximou-se de Luca, o suficiente para que ele ouvisse o seu sussurro:</p><p>Toda a gente, aqui, sabe que ele � um inocente disse ela entredentes. No entanto, lembra-te, Luca, que uma das irm�s de Louren�o est� casada com um Pazzi... e que esse n�o foi inquietado... S� Louren�o poder� julgar este... e eu inclinar-me-ei perante a sua decis�o.</p><p>Sem esperar pela resposta, a jovem dirigiu-se em passo r�pido para a �ngreme escadaria que ia dar aos andares superiores logo seguida por um criado encarregado de a anunciar, j� que Savaglio decidira, em �ltima inst�ncia, ficar de olho naquele bando que n�o lhe inspirava nenhuma confian�a.</p><p>Atr�s do dorso solene do criado, Fiora percorreu as divis�es cuja magnific�ncia lhe era familiar. A jovem conhecia, h� muito, as grandes tape�arias tecidas a ouro, os m�veis preciosos dispersos numa desordem propositada sobre espessos tapetes vindos da P�rsia ou do long�nquo Cathay os aparadores atafulhados de objectos de ouro, de prata ou de cobre, incrustados de pedras preciosas, todo o luxo que uma grande fortuna e um gosto sem defeito podiam reunir em torno de um homem. Fiora penetrou, enfim, numa divis�o onde uns grandes arm�rios pintados, subindo at� ao tecto armoriado e dourado, deixavam ver uma profus�o de livros encadernados a couro, a pergaminho, a veludo e at� a prata cinzelada. No momento da sua entrada, Louren�o de M�d�cis sa�a t�o impetuosamente que quase a atirou por terra. Ele reteve-a e apertou-a um instante contra si:</p><p>Tu? Que bela surpresa!... Espera por mim um instante, tenho de ir ver que tumulto � este...</p><p>Eu venho, justamente, falar-te dele. Este tumulto � um pouco por minha causa. Anda ver!</p><p>Ela levou-o at� � galeria que dava para o p�tio e mostrou-lhe o pequeno grupo formado por Luca, a mula que Savaglio livrava da sua carga sem grande suavidade e o carniceiro.</p><p>Exigi que o teu primo e a horda que ele reuniu para degolar aquele infeliz sobre o t�mulo de Giuliano o trouxessem primeiro at� aqui para que tu decidisses.</p><p>Parece-me que o conhe�o disse Louren�o, semicerrando os olhos m�opes para ver melhor. Dir-se-ia que � Carlo Pazzi, o Inocente � ele mesmo. Acaba de chegar de Roma na companhia de Khatoun, a minha antiga escrava t�rtara que Catarina Sforza me deu. O teu primo e um bando de brutos estavam a maltrat�-los quando eu intervim com Chiara e dois criados. Khatoun, a esta hora, j� deve estar no pal�cio Albizzi, onde est�o a tratar dela. Agora, cabe-te a ti decidir da sorte de Carlo, mas devo prevenir-te que n�o suportarei que lhe fa�am mal.</p><p>Sem responder, Louren�o debru�ou-se na balaustrada e ordenou ao seu capit�o que levassem o prisioneiro at� ele. Em seguida, levou Fiora pelo bra�o at� � biblioteca, onde a fez sentar perto de um grande vaso de ametista incrustado de p�rolas, a principal maravilha daquela divis�o.</p><p>De onde conheces tu Carlo Pazzi? perguntou ele, por fim, e a sua voz incisiva tinha aquela resson�ncia met�lica de que Fiora aprendera a desconfiar.</p><p>De Roma. Foi ele que me ajudou a fugir a meias com a condessa Riario. Tenho de te lembrar a carta que te trouxe? Ambos desejavam ardentemente que o atentado falhasse.</p><p>Donna Catarina tinha uma raz�o disse o Magn�fico com um encolher de ombros. Ela amava o meu irm�o. Mas ele, que raz�o poderia ter?</p><p>Tu foste bom para ele, ao ponto de o quereres confiar aos cuidados de Dem�trios. Ele estava persuadido de que tu eras o seu �nico amigo nesta cidade.</p><p>A entrada de Savaglio, seguido dos dois guardas segurando Carlo, interrompeu a jovem. Com os olhos fechados, o infeliz respirava com dificuldade e no seu rosto magro o sangue deixara, ao secar, tra�os negros. Estenderam-no sobre uma esp�cie de banco guarnecido de almofadas. Com o pesco�o torcido que o obrigava a manter a cabe�a inclinada e os longos membros franzinos privados de vida, parecia-se com um fantoche desarticulado. Cheia de piedade, Fiora foi ajoelhar-se junto dele reclamando �gua fresca, ligaduras, sais e um pouco de aguardente. Um criado trouxe o que ela pedira e juntou os seus esfor�os aos da jovem para tentar reanimar o infeliz. De p� por tr�s de ambos, Louren�o, com o olhar carregado de nuvens, observava-os. Por fim, quando j� come�avam a desesperar, o ferido exalou um profundo suspiro e abriu penosamente os olhos. Mas qualquer coisa brilhou nas profundezas azuis ao reconhecer o rosto inclinado sobre si.</p><p>Fiora! sussurrou ele. � um milagre! Estais... estais bem?</p><p>A pergunta, feita com voz infantil mas comovedora, f�-la sorrir. Apesar de meio-morto, o primeiro pensamento daquele estranho rapaz fora para a sua sa�de.</p><p>Muito bem, Carlo... e gra�as a v�s. Com efeito, � um milagre estarmos os dois juntos, mas, que viestes aqui fazer? N�o sab�eis o perigo que corr�eis?</p><p>Oh sim! Mas n�o podia ficar em Roma. O Papa est� furioso com os M�dicis... e convosco. S� fala de guerra! Quanto a mim, j� n�o era sen�o um vest�gio das suas esperan�as defuntas e teria sido morto se donna Catarina n�o me tivesse escondido. Foi ela que nos deu os meios para que Khatoun e eu pud�ssemos sair de Roma. Khatoun queria juntar-se a v�s...</p><p>E v�s? Quer�eis assim tanto encontrar-me?</p><p>Seguiu-se um pequeno sil�ncio e o rosto ferido esbo�ou a sombra de um sorriso t�mido.</p><p>N�o. Eu sabia que n�o ter�eis nenhum prazer em me ver de novo. O que eu esperava... era regressar ao meu jardim de Trespiano. Vivi l� os �nicos dias felizes da minha vida. Quanto � com�dia que nos fizeram representar, gostaria que a esquec�sseis e que continu�sseis a viver como se eu n�o existisse...</p><p>Qual com�dia?</p><p>Aquela pergunta fora feita pela voz �spera e brutal de Louren�o. Erguendo a cabe�a para ele, Fiora viu a prega amarga da sua boca e a luz inquietante acesa pela c�lera nos seus olhos negros. A jovem conhecia-o demasiado bem para ignorar que o Magn�fico n�o se contentaria com uma meia verdade. Sem largar a m�o de Carlo que, cansado de falar, se abandonava � fadiga, Fiora declarou com uma voz que s� o Magn�fico poderia ouvir:</p><p>Na v�spera do dia em que fugi de Roma, o Papa casou-nos na sua capela privada...</p><p>Nesse momento, como se o c�u estivesse � espera daquelas palavras para manifestar a sua desaprova��o, um violento trov�o rolou de uma ponta � outra da cidade e uma chuva diluviana abateu-se, saudada de imediato por um clamor rancoroso da multid�o aglomerada diante do pal�cio:</p><p>� morte o Pazzi! Que no-lo entreguem! Apavorada, Fiora apertou ainda mais a m�o franzina que segurava e murmurou:</p><p>Se o entregas, Louren�o, ter�s de me entregar tamb�m...</p></section><section><title><p>CAP�TULO II</p><p>O VISITANTE DO DIA DE S�O JO�O</p></title><p>O instante que se seguiu foi aterrador. De p� diante do grupo formado pelo ferido estendido e a jovem ajoelhada junto dele, Louren�o, cujo traje negro fazia maior ainda, dominava-o com a sua sombra amea�adora. Os seus punhos cerrados e o seu rosto crispado traduziam uma c�lera muda que se aproximava talvez, at�, do desejo de assass�nio. Fiora, fazendo apelo a toda a sua coragem, ergueu-se lentamente e fez-lhe frente, consciente de desafiar um potentado desejoso de vingan�a e j� n�o o homem que, por vezes, delirava de amor nos seus bra�os.</p><p>Decide! disse ela. Mas decide depressa! Est�s a ouvi-los?</p><p>Os uivos iam-se amplificando. O aguaceiro n�o dispersara a multid�o que, pelo contr�rio, devia ter engrossado, mas Louren�o parecia n�o ouvir os gritos de morte. O seu olhar vasculhava o da sua amante, como se procurasse arrancar-lhe uma qualquer verdade escondida.</p><p>Uma Pazzi! disse ele, por fim. Tu, uma Pazzi e esposa deste miser�vel dejecto...</p><p>A indigna��o que ela sentiu misturou-se com uma amarga decep��o. Que motivo, sen�o um ci�me primitivo de macho, o mais baixo, j� que n�o tem a desculpa do amor animava aquele esp�rito geralmente brilhante para a insultar daquela maneira?</p><p>Um casamento for�ado n�o vale perante Deus, mesmo que aben�oado pelo Papa disse ela. Quanto a Carlo, n�o me tocou.</p><p>Em seguida, com um desd�m que fez corar as faces de Louren�o:</p><p>Tinhas obriga��o de me conhecer melhor, mas apercebo-me de que n�o sou para ti mais do que um corpo para te satisfazeres, pouco mais do que uma cortes�. Nesse caso, podes entregar-me sem arrependimentos, porque n�o me submeterei mais aos teus desejos.</p><p>Que quer dizer isso? grunhiu ele.</p><p>Que partirei amanh� para Fran�a... na condi��o, evidentemente, de n�o ser massacrada dentro de uma hora com Carlo.</p><p>N�o me desafies, Fiora! N�o ganhas nada com isso.</p><p>Eis que reaparece o banqueiro. Alguma vez tentei aproveitar-me de ti? O que me deste, n�o o levarei, podes ter a certeza! Deixarei tudo com Dem�trios. E se �s incapaz de reconhecer os teus amigos, se a piedade te � desconhecida, o meu lugar n�o � junto de ti.</p><p>Com um gesto imperioso, a jovem afastou-o do seu caminho e dirigiu-se para a porta. Ele juntou-se-lhe:</p><p>Onde vais?</p><p>Vou dizer a verdade a Luca Tornabuoni. Vou-lhe dizer que Carlo � meu marido e que, se o quiser matar, ter� de me matar tamb�m a mim.</p><p>Mas, enfim, por que raz�o queres tanto que ele viva, como pretendes, se foste casada � for�a? A sua morte libertar-te-ia e tu sabe-lo bem.</p><p>A minha liberdade? Foi ele que ma devolveu ao conduzir-me ao pal�cio Riario e ao regressar para sua casa com Khatoun vestida com as minhas roupas. Quanto a p�r em d�vida a minha palavra, � indigno! Lembra-te do homem que era Philippe de Selongey Eu amava-o, ainda o amo e tu tens o descaramento de dizer que casei de boa vontade?</p><p>Oh, n�o o esqueci!</p><p>Agarrando em Fiora por um bra�o, Louren�o arrastou-a, mais do que a conduziu, at� um valioso espelho de Veneza que, colocado perto de uma janela, reflectia sobre a ordem calma e harmoniosa do jardim interior. A sua dupla imagem surgiu:</p><p>Olha! Olha bem!... Eu sou feio, Fiora, sou, at�, horrendo e Carlo n�o � mais do que eu. No entanto, deixaste que te p�ssu�sse vezes sem conta! Melhor ainda, foste tu que te ofereceste na primeira noite. Lembra-te! Foste tu que me conduziste ao teu quarto, foste tu que desataste os cord�es da tua camisa. Foi por amor ao teu marido que me revelaste o teu corpo, que me atra�ste?</p><p>Desejava-te... e esse desejo n�o est� saciado, sen�o teria partido...</p><p>Tu gostas do amor que eu te dou, mas � nele que continuas a pensar, nesse borgonh�s insolente, mesmo depois de morto, cuja recorda��o eu pensava ter exorcizado.</p><p>Certas recorda��es s�o imposs�veis de apagar, Louren�o!</p><p>A s�rio? Somos assim t�o parecidos, ao ponto de aceitares as minhas car�cias... e at� as provocares no mesmo quarto onde ele fez de ti uma mulher? � nele que pensas quando gemes por baixo de mim? No entanto, a tua boca diz o meu nome quando atinges o �xtase...</p><p>Ent�o, foi por essa raz�o que foste ter comigo na noite que se seguiu ao crime? murmurou Fiora com amargura. Pela alegria da vingan�a, por poderes triunfar de um morto? E eu que pensava que tu precisavas de mim como eu precisava de ti! Isso prova apenas que foi tudo um mal-entendido... Mas, que esperas tu provar ao dizer que Carlo ainda � mais feio do que tu? Que me basta fechar os olhos para acolher qualquer homem a partir do momento em que ele seja mesmo homem?</p><p>Uma voz fraca, que parecia sair do pr�prio ch�o de madeira preciosa, fez-se ouvir, uma voz que dizia:</p><p>Louren�o, Louren�o!... Quando tu respiras o perfume de uma rosa, perguntas-lhe se ela se lembra das m�os que a fizeram desabrochar? Para onde foi a tua filosofia? Agarrar o momento, n�o � verdade? Parece-me que est�s bem longe disso!</p><p>Com sincero estupor, Louren�o olhou para o ferido. Apoiado num cotovelo, este endireitara-se e olhava para os dois amantes com, no fundo dos seus olhos azuis, uma pequena chama ir�nica.</p><p>Carlo! murmurou o Magn�fico. Eu pensava que eras um idiota!</p><p>Eu sei. E eu pensava que tu eras inteligente. Portanto, � preciso ser um deserdado como eu para saber apreciar um presente fabuloso da vida? N�s somos amigos, Fiora e eu e isso d�-me tanta alegria que aceito ser entregue �quela gente que continua a esgani�ar-se � chuva, enquanto tu, privilegiado entre os privilegiados, feliz entre os felizes porque ela se te entregou, continuas � procura do que pode estar escondido por tr�s das tuas noites de felicidade...</p><p>� custa de um violento esfor�o que o fez empalidecer ainda um pouco mais, Carlo conseguiu sentar-se.</p><p>O que eu perguntaria a mim pr�prio, se estivesse no teu lugar, seria como conserv�-la. Mas, ao fim e ao cabo, talvez n�o estejas muito interessado.</p><p>Carlo procurava um apoio para se poder p�r de p�. Fiora precipitou-se, sentou-se junto dele e, passando-lhe um bra�o em redor dos ombros, obrigou-o a ficar im�vel, enxugando com a ajuda do seu len�o o suor que lhe perlava a fronte.</p><p>Onde tencionais ir?</p><p>Servir de pasto �queles corvos aos gritos disse ele com uma pequena risada. Mas n�o v�o ter grande coisa: eu j� estou meio-morto. At� certo ponto, fazem-me um favor...</p><p>Vamos juntos, Carlo. Monsenhor Louren�o nunca foi capaz de impor a sua lei quando Floren�a se incendeia. Uma maneira como outra qualquer de a fazer acreditar que ainda � uma rep�blica...</p><p>O desd�m que vibrava na voz da jovem esbofeteou Louren�o:</p><p>Dispenso os teus sarcasmos, Fiora! Ficai ambos tranquilos! J� � tempo, com efeito, que se saiba quem manda aqui!</p><p>Dez minutos mais tarde, a via Larga reencontrava o seu aspecto habitual. A chuva cessara t�o subitamente como surgira e os guardas do pal�cio retomavam a cad�ncia do seu lento passeio. Um pouco por toda a parte, na grande art�ria, as persianas desciam sobre as lojas. Os comerciantes sa�am das suas casas, como os outros homens, porque era a hora sagrada da passeggiata, hora a que, enquanto as suas mulheres se afadigavam na prepara��o da refei��o da noite, os florentinos juntavam-se diante do Duomo, da Senhoria ou no Mercato Vecchio para discutir os neg�cios do dia ou falar de pol�tica. Os jovens elegantes,</p><p>1 Passeio</p><empty-line/><p>esses, escolhiam antes a ponte Santa Trinita, que conhecia sempre, ao p�r do Sol, a mais brilhante das anima��es. Paradoxalmente, era tamb�m a hora em que os muros da cidade pareciam ressumar uma estranha melancolia, aquela morbidezza que tinha um certo encanto e que os sinos do �ngelus acompanhavam como outras tantas vozes celestes. As dos homens suavizavam-se e um doce murm�rio erguia-se sobre a cidade.</p><p>Encostada a um dos arm�rios marchetados que aumentavam a profundidade das seteiras, Fiora deixava o seu olhar divagar pelos grupos de trajes e gib�es de cores escuras que, em passo tranquilo, se dirigiam para o encontro vespertino conversando polidamente. Aquela cidade parecia, na verdade, incompreens�vel, uma cidade que fazia da arte de viver e dos s�bios preceitos da filosofia o supra-sumo da civiliza��o e que, ao mesmo tempo, paria uma multid�o uivadora �vida de sangue e capaz de cobrir as suas ruas e pra�as de despojos humanos.</p><p>Carlo, deitado de novo no seu banco, tinha os olhos fechados. Parecia sofrer e, com toda a evid�ncia, o seu estado necessitava da presen�a de um m�dico... Quando Louren�o regressou, encontrou Fiora de p� junto dele e segurando-lhe na m�o:</p><p>Dir-se-ia que conseguiste dispers�-los? constatou a jovem. Que lhes disseste?</p><p>Que ele morreu disse ele, designando com o queixo o corpo estendido.</p><p>Fiora teve um leve sorriso, suficientemente desdenhoso para traduzir o seu pensamento, melhor do que quaisquer palavras. Louren�o encolheu os ombros, furioso:</p><p>Ainda n�o est�s satisfeita, pois n�o? Que significa esse sorriso?</p><p>Nada... ou muito pouco! Simplesmente, pergunto a mim pr�pria se ousar�s algum dia, um s�, opor a tua vontade a um tumulto. O que me espanta � eles n�o terem reclamado o corpo para o fazerem em fanicos sobre o t�mulo de Giuliano!</p><p>Eles reclamaram-no. Sobretudo aquele burro do Luca. Mandei-o para casa, acrescentando que, se o visse outra vez a brincar aos caudilhos, o atirava para a Stinche como rebelde.</p><p>1 A pris�o de Floren�a</p><empty-line/><p>E depois?</p><p>N�o te ponhas com esse ar de juiz presidindo a um tribunal, Fiora! Est�s a irritar-me! Lembrei a minha interdi��o de tocar em qualquer sepultura, seja ela qual for. E, para o provar, disse que Pazzi seria enterrado secretamente onde eu achasse que devia ser enterrado... E agora vou mandar lev�-lo para um quarto.</p><p>Para que os teus criados saibam que mentiste? Rica ideia! N�o podias, tamb�m, pensar na tua m�e e na tua mulher?</p><p>Nem uma nem outra est�o c�. Mandei-as para a villa di Castello assim que o bom tempo regressou, para que possam encontrar paz e sossego. Quanto aos meus criados...</p><p>Esquece-os! Ou antes, diz �queles em quem mais confias que preparem uma liteira que feche bem e que reunam uma escolta comandada por Savaglio. Vou levar Carlo para minha casa, para Fiesole. Ningu�m o tratar� t�o bem como Dem�trios.</p><p>Queres partir esta noite? Isso � uma loucura! O povo vai fazer perguntas ao ver uma liteira t�o bem guardada!</p><p>N�o far� perguntas nenhumas pela simples raz�o de que, aqui, ningu�m ignora que eu sou a tua favorita do momento. Ningu�m se mostrar� surpreendido por tu mostrares alguma solicitude.</p><p>Ele reflectiu por uns momentos e depois, aproximando-se da jovem, tomou-a nos bra�os sem parecer aperceber-se da sua ligeira resist�ncia e escondeu-lhe o rosto no pesco�o:</p><p>Ent�o, fa�amos melhor ainda! murmurou ele. Savaglio fica aqui e eu pr�prio te escoltarei.</p><p>Queres?...</p><p>Por que n�o? J� que toda a gente est� ao corrente, n�o h� raz�o para n�o agirmos � luz do dia. Arrisco-me apenas, ao longo do caminho, a receber algumas piadas lascivas sobre os prazeres que vou ter � noite. N�o, n�o digas nada! Lembra-te da minha carta: n�o quero ficar sem ti mais uma noite...</p><p>Ora, nessa noite, Fiora n�o reencontrou a felicidade indolente que conhecera durante as �ltimas semanas. Talvez porque n�o se sentisse verdadeiramente livre. No quarto vizinho, vazio at� �quela noite, Carlo repousava, profundamente adormecido gra�as � droga administrada por Dem�trios para lhe acalmar as dores. O jovem sofria, de v�rias costelas partidas, sem contar com as diversas esfoladelas no rosto e no couro cabeludo. Mas a sua presen�a no outro lado da parede incomodava Fiora e nem toda a arte amorosa de Louren�o foi capaz de a descontrair...</p><p>Ap�s se saciar uma primeira vez, este apercebeu-se e ap�s algumas tentativas para acordar naquele belo corpo um ardor igual ao seu, acabou por se deixar cair no leito, os olhos fixos no dossel cujas cortinas brancas os envolviam com uma luminosidade rosada provocada pela vela.</p><p>Devias ter-me dito a verdade - suspirou ele. J� n�o me amas?</p><p>Eu nunca te disse que te amava murmurou Fiora. Tu tamb�m n�o, ali�s...</p><p>Estou a prov�-lo, parece-me?</p><p>N�o. Est�s a provar o teu desejo, o teu cora��o n�o � para a� chamado.</p><p>Mas estou cheio de ci�mes e, h� pouco, teria estrangulado aquele infeliz.</p><p>E isso ser� mesmo ci�me? Tu sabes que ele n�o fez nada e que nunca poderia haver nada entre n�s. N�o ser� antes por ele ser um Pazzi?</p><p>Talvez... se bem que ele me inspire, antes de mais, piedade. Mas tu, Fiora, que te diz o teu cora��o acerca de mim?</p><p>Honestamente, n�o sei. Eu gosto do amor que tu me d�s e o meu corpo excita-se quando tu te aproximas...</p><p>Esta noite n�o, em todo o caso!</p><p>Concordo... mas n�o me queiras mal por isso: o dia foi dif�cil.</p><p>Al�m disso, n�o suportas a ideia de uma presen�a no outro lado da parede?</p><p>Tamb�m. Sinto um inc�modo bizarro... como se f�ssemos verdadeiramente casados.</p><p>De repente, a jovem ouviu-o rir-se:</p><p>Se � s� isso!</p><p>Saltando do leito, ele enfiou os cal��es e as botas, enrolou Fiora num len�ol, atirou-lhe para cima com algumas almofadas apesar dos seus protestos e depois, agarrando no todo saiu do quarto, desceu as escadas, atravessou o vest�bulo e desatou a correr atrav�s do jardim ainda molhado da �ltima chuvada at� � pequena gruta onde Francesco Beltrami gostava de se refugiar durante os dias quentes de Ver�o. Uma tina e uma bica com cabe�a de le�o ocupavam o centro e a can��o da �gua acalmava o esp�rito muitas vezes acabrunhado do grande negociante.</p><p>Louren�o pousou Fiora no ch�o, espalhou as almofadas e deixou-se cair em cima delas com a jovem, que desenrolara, entretanto, do len�ol, como se fora um pi�o:</p><p>Pronto! declarou ele alegremente. Acabaram-se os vizinhos inc�modos! Doravante amar-nos-emos aqui.</p><p>Fiora n�o p�de resistir. Arrebatada por uma sarabanda louca de car�cias, deixou que a sua necessidade de amor e a sua juventude levassem a melhor.</p><p>No dia seguinte, atrav�s da magia do Magn�fico, a pequena gruta, vestida com grandes l�rios de �gua, de cetins irisados, de cristais glaucos e com um tapete sedoso que lembrava erva azul, assemelhava-se aos retiros encantados dos contos orientais. O amor experimentou ali um sabor novo porque se libertava dos constrangimentos impostos pela grande villa e dava aos dois amantes a impress�o deliciosa de estarem s�s no cora��o do primeiro jardim do mundo.</p><p>Uma noite em que, ap�s se terem banhado e feito amor na tina e enquanto Louren�o enxugava com um cuidado devoto o corpo de Fiora, esta, que molhava os l�bios numa ta�a de vinho de Chipre, suspirou, estendendo-a ao amante:</p><p>Tenho vergonha de mim pr�pria, Louren�o... Nunca conseguirei arrancar-me a ti...</p><p>Espero bem que n�o. E por que raz�o nos hav�amos de separar?</p><p>Esqueces que tenho um filho, que n�o o vejo h� meses... e que tenho saudades dele.</p><p>Eu mando-o vir em breve. Sabes, eu penso muito em n�s e n�o me faltam projectos. At� dei ordens para que reparem, para ti, o antigo pal�cio Grazzini. Viver�s l� com o teu filho e os teus criados sob o nome de Selongey. N�o... n�o digas nada! Farei do teu filho um dos primeiros homens de Floren�a. Ser� rico, poderoso e nada o impedir�, chegada a ocasi�o, de ir servir com as suas armas o soberano que quiser escolher... Quanto a n�s, ficaremos juntos, minha flor preciosa, e poderei continuar a rodear-te de cuidados... e de amor.</p><p>De amor?</p><p>Claro. Se o que nos une n�o � isso, parece-se terrivelmente. Floren�a vai viver dias sombrios, Fiora. Eu vou precisar, mais do que nunca, das horas incompar�veis que tu me d�s. Quanto a ti, desempenhar�s, no cora��o dos meus s�bditos, o papel que pertencia a Simonetta, porque a sua natureza profunda � atra�da pela beleza perfeita. A eles, parece-lhes que Floren�a n�o pode brilhar se n�o estiver encarnada numa mulher deslumbrante... N�o te preocupes com nada! Deixa-me agir! Juntos, ganharemos a batalha contra este Papa indigno, que quer o nosso exterm�nio.</p><p>Sisto IV abrira as hostilidades. Uma breve, datada de 1 de Junho de 1478, excomungava ao mesmo tempo Louren�o, �filho da iniquidade�, cujo maior defeito, aos seus olhos, era estar ainda vivo e os priores da Senhoria, �possu�dos de sugest�o diab�lica e dominados, como c�es, por uma raiva delirante�, por terem ousado enforcar um arcebispo nas suas janelas.</p><p>Louren�o recebeu a not�cia sem pestanejar. As c�leras de um Papa indigno n�o o interessavam. Contentou-se a reenviar para Siena, sob uma boa escolta, o jovem cardeal Rafaele Riario que, ap�s o assass�nio cometido na catedral, vivia num estado de estupor profundo. O que n�o acalmou, de modo nenhum, o pont�fice ulcerado. Os Florentinos receberam ordem de entregar Louren�o de M�dicis a um tribunal eclesi�stico, diante do qual ele responderia pelos seus crimes. Uma ordem que n�o teve sucesso. O povo recusou todo e qualquer convite � revolta: n�o aceitava nenhuma ordem do Papa de car�cter temporal. E fechou-se de corpo e alma em redor do pr�ncipe a quem se entregara, partilhando o desgosto que lhe causava a morte do irm�o, aquele Giuliano em quem todos os Florentinos viam a imagem acabada do encanto e arte de viver da sua cidade.</p><p>O Papa preparou-se, ent�o, para a �guerra santa�. Ao mesmo tempo que recrutava condottieri e refor�ava a sua alian�a com N�poles e Siena, escrevia a toda a Europa, convidando os pr�ncipes crist�os a tomar parte no cerco final.</p><p>O resultado desse fulminante correio pontif�cio foi muito diferente do que o seu autor esperava. Os soberanos da Europa n�o viam qualquer motivo para se lan�arem ao ataque de Floren�a apenas para agradar a um papa que queria punir, atrav�s do exterm�nio de uma cidade, um atentado sacr�lego cometido numa igreja. As mensagens chegadas ao Vaticano, plenas de rever�ncia e f�rmulas atenciosas, demonstravam uma vulgaridade desencorajante. Um s� destinat�rio n�o respondeu: o Rei de Fran�a, decidido a dar a conhecer, assim, a sua opini�o.</p><p>Numa tarde de meados de Junho, Fiora, sabendo que Louren�o, retido pelos neg�cios, n�o iria ter consigo nessa noite, passeava-se no jardim com Dem�trios e Carlo, este sustido por ambos, um de cada lado. Admiravelmente tratado pelo grego, livre dos impiedosos constrangimentos impostos a si pr�prio desde a inf�ncia a fim de sobreviver, o jovem abandonava-se � simples alegria de viver. Naquele enquadramento, parecido com o que amava, Carlo podia receber cuidados atentos, sentir a amizade e passar os dias entre um homem de esp�rito profundo e de grande cultura e uma mulher encantadora que lhe testemunhava uma afei��o de irm�. O jovem n�o ignorava, evidentemente, o que acontecia muitas noites na pequena gruta, mas, como nunca se considerara marido de Fiora, limitava-se a sorrir, feliz por, ap�s tanto sofrimento, a sua amiga encontrar, finalmente, um pouco de felicidade. Entretanto, era demasiado fino para n�o sentir o lado prec�rio daquele romance apaixonado.</p><p>Dois solit�rios que um naufr�gio atirou para um mesmo barco! disse ele um dia a Dem�trios. Ambos encontraram nele v�veres e, porque o mar acalmou, porque o c�u ficou azul, esperam chegar a uma qualquer costa encantada para ali viverem um amor e uma juventude eternos.</p><p>Cr�s, na verdade, que o amor deles est� amea�ado?</p><p>N�o pode deixar de estar; s�o demasiado diferentes um do outro. Fiora � demasiado nobre, demasiado orgulhosa para este papel de favorita, publicamente declarado, que Louren�o lhe imp�e. Al�m disso... ela n�o o ama verdadeiramente. Se os seus olhos n�o brilham quando ouve pronunciar o seu nome, � porque n�o ecoa no seu cora��o.</p><p>Poder� vir a ecoar, um dia? Por vezes, uma paix�o carnal transforma-se em sentimentos profundos.</p><p>Enche um tambor de areia e bate depois nele! Nunca vibrar�. O cora��o de Fiora � esse tambor e a recorda��o de um outro amor enche-o por completo.</p><p>Mas esse amor est� morto.</p><p>Talvez, mas isso n�o muda nada. Louren�o, apesar de n�o o saber, limita-se a ajudar Fiora a passar os dias de modo agrad�vel enquanto ela espera reencontrar, no fim do caminho, para a eternidade, a m�o que ela escolheu...</p><p>A partir desse momento, Dem�trios votou ao jovem enfermo uma amizade que se assemelhava a uma verdadeira afei��o. Uma vez curado dos seus ferimentos, j� que n�o podia fazer grande coisa por aquele corpo desgra�ado, prometeu a si pr�prio ajudar a desabrochar uma intelig�ncia que conquistara o seu respeito.</p><p>O m�dico pensava nessa conversa enquanto os tr�s desciam lentamente os degraus largos e suaves que ligavam os diferentes terra�os do jardim. Entretanto, Fiora parecia feliz. Sustendo o bra�o esquerdo de Carlo, falava alegremente, explicando os melhoramentos que contava fazer na sua casa e arredores. O seu perfil fino, velado por um ligeiro e fr�gil v�u azul, destacava-se com a nitidez de uma antiga cinzelagem nas long�nquas colinas cor de malva e o grego interrogou-se: Carlo teria raz�o ao cr�-la ainda habitada pelo amor de outros tempos? A jovem parecia de tal modo viver a hora presente! Era como se tivesse esquecido aqueles de quem estava afastada h� meses: a sua casa de Touraine, a sua velha L�onarde e, sobretudo, o seu filho. Aquela que se regozijava em segredo a chamar de filha tornara-se naquela criatura superficial, unicamente preocupada com as suas noites ardentes com Louren�o, n�o esperando outra coisa da vida?</p><p>Estou a ficar velho, pensou Dem�trios com alguma tristeza, j� n�o sou capaz de ler o seu cora��o e, sobretudo, os olhos do meu esp�rito perderam o poder de perfurar as brumas do futuro. No entanto.</p><p>Um som de passos r�pidos no cascalho do jardim acordou-o da sua medita��o. Descendo a alameda onde umas laranjeiras envasadas, recentemente sa�das da sala da villa onde tinham passado o Inverno, alternavam com loureiros metidos em altos vasos de barro vermelho, Esteban, que vinha da cidade, acorria a toda a pressa.</p><p>Trago not�cias! gritou ele de longe assim que viu os passeantes. O Rei de Fran�a enviou um embaixador a monsenhor Louren�o!</p><p>O castelhano vinha esbaforido e as �ltimas palavras perderam-se um pouco no vento da tarde, mas Fiora tinha percebido o principal: Isso � bom, ou mau? perguntou ela sem procurar dissimular uma certa inquieta��o.</p><p>Muito bom, certamente! E melhor ainda porque se trata de um dos vossos amigos!</p><p>Um amigo? Quem? Falai, Esteban, fazeis-nos morrer de ansiedade!</p><p>Messire Philippe de Commynes, donna Fiora! N�o ides dizer-me que n�o � um amigo! Chega pelo S�o Jo�o. Monsenhor Louren�o, com quem estive h� uma hora na Badia, foi avisado por um cavaleiro r�pido logo a seguir ao meio-dia.</p><p>Quem � esse Philippe de Commynes? perguntou Carlo, que se interessava cada vez mais, a cada dia que passava, pela vida exterior.</p><p>� o melhor conselheiro do Rei Lu�s a despeito da sua pouca idade, porque ainda n�o chegou aos trinta. Durante muito tempo ao lado do defunto duque de Borgonha, abandonou-o ao perceber a pol�tica r�gida que este queria exercer. Conhe�o-o bem, com efeito e creio poder afirmar, como Esteban, que � para mim um excelente amigo.</p><p>A sua visita d�-vos prazer, ent�o?</p><p>Evidentemente. Espero ter, atrav�s dele, not�cias recentes do meu filho...</p><p>N�o quero diminuir a tua alegria, Fiora cortou Dem�trios mas, como pode messire de Commynes trazer-te not�cias? Ele ignora, certamente, que tu est�s aqui.</p><p>Dem�trios tinha raz�o e o olhar da jovem encheu-se de sombras. As �ltimas not�cias dela chegadas a Fran�a deviam ter sido levadas por Douglas Mortimer. Mortimer, que assistiu, na capela papal, ao seu casamento com Carlo Pazzi...</p><p>Dem�trios seguira o fio do pensamento no rosto m�vel da jovem. O m�dico sorriu e segurou-lhe numa das m�os.</p><p>N�o fiques triste! Eu procuro, apenas, poupar-te a uma desilus�o. Mas o teu rapto de Plessis-les-Tours deve ter feito algum barulho e o nosso amigo Commynes poder�, pelo menos, dizer-te o que se passou depois.</p><p>N�o estou muito certa. Ele estava, ent�o, exilado em Poitou por ter ousado criticar a crise de viol�ncia que o Rei Lu�s atravessava. No entanto, o facto de ser ele o embaixador j� �, em si, uma boa not�cia. Isso prova que ele reencontrou a confian�a daquele a quem ele gosta de chamar o �nosso sir. E que chegue pelo S�o Jo�o, a nossa grande festa, � um bom aug�rio.</p><p>De regresso ao seu quarto onde Khatoun, curada dos seus pavores e escoria��es, a esperava comendo pist�cio, Fiora sentiu-se estranhamente sobreexcitada. A ideia de rever Commynes sorria-lhe: n�o era ele um dos de quem mais gostava entre os que deixara para l� dos montes? Gra�as a ele, podia conhecer as disposi��es actuais do Rei para com ela. Que Lu�s fizera muito para a tirar da m� situa��o para a qual a cupidez de Riario e de Hieronyma a tinham atirado era um facto, mas ela sabia-o inconstante e, sobretudo, exigente: como teria reagido ao seu casamento com Carlo?</p><p>Para Floren�a, fosse como fosse, a not�cia n�o podia deixar de ser boa. Fiel h� muito � alian�a com os M�d�cis e pouco dado a indulg�ncias para com um Papa que n�o cessava de o ofender, Lu�s XI, ao enviar o seu melhor conselheiro, procurava, certamente, tranquilizar os seus amigos florentinos...</p><p>Enquanto Khatoun a ajudava a despir-se, Fiora pensou que Louren�o n�o teria oportunidade de se encontrar de novo com ela antes do S�o Jo�o. Os preparativos da festa mais importante j� que se tratava da festa do santo patrono da cidade, aquele a quem esta fora dedicada com o Baptist�rio, a sua j�ia mais preciosa a�ambarcariam o Magn�fico, sobretudo depois de ele saber da chegada de um embaixador amigo. A jovem n�o sentiu qualquer pena. Pelo contr�rio, coisa curiosa, sentiu, mesmo, uma esp�cie de al�vio e, nessa noite, s� sob as cortinas cor de neve do seu grande leito, prometeu a si pr�pria mandar um bilhete no dia seguinte a Louren�o, pedindo-lhe que n�o aparecesse antes da festa. Precisava de reencontrar a serenidade, porque o pensamento de enfrentar o olhar perspicaz de Commynes ainda quente dos beijos do amante era-lhe penoso. A sua posi��o de favorita oficial, de que ela se orgulhara at� ent�o, come�ava a envergonh�-la a despeito do precedente estrepitoso constitu�do pelos amores de Simonetta Vespucci com Giuliano sob os olhares do pr�prio marido.</p><p>Assim, foi com uma certa alegria que ela recebeu, na manh� seguinte, um pequeno bilhete de Chiara convidando-a para passar o S�o Jo�o em casa dela. Com o apoio da amiga, arranjaria a for�a necess�ria para reencontrar o embaixador. Mas os seus preparativos foram extremamente minuciosos: para aquele dia de festa, a jovem queria ser a mais bela! Mas n�o sabia porqu�...</p><p>O dia que nasceu em Floren�a proclamou a perfei��o da arte do Criador. A uma aurora que parecia reflectir as rosas de todos os jardins nos seus matizes diferentes mas harmoniosos, sucedeu a imensa ventura cambiante de um c�u de um azul inef�vel que o Sol, no solst�cio, acariciava sem lhe quebrara cor profunda. Sob aquele dossel fabuloso, Floren�a, lavada de fresco e vestida como uma mulher rec�m-casada, parecia-se, no guarda-j�ias verde das suas colinas sarapintadas de villas brancas, de ciprestes negros e da musse prateada dos olivais, com um cofre aberto exibindo o tesouro de um imperador.</p><p>A festa apoderou-se da cidade �s primeiras horas do dia. Todas as casas, mesmo as mais pobres, estavam ornamentadas com tudo o que possu�am, nem que fossem simples ramos de folhagem, ou uma grinalda de amores-perfeitos rodeando a ef�gie do santo.</p><p>No pal�cio Albizzi, Chiara fizera uma obra de arte: das janelas do primeiro andar ca�am grandes pe�as de cendal vermelho e branco, separadas por grandes gal�es dourados e no r�s-do-ch�o, de um lado e de outro da porta, quadros religiosos cujas personagens davam mostras de um orgulho e de um fausto dignos de uma corte real, representando, no entanto, cenas da vida de S�o Jo�o, ao lado de estatuetas de marfim com a ef�gie dos santos protectores da fam�lia, prestando homenagem ao her�i do dia. Tudo enfeitado com grinaldas de rosas e jasmins exalando um odor requintado e trepando at� ao grande tecto plano, onde o estandarte dos Albizzi flutuava sobre as telhas redondas de um rosa delicado. Estava soberbo.</p><p>Assim, foi com alguma surpresa que Chiara, tendo sa�do � rua de madrugada para dar uma �ltima vista de olhos ao conjunto, viu o seu tio, vestido com um bibe de grossa tela verde, um velho chap�u na cabe�a e provido dos seus apetrechos para a ca�a �s borboletas, transpor a soleira da casa puxando atr�s de si a sua mula. A jovem lan�ou-se, literalmente, sobre ele:</p><p>Onde � que tu vais vestido dessa maneira?</p><p>Ao Mugello. Olha para este c�u! � um dia ideal para as borboletas. Tenho a certeza que vou fazer uma boa recolha e...</p><p>Segurando-lhe no bra�o, Chiara f�-lo dar meia volta para lhe mostrar a fachada da casa:</p><p>Olha para a casa! Isto n�o te diz nada?</p><p>Sim, minha filha: est� muito bonito... Est�s � espera de convidados?</p><p>Mas, meu tio, francamente, � dia de S�o Jo�o e tu deves ocupar o lugar que te pertence nas cerim�nias!</p><p>Achas? O S�o Jo�o...</p><p>E, de repente, o anci�o compreendeu:</p><p>Ah! O S�o Jo�o! Onde tinha eu a cabe�a, meu Deus? � verdade, eu tenho de... Tens a certeza que � preciso estar l�?</p><p>Absoluta, tio Lodovico! Tu �s um dos primeiros not�veis desta cidade. N�o podias lembrar-te disso de vez em quando?</p><p>Claro... sim, claro! Mas � uma pena sacrificar um dia t�o bonito por causa de uma festa! Bem, vamos ataviar-nos!</p><p>E reentrou no pal�cio seguido por Chiara, que achou mais prudente acompanh�-lo at� aos seus aposentos, receosa de o ver fugir para a cozinha. A jovem ria-se quando entrou no seu quarto, onde Khatoun acabava de vestir Fiora. O riso cessou de imediato ao ver a amiga:</p><p>Por todos os santos do Para�so! Como est�s bela!</p><p>Nada mais simples, de facto, do que aquele grande vestido de tafet� espesso de um belo vermelho-escuro que sussurrava a cada gesto e que, sem o decote onde sobressa�a o longo e esbelto pesco�o da jovem, se assemelhava a uma samarra cardinal�cia. Nem um bordado, nem um ornamento naquele vestido de linhas puras cuja �nica aud�cia residia nas mangas amplas e tufadas que se detinham na harmonia do ombro meio descoberto. A jovem s� tinha uma j�ia: um rubi no meio da testa. A massa de cabelos negros e lustrosos estava fechada numa longa rede dourada que lhe descia abaixo da cintura.</p><p>De joelhos no tapete entre uma caixa de alfinetes e um n�cessaire de costura, Khatoun contemplava aquilo que era um pouco obra sua:</p><p>O Lis vermelho de Floren�a! declarou ela, encantada.</p><p>Tens raz�o suspirou Chiara e o povo vai pensar a mesma coisa. Que procuras tu demonstrar, Fiora? Que a cidade pertence a Louren�o, tal como tu?</p><p>Sim e n�o. Quero surpreender o embaixador franc�s. Ele � demasiado fino de esp�rito para n�o compreender o que significa este vestido vermelho: eu sou filha de Floren�a e tenciono continuar a s�-lo.</p><p>Ah!... Nesse caso, tomaste a tua decis�o?</p><p>Sim. Commynes � o homem capaz de fazer com que o Rei compreenda as minhas raz�es. E veremos, com ele, a melhor maneira de mandar vir o meu filho e L�onarde nas melhores condi��es. Di-lo-ei a Louren�o esta noite... por ocasi�o do baile, claro, porque de outra maneira ser� imposs�vel.</p><p>Reflectiste bem?</p><p>Sim. V� tu, Chiara, eu perten�o a esta cidade. At� � morte do meu pai, fui uma das suas pedras. Uma tempestade arrancou-me a ela e atirou-me para longe. Se Deus permitir que a pedra retome o seu lugar, n�o vejo qualquer raz�o para ir contra a Sua vontade...</p><p>Portanto, de que serve mentires a ti pr�pria? Tu amas Louren�o, � tudo.</p><p>N�o, nada mudou desde a �ltima vez que fal�mos. Repito-o: o meu corpo � que o ama e eu sinto-me bem junto dele, mas n�o vejo nenhuma raz�o para virar costas a uma vida, a uma cultura que amo, por uma outra que tem a sua beleza, sem d�vida, mas que � menos doce para o meu cora��o.</p><p>O teu filho n�o pertence a essa cultura?</p><p>Tanto quanto eu lhe pertencia quando o meu pai me trouxe para aqui de Borgonha, com L�onarde e Jeanette. Ainda � um beb� e amar� Floren�a tanto como eu.</p><p>Sem responder, Chiara beijou a amiga. Os seus olhos brilhavam de alegria:</p><p>� a melhor das novidades disse ela, enfim. Custou-me, sabes, fazer de advogado do diabo, mas o facto de quereres ficar connosco enche-me de alegria. Ficas com Carlo?</p><p>Claro! Ele � feliz em Fiesole e entende-se �s mil maravilhas com Dem�trios. Como todos o sup�em morto, � a melhor solu��o. E se te fosses preparar? Est� quase na hora da prociss�o.</p><p>E por nada deste mundo a perderia. Quero ver como � o embaixador franc�s.</p><p>Enquanto Chiara se precipitava para os seus vestidos de cerim�nia, Floren�a festejava o S�o Jo�o. Tudo come�ara, logo �s primeiras horas da manh�, pelo desfile de oferendas que as corpora��es, as �artes florentinas�, levavam ao santo patrono da cidade, cada uma delas oferecendo os produtos do seu fabrico: a Calimala com os tecidos finos e sedosos, verdadeiros produtos de luxo sa�dos das suas oficinas; a arte da L� com os mais belos fust�es e os suaves tecidos de l� cujo segredo fora trazido de Velenciennes; a da Seda dos cendais, dos cetins e dos tafet�s cintilantes; os Ourives dos pratos e jarros de prata, e assim por diante at� aos p�es dourados e past�is leves dos modestos padeiros. O desfile durou quase at� ao meio-dia, tendo-se formado uma grande prociss�o: o cl�rigo de Floren�a e as delega��es das cidades vassalas juntaram-se �s �artes�, assim como grandes grupos de rapazes e raparigas que, vestidos de anjos e transportando no dorso grandes asas brancas cuja realiza��o dera grande trabalho a Sandro Botticelli, suportavam nos ombros azulados os relic�rios dourados da cidade. Em seguida, toda aquela gente se precipitou no Duomo para ali ouvir missa.</p><p>Era a primeira grande cerim�nia celebrada na catedral profanada pelo assass�nio de Giuliano. Na antev�spera, o arcebispo de Floren�a purificara cerimoniosamente a igreja-mor com grandes quantidades de �gua benta e incenso.</p><p>Depois da missa, toda a gente regressou a suas casas para recobrar for�as com vista �s cerim�nias da tarde e � grande corrida que teria lugar ao fim do dia. �queles que n�o podiam oferecer a si pr�prios uma refei��o digna de um grande dia, uns cabazes, em plena rua, distribu�am graciosamente empadas e past�is. E, para acompanhar esse festim, os fontan�rios da cidade deixavam escorrer vinho de Chianti em vez de �gua. Para ajudar � alegria geral, bandos de m�sicos, tocando viola, p�faro ou tamborim, percorriam as ruas e detinham-se nos cruzamentos... o mais perto poss�vel dos fontan�rios.</p><p>Da tribuna das damas, onde tinham tomado lugar para apreciar a prociss�o e seguir o melhor poss�vel o of�cio divino atrav�s das portas completamente abertas, Fiora viu Louren�o vestido de negro como era seu h�bito, mas usando ao pesco�o uma cadeia de ouro e rubis que valia um tesouro real. Uma j�ia brilhava no seu gorro. Junto dele caminhava um homem louro em cujo capuz brilhava uma flor-de-lis e Fiora n�o teve qualquer dificuldade em reconhecer Philippe de Commynes. Caminhava com a dignidade pr�pria de um embaixador de Fran�a. Logo a seguir a jovem viu, sobre a multid�o, um certo gorro vulgar encimado por uma pena de gar�a-real que lhe acelerou o cora��o. Seria poss�vel Douglas Mortimer ter feito, tamb�m ele, a viagem? Por que n�o, no fim de contas? Lu�s XI gostava demasiado do seu conselheiro para o deixar partir sem uma guarda s�lida para aquela It�lia turbulenta. E que guarda mais s�lida, mais eficaz, do que o sargento la Bourrasqu�?</p><p>Teve vontade, subitamente, de ir ter com os seus amigos, mas n�o podia imiscuir-se na ordem rigorosa das cerim�nias. Era preciso regressar ao pal�cio Albizzi para a refei��o do meio-dia na companhia de ser Lodovico, que n�o cessava de resmungar contra a futilidade das manifesta��es mundanas que estragavam um dia que o Criador tinha, for�osamente, destinado especialmente �s alegrias austeras da ci�ncia. O anci�o ia tanto mais rabugento quanto tivera que trocar o seu bibe de tela verde, t�o c�modo, por um soberbo traje de espessa seda escarlate com uma orla de pele de marta negra, a despeito da esta��o e por um capelo do mesmo tecido, cujo pano se enrolava graciosamente em redor do seu pesco�o. Uma pesada corrente de ouro, terminada por quimera, completava um traje que, evidentemente, ele detestava:</p><p>Ainda se fosse Inverno, mas durante a tarde vou transpirar tanto que a minha camisa e a minha pele ficar�o da mesma cor desta maldita t�nica!</p><p>Podes tir�-lo para dormir a sesta e eu dei ordem a Colomba para refrescar o teu vinho favorito disse Chiara, consoladora. Mas tu n�o enganas ningu�m, tio Lodovico. Tu �s demasiado Albizzi para te mostrares sen�o vestido de acordo com a tua posi��o.</p><p>Apesar do calor, o anci�o fez as honras ao repasto composto de mel�es e fegatelli, pequenas salsichas de f�gado com ervas, que regou com grandes cop�zios de Chianti. Um festim que o obrigou a repousar um pouco na frescura do seu quarto enquanto n�o chegava a hora de ir para uma das tribunas de onde os not�veis da cidade contemplariam a corrida do Palio.</p><p>Ap�s a manh�, reservada �s corpora��es que davam a Floren�a toda a sua riqueza, a tarde pertencia aos diferentes bairros da cidade, cujos campe�es se defrontavam numa corrida de cavalos, montados sem sela e sem estribos num percurso preparado antecipadamente. O pr�mio era o palia, uma magn�fica pe�a de tecido, a mais bela de toda a cidade, que o Magn�fico entregava ao vencedor.</p><p>Cada bairro apresentava quatro estandartes sob cujas cores corriam quatro cavaleiros. Os estandartes do bairro San Giovanni (S�o Jo�o) eram o Le�o Negro, o Drag�o, as Chaves e o Esquilo; os da Santa Croce o Carro, o Boi, o Le�o de Ouro e as Rodas; os de Santa Maria Novella a V�bora, o Le�o Vermelho, o Le�o Branco e o Lic�rnio; por fim, os do Santo Spirito, o bairro da outra margem do Arno, a Escada de m�o, a Concha, o Chicote e a Quimera. E todos esses estandartes, alegremente coloridos, com os seus servos e muitas velas, iam em prociss�o at� ao Baptist�rio.</p><p>1 Apenas Siena conservou esse fabuloso espect�culo admirado em toda a Europa.</p><empty-line/><p>A reuni�o acontecia diante da Senhoria, vestida com os adere�os dos grandes dias de festa. O Velho Pal�cio cinzento estava cheio de estandartes e sedas. Entre as suas seteiras, uns mastros erguiam para o c�u azul os emblemas das cidades vassalas, o de Floren�a ocupando o topo da torre como convinha a uma rainha. Em redor da pra�a onde tinham sido erguidas torres de madeira dourada representando as cidades vassalas ou aliadas, as janelas mostravam rios de brocados ou tape�arias. A cal�ada, essa, parecia uma pradaria na Primavera com a mistura de trajes de gala e estandartes. Um largo espa�o vazio, marcado por cord�es de seda, cortava a pra�a: a passagem por onde galopariam, dentro em breve, os cavaleiros. O ar estava cheio de alegria, da excita��o dos desafios lan�ados pelos portadores dos imensos estandartes. Estes faziam dan�ar e voar, a despeito do seu peso, os pesados tecidos pintados e bordados.</p><p>Na pra�a do Duomo, onde as grandes portas de bronze dourado do Baptist�rio deixavam ver a floresta de c�rios que o iluminavam, o espect�culo era diferente. Ali erguiam-se as tendas furta-cores dos propriet�rios dos cavalos que iam correr e, em redor, uns mastros, t�o altos como as casas, ostentavam, alternadamente, o estandarte branco com o Lis vermelho de Floren�a e o estandarte azul com os Lis dourados do Rei de Fran�a.</p><p>A m�sica dos grandes �rg�os, das violas, das flautas, dos obo�s e dos tamborins da catedral, apoiando o coro com maestria, enchia a pra�a e de cada lado do arcebispo, cuja capa de ouro era mantida aberta por dois di�conos, os ac�litos balou�avam uns incens�rios de prata. Estes deviam estar cheios at� �s bordas, porque as espessas volutas de fumo que se escapavam pelos orif�cios subiam at� � grande tribuna vermelha onde Fiora e os Albizzi estavam sentados, em lugares singularmente pr�ximos das altas poltronas onde se iam instalar o Magn�fico e o seu h�spede privilegiado.</p><p>Mais uma vez, o tio Lodovico praguejou. O incenso fazia-o tossir n�o era o �nico e pensar, com amargura, na frescura do vale do Mugello. Chiara acabou por repreend�-lo:</p><p>P�ra de resmungar, tio Lodovico! Tens a sorte de escoltar a mulher mais bela da cidade e passas o tempo a pensar nas tuas borboletas! Est� toda a gente a olhar para n�s.</p><p>Era verdade. Todos os olhares estavam pousados em Fiora, verdadeiramente imperial no seu vestido p�rpura. � passagem, suscitara aplausos e cumprimentos entusiastas: �Longa vida � mais bela!� �T�nhamos a estrela de G�nova, mas agora a de Floren�a tamb�m brilha!� �Feliz aquele que te possui!� E at�, gritado em voz alta por um descuidado ou por um qualquer ignorante das cat�strofes que o nascimento irregular fizera cair sobre Fiora: �Bendita seja, entre todas, a m�e que te deu � luz e te fez t�o bela!�...</p><p>A jovem respondia com um sorriso ou com um gesto gracioso da m�o, feliz por saber que estava no cora��o daquele povo cuja versatilidade, no entanto, pudera avaliar. Mas as nuvens tinham desaparecido, expulsas pelo amor de Louren�o e a cidade inteira estava pronta a prostrar-se a seus p�s, da mesma maneira que, em tempos, se prostrara aos de Simonetta. O senhor bem-amado elegera-a e isso era o suficiente para a coroar.</p><p>Aposto disse Chiara com satisfa��o que vais ser tu a entregar o palio ao vencedor.</p><p>Achas?</p><p>Tenho a certeza, sen�o, por que raz�o hav�amos de estar na primeira fila e tu separada de Louren�o apenas por um curto espa�o? E logo � noite vais ser a rainha do baile!</p><p>Esta tarde, talvez, mas logo � noite, no pal�cio M�dicis, portanto em casa da mulher e da m�e de Louren�o, a situa��o pode tornar-se delicada.</p><p>Nem penses! Desde a morte de Giuliano que as mulheres da fam�lia n�o participam em qualquer festa. Elas ouviram missa esta manh� na capela privada, porque Madonna Lucrezia n�o quer entrar no Duomo onde o filho foi assassinado... Olha! Eis o teu pr�ncipe!</p><p>As longas trombetas de prata, ornamentadas com um pend�o de seda com as armas dos M�dicis, soavam, com efeito e, rodeados por um brilhante cortejo, o Magn�fico e o seu h�spede franc�s dirigiam-se para a tribuna onde todos se levantaram para os aplaudir. Ambos seguiam de m�o dada para simbolizar o entendimento perfeito entre os dois pa�ses e saudavam com a outra m�o. Por tr�s de Commynes, Fiora reconheceu Mortimer cuja alta estatura ultrapassava a maior parte dos homens presentes.</p><p>Alguns arqueiros da Guarda Escocesa escoltavam-no, juntamente com uma comitiva que parecia bastante numerosa. Visivelmente, o Rei Lu�s fazia quest�o de que o seu embaixador desse uma ideia do seu poder e dizia-se que toda aquela gente vinha carregada de presentes fabulosos para os amigos florentinos.</p><p>Chegados � base da tribuna, os dois senhores pararam para saudar em redor. Quando se viraram para ocupar os seus lugares, Fiora viu os olhares de ambos fixarem-se em si com uma admira��o que a fez estremecer de alegria. O de Louren�o ardia com o fogo que ela t�o bem conhecia, mas o sorriso de Commynes n�o conseguia apagar a esp�cie de melancolia que lhe enchia o olhar... Deve estar a pensar sussurrou Chiara que � pena a Fran�a ter perdido uma dama t�o bela!</p><p>N�s somos amigos e ele nunca perder� essa amizade. Eu gosto muito de messire de Commynes, sabes?</p><p>Ele tamb�m, sem d�vida. E talvez mais do que pensas.</p><p>N�o sejas tola! Tens uma imagina��o...</p><p>Durante aquele curto aparte, os dois homens tinham subido os poucos degraus cobertos por um tapete vermelho, mas, em vez de se sentarem, viraram-se para Fiora, que mergulhou de imediato numa profunda rever�ncia, oferecida tanto a um, como a outro. A voz de Louren�o soou, curiosamente met�lica:</p><p>Falastes-me, sire embaixador, da amizade que vos une � mais bela das nossas damas e eu creio adiantar-me ao vosso desejo, conduzindo-vos a ela sem mais demoras.</p><p>� verdade, monsenhor e eu agrade�o-vos. Senhora condessa de Selongey acrescentou ele em franc�s sinto uma profunda alegria por vos encontrar e sa�do-vos em meu nome e no do Rei meu senhor.</p><p>Seguiu-se um sil�ncio. Fiora, perturbada por ouvir aquele nome que j� n�o era o seu, permaneceu durante um instante sem voz e apertou com for�a as m�os tr�mulas sem sequer retribuir a sauda��o ao visitante.</p><p>Sire Philippe murmurou ela. Vejo por tr�s de v�s messire Mortimer. Ele deve ter-vos dito que eu j� n�o tenho direito a esse nome...</p><p>� verdade, � verdade sussurrou Commynes. Mas... para que j� n�o sejais a esposa do conde de Selongey seria preciso que ele estivesse morto. Ora... ele n�o est�.</p><p>Que dizeis?</p><p>A verdade. Pelo que sei, messire Philippe est� vivo. Vamos, minha amiga, componde-vos! Talvez eu tenha sido um pouco brutal, mas estava t�o certo de vos provocar uma grande alegria...</p><p>E n�o duvidais, espero? Oh!... parece-me que tenho a cabe�a perdida. Aquela execu��o...</p><p>... n�o chegou ao seu termo sangrento. O governador de Dijon tinha ordem de a parar no momento supremo. A espada do carrasco n�o degolou o vosso marido.</p><p>Sem se preocupar com o protocolo, Fiora deixou-se cair na sua cadeira, lutando contra a vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. Vivo. Philippe estava vivo! Continuava a respirar, algures sob aquele c�u infinito! V�-lo-ia de novo, toc�-lo-ia, reencontraria os seus olhos, o seu sorriso, o calor das suas m�os! Com os olhos rasos de �gua, a jovem olhou para Commynes, que se debru�ava sobre ela com inquieta��o:</p><p>Madonna! Estais muito p�lida... e chorais!</p><p>De alegria! Oh, meu amigo, fostes bem imprudente! N�o sabeis que uma felicidade assim pode matar?</p><p>Perdoai-me, ent�o! Falaremos mais tarde, porque tenho muito para vos dizer...</p><p>Deixando Fiora com a sua amiga, que lhe ofereceu um len�o embebido em perfume, o embaixador juntou-se a Louren�o j� instalado no seu lugar. As trombetas soaram de novo.</p><p>N�o vais desmaiar, ao menos? perguntou Chiara, inquieta. Est� toda a gente a olhar para ti, sabias?</p><p>Que olhem! Ao menos uma vez t�m ocasi�o de olhar para uma mulher feliz, loucamente feliz!</p><p>At� ao momento n�o me parecias infeliz!</p><p>A s�rio? � verdade que me sentia bem e que sentia uma esp�cie de alegria, feita de muito orgulho, acho eu... mas isto � t�o diferente! Como explicar-te? � como se tudo, dentro de mim, acabasse de explodir de repente...</p><p>Chiara n�o respondeu. O seu olhar procurou Louren�o e, cruzando o deste, pensou ler nele algo que se parecia com dor.</p><p>Fiora, essa, n�o o via, j� n�o o via... o seu pensamento estava longe, j�, a centenas de l�guas da cidade que, no entanto, tanto amava e onde apenas alguns instantes antes desejava ficar para sempre. Mas a jovem j� tinha partido ao encontro do homem que n�o conseguia deixar de amar.</p><p>Nessa noite, Fiora n�o compareceu no baile do pal�cio M�dicis. Depois da corrida, fez-se acompanhar a Fiesole por dois criados dos Albizzi:</p><p>Dir�s a messire de Commynes que espero a sua visita confiou ela � amiga.</p><p>N�o pod�eis conversar esta noite?</p><p>N�o. N�o num baile! Eu preciso de tranquilidade, Chiara. Tenho de regressar a casa.</p><p>Algo me diz que j� regressaste...</p></section><section><title><p>CAP�TULO III</p><p>NUNCA SE DEVE DIZER ADEUS.</p></title><p>Onde est� ele?</p><p>Philippe de Commynes descruzou as longas pernas e, apoiando os cotovelos nos bra�os da cadeira, juntou os dedos das duas m�os, desenhando no espa�o uma esp�cie de pir�mide � qual apoiou o nariz, como algu�m que reflecte profundamente.</p><p>N�o sei suspirou ele, por fim.</p><p>O seu olhar azul, procurando o de Fiora no outro lado da mesa, parecia pedir perd�o, mas a jovem n�o se deixou enganar por aquela candura diplom�tica. De facto, Commynes tentava retardar uma c�lera que sentia vir.</p><p>� imposs�vel! disse ela friamente. Como � poss�vel n�o saberdes, v�s, que sabeis tudo?</p><p>N�o me fa�ais mais h�bil do que sou, minha amiga, nem mais bem informado. E lembrai-vos que estive exilado durante v�rios meses. Tudo o que posso dizer-vos � o que o Rei me encarregou de vos dizer: o vosso marido recebeu a sua gra�a no momento em que ia morrer.</p><p>Dem�trios abandonou a mesa para ir buscar um jarro de malvasia que estava em cima do aparador, com o qual encheu uma grande ta�a antes de a entregar ao seu h�spede:</p><p>S� um gole disse ele com um meio sorriso.</p><p>Quereis dizer com isso que uma vez descido do cadafalso pediram-lhe, simplesmente, que se fosse deixar enforcar noutro lado qualquer e que se perdesse no meio da multid�o? Isso nem parece coisa do Rei Lu�s.</p><p>N�o. � claro que n�o. O vosso marido foi levado para a pris�o de Dijon e depois foi transferido para outro s�tio. Mas n�o me pergunteis para onde, porque ignoro. O nosso sire reserva-se o direito de vo-lo dizer quando vos encontrardes com ele. Porque, evidentemente, ele est� � vossa espera.</p><p>Um sorriso quente iluminou o rosto fino da jovem. Tinham-se acabado as hesita��es e as esperas. Uma enorme vontade decidia por ela, chamando-a para o que n�o podia deixar de ser uma grande felicidade reencontrada.</p><p>Ser� um prazer fazer a viagem convosco. Gosto tanto da vossa conversa��o.</p><p>Douglas Mortimer, que pilhava ao mesmo tempo um tabuleiro de am�ndoas, uma tigela de mel e uma ta�a de passas, desatou a rir:</p><p>Tereis de vos contentar com a minha, donna Fiora. Eu � que estou encarregue de vos levar. E s� estou aqui para isso. Messire de Commynes continua a sua viagem para Roma.</p><p>Para Roma! Que ides v�s l� fazer?... Se n�o sou indiscreta, claro.</p><p>De todo. Tendes, simplesmente, de compreender. Encontrar-vos aqui foi, para mim, uma grande alegria e um grande al�vio, porque a minha miss�o simplificou-se. Eu tinha ordens, com efeito, de vos procurar em Roma e de vos embarcar no primeiro navio com partida de Civicita Vecchia, fosse a que pre�o fosse. S� assim se explica a presen�a da esp�cie de ex�rcito que veio comigo.</p><p>Quereis dizer disse Dem�trios, que �eis intimar o Papa a entregar-vos Fiora?</p><p>Exactamente. O Rei n�o gosta que os seus enviados desapare�am sem deixar rasto, ou sejam v�timas de um clima insalubre. Por esse lado, tudo est� bem quando acaba bem, mas ainda n�o terminei com Sua Santidade.</p><p>O Rei de Fran�a ir� oferecer os seus bons of�cios para apaziguar o conflito entre Roma e Floren�a? n�o deixou Dem�trios de perguntar, a quem os jogos pol�ticos apaixonavam desde que vivera perto de Lu�s XI.</p><p>De maneira nenhuma. A minha embaixada a It�lia tem dois objectivos pol�ticos: assegurar a Floren�a que o apoio da Fran�a se mant�m e dar a entender ao Papa a irrita��o do seu Rei. Para este tenho uma carta que o dever� levar a uma compreens�o mais s� das coisas. O Rei explica-lhe que, devido � sua atitude, se prop�e reunir no pr�ximo m�s, em Orle�es, a Igreja do reino para restabelecer a San��o Pragm�tica em tempos decidida em Burges sob o reinado de Carlos VII e exigir a realiza��o de um conc�lio geral, no qual poder� muito bem exigir a destitui��o de Sisto IV. Por fim, o Rei deseja que, no seu �dio para com Floren�a, o Papa n�o esque�a o Turcol O perigo cresce, por esse lado! Dem�trios deixou ouvir um ligeiro assobio:</p><p>Sim senhor! Espero que consigais sair de l� vivo!</p><p>N�o estou nada inquieto. Se me acontecer alguma coisa, o nosso sire tenciona ressuscitar o velho direito de heran�a ao reino de N�poles e enviar um ex�rcito para o arrancar aos Arag�o. Um ex�rcito, que, claro, passaria por Roma.</p><p>Para um soberano que n�o gosta da guerra disse Fiora dir-se-ia que ele est� com pressa?</p><p>- N�o se trata de uma amea�a, Madonna. O Rei � demasiado esperto para querer entrar numa aventura e a It�lia n�o o interessa sen�o em fun��o das suas boas rela��es com Floren�a e Veneza. O importante, para ele, no imediato, � saber se a Senhoria, o povo... e o cl�rigo florentino est�o dispostos a agrupar-se em redor de monsenhor Louren�o para enfrentar as prova��es que Sisto lhes prepara.</p><p>Os Florentinos n�o s�o cobardes exclamou Fiora com uma voz onde vibrava todo o amor que sentia desde crian�a. A excomunh�o de Louren�o e dos priores s� aumentou a sua indigna��o. Quanto � guerra, todos sabem que ela vem a� e est�o preparados. N�o vos deixeis enganar pela alegria das nossas festas.</p><p>A guerra, sim... mas, e a interdi��o?</p><p>1 Primeira manifesta��o do galicanismo, A San��o Pragm�tica libertava, de certa maneira, a Igreja de Fran�a da tutela temporal de Roma, que deixava de ter o direito de nomear bispos, abades e, sobretudo, receber os benef�cios. Lu�s XI abolira-a no in�cio do seu reino.</p><p>O facto de a Igreja ter um papel preponderante na Idade M�dia fazia com que a interdi��o representasse a morte espiritual de um Estado e, frequentemente, uma verdadeira cat�strofe; igrejas fechadas, sinos calados, sacramentos, casamentos e funerais cancelados (os mortos n�o eram enterrados) e doentes sem tratamento, j� que os hosp�cios estavam, sempre, sob controlo religioso.</p><empty-line/><p>O Papa n�o ousaria! disse Dem�trios.</p><p>Os nossos espi�es em Roma dizem que ele pensa seriamente nisso. Dizeis bem, esse homem, se bem que extremamente devoto, est� pronto a tudo para fazer vergar Floren�a, abater os M�dicis e estabelecer a fortuna e poder dos seus sobrinhos. Que vai fazer a cidade, nesse caso? Submeter-se?</p><p>Certamente que n�o! disse Dem�trios. Uma cidade marcada pela filosofia grega n�o se vergar� perante as iras arcaicas dos s�culos b�rbaros. E posso mesmo prever o que acontecer� se o cl�rigo executar as ordens do Papa: ser� expulso, ser� atirado para fora das muralhas como uma boca in�til. Ela tratar� dos seus doentes e enterrar� os seus mortos.�De qualquer maneira, ficarei muito surpreendido se o arcebispo obedecer...</p><p>� um prazer falar convosco, Dem�trios! disse Commynes, rindo. Tudo parece apontar nesse sentido, com efeito, e o arcebispo p�e todas as suas esperan�as nesse conc�lio que o Rei de Fran�a pretende convocar. Creio que esta guerra, se vier a estalar, n�o durar� muito e monsenhor Louren�o, pr�ncipe s�bio e h�bil quanto baste, tem diante de si longos anos de paz... mas chega de falar de pol�tica! � de um gosto deplor�vel ap�s um repasto t�o delicioso.</p><p>De que quereis falar, ent�o? perguntou Fiora com um sorriso. A pol�tica devora tr�s quartos da vossa vida.</p><p>Falemos da vossa e do vosso futuro. Disse-vos h� pouco que na Casa das Pervincas tudo vai o melhor poss�vel na vossa aus�ncia e que sois ansiosamente esperada. Suponho que tendes pressa de regressar?</p><p>Muita! Pensei tanto neles durante todos estes meses. O meu filho nem sequer me conhece, j� que fui raptada pouco depois do seu nascimento. Se calhar, nem vai gostar de mim!</p><p>Seria preciso ter muito mau gosto suspirou Mortimer que, tendo comido demasiado, abandonou a mesa e se p�s a caminhar atrav�s da grande sala. Mas, por esse lado, n�o estou preocupado e v�s, v�s ficareis louca: � um belo homenzinho, que o pr�prio Rei gosta de ir ver. Passa muitas vezes por vossa casa quando regressa da ca�a.</p><p>A s�rio? Ele vai ver o meu pequeno Philippe?</p><p>Vai, pois! Sabeis como ele se preocupa com monsenhor, o Delfim, que � de fraca constitui��o e pouca sa�de! Ent�o, aquele pequenito sem pai nem m�e comove-o profundamente. Faz um pouco de av� com ele.</p><p>Quem diria que ele � t�o delicado e atencioso? murmurou Fiora, comovida. N�o sei se mere�o tanta bondade, mas tamb�m vou gostar muito de o ver novamente...</p><p>�ptimo! Portanto, quando partimos? concluiu alegremente o escoc�s.</p><p>Decidiram que a partida teria lugar na semana seguinte, para dar tempo a que Fiora pusesse os seus assuntos em ordem e se despedisse... coisa que n�o podia ser feita precipitadamente para n�o ofender o Magn�fico. Ela e Commynes deixariam, assim, Floren�a, no mesmo dia em direc��es diferentes, ele para regressar porque o Rei desejava que ele permanecesse ao lado dos M�dicis durante os meses dif�ceis que se anunciavam e ela... sem saber se regressaria um dia, porque a decis�o pertenceria a Philippe.</p><p>Ap�s o regresso dos seus h�spedes � cidade, Fiora tomou Dem�trios pelo bra�o e levou-o para o jardim. Naquele come�o de Ver�o, este encontrava-se na plenitude do seu desenvolvimento e ao acariciar com os olhos os tufos de rosas e os grandes ramos de loureiros carregados de flores, a jovem sentiu o seu cora��o apertar-se um pouco. De repente, aquele local, assim como a casa, tomava o aspecto fr�gil e amea�ado das coisas que se v�o abandonar dentro de pouco tempo. Ao ver uma l�grima perlar-lhe as pestanas, Dem�trios, que a observava sem que ela disso se apercebesse, apertou com for�a o bra�o pousado no seu:</p><p>Tens pena de partir?</p><p>Um pouco, sim... No entanto, n�o imaginas a pressa que tenho para me juntar a Philippe. Temos tanta felicidade estupidamente desperdi�ada para recuperar. Cada vez me � mais dif�cil compreender-me a mim mesma... � como se houvesse duas mulheres a viver dentro de mim...</p><p>N�o � �como se�. � uma certeza. Tu amas Floren�a por causa das ra�zes de uma inf�ncia e de uma adolesc�ncia felizes e amas o teu marido por causa da maravilha de um amor apaixonado. </p><p>E se sofres por partir, � porque temes um pouco o que te espera. Tenho raz�o?</p><p>Tu tens sempre raz�o. N�s conhecemo-nos t�o pouco, Philippe e eu e, no entanto, somos capazes de provocar tanto sofrimento m�tuo!</p><p>Queres dizer que, se n�o fosse o teu filho, hesitarias em partir?</p><p>N�o, n�o, nem por um instante! A minha vida � Philippe e sejam quais forem as prova��es, nunca renunciarei a ele.</p><p>Os passos dos dois passeantes tinham-nos conduzido � parte baixa do jardim, at� junto da gruta que Dem�tr�os apontou com o queixo:</p><p>E... este?</p><p>Ele esquecer-me-�. Tanto mais depressa quanto vai ser preciso defender a cidade. Al�m disso, elas s�o numerosas, as florentinas que sonham com ele. Bartolommea del Nasi... e quantas mais?</p><p>Talvez tenhas raz�o. E tu �s capaz de o esquecer?</p><p>Nunca... no entanto, j� o esqueci.</p><p>Eis uma resposta interessante, mas talvez um pouco dif�cil de compreender! Mesmo para um homem que pensava conhecer as mulheres!</p><p>Sem d�vida porque � dif�cil de explicar. Louren�o permitiu que eu sofresse menos de uma ferida que eu acreditava ser incur�vel e que o era. Simplesmente, devolveu-me o calor e o gosto pela vida, assim como eu o ajudei a acalmar o sofrimento causado pela morte do irm�o.</p><p>E... se ele desejasse ficar contigo contra tudo e contra todos?</p><p>Queres dizer... � for�a?</p><p>Por que n�o?</p><p>N�o. Ele n�o. Tu sabes que ele gosta de dizer que � preciso ter pressa para se ser feliz, porque nunca se sabe o dia de amanh�. Ele sabe agarrar o momento presente e goz�-lo intensamente. Mas n�o sei se ele compreendeu que... o amanh� chegou.</p><p>Dem�trios n�o respondeu. Durante um momento, ele e Fiora caminharam em sil�ncio at� ao olival que se estendia pela parte baixa do jardim e que marcava o seu limite. Caminharam os dois por um instante sob a folhagem prateada e depois o Grego deteve-se junto de um tronco nodoso, partiu um pequeno ramo de onde pendia um pequeno fruto verde e olhou-o por um instante antes de o estender � jovem:</p><p>Guarda este ramo preciosamente: para que te lembres de mim.</p><p>Tu... vais-me deixar partir sozinha? perguntou ela, subitamente contristada. Esperava que tu e Esteban regress�sseis tamb�m a Fran�a?</p><p>N�o, Fiora. A vagabundagem terminou para mim. Estou demasiado velho e se tu me permitires continuar a viver nesta casa com o meu fiel Esteban, n�o pedirei mais nada � vida. E depois... n�o sei se a dama L�onarde estar� disposta a dar um banquete em minha honra.</p><p>Ela ficar� t�o feliz por me ver que te acolher� de bra�os abertos. No fundo, creio que ela gosta muito de ti.</p><p>V� se perdes esse h�bito de emprestar aos outros os teus sentimentos! L�onarde nunca gostou de mim e creio, at�, que tinha medo de mim. Talvez com alguma raz�o, mas a quest�o n�o � essa. Eu quero ficar aqui, porque este belo pa�s � o que se parece mais com o meu... e foi aqui que, por fim, encontrei a paz.</p><p>Com a ponta do dedo, Fiora acariciou o pequeno ramo e depois sorriu:</p><p>A paz cujo s�mbolo acabas de me oferecer?</p><p>Sim, e � mais s�rio do que pensas. Prometes-me uma coisa, Fiora?</p><p>Se quiseres.</p><p>Quero muito. Primeiro, n�o digas a Louren�o o que me disseste. Se calhar, ele ama-te mais do que pensas e, de qualquer maneira, � demasiado orgulhoso para aceitar ser um �ltimo recurso.</p><p>Eu nunca disse isso! exclamou Fiora, indignada.</p><p>Talvez, mas, grosso modo, foi esse o sentido das tuas palavras. Al�m disso...</p><p>� uma promessa dupla, ent�o?</p><p>N�o de todo, as duas resumem-se numa s�: o sil�ncio. Nunca dir�s a Philippe de Selongey que o M�dicis foi teu amante.</p><p>Eu quero preservar a tua vida, mais do que a tua paz. Ele � capaz de te matar.</p><p>Ele n�o me perdoou por causa de Campobasso?</p><p>Eu desconfio desses perd�es e n�o juraria que ele n�o voltar� a falar disso. Portanto, pe�o-te, nada dessas confid�ncias de travesseiro de que voc�s, as mulheres, t�m a mania! Eu conhe�o bem o teu marido: ele ama-te apaixonadamente. Pode ter passado uma esponja sobre... os acasos da guerra, mas n�o perdoar� � m�e do seu filho por se ter consolado nos bra�os do Magn�fico. Mesmo que ela tenha acreditado ser sua vi�va. Prometes?</p><p>Prometo. Tu �s mais s�bio do que eu.</p><p>Mais uma coisa: tens a certeza de que n�o est�s gr�vida? Fiora ficou t�o verde como o pequeno ramo que acabava de meter no corpete. Nem por um instante imaginara, no decurso das horas ardentes vividas com o seu amante, que aquilo pudesse acontecer...</p><p>Eu... eu n�o creio. N�o.</p><p>Basta olhar para ti para ver que n�o tens a certeza. Portanto, escuta-me bem: daqui a pouco vou dar-te uma po��o. Ao menor sinal de gravidez, bebes o conte�do de uma s� vez com um pouco de mel. Ficar�s doente de morte durante dois dias, mas, depois, poder�s, sem medo, enfrentar o olhar do teu marido!</p><p>E isso n�o �... um crime?</p><p>Do alto da sua estatura, o grego olhou para a jovem cujos admir�veis olhos cinzentos se erguiam para ele carregados de incerteza, mesmo de medo. Nunca estivera t�o bela. Simplesmente vestida de fina tela branca bordada com pequenas flores por causa do calor e com os cabelos erguidos, fazendo uma grande tran�a que deslizava ao longo do ombro, era a pr�pria imagem da Primavera. O seu rosto, cuja palidez um pouco rosada ela protegia com a ajuda de um guarda-sol de seda, tinha a delicadeza de uma cam�lia e o seu longo pesco�o uma gra�a infinita. Atrav�s do repouso, dos cuidados e da paix�o atenta de Louren�o, o corpo esbelto e nervoso parecia ter-se polido, ado�ado, e exalava aquela sensualidade involunt�ria que, juntamente com uma beleza excepcional, � pr�pria daquelas raras mulheres capazes de mudar a face de um reino. E Dem�trios pensou que o Magn�fico, com quem tantas belas criaturas sonhavam, teria, talvez, alguma dificuldade em esquec�-la. Mais tarde, ali�s, teria essa confirma��o no decurso das suas numerosas conversas com Louren�o.</p><p>Possuir Fiora � possuir toda a beleza do mundo. Os antigos Gregos teriam feito dela uma est�tua divina, mas � preciso t�-la tido nos bra�os para perceber o brilho doce que ela atinge no amor e nenhuma mulher me deu o que recebi dela...</p><p>O sil�ncio do seu amigo inquietou a jovem:</p><p>Ent�o? N�o respondes? N�o � um crime contra a natureza expulsar uma crian�a do nosso corpo?</p><p>Sim. � um crime, mas aquele que, por ci�me, te matasse, cometeria um ainda maior... e destro�ar-me-ia o cora��o. Portanto, guarda para ti o que o teu marido n�o precisa de saber.</p><p>De regresso ao terra�o delimitado pelos muros da villa, Dem�trios e Fiora encontraram Carlo muito ocupado a instalar umas colmeias com a ajuda do jardineiro. O jovem gostava de abelhas e interessava-se desde sempre pela sua vida e cria��o. Gostava de repetir que as de Trespiano davam um mel sem rival em toda a Tosc�nia. Vestido com um bibe de tela, de socos, com as mangas arrega�adas, os cabelos em desordem e o rosto corado, terminava a quarta colmeia destinada �s abelhas e parecia totalmente feliz.</p><p>Nenhuma for�a humana teria conseguido convenc�-lo a tomar parte no pequeno-almo�o que Fiora oferecera aos amigos Commynes e Mortimer:</p><p>A mim, chega-me o que o escoc�s pensa de mim dissera ele a Fiora � guisa de desculpa. N�o quero que o embaixador me veja junto de ti. Sentir-me-ia... muito infeliz.</p><p>Porqu�? O nosso casamento � nulo, j� o sabeis, mas n�s continuamos unidos por uma verdadeira afei��o. Eu nunca tive um irm�o, Carlo, tendes de aceitar esse papel!</p><p>Que fiz eu, meu Deus, para merecer tanta alegria? Nenhuma mulher ter� tido um irm�o t�o ternamente dedicado. Mas n�o me pe�ais para comparecer a essa refei��o.</p><p>Ao ver aproximarem-se os passeantes, ele afastou com o bra�o as mechas h�midas de cabelo que se lhe colavam � testa e fez-lhes um sinal jovial. Desde que reencontrara a vida campestre, Carlo parecia menos enfezado e o seu longo rosto p�lido retomava, pouco a pouco, as cores da sa�de.</p><p>Tu n�o podes lev�-lo para Fran�a, pois n�o? murmurou o grego.</p><p>No entanto, seria a melhor solu��o. N�o esque�as que as pessoas pensam que ele est� morto...</p><p>Ningu�m vir� aqui procur�-lo enquanto Louren�o e eu formos vivos. L� em baixo, estaria como um peixe fora de �gua. S� a natureza deste s�tio lhe pode dar as alegrias simples de que ele necessita. Al�m disso, ele possui uma grande sede de cultura e eu creio ser capaz de saciar, em parte, essa sede.</p><p>Por outras palavras, entre ele e eu, escolheste-o a ele? concluiu Fiora, sorrindo. Fico cheia de ci�mes.</p><p>Se assim fosse, sentir-me-ia imensamente lisonjeado. Mas, a s�rio, � melhor que n�s, ele, Esteban e eu, fiquemos aqui. Mesmo por ti, porque, v� l� tu, ningu�m pode dizer nem mesmo tu o que te espera em Fran�a. Talvez a felicidade, o que eu desejo de todo o meu cora��o, mas tamb�m outras prova��es, porque os tempos que vivemos s�o sem piedade. � bom que saibas que tens aqui a tua casa e os seus guardi�es: uma esp�cie de fam�lia sempre pronta a acolher-te... E agora vamos ver como vai o trabalho de Carlo!</p><p>Subitamente, vindo da cidade t�o tranquila no instante precedente, ouviu-se o som fren�tico da Vacca, o grande sino das horas dif�ceis, de imediato imitado pelos campan�rios de todas as igrejas. Depois, ouviu-se aquela esp�cie de rugido abafado pela dist�ncia que Fiora e Dem�trios nunca esqueceriam por o terem ouvido uma certa noite em que Floren�a se revoltara para conseguir a sua condena��o � morte. A despeito do Sol doce e da gra�a da imensa paisagem estendida a seus p�s, n�o puderam evitar, ambos, um arrepio. Passava-se qualquer coisa de grave, mas o qu�?</p><p>Esquecendo Carlo, que, ali�s, j� n�o pensava neles, precipitaram-se para a velha torre, vest�gio das antigas fortifica��es etruscas, no topo da qual o m�dico grego tinha instalado os instrumentos que lhe permitiam observar o c�u. Mas, desta vez, foi para a cidade que ele dirigiu o seu grande �culo e, sobretudo, para as portas do sul para ver se, por acaso, n�o se aproximaria um ex�rcito de Floren�a, mas n�o viu nada de inquietante.</p><p>Teremos de esperar pelo regresso de Esteban suspirou Dem�trios. Ele trar-nos-� not�cias frescas.</p><p>Com efeito, o castelhano acompanhara os Franceses quando eles tinham regressado ao pal�cio dos M�dicis, com o pretexto enganador de renovar a provis�o de velas. Na realidade, queria ir ter com uma bela roupeira do bairro Santo Spirito que ele protegera durante os motins, num momento em que ela quase fora esmagada contra uma parede. Depois disso, os seus passos conduziam-no frequentemente a casa dessa encantadora Costenza, � qual parecia dedicar-se. O que preocupava um pouco Dem�trios, persuadido de que o com�rcio de roupa branca n�o passava da h�bil fachada de um outro, velho como o mundo e muito mais lucrativo.</p><p>Assim, os habitantes da villa Beltrami n�o ficaram surpreendidos por Esteban n�o ter regressado quando as trombetas soaram para o fecho das portas. Era evidente que preferira passar a noite em casa da amiga e Dem�trios, encolhendo os ombros com aborrecimento, contentou-se em formular o desejo de que aquela escapadela n�o custasse demasiado cara ao seu fiel servidor.</p><p>E n�s n�o saberemos nada sen�o amanh� lamentou Fiora. A paragem do toque do sino n�o a deixara tranquila, porque o rugido surdo continuava a ouvir-se vindo do vale, mais distinto at�, agora que o som dos sinos n�o o cobria.</p><p>Fiora enganava-se. Por volta da meia-noite, quando todos se dispunham a recolher aos seus quartos, o galope de um cavalo abalou os ecos da noite antes de se deter diante da porta da villa. Fiora e Dem�trios esperavam-no porque a jovem j� sabia que o visitante n�o era outro sen�o Louren�o.</p><p>Quando ele se aproximou, Fiora, branca e luminosa sob o halo da sua l�mpada, reviu-o tal como na noite do assass�nio de Giuliano: o gib�o negro aberto at� � cintura, os cabelos desgrenhados pelo vento da corrida, a fronte perlada de suor e cada um dos tra�os do rosto marcado pela poeira. Mas a express�o n�o era a mesma. Louren�o n�o ia em busca de ref�gio, n�o esperava encontrar um momento de esquecimento entre dois bra�os macios. O seu ar era o de um homem determinado, que acaba, de tomar uma resolu��o.</p><p>Venho dizer-te adeus disse ele simplesmente. J�? Mas eu s� parto dentro de alguns dias!</p><p>Eu sei, sou eu que me vou embora. E talvez seja prudente partir antes de ti.</p><p>Mas porqu�? N�o h� pressa e Commynes...</p><p>Commynes parte amanh� para Roma. Eu acompanho-o.</p><p>Em algumas frases breves, Louren�o contou o que se passara e por que raz�o Floren�a se inflamara. Um arauto pontif�cio, ao cair da noite, trouxera a declara��o de guerra de Sisto IV, acompanhada de uma carta endere�ada aos priores, na qual o Papa declarava n�o ter qualquer agravo contra a Senhoria nem contra a cidade, unicamente contra Louren�o de M�dicis, assassino e sacr�lego. Se Floren�a expulsasse o tirano indigno, n�o seria atacada! A cidade recuperaria os favores do Santo Padre que, de futuro, lhe dedicaria uma afei��o muito particular.</p><p>Ent�o, propus entregar-me concluiu o Magn�fico a fim de poupar a esta cidade, que me � muito querida, os horrores de uma guerra. Os priores recusaram a minha proposta, mas eu pedi-lhes que reflectissem at� amanh� de manh�, que consultassem os seus bairros, as suas fam�lias e os mestres das diferentes artes.</p><p>Parece-me que j� te responderam! disse Dem�trios. N�s ouvimos o toque dos sinos e tamb�m o rumor...</p><p>Essa foi, com efeito, a sua primeira reac��o e eu senti-me muito feliz. Entretanto, muitas coisas podem acontecer durante a noite, quando as trevas trazem consigo o sil�ncio... e o medo.</p><p>Tu n�o podes entregar-te! exclamou Fiora, indignada. Tu, nas m�os daquele Papa in�quo, que ousou mandar assassinar o teu irm�o em plena missa do dia de P�scoa? Ele mata-te sem hesitar... e Commynes n�o poder� fazer nada.</p><p>Longe de mim coloc�-lo numa posi��o falsa. A sua miss�o j� � suficientemente dif�cil.</p><p>E tu achas que a tua morte ser� suficiente para acalmar o furor de Sisto? Ele pr�prio n�o far� nada, talvez, mas enviar� o seu querido sobrinho e Riario depois de arrancar a Floren�a todo o seu ouro, depois de lhe tirar todo o seu sangue se ela n�o se rojar aos seus p�s. � isso o que tu queres para a tua cidade? Achas que aquele miser�vel poupar� os teus filhos, a tua mulher, a tua m�e e todos os teus parentes? �s louco, Louren�o!</p><p>N�o, Fiora. � a �nica coisa que posso fazer. Eu disse o que a minha consci�ncia me ditou. Agora, cabe a Floren�a responder e decidir a sua sorte.</p><p>Aceitar a autoridade de Riario ou bater-se por ti? disse Dem�trios. A mim parece-me que, se tivesse alguma influ�ncia, n�o hesitaria um s� instante. N�o precisaria de noite nenhuma...</p><p>Mas eles precisam! murmurou Fiora. Que descaramento!</p><p>N�o, porque o que est� em jogo � muito grave. Se eu n�o me entregar, a cidade sofrer� a interdi��o.</p><p>E depois? Se a Senhoria rejeitar o Papa, como ele merece, que lhe importam as suas decis�es? Commynes n�o te informou sobre os projectos do Rei de Fran�a?</p><p>O conc�lio? Sim, eu sei... mas � preciso tempo para reunir um conc�lio. Aguentar-nos-emos at� l�?</p><p>N�o h� ouro suficiente para contratar condottieri? Floren�a n�o tem armas, n�o tem muralhas, n�o tem outra for�a sen�o a dos seus comerciantes? Ela bater-se-�, ou deixar� de ser Floren�a!</p><p>O ardor apaixonado de Fiora fez sorrir Louren�o que, num gesto de ternura, a puxou para si:</p><p>Tu falas como a minha m�e disse ele, pousando-lhe na fronte um beijo suave mas...</p><p>E como todas as mulheres da cidade, espero?</p><p>Quem sabe? Mas tu, tu �s bem uma das nossas e isso torna ainda mais penosa a ideia da nossa separa��o... � dif�cil dizer-te adeus, Fiora...</p><p>Por um momento, permaneceram ambos face a face, presos apenas pelo olhar.</p><p>Tamb�m � dif�cil dizer-te adeus, Louren�o... Se bem que nunca se deve dizer adeus...</p><p>O barulho suave dos p�s de Dem�trios, recuando na direc��o da casa, n�o quebrou o sortil�gio que os mantinha cativos, nem o barulho surdo da porta ao fechar-se. O grego levara consigo a l�mpada de �leo e o casal ficou s� na escurid�o da noite, no meio de um mundo adormecido que os envolvia com os seus sussurros, a sua brisa doce e os seus aromas. Fiora estendeu a m�o e tocou no ombro de Louren�o:</p><p>S� h� uma maneira de nos separarmos, se queremos suavizar a amargura que sentimos sussurrou ela. � un�rmo-nos uma �ltima vez...</p><p>Ela sentiu-o estremecer, mas ele deu um passo � retaguarda:</p><p>Eu n�o te vim pedir caridade grunhiu ele. Tu j� n�o �s uma mulher livre...</p><p>Eu sei...</p><p>Algures, no norte, est� um homem que te ama... e que tu amas.</p><p>Eu sei.</p><p>Se te entregares a mim, agora, ser�s culpada de adult�rio, tal como eu.</p><p>Tamb�m sei isso, mas, tal como na primeira noite, ofere�o-me a ti porque quero. Se calhar, nunca mais te vejo, Louren�o, por isso esta noite s� pode ser tua. Se o desejas, evidentemente...</p><p>Ainda perguntas?</p><p>Louren�o pegou-lhe na m�o, virou-a para lhe beijar a palma e depois, sem a largar, conduziu Fiora atrav�s do jardim at� � gruta dos seus amores. A luz que vinha das estrelas e que dava ao c�u um tom azul-leitoso iluminou o seu caminho atrav�s do d�dalo das alamedas e curtas escadarias que ligavam os terra�os. Diante da soleira do seu ref�gio detiveram-se e, num �nico movimento, abra�aram-se sob um enorme tufo de jasmim que fazia cair sobre eles o seu perfume e as suas pequenas flores brancas.</p><p>O c�u est� t�o belo, esta noite! murmurou Louren�o contra a boca de Fiora. S� o quero a ele por cima de n�s...</p><p>Ambos se despiram e, nus, deixaram-se cair sobre um tapete de erva ainda verde, que abrigava um maci�o de grandes pe�nias claras.</p><p>O canto do primeiro galo afastou Louren�o. Com uma paix�o desesperada, ele apertou Fiora contra si uma �ltima vez e deu-lhe um longo beijo:</p><p>Deus te guarde, meu amor!...</p><p>Era a primeira vez que ele dizia aquela palavra e Fiora, perturbada, quis ret�-lo, mas Louren�o j� tinha partido. A sua longa silhueta escura, parecida com a de uma fera, corria na direc��o da gruta para ali recolher as suas roupas. Incapaz de se mexer, Fiora, com os bra�os em redor dos joelhos, viu-o desaparecer na ligeira bruma que subia do vale. Algo se enovelou na sua garganta e ela desatou a solu�ar. A jovem tinha a impress�o horr�vel de que a felicidade de rever em breve Philippe sofrera uma fenda... e que lhe seria dif�cil esquecer Louren�o, admitindo que isso fosse poss�vel...</p><p>No entanto, uma coisa era certa: mesmo que o Magn�fico n�o fosse obrigado a sacrificar-se para a tranquilidade de Floren�a, nunca mais o veria. Mesmo que, como ela dissera, nunca se deva dizer �adeus�.</p><p>Foi o que ela quis explicar a Dem�trios quando o encontrou um instante mais tarde, na soleira da casa onde ele a esperava, passeando de um lado para o outro no ch�o de cascalho, as m�os no fundo das suas grandes mangas. Ele f�-la deter-se:</p><p>N�o deves desculpas a ningu�m, Fiora! A ningu�m!</p><p>N�o me condenas?</p><p>A que t�tulo? N�o tenho o direito, nem quero.</p><p>Ele vai, talvez, morrer, sabes?</p><p>N�o vai nada morrer. Floren�a n�o o deixar� partir e vai bater-se por ele. Quanto a ti, acabo de to dizer, n�o te escondas por tr�s de desculpas e cessa de mentir a ti pr�pria. Tu desej�va-lo, tal como ele te desejava... e tanto melhor se deixares aqui um pouco do teu cora��o. Talvez, um dia, venhas c� busc�-lo.</p><p>Dem�trios tinha raz�o. De regresso por volta do meio-dia, Esteban trouxe not�cias consigo. A Senhoria, por unanimidade, ia responder ao Papa, dizendo-lhe que n�o recebia da Santa S� ordens de car�cter temporal. Louren�o n�o cometera qualquer falta, e o povo amava-o. Estava-lhe reconhecido por ele o ter defendido contra aqueles que procuravam tirar-lhe as suas liberdades... Quanto ao cl�rigo toscano, com os prelados � cabe�a, afirmava a sua inten��o, caso a interdi��o fosse lan�ada, de recusar aplic�-la e de reclamar a convoca��o de um conc�lio geral.</p><p>Melhor ainda. Fora oferecido um corpo de guarda a Louren�o, um corpo que o seguiria para toda a parte e Savaglio marcharia � sua frente, de espada nua, porque se sabia de que armadilhas era capaz o �dio de Sisto IV. Quanto � guerra, todos come�avam, j�, a preparar-se e o ouro aflu�a para comprar tropas t�o numerosas quanto poss�vel.</p><p>Eu n�o vou poder fazer nada, j� que me vou embora...</p><p>Rezar�s por n�s disse Chiara, que aparecera com Colomba para uma derradeira visita, j� que Fiora n�o regressaria � cidade. Assim o decidira Louren�o no decurso da sua �ltima noite, a fim de evitar que ela fosse apanhada pela turbul�ncia do povo.</p><p>Eu n�o tenho o h�bito de rezar, sabes?</p><p>L�onarde ensina-te: ela f�-lo muito bem. Vou ter saudades tuas. Tive a impress�o de regressar aos dias de antigamente!</p><p>Por que olhar para tr�s? N�s somos jovens e temos, espero, muitos anos diante de n�s. Talvez possas ir ver-me a Fran�a? � um pa�s magn�fico, diferente deste, claro, mas tu gostarias de o conhecer. Al�m disso, terias enorme sucesso!</p><p>N�o digo que n�o. Mas, primeiro, tenho de convencer o tio Lodovico sobre o interesse das borboletas francesas!</p><p>De bra�o dado e seguidas por Colomba, que fungava para o seu len�o, as duas jovens seguiam pela longa alameda de ciprestes que ia dar � inlla e que a dissimulava, ao mesmo tempo, de olhares estranhos. Um criado levava, pela r�dea, as mulas das visitantes. Subitamente, Fiora viu uma pedra ca�da na erva, que vinha, sem d�vida, do alto do muro que sublinhava a dupla fila de �rvores de um verde quase negro. A jovem pegou nela e, de repente sonhadora, segurou-a na concha da m�o por um instante:</p><p>Lembras-te do que te disse na manh� de S�o Jo�o?</p><p>A pedra arrancada?</p><p>Sim. Sabes, eu pensava que ela tinha retomado o seu lugar no muro a que pertencia. Mas estava enganada. Esta pedra � um sinal...</p><p>N�o. Repara! O lugar dela est� marcado... ali! S� tens de a p�r l�.</p><p>N�o. Ela voltaria a cair. Seria preciso um pouco de argamassa para a fixar e eu n�o tenho nenhuma. Creio que vou guard�-la e lev�-la comigo como recorda��o.</p><p>O seu lugar vai, portanto, ficar vazio, como o teu? Espero que regresseis um dia, uma e outra, para o ocupar.</p><p>E Chiara, de l�grimas nos olhos, beijou a amiga, saltou para a sua mula e fugiu como se houvesse um inc�ndio, perseguida pelos gritos que Colomba lan�ava sem qualquer cerim�nia. Fiora ficou s� no fim da alameda.</p><p>Assim, os la�os que a ligavam � sua querida Floren�a, uns menores, outros maiores, cediam um ap�s outro, sem que ela pudesse saber se voltariam a unir-se um dia. Tivera de renunciar a regressar ao t�mulo do seu pai e essa decis�o fora-lhe penosa, mas Chiara prometera-lhe ir l� rezar todas as semanas em seu nome. No entanto, o mais duro foi, na manh� da partida, a �ltima separa��o, o adeus � casa e �queles que nela iam ficar.</p><p>A partida teve lugar no d�cimo quarto dia do m�s de Julho, dia de S�o Boaventura, doutor da Igreja e companheiro de Francisco de Assis. Para celebrar a ocasi�o foi rezada uma missa no pequeno convento franciscano de Fiesole onde, numa noite de Inverno, Philippe de Selongey e Fiora se tinham unido. Esta, antes de se fazer ao caminho, o caminho que a levaria ao seu marido, queria ouvir missa por uma raz�o que lhe era obscura, mas parecia-lhe que, assim, renovaria, no local do primeiro juramento, os la�os que acreditava quebrados pela morte. De manh� cedo, quando o dia nascia, ela ajoelhou-se perante o tribunal da Penit�ncia, na sombra fria da capela, para ali lavar o seu pecado carnal. A jovem desejava sinceramente apag�-lo da sua alma, sabendo ao mesmo tempo que n�o sentia arrependimento e que a sua contri��o n�o passava de uma fachada. No entanto, as palavras sagradas da absolvi��o agiram no seu esp�rito como ela esperava e restitu�ram-lhe o bem-estar. A amante de Louren�o deu lugar � condessa de Selongey e foi em passo firme que se juntou a Douglas Mortimer, que a esperava na villa com os tr�s homens que constituiriam a sua escolta.</p><p>Fiora abra�ou um a um, com os olhos enevoados e a voz rouca, aqueles que deixava para tr�s. A Esteban, disse:</p><p>Confio-vo-los, Esteban, porque sois o mais forte. Velai por eles, sem vos esquecerdes de v�s pr�prio. N�o vos esque�ais que sois meu amigo.</p><p>A Carlo:</p><p>N�o tivemos muito tempo para nos conhecermos, meu irm�o, mas o pouco que tivemos foi suficiente para que eu vos fique, para sempre, profundamente dedicada. Espero, de todo o meu cora��o, que voltemos a encontrar-nos.</p><p>Por fim, a Dem�trios:</p><p>Tu foste e continuas a ser como um pai para mim e custa-me muito deixar-te. Suplico-te, diz-me que isto n�o � um adeus e que em breve nos voltaremos a ver!</p><p>Tomando-a nos bra�os, ele apertou-a contra si sem conseguir reter as l�grimas:</p><p>Os meus olhos obscurecem-se, pequena Fiora, e o livro do Destino abre-se cada vez mais raramente diante de mim, mas eu sei que n�o estaremos verdadeiramente separados. E agora vai, depressa! Um fil�sofo grego deve permanecer impass�vel em todas as circunst�ncias e, neste momento, n�o me sinto nada fil�sofo...</p><p>Girando nos calcanhares, o m�dico correu a fechar-se na velha torre que lhe servia de observat�rio. Fiora foi ter, ent�o, com Mortimer. De p� junto do seu cavalo, ele segurava-lhe o estribo e ela subiu para a sela enquanto o escoc�s prestava o mesmo servi�o a Khatoun de uma maneira um pouco diferente: contentou-se em pegar nela e pous�-la no dorso do animal sem mais esfor�o do que se estivesse a pegar num simples saco e acompanhando o seu gesto com um sorriso beato que fez corar a jovem t�rtara e divertiu Fiora. O tem�vel sargento la Bourrasque interessava-se, como era evidente, por aquela pequena criatura fr�gil e doce que n�o tinha o ar de pertencer ao mesmo planeta que ele. Mortimer estendeu delicadamente o seu manto sobre o cavalo, sorriu de novo e depois foi ter com a sua pr�pria montada sem se aperceber de que Fiora escondia um sorriso sob o v�u que lhe cobria a cabe�a. Que a viagem come�asse sob uns ausp�cios t�o am�veis parecia-lhe um bom press�gio.</p><p>Abandonando Fiesole, o pequeno grupo desceu tranquilamente a colina at� ao vale do Mugnone, pelo qual seguiriam at� � estrada de Pisa e Livorno. O tempo estava bom e uma brisa vinda do mar deixava esperar que o dia n�o seria muito quente. Fiora, junto de Mortimer, olhava para diante e fazia um esfor�o para n�o se virar mau grado a vontade que tinha, para que o arrependimento n�o invadisse a sua recente serenidade.</p><p>Subitamente, ao atingirem a aldeola de Barco, a jovem estremeceu. Todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma ordem precisa, os sinos de Floren�a, de uma Floren�a excomungada, de uma Floren�a atingida pela interdi��o, come�aram a tocar a um ritmo alegre no ar azul da manh�. Khatoun aproximou-se de Fiora, que parara para melhor escutar:</p><p>� ele que te est� a dizer adeus murmurou ela.</p><p>Talvez... Mas h� outra coisa. Os sinos n�o tocam um adeus, tocam um hino de esperan�a. Floren�a est� a dizer-nos que a aventura n�o lhe mete medo, que continua forte e livre e que nada nem ningu�m a far� mudar... E agora, vamos! Temos de continuar!</p><p>Toda a emo��o daquele instante evitou que ela reparasse num homem que a espiava, escondido por tr�s de um tronco de oliveira. Esse homem era Luca Tornabuoni...</p><p>Dois dias mais tarde, no momento em que, no porto piscat�rio de Livorno, a caravela que ia conduzir o pequeno grupo at� Marselha i�ava nos seus tr�s mastros as grandes velas, Philippe de Commynes, em Roma, fazia soar, sob os tac�es das suas botas, as lajes de m�rmore da sala do Papagaio. Ao fundo, escondido no seu trono como um animal emboscado, Sisto IV via-o aproximar-se por entre as p�lpebras semicerradas. Ao lado do embaixador franc�s, o traje p�rpuro do cardeal-carmelengo Guillaume d�Estouteville deslizava sem ru�do... Diante deles trotava o mestre-de-cerim�nias Patrizi, mais do que nunca parecido com um ratito aterrorizado.</p><p>Ap�s o ritual solene das sauda��es protocolares, o Papa, sem romper o sil�ncio de mau agoiro em que se mantivera ap�s a entrada do enviado de Lu�s XI, olhou por um momento para o rosto cheio e tranquilo do flamengo cujos olhos azuis n�o se privaram de o examinar com uma certa curiosidade. Philippe pensou que aquele homem gordo correspondia � imagem que se fazia dele: parecia t�o tinhoso quanto era na realidade. Por fim, do fundo do seu triplo queixo, o Papa grunhiu:</p><p>Que nos quer o Rei de Fran�a?</p><p>Commynes tirou da sua manga uma carta selada com o Grande Sinete, avan�ou dois passos e, com uma genuflex�o, ofereceu-a ao Sumo Pont�fice. Mas as suas m�os n�o deviam ser suficientemente nobres para transmitirem directamente a mensagem, porque foi d�Estouteville quem pegou nela e a estendeu ao Papa:</p><p>Abri, Nosso irm�o e lede! disse-lhe Sisto IV. Quando descobriu o que tinha entre as m�os, o cardeal ficou t�o vermelho como o seu traje. O latim do Rei Lu�s era, com efeito, suficientemente veemente para justificar todos os receios e enquanto desenrolava a prosa real, Estouteville perguntava a si pr�prio se o embaixador n�o deixaria a cabe�a em Roma:</p><p>�Fa�a o C�u com que Vossa Santidade tome consci�ncia do que faz, escrevia o rei e que, se n�o quer defrontar os Turcos, que renuncie, pelo menos, a prejudicar quem quer que seja que n�o concorde com Seu minist�rio. Porque eu sei que Vossa Santidade n�o ignora que os esc�ndalos previstos no Apocalipse caem hoje sobre a Igreja e que os autores desses esc�ndalos n�o sobreviver�o, conhecendo o mais terr�vel fim, tanto neste mundo como no outro. Preze ao C�u que Vossa Santidade esteja inocente dessas abomina��es...</p><p>A voz do prelado estrangulou-se um pouco ao pronunciar as �ltimas palavras, mas estas n�o foram menos intelig�veis. Furioso, Sisto acabava de saltar do seu trono e lan�ava uma esp�cie de urro vingador que terminou numa s�rie de impreca��es:</p><p>Filho da iniquidade! Esse Rei vai saber quanto vale a minha c�lera! Ousar insultar-Nos assim? Vamos excomung�-lo, vamos interditar-lhe o reino...</p><p>Texto integral da carta recebida pelo Papa das m�os de Philippe de Commynes.</p><p>Ent�o, Commynes interveio:</p><p>O meu Rei n�o fez nada que mere�a isso, Mui Santo Padre! � dever dos pr�ncipes crist�os chamar a aten��o do trono de S�o Pedro para as suas responsabilidades. Quando as velas turcas se aproximam lentamente das costas adri�ticas, Vossa Santidade, em vez de tentar juntar a It�lia sob a Sua m�o augusta para opor ao Infiel uma for�a forte e unida, s� sonha com a destrui��o de Floren�a...</p><p>Porque Floren�a merece ser destru�da. Ousar enforcar o arcebispo de Pisa, ousar reter como ref�m o nosso cardeal-legado de Per�sia...</p><p>Monsenhor de M�dicis n�o reteve o cardeal Riario como ref�m: pelo contr�rio, ofereceu-lhe o asilo do seu pal�cio para lhe evitar o destino do arcebispo Salviati. Floren�a � uma cidade piedosa e fiel a Vossa Santidade, mas n�o pode aceitar que em plena missa de P�scoa, no instante sagrado da Eleva��o, lhe assassinem os pr�ncipes. O Rei de Fran�a n�o apreciou nada o... direi o incidente de Santa Maria del Fiore. E n�o � o �nico na Europa.</p><p>N�s n�o temos quest�o nenhuma com ele!</p><p>A s�rio? Que Vossa Santidade reflicta! O Rei n�o alimenta qualquer inten��o hostil para com o papado. Mais, encarregou-me de oferecer a sua ajuda para combater o Turco, uma ajuda a n�o desprezar. Mas se Vossa Santidade se obstina em querer destruir Floren�a... ou a oferec�-la pela viol�ncia ao Seu sobrinho, o conde Girolamo Riario, essa ajuda ir� para Floren�a. Que Vossa Santidade queira, por outro lado, recordar-se dos direitos familiares que a Fran�a conserva sobre o reino de N�poles, usurpado por Afonso de Arag�o. Se o Rei decidisse lembrar-se desse pequeno Estado e desejasse reconquist�-lo, Roma poderia ver-se numa posi��o enganadora. Por fim, suplico a Vossa Santidade que tome em considera��o as suas... finan�as.</p><p>As nossas finan�as? Que significa isso?</p><p>Que neste mesmo dia de hoje o Rei, meu senhor, dever� ter publicado uma ordem interditando as gentes da Igreja de se deslocarem a Roma... ou de enviar para c� seja que dinheiro for, sob pena de pesadas multas.</p><p>Que dizeis?</p><p>A surpresa de Vossa Santidade espanta-me. Ela n�o deve ignorar que o Rei, que achou por bem abolir a Pragm�tica San��o de Burges, est� a pensar, muito seriamente, restabelec�-la. Essa ordem � apenas o come�o.</p><p>E v�s ousais vir dizer-Nos isso, cara a cara?</p><p>A quem mais poderia diz�-lo? Santo Padre, o meu Rei, o Rei �Mui crist�o�, n�o usurpou esse t�tulo a ningu�m. Mais piedoso do que ele, mais devotado aos interesses de Deus e da sua mui Santa M�e, n�o se pode encontrar. A sua preocupa��o est� cheia de devo��o filial e do desejo profundo de ver brilhar o trono de Pedro, tal como no tempo de Inoc�ncio, sobre todos aqueles que amam e servem a Cristo. A amea�a turca � real, urgente, e antes de responder por meio do an�tema seria conveniente examin�-la com esp�rito frio e l�cido.</p><p>Como o do Rei de Fran�a?</p><p>Exactamente, porque Lu�s � soberano antes de ser homem, pai, ou o que quer que seja, e a gl�ria de Deus �-lhe mais querida do que a sua.</p><p>Pensando n�o ter nada a acrescentar, o embaixador dobrou o joelho uma vez mais e, como o exigia o uso, que proibia que se virasse as costas ao Papa, come�ou a recuar na direc��o da porta. Em vez de o acompanhar, o cardeal d�Estouteville tomou o seu lugar junto do trono sem parecer aperceber-se da tempestade pr�xima que se acumulava sob as augustas p�lpebras:</p><p>Tendes mais alguma coisa a acrescentar? perguntou o pont�fice.</p><p>Com efeito, e pe�o desculpa, mas Vossa Santidade � demasiado amiga da justi�a e demasiado preocupada com o bem-estar dos Crist�os para que eu n�o a informe de um facto, m�nimo, sem d�vida, mas ao qual eu A acho suscept�vel de dar um pre�o.</p><p>Que facto � esse?</p><p>Trata-se de... donna Fiora Beltrami, que Vossa Santidade, na maior das boas-f�s, casou, h� coisa de tr�s meses, com o jovem Carlo del Pazzi.</p><p>O rosto sangu�neo de Sisto IV, mais uma vez, ficou da cor de um tijolo:</p><p>Isso � um assunto de que N�s n�o gostamos de falar e v�s dev�eis sab�-lo, Nosso irm�o em Jesus Cristo. Essa mulher respondeu com a mais negra das ingratid�es e com uma fuga vergonhosa �s indulg�ncias com que N�s a quer�amos cumular, primeiro por piedade e depois porque ela Nos parecia digna da Nossa benevol�ncia. Que temos mais a reprovar-lhe?</p><p>Nada, Muito Santo Padre, absolutamente nada... mas seria sensato dar a saber � Chancelaria do Estado que ela dever� anular o casamento e at�... apag�-lo completamente dos seus registos.</p><p>Apag�-lo? E porqu�? Um casamento que N�s mesmos celebr�mos na nossa capela privada... e na vossa presen�a, cardeal? Se existia um impedimento a essa uni�o, por que n�o a destes a saber ent�o, como exige o ritual de uma cerim�nia nupcial?</p><p>Estava na ignor�ncia, Muito Santo Padre e Vossa Santidade teria rejeitado com horror a ideia de celebrar uma tal uni�o se...</p><p>Se o qu�? Parai de Nos fazerdes andar �s voltas, por todos os santos do Para�so!</p><p>Se soubesse que essa jovem n�o era vi�va, como n�s pens�vamos... e como ela pr�pria tamb�m pensava.</p><p>O qu�?</p><p>Commynes encarregou-se de assestar o �ltimo golpe com um j�bilo interior que necessitou, para n�o ser demasiado evidente, de todos os recursos da sua diplomacia:</p><p>Nada mais verdadeiro, Mui Santo Padre. O conde Philippe de Selongey, condenado � morte, subiu, com efeito, ao cadafalso de Dijon... mas voltou a descer s�o e salvo, porque as ordens do Rei eram para s� lhe darem a conhecer a sua gra�a no instante supremo.</p><p>Seguiu-se um sil�ncio pesado, perturbado apenas pelos pios das aves que ocupavam, na sala vizinha, um grande viveiro dourado. O Papa lan�ou um profundo suspiro-.</p><p>E... ela? Onde est� ela neste momento?</p><p>Segundo o que consegui saber, vai a caminho de Fran�a, Mui Santo Padre...</p><p>E Commynes, com uma �ltima e profunda rever�ncia, abandonou a sala do Papagaio.</p></section></section><section><title><p>Segunda parte</p><p>CAMINHOS SEM SA�DA</p></title><section><title><p>CAPITULO IV</p><p>CONVERSAR � SOMBRA DE UMA CEREJEIRA</p></title><p>O fim do dia aproximava-se, algumas semanas mais tarde, quando Douglas Mortimer deixou Fiora e Khatoun � entrada do velho caminho sombreado de carvalhos vener�veis que ia dar � Casa das Pervincas.</p><p>Eis-vos chegada a bom porto! disse ele, saudando-a. E n�o precisais de testemunhas para encontrar os vossos...</p><p>Pod�eis entrar para vos refrescardes? A etapa foi longa e o dia quente.</p><p>Encontrarei tudo isso em Plessis. Amanh�, com a vossa permiss�o, virei visitar-vos, saudar a dama L�onarde e ver se o vosso filho cresceu muito.</p><p>O cora��o de Fiora batia mais depressa do que o costume enquanto o passo do seu cavalo a levava pelo caminho por entre as ervas daninhas dos seus taludes. O seu filho, na sua mem�ria, n�o era mais do que um pequeno embrulho esperneando nos seus bra�os, infinitamente doce e eis que se aproximava do seu primeiro ano de vida sem que a sua m�e soubesse nada dele. A jovem n�o recebera os seus primeiros sorrisos e, quando ele sofrera de um qualquer mal, n�o fora ela que se debru�ara sobre o seu ber�o e perdera as noites junto dele. Muito certamente, v�-la-ia como uma estranha e, no momento de abordar esse universo, Fiora n�o podia deixar de sentir alguma apreens�o.</p><p>Quando sa�ram da cobertura das �rvores e a casa apareceu, rosa e branca no seu ninho de verdura, Khatoun bateu palmas, encantada com o espect�culo. O jardim era um aut�ntico ramo de flores e as pervincas, ao assalto do terra�o, transbordavam do pequeno bosque e espalhavam-se como um tapete real. Ao fundo, o Loire brilhava, reflectindo os raios vermelhos do Sol sumptuoso que parecia encher de chamas os edif�cios claros do priorado de Saint-C�me. O ar cheirava a flores, a pinheiro, a erva recentemente cortada e um pouco a lodo vindo do rio.</p><p>Como � belo! suspirou Khatoun. Mas... n�o est� ningu�m?</p><p>Uma voz, que se parecia alegremente com um rondo antigo, brotou das profundezas do jardim e aproximou-se. Por fim, um jovem desembocou de um arbusto de aristol�quias, transportando aos ombros uma crian�a que ria agarrada aos seus cabelos cor de palha. Uma das montadas das jovens relinchou, o que fez com que ele virasse a cabe�a. O jovem estacou, enquanto os seus olhos azuis se esbugalhavam. Ao mesmo tempo, com um gesto maquinal, retirou a crian�a dos ombros e instalou-a no bra�o.</p><p>Ent�o, Florent? perguntou Fiora, sorrindo. J� n�o me reconheceis?</p><p>A primeira surpresa passou e, subitamente, as pupilas do jovem iluminaram-se, ao mesmo tempo que um verdadeiro urro de alegria se escapava da sua garganta:</p><p>Dama L�onarde! P�ronnelle! �tienne!... Depressa! Venham depressa! Venham todos! A nossa dama regressou!</p><p>E como ningu�m, aparentemente, o ouvisse, atirou com a crian�a para os bra�os de Fiora e desatou a correr na direc��o da casa gritando a plenos pulm�es:</p><p>A nossa dama regressou! A nossa dama regressou! Aquela brusca mudan�a n�o foi do agrado do jovem Philippe,</p><p>que protestou energicamente. A sua pequena boca redonda abriu-se enormemente para um �Uinn.. in., in...!� vigoroso, que terminou num dil�vio de l�grimas!</p><p>Meu Deus! gemeu Fiora meti-lhe medo! Desolada, a jovem n�o ousava apert�-lo contra si e cobrir de beijos os pequenos carac�is castanhos e sedosos que lhe cobriam a cabe�a, como morria de desejo.</p><p>Mas n�o, ele n�o tem medo de ti disse Khatoun. Foi aquele rapaz imbecil que o agitou demasiado. Espera!</p><p>A jovem p�s-se a agitar as m�os e a fazer caretas, coisa que pareceu espantar a crian�a. Esta parou de chorar e depois, quase sem transi��o, desatou a rir.</p><p>Est�s a ver? Acabou o desgosto, em breve vai compreender que �s a sua mam�.</p><p>O pequeno olhava agora para aqueles dois rostos t�o diferentes que lhe sorriam. Fiora aconchegou-o ternamente nos bra�os e come�ou a embal�-lo suavemente:</p><p>Meu beb�!... meu bebezinho! Como tu �s belo!</p><p>Com os l�bios, ela tentou apanhar em voo as duas m�ozinhas que se agitavam diante do seu rosto, procurando apanhar um canto do v�u branco ou uma mecha de cabelos. Finalmente, Philippe escolheu o nariz da m�e e puxou-o com decis�o.</p><p>Mas, ele j� � t�o forte! exclamou ela, rindo e chorando ao mesmo tempo... Oh, Khatoun, como pude ficar tanto tempo longe dele?</p><p>A jovem t�rtara n�o teve tempo de dar uma resposta a uma pergunta que, ali�s, n�o a pedia: qual bando de pardais, os habitantes da casa corriam ao seu encontro. As pernas de L�onarde n�o valiam as dos seus companheiros, mas ningu�m se atrevia a ultrapass�-la naquela corrida de boas-vindas. Pelo contr�rio, Florent e Marcelline, a ama da crian�a, apoiavam-na e foi ela que, em primeiro lugar, caiu nos bra�os de Fiora, precipitadamente desembara�ada do seu filho por uma Khatoun que s� esperava aquilo, encantada por conhecer, finalmente, o �beb� Philippe�.</p><p>Durante uns momentos foi tudo abra�os, sauda��es, apertos de m�o, exclama��es de alegria e desejos de boas-vindas. L�onarde que, qual cornetim numa batalha, chorava como uma fonte enquanto apertava contra o cora��o o �seu cordeirinho�, abra�ou Khatoun quase t�o calorosamente, o que surpreendeu a rapariga, pouco habituada a tais demonstra��es vindas daquela �donna L�onarda� que ela sempre achara um pouco severa de mais.</p><p>Deus permitiu que vos reencontr�sseis declarou L�onarde que o Seu nome seja aben�oado e que esta casa, onde vais viver doravante, te seja doce! S�o os belos dias de antigamente que regressam contigo!</p><p>E voltou a abra��-la para melhor mostrar a alegria que sentia por voltar a v�-la. �tienne L� Puellier e a sua mulher P�ronnelle, respectivamente intendente e cozinheira do pequeno dom�nio, tinham, tamb�m, l�grimas nos olhos por reverem uma jovem patroa por quem sentiam uma amizade pr�xima da afei��o. Quanto ao jovem Florent, ex-aprendiz de banqueiro nos estabelecimentos de Agnolo Nardi, em Paris, e agora jardineiro e bra�o direito de �tienne, contemplava Fiora de m�os unidas e olhar maravilhado, sem procurar enxugar as abundantes l�grimas que lhe corriam pelo bibe de tela azul: os seus sentimentos por Fiora n�o eram segredo para ningu�m e dar com ele em �xtase n�o tinha nada de surpreendente.</p><p>Apenas Marcelline, a ama, que n�o tivera tempo de conhecer a m�e do seu filho de leite, mostrou alguma modera��o e declarou que se sentia feliz por a �Senhora Condessa� estar de regresso, mas apressou-se a tirar o pequeno Philippe dos bra�os de Khatoun, esfor�ando-se por fulmin�-la com o olhar. Ao ver os cantos dos l�bios da sua antiga escrava curvarem-se de decep��o, Fiora compreendeu que iria ter dificuldades por aquele lado e, para p�r toda a gente de acordo, exclamou:</p><p>Deixai-o um pouco comigo, Marcelline! H� meses que n�o o vejo...</p><p>� que ele � muito pesado, Senhora Condessa! E depois de uma viagem t�o longa...</p><p>Ainda sou capaz de suportar esse fardo disse ela com bom humor. H� tanto tempo que sonho com isto!</p><p>E, segurando orgulhosamente o seu filho nos bra�os, p�s-se a caminho de casa, para onde j� tinha desaparecido P�ronnelle, gritando que ia preparar o melhor jantar da terra. L�onarde e Khatoun enquadravam Fiora, seguidos por �tienne e Florent com os cavalos pela brida, que conduziriam � cavalari�a depois de os terem desembara�ado das bagagens e dos arreios. Marcelline resolveu juntar-se a P�ronnelle para a ajudar nas tarefas da cozinha.</p><p>L�onarde n�o cessava de contemplar Fiora, como se tivesse medo de a ver dissipar-se, como um sonho, com os �ltimos raios de sol. Visivelmente, transbordava de perguntas e n�o resistiu muito tempo � vontade de fazer a primeira:</p><p>De onde chegais assim, meu cordeiro?</p><p>Ides ficar surpreendida, minha L�onarde: venho de Floren�a, onde vi o nosso amigo Commynes. E foi Douglas Mortimer que nos trouxe...</p><p>De Floren�a? Mas... como fostes l� parar? N�o foi uma grande imprud�ncia?</p><p>N�o, as coisas mudaram muito! Oh, minha amiga, tenho tantas coisas para vos contar que nem sei por onde come�ar!</p><p>O mais simples n�o ser� pelo come�o? Quando fostes raptada, por exemplo...</p><p>Sem d�vida, mas e Fiora baixou a voz o que vivi durante aqueles meses n�o pode ser ouvido por todos os ouvidos. E pe�o-vos um pouco de paci�ncia, at� que fiquemos s�s, logo � noite. Como recompensa, quero que me respondais imediatamente � pergunta que me atormenta desde a minha partida para It�lia: sabeis onde est� Philippe?</p><p>Philippe? Mas... tende-lo nos bra�os!</p><p>Apoiando a face na pequena cabe�a, Fiora pousou nela um beijo pleno de do�ura e ternura.</p><p>Ele n�o, L�onarde... o pai!</p><p>Os olhos da velha solteirona dilataram-se sob o efeito de um medo subitamente mesclado de ang�stia, que Fiora n�o teve qualquer dificuldade em traduzir: a sua segunda m�e estava a perguntar a si pr�pria se ela regressava com o ju�zo todo.</p><p>N�o vos inquieteis, eu n�o estou louca! Mas vejo que a vossa ignor�ncia � igual � minha antes do meu encontro com Commynes. Foi ele que me disse a verdade.</p><p>Qual verdade?</p><p>A �nica aceit�vel, acho eu: a execu��o do meu marido n�o teve efeito e Philippe deixou o cadafalso vivo... mas para ir para onde? Eis o que Commynes n�o me soube dizer.</p><p>L�onarde franziu o sobrolho e a sua m�o pousou-se no bra�o de Fiora como que para a deter perante um perigo:</p><p>Ou n�o quis. Tende cuidado, minha filha! Pode tratar-se de um segredo de Estado, do qual s� o Rei possui a chave! Talvez seja melhor falar disso por tr�s de portas fechadas! Algumas palavras n�o foram feitas para voar com o vento.</p><p>Tens raz�o! Falaremos disso mais tarde!</p><p>E, apertando ternamente contra o peito o beb� que chilreava, Fiora transp�s, finalmente, a soleira da Casa das Pervincas onde, de momento, cheirava a frango assado.</p><p>Naquela noite, Fiora decidiu que toda a gente jantaria na cozinha a despeito dos protestos indignados de P�ronnelle, que via fugirem-lhe, de repente, as suas prerrogativas de castel�. Fiora n�o a quis ouvir:</p><p>H� meses que sonho regressar a esta casa disse ela mas, sem v�s, ela n�o passa de uma concha vazia e eu preciso de vos sentir � minha volta. Al�m disso, P�ronnelle, eu sei de muitos sal�es de castelos que n�o chegam aos calcanhares da vossa cozinha.</p><p>Foi assim que se encontraram todos em redor da longa mesa de carvalho encerado, sobre a qual L�onarde estendeu uma toalha de tela fina que Florent, para honrar a rec�m-chegada, ornamentou com camadas de pequenas rosas e pervincas. Toda a gente se instalou alegremente em redor de algumas das especialidades de P�ronnelle, desde os pat�s de salm�o, de enguia e de galinha-do-mato, os finos chouri�os enrolados em p�o, um suculento assado de javali com groselhas, umas deliciosas filh�s de flor de ac�cia, compotas variadas e umas far�fias de caramelo e am�ndoas, aos pequenos queijos frescos pousados em folhas de videira e servidos com especiarias. Naturalmente, �tienne mergulhara na cave para dela extrair alguns jarros dos seus melhores vinhos de Orle�es ou de Vouvray.</p><p>Fiora falou, claro, muito mais do que os outros convivas, se bem que n�o se privasse de fazer perguntas acerca do que se passara durante a sua aus�ncia. Todos estavam �vidos por saber das suas aventuras depois da noite tr�gica em que Montesecco a raptara com ordens do Papa para a levar cativa para Roma. No entanto, a narrativa levantou alguns problemas � narradora. N�o podia chocar os sentimentos profundamente religiosos daquela gente corajosa, nem contar-lhe pormenorizadamente a sua vida durante aqueles dias. A jovem teve de atalhar, suprimir, embelezar certas passagens, insistindo, assim, na estadia no convento de Santo Sisto em vez de na estadia no pal�cio B�rgia, passar em sil�ncio pelo casamento com Carlo e, sobretudo, pelo epis�dio apaixonado vivido com Louren�o. Evidentemente, foi imposs�vel evitar o assass�nio de Giuliano na catedral de Floren�a e Fiora viu enevoarem-se, ent�o, os rostos, ao mesmo tempo que as m�os desenhavam um r�pido sinal da cruz.</p><p>� ao nosso sire, o Rei disse ela em conclus�o que devo o facto de ter podido regressar para junto de v�s sem obst�culos. O meu reencontro com o embaixador, em Floren�a, proporcionou-me, por fim, todas as facilidades que eu esperava para poder regressar a Fran�a.</p><p>Beberam, portanto, � sa�de do Rei Lu�s e depois Fiora, L�onarde e Khatoun, a quem tinham destinado um leito perto do quarto da sua jovem patroa, recolheram aos seus aposentos onde j� dormia o pequeno Philippe sob a guarda da sua ama.</p><p>Se Fiora ficara, � chegada, um pouco inquieta sobre o que o seu pessoal origin�rio de Tours pensaria de Khatoun, em breve ficou tranquilizada. A gentileza e alegria da jovem t�rtara fizeram esquecer o seu aspecto um pouco ex�tico. P�ronnelle encontrou-lhe, at�, uma certa semelhan�a com a pequena est�tua de Santa Cec�lia que velava sobre o �rg�o do priorado de Saint-C�me. Por�m, a boa mulher fez quest�o de esclarecer um ponto que a preocupava:</p><p>Ela... ela � crist�?</p><p>� claro que sim respondeu Fiora. Foi baptizada na igreja da Sant�ssima Trindade, em Floren�a, com o nome de Doctrov�e, santa patrona do d�cimo dia do m�s de Mar�o... mas n�s sempre lhe cham�mos Khatoun. O meu pai achava que o nome lhe ia bem, porque ela se parecia com um gatinho.</p><p>� verdade aprovou Florent. Um gato bem bonito! E foi assim que Khatoun fez a sua entrada na Casa das Pervincas, onde se instalou com toda a simplicidade, como se a conhecesse desde sempre: a sua espantosa capacidade de adapta��o facilitara-lhe muito a vida quando fora separada de Fiora e do universo dourado da sua inf�ncia.</p><p>Nessa noite, L�onarde mandou-a deitar-se, porque n�o teria permitido a ningu�m que ajudasse o �seu cordeiro� na toilette da noite e no ritual do deitar:</p><p>H� muito tempo que isto n�o me acontece! declarou ela firmemente, enchendo uma bacia com um jarro de �gua.</p><p>Ap�s ter aplicado longamente uma lo��o no corpo de Fiora com a ajuda de uma esponja para o livrar das poeiras de uma cavalgada de v�rios dias, a governanta secou-o com uma toalha fina e depois, empunhando uma escova de crina, desembara�ou os cabelos e escovou-os com vigor.</p><p>Khatoun, o vosso filho e Marcelline dormem a sono solto declarou ela tranquilamente. Estamos s�s. Talvez me possais dizer a verdade?</p><p>A verdade?</p><p>Sim. Sabeis muito bem, o contr�rio de mentira e ilus�o... Porque foi uma ilus�o aquilo que contastes perante o pessoal durante aquele jantar memor�vel. Eu quero saber o que vos aconteceu na realidade!</p><p>Pensais que menti?</p><p>N�o penso, tenho a certeza.</p><p>Que vos faz pensar desse modo? perguntou Fiora, divertida.</p><p>V�s sempre tivestes a infelicidade de corar quando mentis, meu anjo, e esta noite corastes muito. O vinho de Vouvray talvez tenha alguma culpa, mas sou capaz de apostar a minha vida em como entre a vossa estadia no convento, o vosso longo combate contra aquele Papa incr�vel, a vossa amizade com a condessa Catarina e aquela viagem at� Floren�a para tentar salvar os M�d�cis, aconteceram... coisas! Ali�s, parece que acabastes por ficar algum tempo em Floren�a?</p><p>Reconhe�o-o. Vendo que era poss�vel viver ali normalmente, confesso que at� � chegada de Commynes acalentei a ideia de vos mandar buscar com o meu pequeno Philippe e recome�ar l� uma vida parecida com a de outros tempos, porque... Louren�o guardou a maior parte da minha fortuna.</p><p>A sua hesita��o impercept�vel, antes de pronunciar o nome do Magn�fico, n�o escapou a L�onarde. Fiora constatou-o ao encontrar o seu olhar no espelho... e constatou tamb�m, um pouco irritada, que corara de novo.</p><p>Louren�o? sussurrou a velha solteirona, erguendo a massa de cabelos negros e sedosos para a arejar. Parece-me que a vossa voz treme um pouco ao pronunciar esse nome!</p><p>Bruscamente, Fiora levantou-se e, apertando contra o peito o tecido fino que a envolvia, come�ou a andar de um lado para o outro sobre o tapete do seu quarto. L�onarde n�o disse nada e deixou-a andar. Ao cabo de uns momentos, a jovem parou diante dela:</p><p>De qualquer maneira, eu tinha inten��o de vos dizer tudo. Eu fiquei em Floren�a, � verdade e a culpa � de Louren�o. Na noite do assass�nio da catedral, ele tornou-se meu amante... e, mesmo quando soube que Philippe estava vivo, n�o me foi f�cil separar-me dele. Dai-me uma roupa mais c�moda, L�onarde, e sentai-vos perto de mim aqui, em cima da cama: eu vou contar-vos tudo pormenorizadamente.</p><p>Estais certa de n�o estar demasiado cansada?</p><p>Que hip�crita me sa�stes! disse Fiora, rindo. H� uma hora que me encharcais com �gua fria. N�o me ides dizer que n�o t�nheis uma ideia preconcebida?</p><p>Confesso disse L�onarde com bom humor mas prometo-vos que preparei, para daqui a pouco, um ch� de t�lia, para que possais passar uma boa noite.</p><p>J� passava da meia-noite quando Fiora recebeu a tisana em quest�o e deslizou por entre os len��is frescos que cheiravam a hortel� e a pinheiro. Enquanto a bebia, os seus olhos, por cima da ch�vena, interrogavam os de L�onarde de p�, de bra�os cruzados, junto da sua cama:</p><p>N�o vos fa�o horror?</p><p>Porqu�? Porque, crendo-vos vi�va, deixastes que a natureza falasse e vos entregastes a um homem... com quem mais de uma mulher sonha? Aquele louco do Dem�trios deve, ali�s, ter-vos dito o que pensava?</p><p>� verdade. Ela pareceu compreender que, apesar de n�o o amar verdadeiramente, eu podia ser feliz com Louren�o...</p><p>Espantar-me-ia muito se ele vos tivesse pregado as mortifica��es e o convento! Aqueles gregos t�m uma moral muito pr�pria, mas, na ocasi�o, ele teve raz�o: v�s demonstrastes uma coragem de homem e t�nheis direito a uma recompensa. E agora dormi e n�o penseis mais nisso. Amanh� ser� um novo dia... e o come�o de uma nova vida. � para esse lado que tendes de olhar.</p><p>Tendo dito aquilo, L�onarde debru�ou-se para beijar Fiora e depois, ap�s ter declarado que n�o acendia a vela de vigia por causa dos mosquitos particularmente vorazes naquele Ver�o, abandonou o quarto de Fiora e foi para o seu. Ali, antes de se deitar, permaneceu durante muito tempo de joelhos diante de uma estatueta de Nossa Senhora de Cl�ry que Lu�s XI lhe oferecera para nela descarregar as suas esperan�as e ora��es durante a longa aus�ncia de Fiora. A velha solteirona tinha muitas merc�s a formular pelo regresso da viajante, mas n�o se p�de impedir de acrescentar uma outra ora��o, no sentido de que novas prova��es fossem poupadas � filha do seu cora��o...</p><p>No dia seguinte de manh�, ao chegar � cozinha, encontrou Douglas Mortimer. Sentado confortavelmente, o escoc�s regalava-se com um pat� de coelho de que P�ronnelle lhe servia em por��es generosas. Aquele espalhava-as sobre grandes fatias de p�o. A cada por��o correspondia uma pequena cebola de conserva em vinagre, que ele tirava de um pequeno pote de barro com a ponta da sua faca. O conte�do de um grande pichel de vinho de Orle�es ajudava a deslizar tudo.</p><p>Vendo entrar a jovem, ele levantou-se e saudou sem abandonar, por isso, a sua fatia de p�o e a sua faca:</p><p>O Rei mandou-me ter convosco, donna Fiora explicou ele e enquanto esperava que acord�sseis, a dama P�ronnelle deu-me com que aguardar com paci�ncia.</p><p>Fez muito bem e eu vou fazer-vos companhia. Tenho fome e esse pat� cheira t�o bem... Mas, por que raz�o o nosso sire vos enviou logo de manh�? Trazeis alguma mensagem importante?</p><p>Sim e n�o. O Rei convida-vos para jantar esta noite, mas eu sou um madrugador, que gosta muito de organizar o seu dia logo que abre os olhos. Al�m disso, a ideia de vir passar um momento na vossa cozinha n�o � nada desagrad�vel concluiu ele com bom humor.</p><p>O Rei d�-me uma grande honra disse Fiora puxando a terrina para ela. Mas estar�o presentes outros convidados e eu gostaria de falar a s�s com ele.</p><p>Tamb�m ele. � por isso que quer que estejais l� por volta das quatro horas, a hora do seu passeio a p�, ou a cavalo. Hoje ser� a p�. Podereis dar a volta � horta, ou ao pomar, ou visitar as cavalari�as e a montaria...</p><p>� hora mencionada, Fiora, escoltada por Florent, muito orgulhoso por reencontrar o seu papel de cavaleiro de honra, penetrou no p�tio de Plessis e p�s p� em terra perto do velho po�o. A sua toilette levantara-lhe alguns problemas. Ela sabia como o seu real anfitri�o apreciava a simplicidade, sobretudo se iam caminhar pelos campos, mas, por outro lado, ele gostava que se respeitasse um certo decoro e, portanto, um certo requinte quando se tinha a honra de se ser aceite no seu s�quito particular. Assim, ap�s muita reflex�o, Fiora optara, com a aprova��o de L�onarde, por um vestido de seda sem reflexos, com desenhos negros e brancos e com uma estreita fita verde sob os seios. Uma pequena coifa, da mesma cor de folha jovem e nublada por uma musselina branca engomada, tapava-lhe a cabe�a. Uma �nica j�ia lhe sublinhava o decote: a quimera de ouro com olhos de esmeralda que usara na noite do seu casamento com Philippe e que L�onarde conseguira salvar do saque do pal�cio Beltrami.</p><p>A jovem nem teve tempo de chegar � porta do castelo: o Rei vinha a sair. Ao v�-la, ele teve uma exclama��o de alegria e aproximou-se dela em passo vivo, ao mesmo tempo que ela dobrava profundamente o joelho para o saudar e dissimular, com aquele gesto de respeito, a vontade de rir que sentia. Lu�s XI, com efeito, vestido, como era seu h�bito, com uma curta t�nica cinzenta que lhe chegava aos joelhos e apertada por um cinto de couro, tinha na cabe�a a cobertura mais espantosa que Fiora alguma vez vira. Era, enfiada sobre o gorro de seda vermelha que lhe cobria as orelhas reais, uma esp�cie de chap�u cardinal�cio negro, cujas abas, muito largas e de um dedo de espessura, lhe cobriam por completo os ombros e o enchiam de sombra. Com a cabe�a tapada daquela maneira, a sua semelhan�a com um cogumelo era irresist�vel e o sorriso que Fiora lhe ofereceu brilhava de tanta gra�a que ele n�o se deixou enganar.</p><p>� o meu chap�u que vos diverte, donna Fiora? Bem, ficais a saber que gosto muito dele, porque, quando est� calor, vale uma pequena casa e, quando chove, tapa-me melhor do que os meus chap�us habituais, que se transformam em goteiras... Foi uma ideia que tirei ao bispo de Val�ncia.</p><p>Por minha f�, Sire, foi uma boa ideia. Lamento, apenas, que o costume n�o permita que n�s, as mulheres, possamos usar semelhantes adere�os.</p><p>Poder�eis, se f�sseis abadessa. Mas, a s�rio, ningu�m vos impede de lan�ar a moda! Uma mulher bonita n�o pode ter algumas fantasias?</p><p>Fiora n�o teve oportunidade de responder. Escapando das m�os de um pajem, um grande galgo branco aproximou-se e come�ou a saltar em redor do Rei antes de se encostar �s suas pernas e de erguer para ele a sua fina cabe�a. Mesmo sem a rica coleira com pregos de ouro e pedras preciosas, Fiora teria reconhecido o c�o favorito de Lu�s, seu auxiliar numa circunst�ncia particularmente dram�tica. O Rei desatou a rir:</p><p>Ah, Cher Ami! Queres ir passear connosco? Mas, n�s s� vamos at� ao jardim, sabes? Ter�s de nos seguir com muito ju�zo. N�o podes estragar os canteiros. Lembrais-vos dele, donna Fiora?</p><p>Perfeitamente, Sire respondeu ela, acariciando o dorso sedoso do animal. N�o se esquece facilmente um companheiro de armas... sobretudo um t�o belo como ele.</p><p>� verdade. Fizestes, ambos, um bom trabalho contra aquele monge vil�o. Sab�eis que ele morreu?</p><p>Sabia, Sire, foi de doen�a?</p><p>Por minha f�, n�o. Creio que morreu de c�lera. Ficou furioso e partiu a cabe�a nas barras da cela. Foi enterrado com dignidade e rezaram-se tr�s missas pelo descanso da sua alma malvada.</p><p>Tendo dito aquilo, Lu�s XI benzeu-se devotamente, deu uma guloseima a Cher Ami e retomou o seu caminho. Em frente da resid�ncia, nenhum muro, ou parede, escondia a vista. Uma simples barreira, que o pr�prio Rei empurrou, dava acesso aos jardins e ao pomar.</p><p>Seguindo-o ao longo das alamedas de saibro, Fiora pensou que o jardineiro do castelo era uma esp�cie de artista. Os seus canteiros ornamentais, ou os da horta, delimitados por buxo e aparados com grande rigor, apresentavam formas variadas.</p><p>Quanto �s plantas que os compunham, tinham sido escolhidas pelas suas cores. E se, no jardim ornamental, as rosas e as flores-de-lis reinavam como rainhas, na horta os legumes e as ervas arom�ticas estavam alinhados segundo as suas tonalidades, de maneira a oferecer um conjunto agrad�vel � vista. A irriga��o era perfeita porque o jardim recebia a �gua da fonte de Garre, ela pr�pria ligada ao castelo por tubos de chumbo ou de barro. Alguns jardineiros estavam a trabalhar e Fiora reconheceu o seu Florent em conversa com um deles. A chegada do Rei n�o interrompeu os trabalhos. � sua aproxima��o, todos tiraram os gorros para o saudar e continuaram, depois. Lu�s XI parava frequentemente junto de alguns daqueles homens, escolhidos pelas suas qualidades e de quem ele gostava, para lhes dirigir algumas palavras ou algum reparo, sempre am�vel e sempre pertinente. Ao ponto de Fiora perguntar a si pr�pria o que fazia ali: o seu companheiro parecia ter-se esquecido dela por completo. Enquanto ia de um jardineiro a outro, falava, sobretudo, com o seu c�o...</p><p>Por fim, transpuseram a barreira de um grande pomar cujas ameixeiras se abatiam, literalmente, sob os seus frutos de cores diversas. Lu�s XI colheu alguns, partilhou-os com Fiora e depois, cuspindo os caro�os, apontou para um banco de pedra colocado por baixo de uma cerejeira. A colheita h� muito que fora feita, mas, cheia de folhas, a �rvore proporcionava uma sombra fresca. Lu�s instalou-se no banco, fez sinal � sua visitante para que ocupasse o lugar a seu lado, tirou o seu grande chap�u que deixou cair sobre a erva e suspirou:</p><p>Ora, portanto, Madame de Selongey, falai-me um pouco do que se passa em Roma e do que l� fizestes!</p><p>N�o fiz grande coisa, Sire. Estive, sobretudo, ocupada a preservar a minha vida.</p><p>Sem d�vida, sem d�vida! Mas � do Papa que gostaria que me fal�sseis. Viste-lo de perto, o que n�o � o meu caso. Fazei-me dele o melhor retrato que puderdes!</p><p>Fiora fez o melhor que soube, sobretudo para se manter objectiva, o que n�o era f�cil porque, conhecendo os sentimentos </p><p>Um arranjo que foi, mais tarde, retomado e melhorado no castelo de Gaillon e, sobretudo, no castelo de Villandry, que se chamava, ent�o, Coulombi�res crist�os do seu companheiro, n�o queria indisp�-lo, mostrando-lhe a que ponto detestava o pont�fice. Era imposs�vel omitir as exig�ncias, a brutalidade e a insaci�vel avidez de Sisto IV, mas quando a jovem sentiu que se estava a deixar levar pelo sentimento, deteve-se, desviando mesmo o olhar para evitar que aquele olhar agudo o procurasse.</p><p>N�o vejo que mais possa dizer a Vossa Majestade concluiu ela, inclinando-se para colher uma haste de hortel� que se p�s a mascar.</p><p>Lu�s XI deixou que o sil�ncio ca�sse, por um momento, entre os dois. S� se ouviam as aves...</p><p>Mortimer foi mais falador do que v�s, minha querida disse o Rei com um suspiro. Por que n�o me falais desse casamento incr�vel a que vos for�aram?</p><p>Messire de Commynes disse-me que n�o � v�lido; mas nunca o foi, Sire.</p><p>Como assim?</p><p>Acabais de o dizer: eu fui for�ada, sob amea�a. Al�m disso, nunca foi consumado.</p><p>N�o acrediteis nisso! Muitos casamentos persistem nas mesmas condi��es. O que o anula... e Commynes foi encarregue, por mim, de informar o Papa, � que v�s n�o sois vi�va. Pelo menos, como acredit�veis que �reis.</p><p>Fiora sentiu-se empalidecer, ao mesmo tempo que as suas m�os ficavam frias. A jovem olhou para o seu vizinho com espanto, mas ele ofereceu-lhe apenas o seu perfil herm�tico.</p><p>Se me � permitido perguntar... que quer dizer o Rei?</p><p>Que, contra a vontade do vosso marido, as minhas ordens foram executadas. O sire de Craon, n�o se teria permitido, ali�s, transgredi-las. Era suposto fazer sentir, �quele borgonh�s teimoso, as ang�stias da morte, antes de suspender tudo no momento em que a sua cabe�a repousasse no cepo.</p><p>Oh, Sire! Que crueldade!</p><p>Ah, achais? Por Deus, minha querida, esqueceis-vos que, a vosso pedido, j� o agraciei uma vez? Aquele homem parece incapaz de estar quieto.</p><p>Podemos reprovar-lhe o facto de querer manter-se fiel ao seu juramento de cavaleiro?</p><p>A morte do Temer�rio tornou esse voto caduco e eu esperava que ele viesse a considerar com mais aten��o o voto de casamento que fez perante v�s.</p><p>A culpa n�o � s� dele, Sire. Talvez, se eu tivesse sido mais paciente... menos arrebatada...</p><p>Assim lan�ada, Fiora teve de dizer ao seu companheiro o que acontecera em Nancy. A jovem esperava uma severa descompostura, mas Lu�s contentou-se em desatar a rir e ela sentiu-se vexada:</p><p>Oh, Sire! Tem assim tanta piada?</p><p>Por minha f�, sim. A vossa concep��o de casamento era capaz de desarmar uma vi�va, de tal modo � original. No entanto, tendes de saber que um homem digno desse nome n�o se deixa, assim, levar pela trela. Dito isto, n�o precisais de vos arrepender! Mesmo que estiv�sseis ligada � santa obedi�ncia para com o vosso marido, n�o ter�eis mudado nada. Messire Philippe teria corrido da mesma maneira, e com a mesma rapidez, para cumprir o seu dever e como os esbirros do Papa vos teriam descoberto tanto em Selongey como aqui, n�o vejo quem teria podido ir em vosso socorro. Portanto, n�o precisais de vos lamentar! Ali�s... nunca se deve lamentar nada, porque � a melhor maneira de enfraquecer a alma e a vontade mais bem temperadas. Que pensais fazer agora?</p><p>Mas... tentar reunir-me ao meu marido, se o Rei me quiser dizer onde ele est�!</p><p>Lu�s XI levantou-se, dobrou duas ou tr�s vezes os joelhos, que estalaram, para os tornar mais flex�veis e p�s-se a caminhar de um lado para o outro com as m�os fechadas atr�s das costas.</p><p>F�-lo-ia com alegria... se soubesse onde ele est�!</p><p>Se... perd�o, Sire, mas messire de Commynes disse-me que, depois do cadafalso, Philippe foi levado, naturalmente, para a pris�o de Dijon e que, depois, foi transferido... para outro lado qualquer.</p><p>Para Lyon. Mais exactamente para o castelo de Pierre-Scize, uma boa fortaleza, bem defendida e provida das melhores masmorras. Simplesmente, ele n�o ficou l�.</p><p>Mas... porqu�?</p><p>Pela melhor das raz�es: evadiu-se.</p><p>Evadiu-se? E n�o o encontraram?</p><p>N�o!</p><p>Mas, enfim, Sire, v�s tendes a melhor pol�cia da Europa, o melhor servi�o de mensageiros, o ex�rcito mais poderoso...</p><p>Possuo tudo isso, � verdade, mas os governadores das pris�es tamb�m t�m filhas suficientemente est�pidas para ajudar a fugir um prisioneiro sedutor. O vosso marido, minha querida, fugiu com a ajuda de uma lima e de uma corda que lhe foram levadas dentro de um tabuleiro com queijo e fruta. Agora, j� sabeis tudo!</p><p>Fiora ficou muda por alguns instantes. Na sua alma defrontavam-se os sentimentos mais contradit�rios, Evidentemente, sentira uma grande alegria ao saber que Philippe estava livre, mas era demasiado mulher para que o epis�dio da filha do governador lhe causasse prazer, mesmo que a sua pr�pria consci�ncia, a despeito da confiss�o de Fiesole, n�o fosse totalmente transparente.</p><p>N�o o procuraram? perguntou ela, por fim.</p><p>� evidente que sim. Como o castelo est� constru�do sobre um rochedo que domina o R�dano, pensou-se, primeiro, que ele se tivesse afogado, mas o barco de um pescador tinha sido roubado. Em seguida, mandei vigiar os arredores de Selongey, pensando que talvez ele tivesse a ideia de regressar a casa. Sem resultado, assim como em Bruges, em casa da duquesa Maria! Eu, ali, tenho, naturalmente, umas certas... cumplicidades disse o Rei virtuosamente mas parece que ningu�m o viu.</p><p>Meu Deus!... e se lhe aconteceu alguma desgra�a? Sozinho, sem armas, sem dinheiro, pode ter sido atacado, talvez morto?</p><p>Ah! N�o recomeceis a chorar! Pensando nessa possibilidade, fiz proclamar em todos os bairros do reino a sua descri��o f�sica, prometendo uma boa recompensa a quem o entregar vivo e uma outra... bastante mais pequena, a quem o entregar morto! N�o apareceu nada. At� fiz melhor: o seu escudeiro, Mathieu de... Prame, creio eu?</p><p>Sim. A �ltima vez que o vi encontrava-se perto daqui dentro de uma jaula e conduziam-no ao castelo de Loches disse Fiora em tom de reprova��o.</p><p>� exacto. Bem, ele foi solto e depois seguido discretamente. Fugiu para Bruges... e nunca mais tive not�cias dele... nem, ali�s, dos dois homens que encarreguei de o vigiar, mas � verdade que em casa de Madame Maria e do marido, os Franceses n�o t�m fama de santos. Em todo o caso, uma coisa � certa: ningu�m apareceu para reclamar a recompensa, mas o vosso marido, minha querida filha, custa uma fortuna � minha tesouraria...</p><p>Sinto-me desolada, Sire, mas, se vo-lo tivessem entregado, qual seria o seu destino? Ele teria... ele teria sido...</p><p>Executado? Tomais-me por um papalvo? Eu n�o mudo de opini�o com facilidade! T�-lo-ia fechado mais uma vez numa jaula e aqui mesmo, na pris�o do meu castelo, enquanto esperava que vos encontrassem. E agora, vinde! Preciso de caminhar um pouco!</p><p>Fiora n�o se mexeu. De olhar fixo, a jovem contemplava a ponta dos seus sapatos que soerguiam as ramagens do seu vestido e apertava, com for�a, uma m�o contra a outra, segundo o seu h�bito quando estava presa de uma emo��o forte.</p><p>Ent�o? impacientou-se o Rei. Estais � espera de qu�? Ela ergueu para ele uns grandes olhos desolados:</p><p>E... se ele se tivesse refugiado aqui?</p><p>Quem? Selongey? Tamb�m pensei nisso. Mas, se fosse o caso, qualquer um da vossa casa o teria visto e j� o saber�eis! Vamos, coragem! Estou certo que ele est� vivo.</p><p>Nesse caso, est� longe... talvez demasiado longe! Eu sei que lhe passou pela cabe�a p�r a sua espada ao servi�o de Veneza para combater os Turcos. Nesse caso, nunca mais regressar� e eu nunca mais saberei nada dele.</p><p>Veneza, dizeis v�s? N�s podemos, pelo menos, saber se ele foi para l�! Vou escrever ao doge a seguir ao jantar. Veneza �, talvez o saibais, a cidade mais bem guardada do mundo e um estrangeiro n�o pode entrar nela sem chamar a aten��o dos esbirros do Conselho dos Dez. Talvez venhamos a saber qualquer coisa, mas abandonai esse ar desolado e regressemos. N�o tarda, est�o a tocar para a �gua.</p><p>Dessa vez, Fiora deixou-se levar.</p><p>Sem mais palavras do que � vinda, o Rei e a sua jovem companheira regressaram ao p�tio de honra, onde se amontoavam criados, cavalos e equipagens. Com surpresa e alguma inquieta��o, Fiora reparou numa grande liteira p�rpura cujas portinholas mostravam um grande bras�o encimado por um chap�u cardinal�cio que lhe pareceu vagamente familiar. A jovem ousou pousar a m�o no bra�o do soberano para o deter.</p><p>Sire! Que o Rei me perdoe, mas se ele recebe esta noite um pr�ncipe da Igreja, talvez seja melhor eu regressar a minha casa.</p><p>Sem jantar? Quando vos convidei? E por que raz�o, se fazeis favor?</p><p>Francamente, Sire, eu estou um pouco... farta de cardeais e receio n�o me sentir �-vontade. Al�m disso, o meu traje...</p><p>Que estais para a� a dizer? V�s estais soberba e ser� preciso que estejais �-vontade, porque vos convidei especialmente esta noite para que o cardeal della Rovere veja a estima em que vos tenho.</p><p>Sob o olhar brilhante de satisfa��o de Lu�s XI, Fiora sentiu-se verde:</p><p>O... cardeal... della Rovere? murmurou ela, espantada. Ele n�o �...</p><p>Da fam�lia do Papa? � claro que sim, e v�s deveis, pelo menos, ter ouvido falar dele em Roma. Ele � um dos sobrinhos, de longe o mais inteligente e, por isso mesmo, o mais perigoso. Mas talvez vos agrade! E agora, deixo-vos: tenho de me ir vestir! E estou a ver Mme. de Lini�res, que vos vem buscar para vos conduzir at� junto da princesa Joana, a minha filha. V�s j� a conheceis e ela est� muito contente por voltar a ver-vos.</p><p>Saudado quase at� ao ch�o por aqueles que se amontoavam no p�tio de honra, o Rei conduziu Fiora at� � dama imponente que esperava perto da base da escadaria, j� dobrada em duas numa rever�ncia profunda. Como, al�m disso, tivesse baixado a cabe�a por respeito para com a aproxima��o do Rei, este quase se feriu na flecha do grande chap�u pontiagudo que ela trazia. O Rei afastou o obst�culo, o que quase provocou a queda do edif�cio.</p><p>Demasiado alto, Mme. de Lini�res, demasiado alto! exclamou ele, meio a brincar, meio zangado. Que raiva deu �s mulheres para quererem parecer-se com campan�rios de igreja? O que me espanta � que o meu reino n�o tenha mais zarolhos.</p><p>Pe�o perd�o ao Rei replicou a dama com serenidade e at� com um sorriso, mostrando que n�o estava impressionada. Sempre pensei que a honra de acompanhar uma filha de Fran�a, que ainda por cima � duquesa de Orle�es, obrigasse a um certo decoro no vestu�rio. � uma forma de respeito.</p><p>Nesse caso, usai o respeito menos pontiagudo!</p><p>E, assobiando alegremente uma �ria de ca�a, Lu�s XI desapareceu na escadaria em caracol, deixando as duas mulheres frente-a-frente:</p><p>Vinde, Madame disse a dama-de-honor, estendendo a m�o a Fiora, que n�o se p�de impedir de rir. A senhora duquesa tem pressa de vos rever e podereis refrescar-vos antes do jantar.</p><p>Habituada a ver Lu�s XI viver na maior das simplicidades, Fiora ficou surpreendida com o aparato para aquele jantar e com o esplendor da sala onde ele se desenrolou. Aquela grande divis�o fazia parte dos aposentos reais do primeiro andar, abertos apenas para estrangeiros ilustres e em determinadas circunst�ncias. Dava para o terra�o sustentado pela galeria coberta do r�s-do-ch�o; o seu fausto, verdadeiramente real, diferia da sumptuosidade cintilante que rodeava os duques de Borgonha. O mobili�rio revestido a veludo e as grandes tape�arias davam ao conjunto uma nota severa, acentuada pelos vitrais de cores das janelas altas, que deixavam entrar uma esp�cie de penumbra. O ouro dos tectos em madeira e das guarni��es dava um ar abafado ao grande sal�o, salvo quando os grandes candelabros, carregados de velas, os iluminavam, como naquela noite.</p><p>Estavam postas tr�s mesas: a do Rei, que ocupava a sala de jantar propriamente dita, ou refeit�rio; a dos cavaleiros e grandes oficiais da casa real, � qual se sentavam os convidados de import�ncia e, por fim, a dos esmoleres e escudeiros. Uma quarta acolhia, fora da zona dos aposentos, os oficiais de baixa patente e os peregrinos, ou os viajantes perdidos que, por acaso, buscavam hospitalidade. Na mesa do Rei, a mais brilhante e mais bem servida, as mulheres eram raras, salvo quando a Rainha, Carlota de Sab�ia, visitava o seu marido.</p><p>Naquela noite, eram duas e foi com algum orgulho que Fiora tomou lugar � esquerda do soberano. A princesa Joana, encantadora apesar de um f�sico desgracioso sob uma coifa de um azul doce salpicado de ouro combinando com um vestido de cendal, estava sentada junto do convidado de honra, este sentado � direita do Rei.</p><p>Aos trinta e sete anos, Giuliano della Rovere era, sem d�vida, o mais bem sucedido dos sobrinhos de Sisto IV. Grande e bem constitu�do, parecia-se mais com um condottiere do que um homem da Igreja com as suas mand�bulas carn�voras e os seus olhos de ca�ador de �rbitas cavadas, que semicerrava frequentemente para apurar a vis�o. A cor p�rpura ia bem com a sua tez morena e com os cabelos negros cortados segundo o desenho do solid�u escarlate que os tapava. Perfeitamente barbeado, o rosto ossudo era duro, mas sabia sorrir com alguma ironia que n�o era sem encanto e o perfil imperial parecia feito para aparecer em medalhas.</p><p>N�ncio do Papa em Avinh�o, era titular de um grande n�mero de bispados dos quais o de Lausannne, o de Messine e o de Carpentras e a 3 de Julho daquele ano de 1478 recebera, tamb�m, o de Mende, para o qual viera em busca de aprova��o por parte de Lu�s XI. Aprova��o graciosamente concedida: n�o era a primeira vez que ambos se encontravam e o Rei tinha um fraco por aquele homem elegante de modos rudes que diziam violento, mas que possu�a uma intelig�ncia aguda e que sabia manejar a ast�cia quase t�o bem como ele mesmo. Ali cessava a semelhan�a porque, amigo das letras e das artes, o cardeal della Rovere levava uma exist�ncia faustosa gra�as � consider�vel fortuna que lhe constitu�ra o seu tio. Uma exist�ncia muito diferente da de fidalgo rural habitual do Rei de Fran�a.</p><p>Quando, apresentada por este, Fiora dobrou o joelho para beijar o anel pastoral na ocorr�ncia uma fabulosa safira em forma de estrela o n�ncio deixou cair sobre ela um olhar interessado:</p><p>Tornar-se-ia, em 1503, no tem�vel Papa J�lio II.</p><empty-line/><p>Estivestes recentemente em Roma, creio, Madame?</p><p>Com efeito, monsenhor.</p><p>� uma pena n�o terdes podido apreciar as suas belezas...</p><p>Essa possibilidade n�o me foi oferecida, j� que me limitei a passar de uma pris�o para outra.</p><p>H� pris�es e pris�es. De resto, quando escolhestes Floren�a, o Santo Padre lamentou-o vivamente, porque estava e continua a estar cheio de benevol�ncia para convosco. A sua amizade ter-vos-ia assegurado alguns dias agrad�veis.</p><p>Dignai-vos agradecer-lhe os bons sentimentos, mas o seu esp�rito � demasiado brilhante para n�o compreender os meus. E esses s�o os de Floren�a, monsenhor, e eu s� posso deplorar os dramas de que a minha p�tria tem sido o teatro.</p><p>Dramas que, infelizmente, se agravam. Por que n�o falarmos deles um destes dias?</p><p>Falar de pol�tica convosco? Mas, monsenhor, eu n�o entendo nada de pol�tica.</p><p>N�o vos rebaixeis, Madame. O Santo Padre tem a vossa intelig�ncia em grande considera��o e a vossa amizade com o Rei de Fran�a s� refor�a essa opini�o. N�s pod�amos, os dois, fazer um bom trabalho...</p><p>Tendo dito aquilo, della Rovere afastou-se ap�s ter saudado a jovem com uma inclina��o de cabe�a. As trombetas de prata soaram para o jantar e cada um tomou o seu lugar. O Rei, que depois de ter apresentado Fiora, se afastara para conversar com o arcebispo de Tours, regressou para conduzir ele pr�prio o cardeal-n�ncio � sua poltrona.</p><p>O jantar, se bem que longo, foi excelente e teria sido enfadonho n�o fora a disputa divertida que op�s, como era h�bito, o m�dico do Rei, Coictier, ao chefe cozinheiro Jean Pastourel. De p� por tr�s da cadeira real, trocavam olhares furiosos e prop�sitos agridoces a meia-voz acerca do conte�do do prato do senhor de ambos. Quando o m�dico afirmou que as morcelas de cap�o s� serviam para envenenar o Rei, o cozinheiro ripostou que as drogas do seu advers�rio � que eram nefastas para a sua sa�de, j� que a arte da cozinha consistia em preparar os melhores produtos de maneira a que n�o causassem qualquer incomodidade. De tempos a tempos, o tom da disputa subia e Lu�s XI tinha de intervir. O Rei acabou por enviar Coictier para a sua mesa, acrescentando que uma refei��o tomada na companhia de um pr�ncipe da Igreja n�o podia fazer mal a ningu�m. Nem sequer a ele.</p><p>Coictier afastou-se a resmungar ali�s, era um homem muito pouco simp�tico e, a partir desse instante, Fiora aborreceu-se. O Rei dedicou-se ao seu h�spede e o outro vizinho da jovem, um homem grande, vermelho, que era o capel�o do prelado romano, ap�s ter tentado acariciar-lhe o joelho por baixo da mesa, resignou-se quando ela o beliscou energicamente e passou a interessar-se pelas iguarias que lhe serviam. Ao cabo de um quarto-de-hora estava escarlate e, no fim da refei��o, completamente �brio.</p><p>Ap�s ter acompanhado at� �s suas carruagens o cardeal e o arcebispo, que regressavam a Tours, Lu�s XI voltou para junto de Fiora que, entre a princesa Joana e Mme. de Lini�res, assistira � partida dos ilustres visitantes:</p><p>Ent�o, Mesdammes, que pensais do sobrinho de Sua Santidade?</p><p>Os cardeais nem sempre s�o padres, Sire meu pai. Este �-o?</p><p>Sim. Porque essa pergunta? Tendes d�vidas?</p><p>Algumas, confesso. Ele fala muito de pol�tica, de ca�a, de objectos raros e das letras gregas... mas nem uma palavra acerca de Deus!</p><p>Desej�veis que ele me convertesse? perguntou o Rei com um sorriso que lhe fez erguer todos os tra�os do rosto. N�o era o momento.</p><p>N�o... mas eu fico inquieta quando um homem da Igreja fala de guerra, de submiss�o, de cargos e outras viol�ncias, sem nunca conceder um pensamento �queles que sofrem com essas trag�dias: o povo das cidades e dos campos com que v�s, que, no entanto, n�o sois padre, vos preocupais sempre tanto!</p><p>Lu�s XI ficou s�rio de novo e, pegando na m�o fr�gil da sua filha, contemplou, por um instante, o seu belo, doce e luminoso olhar com uma express�o estranha, onde entrava uma admira��o que n�o estava isenta de remorsos:</p><p>Tendes uma alma luminosa, Joana, que devia ser capaz de ignorar as fealdades da vida. Pela minha parte, recebi, no dia da consagra��o, o Santo Crisma, que fez de mim o ungido do Senhor e curei-me das escr�fulas de que sofria. Parece-me que isso vale bem a tonsura. Al�m disso, jurei proteger os meus povos, sobretudo os mais humildes, e servir a Fran�a... � qual vos sacrifiquei! Assim como lhe sacrifico, por vezes, alguns escr�pulos.</p><p>As filhas dos reis nasceram, verdadeiramente, para serem felizes? V�s colocastes-me no lugar que me pertence.</p><p>Sem d�vida, sem d�vida! Quando � que o vosso marido vos visitou pela �ltima vez?</p><p>A pergunta � cruel, Sire cortou Mme. de Lini�res. Monsenhor, o duque de Orle�es, nunca aparece e...</p><p>Chega! Eu falo com ele.</p><p>Em seguida, mudando bruscamente de tom e j� sem qualquer vest�gio de emo��o:</p><p>Quanto ao cardeal della Rovere, � sua fam�lia e at� ao Papa, se quiserdes conhec�-los melhor, falai com Mme. de Selongey! Ela sabe mais acerca desse assunto do que eu. Mas arriscais-vos a perder a f�!</p><p>N�o, Sire meu pai! Nada nem ningu�m me far� perder a f�!</p><p>E eu sentir-me-ia culpada, Sire cortou docemente Fiora se pronunciasse uma palavra, por mais pequena que fosse, capaz de perturbar uma alma t�o pura.</p><p>Com um gesto r�pido e inesperado, Lu�s XI beliscou a face da jovem.</p><p>Tenho a certeza! Uma boa noite para v�s, Mesdames! Regresso aos meus neg�cios. Esta noite preciso de escrever ao doge de Veneza!</p><p>Enquanto as tr�s mulheres dobravam o joelho para o saudar, ele afastou-se alguns passos e depois deteve-se:</p><p>O sargento Mortimer vai acompanhar-vos a la Rabaudi�re, donna Fiora!</p><p>Mas, Sire, eu n�o vim s�.</p><p>Doen�a devida a perturba��es de nutri��o.</p><p>Eu sei, mas, em caso de maus encontros, o vosso criadito n�o seria de grande ajuda. Ali�s, Mortimer adora escoltar-vos. Juntamente com a minha filha Joana, sois a �nica mulher por quem ele tem alguma considera��o.</p><p>O Rei retomou o seu caminho na direc��o da escadaria, na base da qual se encontrava a silhueta de um homem recortada a negro � luz amarela do interior. Fiora pensou reconhecer a personagem que encontrara em Senlisl no pr�prio quarto do Rei. Quando ela se virou para fazer uma pergunta �s suas companheiras, estas j� se afastavam, dirigindo-se para a capela. Pelo contr�rio, no seu lugar encontrava-se Mortimer, surgido como que por encanto: �s vossas ordens, donna Fiora!</p><p>Sinto-me desolada por vos incomodar, caro Douglas, mas, antes de partirmos, contentai a minha curiosidade: aquele homem, al�m, junto da escadaria? Parece-me que j� o vi!</p><p>Sob a t�nica de seda azul com flores-de-lis, o escoc�s encolheu os grandes ombros:</p><p>Oh, evidentemente que vistes! � o barbeiro do Rei, esse homem de pesadelo chamado Olivier le Daim!</p><p>Dir-se-ia que n�o gostais muito dele? perguntou Fiora, rindo. Mortimer nem sequer sorriu:</p><p>Ningu�m gosta dele! � um velhaco em quem, infelizmente, o Rei deposita demasiada confian�a! No entanto, arrependeu-se quando o enviou, esta Primavera, a Gand, como embaixador.</p><p>Como embaixador? N�o acredito!</p><p>Infelizmente � verdade! O nosso sire, t�o s�bio e t�o prudente, tem, por vezes, ideias estranhas. As gentes da cidade puseram-no, n�o sei como, �s portas da cidade. Acreditai, donna Fiora, desconfiai dele! A sua cupidez � insaci�vel apesar do que, at� agora, conseguiu surripiar ao Rei.</p><p>Por que raz�o havia de desconfiar dele? N�s n�o temos nada em comum e os nossos caminhos s�o divergentes.</p><p>Pobre inocente! Ficais a saber que Daim considera como ofensa pessoal qualquer presente que o nosso Sire d� a outra pessoa qualquer que n�o a ele.</p><p>1 Ver Fiora e Carlos, o Temer�rio.</p><empty-line/><p>O Rei � muito bom, mas n�o me cobre de presentes.</p><p>N�o? E la Rabaudi�re? Eu sei que, durante a vossa aus�ncia, mestre Olivier se esfor�ou por persuadir o Rei de que v�s nunca mais regressar�eis e que, como consequ�ncia, seria mais sensato instalar o vosso filho e o vosso pessoal aqui mesmo.</p><p>No castelo? E porqu�?</p><p>Para esvaziar a casa, por Deus! H� muito tempo que o nosso homem pisca o olho � Casa das Pervincas e quando soube que v�s a quer�eis devolver ao Rei, ganhou novas esperan�as. Infelizmente para ele, encontraram-vos e regressastes. Deve estar muito desapontado</p><p>Bem disse Fiora desdenhosamente ele tem um meio muito simples de colmatar a sua decep��o.</p><p>Qual �?</p><p>Ajudar-me a encontrar o meu marido. Nesse dia abandonarei sem pena aquela casa de que tanto gosto para o seguir para as suas terras... ou para onde ele julgar melhor levar-nos.</p><p>Mortimer desatou a rir e, soerguendo o seu gorro com penacho, co�ou a cabe�a com uma careta c�mica:</p><p>Pois! N�o sei se ele n�o preferir� um m�todo mais simples e mais... expedito! De qualquer maneira, preveni, h� algum tempo, o vosso pessoal... e hei-de dar uma palavra ao Rei.</p><p>Se ele tem tanta confian�a nesse homem, isso seria um erro! N�o lhe digais nada, Mortimer! Eu vou ter cuidado. Entretanto, obrigada por me terdes prevenido!</p><p>Fiora e Mortimer recuperaram Florent que ap�s ter comido em casa do seu amigo jardineiro dormia em cima da mesa e puseram-se a caminho, a p�, da Casa das Pervincas, conversando sobre outras coisas. A noite estava clara, suave, cheia de estrelas e de todos os odores do Ver�o. Teria sido uma pena perturbar aquela beleza evocando as torpezas humanas. Os dois amigos conheciam, tanto um, como o outro, o pre�o de tais instantes e tinham aprendido a apreci�-los...</p></section><section><title><p>CAP�TULO V</p><p>A FLORESTA DE LOCHES</p></title><p>Veneza, Veneza! resmungou L�onarde, sacudindo fortemente o len�ol que estava a dobrar com Fiora. Porqu� Veneza? E porque n�o Constantinopla, ou o reino do Prestes Jo�o... ou sabe Deus o qu�?</p><p>J� vos disse, L�onarde: porque sei que ele pensava nisso. Quando eu pedi a anula��o do nosso casamento, ele quis que o duque Carlos me entregasse todos os seus bens como pagamento do dote que exigiu ao meu pai. E acrescentou que, se se restabelecesse a paz entre a Fran�a e a Borgonha, poderia sempre colocar-se ao servi�o do doge para reconstituir a sua fortuna.</p><p>Mas isso foi h� s�culos! E v�s continuais a ser mulher dele!</p><p>No fundo, ele n�o sabe. Admitindo que depois da sua evas�o Philippe tenha vindo em busca de not�cias minhas para estas bandas, pode ter sabido do meu desaparecimento, talvez, at�, tenha sabido que me levaram para Roma! Da� a imaginar que eu tinha ido, como o amea�ara, pedir ao Papa a famosa anula��o...</p><p>L�onarde pegou no len�ol, acabou de o dobrar e pousou-o sobre uma pilha que esperava uma �ltima passagem a ferro antes de ir para dentro de um arm�rio onde havia saquinhos de hortel� e de pinheiro. A governanta tirou outro do cesto e atirou com uma das extremidades a Fiora:</p><p>N�o deixeis voar a vossa imagina��o, meu cordeirinho. Se messire Philippe tivesse vindo aqui, sab�-lo-�amos: ele tem umas fei��es demasiado orgulhosas para passar despercebido e ao saber do nascimento do seu filho n�o deixaria de aparecer c� em casa.</p><p>Um prisioneiro evadido, L�onarde? Talvez esgotado? Sem dinheiro, sem socorro poss�vel,, e t�o orgulhoso? N�o estou a v�-lo aparecer aqui em busca de socorro!</p><p>N�o estou a v�-lo a rondar Plessis! disse L�onarde, imitando Fiora. A �nica coisa sensata, para ele, seria tentar regressar � Flandres e � corte da princesa Maria. Em todo o caso, lamento n�o ter assistido � vossa conversa com o Rei. Parece-me que lhe teria feito perguntas mais pertinentes do que as vossas. Puxai, que diabo! Este len�ol vai parecer um farrapo!</p><p>N�o ter�eis grande dificuldade! Eu estava t�o perturbada que nem sei o que tinha na cabe�a! Mas... que perguntas lhe ter�eis feito?</p><p>Bem, parece-me que tentaria saber o que aconteceu ao castelo de Selongey! O sire de Craon apoderou-se dele depois do julgamento, ou o Rei teve o cuidado de o conservar por v�s?</p><p>De facto, n�o sei de nada. Ele s� me disse que mandara vigiar os arredores da aldeia para saber se Philippe teria procurado ali ref�gio.</p><p>Bom. J� � uma meia-resposta: se o governador de Dijon se tivesse apoderado do castelo, n�o seria necess�rio espiar os arredores para tentar encontrar o propriet�rio legal.</p><p>� verdade! De qualquer maneira, agora � demasiado tarde para fazer a pergunta ao Rei...</p><p>Na verdade, Fiora tivera sorte em encontrar Lu�s XI logo ap�s o seu regresso de Floren�a. O Rei regressara a Plessis apenas por alguns dias e no dia seguinte �quele famoso jantar abandonara o castelo para se dirigir a Artois, cuja pacifica��o ainda n�o tinha terminado. Al�m disso, o Rei queria ocupar-se pessoalmente das condi��es da tr�gua entre ele e o marido de Maria de Borgonha ap�s a vit�ria do seu capit�o Philippe de Cr�vecoeur, em Pyrrhus, sobre o mesmo Maximiliano. Sem d�vida, n�o estaria ausente durante muito tempo, mas, entretanto, Plessis-l�s-Tours voltaria a adormecer sob a protec��o de uma �nica companhia da Guarda Escocesa.</p><p>Tendo acabado de dobrar os len��is, L�onarde levou-os para uma grande arca que estava colocada numa pequena divis�o perto da cozinha. Em seguida, a governanta juntou-se a Fiora, que fora sentar-se perto da lareira e mordiscava uma p�ra: �tienne pusera um tabuleiro cheio delas em cima da mesa uma hora antes.</p><p>L�onarde pegou numa, tamb�m ela, esfregou-a no avental para a p�r a brilhar e mordeu-a sem conseguir evitar uma careta: os seus dentes j� n�o eram suficientemente s�lidos para aquele exerc�cio e a governanta foi buscar uma faca para descascar o fruto. Fiora, sentada na pedra da lareira e com os cotovelos nos joelhos, olhava para as chamas...</p><p>A grande cozinha estava tranquila, quase silenciosa. P�ronnelle fora ao mercado de Notre-Dame-la-Riche na companhia de Khatoun e de Florent. Mas, no primeiro andar, Marcelline enfrentava a c�lera do pequeno Philippe, insatisfeito com a �ltima mamada. L�onarde pensou que seria preciso dar-lhe, em breve, alguma coisa mais s�lida se n�o queriam ouvi-lo chorar noite e dia. Essa ideia desesperava a ama. Quando j� n�o tivesse leite teria de regressar � sua quinta e essa perspectiva n�o a encantava, j� que a vida era muito mais agrad�vel na Casa das Pervincas.</p><p>Esses pensamentos giravam na cabe�a da velha solteirona, distraindo-a um pouco dos graves problemas que enchiam o esp�rito de Fiora, mas esta regressou ao assunto:</p><p>Dentro de quanto tempo teremos not�cias do doge? perguntou ela, atirando o caro�o da p�ra para o fogo.</p><p>Como posso saber? Veneza � longe.</p><p>No entanto, tenho de saber! N�o posso ficar aqui sem fazer nada e sem saber do meu marido!</p><p>Mas, que quereis v�s fazer? Quereis atirar-vos para a estrada como tantas vezes antes para tentardes ir ter com ele? Fiora, isso seria uma loucura. O Ver�o est� a acabar, vamos a caminho do Inverno. Dai a v�s pr�pria algum tempo de repouso e reflex�o.</p><p>Se fico aqui, nunca mais o encontro, porque ele nunca vir� para as terras do Rei que tanto detesta...</p><p>Mas de quem v�s gostais e que, ali�s, a menos que eu me engane, vos retribui. Para ter procurado com tanta paci�ncia um rebelde, para continuar a procur�-lo quando nem sequer se devia preocupar, � preciso que vos tenha uma grande amizade.</p><p>Nem sequer se devia preocupar? exclamou Fiora, vexada.</p><p>Regressai � terra! Que � Philippe de Selongey em compara��o com o Rei de Fran�a? A diferen�a � enorme, parece-me?</p><p>Dir-se-ia que tendes pouca estima pelo meu marido?</p><p>Tento, simplesmente, fazer-vos ver a realidade. O Rei reconquistou, com a Borgonha, uma prov�ncia francesa que a duquesa actual tenta oferecer ao Imp�rio Alem�o. O vosso marido, aparentemente, escolheu o partido dela. Para Lu�s XI � um rebelde, tanto mais que ainda h� pouco tempo tentou assassin�-lo. E Lu�s XI, n�o s� o agracia pela segunda vez, apesar de o manter preso, � verdade, como, quando ele se evade, o tenta encontrar.</p><p>Qualquer carcereiro teria feito o mesmo disse Fiora com um meio sorriso.</p><p>Mas qualquer carcereiro, apanhada a presa, apressar-se-ia a mand�-la para um mundo melhor, para estar certo de que n�o o aborreceria mais! Ora, se bem vos compreendi, o nosso Sire queria fech�-lo... enquanto esperava pelo vosso regresso?</p><p>� o que ele diz!</p><p>E por que raz�o n�o haveis de acreditar nele? Entregai-vos a Deus, ao menos uma vez, e pensai um pouco no vosso filho! Ele n�o tem pai, por isso tem o direito de ter uma m�e como as outras!</p><p>Fiora sabia que L�onarde falava com a voz da sabedoria, mas n�o suportava a ideia de n�o saber onde se encontrava Philippe. Perante o seu mutismo eloquente, L�onarde recome�ou:</p><p>Ainda n�o estais convencida, pois n�o? Nesse caso, vou mais longe: v�s ignorais onde se encontra messire de Selongey, mas ele sabe muito bem onde v�s estais, porque, em Nancy, tivestes o cuidado de o informar. J� uma vez, para se juntar a v�s, ele venceu o orgulho. Por que raz�o n�o o venceria uma vez mais? Ou ent�o, j� n�o vos ama!</p><p>Aquela palavra atingiu Fiora no mais profundo do seu ser e a jovem ergueu, para a sua velha amiga, um olhar desolado:</p><p>J� n�o me ama? Talvez seja verdade... mas, L�onarde, n�o acredito!</p><p>No entanto, tendes todas as raz�es para acreditar disse L�onarde, impiedosa. Pens�veis nele quando est�veis nos bra�os de Louren�o de M�dicis?</p><p>Seguiu-se um sil�ncio e Fiora desviou a cabe�a, talvez para esconder as l�grimas que sentia subirem-lhe aos olhos-.</p><p>Sois cruel, L�onarde suspirou ela. N�o esperava uma coisa dessas da vossa parte...</p><p>Um instante mais tarde, L�onarde estava sentada junto dela na pedra da lareira, rodeando-a com os bra�os para a obrigar a pousar a cabe�a no seu ombro:</p><p>Eu sei que vos fa�o mal, meu cordeiro, mas � para vos evitar mais sofrimentos. O vosso casamento, at� agora, deu-vos bem pouca felicidade e muita amargura. Esteja ele onde estiver, deixai que o vosso marido tome a iniciativa! V�s exigistes que, como prova de amor, ele viesse ter convosco! Muito bem, esperai por ele!</p><p>E se ele estiver no fim do mundo?</p><p>Isso n�o muda nada: esperai que ele regresse do fim do mundo! Ouvi! Estou a ouvir mulas, � a nossa gente que regressa do mercado. Ide tirar essa cinza que arranjastes nessa pedra e arranjar-vos um pouco! Sois suficientemente jovem para poderdes conceder a v�s pr�pria algumas semanas de tranquilidade. Esperai que o Rei vos d� not�cias... se ele as tiver.</p><p>Seja! Eu espero, querida L�onarde, mas n�o muito!</p><p>Que ides fazer, ent�o?</p><p>Creio que, primeiro... vou a Selongey. Talvez Philippe ande por l� escondido sem que a gente do Rei saiba. Depois, se ele n�o estiver l�...vou ver a duquesa Maria. N�o creio que os espi�es do Rei tenham tido a possibilidade de lhe fazer quaisquer perguntas. Mas eu sou a mulher de Philippe e ela responder-me-�.</p><p>Por outras palavras, o Rei n�o vos convenceu?</p><p>Da profundidade das suas buscas? � evidente que n�o! Al�m disso, tendes de admitir que eu, como mulher dele, tenho mais hip�teses de o fazer sair do seu esconderijo...</p><p>L�onarde contentou-se em resmungar algo que, em rigor, podia passar por aprova��o. A solteirona voltara a tirar da algibeira do avental a p�ra e esfor�ava-se por ferrar nela os dentes.</p><p>Como a opera��o se revelasse t�o dolorosa como da primeira vez, atirou, com um gesto de rancor, o fruto para as chamas da chamin�, de onde subiu um fino odor a p�ra cozida e a caramelo. Enquanto isso, a cozinha enchia-se de barulho e alegria. P�ronnelle, Khatoun e Florent regressavam do mercado.</p><p>Nesse mesmo dia, de tarde, quando Fiora se dispunha a fazer uma visita ao priorado de Saint-C�me com o filho, L�onarde e Khatoun, a alameda de velhos carvalhos encheu-se com um bando de cavaleiros escoltando uma liteira que ela reconheceu de imediato, mas sem qualquer prazer. Que ia fazer a sua casa o cardeal della Rovere?</p><p>Mas, j� que estava ali, era conveniente acolh�-lo cordialmente. Assim, devolvendo o beb� aos bra�os carinhosos de Khatoun, Fiora avan�ou para o pesado ve�culo que descrevia no cascalho uma curva plena de majestade antes de se deter diante da entrada da casa. A jovem ajoelhou-se quando o prelado p�s p� em terra e beijou-lhe a safira que ele lhe estendia.</p><p>A minha modesta casa sente-se muito honrada, monsenhor, por receber Vossa Emin�ncia!</p><p>A casa � encantadora e eu venho apenas como vizinho. Portanto, deixemos o protocolo de lado e dizei apenas monsenhor disse ele com toda a simplicidade.</p><p>Subitamente, ele viu as mulas ajaezadas, junto das quais estava Florent:</p><p>Estou a incomodar-vos, talvez? Ides sair?</p><p>Est�vamos, somente, a pensar ir ao priorado cujo campan�rio vedes al�m, monsenhor. Mas como a Igreja vem ter connosco... Dai-vos ao cuidado de entrar.</p><p>Enquanto Fiora precedia o h�spede inesperado na grande sala, P�ronnelle preparava, uma merenda para o cardeal, ao mesmo tempo que o seu marido instalava a escolta � sombra do pequeno bosque e anunciava que lhe ia dar de beber. Coisa que foi acolhida com satisfa��o.</p><p>Segundo o convite da sua anfitri�, della Rovere instalou-se a um canto da chamin�, na qual, tanto no Inverno, como no Ver�o, salvo em tempos de can�cula, P�ronnelle tinha sempre um fogo com alguns ramos de pinheiro para lutar contra a humidade habitual das casas constru�das perto do Loire. Mas as janelas completamente abertas deixavam ver o jardim florido, do qual um prolongamento, sob a forma de um grande ramo de flores-de-lis e de rosas misturadas com folhagem, coroava uma cred�ncia e perfumava a sala.</p><p>Os olhos vivos do cardeal j� tinham dado a volta � grande divis�o, indo da tape�aria de mil flores aos objectos dispostos em cima dos aparadores, quando acolheu com prazer os sinais de boas-vindas que Fiora lhe oferecia: o vinho fresco de Vouvray e o bolo de am�ndoa que P�ronnelle sabia fazer como ningu�m. S� quando ficaram s�s, ele e a sua anfitri�, � que o cardeal se decidiu a falar. Ali�s, ele j� exprimira esse desejo e L�onarde, com grande pena, foi obrigada a retirar-se, tal como os outros.</p><p>Ap�s a sua partida, seguiu-se um sil�ncio. O cardeal mirava, atrav�s do vinho p�lido da sua ta�a, os reflexos do fogo moribundo e Fiora saboreava o l�quido agrad�vel sem dizer nada, esperando que o seu visitante falasse. Este n�o parecia apressado, mas, subitamente, interrogou-a:</p><p>Pensastes no que vos disse na outra noite, donna Fiora?</p><p>V�s quisestes pronunciar, a meu respeito, algumas palavras lisonjeiras, monsenhor, e eu n�o seria capaz de as esquecer.</p><p>Sem d�vida, sem d�vida, mas n�o foram mais do que um pre�mbulo e tamb�m vos disse que, em minha opini�o, n�s os dois poder�amos fazer um bom trabalho.</p><p>Lembro-me, com efeito, mas confesso que n�o compreendi bem o que entendia Vossa Emin�ncia com essas palavras.</p><p>Entendia... e entendo ainda, que pod�amos juntar os nossos esfor�os para que possamos ser �teis, v�s � vossa cidade natal e eu aos interesses da Igreja.</p><p>Um papel interessante, n�o duvido, mas como o desempenharia eu?</p><p>O Rei Lu�s escuta-vos e tendes a sua amizade. A paz entre os povos � um objectivo digno de ser perseguido e pod�eis incitar aquele homem dif�cil a ter mais respeito, mais compreens�o para com Sua Santidade, que ele trata muito mal.</p><p>Muito menos mal, parece-me, do que o modo como o Papa trata Floren�a. As suas ideias pol�ticas parecem muito claras, mesmo para uma ignorante como eu: ele pretende acabar, pela guerra, a obra que os seus espadachins iniciaram. N�o imaginais que eu o ajudaria a destruir a cidade da minha inf�ncia?</p><p>Destruir? Nunca! O Santo Padre n�o quer qualquer mal a Floren�a e ainda menos � sua popula��o. Aquela... desgra�ada conspira��o urdida pelos Pazzi exilados...</p><p>Talvez eles n�o a tivessem podido urdir, monsenhor, sem a ajuda benevolente do vosso primo, o conde Riario. De qualquer maneira, entre o Papa e os M�d�cis est� o sangue derramado de Giuliano durante a missa do Domingo de P�scoa!</p><p>Os Pazzi foram exterminados at� ao �ltimo. Mais de duzentas pessoas, segundo parece? Uma tal quantidade de gente n�o � suficiente para lavar o sangue desse jovem? Seria o caso, talvez, se o Papa n�o tivesse apelado � guerra santa, n�o tivesse excomungado Floren�a e n�o a tivesse atingido, at�, com a interdi��o. Monsenhor Louren�o limita-se a defender-se.</p><p>Ele defende-se, de facto... com desprezo pelo bem-estar de um povo que pretende amar. No fim de contas, ele n�o � pr�ncipe por direito divino.</p><p>Se ele n�o se sacrifica, � porque esse mesmo povo n�o deixa. Os Florentinos amam Louren�o de M�d�cis e est�o prontos a morrer por ele.</p><p>Todos? N�o juraria. Mas, em vez dele, a cidade da flor-de-lis vermelha podia ter uma princesa agrad�vel, letrada, brilhante... e de quem v�s gostais, creio?</p><p>Uma princesa? Quem?</p><p>A condessa Catarina. Ela n�o � vossa amiga?</p><p>Sinto por ela, de facto, muita amizade e respeito.</p><p>Ent�o, talvez a pud�sseis ajudar?</p><p>Fiora olhou para o seu visitante com um estupor sincero, fortemente mesclado de desconfian�a. No entanto, n�o conseguiu ler naquele rosto arrogante e naqueles olhos escuros profundamente cavados nas �rbitas sen�o uma grande tristeza.</p><p>Ela reina sobre Roma e sobre o Papa. De que ajuda necessitaria ela?</p><p>Talvez da vossa, justamente. Tentai compreender-me, donna Fiora! Eu tenho muita estima e considera��o por Catarina e n�o gosto de a saber infeliz.</p><p>Ela � infeliz?</p><p>Mais do que possais imaginar e por vossa causa.</p><p>Por minha causa?</p><p>Com muita simplicidade, o cardeal foi encher de novo a sua ta�a de vinho e depois, puxando a sua cadeira para junto da da sua anfitri�, sentou-se:</p><p>Roma transborda de espi�es, Madonna, e sabe-se tudo. Riario n�o ignora que a sua mulher vos ajudou a fugir para Floren�a. Da� a imaginar que est�veis encarregue de prevenir os M�dicis do que se tramava contra eles...</p><p>Sem querer ofender a vossa fam�lia, monsenhor, o vosso primo � demasiado denso para conseguir imaginar uma coisa dessas!</p><p>� um r�stico, admito perfeitamente, mas � manhoso, retorcido, at� e, sobretudo, n�o ignora que a mulher n�o o ama. Ela vive horas pouco agrad�veis, mas poderiam ser bem piores sem a protec��o do Santo Padre. Este, felizmente, continua a ter muita afei��o por ela.</p><p>Essa not�cia aflige-me, mas como poderia eu ajud�-la?</p><p>Por que n�o lhe escreveis uma carta, na qual lhe exprimis a vossa amizade? Poder�eis acrescentar que estais disposta a defender, junto do Rei de Fran�a, a causa do Vaticano...</p><p>Fiora levantou-se bruscamente e enfrentou o seu visitante. Um princ�pio de c�lera avermelhou-lhe o rosto:</p><p>Falemos claro, monsenhor! V�s quereis que eu tente libertar a Fran�a da alian�a com Floren�a e que eu traia os meus queridos amigos, a recorda��o do meu pai, o meu...</p><p>O vosso amante? N�o, n�o vos zangueis! N�s tamb�m temos espi�es em Floren�a. E n�o vos pediria uma coisa t�o terr�vel. O que vos pe�o � que penseis no seguinte: todos os homens s�o mortais e o M�dicis n�o escapa � lei comum. Que ele desapare�a e que Floren�a, n�o tendo mais ningu�m para defender, abra as portas ao Papa. Donna Catarina, como soberana, levaria a peito, estou persuadido, a conserva��o dos vossos bens.</p><p>Deixemo-nos de conversas, monsenhor! Eu gosto de donna Catarina e faria tudo para que ela fosse feliz, mas n�o ajudarei o seu marido a subjugar a cidade que me � querida!</p><p>E se Riario n�o vivesse o suficiente para reinar sobre a Tosc�nia? Vamos, donna Fiora, eu n�o vos pe�o muito: uma carta am�vel, de certo modo uma carta pacificadora... e depois, talvez, uma tentativa para dispor melhor o Rei Lu�s connosco sem renunciar, pelo menos abertamente, � sua alian�a com Louren�o. A sua atitude actual provoca grandes preju�zos � Santa S�...</p><p>Pecuni�rios? N�o duvido! disse Fiora, azeda. Para mim, n�o h� nada melhor do que trabalhar pela paz, mas n�o foi Floren�a, repito, que declarou a guerra. Por outro lado, para que eu acredite na boa vontade do Papa, seria preciso que ele come�asse por um gesto... de pai. Levantar a interdi��o, por exemplo?</p><p>Posso sugerir-lho. Escrevereis essa carta?</p><p>Seria uma carta enganadora. O Rei est� longe e eu n�o sei quando regressa.</p><p>Mas regressa, um dia destes, e eu n�o tenho pressa. Contentar-me-ei com a carta e com a vossa promessa. Talvez, por outro lado, eu vos possa ajudar num assunto que vos preocupa muito... Mas o tempo passa e eu tenho de vos deixar... Tenho assuntos a tratar com o arcebispo.</p><p>O cardeal levantou-se com uma pressa s�bita que Fiora achou suspeita e dirigiu-se para a porta.</p><p>Evidentemente, voltaremos a encontrar-nos acrescentou ele amavelmente passei junto de v�s momentos encantadores. Mas, agora, preciso de reflectir. Regressarei dentro em breve.</p><p>Concedei-me ainda um minuto, monsenhor. Que assunto � esse que me interessa muito?</p><p>N�o passa de um rumor que me chegou aos ouvidos. Infelizmente, n�o tenho tempo para vo-lo referir. Fica para a pr�xima visita: digamos... dentro de dois ou tr�s dias?</p><p>Tencionais ficar ainda muito tempo em Tours?</p><p>Infelizmente, n�o... se bem que a cidade me agrade e que as pessoas insistam para que eu fique. Mas tenho de partir para Avinh�o, onde se encontra a sede da minha nunciatura...</p><p>Compreendendo que o cardeal n�o tencionava dizer mais nada, Fiora conduziu-o at� � sua liteira, de onde ele a aben�oou e perante a qual a jovem teve de se inclinar.</p><p>Perplexa, a jovem viu desaparecer, sob a verdura densa do caminho sombrio que ia dar � sa�da do seu dom�nio, a imponente equipagem. Desaparecido o cortejo, Fiora desceu ao jardim, por onde caminhou ao longo das alamedas bem limpas antes de se sentar por baixo de uma latada. L�onarde sentia-o, devia estar a espreit�-la da casa transbordando de perguntas e, justamente, Fiora desejava ficar s� por uns instantes para tentar esclarecer aquela visita curiosa. A iniciativa de della Rovere parecia-lhe bastante rid�cula. Seria preciso, de facto, conhecer bastante mal o Rei Lu�s, aquele homem secreto de quem se dizia que o seu cavalo transportava todo o seu conselho, para imaginar, por um s� instante, que se pudesse deixar influenciar pelos pedidos de uma mulher, fosse ela objecto da sua amizade. Por outro lado, era insensato pedir-lhe, a ela, de quem, aparentemente, o cardeal n�o sabia grande coisa, que tentasse desligar a Fran�a da sua antiga alian�a e das suas amizades.</p><p>Evidentemente, havia o caso de Catarina. Fiora sentia-se mal por lhe ter causado aborrecimentos, j� que n�o se sabia at� onde poderia ir um homem como Riario. Um acidente � sempre poss�vel e, ent�o, s� restaria ao Papa chorar por aquela sobrinha, � qual estava t�o afei�oado.</p><p>A mem�ria de Fiora f�-la rever o rosto do cardeal no momento em que falava de Catarina: um rosto tenso, uma m�scara quase dolorosa. Talvez a amasse e, nesse caso, talvez estivesse pronto a todas as loucuras para lhe acudir. N�o sugerira que Riario talvez n�o vivesse muito mais tempo? Se della Rovere amava a sua prima por alian�a com um amor sincero e ansioso, tornava-se muito mais simp�tico aos olhos de Fiora e a jovem deu por si a pensar que, no fim de contas, a carta que lhe pediam que escrevesse tinha pouca import�ncia: bastaria escrev�-la com a habilidade suficiente para n�o a comprometer. E depois, havia aquela frase misteriosa que o visitante recusara esclarecer, dizendo que falariam �na pr�xima vez�...</p><p>Nesse instante, Fiora lamentou amargamente a aus�ncia do Rei. Se ele estivesse em Plessis, teria ido ter com ele para lhe contar os acontecimentos e pedir-lhe conselho. Aquele senhor diplomata, aquele pr�ncipe de todas as ast�cias, que conhecia melhor do que ningu�m a arte de redigir cartas e tratados, teria conseguido obter do prelado romano a revela��o daquilo que escondera a Fiora. Mas o Rei estava longe e era preciso desenvencilhar-se sozinha.</p><p>Naquela noite, quando toda a gente j� estava deitada, Fiora, j� tarde na noite, sentada na sua cama, exercitava-se, tentando escrever uma carta capaz de satisfazer todo o mundo. A jovem depressa descobriu que a coisa n�o era f�cil. O princ�pio n�o custava nada, claro: tratava-se, simplesmente, de endere�ar a Catarina os seus agradecimentos, em termos comoventes, por ter permitido que uma m�e encontrasse o seu filho. Mas tudo se complicou a partir do momento em que teve de falar do Rei e dos pedidos a fazer-lhe. Era t�o dif�cil que Fiora acabou por abandonar o problema. A jovem afastou o papel e a pena, apagou a vela e deixou que o sono se apoderasse de si. J� reparara, muitas vezes, que a resposta a uma pergunta espinhosa aparecia quando acordava.</p><p>O que aconteceu tardiamente, porque adormecera bem depois da meia-noite. Ao abrir os olhos, a jovem viu L�onarde postada aos p�s da sua cama a ler, com interesse, as suas diversas tentativas.</p><p>Ides, mesmo, escrever esta carta? perguntou ela. No entanto, dev�eis recordar-vos do que dizia aquele diabo do Dem�trios: �� preciso prestar muita aten��o ao que se escreve e a sabedoria est� em escrever o menos poss�vel! Pensais que n�o penso nisso? Mas eu gostava tanto de ajudar Catarina!</p><p>E saber o que vos reserva aquele belo cardeal! Reconhe�o que ele � h�bil e que a sua hist�ria foi conduzida com m�o de mestre! Ele soube perfeitamente jogar com os vossos sentimentos e com o reconhecimento que deveis a essa jovem dama. E, para terminar, soube espica�ar a curiosidade t�o natural nas filhas de Eva.</p><p>Mas... como sabeis v�s isso? N�o me lembro de vo-lo ter contado?</p><p>L�onarde teve um grande sorriso que lhe descobriu os dentes um pouco espa�ados, mas ainda bastante brancos:</p><p>Se bem que j� n�o pare�a, eu tamb�m sou filha de Eva, minha querida Fiora! Escutei � porta, simplesmente! Vou ver se o vosso banho j� est� pronto.</p><p>A sa�da de L�onarde, sob as abas brancas da sua coifa que batiam ao vento ao ritmo do seu andamento, foi uma obra de arte de dignidade que Fiora admirou sem reservas. S� um momento mais tarde, quando se levantava do leito, � que se apercebeu que a velha solteirona lhe tinha levado todos os rascunhos.</p><p>No entanto, quando o cardeal della Rovere fez, dois dias mais tarde, a sua apari��o na Casa das Pervincas, a carta estava pronta e Fiora estendeu-lha assim que ele se sentou perto da chamin�.</p><p>Para dizer a verdade, a jovem n�o estava descontente. Tendo-a trabalhado muito na companhia de L�onarde, pensava que, com toda a equidade, devia satisfazer os interesses em jogo e n�o devia descontentar ningu�m. Com efeito, ap�s algumas linhas cheias de amizade, ternura e profundo reconhecimento, Fiora assegurava � condessa Riario o seu grande desejo de ver reinar de novo a paz entre Roma e a Fran�a, assim como naquela terra da Tosc�nia, que lhe era t�o querida entre todas as outras...</p><p>Talvez o cardeal ache que n�o vos estais a empenhar o suficiente observara L�onarde na �ltima leitura mas vereis a sua reac��o e tereis, sem d�vida, a oportunidade de discutir com ele.</p><p>Ora, para grande surpresa de Fiora, o prelado, ap�s ter lido a carta atentamente, declarou excelente a prosa da jovem e exprimiu-lhe a sua satisfa��o. Aquela leitura causaria uma grande alegria � condessa Riario e suavizaria um pouco o orgulho ferido de Sua Santidade, j� que apenas o amor maternal incitara Mme. de Selongey a fugir e donna Catarina a ajud�-la naquela empresa. O Papa ficaria igualmente encantado por constatar que a sua antiga prisioneira n�o lhe guardava rancor e que estava pronta, pelo contr�rio, a ajudar para se conseguir uma reconcilia��o geral...</p><p>Como vedes disse della Rovere em conclus�o n�o vos estava a pedir nada de dif�cil. Pelo contr�rio, prestais-me um grande servi�o pessoal e vou tentar testemunhar-vos o meu reconhecimento... Oh, de maneira... modesta, receio, porque o que vos vou dizer n�o tem, talvez, qualquer interesse.</p><p>O cardeal fez uma pausa, desviou o olhar como se hesitasse e depois suspirou:</p><p>Oh! � est�pido! O meu tio... quero dizer, o Santo Padre acusa-me sempre de falar demasiado e de n�o refrear suficientemente os meus impulsos. � por isso que receio fazer-vos mais mal do que bem.</p><p>Aquilo que fazemos com boas inten��es, monsenhor, n�o pode ser nefasto. Far-me-eis a gra�a de me confiar, pelo menos, do que � que se trata? � acerca de Floren�a?</p><p>N�o. � acerca do... vosso marido!</p><p>O meu marido? Sabeis alguma coisa dele?</p><p>Talvez. Durante a minha estadia aqui, procurei descobrir acerca de v�s aquilo que n�o sabia. Em Roma, esse condenado � morte, miraculosamente salvo no instante em que ia morrer, sempre me intrigou. Foi assim que soube que o conde de Selongey, fechado no castelo de Pierre-Seize, em Lyon, se evadira sem que se pudesse saber o que lhe aconteceu depois. � exacto?</p><p>De facto, monsenhor. Sabe-se, apenas, que roubou um barco para fugir e n�o vos escondo que essa circunst�ncia me aterroriza. Diz-se que o rio, o R�dano, creio, � perigoso. Tenho medo que ele se tenha afogado.</p><p>� poss�vel, de facto. No entanto, quando ouvi essa hist�ria, lembrou-me um acontecimento que teve lugar aqui h� alguns meses atr�s. Um acontecimento menor, aparentemente, mas que, para v�s, pode ter grande significado.</p><p>Dizei depressa, monsenhor, pe�o-vos! A menor pista pode ter a maior import�ncia.</p><p>Muito bem, aqui vai! O ano passado, como vos dizia, os monges do convento cartucho de Val-de-B�n�diction, em Ville-neuve-Saint-Andr�, mesmo em frente da minha sede episcopal,</p><p>Hoje Villeneuve-l�s-Avignon.</p><empty-line/><p>encontraram, no fundo de um barco encalhado nos cani�os, um homem ferido e inconsciente que parecia ter sofrido grandes prova��es. Eles levaram-no e trataram-no, mas foi imposs�vel fazer com que ele lhes dissesse o nome. O homem n�o sabe nada acerca de si pr�prio, de onde veio nem o que sofreu.</p><p>Teria perdido a mem�ria?</p><p>Foi o que concluiu o abade.</p><p>O cora��o de Fiora batia-lhe no peito com toda a for�a. O sangue subira-lhe ao rosto e as m�os tremiam-lhe.</p><p>Mas, como era ele? O seu rosto... a sua estatura? Viste-lo?</p><p>Infelizmente, n�o. Sei apenas o que o prior disse ao meu capel�o. Uma coisa � certa: aquele homem n�o tem nada de campon�s. � grande e as cicatrizes do seu corpo parecem indicar que � um soldado. Al�m disso, o barco era diferente dos que s�o fabricados na regi�o. Mas estou a emocionar-vos a um ponto que me deixa inquieto. Pode ser, repito, que n�o tenha qualquer rela��o com...</p><p>Estou quase certa que sim. Esse homem continua l�?</p><p>Evidentemente. Para onde quer�eis que fosse, n�o sabendo quem � e de onde vem? O estado dele deve dever-se, certamente, a um ferimento recebido na cabe�a... Mas tranquilizai-vos, foi bem tratado e n�o �, neste momento, nenhum infeliz. Os cartuxos s�o bons monges, generosos e hospitaleiros. Al�m disso, para um prisioneiro evadido, se � dele que se trata, um convento � o melhor dos asilos.</p><p>N�o duvido nem por um instante, mas, como saber, como ter a certeza?</p><p>A jovem levantara-se e caminhava agitadamente de um lado para o outro na grande sala, esfor�ando-se por apaziguar, sob a sua m�o, os batimentos do seu cora��o, que quase a sufocavam. Ao v�-la empalidecer e cambalear, della Rovere precipitou-se, tomou-a nos bra�os e obrigou-a a estender-se num banco comprido guarnecido de almofadas. Era tempo, as suas pernas tinham perdido a for�a! Ao mesmo tempo, o prelado chamou por socorro e L�onarde que escutava por tr�s da porta apareceu instantaneamente, armada com um frasco de vinagre e uma toalha. A governanta tratou de reanimar a jovem.</p><p>A m� disposi��o n�o tardou a dissipar-se e em breve Fiora, completamente restabelecida, p�de oferecer as suas desculpas ao seu h�spede, que parecia sinceramente inquieto.</p><p>Receio ter-vos fatigado em excesso disse ele. O melhor � retirar-me: voltarei amanh�. Ali�s, era minha inten��o deslocar-me a vossa casa para vos dizer adeus...</p><p>Vossa Emin�ncia deixa-nos j�? perguntou L�onarde.</p><p>Sim, tenho de regressar a Avinh�o, onde tenho muitos assuntos para tratar. Despedir-me-ei de Tours depois de amanh�.</p><p>O cardeal dispunha-se a partir, mas Fiora reteve-o:</p><p>Por piedade, monsenhor! S� mais um momento. Asseguro-vos que estou melhor... Dizei-me mais qualquer coisa sobre esse evadido!...</p><p>Que vos posso dizer mais? Sabeis tanto como eu... Escutai! Como vou regressar para l�, quereis que v� ao convento quando chegar, para ver esse homem?</p><p>V�s nunca o vistes, monsenhor. Como o reconhecer�eis?</p><p>Poder�eis fazer-me o retrato dele? Evidentemente, se n�o vos sent�sseis mal, havia uma solu��o, f�cil, sem d�vida, mas talvez fatigante...</p><p>Que solu��o � essa? grunhiu L�onarde, desconfiada. Mas Fiora j� compreendera:</p><p>Posso acompanhar-vos? � verdade que sou a �nica a ser capaz de o reconhecer. E, se for o meu marido, a que melhor o poder� tratar...</p><p>Fiora! protestou L�onarde. Estais louca? Ides partir, mais uma vez, para o fim do mundo?</p><p>Avinh�o n�o � o fim do mundo, Madame, e n�o vejo que perigos pode donna Fiora correr sob a minha protec��o! At� lhe posso oferecer uma confort�vel liteira...</p><p>Fiora parecia renascer. Reencontrara as cores e, nos seus olhos, a esperan�a fazia cintilar estrelas. A jovem levantou-se:</p><p>Eu n�o posso recusar uma sorte destas, querida L�onarde e n�o estarei ausente muito tempo. Se for mesmo Philippe, tr�-lo-ei comigo e farei, depois, a paz dele com o Rei. Oh, monsenhor, n�o imaginais a alegria que me dais!</p><p>O cardeal desatou a rir, o que lhe conferiu uma grande juventude. Parecia t�o feliz como a jovem:</p><p>Bem, est� combinado. Amanh� � noite mando-vos a liteira em quest�o. Os criados ter�o ordens para que vos junteis a mim l� para o fim da manh� na bas�lica de Saint-Martin, onde desejo orar antes de partir. Tendes tempo para fazer os vossos preparativos.</p><p>Seguido de Fiora, o prelado dirigiu-se para o jardim onde a sua equipagem o esperava e entregou ao seu secret�rio a carta que lhe fora dada pela jovem. No momento de a deixar, ele baixou a voz para acrescentar:</p><p>Para a minha gente, sereis uma dama peregrina que deseja procurar recolhimento em Compostela, ou em Roma.</p><p>N�o me queirais mal, monsenhor, por preferir Compostela. Roma n�o me deixou boas recorda��es...</p><p>Acrescento disse L�onarde, que n�o abandonara Fiora que Vossa Emin�ncia ter� sob a sua guarda duas damas peregrinas. Tenciono, tamb�m, fazer as minhas devo��es. E espero que n�o haja qualquer inconveniente!</p><p>O seu olhar, cuja cor azul ing�nua mantinha toda a frescura, desafiava quem tentasse opor-se ao seu projecto. Mas ningu�m pensou nisso. Della Rovere sorriu-lhe e Fiora, pegando-lhe no bra�o, meteu-o no seu:</p><p>J� que vou viajar de liteira, sinto-me feliz por irdes comigo.</p><p>Foi mais dif�cil fazer compreender a Khatoun que n�o podia ir. A presen�a de uma asi�tica no cortejo de um pr�ncipe da Igreja, juntamente com outras mulheres, arriscava-se a dar ao conjunto o ar de um har�m, em vez de uma peregrina��o.</p><p>Eu n�o fico fora muito tempo disse-lhe Fiora e preciso que algu�m vele pelo meu pequeno Philippe...</p><p>Com efeito, Marcelline deixara la Rabaudi�re. O seu leite estava a secar e, por outro lado, o seu marido exigia a sua presen�a. Partira naquela mesma manh� para a sua aldeia de Savonni�res com grandes suspiros e muitas l�grimas, porque trocava uma vida agrad�vel e f�cil pela exist�ncia dura de uma quinta, mas Fiora soubera consol�-la. A ama regressava mais rica do que partira, levando n�o apenas as roupas que lhe tinham sido oferecidas durante um ano, mas tamb�m roupa branca, provis�es, a cruz de ouro que usava orgulhosamente ao pesco�o e a bonita quantia que faria dela a camponesa mais rica da aldeia.</p><p>Khatoun assistira � sua partida com al�vio. Ela e a ama tinham-se detestado desde o primeiro momento e a luta pela posse do beb� fora �rdua. Como a natureza decidira a favor da jovem t�rtara, a origin�ria de Tours decretara que a �feiticeira amarela� lhe fizera azedar o leite. Acusa��o que Fiora refutou com todo o vigor.</p><p>Se me chegar semelhante disparate aos ouvidos disse ela com severidade saberei de onde veio e n�o queirais fazer de mim uma inimiga. Khatoun era escrava, sem d�vida, mas nunca foi tratada como tal. Crescemos juntas e ela salvou-me por duas vezes. Portanto, devo-lhe muito e eu nunca esque�o as minhas d�vidas. Al�m disso, gosto muito dela...</p><p>Compreendendo que n�o ganhava nada em ser teimosa, Marcelline jurou, sobre o Livro das Horas aberto na imagem da Crucifica��o que L�onarde lhe colocou sob a m�o sem dizer uma palavra mas com um olhar que n�o admitia r�plica, nunca mais repetir a sua acusa��o. E separaram-se como as melhores amigas do mundo.</p><p>Quando a Senhora Condessa der uma irm� a messire Philippe, espero que me chame! disse Marcelline � guisa de conclus�o.</p><p>Pensais ter mais filhos? J� tendes tr�s, parece-me?</p><p>Sim, mas a minha m�e teve doze e o meu Colas quer ter muitos filhos para o ajudarem no campo.</p><p>Khatoun, agora senhora do terreno, acabou por compreender que, ao confiar-lhe o filho a meias com P�ronnelle, Fiora dava mostras de confiar nela. A jovem cessou os seus protestos.</p><p>Em seguida, foi a vez de Florent. A ideia de ver a sua querida patroa abandonar de novo o seu dom�nio por um destino long�nquo era-lhe insuport�vel. Sugeriu escolt�-la fazendo as vezes de escudeiro. Dessa vez, foi L�onarde que interveio:</p><p>Que faria ela com um escudeiro, quando vai viajar de liteira?</p><p>Mas, eu proteg�-la-ia de maus encontros!</p><p>De maus encontros? Quando vamos na companhia de um n�ncio papal? N�o sonheis, meu amigo! Al�m disso, se eu tamb�m vou �, unicamente, para velar por donna Fiora. E v�s sabeis muito bem que, com a chegada das vindimas, �tienne precisa de v�s.</p><p>Ele passava bem sem mim quando eu n�o estava c�! resmungou o rapaz. Ent�o, L�onarde ofereceu-lhe o seu sorriso mais sard�nico:</p><p>Eis o que conseguimos quando nos tornamos indispens�veis! declarou ela alegremente.</p><p>Na manh� de ter�a-feira, 8 de Setembro, dia da Natividade, Fiora e L�onarde deixaram a Casa das Pervincas numa das enormes carro�as bem guarnecidas de almofadas, cortinas, colch�es e manteletes de couro que permitiam um pouco de conforto durante os longos trajectos e enfrentar as piores intemp�ries. Dois possantes cavalos estavam-lhe atrelados e um grande diabo de grandes bigodes, respondendo pelo nome de Pompeo, mantinha-os seguros. O tempo estava um pouco fresco, mas prometia uma jornada ensolarada, prop�cia � viagem. No entanto, quando o pesado ve�culo come�ou a andar, L�onarde esbo�ou uma careta e resmungou entredentes:</p><p>Pergunto a mim pr�prio se n�o estaremos a fazer uma asneira.</p><p>Uma asneira? protestou Fiora. Quando vamos tirar Philippe de uma situa��o penosa? Sois capaz de o imaginar naquele convento sem saber quem � e de onde vem? Entregue � boa vontade daqueles monges que, se calhar, n�o s�o todos santos?</p><p>N�o sabemos ao certo se � ele...</p><p>Estou de acordo, mas confessai que as coincid�ncias s�o perturbadoras. Temeis que eu apanhe uma desilus�o?</p><p>Talvez...</p><p>Ora, ficai descansada. Eu estou preparada e acho que vale mais fazer esta viagem para nada do que ficar aqui e abandonar Philippe a um destino de que ningu�m o poder� libertar.</p><p>A serenidade pura da jovem era reconfortante e L�onarde n�o disse mais nada, mas a velha solteirona n�o conseguia deixar de se sentir intranquila. O cardeal della Rovere era a causa principal da sua inquieta��o: n�o conseguia confiar totalmente nele. L�onarde reprovava-se a si pr�pria porque se tratava do sobrinho do Santo Padre, mas o relato das aventuras vividas por Fiora na Cidade Eterna tinha-a chocado profundamente. A piedade profunda, a f� total e o amor sincero que votava a Deus, a Nossa Senhora e a Cristo n�o tinham sido abalados, mas, no entanto, deplorava do fundo do seu cora��o que Roma e o seu pr�ncipe nem sequer fossem capazes de inspirar respeito.</p><p>Evidentemente, ela n�o ignorava que, ao longo dos s�culos, houvera pont�fices mais ou menos discut�veis, mas aquele antigo monge que, ao p�r na cabe�a a Trirregno, s� pensava em enriquecer escandalosamente a sua numerosa fam�lia e n�o hesitava em declarar uma guerra para espoliar Louren�o de M�dicis ap�s ter tentado assassin�-lo, n�o tinha qualquer direito � considera��o dos fi�is e, sobretudo, � sua. Tudo o que dizia respeito a Roma era, doravante, para ela, quest�o de desconfian�a e o am�vel cardeal n�o escapava a esse julgamento definitivo.</p><p>Como fora combinado, juntaram-se a ele no adro da colegial de Saint-Martin, ocupado na sua totalidade pela sua faustosa comitiva. As duas mulheres desceram da viatura para ouvir missa, rezar por alguns instantes no t�mulo do santo e depois dispuseram-se a abandonar Tours no meio de um grande ajuntamento de povo que aclamava o ilustre estrangeiro. Cavalgando orgulhosamente um soberbo corcel negro, sobre a garupa do qual se estendia com magnific�ncia a sua samarra p�rpura, Giuliano della Rovere distribu�a b�n��os, ao mesmo tempo que os seus servidores abriam alas em seu nome. Com as suas carruagens, os seus secret�rios, os seus servos, os seus cavalos e mulas, os seus guardas e as suas carro�as com as bagagens, a comitiva do n�ncio era consider�vel e quando a cabe�a atingiu os muros da cidade, ainda a cauda estava a sair do adro. A viatura com as duas mulheres tomou lugar quase no fim, um pouco antes dos dom�sticos e das carro�as transportando o mobili�rio e as bagagens, porque n�o era conveniente que duas mulheres viajassem perto dos eclesi�sticos. Junto delas, um punhado de peregrinos a caminho da Proven�a e autorizado a aproveitar uma companhia t�o augusta, p�s-se em marcha em montadas variadas ou a p�...</p><p>Atrav�s da grande rue de la Scellerie, passaram diante do convento dos Agostinhos e do dos Franciscanos, nos quais todos os monges estavam de joelhos na poeira para se fazerem aben�oar,</p><p>A coroa tripla que o Papa recebe no dia da sua coroa��o.</p><empty-line/><p>atingiram o burgo de Areis e a porta de Saint-�tienne, defendida por uma poderosa bastilha virada a sul.</p><p>Passado o sub�rbio do mesmo nome, as �Pontes Grandes� que cruzavam o Cher e numerosos p�ntanos formados por antigos bra�os de rio, a longa fila atingiu Saint-Avertin e come�ou a subir ao longo das vertentes cobertas de vinhedos onde os vindimadores j� trabalhavam. Ap�s um Ver�o quente, as uvas estavam maduras: algumas jovens de pernas nuas ofereceram ao cardeal um cesto cheio delas. Este recompensou-as com algumas moedas de prata que lhe valeram mais algumas aclama��es.</p><p>Se paramos de cinco em cinco minutos, nunca mais l� chegamos! resmungou L�onarde. E quanto nos falta ainda percorrer? Cento e setenta, cento e oitenta l�guas?</p><p>Se conseguirmos fazer dez por dia, chegamos l� dentro de tr�s semanas. Evidentemente, ir�amos mais depressa a cavalo, mas parece-me que v�s n�o guardais boas recorda��es dessa maneira de viajar! disse Fiora com um sorriso. Para vos consolardes, pensai em todas as abadias onde faremos etapa! Ides poder rezar a quase todos os santos de Fran�a!</p><p>No entanto, quando, a meio do dia, ela viu aparecer os altos telhados da abadia de Cormery, onde o prior, em h�bito de cerim�nia e de cruz na m�o, esperava o cardeal rodeado de um enxame de beneditinos, a jovem n�o p�de evitar um suspiro. Parar todas as noites num convento n�o tinha nada de aflitivo, mas se, por outro lado, era preciso visitar todas as casas religiosas que encontravam, as tr�s semanas arriscavam-se a transformar-se em dois ou tr�s meses. E L�onarde come�ava a ficar impaciente.</p><p>Enquanto, diante do portal da igreja, se trocavam sauda��es, genuflex�es, beija-m�os e outras demonstra��es de civismo, ela interrogou o seu cocheiro. Saberia ele onde tencionava o cardeal passar a noite? O homem respondeu que seria em Loches. O trajecto do dia n�o seria, portanto, de dez l�guas e, provavelmente, nem disso se aproximaria, porque a paragem em Cormery arriscava-se a ser longa.</p><p>Com efeito, j� o Sol desaparecia quando atingiram a floresta de Loches, para l� da qual se erguia a cidade real e o poderoso castelo que inspirava tanto temor justificado aos inimigos do soberano. Para Fiora, aquele nome fazia-a evocar frei In�cio Ortega, que a perseguira com um �dio inexplic�vel e ali morrera, assim como o escudeiro e amigo de Philippe, Mathieu de Prame que, esse, tivera a sorte de sair dele vivo... Mas, para ir para onde?</p><p>Resignada, Fiora dormitava no ninho que preparara entre as almofadas, enquanto, junto de si, L�onarde rezava o ter�o. O caminho pela floresta era suave e os solavancos n�o eram muitos. A seguir � viatura os peregrinos cantavam, talvez para darem coragem a si pr�prios, porque a sombra verde das �rvores estava a ficar cinzenta e o matagal parecia ficar mais denso � medida que avan�avam. Deixaram de ouvir as aves e a opress�o natural, para quem viaja pela floresta ao crep�sculo, envolveu o cortejo.</p><p>Subitamente, numa curva do caminho, um solavanco projectou as duas mulheres uma contra a outra, ao mesmo tempo que a liteira ganhava velocidade. No entanto, o caminho era bastante mais rude e as rodas do ve�culo iam de um trilho ao outro. Arrancada �s suas ora��es, L�onarde espreitou para o exterior:</p><p>Que se passa? gritou ela para o cocheiro, mas este n�o respondeu.</p><p>Pelo contr�rio, o homem chicoteou os cavalos para que eles corressem ainda mais depressa.</p><p>Ele vai-nos matar! disse L�onarde mas isso n�o � o pior. N�s j� n�o estamos no cortejo.</p><p>Por sua vez, Fiora tamb�m espreitou. De facto, n�o havia ningu�m � frente, nem atr�s. Nada, se n�o um estreito carreiro que corria por entre massas negras de �rvores, no qual a carro�a corria � desfilada. As duas mulheres olharam uma para a outra aterrorizadas, invadidas pelo mesmo pensamento: tinham-lhes estendido uma armadilha, que estava em vias de se fechar sobre elas...</p><p>Com todas as suas for�as, Fiora ordenou a Pompeo, em italiano, que parasse, mas o cocheiro respondeu com um grunhido e um novo estalar do chicote. Por um instante, a jovem pensou em abrir a portinhola e atirar-se para o solo, mas a viatura ia demasiado depressa e, de qualquer maneira, L�onarde n�o poderia imit�-la sem se magoar. Al�m disso, a floresta de ambos os lados daquele carreiro parecia animar-se. Surgiram umas sombras mais espessas e em breve quatro cavaleiros mascarados rodearam a equipagem que, no entanto, n�o abrandou o andamento.</p><p>Que Deus nos proteja! gemeu L�onarde. Receio que seja o nosso fim.</p><p>Fiora n�o respondeu. Uma violenta c�lera preservava-a do medo. Como pudera ser t�o est�pida, t�o tola, para ter f� nas palavras de um sobrinho de Sisto IV? Como pudera acreditar que ele desejava ajud�-la?</p><p>Subitamente, o cocheiro deteve os cavalos com tanta brutalidade que as duas passageiras se viram de rojo no fundo da carro�a. Quase ao mesmo tempo, a portinhola abriu-se e umas m�os, sem qualquer suavidade, apoderaram-se de Fiora e de L�onarde e puxaram-nas para fora. Ent�o, elas viram que se encontravam numa clareira vagamente iluminada pela �ltima luz do dia. Nela encontravam-se cinco ou seis homens vestidos de escuro e era imposs�vel distinguir-lhes as fei��es. Dois de entre eles, apoiados em p�s, mantinham-se ao lado de um grande buraco mais comprido do que largo que tinham, sem d�vida, acabado de abrir.</p><p>Foi para diante do buraco que arrastaram as duas infelizes e ambas compreenderam de imediato que ele fora aberto em sua inten��o. Aquela gente estava ali para as assassinar.</p><p>Quem sois v�s? Que quereis? exclamou Fiora.</p><p>Aquele que parecia o chefe nem se deu ao trabalho de responder. Avan�ando � luz dan�ante de um archote que um dos seus companheiros acabava de acender, atirou uma bolsa ao cocheiro que ele apanhou em voo e apontou para o carreiro, quase invis�vel, � sua direita:</p><p>Bom trabalho, amigo! Vai por ali! Apanhas o cortejo antes de Loches...</p><p>Pompeo virou os cavalos. A atrelagem desapareceu instantaneamente, engolida pela noite e pelos ramos baixos. O homem esperou que o barulho se apagasse e virou-se para aquelas que iam, sem d�vida, ser as suas v�timas e que eram mantidas im�veis por quatro dos seus companheiros. Fiora debatia-se furiosamente, mas L�onarde, atingida por aquele golpe inesperado, deixara-se cair de joelhos na terra h�mida e rezava, n�o esperando mais nada sen�o o golpe fatal.</p><p>Com um golpe brutal, o chefe arrancou o v�u que envolvia a cabe�a de Fiora.</p><p>Tinha pensado enterrar-vos vivas disse ele mas eu n�o sou um homem cruel. Primeiro, vamos degolar-vos e este v�u, manchado com o vosso sangue, ser� uma boa prova de que fiz bem o meu trabalho.</p><p>Para quem � esse trabalho? lan�ou Fiora N�o me ides dizer que � para o Rei? Acredito, antes, que ele vos far� pagar bem caro quando souber...</p><p>Ele n�o saber� nada. V�s ides desaparecer sem deixar rasto.</p><p>Antes de morrer, gostaria, pelo menos, de saber quem me mata! O Papa? � o cardeal que vos paga?</p><p>Esse tamb�m n�o sabe mais do que v�s. Tudo o que lhe pediram foi que vos trouxesse com ele.</p><p>�Pediram�? Quem?</p><p>Isso n�o vos interessa! Dev�eis, antes, fazer como a vossa companheira e fazer as pazes com o C�u. Dou-vos um instante para rezardes uma ora��o.</p><p>Um dos bandidos aproximou-se:</p><p>E se despach�ssemos a outra, entretanto?</p><p>Boa ideia! J� deve estar pronta. J� rezou o suficiente.</p><p>Deixai-me, ao menos, abra��-la! gritou Fiora, desesperada.</p><p>Parece-me in�til. Ides poder abra��-la quanto quiserdes dentro daquele buraco...</p></section><section><title><p>CAP�TULO VI</p><p>NO RASTO DE UMA SOMBRA</p></title><p>L�onarde! uivou Fiora. Perdoai-me! Respondeu-lhe um grito de dor. O homem que se propusera matar a velha solteirona acabava de lhe arrancar a coifa e segurava-a pelos cabelos, puxando-os selvaticamente para a obrigar a erguer a cabe�a e desimpedir a garganta que ia cortar. Mas n�o teve tempo de lhe aproximar a faca da pele. Partida da sombra, uma flecha atravessou-lhe o pesco�o e ele desabou sobre L�onarde. Ao mesmo tempo, uns cavaleiros rodeavam a clareira. A luz incerta do archote fez luzir as cotas de malha por baixo das meias coura�as e dos capacetes de ferro. Soou uma voz rouca:</p><p>Em nome do Rei! Agarrai essa gente e enforcai-a imediatamente naquela grande �rvore!</p><p>Ficai, pelo menos, com dois, messire grande preboste! Para ouvirmos o que t�m a dizer.</p><p>Sem esperar pela resposta, Douglas Mortimer saltou do seu cavalo e correu para Fiora que, sem for�a nas pernas, se deixara cair de joelhos quando os bra�os que a seguravam a tinham largado. O escoc�s ergueu-a com uma m�o vigorosa sem que ela fizesse nada para o ajudar. Com as pupilas cinzentas extremamente dilatadas, ela olhava para ele com uma esp�cie de espanto, como se, em vez de um s�lido escoc�s, ele fosse o luminoso representante de uma qualquer corte angelical...</p><p>Tudo bem? perguntou ele com sobriedade quando conseguiu que ela se aguentasse nas pernas.</p><p>Creio que... sim. Oh, Mortimer! Come�o a acreditar que v�s sois uma esp�cie de anjo-da-guarda para mim... mas, que significa isto tudo?</p><p>Eu explico-vos, mas, antes, devo dizer-vos que nunca tive tanto medo! Cheguei a pensar que n�o chegar�amos a tempo...</p><p>Em seguida, sem se preocupar mais com ela, virou-se para L�onarde. Esta estava a ser ajudada por um guarda do preboste, que a desembara�ava do corpo que lhe ca�ra em cima e o atirava directamente para o buraco. Fiora juntou-se a ele de imediato e n�o p�de conter um grito de horror. Coberta de sangue, a pobre mulher oferecia uma imagem assustadora. Mas, j� recomposta das suas emo��es, L�onarde sibilava como um gato enraivecido:</p><p>Onde � que h� �gua? Eu n�o posso ficar assim! Este sangue pegajoso...</p><p>Ainda bem que n�o � o vosso observou Mortimer. Vinde, h� ali um pequeno regato.</p><p>Os guardas tinham acendido uns archotes e a clareira ficou suficientemente iluminada para que todos pudessem apreciar o dram�tico espect�culo que ali se desenrolava. Os bandidos, despojados, um ap�s outro, das m�scaras, foram atirados, de joelhos, para diante daquele a quem o escoc�s chamara o grande preboste.</p><p>Era um homem de idade, de rosto duro, ornamentado com um bigode e uma curta barba branca. Os anos n�o pareciam ter tirado vigor ao seu corpo magro: este suportava com facilidade o peso da armadura que vestia com excep��o do elmo, substitu�do por um capelo negro onde brilhava uma grande medalha de prata. Como todos os homens demasiado grandes, inclinava-se um pouco sobre o cavalo que manejava, ali�s, com destreza. Ao servi�o de Lu�s XI desde a adolesc�ncia, quando este ainda n�o passava de delfim, Tristan l�Hermite, na sua primeira juventude escudeiro do condest�vel Richemond e depois preboste dos sargentos, encarnava, aos olhos dos s�bditos do Rei, a imagem de uma justi�a severa, frequentemente expeditiva mas raramente ileg�tima, que inspirava nos vagabundos de toda a esp�cie um temor saud�vel. Dedicado ao Rei como um c�o de ca�a ao seu dono, aquele homem silencioso e naturalmente taciturno ignorava tanto a fadiga como a piedade e todos os criminosos podiam ter a certeza de que ele os perseguiria at� � sua expia��o. Do fundo das suas �rbitas cavadas, cujas sobrancelhas espessas acentuavam a fundura, pousava nos homens um olhar cinzento t�o duro como o granito.</p><p>Os seus homens obedeciam-lhe com extrema prontid�o e, num instante, uma meia d�zia de bandidos que ele, ali�s, reconhecera e chamara pelo nome, balan�ava nos ramos de um velho carvalho. Os seus gritos e s�plicas nem sequer fizeram pestanejar o impass�vel justiceiro. Apenas o chefe, que respondia, aparentemente, pelo nome po�tico de Tordgoule, vivia ainda e esperava o seu destino de joelhos e em camisa junto das pernas do cavalo de Tristan L�Hermite. Um dos soldados, de p� a seu lado, segurava na m�o a ponta da corda que lhe tinham passado pelo pesco�o...</p><p>Enquanto ajudava L�onarde a lavar-se o melhor poss�vel no pequeno regato, Fiora n�o podia deixar de observar com algum temor aquela est�tua de ferro que, para al�m da ordem inicial, ainda n�o tinha articulado uma palavra.</p><p>Mas quando o �ltimo corpo foi precipitado no vazio, o grande preboste manobrou lentamente a sua montada de maneira a manter Tordgoule sob o seu olhar:</p><p>Agora � a tua vez! Quem te deu ordem para matar estas duas mulheres?</p><p>N�o sei, monsenhor! N�o o conhe�o, juro-vos!</p><p>A s�rio?</p><p>A um simples gesto do preboste, um dos seus homens aproximou-se com um archote, ao mesmo tempo que dois outros se apoderavam do miser�vel e o deitavam na erva. A chama aproximou-se o suficiente dos seus p�s nus para desencadear um uivo desesperado:</p><p>N��������o!</p><p>Ent�o, fala!</p><p>Pela minha vida... eterna... juro... que estou a dizer a verdade... Um homem mascarado foi ver-me... antes de ontem... na taberna... perto do matadouro de Areis...</p><p>Um novo uivo rasgou a noite e Fiora tapou as orelhas:</p><p>� preciso mesmo fazer isso? perguntou ela.</p><p>Este homem queria degolar-vos, a v�s e � dama L�onarde</p><p>disse Mortimer com um encolher de ombros um tudo nada desdenhoso. Acho-vos um tanto sens�vel.</p><p>O supliciado, para tentar comover o seu algoz, tomou como testemunhas todos os santos do Para�so e jurou que n�o podia acrescentar nada ao que j� tinha dito: o homem mascarado entregara-lhe uma bela soma em ouro e prometera outro tanto uma vez a obra acabada. Deveriam esperar, naquela clareira, ao anoitecer, uma certa carro�a contendo duas mulheres. Antes, deveriam abrir uma fossa suficientemente grande para conter dois corpos e enterrar nela as duas mulheres. Tordgoule daria uma bolsa ao cocheiro e regressaria a Tours para receber o resto do combinado.</p><p>Um violento agitar de vegeta��o e um galope vindo do interior da floresta interromperam a confiss�o entrecortada do homem: os guardas do grande preboste traziam de volta a carro�a que tinham detido antes que ela tivesse atingido a estrada de Loches e a caravana do n�ncio. Um soldado conduzia os cavalos e Pompeo, solidamente amarrado, foi tirado da viatura sem qualquer suavidade e atirado para diante do grande preboste. A bolsa que recebera uns momentos antes juntou-se �s dos vagabundos, formando um pequeno mont�culo na erva.</p><p>Como o homem parecesse n�o compreender as perguntas que L�Hermite lhe fazia, Tordgoule encarregou-se da tradu��o sem esperar que uma das duas damas fosse requisitada como int�rprete.</p><p>Eu tinha ordens para travar conhecimento rapidamente com um dos palafreneiros, ou dos cocheiros do cardeal para combinarmos as coisas, mas j� conhecia esse a�. A ideia de ganhar um pouco de ouro agradou-lhe de imediato. Ainda por cima porque n�o haveria qualquer perigo... Bastaria fazer um desvio e regressar, depois, � escolta. Ao anoitecer, ningu�m veria grande coisa...</p><p>P�ra de fazer tro�a de n�s, amigo interveio Mortimer.</p><p>O n�ncio n�o acharia estranho que, ao chegar a Loches, a carruagem das damas estivesse vazia?</p><p>O escoc�s desembainhara a sua espada e apoiava a ponta na garganta de Pompeo que, de m� vontade, mas porque acabava de ver a sua morte nos olhos daquele gigante, acabou por responder:</p><p>Seria f�cil. Eu deveria dizer que as damas, tendo encontrado amigos em Cormery, tinham decidido n�o voltar a partir. Eu deveria agradecer muito em nome delas e...</p><p>E guardar o conte�do da viatura? Ou o teu senhor � c�mplice deste golpe sujo, ou � um imbecil. O que me custa a acreditar...</p><p>Juro que n�o sei nada disse o outro sombriamente. Ele � um homem de Deus, um verdadeiro pr�ncipe da Igreja...</p><p>Temos de esclarecer isto, messire Tristan continuou o escoc�s, retirando a espada e fazendo sinal para afastarem o prisioneiro. O cardeal est� em Loches a esta hora. Dev�eis fazer-lhe umas perguntas...</p><p>� essa a minha inten��o. Suponho que levais v�s as damas para sua casa?</p><p>Se elas se sentirem com coragem. Se n�o, elas podem pedir asilo por uma noite na abadia de Cormery. O Rei d� para l� dinheiro suficiente para que os seus servidores e os seus amigos sejam recebidos convenientemente.</p><p>Creio disse Fiora que � melhor escolhermos Cormery. A minha querida L�onarde j� n�o pode mais e eu confesso que apreciaria um pouco de repouso.</p><p>Avan�ando at� ao flanco do cavalo do grande preboste, ela estendeu-lhe uma m�o que ainda tremia um pouco:</p><p>Muito obrigada, messire! Ignoro, ainda, por que milagre nos pudestes salvar, mas podeis estar certo que nunca mais o esquecerei e que direi ao Rei...</p><p>V�s n�o direis nada ao Rei, Madame!</p><p>Num movimento de uma rapidez e ligeireza inesperadas num homem daquela idade, Tristan L�Hermite pusera p� em terra para poder saudar a jovem:</p><p>Como? disse Fiora.</p><p>Se adquiri alguns direitos com o vosso reconhecimento, Madame, pe�o-vos a gra�a, mais por v�s do que por n�s, de n�o dizerdes nada ao nosso sire sobre o que aconteceu aqui esta noite.</p><p>Mas... porqu�?</p><p>Mortimer interveio:</p><p>Ele tem raz�o, as verdades nem sempre se podem dizer. Se aquele em quem ambos pensamos est� na origem desta maquina��o, n�o seremos ouvidos, o Rei recusar� acreditar em n�s...</p><p>Sim cortou Tristan I�Hermite precisamos de provas...</p><p>Provas? conseguiu dizer Fiora, que quase sufocou. Mas, faltam algumas nesta clareira? Tendes esses dois homens! E o que vos poder� dizer o cardeal. E tendes a minha palavra, enfim, e a da dama L�onarde!</p><p>Fizestes bem em mencionar as vossas pessoas em �ltimo lugar disse Mortimer um tanto ambiguamente. Sois precisamente v�s as que contar�o menos. As mulheres, para o Rei Lu�s, s�o palradoras incur�veis, dotadas de uma imagina��o diab�lica... e a personagem pertence ao seu s�quito.</p><p>V�s achais que... come�ou Fiora, que acabava de ter uma ideia. Mas o grande preboste imp�s-lhe sil�ncio:</p><p>Nada de nomes, Madame! Deixai-me tratar deste assunto � minha maneira e recebei as minhas sauda��es. Quereis um dos meus homens para vos acompanhar?</p><p>� in�til! disse Mortimer. Eu encarrego-me... e agrade�o-vos por terdes acreditado em mim, messire grande preboste! E tamb�m por me terdes ajudado.</p><p>A sombra de um sorriso distendeu fugitivamente o rosto severo de Tristan l�Hermite.</p><p>N�o fiz mais do que cumprir os deveres do meu cargo, jovem, mas confesso que sou sens�vel � amizade. Em tempos... h� muito tempo, dediquei-me, tal como v�s, ao servi�o de uma dama... muito bela!</p><p>V�s, messire? Uma dama? murmurou Mortimer, sinceramente espantado.</p><p>Surpreende-vos, n�o �? O grande justiceiro, o senhor dos carcereiros, da pol�cia, dos carrascos? Ela chamava-se Catarina de... mas ficai descansado! N�o era eu que a amava. Mas, agora, parti! Ver-vos-ei de novo em Plessis!</p><p>Douglas Mortimer ajudou L�onarde e Fiora a subirem de novo para a viatura e depois, ap�s ter prendido o seu cavalo na traseira do ve�culo, saltou para a boleia. Enquanto o escoc�s virava pesadamente a pesada carro�a para retomar o caminho j� percorrido, Fiora lan�ou um �ltimo olhar � clareira onde a fossa ainda aberta guardava os vest�gios do horror que ela e L�onarde acabavam de viver. Dois soldados estavam a tap�-la No meio do duplo c�rculo de archotes e armaduras, Tristan l�Hermite, de novo na sua sela, observava-os, t�o im�vel como uma est�tua equestre. Junto dos cascos do seu cavalo, Pompeo e o outro bandido tremiam e choravam, mas ela n�o sentiu qualquer piedade. O seu esp�rito e o seu cora��o estavam gelados. A jovem nem sequer sentia o medo retrospectivo. Tudo o que povoava o seu esp�rito era uma imensa decep��o. O sonho acariciado h� tr�s dias, a esperan�a de reencontrar Philippe, mesmo doente, mesmo inconsciente e de o levar para junto do seu filho, acabava de se transformar numa sinistra decep��o. Tinham-na enganado e agora regressava a casa com a alma cheia de amargura e as m�os vazias...</p><p>Serei assim t�o pobre de esp�rito, ao ponto de me poderem enganar com tanta facilidade? murmurou ela sem se dar conta de que acabava de pensar em voz alta.</p><p>� evidente que n�o respondeu L�onarde cuja m�o procurou a sua mas tudo que diga respeito ao vosso cora��o atinge o seu objectivo. E v�s quereis tanto encontrar Messire Philippe!</p><p>Reprovais-mo?</p><p>Eu? Deus � testemunha! Sabeis muito bem que o meu maior desejo � ver-vos, enfim, feliz. Mas n�o consigo compreender como aquele homem p�de saber que o vosso marido se evadiu de Lyon.</p><p>Aquele homem? Quereis dizer, o cardeal?</p><p>Sim, infelizmente! suspirou a velha solteirona. N�o consigo deslindar o papel dele nesta armadilha infame.</p><p>Segundo os seus c�mplices, ele n�o sabia de nada, ou quase nada. O que � dif�cil de acreditar...</p><p>De qualquer maneira, n�o possu�mos nenhuma resposta v�lida para essa pergunta, nem para algumas outras, ali�s. O jovem Mortimer poder� dar-nos algumas e pode ser que aquele Tristan L�Hermite consiga que monsenhor della Rovere confesse!</p><p>Achais que sim?</p><p>Parece poss�vel, porque ele � um homem terr�vel. Al�m disso, em Loches, ele deve dispor dos meios suficientes para o fazer falar.</p><p>Perdestes a cabe�a, L�onarde? murmurou Fiora, espantada. N�o imaginais que ele seria capaz de amea�ar com a pris�o um pr�ncipe da Igreja, ou at�...</p><p>L�onarde abriu-se num grande sorriso:</p><p>A tortura? Por que n�o? As rela��es entre o Rei e o Papa, j� de si m�s, n�o perderiam grande coisa. E podeis crer acrescentou ela com um suspiro pleno de satisfa��o que ele � homem para isso.</p><p>E... isso dar-vos-ia prazer? �</p><p>N�o imaginais at� que ponto.</p><p>O que n�o impediu a velha solteirona, uma vez instalada na cela que o irm�o hospedeiro ofereceu aos viajantes na casa de h�spedes de Cormery, de se ajoelhar junto da sua estreita cama para uma longa e profunda ora��o. Na simplicidade do seu cora��o, L�onarde acreditava que as ovelhas ronhosas podiam infiltrar-se no santo rebanho da Igreja e que Deus n�o podia, com toda a justi�a, ser respons�vel pelos crimes dos seus servidores.</p><p>�nica consola��o da triste aventura: o regresso � Casa das Pervincas foi saudado com um entusiasmo que reconfortou o cora��o de Fiora e depois com uma viva indigna��o quando se soube a verdade, o que alegrou o de L�onarde. No entanto, a verdade s� apareceu com toda a evid�ncia quando, dois dias depois do regresso, Douglas Mortimer se apresentou para jantar em la Rabaudi�re.</p><p>Enquanto limpava um ap�s outro os pratos e as terrinas com um trabalho lento, implac�vel e met�dico das mand�bulas, o escoc�s contou como se achara nomeado para a floresta de Loches para ali subtrair as suas amigas ao seu tr�gico destino:</p><p>Na noite daquele famoso jantar, vi mestre Olivier le Daim em conversa��o com o cardeal, conversa��o essa que at� podia ser inocente, porque o nosso homem tinha todo o ar de uma profunda piedade. Parecia pedir ao prelado a sua protec��o para adquirir indulg�ncias. Inclinava-se, persignava-se, agitava-se, fazia toda a esp�cie de momices. Percebeis o que quero dizer?</p><p>Completamente! disse Fiora.</p><p>Simplesmente, eu, as conversas inocentes de mestre Olivier, n�o acredito nelas e depois de vos ter trazido a casa, pusme a espi�-lo. Essa miss�o n�o era muito dif�cil, porque ele nunca est� livre dos seus deveres antes de o Rei se deitar. At� tive tempo de vestir roupas negras antes de me colocar � espera no lado de fora das muralhas. Ent�o, vi-o sair por uma poterna montado numa mula e dirigir-se para Tours. Segui-o at� uma taberna � borda-d��gua. Era preciso saber que era ele, porque levava um grande manto, um capuz enfiado at� �s orelhas e uma m�scara, mas, �quela pe�a, sou capaz de o farejar sob que disfarce for, nem que ele estivesse vestido de c�nego, coisa que faz muitas vezes. Mas, desta vez, estava fora de quest�o brincar aos homens da Igreja, dado o objectivo do seu passeio... Bebia mais um pouco desse vinho de Beaune, dama P�ronnelle! � espantoso como o falar faz sede.</p><p>Morta a dita sede, Mortimer recome�ou o seu relato:</p><p>Sempre seguindo-o, vi-o entrar numa taberna na margem do rio onde se encontra o mais belo sortido de malfeitores e ali chegar � fala com aquele Tordgoule, sobre o qual n�o vos direi mais nada... sen�o que, de facto, n�o parecia saber com quem estava a falar.</p><p>Como percebestes isso?</p><p>Por uma certa maneira de ser. O malandro mostrava uma desconfian�a tal que Daim teve de tirar ouro da algibeira para o convencer. E � sempre perigoso fazer brilhar o metal amarelo num tal local. Os dois sa�ram juntos e perderam-se na noite de tal maneira que n�o fui capaz de os encontrar. Ent�o, fui a casa do grande preboste para lhe dizer o que tinha visto...</p><p>Em plena noite?</p><p>Ele � um homem que n�o dorme muito! Disse-lhe que estava a pensar em falar ao Rei, mas ele dissuadiu-me. Primeiro, porque eu n�o testemunhara nenhuma ofensa grave. Depois, por causa da confian�a cega que o nosso sire tem no seu barbeiro. Este, claro, ia deixar Plessis com ele e como era suposto deixar no castelo uma companhia da Guarda, pedi para tambem ficar com o pretexto de que n�o me sentia bem. O que fez rir o Rei...</p><p>Rir?</p><p>A bandeiras despregadas. Quase sufocava.</p><p>A que prop�sito, essa alegria toda?</p><p>Bem... ha... ele achou que o meu mal n�o era muito grave e que... v�s �reis a origem e o... enfim... Quando ele parou de rir, disse-me: Por Deus, Mortimer, acabais de me fazer passar um bom bocado! Mas n�o repitais! Eu n�o vou estar ausente muito tempo e � por isso que quero que fiqueis, desta vez... V�s estais ao meu servi�o, n�o ao das damas!</p><p>Vermelho como um lagostim bem cozido, o pobre homem n�o ousava olhar de frente para Fiora e teve, para recobrar a calma, de engolir de um trago duas ta�as de vinho que, coisa estranha, lhe devolveram a cor normal...</p><p>Seja como for, como Tristan L�Hermite se encarregou de vigiar Tordgoule, eu atrelei-me ao cardeal. Quando vi que vos enviava uma viatura, compreendi que se passava algo de bizarro. Passei a noite no vosso bosque e, depois da vossa partida, interroguei a menina Khatoun e a dama P�ronnelle.</p><p>Fiora saltou, literalmente e com tanta energia que quase ia virando a mesa:</p><p>Que bela maneira de fazer as coisas! Por que � que, em vez de vos esconderdes, n�o fostes ter comigo? Ter-vos-ia dito o que contava fazer!</p><p>N�o duvido nem por um s� instante, mas ter-me-�eis escutado se vos tivesse aconselhado a n�o partir?</p><p>� evidente que n�o! resmungou L�onarde, que ainda n�o dissera duas palavras desde o in�cio da refei��o. Nada a teria detido... Por que pensais v�s acrescentou ela que me atirei, constipada como estou, para os maus caminhos deste belo reino de Fran�a?</p><p>Estou a ver concluiu Fiora, sentando-se de novo. E depois?</p><p>Foi simples. Juntei-me a v�s � sa�da de Tours e segui-vos de longe. Nunca uma viagem me aborreceu tanto! V�-se l� perceber como se pode andar com tanta lentid�o! Aquilo fez-me lembrar...</p><p>O escoc�s interrompeu-se para lan�ar a L�onarde um olhar perplexo que a fez rir:</p><p>Acabai o vosso pensamento! Fez-vos lembrar aquela deliciosa viagem que fizemos juntos quando me conduzistes a Nancy para junto do duque de Borgonha!</p><p>Um pouco! Regressando �quele maldito dia, ia falhando quase tudo porque o grande preboste atrasou-se e eu tive de esperar por ele.</p><p>E v�s cont�veis seguir-nos durante muito tempo?</p><p>T�nhamos a certeza de que n�o seria necess�rio. Tordgoule n�o gosta de se afastar de Tours onde vive mais ou menos tranquilamente, ao passo que deixou, atrav�s do reino, algumas recorda��es embara�osas. Precisava de agir com rapidez.</p><p>N�o teria sido mais simples continuou L�onarde prender aquela gente antes de se atirarem a n�s?</p><p>O grande preboste � um justiceiro rude, mas precisa, pelo menos, de um come�o de prova. Ele queria apanhar os malandros com a boca na botija, se assim posso dizer. Acrescento que ele esperava que a tortura lhe permitisse apanhar Olivier le Daim, que detesta. L�Hermite sonha com a possibilidade de o acusar abertamente de uma perversidade diante do Rei, mas eu n�o sei se esse sonho alguma vez se realizar�. No cavalete, Tordgoule n�o disse nome nenhum pela simples raz�o de que ignorava o do seu cliente. Foi enforcado sem nos dizer nada. Quanto ao cocheiro Pompeo, o cardeal mandou-o abater em frente de Messire Tristan.</p><p>Que c�modo! disse Fiora com uma risadinha. Foi a melhor maneira de o calar para sempre! Gostaria de saber qual ter� sido a explica��o que ele deu ao grande preboste...</p><p>Nenhuma! Um pr�ncipe da Igreja n�o se rebaixa a dar explica��es a um homem da pol�cia. Mas pode ser que diga alguma coisa dentro disto.</p><p>E, desapertando o gib�o de veludo azul, Mortimer tirou uma carta com um grande selo escarlate, que estendeu a Fiora por debaixo da mesa.</p><p>� para mim? perguntou esta.</p><p>� claro. O cardeal enviou-a a messire Tristan, que ma enviou nessa mesma noite. Essa missiva deve estar cheia de belas frases chorosas e floridas... E est�o escritas pela pr�pria m�o de Sua Emin�ncia.</p><p>Sem responder, Fiora quebrou o selo e desdobrou a grande folha estaladi�a onde se via uma letra alta, ao mesmo tempo elegante e vigorosa. O texto, para dizer a verdade, era curto. Exprimindo-se num toscano de grande pureza, Giuliano della Rovere afirmava a sua completa ignor�ncia acerca da armadilha infame para a qual, sem querer, arrastara Fiora e a sua acompanhante. Por outro lado, n�o mentira quando contara a hist�ria do evadido do R�dano, Fiora podia certific�-lo atrav�s de uma carta enviada ao prior do convento, na qual ele mencionava o seu nome. Ele pr�prio ligara os factos pelo que ouvira em Plessis acerca daquele conde de Selongey de quem muito se falara, naturalmente, em Roma, no s�quito do Papa. E terminava dizendo-se pronto a ajudar em tudo o que pudesse uma jovem dama cujo encanto e grande nobreza pudera apreciar.</p><p>Mesmo assim, n�o ousou dar-vos a b�n��o resmungou L�onarde, que se apoderara da ep�stola cardinal�cia quando Fiora a deixara cair em cima da mesa, mas ningu�m se fez eco dela.</p><p>Mortimer partia am�ndoas enquanto olhava para Fiora, mas Fiora n�o olhava para nada... Com o olhar perdido na verdura do jardim que a janela aberta enquadrava como se fosse uma tape�aria preciosa, a jovem esqueceu o seu h�spede, o local onde estava e o tempo. Um s� pensamento naquela fina cabe�a que a terra quase engolira pouco tempo antes: a hist�ria do homem encontrado entre os cani�os por monges pescadores do convento era verdadeira e, sem o �dio de um barbeiro �vido que ela apenas entrevira, j� estaria longe, na estrada da Proven�a...</p><p>Perdida no seu sonho, a jovem n�o viu os olhos de L�onarde encherem-se de l�grimas. Apenas Mortimer se apercebeu e, cobrindo com a sua grande m�o os dedos magros da velha solteirona, apertou-os docemente sem dizer nada, mas com um sorriso que se queria encorajador.</p><p>O escoc�s deixou a casa pouco depois. Fiora parecia desinteressada da sua presen�a, mas quando, � porta, ele a saudou, ela ofereceu-lhe um sorriso t�o quente que dissipou o ligeiro mal-estar que se apoderara dele perante a atitude da sua anfitri�.</p><p>Ides juntar-vos ao Rei? perguntou ela.</p><p>N�o. Ele regressa dentro de um m�s. Aproxima-se o Inverno e eu vou levar, no castelo, uma exist�ncia tranquila de guarni��o, que me permitir� visitar-vos mais vezes. Se desejardes ca�ar, o Rei n�o v� nisso nenhum inconveniente...</p><p>Ca�ar? Oh n�o! Desde que matei um homem com as minhas m�os que n�o suporto a ideia de matar.</p><p>Que hipocrisia! disse L�onarde. Nunca vos vi recusar os pratos de coelho, ou as perdizes de P�ronnelle. � preciso matar ca�a para isso!</p><p>Sem d�vida, mas n�o eu. O sangue faz-me horror. J� vi demasiado...</p><p>Partido Mortimer, Fiora felicitou P�ronnelle por aquela refei��o t�o conseguida e subiu rapidamente para o seu quarto ap�s ter pedido a L�onarde que lhe fosse buscar Florent.</p><p>A esta hora? protestou ela. Que lhe quereis?</p><p>Preciso de falar com ele. Sede gentil: ide busc�-lo. Com o olhar cheio de suspeita, L�onarde desapareceu t�o depressa quanto lhe permitiam as suas pernas. Quando regressou e entrou, seguida do jovem, no quarto de Fiora, compreendeu que n�o se enganara sobre as suas inten��es. Sob o olhar de Khatoun que, deslumbrada, a ajudava com m�os moles, a jovem metia algumas roupas e objectos de primeira necessidade em sacolas de viagem. Sobre uma mesa, ao lado da pequena caixa onde guardava as j�ias e o dinheiro, uma bolsa bem cheia mostrava quais eram as disposi��es de Fiora.</p><p>Eu sabia! exclamou L�onarde, indignada. Ides partir de novo!</p><p>Fiora virou-se para ela e envolveu-a num olhar t�o s�rio que a pobre mulher sentiu que n�o conseguiria nada e que o �seu cordeiro� estava firmemente decidido.</p><p>Sim. Vou partir. E desta vez a cavalo, para ir mais depressa.</p><p>Quereis ir ter com o cardeal? Mas isso � uma loucura! Ainda n�o tendes a vossa conta de emboscadas?</p><p>Eu n�o vou ter com ele. Tenho inten��o de o alcan�ar, sem d�vida, mas tamb�m de o ultrapassar sem me mostrar. N�o confio inteiramente nele...</p><p>1 Ver Fiora e Carlos, o Temer�rio.</p><empty-line/><p>E a parte em que confiais � por causa de Villeneuve-Saint-Andr�? Mas, por que quereis ir l�, quando vos basta escrever?</p><p>O abade, pode, de facto, confirmar o relato do cardeal, mas n�o me pode descrever o homem que perdeu a mem�ria. Tenho de ir, compreendeis? Florent vai comigo, se quiser, evidentemente...</p><p>Se quiser? exclamou o jovem cujo rosto se iluminou como se o Sol acabasse de perfurar a noite, despejando sobre ele os seus raios. Dai as vossas ordens, donna Fiora! Estar� tudo pronto de madrugada...</p><p>As ordens s�o simples: dois cavalos robustos, capazes de cobrir longas etapas. N�o quereis uma montada para as bagagens?</p><p>N�o. N�o podemos ir atulhados e eu conto ir vestida de homem. E agora ide dormir. Partiremos ao amanhecer.</p><p>Fiora n�o ousava olhar para L�onarde. Como ela n�o dizia nada, a jovem pensou que a velha solteirona se abandonava ao desgosto, que teria de enfrentar as suas l�grimas, mas quando, por fim, procurou os seus olhos para lhe oferecer alguma consola��o, L�onarde, longe de chorar, lan�ou-lhe um olhar furibundo e abandonou o quarto, batendo com a porta. O bater de uma outra porta, quase imediatamente a seguir, disse a Fiora que a sua companheira entrara no seu quarto. Khatoun quis ir ter com ela para a apaziguar, mas Fiora reteve-a:</p><p>Deixa-a amuar, ou mesmo chorar! Amanh� o seu humor estar� melhor e, de qualquer maneira, eu estou demasiado cansada para passar a noite a discutir. Acabemos isto e vamos dormir!</p><p>Assim fizeram, mas quando � luz da madrugada Fiora, vestida com o traje de pajem que trouxera de Nancy, abriu a porta da cozinha para ali tomar o pequeno-almo�o, a primeira coisa que viu foi um par de longas pernas cal�adas com botas que ia do ch�o de pedra ao banco pr�ximo da mesa. Por cima dessas pernas estava uma t�nica de couro e, por cima da t�nica, o rosto desgostoso de Douglas Mortimer. L�onarde, de p� a alguns passos e com os bra�os cruzados no peito, esperava para ver o efeito produzido. Florent, com o nariz dentro de uma malga, estava mudo e quedo, mas os seus olhos diziam que teria estrangulado de boa vontade o escoc�s. No entanto, as primeiras palavras de Fiora foram para L�onarde:</p><p>Eu devia ter desconfiado! disse ela. T�nheis que o ir chamar?</p><p>Exactamente! N�o pens�veis que vos ia deixar ir por esses caminhos com um rapazito como �nica protec��o?</p><p>Eu n�o sou um rapazito! protestou Florent, furioso. E sou muito capaz de defender donna Fiora em qualquer circunst�ncia...</p><p>Tenho a certeza, Florent disse a jovem. Foi por isso, caro Mortimer, que n�o vos informei deste projecto quando a ideia me veio. L�onarde fez mal em vos prevenir, incomodou-vos para nada. Eu quero partir e n�o conseguireis impedir-me.</p><p>Mortimer levantou-se, estirando o seu longo corpo que pareceu subir at� �s vigas do tecto alegremente ornamentadas com presuntos, tran�as de cebolas e raminhos de ervas secas:</p><p>Quem falou em impedir? grunhiu ele. V�s sois teimosa como um burro, sei isso h� muito tempo. N�o, eu vou convosco...</p><p>� imposs�vel! Sabeis muito bem que n�o podeis partir sem a autoriza��o do Rei. Foi por isso que n�o vos disse nada ontem.</p><p>O escoc�s inclinou-se para fixar a jovem e as suas p�lpebras semicerradas deixaram passar apenas um ligeiro brilho que, por ser azul, n�o pareceu menos tranquilizador:</p><p>Obrigado pela vossa solicitude, minha querida senhora, mas esqueceis-vos de uma coisa: ao constatar que �eis fugir sem tambores nem trombetas com o vosso cardeal, eu estava decidido a seguir-vos, mesmo que fosse necess�rio regressar a Roma...</p><p>A Roma? Nunca se p�s a quest�o e...</p><p>... e v�s sois capaz de me dizer o que teria impedido della Rovere, uma vez em sua casa, de vos dar uma boa escolta para vos conduzir at� ao seu querido tio? J� vos esquecestes do castelo de Saint-Ange?</p><p>As coisas mudaram...</p><p>Creio bem que sim! Neste momento, Roma est� em guerra com Floren�a. Decididamente, gostais muito do papel de ref�m... � in�til continuarmos a discutir, ou s� Deus sabe quando partiremos. Pegai nas vossas coisas e toca a andar!</p><p>Eu estou pronto! exclamou Florent, levantando-se de um salto com um olhar de desafio na direc��o do escoc�s. Este deixou sair um suspiro de cansa�o e, apoiando o indicador musculado no ombro do rapaz, obrigou-o a sentar-se de novo no banco:</p><p>Tu ficas aqui!</p><p>Nem pensar! protestou Fiora. Eu pedi-lhe, ontem � noite, para me acompanhar.</p><p>Muito bem, agora pedi-lhe que fique aqui a guardar a casa disse Mortimer sem desarmar. Tendes inten��o de viajar rapidamente, n�o?</p><p>� evidente, mas...</p><p>Mas eu tenho a impress�o que este rapaz n�o possuiu o estofo de um centauro. Quanto tempo aguentas a galope, rapaz?</p><p>Durante algum tempo. Quando vim de Paris andei bem...</p><p>Uma viagem de Paris aqui representa umas sessenta l�guas. N�s vamos ter de fazer cerca de duzentas. Donna Fiora, eu sei, � capaz de seguir o passo que eu impuser. Tu, estou menos certo e se for preciso atirar-te para a sela quatro vezes por dia ou abandonar-te, extenuado, num albergue, n�o nos ser�s de grande ajuda...</p><p>Estou a ver! disse Florent, rabugento. Quereis mat�-la?</p><p>N�o, mas ela quer viajar depressa, ela vai viajar depressa. Al�m disso, eu ser-lhe-ei mais �til, creio eu, porque ningu�m conhece melhor os caminhos de Fran�a do que eu. Enfim, sempre sou sargento da Guarda Escocesa...</p><p>J� sabemos!</p><p>Sim, mas o que tu n�o sabes � que, se Avinh�o pertence ao Papa, Villeneuve-Saint-Andr�, no outro lado de uma grande ponte, pertence ao Rei de Fran�a desde Filipe, o Belo! Eu posso, caso o n�ncio de Avinh�o nos d� problemas, requerer as tropas do forte.</p><p>Furioso e desolado, Florent ia lan�ar-se na direc��o da porta para correr para o campo e chorar nele o seu desgosto quando Mortimer o deteve e o arrastou para junto dos cavalos que esperavam j� ajaezados:</p><p>Escuta! Tu tens de ficar aqui! Olivier le Daim quer tanto esta casa que pode querer raptar o mi�do. Eu preciso de algu�m que vele por ele...</p><p>Tendes o �tienne! Ele n�o � nenhum maneta!</p><p>N�o, mas n�o monta t�o bem como tu. Em caso de agita��o suspeita, ser� preciso galopar at� Plessis. Ir�s ter com Archie Ayrlie! Ele sabe quem �s, podes ir conhec�-lo daqui a pouco. Ele ajudar-te-� sem hesitar. Ali�s, v�o ficar dois homens a vigiar a casa sem que ningu�m d� por isso...</p><p>Por que n�o o dissestes h� pouco?</p><p>Diante de donna Fiora? Para a afligir? Talvez n�o aconte�a nada, mas eu fico mais tranquilo. Compreendeste?</p><p>Florent fez sinal que sim e tomou o seu cavalo pela brida para o conduzir � cavalari�a. Mas Mortimer deteve-o de novo:</p><p>Monta e vai ter com Archie. Para te tornar as horas vagas mais alegres, ele ensinar-te-� a montar... como um escoc�s. Como eu n�o vou estar sempre presente e como donna Fiora � o que �, pode ser que tenha a sua utilidade!</p><p>Florent desatou, ent�o, a rir e, i�ando-se para o cavalo, tomou a trote o caminho do castelo real. Mortimer, com os punhos nas ancas, via-o afastar-se quando Fiora se lhe juntou.</p><p>Onde � que ele vai? perguntou ela.</p><p>Vai aprender a montar a cavalo! N�o � luxo nenhum. Olhai-me para aquilo! Um verdadeiro saco de farinha!</p><p>A despeito do que Mortimer afirmara a Florent, nunca Fiora percorrera a tanta velocidade uma t�o longa dist�ncia e precisou, mais de uma vez, de cerrar os dentes para n�o se confessar vencida e rogar por miseric�rdia. Quando pensou discernir no rosto da jovem um certo cansa�o, Mortimer utilizou uma maneira muito sua para lhe ressuscitar a coragem:</p><p>Se o cavalo que vos leva consegue, tamb�m v�s conseguis! declarou ele e Fiora, esquecendo o traseiro dorido, as coxas a arder e os rins mo�dos, aprovou com a cabe�a e continuou a infernal cavalgada que, ali�s, n�o acrescentava uma ruga, sequer, ao rosto do escoc�s.</p><p>Aquele homem era feito de a�o e, sobretudo, conhecia como ningu�m as estradas, os caminhos e os carreiros de Fran�a. Gra�as a esse conhecimento, os viajantes n�o tiveram de se esconder do cardeal della Rovere: enquanto este descia a pequena velocidade para Ch�teauroux, La Chatre, Montlu�on e Varennes para chegar a Roanne e Lyon no passo tranquilo do seu longo cortejo, os dois cavaleiros, por Vierzon, Bourges e Moulins, atingiram Varennes e Roanne com um avan�o confort�vel sobre o voluptuoso prelado. As jornadas eram grandes, faziam uma quinzena de l�guas do nascer do Sol ao crep�sculo. Em cada etapa renovava-se o cerimonial: enquanto Fiora, derreada, se arrastava at� ao quarto de albergue que lhe era destinado, se lavava abundantemente e se atirava, depois, para cima da cama onde j� se encontrava o seu jantar, Douglas come�ava por tratar dos cavalos: esfregava-os, limpava-os, lavava-lhes as pernas fatigadas com vinho e depois dava-lhes ra��o dupla de aveia cuja qualidade ele pr�prio confirmava antes de tratar de si mesmo. O escoc�s escolhera em pessoa, nas cavalari�as reais, a montada de Fiora, sendo a sua acima de qualquer elogio. Lu�s XI, de facto, era, para com os seus cavalos, de uma extrema exig�ncia e, se bem que fosse uma pessoa pouco preocupada com a sua pr�pria apar�ncia, s� comprava animais de primeira qualidade, nem que, para isso, tivesse que pagar uma fortuna. Era cioso deles e Mortimer sabia que o Rei lhe perdoaria fosse o que fosse, at� um atraso que quase se pareceria com uma deser��o, desde que lhe devolvesse os animais em bom estado. Ali�s, o pr�prio escoc�s amava-os demasiado para os tratar de outra maneira.</p><p>Durante os onze dias que durou a viagem, ele e a sua companheira n�o chegaram a trocar cem palavras. Todas as manh�s, Mortimer assegurava-se de que Fiora dormira bem, velava pela sua alimenta��o e, se lhe perguntava pela sua sa�de, era por pura cortesia: a sua maneira de a dardejar com um olhar inquiridor lembrava estranhamente a sua maneira de examinar os cavalos e a jovem estava sempre � espera que ele a mandasse abrir a boca para se assegurar de que ela tinha a quantidade de dentes regulamentar. Em seguida, enunciava os nomes dos lugares que atravessariam antes de fazerem etapa, de novo, ao anoitecer.</p><p>Se Fiora sofreu mart�rios durante os quatro primeiros dias, conseguiu ganhar resist�ncia suficiente para que a parte final do trajecto fosse menos dura e, at�, quase agrad�vel. Aquela louca cavalgada atrav�s dos campos dourados, crestados, avermelhados pelo come�o do Outono, sob um c�u doce cujo azul leve perdera o tom macilento dos grandes calores do Ver�o, tivera o seu encanto. Nenhuma chuva transformara os caminhos em lama�ais e, sob os cascos dos cavalos, a terra tinha um som abafado, quase musical. Enfim, quando atingiram a regi�o das oliveiras e dos ciprestes, quando o ar se encheu do estr�dulo das cigarras, invadiu-a um verdadeiro sentimento de alegria e o sorriso que ofereceu a Mortimer irradiava a esperan�a que ela tinha naquelas terras rosa ou ocre, onde o Sol era o �nico senhor.</p><p>Onze dias ap�s a partida da Casa das Pervincas e depois de terem percorrido sem descanso umas cento e setenta l�guas, os dois cavaleiros viram perfilar-se, de um lado e do outro de um largo rio que o p�r do Sol incendiava, duas cidades: uma soberba, dominada por um enorme pal�cio com coruch�us e pelo campan�rio romano de uma igreja; a outra, quase t�o bela mas de aspecto mais tem�vel, com o alto torre�o, o baluarte rodeando o casario baixo e a coroa de muralhas ameadas que, sobre a colina, chamada monte Andaon, encerrava um pequeno burgo e uma abadia. Uma grande ponte ligava as duas margens entre um pequeno castelo do lado de Avinh�o e o pesado torre�o, a torre de Filipe, o Belo, erguida sobre um rochedo nu. Essa ponte, escarranchada sobre umas ilhotas planas e cheias de vegeta��o, devia ter conhecido dias melhores porque, se do lado papal mostrava belos arcos de pedra com arcos bem arredondados e suportava uma pequena capela, a parte central era constitu�da por grossos pranch�es que lutavam esfor�adamente contra a corrente r�pida. Na direc��o de Villeneuve, subsistiam apenas dois arcos e Fiora pensou que entre os papas e o Rei de Fran�a, senhor de Villeneuve, o acordo nem sempre fora perfeito ao longo dos s�culos. Mas ambas as cidades, a ponte, as muralhas e os campan�rios mostravam a mesma pedra loura, onde se reflectiam as diferentes cores do Sol entre a aurora e o ocaso. Um pouco por toda a parte, os teixos rodeavam a paisagem, guerreiros negros sobre o azul profundo do c�u e, nas duas cidades, maci�os de amoreiras, de velhos pl�tanos e de oliveiras assinalavam as pra�as ou os jardins.</p><p>� mesmo belo! disse Fiora, que detivera o seu cavalo para melhor admirar a paisagem.</p><p>Sim, mas esquecei a poesia por instantes, sen�o ainda apanhamos as portas fechadas. Em frente, ainda nos resta percorrer um quarto de l�gua...</p><p>� medida que avan�avam, o cora��o de Fiora enchia-se de alegria, a jovem n�o conseguia imaginar que uma regi�o t�o bela n�o tivesse sido criada para outra coisa que n�o a do�ura da vida. Depois de Orange, cujos pr�ncipes, os condes de Chalon, tinham preferido virar-se para Fran�a ap�s a morte do Temer�rio, Douglas Mortimer optara pela margem direita do R�dano para evitar entrar em Avinh�o propriamente dita. Apesar da extrema fadiga, a jovem esqueceu os seus sofrimentos para se maravilhar, de descoberta em descoberta, como se tivesse acabado de entrar noutro mundo. Ali ainda era Ver�o e, sobressaindo dos tons mortos dos rochedos, os maci�os de alfazema de um belo tom azul-malva, os de alecrim e os de salva perfumavam o ar da tarde. Uma camponesa de bra�os dourados, com um grande cesto liso cheio de figos, cruzou-se com os cavaleiros e cumprimentou-os alegremente com um sotaque inimit�vel. A mulher parou para esperar por outra que trazia � cabe�a um cabaz de uvas moscatel sobrevoado por dezenas de abelhas, mas com as quais ela n�o parecia preocupada. Um pouco mais longe era a mancha p�lida de um pequeno bosque de cedros azuis, cortinas de ciprestes protegendo as vinhas, sebes de canas secas sussurrando como papel amarrotado sob a brisa da tarde. Como se aproximavam do fim, Mortimer fez com que as montadas seguissem num passo tranquilo. Talvez, tamb�m, para melhor admirar os dentes brancos e os pesco�os morenos de um grupo de lavadeiras que vinha do R�dano...</p><p>H� muito tempo que n�o vinha aqui suspirou ele subitamente, com esp�rito. � verdade que � uma bela regi�o. O local ideal para recuperar depois de uma longa prova��o, se, na verdade, o vosso marido conseguiu c� chegar...</p><p>Se � mesmo ele, n�o o fez de prop�sito. Disseram-me que estava inconsciente no barco onde os monges o encontraram. Mas, de Lyon aqui, o percurso � bem longo e este rio bem r�pido.</p><p>O R�dano, em parte seco devido ao Ver�o, deixava ver numerosos bancos de areia; no entanto, a meio, o rio continuava vivo, carregado de aluvi�o e devia ser dif�cil de navegar.</p><p>N�o � no momento da chegada que ides perder a coragem. Para l� das torres que guardam a porta, podeis aperceber a igreja e os edif�cios do convento dos capuchos.</p><p>Meia hora mais tarde, de facto, os viajantes, conduzindo os seus cavalos pela brida, subiam a ruela cheia de amoreiras que, da portaria, ia dar ao convento. Ali se encontravam as forjas, os celeiros, as recolhas, as cavalari�as, o primeiro p�tio e a entrada da horta, tudo dentro dos muros mas fora do claustro, podendo ali entrar viajantes e peregrinos. Um pequeno grupo de errantes de Deus j� ali repousava, sentado em c�rculo por baixo de uma �rvore onde um irm�o converso lhes distribu�a p�o e �gua fresca. Era o primeiro acolhimento. Um pouco mais tarde, ap�s o of�cio, conduzi-los-iam � grande sala do albergue, onde poderiam passar a noite.</p><p>Fundado em 1356 pelo Papa Inoc�ncio VI poucos anos ap�s a sua elei��o para o trono pontifical, a Casa de Nossa Senhora de Val-de-B�nediction, dedicada �s severas regras de S�o Bento, erguia, na base do monte Andaon e da sua coroa de baluartes, os seus m�ltiplos edif�cios, os seus claustros, o convento tinha tr�s as suas capelas e os alojamentos necess�rios para cerca de cento e trinta pessoas, sem esquecer os quarenta pequenos jardins que cada monge devia cultivar. Uma grande biblioteca, dormit�rios, refeit�rios, caves, uma padaria, lagares, oficinas, moinhos, marcenarias, um hospital e at� uma pris�o, tudo em redor da alta igreja g�tica onde repousava, para a eternidade, o Papa fundador, compunham o mais vasto convento de todo o reino de Fran�a.</p><p>Assim que chegaram, Mortimer pediu hospitalidade para o seu jovem companheiro e para si pr�prio. O escoc�s deu-se a conhecer como oficial ao servi�o do Rei e, ao mesmo tempo, pediu o favor de uma conversa particular com o Dom Abade, favor que n�o lhe seria concedido, pelo menos de imediato, se ele n�o pertencesse ao s�quito do soberano. A Fiora, um pouco aborrecida por se refugiar numa mentira, Mortimer explicou que aquilo simplificava as coisas, evitar-lhe-ia ser colocada junto dos peregrinos de passagem e permitir-lhe-ia transpor mais facilmente a clausura, coisa indispens�vel se o evadido estava instalado nos edif�cios conventuais propriamente ditos.</p><p>Em vez de serdes Mme. de Selongey, sereis o irm�o de messire Philippe... digamos... o cavaleiro Antoine?</p><p>Tendes muita imagina��o, mas n�o iremos cometer uma falta grave? Se o Rei sabe...</p><p>N�o o suportaria, certamente, devoto como �, mas sois capaz de me dizer como pode ele saber da breve visita que dois viajantes fazem a um convento capucho perdido nos confins do reino?</p><p>E se for mesmo Philippe? Se ele me reconhecer?</p><p>Confessar-nos-emos e pediremos humildemente perd�o. O �nico risco ser� imporem-nos como penit�ncia a peregrina��o a Compostela...</p><p>Apesar da sua extrema fadiga, Fiora, felizmente alojada sozinha numa cela da hospedaria esta estava longe de estar cheia n�o conseguiu conciliar o sono. A calma era profunda, no entanto e a noite, que entrava pela estreita janela, parecia feita de veludo azul-escuro sarapintada de prata, mas o esp�rito inquieto de Fiora impossibilitava-a de encontrar o menor repouso. A jovem permaneceu horas estendida, de ouvido � espreita, espiando os menores ru�dos do campo e do convento, contando as horas � medida que lhe chegava o eco long�nquo dos of�cios nocturnos. O pensamento de que Philippe podia, talvez, estar ali, a alguns passos dela, num daqueles numerosos edif�cios silenciosos, fazia-lhe ferver o sangue e achar que a noite nunca mais terminava... Al�m disso, estava calor no seu quarto. A hospedaria estava perto da cozinha e da padaria, o calor das fogueiras destas, mesmo adormecidas, penetrava na espessura das paredes e Fiora lamentava ter aceitado passar a noite no convento. Teria sido mil vezes prefer�vel dormir ao ar livre, sob uma �rvore ou ao abrigo de um rochedo, em vez de naquela caixa sufocante, mas a jovem esperava que o Dom Abade os tivesse recebido naquela mesma noite...</p><p>Quando Mortimer apareceu para a acordar, ela acabava, de cair, finalmente, num sono pesado e ao ver as suas p�lpebras inchadas e as faces p�lidas devido � longa vig�lia, ele mostrou-se muito descontente.</p><p>N�o tenho a culpa se n�o consegui adormecer! ripostou ela com mau humor.</p><p>Eu n�o estou zangado convosco, estou zangado comigo pr�prio. Devia ter-vos deixado num albergue qualquer e vir dormir aqui sozinho. Vou mandar que vos tragam �gua fresca para vos lavardes. Depois, ide ter comigo � sala para restaurardes as vossas for�as. Tendes tempo! O reverend�ssimo abade receber-nos-� depois da missa.</p><p>Uma hora mais tarde, Fiora, bem lavada, penteada, sem nenhum cabelo a sair do capelo, seguia na companhia do escoc�s o irm�o converso encarregue de os conduzir � resid�ncia do abade, que dava para a pequena pra�a da igreja. Enquanto caminhava, a jovem olhava � sua volta, espiando cada silhueta, mas nenhuma se parecia com a que ela esperava.</p><p>Colocando um joelho em terra diante do dignit�rio supremo do convento, Fiora reencontrou a impress�o penosa sentida quando Mortimer decidira que ela conservaria o seu disfarce. O abade n�o era um homem imponente, mas, com o seu h�bito branco atado com uma corda, o seu cr�nio tonsurado onde os cabelos cinzentos s� formavam uma estreita coroa evocando a aur�ola e o rosto magro e tisnado que parecia ter sido talhado no tronco de uma oliveira, parecia-se com um daqueles santos cujas est�tuas r�gidas povoam as igrejas e as capelas. Sobretudo, sa�da da sombra das sobrancelhas, a chama dupla de um olhar azul que parecia trespassar at� � alma quase fez perder o porte � jovem.</p><p>Incapaz de articular uma palavra, Fiora aceitou o tamborete que lhe designaram e deixou que Mortimer explicasse o que os levava ali. Quando o escoc�s terminou, o abade deixou o sil�ncio invadir a pequena sala austera onde os recebia e o olhar azul voltou a pousar-se em Fiora, que n�o conseguiu evitar que as suas faces se enrubescessem. Uma ang�stia provocava-lhe um n� na garganta e as l�grimas subiram-lhe aos olhos, porque, como acabara de ser contada pelo escoc�s, aquela hist�ria de salvamento e de um homem privado de mem�ria parecia-lhe, agora, absurda.</p><p>Trata-se, sem d�vida, de uma... lenda disse ela com uma voz rouca que ia bem com a sua personagem uma hist�ria que as pessoas de bem gostam de... espalhar?</p><p>Acreditas assim t�o pouco na palavra de monsenhor della Rovere, meu filho? Ele s� disse a verdade...</p><p>A verdade?</p><p>Sim. No ano passado, durante as vig�lias de Natal, os nossos irm�os pescadores, de facto, trouxeram para aqui um homem que encontraram num barco encalhado nos cani�os. Esse homem, devorado pela febre, parecia chegado ao �ltimo grau da resist�ncia humana... N�s conseguimos fazer com que regressasse � vida com muito esfor�o, mas quando ele recuperou a consci�ncia, constat�mos que o seu esp�rito n�o conservava nada do passado... As prova��es sofridas tinham, talvez, ultrapassado o limite das suas for�as...</p><p>Perdoai-me, Rever�ncia disse Mortimer com respeito ele n�o fala?</p><p>Sim, mas muito pouco. Apenas algumas palavras e, quando o interrog�mos, ele n�o nos respondeu nada...</p><p>N�s... n�s podemos v�-lo? pediu timidamente Fiora, incapaz de resistir por mais tempo. O olhar azul regressou ao seu rosto e ela pensou ver nele uma esp�cie de compaix�o.</p><p>N�o. � imposs�vel.</p><p>Ele est�... morto?</p><p>N�o. Partiu.</p><p>Partiu? Quando? Como?</p><p>A m�o de Mortimer pousou-se no seu bra�o e apertou-o, para incitar a jovem a ter mais prud�ncia, mas a voz do abade, profunda e suave, n�o mostrou qualquer impaci�ncia perante aquela falta de conveni�ncia.</p><p>No �ltimo m�s de Maio, por ocasi�o da festa das Roga��es, as grandes ladainhas p�blicas tradicionais atra�ram a esta cidade mais gente do que o costume. No come�o da Primavera, o rio tinha inundado uma parte de Villeneuve e as terras em redor e tratava-se de pedir a Deus, mais instantaneamente do que nunca, que protegesse as colheitas que se aproximavam. Ao mesmo tempo, numerosos peregrinos a caminho da Galiza transpuseram a nossa porta de Saint-B�n�zet e a hospedaria</p><p>1 Roga��es vem do latim rogare (pedir). Essa festa desenrolava-se durante os tr�s dias que precediam a Ascens�o.</p><empty-line/><p>desta casa, tal como a dos nossos irm�os beneditinos de Saint-Andr�, na cidadela, viram-se superlotadas. Aquilo foi como que uma vaga e quando ela se retirou, aquele que, � falta de um nome, n�s cham�vamos de irm�o Inocente, tinha desaparecido com ela... N�o sabemos o que lhe aconteceu.</p><p>Partiu!</p><p>A dor no rosto de Fiora era tal que o abade, inclinando-se para ela, tocou-lhe na m�o com a ponta dos dedos.</p><empty-line/><p>N�o deixeis que o desgosto vos invada! No fim de contas, nada nos diz que esse infeliz � aquele que procurais!</p><p>Vossa Rever�ncia consente em no-lo descrever? perguntou Mortimer para acudir � sua amiga.</p><p>N�s ligamos pouco ao aspecto f�sico dos homens, meu filho. Que posso eu dizer-vos? Ele era grande, de cabelos castanhos e teria, talvez, trinta e cinco anos. N�s pens�mos que ele devia ter sido soldado, porque o seu corpo tinha v�rias cicatrizes, pelo que me disseram. Mas eu posso mandar buscar o irm�o enfermeiro. Talvez ele vos diga mais qualquer coisa!</p><p>Tal como os outros irm�os conversos, o enfermeiro n�o era obrigado � regra do sil�ncio que era a dos Capuchos e o homem teria sido capaz, � sua conta, de falar pelo convento inteiro. Al�m disso, parecia ter votado uma esp�cie de amizade pelo desconhecido. Se o temor respeitoso que o abade lhe inspirava n�o o tivesse impedido, ter-se-ia lan�ado, acerca do �irm�o Inocente�, em considera��es sem fim, �s quais o seu sotaque cantante conferia um sabor inesperado, mas que arruinava um pouco a personagem. Para ele, o desconhecido era um bom rapaz ao qual ele reprovava, sobretudo, o mutismo, mas foi incapaz de dizer de que cor eram os seus olhos.</p><p>Ele tinha-os sempre meio fechados explicou ele. Creio que o Sol lhos deve ter queimado quando ele estava no barco, porque estavam todos vermelhos quando ele chegou aqui. Que posso eu dizer-vos mais? Ele n�o falava como toda a gente e, durante o per�odo de grande febre, eu n�o compreendia nada do que ele murmurava...</p><p>Sua Rever�ncia acaba de nos dizer que ele tinha vest�gios de ferimentos? disse o escoc�s.</p><p>Cicatrizes? Tinha, pois! Por todo o corpo! Eu nunca tinha visto tantas! Ao ponto de n�o poder dizer onde!</p><p>A esperan�a, por um instante regressada, diminuiu de novo no cora��o de Fiora. Sim, Philippe fora ferido v�rias vezes em diversos combates, mas n�o ao ponto de estar coberto de marcas como pretendia aquele bravo mongezinho que, na verdade, parecia ainda mais inocente do que o seu protegido. Encorajado pelo sil�ncio do abade, lan�ou-se em novas descri��es que acabaram por acabrunhar a jovem: o homem era muito piedoso, mais t�mido ainda e muito entendido nos trabalhos do campo. Era tamb�m...</p><p>Chega, meu irm�o! cortou o superior. Creio que os vossos prop�sitos n�o interessam muito aos nossos h�spedes. Uma tal atitude n�o corresponde muito ao que procurais, pois n�o?</p><p>� verdade admitiu Fiora, atravessada, ent�o, por uma ideia digna de uma filha de Floren�a, onde se encontrava, ao menor acontecimento, um pintor ou um escultor desenhando com tra�o r�pido. Mas, n�o haver� aqui nenhum monge capaz de fazer um desenho de mem�ria, bem entendido, um retrato?</p><p>Os nossos irm�os conversos s�o incapazes disso. S�, talvez, o nosso irm�o iluminista, mas ele nunca viu o nosso h�spede, que n�o podia transpor a clausura.</p><p>S� restava a Fiora e a Mortimer agradecerem aos religiosos e despedirem-se. A jovem retinha, a custo, as l�grimas, tal era a esperan�a que depositava no incidente do homem do barco. Como se o rio terr�vel que era o R�dano tivesse podido transportar um barco t�o fr�gil durante uma dist�ncia t�o grande sem o virar!</p><p>Iam os dois transpor a porta quando o pequeno irm�o enfermeiro, que parecia muito infeliz, ergueu um dedo t�mido para pedir permiss�o para acrescentar mais qualquer coisa:</p><p>O que �? disse o abade um pouco irritado. Parece-me que j� falastes o suficiente, meu irm�o...</p><p>O interpelado ficou muito vermelho e, baixando a cabe�a, dirigiu-se para a porta.</p><p>Dizei! disse Mortimer, condo�do. Tendes permiss�o!</p><p>163</p><p>Oh! Espantar-me-ia muito se vos interessasse, mas... aquele homem devia amar as flores. No entanto, nunca o confessou.</p><p>Porqu�? N�o � vergonha nenhuma amar as flores!</p><p>Era, tamb�m, o que eu pensava, mas quando ele ficou curado... enfim, quase... disse-me que as flores n�o lhe lembravam nada. Por�m, no auge da febre, ele repetia sempre a mesma palavra, parecida com �flor�, mal pronunciada, claro, e com o sotaque dele. Soava qualquer coisa como �fior...fioure...�.</p><p>Mortimer agarrou no enfermeiro pelos ombros:</p><p>Fiora?</p><p>Seguiu-se um curto sil�ncio e cada um dos participantes da cena reteve, por instinto, a respira��o. E, subitamente, o pequeno monge sorriu:</p><p>Sim... sim, creio que era isso! Agora que a dissestes, creio que a palavra era �fiora�. Isso quer dizer o qu�? � um nome de flor, n�o �?</p><p>Sobretudo, � o nome da mulher dele. Obrigado, meu irm�o! Prestastes-nos um grande servi�o e n�s estamos-vos muito reconhecidos.</p><p>Fiora estava incapaz de articular a menor palavra. Vencida pela fadiga e pela emo��o, solu�ava perdidamente com a cabe�a entre as m�os, tendo esquecido tudo o que a rodeava. S� quando sentiu uma m�o no ombro � que ergueu o rosto desfigurado pelas l�grimas e reencontrou o olhar azul que tanto a impressionara. Dessa vez, aquele olhar azul estava cheio de compaix�o:</p><p>Deus tomou conta dele. E continuar� a velar por ele, tenho a certeza. N�o choreis mais, minha filha!</p><p>Sab�eis?</p><p>Digamos que adivinhei no momento em que dobrastes o joelho diante de mim. Acrescento que vos perdoo essa... mascarada. Ela foi-vos ditada pelo vosso grande desejo de saber rapidamente um pouco mais sobre o nosso evadido. Mas, evidentemente, deveis abandonar esta casa imediatamente, antes que outro, que n�o eu, descubra o vosso embuste. Espero que encontreis depressa o conde de Selongey.</p><p>Obrigada! Oh, obrigada!</p><p>Deixando-se cair por terra, a jovem pegou na m�o do monge para a beijar, mas s� p�de aflor�-la, porque ele retirou-a suavemente.</p><p>E agora ide e que Deus vos tenha na Sua santa guarda! Pedir-Lhe-ei que aben�oe a vossa busca, assim como vos aben�oo...</p><p>O gesto fez curvar tamb�m Mortimer, que se encontrava ao lado de Fiora. O abade bateu palmas para chamar o irm�o converso para que reconduzisse os visitantes � hospedaria. Antes de sair, Fiora perguntou:</p><p>Gostaria de contribuir com uma esmola para esta casa, em agradecimento pelos cuidados recebidos. Vossa Rever�ncia aceitaria...</p><p>Obrigado pela vossa inten��o, mas a mim, n�o. Dai a esmola ao nosso hospital, para que possa suavizar os sofrimentos dos pobres doentes.</p><p>Um momento mais tarde, Mortimer e Fiora abandonavam o convento e viam-se de novo na grande rua que atravessava a cidade de um lado ao outro.</p><p>E agora, que fazemos? perguntou o escoc�s. N�o quereis partir imediatamente, imagino?</p><p>N�o. Preciso de um pouco de repouso... e creio que precisamos de falar, de tentar imaginar para onde foi Philippe depois de deixar esta cidade...</p><p>Para o repouso do corpo e a clareza das ideias, n�o h� nada melhor do que um bom albergue! Segui-me!</p></section><section><title><p>CAP�TULO VII</p><p>UMA SITUA��O DIF�CIL</p></title><p>Villeneuve-Saint-Andr� n�o era uma cidade como as outras e Fiora p�de aperceber-se disso ao percorrer, ao lado de Mortimer, a longa rua que s� entrevira na v�spera, j� que o convento se encontrava junto das muralhas. Magn�ficos pal�cios, rodeados de jardins, ladeavam-na, alguns em perfeito estado e outros amea�ando ru�na.</p><p>S�o as livr�es dos antigos cardeais da corte pontif�cia que ocupou Avinh�o at� ao come�o deste s�culo explicou Mortimer. As casas de campo deles, por assim dizer.</p><p>Livr�es. Que nome esquisito! Em Floren�a chamamos-lhes villas...</p><p>O nome deve-se disse o escoc�s que, decididamente, sabia muitas coisas a que cada um dos seus propriet�rios foi obrigado a livrer a sua casa aos pr�ncipes do Sacro Col�gio. Por dinheiro sonante, claro, mas o nome ficou...</p><p>Algumas daquelas moradias tinham a severidade dos pal�cios romanos com qualquer coisa mais. Bastava uma janela com pequenas colunas, uma grande �am�ndoa� de pedra decorada com vitrais coloridos, uma roseira obstinada em suavizar as chagas de uma fachada leprosa, uma moita de mirto, uma vinha exuberante ou uma ac�cia perfumada, para que tudo fosse de uma amabilidade sorridente. As laranjeiras e os limoeiros transbordavam dos jardins tratados ou n�o e as grandes pedras de armas que dominavam cada portal conservavam vest�gios das </p><p>NT: Postas � disposi��o.</p><empty-line/><p>cores ou do ouro que as iluminavam em tempos. Por fim, cobrindo tudo o que n�o era telhado em forma de terra�o engrinaldado de jasmim ou de hera pequena, as telhas cor-de-rosa romanas, arredondadas e quase carnais, viravam para o c�u azul-brilhante as suas formas curvil�neas.</p><p>Era dia de mercado. Na pequena pra�a sombreada de pl�tanos cujas largas folhas, de um verde cambiante, emprestavam a sua frescura, algumas camponesas, de coifas leves na cabe�a, sentavam-se, direitas e orgulhosas como est�tuas gregas, no meio de cestos rasos onde pipilavam aves de capoeira e cabazes onde, juntamente com grossas azeitonas suculentas, se viam todas as riquezas do campo e do jardim. Agrupados sob-as �rvores, pequenos burros desaparelhados aguardavam placidamente que fossem horas de regressar a casa. Vozes alegres trocavam brincadeiras e, algures, esvoa�ava uma can��o apoiada por um sopro de flauta...</p><p>Presa de uma s�bita fome canina, Fiora comprou um queijo de cabra que lhe ofereciam sobre uma bela folha de videira e um grande cacho de uvas douradas, que partilhou generosamente com Mortimer.</p><p>Tendes medo que n�o vos alimentem no albergue? perguntou ele, rindo. Se a cozinha continuar como era aquando da minha �ltima visita, n�o tereis raz�o de queixa...</p><p>N�o sei porqu�, mas morro de fome. J� agora, o que � que um escoc�s vinha aqui fazer?</p><p>Oh, nada de extraordin�rio disse Mortimer voluntariamente evasivo. Uma pequena miss�o de que o Rei me encarregou. Fiquei aqui um m�s, mas n�o foi a coisa mais desagrad�vel da minha vida.</p><p>Fiora n�o procurou saber mais. Bruscamente, devido � magia daquela terra proven�al que em muitas coisas lhe fazia lembrar a sua regi�o florentina, a esgotante corrida em busca de uma sombra acabava de ganhar as cores delicadas de umas f�rias, de uma viagem de descoberta, em que o tempo se esquece para grande prazer dos olhos e do olfacto. As horas cru�is tinham-se apagado perante uma certeza: Philippe estava vivo. Fiora, a partir da�, podia conceder a si pr�pria o direito de respirar um pouco...</p><p>Ao abrigo da colegiada de Nossa Senhora, cuja torre quadrada e coruch�us pareciam proteger a pequena cidade como uma galinha os seus pintos, o albergue Grand Prieur abria para a pra�a do cap�tulo as suas salas frescas que cheiravam a verbena e ervas arom�ticas. Atr�s, um jardim abundante de loendros, laranjeiras, mirto, ciprestes, pinheiros, roseiras, jasmim e muitas outras plantas juntava-se ao do priorado pertencente aos abades de Saint-Andr�. Ali, estendiam-se, sobre a colina de Montaut, os vest�gios do antigo pal�cio do cardeal Pierre Bertrand, bispo de Autun e fundador, em Paris, do col�gio do mesmo nome. Aquele conjunto formava um daqueles lugares privilegiados onde a beleza da natureza real�ava o encanto do trabalho dos homens e onde todas as coisas se juntavam para o contentamento dos olhos e a paz de esp�rito.</p><p>No tempo em que, no seu pal�cio, o cardeal Bertrand se comprazia em receber os grandes deste mundo, a hospedaria acolhia os senhores dos seus s�quitos e socorria as cozinhas por vezes defeituosas dos pr�ncipes da Igreja seus vizinhos. Por outro lado, as gentes de Avinh�o transpunham de boa vontade a ponte de Saint-B�n�zet para desfrutar de uns momentos de frescura sob as sombras do jardim e, sobretudo, para saborear as maravilhas de uma cozinha c�lebre num raio de vinte l�guas.</p><p>A partida da corte papal poderia ter dado um golpe fatal no Grand Prieur, mas isso n�o aconteceu. Chegara o tempo dos n�ncios e Avinh�o herdou da era dos pont�fices uma popula��o cosmopolita, que dela fez um grande local de neg�cios onde bancos e casas de com�rcio possu�am escrit�rios, quando Marselha ainda n�o tinha nada disso. De facto, sendo Avinh�o a principal liga��o entre o mar e os grandes mercados de Lyon e Genebra, Villeneuve, apesar de pertencer ao Rei de Fran�a, continuou a beneficiar de uma situa��o excepcional e o Grand Prieur n�o perdeu nada da sua fama. Bem pelo contr�rio, porque os seus propriet�rios, mestre Jacques e a sua mulher Fran�oise, possu�am, ao mais alto grau, a dif�cil arte de acolher cada h�spede, viesse ele de onde viesse e da maneira que mais lhe convinha. O sorriso da dama Fran�oise teria desarmado uma</p><p>Dom Abade, </p><empty-line/><p>vi�va e feito rir de contentamento um anacoreta antes de deixar ao seu marido o cuidado de o fazer mergulhar, at� � condena��o final, no saboroso pecado da gula.</p><p>Tendo recuperado uma parte do que fora a sumptuosa livr�e do cardeal Arnaud de Via, sobrinho do Papa Jo�o XXII e construtor da colegial vizinha onde repousava, a casa n�o era muito grande, mas possu�a todo o refinamento do pal�cio ao lado, pelo menos a austeridade, al�m de uma certa arte de viver que cheirava bem ao sol da Proven�a. Ao entrar nela, Fiora teve a impress�o de que uma m�o invis�vel lhe tirava dos ombros o peso da fadiga e da ang�stia que os oprimia h� semanas e enquanto Mortimer, de olhar incendiado pela recorda��o das del�cias passadas, parava na cozinha, ela deixou-se conduzir at� um quarto cujas lajes eram de argila cor-de-rosa, cujas paredes brancas valorizavam os m�veis bem encerados e onde um grande ramo de flores multicor estava disposto diante de uma pequena est�tua da Virgem. A can��o alegre de uma fonte entrava pela janela aberta para o jardim...</p><p>Demorando apenas o tempo para tirar as botas e a t�nica de veludo, Fiora estendeu-se no leito de delicados len��is azuis, que cheiravam a resina de pinheiro e alfazema. A jovem adormeceu como uma pedra.</p><p>Fiora dormiu uma boa parte do dia e a tarde j� ca�a, azul e malva, quando se juntou a Mortimer na grande sala abobadada onde se elaboravam os mist�rios da cozinha. Sentado perto da vasta chamin� branca onde estava a assar um quarto de carneiro, este bebia vinho branco, ao mesmo tempo que devorava um grande bocado de p�o recheado de cebolas, de azeitonas pretas, de pimenta e de anchovas que, visivelmente, deixava escorrer azeite. No outro extremo da mesa de carvalho, longa e estreita, mestre Jacques batia ovos sob uma esp�cie de coroa grosseira feita de um peda�o de tonel no qual estavam pendurados cachos de uvas do ano anterior, salsichas igualmente quase t�o secas e grandes cebolas arroxeadas.</p><p>Ent�o perguntou ela sentando-se junto dele soubestes alguma coisa?</p><p>Nada! Penso que messire Philippe deve ter partido com os peregrinos e, nesse caso, como distingui-lo dos outros? Enquanto dorm�eis, passeei pela cidade, fui conversar com os soldados do torre�o e fiz algumas perguntas. Todos sabiam, evidentemente, da hist�ria do homem recolhido pelos monges, mas, felizmente, nenhum imaginou que ele pudesse ter vindo de Lyon. De qualquer maneira, ningu�m o viu e, portanto, n�o o podiam reconhecer quando ele partiu. Tomai, provai isto!</p><p>N�o, obrigada. � repugnante!</p><p>Por causa do azeite? Mas, � delicioso!</p><p>O escoc�s cortou um bocado e estendeu-lho. Ao ver aquilo, mestre Jacques largou os seus ovos, pegou num grande guardanapo branco e colocou-o, com um sorriso encorajador, em redor do pesco�o da jovem.</p><p>Assim � melhor! disse ele.</p><p>Era, com efeito, um festim e Fiora, descobrindo, uma vez mais, que estava esfomeada, voltou a pedir daquele �pain bagna?. A jovem ouviu responder que a hora do jantar n�o estava muito afastada e que era preciso guardar um pouco de fome. Para se vingar, bebeu um bom ter�o do pichel de Mortimer sem, no entanto, perder de vista o pensamento que a ocupava.</p><p>E agora, que vamos fazer? Tendes alguma ideia?</p><p>Acho que devemos ficar aqui tr�s ou quatro dias para bater um pouco os arredores. A menos que tenha tido a ideia de ir at� Compostela, o nosso amigo deve ter-se separado dos peregrinos. Talvez algu�m o tenha visto, o que nos daria, pelo menos, uma direc��o a seguir.</p><p>Fiora tinha de confessar a si pr�pria que n�o conhecia Philippe o suficiente para adivinhar as suas reac��es e o seu estado de esp�rito no momento em que fugira do convento. Que tivesse falado dela durante o seu del�rio era reconfortante, mas teria suficientes saudades dela para renegar as suas convic��es, a sua intransigente fidelidade � causa de Borgonha e para ir, enfim, para aquela Touraine onde ela exigira que ele a fosse buscar?</p><p>NT Regi�o e antiga prov�ncia de Fran�a cuja capital era Tours.</p><empty-line/><p>Vendo o rosto da sua companheira entristecer-se, Mortimer pousou-lhe num bra�o uma m�o amiga:</p><p>Tentai n�o vos atormentar! Concedei a v�s pr�pria um pouco de repouso! O principal est� adquirido, j� que sabemos que ele est� vivo!</p><p>Tendes a certeza? Que pode ele fazer sozinho, sem armas e sem dinheiro? Se quiser sair de Fran�a, n�o tem nenhum meio de pagar uma passagem de barco e imagin�-lo errante, s� e miser�vel ao longo dos caminhos, � um pensamento cruel...</p><p>Ele n�o � nenhuma mulher fr�gil. O que consegui saber parece-me tranquilizador: um homem daquela t�mpera n�o se deixa morrer de mis�ria a um canto da floresta. Estou certo de que o reencontrareis um dia. Vamos fazer o que vos disse e, no regresso, poderemos pedir a ajuda do Rei. Ele � suficientemente poderoso para o encontrar n�o importa onde.</p><p>Na condi��o de ele se deixar apanhar. Diante de um soldado qualquer ou outro servidor do Rei, ele fugir�, ou bater-se-�. Como poder� ele pensar que Lu�s XI n�o lhe quer mal?</p><p>Veremos isso em devido tempo! Por agora, pensai um pouco em v�s!</p><p>O ser�o foi maravilhoso. Extraordinariamente, havia poucos viajantes naquela noite e mestre Jacques apareceu para conversar um pouco com eles, enquanto a dama Fran�oise tentava convencer uma dama espanhola que pretendia requisitar a totalidade da hospedaria para seu �nico servi�o, n�o se mostrava contente com nada e discutia todos os pre�os com uma grosseria de velho usur�rio. Os seus guinchos deviam ouvir-se at� na ponte de Avinh�o.</p><p>N�o dev�eis ajudar a vossa mulher? perguntou Mortimer, rindo. Uma mulher t�o am�vel quase a chegar a vias de facto com uma malvada daquelas!</p><p>Ela desembara�a-se muito melhor sem mim. Se eu me metesse, atirava aquela megera porta fora. Fran�oise tem o estofo de um velho diplomata e, neste momento, os tempos est�o um pouco dif�ceis...</p><p>De facto, a guerra entre o Papa e Floren�a repercutia-se lastima velmente na vida de Avinh�o. A maior parte dos bancos e casas dos grandes comerciantes de panos era constitu�da por sucursais florentinas. Apenas a dos Pazzi fora convidada a ficar: as outras tinham deixado a cidade para evitar preju�zos maiores, j� que o cardeal della Rovere tinha fama de ter uma m�o pesada. Os representantes dos M�dicis, esses, tinham sido expulsos sem mais nem menos com a proibi��o de voltar a p�r os p�s na cidade papal. Naturalmente, os seus bens tinham sido confiscados e tinham conseguido atravessar a ponte a tempo de escapar �s flechas dos arqueiros.</p><p>Felizmente disse Jacques encontraram asilo aqui. O governo aloja-os numa das livr�es abandonadas, esperando ali o fim dos combates.</p><p>Como � poss�vel disse Fiora erguendo a cabe�a para o c�u que esta guerra est�pida e criminosa se fa�a sentir at� nesta regi�o t�o doce? Floren�a � longe, Roma mais ainda e no entanto...</p><p>A noite meridional, com efeito, envolvia o jardim, onde os pinheiros e os ciprestes tentavam, em v�o, entristecer o c�u. O ar nocturno era de uma pureza de cristal e at� o pio sereno de uma coruja tinha um tom amig�vel. Tendo a dama espanhola consentido em calar-se, mestre Jacques desejou boas-noites aos seus clientes e juntou-se, a correr, � sua mulher. Fiora e o escoc�s regressaram em passo lento � hospedaria e, muito naturalmente, para a guiar no caminho obscuro, Mortimer tomou o bra�o da jovem. Ousava, pela primeira vez, esse gesto e ela n�o o impediu. Era bom sentir junto de si aquela for�a tranquila que ela sabia poder transformar-se, contra um inimigo, numa esp�cie de furor sagrado.</p><p>Estais bem? perguntou ele com a voz mudada.</p><p>Muito bem. A noite est� t�o bonita! Vai ser delicioso ficar aqui uns dias...</p><p>Podereis, assim, visitar os vossos compatriotas, porque eles est�o na cidade.</p><p>N�o tenho nenhuma vontade de os encontrar. Eu ignorava, at�, tudo acerca das sucursais de Avinh�o. Al�m disso, quero esquecer Floren�a para me virar para Fran�a. � aqui que est� o meu filho, � aqui que est� o meu marido, pelo menos assim espero, portanto � aqui que est� a minha vida...</p><p>Ela s� deseja proteger-vos murmurou Mortimer.</p><p>Segurando na m�o da sua companheira, ele pousou nela, por um curto instante, os l�bios, antes de correr a fechar-se no seu quarto. Aquela retirada pareceu-se de tal modo com uma fuga que Fiora desatou a rir silenciosamente. O rude sargento la Bourrasque ter-se-ia tornado sentimental? Os respons�veis eram, sem d�vida, o encanto daquela casa, a beleza daquela noite... e, talvez, aquele vinho branco de Ch�teauneuf que mestre Jacques lhes dera a beber.</p><p>Tendo dormido durante uma parte do dia, Fiora n�o tinha sono e ficou uns momentos encostada � balaustrada da galeria que corria ao longo dos quartos, gozando durante mais algum tempo a feiti�aria daquela noite que transformava os cabos de guerra em apaixonados e que fazia subir at� ela os perfumes daquela terra t�o doce.</p><p>Mortimer, por sua vez, adormecera numa euforia total. Sentia-se feliz por ter regressado �quela cidade e, decidido a prosseguir algumas buscas, antecipava alegremente as horas que estavam para vir. Aqueles dias no Grand Prieur junto de donna Fiora seriam o mais belo presente que o c�u lhe poderia dar..</p><p>Assim, ficou dolorosamente surpreendido quando, na manh� seguinte, a dita Fiora, branca como a cal, foi aban�-lo para lhe dizer que se preparasse para partir. A jovem tinha de regressar a la Rabaudi�re sem perder um minuto e recusou dar mais explica��es. Que se teria passado? Foi-lhe imposs�vel saber e n�o ousou fazer qualquer pergunta quando, um momento mais tarde, ajudou a jovem a subir para a sela. O seu rosto fechado, os seus olhos duros e a boca cerrada desencorajavam a mais simples conversa��o. E o infeliz perguntou a si pr�prio se teria sido o seu gesto da v�spera, talvez um tudo nada afectuoso, a desencadear aquele humor negro.</p><p>Incapaz de suportar uma ideia que lhe retirava toda a presen�a de esp�rito, o escoc�s aproveitou a paragem da noite para se atirar de cabe�a:</p><p>Por amor de Deus, donna Fiora, dizei-me se sou o culpado do que se passa convosco! Eu n�o queria que lev�sseis a mal a minha... atitude de ontem...</p><p>Apesar da ang�stia evidente que sentia, Fiora conseguiu sorrir:</p><p>Sobretudo, n�o vos atormenteis, amigo Mortimer! V�s n�o tendes nada a ver com a minha decis�o de regressar o mais rapidamente poss�vel e pe�o-vos perd�o se vos fiz acreditar que me t�nheis ofendido. Tenho-vos muita amizade para deixar que subsista entre n�s a mais pequena d�vida e � em nome dessa amizade que vos pe�o que me leveis para minha casa o mais depressa poss�vel.</p><p>N�s temos andado depressa. Creio dif�cil fazer melhor, a menos que matemos os cavalos, ao que me recuso. Ali�s, n�o avan�ar�amos mais depressa, porque os que encontr�ssemos n�o seriam, sequer, t�o bons como estes.</p><p>O escoc�s n�o acrescentou que o Rei n�o lhe perdoaria que sacrificasse dois membros eminentes da sua preciosa cavalari�a, mas Fiora sabia-o. Entretanto, tiveram de renunciar � etapa prevista inicialmente em Valence, porque ao penetrarem na cidade encontraram-na embandeirada e o cl�rigo em regozijo: o cardeal della Rovere fazia a sua entrada pelo norte com toda a sua gente e preparava-se para invadir a localidade. Assim, a despeito de uma fadiga certa, os dois cavaleiros preferiam percorrer mais uma l�gua para evitar maus encontros: apesar dos seus protestos de inoc�ncia, Fiora n�o conseguia confiar totalmente no sobrinho de Sisto IV. A jovem preferia n�o o encontrar.</p><p>Felizmente para os viajantes, o tempo manteve-se sereno e n�o lhes op�s qualquer obst�culo. Assim, foi dez dias depois de terem deixado Villeneuve-Saint-Andr� que Fiora viu as torres de Plessis e as ard�sias azuis da sua casa acima da frondosidade amarelada das �rvores.</p><p>Eis-vos em casa, donna Fiora! suspirou Mortimer, desolado por ver terminar t�o depressa uma viagem que ele achara t�o agrad�vel.</p><p>Gra�as a v�s, meu amigo e nunca vos poderei agradecer o suficiente. S� espero que n�o venhais a ter aborrecimentos.</p><p>De facto, a bandeira das flores-de-lis flutuando no castelo real dizia que Lu�s XI regressara, tamb�m ele. Mortimer encolheu os ombros filosoficamente.</p><p>Certamente que n�o, porque o nosso Sire sabia por que raz�o eu estava longe. De qualquer maneira, esta viagem valeu bem qualquer aborrecimento...</p><p>Mal chegou � soleira da sua casa e abra�ou com efus�o os seus habitantes que acorreram ao seu encontro, Fiora, com o pretexto de se desembara�ar da poeira de que estava coberta, precipitou-se para o seu quarto e, abrindo uma grande arca pintada onde guardava diversas roupas, p�s-se a procurar febrilmente l� dentro.</p><p>Mas que procurais v�s com essa pressa, meu cordeiro? perguntou L�onarde que, naturalmente, a tinha seguido escoltada por Khatoun com o jovem Philippe nos bra�os.</p><p>A escarcela vermelha de marroquim que eu trazia quando regressei de Floren�a. Ah! C� est� ela!</p><p>Os seus dedos nervosos apalpavam o couro fino e tiraram do interior um raminho de oliveira seco e um pequeno frasco que destapou para sorver o conte�do antes de o virar com um grito de horror: estava vazio...</p><p>Subitamente privada de for�as, a jovem caiu sentada nos calcanhares, olhando com desespero para o pequeno objecto que deixara rolar nas lajes:</p><p>Que aconteceu? balbuciou ela. Por que � que o frasco n�o tem nada?</p><p>Mas, enfim, que havia l� dentro? perguntou L�onarde, espantada com a palidez da jovem e com os seus olhos marejados de �gua.</p><p>Um... rem�dio que Dem�trios me deu antes de eu partir, caso...</p><p>Um rem�dio? Era um rem�dio? disse a voz tr�mula de Khatoun. Oh, meu Deus! E eu que pensei que era veneno!</p><p>Desatando aos solu�os, a jovem t�rtara contou que, ao arrumar as roupas da sua patroa, encontrara o frasco que Fiora tinha, talvez, esquecido. Como o odor lhe parecera suspeito, dera a beber algumas gotas a um gato vadio que recolhera. O animal morrera pouco depois e, pensando que Fiora adquirira o l�quido num dia sombrio com a ideia de manter junto de si um meio r�pido de morrer, ela espalhara o conte�do nas latrinas da casa...</p><p>Eu n�o suportava a ideia de que quisesses morrer solu�ou ela, apertando convulsivamente contra ela a crian�a, que come�ou a chorar. O gato morreu... compreendes?</p><p>N�o tendo, sequer, for�a para se encolerizar, Fiora, prostrada, olhou para ela sem dizer nada. Ali�s, de que serviria zangar-se? A pobre Khatoun, t�o dedicada, s� agira por afei��o... Mas L�onarde, essa, reagiu. Tirando o pequenito dos bra�os de Khatoun, quase o atirou para os de P�ronnelle que acorrera ao barulho e, fechando a porta, segurou Fiora pelos bra�os para a ajudar a levantar-se e sentar-se no leito:</p><p>Eu gostaria muito de compreender! disse ela secamente. Que havia naquele maldito frasco para que vos tiv�sseis atirado a ele sem sequer tirar as botas?</p><p>Fiora ergueu para ela um olhar sem express�o:</p><p>Uma coisa que eu devia tomar sem demora, ou sentiria uns certos sintomas. Dem�trios insistiu no facto de que n�o deveria esperar...</p><p>Sintomas de qu�?</p><p>De gravidez. Estou gr�vida, L�onarde. Gr�vida de Louren�o! E Philippe pode chegar de um dia para o outro!</p><p>Tendes a certeza? murmurou L�onarde espantada, ao mesmo tempo que os solu�os de Khatoun, deitada no tapete, redobravam de intensidade</p><p>Infelizmente, n�o h� qualquer d�vida. Deve datar do nosso �ltimo... encontro, em Julho. H� mais ou menos dois meses.</p><p>A jovem contou que, durante a noite passada no Grand Prieur, se levantara para beber um pouco de �gua. Uma s�bita n�usea atirara-a para a cama com o cora��o aos pulos e um suor gelado na fronte. Pensando que fizera demasiadas honras � cozinha de mestre Jacques, n�o se inquietara e, passado o mal-estar, adormecera. Infelizmente, de madrugada a indisposi��o regressara, obrigando-a a relembrar as datas do seu ciclo com as quais, para dizer a verdade, pouco se preocupara nos �ltimos tempos. A verdade aparecera-lhe, ent�o, com uma clareza cegante. Por isso a pressa que, para grande surpresa de Douglas Mortimer, a atirara para a estrada a despeito das incessantes n�useas matinais ao longo do caminho. A sua �nica esperan�a residia no frasco oferecido por Dem�trios:</p><p>N�o sei se � preciso lamentar assim tanto o facto de Khatoun ter lan�ado fora o conte�do resmungou L�onarde. No fim de contas, o gato morreu.</p><p>N�o estais a dizer que Dem�trios queria envenenar-me? protestou Fiora. Ele tinha-me prevenido: eu ficaria terrivelmente doente durante dois dias, mas, depois, tudo reentraria na ordem...</p><p>Foi o que ele disse! Aquele velho feiticeiro pode ter-se enganado e eu acho que mais vale agradecer a Deus. Ali�s, nada nos diz que as coisas em quest�o n�o entrem na ordem por elas mesmas.</p><p>N�o vejo como!</p><p>A avaliar pelo pouco tempo que durou a vossa aus�ncia, acabastes de fazer quatrocentas l�guas a cavalo e a grande velocidade. Se ainda estiverdes gr�vida � porque essa crian�a est� solidamente instalada. Esperemos alguns dias!</p><p>Mas passou-se uma semana e o estado de Fiora n�o se alterou. A jovem sentia-se mal todas as manh�s e morria de fome durante o resto do dia, ao ponto de L�onarde ter de a vigiar. Se ela engordasse depressa de mais, o seu estado tornar-se-ia vis�vel antes do tempo fixado para o nascimento. Porque, bem entendido, estava fora de quest�o, para a velha solteirona, recorrer a outras manobras abortivas e ela n�o estava longe de ver o dedo de Deus no gesto de Khatoun ao entornar o frasco. Como a crian�a resistira � cavalgada fant�stica da sua m�e, resistiria a tudo. Se tentassem desaloj�-la, arriscar-se-iam a danific�-lo, talvez a transform�-lo num monstro... O que seria uma pena para uma crian�a portadora do sangue dos M�d�cis...</p><p>Tenho a certeza acrescentou L�onarde que o pai saber� cuidar dele chegada a hora e lhe assegurar� um futuro...</p><p>N�o � o futuro que me preocupa, � o presente. N�o poderei esconder o meu estado durante muito tempo, sobretudo �s pessoas daqui. E, voltando ao que me atormenta: que aconteceria se Philippe decidisse, por fim, regressar para junto de mim e me encontrasse cheia como uma jumenta gr�vida? Talvez n�o me matasse, mas fugiria de certeza, para sempre.</p><p>A quest�o merecia uma reflex�o profunda. Tinham, apenas, que se esconder durante alguns meses, porque, para o parto, L�onarde tinha a solu��o: os queridos Nardi, Agnelle e Agnolo, n�o se recusariam, certamente, a acolher Fiora em sua casa no momento cr�tico, talvez at� aceitassem, j� que n�o tinham filhos, ficar com o rec�m-nascido.</p><p>Vamos dizer-lhes, mas s� a eles, a verdade acerca do pai da crian�a, mas aqui e, sobretudo, caso messire Philippe apare�a, teremos de encontrar outra solu��o.</p><p>Mas qual?</p><p>Deixai-me pensar. Ter� que ser uma infelicidade, mais do que uma vergonha...</p><p>Khatoun pensou ter a solu��o.</p><p>Com tudo o que sofreste em It�lia disse ela a Fiora foi um milagre n�o teres sido violada cem vezes...</p><p>� isso! exclamou L�onarde, triunfante. Durante aquele tumulto em Floren�a, durante aquela loucura que se apoderou da cidade, tu foste sequestrada por um homem que te cobi�ava e te obrigou a sujeitares-te...</p><p>Fiora n�o estava de acordo:</p><p>Como se n�o soub�sseis a que velocidade voam as l�nguas! Eu estive ausente quase um ano e parti de novo h� mais de tr�s semanas. Assim que as pessoas souberem que estou gr�vida, dizem que o filho � de Douglas Mortimer... N�o vos esque�ais que foi na sua companhia que eu vim de It�lia e eu tenho-lhe muita amizade para o deixar suportar o peso dessa acusa��o. Philippe desafi�-lo-ia imediatamente para um combate... e a sua morte, ou a do meu marido, ficariam na minha consci�ncia.</p><p>Nesse caso, que propondes? perguntou L�onarde, desencorajada.</p><p>Partir antes do Inverno, ir para Paris com o pretexto de velar pelos meus interesses e tomar l� certas decis�es com Agnolo Nardi. Uma vez em Paris, posso ficar doente. Os Invernos, l�, s�o duros...</p><p>E se messire Philippe chega?</p><p>Bem... dir-lhe-�o onde estou e seja o que Deus quiser. Entretanto, gostaria que algu�m me fosse l� prevenir rapidamente. Florent, por exemplo, se aproveitou bem as li��es do seu professor escoc�s...</p><p>Oh, muito bem exclamou Khatoun, visivelmente fascinada ele monta como um verdadeiro cavaleiro. Mas as pessoas daqui n�o v�o achar estranha essa nova viagem? Para uma mulher que esteve tanto tempo fora...</p><p>Ainda achar�o mais estranho se me virem inchar a barriga. Fico aqui um m�s e depois vou para Paris. Tendes alguma coisa a acrescentar?</p><p>Nada disse L�onarde. Sen�o que tudo me parece bem combinado... salvo, talvez, uma pequenina coisa:</p><p>Qual?</p><p>Eu vou convosco. Est� fora de quest�o deixar-vos ir sozinha! Al�m disso, acho que precisareis, mais do que nunca, de uma pessoa respeit�vel junto de v�s. E eu? perguntou Khatoun com uma tristeza que irritou Fiora. Eu vou ficar aqui?</p><p>Pensava que o meu Philippe era suficiente para te encher os dias? N�o te queres ocupar dele? perguntou Fiora com uma certa rudeza. Eu n�o posso levar toda a gente para assistir ao que vai acontecer em Abril. E � normal que L�onarde me acompanhe.</p><p>Tal como no tempo em que era escrava, Khatoun ajoelhou-se e prostrou-se a seus p�s:</p><p>Perdoa-me! Cometi uma falta grave que te deixou embara�ada e n�o tenho o direito de reclamar a tua indulg�ncia. Mas tu sabes a que ponto te sou dedicada...</p><p>Eu sei disse Fiora mais docemente e levantando-a mas tens de compreender que me � imposs�vel levar meia d�zia de pessoas para casa dos Nardi. Oficialmente, parto em neg�cios e, nesse caso, n�o posso levar a casa toda comigo. Se n�o queres ficar com o meu filho, eu mando chamar Marcelline... mas n�o te posso levar.</p><p>Khatoun ergueu para ela os olhos rasos de �gua:</p><p>Tens raz�o, claro. Mas, gostava tanto de conhecer o beb� que vai nascer!</p><p>Pronto! disse L�onarde. A paix�o dela por beb�s arrisca-se a arranjar-nos ainda mais sarilhos! N�o podes, minha maluca, contentar-te com Philippe?</p><p>� que suspirou a jovem t�rtara ele j� � um rapazinho e n�o � f�cil vigi�-lo. Ao passo que um pequenino...</p><p>Fiora segurou Khatoun pelos ombros e obrigou-a a fix�-la nos olhos.</p><p>Mete isto na cabe�a! N�o pode haver outra crian�a, sen�o � in�til a minha partida! Tens de a esquecer, deixar de pensar nisso! Compreendes? Se tudo acontecer como eu espero, nunca a ver�s.</p><p>Nunca?</p><p>Nunca. Porque terei de escolher entre ela e o meu marido e eu nunca renunciarei a Philippe. Portanto, se �s incapaz de desempenhar o papel que te destino, diz-me imediatamente!</p><p>Que fazes?</p><p>Mando-te para junto de serDem�trios. Regressas para a villa de Fiesole e P�ronnelle fica com o meu filho. Ali�s, talvez fosse a melhor solu��o. Tu, agora, �s livre, livre de te casares e teres filhos teus. Queres regressar a Floren�a?</p><p>Qualquer coisa que se parecia com pavor passou pelos olhos negros da jovem t�rtara.</p><p>N�o! N�o! Eu n�o te quero deixar! Eu fico aqui, n�o tenhas medo. Mas, por piedade, n�o fiques fora muito tempo!</p><p>H�-de ser sempre uma crian�a! suspirou L�onarde um momento mais tarde. A vida estragou-a, n�o a preparou para a adversidade...</p><p>N�o exageremos! Ela passou por momentos dif�ceis.</p><p>Mas passageiros. A sorte acompanha-a desde que nasceu sem que ela se d� conta. Dezasseis anos no pal�cio Beltrami e depois, de l�, quase directamente para os bra�os de um marido que a amava. Depois da morte dele, foi vendida, � verdade, mas a quem? A uma grande dama que lhe restituiu, pouco a pouco, a exist�ncia a que estava habituada em nossa casa, ap�s o que vos encontrou e regressou para aqui connosco. Para aqui, onde P�ronnelle a estraga e mima como se fosse sua filha e onde ela leva uma vida familiar. Compreendestes? Como o nosso Philippe, com quem, segundo v�s, ela sonhava, lhe parece agora um pouco dif�cil, quer outro beb�. Beb�s pequeninos e gatinhos, eis o que lhe conv�m! Ela � capaz de perder a cabe�a com essa crian�a que est� para vir e deitar por terra toda a nossa combina��o.</p><p>Nesse caso, que propondes? N�o vou mat�-la?</p><p>� evidente que n�o, mas, se estiverdes de acordo, penso inspirar-lhe terror suficiente para que mantenha a l�ngua quieta e aconselho-vos a que digais o mesmo que eu.</p><p>Se ela disser uma palavra que seja, volta para Floren�a, foi o que lhe disse.</p><p>Mas n�o perdeis nada em lho repetir. � preciso que ela fique convencida de que, se falar, ser� expulsa. J� andam dois ou tr�s rapazes em volta dela e isso n�o lhe desagrada nada. Basta que um deles a seduza e s� Deus sabe o que ela lhe poder� dizer com a cabe�a na almofada! A rapariga tem mais temperamento do que imaginais.</p><p>Fiora n�o revelou o que sabia sobre aquele assunto. Recordou Khatoun em casa de Pippa, de joelhos no ch�o, contorcendo-se sob as car�cias da alcoviteira, Khatoun que, na noite seguinte, seguira o homem ao qual a haviam levado porque ele soubera fazer amor com ela. Tudo aquilo n�o era muito tranquilizador, mas que haviam de fazer?</p><p>Nada concluiu L�onarde sen�o dizer a �tienne e a Florent que a vigiem de perto. O que ela sabe tem demasiadas consequ�ncias para que o deixemos � merc� de uma noite de amor.</p><p>Fiora n�o respondeu. Ela gostava muito de Khatoun e tinha inteira confian�a nela, uma confian�a de que nunca se arrependera, antes pelo contr�rio. Mas L�onarde conhecia-a quase t�o bem e, al�m disso, possu�a uma sabedoria nascida da experi�ncia e sabia que tudo o que era humano tinha limites.</p><p>Por�m, L�onarde ignorava o que se passava, � noite, na Casa das Pervincas. Depois de ter deitado o pequeno Philippe, Khatoun recusou-se a jantar, alegando que sentia o cora��o sujo. Sem se deitar, a jovem verteu grossas l�grimas em cima do leito at� que, na casa, se deixou de ouvir o menor ru�do... Ent�o, a jovem levantou-se, tirou o vestido ficando apenas em camisa e, sem voltar a acender a vela, saiu do seu quarto. Tal como os gatos, era capaz de andar de noite, �s escuras.</p><p>Subindo as escadas descal�a, a jovem atingiu o segundo andar e o quarto na mansarda onde dormia Florent. Uma luz</p><p>1 Ver Fiora elouren�o, o Magn�fico.</p><empty-line/><p>amarela filtrava-se pela porta, mas, ao abri-la, Khatoun viu que o jovem adormecera a ler um livro que lhe ca�ra sobre o nariz. Ela aproximou-se suavemente, retirou o livro com infinitos cuidados, tirou a camisa e ficou ali um instante a contemplar o adormecido. Com ar feliz, ele sorria a sonhar, o que fez com que Khatoun tomasse consci�ncia da sua desola��o.</p><p>Desatando em novos solu�os, ela puxou os cobertores num gesto raivoso e atirou-se contra o corpo nu do rapaz, que abra�ou com os bra�os e as pernas, cobrindo-lhe o pesco�o e o queixo com beijos fren�ticos. Tendo acordado em sobressalto com aquele assalto, Florent olhou com estupor para a sua assaltante enquanto tentava, frouxamente, verdade seja dita, libertar-se:</p><p>Por que n�o me disseste que vinhas esta noite? N�o estava � espera...</p><p>Cala-te! Cala-te, pe�o-te, e faz amor comigo! Preciso muito! Acaricia-me! Possui-me!</p><p>Ao sentir a humidade das suas faces e l�bios, ele compreendeu que ela chorava-.</p><p>O que � que se passa! Por que essas l�grimas?</p><p>Ela vai... ela vai partir outra vez! Ela vai-me deixar outra vez...</p><p>Quem?</p><p>Quem havia de ser?... Fiora, a minha patroa amada. Ela quer-me deixar, quando prometeu que nunca mais nos separar�amos! � aquela maldita L�onarde que ela vai levar...</p><p>Para onde? Para onde vai ela, agora que o Inverno est� a chegar?</p><p>Para Paris, para casa de gente que eu n�o conhe�o... E por muito tempo.</p><p>Eu conhe�o-os, s�o os melhores amigos dela. Al�m disso, � Agnolo Nardi que lhe gere a fortuna. Mas, que vai ela l� fazer?</p><p>Um clar�o de temor brilhou no olhar desnorteado da jovem, impedindo-a � justa de uma �ltima confid�ncia que, ela sabia-o, pagaria cara.</p><p>N�o te posso dizer porque era capaz de morrer, mas faz amor comigo, suplico-te. � preciso que algu�m trate de mim e me d� alguma alegria, porque a minha bela Fiora j� n�o quer a sua escrava...</p><p>Onde foste buscar isso? indignou-se Florent. S� porque donna Fiora n�o te quer levar para Paris, achas que vais ficar separada dela para sempre? Tu vais ficar aqui a tomar conta do filho dela, e depois? Sentes-te infeliz?</p><p>E Florent tratou de provar a Khatoun que, pelo menos para ele, ela tinha muita import�ncia. Um instante mais tarde, ela ronronava por baixo dele como um gato feliz e as suas l�grimas secavam sob os beijos do rapaz. O pequeno quarto encheu-se de suspiros, aos quais as paredes j� estavam acostumadas.</p><p>De facto, tr�s dias ap�s a partida de Fiora e de Mortimer, Florent, que entretanto empilhava cuidadosamente fardos de palha para o Inverno, vira Khatoun ir ter com ele. Era um daqueles belos dias de Outono, t�pidos, em que o Sol suave provoca alguma humidade na pele e disp�e � pregui�a. Enquanto arrumava os fardos odor�feros, o rapaz talvez tivesse bebido um pouco de vinho a mais � refei��o pensava, justamente, que seria bom rolar em cima deles com uma rapariga de corpo fresco.</p><p>Khatoun tinha um vestido de tela azul por cima de uma gargantilha cujas fitas, um pouco largas, deixavam ver uns ombros suaves. A jovem levava uma bilha de �gua fresca acabada de tirar do po�o, cujas gotas cintilavam ao ca�rem uma a uma na terra batida. Sem uma palavra, ela deu de beber ao jovem e depois, pousando o recipiente com um meio sorriso como se fosse a coisa mais natural do mundo, pegou-lhe na m�o e, olhando-o no fundo dos olhos, levou aquela m�o-cheia de poeira a um dos seus pequenos seios redondos e duros, sobre o qual ela se fechou instintivamente.</p><p>Khatoun pode refrescar-te de outra maneira murmurou ela. � t�o bom fazer amor com este calor! E a palha cheira t�o bem!</p><p>Um instante mais tarde mergulhavam, os dois nus, no feno perfumado. A pele da pequena t�rtara era doce e sedosa como cetim cor de marfim e como, astuciosamente, ela roubara um pouco do perfume da sua patroa, o antigo aprendiz de banqueiro teve, ao fechar os olhos, a impress�o de possuir aquela Fiora t�o bela por quem estava t�o perdidamente, t�o desesperadamente, apaixonado... E pareceu-lhe delicioso.</p><p>Depois, quase todas as noites a menos que o pequeno Philippe n�o precisasse de Khatoun os dois jovens juntavam-se no quartito do rapaz para empreenderem jogos ardentes, dos quais tiravam um prazer cada vez mais arrebatado. Khatoun sabia que Florent n�o a amava verdadeiramente, assim como Florent sabia que n�o podia haver amor em casa da sua patroa, mas aquele amor, se bem que diferente, claro, que ambos sentiam por Fiora levava-os a unirem-se. Florent era jovem, bem constitu�do e naturalmente ardente. Quanto a Khatoun, o amor era para ela uma quest�o de instinto, como para muitas filhas da �sia. Ela sabia satisfazer um homem sem deixar de guardar para si a sua dose de prazer, porque recebera do seu marido, o m�dico romano, as melhores li��es. Quanto ao jovem parisiense, perdida a inoc�ncia em casa de uma prostituta das margens do Loire, descobriu, com a pequena t�rtara, um mundo de sensa��es inimagin�veis. Conseguindo com ela feitos de que se julgava incapaz, tinha por ela um reconhecimento ing�nuo. Gra�as a Khatoun, Florent achava-se um daqueles homens privilegiados pela natureza, dignos de se tornarem amantes de uma rainha.</p><p>Tu �s uma verdadeira diabinha dizia-lhe ele, por vezes mas o amor contigo � t�o doce...</p><p>O importante era, ap�s uma noite particularmente quente, escapar ao olhar m�ope mas singularmente perspicaz da dama L�onarde, ou ao sorriso entendido do pai �tienne. Florent safava-se indo chafurdar no Loire ao nascer do dia, mas sabia que teria de encontrar outra coisa quando chegasse o Inverno. Era verdade que, ent�o, as noites seriam mais longas e os trabalhos do jardim ou dos campos menos absorventes...</p><p>Mas, naquela noite, o jogo do amor terminou rapidamente e, enquanto Khatoun continuava a chorar com a cabe�a aninhada no ombro do rapaz, este, apesar de tudo ter feito para apaziguar o desespero da sua amiga, confessou a si pr�prio que n�o estava longe de o partilhar com ela. Por que raz�o partiam Fiora e L�onarde para casa dos Nardi, sobretudo se tinham de ficar l� durante v�rias semanas, talvez v�rios meses? Entretanto, no meio da sua inquieta��o, nascia uma esperan�a: aquele grande diabo escoc�s n�o podia passar o tempo todo a escoltar as damas, o que lhe dava a ele, Florent, a hip�tese de ser escolhido. </p><p>Sob o feroz comando de Archie Ayrlie, os seus progressos na equita��o tinham sido r�pidos e n�o havia raz�o nenhuma para o deixarem em casa.</p><p>O jovem abanou suavemente Khatoun, que adormecera, para a mandar para o seu quarto, um pouco envergonhado por constatar que a ideia de n�o a ver durante dias e dias n�o lhe provocava uma grande pena. E como ela recome�asse a chorar, ele lan�ou-lhe, descontente:</p><p>N�o vais passar o tempo todo a chorar at� ao Natal? � aborrecido, sem d�vida, que donna Fiora se v� embora, mas podes ter a certeza, de que se o faz � porque tem uma boa raz�o. Por isso, n�o lhe compliques a exist�ncia! Ela volta. Sim... Tens raz�o, claro... Enfim, veremos...</p><p>E, pegando na camisa, Khatoun vestiu-a com um gesto maquinal e dirigiu-se para a porta. Florent voltou a deitar-se e esfor�ou-se por adormecer, porque o dia aproximava-se. As palavras de Khatoun martelavam-lhe a cabe�a e ele esfor�ava-se por encontrar uma explica��o. O jovem n�o conseguiu e, pelo contr�rio, acabou por adormecer num sono t�o profundo que n�o ouviu cantar o galo e esqueceu-se das horas. S� quando �tienne o atirou da cama abaixo � que ele retomou o contacto com a realidade quotidiana.</p><p>Realidade essa que n�o tinha nada de sorridente. Fiora, com o rosto sombrio, n�o dizia palavra e parecia sofrer. A jovem estava p�lida e visivelmente fatigada. Al�m disso, chovia a c�ntaros, o que provocava uma luminosidade cinzenta pouco sedutora. Assim, quando depois do meio-dia apareceu um pajem para lhe dizer que o Rei desejava v�-la, ela acolheu o convite sem o menor prazer. Florent, pelo contr�rio, ficou muito contente, porque a jovem ordenou-lhe de imediato que se aprontasse para a acompanhar e que selasse as mulas enquanto ela mudava de vestido.</p><p>Fiora encontrou Lu�s XI no seu quarto, uma vasta divis�o cheia de tape�arias representando temas de ca�a onde uma dezena de c�es, �pagneuls louros e galgos brancos formavam, sobre os tapetes, um arquip�lago sedoso. Sentado numa cadeira de madeira esculpida perto da grande chamin� de pedra branca onde ardia um tronco de �rvore, o Rei de Fran�a parecia curiosamente encarquilhado. Friorento em excesso, estava vestido como em pleno Inverno com um traje castanho s�lido e quente orlado de pele de castor, que luzia como uma castanha, combinando com o chap�u que usava, como habitualmente, sobre um barrete de l� vermelha que lhe cobria as orelhas. Junto dele, o seu galgo favorito, Cher Ami, estendia o seu estreito focinho para os bocados de biscoito que as m�os finas, verdadeiramente reais, talvez a �nica beleza daquele estranho soberano, ofereciam � sua gulodice. � luz das chamas, os rubis encastoados na coleira do c�o brilhavam como brasas.</p><p>Junto do Rei estava um homem, inclinado para ele para poder ouvir qualquer das suas palavras e Fiora, ao v�-lo, estremeceu. S� vira uma vez aquele rosto de fuinha, aqueles cabelos ralos cortados curtos e aqueles olhos glaucos, mas reconheceu logo o seu propriet�rio como o homem que, sem que ela lhe tivesse feito qualquer mal, era seu inimigo jurado, aquele que mandara assassin�-la na floresta de Loches. Era Olivier le Daim, barbeiro e confidente do Rei, pelo menos tanto quanto o pode ser um homem que, todos os dias, passeia uma navalha de barba pela garganta de outro. Uma coisa parecia certa: tinha os favores do Rei e Fiora, por mais que quisesse, n�o o podia acusar abertamente.</p><p>Para n�o ver mais aquele olhar amargo como fel deslizando sobre ela sob as p�lpebras desca�das, ela saudou profundamente, esperando que o Rei a libertasse da sua rever�ncia. O que ele fez sem tardar:</p><p>Aproximai-vos, Madame de Selongey! Temos de falar, v�s e eu! Deixa-nos, Olivier!</p><p>O barbeiro sorriu de m� vontade, enquanto Fiora avan�ava para a chamin� e para a cadeira que lhe era indicada. A jovem juraria que o outro ficaria � escuta por tr�s da porta. No entanto, decidiu n�o pensar mais nele e sentou-se sem dizer nada, porque cabia ao Rei falar em primeiro lugar. Como ele n�o parecia apressado, ela examinou-o discretamente e achou-o com m� cara. O longo nariz pontiagudo parecia mais adelga�ado e o pesado rosto, de mand�bulas carn�voras, feito de pergaminho amarelecido, ao mesmo tempo que um tique nervoso lhe contra�a por instantes a boca de linhas desdenhosas.</p><p>Sabendo que ele sofria de m� circula��o e de dolorosas hemorr�idas, ela pensou que uma crise, talvez, explicaria a contrac��o do seu rosto. E teve a certeza quando, mexendo-se nas almofadas, ele n�o conseguiu evitar um breve gemido logo seguido de um movimento de c�lera e de uma pergunta:</p><p>Pelos C�us! Onde est� ele, esse animal?</p><p>Quem, Sire?</p><p>Aquele m�dico bizantino... Como se chamava ele? Ah sim: Lascaris! Dem�trios Lascaris! V�s �reis muito amigos, creio?</p><p>De facto, Sire.</p><p>Nesse caso, dev�eis saber onde est�! N�o compreendi porque n�o voltou para o p� de mim depois da queda de Nancy. A sua vingan�a estava completa com a morte do duque Carlos e o jovem Renato de Lorena n�o precisava dele. Ent�o? O meu servi�o n�o lhe convinha?</p><p>O Rei n�o pensa isso, certamente, porque Dem�trios gostava de o servir, mas uma... desaven�a instalou-se entre n�s e ele preferiu regressar a Floren�a. Onde se encontra ainda.</p><p>E eu, no meio disso tudo?</p><p>Ele pensava seriamente que o Rei n�o precisava mais dele. � um homem muito modesto...</p><p>Ele? tro�ou Lu�s XI. Ele � t�o orgulhoso como um pav�o. Em todo o caso, n�o devia agir dessa maneira. Eu � que sofro, n�o � ele. J� que sabeis onde ele est�, escrevei-lhe a dizer que venha! A carta ser� levada por um dos meus cavaleiros postais...</p><p>Sire, eu pedi-lhe que viesse comigo, mas ele envelheceu e receia as longas viagens. Talvez porque percorreu demasiado o mundo. Al�m disso, o Inverno est� a chegar. Na sua idade...</p><p>Pois! O Rei de Fran�a, esse, pode sofrer a morte e o mart�rio enquanto ele est� repimpado ao sol. Bem, escrevei-lhe a dizer que me mande a sua pomada milagrosa! Eu mando-o vir na Primavera. E agora falemos de v�s! Fostes cabriolar com o mulo do meu escoc�s?</p><p>O Rei pensa verdadeiramente que cabriolar � a palavra apropriada? N�s fizemos uma viagem longa e fatigante e...</p><p>Bom, bom! Retiro o cabriolar. Desculpai-me, donna Fiora! Estou de muito mau humor!</p><p>Como que falando para si mesmo, ele explicou ent�o que, como existia uma tr�gua entre o casal Maria de Borgonha Maximiliano de �ustria e ele pr�prio, o Rei Eduardo de Inglaterra, t�o perfeitamente ridicularizado, mas pago, em Picquigny, queria aplicar uma das cl�usulas do tratado: o casamento entre o delfim e a sua filha Isabel.</p><p>Aquele rato quer-nos mandar a filha para concluir o casamento e receber as sessenta mil libras que eu devo pagar por ano pela m�o dessa princesa... que eu n�o quero. Safa, uma inglesa no trono de Fran�a! Al�m disso, o meu filho, aos oito anos, � demasiado jovem para se casar. Tenho de arranjar um meio de manter Eduardo tranquilo.</p><p>E... o Rei encontrou esse meio?</p><p>O tempo! Nada mais do que o tempo! Al�m disso, tenho em Londres um embaixador, Marigny, que � um homem muito h�bil. Vai ser o diabo se entre os dois n�o conseguirmos deter Eduardo. Ainda por cima porque ele casou com uma rapariga da pequena nobreza e o seu trono, cobi�ado pelo seu irm�o Gloucester, n�o � t�o s�lido como se pensa... Mas, como acab�mos n�s a falar de pol�tica? Est�vamos, creio, a falar da vossa temeridade em Villeneuve-Saint-Andr�! Parece, portanto, que o conde de Selongey, depois de ter fugido do castelo de Pierre-Scize, encontrou asilo no convento do Val-de-B�n�diction?</p><p>Sim, Sire. Mortimer deve ter-vo-lo dito!</p><p>De facto. Ter� ele aproveitado uma peregrina��o para escapar aos monges? O que prova, quanto a mim, que ele n�o perdeu tanto a mem�ria como n�s pensamos.</p><p>Sire! protestou Fiora, escandalizada. O meu marido, desempenhar um papel desses?</p><p>Por que n�o? Em Villeneuve, que nos pertence, talvez n�o se sentisse em seguran�a.</p><p>O convento � um lugar de asilo!</p><p>Sem d�vida, mas v�s sois uma crian�a e n�o imaginais quantos lugares de asilo s�o pouco seguros desde que certos</p><p>1 O futuro Ricardo III.</p><empty-line/><p>interesses estejam em jogo. O vosso marido � um homem inteligente. Pelo contr�rio, fico surpreendido por a vossa estadia em Roma vos ter deixado com tanta inoc�ncia.</p><p>Fiora sentiu-se corar e procurou disfar�ar torcendo o pequeno len�o que tirara da manga. O Rei n�o fazia qualquer alus�o ao cardeal della Rovere e parecia ignorar tudo da aventura tr�gica para que ele a arrastara.</p><p>De novo o sil�ncio, perturbado apenas pelo crepitar do fogo, se estabeleceu entre ambos. Lu�s XI acariciou a cabe�a do seu c�o favorito e procurou uma guloseima para um dos �pagneuls que, ap�s se ter estirado longamente, se aproximou dele e se deitou a seus p�s... Os c�es s�o os melhores, os mais seguros, os mais fi�is amigos que um homem pode ter. Ainda mais um rei suspirou ele. E agora, tendes alguma ideia do s�tio para onde poder� ter ido messire de Selongey? Parece que n�o procurastes muito em redor de Villeneuve!</p><p>Achei que era in�til e esperava... ainda espero que ele se lembre, um dia, de que vivo na vizinhan�a do Rei. A menos que tenha preferido partir para longe.</p><p>Virando-se, Lu�s XI retirou de uma mesa um pouco � retaguarda uma mensagem desdobrada cujo selo quebrado mostrava que j� tinha sido lida...</p><p>Uma coisa � certa: ele n�o esteve em Veneza. O doge em pessoa escreveu-nos dizendo que nenhum viajante parecido com ele foi visto na cidade. Quanto aos que se alistaram para combater o Turco nas galeras da Seren�ssima, a lista � curta e nenhum desses homens pode ser o conde de Selongey.</p><p>Bem! suspirou Fiora. Agrade�o ao Rei o trabalho a que se quis dar...</p><p>Por Deus, minha querida, ponde de lado essas frases feitas! Estou t�o desejoso como v�s por p�r a m�o nesse ti��o de revolta, capaz de sublevar de novo a Borgonha que Charles d�Amboise est� em vias de pacificar...</p><p>O Sire de Craon j� n�o � governador de Dijon?</p><p>� um bom servidor, mas � um imbecil e eu preciso de servidores inteligentes. De qualquer maneira, vamos recome�ar as buscas para ver se encontramos o vosso marido...</p><p>Por favor, Sire... n�o fa�ais nada!</p><p>Os olhos vivos do Rei, sempre meio cobertos pelas pesadas p�lpebras, abriram-se por completo:</p><p>N�o quereis que o encontre?</p><p>N�o, Sire. Se os vossos homens o procurarem, ele foge-lhes... ou mata-os. Eu quero... eu espero que ele venha ter comigo por vontade pr�pria, sem que seja necess�rio lan�ar-lhe no rasto todos os marechais do reino.</p><p>Nesse caso, j� c� devia estar!</p><p>Isso n�o � certo. Veio-me � ideia que, depois de deixar Villeneuve, ele pode ter preferido continuar com os peregrinos que o ajudaram sem saber.</p><p>Pensais que ele pode t�-los seguido at� � Galiza?</p><p>Por que n�o? O burel do peregrino constitui a melhor protec��o que um fugitivo pode encontrar. Al�m disso, o caminho � longo. Isso permite que as coisas acalmem. Enfim, n�o tinha outra escolha porque, se bem compreendi, n�o tinha um centavo com ele.</p><p>O Rei j� n�o parecia escutar. Os seus olhos seguiam o desenho fant�stico das chamas e p�s-se a reflectir em voz alta:</p><p>Se ele deixou Villeneuve em Maio, j� devia estar de regresso. Salvo qualquer acidente, evidentemente...</p><p>Acidente? murmurou Fiora j� angustiada.</p><p>O caminho de Santiago � longo, penoso e perigoso. Nem todos os que o percorrem regressam vivos. Penso que podemos, como v�s desejais, fazer uma tr�gua nas nossas buscas. Continu�-las-emos se o Inverno n�o o tiver trazido at� n�s, entretanto. Mas rezai a Nosso Senhor e � Virgem Maria para que esse homem ou�a a voz da raz�o e venha buscar a paz junto de v�s.</p><p>Escondia-se na voz pesada do Rei uma amea�a e Fiora ficou suficientemente inquieta para ousar perguntar:</p><p>Sen�o? � a palavra que vem a seguir, n�o �, Sire?</p><p>Sim. Sen�o, posso deixar de me recordar de uma coisa: que ele � um rebelde e que passo a trat�-lo como tal. E agora deixai-me, minha cara! Estou cansado e queria dormir um pouco. N�o vos esquecereis da carta?</p><p>Para Dem�trios? Escrevo-a assim que chegar a casa e envio-vo-la de imediato!</p><p>Obrigado!... Quando for rezar esta noite a Nossa Senhora de Cl�iy, pe�o-lhe que vos conceda a paz que parece ter prazer em fugir-vos. N�o me atrevo a pronunciar a palavra �felicidade�, porque � demasiado fr�gil... e ningu�m sabe, na verdade, onde ela mora...</p><p>Uma hora mais tarde, j� em casa, Fiora escreveu a Dem�trios para lhe dar parte das necessidades do Rei. Terminada a carta, a jovem secou-a, selou-a e chamou Florent para que a levasse a Plessis. Feito aquilo, Fiora escreveu uma outra carta destinada a messer Agnolo Nard�, rue des Lombards, Paris. Era in�til perder mais tempo.</p></section><section><title><p>CAP�TULO VIII</p><p>PARAGEM EM BEAUGENCY</p></title><p>No fim do m�s de Outubro, Fiora e L�onarde deixaram la Rabaudi�re sob escolta de Florent, incapaz de esconder a alegria. N�o era normal, explicou ele durante a �ltima noite a uma Khatoun em plena crise de ci�mes, que tivesse o prazer de ir abra�ar os seus parentes? E o jovem apressou o instante da partida para cortar cerce as como��es e, sobretudo, para n�o ver mais a jovem t�rtara, de p� na soleira da casa, apertando ferozmente contra si o pequeno Philippe que, pouco satisfeito com o tratamento, protestava vigorosamente, ao ponto de P�ronnelle ter de se intrometer. Os olhos negros chamejavam de c�lera e desgosto ao mesmo tempo, enquanto, do alto da sua mula, Fiora dava as suas �ltimas instru��es com o tom alegre de algu�m que vai fazer uma viagem de recreio.</p><p>A vers�o oficial era que Agnolo Nardi desejava que ela fosse a Paris para tratar de neg�cios importantes. Sentindo-se envelhecer, o negociante queria informar a herdeira de Francesco Beltrami do que necessitaria de fazer caso ele desaparecesse. Mentira piedosa, evidentemente, j� que os interesses da jovem estavam, naquela �poca, nas m�os firmes de Louren�o de M�dicis. Na realidade, Agnolo escrevera a Fiora dizendo que ele pr�prio, a sua mulher Agnelle, a sua casa e o seu cora��o, s� desejavam uma coisa: receb�-la de novo e ficar com ela o mais tempo poss�vel. Ambos ignoravam a raz�o profunda da estadia que Fiora pretendia fazer em Paris.</p><p>P�ronnelle e �tienne, na simplicidade dos seus cora��es, n�o tinham visto nada de extraordin�rio naquela viagem. Para eles, Fiora, que eles amavam sinceramente, acabara por ganhar as cores de uma bela ave migrat�ria. S� uma coisa tinha import�ncia a seus olhos: a jovem confiava totalmente neles e, gra�as a ela, n�o tinham quaisquer preocupa��es de ordem material. Enfim, junto deles vivia uma crian�a, dando-lhes a doce ilus�o de serem av� e av�.</p><p>Para seu pesar, Fiora n�o pudera despedir-se de Douglas Mortimer. O escoc�s, cujos servi�os o Rei muito apreciava, estava em miss�o. Queria dizer que toda a gente, salvo Lu�s XI, ignorava onde ele se encontrava. A este �ltimo, a jovem, na manh� da partida, fez chegar uma carta anunciando uma aus�ncia de algumas semanas por raz�o de neg�cios. Ela sabia-o suficientemente desconfiado para se permitir deixar a sua vizinhan�a sem o prevenir. Tendo, assim, tranquilizado a sua retaguarda, Fiora tomou o caminho de Paris com o cora��o leve, que fez, juntamente com L�onarde, por Tours, Amboise, Beaugency e Orle�es.</p><p>Uma viagem agrad�vel feita sem pressa excessiva para poupar L�onarde. O tempo de Outono estava bom e se as noites ficavam frescas e por vezes chuvosas, o Sol parecia dar-se ao trabalho de reaparecer todas as manh�s e, de tarde, permitia que as janelas estivessem abertas e que houvesse longas conversas na rua.</p><p>Ao aproximarem-se da grande cidade, Fiora apercebeu-se de que sentia impress�es diferentes das sentidas tr�s anos e meio antes, quando ali chegara com L�onarde, Dem�trios e Esteban. Sob o golpe da morte tr�gica do seu pai e das cru�is prova��es que se lhe tinham seguido, ela s� desejava um ref�gio, um local onde ningu�m a conhecesse e onde pudesse recobrar as for�as para os combates que jurara travar. Desta vez, concedendo a si pr�pria o prazer de olhar � sua volta, viu que os arredores de Paris pareciam t�o apraz�veis como as margens do Loire: plan�cies e pequenos planaltos cobertos de campos cultivados, outeiros guarnecidos de vinhas ou sarapintados de �rvores frut�feras, vales verdes de pastagens, bosques, florestas, castelos mostrando muitas vezes pedras novas e depois, � medida que se iam aproximando, burgos importantes, aldeias apraz�veis e grandes abadias. At� as muralhas da cidade capital pareciam rejuvenescidas, porque Lu�s XI velava de perto pelas defesas das suas grandes cidades e encorajava os restauros.</p><p>Sobre Paris j� n�o pesava, como da primeira vez, a amea�a dos Ingleses. As ruas estavam cheias de vida ruidosa, rica e colorida, onde n�o ressoava o passo ferrado da tropa em marcha. � excep��o dos guardas da porta de Saint-Jacques e das sentinelas postadas nas duas torres, a Petit e a Grand, que dominavam a Petit-Pont e a Pont-au-Change, os viajantes n�o encontraram uma �nica cota-de-armas, um �nico capacete de ferro.</p><p>Que bela coisa, mesmo assim, � a paz! observou Florent, dardejando com um olhar assassino um bando de estudantes que assobiaram � passagem de Fiora e lhe enviaram beijos.</p><p>Nesse caso, fazei os poss�veis para n�o a perturbar e deixai de vos preocupar com aqueles rapazes!... E fazei com que avancemos um pouco mais depressa! Estou morta por ver as tr�s empenas da casa de messer Nardi!</p><p>Passada a Grand-Pont e o barulho dos seus moinhos, o Grande Matadouro e os seus odores abomin�veis de v�sceras e sangue coagulado, chegaram ao seu destino e as duas mulheres viram com prazer que nada mudara: a bela tabuleta pintada continuava a balou�ar majestosamente e as l�nguas vermelhas dos cata-ventos, sobre os telhados, continuavam a girar suavemente sob o vento da tarde. As janelas de quadrados brilhantes abriam-se como outrora para grandes divis�es que cheiravam a cera fresca e a p�o quente e na loja do r�s-do-ch�o os empregados, de pena de ganso entre os dedos, continuavam curvados sobre os grandes registos de pergaminho. Mas a apari��o de Agnolo Nardi, ao chamamento de Florent que se precipitara para o edif�cio mal descera do seu cavalo, apertou o cora��o de Fiora. Na verdade, ela reencontrava o mesmo homenzinho redondo e moreno se bem que um pouco grisalho, mas caminhava apoiado a uma bengala e os olhos da jovem encheram-se de l�grimas. Aquela bengala, apesar de enobrecida com um punho de prata cinzelada, n�o era menos a prova do que o bom Agnolo tivera que suportar ao servi�o de Fiora: a tortura pelo fogo que lhe infligira o impiedoso Montesecco para obter dele o endere�o da jovem. Era uma sorte ele poder ainda andar! E foi assim que ele encontrou umas faces h�midas quando Fiora desceu da montada para o abra�ar.</p><p>Ver Fiora e o Papa Sisto IV</p><empty-line/><p>Est�s a chorar, donna Fiora? exclamou ele. Que boas-vindas! E n�s que estamos t�o contentes com a tua vinda!</p><p>Choro de vergonha, meu amigo, e de pesar, porque � a mim que deves tanto sofrimento e...</p><p>Chhh! Eu n�o fui assim t�o valente, porque aqueles bandidos pensaram logo em atirar-se � minha Agnelle... e ent�o, claro, disse tudo o que aquele dem�nio queria. Se algu�m deve pedir perd�o, esse algu�m sou eu!</p><p>Nem mais uma palavra sobre esse assunto! Gra�as a Deus, Montesecco pagou pelos seus crimes. Ou antes, por um crime que se recusou a cometer.</p><p>Como � isso?</p><p>Aquando da conspira��o dos Pazzi, na �ltima P�scoa, ele recusou abater os M�dicis no Duomo, mas foi, na mesma, preso e decapitado.</p><p>A justi�a de Deus vence sempre! Mas, entrai depressa! Florent vai p�r os animais na cavalari�a. Ele deve lembrar-se do local e...</p><p>Um grito de alegria interrompeu-o. Sempre redonda, sempre loura, Agnelle, de grandes olhos azuis e de vestido de veludo justo, acabava de surgir com o seu andar habitual, o de uma corrente de ar, e atirava-se para os bra�os de Fiora, que beijou e voltou a beijar antes de cair nos de L�onarde.</p><p>� o que se chama uma chegada discreta! disse entredentes Agnolo com um olhar para as janelas vizinhas onde se instalara uma grinalda de vizinhas.</p><p>Quem falou de discri��o? protestou a mulher. E por que hav�amos de esconder a vinda da nossa donna Fiora, que n�s amamos como se fosse nossa filha?</p><p>Entretanto, Agnelle mandou entrar toda a gente em casa, onde o bailado das criadas encarregadas de preparar os quartos e melhorar a ementa da noite j� tinha come�ado. L�onarde e Fiora reencontraram com prazer os seus antigos aposentos enquanto Florent partia na direc��o dos escrit�rios para ali fazer a ostenta��o da sua nova condi��o de escudeiro de uma grande dama e do seu elegante fato de belo tecido cinzento usado por baixo de uma ampla capa forrada de pele de esquilo. Em seguida iria a casa do seu pai, o cambista Gaucher l� Gauchois, para ali abra�ar a sua m�e, as suas irm�s e, certamente, passar a noite.</p><p>Estava, portanto, ausente quando, ap�s o jantar, com todas as portas fechadas e as criadas retiradas nos seus quartos, Fiora deu parte aos seus amigos do embara�o em que se encontrava sem procurar qualquer desculpa.</p><p>Pelas cartas de L�onarde e pelas minhas, soubestes da aventura insensata para que me vi arrastada antes de poder, por fim, regressar a Floren�a e viver l� algumas semanas de paz, direi quase de felicidade, porque, durante essa estadia amei... amei Louren�o de M�dicis e ele amou-me. N�o vo-lo escondo, senti-me tentada a ficar l�, a mandar chamar o meu filho e L�onarde. Evidentemente, pensava que era vi�va, mas, morra eu de vergonha diante de v�s, creio que, se soubesse que o meu marido estava vivo, as coisas se teriam passado da mesma maneira...</p><p>Fiora calou-se por um momento. Antes de come�ar, recuara o suficiente para que o seu rosto n�o ficasse demasiado iluminado pelo grande candelabro pousado em cima da mesa. De facto, tinha consci�ncia da incongru�ncia de tais palavras naquele ninho de esposos honestos e fi�is um ao outro. Agnolo e Agnelle votavam um ao outro um amor profundo e, certamente, a segunda nunca teria a ideia, sequer, de olhar para outro homem que n�o o seu marido. No entanto, naqueles dois rostos virados para si, Fiora n�o viu nada que se parecesse a uma condena��o. Pelo contr�rio, Agnelle sorriu-lhe:</p><p>V�s conheceis monsenhor Louren�o desde sempre, n�o � verdade?</p><p>Desde sempre, de facto...</p><p>Ent�o, talvez o am�sseis j� sem vos dardes conta? Agnolo nunca deixou de me repetir que ele � o homem mais extraordin�rio deste tempo e que o seu encanto � extremo.</p><p>Isso � mesmo vosso, querida Agnelle, procurar uma desculpa para a minha falta, mas eu n�o amava Louren�o. Era pelo irm�o dele, Giuliano, que eu estava apaixonada. Acrescento que o esqueci a partir do momento em que conheci Philippe de Selongey. E � a� que, a despeito da vossa indulg�ncia, talvez tenhais alguma dificuldade em me compreender, porque, mesmo quando estava junto de Louren�o, nunca deixei de amar Philippe e quando soube, por messire de Commynes, que o Rei o agraciara e que ele continuava vivo, o meu �nico pensamento foi voltar para ele, a minha �nica esperan�a era encontr�-lo...</p><p>Do outro lado da mesa, a voz de Agnolo, tranquila e um pouco surda, fez-se ouvir:</p><p>Quem, de n�s, pode vangloriar-se de ter vivido sem pecado? Esquecer�s monsenhor Louren�o assim como esqueceste o irm�o dele!</p><p>N�o. O esquecimento � doravante imposs�vel e � por isso que eu vim pedir a vossa ajuda... se n�o me desprezais demasiado!</p><p>O sil�ncio que se seguiu n�o durou muito. Agnelle levantou-se, colocou-se por tr�s de Fiora e, deslizando os seus bra�os em redor do pesco�o da jovem, disse calmamente:</p><p>Creio, Agnolo, que te deves certificar de que as portas est�o bem fechadas.</p><p>Ele ergueu uma sobrancelha, sorriu, levantou-se e deixou a sala. O som dos seus passos desiguais afastou-se lentamente. Ent�o, sem abandonar a sua pose afectuosa, Agnelle murmurou ao ouvido de Fiora:</p><p>Quando � que chega a crian�a?</p><p>Em Abril, penso, mas, Agnelle, eu n�o quero, sobretudo, arranjar-vos problemas.</p><p>Chhh! N�o haver� problema nenhum. Como o vosso marido est� vivo, o seu nascimento deve permanecer secreto.</p><p>� o que eu desejo e foi tamb�m por isso que me quis afastar antes que os sinais exteriores se tornassem vis�veis.</p><p>Fizestes muito bem. Aqui, a casa � grande...</p><p>N�o cortou L�onarde. Aqui n�o � poss�vel. Esquecestes o burburinho provocado pela nossa chegada? Al�m disso, h� as criadas, os empregados do vosso marido. Que grande segredo seria! N�s est�vamos a pensar pedir-vos que nos emprest�sseis a vossa casa de Suresnes, onde eu passei uma convalescen�a agrad�vel quando parti a perna.</p><p>Agnelle endireitou-se lentamente e deu alguns passos ao longo da chamin� antes de se deter.</p><p>Ficastes aborrecida? perguntou Fiora.</p><p>Por v�s. Uma casa onde s� vamos no Ver�o, passardes l� o Inverno com a humidade do Sena...</p><p>As chamin�s fumam perfeitamente continuou L�onarde e eu j� conhe�o a casa e os arredores. Penso que n�o estaremos mais bem retiradas aqui do que l�. Evidentemente, n�o nos poderemos instalar com grande estad�o. Fiora passar� por uma cozinheira italiana do vosso marido, ou uma sobrinha que esteve doente e eu serei uma aia muito conveniente. Al�m disso, o trabalho da casa e os cuidados de um parto n�o me metem medo.</p><p>Quereis morar l� sozinhas?</p><p>Naturalmente disse Fiora. O jovem Florent �-me muito dedicado, mas ignora tudo e eu penso mand�-lo de volta para la Rabaudi�re.</p><p>� imposs�vel! disse Agnelle de forma categ�rica. A casa, como sabeis, est� um pouco isolada. � preciso um homem, nem que seja para a lenha, a �gua e os trabalhos pesados. Florent conhece o local por ter tratado do jardim durante muito tempo e tamb�m as gentes dos arredores. Se adoptarmos a ideia da sobrinha de Agnolo, ningu�m se espantar� por ver o rapaz em Suresnes. Por que n�o quereis p�-lo ao corrente? Ele n�o merece?</p><p>Fiora corou e n�o respondeu. L�onarde encarregou-se disso:</p><p>De maneira nenhuma, mas o que preocupa Fiora � ali�s, v�s j� o sabeis � que ele est� apaixonado por ela desde o primeiro encontro, aqui mesmo. Ela teme... choc�-lo; talvez, at�, feri-lo.</p><p>Conhecei-lo mal. Ele ficar� orgulhoso da vossa confian�a e mais ainda por poder velar por aquela que tanto ama. Mas, agora, temos de discutir imediatamente um assunto mais importante: a crian�a. Que lhe ides fazer? N�o a podeis levar convosco...</p><p>Eu sei disse Fiora. E podeis acreditar que isso me custa muito. N�o posso aceitar a ideia de me separar dela para sempre. No entanto, vou precisar de encontrar uns pais adoptivos de confian�a...</p><p>E n�o pensastes em n�s? exclamou Agnelle sinceramente indignada. Onde encontrareis pais melhores do que Agnolo e eu, a quem o C�u n�o concedeu filhos? E onde ficar� ela melhor sen�o em nossa casa, onde podereis v�-la quando quiserdes?</p><p>Fiora, por sua vez, levantou-se, tomou a excelente mulher nos bra�os e apertou-a contra o cora��o:</p><p>Devo confessar-vos: esperava que fal�sseis assim.</p><p>Mas n�o t�nheis a certeza? Porqu�?</p><p>Estava certa da mulher que sois. Mas h� o vosso marido. Ele pode opor-se. Eu conhe�o os seus princ�pios...</p><p>Mas n�o conheceis o seu cora��o. Decididamente, minha amiga, conheceis mal os homens. Educar como seu o filho de monsenhor Louren�o e da sua querida donna Fiora? O meu Agnolo vai subir ao c�u!</p><p>E assim aconteceu com l�grimas nos olhos, Agnolo agradeceu � jovem a prova de afecto que lhes ia dar.</p><p>Farei dele um homem digno do vosso querido pai afirmou ele.</p><p>E se for uma rapariga? H� essa possibilidade.</p><p>Bem, nesse caso ser� a luz desta casa.</p><p>Quanto a Florent, Agnelle conhecia-o melhor do que Fiora e julgou-o correctamente. Ao saber o que esperavam dele, o jovem colocou um joelho em terra diante da jovem como um cavaleiro perante a sua dama e jurou velar at� � morte, se fosse preciso, por ela e pela crian�a que estava para nascer. Deposit�rio de um segredo t�o perigoso para a paz futura daquela que amava, sentiu-se imensamente orgulhoso e, al�m disso, encantado: a perspectiva de uma longa e estreita coabita��o com Fiora sem outras testemunhas que n�o L�onarde, deliciava-o. De repente, sentia a for�a e a sabedoria de todos os cavaleiros do grande Carlos Magno juntos. Tamb�m sentia uma inquieta��o ao pensar em Khatoun e na sua atitude perante uma aus�ncia t�o longa, mas se, no regresso, tivesse de enfrentar cenas desagrad�veis, teria valido a pena.</p><p>Durante os tr�s dias que se seguiram, Fiora e L�onarde comportaram-se como duas estrangeiras em visita. Foram com Agnelle a Notre-Dame, � Capela Santa, vaguearam pelos mercados e pelo cemit�rio dos Inocentes. Efectuaram numerosas compras na rue de la Lingerie que confinava com o famoso recinto dos mortos, onde ia parar a maior parte dos defuntos de Paris. N�o deixaram de dar esmola � reclusa do local, a vener�vel Agn�s du Rocher, que se fizera emparedar setenta e cinco anos antes com a idade de dezoito anos no estreito cub�culo sem portas nem janelas, apenas com uma fenda que dava para o cemit�rio. Havia ali sempre um grande ajuntamento de mulheres ajoelhadas, rezando diante daquela abertura que s� deixava aperceber um monte de trapos nauseabundos, nos quais era imposs�vel distinguir um rosto. Fiora deixou cair duas moedas de ouro no interior da parede imunda:</p><p>Ela n�o fica com elas murmurou Agnelle. Antes do anoitecer, um miser�vel qualquer vem aqui implorar o seu socorro e ela d�-lhas. De qualquer maneira, tereis feito uma obra piedosa.</p><p>De facto, do interior, uma voz quebrada, tr�mula, que n�o pertencia de todo a este mundo, fez ouvir um agradecimento e uma b�n��o em nome do Alt�ssimo.</p><p>Como � que uma rapariga foi capaz de se condenar a um tal supl�cio? perguntou L�onarde, impressionada. Por que n�o escolheu antes o convento?</p><p>Talvez porque era precisa uma grande expia��o. Diz-se que Agn�s, que era uma rapariga nobre, amou um rapaz que n�o era do seu n�vel e que teve dele um filho. O pai dela teria matado, com as suas pr�prias m�os, o amante e o rec�m-nascido. Refeita do parto, Agn�s conseguiu do bispo de Paris autoriza��o para entrar em clausura. Havia v�rias em redor do cemit�rio. Vou mostrar-vos daqui a pouco, entre os t�mulos, a da irm� Alix Ia Bourgotte, morta em 1466, sobre a qual o Rei, nosso sire, mandou erguer uma est�tua em tamanho natural com as palavras:</p><p>Aquijaz a irm� Alix Ia Bourgotte Durante a vida reclusa muito devota Onde reinou humildemente e longamente Durante quarenta e oito anos</p><p>Mas Fiora n�o tinha vontade de ir ver a ef�gie daquela santa mulher. Aquelas penit�ncias excessivas inspiravam-lhe uma esp�cie de repulsa e, se bem que compreendesse que uma rapariga desesperada pudesse escolher o asilo de um convento, tinha da vida, esse dom de Deus, uma ideia demasiado elevada para</p><p>Agn�s viveu assim at� 1483, data em que morreu com noventa e oito anos.</p><empty-line/><p>admitir aquela esp�cie de suic�dio que, ali�s, nem sequer o era porque, submetidas durante anos � humidade e ao frio, mesmo ao gelo, ou ao calor extremo, as penitentes permaneciam vivas durante anos intermin�veis. Era prefer�vel, cem vezes, morrer de insola��o nos caminhos de Santiago de Compostela, ou morrer afogada a caminho da Terra Santa!</p><p>Para ela, os seus pecados de amor eram bem mais graves do que os daquela Agnes que, de facto, expiava o crime de outro, mas a ideia de escolher aquela tumba para ali viver o resto da vida na imund�cie, fazia-lhe horror. L�onarde deu-se conta disso e afastou-a dali:</p><p>N�o � um espect�culo para uma futura m�e sussurrou-lhe ela. E Deus n�o pede tanto aos seres humanos, porque, ent�o, o seu Para�so, no dia do julgamento, estaria tristemente vazio!</p><p>Fiora sorriu-lhe e, sob o manto, sentiu deslizar pelo seu ventre uma m�o j� protectora. � medida que os dias passavam, a jovem ligava-se cada vez mais �quele pequeno ser desconhecido que ganhava vida nas suas entranhas e come�ou a pensar que a separa��o inevit�vel seria, talvez, t�o dolorosa como as dores do parto.</p><p>Entretanto, ao mesmo tempo que as mulheres percorriam Paris, Florent, seguindo as ordens de Agnolo, efectuava numerosas viagens a Suresnes para p�r a casa em estado de oferecer uma estadia invernosa mais ou menos confort�vel. A aldeia, dependente da abadia de Saint-Leuffroy, ela pr�pria vassala da rica e poderosa abadia de Saint-Germains-des-Pr�s, n�o tinha grandes recursos para al�m das vinhas estendidas pelos outeiros acima e dos rebanhos de carneiros que, no Ver�o, ocupavam as vertentes do monte Val�rien. Gra�as aos cuidados e precau��es de Agnelle, tudo ficou pronto a tempo e quando, ao quarto dia, Fiora e L�onarde se despediram dos seus amigos alegre e ruidosamente, sabiam que podiam enfrentar o futuro com uma certa serenidade. De facto, quando a crian�a fosse viver para casa dos Nardi, aquela boa gente da rue des Lombards n�o faria a liga��o entre a grande dama elegante vinda passar alguns dias em Outubro e a pobre rapariga vinda de It�lia para esconder a sua falta longe do seu ambiente habitual.</p><p>Os vizinhos em quest�o teriam ficado muito surpreendidos se tivessem podido assistir, uma hora mais tarde, � curiosa cena que se desenrolou numa cabana de lenhadores abandonada da floresta de Rouvray: a grande dama e a sua seguidora trocavam os seus ricos trajes de viagem por vestidos, capas de espesso pano cinzento e negro e coifas de tela simples que baixaram sobre o rosto, assegurando assim um porte modesto pouco suscept�vel de atrair a aten��o dos passantes, por sinal bastante raros. Ap�s o que retomaram o caminho para Suresnes onde chegaram ao fim do dia, �quela hora cinzenta e indecisa a que chamam �entre c�o e lobo�, quando as ave-marias acabavam de soar no campan�rio de Saint-Leuffroy.</p><p>Situada entre as vertentes do monte Val�rien e o Sena, no qual ia desaguar o seu pequeno pomar, a propriedade de Agnolo Nardi compunha-se do dito pomar, de uma bela vinha que subia suavemente pelo outeiro e de um jardim rodeando uma casa baixa constru�da em estuque e vigas de madeira cruzadas � moda de Paris por cima de um rodap� de pedra que continha a adega e as caves. Uma escada exterior ia dar ao �nico andar, encapuzado com um grande telhado pontiagudo. Duas ou tr�s pequenas depend�ncias, das quais uma delas uma cavalari�a, formavam, nas traseiras, um p�tio irregular com um charco no meio, no qual galinhas e patos se divertiam o dia todo. Um idoso, nodoso como uma cepa e quase t�o falador, o tio Anicet, assegurava, em princ�pio, a guarda do dom�nio, protegido pela vizinhan�a com a abadia. O tio Anicet tratava da vinha com a ajuda intermitente mas vigorosa, sobretudo na ocasi�o das vindimas, de dois homens da aldeia, os irm�os Gobert. O anci�o vivia num casinhoto junto � �gua, o que lhe permitia dedicar-se ao que mais gostava neste mundo para al�m dos vinhos da regi�o: a pesca. Enfim, nunca punha os p�s na casa principal onde, � chegada, Florent se apressou a acender a lareira que tinha preparado antecipadamente.</p><p>A casa compunha-se de uma grande cozinha que servia de sala de todos os dias, de quatro quartos e de um recanto para as provis�es. Os m�veis eram simples, mas s�lidos e bem escolhidos, assim como as tape�arias que aqueciam os quartos, onde nem sequer faltavam os tapetes. Adivinhava-se a m�o de Agnelle na abund�ncia e qualidade da roupa branca e nos objectos usuais. Nada de luxuoso, claro, mas tudo o que era preciso para tornar confort�vel uma estadia de Inverno...</p><p>A menos que haja uma grande enchente acrescentou Florent, que fazia as honras da casa n�o temos nada a recear por parte do rio. J� aconteceu a �gua vir at� � entrada da cave, mas podemos sempre sair pelas traseiras, porque a casa est� situada numa encosta. Achais que ides ficar bem aqui, donna Fiora?</p><p>Esta tranquilizou-o com um sorriso.</p><p>Muito bem. Ali�s, tinha a certeza desde que dame L�onarde esteve aqui. Olhai para ela, Florent, j� est� em casa.</p><p>A vida organizou-se rapidamente, ritmada pelo sino do convento de Saint-Leuffroy, que soava para os servi�os religiosos. As duas mulheres tratavam da casa e da cozinha, cosiam, bordavam ou fiavam � noite sob o arco da chamin� que os reunia aos tr�s. Florent, esse, velava pelos trabalhos pesados e pelo abastecimento. Fiora sentia-se nitidamente mais alerta do que durante a sua primeira gravidez e percorria muitas vezes a propriedade. N�o se mostrava na aldeia a fim de evitar a curiosidade. Mas, aproveitando o Ver�o de S�o Martinho, conseguiu que Florent a levasse com L�onarde at� ao topo do monte Valerian para admirar a vista sobre Paris, que tinha muita fama. Parecia-lhe que a contempla��o da natureza a ajudava na gesta��o. Al�m disso, o monte tornara-se ponto de peregrina��o desde que ali vivia um eremita chamado Antoine. Para simbolizar o Calv�rio, erguera tr�s cruzes de madeira, diante das quais rezava de manh� e � noite.</p><p>Para n�o incomodar o santo homem nas suas ora��es, Fiora e L�onarde subiram a encosta ao come�o da tarde. De facto, n�o encontraram ningu�m e mal aperceberam a cabana feita de ramos que ele constru�ra na orla do bosque.</p><p>Do alto, o panorama era admir�vel. Paris encerrada nas suas muralhas e cortada pela longa fita cinzenta do Sena, Paris, eri�ada das flechas douradas das suas igrejas, parecia-se com uma grande ta�a de prata engastada de ouro e cobre, porque se estendiam em seu redor imensas florestas avermelhadas pelo Outono. Nessas florestas, a m�o do homem talhara clareiras onde cresciam aldeias: Saint-Denis, Courbevoie e Colombes na orla das pradarias de Longch&amp; na direc��o de Saint-Germain, Vaucresson e Montesson e, na floresta de Montmorency, outros lugarejos: Montmagny, Montlignon, Andilly; e depois, na direc��o de Marne, Montreuil, Chennevi�re e Vincennes, enquanto a sul surgiam os campan�rios de Arcueil, Sceaux, Fresnes e Villeneuve-le-Roi. Florent, que conhecia bem o local, deu com prazer todas as informa��es a Fiora e esta admirou o espect�culo sem reservas. No meio daquele mar de �rvores avermelhadas, lustrosas, douradas, a capital parecia, sob o Sol tardio, vibrar com uma vida muito pr�pria. Um nevoeiro nacarado elevava-se dela, antes de se dissolver no azul ligeiro do c�u. E Fiora, que muitas vezes da sua villa de Fiesole contemplara Floren�a pensando que nenhuma cidade no mundo se lhe podia igualar em beleza, Fiora, que contemplara Roma cintilando sob o fogo p�rpura de um ocaso glorioso, permaneceu admirada e muda perante aquela grande cidade serena e majestosa da qual, no entanto, o seu Rei n�o gostava.</p><p>Porqu�? murmurou ela pensando em voz alta sem se dar conta por que � que o Rei Lu�s vem aqui t�o poucas vezes? No entanto, Paris � digna dele...</p><p>Sim, mas Paris foi inglesa durante muito tempo e o Rei n�o consegue esquecer isso disse L�onarde. As recorda��es est�o demasiado pr�ximas e ser� preciso, talvez, outro reinado, outra gera��o, para que Paris volte a estar, finalmente, em gra�a. O Rei toma conta dela: j� n�o � mau... E, num certo sentido, � bom para n�s. N�o nos arriscamos a dar de caras com ele.</p><p>Com a aproxima��o do Natal, o frio instalou-se, assim como a neve. As noites foram perturbadas pelos uivos dos lobos. Florent e o tio Anicet velavam pelas portas com mais dilig�ncia do que nunca. Dizia-se, tamb�m, que havia malfeitores que tinham o seu quartel-general na floresta vizinha de Rouvray, mas nenhum ousava aproximar-se da poderosa abadia e das poucas casas abrigadas sob a sua protec��o de pedra.</p><p>Fiora sentia-se bem fisicamente, mas o aborrecimento come�ava a tomar conta dela. As not�cias de Touraine eram raras.</p><p>L�onarde escrevera a Etienne para lhe dizer que Fiora contra�ra uma doen�a que a fazia sofrer muito e que a proibia de empreender, sobretudo no Inverno, a viagem at� ao Loire. S� regressaria na Primavera, se tudo corresse bem... Em resposta, trazidas uma vez por Agnelle e outra por Agnolo, receberam umas linhas breves e desajeitadas. O bravo Etienne sabia ler, mas a escrita n�o era o seu forte. Quanto a Khatoun, a quem Fiora enviara uma pequena carta, n�o respondeu, o que inquietou a jovem, porque Khatoun sabia ler e escrever na perfei��o. Florent, por sua parte, pensou que a jovem t�rtara estava amuada, mas absteve-se de o dizer, contentando-se em observar que, geralmente, a aus�ncia de not�cias significava que tudo ia bem. E como Etienne dizia que o pequeno Philippe crescia como um cogumelo, n�o havia raz�o para preocupa��es.</p><p>No entanto, tenho vontade de vos enviar at� l� disse-lhe um dia Fiora. Este sil�ncio n�o � normal. Sabendo que estou doente, podiam, pelo menos, perguntar por mim!</p><p>Quem? Nenhum dos habitantes de la Rabaudi�re se pode aventurar pelos caminhos com este tempo frio. E o pequeno messire Philippe precisa de toda aquela gente...</p><p>Era evidente. No entanto, Fiora n�o podia deixar de pensar que Douglas Mortimer que, como bom escoc�s, n�o temia tempestades nem frio, podia fazer a viagem at� Paris... E ela sofria com aquela indiferen�a. Era como se, ao deixar a casa do Loire, tivesse apagado da paisagem at� a sua recorda��o. E agora tinha tanta pressa de partir que lhe parecia que o beb� nunca mais nascia...</p><p>Passado o Ano Novo e o Dia de Reis, os dias pareceram arrastar-se ainda mais miseravelmente. L�onarde sofria de reumatismo e metade das couves que tinham posto de reserva transformaram-se em cataplasmas. O frio, felizmente, n�o era muito rigoroso, mas, quando a neve fundiu, o Sena come�ou a engrossar. Da janela da sala, as duas mulheres viram-no subir lentamente ao assalto do pomar, depois do jardim e, finalmente, da escada. Um degrau, depois outro... A cave encheu-se de �gua, n�o atingindo o vasilhame mas as outras provis�es teriam de ser removidas e Florent levou uma noite inteira a deslocar a salgadeira, os presuntos, as ma��s e as p�ras para evitar o naufr�gio total. J� pensavam em levar os m�veis para a vinha e as duas mulheres para casa do eremita do monte Valerian quando, bruscamente, no espa�o de algumas horas e como se tivessem tirado o ralo a uma tina, o fluxo barrento se retirou. O pomar deixou de ser uma planta��o de penas de pato em tinta cinzenta para reencontrar os seus socalcos. Socalcos lamacentos, esponjosos, mas que, mesmo assim, se pareciam com terra firme.</p><p>Tiveram outros alertas quando, no fim do Inverno, rajadas de chuva sacudiram as �rvores e arrancaram as pequenas hastes. Florent vivia sentado na margem com o olhar fixo no n�vel do rio. Quanto a Fiora, que atingira o m�ximo de circunfer�ncia, negava todo o perigo em virtude do antigo ad�gio que dizia que aquilo que se nega n�o existe. Mas era imposs�vel negar as dores da pobre L�onarde e quando era suposto ser ela a ocupar-se da futura m�e, foi esta que passou longas horas a tratar das suas articula��es dolorosas. A jovem acabou, at�, por esquecer o seu estado: ela e os seus dois companheiros viram-se fechados no cora��o de uma bolha de calor e secura que vogava sobre um rio inst�vel que n�o se sabia se, de repente, n�o os iria engolir para sempre.</p><p>Ent�o, de um s� golpe, tudo entrou na ordem. Nos �ltimos dias de Mar�o, a Primavera foi fiel ao encontro. Os rebentos, rapidamente transformados em bot�es, surgiram nas �rvores frut�feras e da lama surgiram delgadas l�minas verdes que anunciavam a erva. Fiora, ent�o, pensou que a crian�a n�o tardaria. De facto, na noite de 4 para 5 de Abril, voltou a sentir as dores, pouco violentas mas suficientemente pr�ximas para fazer com que chamasse L�onarde que, por sua vez, chamou Florent, encarregado de acender o fogo na cozinha e de p�r �gua a ferver, enquanto ela pr�pria preparava tudo o que era necess�rio. J� h� muito que estava pronto um cabaz para servir de ber�o.</p><p>Tudo correu infinitamente mais depressa do que esperavam e a �gua mal teve tempo de ferver: meia hora depois de ter lan�ado o seu primeiro gemido, Fiora, estupefacta, dava � luz uma rapariga. A jovem n�o sentia qualquer fadiga e por pouco n�o saiu da cama para ajudar L�onarde a tratar do beb�.</p><p>Sofri tanto aquando do meu pequeno Philippe! Ser� poss�vel p�r uma crian�a no mundo em t�o pouco tempo?</p><p>A prova! disse L�onarde, rindo. A vinda do primeiro filho � sempre mais demorada, mas a nossa querida menina, parece, estava cheia de pressa para ver a luz do dia. Oh, meu cordeirinho, ela parece-se tanto convosco!</p><p>E L�onarde, que acabava de enfaixar a pequenina, p�s-se a chorar enquanto a embalava nos bra�os. Florent, que chegava com lenha para a lareira, deixou-a cair no ch�o.</p><p>Por que chorais assim, dame L�onarde? A crian�a n�o est�...</p><p>N�o, n�o, ela est� bem, mas acaba de me fazer recordar tanta coisa! V�s n�o �reis mais velha, Fiora, quando vos puseram nos meus bra�os pela primeira vez e parece-me que recome�a tudo de novo!</p><p>Gra�as a Deus, as circunst�ncias n�o s�o as mesmas disse Fiora docemente.</p><p>S�o menos tr�gicas, sem d�vida, mas s�o quase t�o tristes como ent�o. Esta pequenina n�o vos chamar� m�e, assim como v�s n�o o chamastes � vossa.</p><p>Por sua vez, os olhos de Fiora encheram-se de l�grimas. A jovem percebeu que, at� ao instante do seu primeiro grito, a crian�a que trazia em si lhe aparecera como um inc�modo, uma puni��o e at� um perigo, porque se arriscava a erguer uma barreira intranspon�vel entre ela e o homem que amava. N�o a esperara com a mesma alegria, o mesmo orgulho que o seu pequeno Philippe. Mas, naquele momento, j� n�o era uma abstrac��o: era um pequeno ser vivo, carne da sua carne, sangue do seu sangue e quando L�onarde, docemente, a depositou nos seus bra�os, foi com uma verdadeira ternura, com um verdadeiro amor que ela pousou os l�bios tr�mulos na min�scula cabe�a redonda, onde uns pequeninos cabelos castanhos formavam como que um pequeno penacho...</p><p>Oh, L�onarde balbuciou ela que vai ser de n�s? Como pude pensar, por um s� instante, em me separar dela? J� a amo tanto...</p><p>Tamb�m eu, e pe�o-vos perd�o por ter dado, nesta hora que devia ser de felicidade, livre curso aos sentimentos que me esforcei por dissimular durante este tempo todo. Mas n�o imaginava que seria uma rapariga. Ent�o... tudo transbordou de repente.</p><p>Est�veis a pensar na minha m�e. Tamb�m eu, agora. Como ela deve ter sofrido ao saber que ia deixar este mundo e que me ia deixar tamb�m a mim!</p><p>Convosco n�o ser� a mesma coisa. Esta crian�a conhecer-vos-� e mesmo que n�o saiba que sois m�e dela, estou certa que vos amar�... J� agora, como havemos de lhe chamar? Tem que ter um nome florentino j� que �, em princ�pio, a sobrinha neta do bom Agnolo.</p><p>Isso � evidente: Lorenza... Lorenza Maria, em mem�ria da minha m�e.</p><p>Apesar das censuras violentas de L�onarde, Fiora recusou separar-se da filha. At� ao nascer do dia, a jovem apertou o beb� contra si, murmurando-lhe palavras ternas, acariciando-lhe docemente as m�os min�sculas e as pequenas faces redondas, que tinham a suavidade e a cor de uma uva. O seu cora��o, apanhado pela surpresa, transbordava de amor e desgosto. E quando, de manh�, L�onarde lha levou para cuidar dela e aliment�-la com um pouco de �gua a�ucarada com mel, Fiora teve a impress�o de perder uma parte de si mesma.</p><p>Trazeis-ma j� a seguir, n�o � verdade?</p><p>N�o, Fiora. V�s tamb�m precisais de cuidados, sem falar do repouso que recusastes a v�s mesma. Lorenza vai dormir um pouco no cabaz... mas eu ponho-o junto da vossa cama, prometo.</p><p>N�o ides... mandar prevenir j� Agnolo e Agnelle, pois n�o? Ides deix�-la comigo mais um bocadinho, n�o ides?</p><p>Havia tanta ang�stia na sua voz, que a velha solteirona sentiu o cora��o apertar-se-lhe. L�onarde tinha medo, desde o primeiro dia, daquela fogueira de amor maternal. Ver aquele rosto doloroso onde as l�grimas vertidas durante a noite tinham deixado o seu rasto, perturbava-a.</p><p>Isso n�o � razo�vel. Quanto mais tempo esperardes, mais custar� a separa��o. Al�m disso, Agnelle j� contratou uma ama.</p><p>Por que n�o hei-de amamentar a minha filha durante algum tempo? No fim de contas, qual � a pressa? N�s estamos bem aqui...</p><p>Esqueceis o vosso filho? Deixaste-lo h� seis meses e n�o se pode dizer que tenhais passado muito tempo com ele. N�o tendes saudades dele?</p><p>Sim, claro... mas, parece-me que ainda amo mais este anjinho. Ele tem tudo...</p><p>Menos um pai! disse L�onarde, muito s�ria. Lorenza ter� pai e m�e, sem contar convosco mesma, que n�o a perdereis de vista. Enfim, n�o esque�ais que ela � de ra�a ilustre. Ela � uma verdadeira florentina...</p><p>� verdade, mais do que eu. Mas, confesso-vos, n�o pensei muito no pai dela enquanto a esperava... nem mesmo agora. � a prova de que nunca amei verdadeiramente Louren�o. Ela tem poucas hip�teses de o vir a conhecer um dia... N�o sabeis. Que hip�teses t�nheis v�s de conhecer Floren�a no dia terr�vel do vosso nascimento? Deixai-me mandar o tio Anicet a Paris com uma mula e um bilhete. Florent � demasiado conhecido no bairro. � melhor que n�o o vejam por l� nos dias que correm.</p><p>Fiora chorou, suplicou quando L�onarde, aparentemente impiedosa mas com o cora��o despeda�ado, lhe enfaixou os seios com firmeza para impedir o aparecimento do leite, alegando, ali�s, que de pouco serviria, porque, aquando do nascimento de Philippe, Fiora se mostrara pouco pr�diga quanto ao precioso l�quido maternal. E como esta passasse das l�grimas e das s�plicas � c�lera, aquela mostrou-se severa.</p><p>Deixai de vos comportar como uma crian�a! Esta pequenina precisa de uma boa ama e n�s n�o vamos passar a vida a mudar de seio a cada dois minutos. Pensai um pouco nela!</p><p>Era preciso resignar-se. Ali�s, na manh� seguinte, os Nardi, frementes de uma alegria que n�o ousavam demonstrar diante do rosto tr�gico da jovem m�e, acorreram a Suresnes com cavalos e uma confort�vel liteira para que o beb� fizesse a curta viagem nas melhores condi��es. A ama, escolhida com cuidado, esperava j� na rue des Lombards. Tal como os Reis Magos da Sagrada Escritura, levavam presentes in�teis e encantadores, como rendas e unguentos de beleza para Fiora que traduziam bem a sua afei��o.</p><p>Quando Fiora, chorando como uma Madalena, depositou a sua filha nos bra�os de Agnelle, esta beijou-a calorosamente.</p><p>Eu sei o que vos custa, minha amiga, mas podeis estar certa de que a nossa pequena Lorenza receber� tudo o que uma crian�a pode desejar e que n�s a amaremos de todo o nosso cora��o, Agnolo e eu. Ali�s, se n�o puderdes vir v�-la dentro de pouco tempo, prometo-vos que a levamos l� este Ver�o...</p><p>N�o sei se isso ser� muito sensato suspirou L�onarde. Parece-me evidente, a partir deste momento, que Lorenza Maria se vai parecer muito com a m�e...</p><p>Ainda bem para ela disse Agnolo porque seria lament�vel que se parecesse com o seu ilustre pai, que � bem feio! Mas deixemos que a natureza siga o seu curso e veremos!</p><p>Lorenza Maria! suspirou Agnella embalando, com os olhos cheios de estrelas, o pequeno embrulho branco que Fiora fixava com desespero. Que nome t�o bonito! E � com este nome que vai ser baptizada esta noite mesmo na igreja de Saint-Merri...</p><p>Hoje? espantou-se L�onarde. E que nomes ides indicar para o pai e para a m�e?</p><p>N�o h� muitas solu��es disse Agnolo. S� a podemos declarar como filha de pais inc�gnitos. Agnelle e eu vamos assinar unicamente como madrinha e padrinho. Naturalmente, dois dos nossos vizinhos acompanhar-nos-�o como testemunhas.</p><p>Nesse caso, n�o vai ter um nome verdadeiro? murmurou Fiora. Mas ela devia chamar-se M�dicis, ou, pelo menos, Beltrami.</p><p>Conheceis-me assim t�o mal? perguntou Agnolo. O padre receber� ouro e eu hei-de arranjar-me para que ele pense que eu sou o pai...</p><p>Pois insurgiu-se Agnelle como � am�vel da tua parte! Ainda por cima porque, em princ�pio, � filha da tua sobrinha?</p><p>N�o tenhas receio continuou o negociante, rindo. Desde que lhes paguemos, os vig�rios das par�quias n�o se mostram muito dif�ceis e isso permitir� que este anjinho tenha um nome: chamar-se-� Lorenza Maria del Nardi. N�o � o principal?</p><p>� evidente! �s sempre tu quem tem as melhores ideias...</p><p>Quando deixaram a propriedade, a casa pareceu ficar vazia. Era como se tivessem levado com eles toda a luz e calor. Apoiada nas almofadas onde sobressa�a a espessa tran�a negra dos seus cabelos, Fiora, de olhos baixos, mantinha-se calada.. A jovem olhava para os bra�os estendidos, para as m�os abandonadas com as palmas viradas para cima sobre o len�ol de fina tela. Tamb�m eles estavam vazios e, de repente, aquilo foi-lhe insuport�vel. Erguendo as p�lpebras, ela olhou para L�onarde, que se deixara cair num banco e chorava, de cotovelos nos joelhos e a cabe�a entre as m�os e para Florent, encostado � pedra da chamin� e olhando, sem ver, para o fogo que se apagava. Os dois, fulminados por uma imobilidade que parecia nunca mais acabar, n�o ousavam virar-se para o leito... Era como se a sua vida, tamb�m a deles, tivesse parado com a partida daquela liteira cujos eixos ainda ouviam ranger ligeiramente, afastando-se na direc��o da velha ponte romana.</p><p>Um s�bito bafo de c�lera tirou a jovem do seu amargo devaneio. N�o ia ficar ali, im�vel, esperando estupidamente que o seu cora��o deixasse de lhe doer. A sua voz soou, alta, clara, imperiosa, fazendo estremecer os outros dois.</p><p>Dai-me um roup�o, minha querida L�onarde! Quero levantar-me.</p><p>De imediato a velha solteirona estava junto dela, meio inquieta, meio zangada:</p><p>Nem penseis! Ainda h� dois dias destes � luz...</p><p>E ent�o? P�ronnelle falou-me, uma vez, numa camponesa que sentiu dores quando estava a apanhar cerejas. Deu � luz o filho e dois dias depois foi vender as cerejas ao mercado de Notre-Dame-la-Riche. Acho que n�o sou menos s�lida do que ela.</p><p>S� mais um pouco de paci�ncia! S� mais dois ou tr�s dias!</p><p>Nem mais um! Tendes de compreender que n�o suporto mais esta casa... agora que ela se foi embora. Amanh� de manh� regressamos a casa. A �nica coisa que vos pe�o aos dois � que a casa fique arranjada e que tudo esteja pronto de madrugada.</p><p>N�o vai demorar muito tempo disse L�onarde tristemente. Poucas coisas nos pertencem...</p><p>Quereis mesmo partir, donna Fiora? perguntou Florent, cujo olhar azul perscrutava o fino rosto p�lido e os olhos cinzentos aumentados por um c�rculo azulado.</p><p>� a minha cara que n�o vos agrada? Pelo contr�rio, creio que est� de acordo com as circunst�ncias, j� que passo por padecer de uma doen�a qualquer. Seria desastroso regressar a casa com boa cara e faces rechonchudas. Quando l� estivermos, creio que me sentirei menos mal!</p><p>Feita a reflex�o, Fiora decidiu partir antes de nascer o dia para que ningu�m se apercebesse, porque n�o lhe apetecia mudar de roupa na primeira floresta que encontrassem. Ningu�m a tinha visto durante aquela estadia de seis meses e ela queria que assim continuasse. Enquanto Florent, carregada a pouca bagagem, acabava de ajaezar as mulas, ela pediu a L�onarde que fosse chamar o tio Anicet.</p><p>O homenzinho mostrara-se de uma discri��o exemplar e quando Fiora ia ao jardim quando l� estava, ele assobiava ao seu c�o e afastava-se, virando-lhe as costas. A jovem queria agradecer-lhe.</p><p>Vou deixar esta casa disse-lhe ela para n�o mais voltar. Nunca mais me vereis, mas desejo, antes de partir, provar-vos a minha gratid�o pelo sil�ncio e solid�o que vos permitistes respeitar.</p><p>O tio Anicet olhou para a delgada silhueta negra envolta num grande manto cujo capuz forrado de pele de raposa escondia metade do rosto e depois para as cinco moedas de ouro que uma m�o enluvada acabava de depositar na sua. Por um curto instante, as suas p�lpebras, t�o amarrotadas como as de uma tartaruga, ergueram-se, deixando ver umas pupilas singularmente vivas para um homem da sua idade:</p><p>Eu nunca vos vi disse ele, por fim. Como quereis que me recorde de algu�m que nunca morou nesta casa?</p><p>N�o. N�o vos podeis recordar, mas um pouco de ouro nunca fez mal a ningu�m.</p><p>� justo! Nesse caso, daqui a pouco vou acender uma vela a S�o Leuffroy para lhe agradecer a fortuna que encontrei, gra�as a ele, nesta casa vazia...</p><p>E, saudando com a m�o esquerda enquanto apertava com for�a a m�o direita sobre as moedas de ouro, o anci�o abandonou a casa e desceu, cantarolando, at� ao rio para ali colher as suas redes.</p><p>Um quarto de hora mais tarde, os tr�s viajantes afastavam-se por sua vez e metiam lentamente pelo estreito caminho junto � margem do Sena, que iriam seguir at� Meudon para, de l�, atingirem, sem entrar em Paris, a estrada de Orle�es. As cruzes do monte Valerian e os sinos da abadia de Saint-Leuffroy j� tinham desaparecido por tr�s das �rvores de um bosque espesso quando o Sol, surgindo como uma grande bola vermelha, se lan�ou no c�u cinzento e rosa de uma aurora que se anunciava ventosa.</p><p>A �nica ced�ncia de Fiora a L�onarde fora uma viagem n�o muito r�pida. A velha solteirona alegara o reumatismo que a humidade dos dias anteriores acordara, sabendo bem que, n�o fora a sua pr�pria sa�de, a jovem ter-lhes-ia imposto um andamento infernal. Assim, a jornada j� ia avan�ada quando, tr�s dias mais tarde, os tr�s viajantes viram o pesado torre�o quadrangular, o campan�rio de Beaugency e a alta torre quadrada da abadia de Notre-Dame.</p><p>Passado o recinto fortificado mesmo a tempo antes do fecho das portas viram que a cidade estava animada, especialmente a pra�a do Martroi, atravancada de criados, de cavalos e carro�as de bagagem. Tudo aquilo extravasava da grande hospedaria com a ins�gnia do Escudo de Fran�a, onde Fiora esperava pernoitar. Visivelmente, o estabelecimento esfor�ava-se por acolher dentro das suas paredes a comitiva de um grande senhor.</p><p>Que vamos fazer? perguntou Fiora. N�o podemos ir mais longe esta noite.</p><p>S� temos duas hip�teses suspirou L�onarde. Procurar um albergue menos agrad�vel ou pedir asilo aos monges da abadia junto da margem. Encontrai-nos uma das coisas, Florent, enquanto vamos rezar �quela pequena igreja. Os meus rins doem-me muito para vos seguir na busca... Vindes, Fiora?</p><p>Esta n�o respondeu. A jovem olhava com interesse para um pajem, seguido de dois criados, que transportavam, um pequeno cofre e os outros uma arca na direc��o do Escudo. Os tr�s tinham nas t�nicas as armas do seu senhor e, justamente, aquelas armas Fiora recordava-se de as ter visto bastantes vezes quando os seus passos estavam ligados aos do Temer�rio, eram, cortadas pela barra sinistra da bastardia, as grandes armas de Borgonha. A jovem n�o teve tempo de fazer a si pr�pria uma �nica pergunta: um homem de alta estatura, vestindo com eleg�ncia e majestade uma cinquentena de anos, acabava de aparecer, com o capelo na m�o, � sa�da da igreja, profundamente saudado pelo cl�rigo da dita. Pouco mudara em dois anos e Fiora, quase maquinalmente, p�s p� em terra para o saudar. Era o homem a quem toda a Europa chamava o grande bastardo, Antoine de Borgonha, em tempos o melhor e mais fiel dos chefes de guerra do Temer�rio, seu meio-irm�o e por quem combatera at� ao fim. Prisioneiro ap�s a fatal batalha de Nancy, reencontrara rapidamente a liberdade e diziam-no um dos mais quentes partid�rios do regresso de Borgonha ao seio de Fran�a. Antoine de Borgonha reconheceu Fiora ao primeiro olhar e, subitamente sorridente, avan�ou para ela com as m�os estendidas:</p><p>Madame de Selongey? Mas, que feliz acaso � este, que faz com que vos encontre aqui?</p><p>O acaso dos grandes caminhos, monsenhor. Regresso a casa, na Touraine, ap�s uma estadia em Paris.</p><p>Na Touraine? V�s? N�o dever�eis, antes, estar na Borgonha? Ou o vosso marido, finalmente, entregou-se?</p><p>H� mais de dois anos que n�o vejo Philippe, monsenhor. O destino apraz-se em nos separar...</p><p>Mas, como � poss�vel?</p><p>� uma hist�ria longa e triste, bem dif�cil de contar numa pra�a p�blica...</p><p>Sem d�vida... mas n�o � mesa. Dar-me-eis a honra, espero, de jantar comigo? Parece que temos muitas coisas a dizer um ao outro.</p><p>Com muito prazer, monsenhor, mas n�s acabamos de chegar a esta cidade, dame L�onarde, um servidor e eu mesma, e precisamos de encontrar alojamento.</p><p>Quando eu ocupo os melhores? disse ele rindo. A coisa arranja-se. Um dos meus oficiais ficar� encantado por ceder o seu quarto a duas damas. Quanto ao vosso criado, far� como os meus: dormir� na cavalari�a. N�o, n�o! N�o me escapareis. Encontrei-vos, fico convosco!</p><p>E enquanto um escudeiro recebia ordens para espreitar o regresso de Florent, Fiora e L�onarde penetraram na hospedaria, onde lhes foi oferecido de imediato um dos melhores quartos.</p><p>Como � interessante manter boas rela��es! comentou L�onarde. As viagens ficam mais agrad�veis.</p><p>Tudo depende dessas rela��es. N�o nos podemos alegrar por termos conhecido o cardeal della Rovere... e v�s nunca conhecestes o Papa!</p><p>N�o penseis que o lamento! Em todo o caso, pergunto a mim pr�pria o que faz aqui o grande senhor borgonh�s.</p><p>Fiora soube-o uma hora mais tarde enquanto, sentada em frente dele, saboreava uma empada de l�cio, um dos seus pratos preferidos. Ambos jantavam s�s, servidos por um dos pajens que pegava nos pratos � medida que o estalajadeiro os fazia aparecer e os colocava na mesa. Adivinhando, de facto, que a sua convidada podia ter certas confid�ncias para fazer, ele recebera-a sozinho � sua mesa, coisa que Fiora lhe agradecera. Para a p�r �-vontade, o grande bastardo Antoine come�ou por explicar a raz�o da sua presen�a: deslocava-se ao castelo do Plessis-l�s-Tours para agradecer ao Rei que, n�o somente o confirmara na posse das suas terras borgonhesas at� ent�o anexadas, como ainda as aumentara.</p><p>N�o creio acrescentou ele ter escolhido mal ao reconhecer Lu�s de Fran�a como suserano. Se a minha sobrinha Maria tivesse decidido reinar sozinha sobre os Estados da Borgonha, teria posto a minha espada ao seu servi�o, mas fazer entrar no imp�rio alem�o esse outro imp�rio constitu�do pelas possess�es dos Grandes Duques do Ocidente, n�o posso admitir. Borgonha nasceu da Fran�a, os seus pr�ncipes descendem de S�o Lu�s e as flores-de-l�s n�o podem servir de pasto �s �guias alem�s. Al�m disso, Maximiliano n�o passa de uma ave decorativa, ao passo que o Valois � um grande soberano, mesmo com todos os seus defeitos e apesar de ser muito pouco decorativo. � tempo de Selongey se dar conta...</p><p>N�o sei se, alguma vez, ele se dar�, monsenhor, e eu receio n�o ser estranha a esse estado de esp�rito.</p><p>Diz�eis-me, de facto, que n�o o vedes h� mais de dois anos? Que se passou? Dispondes do tempo necess�rio para me contar essa longa hist�ria e podeis crer que n�o sou levado por qualquer curiosidade deslocada, antes pela amizade que sempre tive pelo vosso marido e pela estima que, no decurso deste �ltimo ano t�o terr�vel, gerei pela vossa coragem. Que idade tendes, donna Fiora?</p><p>Vinte e um anos, monsenhor.</p><p>Eu tenho cinquenta e oito. Podia ser vosso av� e, sublinho, � para que saibais que podeis esperar de mim compreens�o... e indulg�ncia.</p><p>Precisarei muito, porque, se nos separ�mos em Nancy, a culpa foi minha. Quando esperava ter acabado com uma separa��o que durara demasiado, ele s� pensava em me fechar em Selongey, enquanto continuava a bater-se por Madame Maria. Eu n�o o suportei e...</p><p>E a separa��o eternizou-se. Eu prometi-vos indulg�ncia, minha querida filha, mas a mulher �, antes de mais, a guardi� do lar. Madame Joana Maria, a minha bela mulher, nunca saiu muitas vezes, durante estes anos dif�ceis, do nosso castelo de Tournehem que herdou do seu pai. Ela educou nele os nossos filhos... mas pe�o-vos desculpa: � a vossa vez de falar e pouco vos importam as hist�rias de um velho.</p><p>Posta assim �-vontade, Fiora falou durante muito tempo sem procurar minimizar os seus agravos para com o seu marido, mas fazendo passar em sil�ncio a aventura apaixonada com Louren�o de M�dicis e as suas consequ�ncias recentes. A sua hist�ria terminou no convento de Val-de-B�n�diction...</p><p>O rasto de Philippe apaga-se na soleira do convento e ningu�m me conseguiu dizer o que lhe aconteceu. Confesso-vos: receio que ele esteja perdido para sempre. Ter� seguido os peregrinos at� ao fim? Ter� regressado com eles? E depois, para onde ter� ido? Ter� algu�m tido piedade daquele homem sem mem�ria? O pensamento de que ele possa ter morrido de mis�ria num caminho qualquer perdido atormentou-me as noites durante muito tempo... mas, onde procurar, agora?</p><p>Tendo despedido o pajem, o grande bastardo voltou a encher a ta�a de Fiora, serviu-se e, mergulhando o seu olhar sorridente nos grandes olhos cor de nuvem:</p><p>Por que n�o em Bruges? prop�s ele.</p><p>Em Bruges? Mas, ele deixou essa cidade h� muito tempo.</p><p>Mais uma raz�o para voltar para l�. � uma cidade muito bela e que vos agradar�, creio...</p><p>Com o cora��o apertado, Fiora, desiludida e vagamente indignada, pousou sobre ele um olhar sombrio.</p><p>Fazeis mal, monsenhor, em fazer tro�a de mim.</p><p>Mas, eu n�o estou a fazer tro�a de v�s. Considero, at�, o nosso encontro mais feliz do que pensava e Deus deve ter alguma coisa a ver com ele. Posso assegurar-vos, de fonte segura, que Selongey se encontrava em Bruges no �ltimo Natal.</p><p>N�o � poss�vel!</p><p>Porque n�o? Algu�m que me � chegado viu-o na corte da duquesa e at� lhe falou. Posso dizer-vos que parecia na plena posse da sua mem�ria, se bem que n�o tenha sido muito loquaz, ao que me disseram.</p><p>Mas, quem � que o viu? Essa pessoa pode ter-se enganado, talvez uma semelhan�a.</p><p>Seria preciso que n�o o conhecesse. Ora, Mme. de Schulembourg, que � a sogra da minha filha Joana e melhor amiga da minha mulher, se bem que n�o estejamos no mesmo campo, conhece Selongey desde a inf�ncia. Ela achou-o p�lido e sombrio e devo dizer que n�o respondeu �s suas perguntas. � verdade que a querida dama � muito faladora, mas posso assegurar-vos que era ele.</p><p>Philippe, em Bruges! balbuciou Fiora, siderada. � extraordin�rio...</p><p>Talvez, mas � verdade! Mme. de Schulembourg ficou t�o impressionada com o encontro que se apressou a ir a Tournehem para contar � minha mulher. Sabeis que h� uma tr�gua neste momento, entre o casal Maria-Maximilliano e o Rei Lu�s? Os encontros est�o, por isso, facilitados... Mas, que tendes?</p><p>Ca�da sobre as almofadas que guarneciam a sua cadeira, Fiora, de nariz franzido, olhos fechados e faces p�lidas, parecia prestes a perder a consci�ncia. De facto, a jovem lutava contra dois sentimentos contradit�rios: a alegria e a c�lera. A alegria pela certeza de que Philippe recobrara a mem�ria, a c�lera porque, mal sa�ra do pesadelo que quase o submergira, correra a juntar-se � sua querida duquesa! O que significava, sem d�vida, que jamais regressaria para ela e que virara definitivamente a p�gina onde estava escrito o nome de Fiora...</p><p>Uma frescura na testa incitou-a a reabrir os olhos. Antoine de Borgonha humedecia-lhe as t�mporas com a ajuda de uma toalha molhada, tomado por uma inquieta��o t�o vis�vel que a fez sorrir:</p><p>Muito obrigada, monsenhor, mas n�o � nada... � s� a alegria! De facto, foi Deus que fez com que nos encontr�ssemos.</p><p>Tamb�m acho, mas bebei um pouco deste vinho de Espanha, que eu trago sempre comigo em viagem! Far-vos-� bem e o Senhor n�o ver� nisso nenhum inconveniente.</p><p>Fiora bebeu, mas como a sua c�lera tinha aumentado, pediu autoriza��o para se retirar, alegando uma necessidade de repouso bem natural. Cortesmente, o pr�ncipe levou-a at� � porta do seu quarto pela m�o.</p><p>Faremos viagem juntos, amanh�, j� que seguimos o mesmo caminho?</p><p>Aquela pergunta simples modificou instantaneamente os projectos imediatos de Fiora que, ali�s, n�o sabia muito bem onde estava no instante precedente.</p><p>N�o, monsenhor, lamento, mas quero ir a Bruges. Mas... se Vossa Senhoria quisesse acompanhar dame L�onarde at� � minha casa de la Rabaudi�re, ficar-lhe-ia infinitamente reconhecida. Ela tem demasiadas dores para conseguir suportar novamente uma longa viagem...</p><p>Com prazer, mas achais prudente lan�ar-vos assim pelos grandes caminhos?</p><p>O meu servidor ser� suficiente como guarda e n�o conto estar muito tempo ausente.</p><p>Foi mais dif�cil fazer com que L�onarde aceitasse aquela mudan�a de programa. A velha solteirona lan�ou fogo e chamas, esconjurando o �seu cordeirinho� a renunciar �quele projecto insensato, mas conhecia demasiado bem a jovem para saber que nada modificaria a sua decis�o e que ela estava pronta a dar a volta ao mundo para levar a cabo o seu projecto um tanto ou quanto vingador.</p><p>Estais contente, mas ainda estais mais furiosa, n�o � verdade? perguntou ela.</p><p>� verdade! J� � tempo de Philippe se lembrar que existo e que tem de escolher, sem mais delongas, entre a sua duquesa e eu!</p><p>Nunca � bom lan�ar um ultimato a um homem, sobretudo um homem do car�cter de messire Philippe. N�o vos bastou o �ltimo?</p><p>Bastou, mas eu acreditava no amor dele...</p><p>Lembrai-vos do que me contastes! O seu del�rio, quando ele estava doente em Villeneuve!</p><p>Fiora teve um pequeno sorriso triste, rapidamente varrido por uma nova onda de c�lera:</p><p>Muito bem, tenho de acreditar que a minha recorda��o chega para lhe povoar os pesadelos! Simplesmente, agora, tenho uma filha que amo e da qual tive de me separar. Portanto, entendo que, pelo menos, o meu sacrif�cio serve para qualquer coisa. J� � tempo de ter com Philippe uma explica��o definitiva...</p><p>T�o definitiva como isso? Dizei-lhe, ent�o, que tem um filho! Ficarei muito espantada se essa not�cia n�o for suficiente para o fazer mudar de ideias. Mas... contemos com o pior: que fareis se ele vos repelir?</p><p>Fiora n�o respondeu de imediato. A pergunta, na sua brutalidade, apanhara-a como um chicote e a dor que sentiu f�-la compreender que nunca conseguiria expulsar a imagem de Philippe do seu cora��o. No entanto, naquele instante, teria preferido morrer a conformar-se. Com uma s�bita viol�ncia, disse:</p><p>Nesse caso, nada me deter� aqui. Pegarei nos meus dois filhos e vou para Floren�a. Convosco, evidentemente. Pelo menos, l�, estarei rodeada de gente que gosta de mim!</p><p>No dia seguinte de manh�, deixando L�onarde prosseguir o seu caminho na companhia do capel�o de Antoine de Borgonha, Fiora, seguida por um Florent perdido de felicidade, retomava, a grande velocidade, a estrada de Paris, que queria atravessar sem parar a fim de atingir a Flandres.</p></section><section><title><p>CAP�TULO IX</p><p>EM BRUGES...</p></title><p>De regresso a casa, L�onarde esfor�ava-se por acalmar as suas apreens�es, esperando que a longa corrida atrav�s do norte de Fran�a abrandasse a c�lera de Fiora, mas enganava-se. Enquanto o seu cavalo em Beaugency trocara as mulas por duas s�lidas montadas a levava na direc��o do pal�cio de Maria de Borgonha, a jovem n�o cessava de remoer o seu desgosto e a sua decep��o. Desta vez, ningu�m lhe poderia atribuir qualquer responsabilidade no estranho comportamento do marido. De facto, a verdade estava ali, cegante na sua claridade, e dizia-se em poucas palavras: Philippe nunca a amara realmente.</p><p>Desejara-a, sim, e disso estava segura. Ali�s, qual fora o �nico desejo exigido por ocasi�o do casamento? Uma �nica noite! Era verdade que, mais tarde, ao reencontrar Fiora prisioneira do Temer�rio, o seu ci�me acordara ao saber daquilo a que a jovem chamara �o epis�dio Campobasso� e, depois da queda de Nancy, amara-a apaixonadamente... durante tr�s noites. Mas, e depois? Bem, depois, s� tivera uma ideia: ir bater-se pela duquesa Maria, juntar-se � duquesa Maria, fazer de cavaleiro da duquesa Maria... aquela insuport�vel duquesa Maria para a qual ele se apressara a regressar assim que fugira do convento de Villeneuve! E, agora, era no s�quito daquela mulher que se encontrava! Era uma verdadeira princesa, a duquesa Maria, nascida sob os tectos dourados de um pal�cio e n�o na palha de uma pris�o. Al�m disso, diziam que era encantadora e como se isso n�o bastasse, possu�a a mais incompar�vel das aur�olas: era a filha do Temer�rio, esse pr�ncipe agora quase lend�rio, que Philippe venerava tanto ou mais do que se fora seu pai!</p><p>� medida que o tempo passava e as l�guas desfilavam sob os cascos do seu cavalo, aquela ideia aferrava-se cada vez mais no esp�rito de Fiora e tornava-se evidente, irritante, como uma queimadura em vias de sarar: co�a-se, de repente a crosta sai e tudo volta ao princ�pio...</p><p>Por seu lado, Florent, passada a primeira alegria, sentia-se invadido por uma inquieta��o que ia aumentando. A mulher de rosto fechado, olhar duro, que cavalgava a seu lado durante todo o dia sem dizer uma palavra e que, chegada a noite, se fechava no quarto de um albergue para ter o repouso suficiente, deixando-o livre o resto do tempo, n�o era, n�o podia ser aquela donna Fiora que ele adorava em sil�ncio. Sem saber o que determinara aquela viagem insensata pouco depois do parto, o jovem sentia que se tratava de uma coisa grave, de uma coisa que a fazia sofrer. Desse modo, ansiava e temia ao mesmo tempo surgir no horizonte aquela cidade de Bruges que ele conhecia um pouco por ali ter acompanhado, em tempos, Agnolo Nardi, que fora em neg�cios. Uma coisa parecia certa: Fiora ia a caminho daquela cidade como se fosse para se encontrar com um inimigo.</p><p>Quando, no fim de uma plan�cie ondulada com longos canais cuja �gua irisada reflectia o c�u e sarapintada de moinhos de grandes velas surgiu, por fim, Bruges, Fiora deteve o seu cavalo para melhor contemplar o inimigo. A jovem teve de confessar a si pr�pria que a cidade era bem bela e o seu rancor ganhou novas for�as enquanto a admirava...</p><p>Constru�da sobre a �gua do Reye e sobre um lago como Veneza sobre a sua lagoa, a rainha da Flandres debruava o c�u inst�vel com uma renda de pedra loura e rosa. Sob a delgada torre de menagem, um pouco inclinada, onde os vigias se encontravam, t�o alto que mais pareciam a meio caminho do c�u, os pinheiros mansos, dourados, dominavam de forma soberba os telhados de telhas cor de carne que, desde o reinado do duque Filipe, o Bom, tinham substitu�do o colmo e a madeira para maior seguran�a. Quanto � cintura de defesa, assente na �gua profunda do rio, estava rodeada de salgueiros prateados, de hera e de tufos de goivos ruivos. Ali�s, defendida daquela maneira pelas �guas que a isolavam de terra firme, Bruges mal necessitava das suas muralhas.</p><p>� luz do Sol que declinava, o conjunto vivia, vibrava, cantava como uma floresta no Outono. O espect�culo era de uma beleza opressiva, que Fiora achou insolente. Aquela cidade, uma das mais ricas do mundo, permitia-se, al�m disso, ser uma das mais magn�ficas, era o esplendor dos antigos duques da Borgonha que se estendia na sua frente, intacta na apar�ncia. A lenda parecia ter-se petrificado...</p><p>� linda, n�o �? tentou Florent.</p><p>Demasiado! Compreendo que as pessoas desejem regressar aqui, sobretudo quando tudo as leva a isso. Mas n�o � raz�o suficiente...</p><p>E com aquela frase sibilina, que destro�ou por completo o pobre rapaz, Fiora esporeou o cavalo e avan�ou para Bruges como se fosse tom�-la de assalto. A cavalgada durou at� � porta de Courtrai, que foi preciso transpor a uma velocidade mais tranquila. Passada a porta, Fiora parou bruscamente e, virando-se para o seu companheiro:</p><p>E agora, onde vamos?</p><p>Mas... n�o sois v�s, donna Fiora, que mo deveis dizer? Ignoro os vossos projectos...</p><p>Sem d�vida, mas pensei que conhec�eis a cidade? Do que precisamos, por esta noite, � de alojamento, de um albergue, de uma hospedaria. Suponho que existem?</p><p>� claro, e bem boas. Mestre Agnolo gosta muito da Ronce Couronn�e, na rue aux Laines, a Wollestraat, como se diz aqui. Creio, at�, que � a melhor.</p><p>Vamos para a Ronce Couronn�e! Tomai a dianteira, Florent, e guiai-me!</p><p>Perante aquele tom que n�o admitia r�plica, Florent pensou que era bom ter boa mem�ria, porque donna Fiora n�o parecia disposta a conceder-lhe a hip�tese de erro. O jovem encontrou o caminho sem grande dificuldade, coisa que tinha o seu m�rito porque Bruges, placa girat�ria do com�rcio do Ocidente setentrional, fervilhava de actividade a despeito da guerra impiedosa que os barcos franceses faziam aos fornecedores de l� inglesa ou aos produtos portugueses.</p><p>Mais merit�rio ainda foi arrancar ao �ltimo descendente da dinastia Corn�lis que, desde h� mais de cem anos, velava pelo nome da hospedaria, um alojamento digno do nome da casa para Mme. de Selongey e para o seu servidor. De facto, o m�s de Abril estava a chegar ao fim e os preparativos para a famosa prociss�o do Sangue Sagrado, que tinha lugar a 2 de Maio, retinha em Bruges muitos viajantes, sem contar com os que estavam para chegar.</p><p>A senhora condessa s� pode ficar dois dias, precisou Corn�lis. Depois disso, o quarto est� reservado.</p><p>Se bem que n�o passe, imagino, de uma quest�o de dinheiro disse a jovem com desd�m penso que dois dias s�o suficientes. E agora, respondei a duas perguntas: onde mora a duquesa Maria?</p><p>Os olhos do estalajadeiro esbugalharam-se de surpresa:</p><p>Em Prinzenhof! Toda a gente sabe isso!</p><p>Eu n�o, sen�o por que vos perguntaria? E onde � esse... Prinzenhof?</p><p>N�o � longe. Perto da Casa da Moeda.</p><p>Fico esclarecida! Passemos � segunda pergunta: Quem � que dirige aqui a sucursal do banco M�dicis?</p><p>Isso tamb�m � f�cil: messer Tommaso Portinari. Ele mora em Naaldenstraat, a antiga casa de messire Bladelin, que foi tesoureiro da Ordem do Tos�o de Ouro.</p><p>Vede se o meu servidor conhece esse caminho! Eu vou-me refrescar um pouco e depois, antes do jantar, vou a casa de messer Portinari.</p><p>Se me posso permitir um conselho, nobre dama, os neg�cios de messer Portinari n�o v�o muito bem depois da morte de monsenhor o duque Carlos, ao qual ele tinha emprestado muito dinheiro. Talvez um outro banqueiro florentino seja mais interessante...</p><p>Quem vos disse que eu queria um banqueiro �interessante�? O mandat�rio dos M�dicis � o �nico que me interessa.</p><p>Posto daquela maneira no seu lugar, Corn�lis inclinou-se e conduziu ele pr�prio a dif�cil cliente ao seu quarto. Um momento mais tarde, Fiora, liberta da poeira da estrada e severamente vestida de cinzento e raposa vermelha, fazia-se anunciar ao banqueiro sob o nome de Fiora Beltrami.</p><p>Actual convento das irm�s da Assun��o</p><empty-line/><p>Pela maneira como foi recebida, a jovem pensou, primeiro, que o nome do seu pai ainda representava qualquer coisa, mas n�o tardou a compreender o seu erro e tamb�m que os mexericos florentinos se espalhavam pela Europa com grande rapidez. O acolhimento de Tommaso Portinari foi feito, evidentemente, � �ltima favorita de Louren�o de M�dicis, n�o � filha de Francesco Beltrami.</p><p>Na grande e austera divis�o, revestida com uma tape�aria mas cujo m�vel principal era um enorme cofre coberto de ferro, Fiora viu inclinar-se perante si um grande homem de cabelos ralos e tez morena, provido de um duplo queixo e cujo ventre enchia um amplo traje de fino pano cor de papoila orlado de pele.</p><p>Por que n�o me anunciastes a vossa vinda, donna Fiora? disse ele avan�ando uma cadeira almofadada com quadrados de veludo azul. Teria tido tempo de p�r a minha modesta casa em estado de receber a Estrela de Floren�a...</p><p>As not�cias n�o vos chegam com a necess�ria rapidez. H� mais de um ano que deixei a nossa querida cidade para ir a Fran�a tratar de certos assuntos.</p><p>Foi, espero, com o acordo do magn�fico senhor Louren�o?</p><p>Pleno acordo, n�o tenhais receio! Esses mesmos assuntos, ali�s, conduziram-me aqui um tanto repentinamente, mas, como n�o conto ficar muito tempo, venho ver-vos � chegada. N�o para vos pedir hospitalidade, estou alojada na Ronce Couronn�e. No entanto, podeis ajudar-me.</p><p>Ah! disse ele com um olhar na direc��o do cofre, que dizia mais do que um discurso. � que... eu hoje n�o tenho muitos fundos. Suponho acrescentou ele com um vis�vel embara�o que monsenhor Louren�o est� maldisposto comigo porque, a despeito das suas ordens, o meu banco emprestou dinheiro ao defunto duque Carlos de Borgonha. Mas ele devia compreender que, como habitante de Bruges, n�o podia deixar de contribuir para o esfor�o de guerra da cidade.</p><p>E que a cidade recusou firmemente, assim como as outras cidades flamengas! Acontece que eu vivi junto do duque Carlos durante os seus �ltimos meses de exist�ncia...</p><p>Portinari corou, o seu rosto ganhou uma curiosa cor de tijolo velho:</p><p>Eu n�o podia recusar, porque o duque honrava-me com uma amizade muito particular. Por outro lado, creio saber que o vosso pai tamb�m lhe emprestou uma grande soma... Falou-se em cem mil florins de ouro...</p><p>O meu dote! cortou Fiora secamente oferecido pelo meu marido, o conde de Selongey, ao seu suserano. De qualquer maneira e por mais desprovido que estejais, messer Portinari, suponho que podeis, mesmo assim, honrar esta carta de cr�dito acrescentou ela tirando da sua escarcela um papel cuidadosamente dobrado.</p><p>Ap�s o nascimento de Lorenza Maria, ela conseguira duas da parte de Agnolo Nardi, pensando ter necessidade porque n�o era prudente viajar com muito ouro.</p><p>O banqueiro pegou na carta e leu-a rapidamente, ap�s o que o seu rosto se iluminou:</p><p>Cem ducados? Mas � claro! Os nossos cofres t�m sempre, pelo menos, essa soma.</p><p>Perfeito, portanto, mas n�o � tudo. Preciso de um vestido!</p><p>Um vestido? disse o outro sem esconder o espanto. Eu n�o sou alfaiate...</p><p>Sem d�vida, mas conheceis esta cidade e podeis convencer qualquer costureira a trabalhar para mim esta noite. Quanto ao tecido, estou persuadida de que, como bom florentino, deveis ter uma certa quantidade...</p><p>Era quase uma tradi��o, de facto, entre os florentinos ricos, coleccionar, para al�m dos objectos preciosos de toda a esp�cie, tecidos raros que se guardavam em arcas de s�ndalo ou de cedro, para os expor nas janelas em dias de festa, ou confeccionar, em qualquer ocasi�o, um traje de cerim�nia.</p><p>� verdade, � verdade... mas, por que esta noite?</p><p>Porque n�o me quero demorar e pretendo conseguir, j� a partir de amanh�, uma audi�ncia com a duquesa Maria...</p><p>A duquesa? disse o banqueiro com um pequeno sorriso vagamente desdenhoso. N�o vejo que g�nero de favor podereis obter dela. O seu poder, aqui, � praticamente nulo. O Conselho da cidade s� sonha em recuperar a sua independ�ncia tal como Gand, Ypres e... as outras cidades flamengas. Madame Maria e o seu marido gostam de residir nesta cidade e de dar muitas festas. S�o gente am�vel e mant�m uma atmosfera elegante e alegre, por isso as pessoas gostam de os ter aqui. No entanto, s�o numerosos aqueles que n�o esquecem o poder brutal do Temer�rio nem a dureza com que o seu pai, o duque Philippe, reprimiu as �ltimas revoltas. Agora, � a cidade que det�m o poder.</p><p>Decididamente, Portinari n�o gostava mais da duquesa do que a pr�pria Fiora. Mas a curiosidade devorava-o e fora para incitar a visitante a abrir a boca que se dera ao trabalho daquele longo discurso. Pura perda de tempo:</p><p>Devo v�-la para um assunto de ordem particular que n�o interessa ao poder, mas que eu estimo urgente. Ora, n�o posso apresentar-me na corte vestida desta maneira...</p><p>Ser-vos-ia, de facto, imposs�vel obter uma audi�ncia. Muito bem, se quiserdes acompanhar-me, creio que poderemos satisfazer-vos, mas...</p><p>Ainda h� mais um �mas�?</p><p>Bem modesto, podeis acreditar! Consentir�eis em pedir por mim junto de monsenhor Louren�o? Parece que ele me reprova duramente a conduta durante as �ltimas guerras. E depois... h� aquele assunto infeliz do �ltimo Julgamento, devido ao qual ele se enfureceu tanto...</p><p>O �ltimo Julgamento! Que � isso?</p><p>Um tr�ptico do grande pintor flamengo Hugo Van der G�es, que o meu predecessor, Angelo Tani, comprou para doar � igreja de San Louren�o de Floren�a. Foi h� seis anos e eu fui encarregue de embalar e expedir o quadro... que nunca chegou l�.</p><p>Que se passou?</p><p>O navio foi atacado pouco depois da partida de �cluse por dois cors�rios de la Hanse e o �ltimo Julgamento est� agora na igreja de Notre-Dame de Dantzig. Fui considerado respons�vel e at�...</p><p>Sugeriram que o ataque estava previsto e que v�s mesmo t�nheis vendido o tr�ptico?</p><p>Compreendestes. Como hei-de defender-me de uma tal acusa��o? � por isso que tenho tanta necessidade de uma voz a meu favor, sen�o receio nunca mais poder regressar a Floren�a. E esse pensamento � t�o cruel.</p><p>Compreendo-vos melhor do que imaginais. Evidentemente, eu n�o posso fazer nada quanto a esse assunto do quadro roubado, mas posso levar ao conhecimento de monsenhor Louren�o que v�s me prestastes uma ajuda... preciosa. Ali�s, � a verdade.</p><p>N�o pe�o mais nada. Tereis o vosso vestido... e at� espero que me possais permitir que vo-lo ofere�a?</p><p>Fiora franziu o sobrolho. A frase era mais do que desastrada porque, n�o tendo qualquer meio de saber se Portinari era um homem honesto e um grande devoto do Temer�rio ou um simples espertalh�o que, crendo no triunfo do grande duque do Ocidente tra�ra a pol�tica do seu pa�s, n�o queria receber dele qualquer presente. Escreveria a Louren�o, mas, entretanto, interrogaria Agnolo Nardi.</p><p>Certamente que n�o! disse ela secamente. Se quereis que vos ajude, � necess�rio que n�o fique em d�vida convosco. Pelo menos nesse ponto</p><p>Seja como desejais.</p><p>No dia seguinte de manh�, duas jovens, enviadas pela melhor costureira de Bruges, levavam � Ronce Couronn�e aquilo de que Fiora necessitava para se apresentar com dignidade perante a duquesa Maria, ao mesmo tempo que Florent percorria a cidade para encontrar, tamb�m para si, um fato decente. Ao fim da manh�, Fiora, vestida de veludo cor de ameixa salpicado de prata e cetim branco e com um chap�u tamb�m de cetim branco nublado por uma musselina engomada, dirigia-se a cavalo, seguida do seu jovem companheiro, para o pal�cio daquela que julgava sua rival. A jovem ia resoluta e segura de si mesma. A imagem do espelho e a admira��o ing�nua, vis�vel nos olhos das duas jovens enquanto a ajudavam a vestir-se, eram mais do que tranquilizadoras. Fiora podia comparar-se com qualquer mulher, fosse ela coroada e se, por acaso, Philippe se cruzasse no seu caminho, estaria na posse de todas as suas armas. E isso era o mais importante...</p><p>Em caminho, deu a si pr�pria o prazer de admirar Bruges. A cidade era bem constru�da, com belas ruas pavimentadas e numerosos jardins, dando quase todos para um canal e que, por meio de alguns degraus de pedra, desciam quase at� � �gua onde se mirava a folhagem prateada de um salgueiro, o delgado tronco de uma b�tula, ou uns espessos maci�os de verdura ainda demasiado tenros para poderem ser identificados. Surgindo de pontes t�o baixas que parecia imposs�vel pass�-las de outro modo que n�o a nado, grandes barcas fendiam a �gua negra e a espuma esverdeada do lodo. Aquele conjunto de canais, cujo entrela�ado parecia inextric�vel, fascinava a florentina. Punha reflexos ondulados nas fachadas cinzentas de um pal�cio ou nas paredes nacaradas de um convento novo. Aquele sussurrava junto de um pequeno muro onde dormia um gato, aquele outro deixava divagar uma barca mal atracada, este repousava numa confus�o de cani�os onde ca�ava um peixe-gato. Tudo aquilo falava de paz e do�ura de viver e, no entanto, Bruges, constru�da para ser uma cidade feliz, era uma cidade turbulenta que, nos seus dias de agita��o, se parecia com a pr�pria Floren�a...</p><p>A Prinzenhof a Corte do Pr�ncipe formava um grande quadril�tero onde se inscrevia o pal�cio, a capela com um grande campan�rio, os jardins e, bem entendido, as depend�ncias. Passada a discreta entrada encimada por uma est�tua da Virgem rodeada de anjos, o p�tio de honra abria-se, rodeado de galerias e precedendo imediatamente os aposentos reais constru�dos em tijolos vermelhos e alvenaria branca, tal como la Rabaudi�re.</p><p>Aquela semelhan�a encorajou Fiora. Passada a paragem obrigat�ria no corpo da guarda onde um sargento, impressionado pelo porte da visitante, correu para advertir um camareiro, ela esperou pacientemente enquanto observava o que se passava no p�tio. Com efeito, estavam ali reunidas algumas equipagens. Os palafreneiros conduziam cavalos ricamente ajaezados e surgiam um pouco de toda a parte senhores e damas em traje de ca�a, ao mesmo tempo que os falcoeiros conduziam, na ponta dos punhos enluvados de couro grosso, falc�es, abutres e gavi�es encapuzados de veludo bordado a ouro ou prata. As pessoas chamavam-se alegremente de longe em voz alta, saudavam-se, riam, conversavam e o vasto espa�o enchia-se de sons e alegria.</p><p>Cheg�mos em m� altura sussurrou Florent. O pr�ncipe prepara-se para partir para a ca�a.</p><p>Sem d�vida, mas n�o � com o pr�ncipe que me quero encontrar, � com a princesa.</p><p>Talvez ela tamb�m v� � ca�a?</p><p>� poss�vel.</p><p>O sargento estava de volta, escoltado por um camareiro muito agitado. Ofegante, tamb�m e que mal saudou a visitante:</p><p>Este homem compreendeu bem? Sois a senhora condessa de Selongey?</p><p>Sou. � assim t�o extraordin�rio?</p><p>Bem, sobretudo, � inesperado. A senhora duquesa vai partir para a ca�a e...</p><p>E n�o me pode receber. Apresentai-lhe, por favor, as minhas desculpas, mas n�o penso retard�-la durante muito tempo. Uma curta entrevista, � tudo o que desejo.</p><p>N�o pod�eis... protelar para mais tarde?</p><p>Lamento insistir, mas s� fico em Bruges algumas horas e venho de longe...</p><p>O camareiro estava com um ar muito infeliz. Talvez se tivesse demorado ainda mais um instante se uma dama de uma certa idade, magnificamente vestida, n�o aparecesse por sua vez, erguendo com as duas m�os, para poder andar mais depressa, a saia de espesso tafet� verde-escuro com ramagens cinzentas e douradas. A sua chegada pareceu aliviar o camareiro:</p><p>Ah! Madame d�Hallwyn! � Sua Senhoria que vos manda?</p><p>Naturalmente! Pareceu-lhe que era indecente fazer esperar, como uma comerciante de moda qualquer, uma dama desta qualidade... se n�o h� qualquer engano!</p><p>Que achais? perguntou Fiora com uma altivez que provocou um ligeiro sorriso nos l�bios da dama-de-companhia. O seu olhar azul j� tinha avaliado a beleza, a eleg�ncia da rec�m-chegada e a distin��o plena de orgulho que anunciava a sua nobre linhagem.</p><p>Que n�o � poss�vel qualquer d�vida. S� uma mulher t�o bela como v�s seria capaz de convencer messire Philippe a casar. Quereis seguir-me? A senhora duquesa espera-vos.</p><p>Atr�s da sua guia, Fiora perdeu o sentido da direc��o. Subiram escadas, seguiram por galerias e vastas salas com as mais belas tape�arias tecidas a ouro que alguma vez vira. Desceram at� um jardim onde um cipreste dominava uma grande quantidade de roseiras. Viram de relance grandes viveiros de p�ssaros e, finalmente, foram dar a uma constru��o isolada por uma parede e cujos vastos telhados e torre�es estavam revestidos de telhas verdes. Por cima flutuavam bandeiras vivamente coloridas. Jardins, p�tios e constru��es fervilhavam de servidores.</p><p>Este pal�cio � imenso! observou Fiora. Muito maior do que me pareceu � primeira vista!</p><p>� por causa da porta, que tem um aspecto fraco, mas o defunto duque Filippe dizia que, tal como a entrada do Para�so, a do seu pal�cio devia ser estreita para maior seguran�a. Eis-nos chegadas: aqui � o pa�o verde, chamado assim por causa da cor do seu telhado. Madame Maria acha o pal�cio demasiado vasto, prefere uma resid�ncia um pouco mais �ntima...</p><p>�ntima, talvez, mas t�o faustosa quanto o resto. Se as guerras do Temer�rio tinham arruinado a sua fam�lia e a Borgonha, n�o parecia naquela casa, onde tudo era de um luxo extremo. Mme. d�Hallwyn gozava, visivelmente, com a surpresa da sua companheira:</p><p>E ainda n�o tivestes ocasi�o de admirar os �balne�rios�. S�o �nicos e encontram-se l�, para al�m das salas de banho, estufas de vapor quente e salas de repouso das mais agrad�veis do mundo. Mas, estamos a chegar.</p><p>Um instante mais tarde, numa galeria amplamente iluminada por umas altas janelas ogivais com vitrais de cores vivas, Fiora saudou profundamente uma jovem alta que devia ter mais ou menos a sua idade. A jovem teve de reconhecer, se bem que n�o lhe provocando qualquer prazer, que era encantadora: magra e graciosa, Maria de Borgonha possu�a uma pele de uma brancura deslumbrante, um nariz pequeno, belos olhos vivos de um castanho ligeiro e uma abundante cabeleira de um belo castanho-dourado que uma coifa de veludo verde e musselina branca segurava mal. Com toda a evid�ncia, devia parecer-se com a sua m�e, aquela Isabel de Bourbon morta quando ela era crian�a e que fora o grande, o �nico amor do Temer�rio. Dele, ela tinha a boca carnuda, marcada por uma ruga de obstina��o e o queixo arredondado e ligeiramente pontiagudo que lhe dava ao rosto um pouco a forma de um cora��o.</p><p>A duquesa olhou por um momento para a jovem meio ajoelhada na sua rever�ncia com uma curiosidade que n�o se deu ao cuidado de dissimular.</p><p>Perguntei a mim mesma muitas vezes se vos veria um dia, Madame disse ela com voz clara. Sois, portanto, a Fiora de Selongey que foi, durante muito tempo, a amiga do meu pai?</p><p>Ref�m seria mais justo, senhora duquesa. N�o foi por minha vontade que segui monsenhor Carlos!</p><p>Levantai-vos! Disseram-me, de facto... no entanto, tivestes a sorte de pertencer ao seu s�quito... at� ao fim.</p><p>Vossa Senhoria pode dizer at� ao �ltimo minuto. Eu vi o duque, na manh� de Nante montar no seu cavalo Moro e afastar-se na bruma na direc��o da sua �ltima batalha. Tive, tamb�m, o privil�gio de assistir ao seu funeral...</p><p>Enquanto ela falava, o rosto um pouco tenso de Maria animou-se, coloriu-se:</p><p>Por que n�o viestes mais cedo? Meu Deus! Teria tantas perguntas para vos fazer, tantas coisas para vos dizer! O meu pai sei-o, estimava a vossa coragem...</p><p>O meu marido nunca exprimiu o desejo de me conduzir at� junto de Vossa Senhoria e n�o escondo que se ergueu entre n�s um grave diferendo. Mas isso, agora, n�o tem import�ncia e como n�o quero retardar a vossa partida para a ca�a...</p><p>� verdade, meu Deus, a ca�a! Madame d�Halwynn ide dizer ao senhor meu marido que parta sem mim. Eu hoje n�o vou � ca�a.</p><p>Mas cortou Fiora n�o � necess�rio o vosso marido privar-se...</p><p>Eu posso ca�ar noutro dia qualquer. Hoje, prefiro falar convosco... a menos que n�o vos importeis de ficar neste pal�cio durante alguns dias?</p><p>N�o, senhora duquesa! Agrade�o-vos, mas se o meu marido n�o se encontra em Bruges, partirei amanh�.</p><p>Maria de Borgonha perscrutou, de novo, o rosto da sua visitante, procurando nele, talvez, o reflexo de uma emo��o que n�o encontrou.</p><p>Vinde comigo! Temos, mesmo, de falar.</p><p>Seguindo a duquesa, Fiora atravessou um grande quarto sumptuosamente mobilado onde duas damas de linhagem, de imediato mergulhadas numa grande rever�ncia, se afadigavam a arrumar roupa branca e toucados e foi ter a uma pequena divis�o revestida a veludo vermelho com gal�es dourados que lhe fez lembrar, em ponto mais pequeno, evidentemente, a faustosa tenda onde vira pela primeira vez o Temer�rio. O mobili�rio compunha-se sobretudo de livros, de uma escrivaninha e, em frente da chamin� em forma de funil, de um banco comprido coberto de almofadas, sobre o qual Maria se sentou, puxando Fiora para junto de si.</p><p>Philippe de Selongey � um homem pouco falador suspirou ela e eu n�o percebi bem a vossa hist�ria, mas como n�o quero for�ar as vossas confid�ncias, dizei-me apenas h� quanto tempo n�o vedes o vosso marido?</p><p>H� dois anos, Vossa Senhoria. A vida compraz-se em nos separar sem cessar e eu tenho sofrido muito. � por isso que quero tanto encontr�-lo.</p><p>Que vos fez pensar que ele estava aqui?</p><p>Monsenhor o grande bastardo Antoine, que encontrei por acaso.</p><p>Um brilho de c�lera atravessou o olhar castanho e a bela boca redonda apertou-se:</p><p>O meu querido tio que, mal o meu pai desceu � terra, se apressou a passar para o lado do meu querido padrinho, o Rei Lu�s! N�s somos, na verdade, uma fam�lia estranha, na qual o padrinho espolia a sua pupila e os �melhores� amigos do meu pai o ajudam nessa tarefa...</p><p>Monsenhor Antoine pensa que o que foi terra de Fran�a deve regressar � terra de Fran�a. � pena que Vossa Senhoria n�o tenha podido casar com o delfim Carlos. Ter�eis sido uma grande rainha...</p><p>Imaginais-me a casar com uma crian�a de oito anos? exclamou Maria, rindo. Evidentemente, � tentador reinar sobre a Fran�a, mas tamb�m serei, pelo menos assim espero, uma boa imperatriz da Alemanha. Dito isto, o que vos disseram � verdade: messire Philippe estava aqui no Natal. Suponho que foi por Mme. de Schulembourg que o grande bastardo soube! Ela � muito amiga da mulher dele...</p><p>Foi ela, de facto. Posso perguntar onde se encontra o meu marido?</p><p>A duquesa levantou-se e deu duas ou tr�s vezes a volta � sala antes de se deter diante de Fiora.</p><p>Como posso sab�-lo? Ele s� c� ficou dois ou tr�s dias. V�s, os Selongey, pareceis incapazes de ficar muito tempo no mesmo s�tio.</p><p>Para onde foi ele?</p><p>N�o sei! E nem sequer percebi o motivo da sua vinda. Dele s� vimos a sua cara � banda! E na �poca das mais belas festas do ano!</p><p>Fiora reteve um sorriso desdenhoso. Aquela princesinha bem se esfor�ava por mostrar que tinha o mesmo sangue fervilhante do Temer�rio e seria o diabo se algu�m duvidasse! Com a sua tez de flor-de-lis, os olhos sonhadores e os vestidos talhados � alem� que lhe achatavam o peito sob um conjunto de bordados dourados e lhe engrossavam a cintura, n�o evocava em nada a lenda tr�gica e grandiosa que aureolava o �ltimo dos duques da Borgonha. Uma cara � banda, na verdade? Esperaria ela que um homem que acabara de sofrer tantas prova��es tivesse um aspecto divertido e estivesse disposto a dan�ar nos bailes da corte?</p><p>Creio, Madame disse ela com amargura que ele vinha em busca de algo imposs�vel. Algo que v�s fostes incapaz de lhe dar.</p><p>E que algo foi esse?</p><p>Amor. Penso que ele ama Vossa Senhoria, que sempre amou e que n�o p�de suportar ver-vos casada e feliz, porque v�s sois feliz, n�o sois, Madame?</p><p>Infinitamente! Tive a felicidade de dar um filho ao meu querido marido e pode ser que, em breve, lhe d� outro.</p><p>� natural. Mas ele, que fez seus durante tantos anos os sonhos do vosso pai, deve ter compreendido que j� n�o havia lugar para esses sonhos! Confesso a minha decep��o, senhora duquesa. Esperava que, pelo menos, o tiv�sseis mandado para longe numa qualquer miss�o.</p><p>Nem pensar. N�s temos tr�guas com o Rei de Fran�a. Que miss�o lhe poderia confiar?</p><p>Creio disse Fiora friamente que monsenhor Carlos, que Deus tenha na Sua santa guarda, teria sabido como utilizar um homem da sua qualidade, um homem que, ao servi�o de Vossa Alteza, chegou a enfrentar o cadafalso. A Borgonha escapou-se-vos, n�o � verdade? Penso que n�o ficareis com nada do que quase foi um reino se n�o souberdes apreciar os vossos servidores. Alguns merecem-no.</p><p>A jovem duquesa, cujo belo rosto ficou vermelho, n�o teve tempo de lhe responder: um jovem de longas pernas e de rosto bastante rude sob uma floresta de cabelos louros cortados em quadrado, � moda germ�nica, acabava de fazer a sua entrada impetuosa e dirigia-se para Maria.</p><p>Que me dizem, meu cora��o? Renunciais � ca�a? Quereis privar-me da vossa companhia? Que capricho � esse?</p><p>N�o � um capricho, meu querido senhor. Desejava receber a dama que vedes aqui. � a mulher do conde de Selongey.</p><p>Compreendendo quem estava na sua frente, Fiora saudou o filho do imperador Frederico como devia ser. Este concedeu-lhe um grande sorriso de aprecia��o:</p><p>Bom dia, Madame. O vosso marido, na verdade, tem mais sorte do que a que merece, porque v�s sois muito bela! Mas, se o permitis, levo a duquesa, porque n�o sei ca�ar sem ela. Tereis todo o tempo para conversar quando regressarmos...</p><p>� in�til, monsenhor disse Fiora. A senhora duquesa disse-me tudo o que eu esperava ouvir dela.</p><p>O sorriso de Maximiliano tornou-se maior ainda, se poss�vel. Pegando na m�o da sua mulher, ele conduziu-a na direc��o da porta.</p><p>�ptimo, ent�o! Depois de amanh� damos um baile. Vinde dan�ar ao pal�cio nessa noite! Dou-vos as boas-noites, senhora condessa.</p><p>O casal desapareceu e Fiora viu-se s� na companhia de Mme. d�Hallwyn, reaparecida ao mesmo tempo que o pr�ncipe. A despeito do calor �ntimo daquela pequena sala confort�vel e acolhedora, a jovem sentia-se gelada at� aos ossos e permaneceu por um instante im�vel, contemplando as chamas que subiam ao assalto dos c�es de ferro forjado. A dama-de-companhia tossicou:</p><p>Posso reconduzir-vos, Madame? Pelo menos at� ao jardim?</p><p>Por que at� ao jardim? murmurou Fiora, surpreendida. Por que n�o at� � entrada?</p><p>Porque no jardim est� algu�m que deseja muito falar-vos... e que se encarregar� de vos conduzir � porta.</p><p>Quem?</p><p>Mme. de Schulembourg. Ela viu-vos chegar, h� bocado...</p><p>Fiora fez sinal de que compreendera. A jovem pensara procurar aquela dama ao chegar a Bruges, mas uma entrevista com a duquesa parecera-lhe mais importante e mais urgente. Perante o resultado med�ocre dessa entrevista, talvez fosse bom conhec�-la sem demora. Enquanto, atr�s de Mme. d�Hallwyn, a jovem descia na direc��o dos canteiros do jardim, chegou-lhe aos ouvidos o eco alegre da partida para a ca�a: o som das trompas, os latidos dos c�es e os gritos dos monteiros que se foram, pouco a pouco, fundindo com o barulho da cidade. Fiora pensou que, na verdade, seria imposs�vel perder um imp�rio com mais alegria. Para aquele casal de apaixonados, destinado a usar a coroa de Carlos Magno, n�o podia haver lugar para a amarga nostalgia dos combatentes do imposs�vel...</p><p>Que vos disseram? perguntou uma voz ansiosa e a jovem apercebeu-se que tinha trocado de companhia, encontrando-se ao lado de uma mulher de idade, agasalhada como em pleno Inverno com roupas de veludo e raposa negra, uma mulher que se apoiava numa bengala e cujos olhos claros a envolveram num olhar de compaix�o.</p><p>A jovem esfor�ou-se por lhe sorrir sem o conseguir.</p><p>Nada que monsenhor Antoine n�o saiba j�: que o meu marido esteve aqui por ocasi�o do fim do ano. Ah! Sim! A senhora duquesa quis dizer-me que ele ficou pouco tempo, que o seu aspecto sombrio era chocante numa �poca de festa e que partiu sem dizer para onde ia.</p><p>Pobre crian�a! � muito pouco... Caminhemos um pouco, sim? E dai-me o vosso bra�o...</p><p>As duas damas deram alguns passos ao longo de uma alameda admiravelmente saibrada, afastando-se dos jardineiros que, nos seus canteiros, desbastavam os arbustos.</p><p>N�o vos falaram na disputa, pois n�o?</p><p>Uma disputa? Entre Philippe e...</p><p>E o arquiduque Maximiliano! Este encontrou o vosso marido de joelhos diante de Madame Maria. Ficou furioso e exigiu que partisse sem ouvir, sequer, a menor explica��o. Mas o conde n�o � daqueles que se deixam expulsar assim sem mais nem menos. Antes de partir, batendo com a porta, disse ao pr�ncipe que era indigno de ser o genro do defunto duque Carlos e que preferia morrer a servir um tal senhor. Depois, limitou-se a sair e, se n�o foi detido, foi unicamente devido aos pedidos da princesa.</p><p>Mas Fiora s� retivera as primeiras palavras de Mme. de Schulembourg, que confirmavam dolorosamente o que pensava: Philippe amava a princesa e ousara dizer-lho. Ali�s, esta n�o protestara quando, pouco antes, Fiora lhe dissera o que pensava dos sentimentos de Philippe.</p><p>Consciente do sil�ncio que acabava de cair entre ela e a sua companheira, a jovem reprimiu as l�grimas:</p><p>Como � estranho, na verdade! disse ela com uma voz que se esfor�ou por manter firme. Eu vi o pr�ncipe e ele foi... muito am�vel. At� me convidou para o baile de depois de amanh�.</p><p>A velha dama desatou a rir:</p><p>N�o vos espanteis! Isso � mesmo dele! Aquele homem n�o consegue seguir duas ideias ao mesmo tempo. Al�m disso, l� por se mostrar apaixonado pela sua duquesasinha, n�o quer dizer que n�o seja sens�vel ao encanto feminino. A ideia de dan�ar com a mulher de um homem que ele considera doravante seu inimigo, deve parecer-lhe agrad�vel. Acrescentai a isso que ele adora rir e dar festas...</p><p>Seja, admito-o, mas, por que raz�o Madame Maria n�o me disse nada?</p><p>Receou, sem d�vida, que lhe ped�sseis explica��es, o que a teria embara�ado. Al�m disso, arriscava-se a acordar de novo a c�lera de um marido que ela ama de todo o cora��o. V�-lo feliz a seu lado e do jovem pr�ncipe Philippe � o que mais deseja. Ent�o, tudo o que se possa meter entre essa felicidade tranquila... </p><p>N�o esque�ais que ela n�o conheceu uma verdadeira vida familiar. N�o era f�cil ser a herdeira mais rica da Europa...</p><p>A heran�a desapareceu disse Fiora secamente e ela n�o parece muito preocupada. Na verdade, pergunto a mim pr�pria por que raz�o me recebeu?</p><p>E a curiosidade, que � feito? Como resistir � vontade de conhecer a misteriosa dama de Selongey, a florentina de quem diziam maravilhas e que o Temer�rio arrastava consigo de batalha em batalha como uma rainha cativa? Estou certa que neste momento tendes os ouvidos a zumbir, n�o � verdade?</p><p>Um pouco, mas n�o tem import�ncia...</p><p>Em que pensais?</p><p>Na sorte de Philippe. No que lhe aconteceu. H� meses que o procuro e ele parece fugir diante de mim. V�s, que o vistes, a quem ele falou, n�o me podeis dizer para onde ia quando saiu de Bruges?</p><p>Mme. de Schulembourg olhou para a jovem com profunda compaix�o. Depois de a ter levado a conhecerem-se, a sua simpatia por aquela bela criatura, em quem adivinhava uma coragem que sempre apreciara, crescia de instante a instante:</p><p>Se eu soubesse suspirou ela j� vo-lo teria dito. Se estais decidida a prosseguir a vossa busca, � na direc��o da Borgonha que deveis dirigir os vossos passos.</p><p>Achais que ele voltou para l�? Seria uma loucura, porque foi um milagre ele ter escapado ao cadafalso e, pelo que sei, o Rei Lu�s tem a regi�o toda na m�o. Dizem que at� o Franco-Condado, esse �ltimo basti�o, tamb�m caiu.</p><p>Sem d�vida, mas a Borgonha ocupada pelas tropas francesas est� cravada no cora��o do conde de Selongey como um espinho que n�o cessa de sangrar.</p><p>A despeito da lentid�o, os passos das duas mulheres tinham-nas conduzido at� ao alpendre que abria para as galerias do p�tio de honra agora quase vazio.</p><p>Posso pedir-vos um conselho? pediu Fiora. Que far�eis no meu lugar?</p><p>Se quereis mesmo encontr�-lo, ou, pelo menos, descobrir-lhe o rasto, � preciso ir a Selongey. Um homem desamparado procura sempre reencontrar as suas ra�zes, a sua casa paterna...</p><p>Eu pensei nisso, claro, mas o sire de La Tr�moille deve ter o castelo vigiado.</p><p>Ele j� n�o � o governador da cidade, � messire d�Ambroise, que � infinitamente mais conciliador. Mas, onde viveis v�s?</p><p>Em Touraine. E se ele tivesse ido ter comigo, eu n�o estava aqui � procura dele. Passou-se muito tempo desde o Natal...</p><p>Nesse caso, ide � Borgonha e come�ai por Selongey! Espantar-me-ia muito se n�o encontr�sseis l�, pelo menos, um ind�cio. Dito isto, tereis muita dificuldade em encontrar o vosso marido, porque ele deve estar escondido. E ides correr perigos, talvez in�teis. No fundo, o mais sensato seria regressardes a casa e esperar...</p><p>O qu�? Que ele volte? Ele n�o volta.</p><p>Nesse caso, por que essa obstina��o? Se, ao menos, tiv�sseis filhos!</p><p>Eu tenho um filho! disse Fiora, que acrescentou com amargura: Deus sabe que n�o pass�mos muito tempo juntos, mas este casamento insensato foi aben�oado com uma crian�a. Simplesmente, Philippe ignora-o.</p><p>Ent�o, tendes de lho ir dizer. Procurai-o, encontrai-o, mas se as vossas buscas forem infrut�feras, regressai para junto do vosso filho para que ele n�o fique �rf�o. Deus vos guarde, minha querida! Rezarei por v�s!</p><p>Puxando Fiora para o seu vasto rega�o, Mme. de Schulembourg abra�ou-a, tra�ou com o dedo na sua testa uma pequena cruz e depois, apertando contra si o seu manto forrado, retomou, claudicante, o caminho do jardim. Fiora viu-a afastar-se e ap�s um �ltimo olhar para aquele pal�cio espl�ndido constru�do para os Grandes Duques do Ocidente, mas que j� n�o era sen�o o cen�rio vazio de uma grandeza defunta, foi ter com Florent, que a esperava passeando os cavalos no p�tio.</p><p>Desde a sua partida que Fiora acostumara o jovem ao sil�ncio. Sem ousar question�-la quando a viu regressar com os olhos cheios de l�grimas dificilmente contidas, ele compreendeu que a jovem tinha pressa de abandonar aquela resid�ncia principesca onde alimentara tantas esperan�as. Sen�o, por que aquela magn�fica toillette? O jovem apressou-se a ajud�-la a subir para a sela e colocou suavemente as r�deas entre as suas m�os enluvadas. Saltando para a sua pr�pria montada, precedeu a jovem para que lhe abrissem a porta, afastou-se para lhe dar passagem e seguiu-a. Quando chegaram defronte da Ronce Couronn�e, viu que umas grossas l�grimas lhe corriam silenciosamente pelo rosto desprovido de express�o. Elas transbordavam dos grandes olhos cinzentos extremamente abertos e ca�am uma a uma, seguindo o desenho delicado dos tra�os da face. Era mais do que podia suportar.</p><p>Isto tem de acabar! resmungou ele. Ajudando Fiora a p�r p� em terra, o jovem chamou um palafreneiro, ordenou-lhe que tratasse dos animais e depois, segurando no bra�o da jovem que n�o op�s resist�ncia e que parecia entorpecida, conduziu-a at� ao quarto, entrou, f�-la sentar-se, foi fechar a porta e regressou para se ajoelhar perante ela, segurando entre as suas as duas m�os que lhe pareceram frias como gelo:</p><p>Donna Fiora! pediu ele. Pensava que t�nheis confian�a em mim.</p><p>Como que saindo de um sonho, ela pousou no jovem um olhar que n�o via:</p><p>Eu tenho confian�a em v�s, Florent disse ela com voz neutra. Por que me perguntais isso?</p><p>Porque me parece ter-me tornado para v�s, n�o s� um estranho, mas tamb�m uma esp�cie de m�vel. Desde que sa�mos de Beaugency que parece que n�o me vedes. Fart�mo-nos de correr, corremos perdidamente para chegar aqui, sem que vos dign�sseis explicar-me as vossas inten��es.</p><p>E tem mesmo de ser?</p><p>N�o, se n�o passo, para v�s, de um criado, mas v�s sabeis a que ponto vos sou dedicado e recuso-me a deixar-vos sofrer sozinha e em sil�ncio. Se a sra L�onarde estivesse aqui nunca lamentei tanto que n�o esteja! tamb�m teria direito a esse mutismo? N�o, n�o � verdade? Dir-lhe-�eis tudo... Oh! Eu sei que n�o a posso substituir, mas dizei-me, ao menos, como posso ajudar-vos, como tornar-vos menos infeliz, porque � evidente que vos sentis muito infeliz!</p><p>Fiora acenou com a cabe�a e, com um dedo, acariciou levemente a face do jovem:</p><p>Que vos poderia dizer, quando eu pr�pria n�o sei o que hei-de fazer? Levantai-vos, Florent. e ide buscar-me qualquer coisa para eu beber, mas cerveja n�o, pe�o-vos. Trazei-me vinho e depois, juntos, tentaremos arranjar um plano, tomar uma decis�o...</p><p>N�o vamos regressar a casa?</p><p>N�o me parece. Pelo menos para j�.</p><p>Para onde vamos?</p><p>Para a Borgonha. J� � tempo, talvez, de eu ir a Selongey. Passei por l�... oh, s� por instantes, quando vim de Floren�a, h� quatro anos.</p><p>Nunca mais l� voltastes?</p><p>N�o. � estranho, n�o �, ter um nome, um t�tulo, e n�o saber nada, ou quase nada do que eles escondem?</p><p>Uma hora mais tarde, estimulados pelo calor de um excelente vinho de Beaune, Fiora e Florent decidiam, de comum acordo, que se impunha uma visita a Selongey.</p><p>� o �nico s�tio onde ir afirmou o jovem porque �, creio, o �ltimo ref�gio poss�vel para o vosso marido.</p><p>Os homens do Rei vigiam, sem d�vida, o castelo!</p><p>Talvez, mas resta a aldeia e toda a regi�o em redor. Se messire Philippe � amado l�...</p><p>Creio que sim. Pelo menos, foi o que me disse L�onarde, que � daquelas bandas...</p><p>Confesso-vos que n�o compreendo por que raz�o ainda n�o estamos a caminho! Nem por que pareceis t�o desamparada!</p><p>� dif�cil de explicar, Florent, mas tenho a impress�o de correr atr�s de uma sombra...</p><p>A jovem n�o acrescentou que estava cansada daqueles caminhos, pequenos ou grandes, nos quais hipotecava a esperan�a e que n�o iam dar a parte nenhuma, sen�o a um pouco mais de decep��o, a um pouco mais de desgosto; de todos aqueles caminhos sem sa�da que lhe tinham marcado a vida. Tinha de seguir ainda mais um, mas para saber o qu�, � chegada? Que Philippe nunca a amara e que a sua vida de mulher terminava antes mesmo de ter come�ado?</p></section></section><section><title><p>Terceira parte</p><p>A JUSTI�A DO REI</p></title><section><title><p>CAP�TULO X</p><p>O T�MULO DO TEMER�RIO</p></title><p>Foi em Saint-Dizier que Fiora decidiu mudar de caminho.</p><p>No albergue onde ela e Florent faziam etapa e onde tomavam a refei��o da noite na grande cozinha como os simples companheiros de viagem que eram, tendo decidido usar de novo o fato masculino, a jovem interessou-se pela conversa de uns mercadores da Lorena que iam a caminho de Troyes. Aqueles homens, enquanto satisfaziam as exig�ncias dos seus robustos apetites, cobriam de louvores o jovem duque Renato II de Lorena que, depois da batalha de Janeiro de 1477, onde o Temer�rio encontrara a morte, se esfor�ava por reconstruir Nancy, por relan�ar o com�rcio e por promulgar as melhores leis no sentido de tentar curar os cru�is ferimentos sofridos pela cidade</p><p>Nunca nenhum pr�ncipe dizia um deles foi mais esmoler e mais generoso, enquanto vive com a fam�lia num pal�cio do qual s� resta uma parte. Mas a cidade est� antes do pal�cio. O pr�ncipe tamb�m se esfor�a por ajudar os conventos, dos quais alguns sofreram muito, a recome�ar a vida.</p><p>N�o tem de se preocupar muito com os c�negos da colegial de Saint-Georges. Esses continuam gordos disse o outro.</p><p>Mas preocupa-se com os beneditinos que continuam no priorado de Notre-Dame. Eles est�o encarregues de rezar pelos mortos das guerras borgonhesas, o que n�o d� de comer a ningu�m.</p><p>Eles tamb�m rezam pela alma pecadora do Temer�rio que, esse, bem precisa de ora��es por todo o mal que fez.</p><p>Dizem que monsenhor Renato vai muitas vezes recolher-se � tumba dele, onde ardem velas dia e noite. S�o os monges de Notre-Dame que est�o encarregues da sua manuten��o, mas parece que o duque tenciona fundar um convento de franciscanos cuja capela ser� a sua pr�pria sepultura e a dos seus descendentes. Ele n�o quer ser enterrado perto do seu inimigo.</p><p>Compreendo-o, mas n�o seria mais simples mandar o borgonh�s para Dijon?</p><p>Para acordar os entusiasmos? � melhor que, depois de morto, o Temer�rio fique aqui como prisioneiro!</p><p>N�o sei se ser� uma boa solu��o. Vem gente de toda a parte para ver o t�mulo dele. Dentro em pouco ser� palco de peregrina��es.</p><p>Os dois homens acabaram a refei��o e sa�ram ap�s uma sauda��o aos presentes. Fiora seguiu-os com os olhos e depois chamou o estalajadeiro com um gesto:</p><p>� longe, daqui a Nancy? perguntou ela.</p><p>Umas vinte l�guas. N�o � grande coisa para as pernas de um cavalo, meu jovem senhor. Tamb�m quereis ver a tumba do duque Carlos?</p><p>Talvez...</p><p>E como Florent, surpreendido, a olhasse de olhos muito abertos, ela sorriu-lhe gentilmente:</p><p>Creio disse-lhe ela que vamos fazer um desvio por Nancy No fim de contas, n�o temos assim tanta pressa.</p><p>Quereis mesmo regressar a Nancy? perguntou o jovem, espantado. No entanto, nunca fostes muito feliz, l�.</p><p>Na verdade, quando L�onarde e ele pr�prio, guiados por Mortimer, tinham ido ter com Fiora � capital da Lorena quando ainda nas m�os do Temer�rio, tinham encontrado Fiora, n�o apenas prisioneira do duque, mas tamb�m ferida e num triste estado.</p><p>Quando fostes ter comigo, eu n�o o era, de facto, mas logo depois da morte do duque, conheci tr�s dias de felicidade. N�o � muito, tr�s dias, mas ainda hoje me s�o infinitamente preciosos. Al�m disso, vive l� uma pessoa a prop�sito de quem, em</p><p>1 Ver Fiora e Carlos, o Temer�rio</p><empty-line/><p>Roma, fiz uma promessa. Confesso que me tinha esquecido dessa promessa, mas como estamos perto, seria imperdo�vel n�o a cumprir.</p><p>A jovem calou-se. Florent compreendeu que ela n�o diria mais nada e n�o lhe fez mais perguntas, sabendo que n�o responderia. O jovem contentou-se em escoltar a jovem at� ao seu quarto e em lhe desejar boas-noites. No dia seguinte, em vez de continuarem para Joinville e Chaumont, os dois viajantes viraram para leste e dirigiram-se a Nancy.</p><p>Um pouco mais de dois anos n�o eram suficientes para curar as inumer�veis feridas sofridas pelo ducado da Lorena, e os vest�gios eram numerosos ao longo do caminho: aldeias incendiadas onde algumas casas cobertas de colmo novo surgiam corajosamente das ru�nas, castelos meio destru�dos, abadias ou priorados transformados em estaleiros onde os monges, em cima de escadas e de mangas arrega�adas, trabalhavam com colheres de pedreiro, com picaretas ou plainas; caminhos de tal modo danificados pelas carro�as militares que a erva, tal como depois da passagem dos cavalos de �tila, n�o crescia e, nos campos, demasiadas mulheres substituindo os homens que n�o regressariam nunca mais. Demasiadas cruzes novas, tamb�m, nos cemit�rios ou at� nos caminhos, onde os soldados sem nome tinham ca�do, amigos ou inimigos. No entanto, sob o sol da Primavera, toda aquela gente a trabalhar e os campos de novo semeados falavam de esperan�a e provavam a coragem de um povo.</p><p>A vista de Nancy tamb�m foi reconfortante. Tinham tapado as trincheiras cavadas pelos Borgonheses e nos bairros que tanto tinham sofrido, assim como nas muralhas, trabalhavam numerosos oper�rios. Apesar dos graves e evidentes danos sofridos por uma cidade que se tinha batido at� ao limite das suas for�as e at� � vit�ria, sob o c�u azul salpicado de pequenas nuvens brancas viam-se brilhar os telhados em tempos arrombados. Sobre as muralhas, os soldados de vigia mostravam as suas armas cintilantes, contrastando com as fei��es tranquilas de homens que sabem n�o ter nada a temer: nenhum inimigo voltaria a descer das alturas de Laxou, ou de Max�ville, nenhum acampamento gigantesco estenderia de novo os seus pavilh�es sumptuosos, dominados por um grande estandarte violeta, negro e prateado. Os rebanhos, que n�o voltariam a ser dizimados, pastavam tranquilamente nos prados e o lago de Saint-Jean, perto da sua comendadoria em ru�nas, estava purificado dos cad�veres que ali tinham sido semeados.</p><p>A cidade estava bem guardada. Os dois viajantes aperceberam-se disso quando, ao passarem pela porta de la Craffe, que se abria para a rua principal de Nancy, foram detidos pelo corpo da guarda. Um grande diabo, armado at� aos dentes, perguntou-lhes o que vinham fazer � cidade.</p><p>Uma peregrina��o respondeu Fiora. Vimos rezar ao t�mulo do �ltimo duque de Borgonha. � proibido?</p><p>N�o, n�o... Mas cada vez vem mais gente como v�s. Sois da Borgonha, claro?</p><p>Quase. Eu sou a condessa de Selongey e monsenhor Renato conheceu bem o meu marido. A mim tamb�m, ali�s, mas n�o pretendo obrig�-lo a receber-me. Desejo, apenas, ir rezar ao t�mulo...</p><p>Onde contais ficar?</p><p>N�o sei. N�o havia muitos albergues quando o duque Renato reconquistou a cidade, mas suponho que exista um ou dois?</p><p>Sim. Mas, se estivestes aqui por ocasi�o do cerco, conheceis algu�m?</p><p>Aquele interrogat�rio come�ava a irritar Fiora, j� fatigada, da viagem. Ainda por cima porque, enquanto a interrogavam, outras pessoas, que parecia terem percorrido um longo caminho, entravam sem que ningu�m lhes perguntasse fosse o que fosse.</p><p>Que significam todas essas perguntas? perguntou ela com altivez. Se vos inspiro qualquer d�vida, mandai um daqueles homens que est�o al�m a jogar tranquilamente aos dados ao pal�cio para perguntar se posso ir � colegial de Saint-Georges! Disse-vos o meu nome e isso j� � uma grande concess�o.</p><p>O problema � que � dif�cil acreditar em v�s. Pareceis um rapaz e dizeis que sois... como dissestes?</p><p>A condessa de Selongey Viajo vestida de homem porque � mais c�modo, mas se n�o acreditais em mim...</p><p>A jovem tirou o capuz que lhe tapava a cabe�a, deixando cair sobre os ombros uma grande massa de cabelos negros e brilhantes, para a qual o homem olhou com interesse.</p><p>Chega-vos? Poucos homens possuem, parece-me, cabelos assim t�o longos?</p><p>Sim, sim disse o outro, teimoso mas � justamente o assunto que vos traz aqui que � cada vez menos claro! Uma mulher vestida de homem! Onde j� se viu?</p><p>Em muitos s�tios, mas, aparentemente, v�s n�o sois loreno?</p><p>N�o sou loreno, eu, que nasci em Toul?</p><p>Nunca ouvistes falar de Jehanne Ia Pucelle? Domr�my n�o fica assim t�o longe... A essa nunca a viram de saias!</p><p>Sim, sim! disse o soldado, que devia gostar muito daquele adv�rbio mas ela andava na guerra, ela... ao passo que v�s pod�eis ser uma espia, o que n�o me espantaria muito!</p><p>Nunca mais acabamos com isto! soprou Florent, farto. Fiora n�o tencionava deixar-se deter por um militar de ideias curtas. Entrando na casa da guarda, a jovem avistou papel e um tinteiro com uma pena em cima de uma mesa. Sentando-se de trav�s num tamborete, escreveu algumas linhas que assinou antes de as entregar ao porteiro:</p><p>Fazeis-me o favor disse ela suavemente de levar isto ao pal�cio que est� a dois passos e que eu conhe�o bem por l� ter vivido? Espero aqui a resposta!</p><p>Indeciso, o guarda virava e revirava a folha de papel nos dedos quando um homem j� idoso, elegantemente vestido com um traje vermelho-escuro por baixo de uma grande capa atirada negligentemente para cima dos ombros, entrou na casa da guarda:</p><p>Sargento Gachet disse ele venho prevenir-vos de que estou � espera de um carregamento de ard�sia que encomendei a meias com messire de Gerbevillers, bailio da Lorena, e que espero que o deixeis passar com mais facilidade do que as minhas farinhas da semana passada.</p><p>Mas � claro, messire Marqueiz, mas � claro! disse o outro j� todo sorrisos e que, n�o fora a armadura, se teria dobrado em dois. Eu estou, bem o sabeis, inteiramente �s vossas ordens...</p><p>Mas o rec�m-chegado j� n�o o ouvia. Olhava para o falso rapaz e, com um grande sorriso no rosto sulcado por pequenas rugas muito finas, estendia os bra�os num gesto de boas-vindas:</p><p>Donna Fiora! Sois mesmo v�s, n�o � verdade?</p><p>Sou mesmo eu, messire Marqueiz exclamou ela, respondendo espontaneamente, tamb�m com os dois bra�os, �quele acolhimento caloroso. Sinto-me muito feliz por vos ver...</p><p>Ides a nossa casa, n�o?</p><p>N�o me atrevo. J� vos estorvei o suficiente, a v�s e a dame Nicole.</p><p>De facto, fora para casa do almotac� e da sua mulher que a jovem fora transportada ap�s o ferimento recebido por ocasi�o do duelo entre Philippe de Selongey e Campobasso. A jovem conhecera ali a melhor das hospitalidades e fora naquela casa que, um ano depois, vivera com Philippe aqueles tr�s dias t�o profundamente arreigados na sua mem�ria. Enquanto isso, o almotac� abria a sua resid�ncia, uma das poucas que tinham ficado de p�, aos despojos do Temer�rio, cujo cad�ver desfigurado e meio devorado pelos lobos fora encontrado nos cani�os gelados do lago de Saint-Jean.</p><p>Sobretudo, n�o digais isso a Nicole! disse o almotac�. Naturalmente, levo-vos comigo! N�o vos esque�ais do meu carregamento, sargento Gachet!</p><p>Certamente, certamente, messire Marqueiz! Ser� como desejais!</p><p>Um instante mais tarde, Fiora subia a rue Neuve pelo bra�o do seu antigo amigo seguida de Florent, que levava os cavalos pela brida. Talvez a jovem tivesse preferido passar despercebida numa cidade que desempenhara um papel t�o grande na sua vida, mas aquele encontro pareceu-lhe mais do que bem-vindo, inesperado, quando soube que o duque Renato estava ausente e que tinha ido a Neufch�teau. A sua carta nunca teria chegado ao seu destinat�rio e teria, provavelmente, ficado indefinidamente na casa da guarda, a menos que o sargento Gachet, ingenuamente, a expulsasse.</p><p>A casa, pr�xima da igreja de Saint-Epvre que, ao contr�rio de muitas outras, n�o sofrera muito com a guerra, ofereceu a Fiora a imagem das suas recorda��es doces e amargas, sem que</p><p>1 Ver Fiora e Carlos, o Temer�rio.</p><empty-line/><p>ela pudesse dizer se as primeiras eram mais importantes do que as segundas. A jovem convalescera ali de uma ferida no ombro, mas tamb�m ali encontrara L�onarde, vinda contra ventos e mar�s para junto do seu �cordeiro� Fora ali que vivera o seu radioso encontro com Philippe, mas tamb�m, infelizmente, a ruptura, a ruptura que n�o cessava de censurar a si pr�pria como a maior falta da sua vida.</p><p>Dame Nicole acolheu-a com tanta naturalidade como se se tivessem separado h� pouco. Aquela grande burguesa, fria e distante, abra�ou-a como se a jovem fosse sua pr�pria irm� e Fiora concluiu que era realmente bem-vinda. No entanto, quando a sua anfitri� abriu diante dela a porta do quarto de onde ela tinha sa�do, numa manh� de Janeiro, envolta num len�ol como uma rainha do teatro, ela desatou a solu�ar.</p><p>Confusa, Nicole Marqueiz passou-lhe um bra�o em redor dos ombros e quis abra��-la:</p><p>Perdoai-me! murmurou ela. Eu dou-vos outro quarto...</p><p>N�o... n�o, pe�o-vos! N�o fa�ais isso! disse Fiora, esfor�ando-se por reprimir as l�grimas. Isto passa j�, � bom para mim recordar assim o passado, mesmo que seja um pouco cruel. De facto, � uma peregrina��o ao passado que me traz hoje a Nancy</p><p>N�o me ides dizer que tamb�m vindes em peregrina��o ao t�mulo do defunto duque Carlos?</p><p>N�o de todo, mas tamb�m um pouco. Lembrais-vos do jovem Battista Colonna, o pajem que me impuseram como guarda?</p><p>E que gostava tanto de v�s? Lembro-me perfeitamente, tanto mais que ele nunca mais saiu da nossa cidade, tendo entrado para o Priorado de Notre-Dame...</p><p>Sabeis se ele pronunciou os votos definitivos?</p><p>� dif�cil saber o que se passa num convento de beneditinos, mas, na ocorr�ncia, n�o me parece. � verdade que os monges s�o menos numerosos do que antes da guerra, mas se esse rapaz tivesse recebido a investidura, deixaria de poder sair do priorado, Ora, ele vai rezar todas as manh�s � colegial com dois ou tr�s companheiros, e vela no sentido de que os curiosos que v�m ao t�mulo n�o causem qualquer dano � colegial. Os c�negos, que n�o gostam muito de fazer esse tipo de guarda, ficaram muito felizes por eles se terem oferecido. Se quiserdes v�-lo, ide a Saint-Georges ouvir a primeira missa. Encontr�-lo-eis de certeza.</p><p>No dia seguinte, com a cabe�a envolta num v�u escuro, Fiora foi � missa da madrugada. Antes de se ajoelhar diante do altar-mor, procurou com os olhos o t�mulo ducal e viu-o onde Nicole lhe disse que estaria: uma grande laje gravada e ligeiramente sobrelevada diante da capela de S�o Sebasti�o. Alguns</p><p>c�rios, acesos, sem d�vida, pela piedade de antigos soldados, flanqueavam-no como uma guarda brilhante e, sobre o t�mulo propriamente dito, ardia uma l�mpada de azeite. N�o havia ali ningu�m, mas quando, terminada a missa, Fiora se virou de novo naquela direc��o, viu uma figura delgada, vestida de burel branco, ajoelhada diante do t�mulo e rezando fervorosamente com o rosto entre as m�os. Pousado ao lado do jovem monge estava o frasco de azeite com o qual ele renovara a provis�o de azeite da l�mpada.</p><p>Fiora aproximou-se sem fazer ru�do. Aquele que rezava era maior do que a recorda��o que tinha do seu antigo pajem, mas Battista devia ter uns dezassete anos e ela n�o tinha a certeza se seria ele.</p><p>Baixando as m�os, ele inclinou-se para beijar a pedra e foi quando ele se endireitou que a jovem lhe pousou uma m�o no ombro:</p><p>Battista! murmurou ela. Podemos falar por uns instantes?</p><p>Ele teve um sobressalto, como se tivesse sido picado por uma vespa e levantou-se t�o depressa que prendeu os p�s no h�bito e quase caiu. Fiora, amparando-o, sentiu o seu cora��o apertar-se face �quele rosto jovem que ela conhecera t�o alegre, t�o aberto, tamb�m t�o belo, mas que dois anos de penit�ncia tinham sulcado, empalidecido, envelhecido. A voz tamb�m n�o era a mesma quando ele exclamou:</p><p>Donna Fiora!... Que fazeis aqui?</p><p>� a v�s, meu amigo, que � preciso fazer essa pergunta. Que vos deu para vos enterrardes vivo aqui, em vez de regressardes a casa, em Roma, onde se encontra toda a vossa fam�lia?</p><p>Eu decidi dedicar a minha vida ao servi�o de monsenhor Carlos e continuo a servi-lo, muito simplesmente.</p><p>Ele, onde est�, j� n�o precisa de v�s.</p><p>Que sabeis v�s? Ali�s, n�o estou s�: olhai para aquele t�mulo, ali ao lado! � o de Jean de Rubempr�, que foi governador de Nancy ao seu servi�o e cujo corpo foi encontrado n�o muito longe do dele. A piedade do duque Renato, que � um verdadeiro cavaleiro, quis que ele ficasse rodeado pelos seus homens: os outros repousam no cemit�rio da cidade e alguns at� est�o no do nosso priorado.</p><p>Portanto, tenho raz�o. Uma sombra guardada por outras sombras, ao passo que em Roma...</p><p>Roma n�o passa de uma cloaca! lan�ou o jovem com uma viol�ncia s�bita. E agora deixai-me, donna Fiora! Tenho de voltar para os meus deveres...</p><p>Mas...</p><p>A jovem n�o teve tempo de dizer mais nada: erguendo o h�bito, Battista desatou a correr atrav�s da igreja e desapareceu como se o diabo lhe fosse no encal�o. Estupefacta com aquela s�bita reac��o, Fiora ficou a ver aquela fuga desvairada, quase se lan�ou em sua persegui��o, mas renunciou. A jovem ajoelhou-se por sua vez diante da laje e rezou pelo repouso daquele que tanto odiara, mas a cujo encanto, como tantos outros, se submetera, ao ponto de ter aceitado a sua amizade e chorado a sua morte com o cora��o vazio de qualquer rancor. Via-o tal como lhe aparecera pela �ltima vez, na manh� do �ltimo combate: um cavaleiro dourado em cujo elmo assentava um le�o erguido nas patas traseiras, desaparecendo lentamente na bruma gelada de Inverno e erguendo o bra�o num gesto de adeus. O denso nevoeiro n�o se rasgara para ele sen�o no momento de entrar nas trevas da morte...</p><p>Fiora perguntara muitas vezes a si mesma qual teria sido o futuro do duque Carlos se ele tivesse sobrevivido. Teria ele conseguido encontrar os meios para prosseguir as suas guerras incessantes com uma Borgonha exangue e uma Flandres exasperada? </p><p>Certamente que n�o, mas com os seus �ltimos recursos teria continuado a bater-se, prosseguindo os seus sonhos de hegemonia at� que a morte o apanhasse e, com ele, os seus �ltimos fi�is cavaleiros. No fundo tudo estava bem assim e a grandeza tr�gica da sua morte devia satisfaz�-lo. Mas n�o era justo que uma crian�a ficasse prisioneira daquele drama e da aur�ola fascinante conferida pelas lendas.</p><p>Fiora decidiu que ainda n�o tinha acabado com Battista. Saindo da igreja, dirigiu-se � pra�a de la Halle e, detendo um passante, perguntou-lhe o caminho do priorado de Notre-Dame. O homem contentou-se em indicar-lhe uma rua ao fundo da qual, de facto, se via uma capela cujo campan�rio fora reduzido a metade por uma bala de canh�o.</p><p>A entrada do convento fazia-se pela abside da igreja e Fiora tocou a uma campainha que pendia de uma velha e rude porta coura�ada e cravada de ferro como a entrada de uma pris�o e com um postigo gradeado a meio. � figura gorda que apareceu, a jovem disse que implorava ao padre prior daquela santa casa o favor de uma curta entrevista. O postigo fechou-se e ela teve de esperar longos minutos antes que a porta se entreabrisse para lhe oferecer uma pequena passagem. Do outro lado, o irm�o porteiro, t�o amplo de corpo como de rosto, fez-lhe sinal para que o seguisse e, sem uma palavra, conduziu-a at� uma pequena sala de tecto baixo, h�mida e desprovida de qualquer m�vel. Apenas um crucifixo de madeira negra indicava que n�o se encontravam numa cave. Toda a casa cheirava a salitre e a mofo, mas aquela divis�o, � qual se ia dar descendo alguns degraus, tinha um aspecto miser�vel, que apertou o cora��o da jovem. O encantador Battista, prisioneiro daquele t�mulo h� mais de dois anos, pareceu-lhe um perfeito disparate! Era preciso ter amado muito o Temer�rio para se condenar a si pr�prio �quela lenta destrui��o!</p><p>Ao monge vestido de negro e branco bruscamente surgido sem que ela ouvisse os seus passos, ela exp�s o seu pedido: desejava ter uma conversa, durante alguns instantes, com o jovem novi�o que, no mundo exterior se chamara Battista Colonna:</p><p>Eu venho de Roma disse ela com aprumo e trago para ele uma mensagem da fam�lia.</p><p>A mentira viera-lhe aos l�bios muito naturalmente, pela simples raz�o de que estava pronta a empregar todas as armas para tirar aquela crian�a de um universo sem esperan�a, para o qual n�o podia ter sido criada. Ali�s, seria uma mentira? Ant�nia, que lha entregara, era realmente prima de Battista e pelo amor que lhe votava era-lhe ainda mais chegada...</p><p>N�o me podeis confiar essa mensagem? perguntou o prior, fixando a visitante com uma insist�ncia que esta achou desagrad�vel.</p><p>N�o se trata de uma carta, antes de uma mensagem verbal que deixaria de ter o seu significado se passasse pela vossa voz, Rever�ncia. Perdoai-me a franqueza.</p><p>Mas o religioso n�o tencionava render-se facilmente.</p><p>Uma fam�lia pode ser uma coisa muito vasta. Suponho que, na ocorr�ncia, se trata de um �nico dos seus membros. Dir-me-eis, ao menos, quem �? Compreendeis, minha filha, eu sou o contabilista da alma desse rapaz e n�o desejo ver perturbada uma paz que ele conseguiu com alguma dificuldade apressou-se ele a acrescentar ao ver as sobrancelhas franzidas da jovem.</p><p>Temeis que essa paz seja fr�gil? Se, por�m, � real, profunda, nenhum sinal vindo do mundo dos vivos a poder� ferir. Posso dizer-vos o seguinte: ningu�m, entre os Colonna e digo-vos que a fam�lia � muito grande ningu�m, dizia eu, compreende por que raz�o uma crian�a de quinze anos preferiu ficar aqui, longe dos seus...</p><p>N�s sabemos isso h� muito tempo, Madame. O pr�ncipe Colonna veio aqui em pessoa e Battista recusou-se a v�-lo... Mas suponho que sabeis isso?</p><p>N�o foi ele que me mandou.</p><p>Ent�o, quem foi?</p><p>Com vossa licen�a, Rever�ncia, di-lo-ei a Battista disse Fiora, que come�ava a perder a paci�ncia. Quero falar-lhe e n�o lhe servir� de nada esconder-se por tr�s destas paredes, ou</p><p>Ver Fiora e o Papa Sisto IV</p><empty-line/><p>fugir, como fez h� pouco. Ou, ent�o, � porque j� n�o � aquele que conheci e porque perdeu toda a coragem e, sobretudo, aquela que consiste em olhar a verdade de frente!</p><p>A imponente silhueta do prior pareceu desdobrar-se para deixar ver uma sombra branca: o pr�prio Battista, que devia ter entrado sem que ela se apercebesse e sem fazer mais barulho do que o seu superior.</p><p>� verdade que j� n�o sou o mesmo, donna Fiora, mas n�o aceitarei nunca que me acusem de falta de coragem...</p><p>A despeito da profunda tristeza que reinava naquela pequena sala, Fiora reteve um sorriso. Se conservara o h�bito s�o de escutar �s portas, o jovem Colonna tinha mudado muito menos do que imaginava e talvez ainda houvesse esperan�a.</p><p>Por que fugistes de mim, h� pouco, na igreja? N�s fomos amigos, h� pouco tempo...</p><p>Dev�eis dizer em tempos. Parece-me que foi h� muito tempo...</p><p>Dois anos, Battista. Dois anos contam pouco na vida humana.</p><p>A jovem calou-se, fixando o prior com uma insist�ncia que lhe fez surgir nas faces cavadas duas manchas vermelhas. Compreendendo que ela n�o diria mais nada na sua presen�a, ele decidiu, por fim, retirar-se:</p><p>Estarei na capela, meu filho murmurou ele. Eu vou l� rezar para que o Senhor afaste de v�s as armadilhas do mundo.</p><p>Agrade�o-vos, meu pai, mas espero ter as for�as necess�rias, com a ajuda de Deus, para as combater sozinho!</p><p>Que coisa t�o bonita! observou Fiora, azeda. N�o me parece que vos tenha, alguma vez, estendido uma armadilha?</p><p>Eu sei, donna Fiora, e pe�o-vos perd�o se vos magoei... mas tamb�m nunca vos ouvi mentir.</p><p>Mentir, eu? E quando � que vos menti?</p><p>Mas... ainda agora. N�o dissestes que v�nheis de Roma? V�s, em Roma? E para fazer o qu�?</p><p>Tereis que pedir desculpa novamente, Battista! Eu n�o venho directamente de Roma, confesso, mas estive l�, ali�s involuntariamente, durante alguns meses. Sen�o, como poderia ter conhecido a vossa prima Ant�nia?</p><p>Um s�bito acesso de sangue devolveu por um instante, ao jovem novi�o, o bom aspecto de antigamente e os seus olhos negros puseram-se a brilhar, mas foi s� por um instante...</p><p>Ant�nia! suspirou ele. Ela ainda se lembra de mim?</p><p>Mais do que supondes.</p><p>Eis uma afirma��o dif�cil de acreditar. Soube que a iam casar.</p><p>As vossas not�cias s�o muito antigas. Ant�nia usa agora o nome de irm� Serafina no convento de Santo Sisto, onde nos torn�mos amigas.</p><p>Religiosa? Ant�nia? Mas isso � extraordin�rio!</p><p>Quase tanto como eu ver-vos aqui com esse burel mon�stico. Acrescento que, se ela entrou para o convento, n�o foi por sua pr�pria vontade. O Papa queria for��-la a casar-se com um dos seus sobrinhos, Leonardo, o menos bem sucedido do bando. Ela preferiu fazer-se freira. Apesar de o seu pai ter tido, para apaziguar a c�lera papal, de ceder a maior parte do seu dote. Acrescento que ela n�o tomou o v�u nesse dia... e que depende de v�s ela faz�-lo algum dia. Foi a seu pedido que vim aqui.</p><p>Afastando-se de Fiora, Battista foi encostar-se � parede de onde pendia o grande crucifixo, como que para se p�r sob a sua protec��o. O jovem ficara ainda mais p�lido e a jovem sentiu-se invadida por uma piedade infinita.</p><p>V�s escrev�eis-lhe! disse ela docemente. Por que parastes?</p><p>Deixei de escrever quando soube que ela se ia casar. Eu amava-a... muito e preferi romper com todos os la�os entre n�s. Parecia-me que seria mais f�cil e, realmente, assim aconteceu, com o tempo. Junto de monsenhor Carlos as coisas eram diferentes, com ele tudo era poss�vel, sobretudo os sonhos de cavalaria. Gostava daquela vida, sentia-me quase feliz. E depois aparecestes v�s e junto de v�s vivi os dias mais doces da minha vida...</p><p>Mas ainda lhe escrev�eis, nessa �poca, porque lhe falastes de mim! disse Fiora com severidade...</p><p>� verdade. Deixei de lhe escrever pouco depois da vossa chegada. J� n�o tenho not�cias h� algum tempo e pensei que j� estava casada. Por que n�o me disse nada?</p><p>Talvez por lhe terdes falado de mim com demasiado entusiasmo. Foi uma grande tolice, meu amigo!</p><p>Mas eu pensava cada palavra que escrevia. V�s inflamastes a minha imagina��o... e tamb�m o meu cora��o. Um pouquinho.</p><p>Ant�nia achou que foi muito e a vossa asneira foi essa: porque ela ama-vos, ama-vos com toda a sua alma e uma alma como a dela n�o se recupera nunca mais!</p><p>Sem falsa vergonha, o jovem escondeu o rosto nas m�os. Pelo movimento dos seus ombros, Fiora compreendeu que chorava e aproximou-se lentamente dele. A jovem tinha vontade de o apertar contra si, mas n�o ousou: ele j� n�o era o mesmo que conhecera e teve receio de o chocar.</p><p>Se bem compreendi murmurou ela foi um terr�vel mal-entendido que vos levou a entrar para aqui? T�nheis muito amor por ela?</p><p>J� n�o sei nada. O que sei � que naquele maldito m�s de Janeiro vi morrer o meu pr�ncipe enquanto eu pr�prio fiquei vivo e... tamb�m vos perdi. Foi de mais para mim e a ideia de regressar a Roma horrorizou-me.</p><p>Por que n�o quisestes receber o vosso pai?</p><p>Pela mesma raz�o. Regressar �quela cidade infame... para fazer o qu�?</p><p>Talvez para vos baterdes ao lado dos vossos disse severamente Fiora, decidida a ir at� �s �ltimas consequ�ncias. A guerra sempiterna entre os Colonna e os Orsini chegou a uma fase de tal modo perigosa que os �ltimos conseguiram o apoio total do Papa. P�e-se a vida em perigo ao matar um Orsini, mas n�o se arrisca grande coisa se se abater um Colonna. O vosso pal�cio del Vaso foi dado, com desprezo por todo o direito, a um sobrinho de Sisto IV, e eu ouvi dizer que este est� decidido a fazer desaparecer o vosso tio, o protonot�rio, que se permite aborrec�-lo...</p><p>Meu Deus! Ignorava tudo isso.</p><p>T�-lo-�eis sabido se tiv�sseis consentido em ouvir o vosso pai. Amais Deus ao ponto de vos consagrar a Ele neste buraco de ratos? Nunca mais podereis sair daqui se pronunciardes os vossos votos... e sereis obrigado a faz�-lo, um dia. Ent�o, acabar-se-�o as vossas visitas rom�nticas ao t�mulo do duque Carlos. De resto, ele vai ficar aqui para sempre?</p><p>Sabeis alguma coisa acerca disso? balbuciou Battista, subitamente l�vido.</p><p>Sei o que se diz nas ruas e albergues de Bruges, de onde venho. A duquesa Maria quer que o duque Renato lhe entregue o corpo do pai para o sepultar no convento de Campmol, perto de Dijon.</p><p>Est�veis em Bruges? Viajais muito, donna Fiora!</p><p>Mais do que gostaria! Estava em Bruges, de facto, porque, tendo encontrado o grande bastardo Antoine, soube por ele que o meu marido tinha sido visto, no �ltimo Natal, no pal�cio da duquesa. H� meses que corro atr�s de Philippe. Procurei-o perto de Avinh�o e agora, sem saber o que fazer mais, vou a Selongey na esperan�a de encontrar l� o rasto dele... Mas deixemos isso! Eu n�o vim aqui para falar de mim, vim para falar de v�s. Compreendestes o que vos disse? Os Colonna precisam de todas as for�as e Ant�nia precisa de v�s. Ela ama-vos, n�o me canso de vo-lo repetir.</p><p>Battista ergueu para Fiora um olhar onde brilhava qualquer coisa que devolveu a esperan�a � jovem, sobretudo quando ele perguntou:</p><p>Ela... continua a cantar?</p><p>Apenas louvores a Deus. A sua voz � o encanto de Santo Sisto, mas eu acho que ela era capaz de preferir mil vezes trautear para adormecer... os vossos filhos!</p><p>O novi�o ficou vermelho como uma papoila e desviou o olhar.</p><p>Agrade�o-vos por vos terdes dado ao cuidado de me vir dizer isso tudo, donna Fiora. E agora, quereis ter a bondade de me deixar? Eu gostava de... rezar, de reflectir um pouco.</p><p>� natural. Eu tamb�m vou rezar a Deus para que vos ilumine e vos guie pelo melhor caminho. Talvez n�o nos voltemos a ver, mas... eu gosto muito de v�s, Battista Colonna!</p><p>Come�o a acreditar. Ah, j� me esquecia! Onde estais hospedada?</p><p>1 De facto, o duque foi sepultado na igreja de Notre-Dame de Bruges, onde continua, junto da filha.</p><empty-line/><p>No mesmo s�tio. Em casa de George Marqueiz. Penso ficar l� ainda dois ou tr�s dias.</p><p>Est� bem...</p><p>Sem acrescentar mais nada, o jovem foi ajoelhar-se diante do grande crucifixo e, escondendo o rosto nas m�os, mergulhou numa profunda prece. Fiora contemplou-o por um instante, antes de abandonar a sala na ponta dos p�s.</p><p>Chegada a noite, quando os habitantes da casa Marqueiz iam para a mesa, um criado apareceu com um bilhete para Fiora:</p><p>�Est�veis, esta manh�, na primeira missa na colegial, escrevia Battista. Quereis fazer amanh� o mesmo para vos encontrardes comigo no mesmo local? Ficar-vos-ia infinitamente grato...</p><p>Nada mais, mas naquela noite Fiora teve as maiores dificuldades para conseguir repousar, de tal modo receava faltar ao encontro marcado pelo seu jovem amigo. Assim, j� o dia come�ava a clarear a leste quando, escoltada por Florent, que se recusava a deix�-la percorrer sozinha as ruas na obscuridade, ela subiu os degraus da igreja de Saint-Georges. O ar estava mais do que fresco, uma chuva fina e persistente gotejava dos telhados e fazia brilhar ligeiramente o pavimento sob a luz amarela de uma lanterna. A jovem teve, mesmo, de esperar que um sacrist�o mal acordado abrisse o velho batente, enquanto se repetiam, atrav�s dos campos vizinhos, os apelos roucos da nova gera��o de galos, j� que todos os seus predecessores tinham conhecido um fim tr�gico dentro das marmitas borgonhesas.</p><p>Ao entrar na igreja, Fiora procurou o t�mulo com os olhos. Entre os c�rios apagados, parecia dormir numa solid�o orgulhosa, pela qual velava a l�mpada que nunca se apagava.</p><p>Que fazemos agora? sussurrou Florent, impressionado, contra a sua vontade, com a majestade do local.</p><p>Vamos assistir � missa disse Fiora, tamb�m contra vontade e s� sa�reis do vosso lugar se vos disser. Compreendido?</p><p>Perfeitamente suspirou ele, resignado. S� me mexo se me disserdes...</p><p>O som de uma campainha de prata anunciou o padre, que caminhou na direc��o do altar mal iluminado com o Sant�ssimo resguardado sob a estola verde orlada de um gal�o dourado. Ao mesmo tempo, Fiora e Florent ajoelharam-se nas pr�prias lajes e o of�cio come�ou.</p><p>Ap�s a Eleva��o, a jovem tomou consci�ncia de uma presen�a atr�s de si. Virando-se ligeiramente, apercebeu Battista, que quase n�o reconheceu porque o h�bito branco desaparecera e com ele a silhueta do novi�o. O jovem que ali estava, modestamente vestido com uma t�nica usada de pano cinzento apertada na cintura por um cinto de couro, pareceu-lhe, sob aquela pobre roupagem, mais soberbo do que um pr�ncipe de romance porque pr�ncipe j� ele era de nascen�a. A jovem teve de fazer um enorme esfor�o de vontade para n�o lhe saltar ao pesco�o. Conseguira! Battista abandonava o convento e talvez, dentro de algumas semanas, as portas de Santo Sisto se abrissem diante de uma Ant�nia corada de alegria. Essa felicidade seria obra sua, de Fiora, uma felicidade que nunca fora capaz de construir para si pr�pria, e foi com o cora��o pleno de alegria e reconhecimento que recebeu o corpo de Cristo.</p><p>Terminada a missa, ela meteu com toda a naturalidade o bra�o no do jovem para caminhar com ele na direc��o da sa�da.</p><p>Dais-me uma grande alegria, Battista... mas vejo que estais mal equipado para uma viagem longa. Espero que permitais que a vossa irm� mais velha trate disso! Depois, faremos uma parte do caminho juntos... pelo menos at� � Borgonha!</p><p>Aceito, porque, como vedes, estou bastante desprovido, mas creio que n�o ireis at� � Borgonha, donna Fiora.</p><p>Por que n�o?</p><p>Dir-vo-lo-ei daqui a pouco. Por agora, vamos, pela �ltima vez, rezar ao t�mulo de monsenhor Carlos?</p><p>A jovem aceitou com um sorriso e os dois, seguidos de Florent, dirigiram-se para a capela. As velas j� estavam acesas, a l�mpada cintilava com um brilho novo e um outro futuro monge estava no lugar exacto onde Fiora vira, na v�spera, Battista. Mas aquele parecia muito maior e os ombros que vestiam o tecido branco grosseiro eram largos e vigorosos. Uns cabelos castanhos, curtos, cobriam uma cabe�a cujo porte arrogante fez, sem que ela compreendesse porqu�, bater mais depressa o seu cora��o. Em seguida, tudo se precipitou.</p><p>Largando-lhe o bra�o, Battista aproximou-se do seu antigo companheiro e, sem dizer nada, tocou-lhe no ombro. Ent�o, lentamente, o futuro monge virou-se e a m�o tr�mula de Fiora procurou, �s apalpadelas, o apoio de um pilar. Aquele monge era Philippe...</p><p>Direito, na sua frente, com aquele h�bito que o fazia ainda maior e sublinhava o desenho arrogante do seu rosto cujo tom moreno era demasiado profundo para que a sombra do mosteiro o conseguisse empalidecer, ele olhava para ela, mas nos olhos cor de avel� que as chamas das velas tornavam dourados Fiora n�o viu qualquer sinal da paix�o de outrora. E quando, esquecendo o local em que estava, levada pelo amor, ela quis lan�ar-se nos seus bra�os, ele estendeu um bra�o para a manter � dist�ncia:</p><p>N�o Fiora. N�o te aproximes de mim.</p><p>Ela ficou como que fulminada por um raio, com a impress�o de que o seu cora��o se despeda�ava e que a sua vida se desmoronava.</p><p>Mas porqu�?... porqu�? perguntou ela com a voz j� entrecortada pelas l�grimas.</p><p>Ele encolheu os ombros e meteu calmamente as m�os nas amplas mangas do h�bito:</p><p>� evidente, parece-me. Nem este local, nem o h�bito que eu visto permitem essas efus�es.</p><p>Nem sempre disseste isso. J� te esqueceste da igreja de Santa Trinita? Preocupaste-te pouco com a santidade do local, na manh� em que me ensinaste o que � um beijo.</p><p>N�o, n�o me esqueci, mas n�o tinha este h�bito e a igreja n�o passava de uma igreja: esta capela est� santificada pela presen�a daquele que aqui repousa...</p><p>O Temer�rio h�-de estar sempre entre n�s at� ao fim dos tempos? murmurou Fiora com amargura. Ele est� morto, Philippe, e o culto irris�rio que tu te obstinas em prestar-lhe n�o far� com que ele ressuscite.</p><p>Para mim, est� mais vivo do que v�s todos. S� respiro livremente quando estou junto dele!</p><p>Que loucura! Battista, esse, compreendeu que tinha obriga��es para com outros...</p><p>Virando-se, a jovem procurou o jovem para o chamar como testemunha, mas ele e Florent tinham-se afastado, compreendendo que a sua presen�a era inoportuna.</p><p>Battista, agora, sabe que precisam dele...</p><p>Eu eu, n�o preciso de ti?</p><p>N�o.</p><p>E o teu filho? Porque tu tens um filho, Philippe. Achas que ele n�o precisa do pai?</p><p>Um clar�o brilhou, pela primeira vez, nos olhos frios de Selongey e a sua voz dura suavizou-se:</p><p>Na pris�o, em Dijon, na v�spera daquela que devia ser a minha execu��o, soube que esperavas um filho, mas ignorava que fosse um rapaz. Fico muito feliz... mas, no s�tio onde est�, n�o precisa de mim. N�o me devias ter falado dele, n�o sinto qualquer prazer em ser o pai de um futuro mercador florentino.</p><p>Um futuro mercador florentino? Mas, onde pensas tu que ele est�?</p><p>Em Floren�a, claro. Para onde o levaste o ano passado.</p><p>Eu? Eu levei o meu pequeno Philippe para a Tosc�nia? Sobre esse t�mulo que tu pareces venerar, juro que o nosso filho est� neste momento na casa de la Rabaudi�re, perto de Tours, onde a minha velha L�onarde, a minha antiga escrava Khatoun e um casal muito nosso amigo velam por ele.</p><p>O sorriso ir�nico de outrora esticou para a direita a boca desdenhosa de Philippe:</p><p>Em Tours! Pouca diferen�a faz! Enganas-te, Fiora, quando dizes que monsenhor Carlos est� entre n�s. Aquele que est� verdadeiramente entre n�s � o Rei de Fran�a. Sabes perfeitamente que nunca aceitarei servi-lo, mas educas o teu filho na corte dele.</p><p>Eu educo o meu filho em minha casa, na casa que me foi dada...</p><p>... como agradecimento pelos teus bons e leais servi�os na cama de Campobasso!</p><p>Meu Deus! Nunca esquecer�s essa hist�ria horr�vel?</p><p>Avan�ando um passo na direc��o do t�mulo, Fiora deixou-se cair de joelhos perto da l�mpada de bronze:</p><p>O Rei transferiu para mim a estima que tinha pelo meu pai. Ele deu-me aquela casa porque sabia que eu n�o tinha mais nada.</p><p>Tinhas Selongey. Era l� que devias estar quando nasceu o meu filho. Mas tu n�o querias viver longe da agita��o e da vida brilhante a que estavas acostumada...</p><p>Se eu tivesse aceitado seguir-te, talvez fosse, a esta hora, uma errante miser�vel. Esqueces que foste condenado � morte porque s� sonhavas em recome�ar a guerra, em te dedicares ao servi�o da tua bem-amada duquesa Maria. Eu n�o contava, podias arrumar-me em Selongey como se fosse bagagem inc�moda... Dito isto, estou profundamente arrependida por ter provocado entre n�s esta ruptura. Porque... Deus � testemunha e v�s tamb�m, monsenhor, que dormis sob esta grande laje... porque te amo, nunca amei ningu�m sen�o tu, Philippe. H� meses que te procuro!</p><p>H� meses? E por que n�o anos? Creio que, como boa florentina, exageras um pouco. N�o me procuravas em Setembro �ltimo, quando estavas em Floren�a, junto do M�dicis, o teu amante, para onde levaste o meu filho e todo o teu pessoal.</p><p>A indigna��o e o estupor fizeram com que Fiora se levantasse.</p><p>Eu estava em Floren�a em Setembro �ltimo? Mas, quem � que te disse uma coisa dessas?</p><p>Um homem que encontrei a dois passos da tua casa... a que chamam a Casa das Pervincas. � isso?</p><p>Tu foste... a minha casa em Setembro? � imposs�vel.</p><p>A s�rio? Ent�o, ouve. Quando fugi do castelo de Pierre-Scize, onde o teu Rei me fechou...</p><p>Gra�as � cumplicidade da filha do carcereiro, eu sei...</p><p>Dir-se-ia que sabes muitas coisas?</p><p>Mais do que pensas. O que eu quero saber � o que fizeste quando sa�ste do convento de Val-de-B�n�diction, onde foste tratado e onde me disseram que tinhas perdido a mem�ria.</p><p>Tu foste l�?</p><p>Escoltada por Douglas Mortimer. Deves lembrar-te dele. O dom abade disse-nos o pouco que sabia de ti... salvo que lhe mentiste. Tu nunca perdeste a mem�ria, pois n�o?</p><p>N�o, mas nem todos os monges s�o dignos de confian�a e era a �nica conduta poss�vel para um prisioneiro evadido de uma pris�o real. Que sabes tu mais?</p><p>Que por ocasi�o da festa das ladainhas te aproveitaste da passagem de alguns peregrinos a caminho de Compostela para abandonar o convento.</p><p>A jovem calou-se. O olhar de Philippe, passando sobre ela, fixou-se em algo que ela n�o via. Ela seguiu a direc��o e viu um grupo de homens, de gorro na m�o, que se dirigiam ao t�mulo.</p><p>Vem! murmurou Philippe. Afastemo-nos! O resto da igreja est� vazia a esta hora...</p><p>Respondendo com um sinal de cabe�a � sauda��o respeitosa dos fi�is, ele precedeu a jovem no deambulat�rio e depois esperou que ela se lhe juntasse. Ent�o, come�aram a caminhar muito lentamente, lado-a-lado e Philippe contou como se juntara aos errantes de Deus que iam a caminho da long�nqua Galiza.</p><p>Fui com eles at� Toulouse. Era a minha �nica hip�tese de sobreviv�ncia, porque n�o tinha um vint�m e vivi da caridade gra�as a eles. Pensei em acompanh�-los at� ao fim, mas qualquer coisa mais forte me prendia a esta terra onde pensava que vivias. Tinha sofrido tanto que at� esqueci o �dio que sentia por Lu�s XI. O que eu queria era encontrar-te...</p><p>Philippe!</p><p>Cala-te! Deixa-me acabar! Em Toulouse, fiz de conta que tinha um problema numa perna e deixei seguir os meus companheiros. Fiquei no hospital de Saint-Jacques, ganhando o meu sustento em troca de pequenos servi�os. Esperei pela passagem de outros peregrinos de regresso ao norte, de prefer�ncia a Tours. Quando eles apareceram, regressei com eles e foi assim que cheguei, finalmente, ao... covil do Aranhi�o Universal! grunhiu ele num tom rancoroso que arrepiou Fiora.</p><p>O h�bito que usas n�o te incita ao perd�o das inj�rias e � caridade? reprovou-o ela docemente.</p><p>Sem d�vida!... Mas n�o sei bem se a gra�a de Deus me tocou verdadeiramente disse ele com um sorriso amargo. No entanto, aproximei-me dos arqueiros de guarda. Queria falar �quele escoc�s de que tu falaste h� pouco e do qual guardava uma recorda��o de companheiro valente, mas disseram-me que estava ausente. Foi ent�o que se aproximou de mim um homem e me perguntou o que eu queria. Eu disse-lhe e ele prop�s-me mostrar-me a tua casa... mas, em caminho, acrescentou que tu j� n�o estavas l�, que a tinhas deixado v�rios meses antes, sem esperan�a, para regressar a Floren�a com o teu filho e os teus servidores. E como eu tivesse ficado espantado por tu quereres regressar a uma cidade que te tinha tratado t�o mal, ele desatou a rir: �N�o h� nada que uma mulher t�o bela como aquela donna Fiora n�o consiga obter de um homem e Louren�o de M�d�cis � todo-poderoso. H� muito tempo que � amante dela...�Meu Deus! murmurou Fiora, espantada. Mas, quem te disse uma coisa dessas?</p><p>Um homem que, aparentemente, te conhece bem, um conselheiro do Rei e tamb�m seu barbeiro, parece... O que n�o me espanta num sire t�o triste como aquele!</p><p>Olivier l� Daim! Aquele miser�vel, que me odeia e que nos tentou matar, a mim e a L�onarde, ousou dizer-te isso? E tu acreditaste nele?</p><p>Quase o estrangulei, mas ele jurou por todos os santos do Para�so que dizia a verdade e como acrescentou que a casa em quest�o lhe pertencia doravante e que, se eu o desejasse, me ofereceria hospitalidade, deixei-o e fugi a correr. Se tivesse ficado, creio que teria acabado por mat�-lo e por pegar fogo �quela maldita casa...</p><p>Por que n�o o fizeste? Terias evitado a ambos muitos sofrimentos. Se te tivesses aproximado de la Rabaudi�re, terias visto as janelas abertas e L�onarde no jardim com o nosso filho... Juro-te que estava l�! Ali�s, se n�o acreditas em mim, vem comigo: o servidor que me acompanha poder� responder �s tuas perguntas sem que eu abra a boca! Vem, suplico-te!</p><p>N�o... N�o me rebaixarei a interrogar um servidor. Prefiro acreditar em ti!</p><p>Fiora olhou com desespero para aquele rosto fechado, para aquele perfil im�vel que se destacava com a nitidez de um medalh�o nos azuis e p�rpuras de um vitral. O seu cora��o batia com toda a for�a, a jovem sentia que, em vez de o aproximar dela, cada palavra que trocavam cavava um pouco mais o fosso que os separava. Para dar a si pr�pria tempo para reflectir, Fiora murmurou em voz surda:</p><p>Que fizeste depois?</p><p>Peguei no meu bord�o e pus-me de novo a caminho. J� n�o tinha vontade de viver. O rio tentava-me, estava mesmo ali, mas um cavaleiro, mesmo reduzido � mis�ria, n�o tem o direito de se matar. Podia servir e lembrei-me, ent�o, de um parente da minha m�e cujo castelo se situava perto de Vend�me. Se ainda fosse vivo, talvez me desse aquilo de que tinha tanta necessidade: um cavalo, uma espada e os meios de atingir a Flandres, para retomar o combate pela duquesa Maria...</p><p>Suponho que o teu desejo foi satisfeito disse Fiora porque Mme. de Schulembourg viu-te no Natal em Bruges. Eu estive com ela e ela contou-me o que se passou. Penso que amavas Madame Maria h� muito tempo...</p><p>Foi a vez de Philippe se espantar.</p><p>Eu? Eu amo a duquesa h� muito tempo? Ah, � verdade acrescentou ele com um sorriso desdenhoso eu estava de joelhos perante ela quando aquele alem�o r�stico, com quem ela casou entrou, mas n�o me estava a declarar.</p><p>A s�rio?</p><p>Pela minha honra! Suplicava-lhe que retomasse o combate pela nossa Borgonha invadida pela gente do Rei. Suplicava-lhe que me confiasse um grupo de soldados s�lido e armas. Desse modo, teria sublevado a regi�o de Selongey e, sem d�vida, as outras ter-se-iam seguido...</p><p>Enquanto explicava o seu sonho, a luz invadia de novo os seus olhos, a luz que o amor da sua mulher j� n�o lhe suscitava. Uma constata��o que, acordando nela o ci�me, suscitou a c�lera de Fiora:</p><p>Uma loucura! Nunca o terias conseguido. Os irm�os de Vaudrey, que defendiam o Franco-Condado h� tanto tempo, foram, finalmente, vencidos. Tu tamb�m o terias sido e dessa vez n�o terias escapado ao cadafalso.</p><p>E depois? grunhiu ele. N�o imaginas a que ponto lamento n�o estar morto. De qualquer maneira, a duquesa n�o quis ouvir as minhas s�plicas porque n�o pensa, n�o v�, n�o respira sen�o atrav�s do marido, aquele efeminado, aquele alem�o a quem s� interessam a Flandres e Artois.</p><p>Isso n�o tem l�gica disse Fiora friamente. Se tivesses conseguido, ter-te-ias batido por aquele alem�o. Seria a ele que terias entregado a Borgonha. O grande bastardo n�o suportou ver a �guia negra a esmagar a flor-de-lis. Os teus grandes pr�ncipes, at� aquele que dorme aqui, eram Valois, assim como o Rei Lu�s, e at� a m�e da tua duquesa Maria era francesa. N�o conseguir�s escrever a Hist�ria � tua maneira, Philippe de Selongey. Agora tens de pensar no teu filho, que est� a come�ar a vida! Como Philippe guardasse sil�ncio, Fiora, sentindo que tocara numa corda sens�vel, quis for�ar a vantagem que conseguira:</p><p>Achas que o pr�prio irm�o do Temer�rio e seu mais fiel capit�o, que homens como Philippe de Cr�vecoeur, como os Croy e tantos outros se aliavam ao Rei Lu�s se n�o vissem nele um soberano digno de ser servido? Eu n�o te pe�o tanto, mas regressa para junto de n�s, Philippe! Eu n�o te obrigarei a viver em Touraine. Iremos para Selongey e viveremos l� os dias que nos restam!</p><p>Tinham dado a volta � colegial e tinham regressado ao t�mulo, junto do qual n�o havia ningu�m. Maquinalmente, Philippe reacendeu um c�rio que se tinha apagado...</p><p>Eu sinto-me bem perto dele, Fiora! Quando sa� de Bruges, agoniado com aquele casal preocupado com a vida familiar e que s� pensava na ca�a e em festas, quis vir rezar a este t�mulo para pedir a monsenhor Carlos que me indicasse o caminho. Tinha sede de grandeza, de sacrif�cio. E vi Battista com o h�bito de novi�o. Compreendi que era essa a resposta que esperava. Fiquei...</p><p>Tu n�o me amas! Nunca me amaste! exclamou Fiora com as l�grimas a correrem-lhe de novo pelas faces. Se me amasses...</p><p>Ent�o, pela primeira vez ap�s longos minutos, ele olhou para ela e Fiora, meio estrangulada de emo��o, compreendeu que se enganava, que o amor n�o morrera. Lentamente, Philippe estendeu sobre a laje a sua grande m�o nervosa:</p><p>Sobre o t�mulo daquele que aqui dorme e pela fidelidade que lhe tinha te juro que nunca amei ningu�m sen�o tu!</p><p>Ent�o vem comigo, suplico-te! Regressa comigo! Eu ia para Selongey. Vamos juntos e depois mandamos buscar o nosso filho! Eu n�o volto a la Rabaudi�re, mas vem comigo, suplico-te! N�o nos condenes a ambos! Ainda podemos ser felizes...</p><p>Achas?</p><p>Tenho a certeza, meu amor...</p><p>Seguiu-se, entre os dois, um daqueles sil�ncios mais eloquentes do que quaisquer palavras, porque saram as feridas e fazem nascer a esperan�a. Fiora n�o ousava mexer-se, esperando um gesto, um sorriso do seu marido.</p><p>Ent�o, � a tua vez de jurar ordenou Philippe. Vais jurar sobre este mesmo t�mulo e perante Deus que nunca foste amante de Louren�o de M�dicis!</p><p>Aquelas palavras atingiram de tal maneira a jovem que ela vacilou, ao mesmo tempo que o sangue lhe fugia do cora��o. A luz que acabava de se acender, apagara-se. A esperan�a desvanecia-se... A tenta��o de um juramento falso nem sequer lhe passou pela cabe�a: ela sabia que o segredo do nascimento de Lorenza podia escapar-lhe e que at� os rumores vindos da long�nqua Floren�a podiam chegar, um dia, aos ouvidos do marido.</p><p>Ent�o? impacientou-se Philippe.</p><p>Ela n�o respondeu e desviou o olhar para n�o ver aqueles olhos que, agora, chamejavam ao mesmo tempo de c�lera e desgosto.</p><p>Eu... eu n�o posso! Mas...</p><p>N�o quero nenhum �mas�! Adeus, Fiora!</p><p>N�o!</p><p>Foi um grito dilacerante, mas Philippe n�o quis ouvi-lo. Com um gesto que atirava a jovem para as trevas do desespero, ele meteu a correr pela porta da colegial, que se fechou t�o pesadamente como uma pedra tumular.</p><p>S�, Fiora deixou-se cair por terra, primeiro de joelhos e depois ao comprido, uma imagem desesperada do seu cora��o crucificado, como se quisesse integrar-se naquela pedra fria, naquele t�mulo sobre o qual acabava de se destruir a sua vida.</p><p>Foi ali que, um pouco depois, Florent e Battista a encontraram...</p></section><section><title><p>CAP�TULO XI</p><p>A CASA VAZIA</p></title><p>Fiora nunca imaginara que fosse poss�vel tanto sofrimento. Inerte no seu leito enquanto as l�grimas n�o paravam de correr, ensopando-lhe os cabelos e a almofada, incapaz de dormir ou de se alimentar, apenas um pensamento lhe inflamava a cabe�a e a destru�a lentamente.- Philippe rejeitava-a para sempre. Preferia um convento miser�vel e o t�mulo junto do qual tencionava viver o resto dos seus dias. O pecado demasiado doce cometido com Louren�o impunha � culpada uma penit�ncia impiedosa, afastando para sempre o homem que amava.</p><p>N�o imaginando por um s� instante do fundo da sua humilha��o que Philippe lutava, talvez, contra os dem�nios de um ci�me furioso, ela n�o quis ouvir as consola��es dos seus amigos, recusando sair daquele quarto e, sobretudo, daquela cidade onde, pelo menos, ele estava, a dois passos da casa onde ela vivia uma agonia.</p><p>Depois de a tirarem da igreja quase inconsciente, Battista e Florent n�o sabiam que fazer, assim como Nicole Marqueiz, a quem, em poucas palavras, tinham posto ao corrente. Mal Fiora se refugiara no seu quarto, o jovem Colonna precipitara-se para o convento para contar a Selongey o que se passava e tentar comov�-lo, mas chocara com um verdadeiro muro.</p><p>Essa mulher est� morta para mim lan�ou Philippe com uma viol�ncia que surpreendeu o jovem. Ela fez com que tudo entre n�s se tornasse irrepar�vel. Perdoei uma vez, n�o perdoo segunda.</p><p>Ela pensava que est�veis morto e, se bem compreendi, acabava de passar por duras prova��es...</p><p>Ela sabia que eu estava vivo quando se entregou a Campobasso. O facto de pensar que eu estava morto n�o � desculpa. Se eu aceitasse viver com ela, durante quanto tempo me seria fiel? A sua beleza atrai os homens e ela deixa-se atrair pelo amor deles.</p><p>Ela s� vos ama a v�s.</p><p>Talvez porque nunca me teve, verdadeiramente, � sua merc�. Que aconteceria quando sobreviesse a monotonia da vida quotidiana? Como se distrairia? Que homem teria eu de matar... a menos que n�o a matasse a ela? N�o, Colonna, recuso-me a suportar isso! N�o quero enlouquecer...</p><p>N�o enlouqueceis aqui? V�s n�o fostes feito para a vida mon�stica... eu tamb�m n�o, ali�s, e agora sei que estava enganado.</p><p>V�s escolhestes o �nico ref�gio digno de um cavaleiro, mas agora tendes uma raz�o para viver. Eu vou continuar a minha guarda silenciosa junto do �nico senhor que jamais aceitei. Se n�o encontrar a paz, parto e vou, como foi minha inten��o, durante algum tempo, procurar a morte combatendo os Turcos.</p><p>E... o vosso filho? Resignais-vos a nunca o conhecer? Subitamente, o olhar de Philippe brilhou, mas logo a seguir apagou-se:</p><p>Morro de desejo de o conhecer! grunhiu ele. Mas, se o conhecer, se lhe tocar, n�o terei coragem de me afastar. Teria, ent�o, de o privar da pr�pria m�e. Prefiro n�o correr esse risco... Ide-vos, Colonna! Ide ao encontro do vosso destino, deixai-me com a minha solid�o...</p><p>N�o me dais uma �nica palavra para lhe levar? murmurou Battista, magoado.</p><p>Dizei-lhe... que lhe confio o meu filho e que conto com ela para fazer dele um homem digno dos seus antepassados. Sei que ela tem um cora��o nobre e que � corajosa. N�o � culpa sua se o seu corpo � fraco. Dizei-lhe, enfim, que rezarei por ela... por eles!</p><p>Foi tudo. Um instante depois, Philippe de Selongey transpunha a porta que ia dar ao claustro e desaparecia. Battista, desencorajado, regressou para junto de Fiora, mas n�o teve coragem de lhe entregar a mensagem austera e desoladora de que era portador. No dia seguinte, por sua vez, Florent, levado por uma c�lera furiosa, correu ao priorado, decidido a fazer com que o obstinado ouvisse a voz da raz�o e a dizer-lhe o que pensava dele. Mas n�o foi recebido e regressou de m�os vazias. Georges Marqueiz, que tentou a experi�ncia por amizade para com Fiora, tamb�m n�o teve mais sorte. Philippe parecia ter decidido emparedar-se por tr�s do sil�ncio.</p><p>Na manh� do quarto dia de reclus�o de Fiora, dame Nicole, Battista e Florent decidiram de comum acordo que era preciso intervir. A jovem estava decidida a deixar-se morrer de fome.</p><p>Recuso-me declarou a mulher do almotac� a v�-la morrer em minha casa. Vinde comigo, os dois, e n�o vos zangueis se a minha linguagem vos parecer um pouco rude.</p><p>Armada com um tabuleiro de comida ligeira e um jarro de vinho, ela subiu as escadas que iam dar ao quarto da desesperada seguida pelos dois rapazes.</p><p>A despeito do fogo aceso na chamin� para lutar contra a humidade de um m�s de Maio chuvoso, o quarto estava na obscuridade. Dame Nicole fez sinal a Florent para que abrisse as pesadas cortinas. A luz cinzenta e triste que entrou n�o era muito encorajadora, mas era a luz do dia e iluminou o leito onde Fiora estava estendida, t�o inerte como se estivesse morta. Com sulcos profundos provocados pelas l�grimas incessantes, a jovem parecia mais velha e os dois rapazes sentiram apertar-se os seus cora��es.</p><p>Eu era capaz de estrangular aquele carrasco! grunhiu Florent. Quando penso que ela n�o bebe sen�o �gua h� mais de quatro dias! � de dar com a cabe�a nas paredes!</p><p>Matar messire Philippe n�o resolvia nada. Ela n�o ficava menos infeliz.</p><p>Entretanto, Nicole pousou o tabuleiro em cima do leito e come�ou a endireitar Fiora, colocando-lhe as almofadas atr�s das costas.</p><p>J� chorastes o suficiente! decretou ela. Agora ides comer, mesmo que vos tenha de alimentar como a um beb�.</p><p>A voz que se ouviu pareceu surgida das profundezas do leito. Era uma voz fraca, mas obstinada:</p><p>Deixai-me, Nicole!... Eu n�o quero comer! Eu... nunca mais quero comer.</p><p>A s�rio? Nesse caso, escutai bem o que vos vou dizer! V�s quereis morrer, n�o � verdade? Simplesmente, eu recuso-me a ter, um destes dias, o vosso cad�ver nos bra�os. Ide morrer onde quiserdes, mas em minha casa, n�o!</p><p>Apesar da sua fraqueza, Fiora esbugalhou uns olhos surpreendidos e dolorosos:</p><p>Que quereis dizer?</p><p>� evidente, parece-me? Eu recebi, h� uns dias, uma amiga com todo o prazer. Ora, essa amiga manifesta, agora, a vontade de se deixar morrer sob o meu tecto e eu n�o posso aceitar. O orgulho que sinto na minha hospitalidade n�o vai ao ponto de permitir que decidam suicidar-se em minha casa. Existem muitas maneiras de morrer neste mundo, mas nenhuma delas em casa de Georges Marqueiz. Portanto, se quereis mesmo sacrificar-vos por causa de um homem obtuso, ide executar essa decis�o para outro lado qualquer!</p><p>Quereis que eu me v� embora? Oh, Nicole!...</p><p>Escutai, Fiora, a escolha � simples: ou aceitais alimentar-vos e dou-vos o tempo necess�rio para que recupereis as vossas for�as, ou n�s damos-vos de comer � for�a, estes rapazes e eu, para que possais aguentar algumas l�guas de viagem.</p><p>Como podeis ser t�o cruel?</p><p>Cruel, eu? Mas, olhai para v�s!</p><p>Nicole foi buscar um espelho, que colocou em frente do nariz de Fiora:</p><p>Olhai para o vosso rosto ap�s quatro dias s� a �gua! Qual � o homem que merece essa destrui��o volunt�ria? Estais a fazer um farrapo da mulher mais bonita que eu conhe�o. E se pens�sseis um pouco no vosso filho? Ele j� n�o tem pai e quereis agora tirar-lhe a m�e?</p><p>Um pai ser-lhe-ia bem mais �til do que eu!</p><p>Livrai-vos de pensar assim! Pela minha parte, acho que j� chorastes de mais messire de Selongey. Se ele quer desculpar-se com a sua dignidade e continuar a chorar um pr�ncipe cuja morte muitos consideram uma liberta��o, � com ele! Mas v�s, v�s sois jovem... e bela apesar de estardes a agir como uma imbecil e tendes a vida toda diante de v�s. E se escut�sseis aquilo que Battista tem para vos dizer?</p><p>V�s falastes com ele, Battista? Viste-lo?</p><p>Vi-o. Falei-lhe... mas n�o vos direi nada enquanto n�o tiverdes comido qualquer coisa consistente! declarou o pajem, firmemente decidido a seguir o caminho aberto por dame Nicole.</p><p>Quereis mesmo obrigar-me a viver?</p><p>Exactamente! E agora, comei! Falamos depois. Amparada por um Florent transbordando de piedade e que, n�o sabendo que fazer, preferira guardar sil�ncio, Fiora comeu algumas colheres de uma a�orda a�ucarada com mel � qual Nicole juntara dois ovos batidos, bebeu alguns goles de um vinho de Nuits singularmente caloroso, rilhou uns damascos de conserva e deixou-se cair nas almofadas, sem for�as. As suas faces tinham, agora, um pouco de cor:</p><p>Obedeci-vos suspirou ela. Falai agora, Battista. Fazendo os poss�veis para suprimir o que n�o podia ser ouvido, o jovem entregou a mensagem de Philippe e concluiu:</p><p>Deveis obedecer-lhe, donna Fiora, mas, sobretudo, deveis pensar em v�s e no vosso filho! Deus � testemunha de que tenho pelo vosso marido um respeito e uma admira��o absolutos, mas ele � um homem de outra era e v�s sois jovem. Deveis viver! Podem, ainda, florir tantos dias sob os vossos passos!</p><p>Fiora guardou sil�ncio por um momento, enquanto ouvia dentro de si o eco das s�bias palavras do seu antigo pajem. Depois:</p><p>Que conselho me dais, nesse caso?</p><p>Primeiro, deveis regressar a casa. Por mais generosa que seja a hospitalidade de dame Nicole, nunca recuperareis em sua casa! Estais demasiado... perto dele. Parti! Quando estiverdes longe, tornareis a ser v�s pr�pria e isso � o que todos n�s, que estamos convosco nesta afli��o, desejamos.</p><p>Pela primeira vez, um sorriso d�bil distendeu os l�bios brancos:</p><p>J� dev�eis ir longe, Battista! N�o foi para tratardes de mim que vos exortei a abandonar aquele priorado.</p><p>Eu sei, mas s� vos abandonarei quando vos vir a caminho da vossa casa, em Touraine.</p><p>Com o olhar, a jovem abra�ou os tr�s rostos ansiosos que rodeavam o seu leito e procurou a m�o de dame Nicole para a atrair a si:</p><p>V�s sois uns amigos terr�veis! suspirou ela. Nunca agradecerei suficientemente aos c�us por vos ter encontrado...</p><p>Dois dias mais tarde, depois de ter agradecido calorosamente aos Marqueiz a sua hospitalidade e amizade, Fiora e os seus dois amigos deixavam Nancy. Como os rapazes se tinham firmemente oposto a que a sua companheira efectuasse uma �ltima visita � colegial de Saint-Georges, contornaram o mercado para, pela rue du Four Sacr�, passarem pelo pal�cio ducal e pela comprida rue Neuve que terminava na porta de la Craffe. Corajosamente, Fiora imp�s a si pr�pria n�o virar a cabe�a quando transpuseram o Fosso dos Cavalos, para o qual davam as paredes do priorado de Notre-Dame. Tinha de tentar esquecer Philippe apesar de saber que era imposs�vel, mas achava que, com o tempo, a imagem t�o querida e t�o cruel consentiria, talvez, em esfumar-se.</p><p>Informados por Georges Marqueiz, que viajara muito, os tr�s companheiros deveriam fazer caminho comum at� Joinville, onde os seus destinos divergiriam. Battista, reequipado e provido de uma bolsa que deveria ser suficiente para o fazer chegar a Roma, viraria a sul e, por Chaumont, Langres, Dijon, Lyon e Vale do R�dano iria embarcar a Marselha. Fiora e Florent virariam para oeste e, por Troyes, Sens, Montargis e Orle�es reencontrariam o grande caminho do Loire, que ambos conheciam t�o bem.</p><p>Para n�o fatigar demasiado Fiora, mal refeita ainda do seu jejum volunt�rio, levaram dois dias a percorrer as vinte e quatro l�guas que separavam a capital da Lorena das colinas de Joinville. As grandes chuvas tinham cessado e o tempo, se bem que ainda n�o radioso, estava quase agrad�vel.</p><p>Ides encontrar o azul do mar e o Sol de Roma suspirou Fiora quando, aos p�s do castelo dos pr�ncipes de Vaud�mont, se despediram, esperando que n�o fosse para sempre...</p><p>H� tanto tempo que estou fora disse o jovem. � natural que n�o os consiga suportar.</p><p>Nesse caso, lembrai-vos que tendes amigos em Fran�a e se, depois de casardes com Ant�nia, quiserdes viver num clima mais fresco... ou se precisardes de escapar aos esbirros do Papa, n�o hesiteis em ir ter connosco.</p><p>Podeis estar certa de que n�o me esque�o. Deixai-me abra�ar-vos por Ant�nia e por mim! Deus vos aben�oe, donna Fiora e vos conceda, por fim, a felicidade que mereceis!</p><p>Teria de se dar a muito trabalho. Creio que n�o fui feita para ser feliz. Mas tentarei...</p><p>De p� no cruzamento e segurando no seu cavalo pela brida, ela ficou a ver o jovem partir a galope ao longo do Marne, cuja �gua l�mpida reflectia as nuvens esbranqui�adas do c�u. A jovem pensava que os des�gnios do Senhor eram mesmo insond�veis, porque lhe tinham permitido devolver a Battista o gosto pela vida, ao mesmo tempo que destru�am a sua irremediavelmente.</p><p>Ent�o? perguntou Florent, que se mantivera a alguma dist�ncia por discri��o. Que fazemos agora?</p><p>Mas... regressamos a casa, Florent.</p><p>Isso sei eu, mas depois?</p><p>Depois? N�o sei, a s�rio que n�o sei... Tenho de reflectir e, sobretudo, de repousar. Nunca me senti t�o cansada...</p><p>� natural. Vamos por pequenas etapas, j� que n�o temos pressa...</p><p>Fiora era sincera quando dizia que ignorava como iria conduzir doravante a sua vida. � sua dor misturava-se, agora, alguma c�lera contra aquele que a abandonava �s suas responsabilidades com uma �nica recomenda��o: fazer do seu filho um homem digno dos seus antepassados, o que, no seu esp�rito, devia excluir o bom Francesco Beltrami, que nunca tivera qualquer t�tulo de nobreza. Mas, reflectindo bem, Fiora ignorava o passado dos Selongey e apesar de amar apaixonadamente o �nico esp�cime dessa fam�lia que jamais conhecera, reconhecia que ele n�o era um modelo de caridade crist�, nem de simples humanidade para al�m dos deveres de cavaleiro, que respeitava � letra. Quanto aos seus ancestrais, os verdadeiros, os Br�vailles, o exemplo do velho Pierre n�o era das mais encorajantes.</p><p>Por outro lado, n�o estaria nos planos de Philippe, certamente, que o seu filho entrasse para o servi�o do Rei de Fran�a. Que fazer, ent�o? Que decidir? Que escolher?</p><p>Ao longo do caminho que a levaria a casa atrav�s do brilho caloroso da Primavera, Fiora come�ou, pouco a pouco, a esbo�ar um projecto para o futuro. Pouco importava o que Philippe pensava do seu sogro florentino, pouco importava o desprezo mal disfar�ado que ele sentia por uma nobreza que considerava o neg�cio como uma das belas-artes! A jovem sentia renascer dentro dela a florentina e pensou que seria agrad�vel, se Louren�o de M�dicis ganhasse a sua guerra contra o Papa, regressar a Floren�a com os �seus� filhos, com L�onarde e com aqueles que a quisessem seguir. A ideia de poder ficar com sua pequena Lorenza enchia-a de alegria. Uma voz secreta dizia-lhe que tir�-la aos bons dos Nardi seria uma crueldade, mas ela mandava-a calar-se, argumentando que, no fim de contas, Agnolo poderia muito bem terminar os seus dias na sua cidade natal e que, muito certamente, Agnelle tamb�m gostaria. Iria ser preciso estudar o problema. De qualquer maneira, a guerra, de que ela n�o sabia nada, estaria, provavelmente, longe de estar acabada.</p><p>Assim meditava Fiora enquanto as l�guas deslizavam por baixo dos cascos do seu cavalo, mas � medida que se aproximava do Loire a pressa era cada vez maior de ver a sua pequena mans�o cujo jardim devia estar todo florido, perfumado, de se enroscar efeminadamente naquele para�so pessoal e, sobretudo, de n�o se mexer dali durante longos, longos meses...</p><p>Assim, quando, transposta a porta oriental de Tours, saiu do �Pav� que ia dar ao castelo real de Plessis-l�s-Tours para entrar no caminho que ia dar a sua casa, Fiora, como se respondesse a um grito de � carga, lan�ou um grito que fez voar as gralhas que estavam pousadas numa seara e lan�ou o seu cavalo a</p><p>1 Ver Fiora e Carlos, o Temer�rio.</p><empty-line/><p>galope. Por cima do verde das �rvores viu os telhados de ard�sia e a guarita que cobria o pequeno torre�o da escadaria. Sem abrandar, entrou pela alameda ladeada de carvalhos cheios de musgo e foi somente � vista da �sua� porta que deteve o cavalo, que escoiceou o ar com os anteriores.</p><p>L�onarde! P�ronnelle! Khatoun! �tienne!... Cheg�mos! Ningu�m lhe respondeu...</p><p>Ent�o, de repente, surgindo da cozinha, apareceu P�ronnelle, que correu para os rec�m-chegados a gritar e a chorar:</p><p>Salvai-vos! Por amor de Deus, salvai-vos! N�o deixeis que vos prendam!</p><p>Nem Fiora nem Florent tiveram tempo de lhe fazer qualquer pergunta: dois arqueiros do prebostado sa�ram atr�s dela, tentando apanh�-la. Os dois soldados chamaram e outros dois apareceram vindos da parte de tr�s da casa. Correndo para a frente dos cavalos, estes apoderaram-se das bridas dos animais a despeito dos esfor�os dos dois viajantes para os impedir.</p><p>Que quer isto dizer? gritou Fiora, furiosa. Que me quereis?</p><p>Os soldados tinham conseguido apanhar P�ronnelle e arrastavam-na, mais do que a levavam, solu�ando e lan�ando gritos inarticulados.</p><p>Quer dizer que estais presa... disse uma voz, na qual Fiora pensou ouvir a alegria do triunfo.</p><p>Com efeito e apesar de ela mal acreditar no que os seus olhos viam, era Olivier le Daim que, seguido por um sargento, acabava de transpor a bela porta abobadada e se aproximava, sem pressa, de Fiora. Dois arqueiros, depois de a terem obrigado a desmontar sem grande suavidade, mantinham-na de p� entre ambos.</p><p>Presa? Eu? Mas porqu�? exclamou a jovem.</p><p>O Rei, nosso sire, explicar-vos-�... talvez. Quanto a mim, s� vos posso dizer que o vosso caso � grave... e que se trata, pelo menos, de trai��o...</p><p>Onde est� o meu filho? Onde est�o Dame L�onarde e Khatoun?</p><p>Em lugar seguro, n�o tenhais receio! E muito bem tratadas...</p><p>E eu? exclamou Florent, que tentava, em v�o, afastar Fiora. Tamb�m estou preso?</p><p>Tu? disse o barbeiro real com desd�m. Tu n�o passas de um... criado. Vai fazer com que te prendam noutro lado qualquer...</p><p>Nunca! Nunca abandonarei donna Fiora e se quiserdes lev�-la, tereis de me levar a mim tamb�m.</p><p>Sargento! suspirou l� Daim, dando-se ares enfastiados de grande senhor importunado. Desembara�ai-me deste rapaz! Colocai-o na cavalari�a enquanto pensamos no que fazer dele...</p><p>Enquanto levavam o jovem, que oferecia uma defesa vigorosa, Fiora, de m�os atadas, viu-se enquadrada pelos arqueiros. O golpe fora t�o brutal que nem sequer pensou em oferecer qualquer tipo de resist�ncia, mas deu a si pr�pria o prazer de provocar desdenhosamente o homenzinho escuro e com cara de fuinha, que exultava de maneira desavergonhada:</p><p>Conseguistes o que quer�eis, n�o � verdade? Se bem percebi, eis-vos instalado em minha casa!</p><p>Vossa casa? O Rei tem o direito de recuperar o que d� quando lhe traem a confian�a.</p><p>Porque v�s n�o o tra�s?</p><p>N�o muito... n�o. Mas se isso vos d� satisfa��o, sempre vos digo que ainda n�o estou instalado, o que lamento porque a casa � verdadeiramente encantadora. E mobilada com tanto gosto! Vim s� dar uma volta, mas podeis ter a certeza de que a minha entrada definitiva n�o tarda...</p><p>N�o vos alegreis demasiado depressa! � sempre m� pol�tica vender a pele do urso antes de o ter matado. Dito isto, para onde me conduzem? Para Loches?</p><p>Infelizmente, n�o! Eu teria preferido, mas o Rei ordenou que vos prendessem assim que cheg�sseis e que vos conduzissem para a pris�o de Plessis. Creio que ele prefere ter-vos � m�o...</p><p>Uma brusca ang�stia apertou o cora��o de Fiora e abateu um pouco o seu orgulho:</p><p>J� que pensais ter ganho, pod�eis, pelo menos, mostrar-vos, sen�o generoso, pelo menos humano e dizer-me onde est� o meu filho? Deveis compreender que estou inquieta?</p><p>A s�rio? No entanto, n�o vos ocupais muito dele! Assim como da vossa filha...</p><p>Fiora conseguiu n�o acusar o golpe, mas o homem acertara no alvo. Como � que aquele dem�nio sabia de Lorenza? Teria sido seguida, espiada desde a sua partida de la Rabaudi�re e durante todo aquele tempo? Era quase imposs�vel, no entanto ela sabia que Lu�s XI apagara h� muito tempo a palavra imposs�vel do seu vocabul�rio. Renunciando a fazer outras perguntas que pudessem alegrar aquele miser�vel, ela virou-se para o sargento:</p><p>J� que vou para a pris�o, quereis conduzir-me j� para l�? Seja onde for, preciso muito de repouso...</p><p>Puseram-se em marcha em contraponto, os gritos furiosos de Florent, que deviam ter fechado na cavalari�a. Uma meia hora mais tarde, Fiora e a sua escolta penetravam no p�tio de honra do castelo. A jovem pensou que a iriam fechar na grande torre isolada do primeiro p�tio, aquela a que chamavam a �Justi�a do Rei�, mas enganou-se. Limitaram-se a atravessar aquela esp�cie de esplanada onde se achavam os alojamentos da Guarda Escocesa e onde, no meio de gritos e encorajamentos v�rios daqueles filhos das Terras Altas se mediam, armados. Ela procurou, em v�o, a alta silhueta do seu amigo Mortimer e, n�o a vendo, deixou de se interessar pelo que ali se passava.</p><p>Uma outra pris�o, mais pequena, encontrava-se no �ngulo do p�tio de honra e dos jardins, encerrada na espessura da cintura de muralhas que defendia os aposentos reais. Devia ser reservada aos prisioneiros especiais e a rec�m-chegada, que esperava uma masmorra, ficou agradavelmente surpreendida. O quarto no qual a introduziram n�o possu�a qualquer luxo: o ch�o era de grossas lajes, a porta era barrada com ferrolhos e enormes gonzos de ferro deixavam ver um pequeno postigo engradado. Quanto � janela, estreita e colocada suficientemente alta para desencorajar qualquer escalada, tinha duas barras em cruz da grossura do bra�o de uma crian�a. Mas era, mesmo assim, um quarto com um leito com cortinas, len��is e cobertores, uma mesa para a toillette, uma outra para tomar as refei��es, uma arca para a roupa e dois assentos: uma cadeira de bra�os e um escabelo. Por fim, o carcereiro, que acolheu a prisioneira, parecia-se com um ser humano e n�o com um molosso prestes a morder: quando abriu a porta, ofereceu-lhe a m�o, recomendando-lhe que tivesse cuidado com �degrau�. Ela agradeceu-lhe com um sorriso e depois, avistando o leito, atirou-se para cima dele para dormir como um animal estafado, mergulhando de uma s� vez num sono profundo que foi, certamente, uma manifesta��o da miseric�rdia divina: aquele golpe t�o inesperado, aquele golpe terr�vel, que a atingia ap�s o calv�rio que acabava de suportar, teria sido capaz de a levar �s portas da loucura.</p><p>S� acordou no dia seguinte de manh� com o barulho dos ferrolhos, quando o carcereiro entrou no seu quarto para lhe entregar a primeira refei��o:</p><p>Deveis ter fome disse-lhe ele com aquele sotaque elegante que � apan�gio das gentes de Touraine. Ontem trouxe-vos um tabuleiro, mas vejo que n�o lhe tocastes. � verdade que dorm�eis t�o bem...</p><p>� verdade disse Fiora. Tenho fome, mas se pudesse ter �gua para me lavar, ficar-vos-ia reconhecida.</p><p>Vasculhando na sua bolsa, ela tirou uma moeda de prata que lhe quis dar, mas ele recusou-a:</p><p>N�o, obrigado, nobre dama! As ordens do Rei nosso sire s�o que n�o vos falte nada. S� cumpro o meu dever...</p><p>Que n�o me falte nada? Receio que n�o me possais dar aquilo que mais falta me faz: o meu filho...</p><p>O bravo homem fez um gesto de afli��o:</p><p>Infelizmente, n�o! N�o posso dar o que n�o me autorizam. Podeis crer que lamento... Vou buscar-vos �gua quente, toalhas e sab�o. Entretanto, comei! A comida arrefece.</p><p>A refei��o era constitu�da por leite quente, p�o estaladi�o e ainda morno, mel e uma pequena noz de manteiga envolvida numa folha de videira, para a qual Fiora olhou com verdadeiro estupor:</p><p>V�s alimentais assim t�o bem todos os prisioneiros? Sei de muitos albergues de renome que n�o tratam assim os clientes!</p><p>Acontece que v�s sois, neste momento, a �nica prisioneira e a minha mulher est� autorizada a ir buscar a nossa comida �s cozinhas do castelo. A vossa tamb�m. Al�m disso, esta pris�o n�o � como as outras e recebe pouca gente. � bastante diferente do torre�o do primeiro p�tio. Enfim, repito, recebi ordens.</p><p>Estou autorizada a receber visitas? Gostaria de ver o sargento Mortimer da Guarda Escocesa.</p><p>La Bourrasque? perguntou o carcereiro, rindo. Toda a gente aqui o conhece. Infelizmente, n�o � poss�vel. Primeiro, porque, senhora condessa, ningu�m sabe que estais aqui. Depois, porque ele n�o est� em Plessis... Vou buscar a vossa �gua.</p><p>S� mais uma palavra! Podeis dizer-me, ao menos, o vosso nome?</p><p>Gr�goire, Madame. Gr�goire Lebret, mas o primeiro nome � suficiente. Estou �s ordens da senhora condessa!</p><p>E com uma esp�cie de pequena rever�ncia, o surpreendente carcereiro deixou Fiora a devorar a pequena refei��o ainda mais surpreendente. Enquanto comia, a jovem esfor�ava-se por p�r as ideias em ordem. Era evidente que a tratavam com certo favor, mas, no entanto, n�o tinham hesitado em lhe arrancar o filho, a querida L�onarde e a casa. E, lembrando-se da brutalidade com que, na v�spera, os arqueiros tinham impedido P�ronnelle de lhe falar e o tom usado pelo abomin�vel Olivier l� Daim, era evidente que o Rei dera, no que lhe dizia respeito, ordens precisas, ordens que o barbeiro se coibia de transgredir, por mais vontade que tivesse de o fazer, mas porqu�? Porqu�? Que crime cometera? L� Daim pronunciara a palavra trai��o e acrescentara que o caso era grave. Mas como, em que pudera ela trair o Rei, ou at� a Fran�a? A abomin�vel personagem tamb�m fizera alus�o a Lorenza e, nesse momento, Fiora estremecera. No entanto, aquele nascimento, que era preciso manter secreto, n�o podia ter ofendido Lu�s XI ao ponto de a conduzir � pris�o? N�o se tratava sen�o de um mal-entendido habilmente explorado, sem d�vida, pelo barbeiro ou por qualquer outra pessoa que lhe queria mal. Ou ent�o uma cal�nia? Fiora sabia que o Rei era extremamente desconfiado e capaz, quando se julgava enganado, de passar de uma grande bonomia a um extremo rigor. Se fosse o caso, teria de se explicar com ele o mais depressa poss�vel...</p><p>Quando Gr�goire regressou com os diversos objectos anunciados, Fiora pediu-lhe se aceitaria mandar dizer ao Rei que ela lhe suplicava que a recebesse logo que poss�vel. Mas o carcereiro tamb�m n�o podia fazer aquilo: o Rei n�o estava em Plessis, estava em Amboise, junto da Rainha, que estava preocupada com a sa�de do delfim.</p><p>Achais que ele vai ficar l� muito tempo?</p><p>Geralmente n�o, mas quem sabe? N�o se sabe se a doen�a do pr�ncipe � grave! Tende paci�ncia, senhora condessa. Espantar-me-ei muito se, assim que regressar, o Rei n�o vos mandar chamar...</p><p>Paci�ncia! A virtude t�o gabada por Dem�trios e que Fiora nunca conseguira dominar, sobretudo quando se encontrava numa situa��o desagrad�vel! Ela gostava que as coisas andassem depressa depois de tomar uma decis�o. Os nove meses de gravidez sempre lhe tinham parecido nove s�culos. Uma atitude que divertia L�onarde. Desta vez, a paci�ncia era mais uma prova��o. Que m�e era capaz de suportar por muito tempo a ignor�ncia do local onde se encontrava o seu filho? No entanto, foi preciso esperar. As horas pareciam intermin�veis �quela jovem cheia de vida e reduzida � inac��o total, j� que Gr�goire era incapaz de lhe arranjar livros, a �nica coisa que lhe tornaria o tempo de espera mais agrad�vel. Na verdade, n�o era a primeira vez que se encontrava cativa, mas nunca sofrera �quele ponto, porque ent�o as suas ang�stias diziam respeito a si pr�pria, n�o aos seus. Onde estariam L�onarde, Khatoun e o pequeno Philippe? O Rei sabia que, separando-a deles sem lhe dizer onde estavam, infligia-lhe a prova��o mais penosa, o que tornava in�teis as sev�cias corporais e explicava, em parte, pelo menos, a cela decente, a boa alimenta��o e at� a roupa que ela deixara em la Rabaudi�re e que encontrara na arca da sua pris�o. Uma �nica consola��o: Lu�s gostava de crian�as e respeitava-as o suficiente para n�o fazer mal ao seu filho. Philippe era, certamente, mais bem tratado do que a sua m�e. Mas como as horas lhe pareceram lentas durante os oito dias que teve de passar na �nica companhia do seu carcereiro!</p><p>Fiora obrigava-se a uma apresenta��o irrepreens�vel, a uma toillette minuciosa todas as manh�s, a usar roupa branca e um vestido limpo. A mulher de Gr�goire encarregava-se de lavar a roupa e de a passar. Era uma maneira como outra qualquer de manter a dignidade; depois, n�o queria ser apanhada de surpresa em trajos menores quando, finalmente, a fossem buscar para a conduzirem perante o seu juiz... ou juizes...</p><p>Gr�goire apareceu, na noite do nono dia, todo esbaforido:</p><p>O Rei senhora condessa! O Rei! Est� a chegar!...</p><p>Fiora j� o sabia. A jovem ouvira o rufar dos tambores, as trombetas de prata e todo o barulho produzido por um grande grupo de cavaleiros, sobretudo quando escoltado por c�es. E o seu cora��o bateu com mais for�a. Enfim, enfim, ia saber de que a acusavam!</p><p>No entanto, dois dias, dois dias ainda mais intermin�veis do que os outros se passaram sem que ela pudesse saber se tinham inten��o de se ocupar dela, ou se iam, simplesmente, abandon�-la no fundo da sua pris�o.</p><p>Naquela noite, ap�s uma curta toillette e as ora��es, ela deitou-se com o cora��o infinitamente pesado, n�o sabendo que mais pensar. O seu esp�rito tenso recusava-lhe o sono. Deitada no leito, triturando nervosamente a longa tran�a negra que lhe deslizava pelo peito, ouvia o bater das horas no pequeno convento que, no primeiro p�tio, estava encostado �s paredes do pal�cio propriamente dito. Como todos os prisioneiros, a jovem vivia segundo o que os seus ouvidos lhe diziam... Subitamente, sobressaltou-se e sentou-se bruscamente: estavam a abrir a porta, quando devia ser quase meia-noite.</p><p>Com efeito, Gr�goire apareceu armado com uma lanterna e antes que ele tivesse podido empurrar o batente, Fiora p�de ver que, no exterior, estavam, pelo menos, dois alabardeiros iluminados por archotes...</p><p>Depressa depressa! exclamou Gr�goire. Vesti qualquer coisa, Madame, o Rei quer ver-vos!</p><p>Fiora, saltando da cama, viu-se perante a figura sobressaltada do carcereiro, a lanterna que ele segurava iluminando os dois rostos.</p><p>A esta hora? perguntou ela.</p><p>Sim. Gra�as a Deus, ainda n�o dorm�eis! Suplico-vos, apressai-vos!</p><p>Fiora enfiou um vestido � pressa, cal�ou-se e, renunciando a pentear-se, envolveu a cabe�a num v�u. Tudo aquilo n�o lhe exigiu mais de dois minutos e a jovem dirigiu-se para a porta onde, de facto, a esperava um piquete de soldados. Dois marcharam na sua frente, dois seguiram-na e, daquele modo, desceu os dois andares que separavam a pris�o do n�vel do solo antes de desembocar no p�tio de honra, vazio e silencioso �quela hora tardia. S� se ouvia o passo cadenciado das sentinelas de guarda sobre as muralhas e os sons dos campos pr�ximos. A noite estava linda, clara, cheia de estrelas e Fiora, ap�s a sua reclus�o, respirou os seus odores frescos com um prazer inesperado. Como cheirava bem a t�lia e a madressilva!</p><p>Com excep��o de uma luz brilhando nos aposentos do Rei e dois archotes acesos � entrada da pequena torre octogonal que encerrava a escada, Plessis estava mergulhado na escurid�o. Um c�o ladrou, algures para os lados do Loire e no interior do castelo um outro c�o, depois dois, e depois tr�s, responderam-lhe.</p><p>Alguns instantes mais tarde, a porta do quarto real, guardada por dois escoceses, abriu-se pela m�o de um criado, que convidou Fiora a entrar e se eclipsou logo a seguir, fechando atr�s de si o batente de carvalho trabalhado.</p><p>Agasalhado, apesar da temperatura doce, com um casaco preto forrado de pele de marta e com um capuz de l� enfiado at� �s espessas sobrancelhas, Lu�s XI estava sentado na sua grande cadeira guarnecida com almofadas, ao canto da monumental chamin� onde ardia um fogo brilhante. Juntamente com o candelabro de ferro forjado de cinco bra�os pousado perto do Rei, aquelas chamas iluminavam a vasta divis�o que, assim mergulhada em tr�s quartos da sua dimens�o nas trevas, pareceu imensa � prisioneira.</p><p>O Rei n�o olhou para ela. O soberano olhava para o fogo e o seu terr�vel perfil de nariz pontiagudo queixo pesado obstinado e boca desdenhosa recortava-se no fundo flamejante que lhe fazia sobressair as ma��s ossudas do rosto e as p�lpebras pesadas, enrugadas como as das tartarugas, por entre as quais se filtrava o brilho sombrio do olhar. Estendia para o fogo as m�os nervosas, miraculosamente poupadas pela idade e, de tempos a tempos, esfregava-as uma na outra.</p><p>Como ele continuasse a n�o virar o olhar para ela, Fiora deu alguns passos abafados pela espessura dos tapetes, nos quais estavam deitados os c�es. Todos eles tinham virado as cabe�as; farejando o ar modificado por aquela presen�a estranha, esperando, talvez, uma ordem que n�o surgiu, ao mesmo tempo que Fiora esperava uma palavra que, tamb�m ela, n�o surgiu.</p><p>Sabendo como a sua c�lera podia ser terr�vel, ela n�o ousou romper aquele sil�ncio sufocante. A jovem saudou profundamente e esperou, com um joelho em terra, que lhe fosse permitido levantar-se. O Rei continuava calado. Ent�o, meio estrangulada pela ang�stia, ela murmurou, a despeito da tempestade que lhe podia cair sobre a cabe�a:</p><p>Sire... Ignoro por que raz�o o Rei desvia de mim o olhar e que falta terei cometido para incorrer na sua c�lera, mas suplico-lhe humildemente que me diga... pelo menos, o que � feito do meu filho?</p><p>De novo o sil�ncio assustador. A jovem sentiu um n� na garganta e as l�grimas, que se esfor�ou por reter, subirem-lhe aos olhos. Ent�o, bruscamente, Lu�s XI virou a cabe�a e ela recebeu em pleno rosto o olhar agudo, cintilante, de uma c�lera que apenas a vontade reprimia:</p><p>O vosso filho? grunhiu o Rei com um desprezo que esbofeteou a jovem. J� � tempo de vos preocupardes com ele! Desde que ele nasceu, h� quase dois anos, quantos dias passastes junto dele?</p><p>Muito poucos, mas o Rei sabe...</p><p>Absolutamente nada! E levantai-vos! Pareceis-vos demasiado com a condenada que ainda n�o sois!</p><p>E devo s�-lo? Em que � que ofendi o Rei?</p><p>Ele desviou de novo o olhar daquela delgada silhueta negra, demasiado graciosa, talvez, e daqueles grandes olhos cinzentos, demasiado brilhantes para n�o estarem molhados.</p><p>Ofender? A palavra � fraca, Madame! V�s insultastes-me, tra�stes-me tanto quanto o pode ser um soberano, tramastes a minha morte!</p><p>Eu?</p><p>O grito fora t�o espont�neo que o Rei estremeceu. Um tique nervoso repuxou-lhe a boca e agitou-lhe as narinas sens�veis, de homem nervoso.</p><p>Sim, v�s! V�s, que eu acolhi quando Floren�a vos rejeitava, v�s, que eu recebi nos meus dom�nios, quis na minha vizinhan�a e a quem, Deus me perdoe, concedi alguma amizade! Como se um homem s�o de esp�rito pudesse conceder uma coisa parecida com amizade a uma mulher!</p><p>O soberano escarrara a palavra com tanto desprezo que Fiora que sentiu que um princ�pio de c�lera lhe secava as l�grimas.</p><p>Sire! O ventre que transportou o Rei n�o era o de uma mulher?</p><p>O olhar que ele virou para ela era pesado de rancor e talvez, tamb�m, de desgosto:</p><p>A Senhora Rainha, minha m�e, era uma santa e nobre mulher que n�o conheceu a felicidade atr�s da qual v�s todas correis por uma simples raz�o: era feia. Mas a minha av�, Ysabeau la Bavaroise, n�o era outra coisa sen�o o que v�s chamais, na vossa l�ngua italiana unagrandputana e, n�o contente com isso, vendeu, no seu tempo, a Fran�a � Inglaterra! E eu, que n�o queria mulheres no meu s�quito, agi como um louco, permitindo-vos que entr�sseis nele. Foi por isso que vos tirei la Rabaudi�re...</p><p>Mas o meu filho, o meu filho?</p><p>Ser� educado como conv�m ao nome que tem. Confi�-lo-ei ao grande bastardo Antoine, que saber� fazer dele um homem...</p><p>Respeito profundamente monsenhor Antoine, mas nego-lhe o direito, comigo viva, de educar o meu filho!</p><p>- Convosco viva? Tendes a certeza de que o sereis ainda por muito tempo?</p><p>Ah!... O Rei est� a pensar... mandar matar-me?</p><p>V�s tramastes a minha morte, Madame!</p><p>Nunca! Juro pela minha alma que nunca vos desejei, sequer, a morte. Seria preciso que fosse louca!</p><p>Ou demasiado h�bil! V�s n�o nascestes em Floren�a, Madame, mas tornastes-vos florentina e parece que a intriga n�o tem segredo para v�s. Negais ter escrito, o Ver�o passado, uma carta que tereis confiado ao n�ncio do Papa em Avinh�o?</p><p>Ao cardeal della Rovere? Sem d�vida, Sire e n�o tenho raz�o nenhuma para o negar.</p><p>A quem se destinava essa carta?</p><p>A uma amiga querida, que me permitiu sair de Roma viva, chegar a Floren�a e, de certa maneira, salvar a vida a monsenhor Louren�o, entregando-lhe a espada de que tinha grande necessidade: a madonna Catarina Sforza, condessa Riario...</p><p>Que t�nheis de t�o urgente para lhe transmitir?</p><p>O meu reconhecimento tardio. Ali�s, foi a pedido do cardeal que escrevi essa carta.</p><p>Muito veros�mil disse o Rei, encolhendo os ombros. Por que vos teria della Rovere pedido isso?</p><p>� muito simples. Ele tem pela prima uma profunda afei��o e parece que esta sofreu muito por causa da ajuda que me prestou. O cardeal desejava que, como prova da minha profunda afei��o por donna Catarina, lhe prometesse intervir junto do Rei para que ele fizesse cessar a guerra entre Roma e Floren�a...</p><p>E de uma maneira muito simples: assassinando o �velho diabo!� porque � assim que a vossa pena me trata o que privar� Floren�a de uma ajuda preciosa em ouro e canh�es...</p><p>Eu nunca escrevi nada de semelhante! gritou Fiora fora de si. E por que raz�o teria eu imaginado esse horror?</p><p>Na esperan�a de que o Papa vos desse mais do que o que o pobre Beltrami vos fez perder! Aqui tendes!</p><p>De uma das suas grandes mangas, ele tirou um grande papel desdobrado que devia ter viajado muito, porque os vincos estavam sujos e o selo de cera quebrado. O soberano entregou-o a Fiora:</p><p>Esta carta � vossa? � a vossa letra, n�o �? E tamb�m � o vosso selo: cera verde com essas tr�s pervincas que escolhestes como emblema pessoal?</p><p>A carta, com efeito, parecia-se, at� ao mais �nfimo pormenor, com a que entregara a Giuliano della Rovere. Era, de facto, a sua letra, o seu pequeno selo verde, mas o texto estava longe de ser o mesmo e Fiora, ao l�-lo, sentiu-se empalidecer, porque era a sua pr�pria perda que tinha nas m�os. A jovem leu e releu v�rias vezes as terr�veis frases para se convencer de que os seus olhos n�o estavam a tra�-la e que n�o estava a enlouquecer:</p><p>�... e posso assegurar a Vossa Santidade e a Vossa Excel�ncia a minha dedica��o total, com a qual podeis contar absolutamente. Dentro de alguns meses porque preciso de falar com alguns elementos rebeldes � ocupa��o francesa das nossas terras da Borgonha farei com que o velho diabo, que merece as chamas do inferno, deixe de prejudicar a alta reputa��o do Mui Santo Padre. Ent�o, a Fran�a, nas m�os de uma crian�a, deixar� de importunar os pr�ncipes de quem esse Rei miser�vel n�o passa de uma grotesca c�pia...</p><p>Seguia-se, evidentemente, um pedido de recompensa por um t�o grande servi�o. Fiora ergueu para o Rei um olhar espantado mas l�mpido, e entregou-lhe a carta com uma m�o que n�o tremia.</p><p>O Rei cr�-me capaz de escrever uma tal inf�mia? Eu, que odeio o Papa e o seu s�quito, com excep��o de donna Catarina?</p><p>V�s sois mulher, e uma mulher muito bela. As mulheres da vossa esp�cie s�o capazes de tudo para obter a fortuna que lhes permita cuidar dessa beleza entretanto t�o ilus�ria e assegurar-lhe uma moldura digna.</p><p>Eu sou rica, n�o preciso das benesses do Papa. Monsenhor Louren�o devolveu-me a quase totalidade da minha fortuna. E ia pactuar com aqueles que querem a sua perda?</p><p>A guerra entre o Papa e Floren�a est� longe do fim. Escaramu�a-se muito, sem d�vida, mas a cidade da flor-de-lis vermelha perde for�as, ao passo que Roma as adquire. Ali�s, a balan�a n�o estava equilibrada � partida e eu receio muito...</p><p>Ent�o exclamou Fiora, levada por uma c�lera brutal que esperais para os ajudar? Enviai tropas, enviai mais ouro ainda, mas n�o deixeis perecer Floren�a!</p><p>Um leve sorriso esticou os l�bios espessos de Lu�s XI, ao mesmo tempo que as suas m�os aplaudiam vigorosamente:</p><p>Bravo! Que comediante me sa�stes, donna Fiora! Na verdade, quase me convenceis. � tentador.</p><p>Aquele desd�m desarmou Fiora, mais do que o teria feito uma c�lera violenta. A jovem deixou-se cair de joelhos:</p><p>Ent�o matai-me, Sire!Matai-me agora mesmo... mas n�o me insulteis! Pelo meu filho vos juro que essa carta n�o � minha!</p><p>Esqueceis que j� me escrevestes? A compara��o � f�cil...</p><p>� uma falsifica��o, n�o? O Papa e a corja que o rodeia s�o capazes de tudo e os copistas n�o faltam... Com... com que palavras, em que l�ngua posso jurar-vos que nunca escrevi essa... esse lixo?</p><p>Subitamente, veio-lhe uma ideia surgida das profundezas da sua mem�ria:</p><p>Sire! Estava uma pessoa junto de mim quando me pediram que escrevesse essa carta...</p><p>Quem?</p><p>Dame L�onarde, que me criou, sem d�vida, mas que n�o vejo h� v�rias semanas e cujo paradeiro desconhe�o. Confesso, tive bastante dificuldade para redigir essa ep�stola, n�o por causa dos sentimentos de amizade e reconhecimento que menciono nela, mas porque sabia que incitar-vos a p�r fim � guerra estava para al�m dos meus poderes. Como me ter�eis recebido se eu tentasse intervir na vossa pol�tica?</p><p>Muito mal. Ter-vos-ia dito que vos met�sseis no que vos diz respeito... Dame L�onarde, dizeis v�s?</p><p>Sim, Sire!</p><p>O Rei bateu as palmas, o que acordou os c�es e fez aparecer o criado que introduzira Fiora. Fazendo-o aproximar-se com um gesto imperioso, o soberano murmurou-lhe algumas palavras ao ouvido. O homem fez sinal de que compreendera e saiu t�o depressa como tinha entrado. O Rei parecia ter-se acalmado um pouco, mas mordia o l�bio inferior enquanto olhava para a jovem sempre ajoelhada entre um �pagneul louro e uma cadela galga branca, que formavam com ela uma figura her�ldica de uma beleza surpreendente:</p><p>Em todo o caso disse ele ao cabo de um instante j� vos aconteceu enviar-me, pelo menos, uma carta mentirosa. Lembrais-vos da que escrevestes antes de partir para Paris? Que me enforquem se n�o � um chorrilho de mentiras!</p><p>Fiora baixou a cabe�a sem responder, lembrando-se das palavras de Olivier l� Daim. Se o barbeiro sabia que ela dera � luz uma rapariga, tamb�m o Rei sabia.</p><p>Confesso, Sire. Menti.</p><p>Ah! disse ele com ar de triunfo. Admitis? Ent�o, dizei-me onde estivestes durante esse longo Inverno!</p><p>Fiora levantou a cabe�a: n�o ia renegar as suas entranhas, mesmo que isso lhe custasse a vida.</p><p>Primeiro em Paris, e nisso n�o menti. Depois, em Suresnes, numa pequena casa pertencente ao meu velho amigo Agnolo Nardi, o irm�o de leite do meu pai... Dei l� � luz uma filha, que entreguei a Agnolo e � sua mulher.</p><p>Ah! Finalmente! exclamou o Rei, que saltou da sua cadeira como se impulsionado por uma mola e se p�s a andar de um lado para o outro diante da chamin�. Uma filha! E de quem � essa crian�a? N�o vos deis ao cuidado de mo dizer, f�-lo-ei por v�s: � do vosso marido, Philippe de Selongey que, a despeito do que me diz�eis, foi ter convosco secretamente. E � nisso que essa maldita carta n�o mente! T�nheis raz�o quando fal�veis em �elementos rebeldes�, por outras palavras no vosso marido, mas, evidentemente, era dif�cil anunciar-me que est�veis gr�vida, quando eu n�o sabia onde se encontrava esse dem�nio do Selongey. Foi por isso que vos fostes esconder... Como vedes, sei tudo! Atordoada, Fiora deixou-se cair sentada nos calcanhares, com desprezo por todo o protocolo:</p><p>Que estupidez � essa? exclamou ela com mais sinceridade do que cortesia. Eu ter-me-ia dado ao trabalho de esconder o nascimento de uma filha do meu marido? De uma filha a quem dei o nome de Lorenza Maria?</p><p>Lorenza?</p><p>� claro. Os que me s�o pr�ximos poder�o dizer-vo-lo: n�o s� essa crian�a n�o � fruto da minha uni�o com um rebelde, como � desse rebelde que eu quero ardentemente escond�-la... porque � fruto dos meus amores com Louren�o de M�dicis. Escondi-vos que fui amante dele?</p><p>De facto n�o, mas...</p><p>A esta hora, o meu marido n�o ignora nada das minhas rela��es com Louren�o e, como o perdi para sempre, n�o tenho raz�es para me privar do amor da minha filha. � minha inten��o reav�-la.</p><p>Portanto, � verdade que encontrastes o conde de Selongey? Onde? Quando?</p><p>Mais ou menos h� tr�s semanas, em Nancy, no priorado de Notre-Dame...</p><p>Santo Deus! Ent�o, � l� que ele est� escondido?</p><p>Fiora p�s-se de p� num salto, impulsionada por uma manifesta��o de orgulho.</p><p>Se o disse ao Rei, � porque ele n�o est� escondido! Ele escolheu viver l� para poder, todos os dias, rezar no t�mulo de monsenhor Carlos duque de Borgonha e �nico senhor que ele alguma vez aceitou servir. Um dia, talvez n�o muito long�nquo, pronunciar� l� os votos perp�tuos.</p><p>Lentamente, Lu�s XI regressou � sua cadeira e ficou meio deitado, meio sentado nela, cobrindo com as duas m�os os dois le�es esculpidos nos bra�os de madeira de carvalho. O soberano parecia mergulhado em profunda medita��o. Depois:</p><p>Ele quer fazer-se monge, ele? Portanto, j� n�o vos ama? acrescentou ele com uma ironia cruel que feriu a jovem.</p><p>Eu podia t�-lo trazido comigo suspirou ela. Mas... � custa de um perj�rio.</p><p>Qual?</p><p>Ele pediu-me que jurasse... perante Deus, que nunca pertenci a Louren�o. N�o pude...</p><p>Gelada pela recorda��o daquele instante cruel, Fiora nem sequer virou a cabe�a quando a porta se abriu de novo com um ligeiro ranger, mas logo se ouviu um grito:</p><p>Meu cordeiro!</p><p>No instante seguinte, Fiora estava nos bra�os de L�onarde, onde se abrigou com uma maravilhosa sensa��o de liberta��o e apaziguamento:</p><p>L�onarde! Minha L�onarde!... Oh meu Deus!</p><p>Ordeno-vos que vos separeis! ordenou Lu�s XI em voz alta. Mulher, eu n�o vos fiz vir aqui para assistir a uma cena de ternura, antes para que respondais �s minhas perguntas!</p><p>E eu quero fazer-vos uma, Sire exclamou L�onarde. Que lhe fizestes, para que esteja neste estado?</p><p>Siderado, Lu�s XI ficou sem voz perante aquela velha solteirona que ousava interrog�-lo no tom que um oficial da guarda teria utilizado para com um ladr�o apanhado no meio da rua.</p><p>Por Deus, comadre, esqueceis quem sou?</p><p>N�o... e sois um grande Rei. Mas ela, esta pobre pequena, a quem a felicidade neste mundo parece ser recusada, representa mais para mim do que se fosse carne da minha carne! E agora fazei as perguntas que quiserdes... mas n�o nos separeis mais!</p><p>Como hei-de chegar � verdade? resmungou o Rei. Enfim! Tentemos!... Primeiro, que sabeis da crian�a nascida em Suresnes no princ�pio da Primavera?</p><p>O que � poss�vel saber, Sire. Chama-se Lorenza. Isso diz tudo.</p><p>Seja, seja. Passemos a outra coisa! Tendes conhecimento de uma carta, escrita h� cerca de um ano por madame de Selongey a donna Catarina Sforza e por ela confiada a Sua Emin�ncia o cardeal-n�ncio...</p><p>A monsenhor della Rovere? Tenho! Essa carta deu muito trabalho a este pobre anjo...</p><p>Nesse caso, sois capaz de a reconhecer. Ei-la! L�onarde, obrigada a largar Fiora, pegou respeitosamente na carta que lhe estendiam, leu-a e atirou-a, enojada, aos p�s do Rei...</p><p>Pua! Que coisa t�o feia! Espero, Sire, que n�o acrediteis que donna Fiora � respons�vel por esse papel desonroso?</p><p>� a letra dela, � o selo dela e...</p><p>E �, sobretudo, obra de um grande fals�rio! Se o encontrardes, sire, mandai-o para o pat�bulo mais pr�ximo. Quanto �quele que vos entregou essa porcaria, aconselho-vos a que o junteis a ele.</p><p>� um dos meus mais fi�is conselheiros!</p><p>Sem o menor receio e para grande pavor de Fiora, a velha solteirona desatou a rir:</p><p>Aposto que esse grande conselheiro � o vosso Olivier le Daim... ou o Diabo, como dizem as pessoas daqui?</p><p>O... Diabo? disse o Rei, persignando-se precipitadamente duas ou tr�s vezes antes de beijar a medalha que lhe pendia do pesco�o.</p><p>� preciso dizer que a palavra lhe assenta que nem uma luva. Al�m disso, faria n�o importa o qu� para ficar com aquela bela Casa das Pervincas, onde n�s fomos t�o felizes. At� tentou matar-nos!</p><p>Deixemos isso, por agora. Pretendeis que esta letra � falsa?</p><p>Ponho as m�os no fogo, Sire! Ali�s... se me permitirdes, regresso dentro de instantes.</p><p>E, pegando nas longas saias de veludo p�rpura, L�onarde abandonou os aposentos reais t�o depressa quanto lho permitiam as pernas que h� muito tinham perdido a juventude, deixando o Rei e Fiora estupefactos.</p><p>Mas... onde � que ela vai? murmurou a jovem, falando mais para si pr�pria.</p><p>E Lu�s XI respondeu com um ar muito natural:</p><p>Ao s�tio onde a pus com o vosso filho: aos aposentos que as minhas filhas utilizam quando v�m a Plessis, o que � raro.</p><p>Depois, subitamente furioso:</p><p>Espero que n�o tenhais pensado que sou cruel ao ponto de atirar com uma crian�a de dois anos para a pris�o?</p><p>Uma grande alegria inundou Fiora, fazendo-a esquecer o que a sua pr�pria situa��o tinha de incerto e at� de perigoso, com um homem com o car�cter daquele estranho soberano. O seu querido Philippe estava ali perto, talvez at� conseguisse permiss�o para o abra�ar, ao menos uma vez?</p><p>Faltou-lhe o tempo para o perguntar. L�onarde estava de regresso com uma pilha de pap�is. Desembara�ando-os da fita que os atava, a velha solteirona entregou-os ao Rei com uma rever�ncia talvez um pouco tardia.</p><p>Eu, Sire explicou ela nunca deito nada fora. Sobretudo pap�is escritos.</p><p>O que � isto? Dir-se-ia um rascunho?</p><p>� um rascunho Sire! Da maldita carta que donna Fiora escreveu naquela noite. Santo Deus! Ela n�o conseguia escrev�-la, mas o Rei pode ver que n�o h� a� nada de ofensivo para Sua Majestade! Vede, Sire! Sobretudo este aqui! S� lhe falta a parte final... mas caiu-lhe uma mancha de tinta! Ent�o, foi preciso escrever outra.</p><p>Cuidadosamente, o Rei examinou o que lhe tinham dado, voltou a pegar na carta, comparou e enrolou tudo:</p><p>Fico com isto... mas dissestes h� pouco, dame L�onarde, que messire l� Daim tentou matar-vos?</p><p>Sem Messire Mortimer e o messire grande preboste teria acontecido e a esta hora estar�amos a apodrecer por baixo de alguns palmos de terra na floresta de Loches.</p><p>Como � poss�vel Tristan L�Hermite n�o nos ter dito nada? perguntou o Rei com severidade.</p><p>L�onarde encolheu os ombros:</p><p>Porque est� na mesma posi��o que n�s, Sire: n�o tem provas. Nada, sen�o as confiss�es de um bandido que ignorava o nome do seu cliente.</p><p>- Estou a ver! Bem... podeis retirar-vos, dame L�onarde. O Rei agradece-vos...</p><p>Posso lev�-la comigo?</p><p>A velha solteirona rodeara com os bra�os os ombros de Fiora que, terrivelmente cansada, apoiava a cabe�a contra ela.</p><p>N�o. Temos de reflectir nisto tudo. Por agora, donna Fiora vai regressar � sua pris�o...</p><p>Sire! suplicou a jovem deixai-me, ao menos, abra�ar o meu filho! Ou ent�o... permiti que L�onarde venha comigo. Khatoun basta para olhar pela crian�a.</p><p>Khatoun desapareceu! disse L�onarde com o rosto subitamente fechado. N�o sei para onde foi.</p><p>Ah? Nesse caso ide depressa, L�onarde. O meu pequenino precisa mais de v�s do que de mim... Ide, estou a dizer-vos! N�o se pode contrariar o Rei! N�o esque�ais que o meu destino est� nas suas m�os!</p><p>� assim que o entendemos! Guardas! disse ele com voz forte, o que fez com que a porta se abrisse de imediato.</p><p>Fiora saudou profundamente e depois, com a morte na alma, seguiu os soldados que iam reconduzi-la � pris�o. A jovem levava consigo a imagem de Lu�s XI, um cotovelo apoiado no bra�o da sua cadeira e o queixo apoiado na m�o. Jamais Fiora vira rosto t�o duro nem olhar t�o gelado. Teria ele compreendido alguma coisa do que ela lhe dissera? N�o juraria...</p><p>E ainda menos quando, na tarde do dia seguinte, os guardas, sob o comando de um sargento a foram, de novo, buscar. Dessa vez, foi para a grande sala de honra do castelo que a conduziram. Quando a jovem transp�s a soleira, parou por um instante, espantada perante o espect�culo que se lhe oferecia.</p><p>O Rei, vestido com mais eleg�ncia do que de costume, estava sentado no trono coberto pela flor-de-lis e com o grande colar de Saint-Michel ao pesco�o. Junto dele a sua corte, a corte exclusivamente masculina que o rodeava quando a Rainha Carlota n�o estava presente. No entanto, Fiora sentiu uma certa alegria ao reconhecer Philippe de Commynes de p� num dos degraus que sustentavam o trono. Um piquete da Guarda Escocesa postava guarda junto das janelas e, junto � porta, o capit�o Crawford mantinha-se a alguns passos do soberano, apoiado na sua grande espada...</p><p>Quando a prisioneira entrou, o sil�ncio foi completo e ter-se-ia ouvido uma mosca enquanto, lentamente, ela avan�ava para o Rei, parando apenas a tr�s ou quatro passos do estrado real para saudar como convinha. O cora��o batia-lhe no peito com toda a for�a. Fiora estava certa de que se ia desenrolar, no meio daquele aparato todo, o seu julgamento. Uma audi�ncia t�o solene s� podia ter um significado amea�ador...</p><p>No entanto, um pequeno incidente distendeu um pouco a atmosfera t�o pesada. Cher Ami, o grande galgo branco, o c�o favorito de Lu�s XI, que se deitava habitualmente aos seus p�s sobre uma almofada, levantou-se e, num passo indolente, acercou-se de Fiora e lambeu-lhe docemente a m�o.</p><p>Tocada por aquele sinal de amizade, ela acariciou a cabe�a sedosa, ao mesmo tempo que as l�grimas lhe subiam aos olhos. Aquele belo c�o era, portanto, o seu �ltimo, o seu �nico amigo naquela assembleia? O pr�prio Commynes olhava obstinadamente para a ponta dos seus sapatos...</p><p>Aqui, Cher Ami! ordenou Lu�s XI, mas, em vez de obedecer, o grande galgo, como se tencionasse fazer de advogado da jovem, sentou-se tranquilamente a seu lado.</p><p>O Rei n�o renovou a sua ordem. Com um gesto, fez sinal a Fiora para que se levantasse, tossicou para aclarar a voz e, por fim:</p><p>Meus senhores, reunimos-vos aqui, nesta nobre assembleia, para serdes testemunhas do valor que damos � nossa justi�a. A senhora condessa de Selongey, nascida sob o nome de Fiora Beltrami e aqui presente, foi acusada de trai��o � nossa coroa e de querer matar a nossa pessoa. A principal prova de acusa��o � uma carta, que a dame de Selongey nega em absoluto ter escrito. Outros elementos foram-nos fornecidos por uma terceira pessoa e esses ditos elementos tenderiam a inocentar a dita dama.</p><p>O soberano fez uma pausa, tirou um len�o e assoou-se ruidosamente, o que provocou um som de tempestade na assembleia silenciosa. Ningu�m disse palavra. Ent�o, ele continuou:</p><p>Dados os sinais de amizade que t�nhamos dado � dame de Selongey, dado tamb�m o facto de o seu marido, cavaleiro do Tos�o d�Ouro, ter agido sempre como um rebelde obstinado ao nosso governo, o nosso esp�rito encontra-se extremamente perturbado e n�o pode decidir capazmente num assunto t�o delicado. Assim, resolvemos apelar ao julgamento de Deus!</p><p>Aquilo foi de tal modo inesperado que o sil�ncio se transformou em diversos murm�rios e Commynes, erguendo a cabe�a, exclamou:</p><p>Sire! O Rei vai remeter-se a pr�ticas de uma outra era?</p><p>Se quereis dizer, messire de Commynes, que Deus Todo-Poderoso passou de moda, n�o fareis parte durante muito mais tempo do meu s�quito! disse Lu�s XI com um olhar assassino. Paz, portanto, e n�o interrompais mais! Pelo julgamento de Deus n�o entendemos o ju�zo de Deus. A dama condessa n�o ser� atirada � �gua, convidada a caminhar com um ferro em brasa nas m�os nem entregue a qualquer uma dessas pr�ticas, das quais nunca pens�mos bem. Mas as acusa��es que pendem sobre ela foram-nos entregues por duas personagens... Messire embaixador de Floren�a, dignai-vos comparecer perante n�s!</p><p>Houve um movimento na multid�o para a qual Fiora n�o olhava e Luca Tornabuoni, magnificamente vestido como era seu h�bito, inclinou-se perante o Rei, que lhe sorriu gentilmente. Ao v�-lo, Fiora nem sequer estremeceu. Que o seu antigo apaixonado estivesse ali, diante dela, e que fizesse parte dos acusadores, n�o a surpreendia. Devia ter conseguido, com muita dificuldade, o papel de enviado de Louren�o junto do Rei de Fran�a e, por ocasi�o do seu �ltimo encontro, ela sentira que ele se tornara seu inimigo e que faria tudo para vingar o facto de ela o ter desdenhado... E como ele lan�asse na direc��o dela um olhar acompanhado da sombra de um sorriso, ela desviou os olhos com um desd�m esmagador...</p><p>Dissestes-nos saber de fonte segura, messire embaixador, que a dame de Selongey que v�s conheceis h� muito tempo...</p><p>Desde a inf�ncia, Sire, e...</p><p>Que a dame de Selongey, diz�amos n�s, deu � luz secretamente, em Paris, uma filha que seria ileg�tima se a sua concep��o n�o provasse que ela se juntou em segredo �quele not�rio rebelde que � o seu marido para conspirar contra n�s?</p><p>De facto, Sire. Digo e repito, porque a minha fonte � das mais seguras...</p><p>Uma serva, parece? Uma antiga escrava que teria uma... inclina��o por v�s?</p><p>Falais de Khatoun? exclamou Fiora, incapaz de se conter. De Khatoun, que v�s quase matastes em Floren�a? Ela, agora, � vossa amante?</p><p>O sorriso trocista deu-lhe vontade de lhe saltar para a garganta:</p><p>Por que n�o? Ela � encantadora e especialista no jogo do amor. Encontrei-a um dia por estas bandas, muito magoada por a terdes abandonado e terdes preferido percorrer essas estradas com um criado. Simplesmente, ela sabia por que raz�o �eis a Paris...</p><p>Sabia, de facto, mas tamb�m sabe que eu n�o vejo o meu marido h� dois anos. Ignoro por que raz�o ter� dito essa mentira...</p><p>Mentira? V�s � que o dizeis, bela Fiora. Pela minha parte...</p><p>Pela vossa parte continuou o Rei com uma voz subitamente severa esperamos que sejais capaz de defender a vossa... verdade de armas na m�o contra qualquer campe�o que se apresente para defender a causa da dame de Selongey</p><p>Um duelo? Mas eu sou um embaixador, Sire!</p><p>Um embaixador que se mete onde n�o � chamado deve submeter-se �s nossas leis, assim como aos nossos costumes. De qualquer maneira, tencionamos prevenir o nosso querido primo, o senhor Louren�o de M�dicis, da nossa inten��o de vos obrigar a defender as vossas declara��es em campo fechado.</p><p>Sire!</p><p>Ficai tranquilo! N�o ireis s�. Eu falei em duas personagens e penso, messire Olivier le Daim, que estais pronto, tamb�m v�s, a submeter ao julgamento divino esta carta que v�s mesmo nos entregastes, certificando a sua autenticidade... e reclamando uma certa casa como pre�o por este servi�o.</p><p>Por sua vez, o desvairado barbeiro apareceu em cena:</p><p>Mas, Sire, nosso Rei... eu n�o sou cavaleiro, n�o sou capaz de me defender!</p><p>N�o sois cavaleiro? V�s, que n�s fizemos nosso embaixador na cidade de Gand? Eis uma falta grave, pela qual nos reprovaremos durante muito tempo, mas ficai descansado, temos muito tempo para vos treinar antes do recontro...</p><p>O Rei tenciona mesmo... enviar-me para a li�a?</p><p>Na companhia de messire Tornabuoni. Sereis dois contra um �nico campe�o. Fazemos esta escolha estranha porque tendes pouca experi�ncia com a espada...</p><p>Pelo contr�rio, com o punhal e de prefer�ncia pelas costas, ele n�o teme ningu�m! clamou Douglas Mortimer que, abandonando o seu posto de guarda, se foi colocar diante de Fiora. Com a vossa graciosa permiss�o, Sire, serei o campe�o de donna Fiora! E matarei esses dois miser�veis, t�o certo como chamar-me Douglas Mortimer, dos Mortimer de Glenlivet... E mais ainda, se o Rei quiser ter a bondade de mandar contra mim mais cinco ou seis desses malvados libertinos!</p><p>Oh! A alegria de sentir junto de si aquela for�a tranquila, aquele amigo seguro! Fiora ergueu para Lu�s XI um olhar cheio de esperan�a... mas este franziu o sobrolho:</p><p>Paz, Mortimer! Por Deus, v�s estais ao nosso servi�o, n�o ao das damas! O vosso sangue s� deve correr pela Fran�a. Por isso, recusamos a vossa proposta... Que outro campe�o se apresente. Do resultado do combate depende a sorte da dame de Selongey... Ide para o vosso lugar!</p><p>Com um gesto imperioso, Lu�s XI deteve Philippe de Commynes, visivelmente pronto a oferecer as suas armas...</p><p>Num assunto t�o grave continuou o Rei n�o pode haver precipita��es. Aquele que se apresentar perante n�s, dentro de exactamente um m�s, deve saber que, se for vencido, a dame de Selongey ser� executada, e que o combate ser� at� � morte. Portanto, meus senhores, examinai e pesai bem a vossa decis�o...</p><p>Est� decidido resmungou Mortimer entredentes. Nenhuma for�a humana me impedir� de combater por ela, mesmo que tenha de pedir a minha demiss�o!</p><p>Entretanto, suficientemente perto do escoc�s, o Rei, como se n�o tivesse ouvido nada, continuou:</p><p>Que a dame de Selongey seja reconduzida � pris�o! Ningu�m est� autorizado a falar-lhe.</p><p>O sil�ncio era ainda mais profundo do que por ocasi�o da sua entrada quando Fiora se dirigiu para a porta escoltada pelos seus guardas. Um sil�ncio onde entrava, sem d�vida, muito de espanto perante aquela decis�o t�o estranha: um duelo judici�rio, no qual um homem teria de enfrentar dois advers�rios? Mesmo pouco h�beis, era, mesmo assim, uma maneira curiosa de ver a igualdade de oportunidades, sem falar do Senhor que, naquele assunto, via o seu papel um pouco diminu�do.</p><p>A �nica consola��o de Fiora, antes de abandonar a sala, foi ouvir o Rei ordenar que Tornabuoni e Olivier le Daim fossem guardados dia e noite nos seus aposentos at� � manh� do combate. Magra consola��o, porque se nem Mortimer, nem Commynes, estavam autorizados a bater-se por ela, s� lhe restava um m�s de vida...</p></section><section><title><p>CAP�TULO XII</p><p>O ULTIMO DIA</p></title><p>O Rei, no entanto, parecia sentir alguma piedade pela sua prisioneira. No dia seguinte, depois de o carcereiro Gr�goire ter levado o tabuleiro da sua primeira refei��o na qual Fiora n�o tinha, praticamente, tocado o soberano regressou, muito alegre:</p><p>Venho anunciar-vos uma visita! exclamou ele. Uma boa visita...</p><p>Abrindo de par em par a porta que tinha voltado a fechar nas suas costas, Lu�s XI afastou-se para dar passagem a L�onarde, que transportava nos bra�os o pequeno Philippe. O grito de alegria da prisioneira fez subir aos seus olhos de homem bom uma l�grima de ternura e o Rei ficou um instante a contemplar o belo quadro formado por Fiora apertando o seu filho nos bra�os.</p><p>Meu querido! Meu amor!... Meu tesouro!</p><p>A jovem cobria de beijos apaixonados o pequeno rosto, as m�ozinhas, os curtos cabelos castanhos que se encaracolavam no alto da cabe�a redonda de Philippe, dando-lhe o ar de um anjinho... o que ele n�o era de todo porque, pouco habituado a efus�es t�o intensas, desatou a protestar. Fiora afligiu-se:</p><p>Magoei-o?</p><p>N�o disse L�onarde, rindo mas v�s quase o sufocais... Pronto, ponde-o no ch�o!... E v�s, messirePhilippe, saudai a vossa m�e como vos ensinei!</p><p>O pequenito apoiou-se nas suas pequenas pernas e esbo�ou uma esp�cie de rever�ncia t�o desajeitada que Fiora ficou encantada.</p><p>Bom dia, senhora minha m�e disse ele muito s�rio. Estais bem?</p><p>Mas como Fiora se tinha acocorado diante dele, o pequeno atirou-se-lhe ao pesco�o, gritando:</p><p>M�ezinha, m�ezinha!... Aborrecia-me tanto sem v�s!</p><p>No entanto, ele conhece-me mal! disse Fiora por cima da cabe�a do filho.</p><p>Conhece-vos melhor do que pensais. Fal�vamos-lhe de v�s todos os dias e, nas suas ora��es, ele nunca se esquece de pedir a Deus que lhe devolva a sua m�ezinha...</p><p>E o meu paizinho tamb�m! rectificou o pequenito. Quando � que ele vem, m�ezinha? N�o sei, meu querido. O teu paizinho partiu para uma longa viagem, mas tu tens raz�o em rezar ao bom Deus para que ele regresse...</p><p>Deixemo-nos de choraminguices! disse L�onarde. E ponde um pouco de lado esse jovem para me abra�ar. Ainda nem me dissestes bom dia!</p><p>As duas mulheres abra�aram-se calorosamente, ainda por cima porque a velha solteirona trazia com ela uma boa not�cia: o pequeno Philippe e ela estavam autorizados a visitar todos os dias Fiora na sua pris�o e at� a tomar na sua companhia a refei��o do meio-dia.</p><p>O Rei quer suavizar os meus �ltimos momentos? suspirou Fiora. � uma aten��o que me sensibiliza muito...</p><p>N�o pensais que vos v�o arrancar a cabe�a e que os que vos amam v�o permitir que isso aconte�a?</p><p>Aqueles que me amam n�o ter�o permiss�o para me defender e n�o vejo quem querer� correr, por uma desconhecida, um risco t�o consider�vel.</p><p>E messire Philippe, o vosso marido? Encontraste-lo?</p><p>Sim e n�o. Viu-o, de facto, mas perdi-o para sempre...</p><p>E, com grande sobriedade, Fiora contou o que se passara em Bruges e depois por que acaso extraordin�rio encontrara Philippe onde menos esperava. Enfim, o que disseram um ao outro e como ele decidira ficar no convento.</p><p>No convento! Ele!... Que disparate! J� n�o vos ama, ent�o?</p><p>Ama... pelo menos � o que ele diz, mas n�o sei se ser� verdade. Ele ilude-se, ou finge, para me poupar. Vede v�s, L�onarde, eu n�o passei de um epis�dio no grande sonho cavaleiresco do conde de Selongey. Um epis�dio que, primeiro, o envergonhou, mas que aceitou por devo��o ao seu duque. Depois deste morto e da sua Borgonha perdida, nada mais lhe interessa. N�o falemos mais dele, L�onarde! Preferia que me diss�sseis o que aconteceu a Khatoun!</p><p>Se eu soubesse! suspirou L�onarde...</p><p>A jovem t�rtara desaparecera de la Rabaudi�re na noite do regresso de L�onarde. Ao saber que Fiora n�o vinha e que, pelo contr�rio, ia a caminho da Flandres na companhia de Florent, fechara-se no quarto e recusara-se a sair, at� para comer. Na manh� seguinte aperceberam-se de que ela tinha fugido da maneira mais cl�ssica do mundo, atando os len��is da cama uns aos outros.</p><p>E n�o deixou umas palavras, umas linhas?</p><p>Nada! P�ronnelle disse-me que nos �ltimos tempos, durante a nossa aus�ncia, ela se encontrou secretamente, disse ela, mas numa aldeia � dif�cil impedir que as l�nguas comecem a trabalhar com um senhor jovem e belo...</p><p>Luca Tornabuoni, meu antigo apaixonado, que depois da conspira��o dos Pazzi quase fez com que os carrascos de Floren�a a retalhassem. Se n�o tivesse ouvido aquele miser�vel com os meus pr�prios ouvidos, n�o teria acreditado...</p><p>Oh. Eu soube umas coisas que podem explicar esse facto surpreendente. Aquela pobre Khatoun e Florent eram... digamos, muito amigos. Al�m disso, creio que pensava n�o ter, na vossa casa, o lugar a que tinha direito e tinha alguns ci�mes de toda a gente.</p><p>Eu n�o lhe confiei o meu filho? Que outra prova de estima poderia dar-lhe?</p><p>Estima, estima! Ela queria amor... e, sobretudo, nenhuma responsabilidade! Quer queirais, quer n�o, Khatoun foi feita para a vida pregui�osa de um har�m, para uma vida de do�uras e car�cias...</p><p>Receio bem que n�o as consiga junto de Luca! Ele � um ego�sta refinado. Se, ao menos, soub�ssemos onde ela est�!</p><p>N�o, Fiora! N�o conteis comigo para a procurar, mesmo que eu pudesse. Ela j� tem idade suficiente para continuar sozinha e acaba de vos fazer mal!</p><p>Pouca coisa, comparada com tantos anos de dedica��o! Oh, L�onarde! Fico t�o preocupada com ela...</p><p>L�onarde n�o disse que preferia ver Fiora preocupada com Khatoun do que com ela pr�pria. Aquele caso do julgamento de Deus n�o lhe agradava nada. No entanto, a ang�stia ainda n�o a oprimia, porque acabava de ter uma ideia: enviar uma carta � princesa Joana para o castelo de Ligni�res, pedindo-lhe que interviesse. Era verdade que a princesa n�o tinha grande poder sobre o seu terr�vel pai, mas a velha solteirona sabia que, perante o seu olhar verdadeiramente celestial, o Rei ficava pouco �-vontade. Podia-se pedir tudo �quele cora��o ang�lico. � falta de Mortimer, enviado, assim parecia, na v�spera, em miss�o pelo Rei, � falta de Commynes, expedido da mesma maneira, sem d�vida para lhes tirar a vontade de entrar na li�a por Fiora, L�onarde pensou confiar a sua carta a Archie Ayrlie, aquele escoc�s que ensinara Florent a montar. Era bom rapaz, que fora mais de uma vez esvaziar alguns jarros � Casa das Pervincas. Se ele n�o pudesse ir a Ligni�res, arranjaria forma de mandar Florent. Quanto a encontr�-lo, L�onarde n�o teria dificuldade, j� que o via muitas vezes quando ia ao jardim com Philippe, onde o pequenito tinha autoriza��o para passear.</p><p>O combate teria lugar na ter�a-feira do dia 29 de Junho, festa de S�o Pedro e S�o Paulo. Com o seu perfeito conhecimento do calend�rio, Lu�s XI escolhera aquele dia porque o Papa, sucessor de S�o Pedro, estava mais ou menos implicado, na pessoa do seu sobrinho, naquela hist�ria sombria. O Rei nunca perdia uma ocasi�o para se reconciliar com o c�u, ou de o chamar em seu socorro. Pelo seu lado, L�onarde, quase t�o piedosa como o soberano, acrescentara aos dois pr�ncipes dos Ap�stolos a longa lista dos h�spedes do Para�so que ela invocava todos os dias em prol da paz e felicidade do �seu cordeiro�...</p><p>No entanto, � medida que os dias se iam passando, L�onarde ia perdendo o sono. A velha solteirona escrevera a sua carta e Archie Ayrlie encarregara-se dela de boa vontade. Ao mesmo tempo, tomara mil precau��es para n�o ser vista por ningu�m ao entregar-lha no jardim, o �nico s�tio onde beneficiava de alguma liberdade. N�o voltara a ver o escoc�s e n�o possu�a nenhum meio de saber se a sua missiva chegara a bom porto.</p><p>Com efeito, L�onarde tamb�m se encontrava submetida a estreita vigil�ncia, n�o podendo sair do seu alojamento sen�o escoltada por um arqueiro e na companhia do pequeno Philippe. Era-lhe proibido sair sozinha. Para al�m desse guarda, que a levava todos os dias � pris�o para se encontrar com Fiora, ou ao jardim para as sa�das do pequenito, n�o tinha afinidades sen�o com as duas criadas encarregadas de a servir. Nem uma �nica vez se encontrou com o Rei, cujas trompas de ca�a se ouviam frequentemente no p�tio de honra. Da sua janela podia ver aqueles que entravam ou sa�am, mas como n�o os conhecia, essas idas e vindas n�o tinham grande significado. Ent�o, quando n�o estava junto de Fiora e quando o pequenito dormia, passava horas a olhar para a pequena janela com grades do austero edif�cio em frente, que iluminava a prisioneira, e rezava, rezava para que um homem de bem, um cavaleiro digno desse nome aceitasse arriscar a sua vida para que a jovem n�o perdesse a sua...</p><p>Pela sua parte, Fiora preocupava-se muito menos, entregue a uma esp�cie de fatalismo que lhe retirava todo o medo dessa morte a mesma que o seu pai e a sua m�e tinham sofrido � qual tinha poucas hip�teses de escapar. Nem sequer queria mal a Lu�s XI pelo jogo cruel que inventara. O Rei sabia-o, temia tanto mais a morte quanto avan�ava na idade e se a sua coragem f�sica permanecia a mesma quando ia para a guerra, o assassinato manhoso, p�rfido, causava-lhe um verdadeiro horror. Talvez porque, ap�s os seus dezoito anos de reinado e at� antes, quando n�o passava de um delfim ferozmente hostil ao seu pai Carlos VII a sua intelig�ncia aguda lhe permitira evitar armadilhas, trai��es e emboscadas. Ora, aquela carta infeliz falava no seu assassinato. No fundo, o Rei dera mostras de uma grande brandura ao propor o duelo judici�rio, podia ter mandado executar em segredo a pseudoculpada ou p�-la a apodrecer, com os ossos partidos, no fundo de uma masmorra qualquer...</p><p>Ent�o, Fiora esfor�ou-se por atirar para longe de si a evoca��o desse dia amea�ador, para se consagrar por inteiro ao seu filho. N�o vivera muito tempo junto dele e descobria-o com del�cia, encantando-se com a sua beleza e intelig�ncia precoce. Nunca tendo visto outra coisa que n�o sorrisos e n�o tendo recebido outra coisa que n�o car�cias, o pequenito era uma crian�a muito alegre. A despeito de um car�cter j� em afirma��o, tinha uma grande alegria de viver e transbordava de ternura pela sua m�e, a quem apelidava, por vezes, de �minha bela dama�.</p><p>Para explicar o facto de Fiora n�o o acompanhar nunca ao jardim, tinham-lhe dito que ela estivera doente e que precisava de repouso. Apesar de aceitar a explica��o sem discutir, Philippe n�o conseguia compreender por que raz�o a sua m�e n�o vivia com L�onarde e ele no castelo, antes no �quarto reles� que, na sua l�gica infantil, n�o era pr�prio para uma convalescen�a. O pequenito n�o dizia nada, mas demonstrava a Fiora ainda mais amor. Ele, t�o turbulento, ficava horas sentado nos joelhos da m�e, encostado ao seu peito, ouvindo hist�rias e recebendo beijos...</p><p>Meu Deus! rezava interiormente L�onarde. Fazei com que depois deste combate idiota a nossa Fiora recupere a liberdade. Sen�o... oh, nem ouso pensar no que acontecer�!</p><p>O m�s de Junho passou, doce e florido, com as manifesta��es alegres da festa do Corpo-de-Deus, que despojaram por completo as roseiras dos arredores e do S�o Jo�o que acendeu, chegada a noite, grandes fogueiras nas pra�as de todas as aldeias e no p�tio de todos os castelos. Em Plessis, Fiora, se ouviu os c�nticos e os gritos de alegria, n�o viu o reflexo da imensa fogueira que a Guarda Escocesa acendeu no primeiro p�tio, em frente dos seus aquartelamentos. O seu quarto permaneceu obscuro, como se quisessem fazer-lhe sentir que estava na antec�mara da morte.</p><p>Quando pensava no Rei, era com mais tristeza do que c�lera, porque se sentia ligada �quele homem a envelhecer, cuja grande fronte abrigava um esp�rito t�o subtil, uma intelig�ncia t�o universal. E eis que aquele c�rebro excepcional permitira que o medo do assass�nio vencesse a amizade, a quase afei��o que sentia por �donna Fiora�. Aquela amizade, depois de ter ajudado a jovem a viver, quebrara-se por causa de uma simples folha de papel, por causa de umas simples linhas cuja letra o Rei n�o quisera ver que era falsa. Pior ainda, o Rei recusara os dois campe�es que se tinham, espontaneamente, oferecido para defender a sua causa e para ter a certeza de que n�o perturbariam a sua festa macabra, mandara-os para longe. Ent�o, quando esses pensamentos lhe vinham � mente, Fiora ajoelhava-se e rezava...</p><p>Chegou o �ltimo dia...</p><p>Quando L�onarde levou o pequeno Philippe, bem disse que a poeira lhe irritava os olhos, mas era evidente que chorara durante toda a noite. E, de facto, as not�cias n�o eram tranquilizadoras: nem Commynes, nem Mortimer, tinham aparecido e Archie Ayrlie confiara � velha solteirona que, tanto quanto sabia, n�o se apresentara nenhum campe�o. O escoc�s acrescentara que eram muitos aqueles que, na Guarda, desejavam oferecer as suas armas � prisioneira, mas era de temer que o Rei os rejeitasse, tal como rejeitara Mortimer.</p><p>O dia foi longo e penoso para as duas mulheres. Pelo pequenito, mantiveram a atitude habitual, sorrindo-lhe e brincando com ele. Fiora conseguiu-o melhor do que L�onarde, talvez porque n�o tivesse, realmente, medo. A jovem s� lamentava deixar os que amava, n�o poder abra�ar pela �ltima vez a sua querida Lorenza que, essa, nunca conheceria a sua m�e.</p><p>No momento de se separarem, ela abra�ou L�onarde com uma ternura infinita.</p><p>V�s, que sois t�o piedosa sussurrou ela, sentindo as l�grimas da velha solteirona na face dev�eis ter mais confian�a em Deus. Ele � que vai decidir amanh� e, se n�o quiser que eu morra, nem o Rei nem ningu�m poder� fazer o contr�rio...</p><p>� verdade, meu cordeiro, tendes raz�o e eu n�o passo de uma velha tola. Mas vou rezar, rezar, rezar tanto que o Senhor h�-de ouvir-me! Tenho confian�a e se amanh� � noite n�o vos puder apertar nos bra�os como agora, querer� dizer que Deus n�o existe. Mas, nesse aspecto, estou tranquila...</p><p>Ent�o, Fiora apertou o seu filho contra o cora��o e guardou-o ali um instante, cobrindo de beijos ligeiros os carac�is sedosos e a pequena fronte t�o suave.</p><p>Porta-te bem, cora��o! Se n�o me vires amanh� � porque parti para uma grande viagem... por causa da minha sa�de!</p><p>Ides ver o meu paizinho?</p><p>Sim, meu anjo, prometo-te: hei-de ir ver o teu paizinho e talvez, ent�o, te leve comigo...</p><p>As l�grimas estavam demasiado pr�ximas e ela n�o queria que o pequenito as visse. Entregou-o a L�onarde e, suavemente, empurrou ambos na direc��o da porta que Gr�goire mantinha aberta. O guarda esperava no patamar.</p><p>Quando a porta se fechou, Fiora ficou im�vel no mesmo lugar, escutando, nos degraus de pedra, os passos curiosamente pesados de L�onarde a desaparecerem. Depois, ouviu o som da pesada porta que dava para o p�tio... Fiora ficou s�, s� perante si mesma, perante o seu passado, perante os seus pecados, perante os seus amores reais ou simulados.</p><p>Tudo aquilo, disse ela para si pr�pria, n�o passava de uma terr�vel embrulhada e mais valia que no dia seguinte � morte do seu pai tivesse morrido no ju�zo de Deus pela �gua que Hieronyma, certa de sair inc�lume, pedira para as duas. H� muito que o seu corpo, levado pelas �guas amareladas do Arno, se teria fundido no mar azul. Philippe n�o teria nascido... nem Lorenza, mas Fiora sentia-se menos inquieta pela filha do que pelo filho. Lorenza viveria protegida pelo amor duplo de Agnolo e de Agnelle e talvez tamb�m pelo poder do seu pai... se Louren�o de M�d�cis conseguisse vencer a guerra �mpia a que o Papa o for�ava. Enquanto que Philippe, se o seu pai n�o abandonasse o ref�gio ilus�rio do priorado onde estava para velar ele pr�prio pelo seu filho, s� teria L�onarde, j� idosa, e a boa gente de la Rabaudi�re. N�o teria o Rei piedade daquela crian�a duplamente �rf�?</p><p>Quando o superior do pequeno convento encerrado nas muralhas de Plessis-l�s-Tours penetrou na sua pris�o para a ouvir em confiss�o, encontrou Fiora sentada no seu leito com as m�os pousadas tranquilamente nos joelhos.</p><p>A confiss�o durou muito tempo. Para ser compreendida por aquele homem simples que s� ouvia os pecados dos guardas criados do castelo, Fiora teve de lhe contar uma grande parte da sua curta vida. � medida que ia falando, pareceu-lhe tudo t�o estranho, t�o anormal, que a jovem compreendeu perfeitamente o ar espantado do monge...</p><p>Tens a certeza, minha filha, que n�o est�s a inventar nada? perguntou ele, horrorizado quando ela evocou as suas estranhas rela��es com o Papa. Ser� poss�vel o nosso Santo Padre ter um comportamento t�o negro?</p><p>N�o me sinto surpreendida com a vossa reac��o, senhor abade. Mas v�s n�o sois italiano. A diferen�a est� a�. Eu estou, simplesmente, a tentar fazer-vos compreender por que raz�o tive de cometer tantos pecados e pe�o-vos que mos perdoeis com a mesma sinceridade com que eu os lamento. Pensai que amanh� vou comparecer perante o tribunal de Deus. Mas Ele n�o ter� necessidade de explica��es...</p><p>Depois de o religioso ter abandonado a sua cela, Fiora, recuperada toda a sua coragem, comeu com apetite o fricass� de pato e o pat� de vitela que o bom do Gr�goire lhe serviu com uma bela salada e uma massa a�ucarada frita, tudo acompanhado com um vinho de Orle�es fresco. Um pequeno cesto de cerejas terminava aquele festim a que a jovem fez as honras, recusando-se a ouvir as fungadelas do seu carcereiro e a olhar-lhe para os olhos, t�o vermelhos como os de L�onarde. Ap�s o que se deitou e adormeceu t�o tranquilamente como se o dia seguinte fosse um dia como outro qualquer...</p><p>Acordando de madrugada para fazer uma longa e minuciosa toillette, Fiora voltou a vestir o vestido de que gostava particularmente, de espesso cendal branco e bordado com pequenos ramos verdes e cord�es dourados entrela�ados. Incapaz de fazer a si mesma um daqueles penteados para os quais era necess�ria a ajuda de uma companheira, escovou cuidadosamente os seus espessos cabelos negros e fez duas tran�as, que pregou na nuca com a ajuda de alfinetes, fazendo um pesado carrapito que nenhuma l�mina seria capaz de atravessar. Era a sua maneira de desafiar a morte. Em seguida, pegou num v�u branco, colocou-o sobre a cabe�a e enrolou-o em redor do seu longo e delgado pesco�o como outrora no decurso das suas longas cavalgadas, quando viajava de vestido. Depois, esperou que a viessem buscar.</p><p>Fiora sabia que estava autorizada a ouvir missa na pequena capela dedicada a Notre-Dame de Cl�ry, o orat�rio preferido do Rei, que se situava a oeste do primeiro p�tio, perto do torre�o. Tornabuoni e l� Daim, esses, ouvi-la-iam na do castelo, que se situava a seguir aos aposentos reais.</p><p>Fiora apreciou aquela disposi��o, que a punha ao abrigo de um encontro com aqueles dois homens encarni�ados na sua perda. Ao atravessar o p�tio de honra para se deslocar � primeira, ela apercebeu, nos aposentos reais, uma tribuna decorada com as cores de Fran�a. Fora preparado um vasto espa�o, delimitado por cord�es de seda ligando quatro lan�as espetadas no solo. De facto, o combate seria efectuado com espadas e adagas, para que se soubesse que n�o se tratava de um torneio. Sob aquele belo sol matinal, as tape�arias azuis e douradas davam, apesar de tudo, um ar festivo �queles preparativos.</p><p>Entretanto, tinham sido dadas ordens para que, � excep��o da sua escolta armada, Fiora n�o se encontrasse com ningu�m. Na capela s� se encontravam um velho padre e o seu ac�lito, diante de quem ela se ajoelhou para seguir piedosamente o of�cio divino e receber a Santa Comunh�o. Depois, pelo mesmo caminho, levaram-na de volta � sua cela sem que encontrassem vivalma. O castelo, para al�m das sentinelas nas muralhas, parecia mergulhado num profundo torpor.</p><p>Uma refei��o ligeira de mel, leite, p�o e manteiga esperava-a e ela consumiu uma boa parte para se assegurar de que nenhuma fraqueza a trairia. O combate teria lugar ao fim da manh�, durante a �ltima hora antes do meio-dia e j� n�o faltava muito tempo. Assim, a jovem verificou o seu penteado e depois lavou as m�os. Estava pronta para se submeter ao seu destino, fosse ele qual fosse. E sentiu a alma em paz. S� necessitava de um pouco de coragem e pensou na sua m�e, Marie de Br�vailles, que subira para o cadafalso com um sorriso nos l�bios. Era verdade que partira com aquele que amava e, desse modo, as coisas tinham-lhe sido, sem d�vida, facilitadas. Fiora teria de morrer s� e sem dar mostras de fraqueza. A jovem pensou que devia esse comportamento ao seu nome e � mem�ria dos seus pais verdadeiros, assim como � do seu pai adoptivo.</p><p>O aspecto do p�tio, encerrado entre os edif�cios cor-de-rosa e brancos do castelo, pareceu-lhe bem diferente do que algumas horas antes quando, � hora prevista, foi conduzida ao lugar preparado para ela: uma cadeira em cima de um estrado, situada � direita e um pouco afastada da tribuna real, agora cheia de homens vestidos de escuro em redor da cadeira de bra�os sobrelevada de Lu�s XI. Este tinha ao pesco�o o colar de Saint-Michel e as suas roupas, extraordinariamente, eram de veludo negro, tal como o chap�u ornamentado com medalhas e cuja aba, baixada � frente, fazia sobressair a linha do seu nariz.</p><p>Fiora saudou-o como convinha e dirigiu-se ao seu lugar. S� ent�o a jovem viu o carrasco. Todo vestido de vermelho e com a espada ao ombro, devia ter seguido o pequeno grupo quando este sa�ra da pris�o, mas Fiora n�o reparara nele.</p><p>A despeito da sua coragem, a jovem sentiu-se empalidecer quando ele se instalou a dois passos da sua cadeira com as m�os apoiadas no punho da arma cuja ponta estava espetada no solo. Ent�o, ela obrigou-se a olhar em frente, para o espa�o delimitado pelos cord�es de seda. Um dos lados, na direc��o da entrada do castelo, permanecia aberto, mas � excep��o dessa passagem, o terreiro da li�a estava rodeado por uma fila de guardas escoceses cujas armaduras polidas brilhavam ao sol sob a cota de armas com a flor-de-lis. Infelizmente, Mortimer n�o estava entre os presentes, assim como Commynes no grupo reduzido de conselheiros do Rei. Nenhum p�blico, para al�m destes. At� a grade estava descida entre os dois p�tios de Plessis. Por fim, de p� diante da tribuna, ela pr�pria encostada � parede dos aposentos reais, estava o grande preboste, juiz do combate...</p><p>Junto dele quatro trombetas e, um pouco mais longe, quatro tambores cobertos de crepe negro.</p><p>Tristan L�Hermite virou-se lentamente para o Rei, que saudou com a rigidez de um velho soldado:</p><p>O Rei ordena que os combatentes entrem no terreiro da li�a?</p><p>Com um sinal de cabe�a e um gesto da m�o, Lu�s XI disse que sim. Um instante mais tarde, anunciados pelo rufar dos tambores, Luca Tornabuoni e Olivier l� Daim faziam a sua entrada e ajoelhavam-se diante do soberano. Ambos tinham a t�nica de couro e a meia-armadura apropriadas para um combate a p�. Atr�s deles, um escudeiro transportava duas espadas e duas adagas. As coura�as tinham-lhes sido emprestadas, porque eles n�o possu�am esses apetrechos de guerra, pelo menos no caso de Tornabuoni, cujo bras�o fora pintado no pequeno escudo que lhe serviria de defesa. L� Daim, n�o sendo nobre, mandara pintar um gamo sobre fundo azul, constituindo um bras�o simb�lico. Ambos arvoravam uma palidez assustadora.</p><p>Nesse momento, a grade ergueu-se para dar passagem ao pequeno cortejo constitu�do pelo padre e pelo Sant�ssimo Sacramento, diante do qual os presentes se iam ajoelhando � medida que ele passava. Uma jovem, rezando, caminhava alguns passos atr�s do religioso. O seu grande toucado azulado e o seu vestido com flores-de-l�s, como as cotas de malha dos escoceses, contrastavam com os trajes f�nebres do s�quito real. Fiora reconheceu-a e o seu cora��o teve um baque: era a segunda filha do rei, Joana de Fran�a, duquesa de Orle�es. E a sua chegada contrariou fortemente o seu pai:</p><p>Por Deus, minha filha, que vindes aqui fazer? exclamou ele depois de a cust�dia ter sido depositada num altar port�til coberto de tecido dourado ali instalado por dois monges.</p><p>A jovem princesa, dobrando o joelho com humildade, ergueu corajosamente para o seu pai o rosto ingrato e os olhos magn�ficos cuja cor era a mesma do grande c�u azul daquela manh�.</p><p>Ainda n�o sei, Sire meu pai, mas pareceu-me que tinha de vir ter convosco a partir do momento em que pedistes a Deus que vos assistisse no vosso julgamento.</p><p>Como diacho soubestes disto no vosso castelo?</p><p>Recebi uma carta, Sire disse Joana, que n�o sabia mentir.</p><p>Uma carta de quem?</p><p>Permiti que vos d� a minha resposta no fim do combate...</p><p>Como vos agradar! Ali�s, duvido que vos agrade. Bem, j� que estais aqui, vinde sentar-vos junto de mim e passemos ao que se segue.</p><p>O seu olhar sombrio pousou-se nos dois homens ainda de joelhos:</p><p>Mantendes as acusa��es contra a dame de Selongey aqui presente?</p><p>Apenas Tornabuoni respondeu �sim� com alguma firmeza na voz. O seu companheiro, cujos dentes batiam apesar da do�ura da manh�, contentou-se em acenar com a cabe�a, incapaz de falar.</p><p>Confessastes-vos, ouvistes missa e recebestes a Santa Comunh�o? E, mesmo assim, mantendes o que dizeis?</p><p>Ambos responderam da mesma forma. O olhar do Rei era fulgurante, mas o soberano permitiu que os cantos da sua boca esbo�assem um sorriso:</p><p>N�s pensamos saber por que raz�o demonstrais tanta certeza e tanta coragem, ali�s bem-aventurada disse ele, trocista. Pensais que, como messire Mortimer e messire de Commynes n�o podem ser campe�es daquela que acusais, mais ningu�m arriscar� a vida por uma causa t�o m�! Pois ent�o olhai! E v�s, trombetas, soai! Parece-me que vem l� um cavaleiro!</p><p>A grade, com efeito, erguia-se ainda mais e deixava passar tr�s cavaleiros: um em traje de viagem, os dois outros de armadura... e uma imensa alegria inundou o cora��o de Fiora: porque se o primeiro era Commynes, um dos outros dois, que na cota de armas ostentava as �guias de prata, era Philippe de Selongey...</p><p>Transposta a porta, os tr�s homens puseram p� em terra e avan�aram juntos na direc��o da tribuna, diante da qual Tornabuoni e Olivier l� Daim os viam aproximar com um vago terror, persuadidos, sem d�vida, de que as regras do combate iam alterar-se e que teriam de enfrentar, pelo menos, dois dos guerreiros. Chegados diante do Rei, os tr�s saudaram ao mesmo tempo e Commynes disse:</p><p>Sire, messire Mortimer e eu pr�prio cumprimos a miss�o de que o Rei nos deu a honra de nos encarregar. Que o nosso Sire permita que lhe apresente o conde Philippe de Selongey, cavaleiro da mui nobre ordem do Tos�o d�Ouro, que se apresenta perante v�s de sua livre vontade para defender a causa e a vida da sua mulher injustamente acusada. Ele aceita, naturalmente, o combate at� � morte.</p><p>Do seu lugar, reparando no perfil acerado de Philippe, Fiora sentiu o seu cora��o derreter-se de amor. Nunca ele lhe parecera mais magn�fico nem mais orgulhoso! Lu�s XI debru�ou-se para ele com um cotovelo apoiado num joelho:</p><p>Agrada-nos acolher-vos nesta li�a, conde de Selongey Cont�vamos, com efeito, que vos aperceb�sseis do grave perigo em que se encontrava a condessa... devido � sua imprud�ncia.</p><p>Se o que me disseram � exacto, Sire e eu n�o tenho raz�o para duvidar, n�o vejo aqui nenhuma imprud�ncia, antes a inoc�ncia surpreendida e � com alegria que vou combater, com a permiss�o do Rei e em conjunto com estes dois homens que ousaram acus�-la pelos motivos mais baixos: o ci�me e a cupidez...</p><p>Um momento! Antes de entrardes em li�a, � bom que esclare�amos a vossa posi��o perante n�s. V�s fostes condenado � morte uma vez por nos terdes estendido uma armadilha e nos terdes tentado assassinar.</p><p>A palavra � grosseira, Sire protestou Philippe. N�s est�vamos em guerra e v�s �reis o mais mortal inimigo do meu senhor, monsenhor Carlos de Borgonha, que Deus tenha na sua guarda!</p><p>Admitamos! A condessa conseguiu, n�o apenas a vossa gra�a, mas tamb�m a vossa liberdade, que vos foi devolvida sem condi��es. O nosso governador de Dijon atingiu-vos, uma segunda vez, com a senten�a de morte por terdes tentado sublevar o povo... Deixai-nos falar sem interromper, por favor! rosnou ele quando Philippe j� abria a boca. Dessa vez, s� a nossa vontade vos poupou a vida para n�o fazer chorar uns olhos demasiado belos, mas ficastes prisioneiro no nosso castelo de Pierre-Sc�ze... de onde vos evadistes. � exacto?</p><p>Selongey esbo�ou uma sauda��o para mostrar que estava de acordo.</p><p>Portanto continuou o Rei aos nossos olhos, sois um prisioneiro em fuga e, como tal, temos o direito de vos punir se, por acaso, conseguirdes aqui a vit�ria. Esperamos que os nossos mensageiros vos tenham exposto claramente a situa��o...</p><p>Um ligeiro sorriso abriu a boca arrogante de Philippe:</p><p>N�o ignoro nada do que me espera. Messire de Commynes, em particular... que eu n�o tinha o prazer de ver desde que ele abandonou... um pouco depressa de mais o servi�o de monsenhor Carlos, foi extremamente claro nesse ponto. Hoje, apenas uma coisa me interessa: arrancar �quele carrasco que vejo ali a mulher que usa o meu nome e que me deu um filho...</p><p>Um filho que v�s n�o pareceis muito interessado em conhecer? N�o apenas sois um marido estranho, senhor conde, como sois, tamb�m, um pai curioso...</p><p>Aqueles que quiseram permanecer fi�is ao seu juramento feudal e � mem�ria do defunto duque vivem tempos cru�is, Sir e pela minha parte, cansado de acordos coxos e concess�es demasiado f�ceis, preferi servir a Deus! S� Ele me parecia suficientemente grande...</p><p>Para ter direito � vossa homenagem? Embora isso n�o seja muito am�vel para a nossa pessoa, estamos longe de vos censurar por terdes escolhido um t�o grande senhor, um senhor do qual n�s, reis e pr�ncipes, n�o seremos nunca sen�o humildes criados. Mas n�o estamos certos de que essa escolha t�o nobre apague o juramento prestado diante do altar a uma jovem que est� no direito de esperar de v�s amor e protec��o.</p><p>N�o o esqueci e � por isso que vou combater por ela...</p><p>Dois advers�rios ao mesmo tempo, j� pensastes? Sabemos que n�o � conforme �s regras da cavalaria, mas n�o duvidando da vossa vinda e conhecendo o vosso valor, pareceu-nos que, assim, as for�as ficariam mais equilibradas...</p><p>Olhando para os seus advers�rios, o sorriso de Philippe carregou-se de indiz�vel desd�m:</p><p>H� alguns anos vi lutar, em Floren�a, messire Tornabuoni e creio ter-lhe dito, ent�o, o que pensava dos seus... talentos guerreiros. O outro n�o conhe�o, se n�o por t�-lo ouvido mentir...</p><p>Pretensioso insuport�vel! rugiu o florentino vou-te mostrar do que sou capaz. Lembra-te que s� a vontade do meu primo Louren�o de M�dicis me impediu, ent�o, de te cortar as orelhas!</p><p>Uma vontade que veio bem a prop�sito. Quanto �s minhas orelhas, n�o t�m muito a temer. Quando quiserdes, meus senhores!</p><p>Selongey recebeu das m�os de Mortimer o seu elmo e das de Commynes a sua espada e o seu escudo. Ap�s uma �ltima sauda��o ao Rei, o cavaleiro foi ajoelhar-se por breves instantes perante o Sant�ssimo Sacramento para receber a b�n��o do padre. Os dois outros seguiram-no, o infeliz barbeiro sobre umas pernas mal seguras que fizeram sorrir Tristan l�Hermite. Por fim, os tr�s colocaram-se �s ordens do preboste, que iria dirigir o combate, para ouvirem as regras. Nesse momento, a voz de Lu�s XI fez-se ouvir:</p><p>S� mais um momento! Regressai aqui, meus senhores!</p><p>Quando eles se alinharam na sua frente, o Rei deu-se ao prazer de os encarar � vez e, detendo o seu olhar agudo, dif�cil de sustentar, em Selongey, disse suavemente:</p><p>Messire Philippe, nunca houve amizade entre n�s, mas v�s sois de alta linhagem e n�s estimamos demasiado a vossa bravura para vos infligir a afronta de combaterdes contra mestre Olivier l� Daim, que n�o � se n�o o nosso barbeiro e a quem n�o quisemos fazer cavaleiro. � um poltr�o indigno de usar armas. Defrontareis, portanto, apenas o embaixador de Floren�a, que � de nascimento nobre...</p><p>O al�vio do barbeiro foi de tal modo evidente que a assembleia foi percorrida por uma risada. Mas Selongey n�o se riu:</p><p>Se ele insultou uma dama, merece a puni��o que lhe vou infligir, cortando-lhe a garganta. Para isso ser� suficiente a adaga, n�o sujarei a minha espada...</p><p>Tudo bem, tudo bem! Por Deus, senhor conde, n�s compreendemos a vossa c�lera, mas n�o nos priveis do nosso barbeiro! No entanto acrescentou ele com uma s�bita dureza as vilanias provadas de mestre Olivier valer-lhe-�o ser aprisionado no nosso castelo de Loches durante o tempo que nos apetecer. Depois, se decidirmos devolver-lhe a luz, dever� expiar o perj�rio de que � culpado perante Deus indo rezar ao t�mulo de Santiago de Compostela, na Galiza. Levai-o, Mortimer, at� que o nosso grande preboste tenha vagar para se ocupar dele!</p><p>Ser� uma alegria, Sire! suspirou Tristan l�Hermite. O Rei deseja que o combate comece, agora?</p><p>O Rei fez sinal de que n�o tinha mais nada a dizer, enquanto levavam o barbeiro aos berros e a espernear. Entretanto, Philippe dirigiu-se a Fiora e, pegando na sua espada pela ponta, estendeu-lha para que ela pousasse, por um instante, os dedos no punho, como o exigia a antiga tradi��o. Se bem que j� n�o fosse muito respeitada, parecia que, naquela manh�, as tradi��es tinham a parte melhor. Philippe fazia quest�o naquela:</p><p>Madame disse ele em voz suficientemente alta para que todos ouvissem aceitais-me como vosso campe�o?</p><p>Ela tocou na arma com uma m�o tr�mula e atrav�s das l�grimas que n�o conseguia reter ofereceu ao marido um olhar radiante de amor.</p><p>Sim... mas, por amor de Deus, tende cuidado, porque, se vos acontecer qualquer coisa, serei eu a chamar a morte...</p><p>Selongey teve um pequeno sorriso e acrescentou em voz baixa:</p><p>Suplico-vos, mesmo que me vejais tombar, que n�o vos atireis para o meio da li�a, como fizestes em Nancy. N�o gostaria de reviver uma tal cena...</p><p>Em seguida, Philippe juntou-se ao seu advers�rio, ao mesmo tempo que os tambores faziam ouvir o seu rufar lento, de tal modo sinistro que gelou o sangue de Fiora. Tornabuoni, a jovem sabia-o, n�o era um inimigo negligenci�vel. Em Floren�a, n�o tendo mais nada que fazer, exercitava-se com as armas, arte que Philippe n�o praticava, certamente, h� muitos meses. Uma ora��o fervorosa e silenciosa ergueu-se do seu cora��o em direc��o ao c�u:</p><p>N�o por mim, Senhor, mas por V�s, visto que ele Vos escolheu, fazei com que viva!</p><p>Entretanto, no instante em que os tambores se calaram, o grande preboste gritou:</p><p>Que os combatentes avancem e que Deus fa�a o seu ju�zo!</p><p>O combate come�ou com uma extrema viol�ncia. Sem sequer se estudarem mutuamente, Selongey e Tornabuoni atiraram-se um ao outro, resolvidos a exterminarem-se. Sob os golpes das espadas, os escudos soavam como sinos, mas depressa se tornou evidente que Philippe tinha a vantagem da estatura</p><p>Ver Fiora e Carlos, o Temer�rio.</p><empty-line/><p>e tamb�m da for�a. Tendo esquivado com habilidade uma bota manhosa dirigida ao seu ventre, o borgonh�s atirou-se ao seu advers�rio e os seus golpes come�aram a chover, t�o densos como granizo em Abril. Luca recuou, recuou, esfor�ando-se por proteger a cabe�a e sem conseguir desferir qualquer golpe. Foi salvo quando tocou nos cord�es do recinto: o juiz ordenou a Philippe que o deixasse ganhar um pouco de espa�o. Este obedeceu e recuou. O outro aproveitou para se atirar atr�s da sua espada como um ar�ete, na inten��o evidente de reatar o golpe falhado momentos antes: trespassar-lhe o ventre a despeito da protec��o. Fiora reteve, por pouco, um grito, mas Philippe tinha demasiada experi�ncia das diversas formas de combate para se deixar surpreender. O cavaleiro esquivou o golpe com a agilidade de um bailarino e o florentino, levado pelo impulso, quase trespassou Tristan l�Hermite, que o empurrou com vigor. Luca resmungou uma desculpa e girou nos calcanhares para enfrentar de novo Philippe, mas este j� estava sobre ele. Largando a espada, desferiu um soco no advers�rio que o estendeu por terra. Em seguida, atirou-se para cima dele e, tirando a adaga, encostou-lha tranquilamente � garganta:</p><p>Eu tinha-te dito que um justador italiano n�o tinha hip�tese contra um cavaleiro borgonh�s ironizou ele. Diz as tuas ora��es!</p><p>Miseric�rdia! Miseric�rdia!... Piedade! Sim, eu menti para que o Rei acreditasse que conspir�veis juntos, tu e Fiora... Mas...</p><p>Se ainda tens muitas coisas para dizer, despacha-te, porque j� n�o tenho paci�ncia para ti...</p><p>A crian�a... existe... mas o Magn�fico � que � o pai! Miseric�rdia!</p><p>Philippe ergueu o punhal. Um grito do Rei deteve-o...</p><p>Alto!</p><p>Sem largar o seu inimigo vencido, Philippe virou a cabe�a para a tribuna.</p><p>O combate � at� � morte, Sire, recordo-vo-lo. A vida deste homem pertence-me.</p><p>Nesse caso, concedei-ma! Ele � um miser�vel e Deus julgou bem, mas tamb�m � um embaixador e, al�m disso, pertence � fam�lia M�d�cis. N�o gostar�amos de ofender, mais do que o necess�rio, o senhor Louren�o, que tem a nossa amizade.</p><p>Selongey ergueu-se, mas n�o guardou a adaga na bainha e manteve o vencido debaixo de olho:</p><p>Que se cumpra a vontade do Rei! Mas posso perguntar quais s�o as suas inten��es?</p><p>Ele vai regressar a Floren�a sob uma boa escolta e munido de uma carta nossa expondo o que acaba de acontecer. N�o ficaremos surpreendidos se o senhor Louren�o lhe reservar algumas manifesta��es de descontentamento. Guardas! Levai-o para o quarto dele, onde ficar� retido at� � partida.</p><p>Enquanto isso, compreendendo que nada mais tinha a fazer ali e que a sua presen�a n�o era desejada, o carrasco inclinou-se perante Fiora e, com a espada ao ombro, encaminhou-se para a torre da Justi�a no primeiro p�tio. Fiora, essa, morria de desejo de se atirar a Philippe, mas n�o ousou mexer-se sem a autoriza��o do Rei. A jovem respondeu com um movimento gracioso de cabe�a � sauda��o do executor e esperou. Entretanto, Philippe avan�ou at� junto da tribuna real e sem p�r o joelho em terra como o costume exigia:</p><p>A vida e a honra de donna Fiora est�o salvas, Sire, como Deus quis. Quanto a mim, sou agora prisioneiro do Rei!</p><p>� assim que o entendemos, mas, antes de decidir, respondei a uma pergunta! Se vos devolv�ssemos a liberdade, que far�eis?</p><p>Regressaria para o lugar de onde vim, Sire!</p><p>Oh!...</p><p>Se bem que ligeiro, o queixume de Fiora foi ouvido pelo Rei que, com um gesto, lhe imp�s sil�ncio.</p><p>Regressar�eis ao convento?</p><p>Sim, Sire. N�o pretendo servir outro senhor que n�o Deus. Que o Rei me perdoe!</p><p>N�o vos podemos reprovar um t�o alto des�gnio, mas essa liberdade n�o passa de uma suposi��o. De facto, damos-vos a escolher duas perspectivas: ou regressais �s vossas terras da Borgonha, que continuam a ser vossas, com a vossa mulher e o vosso filho, prometendo manter-vos tranquilo, ou tereis diante de v�s longos e alegres anos no castelo de Loches, numa das nossas masmorras! Vinde aqui, donna Fiora!</p><p>A jovem avan�ou lentamente at� junto do seu marido, para o qual n�o ousou olhar.</p><p>Sire! disse ela, erguendo para o soberano os seus olhos cheios de l�grimas corajosamente contidas suplico ao Rei que n�o force messire de Selongey a uma escolha penosa. Que o Rei lhe permita regressar ao priorado de Notre-Dame!</p><p>E v�s, Madame, que vai ser de v�s?</p><p>O que agradar ao Rei, mas suplico-lhe que me permita viver em paz. Sinto-me infinitamente cansada...</p><p>N�o admira! De qualquer maneira, conservareis la Rabaudi�re, que vos foi dada a t�tulo definitivo, a v�s e aos vossos descendentes. Mas... que temos agora?</p><p>Era a princesa Joana, que no fim do combate tinha abandonado a tribuna depois de o seu pai lhe ter dito qualquer coisa ao ouvido. Pela m�o, a jovem segurava o pequeno Philippe e L�onarde seguia-a.</p><p>Como toda a gente, Philippe virara a cabe�a na direc��o do olhar do Rei. O grupo encantador, formado pelo pequenito e pela pequena princesa defeituosa que ele parecia apoiar, f�-lo fixar o olhar. Ent�o, Joana deteve-se:</p><p>Quereis ir abra�ar messire vosso pai? perguntou ela docemente.</p><p>O petiz, olhando maravilhado para aquele grande cavaleiro vestido de armadura, extremamente semelhante � imagem que ele fazia do pai, n�o hesitou um momento. Estendendo os pequenos bra�os, correu para ele, ao mesmo tempo que Philippe se ajoelhava para o receber sem o apertar com muita for�a, porque o contacto com o a�o n�o tinha nada de agrad�vel. Mas abra�ou-o com um fervor que fez sorrir Lu�s XI. Este fingiu que n�o viu as duas l�grimas que deslizavam pelas faces do intrat�vel senhor de Selongey.</p><p>Creio suspirou ele que estamos entendidos! Levantando-se penosamente do seu trono, o Rei desceu os tr�s degraus que iam da tribuna ao saibro do p�tio.</p><p>N�s n�o vamos exigir que nos presteis vassalagem disse ele severamente a Philippe. Mas exigimos de v�s a promessa formal de que n�o nos prejudicareis mais e, em seu devido tempo, de que n�o ensinareis os vossos filhos a odiar a Fran�a, antes pelo contr�rio, que os ensinareis a servi-la. N�o esque�ais que Selongey est� na Borgonha e que a Borgonha regressou � nossa coroa, como o exige a lei feudal, no caso de um pr�ncipe Valois morrer sem herdeiros masculinos.</p><p>Philippe, que se levantara, pousou o filho e o pequenito aproveitou para correr para a m�e. O cavaleiro olhou por um instante para aquele homenzinho estranho mais baixo do que ele uma cabe�a, aquele homenzinho que tinha t�o pouco ar de Rei... salvo em momentos como aquele, em que irradiava uma majestade incr�vel. Lentamente, Philippe p�s um joelho em terra e estendeu o bra�o:</p><p>Pela minha honra e pelo meu nome, Sire, juro. Nunca mais os de Selongey pegar�o em armas contra o Rei de Fran�a.</p><p>Agradecemos-vos! Bem, donna Fiora, eis-vos em fam�lia. � a v�s que confiamos este rebelde! � a v�s que cabe a sua guarda e n�s n�o duvidamos...</p><p>N�o, Sire, por piedade! Eu n�o quero essa responsabilidade...</p><p>Fazei dela o que quiserdes! Damos-vos as boas-tardes. Ent�o, minha filha acrescentou ele, virando-se para a duquesa de Orle�es estais contente?</p><p>Estou, Sire! Na verdade, nunca duvidei da vossa justi�a. Mas, por que infligistes a donna Fiora esta longa penit�ncia, esta ang�stia, este medo de perder a vida? T�nheis mesmo necessidade de apelar a Deus?</p><p>Sempre a falar, ela e Lu�s XI afastaram-se na direc��o dos aposentos reais. O Rei sorriu e, baixando a voz, inclinou-se para ser mais bem ouvido:</p><p>� evidente que n�o! Compreendi rapidamente que aquela infeliz era v�tima de uma conspira��o, mas era preciso que todos a acreditassem em perigo de vida para conseguir que o teimoso do marido sa�sse do seu covil...</p><p>Mas, e ela? Por que n�o a avisastes?</p><p>Porque, mesmo assim, ela cometeu suficientes tolices para merecer uma boa li��o. E pro�bo-vos de lhe dizer seja o que for. N�o gosto muito de explicar os meandros dos meus pensamentos! E agora, minha filha, vamos para a mesa! Na verdade, tudo isto me abriu o apetite!</p><p>Fiora, com Philippe, o filho de ambos e L�onarde, regressavam a cavalo � Casa das Pervincas, mas os dois esposos ainda n�o tinham trocado uma �nica palavra. Selongey levava o filho diante de si, na sela, e n�o cessava de o contemplar. Entretanto, Fiora sentia-se triste por o seu marido n�o ter dado sinais, at� ao momento, de que ela existia. Ele e o pequenito pareciam fechados num mundo s� deles, um mundo onde n�o havia lugar para ela...</p><p>Assim, quando atingiram a alameda de carvalhos cheios de musgo que ia dar � casa, a jovem aproximou-se do marido.</p><p>Philippe! disse ela com uma voz que n�o tremia, pelo que se sentiu agradecida antes que entres nesta casa e como o Rei me deu todos os poderes acerca do teu destino, quero dizer-te...</p><p>O qu�?</p><p>Quero dizer-te que �s livre, inteiramente livre! Se quiseres regressar a Nancy, podes faz�-lo quando quiseres, sem me dar quaisquer explica��es!</p><p>Se bem compreendo, n�o me queres oferecer hospitalidade nesta casa!</p><p>�s louco? � claro que quero! � o que mais desejo!</p><p>Mas queres goz�-la sozinha, como, ali�s, queres Selongey s� para ti, assim como esta ador�vel amostra de homem! Expulsas-me, n�o � assim? � verdade que eu mere�o e que tens todo o direito de recusar viver comigo.</p><p>O borgonh�s pusera p� em terra e, confiando o petiz a L�onarde, oferecia a m�o a Fiora para a ajudar a desmontar. Ela sentiu como que um deslumbramento. Ele olhava para ela como antigamente, com os seus olhos cor de avel�, com aquela ternura um pouco trocista de que ela gostava tanto e, sobretudo, sorria-lhe...</p><p>Eu nunca desejei outra coisa que n�o fosse viver contigo, Philippe!</p><p>Ele n�o lhe largou a m�o e puxou-a para si:</p><p>Sabes que eu sou um homem imposs�vel!</p><p>Sei, mas eu tamb�m n�o sou um modelo de paci�ncia...</p><p>H� muito tempo que sei isso. Queres, mesmo assim, tentar viver juntos e formar um casal... at� que a morte nos separe?</p><p>Como resposta, ela encostou-se a ele, ao mesmo tempo que os habitantes de la Rabaudi�re acorriam alegremente para lhes desejar as boas-vindas.</p><p>At� que a morte nos separe repetiu ela com fervor... Achas que conseguiremos l� chegar?</p><p>Acabo de to dizer: podemos sempre tentar...</p><p>E, apertados um contra o outro, entraram na casa perfumada pelo odor das rosas recentemente colhidas e dos bolos que P�ronnelle acabava de tirar do forno.</p><p>Mas nunca foi poss�vel saber o que acontecera a Khatoun...</p><p><emphasis>Saint-Mand�, Setembro de 1989</emphasis>.</p></section></section></body></FictionBook>