<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Jordan</first-name><last-name>Belfort</last-name></author><book-title>A ca�ada ao lobo de Wall Street</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><keywords>Biography &amp; Autobiography, General, 1. Jordan Belfort, 1962-. 2. Securitiza��o. 3. Corretores da bolsa - Estados Unidos - Biografia. 3. Wall Street (Nova Iorque, Estados Unidos).</keywords><sequence name="Lobo de Wall Street" number="2"/><annotation><p>Jordan Belfort fez uma fortuna no mercado de a��es americano nos anos 1990 e viveu uma vida de luxo, drogas, sexo e pura loucura. O problema foi que, para enriquecer dessa maneira, ele n�o seguiu apenas o bom caminho, e o FBI n�o deixou barato... Acusado de fraude de valores mobili�rios, manipula��o de a��es, lavagem de dinheiro e outros in�meros crimes financeiros que nem ele saberia citar, Jordan se viu obrigado a cooperar com a Justi�a americana, dedurando amigos e antigos colegas para tentar se livrar de uma pena que poderia chegar a 30 anos de pris�o � e arruinar de vez sua vida. 
Em A ca�ada ao Lobo de Wall Street, Jordan conta com sua fina ironia e acidez todos os detalhes de seu in�cio de carreira, bem como tudo que aconteceu com ele depois que seu imp�rio desmoronou: perdeu a esposa, o dinheiro e quase perderia os filhos. Uma hist�ria contada sem pudores, por um homem cativante que precisou se reinventar a qualquer custo. **</p></annotation></title-info><document-info><author><first-name>Jordan</first-name><last-name>Belfort</last-name></author><program-used>calibre 4.2.0, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>28.10.2019</date><id>f193ab54-4b5d-4b17-99da-9f34dc7b1576</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><publisher>Planeta</publisher><year>2014</year><isbn>9788542203134</isbn></publish-info></description><body><section><p><image l:href="#3"/></p></section><section><p><image l:href="#1"/></p></section><section><p><emphasis>Copyright �</emphasis> 2009 by Jordan Belfort</p><p>Todos os direitos reservados</p><p>T�tulo original: <emphasis>Catching the Wolf of Wall Street � More incredible true stories of fortunes, schemes, parties, and prison</emphasis></p><p>Essa tradu��o � publicada por acordo com a Bantam Books, selo da Random House Publishing Group, parte da Random House, Inc.</p><empty-line/><p><emphasis>Prepara��o de texto:</emphasis> Fabiana Mioto</p><p><emphasis>Revis�o:</emphasis> Thais Rimkus</p><p><emphasis>Diagrama��o:</emphasis> Ingrid Velasques</p><p><emphasis>Capa:</emphasis> Mayumi Okuyama</p><p><emphasis>Imagem da capa:</emphasis> Getty Images</p><p><emphasis>Produ��o digital:</emphasis><a l:href="http://www.hondana.com.br">Hondana</a></p><empty-line/><empty-line/><p>CIP-BRASIL. CATALOGA��O NA PUBLICA��O</p><empty-line/><p>
  SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ</p><p>B378c</p><p>Belfort, Jordan, 1962-</p><p>A ca�ada ao Lobo de Wall Street / Jordan Belfort ; tradu��o Julio de Andrade Filho. - 1. ed. - S�o Paulo : Planeta, 2014.</p><p>il.</p><p>Tradu��o de: Catching the Wolf of Wall Street</p><p>ISBN 978-85-422-0313-4</p><p>1. Belfort, Jordan, 1962-. 2. Securitiza��o. 3. Corretores da bolsa - Estados Unidos - Biografia. 3. Wall Street (Nova Iorque, Estados Unidos). 4. Investimentos. I. T�tulo.</p><p>13-04601</p><empty-line/><p>CDD: 923.3</p><p>CDU: 929:330</p><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p>2014</p><p>Todos os direitos desta edi��o reservados �</p><p>EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA.</p><p>Avenida Francisco Matarazzo, 1500 � 3� andar � conj. 32B</p><p>Edif�cio New York</p><p>05001-100 � S�o Paulo � SP</p><p><a l:href="http://www.editoraplaneta.com.br">www.editoraplaneta.com.br</a></p><p>atendimento@editoraplaneta.com.br</p></section><section><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Para meu amor, Anne Koppe, por sua generosidade.</emphasis></p></section><section><p><strong>Nota do autor</strong></p><p>Este � um livro de mem�rias. � uma hist�ria verdadeira baseada em minhas recorda��es sobre v�rios acontecimentos de minha vida. Em alguns trechos, alterei o nome e as caracter�sticas que possam identificar certas pessoas mencionadas no livro, a fim de proteger-lhes a privacidade. Em outros, reorganizei ou abreviei certas passagens no tempo a servi�o da narrativa e tamb�m recriei alguns di�logos para que pudessem coincidir com minhas lembran�as desses acontecimentos.</p></section><section><p><strong>Sum�rio</strong></p><p>Pr�logo L�grimas De Crocodilo</p><p>Livro I</p><p>Cap�tulo 1 O Dia Seguinte</p><p>Cap�tulo 2 As V�timas Inocentes</p><p>Cap�tulo 3 As Op��es Evaporavam</p><p>Cap�tulo 4 Uma Rela��o De Amor E �dio</p><p>Cap�tulo 5 O Toc E O M�rmon</p><p>Cap�tulo 6 O Canalha E A Bruxa</p><p>Cap�tulo 7 O Nascimento De Um Vendedor</p><p>Cap�tulo 8 Fedorentoslov�quia</p><p>Cap�tulo 9 Totalmente Ligado</p><p>Cap�tulo 10 Como Confrontar Uma Duquesa</p><p>Livro II</p><p>Cap�tulo 11 A Cria��o De Um Lobo</p><p>Cap�tulo 12 Um Salto De L�gica</p><p>Cap�tulo 13 A Porta Girat�ria</p><p>Cap�tulo 14 Uma Crise De Consci�ncia</p><p>Cap�tulo 15 O Maravilhoso Mundo Do Carma</p><p>Cap�tulo 16 Quando Um Homem Ama Uma Mulher</p><p>Livro III</p><p>Cap�tulo 17 A Arte Da Autodestrui��o</p><p>Cap�tulo 18 O Impens�vel</p><p>Cap�tulo 19 O Grande Dedo-Duro</p><p>Cap�tulo 20 Todos Os Homens Traem</p><p>Cap�tulo 21 A Bela E A Fera</p><p>Cap�tulo 22 Mantendo O Rumo</p><p>Cap�tulo 23 Reviravoltas Do Destino</p><p>Cap�tulo 24 O Deus Do Destino Contra-Ataca</p><p>Cap�tulo 25 O Inevit�vel</p><p>Cap�tulo 26 Uma Nova Miss�o</p><p>Cap�tulo 27 A Palavra Da Moda � Ironia</p><p>Cap�tulo 28 Saindo Das Cinzas</p><p>Cap�tulo 29 O Dia Do Julgamento Final</p><p>Ep�logo A Terra Dos Mullets</p><p>Agradecimentos</p></section><section><p>PR�LOGO</p><p><strong>L�GRIMAS DE CROCODILO</strong></p><p><strong>2 de setembro de 1998</strong></p><p>Qualquer um poderia pensar que uma pessoa que estivesse encarando 30 anos de pris�o e uma multa de 100 milh�es de d�lares estaria pronta para se aquietar e fazer as coisas direito depois disso. Mas n�o, eu devo ser algum tipo de obcecado por castigos, ou talvez eu seja apenas meu pior inimigo.</p><p>Seja como for, o fato � que eu sou o Lobo de Wall Street, lembra-se de mim? O banqueiro de investimentos que dava festas como se fosse uma estrela do rock, aquele sujeito cuja vida era pura loucura? O cara que tinha o rosto de um coroinha, um sorriso inocente e o h�bito de usar drogas em quantidade que poderia sedar a Guatemala? Acho que voc� se lembra. Eu queria ser jovem e rico, ent�o entrei na Long Island Railroad e fui parar em Wall Street em busca de fortuna� At� que tive uma brilhante ideia que me inspirou a trazer minha pr�pria vers�o de Wall Street para Long Island.</p><p>E que ideia brilhante! No meu 27� anivers�rio, eu tinha constru�do um dos maiores escrit�rios de corretagem dos Estados Unidos. Aquele era um lugar para onde os jovens e os pouco instru�dos iriam para ficar muito mais ricos do que poderiam imaginar.</p><p>O nome da minha empresa era Stratton Oakmont, mas quando olho para tr�s, depois de todos esses anos, penso que ela deveria ter sido batizada de Sodoma e Gomorra. Porque, de fato, n�o era toda empresa que tinha prostitutas no por�o, traficantes de drogas no estacionamento, animais ex�ticos na sala de reuni�es da diretoria e competi��es de arremesso de an�es �s sextas-feiras.</p><p>Aos meus 30 e poucos anos, eu j� ostentava todos os sinais da riqueza extrema de Wall Street: mans�es, iates, jatinhos particulares, helic�pteros, limusines, seguran�as armados, uma multid�o de empregados dom�sticos, contato de traficantes de drogas na mem�ria do celular, prostitutas que aceitavam cart�es de cr�dito, policiais que recebiam propina, pol�ticos na folha de pagamento, carros ex�ticos em quantidade suficiente para abrir minha pr�pria revendedora� E uma leal e amorosa segunda esposa loira chamada Nadine.</p><p>Na verdade, talvez voc� tenha visto Nadine na TV nos anos 1990; ela era aquela loira absurdamente sexy que tentava lhe vender a cerveja Miller Lite durante o Monday Night Football. A garota tinha o rosto de um anjo, embora suas pernas e sua bunda � que tivessem lhe conseguido o trabalho; bem, isso e seus jovens peitinhos empertigados, que ela havia aumentado de tamanho logo ap�s dar � luz o segundo de nossos filhos, um menino!</p><p>Nadine e eu est�vamos vivendo o que eu tinha imaginado ser O Estilo de Vida dos Ricos e Malucos, uma vers�o superagitada, superdrogada e superapimentada do sonho americano. N�s dois est�vamos descendo a estrada a 200 por hora, com um dedo segurando o volante, sem nunca dar o sinal de pisca-alerta ao fazer as curvas e sem olhar o retrovisor. (E quem se importava com isso?) Os destro�os do passado eram surpreendentes. Era doloroso demais olhar para tr�s; porque era muito mais f�cil apenas mergulhar para a frente e continuar acelerando na estrada, rezando para que o passado n�o nos alcan�asse. Mas � claro que ele alcan�ou�</p><p>Na verdade, eu estava � beira do desastre depois que um pequeno ex�rcito de agentes do FBI invadiu minha propriedade em Long Island e me levou embora algemado. Isso aconteceu em uma noite quente de ter�a-feira, na semana que antecedia o Dia do Trabalho, e menos de dois meses depois de meu anivers�rio de 36 anos. O agente que me prendeu falou:</p><p>� Jordan Belfort, voc� foi indiciado em 22 acusa��es de fraude de valores mobili�rios, manipula��o de a��es, lavagem de dinheiro e obstru��o da Justi�a�</p><p>Bem, a essa altura, eu j� tinha me desligado. Afinal, de que adiantava eu ficar ali ouvindo a lista de todos os crimes que eu sabia que tinha cometido? Era como cheirar um recipiente de leite rotulado como �leite estragado��</p><p>Por isso eu telefonei para meu advogado e me resignei a passar a noite na cadeia. E enquanto me levavam algemado para o carro, meu �nico consolo foi dar um �ltimo adeus para minha amada segunda esposa. Ela estava parada na porta da casa, com l�grimas nos olhos e vestindo um shortinho jeans. Estava linda como sempre, mesmo na noite da minha pris�o.</p><p>Enquanto eles me acompanhavam e eu passava por ela, fiz uma cara de confiante e sussurrei:</p><p>� N�o se preocupe, querida. Tudo vai ficar bem�</p><p>Ela assentiu com a cabe�a e sussurrou de volta:</p><p>� Eu sei, querido� Seja forte por mim e pelas crian�as. A gente ama voc�.</p><p>Ela soprou um beijo carinhoso para mim e enxugou uma l�grima.</p><p>E, ent�o, fui embora.</p></section><section><p><strong>LIVRO I</strong></p></section><section><p>CAP�TULO 1</p><p><strong>O DIA SEGUINTE</strong></p><p><strong>4 de setembro de 1998</strong></p><p>Joel Cohen, o desgrenhado promotor assistente do Distrito Leste de Nova York, era um sacana de primeira, com um desleixo degenerado. Quando fui formalmente denunciado no dia seguinte, ele tentou convencer a ju�za a me negar a fian�a, alegando que eu era um mentiroso nato, um trapaceiro compulsivo, um devasso habitual, um viciado em drogas in�til, um sujeito que iria coagir as testemunhas e, acima de tudo, um fugitivo em potencial.</p><p>Um monte de merda, embora as �nicas coisas que ele tenha dito que de fato me incomodaram foram que eu era um viciado em drogas e um devasso. Afinal, eu estava s�brio havia quase 18 meses e me afastara das prostitutas na mesma �poca. Independentemente do caso, o fato � que a ju�za definiu minha fian�a em 10 milh�es de d�lares e, num per�odo de 24 horas, minha esposa e meu advogado j� tinham feito todos os arranjos necess�rios para me soltar.</p><p>Horas depois, eu estava descendo as escadas do tribunal em dire��o aos bra�os amorosos de minha esposa. Era uma tarde ensolarada de sexta-feira, e ela estava me esperando na cal�ada, usando um vestido amarelo min�sculo e cal�ando sand�lias de salto alto que a faziam parecer t�o linda quanto uma margarida. Naquela parte do Brooklyn, no ver�o, �s 4 horas da tarde, o sol estava a pino, no �ngulo certo para iluminar cada pedacinho de Nadine: o cabelo loiro reluzente, os brilhantes olhos azuis, seu rosto perfeito de modelo de capa de revista, os lindos peitos aumentados cirurgicamente, suas gloriosas pernas e a bunda, tudo t�o suculento acima dos joelhos e t�o delgado no tornozelo. Ela estava com 30 anos de idade e absolutamente linda. No momento em que cheguei perto dela, ca� em seus bra�os.</p><p>� Voc� � um col�rio para meus olhos � disse eu, abra�ando-a na cal�ada. � Senti muitas saudades suas�</p><p>� Saia de perto de mim � gaguejou ela. � Eu quero o div�rcio!</p><p>Senti um alarme de segunda esposa ser acionado em meu sistema nervoso central.</p><p>� Mas do que voc� est� falando, querida? Voc� est� sendo rid�cula!</p><p>� Voc� sabe exatamente do que estou falando!</p><p>Ela recuou de meu abra�o e come�ou a marchar em dire��o a uma limusine Lincoln azul estacionada na cal�ada da Cadman Plaza, 225, a principal via de acesso ao tribunal de Brooklyn Heights. Esperando perto da porta traseira da limusine estava nosso motorista paquistan�s Monsoir, que mal balbuciava o ingl�s. Ele abriu a porta do carro na hora, e eu assisti a Nadine desaparecer em um mar de couro preto suntuoso mesclado de marrom, levando com ela seu min�sculo vestido e seus cabelos loiros.</p><p>Minha vontade era entrar no carro junto com ela, mas estava atordoado demais. Meus p�s pareciam estar enraizados na cal�ada, como se eu fosse uma �rvore. Al�m da limusine, do outro lado da rua, dava para ver um parque sombrio adornado com bancos verdes de madeira, algumas �rvores desnutridas e um campinho de terra coberto por manchas esparsas de capim. Esse parquinho parecia t�o suntuoso quanto um cemit�rio. Minha tristeza fez com que meus olhos se fixassem nele por alguns instantes.</p><p>Respirei fundo e soltei o ar lentamente. Caramba, eu precisava assumir minha vida de novo! Olhei para meu rel�gio� Estava sem ele� Eu o tinha tirado antes que eles prendessem as algemas em meus pulsos. De repente, me senti terrivelmente consciente de minha apar�ncia. Olhei para baixo, para meu abd�men. Eu parecia uma ruga gigante, desde minhas cal�as de golfe at� minha camisa polo de seda branca, passando por meus mocassins de couro. Eu n�o tinha dormido por� Quantos dias? Tr�s? Quatro? Era dif�cil dizer, mas de qualquer forma eu nunca tinha sido uma pessoa de dormir muito, mesmo. Meus olhos azuis queimavam como brasa. Minha boca estava seca como um osso. Meu h�lito estava� Espere um pouco! Tinha sido meu h�lito? Era isso, meu bafo tinha espantado Nadine. Tamb�m, depois de tr�s dias comendo aquela salsicha de sei l� o qu�, eu estava com o pior caso de bafo de drag�o desde� Desde n�o sei quando. Mas, ainda assim, como Nadine podia me deixar num momento como aquele? Que tipo de mulher era ela? Que vaca! Pior do que qualquer maria-gasolina, era uma ca�adora de dotes e�</p><p>Os pensamentos rugindo em minha mente eram completamente loucos. Minha esposa n�o estava indo para lugar nenhum. Ela s� estava em estado de choque. Al�m disso, todo mundo sabia que as segundas esposas n�o pagavam a fian�a de seus maridos no momento em que eles eram indiciados; elas esperavam um pouco para a coisa n�o ficar t�o �bvia assim. Ser� que�</p><p>S� ent�o eu vi que Monsoir estava sorrindo para mim e acenando com a cabe�a.</p><p>Terrorista de merda!, pensei.</p><p>Monsoir estava trabalhando para n�s havia quase seis meses, e at� ent�o eu ainda n�o tinha tomado uma decis�o sobre ele. Ele era um desses estrangeiros irritantes que viviam com um sorriso perp�tuo no rosto. No caso de Monsoir, conclu� que era porque sua pr�xima parada seria numa f�brica de fogos local, para misturar explosivos. De qualquer maneira, ele era magro, calvo, cor de caramelo, altura mediana e tinha um cr�nio estreito na forma de uma caixa de sapatos. Quando falava, parecia o Papa-L�guas do desenho animado, as palavras saindo da boca em min�sculos �bips� e �bops�. E, ao contr�rio de meu antigo motorista, George, Monsoir era incapaz de ficar de boca fechada.</p><p>Fui at� a limusine parecendo um zumbi, fazendo uma observa��o mental de quebrar a cara dele se tentasse uma conversa fiada. Quanto a minha esposa, bem, eu teria apenas que tentar agrad�-la. E, se isso n�o funcionasse, come�aria uma briga com ela. Afinal, nosso romance era daquele tipo meio descontrolado, disfuncional, com um tantinho de brigas que s� nos aproximavam mais.</p><p>� Como vai, chefe? � perguntou Monsoir. � � muito, muito bom ter <emphasis>vox�</emphasis> de volta. Como era l� dentro da�</p><p>Eu o interrompi com a m�o espalmada.</p><p>� N�o comece a falar, Monsoir, caralho! Nem agora nem nunca!</p><p>Ent�o entrei na parte de tr�s da limusine e me sentei no banco em frente a Nadine. Ela estava sentada com suas longas e maravilhosas pernas cruzadas, olhando pela janela do carro para as entranhas ran�osas do Brooklyn.</p><p>Sorri e lhe disse:</p><p>� Matando as saudades de seu antigo peda�o, Duquesa?</p><p>Nenhuma resposta. Ela apenas olhou para fora pela janela, como se fosse uma linda escultura de gelo.</p><p>Porra, isso era um absurdo! Como a Duquesa de Bay Ridge tinha a ousadia de voltar as costas para mim na hora que eu mais precisava? Duquesa de Bay Ridge era o apelido que eu tinha dado a minha mulher, e, dependendo do estado de esp�rito dela no momento, ela poderia lhe dar um sorriso r�pido ou mandar voc� se foder no mesmo instante. O apelido tinha a ver com os cabelos loiros, a cidadania brit�nica, sua beleza estonteante e sua cria��o no Brooklyn. Aquela cidadania brit�nica, coisa que ela era muito r�pida em lembrar, tinha criado certa m�stica de realeza e refinamento ao redor dela; a cria��o no Brooklyn, por sua vez, bem no meio das profundezas tristes de Bay Ridge, fez com que palavras como <emphasis>merda, idiota, viado</emphasis> e <emphasis>filho da puta</emphasis> rolassem para fora de sua boca como se fosse a mais requintada poesia. E sua extrema beleza permitia continuar com tudo isso. Aos 27 anos, a Duquesa e eu �ramos praticamente do mesmo tamanho, embora ela tivesse o temperamento do monte Ves�vio e a for�a de um urso cinzento. Quando eu era mais jovem e mais maluco, ela era muito r�pida para me dar uma bordoada ou jogar �gua fervente na minha cabe�a, quando a necessidade surgia. E, por mais estranho que possa parecer, eu amava isso!</p><p>Respirei fundo e disse, em tom de brincadeira:</p><p>�Vamos, Duquesa, estou muito chateado agora e preciso de um pouquinho de compaix�o. <emphasis>Por favor?</emphasis></p><p>Ent�o ela virou os olhos para mim. Seus olhos azuis brilharam sobre as ma��s salientes de seu rosto.</p><p>� N�o me chame mais assim, porra! � rosnou e, ent�o, virou a cabe�a de novo para olhar pela janela do carro, retomando sua pose de escultura de gelo.</p><p>� Caralho! � murmurei. � Mas que diabos deu em voc�?</p><p>Ainda olhando pela janela, ela disse:</p><p>� N�o posso mais ficar com voc�. N�o estou mais apaixonada por voc� � e, ent�o, enfiando a faca mais fundo, completou �, e isso j� faz muito tempo.</p><p>Mas que palavras desprez�veis! Que aud�cia daquela vaca! No entanto, por alguma raz�o que n�o compreendia, essas palavras me faziam quer�-la ainda mais.</p><p>� Voc� est� sendo rid�cula, Nae. Tudo vai ficar bem � minha garganta estava t�o seca que eu mal conseguia pronunciar as palavras. � N�s temos dinheiro mais que suficiente, ent�o voc� pode relaxar. <emphasis>Por favor</emphasis>, n�o fa�a isso agora.</p><p>Ainda olhando para fora, ela disse:</p><p>� � tarde demais.</p><p>Enquanto a limusine se dirigia para a Expressway Brooklyn-Queens, um misto de medo, amor, desespero e trai��o tomou conta de mim de uma s� vez. Eu estava com uma sensa��o de perda que nunca havia experimentado antes. Sentia-me completamente vazio, totalmente oco. N�o conseguia ficar apenas sentado l�, em frente a ela, daquele jeito; aquilo era uma absoluta tortura! Eu precisava beij�-la ou fazer amor com ela ou <emphasis>estrangul�-la at� a morte.</emphasis> Era hora da estrat�gia n�mero dois: a hora de arrast�-la para a pancadaria.</p><p>Com uma boa dose de veneno, disse:</p><p>� Ent�o tudo bem, deixe-me entender essa porra direito, Nadine. Quer dizer que <emphasis>agora</emphasis> voc� quer o div�rcio? Agora que estou sob uma merda de acusa��o? Agora que estou em pris�o domiciliar? � Puxei a barra de minha cal�a, expondo um aparelho de monitoramento eletr�nico que estava presa a meu tornozelo esquerdo. Parecia um bipe. � Que porra de pessoa � voc�, Nadine? Diga-me, o que �? Voc� est� tentando estabelecer um recorde mundial de falta de compaix�o?</p><p>Ela me lan�ou um olhar inexpressivo.</p><p>� Eu sou uma boa mulher, Jordan, todo mundo sabe disso. Mas voc� me maltratou durante anos. J� estou farta desse casamento h� muito tempo, desde que voc� me chutou escada abaixo. Minha decis�o n�o tem nada a ver com o fato de voc� ir para a cadeia.</p><p><emphasis>Mas que monte de merda!</emphasis> Sim, eu tinha levantado a m�o contra ela uma vez, naquela terr�vel briga na escada, um ano e meio antes, num terr�vel momento, um dia antes de eu ficar limpo� E se ela tivesse me deixado <emphasis>naquela �poca</emphasis>, teria sido justific�vel. Mas ela n�o me deixou, e eu fiquei limpo. S� agora, quando a ru�na financeira estava pairando sobre mim, ela queria sair. Inacredit�vel!</p><p>Agora est�vamos na Expressway Brooklyn-Queens, nos aproximando dos limites entre o Brooklyn e o Queens. � esquerda estava a reluzente ilha de Manhattan, onde 7 milh�es de pessoas iriam dan�ar e cantar durante o final de semana, despreocupadas com minha situa��o. Achei isso uma coisa totalmente deprimente. Logo � minha esquerda, via a axila malcheirosa de Williamsburg, uma faixa plana de terra atulhada de armaz�ns dilapidados e blocos de apartamentos prec�rios, onde as pessoas falavam polon�s. Agora, por que todos aqueles poloneses se estabeleceram l�, eu n�o tinha a m�nima ideia.</p><p>Ahhhh, uma inspira��o! Decidi mudar de assunto, para os filhos. Isso, afinal, era um elo comum que compartilh�vamos.</p><p>� E as crian�as, est�o bem? � perguntei baixinho.</p><p>� Sim, elas est�o bem � respondeu ela, em um tom bastante alegre. E depois: � Elas ficar�o bem, n�o importa o que aconte�a � e olhou pela janela novamente.</p><p>A mensagem impl�cita era: �Mesmo que voc� fique na cadeia por cem anos, Chandler e Carter sempre estar�o bem, porque mam�e vai encontrar um novo marido mais r�pido do que voc� consegue falar <emphasis>Papaizinho querido</emphasis>!�.</p><p>Respirei fundo mais uma vez e resolvi n�o falar mais nada, pois n�o havia como convenc�-la naquele momento. Se eu pelo menos tivesse ficado com minha primeira mulher! Ser� que Denise estaria dizendo agora que n�o me amava mais? Fodam-se essas segundas esposas. Elas s�o uma verdadeira bagun�a, especialmente aquelas da categoria trof�u. Na alegria e na tristeza? Ah, claro! Elas s� falam isso por causa do v�deo do casamento� Na verdade, elas est�o l� apenas por causa das alegrias�</p><p>Essa era a recompensa por ter trocado minha primeira esposa, Denise, por aquela vigarista loira que estava sentada a minha frente. A Duquesa tinha sido minha amante uma vez, um flerte inocente que cresceu de forma descontrolada. Antes que eu me desse conta, n�s dois est�vamos loucamente apaixonados e n�o consegu�amos mais viver um sem o outro, n�o consegu�amos nem mais <emphasis>respirar</emphasis> um sem o outro. Claro, eu tinha racionalizado minhas a��es naquela altura dos acontecimentos, dizendo a mim mesmo que Wall Street era um lugar muito dif�cil para as primeiras esposas, por isso n�o era realmente minha culpa. Afinal de contas, quando um homem se torna um verdadeiro e influente corretor da Bolsa, essas s�o coisas que se espera que aconte�am.</p><p><emphasis>Essas coisas</emphasis>, no entanto, t�m resultados positivos e negativos, porque se o Mestre do Universo despenca rapidamente do ponto de vista financeiro, ent�o a segunda esposa rapidamente passa para pastagens mais f�rteis. Em ess�ncia, aquela garimpeira, ciente de que a mina de ouro tinha deixado de produzir o precioso min�rio, iria passar para outra mina mais produtiva, onde ela poderia continuar imperturbavelmente a extrair o min�rio. Aquela era, de fato, uma das mais cru�is equa��es da vida, e agora eu estava na mais distante extremidade dela.</p><p>Com o cora��o apertado, voltei meu olhar para a Duquesa. Ela ainda olhava pela janela do carro, uma escultura de gelo bela e mal�vola. Naquele instante, senti variadas emo��es em rela��o a ela, mas principalmente tristeza � tristeza por n�s dois, e uma tristeza ainda maior por nossos filhos. At� agora, eles tinham vivido uma vida encantada em Old Brookville, seguros com a no��o de que as coisas eram como deveriam ser e que sempre ficariam daquele jeito. Isso era triste, pensei, era triste pra caralho.</p><p>Passamos em sil�ncio o restante da viagem na limusine.</p></section><section><p>CAP�TULO 2</p><p><strong>AS V�TIMAS INOCENTES</strong></p><p><strong>13 de dezembro de 1993</strong></p><p>O lugarejo de Old Brookville fica na esfuziante �Costa Dourada� de Long Island, uma regi�o t�o magn�fica que at� bem pouco tempo tinha estado estritamente fora de alcance para os judeus. N�o literalmente, � claro, mas, para todos os efeitos pr�ticos, n�s, judeus, ainda �ramos considerados cidad�os de segunda classe, um bando de vendedores ambulantes escorregadios que tinham conseguido se destacar no meio da multid�o e precisavam ser vigiados e controlados para que n�o invadissem a �rea dos cidad�os de primeira classe, ou seja, os WASPs<sup>*</sup>.</p><p>Na verdade, esses n�o eram os velhos WASPs comuns, mas uma pequena subesp�cie de WASP, conhecida como �os de sangue azul�. Contados apenas aos milhares, os de sangue azul, altos e esguios e usando roupas extravagantes, tinham entre seus h�bitats naturais clubes de golfe de primeira linha, mans�es, chal�s exclusivos para ca�a e pesca e sociedades secretas. A maioria deles tinha linhagem brit�nica e demonstrava grande orgulho em tra�ar sua genealogia at� os tempos do <emphasis>Mayflower</emphasis><sup>**</sup>. No entanto, em termos evolutivos, eles n�o eram muito diferentes dos enormes dinossauros que vagaram pela mesma Costa Dourada 65 milh�es de anos antes deles: estavam � beira da extin��o, v�timas do aumento de impostos, dos impostos sobre as propriedades e de uma dilui��o constante do gene intelectual por conta da endogamia praticada por gera��es, que rendera filhos e filhas idiotas que provocaram uma tremenda dilapida��o financeira nas grandes fortunas que seus ancestrais de sangue azul demoraram gera��es para construir (a magia de Charles Darwin fazendo hora extra�).</p><p>Seja como for, era ali onde a Duquesa e eu mor�vamos e onde eu tinha acreditado que ir�amos envelhecer juntos. Mas, enquanto a limusine passava pelos pilares de pedra que margeavam nossa propriedade de 6 hectares, comecei a pensar sobre o que acontecera.</p><p>Uma longa estradinha particular em formato de c�rculo, limitada por sebes impecavelmente aparadas, levava � nossa mans�o de 10 mil metros quadrados projetada em estilo de castelo franc�s, com brilhantes torretas de cobre e janelas com caixilhos. No final daquela estradinha pavimentada, uma comprida passarela de paralelep�pedos conduzia at� a porta de mogno, de quase 4 metros de altura. Enquanto a limusine estacionava perto da porta de entrada, decidi fazer uma �ltima tentativa com a Duquesa antes de entrarmos. Fiquei de joelhos e coloquei minhas m�os de cada lado de suas coxas. A Duquesa estava de pernas cruzadas e, como sempre, a pele dela estava sedosa. Resisti ao desejo de correr as m�os por todo o comprimento de suas pernas nuas. Em vez disso, levantei os olhos como os de um cachorrinho perdido e disse:</p><p>� Ou�a, Nae, eu sei que isso tem sido dif�cil para voc� � dif�cil para <emphasis>voc�</emphasis>? � e realmente sinto muito por tudo o que vem acontecendo, mas j� estamos juntos h� oito anos, querida. E temos dois filhos maravilhosos! A gente vai superar isso � fiz uma pausa por um momento e assenti com a cabe�a, para acentuar o efeito do que acabara de dizer. � E mesmo que eu acabe indo parar na cadeia, sempre vai ter algu�m cuidando de voc� e das crian�as. Eu prometo.</p><p>� N�o se preocupe conosco � disse ela, friamente. � Voc� tem de se preocupar apenas consigo mesmo.</p><p>Estreitei os olhos e disse:</p><p>� N�o entendo uma coisa, Nadine. Voc� faz parecer que est� totalmente chocada com tudo que est� acontecendo� Mas, quando nos conhecemos, n�o era como se eu estivesse sendo indicado para o Nobel da Paz. Eu estava sendo investigado e difamado por todos os jornais do mundo livre! � inclinei a cabe�a para o lado, em um �ngulo que implicava l�gica, e continuei � O que eu quero dizer � que acho que seria uma coisa diferente se voc� tivesse se casado com um m�dico e depois descobrisse que ele vinha fraudando a Previd�ncia durante os �ltimos 20 anos! Acho que, <emphasis>num caso desse</emphasis>, voc� teria justificativa! Mas, agora, tendo em vistas as circunst�ncias�</p><p>Ela me cortou na hora:</p><p>� Eu n�o tinha ideia do que voc� andava fazendo� � <emphasis>Ah, ent�o quer dizer que os 2 milh�es em dinheiro na minha gaveta de meias nunca levantaram suspeitas em voc�?</emphasis> � � Nunca! E depois que eles levaram voc� embora, aquele tal agente Coleman ficou me interrogando por cinco horas, cinco horas direto, porra! � disse, e gritou as �ltimas quatro palavras, tirando minhas m�os de suas pernas. � Ele falou que eu tamb�m iria para a cadeia, a menos que lhe contasse tudo! Voc� me colocou em risco, seu filho da puta! Voc� me colocou em perigo. E eu nunca vou lhe perdoar por isso.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a, desgostosa, e olhou para longe.</p><p>Mas que merda! O agente Coleman a tinha deixado traumatizada. L�gico, ele tinha sido totalmente sacana, mas ainda assim ela estava me acusando de ser o respons�vel. Talvez fosse um bom press�gio para nosso futuro juntos. Apesar de tudo, assim que visse que n�o corria risco nenhum, a Duquesa poderia mudar de opini�o. Eu estava a ponto de explicar isso quando Nadine se virou para mim e disse:</p><p>� Eu preciso me afastar por um tempo. Os �ltimos dias foram muito estressantes para mim, e quero ficar sozinha. Vou para a casa de praia durante o final de semana e voltarei na segunda�</p><p>Abri a boca, mas nenhuma palavra foi articulada, apenas um pequeno suspiro. Quando finalmente consegui, perguntei:</p><p>� Voc� vai me deixar sozinho com as crian�as, em pris�o domiciliar?</p><p>� Exatamente!</p><p>Ela disse isso com orgulho, depois abriu a porta de tr�s do carro e pulou de seu assento num acesso de raiva. E assim, de repente, foi embora, marchando impetuosamente em dire��o � enorme porta da mans�o, a bainha de seu min�sculo vestido subindo e descendo a cada passo. Fiquei olhando para o fabuloso traseiro da Duquesa por um momento, ent�o pulei para fora do carro e a segui para dentro da casa.</p><empty-line/><empty-line/><p>NO SEGUNDO ANDAR da mans�o, tr�s grandes quartos ficavam no final do longo corredor a leste, enquanto um quarto aposento, a su�te principal, ficava do lado oposto. Nossos filhos ocupavam dois daqueles tr�s quartos; o terceiro servia como quarto de h�spedes. Uma escadaria de mogno de 4 metros de largura subia em uma curva sinuosa, saindo de um grande vest�bulo de m�rmore l� embaixo.</p><p>Quando cheguei ao alto da escada, em vez de seguir a Duquesa at� o quarto principal, que era o nosso, me virei e fui at� os quartos das crian�as. Encontrei os dois no quarto de Chandler, sentadinhos num glorioso tapete rosa. J� estavam de pijaminha, brincando alegremente. O quarto era uma pequena terra da fantasia rosa, com d�zias de bichinhos de pel�cia espalhados por todos os cantos. As cortinas, o tratamento que tinha sido dado � janela e o edredom de penas de ganso sobre a cama <emphasis>queen-size</emphasis> de Chandler tinham sido todos feitos ao estilo �Laura Ashley�, com uma paleta de tons pastel suaves e estampas florais. Era o quarto perfeito para uma garotinha, feito para minha menininha perfeita.</p><p>Chandler tinha acabado de completar 5 anos e era a cara da m�e, uma pequena <emphasis>top model</emphasis> loirinha. Naquele momento, ela estava envolvida em seu passatempo favorito: organizar suas 150 bonecas Barbie em um c�rculo perfeito ao redor dela, de forma que pudesse se sentar no meio e se tornar o centro das aten��es. Carter, que j� tinha completado 3 anos, estava deitado de bru�os fora do c�rculo. Ele estava folheando com a m�o direita um livro ilustrado, com o cotovelo esquerdo descansando no tapete e o queixinho apoiado na palma da m�o. Seus enormes olhos azuis brilhavam por tr�s dos c�lios, t�o exuberantes quanto as asas de uma borboleta. O cabelo loiro platinado era t�o fino como palha de milho e tinha pequenos cachos na parte de tr�s da cabe�a que reluziam como vidro polido.</p><p>No momento em que eles me viram, levantaram-se e correram para mim.</p><p>� Papai t� em casa! � gritou Chandler.</p><p>Ent�o Carter entrou na conversa:</p><p>� Papai! Papai!</p><p>Agachei-me e eles me abra�aram.</p><p>� Estava com saudades de voc�s! � disse, enchendo os dois de beijos. � Ei, acho que voc�s cresceram mais nesses �ltimos tr�s dias! Deixe-me olhar para voc�s.</p><p>Segurei as duas crian�as bem na minha frente e depois inclinei a cabe�a para um lado, estreitando os olhos desconfiadamente, como se estivesse inspecionando os dois.</p><p>Eles ficaram parados de p�, orgulhosos, ombro a ombro, os queixos ligeiramente erguidos. Chandler era bem grande para sua idade, e Carter era pequeno, ent�o ela era quase uma cabe�a e meia mais alta que o irm�o menor. Apertei os l�bios e assenti com a cabe�a gravemente, como se estivesse dizendo: �Minhas suspeitas foram confirmadas!�.</p><p>Foi ent�o que disse, em tom de acusa��o:</p><p>� Eu sabia! Voc�s dois cresceram mesmo, seus danadinhos!</p><p>E ambos gargalharam deliciosamente. Foi quando Chandler perguntou:</p><p>� Por que voc� est� chorando, papai? Voc� tem um dod�i?</p><p>Sem que eu me desse conta, um fio de l�grimas tinha aberto caminho pelo meu rosto, descendo at� o queixo. Sequei-o com a palma da m�o e ent�o ofereci � minha filha uma inofensiva mentira branca:</p><p>� N�o, n�o estou com dod�i, sua boba. � que eu fiquei t�o feliz de ver voc�s que isso me fez chorar de alegria.</p><p>Carter assentiu em concord�ncia, mas logo foi perdendo o interesse naquela situa��o. Afinal, ele era um menino, e sua capacidade de aten��o era limitada. Na verdade, Carter vivia apenas para cinco coisas: dormir, comer, assistir ao v�deo do <emphasis>Rei Le�o</emphasis>, subir nos m�veis da casa e observar os longos cabelos loiros da Duquesa, que o acalmavam tanto quanto se ele tivesse engolido 10 miligramas de Valium. Carter era uma pessoa de poucas palavras, de fato, mas era extremamente inteligente. J� em seu primeiro anivers�rio era capaz de fazer funcionar a TV, o aparelho de VHS e o controle remoto. Com 1 ano e meio era um chaveiro de m�o cheia, abrindo as fechaduras com a precis�o de um arrombador de cofres. E, aos 2 anos, j� havia memorizado duas d�zias de livros ilustrados. Ele era calmo e equilibrado, contente com seu jeito.</p><p>Chandler, por outro lado, era seu exato oposto. Ela era uma menina complexa, curiosa, intuitiva, introspectiva e sempre tinha algo a dizer. Seu apelido era CIA, porque estava sempre espionando as conversas, tentando juntar mais informa��es. Chandler tinha dito suas primeiras palavras aos 7 meses e quando tinha 1 ano j� era capaz de falar frases inteiras. Aos 2 anos, j� discutia com a Duquesa e, desde ent�o nunca parou de fazer isso desde ent�o. Era uma menina dif�cil de persuadir, imposs�vel de manipular e possu�a um raro e apurado dom de enxergar atrav�s do papo furado.</p><p>Isso foi uma coisa que me criou problemas. Minha tornozeleira poderia ser explicada como algum tipo de dispositivo m�dico superavan�ado, uma coisa que o m�dico havia receitado para garantir que minha dor nas costas nunca mais voltasse. Diria a Chandler que aquilo seria uma terapia de seis meses e que eu deveria manter a tornozeleira durante todo o tempo, o dia todo. Ela provavelmente compraria essa explica��o durante algum tempo. O problema era ficar preso dentro de casa, essa seria uma situa��o muito mais dif�cil de esconder.</p><p>Nossa fam�lia estava sempre em movimento, correndo e fazendo coisas e indo para l� e para c� e vendo outras coisas � por isso, o que Chandler pensaria sobre meu s�bito desejo de n�o querer sair de casa? Fiquei pensando nisso durante bastante tempo e cheguei � r�pida conclus�o de que, apesar de tudo, eu teria que contar com a Duquesa para me ajudar naquilo.</p><p>Foi ent�o que Chandler perguntou:</p><p>� Voc� est� chorando por que teve que devolver o dinheiro das pessoas, papai?</p><p>� H�? � murmurei.</p><p>Que golpe sujo da Duquesa, pensei. Como teve coragem de fazer isso? A troco de qu� ela fez isso? Tentar envenenar Chandler contra mim� A Duquesa estava travando uma guerra psicol�gica, e essa tinha sido sua primeira salva de canh�es. Passo um: deixar as crian�as saberem que Papai n�o passa de um grande trapaceiro; passo dois: explicar para as crian�as que h� outros homens bons por a�, que n�o s�o esses trapaceiros grandes e que v�o tomar conta da Mam�e; passo tr�s: no momento em que Papai for para a cadeia, contar a elas que ele as abandonou porque n�o as ama; e, finalmente, o passo quatro: dizer �s crian�as que ser� apropriado chamar o novo marido da mam�e de �papai�, pelo menos at� que essa nova mina de ouro se esgote, de forma que, nesse ponto, Mam�e ser� obrigada a sair a campo em busca de um novo Papai para seus filhos.</p><p>Respirei fundo e conjurei outra daquelas mentiras brancas. Disse a Chandler:</p><p>� Acho que voc� entendeu mal, querida, eu estava ocupado trabalhando.</p><p>� N�o � argumentou Chandler, frustrada com minha obtusidade. � Mam�e disse que voc� pegou dinheiro de outras pessoas e que agora tem que pagar de volta para elas.</p><p>Balancei a cabe�a em descren�a e em seguida dediquei um momento a observar Carter. Ele parecia olhar para mim com desconfian�a. Caramba! Ser� que ele tamb�m sabia? Ele s� tinha 3 aninhos, e a �nica coisa com que se importava era com a porra do <emphasis>Rei Le�o</emphasis>!</p><p>Eu tinha um monte de explica��es a dar, n�o apenas naquele momento, mas tamb�m nos dias e anos vindouros. Chandler estaria lendo em breve, e isso iria ajudar a abrir uma nova lata de vermes. O que eu poderia dizer a ela? Senti uma nova onda de desespero me inundar. De certa forma, a Duquesa estava certa, ela estava com a raz�o� Eu tinha que pagar por meus crimes, embora todos em Wall Street fossem criminosos, n�o era verdade? No fundo, era apenas uma quest�o de grau. Ou seja, o que me fez pior que qualquer outra pessoa foi o fato de que fui pego, certo?</p><p>Decidi n�o continuar seguindo essa linha de pensamento. Para mudar de assunto, eu disse:</p><p>� Bem, isso realmente n�o � importante, Channy. Vamos brincar com suas bonecas Barbie.</p><p>E depois que voc� for dormir, pensei, Papai vai descer as escadas at� seu est�dio e passar algumas horas pensando em uma maneira de acabar com Mam�e sem ser pego.</p></section><section><p>CAP�TULO 3</p><p><strong>AS OP��ES EVAPORAVAM</strong></p><p>Est�vamos em algum lugar da Grand Central Parkway, perto do limite entre Queens e Manhattan, quando finalmente perdi a paci�ncia com Monsoir.</p><p>Era a manh� de uma ter�a-feira, um dia depois do feriado do Dia do Trabalho, e eu estava a caminho do escrit�rio de meu advogado em Midtown Manhattan, com o monitoramento eletr�nico preso ao tornozelo esquerdo, ouvindo seu balbuciar em paquistan�s ao volante do carro. No entanto, apesar desses entraves, eu estava vestido para o sucesso, em um terno cinza risca de giz, uma camisa de um branco vivo, gravata vermelha, meias de algod�o pretas que, na perna esquerda, escondiam a tornozeleira eletr�nica, e um par de mocassins pretos Gucci com pendentes de couro de enfeite sobre cada um.</p><p>Vestir-se para o sucesso. Isso era uma coisa que me parecera importante naquela manh�, embora tivesse absoluta certeza de que, mesmo que estivesse usando fraldas e gravata borboleta, meu advogado criminal de confian�a, Gregory J. O�Connell, ainda me diria que eu parecia um cara que valia 1 milh�o de d�lares. Afinal de contas, a primeira tarefa comercial daquela manh� seria entregar a ele um cheque exatamente nesse valor: 1 milh�o de d�lares. Isso era prioridade, explicou-me Gregory, porque havia uma boa chance, de mais de 50%, de a Procuradoria entrar com um pedido de congelamento de meus bens naquela mesma semana. E os advogados, evidentemente, precisam receber�</p><p>Passava um pouco das 10 da manh�, e a hora do <emphasis>rush</emphasis> matinal j� tinha acabado. � minha direita eu podia ver os hangares baixos e os terminais do aeroporto La Guardia, parecendo t�o encardidos como de costume. Do lado esquerdo j� dava para ver o florescente para�so grego de Astoria, no Queens, que tinha uma concentra��o de gregos por metro quadrado maior que em qualquer outro lugar do mundo, incluindo Atenas. Eu tinha crescido n�o muito longe dali, no para�so judeu de Bayside, que fora um bairro de ruas seguras e que estava agora passando por um processo de invas�o de pr�speros coreanos.</p><p>T�nhamos sa�do de Old Brookville 30 minutos antes, e desde ent�o aquele terrorista enrustido n�o tinha parado de falar. Continuava a tagarelar sem cessar sobre o sistema de justi�a criminal em seu amado Paquist�o. Na maioria dos dias, eu simplesmente teria lhe dito para calar a boca. Naquela manh�, em particular, eu estava desgastado demais para reprimir sua tagarelice. E era tudo culpa da Duquesa.</p><p>Fiel � sua palavra, aquela malandrinha loira deu no p� naquele final de semana, passando tr�s dias e tr�s noites nos Hamptons. Eu tinha absoluta certeza de que ela havia ficado em nossa casa de praia naquelas noites, mas n�o fazia a menor ideia do que fizera durante os dias, e muito menos com quem. Ela n�o telefonou nem uma �nica vez, pintando um quadro bem n�tido de que estivera <emphasis>ocupada! Ocupada! Ocupada!</emphasis> � procura de uma nova mina de ouro.</p><p>Quando Nadine finalmente entrou pela porta de casa, na tarde de segunda-feira, dirigiu-me apenas algumas poucas palavras, algo sobre ter um tr�fego brutal na estrada de volta dos Hamptons. Ent�o ela subiu em dire��o aos quartos das crian�as, sorrindo, e os levou para os balan�os l� fora. Ela n�o parecia ter uma �nica preocupa��o no mundo, acentuando isso para amplificar sua jovialidade <emphasis>ad nauseam</emphasis>.</p><p>Ela empurrava as crian�as nos balan�os de um jeito muito alegre e, depois de tirar seus pr�prios sapatos, ficou pulando com elas pelo quintal. Era como se nossa vida n�o estivesse interligada de nenhuma maneira. Sua tremenda insensibilidade havia enviado minha alma para um mergulho ainda mais fundo. Eu me sentia como se estivesse em um buraco escuro, sufocante, sem escapat�ria.</p><p>Estava sem comer, sem dormir, sem rir e sem sorrir havia quase quatro dias e, naquele momento, com as divaga��es vazias de Monsoir, estava pensando seriamente em cortar meus pulsos.</p><p>Ele tinha come�ado a falar de novo.</p><p>� Eu s� estava tentando anim�-lo, chefe. <emphasis>Vox�</emphasis> � de fato <emphasis>uma</emphasis> homem de muita sorte. <emphasis>Na minha</emphasis> pa�s, eles teriam cortado sua m�o fora se o pegassem roubando um peda�o de p�o.</p><p>Eu interrompi sua ladainha.</p><p>� Sim, isso � mesmo fascinante, Monsoir. Obrigado por compartilhar�</p><p>E fiquei algum tempo refletindo sobre os pr�s e os contras da justi�a isl�mica. Cheguei rapidamente � conclus�o de que, tendo em vistas as atuais circunst�ncias, para mim havia pontos positivos e negativos. Pelo lado bom da coisa, a Duquesa n�o estaria dando uma de durona se fosse obrigada a vestir uma daquelas burcas que cobrem uma mulher dos p�s � cabe�a e a sair pela cidade desse jeito; e isso iria impedir que aquela loira ficasse andando por a� como a porra de um pav�o. Pelo lado negativo, a pena isl�mica para os crimes de colarinho branco e para um tarado compulsivo por prostitutas devia ser bastante severa. Eu e meus filhos t�nhamos assistido ao <emphasis>Aladdin</emphasis>, da Disney, recentemente, e havia uma cena em que estavam prestes a cortar a m�o do rapaz porque ele tinha roubado uma laranja. Ou tinha sido um peda�o de p�o? De qualquer maneira, eu tinha roubado bem mais que 100 milh�es de d�lares e conseguia imaginar qual seria o castigo isl�mico para isso.</p><p>Mas, pensando bem, eu realmente tinha roubado alguma coisa? Quer dizer, essa palavra, �roubar�, n�o seria uma esp�cie de descaracteriza��o do que eu tinha feito? Em Wall Street, n�s n�o �ramos de fato ladr�es, �ramos? N�s simplesmente persuad�amos as pessoas a nos dar seu dinheiro, a gente n�o <emphasis>roubava</emphasis> deles! Havia uma grande diferen�a. Os crimes que hav�amos cometido eram do tipo suave, como vender o maior n�mero poss�vel de t�tulos numa mesma conta para inflar nossas comiss�es, negociar informa��es privilegiadas ou se envolver em lavagem de dinheiro e evas�o fiscal. Eram viola��es <emphasis>t�cnicas</emphasis>, mais que qualquer outra coisa. N�o era assim um roubo descarado.</p><p>Ou era? Bem, talvez fosse� Talvez� Talvez eu tenha levado as coisas a um novo n�vel. Ou pelo menos era isso que os jornais pensavam.</p><p>Nessa altura, a limusine estava passando pelos grandes arcos da Ponte Triborough, e eu j� conseguia distinguir a brilhante silhueta dos pr�dios de Manhattan � esquerda. Em dias claros como aquele, os edif�cios pareciam subir todos em dire��o ao c�u. Voc� poderia sentir o peso de todos eles. N�o havia d�vida de que Manhattan era o centro financeiro do Universo, um lugar onde os mandachuvas podiam se mover e se agitar, reunindo-se com os Mestres do Universo como se fossem deuses gregos no Olimpo. E cada um deles era t�o trapaceiro quanto eu!</p><p>Pois �, pensei, eu n�o era muito diferente de nenhum outro dono de corretora, fosse do WASP de sangue azul que dirigia o JP Morgan at� o branquelo pateta que tocava sua Foda-se Valores Mobili�rios (que fica em Foda-se, Minnesota). A verdade � que todos n�s peg�vamos alguns atalhos. N�s somos obrigados a fazer isso; afinal, se n�o fosse por qualquer outro motivo, era para, pelo menos, ficarmos acompanhando nossa concorr�ncia. Tal era a natureza da perfei��o contempor�nea de Wall Street, caso voc� quisesse ser de fato um verdadeiro e influente corretor.</p><p>Ent�o, na verdade, nada daquilo era de fato culpa minha. A culpa era de Joe Kennedy! Sim, ele � que tinha come�ado essa terr�vel onda de manipula��es, tramas e armadilhas corporativas. Nos anos 1930, o velho Joe foi o verdadeiro Lobo de Wall Street, queimando qualquer um que se colocasse em seu caminho. Na verdade, foi ele um dos principais instigadores da quebra da Bolsa de Nova York de 1929, que mergulhou os Estados Unidos na Grande Depress�o. Ele e um pequeno punhado de lobos fabulosamente ricos se aproveitaram de um p�blico desavisado e tomaram dezenas de milh�es de d�lares em a��es de curto prazo que j� estavam � beira do colapso, fazendo com que elas ca�ssem ainda mais.</p><p>E qual foi o castigo deles? Bem, a menos que eu esteja mal informado sobre nossa hist�ria, o velho Joe se tornou o primeiro presidente da Comiss�o de Valores Mobili�rios. <emphasis>Olhe a aud�cia!</emphasis> Sim, o maior bandido do mercado de a��es havia se tornado seu principal c�o de guarda! E durante todo o tempo, mesmo sendo o presidente da comiss�o, ele continuou a derrubar os pre�os das a��es por tr�s das cortinas, faturando outros milh�es.</p><p>Eu n�o era diferente de nenhum deles, n�o era mesmo.</p><empty-line/><empty-line/><p>� VOC� � MUITO DIFERENTE de todo mundo � disse Gregory J. O�Connell, meu advogado criminalista de quase 2 metros de altura. � Esse � seu problema.</p><p>Ele estava sentado do outro lado de sua fabulosa mesa de mogno, recostado em sua fabulosa poltrona de couro de espaldar alto, segurando a c�pia de meu n�o t�o fabuloso indiciamento. Gregory era um homem de boa apar�ncia, em seus 40 e poucos anos, com cabelo castanho-escuro e um queixo bastante quadrado. Tinha uma semelhan�a impressionante com Tom Selleck, do seriado <emphasis>Magnum</emphasis>, embora para mim parecesse bem mais alto. De fato, inclinado como estava agora sobre a mesa, sua cabe�a e seu tronco pareciam ter 1 quil�metro de altura (na verdade, ele tinha 1,95 metro de altura, embora para mim qualquer um que tivesse 1,90 j� parecesse suficientemente alto).</p><p>� Pelo menos � assim que o governo parece ver voc�, assim como seus amigos da imprensa, que n�o se cansam de falar sobre o Lobo de Wall Street � continuou Magnum, com sua voz de tenor e oferecendo conselhos da mesma forma teatral que Enrico Caruso teria feito, caso fosse essa a inclina��o dele. � Odeio dizer isso, mas voc� se tornou o garoto-propaganda da fraude contra os pequenos investidores, Jordan. Foi por isso que o juiz lhe deu uma fian�a de 10 milh�es de d�lares, para fazer de voc� um exemplo.</p><p>Respondi reclamando:</p><p>� Ah, � mesmo? Pois bem, tudo isso � um monte de merda do caralho, Greg! At� a �ltima gota! � Ergui-me da poltrona de couro preto onde estava sentado, para elevar-me ao n�vel de seus olhos. � Todo mundo em Wall Street � safado, e voc� sabe disso! � Inclinei a cabe�a para o lado e estreitei os olhos, desconfiado. � Quer dizer, que tipo de advogado � voc�, afinal? Eu sou inocente, pelo amor de Deus! Completamente inocente!</p><p>� Eu sei � disse meu amigo e advogado pelos �ltimos quatro anos. � E eu sou a Madre Teresa, a caminho de Roma, fazendo minha peregrina��o. E o Nick aqui � ele ergueu o queixo, apontando o terceiro ocupante da sala, seu s�cio Nick de Feis, que estava sentado na outra poltrona de couro ao meu lado � � Mahatma Gandhi. N�o � mesmo, Nick?</p><p>� � Mohandas � respondeu ele, que tinha se formado em primeiro lugar em sua classe em Yale. Ele tinha mais ou menos a mesma idade de Greg e um QI que beirava 7 mil� Era magro, de cabelos escuros cortados bem curtos, olhos intensos e comportamento tranquilo. Com mais ou menos a minha altura, Nick ficava muito bem no terno risca de giz azul, com o colarinho pesadamente engomado e sapatos estilo escoc�s bem WASP, e a soma disso tudo o fazia parecer um sujeito muito inteligente. � Mahatma n�o � realmente um nome � continuou o veterano de Yale �, � a palavra s�nscrita para �grande alma�, caso voc� queira saber o significado. Mohandas foi�</p><p>Eu o cortei:</p><p>� E quem se importa com essa merda, Nick? Porra, eu estou aqui encarando uma condena��o para passar o resto da vida na pris�o e voc�s dois, filhos da puta, ficam tagarelando sobre s�nscrito!</p><p>Caminhei at� uma janela de vidro que ia do piso ao teto e exibia uma vista fant�stica para a selva de concreto de Manhattan. Fiquei olhando pela janela, sem express�o, imaginando como diabos eu tinha ido parar ali � e sabendo exatamente como.</p><p>Est�vamos no 26� andar de um edif�cio estilo <emphasis>art d�co</emphasis> que se levantava 60 andares acima da Quinta Avenida e da Rua 42. Era uma �rea de Manhattan conhecida como Bryant Park, embora tamb�m tivesse sido conhecida como Needle<sup>*</sup> Park, quando cerca de 200 prostitutas viciadas em hero�na, nos anos 1970, tinham orgulhosamente transformado aquele lugar em seu lar. Mas o parque havia muito tinha sido recuperado e era agora considerado um bom local para a classe trabalhadora da cidade desfrutar de uma hora de almo�o serena, um lugar onde essas pessoas podiam se sentar em bancos pintados de verde, respirar com calma os gases nocivos de centenas de milhares de carros que passavam e escutar as buzinas estridentes dos 20 mil taxistas imigrantes. Olhei para baixo, para o parque, mas tudo o que eu pude enxergar foi uma faixa de grama verde e algumas pessoas do tamanho de formigas, nenhuma das quais, pelo que pude adivinhar, estava usando aquelas tornozeleiras. Achei tudo aquilo muito deprimente.</p><p>Enfim, aquele edif�cio, o de n�mero 500 na Quinta Avenida, era um lugar especialmente bom para se manter um escrit�rio de advocacia. Na verdade, isso tinha instilado grande confian�a em mim quando encontrei Nick e Greg pela primeira vez, quatro anos antes, confirmando uma intui��o que eu tive de que aqueles dois jovens advogados ascenderiam rapidamente.</p><p>Veja, na �poca, o escrit�rio de advocacia De Feis O�Connell &amp; Rose n�o era um dos grandes nomes de Nova York. Eles eram da nova gera��o, dois afiados e jovens advogados que tinham feito seu nome no gabinete do Procurador-Geral (processando trapaceiros como eu) e que s� recentemente tinham se mudado para seu pr�prio escrit�rio. Era aqui que eles poderiam realmente ganhar dinheiro (defendendo trapaceiros como eu).</p><p>O terceiro s�cio do escrit�rio de advocacia, Charlie Rose, havia morrido tragicamente de um tumor maligno no c�rebro. Mas a placa banhada a ouro na porta de nogueira da frente ainda mantinha seu nome, e havia in�meras fotos dele nas paredes da �rea de recep��o, na sala de reuni�es e tamb�m nas paredes das salas de Nick e Greg. Aquele foi um toque sentimental que n�o passou despercebido para mim. Em minha mente, a mensagem era bem clara: Nick e Greg eram dois caras extremamente leais, o tipo certo de gente a quem eu poderia confiar minha liberdade.</p><p>� Por que voc� n�o se senta? � perguntou Magnum num tom de voz bastante apaziguador, estendendo o bra�o de 1 quil�metro de extens�o e apontando para minha poltrona. � Voc� precisa se acalmar um pouco, colega.</p><p>� Eu estou calmo � murmurei. � Estou calmo pra caralho. E por que diabos eu ficaria nervoso, afinal? Pelo fato de que posso ser condenado a 300 anos de cadeia? � dei de ombros e tomei meu lugar. � Isso n�o � t�o ruim no esquema geral das coisas, n�o �?</p><p>� Voc� n�o corre o risco de pegar 300 anos � respondeu Magnum, em um tom que um psiquiatra normalmente usaria para convencer um suicida a n�o pular da ponte. � No m�ximo, s�o 30 anos; 35 na pior das hip�teses � ent�o ele fez uma pausa, franzindo os l�bios como um agente funer�rio. � Embora exista uma excelente oportunidade de o governo substituir a acusa��o�</p><p>Eu me encolhi na poltrona.</p><p>� Substituir? Do que voc� est� falando?</p><p>� claro que eu sabia exatamente do que ele estava falando. Afinal de contas, eu estivera sob investiga��o criminal durante a maior parte de minha vida adulta, ent�o me tornara um especialista nesses assuntos. Mas ainda assim pensei que, de alguma forma, se eu fizesse com que a express�o <emphasis>substituir</emphasis> me soasse como um conceito totalmente estranho, isso tornaria menos prov�vel que a situa��o de fato acontecesse.</p><p>� Deixe-me esclarecer as coisas � disse o rapaz de Yale. � Exatamente agora voc� est� sendo acusado de fraudes de valores mobili�rios e lavagem de dinheiro, mas apenas em quatro a��es. S�o grandes as chances de que eles tentem agregar outras acusa��es, ou seja, <emphasis>substituir as</emphasis> acusa��es contra voc�, como seria o termo jur�dico. N�o fique surpreso se eles tentarem indici�-lo quanto �s demais empresas cujas a��es voc� tornou p�blicas. No total foram 35, certo?</p><p>� Mais ou menos � respondi de modo casual, a essa altura da conversa totalmente entorpecido pela quantidade de m�s not�cias, que fariam um homem normal mijar nas cal�as.</p><p>Sem falar que, no fundo, qual seria a diferen�a entre 30 e 35 anos? Ambas eram condena��es pela vida toda, n�o eram? A Duquesa j� estaria bem longe h� muito tempo, e meus filhos j� seriam adultos, provavelmente casados e com seus pr�prios filhos.</p><p>E, no meu caso, qual seria meu destino? Bem, eu iria acabar como um daqueles velhos desdentados, o tipo de b�bado in�til que envergonha seus filhos e netos quando aparece na porta da casa deles nos feriados. Eu acabaria como aquele velho presidi�rio, o senhor Gower, o farmac�utico do filme <emphasis>A felicidade n�o se compra</emphasis>. Ele tinha sido um homem muito respeitado em sua comunidade at� envenenar uma crian�a inocente depois de receber um telegrama informando que seu filho tinha morrido na Primeira Guerra Mundial. Na �ltima vez em que assisti ao filme, vi a cena em que tinham acabado de jogar �gua com g�s no rosto do senhor Gower, e depois ele era expulso de um bar com um chute na bunda.</p><p>Respirei fundo. Caralho� Eu precisava controlar de algum modo essas digress�es! Mesmo nos bons tempos, minha mente tinha o h�bito de fugir para longe. Ent�o, disse:</p><p>� Muito bem, ent�o me digam quais s�o minhas op��es aqui. Porque a ideia de passar 30 anos na pris�o n�o � exatamente algo que me deixa emocionado�</p><p>� Beeeeeemmmm � disse Magnum �, da forma como eu vejo as coisas, e sinta-se livre para interromper a conversa, Nick� Voc� tem tr�s op��es. A primeira � lutar essa batalha at� o final, enfrentar o j�ri e ganhar uma absolvi��o � ele assentiu com a cabe�a uma vez, deixando a palavra <emphasis>absolvi��o</emphasis> pairando no ar. � E se n�s ganharmos, bem, tudo estar� terminado. Esse assunto vai ficar para tr�s, de uma vez por todas.</p><p>� N�o se aplicar� o princ�pio da dupla incrimina��o � acrescentei, sentindo-me ao mesmo tempo orgulhoso e perturbado por meu conhecimento em direito penal.</p><p>� Exatamente � concordou o rapaz de Yale. � Voc� n�o poder� ser julgado duas vezes pelo mesmo crime. Vai ser um caso sobre o qual as pessoas v�o falar durante anos. Vai ser algo que transformar� a Greg e a mim nos <emphasis>reis do peda�o</emphasis> � ent�o ele fez uma pausa e sorriu tristemente. � Mas eu recomendo fortemente que <emphasis>n�o</emphasis> tome esse caminho. Acho que seria um grande erro levar esse assunto ao tribunal do j�ri. Estou dizendo isso como seu amigo, Jordan, n�o como seu advogado.</p><p>Nessa altura, Magnum assumiu:</p><p>� Compreenda uma coisa, amigo, se fossemos falar como um escrit�rio de advocacia, recomendar�amos que levasse a coisa a julgamento, porque ganhar�amos muito mais dinheiro assim� Provavelmente dez vezes mais, num caso como este. Um julgamento complicado desse tipo iria se arrastar para sempre, bem mais que um ano, e o custo seria astron�mico: muito mais que 10 milh�es�</p><p>O rapaz de Yale entrou na conversa:</p><p>� Mas, se de fato formos a julgamento e perdermos, ser� um desastre monumental. Uma cat�strofe de propor��es b�blicas. Voc� receberia uma pena de mais de 30 anos, Jordan, e�</p><p>Magnum, sobrepondo-se � conversa:</p><p>� Voc� n�o cumpriria a pena em uma pris�o federal, jogando golfe e praticando t�nis. Estaria em uma penitenci�ria federal, ao lado de assassinos e estupradores � disse e balan�ou a cabe�a gravemente. � Seria o inferno na Terra.</p><p>Assenti com a cabe�a, bastante consciente sobre a maneira como os federais alojavam seus criminosos, de acordo com o tempo: quanto mais anos voc� tivesse em sua pena, maior era o risco que oferecia � seguran�a. Qualquer senten�a menor que dez anos, sem viol�ncia nos registros, e voc� se qualificava para uma pris�o de seguran�a m�nima (existe o Club Med, esse seria o Club Fed). Mas, se sua senten�a fosse de mais de dez anos, eles o trancavam em um lugar onde um frasco de vaselina valia muito mais que um caminh�o carregado de plut�nio.</p><p>Greg continuou:</p><p>� Agora, falando como amigo, eu ficaria muito chateado de saber que voc� seria trancado em um lugar desse tipo, especialmente quando h� outras op��es� Op��es muito melhores, eu diria.</p><p>E Magnum continuou falando sem parar, mas eu me desliguei. J� sabia muito bem que ir a julgamento de fato n�o seria uma boa decis�o. Sabia que, ao contr�rio do que muita gente pensava, as senten�as dispensadas aos crimes financeiros eram de longe bem piores que as dadas aos crimes violentos. No fundo, tudo se resumia aos valores envolvidos: se as perdas do investidor tivessem excedido 1 milh�o de d�lares, a senten�a do juiz seria bastante severa. E se as perdas do investidor superassem 100 milh�es, como era meu caso, a senten�a ultrapassaria todos os limites.</p><p>Ainda havia mais, come�ando pelo fato de que eu era realmente culpado. Isso era algo que Nick sabia, Greg sabia e eu tamb�m sabia. Eles dois me representavam como advogados desde o in�cio, desde o ver�o de 1994, quando cometi o erro fatal de contrabandear milh�es de d�lares para a Su��a.</p><p>Isso acontecera quando eu tinha estado sob press�o regulat�ria intensa, come�ando com a Comiss�o de Valores Mobili�rios, que estava obcecada com minha corretora, a Stratton Oakmont. Eu tinha aberto a empresa l� atr�s, no outono de 1988, descobrindo um nicho desenfreadamente lucrativo nos t�tulos de mercado, vendendo a��es de 5 d�lares para o 1% mais rico dos americanos. Tinha sido exatamente assim que a Stratton se tornara uma das maiores corretoras de valores dos Estados Unidos.</p><p>Em retrospecto, as coisas poderiam ter sido muito diferentes. T�o facilmente como isso aconteceu, eu poderia ter seguido o caminho mais seguro e tradicional, abrindo uma empresa que teria como concorrentes e rivais a Lehman Brothers ou a Merrill Lynch. Quis o destino que um de meus primeiros mentores, um verdadeiro g�nio chamado Al Abrams, tivesse feito uma aquisi��o agressiva que se configurou numa viola��o das leis federais de valores mobili�rios. Al era um homem cuidadoso, o tipo de homem que mantinha canetas antigas na gaveta de sua mesa, de forma que, quando colocasse datas retroativas em seus documentos, a tinta combinasse com os dados cromatogr�ficos do FBI. Al passava boa parte de seus dias tentando prever os movimentos dos agentes regulat�rios abelhudos e cobrindo os rastros que porventura deixasse.</p><p>E foi ele quem me ensinou.</p><p>Assim, do mesmo modo que Al, eu tamb�m tinha agido de forma cuidadosa, cobrindo meus rastros com o zelo e o entusiasmo de um atirador de elite atr�s das linhas inimigas. Desde os primeiros dias da Stratton, eu estava ciente de que cada negocia��o que fazia, cada neg�cio que fechava e cada palavra que dizia ao telefone poderia um dia vir � tona sob o microsc�pio das ag�ncias reguladoras. Portanto, sendo leg�timas ou n�o, minhas a��es deveriam parecer que eram.</p><p>Em consequ�ncia, fiz o pessoal da Comiss�o de Valores Mobili�rios subir pelas paredes quando eles me processaram, no outono de 1991, esperando uma vit�ria f�cil. Eles at� se estabeleceram em minha sala de reuni�es por v�rios dias, com o intuito de me intimidar. Infelizmente, as coisas n�o correram como eles planejavam: acabei instalando microfones ocultos em minha pr�pria sala de reuni�es e, ao ajustar o termostato a temperaturas extremas, congelava-os durante o inverno e assava-os durante o ver�o. Ent�o, contratei o ex-chefe deles, um homem chamado Ike Sorkin, para me proteger, me defender e minar a investiga��o deles a cada conjuntura. Enquanto isso, entre 1991 e 1994, estava faturando coisa de 50 milh�es de d�lares por ano, ao passo que esses jovens investigadores (todos recebendo 30 mil d�lares por ano) desistiram, imersos em frustra��o e desgra�a e sofrendo com terr�veis casos de queimaduras ou desidrata��o, dependendo da esta��o do ano.</p><p>Com o passar do tempo, acabei resolvendo meu caso com a comiss�o. �Paz honrosa�, como chamou meu advogado, embora para mim tenha sido uma vit�ria arrasadora. Concordei em pagar uma multa de 3 milh�es de d�lares e, ent�o, fui caminhar calmamente ao p�r do sol. O �nico problema � que eu n�o conseguia desistir de tudo aquilo. Eu tinha ficado intoxicado por toda a riqueza e o poder, enganchado e preso em toda uma gera��o de jovens habitantes de Long Island me chamando de rei ou de Lobo. A palavra de ordem do dia era gratifica��o instant�nea, e os fins justificando os meios eram o instrumento para garanti-la. Exatamente por isso, e do nada, a Stratton saiu de controle. E eu junto com ela�</p><p>No come�o da d�cada de 1990, o Lobo de Wall Street estava usando suas presas. Ele era meu diab�lico <emphasis>alter ego</emphasis>, uma personalidade muito distante da crian�a que meus pais tinham entregado ao mundo. Meu senso de certo e errado tinha praticamente desaparecido, minha linha de moralidade havia sido enviada para o lado negro por meio de uma s�rie de min�sculos e quase impercept�veis passos, que juntos me levaram firmemente ao lado errado da lei.</p><p>O Lobo era um personagem desprez�vel, que tra�a a mulher, dormia com prostitutas, esbanjava quantias obscenas de dinheiro e via os regulamentos das transa��es de valores como nada mais que obst�culos rasos para serem vencidos em um �nico salto. Ele justificava suas a��es fazendo uso de racionaliza��es absurdas, ao mesmo tempo que enterrava a culpa e o remorso de Jordan Belfort debaixo de quantidades enormes de drogas perigosas.</p><p>Enquanto isso, o governo continuava se aproximando� O problema seguinte foi a NASDAQ, que se recusava a listar qualquer empresa da qual o Lobo fosse o acionista majorit�rio. A solu��o dele, por mais insana que possa parecer agora, foi contrabandear milh�es de d�lares para a Su��a, utilizando a lend�ria legisla��o de sigilo banc�rio para tentar se transformar num homem invis�vel. Usando uma s�rie de empresas de fachada, contas numeradas e documentos habilmente forjados, parecia ser um plano perfeito.</p><p>Mas, desde o in�cio, ele tamb�m parecia estar amaldi�oado. Os problemas come�aram quando meu principal transportador de fundos foi preso nos Estados Unidos com meio milh�o em dinheiro, e os problemas terminaram (em desastre) quando meu banqueiro su��o foi preso alguns anos depois, tamb�m nos Estados Unidos, no momento em que come�ou a cooperar contra aqueles meus envios de fundos.</p><p>Nessa �poca, um jovem agente do FBI chamado Gregory Coleman estava obcecado pelo Lobo, prometendo captur�-lo. Numa s�rie de investidas que se transformaram em um jogo de gato e rato que se tornou lend�rio dentro do FBI, Coleman seguiu meu rastro em papel por meio mundo e depois de volta ao lar. Finalmente, depois de cinco anos de trabalho bra�al batendo pernas por milhares de quil�metros, ele conseguira ligar pontos suficientes para garantir um indiciamento.</p><p>Ent�o, l� estava eu, depois desse indiciamento, v�tima de minha pr�pria imprud�ncia e da persist�ncia obcecada de Coleman. E l� estava Magnum, passando agora para a segunda op��o, que era fazer um acordo.</p><p>� Embora eu n�o possa lhe prometer de quanto seria o tempo da senten�a, n�o acredito que venha a ser algo mais do que sete anos, no m�ximo oito � e deu de ombros. � Vamos pensar em oito, para ser mais pessimistas.</p><p>� De jeito nenhum! � retruquei. � Vamos usar sete e sermos otimistas, pelo amor de Deus! Esses s�o <emphasis>meus</emphasis> anos, n�o a porra dos seus anos, ent�o se eu quiser usar sete deles � uma prerrogativa minha!</p><p>O homem de Yale interveio:</p><p>� Tudo bem, tudo bem, sete anos � um bom n�mero para a gente trabalhar. S�o 84 meses antes das redu��es, e�</p><p>Cortei o discurso do homem de Yale.</p><p>� Ah, �timo, vamos falar dessas minhas redu��es de pena! Sinta-se livre para exagerar, se quiser. Prometo que n�o vou processar voc�s por neglig�ncia�</p><p>Ambos sorriram respeitosamente, e o homem de Yale retomou a conversa:</p><p>� Bem, a primeira possibilidade de progress�o prisional � a redu��o por bom comportamento. Voc� ganha 15% para cada ano cumprido. Ou seja, se falamos de 15% descontados de 84 meses� � ele olhou para Magnum. � Voc� tem uma calculadora?</p><p>� Esque�a a calculadora � balbuciei eu, o g�nio da matem�tica. � S�o 71 meses e meio. Mas vamos deixar por 71, s� para arredondarmos. O que mais?</p><p>O homem de Yale prosseguiu:</p><p>� Bem, voc� tem seis meses numa casa de recupera��o para drogados, o que � quase como estar em casa. Isso deixa voc� com 65 meses.</p><p>Magnum entrou na conversa:</p><p>� E ainda temos seu programa de reabilita��o, o que, tendo em vista seu hist�rico, o deixa qualificado para se beneficiar disso � disse e soltou uma risadinha, olhando para Nick. � Talvez ele pudesse inclusive <emphasis>dar</emphasis> esse curso, n�o acha, Nick?</p><p>� Uma coisa a se pensar � respondeu o homem de Yale, encolhendo os ombros engomados. � Voc� daria um excelente professor, Jordan. Tenho certeza de que faria com que as aulas fossem muito interessantes. De qualquer forma, podemos tirar esses 12 meses relacionados ao programa de tratamento do v�cio em drogas, o que nos deixa agora com 53 meses.</p><p>Magnum disse:</p><p>� Voc� est� entendendo o que estamos lhe mostrando aqui, Jordan? A coisa n�o � assim t�o ruim quanto voc� pensava.</p><p>� Sim, claro� � fiquei um momento pensando sobre meu destino.</p><p>Quatro anos e meio� Bem, isso era certamente melhor do que me arriscar a enfrentar um julgamento e acabar me tornando um novo senhor Gower. Eu ainda poderia cumprir minha pena no Club Fed, jogando golfe e praticando t�nis, e ser libertado pr�ximo de meu anivers�rio de 40 anos. Claro, precisaria pagar uma multa pesada, mas ainda teria dinheiro suficiente para emergir da pris�o como um homem rico.</p><p>E ent�o tudo me veio � mente: <emphasis>talvez eu fosse capaz de vender esse cen�rio para a Duquesa!</emphasis> Talvez ela ficasse quando soubesse que eu ia encarar apenas quatro anos e meio na cadeia� embora pudesse reduzir um pouco esse tempo, dizendo a ela que eu ia ficar apenas quatro anos. Como ela iria saber que eu estava mentindo? De repente, eu podia dizer a ela que eram 48 meses. Qual dos dois parecia mais curto? Provavelmente os 48 meses, ou ent�o eu talvez devesse dizer 47 meses e continuar com um �Isso � menos que quatro curtos anos, querida!�.</p><p>Uau, aquilo soava agrad�vel! <emphasis>Menos que quatro curtos anos, querida!</emphasis> N�o seria mais longo que um solu�o, uma coisa que poderia acontecer com qualquer homem de poder. Sim, eu iria explicar isso � Duquesa, e ela iria entender. Afinal, eu tinha sido um �timo provedor durante todos aqueles anos. Ent�o, por que ela haveria de perder seu tempo pesquisando uma nova mina de ouro quando a minha, que ela j� possu�a, estaria de volta �s opera��es em <emphasis>menos de quatro curtos anos, querida</emphasis>?</p><p>� � sempre poderia cooperar � disse Magnum, erguendo as sobrancelhas duas vezes em r�pida sucess�o. � Agora, se voc� seguir por esse caminho, � poss�vel que n�o passe nem um dia na cadeia; poderia conseguir liberdade condicional no ato. Apesar de provavelmente ter que cumprir um ano ou pouco mais.</p><p>Eu tinha estado t�o ocupado fantasiando sobre a trai��o da Duquesa que perdi a primeira metade do que Magnum estava dizendo. Aparentemente, ele tinha come�ado a explicar qual seria minha terceira op��o: coopera��o, tamb�m conhecida como dela��o, ser informante, tra�ra, dedo-duro. Pode chamar como quiser, decidi ignorar a �ltima parte da explica��o de Magnum, referente as suas previs�es, e disse, com um leve tra�o de esperan�a na voz:</p><p>� N�o vou ter de passar um dia sequer na cadeia?</p><p>Magnum deu de ombros e respondeu:</p><p>� Isso � uma possibilidade, como eu disse. N�o � uma garantia. Assim que voc� se tornar uma testemunha cooperativa, as normas de condena��o s�o jogadas pela janela. O juiz pode, a partir da�, fazer como ele quiser. Ele pode lhe dar liberdade condicional, pode sentenci�-lo a um ano de pris�o ou, em teoria, pode sentenci�-lo com a pena mais severa que existir. Agora, no seu caso, voc� tem o juiz Gledson, que eu considero o juiz perfeito para um processo como este. Ele compreende a import�ncia da coopera��o com a Justi�a, de forma que deve ser justo com voc�.</p><p>Assenti lentamente com a cabe�a, sentindo que havia uma luz no fim do t�nel.</p><p>� Ent�o ele � pr�-defesa?</p><p>� N�o � replicou Magnum, furando minha bolha de sab�o. � Ele n�o � pr�-defesa e n�o � pr�-governo tampouco. Ele � um juiz que fica exatamente no meio e dan�a de acordo com sua pr�pria m�sica. O juiz Gledson � um dos mais inteligentes ju�zes do Distrito Leste, de modo que ningu�m vai ser capaz de jogar areia nos olhos dele, nem voc� nem a Promotoria P�blica. Mas isso � uma coisa positiva, porque, se voc� fizer a coisa certa, John ser� justo. Isso � tudo que posso lhe prometer� Ah, n�o o chame de John no tribunal, a menos que prefira ser preso por desacato � ele sorriu e piscou. � Basta cham�-lo de merit�ssimo e tudo ficar� bem.</p><p>Nesse momento, o homem de Yale interveio:</p><p>� Greg conhece John como ningu�m mais. Eles trabalharam juntos no gabinete do Procurador, s�o amigos.</p><p>Espere um minuto. Ele acaba de dizer que eles s�o amigos? Quer dizer que meu advogado � amigo do juiz<emphasis>?</emphasis> Aquilo era m�sica para meus ouvidos.</p><p>Agora as coisas estavam fazendo sentido. Eu sempre soube que Magnum seria o advogado perfeito para mim. Eu at� desconsiderei o fato de que ficar de p� ao lado dele me fazia parecer pequeno como com um camar�o. No fim de tudo, veja s� como as coisas tinham terminado bem! Por pura coincid�ncia, meu advogado era amigo do juiz, o que significava que ele daria uma piscada sutil assim que o juiz estivesse prestes a anunciar minha senten�a; nessa altura o juiz acenaria de volta a Magnum t�o sutilmente quanto e depois diria: �Jordan Belfort, apesar do fato de voc� ter roubado 100 milh�es de d�lares e corrompido toda uma gera��o de jovens americanos, estou lhe dando uma pena de 12 meses em condicional e 100 d�lares de multa�.</p><p>Enquanto isso, a Duquesa estaria sentada no tribunal, vestida com esmero e agradecendo a sua estrela da sorte por ter abandonado sua busca por uma nova mina de ouro. Afinal, a mina de ouro do Lobo estava prestes a reabrir para extra��o de min�rio, e tudo isso simplesmente porque <emphasis>seu advogado era amigo do juiz</emphasis>!</p><p>Sorri calorosamente para Magnum e disse:</p><p>� Bem, essas s�o realmente boas not�cias, Greg � assenti lentamente com a cabe�a, deixando escapar um suspiro de al�vio. � Por que voc� n�o me contou desde o in�cio que era amigo desse juiz? Esse � um desenrolar fant�stico para toda essa hist�ria. Realmente fant�stico, se voc� pescar minha isca � pisquei para Magnum de forma conspirat�ria, esfregando o ded�o e os dois primeiros dedos da m�o juntos, como se estivesse dizendo �Basta me dizer de quanto voc� precisa para subornar esse juiz!�, e depois pisquei uma vez mais.</p><p>� Ei, ei, ei! � exclamou Magnum, em um tom grave o suficiente para despertar os mortos. � John n�o � esse tipo de juiz! � um cara completamente honesto. Ele � do tipo que um dia vai acabar nomeado para a Suprema Corte. Ou no m�nimo para o Tribunal de Apela��es. De qualquer forma, ele n�o vai fazer nada que seja impr�prio.</p><p>Que desmancha-prazeres de merda!, pensei. Meu pr�prio advogado n�o ia me ajudar e, em vez disso, estava tentando acabar com minha confian�a. Eu me segurei para n�o mand�-lo se foder e repliquei:</p><p>� Bem, eu n�o gostaria de fazer nada que comprometesse as aspira��es de carreira de ningu�m. Enfim, n�o acho que eu possa me transformar em uma testemunha cooperativa, de forma que esse � um ponto discut�vel.</p><p>Magnum pareceu surpreso.</p><p>� Mas por que voc� est� dizendo isso?</p><p>� Pois �! � acrescentou o rapaz de Yale, atordoado. � Discordo totalmente. Voc� seria uma excelente testemunha para o governo. Por que est� pensando o contr�rio?</p><p>Deixei escapar um profundo suspiro.</p><p>� Por uma s�rie de raz�es, Nick, e a n�o menos importante � o fato de que estou bem no topo da cadeia alimentar. Qualquer pessoa que eu denunciar estar� numa posi��o mais baixa que a minha. Sem falar que a maioria das pessoas nas quais o governo poderia estar interessado s�o meus melhores amigos. Por isso, me digam, como diabos voc�s acham que eu poderia delatar meus melhores amigos e manter pelo menos um grama de respeito pr�prio? Eu n�o seria capaz de andar por Long Island com a cabe�a erguida. Eu seria um leproso � fiz uma pausa, balan�ando a cabe�a em desespero. � E se eu decidir cooperar, vou ter de dizer a verdade sobre todos os meus crimes, contar tudo a eles, n�o � assim?</p><p>Ambos concordaram.</p><p>Eu disse:</p><p>� Foi o que pensei. Ent�o, quer dizer que basicamente estarei confessando ser culpado de todos os neg�cios que fiz, o que significa que minha multa vai ser enorme. V�o tirar tudo de mim � o que tamb�m significaria dar tchauzinho pra Duquesa � e eu teria de recome�ar do zero. N�o acho que eu possa lidar com isso agora. Tenho uma esposa e dois filhos em quem pensar. Quer dizer, o que � melhor? Passar quatro anos na cadeia, enquanto minha fam�lia vive no luxo, ou passar um ano na pris�o, enquanto minha fam�lia se pergunta de onde vir� sua pr�xima refei��o?</p><p>� Calma, n�o � uma coisa assim t�o simples e direta � replicou Magnum. � Quer dizer, sim, definitivamente voc� vai se declarar culpado de tudo. � assim que as coisas funcionam quando se passa a cooperar com o governo. Mas n�o, voc� n�o vai ficar absolutamente sem nada. O governo vai lhe deixar com alguma coisa para seu sustento, talvez algo como 1 milh�o de d�lares, por a�. Mas todo o restante vai embora: as casas, os carros, as contas banc�rias, sua carteira de a��es, tudo!</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio. Ent�o, Nick disse, com grande fervor:</p><p>� Mas voc� � um cara novo, Jordan. E ainda � um dos caras mais inteligentes que j� conheci na vida! � afirmando isso, sorriu tristemente. � Voc� vai reconstruir sua vida. Memorize minhas palavras, voc� vai refazer sua fortuna. Um dia vai voltar ao topo novamente, e ningu�m em s� consci�ncia apostaria contra voc�.</p><p>� Ele est� certo � acrescentou Greg. � Se voc� acha que este � o fim para voc�, est� seriamente enganado, meu amigo. Este � o come�o. � hora de come�ar sua vida de novo. Voc� � um vencedor. Nunca se esque�a disso. � Ele fez uma pausa por um breve instante. � Sim, voc� cometeu alguns erros ao longo do caminho, alguns erros absurdos. Mas isso n�o desmente o fato de que voc� � um vencedor. Da pr�xima vez, far� as coisas direito. Estar� mais velho e mais s�bio, ir� construir sua vida em bases mais s�lidas do que alicerces de areia. E ent�o ningu�m ser� capaz de tirar isso de voc�. Ningu�m.</p><p>Ele acenou com a cabe�a lenta e sabiamente.</p><p>� Quanto a delatar seus amigos, bem� Eu n�o ficaria t�o preocupado. Se isso acontecesse com qualquer um deles e os pap�is estivessem trocados, pode acreditar, cada um deles se voltaria contra voc�. Neste exato momento, o que voc� precisa fazer � o melhor para si e para sua fam�lia. � s� isso que importa. Esque�a o resto do mundo, porque certamente eles v�o se esquecer de voc� � disse Magnum, que de repente adotou um tom nost�lgico. � Sabe, a gente costumava usar um ditado na Procuradoria: os italianos cantam na Mulberry Street e os judeus cantam na Court Street<sup>*</sup>. Em outras palavras, as pessoas ligadas � m�fia n�o cooperam, elas n�o �cantam� sobre quem s�o os outros mafiosos. Mas isso � tudo um monte de merda agora. Com a RICO<sup>*</sup>, as penas agora come�am em 20 anos de pris�o e v�o da� para cima. Por isso, os mafiosos come�aram a cantar tamb�m. Os judeus cantam, os italianos cantam, os irlandeses cantam, todo mundo canta.</p><p>Ele deu de ombros.</p><p>� Seja como for, o maior problema que vejo em sua coopera��o se chama Joel Cohen, o promotor assistente do seu caso � ele soltou um grande suspiro. Ent�o, como se fosse uma batida em <emphasis>staccato</emphasis>, disse: � Joel Cohen � um sujeito em quem n�o se pode confiar. Vou repetir: n�o se pode confiar nele. � um ovo podre no cesto.</p><p>Foi nesse momento que Nick entrou na conversa:</p><p>� Greg tem raz�o no que est� dizendo. J� passamos por experi�ncias ruins com esse Joel no passado. Veja bem, a forma como as coisas funcionam quando voc� coopera � a seguinte: o promotor assistente deve escrever uma carta ao juiz atestando quanto voc� tem sido �til nas investiga��es e como tem sido uma �tima testemunha, e assim por diante. Ent�o, de acordo com a lei, Joel ter� de escrever a carta, mas � aqui que as coisas ficam um pouco complicadas. O conte�do da carta depende exclusivamente dele, ou seja, se ele quiser ferrar com voc�, poder� pintar a carta em tons bem negativos para seu lado. E ent�o voc� estaria numa merda total�</p><p>� Bem, foda-se! � murmurei. � Parece que um desastre se aproxima, caralho � balancei a cabe�a em espanto. � E, sem querer ofender, mas n�o preciso que voc�s dois fiquem a� me contando como esse Joel � idiota. Eu poderia dizer isso s� de olhar para a cara dele. Quer dizer, voc�s n�o viram como ele foi desprez�vel na audi�ncia preliminar de fian�a? Se dependesse dele, eles iriam me pregar na cruz!</p><p>� Mas n�o depende dele � argumentou Magnum. � Na verdade, provavelmente nem ser� Joel a escrever sua carta quando chegar a hora. Veja bem, se voc� cooperar, o processo vai se arrastar por uns quatro ou cinco anos, e voc� n�o receber� sua pena at� que sua coopera��o esteja completa. H� uma grande chance de que Joel j� tenha sa�do do gabinete a essa altura, ingressando em nossas humildes fileiras, dos advogados de defesa.</p><p>Passamos os minutos seguintes debatendo os pr�s e os contras de minha eventual coopera��o com o governo, e quanto mais eu aprendia sobre isso, menos me parecia atraente. Ningu�m estaria a salvo, fora de perigo; eu seria for�ado a delatar todos os meus velhos amigos. A �nica exce��o seria meu pai, que tinha sido Diretor Financeiro da Stratton (ele n�o tinha feito nada ilegal, de qualquer forma), e minha assistente de longa data, Janet<sup>1</sup> (que tinha feito coisas ilegais, mas que estava t�o l� embaixo na pir�mide que ningu�m se importaria com ela). Greg me garantiu que conseguiria �passe livre� para os dois.</p><p>O que mais me incomodava, por�m, era a ideia de delatar meu antigo s�cio, Danny Porush, que havia sido indiciado junto comigo e ainda estava na pris�o, tentando conseguir fian�a. E havia tamb�m meu melhor e mais antigo amigo, Alan Lipsky. Ele tamb�m estava sendo acusado, embora seu processo fosse apenas parcialmente relacionado com o meu. N�s �ramos melhores amigos desde que us�vamos fraldas. Ele era mais meu irm�o que meu pr�prio irm�o.</p><p>Exatamente nesse instante, soou um barulho insolente do telefone de Greg. A secret�ria disse de maneira bem casual:</p><p>� Joel Cohen est� na linha um. Voc� vai atender ou devo dizer que retornamos mais tarde?</p><p>Naquele exato momento, dentro da sala de canto da firma de advocacia De Feis O�Connel &amp; Rose, no 26� andar do edif�cio, voc� poderia ouvir um alfinete caindo ao ch�o. N�s tr�s ficamos apenas sentados ali, um olhando para a cara do outro, boquiabertos.</p><p>Eu fui o primeiro a falar:</p><p>� Esse traidor filho da puta! Ele j� est� substituindo as acusa��es! Puta merda! Puta merda do caralho!</p><p>Magnum e o homem de Yale concordaram com a cabe�a. Ent�o Magnum colocou o dedo indicador nos l�bios, dizendo um r�pido �Psssst!�, e pegou o telefone.</p><p>� Oi, Joel, e a�?� Ah�, ah� Certo. Bem, acontece que estou com sua pessoa favorita sentada bem aqui a minha frente neste exato instante� Certo, � isso mesmo. Est�vamos por acaso conversando sobre o flagrante ato disfuncional da Justi�a que � essa coisa toda � Greg me deu uma piscadela confiante e, em seguida, recostou-se na poltrona, come�ando a balan�ar. Ele era um guerreiro poderoso, pronto para assumir o controle sobre aquele insolente Joel Cohen. Magnum poderia esmag�-lo com um s� golpe. � Ah� Ah� � continuou Magnum, balan�ando para a frente e para tr�s na poltrona. � Ah� Ah� � ent�o, de repente, seu rosto demonstrou surpresa e ele parou de se balan�ar em seu fabuloso trono de couro preto, como se o dedo de Deus tivesse acabado de descer sobre sua cabe�a. Meu cora��o perdeu uma batida antes de Magnum falar. � Ei, ei, ei, calma a�, Joel. Devagar. N�o fa�a nada precipitado. Voc� n�o pode estar falando s�rio sobre isso� Ela n�o � do tipo de� Ah� Ah� Bem, vou conversar com ele sobre isso. Mas n�o fa�a nada at� eu retornar. Certo?</p><p>Ela?, pensei. Mas de que porra Magnum estava falando? Ela quem? Janet? Ser� que eles estavam querendo pegar Janet? Mas n�o fazia nenhum sentido. Janet era uma mera assistente, a troco de qu� eles iriam atr�s dela? Um Magnum visivelmente abalado desligou o telefone e murmurou as seis palavras mais venenosas que eu j� tinha ouvido na vida. Ele falou, sem um tra�o de emo��o na voz:</p><p>� Eles v�o indiciar sua mulher amanh�.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio aterrador, e ent�o, subitamente, dei um pulo da cadeira onde estava sentado e gritei:</p><p>� <emphasis>O qu�?</emphasis> Mas nem fodendo! Como eles podem fazer isso? Ela n�o fez nada! Como eles podem indiciar minha Duquesa?</p><p>O homem de Yale jogou as m�os para o ar e encolheu os ombros. Ent�o ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas nenhuma palavra saiu. Virei-me para Magnum e disse, em um tom de desespero:</p><p>� Caralho, ah, meu Deus! Merda! Mas que porra de merda!</p><p>� Acalme-se � disse Magnum. � Voc� precisa se acalmar. Joel n�o vai fazer nada por enquanto. Ele prometeu esperar at� que eu conversasse com voc�.</p><p>� Falar comigo sobre o qu�? Eu� Eu n�o estou entendendo. Como eles podem acusar minha esposa de alguma coisa? Ela n�o fez nada!</p><p>� De acordo com o que Joel me disse, eles t�m uma testemunha que diz que ela estava no quarto com voc� quando estava contando dinheiro. Mas ou�a bem: os fatos n�o s�o realmente importantes. Joel n�o tem interesse em processar Nadine. Ele deixou isso bem claro para mim. Ele quer apenas que voc� coopere; esse � o come�o e o fim de tudo. Se voc� cooperar, sua esposa fica livre. Caso contr�rio, eles v�o prend�-la amanh�. A decis�o � sua.</p><p>Dizendo isso, Magnum olhou para seu rel�gio de pulso. Era um daqueles propositalmente discretos, supercaros, com uma pulseira de couro marrom-chocolate e uma face branco-p�rola. Devia ter custado uns 20 mil d�lares, calculei, mas era o tipo de rel�gio que supostamente anunciaria �Eu sou um sujeito t�o confiante e bem-sucedido que n�o tenho necessidade de usar um rel�gio de pulso de ouro reluzente para projetar uma imagem de sucesso e de confian�a�. Magnum acrescentou:</p><p>� Ele me deu at� as 4 horas para retornar, ou seja, em quatro horas a contar de agora. Diga-me o que voc� quer fazer.</p><p>Bem, estava claramente �bvio que eu n�o tinha escolha. Eu teria de cooperar agora, independentemente das consequ�ncias. Afinal, eu n�o podia deixar Joel indiciar minha esposa. Nem em um milh�o de anos.</p><p><emphasis>Espere um segundo!</emphasis> De uma vez s�, uma s�rie de pensamentos deliciosos borbulhou em meu c�rebro, come�ando com: Como a Duquesa poderia me deixar se ela tamb�m fosse indiciada? Ela estaria presa a mim, certo? N�s ser�amos como duas ervilhas numa vagem. O que quero dizer �: qual homem em seu ju�zo perfeito iria assumir o �nus de uma mulher indiciada e com duas crian�as?</p><p>Sim, a Duquesa podia ter uma bunda de categoria internacional, sem d�vida, mas duas crian�as novinhas e um processo federal pairando sobre a cabe�a dela a tornariam muito menos atraente para a nova mina de ouro.</p><p>Na verdade, eu seria obrigado a dizer que praticamente todas as minas de ouro existentes, ou pelo menos as mais produtivas, iriam rapidamente fechar seus veios para uma mulher envolvida em tais circunst�ncias terr�veis. Ela se tornaria, em si, uma hist�ria de advert�ncias, uma jovem mulher com mais bagagem que o dep�sito de achados e perdidos do aeroporto Kennedy.</p><p>Ent�o, sim, essa seria a resposta. N�o havia outra maneira: eu deixaria que a Duquesa fosse comigo para o meio do fogo. Deixaria que ela fosse indiciada tamb�m. E ela, ent�o, n�o teria outra escolha a n�o ser continuar casada comigo. Esse era o �nico movimento l�gico que me restava fazer. Era meu �nico movimento <emphasis>racional</emphasis>. Olhei Magnum nos olhos, torci os l�bios subversivamente e disse:</p><p>� Telefone para aquele rato e diga a ele para se foder � fiz uma pausa por alguns instantes e observei cada gota de cor desaparecer de seu bonito rosto comprido. E ent�o acrescentei: � E ent�o, <emphasis>depois</emphasis> de dizer isso, pode contar que eu irei cooperar.</p><p>Ouvindo isso, Magnum e o rapaz de Yale deixaram escapar um sopro gigante de ar. Continuei:</p><p>� O que quero dizer � que realmente n�o me importo mais, mesmo se eu for para a cadeia por 20 anos. Realmente, n�o dou mais a m�nima.</p><p>Foi ironia pura, evidente. Minha mulher tinha me tra�do e ia me largar em meu momento mais sombrio e desesperado, mas eu ainda estava disposto a desembainhar minha espada para proteg�-la. N�o venha me falar que o mundo est� de cabe�a para baixo�</p><p>Magnum concordou com a cabe�a lentamente.</p><p>� Voc� est� tomando a decis�o correta, Jordan.</p><p>� Est� mesmo, e no fim as coisas v�o se resolver � acrescentou Nick.</p><p>Olhei para o homem de Yale e dei de ombros.</p><p>� Pode ser que sim, Nick, mas pode ser que n�o. S� mesmo o tempo para dizer. Seja como for, sei que estou fazendo a coisa certa. Disso eu sei com certeza. Nadine � a m�e de meus filhos, e eu n�o vou deix�-la passar nem um dia sequer na cadeia, n�o se eu puder evitar.</p></section><section><p>CAP�TULO 4</p><p><strong>UMA RELA��O DE AMOR E �DIO</strong></p><p>Mais tarde, naquela mesma noite, alguns minutos antes da meia-noite, eu estava deitado sob meu edredom branco de seda, sozinho com meus pensamentos. Eu me sentia completamente sozinho, como se fosse um homem sem pa�s, um homem sem prop�sito. Tamb�m me sentia como algu�m � deriva em um vasto oceano de seda chinesa. Ah, sim, a Duquesa tinha decorado o quarto com esmero; de fato, a casa toda havia sido decorada com esmero, mas especialmente aquele aposento, que era digno de um rei e, como tal, um esc�rnio ao Lobo ca�do.</p><p>O que eu era agora? Qu�o fundo eu tinha ca�do? Estava em pris�o domiciliar e sendo abandonado por uma Duquesa garimpando ouro: uma duquesa com cidadania brit�nica nascida no Brooklyn, que tinha o rosto de um anjo, o temperamento do Ves�vio e a lealdade de uma hiena faminta.</p><p>Respirei fundo e tentei me recompor. Porra, eu estava arruinado! Sentei-me na cama e olhei em volta do quarto. Estava completamente nu, totalmente exposto. Cruzei os bra�os, como se estivesse me sentindo envergonhado. Apertei os olhos. Nossa, estava escuro ali dentro. A �nica luz vinha da tela de TV de tela plana que estava suspensa na parede, acima da lareira de pedra calc�ria. O volume tinha sido posto no mudo, de forma que o quarto estava estranhamente silencioso. Eu conseguia ouvir o som de minha pr�pria respira��o, assim como o <emphasis>tum, tum, tum</emphasis> de meu cora��o partido.</p><p>E onde estava minha querida esposa que partiu meu cora��o? Bem, isso ainda era um mist�rio para mim. Supostamente ela estaria em Manhattan, com as amigas. Pelo menos era isso que dizia seu bilhete, alguma coisa sobre ter de participar da festa de anivers�rio de 30 anos de sua amiga Gigi, que eu me lembrava claramente de ter sido comemorado h� tr�s meses, em junho. Ou talvez eu s� estivesse sendo paranoico, e a traidora da Duquesa ainda merecesse confian�a.</p><p>Eu tinha encontrado o bilhete em cima do balc�o da cozinha, debaixo de um pote de cer�mica do Ursinho Puff que custara 1.400 d�lares (um item de colecionador de algum tipo, comprado em leil�o), com as palavras <emphasis>Querido</emphasis> e <emphasis>Amor</emphasis> conspicuamente ausentes da sauda��o e do encerramento. Era como se fosse um bilhete trocado entre dois estranhos, um chamado Jordan e o outro Nadine, nenhum dos quais amava ou respeitava o outro. Apenas o fato de ler aquelas palavras tinha colocado meu esp�rito ainda mais para baixo.</p><p>Pensando em um aspecto mais positivo, entretanto, desde que deixara o escrit�rio de Magnum, eu tinha praticamente conseguido chegar a um acordo comigo mesmo em rela��o a minha coopera��o, ou pelo menos j� havia racionalizado as coisas at� o ponto de deixar tudo um pouco mais palat�vel. Sim, iria fornecer ao governo todas as informa��es que eles desejassem, mas iria ser mais esperto quanto a isso, fornecendo informa��es de uma forma que ajudasse a proteger meus amigos. Quando fosse necess�rio, fingiria ignor�ncia; quando fosse plaus�vel, fingiria lapsos de mem�ria; e, o mais importante, quando chegasse a uma encruzilhada ou quando me visse em uma bifurca��o da estrada, conduziria os homens do governo a um caminho que os levasse para longe de meus amigos. Com um pouco de sorte, as pessoas com as quais eu de fato me importava tamb�m iriam cooperar, e eu seria poupado de ter que trair a todos eles.</p><p>Enquanto isso, a Duquesa ficaria encantada ao descobrir que eu estava cooperando. Uma de suas principais queixas era a de que eu a tinha colocado em risco, e agora eu poderia lhe dizer que esse risco n�o era mais uma possibilidade. Naturalmente, eu iria omitir o fato de que realmente a pusera em risco. Eu n�o era bobo, afinal, ent�o qual seria a vantagem de lhe dar muni��o fresca contra mim? Seria muito mais produtivo focar nos aspectos positivos de minha coopera��o com o governo: a saber, que eu n�o teria de passar nem mesmo um dia na cadeia e que, mesmo depois de ter pagado minha multa, eu, ou melhor, n�s ter�amos dinheiro suficiente para nos sustentar pelo resto da vida. Embora a primeira afirma��o fosse um pequeno exagero e a �ltima fosse de fato uma tremenda mentira, ainda se passariam muitos anos at� que a Duquesa descobrisse. Assim, por enquanto eu n�o precisava me preocupar com isso.</p><p>Nesse momento, escutei o som de cascalho sendo revolvido na entrada de casa. A traidora da Duquesa finalmente voltara, pronta para causar mais dores emocionais em mim. Alguns minutos depois, ouvi a porta da frente bater e alguns passos bastante irritados subindo a suntuosa escadaria em espiral. Os passos n�o pareciam pertencer � Duquesa loira de 50 e poucos quilos, pareciam mais de um b�falo agitado. Deitei de costas na cama e me preparei para mais torturas.</p><p>A porta se abriu completamente e a Duquesa entrou, vestindo um conjunto jeans azul-claro. Puta merda! Apesar de ela ter vindo de limusine para casa, parecia que tinha acabado de descer de uma dilig�ncia a caminho do Velho Oeste. A �nica coisa que lhe faltava era o chap�u de caub�i e o cintur�o com o Colt de seis tiros. Enquanto ela se mexia, caminhando para seu lado da cama, dediquei alguns momentos a olh�-la. Nadine estava usando uma longa saia jeans com pequenos plissados na bainha inferior e uma fabulosa fenda que corria por toda a frente. Eu n�o era exatamente um especialista em saias femininas, mas tinha uma leve suspeita de que poucas mulheres do Velho Oeste poderiam ousar com uma daquelas. Ela ainda vestia uma blusa de algod�o de manga curta azul-clara, com um decote na frente e bem apertada na cintura, que acentuava as curvas naturais de seu corpo, al�m de destacar seus seios cirurgicamente aumentados.</p><p>Sem dizer uma �nica palavra, aquela Duquesa do Oeste alcan�ou o abajur cor de damasco que ficava no criado mudo e acendeu a luz. Rolei para o lado e a encarei. Ela realmente sabia como controlar suas emo��es. Isso era uma coisa que eu invejava demais.</p><p>Baixei os olhos� Ahhh, aquelas botas de caub�i! Eram bem familiares. Bege e branco, com arremates em vermelho-cereja e com a biqueira prateada. Fora eu quem comprara esse par de botas um ano antes, em um ataque de euforia, durante uma viagem ao Texas para um torneio de golfe. Tinha me custado 13 mil d�lares, uma verdadeira pechincha, considerei na �poca. Hoje, me perguntava se tinha sido isso mesmo�</p><p>Nesse momento ela inclinou a cabe�a para a direita e tirou um brinco de prata, colocando-o na mesa com grande cuidado. Depois, inclinou a cabe�a para o lado esquerdo e tirou o brinco esquerdo, pousando-o ao lado do outro. Forcei um sorriso e resisti � vontade de dizer �Oi, querida, como foi a prospec��o hoje � noite? Conseguiu encontrar algum metal precioso?�. Mas, com muito amor e ternura na voz, perguntei:</p><p>� E a�, como foi a festa da Gigi?</p><p>� Tudo bem � disse ela, com uma simpatia surpreendente. � Nada de especial.</p><p>Ela se virou para mim e quase perdeu o equil�brio, de modo que eu percebi que a Duquesa do Oeste tinha bebido naquela noite bem mais do que apenas refrigerante. Na verdade, ela estava b�bada.</p><p>� Voc� est� se sentindo bem? � perguntei, segurando um sorriso e me preparando para segur�-la se ela ca�sse. � Precisa de ajuda, querida?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a negativamente. Um pouco oscilante, ela se sentou na beirada do colch�o. Ent�o, de uma s� vez e mais r�pido do que percebi, a Duquesa jogou as botas de caub�i em cima da cama, rolou de lado, e se estatelou sobre seu cotovelo esquerdo ao meu lado. Ela descansou a bochecha esquerda na palma da sua m�o e olhou em meus olhos, sorrindo:</p><p>� E como foi com seu advogado hoje?</p><p>Muito interessante, pensei, fazendo uma nota mental de agradecer ao g�nio mexicano que tinha inventado a tequila, bem como ao barman que tinha sido gentil o suficiente para servir muitas delas � Duquesa naquela noite. Nadine n�o tinha estado t�o pr�xima de mim na semana quanto naquele momento. E ela estava linda demais sob o brilho do abajur. Seus enormes olhos azuis, agora parecendo um espelho, estavam exuberantes. Respirei profundamente para saborear seu cheiro, que era uma mistura interessante do perfume Angel com tequila dourada. Senti um formigamento agrad�vel, uma onda de fogo em minha virilha! Talvez, pensei, talvez esta noite. Senti uma vontade incontrol�vel de saltar sobre ela exatamente naquele momento, antes que ela se acalmasse e come�asse a me torturar novamente. Mas resisti � vontade e disse:</p><p>� Foi muito bem, querida. Para falar a verdade, tenho novidades muito boas para voc�.</p><p>� Ah, �? O qu�? � disse ela, esfregando minha bochecha com a palma da m�o. Ent�o ela correu os dedos com grande ternura por meus cabelos.</p><p>Eu n�o podia acreditar! A Duquesa tinha finalmente ca�do em si! Ela iria fazer amor comigo naquele instante, e ent�o tudo ficaria bem novamente. Sempre tinha sido assim com a gente. As coisas poderiam ficar complicadas por algum tempo, mas n�o muito mais que aquilo. No final, n�s sempre faz�amos amor e tudo era esquecido.</p><p>�Ser� que eu devo pular sobre ela agora?�, eu me perguntava. Como ela reagiria? Ela ficaria com raiva de mim ou me respeitaria? Eu era um homem, no fim das contas, e a Duquesa era algu�m que entendia esse tipo de coisa. Ela conhecia os meandros do mundo, especialmente quando se tratava dos homens e, mais especialmente ainda, quando se tratava de sua manipula��o�</p><p>S� que agarrar a Duquesa naquele momento n�o seria a coisa mais prudente a fazer. Antes, eu precisava tentar uma abordagem diferente, uma abordagem <emphasis>muito</emphasis> diferente, sobre meus problemas jur�dicos. Precisava fazer com que ela se sentisse totalmente confiante de que minha mina de ouro estava prestes a abrir outra vez para a extra��o de min�rio, sem restri��es.</p><p>Respirei profundamente, amarrando todas as pontas soltas de minha hist�ria fict�cia, e fui em frente, sem medo de colocar tudo a perder.</p><p>� Em primeiro lugar � disse eu, muito confiante �, quero que saiba que eu sei que voc� estava preocupada com toda aquela porcaria que o Coleman vomitou em voc� e que nada daquilo, nem mesmo uma gota daquilo, jamais teve a m�nima possibilidade de acontecer � essa era a mentira n�mero um. � N�s dois sabemos que voc� jamais fez algo de errado � e essa era a mentira n�mero dois, considerando que ela de fato tinha me visto contando dinheiro, do jeito que Joel Cohen tinha alegado � e, � claro, o governo tamb�m sabe disso. Coleman s� falou aquilo para amedrontar voc� e deixar as coisas mais dif�ceis para mim. � isso.</p><p>Nadine concordou com a cabe�a lentamente.</p><p>� Eu sei disso � respondeu a Duquesa. � Quer dizer, isso me incomodou da primeira vez que ele disse, mas de fato nunca acreditei nele.</p><p>Voc� n�o acreditou? Hummm, tudo bem, ent�o! A ignor�ncia � mesmo uma b�n��o. Assenti em concord�ncia e segui em frente.</p><p>� Claro, eu sei disso. Era tudo um grande monte de merda, Nae � e l� veio a mentira n�mero tr�s �, tudo mentira. Mas, seja como for, tudo isso � bastante discut�vel agora. Veja, Joel Cohen telefonou para Greg hoje; na verdade, ele telefonou bem na hora em que eu estava l�, sentado � frente dele, e Joel disse a Greg que o que ele de fato queria, o que ele de fato vinha tentando todo esse tempo, � que eu concordasse em cooperar. � isso � dei de ombros. � Aparentemente, eu sei tanta coisa sobre o que anda acontecendo no mercado de a��es que eu poderia economizar anos de ataques card�acos para o pessoal do governo, sem falar os incont�veis milh�es de d�lares.</p><p>Hummm, eu realmente gostei do modo como aquilo tudo estava soando. Aquilo me fazia parecer um cara inteligente, vital, importante, altru�sta, um participante necess�rio na luta contra a gan�ncia e a corrup��o em Wall Street, n�o aquele rato delator desprez�vel que eu estava prestes a me tornar! Decidi enfeitar um pouco mais essa minha linha de pensamento, porque, afinal, estava valendo a pena.</p><p>� De qualquer forma, Joel disse que se eu cooperasse de verdade, se eu estivesse disposto a ajudar o governo a entender tudo o que est� acontecendo, provavelmente n�o terei de passar nem um dia sequer na cadeia. Isso mostra que as coisas que eu sei s�o muito valiosas � assenti com a cabe�a uma vez e me perguntei se eu tinha dado um tiro no p� ao usar <emphasis>provavelmente</emphasis> na frase, por isso acrescentei: � O que eu quero dizer � que j� passei tr�s dias na pris�o, o que � suficiente, voc� n�o acha? � e sorri de maneira inocente.</p><p>Ela concordou com a cabe�a lentamente, mas permaneceu em sil�ncio. Percebi que uma l�grima descia por seu rosto. Enxuguei-a com as costas de minha m�o. Isso era um bom sinal, pensei. Enxugar as l�grimas de uma mulher me levava a dar mais um passo em dire��o ao cora��o dela e �quilo que me interessava naquele momento: mais perto de seu quadril. Era um fen�meno biol�gico. Quando um homem forte enxuga as l�grimas de uma mulher, ela n�o consegue mais lhe recusar nada.</p><p>Encorajado pelas l�grimas da Duquesa, continuei meu discurso com prazer:</p><p>� Mas a coisa n�o para a�, fica ainda melhor, Nae. Veja, se eu cooperar, n�o serei sentenciado antes de quatro ou cinco anos, e caso eu tenha, veja bem, <emphasis>caso</emphasis> eu tenha de pagar uma multa, ela n�o ser� cobrada at� l�. O que eu quero dizer, e por favor n�o me entenda mal, � que ser� uma multa bem pesada, mas nada que possa acabar com todas as nossas reservas� Ainda seremos bem ricos quando tudo isso terminar � e l� se foi a maior mentira de todas, a de n�mero quatro.</p><p>A verdade era que, se o governo deixasse para a gente alguma coisa como 1 milh�o de d�lares, como tinha indicado Magnum, a Duquesa e eu estar�amos falidos em tr�s meses. Mas eu havia racionalizado isso tamb�m, por isso continuei:</p><p>� Mas, independente da quantidade de dinheiro que eles nos deixem � enfatizei o <emphasis>nos</emphasis> �, n�o � como se eu fosse me aposentar ou coisa assim. Ou seja, assim que toda essa como��o terminar, daqui alguns meses, voltarei a negociar a��es de novo � fiz uma pausa, n�o gostando muito de como isso estava soando. � Quer dizer, voltarei de forma honesta, � �bvio. Estou falando de a��es de grandes empresas, n�o de pequenas empresas. N�o estou a fim de voltar para todas aquelas loucuras e tudo o mais � e me encontrei desesperadamente � procura de uma rampa de sa�da. � Seja como for, eu serei capaz de ganhar entre 5 milh�es e 10 milh�es de d�lares por ano apenas negociando a��es por conta pr�pria, de forma totalmente leg�tima, sem qualquer risco.</p><p>Estudei o rosto da Duquesa por alguns instantes. Ela parecia estar um pouco mais s�bria. Hummm� Eu n�o sabia se isso era um bom ou um mau sinal, mas senti que uma janela de oportunidade estava se fechando. J� era hora de parar de tentar vender o futuro e partir para uma coisa mais pr�xima. Disse, confiante:</p><p>� Ent�o � isso, Nae. Essa � toda a hist�ria. Sei que pode parecer bom demais para ser verdade, mas � assim. Acho que eu devia apenas agradecer � minha estrelinha da sorte pelo fato de o governo estar t�o desesperado para conhecer as informa��es que eu tenho � fiz uma pausa nessa altura e balancei a cabe�a gravemente. � Na verdade, a �nica coisa que realmente me deixou chateado foi que eu teria que passar a eles informa��es sobre meus amigos. � Sorri e dei de ombros, como se estivesse dizendo �H� uma fresta de esperan�a aqui�, e depois disse: � Mas, de acordo com Greg, todos os meus amigos tamb�m ir�o cooperar, quer dizer, no fim, isso n�o ser� tamb�m um fator de preocupa��o.</p><p>Cheguei mais perto dela e comecei a passar meus dedos por seus cabelos.</p><p>Ela sorriu e disse:</p><p>� Bem, isso � realmente uma boa not�cia, querido. Estou muito feliz por voc�.</p><p>Voc�? Ela havia acabado de dizer <emphasis>voc�</emphasis>? Que merda, isso era ruim� Ela devia estar feliz por n�s dois, e n�o apenas por mim! Estava me preparando para corrigi-la quando ela continuou:</p><p>� Eu n�o ficaria assim t�o preocupada em rela��o a seus amigos. Todos eles, exceto Alan Lipsky, entregariam voc� em dois segundos quando fossem pressionados. N�o existe lealdade em Wall Street. Foi isso que voc� sempre me disse, certo?</p><p>Concordei com a cabe�a, mas n�o disse uma palavra. Na verdade, eu j� tinha ouvido demais e falado demais. Mais uma vez, a Duquesa e eu est�vamos em sintonia, o que significava que era hora de atacar. Estiquei o bra�o e a segurei pela cintura, puxando-a para mais perto de mim. Ent�o peguei sua linda gravatinha de caub�i e puxei a cabe�a dela em minha dire��o.</p><p>E dei um beijo nela.</p><p>Foi um beijo lento, molhado e ao mesmo tempo completamente apaixonado, que acabou mais cedo do que eu esperava, quando a Duquesa se afastou e disse:</p><p>� Pode parar! Ainda estou brava com voc�!</p><p>Era hora de assumir o comando.</p><p>� Eu preciso de voc� � gemi, atirando minha m�o na fenda de seu vestido e procurando a Terra Prometida. Na hora em que alcancei o topo de sua coxa, o calor era t�o fant�stico que eu quase gozei nos len��is.</p><p>Ent�o eu a ataquei, jogando todo meu peso em cima dela. Comecei a beij�-la ferozmente. Ela tentou se mexer para se libertar, mas n�o era p�reo para mim.</p><p>� Pare! � ela gemia, com um toque que pensei que fosse uma risadinha. � Pare com isso!</p><p>Acreditando que fosse uma risadinha, ergui sua saia de brim, revelando sua linda e rosada vulva, com sua min�scula penugem loira. Ahh, eu sempre tinha ficado maravilhado com aquela fant�stica vagina que a Duquesa tinha! Era a vagina mais deliciosa que eu j� provara, e, considerando que eu tinha dormido com quase mil prostitutas, bem, minha opini�o valia alguma coisa. Mas toda essa coisa de putaria era passado. O que eu queria naquele momento era a Duquesa, ali e para sempre!</p><p>Diminu� um pouco o ritmo, olhando nos olhos dela e dizendo:</p><p>� Eu te amo, Nae. Eu te amo muito � meus olhos come�aram a ficar �midos com as l�grimas. � Eu sempre te amei, desde a primeira vez que a vi � e sorri calorosamente para ela. � Senti tanto sua falta essa semana, nem sei como lhe dizer como me senti vazio sem voc� Fa�a amor comigo, querida. Fa�a amor comigo agora, devagar� � disse e puxei os cabelos dela para tr�s com a m�o, chegando mais perto.</p><p>� V� se foder! � cuspiu ela. � Eu odeio voc�! Voc� quer me comer? Tudo bem, ent�o v� em frente e me foda! E me foda muito, porque eu odeio voc�! Eu odeio voc� inteiro, seu idiotinha ego�sta! Voc� n�o d� a m�nima pelo que eu estou sentindo. Tudo o que importa � voc� e nada mais � ela come�ou a se mexer com desprezo, mantendo-se propositalmente fora do ritmo. Era como se estivesse tentando me mostrar que, apesar de eu estar dentro dela, a Duquesa n�o era de fato minha.</p><p>Fiquei chocado. E totalmente arrasado. Mas, acima de tudo, fiquei chateado por ela ter usado �inho� para se referir a mim� Idiotinha ego�sta, para ser mais exato. A Duquesa sabia que eu era muito sens�vel sobre minha altura!</p><p>Mas eu me recusei a ficar com raiva. Em vez disso, peguei seu rosto com as duas m�os e a beijei, mantendo meus l�bios sobre os dela e tentando desesperadamente conseguir algum ritmo. Mas foi dif�cil. Ela estava mexendo a cabe�a loira de um lado para o outro, como se fosse uma crian�a recusando uma colher de �leo de r�cino, e ficava desviando os quadris em um exagerado movimento circular.</p><p>Com um pouco da minha raiva j� transbordando, reclamei:</p><p>� Fique quieta, Nadine! O que h� de errado com voc�?</p><p>Sua resposta venenosa foi:</p><p>� Foda-se! Eu odeio voc�, eu odeio voc�! � disse e agarrou meu rosto, completando: � Olhe em meus olhos, Jordan. Olhe em meus olhos agora.</p><p>Eu olhei. Ela continuou:</p><p>� Nunca se esque�a do que se passou com este casamento, nunca se esque�a dessa porra. � Seus olhos azuis eram como raios da morte v�treos. � Esta � a �ltima vez que voc� vai me foder. � isso, voc� pode guardar minhas palavras. Voc� nunca mais vai transar comigo novamente, ent�o � melhor aproveitar enquanto dura. � E ela come�ou a se esfregar em mim com estocadas profundas, r�tmicas, como se ela estivesse tentando me fazer gozar bem ali, naquele exato momento e pronto.</p><p>Caralho!, pensei. Ela realmente tinha exagerado em seu pileque de tequila. Ela n�o estava mesmo querendo dizer tudo aquilo que acabara de expressar em palavras, estava? Como um rosto t�o bonito como aquele podia despejar tanto veneno? N�o fazia sentido� Eu sabia que a coisa certa a fazer era pular para fora dela, para n�o lhe dar a satisfa��o de me fazer gozar enquanto me dizia que me odiava� Mas ela estava absolutamente linda sob aquela luz cor de damasco do abajur. Ent�o, foda-se!, pensei. Era imposs�vel compreender as mulheres, e se ela estava de fato falando a verdade sobre ser minha �ltima vez, ent�o seria melhor que eu fizesse valer a pena ou que pelo menos eu gozasse rapidamente, antes que ela mudasse de ideia e dissesse que a �ltima vez� Tinha sido a �ltima vez� Ent�o, com uma estocada profunda, tentei ao m�ximo chegar na base do colo do �tero e� <emphasis>Bang!</emphasis> Assim, do nada, eu gozei dentro dela.</p><p>� Eu te amo, Nae�</p><p>Ela gritou em resposta:</p><p>� Eu odeio voc�, seu idiota!</p><p>Ent�o eu sa� de cima dela.</p><p>L� ficamos os dois, deitados, pelo que pareceu um longo per�odo, que na verdade n�o passou de 5 segundos, no que ela me empurrou e come�ou a chorar histericamente. Seu corpo tremia vulcanicamente, enquanto falava entre solu�os terr�veis e angustiantes:</p><p>� Ah, meu Deus! O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?</p><p>Ela continuou repetindo essas mesmas palavras enquanto fiquei ali, deitado ao lado dela, congelado de horror.</p><p>Tentei passar o bra�o ao redor dela, mas Nadine o afastou.</p><p>E ent�o vieram mais solu�os, e ela me disse uma coisa que jamais irei esquecer, pelo resto de minha vida:</p><p>� Era dinheiro manchado de sangue! � solu�ou ela. � Era tudo manchado de sangue! � Ela mal conseguia pronunciar as palavras em meio a todos aqueles solu�os. � Eu sabia disso o tempo todo e n�o fiz nada. As pessoas perderam seu dinheiro e eu gastei tudo. Ah, Deus, o que foi que eu fiz?</p><p>De repente, eu me descobri ficando intensamente raivoso. Foi a refer�ncia ao dinheiro manchado de sangue, o pensamento de que tudo aquilo que compartilhamos, incluindo meu pr�prio sucesso, estava de alguma forma maculado por isso. Foi como se nosso casamento inteiro tivesse sido uma farsa, como se nada daquilo que existia a minha volta fosse real e genu�no. Eu era um homem feito de partes, e a soma delas n�o era igual a um todo. Eu estava cercado por riqueza, beleza e ostenta��o, mas ainda assim me sentia pobre, feio e irremediavelmente sem gra�a. Eu ansiava por dias mais simples. Eu ansiava por uma vida mais simples. Eu ansiava por uma mulher mais simples.</p><p>Sem fazer nenhum esfor�o para esconder meu desagrado, inclinei-me rapidamente sobre ela.</p><p>� Dinheiro manchado de sangue! � esbravejei. � Ah, d� um tempo, Nadine, porra! Eu trabalho em Wall Street, n�o sou um filho da puta de um mafioso � balancei a cabe�a em desgosto. � Tudo bem, eu tomei alguns atalhos, do mesmo jeito que todo mundo faz, ent�o controle-se, caralho!</p><p>Em meio a solu�os terr�veis, vindos diretamente da boca do est�mago, ela continuou:</p><p>� Ah, Deus, voc� corrompeu todo mundo, at� minha pr�pria m�e! E eu� Eu� S� fiquei l� Assistindo� E� E torrando� Esse di� nheiro� man� chado de sangue! � ela estava solu�ando t�o descontroladamente que suas palavras sa�am entrecortadas.</p><p>� Sua m�e? � gritei. � Voc� sabe qu�o bem tratei sua m�e? Quando eu a conheci ela estava sendo despejada da merda do apartamento por n�o ter pagado a porra do aluguel! E eu tomei conta do idiota do seu irm�o e do idiota do filho da puta do seu pai, e da sua irm� e de voc� e de todo mundo, caralho! E � isso que eu recebo de volta? � fiz uma pausa, tentando me controlar. Eu tamb�m estava chorando agora, mas a raiva era tanta que n�o havia l�grimas. � Eu n�o posso acreditar nessa porra! � gritei. � N�o posso acreditar nessa porra! Como voc� pode fazer isso agora? Voc� � minha mulher, Nadine. Como consegue fazer isso agora, porra?</p><p>� Desculpe, desculpe � disse ela, chorando. � Desculpe, eu n�o tive a inten��o de te machucar � ela estava tremendo como uma folha. � Eu n�o tive inten��o� Eu n�o tive inten��o.</p><p>E ent�o ela saiu da cama, enrolando-se numa posi��o fetal sobre o tapete Edward Fields de 120 mil d�lares e continuou a chorar incontrolavelmente.</p><p>E isso foi tudo.</p><p>Eu soube naquele momento que tinha perdido minha esposa para sempre. Qualquer que tivesse sido o v�nculo que a Duquesa e eu t�nhamos compartilhado um dia, j� tinha sido gravemente partido. Se eu iria ou n�o fazer amor com ela de novo era apenas uma quest�o sem�ntica, e, na verdade, eu j� n�o me importava tanto com isso. Afinal, eu estava enfrentando problemas muito maiores do que onde ou quando dar uma trepada.</p><p>De fato, no final do corredor estavam nossos dois filhos pequenos, v�timas inocentes daquilo tudo, que estavam prestes a acordar para uma das mais cru�is realidades da vida: nada dura para sempre.</p></section><section><p>CAP�TULO 5</p><p><strong>O TOC E O M�RMON</strong></p><p>Na manh� seguinte, eu estava de volta � limusine.</p><p>Dessa vez, no entanto, o terrorista n�o estava me levando pelos cantos sombrios a oeste do Queens; em vez disso, ele me levava pelos intestinos ran�osos do oeste do Brooklyn. Na verdade, est�vamos passando pelo pesadelo demogr�fico conhecido como Sunset Park, uma vizinhan�a t�o etnicamente diversa � carregada de chineses e coreanos e malaios e vietnamitas e tailandeses e mexicanos e porto-riquenhos e dominicanos e salvadorenhos e guatemaltecos, mais um punhado de not�veis e bobos finlandeses, que eram muito lentos para perceber que o resto de seus irm�os tinha fugido 30 anos atr�s, quando as hordas �tnicas invadiram o lugar � que, olhando pela janela lateral do carro, me senti como se estivesse passando pelo estacionamento da ONU depois de um ataque com m�sseis.</p><p>Sim, essa parte do Sunset Park era, de fato, uma merda. Era nada mais que uma faixa de terra e asfalto plano pontuada por armaz�ns em ru�nas, lojas desertas, cais apodrecendo e coc� de passarinho. O centro de Manhattan, para onde de fato eu me dirigia naquela manh�, ficava a poucos quil�metros a oeste, do outro lado do polu�do East River. Do meu ponto de vista atual, � direita da limusine e no banco de tr�s, eu podia ver as agitadas �guas do rio, o imponente horizonte de Lower Manhattan e o glorioso arco da ponte Verrazano-Narrows, que se estende at� o bairro n�o t�o glorioso de Staten Island.</p><p>Segundo o planejado, precisamente �s 9 horas, Monsoir estacionou em uma suja garagem subterr�nea no lado sul de uma via de m�o dupla encardida. Quando sa� da limusine, eu disse:</p><p>� Fique a� at� que eu o chame pelo bipe, Monsoir.</p><p>E, enquanto eu estiver fora, n�o tente explodir nenhuma ponte, pensei.</p><p>Ent�o, fechei a porta do carro na cara dele e desci um pequeno lance de escadas at� o piso inferior do estacionamento.</p><p>Ouvi uma voz familiar.</p><p>� Jordan, por aqui!</p><p>Virei � direita e l� estava o agente especial Gregory Coleman. Ele estava de p� em frente a um t�pico carro padr�o do governo, ou seja, de quatro portas, sem batidas, talvez com dois anos de uso, e fabricado nos Estados Unidos. De fato, era um Ford Taurus 1997 marrom, com janelas levemente escurecidas e sem sirene. Coleman estava encostado junto � porta de tr�s do lado do passageiro com os bra�os cruzados, a pose do guerreiro vitorioso.</p><p>De p� ao lado dele, com um sorriso am�vel no rosto, pude ver seu parceiro em treinamento, o agente especial Bill McCrogan. Eu tinha me encontrado com McCrogan apenas uma vez, na noite de minha pris�o, e por alguma inexplic�vel raz�o tinha gostado dele. Talvez porque parecesse uma pessoa gentil demais para ser um agente do FBI, embora eu tivesse certeza de que, assim que tivesse acabado seu treinamento, ele n�o seria mais um cara t�o legal. McCrogan era alguns cent�metros mais alto que Coleman e parecia ter uns 30 anos. Seus cabelos castanhos eram grossos e encaracolados, tinha um rosto meio padr�o e uma constitui��o f�sica m�dia. Sobre seus olhos azuis claros, usava um par de �culos de arma��o de arame que o fazia parecer um sujeito temente a Deus. Um m�rmon, pensei, provavelmente vindo de Salt Lake City, Provo ou talvez at� das colinas de Idaho� Mas que merda importava de onde ele tinha vindo?</p><p>Coleman, por outro lado, j� se parecia mais com um italiano ou um grego, embora eu imaginasse que sua origem era alem�, por causa do sobrenome. Sim, ele era, provavelmente, das colinas da Baviera. Ele tinha aproximadamente a mesma altura que eu e n�o pesava mais que 75 quilos. Tinha o peito largo, mas n�o excessivamente. Suas fei��es eram finas e equilibradas, apesar de sempre parecer suspeitar de tudo, especialmente de mim. Os cabelos castanhos eram aparados bem curto, penteados para o lado, e pude ver alguns fios grisalhos perto das orelhas, que deviam ser resultado de ele ter ficado correndo atr�s de mim nos �ltimos cinco anos, o que seria suficiente para fazer qualquer homem ficar abastecido de muitos cabelos brancos. Sua pele era de um suave tom oliva, o nariz era aquilino, a testa, grande, e ele tinha os olhos castanhos mais penetrantes que voc� possa imaginar. Eles pareciam mais afilados que os olhos de um falc�o. Coleman devia ter mais ou menos a minha idade, o que significava que tinha estado atr�s de mim desde seus 20 e tantos anos! Caramba� Que tipo de homem pode se tornar t�o obcecado em trazer algu�m para a Justi�a? Quer dizer, realmente, esse cara devia ter um caso grave de TOC, porra! E justo comigo ele tinha ficado obcecado? Mas que merda era tudo aquilo�</p><p>� Bem-vindo � equipe USA! � disse o agente TOC, sorrindo e estendendo a m�o direita. No pulso ostentava um rel�gio esporte preto de pl�stico, de corpo redondo, que devia ter custado 5,99 d�lares.</p><p>Apertei aquela m�o com cautela e procurei por algum tra�o de ironia no rosto do homem. Mas tudo que encontrei foi o que me pareceu um sorriso honesto.</p><p>� Obrigado � murmurei � Mas eu achei que voc� estaria se regozijando um pouco. Quer dizer, n�o o culparia se voc� o fizesse.</p><p>O M�rmon entrou na conversa:</p><p>� Voc� deve estar brincando. Ele est� triste desde o dia em que o pegou! Ele gostava mesmo era da persegui��o � e olhou para o agente TOC �, certo, Greg?</p><p>TOC revirou os olhos e assentiu com a cabe�a.</p><p>� �, sei l� � sorriu de novo para mim, mas esse �ltimo sorriso estava salpicado com um pouco de tristeza. � Estou contente que voc� tenha finalmente se decidido a se unir aos mocinhos. Voc� est� fazendo a coisa certa. Voc� realmente est�, pode crer.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Sim, mas� Eu me sinto um cara desprez�vel�</p><p>� N�o, voc� n�o � � devolveu ele.</p><p>� Claro que n�o � acrescentou o M�rmon, com um sorriso que mostrava muitos dentes. � Voc� � muito pior que isso! � completou, soltando uma calorosa risada m�rmon e depois estendendo a m�o temente a Deus para um aperto de m�o m�rmon.</p><p>Sorri para aquele rapaz de bom cora��o e apertei sua m�o obedientemente. Depois, levei um tempo para observar meus dois novos amigos. Ambos usavam ternos azuis-escuros, camisas de um branco n�tido, uma gravata azul bem careta e sapatos pretos de amarrar (um conjunto t�pico dos homens do governo). Eles tinham boa apar�ncia, na verdade; tudo se encaixava muito bem neles e os ternos pareciam ter sido passados a ferro � perfei��o.</p><p>De qualquer maneira, minha roupa parecia bem mais interessante que a deles. Achei que deveria estar bem vestido em meu primeiro dia como delator, ent�o escolhi cuidadosamente cada pe�a que iria usar. Trajava um terno de bot�o �nico de 2.200 d�lares, uma camisa branca tradicional, de colarinho, uma gravata preta de crepe e sapatos pretos de amarrar. Mas, diferentemente dos sapatos dos agentes, bem r�sticos, os meus eram de couro macio de napa e tinham sido feitos sob encomenda na Inglaterra por quase 2 mil d�lares. Bom para mim!, pensei. Eu era o campe�o por uma larga margem no departamento de sapatos.</p><p>E no departamento de rel�gios tamb�m.</p><p>De fato. Para as festividades do dia, eu tinha decidido usar meu Tabbah su��o de 26 mil d�lares, com sua pulseira cor de chocolate e sua enorme face retangular. Era do tipo daqueles rel�gios su��os ultrafinos que denunciava a riqueza para os familiarizados com a grife e que n�o pareceria nada especial para pessoas com a renda de Coleman e McCrogan. Tinha sido uma jogada inteligente da minha parte, a de ter deixado o Bulgari em casa, na caixa, naquela manh�. Afinal, por que deixar meus novos amigos com inveja? Ser� que eles teriam o direito de arrancar o rel�gio direto do meu pulso e colocar no deles? (Seriam os despojos de guerra, por assim dizer�) Hummm, isso era algo que eu teria que perguntar a Magnum.</p><p>O M�rmon e eu ainda est�vamos nos cumprimentando, quando ele disse:</p><p>� Agora falando s�rio, Jordan, voc� est� realmente fazendo a coisa certa aqui. Bem-vindo ao time USA!</p><p>� Sim � repliquei, num tom impregnado de ironia. � Estou fazendo a �nica coisa que poderia fazer, certo?</p><p>Ambos franziram os l�bios e assentiram lentamente com a cabe�a, como se dizendo �Sim, amea�ar a esposa de um homem de fato lhe deixa poucas op��es, n�o � mesmo?�. Ent�o Coleman disse:</p><p>� De toda forma, sinto muito sobre essa coisa meio capa e espada, mas a gente acha que alguns de seus velhos amigos poderiam tentar segui-lo. Por isso, n�s vamos lev�-lo pelas ruas do Brooklyn por um tempo para sacudir qualquer pista que tenha deixado pelo caminho.</p><p>Maravilhoso, pensei. O agente TOC devia ter informa��es que n�o pretendia compartilhar comigo � por exemplo, algu�m que estivesse tentando me matar! Isso era algo que nunca me ocorrera, a ideia de ser assassinado durante o neg�cio da coopera��o com o FBI, mas, agora que pensara sobre isso, me matar seria uma coisa que faria todo o sentido para um bocado de pessoas, n�o � mesmo? Na verdade, talvez eu devesse apenas assassinar a mim mesmo e n�o dar esse trabalho �s pessoas, resolvendo todos os problemas. � l�gico que a Duquesa ficaria feliz com isso! Ela iria dan�ar sobre minha tumba, cantando �Isso era dinheiro manchado de sangue! Isso era dinheiro manchado de sangue!�, e ent�o acenderia uma fogueira cerimonial e queimaria nossa certid�o de casamento.</p><p><emphasis>Caralho, eu tinha de me controlar!</emphasis> Eu precisava me concentrar. Tinha de afastar aquela linda malandrinha loira de meus pensamentos. Meu foco tinha que estar naqueles dois � minha frente. Respirei fundo e disse:</p><p>� Quem voc� acha que pode estar atr�s de mim?</p><p>TOC encolheu os ombros.</p><p>� N�o sei. Quem <emphasis>voc�</emphasis> acha que pode querer pegar voc�?</p><p>Tamb�m encolhi os ombros.</p><p>� N�o sei. Acho que todo mundo, n�? � parei por um instante, depois acrescentei: � Ou todo mundo, exceto minha esposa. Quer dizer, ela deve estar pouco se lixando sobre onde estou ou para onde estou indo, desde que n�o chegue perto dela.</p><p>� � mesmo? � disse TOC. � Por que voc� diz isso?</p><p>� Porque ela me odeia, porra! � por isso que eu digo isso!</p><p>�E porque ontem � noite ela me disse que nunca mais deixaria eu enfiar meu p�nis dentro dela de novo�, disse a mim mesmo.</p><p>� Bem� � murmurou ele. � Isso me surpreende.</p><p>� Ah, �? Por que?</p><p>TOC deu de ombros mais uma vez.</p><p>� N�o sei. Na noite em que voc� foi preso, me pareceu que ela o amava pra valer. Para falar a verdade, perguntei isso a ela, se ela o amava, e ela disse que sim.</p><p>� Verdade � concordou o M�rmon.</p><p>Apertei os olhos, como se estivesse confuso.</p><p>� Por que voc�s perguntariam uma coisa dessas � minha esposa? Isso n�o estaria um pouco fora do foco da investiga��o?</p><p>� <emphasis>Beeeemm</emphasis>� chiou o TOC �, voc� ficaria surpreso com as coisas que conseguimos extrair de uma esposa se ela estiver descontente. Algumas vezes essas esposas gritam �Meu marido tem dinheiro escondido no por�o! Ele n�o paga os impostos!� enquanto estou acompanhando o marido algemado at� o carro � riu o TOC. � Mas n�o sua esposa. Ela n�o falou nada.</p><p>� N�o disse nada � acrescentou o M�rmon. � Quer dizer, eu posso estar enganado, mas acho que sua esposa ainda o ama.</p><p>� Eu odeio acabar com a festa � ponderou Coleman �, mas precisamos cair na estrada. Al�m do mais, este lugar aqui fede a� hummm�</p><p>� Bosta de cachorro? � sugeri.</p><p>� Argh, isso mesmo � respondeu ele, abrindo a porta traseira do passageiro e fazendo sinal para eu entrar no carro. � Basta sentar no banco de tr�s e manter a cabe�a para baixo, o.k.?</p><p>Eu olhei para o TOC por alguns bons segundos, me perguntando se ele estava se referindo � possibilidade de um atirador estar por ali me esperando, escolhendo a hora certa para explodir meus miolos. Mas rejeitei aquela ideia rid�cula; afinal de contas, se algu�m estivesse querendo me matar, haveria momentos mais convenientes que aquele, em que eu estava sob a prote��o de dois agentes do FBI�</p><p>Ent�o entrei no carro depois de dar de ombros e logo est�vamos a caminho de nosso destino, passando pelas ruas malcheirosas de Sunset Park. Fizemos uma s�rie de curvas para a direita e para a esquerda, juntamente com ocasionais convers�es, enquanto eles tentavam se livrar de ve�culos imagin�rios que pudessem estar em nosso encal�o. Ao mesmo tempo, ficamos conversando sobre assuntos gen�ricos, os tr�s conscientes de que seria inadequado discutir algo significativo sem meu advogado presente.</p><p>Para minha surpresa, ambos pareciam genuinamente preocupados com o rompimento de meu casamento, sobretudo o impacto que poderia ter sobre meus filhos. Senti-me muito mais leve e otimista quando eles repetiram a hist�ria de como a Duquesa tinha professado seu amor por mim na noite de minha pris�o. Al�m disso, eles estavam convencidos de que, uma vez que o choque inicial tivesse passado, ela iria preferir continuar casada. Mas eu sabia que ambos estavam errados, eles n�o conheciam a Duquesa como eu. Ela tinha decidido seguir em frente sem mim, e assim seria.</p><p>No momento em que atingimos a ponte de Brooklyn, meu esp�rito estava mais deprimido que nunca. Eu estava correndo contra o tempo, me aproximando rapidamente de um ponto sem retorno. A sede do FBI ficava num pr�dio a menos de cinco minutos de dist�ncia.</p><p>Sim, havia alguns dias bem sombrios a minha espera, isso era algo de que eu tinha muita certeza. A �nica d�vida era: qu�o profundo seria aquele buraco? Respirei fundo e tentei fortalecer minha mente e meu esp�rito, mas foi in�til.</p><p>Em breve eu estaria cantando na Court Street.</p></section><section><p>CAP�TULO 6</p><p><strong>O CANALHA E A BRUXA</strong></p><p>O escrit�rio do FBI em Nova York ocupava os andares 20, 21 e 22 de uma torre de concreto e vidro de 42 andares em Lower Manhattan. A �rea, que era conhecida como Tribeca, era a parte da cidade que inclu�a Wall Street, os tribunais federais, o World Trade Center e a menos respeitada de todas as institui��es governamentais: o Servi�o de Imigra��o e Naturaliza��o.</p><p>Caminhei por um longo corredor estreito no subsolo do edif�cio, com Coleman e McCrogan me escoltando, cada um de um lado. Coleman tinha acabado de explicar que est�vamos na parte do edif�cio que normalmente era utilizada para as inquiri��es.</p><p>Assenti com a cabe�a respeitosamente e continuei andando, resistindo � vontade de perguntar a ele se o FBI considerava a palavra <emphasis>inquiri��o</emphasis> como sin�nimo de <emphasis>interrogat�rio</emphasis>. De qualquer maneira, eu n�o tinha d�vida de que muitas coisas que tinham acontecido ali embaixo n�o se coadunavam necessariamente com os direitos civis (provavelmente tinha rolado algum tipo de tortura leve, alguma priva��o de sono e muitas viola��es de <emphasis>habeas corpus</emphasis>). Mas achei melhor manter esses pensamentos errantes s� para mim e continuei assentindo e caminhando, mantendo uma express�o neutra no rosto, enquanto ambos me escoltavam at� uma pequena sala de interrogat�rio que ficava no final do corredor.</p><p>Dentro da sala, tr�s pessoas j� se encontravam sentadas em poltronas pretas baratas posicionadas ao redor de uma mesa de reuni�es de madeira barata. Essa sala n�o tinha janelas, apenas l�mpadas fluorescentes emitindo um brilho azul tuberculoso. As paredes eram completamente nuas, pintadas com um perturbador branco cinzento de hospital. De um lado da mesa, estava sentado meu confi�vel advogado, Gregory J. O�Connell, tamb�m conhecido como Magnum, sorrindo, parecendo mais imponente e garboso que nunca. Ele estava usando um terno cinza risca de giz, com camisa branca e gravata vermelha listrada. Parecia sentir-se em casa, ele mesmo um antigo promotor que agora desfrutava do prazer de defender um culpado.</p><p>Do lado oposto ao de Magnum estavam sentados um homem e uma mulher. O homem j� me era familiar desde o dia de minha acusa��o, quando ele disse todas aquelas coisas boas a meu respeito durante minha audi�ncia da fian�a. Seu nome era Joel Cohen, e pouco mais de dois anos antes ele havia se unido a TOC para me trazer � Justi�a, sucedendo com �xito a meia d�zia de promotores anteriores que haviam fracassado.</p><p>Na ess�ncia, por mais dedicado e agu�ado que TOC fosse, ele precisava de algu�m com esse mesmo esp�rito para ser sua contrapartida dentro da Procuradoria-Geral, a fim de lidar com o lado legal das coisas. TOC s� podia mesmo investigar; ele precisava de um canalha como Joel Cohen para me processar.</p><p>Naquele exato momento, o Canalha estava inclinado para a frente em sua poltrona, com os cotovelos ossudos apoiados nos bra�os da cadeira. Ele estava me encarando com os olhos apertados, lambendo os bei�os interiormente, n�o havia d�vidas. Ele usava um terno cinza barato, uma camisa branca barata, uma gravata vermelha barata e mantinha uma express�o sinistra. Tinha uma ma�aroca de cabelos castanhos curtos, testa grande, nariz carnudo e um rosto p�lido. Ele n�o era de todo feio, por�m estava despenteado, malcuidado, como se tivesse acabado de sair da cama e vindo imediatamente para o escrit�rio. Mas aquilo tinha sido planejado, imaginei. Ah, sim, o Canalha estava tentando fazer uma declara��o, a de que agora que est�vamos em <emphasis>seu</emphasis> mundo, o pre�o de meu terno, a reputa��o de minha alfaiataria e o bom gosto de meu cabeleireiro n�o importavam. Era o Canalha quem detinha o poder, e eu era seu prisioneiro, independentemente da apar�ncia de cada um. Ele tinha estatura e peso m�dios tamb�m, embora demonstrasse aquele desleixo degenerado mencionado acima, o que o fazia parecer ainda mais baixo. Eu n�o tinha d�vida de que ele me desprezava tanto quanto eu o desprezava. Ele tinha um olhar em seu rosto que dizia algo do tipo: �Bem-vindo ao meu covil subterr�neo, prisioneiro! E que a tortura comece!�.</p><p>A terceira ocupante da sala era uma pequena e t�mida criatura chamada Michele Adelman. Ela estava sentada � esquerda do Canalha. Eu nunca tivera a oportunidade de encontr�-la antes, mas j� conhecia sua reputa��o. Seu apelido era Bruxa M� do Leste, e obviamente ela o tinha ganhado devido a sua estranha semelhan�a, tanto fisicamente quanto na personalidade, com a velha bruxa de <emphasis>O m�gico de Oz</emphasis>. E uma vez que Michele (e Joel) trabalhava como promotora assistente no Distrito <emphasis>Leste</emphasis> de Nova York, aquele apelido fazia total sentido.</p><p>A Bruxa parecia agachada, com cerca de um 1,50 metro, pouco mais que isso, uma grande juba de cabelos crespos e escuros, olhos escuros e redondos, l�bios finos e um queixo curto. Eu fiquei imaginando como ela ficaria com cara de rato se estivesse com um peda�o de queijo su��o entre as patinhas e come�asse a mordisc�-lo. E s� conseguia imaginar a cara de bruxa que ela teria se montasse num cabo de vassoura e desse uma volta pela sala de interrogat�rio. Estava vestindo um terninho azul-escuro e mantinha uma express�o severa no rosto.</p><p>� Bom dia! Gostaria de apresent�-lo �s duas pessoas com quem voc� dever� passar bastante tempo durante os pr�ximos meses � disse Magnum, e fez um sinal com a m�o, apontando a Bruxa e o Canalha, que obedientemente assentiram com a cabe�a. Ent�o continuou: � Jordan, este � Joel Cohen, que acho que voc� j� teve o prazer de conhecer � inclinei-me e apertei a m�o do Canalha, me perguntando se ele n�o tentaria passar uma algema em torno de meus pulsos �, e esta � Michele Adelman, que acredito que voc� n�o tenha tido o prazer de conhecer.</p><p>Apertei a m�o da Bruxa, com medo de que ela pudesse me transformar em uma salamandra. Magnum continuou, assentindo com a cabe�a:</p><p>� Bem, eu gostaria que todos aqui soubessem que Jordan est� totalmente comprometido nesse processo de colabora��o. Ele tem a inten��o de ser honesto e franco em todas as oportunidades, e posso garantir que as informa��es que ele possui s�o extremamente valiosas para sua luta contra o crime e a injusti�a em Wall Street.</p><p>Mas que monte de merda! E dos grandes!</p><p>� Isso � �timo � replicou o Canalha, apontando uma cadeira ao lado de Magnum. � Estamos todos ansiosos por sua coopera��o, Jordan, e sei que posso falar por todos os presentes aqui que n�o guardamos nenhum tipo de rancor em rela��o a sua pessoa � com o canto dos olhos eu pude notar que TOC estava revirando os olhos, enquanto ele e M�rmon se sentavam um de cada lado do Canalha e da Bruxa. � E afirmo que, se voc� agir de modo correto conosco, ser� tratado de forma justa.</p><p>Assenti com a cabe�a, sem acreditar em uma s� palavra do que ele acabara de dizer. TOC seria algu�m que me trataria de forma justa, <emphasis>ele</emphasis> era um homem honrado. Mas n�o o Canalha; ele tinha um sentimento hostil por mim e me faria mal sempre que pudesse. Sobre a Bruxa, no entanto, eu n�o tinha certeza. De acordo com Magnum, ela detestava todos os homens, incluindo os agentes TOC e M�rmon, de forma que eu n�o teria nenhum interesse especial da parte dela. Meu problema era mesmo o Canalha. Esper�vamos que ele sa�sse do escrit�rio da Promotoria antes que eu fosse sentenciado. A� tudo ficaria bem.</p><p>Com grande humildade, respondi:</p><p>� Eu acredito em voc�, Joel, e, como Greg j� disse, estou totalmente comprometido com essa minha atitude colaborativa. Pergunte o que quiser, e eu responderei da melhor maneira que puder.</p><p>� Voc� afundou seu iate para conseguir o dinheiro da seguradora? � perguntou de repente a Bruxa. � Vamos ouvir a verdade aqui.</p><p>Eu olhei para ela e lhe ofereci um sorriso morto. Notei que, em cima da mesa, havia um jarro grande de �gua com seis copos ao lado, um dos quais estava cheio pela metade. O que aconteceria se eu atirasse esse copo de �gua na Bruxa? Ela provavelmente come�aria a gritar: �Socorro! Estou derretendo! Estou derretendo!�. Mas achei melhor manter esse pensamento s� para mim mesmo, e tudo o que disse foi:</p><p>� N�o, Michele. Se eu quisesse afundar o barco e pegar o dinheiro do seguro, n�o teria feito isso com minha esposa e eu a bordo.</p><p>� E por que n�o? � rebateu a Bruxa. � Esse seria o �libi perfeito.</p><p>� E tamb�m seria uma maneira perfeita de se matar � rosnou TOC. � Ele foi pego em uma tempestade, Michele. V� ler a revista <emphasis>Yachting</emphasis>. Est� tudo l�.</p><p>Com grande confian�a, Magnum disse:</p><p>� Eu posso garantir a todos aqui presentes que Jordan n�o afundou seu iate pelo dinheiro do seguro. Certo, Jordan?</p><p>� Absolutamente � respondi. � Mas n�o vou negar que eu odiava aquela coisa. Era uma dor de cabe�a flutuante de 170 p�s. Estava sempre quebrando e queimava dinheiro mais depressa que o Haiti � dei de ombros inocentemente. � Seja como for, fiquei contente quando aquela banheira afundou.</p><p>Ser� que eles queriam mesmo que eu contasse como o iate tinha afundado? Aquilo tinha sido um acidente� A �nica coisa da qual eu poderia ser acusado era a de fazer um mau julgamento, comportamento que na ocasi�o andava meio prejudicado. Eu estava sob a influ�ncia de uma tal quantidade de drogas que poderia sedar a Guatemala inteira, ent�o tinha for�ado o capit�o a meter o barco no meio de um vendaval de grau 8, para acabar com meu t�dio induzido por drogas.</p><p>� De qualquer forma � disse Magnum �, voc� tem sua resposta, Michele. Aquilo foi um acidente.</p><p>Assenti em concord�ncia, sentindo-me mais confiante depois de nosso primeiro embate. Tinha sido completamente in�cuo, e Magnum e eu t�nhamos tratado daquilo maravilhosamente, neutralizando o feiti�o da Bruxa. Ou era isso o que eu pensava, at� que o Canalha disse:</p><p>� Quando o iate estava afundando, n�o � verdade que voc� telefonou para Danny Porush e disse a ele que tinha 10 milh�es de d�lares em dinheiro enterrados em seu quintal e que, se voc� e sua mulher morressem, ele deveria desenterrar o dinheiro e garantir que fosse entregue a seus filhos?</p><p>Olhei em volta da sala de interrogat�rio e todos os olhos estavam em cima de mim, incluindo os de Magnum. TOC tinha um sorriso ir�nico no rosto, que dizia algo do tipo: �Veja s�, Jordan, eu sei de coisas sobre voc� que voc� nem imaginava que eu soubesse!�. O M�rmon, no entanto, mostrava um sorriso mais travesso, como se dissesse: �Eu divido esses 10 milh�es com voc� se me entregar um mapa do tesouro e deixar os outros fora dessa parada�. Mas a Bruxa e o Canalha mantinham express�es sombrias, passando a mensagem: �Vamos l�, conte uma mentira e voc� vai ver o que lhe acontece!�.</p><p>Ironicamente, eu n�o tinha a m�nima ideia sobre o que eles estavam falando. Na verdade, eu estava at�nito por tr�s motivos: primeiro, porque eu n�o tinha enterrado nem 10 d�lares no fundo de meu quintal, quanto mais 10 milh�es; em segundo lugar, n�o havia como provar isso, a n�o ser levando TOC ao meu quintal com uma p� e uma picareta para escavar 20 mil metros quadrados da grama supercara importada das Bermudas; e em terceiro lugar, por causa da maneira como havia sido formulada a pergunta, insinuando que a informa��o teria vindo da parte de Danny Porush, o que demonstrava que ele estava cooperando tamb�m.</p><p>E isso era tanto uma coisa boa quanto uma coisa ruim. Pelo lado bom, significava que eu n�o teria de delatar Danny, o que tinha sido algo que Magnum havia previsto. Pelo lado n�o t�o bom, Danny tinha sido meu bra�o direito, o que significava que qualquer coisa que eu dissesse seria checada com ele para garantir sua exatid�o. Eu teria que ser extremamente cauteloso com essa situa��o; as mentiras teriam de ser evitadas. Seria simplesmente muito f�cil ser pego. A omiss�o dos fatos, na verdade, seria minha �nica esperan�a. Afinal, reter informa��es poderia ser classificado apenas como um lapso da mem�ria.</p><p>Com um toque de desd�m, respondi:</p><p>� Essa � a coisa mais rid�cula que j� escutei, Joel � sacudi a cabe�a e deixei escapar uma risadinha c�nica. � Olhe, n�o sei de onde voc� tem recebido suas informa��es, mas juro que isso � completamente falso.</p><p>Olhei para o TOC. Sua express�o era neutra, seus olhos de falc�o estavam ligeiramente cerrados, como se ele estivesse me avaliando. Olhei para ele diretamente nos olhos e continuei:</p><p>� Acredite em mim, Greg, quem quer que tenha lhe dito isso est� gozando com sua cara. Pense nisso por um segundo: quem em s� consci�ncia iria enterrar 10 milh�es de d�lares em seu quintal? Eu teria de ter escavado o buraco no meio da noite e, em seguida, reposto o gramado antes de o sol nascer. E eu n�o sou exatamente o sujeito mais inclinado a fazer esse tipo de esfor�o manual. De fato, na �ltima vez que a l�mpada de um de meus abajures queimou, eu joguei fora o abajur� � e olhei diretamente nos olhos do Canalha.</p><p>� Voc� tem um advogado muito competente � bufou Joel �, por isso tenho certeza de que ele lhe explicou que, se voc� for pego mentindo ou tentando nos enganar da maneira que for, n�s teremos o direito de rasgar seu acordo de coopera��o e atir�-lo no cesto de lixo � ele me dirigiu um sorriso ir�nico. � Isso quer dizer que voc� ser� condenado sem o benef�cio da carta da Promotoria, o que se traduz em mais ou menos 30 anos em uma�</p><p>Magnum o cortou:</p><p>� Ei, ei, ei, Joel! Acalme-se! Jordan est� plenamente ciente de suas obriga��es, e ele tem toda a inten��o de seguir de acordo com elas.</p><p>O Canalha deu de ombros.</p><p>� Eu n�o estou dizendo que ele n�o sabe disso � devolveu. � Mas � minha obriga��o legal inform�-lo sobre o <emphasis>terr�vel destino</emphasis> que pode se abater sobre sua pessoa � <emphasis>e sobre como isso me deixaria feliz</emphasis>, era o que seu tom de voz implicava � se ele for condenado sem o benef�cio da carta.</p><p>O Canalha se virou para me olhar diretamente nos olhos e acrescentou:</p><p>� E lembre-se ainda de que todas as informa��es que nos fornecer podem ser usadas contra voc� caso mude de ideia e decida enfrentar o tribunal.</p><p>� Estou bem informado sobre tudo isso � respondi calmamente. � Greg me explicou ontem � tarde. Mas voc� n�o precisa se preocupar, eu n�o vou coloc�-lo em uma posi��o em que possa arruinar minha vida, Joel � por mais que eu tentasse, minhas �ltimas palavras escorregaram de minha boca com uma dose substancial de ironia.</p><p>� Sabem de uma coisa? Eu acho que este pode ser um bom momento para conversar com meu cliente � disse Magnum. � Voc�s poderiam nos dar alguns minutos?</p><p>� Sem problema � disse o Canalha, levantando-se de sua cadeira.</p><p>Ele sorriu para a Bruxa M� do Leste, que se ergueu de sua cadeira, seguida pelo TOC e pelo M�rmon. Ent�o, numa fila �nica, todos sa�ram da sala e fecharam a porta atr�s deles. No momento em que sa�ram, pulei de minha cadeira, me levantei e grunhi:</p><p>� Isso tudo � uma grande merda, Greg, uma grande merda! Voc� tinha raz�o sobre esse filho da puta, ele � um completo imbecil! E aquela outra, a Michele Adelman, puta merda! � uma vadia! Algu�m devia dar a ela uma vassoura e mand�-la de volta para a Terra de Oz!</p><p>Magnum concordou com a cabe�a, levantando-se lentamente de sua cadeira at� ficar a minha frente, cerca de duas cabe�as acima da minha. Com um sorriso amig�vel, ele disse:</p><p>� Antes de qualquer coisa, eu quero que voc� se acalme. Respire fundo e conte at� dez; ent�o, quando voc� estiver mais calmo, a� n�s poderemos conversar sobre esses 10 milh�es enterrados no fundo do seu quintal.</p><p>Olhei para cima, para Magnum, cuja cabe�a agora parecia encostar nas l�mpadas fluorescentes do teto.</p><p>� Voc� quer, por favor, se sentar? � exigi. � Voc� � alto pra caralho! Eu acabo perdendo a perspectiva das coisas quando n�s dois estamos de p� � e fiz sinal para que ele se sentasse.</p><p>� Voc� n�o � t�o baixinho assim � respondeu ele, olhando para o topo de minha cabe�a como se eu fosse um an�o. � Voc� tem � complexo, isso sim � ele estendeu a m�o enorme e a pousou em meu ombro. � Tem mais, eu acho que, quando isso tudo acabar, voc� deveria buscar ajuda para tratar disso.</p><p>Soltei um suspiro.</p><p>� T�, claro, eu vou procurar o psiquiatra da pris�o quando n�o estiver ocupado sendo enrabado por Bubba, o Touro Viado� � balancei a cabe�a, frustrado. � Olhe, Greg, eu n�o enterrei nem um centavo no quintal nem em nenhum outro lugar.</p><p>� Isso � �timo � disse Magnum, sentando-se de novo. � Ent�o n�o h� nada com que se preocupar. Joel ter� de escrever a carta para voc�, mesmo que ele n�o acredite em uma s� palavra do que voc� disser. Ele s� poder� reter a carta se voc� for pego numa mentira de maneira indiscut�vel. Mas voc� ter� que lhe fornecer uma declara��o financeira � parou por alguns instantes. � E isso inclui qualquer quantia em dinheiro vivo que voc� tiver. Se alguma coisa vier � tona durante o processo � ele me olhou diretamente �, poder� ser muito ruim para voc�. Muito ruim mesmo. Quanto � o valor em dinheiro que voc� tem no momento?</p><p>� N�o muito � respondi. � Acho que 1 milh�o, um pouco menos.</p><p>� Isso � tudo?</p><p>� Sim, � Talvez voc� esteja se esquecendo de todo o dinheiro que contrabandeei para o exterior. Por que porra voc� acha que estou sentado aqui agora, por causa de uma multa de tr�nsito?</p><p>� Eu entendo que voc� mandou dinheiro para o exterior, mas n�o todo ele � disse Magnum, que ent�o fez uma pausa e girou seu longo e esguio pesco�o, provocando uma d�zia de <emphasis>cracs</emphasis> nas v�rtebras. � Ou�a, Jordan, s� estou fazendo o papel do advogado do diabo, tentando antecipar o que o Joel poderia pensar, pois acho que ele vai ficar muito c�tico.</p><p>Balancei a cabe�a, consternado.</p><p>� Deixe-me explicar uma coisa a voc�, Greg. Durante os �ltimos quatro anos, eu n�o fui realmente dono de um escrit�rio de corretagem. Eu s� estava controlando a empresa por tr�s das cortinas, entendeu?</p><p>Ele assentiu.</p><p>� Certo, ent�o siga meu racioc�nio: uma vez que eu n�o possu�a de fato uma corretora, era eu quem estava recebendo participa��es nos novos lan�amentos mais quentes e era eu quem estava chutando o dinheiro de volta para os propriet�rios sob a forma de propina � fiz uma pausa, tentando encontrar uma forma simples de explicar a Magnum (que n�o era um pilantra) como as coisas acontecem no mundo da malandragem. � Em outras palavras, l� atr�s, no come�o dos anos 1990, quando eu era dono da Stratton, era eu quem recebia os subornos em dinheiro. Mas assim que fui chutado para fora do neg�cio de corretagem e passei a operar nos bastidores, todo o processo se inverteu e eu passei a ser o cara que pagava as propinas, eu que pagava suborno para os propriet�rios das corretoras. Entendeu?</p><p>Ele concordou de novo.</p><p>� Sim, entendi � disse ele, confiante. � Isso faz todo o sentido para mim.</p><p>Assenti.</p><p>� �timo, porque isso tudo � a pura verdade � dei de ombros. � Seja como for, acho que n�o tenho nem esse milh�o de d�lares. Minha sogra est� guardando isso para mim.</p><p>� Como � que �? � perguntou Magnum, surpreso.</p><p>Como ele era ing�nuo! Magnum era um advogado muito bom, mas n�o pensava como um verdadeiro criminoso. Eu teria de ensin�-lo.</p><p>� O que acontece � que, na noite em que fui preso, achei que Coleman voltaria depois com um mandado de busca. Ent�o, pedi a Nadine que desse o dinheiro para que a m�e dela tomasse conta. Mas eu posso pegar isso de volta a qualquer hora. Voc� acha que devo fazer isso?</p><p>� Sim, acho que deve. E se o assunto do dinheiro vivo aparecer de novo, voc� deveria oferecer essa informa��o de modo proativo. Lembre-se de uma coisa: enquanto voc� se comportar de forma honesta, n�o poder� se ver em apuros.</p><p>Ele alcan�ou o bolso interno do palet� e puxou uma folha de papel amarelo que tinha sido dobrada em tr�s. Ent�o sorriu e ergueu as sobrancelhas por tr�s vezes em r�pida sucess�o, colocando depois o papel na mesa da sala de reuni�es. Tirou do bolso um par de �culos de leitura e desdobrou o precioso documento, dizendo:</p><p>� Esta � a lista das pessoas sobre as quais voc� disse ter informa��es. S�o 97 nomes, e alguns deles s�o bastante suculentos � ele balan�ou a cabe�a. � Voc� realmente cometeu crimes com todas essas pessoas? � perguntou, com alguma incredulidade. � Parece quase imposs�vel�</p><p>Apertei os l�bios e assenti com a cabe�a lentamente. Ent�o sentei-me ao lado dele e levei um tempo estudando aquela lista, que parecia ser um �Quem � Quem� dos vil�es de Wall Street. Acompanhando os vil�es estava o nome de pol�ticos corruptos, alguns policiais corruptos, um ou dois ju�zes corruptos, um punhado de mafiosos e alguns contadores, advogados, CEOs e CFOs de empresas, e ent�o pouco mais de uma d�zia de civis, pessoas que n�o estavam no ramo de corretagem de valores, mas que agiam como meus prepostos, o que na linguagem de Wall Street significava meus <emphasis>homens de frente</emphasis>.</p><p>Com o cora��o apertado, eu disse:</p><p>� Mas isso � uma vergonha, que porra! � disse, examinei a lista, balan�ando a cabe�a em desespero. � Isso � uma merda, Greg, uma grande merda. Pensei que voc� iria deixar alguns desses nomes de fora, alguns dos meus amigos, como Lipsky� E Elliot Lavigne� E� Andy Greene?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a lentamente.</p><p>� N�o, n�o posso � disse, com seriedade. � Isso s� iria piorar as coisas. Se eu deixasse um de seus amigos de fora da lista, s� iria despertar ainda mais o interesse do governo.</p><p>Eu balancei a cabe�a resignado, sabendo que Magnum estava certo. No dia anterior, quando tinha feito a lista, n�o tinha parecido grande coisa. N�s at� t�nhamos dado algumas risadas com ela, achando gra�a de como as pessoas de todas as esferas da vida poderiam ser corrompidas pelo fasc�nio do dinheiro f�cil em Wall Street. Parecia que a avidez, em forma de lucros instant�neos, n�o conhecia limites. Ela atravessava todas as fronteiras da �tica, infectando todos os grupos et�rios. Na lista, havia negros, brancos, asi�ticos, hisp�nicos, indianos e ind�genas americanos, jovens, velhos, saud�veis, enfermos, machos, f�meas, homossexuais, bissexuais, estavam todos l�. Parecia que ningu�m podia resistir � tenta��o de ganhar centenas de milhares de d�lares sem risco. Que triste coment�rio, pensei, sobre a situa��o do capitalismo no s�culo XX.</p><empty-line/><empty-line/><p>CINCO MINUTOS DEPOIS, os nomes continuavam sobre a mesa da sala de interrogat�rio, embora agora tivesse uma plateia muito maior. O Canalha, a Bruxa, o TOC e o M�rmon estavam de volta, todos eles curvados em suas cadeiras e olhando para a lista, como se ela fosse o Santo Graal.</p><p>� Esta � uma lista bastante abrangente � maravilhou-se o Canalha. Ent�o ele olhou para cima, com um sorriso razoavelmente amig�vel para mim, e disse: � Se este � um sinal das coisas que est�o por vir, Jordan, ent�o tudo vai funcionar perfeitamente bem para voc�.</p><p>Ele olhou para a lista novamente e continuou murmurando:</p><p>� Muito bem, de fato� Isso � excelente�</p><p>Sorri respeitosamente e me desliguei por alguns momentos. Enquanto o Canalha continuava babando sobre minha lista, me peguei pensando sobre o que ele acharia se eu tivesse deixado todas as putas na lista. Deviam ter sido umas mil prostitutas, no m�nimo 500. O que a Bruxa teria pensado disso? Ser� que ela tentaria lan�ar um feiti�o de impot�ncia sobre mim? Ela certamente devia ter ouvido hist�rias sobre como os strattonistas classificavam nossas prostitutas como a��es � as melhores eram Blue Chips e as mais vagabundas eram classificadas como Pink Sheeters (as folhas rosa, ou Pink Sheets, eram onde as a��es de pouco ou de nenhum valor eram listadas). E, em algum lugar, ocupando um espa�o n�o muito claro, havia as NASDAQs, que ou eram Blue Chips que tinham ca�do ou que nunca tinham sido quentes o suficiente para se beneficiar do <emphasis>status</emphasis> de verdadeiras Blue Chips.</p><p>� � e o melhor lugar para come�armos � do in�cio � disse o Canalha, que finalmente tinha parado com seus resmungos. Ele apanhou uma caneta Bic barata e disse, em um tom de voz muito s�rio: � Onde foi que voc� fez a escola prim�ria?</p><p>� Na escola p�blica 169 � respondi.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a uma vez e anotou minha resposta em um bloco de notas amarelo.</p><p>� Isso fica em Bayside?</p><p>� Sim, Bayside, no Queens.</p><p>Ele rabiscou isso tamb�m e ent�o olhou para mim, como se estivesse aguardando que eu dissesse mais alguma coisa. Mas eu fiquei quieto, esperando que ele fizesse a pr�xima pergunta.</p><p>� Pode ficar � vontade para expandir mais suas respostas � disse o Canalha. � Esta n�o � uma daquelas situa��es em que menos � mais � e sorriu ligeiramente.</p><p>Assenti em compreens�o.</p><p>� Claro � e n�o disse mais nada.</p><p>N�o � que eu estivesse tentando dificultar as coisas para o Canalha. � que, ao longo dos anos, eu tinha sido treinado para dar respostas curtas durante as inquiri��es legais. Na verdade, eu tinha sido chamado a depor n�o menos que 50 vezes, na maior parte pela NASD (em arbitragens de clientes), mas tamb�m pela Comiss�o de Valores Mobili�rios e pelo Comit� de �tica do Senado, este �ltimo na �poca em que estavam conduzindo uma investiga��o de suborno a um de seus menos conceituados senadores.</p><p>Que seja. Eu havia sido condicionado a dar como respostas apenas �sim� e �n�o� e a n�o oferecer nenhuma informa��o extempor�nea baseada naquilo que eu pensava que meu interrogador queria ouvir. E, embora estivesse bem consciente de que as regras ali eram muito diferentes, os velhos h�bitos custam a desaparecer.</p><p>Mais alguns momentos de sil�ncio se passaram, at� que o Canalha finalmente disse:</p><p>� Voc� foi um aluno com notas A?</p><p>� Sim � respondi com orgulho. � Eu tirava A o tempo todo.</p><p>� Teve problemas disciplinares?</p><p>� Nenhum, embora uma vez eu tenha ficado em apuros por ter arrancado o chap�u de uma menina quando est�vamos voltando para casa depois da aula � encolhi os ombros. � Acho que eu estava na terceira s�rie, ent�o isso nem foi anotado em meus registros � pensei nisso por um momento. � Engra�ado, mas eu posso relembrar praticamente todos os problemas que tive em minha vida em rela��o �s mulheres � ou mais acuradamente, pensei, durante minha busca por uma xana�</p><p>Houve mais um momento de sil�ncio. Por fim, respirei fundo e disse:</p><p>� Voc� quer que eu lhe conte minha hist�ria de vida? � isso que voc� est� procurando?</p><p>� Sim � respondeu o Canalha, assentindo com a cabe�a lentamente. � Isso � exatamente o que estou querendo. � Ele depositou sua caneta na mesa, recostou-se na cadeira e disse: � Tenho certeza de que as �ltimas perguntas devem ter lhe parecido rid�culas, mas eu lhe asseguro que n�o s�o. Quando voc� se coloca no banco das testemunhas, a defesa vai tentar pint�-lo como sendo um criminoso de carreira, um mentiroso nato que diz qualquer coisa para salvar seu pesco�o da forca. E onde quer que eles achem que exista sujeira, mesmo que isso tenha sido durante a inf�ncia, ser� a� que come�ar�o a cavoucar. Eles usar�o tudo o que puderem encontrar para tentar desacredit�-lo.</p><p>� Joel tem raz�o � acrescentou Magnum. � Eles ir�o desenterrar tudo o que encontrarem. E a forma como a Promotoria age � divulgando ao j�ri todas as coisas erradas que voc� fez antes mesmo que a defesa tenha uma oportunidade. Em outras palavras, n�s vamos lavar sua roupa suja de forma proativa, como se n�o houvesse nenhum grande segredo, como coisas inteiramente irrelevantes aos procedimentos legais.</p><p>� Isso mesmo � soltou o Canalha. � N�s deixamos a defesa sem saber se est�o indo ou se est�o voltando.</p><p>Nesse momento, o TOC entrou na conversa:</p><p>� O que n�o podemos suportar s�o as surpresas. Elas n�o servem a nenhum de nossos prop�sitos. N�s precisamos conhecer os detalhes mais �ntimos de sua vida, tudo, qualquer coisa que voc� tenha feito e da qual consiga relembrar.</p><p>Agora quem falava era a Bruxa:</p><p>� E isso inclui n�o apenas o uso de drogas, mas tamb�m seu apre�o pelas prostitutas, sendo que ambos foram devidamente notados pela imprensa.</p><p>A isso, o Canalha acrescentou:</p><p>� E ambos certamente ser�o explorados pelos bons advogados de defesa.</p><p>Depois de alguns momentos de sil�ncio constrangedor, eu disse:</p><p>� Tudo bem, mas eu tinha a impress�o � e resisti ao impulso de olhar diretamente para os olhos de Magnum e disparar um raio da morte em cima dele � de que as pessoas raramente v�o a julgamento nesses casos, de que geralmente fazem um acordo ou passam a cooperar.</p><p>O Canalha encolheu os ombros.</p><p>� Isso � verdade na maioria dos casos, mas eu n�o contaria com isso. No final, h� sempre um indiv�duo que demora em consentir, algu�m que prefere assumir suas chances em um tribunal�</p><p>Todo mundo assentiu em un�ssono, incluindo Magnum, que estava agora no processo de revisar a hist�ria. Bem, foda-se ent�o! J� era hora de as fichas ca�rem onde deviam cair�</p><p>� Voc�s sabem � disse eu, num tom casual �, eu tenho apenas 36 anos, mas tive uma vida muito intensa. Isso pode levar bastante tempo.</p><p>O TOC sorriu ironicamente.</p><p>� Venho tentando compreender sua vida durante os �ltimos cinco anos � disse ele. � Portanto, pessoalmente, tenho todo o tempo que for necess�rio.</p><p>� Isso mesmo, vamos ouvir � acrescentou o Canalha.</p><p>� � sua �nica chance de conseguir uma redu��o da pena � retrucou a Bruxa.</p><p>Ignorei a Bruxa e olhei diretamente para o Canalha, dizendo:</p><p>� Certo. Como voc� levantou o assunto de Bayside, ent�o vamos come�ar por l�. � um lugar t�o bom para come�ar como qualquer outro, considerando que foi de l� que veio a maioria dos strattonitas que come�aram na empresa � fiz uma pausa, refletindo sobre o tempo passado. � Mesmo aqueles que realmente n�o vieram de Bayside acabaram se mudando para l� depois que a empresa come�ou.</p><p>� Todo mundo se mudou para Bayside? � perguntou ceticamente o Canalha.</p><p>� Nem todos � retruquei. � Mas a grande maioria, sim. Veja, mudar-se para Bayside era uma forma de provar sua lealdade � firma, uma forma de mostrar que voc� era um verdadeiro strattonita. Eu sei que isso parece um pouco absurdo, pensar que se mudar para determinado bairro possa representar uma declara��o de princ�pios desse g�nero, mas era assim que as coisas funcionavam naquele tempo. N�s �ramos como a m�fia, sempre procurando novas maneiras de manter os estranhos longe � dei de ombros. � Quando voc� trabalhava na Stratton, voc� socializava apenas com outros funcion�rios da firma, e era disso que se tratava morar em Bayside. Voc� estaria bloqueando os estranhos, provando, ent�o, que fazia parte do culto.</p><p>� Voc� est� afirmando que a Stratton era um culto? � balbuciou a Bruxa.</p><p>� Sim � respondi com calma. � � <emphasis>exatamente</emphasis> o que estou dizendo, Michele. Por que voc� acha que era t�o dif�cil entrar na Stratton? � Olhei para TOC. � Em quantas portas voc� acha que teve de bater ao longo dos anos� Apenas uma estimativa?</p><p>� Pelo menos 50 � respondeu ele. � Talvez mais.</p><p>� E cada uma delas foi batida na sua cara, n�o foi?</p><p>� Exatamente � disse ele, cansado. � Ningu�m queria falar comigo.</p><p>� Um dos grandes motivos para isso, se n�o o maior, � que todo mundo estava ganhando tanto dinheiro que ningu�m queria causar problemas � fiz uma pausa, deixando que eles absorvessem essas palavras. � Mas era mais do que isso: o que estava bem no �mago desse comportamento era proteger o modo de vida Stratton. Era isso que todo mundo estava fazendo, protegendo aquela vida.</p><p>� Defina �aquela vida� � disse o Canalha com uma pitada de sarcasmo na voz.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Bem, entre outras coisas, significava ter o carro mais badalado, comer nos restaurantes da moda, dar as maiores gorjetas, usar as melhores roupas � balancei a cabe�a, assombrado. � Quero dizer que n�s faz�amos todas as coisas juntos. Pass�vamos todo o tempo poss�vel juntos. E isso n�o significa apenas no trabalho, mas em casa tamb�m � olhei para a Bruxa, fixamente dentro de seus olhos escuros, negros como a noite. � � por esse motivo que a Stratton era um culto, Michele. Era tipo um por todos e todos por um, e um monte para si mesmo, � claro. E n�o havia estranhos por perto, nunca � olhei ao redor da sala. � Entenderam?</p><p>Todos, incluindo a Bruxa, assentiram.</p><p>O Canalha disse:</p><p>� Isso que voc� est� nos contando faz sentido, mas eu pensava que a maioria de seus recrutas iniciais tivesse vindo de Long Island, de Jericho e Syosset.</p><p>� Mais ou menos a metade deles � respondi rapidamente. � E existe uma raz�o para isso, mas n�s estamos nos adiantando aqui. Seria melhor se a gente seguisse uma ordem.</p><p>� Por favor � disse o Canalha. � Est� sendo muito produtivo.</p><p>Assenti, reunindo meus pensamentos.</p><p>� Ent�o, de volta a Bayside. � um bocado ir�nico, considerando que quando eu era adolescente jurei que deixaria Bayside assim que ficasse rico. Eu devia ter uns 15 anos quando me dei conta de que havia um tipo diferente de vida l� fora, uma vida melhor, pensei na ocasi�o, uma vida de riqueza e fartura. Lembrem-se de que eu n�o nasci numa fam�lia com dinheiro, ent�o extravag�ncias como mans�es, iates, jatinhos particulares, essas coisas que as pessoas agora associam a mim, me eram completamente estranhas at� ent�o. Bayside era um lugar estritamente de classe m�dia, sobretudo a parte do bairro onde cresci � sorri nostalgicamente. � Acontece que era um lugar maravilhoso onde crescer. N�o havia crimes, e todos se conheciam. Todo mundo tinha se mudado para l� vindo do Bronx ou de outras partes do Queens, de vizinhan�as e bairros que� Voc�s sabem� Tinham se modificado. Meus pais se mudaram para l� vindos do sul do Bronx, que agora � uma verdadeira merda� Voc� n�o est� anotando nada disso, Joel.</p><p>O Canalha sorriu conspirat�rio.</p><p>� Tudo aquilo que eu escrever terei de passar para os advogados de defesa, quem quer sejam eles. Ent�o, no meu caso, menos � mais. De qualquer forma, basta continuar falando, eu tenho uma excelente mem�ria.</p><p>Assenti.</p><p>� Tudo bem. Ent�o, meus pais se mudaram para Bayside para me poupar da dor de cabe�a de ter que crescer em um lugar como o Bronx. Mor�vamos em um apartamento em um edif�cio de seis andares que ficava em uma daquelas comunidades planejadas que estavam pipocando na �poca. E era lindo: tinha campos para jogar bola, parques infantis, vias concretadas para os pedestres, casas de �rvores, arbustos para brincar de esconde-esconde e, o mais importante, tinha centenas de crian�as. O que significava que havia dezenas de futuros strattonitas para ser recrutados. E todos eles estavam recebendo boa instru��o � fiz uma pausa, reconsiderando minhas palavras. � Embora essa parte da educa��o tenha sido uma faca de dois gumes.</p><p>� Por que voc� est� dizendo isso? � perguntou TOC, que parecia se divertir com a hist�ria.</p><p>� Bem � respondi �, quando n�s chegamos � adolesc�ncia, est�vamos instru�dos o suficiente para saber que t�nhamos recebido <emphasis>muito pouca</emphasis> educa��o. Em outras palavras, n�s sab�amos que, sim, a gente podia n�o morrer de fome como as crian�as na �frica, mas havia definitivamente algo mais fora de Bayside � fiz uma pausa para conseguir mais efeito. � Era desse jeito que todo mundo no bairro pensava. Havia uma sensa��o de esperan�a ilimitada ou uma intui��o, pode-se dizer assim, de que um dia n�s ir�amos ficar ricos e nos mudar para Long Island, onde estava o dinheiro de verdade, onde as pessoas moravam em casas e guiavam Mercedes e Cadillacs.</p><p>� Alan Lipsky cresceu no mesmo pr�dio que voc�, n�o �? � perguntou TOC.</p><p>� Sim � respondi �, no mesmo andar. Andy Greene, que voc� provavelmente deve conhecer como Cabana, morava a apenas algumas quadras de dist�ncia. Embora ningu�m o chamasse por esse apelido naquela �poca, ele s� foi perder os cabelos quando estava no colegial � dei de ombros. � Ele s� foi arrumar sua primeira peruca quando estava no primeiro ano da faculdade. Foi l� que ele se tornou o Cabana, apesar de usar a pior peruca vista do lado de c� da antiga Cortina de Ferro.</p><p>Encolhi os ombros de novo, me perguntando se Andy Greene estaria sentado naquela mesma cadeira, naquela mesma sala, em um futuro n�o muito distante. Afinal, ele tinha sido o chefe do Departamento Financeiro da Stratton, respons�vel por descobrir neg�cios que podiam ser lan�ados a p�blico e fazer com que fossem liberados pela Comiss�o de Valores Mobili�rios. Ele era um bom homem, e era bem poss�vel que ficasse arrasado se tivesse de ir para a cadeia e fosse for�ado a se livrar de sua peruca.</p><p>� De qualquer forma � disse �, Alan morava no apartamento 5-K e eu no apartamento 5-F, e n�s nos tornamos melhores amigos desde que us�vamos fraldas. Tenho certeza de que todos voc�s est�o cientes do fato de que fui eu quem deu a Alan o treinamento e o financiamento e que lhe mostrei como o jogo funcionava � todos concordaram. � E, em contrapartida, ele e Brian me pagavam adiantado 5 milh�es por ano em royalties, numa esp�cie de reciprocidade. Mas estou me adiantando, outra vez. Isso aconteceu muitos anos depois.</p><p>O Canalha assentiu.</p><p>� Voc� afirmou antes que nunca teve problemas disciplinares durante seu crescimento. Voc� n�o nunca foi para a pris�o? Nada relacionado � delinqu�ncia juvenil?</p><p>Balancei a cabe�a, dizendo que n�o e desejando dar uma porrada no Canalha por insinuar que eu tinha sido uma semente ruim desde crian�a. Mas tudo o que disse foi:</p><p>� Eu era um bom garoto, um aluno que s� tirava A, exatamente como contei � pensei por um momento. � Assim como o restante de minha fam�lia. Meus dois primos mais velhos entraram em Harvard e se formaram entre os melhores da classe. Os dois s�o m�dicos agora. E meu irm�o mais velho, acho que Joel o conhece, � um dos mais respeitados advogados do pa�s. Ele costumava jogar p�quer com alguns de seus amigos do gabinete do Procurador do Estado, embora tenha abandonado esses jogos no momento em que minha investiga��o come�ou a esquentar. Acho que a situa��o ficou bastante desconfort�vel para ele.</p><p>O Canalha assentiu respeitosamente.</p><p>� Nunca me encontrei com seu irm�o, mas s� ouvi coisas boas sobre ele. � incr�vel que voc�s dois sejam parentes�</p><p>� Ʌ � murmurei. � � uma porra de um milagre. Mas n�s somos parentes, e eu era exatamente igual a ele quando mais novo. Talvez nossas personalidades fossem diferentes, quer dizer, eu era o cara extrovertido, e ele, o introvertido, mas eu sempre fui t�o bom aluno quanto ele. Provavelmente at� melhor� A escola era ridiculamente f�cil para mim. Mesmo depois de eu ter come�ado a fumar maconha, acho que por volta da 6<sup>a</sup> s�rie, eu ainda continuava tirando A direto em todas as mat�rias. S� por volta do colegial que as drogas come�aram a pegar para mim.</p><p>TOC recuou visivelmente.</p><p>� Quer dizer que voc� come�ou a fumar maconha na 6<sup>a</sup> s�rie?</p><p>Assenti, com um senso de orgulho distorcido.</p><p>� Exatamente, Greg, quando eu estava com 11 anos. O irm�o mais velho de um amigo era traficante de drogas, e uma noite Alan e eu dormimos na casa desse amigo, e foi l� que o irm�o do cara nos deixou doid�es � fiz uma pausa, sorrindo para aquela absoluta loucura de fumar maconha aos 11 anos. � De qualquer forma, a maconha n�o era t�o forte naquela �poca, e ent�o a gente s� teve um pequeno barato. Eu n�o comecei a saltar pelas paredes, como fiz mais tarde quando adulto � dei um min�sculo sorriso. � Continuei brincando com maconha por mais alguns poucos anos, mas ela nunca me causou nenhum problema. Meus pais ainda pensavam que tudo estava bem.</p><p>Fiz mais uma pausa e gastei alguns segundos estudando a express�o no rosto dos demais ocupantes da sala, que variavam em diferentes graus de incredulidade.</p><p>� Acho que a primeira vez que eles notaram que alguma coisa estava errada foi quando eu estava na 8<sup>a</sup> s�rie e recebi uma nota 92 em uma prova de matem�tica. Minha m�e ficou arrasada. Antes disso, eu nunca tinha tirado uma nota inferior a 98, e mesmo isso fazia com que ela levantasse uma sobrancelha. Eu me lembro de ela dizer alguma coisa como: �Est� tudo bem com voc�, querido? Voc� estava doente? Alguma coisa aborreceu voc�?� � balancei a cabe�a quando recordei essa passagem. � Claro que eu n�o lhe contei que tinha fumado dois baseados rechonchudos de Colombian Gold antes da prova e que, por isso, estava tendo dificuldades em somar dois mais dois naquela tarde � dei de ombros inocentemente. � Mas eu me lembro de ela ter ficado de fato muito preocupada com aquela nota, como se eu ter tirado 92 em matem�tica fosse reduzir minhas chances de entrar na faculdade de medicina de Harvard. Mas essa era minha m�e. Ela era uma pessoa que sempre buscava exceder �s expectativas e que nos mantinha em um n�vel muito elevado. De fato, n�o faz muito tempo, ela se tornou a mulher mais velha no Estado de Nova York a passar no exame da Ordem dos Advogados. Ela hoje exerce a advocacia em Long Island, fazendo tudo <emphasis>pro bono</emphasis> � disse, e pensei numa forma de me redimir perante a Bruxa. � Ela defende mulheres v�timas de viol�ncia, aquelas que n�o podem pagar um advogado � e olhei nos olhos redondos da Bruxa, esperando conquist�-la com as fabulosas a��es de minha m�e.</p><p>Infelizmente, ela permaneceu impass�vel, totalmente im�vel. Era uma durona filha da puta. Decidi redobrar os esfor�os.</p><p>� Naqueles dias, minha m�e era uma contadora certificada muito bem-sucedida, numa �poca em que havia poucas mulheres no mercado de trabalho � arqueei as sobrancelhas e assenti com a cabe�a rapidamente, como que dizendo �Impressionante, n�o acha?�. E depois olhei diretamente para ela, esperando que sua express�o se suavizasse um pouco.</p><p>Nada. A Bruxa continuava me encarando, atirando dardos. Depois de alguns momentos, desviei o olhar. Ela era t�o venenosa que me peguei olhando para o Canalha em busca de salva��o, esperando que ele aprovasse minha m�e, apesar da insol�ncia da Bruxa. E disse a ele:</p><p>� Ela � um g�nio, minha m�e. Uma senhora verdadeiramente maravilhosa.</p><p>O Canalha concordou com a cabe�a, aparentemente admirado com a retid�o de minha m�e, embora eu tamb�m notasse em sua express�o corporal uma sugest�o de �E quem liga pra essa merda?�. Mas ent�o, e com grande sinceridade, ele disse:</p><p>� Bem, parece mesmo que ela � uma mulher not�vel � e concordou com a cabe�a uma vez mais.</p><p>� Ela �, de fato � repliquei. � E tem meu pai, que tenho certeza de que voc� tamb�m conhece � sorri tristemente. � Ele tamb�m � contador, e um g�nio a seu modo, <emphasis>maaaas</emphasis>� � fiz uma pausa, tentando encontrar a palavra exata para definir meu pai, Max, cujo apelido na Stratton era Mad Max, por causa de seu temperamento descontroladamente feroz.</p><p>Mad Max era um fumante compulsivo inveterado, um grande defensor das melhores vodcas russas, uma bomba-rel�gio humana e um surpreendente d�ndi no modo de se vestir. Mad Max n�o era de escolher seus favoritos, ele odiava a todos igualmente.</p><p>� Bem � disse, com um sorriso maroto �, vamos dizer apenas que ele n�o � uma criatura t�o benevolente quanto minha m�e.</p><p>Com um come�o de sorriso, TOC perguntou:</p><p>� � verdade que ele costumava estourar o vidro do carro dos corretores que paravam na vaga dele?</p><p>Concordei vagarosamente com a cabe�a.</p><p>� � verdade; se ele estivesse de mau humor, amassava a lataria e os paralamas tamb�m. E depois chamava o guincho e mandava rebocar o carro � dei de ombros. � Mas o pessoal continuava parando na vaga dele de qualquer maneira. Isso se tornou apenas mais uma forma de provar a lealdade para com a empresa: levando uma surra de Mad Max, voc� se tornava um verdadeiro strattonita.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, e ent�o o Canalha falou:</p><p>� Quando voc� come�ou a desobedecer � lei? Quantos anos voc� tinha?</p><p>Encolhi os ombros:</p><p>� Isso depende de como voc� define o ato de desobedecer �s leis. Se voc� considerar que o consumo de drogas perigosas � uma viola��o da lei, ent�o eu j� era um criminoso aos 11 anos. Se infringir a lei � faltar �s aulas, ent�o eu era um arquicriminoso, porque faltei � maior parte das aulas no 1� colegial. Mas, se voc� quer saber se eu fiz alguma coisa que eu mesmo considerei ilegal, algo que eu fazia dia sim e dia n�o, diria que foi quando comecei a vender sorvetes na Jones Beach.</p><p>� Qual era sua idade ent�o? � perguntou o Canalha.</p><p>� Quase 17 � pensei por um momento, lembrando meus dias na praia. � O que eu fazia era andar pela praia com minha geladeira de isopor, vendendo sorvetes de barraca em barraca. Eu andava por l� anunciando �Sorvetes italianos, Chipwiches, Fudgsicles, picol�s de fruta, Milky Ways e Snickers�, e andava, andava, o dia inteiro. Foi o melhor trabalho de todos, absolutamente o melhor! Todos os dias pela manh�, �s 6 da matina, eu ia at� o distribuidor grego aonde iam todos os caminh�es das sorveterias, em Howard Beach, no Queens, e enchia meu isopor de sorvetes. Ent�o enchia as geladeiras de gelo seco e ia direto para a praia � fiz outra pausa, saboreando a lembran�a. � Fiz uma fortuna vendendo sorvetes na praia. Num dia bom, rent�vel, ganhava mais de 500 d�lares limpos. Mesmo num dia devagar, dava para fazer 250, que era dez vezes mais o que meus amigos recebiam.</p><p>E continuei:</p><p>� Foi l� que conheci Elliot Loewenstern; n�s vend�amos sorvetes juntos � fiz um gesto para minha lista de vil�es, ladr�es e pilantras. � Tenho certeza de que voc�s todos est�o familiarizados com Elliot. Ele est� a� em algum lugar, muito perto do topo � dei de ombros, nem um pouco preocupado em dizer algo que implicasse Elliot Loewenstern.</p><p>Afinal, eu sabia que Elliot, cujo apelido era Pinguim, devido ao nariz longo e fino, � barriguinha compacta e �s pernas ligeiramente arqueadas que o faziam andar desengon�adamente como um pinguim, iria cooperar rapidamente se precisasse enfrentar a possibilidade de passar mais que algumas horas na cadeia. Na verdade, eu j� o tinha visto se abrindo durante um interrogat�rio da pol�cia, quando o que estava em jogo era pouca coisa. Durante nossa opera��o de venda de sorvetes, ele foi multado em 50 d�lares por fazer vendas sem licen�a. Em vez de pagar a multa e ficar de bico calado, ele dedurou todos os outros vendedores na praia, inclusive eu. Ent�o, sim: se o TOC e o Canalha garantissem uma acusa��o contra o Pinguim, ele cantaria na Court Street com prazer digno de uma Celine Dion.</p><p>Eu estava pronto para continuar minhas hist�rias, quando o Canalha disse:</p><p>� Acho um pouco estranho que, depois de tudo o que voc� fez, ainda pense que vender sorvetes � infringir a lei � ele encolheu os ombros. � Muitas pessoas achariam que isso � uma forma honesta de um garoto ganhar um dinheirinho.</p><p>Que interessante, pensei. O Canalha tinha levantado uma quest�o muito profunda: o que constitui de fato uma viola��o da lei? Voltando �queles dias, praticamente todo mundo que eu conhecia (tanto meus colegas quanto os adultos) tinham considerado que minha venda ilegal de sorvetes era uma coisa totalmente justa. Para falar a verdade, eu tinha at� recebido muitos elogios. Ainda assim, o fato � que era uma atividade ilegal, porque eu estava vendendo sem licen�a.</p><p>Mas aquilo era de fato ilegal? Ser� que algumas dessas leis n�o eram feitas para n�o serem cumpridas? No fim das contas, o que n�s est�vamos tentando fazer era conseguir algum dinheiro de forma honesta, n�o � verdade? Por outro lado, est�vamos tamb�m ajudando a melhorar a experi�ncia de ir � praia para milhares de nova-iorquinos, que de outra forma teriam que andar muito at� o cal�ad�o (que estava cheio de lascas e farpas) e ficar esperando na fila da barraca de sorvete, que era tocada por um jovem de cara amarrada que provavelmente cuspia no lanche no momento em que as pessoas viravam as costas. Portanto, qualquer um poderia argumentar que Elliot e eu est�vamos praticando uma �boa a��o�, apesar do fato de que, tecnicamente falando, est�vamos infringindo a lei.</p><p>� Bem, a resposta mais curta aqui � que � disse eu ao Canalha � n�s est�vamos realmente infringindo a lei. Era uma venda sem licen�a, o que, para melhor ou pior, era uma contraven��o classe B no Estado de Nova York. Para ir mais adiante, tamb�m �ramos culpados de evas�o de imposto de renda, porque est�vamos faturando 20 mil pratas no ver�o sem declarar um centavo disso. Avan�ando ainda mais um pouco, quando fiz 18 anos comecei a vender tamb�m colares de conchinhas. Pensei o seguinte: j� que eu estava andando pela praia toda oferecendo sorvetes, por que n�o tirar vantagem do mercado mal servido das bijuterias? � disse e dei de ombros de um modo bem capitalista. � Ent�o fui at� o distrito das joalherias em Chelsea, comprei mais de mil colares de conchinhas e contratei alguns garotos do gin�sio para andar pela praia comigo. Eu tinha tr�s moleques como meus empregados, e eles cobravam 4 d�lares em cada colar. Meu custo era de apenas 50 centavos cada pe�a, de forma que, mesmo depois de pagar 50 pratas por dia para cada um dos meninos, eu ainda tinha um lucro de 200 d�lares. Era muito mais dinheiro que eu ganhava com meus sorvetes!</p><p>Continuei:</p><p>� Mas � claro que os moleques n�o eram registrados, e eu n�o estava pagando impostos por aquilo que eles vendiam. Sem mencionar o fato de que eu os tinha vendido pela praia tamb�m sem licen�a. Ent�o n�o era mais s� eu que estava infringindo a lei, eu estava corrompendo um monte de jovens inocentes tamb�m. A certa altura, coloquei minha m�e no neg�cio. Fazia com ela acordasse �s 5 da manh� para fazer bagels na manteiga, os quais eu vendia entre 9 e 11 horas da manh�, antes que o sol estivesse alto o suficiente para estimular a venda dos sorvetes. Havia todas as leis da Vigil�ncia Sanit�ria que eu estava violando, por preparar alimentos em um local que n�o tinha sido inspecionado, apesar de minha m�e manter uma cozinha de fato impec�vel, pois ela era <emphasis>kosher</emphasis>. Por isso, acho que ningu�m nunca ficou doente. Mas, ei, tudo aquilo foi em nome do capitalismo � moda antiga, ent�o eu realmente n�o estava infringindo a lei, estava? Foi tudo muito inofensivo, tudo muito louv�vel. � Olhei para o Canalha e sorri. � Como voc� disse, Joel, aquela era uma forma muito honesta para um garoto ganhar seu dinheiro � fiz uma pausa, para deixar minhas palavras ecoarem nas pessoas. � De qualquer forma, eu poderia continuar por muito tempo nisso, mas acredito que voc�s tenham compreendido meu ponto de vista: todo mundo, incluindo meus pais, cumpridores das leis, achou que vender sorvetes era a melhor coisa na face da Terra. Era a iniciativa de um empreendedor! Mas a quest�o �, existe mesmo essa coisa de crime justo? Quando foi que eu cruzei a linha com os sorvetes? Bem no comecinho, quando decidi vender sem obter a licen�a apropriada? Ou quando recrutei aqueles garotos do gin�sio? Ou quando envolvi minha m�e? Ou quando escolhi n�o pagar os impostos�</p><p>Respirei fundo e disse:</p><p>� Quero que voc�s entendam uma coisa: voc� n�o come�a no lado negro da for�a, a menos, evidentemente, que seja um sociopata, e espero que todos saibam que eu n�o sou um � todos assentiram em concord�ncia. Em um tom mais s�rio, acrescentei: � O problema � que voc� se torna insens�vel com as coisas, voc� cruza a linha um pouquinho e nada de ruim lhe acontece, ent�o voc� acha que tudo bem dar um passo al�m, s� que ent�o � um passo maior. � da natureza humana fazer isso, seja um cara viciado em adrenalina, seja um drogado ou mesmo se n�o for viciado em coisa nenhuma; voc� est� simplesmente mergulhando o p� em uma banheira de �gua fervente. No come�o voc� nem consegue manter o ded�o l� dentro, porque a �gua est� quente demais. Mas depois de um ou dois minutos todo o corpo est� mergulhado l� dentro e a �gua est� gostosa.</p><p>Continuei:</p><p>� Quando fui para a Universidade Americana, todas essas coisas acabaram sendo refor�adas. Comecei a namorar uma garota de fam�lia muito rica, cujo pai estava no ramo de encaderna��o. Seu nome era David Russell e ele valia milh�es. N�o surpreendentemente, ele achou que aquilo que eu andava fazendo na praia era a melhor coisa de todos os tempos. Na verdade, um dia ele deu uma grande festa na casa dele e me fez desfilar por todos os lados dizendo: �Este � o rapaz de quem eu estava falando!�. E me fez contar a todo mundo a hist�ria de como eu acordava de madrugada, ia �s 6 da manh� no tal distribuidor grego para encher minhas geladeiras de isopor com sorvetes italianos e depois ficava caminhando pela praia de barraca em barraca oferecendo meus produtos, fugindo dos guardas que corriam atr�s de mim por vender sem licen�a. E, � claro, at� o �ltimo de seus convidados achou que aquilo era a melhor coisa que eles j� tinham ouvido. E faziam brindes para mim. �Para o milion�rio de amanh�!�, diziam eles.</p><p>Sorri com essa lembran�a.</p><p>� Eu s� estava no primeiro ano da faculdade, era um calouro naquela �poca, mas eu tinha certeza de que eles tinham raz�o. Eu sabia que seria rico um dia, e assim tamb�m pensavam meus amigos. Mesmo quando eu trabalhava na praia, sempre ganhei o dobro de qualquer outro vendedor. E nem estou computando aqui os p�es com manteiga ou os colares de conchinhas. O que acontecia era apenas que eu trabalhava mais duro e por mais tempo que qualquer outra pessoa, at� mesmo que Elliot, que tamb�m era um trabalhador incans�vel. Mas no final do dia, quando ele e eu nos sent�vamos para fazer as contas, eu sempre o superava em pelo menos 50%.</p><p>Fiz uma pausa para recuperar o f�lego e dediquei alguns momentos para avaliar a temperatura de meus captores. O que eles estariam pensando? Eu me perguntei: ser� que eles poderiam ter algum tipo de conex�o com uma pessoa como eu? Eu era de uma ra�a � parte. No caso da Bruxa, �ramos de uma esp�cie diferente. De qualquer maneira, todos pareciam perplexos. Estavam apenas l�, sentados, olhando para mim, como se eu tivesse um parafuso solto ou coisa parecida.</p><p>Pulei para meus primeiros anos de vida adulta.</p><p>� Ent�o, depois que terminei a faculdade, decidi estudar odontologia, porque queria ganhar muito dinheiro. � engra�ado como isso parece rid�culo agora, o fato de eu achar que a odontologia seria um caminho para fazer fortuna, mas acho que toda a fala��o de minha m�e em meus ouvidos enquanto eu estava crescendo acabou exercendo grande impacto sobre mim � dei de ombros. � Na verdade, eu achava que minha �nica alternativa era fazer medicina, mas me tornar um m�dico me pareceu uma insanidade a longo prazo. Somando-se o est�gio, a resid�ncia, o mestrado, tudo me parecia muito fora de alcance. Ent�o eu perdi o MCAT<sup>*</sup> por dormir demais, o que praticamente acabou com tal possibilidade. Como eu poderia dizer � minha m�e que tinha perdido os exames que ela vinha esperando que eu fizesse praticamente desde o dia em que sa� do ventre dela? Ela ficaria de cora��o partido! Ent�o conclu� que, sendo o bom filho que eu era, o melhor seria mentir para minha m�e; disse a ela que tinha decidido n�o fazer a prova porque achava que ser m�dico n�o era o melhor para mim. Afirmei e garanti que ser dentista era meu futuro � balancei a cabe�a lentamente, impressionado pela maneira como tinha selado meu destino tantos anos antes. � Agora chegamos � parte da hist�ria em que toda a verdadeira loucura come�a: meu primeiro dia na faculdade de odontologia � sorri cinicamente. � Voc�s j� ouviram a velha express�o de que todas as estradas levam a Roma?</p><p>Todos assentiram, concordando.</p><p>� Certo� Bem, em meu caso, todas as estradas levavam � Stratton, e eu pisei nessa estrada logo no primeiro dia, que era o de orienta��o. Est�vamos todos sentadinhos no audit�rio da faculdade, 110 estudantes, esperando para ouvir as primeiras palavras de sabedoria do reitor. Eu me lembro desse dia como se fosse ontem. Estava correndo os olhos em volta do audit�rio, tentando avaliar meus competidores, tentando descobrir se todos eles tamb�m eram esfomeados por dinheiro como eu ou se alguns deles estavam l� apenas pelo amor � odontologia. Tipo servir � humanidade e coisas assim � balancei a cabe�a, como se minhas �ltimas palavras desafiassem a l�gica.</p><p>� A sala estava lotada, metade de homens e metade de mulheres. O reitor estava de p� na frente, atr�s de um p�dio barato de madeira. Ele parecia um cara bem decente, na faixa de seus 50 anos, e razoavelmente bem-vestido. Tinha cabelos grisalhos, que o faziam parecer um homem bem-sucedido, respeit�vel e muito odontol�gico, pelo menos na minha maneira de pensar. Mas ele tinha um tipo de express�o sombria no rosto, como se fizesse hora extra � noite, como um diretor de penitenci�ria estadual� � <emphasis>Como voc�, Joel, seu sarnento!</emphasis> � Mas, apesar disso, ele ainda parecia um cara basicamente legal. Ent�o, quando ele pegou o microfone que estava no p�dio, me inclinei para a frente na cadeira para ouvir. Em uma voz surpreendentemente profunda, ele disse: �Quero acolher todos voc�s aqui na Faculdade de Cirurgia Dent�ria de Baltimore. Voc�s todos merecem ficar muito orgulhosos hoje, porque foram aceitos em uma das melhores escolas de odontologia do pa�s�. E ele fez uma pausa, deixando suas palavras pairando no ar. At� agora, tudo bem, pensei. Ent�o, o reitor voltou a falar: �O que voc�s v�o aprender ao longo dos pr�ximos quatro anos vai lhes garantir um lugar de destaque na sociedade, assim como uma vida de razo�vel conforto. Ent�o, por favor, deem a si mesmos uma calorosa salva de palmas, porque com certeza merecem. Bem-vindos! Bem-vindos!�. Ele levantou seu microfone e todo mundo come�ou a aplaudir, na hora certa. Todos, exceto eu, porque me senti arrasado, sabendo exatamente naquela hora que tinha cometido um erro terr�vel � girei o pesco�o para um lado e para o outro, tentando fazer com que aquela lembran�a n�o me chateasse demais. � Foi a maneira como ele tinha usado a palavra <emphasis>razo�vel</emphasis>. Era uma palavra forte para caralho, pelo amor de Deus! Aquele cretino sabia, ele sabia, porra, que a idade de ouro da odontologia j� tinha acabado, por isso ele n�o conseguiu dizer que a gente iria ter conforto <emphasis>total</emphasis>. Aquele puto se esquivou e disse �<emphasis>razo�vel</emphasis> conforto�, o que � uma coisa completamente diferente. No entanto, para minha surpresa total, quando olhei ao redor da sala, ningu�m mais parecia preocupado com isso. Todo mundo estava muito bem e feliz, batendo palmas alegremente, <emphasis>l� l� l�</emphasis>, e todos com uma express�o de expectativa no rosto. Os dentistas de amanh�! Eu nunca vou me esquecer disso, pelo menos nunca vou esquecer a ironia disso, porque, enquanto eles estavam ocupados batendo palmas, eu estava a ponto de cortar meus pulsos.</p><p>Fiz uma pausa e soltei um suspiro profundo. Com uma pitada de tristeza em meu tom de voz, disse:</p><p>� A verdade � que eu sabia que tinha cometido um erro bem antes disso, eu sabia desde que era crian�a. O que eu quero dizer �: quem eu achava que estava enganando? Eu n�o tinha paci�ncia para ficar tanto tempo estudando � balancei a cabe�a em resigna��o. � Tinha nascido com apenas a metade da equa��o: era esperto como um chicote e tinha o dom da palavra, mas n�o tinha paci�ncia. Eu queria ficar rico rapidamente, queria tudo na hora. Essa foi minha ru�na. E depois de ganhar tanto dinheiro na praia durante todas aquelas f�rias de ver�o, estava com gosto de sangue na boca. Eu era como um acidente esperando para acontecer. Como um carro de corrida de alto desempenho zunindo pela estrada a 200 quil�metros por hora: ou eu ganhava a corrida ou queimava como o �nibus espacial. Aquilo poderia acontecer de um jeito ou de outro.</p><p>Apertei os l�bios e balancei a cabe�a gravemente.</p><p>� Bem, infelizmente, meus instintos tinham acertado bem no alvo. Assim que os aplausos terminaram, o reitor levou o microfone � boca e disse: �Eu quero que todos voc�s ou�am um pequeno segredo: a idade de ouro da odontologia j� terminou�. Ele assentiu com a cabe�a uma �nica vez. �Se voc� est� aqui simplesmente porque quer ganhar um monte de dinheiro, est� no lugar errado. Ent�o, siga meu conselho, saia agora e nunca mais volte. H� maneiras melhores no mundo para ficar rico; evite essa dor de cabe�a�. Ent�o, ele disse algumas coisas mais, que entraram e sa�ram por meus ouvidos, porque eu estava muito ocupado procurando uma sa�da de inc�ndio. Ent�o, ele enfiou a faca mais profundamente. �Lembre-se, seu objetivo � praticar a odontologia preventiva. Ent�o, se voc� praticar sua profiss�o direito, ver� seus pacientes cada vez menos.� E come�ou a assentir com a cabe�a v�rias vezes, como se tivesse acabado de soltar uma grande p�rola de sabedoria. O reitor come�ou a falar de novo, embora eu n�o estivesse mais ouvindo. Na verdade, o que eu fazia era pedir passagem nesse momento. �Com licen�a, desculpe, licen�a��, enquanto caminhava para fora do audit�rio, bem no meio do discurso. Lembro-me de receber alguns olhares curiosos no meio do caminho e tamb�m me lembro de n�o dar a m�nima para eles � fiz uma pausa na minha hist�ria para causar mais efeito. � Foi assim que desisti da faculdade de odontologia em meu primeiro dia, e foi tudo culpa do reitor. A �nica quest�o era como dar a not�cia � minha m�e.</p><p>� Isso � terr�vel � exclamou a Bruxa. � Ela deve ter ficado arrasada!</p><p>A Bruxa comprimiu os l�bios finos e me encarou amea�adoramente.</p><p>Ora, ora, ora, pensei. A Bruxa sentia pena de minha m�e, afinal! Aparentemente, a bondade da minha m�e era irresist�vel.</p><p>Eu disse:</p><p>� Sim, Michele, minha m�e teria ficado muito chateada se eu tivesse contado a ela, o que, � claro, n�o fiz � e dei de ombros, como o bom filho que era. � Eu a amava demais para ser honesto com ela. Al�m disso, ela era minha m�e, e eu estava mentindo para ela desde que tinha cinco anos � olhei para a Bruxa com um sorriso travesso. � Ent�o, por que diria a verdade a ela naquele momento, certo, Michele?</p><p>A Bruxa respondeu sem palavras, apenas com dois espasmos de seu nariz.</p><p>Caramba! Balancei a cabe�a rapidamente, tentando me livrar de seu feiti�o.</p><p>� De qualquer forma � disse eu, com certo tremor em meu tom de voz �, contei a ela que a faculdade de odontologia estava �tima e, ent�o, me escondi em Maryland por quatro meses, onde me exercitava o dia todo e ficava tomando sol. Baltimore � um lugar muito bonito nessa �poca do ano, de forma que o tempo passou rapidamente. Como ainda sobrava dinheiro de meus sorvetes na praia, vivi bastante bem nesse tempo. No final, fiz um leil�o de meus equipamentos de dentista para suplementar as coisas. Todas as brocas, cinz�is, almofadas de gaze, eles nos fizeram comprar toda essa merda antes de come�armos as aulas, ent�o eu estava com toda essa tralha.</p><p>Co�ando a cabe�a, o TOC perguntou:</p><p>� Voc� realmente fez um leil�o de seus equipamentos odontol�gicos? S�rio?</p><p>Eu balancei a cabe�a, concordando.</p><p>� Pode apostar que sim! Na verdade, espalhei cartazes por todo o campus e consegui at� um bom p�blico � sorri, orgulhoso. � Veja, Greg, eu j� estava bem consciente da import�ncia da oferta e da demanda ent�o. Eu sabia que, se quisesse ter um leil�o bem-sucedido, precisaria ter muitos interessados. Ent�o, fiz propaganda � dei de ombros, agora de forma capitalista. � Voc� devia ter visto o leil�o, foi mesmo de arrebentar. Ele aconteceu no laborat�rio, em meio a bicos de Bunsen e pipetas, e uns 50 ou 60 alunos compareceram, a maioria usando avental branco. Eu usava uma daquelas viseiras de pl�stico azuis, parecia um agente de apostas. De in�cio, eles ficaram um pouco t�midos, ent�o usei um pouco de teatralidade. Comecei falando bem depressa, como um leiloeiro de verdade faria, e em seguida as coisas come�aram a rolar. �O.k., o.k.�, eu disse rapidamente, �tenho aqui uma m�quina realmente r�pida, de alta velocidade, fabricada pelos nossos bons amigos l� da Star Dental Labs. Ela � de a�o inoxid�vel, resfria sozinha e gira em 20 mil rpm. Ela vem na caixa, com garantia vital�cia. Basta olhar para ela, � de fato uma beleza!� E levantei a broca para inspe��o p�blica. �Ela � uma necessidade absoluta�, disse. �Um item obrigat�rio para qualquer dentista que leve a s�rio um tratamento dent�rio de primeira a seus pacientes. Nova em folha, ela lhe custaria 950 d�lares. Ser� que eu teria uma oferta inicial de 200 d�lares? Tenho 200? Estou esperando 200 d�lares!�</p><p>E continuei:</p><p>� Ent�o, um garoto com cabelo vermelho e �culos de aro de tartaruga levantou a m�o e disse: �Eu vou lev�-la por 200!�, ao que eu disse, �Excelente! Temos uma oferta inicial de 200 d�lares de um rapaz muito esperto de avental branco e �culos de aro de tartaruga. Eu teria uma oferta de 250? Algu�m tem 250? <emphasis>Caramba!</emphasis> Vamos, pessoal, � uma pechincha! Lembrem-se, essa broca tem autorrefrigera��o e lan�a jatos de �gua para evitar o ac�mulo de calor. � a mais avan�ada que existe�� A� uma garota asi�tica de pele impec�vel e corpo parecendo um hidrante ergueu a m�o e disse com uma voz ansiosa: �Eu pago os 250!�, e eu respondi: �Ahhh, temos um lance de 250 daquela linda mocinha de branco, que sabe muito bem aproveitar uma pechincha! Parab�ns, senhorita!�. E fui seguindo desse jeito at� que toda a sala estivesse em transe.</p><p>Fiz uma pausa para retomar o f�lego de minha narrativa. E ent�o, cheio de orgulho, continuei:</p><p>� Arrecadei mais de 3 mil d�lares naquele dia. Foi o primeiro dia em toda minha vida em que me senti como um vendedor de verdade. Eu era bom naquilo. Meu <emphasis>rap</emphasis> de leiloeiro sa�a f�cil da minha boca, como se n�o houvesse amanh� � sorri com a lembran�a. � Perto do fim do leil�o, o reitor entrou na sala, veio andando at� mim e ficou ali, olhando. Depois de um minuto, ele balan�ou a cabe�a e caminhou para longe, muito aturdido para comentar qualquer coisa. Tenho certeza de que foi o primeiro leil�o feito nas depend�ncias da faculdade de cirurgia dent�ria de Baltimore e tamb�m estou certo de que foi o �ltimo. E foi um grande sucesso, devo acrescentar.</p><p>Naquela altura da narrativa, todo mundo na sala estava rindo, at� mesmo a Bruxa e o Canalha. Era um bom sinal, pensei, ent�o decidi saltar direto para a insanidade do neg�cio de carne e frutos do mar em que me meti.</p><p>� O que eu esqueci de mencionar, por�m, foi o que me inspirou a realizar o leil�o naquele dia.</p><p>� Voc� disse que estava ficando sem fundos para se manter em Baltimore � disse o TOC.</p><p>Dei de ombros sem me comprometer.</p><p>� Isso teve a ver com a hist�ria, sim, mas n�o era o que realmente estava me motivando. O que aconteceu foi que, alguns dias antes, eu tinha recebido um telefonema de Elliot, o Pinguim. Eu estava em casa, no momento em que ele ligou, deitado na cama e olhando para o teto, perguntando o que diabos eu ia fazer com o resto da minha vida. Na �poca eu morava em um pequeno apartamento nos arredores de Baltimore e tinha duas pe�as de mobili�rio: a cama e um sof� cujo tecido de revestimento estava meio apodrecido. O Pinguim tinha ido morar no Queens e, quando ele me telefonou, estava muito agitado, quase sem f�lego. Ele disse: �Acabo de descobrir um meio de ganhar dinheiro na praia durante o ano inteiro. Estou trabalhando como vendedor de uma empresa que distribui carne e frutos do mar e faturo 250 por dia, em dinheiro. Eles at� me deram um ve�culo da empresa�. Acho que foi a �ltima parte da frase que mais me chocou. �S�rio?�, respondi, �eles lhe deram um carro? Nossa, mas isso � incr�vel.� E o Pinguim respondeu: �Pois �, posso lhe arranjar um emprego l�, se voc� quiser�.</p><p>Fiquei pensando naquela �poca e nas palavras do Pinguim.</p><p>� Refletindo sobre isso, eu deveria ter percebido que alguma coisa n�o estava muito correta. Lembrem-se, Elliot n�o chegou a me dizer que eles tinham dado um carro da empresa, ele disse �ve�culo da empresa�, o que � uma forma bastante esquisita de mencionar esse benef�cio, n�o acham? O que quero dizer � que, se voc� for trabalhar na IBM e receber um carro da empresa, voc� n�o vai se referir a ele como �ve�culo�, vai dizer �A IBM me deu um carro da empresa�, oras! Ainda assim, o pensamento de ganhar dinheiro na praia durante todo o ano era t�o atraente que eu decidi n�o me angustiar com esse tipo de coisa. Antes de desligar, ainda perguntei a Elliot: �Tem certeza de que eles v�o me contratar, Elliot? Eu n�o tenho uma experi�ncia real em vendas!�.</p><p>E comecei a rir.</p><p>� Voc�s n�o t�m ideia de como essa pergunta era ir�nica � e comecei a balan�ar a cabe�a.</p><p>� O que ela tem de t�o ir�nico? � perguntou o Canalha, sem emo��o. � Eu n�o entendo.</p><p>� Bem, � que empresas como a Great American Meat and Seafood, o nome da empresa onde Elliot trabalhava, est�o sempre � procura de vendedores. O mesmo vale para empresas como a Stratton Oakmont ou Monroe Parker ou Aspiradores Kirby ou qualquer outra empresa que precise de vendedores falantes e que recebam na base da comiss�o � parei de falar e refleti sobre aquela �poca. � No caso da Stratton, a gente costumava testar os candidatos com a prova do espelho, ou seja, a gente punha um espelho debaixo do nariz da pessoa e esperava que ele emba�asse. Se ficasse emba�ado, o cara estava contratado, se n�o, ele estava morto e essa seria a �nica raz�o pela qual n�o seria contratado; a menos que fosse um corretor licenciado, que a gente nunca iria contratar mesmo, porque seria algu�m que sabia demais. Quer�amos que nossos corretores fossem jovens e ing�nuos, famintos e idiotas � dei de ombros. � D�-me algu�m assim e eu farei com que ele fique rico, sem nenhum problema. Mas d�-me algu�m com c�rebro e imagina��o, bem, a� � um pouco mais dif�cil. Mas, voltando � hist�ria, passei mais alguns minutos ao telefone com o Pinguim, ouvindo-o piar sobre como era maravilhoso esse neg�cio de carne e de frutos do mar: �� tudo comida da mais alta qualidade para os restaurantes�, foi o que ele me assegurou, �Nada al�m do melhor entre o melhor�. Quer dizer, a coisa toda parecia boa demais para ser verdade, mas Elliot nunca foi um mentiroso. Ele era um pouco ing�nuo, talvez, mas definitivamente n�o era um mentiroso. Ent�o coloquei de lado meu ceticismo, fiz as malas, lotei meu Mercury Cougar 1973 e fui para Nova York soltar a bomba na casa de meus pais. Era fevereiro de 1985. Eu tinha 22 anos na ocasi�o. E toda a vida pela frente.</p></section><section><p>CAP�TULO 7</p><p><strong>O NASCIMENTO DE UM VENDEDOR</strong></p><p>� Quer dizer ent�o que pegou suas coisas e foi embora? � perguntou a Bruxa, mexendo a cabe�a para tr�s e para a frente.</p><p>� Sim � respondi casualmente �, foi exatamente isso que eu fiz. E parti com tudo o que eu tinha no mundo, ou seja, uma mala cheia de roupas sujas e a camisa que estava vestindo. E, claro, os 3 mil d�lares faturados no leil�o. Quando olho para tr�s e relembro essas coisas, fico espantado com a facilidade que foi juntar minhas coisas e partir de Baltimore. O apartamento onde eu vivia era um daqueles que voc� paga m�s a m�s, eu n�o tinha m�veis com os quais me preocupar, e minhas obriga��es financeiras eram basicamente inexistentes. O �nico problema era que eu estaria morando na casa de meus pais novamente, e posso garantir que n�o era nada f�cil. Os dois ainda estavam morando naquele mesmo apartamento de dois dormit�rios onde cresci, justamente o mesmo apartamento para onde jurei nunca mais voltar depois que ficasse rico�</p><p>Fiz uma pausa e cocei o queixo, pensativo.</p><p>� Na verdade, eles ainda est�o morando nesse mesmo apartamento, apesar de todo o dinheiro que meu pai ganhou na Stratton � balancei a cabe�a com espanto. � D� pra imaginar isso? Eu at� me ofereci para comprar uma casa para eles quando as coisas estavam bem, mas eles n�o quiseram se mudar de l�. Pode-se dizer que eles s�o os �ltimos sobreviventes daquelas antigas criaturas de h�bitos�</p><p>� E ent�o voc� deu a not�cia a eles� � o Canalha me interrompeu, impaciente.</p><p>� Bem, achei que seria mais f�cil se eles digerissem as novidades em pequenas doses, de forma que, antes de sair de Baltimore, j� tinha avisado a meus pais que iria desistir da faculdade de odontologia; n�o informei naquele momento que iria trabalhar como vendedor da empresa de carnes e frutos do mar� Soltei a bomba sobre os dois na sala de estar, que era o local onde todas as conversas familiares importantes aconteciam. Meu pai estava sentado em sua cadeira favorita e minha m�e, no sof�, lendo um livro. Por alguma raz�o, ainda me lembro qual livro era� Sobre a morte e o morrer� � dei de ombros. � Sei l�, minha m�e sempre gostou dessas coisas meio m�rbidas� Meu pai, enquanto isso, se distra�a assistindo ao �ltimo epis�dio de um seriado policial e fumando, completamente desligado do que acontecia a sua volta. Naquele momento, sentei-me em frente a meu pai e disse: �Preciso conversar com voc�s dois um pouquinho�. Meu pai olhou para minha m�e e falou, em um tom de voz um pouco irritado, �Lee, d� pra desligar a TV por um minuto?�; minha m�e colocou o livro de lado e praticamente correu para desligar a antiga Trinitron. Era assim o relacionamento entre meus pais, Mad Max e Santa Leah. Ela passou a melhor parte de sua vida tentando evitar que ele queimasse um fus�vel emocional.</p><p>E continuei:</p><p>� Seja como for, eu disse a eles: �Olhem, essa coisa de ser dentista n�o � para mim. Tentei um semestre inteiro e agora tenho absoluta certeza de que n�o serei feliz nessa profiss�o�. Claro que era mentira, mas eu percebi que se contasse a eles que tinha desistido j� no primeiro dia, os dois iriam ficar realmente chateados. Seja como for, minha m�e n�o estava aceitando muito a ideia. �Eu nunca pensei que fosse ser dentista para sempre�, disse ela. �Eu achava que voc� iria abrir uma rede de cl�nicas odontol�gicas um dia, ou ent�o iria descobrir um novo procedimento, n�o sei. Mas ainda n�o � tarde demais�� �N�o, m�e, j� � tarde demais, sim, eu n�o vou voltar�, e ent�o olhei para meu pai, pedindo seu apoio. Ele, de fato, era melhor nessas situa��es. Ele adorava uma boa crise; parecia acalm�-lo de algum jeito, e isso acontece at� hoje. Eram as pequenas coisas que o deixavam louco da vida. Eu disse a ele: �Ou�a, pai, eu n�o quero ser dentista, quero ser vendedor. � para isso que eu sirvo, para vender coisas e��. E ent�o minha m�e pulou do sof� e gritou: �Ah, meu Deus, Max! Vendedor, n�o! Tudo menos isso!�. Ent�o ela se virou para mim e disse: �Olha o que voc� j� me causou�. Depois abaixou a cabe�a e apontou para uma pequena mecha de cabelos grisalhos: �Isso foi quando voc� largou o col�gio e ficou fumando maconha o dia inteiro com aquele horr�vel Richard Kushner!�. Logo apontou para uma ruga na testa e continuou: �E isso � de quando voc� inventou de plantar maconha no quarto e disse que era um projeto da aula de ci�ncias! E agora voc� est� saindo da faculdade de odontologia para se tornar um vendedor!�.</p><p>� Eu estava lentamente perdendo a paci�ncia com ela. Com um pouco de irrita��o no meu tom de voz, retruquei: �Eu n�o vou voltar para aquela faculdade, m�e, e isso � definitivo!�. E ela: �N�o � definitivo, nada!�. E eu: �� sim�. E ficamos naquela de bater e rebater at� que finalmente Mad Max se intrometeu na discuss�o: �Voc�s querem parar com isso?�, gritou ele. �Caramba!� E balan�ou a cabe�a, descrente. Ent�o olhou para minha m�e e disse: �Ele n�o vai voltar para a faculdade, Leah. Qual � a utilidade?�. Em seguida, olhou para mim e sorriu calorosamente. Com um leve sotaque brit�nico, perguntou: �Que tipo de vendedor voc� gostaria de ser, filho? O que voc� se v� vendendo?�.</p><p>� Seu pai � brit�nico? � perguntou o TOC. � Eu n�o sabia disso � o tom da voz dele deixava transparecer alguma surpresa, como se algu�m tivesse lhe dado algumas informa��es muito ruins.</p><p>� N�o, ele n�o � realmente brit�nico � respondi. � Ele s� fala com sotaque brit�nico quando est� tentando agir e se comportar de forma mais razo�vel. Essa � a outra persona de meu pai: <emphasis>Sir</emphasis> Max. � seu <emphasis>alter ego</emphasis> am�vel. Quando Mad Max se transforma em <emphasis>Sir</emphasis> Max, ele franze os l�bios e come�a a falar com uma pitada de aristocracia brit�nica. � bastante not�vel, na verdade, considerando que ele nunca sequer visitou a Inglaterra � curvei os cantos da boca e encolhi os ombros. � Algumas coisas simplesmente desafiam a l�gica, e n�o vale a pena ponderar sobre isso. Mas <emphasis>Sir</emphasis> Max � o melhor. Ele nunca perde a paci�ncia. Ele � totalmente razo�vel em todas as situa��es.</p><p>� Ent�o, o que voc� disse a <emphasis>Sir</emphasis> Max? � perguntou o Canalha.</p><p>� Bem, de in�cio hesitei e falei de forma meio evasiva, especulando sobre a possibilidade da venda de suprimentos m�dicos ou dent�rios, algo que se encaixasse no meu n�vel, digamos, superior de educa��o. Mas depois, como uma segunda hip�tese, trouxe � baila o assunto de Elliot Loewenstern e a carne e os frutos do mar. Minha m�e, � claro, imediatamente come�ou a me torturar, usando a t�pica culpa judaica, que � aquela culpa judaica recorrente e comum mesclada a agressividade e passividade sarc�stica. �Meu filho, um vendedor de carne!�, ela come�ou a murmurar. �Mas que maravilha! Ele larga a faculdade para vender bife. O que uma m�e poderia pedir mais?� Ela come�ou a proferir mais algumas palavras desse naipe e, em seguida, o telefone tocou. <emphasis>Sir</emphasis> Max se transformou de novo em Mad Max e passou a xingar: �Esse maldito filho da puta, esse peda�o de merda de telefone! Quem diabos tem a ousadia de ligar para essa casa nessa porra de ter�a-feira � tarde? � um insens�vel!� Minha m�e pulou do sof� e correu para o telefone como se fosse Jesse Owens, enquanto implorava a meu pai: �Acalme-se, Max! Acalme-se! J� vou atender, j� vou atender!�. Mas Mad Max ainda estava murmurando palavr�es em voz baixa: �Esse rato desgra�ado! Quem � o imbecil que liga para essa casa numa maldita tarde de ter�a-feira?�.</p><p>Com um falso ar de seriedade, expliquei:</p><p>� Meu pai realmente detestava quando o telefone tocava! Juro, n�o havia <emphasis>nada</emphasis> que o deixasse mais maluco.</p><p>� Por qu�? � perguntou TOC.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Em grande parte, acredito que tenha a ver com o fato de que ele � resistente a mudan�as. Ele odeia mudan�as em qualquer tamanho ou forma. Veja, nos �ltimos 36 anos ele manteve o mesmo endere�o, o mesmo n�mero de telefone, a mesma oficina mec�nica, at� mesmo a mesma lavanderia chinesa! Ele conhece todos os propriet�rios dessas lojas e desses servi�os pelo nome, ent�o ele fala assim: �O Pepe�, se referindo � tinturaria, ou �o Wing�, para a lavanderia, ou �o Jimmy�, do posto de gasolina, entendeu?<sup>1</sup> � uma coisa totalmente inacredit�vel � balancei a cabe�a para tr�s e para a frente, enfatizando esse ponto. � Quando o telefone toca, ele traz um est�mulo indesej�vel a seu ambiente, criando potencial para uma mudan�a. N�o importa se o telefonema traz uma not�cia boa ou ruim, isso n�o faz diferen�a para ele; Mad Max fica doido da mesma maneira. � Dei de ombros de novo, como se fosse apenas mais um acontecimento esperado no Chez Belfort. Ent�o disse: � Sob circunst�ncias normais, a pior coisa que minha m�e pode dizer depois que pega o telefone �: �Max! � para voc�!�. Mas, uma vez que Mad Max pega o telefone, ele se torna <emphasis>Sir</emphasis> Max novamente, usando seu sotaque brit�nico: �Em que posso <emphasis>ajud�-lou</emphasis>? Ah, <emphasis>certou</emphasis>! <emphasis>Espl�ndidou</emphasis>, <emphasis>amigou!</emphasis>�. E ele fica assim, como <emphasis>Sir</emphasis> Max, at� que desliga o telefone e volta imediatamente a Mad Max de novo, amaldi�oando enquanto volta para sua cadeira e acende mais um cigarro. De qualquer forma, quando minha m�e atendeu ao telefone naquele dia, a liga��o n�o era para meu pai. Era para mim e, entre todas as pessoas do mundo, era justo o Pinguim. E ent�o meu pai come�ou a resmungar: �Essa merda desse telefone! � sempre a mesma coisa. E esse porra desse merda do Pinguim! De que buraco esse filho da puta saiu? � um vagabundo que nem sabe andar direito��.</p><p>A essa altura da hist�ria, todos n�s est�vamos chorando de rir, e o primeiro a se recuperar foi o Canalha:</p><p>� Ent�o Mad Max ficou louco com sua hist�ria de ser vendedor de carne?</p><p>� Nem tanto � respondi. � No momento em que desliguei o telefone, eu lhes disse que tinha conseguido um emprego como vendedor de carne e frutos do mar, o que quase fez Santa Leah desmaiar e possibilitou que <emphasis>Sir</emphasis> Max ressurgisse. � Fiz uma pausa por alguns instantes e depois disse � Meus problemas s� come�aram mesmo no dia seguinte, quando o Pinguim parou em frente ao meu pr�dio em seu ve�culo da empresa, que era uma picape Toyota. �Que porra � essa?�, perguntei. �N�o me diga que esse � o ve�culo da empresa sobre o qual voc� estava falando!�. E o Pinguim respondeu: �Sim, n�o � uma beleza?�. E ent�o saiu da picape, vestindo jeans e t�nis, e gingou at� perto de mim, colocando a m�o em meus ombros. Ele olhou para o Toyota e perguntou: �O que voc� acha?�. �� um belo peda�o de merda!�, rosnei, e depois notei um grande freezer na carroceria da picape. �Que porra � essa, Pinguim? Parece um caix�o!� Eu vi um rastro de fuma�a de gelo seco cinza elevando-se a partir de um dos cantos do freezer. �E aquela bosta, o que �?�, perguntei, apontando para a coluna de fuma�a. Elliot me lan�ou um sorriso e, levantando o dedo indicador, disse: �Venha, eu vou mostrar!�. Ele foi gingando at� o lado do passageiro e abriu a tampa da geladeira. �D� uma espiada na comida!�, disse orgulhosamente, puxando as caixas, uma a uma, e me mostrando a comida. Cada caixa tinha o tamanho de uma pequena mala e trazia um corte diferente de carne ou um tipo diferente de peixe ou de frutos do mar. Havia de tudo l� dentro: fil�-mignon, camar�o, lagosta grelhada, cordeiro, costeletas de porco, vitela, fil� de linguado, fil�s de salm�o, patas de caranguejo. Ele tinha at� comidas j� preparadas, como frango kiev e frango <emphasis>cordon bleu</emphasis>. Eu nunca tinha visto nada como aquilo�</p><p>� Quando ele acabou de mostrar tudo, est�vamos cercados por mais de duas d�zias de caixas, e eu estava mais confuso que nunca. Eu sabia que havia algo me incomodando, mas n�o conseguia dizer o que era. �Como vamos conseguir que os restaurantes comprem isso de n�s?�, perguntei. �Nossos pre�os s�o mais baixos, nossa carne � melhor, o que �?� O Pinguim me olhou impass�vel e disse: �Quem falou sobre venda para restaurantes?�.</p><p>Olhei para o Canalha e balancei a cabe�a. Com um espasmo que indicava uma risada, disse:</p><p>� Naquele instante, achei que j� sabia de tudo, e o que veio depois disso foi meramente incidental. Quando eu decidi n�o correr de volta para casa e refazer minha matr�cula na faculdade de odontologia, selei meu destino � encolhi os ombros. � A d�cada seguinte de minha vida, quer dizer, a insanidade da Stratton Oakmont, era ent�o uma conclus�o precipitada.</p><p>O Canalha se inclinou para a frente em sua cadeira, obviamente intrigado.</p><p>� O que o faz dizer isso? � perguntou.</p><p>Eu pensei por um momento.</p><p>� Bem, vamos apenas dizer que ali, naquele momento, eu sabia muito bem no que estava me envolvendo. Eu sabia que tudo aquilo era um� � eu evitava usar a palavra <emphasis>golpe</emphasis>, n�o s� porque aquele neg�cio de carne e frutos do mar n�o era um golpe indiscut�vel, mas tamb�m porque n�o desejava que meus captores me vissem como um golpista de carteirinha. Era melhor que eles enxergassem a Stratton como uma manchinha na vida de algu�m at� ent�o semicumpridor da lei � � era um pouco de confus�o � continuei, com cuidado. � Ou talvez at� mais que um pouco. Mas pensei o seguinte: j� que a comida era t�o boa, que mal poderia fazer?</p><p>Dei de ombros � minha pr�pria racionaliza��o.</p><p>� Enfim, eram mais ou menos 20 minutos de viagem at� o dep�sito, e no caminho Elliot me explicou os pr�s e os contras. Tudo estava sendo vendido de porta em porta, para donas de casa ou empresas, mas nunca a restaurantes. Desse modo, n�o havia como estabelecer um pre�o fixo. �N�s vendemos no varejo, n�o no atacado�, o Pinguim me informou. E, embora ele n�o tenha dito isso claramente, acredito que sugeriu que nossos pre�os n�o eram baixos. �Trata-se da conveni�ncia�, disse ele. �N�s entregamos comida de qualidade de restaurante diretamente na sua casa. E at� organizamos seu freezer com elas!�, ele repetia a �ltima parte nomeando-se um empacotador profissional de freezers, como se isso compensasse o fato de estar cobrando um pre�o exagerado pela comida.</p><p>� Bem, quer fosse um pre�o alto ou n�o, o fato � que, quando chegamos ao dep�sito, eu j� tinha uma boa ideia do que estava acontecendo na Great American Meat and Seafood: n�o havia territ�rios, brochuras, clientes que devessem ser atendidos nem sal�rios de qualquer tipo. Era tudo na base da comiss�o. �N�s somos m�quinas de capta��o de clientes�, disse o Pinguim assim que entramos no armaz�m. �� por isso que ganhamos tanto dinheiro.� Minha entrevista de trabalho ocorreu dentro de um escrit�rio desorganizado na parte da frente do armaz�m. Durou oito segundos e meio, depois dos quais fui contratado. Eu ainda n�o tinha ouvido falar do teste do espelho na �poca, ent�o apenas supus que tinha conseguido o trabalho porque era amigo de Elliot. N�o sabia at� ent�o que eles iriam contratar qualquer um que tivesse batimentos card�acos comprovados � dei de ombros inocentemente. � E ent�o veio o programa de treinamento, que consistiu em dois dias em uma picape com Elliot. Sentei-me no banco do passageiro, observando, enquanto ele dirigia sem rumo, batendo na porta da casa das pessoas, tentando vender a comida. O discurso que ele usava era o de ser motorista de uma picape e ter um excesso de carga que n�o podia levar de volta para o freezer, por isso estava disposto a vender tudo a pre�o de custo, antes que a comida descongelasse e ele perdesse a mercadoria. E, para apoiar sua alega��o, cada caixa tinha um pre�o inflacionado marcado nela. Enquanto estava vendendo, o Pinguim chamava a aten��o para os pre�os e come�ava a dizer �Eu aceito 15 d�lares por essa caixa e 15 d�lares por aquela caixa��. E, em seguida, sorria para o cliente e acrescentava: �Ei, eu prefiro vender a pre�o de custo a deixar descongelar tudo, certo?�.</p><p>� Ele estava mentindo descaradamente na cara de seus clientes! � rosnou a Bruxa.</p><p>Eu sorri por dentro.</p><p>� Sim, Michele, ele estava mentindo para seus clientes. Quero esclarecer que isso definitivamente me chocou no in�cio. Aquilo que ele estava fazendo me parecia totalmente desprez�vel. Totalmente viscoso, nojento, sacana. Mas, � claro, o Pinguim tinha uma racionaliza��o para tudo, inclusive para essa atitude. Est�vamos em algum lugar da costa sul de Long Island quando abordei o assunto com ele. Elliot estava ao volante, em busca de �territ�rio virgem�, que era um termo �pinguinz�stico� para um bairro do qual nunca ningu�m tinha ouvido falar antes. Era in�cio de tarde, e eu j� o tinha visto fazer seu discurso mais ou menos meia d�zia de vezes at� ent�o, embora n�o tivesse vendido nenhuma caixa ainda. Foi quando comecei a falar: �N�o consigo acreditar no golpe que � isso aqui, Elliot. Tem certeza de que isso � mesmo legal?�. Elliot olhou para mim como se eu tivesse acabado de cair de um caminh�o de nabo e disse: �Olha quem est� falando, seu hip�crita do caralho! Voc� n�o � o cara que costumava raspar o fundo das geladeiras de isopor para vender mais algumas bolas de sorvete?�. E deixou escapar uma bufada. �Isso aqui n�o � diferente, amiguinho. Al�m disso, as pessoas n�o podem nem mesmo encontrar essas caixas de comida no supermercado.� Eu balancei a cabe�a e disse: �Sim, sim, eu entendo que a comida � �tima e estou muito feliz com tudo, mas nada disso muda o fato de que voc� � um mentiroso de merda!�. Parei por um momento e, em seguida, acrescentei: �E quanto a esse coment�rio de eu raspar o fundo da geladeira, isso s� aconteceu por acidente, foi uma coisa meio autom�tica�. �Claro, claro que foi�, chiou o Pinguim. �Foi tudo um acidente. N�o dava para deixar o gelo separado de lado sem misturar, n�o.� Ele revirou os olhos para mim. �Enfim, o que estou fazendo com os pre�os � uma coisa que acontece em todos os lugares. S�rio. Basta voc� andar em qualquer loja de joias ou de eletr�nicos e conferir. Todo mundo age assim.�</p><p>Fiz uma pausa, deixando as palavras de Elliot pairando no ar. Ent�o disse:</p><p>� N�o h� como negar que ele tinha raz�o em um ponto. Voc� v� isso em joalherias o tempo todo. Eles aumentam os pre�os e depois remarcam as etiquetas bem na sua frente, e assim voc� pensa estar fazendo um grande neg�cio � fiz nova pausa e continuei. � E esse lance de ter excesso de pedidos na picape n�o � muito diferente de todas essas lojas que voc� v� anunciando �queima de estoque�, �fechando a loja� ou coisa parecida. A maioria delas fica anunciando que vai sair do mercado por dez anos, e dez anos depois elas ainda estar�o saindo do mercado�</p><p>Respirei fundo e continuei:</p><p>� De qualquer forma, passamos a maior parte do primeiro dia trabalhando em bairros de classe m�dia, batendo na porta das pessoas e tocando a campainha. A rejei��o foi absolutamente impressionante. Portas foram batidas em nossa cara a torto e a direito, com as pessoas basicamente nos dizendo para irmos para o inferno. Por volta das 2 horas da tarde, Elliot estava ficando pessimista. Ele come�ou a se lamentar para mim: �Ningu�m quer comprar comida hoje� � balancei a cabe�a e comecei a rir. � Aquilo foi triste de ver. Quer dizer, o pobre coitado estava quase chorando! Na praia, todo mundo nos amava, �ramos tratados quase como celebridades por l�. Mas ali n�s �ramos tratados como leprosos. Ainda assim, de alguma forma o Pinguim conseguiu descarregar 12 caixas naquele dia, e no dia seguinte ele descarregou outras 16 � balancei a cabe�a lentamente, ainda muito impressionado com a persist�ncia dele. � Uma coisa que posso dizer sobre o Pinguim � que ele � um cara implac�vel. Ele se manteve vagando de porta em porta, batendo e tocando campainhas at� que os n�s dos dedos ficassem quase sangrando, mesmo enquanto engolia as l�grimas. Mas ele estava faturando em m�dia 300 d�lares por dia em comiss�es, portanto aquilo valia algumas l�grimas. Quer dizer, isso era muito dinheiro naquela �poca, especialmente para um moleque que tinha acabado de cair fora da faculdade de odontologia. Ent�o, foda-se, eu pensei. Apesar de saber que era sacanagem, resolvi que era uma coisa que valia a pena tentar.</p><p>Fiz uma pausa e olhei para o TOC.</p><p>� Voc� quer adivinhar o que aconteceu a seguir?</p><p>TOC sorriu e balan�ou a cabe�a algumas vezes.</p><p>� Nem consigo imaginar�</p><p>� Na verdade � retruquei �, de fato voc� n�o conseguiria imaginar, porque ningu�m naquela empresa conseguiria. J� que o pre�o parecia ser a maior obje��o das pessoas, ent�o porque n�o tentar vender para os mais ricos? Ou melhor, para as pessoas ricas que eu conhecia? O problema era que eu realmente n�o conhecia ningu�m rico, exceto pelo pai da minha namorada na faculdade, David Russell. Mas era uma situa��o que podia ser meio complicada, porque ele e sua esposa tinham acabado de se separar e eu n�o tinha ideia de onde ele estava vivendo. Ela, eu sabia, ainda estava vivendo na mans�o em Westchester, mas eu n�o podia simplesmente bater � porta dela. Ela nunca gostou de mim, embora eu n�o possa imaginar por que � olhei para a Bruxa e disse: � O que h� para n�o gostar, certo, Michele?</p><p>A Bruxa n�o disse nada nem sorriu; ela simplesmente ergueu a fina sobrancelha esquerda como se questionasse: �Voc� est� brincando comigo, certo?�. Dei de ombros e disse:</p><p>� Bem, acho que ela teve suas raz�es. Mas, deixando isso de lado, tomei a melhor decis�o que podia e fui at� seu vizinho � balancei a cabe�a uma �nica vez, o que denotava a corre��o daquela minha decis�o. � Sim � contei com orgulho �, eu estacionei minha picape Toyota bem na frente da enorme porta do vizinho e pulei do carro, subindo a escada e batendo na porta. Lembro-me de tudo como se tivesse acontecido ontem. Era uma enorme casa no estilo colonial, com persianas de cor verde-floresta, e a porta da frente era maior que aquela que conduzia � Cidade das Esmeraldas. Era pintada de vermelho escuro e devia ter umas mil m�os de verniz sobre ela. Continuei batendo, at� que, finalmente, depois de um minuto, uma senhora de seus 60 anos e apar�ncia gentil, com cabelos grisalhos e �culos de vov�, veio at� a porta e me disse: �Posso ajud�-lo, meu jovem?�. Ofereci a ela um sorriso triste e respondi: �Talvez a senhora possa. Meu nome � Jordan e eu entrego carnes e frutos do mar para alguns de seus vizinhos na regi�o. Eu tenho um excesso de produtos na minha picape hoje e n�o posso levar isso de volta para o freezer. Estou disposto a vender-lhe tudo a pre�o de custo�. Lancei a ela meus grandes e tristes olhos azuis de cachorrinho e acrescentei: �Tem algum jeito de a senhora me ajudar?�. Ela olhou para mim por alguns segundos e, depois, em um tom maduro e repleto de ceticismo, perguntou: �Quem s�o esses vizinhos para quem voc� faz entregas?�. Sem perder o ritmo, respondi: �Para os Russells aqui ao lado�. De repente, me ocorreu que ela podia realmente telefonar para eles, ent�o rapidamente acrescentei: �Na verdade, era para o senhor Russel, David, como ele gostava de ser chamado�, e ent�o apertei os l�bios e balancei a cabe�a tristemente. �Mas, como sabe, com tudo que vem acontecendo por l� com essa hist�ria do div�rcio, eles n�o t�m comprado muita coisa de mim ultimamente�.</p><p>� A senhorinha de fato ficou comovida com isso, e seu tom imediatamente suavizou. �Eu posso imaginar�, disse ela, com tristeza. �� terr�vel essa coisa de div�rcio!�. De repente, ela se animou e perguntou: �Bem, meu filho, o que voc� tem no caminh�o hoje?�. Eu levantei o dedo indicador e disse: �Espere um minuto e j� voltarei!�. Corri para a picape, peguei uma caixa de cada e fui trope�ando pelo caminho com uma d�zia de pacotes. Empilhei todos eles e segurei essa pilha, que ficava quase uma cabe�a mais alta que eu. Quando cheguei at� a porta da casa, a mulher disse: �Est� congelando a� fora, porque n�o traz isso tudo aqui para o hall?�. Ela fez sinal em dire��o a um hall de m�rmore cinza, que era grande o suficiente para pousar um avi�o. �Humm, obrigado�, agradeci, soltando um par de �bvios grunhidos e gemidos. �Estas caixas s�o muito pesadas.� Ent�o, enquanto passava � frente da senhora, comentei: �A senhora est� certa sobre estar muito frio l� fora. � brutal!�. Ent�o, ca� sobre meus joelhos e depositei a pilha de caixas sobre o piso de m�rmore, deixando que fizessem um ru�do exagerado.</p><p>Fiz uma pausa e encarei meus captores.</p><p>Eles todos pareciam estar mais chocados que aborrecidos com aquela maravilhosa s�rie de mentiras que eu havia contado para a velha senhora. O que eles n�o tinham ideia, por�m, � que as maiores lorotas ainda estavam por vir. � evidente que eu n�o deveria me aprofundar em todos os detalhes sobre como havia convencido a gentil senhora a comprar todas as 40 caixas de carnes e de frutos do mar que eu trazia em minha picape. Esse n�o era o tipo de coisa que faria meus captores me respeitarem, mas parece que eu simplesmente n�o conseguia parar. Estava come�ando a sentir uma alegria irracional por voltar a explorar o passado, quando eu ainda era um vendedor iniciante. Al�m disso, enquanto eu estava ocupado falando sobre o passado, ficava sem tempo de me concentrar no presente, ou seja, na dura realidade em que minha vida havia se transformado. Ent�o, segui em frente, com prazer.</p><p>� Bem, eu tenho de dizer uma coisa a voc�s � voltei a falar, com um pouco de petul�ncia escorregando das minhas palavras �, existem algumas ocasi�es na vida de um jovem, momentos decisivos em que alguma coisa t�o <emphasis>extraordin�ria</emphasis> acontece que ele sabe que nada nunca mais ser� como era � fiz uma pausa para dar mais efeito. � Aquela ocasi�o foi uma delas. Eu tinha vendido sorvetes na praia antes, mas aquilo n�o tinha sido de fato <emphasis>vender</emphasis>, tinha mais a ver com o trabalho duro e o desejo de ser bem-sucedido. E mesmo aquele pequeno leil�o na faculdade de odontologia n�o tinha sido de fato uma experi�ncia na arte de vender, embora tivesse sido definitivamente um passo adiante. Mas quando olhei para o rosto sorridente daquela senhora, bem� � adicionei um toque sobrenatural ao meu tom de voz � um estranho sentimento tomou conta de mim, quase m�gico, na verdade. Era como se eu soubesse exatamente o que a mulher precisava ouvir, melhor ainda, exatamente o que eu precisava dizer a ela para convenc�-la a comprar tudo.</p><p>E continuei:</p><p>� Eu abri a primeira caixa e fiz um gesto com a palma da m�o para os 12 maravilhosos fil�s-mignons, cada um deles embalado individualmente em pl�stico transparente. �S�o de Black Angus�, expliquei com orgulho, �com 4 cent�metros de espessura. Eles foram rapidamente congelados e mantidos assim de uma forma pr�xima � perfei��o e podem durar at� um ano em seu freezer, minha senhora�. Eu balancei a cabe�a orgulhosamente, chocado com a facilidade como toda aquela merda rolava para fora de minha boca. �Os restaurantes grelham esses fil�s durante 7 minutos de cada lado e depois servem com molho <emphasis>b�arnaise.</emphasis>� Ent�o olhei direto nos olhos dela e disse com a m�xima convic��o: �Essa carne � t�o macia que se pode fati�-la com um garfo!�. Depois coloquei a caixa de lado e fui abrir a seguinte. �Aqui s�o caudas de lagosta da �frica do Sul�, expliquei. �Separe cada uma e divida ao meio, espalhe a manteiga com alho e, depois de 20 minutos no forno pode se esbaldar�. E segui em frente, fazendo um pequeno discurso sobre o conte�do de cada uma das caixas e informando que de uma delas eu tinha mais tr�s na picape e de outra eu tinha mais quatro caixas. Finalmente, quando todas as caixas j� estavam abertas e n�s dois est�vamos rodeados por carnes e peixes e frutos do mar, fiz um gesto apontando os pre�os e disse: �Posso aceitar 15 d�lares por caixa, que � meu custo, e mais nada. Pode acreditar, madame, a senhora n�o vai encontrar esses produtos nem nos supermercados, de t�o bons que eles s�o!�.</p><p>� Depois de alguns momentos, ela me disse: �Bem, eu adoraria ajudar voc�, meu jovem, porque me parece um rapaz muito bom. Mas � que somos apenas meu marido e eu, e n�o sei o que far�amos com tanta comida assim�. Ela pensou por alguns segundos antes de continuar: �Al�m disso, eu dificilmente terei espa�o em meu freezer para armazenar tanta coisa�, e deu de ombros tristemente. �Sinto muito.� Eu olhei para ela e balancei a cabe�a lentamente. �Eu compreendo totalmente o que a senhora est� me dizendo, mas deixe-me, por favor, explicar uma coisa. Acontece que eu sou um embalador profissional de freezers e aposto que consigo dar um jeito de caber e, de repente, at� limpar algumas coisas enquanto fa�o isso. E n�o apenas irei embalar as coisas para a senhora em seu freezer, mas tamb�m estou disposto a passear com o cachorro, esfregar o ch�o, cortar seu gramado e pintar sua casa�. Levantei as m�os espalmadas em dire��o � senhora: �N�o que sua casa precise disso ou coisa parecida, mas o que estou tentando lhe dizer � que farei qualquer coisa para conseguir vender essas caixas de comida hoje�. Pressionei meus l�bios para dar mais efeito. �Veja, se minha comida descongelar, perco meu emprego, n�o posso permitir que isso aconte�a, porque estou tentando entrar na faculdade.� De repente, um pensamento maravilhoso borbulhou em meu c�rebro. Mordi o l�bio inferior e disse: �A senhora tem netos, por acaso?�. Bem, ela sorriu depois da pergunta. Acho que deixei seu dia melhor, de fato. �Ah, sim!�, respondeu ela com um largo sorriso. �Tenho cinco netos e todos eles s�o maravilhosos!� Eu sorri em resposta e disse: �Tenho certeza de que s�o preciosos. Ent�o, por que a senhora n�o organiza um grande churrasco para eles? Seria uma �tima ocasi�o para reunir toda a fam�lia. E ent�o poder� contar a eles sobre esse jovem rapaz t�o educado que apareceu aqui e lhe vendeu toda essa comida maravilhosa! A senhora pode at� mesmo dar um pouco para eles levarem para casa�. Ergui as sobrancelhas e assenti ansiosamente: �Na verdade, eu mesmo posso entregar a comida para eles! Apenas me chame de volta, e eu passarei aqui com minha picape!�. Ela refletiu sobre isso por alguns segundos e ent�o disse: �Tudo bem, eu tenho um freezer extra na garagem. Voc� pode colocar l�. �Ah, meu Deus�, eu declarei. �Muito obrigado, minha senhora. A senhora salvou minha vida! O que gostaria? Eu tenho todos os tipos de alimentos preparados tamb�m, como frango kiev, frango <emphasis>cordon bleu</emphasis>, caranguejo � <emphasis>thermidor</emphasis>, que � especialmente delicioso��, e que por acaso era o item com maior <emphasis>markup</emphasis> que eu tinha. A mulher sorriu para mim e disse: �Eu acho que vou levar tudo. Quer dizer, n�o quero que voc� perca seu emprego, certo?�.</p><p>Fiz uma pausa e me recostei na cadeira, olhando para o Canalha.</p><p>� E foi simples assim, ela comprou toda a carga que eu trazia na picape de uma tacada s� � dei de ombros. � Claro, eu me senti um pouco culpado por mentir para aquela senhora, mas a comida, bem, aquilo era de alto n�vel, para n�o mencionar o fato de que eu sozinho a inspirei a organizar uma reuni�o de fam�lia. Ent�o foi tudo bem, certo?</p><p>� Sim, foi tudo bem � rosnou o Canalha.</p><p>Eu ignorei seu sarcasmo.</p><p>� Certo, foi tudo bem. Na verdade, foi tudo t�o bem que, na minha primeira semana na empresa, vendi 240 caixas, o que foi mais que o dobro do recorde da empresa. E foi assim que tudo come�ou. A partir da�, uma cadeia de acontecimentos bizarros me levou para o mercado de a��es e, em seguida, para a Stratton. Deixe-me conduzi-los por esse caminho na ordem em que os fatos aconteceram.</p><p>O Canalha aquiesceu uma vez com a cabe�a.</p><p>� Por favor, fa�a isso.</p><p>Respondi com outro aceno.</p><p>� Tudo come�ou com o escrit�rio da Great American. Foi como se toda a for�a de vendas da empresa subitamente pegasse fogo. A produ��o de todo mundo praticamente dobrou, de alguns caras at� triplicou. Foi como se eu tivesse aberto uma tranca, um novo campo de possibilidades em rela��o ao dinheiro que podia ser feito se voc� trabalhasse duro e vendesse os produtos da maneira certa. Depois de uma semana, o gerente veio falar comigo e me perguntou se eu n�o poderia ajudar no treinamento dos novos vendedores. O nome dele era P. J. Cammarata. Ele disse: �Voc� bombou este escrit�rio, Jordan, voc� bombou de um jeito que n�o se consegue acreditar�� e bl�-bl�-bl�. Ele ficava falando sobre como eu tinha feito bem todas as coisas e tal�</p><p>Fiz uma pausa, chocado pela maneira como minhas lembran�as desse momento eram bastante l�mpidas.</p><p>� Quando olho para tr�s e vejo o que aconteceu, penso que aquilo foi a �nica coisa inteligente que aquele sujeito disse na vida. Vejam, fazer essa press�o � crucial, porque sem ela a for�a de vendas murcha e morre mais r�pido do que voc� pode imaginar.</p><p>� Ent�o voc� concordou em treinar os vendedores? � perguntou o Canalha.</p><p>� Sim, mas por raz�es ego�stas. Eu j� estava pensando em come�ar minha pr�pria empresa, era apenas uma quest�o de quando iria fazer isso. Pensei em comprar meu pr�prio caminh�o, ir at� o mercado de carnes e fazer o atacado tamb�m. Era o que eu tinha feito na praia todos aqueles anos e tinha dado muito certo � encolhi os ombros. � Ent�o comecei a treinar os vendedores e rapidamente percebi que tinha um talento especial para isso. Na verdade, eu era t�o bom que podia pegar praticamente qualquer moleque na rua e transform�-lo em um vendedor de carnes. Algumas semanas depois, P. J. me perguntou se eu daria uma palestra sobre vendas para o pessoal interno, para aumentar a motiva��o e a press�o.</p><p>Fiz uma pausa, refletindo sobre aqueles acontecimentos por um momento.</p><p>� � bastante ir�nico o fato de que um idiota como P. J., com seus jeans sujos e sua jaqueta de funcion�rio, tenha instigado um dos momentos definidores da minha vida. Veja, acima de tudo, era minha capacidade de falar diante da multid�o, coordenando reuni�es de vendas para os strattonitas, que residia no centro do meu sucesso. Foi isso o que manteve a bomba funcionando todos esses anos, apesar de todos os problemas regulat�rios que tivemos.</p><p>� As reuni�es? � o Canalha perguntou, me interrompendo.</p><p>� Sim, as reuni�es. � o que separa ou, devo dizer, o que separou a Stratton das outras corretoras do pa�s. Duas vezes por dia eu ficava diante de todos na sala de reuni�es, pregando para os corretores. Ningu�m em Wall Street tinha feito isso antes. Ocasionalmente uma corretora trazia um orador convidado, algu�m como um Anthony Robbins da vida, mas foi sempre um neg�cio de um tiro s�, n�o como parte de um programa regular. E isso � uma completa perda de tempo, quer dizer, fazer isso apenas uma vez. Se voc� quer resultados, tem de faz�-lo todos os dias; se voc� realmente quer muitos resultados, voc� tem de faz�-lo duas vezes por dia, uma de manh� e outra � tarde. Ent�o, os milagres podem acontecer. Mas � claro que eu ainda n�o sabia de nada disso em meus dias de Great American� Embora eu seja obrigado a lhes dizer que minha primeira reuni�o foi de fato uma verdadeira revela��o. Aconteceu dentro do armaz�m, em Forest Hills, no Queens. Havia uns 20 vendedores l�, a maioria deles com 20 e tantos anos. Estavam todos vestidos de jeans e t�nis, tentando se parecer com motoristas de caminh�o. Eles estavam dispostos em um c�rculo e eu de p�, no centro. No come�o, falei devagar, exaltando a qualidade da comida, como ela era excepcional, destacando o fato de que n�o havia nada parecido no mercado e de como nossos clientes eram sortudos por ter acesso a ela. Em retrospecto, eu estava come�ando a lan�ar as bases de um culto, embora na �poca eu n�o tivesse consci�ncia disso. E o fato de que�</p><p>TOC levantou a m�o:</p><p>� O que voc� quer dizer com �lan�ar as bases de um culto�?</p><p>Olhei para ele e respondi:</p><p>� Deixe-me colocar desta forma: no cora��o de qualquer culto, seja ele a Stratton Oakmont, a Great American ou aqueles Davidianos loucos de Waco, no Texas, a cren�a fundamental � de que n�o interessa o que o resto do mundo est� dizendo, todos s�o loucos e eles n�o. E, sem exce��o, tudo sempre come�a com a cren�a na justi�a de sua causa. Com os extremistas mu�ulmanos, isso se demonstra em uma interpreta��o distorcida do Alcor�o, com o Ramo Davidiano � uma interpreta��o distorcida da B�blia, e na Stratton foi a sala de reuni�es em si, o grande equalizador em um mundo que era, de outra forma, injusto. Em outras palavras, n�o tinha a menor import�ncia se voc� nascera em uma fam�lia sem <emphasis>pedigree</emphasis>, se s� tinha estudado at� o ensino fundamental ou se seu QI era muito baixo. Uma vez que entrasse na sala de reuni�es da Stratton, tudo isso ficava para tr�s. Voc� se igualava aos outros e poderia, a partir da�, ganhar tanto dinheiro quanto o mais poderoso CEO do pa�s � dei de ombros, como se isso fizesse parte das coisas mais b�sicas.</p><p>E continuei:</p><p>� Todos os cultos sugam seu poder de um conceito como esse, de que eles possuem algum tipo de vantagem em rela��o ao mundo. No caso da Great American, era o fato de eles venderem um tipo de comida que n�o se conseguia encontrar nos supermercados; com a Stratton, era a promessa de ficar rico, mesmo que n�o tivesse completado o ensino fundamental e s� merecesse trabalhar como atendente de uma loja de conveni�ncia � dei uma risadinha ir�nica. � Foi por isso que eu disse antes: �Eu quero os jovens e os pouco instru�dos, os jovens e os ing�nuos�. Porque eles se tornam os melhores membros dessa seita.</p><p>E disse mais:</p><p>� Enfim, de volta � primeira reuni�o, depois de alguns minutos dizendo aos vendedores como aquela comida era boa, as palavras come�aram a jorrar em torrentes. Era uma sequ�ncia perfeita de pensamentos, derramando-se de minha boca. E, antes mesmo que eu percebesse, estava ali pregando a eles, falando em detalhes �ntimos sobre coisas que nunca tinham me ocorrido antes. E, mesmo assim, eu parecia ser o maior especialista do mundo nesses assuntos: coisas como a diferen�a entre vencedores e perdedores, o poder do pensamento positivo e como ser o mestre de seu pr�prio destino. Eu me tornei mais t�cnico e mergulhei na arte de vender, explicando como abrir e fechar uma venda, como modular a velocidade e o tom de sua voz para manter as pessoas interessadas e a import�ncia de ser implac�vel, de n�o aceitar um n�o como resposta e bater nas portas at� que os dedos comecem a sangrar. �Voc� deve isso a si mesmo!�, disse aos vendedores. �Voc� deve isso a si mesmo, voc� deve isso � sua fam�lia e, mais importante, voc� deve isso �quelas pessoas em cujas portas est� batendo, porque a comida que est� vendendo � t�o incr�vel que cada pessoa que a comprar lhe ser� eternamente grata!�</p><p>Parei por um momento, depois continuei.</p><p>� N�o tenho como estimar quanto fiquei perplexo com minha pr�pria capacidade de falar assim. Foi uma coisa que saiu completamente sem esfor�o e que me deu uma gratifica��o instant�nea. Eu podia ver nos olhos de cada vendedor. Eles adoraram meu discurso, eles me amavam. E, quanto mais eu falava, mais eles me amavam. Com o tempo, descobri que essas reuni�es eram uma atividade que preenchia um buraco dentro de mim. Era simplesmente o sentimento mais incr�vel que tive, voc� n�o pode nem imaginar � sorri tristemente diante daquela lembran�a. � Mas, � claro, como tudo o mais, eu me tornei insens�vel a ela. E com o passar do tempo, l� na Stratton, quando eu estava dando palestras para um campo de futebol cheio de corretores, eu j� n�o sentia esse mesmo influxo. Da� o buraco come�ou a ficar maior�</p><p>Fiz uma nova pausa, deixando que as implica��es dessa frase envolvessem os ouvintes. Ent�o, disse:</p><p>� Foi por isso que sa� em busca de outras coisas, como as drogas, o sexo e a vida no limite. No in�cio dos anos 1990, a fofoca em Wall Street era de que eu tinha uma atra��o pela morte. Mas eu nunca pensei dessa forma: eu s� achava que estava vivendo a vida da forma como ela se apresentava para mim, colocando um p� na frente do outro e andando por um caminho predeterminado. Mas o caminho acabou se tornando a trilha de minha pr�pria destrui��o, e fui derrubado por minhas pr�prias a��es.</p><p>Nenhuma resposta. A sala de interrogat�rio estava silenciosa agora. De fato, dava para ouvir um alfinete caindo. E ent�o continuei com minha hist�ria:</p><p>� Eu me lembro do rosto dos vendedores como se fosse ontem. Mas o rosto que fica mais n�tido em minha lembran�a � o de Elliot. Ele parecia totalmente hipnotizado. Parecia que ia sair correndo do armaz�m naquele exato instante e esmurrar a primeira porta que encontrasse. Foi desse modo que aquele encontro o afetou, e foi quando afetou nosso relacionamento. Porque antes disso n�s nos consider�vamos iguais, mas depois da reuni�o ambos ficamos com a certeza silenciosa de que, a partir de ent�o, eu seria o �nico a dar as cartas. Foi mais ou menos duas semanas depois, eu me aproximei dele para falar da ideia de abrir nossa pr�pria empresa de carnes e frutos do mar. �Por que a gente tem que pagar a eles 20 d�lares a caixa�, eu disse, �se a gente pode ir ao mercado de carnes por nossa conta?�. Mas a lavagem cerebral que tinha sido feita no Pinguim fora t�o arraigada que ele retrucou: �Mas e quanto � comida? Onde a gente vai encontrar uma comida t�o boa quanto a deles?�.</p><p>Ri sozinho com essa lembran�a.</p><p>� D� para imaginar uma coisa dessas? Quer dizer, o cara tinha sofrido uma lavagem cerebral t�o profunda que ele realmente estava convencido de que a comida vendida pela Great American era t�o boa que ele n�o poderia bater � porta da casa das pessoas sem ela. Era quase ris�vel. Tudo bem, a comida era boa, mas era s� boa, n�o era <emphasis>�tima</emphasis>! Os fil�s n�o eram de primeira e o peixe era congelado, n�o era peixe fresco. Por isso, fui obrigado a desprogramar o Pinguim, retirando-o daquela seita. De certa forma, foi f�cil fazer isso. �Mas que porra h� de errado com voc�, Pinguim? Aquela comida � apenas razo�vel, pelo amor de Deus! Portanto, v� se toma jeito, caralho!� Ent�o eu sorri calorosamente e disse: �Olha, n�s vamos encontrar fil�s ainda melhores que os deles e vamos arrumar peixes mais frescos. E ent�o vamos contratar vendedores nossos, que ir�o de porta em porta para n�s, e ficaremos ricos!�. Foi assim que Elliot e eu entramos no neg�cio de carnes e frutos do mar. N�s t�nhamos o plano perfeito: era quase ver�o, por isso a gente ia vender sorvetes durante o dia e amarrar todas as pontas soltas de nosso empreendimento � noite. Com o dinheiro da praia, n�s ir�amos financiar nossa empresa. N�s at� trouxemos outro vendedor da praia para fazer parceria conosco, nosso amigo Paul Burton.</p><p>Fiz um gesto para minha lista de novo, e continuei, casualmente:</p><p>� Ele est� a� tamb�m. Paul estava vivendo com sua m�e naquela �poca, em uma grande casa em Douglaston, no Queens, e, por coincid�ncia, a casa tinha um quintal grande, perfeita para uma empresa de carnes e frutos do mar. Pelo menos, era o que ach�vamos. Mas, apesar de Douglaston ser um bairro muito chique, a casa de Paul era uma bosta. A m�e dele tinha conseguido a casa num div�rcio, coisa de 20 anos antes, e n�o tinha gastado um centavo nela desde ent�o. Era quase como uma casa assombrada, e o quintal n�o era nem um pouco melhor. Tinha uma garagem independente rodeada apenas por lixo e sujeira, com 2 mil metros quadrados de extens�o � sorri nostalgicamente. � Ainda assim, era absolutamente perfeito para n�s. �ramos empres�rios novatos, e come�ar em uma garagem parecia uma coisa muito rom�ntica. Quer dizer, � assim que Steve Jobs e Michael Dell come�aram. Ou talvez tenham come�ado em seus quartos� Bem, seja como for, foi assim que o Pinguim e eu financiamos a n�s mesmos, os Bilion�rios do Amanh�! Na verdade, n�s at� fomos ver um contador para ter certeza de que n�o deixar�amos passar nada!</p><p>Dei de ombros inocentemente e continuei:</p><p>� E foi a� que os problemas come�aram. Ele tinha sido recomendado pelo pai de Elliot, que � um judeu hass�dico. O contador tamb�m era judeu hass�dico e aparentemente tinha tanta experi�ncia com a ind�stria de carnes e frutos do mar quanto tinha em comer costeletas de porco. Depois que n�s explicamos nosso plano de neg�cios a ele, o homem sorriu e disse: �Bem, parece que voc�s dois est�o a caminho de fazer uma fortuna juntos. <emphasis>Mazel tov!</emphasis>�. E ent�o acrescentou: �Voc�s dois ser�o dois jovens muito ricos em breve. Muito, muito ricos�. Bem, o que mais havia a dizer sobre isso? Elliot e eu tomamos as palavras dele como quem necessita desesperadamente de dedu��es de imposto. Ent�o, fomos direto do escrit�rio do contador para o restaurante Palm, onde gastamos 450 d�lares em lagosta e champanhe. Depois, alugamos dois carros esportivos: eu aluguei um Porsche e o Pinguim alugou um Lincoln Continental � revirei os olhos ao lembrar a escolha de autom�vel do Pinguim. � Compramos um celular para cada um, apesar do fato de que, naquela �poca, celulares eram t�o ridiculamente caros que apenas o CEO de uma empresa listada nas 500 maiores da revista <emphasis>Fortune</emphasis> ousaria ter um. De qualquer maneira, tudo aquilo fazia sentido para n�s: �ramos empres�rios, afinal, de forma que, na nossa maneira de pensar, t�nhamos direito a algumas coisas. Com todo o dinheiro que est�vamos economizando por dar o pontap� inicial da empresa no quintal da casa de Paul, ganhamos o direito de nos presentear com alguns luxos b�sicos. Ent�o veio o dia da inaugura��o, 26 de setembro de 1985. Parecia um dia t�o bom quanto qualquer outro para abrir uma empresa de carnes e frutos do mar, mas a M�e Natureza discordava. Pelo menos foi isso que pensei quando o furac�o Gloria colidiu com Long Island e o olho do furac�o passou direto sobre o quintal da casa de Paul. Na verdade, ele encheu o quintal com quase 1 metro de �gua, porque ali era a base para onde convergiam quatro colinas. E assim nossa pequena empresa se tornou uma gigantesca po�a de lama do caralho � balancei a cabe�a espantado. � N�s est�vamos fora do neg�cio antes mesmo de come�ar.</p><p>� Voc� nunca abriu a empresa? � perguntou o Canalha, ceticamente. � Mas no artigo da <emphasis>Forbes</emphasis>�</p><p>A Bruxa o cortou.</p><p>� De acordo com a <emphasis>Forbes,</emphasis> voc� ficou nesse neg�cio por algum tempo � ela inclinou a cabe�a para o lado e olhou para mim de maneira acusadora.</p><p>TOC balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eu n�o acho que ele quis dizer literalmente, Michele.</p><p>� Greg est� certo � respondi, tentando n�o fazer da Bruxa uma inimiga. � E, fazendo um aparte, devo confessar que dar essa entrevista para a <emphasis>Forbes</emphasis> foi um dos maiores erros que cometi na minha vida adulta. Eu estava com apenas 28 anos e era um bocado ing�nuo ent�o� � dei de ombros. � De qualquer forma, pensei que ia ter a chance de contar meu lado da hist�ria, colocar todos os pingos nos Is. A Stratton s� tinha come�ado a operar dois anos antes, de forma que ningu�m tinha ouvido falar de n�s. Mas a mulher que me entrevistou atirou uma machadinha em minhas costas, cunhando-me como <emphasis>uma vers�o distorcida de Robin Hood, que rouba dos ricos e d� a si mesmo e a seu alegre bando de corretores</emphasis> � fiz uma careta com essa recorda��o. � Aquele artigo foi um pesadelo. Um pesadelo do caralho�</p><p>� E voc� perdeu corretores por causa dele? � perguntou o Canalha.</p><p>� N�o � respondi rapidamente �, os corretores amavam a imprensa marrom, sobretudo esse artigo. De fato, no dia seguinte � publica��o da revista, eles vieram trabalhar vestidos em trajes medievais e ficaram correndo e gritando: �N�s somos seu alegre bando! N�s somos seu bando!� � ri com essa imagem do passado. � O que me incomodou no artigo, no entanto, foi a foto que eles usaram. Era horr�vel.</p><p>TOC sorriu com sarcasmo.</p><p>� Voc� quer dizer aquela com voc� em p� ao lado do cano enferrujado? � ele soltou uma risada ir�nica.</p><p>O M�rmon acrescentou:</p><p>� Sim, aquela em que voc� aparece com um sorriso mal�volo!</p><p>Balancei a cabe�a, desgostoso.</p><p>� Sim, sim, sim � murmurei. � O cano enferrujado, como se a Stratton estivesse indo para o ralo. Eu sei tudo sobre isso. O fot�grafo da <emphasis>Forbes</emphasis> me ferrou nessa; primeiro, ele me levou at� o telhado e ent�o, casualmente, me pediu para ficar ao lado do cano da calha de chuva � revirei os olhos. � N�o percebi a sacanagem na �poca, porque estava mais preocupado com meu cabelo enquanto ele batia um milh�o de fotos, esperando at� me pegar no momento certo, quando eu dei aquele sorriso de merda. Essa foi a imagem que eles usaram � balancei a cabe�a, n�o acreditando em minha pr�pria ingenuidade. � E, � claro, o artigo zombou de meus dias na empresa de carnes e frutos do mar, enfatizando a ideia de que eu n�o tinha nada que me meter no mundo das altas finan�as, j� que era um humilde vendedor de bifes e nada mais que isso. Na verdade, o t�tulo do artigo era <emphasis>Bifes, a��es, qual � a diferen�a?.</emphasis></p><p>Olhei para a Bruxa e disse:</p><p>� Mas acontece que voc� est� certa, Michele. Como o artigo apontou, n�s continuamos no neg�cio por mais algum tempo, embora n�o se pudesse categorizar aquilo como um neg�cio. Era mais como correr atr�s do pr�prio rabo ou brincar de pegar a bola � parei para pensar por um momento. � Depois que o furac�o se foi, o quintal da casa de Paul ficou submerso sob 1 metro de �gua. Passamos as duas semanas seguintes tentando nos tirar da lama. E ent�o, do nada, aquele quintal se transformou em um sumidouro e tudo come�ou a entrar em colapso, a come�ar pela garagem, depois o p�tio e em seguida a pr�pria casa. N�s at� chamamos um ge�logo para saber se a casa estava sobre uma falha geol�gica anteriormente desconhecida, mas n�o estava. N�s tivemos outros problemas tamb�m. Compramos um freezer usado muito velho, achando que poder�amos economizar alguns d�lares. Mas aquele tro�o era descontroladamente ineficiente e sugou energia el�trica suficiente para eletrificar Nova Jersey inteira. E, � claro, a fia��o na casa de Paul n�o conseguiu suportar tamanha amperagem � busquei minhas lembran�as por algum tempo. � Acho que foi no in�cio de dezembro que quase pusemos fogo na casa dele. Foi quando sua m�e veio marchando pelo quintal, com uma corda amarrada em volta da cintura para que n�o fosse sugada para o centro da terra, e gritou: �Caiam fora daqui! E levam essas merdas de picapes com voc�s!�.</p><p>Sorri com a lembran�a.</p><p>� Mas a m�e de Paul era uma mulher am�vel e nos deu um m�s para encontrar um novo armaz�m. Aquilo pareceu uma coisa bastante razo�vel na ocasi�o, embora fosse mais f�cil falar que fazer. N�s n�o t�nhamos hist�rico de cr�dito e nosso balan�o era um desastre, de forma que todos os propriet�rios de armaz�ns e galp�es se negaram a fazer qualquer tipo de neg�cio conosco. Havia seis de n�s nesse momento: Elliot, Paul, eu e nossos tr�s funcion�rios, come�ando pelo grande Frank Bua, que, com 1,95 metro, era a imagem cuspida de um beb� de comercial, o Gerber Baby, s� que com barba; depois havia o pequeno George Barbella, que ficava alguns cent�metros acima do <emphasis>status</emphasis> de an�o e parecia o pr�prio diabo; e o intrat�vel peda�o de merda chamado Chucky Jones,<sup>2</sup> que se parecia com o deus n�rdico Thor. S� que, com 1,60 metro e pouco, era o deus Thor depois de ser esmagado. N�o surpreendentemente, cada um de nossos funcion�rios tinha uma disfun��o grave, embora, no caso de Frank, tivesse mais a ver com a esposa dele. Ela sofria de uma doen�a rara chamada <emphasis>alopecia totalis</emphasis>, que fazia com que todos os seus cabelos ca�ssem, at� mesmo os c�lios e as sobrancelhas. A mo�a parecia uma vers�o feminina daquele ator, o Yul Brinner. J� George Barbella era completamente obcecado pela nossa comida, ainda mais que Elliot. Ele costumava reclamar que nossos camar�es tinham sido vitrificados com �gua para aumentar o peso deles. �Quando meus clientes cozinharem esses camar�es jumbo�, gemia, �eles v�o ficar micro!� � dei de ombros inocentemente. � Mas fazer isso com os camar�es era um procedimento da ind�stria, de forma que n�o era culpa minha. Enfim, ele realmente deveria ter se preocupado com a comida cheirando a querosene.</p><p>O Canalha recuou em seu assento.</p><p>� A comida cheirava a querosene?</p><p>� �s vezes � respondi. � A garagem de Paul n�o tinha aquecimento e, quando dezembro estava se aproximando, quase congelamos at� a morte. Ent�o comprei esse aquecedor gigante a querosene, que parecia um torpedo sobre rodas. Ele fez um bom trabalho ao aquecer o lugar, embora fosse mais quente que o Sol e fizesse mais barulho que um F-15 decolando. De vez em quando ele falhava, expelindo uma espessa fuma�a que ca�a na comida. Ainda assim, era bem melhor que ficar congelando � fiz uma pausa para tomar um gole de �gua. � E ent�o tinha a disfun��o do Chucky, que era, entre tantas outras coisas, abaixar as cal�as no meio da garagem e injetar testosterona na bunda. Mas, vendo pelo lado bom, ele tinha um senso de humor fant�stico e deu a cada um de n�s apelidos bem legais: Frank Bua era Gerber Baby, George Barbella era Tattoo, em homenagem ao an�o da <emphasis>Ilha da Fantasia</emphasis>, e Paul Burton era o Tel�o, porque segundo ele, Paul tinha uma testa enorme, t�o grande que daria para projetar um filme nela.</p><p>Eles j� sabiam do apelido de Elliot. Eu estava prestes a falar o meu quando TOC sorriu e disse:</p><p>� Elliot era o Pinguim. E o seu, qual era? � ele estreitou os olhos astutamente. � Deixe-me adivinhar: voc� era Napole�o, certo?</p><p>�Que imbecil�, pensei. A Duquesa costumava me chamar de Napole�o quando estava tentando me irritar! Ela at� me fez colocar a roupa desse pequeno filho da puta para uma festa de Halloween uma vez. Ser� que o TOC tinha ouvido falar disso? Ou ser� que era t�o �bvio assim para todo mundo que eu tinha um complexo de Napole�o? Ou ele tinha apenas adivinhado? Bem, isso realmente n�o tinha import�ncia.</p><p>Eu estava prestes a mandar TOC se foder quando o M�rmon me salvou do problema:</p><p>� Olha quem est� falando! � soltou o M�rmon, e come�ou a rir, como fizeram tamb�m a Bruxa e o Canalha. A mensagem n�o dita era: <emphasis>o TOC e o Lobo de Wall Street t�m complexo de Napole�o!</emphasis></p><p>Mas Magnum, no entanto, n�o ria, recusando-se a zombar da estatura de outro homem; afinal, ele era do tamanho de dois homens crescidos, e tirar sarro de um menorzinho seria inadequado.</p><p>Antes de TOC ter a chance de puxar a arma para o M�rmon, eu respondi:</p><p>� Voc� est� parcialmente certo, Greg, pelo menos acerca de Elliot. O apelido dele n�o era apenas Pinguim, na verdade era Pinguim Suicida. Veja, n�s j� est�vamos � beira da fal�ncia, e Elliot estava � beira do suic�dio. Assim, Chucky costumava circular pelo escrit�rio com o dedo indicador esticado apontando para a t�mpora e o polegar apontando para cima, como se estivesse se preparando para explodir os pr�prios miolos. �Oi, eu sou o Pinguim Suicida�, ele dizia, �e eu entrego carnes e frutos do mar para os restaurantes da cidade. Estou com uma sobra de pedidos extras na minha picape e n�o posso levar de volta para meu freezer�, e ele continuava dizendo isso sem parar, enquanto gingava ao redor da garagem agitando os bra�os como um pinguim. �Ajudem-me! Ajudem-me!�, gritava. �O furac�o Gloria mijou em cima de mim e o aquecedor a querosene est� me sufocando e a mulher do Gerber Baby parece um alien e a m�e do Tel�o est� mandando fechar nosso cinema e� � comecei a rir. � Ele era realmente uma pe�a rara, Chucky, e ent�o um dia� PUF! Ele sumiu. Desapareceu como um peido no vento. Acontece que ele estava roubando lojas de bebidas alco�licas � noite. A �ltima vez que ouvi falar dele foi quando dois detetives vieram at� a garagem tentando descobrir seu paradeiro. Ele deve estar provavelmente morto ou fazendo <emphasis>stand up</emphasis> em algum lugar.</p><p>� Afinal, qual era seu apelido? � perguntou a Bruxa, comprimindo os l�bios finos at� desaparecerem.</p><p>Eu sorri e disse:</p><p>� F�cil, Michele. Chucky me chamava de J. P., que era a abreviatura de J. P. Morgan. Veja, Chucky nunca zombava de mim. Ele acreditava em mim, amava as reuni�es que eu fazia. Depois de cada reuni�o, ele me puxava de lado e dizia: �Que porra voc� est� fazendo nesse neg�cio? Isso aqui n�o est� � sua altura, voc� � o cara mais esperto que conhe�o, J. P.�. Ele me incentivava a desencanar do Tel�o e do Pinguim. �Eles est�o segurando voc�, cara!�, dizia ele. �Afinal, voc� � o J. P. Morgan e eles s�o apenas dois pilantrinhas de merda� � fiz uma pausa, lembrando-me desse conselho. � Ele de fato acertou no alvo em rela��o a Paul, ele era muito pregui�oso para vender de porta em porta. E tamb�m estava certo sobre nossa empresa, ir de porta em porta era uma tarefa de tolos, uma coisa totalmente rid�cula. Mas ele estava enganado sobre Elliot. O Pinguim era um vencedor, no verdadeiro sentido da palavra. Ningu�m trabalhou mais que ele, e ele era completamente leal a mim. N�s ir�amos fazer uma fortuna juntos, embora n�o no neg�cio de carne e frutos do mar. Seria em Wall Street. Primeiro, a gente precisava aprender mais algumas li��es sobre humildade.</p><p>Respirei fundo e disse:</p><p>� Foi em algum momento no final de dezembro que finalmente chegamos ao fundo do po�o. N�s est�vamos literalmente sem um centavo, e a m�e de Paul amea�ava chamar o xerife. Tudo parecia estar perdido; todas as op��es haviam se esgotado. E ent�o algo incr�vel aconteceu, algo totalmente inesperado. Eu tinha acabado de voltar � garagem depois de um dia tortuoso na rua, quando o Pinguim me disse: �Recebi um telefonema estranho hoje de um de nossos fornecedores de carne. Ele me perguntou em que termos a gente queria�. Ele encolheu os ombros, como se estivesse confuso. �Eu n�o sabia sobre o que eles estavam falando, por isso disse que ia pensar no assunto e depois voltaria a telefonar.� �O que esse neg�cio de <emphasis>termos</emphasis> quer dizer?�, perguntei. �Nossos termos para a rendi��o?�. O Pinguim Suicida encolheu os ombros de novo e disse: �N�o tenho a m�nima ideia, mas que diferen�a faz? Nosso freezer est� vazio, e n�o temos dinheiro para comprar comida, ent�o� Isso quer dizer que estamos fora do neg�cio, vamos fechar�.</p><p>Fiz uma pausa e sorri diante da lembran�a de como �ramos pouco sofisticados naquela �poca. N�s n�o t�nhamos a m�nima ideia de que nossos fornecedores estavam dispostos a nos enviar comida a cr�dito. Parecia estranho que eles estivessem dispostos a fazer isso conosco, mas, como eu estava prestes a aprender, aquilo era um procedimento operacional padr�o: todo mundo dava cr�dito. O jarg�o no mundo dos neg�cios foi <emphasis>termos</emphasis>, que � a forma curta para <emphasis>termos de pagamento</emphasis>.</p><p>Com uma pitada de mal�cia em meu tom de voz, eu disse:</p><p>� Depois que eu descobri que nossos fornecedores eram burros o suficiente para nos enviar comida a cr�dito, rapidamente vi que havia uma sa�da. Era simples: crescer com tudo. Ou seja, assumir tanto cr�dito quanto fosse poss�vel e empurrar as condi��es de pagamento para o mais longe poss�vel no futuro. Depois, comprar a maior quantidade poss�vel de picapes, todas elas sem pagamento � vista, coisa que pode ser feita se voc� estivesse disposto a pagar juros de 24%. Mas eu n�o estava preocupado com os pagamentos mensais, porque quanto mais picapes eu tivesse na rua, mais comida estaria vendendo e melhor seria meu fluxo de caixa. Em outras palavras, uma vez que meus fornecedores estavam me dando 30 dias para pagar a comida, e meus clientes me pagavam � vista todos os dias, enquanto eu continuasse vendendo mais e mais meu fluxo de caixa continuaria melhorando sempre. Mesmo que eu n�o estivesse gerando um centavo de lucro em cada venda, ainda estaria gerando caixa, usando os 30 dias de folga.</p><p>O Canalha disse rapidamente:</p><p>� Mas esse � o ABC da administra��o.</p><p>Ah, claro!, pensei cinicamente. O Canalha obviamente n�o poderia apreciar a arte negra do malabarismo com o fluxo de caixa! (Ele era muito honesto para isso.) N�o sei, talvez ele entendesse a matem�tica simples desse tipo de coisa, mas havia muitas estrat�gias diab�licas que eu podia empregar, especialmente na fase final, quando os credores ficavam circulando ao redor e o balan�o patrimonial mostrava um sangramento de tinta vermelha que escorria mais r�pido que um hemof�lico com ferimento � bala. Seria preciso pelo menos um m�s para explicar todas as nuances imundas para algu�m como o Canalha.</p><p>Por outro lado, Elliot e eu rapidamente nos tornamos mestres Jedi nessa arte e, com a mesma rapidez, passamos para o lado escuro, para que fossemos capazes de encontrar todas as maneiras poss�veis de fazer malabarismos com o fluxo de caixa. Minha forma favorita era a extors�o financeira inversa, durante a qual voc� virava o jogo com um fornecedor, explicando-lhe que a �nica chance de ele receber era aceitar um pequeno pagamento em uma fatura antiga em troca de esticar ainda mais o cr�dito. Essa funcionava como m�gica. E havia o velho truque da assinatura no cheque, quando a gente entregava a um fornecedor um cheque com uma assinatura faltando, a minha ou a de Elliot, o que fazia com que o banco devolvesse o cheque por faltar um endosso, em oposi��o � insufici�ncia de fundos. � claro, n�s est�vamos sempre tomando o cuidado de avisar ao gerente sobre esse cheque, sen�o ele poderia ficar tentado a autorizar o pagamento e o cheque voltaria saltando como um canguru.</p><p>Havia v�rios outros truques, s� que nenhum deles era da conta do Canalha. Ent�o, tudo o que eu disse foi:</p><p>� Exatamente, � o ABC da administra��o, Joel. E, antes que eu percebesse, eu tinha 26 caminh�es na rua, um armaz�m leg�timo e um monte de dinheiro no banco. Naturalmente, meu balan�o era um desastre total, embora eu me recusasse a me preocupar com esse tipo de coisa. Ao contr�rio, eu preferia apresentar as reuni�es de vendas para 26 panacas, a maioria deles viciados em hero�na, crack ou �lcool. Ainda assim, pelo menos eu era o orgulhoso propriet�rio de uma aparentemente bem-sucedida empresa de carnes e frutos do mar. E todos os meus amigos estavam realmente impressionados comigo, todos eles achavam que eu era um empreendedor de primeira linha � encolhi os ombros inocentemente. � Foi quando conheci Kenny Greene. Ele veio trabalhar para mim no neg�cio de carnes�</p><p>� S�rio? � perguntou TOC. � Eu n�o sabia disso.</p><p>Aquiesci com a cabe�a lentamente, perguntando-me por qual motivo Kenny Green n�o tinha sido indiciado juntamente com Danny e eu. Ele era o terceiro s�cio na Stratton, embora s� tivesse se juntado � empresa depois que hav�amos resolvido nosso problema com a Comiss�o de Assuntos Mobili�rios, quatro anos antes. Ainda assim, ele tinha sido um s�cio com 20% da empresa, do mesmo modo que Danny (eu era dono dos 60% restantes). Ele ganhou dezenas de milh�es de d�lares e tinha infringido tantas leis quando n�s. Parecia altamente il�gico (e tamb�m um pouco injusto) que ele tivesse escapado da ira do TOC, a menos, � claro, que ele estivesse cooperando o tempo todo!</p><p>Decidi manter esses pensamentos para mim mesmo e disse:</p><p>� Ele foi indicado por um de meus amigos da faculdade, um cara chamado Jeff Honigman. Ele e Kenny eram primos de primeiro grau � fiz um gesto para minha lista de vil�es, ladr�es e vigaristas. � Jeff est� a� em algum lugar, tamb�m, embora a maioria de suas trapa�as tenha ocorrido depois que ele saiu da Stratton, quando trabalhava para Victor Wang, na Duke Valores Mobili�rios � uma vez mais, apontei para a lista. � Victor est� a� tamb�m, em algum lugar bem perto do topo da lista, logo acima do nome de Kenny � disse, e me perguntei se aquela gente tinha alguma ideia do man�aco depravado que era esse Victor Wang. � Para falar a verdade, Victor trabalhou para mim no neg�cio de carnes e frutos do mar tamb�m, embora apenas por cerca de uma hora. Ele era muito orgulhoso e muito pregui�oso para realmente levar um caminh�o para a rua e ir de porta em porta. Ele s� apareceu para ouvir uma de minhas reuni�es de vendas. E, claro, ainda me lembro da primeira vez que eu coloquei os olhos em Victor � comecei a rir com a lembran�a.</p><p>O M�rmon entrou na conversa:</p><p>� Como voc� poderia se esquecer, certo?</p><p>Balancei a cabe�a, concordando.</p><p>� Certo, como algu�m poderia se esquecer? Ele � basicamente o maior chin�s que j� caminhou sobre o planeta. Tem um peitoral que � do tamanho da Grande Muralha, fendas no lugar dos olhos, a testa marrom como se fosse uma rocha e uma cabe�a maior que a de um panda gigante � fiz uma pausa para tomar f�lego. � Quer dizer, n�o sei se algum de voc�s j� viu Victor, mas ele � a cara do Oddjob, do filme <emphasis>Goldfinger</emphasis>, de James Bond. Algu�m se lembra do Oddjob? Ele � o cara que mata as pessoas atirando o chap�u nelas�</p><p>� Qual � o objetivo disso? � perguntou o Canalha, balan�ando a cabe�a.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Nenhum, na verdade, a n�o ser deixar claro que Kenny e Victor eram amigos de inf�ncia, que lidavam com drogas juntos na escola e, posso acrescentar, com a ajuda da m�e de Kenny, Gladys. Mas eu me recuso a dar qualquer informa��o sobre Gladys. Ela poderia tentar chutar minha bunda � sorri tristemente. � Na verdade, a �ltima vez que algu�m se envolveu em problemas com Gladys estava em uma pista de boliche. Acho que ela acabou jogando o cara para fazer um <emphasis>strike</emphasis>. Ou talvez tenha sido em um supermercado, onde ela nocauteou uma mulher na fila do caixa. Seja como for, se algum de voc�s j� viu Gladys, nada disso que contei seria surpresa � balancei a cabe�a tr�s vezes, para dar �nfase. � N�o h� um pingo de gordura no corpo dela e sua barriga poderia parar uma bala de mosquet�o disparada a mais de 20 passos de dist�ncia. Conhecem o tipo? � ergui as sobrancelhas.</p><p>Nada al�m de express�es vazias, pontuadas pelo sil�ncio. Ent�o, continuei:</p><p>� Bem, Gladys est� nessa lista tamb�m, embora eu suponha que n�o estejam interessados nela, certo? � disse, e cruzei os dedos.</p><p>� Certo � o Canalha falou sem qualquer emo��o. � N�s n�o estamos interessados nela. Por que voc� n�o volta para o neg�cio da carne?</p><p>Balancei a cabe�a, aliviado.</p><p>� Tudo bem, mas s� para voc� saber, todo esse tri�ngulo Kenny-Gladys-Victor leva de volta � sua pergunta inicial, sobre de onde veio a primeira leva de strattonitas. Kenny e Victor cresceram em Jericho. Kenny era traficante de maconha e Victor era traficante de coca�na, e Gladys os financiava � fiz uma pausa e acrescentei: � Mas seus motivos eram puros, � claro. Quer dizer, ela estava apenas tentando manter a fam�lia depois que o pai de Kenny morreu de c�ncer. Foi tudo muito triste � encolhi os ombros, esperando que Gladys pudesse ouvir de alguma forma aquilo que eu estava dizendo e n�o quisesse me bater quando nossos caminhos se cruzassem de novo. � Seja como for, na primeira leva de strattonitas, cerca de metade deles veio de Jericho e Syosset, que s�o cidades-irm�s, e praticamente todos tinham sido clientes de Kenny e Victor. Foi dessa forma que a Stratton p�de crescer t�o rapidamente; mesmo antes de ganharmos a reputa��o de ser um lugar onde a molecada podia ficar rica depressa, eu tinha d�zias deles fazendo fila na minha porta. E ent�o eles se mudaram para Bayside para participar da seita.</p><p>Fiz uma pausa e continuei:</p><p>� Mas deixe-me ordenar as ideias. Kenny trabalhou em nossa empresa de carnes e frutos do mar por apenas um dia, at� que bateu uma de minhas picapes e nunca mais me telefonou, pelo menos n�o at� que eu tivesse sa�do do neg�cio. E Victor, como eu j� contei, nunca trabalhou l�; ele apenas apareceu um dia para ouvir uma de minhas palestras e depois nunca mais voltou. Enquanto isso, meu neg�cio estava � beira de implodir � balancei a cabe�a lentamente, me preparando para reviver aquela lembran�a t�o temida. � Voc� s� consegue brincar com esse neg�cio de fluxo de caixa at� o momento em que ele se volta contra voc�. No nosso caso, a revers�o come�ou em janeiro de 1987. Foi um inverno feroz, e as vendas despencaram. E o fluxo de caixa, � �bvio, mergulhou atr�s delas. Dei reuni�es atr�s de reuni�es, palestras atr�s de palestras, desesperadamente tentando motivar os vendedores para sair a campo e vender, mas n�o adiantou. Era um inverno muito frio, e as vendas chegaram a zerar. E, pela pr�pria natureza do jogo de fluxo de caixa, � num momento como esse que o bumerangue vem voando de volta com tudo. Lembre-se, Joel, � o ABC da administra��o. Quando voc� aumenta seu cr�dito, as contas de hoje s�o de coisas que voc� vendeu 30 dias antes ou, em nosso caso, 60 dias antes, porque j� est�vamos atrasados 30 dias em nossas contas � fiz uma pausa para me corrigir. � Na verdade, est�vamos 90 dias atrasados com a maioria de nossas contas e j� n�o faz�amos neg�cios com essas empresas; eles j� haviam nos cortado, de modo que fomos for�ados a nos mudar para pastagens mais f�rteis, ou, em outras palavras, para novos fornecedores que ainda n�o tinham ouvido falar que �ramos maus pagadores.</p><p>Fiz uma breve pausa.</p><p>� Mas essa parte do jogo j� estava terminada. Todo mundo no mercado j� sabia que �ramos um grande risco de cr�dito e que ningu�m deveria nos entregar mercadorias se n�o pag�ssemos em dinheiro e no ato. Enquanto isso, Elliot e eu ainda est�vamos tentando manter as coisas � tona. T�nhamos esgotado nossos cart�es de cr�dito e a cada dia afund�vamos mais e mais em d�vidas. N�s n�o t�nhamos pagado o aluguel de nossas picapes, nossas contas de telefone celular nem o <emphasis>leasing</emphasis> de nossos carros. Nosso novo locador, um canalha s�rio, tinha uma ordem de despejo contra n�s e nos fazia pagar o aluguel em dobro at� que a gente fosse embora � balancei a cabe�a lentamente, ainda espantado com a profundidade do buraco financeiro que t�nhamos cavado para n�s mesmos� � Foi por volta dessa �poca, no inverno de 1987, que comecei a ouvir rumores sobre um garoto do bairro, chamado Michael Falk. Ele conseguira um emprego em Wall Street logo que sa�ra da faculdade, mais ou menos na mesma �poca em que eu estava come�ando a faculdade de odontologia, e supostamente estava ganhando mais de 1 milh�o de d�lares por ano.</p><p>Fiz uma pausa para conseguir mais efeito.</p><p>� No come�o, eu n�o quis acreditar. Quando crescemos juntos, Michael Falk n�o era dos caras mais espertos. Na verdade, ele era o man� do bairro, aquele sujeito com quem todo mundo zoa porque n�o toma banho, essas coisas. Ele tamb�m n�o era um sujeito r�pido, brilhante ou falante. Quer dizer, era apenas um cara mediano, uma pessoa comum, nada mais. Por isso conclu� que tudo aquilo que falavam dele era besteira, que n�o podia existir nenhuma maneira de que Falk estivesse ganhando todo esse dinheiro. Um dia, por pura coincid�ncia, ele estacionou em frente ao meu pr�dio, dirigindo uma Ferrari convers�vel. Felizmente, ele foi condescendente comigo, explicando que todos os rumores eram verdadeiros. Falando do assunto com naturalidade, ele explicou que estava a caminho de faturar mais de 1,5 milh�o de d�lares naquele ano e que no ano anterior ganhara quase 1 milh�o. N�s conversamos por mais alguns minutos, durante os quais menti o tempo todo, ao explicar como est�vamos indo bem no neg�cio de carnes e frutos do mar, apontando para meu pequeno Porsche vermelho como prova desse fato. Ele deu de ombros e mencionou algo sobre o fretamento de um iate de 100 p�s para ir �s Bahamas com um monte de modelos loiras, uma das quais, ironicamente, se tornaria minha segunda esposa um dia. E ent�o ele foi embora, suavemente, imaculadamente, expelindo uma nuvem de fuma�a do caro escapamento italiano bem na minha cara, que naquele instante era uma mistura de admira��o e espanto.</p><p>Deixei escapar uma risada.</p><p>� De qualquer forma, posso lhes dizer que nunca fui t�o afetado por um �nico encontro em toda a minha vida. Eu me lembro de ficar observando a Ferrari ir embora e dizer para mim mesmo: �Se esse cara consegue ganhar 1 milh�o por ano, eu vou conseguir ganhar 50 milh�es!� � parei e deixei essas palavras submergirem na mente de meus ouvintes. � Essa previs�o acabou por ser surpreendente, n�o acham? Embora tenha falhado em prever a segunda metade da equa��o: que eu enfrentaria uns 200 de anos de pris�o � e travei os olhos nos da Bruxa �, al�m da condena��o eterna de minha alma.</p><p>E continuei:</p><p>� De qualquer forma, na �poca eu estava morando com minha primeira esposa, Denise, embora ela ainda n�o fosse minha esposa de verdade. N�s dois est�vamos dividindo um pequeno apartamento em um pr�dio infestado de <emphasis>yuppies</emphasis> em Bayside, chamado Bay Club. Foi l� que conheci Danny Porush. Ele morava no andar de cima, embora eu ainda n�o o tivesse encontrado para conversar. Eu j� o tinha visto por perto de vez em quando, mas nunca tinha realmente parado para falar. � engra�ado, mas eu me lembro de sempre ter pensado nele como um sujeito normal, como se ele fosse o <emphasis>yuppie</emphasis> perfeito. Na verdade, ele e sua esposa, Nancy, eram o retrato de sucesso e felicidade. Os dois at� eram parecidos! Mas, claro, eu n�o sabia na �poca que os dois eram primos de primeiro grau. E tamb�m n�o tinha ideia de que a �nica miss�o na vida de Nancy era torturar Danny, para fazer com que a vida dele fosse t�o miser�vel e t�o dif�cil quanto poss�vel, nem que Danny, apesar de sua apar�ncia normal, era completamente maluco, gastando a maior parte do tempo enfurnado em um antro de crack no Harlem, fumando o dinheiro de seu empreendimento mais recente, uma fal�ncia induzida por coca�na. Mas estou avan�ando um pouco aqui� Eu s� conheceria Danny no ano seguinte. Voltando a Michael Falk: foi naquela mesma tarde que eu contei a Denise sobre meu r�pido encontro com esse antigo perdedor. Quando terminei de falar, n�o eram necess�rias outras palavras. Denise apenas olhou para mim com seus grandes olhos castanhos e balan�ou a cabe�a lentamente, e foi tudo. N�s dois sab�amos, ali mesmo, que meu destino era Wall Street. Eu era o vendedor mais talentoso do mundo, ambos sab�amos disso. Meu erro era ter escolhido o produto errado para vender.</p><p>� Como voc� conseguiu um emprego como corretor da Bolsa? � perguntou o Canalha. � Sua forma��o era em biologia e voc� estava saindo de uma fal�ncia. Por que algu�m iria contrat�-lo?</p><p>� Eu bati numa porta com a ajuda de um amigo de meus pais, um homem chamado Bob Cohen. Ele era um gerente de n�vel m�dio na LF Rothschild e tinha influ�ncia suficiente para me conseguir uma entrevista. A partir da�, eu me venderia. Sa�, comprei um terno azul barato e, em seguida, dois dias depois, me encontrava sentado no �nibus expresso a caminho de Manhattan para uma entrevista de emprego. Nesse meio tempo, Denise ficou sentada em casa esperando por um caminh�o de reboque para reaver nosso Porsche, coisa que aconteceu na mesma hora em que eu estava sendo contratado como corretor estagi�rio na LF Rothschild.</p><p>Ent�o eu sorri tristemente e disse:</p><p>� Depois disso, minha parada seguinte foi na empresa de carne e frutos do mar, onde despejei a bomba em Elliot � parei por um momento, pensando. � Ainda me lembro desse dia como se fosse ontem, do sentimento agridoce que me atravessou, das emo��es misturadas que senti. Eu estava t�o feliz em rela��o a meu futuro quanto estava triste por me separar de Elliot. Ele era como um irm�o para mim. N�s t�nhamos sido parceiros desde a metade de nossa adolesc�ncia. Juntos, t�nhamos atravessado uma parede de fogo, tirando da lama picapes atoladas e batendo � porta de poss�veis clientes at� os n�s dos dedos sangrarem. E agora est�vamos tomando caminhos diferentes. Nosso armaz�m, claro, era um completo desastre. Est�vamos cercados por caminh�es quebrados e caixas vazias, e o congelador era uma desgra�a total. A porta estava aberta e n�o havia uma �nica caixa l� dentro. Espessas camadas de gelo cresciam dentro do freezer, como se fosse fungo. Aquilo servia como um lembrete desagrad�vel de qu�o mal administrado fora nosso neg�cio. Lembro-me de minha autoconfian�a sendo quebrada. Com o cora��o pesado, eu disse a Elliot: �Me desculpe, estou saindo fora, isso � algo que tenho de fazer. Eu tenho de tentar Wall Street. O dinheiro que as pessoas est�o conseguindo ganhar l� � impressionante, Elliot. Verdadeiramente impressionante�. Ele logo respondeu: �Eu sei disso, mas n�o consigo me imaginar sentado atr�s de uma mesa o dia todo. Tudo � feito por telefone. Voc� vai ligar para pessoas que nunca viu antes, tentando fazer com que elas enviem dinheiro a voc� N�o faz sentido para mim��.</p><p>Balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� Sei que isso pode parecer engra�ado agora, mas eu me lembro de ter pensado exatamente a mesma coisa, que era inconceb�vel que algu�m que eu nunca tinha visto nem conhecido antes fosse me enviar centenas de milhares de d�lares com base em um telefonema. Sem falar que eu estaria telefonando para pessoas de todo o pa�s. Quer dizer, quais eram as chances de um completo estranho do interior do Texas ser insano o suficiente para me enviar meio milh�o de d�lares de seu suado dinheirinho, sem nunca ter colocado os olhos em mim? Mas eu ainda tinha a imagem de Michael Falk queimando em meu c�rebro. O simples fato era que alguns jovens estavam fazendo fortuna em Wall Street. Eu pertencia �quele lugar.</p><p>A Bruxa entrou na conversa:</p><p>� Ent�o, Elliot n�o quis ir com voc�?</p><p>Balancei a cabe�a.</p><p>� Acredite ou n�o, ele n�o quis. Ele ficou no neg�cio de carnes e frutos do mar para mais uma tentativa. Elliot imaginou que poderia ganhar dinheiro como um show de um homem s�, mais enxuto e eficiente � pensei por um momento. � N�o me levem a mal, n�o � que eu tenha lhe oferecido um emprego ou algo parecido. Eu n�o tinha autoridade para isso; mas eu de fato lhe perguntei se n�o estaria interessado em ir at� l� para uma entrevista de emprego se eu a conseguisse. Mas ele disse que n�o, mais uma vez � dei de ombros. � Cheguei em casa � noite sem carro, sem dinheiro e pessoalmente falido. E quer saber? Eu nem dei bola. Eu ia ser um cara de Wall Street, e isso era tudo que importava. O fato de que meu sal�rio seria de apenas 100 d�lares por semana n�o me incomodava nem um pouco. Eu tinha esperan�a, a esperan�a de um futuro, que � a maior esperan�a de todas.</p><p>Fiz uma pausa e passei alguns momentos estudando o rosto de meus captores, perguntando a mim mesmo o que eles estavam pensando, o que eles achavam de mim. E, embora isso fosse imposs�vel de dizer, eu tinha uma leve suspeita de que eles estavam mais confusos que nunca. N�o exatamente sobre minha hist�ria, mas sobre qual tinha sido a exata motiva��o para um cara como eu.</p><p>Em qualquer caso, aquela manh� tinha sido apenas um aquecimento. O material mais suculento, como as prostitutas, as drogas, a devassa ilegalidade de minha vida, ainda estava a um dia ou dois de dist�ncia. Com esse pensamento, olhei para TOC e perguntei:</p><p>� Voc� acha que poder�amos almo�ar agora? � quase 1 hora da tarde e estou come�ando a ficar com fome.</p><p>� Claro � disse TOC, calorosamente. � Existem alguns lugares muito bons na Reade Street. � uma caminhada de menos de dois minutos daqui at� l�.</p><p>O Canalha concordou com a cabe�a.</p><p>� Foi uma manh� muito produtiva. Voc� fez por merecer um bom almo�o.</p><p>� Na verdade � retrucou a Bruxa � devo dizer que voc� nos proporcionou um raro vislumbre da mente de um criminoso.</p><p>Ofereci-lhe um sorriso sem gra�a em troca.</p><p>� Bem, estou feliz que voc� sinta as coisas dessa forma, Michele, porque estou ansioso para agradar.</p></section><section><p>CAP�TULO 8</p><p><strong>FEDORENTOSLOV�QUIA</strong></p><p>Ap�s trinar como um can�rio por mais de sete horas, o primeiro dia de cantar na Court Street tinha finalmente chegado ao fim. Eu tinha ido bem longe na hist�ria do meu primeiro dia como corretor licenciado, que, por pura coincid�ncia, foi no dia 19 de outubro de 1987, o dia do Grande Crash no Mercado de A��es. Meus quatro captores, bem como meu pr�prio advogado, tinham achado uma grande ironia nisso. Afinal, entre meu primeiro dia na faculdade de odontologia, meu primeiro dia no neg�cio de carnes e frutos do mar e meu primeiro dia em Wall Street, eu de fato parecia ter o Toque de Midas, s� que ao contr�rio: tudo o que eu tocava se transformava em merda.</p><p>No entanto, pelo outro lado da moeda, n�o havia como negar que eu tinha certa resili�ncia. Da forma como Magnum colocou, se algu�m me enfiasse em um vaso sanit�rio e apertasse a descarga, eu iria sair do outro lado segurando uma licen�a de encanador. E embora as palavras de Magnum tivessem sido grandemente apreciadas, eu estava totalmente certo de que n�o havia nenhuma licen�a de encanador esperando por mim do outro lado <emphasis>daquela</emphasis> privada�</p><p>Eu estava na limusine de novo, � caminho da velha Brookville, onde iria me colocar de volta sob pris�o domiciliar, reduzido mais uma vez a um simples prisioneiro dentro da minha pr�pria casa, bem como a uma <emphasis>pi�ata</emphasis> emocional para que a Duquesa golpeasse. Como sempre, o balbuciante paquistan�s estava ao volante, mas ele n�o havia dito uma s� palavra desde que tinha deixado a Sunset Park 30 minutos antes, quando eu tinha amea�ado cortar-lhe a l�ngua fora se ele n�o parasse de falar.</p><p>N�s est�vamos na Long Island Expressway, em algum lugar perto da divisa entre o Queens e Long Island. Est�vamos na ponta de um dos congestionamentos da cidade, na hora do entardecer, quando as luzes da rua se acendem, mas fazem pouca diferen�a. � medida que o carro se arrastava ao longo do caminho no ritmo de uma lesma, eu olhei para fora da janela, perdido em meus pensamentos.</p><p>A grande crise de 1987 foi o ponto central da minha vida, um excepcional acontecimento a partir do qual todos os outros eventos se desenrolaram. O �ndice Dow Jones caiu 508 pontos naquela Segunda-Feira Negra em um �nico preg�o, enviando o maior mercado de a��es da hist�ria moderna a um ponto insustent�vel.</p><p>Na verdade, eu tinha sido nada mais que um observador casual, n�o apenas da queda da Bolsa, mas tamb�m da fabulosa prepara��o que a precedeu. No ver�o de 1982, na esteira dos cortes de impostos sobre os rendimentos e da queda nas taxas de juros, a infla��o galopante havia sido finalmente domada e a economia de Reagan foi o alvo da raiva de todos. O dinheiro tornou-se barato, fazendo com que o mercado de a��es come�asse a pegar fogo. Michael Milken tinha acabado de inventar t�tulos de alto risco, virando a Am�rica corporativa de cabe�a para baixo. Especuladores hostis como Ronald Perelman e Henry Kravis, que faziam parte de uma nova ra�a de celebridades financeiras armadas com ba�s de dinheiro levantados pelos t�tulos de alto risco de Milken, foram se tornando nomes conhecidos. Um a um, eles estavam fazendo com que as maiores corpora��es dos Estados Unidos ficassem de joelhos por meio de aquisi��es hostis. TWA, Revlon, RJR Nabisco� Quem seria o pr�ximo?</p><p>Em outubro de 1987, a euforia tinha atingido seu auge, quando o Dow Jones ultrapassou a marca de 2.400. A era dos <emphasis>yuppies</emphasis> estava em pleno andamento, e o final dela n�o estava � vista. E enquanto os Michael Falks da vida ganhavam milh�es, pessoas como Bill Gates e Steve Jobs foram mudando o mundo. Era o in�cio da Era da Informa��o, que chegou com a for�a de uma bomba at�mica. Computadores mais r�pidos que a velocidade da luz estavam aparecendo em todas as mesas, e eles eram poderosos, intuitivos e reduziram o mundo ao tamanho de uma aldeia global.</p><p>Para Wall Street, isso abriu vastas possibilidades: computadores mais r�pidos renderam enormes aumentos no volume de negocia��es, assim como produtos financeiros mais atualizados e nov�ssimas estrat�gias de negocia��o. Os produtos financeiros, chamados de derivativos, permitiram �s grandes institui��es compensar suas carteiras de investimento como nunca puderam fazer antes, e as novas estrat�gias, a mais emocionante delas chamada de seguro da carteira de investimentos, come�aram a alimentar o frenesi de compras.</p><p>Em uma farsa financeira de propor��es kafkianas, esse seguro de carteira de investimentos provocou avan�os no �ndice Dow Jones para estimular os computadores a cuspir volumosas ordens de compra para derivativos, o que ent�o fez com que o Dow avan�asse ainda mais e estimulou aqueles mesmos computadores a cuspir mais ordens de compras de derivativos� E isso foi em frente sem parar. Teoricamente, poderia ter continuado para sempre.</p><p>Na verdade, n�o poderia, porque as duas toupeiras que tinham inventado aquela coisa de seguro na carteira de investimentos programaram um mecanismo � prova de falhas dentro do programa. Em outras palavras, depois de um determinado n�vel de aumento de pre�os, os computadores diriam: �Espere um segundo, tem algo de podre no reino da Dinamarca! � melhor vender todas as a��es em nossas carteiras, e t�o rapidamente quanto nossos c�rebros de silicone permitirem!�.</p><p>Foi quando os problemas come�aram. Em uma vers�o real de <emphasis>O exterminador do futuro,</emphasis> computadores se conectaram e come�aram a expelir ondas intermin�veis de ordens de venda � velocidade da luz. De in�cio, o mercado declinou drasticamente, e isso j� era ruim. Mas, infelizmente, os computadores continuaram a vender e, por volta do meio-dia, o volume era t�o grande que as m�quinas no piso da Bolsa de Valores de New York (NYSE) n�o conseguiram acompanhar. Isso foi tr�gico, porque do nada a coisa toda chegou a um impasse.</p><p>Enquanto isso, os corretores, sendo corretores da Bolsa, pararam de atender aos seus telefones, pensando: qual � a vantagem de ficar escutando a porra de um cliente irado gritar: �Venda, caramba, venda!� quando n�o h� compradores ao redor para vender? Ent�o, em vez de segurar as m�os de seus clientes e dizer que ia ficar tudo bem, eles se recostaram em suas poltronas, colocaram os sapatos de couro de crocodilo sobre as mesas e deixaram os telefones fora do gancho. Por volta das 4 da tarde daquele dia, o Dow Jones tinha despencado 22%, meio trilh�o de d�lares desapareceu no ar, a confian�a dos investidores foi abalada e a era dos <emphasis>yuppies</emphasis> tinha oficialmente chegado ao fim.</p><p>Mais de uma d�cada depois, enquanto contava esses eventos para meus captores, eu me sentia estranhamente separado deles, como se o jovem que vivera tudo aquilo, um pobre idiota chamado Jordan Belfort, fosse um completo estranho para mim, algu�m cuja hist�ria de vida eu estava narrando em primeira pessoa por uma quest�o de simplicidade. Mais estranho ainda foi o modo como eu tinha convenientemente omitido o impacto pessoal que esses eventos causaram em mim, especialmente quando se tratou de meu casamento com minha primeira esposa, Denise, com quem eu tinha me casado tr�s meses antes do <emphasis>crash</emphasis> da Bolsa. N�s dois est�vamos mais falidos do que qualquer outra pessoa. No entanto, sab�amos que o sucesso estava logo ali, ao virar da esquina. Ent�o t�nhamos esperan�a e tivemos f�, at� a Segunda-Feira Negra.</p><p>E foi nesse ponto que eu parei: Jordan Belfort tinha acabado de deixar a sala de reuni�es da LF Rothschild com o desespero no cora��o e o rabo entre as pernas. Ele era um jovem de 25 anos, quebrado, com uma fal�ncia nas costas e uma licen�a para vender a��es que de repente se tornara in�til.</p><p>Ironicamente, dentro da sala de interrogat�rio, eu tinha ficado perturbadoramente confort�vel com o passar do dia. Perder-me no passado havia permitido que eu bloqueasse a dor do presente, sobretudo minha sensa��o de perda em rela��o � Duquesa. E apesar do fato de saber que estava dedurando, toda a informa��o que eu tinha fornecido era algo estritamente hist�rico, sobrevoando apenas ligeiramente os tra�os da ilegalidade e da marginalidade. Aquelas 97 pessoas em minha lista de vil�es, ladr�es e vigaristas ainda estavam razoavelmente seguras.</p><p>Mas ent�o o Canalha estourou minha bolha.</p><p>Faltavam alguns minutos para as 5 da tarde quando Joel disse:</p><p>� N�s precisamos colocar essa aula de hist�ria em espera por um tempo. N�s estamos lutando contra o rel�gio com sua coopera��o�</p><p>Ent�o ele passou a explicar que meu papel como tra�dor poderia ser mantido em segredo por apenas um determinado per�odo. Havia sinais reveladores quando algu�m estava cooperando com o FBI, come�ando pelos registros do tribunal, que no meu caso seria algo visivelmente ma�ante. Em outras palavras, havia certas mo��es que deveriam ser encaminhadas quando o r�u estava levando um caso para julgamento, mo��es essas que n�o seriam efetivadas se esse mesmo r�u estivesse cantando na Court Street.</p><p>Em termos pr�ticos, explicou o Canalha, haveria dois aspectos distintos para minha coopera��o: a dela��o hist�rica e a dela��o proativa. At� ent�o, eu tinha colaborado apenas na primeira modalidade. Agora, no entanto, o Canalha tinha me pedido para fazer uma liga��o telef�nica gravada a uma das almas que em breve estariam se lamentando em me atender, selecionada de minha lista de vil�es, vigaristas e ladr�es. E o Canalha tinha escolhido, entre todas as pessoas, meu leal e confi�vel contador, Dennis Gaito, tamb�m conhecido como Chef.</p><p>Dennis Gaito era, de fato, um <emphasis>chef</emphasis>, embora n�o no tradicional sentido da palavra. Era um apelido nascido do amor e do carinho, como resultado de sua natural propens�o para �cozinhar� a contabilidade<sup>*</sup>. Ele era um homem calmo, tranquilo e controlado. Vivia para os melhores campos de golfe, charutos cubanos, bons vinhos, viagens de primeira classe conversas cultas, especialmente quando eram relacionadas a maneiras de foder o Imposto de Renda e a Comiss�o de Valores Mobili�rios, o que parecia ser sua miss�o mais importante na vida.</p><p>Com 50 e poucos anos, o Chef vinha cozinhando os livros desde o come�o dos anos 1970, quando eu ainda estava na escola, ganhando experi�ncia sob os olhos atentos de Bob Brennan, um dos maiores supercorretores de a��es de todos os tempos. O apelido de Bob era Dem�nio de Olhos Azuis, uma refer�ncia a seus olhos de a�o azuis, suas diab�licas estrat�gias de negocia��o e o sangue gelado que corria por suas veias, que os boatos diziam ser dois graus mais frios que o nitrog�nio l�quido.</p><p>O Dem�nio de Olhos Azuis foi o fundador da First Jersey Securities, que no final dos anos 1970 e in�cio dos anos 1980 tinha sido uma opera��o de <emphasis>penny stocks<sup>**</sup></emphasis> com um alcance e uma escala sem precedentes. O Chef tinha sido contador do Olhos Azuis, assim como seu principal confidente. Como equipe, foram lend�rios, deixando um rastro de fraudes em a��es. E, ao contr�rio da maioria dos caras que operavam nesse mercado de centavos, o Dem�nio de Olhos Azuis saiu com todo o dinheiro, quase um quarto de bilh�o deles.</p><p>A� residia o problema: o Dem�nio de Olhos Azuis tinha fugido com o dinheiro. Ele tinha enganado os reguladores a cada passo do caminho, e n�o havia nada que o Canalha desejasse mais que a cabe�a do Olhos Azuis em uma bandeja.</p><p>S� ent�o a voz de Monsoir me trouxe de volta ao presente.</p><p>� <emphasis>Essa</emphasis> tr�nsito est� horr�vel! � declarou. � Vai ser um milagre se chegarmos a Brookville. <emphasis>Vox�</emphasis> n�o acha, chefe?</p><p>� Monsoir � eu disse suavemente �, acontece que voc� � um motorista muito bom. Voc� nunca fica doente, nunca se perde, e, por ser mu�ulmano e tudo, acho que n�o pode beber! � balancei a cabe�a em admira��o. � � por isso que eu tenho tr�s palavras am�veis para voc�.</p><p>� Ah, �, chefe, e quais s�o?</p><p>� Vai se foder!</p><p>Depois de grunhir, apertei um bot�o no console e assisti � cabe�a do balbuciante paquistan�s desaparecer atr�s de uma divis�ria coberta de feltro. Fiquei olhando para aquele azul profundo por uns bons segundos, e ent�o meus olhos se iluminaram com tr�s letras douradas, um N, um J e um B, que significavam Nadine e Jordan Belfort. As letras tinham sido bordadas no feltro, em fios de ouro 18 quilates, escritas em estilo g�tico. �Que <emphasis>palha�ada</emphasis> de merda!�, pensei. Que despesa in�til e imprudente. Que excesso rid�culo! Tudo era t�o sem sentido agora�</p><p>Minha mente foi rugindo de volta para o Dem�nio de Olhos Azuis e o Chef. Na verdade, eu n�o tinha realmente me envolvido com ele, ent�o n�o podia implic�-lo em qualquer crime, pelo menos n�o diretamente. Com o Chef, no entanto, era uma hist�ria diferente. N�s dois t�nhamos preparado mil esquemas juntos, tantos que era demais para contar. Ironicamente, eu havia decidido exclu�-lo de minhas atividades su��as, com medo, na �poca, de que seu relacionamento com o Dem�nio de Olhos Azuis pudesse trazer algum problema para mim.</p><p>Infelizmente, quatro anos mais tarde � o que quer dizer, h� algumas horas, o Canalha e TOC tinham conclu�do que essa exclus�o era uma coisa dif�cil de engolir. Ela n�o fazia sentido, o Canalha tinha argumentado.</p><p>� Por que voc� manteve o Chef fora disso? � perguntou ele, c�tico. � Voc� incluiu seu contador em tudo o mais e o deixou fora desse esquema? Isso n�o bate, a menos, � claro, que voc� o tenha inclu�do e esteja apenas tentando proteg�-lo!</p><p>Com isso, o Canalha tinha retirado uma pilha de registros antigos relativos a uma viagem que eu tinha feito para a Su��a no ver�o de 1995, e, n�o por coincid�ncia, � qual o Chef tinha me acompanhado. Ainda mais incriminador foi o fato de que, depois de termos partido da Su��a, em vez de voarmos de volta para os Estados Unidos t�nhamos feito uma breve parada atr�s da antiga Cortina de Ferro, na Tchecoslov�quia. De acordo com registros do Canalha, ficamos l� por menos de 18 horas, literalmente voando para dentro e para fora. Alguma coisa nisso n�o cheirava bem ao Canalha; afinal, por que raz�o n�s far�amos isso, exceto se fosse para deixar dinheiro, abrir uma conta secreta ou preparar um esquema? Qualquer que fosse o esquema, o Canalha sabia que eu estava escondendo alguma coisa, e queria saber o que era.</p><p>Enquanto isso, eu s� podia co�ar a cabe�a. O Canalha estava t�o por fora que suas conclus�es eram incompreens�veis. Bem, como n�o tinha nenhuma outra escolha, relatei a excurs�o em detalhes, come�ando pela Su��a e explicando que meu �nico prop�sito de ir para l� tinha sido fazer um controle de danos. Eu estava tentando descansar da mais recente s�rie de desastres horr�veis, a soma dos quais tinha me feito pousar na sala em que eu estava sentado. Esse desastre espec�fico tinha a ver com a morte prematura da encantadora tia da Duquesa, Patricia, a qual, sem o conhecimento de minha esposa, eu tinha recrutado para ser o cora��o do meu esquema de lavagem de dinheiro.</p><p>Eu tinha convencido a tia favorita de minha esposa, uma professora brit�nica aposentada de 65 anos de idade que nunca tinha desobedecido a uma �nica lei em toda a sua vida, a desobedecer mais de mil delas em um �nico movimento, agindo como meu preposto su��o. No momento em que ela concordou, comecei escondendo milh�es de d�lares em contas numeradas ligadas a seu nome. Ent�o, sem aviso, ela morreu de derrame, levando esses milh�es para o limbo.</p><p>No come�o, pensei que sua morte me causaria grandes problemas, o mais �bvio dos quais seria que meu dinheiro ficaria amarrado no submundo do sistema banc�rio su��o para toda a eternidade. Mas eu estava errado, porque os su��os eram peritos em tais assuntos. Para eles, a morte de um preposto nomeado era algo muito positivo, uma coisa para a qual se devia abrir uma garrafa de champanhe. Afinal, o melhor preposto � o preposto morto, pelo menos foi isso que disse meu curador su��o, Roland Franks<sup>1</sup>, um af�vel gorducho com um apetite voraz por doces e um dom espiritual para a cria��o de documentos falsos, que apoiariam uma no��o de nega��o plaus�vel. Quando perguntei a meu Mestre Falsificador o porqu� daquela afirma��o, ele encolheu os ombros gordos e disse:</p><p>� Porque os mortos n�o contam hist�rias, meu jovem amigo, nem tias mortas!</p><p>Ao contar toda essa sordidez aos meus captores, tinha destacado bem o fato de que o Chef e eu n�o est�vamos sozinhos nessa viagem; t�nhamos trazido companhia, sob a forma de Danny Porush, meu antigo parceiro no crime, e Andy Greene, meu leal advogado de confian�a, que era mais conhecido como Cabana.</p><p>Eu tinha admitido livremente que Danny tinha sido meu parceiro naquilo tudo.</p><p>� Ele � t�o culpado quanto eu � declarei ao Canalha, e depois jurei para ele que Cabana e o Chef n�o tinham tomado parte no esquema. Eles foram apenas pelo passeio na Tchecoslov�quia, eu disse, que era nossa parada seguinte na viagem. Nenhum deles sabia que Danny e eu j� t�nhamos contrabandeado dinheiro para a Su��a; eles pensavam que nossa visita era apenas para verificar as coisas como futura refer�ncia.</p><p>Neste ponto, tanto TOC quanto o Canalha pareciam estar comprando toda a hist�ria, ent�o mergulhei na etapa seguinte de nossa excurs�o, a Tchecoslov�quia, explicando como nosso empreendimento havia considerado uma tentativa fracassada de dominar o mercado de <emphasis>vouchers</emphasis> tchecos, que o novo governo emitira recentemente aos cidad�os como meio de privatiza��o da economia. No entanto, n�o consegui me abrir completamente com meus captores. Afinal, o que acabou acontecendo na Tchecoslov�quia era algo t�o completamente decadente que eles nunca teriam compreendido. Ent�o, em vez disso, eu lhes passei uma vers�o mais tranquila, mais dilu�da dos acontecimentos, para que eles n�o me vissem como um completo desajustado social, que n�o era digno de receber uma carta da Promotoria. Somente ent�o, duas horas mais tarde, eu pude saborear plenamente a loucura que tinha definido aquele trecho da viagem.</p><p>Tudo come�ou dentro do jato particular, que era um Gulfstream III. Como todos os Gulfstreams, este tinha uma cabine espa�osa revestida em suaves tons de bege. Os assentos eram t�o grandes como tronos, e os motores g�meos Rolls-Royce tinham sido equipados com o mais recente <emphasis>kit</emphasis> de sonoriza��o, o que tornava a viagem muito silenciosa, de forma que tudo o que se podia ouvir era o zumbido suave dos ventiladores quando o vento passava pela fuselagem a 55 n�s.</p><p>Era in�cio da noite, e n�s est�vamos bem no alto, voando acima do sul da Pol�nia, embora eu mesmo estivesse bem mais alto que isso. Mas n�o t�o alto quanto Danny, que estava sentado � minha frente e tinha perdido completamente o poder da fala. Ele estava na segunda metade da fase de babar, quer dizer, ele estava naquele momento num pico no qual n�o conseguia emitir as palavras sem que um rio de saliva escorresse pelo queixo.</p><p>� Ezz ua boa maoooaa! � exclamou, com um grosso jorro de saliva.</p><p>Nas duas �ltimas horas de voo, ele tinha consumido quatro Quaaludes, quase 1 litro de u�sque Macallan <emphasis>single malt</emphasis>, 20 miligramas de Valium e 2 gramas de p� da Bol�via, que aspirara com aux�lio de uma nota de 100 d�lares enrolada como um canudo. Ent�o, cerca de 10 segundos antes, ele tinha dado uma tragada numa espessa bagana de maconha do norte da Calif�rnia, o que me fez acreditar que ele tinha tentado dizer: �Essa � uma boa maconha!�.</p><p>Como sempre, eu achava incompreens�vel como Danny parecia um cara normal. Aquele cabelo curto e loiro, sua estatura m�dia, dentes branqu�ssimos, ele exalava um cheiro maravilhosamente WASP, o tipo de cheiro que seria de se esperar de um homem que podia tra�ar sua genealogia at� os por�es do <emphasis>Mayflower<sup>*</sup></emphasis>. Ele estava vestido informalmente naquela noite, com um par de cal�as de algod�o bege e uma camisa polo de manga curta. Sobre seus p�lidos olhos azuis, usava �culos de aro de tartaruga com aspecto bastante conservador, que o faziam parecer um cara mais refinado, mais WASP.</p><p>No entanto, apesar do jeit�o waspiano, Danny Porush era um judeu de ra�a pura que podia tra�ar suas ra�zes at� um <emphasis>kibutz</emphasis> pequeno perto de Tel Aviv. S� que, como tantos judeus antes dele, tentou ser confundido com um WASP de sangue azul, por isso aqueles �culos waspianos de lentes claras.</p><p>Ao mesmo tempo, o interior da cabine do avi�o parecia um arm�rio voador de drogas apreendidas da Divis�o de Narc�ticos da pol�cia. Entre Danny e eu, sobre uma mesa desdobr�vel de mogno, uma bolsa Louis Vuitton transbordava com uma fabulosa mescla de perigosas drogas: 15 gramas de maconha, 60 Quaaludes farmac�uticos, algumas anfetaminas, um saco de papel cheio de coca�na, uma dezena de doses de Ecstasy, e depois o material seguro, que tinha vindo dos m�dicos: um frasco de Xanax, um frasco de morfina, alguns Valium, Restorils, Somas e Vicodin, e alguns Ambiens, Ativans e Klonopins, bem como metade de uma caixa de Heineken e uma garrafa quase no fim de Macallan, para engolir todas as coisas. Logo, logo, por�m, todo aquele material n�o receitado iria embora, empurrado para dentro de nossos cus coletivamente ou enterrados bem fundo atr�s de nossos sacos escrotais, enquanto negoci�vamos nossa passagem pela alf�ndega tcheca.</p><p>Meu advogado, Cabana, estava sentado � direita de Danny. Ele tamb�m estava vestido informalmente, embora, no seu caso, mantivesse sua express�o perpetuamente triste e aquela horr�vel peruca. Essa peruca tinha cor de lama, uma combina��o pobre para sua pele p�lida, e tinha a consist�ncia de palha ressecada. Na verdade, a Cortina de Ferro j� tinha ca�do havia quatro anos, mas ainda era uma aposta segura que sua horr�vel peruca iria atrair alguns olhares atentos dos tchecos.</p><p>Seja como for, Cabana tamb�m estava doid�o, embora, como nosso advogado, tivesse se mantido em um padr�o mais elevado. Ele entendeu que n�o podia aparecer babando at� depois de terminar com os tchecos. Ent�o, ele tinha exagerado na coca�na e pegado leve nos Ludes. Foi uma estrat�gia inspirada, que dava um efeito psicotr�pico perfeito. Afinal, tomar um Quaalude era como beber tr�s garrafas de �lcool com o est�mago vazio, enquanto cheirar coca�na era como consumir 8 mil x�caras de caf� por via intravenosa. O primeiro deixava voc� sonolento e desleixado, enquanto a segunda o deixava alto e paranoico. Uma vez que eram nossos neg�cios que estavam em quest�o, era mais eficaz voc� ficar alto e paranoico que sonolento e desleixado. Mas, infelizmente, Cabana tinha sem querer iniciado uma paranoia induzida pela coca.</p><p>� Caralho! � murmurou Cabana. � Essa cabine est� cheirando a erva! Voc� n�o pode colocar essa merda de lado, Danny? Quer dizer� N�s vamos� Vamos� N�s vamos� � <emphasis>fala logo essa merda, Cabana</emphasis> � � acabar numa cadeia tcheca, pelo amor de Deus! � ele fez uma pausa, limpando as gotas de suor que se formaram em sua testa p�lida e paranoica. Ele tinha at� uma boa apar�ncia, de uma forma masculina, por assim dizer. Tinha estatura m�dia, com estrutura delgada, embora tivesse um pouco de barriga.</p><p>� Eu vou ser deportado � resmungava. � Eu sei disso, ahhhhh!</p><p>Era um gemido paranoico, por causa das drogas, e assim que ele terminou de gemer segurou a peruca nas m�os e balan�ou a cabe�a em formato de ovo, em desespero.</p><p>O Chef estava sentado � minha esquerda, e ele era firme como uma rocha. Na verdade, ele nunca tinha tomado qualquer esp�cie de droga em toda a vida, sendo um daqueles raros homens que podiam se ver cercados de viciados recorrentes em drogas e ficar totalmente bem com isso. O Chef era um homem bonito e vistoso, como uma vers�o reduzida de Mr. Clean<sup>*</sup>. Ele era completamente careca, com uma testa proeminente, uma mand�bula bem quadrada, olhos castanhos penetrantes, nariz aquilino e um sorriso contagioso.</p><p>O Chef nascera e crescera em Nova Jersey, mas podia deixar seu sotaque forte na hora que quisesse e quando a situa��o assim o exigisse, como ele fazia agora:</p><p>� <emphasis>Qual�, qual�?</emphasis> � dizia ele para Cabana. � <emphasis>C�</emphasis> tem que se recompor, Andy! Se <emphasis>t�</emphasis> preocupado com o cheiro, liga os ventiladores de cima, cara! A press�o <emphasis>t�</emphasis> muito baixa l� fora e isso vai limpar o mau cheiro <emphasis>num segundo!</emphasis></p><p>De fato. O Chef estava absolutamente certo.</p><p>� Voc� deve ouvir o que o Chef diz � falei para Cabana. � Ele tem uma estranha capacidade de racioc�nio nessas situa��es � estendi a m�o esquerda e coloquei-a no ombro de Cabana, oferecendo-lhe um sorriso preocupado. � E, c� entre n�s, eu recomendo fortemente que voc� tome um par de Xanax. Voc� precisa se equilibrar um pouco.</p><p>Ele olhou para mim.</p><p>� Voc� parece que foi atropelado por um trem � comentei. � Confie em mim, dois Xanax � exatamente o que o m�dico me receitou � virei-me para o Chef. � N�o � verdade, Chef?</p><p>� De fato � o Chef concordou.</p><p>Cabana assentiu nervosamente.</p><p>� Acho que vou fazer isso � respondeu ele �, mas preciso fazer uma faxina em primeiro lugar.</p><p>Ele se levantou da cadeira e come�ou a caminhar pela cabine, abrindo as sa�das de ar. Olhei para Danny, que ainda estava fumando um baseado.</p><p>� Apesar de nosso advogado ser um drogado � eu disse �, ele tem um argumento v�lido. Por que voc� n�o se livra disso apenas por seguran�a?</p><p>Danny ergueu aquele baseado de meia polegada e inclinou a cabe�a para o lado, como se a inspecion�-lo. Ele virou os cantos de sua boca para baixo, encolheu os ombros e ent�o atirou o cigarro para dentro de sua boca e o engoliu.</p><p>� Engolir um desses te deixa fodido! � gaguejou com orgulho.</p><p>S� ent�o Cabana sentou-se, o queixo ainda fazendo uma vers�o latina de um viciado em coca.</p><p>� Tome � disse eu, pegando o frasco adequado da bolsa LV. Desenrosquei a tampa e derramei alguns comprimidos. � A dosagem correta � de dois azuis � fiz uma pausa, pensando por um momento, � embora a esta altitude n�o haja maneira de ter certeza. O corpo pode ser mais suscet�vel aqui no alto.</p><p>Dei de ombros.</p><p>Cabana assentiu nervosamente, ainda preso � fase da preocupa��o. Se eu o cutucasse com a hist�ria de como ele tinha perdido o cabelo enquanto ainda estava no colegial e depois de que fora pego trapaceando no vestibular, haveria uma chance maior que 50% de que ele correria loucamente at� a sa�da de emerg�ncia e saltaria do avi�o. Mas tive pena dele e n�o disse nada.</p><p>Virei-me para o Chef e sorri respeitosamente.</p><p>� Voltando aos neg�cios � disse, em voz baixa �, n�o fiquei muito impressionado com as pessoas que conheci na Su��a, ent�o n�o pretendo ir em frente com eles, n�o me pareceram muito confi�veis.</p><p>Dei de ombros novamente. Isso foi uma mentira, claro, e, por mais que odiasse mentir para o Chef, eu tinha minhas raz�es.</p><p>Nos Estados Unidos, um obcecado agente do FBI chamado Gregory Coleman estava desesperado atr�s de mim, e eu precisava criar pistas falsas para ele seguir e, assim, desviar sua aten��o para longe de minhas <emphasis>reais</emphasis> contas su��as. Eu teria o Chef me ajudando com esse fim, ou seja, abrir uma conta na Su��a em que eu nunca realmente teria fundos nem utilizaria, mas cuja exist�ncia eu iria vazar para o agente Coleman. E quando Coleman pedisse ao governo su��o para abrir minha conta, eu lutaria com unhas e dentes contra isso, como se realmente tivesse algo a esconder. Isso iria mant�-lo ocupado por uns bons dois anos, pensei, talvez ainda mais que isso. E quando ele finalmente conseguisse seu intento e abrisse a conta, iria descobrir que eu nunca realmente a tinha coberto de fundos.</p><p>Em ess�ncia, a piada estouraria em Coleman, e meus neg�cios verdadeiros continuariam imperturb�veis. Com isso em mente, eu disse para o Chef:</p><p>� Ent�o vamos fazer as coisas que voc� falou antes. O que eu tenho que fazer para que as coisas comecem a andar?</p><p>� Voc� n�o tem que fazer nada � respondeu o Chef de Jersey, utilizando uma dupla negativa para refor�ar o pouco que eu tinha que fazer. � Eu j� tenho a coisa toda configurada para voc�, os administradores, os mandat�rios, e eu posso ser um conselheiro para o fundo. Isso vai manter outra zona de prote��o entre voc� e o dinheiro. E que Deus permita que os caras fiquem fu�ando ao redor, ent�o renuncio ao cargo de conselheiro e o dinheiro desaparece em Liechtenstein e, voc� sabe� <emphasis>Schhhwiitttt!</emphasis> � ele espalmou as m�os e bateu-as, esticando o bra�o direito em dire��o ao sul da Rom�nia � estamos prontos para seguir em frente.</p><p>Sorri para o Chef e concordei calorosamente. Ele era um homem de muitos talentos, embora sua mais not�vel habilidade fosse a capacidade de usar uma intrincada combina��o de gestos e sons para refor�ar seu ponto de vista. Meu favorito era <emphasis>Schhhwiitttt,</emphasis> que ele fazia ao enrolar a l�ngua em um C reverso e, em seguida, for�ando uma rajada de ar para fora. E, enquanto fazia o som, ele batia as m�os espalmadas, jogando o bra�o direito para longe. O Chef utilizava esse som quando pretendia amarrar as pontas soltas de uma hist�ria, como se estivesse sugerindo algo do tipo: ��, e com o �ltimo documento falso que criamos, voc� sabe� <emphasis>Schhhwiitttt!</emphasis>� n�o h� como os federais serem capazes de entender coisa alguma!�.</p><p>Olhando para tr�s e refletindo sobre esse tipo de coisa, sentado no Gulfstream, eu sabia que tinha cometido um erro colossal em n�o usar uma das muitas fabulosas receitas do Chef para saciar o apetite dos bancos su��os. Mas seu relacionamento com o velho Dem�nio de Olhos Azuis tinha me assustado. Era do conhecimento geral que eles estavam fazendo neg�cios na Su��a, e, por mais quente que eu estivesse no momento, o Dem�nio era ainda mais quente que eu, e eles ainda n�o tinham sido capazes de peg�-lo! Isso poderia ser um aug�rio para minha situa��o? Bem poss�vel, imaginei. Como o velho Olhos Azuis, eu era um homem cuidadoso, sempre percorrendo grandes dist�ncias para cobrir minhas pegadas.</p><p>Eu me agarrei a esse pensamento feliz quando peguei minha maleta de rem�dios e abri o frasco de Valium, engolindo tr�s p�lulas azuis. Era uma dose para le�o, eu sabia, mas, dada a quantidade de coca�na que tinha cheirado, era do que eu precisava para chegar em seguran�a � Tchecoslov�quia.</p><empty-line/><empty-line/><p>EM VEZ DE PASSAR pelo terminal principal do aeroporto Ruzyne, em Praga, o Gulfstream foi direcionado para um pequeno terminal privado, que, at� pouco tempo antes, havia sido reservado para os dignit�rios comunistas. Isso me serviu muito bem, dado meu estado de intoxica��o, mas quando eles nos levaram para uma sala que parecia o interior de um santu�rio do Kremlin, algo me incomodou, algo que eu n�o conseguia definir. Danny estava parado a meu lado, parecendo perturbado.</p><p>� Voc� est� sentindo o cheiro de alguma coisa? � perguntei, esfregando o nariz.</p><p>Danny franziu o pr�prio nariz e deu duas fungadas profundas.</p><p>� Sim � respondeu ele. � Que porra � essa? Tem cheiro de� Eu n�o sei, mas n�o gosto � e deu mais duas fungadas.</p><p>Eu me virei para Cabana.</p><p>� E voc�, est� sentindo o cheiro de alguma coisa? � sussurrei.</p><p>Cabana correu os olhos ao redor da sala como se fosse um animal selvagem.</p><p>� � g�s venenoso � disse ele nervosamente. � Eu� Eu tenho que pegar meu passaporte de volta. Eu� Por favor� Eu vou perd�-lo! � ele colocou o dedo indicador na boca e come�ou a morder a unha.</p><p>As preocupa��es, pensei.</p><p>Inclinei-me para o Chef.</p><p>� Sentiu o cheiro de alguma coisa, Chef?</p><p>Ele acenou com a cabe�a.</p><p>� Sim, cheiro de sovaco, cheiro de catinga! � declarou. � Esses porras desses comunistas de merda n�o usam desodorante! � ele co�ou o queixo, e ficou algum tempo refletindo. � Ou talvez eles n�o consigam encontr�-los nas lojas. Voc� ficaria surpreso como os comunistas renunciam aos mais normais dos prazeres.</p><p>Foi ent�o que um tcheco de meia-idade, fedido, usando um uniforme azul e cinza da pol�cia, caminhou at� n�s. Ele nos olhou com desconfian�a por um momento; em seguida, apontou para uma s�rie de poltronas de couro, de encosto alto, que tinham sido colocadas ao redor de uma enorme mesa de mogno. Nada mau, pensei. Sentamos, e um gar�om uniformizado apareceu do nada, carregando uma bandeja de aperitivos que colocou diante de n�s sem dizer uma s� palavra.</p><p>Eu olhei para o gar�om, que estava suando.</p><p>� Desculpe-me � disse eu, humildemente. � Por que � t�o quente aqui?</p><p>Ele lan�ou-me o olhar de uma pessoa desinteressada e lobotomizada e depois foi embora sem dizer uma palavra. Quando cheguei mais perto para pegar meu copo, Cabana advertiu:</p><p>� N�o beba o vinho! � come�ou a dizer, olhando em volta, nervosamente. � � isso que eles querem � ele olhou para mim de volta, com olhos selvagens. � Voc� entendeu?</p><p>O Chef se inclinou.</p><p>� Eu acho que o cara n�o fala ingl�s � sussurrou em meu ouvido �, mas quando eu estava saindo do avi�o o capit�o me disse que eles est�o tendo a pior onda de calor em cem anos. Acho que hoje foi o dia mais quente na hist�ria do pa�s.</p><empty-line/><empty-line/><p>DENTRO DO T�XI, eu respirei pela boca.</p><p>� Argh, voc� j� sentiu um cheiro t�o ruim assim? � perguntei a Danny.</p><p>Danny balan�ou a cabe�a gravemente.</p><p>� Nunca. O cara precisa ser mergulhado em �cido sulf�rico.</p><p>O Chef concordou com a cabe�a, em seguida acrescentou suas pitadas de sabedoria:</p><p>� N�o se preocupem � disse ele, confiante. � N�s vamos ficar no melhor hotel do pa�s. Tenho certeza de que vai ter ar-condicionado l�. Voc�s podem contar com isso.</p><p>Dei de ombros, n�o acreditando muito nele.</p><p>� Praga � a maior cidade da Tchecoslov�quia? � perguntei ao motorista malcheiroso.</p><p>Sem aviso, o motorista do t�xi cuspiu um catarro gigante em seu pr�prio painel.</p><p>� Os eslavos s�o c�es � rosnou ele. � Eles n�o fazem mais parte do pa�s. Estamos na Rep�blica Tcheca: a Joia do Leste Europeu! � e girou o pesco�o para um lado e para o outro, como se estivesse tentando recuperar a compostura.</p><p>Eu assenti nervosamente com a cabe�a e olhei para fora, tentando absorver um pouco da beleza da Joia do Leste, mas n�o havia ilumina��o p�blica e eu n�o conseguia enxergar nada. No entanto, ainda estava esperan�oso; afinal, depois de tudo, nosso destino era o fabuloso Hotel Ambassador, o �nico hotel quatro estrelas em Praga. E gra�as a Deus! Aquela parte da nossa viagem parecia estar amaldi�oada. Um pouco de mimo seria exatamente o que o m�dico receitaria!</p><empty-line/><empty-line/><p>INFELIZMENTE, o Chef n�o sabia que o Hotel Ambassador tinha acabado de ser classificado como um dos piores hot�is quatro estrelas da Europa. Coisa que descobri no momento em que pisei no lobby do hotel, que estava a uns 100 graus e com uma umidade de 1.000%. Na verdade, era t�o sufocante que eu quase desmaiei.</p><p>O espa�o do lobby era vasto e sombrio, como um abrigo antibombas da �poca da Guerra Fria. Havia apenas tr�s sof�s, que tinham uma perturbadora cor de bosta de cachorro.</p><p>Na recep��o, sorri para a garota tcheca que fazia o <emphasis>check-in</emphasis>, uma p�lida jovem loira com ombros largos, enormes seios tchecos, blusa branca e um crach� onde se lia Lara<sup>2</sup>.</p><p>� Por que n�o h� ar-condicionado? � perguntei � ador�vel Lara.</p><p>Lara sorriu tristemente, expondo alguns dentes tchecos tortos.</p><p>� N�s estamos com problemas no ar-condicionado � respondeu, em um ingl�s com forte sotaque. � N�o est� funcionando agora�</p><p>Com o canto do olho eu vi Danny desabar, mas depois o Chef ofereceu mais palavras de sabedoria.</p><p>� N�s vamos ficar bem aqui � disse ele, balan�ando a cabe�a uma �nica vez. � Eu j� vi coisa muito, muito pior.</p><p>Eu recuei, descrente.</p><p>� � mesmo, Chef? Onde?</p><p>Ele sorriu conscientemente.</p><p>� Voc� esquece que eu sou de Nova Jersey.</p><p>Tal l�gica � brilhante, pensei. O Chef foi um verdadeiro guerreiro!</p><p>Encorajado por suas palavras, lancei meu cart�o AmEx, sorri para Lara e disse a mim mesmo: <emphasis>�</emphasis>Isso n�o pode ser t�o ruim� Quando se est� t�o cansado e p�s-Lude como eu estou, a tend�ncia � s� desmaiar de exaust�o�.</p><empty-line/><empty-line/><p>DUAS HORAS DEPOIS, eu estava deitado na cama, olhando para o teto, totalmente pelado e pensando em suic�dio. Meu quarto no hotel devia ser mais quente que a sala da caldeira do Titanic. As janelas tinham sido aparafusadas e n�o se podia abri-las, e o aquecedor estava ligado. O motivo, ningu�m no hotel parecia saber. No entanto, era calor que vinha do aquecedor, nada estava vindo pelo ar-condicionado, e eu teria pago 1 milh�o de d�lares para algu�m soltar um enxame de abelhas que ficassem pairando sobre mim e agitando suas min�sculas asinhas.</p><p>Era pouco mais de 2 da manh�, cerca de 8 horas da noite no hor�rio de Nova York. Eu precisava desesperadamente falar com a Duquesa. Eu precisava ouvir algumas palavras gentis da parte dela, ouvi-la dizer que me amava e que tudo ficaria bem. Ela sempre conseguia me fazer sentir melhor, mesmo nos momentos mais complicados. Tentei ligar para ela meia d�zia de vezes e continuei recebendo a mesma porra de grava��o do caralho, dizendo que as linhas para o exterior estavam ocupadas.</p><p>E ent�o o telefone tocou. <emphasis>Ahhh, a deliciosa Duquesa! Ela sempre sabe!</emphasis> Peguei o telefone. Droga, era Danny.</p><p>� Eu n�o consigo dormir � rosnou. � Precisamos engolir uns Ludes e ir ca�ar umas putas, n�o h� outro jeito.</p><p>Sentei-me na cama.</p><p>� Voc� est� brincando! Algu�m vem buscar a gente daqui umas poucas horas, Dan! Isso � loucura � respondi, e passei alguns momentos pensando naquilo, chegando � conclus�o de que o plano dele era, de fato, insano. � E, seja como for, como vamos encontrar putas a essa hora da noite? � muito complicado.</p><p>� J� arranjei tudo com a Lara � respondeu ele, orgulhoso. � H� um lugar que fica a menos de dez minutos daqui, na periferia de Praga. Lara me garantiu que l� vamos encontrar as melhores putas fedidas do pa�s. � Ele fez uma breve pausa. � De qualquer forma, temos de fazer isso, JB. Seria um carma muito ruim deixar as coisas seguirem seu curso atual. Precisamos tomar medidas dr�sticas. Temo por voc�, se n�o consegue ver isso.</p><p>� De jeito nenhum � respondi. � Dessa vez eu passo. Se quiser, v� sozinho.</p><p>De alguma forma, e <emphasis>ainda</emphasis> n�o tenho certeza de como, uma hora mais tarde eu tinha engolido tr�s Ludes e tinha uma enorme prostituta tcheca em cima de mim, com cabelos loiros descoloridos e o rosto de um c�o pastor, cavalgando como um cavalo de corridas. Quase nenhuma palavra foi trocada, apenas 200 d�lares e algo que soava como <emphasis>�Ooo-brrri-gaduuu!�</emphasis> logo depois que eu meti naquela enorme boceta tcheca. Que seja. Boceta era boceta, pensei, e apesar de ela ser grande o suficiente para estacionar um t�xi tcheco l� dentro, eu ainda sentia que era meu dever patri�tico depositar dentro dela minha carga vermelha, branca e azul, e, se n�o fosse por qualquer outro motivo, apenas para lembr�-la quem tinha vencido a Guerra Fria.</p><p>Uma hora depois eu estava de volta a meu quarto de hotel, suando de novo, planejando minha pr�pria morte e sentindo muita saudade da Duquesa. Mas, acima de todas as coisas, eu estava me perguntando por que tinha acabado de fazer aquilo. Eu amava a Duquesa mais que qualquer coisa, mas n�o conseguia me controlar. Eu era fraco e estava decadente. O lobo selvagem vivia escondido dentro de mim, logo abaixo da superf�cie, pronto para se levantar diante da menor provoca��o e mostrar suas presas viciadas. Eu n�o tinha a menor ideia de como aquilo iria acabar, mas a fofoca em Wall Street era a de que eu estaria morto dentro de poucos anos. Que seja. Eu j� estava morto em mais de uma maneira�</p><p>�s 4 da manh�, desabei e ataquei a bolsa Luis Vuitton novamente. Ent�o, 30 minutos mais tarde, eu estava dormindo, com Xanax borbulhando em meu sistema nervoso em quantidade suficiente para derrubar metade de Praga.</p><empty-line/><empty-line/><p>�S 7H30 DA MANH�, apenas tr�s horas mais tarde, o telefone tocou. Era a recep��o ligando para me acordar.</p><p>Eu pisquei, em seguida vomitei, e ent�o levantei da cama para tomar um banho gelado de chuveiro. Depois, cheirei meio grama de coca�na, engoli um Xanax, para sufocar qualquer paranoia futura, e desci as escadas para o lobby. Senti uma pontada de culpa por estar cocainado na minha primeira reuni�o de neg�cios naquele simp�tico pa�s, mas, depois da escapada da noite anterior para a fossa decadente do bairro da luz vermelha de Praga, n�o havia outra maneira de come�ar meu dia.</p><p>No t�rreo, no lobby, Marty Sumichrest, Jr., de 30 anos, nos cumprimentou calorosamente. Ele era alto, magro, de rosto p�lido e usava �culos de aros de a�o com lentes muito grossas. Ele vivia em algum lugar perto de Washington, DC, mas estava em Praga porque esperava levantar 10 milh�es de d�lares para sua empresa, a Czech Industries. �quela altura, a empresa n�o era nada mais que uma casca vazia e in�til, mas ele nos garantiu que poderia usar o <emphasis>status</emphasis> de seu pai de �her�i de guerra� do pa�s para se insinuar nos mais altos escal�es da estrutura de poder tcheca.</p><p>N�s trocamos as gentilezas da manh� e, em seguida, nos amontoamos em uma limusine horrenda chamada Skoda. Ela era negra, quadradona, toda batida e, � claro, n�o tinha ar-condicionado. O fedor de odor corporal era t�o poderoso que poderia ter incapacitado um pelot�o inteiro de fuzileiros navais. Eu olhei para o rel�gio: ainda eram 8h15 da manh� Apenas 5 minutos tinham se passado, mas parecia uma hora. Olhei em volta dentro do carro e todos estavam a meio mastro: Danny estava branco como um fantasma; os l�bios do Chef estavam retorcidos subversivamente; a peruca de Cabana parecia um animal morto.</p><p>Sentado no banco da frente, Marty se virou para n�s.</p><p>� Praga � uma das �nicas cidades da Europa que n�o foi destru�da pelos nazistas � disse ele, orgulhoso. � A maior parte da arquitetura original ainda permanece � ele levantou a palma da m�o em dire��o � janela, fez um gesto de arco da esquerda para a direita, como a dizer: �Eis aqui a maravilha e a beleza!� e ent�o continuou: � Muitos a consideram a mais bela cidade da Europa, a Paris do Leste Europeu, por assim dizer. Praga tem sido o lar de muitos artistas, e de muitos poetas tamb�m. Eles v�m aqui para se inspirar, para se�</p><p><emphasis>Santo Deus!</emphasis> Eu estava entediado at� a morte, suando at� a morte e cheirava a morte, tudo ao mesmo tempo! Como poderia ser? Eu senti desesperadamente muitas saudades de casa, de repente, como um menino que fora obrigado a ir para um acampamento e estava louco para voltar para casa.</p><p>� �E os tchecos t�m sido sempre empreendedores. Foram os eslavos que deram m� reputa��o a este pa�s � Marty balan�ou a cabe�a em desgosto. � Eles s�o idiotas, b�bados e pregui�osos com QI um pouco acima do n�vel de um idiota. Eles foram empurrados para n�s pela Uni�o Sovi�tica, mas agora est�o de volta ao que pertencem: � Eslov�quia. Escreva o que eu digo. Daqui a dez anos eles v�o ter o menor PIB da Europa Oriental e n�s teremos o maior � ele acenou com a cabe�a orgulhosamente. � Pode escrever!</p><p>� Muito interessante � eu disse casualmente �, mas, se os tchecos s�o t�o inteligentes assim, como � que eles ainda n�o descobriram o desodorante?</p><p>� O que voc� quer dizer? � perguntou Marty, estreitando os olhos.</p><p>� N�o importa � respondi. � Eu estava apenas fazendo uma piada, Marty. O cheiro aqui � igual a lavanda�</p><p>Ele acenou com a cabe�a, parecendo entender.</p><p>� Bem � acrescentou �, a primeira empresa que vamos visitar nesta manh� � a Motokov. Eles det�m os direitos de distribui��o exclusivos da Skoda � e bateu com a m�o no seu encosto de cabe�a duas vezes � para que eles possam inundar o mundo com estes meninos maus!</p><p>� Hmmm � murmurou o Chef. � Eu aposto que as pessoas em toda a Europa Ocidental v�o fazer filas enormes para comprar um Skoda. Na verdade, � melhor que o pessoal da Mercedes fique bem atento, sen�o logo v�o estar mergulhados at� os joelhos nas d�vidas.</p><p>O filho do her�i de guerra concordou com a cabe�a.</p><p>� Como eu disse, a Rep�blica Tcheca � cheia de oportunidades. Motokov � apenas um exemplo disso.</p><empty-line/><empty-line/><p>A SEDE CORPORATIVA da Motokov era um edif�cio de escrit�rios cinza, feito de concreto, que se erguia 23 andares acima das ruas de Praga. Infelizmente, a empresa precisava de apenas dois andares para suas opera��es. Mas os comunistas tinham acreditado fortemente na cren�a de que �quanto maior, melhor�, enxergando conceitos do tipo lucros e perdas como pequenas trivialidades, ou pelo menos como de import�ncia secund�ria em rela��o � cria��o de empregos in�teis e mal remunerados para aplacar a for�a de trabalho b�bada da antiga Tchecoslov�quia.</p><p>Pegamos um elevador revestido com pain�is de lin�leo at� o 20� andar e caminhamos por um corredor longo e silencioso que parecia ter pouco oxig�nio. Eu estava prestes a desmaiar quando chegamos a uma grande sala de reuni�es, onde nos foram oferecidos assentos ao redor de uma enorme mesa feita de madeira barata e que era grande o suficiente para umas 30 pessoas. Mas apenas tr�s representantes da Motokov estavam na sala; por isso, depois de termos tomado os assentos, ficamos t�o distantes uns dos outros que era preciso quase gritar para ser ouvido do outro lado. Ah, esses comunistas, pensei.</p><p>Eu estava sentado em uma ponta da mesa, de frente para uma parede de vidro laminado que dava para a cidade de Praga. �quela hora da manh�, naquele momento do m�s de junho, o sol estava brilhando diretamente atrav�s da placa de vidro, aquecendo o ambiente com a temperatura do planeta Merc�rio. No ch�o havia tr�s ger�nios em vasos brancos de pl�stico. Eles estavam mortos.</p><p>Depois de alguns momentos dedicados �s amenidades de apresenta��o, o presidente da Motokov tomou o centro do palco e come�ou a falar em ingl�s com forte sotaque. A empresa tinha sofrido muito devido � ruptura com a Uni�o Sovi�tica, explicou. As leis antimonop�lio tinham sido aprovadas, basicamente lan�ando-os para fora do neg�cio. Ele parecia ser um sujeito inteligente, um sujeito completamente af�vel, de fato, mas logo comecei a notar algo muito estranho nele. No in�cio eu n�o conseguia perceber exatamente do que se tratava, mas ent�o fui atingido pela constata��o: ele era um pisca-pisca. Sim, ele era um pisca-pisca de qualidade internacional! A cada palavra que escapava de seus l�bios, ele piscava os olhos, �s vezes mais de uma vez.</p><p>� Ent�o voc� v� � explicou o Pisca-pisca, com tr�s r�pidas piscadas �, sob as novas leis, os monop�lios n�o s�o mais permitidos, o que nos coloca � <emphasis>pisca, pisca</emphasis> �, n�s, da Motokov, em uma posi��o � <emphasis>pisca, pisca, pisca</emphasis> � dif�cil � <emphasis>pisca.</emphasis> � De certa forma, temos sido empurrados para muito perto da fal�ncia � <emphasis>pisca, pisca, pisca, pisca, pisca, pisca, pisca�</emphasis></p><p>Aquilo parecia uma bela oportunidade, pensei, especialmente se seu objetivo � jogar dinheiro fora em um vaso sanit�rio tcheco!</p><p>Ainda assim, fiz o papel do convidado interessado e balancei a cabe�a de modo solid�rio, ao que o Pisca-pisca piscou.</p><p>� Sim, n�s estamos � beira da fal�ncia � continuou o Pisca-pisca. � N�s temos a sobrecarga da estrutura � <emphasis>pisca, pisca</emphasis> � de uma empresa de bilh�es de d�lares, mas que j� n�o tem mais a autoriza��o das vendas.</p><p>O Pisca-pisca soltou um suspiro profundo. Ele parecia estar na casa dos 40 anos e tinha a pele muito branca. Usava um tipo de camisa xadrez de manga curta e uma gravata de l� azul que o deixavam parecido com um contador de n�vel m�dio em um matadouro em Omaha.</p><p>Ele ent�o enfiou a m�o no bolso da cal�a, tirou um ma�o de cigarros e acendeu um. Aparentemente, seus dois subordinados entenderam isso como um sinal para acender seus cigarros tamb�m, e antes que eu percebesse a sala estava envolta em uma nuvem amea�adora de fuma�a de tabaco tcheco barato. Com o canto do olho, vislumbrei Danny, cujo cotovelo direito estava apoiado na mesa de reuni�es, com o queixo embalando a m�o. E ele estava dormindo. Dormindo? <emphasis>Dormindo!</emphasis></p><p>Atrav�s da fuma�a exalada, o Pisca-pisca prosseguiu:</p><p>� � por isso que agora estamos focando nossa aten��o em franquias do Kentucky Fried Chicken � disse ele, e eu pensei �Que porra � essa? Kentucky Fried Chicken? Mas do quꅔ �, rede que planejamos implantar � <emphasis>pisca, pisca</emphasis> � de forma muito agressiva durante os pr�ximos cinco anos.</p><p>O Pisca-pisca assentiu de acordo com seus pr�prios pensamentos e piscou mais um pouco.</p><p>� Sim � continuou, dessa vez com uma r�pida piscada dupla. � Vamos concentrar nossos esfor�os em frango frito e pur� de batatas, com a marca Kentucky Fried, � claro, que � delicioso se�</p><p><emphasis>BONC</emphasis>! E a cabe�a de Danny foi direto para a mesa de reuni�es.</p><p>Houve um sil�ncio absoluto quando todo mundo, incluindo o Pisca-pisca, olhou espantado para Danny. A face direita dele estava pressionada contra a mesa de reuni�es e um pequeno rio de baba abria caminho lentamente pelo seu queixo. Ent�o ele come�ou a emitir um daqueles roncos guturais de drogas que chegam l� do fundo do est�mago.</p><p>� N�o ligue para ele � eu disse para o Pisca-pisca. � Ele s� est� sofrendo de <emphasis>jet-lag</emphasis> da viagem. Por favor, continue. Estou intrigado com os planos da Motokov para capitalizar o mercado de frango frito mal atendido � dei de ombros. � Eu n�o estava ciente de que os tchecos gostavam de frango frito.</p><p>� Ah, sim � piscou o Pisca-pisca �, � um de nossos alimentos de primeira necessidade.</p><p>E ent�o ele come�ou a piscar novamente, Danny se manteve roncando, o Chef continuou revirando os olhos e a peruca de Cabana foi lentamente se transformando em cola, e cada um de n�s, incluindo o pr�prio Pisca-pisca, estava suando at� a morte.</p><empty-line/><empty-line/><p>O RESTANTE DO DIA n�o foi melhor: um monte de tchecos fedorentos, escrit�rios fervendo, salas cheias de fuma�a e Danny babando. O filho do her�i de guerra nos arrastou de empresa a empresa, cada qual em situa��o semelhante � da Motokov. Sem exce��o, todas sofriam de sobrecarga de uma estrutura inchada, equipes de gest�o inexperientes e uma compreens�o limitada dos princ�pios b�sicos do capitalismo. O que me espantou, no entanto, foi a enorme esperan�a compartilhada por todas as pessoas que conhecemos. Todos eles continuavam sempre relembrando que Praga era a �Paris do Leste� e que a Rep�blica Tcheca fazia realmente parte da Europa Ocidental. A Eslov�quia n�o tinha nada a ver com eles, todos asseguravam. Na verdade, aquelas terras eram habitadas por um bando de macacos retardados.</p><p>Eram 6 horas da tarde e n�s quatro est�vamos sentados no sagu�o do hotel, nos sof�s de tecido marrom cor de bosta de cachorro, necessitando desesperadamente de p�lulas de sal. Eu disse para o grupo:</p><p>� N�o sei quanto mais posso suportar, n�o h� dinheiro que pague esse abuso!</p><p>Danny pareceu concordar comigo.</p><p>� Por favor! � pediu, esfregando um galo do tamanho de uma bola de golfe que tinha se formado em sua t�mpora direita. � Vamos dar o fora dessa merda e ir para a Esc�cia! � e mordeu o l�bio inferior, como se estivesse � beira de um colapso. � Eu estou dizendo a voc�, a Esc�cia � linda! � a terra do leite e do mel! � ele acenou com a cabe�a ansiosamente. � Aposto que l� deve estar abaixo de zero, sem uma gota de umidade� Podemos jogar golfe durante todo o dia� Fumar charutos� Beber conhaque� E aposto que ainda podemos encontrar jovens prostitutas escocesas que cheiram a sabonete! � disse, jogando as m�os para o ar. � Estou implorando, JB, jogue a toalha agora, por favor, simplesmente jogue a toalha.</p><p>� Como seu advogado � acrescentou Cabana �, eu recomendo fortemente que voc� siga o conselho de Danny. Acho que voc� deve chamar Janet agora e mandar que ela verifique se o avi�o est� abastecido. Nunca me senti t�o p�ssimo na vida.</p><p>Eu olhei para o Chef. Aparentemente, ele n�o estava pronto para jogar a toalha, ele ainda tinha d�vidas.</p><p>� D� para acreditar naquele filho da puta da Motokov falando e falando sobre Kentucky Fried Chicken? O que h� de t�o bom no Kentucky Fried Chicken? � ele sacudiu a cabe�a, como se ainda estivesse confuso. � Eu pensei que eles comessem principalmente porco nesta parte do mundo.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Eu n�o tenho certeza � respondi �, mas voc� conseguiu contar quantas vezes aquele filho da puta piscou? Foi incr�vel! � balancei a cabe�a em rever�ncia. � Ele era como uma m�quina de somar humana. Eu nunca tinha visto nada parecido.</p><p>� Sim, bem, eu perdi a conta quando chegou a mil � disse o Chef. � Ele deve ter algum tipo de doen�a, provavelmente que seja peculiar aos tchecos � e encolheu os ombros tamb�m. � De qualquer forma, como seu contador, eu tenho que concordar com Cabana: recomendo fortemente que voc� evite fazer qualquer tipo de investimento neste pa�s at� que eles comecem a usar desodorante � o Chef encolheu os ombros novamente. � Mas isso � apenas minha opini�o�</p><p>Trinta minutos mais tarde, est�vamos a caminho do aeroporto. O fato de que 20 tchecos estavam nos esperando para um tradicional jantar tcheco de cinco horas de dura��o foi meramente incidental. �s 6 horas da manh� seguinte, todos n�s estar�amos na terra do leite e do mel, e eu nunca mais veria aqueles tchecos fedorentos de novo. A Esc�cia era linda, mas sua beleza se perdeu em mim.</p><p>Eu tinha passado muito tempo longe da Duquesa. Eu precisava ver aquela mulher, literalmente senti-la em meus bra�os, precisava fazer amor com ela. Chandler, claro, tamb�m estava esperando por mim. Ela estava com quase 1 ano de idade, e quem poderia adivinhar quais as surpreendentes fa�anhas intelectuais que ela realizara na semana em que eu estivera longe? Sem falar no fato de que os Ludes estavam acabando, o que significava que ir�amos come�ar a usar narc�ticos. E ent�o as n�useas e os v�mitos iriam se instalar, bem como a intensa pris�o de ventre. E n�o h� nada pior que ficar preso em um pa�s estrangeiro com a cabe�a debru�ada sobre um vaso sanit�rio, enquanto o c�lon descendente est� congelado como uma geleira.</p><p>Foi por todas essas raz�es que quase desmaiei nos bra�os da Duquesa quando entrei pela porta da nossa casa em Westhampton Beach naquela manh� de sexta-feira. Foi um pouco depois das 10, e tudo o que eu queria era ir l� para cima, segurar Chandler por um momento, e ent�o me esgueirar para o quarto e fazer amor com a Duquesa. Ent�o eu iria dormir por um m�s.</p><p>Mas eu nunca tive essa chance. Eu estava em casa h� menos de 30 segundos quando o telefone tocou. Era Gary Deluca, um de meus funcion�rios, que ostentava uma estranha semelhan�a com Grover Cleveland, o presidente morto com a barba espessa e express�o perpetuamente sombria.</p><p>� Desculpe incomod�-lo � disse Grover severamente �, mas achei que voc� gostaria de saber que Gary Kaminsky foi indiciado ontem. Ele est� na pris�o, detido sem fian�a.</p><p>� S�rio? � respondi com naturalidade. Eu estava num estado de extremo cansa�o, a ponto de voc� n�o entender imediatamente as consequ�ncias daquilo que est� ouvindo. Ent�o, o fato de que Gary Kaminsky tinha �ntimo conhecimento de todos os meus neg�cios su��os n�o estava me incomodando, pelo menos ainda n�o. � Ele est� sendo acusado de qu�? � perguntei.</p><p>� Lavagem de dinheiro. Ser� que o nome de Jean Jacques Saurel<sup>3</sup> lhe diz alguma coisa?</p><p>Aquilo me pegou! Acordou-me bem na hora! Saurel era meu banqueiro su��o, o �nico homem que poderia me ferrar com o agente Coleman.</p><p>� Na verdade, n�o � disse timidamente, tensionando minha bunda. � Talvez eu o tenha encontrado uma vez, n�o sei� Eu n�o tenho certeza, por qu�?</p><p>� Porque ele foi indiciado tamb�m � disse Grover. � Ele est� na cadeia com Kaminsky neste exato momento.</p><empty-line/><empty-line/><p>PARA MINHA SURPRESA, TOC ainda levou mais de tr�s anos para conseguir uma acusa��o contra mim, apesar de Saruel ter come�ado a cooperar quase imediatamente. E, embora parte do atraso tivesse a ver com a lealdade de meus strattonitas, muito estava ligado ao fato de que eu havia recrutado o Chef para me ajudar a inventar uma hist�ria que me acobertasse. Na verdade, enquanto meu castelo de cartas estava desabando � minha volta, o Chef foi preparar uma de suas lend�rias receitas. E essa receita em particular foi t�o saborosa e t�o deliciosa que manteve TOC co�ando a cabe�a por mais de tr�s anos completos.</p><p>E agora o Chef era um homem procurado. Ele tinha um alvo dos federais plantado nas costas, e n�o apenas porque ele tinha me ajudado e instigado, ao ajudar a cobrir minha derrocada na lavagem de dinheiro, mas tamb�m por causa de seu relacionamento com o Dem�nio de Olhos Azuis. A gente aperta o Gaito, raciocinou o Canalha, e ele vai entregar o Brennan, que era o verdadeiro alvo.</p><p>Na verdade, eu n�o tinha tanta certeza disso. O Chef era algu�m ferozmente leal ao Dem�nio, tinha vendido a alma a ele, por assim dizer, e era o tipo de cozinheiro endurecido em batalhas, que poderia suportar o calor na cozinha, preferindo, de fato, inventar suas receitas ao lado das chamas. O Chef n�o apenas amava a a��o, ele <emphasis>vivia</emphasis> para a a��o, e, depois de todos esses anos de trabalho com o Dem�nio, tinha se tornado completamente insens�vel. Coisas como medo, inseguran�a e autopreserva��o passaram a ser conceitos estranhos para o Chef. Se voc� fosse seu amigo, ele se ergueria ao seu lado; se estivesse em apuros, ele iria para a guerra por voc�; e se estivesse de fato encurralado de costas para a parede, e se a escolha fosse entre voc� e ele, ele cairia sobre a espada por voc�.</p><p>Talvez tenha sido esse o motivo, naquela mesma tarde, de o Chef ter desafiado a sabedoria convencional e atendido meu telefonema. Afinal, a primeira regra de ouro no meu mundo, ou seja, o mundo dos ladr�es, vigaristas e canalhas, era: quando algu�m fosse indiciado pelo FBI, voc� perderia seu n�mero de telefone para sempre. Era como se tornar um leproso, e se um leproso realmente toca voc� ou n�o, isso realmente n�o importa. Basta chegar perto e ele infecta voc� do mesmo jeito.</p><p>Ent�o, o dia seguinte seria o dia D, o plano simples e diab�lico do FBI: o Chef viria at� minha casa e eu estaria recheado de escutas. Depois de alguns minutos de conversa, eu casualmente traria o passado � baila e faria o Chef se incriminar. Por mais triste e deplor�vel que fosse essa atitude, que escolha eu tinha? Se eu n�o cooperasse, eles iriam acusar a Duquesa; se eu n�o cooperasse, meus filhos iriam crescer sem pai; se eu n�o cooperasse, correria o risco de me tornar o senhor Gower! Tudo o que eu podia esperar era que o Chef fosse inteligente o suficiente para n�o se incriminar, que ele dan�asse, se quisesse, perto da linha, mas que fosse esperto para n�o cruz�-la.</p><p>Essa era minha �nica esperan�a.</p></section><section><p>CAP�TULO 9</p><p><strong>TOTALMENTE LIGADO</strong></p><p>Meu Deus, eles est�o contaminando o quarto da minha filha!</p><p>Era in�cio da tarde, e eu estava sentado no meu p�tio coberto de ard�sia cinza, em uma poltrona da Smith &amp; Hawken de 1.200 d�lares, quando esse pensamento horr�vel borbulhou em meu c�rebro. Embora n�o pudesse v�-los, sabia que estavam l�, <emphasis>Z� Colmeia e Catatau, Debi e Loide</emphasis>! TOC e M�rmon estavam acampados no quarto rosa e perfeito de Chandler, dando uma olhadinha r�pida em mim atrav�s dos espa�os min�sculos das ripas cor-de-rosa perfeitas de sua veneziana.</p><p>Que tipo de pai permitiria que uma coisa dessas acontecesse? Eu supostamente deveria ser o protetor de Chandler! Seu guardi�o! Seu salvador! Era fun��o do papai manter os intrusos afastados; mas agora havia dois intrusos armados contaminando seu quarto, al�m das 150 Barbies imaculadamente vestidas e um n�mero igual de bichinhos de pel�cia, todos em total desamparo, sendo testemunhas silenciosas do fracasso do papai como protetor.</p><p>O Chef estava para chegar a qualquer minuto, ent�o eu precisava me recompor. Eu precisava controlar todos esses pensamentos desgarrados rugindo em meu c�rebro: a culpa, o remorso, o p�nico, o puro e simples terror do caralho! Na verdade, n�o era realmente minha culpa que o FBI tivesse declarado completo dom�nio sobre o perfeito quarto cor-de-rosa de minha filha; o problema era daqueles de geometria, uma vez que a janela do quarto de Chandler era o �ngulo perfeito para TOC e M�rmon tirarem fotos clandestinas do Chef enquanto ele e eu nos sent�vamos l� fora no p�tio de ard�sia cinza e eu come�ava a destruir a vida dele.</p><p>Que vergonha eu senti! Que desonra terr�vel! Eu, um rato ign�bil!</p><p>Ainda assim, o fato � que estava muito bonito l� fora. Era um daqueles dias gloriosos e edificantes, quando um jovem de valor e subst�ncia pode apreciar a M�e Natureza e tudo o que ela tem para oferecer. E que lugar melhor para fazer isso sen�o a partir do p�tio de ard�sia cinza na fabulosa Chez Belfort? A paisagem, afinal, era bonita; atr�s de mim, minha mans�o de pedra cinza com 10 mil metros quadrados se elevava acima do terreno com a grandeza e a magnific�ncia do Pal�cio de Versalhes; diante de mim, as �guas azuis cristalinas de minha piscina ol�mpica brilhavam como se fossem diamantes e, al�m dela, a lagoa de tirar o f�lego e um sistema de cachoeira que bombeava milhares de gal�es de �gua por minuto, enquanto uma fonte disparava um jato de �gua a 15 metros de altura, em uma deslumbrante exibi��o de riqueza e excesso. Que opul�ncia! Com quanta beleza eu me cerquei!</p><p>E ent�o, minha alma afundou. Aquelas merdas de lagoa e de cachoeira tinham me custado uma porra de 1 milh�o de d�lares, 1 milh�o de d�lares de merda que eu poderia realmente usar agora! Ainda naquela manh�, eu tinha tido um ataque debilitante de ansiedade por dinheiro. Eu estava sozinho na cama quando a realidade cruel de ter que vomitar a maioria dos meus ativos para o governo federal me atingiu como uma bola de ferro de demoli��o. No momento seguinte, meu cora��o estava batucando no peito e eu suava profusamente. Comecei a entrar em p�nico.</p><p>E por que eu estava sozinho? Por que a cadela da Duquesa n�o tinha sequer voltado para casa na noite anterior? Aparentemente, ela se concentrava em uma nova mina de ouro e estava agora no processo de construir a cerca em torno de sua nova posse. Era apenas uma quest�o de tempo at� que ela se tornasse um acess�rio de luxo de cabelos loiros de outro dono de mina. E aonde isso me levava? Que mulher gostaria de ficar com um Lobo quebrado, sem dinheiro e que tinha dedurado todos os amigos?</p><p>Respirei fundo e resisti � vontade de dar uma espiada r�pida na veneziana do quarto de minha filha. Eu tinha estado l� menos de cinco minutos antes, e a cena era uma confus�o enorme. O M�rmon estava andando para tr�s e para a frente (enquanto mantinha um largo sorriso gentil) com uma c�mera Minolta pendurada no pesco�o, como um sorridente turista japon�s. Enquanto isso, TOC tinha se mantido curvado de joelhos, fixando um gravador de fita ultrassens�vel logo acima de meu quadril, utilizando um rolo de fita adesiva que ele tinha comprado na Staples.</p><p>Quanto a mim, passei quase o tempo todo reclamando.</p><p>� Porra, vai doer pra caralho quando voc� retir�-lo! � reclamei com TOC. Eu estava me referindo ao fato de que a maioria de meus pelos pubianos seria arrancada quando ele tirasse o gravador.</p><p>� Eu sei, eu sei � respondeu TOC de maneira simp�tica, enquanto cuidadosamente evitava meus pelos pubianos com as costas da m�o. � Mas voc� tem que confiar em mim, n�o h� melhor lugar para esconder um gravador de fita � ele deu de ombros, ao fixar o �ltimo peda�o de fita adesiva quatro cent�metros acima da minha bolsa escrotal. � Mesmo algu�m que suspeita de tudo como o Chef vai pensar duas vezes antes de acariciar suas bolas!</p><p>Tudo bem, pensei, mas e o fio que estava ligado ao gravador? Ele vinha subindo pelo lado de fora da linha de cintura do meu jeans, continuando ent�o at� a linha m�dia do meu abd�men. Na ponta do fio, um pequeno microfone, mais ou menos do tamanho de uma borracha de l�pis n�mero dois, estava preso com fita adesiva entre a depress�o de meus m�sculos peitorais. De acordo com TOC, esse aparelho de grava��o, chamado Nagra, era t�o sens�vel que pegaria nossa conversa mesmo que fosse feita de sussurros. E essas foram suas palavras finais antes que eu sa�sse do quarto de minha filha e descesse as escadas at� o p�tio.</p><p>Ent�o, l� estava eu, todo �ligado� e cheio de fios. O Chef, rezei, era inteligente demais para incriminar-se.</p><p>Naquele instante, minha empregada de longa data, Gwynne Latham, emergiu da porta lateral da cozinha. Ela usava cal�as de algod�o brancas, uma camiseta branca bem solta e t�nis brancos tamb�m. De fato, vestida do jeito que estava, algu�m poderia t�-la confundido com a Senhora Bom Humor, n�o fosse pelo fato de que ela estava carregando uma bandeja de prata com uma jarra de ch� gelado e dois copos altos sobre ela. Gwynne estava na casa dos 50 anos, embora parecesse uns dez anos mais nova. Ela era uma negra gordinha, atemporal, com tra�os caucasianos finos e o mais puro cora��o. Gwynne era do Sul e tinha me adotado praticamente como o filho que ela nunca teve. Nos primeiros dias de meu v�cio, ela me servia, na cama, caf� gelado e Quaaludes, e nos �ltimos tempos, quando eu estava t�o drogado que praticamente tinha perdido a maior parte de minhas habilidades motoras, ela trocava minha roupa e limpava a baba de meu queixo.</p><p>Mas desde que fiquei s�brio e larguei as drogas, ela havia redirecionado seu amor incondicional para Chandler e Carter, passando a maior parte do dia cuidando deles. (Deus os aben�oe.) Enfim, Gwynne era como algu�m da fam�lia, e o simples pensamento de ter que deix�-la ir algum dia me entristeceu terrivelmente. Eu n�o tinha muita certeza do quanto ela sabia sobre o que estava acontecendo. E ent�o, tudo de uma vez, <emphasis>um pensamento terr�vel!</emphasis></p><p>Gwynne era sulista, o que significava que ela era geneticamente predisposta a tagarelar. E, assim como acontecia com todo mundo, ela amava o Chef, e certamente tentaria conversar com ele. Eu comecei a imaginar o que aconteceria: �Oi, Chef? Quer que lhe prepare alguma coisa para comer, um sandu�che de peru ou uma salada de frutas?�. �Bem, acho que sim, Gwynne, voc� tem morangos?�. �Puxa, sinto muito, Chef, mas aqueles dois homens que est�o no quarto da Chandler comeram os �ltimos que eu tinha��. �Como �? Dois homens no quarto da Chandler? Como eles s�o, Gwynne?�. �Bem, Chef, um deles sorri bastante. Ele est� usando fones de ouvido e tem uma c�mera em torno do pesco�o com uma lente teleobjetiva; o outro n�o sorri, mas tem um rev�lver gigante no quadril e um par de algemas penduradas no cinto e��.</p><p>Ah, caralho, eu precisava dizer alguma coisa para Gwynne! Eu tinha apresentado aquelas for�as de ocupa��o como sendo velhos amigos, e Gwynne, n�o sendo uma pessoa de ficar fazendo perguntas, tinha entendido as coisas literalmente, acreditando no que eu tinha dito e sorrindo amistosamente para os invasores, e ent�o perguntando se eles queriam comer alguma coisa, do mesmo jeito como faria com o Chef! Eu tinha organizado as coisas para que as crian�as n�o estivessem em casa e provavelmente conseguiria sobreviver sem Gwynne por algumas horas, mas ela poderia se sentir insultada se eu pedisse que sa�sse de casa sem uma boa explica��o.</p><p>� Eu trouxe um pouco de ch� gelado para sua reuni�o de neg�cios � disse Gwynne carinhosamente, embora a frase soasse mais como �Eu trusse um pocu de ch� geladu pra sua reuni�o de neg�sss�. Com muito cuidado, ela colocou a bandeja de prata na obscenamente cara mesa redonda de teca. � Ser� que us homi l� em cima num v�o quer� nada? � acrescentou.</p><p>� N�o, Gwynne, eu tenho certeza de que eles est�o bem � disse e, com extremo cansa�o, completei: � Ou�a, Gwynne, eu realmente prefiro que voc� n�o diga nada sobre aqueles dois homens l� em cima enquanto Dennis estiver por aqui � e fiz uma pausa, em busca de uma poss�vel explica��o dos motivos. � Porque, h�, tem a ver com, h�, quest�es de seguran�a. Tem tudo a ver com seguran�a, Gwynne, especialmente com tudo o que est� acontecendo por aqui.</p><p>Que porra eu estava falando?</p><p>Gwynne assentiu tristemente, parecendo entender. Ent�o ela come�ou a olhar para minha camisa polo azul-clara, contraindo os l�bios.</p><p>� Meu Deus, ah meu Deus, o sinh� tem uma manchinha na camisa � e ela come�ou a andar em minha dire��o com o dedo apontado diretamente para o microfone escondido.</p><p>Eu pulei da minha poltrona, como se a madeira de repente tivesse se tornado eletrificada. Gwynne parou no meio do caminho e l� ficou, parada, de p�, a Senhora Bom Humor, olhando para mim com um estranho olhar em seu rosto. <emphasis>Caramba, ela sabia, n�o sabia</emphasis>? Estava escrito no rosto inteiro dela, e em todo o meu rosto tamb�m! Eu praticamente estava gritando: <emphasis>Eu sou um rato, Gwynne, sou um delator! N�o fale comigo! Estou cheio de fios ligados a um gravador!</emphasis></p><p>Na verdade, seu rosto n�o demonstrava nada al�m de uma verdadeira preocupa��o de que o homem para quem ela trabalhara por quase uma d�cada de repente tivesse perdido o ju�zo. Em retrospecto, havia muitas coisas que eu poderia ter dito a Gwynne para explicar meu comportamento irracional. Eu poderia ter dito a ela que uma abelha tinha me assustado, que eu tinha sentido uma c�ibra na perna, que era uma rea��o atrasada para os tr�s dias de tortura atr�s das grades.</p><p>Em vez disso, tudo o que eu disse foi:</p><p>� Caramba, Gwynne, voc� est� certa! � melhor eu ir ao meu quarto e trocar de camisa antes que o Dennis chegue! � e corri escada acima para trocar de camisa, voltando com uma polo azul-escura.</p><p>Depois fui para o banheiro, com o piso de m�rmore cinza de 100 mil d�lares, uma sauna sueca de tamanho grande e a gloriosa banheira de hidromassagem, t�o grande que era mais apropriada para Shamu, a baleia assassina, do que para o Lobo de Wall Street, e acendi todas as luzes para dar uma boa olhada no espelho.</p><p>Eu n�o gostei do que vi.</p><empty-line/><empty-line/><p>� EIIIIIIIIIIIIII � disse um Chef cheio de sorrisos, estendendo os bra�os para me dar um acolhedor abra�o. � Venha aqui e me d� um abra�o!</p><p><emphasis>Puta merda! O Chef sabia tamb�m!</emphasis> Ele tinha visto na minha cara, do mesmo modo que Gwynne. Quando me abra�asse, ele ia me dar tapinhas para procurar a escuta. Eu estava congelado, em p�nico. Era precisamente 13h05 da tarde, e o tempo parecia estar parado. Est�vamos na grande entrada de m�rmore da mans�o, separados por apenas quatro reluzentes quadrados de m�rmore italiano preto e branco, dispostos como um tabuleiro de xadrez, e eu estava tentando evocar uma desculpa esfarrapada para explicar por que n�o iria abra�ar o Chef, como sempre tinha feito.</p><p>Os c�lculos come�aram a rugir em meu c�rebro mais r�pido do que eu poderia acompanh�-los. Se eu <emphasis>n�o</emphasis> abra�asse o Chef, ele saberia que algo estava errado, mas, se eu o abra�asse, ele pode sentir aquele gravadorzinho diab�lico preso a meu quadril ou o microfone supersens�vel colado em meu peito. <emphasis>Que cara desonesto! Que decep��o! Eu era um dedo-duro safado!</emphasis> No entanto, se eu empinasse a bunda um pouco e deixasse cair os ombros para a frente, talvez estivesse mais seguro.</p><p>Enquanto eu olhava para o Chef, fiquei terrivelmente consciente daqueles diab�licos fios que TOC tinha fixado em meu corpo. O gravador, o microfone e a fita adesiva pareciam ter crescido e ficado maiores, mais pesados, mais evidentes. O gravador n�o era maior que um ma�o de Marlboro, ainda que me parecesse maior do que uma caixa de sapatos; e o microfone, do tamanho de uma ervilha, pesava menos de 30 gramas, mas parecia mais pesado que uma bola de boliche. Eu estava suando profusamente e meu cora��o batia <emphasis>tum-tum-tum</emphasis>, como se um coelho assustado estivesse morando l� dentro. E l� estava o Chef de Jersey, em seu estiloso palet� azul-claro n�o transpassado e camisa branca de colarinho. Eu n�o tinha escolha a n�o ser abra��-lo, mas ent�o veio uma ideia: <emphasis>um pat�geno contagioso!</emphasis></p><p>Com um par de fungadas, eu disse:</p><p>� Porra, Dennis, voc� � um col�rio para meus olhos� Snif, snif� Obrigado por ter vindo � disse, atirando minha m�o direita para a frente e travando meu cotovelo, oferecendo um aperto de m�o caloroso. � Mas procure n�o ficar muito perto de mim, acho que peguei alguma coisa naquela cela da pris�o� Snif, snif� Uma forte gripe, eu acho � sorri timidamente e projetei minha m�o um pouco mais, como se dissesse: �Cumprimente, amigo!�.</p><p>Infelizmente, o Chef era mais macho que a maioria dos homens e n�o seria um v�rus de gripe que iria assust�-lo:</p><p>� Venha c�! � disse ele. � Com gripe ou sem gripe, s�o em momentos como este que voc� sabe quem s�o seus verdadeiros amigos.</p><p><emphasis>Quem s�o seus verdadeiros amigos? Caramba, que merda de culpa angustiante</emphasis>! Agora eu tinha o privil�gio de conhecer o puro p�nico que j� havia se instalado em meu c�rebro. Ent�o veio um rel�mpago mais r�pido do que a morte. A culpa foi logo dizendo: �Como voc� pode delatar algu�m t�o leal quanto o Chef? Voc� n�o tem vergonha?�. Mas a� o p�nico respondeu: �Foda-se o Chef! Se voc� n�o delatar esse cara, voc� vai acabar babando que nem o velho idiota do Sr. Gower�. A culpa contra-atacou: �Isso n�o importa, o Chef tem sido leal e verdadeiro, e delatar esse homem vai transformar voc� em uma esc�ria mais suja que o esgoto!�. E o p�nico replicou: �Bela merda! Eu prefiro ser a esc�ria que ficar na cadeia o resto da vida! Al�m disso, o Chef vai acabar delatando o Dem�nio de Olhos Azuis para salvar a pr�pria pele, ent�o qual � a diferen�a, porra?�. A culpa argumentou: �Isso n�o � necessariamente verdade. O Chef n�o � uma bichinha covarde, como voc�, ele � um cara dur�o!�. Ent�o, de repente, <emphasis>uma nova onda de p�nico</emphasis>! O Chef tinha passado pela minha m�o e estava rapidamente diminuindo a dist�ncia.</p><p><emphasis>Caralho!</emphasis> O que devo fazer? <emphasis>Pense, seu rato!</emphasis> O caminho mais f�cil ou o mais dif�cil? Culpa ou autopreserva��o? Infelizmente, quando voc� � um rato, a autopreserva��o supera tudo: pouco antes de o Chef e eu nos abra�armos, meu c�rebro de rato desencadeou uma enxurrada de sinais de emerg�ncia para meu sistema musculoesquel�tico. Mais r�pido do que pude perceber, minha bunda empinou como um garoto de programa anunciando seu produto, e meus ombros ca�ram para a frente como Quasimodo tocando um sino de igreja, e foi assim que nos abra�amos, o Chef de Jersey de p� e orgulhoso e o Lobo de Wall Street como um prostituto corcunda.</p><p>� Voc� est� bem? � perguntou o Chef, liberando-me do abra�o. Ele agarrou meus ombros e me segurou pelos bra�os. � N�o me diga que machucou as costas de novo?</p><p>� N�o, n�o � respondi rapidamente. � � que fiquei um pouco dolorido de ficar sentado naquela cadeia� E tamb�m minha gripe� snif, snif � esfreguei meu nariz com a palma da m�o. � Voc� sabe, � incr�vel, mas, se eu ficar s� um pouco doente, isso vai direto para minhas costas.</p><p>Caralho! Mas que merda eu estava falando? Dei de ombros, tentando organizar os pensamentos.</p><p>� Vamos, vamos sentar l� fora. Um pouco de ar fresco vai me fazer bem.</p><p>� V� na frente e eu sigo voc� � disse ele.</p><p>Um par de prodigiosas portas francesas levava para o p�tio de pedra e, no momento em que passamos por elas, pude sentir o <emphasis>clic, clic, clic</emphasis> da temida m�quina fotogr�fica do M�rmon. Ela parecia estar fazendo buracos em mim, como se fossem raios laser atravessando meu corpo. Quando atingimos a �rea onde estava a mesinha de teca, eu ofereci ao Chef a poltrona superfaturada que ficava de frente para a janela do quarto.</p><p>Resisti ao impulso de olhar para as venezianas, servindo um copo de ch� gelado para cada um de n�s. E ent�o comecei uma conversa sem import�ncia:</p><p>� Eu vou te falar � disse, cansado. � N�o posso acreditar que esses sacanas filhos da puta � depois que <emphasis>sacanas filhos da puta</emphasis> escapou de minha boca, me ocorreu que TOC e o Canalha poderiam n�o apreciar a caracteriza��o que fiz deles. Eu fiz uma nota mental para ser mais gentil no futuro � me mant�m em pris�o domiciliar. Como se eu realmente representasse um risco de fuga com uma esposa e dois filhos. Que porra de piada�</p><p>Balancei a cabe�a em desgosto e o Chef concordou.</p><p>� Sim, bem, esse � o jogo que esses cretinos jogam � disse venenosamente. � Eles v�o fazer tudo o que puderem para tornar sua vida miser�vel. Como est� a Duquesa, segurando as pontas?</p><p>Eu balancei a cabe�a e deixei escapar um grande suspiro.</p><p>� N�o muito bem � respondi.</p><p>Fiz uma pausa, tentando reprimir meu desejo de abrir o cora��o para o Chef. At� mesmo os ratos t�m orgulho, afinal de contas, e eu sabia que in�meros outros acabariam ouvindo essa fita em algum momento.</p><p>� Ela est� agindo como se tudo fosse um grande choque para ela, como se pensasse que estava casada com um m�dico ou algo assim. Eu n�o sei� N�o acho que vamos superar isso, n�o como um casal, pelo menos�</p><p>� N�o diga isso � respondeu o Chef rapidamente. � Voc�s dois v�o superar isso, mas s� se voc� for forte. Ela � sua esposa, ent�o ela vai seguir sua lideran�a, de um jeito ou de outro. Mostre um pouco de fraqueza e� <emphasis>Badabing!</emphasis> � o Chef bateu as m�os ao mesmo tempo � ela sai pela porta da rua em dois segundos. Essa � a natureza da f�mea, gravitar em torno da for�a.</p><p>Eu levei um momento para considerar as palavras do Chef, e por um breve instante meu �nimo se elevou, mas depois afundou de novo. Com efeito, as palavras do Chef eram normalmente carregadas de sabedoria, mas naquele caso ele estava completamente errado. Manter-se ou n�o forte n�o tinha nada a ver com aquilo, a Duquesa era forte o suficiente de sua pr�pria maneira, e forte o suficiente para saber que sob nenhuma circunst�ncia ela permitiria que meus problemas diminu�ssem sua cota de extra��o de ouro. Ela cresceu muito pobre nas ruas ladeadas de lixo de Bay Ridge, no Brooklyn, e de jeito nenhum ela se arriscaria a ver essa hist�ria se repetindo.</p><p>No entanto, foi uma oportunidade perfeita para mostrar ao Chef um ponto importante, ou seja, que eu n�o tinha inten��o de cooperar. Em um tom muito s�rio, eu disse:</p><p>� Bem, talvez eu n�o possa controlar as a��es da Duquesa, mas posso controlar as minhas. Voc� n�o tem que se preocupar comigo quanto a me manter forte, Dennis. Eu vou lutar contra isso at� o fim, at� meu �ltimo suspiro, se for preciso. N�o me importo quanto possa custar, quanto sangue possa ser derramado nem quantos corpos ser�o enterrados ao longo do caminho. Eu n�o dou a m�nima para toda essa porra! Estou levando essa coisa a julgamento e vou ser absolvido � balancei a cabe�a, gostando do meu jeito fanfarr�o e de como isso tinha soado. Era bem ao estilo do Lobo. Pena que eu era uma bichinha covarde� � � s� esperar pra ver � acrescentei, contorcendo o nariz amea�adoramente.</p><p>� Bom para voc�! � disse o Chef de maneira enf�tica. � Isso era exatamente o que eu queria ouvir. Mantenha-se assim e os cretinos l� do centro da cidade v�o ter uma desagrad�vel surpresa � e encolheu os ombros com confian�a. � Eles esperam que voc� deite no ch�o e se finja de morto, porque � isso que todo mundo faz. Mas quando se trata de ir ao fundo das coisas, eles t�m a vers�o <emphasis>deles</emphasis>, e n�s temos a <emphasis>nossa</emphasis>, e a nossa vers�o vai fazer tanto sentido para um j�ri quanto a vers�o deles�</p><p>� E o �nus da prova n�o est� conosco � acrescentei com confian�a �, est� com eles!</p><p>� Exatamente � disse o Chef �, e, at� onde sei, voc� � inocente at� que se prove o contr�rio, que � como as coisas funcionam em nosso belo pa�s � ele piscou e meu deu um r�pido sorriso. � E, mesmo que seja culpado, eles ainda t�m que provar essa culpa al�m de uma d�vida razo�vel, e isso n�o � uma coisa muito f�cil de fazer quando existem duas vers�es das coisas, entendeu?</p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� Claro que entendi � disse sem entusiasmo �, mas� Eu quero dizer� A hist�ria de cobertura que temos � muito boa, mas ainda n�o � t�o cr�vel como a verdade.</p><p>� N�o se iluda � retrucou o Chef. � A verdade � mais estranha que a fic��o �s vezes. � Ele deu de ombros. � Na verdade, eu aceitaria mais um �libi que fosse bom do que a vers�o verdadeira dos fatos. De qualquer forma, acho que o maior problema que estamos enfrentando aqui � que Danny ainda est� na cadeia. Quanto mais tempo ele ficar l�, maiores s�o as chances de ele mudar de lado� � o Chef fez uma pausa, como se estivesse procurando as palavras certas. � Veja, enquanto est� sentado l�, Danny n�o tem ideia do que est� acontecendo do lado de fora. Ele n�o sabe que eu estou do lado dele e que voc� est� do lado dele, ele pode at� pensar que est� sozinho em tudo isso, talvez at� que voc� esteja cooperando. S� Deus sabe o que os federais est�o sussurrando em seu ouvido.</p><p>O Chef balan�ou a cabe�a em consterna��o, mas em seguida, de repente, seu rosto se iluminou:</p><p>� Vou dizer o que realmente preciso fazer: eu preciso dar um jeito de entrar naquela cela para falar com Danny, para que ele saiba que tudo vai ficar bem. � O Chef comprimiu os l�bios e assentiu lentamente. � Isso seria a melhor coisa que poderia acontecer para n�s agora. Talvez eu consiga colocar meu nome na lista de visitas. O que voc� acha?</p><p><emphasis>Porra, o Chef era um cara pra l� de dur�o</emphasis>! Ele estava preparado para ir direto ao cora��o do territ�rio inimigo! Ser� que ele n�o conhecia o medo? Ele era um guerreiro t�o poderoso assim? Agora tudo come�ava a fazer sentido: os federais nunca tinham sido capazes de capturar o Chef e o Dem�nio porque eles n�o pensavam como os outros homens. Eles eram verdadeiros Scarfaces, mafiosos de colarinho branco de um tipo totalmente diferente.</p><p>S� ent�o Gwynne veio andando para fora da cozinha.</p><p><emphasis>Ah, cacete!</emphasis>, pensei. Ela vai come�ar a falar, falar, falar�</p><p>Ser� que ela ia fazer tudo cair por terra? N�o tinha como saber. Seu cora��o era puro demais para entender todo o mal que estava acontecendo, todas as malandragens. Quando ela se aproximou, notei que estava segurando o telefone sem fio. Ela cumprimentou o Chef primeiro, em tons quentes do Sul:</p><p>� Ol�, Dennis, como vai voc�? � que saiu como �<emphasis>Ol�, Dainess, cumu vai oc�?</emphasis>�.</p><p>� Eu estou bem � respondeu o Chef, em tons quentes de Jersey. � <emphasis>Nunca tive melhor, cara! E voc�, como t�, Gwynne?</emphasis></p><p>� <emphasis>Tou beim, tou beim</emphasis> � a dama sulista respondeu, e havia um sorriso muito triste ligado a esses dois �Estou bem�. Um sorriso que dizia tanto quanto �Estou bem tanto quanto seria de se esperar, considerando que meu patr�o est� com um p� na pris�o, sua esposa com um p� em uma nova mina de ouro e eu a ponto de ser dispensada de um emprego do caralho!�.</p><p>Ent�o ela se virou para mim e disse:</p><p>� Seu <emphasis>devogado</emphasis> est� ao telefone. Ele disse que � importante.</p><p>Magnum? Por que ele iria me telefonar naquele momento? Ele sabia sobre aquela reuni�o. Por que interromper o fluxo das coisas? Eu pedi um minuto para o Chef e ent�o me levantei da cadeira para pegar o telefone sem fio de Gwynne. Com as costas voltadas para o Chef, olhei bem dentro dos olhos de Gwynne e apontei discretamente para a cozinha com o queixo, como a dizer: �Tudo bem, por que voc� n�o d� o fora daqui antes que fa�a alguma merda, sua tagarela?�, ao que ela deu de ombros e voltou para a seguran�a da cozinha.</p><p>Andei alguns metros para longe de onde o Chef estava sentado, para as grades de ferro na borda do p�tio, coloquei os cotovelos no corrim�o e me inclinei. Ainda estava ao alcance do Chef quando eu disse ao telefone:</p><p>� Ei, Greg. O que est� acontecendo?</p><p>� Sim, � o Greg � disse a voz de TOC �, mas n�o o Greg que estava esperando. Basta agir naturalmente.</p><p><emphasis>Puta merda!</emphasis> Por que TOC estaria me ligando? Ele tinha perdido o ju�zo?</p><p>� Oi � respondi casualmente �, bem, isso n�o me surpreende. Danny � um cara ponta firme. Ele nunca vai cooperar � virei-me para o Chef e pisquei, ent�o disse ao telefone: � De qualquer forma, basta dizer ao advogado de Danny que eu estou sempre ao lado dele, n�o importa o que aconte�a. Para o que ele precisar.</p><p>� �timo � disse o TOC � isso � que � pensamento r�pido. Voc� est� fazendo as coisas muito bem at� agora. Mas escute: Dennis parece muito aberto para falar com voc�, ent�o eu quero que tente marcar uma reuni�o com Brennan. Acho que ele pode comprar essa ideia.</p><p>� Vou tentar fazer isso � respondi com ceticismo, sabendo muito bem que as chances de conseguir uma reuni�o cara a cara com o Dem�nio de Olhos Azuis eram de uma em um milh�o. Mesmo no melhor dos momentos, o cara agia como um paranoico filho da puta; com as coisas complicadas, como ent�o, n�o havia nenhuma maneira de convenc�-lo a ser imprudente o suficiente para se encontrar comigo. � Mas n�o converso com Nancy faz quase um ano � continuei. � Eu acho que ela odeia o governo mais que o Danny.</p><p>Eu olhei para o Chef, que estava olhando para mim com curiosidade, da forma que uma pessoa faz quando est� tentando descobrir o que est� sendo dito do outro lado em uma conversa por telefone. <emphasis>Nossa, se ele soubesse!</emphasis> Eu lhe lancei um r�pido sorriso, revirei os olhos e balancei a cabe�a rapidamente, como se quisesse dizer: �Meu advogado est� me fazendo perder tempo aqui�, ent�o eu disse para o telefone:</p><p>� Sim, bem, voc� apenas diga ao advogado de Danny para se certificar de que Danny saiba que eu estou com ele. Esse � o� � <emphasis>bip, bip,</emphasis> era a chamada em espera. � � ponto mais importante aqui. Bem, eu tenho que desligar. Eu tenho outra liga��o.</p><p>Cliquei na outra linha:</p><p>� Al�?</p><p>Uma voz feminina desconhecida e abafada disse:</p><p>� Oi� � o Jordan?</p><p>� Sim � respondi, um pouco irritado com a voz sensual. O que essa porra de voz quer? � Aqui � o Jordan, quem fala?</p><p>� Maria Elena. Sou a noiva de Michael Burrico.</p><p>Meu cora��o afundou no est�mago antes que meu c�rebro percebesse o motivo. Michael Burrico tinha sido o primeiro amor da Duquesa, naqueles tempos gloriosos em que ela ainda era uma duquesa em forma��o. Na �ltima vez que ouvi falar dele, estava morando em Manhattan e ficara rico no neg�cio da constru��o. Na mente da Duquesa, eu sabia, isso poderia traduzir-se em tr�s palavras simples: mina de ouro.</p><p>Em um tom misturado com sarcasmo, eu disse a Maria:</p><p>� Sim, Maria. Seu noivo foi o primeiro namorado de minha amada segunda esposa. A que devo o prazer de seu telefonema?</p><p>Maria soltou um gemido min�sculo antes de dizer:</p><p>� Bem, eu sei que voc� est� passando por um momento complicado, mas achei que gostaria de saber que sua esposa estava batendo na porta do meu noivo na noite passada, por volta da meia-noite. Ela estava�</p><p>Maria continuou falando, mas eu parei de ouvir, ou, mais precisamente, me senti incapaz de ouvir, porque minha cabe�a j� estava se enchendo de vapor. Eu poderia literalmente ouvir o som sibilante, enquanto m�goa, raiva, vergonha e desesperan�a inundaram todos os meus sentidos ao mesmo tempo.</p><p>Eu nem sabia quem estava mais envergonhado �quela altura, se eu ou ela. Nossa vida juntos tinha chegado ao ponto de se tornar motivo de chacota, o derradeiro sinal de advert�ncia de homens ricos e esposas-trof�u, de queimar etapas nos neg�cios, de queimar etapas na vida. T�nhamos brincado no Jogo da Vida de forma r�pida e sem freios, desabando na autoestrada a 1 milh�o de quil�metros por hora, e acabamos como derrotados, a hist�ria de um desastre total e irremedi�vel. A �nica diferen�a entre a Duquesa e eu era que ela estava tentando se afastar do acidente sem um arranh�o, enquanto eu n�o tinha escolha a n�o ser aceitar meu destino como v�tima tetrapl�gica com queimaduras.</p><p>� �e eu realmente ficaria feliz com isso � continuou Maria, em um tom irritado � quer dizer, se voc� dissesse � sua esposa para manter as patas longe de meu noivo.</p><p>Ela disse tudo, pensei. Na verdade, eu n�o poderia ter concordado mais com Maria, e foi por isso que respondi com um pesado clique em seu ouvido, sem nem dizer adeus. Ent�o me virei para o Chef e congelei, confuso, sem saber o que dizer. Minha mente estava tremendo descontroladamente. J� tinha sido bem dif�cil me concentrar antes, mas agora era um pouco demais. Tudo estava me atingindo ao mesmo tempo, vindo de todos os lados. Todo homem tem um limite e eu tinha alcan�ado o meu.</p><p>Enquanto olhava para o Chef, eu sabia que deveria estar tentando descobrir uma maneira de abordar o assunto do Dem�nio de Olhos Azuis e sabia que TOC e M�rmon estavam bem l� em cima, vidrados em cada uma de minhas palavras, fazendo anota��es detalhadas sobre meu desempenho, notas que um dia iriam para minha carta do Promotor e ajudariam a decidir quantos anos eu deveria passar na pris�o.</p><p>No entanto, com tudo o que estava acontecendo, com tudo o que estava em jogo, com a minha liberdade na balan�a, a �nica pergunta que meu c�rebro estava pedindo que eu respondesse era: a que horas a Duquesa voltaria para casa hoje? Isso era tudo o que importava para mim. Eu queria confront�-la, n�o, eu <emphasis>precisava</emphasis> confront�-la. Eu n�o poderia seguir em frente com minha vida at� que tivesse uma briga com ela. Uma briga estrondosa que s� poderia acabar em uma coisa: viol�ncia. A Duquesa chegara ao fim. Era passado. Eu n�o ia deix�-la escapar com isso, nem por um segundo a mais. Se isso fosse de fato a hist�ria de um desastre completo, ent�o tudo bem, seria uma hist�ria sem sobreviventes, exceto as crian�as. Que meus pais as criassem, conclu�; eles certamente iriam fazer um trabalho muito melhor do que a Duquesa e eu.</p><p>� Voc� est� bem? � perguntou o Chef calorosamente. � Voc� parece um pouco p�lido.</p><p>Sem resposta, ent�o�</p><p>� N�o� Quer dizer, sim. � Comecei balan�ando a cabe�a. � Eu estava� Foi s� algo relacionado ao neg�cio de maternidade da Nadine. Uma garota ligou, est� gr�vida� Com um beb� � sorri distraidamente. � Eu estou bem. Estou �timo, Dennis�</p><p>E a primeira coisa que eu vou fazer quando a Duquesa chegar em casa, pensei, � confront�-la. Mas eu n�o vou contar a ela sobre o telefonema, n�o no in�cio. Vou esperar at� que ela diga que n�o tocou a campainha daquele filho da puta, e ent�o vou saltar sobre ela. A�, vamos ver�</p><p>Sentei-me de novo, meu cora��o explodindo no peito, minha mente fora de controle. Coloquei o telefone em cima da mesa. Minha boca estava completamente seca. Olhei para o Chef, for�ando um sorriso. Era hora de acabar com a reuni�o. Eu n�o podia mais ficar l�. Eu n�o poderia manter um �nico pensamento construtivo at� que confrontasse a Duquesa.</p><p>Com desespero em meu cora��o, fiz uma �ltima tentativa:</p><p>� Vou lhe contar uma coisa � murmurei. � Eu n�o sei o que � pior: meus problemas com os federais ou meus problemas com a Duquesa � balancei a cabe�a em genu�na confus�o. Ent�o, com um sorriso, acrescentei: � Talvez eu devesse ir ver o Bob, talvez ele possa me oferecer algumas palavras de consolo, de sabedoria, porque dessa minha vida n�o tenho mais nada.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, ent�o o Chef quase me lan�ou longe da minha cadeira quando disse:</p><p>� Eu acho que � uma excelente ideia. Bob vai gostar muito de conversar com voc�. Que tal na ter�a no campo de golfe? Voc� acha que vai conseguir sair se conversar com as pessoas da tornozeleira?</p><p>Sim, pensei, tenho certeza de que as pessoas que cuidam da tornozeleira estar�o dispostas a fazer vista grossa para um encontro meu com o Dem�nio de Olhos Azuis, embora, naquele momento, eu pudesse cagar dois montes de merda para isso. Tudo o que me interessava era saber a que horas a Duquesa voltaria para casa.</p><p>Todo o resto era incidental.</p></section><section><p>CAP�TULO 10</p><p><strong>COMO CONFRONTAR UMA DUQUESA</strong></p><p>Passo um: acenda um fogo abrasador.</p><p>A lareira de pedras francesas do quarto principal tinha 1,5 metro de altura por 2 metros de largura e fora adaptada com um mecanismo el�trico de acendimento. Como sempre, quatro grossos peda�os de tronco de pinheiro, divididos longitudinalmente, apoiavam-se sobre uma prodigiosa pilha de gravetos de cedro branco. Como era setembro, a lareira n�o tinha visto sequer uma chama em quase 5 meses. Tudo bem, �timo. Precisamente �s 21h15, apertei o bot�o de a�o inoxid�vel na parede, acendendo a primeira, mas n�o a �ltima chama arrasadora daquela noite.</p><p>Passo dois: queime uma pe�a de mobili�rio superfaturada.</p><p>Grunhindo e gemendo, eu arrastei uma das aquisi��es favoritas de minha ex-aspirante a decoradora, um pufe otomano de seda branca de 13 mil d�lares, que deve ter demorado quase um ano para ser feito por aqueles ladr�es safados em High Point, na Carolina do Norte, e o deixei a 1 metro das chamas. Sentei-me e olhei para o fogo. Em menos de um minuto, os gravetos come�aram a crepitar e as chamas ardiam amea�adoramente. N�o satisfeito, agachei-me e puxei o pufe para mais perto e sentei-me de novo. Muito melhor. Em dez minutos, o pufe e eu estar�amos torrados.</p><p>Passo tr�s: acenda as chamas da justa indigna��o.</p><p>Uma tarefa simples. Ser� que existiria algum j�ri no mundo que me condenaria se eu esfaqueasse o cora��o gelado da Duquesa usando aquele abridor de cartas de 18 quilates que estava descansando confortavelmente em sua escrivaninha de laca branca de 26 mil d�lares? Eu s� precisaria me preocupar com um j�ri que fosse composto por seus pares, ou seja, formado por 12 garimpeiras de cabe�a loira que n�o teriam enxergado nenhum ato criminoso no fato de uma mulher casada, <emphasis>e com dois filhos, note-se!,</emphasis> ir bater � porta da casa do ex-namorado � meia-noite, enquanto o marido estava em casa na cama (em pris�o domiciliar) contemplando o suic�dio e sonhando com maneiras de reconquist�-la. Mantive esse pensamento e respirei profundamente algumas vezes, com raiva. Continuei olhando para o fundo das chamas, deixando o fogo assar minha pele cada vez mais irritada, mais honrada, mais indignada com a passagem de cada segundo.</p><p>Foi ent�o que ouvi os sons familiares da Duquesa ao chegar, o triturar do cascalho na garagem, o bater da maci�a porta de mogno da frente, o <emphasis>click clack clack</emphasis> de seus sapatos de salto alto supercaros subindo os degraus da suntuosa escada. E finalmente a porta do quarto se abriu. Virei-me de frente e l� estava ela, vestida de preto. Era apropriado, pensei, considerando-se que ela havia acabado de chegar a seu pr�prio funeral.</p><p>Quando ela me viu sentado t�o perto das chamas, ela parou e fez uma pose, com a cabe�a inclinada para um lado, as m�os nos quadris, os ombros jogados para tr�s e as costas ligeiramente arqueadas, empurrando seus gloriosos seios para a frente. Ela abriu a boca para dizer algo, mas as palavras n�o sa�ram. Ent�o ela come�ou a mastigar o interior da bochecha.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, enquanto n�s s� olh�vamos um para o outro, como se fossemos dois pistoleiros esperando o momento de sacar as armas para o duelo. A Duquesa estava �tima, como sempre. N�o havia como negar isso, mesmo ent�o. A claridade do fogo iluminava seu conjunto inteiro: o vestido preto min�sculo, os sensuais sapatos pretos de salto alto, aquelas longas pernas sem meia, sua juba de cabelos loiros brilhantes, os faiscantes olhos azuis, as ma��s do rosto salientes, os l�bios com <emphasis>gloss</emphasis>, a suave linha do queixo.</p><p>Sim, a Duquesa era, de fato, uma mulher composta de v�rias partes, embora naquele momento a �nica parte de seu corpo na qual eu estava interessado fosse uma pequena �rea um pouco acima de seu silicone na mama esquerda, bem entre a segunda e a terceira costelas. Era ali que seu cora��o gelado estava localizado e seria ali que eu mergulharia o abridor de cartas de ouro. Ent�o eu giraria o abridor para cima e levemente para a esquerda, e com esse movimento girat�rio cortaria a art�ria pulmonar dela, o que faria com que ela se afogasse no pr�prio sangue. Seria uma morte dolorosa, medonha, horr�vel, o tipo de morte que uma Duquesa garimpeira merecia.</p><p>� Por que o fogo? � perguntou ela, abandonando a pose e se dirigindo para sua escrivaninha de laca branca. � � um pouco cedo na esta��o, voc� n�o acha?</p><p>Ela me deu um sorriso frio quando se sentou na borda da escrivaninha, colocando as m�os sobre ela e travando os cotovelos. Em seguida, cruzou as pernas e contorceu a bunda, como se para ficar mais confort�vel.</p><p>Olhei de volta para as chamas.</p><p>� Eu estava com frio � respondi, <emphasis>porque voc� sugou at� a �ltima gota de sangue e vigor e vida de mim, sua vadia conivente e ca�adora de minas de ouro</emphasis> �, ent�o achei melhor acender a lareira � <emphasis>antes de fatiar seu corpo e livrar a Terra de voc�</emphasis>.</p><p>Depois de alguns momentos de sil�ncio, ela inclinou a cabe�a para o lado.</p><p>� Onde est�o as crian�as? � perguntou.</p><p>Eu fiquei olhando para as chamas.</p><p>� Com Gwynne � respondi, sem emo��o. � V�o dormir l� esta noite � <emphasis>para que eu possa mat�-la sem perturb�-las.</emphasis></p><p>Ela demonstrou confus�o misturada com ansiedade:</p><p>� Por que elas est�o, uh, dormindo na Gwynne?</p><p>Ainda olhando para as chamas:</p><p>� Porque eu queria a casa para mim � <emphasis>sem gente passando, sem testemunhas, distra��es ou qualquer alma que pudesse tentar me dissuadir de fazer o que sei que devo fazer para me livrar de voc�.</emphasis> � � por isso.</p><p>Ela riu nervosamente, tentando brincar com uma situa��o que agora percebera ter se transformado em um encontro sombrio:</p><p>� Para voc�? � respondeu. � Bem, o que dizer de mim? Eu tamb�m estou aqui, certo?</p><p>Eu olhei para cima e ela estava segurando o abridor de cartas de ouro em sua m�o direita, <emphasis>toque-toque-toque</emphasis> da l�mina na palma da m�o esquerda. Como ela havia descoberto? Era t�o �bvio assim que eu estava planejando esfaque�-la? Ou foi apenas coincid�ncia? N�o importa. Eu tinha visto uma vez Arnold Schwarzenegger esfaquear um terrorista isl�mico com a pr�pria faca do terrorista e aquilo me parecera bastante elementar.</p><p>S� ent�o notei que a Duquesa ainda usava a alian�a de casamento. Que piada, porra! A Duquesa devoradora de homens e sua porra de alian�a de casamento!</p><p>� Vejo que voc� ainda est� usando sua alian�a de casamento. Voc� n�o acha que � um pouco ir�nico, Nadine?</p><p>Ela colocou o abridor de cartas na mesa e estendeu a m�o esquerda na frente dela, parecendo intrigada. Depois de alguns momentos, ergueu os olhos e deu de ombros.</p><p>� Por qu�? � perguntou inocentemente. � N�s ainda estamos casados, n�o?</p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� Sim � respondi �, acho que estamos. Ent�o, o que voc� fez na noite passada?</p><p>Uma resposta r�pida:</p><p>� Eu fui ver Earth, Wind and Fire. Com minhas amigas � as �ltimas tr�s palavras gritaram: <emphasis>�libi!</emphasis></p><p>Comprimi os l�bios e assenti.</p><p>� Ah, suas amigas� � disse eu, compreensivo. � E que amigas s�o essas?</p><p>Outra resposta r�pida:</p><p>� Donna e Ophelia.</p><p>Donna Schlesinger, <emphasis>aquela vadia do caralho!</emphasis> Definitivamente tinha o dedo dela na hist�ria, n�o havia d�vidas! Ela e a Duquesa eram amigas desde o col�gio, e, naquela �poca, Donna tinha namorado um dos amigos mais pr�ximos de Michael.</p><p>� E como foi o show? � perguntei casualmente.</p><p>A Duquesa deu de ombros.</p><p>� Foi o.k. Nada de especial. � Ent�o, uma mudan�a de assunto estrat�gica: � Eu estava esperando que as crian�as estivessem em casa hoje � noite.</p><p><emphasis>Por qu�? Assim voc� poderia us�-las como escudos humanos? Desculpe, Duquesa, voc� est� sem sorte. Somos s� voc� e eu esta noite; voc�, eu e o abridor de cartas de ouro. Prepare-se para colher as consequ�ncias de sua infidelidade!</emphasis></p><p>Eu retruquei:</p><p>� S� por curiosidade, onde voc� dormiu na noite passada?</p><p>� Na casa da Ophelia � retrucou ela. � Por qu�?</p><p>� Voc� foi direto do show para a casa dela? � perguntei com ceticismo. � N�o parou no caminho, para comer alguma coisa ou sei l�?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a, negando.</p><p>� N�o, eu fui direto para l�, sem paradas.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, durante os quais eu me vi querendo desesperadamente acreditar nela. Por qual motivo, eu ainda n�o conseguia explicar, mas tinha algo a ver com a natureza bizarra do macho, sua vaidade, seu orgulho tolo, seu desejo de n�o ser desprezado por uma bela mulher. Sim, apesar de tudo, meu orgulho masculino ainda estava tentando me convencer de que minha esposa era fiel e de que tudo tinha sido um mal-entendido gigantesco.</p><p>Eu respirei fundo e olhei para o n�cleo do fogo, reacendendo minhas chamas de raiva, �dio e indigna��o.</p><p>� Ent�o, como vai Michael Burrico? � perguntei e olhei para cima, desviando os olhos da lareira direto para os olhos dela.</p><p>A Duquesa recuou.</p><p>� Michael Burrico? � disse ela, incr�dula. � E como eu vou saber?</p><p>Ela olhou para mim com uma express�o vazia, e eu ainda queria acreditar nela. Eu realmente queria.</p><p>Mas ela era uma mentirosa de merda, eu sabia disso!</p><p>� Quando foi a �ltima vez que voc� o viu, Nadine? Diga-me! H� quanto tempo? Dias? Semanas? Horas? Diga-me, porra!</p><p>A Duquesa se inclinou.</p><p>� Eu n�o tenho ideia do que voc� est� falando � ela desviou o olhar. � Algu�m est� lhe passando informa��es erradas.</p><p>�Voc� � uma mentirosa! � eu gaguejava. � Uma mentirosa filha da puta!</p><p>Ela ficou olhando para baixo, sem dizer nada.</p><p>� Olhe para mim! � gritei, me levantando do pufe. Ela olhou. Eu ca� em cima. � Olhe-me nos olhos e me diga que voc� n�o foi ao apartamento de Michael Burrico na noite passada. V�, me diga!</p><p>Ela balan�ou a cabe�a rapidamente.</p><p>� Eu� Eu n�o fui. Eu n�o estava l� � seu tom era quase de p�nico. � Eu n�o sei do que voc� est� falando. Por que est� fazendo isso?</p><p>Dei um passo agressivo na dire��o dela.</p><p>� Jure pela sa�de de seus filhos que voc� n�o estava l� ontem � noite � cerrei os punhos. � Jure pra mim, Nadine.</p><p>� Voc� est� doente � murmurou ela, desviando o olhar novamente. � Voc� mandou algu�m me seguir, � isso? � Ent�o ela olhou para mim. � Eu quero voc� fora desta casa. Eu quero o div�rcio! � E ergueu o queixo em desafio.</p><p>Dei mais um passo para a frente. Eu estava a menos de 1 metro dela agora.</p><p>� Sua� vaca! � gritei. � Voc� � uma vadia atr�s de minas de ouro, cadela do caralho! Eu n�o mandei seguir voc�! Foi a noiva de Michael Burrico que me telefonou! Foi assim que fiquei sabendo onde voc� estava, sua� Sua�</p><p>Ela me cortou.</p><p>� Foda-se! � gritou a Duquesa. � Voc� est� me chamando de traidora? Quantas mulheres voc� comeu, seu hip�crita maldito?</p><p>Com isso, ela pulou da borda da escrivaninha e deu um passo em minha dire��o, diminuindo a dist�ncia. Est�vamos a menos de meio metro um do outro.</p><p>� Eu quero voc� fora da minha vida! � ela gritou freneticamente. � Eu quero voc� fora da minha casa! Eu nunca mais quero falar com voc� de novo!</p><p>� Sua casa? � eu gaguejava. � Voc� est� brincando comigo? Isto aqui � a <emphasis>minha</emphasis> casa! Eu n�o vou para a porra de nenhum lugar!</p><p>� Eu estou contratando um advogado! � gritou Nadine.</p><p>� Sim, o melhor que meu dinheiro pode comprar! � gritei de volta.</p><p>Ela cerrou os punhos.</p><p>� Foda-se! Voc� � um bandido, porra! Voc� roubou todo o dinheiro que tem! Eu espero que voc� morra na cadeia!</p><p>A Duquesa deu um passo agressivo para a frente, como se estivesse prestes a me dar um soco, e ent�o, de repente, fez algo que eu nunca vou esquecer pelo resto da vida. Com completa serenidade, ela deixou cair os bra�os para os lados do corpo, relaxou a postura, inclinou a cabe�a para tr�s, expondo a parte mais vulner�vel de seu longo pesco�o nu, e disse:</p><p>� V� em frente! Mate-me! � sua voz era suave e macia, num tom completamente resignado. � Eu sei que � isso o que voc� quer, ent�o v� em frente � ela inclinou a cabe�a ainda mais para tr�s. � Mate-me agora. Eu n�o vou lutar. Eu prometo. Apenas me estrangule e livre-nos dessa vida de tristezas. Voc� pode se matar depois.</p><p>Dei um passo em sua dire��o, pronto para cometer um assassinato, quando de repente meus olhos avistaram uma moldura afixada na parede. Estava exatamente sobre o ombro esquerdo da Duquesa. O quadro era longo e estreito, acho que com 30 cent�metros de largura por uns 90 de altura, e dentro dele havia tr�s fotos grandes de nossos filhos. Chandler estava em cima, sorrindo timidamente. Usava uma linda camiseta amarela com um colar e uma fita de cabelos combinando. Tinha 3 anos e meio na �poca em que a fotografia foi tirada, e parecia uma Duquesa em miniatura. Embaixo dela estava Carter, com apenas 1 ano e meio, e ele usava uma fralda branca como a neve. Seus olhos estavam arregalados, sua express�o era cheia de admira��o enquanto olhava para uma bolha flutuando no ar. Seu cabelo loiro brilhava como vidro polido. Seus c�lios eram t�o exuberantes como asas de borboleta. E, novamente, tudo o que eu vi foi a Duquesa. E abaixo de Carter havia um retrato dele e de sua irm�. Ele estava sentado em seu colo, ela tinha os bra�os em volta dele, e os dois estavam olhando um para o outro em adora��o.</p><p>No mesmo instante, a verdadeira ironia da minha situa��o me atingiu, como se fosse um dos raios de Zeus. N�o era o bastante eu n�o conseguir matar minha esposa porque ela era a m�e de meus filhos, era muito pior que isso. O simples fato de ela ser a m�e de meus filhos era o que deixava claro que eu nunca me livraria dela. Ela estaria na minha vida para sempre! Assombrando-me at� o dia em que morresse! Eu seria obrigado a v�-la em cada anivers�rio, formatura, casamento e <emphasis>bar mitzvah</emphasis>. Porra, eu at� teria que dan�ar com ela no casamento de meus filhos!</p><p>Seria obrigado a v�-la na sa�de e na doen�a, na alegria e na tristeza, por todos os dias de minha vida, at� que a morte nos separasse. Em ess�ncia, eu continuaria casado com ela para sempre, continuar�amos ligados pelo intenso amor que t�nhamos pelos nossos dois filhos.</p><p>E l� estava ela, de p�, � espera de ser sufocada at� a morte.</p><p>� Eu nunca vou perdo�-la por isso � disse eu suavemente. � At� meu �ltimo suspiro, nunca vou perdo�-la � fui para a porta, andando lentamente.</p><p>Assim que cheguei � porta, ouvi-a dizer em um tom suave e gentil:</p><p>� Eu nunca vou perdo�-lo tamb�m. At� meu �ltimo suspiro.</p><p>Ent�o eu sa� do quarto.</p></section><section><p><strong>LIVRO II</strong></p></section><section><p>CAP�TULO 11</p><p><strong>A CRIA��O DE UM LOBO</strong></p><p>� Bem, eu sinto muito em ouvir isso � disse o Canalha, solid�rio, inclinando-se para a frente em sua poltrona preta barata e apoiando os cotovelos ossudos na mesa de reuni�es. � � sempre uma pena quando os filhos est�o envolvidos.</p><p>� Sim � concordei com tristeza. Sim, claro!, pensei. Essa � a raz�o de sua vida, Canalha! Voc� adora descascar um homem e retirar dele todas as posses! O que mais poderia fazer valer a pena uma vida de merda como a sua? � � triste para todos n�s, Joel, mas agrade�o sua preocupa��o.</p><p>Ele assentiu respeitosamente. TOC, no entanto, sacudia a cabe�a com desconfian�a.</p><p>� Eu n�o sei � disse ele. � Eu realmente achei que voc�s dois passariam por isso e ficariam juntos, realmente acreditei nisso.</p><p>� Bem � retruquei com tristeza �, eu tamb�m achava isso. Mas h� �gua demais passando sob a ponte. Muitas lembran�as ruins.</p><p>Era um pouco depois das 10 da manh� e eu estava cantando na Court Street novamente, ainda que para um p�blico um pouco menor. A Bruxa, o M�rmon e meu gigantesco advogado, Magnum, estavam todos conspicuamente ausentes. A Bruxa, me disseram, estava ocupada com outro caso, sem d�vida destruindo a vida de algum outro pobre idiota; o M�rmon estava ocupado resolvendo quest�es pessoais, provavelmente ainda na cama com uma de suas esposas m�rmons, tentando conceber uma nova leva de beb�s m�rmons; Magnum, por outro lado, estava ocupado demais fazendo nada. Na verdade, a �nica raz�o pela qual ele n�o estava l� naquela manh�, no hediondo subsolo do n�mero 26 na Federal Plaza, era porque ele pensou que seria bom se eu passasse algum �tempo a s�s� com meus captores. Ao mesmo tempo que suas palavras pareciam ter um pouco de l�gica, tamb�m pareciam suspeitosamente convenientes, levando-se em conta que eu acabara de preencher um cheque de 1 milh�o de d�lares uma semana antes. (Por que aparecer por ali mais vezes quando ele poderia sacar o dinheiro e fugir?)</p><p>Ent�o, s� havia n�s tr�s naquela manh�: o Canalha, TOC e eu.</p><p>� Voc� est� muito quieto nesta manh� � disse TOC. � Se n�o quiser falar sobre sua vida pessoal, tudo bem.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� O que h� para dizer, al�m de contar que minha esposa devia estar numa crise de sonambulismo quando fizemos os votos de casamento?</p><p>� Voc� acha que ela est� tendo um caso?</p><p>� N�o, Greg! Sem chance � respondi confiante.</p><p>� claro que ela est� me traindo!<emphasis>,</emphasis> pensei. Ela est� transando com aquele idiota do Michael Burrico, do Brooklyn. Uma anta como ele era um alvo f�cil para uma Duquesa atr�s de ouro.</p><p>� Ela definitivamente n�o est� me traindo � continuei. � O que est� acontecendo com a gente � muito mais profundo que isso.</p><p>Ele sorriu calorosamente.</p><p>� N�o se ofenda, eu s� estou tentando que tudo fa�a algum sentido, entendeu? Normalmente, quando esse tipo de coisa acontece, h� sempre outro homem esperando atr�s das cortinas. Mas, ei, o que eu sei sobre as coisas, n�?</p><p>O Canalha entrou na conversa:</p><p>� Assim como Greg, eu tamb�m sou solid�rio � sua situa��o, mas a �nica coisa com que voc� deve se preocupar agora � com sua coopera��o. Todo o resto � secund�rio.</p><p><emphasis>Ah, �? E meus filhos, idiota?</emphasis></p><p>� Joel tem raz�o � disse TOC. � Provavelmente n�o seja uma boa hora para se divorciar. Talvez voc� e Nadine devam esperar um pouco, at� que toda essa como��o esfrie.</p><p>� Tudo bem � retrucou o Canalha �, ent�o vamos come�ar a rever o caso. Na �ltima vez que nos falamos, o mercado de a��es tinha ca�do e voc� estava desempregado. O que aconteceu depois?</p><p>Que idiota!, pensei. Respirei fundo e disse:</p><p>� Bem, eu n�o diria que estava realmente sem emprego, porque o que eu tinha na LF Rothschild n�o era de fato um emprego, em primeiro lugar. Eu era um conector, que � a posi��o abaixo da posi��o mais baixa em Wall Street. Tudo o que eu fazia era ficar discando o dia todo e tentando passar pelas secret�rias dos empres�rios ricos. Aquela era uma fun��o que o fazia engolir o orgulho, mas eu n�o tinha escolha a n�o ser sorrir e aguentar. A �nica coisa que me mantinha seguindo em frente era a esperan�a no futuro.</p><p>Fiz uma pausa para manter o efeito.</p><p>� E a� veio o <emphasis>crash</emphasis>. Ainda me lembro de como foi voltar para casa naquela noite, no �nibus expresso: dava para ouvir um alfinete caindo. Havia um tipo de medo no ar que eu nunca tinha experimentado antes. Os meios de comunica��o estavam fazendo um sensacionalismo das coisas levando � histeria, prevendo a quebra dos bancos, desemprego em massa, pessoas pulando das janelas dos pr�dios. Aquilo seria o in�cio de uma nova Grande Depress�o, segundo eles.</p><p>� Uma depress�o que nunca veio � acrescentou o Canalha, um estudante com notas A em Hist�ria, pelo jeito.</p><p>� Exatamente � disse eu. � Ela nunca veio, embora ningu�m tivesse nenhuma maneira de saber ou de prever isso, naquela �poca. Lembre-se, a �ltima vez que o mercado tinha ca�do desse jeito fora em 1929, e a Depress�o veio logo em seguida, nos calcanhares das fal�ncias e das quebras de bancos. Ent�o, de fato n�o era nenhum exagero ou alarmismo pensar que poderia acontecer de novo � parei por um momento. � Para as pessoas que cresceram na Grande Depress�o, como meus pais, a perspectiva era assustadora, mas para pessoas como eu, que tinha apenas lido sobre isso em livros de Hist�ria, era algo simplesmente inimagin�vel. Assim, se voc� trabalhasse em Wall Street ou na Main Street naquele dia, todos estavam assustados com o que poderia acontecer � dei de ombros. � Todos, exceto Denise, que estava t�o fria como um pepino em conserva!</p><p>� Isso � muito impressionante � raciocinou o TOC �, considerando que voc�s dois estavam totalmente quebrados.</p><p>� Sim � disse rapidamente � e isso teria sido at� mais impressionante se ela tivesse a m�nima ideia de que a Bolsa tinha desabado � sorri tristemente.</p><p>O Canalha estreitou os olhos.</p><p>� Ela n�o tinha ouvido a not�cia?</p><p>Eu balancei a cabe�a, negando.</p><p>� Denise nunca assistia ao notici�rio. Ela era mais uma garota das novelas que uma garota dos notici�rios � fiz uma pausa por um momento, e uma onda de profunda tristeza me invadiu.</p><p>Denise podia ter seus defeitos, mas ainda era uma grande esposa. Ela era linda, uma daquelas belezas italianas de cabelos escuros que todo moleque adolescente fantasia quando est� no col�gio. Sabia como usar uma roupa, minissaia de couro preto e blusas de algod�o branco, que eram mais macias que bumbum de beb�.</p><p>Pensando bem, a forma como n�s dois t�nhamos nos alojado em nosso min�sculo apartamento de Bayside tinha sido pura magia. T�nhamos jurado amor eterno um para o outro, certos de que nosso amor poderia conquistar tudo. No entanto, de alguma forma, t�nhamos conseguido destruir esse amor. N�s permitimos que o sucesso e o dinheiro subissem � nossa cabe�a. N�s permitimos que ele nos separasse, que ele nos devorasse. E no final isso a havia transformado em uma viciada em compras das mais compulsivas, e eu em um estrondoso viciado em drogas. E depois veio a Duquesa�</p><p>� Ainda com a gente? � perguntou o Canalha. � Voc� precisa fazer uma pausa por alguns minutos? � Ele me ofereceu seu sorriso s�dico de diretor de pris�o.</p><p>� N�o, eu estou bem � respondi. � De qualquer forma, Denise n�o tinha ideia de que a Bolsa havia desmoronado, de modo que, no momento em que entrei pela porta, ela me abra�ou como se eu fosse um her�i conquistador. �Ah, meu Deus!�, disse ela. �Voc� finalmente chegou em casa! Como foi seu primeiro dia como corretor da Bolsa? Bateu o recorde da empresa de mais a��es vendidas?�.</p><p>TOC e o Canalha come�aram a rir.</p><p>Eu ri de volta.</p><p>� Sim, foi muito engra�ado, tudo bem, exceto quando, em meados de novembro, est�vamos praticamente a zero, juntando centavos para comprar xampu� Mas foi s� depois de um m�s da queda da Bolsa que decidi jogar a toalha e abandonar Wall Street. Foi numa manh� de domingo. Denise e eu est�vamos sentados na sala de estar, como dois zumbis, procurando alguma coisa na se��o de empregos do jornal. Depois de alguns minutos, me deparei com algo que me pareceu estranho. �Veja isso�, eu disse para ela, �h� uma empresa anunciando vagas para corretores, mas eles n�o est�o em Wall Street, est�o em Long Island��. Denise leu o an�ncio e perguntou: �O que significa PI, MP?�. Respondi: �Per�odo integral e meio per�odo�, e fiquei imaginando que tipo de corretora seria essa, que contratava corretores em meio per�odo. Eu nunca tinha ouvido falar disso antes. Ainda assim, dadas as minhas circunst�ncias, parecia uma ideia razo�vel. Ent�o eu disse a ela: �Trabalhar por meio per�odo n�o pode ser uma coisa t�o ruim. Talvez eu possa ganhar algum dinheiro enquanto procuro outra coisa�. E ela concordou com a cabe�a.</p><p>Fiz uma pausa e continuei:</p><p>� De qualquer forma, nenhum de n�s pensou muito sobre isso na �poca, e assim, quando telefonei para eles na manh� seguinte, eu estava completamente desencanado. Uma rouca voz masculina atendeu ao telefone e disse: �Investors� Center, como posso ajudar?�, e eu soube na hora que n�o era um telefonista. O nome da empresa causou arrepios na minha espinha. Eu estava acostumado com nomes como Goldman Sachs e Merrill Lynch, nomes que ressoam como Wall Street. Eu s� podia me imaginar dizendo: �Oi, aqui � Jordan Belfort, ligando da Investors� Center aqui do Cu do Mundo, Long Island. N�o estou mais perto de Wall Street do que voc�, ent�o por que n�o me envia logo seu suado dinheirinho? Voc� provavelmente nunca o ver� novamente!�.</p><p>� Muito prof�tico � retrucou o Canalha.</p><p>� Sim � concordei � se bem que o Investors� Center n�o ficava no Cu do Mundo, mas em Great Neck, Long Island, que � na verdade uma parte muito boa da cidade. A empresa ficava no 2� andar de um edif�cio comercial de tr�s andares.</p><p>Parei por um momento.</p><p>� Lembro-me de estacionar perto do pr�dio e ficar bem impressionado. Estava dirigindo aquele velho peda�o de merda da Denise, um Datsun caindo aos peda�os, que era o �nico carro que t�nhamos na �poca, e dizia para mim mesmo: �Ei, at� que esse lugar n�o parece t�o ruim!�. Mas, ent�o, no momento em que entrei na sala, meu queixo caiu. O espa�o era muito menor do que eu esperava. Tinha talvez uns 20 metros quadrados, e n�o havia uma �nica coisa ali que lembrasse Wall Street. N�o havia monitores de computador, assistentes de vendas nem corretores andando para a frente e para tr�s. N�o havia nada mais que 20 antigas mesas de madeira, todas elas parecendo bem desgastadas pelo tempo, dispostas a esmo. Apenas cinco das mesas mostravam corretores ali sentados, e nada de agita��o, a n�o ser um murm�rio baixo. Eu tinha colocado terno e gravata para a entrevista, e era o �nico na sala vestido desse jeito. Todo mundo usava jeans e t�nis, com exce��o de um cara. O �nico problema era que seu terno parecia sa�do de uma caixa do Ex�rcito da Salva��o. Tenho gravada na mem�ria at� hoje a express�o idiota que ele mostrava no rosto. Parecia algu�m que tinha sido lobotomizado. O cara estava na casa dos 30 anos e tinha o cabelo preto mais ensebado que se pode imaginar, como se tivesse tomado banho com �leo de motor de carro e�</p><p>O Canalha come�ou acenando com a cabe�a de novo, como se dissesse: �Melhor seguir em frente�.</p><p>� Enfim � continuei �, o gerente estava sentado em um pequeno escrit�rio na frente dessa sala e parecia alheio a tudo. Ele latia em seu telefone, conversando com a esposa, disso consigo lembrar, falando alguma coisa sobre o c�o deles estar doente. Quando ele me viu, levantou o dedo indicador, ao qual aquiesci respeitosamente. Ent�o ele continuou falando. Seu nome, como vim a saber depois, era George Grunfeld, e dois anos antes ele era professor de Estudos Sociais. Tinha por volta de 45 anos de idade e era a cara de Gabe Kaplan, o professor de <emphasis>Welcome Back, Kotter</emphasis> � sorri para TOC. � Voc� se lembra de <emphasis>Welcome Back, Kotter</emphasis>, Greg?</p><p>TOC assentiu.</p><p>� Sim, com Travolta � ele olhou para o Canalha. � Voc� assistia a <emphasis>Welcome Back, Kotter?</emphasis></p><p>O Canalha deu um sorriso morto para TOC.</p><p>� Sim, �pode enfiar a� mesmo onde est� pensando�<sup>*</sup> � disse ele, sem emo��o.</p><p>� Ah�, eu sabia! � disse eu de maneira calorosa. � Isso � exatamente o que Travolta costumava dizer ao senhor Kotter � sorri para meu novo amigo, com a satisfa��o de finalmente ter encontrado um ponto em comum com ele.</p><p>Infelizmente, o Canalha recusou-se a sorrir de volta. Em vez disso, olhou para mim, com cara de pedra. Eu dei de ombros.</p><p>� Bem, de qualquer maneira, ele se parecia com aquele sujeito, peludo em todos os lugares, no cabelo, nas sobrancelhas, no bigode, nos dedos. Parecia que algu�m tinha colado um punhado de arbustos no cara!</p><p>TOC balan�ou a cabe�a, rindo, enquanto o Canalha olhou-me amea�adoramente.</p><p>� Por fim, George desligou o telefone e veio me cumprimentar. �Basta escolher uma mesa livre e iniciar os telefonemas�, disse ele depois de alguns segundos de conversa fiada. �Isso � tudo?�, perguntei surpreso. �Voc� est� me contratando?� �Sim, por que n�o? N�o � como se eu estivesse lhe pagando um sal�rio, certo? Isso n�o � um problema, �?� Eu estava prestes a dizer-lhe que n�o era, quando um dos vendedores de repente saiu de sua cadeira e come�ou a andar para tr�s e para a frente. George apontou para o cara e disse: �Esse � Chris Knight, nosso melhor vendedor. Ele tem um discurso e tanto, venha ouvir��. Concordei e foquei a aten��o em Chris, que era alto e magro e tinha um rosto mais longo que o de um puro-sangue. Ele n�o devia ter mais do que 20 anos e estava vestido como se tivesse acabado de sair de uma festa da cerveja. Eu me lembro de ficar chocado com o jeito terr�vel como ele suava; murmurando, meio que mastigando as palavras, eu dificilmente conseguia compreender o que o cara dizia! Ent�o, do nada, ele come�ou a gritar em seu telefone, em rajadas curtas e r�pidas de um surto de vendas rid�culo: �Caralho, Bill, eu garanto isso!�, gritava. �Eu garanto que essas a��es v�o subir. Voc� n�o pode perder, � imposs�vel! Tenho informa��es que ainda n�o vieram a p�blico, est� me ouvindo? Eu n�o acho que esteja, porque tenho informa��es privilegiadas!�. E ent�o ele puxou o telefone para longe da orelha, estendeu-o na frente de seu pr�prio nariz e olhou para o receptor com desprezo. Ent�o, depois de 5 segundos em que ficou olhando, colocou o telefone de volta no ouvido e come�ou a gritar novamente. Olhei para George e disse: �O que diabos foi aquilo tudo?�. George acenou com a cabe�a conscientemente e disse: �Esse � muito bom, n�o �?�. Eu s� balancei a cabe�a, descrente, e n�o falei nada. Enquanto isso, Chris ainda estava gritando: �Voc� n�o entendeu? N�o temos como perder aqui, Bill! Eu juro a voc�! Essa a��o vai subir at� a Lua! Nada de �se� e �mas�, chega! Voc� tem que comprar agora, agora mesmo!�.</p><p>Dei de ombros e continuei:</p><p>� Durante meus seis meses de LF Rothschild, eu nunca tinha ouvido nada t�o rid�culo, e n�o estou falando apenas de todas as leis de valores mobili�rios que ele estava violando, mas tamb�m de sua completa falta de profissionalismo. Toda a gritaria e os rid�culos refr�os de vendas, era tudo t�o Mickey Mouse que ningu�m, mesmo com a menor sofistica��o financeira, iria dedicar um pouco de seu tempo ao sujeito.</p><p>O Canalha levantou a m�o.</p><p>� Deixe-me ver se entendi � disse ele c�tico. � Voc� est� dizendo que n�o � um defensor do exagero verbal nas vendas?</p><p>Virei os cantos da boca para baixo e balancei a cabe�a.</p><p>� N�o, eu n�o sou, na verdade. A venda atrav�s de todo esse exagero � uma completa perda de tempo. Em termos militares, � como um bombardeio em massa. � muito alto e amea�ador, mas � apenas parcialmente eficaz. Na Stratton, eu ensinei um estilo diferente de venda, que era o equivalente a deixar cair bombas inteligentes guiadas a laser em alvos de alta prioridade � dei de ombros. � Deixe-me organizar as ideias e voc� ver� exatamente de que eu estou falando.</p><p>O Canalha assentiu lentamente.</p><p>� Tudo bem � continuei. � Por mais que Chris Knight fosse um vendedor horr�vel, ou, melhor dizendo, por menos treinado e inexperiente que fosse, foi o que saiu de sua boca que realmente me chocou. �Ah, vamos l�!�, o rapaz gritou para seu cliente. �Essas a��es custam apenas 30 centavos de d�lar a op��o. Pegue um lote de mil a��es, isso � tudo que estou pedindo! � s� um investimento de 300 d�lares, o que pode dar errado nisso?�. Quando ele disse isso, virei-me para George e perguntei: �Ele acaba de mencionar 30 centavos de d�lar por a��o, � isso mesmo?�. George disse: �Sim. Por qu�?�. �Bem, � que eu nunca ouvi falar de a��es t�o baratas. Eu fui treinado numa empresa que negociava basicamente as a��es que estavam na Bolsa de Nova York. E mesmo na NASDAQ, trabalh�vamos com coisas na faixa de 15 a 20 d�lares�. Enquanto isso, Chris estava ocupado batendo o telefone de raiva. Ent�o ele come�ou a murmurar: �Aquele filho da puta desligou na minha cara! Que canalha, esse rato!�. Ent�o George olhou para mim e disse: �N�o se preocupe, ele vai pegar o pr�ximo. Mas, de qualquer forma, voc� deve sentar-se ao lado dele por alguns dias, para que ele possa mostrar-lhe as coisas�. Bem, eu estava prestes a cair na gargalhada depois de ouvir isso, mas logo em seguida George acrescentou: �Ele ganhou mais de 10 mil no m�s passado. E voc�, quanto ganhou?�. Olhei para George, incr�dulo, imaginando como um idiota como Chris Knight poderia fazer 10 mil d�lares em um m�s e, depois, algo muito estranho ocorreu. �Espere um segundo�, eu disse a ele. �Como diabos ele fez 10 mil d�lares em um m�s trabalhando com negocia��es de 300 d�lares?�. Ent�o eu expliquei a George como um neg�cio de 300 d�lares na LF Rothschild renderia uma comiss�o entre 3 e 6 d�lares, dependendo de qu�o agressivo voc� quisesse ficar com o cliente. �s vezes as comiss�es eram ainda menores que isso, acrescentei, especialmente em vendas de meio milh�o ou mais. Ent�o George acenou para eu entrar em seu escrit�rio e me ofereceu uma explica��o visual de minha pergunta. Ele pegou uma folha de papel de sua mesa e disse: �Estas s�o as �nicas a��es que voc� vai recomendar aqui. H� seis delas�. Ele me entregou a folha de papel e eu levei um momento para estudar o que estava escrito. �Controle de Polui��o KBF?�, murmurei para mim mesmo. �Arncliffe National?� Estava prestes a dizer algo como �Nunca ouvi falar de nenhuma dessas a��es�, quando George apontou para uma coluna de n�meros e disse: �Estas s�o as propostas para as a��es�, e vi que estavam todos abaixo de 1 d�lar. Eu ia dizer �Devem ser uns belos peda�os de merda se est�o todos abaixo de 1 d�lar� quando ele apontou para outra coluna de n�meros e disse: �E estas s�o as ofertas. Tudo entre uma coluna e outra � a sua comiss�o�.</p><p>Parei por um momento para que minhas palavras pudessem ser absorvidas. Ent�o, sorri e voltei a falar:</p><p>� Voc� pode achar dif�cil de acreditar, dada minha atual postura de sofistica��o nesse mercado, mas naquela �poca eu n�o entendia a diferen�a entre venda imediata e compra imediata. Quer dizer, eu sabia que voc� vendia na compra e comprava na venda, mas nunca tinha pensado de fato no que acontecia com o dinheiro nesse meio-tempo. Voc� v�, com as grandes a��es de valor mais alto, a diferen�a entre os dois � muito pequena, talvez 0,5%, e s� ocasionalmente � que os corretores conseguem uma lasca disso, geralmente o valor � engolido pelas firmas. Na verdade, na Rothschild, os corretores ficavam malucos quando um bloco de a��es vinha com uma diferen�a embutida. Eles iriam ligar para seus clientes e insistir porque estariam fazendo uma comiss�o em dobro. Mas na Investors' Center, eu n�o podia acreditar no que estava vendo. Os <emphasis>spreads</emphasis> eram enormes, de pelo menos 50% ou mais. Eu disse a George: �Como � que o pre�o de venda para a Arncliffe National pode ser de 25 centavos e o de compra 50 centavos? Minha comiss�o n�o pode realmente ser de um quarto, pode?�. Ele respondeu: �Claro, por que n�o?�. Eu disse: �Bem, vamos apenas supor que um cliente compre 250 mil d�lares da Arncliffe National�, que era uma negocia��o m�dia na LF Rothschild� �Ser� que minha comiss�o vai realmente ser de 125 mil d�lares?�, perguntei. �Sim, em teoria�, respondeu ele, �mas realmente n�o funciona desse jeito, porque ningu�m coloca esse tipo de dinheiro em a��es que valem centavos�. �Por que n�o?�, perguntei. �Bem, porque� Bem, h�, n�s n�o telefonamos para pessoas que tenham todo esse dinheiro. N�s ligamos para as pessoas das classes trabalhadoras, entendeu?�</p><p>Parei por um instante e continuei:</p><p>� �S�rio?�, retruquei. �Mas por que ligar para as pessoas que n�o t�m dinheiro para investir no mercado de a��es? Parece il�gico�. �Sim, talvez seja�, respondeu ele, �mas as pessoas ricas n�o compram a��es de 1 centavo�. �Por que n�o?�, perguntei pela segunda vez, e ele come�ou a resmungar e a mastigar as palavras. Ele n�o tinha outra coisa a dizer a n�o ser que eu devia confiar nele, coisa que fiz. Em retrospecto, acho que eu estava abatido demais at� para discutir, porque em circunst�ncias normais eu teria debatido com ele at� perder o f�lego. Em todo caso, decidi tomar suas palavras como verdade e segui o programa. Sentei-me ao lado de Chris Knight e, em seguida, escrevi um <emphasis>script</emphasis> de vendas para uma empresa de cosm�ticos chamada Arncliffe International.</p><p>� Por que voc� escolheu essa? � perguntou TOC.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Parecia o c�o com menos pulgas. Quer dizer, eles n�o tinham vendas reais sobre as quais pud�ssemos falar e havia algo como 50 milh�es de a��es pendentes. Mas, pelo lado positivo, eles acabavam de desembarcar na Macy�s como fornecedores, o que eu sabia que seria �timo num discurso de vendas. Isso e o fato de o presidente da empresa ter sido vice-presidente da Revlon, o que eu sabia que seria um bom argumento tamb�m. De qualquer forma, quando finalmente terminei o <emphasis>script</emphasis>, lembro de ter ficado muito impressionado com ele. Eu tinha feito a Arncliffe soar como se fosse uma IBM, ou pelo menos pr�xima da Revlon, e eu n�o tinha contado tantas mentiras assim. Claro, eu tinha omitido alguns fatos materiais, ou seja, informa��es que o cliente realmente n�o precisava saber para tomar sua decis�o, mas apesar de tudo eu realmente n�o tinha violado nenhuma lei de valores mobili�rios.</p><p>O Canalha balan�ou a cabe�a gravemente.</p><p>� Omiss�es relevantes s�o viola��es das leis de valores mobili�rios � disparou ele.</p><p>� Sim, estou ciente disso agora. Na verdade, eu estava ciente disso naquela �poca, tamb�m, embora soubesse que seria dif�cil de provar. Veja, o que � material e o que <emphasis>n�o �</emphasis> material � um pouco subjetivo. N�o se iluda, em Wall Street as omiss�es relevantes s�o a regra, e n�o a exce��o. Seja nas grandes firmas ou nas pequenas.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio.</p><p>� Em todo caso, mesmo com meu <emphasis>script</emphasis> sobre a Arncliffe sendo t�o fabuloso quando era, Chris Knight n�o tinha compreendido a verdadeira beleza daquilo tudo. �Voc� est� desperdi�ando seu tempo com isso�, disse ele, apontando para meu <emphasis>script</emphasis>. �Voc� n�o precisa de um <emphasis>script</emphasis> para vender a��es. Voc� tem apenas que jurar para os clientes que as a��es est�o subindo e eles compram de voc�.� �Sim, obrigado por compartilhar�, respondi e ent�o eu peguei o telefone e comecei a discar. Eu estava usando os nomes que George tinha me dado, que eram na verdade cart�es de pessoas que responderam a um mailing em massa. Na parte da frente dos cart�es havia alguns argumentos de venda do tipo <emphasis>Fa�a uma Fortuna Comprando A��es Baratas</emphasis> e, na parte de tr�s, havia nomes de pessoas e n�meros de telefone. N�o sei, aqueles nomes me pareciam um grande acerto, quer dizer, poderia haver lista melhor do que algu�m que tenha preenchido um cart�o e jogado na caixa de correio? Por isso, quando consegui falar com meu primeiro cliente em potencial, um amig�vel sulista chamado Jim Campbell<sup>1</sup>, tive esperan�as razoavelmente altas. Em um tom de voz bem otimista, eu disse �Ei, Jim! Jordan Belfort ligando da Investors� Center! Como voc� est� hoje?�. �Er� T� bem�, respondeu ele, �E voc�, tudo bem?�. �Ah, estou �timo, obrigado por perguntar. Agora, Jim, se voc� se lembra, cerca de uma semana atr�s, voc� me enviou um cart�o-postal de tr�s por cinco, dizendo que estava interessado em investir em a��es de baixo valor. Ser� que est� lembrado?�</p><p>Continuei:</p><p>� Depois de alguns segundos de sil�ncio, Jim finalmente disse: �Ah, sim, eu acho que fiz isso. Quer dizer, parece uma coisa que eu faria!�. Eu me lembro de pensar: meu Deus! Ele estava t�o ansioso! T�o incrivelmente receptivo! Era incompreens�vel. Mas mantive a compostura e disse: ��timo, Jim. Agora, o motivo da liga��o hoje � que chegou uma coisa � minha mesa agora mesmo, e � a melhor coisa que j� vi nos �ltimos seis meses. Se voc� tiver 60 segundos, eu gostaria de compartilhar a ideia com voc�. Tem um minuto?�. E Jim disse: �Claro! Manda bala!�. Com isso, eu me levantei da cadeira, j� preparado para dar o bote. Lembro-me de um vislumbre de Chris, que estava sentado em sua cadeira, me olhando e bebendo uma garrafa de Evian. Ao telefone, eu disse: �O.k., Jim, veja, o nome da empresa � Arncliffe National, e � uma das empresas de crescimento mais r�pido na ind�stria de cosm�ticos. � uma ind�stria de mais de 30 bilh�es de d�lares, essa de cosm�ticos, crescendo em torno de 20% ao ano. E � praticamente � prova de recess�o, mantendo um crescimento consistente em tempos bons e ruins. Voc� me entendeu at� agora?�. �Opa!�, disse Jim, impressionado. �Eu entendo!� ��timo!�, respondi, e fui em frente, passando alguns fatos muito gerais sobre a Arncliffe, como o nome de alguns dos produtos que eles vendiam, onde a empresa tinha sede e ent�o, finalmente, falei do contrato que eles tinham acabado de assinar com a Macy�s. Depois disse: �Mas por melhor que tudo isso pare�a, a coisa mais importante em qualquer empresa � a gest�o. Voc� n�o concorda?�. �Sim�, respondeu Jim, �� claro�. �Bom�, eu disse astutamente, �no caso da Arncliffe National, a administra��o e a gest�o est�o nas melhores m�os que podiam existir. O presidente do conselho de administra��o, um homem chamado Clifford Seales<sup>2</sup>, � uma das mentes mais astutas da ind�stria de cosm�ticos. Ele foi VP da Revlon, um homem-chave por l�. E, com ele no comando, a Arncliffe n�o pode dar errado� Mas o motivo dessa liga��o hoje, Jim, � muito espec�fico: Clifford Seales est� prestes a ir at� Wall Street para apregoar seu estoque, na esteira de um crescimento de vendas surpreendente e do an�ncio de um grande contrato. Estar� indo se encontrar com bancos, companhias de seguros, fundos de pens�o� os agentes institucionais. E voc� sabe o que eles dizem, Jim: dinheiro institucional � dinheiro inteligente, e mesmo quando n�o �, ainda n�o � o suficiente para abastecer o mercado de qualquer maneira. Voc� est� me acompanhando?�. �Opa!�, disse Jim, �com certeza!�.</p><p>� �Muito bem, Jim. Agora, as a��es est�o sendo negociadas por apenas 50 centavos por a��o, o que � ridiculamente barato, considerando-se o futuro da companhia. E a chave para ganhar dinheiro aqui � posicionar-se agora, antes que Seales v� para Wall Street e se re�na com todos os fundos de pens�o e bancos, porque, assim que ele fizer isso, ser� tarde demais�. Fiz uma pausa e deixei as palavras no ar. �Ent�o, o que eu gostaria que voc� fizesse � o seguinte, Jim: pegue um bloco de 1 milh�o de cotas da Arncliffe National�, e ouvi <emphasis>splat!,</emphasis> um monte de �gua caindo da boca de Chris Knight. Depois ele engasgou e, em seguida, saiu de sua cadeira com a Evian na m�o e correu em dire��o ao escrit�rio de George. Eu balancei a cabe�a descrente e prossegui com a venda, notando pela primeira vez que os outros corretores estavam reunidos em torno de mim. �� um desembolso de caixa de apenas meio milh�o de d�lares�, disse casualmente, �e n�o � uma quest�o de ter fundos hoje ou amanh�, Jim, voc� tem uma semana para pagar essa compra. Mas, acredite em mim�, disse, baixando a voz para um pouco acima do sussurro, �se voc� se posicionar agora, antes que Seales v� para Wall Street, o �nico problema que voc� ter� � n�o ter comprado mais. Parece justo?�.</p><p>� Voc� pediu ao cara meio milh�o de d�lares? � perguntou TOC, rindo.</p><p>� Sim, eu fiz isso. � o que eles costumavam fazer na Rothschild, por isso esse tipo de coisa meio que escapou. Mas enquanto esperava que Jim respondesse ao meu pedido de meio milh�o de d�lares, George saiu correndo de seu escrit�rio, com Chris Knight a reboque. Ouvi George resmungando: �Algu�m tem um gravador de fita? Apresse-se! Quem tem um gravador?�. E ent�o Jim disse: �Ah, me desculpe, Jordan, mas eu acho que voc� pegou o cara errado. Eu trabalho em uma f�brica de chap�us. Sou um operador de m�quina. S� ganho 30 mil por ano��.</p><p>Parei por um momento.</p><p>� De qualquer forma, para n�o insistir nessa quest�o, acabei fechando 10 mil a��es com Jim, o que foi uma transa��o de 5 mil d�lares, um dos maiores neg�cios da hist�ria da Investors� Center. Eu estava prestes a aprender que essa Investors� Center n�o era coisa pequena. Eles empregavam mais de 300 corretores e tinham mais de 30 escrit�rios, todos eles pequenos e mal administrados como aquele. Mas voltando a Jim Campbell por um segundo, eu tinha convencido o homem a comprar as a��es com o dinheiro de sua conta de aposentadoria, que era a �nica poupan�a real que ele tinha�</p><p>Fiz uma pausa e soltei um suspiro perturbado.</p><p>� Se voc� est� se perguntando se eu me sentia culpado por isso, a resposta � sim: eu me senti absolutamente horr�vel. Desprez�vel. Eu sabia que ele n�o deveria investir sua aposentadoria em a��es de valor t�o pequeno. Era muito arriscado. Mas eu estava t�o completamente quebrado no momento que as palavras <emphasis>dinheiro do aluguel, dinheiro do aluguel</emphasis> ficaram piscando dentro de minha cabe�a como um disco quebrado. No final, elas afogaram todo o resto, inclusive minha consci�ncia. No momento em que desliguei o telefone, me vi instantaneamente inundado pela admira��o de meus colegas, anulando todas as d�vidas residuais. Eu lembro de George me dizer: �Onde voc� aprendeu a vender desse jeito, Jordan? Eu nunca ouvi nada nem remotamente parecido com isso! Foi incr�vel!�. Claro, eu n�o vou negar que apreciava cada gota de sua admira��o. E, n�o surpreendentemente, os demais corretores tamb�m estavam tomados de admira��o por mim. Eles olhavam para mim com os olhos arregalados, como se eu fosse um deus. Eu me senti um deus naquele momento. Aquela nuvem negra que havia me seguido desde o neg�cio das carnes e frutos do mar finalmente se evaporara. Eu me senti como um novo homem, ou, melhor ainda, me senti como meu velho eu de novo.</p><p>�Bem ali, naquele momento, sabia que meus problemas financeiros estavam finalmente acabando, e sabia que Denise teria finalmente as coisas sobre as quais t�nhamos falado e sonhado durante os dias negros. Um mundo de possibilidades infinitas de repente se abriu, um mundo repleto de mil oportunidades. E a partir da� as coisas passaram a acontecer muito rapidamente, come�ando quando George se aproximou de mim, algumas semanas depois, pedindo-me para treinar os vendedores. Foi quase id�ntico ao que tinha acontecido no neg�cio de carnes, quando o gerente tinha me pedido para treinar os vendedores. E, assim como no neg�cio de carnes, minhas sess�es de forma��o de vendas rapidamente se transformaram em reuni�es motivacionais e a sala come�ou a lotar. Al�m disso, reorganizei o escrit�rio, criando um estilo de carteiras de sala de aula e instituindo um c�digo de vestimentas, e coloquei um fim naquele total absurdo de corretores em meio per�odo. O que eu estava tentando fazer, em ess�ncia, era que o local se parecesse um pouco como Wall Street, para fazer os corretores se sentirem verdadeiros corretores. E n�o percebi a resist�ncia de ningu�m, todos eles me seguiram cegamente, tanto George quanto os vendedores, e as comiss�es subiram, sobretudo as minhas. No meu primeiro m�s, na verdade, levei para casa um cheque de 42 mil d�lares.</p><p>Parei por um momento, deixando o n�mero ser absorvido.</p><p>� E deixe-me lhes dizer uma coisa: era mais dinheiro do que eu tinha recebido em toda minha vida. Imediatamente, Denise e eu pagamos todas as nossas contas, e depois fomos comprar um nov�ssimo Jeep, um Wrangler, por 13 mil d�lares. Em seguida renovamos todo o guarda-roupa. Comprei para ela seu primeiro rel�gio de ouro e depois uma pulseira de diamantes. No final do m�s, ainda havia 10 mil d�lares sobrando! No m�s seguinte, faturei 60 mil d�lares e fui comprar o carro de meus sonhos: um Jaguar XJS branco p�rola, zerinho.</p><p>Sorri com a lembran�a.</p><p>� Era o modelo de duas portas, aquele com 12 cilindros e 300 cavalos de pot�ncia. A coisa era uma fera total. E enquanto Denise remodelou nosso apartamento, fui pagar todos os meus antigos credores do neg�cio de carnes e frutos do mar. E no m�s seguinte fiz outros 60 mil, e a coisa seguiu assim; foi quando Denise e eu olhamos um para o outro com admira��o. N�s simplesmente n�o sab�amos o que fazer com todo aquele dinheiro. T�nhamos tudo o que precis�vamos e o dinheiro estava entrando mais r�pido do que consegu�amos gastar. Lembro-me de um dia em particular, quando est�vamos sentados � beira de um cais de madeira em Douglaston, n�o muito longe de onde ficava o Investors� Center. Era meio de mar�o, um daqueles dias mais amenos de inverno no qual se pode sentir os primeiros sinais da primavera no ar. Acho que me lembro desse dia t�o vividamente porque foi uma das poucas vezes em minha vida em que me senti verdadeiramente feliz e estava verdadeiramente em paz. Era fim de tarde, est�vamos sentados em duas cadeiras dobr�veis que t�nhamos levado e est�vamos de m�os dadas, assistindo ao p�r do sol. Lembro-me de pensar que nunca amara uma pessoa tanto quanto amava aquela mulher, que nunca nem mesmo pensara que fosse poss�vel amar algu�m de forma t�o pura, t�o completamente. Eu n�o tinha um �nico arrependimento sobre ela, jamais pensara duas vezes a respeito de Denise. Do outro lado da Ba�a de Little Neck, eu podia ver a margem de Bayside, onde Denise e eu mor�vamos, onde eu cresci, e logo atr�s de mim estava a North Shore de Long Island, para onde estaria me mudando em alguns anos e criando uma fam�lia.</p><p>Balancei a cabe�a tristemente.</p><p>� Nunca, nem em um milh�o de anos, teria imaginado que meu lar n�o fosse incluir Denise e que a m�e de meus filhos seria outra mulher. Parecia algo totalmente imposs�vel naquele momento. Mas o que eu n�o tinha como saber na �poca era que a insanidade, como eu viria a chamar, estava logo ali, virando a esquina, entrando lentamente em mim sem que eu soubesse � balancei a cabe�a uma vez mais. � No final, isso n�o poupou ningu�m. Nem a mim, nem a Denise, nem minha fam�lia. Quase todo mundo que eu conhecia e todos com quem cresci viriam a trabalhar para mim ou iam se tornar financeiramente dependentes de mim. Voc�s entendem o que eu estou dizendo?</p><p>Ambos assentiram, e ent�o o Canalha disse:</p><p>� Quanto tempo depois disso voc� conheceu Danny?</p><p>Eu pensei por um momento.</p><p>� N�o muito tempo, talvez tr�s ou quatro meses. Eu o tinha visto algumas vezes ao redor do pr�dio onde mor�vamos, mas nunca troc�ramos mais que uma ou duas palavras. Kenny, no entanto, estava prestes a entrar de novo na minha vida quase imediatamente. Foi naquele fim de semana ou no seguinte, n�o sei direito, que ele me ligou do nada e perguntou se eu podia trein�-lo para ser um corretor da bolsa.</p><p>� Como ele sabia que voc� tinha entrado no mercado? � perguntou TOC.</p><p>� Foi seu primo Jeff. Ele era uma das poucas pessoas da faculdade com quem eu ainda mantinha algum contato. Jeff contara a Kenny como eu estava me dando bem. Mas eu estava totalmente desconectado de Kenny quando ele me telefonou da primeira vez. Quer dizer, na �ltima vez que nossos caminhos tinham se cruzado, o cara tinha batido uma de minhas picapes e depois se mandara me deixando uma conta de 300 d�lares. As vagas lembran�as que tinha dele eram totalmente negativas. Tinha algo meio errado com ele, alguma coisa em que eu n�o conseguia confiar. Isso foi antes mesmo de eu ter conhecido Victor Wang. Juntos, por�m, os dois eram como uma aberra��o completa, um show de horrores: o Cabe�a Quadrada e o Panda Falante � revirei os olhos. � De qualquer forma, vamos apenas dizer que minhas lembran�as sobre Kenny n�o tinham praticamente nada de afetivo. Eu tinha atrelada a ele a ideia de uma pessoa que gostava de falar sobre arrega�ar as mangas e trabalhar duro, mas que n�o tinha a menor ideia do que esse conceito significa.</p><p>� Por que voc� o contratou, ent�o? � perguntou TOC, sorrindo.</p><p>Eu sorri de volta.</p><p>� Essa � uma pergunta muito boa, Greg� Mas vamos apenas dizer que o Kenny Greene que conheci no neg�cio de carnes e frutos do mar e o Kenny Greene que encontrei pela segunda vez eram duas pessoas totalmente diferentes. Ele ainda era um palerma e tudo mais, mas ent�o, pelo menos, era um palerma mais humilde. Ele parecia saber seu lugar no mundo. De fato, uma das primeiras coisas que ele disse ao telefone era que queria me encontrar para um caf�, de forma que pudesse devolver o dinheiro que me devia. O �nico problema era que eu n�o precisava mais do dinheiro. Ent�o, me vi tentado a dizer �Foda-se, amigo! Onde estavam voc� e seu tal�o de cheques quando precisei de voc�s?�. Mas, claro, n�o fiz isso. A verdade � que havia algo no Cabe�a Quadrada de que eu gostava. Quer dizer, at� hoje ainda sinto certo carinho por ele, embora n�o tenha ideia do porqu�. Ele � como um cachorrinho gigante que mija e caga na sua casa inteira, mas voc� sabe que ele n�o faz isso de prop�sito, o problema � que n�o consegue se controlar. Ainda assim, voc� tem certeza de que todas as manh�s o cachorrinho estar� correndo pelo gramado em frente de casa para buscar seu jornal.</p><p>�Enfim, n�s dois nos encontramos em um pequeno restaurante grego, no fim da rua onde ficava o Investors� Center, e, no momento em que nos sentamos, Kenny entregou-me um cheque de 300 d�lares juntamente com um pedido de desculpas por ter batido minha picape. Ent�o ele me contou como seu primo Jeff estava sempre dizendo a ele que eu era o cara mais esperto de todos e que n�o havia nada no mundo que ele quisesse mais que trabalhar ao meu lado, como meu bra�o direito � balancei a cabe�a e dei uma risada. � � bastante ir�nico que Kenny tivesse uma vis�o mais clara do futuro nesse quesito do que eu. Ele estava convencido de que eu seria o pr�ximo fod�o em Wall Street, enquanto eu tinha zero aspira��o nessa �rea. Eu acho que ainda estava chocado demais com o lance da empresa de carnes e frutos do mar e estava t�o apaixonado por Denise que n�o queria que nada mudasse�</p><p>TOC estreitou os olhos.</p><p>� O que fez Kenny acreditar tanto assim em voc�? Quer dizer, eu entendo que ele ouviu voc� em uma reuni�o de vendas na sua empresa de carnes e coisa e tal, mas ainda parece um pouco demais esse ato de f� da parte dele.</p><p>� Verdade � concordei abertamente �, mas o que ocorre � que pulei uma parte importante da hist�ria. Veja, eu n�o tinha certeza se Kenny era um cara talhado para o mercado de a��es, por isso, em vez de concordar em trein�-lo imediatamente, pedi que depois de nosso encontro ele fosse at� o Investors� Center para que eu pudesse dar-lhe uma demonstra��o em primeira m�o de como ser um corretor de a��es. Foi depois de me ouvir ao telefone com um cliente pela primeira vez que ele jurou lealdade a mim. Isso faz mais sentido?</p><p>TOC assentiu. Eu balancei a cabe�a para tr�s e levei um momento para pensar naquela noite. Ent�o comecei a rir.</p><p>� O que � t�o engra�ado? � soltou o Canalha.</p><p>Eu balancei a cabe�a rapidamente.</p><p>� Voc� n�o vai querer saber � respondi.</p><p>� Na verdade, quero, sim � ele disparou de volta.</p><p>� Bem, se voc� insiste � devolvi com um sorriso e estalei o pesco�o lentamente. � Ent�o, em vez de me encontrar no Investors� Center, Kenny se ofereceu para me pegar no meu apartamento. Quando estacionou em frente ao meu pr�dio, ele n�o estava sozinho, tinha trazido sua namorada para o passeio com ele.</p><p>Parei por um momento, torcendo os l�bios com o pensamento nela.</p><p>� Vamos apenas dizer que ela tinha seios do tamanho de bolas de futebol americano e os l�bios de um peixinho dourado. Ela n�o era linda nem maravilhosa, mas era uma das garotas mais sexy em quem eu j� tinha posto os olhos. Em todo caso, os dois ficaram sentados na sala enquanto assistiam a meu show pelo telefone e, claro, n�o pude evitar um desempenho especial para a Peixinho, que estava ocupada me despindo com os olhos enquanto eu me afundava ao telefone. Acabei tendo uma noite bem decente, faturando algo como 3 mil, e me lembro de v�-la sussurrando para Kenny sobre qu�o molhada ela estava ficando, apenas por me ouvir. Mas foi s� no caminho de volta para casa que eu tive minha primeira dose de Peixinho e, al�m disso, de Kenny Greene. N�s est�vamos no Mustang vermelho de Kenny, ele ao volante, eu no assento do passageiro e a Peixinho sentada entre n�s dois, no meio do assento, vestindo uma camiseta min�scula e usando um perfume selvagemente sexy. Est�vamos na Cross Island Parkway, perto da sa�da para Bayside, quando Kenny lhe disse: �V� em frente, querida, diga a ele!�. �N�o�, gemeu ela, �estou com vergonha, Kenny!�. Ent�o, Kenny disse: �Tudo bem, eu falo ent�o�. Ele olhou para mim e disse: �Ela ficou superexcitada s� de ver voc� vendendo esta noite, ent�o ela queria fazer um boquete em voc�. E pode acreditar: a menina consegue sugar todo o cromado de um engate de reboque! Basta olhar para sua boca. Mostre a ele, querida�. Eu olhei para Peixinho at�nito, enquanto ela olhava para mim com os fabulosos l�bios num bico sensual. Ent�o ela come�ou a balan�ar a cabe�a timidamente, como se dissesse �Eu realmente quero chupar tudo, senhor!�.</p><p>Parei por um momento, procurando as palavras certas.</p><p>� Quero que voc�s saibam que eu tinha toda a inten��o de resistir aos encantos da Peixinho, eu amava Denise com todo o cora��o e alma e nunca a tinha tra�do antes. Mas ent�o a Peixinho come�ou a se esfregar em meus jeans e a enfiar seus peitos de bola de futebol no meu rosto. Enquanto ainda me deixava at�nito com isso, ela deslizou para a pequena �rea onde estavam meus p�s e lentamente abriu o z�per de minha cal�a.</p><p>Fiz uma pausa e balancei a cabe�a gravemente.</p><p>� Bem, n�o � preciso dizer, ela me dominou, e s� fui dar por mim quando ela j� estava fazendo um boquete espetacular enquanto cruz�vamos a Cross Island Parkway. Enquanto eu gemia em �xtase, Kenny, o Pervertido, mantinha um olho na pista, uma m�o no volante, outro olho na boca da Peixinho e a outra m�o segurando para tr�s os cabelos castanhos dela, para que n�o obstru�ssem sua vis�o. Eu gozei, se bem me lembro, em frente � escola p�blica 69, a qual frequentei. De qualquer forma, quero que ambos saibam que me senti absolutamente p�ssimo quando passei pela porta de casa naquela noite. Eu me senti sujo e nojento, e jurei a mim mesmo que nunca trairia Denise novamente. Continuei me sentindo culpado por muito tempo depois, principalmente quando n�s quatro sa�amos juntos � fiz outra pausa e balancei a cabe�a. � Eu acho que essa foi a parte mais dif�cil de todas, a de Denise e Peixinho terem se tornado boas amigas. Mas esse foi o jeito que as coisas ficaram; Kenny teve seu desejo realizado e se tornou meu bra�o direito, e n�s quatro nos tornamos insepar�veis.</p><p>Nesse momento, a porta se abriu e entrou a Bruxa, vestida de preto. Os tr�s olharam para ela, sem trocar palavras. Ela sentou-se ao lado de TOC e disse:</p><p>� O que foi que eu perdi?</p><p>Nada al�m de sil�ncio.</p><p>Finalmente TOC disse, com falsa formalidade:</p><p>� Bem, Jordan estava apenas nos dando algumas valiosas informa��es sobre seu relacionamento com Kenny Greene e a Peix�</p><p>� E eu acho que este � um bom momento para fazermos uma pausa para o almo�o � interveio o Canalha.</p><p>� Sim, estou morrendo de fome � concordei.</p><p>� Hummm � murmurou a Bruxa. � Voc� vai ter que explicar as coisas para mim, Joel.</p><p>Espero que sim, pensei, e talvez voc� possa convenc�-la a lhe fazer um boquete enquanto isso� Embora, pensando bem, ela pare�a mais do tipo mordedor�</p><p>Fizemos a pausa para o almo�o.</p></section><section><p>CAP�TULO 12</p><p><strong>UM SALTO DE L�GICA</strong></p><p>Exatamente uma hora depois, eu estava de volta ao calabou�o do Canalha, com duas fatias de pizza no est�mago e meus tr�s captores me olhando atentamente. Eu tinha passado os �ltimos 15 minutos falando sobre como o Cabe�a Quadrada havia se envolvido em todos os aspectos de minha vida, tanto nos neg�cios quanto na vida pessoal. Ele fazia tudo por mim, eu dissera a eles, quase como se fosse uma segunda esposa. E, embora eu n�o tivesse nenhum cargo especial no Investors� Center, quem nos via juntos sabia que eu era o chefe. Kenny estava bem com isso; na verdade, ele gostava da situa��o.</p><p>H� reis e h� aqueles que fazem os reis, disse aos meus captores, e o Cabe�a Quadrada era definitivamente da �ltima estirpe. Eu expliquei como Kenny come�ou a passar a maior parte de seu tempo executando as opera��es do que havia se tornado ent�o nosso escrit�rio dentro de um escrit�rio. A gente tinha nossa pr�pria �rea na parte de tr�s da sala dos preg�es, onde ficava nossa equipe. Naquela �poca, n�s t�nhamos quatro conectores, tr�s corretores e uma assistente de vendas, e todos eles tinham jurado lealdade a mim (a pedido de Kenny).</p><p>E ent�o eu estava dizendo:</p><p>� O que mais me impressionou em Kenny, ou o que mais me desconcertou nele, era o fluxo intermin�vel de amigos dele que desfilava no escrit�rio. Todos tinham vindo exatamente do mesmo molde: estavam no final da adolesc�ncia ou em seus 20 anos, eram de fam�lias razoavelmente boas e razoavelmente bem instru�dos.</p><p>� Interessante � disse o Canalha. � E todos eles eram ex-clientes de drogas?</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� A maior parte deles eu diria que sim, embora n�o colocasse muita �nfase nisso. Eram bons garotos, n�o jovens desamparados. Era como no filme <emphasis>Neg�cio arriscado</emphasis>, em que Tom Cruise se torna �cafet�o de uma noite� e conecta seus amigos do ensino m�dio a um feliz esquadr�o de prostitutas de alta classe. Isso � o que Kenny fez, e seus amigos continuaram aparecendo.</p><p>� E onde Victor Wang entra nisso tudo? � perguntou a Bruxa.</p><p>Epa!<emphasis>,</emphasis> pensei. Victor estava ferrado agora!</p><p>� Bem, o chin�s, quer dizer, Victor, ficou fora da equa��o por um tempo. Ele estava muito ocupado esperando � margem, observando. Veja, ele e Kenny tinham uma amizade completamente bizarra na �poca. Era uma mistura de amor, �dio e desprezo m�tuo, e, dependendo do momento, era como rolar um dado para definir como se sentiam um em rela��o ao outro. Eles podiam ser os melhores amigos ou inimigos mortais, ou algo entre essas duas situa��es. Na primavera de 1988, quando essa hist�ria estava acontecendo, Kenny e Victor estavam em desacordo, e eu s� iria descobrir mais tarde que era por minha causa.</p><p>� Por que isso? � perguntou TOC.</p><p>� Porque Victor tinha tomado o juramento de lealdade de Kenny a mim como uma afronta pessoal. Desde que eram crian�as, eles sempre tinham planejado um neg�cio juntos, e uma vez que Victor era o mais brilhante dos dois, ele era o l�der n�o declarado. Quando Kenny tinha trazido Victor para minha empresa de carnes, era s� para ele dar uma estudada no neg�cio e ver como funcionava, para ver se aquela ideia valia ser roubada para ele e o Cabe�a Quadrada, o que evidentemente n�o valia. Mas um ano e meio depois as mesmas for�as estavam em a��o quando Kenny veio do nada querendo se tornar um corretor da bolsa. No in�cio, ele tinha toda a inten��o de aprender o que pudesse e depois se mandar com Victor. Mas uma coisa Kenny n�o tinha previsto, e foi quando ele me ouviu ao telefone. De repente, ele percebeu que havia outras pessoas l� fora que eram mais espertas que seu amado Victor Wang. Ent�o, ele mudou de lado e, em vez de tentar vasculhar meu c�rebro para roubar o conhecimento e a sabedoria, ele tomou o caminho oposto, dando tudo de si para me promover e tentando me transformar em um rei.</p><p>� Que hist�ria s�rdida � murmurou TOC.</p><p>� Sim, certamente. Mas, de qualquer maneira, para resumir toda essa coisa do Victor Wang, Kenny tentou traz�-lo � cena quando ainda est�vamos no Investors� Center. Ele implorou para que Victor jurasse lealdade a mim, mas Victor se recusou, pois ele era muito orgulhoso. Assim, ele menosprezou a ideia de entrar no mercado de a��es e continuou lidando com a coca�na � dei de ombros. � Com o passar dos meses, eu logo cresci em termos de poder, e a janela se fechou na cara de Victor. Em menos de um ano, a Stratton seria a Stratton e mais amigos de Victor estariam trabalhando para mim. O mais idiota estaria ganhando centenas de milhares de d�lares por ano, os mais espertos estariam faturando milh�es, e um seleto grupo estaria fazendo dezenas de milh�es. Os �ltimos foram os que eu apoiei em suas pr�prias empresas, as quais usei para expandir meu imp�rio nefasto e manter os reguladores fora de equil�brio. Bem mais tarde, Victor viria a possuir uma dessas empresas, a saber, a Duke Securities, e a �nica raz�o pela qual concordei em financi�-la foi para aplacar os �nimos do Cabe�a Quadrada. Eu tinha sido inteiramente contra ele na �poca, porque conhecia Victor pelo que ele era: um homem de insultos e rancores mudos. Ele nunca poderia ser fiel a mim nem a qualquer outra pessoa, para falar a verdade.</p><p>Olhei nos olhos negros da Bruxa.</p><p>� N�o se engane sobre isso, Michele: Victor �, foi e sempre ser� um personagem insano. S�o 100 quilos de m�sculos indestrut�veis cercados por 50 quilos de gordura abundante, e ele n�o tem medo de entrar numa briga caso surja a necessidade. Na verdade, uma vez ele pendurou meu mordomo gay do lado de fora da janela de meu apartamento que ficava no 53� andar, isso depois de transformar o rosto dele em carne mo�da.</p><p>Meus captores ficaram me olhando, surpresos.</p><p>� Sim, essa � uma hist�ria pouco conhecida. Meu mordomo gay roubou 50 mil d�lares de mim, depois de Nadine ter brigado com ele por ter organizado uma orgia gay em nosso apartamento � encolhi os ombros. � Eu posso lhes dar todos os detalhes sujos, se quiserem, embora a viol�ncia, eu lhes asseguro, nunca tenha desempenhado nenhum papel na Stratton. O que aconteceu com meu mordomo foi uma aberra��o �nica, bem como uma prova da selvageria de Victor. Danny, por outro lado, n�o � um selvagem. No momento em que viu Patrick sangrando, correu para vomitar no banheiro.</p><p>O Canalha ergueu o dedo indicador e disse:</p><p>� Desculpe-me � ele se inclinou e cochichou algo no ouvido de TOC. Ent�o a Bruxa se inclinou tamb�m e acrescentou suas pr�prias opini�es.</p><p>Eu n�o fiz nenhum esfor�o para escutar. Afinal, eu estava muito ocupado perdido em meus pensamentos, imaginando como minha vida tinha espiralado dessa forma, t�o fora de controle. Talvez se eu tivesse seguido o conselho de minha m�e e ido para a faculdade de medicina, eu teria me tornado um cirurgi�o card�aco como meu primo, ou talvez tivesse me tornado um ortopedista, como meu outro primo, ou talvez fosse um advogado agora, como meu santo irm�o Bob. Quem poderia saber? Era tudo t�o complicado.</p><p>S� ent�o meus captores deixaram de se amontoar em compl�.</p><p>� Tudo bem � disse o Canalha �, vamos passar para Danny agora. Quando foi que voc�s dois finalmente se conheceram?</p><p>Eu pensei por um momento.</p><p>� Em junho de 88 � respondi �, bem na �poca em que decidi sair da Investors� Center. Eu sabia que o lugar era uma farsa total, ent�o, se eu n�o sa�sse logo, meus clientes seriam massacrados � fiz uma pausa por um momento, avaliando minhas palavras. � Farsa talvez seja uma palavra muito forte, no entanto. Eu n�o acho que o que eu estava fazendo era realmente ilegal.</p><p>� Voc� n�o espera que a gente acredite nisso, n�o �? � rosnou a Bruxa, com uma contra��o perturbadora em seu nariz. Eu mostrei-lhe um sorriso amarelo.</p><p>� Sim, Michele, eu espero e, francamente, isso n�o deveria ser um choque t�o grande assim� Aquela firma, a Investors� Center, era uma corretora com licen�a para operar com um departamento de <emphasis>compliance</emphasis>, um departamento de negocia��es e todos os outros recursos opcionais. Eles eram at� mesmo membros da NASD! N�o � como se estivessem operando nas sombras! Todo m�s eles vinham com as a��es de uma empresa na bolsa e bem l� na primeira p�gina do prospecto dizia: �Este neg�cio foi revisado pela Comiss�o de Valores Mobili�rios� � dei de ombros. � E voc� tamb�m continua esquecendo que eu andava quebrado na �poca. Quando entrei na firma, a �nica coisa em que eu pensava era no dinheiro para pagar o aluguel. Era isso que estava guiando todas as minhas decis�es � deixei escapar um suspiro �bvio. � N�o posso explicar as coisas melhor que isso, apesar de eu admitir que, quando o dinheiro do aluguel deixou de ser um problema, comecei a notar algumas coisas. No come�o eu tentei racionalizar, mas a cada m�s que passava isso se tornou mais e mais dif�cil. E eu me senti mais e mais horr�vel por dentro.</p><p>A Bruxa:</p><p>� Ent�o por que n�o parou, se voc� se sentiu t�o mal?</p><p>� Bem, acredite ou n�o, Michele, era exatamente isso o que eu tinha em mente quando conheci Danny. Ali�s, foi de fato por isso que o conheci: eu estava no meu terra�o, matando um dia de trabalho. Eu vestia um roup�o branco atoalhado e pensava que dire��o tomar na minha vida. J� tinha um estoque decente de grana, de forma que n�o estava sob nenhuma press�o. Todas as op��es estavam abertas para mim, todas exceto a abertura de uma corretora, que eu j� havia descartado. Eram meados de junho, e George tinha abordado o assunto comigo. Ele me chamou em seu escrit�rio e disse: �Os propriet�rios da Investors� Center est�o fazendo uma fortuna. � uma pena deixar tanto dinheiro assim sobre a mesa, voc� n�o acha?�. E minha resposta a George foi: �N�o, eu n�o acho!�. Eu n�o queria ser dono de uma empresa de corretagem, especialmente uma como aquela onde trabalhava. Minha derrocada com a empresa de carnes e frutos do mar ainda estava muito fresca em minha mente, e eu sabia que todos os neg�cios pareciam lucrativos quando se olhava de fora; apenas quando voc� entrava para olhar � que conhecia sua verdadeira hist�ria. Claro, George n�o tinha ideia disso porque nunca tinha sido dono de alguma coisa antes. Tudo o que via eram os cifr�es e nem uma �nica responsabilidade.</p><p>� Ent�o voc� conheceu Danny enquanto estava no seu terra�o? � perguntou o Canalha.</p><p>� Sim, eu morava no quarto andar, e Danny estava brincando com seu filho, Jonathon, no parquinho. Jonathon tinha 2 anos nessa �poca, e ele sempre chamava minha aten��o porque tinha um fant�stico cabelo loiro platinado. Ele era muito bonito. Enfim, depois de alguns minutos fazendo o papel de bom pai, Danny pareceu ficar entediado, e ent�o saiu de lado e acendeu um cigarro. Em certo momento nossos olhares se cruzaram e eu lhe lancei um sorriso cort�s de vizinho. Eu acho que o que mais me chocou em Danny naquele dia era como ele parecia um cara normal. Estava usando um short de golfe azul-claro e uma camisa polo de manga curta combinando. Era um conjunto de golfista, pensei, ou talvez um conjunto de iatista. Era dif�cil dizer. O que quer que fosse, eu nunca teria imaginado que ele era judeu.</p><p>O Canalha olhou para mim, confuso. Eu continuei:</p><p>� Enfim, trocamos ol�s, e ent�o notei que Jonathon tinha subido ao alto do escorregador. No come�o fiquei impressionado, porque parecia uma poderosa fa�anha para um menino de 2 anos de idade, mas ent�o me ocorreu que provavelmente deveria avisar Danny. E ent�o, de repente, Jonathon perdeu o equil�brio e eu gritei: �Caralho! Cuidado, Danny! Seu filho!�, e Danny se virou a tempo de assistir a Jonathon perder o equil�brio e bater no pavimento como uma bola de chumbo.</p><p>Fiz uma pausa e balancei a cabe�a, s�rio.</p><p>� Eu vou dizer a verdade: de in�cio, achei que o pobre garoto estava morto. Quer dizer, ele estava deitado, im�vel, e Danny tamb�m ficou im�vel, muito espantado para se mexer. Por fim, no entanto, depois de alguns segundos dolorosamente longos, Jonathon levantou a cabe�a e come�ou a olhar em volta, mas n�o estava chorando ainda. Isso veio um segundo mais tarde, quando ele cruzou os olhos com Danny. Ent�o ele ficou gritando com toda a for�a de seus pulm�es, agitando os bra�os e chutando com as pernas loucamente. A� conclu� que deveria descer at� l� e dar uma m�o a Danny. Parecia a coisa certa a fazer, em nome da boa vizinhan�a. Mas quando cheguei ao parquinho, Jonathon estava chorando muito alto mesmo. Ele estava berrando nos bra�os de Danny! Eu disse a Danny: �Voc� quer que eu v� procurar sua esposa?�. Danny recuou com horror e disse: �Meu Deus! Procure qualquer um, menos ela! Por favor! Voc� pode chamar a pol�cia, n�o me importa, e fazer com que eu seja preso por ser um mau pai, s� n�o telefone para minha esposa, por favor!�. � claro que eu pensei que ele estava brincando na hora, ent�o concordei com a cabe�a e sorri. Mas ele n�o sorriu de volta, e isso porque n�o estava brincando. Eu s� iria descobrir o motivo, no entanto, alguns dias mais tarde, quando Denise e eu tivemos o prazer de sair com eles para jantar e assistimos a Nancy tirar um cigarro aceso de sua boca e jog�-lo no rosto de Danny. Mas, para n�o me adiantar aqui: Jonathon acabou por se acalmar, e Danny me disse: �Minha esposa me falou que o v� saindo no terra�o durante toda a semana em roup�o de banho. Com o que voc� trabalha?�. �Sou corretor de a��es�, respondi casualmente. �� mesmo?�, disse ele. �Eu pensei que voc� precisava trabalhar em Wall Street para ser um corretor da Bolsa.� Balancei a cabe�a negativamente. �Isso � um equ�voco total. Tudo � feito atrav�s do telefone agora. Voc� poderia estar em qualquer lugar. Eu, por exemplo, trabalho em Great Neck e ganhei mais de 50 mil no m�s passado�. �Cinquenta paus! N�o acredito! Eu tenho um monte de amigos corretores e todos eles est�o pastando desde a quebra da Bolsa!�. Expliquei: �� que eu s� cuido de a��es pequenas. Elas n�o foram t�o afetadas por essa queda. Que tipo de trabalho voc� faz?�. �Estou no neg�cio de ambul�ncias�, respondeu ele rapidamente, �o que � um terr�vel pesadelo. Eu tenho sete vans que constantemente quebram e sete motoristas haitianos que quase nunca aparecem para trabalhar. Eu teria tacado fogo no lugar para conseguir o seguro se tivesse como escapar sem ser pego.�</p><p>�Assenti com a cabe�a, compreendendo o que ele queria dizer, e disse sem pensar: �Bem, se voc� quiser uma mudan�a em sua vida, tenho certeza de que consegue um emprego na empresa onde trabalho. Posso trein�-lo eu mesmo�, ao que Danny me olhou nos olhos e respondeu: �Meu amigo, se voc� me provar que est� ganhando 50 mil por m�s, eu estarei � sua porta, �s 6 horas da manh� de amanh�, pronto pra escavar merda pra voc�, se for preciso!�.</p><p>� E quando ele realmente foi trabalhar para voc�? � perguntou o Canalha.</p><p>� Na manh� seguinte � disse eu. � Fiel � sua palavra, ele estava esperando na minha porta, segurando uma c�pia do <emphasis>The Wall Street Journal</emphasis>.</p><p>� E o neg�cio de ambul�ncias dele?</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Ele nunca mais voltou para aquilo. Danny tinha um s�cio, 50%-50%, e ent�o apenas entregou as chaves para o cara e disse: �At� mais, amigo, legal te conhecer!�, e foi tudo. Ele ficou fazendo liga��es para mim durante o restante do ver�o e depois passou no teste para corretor na primeira semana de setembro. George, por sua vez, foi se tornando cada vez mais agressivo sobre abrir nossa pr�pria corretora. A CVM tinha come�ado a investigar a Investors� Center e, se essa not�cia vazasse, disse ele, a empresa iria quebrar rapidamente. O que mais me preocupava era que eu tinha acabado de convencer Lipsky e o Pinguim a vir trabalhar para mim. O Pinguim finalmente tinha jogado a toalha em rela��o � empresa de carnes e frutos do mar, e a f�brica de m�veis de Lipsky estava � beira da fal�ncia. Ent�o, de certa forma, eu me sentia respons�vel por eles tamb�m. Foi por isso que finalmente concordei em ir com George falar com um advogado, porque eu queria reunir conhecimento sobre as coisas.</p><p>� Com que advogado voc� falou? � perguntou o Canalha.</p><p>� Seu nome era Lester Morse, embora Danny e eu costum�ssemos cham�-lo de Lester Re-Morse, porque tudo que se relacionava com esse cara era cheio de remorsos, era taciturno. Ele era pessimista ao m�ximo, quase dif�cil de entender. Quer dizer, cada pessoa que ele conhecia estava apodrecendo na cadeia ou tinha perdido seu �ltimo centavo para a CVM. E a maneira como Re-Morse contava uma hist�ria o fazia querer cortar os pr�prios pulsos. Ele come�ava contando como algu�m era um grande sujeito e como tinha feito uma fortuna em seu auge, mas a hist�ria rapidamente degenerava para uma hist�ria cheia de advert�ncias e ele acabava dizendo: �� E o que o governo acabou fazendo com ele foi uma terr�vel sacanagem. Ele est� em Allenwood agora e n�o vai sair pelos pr�ximos dez anos�. Ent�o, sacudia a cabe�a e passava para sua pr�xima v�tima.</p><p>� Interessante � resmungou o Canalha.</p><p>� Sim � eu disse �, e o que � ainda mais interessante � que um dos nomes que ele trouxe � baila foi o de Bob Brennan, o Dem�nio de Olhos Azuis em pessoa.</p><p>O Canalha se animou.</p><p>� � mesmo? E o que ele falou sobre Brennan?</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Disse que tinha sido a �nica pessoa a sair livre com todas as pedrinhas, 200 milh�es delas, pelas contas de Lester.</p><p>� Hum� � murmurou o Canalha. � E que mais ele falou?</p><p>� Que Bob era esperto demais para ser preso. Ele disse que ele estava sempre dois passos � frente dos reguladores e que cobria suas pegadas como um �ndio. Lembro-me de ficar muito intrigado com isso na ocasi�o, jurando a mim mesmo que, se um dia entrasse no neg�cio de corretagem, gostaria de ser como Bob Brennan. Veja, Lester n�o pintou Bob como um arquivil�o, pelo contr�rio. De acordo com Lester, a culpa foi de reguladores com excesso de zelo, juntamente com um sistema de justi�a em dois n�veis que se mostrava tendencioso contra as corretoras de a��es baratas. J� as empresas WASP, por outro lado, escapavam dos assassinatos sem serem pegas.</p><p>� Voc� acreditou nele? � perguntou o Canalha.</p><p>� Sim, em boa parte do que ele falou. Embora n�o possa negar que parecia um pouco que estava dizendo tudo aquilo em seu pr�prio benef�cio. Eu conhecia as coisas suficientemente bem naquele momento para perceber que as corretoras de a��es baratas arranjavam as coisas n�o muito a favor do cliente, embora um jogo de cartas marcadas e a ilegalidade flagrante sejam duas coisas diferentes. Mas o escrit�rio de Lester me lembrou a Investors� Center. Era pequeno, sujo e n�o cheirava a sucesso. E Lester me lembrava um an�ozinho envelhecido. Tinha cerca de 1,60 metro e era completamente careca no topo da cabe�a, com grossas faixas de cabelo grisalho encaracolado sobre as orelhas.</p><p>� Ent�o estavam s� voc�s tr�s na reuni�o? � perguntou o Canalha.</p><p>� N�o, �ramos quatro, Mike Valenoti tamb�m estava l�. � Eu olhei para TOC. � Mike, tenho certeza de que voc� est� familiarizado com ele.</p><p>TOC assentiu.</p><p>� Eu tenho um monte de perguntas sobre Valenoti.</p><p>� N�o estou surpreso � disse eu. � Se h� uma �nica pessoa que tenha me ajudado a fazer a Stratton ser a Stratton, essa pessoa foi ele. Ele foi o c�rebro operacional por tr�s de tudo, o cara que manteve as coisas funcionando em todos os 12 cilindros. Ele foi meu primeiro mentor, antes mesmo de Al Abrams, e tamb�m foi o primeiro mago de Wall Street que conheci. Quer dizer, sua amplitude de conhecimento era absolutamente incr�vel!</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Mas, para poupar tempo, vou lhe dizer que Mike Valenoti � completamente inocente nessa hist�ria. Ele estava sempre tentando me manter no caminho certo, e eu estava sempre jurando a ele que fazia as coisas direito. No final, por�m, ele se tornou t�o sobrecarregado com o fluxo do neg�cio que n�o podia mais enxergar o quadro geral da situa��o. Ele n�o tinha ideia de que eu estava violando a lei.</p><p>TOC torceu os l�bios por um momento.</p><p>� Aprecio sua lealdade a Mike � disse ele �, mas me parece um pouquinho implaus�vel que algu�m t�o sofisticado quanto ele n�o soubesse o que estava acontecendo por ali. � Ele me deu um sorriso r�pido, incr�dulo. � Voc� entende o que estou dizendo, n�o �?</p><p>Aquiesci lentamente.</p><p>� Claro, o que voc� est� dizendo faz total sentido, Greg. Mas tamb�m acontece de estar totalmente errado. � Fiz uma pausa para o efeito. � Entenda que 90% do neg�cio da Stratton era completamente leg�timo: n�s n�o roub�vamos dinheiro das contas de clientes, n�o lan��vamos a��es de empresas fraudulentas e, ao contr�rio do que a imprensa possa dizer, nossos clientes sempre podiam vender, se quisessem fazer isso. Claro, nossas pr�ticas de vendas deixavam muito a desejar, mas quem n�o fazia isso? Prudential-Bache? Lehman Brothers? A Pru-Bache estava ocupada demais arrancando dinheiro de vov�s e vov�s, e a Lehman Brothers fez com que eles parecessem meninos de coral. Na verdade, foram os <emphasis>scripts</emphasis> da Lehman Brothers que serviram de modelo para a Stratton!</p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� O lado fraudulento da Stratton ocorria em min�sculos <emphasis>blips</emphasis>, e se voc� n�o estivesse a par desses <emphasis>blips</emphasis> tudo pareceria normal. Mas deixe-me voltar para o escrit�rio de Lester por um segundo. Primeiro, eu rapidamente percebi que George Grunfeld era completamente in�til. Ele sabia menos ainda que eu sobre o neg�cio de corretagem, e cada palavra que saiu de sua boca foi um total absurdo. Com Lester, no entanto, a hist�ria foi diferente. Ele tinha conhecimento e experi�ncia suficientes, mas era completamente desprovido de carisma. Falava com uma voz baixa e estridente, e suas palavras sa�am lentamente, dolorosamente, como se uma tartaruga estivesse falando. Achei dif�cil manter minha mente em apenas um ponto, ent�o fiquei l� sentado, fingindo escutar, dando algumas olhadas em Mike com o canto dos olhos. Lester tinha pintado Mike como uma esp�cie de guru das opera��es, mas at� aquele ponto ele havia dito apenas uma ou duas palavras. Do ponto de vista f�sico, fiquei muito pouco impressionado. Mike estava vestido com um terno azul barato e uma camisa de <emphasis>rayon</emphasis> ainda mais barata, e seu cabelo era meio torto� � <emphasis>do tipo do seu, Canalha, embora o cabelo de Mike fosse mais para o grisalho, enquanto o seu � uma sombra plebeia de lama marrom</emphasis> � embora eu devesse ter reconhecido um velho c�o de guerra de Wall Street assim que o visse.</p><p>� O que � um velho c�o de guerra de Wall Street? � perguntou o Canalha.</p><p>� � algu�m que trabalhou em Wall Street por muito tempo e passou por mercados de alta e mercados de baixa, algu�m que viu os excessos vertiginosos e as hist�rias de desastres fabulosos. � algu�m que viu diversos homens sa�rem dos trapos, encontrarem a fortuna e depois voltarem aos farrapos de novo e para a riqueza mais uma vez. Ele viu as prostitutas e as drogas e os jogos rid�culos, e viu Wall Street sair da idade das trevas de comiss�es fixas e entrega de a��es f�sicas para a era moderna, onde as empresas de corretagem competem com a Merrill Lynch em transa��es feitas eletronicamente.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� H� apenas alguns poucos desses velhos c�es de guerra ainda em Wall Street, porque a maioria deles j� morreu de ataque do cora��o ou de cirrose. Mas, se voc� tiver sorte suficiente para realmente encontrar um deles, eles valem seu peso em ouro. E Mike Valenoti era um dos membros dessa ra�a em extin��o. Talvez eu devesse ter reconhecido no momento em que coloquei os olhos nele, deveria ter notado seus olhos devastados pelas batalhas enquanto ficava ouvindo as insanidades ditas por Lester e George. Ele manteve o queixo enfiado entre as clav�culas e os ombros curvados, como se estivesse prestes a cair no sono. E havia o nariz de Mike, que era digno de aplauso! Era recoberto por veias vermelhas que se espalhavam como uma teia e do tamanho de uma batata doce! No entanto, ele possu�a os olhos castanhos mais inteligentes que eu j� vi. Eles eram penetrantes e podia-se dizer apenas de olhar para eles que Mike n�o estava perdendo uma s� palavra. De qualquer forma, para n�o entrar em mais detalhes, o simples fato foi que Mike e eu nos entrosamos fabulosamente naquele dia. Falamos exatamente a mesma l�ngua, e era a l�ngua de Wall Street. Quando ele iniciava uma frase, eu terminava, e vice-versa. De fato, no momento em que a reuni�o acabou, eu tinha dado a Mike um discurso completo de vendas, fingindo que ele era um cliente. E, claro, o discurso o impressionou de fato, assim como a Lester. Mas acho que a coisa mais importante daquele dia foi o efeito que Mike havia causado em mim. De repente, eu voltei a me sentir como o velho Jordan de sempre.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� Enfim, eu sabia que tinha me mostrado o mais arguto dos argutos naquela tarde, por isso n�o foi surpresa nenhuma para mim quando Lester me telefonou em casa naquela noite, me aconselhando a abrir minha pr�pria empresa de corretagem. Aparentemente, Mike tinha puxado ele de lado ap�s a reuni�o e dito que trabalharia para mim sem um sal�rio inicial. Tudo o que ele queria era uma pequena porcentagem dos lucros. Em troca, ele construiria uma �rea de opera��es para rivalizar com qualquer empresa em Wall Street. Lester tamb�m estava disposto a trabalhar de gra�a. Ele iria preencher toda a papelada e os formul�rios necess�rios com a NASD e depois me acompanharia durante minha entrevista de ades�o. Em troca, tudo que ele queria era uma chance de representar as empresas que eu levasse � Bolsa. Se elas iriam querer ou n�o seus servi�os, n�o era minha responsabilidade. Eu s� precisava fazer a apresenta��o, ele faria o resto.</p><p>� E sobre Grunfeld? � perguntou TOC.</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� George ficou de fora. Na verdade, foi a primeira quest�o levantada por Lester. Ele n�o servia a nenhum prop�sito �til, guinchou Lester. Era um cara bom e coisa e tal, mas era um peso morto. Mike e eu t�nhamos tudo o que era necess�rio para tocar uma empresa. De qualquer forma, eu disse a Lester que iria pensar sobre o assunto, embora, l� no fundo, realmente n�o tivesse nenhuma inten��o de seguir adiante. Ainda estava abalado pela hist�ria da empresa de carnes, e percebi que era prefer�vel esperar por um tempo para ver.</p><p>� Onde estamos agora na linha do tempo? � perguntou o Canalha.</p><p>� In�cio de setembro � respondi �, que foi quando as coisas come�aram realmente a esquentar. Primeiro, Danny passou no teste para ser corretor, e eu o chamei at� meu apartamento para uma sess�o de treinamento. Sentado no meu sof� da sala de estar, comecei. �Muito bem�, disse eu, �aqui est� a quest�o: a primeira chave para vender uma a��o � aprender a ler a partir de um roteiro sem soar como se estivesse lendo um roteiro. Voc� entendeu?�. �Sim�, disse ele, confiante, �n�o h� problema algum�. �Bom�, respondi. �Finja que voc� � um ator em um palco: voc� levanta a voz e abaixa a voz, voc� acelera e, em seguida, vai mais devagar. Voc� deve manter os clientes interessados, vidrados em cada palavra sua. E nem pense em pegar o telefone at� que saiba todas as respostas para todas as obje��es potenciais. Voc� nunca pode parecer perplexo, Danny� Nunca!�. Ele acenou com a cabe�a, confiante de novo. �Entendi, amigo. Voc� n�o tem que se preocupar com Danny Porush. Ele pode vender gelo para um esquim� e petr�leo para um �rabe!�. �Eu tenho certeza de que ele pode fazer isso,� concordei. �Mas, lembre-se, voc� tem que conhecer esse <emphasis>script</emphasis> como a palma de sua m�o. Voc� n�o pode gaguejar, que � o primeiro sinal de um vendedor novato, pois o cliente vai sentir o cheiro direto atrav�s do telefone�.</p><p>E continuei:</p><p>� Eu sorri para ele, enquanto Denise olhava com ansiedade. Eu tinha contado a ela que achava Danny um tremendo vendedor, apesar de nunca t�-lo ouvido vender alguma coisa. Mas ele tinha uma atitude muito arrogante, por isso eu sabia que ele seria �timo. Com a cafeteira na m�o, Denise sorriu para Danny e disse: �Voc� quer que eu v� para a cozinha, para n�o deix�-lo nervoso?�. Danny acenou para ela: �Ora, Denise, para um cara como eu isso � como dar tiros em peixes num barril��. Denise encolheu os ombros e disse: �O.k., ent�o eu vou ficar aqui e ouvir voc�. Danny assentiu, enquanto eu lhe entregava o <emphasis>script</emphasis> da Arncliffe National. �Muito bem�, disse eu, �vamos fingir que voc� est� me ligando e a gente interage um pouco�. Ele concordou, pegou o <emphasis>script</emphasis> das minhas m�os, limpou a garganta com uma s�rie de <emphasis>uhums</emphasis> e <emphasis>uhus</emphasis>. Por fim, com grande confian�a, ele disse: �Al�, Jordan est�?�. �Sim�, respondi rapidamente, �estou bem aqui. Como posso ajudar?�. Danny estalou o pesco�o, como se fosse um lutador antes de entrar no ringue: �Oi, Jordan, aqui quem fala � Danny Porush, ligando do� Ligando de� �h� Er� Investors� Center. Como� Como est� passando?�, e ent�o ele fez uma pausa, suando em bicas. Denise disse que iria para a cozinha �para deixar voc�s dois sozinhos� e um Danny de repente humilde respondeu �Sim, eu, uh, acho que � uma boa ideia, Denise. Isso � um pouco mais dif�cil do que parece�, e ent�o ele limpou uma gota de suor da testa.</p><p>� Pare com isso � disse TOC. � Voc� est� exagerando, ele n�o pode ter ido t�o mal assim.</p><p>Eu comecei a rir.</p><p>� Mas ele foi, Greg. Na verdade, ele foi t�o mal que, depois de ele sair do meu apartamento naquela noite, Denise me disse: �Olha, querido, � imposs�vel que ele v� conseguir. Ele parece um retardado. Quer dizer, por que ele ficou resmungando a noite inteira? Por que ele n�o consegue falar como uma pessoa normal?�. E eu respondi: �N�o sei, talvez ele tenha uma rara forma de s�ndrome de Tourette que s� se manifesta quando ele tem de vender alguma coisa�, e Denise concordou. De qualquer forma, fiz quest�o de ir trabalhar no dia seguinte porque queria testemunhar a carnificina em primeira m�o, mas ent�o algo estranho aconteceu, algo muito inesperado. Eu estava sentado a poucos metros de Danny, tentando conter o riso. Ele estava fazendo seu velho �Oi� �h� Eu� Da-anny Por-ush� Como� H� Vai voc� quando, de repente, <emphasis>snap!,</emphasis> aquela gagueira parou completamente e ele come�ou a falar de maneira inacredit�vel. Parecia quase t�o bom quanto eu, quase..</p><p>Pisquei para meus captores e continuei:</p><p>� Danny come�ou a fechar neg�cios a torto e a direito, e depois de duas semanas, como sinal de companheirismo, perguntei se ele n�o queria me acompanhar em uma visita a meu contador, na cidade. O dia 15 de outubro se aproximava e eu ainda estava em aberto com meus impostos de 1987. Danny concordou alegremente, e l� fomos n�s. N�s pulamos no meu Jaguar branco p�rola e fomos para Manhattan em uma quarta-feira � tarde. Agora, vejam voc�s, at� aquele momento eu achava que Danny fosse um cara completamente normal, porque se vestia de forma conservadora, agia de forma conservadora e vinha de uma fam�lia muito boa. Ele tinha crescido na South Shore de Long Island, na cidade de Lawrence, que � uma �rea muito rica, e seu pai era um nefrologista dos bons. Danny se referia a ele como o Rei do Rim no Brookdale Hospital. No entanto, no <emphasis>front</emphasis> do lar, Denise tinha ouvido alguns rumores muito estranhos sobre Danny: a saber, que ele e sua esposa, Nancy, eram primos de primeiro grau. Claro que eu disse a Denise que ela era louca, porque n�o havia nenhuma maneira de Danny deixar de me contar isso. Na maior parte do tempo que passamos juntos, ele reclamava da mulher, dizendo que a �nica miss�o na vida dela era fazer com que a vida dele fosse a mais miser�vel poss�vel. Ent�o, pensei, por que ele n�o me contaria que ele e Nancy eram primos de primeiro grau? N�o fazia sentido. Quer dizer, se fosse verdade, isso definitivamente exerceria um papel em tudo. Mas eu nunca descobri uma maneira de abordar o assunto com ele, ent�o eu s� deixei isso de lado, descartando a hist�ria como sendo apenas um boato maldoso. Em todo caso, depois que terminei meu assunto com o contador, n�s dois pulamos no Jaguar e dirigimos para fora da cidade. Est�vamos em algum lugar perto da rua 95, nos limites do Harlem, quando a loucura come�ou. Eu me lembro de Danny gritar: �Pare! Pare! Voc� tem que parar�. Eu parei o carro e Danny saiu e correu at� uma bodega dilapidada com uma placa escrita <emphasis>Groceteria</emphasis>. Ele veio correndo de l� um minuto mais tarde, segurando um saco de papel marrom. Entrou de volta no carro com um sorriso insano no rosto e disse: �Vamos, depressa, para o norte at� a rua 125, vamos!�. �Mas que merda est� acontecendo com voc�, Danny?�, murmurei. �Aqui � o Harlem, caralho!� �Est� tudo bem�, disse ele, conscientemente, e enfiou a m�o no saco, tirando um cachimbo da droga de vidro e uma d�zia de frascos da droga. �Esta coisa aqui vai transformar voc� em um super-homem. � meu presente para voc�, por tudo o que tem feito por mim!�. Balancei a cabe�a e comecei a dirigir. �Voc� est� realmente louco!�, rosnei. �Eu n�o vou fumar essa merda, � puro mal!� Mas ele acenou para mim. �Voc� est� exagerando, s� faz mal se voc� tiver acesso constante a ela, e eles n�o vendem isso em Bayside, portanto estamos bem.� �Olhe�, repliquei, �voc� � um porra de um retardado de merda!�, gaguejei. �As chances de me fazer fumar crack s�o abaixo de zero, entendeu? Entendeu, amigo?� �Sim��, respondeu ele. �Entendi. Agora, vire � esquerda aqui e v� at� o Central Park.� �Que porra de cara � esse!�, resmunguei, balancei a cabe�a desgostoso e fiz uma curva � esquerda.</p><p>�Quinze minutos mais tarde, eu estava no Harlem, no subsolo de um antro de crack caindo aos peda�os, frequentado por prostitutas desdentadas e haitianos b�bados, levando o tubo de vidro aos l�bios enquanto Danny segurava um isqueiro na tigela. E enquanto o crack chiava como uma tira de bacon na frigideira, dei um longo trago e o segurei enquanto podia. Uma onda de euforia indescrit�vel ultrapassou meu corpo. Tudo come�ou na base da minha aorta e percorreu minha coluna vertebral, borbulhando em torno do centro de prazer do meu c�rebro com um bilh�o de explos�es sin�pticas. �Ah, porra�, murmurei, �voc� � o melhor amigo que eu j� tive, Danny!�, e passei o cachimbo a ele. �Obrigado�, respondeu ele, �voc� tamb�m, somos irm�os at� o fim�, recarregando o cachimbo com mais crack.</p><p>TOC balan�ou a cabe�a incr�dulo.</p><p>� O que diabos havia de errado com voc�? Por que voc� faria isso?</p><p>A Bruxa disse:</p><p>� Porque eles s�o viciados em drogas, Greg, eles n�o t�m vergonha.</p><p>� Quanto tempo voc� ficou l�? � perguntou o Canalha, num tom de curiosidade m�rbida.</p><p>� Por um longo tempo � respondi, balan�ando a cabe�a. � Voc� precisa saber uma coisa sobre o crack: uma vez que come�a com ele, s� h� duas maneiras de parar: quando fica sem dinheiro ou quando morre de ataque card�aco. Felizmente, nossa farra terminou com a primeira op��o, n�o com a segunda. Eu s� tinha cerca de 700 d�lares no bolso, e Danny uns 500. Ent�o, juntamos nosso dinheiro, como dois bons socialistas, e fomos capazes de manter nossa compuls�o at� depois da meia-noite.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� O lado bom da coisa, por�m, � que fui capaz de reunir informa��es valiosas demais durante nossa farra. Como acontece com todas as drogas, h� v�rias fases de pico, e com o crack elas s�o particularmente agudas. Se quiserem, posso contar a voc�s como �.</p><p>TOC balan�ou a cabe�a com seriedade.</p><p>� � um mist�rio para mim o porqu� de eu estar interessado em ouvir sobre isso, mas j� que voc� deixou o g�nio sair da garrafa, � bom que siga em frente.</p><p>Sorri para ele.</p><p>� O prazer ser� todo meu, Greg. A primeira fase do pico do crack � a fase da euforia. Isso acontece quando voc� se sente t�o incrivelmente maravilhoso que quer apenas gritar do alto das colinas: �Eu amo crack! Eu amo crack! E todos voc�s a� embaixo que n�o est�o fumando essa merda n�o sabem o que est�o perdendo!� � dei de ombros. � E caso n�o acreditem no que estou dizendo, experimentem por si mesmos e ver�o o que eu quero dizer.</p><p>� Quanto tempo dura essa fase? � perguntou o Canalha.</p><p>Eu balancei a cabe�a, triste.</p><p>� N�o o suficiente � respondi. � Talvez 15 ou 20 minutos, depois acaba e voc� desliza para a fase dois, que � quase t�o boa, mas nem tanto. � a chamada fase de �cagar pela boca�, que por si s� j� � autoexplicativa. Nesse caso, por�m, o tipo de diarreia oral que � induzida pela droga difere um pouco da diarreia oral induzida pela variedade bot�nica que o t�pico artista de merda lan�a em voc�.</p><p>� E qual � a diferen�a? � perguntou a Bruxa, em busca de uma forma de reconhecer um artista de merda quando visse um.</p><p>Apertei os olhos sabiamente.</p><p>� Bem, � muito dif�cil descrever as falas sem sentido induzidas por drogas para aqueles que nunca mergulharam nelas, mas vamos apenas dizer que consiste de um fluxo intermin�vel de divaga��es ocas, que as outras pessoas que est�o na mesma fase acham que s�o brilhantes. No entanto, para todos aqueles que est�o fora da fase, soa como um completo disparate.</p><p>TOC parecia entender:</p><p>� Por isso que nessa fase voc� fez a maior parte de sua coleta de informa��es, eu presumo.</p><p>� Na verdade, Greg, � uma suposi��o bastante l�gica. Danny e eu est�vamos sentados naquele ch�o de concreto, sob um teto de amianto despencando, com as costas apoiadas contra uma parede de gesso barato, que precisava de duas dem�os de tinta, enquanto tr�s putas desdentadas cheias de crack olhavam com admira��o. Ent�o eu disse a ele: �N�o consigo pensar num lugar melhor que esse para fazer uma viagem de crack, hein, Danny?�. �De jeito nenhum�, murmurou ele. �E a�, voc� acha que eu fiz uma indica��o errada?� Ele colocou o cachimbo na boca e inalou mais uma vez. �Deixe-me fazer uma pergunta�, eu disse. �Voc� sabe, h� alguns rumores muito loucos flutuando em torno do nosso pr�dio sobre voc� e Nancy serem primos de primeiro grau. Claro, eu sei que eles n�o s�o verdadeiros, mas eu s� achei que voc� precisava tomar conhecimento, entendeu, de modo que voc� ficaria sabendo o que as pessoas andam falando sobre voc�s.� De repente, ele come�ou a tossir violentamente. �Caralho� Caralho!�, e balan�ou a cabe�a rapidamente, como se tentasse controlar aquele pico. Ap�s alguns segundos, ele disse: �N�o � um boato, cara, � verdade. Nancy e eu somos primos de primeiro grau. O pai dela e minha m�e s�o irm�os�. Ele deu de ombros. �Voc� n�o est� preocupado com a consanguinidade?�, perguntei a ele. �Quer dizer, Jonathon parece bastante normal at� agora, mas o que acontecer� com seu pr�ximo filho? E se ele sair deformado?�. Danny balan�ou a cabe�a. �O risco � baixo�, disse ele, confiante. �Meu pai � m�dico e fez os exames. Mas, se de fato der merda, eu vou deixar o mutante nos degraus de uma institui��o de caridade. Ou vou tranc�-lo no por�o e dar pra ele um balde de carne mo�da uma vez por m�s.� Lembrem-se, n�o fui eu quem disse isso, foi Danny. Al�m disso, n�s est�vamos no meio da fase de �cagar pela boca�, e at� mesmo as coisas mais absurdas faziam sentido, naquele momento!</p><p>TOC e o Canalha come�aram a rir.</p><p>� Ent�o, que outra informa��o valiosa voc� conseguiu reunir? � perguntou o Canalha.</p><p>Eu balancei a cabe�a, ansioso para mudar de assunto.</p><p>� Bem, eu tamb�m descobri que ele tinha cheirado seus dois �ltimos neg�cios falidos direto pelo nariz. Antes do servi�o de ambul�ncias houve um servi�o de mensageiros em Manhattan; foi quando ele come�ou a fumar crack com os mensageiros de bicicleta. Esse foi o in�cio do fim financeiro de Danny. Antes disso, ele tinha sido um sujeito bem-sucedido; naquele momento, no entanto, ele era apenas uma casca de seu antigo eu. Sua confian�a foi quebrada, sua conta banc�ria se esgotou e sua esposa, que nunca fora uma pessoa f�cil, para come�ar, estava determinada a transformar a vida dele num inferno. De qualquer forma, n�s s� sa�mos da cidade naquela noite depois da meia-noite, e foi s� ent�o que percebi que tinha me esquecido de avisar Denise. Foi tamb�m ent�o que eu comecei a cair de um penhasco emocional, batendo no fundo no mesmo instante em que pegamos a rampa de sa�da para Bayside, e aterrissei na fase da preocupa��o.</p><p>Parei por um momento, sentindo-me preocupado s� de <emphasis>pensar</emphasis> na fase de preocupa��o que se aproximava.</p><p>Respirei fundo e disse:</p><p>� Essa � a terceira fase: um ataque virulento de pensamentos negativos que o afogam como um tsunami assassino. Voc� se preocupa com tudo: erros do passado, problemas do presente e qualquer coisa que possa aparecer no futuro. No caso de Danny, a preocupa��o tinha a ver com dinheiro, e eu sabia disso porque, assim que sa�mos da rampa de acesso a Bayside, ele me disse: �O Citibank est� prestes a tomar meu apartamento e jogar minha fam�lia na rua. Voc� acha que pode me emprestar 10 mil d�lares? Eu n�o tenho mais ningu�m a quem recorrer�. Respirei fundo naquele momento, tentando extrair alguma energia das preocupa��es de Danny, porque se a vida de Danny andava pior que a minha, ent�o com o que eu devia me preocupar realmente? �Sim�, respondi. �Voc� tem um Valium ou um Xanax? N�o estou me sentindo muito bem�� Mas ele balan�ou a cabe�a negativamente. �N�o tenho, mas por que voc� n�o fuma o bocal? Deve ter algum res�duo de crack l�, e vai fazer voc� se sentir melhor.� Concordei com a cabe�a e peguei o tubo. �Obrigado. Segure o volante enquanto eu acendo isso aqui. N�o quero me queimar.� Danny pegou o volante e foi desse jeito que fizemos o caminho por Bayside, comigo fumando o bocal do cachimbo de crack e Danny segurando o volante do carro. Durante nossa viagem no elevador, n�o dissemos uma �nica palavra um para o outro. Nem mesmo olhamos um para o outro. Est�vamos ambos muito envergonhados. Eu me lembro de ter jurado a mim mesmo que nunca mais falaria com ele. No fundo, sabia que algu�m como Danny n�o podia ser bom para mim. Algu�m que falava sobre sua fam�lia do jeito que ele fez, algu�m que consumia drogas do jeito que ele fez e algu�m que teve a porra da aud�cia de me levar para as profundezas e o desespero de um antro daqueles no Harlem� Eu sabia que ele s� iria trazer � tona o pior de mim. Enfim, no momento em que coloquei a chave na fechadura, a porta se abriu e l� estava Denise, chorando. Eu olhei para ela com p�nico nos olhos. Meu cora��o estava batendo no peito de um jeito que parecia que iria explodir. Ergui as palmas das m�os no ar e abri a boca para dizer alguma coisa, mas as palavras n�o sa�ram. Foi quando entrei na fase quatro, a fase da contempla��o do suic�dio.</p><p>�H� apenas dois ant�dotos conhecidos para isso: o primeiro � o consumo maci�o de benzodiazepinas, de prefer�ncia Xanax, Valium e Klonopin. O segundo � uma quantidade maci�a de sono, coisa de dois a tr�s dias. Qualquer per�odo menor que esse e voc� ainda pode tentar o suic�dio. Enquanto estava em frente a Denise, cheirando a urina e prostitutas e crack, ela teve pena de mim e me abasteceu com uma quantidade de Xanax que derrubaria uma baleia azul. Ent�o ela tirou minha roupa e me jogou na cama. E eu desmaiei.</p><p>� Caramba� � murmurou TOC.</p><p>Eu balancei a cabe�a, concordando.</p><p>� Sim � eu disse � Isso mesmo, caramba� O fato � que demorei tr�s dias para me recuperar, o que nos leva � manh� de domingo. Foi quando eu entrei na fase de ressurrei��o, que � a fase mais produtiva de todas. As reservas de dopamina de seu c�rebro j� est�o plenamente reabastecidas e nesse momento voc� promete a si mesmo que aprendeu a li��o. Voc� sabe que aquilo que fez foi algo completamente insensato e s� uma pessoa louca faria de novo, e voc� n�o � definitivamente uma pessoa louca! O que torna essa fase t�o produtiva � que voc� pode olhar para todas as suas preocupa��es com um distanciamento frio, descartando aquelas preocupa��es que foram imaginadas e formulando estrat�gias para lidar com as que s�o reais. � um momento de tremenda clareza, um momento em que um homem faz um balan�o de sua vida. E desde que n�o seja um viciado maluco em crack que esteja pensando em voltar para aquela toca de novo, voc� emerge dessa experi�ncia um homem muito melhor, um homem mais focado e�</p><p>� Ah, por favor! � rosnou o Canalha. � Economize essas racionaliza��es para os menos informados! O crack n�o faz de voc� algu�m melhor ou mais focado. Ele s� faz mal e nada mais.</p><p>O TOC soltou uma risada. A Bruxa levantou uma sobrancelha. Eu disse ao Canalha:</p><p>� Voc� tem um excelente ponto de vista sobre isso, Joel, embora no meu caso, em particular, a fase de ressurrei��o tenha se mostrado excepcionalmente produtiva, porque logo percebi que eu tinha apenas uma coisa com que me preocupar, e era o Investors� Center. Se George estava certo, ent�o eu precisava fazer um movimento naquele momento, antes de a merda bater no ventilador. Ficar sentado esperando seria como um avestruz enfiando a cabe�a na areia. Ent�o, no dia seguinte, puxei Kenny de lado e lhe disse que estava pronto para fazer uma jogada. O Investors� Center estava a caminho de desaparecer, expliquei, e n�s precis�vamos arrumar as coisas naquele momento, em antecipa��o ao desastre.</p><p>� E quanto a seu futuro parceiro de crime? � perguntou a Bruxa. � Voc� emprestou dinheiro ao Danny?</p><p><emphasis>Deus</emphasis>� Como eu gostaria de dar um tap�o naquela cabecinha de rato dela! Sorri calorosamente em resposta e disse:</p><p>� Sim, Michele, eu fiz isso, e se quiser saber o porqu�, a resposta �: eu n�o sei muito bem. No trajeto para o escrit�rio naquele dia, minha vontade era de demiti-lo. Realmente era o que eu queria fazer. Mas quando o vi sentado � mesa, n�o consegui juntar for�as para faz�-lo. Ele parecia nervoso e envergonhado. Quando finalmente nossos olhos se cruzaram, ele me lan�ou o mais triste dos sorrisos, depois baixou a cabe�a de novo e voltou a discar. Lembro-me de olhar para ele, observando-o bater o telefone, me sentindo totalmente confuso por dentro. Eu queria demiti-lo, mas simplesmente n�o conseguia me obrigar a faz�-lo. Ele tinha uma esposa e um filho, ambos a quem eu conhecia e com quem me preocupava. E eu sabia o qu�o talentoso ele era, de modo que a gan�ncia estava me torturando tamb�m. Ent�o decidi emprestar o dinheiro e mant�-lo no rebanho. Eu apenas ficaria atento e garantiria que o controlava. Mas, alguns dias depois, a caminho do pr�dio, o porteiro me parou e entregou uma carta registrada. Olhei para o envelope e gelei: era da CVM. Sem nem abrir a carta, j� sabia que era uma intima��o.</p><p>� Intima��o para qu�? � perguntou o Canalha.</p><p>� Para os registros � respondi � e tamb�m para uma entrevista pessoal. Ela n�o dava uma data espec�fica, mas no dia seguinte Lester Re-Morse me ligou logo cedo e disse: �Acho que a Investors� Center fechar� as portas ainda esta semana. Para falar a verdade, acho que ser� um milagre se eles passarem de quarta-feira�. �Mas que merda voc� est� falando?�, rebati. �Como � que a SEC pode estar fechando a firma antes de come�ar uma investiga��o?� �Mas n�o � a SEC que os est� fechando�, replicou Lester. �Eles mesmos est�o fechando. Est�o sem dinheiro�. Como, sem dinheiro?, pensei. Como diabos podia ser? �Como eles podem estar sem dinheiro, Lester? Eles vinham fazendo uma fortuna!� �N�o, n�o�, chiou ele. �Eles vinham faturando uns 2 milh�es por ano, no m�ximo, e sugaram todo esse dinheiro para fora da empresa. O resto de Wall Street vinha vendendo a descoberto suas a��es desde que vazaram, na quarta-feira, os boatos de que eles iam ser investigados. Ent�o, � apenas uma quest�o de tempo.�</p><p>Olhei para meus captores e encolhi os ombros.</p><p>� E aquelas foram as famosas �ltimas palavras de Lester Re-Morse. Todas as corretoras de Wall Street estavam vendendo a descoberto suas a��es, imaginando que a investiga��o iria coloc�-las para fora do neg�cio. Ent�o, a coisa toda foi se tornando uma profecia autorrealiz�vel. �Quanto tempo vai demorar para que minha firma comece a funcionar?�, perguntei a ele. �Entre seis e nove meses.� �De seis a nove meses? Eu n�o tenho de seis a nove meses! Eu vou perder tudo se levar muito tempo.� Ent�o outra quest�o me ocorreu. �Ah, droga! E nossos contracheques, Lester? Segunda-feira � dia de pagamento!�, ao que ele murmurou, �Sim, bem, voc� sabe� vamos apenas dizer que, se eu fosse voc�, n�o contaria muito com isso. Corretores acabam nunca sendo pagos quando esse tipo de coisa acontece. A melhor coisa � de fato descartar essa hip�tese�. Eu comecei a rir com as palavras de Lester, porque Danny deveria receber seu primeiro sal�rio na segunda-feira. Ele receberia cerca de 40 mil d�lares e seria um esmagador golpe final para ele. Eu sabia ent�o que se quisesse mant�-lo em meu rebanho, teria de lev�-lo at� que as coisas se definissem. Mas Danny era apenas um de meus problemas. Eu tinha outras sete pessoas na minha equipe, e, por mais leais que elas fossem, n�o podiam esperar de seis a nove meses. �Tem de haver um meio mais r�pido que esse, Lester. Seis a nove meses � uma senten�a de morte para mim. Eu preciso falar com Mike Valenoti, talvez ele conhe�a um caminho.� �Eu j� falei com Mike�, disse Lester, �e ele est� com voc�. Ele disse que viria a meu escrit�rio hoje e sentaria com voc�, se quisesse. Podemos nos encontrar ao meio-dia�. �Tudo bem, estarei a� ao meio-dia�. �Pense sobre isso�, disse Lester, �voc� poderia come�ar como um bra�o de outra corretora, isso � chamado de OSJ, que significa Escrit�rio de Fiscaliza��o e��. Eu o interrompi. �Eu sei o que significa e � um pesadelo. O dono sempre tenta foder com o gerente da filial e eu n�o quero come�ar algo que vai explodir em seis meses.� �O que voc� est� dizendo � verdade�, respondeu Lester, �e normalmente eu n�o recomendaria uma coisa dessas. Mas acontece que eu conhe�o uma firma pequena que � um diamante bruto; eles n�o t�m de fato uma opera��o da qual se possa falar, apenas um escrit�rio pequeno em Maiden Lane, a uma quadra de Wall Street. Voc� poderia abrir um pequeno escrit�rio em Long Island e pagar-lhes uma porcentagem. O propriet�rio � um cara muito honesto, um sujeito ador�vel, para falar a verdade. Mas ele perdeu todo o dinheiro com a queda da Bolsa e est� � beira da fal�ncia.� �Qual � o nome dele?� �Jim Taormina. E a empresa � a Securities Stratton.�</p><p>� E l� vamos n�s � disse TOC, com um sorriso.</p><p>O Canalha acrescentou:</p><p>� Muito bem, ent�o a� estamos. Finalmente chegamos ao come�o, um dia e meio depois de voc� come�ar a cooperar.</p><p>� � isso a� � concordei �, mas ningu�m nunca vai poder me acusar de n�o ser capaz de contar uma boa hist�ria, certo? � sorri calorosamente para meus captores. Eu tinha chegado ao n�cleo da hist�ria, uma hist�ria sem igual. N�s quatro t�nhamos criado uma conex�o estranha, mas ainda assim agrad�vel, de certa forma, e eu n�o pude deixar de admirar a sabedoria de Magnum. Na aus�ncia dele, as paredes da formalidade tinham ru�do, sendo substitu�das por uma familiaridade cordial e por um esp�rito de solidariedade. Na verdade, eu finalmente me sentia parte da equipe dos Estados Unidos!</p><p>Infelizmente, a Bruxa foi r�pida em estourar minha bolha.</p><p>� Ent�o foi a� que voc� embarcou em sua vida de crimes � disse ela. � Tudo o que veio antes foi apenas aquecimento.</p><p>� Ent�o, o que aconteceu depois? � perguntou o Canalha.</p><p>Dei de ombros e soltei um grande suspiro.</p><p>� Bem, o resto do dia foi de uma insanidade total. Antes de ir para o escrit�rio de Lester, liguei para a casa de George Grunfeld, mas a esposa dele me disse que ele n�o estava. �Ele est� no escrit�rio <emphasis>cuidando da papelada</emphasis>�, disse ela, e pelo tom de sua voz eu pude literalmente ouvir o triturador de papel zumbindo ao fundo. Ent�o, eu telefonei ao Cabe�a Quadrada, contei a ele o que estava acontecendo e lhe disse que seria melhor ele ir cuidar da <emphasis>nossa</emphasis> papelada, antes que os federais invadissem o lugar. Depois, telefonei ao Danny e lhe passei a m� not�cia de que ele n�o seria pago na segunda-feira. Claro, Danny sendo Danny, recebeu a m� not�cia com calma. �Eu tenho problemas maiores que esse�, rosnou ele. �Ah, � mesmo?�, eu disse. �Como o qu�?� �Bem, eu ainda estou casado com Nancy�, respondeu ele. �N�o acha que � suficiente?� Como de costume, resisti ao impulso de lhe perguntar por que diabos ele tinha se casado com a prima, antes de qualquer coisa. Mas disse a ele para n�o se preocupar, que eu cobriria a hipoteca e as despesas e qualquer outra coisa de que ele precisasse at� que conseguisse colocar as coisas em ordem. Danny me agradeceu efusivamente e disse que estaria comigo at� o fim. Ent�o desliguei o telefone e fui at� o escrit�rio de Lester.</p><p>� Estou curioso � comentou o Canalha. � Que tipo de documentos voc� queria destruir?</p><p>� <emphasis>Scripts</emphasis>, em sua maioria, e talvez alguns tickets de compra e venda de a��es. Mas, na verdade, n�o havia muito que eu pudesse destruir que n�o estivesse armazenado em dois ou tr�s outros lugares. No entanto, a caminho do escrit�rio de Lester, um plano se formou em minha mente. Na verdade, isso marcaria o in�cio do que eu viria a chamar de minha Grande Janela de Clareza. Ela come�ou no carro a caminho do escrit�rio de Lester e durou at� o come�o de 1993, quando acertei minha quest�o com a CVM e vendi a firma para Danny por 180 milh�es de d�lares. Foi um momento marcante em minha vida, um per�odo de quatro anos e meio em que n�o havia nenhum problema muito complicado que n�o pudesse resolver. Parecia que meu c�rebro estava trabalhando em acelera��o m�xima; eu poderia ir em 20 dire��es diferentes ao mesmo tempo e ainda assim era capaz de encontrar o caminho certo sem pegar uma �nica entrada errada.</p><p>Fiz uma pausa por um momento, avaliando minhas palavras.</p><p>� Eu n�o estou tentando parecer arrogante aqui, acredite, essa � a �ltima coisa que eu poderia fazer agora. Fui humilhado pela minha pr�pria vida: pelo meu v�cio em drogas, por minha acusa��o e pela minha esposa � <emphasis>traidora</emphasis> � me abandonando na escadaria do tribunal. Mas s� estou tentando pintar um quadro para voc�s, uma imagem de como eu era na �poca, assim fica f�cil entender por que todo mundo me seguiu cegamente: pessoas como Mike Valenoti e meu pai, Danny e Kenny, Jim Taormina e, finalmente, milhares de outras pessoas que viriam a trabalhar na Stratton. Foi uma �poca em que eu tinha todas as respostas, que eu era capaz de dominar o neg�cio de corretagem em uma quest�o de dias, tanto o lado operacional quanto o lado de negocia��o. Mike viria a me chamar de aluno mais capaz do mundo, e muitos outros, com o passar do tempo, viriam a me chamar da mesma coisa. Infelizmente muitos deles faziam parte de uma lista do �quem � quem� dos criminosos do mercado de transa��es financeiras � balancei a cabe�a tristemente. � De todo modo, quando olho para tr�s, para esses dias, sinto um misto de emo��es e uma saud�vel dose de admira��o. De certa forma, acho que foi essa janela de claridade que me levou para as drogas, as prostitutas e tudo o mais. Eu sempre sofri de ins�nia, mas de repente descobri que achava imposs�vel dormir mais que uma ou duas horas por noite. Eu n�o conseguia acalmar os pensamentos que rugiam pela minha cabe�a. No in�cio dos anos 1990, eu estava administrando as contas de negocia��o de quatro diferentes empresas de corretagem: Stratton, Monroe Parker, Biltmore, al�m de uma conta secreta que eu mantinha na MH Meyerson, que eu usei para equilibrar as outras, e eu sabia o que cada empresa tinha em sua conta, at� cada cota�</p><p>Parei por um momento, deixando minhas palavras assentarem.</p><p>� Quando essa minha clareza finalmente desapareceu, me vi tentando recaptur�-la desesperadamente. Eu tentei uma d�zia de neg�cios diferentes: fiz filmes, abri uma empresa de vitaminas, trabalhei na Steve Madden Shoes, at� tentei vender a��es a descoberto, imaginando que eu poderia fazer dinheiro atacando a ind�stria que tinha criado. Mas, no final, n�o pude recaptur�-la. Eu nunca consegui voltar ao ponto em que sentia meu c�rebro funcionando com todos os cilindros � balancei a cabe�a tristemente. � Algumas vezes me pergunto se algum dia irei conseguir� Quer dizer, eu sei que tenho um longo caminho pela frente e que provavelmente vou acabar passando uma consider�vel quantidade de tempo na cadeia, mas depois que tudo for dito e feito, depois que cumprir a pena e pagar minha d�vida com a sociedade, por assim dizer, me pergunto se conseguirei realizar algo de extraordin�rio de novo. Eu me pergunto se algum dia terei outra dessas janelas de clareza�</p><p>Deixei escapar um suspiro sincero.</p><p>Depois de alguns instantes de sil�ncio, TOC finalmente disse:</p><p>� Eu tenho uma ligeira suspeita de que sim, de que ter� outra, mas espero, para seu pr�prio bem e para o bem do p�blico em geral, que voc� venha a fazer algo mais positivo com sua pr�xima oportunidade�</p><p>� Pois eu n�o poderia estar mais de acordo � disse a Bruxa, estreitando os olhos para mim e inclinando a cabe�a para o lado de uma maneira esclarecedora, como se estivesse estudando um min�sculo esp�cime no laborat�rio. � Eu acho que o que mais me incomoda em voc� � a maneira como tomou um presente que lhe foi dado por Deus e abusou dele. Um ladr�o comum ou mesmo um bandido, nesse caso, seriam mais f�ceis de suportar. Mas voc� N�o foi nada al�m da gan�ncia que o motivou, a cobi�a em todas as suas formas, por todas as coisas carnais, por todas as coisas perversas. Foi isso e um desenfreado desejo pelo poder.</p><p>Houve mais um momento de sil�ncio, enquanto as palavras da Bruxa pairavam no ar como g�s t�xico. Por fim, o Canalha falou, em um tom pacificador:</p><p>� Bem, eu acho que todos n�s concordamos que o cap�tulo final de sua vida ainda est� para ser escrito, mas por enquanto precisamos manter o foco no presente� Ou no passado, eu deveria dizer, e, mais especificamente, na sua reuni�o no escrit�rio de Lester.</p><p>Sim, pensei, voc� � meu salvador e protetor, Canalha, e isso mostra de maneira estrondosa a terr�vel situa��o da minha vida. Afinal, voc� n�o ficaria feliz com mais nada al�m de me ver apodrecendo em uma pris�o, e ainda assim h� outro ser humano na sala que me deseja coisa ainda pior que voc�.</p><p>Eu balancei a cabe�a e disse:</p><p>� Certo� Bem, no momento em que cheguei ao escrit�rio de Lester minha janela de clareza estava totalmente aberta, e eu j� havia trabalhado as coisas em minha mente. Havia tr�s coisas que eu precisava alcan�ar. Em primeiro lugar, precisava fazer um acordo com Mike; em segundo, precisava fazer um acordo com Jim Taormina; e, em terceiro lugar, tinha que arrumar um escrit�rio tempor�rio para entrevistar os vendedores at� que conseguisse um espa�o permanente. Ent�o, quando cheguei ao escrit�rio de Lester, n�o perdi um segundo. Dessa vez, s� est�vamos n�s tr�s, Lester, Mike e eu, e fui direto ao ponto. �Apenas me diga seu pre�o e eu pagarei�, disse a Mike. �Tudo o que eu quero � que meu sal�rio seja uma porcentagem dos lucros ou, melhor ainda, uma porcentagem da receita. Dessa forma, voc� nunca vai ter que se preocupar em me foder colocando suas despesas pessoais na conta da empresa.� Sorri para ele, tentando ao m�ximo ignorar o idiota fabuloso que era. �Eu sei como voc� � valioso, Mike, e n�o posso fazer isso sem voc�. Voc� deve ter esquecido mais coisas sobre esse neg�cio do que eu jamais vou aprender. Voc� � meu piv�, minha arma secreta.�</p><p>E continuei:</p><p>� Mike, � claro, adorou isso, como eu imaginava. Em Wall Street, as pessoas que ficam nos bastidores, dando suporte nos escrit�rios, s�o os her�is an�nimos, os que mant�m as m�quinas zumbindo, enquanto os corretores e banqueiros fazem suas fortunas. Eles s�o dramaticamente mal pagos, em minha opini�o, e amplamente subestimados. Por isso, n�o foi nenhuma surpresa para mim quando Mike me disse: �Eu n�o preciso de um sal�rio. Apenas me pague o que achar justo e estar� tudo bem�. Eu j� tinha verificado isso com Lester e um cara de opera��es de primeira-classe como ele valia 150 mil d�lares ao ano. Ent�o, respondi a Mike: �Que tal 10% da receita at� meio milh�o por ano?�. E foi isso, Mike era meu. Ent�o me virei para Lester: �Ligue para Jim Taormina e traga-o aqui. Eu quero fechar um acordo com ele at� o final do dia de hoje. Qual � a porcentagem padr�o para um ramo de uma corretora?�. Lester resmungou: �Bem, eu��. �Dez por cento da receita�, respondeu Mike, �e mais uma taxa de 10 d�lares para cada ticket emitido, mas apenas pelo lado da compra. A venda � gratuita. Mas a coisa mais importante � que eu n�o quero esse cara segurando nosso dinheiro. Temos que varrer a conta da negocia��o uma vez por semana. Ele pode ficar com um dep�sito pequeno, digamos de 25 mil, coisa assim�. Concordei. �Tudo bem�, disse a Lester. �Ligue para o Jim e lhe diga que eu pago 15% das receitas, mas com um limite de 30 mil d�lares por m�s, que � o m�ximo que ele vai tirar de mim. Acima disso, eu fico com tudo. Voc� acha que ele vai topar?� �Ah, � claro que ele vai�, resmungou Lester. �Ele est� na imin�ncia de pedir fal�ncia. Mas ele �, uh, do tipo passivo, o Jim. Estou preocupado que voc� possa assust�-lo.� �N�o se preocupe�, disse eu. �Eu sei exatamente como falar com um cara como Jim. Basta fazer com que ele venha at� aqui e eu cuido do resto�, e, claro, eu estava certo. A Stratton come�ou assim. Lester pediu licen�a para sair da sala de reuni�es e Mike passou as horas seguintes me dando um curso intensivo sobre o neg�cio de corretagem. Quando Jim finalmente apareceu, vi que ele era, de fato, um sujeito completamente passivo. Fiz o acordo com ele em menos de um minuto.</p><p>� E o que dizer de sua intima��o pela CVM? � perguntou o Canalha.</p><p>Eu ri.</p><p>� Pois �, bem, aquilo acabou sendo a maior piada de todas. Na verdade, no momento em que finalmente fui depor, a Stratton j� estava atuando no mercado havia um ano! E quando eles processaram a Stratton, nunca tentaram usar o que acontecera na Investors� Center para dar um nocaute! � dei de ombros. � Mas � assim que eles s�o: a m�o direita nunca sabe o que a m�o esquerda est� fazendo.</p><p>Depois de alguns instantes de sil�ncio, o Canalha perguntou:</p><p>� Quanto tempo mais a Investors� Center ficou operando?</p><p>� Acredito que mais uns cinco ou seis minutos � respondi casualmente. � Na verdade, depois que eu sa� do escrit�rio de Lester, dei uma passada por l�, e havia uma semelhan�a estranha com o que eu imaginava ter sido a sede do Terceiro Reich quando os russos estavam se aproximando de Berlim. Havia pap�is por toda parte e os corretores estavam correndo, carregando caixas, mas n�o foi nada comparado com a semana seguinte, quando nossos sal�rios n�o foram pagos. Os corretores come�aram a derrubar as paredes�</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� N�o surpreendentemente, o Cabe�a Quadrada se mostrou uma pessoa muito adepta a esse tipo de coisa. Primeiro, ele pegou uma copiadora Canon, que serviria para nossa futura firma de corretagem, e depois usou um p� de cabra para arrombar o cofre do escrit�rio e roubar todos os formul�rios de novas contas. Havia milhares deles, uma verdadeira mina de ouro de pessoas que tinham mostrado alguma propens�o a investir em a��es baratas. Foram esses formul�rios de novas contas que serviram como nossa primeira fonte de buscas de receita, quando come�amos o trabalho de telemarketing duas semanas depois. Foi esse o tempo que levou para arrumarmos um espa�o para trabalhar.</p><p>� E o que voc� usou nesse meio tempo? � perguntou TOC.</p><p>� A concession�ria de autom�veis de um amigo. Era no fim da mesma rua onde ficava a Investors� Center. Fiquei l� por cerca de duas semanas, at� que encontrei o espa�o certo, na cidade de Lake Success, Long Island. Ele ficava a leste do limite entre Queens e Long Island e, apesar de ser pequeno, o edif�cio era limpo e sofisticado. Apertando um pouco, percebi que poderiam caber 20 corretores na sala de preg�es. Isso seria perfeito, pensei. Com 20 corretores, eu poderia fazer uma fortuna.</p><p>TOC, com uma risada:</p><p>� Vinte corretores?</p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� Sim, acho que minhas perspectivas estavam um pouco baixas.</p><p>� Qual era o percentual da sociedade? � perguntou o Canalha.</p><p>� Era 70 e 30 � respondi. � Setenta por cento para mim, 30% para o Kenny.</p><p>� Danny n�o era um dos s�cios? � perguntou a Bruxa.</p><p>� N�o, eram apenas Kenny e eu. Danny comprou sua parte mais tarde.</p><p>A Bruxa prosseguiu:</p><p>� Qual foi o capital inicial da empresa?</p><p>� Cerca de 80 mil � respondi rapidamente. � E, apesar de eu ter o dobro das cotas de Kenny, n�s dividimos o investimento da mesma forma: 40 mil cada um. Isso porque eu era o l�der � disse respeitosamente. � Ent�o, dividir o investimento parecia justo. A �nica baixa foi Elliot Loewenstern, o Pinguim. O que aconteceu na Investors� Center o assustou e ele conseguiu um emprego em Manhattan, no Bear Stearns. Ele voltou, naturalmente, logo depois de eu acertar com minha ideia de vender a��es de 5 d�lares para os rica�os.</p><p>� E quando foi isso? � perguntou o Canalha.</p><p>� Cerca de um m�s depois � respondi casualmente. � No in�cio de novembro.</p><p>� O que fez voc� pensar nisso? � perguntou TOC.</p><p>Eu inclinei a cabe�a para o lado e sorri.</p><p>� Voc� quer saber se foi um momento <emphasis>eureca</emphasis>?</p><p>� Sim � respondeu ele �, um momento <emphasis>eureca.</emphasis> Algo como: �<emphasis>Eureca!</emphasis> Acabo de imaginar um jeito de roubar 250 milh�es de d�lares e de foder a CVM no processo!�.</p><p>Hummm, pensei, TOC era muito esperto e muito c�nico. Ali�s, ele estava certo, embora eu pudesse discutir a quantidade de dinheiro que tinha roubado. Quer dizer, n�o poderia ter sido 250 milh�es de d�lares! Ou poderia? Com o cora��o apertado, eu disse:</p><p>� Sim, bem, qualquer que seja o montante, digo com toda a honestidade e invocando o nome de Deus que n�o comecei a Stratton com m�s inten��es. Mas, como eles costumam dizer, a estrada para o inferno est� pavimentada de boas inten��es.</p><p>� Muito bem � retrucou o Canalha. � Voc� pode contar isso ao juiz no momento apropriado � e ele me soltou seu sorriso de diretor de pris�o. � Mas por enquanto vamos apenas nos ater aos fatos.</p><p>Eu balancei a cabe�a, resignado.</p><p>� Bem, tudo come�ou com George Grunfeld e aquilo que ele me disse em meu primeiro dia na Investors� Center. Essa no��o de que as pessoas ricas n�o compram a��es baratas nunca fez muito sentido para mim, ent�o fiz com que Danny realizasse um pequeno experimento para mim, ou seja, tentar vender essas a��es ao ricos. Mas os rica�os n�o estavam interessados. Ent�o percebi que talvez estivessem desligados da op��o porque cada a��o custava menos que 1 d�lar, mas descobri uma a��o que custava 6 d�lares e fiz com que Danny tentasse mais uma vez. Tamb�m n�o deu certo, e devo confessar que isso me surpreendeu. � que eu realmente achava que as pessoas ricas fossem aceitar, mas quando chamei Danny em meu escrit�rio para conversar, ele discordou completamente. �Talvez se eu estivesse ligando da Merrill Lynch�, disse ele. �Mas n�o, quando estou falando da Stratton Valores Mobili�rios, h� um monte de coisas trabalhando contra. Eles nunca ouviram falar de mim, n�o ouviram falar da empresa e n�o ouviram valar das a��es. Entendeu o que estou dizendo?� �Sim�, respondi, �entendi perfeitamente o que voc� est� dizendo�, e� B<emphasis>uuummm</emphasis>! Assim, do nada, me veio a ideia. Eu tive meu momento <emphasis>eureca</emphasis>. �Volte aqui em 15 minutos�, disse a Danny, e antes mesmo que ele tivesse cruzado a porta do escrit�rio, eu j� tinha pegado minha caneta e come�ado a escrever um novo <emphasis>script</emphasis> para o telemarketing.</p><p>Fiz uma pausa e continuei:</p><p>� Quinze minutos depois, ele estava de volta � minha sala e eu estava explicando meu novo sistema. �Certo�, comecei, �quando a gente telefonar a algu�m pela primeira vez, n�o tentaremos vender nada a ela; vamos apenas apresentar a firma e perguntar se estariam interessados em falar conosco mais tarde, noutro dia.� Eu lhe entreguei meu script. �Leia isso e depois me diga o que voc� achou.� Ele olhou para o papel durante alguns segundos e depois come�ou a ler: �Oi, sou Danny Porush, ligando da Stratton Valores Mobili�rios. Eu sei que voc� est� ocupado, por isso vamos direto ao ponto. Voc� provavelmente nunca ouviu falar de n�s antes, porque nos �ltimos dez anos fomos uma empresa estritamente institucional, lidando apenas com bancos, companhias de seguro e fundos de pens�o�. Danny come�ou a rir. �Isso aqui � demais, eu��. �Cale a boca e continue lendo�, disse eu. E ele: �No entanto, recentemente n�s abrimos as portas para o investidor privado mais substancial, e o que gostar�amos de fazer, senhor, com sua permiss�o, � enviar-lhe algumas informa��es sobre nossa firma, Stratton Valores Mobili�rios, e depois voltar a entrar em contato algumas semanas depois, da pr�xima vez lhe fazendo recomenda��es de um de nossos clientes institucionais. Isso lhe parece bem?�. Danny parou de ler e me lan�ou um de seus famosos sorrisos. Ironicamente, a Stratton de fato tinha estado no mercado por 10 anos, e a �nica coisa que tinham feito fora negociar com as outras corretoras; e, uma vez que as corretoras s�o consideradas institui��es, eu n�o estava mentindo sobre o neg�cio da Stratton ser estritamente institucional�</p><p>Sorri para minha pr�pria l�gica distorcida. Ent�o, desisti de meu sorriso e disse:</p><p>� Eu n�o vou negar que o roteiro foi desenhado de forma um pouco enganosa, mas esse n�o � o ponto agora. Seja como for, Danny estava recebendo cerca de dez liga��es por dia, e depois de uma semana percebi que j� era hora de executar o segundo passo do meu plano, que era come�ar a vender uma a��o das grandes, ou seja, uma a��o que fosse conhecida na Bolsa de Nova York. Foi por isso que escolhi a Eastman Kodak: por causa do reconhecimento do nome e tamb�m porque era uma hist�ria muito cativante. Eles estavam em lit�gio com a Polaroid naquela �poca por causa de uma viola��o de patente, e meu script falava sobre como a Kodak iria crescer muito assim que aquele lit�gio fosse resolvido. Era um bom <emphasis>script</emphasis>, mas Danny n�o ficou assim t�o impressionado. �Tudo bem, mesmo que algu�m compre 10 mil d�lares da Kodak, minha comiss�o � de apenas 100 d�lares. Ent�o, qual � a porra da vantagem aqui?� �Pense nisso como um meio para atingir um fim�, respondi. �Na pr�xima semana, depois que eles pagarem pela negocia��o, eu ligo para eles de volta com o segundo passo.� E com isso Danny deu de ombros e saiu, passando os dez dias seguintes abrindo contas para a Kodak, 12 delas ao todo, cada uma com cerca de 5 mil d�lares de a��es, o que dava uma centena, mais ou menos. Ent�o, eu o chamei de volta ao meu escrit�rio e expliquei o segundo passo, que n�o era exatamente aquilo que ele pensava que seria. �Quer dizer que voc� n�o quer que eu diga a eles para se livrar da Kodak depressa e comprar uma das a��es do nosso <emphasis>portfolio</emphasis>?�, foi a pergunta dele. �N�o�, respondi, �quero que diga a eles que tudo vai correndo bem com a Kodak e que eles devem manter essas a��es a longo prazo�. Entreguei ent�o a ele um <emphasis>script</emphasis> que eu tinha preparado para uma empresa chamada Ventura Entertainment.</p><p>Fiz uma pausa, oferecendo a meus captores um sorriso ir�nico.</p><p>� Eu tenho certeza de que est�o todos familiarizados com a Ventura. Essa foi a primeira a��o que n�s recomendamos.</p><p>� Sim � disse TOC, c�nico. � E foi tamb�m a mais supervalorizada a��o de empresas de entretenimento da hist�ria das a��es de empresas do ramo.</p><p>Eu balancei a cabe�a aquiescendo, envergonhado.</p><p>� Sim, mas n�o foi intencional. Eu s� n�o consegui acompanhar a demanda � e dei de ombros. � Mas, deixando isso de lado, a Ventura era apenas uma empresa com a��es a 6 d�lares ent�o, uma <emphasis>startup</emphasis> t�o pequena que nem estava listada na NASDAQ, ainda era negociada nas folhas rosas. Na verdade, ela poderia facilmente ter sido uma daquelas empresas com a��es a 1 centavo, mas por mera coincid�ncia o presidente da empresa, um homem chamado Harvey Bibicoff, estava pensando a mesma coisa que eu, ou seja, que uma a��o de 6 d�lares parecia mais atraente e valiosa que uma de 20 centavos. Ent�o, quando fomos a p�blico com a Ventura, ele a estruturou com apenas 1 milh�o de a��es em circula��o, ao contr�rio dos 20 milh�es de a��es que uma t�pica empresa de a��es a centavos teria � olhei para TOC. � Voc� est� me acompanhando, presumo.</p><p>Ele acenou com a cabe�a.</p><p>� Sim, 1 milh�o de a��es a 6 d�lares � o mesmo que 20 milh�es a 30 centavos.</p><p>� Exatamente � eu disse. � Em um n�vel matem�tico s�o exatamente a mesma coisa. Por�m, em um n�vel emocional, s�o totalmente diferentes. E enquanto Danny estava de p� em meu escrit�rio estudando o <emphasis>script</emphasis> que eu tinha preparado, imediatamente soube que era perfeito, sobretudo a abertura, onde eu fazia a transi��o de grandes a��es para pequenas a��es. �Leia isso para mim�, pedi e ele assentiu, come�ando a ler: �Sr. Jones, h� dois motivos para minha liga��o de hoje. Tudo est� correndo bem por aqui e eu queria lhe dar uma r�pida atualiza��o sobre a Kodak. A a��o est� bem l� onde a compramos e parece que vai vender mais alto no curto prazo. Tem havido um interesse institucional pesado sobre ela nos �ltimos dias, por isso por hora � melhor ficarmos quietos. A segunda raz�o do telefonema � algo que s� chegou � minha mesa nessa manh� e parece ser a melhor coisa que vimos nos �ltimos seis meses. � um dos neg�cios do nosso banco de investimentos, e trata-se de uma empresa com a qual estamos muito familiarizados, e cujo potencial de lucratividade � muito maior que o da Kodak. Se tiver um minuto, gostaria de compartilhar a ideia com o senhor�. Danny ergueu os olhos e disse: �Porra, isso aqui � do caralho! Deixe-me testar para ver se funciona!�. Eu balancei a cabe�a concordando. �O.k., mas lembre-se: essas pessoas s�o ricas e sofisticadas, por isso n�o v� cair na tenta��o de exagerar e falar merda. Use a l�gica, a raz�o, e a m�xima press�o. Nunca se esque�a, Danny: n�s nunca trabalhamos com chamadas de retorno. Voc� s� tem uma bala na agulha com essas pessoas. Por isso, fique grudado no <emphasis>script</emphasis> como se fosse cola.� Com isso, Danny me lembrou mais uma vez que eu estava falando com o Danny Fodid�o Porush e que ele poderia vender petr�leo para os �rabes e gelo para os esquim�s! Da� ele acenou com a cabe�a uma vez e saiu.</p><p>Encolhi os ombros.</p><p>� � ir�nico pensar que eu s� estava esperando conseguir um neg�cio melhor com esse meu novo sistema, talvez um lote de mil a��es da Ventura, contra os 200, mas era isso que eu tinha em mente naquele momento. Por�m, cinco minutos depois, Danny entrou correndo em minha sala, literalmente sem f�lego. �Puta merda�, disse ele. �O primeiro cara comprou 20 mil lotes de mim! Vinte mil lotes, caralho! Ent�o ele me pediu desculpas por n�o comprar mais! Ele disse que estava sem liquidez agora, mas assim que pudesse iria comprar mais. Voc� pode imaginar uma coisa dessas?� E foi isso. Naquele instante, eu soube. Eu sabia que o cliente de Danny n�o tinha feito distin��o entre o envio de 120 mil d�lares para a Stratton ou 120 mil para a Merrill Lynch. E foi tudo porque a gente tinha recomendado uma a��o <emphasis>blue chip</emphasis> em primeiro lugar. Danny estava mais feliz que um porco na lama, porque ele tinha acabado de fazer 20 mil em comiss�o. Mas o que ele n�o sabia era que eu tinha acabado de fazer um adicional de 60 mil d�lares abaixo da compra. Era a� que estava o verdadeiro neg�cio!</p><p>� Explique isso � disse o Canalha.</p><p>� O.k., veja se me acompanha por um segundo: a Ventura estava 5 para compra e 6 para venda. Isso significa que, se um cliente queria compr�-la, ele teria que pagar 6 d�lares, mas, se quisesse vender, ele s� poderia receber 5 d�lares. � por isso que a comiss�o de Danny era de 1 d�lar por a��o, ou 20 mil d�lares. Mas Harvey estava dando garantias � Ventura de que podia exercer um pre�o de dois. Em outras palavras, Ventura me custava apenas 2 d�lares por a��o. Tudo somado, no pacote de 20 mil de Danny, eu fiz 60 mil abaixo da compra e mais 10 mil acima, que era a minha metade da comiss�o de Danny. E tudo isso a partir de um simples telefonema, de uma �nica chamada. Mas isso foi s� o in�cio. Eu sabia que, se a Ventura subisse, e havia milhares de clientes no sistema, eles enviariam muitos milh�es mais.</p><p>Parei por um momento, considerando minhas palavras.</p><p>� � claro, isso depois viria a se tornar centenas de milh�es, mas eu n�o estava pensando ent�o em ir t�o longe. Eu ainda tinha s�rios obst�culos para vencer, o menor deles era o fato de que Harry tinha apenas mais alguns milh�es de t�tulos para vender e, com meu novo sistema, eu comeria isso em quest�o de semanas. Ent�o eu teria de comprar a��es no mercado aberto. Mas as primeiras coisas em primeiro lugar, pensei. Eu tinha de desligar a velha Stratton e treinar todo mundo. Fui falar com Mike para lhe contar meu plano. Parecia bom, ele achou, mas eu poderia dizer que ele definitivamente n�o se sentiu muito entusiasmado. �Manda bala�, disse ele. �Por mais neg�cios que voc� traga, eu consigo lidar sem problemas.� E essas foram as famosas �ltimas palavras de Mike Valenoti. Um minuto depois, eu estava de p� na frente da sala de preg�es, pronto para dar a palestra da minha vida. Eu ainda me lembro daquele dia como se fosse ontem. �Todo mundo, desliguem seus telefones!�, eu disse para os corretores. �Desliguem seus telefones agora mesmo! Eu tenho algo a dizer.� A maioria deles estava bem no meio das liga��es e n�o desligou logo de cara. Ent�o eu pisquei para Lipsky e ele se levantou da cadeira e come�ou a desligar os telefones deles no meio das falas. Danny entrou no ato, e alguns segundos depois o sal�o estava quieto. �O.k.�, eu disse. �Agora que eu tenho a aten��o de voc�s, quero que juntem seus telefonemas, suas respostas, os livros de seus clientes, eu quero que juntem tudo e qualquer outra coisa em sua mesa que diga respeito a ser um corretor da Bolsa. Recolham tudo isso e joguem direto na porra do cesto de lixo!�</p><p>E continuei:</p><p>� � claro que ningu�m fez nada disso no come�o, estavam todos estupefatos demais para se mexer. Ent�o Lipsky come�ou rosnando para todos. �Vamos l�! � hora de limpar a casa, como o chefe diz!� Quase nem percebi quando Danny e Cabe�a Quadrada se juntaram a ele, andando pelas mesas e segurando sacos de lixo, e os �ltimos vest�gios do antigo sistema foram desaparecendo diante dos meus olhos. Em poucos minutos, havia apenas 12 mesas de madeira, 12 telefones antigos e 12 corretores obscenamente jovens, cada um usando ternos de diferentes valores, mas todos baratos. Todos ficaram olhando para mim com os olhos arregalados, � espera do que eu diria a seguir. �Eu quero que todos ou�am bem�, disse eu, �porque o que estou prestes a dizer vai mudar a vida de voc�s para sempre. O simples fato � que todos voc�s est�o a caminho de se tornarem ricos, muito al�m do que imaginam�. Eu passei a explicar meu novo sistema para eles, apontando para Danny como prova de que ele funcionava. �Quanto de comiss�o bruta voc� acabou de ganhar em uma �nica negocia��o?�, perguntei a ele. �Vinte paus!�, devolveu ele, �vinte paus de uma vez!�. �Vinte paus de uma vez�, repeti, e comecei a andar para a frente e para tr�s, como um pregador, deixando minhas palavras pairando no ar. Ent�o parei. �Usando meu novo sistema, Danny, quanto voc� acha que pode faturar em um �nico m�s? Apenas uma estimativa�� Ele fingiu pensar por um momento, interpretando o papel dele perfeitamente. �Pelo menos 250 mil�, disse ele, confiante. �Qualquer valor menor e eu me jogo da janela!� E com isso, a sala irrompeu em completo pandem�nio.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� O resto foi f�cil. Reciclei meus strattonitas, usando a teoria linear. Era um sistema que eu tinha trazido da Investors� Center e n�o tinha considerado crucial naquela �poca, porque, quando voc� est� falando com pessoas pobres, � mais uma quest�o de eles terem ou n�o dinheiro para investir; se tivessem, seria f�cil convenc�-los. Mas com pessoas ricas as regras s�o totalmente diferentes: elas t�m dinheiro para investir, � s� uma quest�o de convenc�-las de que voc� � o cara certo com quem investir. Voc� � inteligente o suficiente? Voc� � afiado o suficiente? Voc� sabe de coisas que o corretor local delas n�o sabe? Voc� � um mago de Wall Street, digno de gerir o rico dinheirinho de um homem? Isso � exatamente o que a linearidade fazia: ela permitia que um garoto de 20 anos de idade, com diploma de ensino m�dio e QI pouco acima do n�vel de Forrest Gump, parecesse um mago de Wall Street falando ao telefone.</p><p>Parei por um momento, pensando em uma maneira de explicar a teoria.</p><p>� Em ess�ncia, era um sistema de <emphasis>scripts</emphasis> e refuta��es que permitiriam mesmo ao mais idiota dos corretores controlar uma venda. Ele mantinha as coisas se movendo para a frente, do ponto A para o ponto B, da abertura ao fechamento, at� que um cliente finalmente dissesse: �Tudo bem, pelo amor de Deus! Escolha 10 mil a��es para mim e me deixe em paz!�. Eu sei que soa simples demais, mas ningu�m nunca tinha feito isso antes. Havia centenas de <emphasis>scripts</emphasis> flutuando ao redor de Wall Street, mas ningu�m nunca tinha parado para organiz�-los em um sistema coeso. De qualquer forma, durante dez dias diretos eu ensinei a eles, indo adiante e voltando, invertendo os pap�is, fazendo teatro, como eu tinha feito com Danny naquela noite, at� que eles conhecessem o sistema t�o bem que poderiam recitar as porras das frases durante o sono. Na verdade, eu s� passei a metade de cada dia ensinando-lhes, a outra metade eles passaram fazendo telemarketing, construindo um maci�o banco de dados para telefonar depois. E, finalmente, no d�cimo dia, quando cessou a fase de telemarketing, eles come�aram a abertura de contas na Kodak com tanta facilidade que era incompreens�vel. Era como se a linha direta de nossa teoria pudesse transformar o mais fraco vendedor num vendedor de massa. E isso me encorajou ainda mais, e comecei a bater neles ainda mais, sem piedade, prometendo-lhes riquezas al�m de seus sonhos mais loucos. �Eu quero que voc�s comecem a gastar dinheiro agora�, preguei para eles. �Quero que voc�s se alavanquem, cres�am, quero que se sintam pressionados! Quero que n�o se deem outra escolha sen�o ter sucesso! Deixem as consequ�ncias do ato de falhar serem t�o terr�veis e impens�veis que voc�s nem conseguir�o pensar nisso!� E continuei: �Entendam uma coisa. Quando Pizarro chegou ao Novo Mundo, a primeira coisa que ele fez foi queimar a porra de seus malditos navios, para que sua tripula��o n�o tivesse escolha a n�o ser se virar para sobreviver no Novo Mundo. E � isso que eu quero que voc�s fa�am! Eu quero que voc�s cortem todas as rampas de sa�da, todas as rotas de fuga! Afinal, voc�s devem isso para as pessoas sentadas a seu lado, discar o telefone. Voc�s devem isso a cada strattonita sentado nesta sala, discar o telefone. � da� que nosso poder vem: um do outro, do esfor�o coletivo, da energia combinada de uma sala cheia de pessoas motivadas para bater sempre o pessoal de Wall Street, uma sala cheia de vencedores!�.</p><p>Fiz uma pausa e esperei um momento para recuperar o f�lego.</p><p>� De qualquer forma, voc�s sabem o que aconteceu a seguir: sete dias depois, lan�amos Ventura, e todo o inferno come�ou. Blocos de 10 mil e de 20 mil a��es come�aram a voar pela sala de preg�es e o dinheiro come�ou a cair do c�u � balancei a cabe�a lentamente. � Eu n�o posso sequer descrever a rapidez com que crescemos a partir desse ponto. Foi como se tiv�ssemos atingido um veio de ouro, e jovens garimpeiros come�aram a aparecer em Lake Success para reivindicar seus lotes. No in�cio, foram aos poucos, mas depois jorraram aos montes. Tudo come�ou a partir do Queens e de Long Island, e rapidamente se espalhou por todo o pa�s. E foi assim que a Stratton nasceu. De qualquer forma, foi apenas algumas semanas depois disso que entrei no escrit�rio certa manh� e encontrei Jim Taormina esperando por mim. �Tome�, disse ele. �A Stratton � sua�, e me entregou um conjunto de chaves que estava segurando. �Eu vou vender o lugar para voc� por 1 d�lar e me transformar em seu diretor da mesa de opera��es. Mas, por favor, tire meu nome da licen�a!� E ent�o Mike entrou, o velho c�o de guerra de Wall Street, que tinha pensado j� ter visto de tudo. �Voc� tem de det�-los!�, implorou ele. �N�o conseguimos mais gerenciar nenhum neg�cio. Estamos na imin�ncia de explodir nosso agente de compensa��o.� Ele balan�ou a cabe�a, descrente. �Eu nunca vi nada como isso, Jordan. � absolutamente incr�vel�� O engra�ado foi que nosso agente de compensa��o, a empresa que processava nossas transa��es, n�o conseguia lidar com o influxo de volume e estava amea�ando se desconectar da Stratton a menos que desaceler�ssemos as coisas.</p><p>Fiz uma pausa e continuei:</p><p>� E ent�o veio o Cabe�a Quadrada. �Estou afogado em comiss�es�, disse ele, em p�nico. �Eu n�o posso mais acompanh�-las. Milh�es est�o chegando e o banco continua me ligando.� Eu tinha colocado o Cabe�a Quadrada no comando de nossas finan�as e ele estava se afogando debaixo de um mar de dinheiro e de papelada. Em todo caso, eram todos bons problemas, problemas f�ceis de manipular. Com Jim Taormina, eu fiz o que ele pediu: comprei a empresa dele por 1 d�lar e fiz dele o diretor da mesa de opera��es. Com Mike, fiz o que ele pediu tamb�m: fiquei de p� em frente � sala de preg�es e fiz uma reuni�o de vendas que transformou a coisa toda em um aspecto positivo. Com uma energia agressiva, eu disse: �O que temos aqui � t�o poderoso e t�o eficaz que o resto de Wall Street n�o consegue nos acompanhar!�. Meus strattonitas aplaudiram, gritaram e uivaram. Ent�o, passamos as duas semanas seguintes apenas gerando contatos, o que acabou por alimentar nosso crescimento ainda mais. Para ajudar o Cabe�a Quadrada, procurei meu pai, que ainda estava desempregado. Ele era um homem brilhante, um contador licenciado que passara a melhor parte da vida como CFO de v�rias empresas privadas. Mas ele estava com 50 e tantos anos, um pouco velho demais e superqualificado demais para conseguir um bom emprego. Ent�o eu o recrutei, meio relutante no come�o, mas o recrutei assim mesmo. Ele se mudou para o escrit�rio do Cabe�a Quadrada, onde os dois tiveram o prazer de levar um ao outro � loucura. Mad Max rapidamente mostrou suas presas, chamando-o de imbecil de merda, idiota do caralho e mil outras coisas pesadas, incluindo, claro, besta do caralho. O fato de que o Cabe�a Quadrada era al�rgico � fuma�a de cigarro foi algo que Mad Max aproveitou al�m de qualquer limite razo�vel, consumindo quatro ma�os por dia e expirando grossos jatos de fuma�a na cara do outro, com a for�a de um canh�o da Guerra Civil. Mas, deixando isso de lado, voc�s agora podem ver como eu deixei todas as coisas arranjadas. Entre Mike e meu pai eu tinha meu flanco traseiro protegido, e entre Danny e Kenny eu tinha a ponta de uma espada que rivalizava com o Mossad. E eu� Bem, vamos apenas dizer que eu tinha todo o tempo necess�rio para sentar, fazer reuni�es e focar no grande cen�rio, e para resolver a �ltima pe�a que faltava no quebra-cabe�a, que era onde encontrar a��es baratas, como as op��es da Ventura tinham feito.</p><p>Eu olhei para TOC e sorri.</p><p>� Quer adivinhar quem fui procurar para me arrumar isso?</p><p>TOC se encolheu.</p><p>� Al Abrams � murmurou ele.</p><p>� Isso mesmo � respondi. � O senhor Al Abrams, o mais louco de todos em Wall Street � inclinei a cabe�a para o lado e olhei para TOC. � Corrija-me se eu estiver errado, Greg, mas uma vez eu ouvi um boato de que Al estava escrevendo cartas para Bill Clinton sobre voc�, dizendo que voc� era um agente corrupto.</p><p>TOC balan�ou a cabe�a, cansado.</p><p>� Ele � um velho louco, esse cara. Quando foi preso, ele tinha uma centena de documentos com ele, alguns com mais de 30 anos.</p><p>� Bem, isso parece mesmo coisa do Al � disse casualmente. � Ele nunca gostou de jogar coisas fora. Ele � o que voc� chamaria de um criminoso cuidadoso.</p><p>� N�o o suficiente � disse a Bruxa. � Da �ltima vez que verifiquei, ele ainda estava atr�s das grades � ela me deu um sorriso diab�lico.</p><p>Sim, pensei, mas n�o por causa de voc�, Cruella, foi TOC que o pegou. Mas eu mantive esse pensamento para mim e disse:</p><p>� Na verdade, eu acho que ele j� saiu e est� provavelmente de volta a Connecticut, enlouquecendo sua pobre esposa. � Olhei para TOC. � S� por curiosidade: quando o prenderam, ele trazia comida nos bolsos? Alguma torta Linzer meio comida? Ele adorava isso.</p><p>� Apenas algumas migalhas � respondeu TOC.</p><p>Eu balancei a cabe�a, mostrando que compreendia.</p><p>� Sim, provavelmente estava guardando isso no caso de ficar com fome�</p><p>E passei as horas seguintes explicando como Al Abrams tinha me ensinado a arte negra da manipula��o de a��es. Tr�s vezes por semana nos encontr�vamos para tomar caf� da manh� no restaurante grego local, onde tive o prazer de assistir Al consumir incont�veis tortas Linzer, com metade de cada torta indo direto para sua boca e a outra metade indo para a testa e o rosto, enquanto ele bebia x�cara ap�s x�cara de caf� com muita cafe�na, at� ficar com as m�os tremendo. Em meio a isso tudo, tremedeiras e fala��es, ele me ensinou o que eu levaria uma vida para aprender. Mas, infelizmente, ao contr�rio do que aprendi com Mike, esses ensinamentos consistiam no lado negro das coisas, o submundo de Wall Street, o mercado fora da Bolsa, que foi o precursor da NASDAQ, onde as a��es eram negociadas por nomea��o e os pre�os eram definidos pelo capricho de gente de inten��es escusas como Al e eu.</p><p>O mais preocupante, admiti, foi que n�o demorou muito para que eu estivesse ensinando uma ou duas coisas a Al. Dentro de semanas, na verdade, eu estava em processo de moderniza��o de seus golpes antigos, trazendo minhas pr�prias ideias e brilho, juntamente com a petul�ncia que viria a caracterizar o Lobo de Wall Street.</p><p>J� passava um pouco das 5 da tarde e eu finalmente tinha acabado de cantar na Court Street naquele dia, um dia que meus captores tinham considerado um grande sucesso. Afinal, eles agora sabiam exatamente como a Stratton Oakmont tinha surgido e como, atrav�s de uma s�rie de coincid�ncias min�sculas e eventualidades, ela acabou crescendo em Long Island, entre todos os lugares do mundo.</p><p>Antes de sair da sala de interrogat�rio, a �ltima coisa que perguntei ao Canalha foi quanto tempo ele achava que ia demorar at� que eu finalmente recebesse minha senten�a. Seriam tr�s anos? Quatro? Talvez at� cinco anos? Quanto mais, melhor, pensei.</p><p>� Provavelmente entre quatro e cinco anos � respondeu ele. � Essas coisas costumam se arrastar, �s vezes.</p><p>� Isso � verdade � acrescentou a Bruxa �, e n�o ser�o anos tranquilos. Sua coopera��o ir� a p�blico no pr�ximo ano e confiscaremos seu patrim�nio em conformidade com esse processo.</p><p>TOC entrou na conversa, oferecendo-me um fino raio de esperan�a:</p><p>� Sim, mas voc� ter� a chance de come�ar uma nova vida. Voc� � um cara jovem e da pr�xima vez vai fazer as coisas direito, eu espero.</p><p>Eu balancei a cabe�a, concordando, preso nas palavras de TOC e do Canalha, ignorando as palavras da Bruxa. Infelizmente, todos eles estavam errados, e eu veria o interior de uma cela de pris�o muito antes disso.</p><p>E perderia tudo o que eu tinha.</p></section><section><p>CAP�TULO 13</p><p><strong>A PORTA GIRAT�RIA</strong></p><p><strong>Dois meses depois</strong></p><p>Southampton Beach! Para melhor ou pior, n�o h� como negar que Meadow Lane foi um fabuloso local para assistir �s paredes da realidade desabando sobre mim. As �guas azuis do Atl�ntico estavam logo atr�s de mim, as �guas cinzentas da Shinnecock Bay estavam � minha frente e, de cada lado, imponentes mans�es, como a minha, se levantavam diante das dunas como templos gregos, dando seu testemunho silencioso de como era maravilhoso ser um WASP rico ou um judeu <emphasis>nouveau riche</emphasis>.</p><p>Minha mans�o particular, que em breve seria propriedade de TOC e do Canalha, era uma gigantesca constru��o cinza e branca, no estilo de Cape Cod. No deque traseiro, uma piscina e uma jacuzzi olhavam por cima do Atl�ntico; no gramado da frente, uma quadra de t�nis para todos os climas tinha vista para Shinnecock; e, na frente, uma fileira de arbustos imaculadamente aparados em quadrados subiam a uns 4 metros de altura, ocultando a vista da propriedade.</p><p>Naquele momento, eu estava sentado em um sof� estilo <emphasis>shabby chic</emphasis> que ficava na sala de estar da mans�o tamb�m estilo <emphasis>shabby chic</emphasis>, olhando nos olhos de Sarah Weissman,<sup>1</sup> autoproclamada Rainha Judaica do Boquete. Ela estava sentada a menos de 1 metro de dist�ncia, usando uma blusa de gola alta preta de algod�o e cal�as pretas de malha, acentuando um corpo firme que tinha cheiro da beleza do passado e da bulimia do presente.</p><p>No entanto, a Rainha do Boquete ainda era atraente. Com apenas 22 anos, tinha um rosto agradavelmente fino, cabelo preto brilhante, olhos negros e faiscantes, pele cor de oliva, uma pl�stica de nariz de primeira classe, dentes perfeitos e um l�bio inferior mais �mido que o Nilo. Apesar de ter conhecido a mo�a h� apenas 15 minutos, achei que ela parecia ser algu�m razoavelmente confi�vel. N�s t�nhamos nos encontrado naquela noite na reuni�o dos AA e simpatizamos instantaneamente um com o outro. Ela acabara de ficar s�bria (menos de uma semana, na verdade), lutando contra um v�cio triplo em crack, �lcool e autoindu��o de v�mitos, o �ltimo dos quais achei bastante nojento. Mas ela estava no rebote agora, rec�m-sa�da de uma cl�nica de desintoxica��o e de volta aos Hamptons, pronta para recome�ar a vida.</p><p>At� ent�o t�nhamos apenas conversado sobre superficialidades, trocando hist�rias de guerra sobre nossos v�cios em drogas, mas aparentemente ela estava pronta para entrar nos neg�cios, porque estava dizendo:</p><p>� �e s�o as garotas judias que fazem o melhor boquete do mundo, voc� sabia disso?</p><p>� Eu� Er� N�o � respondi. � Nunca sa� com uma judia antes�</p><p>� Bem, elas s�o as melhores � disse Sarah com orgulho. � Se voc� quiser, posso demonstrar.</p><p>� Ah, sim, isso seria �timo! � respondi, e a Rainha Judaica do Boquete rapidamente passou a trabalhar, agachando e se inclinando em minha dire��o com um sorriso lascivo nos l�bios.</p><p>Instintivamente, inclinei-me para tr�s e descansei a cabe�a numa almofada redonda macia, enquanto a Rainha do Boquete estendeu as pequenas m�os e abriu o z�per da minha cal�a. Ent�o, com not�vel efici�ncia, ela puxou minhas cal�as jeans at� meus tornozelos, subiu entre minhas pernas e torceu seu longo cabelo preto em um rabo de cavalo.</p><p>De repente, ela fez uma pausa.</p><p>� O que h� de errado? � perguntei.</p><p>� Nada, bobagem � disse ela, enquanto tirava um colar de ouro, na ponta do qual pendia uma estrela de David cravejada de diamantes. Ela o colocou no bolso. � Eu n�o quero que ele fique no meu caminho.</p><p>Assenti, fechei os olhos, ergui as pernas e me preparei para o melhor boquete de minha vida. Era exatamente o que o m�dico tinha receitado, pensei. Um toque da Rainha do Boquete e eu esqueceria a Duquesa para sempre!</p><p>� Ai! � gritou a Rainha do Boquete. � Tem alguma coisa cutucando minha bunda!</p><p>Olhei para baixo e� <emphasis>caramba!</emphasis> Minha tornozeleira estava espetando a bunda magra da Rainha do Boquete. Baixei as pernas com a velocidade de um coelho.</p><p>� N�o � nada � disse eu. � S� um bipe que eu uso no trabalho. Tudo bem, continue.</p><p>A Rainha do Boquete estreitou os olhos, desconfiada.</p><p>� Um bipe, hein?</p><p>� Sim � retruquei �, um bipe�</p><p>Alguns momentos se passaram, mas ela continuou me olhando.</p><p>� Tudo bem � disse, afinal �, vou acreditar na sua palavra�</p><p>Ela se inclinou lentamente e come�ou a trabalhar� E foi um daqueles longos, suntuosos boquetes, do tipo que um homem s� recebe da esposa durante o per�odo de namoro. Eu comecei a gemer, apreciando:</p><p>� Ah, caramba, Sarah! � t��ooo bom� Voc� tinha raz�o, as garotas judias de fato fazem o melhor boquete�</p><p>� Uhm-hum � ela murmurou, incapaz de falar.</p><p>� Ahhhh� � eu gemia, e fechei os olhos, deixando meu sistema nervoso dissolver, levando meus problemas para longe, � deriva, cada vez mais longe� At� que nada mais importava� Apenas o boquete e a Rainha do Boquete� Minha mente come�ou a vagar� Vagar para a Duquesa� O que ela estaria fazendo agora? Ser� que ela estaria em casa com os filhos ou com outro homem? Era uma noite no meio da semana, ent�o ela provavelmente devia estar em casa com as crian�as� Embora tivesse ouvido rumores de que ela estava tendo um caso com seu <emphasis>personal trainer</emphasis>, um bunda suja romeno chamado Alex� Mas isso n�o era importante� As crian�as que eram importantes, elas eram tudo para mim!</p><p>E ent�o, <emphasis>uma sensa��o de frio</emphasis>! Eu abri os olhos e a Rainha do Boquete estava afastando a cabe�a, com uma express�o preocupada no rosto.</p><p>� O que h� de errado? � perguntou. � N�o est� gostando?</p><p>Olhei para baixo e� <emphasis>ah, merda!</emphasis> Meu p�nis parecia um espaguete cozido demais� Que foda, era constrangedor!</p><p>� Ah� Eu� N�o� � murmurei. � Est� tudo �timo, quer dizer, � o melhor boquete que j� recebi e� � que� � procurei desesperadamente as palavras corretas � Voc� H� Voc� � a primeira garota com quem estive em tipo, uh, 10 anos. Quer dizer, sem incluir minha esposa, � claro, quer dizer, minha ex-mulher, minha ex-mulher em breve, melhor dizendo�</p><p>Parei por um segundo, me perguntando se o fato de eu ter dormido com cerca de mil prostitutas enquanto estava casado com a Duquesa significava que eu estava mentindo para a Rainha do Boquete.</p><p>Endireitei-me no sof� e respirei fundo, deixando o ar escapar lentamente.</p><p>� Eu sinto muito, de verdade � disse suavemente. � Talvez seja cedo demais para mim. Eu n�o tenho certeza � balancei a cabe�a, triste.</p><p>A Rainha do Boquete n�o se ofendeu; em vez disso, ela me ofereceu o mais quente dos sorrisos, um sorriso totalmente maternal.</p><p>� Tudo bem � disse. � Eu acho que � muito meigo voc� estar nervoso. Isso me faz quer�-lo ainda mais � ela sorriu de novo e observei que os dentes eram muito brancos. Isso � bom, pensei. A Rainha do Boquete tem dentes muito brancos.</p><p>� Agora � melhor deitar-se e relaxar � disse ela calorosamente. � E pode parar de se preocupar. Tudo vai ficar bem. � E, com isso, a Rainha colocou a m�ozinha no meu ombro e gentilmente me empurrou de volta para baixo. � Apenas relaxe sua mente� � disse ela, em um tom de voz usado normalmente por um hipnotizador � � relaxe seu corpo, relaxe tudo� Tudo vai ficar bem�</p><p>Eu balancei a cabe�a respeitosamente e fechei os olhos, pensando� <emphasis>Puta que pariu!</emphasis> Essa Rainha do Boquete realmente sabe das coisas! Quer dizer, aqui est� ela, tr�s dias s�bria, uma viciada em crack, bul�mica, alco�latra, sem d�vida viciada em todos os tipos de comprimidos e provavelmente anor�xica tamb�m, e mesmo assim ela assumiu completamente o controle da situa��o. Eu senti que era mesmo uma sorte ter aquela garota comigo!</p><p>E, de fato, eu era um cara sortudo. Rapidamente, sem esperar muito, a Rainha do Boquete tinha retomado seu trabalho, com aquele tipo de desenvoltura que voc� costuma ver em v�deos pornogr�ficos. Alguns minutos mais tarde, eu gritei:</p><p>� Ah, meu Deus! Eu� � quase gritei as palavras <emphasis>Eu te amo,</emphasis> mas me segurei e gritei � N�o consigo segurar mais!</p><p>E, um segundo mais tarde, estava tudo acabado. Fiel � sua palavra, a Rainha Judaica do Boquete tinha conseguido tirar o melhor de mim, e meu corpo j� estava mole.</p><p>S� ent�o ela apareceu com a cabe�a e limpou o queixo com as costas da m�o.</p><p>� Ent�o, como voc� se sente agora? � perguntou provocativa.</p><p>� Incr�vel, Sarah. Sinto-me realmente incr�vel.</p><p>Ela sorriu gentilmente.</p><p>� Estou feliz � disse ela, alegre. � Estou muito feliz � e ela come�ou a olhar ao redor da sala de estar junto � imponente lareira de arenito atr�s dela, para as d�zias de pe�as no estilo <emphasis>shabby chic</emphasis> ao redor dela, para todos os sof�s e poltronas e pufes e mesas de caf� e mesas laterais e almofadas e flores e vasos e pinturas nas paredes e, ao lado da sala de estar, a mesa de jantar <emphasis>shabby chic</emphasis>, que era maior que uma pista para lan�ar ferraduras. Ent�o, ela olhou para o teto que tinha 9 metros de p� direito e, por fim, olhou para a parede de vidro que corria por todo o comprimento do fundo da casa e dava para o Atl�ntico. � Olha, esse lugar � realmente lindo. Quer dizer, eu estive perto do dinheiro antes, mas esse lugar cheira a dinheiro antigo! Entende o que eu quero dizer?</p><p><emphasis>Dinheiro antigo!</emphasis> Cacete! Se houvesse um dinheiro mais recente em qualquer lugar dos Hamptons, eu ainda estava para descobrir. Talvez ela quisesse dizer dinheiro evaporando? Seria mais preciso�</p><p>� Obrigado � respondi �, mas n�o � dinheiro antigo. � t�o novo quando poderia ser� � sorri, ansioso para mudar de assunto. � De qualquer forma, voc� quer fazer uma caminhada na praia? Hoje a noite est� linda!</p><p>� Eu n�o posso � disse ela, com tristeza. � Eu tenho que chegar logo em casa, meu namorado est� esperando por mim.</p><p>Levantei-me rapidamente e me pus na posi��o vertical.</p><p>� Seu <emphasis>namorado!</emphasis> Voc� tem namorado?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Sim, eu moro com uma pessoa. Eu provavelmente n�o devia estar aqui. Voc� sabe o que eu quero dizer?</p><p>Levei um momento para deixar esse pensamento rodar na minha mente e decidi que ela estava certa: ela provavelmente n�o deveria estar ali. Mas naquela �poca do ano n�o havia muitas garotas nos Hamptons, ent�o, se eu deixasse que a Rainha do Boquete fosse embora, logo estaria sozinho de novo. Passei um tempo estudando suas caracter�sticas. Ela era bonita o suficiente? Ela poderia estar � altura da Duquesa? Sarah tinha um nariz muito agrad�vel, e talvez eu pudesse encontrar a paz por meio de seus boquetes. Na verdade, talvez eu pudesse at� transform�-la em outra Duquesa! Eu poderia lev�-la para fazer compras e dar-lhe roupas e joias, depois lev�-la para jantares extravagantes, talvez eu pudesse at� apresent�-la a meus filhos. Afinal, ela estava s�bria havia tr�s dias inteiros e estava definitivamente em recupera��o. Avaliando tudo, at� que era uma boa conquista!</p><p>Foi assim que, cinco dias depois, convenci a Rainha Judaica do Boquete a terminar com o namorado e a trouxe para viver na minha mans�o em Meadow Lane, onde duas vezes por dia ela fazia boquetes de n�vel internacional e de vez em quando fazia amor comigo. Foi perfeito. Trocamos nosso primeiro �eu te amo� no s�timo dia e come�amos a falar em casamento no d�cimo dia. Ela n�o ligou para minha tornozeleira, como se n�o fosse grande coisa; na verdade, o Canalha, em um raro momento de humanidade, tinha aliviado minhas restri��es, transformando-as de um bloqueio de 24 horas para um toque de recolher � meia-noite, e eu desculpei suas sa�das da mesa de jantar para vomitar a comida que tinha acabado de ingerir com a mesma bondade e compreens�o.</p><p>Enquanto isso, minha coopera��o estava indo fabulosamente bem. Eu n�o tinha tido not�cias de TOC nas �ltimas semanas, o que, de acordo com Magnum, era previsto no curso do processo. Afinal, eu tinha passado um m�s inteiro cantando na Court Street, passando por todos os neg�cios da Stratton e dando ao TOC e ao Canalha uma quantidade imensa de informa��es. Agora eles precisavam fazer sua li��o de casa: as intima��es, as entrevistas com testemunhas, seguir as trilhas de documentos importantes.</p><p>Fazendo um registro importante, meu encontro com o Dem�nio de Olhos Azuis tinha se mostrado um completo desperd�cio de tempo. Ele era cuidadoso demais para ser pego em uma fita gravada, especialmente com algu�m sob intima��o. No entanto, meus captores tinham considerado que a falha na verdade n�o fora minha culpa. Enquanto eu tentasse o melhor que podia, dissera o TOC, eu receberia minha �carta de recomenda��o� da Promotoria. Tudo se resumia a honestidade. Basta se lembrar disso, sugeriu ele, e voc� sair� da cadeia ainda jovem.</p><p>Essa foi a �ltima vez que conversamos, com exce��o de uma r�pida liga��o telef�nica, durante a qual ele me disse que Danny havia conseguido fian�a e que Victor Wang finalmente tinha sido indiciado. Sem diz�-lo, a mensagem era clara: Danny estava cooperando e Victor se tornara cativo da Bruxa, seu trof�u pessoal para exibi��o.</p><p>Em todo caso, foi por volta do dia de A��o de Gra�as que finalmente apresentei a Rainha do Boquete para meus filhos. Ela foi maravilhosa com eles, na verdade, e, com exce��o de um imprevisto � ela sofreu um ataque de p�nico, acompanhado por violentos tremores de corpo, enquanto n�s quatro est�vamos almo�ando em East Hampton �, comecei a enxerg�-la como uma madrasta adequada para as crian�as. Embora n�s n�o tiv�ssemos de fato definido a data do casamento, seria apenas uma quest�o de tempo. N�s �ramos perfeitos juntos, duas almas machucadas que de alguma forma conseguiram se adequar para curar um ao outro.</p><p>E ent�o veio o desastre. Foi na semana antes do Natal, quando est�vamos deitados na cama juntos, muito felizes. Era uma tarde de s�bado, eu estava assistindo � TV e ela lia um livro. Quando olhei para ela de relance, percebi que estava usando �culos de av�. E tamb�m notei uma pequena cicatriz embaixo do queixo. Eu olhei para a cicatriz. �N�o � muito atraente!�, pensei. Ent�o, foquei nos �culos de av�. �Ainda menos atraente!�, pensei. Ent�o desci meu olhar para os peitos pequenos e os bra�os fininhos como bambus. �Muito feios!�, pensei.</p><p>Est�vamos deitados sob o edredom de seda branca, ent�o eu n�o podia analisar todo o corpo dela, mas, apesar disso, n�o havia como negar que eu a pegara em um �ngulo muito ruim. E foi isso: eu j� n�o adorava mais a Rainha do Boquete.</p><p>Respirei fundo e tentei me equilibrar, mas foi in�til. Eu n�o poderia t�-la mais em minha casa. Eu precisava ficar sozinho, ou com a Duquesa. Talvez eu pudesse convencer a Duquesa a voltar e ficarmos juntos para o bem das crian�as. Ali�s, eu j� tinha tentado abordar esse �ngulo, sem sucesso. O rumor mais recente era de que ela estava transando com Michael Bolton, aquele cantor de merda que usava rabo de cavalo!</p><p>Bem, o fato � que no dia seguinte atirei a Rainha do Boquete porta afora, ou pelo menos tentei, mas ela teve um colapso nervoso na minha sala de estar, amea�ando se suicidar. Ent�o eu disse a ela que estava apenas brincando, que n�o queria realmente terminar as coisas. Eu estava ficando com frio na barriga, como resultado de todo o tumulto que rolava na minha vida.</p><p>Ent�o, ela sorriu tristemente e me perguntou se eu gostaria de um boquete. Eu ponderei por um momento, sabendo que certamente seria o melhor boquete da hist�ria, considerando-se que a Rainha do Boquete estaria fazendo aquilo para manter sua posi��o em Meadow Lane�</p><p>Mas no final eu disse a ela que n�o, embora talvez eu quisesse mais tarde. Ela pareceu aliviada com isso, ent�o eu logo me desculpei, dizendo que precisava dar uma sa�da r�pida para ver meu padrinho, George, que morava no final da rua.</p><empty-line/><empty-line/><p>� VOC� U�O PODE simplesmente pegar uma camisa de for�a e lev�-la embora? � perguntei a George. � Eu n�o vejo outra solu��o.</p><p>Aquelas n�o foram as primeiras palavras que eu pronunciei naquela tarde a George, mas eram parecidas com as primeiras. As primeiras foram:</p><p>� Estou numa grande merda, George. A Rainha do Boquete est� amea�ando cometer suic�dio e meu pau anda t�o dolorido de todos os boquetes que est� pronto para cair!</p><p>George e eu est�vamos sentados � mesa de madeira branqueada em sua cozinha francesa, um em frente ao outro, enquanto sua esposa, Annette, uma bonita nativa do Brooklyn de 1,50 metro com cabelo loiro avermelhado, pele perfeita e sotaque feroz, nos preparava o caf�. Na verdade, era mais que caf� (eram donuts, muffins, caf� e frutas rec�m-cortadas), porque Annette nunca fazia nada pela metade, especialmente quando se tratava de cumprir sua principal miss�o, que era fazer com que a vida de George fosse a mais confort�vel e maravilhosa poss�vel. Na verdade, George merecia isso.</p><p>Ele estava com 62 anos, era 12 anos mais velho que Annette e servia como prova viva de que um leopardo pode, sim, trocar suas manchas. Aqueles que n�o tivessem ouvido falar de George nos �ltimos 22 anos iriam alert�-lo: �Se voc� vir esse cara andando na rua, atravesse para o outro lado e procure n�o fazer contato visual. Ele � bravo e perigoso, sobretudo quando est� b�bado, ou seja, sempre. E se acontecer de ele espanc�-lo ou simplesmente agarr�-lo pelos tornozelos e deix�-lo de cabe�a para baixo por duas horas, sacudindo-o de vez em quando, nem chame a pol�cia, a menos que voc� diga que foi um cara de 1,90 metro e mais de 100 quilos chamado George que o agrediu. Dessa forma, eles v�o trazer dardos tranquilizantes!�.</p><p>Em todo caso, George finalmente ficou s�brio e passou os 22 anos seguintes de sua vida se redimindo. Ele fez sua primeira fortuna no setor imobili�rio, sua segunda fortuna em cl�nicas de reabilita��o e ajudou a recuperar mais alco�latras nos Hamptons que dez homens juntos.</p><p>Ironicamente, a primeira vez que vi George foi pela TV, quando sua amea�adoramente bela cabe�a apareceu em minha tela �s 3 da manh�, enquanto eu estava no meio de uma farra de coca�na. George fazia propaganda de sua cl�nica de reabilita��o, Seafield, e estava dizendo coisas como: �Voc� est� chapado� b�bado� alto? Onde est� sua fam�lia agora? Voc� precisa de ajuda? Seafield tem as respostas�� Minha resposta foi jogar uma escultura de bronze na tela da minha TV, colocando um fim prematuro ao comercial de George.</p><p>Ainda me lembro de pensar, naquele momento, que o rosto na minha TV era do tipo que eu nunca iria esquecer: aqueles tra�os asperamente bonitos, penetrantes olhos castanhos, cabelos grisalhos perfeitamente penteados. Foi por isso que n�o demorei muito para reconhec�-lo quando encontrei com ele seis semanas mais tarde, em Southampton, na sala dos Alco�licos An�nimos. Agora, 18 meses depois, ele era muito mais para mim que apenas um padrinho. Na verdade, ele era como um pai.</p><p>� Eu n�o posso simplesmente ir com uma camisa de for�a � disse George, com um aceno de sua cabe�a enorme. � Voc� sabe, eu avisei sobre isso: dois alco�latras namorando s�o como dois caminh�es indo de encontro um ao outro. � Ele encolheu os ombros enormes. � De qualquer forma, como disse antes: voc� ainda n�o terminou com sua esposa. � cedo demais.</p><p>S� ent�o Annette entrou na conversa, com seu maravilhoso sotaque do Brooklyn:</p><p>� Ah, que mal tem isso, George? Uns boquetes n�o v�o matar ningu�m! Jordan anda solit�rio, ele precisa de um pouco de divers�o � dizendo isso, ela cruzou o reluzente piso de terracota e colocou o caf� e as guloseimas na mesa da cozinha.</p><p>� Annette � disse George, olhando para ela por um segundo comprido demais �, ele n�o precisa de encorajamento nessa �rea. � Ent�o virou-se para mim e disse: � Vou ver se consigo convencer Sarah a se internar em Seafield, mas s� porque eu acho que seria bom para ela. Enquanto isso, sugiro que voc� n�o namore ningu�m por um tempo. Voc� deve ficar sozinho por um ano e aprender a se virar. E continue indo �s escolas, dando palestras antidrogas, que � a melhor maneira de passar seu tempo livre, ser produtivo e n�o ficar transando.</p><p>Eu prometi a George que faria isso e, durante o m�s seguinte, segui seu conselho ao p� da letra, ou quase. O �quase� tinha a ver com encontros ocasionais com uma jovem russa que andava garimpando ouro. Natasha, como os jornais se referiam a ela, era cortesia de um conhecido dos Hamptons, uma esp�cie de playboy local, que poderia enviar uma legi�o de Natashas impertinentes a todos os quatro cantos do mundo assim que recebesse um dinheirinho em seu bolso.</p><p>Logo, por�m, isso se tornou gasto demais. Na verdade, por volta do in�cio de abril, decidi fechar a porta girat�ria de uma vez, pelo menos por um tempo, e me acomodei em um regime di�rio de monotonia e t�dio, pontuado por visitas das crian�as no fim de semana e jantares noturnos com George e Annette.</p><p>Sim, era chato e tedioso, tudo bem, mas tamb�m me deu uma chance de encontrar a mim mesmo, para tentar descobrir quem realmente Jordan Belfort era. A �ltima d�cada da minha vida tinha sido absurdamente complicada, e a crian�a que meus pais tinham trazido ao mundo tinha pouca semelhan�a com o Jordan Belfort de hoje. Ent�o, quem eu era agora? Era um homem bom ou um homem mau? Eu era um experiente criminoso de carreira ou um cidad�o honrado, que tinha apenas se perdido em seu caminho? Eu era um sujeito capaz de ser um marido fiel e amoroso ou era um devasso habitual que se recusava a usar preservativo at� que seu pinto ca�sse? E meu v�cio em drogas? A besta estaria apenas dormindo ou ficaria por perto para sempre?</p><p>Todas essas perguntas e muitas outras ficaram ricocheteando em meu c�rebro enquanto passei o resto do inverno no ex�lio. A <emphasis>insanidade</emphasis>, como eu tinha nomeado essa quest�o, tinha penetrado em todos os aspectos da minha vida e destru�do tudo em seu caminho. Portanto, essa era minha chance de finalmente resolver as coisas, de chegar ao cerne das coisas. A �nica quest�o era: quanto tempo eu ainda teria?</p><p>N�o muito, como se viu, porque TOC rapidamente quebrou o t�dio.</p><p>Era uma noite de segunda-feira quando ele telefonou, e foi uma liga��o perturbadora, para dizer o m�nimo. Eu estava sentado na minha sala de estar, em uma poltrona, quando o telefone sem fio tocou. Coloquei meu manual do AA de lado e atendi.</p><p>� Al�?</p><p>� Sou eu � disse TOC. � Voc� est� sozinho?</p><p>Tendo em vista que era o FBI ligando, eu realmente olhei em volta para me certificar de que estava sozinho.</p><p>� Sim � respondi �, estou sozinho. Ent�o me levantei e comecei a andar em torno da sala, nervosamente. � O que est� acontecendo? Como tem passado?</p><p>� Ocupado � respondeu ele. � Correndo atr�s das coisas. E voc�, como est�? Dormindo com alguma russa ultimamente?</p><p>� Muito engra�ado � respondi, com uma saud�vel dose de riso nervoso. � J� me cansei dessas Natashas por ora. N�o suporto mais o sotaque, voc� sabe, <emphasis>da, da, da� bl�-bl�-bl�</emphasis>. Fica chato depois de um tempo.</p><p>Seguindo o conselho de Magnum, eu tinha contado a TOC sobre as Natashas impertinentes, para que n�o fossem colocadas no banco das testemunhas sob interrogat�rio. Ent�o TOC fez sua pr�pria investiga��o e, n�o surpreendentemente, chegou � conclus�o jur�dica de que n�o havia nada inerentemente contra a lei sobre se deitar com garotas russas que estivessem atr�s de dinheiro.</p><p>� De qualquer forma, o que est� acontecendo? � perguntei. � Faz tempo que n�o tenho not�cias suas.</p><p>Nenhuma resposta a princ�pio, apenas alguns momentos de sil�ncio doentio, o tipo de sil�ncio que voc� ouve quando uma bomba-rel�gio fica ticando at� o zero e h� uma intermin�vel demora antes da explos�o. Finalmente, ele disse:</p><p>� N�o h� muitas novidades, mas eu preciso que voc� coloque escutas para falar com Dave Beall. � Mais sil�ncio. � Eu sei que isso n�o � agrad�vel para voc�, mas � preciso.</p><p>� Por qu�? � retruquei imediatamente. � Ele n�o � ningu�m!</p><p>Enquanto as palavras escapavam de meus l�bios, eu sabia que soavam rid�culas. N�o tinha nada a ver com os crimes que eu tinha ou n�o cometido com Dave Beall (� claro que eu tinha, simplesmente porque cometera crimes com todos os meus amigos), mas tinha tudo a ver com as pessoas a quem Dave Beall poderia lev�-los.</p><p>TOC calmamente explicou:</p><p>� Quem ele � ou n�o � n�o importa, o importante � que eu sei que ele � um de seus amigos mais pr�ximos. � Ele fez uma pausa por um momento, como se estivesse procurando as palavras certas. � Escute, n�o tenho nenhum grande prazer nisso e, acredite ou n�o, Joel tamb�m n�o. Mas � algo que voc� tem de fazer. Eu quero que voc� tente marcar um jantar com ele, o.k.?</p><p>Com o cora��o apertado, respondi:</p><p>� Certo. Quer dizer, que porra de escolha eu tenho, n�o �? � deixei escapar um suspiro �bvio. � Quando voc� quer que eu telefone?</p><p>� Nada melhor do que j� � disse ele. � Posso come�ar a gravar?</p><p>Eu balancei a cabe�a, triste.</p><p>� Sim, que diferen�a faz? Onde voc� quer que eu marque a reuni�o?</p><p>� Em um restaurante que seja calmo, em algum lugar em Long Island, mas n�o nos Hamptons. � muito longe para mim.</p><p>Eu pensei por um momento.</p><p>� Que tal no Caracalla, em Syosset? � italiano, pequeno, comida boa, tranquilo � balancei a cabe�a, desesperado. � � um lugar t�o bom quanto qualquer outro para trair meu melhor amigo, sabia?</p><p>� N�o seja t�o duro consigo mesmo � disse TOC. � Se ele estivesse em seu lugar, faria a mesma coisa. Acredite em mim.</p><p>� Eu acredito � respondi, mas o que eu n�o disse foi que sabia que ele estava errado. Dave nunca iria me trair. � V� em frente, fa�a a grava��o. Vamos acabar com isso.</p><p>� Tudo bem, espere um segundo� � Sil�ncio por um momento, em seguida, dois cliques, e ent�o: � Aqui � o agente especial Gregory Coleman do Federal Bureau of Investigation. A data � 3 de abril de 1999, e a hora � S�o 8 horas da noite. Esta � uma conversa de telefone gravada consensualmente entre Jordan Belfort, testemunha que vem cooperando com o governo federal, e David Beall.</p><p>Outro momento de sil�ncio, ent�o eu ouvi o zumbido do telefone da casa de Dave, e a cada toque meu �nimo se afundava cada vez mais. No momento em que Dave atendeu, me ocorreu que eu n�o era mais baixo que uma bact�ria de esgoto. Agora eu era menor que o muco que alimenta essa bact�ria.</p></section><section><p>CAP�TULO 14</p><p><strong>UMA CRISE DE CONSCI�NCIA</strong></p><p>De certa forma, David Michael Beall passou a representar tudo o que poderia ter sido justo e puro na Stratton Oakmont. Nascido na cidade ultracaipira de Burtonsville, em Maryland, onde esportes como lan�ar ferraduras e desviar de bosta de vaca eram os passatempos favoritos da popula��o, ele tinha crescido muito pobre e sem um pai. Ele era do tipo que teve uma inf�ncia �fa�a voc� mesmo�, em que um corte profundo era costurado pela pr�pria m�e, usando uma agulha aquecida e um fio qualquer.</p><p>Intelectualmente, Dave n�o era nem muito brilhante nem muito burro; estava na m�dia. E n�o era bem do tipo vendedor, era algu�m honesto e franco demais, falando com o tipo de conversa lenta do Sul que n�o conseguia convencer ningu�m a fazer algo que n�o quisesse, para come�o de conversa.</p><p>Como a maioria das crian�as de Burtonsville, ele n�o tinha crescido com um ardente desejo de ser rico, algo que viria mais tarde, mas tinha uma compreens�o clara de que o mundo tinha poucos chefes e muitos �ndios, que ele era um dos �ndios e n�o havia nada de errado com isso.</p><p>Normalmente, um caipira de quase 2 metros de altura como Dave Beall nunca iria para a faculdade, mas acabaria trabalhando numa oficina da cidade, trocando �leo e ajustando motores, e ent�o passaria os finais de semana tentando entrar nos jeans apertados da gostosona local. Mas, como quis o destino, Dave tinha sido aben�oado com duas coisas maravilhosas, velocidade e for�a, que juntas lhe conseguiram uma bolsa de estudos para a Universidade de Maryland, para a equipe de luta livre.</p><p>Nesse meio tempo, ele conheceu uma linda judia loira chamada Laurie Elovitch, que tinha a metade do tamanho dele e era seu completo oposto. Laurie era de Long Island, de uma fam�lia muito rica e politicamente cheia de contatos; ent�o, depois que ela e Dave se formaram, ambos se transferiram para Long Island a fim de ficar perto deles. Entendia-se que um cara como Dave � que voc� normalmente encontraria sentado em um fardo de feno, vestindo macac�o jeans sem camisa � seria um peixe fora d��gua na desumana e implac�vel Long Island. Todo mundo achou que o pai de Laurie, Larry, ajudaria a encontrar um caminho para Dave, que usaria seus contatos pol�ticos para obter um emprego decente para o genro (talvez no Departamento de Parques ou de Servi�os P�blicos).</p><p>Mas, novamente, o destino iria intervir na vida de Dave Beall, quando, em novembro de 1988, Laurie se deparou com um an�ncio de emprego no <emphasis>New York Times</emphasis> e Dave tornou-se um dos primeiros jovens americanos a atender ao chamado da Stratton. Como muitos jovens que vieram depois dele, ele se dirigiu para a entrevista em um carro que n�o era mais que um peda�o de merda, vestindo um terno que era outro peda�o de merda e estava t�o esfarrapado que sua futura sogra teve de usar fita adesiva para impedir que as costuras arrebentassem.</p><p>No entanto, ele passou no teste do espelho sem incidentes e, em seguida, passou pelo programa de treinamento e aprendeu a vender � ou, nos termos da Stratton, aprendeu a ser um assassino. Duas vezes por dia, eu ficava de p� na frente da sala de preg�o fazendo meu discurso, e ele tamb�m passou a acreditar que a gan�ncia era uma coisa boa, que os clientes deviam comprar ou morrer e que uma vida de riqueza e ostenta��o era o �nico caminho para a felicidade.</p><p>Ent�o � <emphasis>voil�!</emphasis> �, mais ou menos uns seis meses depois, Dave Beall estava dirigindo um Porsche convers�vel, vestindo-se com ternos de 2 mil d�lares e falando com a desenfreada autoconfian�a de um corretor de primeira linha.</p><p>No entanto, foi atrav�s do casamento com Laurie que seu destino acabou sendo selado: Laurie atingiria o grau mais pr�ximo poss�vel de amizade com a Duquesa, empurrando, assim, a mim e a Dave para a mais improv�vel das amizades� N�s �ramos uma dupla estranha, com certeza, mas, enquanto minha depend�ncia em drogas sa�a do controle, Dave se tornou o companheiro perfeito para mim. Afinal, ele nunca teve muito a dizer, para come�o de conversa, e eu estava chapado demais na maior parte do tempo para compreender qualquer coisa. Ent�o n�s assist�amos a filmes juntos, os mesmos de sempre, James Bond em sua maioria, e os epis�dios originais de Star Trek, enquanto nos escond�amos em meu por�o, com as cortinas fechadas e as luzes apagadas, e eu consumia drogas em quantidade suficiente para derrubar uma fam�lia de ursos-pardos.</p><p>Claro que Dave tamb�m curtia drogas, mas n�o tanto. (E quem curtia mais que eu, exceto Keith Richards, dos Rolling Stones?) De qualquer maneira, ele sempre ficou atento o suficiente para manter o olho em mim, por ordem da Duquesa. A paci�ncia dela j� se esgotara, ent�o ela engarregara Dave de se certificar que eu n�o me mataria antes que ela descobrisse um jeito de me levar para a reabilita��o.</p><p>Por fim, ela conseguiu, mas n�o antes de eu tentar me matar.</p><p>H� dois anos, eu estava um dia na cozinha de Dave, perturbado e desesperado, mastigando uma centena de comprimidos de morfina, ent�o ele me jogou no ch�o e enfiou os dedos na minha boca, puxando os comprimidos para fora. A� chamou uma ambul�ncia e salvou minha vida.</p><p>Quatro semanas mais tarde, quando sa� da reabilita��o e cheguei a Southampton, com meu casamento em frangalhos, foram Dave e Laurie que vieram para a praia e fizeram o poss�vel para nos ajudar a nos recompor. Embora eu estivesse bem ciente de que isso era algo que s� a Duquesa e eu poder�amos fazer, aquele foi um gesto que eu nunca iria esquecer.</p><p>No entanto, foi ainda mais revelador como Dave e Laurie agiram depois de minha intima��o: enquanto a maioria de meus amigos correu para se proteger, Dave ficou a meu lado, e enquanto a maioria dos amigos da Duquesa embarcou na onda de �d� o fora em seu marido�, Laurie tentou convenc�-la a ficar.</p><p>Foi por todas essas raz�es que, enquanto eu me sentava com Dave no restaurante Caracalla, me sentia o maior piolho do mundo. Eu estava usando uma Levi�s azul-escura, que escondia o diab�lico aparelho de TOC, e sob minha blusa de algod�o preto estava o microfone ultrassens�vel do FBI, que subia pelo meu esterno para descansar � direita de meu cora��o partido.</p><p>Embora fossemos s� n�s dois naquela noite, est�vamos em uma mesa para quatro pessoas, com uma toalha imaculadamente branca, pratos de porcelana branca e talheres reluzentes. Dave estava sentado bem � minha esquerda, a menos de meio metro de dist�ncia; t�o perto, pensei, que o microfone do TOC pegaria o som de sua respira��o. Ele usava uma jaqueta esporte sobre uma camiseta branca, a t�pica roupa de Dave Beall, e em seu rosto bonito e grande estampava a mais inocente das express�es: um cordeiro � espera do abatimento.</p><p>Depois de alguns minutos de conversa, ele me entregou uma pilha de pap�is.</p><p>� Voc� poderia dar uma olhada nisso? � questionou. � Estou pensando em entrar no neg�cio de c�mbio, as pessoas est�o fazendo fortuna com isso.</p><p>� Claro � respondi, e pensei: Puta merda, como ia ser terrivelmente simples! O chamado neg�cio de c�mbio era o mais recente golpe na pra�a e eu n�o tinha d�vida de que podia fazer Dave se incriminar em menos de um minuto. Ainda assim, aquilo n�o tinha nada a ver com o que TOC e o Canalha estavam interessados. Ao contr�rio, eles queriam saber sobre a corretora em que Dave tinha trabalhado depois do fechamento da Stratton. Em todo caso, seria muito f�cil fazer Dave falar sobre isso.</p><p>Ent�o passei alguns momentos fingindo olhar seus pap�is, que tinham palavras como ienes e marcos alem�es impressas, enquanto dava r�pidas espiadas pelo restaurante com o canto do olho. Caracalla era um lugar pequeno, com talvez 15 ou 20 mesas. �s 8 da noite, numa quarta-feira, apenas algumas delas estavam ocupadas. Eram principalmente casais de meia-idade, nenhum dos quais tinha a menor ideia da trapa�a que acontecia a poucos metros de dist�ncia. TOC e o M�rmon estavam me esperando no estacionamento de um cinema local, por isso �ramos apenas Dave e eu� <emphasis>O homem que salvou minha vida� O �nico amigo que eu tinha e que me apoiou� Nossos filhos eram amigos� Nossas esposas eram amigas� N�s �ramos amigos! Como eu podia fazer aquilo?</emphasis></p><p>Eu n�o podia.</p><p>Sem pensar, coloquei os pap�is na mesa, me desculpei e fui ao banheiro. No caminho, parei na �rea dos gar�ons e peguei uma caneta. Dentro do banheiro, escondido em uma das baias, peguei uma toalha de papel, apoiei na parede e, em letras grandes, escrevi:</p><p>N�O SE INCRIMINE, ESTOU COM UM MICROFONE!</p><p>Olhei para a nota por um segundo, meu cora��o quase saindo do peito. Se TOC e o Canalha descobrissem sobre aquilo, eu estaria morto. Eles iriam encerrar minha coopera��o no ato e eu seria condenado sem a tal da carta da Promotoria. <emphasis>Trinta anos, porra!</emphasis> Eu fiz os c�lculos: eu teria 66 anos de idade! Respirei fundo e tentei me reequilibrar. N�o havia nenhuma maneira de TOC descobrir. Eu estava certo disso.</p><p>Encorajado por esse pensamento, sa� do banheiro e voltei para a mesa, meus olhos correndo ao redor do restaurante como se fossem os de um coelho. O caminho estava livre; n�o havia agentes do governo.</p><p>No momento em que cheguei � mesa, coloquei a m�o esquerda no ombro de Dave e levei o dedo indicador direito aos l�bios, o sinal que diz: �Shhh!�. Na minha m�o esquerda estava a nota, dobrada ao meio. Eu tirei a m�o de seu ombro, desdobrei a nota com os dedos e ent�o a coloquei sobre a mesa, na frente dele.</p><p>Quando me sentei, vi seus olhos azuis quase saindo de seu cr�nio robusto, como cabides de chap�u, enquanto ele lia a nota para si mesmo. Ent�o ele olhou para mim, perplexo. Eu olhei para tr�s, com o rosto im�vel. E assenti lentamente. Ele acenou de volta.</p><p>� De qualquer forma � eu disse �, se o neg�cio de c�mbio seguir como est�, acho que � uma coisa boa, mas voc� precisa ter cuidado. H� um monte de dinheiro flutuando l�, pelo menos isso foi o que eu ouvi; todos levando propinas. Quer dizer, era uma coisa quando voc� e eu fizemos isso, mas � diferente quando h� estranhos envolvidos � baixei a voz para dar mais efeito. � Deixe-me fazer uma pergunta � sussurrei. � Voc� nunca depositou qualquer soma do dinheiro que lhe dei, n�o �?</p><p>Ele olhou para mim com os olhos arregalados.</p><p>� Eu n�o sei do que voc� est� falando. Eu estou quebrado agora.</p><p>� Eu entendo � sussurrei �, mas n�o estou falando de agora. Estou falando de dois anos atr�s. Estou preocupado com os 250 mil que lhe dei. O que voc� fez com o dinheiro?</p><p>Uma gota de suor come�ou a escorrer pela testa dele.</p><p>� Eu acho que voc� estava chapado na �poca, cara. Estou quebrado, totalmente�</p><p>E foi assim a noite toda.</p><p>Uma hora mais tarde, quando entreguei a fita a TOC, senti uma ligeira pontada de culpa, mas apenas uma leve pontada. Apesar de tudo, se TOC descobrisse aquilo, ele iria entender. Ohhh, ele n�o teria escolha sen�o me atirar na cadeia pelos 30 anos seguintes, mas n�o iria encarar minha trai��o como algo pessoal. Ele concordaria que um homem poderia se afundar tanto que n�o seria mais um homem, e naquela noite eu tinha chegado a esse ponto; sim, naquela noite eu tinha agido como um homem.</p><p>No caminho de volta para Southampton, percebi que tinha encontrado algo muito importante naquela noite, algo que eu tinha perdido muitos anos antes, no primeiro dia em que entrei na Investors� Center e vi as op��es de compra e venda.</p><p>Minha autoestima.</p></section><section><p>CAP�TULO 15</p><p><strong>O MARAVILHOSO MUNDO DO CARMA</strong></p><p>Aquilo era carma, pensei.</p><p>Afinal, depois de tr�s dias que eu passara o recado a Dave Beall, que outra explica��o poderia haver para o fato de a Duquesa ter me chamado para conversar sobre reconcilia��o? Na verdade, n�o era uma plena reconcilia��o, mas foi um grande passo na dire��o certa.</p><p>� Ent�o � disse minha saborosa Duquesa, andando de bra�o dado comigo ao longo da beira da �gua �, se voc� me comprar uma casa nos Hamptons, eu acho que vai ser muito bom para n�s. A gente se livra da casa em Old Brookville e podemos nos ver o tempo todo. Quem sabe o que pode acontecer a partir da�, certo?</p><p>Eu assenti com a cabe�a e sorri calorosamente enquanto caminh�vamos em sil�ncio por alguns momentos. Est�vamos andando para oeste, na dire��o do sol, e apesar de ser abril estava quente o suficiente para as 5 horas da tarde, de forma que nossas jaquetas azuis de n�ilon combinando eram tudo de que precis�vamos para nos proteger contra a brisa salgada do mar.</p><p>� De qualquer forma � continuou a Duquesa �, eu fiquei muito brava com voc� durante um tempo. Eu nunca soube direito o que aconteceu, quer dizer, eu achei que soubesse, mas sei l�, eu meio que coloquei debaixo do tapete, junto com um monte de outras coisas. � Ela parou por um momento, apertando meu bra�o. � Mas eu sou t�o culpada quanto voc� por tudo isso. Veja, todos esses anos, eu realmente achei que estava te ajudando, mas de fato eu estava te matando. � Ela balan�ou a cabe�a, triste. � Mas como eu ia imaginar? Eu era t�o codependente naquela �poca, eu n�o sabia mais que caminho tomar�</p><p>� Sim � eu disse, suavemente �, voc� est� certa, mas apenas sobre a �ltima parte. O que aconteceu com as drogas n�o foi culpa sua, n�o foi de fato culpa de ningu�m, apenas aconteceu. Lentamente, insidiosamente, aquilo se arrastou para cima da gente.</p><p>Ela assentiu, mas n�o disse nada. Eu, de minha parte, segui em frente, em um tom otimista:</p><p>� De qualquer forma, eu era um viciado em drogas e voc� era uma codependente, e juntos fizemos uma confus�o danada. Mas pelo menos conseguimos sair vivos, certo?</p><p>� Sim, mais ou menos � disse ela. � Eu tive de trabalhar duro comigo mesma nos �ltimos seis meses. Voc� sabe, codepend�ncia � uma doen�a terr�vel, Jordan � ela balan�ou a cabe�a com seriedade �, uma doen�a terr�vel, terr�vel, e eu me tornei a mais cl�ssica codependente que se pode ser�</p><p>� Sim � respondi solenemente, mas que porra de piada era aquilo? Codepend�ncia, caralhodepend�ncia� bl�-bl�-bl�! Toda essa porra era ris�vel. Tudo bem, a Duquesa tinha sido codependente, mas a ponto de qu�, de procurar um grupo de autoajuda que teve a aud�cia de se chamar Codependentes An�nimos? Ainda assim, quando a Duquesa come�ou a falar sobre isso pela primeira vez, eu tentei manter a mente aberta. Na verdade, eu at� perguntei a George se ele j� tinha ouvido falar do tal grupo e, surpreendentemente, ele me disse que tinha. Sim, eles existiam, mas ningu�m os levava a s�rio. Era um clube de mulheres que odiavam homens, acima de tudo, um lugar onde eles transformavam mulheres d�ceis em pit bulls. Em resumo, concluiu George, eles eram perigosos.</p><p>Mas essa era a Duquesa: sempre aspirando a ser perfeita em alguma coisa, e aquele era seu �ltimo show, ser perfeitamente codependente. Ent�o eu n�o tinha escolha, a n�o ser dan�ar conforme a m�sica e fingir que a codepend�ncia era a �ltima moda. Pelo lado positivo das coisas, apesar de tudo, qualquer motivo que a fizesse deixar de lado sua p� de garimpar novas minas de ouro estava bem para mim.</p><p>Foi ent�o que senti uma cutucada brincalhona.</p><p>� No que est� pensando? Estou vendo voc� com uma cara de pensativo�</p><p>� Nada � respondi. � Eu estava pensando em quanto eu ainda amo voc�.</p><p>� Bem, eu tamb�m te amo � disse ela. � Eu sempre vou te amar.</p><p><emphasis>Merda!</emphasis> A segunda metade de sua declara��o n�o fora nada encorajadora! Afinal de contas, dizendo que sempre me amaria, ela estava inferindo que seu amor n�o era de natureza conjugal, em outras palavras, do tipo �abra as pernas�. Em vez disso, era do tipo �voc� � o pai de meus filhos� ou �compartilhamos uma hist�ria juntos�, ambos inaceit�veis para mim. Eu queria um amor conjugal. Eu queria um amor vigoroso. Eu queria aquele tipo de amor que n�s costum�vamos dividir, antes de eu ser burro o suficiente para me deixar ser indiciado! Ainda assim, era um come�o, um ponto de partida para que eu pudesse manobrar a Duquesa�</p><p>� Bem � eu disse, confiante �, enquanto ainda amarmos um ao outro, podemos resolver as outras coisas, certo?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a lentamente.</p><p>� Com o tempo, sim, mas precisamos nos tornar amigos primeiro. N�s nunca fomos realmente amigos, Jordan. No in�cio, tudo o que rolou foi sexo, quer dizer, quase n�o paramos para respirar, sabe?</p><p>� Sim � respondi e pensei: que diabos havia de errado nisso?</p><p>Aqueles tinham sido os melhores momentos de minha vida, porra! Todas aquelas tardes pregui�osas em que fizemos amor no closet, todas as noites na praia, a maneira como t�nhamos transado no estilo cachorrinho na parte de tr�s da limusine, uma vez no cinema, durante <emphasis>Entrevista com o vampiro</emphasis>, enquanto um velho casal na fila de cima revirava os olhos. Quem poderia pedir mais que isso?</p><p>� Sim, isso mesmo � acrescentou a Duquesa. � �ramos como dois man�acos sexuais!</p><p>De repente, ela parou e se virou para mim. Estava de costas para o oceano agora, seu cabelo loiro brilhando � luz do sol da tarde. Ela parecia um anjo, meu anjo!</p><p>� Ent�o, o que voc� acha, querido? Voc� vai me comprar a casa? � ela fechou os l�bios em um biquinho irresist�vel.</p><p>� N�o sou contra isso � respondi rapidamente, debatendo se devia ou n�o dar-lhe um beijo �, mas, com tudo o que est� acontecendo agora, voc� n�o acha que faria mais sentido se mudar para c�? � fiz um gesto em dire��o �s dunas. � Vamos fazer uma tentativa e ver o que acontece, Nae! Se n�o funcionar, eu compro a casa em dois segundos.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a, triste.</p><p>� Eu n�o posso fazer isso ainda, n�o estou pronta. � Ent�o, nervosamente, ela acrescentou: � � o dinheiro? � o governo incomodando?</p><p>Eu balancei a cabe�a, negando.</p><p>� N�o, eu ainda posso gastar o que quiser, desde que seja razo�vel.</p><p>� Bem, o que Greg diz?</p><p>Eu sorri.</p><p>� Qual Greg? Greg meu advogado ou o outro Greg?</p><p>� Greg, seu advogado!</p><p>Eu sorri novamente.</p><p>� Ele n�o fala muito, Nae. Ele est� tentando negociar o melhor acordo que puder, basicamente � isso. Mas a boa not�cia � que ele acha (acha!) que podemos manter as casas por um tempo, pelo menos at� que eu seja condenado, e que isso deve demorar uns quatro anos, por a�. Portanto, temos algum tempo.</p><p>Ela n�o deixou passar:</p><p>� Onde � que eu fico? Voc� vai me comprar a casa ou n�o? Custa apenas 1 milh�o de d�lares, Jordan. � muito menos que Old Brookville, ent�o eu tenho certeza de que o governo vai ficar feliz com isso, n�o?</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Acho que sim, mas, ainda assim, preciso de aprova��o para isso � disse, e s� ent�o algo estranho me ocorreu. � Voc� j� encontrou uma casa, Nae?</p><p>Ela encolheu os ombros inocentemente.</p><p>� N�o� na verdade, n�o. Quer dizer, eu fui ver algo que seria perfeito para as crian�as e para mim� � ent�o, como uma reflex�o tardia � e talvez para voc� tamb�m um dia! � Ela sorriu ansiosamente. � Ent�o, o que voc� acha, querido? Voc� vai compr�-la para mim?</p><p>Eu sorri de volta, pensando em como seria maravilhoso viver com a Duquesa e com as crian�as novamente! Nada mais de boquetes de judias nem das russas Natashas, como seria maravilhoso!</p><p>� Eu acho que devemos olhar a casa agora � respondi, sorrindo, mas o que eu <emphasis>n�o</emphasis> disse foi: �Antes de realmente compr�-la para voc�, Duquesa, eu vou procurar ter certeza de que n�o est� me manipulando!�.</p><empty-line/><empty-line/><p>� ELA EST� MANIPULANDO VOC� � exclamou meu antigo detetive particular, Richard �Bo� Dietl, sentado � minha frente em uma mesa para dois no Caracalla. � Tenho certeza disso, Bo.</p><p>� Talvez � respondi �, mas eu preciso ter certeza. Voc� sabe, eu estava come�ando a me desligar dela quando ela telefonou, e agora estou de novo fisgado� � Fiz uma pausa e balancei a cabe�a com raiva. � Mas � isso, Bo, se ela me foder <emphasis>dessa</emphasis> vez, est� tudo acabado pra sempre.</p><p>� Isso � justo � disse Bo, c�tico �, mas eu ainda acho que � um carma ruim, esse seu <emphasis>planis</emphasis>. E n�o � legal, tamb�m.</p><p>Dei de ombros evasivamente, espantado pela forma como eu entendia a maneira de Bo falar, que exigia que se desconsiderasse aquele estranho h�bito dele de chamar todos � sua volta de Bo (apesar de seu pr�prio apelido ser Bo), e que tamb�m desconsiderasse a termina��o <emphasis>is</emphasis> em tudo que ele dizia, adicionando-a a uma palavra qualquer, como um humorista da TV. Assim, um plano virava um <emphasis>planis</emphasis> e um almo�o virava um <emphasis>almocis</emphasis>. Ainda assim, Bo era mais esperto que uma raposa e, por acaso, era o melhor detetive particular da pra�a.</p><p>� Eu n�o estou muito preocupado com a parte do carma ruim � respondi, casualmente �, pois eu tenho feito algumas coisas muito boas nos �ltimos tempos. � Sorri conscientemente, resistindo � vontade de explicar a Bo que a raz�o de ter escolhido o Caracalla era porque eu tinha criado um carma muito bom da �ltima vez em que estivera ali (passando a nota para Dave Beall) e que eu estava certo de que estava mais que compensando qualquer carma ruim que pudesse ser criado com meu �ltimo plano, de grampear as reuni�es dos Codependentes An�nimos da Duquesa. � Quer dizer, estou transbordando de carma bom, Bo.</p><p>� Tudo bem � disse ele �, mas ainda assim n�o posso grampear a <emphasis>salis</emphasis> pra voc�. Se formos pegos, eles v�o nos jogar na cadeia por causa disso.</p><p>Dei de ombros novamente e ent�o dei um tempo, avaliando Bo.</p><p>Como sempre, ele estava vestido impecavelmente, com seus quase 100 quilos e 1,80 metro envoltos em um terno cinza de 2 mil d�lares, uma camisa branca impec�vel fechada no pesco�o com uma gravata cinza de crepe atada num perfeito n� estilo Windsor. Na m�o esquerda, ele usava, no dedo mindinho, um anel de diamante que parecia pesado o suficiente para fazer levantamento de peso, e junto com o resto do corpo, o pesco�o do tamanho de um gorila, os tra�os bonitos, a barba acinzentada perfeitamente aparada, a cabe�a com cabelos rareando, ele realmente exalava um cheiro de mafioso elegante.</p><p>Claro, Bo n�o era um mafioso, ele simplesmente tinha crescido em torno deles, naquela parte de Ozone Park, Queens, onde um garoto de ascend�ncia irlandesa e italiana como Bo tinha apenas dois caminhos poss�veis: tornar-se policial ou mafioso. Assim, ele tinha se tornado policial, subindo rapidamente na pol�cia de Nova York e ganhando seu distintivo de ouro ainda muito jovem. Ele ent�o se aposentou bem cedo e usou seus contatos, em ambos os lados da lei, para construir sua empresa, Bo Dietl e Associados, e torn�-la uma das empresas de seguran�a privada mais respeitadas do pa�s.</p><p>Ao longo dos anos, Bo tinha sido uma enorme vantagem para mim, fazendo de tudo, desde proteger minha fam�lia at� investigar as empresas que tornei p�blicas, al�m de assustar os ocasionais bandidos de baixo n�vel que tinham cometido o erro de querer abrir caminho � for�a nos neg�cios da Stratton. Agora, no entanto, Bo n�o tinha ideia de que eu estava cooperando; talvez ele suspeitasse, pensei, mas ele era muito profissional para perguntar. Al�m disso, se chegasse a esse ponto, Bo era meu amigo, e como qualquer amigo ele n�o iria me colocar em uma posi��o em que eu tivesse de mentir para ele.</p><p>� Eu entendo o que voc� est� dizendo � respondi a Bo �, mas n�o estou pedindo que grampeie a sala.</p><p>Ele deu de ombros.</p><p>� Ent�o o que voc� est� me pedindo para fazer, me esconder dentro da porra do arm�rio?</p><p>Eu sorri calorosamente.</p><p>� N�o, n�o, n�o, eu nunca lhe pediria uma coisa t�o sorrateira e dissimulada. O que eu quero que voc� fa�a � grampear uma de suas agentes do sexo feminino e infiltr�-la na reuni�o � pisquei. � Enquanto o grampo estiver nela, � legal, certo?</p><p>Bo olhou para mim, espantado. Eu continuei:</p><p>� De qualquer forma, estou bem certo de que uma conversa gravada com um dos lados consentindo � perfeitamente legal � preferi n�o dizer a ele por que eu estava t�o certo disso. � Ent�o, enquanto o grampo estiver nela, estamos limpos � ergui as sobrancelhas rapidamente por duas vezes. � � um plano muito bom, voc� n�o acha, Bo?</p><p>� Caralho! � murmurou Bo. � Voc� � um maluco fodido, meu amigo!</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Vou encarar isso como um elogio, vindo de um cara como voc�. Enfim, eu s� posso imaginar o que essas mulheres dizem nessas reuni�es. Quer dizer, pense nisso: n�s seremos como duas moscas na parede. Se n�o houver nada demais, pelo menos vai ser a gargalhada do s�culo!</p><p>Bo, o homem das cavernas, completou:</p><p>� Que porra � essa merda de codependente, afinal? Parece um monte de merda para mim � ele balan�ou a cabe�a, descrente. � Eu aposto com voc� que algumas dessas mulheres poderiam se beneficiar de um tempo num hospital psiqui�trico. Voc� entende o que eu estou dizendo, Bo?</p><p>Eu balancei a cabe�a, concordando.</p><p>� Sim, compreendo exatamente o que voc� est� dizendo, mas essa � a mais recente viagem da Duquesa: ela � uma codependente aspirante e n�o h� nada que se possa fazer sobre isso. De qualquer forma, voc� vai fazer isso para mim, Bo? Voc� vai embarcar nessa comigo at� o fim?</p><p>� Sim � respondeu ele, sem entusiasmo. � Estou com voc�, Bo. Mas se sua <emphasis>esposis</emphasis> descobrir alguma coisa sobre isso, ela vai crucific�-lo!</p><p>Afastei essa preocupa��o dele com um aceno da m�o no ar.</p><p>� N�o se preocupe com isso, Bo. Nenhum de n�s dois vai contar a ela, ent�o, como caralhos ela vai descobrir?</p><p>Exatamente nessa hora um gar�om alto e magro veio com nossas bebidas. Ele usava um bolero vermelho, uma gravata-borboleta preta e nenhuma express�o no rosto. Entregou a Bo um copo de Jack Daniel�s e para mim uma Coca-Cola. Bo olhou para o gar�om e disse:</p><p>� Traga-me mais um desses <emphasis>drinquis,</emphasis> Bo, vai?</p><p>O gar�om olhou para Bo, confuso. Bo pressionou:</p><p>� O que h� de errado, Bo?</p><p>Eu disse para o gar�om:</p><p>� Ele gostaria de outro, por favor.</p><p>O gar�om assentiu e saiu.</p><p>Bo balan�ou a cabe�a, desgostoso.</p><p>� Gar�om de merda � murmurou. � O cara mal fala nossa l�ngua e eles colocam esse porra pra servir nosso <emphasis>almocis</emphasis>. � uma farsa, porra. � Com isso, Bo ergueu o copo. � Enfim, espero que voc� tenha a resposta que est� procurando, Bo, porque minha experi�ncia com essas coisas � que os pensamentos secretos de uma mulher nunca s�o bonitos.</p><empty-line/><empty-line/><p>� QUE BANDO DE MULHERES MALUCAS! � murmurou Debbie Starling.<sup>1</sup></p><p>Isso aconteceu duas noites depois, quando uma das agentes favoritas de Bo, Debbie Starling, murmurou aquelas palavras de um telefone em Long Island, a poucos quarteir�es de onde tinha ocorrido a reuni�o das Codependentes An�nimas da Duquesa. Bo e eu est�vamos no viva-voz.</p><p>� Nunca ouvi nada parecido com isso � acrescentou. � Quer dizer, nem mesmo sei como descrever a voc�s. Era como se� H�</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, enquanto eu estava sentado na ponta da cadeira, e Bo, presumi, estava sentado na ponta de sua pr�pria cadeira. Ele estava trabalhando at� tarde naquela noite de quarta-feira, ainda em seu escrit�rio, � espera do relat�rio de Debbie depois da reuni�o.</p><p>Eu nunca tinha encontrado Debbie, mas, de acordo com Bo, ela parecia perfeita para o trabalho. Com 40 e poucos anos, tinha passado a maior parte de sua carreira acampada em um banco de parque, parecendo sexy e vulner�vel, � espera da poss�vel abordagem de um assaltante. Quando isso acontecia, ela o atra�a e depois fechava as algemas nele. Ent�o ela soprava o apito e meia d�zia de policiais de Nova York sa�a das sombras e dava um cacete no cara, para em seguida prend�-lo.</p><p>Ainda assim, n�o foi isso o que impressionou Bo sobre Debbie, especialmente para aquela opera��o. Na verdade, tinha mais a ver com o fato de Debbie ter frequentado um clube de teatro em sua �poca de faculdade e ganhado elogios da cr�tica. Ela era perfeita, Bo dissera. Era uma atriz nata, que poderia se infiltrar naquele clube tipo �menino n�o entra� mais r�pido do que a Duquesa poderia dizer <emphasis>codepend�ncia</emphasis>! Ent�o ele a grampeou com seus gravadores e microfones e enviou-a para tr�s das linhas inimigas.</p><p>Finalmente, a aspirante a atriz falou:</p><p>� Olha, talvez eu pudesse explicar dessa forma: voc�s j� viram o filme <emphasis>Jerry Maguire</emphasis>?</p><p>� Sim � respondemos, em un�ssono.</p><p>� O.k., bem, lembram-se da cena na sala de estar da casa de Ren�e Zellweger, onde todas as mulheres divorciadas est�o sentadas, reclamando e gemendo, chamando os homens de <emphasis>o inimigo</emphasis>?</p><p>� Sim � respondemos novamente.</p><p>� Bem, foi assim, mas multiplicado por 20!</p><p>Todos n�s paramos de falar ap�s essa frase, mas depois de alguns segundos eu j� sentia vontade de saltar pelo fio do telefone e faz�-la contar tudo. Bo recuperou a compostura e disse:</p><p>� Tudo bem, Debbie, ent�o o que se passou na Terra da Fantasia nessa noite?</p><p>� Bem � disse Debbie �, parece que a esposa de Jordan � a l�der por l�. Ser� que isso � uma surpresa para voc�, Jordan?</p><p>� N�o, n�o � � respondi. � � assim que ela �. Tudo aquilo que para ela � o interesse do momento, ela mergulha de cabe�a. Hoje ela � uma aspirante a codependente, amanh� ela poderia ser uma astronauta aspirante; n�o tem explica��o, mas eu a amo mesmo assim.</p><p>� Bem, ela � muito bonita � observou Debbie.</p><p>N�o brinca! Por que outra raz�o voc� acha que eu sou apaixonado por ela? Por causa de sua personalidade, porra? Ela � capaz de deixar um desfile inteiro de soldados malucos!</p><p>� Obrigado � disse �, mas n�o � por isso que eu a amo, Debbie. A beleza � apenas superficial � enquanto a feiura vai direto ao osso, pensei. � � a personalidade dela que eu amo: seu mau humor, seu racioc�nio r�pido, o jeito como ela se mostra uma concorrente digna, enfim� � e o jeito como ela me fazia boquete enquanto eu dirigia a Ferrari na hora do <emphasis>rush</emphasis>, enquanto os caminhoneiros buzinavam em aprecia��o. � Quer dizer, sua apar�ncia n�o tem nada a ver com isso, absolutamente nada.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, enquanto minha besteira ficava pairando no ar como a polui��o de Los Angeles. Bo finalmente falou:</p><p>� Tudo bem, ent�o qual � o veredicto, Debbie? Ser� que ela o ama ou n�o?</p><p>� Sim, ela o ama � disse Debbie, o que me fez sentir um <emphasis>grande al�vio</emphasis> �, mas ela tamb�m o odeia � e senti uma <emphasis>grande ang�stia</emphasis>! Debbie parou por um momento. � Mais que qualquer coisa, acho que ela est� confusa.</p><p>� Confusa sobre o qu�? � perguntei.</p><p>� Sim � acrescentou Bo. � Que porra � essa de se sentir confusa? N�o foi ela quem foi indiciada, caralho� Essas porras dessas mulheres s�o inacredit�veis!</p><p>Debbie, com paci�ncia, falou:</p><p>� Voc� j� terminou, Bo?</p><p>� Sim, j� terminei � murmurou ele. � Ent�o, qual � a hist�ria com a casa?</p><p>Eu imediatamente me endireitei.</p><p>� Ah, ela falou dessa coisa de East Hampton?</p><p>� N�o diretamente � disse Debbie. Que merda!, pensei � Embora ela de fato tenha dito que queria sair de Brookville.</p><p>Eu me animei novamente.</p><p>� Ah, � mesmo? Ela disse por qu�?</p><p>� Sim, ela disse que seu nome est� nos jornais o tempo todo, e ela est� se sentindo envergonhada � <emphasis>a ang�stia e tristeza de novo!</emphasis> � Ela diz que as pessoas est�o olhando para ela de um jeito engra�ado, especialmente na escola de sua filha. Ela s� quer ficar longe de tudo e levar as crian�as com ela.</p><p>� Bem, isso n�o parece muito promissor � comentei.</p><p>� N�o mesmo � concordou Bo. � Eu acho que � hora de voc� parar com essa coisa de procurar <emphasis>casis.</emphasis> Entendeu, Bo?</p><p>� Eu n�o tiraria conclus�es apressadas � rebateu Debbie. � Veja, logo depois de ela dizer isso, come�ou a falar que ainda o amava. Ela disse que sentia falta de estar com voc�</p><p>� Ah, isso � �timo! � festejei.</p><p>� Bem, v� com calma voc� tamb�m� � alertou Debbie. � Um segundo mais tarde, ela disse que esperava que voc� morresse em um inc�ndio, algo assim. Dessa forma, ficaria livre de voc� para sempre.</p><p>� Voc� pode imaginar uma coisa dessas? � rosnou Bo. � Voc� n�o pode confiar nessas f�meas nem por um segundo! Basta virar as costas e elas enfiam a faca!</p><p>Debbie, perdendo a paci�ncia, disse:</p><p>� Voc� n�o est� sendo construtivo, Bo. � Uma breve pausa, e ent�o: � Ou�a, Jordan, como eu disse, ela anda muito confusa. Talvez voc� deva dar um tempo, apenas lhe dar uma brecha para resolver as coisas. Ent�o talvez ela volte para voc�, n�o sei� Enfim, existe uma coisa que me parece certa, Jordan.</p><p>� O que �? � perguntei.</p><p>� Ela odeia o pai ainda mais do que o odeia.</p><p>� Bem, isso � reconfortante � disse. � Ele a abandonou quando Nadine tinha 3 anos.</p><p>� Ent�o, onde � que isso nos deixa? � Bo perguntou a Debbie. � Pode nos dar um parecer sobre esse assunto?</p><p>� Bem, n�o vou me sentir confort�vel fazendo isso � disse Debbie. � Talvez, se voltar na pr�xima semana, eu possa saber mais. Tenho certeza de que ela n�o suspeita de nada. Fui recebida no grupo de bra�os abertos. Eu acho que elas ficaram felizes em arrastar mais algu�m para sua infelicidade�</p><p>� Isso pode levar um longo tempo, Bo � disse Bo.</p><p>� Eu n�o tenho muito tempo � respondi. � Minha mulher n�o vai parar de me pressionar, eu a conhe�o.</p><p>Eu estava ficando sem tempo por outras raz�es, tamb�m, raz�es que eu n�o podia compartilhar com Bo e Debbie. No m�s seguinte eu iria me apresentar diante do juiz, dar entrada em minha confiss�o de culpa e teria de preencher uma ficha financeira atestando todos os meus bens. Claro, tudo isso seria feito em segredo, nada seria anunciado at� o ano seguinte, antes que minha coopera��o se tornasse p�blica. Mas, ainda assim, era o melhor momento para vender a casa de Old Brookville, antes que eu terminasse minha declara��o de bens.</p><p>Bo disse:</p><p>� Tem de haver uma maneira de faz�-la confessar tudo mais rapidamente.</p><p>A ex-atriz complementou:</p><p>� Talvez se eu pudesse criar amizade com ela. Quer dizer, se eu entrasse na pr�xima reuni�o chorando histericamente, tipo dizendo que meu marido me bate ou coisa assim� � A atriz parou por um momento. � Do pouco que eu sei sobre sua esposa, Jordan, acho que ela viria correndo me ajudar.</p><p>Ah, caralho!<emphasis>,</emphasis> pensei. Eu estava indo direto para o inferno com aquilo� N�o havia nenhuma maneira de eu deixar isso acontecer. Nunca! Nem em um milh�o de anos!</p><p>� Essa � uma ideia incr�vel, Debbie! Voc� podia convid�-la para tomar um drinque e ent�o faz�-la abrir o bico. Voc� devia ver como ela fica depois de uns dois tragos, � como o soro da verdade! � Meu Deus, o que eu estava dizendo? � E eu sei o lugar perfeito para lev�-la, chama-se Buckram Stables. � um ponto de encontro dos velhos WASPs em Locus Valley; � agrad�vel e tranquilo, de forma que d� para fazer uma grava��o bem n�tida.</p><p>� Isso � terr�vel � disse Bo. � Eu n�o posso permitir que isso aconte�a sem dar a Debbie algum tipo de b�nus, se ela tocar adiante e der certo.</p><p>� Bem, obrigada � disse Debbie �, mas n�o tenho medo: vou conseguir. Vou levar uma cebola comigo e tirar a casca no carro antes de ir para a reuni�o. Vou entrar naquela igreja com l�grimas descendo pelo rosto!</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio.</p><p>� Merda! � disse Bo. � Isso � ruim, muito ruim. Vamos fazer isso logo!</p><p>� Eu n�o posso permitir que isso aconte�a � disse eu, com for�a. E ent�o continuei: � O �nico problema � que agora est� fora de meu controle. �, j� foi decidido. Ent�o, o que eu posso fazer?</p><p>� Nada � respondeu Bo. � N�s j� passamos do ponto de retorno.</p><p>� �timo � disse Debbie. � Vou comprar a cebola!</p><empty-line/><empty-line/><p>O CLUBE DAS MENINAS que odiavam os meninos se reunia uma vez por semana, �s quartas-feiras, e os encontros duravam uma hora, terminando �s 8 da noite. J� passava de 11 horas e eu ainda n�o tinha tido not�cias de Bo. Ent�o estava caminhando de um lado para o outro em minha sala de estar, tentando manter a calma e calculando quanto carma bom eu ainda tinha em meu tanque de carma.</p><p>De certa maneira, a Duquesa tinha atra�do aquilo para si mesma, n�o � mesmo? Quer dizer, que homem n�o iria querer conhecer os pensamentos secretos de sua esposa? Eu n�o era pior que qualquer outro marido obcecado! A �nica diferen�a era que eu tinha recursos para levar as coisas um pouco mais adiante que a maioria dos homens. Al�m disso, se ela estava disposta a compartilhar seus pensamentos secretos com a primeira pessoa estranha que aparecesse em seu caminho� Bem, isso faria com que seus pensamentos secretos se tornassem de dom�nio p�blico.</p><p>Na verdade, eu me sentia bastante confiante em receber boas novas naquela noite. Depois de tudo, eu havia repassado todas as coisas que Debbie nos contara na semana anterior e, em resumo, tinha destilado os pensamentos interiores da Duquesa em duas verdades simples. Verdade um: ela ainda me amava, mas estava confusa. Verdade dois: com o tempo, ela iria sentir tanta falta de fazer amor comigo que n�o teria outra escolha a n�o ser voltar. Sim, at� mesmo naquele dia na praia ela tinha levantado esse assunto espec�fico em duas ocasi�es: uma vez como simples man�acos sexuais (o que foi, certamente, uma coisa boa) e tamb�m comentando sobre como a gente nunca parava para respirar (que foi uma coisa ainda melhor!). Claro, eu tinha ouvido aquelas fofocas perturbadoras sobre ela e Michael Bolton e sobre ela e seu <emphasis>personal trainer</emphasis>, Alex, o Desprez�vel, mas, provavelmente tinha sido apenas fofoca�</p><p>Encorajado por aquelas verdades, tinha telefonado para Magnum na semana anterior e contado sobre o que estava acontecendo com a Duquesa.</p><p>� Ser� que o Canalha vai fazer alguma obje��o se eu vender minha casa em Old Brookville para comprar uma casa muito mais barata nos Hamptons?</p><p>Magnum respondeu com um otimismo cauteloso. Ele estava mergulhado at� os joelhos em profundas negocia��es com o Canalha, dissera, que estava sendo o Canalha de sempre. No entanto, Magnum achou que ele iria olhar positivamente para qualquer coisa que fizesse eu cortar minhas despesas. De toda maneira, ele esperava ter um acordo definitivo no in�cio de maio, quando eu iria me colocar na frente do juiz Gleeson e dar entrada em minha declara��o de culpa.</p><p>Nesse momento, o telefone tocou. Devia ser Bo! Corri em linha reta para a cozinha. Quando cheguei ao telefone, congelei, parado no lugar. N�o era o telefone, era o sistema de intercomunica��o que estava ligado ao telefone. Algu�m estava no port�o da frente! Quem seria? Com cuidado, peguei o telefone.</p><p>� Al�</p><p>� E a�, Bo � disse Bo. � Sou eu, Bo!</p><p>� Bo? � respondi a Bo. � O que voc� est� fazendo aqui?</p><p>� Deixe-me entrar. Eu estou fazendo uma entrega pessoal, Bo.</p><p>Eu respirei fundo, tentando manter a calma e acompanhar todos aqueles Bo-Bos� S� poderia ser uma boa not�cia, pensei. Por que outra raz�o Bo teria vindo at� Southampton? Se fosse m� not�cia, ele teria me telefonado, a n�o ser, claro, que fosse uma dessas pessoas que ficam contentes em ver de perto a infelicidade dos outros. N�o, Bo n�o era assim! Como eu poderia pensar uma coisa dessas? Ele era um verdadeiro amigo e provara sua lealdade a mim mil vezes. Ele s� queria me dar a boa not�cia em pessoa.</p><p>�E a�, Bo! � disse Bo. � Voc� vai abrir o <emphasis>port�ozis</emphasis> ou o qu�?</p><p>� Sim, sim � eu disse. � Desculpe, Bo.</p><p>Apertei o c�digo do port�o e fui at� a porta.</p><p>Poucos minutos depois, est�vamos sentados � mesa da sala de jantar, sob um lustre de ferro forjado, que custara uma fortuna. Pousado sobre a mesa de madeira branqueada estava um pequeno gravador. Bo ainda estava para revelar o conte�do da fita, porque continuava explicando como a ex-atriz Debbie Starling tinha tido um desempenho digno do Oscar, rapidamente se esgueirando para dentro das barreiras da Duquesa e conquistando sua confian�a.</p><p>� � e o truque da <emphasis>cebolis</emphasis> funcionou como m�gica � ele estava dizendo. � Debbie cheirou, come�ou a espirrar e logo as <emphasis>l�grimis</emphasis> estavam escorrendo pelo rosto, enquanto ela contava para sua esposa como o marido tinha dito que ela era isso e aquilo e aquilo outro� E claro que a� H� Duquesa ficou muito comovida com isso, porque � assim que lida com tudo. � Bo encolheu os ombros. � Ent�o, as duas j� estavam amigas antes mesmo de a reuni�o come�ar.</p><p>Eu balancei a cabe�a e cocei o queixo, pensativo.</p><p>� Bem, isso parece bem legal, mas� Ent�o, o que ela disse durante a reuni�o?</p><p>Bo balan�ou a cabe�a lentamente.</p><p>� N�o se trata do que ela disse durante a reuni�o, mas do que ela disse <emphasis>ap�s</emphasis> a reuni�o.</p><p>Eu fiquei mais animado.</p><p>� Ah, � mesmo? Elas foram jantar?</p><p>Bo come�ou a esfregar a barba.</p><p>� Sa�ram para um drink � respondeu. � Voc� sabe, tipo <emphasis>in vino veritas.</emphasis></p><p>� Interessante � disse eu. � Ent�o, que verdades o <emphasis>vino</emphasis> arrancou?</p><p>Bo torceu os l�bios e balan�ou a cabe�a, resignado.</p><p>� Bem, eu acho que voc� pode parar com sua ca�ada por uma casa, Bo. N�o � recomendado dadas as� H� circunst�ncias atuais.</p><p>De uma vez s�, senti meu cora��o despencar at� o est�mago. A Duquesa estava me enganando! Mas que safadeza! At� onde ela iria descer? Brincar comigo para comprar uma casa mostrou uma total falta de �tica da parte dela.</p><p>Bo continuou:</p><p>� Voc� sabe, eu vim aqui essa noite porque eu vejo voc� mais como amigo que como um cliente� � Ele fez uma pausa, olhou para o gravador, que n�o era maior que um baralho de cartas, e ent�o olhou para cima. � Ent�o, quero fazer um acordo, Bo. Toda essa coisa de <emphasis>grava��ozis</emphasis> j� deu uns 5 paus at� agora, mas se voc� me deixar destruir a fita antes de ouvir, digo que fica elas por elas. Vou pagar Debbie do meu pr�prio bolso. Mas, se voc� me fizer pressionar o <emphasis>play</emphasis>, ent�o voc� tem que me pagar. A decis�o � sua.</p><p>Com o cora��o apertado, olhei para o gravador. Caramba, era uma maquininha diab�lica, aquela! T�o pequena, t�o min�scula� E t�o enganadora do caralho! Ela era a portadora de m�s not�cias, portadora de um carma ruim.</p><p>� Isso n�o pode ser t�o ruim assim, Bo, pode?</p><p>Bo deu de ombros.</p><p>� Como eu disse, Bo: <emphasis>in vino veritas.</emphasis></p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente, com o mais triste dos sorrisos no rosto. Depois, soltei uma risada curta que queria dizer �Ent�o, � assim� e outra risada que tamb�m dizia �� o fim da linha, o fim de um casamento, o fim de toda minha falsa esperan�a�. Meu casamento � um caix�o, pensei, e esse � o �ltimo prego que coloco nele. Olhei Bo nos olhos e disse:</p><p>� Toque essa porra de fita!</p><p>Bo assentiu e apertou o <emphasis>play</emphasis>.</p><p>Tudo o que eu pude ouvir no in�cio foi um zumbido baixo e algum ru�do de fundo, e ent�o uma troca de palavras murmuradas com o gar�om. Bo disse:</p><p>� Avancei a fita para a parte boa. Elas est�o no Stables, prestes a fazer um brinde. Ou�a�</p><p>Assenti com a cabe�a, coloquei os cotovelos na borda da mesa da sala de jantar e cruzei os bra�os, um em cima do outro. Ent�o descansei minha fronte perturbada sobre eles, olhando para o gravador do mal a partir de um �ngulo lateral. Era tudo t�o terr�vel. Eu tinha grampeado minha pr�pria mulher, a m�e de meus filhos! O que Bo tinha dito? Os pensamentos secretos de uma mulher�</p><p>S� ent�o ouvi a voz da Duquesa, muit�ssimo feliz.</p><p>� Aqui est�, para quebrar um ciclo!</p><p>E a surpreendentemente cr�vel resposta da atriz:</p><p>� Sim! Para quebrar o ciclo de codepend�ncia!</p><p>Ent�o, o tilintar inconfund�vel de copos de vinho.</p><p>� Voc� acredita nessa merda? � murmurou Bo. � Eu nunca ouvi falar dessa merda de codepend�ncia antes. � uma porra alucinante.</p><p>Eu balancei a cabe�a, concordando. Ent�o a Duquesa recome�ou a falar. Ela estava reclamando de mim, dizendo que eu tinha dormido com prostitutas enquanto est�vamos casados. Bem, o que ela esperava? Ela havia sido minha amante, caralho! Ela sabia muito bem o que eu podia aprontar bem antes de se casar e agora jogava isso na minha cara�</p><p>De repente, fiquei alerta.</p><p>� Bem, tenho feito o melhor sexo da minha vida ultimamente, eu vou dizer para voc�! Sabe, os �ltimos anos com meu marido foram t�o chatos, a mesma posi��o o tempo todo�</p><p>O qu� Mas como ela p�de? Ela estava me castrando na frente de Debbie, uma estranha total! Algu�m que trabalhava para mim! Como poderia a Duquesa dizer que eu era uma merda na cama? N�o! Eu costumava enlouquec�-la! Ela costumava me chamar de seu pequeno pr�ncipe�</p><p>Sem pensar direito, deixei escapar uma olhada em dire��o a Bo, para avaliar sua rea��o. Ele estava olhando para mim? Ele estava sorrindo? N�o. Ele n�o estava. Bo estava olhando para o gravador, seu rosto uma m�scara de concentra��o. Ele acenava com a cabe�a devagar. E rangia os dentes, como faz uma pessoa quando est� tentando decifrar alguma coisa. De repente, ele olhou para cima. Eu abri a boca para me defender das acusa��es infundadas da Duquesa. As palavras n�o sa�ram. Eu n�o conseguia pensar em nada para dizer. A Duquesa tinha me castrado na frente de Bo tamb�m. Neg�-lo seria apenas me fazer parecer culpado.</p><p>S� ent�o Bo sorriu e balan�ou a cabe�a.</p><p>� � tudo mentira, Bo! Toda mulher diz que o marido � uma merda na cama. Faz parte do processo � ele deu de ombros. � Mas, se acontecer de voc� dar uma cutucada nela de novo, voc� deve tomar uns <emphasis>Viagris</emphasis> antes de colocar seu pau nela; da� voc� vai ensinar uma li��o pra ela!</p><p>Com isso, ele piscou e olhou novamente para o gravador. Eu descansei a testa de novo em meus bra�os, preparado para mais dor.</p><p>� De qualquer forma � disse a voz na fita �, eu tive um pequeno lance com meu <emphasis>personal trainer</emphasis> por um tempo, e foi muito bom � <emphasis>eu sabia!</emphasis> �, mas a� cansei dele e comecei a namorar Michael Bolton. Voc� o conhece? O cantor?</p><p>A voz de Debbie parecia surpresa.</p><p>� Sim, claro! Como ele era?</p><p>A voz da Duquesa:</p><p>� Ah, ele era bom. Muito rom�ntico, na verdade. Passamos um fim de semana juntos no Hotel Plaza. N�s nos hospedamos na su�te presidencial e ele encheu todo o quarto com flores frescas. � A voz na fita riu. � Como eu disse, ele era muito rom�ntico.</p><p>Eu olhei para Bo.</p><p>� Essa cadela ingrata! � eu disse. � Voc� sabe quantas vezes eu enchi a su�te presidencial com flores para ela? Ela se esquece disso!</p><p>Bo assentiu, compreensivo, e ent�o apontou para baixo, em dire��o ao gravador.</p><p>� Ou�a isso, Bo. Essa � a parte em que fica bom.</p><p>Eu balancei a cabe�a, incr�dulo, e olhei para o pequeno e maligno gravador. Traga mais dor, pensei.</p><p>A voz da Duquesa, enfiando mais a faca, continuou:</p><p>� De qualquer forma, houve alguns outros tamb�m: eu conheci um jogador profissional de golfe, enquanto estava na Pensilv�nia aprendendo sobre codepend�ncia, e ent�o fiquei com um dos meus ex-namorados por um per�odo, apesar de ter sido apenas pelos velhos tempos. � E continuou, muito mais feliz: � Mas agora estou envolvida com um cara que � dono de uma enorme confec��o! Eu gosto dele, na verdade, embora ele seja um pouco fechado emocionalmente. Vou ter que esperar para ver.</p><p>A voz da atriz:</p><p>� Ent�o voc� acha que seu marido vai comprar-lhe a casa?</p><p>Uma Duquesa de repente cansada respondeu:</p><p>� Bem, ainda estou trabalhando nisso. Ele � muito liso, ent�o tenho de saber lidar com ele. Veja, eu sei que ele ainda quer voltar comigo, ent�o meio que uso isso como vantagem, voc� sabe, dando a entender que ainda h� uma possibilidade. � Uma pausa, e ent�o: � Eu sei que n�o � a melhor coisa a se fazer, mas n�o tenho muita escolha, entende? E n�o vou lev�-lo no bico mais tempo do que precisar; quando eu o convencer a comprar a casa, pe�o o div�rcio no dia seguinte. A� eu posso seguir em frente com minha vida. Talvez me apaixonar por um dos empreiteiros locais ou um eletricista. Isso seria�</p><p>Bo apertou o bot�o de parada.</p><p>� Voc� ouviu o suficiente, Bo?</p><p>Olhei para Bo, sem palavras. A Duquesa tinha acabado comigo na fita. No entanto, de tudo o que ela disse, o coment�rio sobre fazer sexo na mesma posi��o todas as vezes foi o que mais me feriu. Tinha de haver algumas palavras que eu pudesse dizer a Bo para compensar esse coment�rio venenoso. Quebrei a cabe�a atr�s delas. Elas n�o existiam. Eu tinha sido oficialmente emasculado. A coisa mais importante era ter certeza de que Debbie juraria segredo. <emphasis>O que ela deveria estar pensando de mim?</emphasis></p><p>� Est� tudo bem, Bo? � perguntou Bo.</p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� Sim, eu estou bem. Eu estou bem � respirei profundamente e forcei um sorriso. � De qualquer forma, parece que ela ainda n�o se decidiu, n�o �, Bo? Talvez ainda haja esperan�a, certo? � eu comecei a rir.</p><p>Bo sorriu calorosamente.</p><p>� Esse � o esp�rito, Bo. Voc� s� tem que rir disso tudo.</p><p>Eu balancei a cabe�a, sorri tristemente e olhei em volta de minha linda casa, maravilhado com seu esplendor� E o qu�o pequeno tudo parecia. O tempo mais feliz que passei tinha sido com Denise, quando a gente n�o tinha nada.</p><p>S� ent�o Bo estendeu sua enorme m�o e a colocou em meu bra�o, apertando-o suavemente. Em um tom muito s�rio, ele disse:</p><p>� Ou�a-me, Bo, porque n�o vou falar merda para voc�. O que aconteceu com voc� ao longo dos �ltimos seis meses n�o deveria acontecer com ningu�m. N�o estou jogando confete. � uma merda. Tudo � uma merda � ele balan�ou a cabe�a lentamente. � Mas voc� tem que respirar fundo agora e recolher os cacos, entendeu? � hora de ser um homem. Voc� entende, Bo? Ser um homem?</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� Sim � respondi suavemente. � Entendo.</p><p>Ele apertou meu bra�o com mais for�a.</p><p>� Nenhuma mulher pode ter o melhor de voc�, Bo, nem esposa, nem namorada, nem amante, nem ningu�m. Exceto uma. Voc� sabe quem �, Bo?</p><p>Eu assenti com a cabe�a lentamente, lutando contra as l�grimas.</p><p>� Chandler � respondi suavemente.</p><p>� � isso mesmo, Bo, Chandler. Ela � a �nica que importa agora, o resto delas vai entrar e sair da sua vida. E voc� deve isso a ela, endireitar a coluna e manter a cabe�a erguida, e voc� deve isso a seu filhinho tamb�m � Bo sorriu nostalgicamente. � Eu me lembro de quando ele nasceu e quase morreu de meningite. Eu nunca vou esquecer como meu cora��o afundou quando Rocco me ligou do hospital e me disse o que estava acontecendo. Fui � igreja e fiz uma ora��o para ele naquela noite.</p><p>Eu assenti com a cabe�a, enxugando uma l�grima no canto do olho.</p><p>� Bem, funcionou. Ele � um bom garoto. Est� crescendo forte.</p><p>Bo sorriu.</p><p>� Sim, Bo, ele vai continuar crescendo, e ent�o ele vai procur�-lo um dia para que voc� mostre a ele o que significa ser um homem e que n�o importa quanta merda venha em sua dire��o, voc� sempre pode sair por cima � Bo encolheu os ombros largos. � E � isso, Bo, essa � a maneira como s�o as coisas. Seus filhos s�o suas constantes, eles s�o os �nicos que podem mant�-lo seguindo em frente em merdas como essa. De qualquer forma, voc� est� prestes a descobrir quem s�o seus verdadeiros amigos e quem estava junto apenas pelo passeio. Lembre-se, as amizades compradas com o dinheiro�</p><p>� N�o duram muito tempo � completei.</p><p>Bo assentiu.</p><p>� Tem mais. Lealdade comprada com dinheiro�</p><p>� N�o � lealdade de verdade � acrescentei.</p><p>� Exatamente, Bo.</p><p>Com isso, ele estendeu a m�o para o gravador, apertou o bot�o de ejetar, retirou a fita e segurou-a no ar. Ent�o disse:</p><p>� At� onde sei, essa coisa toda nunca aconteceu � ele colocou a fita no bolso interno da camisa. � Voc� n�o me deve nada por isso, Bo. Tudo que eu quero � sua amizade, porque eu, por mim, sou realmente seu amigo. E sempre serei.</p><p>E eu sabia disso.</p></section><section><p>CAP�TULO 16</p><p><strong>QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER</strong></p><p>Na manh� seguinte, acordei com: <emphasis>Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!� Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!</emphasis></p><p>Eu abri o olho direito e, sem levantar a cabe�a nem mesmo um cent�metro acima da fronha de seda branca, rolei meu pesco�o para a direita e fiz contato visual com o telefone do futuro, uma maravilha tecnol�gica cromada com duas dezenas de luzes vermelhas piscantes e a campainha mais irritante do mundo, a �ltima das quais soou como um pequeno pardal preso em um fio el�trico. O telefone estava descansando em uma mesa fabulosamente cara, que fazia parte de um conjunto que combinava, � claro.</p><p><emphasis>Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!� Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!</emphasis></p><p>� Caralho � murmurei. Eu estava t�o sonolento� N�o podia me mover. Minha cabe�a parecia pesar mil quilos.</p><p><emphasis>Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!� Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!</emphasis></p><p><emphasis>Porra!</emphasis> Quem estava ligando �quela hora? <emphasis>Que aud�cia!</emphasis> Eu me sentei na cama e respirei fundo. O edredom de seda branca estava agora estendido sobre minhas pernas, cobrindo minhas partes �ntimas, e, apesar de estar sozinho, minha vaidade me fez olhar para meu torso nu e correr os dedos sobre meus m�sculos abdominais. Eles pareciam bem, eu estava em uma forma fabulosa. Isso era importante, agora, sobretudo se eu queria atrair outra Duquesa, mas n�o era t�o importante quanto ser rico.</p><p>Bem, pelo menos eu ainda teria minha mans�o por um tempo. A mans�o no estilo <emphasis>shabby chic</emphasis> poderia ser um afrodis�aco muito poderoso. Eu olhei em volta do quarto. O teto ficava 9 metros acima do tapete de 15 mil d�lares e minha cama era digna de um rei. As colunas de madeira esculpidas como pinhas se erguiam dos quatro cantos da cama, apoiando um dossel de seda da Indon�sia que combinava perfeitamente com o tapete. A Duquesa amava essas merdas de doss�is. E ela amava seda tamb�m. A mans�o tinha sete quartos, e cada um tinha um maldito dossel de seda!</p><p><emphasis>Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!� Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!</emphasis></p><p>Foda-se! Estendi a m�o e peguei o telefone cromado.</p><p>� Al�! � murmurei, em um tom excessivamente sonolento que mostra que a liga��o foi feita em uma hora impr�pria.</p><p>A merda � que o que recebi em troca foi a voz vibrante e alegre da minha codependente menos favorita.</p><p>� Acorde e levante-se, dorminhoco! � declarou a Duquesa. � S�o 8h30! Temos um compromisso com o corretor de im�veis em duas horas!</p><p>Alegre, jovial, feliz!</p><p><emphasis>Mas que descarada!</emphasis> Eu fiquei sem palavras! Perdi completamente a fala! O que ela diria em seguida, que ia usar meu perfume favorito? Caralho! Se eu n�o tivesse prometido n�o explodir o disfarce de Debbie, eu daria um esporro na Duquesa naquele exato momento.</p><p>A Duquesa, ainda feliz, continuou:</p><p>� Acorde, menino dorminhoco! Hoje � o primeiro dia do resto da sua vida. Por que voc� n�o pede para a Gwynne fazer um caf�?</p><p>� Gwynne s� chega �s 9h � eu disse, sem emo��o. � E n�o estou a fim de tomar caf�.</p><p>A Duquesa, pegando meu tom, comentou:</p><p>� Nossa, algu�m parece terrivelmente mal-humorado esta manh�! Por que voc� n�o abre as cortinas para deixar entrar um pouco de claridade? Est� lindo l� fora!</p><p>Cerrei os dentes de raiva e lentamente virei a cabe�a para a esquerda, para as fabulosas cortinas. Deviam ter uns 6 metros, aquelas porras de cortinas, e deviam ter custado uma fortuna! Deus, como eu adoraria ter essa grana agora, em dinheiro vivo!</p><p>De repente, uma ideia!</p><p>� Sabe de uma coisa? � disse alegremente. � Voc� tem raz�o, seria bom ter alguma claridade aqui! Espere um segundo, querida � e inclinei-me para a mesa para pegar o controle remoto do futuro, que controlava tudo no quarto, desde as cortinas at� as luzes do centro de entretenimento do outro lado da cama, com a TV de alta defini��o de 40 polegadas e o sistema de som que inclu�a, entre outras coisas, um CD player para 300 discos. Tudo por 75 mil d�lares.</p><p>Primeiro, as cortinas: controle na m�o, apertei um quadrado marcado CORTINAS e, do nada, elas come�aram a se abrir lentamente, revelando um par de portas francesas que davam para um deque de mogno avermelhado com vista para o Atl�ntico.</p><p>� Ah, luz! � eu disse para a traidora. � Espere mais um segundo, querida.</p><p>Ent�o apertei um bot�o marcado CD SEARCH, fazendo um novo menu aparecer. Pressionei as letras B-O-L-T-O-N e um instante depois o �lbum <emphasis>Greatest Hits</emphasis> de Michael Bolton surgiu na tela, acompanhado por uma foto bastante irritante dele (com nariz grande, rosto fino e rabo de cavalo rid�culo) e uma lista de todas as suas 17 can��es de amor ridiculamente melosas, a maioria das quais ele havia roubado de outros artistas mais talentosos, todas feitas para manipular o cora��o e a mente das f�meas desavisadas.</p><p>Meus dentes ainda estavam cerrados de raiva quando coloquei o dedo indicador sobre a m�sica �When a Man Loves a Woman� [Quando um homem ama uma mulher] e apertei suavemente. Em seguida, mudei o dedo para o bot�o VOLUME UP e pressionei-o por alguns segundos.</p><p>A Duquesa, ainda feliz, perguntou:</p><p>� O que voc� est� fazendo a�?</p><p>� Nada � respondi, olhando para meu centro de entretenimento no estilo <emphasis>shabby chic</emphasis> e ouvindo alguns cliques e claques enquanto o CD player fazia o que tinha de fazer. � Eu estou apenas colocando algumas m�sicas para come�ar o dia.</p><p>� S�rio? � disse ela, um pouco confusa. � O.k.! Vou para a praia em breve. Imaginei que pod�amos passar o dia juntos.</p><p>� Bem, antes de entrar no carro, Nadine, eu acho que voc� deveria saber que estou repensando essa coisa de casa nos Hamptons. Na verdade, acho que voc� deveria dar um tempo em Old Brookville.</p><p>N�o t�o feliz, ela retrucou:</p><p>� Do que voc� est� falando? Pensei que j� tiv�ssemos discutido isso.</p><p>S� ent�o eu ouvi as notas de abertura da m�sica. Respirei profundamente, determinado a n�o revelar nada do que sabia.</p><p>� Sim � disse, friamente � mas voc� j� est� com tudo arrumado por a�. Entendeu? Suas atividades est�o todas organizadas, as aulas de culin�ria, e eu sei quanto gosta de ter Alex como seu <emphasis>personal trainer</emphasis>. Alex� � parei por um momento, deixando o nome romeno flutuar no ar. � Eu n�o consigo imaginar Alex gastando uma hora e meia de condu��o para vir aos Hamptons. Voc� entende?</p><p>� Eu n�o treino mais com ele � disse ela, nervosa.</p><p>� Ah, � mesmo? O que aconteceu?</p><p>� Nada. N�s tivemos, uh, um pequeno desentendimento.</p><p>Bem, isso � o que acontece quando voc� trepa com seu <emphasis>personal trainer</emphasis>, pensei. Mas eu n�o podia simplesmente dizer isso, porque comprometeria Bo. Ent�o retruquei:</p><p>� Bem, isso � o que acontece quando voc� trepa com seu <emphasis>personal trainer</emphasis>! Voc� tem um desentendimento!</p><p><emphasis>Desculpe, Bo!</emphasis></p><p>� Do que voc� est� falando? � disse ela, na defensiva.</p><p>Com veneno, respondi:</p><p>� Ah, voc� vai negar que trepava com aquele merda daquele romeno?</p><p>� Eu� Eu n�o�</p><p>� Ora, n�o gaste suas desculpas, Nadine! Eu sei que aquele porra fedorento estava dormindo em minha cama. Eu sei tudo sobre isso.</p><p>S� ent�o eu ouvi a voz repulsiva do desgra�ado de rabo de cavalo: �<emphasis>When a man loves a woman, can�t keep his mind on nothin� else</emphasis>� [�Quando um homem ama uma mulher/N�o consegue focar sua mente em nada mais�].</p><p>Ergui o telefone para o teto por um segundo, em dire��o aos 80 watts dos alto-falantes Bose, e ent�o o trouxe de volta ao ouvido, para ouvir a Duquesa dizer:</p><p>� E, por favor, desligue essa m�sica!</p><p>� N�o est� t�o alto assim � e ergui o aparelho de novo em dire��o aos alto-falantes. Ent�o eu o coloquei de volta ao ouvido e a ouvi gritar:</p><p>� � com voc�, Jordan! Pare! Por que voc� est� fazendo isso?</p><p>� Fazendo o qu�? � perguntei inocentemente. � Ouvindo Michael Bolton ou falando sobre o gosmento do romeno? Qual deles?</p><p>Em um p�nico calmo, ela perguntou:</p><p>� Quem est� contando tudo isso?</p><p>E eu, com um grito:</p><p>� Ah, por favor, Nadine! Com quem voc� acha que est� lidando? Sei dessa merda toda h� meses!</p><p>A Duquesa contra-atacou:</p><p>� Ah, �? E quem diabos � voc� para atirar pedras? Como se estivesse vivendo com um anjo por a�? Voc� dormiu com aquela garota judia nojenta que fez todos aqueles boquetes! � Um momento de sil�ncio e, em seguida, a Duquesa continuou: � E eu tamb�m sei sobre todas aquelas meninas russas loucas. Voc� nunca vai mudar! Voc� � um devasso!</p><p>� Sim, voc� est� certa � retruquei �, e voc� � uma merda de uma codependente, que fode seus colegas codependentes do tipo daquele jogador decadente da Pensilv�nia. O que ele lhe ofereceu: aulas de golfe de gra�a a cada trepada?</p><p>A Duquesa, incr�dula, acrescentou:</p><p>� Eu� Eu n�o sei do que voc� est� falando�</p><p>Com os dentes cerrados, eu disse:</p><p>� Eu nunca vou perdo�-la pelo que fez, Nadine. Voc� me deixou nos degraus do tribunal, sua puta fodida!</p><p>De volta para mim:</p><p>� E voc� me chutou escada abaixo, seu drogado do caralho! Eu espero que voc� morra na cadeia!</p><p>� Ah, �? � bati de volta. � Bem, eu espero que voc� morra de codepend�ncia!</p><p>E desliguei o telefone. �Vadia de merda!�, murmurei para o telefone do futuro. Respirei fundo e tentei me acalmar. Ent�o o telefone tocou: <emphasis>Brrruuu! Brrruuu!</emphasis> Eu o peguei em um mil�simo de segundo.</p><p>� V� se foder! O que quer agora?</p><p>� Bem, foda-se voc� tamb�m! � devolveu meu advogado. � O que foi, est� tendo uma manh� ruim por a�?</p><p>� Ah, ei, Greg! � respondi alegremente. � O que est� acontecendo?</p><p>� Nada � respondeu ele. � O que est� acontecendo com <emphasis>voc�</emphasis>?</p><p>Pensei sobre aquilo por um segundo.</p><p>� Ah, nada, na verdade. S� um pouco de bate-boca com minha futura ex-esposa.</p><p>� Entendo� � disse Magnum. � Posso perguntar por que voc� est� explodindo os alto-falantes com Michael Bolton �s 8h30 da manh�? O cara � uma merda!</p><p>� Opa! Espere um segundo � pressionei a pausa no controle remoto. � Desculpe por isso. Eu n�o sou f� de Michael Bolton, acredite em mim. Na verdade, eu vou atirar a porra desse CD no micro-ondas, assim que eu desligar o telefone.</p><p>� E por que isso? � perguntou meu advogado.</p><p>� Essa � uma conversa privilegiada entre advogado e cliente?</p><p>� Todas as nossas conversas s�o privilegiadas.</p><p>� Sem problema � eu disse. � Bem, acabo de descobrir que a Duquesa estava transando com o Michael Bolton. Voc� pode imaginar uma coisa dessas?</p><p>� S�rio? � disse Magnum. � O cara � pat�tico! Ela poderia conseguir coisa melhor.</p><p>� Ah, muito obrigado, Greg. Talvez voc� n�o esteja entendendo meu ponto aqui: o Michael-<emphasis>filhadaputa</emphasis>-Bolton estava comendo minha esposa!</p><p>� Enquanto voc�s estavam juntos?</p><p>� N�o! N�o enquanto est�vamos casados! Depois!</p><p>� Ent�o por que voc� est� t�o chateado? Voc� n�o ficou exatamente sentado, quietinho, l� fora. Seja como for, voc� pode vir para a cidade hoje?</p><p>� Por qu�? Algo de ruim aconteceu?</p><p>� Eu n�o diria ruim � respondeu ele �, mas n�o � a melhor not�cia do mundo. Eu resolvi seu acordo com o Joel.</p><p>� Quanto tempo eu posso ficar com as casas? � perguntei rapidamente.</p><p>� Bem, � diferente para voc� e Nadine � respondeu ele, com cautela. � Mas eu prefiro discutir isso pessoalmente. Venha fazer um passeio at� a cidade, vamos pedir alguns sandu�ches e ter um almo�o de trabalho. Gostaria que Nick participasse tamb�m.</p><p>Eu pensei por um momento, decidindo se deveria ou n�o pressionar para ter mais detalhes, mas ele logo disse:</p><p>� E tenho algumas boas not�cias para voc� tamb�m, que dizem respeito a seu amigo Joel. Portanto, mantenha o queixo para cima e o verei daqui algumas horas, tudo bem?</p><p>Sorri para o telefone.</p><p>� � isso a�! � respondi cordialmente. � Estarei a� ao meio-dia.</p><p>Desliguei o telefone do futuro, sabendo que o que Magnum iria me contar s� podia significar uma coisa: o Canalha estava saindo da Procuradoria.</p><empty-line/><empty-line/><p>MEU IMPONENTE ADVOGADO estava sentado atr�s de sua mesa, o rapaz branquelo de Yale estava sentado � minha direita e eu estava sentado em frente a Magnum, no �ngulo perfeito para dar algumas olhadelas na foto em que ele aparecia ao lado do juiz Gleeson, tirada quando trabalhavam juntos no Gabinete do Procurador dos Estados Unidos. Enquanto n�s tr�s est�vamos envolvidos em uma conversa fiada sobre as defici�ncias em nossas tacadas no golfe, me vi por vezes saindo fora do ar, focando a imagem do juiz Gleeson e rezando para que, quando chegasse a hora, ele se lembrasse de que Magnum e ele eram bons amigos.</p><p>� � e isso me faz bater na bola de lado � estava dizendo Magnum. � � por isso que eu mantenho o cotovelo direito perto do quadril. � Ele deu de ombros, intencionalmente. � � a chave para qualquer boa tacada no golfe.</p><p>Bela merda, pensei.</p><p>� � verdade � retruquei. <emphasis>Podemos voltar ao meu caso, pelo amor de Deus?</emphasis></p><p>O rapaz de Yale entrou na conversa.</p><p>� Sim � acrescentou �, mas n�o � esse seu problema, Greg. � sua ader�ncia. � muito fraca, � por isso que fica batendo fora � ele deu de ombros. � � geometria simples, na verdade. Quando voc� corta transversalmente�</p><p><emphasis>Ah, Jesus! Salvai-me!</emphasis> Sa� do ar novamente. Eu estava em seu escrit�rio havia 15 minutos e, at� ent�o, tudo bem. Como eu suspeitava, o Canalha estava planejando deixar a Promotoria. Exatamente quando, Magnum n�o tinha certeza, embora ele tivesse ouvido de �fonte confi�vel� que o Canalha j� teria ido embora no fim do ano. A boa not�cia era que isso significava que algu�m diferente escreveria minha carta para o juiz e havia boas chances de que fosse algu�m mais benevolente que o Canalha.</p><p>A m� not�cia, no entanto, era que o Canalha queria que minha coopera��o fosse tornada p�blica antes que ele renunciasse. Havia um grande n�mero de raz�es para isso, Magnum explicou, e uma delas era minha confiss�o de culpa (e coopera��o posterior), j� que isso era um grande feito da gest�o dele, que ele usaria para assegurar uma parceria em um grande escrit�rio de advocacia. Al�m disso, verificou-se um componente emocional envolvido, � medida que o Canalha desejava seus 15 minutos de fama, com a chance de realizar uma coletiva de imprensa e dizer: �Eu n�o s� trouxe o Lobo de Wall Street � Justi�a, mas tamb�m o transformei num dedo-duro de primeira, o que nos permitiu avan�os sem precedentes em dire��o � erradica��o das fraudes com pequenos valores de capitaliza��o nos Estados Unidos�.</p><p>O que o Canalha n�o iria dizer, no entanto, era que as fraudes com os pequenos t�tulos mobili�rios eram mais comuns <emphasis>agora</emphasis> que no auge da Stratton. De fato, com a prolifera��o da internet, as fraudes com a��es tinham se elevado a um n�vel inteiramente novo, e s� Deus sabia quantos milh�es eram perdidos a cada dia como resultado de e-mails falsos, mensagens fraudulentas e toda aquela mania ponto.com.</p><p>Ainda assim, n�o havia como negar que a sa�da do Canalha era uma boa not�cia para mim, ent�o n�s tr�s t�nhamos nos dado o direito de passar aqueles �ltimos minutos parabenizando-nos mutuamente. Meus advogados pareciam colocar aquilo como uma estrat�gia esperta da parte deles, embora eu estivesse convencido de que tinha mais a ver com meu valor em longo prazo como rato dedo-duro, o que era superior � paci�ncia do Canalha de trabalhar para o governo federal com sal�rios que eram quase escravid�o. Qualquer que fosse o caso, essa informa��o era estritamente confidencial e n�o poderia ser soprada para ningu�m.</p><p>O homem de Yale estava dizendo:</p><p>� � de dentro para fora, acima de tudo. Esse � meu segredo para manter a bola na grama curta � ele ofereceu a Magnum e a mim um aceno de cabe�a, ao qual Magnum acenou de volta, concordando.</p><p>Eu sorri e disse:</p><p>� Voc� sabe, meu problema com essa conversa � que n�s tr�s somos p�ssimos no golfe � levantei o queixo em dire��o a Magnum �, especialmente voc�, Greg. Ent�o, se voc� n�o se importa, eu gostaria que voc�s parassem com essa merda de tortura e me dissessem quando eu vou perder minhas casas.</p><p>Meu imponente advogado sorriu.</p><p>� � claro: sua casa tem que ser entregue em 1<sup>o</sup> de janeiro, e a de Nadine, no m�s de junho.</p><p>� Isso � p�ssimo � eu disse. � O que aconteceu com os quatro anos?</p><p>Magnum encolheu os ombros.</p><p>� Como eu sempre disse, Joel n�o � uma pessoa f�cil de lidar, principalmente agora, que est� se preparando para sair da Procuradoria-Geral. Ele quer extrair o m�ximo de sangue poss�vel antes de ir embora.</p><p>O homem de Yale disse:</p><p>� Na verdade, as coisas estavam ainda mais sombrias ontem.</p><p>� Isso mesmo � acrescentou Magnum. � Na manh� de ontem, Joel queria que Nadine entregasse a casa na mesma data que voc�, mas conseguimos convenc�-lo a recuar por causa de seus filhos. Ent�o, nesse sentido, de certa forma foi uma vit�ria.</p><p>� Sim � disse eu sarcasticamente �, uma vit�ria. Uma vit�ria de merda! � respirei fundo e devagar deixei escapar o ar. � E quanto dinheiro ficar� comigo?</p><p>� Oitocentos mil d�lares � respondeu Magnum �, al�m de cada um ficar com um carro, os m�veis e todos os bens pessoais. E voc� vai manter as notas promiss�rias que listou. Alguma delas j� � execut�vel?</p><p>Levei um tempo para registrar tudo em minha mente. Havia tr�s, a maior das quais com Elliot Lavigne, que me devia 2 milh�es de d�lares. Naqueles dias, Elliot tinha sido meu principal laranja, me mandando de volta milh�es de d�lares em dinheiro. Na �poca, ele era uma lenda no ramo da ind�stria do vestu�rio, subindo para a presid�ncia da Perry Ellis quando ainda estava na casa dos 30. Mas ele tamb�m era um viciado em drogas da pesada, um jogador degenerado e um devasso compulsivo (por isso n�s t�nhamos nos dado t�o bem), e acabou perdendo tudo, inclusive o emprego. N�s n�o nos fal�vamos desde que eu tinha ficado s�brio, e n�o havia nenhuma maneira, eu sabia, de ele me pagar de volta. Ele estava completamente falido.</p><p>A segunda maior promiss�ria era de Cabana, que era de 250 mil d�lares. Infelizmente, Cabana estava ainda mais quebrado que Elliot, e n�o havia nenhuma chance com ele. E depois havia o doutor David Schlesinger, um oftalmologista de Long Island que tinha se casado com Donna, amiga de inf�ncia da Duquesa. David era um cara muito bom, embora Donna fosse, em grande parte, uma cadela. No entanto, ele poderia me pagar de volta, e eu n�o tinha d�vida de que ele o faria. Afinal, eu tinha emprestado a ele 120 mil d�lares para come�ar seu consult�rio e agora ele estava fazendo dinheiro com isso.</p><p>Ainda assim, a maior vergonha em tudo isso era Elliot Lavigne. Se ele ainda tivesse dinheiro, � claro que iria me pagar! �ramos como irm�os de sangue, n�s dois. Eu at� tinha salvado a vida dele uma vez, depois que ele quase morreu afogado em minha piscina. Ironicamente, nem TOC, nem o Canalha nunca demonstraram muito interesse em Elliot, apesar das propinas em dinheiro. Mas isso foi bom para mim, j� que eles n�o levantavam o assunto, ent�o eu n�o precisava falar sobre ele.</p><p>Eu disse:</p><p>� Sim, acho que uma delas �, mas � s� de 120 mil d�lares, o resto � in�til. Seja como for, isso de fato n�o importa. No ritmo em que queimo dinheiro, estarei quebrado em seis meses de qualquer maneira.</p><p>� Bem, voc� tem de cortar despesas � retrucou Magnum. � E voc� tem de dizer a Nadine para cortar tamb�m! Isso n�o � brincadeira, Jordan. � hora de baixar o padr�o.</p><p>Eu balancei a cabe�a, dizendo n�o.</p><p>� N�o vou dizer uma palavra a Nadine sobre isso. Por mais que a odeie, n�o quero que fique preocupada. De qualquer forma, tenho mais de um ano para descobrir onde ela e as crian�as ir�o viver e, acredite, por bem ou por mal, eu vou garantir que seja em algum lugar bonito.</p><p>Magnum apertou os l�bios e balan�ou a cabe�a, como se fosse um oncologista prestes a dar um diagn�stico terminal a um paciente.</p><p>� Bem, infelizmente voc� vai ter que deix�-la saber de tudo um pouco mais cedo do que tinha imaginado. Joel quer que ela assine isto.</p><p>� Bem, isso � outra merda! � rebati. � Na verdade, tudo que est� acontecendo hoje � uma merda � balancei a cabe�a, desgostoso. � Quando eu tenho de dizer a ela?</p><p>Com o toque de um sorriso, me respondeu:</p><p>� Hoje.</p><empty-line/><empty-line/><p>QUANDO EU TELEFONEI para a Duquesa e lhe disse que precisava passar l� para falar com ela sobre algo, fiquei chocado que ela n�o tenha mandado eu me foder. Ela era uma menina do Brooklyn, afinal de contas, e, dada a natureza da nossa �ltima conversa, mandar eu me foder seria o equivalente a dizer �Eu acho que seria melhor se n�s nos comunic�ssemos por nossos advogados por um tempo�. E ent�o, algumas horas mais tarde, quando entrei pela porta da frente um pouco antes das 5 e as crian�as vieram correndo para meus bra�os, gritando �Papai est� aqui! O papai est� aqui!�, fiquei ainda mais chocado pelo modo como ela parecia genuinamente feliz com o amor de nossos filhos por mim.</p><p>Ela era uma mulher complicada e, apesar de todos os meus ressentimentos, havia uma parte de mim que sempre a olharia com admira��o. Ela havia se educado sozinha, melhorado e, para o bem ou para o mal, tinha aspirado � perfei��o em todos os aspectos de sua vida. Em muitos aspectos, ela era tudo o que eu nunca poderia ser: perfeitamente linda, totalmente autoconfiante e envolta por uma armadura emocional que a protegeu da dor; de outras formas, eu era tudo o que ela nunca poderia ser: inteligente, financeiramente autossuficiente e emocionalmente vulner�vel a uma falha.</p><p>Talvez, em um tempo e um espa�o diferentes, a gente pudesse ter composto belas m�sicas juntos, porque, no final, n�o foi a falta de amor que tirou o melhor de n�s, mas, sim, tudo o que o destruiu: o dinheiro, as drogas, a vida no <emphasis>jet-set</emphasis>, os falsos amigos. E, claro, a Stratton, a �rvore da qual apenas frutas venenosas brotaram, incluindo o fruto de nosso casamento. Apenas as crian�as tinham conseguido sair ilesas, um fato pelo qual eu sempre daria gra�as a Deus.</p><p>N�s est�vamos sentados na mesa da cozinha e eu tinha acabado de lhe dar todos os detalhes terr�veis sobre o que ocorrera, as datas, os valores e tudo o mais.</p><p>Sua resposta me chocou.</p><p>� Eu realmente sinto muito � disse ela calmamente. � Eu sei quanto essa casa de praia significa para voc�. Onde voc� vai viver agora?</p><p>Eu olhei para ela, espantado. Ela estava mesmo falando s�rio? Quer dizer, depois de tudo que eu tinha dito a ela, ela estava preocupada com o lugar onde eu iria viver? Mas e sobre onde <emphasis>ela</emphasis> iria viver? E o que aconteceria com as crian�as?</p><p>Eu estava prestes a falar isso quando de repente entendi: n�o era ironia. Ela simplesmente tinha andado pela vida debaixo de chuva por tanto tempo que assumiu que sempre seria assim. Tudo iria acabar bem para ela, ela sabia, e, por mais estranho que parecesse, eu sabia que ela estava certa.</p><p>Forcei um sorriso e disse:</p><p>� N�o se preocupe comigo, Nae, vou ficar bem. E n�o se preocupe com voc� e as crian�as tamb�m � olhei nos olhos dela. � Sempre cuidarei de voc�s, n�o importa o que aconte�a.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a, embora o que eu quisesse dizer com aquilo acho que nenhum de n�s soubesse. Com a maior sinceridade, ela disse:</p><p>� Eu sei que voc� vai cuidar de n�s o melhor que puder. E j� sabe quanto tempo ficar� fora?</p><p>� Eu ainda n�o tenho certeza � respondi. � Joel est� saindo da Procuradoria, o que � uma coisa boa para mim, mas tenho certeza de que vou pegar alguns poucos anos � dei de ombros, tentando fazer pouco da situa��o. � Este � o fim da linha, Nae: voc� vai tocar sua vida e eu vou para a merda da cadeia � sorri e dei uma piscada. � Que tal trocar de lugar comigo?</p><p>� N�o! � respondeu ela, com alguns acenos exagerados de cabe�a. � Mas prometo a voc� que as crian�as sempre v�o saber que o pai � um bom homem � ela estendeu a m�o e agarrou a minha, como um amigo faria. � Seus filhos sempre ir�o am�-lo, Jordan, e estar�o esperando por voc� assim que sair da cadeia.</p><p>Apertei sua m�o delicadamente e ent�o me levantei da cadeira e caminhei at� uma janela do ch�o ao teto, na parte de tr�s da sala. Apoiei o ombro nela e fiquei um momento ali, para saborear a beleza de minha propriedade. Era linda naquela �poca do ano. O gramado estava t�o verde quanto qualquer floresta tropical, e o lago e a cachoeira pareciam uma pintura. Como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse feito as coisas direito.</p><p>Ap�s alguns segundos, a Duquesa se juntou a mim na janela e olhou para fora.</p><p>� � lindo � disse ela. � N�o �?</p><p>� Sim. � dif�cil de acreditar que outra fam�lia vai viver aqui um dia, sabia?</p><p>Ela assentiu, mas n�o disse nada.</p><p>De repente, uma lembran�a agrad�vel:</p><p>� Ei, lembra o que a gente fez quando assinamos o contrato dessa casa?</p><p>Ela come�ou a rir.</p><p>� Lembro! A gente escapou pela propriedade e fez sexo na parte dos fundos!</p><p>� Exatamente! � disse eu, rindo. � Foram dias engra�ados aqueles, n�o?</p><p>� Sim, mas n�o foram os de que mais gostei.</p><p>Eu olhei para ela, surpreso.</p><p>� Ah, � mesmo? Quais foram?</p><p>� Os primeiros dias � respondeu ela, casualmente. � Naquele min�sculo apartamento na cidade. Eu te amava demais naquela �poca. Se voc� soubesse, Jordan� Mas voc� nunca se permitiu confiar em mim, por ser t�o rico quando nos conhecemos. � Ela parou por um instante, como se procurasse as palavras certas. � Eu quero que voc� saiba que sempre fui fiel enquanto est�vamos juntos. Eu nunca tra� voc� uma vez sequer! E, bem, o que aconteceu esta manh� ao telefone� � ela parou e balan�ou a cabe�a rapidamente, como se estivesse desgostosa consigo mesma � � Bem, foi uma exibi��o ruim da minha parte, e eu sinto muito.</p><p>� Eu tamb�m � repliquei rapidamente. � Foi uma exibi��o ruim da minha parte tamb�m.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Quero que voc� saiba que n�o estava tentando manipul�-lo com os Hamptons. � <emphasis>Ah, t� bom!</emphasis> � Ou melhor, talvez no final eu estivesse, mas n�o no in�cio. Quando surgiu a ideia, eu achava que havia uma chance para n�s � ela parou por um momento. � Mas, ent�o, ao longo das �ltimas semanas, bem, eu soube que n�o tinha. Muito aconteceu: muito machucado, muita dor, muitas lembran�as ruins. Eu n�o vou usar nenhum desses clich�s baratos aqui, mas acho que n�s definitivamente quebramos o recorde dos relacionamentos insanos, sabe?</p><p>Eu sorri tristemente, sabendo que ela estava certa.</p><p>� Sim, acho que fizemos isso � disse �, mas foi divertido por um tempo, pelo menos no in�cio � tentei animar o tom da conversa. � Pelo menos temos dois filhos maravilhosos, e eu sempre vou am�-la por isso � ofereci-lhe minha m�o, palma para cima, como se fosse realmente uma duquesa. � Ent�o, vamos l�, Duquesa, por que n�o vamos os dois l� para cima dar um beijo nas crian�as? Depois vou embora.</p><p>Ela sorriu, depois pegou minha m�o e l� fomos n�s, saindo da cozinha, pela sala de jantar, atravessando a enorme entrada de m�rmore e, em seguida, at� a suntuosa escada em espiral que levava ao segundo andar da mans�o.</p><p>Quando chegamos ao topo da escada, eu virei � direita, em dire��o ao quarto das crian�as, e ela virou para a esquerda, em dire��o ao quarto do casal. N�s ainda est�vamos de m�os dadas, de modo que parec�amos dois marinheiros se inclinando para ventos opostos. Eu sorri alegremente.</p><p>� O que voc� est� fazendo? � perguntei.</p><p>Ela apenas olhou para mim, com os l�bios comprimidos, como se fosse uma crian�a pensando em fazer algo impertinente. Ent�o, apontou com a cabe�a na dire��o do quarto.</p><p>� Venha para dentro comigo � disse ela, maliciosamente.</p><p>Meus olhos estalaram, abertos como um par de guarda-chuvas.</p><p>� O qu�? Voc� quer fazer amor comigo agora, depois que eu acabei de lhe dizer que perdi as casas?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a, ansiosa.</p><p>� Sim, � o momento perfeito. Eu nunca estive nesse casamento por causa do dinheiro! � que� � apertei os olhos, desconfiado, e ela voltou atr�s. � Tudo bem, n�o vou negar que o dinheiro definitivamente ajudou, mas eu poderia ter me casado com um monte de caras ricos. Eu escolhi voc� porque voc� era bonito. Voc� ainda � bonito! � piscou. � Ent�o, vamos l�! Vamos fazer uma �ltima vez antes de nos divorciarmos, tudo bem?</p><p>� Voc� vai na frente, eu sigo! � respondi alegremente, e um segundo depois a porta do quarto estava batendo atr�s de n�s e n�s est�vamos pulando naquele fabuloso edredom de seda, com seus milhares de pequenas p�rolas.</p><p>N�s come�amos a nos beijar profundamente. <emphasis>Que paix�o desenfreada! Que ferocidade sexual! Como nunca antes!</emphasis> A Duquesa cheirava t�o bem que parecia quase imposs�vel. Eu queria aquela mulher, para possu�-la por toda a eternidade.</p><p>� Eu te amo � gemi.</p><p>� Eu tamb�m, sempre vou te amar� ela gemeu de volta.</p><p>Puta!, pensei.</p><p>� Eu tamb�m � respondi de maneira amorosa, e come�amos arrancando fora nossa roupa, opa, a Duquesa estava sem suti�! Empurrei meus mamilos nus contra seus mamilos nus e minha barriga nua contra a barriga nua dela. <emphasis>Que suavidade senti! Que calor!</emphasis> A Duquesa era uma chama furiosa! Dominada pela paix�o! Eu nem conseguia pensar direito!</p><p>De repente, ela interrompeu o beijo, me olhou nervosamente e murmurou:</p><p>� Eu espero� � resfolegou � que voc� n�o esteja pensando� � resfolegou � que vai passar a noite aqui � resfolegou de novo �, pois nem consigo pensar � resfolegou � em me ver acordando� � resfolegou de novo � com voc� amanh� de manh�.</p><p>Cadela!, pensei.</p><p>� Claro que n�o � resfoleguei. � Eu tenho uma reuni�o em Southampton � resfoleguei � logo cedo de manh�.</p><p>� Ah, bom � murmurou ela. � Agora, fa�a amor comigo.</p><p>E acabaram-se os sufocos. As pernas da Duquesa� <emphasis>Perfei��o!</emphasis> Como eram macias, flex�veis! Como nunca antes! Aquelas coxas, os tornozelos finos, aqueles quadris celestiais! Meu sistema nervoso estava numa sobrecarga sensorial, e eu adorei.</p><p>� Beije-me suavemente � gemeu a Duquesa. � Do jeito que costumava fazer�</p><p>Sim, pensei, vou beij�-la suavemente, do jeito que costumava fazer, e ent�o farei amor com ela, do jeito que eu costumava fazer, comigo em cima e as pernas gostosas dela presas juntas, para ter mais fric��o. A Duquesa adorava dessa maneira!</p><p>Com grande ternura, coloquei as m�os em seu rosto, os l�bios nos l�bios dela e beijei-a suavemente, respirando cada mol�cula dela. Seus l�bios estavam totalmente deliciosos, totalmente brincalh�es, assim como costumavam ser.</p><p>Ent�o, n�s ficamos ali, apenas nos beijando, durante o que pareceu um tempo muito longo.</p><p>Finalmente eu parei nosso beijo e olhei para minha linda Duquesa, em seus fabulosos olhos azuis, e decidi dar-lhe uma �ltima tentativa.</p><p>� Eu ainda te amo � disse baixinho, rezando para que ela devolvesse minhas palavras.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a rapidamente.</p><p>� Eu tamb�m te amo � disse ela. � Agora venha fazer amor comigo, querido.</p><p><emphasis>Ela ainda me amava!</emphasis></p><p>Em seguida, um choque, quando ela disse:</p><p>� Espere um segundo. Deixe-me virar, assim a gente pode fazer por tr�s.</p><p>E mais rapidamente do que parecia poss�vel, a Duquesa escapou por debaixo de mim e agachou-se sobre os joelhos, de costas para mim. Em seguida, ela cruzou os bra�os sobre seus seios e arqueou as costas, como um gato, empurrando sua bunda para tr�s. E disse urgentemente:</p><p>� Depressa, venha agarrar meus bra�os e me abra�ar por tr�s!</p><p>Cadela!, pensei. Ela aprendeu um novo truque na minha aus�ncia! N�o havia insulto maior! Quem tinha lhe ensinado aquilo? Aquele estilo de cachorrinho com os bra�os cruzados? Fora aquele bastardo de rabo de cavalo? Ou o imbecil do jogador de golfe? Ou, o que seria pior, o romeno de merda?</p><p>S� ent�o ela balan�ou a cabe�a loira e me encarou intrigada.</p><p>� O que voc� est� esperando? � resfolegou. � Me pegue agora ou me perca para sempre!</p><p>Olhei para ela, sem palavras.</p><p>Ela sorriu timidamente.</p><p>� Ah, vamos l�, bobo! Voc� vai gostar dessa maneira!</p><p>Puta!, pensei. E ent�o sorri.</p><p>Acabamos fazendo amor apaixonadamente naquela noite de quinta-feira, e acho que ambos sab�amos que seria pela �ltima vez. Por que isso tinha de acontecer, eu nunca saberia, embora suspeitasse que tivesse algo a ver com um encerramento, de que n�s dois desesperadamente precis�vamos. T�nhamos descido ao inferno e voltado juntos, e agora era hora de seguir em frente. De alguma forma, eu sabia que n�s sempre nos amar�amos.</p></section><section><p><strong>LIVRO III</strong></p></section><section><p>CAP�TULO 17</p><p><strong>A ARTE DA AUTODESTRUI��O</strong></p><p><strong>Tr�s meses depois</strong></p><p>Est�vamos em algum lugar ao longo de Staten Island, perto da divisa com Nova Jersey, quando percebi que n�o conseguiria voltar a Southampton naquela noite para meu toque de recolher. Eu me lembro de descer a m�o para minha perna esquerda e levantar a bainha da cal�a de gabardine, para dizer algo como:</p><p>� Er� Eu n�o fui totalmente honesto com voc�, Kiley. Essa coisa no meu tornozelo n�o � realmente um bipe � e de repente eu ouvi o som lamentoso e horr�vel, e os pilotos na frente estavam apontando nervosamente para as luzes laranja do painel de instrumentos do helic�ptero Sikorsky S-76, que estava girando para o oeste a 140 n�s com vento de cauda de Atlantic City.</p><p>E ent�o, os lamentos cessaram. Kiley estava sentada � minha esquerda, presa pelo cinto a um dos suntuosos assentos de couro do Sikorsky, e parecia � beira das l�grimas.</p><p>� Eu� Eu nunca estive em um helic�ptero antes � murmurou Kiley, que usava um minivestido de seda vermelho de 2 mil d�lares que eu tinha acabado de comprar em uma loja da moda em Southampton. � Est� certo ele fazer esses ru�dos todos?</p><p>� Sim � respondi casualmente �, isso acontece o tempo todo.</p><p>Eu tinha conhecido Kiley algumas horas antes, ent�o eu n�o sabia quase nada sobre ela, a n�o ser que tinha 22 anos de idade, fora criada em Vancouver, na Col�mbia Brit�nica, e tinha chegado a Nova York para tentar a carreira de modelo, mas a interrompera por um transtorno alimentar que fez com que seu peso aumentasse e diminu�sse 15 quilos em quest�o de dias. Agora ela pesava em torno de 60 quilos, o que a tornava um pouco carnuda demais para uma modelo de 1,72 metro, e por isso Kiley estava com dificuldades para encontrar trabalho. No entanto, ela era linda, com caracter�sticas perfeitamente cinzeladas, pele cor de mel, l�bios carnudos, ma��s do rosto elevadas e olhos castanhos amendoados.</p><p>De repente, o helic�ptero come�ou a executar uma curva fechada para a direita e entrou em um mergulho �ngreme. Os olhos puxados de Kiley se arregalaram.</p><p>� Ah, meu Deus! � gritou ela. � O que h� de errado agora? Por que estamos indo para baixo?</p><p>Eu agarrei sua m�o de forma tranquilizadora.</p><p>� N�o sei � disse calmamente, mas o que eu n�o disse foi: �Coisas como essa s� tendem a acontecer comigo. Voc� sabe, coisas que voc� costuma ver nos filmes, como avi�es caindo, carros batendo, iates afundando, cozinhas explodindo, helic�pteros que precisam ser empurrados para o oceano para abrir espa�o para o resgate� Mas n�o tenha medo, Kiley, porque eu sempre consigo escapar com vida!�.</p><p>Foi ent�o que o copiloto se virou em sua cadeira e deslizou para tr�s uma divis�ria fina que separava a cabine do piloto da cabine de passageiros. Com um sorriso confiante, ele enfiou seu nariz na ranhura e afirmou:</p><p>� Estamos com algum problema mec�nico, por isso precisamos fazer um pouso de emerg�ncia em Teterboro. � Ele piscou para Kiley. � N�o se preocupe, senhora. Teterboro fica apenas a alguns quil�metros de dist�ncia. N�s ficaremos muito bem.</p><p>Ent�o ele deslizou a divis�ria e a fechou, virou-se em seu assento e come�ou a dizer algo ao piloto. Eu olhei para Kiley, que at� ent�o estivera bastante radiante, mas at� a �ltima gota de cor tinha desaparecido de sua fabulosa pele. Ent�o coloquei a m�o sobre o ombro dela e disse:</p><p>� Relaxe, Kiley. Eu j� passei por isso antes e sempre acaba tudo bem � apertei a m�o dela novamente. � Al�m disso, voc� tem apenas 22 anos, e isso n�o � idade para uma jovem morrer!</p><p>Ela balan�ou a cabe�a tristemente.</p><p>� Eu menti para voc�! Tenho apenas 17 anos!</p><p>Foi quando eu soube que estava fodido.</p><empty-line/><empty-line/><p>EU TINHA CERTEZA de que a idade para estupro diferia de Estado para Estado; assim, enquanto o Sikorsky fazia sua descida no Aeroporto de Teterboro, me vi tentando descobrir qual Estado teria jurisdi��o sobre mim se eu decidisse comer Kiley: Nova York ou Nova Jersey? Na verdade, n�s hav�amos decolado de Southampton, que era em Nova York, e a idade legal l� era 17 anos, mas agora est�vamos indo para Atlantic City, que fica em Nova Jersey, onde a idade legal era� Eu n�o tinha bem certeza� E esse era o problema, porque era l�, em uma chamativa su�te do Trump Castle Casino, onde eu estava planejando consumar o ato. Ent�o qual era a idade legal de Jersey?, perguntei-me.</p><p>Obviamente, n�o era o tipo de pergunta que eu poderia fazer aos pilotos pela janelinha, especialmente com Kiley junto de mim. Ap�s uma inspe��o mais minuciosa, Kiley realmente parecia estar nas �ltimas fases da puberdade. Na verdade, aquela fina camada de gordura que eu tinha anteriormente atribu�do a um dist�rbio alimentar estava agora desprendendo o preocupante cheiro de gordura de beb�, pertencente a uma adolescente ainda em florescimento.</p><p>Ainda assim, nada daquilo era culpa minha, porque quando eu coloquei os olhos em Kiley ela estava nua em um de meus chuveiros e tinha cabelo em todos os lugares certos, bem como um par de alegres peitinhos que pareciam ter idade suficiente para votar. E ela nem mesmo estava sozinha! Em p� ao lado dela havia outra menina nua � uma garota loira de olhos azuis chamada Lisa que, como Kiley, tamb�m parecia ter idade suficiente para votar �; e as duas estavam envolvidas em um apaixonado beijo, saboreando os momentos finais de um frenesi de Ecstasy.</p><p>Mesmo essa cena n�o era t�o estranha quanto parecia, duas jovens modelos que eu nunca tinha visto antes se esgueirando em minha casa para tomar um banho de chuveiro juntas, porque, desde meados de julho, era de conhecimento comum que nos Hamptons havia essa fabulosa casa em Meadow Lane onde qualquer jovem modelo podia aparecer, dar um sorriso lascivo e ficar por quanto tempo desejasse. E mesmo eu sendo o primeiro a admitir que esse tipo de comportamento de devorador compulsivo de modelos era totalmente detest�vel, percebi que, com minha vida � beira da implos�o, eu poderia tamb�m encerr�-la com chave de ouro!</p><p>Por isso, foi assim que decidi passar meu �ltimo ver�o em Meadow Lane: faturando modelos enquanto a Duquesa e eu divid�amos as crian�as, alternando os fins de semana.</p><p>Chandler, sendo a garota do papai, adorava o movimento, embora gostasse mais de torturar as jovens modelos que seu papai tinha faturado, assegurando que elas n�o significavam absolutamente nada para ele e que qualquer restaurante a que ele as levasse ou qualquer butique onde lhes comprasse um vestido seria o mesmo restaurante ou butique onde ele havia levado uma d�zia de outras garotas exatamente iguais a elas. O ponto de vista de Chandler era: <emphasis>voc� � uma puta in�til e algu�m mais jovem e mais bonita que voc� vai substitui-la na pr�xima semana</emphasis>.</p><p>Carter, por outro lado, n�o dava a m�nima. Ele estava muito ocupado na piscina ao ar livre, o que, na l�ngua de Carter, era uma <emphasis>piscinaolivre</emphasis>. Quando ele n�o estava l�, podia ser encontrado na sala de TV, assistindo a v�deos dos Power Rangers, enquanto modelos seminuas se sentavam ao lado dele e esfregavam sua barriguinha, garantindo que fariam o que ele quisesse se ele emprestasse seus c�lios para uma foto. Um dia, eu tinha certeza, Carter iria ficar muito emputecido quando descobrisse que havia afastado todas aquelas jovens belezas s� porque tinham atrapalhado seus filmes dos amados Power Rangers.</p><p>Numa observa��o � parte, foi em algum momento no final de julho que ouvi falar de algu�m chamado John. Chandler tinha trazido o nome em primeiro lugar, descrevendo-o como �o novo amigo californiano de mam�e�. John. John. No come�o n�o dei muita import�ncia �quilo, embora uma vozinha dentro de minha cabe�a insistisse em dizer: �Esse cara pode ser problema�. N�o era o fato de a Duquesa ter um namorado, eu estava bem com isso. O que eu n�o aprovava muito era ele morar do outro lado do pa�s. Afinal, se ela se apaixonasse por ele, poderia querer se mudar para l�.</p><p>Eu n�o sabia muito sobre o cara, apenas que ele era um pouco mais velho que eu, que era muito rico (<emphasis>puxa, que surpresa</emphasis>) e que era dono de uma enorme ind�stria de roupas infantis em Los Angeles. Eu tinha resistido ao impulso de chamar Bo para fazer sua parte, decidindo, em vez disso, deixar as coisas quietas. Da forma como eu via as coisas, a Duquesa estava fazendo a parte dela, namorar nas f�rias, de forma que as chances de ela se apaixonar por John eram m�nimas.</p><p>A �nica coisa que vinha me incomodando de verdade � al�m do fato de que eu estava queimando dinheiro mais r�pido que um pa�s da Am�rica Latina � era o modo obstinado como TOC estava perseguindo o Chef. Na verdade, eu tinha estado em Nova Jersey duas vezes nas �ltimas quatro semanas, tentando fazer o Chef discutir nossos antigos neg�cios para gravar em fita. Mas em ambas as vezes ele se recusou. Ainda assim, TOC estava certo de que em algum momento ele o faria. Ele era um bandido nato, raciocinou TOC, e n�o seria capaz de resistir � tenta��o para sempre.</p><p>Ironicamente, fora por causa dessas duas viagens recentes a Nova Jersey que eu tinha aceitado a ideia de Kiley de ir a Atlantic City. Eram cerca de 11 horas da manh� e eu estava na cozinha fazendo o caf� da manh� para ela e Lisa quando Kiley teve a ideia:</p><p>� Voc� me levaria um dia para Atlantic City para me ensinar a jogar?</p><p>O que de fato complicou as coisas foi eu achar Kiley atraente, n�o apenas na apar�ncia, mas em personalidade tamb�m. Ela era vibrante e vivaz � exalando uma certa inoc�ncia infantil que, na �poca, atribu� ao fato de ela ter sido criada no Canad�, e n�o de ela ser realmente uma crian�a.</p><p>� Ent�o voc� nunca foi Atlantic City antes? � perguntei a ela.</p><p>� N�oooo � respondeu ela inocentemente. � Voc� me levaria at� l�?</p><p>Hoje eu me lembro de pensar que seu tom era o de uma crian�a perguntando ao av� se ele estaria disposto a lev�-la ao zool�gico, um dia. Quando perguntei a Kiley quantos anos tinha e ela disse �22; e voc�?�, eu estava inclinado a acreditar nisso. Foi quando comecei a calcular os riscos de fazer uma viagem n�o autorizada de helic�ptero para Atlantic City, enquanto ainda estava em pris�o domiciliar.</p><p>No final, acabei reduzindo as coisas para dois riscos distintos: primeiro, deixar o Estado de Nova York sem aprova��o pr�via e, segundo, a possibilidade de ficar preso em Atlantic City por ter violado meu toque de recolher � meia-noite. Quanto ao jogo, eu n�o estava t�o preocupado, porque n�o era ilegal. Eu tamb�m n�o estava muito preocupado em ter de levar 50 mil d�lares em dinheiro para convencer Donald Trump a despachar um helic�ptero. Afinal, eu tinha duas vezes esse valor no cofre do meu quarto, que, por mera coincid�ncia, era o tanto de dinheiro que eu supostamente teria de entregar ao governo como parte do meu confisco de bens (eles simplesmente n�o tinham aparecido para peg�-lo ainda). Ent�o, qual seria o mal, conclu�, se eu s� pegasse emprestado alguns d�lares deles?</p><p>Nenhum, pensei. Ent�o liguei para o cassino, pedi o helic�ptero, levei Kiley para comprar roupas, tomei um empr�stimo de curto prazo do governo federal e me dirigi para o heliporto.</p><p>Agora, no entanto, seis horas depois, eu estava preso em Teterboro, em um hangar dilapidado, com uma menina menor de idade e prestes a quebrar o toque de recolher. Estar em Jersey, percebi, era o menor de meus crimes.</p><p>� Isso significa que n�o vamos? � lamentou Kiley.</p><p>Olhei para meu rel�gio e balancei a cabe�a gravemente.</p><p>� Eu n�o sei, Kiley. J� s�o 9 horas e eu preciso estar em casa por volta da meia-noite.</p><p>Com um bico, ela disse:</p><p>� � triste.</p><p>� Sim, � � concordei com um aceno de simpatia e, em seguida, concentrei-me no fato de que meu toque de recolher n�o era realmente um toque de recolher� Ou era? Bem, tecnicamente era, mas na pr�tica n�o era, sobretudo em uma noite de domingo onde uma viola��o inofensiva (como aquela) provavelmente iria escorrer atrav�s das rachaduras. Sim, talvez a empresa de monitoramento fizesse uma chamada para Patrick Mancini, meu agente da pr�-condicional, e ele poderia apenas supor que minha tornozeleira estivesse com problema de funcionamento. Por que, afinal, aquela coisa podia ter um problema de vez em quando, n�o �? Sim, isso certamente acontecia e, al�m disso, Pat sabia que eu n�o era um cara que apresentasse risco de fuga, certo? Claro, eu tinha quase certeza disso, e ele estava bem ciente de que eu era uma testemunha que colaborava com o governo federal (do lado da retid�o do problema).</p><p>Nesse momento o piloto veio sorrindo:</p><p>� A boa not�cia � que foi apenas um indicador de combust�vel � disse ele alegremente. � E estar� consertado dentro de 20 minutos.</p><p>Kiley pegou minha m�o e come�ou a agit�-la para cima e para baixo, como a dizer �Ebaaa! Ebaaa! Agora podemos ir para Atlantic City!�.</p><p>� E qual � a m� not�cia? � perguntei.</p><p>O piloto deu de ombros.</p><p>� Bem, o que ocorre � que eu e o copiloto estamos fora de nosso hor�rio de servi�o. Voc�s v�o ter que esperar dois novos pilotos, que estar�o aqui em cerca de uma hora�</p><p>Kiley olhou para mim, confusa.</p><p>� O que isso significa? � perguntou tristemente.</p><p>Minha vontade era dizer: �Significa que isso � o que acontece quando voc� viaja com o antigo Lobo de Wall Street. Qualquer coisa que pode dar errado, vai dar errado!�. Mas em vez disso eu disse:</p><p>� Significa que estamos presos aqui por um tempo.</p><p>Outro bico amuado:</p><p>� Ent�o n�o vamos agora?</p><p>Olhei para Kiley e dei de ombros.</p><p>� Deixe-me pensar por um segundo.</p><p>Percorri a situa��o novamente em minha mente. Bem, �bvio que eu n�o poderia dormir com Kiley; ela era muito jovem. Mas, por outro lado, eu era um jogador muito bom, ent�o talvez eu pudesse ganhar alguma grana!</p><p>� H� um telefone por aqui? � perguntei ao piloto.</p><p>Ele apontou o dedo na dire��o de um telefone de parede.</p><p>� Obrigado � disse, e um segundo depois eu deixei uma mensagem no correio de voz de Pat Mancini, explicando que eu estava preso na �cidade�, sem dizer em <emphasis>qual</emphasis> cidade, e que estaria de volta bem tarde naquela noite ou na manh� seguinte. Ent�o desliguei o telefone e fiquei olhando para ele por um segundo, me perguntando se eu tinha acabado de cometer um grande erro. N�o, pensei. Patrick tinha as m�os cheias de assassinos e estupradores e eu j� tinha tomado a decis�o de n�o ter rela��es sexuais com Kiley. Com esse pensamento, caminhei de volta para Kiley e lhe ofereci um sorriso paternal.</p><p>� Tudo bem, querida, n�s vamos!</p><p>� Ebaaaaaa! � ela gritou. E foi isso.</p><empty-line/><empty-line/><p>N�O HAVIA COMO NEGAR que Donald Trump ostentava o pior penteado deste lado da Cortina de Ferro, mas o safado sabia como ganhar dinheiro! Em Atlantic City, ele possu�a tr�s cassinos: Trump Plaza, Taj Mahal e Trump Castle. Eu preferi o Castle porque tinha um heliporto no telhado, o que permitia entradas e sa�das r�pidas. Isso � importante numa cidade como Atlantic City, onde a decad�ncia pode lan�ar um jogador em uma pirueta emocional quando ele j� est� prestes a saltar de uma janela.</p><p>Mas algo estava me incomodando.</p><p>Desatei meu cinto de seguran�a e deslizei a divis�ria, abrindo-a:</p><p>� Com licen�a � disse ao novo copiloto, apontando para o telhado do Castle, que se aproximava. � Por que n�o vamos pousar no telhado hoje � noite?</p><p>O piloto deu de ombros.</p><p>� N�o sei � respondeu ele. � Fomos informados para desembarcar no cais. Isso � tudo que eu sei.</p><p>� Hummm � murmurei. � Talvez o telhado esteja fechado para reparos.</p><p>� N�o que eu saiba � respondeu o copiloto.</p><p>Poucos minutos mais tarde, Kiley e eu est�vamos sentados na parte traseira de um carro de golfe el�trico, com um motorista do Trump Plaza atr�s do volante. Sentado ao lado do motorista estava um funcion�rio elegantemente vestido, tamb�m do Trump Plaza. Ele tinha um horr�vel amontoado de cabelos grisalhos e uma atitude escorregadia.</p><p>� Eu n�o entendi: quando liguei para a se��o informa��es hoje � tarde, pedi especificamente pelo n�mero do Trump Castle.</p><p>Ele soltou um largo sorriso:</p><p>� Bem, eles devem ter cometido um erro. Isso acontece o tempo todo. Enfim, somos todos parte da fam�lia Trump, certo?</p><p>� Est� tudo bem? � perguntou Kiley. � Voc� parece chateado.</p><p>Peguei a m�o dela e segurei-a.</p><p>� N�o, est� tudo bem, querida. � s� uma pequena confus�o, isso faz parte do pacote quando se viaja comigo.</p><p>Kiley riu como uma colegial.</p><p>� Aproveitando o ensejo � disse o funcion�rio desprez�vel do cassino �, vi seu velho amigo Elliot Lavigne l� em baixo. Ele estava detonando nas mesas�</p><p>� Voc� quer dizer, ele estava <emphasis>jogando</emphasis>? � perguntei incr�dulo.</p><p>� Sim, por que voc� est� surpreso? Ele � um jogador compulsivo, n�o �?</p><p>Eu assenti lentamente.</p><p>� Sim, claro� Mas a �ltima coisa que ouvi dele � que estava quebrado.</p><p>O anfitri�o balan�ou a cabe�a e sorriu.</p><p>� N�o mais � disse conscientemente. � Ele est� fazendo milh�es de novo. Ele tem uma linha de roupas e agasalhos de <emphasis>hip-hop</emphasis> que se chama� H� Fat Farm� ou Fubu, n�o sei bem�</p><p>Kiley, como uma estilista, falou:</p><p>� Ah, eu conhe�o a Phat Farm!</p><p>Olhei para Kiley e n�o resisti.</p><p>� Por que, voc� foi para uma cl�nica de engorda?<sup>*</sup></p><p>Ela soltou minha m�o e me deu um tapa no ombro.</p><p>� N�o � esse tipo de <emphasis>fat farm</emphasis>, espertinho! Esse � soletrado P-H-A-T. E � uma g�ria, quer dizer legal ou boa apar�ncia. Voc� sabe, como se diz, �essa menina � <emphasis>phat</emphasis>� ou �esse cassino � <emphasis>phat</emphasis>!�.</p><p>� Acho que ela est� certa � disse o anfitri�o do cassino.</p><p>� Eu tamb�m penso assim � concordei e sorri para Kiley, que estava radiante.</p><p>Ent�o ela disse:</p><p>� Quem � Elliot Lavigne?</p><p>O anfitri�o do cassino e eu trocamos um olhar.</p><p>� Ah, ele � apenas um velho amigo meu � respondi casualmente, <emphasis>que por acaso me deve 2 milh�es de d�lares, os quais agora posso pegar de volta!</emphasis> � Ele � um cara pitoresco.</p><p>� Ah � disse uma Kiley sem no��o de nada. � Parece um cara legal.</p><p>Com isso, o anfitir�o e eu trocamos outro olhar. Cinco minutos mais tarde, Kiley e eu est�vamos caminhando pelo cassino de bra�os dados, como dois jovens amantes. Ela olhava para l� e para c�, observando todas as mesas de jogos e as m�quinas ca�a-n�queis e os espelhos e as luzes estrobosc�picas com o tipo de express�o impressionada que voc� veria normalmente em uma menina de 5 anos de Dubuque, Iowa, que estivesse passeando na Times Square pela primeira vez.</p><p>Com passos confiantes, conduzi-a para uma mesa de jogo de dados.</p><p>Havia seis pessoas em torno dela, todas exibindo a mesma express�o degenerada de jogadores de dados.</p><p>� Veja isso � disse a Kiley e, com um sorriso diab�lico e uma piscadela, abri minha bolsa de gin�stica azul da Nike e despejei 50 mil d�lares em dinheiro sobre a mesa de dados. Em seguida, olhei para o caixa, um sujeito de 1,95 metro com um bigod�o que parecia desafiar a gravidade, e disse:</p><p>� Fichas, por favor.</p><p>Houve um momento de sil�ncio, enquanto o resto da mesa olhava espantado. <emphasis>Ah, sim! O Lobo estava de volta! E espere at� v�-lo jogando!</emphasis> Ohhhh� Eu era o bonz�o, claro! Como o porra do James Bond!</p><p>O homem alto do caixa sorriu e disse:</p><p>� Vinte mil d�lares para o senhor Belfort jogar enquanto contamos.</p><p>E assim eu recebi 20 mil em fichas.</p><p>Kiley parecia impressionada.</p><p>� Como eles conhecem voc�? � sussurrou ela.</p><p>Ah, por favor!, eu pensei. Todo mundo me conhece por essas bandas! Eu costumava ser o Lobo de Wall Street, pelo amor de Deus!</p><p>� Isso n�o � nada � disse com confian�a. � Observe enquanto limpo todos esses filhos da puta!</p><p>E rapidamente comecei a jogar.</p><p>Cinco minutos depois, a maioria de minhas fichas tinha ido embora e Kiley perguntava:</p><p>� Por que eles continuam pegando suas fichas e levando embora?</p><p>Balancei a cabe�a tristemente, enquanto olhava para os 18 mil d�lares do dinheiro do governo sendo empilhados do lado errado da mesa de dados.</p><p>� Estou numa mar� de azar � resmunguei. � Preciso dar um jeito de ainda ficar com os outros 30.</p><p>Foi ent�o que o alt�o do caixa veio at� mim segurando uma prancheta.</p><p>� Assine aqui, senhor B � e me entregou a prancheta e uma caneta.</p><p>Com o cora��o apertado, assinei um recibo que parecia um cheque de banco. Ent�o, com um profundo suspiro, devolvi a ele. O homem assentiu com a cabe�a uma �nica vez e disse:</p><p>� Eu s� preciso de uma c�pia da sua carteira de motorista � acrescentou, � e voc� estar� pronto para ir.</p><p>� Nenhum problema � respondi, mas fui procurar em meu bolso de tr�s e� � Que merda! � murmurei. � Esqueci a maldita carteira � olhei para o homem e sorri. � Tenho certeza de que voc�s t�m uma c�pia no arquivo, certo?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� Na verdade, n�s n�o temos, senhor B. O senhor nunca jogou aqui antes.</p><p>� Hummm � resmunguei. � Acho que voc� est� certo. Deixe-me pensar� Que tal ligar para o Castle e pedir que eles lhes mandem um fax da minha carteira? Isso deve resolver, certo?</p><p>Olhei para Kiley e pisquei. O Lobo de Wall Street era um mestre em resolver problemas!</p><p>Infelizmente, o homem-caixa come�ou a balan�ar a cabe�a novamente.</p><p>� N�o � assim que as coisas funcionam, senhor. Uma vez que voc� mostra 10 mil em dinheiro, � preciso consultar a identidade. A lei � assim.</p><p>Inclinei a cabe�a de lado e disse:</p><p>� Ent�o deixe-me entender direito as coisas: voc�s pegam 50 mil do meu dinheiro, contam, me d�o 20 mil em fichas para jogar e perder, e agora voc� n�o vai me dar uma chance de ganhar meu dinheiro de volta?</p><p>O homem-caixa deu de ombros.</p><p>� � mais ou menos assim, senhor B.</p><p>Senhor B? <emphasis>Senhor B!</emphasis> Mas era uma piada do caralho! Se a cara dele n�o tivesse duas vezes meu tamanho, eu daria um soco de direita naquela porra detest�vel de bigode! Respirei fundo e disse:</p><p>� Tudo bem, posso falar com seu chefe, por favor? Tem de haver alguma forma de resolver isso.</p><p>� Claro! � disse o homem-caixa, feliz em passar o abacaxi adiante.</p><p>Cinco minutos depois, n�o s� o chefe dele estava l�, mas havia cinco ternos o acompanhando, e todos pareciam pertencer � fam�lia Corleone� Os ternos se mostraram, por�m, todos muito bons, muito pacientes, mas depois de co�ar os queixos, o Terno de todos os Ternos, quer dizer, o gerente do turno, finalmente me disse:</p><p>� Desculpe, senhor B, mas n�o h� nada que eu possa fazer, a n�o ser enviar algumas garrafas de champanhe at� sua su�te para que o senhor e a linda mo�a desfrutem � e piscou para ela.</p><p>� Tudo bem. Vou pegar minhas fichas e trocar agora � olhei para Kiley. � Venha, querida, est� na hora de irmos embora.</p><p>� Certo � disse ela, alheia. � E vamos para onde?</p><p>Com um sorriso demente, respondi:</p><p>� Primeiro n�s vamos sacar o dinheiro e ent�o voaremos para casa � olhei para o gerente. � Pode fazer o favor de chamar o helic�ptero para n�s?</p><p>� Est� muito tarde, senhor � respondeu ele, parecendo lutar contra o desejo de sorrir. � O helic�ptero j� est� no caminho de volta para Long Island. Mas n�o se preocupe, n�s temos uma bela su�te para voc�s e vamos enviar-lhe algumas garrafas de Dom P�rignon e um pouco de caviar.</p><p>� Que �timo! � chilreou Kiley. � Eu amo caviar!</p><p>Olhei para ela, sem palavras.</p><p>� Ent�o, est� bem � disse o gerente de turno, sentindo minha dor. � Vamos at� os caixas de forma que possa trocar suas fichas.</p><p>Sim, pensei, � hora de colocar um fim nesse pesadelo.</p><empty-line/><empty-line/><p>� MAS QUE PORRA voc� est� me dizendo? � quase gritei para a bruxa velha do outro lado do vidro � prova de balas. � Como voc� n�o pode me dar meu dinheiro de volta?</p><p>� Lamento muito � a resposta veio firme, atrav�s de uma fenda em uma estrutura de alum�nio brilhante. � Eu n�o posso lhe dar o dinheiro a menos que me mostre sua identidade. � a lei.</p><p>Eu estava perplexo. Chocado. Em descren�a absoluta.</p><p>L� estava eu, de p� dentro �da gaiola�, que era do tamanho de um banheiro no Denny�s, acompanhado por uma garota menor de idade, um gerente de turno que era provavelmente um chamariz da m�fia e uma pilha de multicoloridas fichas de cassino no valor de 32 mil d�lares, com as quais estava agora encalhado porque a bruxa velha do outro lado do vidro � prova de balas era uma defensora dos detalhes. Aquilo era bizarro!</p><p>Virei-me para o chefe de turno e disse:</p><p>� Voc� tem de fazer alguma coisa, isso n�o est� certo � e ent�o apertei os dentes e balancei a cabe�a lentamente, como se dissesse: �Algu�m vai pagar por isso, no fim!�.</p><p>O chefe de turno ergueu as palmas das m�os no ar e deu de ombros.</p><p>� O que posso fazer? � disse inocentemente. � A lei � a lei.</p><p>Com frustra��o no cora��o, olhei para Kiley e disse:</p><p>� Voc� sabe por que essa merda acontece s� comigo e com mais ningu�m?</p><p>Ela abanou a cabe�a nervosamente.</p><p>� Porque eu atraio essa merda pra cima de mim! Eu sou um porra de um man�aco por castigos, � por isso! � e voltei a olhar para o vidro � prova de balas, encarando desconfiado a bruxa velha. Ent�o rodei o pesco�o, como um homem � beira de um ataque. � Ou�a � disse, com um tom de l�gica na voz, apoiando os cotovelos na bancada de f�rmica preta do meu lado do vidro. � Em geral, eu sou um cara sensato, ent�o me deixe apenas dar-lhe um resumo dos acontecimentos da noite e, em seguida, voc� me diz se mere�o ter meu dinheiro de volta, o.k.?</p><p>A bruxa deu de ombros.</p><p>� Bem � disse eu �, vou tomar isso como um �sim�.</p><p>E ent�o comecei a lhe contar minha hist�ria de afli��es, iniciando pelo mau funcionamento do helic�ptero e terminando com o fiasco da carteira de motorista esquecida, enquanto cuidadosamente omitia todas as refer�ncias � tornozeleira, a meu esp�rio telefonema para Patrick Mancini, ao problema da idade de Kiley, a meu empr�stimo sem juros do dinheiro do governo federal e por �ltimo (mas n�o menos importante�) ao fato de que eu estava sob condicional e n�o fora autorizado a pisar em Atlantic City, para come�o de conversa. E disse:</p><p>� Acho que � bastante �bvio que eu sou quem digo que sou. Ent�o por que voc� n�o troca as fichas e me deixa ir embora em paz, certo? � lancei meu sorriso mais razo�vel para a bruxa. � � pedir demais?</p><p>A bruxa velha ficou me olhando por alguns segundos a mais do que as boas maneiras recomendam. Depois veio sua resposta firme, atrav�s das fendas:</p><p>� Me desculpe. Eu n�o posso trocar suas fichas a menos que voc� mostre sua identidade. � a lei.</p><p>� Tudo bem� � respondi. � Achei que seria isso mesmo que voc� responderia.</p><p>Essas foram as �ltimas palavras que eu disse para a bruxa velha naquela noite. Na verdade, foram as �ltimas palavras que eu disse a qualquer pessoa naquela noite, com exce��o de Kiley, que acabou por ser uma excelente companhia numa viagem t�o azarada quanto aquela. Claro, jamais coloquei um dedo nela, mas, olhando para aquele dia hoje, sei que teve menos a ver com as leis de estupro e mais com meu pr�prio senso de certo e errado. Afinal, a maneira que eu tinha escolhido para passar meu �ltimo ver�o em Meadow Lane era uma vergonha. Eu sabia disso melhor que ningu�m, mas simplesmente n�o conseguia me controlar. Era como se eu estivesse determinado a me autodestruir� N�o, era como se eu <emphasis>precisasse</emphasis> me autodestruir.</p><p>Talvez estivesse pensando que, se realmente me destru�sse, queimando todos os bens que possu�a, tanto f�sicos quanto emocionais, ent�o de alguma forma eu poderia fazer o rel�gio voltar no tempo, para uma �poca antes da Stratton, antes que a �rvore envenenada brotasse. Talvez. Ou talvez eu tivesse apenas ficado maluco�</p><p>De qualquer maneira, havia certas linhas que eu mesmo n�o poderia atravessar: uma delas tinha sido Dave Beall e a outra tinha sido Kiley. Ao mesmo tempo que os dois n�o tinham nenhuma rela��o, cada um � sua maneira permitiu que eu me aferrasse a meus �ltimos vest�gios de respeito pr�prio.</p><p>Quando cheguei em Southampton na manh� seguinte, pedi um t�xi para Kiley, dei-lhe um beijo na bochecha e mandei-a seguir seu caminho. Eu sabia que um dia acabaria me encontrando com ela de novo, e provavelmente me daria um chute na bunda por n�o ter me aproveitado dela naquela noite de domingo. Afinal, voc� n�o se depara com meninas como Kiley todos os dias, sobretudo no mundo real e sobretudo se voc� � um cara como eu, com um p� no xadrez e outro no asilo.</p><p>Ent�o eu estava sentado em uma cadeira na minha sala de estar, olhando para o oceano Atl�ntico e tentando fazer com que tudo tivesse um sentido. Era quase meio-dia e Patrick Mancini n�o tinha ligado ainda, o que significava que ele nunca o faria. Em suma: eu tinha escapado!</p><p>Ent�o, o telefone tocou.</p><p>Ai, meu Deus!, pensei. Me pegaram! T�o r�pido como um rel�mpago, comecei a fabricar em meu c�rebro um �libi para tudo aquilo. Tinha de haver uma explica��o� Eu tinha ido visitar meu irm�o em Montclair, Nova Jersey, e me perdido no caminho� Estava procurando novos lugares para meu pr�ximo encontro com o Chef� <emphasis>Sim!</emphasis></p><p>O telefone se manteve tocando.</p><p>Eu peguei o sem fio.</p><p>� Sim? � disse, num tom resignado e sombrio.</p><p>� Aqui � seu advogado � disse meu advogado. � Voc� est� sozinho?</p><p>Com voz superdireita, afirmei:</p><p>� Eu juro por Deus, eu nunca toquei nessa menina, Greg! Voc� mesmo pode ligar para ela e perguntar! � de repente, percebi que eu n�o tinha o n�mero de telefone de Kiley. Na verdade, eu n�o sabia nem mesmo seu sobrenome. Ela era Kiley, a crian�a.</p><p>� Do que voc� est� falando? � perguntou Magnum. � Que menina?</p><p>� Esque�a � murmurei. � Eu estava apenas divagando� O que est� acontecendo?</p><p>� Recebi um telefonema muito perturbador de Joel Cohen hoje pela manh�.</p><p>Minha boca imediatamente ficou seca.</p><p>� Sobre o qu�?</p><p>� Ele diz que voc� pode ter violado o acordo de coopera��o. Ele quer encontr�-lo no primeiro hor�rio amanh� de manh�.</p><p>Eu senti uma onda de p�nico subindo por minha coluna vertebral, acompanhada de desespero. Se eu n�o estivesse sentado, teria ca�do. Permane�a calmo, pensei. Voc� n�o fez nada. <emphasis>Nada!</emphasis></p><p>� Isso � imposs�vel! � respondi com confian�a. � Ele disse como?</p><p>� N�o especificamente, mas tenho a impress�o de que ele pensa que voc� pode ter alertado algu�m sobre sua coopera��o. Alguma ideia do que ele est� falando?</p><p><emphasis>Alertado.</emphasis> Que palavra estranha para se usar. O que isso queria dizer no contexto? Alertar, deixar algu�m saber que eu estava cooperando? Sim, minha coopera��o deveria ser algo secreto, mas havia algumas pessoas que tinham de saber, como minha esposa, por um lado, e meus pais� E George� Mais ningu�m; nem mesmo Bo tinha sido alertado � <emphasis>alertado!</emphasis> Eu tinha dito isso a alguns de meus amigos? N�o, a nenhum. Para a Rainha do Boquete? N�o. Para alguma das Natashas impertinentes? Ningu�m, n�o. Eu n�o tinha dito isso para uma �nica alma, na verdade. Ent�o, eu estava limpo.</p><p>Sentindo-me muito confiante, disse:</p><p>� N�o, Greg. Eu n�o alertei ningu�m. Juro. Joel est� completamente enganado.</p><p>� Isso � bom � respondeu ele calmamente. � Voc� n�o tem nada com que se preocupar, ent�o. Tenho certeza de que � apenas um engano. N�s vamos esclarecer tudo isso logo na primeira hora de amanh�.</p><p>� Sem d�vida � disse rapidamente. � Onde ele quer se reunir?</p><p>� No centro, na sede do FBI. Eu n�o estarei l�, tenho que viajar para um depoimento. Mas n�o se preocupe, Nick estar� com voc�.</p><p>� Isso � bom � disse. � Nick � um bom homem.</p><p>E al�m disso, pensei, quando voc� n�o tem nada a esconder, n�o tem nada a temer.</p><p>Gra�as a Deus.</p></section><section><p>CAP�TULO 18</p><p><strong>O IMPENS�VEL</strong></p><p>Com os ombros firmes, o queixo erguido e o branquelo do homem de Yale a meu lado, entrei na sala de reuni�es (ou de interrogat�rio?) preparado para o pior. Imediatamente, tr�s coisas me pareceram estranhas, a come�ar pelo fato de que todos os meus quatro captores tinham vindo para as festividades do dia: o Canalha, o TOC, o M�rmon e, infelizmente, a Bruxa M� do Leste, que eu n�o via h� quase um ano. Os quatro estavam sentados de um lado da mesa, esperando que o homem de Yale e eu tom�ssemos nossos lugares em frente a eles.</p><p>A segunda coisa estranha era que todo mundo estava vestido formalmente, incluindo TOC, que quase nunca fazia isso. Meus captores masculinos estavam com o palet�, a gravata apertada no colarinho. Trajes de tribunal. O homem de Yale e eu tamb�m us�vamos ternos, assim como a Bruxa, que ostentava um tailleur de poli�ster preto que, assim como o resto de seu guarda-roupa, necessitava desesperadamente de algumas altera��es.</p><p>E a terceira estranheza, a mais perturbadora de todas, foi que notei a aus�ncia das trocas de amabilidades iniciais de abertura. O Canalha apertou minha m�o molemente e n�o disse nada. O M�rmon apertou minha m�o com firmeza e disse:</p><p>� Como � que vai, cara? � usando aquele tipo de tom sombrio que um treinador da faculdade usaria com um jogador antes de cort�-lo da equipe e revogar sua bolsa de estudos.</p><p>O TOC apertou minha m�o com for�a, um pouco forte demais, de fato, como se fosse um general romano gentil enviando um de seus soldados para um po�o de gladiador repleto de le�es. E a Bruxa nem sequer apertou minha m�o.</p><p>Ent�o, nos sentamos.</p><p>� Tudo bem, vamos tratar dos casos, ent�o � come�ou o Canalha, calmamente. � Michele� � e ele estendeu a m�o em dire��o a ela, palma para cima.</p><p>A Bruxa assentiu com a cabe�a e entregou-lhe uma pasta grossa de arquivos legais que estava segurando. Ent�o, colocou suas m�os pequenas na mesa e come�ou a girar os polegares na velocidade da luz.</p><p>Eu senti meu cora��o pular uma batida.</p><p>Com muito cuidado, o Canalha depositou o arquivo na frente dele. E olhou para ele. A pasta estava fechada, mantida assim por um barbante marrom claro, que envolvia a pasta e dava voltas em um fino disco de papel�o do tamanho de uma moeda de 10 centavos. O safado s� se manteve olhando a pasta.</p><p>Olhei para o homem de Yale, confuso. Ele revirou os olhos e deu de ombros, como se dissesse: �� apenas teatro, n�o significa nada�. Eu assenti com a cabe�a e olhei para o Canalha, que ainda estava olhando para o arquivo � teatralmente.</p><p>Por fim, fazendo uma imita��o quase perfeita do assustador e impenetr�vel agente Smith, do filme <emphasis>Matrix</emphasis>, o Canalha lentamente come�ou a desenrolar o barbante marrom, numa velocidade incr�vel e em c�rculos perfeitos. Quando acabou, abriu lentamente a pasta com os arquivos e olhou para um documento que estava no topo da pilha.</p><p>Ainda olhando para baixo, ele disse, no tom assustador do agente Smith:</p><p>� Senhor Belfort, voc� j� se confessou culpado de praticamente todas as fraudes de valores mobili�rios para as quais temos leis � verdade, pensei. � Manipula��o de a��es, viola��es de 10B5, fraudes em vendas, fraudes com moedas� � ele lentamente olhou para cima � e, claro, lavagem de dinheiro � ele deslizou o documento para meu lado da mesa. � Voc� est� familiarizado com este documento, senhor Belfort?</p><p>Olhei para o papel por um momento e ouvi o agente Smith dizer:</p><p>� Por que n�o deixa o senhor De Feis examin�-lo para voc�, para que n�o haja nenhum erro?</p><p>Ansioso para agradar, o homem de Yale inclinou-se e estudou o documento por um momento.</p><p>� � seu acordo judicial � sussurrou em meu ouvido.</p><p><emphasis>N�o diga, Sherlock!</emphasis> � o que diz bem em cima!</p><p>O homem de Yale veio em meu socorro:</p><p>� � o acordo judicial dele, Joel.</p><p>� Eu gostaria de ouvir o senhor Belfort dizer isso � rebateu o agente Smith.</p><p>� � meu acordo judicial � disse eu, monocordicamente.</p><p>O agente Smith assentiu com a cabe�a e voltou os olhos para a pasta, olhando fixamente para ela por um momento. Depois de uns bons 10 segundos, ele pegou um segundo documento do topo da pilha e deslizou-o sobre a mesa para mim. Ent�o, ergueu os olhos.</p><p>� E voc� sabe que documento � esse, senhor Belfort?</p><p>Estudei-o por um momento.</p><p>� � meu acordo de coopera��o.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� � isso mesmo. Na parte inferior da p�gina, voc� ver� uma frase real�ada em amarelo. Por favor, leia em voz alta.</p><p>� O r�u concorda em ser sincero e honesto em todos os momentos.</p><p>O homem de Yale parecia estar ficando sem paci�ncia:</p><p>� Onde voc� quer chegar, Joel? Voc� est� dizendo que ele n�o tem sido sincero e honesto?</p><p>O Canalha se recostou na cadeira e sorriu com os l�bios finos.</p><p>� Talvez, Nick. � Ent�o ele me olhou e disse: � Por que voc� n�o nos diz, Jordan? Voc� foi sincero e honesto?</p><p>� Claro que sim! � respondi rapidamente. � Por que eu n�o seria?</p><p>Olhei ao redor da sala e todos os quatro algozes me encaravam, inexpressivos.</p><p>A Bruxa come�ou falando:</p><p>� Voc� est� dizendo que nunca tentou nos enganar, nem uma vez sequer�</p><p>Eu balancei a cabe�a em um �n�o�, confiante; n�o havia nenhuma maneira que eles j� pudessem ter descoberto sobre Atlantic City. Afinal, tinha acontecido na noite anterior� Tudo bem, duas noites atr�s, pensei. Mas, seja como for, eu sempre tinha sido verdadeiro, a menos que� <emphasis>Dave Beall! O bilhete! N�o!</emphasis> N�o podia ser! Nem em um milh�o de anos! Empurrei esse pensamento para longe de minha mente� N�o tire conclus�es precipitadas. Ele nunca iria me denunciar. N�o levaria nenhuma vantagem com isso. E eu o tinha protegido. Salvado. Alertado. <emphasis>Alertado! Alertado!</emphasis></p><p>� Existe alguma coisa que voc� queira nos contar? � perguntou TOC, cruzando os bra�os sobre o peito.</p><p>� N�o! � respondi com seguran�a. Depois, n�o t�o seguro assim. � Quer dizer, claro que n�o. Eu s� n�o tinha bem certeza sobre o que voc�s queriam que eu dissesse� Er� Sobre honestidade � olhei para meus captores, um por um, at� que meus olhos se fixassem sobre o Canalha. � E ent�o, sobre� H� Confiabilidade� � senti-me compelido a adicionar isso, embora n�o tivesse ideia do porqu�.</p><p>Mas ele parecia sentir o cheiro de sangue.</p><p>� Deixe-me ser mais espec�fico, ent�o � disse ele, pacientemente. � Voc� nunca disse a ningu�m que estava cooperando conosco?</p><p>Uma faca direta no cora��o! Era hora <emphasis>de blefar</emphasis>!</p><p>� Sim � disse confiante.</p><p>� Para quem?</p><p>� Meus pais, uma vez. Ou duas, pode-se dizer � sorri da minha piada. � Isso � crime?</p><p>O Canalha n�o sorriu.</p><p>� N�o, isso n�o � crime � respondeu. � E para quem mais?</p><p>� H��� � minha boca estava ficando seca. � Contei � minha mulher, � claro � os l�bios pareciam vibrar �, porque eu tinha de contar a ela. Por um monte de motivos. Para come�ar, ela teve de assinar o confisco � <emphasis>de repente, me veio uma ideia</emphasis> �, e pode ser, n�o sei, que ela tenha deixado escapar para uma de suas amigas, por acidente�</p><p>� como para Laurie Beall, se voc�s pegaram minha dica, que em seguida pode ter contado a Dave Beall, e a� tudo virou esse mal-entendido gigantesco.</p><p>� Quer dizer, nunca enfatizei que ela devia manter isso em segredo. Talvez devesse� Isso � um problema?</p><p>O Canalha sacudiu a cabe�a.</p><p>� N�o, acho que sua esposa � inteligente o suficiente para saber o que est� em jogo aqui. Para quem mais?</p><p><emphasis>Mantenha a calma!</emphasis></p><p>� Para George � respondi com confian�a.</p><p>O Canalha olhou para TOC, que disse:</p><p>� � o padrinho dele no AA � ent�o TOC acenou com a cabe�a para a frente e para tr�s, como se dissesse: �George est� limpo!�.</p><p>Finalmente, o homem de Yale entrou na conversa:</p><p>� Acho que a gente pode cortar essa baboseira aqui, certo, Joel? � evidente que voc� acha que Jordan contou a algu�m que estava cooperando, ent�o por que simplesmente voc� n�o nos diz quem � essa pessoa? Ent�o a gente pode ir direto ao assunto.</p><p>O Canalha deu de ombros, ignorando as palavras do homem de Yale com tal indiferen�a que parecia que ele n�o estava mesmo dando-lhe cr�dito por ter ido para Yale. Em seguida, ele la�ou-me um sorriso medonho e disse:</p><p>� Voc� nunca passou um bilhete para ningu�m, Jordan?</p><p><emphasis>Deus meu! Meus piores receios foram confirmados!</emphasis> N�o consigo pensar. Preciso dar um tempo nesse neg�cio. E negar.</p><p>� Como assim, um bilhete? Se passei um bilhete para algu�m, quando? Na escola�? Quando voc� quer dizer? Na faculdade ou�</p><p>� Desde que voc� come�ou a cooperar � disse TOC, poupando-me de meu pr�prio absurdo.</p><p>� N�o � atirei de volta. � Ou, bem, talvez, na verdade. Quer dizer, eu tenho que pensar sobre isso, porque tem, uh, uma quest�o importante.</p><p>Fiz uma pausa por um momento, desesperado para fugir. Quantos agentes do FBI estavam no edif�cio? Muitos. Mas podia ser minha �nica oportunidade! O TOC poderia colocar algemas em mim a qualquer momento, naquela mesma sala. O Canalha iria estalar os dedos e apontar para meus pulsos e o TOC iria fechar as algemas t�o r�pido que me daria vertigem! Mas eles poderiam fazer isso sem um juiz? Talvez. <emphasis>Provavelmente. Definitivamente!</emphasis> Eu precisava falar com o homem de Yale. Mas, n�o, se eu pedisse privacidade, eles saberiam que eu era culpado. M� jogada. Melhor blefar. <emphasis>Negar! Negar! Negar.</emphasis></p><p>Voltei a falar asneiras:</p><p>� Bem, teve aquela vez em Nova Jersey, quando eu estava com Gaito e Brennan, se isso � o que voc� quer dizer. Depois que n�s jogamos uma partida de golfe, escrevi o nome de uma a��o no papel dos resultados e passei a Dennis. Mas isso est� na fita, pode checar.</p><p>� Isso � um desperd�cio de tempo � cuspiu a Bruxa. � Sabemos que est� mentindo para n�s. Nunca poderemos usar voc� como testemunha.</p><p>� O que significa dizer adeus para a carta ao juiz � acrescentou o Canalha.</p><p>A Bruxa retomou a palavra:</p><p>� De acordo com meus c�lculos, voc� deve pegar mais de 35 anos.</p><p>Agora, o Canalha:</p><p>� Mas, se jogar limpo com a gente agora mesmo, talvez exista uma chance. Talvez � ele me olhou com o rosto s�rio. � Eu vou perguntar pela �ltima vez, e s�. Voc� alguma vez passou um bilhete para algu�m?</p><p>O homem de Yale veio a meu resgate:</p><p>� Quero falar com meu cliente em particular antes de prosseguirmos � ele agarrou meu bra�o. � Venha, vamos l� para fora por um segundo ter uma conversa.</p><p>Minha resposta imbecil:</p><p>� N�o, est� tudo bem, Nick � e afastei o bra�o dele. � N�o tenho nada a esconder. Eu n�o fiz nada de errado. Juro por Deus. Nunca passei para ningu�m nenhum bilhete e posso passar pelo detector de mentiras para provar.</p><p>Sim, eu poderia passar pelo detector de mentiras� Sharon Stone tinha feito isso em <emphasis>Instinto selvagem</emphasis>, embora ela n�o estivesse mentindo. Mas, ainda assim� Eles poderiam n�o saber! Eles poderiam estar apenas jogando um verde! Sem um pingo de prova� Eu tinha pegado o bilhete ou foi Dave que o pegou? N�o tinha certeza� Mas n�o fa�a um jogo limpo. Fazer jogo limpo aqui � o mesmo que morrer. Al�m disso, talvez eles nem sequer saibam que � Dave. Se soubessem com certeza, bastaria dizer de primeira e pronto. Eles estavam tentando for�ar uma confiss�o! N�o havia d�vidas sobre isso!</p><p>As �ltimas palavras do Canalha:</p><p>� Tudo bem, ent�o voc� nunca passou a ningu�m um bilhete. Beleza� � dizendo isso, ele deu de ombros e fechou a pasta de arquivos. E ent�o disse para o homem de Yale: � Sinto muito, Nick. N�o podemos usar seu cliente como testemunha; ele n�o � confi�vel. Se ele mente para n�s aqui, vai mentir na frente do j�ri.</p><p>Na sequ�ncia, a Bruxa levantou-se da cadeira, apenas para ser interrompida pelo vozeir�o do TOC:</p><p>� Tudo isso � besteira! � e olhou furiosamente para a Bruxa. � Sente-se um segundo, Michele! � Ent�o olhou furiosamente para mim. � Ou�a bem � disse ele em um tom que nunca tinha usado comigo antes. � Sei exatamente o que aconteceu. Voc� saiu para jantar com Dave Beall e deslizou-lhe um bilhete dizendo: <emphasis>N�o se incrimine! Estou com um microfone!</emphasis> Em seguida, voc� deixou o restaurante e mentiu na minha cara, dizendo que tinha feito o melhor que podia!</p><p>Ele fez uma pausa, mas n�o foi de desgosto. Ele estava desapontado comigo. Eu era uma estrela entre seus colaboradores e o tinha decepcionado, talvez at� mesmo envergonhado.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio e, em seguida, ele disse:</p><p>� Sempre agi corretamente com voc�, desde o primeiro dia, e estou lhe dizendo agora, sem conversa mole, que, se voc� n�o disser a verdade sobre o assunto, Joel vai quebrar seu acordo de coopera��o e voc� ir� passar os pr�ximos 30 anos na pris�o. E, mesmo jogando limpo, ele ainda poderia romper seu acordo e voc� envelheceria na cadeia � TOC tomou f�lego e deixou o ar escapar lentamente. � Mas nunca menti antes e n�o estou mentindo para voc� agora. Voc� tem que jogar limpo ou n�o h� nenhuma chance.</p><p>O homem de Yale quase saltou da cadeira.</p><p>� O.k.! � disse ele, num tom de voz s� um pouco mais suave que um grito. � Quero cinco minutos com meu cliente, sozinho! E agora. � Em seguida, ele suavizou seu tom um pouco. � Por favor, todo mundo aguarde no corredor enquanto eu confiro as coisas com meu cliente!</p><p>� Claro � disse o Canalha. � Leve o tempo que precisar, Nick.</p><p>Na sa�da, TOC travou os olhos comigo e assentiu com a cabe�a lentamente. <emphasis>Fa�a a coisa certa,</emphasis> disseram seus olhos. E ent�o ele saiu.</p><empty-line/><empty-line/><p>� EU SUPONHO que voc� tenha feito isso � afirmou meu advogado.</p><p>Eu olhei ao redor da sala de reuni�es, ou de interrogat�rio, para as paredes nuas e sem janelas, para os m�veis baratos do governo, as poltronas negras e o jarro vazio de �gua colocado de lado, e comecei a me perguntar se a sala estava grampeada.</p><p>Olhei para o homem de Yale e disse as palavras:</p><p>� Voc� acha que � seguro falar?</p><p>O homem de Yale olhou para mim, incr�dulo. Depois de alguns segundos, ele disse:</p><p>� Sim, Jordan, � seguro falar. Tudo que dissermos um para o outro � confidencial. Segredo entre cliente e advogado.</p><p>� T� bom� � murmurei. � Acho que voc� nunca foi ao cinema, esse � o truque mais velho de todos: os tiras saem da sala e esperam por uma confiss�o. Ent�o, eles correm de volta para dentro e dizem: �Peguei voc�!�.</p><p>O homem de Yale deitou a cabe�a um pouco para o lado, da maneira que voc� faz quando est� olhando para algu�m que acaba de ficar maluco. Ent�o respondeu:</p><p>� Esta sala n�o tem escutas. Eu trabalhei na Promotoria por muitos anos, fazendo exatamente isso que o Joel faz, ent�o pode confiar em mim. Ent�o, voc� passou um bilhete para Dave Beall?</p><p><emphasis>Negue! Negue! Negue!</emphasis></p><p>� E se eu fiz isso? � perguntei agressivamente. � N�o estou dizendo que fiz, mas j� que eles acham que fiz, e da�, e se fiz isso mesmo?</p><p>� Ent�o n�s temos um problema s�rio � respondeu. � Joel poderia romper o acordo de coopera��o, o que significa que voc� seria condenado sem ter a tal carta de recomenda��o em m�os�</p><p><emphasis>Mantenha a calma! � a sua palavra contra a dele!</emphasis></p><p>� Isso � besteira, Nick! Como eles podem provar que passei um bilhete qualquer para Dave Beall? Quer dizer, eu estou dizendo que n�o passei e eles dizendo que passei. Mesmo que Dave esteja cooperando, quem pode afirmar que n�o � ele quem est� mentindo? S�rio, eles n�o podem segurar minha carta sem ter provas, certo?</p><p>O homem de Yale deu de ombros.</p><p>� A coisa n�o � assim t�o preto no branco� Se eles acharem que voc� est� mentindo, podem segurar essa carta, embora eu duvide que seja isso que est� acontecendo aqui.</p><p>� O que voc� quer dizer?</p><p>� Meu palpite � que eles t�m uma prova, ou pelo menos pensam ter essa prova. Eles n�o pegariam t�o pesado se n�o fosse assim � Nick fez uma pausa por um momento, como se perdido em pensamentos. Depois de alguns segundos, ele disse � O.k., vamos apenas supor por um segundo que voc� tenha de fato passado esse bilhete. Onde supostamente voc� estava quando fez isso?</p><p>Inacredit�vel! Mesmo ali, num momento de ru�na, eu n�o conseguia deixar de me maravilhar com a natureza distorcida do sistema legal americano. O simples fato de jogar aberto com meu advogado, confessando que tinha de fato passado o bilhete para Dave Beall, faria com que ele n�o pudesse mais me representar se eu continuasse a mentir. Assim, em vez disso, n�s t�nhamos que falar em �termos hipot�ticos�, ent�o meu advogado poderia tentar descobrir onde eu estava mais vulner�vel. Em seguida, ele me ajudaria a moldar a melhor hist�ria poss�vel que fosse consistente com os fatos conhecidos.</p><p>� Provavelmente em um restaurante � respondi.</p><p>� E por que voc� diria isso?</p><p>� Porque foi onde ocorreu o encontro em quest�o.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� O.k., e qual era o nome do restaurante?</p><p>� Caracalla. Fica em Long Island, em Syosset.</p><p>� E o restaurante estava lotado?</p><p>Eu sabia onde ele queria chegar.</p><p>� N�o, havia apenas um punhado de pessoas l� e nenhuma delas era agente do FBI. Eu estou certo disso.</p><p>O homem de Yale assentiu de acordo.</p><p>� Voc� est� certo, provavelmente. Voc� vem cooperando h� bastante tempo, ent�o tenho certeza de que Coleman confia em voc�.</p><p>Ele fez uma pausa por um momento, enquanto suas �ltimas palavras ficaram pairando no ar como g�s mostarda. Sim, eu tinha tra�do TOC e sua confian�a. Ele sempre tinha sido honesto comigo e, em troca, eu fodi com ele! Mas, ainda assim, eu tinha agido como um homem. Eu tinha mantido o respeito pr�prio. <emphasis>E � isso o que acontece!</emphasis></p><p>O homem de Yale continuou:</p><p>� O.k., ent�o, apenas como argumenta��o, vamos assumir que voc� de fato passou um bilhete, mas ningu�m o viu fazendo isso. Voc� se lembra de alguma coisa gravada na fita que seja incriminadora, tipo, como Dave Beall teria reagido ao bilhete? Voc� entende o que estou dizendo?</p><p>� Sim, entendo � <emphasis>o que voc� acha, que eu sou um idiota? Eu n�o passei o bilhete para ele simplesmente sem avisar!</emphasis> �, mas tenho certeza de que n�o h� nada. Se eu fosse correr esse risco, teria sido muito cuidadoso. Eu olharia em torno do restaurante para me certificar de que ningu�m estava vendo e, em seguida, teria enviado um sinal a ele, como talvez colocar meus dedos nos l�bios ou algo parecido. Enfim, n�o h� nada fora do comum nessa fita, exceto o fato de que Dave n�o incriminou a si mesmo. Mas isso n�o � t�o incomum, �? Quer dizer, eu tive quatro ou cinco encontros com Gaito e ele nunca se incriminou! Ent�o � realmente minha palavra contra a de Dave, n�o?</p><p>� Entendo o que est� dizendo, Jordan � raciocinou ele �, mas tem alguma coisa faltando aqui � fez uma pausa. � Deixe-me perguntar uma coisa: se voc� tivesse passado um bilhete para ele, voc� o teria pegado de volta ou ele o teria guardado como uma esp�cie de recorda��o?</p><p>Deixei escapar um grande suspiro.</p><p>� N�o tenho certeza, Nick. Quer dizer, eu provavelmente iria supor que ele jogaria o papel fora, mas n�o tenho certeza disso.</p><p>Fiz uma pausa e balancei a cabe�a ironicamente. Aquilo era inacredit�vel! Eu tinha protegido meu amigo e, como uma maneira de dizer obrigado, ele tinha me dedurado! Magnum estava certo o tempo todo e TOC tamb�m. Eu era um tolo e agora estava prestes a perder minha vida por causa disso.</p><p>Ent�o, perguntei:</p><p>� Preciso lhe perguntar uma coisa, Nick: o que vai acontecer se eu n�o conseguir uma carta de recomenda��o da Promotoria? Quer dizer, vou mesmo acabar condenado a 30 anos?</p><p>� Sim � disse Nick rapidamente. � Talvez ainda mais. Joel vai atacar voc� com outras acusa��es al�m daquelas em que j� se declarou culpado: obstru��o da justi�a, mentir para um funcion�rio federal e mais algumas outras. Mas n�o podemos deixar que isso aconte�a. Precisamos fazer tudo o que for poss�vel para impedir que isso v� al�m desta sala. � Ele colocou a m�o em meu ombro, da maneira como um amigo faria. � Eu preciso saber agora, como seu advogado: voc� passou um bilhete a Dave Beall?</p><p>Assenti tristemente:</p><p>� Sim, Nick, eu passei. E ele dizia exatamente o que Coleman citou � ri baixinho. � � dif�cil de acreditar, voc� se arrisca assim por um amigo e olha o que recebe em troca!</p><p>O homem de Yale concordou com a cabe�a.</p><p>� Posso perguntar por que voc� fez isso?</p><p>Dei de ombros.</p><p>� E isso tem import�ncia?</p><p>Com surpresa, ele me disse:</p><p>� Mas � claro que tem! Se voc� estivesse tentando proteger Dave Beall porque ele estava segurando dinheiro para voc� ou se estava em processo de infringir a lei com ele, ent�o isso n�o vai acabar bem. Mas, se foi simplesmente por uma crise de consci�ncia, sem nada a ganhar sen�o recuperar uma no��o errada de respeito pr�prio, ent�o pode ser que exista uma forma de sair dessa. Ent�o, como foi? Voc� est� me escondendo mais alguma coisa ou foi s� porque ele � seu amigo?</p><p>� A segunda � disse eu confiante, sentindo-me como uma crian�a mentirosa. � Eu juro por Deus, Nick � <emphasis>merda! Eu j� tinha feito aquilo naquele dia e, logo em seguida, mentido!</emphasis> � Quer dizer, dessa vez eu realmente juro por Deus! Eu n�o tinha nada a ganhar a n�o ser ajudar um amigo. � isso a�. Eu fui para o encontro com toda a inten��o de conseguir que Dave falasse, mas ent�o algo aconteceu quando me sentei � mesa. Eu n�o sei, meio que olhei para ele e vi tudo o que a Stratton poderia ter sido. Para come�o de conversa, senti que era minha culpa ter corrompido aquele cara. Tinha acendido sua gan�ncia com as reuni�es est�pidas que eu costumava dar e todo esse tipo de merda. E, ao contr�rio de outras pessoas a quem entreguei nessa colabora��o, Dave era um amigo, pelo menos eu pensei que fosse. Agora eu sei que n�o h� nenhum amigo � <emphasis>e que n�o h� nenhuma lealdade</emphasis> � e que � cada um por si! � balancei a cabe�a com raiva. � Agora provavelmente vou para a cadeia pelo resto da minha vida de merda por causa disso! � fiz uma pausa por um momento, tentando controlar a raiva. � E o que dizer de meus filhos? � balancei a cabe�a, incr�dulo. � Chandler e Carter. Ah, Deus, o que foi que eu fiz?</p><p>O homem de Yale colocou a m�o em meu ombro de novo e bateu levemente algumas vezes.</p><p>� O.k. � disse ele. � Agora temos de recolher os cacos. Precisamos limpar essa bagun�a.</p><p>� E como faremos isso?</p><p>� Bem, para come�ar, voc� tem que jogar limpo com eles imediatamente. N�o podemos deixar essa coisa se arrastar al�m de hoje.</p><p>� Ah, �? Bem, Joel me odeia, Nick. No segundo em que eu admitir isso, ele vai romper meu acordo de coopera��o. Eu sei disso � fiz uma pausa, para pensar nas ramifica��es de curto prazo. � Preciso ver meus filhos novamente. Eu preciso v�-los mais uma vez, antes de tudo desabar. S� para dar um beijo de adeus e dizer que eu os amo.</p><p>� Eu entendo � disse ele, solidariamente. � Tenho certeza de que, se eu for l� fora dizer a Joel que voc� tem algo a contar, ele vai concordar em n�o tomar qualquer a��o imediata; ele vai pelo menos pensar sobre isso durante a noite.</p><p>� E, em seguida, o que acontece? O que voc� faria nessa situa��o?</p><p>Ele riu.</p><p>� O que eu faria?</p><p>Olhei para ele muito s�rio.</p><p>� Sim, o que voc� faria? Voc� romperia meu acordo de coopera��o bem na hora ou me daria um tapa na cara?</p><p>� Eu n�o quebraria esse acordo de maneira nenhuma � respondeu ele depressa. � As consequ�ncias s�o muito graves, e diria que 90% dos procuradores e promotores concordariam comigo. Infelizmente, Joel fica fora desses 90%, mas isso n�o significa que ele v� quebrar o acordo. O que ocorre � que a maior parte dos promotores n�o � t�o cabe�a-dura quanto Joel. Mas, para responder � sua pergunta, o que eu provavelmente faria seria dar-lhe uma severa advert�ncia ou, na pior das hip�teses, obrig�-lo a se confessar culpado de outro crime, algo como mentir a um funcion�rio federal ou talvez obstru��o de justi�a. Meu objetivo seria ensinar-lhe uma li��o e tamb�m enviar uma mensagem para o j�ri, de que voc� j� foi punido pelo que fez.</p><p>� Mas qual j�ri? Eu j� confessei que sou culpado!</p><p>Nick balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eu n�o estou falando sobre seu j�ri. Eu estou falando sobre o j�ri em que voc� acabar� depondo. Entenda uma coisa: tudo isso vai passar por uma reinquiri��o. Por isso est� todo mundo puto da vida com voc� agora! Tenho certeza de que eles sabem que seus motivos n�o eram maldosos. Voc� estava apenas tentando ajudar um amigo. Enfim, d�-me permiss�o e eu vou l� fora agora mesmo dizer-lhes que voc� est� pronto para jogar limpo. Em seguida, Greg e eu vamos arrega�ar as mangas e trabalhar por voc�, avaliando todos os obst�culos. Tenho certeza de que, assim que Greg descobrir o que aconteceu, ele estar� de volta; ent�o, a primeira coisa que faremos amanh� ser� ir ao escrit�rio da Promotoria fazer uma mo��o no seu caso. E iremos direto ao topo, se for preciso. Temos um excelente relacionamento com o chefe da divis�o criminal e, no fim das contas, � com ele que Joel ter� de falar para sair. Nesse meio-tempo, sugiro que v� conversar com Coleman e pe�a a ele que interceda a seu favor. Eu sei que voc�s t�m um bom relacionamento. J� ouvi mais de uma fonte dizer que ele realmente gosta de voc� e o respeita.</p><p>� Pode ser � respondi gravemente. � Pode ser que tenha sido verdade, mas agora n�o � mais. Eu tra� totalmente o cara � balancei a cabe�a, constrangido. � Quer dizer, nem sei como vou olhar para ele novamente � mordi o l�bio com o pensamento. � Ele deve me odiar at� a morte agora.</p><p>� Sem essa � disse o homem de Yale, com um leve sorriso. � Ele n�o odeia voc�. Na verdade, tenho certeza de que ele entende exatamente o que aconteceu. Sabe, voc� n�o � o primeiro colaborador a fazer esse tipo de coisa. Acontece mais frequentemente do que voc� pensa. Pelo menos seu cora��o estava no lugar certo. Quer dizer, Coleman nunca admitiria isso, mas ele provavelmente o respeita ainda mais agora � Nick piscou para mim. � E eu tamb�m. Ent�o, isso nos deixa com Joel: temos de fazer tudo o que pudermos para ele n�o encerrar sua coopera��o. E ent�o podemos seguir com nossa vida.</p><p>Assenti com a cabe�a, sentindo-me muito afortunado por ter escolhido a firma De Feis O�Connell &amp; Rose como meu escrit�rio de advocacia. Eles n�o eram apenas advogados de primeira linha, eram tamb�m amigos, uma mercadoria que estava se esgotando rapidamente no meu estoque. Claro, ainda havia uma chance maior que 50% de que o Canalha rompesse meu acordo de coopera��o, ou pelo menos tentasse fazer isso, mas com Nick e Greg ao meu lado � e tamb�m TOC, se eu tivesse sorte �, pelo menos ainda havia uma chance de lutar.</p><p>Cinco minutos depois, meus captores estavam de volta � sala de interrogat�rio e eu derramava toda a minha hist�ria. Trinta minutos mais tarde, estava terminado. Eu tinha contado tudo.</p><p>O Canalha recebeu a hist�ria bem, pelo menos era o que parecia. Ele demonstrou pouca emo��o, dizendo a Nick que voltaria a entrar em contato depois de alguns dias. A Bruxa, para minha surpresa, ficou de fora, assim como o M�rmon.</p><p>Restara TOC, que tinha se mantido extraordinariamente calmo.</p><p>De in�cio, aquilo me incomodou� N�o, aquilo acabou comigo, porque eu presumi que qualquer clima de boa vontade que tivesse constru�do com ele fora permanentemente destru�do. Afinal, eu tinha tra�do sua confian�a completamente. Tinha olhado nos olhos dele e mentido, n�o s� quando tinha entregado a fita, mas de novo na sala de interrogat�rios, quando ele me confrontou. Ent�o, sim, ele tinha todo o direito de esquecer que eu existia e de apagar toda aquela experi�ncia.</p><p>Mas eu estava errado; ele estava apenas guardando seus pensamentos para quando n�s dois estiv�ssemos sozinhos. Isso aconteceu cerca de 10 minutos mais tarde, depois de ter me escoltado com o homem de Yale at� o elevador de servi�o, pelo lobby, com seu infinito mar de rostos escuros e tristes de estrangeiros semi-ilegais, e ent�o para a rua. Foi ent�o que o homem de Yale virou � esquerda e foi para o metr� e TOC e eu viramos � direita, para o estacionamento.</p><p>Est�vamos em algum lugar da Broadway, com o Federal Plaza n�mero 26 elevando-se atr�s de n�s e a Broadway � nossa frente, quando TOC parou e me deu um soco no b�ceps.</p><p>� O que diabos h� de errado com voc�? Voc� ficou louco, � isso?</p><p>Parei tamb�m.</p><p>� � � respondi timidamente. � Fiquei.</p><p>O TOC atacou:</p><p>� Bem, agora voc� est� numa bela merda, entendeu? Voc� tem ideia da batalha dif�cil que est� travando com Joel? Puta merda! Voc� n�o entendeu ainda! Voc� est� brincando com sua vida aqui! � Ele apertou os l�bios e sacudiu a cabe�a. � N�o consigo acreditar! Depois da merda que voc� fez, eu tenho que defender a porra de seu caso com Joel, meu chefe, o chefe do Joel, todo mundo! Voc� tem alguma ideia de quanta papelada do caralho eu vou ter de preencher por causa dessa merda? � Ele balan�ou a cabe�a com raiva. � Inacredit�vel! � murmurou. � O que foi que eu disse a voc� naquela noite, quando estava todo melindrado de ser grampeado e entregar o Beall? Vamos l�, voc� n�o � aquele bosta cheio de hist�ria da sua mem�ria fotogr�fica? Ent�o, me diga, g�nio: o que eu disse para voc�?</p><p>Com meu rabo entre as pernas, falei:</p><p>� Voc� disse que, em meu lugar, ele faria a mesma coisa contra mim. Voc� estava certo. N�o sei o que dizer. � Fiz uma pausa e perguntei: � Voc� gostaria de saber por que eu fiz isso?</p><p>� N�o � respondeu ele, categoricamente. � N�o gaste saliva � toa. Eu j� sei por que fez isso. � por isso que estou aqui falando com voc� em vez de voc� estar sentado na cadeia. � Ele balan�ou a cabe�a mais um pouco. � De qualquer forma, a bagun�a � sua, e agora eu tenho que tentar limp�-la. Queria lhe agradecer por isso.</p><p>Como n�o sabia bem o que dizer, arrisquei:</p><p>� Bem, � para isso que servem os amigos�</p><p>� Ʌ � murmurou TOC. � Voc� Meu amigo. Caramba! Quem precisa de inimigos quando se tem colaboradores como voc�? � mais agita��o da cabe�a. � Enfim, preste aten��o no que vou dizer: n�o posso prometer a voc� como isso vai acabar, mas farei tudo ao meu alcance para tentar salvar sua vida. Em troca, quero intensificar sua coopera��o para novos n�veis. Voc� fez um bom trabalho at� agora, mas apenas <emphasis>bom</emphasis>. Voc� poderia fazer melhor, muito, muito melhor. Eu sei que voc� � capaz disso; Joel tamb�m sabe. � a melhor coisa que existe para voc�. Por isso, meu caro, voc� conhece os alvos. Ent�o quero que v� para casa hoje e use seu c�rebro para descobrir um modo de chegarmos a eles. Dessa forma, enquanto eu estiver ocupado articulando com Joel para poupar sua vida, poderei dizer a ele que voc� est� preparado para levar sua coopera��o a um novo n�vel. Voc� entendeu?</p><p>� Sim, claramente � respondi. � Voc� estava certo o tempo todo: n�o h� nenhuma lealdade neste mundo. Todo mundo dedura.</p><p>Com isso, n�s apertamos as m�os e fomos para lados opostos.</p><p>Foi muito estranho quando me sentei com George naquela mesma noite e pedi-lhe para ligar para Elliot Lavigne e ver se ele podia me enviar um pouco do dinheiro que me devia. George desligou o telefone um minuto depois, espantado.</p><p>� De acordo com seu amigo Elliot � disse George �, voc� n�o precisar� de dinheiro na cadeia. Ele me disse para lhe mandar um abra�o e para que eu fosse me foder. Ent�o, desligou na minha cara.</p><p>Certo, pensei. Havia algumas poucas pessoas neste mundo com quem eu tinha cometido crimes que achavam que tinham se safado de tudo. Bem, elas estavam prestes a ter uma surpresa.</p></section><section><p>CAP�TULO 19</p><p><strong>O GRANDE DEDO-DURO</strong></p><p>Era um daqueles sufocantes dias de ver�o do in�cio de agosto, uma ter�a-feira, e a ilha de Manhattan estava sendo asfixiada por uma massa de ar t�o pesada e grudenta que, por volta das 10 da manh�, voc� podia literalmente sentir a atmosfera em sua pele. Mas dentro dos escrit�rios da firma de advocacia De Feis O�Connell &amp; Rose, perfei��o! O ar-condicionado do pr�dio estava fazendo hora extra enquanto n�s tr�s discut�amos os acontecimentos dos �ltimos sete dias.</p><p>Ao contr�rio de meus advogados, eu estava vestido de acordo com o clima, de camisa polo branca, cal�as de golfe e mocassins de couro. Claro, eu tamb�m usava meias, que escondiam minha tornozeleira do olhar casual de algum intrometido. Agora Magnum tinha o centro das aten��es e explicava o resultado de suas negocia��es com meu bom amigo, o Canalha.</p><p>� Obstru��o da justi�a � declarou orgulhosamente, enquanto se recostava em sua cadeira de couro de encosto alto. � Voc� se declara culpado e soma mais 30 meses na cadeia. <emphasis>Mas�</emphasis> � e manteve seu dedo indicador no ar � ainda consegue sua carta de recomenda��o e evita o Armagedom! � ele assentiu com a cabe�a uma vez. � � um resultado fant�stico, Jordan, especialmente se considerarmos a natureza da pessoa com quem estamos lidando.</p><p>� Sim � concordei �, especialmente quando voc� considera a magnitude da minha idiotice � e balancei a cabe�a, espantado. � Vou dizer uma coisa, isso deve ser anotado como a coisa mais idiota que j� fiz em toda a minha vida � balancei a cabe�a de novo. � E n�o h� nada em segundo lugar� � virei-me para o homem de Yale e ofereci-lhe um sorriso sincero.</p><p>Disse a ele:</p><p>� Olhe, se n�o fosse por voc�, Nick, acho que n�o teria me safado naquele dia. Voc� foi incr�vel, do come�o ao fim.</p><p>O homem de Yale levantou as sobrancelhas.</p><p>� � muito bom ouvir isso de voc�, mas est� preparado para jurar por Deus sobre isso? � perguntou, e come�ou a rir. � Ou est� disposto a fazer um teste no detector de mentiras?</p><p>� Foda-se, Nick! Isso � o que <emphasis>todos</emphasis> os culpados dizem quando voc� os encurrala contra a parede. � um reflexo biol�gico, n�o � diferente de uma �gua-viva que queima os nadadores que passam por perto � dei de ombros. � Ela n�o pode ser responsabilizada.</p><p>� Quem? � Magnum perguntou. � A �gua-viva?</p><p>� Sim, nem a �gua-viva nem eu, no caso. Eu fiz o que qualquer homem inteligente em minha posi��o faria: menti o tempo todo, at� n�o ter outra escolha a n�o ser confessar, e depois implorei perd�o � dei de ombros novamente. � N�o havia outra maneira.</p><p>� Talvez � disse o homem de Yale �, mas Joel sabe disso tamb�m.</p><p>� Sabe o qu�?</p><p>� Que todos os culpados juram por Deus.</p><p>� Ahhh� Mas n�o s�o todos os culpados que se oferecem para passar pelo detector de mentiras � dei uma piscadela para ele. � Voc� v�? Eu sou diferente, Nick!</p><p>Nada al�m de sil�ncio.</p><p>� Enfim, o que posso dizer? Voc�s s�o os melhores! E voc�, Nick� Bem, estou t�o endividado com voc� que me disponho a esquecer seu �ltimo insulto e seguir em frente com essa rela��o. � Olhei para Magnum. � Ent�o, diga-me, Greg, quando preciso me declarar culpado deste meu �ltimo crime?</p><p>� Em algum momento no outono � respondeu ele �, embora a gente v� arrastar isso pelo m�ximo de tempo que conseguir. Mas, lembre-se, a acusa��o de obstru��o da justi�a n�o vai entrar em sua carta de recomenda��o da Promotoria, de forma que Gleeson ser� duro com voc�.</p><p><emphasis>Mas eu tinha agido como homem!</emphasis></p><p>� Bem, dois anos n�o � um pre�o assim t�o alto a pagar por meu respeito pr�prio. Na verdade, talvez um dia eu possa explicar tudo para Carter e ele vai se orgulhar de mim � olhares estranhos vindos de meus advogados � ou talvez n�o. Enfim, na verdade prefiro acabar logo com tudo isso que ficar adiando. Voc� entende o que estou dizendo?</p><p>Magnum olhou para mim com os l�bios franzidos. Olhei para o homem de Yale e ele me olhava da mesma maneira.</p><p>� Tudo bem � eu disse �, o que estou deixando de entender aqui?</p><p>� Beeemmm� � disse o tenor �, deixe-me come�ar a explicar como as coisas aconteceram na Procuradoria ontem. Havia cinco de n�s na reuni�o. Nick, eu e Joel, claro, al�m de Coleman e algu�m chamado Ron White, que acaba de ser nomeado chefe da divis�o criminal.</p><p>Eu me animei.</p><p>� Sim, conhe�o esse Ron White! Ele uma vez me interrogou sobre outro caso. Ele � um cara muito legal. Pena que n�o � meu promotor em vez desse Joel.</p><p>Magnum assentiu, de acordo.</p><p>� Sim, isso seria bom, mas, infelizmente, ele n�o �. Por isso, � com Joel que devemos lidar e, da mesma forma, � Joel quem tem de lidar com voc�. Assim, por mais legal que Ron White seja, ele ainda tem de dar passagem ao Joel no seu caso.</p><p>� Pensei que Joel estivesse saindo da Promotoria.</p><p>� E est� � disse Magnum �, e � por isso que n�o estamos correndo com sua peti��o. Veja, se a gente adiar at� depois que ele v� embora, ent�o poderemos tentar renegociar com o pr�ximo promotor, que esperamos que seja � e Magnum piscou � mais solid�rio � nossa causa.</p><p>� Isso � brilhante! � exclamei.</p><p>Que sistema de justi�a mais louco, pensei. Se eu fosse pobre ou mesmo da classe m�dia, estaria na cadeia, congelando minha bunda e perdendo a melhor parte de meus 30 anos.</p><p>O homem de Yale disse:</p><p>� Nosso primeiro objetivo ser� tentar reduzir a obstru��o da Justi�a por mentir a um oficial federal, que � de longe menos grave.</p><p>� E n�o tem um tempo obrigat�rio na pris�o � Magnum acrescentou com uma piscadela.</p><p>� Correto � disse o homem de Yale, com um encolher de ombros. � � claro que seria ainda melhor se pud�ssemos convenc�-los a deixar a coisa toda de lado, embora n�o ache que seja muito realista. Joel j� soltou o g�nio da garrafa, ent�o iria parecer que a Procuradoria estava indecisa se revogassem tudo.</p><p>Fazendo o papel do advogado do diabo, eu disse:</p><p>� O que voc�s est�o dizendo parece l�gico, mas e se o pr�ximo promotor for ainda pior que Joel? Eles podem recusar todos os acordos vigentes?</p><p>� Duas boas perguntas � respondeu Magnum. � Sob nenhuma circunst�ncia sua posi��o pode ficar pior. Obstru��o da Justi�a � muito duro e tenho certeza de que Ron White concordaria comigo nisso. Quase ningu�m seria pior que Joel Cohen, exceto Michele Adelman. Mas ela n�o vai assumir este caso, porque j� est� com as m�os amarradas aterrorizando Victor Wang. A maioria dos promotores deixaria voc� sair com uma severa advert�ncia, mas, por alguma raz�o, Joel armou essa para voc�.</p><p>O homem de Yale interveio:</p><p>� Acho que Joel est� bastante envolvido emocionalmente em seu caso.</p><p>E tamb�m ele � um imbecil de merda!, pensei.</p><p>� Em outras palavras � continuou Nick �, ele perseguiu voc� por tanto tempo que n�o consegue evitar de olh�-lo como �o bandido que costumava ser�, por falta de termo melhor, em vez de �o cidad�o honrado que � agora�, que seria uma defini��o mais correta.</p><p>Magnum entrou na conversa:</p><p>� Nick acertou na mosca com essa explica��o, e � por isso que � t�o importante esperar as coisas acontecerem. O pr�ximo promotor n�o ter� nenhuma liga��o com voc�; a �nica pessoa que ele vai conhecer � o Jordan Belfort que faz parte da equipe Estados Unidos.</p><p>� E Coleman? � perguntei. � Ele me perseguiu por mais tempo que todos os outros juntos.</p><p>Nick disse:</p><p>� As coisas s�o diferentes para um agente do FBI, especialmente em um caso como o seu, onde n�o houve nenhuma viol�ncia. Voc� tinha a reputa��o de ser um cara brilhante, ent�o Coleman respeita voc�. Voc� nunca foi apenas um man� qualquer que violou a lei.</p><p>� Para sua informa��o � acrescentou Magnum �, � por causa de Coleman, principalmente, que Joel n�o rompeu seu acordo. Ele se posicionou a seu lado de maneira muito impressionante ontem. Ele defendeu a posi��o de que, com exce��o do bilhete para Dave Beall, voc� tinha sido um cooperador de primeira classe. Ele tamb�m disse que voc�s est�o trabalhando em um caso muito grande agora. Voc� sabe do que ele estava falando?</p><p>Acenei com a cabe�a.</p><p>� Sim, Gaito e Brennan. N�o tivemos muita sorte at� agora, mas acho que isso logo deve mudar. Na verdade, tenho um encontro com Coleman logo depois daqui e vou dar um pequeno presente para ele.</p><p>� O que �? � perguntou Magnum.</p><p>Cerrei os dentes, irritado com a recente s�rie de trai��es por parte de homens que tinham tido a aud�cia de se denominarem meus amigos.</p><p>� Uma pequena receita sobre como cozinhar um Chef � respondi friamente, porque, no meu lugar, ele faria a mesma porra contra mim.</p><empty-line/><empty-line/><p>PARECIA BASTANTE APROPRIADO que n�s estiv�ssemos em Brooklyn Heights quando finalmente eu contasse a TOC a hist�ria de como eu e a Duquesa nos conhecemos e como ela roubou meu cora��o, levando-o para longe de Denise. Afinal, fora ali, naquele valorizado bairro, a algumas quadras da Procuradoria e a poucos quarteir�es do Pal�cio da Justi�a Federal, que eu tinha buscado a Duquesa em nosso primeiro encontro.</p><p>Naquela �poca, ela alugava um apartamento de um quarto em um pr�dio baixo na rua Joralemon, que ficava a apenas um quarteir�o do restaurante chin�s onde TOC e eu est�vamos almo�ando agora. Obviamente o tema principal do almo�o n�o era a sordidez de minha vida pessoal, mas eu senti que, depois de tudo o que TOC tinha feito para mim, devia isso a ele. Afinal, nenhum americano de sangue vermelho, nem mesmo um dedicado agente do FBI, poderia resistir a uma hist�ria como aquela, em que os principais ingredientes eram sexo, drogas, gan�ncia, lux�ria, div�rcio, trai��o e loiras. Eu j� estava explicando como nossos caminhos tinham se cruzado pela primeira vez.</p><p>� � e eu organizava essas festas malucas na minha casa de praia e a pol�tica era de portas abertas total. Tudo o que voc� tinha de fazer era aparecer, sorrir e estava dentro. Foi o melhor m�todo de recrutamento de todos os tempos.</p><p>Fiz uma pausa e dei uma mordida numa panqueca de carne de porco <emphasis>mu shu</emphasis> que eu tinha acabado de enrolar como se fosse uma articula��o, enquanto TOC experimentava uma garfada de seu prato favorito, frango <emphasis>chow mein</emphasis>.</p><p>Depois de alguns segundos, eu disse:</p><p>� Voc� estava certo, a comida � realmente muito boa por aqui.</p><p>TOC assentiu com a cabe�a.</p><p>� Os pre�os s�o baixos tamb�m. Para dizer a verdade, eu n�o sei como esse lugar continua aberto. O aluguel n�o deve ser barato por aqui.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� De repente est�o pagando 6 centavos a hora para os gar�ons e amea�ando matar seus parentes na China se reclamarem.</p><p>� Provavelmente � disse o agente do FBI. � Mas, se isso � o necess�rio para se cobrar 5,95 d�lares por um prato de frango <emphasis>chow mein</emphasis>, o que se pode fazer, certo?</p><p>Depois de colocar o garfo de volta na comida e suspend�-lo no ar, ele disse:</p><p>� Ent�o, voc� estava dizendo�?</p><p>Assenti e coloquei minha panqueca de volta no prato.</p><p>� No come�o, as festas eram relativamente pequenas, talvez com algumas centenas de pessoas no m�ximo, mas, ao longo do tempo, elas chegaram aos milhares. E, como tudo relacionado a Stratton, cada festa tinha de ser mais radical que a �ltima.</p><p>TOC depositou seu garfo no prato.</p><p>� Por que isso?</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Dessensibiliza��o, principalmente; voc� sabe, o que parecia muito louco em 1989 n�o parecia t�o selvagem em 1991. Era isso e tamb�m o fato de que a Stratton foi uma sociedade autocontida. N�s �ramos como a antiga Roma, de certa forma, mantidos juntos pela sede de sangue para testemunhar atos de deprava��o. Em Roma eles costumavam alimentar os le�es atirando-lhes escravos; na Stratton, costum�vamos arremessar an�es em um alvo de velcro.</p><p>Fiz uma pausa e dei outra mordida na panqueca.</p><p>� Enfim, as primeiras festas foram relativamente inofensivas. Havia DJs com seus discos, pessoas dan�ando, t�nhamos um <emphasis>open bar</emphasis>, alguns aperitivos, talvez um pouco de drogas, mas isso era tudo. Avan�ando alguns anos, j� era a mais completa e absoluta insanidade. Havia milhares de pessoas na minha casa, literalmente vazando pela rua e pela praia, e no deque dos fundos havia tanta gente que parecia que ia desabar. A Dune Road ficava totalmente obstru�da, lotada de strattonitas, e tudo isso era supervisionado pelos policiais de Westhampton, para que a festa continuasse, apesar das reclama��es dos vizinhos. Enquanto isso, uma banda tocava ao vivo, malabaristas faziam malabarismos, dan�arinos dan�avam, prostitutas se prostitu�am, strippers se desnudavam, acrobatas faziam cambalhotas e um an�o andava por l� vestido de macac�o, simplesmente por uma quest�o de divers�o. Na praia, eram servidos enormes peixes-porcos e lagostas, que giravam num espeto ao lado de um leit�o recheado com uma ma�� na boca. Para ter certeza de que ningu�m ficaria com sede, duas d�zias de gar�onetes seminuas andavam por ali, carregando bandejas de prata com copos de Dom P�rignon.</p><p>� Caramba � murmurou TOC, e comeu outra garfada de <emphasis>chow mein</emphasis>.</p><p>� Enfim, conheci Nadine no final de semana de 4 de julho de 1990, e ainda era relativamente cedo, de forma que ela ainda n�o estava totalmente ensandecida quando passou pela porta. Eu estava na minha sala de estar na ocasi�o, jogando sinuca com Elliot Lavigne � <emphasis>que pensamento maravilhoso!</emphasis> �, que, por acaso, est� ganhando rios de dinheiro mais uma vez.</p><p>� S�rio? � disse TOC, colocando o garfo no prato. � Eu pensei que ele estivesse quebrado.</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� N�o mais, ouvi dizer que ele est� voando alto outra vez � disse, mas como e onde tinha ouvido a conversa, optei por manter segredo. � Est� mexendo com roupas e confec��es, mas n�o sei de todos os detalhes, embora a fofoca seja de que ele est� faturando milh�es.</p><p>� � incr�vel � disse TOC �, considerando que o cara � um completo degenerado.</p><p>� Sim � concordei. � E, conhecendo Elliot, ele provavelmente ainda deve estar contrabandeando dinheiro para Hong Kong. � Dei de ombros. � O que me surpreende � o fato de voc� e Joel nunca terem ido atr�s dele. Quer dizer, esse cara me trouxe mais dinheiro que todos os outros somados.</p><p>TOC deu de ombros.</p><p>� � um caso dif�cil. N�s intimamos os registros banc�rios dele h� algum tempo, mas havia muito pouco dinheiro entrando e saindo para encontrarmos um padr�o. Nesse sentido, ele foi uma boa escolha para um laranja.</p><p>� � mesmo? � rebati. � Bem, eu me lembro de uma vez em que a secret�ria dele encheu uma sacola de gin�stica com 700 mil d�lares em dinheiro e, em seguida, entregou a meu antigo motorista, George, para que a trouxesse. Tenho certeza de que todo aquele dinheiro foi sacado do Bank of New York no mesmo dia e enviado diretamente do banco para a secret�ria, depois para George e ent�o para mim.</p><p>TOC torceu os l�bios.</p><p>� E como voc� sabe disso?</p><p>� Porque a secret�ria me ligou e disse que tinha acabado de sacar o dinheiro, para que eu mandasse George ir apanh�-lo antes que Elliot o pegasse e torrasse tudo no jogo. E quando George trouxe o dinheiro para mim, estava suando em bicas e me lan�ando olhares estranhos. Ele nunca me disse nada diretamente, mas comentou algo com Janet e ent�o ela me contou. Aparentemente, George ficou curioso, abriu a sacola e quase capotou � dei de ombros. � Enfim, tudo que voc� tem a fazer � mandar uma intima��o para George, Janet e a secret�ria de Elliot, depois investigar os registros do banco, e o resto � hist�ria.</p><p>TOC olhou para mim por um segundo. Ent�o ele deu outra garfada no <emphasis>chow mein</emphasis> e come�ou a mastigar. A mensagem impl�cita era: �Vou verificar isso. Volte para sua hist�ria�.</p><p>Eu respirei fundo e disse:</p><p>� Enfim, Elliot e eu est�vamos jogando sinuca quando o Cabe�a Quadrada veio correndo sem f�lego, dizendo: �Voc�s t�m que ver essa menina saindo da Ferrari, ela n�o existe!�, e, claro, como se tratava do Cabe�a Quadrada falando, considerei aquilo um exagero. Mas, em seguida, ele literalmente me arrastou para a porta da frente. Foi quando eu vi Nadine pela primeira vez � sorri com a lembran�a. � Eu me senti como Michael Corleone em <emphasis>O poderoso chef�o</emphasis>, quando ele v� Apol�nia pela primeira vez; ela estava andando pelos campos de oliveiras na Sic�lia, e quando Michael a v� � atingido por aquele raio. Fiquei totalmente encantado por ela � fiz uma pausa e olhei para minha panqueca, considerando se dava ou n�o uma mordida. Levantei os olhos, percebendo que tinha perdido o apetite. � O que mais me lembro s�o das pernas dela. Sempre amei as pernas da Duquesa, e a bunda tamb�m. � mais redondinha que a de uma porto-riquenha, no caso de voc� j� ter percebido � e pisquei.</p><p>TOC come�ou a rir.</p><p>� Enfim, trocamos apenas algumas palavras, porque ela apareceu acompanhada, e ent�o os strattonitas come�aram a tortur�-la � continuei.</p><p>� Como assim? � perguntou TOC.</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Eles ignoraram o fato de ela ter vindo com o sujeito e come�aram a dar em cima dela como se ele n�o existisse. E a coisa toda se complicou quando fomos apresentados. A gente estava perto da mesa da piscina e ela disse alguma coisa do tipo �Essa casa � muito bonita� e eu respondi �Obrigado�, mas a� ela ficou de cara no ch�o. Eu me virei e vi Mark Hanna, que era um dos meus corretores na �poca. Ele estava de p� poucos metros atr�s de mim olhando fixamente para ela e batendo uma punheta.</p><p>TOC se encolheu no lugar:</p><p>� Mas� como assim?</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Ele abaixou as cal�as at� os joelhos e estava dando trabalho ao seu cacete. E ent�o a mulher dele, Fran, veio correndo e gritando: �Mas que porra h� de errado com voc�, Mark? Levante essas cal�as!�. Ele levantou as cal�as e Fran come�ou a esmurr�-lo. Nesse momento, virei-me para Nadine, esperando ver um olhar de espanto no rosto dela ou talvez mesmo medo, mas, em vez disso, eu vi a raiva naquele rosto gelado. Ela estava com os olhos estreitos e os punhos cerrados de raiva e se inclinava para a frente como se estivesse se preparando para dar uma porrada em Mark. Claro que eu naquela �poca n�o sabia que ela era uma menina do Brooklyn; ela parecia ser da Austr�lia, da Escandin�via ou de algum lugar como esses. Enfim, de repente, Denise entrou em cena e sentiu o perigo de uma forma que s� uma mulher pode fazer, e ent�o eu ouvi o namorado de Nadine dizer: �Muito bem, est� na hora de irmos embora�. Nadine e eu est�vamos dizendo �N�o, n�o, ainda n�o�, mas Denise come�ou a apressar os dois porta afora. Enquanto tudo isso acontecia, a festa estava no auge, com a m�sica detonando e o champanhe fluindo. No instante em que estava saindo, Nadine se virou e lan�ou-me um sorriso travesso e, em seguida, um segundo depois, o namorado dela a arrancou da porta como se fosse uma boneca de pano. Fiquei olhando aqueles longos cabelos loiros flutuando atr�s dela, e ent�o ela foi embora. Foi como nos filmes.</p><p>Fiz uma pausa e fiquei um momento estudando TOC. Ele parecia gostar imensamente da minha hist�ria. Ainda continuava desfrutando de sua comida, mas tinha aquele olhar de expectativa selvagem no rosto. Sim, eu pensei, apesar do crach� e da arma, era um homem como qualquer outro. Ele disse:</p><p>� Ent������o� � e girou seu garfo em pequenos c�rculos.</p><p>Assenti com a cabe�a:</p><p>� Bom, para encurtar a hist�ria, no segundo em que Nadine foi embora, comecei a perguntar a todo mundo quem era ela, e depois passei o restante do ver�o tentando cruzar com ela de novo, o que conseguia de vez em quando, mas nessas ocasi�es eu estava sempre com Denise. E Denise sempre dizia algo como: �Ah, olhe! L� est� aquela menina loira bonita da festa, lembra-se dela?�. E eu dizia: �Ah, sim, deve ser ela��, mas meu tom estava mais para: �Que bela merda�. Para me dar cr�dito � revirei os olhos �, suportei at� o Dia de A��o de Gra�as, quando finalmente desisti e paguei algu�m para marcar um encontro com ela.</p><p>Os olhos de TOC saltaram:</p><p>� Voc� fez o qu�?</p><p>Dei de ombros timidamente.</p><p>� Sim, eu sei que isso parece meio rid�culo, mas � assim que as coisas s�o. A gente n�o tinha de fato muitos amigos em comum, exceto essa menina chamada Ginger, que era uma completa mercen�ria. Ent�o ela veio com essa merda para cima de mim, dizendo �P�, Jordan, voc� � um cara casado, n�o quero me meter nisso�, e eu disse: �Tudo bem, Ginger, e se eu lhe der 10 mil em dinheiro, isso vai acalmar sua consci�ncia?�. L�gico que no dia seguinte eu tinha o telefone de Nadine na minha m�o e Ginger j� tinha dito maravilhas a meu respeito.</p><p>� Cara � disse TOC �, mas que tipo � essa Ginger, hein? � ele balan�ou a cabe�a, espantado. � E o que Nadine disse sobre voc� ser casado?</p><p>Dei de ombros inocentemente.</p><p>� Bem, essa foi a primeira coisa que ela perguntou quando telefonei, ent�o fiz a �nica coisa que poderia fazer um homem casado: falei �Estou no meio do processo de div�rcio�.</p><p>Os olhos de TOC se arregalaram de novo.</p><p>� Voc� n�o pensou que poderia ser pego mentindo para ela?</p><p>Balancei a cabe�a rapidamente.</p><p>� N�o, n�o foi exatamente desse jeito. Quer dizer, n�o foi como se eu dissesse sem rodeios: �Estou me divorciando amanh�. Eu meio que pintei um retrato de que as coisas n�o estavam indo muito bem em meu casamento. Voc� sabe, que est�vamos avaliando se �amos nos divorciar ou n�o.</p><p>TOC come�ou a rir.</p><p>� Sim, estou falando s�rio! Isso foi exatamente o que eu disse a ela. Isso � o que todo cara casado diz quando come�a um caso � ergui as sobrancelhas. � � o que voc� chamaria de <emphasis>procedimento operacional padr�o.</emphasis> De qualquer forma, n�o deixava de existir um pouco de verdade em minhas palavras; n�o que eu estivesse avaliando a ideia de me divorciar, mas meu casamento com Denise estava de fato sentindo os efeitos da Stratton. N�s dois nunca est�vamos sozinhos e j� t�nhamos conhecido Elliot e Ellen. E se voc� acha que Elliot anda meio fora de �rbita, precisa conhecer a descontrolada da Ellen, esposa dele. Enfim, eu n�o quero colocar a culpa em Elliot e Ellen, mas o pouco da magia que ainda existia entre mim e Denise foi esmagado quando n�s quatro come�amos a sair juntos. Antes disso, a gente praticamente n�o fazia uso de drogas e Denise era uma garota linda, at� Ellen enfiar as garras nela. Antes que eu me desse conta, Denise estava usando roupas Chanel e rel�gios Bulgari e tomando Quaaludes durante o dia. N�o me entenda mal, eu n�o estava chateado com Denise por ela gastar dinheiro nessas coisas. Meu dinheiro era dela e eu estava ganhando tanto e t�o r�pido que n�o fazia nenhuma diferen�a. S� que aquela n�o era mais a Denise, entende? O que a fazia maravilhosa era a pureza dela, o fato de ela sair para jantar usando camiseta e jeans e ainda assim parecer fabulosa. Essa era Denise, n�o aquela perua usando roupas e joias caras. Ela era boa demais para isso. Enfim, quando conheci Nadine, Denise e eu est�vamos passando mais tempo separados que juntos, e eu estava dormindo com as putas Blue Chips, tipo a 1 centavo a d�zia. � Dei de ombros e balancei a cabe�a, triste. � Quando Nadine e eu sa�mos pela primeira vez, recebi muito mais do que esperava, ou seja, uma loira burra que eu poderia encher de presentes em troca de algumas atraca��es.</p><p>TOC inclinou a cabe�a para o lado.</p><p>� Atraca��es?</p><p>� Sim � respondi �, atraca��es: como se meu pau fosse o barco e a boceta dela o atracadouro. � Dei de ombros inocentemente. � Enfim, Nadine, como se viu, n�o era uma loira burra, e no final da noite eu estava totalmente cativado por ela. Quando n�s estacionamos o carro na frente de seu apartamento, eu estava tentando descobrir uma maneira de seduzir a garota, mas nunca tive a chance, porque ela saiu direto com um �Voc� quer subir para uma x�cara de caf�?�. Quando percebi, eu j� estava em seu min�sculo apartamento, dizendo: �Nossa, Nae, este apartamento � muito legal�, mas o que realmente estava pensando era: como vou fazer para levar essa garota para a cama? Mas a� ela disse: �Por que voc� n�o acende a lareira? Eu preciso ir ao banheiro por um segundo�. Ent�o eu disse: �L�gico!�, mas me lembro de ter ficado um pouco chocado de uma garota t�o linda como aquela ter que ir ao banheiro! Quer dizer, ela parecia perfeita demais para cagar, entende o que eu quero dizer?</p><p>TOC come�ou a rir.</p><p>� Voc� � demente, sabia disso?</p><p>� Claro � respondi, orgulhoso �, mas isso n�o vem ao caso. Bem, enfim, l� estava eu, agachado na frente da lareira, buscando em minha cabe�a demente a frase certa que a levasse para a cama, e ent�o escutei: �Ol�, voltei!�. E quando me virei, l� estava ela peladinha, da maneira como veio ao mundo.</p><p>O queixo de TOC caiu.</p><p>� Voc� est� brincando comigo!</p><p>� N�o mesmo� Acabei dormindo l� naquela noite e disse a Denise que tinha ficado preso em Atlantic City, e as coisas rapidamente entraram numa espiral fora de controle. No in�cio, a gente s� se via uma vez por semana, �s ter�as � noite. Nem nos fal�vamos nesse intervalo. Depois, come�amos a nos falar todos os dias por telefone, apenas por alguns minutos, para saber como est�vamos passando o dia. Mas isso logo se transformou em algumas horas por dia, embora eu n�o saiba direito quantas. Ent�o eu percebi que precisava passar alguns dias sozinho com ela, voc� sabe, para resolver tudo de uma vez. Ent�o falei para Denise que precisava ir para a Calif�rnia a neg�cios. E esse foi o fim: Nadine e eu ficamos loucamente apaixonados e come�amos a falar pelo telefone sem parar e a nos encontrar durante as tardes para liberar nossos horm�nios acumulados! Foi em algum momento no final de janeiro que eu finalmente disse a Denise que precisava de espa�o e me mudei para a cidade, para Olympic Towers. Ironicamente, Denise ainda n�o fazia ideia de que eu estava tendo um caso. Eu tinha sido muito cuidadoso com as coisas, pelo menos no in�cio, mas depois que me mudei para a cidade isso mudou muito. Em meados de fevereiro, Nadine e eu est�vamos dan�ando em boates e de m�os dadas numa mesa no Canastel, que era um dos restaurantes mais quentes de Manhattan naquela �poca. Todo mundo me conhecia l� e algu�m, eu acho, telefonou a Denise uma noite para lhe dar a not�cia de que eu estava jantando com Nadine. Algumas horas mais tarde, quando minha limusine estacionou em frente ao Olympic Towers, a porta de entrada do pr�dio se abriu e, em vez do porteiro, quem estava l� era Denise. E, para deixar as coisas ainda piores, eu estava abra�ando Nadine naquele momento, envolvido em um apaixonado beijo e dizendo-lhe como a amava. �Voc� fica dentro dessa porra desse carro!�, gritou Denise para Nadine. �E voc� saia dessa porra desse carro!�, ela gritou para mim. Ent�o ela deu uma boa olhada no rosto de Nadine e seu queixo caiu: �Voc� � a menina da festa��. De repente, as duas estavam chorando ao mesmo tempo.</p><p>Fiz uma pausa e balancei a cabe�a, tristemente.</p><p>� Ent�o me virei para Nadine, que estava branca como um fantasma, e apertei sua m�o de forma tranquilizadora. �Eu preciso cuidar disso�, disse suavemente. �Por que n�o vai para casa e eu ligo mais tarde, tudo bem?� �Sinto muito��, disse ela, entre l�grimas, �Eu n�o quis que isso acontecesse, me sinto p�ssima!�. Era verdade, claro. Nenhum de n�s queria que aquilo acontecesse e est�vamos nos sentindo mal. Mas tinha acontecido, e o fato de nos sentirmos mal n�o ia facilitar as coisas para Denise�</p><p>Balancei a cabe�a lentamente, tentando fazer com que as coisas tivessem mais sentido.</p><p>� De certa forma, voc� n�o escolhe por quem vai se apaixonar, n�o �? Apenas acontece. E quando voc� realmente se apaixona, essa paix�o que o consome, um amor sensual, em que duas pessoas vivem e respiram o outro 24 horas por dia, o que voc� faz? � encolhi os ombros e respondi � minha pr�pria pergunta. � N�o h� nada que se possa fazer. N�o d� para ficar sem a outra pessoa por mais que algumas horas sem enlouquecer. Era esse tipo de amor que Nadine e eu t�nhamos. A gente passava cada momento poss�vel juntos. Mesmo quando eu ia para o trabalho, que era raramente, ela dirigia at� Long Island comigo e arranjava com que se ocupar at� a hora do almo�o. E quando tinha seus compromissos de modelo, eu a deixava no local e ficava esperando at� que terminasse. Ficamos obcecados um com o outro.</p><p>Fiz uma pausa e continuei:</p><p>� Enfim, a limusine foi embora e ficamos apenas Denise e eu. O porteiro correu para dentro do pr�dio quando ouviu Denise gritando comigo. Ela estava berrando a plenos pulm�es: �Como p�de fazer isso comigo? Eu me casei com voc� quando n�o tinha nada! Fiquei a seu lado segurando as pontas na mis�ria! Quando estava quebrado, fiz comida para voc�! Fiz amor com voc�! Fui uma boa esposa! E � desse jeito que voc� me retribui? Como p�de fazer isso?�. No come�o, tentei justificar, mais pelo instinto mesmo, porque na verdade n�o havia o que dizer. Ela estava totalmente certa e n�s dois sab�amos disso. Ent�o, fiquei l�, parado, pedindo perd�o a ela e me desculpando, dizendo que n�o queria que tivesse acontecido. At� que, por fim, ela disse: �A �nica coisa que quero saber �: diga-me que n�o est� apaixonado por ela�. Ela me agarrou pelos ombros e olhou em meus olhos; havia l�grimas escorrendo por seu rosto. Ela disse: �Olhe-me nos olhos e diga-me que n�o est� apaixonado por ela, Jordan. Por favor. Se voc� n�o estiver apaixonado por ela, a gente pode resolver isto!�. Mas, depois de alguns segundos, balancei a cabe�a e disse: �Desculpe, mas estou apaixonado por ela, sim. Eu n�o quis que isso acontecesse�. E comecei a chorar. �Vou cuidar sempre de voc�, voc� nunca vai passar necessidade.� Mas n�o adiantou. Ela irrompeu em l�grimas e come�ou a tremer em meus bra�os.</p><p>Balancei a cabe�a, triste.</p><p>� Posso lhe dizer que me senti o maior sacana do mundo naquele momento. Denise continuou chorando incontrolavelmente, bem ali na rua. Mas a�, do nada, sua amiga Lisa emergiu das sombras, agarrou Denise e abra�ou-a. Lisa me disse: �Est� tudo bem, Jordan. Eu vou cuidar dela agora. Ela vai ficar bem�. Piscou para mim e levou Denise embora. Fiquei surpreso com aquilo. Quer dizer, eu esperava que Lisa me olhasse com sangue nos olhos, mas n�o foi assim. O que eu n�o sabia na �poca � que Lisa estava no meio de seu pr�prio enrosco, que veio � tona alguns meses depois, quando foi apanhada traindo o marido com um playboy de Long Island. Depois ela se divorciou tamb�m � olhei para TOC e dei de ombros. � E � isso, Greg. Esse era o Estilo de Vida dos Ricos e Malucos na costa norte de Long Island. E n�o � uma imagem bonita.</p><p>Passamos depois alguns minutos falando sobre o que aconteceu em seguida, meu casamento com Nadine, o nascimento de meus filhos, meu crescente v�cio em drogas e, finalmente, entramos no assunto do Chef.</p><p>� O problema � disse eu � � que pessoas como Dennis e eu ficamos t�o presos a nossos falsos �libis que, quando falamos sobre o passado, nos referimos mais �s mentiras que � hist�ria real. N�o tem nada a ver com ele achar que estou grampeado. Porque, se fosse assim, ele nem retornaria minhas liga��es. Na verdade, mais que qualquer outra coisa, tem a ver com certo protocolo: quando voc� fala sobre o passado, comece mencionando a hist�ria que lhe serviu de �libi. � por isso que, quando se ouve a fita, Dennis sempre come�a dizendo coisas do tipo: �Sempre existem duas vers�es das coisas, a nossa vers�o e a vers�o deles�. Da� ele come�a a falar sobre j�ris e d�vida razo�vel, e por a� vai.</p><p>TOC assentiu com a cabe�a.</p><p>� � um ponto v�lido, e, claro, estou ciente disso. Ao longo do tempo, as pessoas tendem a ficar desleixadas. Ent�o podemos esperar que ele baixe a guarda.</p><p>Neguei com a cabe�a.</p><p>� Isso n�o vai acontecer com o Chef. O �libi que ele criou �, para ele, mais verdadeiro que a realidade. � por isso que n�s temos de tomar um rumo diferente.</p><p>� E qual seria?</p><p>� Bem � disse, confiante �, acho que � hora de deixar o passado para tr�s e olhar para o futuro.</p><p>E, com isso, contei meu plano a TOC.</p></section><section><p>CAP�TULO 20</p><p><strong>TODOS OS HOMENS TRAEM</strong></p><p>Desta vez era diferente.</p><p>O Nagra era meu escudo, o microfone era minha espada, e as palavras rolavam de minha boca com tanta facilidade e fluidez que eu poderia ter feito John Gotti confessar todos os detalhes de como ele e sua gangue queimaram Paul Castellano em frente ao Sparks Steak House.</p><p>Sim, pensei, ter a consci�ncia limpa � uma coisa maravilhosa para um delator.</p><p>Um delator? N�o, n�o. Eu n�o era nada disso. Afinal de contas, um delator entrega seus amigos, e eu n�o tinha nenhum. Eu tinha sido tra�do por todos: Dave Beall, Elliot Lavigne, minha mulher, <emphasis>pelo amor de Deus</emphasis>, e, se houvesse a chance, pelo Chef de Jersey tamb�m.</p><p>Ent�o agora era a minha vez.</p><p>Era sexta-feira � tarde, um pouco depois das 2 horas, e o Chef e eu t�nhamos acabado de chegar ao pequeno e bem equipado escrit�rio que eu mantinha em Plainview, Long Island, a meio caminho entre Manhattan e os Hamptons. Plainview era uma cidade t�o chata, mas t�o chata, que em toda a hist�ria de Long Island nenhuma conversa tinha come�ado com: �Voc� n�o vai acreditar no que aconteceu em Plainview no outro dia��.</p><p>Bem, isso estava prestes a mudar!</p><p>Eu estava determinado a empreender, antes que a tarde terminasse, a mais incriminadora conversa consensualmente registrada na hist�ria n�o s� de Plainview, mas tamb�m de Manhattan, de Nova Jersey, da costa leste dos Estados Unidos e, quem sabe, de todo o mundo.</p><p>Mas, antes, a troca de gentilezas. Trocamos abra�os e ol�s enquanto eu levava o Chef para uma pequena �rea com alguns m�veis. Um sof� de couro vermelho escuro e duas poltronas do mesmo jogo se encontravam ao redor de uma mesa de vidro. Ao sentarmos no sof�, o Chef disse:</p><p>� Eu nem sabia que voc� ainda mantinha este lugar.</p><p>� Sim � disse, casualmente. � Ainda n�o tive coragem de me livrar dele. Eu sou sentimental, acho.</p><p>Sorri calorosamente para o Chef, que, como de costume, parecia frio como um pepino em seu terno cinza-claro e sua gravata vermelha xadrez. Eu estava vestido de maneira mais informal, com jeans e uma camisa polo branca, ambos fazendo um bom trabalho em esconder minha espada e meu escudo.</p><p>O Chef sorriu de volta.</p><p>� Bem, � um lugar agrad�vel. Eu sempre gostei daqui.</p><p>Assisti com um distanciamento gelado enquanto o Chef passava os olhos em volta. No passado, eu sempre tinha achado tranquilizadora a presen�a do Chef, pela forma orgulhosa como ele carregava sua calv�cie, sua mand�bula quadrada, o nariz aquilino, aquele sorriso contagiante� Mas eu tinha achado a Duquesa deliciosa, tamb�m, n�o tinha? E onde ela estava agora? Onde estava Dave Beall agora? Onde estava aquele patife do Elliot Lavigne agora? Todos os homens traem, eu lembrei, e todas as mulheres tamb�m. Ent�o, por que me sentir culpado? N�o h� raz�o para isso, nenhuma raz�o mesmo.</p><p>� � � disse, sorrindo. � E a�, quais s�o as novas? Como est�o sua esposa, seus filhos, seu golfe�</p><p>Passamos os minutos seguintes em conversas amenas e sem muito sentido. Mas, na verdade, at� que elas n�o eram t�o sem sentido assim, porque sutilmente eu estava acentuando duas coisas importantes: a primeira � que eu estava de bom humor e me sentindo melhor a cada dia, e a segunda, que uma vez que meus problemas legais estivessem resolvidos, eu esperava um futuro brilhante, que inclu�a o Chef como meu amigo, confidente e conselheiro. Meu comportamento indicava que eu estava calmo e confiante, um homem que lida com seus problemas com for�a e honra.</p><p>Depois de alguns minutos, casualmente dirigi a conversa para a situa��o do meu processo judicial.</p><p>� � �bvio que minha melhor op��o � fazer um acordo, porque, se eu for a julgamento e perder, vou tomar um tombo t�o grande que ser� at� rid�culo! � dei de ombros. � Cada processo de lavagem de dinheiro conta dez anos, e eu estou enfrentando cinco deles. Mas, por outro lado, se eu fizer esse acordo, ser� apenas para as fraudes com t�tulos, o que d� muito menos tempo.</p><p>O Chef assentiu.</p><p>� Quanto tempo voc� teria que cumprir?</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Seis anos, de acordo com Greg, mas isso � sem as dedu��es; ap�s bom comportamento, o programa de reabilita��o e seis meses em uma casa de recupera��o, devo encarar uns tr�s anos, o que, acredite, posso cumprir com um p� nas costas.</p><p>� Que bom isso � disse o Chef. � Quem bom mesmo. E o que dizer do Danny?</p><p>� O mesmo que eu, tenho certeza. Nossos advogados ainda est�o trabalhando juntos, em uma defesa conjunta, mas � apenas por raz�es cosm�ticas. Se o escrit�rio da Procuradoria achar que devemos ir a julgamento, vai ficar mais f�cil fazer um acordo quando chegar a hora.</p><p>� Verdade � disse o Chef. � Essa sempre foi minha filosofia: voc� luta com unhas e dentes e, depois, <emphasis>badabum!</emphasis>, costura um acordo nas escadarias do tribunal. � Ele fez uma breve pausa e come�ou assentindo a cabe�a de novo. � Bem, isso � bom, muito bom. E qual � a multa que voc� acha que ter� que pagar?</p><p>� Eu n�o tenho certeza � respondi, parecendo despreocupado. Ent�o, parei de falar, olhei ao redor da sala com um ar suspeito e baixei a voz para um sussurro (nenhum problema para o Nagra, � claro), acrescentando: � Eu, pessoalmente, n�o estou nem a� para isso. Tenho tanto dinheiro socado l� fora que estou tranquilo para sempre. E tenho ele escondido aqui e l� � balancei a cabe�a em dire��o � porta � � em ambos os lados do Atl�ntico.</p><p>O Chef balan�ou a cabe�a, compreensivo.</p><p>� Bom � sussurrou, embora seu tom n�o fosse t�o silencioso quanto o meu. � � sua rede de seguran�a.</p><p>Assenti com a cabe�a e sussurrei:</p><p>� Voc� sempre me falou isso, Dennis. Se eu tivesse usado seu pessoal desde o in�cio, talvez n�o precisasse lidar com toda essa merda agora.</p><p>O Chef franziu os l�bios e assentiu.</p><p>� Isso � verdade � disse ele. � Mas n�o vale a pena chorar sobre o leite derramado.</p><p>� Sim, sim, eu sei disso. Um homem deve aprender com os erros, certo? � pisquei. � Bem, este homem aqui tem aprendido da maneira mais dif�cil. O �nico problema � que� � baixei a voz de novo � ainda tenho uma tonelada de dinheiro no exterior. Mais de 10 milh�es, e n�o estou muito confort�vel com quem est� perto dele. Essa grana est� a apenas dois passos do Saurel, e ele � o safado que delatou!</p><p>O Chef jogou as m�os no ar.</p><p>� Ent����o, vamos tirar de l�! Qual � o problema?</p><p>� Er� N�o h� problema � disse, e pensei: Caramba, o Chef tinha acabado de se enterrar mesmo na fita! � � que voc� � o �nico em quem confio. Quer dizer, meus dias de imprud�ncia se acabaram, s�rio!</p><p>� � bom mesmo � disse ele, erguendo as sobrancelhas. � Em que pa�s est� o dinheiro?</p><p>� Na verdade, em dois pa�ses: Su��a e Liechtenstein � respondi, e minha mente come�ou a rodar em duas pistas descontroladamente. Na pista 1, as palavras vinham automaticamente, como se gravadas. � Est� distribu�do por sete contas diferentes, cinco na Su��a e duas em Liechtenstein � e, enquanto continuava falando, a pista 2 come�ou a organizar todos os t�picos que eu precisava discutir para ter certeza de que minha fita garantiria uma acusa��o de lavagem de dinheiro contra o Chef: ele tinha de saber que meu dinheiro era produto de atividade ilegal; ele tinha de saber que eu n�o tinha inten��o de relatar a transa��o para o governo; a quantidade deveria ser superior a 1 milh�o de d�lares (para receber a pena m�xima) e, numa peculiaridade do caso, eu tinha de descobrir uma maneira de amarrar minha lavagem de dinheiro �s atividades do Dem�nio de Olhos Azuis. � � o que n�o � um problema � estava dizendo a pista 1 ao Chef. � � o dinheiro dos novos lan�amentos que Lavigne mandou para mim, a maior parte vindo de Hong Kong. Ent�o, sei que n�o h� como rastrear.</p><p>� O que precisamos fazer � disse o Chef � � criar novas contas l�, e precisamos faz�-lo imediatamente. Conhe�o alguns bons sujeitos para isso, s�o as mesmas pessoas que eu usei com Bob � Bingo!, pensei. � O que estou pensando, por�m, � que devemos ficar longe da Su��a por um tempo, pelo menos at� a poeira baixar.</p><p>� Concordo totalmente � disse logo. � Eu n�o gostaria de ver os federais arrancando meu dinheiro. Eu tive de usar um monte de laranjas para gerar esses 10 milh�es em dinheiro.</p><p>� N�o se preocupe � disse o Chef, confiante. � Eles nunca v�o encontrar o dinheiro, n�o com meu pessoal. Eles s�o especialistas.</p><p>Balancei a cabe�a rapidamente, enquanto minha mente corria � frente. O Chef sem d�vida j� havia incriminado a si mesmo em lavagem de dinheiro, mas apenas em conspira��o. Ser� que eu poderia pression�-lo ainda mais? Poderia tentar.</p><p>� Deixe-me perguntar uma coisa � disse, baixando a voz, como se ainda estivesse paranoico. � E se eu quisesse passar mais dinheiro ao exterior? Eu ainda tenho 5 milh�es que Lavigne chutou de volta para mim. Seria �timo ter esse dinheiro fora do pa�s.</p><p>� N�o � um problema � disse o Chef. � Eu sei exatamente quem � o cara que pode fazer isso.</p><p>� mesmo?, pensei. Puta merda!</p><p>� Ah, � mesmo? Quem? � perguntei, n�o esperando que ele respondesse.</p><p>� O nome dele � James Loo � respondeu o Chef, como se eu tivesse apenas lhe pedido o nome de seu carpinteiro. � Eu acho at� que voc� deve conhecer o sujeito, Bob o apresentou faz algum tempo. Ele � honesto e direto como ningu�m.</p><p>Assenti ansiosamente, me perguntando o que diabos tinha acontecido com o Chef. Ele era um dos mais astutos homens que eu j� conheci, mas por alguma raz�o inexplic�vel tinha baixado a guarda. E perguntei:</p><p>� Ent�o James Loo tem contatos na Su��a?</p><p>O Chef encolheu os ombros.</p><p>� Pode apostar! Esse cara tem liga��es em todos os lugares! Metade da fam�lia dele ainda vive na �sia! Ele vai levar seu dinheiro at� Hong Kong mais r�pido do que se voc� fizesse um dep�sito no Citibank local. E ele tem as pessoas certas em Cingapura, na Mal�sia� Escolha um lugar e ele ter� pessoas l�.</p><p>Balancei a cabe�a, compreensivo, quase chocado demais para fazer a pr�xima pergunta. Mas a fiz, de qualquer maneira.</p><p>� Ent�o voc� est� dizendo que eu poderia realmente dar meu dinheiro a James Loo e ele mandaria ao exterior para mim, sem ningu�m descobrir?</p><p>O Chef balan�ou a cabe�a devagar, deliberadamente, e quase com um sorriso no rosto.</p><p>� Sim � disse. � Isso n�o seria um problema para James Loo.</p><p>Eu decidi jogar a bomba:</p><p>� Ele j� fez isso para Bob?</p><p>O Chef assentiu novamente.</p><p>� Sim, fez, e sem problemas. Bob deu-lhe o dinheiro, e <emphasis>schhhwiitttt!</emphasis> � o Chef bateu com as m�os, com seu movimento deslizante patenteado, fazendo o bra�o direito voar na dire��o que ele provavelmente pensou que era a �sia.</p><p>Joguei uma bomba ainda maior:</p><p>� E posso me encontrar com ele?</p><p>Dessa vez, o Chef recuou em sua cadeira, como se eu fosse louco mesmo questionar uma coisa como aquela. Eu esperava por isso; afinal, minha pergunta tinha sido altamente inadequada, n�o? Pelo visto n�o, porque o Chef disse em seguida:</p><p>� � claro que pode! O que acha da pr�xima semana?</p><p>� Na pr�xima semana � perfeito � respondi.</p><p>Sem que eu perguntasse mais nada, o Chef imediatamente mergulhou nas v�rias maneiras diferentes como eu poderia filtrar meu dinheiro de volta para os Estados Unidos uma vez que ele estivesse enfiado em contas numeradas na Su��a e no Oriente. Na verdade, ele parecia apreciar a oportunidade de explicar isso para mim, como se a coisa toda fosse um jogo gigante de gato e rato, sem consequ�ncias graves caso o gato ganhasse.</p><p>Depois me encontrei com TOC em um novo estacionamento. Entreguei-lhe a fita e disse:</p><p>� Voc� mesmo tem que ouvir isso, Greg, para acreditar � balancei a cabe�a lentamente, ainda incr�dulo pela imprud�ncia do Chef. � � espetacular.</p><p>� Mas por qu�? O que tem nessa fita?</p><p>� Tudo � respondi �, incluindo a cabe�a de Brennan em uma bandeja.</p><p>Dei de ombros, n�o me sentindo t�o satisfeito comigo mesmo, de repente. Respirei fundo e soltei o ar lentamente. <emphasis>Todos os homens traem! Dave Beall! Elliot Lavigne! Minha pr�pria esposa!</emphasis></p><p>� De qualquer forma � continuei �, tenho que ir embora, � meu fim de semana com as crian�as e quero fugir do tr�fego para os Hamptons.</p><p>� Tudo bem, eu ligo para voc� na segunda e a gente v� o que faz.</p><p>� Parece bom � respondi, embora tivesse uma suspeita de que nos falar�amos antes disso.</p><p>Na verdade, ele me ligou mais tarde naquela mesma noite, enquanto eu estava deitado na cama acordado com as crian�as dormindo a meu lado.</p><p>Suas primeiras palavras foram:</p><p>� <emphasis>Puta merda!</emphasis> � Ent�o ele disse: � Gaito perdeu a cabe�a?</p><p>� Foi o que eu lhe disse � respondi, suavemente. � � como se ele tivesse um desejo de morrer ou coisa parecida. N�o sei, � fodidamente alucinante. Enfim, o que vem a seguir? Defino uma reuni�o com James Loo?</p><p>� Claro que sim! Na verdade, n�s precisamos gravar isso em video! Mas nos falamos na segunda-feira. Eu sei que voc� est� com seus filhos, ent�o n�o quero prend�-lo. Tenha um bom fim de semana. Voc� merece.</p><p>Sim, pensei, outro fim de semana sem valor, comendo modelos e transando com mulheres por uma noite. <emphasis>Eu mere�o</emphasis>. Era tudo t�o triste e t�o solit�rio. O que eu realmente precisava era encontrar uma garota legal e me apaixonar de novo. Infelizmente, apenas metade desse meu desejo estava prestes a se tornar realidade.</p></section><section><p>CAP�TULO 21</p><p><strong>A BELA E A FERA</strong></p><p>� Isso � rid�culo! � murmurei para Gwynne, enquanto ela caminhava um passo atr�s de mim pela sala de estar. � Como ela poderia simplesmente desaparecer?</p><p>� J� oi� na quadra de t�nis?</p><p>� Sim � respondi rapidamente. � Eu chequei em todos os lugares e nem sinal dela.</p><p>Era uma tarde de domingo, e a festa estava no auge.</p><p>Do lado de fora, no lado oposto da parede de vidro, um grupo alegre de 50 ou 60 pessoas, algumas das quais eu conhecia, embora nenhuma delas tivesse import�ncia para mim, estavam espalhadas no deque da parte de tr�s da casa, festejando como se fossem estrelas do rock e devorando os �ltimos vest�gios de meu imp�rio que estava ruindo. A maioria eram jovens do sexo feminino, altas, magras e lindas, e nenhuma delas parecia prestar aten��o ao mundo.</p><p>S� ent�o algo chamou minha aten��o: dois pares de peitos muito jovens, perfeitos em todos os sentidos. Um par pertencia a uma loira �gil com uma deslumbrante cabeleira cacheada; o outro pertencia a uma curvil�nea morena com madeixas onduladas que desciam em dire��o ao racho no meio de sua bunda. Elas estavam dan�ando, rebolando em seus sapatinhos, com a palma das m�os para o c�u, elevando-as para o teto, por assim dizer.</p><p>Eu balancei a cabe�a gravemente.</p><p>� Voc� v� como s�o as coisas, Gwynne? � apontei para as duas garotas com seios que desafiavam a gravidade. � Elas n�o deviam tirar a blusa enquanto meus filhos est�o por perto. N�o � certo, porra.</p><p>Gwynne assentiu com tristeza.</p><p>� Eu acho que elas t�o <emphasis>b�ba</emphasis>.</p><p>� N�o est�o b�badas, Gwynne, est�o doidonas, provavelmente com Ecstasy. Veja como se esfregam uma na outra. � o primeiro sinal.</p><p>Gwynne assentiu sem falar.</p><p>Continuei procurando em meu deque, espantado. Porra, quem eram todas aquelas pessoas? Eles estavam comendo minha comida, bebendo meu vinho, nadando na minha piscina e relaxando na jacuzzi de Carter e� <emphasis>Outra onda de p�nico!</emphasis> Carter!</p><p>Corri para a sala de TV e l� encontrei ele, s�o e salvo. Ele estava deitado no sof� assistindo a um v�deo. Estava vestido como eu, com cal��o azul de n�ilon e sem camisa. Parecia bem contente, com a cabe�a apoiada no colo de uma jovem. Era uma loira de n�o mais de 20 anos. E era linda. Estava com um biqu�ni azul-celeste do tamanho de uma linha de pipa. Seu decote era fant�stico. Algu�m tinha diminu�do as luzes, provavelmente a garota, e ela estava fazendo carinho nas costas de Carter, enquanto ele assistia a um epis�dio dos Power Rangers.</p><p>� Carter James! � disse imediatamente. � Voc� viu sua irm�?</p><p>Ele me ignorou e continuou assistindo. A menina, no entanto, olhou para cima e me deu um sorriso de modelo, todo brilhante.</p><p>� Owwwww � disse ela, girando os dedos nos cachos do cabelo de Carter. � Ele � t���o lindo, seu filho! Eu poderia com�-lo vivo!</p><p>Eu sorri calorosamente para a jovem loira.</p><p>� Eu sei. Ele � muito bonito � concordei �, mas agora n�o consigo encontrar minha filha. Voc� n�o a viu por a�, por acaso, n�o �?</p><p>A loira balan�ou a cabe�a nervosamente.</p><p>� N�o, eu sinto muito. � Ent�o de repente ela se animou. � Mas eu poderia ajud�-lo a procurar, se quiser!</p><p>Ela apertou os l�bios como um peixinho dourado.</p><p>Olhei para ela por um momento, com pensamentos obscuros.</p><p>� N�o, tudo bem � respondi. � Mas voc� poderia ficar de olho em meu filho, por favor? Detestaria perder os dois ao mesmo tempo.</p><p>Outro sorriso brilhante:</p><p>� Ah, eu adoraria fazer isso! Mas � melhor ele ter cuidado ou posso tentar roubar os c�lios dele! � ela olhou para ele. � Certo, Carter? Voc� vai me deixar roubar seus c�lios?</p><p>Ele a ignorou.</p><p>� Carter! � chamei. � Voc� viu sua irm� em algum lugar?</p><p>Ele me ignorou tamb�m.</p><p>A nova bab� de Carter come�ou a esfregar seu rosto suavemente.</p><p>� Carrrrrrrter � ela quase cantou. � Voc� tem de responder a seu pai quando ele lhe fizer uma pergunta!</p><p>Sem desviar o olhar nem sequer um mil�metro da tela da TV, Carter lamentou:</p><p>� Estou assistindooooooooooooooooo!</p><p>A bab� de Carter olhou para mim e encolheu os ombros.</p><p>� Ele disse que est� assistindo.</p><p>Eu balancei a cabe�a incr�dulo e caminhei de volta para a sala de estar. Olhei em volta, mas nada de rostos conhecidos, s� aquelas modelos com sorrisos brilhantes. Achei aquilo totalmente deprimente. Era como o Imp�rio Romano antes da queda. Tudo iria desabar em breve, menos a mans�o, que seriam as ru�nas e�</p><p><emphasis>Ah!</emphasis> Pouco antes da parede de vidro, uma das altas cortinas do teto ao piso tinha um volume suspeito perto do ch�o. Fiquei olhando para aquele caro�o um momento, observando, com al�vio, como ele se revelava na forma de uma menina de 6 anos de idade, travessa. Andei at� l�, espiei atr�s da cortina e l� estava ela: minha filha. Ela estava apoiada em ambos os joelhos, usando um biqu�ni branco, olhando para o deque. Segui sua linha de vis�o� Que ia direto para as garotas de <emphasis>topless</emphasis>!</p><p>� Chandler! O que voc� est� fazendo a�?</p><p>Ela olhou para cima, seu rosto uma m�scara de espanto e constrangimento. Os fabulosos olhos azuis que ela havia herdado da m�e eram grandes como pires. Ela abriu a boca por um momento, como se estivesse se preparando para dizer algo, mas ent�o apertou os l�bios e olhou de volta para as garotas de <emphasis>topless</emphasis>.</p><p>� O que voc� est� fazendo a�, sua boba? Gwynne e eu est�vamos procurando por voc�! � Eu me abaixei, peguei-a delicadamente e dei-lhe um beijo confortante no rosto.</p><p>� Perdi minha boneca � disse, inocentemente. � Achei que tinha ca�do ali atr�s da cortina � e olhou para a cortina, procurando em sua cabecinha uma forma de apoiar sua mentira branca. � Mas ela n�o estava l�.</p><p>Balancei a cabe�a, desconfiado.</p><p>� Voc� perdeu sua boneca, �?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a, tristemente.</p><p>� Qual delas?</p><p>A resposta foi surpreendentemente r�pida:</p><p>� Uma Barbie. Uma de minhas favoritas.</p><p>� E voc� por acaso n�o ficou espiando enquanto estava por l�, ficou?</p><p>De in�cio, ela n�o respondeu, mas lan�ou os olhos ao redor da sala, para ver se algu�m estava ao alcance da voz. Em seguida, num tom de fofoqueira, ela disse:</p><p>� Aquelas garotas est�o mostrando os peitos, papai! Olhe�</p><p>Ela levantou o bra�o para apontar para as garotas seminuas. Eu o empurrei de volta.</p><p>� Tudo bem, querida, mas � feio apontar.</p><p>Eu vasculhava em minha mente algo para dizer, quando ela perguntou:</p><p>� Por que elas mostram os peitos em p�blico?</p><p>Eu estava chocado, horrorizado. Como aquelas meninas expunham minha filhinha de 6 anos de idade a algo assim (a culpa era delas, n�o minha). Devia haver certo decoro, n�o?</p><p>� Essas garotas s�o da Fran�a � respondi. � E na Fran�a as mo�as tiram a parte de cima da roupa quando v�o � praia. � Em parte era verdade, pelo menos.</p><p>Maravilhada, ela comentou:</p><p>� Elas fazem isso?</p><p>Balancei a cabe�a ansiosamente.</p><p>� Sim, querida, elas fazem. Esse � o costume delas.</p><p>Chandler olhou para as meninas de novo, pensativa, os l�bios torcidos. Ent�o ela olhou para mim e disse:</p><p>� Mas n�s n�o estamos na Fran�a, papai, estamos nos Estados Unidos.</p><p>Fiquei impressionado. Minha filha era brilhante! Mesmo na tenra idade dos 6 anos, ela sabia identificar um comportamento inadequado! Com um pouco de sorte, pensei, ela n�o iria denunci�-lo � sua m�e.</p><p>� Bem, voc� est� certa � disse �, estamos nos Estados Unidos, mas acho que talvez as francesas tenham se esquecido. � Eu a beijei no rosto novamente. � Vamos l�, vamos dar um passeio na praia juntos. No caminho, podemos falar com elas e lembr�-las de que n�o est�o no pa�s delas.</p><p>� Tudo bem � disse ela, alegremente. � Vou lembr�-las.</p><p>No deque, me antecipei a Chandler.</p><p>� Muito bem! � gritei para as duas meninas de peitos de fora, enquanto Chandler e eu pass�vamos depressa. � Voc�s devem usar a parte de cima enquanto estiverem visitando nosso pa�s! Fa�am isso em St. Tropez!</p><p>Elas sorriram e mostraram o polegar para cima, parecendo entender.</p><p>Chandler disse:</p><p>� Elas t�m peit�es como a mam�e!</p><p>� Verdade � eu disse, <emphasis>e isso porque elas v�o ao mesmo m�dico</emphasis> �, mas acho que voc� deve apenas fingir que nunca viu.</p><p>Melhor discutir isso com seu terapeuta quando for a hora, quando for uma conturbada adolescente tentando dar sentido � loucura a que seu pai � que em breve estaria na cadeia � a exp�s em seus �ltimos dias de liberdade.</p><p>Com esse pensamento, cheguei at� minha inocente filha e disse:</p><p>� Venha, vou lev�-la para a praia, sua gansa boba!</p><p>Ela pulou em meus bra�os e l� fomos n�s, pai e filha, desfrutando nossos �ltimos dias juntos em Meadow Lane.</p><empty-line/><empty-line/><p>EMBORA FOSSE SUFOCANTE andar nas ruas de Manhattan, era perfeitamente confort�vel � beira do oceano. Era como se cada �ltima gota de umidade tivesse sido sugada para fora da atmosfera, substitu�da por uma massa de ar t�o agrad�vel e inspiradora que se parecia com uma d�diva de Deus. Enquanto Chandler e eu caminh�vamos ao longo da borda da �gua, de m�os dadas, a insanidade de minha vida parecia mantida em suspens�o. De vez em quando um casal de meia-idade ou um corredor passava sorrindo, e eu sorria de volta.</p><p>Havia tanta coisa que eu queria dizer a Chandler e tanta coisa que eu sabia que n�o podia� Um dia, � claro, gostaria de dizer-lhe tudo, sobre todos os erros que eu tinha cometido e como a gan�ncia e as drogas tinham me destru�do, mas n�o at� que se passassem muitos anos e ela tivesse idade suficiente para entender. Ent�o conversamos apenas sobre coisas simples da vida, as conchas na praia, as dezenas de castelos de areia que a gente tinha constru�do ao longo dos anos e todos os buracos que t�nhamos escavado para chegar � China, apenas para desistir depois de alcan�armos a �gua poucos cent�metros abaixo. Depois, ela quase me nocauteou ao dizer:</p><p>� Adivinhe, papai? Minhas irm�s est�o vindo para a cidade amanh� � ela continuou andando.</p><p>Por um segundo eu n�o entendi do que ela estava falando, ou pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. No fundo, por�m, eu sabia: ela estava se referindo �s filhas de John, Nicky e Allie. Nicky era alguns anos mais velha que Chandler, e Allie era exatamente da mesma idade. A companheira perfeita para brincadeiras, pensei.</p><p>John Macaluso: eu estava ouvindo cada vez mais sobre ele ultimamente, n�o apenas pelas crian�as, mas tamb�m de um punhado de amigos comuns meus e da Duquesa. Felizmente, estava ouvindo apenas boas coisas, que ele era um cara muito decente, que tinha se divorciado duas vezes e que n�o usava drogas. O mais importante, no entanto, era que meus filhos gostavam dele. Ent�o, eu gostava dele tamb�m. Enquanto ele tratasse bem meus filhos, estaria bem comigo.</p><p>Com esse pensamento, eu disse:</p><p>� Voc� quer dizer as filhas de John, querida?</p><p>� Sim � disse ela, ansiosamente. � Eles est�o vindo da Calif�rnia amanh� e vir�o depois para a praia!</p><p>Um pensamento ador�vel: a Duquesa queria se divertir nos Hamptons com outro homem. Em seguida, um pensamento mais obscuro: se, apenas alguns meses depois de conhec�-los, Chandler j� estava se referindo �s filhas de John como suas �irm�s�, ela poderia um dia se referir a John como pai dela? Por um momento, fiquei muito preocupado, mas apenas por um momento.</p><p>Eu sempre seria o pai de meus filhos, n�o poderia haver outro. Al�m disso, a capacidade de amar n�o era mutuamente exclusiva. Assim, que eles fossem amados por todo mundo e retribu�ssem esse amor de sobra. Havia o suficiente para todos.</p><p>� Bem, isso � �timo! � disse, calorosamente. � Isso � muito legal. Tenho certeza de que voc� vai se divertir muito com eles essa semana. Quem sabe um dia eu possa conhecer as meninas, hein?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a alegremente e passamos mais alguns minutos andando e conversando. Ent�o voltamos para a mans�o. A longa passarela de mogno, limitada por grossas cordas de cada lado, levava at� o deque traseiro por cima da areia. Enquanto eu carregava Chandler no colo pela passarela, meu esp�rito afundava a cada passo.</p><p>Os romanos estavam esperando.</p><p>Por que eu me sujeitava �quilo?, eu me perguntava. A tortura autoimposta era em nome de poder transar com algu�m? N�o podia ser, n�o �? Quer dizer, eu n�o era t�o raso assim, era? Na verdade, era exatamente nisso que eu estava pensando quando coloquei os olhos nela pela primeira vez.</p><p>Ela era alta e loira e se destacava entre os romanos como diamante no meio de <emphasis>strass</emphasis>. Ela se mexia ao som da m�sica, no momento perfeito e no ritmo. Parecia distante da cena, como se fosse um observador casual, n�o um membro da farra. � primeira vista, ela me pareceu o tipo de garota que eu nunca ousaria abordar em uma boate para convidar a dan�ar. Seu cabelo loiro brilhava como ouro polido. Ela estava com uma saia de algod�o branco, muito curta, uns bons 15 cent�metros acima do joelho, revelando suas longas pernas nuas, que eram impec�veis. Ela usava uma camiseta rosa-beb� que abra�ava seus deliciosos seios como uma segunda pele e expunha sua barriga perfeitamente tonificada. Seus p�s estavam com um simples par de sand�lias brancas, embora fosse �bvio, mesmo de relance, que tinham custado uma fortuna.</p><p>Ent�o <emphasis>um choque terr�vel</emphasis>!</p><p>De tr�s da vis�o loira surgiu uma criatura de apar�ncia horrenda, curta, atarracada e com o rosto de um buldogue. Seu corpo parecia ser composto de grossos tocos cil�ndricos, colados na pressa pelo bom humor de Deus. A Criatura tinha cabelo laranja-queimado, pele p�lida, tra�os grosseiros, nariz de lutador e uma mand�bula muito grande. Ela usava um vestido curto roxo que pendia em seu corpo robusto como a capa de uma impressora. A blusa era muito decotada, expondo as bordas de seus peitos fl�cidos. A Criatura agarrou a vis�o loira pela m�o e veio cambaleando. Senti Chandler recuar em meus bra�os.</p><p>� Vem, Yulichka � a Criatura rosnou para a vis�o loira, em uma voz grave que cheirava a Brooklyn, R�ssia, sarjeta, u�sque, sindicato dos caminhoneiros e a fase final de um c�ncer de garganta. � Este � o dono da casa. Eu quero que voc� o conhe�a.</p><p>Fiquei chocado e impressionado. A Bela e a Fera, pensei.</p><p>� Voc� deve ser Jordan � rosnou a Criatura que, em seguida, olhou para Chandler e disse: � Ah, que gracinha!</p><p>Senti Chandler estremecer em meus bra�os quando a Criatura agarrou sua m�o e babou:</p><p>� Oi, <emphasis>munchkin</emphasis>! Eu sou Inna e esta aqui � Yulia.</p><p>Com isso, ela quase jogou Yulia para a frente, como se ela fosse uma oferta de paz loira. Parecia claro que as duas vinham como um pacote.</p><p>Yulia sorriu, e seus dentes eram brancos como porcelana. Suas fei��es eram finas, cinzeladas at� quase a perfei��o. Tinha olhos azuis parecidos com os de um gato, que revelavam algo que o resto da apar�ncia de Yulia de alguma forma camuflava: que l� atr�s, na hist�ria, talvez 500 anos antes, um t�rtaro invasor havia estuprado uma de suas ancestrais.</p><p>Delicadamente, Yulia estendeu a m�o para apertar a m�o de Chandler.</p><p>� Alloa, � disse ela, com um sotaque surpreendentemente forte. � Eu sou Yulia. Qual � seu nome, linda?</p><p>� Chandler � minha filha disse com uma voz t�mida, e ent�o eu esperei que ela atacasse dizendo algo como: �Ah, outra loira est�pida, n�?� ou, mais provavelmente, �Meu pai j� tem uma namorada e a trai o tempo todo!�. Mas, em vez disso, tudo o que ela disse foi:</p><p>� Voc� tem o cabelo muito bonito, Yulia � e todos come�amos a rir.</p><p>Yulia disse:</p><p>� Bem, voc� � muito doce, Chandler � ent�o ela se virou para Inna e come�ou a dizer algo numa metralhadora russa. Sua voz era suave e doce, quase mel�dica, de fato, mas a �nica palavra que pude reconhecer foi <emphasis>krasavitza</emphasis>, que significava �bonito�.</p><p>Passamos um minuto assim, conversando amenidades, mas Chandler estava inquieta, de forma que era meio imprevis�vel o tipo de veneno que ela poderia lan�ar para cima de Yulia. Ent�o pedi licen�a com uma piscadela e um sorriso.</p><p>Quando estava saindo, eu disse:</p><p>� Sinta-se em casa. Minha casa � sua casa � ao que Yulia sorriu calorosamente e agradeceu.</p><p>Inna, no entanto, n�o sorriu e n�o disse uma palavra. Ela simplesmente assentiu com a cabe�a uma vez, como se dissesse: �� claro que vou!�. Afinal de contas, em sua pr�pria ideia, ela tinha feito seu trabalho direito. Ela viera para Meadow Lane trazendo um presente, de forma que agora tinha direito de devorar tudo que estivesse � vista.</p><empty-line/><empty-line/><p>EMBORA FOSSE IMPOSS�VEL negar que Inna era uma monstruosidade excepcional, eu n�o poderia imaginar como ela lutava para ganhar seu sustento. Mais tarde naquela noite, depois de a Duquesa ter pegado as crian�as e a festa chegar ao fim, Inna sugeriu que os poucos romanos remanescentes, oito de n�s, fossemos at� East Hampton para pegar um cinema. Pareceu-me uma ideia razo�vel no in�cio, que rapidamente se tornou uma ideia fabulosa antes mesmo de ter conseguido sair da garagem.</p><p>� Vamos � rosnou ela para Yulia. � Vamos com Jordan e pegamos o carro mais tarde.</p><p>� � uma �tima ideia! � concordei rapidamente, pois de fato era.</p><p>No meio de toda a loucura, Yulia e eu mal tiv�ramos a oportunidade de conversar. Para complicar as coisas, o ingl�s dela era terr�vel, portanto, qualquer conversa significativa teria de ocorrer em sil�ncio, sem distra��es. O �nico problema era que Inna estaria sentada no banco de tr�s com a gente.</p><p>S� que, mais uma vez, ela estava um passo � frente.</p><p>No momento em que Yulia subiu para o banco do passageiro da frente do meu Mercedes, a Criatura rosnou:</p><p>� Tenho de ir <emphasis>pischka</emphasis>. Voc�s dois v�o na frente, encontro com voc�s no cinema.</p><p>Sem dizer mais nada, Inna virou-se sobre seu grosso e calejado calcanhar e foi bamboleando de volta para as escadas.</p><p>Quinze minutos depois, Yulia e eu est�vamos sozinhos em minha Mercedes, dirigindo por uma estrada a caminho de East Hampton. �s 8 horas de uma noite de domingo, o tr�nsito era mais intenso na dire��o contr�ria, de forma que avan��vamos numa velocidade muito boa. As janelas estavam abertas e o doce aroma do perfume de Yulia se misturava aos aromas terrosos do feno e dos pinheiros de uma forma mais que deliciosa. Mantendo um olho na estrada, eu dava espiadelas sorrateiras para a garota com o canto do outro olho, procurando qualquer sugest�o de um �ngulo ruim. N�o havia nenhum. Ela era absolutamente perfeita, sobretudo aquelas longas pernas nuas, que estavam cruzadas e mostrando as coxas. Ela estava fazendo algo muito sexy com o p�, deixando a sand�lia na ponta dos dedos e lentamente balan�ando o p� para cima e para baixo. Eu me esforcei para manter os olhos na estrada.</p><p>Por cima do som do ar que entrava pelas janelas, levantei a voz e disse:</p><p>� E ent�o, como foi ganhar esse concurso? Isso mudou sua vida para sempre?</p><p>� Sim � respondeu Yulia �, � muito bonito l� fora.</p><p><emphasis>Qu�?</emphasis> Eu estava me referindo ao fato surpreendente de que Yulia Sukhanova fora a primeira, �ltima e certamente �nica Miss Uni�o Sovi�tica. Afinal, o Imp�rio do Mal agora residia junto aos outros imp�rios de merda, ao lado de Roma, do Terceiro Reich, do Imp�rio Otomano e do rei Tut do Egito; por isso, dali em diante s� haveriam Misses R�ssia.</p><p>Ainda assim, Miss URSS ou n�o, dona Yulia era ainda mais fraca no departamento de ingl�s do que eu tinha imaginado. Eu precisava cortar a fala��o � toa e deixar as coisas mais simples:</p><p>� Sim � disse eu �, � uma linda noite para se passear de carro.</p><p>� Sim � respondeu ela. � Vai come�ar �s 9 nesta noite.</p><p><emphasis>Mas que�</emphasis></p><p>� Voc� quer dizer o filme?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a ansiosamente.</p><p>� Sim, eu gosto de ir cinema.</p><p><emphasis>Ao</emphasis> cinema, pensei. Por que ser� que essas belezuras russas n�o conseguem falar <emphasis>ao</emphasis>, <emphasis>o</emphasis>, <emphasis>a</emphasis> �? Qual � a porra da dificuldade nisso? Enfim� A rainha da beleza era linda, ent�o aquela defici�ncia poderia ser facilmente esquecida. Mudando de assunto, perguntei:</p><p>� Ent�o, voc� acha que Inna vai aparecer?</p><p>Essa pergunta ela entendeu.</p><p>� N�o tem como � disse ela. � Essa � Inna para voc�. Sempre dando uma de� H� Como se diz na sua l�ngua� Er� <emphasis>svacha.</emphasis></p><p>� Casamenteira?</p><p>� <emphasis>Da, da!</emphasis> � exclamou a rainha da beleza, linguisticamente desafiada.</p><p>Eu sorri e assenti, sentindo como se eu tivesse acabado de chegar ao pico do Everest. Assim, encorajado, atravessei todo o console central e agarrei a m�o da Miss Uni�o Sovi�tica.</p><p>� Tudo bem se eu segurar sua m�o? � perguntei timidamente.</p><p>Tamb�m timidamente, ela respondeu:</p><p>� Tr�s meses agora.</p><p>Olhei para ela por um momento.</p><p>� O que voc� quer dizer?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Esta �ltima vez m�os dadas.</p><p>� S�rio? Tudo isso?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� <emphasis>Da</emphasis>, que � quando eu terminar com o namorado.</p><p>� Ohhhh! � eu disse, sorrindo. � Voc� quer dizer Cyrus, certo?</p><p>Seus olhos azuis se abriram.</p><p>� Voc� conhecer Cyrus?</p><p>Eu sorri e pisquei.</p><p>� Eu tenho minhas fontes � disse, maliciosamente.</p><p>O �Cyrus� ao qual tinha me referido n�o era outro sen�o Cyrus Pahlavi, o neto do x� do Ir�. Eu tinha investigado um pouco sobre Yulia naquela tarde. Eu havia descoberto que ela terminara um relacionamento de tr�s anos com Cyrus, que, dois anos antes, tinha substitu�do o pr�ncipe da It�lia como seu �rolo� principal. Uma devoradora de realeza, pensei.</p><p>Em ess�ncia, Yulia tinha vindo para os Estados Unidos como embaixadora da boa vontade, chegando, em 1990, sob os atentos olhos de Mikhail Gorbachev, Boris Yeltsin e Mikhail Khodorkovsky, o ent�o dirigente do Komsomol, a Liga da Juventude Comunista, e agora o homem mais rico da R�ssia. Yulia foi essencialmente uma ferramenta de propaganda: brilhante, educada, culta, elegante, graciosa, encantadora e, acima de tudo, muito bonita. Ela fora eleita com a inten��o de representar o melhor que a Uni�o Sovi�tica tinha a oferecer e, por consequ�ncia, o comunismo como um todo.</p><p>Era um conto selvagem de intriga pol�tica e desonestidade financeira, mas tudo come�ava a fazer sentido para mim. Havia uma raz�o pela qual Yulia se destacara t�o regiamente entre os romanos: ela deveria fazer isso. Cem milh�es de mulheres tinham disputado o t�tulo de �primeira Miss Uni�o Sovi�tica�, e Yulia Sukhanova tinha vencido. Ela fora preparada e treinada para transmitir uma �nica mensagem: a de que a Uni�o Sovi�tica era melhor.</p><p>Ap�s sua chegada aos Estados Unidos, Yulia se reunira com Nancy Reagan, George Bush, Miss Estados Unidos, apresentadores, socialites, estrelas de rock, dignit�rios e diplomatas. Depois viajara por todo o pa�s, cortando fitas em inaugura��es e apresentando shows na TV, enquanto servia como orgulhosa representante da p�tria.</p><p>E ent�o veio a queda da Uni�o Sovi�tica.</p><p>De repente, Yulia tornara-se rainha da beleza reinante de uma superpot�ncia inexistente. A outrora orgulhosa Uni�o Sovi�tica era agora uma na��o-Estado falida que apareceria nos livros de hist�ria como nada mais que uma experi�ncia fracassada de falsa economia e ideologia corrupta. Ent�o Yulia decidiu ficar nos Estados Unidos e tornar-se modelo. Inna, na �poca, era uma das �nicas agenciadoras de modelo que falava russo na ind�stria da moda, por isso colocou Yulia debaixo de suas asas.</p><p>Havia apenas dois pontos que me inquietavam sobre Yulia. O primeiro foram algumas refer�ncias a um homem chamado Igor, que era vagamente conectado a Yulia e a seguia por toda parte, nas sombras; e o segundo foi o fato de que Yulia fora agente da KGB, e Igor, seu mestre. Por mais inveross�mil que parecesse, eles tinham vindo at� aqui sob os ausp�cios do governo sovi�tico, n�o tinham?</p><p>Ent�o, l� estava eu, cinco horas mais tarde, em dire��o a East Hampton, com uma agente da KGB sentada ao meu lado e o temido Igor � espreita. Igor, eu percebi, era a menor das minhas preocupa��es.</p><p>� Seja como for � disse eu � rainha da beleza/agente da KGB �, eu n�o quis dizer isso de forma ruim. Todos n�s temos nossas fontes, sabe? Aposto como voc� tamb�m tem as suas, certo? � pisquei brincando para a KGB. � Eu acho que as minhas s�o um pouco melhores que a maioria.</p><p>KGB sorriu, parecendo entender.</p><p>� Sim, voc� � muito bom cozinheiro.</p><p>� Qu�? Do que voc� est� falando, que cozinheiro?</p><p>� Voc� diz molhos* � disse KGB, que aparentemente tinha dormido durante suas aulas de ingl�s na escola de treinamento secreto da KGB. � Como este noite: voc� faz molhos de tomate, sobre <emphasis>penne</emphasis>.</p><p>Eu comecei a rir.</p><p>� N�o, nada de molhos! <emphasis>Fontes!</emphasis> � Eu olhei KGB no olho e arrastei a palavra <emphasis>sources</emphasis> o m�ximo que podia, de forma que saiu tipo <emphasis>sourrrrrrrrrrrrrrrrrrces</emphasis>. Da�, eu disse: � Entendeu?</p><p>Ela soltou minha m�o e come�ou a sacudir a cabe�a, desgostosa, dizendo algo como: �Bleaha muha, ingl�s stupido! Ehhh! N�o ter sentido!�. Ent�o ela acenou com os bra�os perfeitamente tonificados ao redor do carro, como se estivesse espantando moscas imagin�rias.</p><p>� Souwwwwsses� Sourrrrrrces� Seeeeeeesses� Sowwwwwsses! � estava murmurando. � Louco, louco demais�</p><p>Depois de alguns segundos, ela come�ou a rir e disse:</p><p>� Esta ingl�s me deixa louco! Juro, n�o faz sentido. Russo faz sentido! � com isso, ela apertou o bot�o do vidro do carro, apontou para o lado da estrada e fez sinal para eu parar.</p><p>Parei debaixo de uma grande �rvore a poucos metros da estrada, coloquei o carro em ponto morto e apaguei as luzes. O r�dio era quase inaud�vel, mas KGB estendeu a m�o e desligou-o, de qualquer maneira. Ent�o ela se virou para mim e disse muito lentamente:</p><p>� Eu� fazer� falar� ingl�s. � que � dif�cil de entender com o vento soprando. Eu pensei que voc� diz que fazer molhos, como molhos de tomate, porque voc� fazer esta noite: molhos de tomate.</p><p>� Est� tudo bem � disse, sorrindo. � Voc� fala ingl�s muito melhor do que eu falo russo.</p><p>� <emphasis>Da</emphasis> � disse ela suavemente, e se virou para mim, apoiando as costas contra a porta do passageiro e cruzando os bra�os sob seus seios. Ela havia jogado um su�ter de tric� macio sobre sua camiseta rosa, com um decote V muito baixo, limitado por duas listras grossas, uma marrom e outra verde. Era o tipo de su�ter de t�nis que a gente v� as pessoas usando em fotografias antigas. Ela havia arrega�ado um pouco as mangas, revelando pulsos maravilhosamente flex�veis e um rel�gio bastante cl�ssico, fino e discreto. Tinha uma pulseira rosa p�lido e o mostrador branco. Seu cabelo loiro era brilhante como a seda e repousava sobre ambos os lados do su�ter, enquadrando o rosto de um anjo.</p><p>Ela n�o se parecia com um agente da KGB, n�o �? Respirei fundo, olhei para seus lindos olhos azuis e sorri calorosamente. Por mais que eu tentasse, n�o conseguia evitar de compar�-la com a Duquesa. De muitas maneiras, as duas eram muito parecidas. Loiras, de olhos azuis, ombros largos e fina ossatura, propor��es perfeitas acima e abaixo da cintura. E ambas exibiam a mesma postura imperiosa de l�der de torcida, com os ombros puxados para tr�s, joelhos travados e bundas perfeitamente redondas e firmes, o que costumava me deixar louco.</p><p>� Voc� � linda � disse baixinho para KGB, ignorando meu �ltimo pensamento.</p><p>� <emphasis>Da</emphasis> � disse ela, cansada � <emphasis>krasavitza, krasavitza</emphasis>� Eu sei disso � e ela balan�ou a cabe�a com igual cansa�o, como se dissesse: �Eu j� ouvi isso mais de mil vezes, ent�o voc� vai ter que fazer melhor que isso�. Ela sorriu e disse: � E voc� � gracinha tamb�m, voc� igual homem russo de verdade! � ela riu. � Voc� sabe disso?</p><p>Eu balancei a cabe�a e sorri.</p><p>� N�o, o que voc� quer dizer?</p><p>Ela ergueu o queixo em dire��o � minha tornozeleira.</p><p>� Voc� rouba dinheiro � ela piscou � como homem russo de verdade! � Ela riu. � E eu ouvir voc� rouba muito!</p><p>Puta merda!, pensei. Malditos russos! Naturalmente, n�o era o momento para alertar KGB para o fato de que eu n�o tinha roubado o bastante e que por causa disso eu n�o viveria mais em Meadow Lane no pr�ximo ver�o. Melhor deixar essa informa��o para outra hora, decidi.</p><p>� Sim � eu disse, for�ando um sorriso �, mas n�o estou exatamente orgulhoso disso.</p><p>� Quando a cadeia para voc�? � perguntou ela.</p><p>� Ainda vai levar um tempo � respondi suavemente. � Mais quatro anos ou mais. Eu realmente n�o sei.</p><p>� E sua esposa?</p><p>Eu balancei a cabe�a para tr�s e para a frente.</p><p>� Estamos nos divorciando.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a, tristemente.</p><p>� Ela � bonita.</p><p>� Sim, ela � � eu disse, suavemente. � E ela me deu dois filhos maravilhosos. Acho que sempre vou am�-la por isso, sabia?</p><p>� Voc� ainda a ama? � perguntou.</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� N�o, n�o � dei de ombros. � Quer dizer, por um tempo pensei que ainda a amasse, mas acho que foi apenas� � parei por um momento, tentando encontrar palavras que KGB pudesse entender. Na verdade, eu n�o estava realmente certo de como me sentia sobre a Duquesa. Eu a amava e a odiava, e suspeito que sempre me sentiria assim. Mas de uma coisa eu tinha certeza, que a �nica maneira de superar o amor/�dio por algu�m seria me apaixonar por outra pessoa� � Acho que foi apenas a <emphasis>ideia</emphasis> de am�-la. Eu n�o estava realmente apaixonado por ela. Muitas coisas ruins aconteceram. Muita m�goa � olhei nos olhos da KGB. � Voc� entende o que eu quero dizer?</p><p>� <emphasis>Da</emphasis> � respondeu ela rapidamente �, entendo, muito comum � ela olhou para longe por um momento, como se estivesse perdida em pensamentos. � Voc� sabe, eu estou aqui nove anos � balan�ou a cabe�a, espantada. � Voc� pode imaginar? Eu deveria falar melhor, acho, mas eu nunca tenho amigos americanos. Meus amigos s�o todos russos.</p><p>Eu balancei a cabe�a, compreensivo, pois entendia muito mais do que a KGB provavelmente imaginaria. Havia apenas dois tipos de russas que eu havia conhecido at� agora: as que abra�avam os Estados Unidos e as que os desprezavam. As primeiras faziam tudo o que podiam para assimilar o modo de vida americano: aprendiam o idioma, namoravam homens americanos, comiam comida t�pica e, com o tempo, se tornavam cidad�s americanas.</p><p>O segundo grupo, no entanto, fazia exatamente o contr�rio: se recusava a assimilar nossa cultura. Mantinha sua heran�a sovi�tica como um c�o com um osso velho. Eles viviam em meio aos russos, trabalhavam em meio aos russos, socializavam com os russos e se recusavam a dominar a l�ngua. E, bem no fundo disso tudo, eu sabia, havia o fato de que ainda ansiavam pelos dias gloriosos do imp�rio sovi�tico, quando o mundo se maravilhava com a engenhosidade do Sputnik, a coragem de Yury Gagarin e a vontade de ferro de Khrushchev. Aquele fora um momento inebriante para ser sovi�tico, com o mundo tremendo diante do Pacto de Vars�via, do Muro de Berlim e da crise dos m�sseis de Cuba.</p><p>Yulia Sukhanova tinha sido um produto de tudo isso; n�o, ela sintetizava isso. Ela ainda ansiava pelos dias do Grande Imp�rio Sovi�tico e, como consequ�ncia, tinha se recusado a assimilar a cultura local. Ironicamente, isso n�o me fez respeit�-la menos � na verdade, muito pelo contr�rio: eu senti sua dor. Eu tamb�m tinha subido uma vez, para as alturas malucas de Wall Street, tornando-me uma esp�cie de celebridade, ainda que num sentido distorcido da palavra. No entanto, assim como Yulia Sukhanova, tinha visto tudo desabar sobre mim. A �nica diferen�a era que a queda dela n�o tinha sido por culpa pr�pria.</p><p>Ainda assim, n�s dois, � o que parecia, precis�vamos descobrir uma maneira de reconciliar um passado completamente insano com qualquer futuro poss�vel. Talvez, pensei, pud�ssemos faz�-lo juntos; talvez, logo que tiv�ssemos conseguido ultrapassar a barreira da l�ngua, ela pudesse me ajudar a entender o que tinha acontecido na minha vida, e eu poderia ajud�-la a achar sentido na dela. Com esse pensamento, respirei fundo e fui adiante:</p><p>� Posso beij�-la? � disse, suavemente.</p><p>Ao que Miss Yulia Sukhanova, a primeira, �ltima e �nica Miss Uni�o Sovi�tica, sorriu timidamente. Ent�o ela assentiu.</p></section><section><p>CAP�TULO 22</p><p><strong>MANTENDO O RUMO</strong></p><p>E n�s fizemos amor.</p><p>N�o naquela noite, mas no dia seguinte.</p><p>Foi lindo; na verdade, n�o apenas lindo, mas, gra�as a alguns bioqu�micos muito experientes da empresa farmac�utica Pfizer, meu desempenho foi o de um garanh�o fenomenal.</p><p>O que houve foi que, pouco antes de apanhar a KGB na casa da Criatura em Sag Harbor, engoli 50 miligramas de Viagra com o est�mago vazio. Em consequ�ncia, no momento em que estacionava em minha cal�ada naquela tarde, tive uma ere��o que o DEA poderia ter usado para arrombar a porta de uma casa de viciados em crack.</p><p>N�o que eu fosse impotente ou nada parecido (eu juro!), mas parecia uma atitude prudente. Afinal, consumir uma bomba azul, como o Viagra era carinhosamente conhecido (devido � sua cor arroxeada e a seu efeito bomb�stico), era o equivalente a fazer uma ap�lice de seguro bioqu�mica contra o mais temido de todos os complexos masculinos: a ansiedade de desempenho.</p><p>E eu fui um garanh�o bioqu�mico, n�o apenas naquela tarde, mas naquela noite tamb�m. O que a Pfizer n�o anuncia na bula (e todo homem que j� tomou um sabe) � que essa bomba azul permanece em seu sistema por um tempo. Assim, oito horas depois, sua ere��o pode n�o ser mais como um ar�ete, mas ainda � firme o suficiente para pendurar algumas pe�as de roupa.</p><p>Em algum lugar por volta da 14<sup>a</sup> hora, as �ltimas mol�culas da bomba azul tinham se metabolizado ao ponto da inutilidade, transformando-me novamente num homem mortal. Foi por essa raz�o que, precisamente 14 horas depois, eu tomei outra bomba azul, e 14 horas depois, mais outra.</p><p>A KGB, pensei, poderia lidar com isso. No entanto, na quarta-feira de tarde, ela come�ou a reclamar. Ela estava mancando em dire��o ao banheiro do quarto de casal, vestindo seu uniforme sovi�tico, que consistia em uma fita vermelho-comunista no cabelo e nada mais, e murmurava:</p><p>� <emphasis>Bleaha muha</emphasis>! Sua coisa n�o desce! H� algo errado aqui! � uma loucura! � uma loucura! � e bateu a porta do banheiro atr�s de si, resmungando um pouco mais de palavr�es russos.</p><p>Enquanto isso, eu estava deitado na cama, virado para cima, vestido com meu uniforme americano, que consistia de um monitoramento eletr�nico emitido pelo governo federal e uma ere��o induzida por Viagra que era mais r�gida que a�o, e estava bastante sorridente. Afinal, n�o � todo dia que um garoto judeu do Queens de 1,70 metro consegue enviar a primeira, �ltima e �nica Miss Uni�o Sovi�tica mancando para o banheiro, com a bunda em chamas! E, apesar de ser imposs�vel negar que os meninos na Pfizer ajudaram, n�o era essa a quest�o.</p><p>A quest�o era que eu estava me apaixonando novamente.</p><p>De fato, no final da tarde, quando KGB me disse que teria de voltar para seu apartamento em Manhattan, senti meu cora��o afundar no peito. Quando ela me ligou algumas horas depois, dizendo que estava com saudades, meu cora��o disparou. E ent�o, quando ela ligou de novo, duas horas depois disso, s� para dizer �Ol�, eu imediatamente liguei para Monsoir e pedi que ele fosse busc�-la no apartamento dela para traz�-la de volta aos Hamptons.</p><p>Assim, chegou mais tarde, naquela noite, carregando uma grande mala, que de bom grado ajudei a desfazer. E foi assim que n�s nos tornamos insepar�veis. Ao longo dos dias seguintes, n�s fizemos tudo juntos: comemos, bebemos, dormimos, fomos �s compras, jogamos t�nis, fizemos exerc�cios, andamos de bicicleta, de patins, de <emphasis>jet-ski</emphasis> e at� tomamos banho juntos!</p><p>E, � claro, em todas as oportunidades, fizemos amor.</p><p>Toda noite acend�amos uma fogueira na praia e faz�amos amor em uma manta de algod�o branco, sob as estrelas. E, � claro, a cada estocada, eu dava uma espiada em dire��o �s dunas, verificando se o temido Igor n�o estaria por perto, mas, segundo ela, era apenas seu cunhado que tinha vindo para os Estados Unidos para ficar de olho nela. Embora sua explica��o me parecesse um pouco rasa, decidi n�o pression�-la com essa quest�o.</p><p>Quando o final de semana chegou, o pessoal das festas n�o apareceu. A Criatura tinha cuidado disso, espalhando a not�cia de que a casa 1.496 da Meadow Lane estava fechada para balan�o. Na manh� seguinte, segunda-feira, eu deixei KGB em seu apartamento na cidade para apanhar mais pertences e desci para o n�mero 26 da Federal Plaza para uma reuni�o com o Canalha e o TOC. N�o surpreendentemente, eu estava de volta �s boas gra�as do Canalha, ent�o a reuni�o foi r�pida.</p><p>O tema foi a picada que dar�amos em Gaito em breve, e chegamos � r�pida decis�o de que eu iria marcar uma �ltima reuni�o com o Chef antes de James Loo vir para a cidade. O objetivo era simples: fazer James Loo aceitar dinheiro vivo. Eu diria ao Chef que queria que James Loo visse que eu estava falando s�rio e queria saber se ele era s�rio tamb�m. Eu daria a Loo um dep�sito em dinheiro de pouco valor, como sinal de boa f�: 50 mil d�lares, seria a sugest�o, que ele poderia usar para as coisas andarem.</p><p>No come�o eu estava c�tico em rela��o ao plano, pensando que o Chef poderia farejar um delator. Mas, pensando bem, eu sabia que ele n�o iria fazer isso. Por alguma raz�o inexplic�vel, algo tinha se desligado em sua mente, talvez devido � alegria irracional que ele tinha em ficar � margem da lei.</p><p>Ele era um homem complicado, um cidad�o cumpridor da lei e que jamais sonharia em viol�-la da forma como a considerava, ou seja, todas as leis que n�o tivessem a ver com negocia��o de t�tulos e circula��o de dinheiro e sua posterior comunica��o � Receita Federal. Se voc� fosse pedir ao Chef conselhos sobre como roubar um banco ou falsificar cheques, ele iria denunci�-lo �s autoridades ou, mais provavelmente, apagaria seu n�mero de telefone para sempre.</p><p>Aquilo, no entanto, era diferente. N�s est�vamos falando sobre dinheiro que, em sua cabe�a, hav�amos roubado de forma justa e limpa, sem viol�ncia, sem armas colocadas na cabe�a das pessoas, com v�timas que n�o tinham nome nem rosto e, o mais importante, ele achava que, se a gente n�o tivesse feito aquilo, outra pessoa teria feito a mesma coisa. Em consequ�ncia, era justificado que escond�ssemos nosso dinheiro sujo daqueles que pretendiam encontr�-lo.</p><p>Portanto, em retrospecto, n�o foi de fato um grande choque para mim quando o Chef e eu nos encontramos dois dias mais tarde, em meu escrit�rio, e ele achou que ter trazido �um sinal de boa f� para nosso encontro era uma ideia fabulosa.</p><p>Ele passou a explicar seu esquema de lavagem de dinheiro nos mais �nfimos detalhes � chegando at� mesmo a mencionar o nome dos parentes de James Loo que nos ajudariam na �sia. Ele tamb�m deu o nome dos bancos e das empresas de fachada que usar�amos, terminando com o �libi imperme�vel que ele iria grudar em toda a opera��o, caso Coleman e seus rapazes ouvissem falar de alguma coisa.</p><p>Era um plano inspirado, que envolvia a compra de im�veis em meia d�zia de pa�ses do Extremo Oriente e a manuten��o de um pessoal em tempo integral no exterior, para operar uma s�rie de empresas leg�timas � fabricantes de roupas no Vietn� e no Camboja e de eletr�nicos na Tail�ndia e na Indon�sia, onde o custo do trabalho era mais barato e a m�o de obra era feliz.</p><p>Sim, o plano era brilhante, tudo bem, mas tamb�m era incrivelmente complicado. Na verdade, era t�o complicado que me perguntei se um j�ri algum dia seria capaz de compreend�-lo. Ent�o peguei um bloco de notas em cima da mesa de bronze e vidro, arranquei uma folha de papel, peguei uma caneta e comecei a desenhar um diagrama.</p><p>Com a voz baixa conspirat�ria, eu disse:</p><p>� Ent�o deixe-me ver se entendi: vou dar a James Loo 50 mil d�lares � e desenhei uma caixa com o nome de Loo e mais o valor de 50 mil d�lares �, e ele ent�o vai fazer com que uma de suas pessoas leve esse dinheiro para o exterior, para sua cunhada, Sheila Wong<sup>1</sup>, em Cingapura � fiz outra caixa do outro lado da folha, com o nome de Sheila, e desenhei uma longa linha conectando as duas caixas �, e depois Sheila vai usar esse dinheiro para abrir contas em Hong Kong e nas Channel Islands e Gurnsey� � e antes de eu terminar de falar sobre o papel de Sheila em nosso esquema, o Chef arrancou a caneta de minha m�o e come�ou a desenhar um diagrama que se assemelhava bastante com os planos para um submarino nuclear. Enquanto ele narrava seu plano, com uma mistura de orgulho e satisfa��o, o gravador funcionava, registrando cada uma de suas palavras.</p><p>Quando o Chef terminou, ele disse:</p><p>� Isso � um verdadeiro Picasso, mas � melhor jog�-lo no lixo!</p><p>Amassei o bilhete em uma pequena bola e fiz exatamente isso.</p><p>� Melhor prevenir que remediar � eu disse, casualmente.</p><p>N�s trocamos um abra�o no estilo mafioso e ent�o confirmei nossos planos de encontrar James Loo na segunda-feira. Eu sugeri o Hotel Plaza Ath�n�e, em Manhattan, onde, por pura coincid�ncia, expliquei, eu iria ficar por alguns dias com minha nova namorada. Mas n�o era por acaso, � claro. Muito antes de Loo e o Chef chegarem l�, TOC e sua equipe de tecnologia teriam grampeado todo o quarto com som e imagem.</p><p>Quando me encontrei com TOC depois, brinquei que estava fazendo meu velho truque de novo, passando notas e tal, embora dessa vez tivesse guardado aquela para a posteridade.</p><p>Com isso, lhe entreguei um envelope lacrado, com a fita e o papel todo amassado dentro.</p><p>� � melhor voc� parar na Macy�s e comprar um ferro a vapor � eu disse, brincando. � Voc� vai precisar.</p><p>Ent�o entrei no carro e voltei para os Hamptons.</p><p>Mas, infelizmente, ao longo dos dias seguintes, comecei a me sentir culpado de novo.</p><p>Naquele domingo � noite, o pensamento de entregar o Chef se tornou deprimente. Aparentemente, o fato de me apaixonar pela KGB tinha suavizado a picada dos recentes acontecimentos, aquelas terr�veis trai��es que tinham acendido chamas de vingan�a na maneira como eu enxergava os amigos como inimigos e os inimigos como amigos. Agora, no entanto, eu n�o estava mais t�o certo.</p><p>Foi um pouco antes das 9 horas. KGB e eu est�vamos desfrutando de nosso pequeno ritual noturno, sentados sobre o cobertor de algod�o branco perto da �gua, com uma pequena fogueira queimando pr�xima, lutando contra os primeiros arrepios do outono. Logo acima do horizonte, uma lua cheia alaranjada estava dependurada no c�u noturno, com as �guas escuras do Atl�ntico logo abaixo dela.</p><p>� Ela parece perto o suficiente para ser tocada, n�o acha?</p><p>� <emphasis>Da!</emphasis> � respondeu ela � Parecem um queijo su��o.</p><p>� <emphasis>Parece</emphasis> � disse eu, corrigindo-a. � Ela <emphasis>parece</emphasis> um queijo su��o.</p><p>� O que voc� quer dizer? � perguntou.</p><p>Eu peguei a m�o dela e apertei-a com amor.</p><p>� Quero dizer que voc� tem o h�bito de misturar os verbos e os nomes. Como quando disse <emphasis>ela parecem</emphasis> em vez de <emphasis>ela parece</emphasis>. N�o � grande coisa, na verdade, � apenas uma quest�o de singular ou plural. Veja s�, quando se tem uma coisa s�, como uma lua, � <emphasis>parece</emphasis>. Mas quando se tem mais de uma coisa, como as estrelas, se diz <emphasis>parecem</emphasis>. Novamente, n�o � grande coisa, s� que � engra�ado, meio que d�i nos ouvidos.</p><p>� O que voc� quis dizer d�i ouvidos? � perguntou ela, soltando minha m�o.</p><p>� <emphasis>Nos</emphasis> ouvidos � respondi calmamente, embora um pouco de frustra��o tivesse me invadido �, e esse � um bom exemplo do que acabei de dizer. � Respirei fundo e disse: � Voc� �engole� o artigo, Yulia, sempre! E o artigo � a coisa mais utilizada quando falamos! Ele d� certo ritmo para as coisas, um determinado fluxo, e quando voc� n�o diz, como acabou de falar �d�i ouvidos�, ou quando diz �quero ir shopping�, soa engra�ado. Quer dizer, parece que voc� � ignorante ou algo assim, e eu sei que voc� n�o � � dei de ombros novamente, n�o querendo fazer daquilo um grande problema, embora n�o pudesse evitar.</p><p>N�s est�vamos passando todo o tempo juntos, e sua defici�ncia no idioma estava come�ando a me incomodar. Al�m disso, estava apaixonado por ela, ent�o sentia que era minha obriga��o ensin�-la ou trein�-la, por assim dizer, e conduzi-la suavemente pelo caminho para uma pequena aldeia chamada �Assimila��o�.</p><p>� De qualquer forma � continuei �, se voc� realmente quer melhorar seu conhecimento de nossa l�ngua, gostaria de come�ar com essas duas coisas: o uso do artigo e saber quando � plural e quando � singular� sorri e agarrei a m�o dela. � A partir da�, todas as coisas boas vir�o � pisquei para ela. � E, se voc� quiser, eu poderia at� ser seu professor! Cada erro que fizer eu� Ai! O que voc� Aiiiii! Pare, isso d�i� Aiii! Aii! Aiiiiiiiiiiiii! � gritei. � Solte meus dedos, voc� vai quebrar meus� Pare!</p><p>� Seu putinho! � murmurou, enquanto dobrava meus dedos para tr�s num apert�o KGB. � Voc� e seu ingl�s idiota, r�! Os Estados Unidos pensa que � dona do mundo! <emphasis>Bleaha muha!</emphasis> Porcos capitalistas!</p><p>�<emphasis>Pensam</emphasis> que s�o donos do mundo�, pensei, e ent�o gritei:</p><p>� Solte! Ai! Solte meus dedos! Por favor, voc� vai quebr�-los!</p><p>Ela soltou meus dedos, ent�o virou as costas para mim e come�ou a murmurar:</p><p>� Americano idiota� Isso rid�culo!</p><p>� Puta merda! � gaguejei. � Qual � seu problema? � comecei a sacudir os dedos no ar, tentando aliviar a dor. � Voc� poderia ter quebrado meus dedos com aquele aperto de morte da porra da KGB! � balancei a cabe�a com raiva. � E quem � voc� para me chamar de putinho, hein? Agora voc� acha que eu sou um puto? Cinco minutos atr�s voc� estava dizendo quanto me amava e agora est� me falando palavr�es� � balancei a cabe�a, triste, como se estivesse muito desapontado com ela. E me preparei para um sexo que seria uma maravilha depois daquela discuss�o.</p><p>Depois de alguns segundos, ela se virou para mim, pronta para fazer as pazes novamente.</p><p>� <emphasis>Praste minya</emphasis> � disse ela, suavemente, e eu presumi que significava obrigado, e ent�o ela come�ou a balbuciar algo em russo. Seu tom era bastante doce, na verdade, de forma que supus que ela tentara quebrar meus dedos por amor.</p><p>Ent�o, ela disse:</p><p>� Venha aqui, <emphasis>musek-pusek</emphasis>; deixe-me beijar seu <emphasis>palcheke</emphasis> � e agarrou meus dedos e come�ou a beij�-los muito suavemente, o que me levou a acreditar que <emphasis>palcheke</emphasis> eram dedos.</p><p>Sentindo-me vingado, inclinei-me para tr�s sobre o cobertor e me preparei para minha recompensa (ou seja, ela beijar meu p�nis ereto), e apenas um segundo depois ela estava deitada a meu lado e n�s est�vamos nos beijando. Foi um beijo lento e suave, um beijo russo, que parecia durar uma eternidade. Em seguida, ela descansou a cabe�a no meu ombro, e n�s dois, amantes mais uma vez, ficamos olhando para o c�u, contemplando a extens�o impressionante do universo, a lua alaranjada, as estrelas brilhantes, a difusa banda branca da Via L�ctea.</p><p>� Sinto muito por antes � disse eu, mentindo atrav�s dos dentes. � N�o vou mais corrigi-la, se n�o quiser. Quer dizer, n�o me importo se a lua parece um queijo su��o ou parecem um queijo su��o, enquanto estiver olhando para voc�.</p><p>Dizendo isso, beijei-a no topo da cabe�a loira e puxei-a para mais perto de mim.</p><p>Ela respondeu, colocando a perna longa e nua sobre a minha e se apertando contra mim, como se estiv�ssemos tentando nos tornar uma s� pessoa.</p><p>� <emphasis>Ya lublu tibea</emphasis> � disse ela, suavemente.</p><p>� Eu tamb�m te amo � respondi no mesmo tom.</p><p>Respirei fundo e olhei para a lua, me perguntando se eu j� tinha sido mais feliz do que era agora. Aquela menina era realmente especial � <emphasis>Miss Uni�o Sovi�tica, porra</emphasis>! � a conquista do s�culo e, mais importante, o ant�doto perfeito para a trai��o da Duquesa.</p><p>Com uma boa dose de nostalgia na voz, eu disse:</p><p>� Sabe, eu me lembro de olhar para a lua quando era crian�a e ficar totalmente abismado com ela. O que quero dizer � que sabia que pessoas j� tinham estado l� em cima e caminhado sobre ela, entendeu? Em 1969, voc� s� tinha 1 ano de idade, de modo que era nova demais para se lembrar daquele dia, mas eu me lembro como se fosse ontem. Meus pais tinham uma TV preto e branco na cozinha e todos n�s est�vamos l�, aglomerados em torno dela, observando Neil Armstrong descer a escada. Quando ele deu seus primeiros passos na Lua e come�ou a saltar � balancei a cabe�a, assombrado � decidi que queria ser um astronauta � deixei escapar alguns risos envergonhados. � Sonhos de menino. Que de alguma forma me levaram a Wall Street. Eu nunca teria imaginado isso naquela �poca.</p><p>A KGB riu de volta, embora seus risos tivessem um qu� ir�nico:</p><p>� Esse � grande piada americana � disse ela, confiante. � Voc� sabe disso, certo?</p><p>� O que� Que todo menino queria ser astronauta?</p><p>� <emphasis>Nyet</emphasis>� respondeu ela rapidamente. � Eu falo sobre lua � <emphasis>a lua, pelo amor de deus, o que tem de t�o dif�cil nessa merda</emphasis>? � Tem uma palavra ingl�s para coisa de lua de voc�s� Esse� H� Como se diz� <emphasis>falcefekaceja</emphasis>� Ah! Voc� faz embuste!</p><p>� N�s fazemos <emphasis>um</emphasis> embuste! Voc� est� tentando dizer que o pouso na Lua foi uma farsa?</p><p>� <emphasis>Da</emphasis> � exclamou alegremente e ficou de p� olhando para mim. � Isso fraude contra o povo sovi�tico! Todo mundo sabem disso.</p><p>� <emphasis>Sabe</emphasis> � respondi, com os dentes cerrados. � Todo mundo <emphasis>sabe</emphasis> disso� Voc� n�o est� realmente olhando para mim com essa cara impass�vel e dizendo que acha que os Estados Unidos forjaram os pousos na Lua para constranger a M�e R�ssia! Por favor, n�o me diga isso! � olhei para ela, incr�dulo.</p><p>Ela apertou os l�bios e balan�ou a cabe�a lentamente.</p><p>� Este pouso voc� fala � filmado em est�dio de cinema. Todos no resto do mundo sabe disso. S� aqui as pessoas acreditam. Como voc� acha que Am�rica voar para a Lua, quando a Uni�o Sovi�tica n�o p�de? Tivemos cosmonauta feminina no espa�o enquanto voc�s estava voando macaco! E de repente voc� bater-nos na corrida para Lua? Ah, por favor, isso � brincadeira! Olhe para fotos. Voc� v� bandeira ondeando na lua, mas n�o h� atmosfera. Assim, como pode ondear bandeira? E o dia � noite, quando a noite deve ser o dia e planeta Terra sobe, quando se deve cair. E h� cintur�o de radia��o� � e assim por diante, a KGB foi explicando como o pouso na Lua era nada mais que um embuste gigantesco filmado em um est�dio de cinema de Hollywood, com o �nico prop�sito de constranger sua amada Uni�o Sovi�tica. � Vamos conversar sobre isso com Igor quando voc�s se encontrarem, e depois voc� vai ver a verdade. Igor � famoso cientista. Ele domar o fogo.</p><p>Eu balancei a cabe�a, descrente, sem saber ao certo como reagir �quilo.</p><p>� Bem � disse, lutando contra a vontade de dizer a ela que sua amada ex-Uni�o Sovi�tica, incluindo o extinto programa espacial, tinha se tornado nada mais que uma piada �, todo ser humano tem direito � opini�o, embora eu deva lhe dizer que, para montar uma conspira��o assim, voc� precisaria de mil pessoas, cada uma delas jurando manter esse segredo monumental, e neste pa�s, eu garanto a voc�, se mais de duas pessoas sabem de alguma coisa, isso n�o fica em segredo por muito tempo. E n�o quero nem mencionar o fato de que houve, na verdade, tr�s pousos na Lua, e n�o apenas um. Ent�o vamos apenas supor que, para fins de discuss�o, o governo de fato tenha forjado o primeiro pouso lunar e tido a sorte de se safar. Por que ele iria arriscar de novo? Seria como dizer: �Ei, escapei uma vez, senhor Brezhnev! Agora quero que voc� observe muito de perto como vou fazer isso de novo e veja se voc� pode me pegar dessa vez!�. Mas, ei, o que eu sei sobre as coisas? Quer dizer, talvez os alien�genas tenham mesmo ca�do em Roswell e voc� estivesse certa quando disse ontem que �os Estados Unidos nunca lutaram na Segunda Guerra Mundial� � p�rola de sabedoria que KGB tinha compartilhado comigo na quadra de t�nis, depois de eu venc�-la em dois sets em 11 minutos e meio, quando ent�o lutamos na grama e a luta acabou comigo gritando: �Solte-me, pare! Voc� est� me machucando!� � e que �os americanos roubaram os planos para a primeira bomba at�mica da R�ssia, n�o o contr�rio�.</p><p>Essa �ltima tinha sa�do dos l�bios comunistas e vermelhos de KGB enquanto assist�amos a um document�rio do History Channel que discutia as armas de guerra. KGB me informou que o povo russo, o que significa dizer os sovi�ticos, foi respons�vel por praticamente todas as inven��es significativas, desde a bomba at�mica at� a m�quina de raio-X, da literatura de qualidade at� a goma de mascar.</p><p>� Na verdade, Yulia, e digo isso por amor, como em <emphasis>ya lublu tibea</emphasis>, o que de fato me interessa � a cura pelo fogo descoberta por Igor. Conte-me tudo, porque isso, sim, � o que eu acho mais fascinante!</p><p>Ela me olhou por um momento, sacudindo a cabe�a com ironia.</p><p>� Voc� n�o gostaria de sabe�</p><p>� Sim � respondi �, claro que eu gostaria de <emphasis>sabe</emphasis>! Ent�o, por que voc� n�o me conta?</p><p>Ela me olhou com os olhos semicerrados. Ent�o fez um gesto com seu delicado queixo em dire��o � nossa pequena e perfeita fogueira de praia, na base da qual repousava uma Duraflame.</p><p>� Voc� v� chama?</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� Sim, o que t�m <emphasis>as</emphasis> chamas?</p><p>KBG estalou os dedos longos e finos e fez <emphasis>pop!</emphasis> no ar.</p><p>� Assim, desse jeito � disse ela, com orgulho �, Igor pode fazer chama ir embora.</p><p>� E como � que ele faz isso? � perguntei, c�tico.</p><p>� Ele controlar atmosfera � respondeu ela, com indiferen�a, como se controlar a atmosfera n�o fosse mais dif�cil que o ajuste de um termostato.</p><p>Olhei para ela por um momento, admirado e tentando calcular quanto dinheiro eu poderia ter feito com um cientista russo maluco disposto a afirmar que controlava a atmosfera. Ele era exatamente o tipo de coisa que os strattonitas teriam engolido. Eu colocaria Igor na frente da sala de preg�es vestido num traje de m�gico, como o professor Dumbledore de <emphasis>Harry Potter,</emphasis> e diria ao microfone: �Eis o Professor Igor e sua cura pelo fogo!�. Os strattonitas teriam aplaudido feito loucos e colocado fogo em Lake Success, e ent�o Igor poderia exibir seu material.</p><p>Eu disse � KGB:</p><p>� Ahh, agora entendi! Eu acho que realmente vi isso nos filmes. Foi em <emphasis>Austin Powers</emphasis>. Dr. Evil havia descoberto uma maneira de controlar o tempo e queria manter o mundo como ref�m. Pensando bem, talvez fosse James Bond. Ou foi o Superman? � dei de ombros. � Eu n�o tenho certeza.</p><p>Ela encolheu os ombros para tr�s.</p><p>� Ri tudo o que voc� quiser, espertinho, mas eu n�o brincando. Igor pode curar fogo, e eu sou acionista da empresa. Um dia ele vai�</p><p>KGB continuou falando, mas eu parei de escutar. Acho que ela realmente acreditava no que estava dizendo, n�o apenas no absurdo do professor Igor, mas em tudo. Ela havia crescido com um conjunto diferente de livros de hist�ria, assistindo � TV sovi�tica, na qual n�s �ramos o Imp�rio do Mal determinado a dominar o mundo. Dei uma olhadinha no meu rel�gio: eram 9h30 da noite. Eu tinha que estar no Plaza Ath�n�e por volta das 9 horas da manh� no dia seguinte, o que significava que eu tinha que sair dos Hamptons �s 6 e meia.</p><p>J� era hora de encerrar aquela noite, coisa que n�o podia fazer at� depois de ter transado com KGB em frente ao fogo. Aquele era nosso ritual, afinal, algo que os dois ansiavam fazer todos os dias. Ent�o agora eu tinha de concordar com ela. Sim, diria: �<emphasis>Apesar de meu ceticismo anterior, agora estou convencido de que a cura de Igor pelo fogo deve mudar o mundo. Ent�o, seja uma boa namorada, KGB, e venha fazer amor comigo. Eu n�o me importo que seja uma comunista empedernida. Eu te amo assim mesmo!</emphasis>�.</p><p>E foi exatamente isso que aconteceu.</p><empty-line/><empty-line/><p>NA MANH� SEGUINTE, precisamente �s 11 horas, o Chef e James Loo entraram no quarto 1104 do Hotel Plaza Ath�n�e. Era uma su�te de um quarto e dois banheiros, e o Chef e James Loo pareciam dois cordeiros se encaminhando para um matadouro.</p><p>Cumprimentei-os na porta da frente, abra�ando primeiro o Chef e depois trocando um aperto de m�o caloroso com James Loo, que era um sujeito baixo, um pouco calvo, usando um terno caro sem gravata.</p><p>Conduzi os dois para a sala principal, bem ao lado da entrada da varanda. O quarto ficava do lado oposto da su�te e a porta estava bem trancada, por uma boa raz�o. Dentro daquele quarto, usando fones de ouvido, rev�lveres e express�es s�rias no rosto, estavam quatro agentes do FBI, TOC, M�rmon e mais dois caras da t�cnica, ambos na casa dos 30 anos e com cara de quem conserta computadores.</p><p>T�nhamos passado as �ltimas duas horas analisando a sala de estar e checando os v�rios �ngulos das c�meras e os lugares onde poder�amos esconder os microfones. Era um espa�o pequeno, com talvez 4 metros por 6. Tr�s janelas altas que davam para a rua 64 deixavam entrar uma boa quantidade de luz, tanta luz que os caras da t�cnica fecharam as cortinas vermelhas de bordel para reduzir o brilho.</p><p>Ofereci o sof� a meus convidados e me sentei em uma das poltronas. Eu j� tinha combinado as coisas com os meninos no quarto. Naquele exato momento, eles estavam assistindo a tudo no monitor de 12 polegadas do circuito interno de TV que recebia imagens de uma c�mera escondida dentro de um rel�gio digital. O rel�gio estava em uma das mesas laterais, colocado l� pelo pessoal de tecnologia. Ironicamente, eu n�o tinha sido grampeado hoje, apenas o quarto, de acordo com uma ordem judicial. A �nica coisa que eu escondia no bolso da minha jaqueta esporte era um envelope muito gordo com 50 mil d�lares dentro, os quais entregaria a Loo no momento apropriado.</p><p>Depois de alguns minutos de conversa, eu disse:</p><p>� Quero que voc� saiba, James, que Dennis avalizou voc� em 100%. E isso significa muito para mim.</p><p>James assentiu respeitosamente.</p><p>� E digo o mesmo � disse ele. � Dennis tamb�m o recomendou bastante, ent�o eu estou muito confort�vel.</p><p>� Isso � muito bom � disse o Chef, que tinha pouca capacidade para essas bajula��es. � E agora que j� est� resolvido, vamos passar para as coisas boas!</p><p>� Claro � concordei. � Quanto mais cedo eu tiver meu dinheiro no exterior, melhor. A prop�sito, James, quero que voc� saiba que o fato de ter feito um monte de neg�cios com Bob me deixa muito mais confort�vel � balancei a cabe�a, respeitosamente. � � como receber um endosso do papa, sabe?</p><p>Na verdade, era mais como um endosso de Darth Vader, pensei.</p><p>James assentiu.</p><p>� Sim, temos uma hist�ria muito boa juntos. E tamb�m � uma hist�ria muito engra�ada sobre como nos conhecemos.</p><p>� Ah, � mesmo? � disse eu. � Gostaria de ouvi-la.</p><p>� Bem � ele disse, com orgulho �, eu era o que voc� chama de �CEO de emerg�ncia� numa das subscri��es de Bob.</p><p>� Sim, veja s� isso! � retrucou o Chef. � Bob faz um acordo, ganha 10 milh�es, mas o CEO chuta o balde no dia em que a coisa vai a p�blico. Ent�o, precis�vamos de algu�m, devo dizer, qualquer um para entrar em cena. � O Chef olhou para o amigo chin�s. � Sem ofensa, James.</p><p>� Tudo bem � respondeu ele.</p><p>� Mas, ent�o � continuou o Chef �, James estava no conselho da empresa naquele momento e concordou em entrar como CEO. L�gico, ele fez a coisa certa depois, e � por isso que estamos todos sentados aqui hoje.</p><p>Eu balancei a cabe�a lentamente, pensando em uma maneira de aprofundar como James tinha �feito a coisa certa depois�, o que em termos de Chef (e em termos de Lobo) significava que James tinha continuado a emitir a��es baratas para o Dem�nio de Olhos Azuis, depois que tinha vindo a p�blico.</p><p>� E como a companhia se saiu? � perguntei casualmente. � Ela foi para algum lugar?</p><p>� Lutou por um tempo � disse James �, mas nos sa�mos bem.</p><p>O Chef disse:</p><p>� A coisa mais importante � que James � confi�vel. A empresa teve seus altos e baixos, mas James foi sempre s�lido como uma rocha. E � assim que ele vai estar com voc� nisso: s�lido como uma rocha.</p><p>Percebendo uma abertura, perguntei:</p><p>� Ent�o, voc� ajudou Bob da mesma maneira que vai me ajudar? Voc� sabe, como� � e pisquei � � As coisas l� no Oriente?</p><p>James deu de ombros.</p><p>� Eu fa�o muitas coisas para Bob, mas n�o gosto de discuti-las. Vai ser a mesma coisa com voc�. O que fazemos � apenas entre n�s e, claro, Dennis.</p><p>Eu precisava sair daquele t�pico rapidamente, ent�o sorri para James, como se o testasse para ver se era fofoqueiro.</p><p>� Isso � exatamente o que eu queria ouvir, James. Exatamente! Veja, o mais importante para mim � que ningu�m fora desta sala descubra sobre isso. Isso � crucial.</p><p>� Eles n�o v�o descobrir � disse James, confiante. � Afinal, isso seria t�o ruim para mim quanto para voc�.</p><p>� Totalmente verdade � acrescentou o Chef, com um aceno de cabe�a. � Ent�o, tudo o que tem de acontecer agora � voc� e James entrarem num acordo. Eu vou fazer o que tenho de fazer, e voc� vai fazer o que <emphasis>voc�</emphasis> tem de fazer, e ent�o James vai fazer o que <emphasis>ele</emphasis> tem de fazer, e <emphasis>badabip, badabop, badabup-schwiiiitttt</emphasis>! O dinheiro estar� l�, n�s estaremos aqui e todos poderemos dormir tranquilos � noite.</p><p>� Estamos todos entendidos aqui � disse eu, confiante � e, se estiver tudo bem para voc�, James, gostaria de seguir em frente rapidamente. Eu tenho 2 milh�es em dinheiro que desejo tirar dos Estados Unidos o mais r�pido poss�vel, porque� H� � olhei ao redor do quarto e baixei a voz � � um dinheiro das propinas, entendeu? Dos clientes a quem dei unidades para que fizessem a coisa certa e depois me devolvessem parte do dinheiro � levantei a voz lentamente ao normal. � Enfim, ent�o tenho mais 10 milh�es de d�lares j� na Su��a, que eu gostaria de transferir para sua irm�, logo que tivermos todas as contas configuradas.</p><p>� N�o � nenhum problema � disse James. � Ela � muito organizada e muito confi�vel.</p><p>O Chef disse:</p><p>� Eu posso cuidar de toda a papelada ou de qualquer outra coisa que voc� precise que seja feita. Quando se tratar de fazer investimentos, eu vou trabalhar como um conselheiro para mant�-lo um passo afastado at� que seus problemas acabem.</p><p>Eu balancei a cabe�a, compreensivo, perguntando-me se ainda havia algum motivo para ficar naquela sala um segundo a mais. Tanto o Chef quanto James Loo j� tinham se enterrado mil vezes, e ainda havia a fita do Chef que eu havia gravado no outro dia, com aquele diagrama de submarino nuclear dele.</p><p>Mas, de acordo com TOC, n�o havia nada mais poderoso diante de um j�ri que uma fita de v�deo, por isso, se poss�vel, eu deveria tentar que o Chef explicasse todo o esquema de lavagem de dinheiro de novo. Obviamente, da maneira como as coisas estavam indo, eu sabia que ele faria isso, mas eu estava t�o entediado com a coisa toda �quela altura que n�o podia mais suportar. Eu j� era especialista em lavagem de dinheiro antes de tudo aquilo come�ar e estava de saco cheio de bancar o idiota.</p><p>No entanto, eu tinha um trabalho a fazer, ent�o respirei fundo e disse:</p><p>� Tudo parece �timo, mas ainda estou um pouco confuso. S� para evitar desentendimentos no futuro, podemos passar o neg�cio inteiro mais uma vez?</p><p>O Chef balan�ou a cabe�a rapidamente, como se eu estivesse um pouco obtuso, e disse:</p><p>� Claro que sim, pegue aquela caneta e aquele papel ali, e vamos em frente�</p><p>E foi isso. Dez minutos mais tarde, eu tinha outro submarino nuclear, dessa vez ainda mais detalhado. Depois de tudo, o primeiro tinha sido apenas um prot�tipo, este j� era de segunda gera��o. Tudo o que eu tinha de fazer era passar o envelope a James. Ent�o eu teria terminado.</p><p>Dei um tapinha do lado de fora de minha jaqueta esporte, bem ao lado esquerdo do bolso.</p><p>� Imagino que Dennis tenha mencionado que eu lhe daria um pouco de dinheiro hoje, para come�ar as coisas.</p><p>James assentiu.</p><p>� Sim, o que seria excelente.</p><p>� Tudo bem, ent�o � disse o Chef �, acho que n�o precisam mais de mim, por isso vou andando. � Ele se levantou do sof�. � Tudo bem pra voc�, James?</p><p>James deu de ombros.</p><p>� Sim, n�o h� problema.</p><p>O Chef olhou para mim.</p><p>� Est� tudo bem pra voc�?</p><p>N�o, pensei, tenho de verificar primeiro com os caras no quarto.</p><p>� Claro � disse rapidamente �, est� tudo bem.</p><p>O Chef apertou a m�o de James Loo e foi para a porta.</p><p>Foi ent�o que caiu a ficha: eu nunca mais veria o Chef de novo. N�o tinha nenhuma d�vida de que, assim que o Canalha visse o v�deo, iria indiciar o Chef imediatamente e, na sequ�ncia, anunciar minha coopera��o. O fim estava se aproximando rapidamente, e era hora de me despedir do homem a quem, um dia, eu tinha confiado meus segredos mais sujos, um homem que eu havia chamado uma vez de amigo.</p><p>O Chef fora esse tipo de homem, e n�o havia mais ningu�m como ele. Era o tipo de Chef que poderia se manter no calor da cozinha, o tipo de homem que eu gostaria de ter a meu lado numa guerra. Quantas vezes eu tinha dito isso a mim mesmo ao longo dos anos? Quantas vezes eu o tinha procurado por respostas, por sua sabedoria, seus conselhos e suas palavras de coragem? E era assim que tudo iria acabar.</p><p>Quando o Chef abriu a porta do quarto de hotel, eu disse:</p><p>� Ei, Chef!</p><p>� Yo! � disse ele, sorrindo. � O que foi?</p><p>Eu sorri de volta, tristemente.</p><p>� Eu s� queria agradec�-lo por tudo que fez por mim. Estamos num neg�cio fodido demais, e voc� sempre foi um amigo para mim. N�o pense que eu n�o reconhe�o isso.</p><p>� Sim � disse ele �, s�o em momentos como esses que voc� descobre quem s�o seus verdadeiros amigos. Agora voc� sabe.</p><p>Aquelas foram suas �ltimas palavras antes de ele me dar uma piscadela e sair pela porta.</p><p>James Loo, ao contr�rio, nunca passaria por aquela porta.</p><p>Por instru��es de TOC, eu iria lhe passar o envelope e, em seguida, dizer-lhe que precisava descer por um minuto para pegar alguma coisa com o porteiro. Na sequ�ncia, eles iriam prend�-lo. Claro que o Chef nunca iria descobrir, porque James Loo tamb�m faria parte da equipe dos Estados Unidos, assim como em algum momento ele mesmo faria, eu esperava, quando chegasse a hora dele. Afinal, eles n�o estavam atr�s dele, e sim do Dem�nio de Olhos Azuis�</p><p>O Chef era apenas um degrau para chegarem at� l�.</p><p>Em meu caminho de volta para Southampton, me segurei a esse pensamento pelo que ele valia: o Chef iria cair em cima do Dem�nio e eu seria poupado da culpa de ter dedurado meu velho amigo. E, quando n�o estava mais pensando nisso, fiquei lembrando que todos os homens traem� Todos os homens traem� Todos os homens traem�</p><p>Mas eu estava errado sobre isso.</p><p>Alguns n�o traem.</p></section><section><p>CAP�TULO 23</p><p><strong>REVIRAVOLTAS DO DESTINO</strong></p><p>O �nico jornal que a KGB tinha lido em sua vida fora o <emphasis>Pravda</emphasis>, o mais respeitado jornal da antiga Uni�o Sovi�tica. Em russo, a palavra <emphasis>pravda</emphasis> quer dizer <emphasis>verdade</emphasis>, o que de certa forma era ir�nico, considerando que, enquanto a Uni�o Sovi�tica existia, o <emphasis>Pravda</emphasis> nunca publicou nada que fosse remotamente pr�ximo da verdade. O <emphasis>Pravda</emphasis> atual era substancialmente mais preciso que o <emphasis>Pravda</emphasis> de ent�o, e tudo o que me importava naquele 21 de setembro, dia em que minha coopera��o seria anunciada, era que aquele jornal n�o dedicasse nem um m�sero caractere em cir�lico ao assunto mais quente da atualidade nos Estados Unidos: o Lobo de Wall Street tinha secretamente se declarado culpado <emphasis>meses antes</emphasis> e desde ent�o tinha cooperado com os federais, por mais de um ano.</p><p>Assim, enquanto 99% dos americanos estavam lendo seus jornais da manh� e dizendo �Isso � �timo! Eles finalmente pegaram aquele sacana!� e o outro 1% estava lendo seus jornais da manh� e dizendo �Isso � p�ssimo! Aquele desgra�ado agora vai nos entregar!�, a KGB estava lendo o <emphasis>Pravda</emphasis> e xingando os rebeldes chechenos, que, em sua mente, eram in�teis c�es mu�ulmanos que mereciam receber uma bomba at�mica na cabe�a.</p><p>Era isso o que eu mais amava na KGB: n�o o fato de ela arder de desejo de transformar os chechenos em p� radioativo (eu me opunha a isso), mas ao fato de que ela estava completamente alheia ao que vinha acontecendo em minha vida. Melhor ela continuar focada nos c�es chechenos, pensei, que saber que vivia com um rato.</p><p>Naquele momento espec�fico, ela estava sentada com Carter no sof� da sala de TV, olhando para uma tela de 40 polegadas de alta defini��o. At� a �ltima gota de sua energia mental estava concentrada em um corajoso e geneticamente melhorado marsupial chamado Crash Bandicoot, que estava fazendo o que ele sempre fazia: correndo para sobreviver.</p><p>� O que voc�s est�o fazendo? � perguntei aos dois video�licos.</p><p>KGB me ignorou; ela estava muito ocupada com os controles do PlayStation, seus polegares se movendo para cima e para baixo em um ritmo fren�tico. Carter, no entanto, estava apenas observando, embora estivesse t�o extasiado que tamb�m me ignorou. Seus olhos eram grandes como os de uma coruja, os cotovelos apoiados em suas coxas com o queixo pequeno em suas m�os.</p><p>Cheguei perto de Carter e perguntei:</p><p>� O que est� fazendo, filho?</p><p>Ele levantou os olhos e balan�ou a cabe�a em rever�ncia.</p><p>� A Yuya � <emphasis>incl�vel,</emphasis> pai� Ela� Ela� Ela� � Carter n�o conseguia fazer as palavras sa�rem � � ela est� numa fase nova. Ela est� lutando com monstros que eu nunca vi antes. Ningu�m jamais viu!</p><p>� Olha aqui � murmurou a KGB para Carter, enquanto ajudava o personagem em sua fuga. � Se eu capturar m�scara dourada me tornar invenc�vel!</p><p>Carter olhou para a tela da TV, boquiaberto. Ap�s alguns segundos, ele sussurrou:</p><p>� Invenc�vel!</p><p>Sentei-me ao lado de meu filho e coloquei o bra�o em volta dele.</p><p>� Ela � muito boa, hein?</p><p>� Use o ataque de salto! � gritou ele para a KGB.</p><p>� N�o � respondeu ela. � Para derrotar esse monstro devo usar ataque de rota��o!</p><p>� Ohhhh� � disse ele, suavemente.</p><p><emphasis>O</emphasis> ataque de rota��o, pensei. � s� dizer o artigo, <emphasis>porra</emphasis>! Ainda assim, n�o havia como negar que KGB era a mais habilidosa das jogadoras de videogame de toda a porra do planeta � Pac-Man, Super Mario, Asteroids, Donkey Kong, H�rcules e, claro, sua mais recente obsess�o, Crash Bandicoot, o marsupial geneticamente melhorado da ilha Wumpa, no oeste da Austr�lia. Ela havia vencido todos eles, alcan�ando n�veis com que meros mortais, como Carter, nunca ousaram sonhar.</p><p>Enquanto assistia a Yulia dobrar seu glorioso corpo daquele jeito e meu filho Carter inclinar seu corpinho do mesmo jeito, me vi perguntando a mim mesmo o que � que fazia Yulia Sukhanova funcionar. Ela jogava videogames n�o menos que oito horas por dia, gastando o resto do tempo na leitura de livros russos, balbuciando no telefone em russo ou sussurrando doces besteiras russas em meu ouvido enquanto faz�amos amor. Ela residia nos Estados Unidos, sim, mas s� no sentido f�sico. Seu cora��o e sua alma ainda estavam na R�ssia, presos em um t�nel do tempo geopol�tico no ano de 1989, mesmo ano em que ela foi coroada Miss Uni�o Sovi�tica.</p><p>Intelectualmente, ela era brilhante. Ela se destacava em xadrez, damas, gam�o, Gin Rummy e, para falar a verdade, em todos os jogos de azar, que jogava com um ar de traficante, e odiava perder mais que qualquer coisa. Seus pais estavam ambos mortos; o pai tinha sucumbido a um ataque card�aco quando ela tinha apenas 9 anos. Yulia e o pai eram pr�ximos, e sua morte a traumatizou. Ele tinha sido um homem importante na Uni�o Sovi�tica, um cientista de foguetes com o grau de seguran�a mais alto, e mesmo ap�s sua morte a fam�lia sempre recebera cuidados. Ela nunca precisou pedir nada. Filas do p�o, prateleiras vazias no supermercado, roupas sem gra�a, coisas como essas estavam t�o longe da inf�ncia de Yulia como tinham sido da minha. Sua vida tinha sido encantada e, pelos padr�es sovi�ticos, houvera riqueza.</p><p>Sua gra�a e beleza tinham vindo da m�e. Eu j� tinha visto fotos, era uma loira de tirar o f�lego, de olhos azuis e com o mais quente dos sorrisos. Em sua �poca, de acordo com Yulia, sua m�e fora ainda mais bonita que ela e tinha uma posi��o muito importante no mundo art�stico. Em consequ�ncia, Yulia havia crescido em um apartamento chique de Moscou, onde um desfile intermin�vel de famosos artistas sovi�ticos � atores, pintores, escultores, cantores e dan�arinos de bal� � festejavam nas primeiras horas da noite, bebendo vodca Stolichnaya e cantando can��es russas.</p><p>Sua m�e n�o tinha morrido de causas naturais: fora assassinada, morta a facadas em seu apartamento, e � a� que a hist�ria tinha se tornado sombria. Sua morte tinha acontecido pouco depois de Yulia ter sido coroada Miss Uni�o Sovi�tica e, literalmente, coincidiu com uma disputa sobre quem tinha �direitos� sobre o trem da alegria que Yulia Sukhanova havia se tornado. Muitos eram suspeitos do assassinato, mas ningu�m jamais foi acusado. Ent�o, quem a matou? Foi a KGB? Ou a m�fia russa? Um empres�rio falido tentando extorquir Yulia por seus ganhos como modelo? Ou fora simplesmente um ato aleat�rio de viol�ncia?</p><p>Qualquer que fosse a resposta, aquela era a garota por quem eu havia me apaixonado, uma garota que amava seu pa�s, mas estava relutante em voltar para l� at� mesmo como visitante. Na verdade, ela nem mesmo voara de volta para o funeral de sua m�e, e, embora ela n�o dissesse isso, eu sabia que era por medo. Igor, que ela ainda teimava em dizer que era seu cunhado, casado com a irm� mais velha, Larissa, n�o tinha ido tamb�m, embora em seu caso, ela admitiu, ele pudesse ter ido se quisesse. Ele era um homem procurado em seu pa�s, mas n�o pela lei. Havia �outros�, disse ela, em cujos dedos Igor tinha pisado, e tinha algo a ver com ela. E foi isso. Por mais que tentasse, ela se recusou a ir mais longe com a hist�ria.</p><p>� medida que minhas circunst�ncias entravam em jogo, eu estava certo de que ela sabia mais do que deixava entrever. No dia em que minha colabora��o foi anunciada, eu ofereci-lhe uma breve explica��o do que estava acontecendo, destacando o incidente com Dave Beall e como, apesar de ele voltar a me perseguir, eu ainda sentia que tinha feito a coisa certa. Tinha mantido minha autoestima, disse a ela, e ela agarrou minha m�o e apertou-a de modo tranquilizador. Quando o Chef foi indiciado, duas semanas depois, contei a ela sobre isso tamb�m, como ele havia sido meu contador, um amigo leal, que parecia sentir uma alegria irracional em montar �conspira��es�, o que, em �ltima inst�ncia, o levara � sua ru�na � ao que ela disse que n�o existem amigos nos neg�cios e que, se eu n�o tinha aprendido a li��o com Dave Beall, ent�o eu nunca o faria.</p><p>Ela passou boa parte do tempo me contando sobre a grande alma russa, a <emphasis>Velikaya Russkaya Dusha</emphasis>, e como nenhum americano poderia realmente entend�-la. Honestidade, integridade, sensibilidade, compaix�o, imagina��o, culpa, necessidade de sofrer em sil�ncio. Essas foram apenas algumas das palavras que ela usou para descrev�-la, manuseando-as com aux�lio de seu dicion�rio russo-ingl�s.</p><p>No entanto, na minha perspectiva, n�o era sua grande alma russa que eu achava impressionante, mas sua lealdade. N�s nos conhec�amos havia menos de dois meses e tinha ficado �bvio para ela que eu n�o era o homem que ela pensava que fosse. Estava sobrecarregado com problemas, meu futuro era incerto. Eu era um homem cuja estrela financeira estava em queda, n�o em ascens�o. Ainda assim, nada disso parecia incomod�-la.</p><p>Quando lhe contei que teria de me livrar da casa de praia, ela encolheu os ombros e disse que n�o dava import�ncia a Meadow Lane. Melhor vivermos em Manhattan, ela acrescentou, e quem precisava de uma casa t�o grande, afinal? Quando eu disse a ela que o dinheiro poderia ficar apertado por um tempo, Yulia me assegurou que qualquer homem que tivesse ganhado tanto quanto eu ainda t�o jovem poderia descobrir uma maneira de faz�-lo novamente.</p><p>Encorajado por suas palavras, concordei com a cabe�a e depois tomei a decis�o de come�ar a negociar a��es de novo, ainda que legitimamente.</p><p>A NASDAQ estava voando com a mania das empresas pontocom, e, com o dinheiro que o governo tinha me deixado, eu poderia fazer alguns milh�es por ano s� dormindo. Eu n�o entendia por que n�o tinha pensado nisso antes, embora soubesse que tinha alguma coisa a ver com o fato de KGB acreditar em mim.</p><p>Nesse sentido, ela era tudo o que a Duquesa n�o era. Estava disposta a apostar em mim, n�o naquilo que me cercava. No entanto, em defesa da Duquesa, Yulia n�o tinha dois filhos com quem se preocupar nem uma �hist�ria� comigo.</p><p>Seja como for, a Duquesa era meu passado e a KGB, meu futuro, e l� estava ela, prestes a atingir o n�vel 25 no Crash Bandicoot. Tudo o que precisava fazer era derrotar o Dr. Neo Cortex, o n�mesis de Crash, e ent�o o her�i se uniria a sua namorada, Tawna, mais um bandicoot geneticamente melhorado, que, no mundo dos marsupiais, era t�o sexy quanto Jessica Rabbit.</p><p>De repente, KGB come�ou a gritar:</p><p><emphasis>� Blyad! Blyad! Nyet! Nyet!</emphasis></p><p>� Volte! � gritou Carter. � Ele est� jogando bolas de fogo!</p><p>� Eu n�o posso! � gritou KGB. � Eu perdi energia!</p><p>� N�o! � gritou Carter. � Use um cristal de poder�</p><p>Eu fiquei olhando a tela totalmente fascinado quando um macaco musculoso chamado Koala Kong pegou uma bola de fogo e tacou na cabe�a de Crash, fazendo-o explodir em chamas. Neste ponto, Crash gritou em agonia, saltou no ar, fez uma pirueta, e depois pousou sobre sua pequena bunda bandicoot e queimou at� a morte. Em seguida, a TV fez um som parecido com �Wa, wa, wa, wa, wa� bum!�. E foi isso: a tela ficou preta.</p><p>No come�o, KGB e Carter apenas se entreolharam, congelados. Ent�o ela balan�ou a cabe�a e disse:</p><p><emphasis>� Chto ty nashu stranu obsirayesh!</emphasis></p><p>Carter comprimiu os l�bios e acenou com a pequena cabe�a de acordo, sem ter ideia do que KGB tinha dito: �Eu s� cago toda esta jogo est�pido!�. Ent�o Carter disse:</p><p>� De novo, Yuya!</p><p>KGB assentiu resignada, respirou fundo e apertou um bot�o no controle, trazendo Crash de volta � vida, ainda que na parte inferior do castelo de Neo Cortex.</p><p>Enquanto os dois se perdiam no jogo, fiquei imaginando que tipo de m�e KGB seria para meus filhos, se um desastre um dia acontecesse. Por mais improv�vel que parecesse, era algo que eu deveria considerar, a hip�tese de a Duquesa faltar e as crian�as se tornarem uma responsabilidade exclusiva minha.</p><p>KGB e Carter tinham uma estreita liga��o com base em seu amor pelos videogames; fora isso, eu n�o tinha tanta certeza. Havia certa desconex�o entre eles, � medida que, quando n�o estavam sentados em frente � tela da televis�o, conversavam muito pouco. Claro, ela sempre se mostrava agrad�vel, sem hesita��o, mas havia certa falta de calor, certa apatia que n�o se esperaria encontrar, dada a natureza da <emphasis>grande alma russa</emphasis>.</p><p>Chandler, no entanto, n�o jogava esse jogos. Ela brincava com suas Barbies, de casinha e de trocar de roupa e gostava de assistir � TV americana, por isso ela e KGB tinham muito pouco em comum. Isso era algo que me incomodava, porque nunca tinha visto KGB procurar por Chandler. De fato, assim como com Carter, ela sempre era agrad�vel e oferecia um sorriso caloroso, mas tamb�m existia aquela desconex�o.</p><p>Na minha mente, era simples: KGB era adulta, e Chandler e Carter duas crian�as, por isso a bola estava no campo dela, n�o no deles. Ou eu estava esperando demais? Ela n�o era a m�e de meus filhos, ent�o talvez n�o fosse razo�vel esperar que ela se comportasse como uma segunda m�e para eles. Talvez certa indiferen�a casual fosse saud�vel, talvez fosse normal, e talvez eu devesse agradecer �s minhas estrelas da sorte que KGB fosse gentil. N�o, pensei, gentileza n�o era suficiente. A apatia � a pr�pria forma da crueldade, e as crian�as podem detect�-la a uma milha de dist�ncia.</p><p>Por outro lado, na outra extremidade do espectro, vinha John Macaluso, namorado da Duquesa. Na semana anterior ele tinha me ligado do nada e sugerido que n�s nos encontr�ssemos para tomar um caf�. Ele estava passando muito tempo com meus filhos, afirmou calorosamente, e queria me assegurar de que ele tentaria sempre seu melhor para ser uma influ�ncia positiva na vida deles. Foi uma jogada de classe, para dizer o m�nimo, e quando nos encontramos, alguns dias depois, no Old Brookville Diner, nos demos bem imediatamente.</p><p>Ele era da minha altura, magro e rijo, e transpirava energia. Era bonito, com o cabelo grisalho e proeminentes caracter�sticas italianas e era carism�tico, mais que qualquer coisa. N�s passamos uma hora trocando hist�rias de guerra � tomando o cuidado de evitar o assunto de meu casamento fracassado com a Duquesa ou seu relacionamento atual com ela, e eu resisti � vontade de perguntar a ele se ela gemia �Venha para mim, meu pequeno pr�ncipe!� enquanto estavam fazendo sexo. No entanto, apesar de todos os risos e sorrisos, havia um problema que pairava sobre nossa reuni�o como uma nuvem escura.</p><p>Finalmente, ele o trouxe � tona.</p><p>� Voc� sabe, � realmente uma merda que eu more na Calif�rnia e Nadine more em Nova York � disse ele, cansado. � Quem poderia imaginar que eu fosse me apaixonar por uma mulher que vive a quase 5 mil quil�metros de dist�ncia!</p><p>E l� estava: o gato tinha subido no telhado.</p><p>Havia um grande problema, ele sabia disso e eu tamb�m sabia. E o problema n�o iria desaparecer por conta pr�pria. Ele teria de se mudar para c� ou ela teria de se mudar para l�. Conhecendo o advogado da Duquesa, aquele gordo cretino do Dominic Barbara, com sua not�ria boca gorda e a propens�o de colocar sua bunda ainda mais gorda no centro das aten��es, ele usaria minha situa��o jur�dica como alavanca.</p><p>John n�o era tolo; ao ver minha rea��o, ele logo acrescentou que Nadine nunca faria nada pelas minhas costas. Ela sabia quanto eu era ligado �s crian�as e sempre dizia que eu era um bom pai. Com isso, deixamos de falar do assunto, embora eu ache que ambos soub�ssemos que, em algum momento, a quest�o iria ressurgir.</p><p>E a bela KGB, onde ela ficava nisso tudo?</p><p>Ao olhar a loira russa com Carter, unidos pelo amor a um bandicoot geneticamente melhorado, senti esperan�a sobre tudo que ela poderia ser. Talvez ela pudesse aprender a amar meus filhos, e talvez eu pudesse aprender a am�-la da mesma maneira que havia amado a Duquesa e do jeito que eu havia amado Denise� Embora, na verdade, eu me sentisse bastante desconectado na minha pr�pria rela��o com ela, assim como sentia haver uma desconex�o entre ela e meus filhos.</p><p>Talvez, com o tempo, o abismo entre nossas culturas pudesse se tornar nossa maior for�a. Os norte-americanos, afinal, tinham sua pr�pria grande alma, n�o � verdade? De acordo com Dostoi�vski, a ess�ncia da grande alma russa era sua sempre presente e insaci�vel necessidade de sofrer e, de acordo com essa verdade, a ess�ncia da alma americana era: por que a gente deve sofrer, se nossos pais e av�s j� sofreram tanto por n�s? Ent�o, juntos, ser� que a KGB e eu n�o poder�amos nos unir em uma alma perfeita? Ela seria meu otimismo americano misturado com o fatalismo russo, a soma dos quais resultaria em <emphasis>perfei��o</emphasis>.</p><p>Enfim, ter�amos alguns anos para atravessar esse fosso. O novo mil�nio estava ali, na esquina, a apenas 80 dias de dist�ncia, e ainda se passariam tr�s ou quatro anos at� que eu recebesse minha senten�a.</p><p>E ent�o o telefone tocou.</p><p>� <emphasis>Blyad!</emphasis> � reclamou a KGB. � Por favor, pegar telefone! Ele perturbar meu jogar.</p><p>Carter virou-se para mim e acenou com a cabe�a.</p><p>� Ele perturbar seu jogo.</p><p>� <emphasis>Perturba</emphasis> � disse a Carter, temendo a influ�ncia da KGB sobre sua flu�ncia no idioma.</p><p>Estendi a m�o para o telefone sobre a mesa lateral e o atendi.</p><p>� Al�?</p><p>� � seu advogado � disse Magnum, em uma oitava de d� menor � Como voc� est�?</p><p>� Estou bem � respondi automaticamente, e depois percebi que eu estava realmente bem. Sim, pensei, pela primeira vez em muito tempo eu estava perto de encontrar a felicidade. � O que est� acontecendo? � perguntei.</p><p>� Houve uma enxurrada de atividades hoje na Procuradoria.</p><p>Senti o cora��o acelerar.</p><p>� S�rio? E tinham a ver com o qu�?</p><p>� Voc� conhece um promotor assistente chamado Dan Alonso?</p><p>� N�o � respondi rapidamente. � O que tem ele?</p><p>� Bem, ele � seu novo promotor � respondeu Magnum. � Ele telefonou hoje cedo para mim e para Nick para nos dar uma atualiza��o. Joel est� saindo do escrit�rio da Promotoria na semana que vem e Alonso foi designado para seu caso.</p><p>Cruzei os dedos.</p><p>� E ent�o, como ele �? � um cara legal ou um saco de merda?</p><p>� Beeemmm� � disse Magnum. � Numa escala de 1 a 10, com babaca sendo 1 e cara legal sendo 10, diria que Alonso cai em algum lugar entre 10 e 11.</p><p>� Voc� deve estar brincando!</p><p>� Shhhhh! � reclamou a KGB. � N�o poder concentrar!</p><p>Carter olhou para cima e colocou o dedo indicador nos l�bios. Ent�o ele olhou para a tela. Eu ri e disse ao telefone:</p><p>� Quer dizer que ele � legal assim?</p><p>� Sim � respondeu Magnum �, ele �, sim. Ele � duro, justo, muito inteligente, um excelente litigante e, acima de tudo, tem um grande cora��o. J� abordei com ele o assunto de reduzir sua acusa��o de obstru��o, e ele disse que est� disposto a sentar e conversar sobre isso. Ele quer conhec�-lo primeiro e, ent�o, vai nos deixar defender nossa causa. Acho que estamos em uma posi��o muito boa.</p><p>Senti uma onda de al�vio percorrer meu corpo.</p><p>� Bem, � uma �tima not�cia, Greg, realmente �tima.</p><p>� Sim � concordou ele. � Mas, num aparte, recebi um telefonema muito estranho de Joel Cohen nesta manh�. Ele estava dizendo algo sobre voc� estar em Atlantic City h� alguns meses e ter se recusado a se identificar. Ele deu a entender que voc� estava tentando fazer uma lavagem de dinheiro ou algo assim. Eu sei que n�o � verdade, certo?</p><p>Minha boca ficou seca imediatamente, meus intestinos se enrolaram depressa e chegaram a conclus�es mais depressa que minha mente.</p><p>� Claro que n�o! � respondi. � Isso � besteira total! Eu n�o estava tentando lavar dinheiro coisa nenhuma! Foi apenas um mal-entendido!</p><p>� Mas ent�o voc� esteve l�, mesmo? � Magnum pareceu extremamente surpreso.</p><p>Eu j� sabia onde aquilo iria terminar.</p><p>No final, eu conseguiria provar que n�o tinha tentado lavar dinheiro, mas n�o poderia provar que n�o tinha violado as restri��es de minha fian�a. Eu tinha sa�do de Nova York sem permiss�o.</p><p>� Sim, eu estava l� � disse, com calma. � Espere um segundo, deixe-me mudar de quarto.</p><p>Quando estava saindo da sala de TV, gastei um momento observando o rosto inocente de meu filho. Ele tinha passado por um come�o dif�cil, mas vinha crescendo forte. Uma onda terr�vel de tristeza tomou conta de mim. Era como se eu o tivesse decepcionado.</p><p>Dentro do quarto principal, peguei o telefone do futuro, sentei-me na beira da cama e contei todos os detalhes de minha hist�ria para meu advogado, come�ando pela deliciosa menor de idade, Kiley, e terminando com a bruxa de rosto de pedra dentro da gaiola do caixa que tinha se recusado a devolver meu dinheiro. Ent�o, eu disse:</p><p>� Eles n�o v�o interromper minha coopera��o por causa disso, certo?</p><p>� N�o � ele respondeu rapidamente �, n�o se o que voc� est� me dizendo for verdade.</p><p>Tentando manter o controle, respirei fundo e deixei o ar escapar lentamente. Depois, comecei a cuspir pregos em meu advogado, jurando por todos os lados que eu estava dizendo a verdade. Primeiro jurei por meus olhos, depois jurei pelos olhos de meus filhos, ent�o jurei pelos olhos de meus filhos ainda n�o nascidos e depois jurei pelos olhos dos filhos de Magnum tamb�m.</p><p>Finalmente, ele disse:</p><p>� Tudo bem, tudo bem! Eu acredito em voc�, acredito, juro! Pode parar de tentar me convencer agora. Porra! Voc� sabe que, de qualquer forma, ainda temos um grave controle de danos a fazer. Que tipo de relacionamento voc� tem com seu oficial de pr�-julgamento?</p><p>� Pat Mancini? � respondi, sentindo um fino raio de esperan�a. � Ele � �timo! � optei por n�o relatar meu telefonema enganoso para Pat, com a vaga refer�ncia a ficar preso na cidade, sem dizer em qual cidade. � Por que a pergunta?</p><p>� Porque ele � o �nico que pode apagar suas luzes aqui. Se ele escrever uma carta ao juiz relatando seu passeio de helic�ptero para Atlantic City, acompanhado de uma menor de idade e levando um saco de dinheiro do governo federal para jogar, poderia ser um problema. Jordan, isso n�o se parece com o comportamento de um homem arrependido. Entendeu?</p><p>E foi a� que eu percebi: <emphasis>a aud�cia de minhas a��es</emphasis>! N�o se tratava tanto do fato de eu ter violado as condi��es de minha libera��o (que j� era ruim o suficiente por si s�), mas a forma como eu tinha feito isso.</p><p>Se eu tivesse ido a Atlantic City em uma perua, levando minha m�e de 70 anos de idade e um punhado de moedas de 25 centavos enrolados numa meia, ent�o o juiz Gleeson provavelmente ia dizer: �Ah, � apenas o caso de um bom filho querendo passar um tempo com sua mam�e idosa�, e ent�o ele me deixaria sair sem nem mesmo uma advert�ncia. Mas eu tinha roubado 100 milh�es de d�lares e estava tendo uma segunda chance, mas como eu demonstrava meu agradecimento? Fazendo uma viagem secreta de helic�ptero para a Sodoma e Gomorra de Nova Jersey com uma modelo menor de idade. E, para financiar meu passeio, tinha pegado um empr�stimo sem juros do governo federal!</p><p>Com o cora��o apertado, perguntei:</p><p>� E agora, o que vem a seguir?</p><p>Depois de alguns momentos de sil�ncio, ouvi:</p><p>� Espero que nada� Vou ligar para Joel, contar a ele seu lado da hist�ria e direi que tratarei disso com Alonso, apesar de n�o ser exatamente a melhor maneira de come�ar um relacionamento com ele. � Magnum parou por um momento. Em seguida: � Mas o que se h� de fazer, certo?</p><p>� Sim, claro � respondi, sem emo��o. � O que se h� de fazer?</p><p>Passamos mais alguns minutos pensando em estrat�gias, mas n�o havia realmente muito que pud�ssemos fazer. A coisa mais importante, n�s concordamos, era garantir que a hist�ria jamais aparecesse diante do juiz Gleeson. Ele era um homem conservador, disse Magnum, um homem completamente racional, que vivia conforme as regras. Isso era o tipo de coisa que s� faria aumentar sua ira.</p><p>Depois que desliguei o telefone, fiquei sentado na beira da cama por um momento, estupefato. Devo ter dito milhares de vezes, em tom de brincadeira, que eu era meu pior inimigo, mas daquela vez n�o foi engra�ado. Mais uma vez, eu tinha colocado minha liberdade em perigo, e por qu�? Em retrospecto, minha decis�o parecia totalmente incompreens�vel. Eu estava realmente sendo autodestrutivo? N�o pensava assim, mas, olhando de fora, era exatamente o que eu aparentava ser. Que tipo de mau funcionamento eu possu�a que me levava a fazer esse tipo de coisas, que me levava a assumir esses riscos descontrolados, mesmo quando n�o haveria nenhuma vantagem?</p><p>Respirei fundo e lutei contra a vontade de me censurar ainda mais. O que foi feito, foi feito. Se o juiz Gleeson descobrisse isso, iria me jogar na pris�o na hora, eu perderia Yulia, as crian�as ficariam de cora��o partido, a Duquesa iria se mudar para a Calif�rnia, Meadow Lane seria confiscada na minha aus�ncia, meus m�veis e roupas seriam leiloados por alguns centavos de d�lar e meu plano de negociar a��es seria frustrado. Mas minhas despesas com a Duquesa e as crian�as continuariam. Ent�o, quando eu finalmente fosse condenado, dali a tr�s anos, e sa�sse da cadeia alguns anos depois, estaria nu, sem dinheiro, sem casa e meus filhos estariam morando a 5 mil quil�metros de dist�ncia e chamando John Macaluso de papai!</p></section><section><p>CAP�TULO 24</p><p><strong>O DEUS DO DESTINO CONTRA-ATACA</strong></p><p>Os sete dias seguintes foram angustiantes.</p><p>Depois de desligar o telefone, eu liguei para Pat Mancini, que, n�o surpreendentemente, tinha acabado de receber um telefonema do Canalha, perguntando se ele tinha me dado autoriza��o para viajar a Atlantic City. Pat, � claro, disse-lhe que n�o tinha, e o Canalha tinha sugerido que ele informasse ao juiz Gleeson sobre minha viola��o da fian�a.</p><p>Pat disse a ele que iria pensar sobre aquilo.</p><p>Felizmente, ele me disse que n�o iria avisar o juiz; na verdade, ele disse que tinha se sentido mal por mim. Sim, eu era definitivamente um idiota por ter pegado um helic�ptero para Atlantic City, mas de certa forma aquilo tinha sido armado para a minha queda. �Quando um homem fica tanto tempo em pris�o domiciliar, ele acaba fazendo merda�, explicou Pat. �� como o velho ditado: voc� deixa corda suficiente para o cara se enforcar.�</p><p>Antes de desligar, ele disse uma coisa que eu ouviria bastante nas semanas seguintes: �Para um cara inteligente como voc�, Jordan, voc� faz algumas coisas bem burras!�. Ent�o ele desligou na minha cara.</p><p>Passei o resto do fim de semana em um estado de relativa calma. Em seguida, na manh� de segunda-feira, o mundo desabou.</p><p>Tudo come�ou quando Mancini ligou para Magnum dizendo que tinha recebido uma carta mordaz do Canalha, exigindo que ele escrevesse uma carta para Gleeson informando-o de minha viagem para Atlantic City. E, apenas para melhorar, o Canalha descrevera todos os pontos altos da minha viagem: a garota, o saco de dinheiro, o helic�ptero� E que tudo isso deveria constar na carta a Gleeson, para Pat n�o ser acusado de pintar um quadro enganoso para o juiz.</p><p>Magnum deu um telefonema de emerg�ncia para Joel, pedindo-lhe que rescindisse a carta para Mancini, mas ouviu somente uma mensagem gravada que era algo como: �Oi, aqui � Joel Cohen, eu n�o sou mais do escrit�rio da Promotoria e estarei de f�rias durante as pr�ximas duas semanas��.</p><p>Sim, o Canalha tinha desaparecido, e aquela era sua vingan�a.</p><p>Ele queria ter revogado minha fian�a com o incidente de Dave Beall, mas tinha sido vencido. Portanto, aquela era a vingan�a dele, filho de uma puta! Magnum, no entanto, n�o estava pronto para desistir sem lutar, ent�o pulou no metr� e desceu � Procuradoria para reunir-se com Alonso, que concordou em chamar Mancini e dizer que ele poderia lidar com isso �em casa�. Minhas restri��es seriam apertadas por alguns meses, e depois finalmente Alonso faria uma mo��o para Gleeson para tirar minha tornozeleira, afastando-me dos olhos de Mancini de uma vez por todas.</p><p>Claro, disse Mancini, isso seria maravilhoso. O �nico problema era que ele tinha acabado de apertar o bot�o de �enviar� do e-mail, e ent�o, naquele exato momento, o juiz Gleeson provavelmente estaria lendo a carta, que, de fato, inclu�a todos os detalhes sujos. Quando Magnum me informou disso, deixei cair o telefone, corri para o banheiro e vomitei. Ent�o, corri de volta para o telefone e perguntei a Magnum o que isso queria dizer: minha batata tinha assado de vez?</p><p>Ele me disse que n�o, que ainda havia uma chance de 50% de Gleeson ler a carta e n�o tomar nenhuma medida. Afinal, a carta n�o tinha sido acompanhada de um pedido de audi�ncia. Com um pouco de sorte, Gleeson iria apenas sacudir a cabe�a, incr�dulo, perder um pouco de respeito por mim e depois seguir em frente com seu dia.</p><p>N�o tive sorte.</p><p>Na manh� de quinta-feira, �s 8h30 em ponto, ouvi um som muito preocupante: o telefone tocando.</p><p>Ah, meu Deus!, pensei. Olhei � minha esquerda, e l� estava KGB. Como sempre, ela estava dormindo profundamente, a cabe�a loira sovi�tica aparecendo por debaixo do edredom de seda branca.</p><p>Era Magnum. Suas primeiras palavras foram perdidas, mas n�o suas palavras seguintes:</p><p>� Infelizmente, recebi um fax de Gleeson e ele marcou uma audi�ncia.</p><p>� Quando? � perguntei, em um estado muito al�m do p�nico.</p><p>� Amanh� de manh� �s 10 horas.</p><p>Roubei um olhar para a KGB. Bem, foi bom conhec�-la!, pensei.</p><p>� Acho que agora estou fodido � disse, bem calmo.</p><p>� N�o necessariamente � respondeu ele. � Eu acho que ainda h� uma sa�da para isso. O fundamental � nos aproximarmos de Gleeson como uma frente unida. Eu j� falei com ambos, Mancini e Alonso. Mancini vai estar l� tamb�m amanh� e prometeu que vai se colocar a seu lado. Ele vai dizer que foi um mal-entendido e que, na opini�o dele, voc� ainda pode ser confi�vel para viver de acordo com suas restri��es de fian�a.</p><p>� E Alonso, o que ele vai dizer?</p><p>� Como eu lhe disse, quando se trata de promotores, Dan Alonso � o melhor cara poss�vel. Ent�o, apesar de nunca t�-lo visto, disse que ficar� a seu lado tamb�m. Vou me encontrar com ele mais tarde hoje e n�s vamos preparar algo que possa ser vendido a Gleeson. Haver� algumas restri��es severas por um tempo, acabar com as viagens, estar em casa �s 6 da tarde, nada mais de noitadas na cidade, mas � muito melhor que ir para a cadeia, certo?</p><p>� Sim, � � respondi. � E quais s�o as chances de Gleeson comprar isso?</p><p>� Perto de 100% � disse Magnum. � � muito raro que um juiz v� contra a recomenda��o de um promotor. E o fato de Mancini estar a bordo conosco praticamente fecha o neg�cio.</p><p>Excelente, pensei. N�o havia nenhuma raz�o para me preocupar.</p><empty-line/><empty-line/><p>O TRIBUNAL FICAVA no n�mero 225 da Cadman Plaza e parecia envolvido por um desespero irredut�vel. Ningu�m, ao que parecia, realmente queria estar por l�, desde advogados, r�us, funcion�rios, delegados, rep�rteres, pessoas que varriam o edif�cio de seis andares largos, at� os pr�prios ju�zes. Todos pareciam entediados, desesperados ou � beira das l�grimas. Embora se pudesse encontrar o sorriso ocasional de algu�m que tinha acabado de ser absolvido de uma acusa��o criminal, para cada sorriso largo havia uma carranca. Afinal, para cada vencedor, havia um perdedor.</p><p>Exceto no meu caso.</p><p>Era sexta-feira de manh�, alguns minutos antes das 10, e meus advogados e eu est�vamos em um corredor longo e largo fora da sala do tribunal do juiz Gleeson. Tirando alguns bancos de madeira encostados contra as paredes, o corredor estava completamente vazio. Os bancos em volta pareciam t�o confort�veis como o ch�o de lin�leo. Entre os bancos havia quatro portas � prova de som, duas de cada lado, e cada uma levava a um tribunal separado.</p><p>S� ent�o Magnum olhou por cima da minha cabe�a e disse:</p><p>� Olhe, Alonso est� chegando � e ele apontou para uma figura alta e magra que vinha em nossa dire��o. � primeira vista, ele parecia mais um astro de cinema que um promotor assistente. Alto, magro, de boa apar�ncia, imaculadamente bem arrumado e com um sorriso surpreendentemente caloroso, era tudo o que o Canalha n�o era, uma imagem de gra�a e gentileza. Parecia o ator George Hamilton, sem o bronzeado.</p><p>� Ent�o voc� � Jordan Belfort � disse Dan Alonso, estendendo a m�o para um aperto. � Voc� n�o parece capaz de causar tanta como��o!</p><p>Eu sorri e apertei sua m�o calorosamente, me perguntando se ele estava fazendo alguma vaga refer�ncia � minha altura. Afinal, ele era muito alto, e a cabe�a de Magnum estava quase raspando o teto do corredor. Dei um passo em dire��o ao homem de Yale, buscando prote��o quanto � altura, e disse:</p><p>� Bem, a apar�ncia �s vezes pode ser enganosa, certo?</p><p>Alonso assentiu e apertou minha m�o firmemente.</p><p>Magnum disse:</p><p>� Eu prometo a voc�, Alonso, este � o fim de toda a como��o. Jordan perdeu seu desejo de voar em helic�pteros com sacos de dinheiro. Certo, Jordan?</p><p>�N�o se esque�a da garota menor de idade�, pensei.</p><p>� Para sempre � disse eu, confiante. � Eu nunca mais vou pisar em Atlantic City. Na verdade, n�o tenho vontade nem de colocar os p�s em Nova Jersey de novo!</p><p>� E quem tem? � comentou o homem de Yale.</p><p>Magnum disse a Alonso:</p><p>� Eu acho que seria um bom momento para repassar as informa��es. Eu j� falei para Jordan sobre suas novas restri��es e ele est� totalmente de acordo com elas. Correto, Jordan?</p><p>� Sim � disse eu, sem entusiasmo. � Estou realmente ansioso por elas�</p><p>Alonso disse:</p><p>� Basta se comportar por alguns meses e a gente pode voltar a falar com Gleeson para fazer uma mo��o e retirar voc� da pris�o domiciliar. Acho que essa � a aposta mais segura para n�s.</p><p>Comprimi os l�bios e assenti humildemente, mas por dentro estava pensando: Alonso � muito melhor! Que o Canalha queime no m�rmore do inferno, com um tridente enfiado no rabo!</p><p>� Obrigado � respondi humildemente.</p><p>� Sem problema � disse, e virou-se para Magnum. � Acho melhor n�o levantar o assunto Dave Beall hoje. Podemos marcar outra audi�ncia para isso.</p><p>Magnum assentiu e depois olhou para mim:</p><p>� Dan foi legal o suficiente para reduzir a a��o de obstru��o de justi�a por mentir a um agente federal.</p><p>Alonso, sarcasticamente, falou:</p><p>� Agrade�a a seus advogados por essa. Eles vinham me atormentando tanto nos �ltimos dias sobre isso, principalmente Nick, que j� n�o suportava mais ouvir a voz deles.</p><p>� S� estou fazendo meu trabalho � disse o homem de Yale.</p><p>Sorri para Magnum e para o homem de Yale. E disse a Alonso:</p><p>� Eu agrade�o por tudo isso, mas, acima de tudo, sei que meus filhos tamb�m v�o agradecer um dia.</p><p>Alonso balan�ou a cabe�a, compreensivo.</p><p>� Tudo bem, vamos entrar e acabar com isso � ele deu um passo e parou. Virou-se para n�s e disse: � Espero sinceramente que Gleeson n�o fa�a muitas perguntas hoje, porque, para todos os fins, eu n�o tenho a menor ideia do que realmente aconteceu aqui. Essa coisa toda foi despejada no meu colo de �ltima hora, e eu detesto ir para o tribunal sem saber todos os detalhes. Quer dizer, para in�cio de conversa, por que diabos iria para Atlantic City? Voc� estava sob pris�o domiciliar, caramba!</p><p>Balancei a cabe�a, envergonhado.</p><p>� Bem, eu acho que foi apenas�</p><p>Alonso me cortou com a m�o levantada.</p><p>� N�o, n�o me diga nada. Eu prefiro n�o saber. N�o h� sentido nisso � ele balan�ou a cabe�a. � De qualquer forma, para um cara t�o inteligente, voc� faz algumas coisas bem burras, sabia?</p><p>Eu balancei a cabe�a, concordando.</p><p>� Sim, eu j� ouvi isso antes.</p><p>� Bem, n�o estou surpreso. Vamos, vamos entrar.</p><empty-line/><empty-line/><p>� ATEN��O! � esbravejou uma mulher de meia-idade vestindo um terninho an�dino marrom. � A Corte dos Estados Unidos para o Distrito Leste de Nova York est� agora em sess�o � continuou ela, com uma voz surpreendentemente profunda. � Todos de p� para o honor�vel juiz John Gleeson.</p><p>Como um m�gico, o juiz Gleeson, em vestes negras, emergiu por detr�s de uma porta com pain�is de madeira que ligava seus aposentos ao tribunal. Sem dizer uma palavra, ele caminhou calmamente at� um curto lance de escadas e sentou-se atr�s de uma mesa grande de madeira que ficava em cima de um palco de madeira, que serviria para o pr�prio Fantasma da �pera.</p><p>� esquerda do juiz, uma esten�grafa do tribunal tomou seu lugar em antecipa��o aos processos do dia. Atr�s dela, ficou de p� um homem atarracado, que usava uma folgada jaqueta esporte azul, com uma protuber�ncia gigante debaixo da axila esquerda. Ele s� estava ali de p�, os bra�os cruzados sob o peito enorme, esperando algu�m come�ar a foder com o juiz. Ent�o ele atacaria com a velocidade de uma cobra.</p><p>O resto de n�s, incluindo meu oficial de servi�os pr�-julgamento, Patrick Mancini, que com seu tamanh�o poderia ter jogado na posi��o de ataque dos Rams, ficamos todos de p� atr�s da mesa da defesa. Isso foi um bom sinal, pensei, porque n�o havia ningu�m atr�s da mesa do procurador. (Estamos todos do mesmo lado aqui!) Na verdade, mesmo a �nica pessoa nas cadeiras do p�blico, uma jovem negra de 20 e poucos anos, que calculei ser uma aspirante a advogada ou uma rep�rter, parecia estar do meu lado. Ela estava sentada segurando um caderno espiral e uma caneta.</p><p>Magnum colocou a m�o no meu ombro e me empurrou para baixo, para meu lugar. A mulher que tinha anunciado a presen�a do juiz come�ou a murmurar alguma coisa para a esten�grafa, algo como todos os Estados Unidos da Am�rica estarem contra mim, Jordan Belfort. Eu nunca tinha olhado a coisa realmente sob aquele prisma antes, mesmo em meu julgamento, que ocorreu em segredo, dentro da sala do juiz Gleeson.</p><p>O juiz Gleeson parecia bastante agrad�vel, na verdade. Mesmo naquelas balou�antes vestes negras, eu podia dizer que ele tinha um bom cora��o. Ele olhou para mim como um cara que ia fatiar um peru de A��o de Gra�as para sua fam�lia. Era jovem para um juiz federal, com pouco mais de 45 anos, e tinha reputa��o de ser brilhante. Torci para que estivesse de bom humor.</p><p>De repente, Magnum fez sinal para eu ficar de p�, ent�o me levantei.</p><p>� O.k. � disse o juiz Gleeson, suavemente. � Ent�o, o que est� acontecendo aqui?</p><p>Alonso disse:</p><p>� Se a corte permitir, merit�ssimo, eu gostaria de falar.</p><p>O Juiz Gleeson assentiu.</p><p>� Obrigado � disse Alonso. � Bem, merit�ssimo, n�s chegamos a um acordo com o advogado do r�u sobre este assunto, bem como com o senhor Mancini. O acordo consiste em apertar as restri��es da pris�o domiciliar do r�u para termos mais estritos. O r�u s� ser� capaz de viajar para o trabalho e dever� estar em casa �s 6 horas da tarde, sem exce��o. Nos fins de semana, estar� com 24 horas de bloqueio.</p><p>Alonso assentiu uma vez, satisfeito com minhas novas condi��es.</p><p>� Ah, �? � grunhiu o juiz Gleeson. � Bem, eu tenho perguntas.</p><p>E foi isso, a coisa acabou antes de come�ar.</p><p>Gleeson tinha perguntas e Alonso n�o tinha respostas, porque ele acabara de assumir o caso. Mesmo que ele as tivesse, n�o importaria de qualquer maneira, porque, como Magnum tinha dito antes, aquilo era o tipo de coisa que elevava a ira de Gleeson, e muito!</p><p>De repente, pecebi que Alonso estava balbuciando algo sobre um helic�ptero� Um saco de dinheiro� Em seguida, uma f�mea n�o identificada (e, obviamente, cada uma das almas na sala do tribunal, especialmente Gleeson, sabia exatamente o tipo de mulher que era), e ent�o ele come�ou dizendo�</p><p>� Mas eu realmente n�o sei de todos os fatos, merit�ssimo, porque eu s�</p><p>Gleeson o interrompeu com uma voz amea�adora:</p><p>� Voc� est� me dizendo que veio ao meu tribunal despreparado, que voc� n�o sabe nada sobre este caso?</p><p>Eu lancei uma r�pida olhada para Alonso, que parecia que tinha acabado de levar um tiro. Do jeito que eu imaginei as coisas, ele tinha duas op��es: a primeira seria jogar toda a culpa sobre o Canalha, e a segunda seria apenas dizer que sentia muito e que n�o voltaria a acontecer. Alonso disse:</p><p>� Sinto muito, merit�ssimo, isso n�o vai acontecer de novo.</p><p>Ent�o foi a vez de Mancini.</p><p>� Senhor Mancini? � disse o irritado juiz.</p><p>Pat se atrapalhou com algumas notas, come�ou a vomitar fatos de forma aleat�ria e depois algumas contradi��es acabou por dizer:</p><p>� Mas� Er� Apesar de tudo isso, eu ainda acho que o senhor Belfort pode ser confi�vel e capaz de viver de acordo com suas novas condi��es de libera��o � ele deu de ombros, como se dissesse: �Mas � apenas a opini�o de um homem. N�o v� me prender por causa disso�.</p><p>Gleeson n�o mandou prend�-lo. Em vez disso, n�o dirigiu uma �nica palavra a ele, apenas ficou l� por alguns segundos, olhando para Mancini, seus olhos emitindo o que parecia ser um incr�vel raio de encolhimento; assisti fascinado enquanto Mancini, aquele comprid�o, parecia encolher-se mais e mais, at� ficar do tamanho de um an�o.</p><p>Satisfeito com isso, Gleeson desligou seu raios encolhedores e voltou-se para seu velho colega Magnum, dizendo:</p><p>� E a defesa, tem algo a acrescentar?</p><p>Magnum ficou de p� em toda a sua estatura e disse, num tom bastante confiante:</p><p>� Sim, merit�ssimo�</p><p>E come�ou a fazer um relato bastante acurado dos acontecimentos. Suas palavras sa�ram confiantes e completamente l�gicas, o que foi uma porra de desastre para mim, porque n�o era uma daquelas situa��es em que a verdade vos libertar�, especialmente quando Magnum chegou na parte sobre o mau funcionamento do helic�ptero ser a principal causa de eu n�o ter voltado a tempo para casa. Foi quando Gleeson atacou:</p><p>� Ent�o, o que voc� est� dizendo, advogado, � que a desculpa de seu cliente � que ele pensou que poderia se safar disso?</p><p>� Er� N�o exatamente � disse Magnum, e� porra!, pensei. Como diabos poderia um juiz, que nunca tinha quebrado uma �nica lei em sua vida inteira, peneirar todas as besteiras t�o rapidamente? Quais seriam as chances?</p><p>Magnum tentou me defender novamente, expelindo mais meias verdades e algumas previs�es bastante ousadas (considerando meu hist�rico) sobre minha futura conduta sob pris�o domiciliar. Mas eu j� n�o podia ouvir mais. Eu sabia onde aquilo ia parar e sabia onde eu estava indo parar. E n�o seria em casa.</p><p>Finalmente, houve alguns momentos de sil�ncio. Eu lutei contra a vontade de me virar e dar uma espiada na minha espectadora favorita. Ela deve ter pensado que ficaria sentada assistindo a uma audi��o chata e estava prestes a ver um cara que tinha colocado 10 milh�es de d�lares em fian�a v�-la revogada!</p><p>Gleeson se pronunciou, e eu sabia que ele estava falando palavras em ingl�s, mas por algum motivo eu n�o conseguia entend�-las. Ele soava como aquele professor abafado dos desenhos do Charlie Brown. Estava me sentindo tonto, quase vomitando. A sala do tribunal parecia revirar lentamente, como se eu estivesse em um carrossel�</p><p>Ent�o eu ouvi Gleeson dizer:</p><p>� N�o� N�o� N�o gosto disso� Vamos ao fundo disso� Flagrante desrespeito� Helic�ptero� Onde� Ele conseguiu dinheiro� � Ent�o, de repente, mais Charlie Brown: �Weep, womp� Womp, weep� Weep, womp��. E ent�o: � Por este meio, devolvo o r�u � pris�o.</p><p>Depois, a �nica coisa de que me lembro era de Magnum dizendo:</p><p>� D�-me seu rel�gio, seu dinheiro e seu cinto tamb�m.</p><p>Eu tinha apenas alguns segundos de liberdade e minha mente logo saltou para meus filhos. Eu tinha combinado de busc�-los � tarde. <emphasis>Que tristeza</emphasis>� Eu tinha decepcionado meus filhos de novo. Enquanto retirava o rel�gio de pulso, disse a Magnum com um tom de urg�ncia na voz:</p><p>� Voc� tem de ligar para Nadine e lhe contar o que aconteceu. Diga-lhe que n�o sei quando serei capaz de telefonar, mas para dar um beijo nas crian�as e dizer que eu as amo muito. E que sempre vou am�-las.</p><p>� Vou cuidar disso imediatamente � disse ele. � Sinto muito por isso ter acontecido.</p><p>� N�o tanto quanto eu, garanto � disse, suavemente. � Tem algum jeito de eu me safar dessa encrenca?</p><p>Ele negou com a cabe�a.</p><p>� N�o neste momento; a gente precisa deixar Gleeson se acalmar, e isso deve demorar algum tempo� <emphasis>Muito</emphasis> tempo.</p><p>� E quanto � esse <emphasis>muito</emphasis> tempo?</p><p>� Alguns meses, talvez um pouco mais que isso.</p><p>Num piscar de olhos, aquele homem que tinha uma protuber�ncia debaixo do palet� estava parado a meu lado. Gentilmente, ele me disse:</p><p>� O senhor se importaria de vir comigo, senhor?</p><p>� Eu tenho escolha? � perguntei, com um sorriso nervoso.</p><p>� Temo que n�o, senhor � respondeu ele, colocando a m�o musculosa sobre meu ombro e gentilmente me conduzindo em dire��o a uma porta secreta na parte da frente da sala do tribunal.</p><p>Dei alguns poucos passos e ent�o me virei para dizer a Magnum:</p><p>� Merda! Voc� precisa ligar para a Yulia! Ela est� no hotel Four Seasons! Eu lhe disse que voltaria em uma hora!</p><p>� Pode deixar, eu cuido disso � respondeu ele, calmamente. � Logo depois de falar com Nadine.</p><p>� O quarto est� em meu nome � gritei por cima do ombro.</p><p>E ent�o, fui levado embora, passando por uma porta e saindo em uma �rea pouco conhecida do n�mero 225 na Cadman Plaza, que consiste em celas, l�mpadas fluorescentes e pessoas desesperadas. A �rea n�o tem um nome, mas eu estivera ali uma vez antes e quase tinha morrido congelado. Agora eu estava de volta.</p><p>Como de costume, eu n�o tinha ningu�m para culpar al�m de mim mesmo.</p></section><section><p>CAP�TULO 25</p><p><strong>O INEVIT�VEL</strong></p><p>O Centro de Deten��o Metropolitano se eleva por nove andares acima do miolo sombrio do Brooklyn, um lugar agourento para o qual os motoristas que est�o passando apontam e depois se encolhem. A mais ou menos 3 quil�metros e meio do pr�dio do Tribunal, o edif�cio, com sua imponente cerca de arame farpado e holofotes que varrem seu per�metro, ocupa um quarteir�o inteiro da cidade, sugando a for�a vital do ar circundante.</p><p>Os policiais tinham gastado um bom tempo transportando-me para l�; de cela para cela, de corredor de concreto para corredor de concreto, da van da pris�o para o desembarque da pris�o, eu tinha sido conduzido, algemado e acorrentado como gado, e, o tempo todo, seja por des�gnio, seja por acaso, a temperatura m�dia ambiente nunca excedeu a temperatura da superf�cie de Plut�o.</p><p>Mas o pior j� tinha passado.</p><p>Despojado de minha roupa e de minha dignidade, tinha sido obrigado a erguer meu saco, me curvar e tossir, e tinha chegado com estilo, quer dizer, estava agora num quarto sem janelas, sem divis�rias, sem esperan�a e conhecido como Cela 7N, que ficava no 7<sup>o</sup> andar no lado norte do edif�cio. Eu estava agora sentado na borda do meu colch�o da espessura de uma navalha, entretido numa conversa com meu novo colega, Ming, que estava sentado a meu lado. Sobre Ming: apesar de ser um chin�s de 30 anos de idade, ele parecia um velho fantasma de 60 anos.</p><p>� Ent�o, deixe-me ver se entendi � disse eu, c�tico. � Faz seis anos que voc� n�o v� o sol? Acho que � um pouco dif�cil de acreditar, Ming.</p><p>Ming encolheu os ombros estreitos, que estavam conectados a uma s�rie de partes do corpo igualmente estreitas. Ele disse, em forte sotaque:</p><p>� N�o seis anos, seis anos e meio. Juiz diz eu risco de fugir, ent�o n�o fian�a.</p><p>� Isso � uma merda, hein? � murmurei. � Quer dizer que n�s nunca vamos l� para fora?</p><p>Ming balan�ou a cabe�a negativamente.</p><p>� S� nesta cela. Fazer tudo aqui.</p><p>Caramba, parecia l�gico que, uma vez que uma planta precisa de luz solar para sobreviver, um ser humano tamb�m precisa, n�o �? Aparentemente, n�o. Com o cora��o apertado, levei um momento para avaliar a cela. Era um espa�o grande, talvez 12 por 25 metros, totalmente lotado com 106 reclusos, ou detentos, como chamavam, todos vivendo como em barracas, fazendo tudo, desde comer at� dormir e mijar e cagar e tomar banho e escovar os dentes debaixo daquele mar de luzes fluorescentes zumbindo. Sem uma �nica divis�ria � vista, eu podia ver de um lado at� o outro daquele espa�o.</p><p>N�o que houvesse muito para ver, simplesmente um vasto mar de beliches de metal e cadeiras de pl�stico, limitado ao fundo por seis horr�veis banheiros e tr�s chuveiros carregados de germes. No centro do sal�o estavam duas dezenas de mesas de a�o inoxid�vel para piquenique, um mesa de pingue-pongue caindo aos peda�os, um forno de micro-ondas que um dia deve ter funcionado, uma antiga torradeira e tr�s televisores em cores suspensos no teto. Em vez de serem usadas para comer, as mesas eram utilizadas para assistir � TV (com fones de ouvido) ou para jogar xadrez, damas, cartas ou, se voc� fosse dominicano, uma vers�o prisional do domin�, que requeria que voc� esmagasse as pe�as em cima da mesa enquanto murmurava uma s�rie de xingamentos em espanhol.</p><p>Isso era tudo que a Cela 7N tinha a oferecer, a menos que se inclu�ssem os tr�s telefones p�blicos afixados na parede acima da esta��o do guarda, onde um �nico agente penitenci�rio estava sentado atr�s de uma mesa de madeira barata, com o dedo sobre um bot�o de p�nico. Os telefones eram o grande destaque da cela, um lugar onde os detentos, a maioria deles negros ou hisp�nicos (menos de 10% eram brancos ou asi�ticos), tentavam vagamente conectar-se com o mundo exterior. De manh� at� a noite, em fila, eles esperavam para falar com seus entes queridos, que, em sua maioria, os amavam menos a cada dia que passava. Meu beliche estava localizado perto dos telefones p�blicos.</p><p>Ent�o l� estava eu, sentado com Ming, tentando ver sentido em tudo aquilo.</p><p>Ele tinha sido aben�oado com um sorriso generoso, um sorriso totalmente gentil. Era dif�cil de imagin�-lo um traficante de hero�na da m�fia chinesa, um executor baixinho que uma vez tacou fogo em um concorrente e depois usou o carv�o de sua carca�a ardente para assar algumas costelinhas.</p><p>� E a�, como � a hist�ria desses telefones? � perguntei a Ming, o Impiedoso.</p><p>� Chamadas a cobrar s� � respondeu ele.</p><p>Foi nesse momento que tr�s detentos vieram apressados, em fila �nica. Eles estavam mexendo seus quadris desajeitadamente e balan�ando os bra�os de uma forma exagerada. Praticantes de marcha atl�tica, pensei. Como todos os demais, eles usavam cal�as de moletom cinza, camiseta branca, t�nis de lona branca e fones de ouvido. Ming e eu nos inclinamos e os observamos diminu�rem a dist�ncia. Fiz um gesto para os apressados:</p><p>� O que eles est�o fazendo?</p><p>Ming deu de ombros.</p><p>� Eles exercitam. Caminham em c�rculos durante todo o dia. Passar o tempo.</p><p>Interessante, pensei.</p><p>De fato, apesar de chegar � 7N apenas cinco minutos antes, eu j� tinha chegado � conclus�o de que meu principal inimigo n�o eram os outros detentos, mas o t�dio intenso de ficar preso ali. Afinal, ao contr�rio de uma pris�o federal, onde as atividades s�o abundantes e a viol�ncia � galopante, um centro de deten��o federal � desprovido de qualquer atividade e de viol�ncia. Eles simplesmente o aborrecem at� a morte...</p><p>� Quer dizer ent�o que nunca h� brigas por aqui? � perguntei a Ming.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a estreita, negando.</p><p>� Todo mundo com muito medo. Voc� enfrenta 10 anos, briga, agora voc� enfrenta 20 anos. Entendeu?</p><p>Assenti com a cabe�a. Noventa por cento dos detidos estavam aguardando sua senten�a, assim, se entrassem numa briga ou fizessem alguma merda, a supervis�o das pris�es federais poderia alertar o juiz e ele ent�o iria conden�-los com o m�ximo rigor da lei.</p><p>� Eu preciso usar o telefone � disse, sem emo��o, levantando-me da borda do colch�o.</p><p>Ming colocou a m�o em meu bra�o.</p><p>� Ei, voc� cara rico, certo?</p><p>Eu olhei para ele e dei de ombros.</p><p>� Por qu�?</p><p>Ele sorriu.</p><p>� Porque Ming fazer tudo para voc�: cozinhar, limpar, lavar a roupa, fazer a cama, cortar o cabelo. Eu ser como escravo.</p><p>Eu olhei para ele por um momento, incr�dulo.</p><p>� Quanto �?</p><p>� Vinte d�lares por semana. Voc� paga em selos da intend�ncia. D�-me 10 d�lares extras, eu roubar comida da cozinha. N�s comemos como reis. Eu fa�o melhor frango com laranja deste lado de Chinatown!</p><p>Eu ri.</p><p>� Claro � murmurei, � por que n�o?</p><p>E fui para o fim da fila.</p><empty-line/><empty-line/><p>MINHA PRIMEIRA LIGA��O foi para a casa de Magnum que, infelizmente, era um n�mero que eu sabia de cor. A not�cia n�o foi boa. Alonso estava em p� de guerra: n�o tanto porque ele estava com raiva de mim, mas porque estava bravo com a situa��o como um todo e, acima de tudo, estava bravo com ele mesmo. Tinha entrado despreparado num tribunal e pagara o pre�o por isso. Em consequ�ncia, iriam se passar muitos meses antes que ele voltasse a falar em meu favor. Al�m disso tudo, ficaria a nosso cargo fazer a investiga��o � conseguir depoimentos dos caras das mesas e dos gerentes dos cassinos e dos pilotos do helic�ptero, bem como de Kiley, se eu pudesse encontr�-la para provar, sem sombra de d�vida, que minha viagem a Atlantic City n�o tivera nada a ver com lavagem de dinheiro.</p><p>Magnum j� convocara Bo, que estava falando com seus contatos em Atlantic City. Coleman concordou em ajudar tamb�m, embora Magnum achasse melhor que n�s fiz�ssemos nossa pr�pria investiga��o e, em seguida, apresent�ssemos os fatos para Gleeson sob a forma de depoimentos, pois assim o juiz saberia que era s�rio.</p><p>Antes de desligar o telefone, encontrei-me fazendo o que todos os detentos fazem: implorando ao advogado que n�o desistisse de mim.</p><p>� N�o importa o que aconte�a � disse a Magnum com a m�o em concha sobre o bocal �, n�o pare de tentar me tirar daqui. N�o me importa quanto tempo leve e quanto vai custar.</p><p>� Eu n�o pararia por qualquer cliente � disse ele, calorosamente � e especialmente n�o com voc�. Apenas aguente firme a� durante alguns meses. Eu vou tirar voc� da�, cara.</p><p>Dei um suspiro de al�vio.</p><p>� Voc� conseguiu entrar em contato com Nadine?</p><p>� Sim, ela est� bem. Talvez bem <emphasis>demais</emphasis>, se voc� entende o que quero dizer.</p><p>� Sim, eu sei... � respondi, s�rio. � Ela estava rezando para isso acontecer. � a desculpa de que ela precisava para fugir para a Calif�rnia. Ela perguntou quanto tempo ficarei preso?</p><p>� N�o, e eu tamb�m n�o levantei o assunto, exatamente por essa raz�o. Mas eu pedi a ela que aceitasse liga��es a cobrar de voc�, e ela prometeu que faria isso.</p><p><emphasis>Bem, isso � o m�nimo que ela podia fazer, porra!</emphasis></p><p>� E Yulia? � perguntei com um sorriso. � Ela provavelmente voltou com o ex-namorado, a essa altura.</p><p>� Duvido muito � respondeu Magnum.</p><p>� Ah, �? Por qu�?</p><p>� Eu acho que ela deve estar � no consult�rio do psiquiatra, isso sim.</p><p>� Do que voc� est� falando? O que aconteceu com ela?</p><p>� O que aconteceu � que ela entrou em p�nico, foi isso! Eu a chamei no hotel, como voc� pediu, e quando lhe contei que voc� fora detido, levado para a cadeia, porque ela n�o sabia o que significava, bem, ela ficou completamente perdida. Come�ou a chorar histericamente no telefone dizendo �Ah, meus Deus! Ah, meus Deus!�; devo admitir que achei um pouco engra�ado, ela usar o plural em <emphasis>meus</emphasis>...</p><p>� Sim � respondi, orgulhoso �, ela tem uma tend�ncia a fazer isso � de repente, comecei a achar que as defici�ncias de linguagem da KGB eram bastante reconfortantes. � O que mais ela disse?</p><p>� Eu n�o tenho certeza, porque ela come�ou a falar em russo, a coisa de 100 quil�metros por hora. Enfim, ela � uma garota muito bonita. Eu posso entender porque foi escolhida Miss Uni�o Sovi�tica.</p><p>� Espere um segundo: voc� a viu?</p><p>� Sim, ela apareceu no meu escrit�rio sem avisar, acho que ela deve ter pedido informa��o. Enfim, ela estava tremendo incontrolavelmente. Foi muito assustador, na verdade. Nick estava prestes a chamar um m�dico, mas depois um cara chamado Igor apareceu e levou-a embora. Voc� sabe quem � esse Igor?</p><p>Um choque!</p><p>� Voc� conheceu o Igor? � senti uma pontada de ci�me.</p><p>Por que Magnum conheceu Igor antes de mim? Que seja. A curiosidade dominou o ci�me e eu perguntei:</p><p>� Como ele �?</p><p>� Bem comum � respondeu ele. � Alto, magro, cabelo grisalho, deve ter uns 50 anos, por a�. Ele tem uma apar�ncia suspeita, como uma raposa. E excelente postura.</p><p>� O que quer dizer com excelente postura?</p><p>� Que <emphasis>ele tem uma excelente postura</emphasis>! O cara � empertigado como uma vareta. Ele provavelmente esteve no servi�o militar � disse e depois de uma breve pausa: � Ele provavelmente ainda est�, se voc� me entende.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, enquanto a obviedade das palavras de Magnum pairava no ar. Ent�o ele disse:</p><p>� De qualquer forma, o sujeito deixou uma mensagem muito enigm�tica para voc�, algo sobre voc� estar sob prote��o dele agora. Eu n�o tenho a menor ideia do que ele quis dizer com isso. Voc� tem?</p><p><emphasis>Eu, sob a prote��o de Igor?</emphasis> Do que o russo maluco estava falando?</p><p>� N�o tenho ideia � respondi � A menor ideia. Eu nunca me encontrei com ele!</p><p>� Interessante � disse Magnum. � Bem, Yulia deixou uma mensagem para voc�, tamb�m, embora a dela tenha sido um pouco menos enigm�tica.</p><p>Fiquei mais animado.</p><p>� Ah, � mesmo? O que ela disse?</p><p>Com uma risada, me contou:</p><p>� Ela diz que ela <emphasis>amo</emphasis> voc� e que vai esperar por voc� quanto tempo <emphasis>demora</emphasis>, mesmo que <emphasis>demora</emphasis> para sempre � mais risadas da gram�tica da KGB. � Ela me pareceu sincera.</p><p>N�s trocamos um caloroso adeus, ent�o eu desliguei o telefone e fui at� o fim da fila. Havia umas quatro pessoas na minha frente, de forma que eu teria alguns minutos para pensar. Acima de tudo, ficara surpreso com a lealdade da KGB. Eu nunca tinha imaginado isso, especialmente depois de minha experi�ncia com a Duquesa. Eu tinha acabado de assumir que KGB teria fugido da gaiola, porque era o que a Duquesa tinha feito. Mas, agora que estava pensando sobre isso, a atitude de KGB n�o foi t�o surpreendente.</p><p>Poucas mulheres abandonariam o marido na escadaria do tribunal. O que a Duquesa tinha feito fora inconceb�vel. Eu sabia que pensaria assim para sempre. Mas agora j� n�o dava tanta import�ncia, porque estava apaixonado por outra pessoa. Naquele lugar onde antes me sentia tra�do e de cora��o partido, eu agora sentia raiva e apatia. E, na verdade, nem raiva de fato estava sentindo. Eu s� queria que meus filhos ficassem a leste do Mississippi.</p><p>A fila se moveu rapidamente e minha conversa com a Duquesa foi ainda mais r�pida. Magnum j� tinha dado os fatos a ela, eu preenchi os espa�os em branco. Curiosamente, Magnum tinha deixado de fora o papel do helic�ptero no desastre, concentrando-se no que tinha acontecido com Dave Beall e em como aquilo tinha preparado o palco para a vingan�a do Canalha. Fiz uma nota mental para agradecer a Magnum por aquilo.</p><p>De todo modo, assegurei � Duquesa que logo estaria em casa, uns dois meses no m�ximo, e, embora n�o tivesse dito isso, meu tom de voz alertava: �Ent�o, nem pense em se mudar para a Calif�rnia em breve, minha senhora!�.</p><p>De sua parte, nem suas palavras nem sua voz tra�ram qualquer coisa. Ela apenas disse que �realmente sentia muito� que eu tivesse sido jogado na cadeia, embora n�o parecesse nem mais nem menos chateada do que se eu tivesse dito a ela que tinha acabado de perder as chaves de casa e sido obrigado a chamar um chaveiro.</p><p>Isso posto de lado, decidimos que n�o havia nenhuma raz�o para que diss�ssemos alguma coisa para as crian�as. Com as idades de 6 e 4 anos, seria melhor enganar os dois � enganar no sentido de <emphasis>proteger</emphasis>. Al�m do mais, para que preocup�-los se logo eu estaria em casa de novo? Era por isso que eu rezava a toda hora.</p><p>A Duquesa prometeu aceitar todas as minhas chamadas a cobrar e n�o falar mal de mim para meus filhos, e eu acreditei na palavra dela em ambos os casos, n�o porque eu achasse que ela sentia um gr�o de compaix�o por mim, mas porque eu sabia que ela sentia pelas crian�as. E fiquei bem; quando voc� est� em uma posi��o como a minha, � melhor aceitar suas vit�rias sem questionar os motivos. E agradecer.</p><p>Quando falei com as crian�as, mantive a conversa curta e doce. Disse a eles que estava viajando a neg�cios, coisa que eles acharam muito emocionante. Nenhum deles perguntou quando eu voltaria para casa, simplesmente porque eles assumiram que seria em breve. Na idade de Carter, o conceito de tempo n�o significava muito. Ele media as coisas em meias horas, que era o tempo m�dio de um desenho animado; qualquer coisa al�m disso j� era considerado �muito tempo�.</p><p>Chandler, no entanto, foi outra hist�ria. Ela estava no primeiro grau e sabia ler (n�o muito bem, gra�as a Deus!), de modo que ela n�o poderia ser tapeada por muito tempo. Eventualmente, dentro de um m�s, talvez, ela come�aria a farejar uma tapea��o, e ent�o seu bem merecido apelido de CIA deixaria as coisas complicadas. Ela come�aria a investigar, a fazer perguntas dif�ceis, a checar as omiss�es, mentiras e contradi��es. Em ess�ncia, ela se tornaria a menina intrometida de 6 anos por excel�ncia, uma garotinha preocupada que sentia falta do papai e n�o iria parar de cavoucar at� que chegasse ao cerne das coisas.</p><p>Com isso em mente, antes de desligar, eu disse a ela que minhas viagens me levariam a lugares fant�sticos e distantes, exatamente como os dois franceses bobos, Phileas Fogg e Passepartout, do filme <emphasis>A volta ao mundo em 80 dias</emphasis>. N�s t�nhamos assistido ao filme juntos muitas vezes e ela sempre o achara fascinante, especialmente as diferentes formas como eles tinham viajado.</p><p>� Vai ser �timo! � eu disse a ela. � Voc� pode assistir ao v�deo com Gwynnie e ver todos os lugares enquanto papai vai visit�-los. Na verdade, vai ser como se a gente estivesse visitando-os juntos!</p><p>� Voc� vai a todos os mesmos lugares que Passepartout? � perguntou ela, maravilhada.</p><p>� Mas � claro que sim, baixinha! Acho at� que posso levar o mesmo tempo que eles!</p><p>� Oitenta dias? � exclamou ela. � Mas por que voc� levaria 80 dias? Eles montaram em um elefante, papai! Voc� n�o pode pegar um avi�o?</p><p>Que diabinha! Ela era muito inteligente! Eu tive de cortar a conversa:</p><p>� Bem, acho que eu poderia, mas isso ia tirar toda a divers�o, n�? De qualquer forma, basta ver o v�deo com Gwynnie e depois vamos conversar sobre ele, o.k.?</p><p>� Tudo bem � disse ela, alegremente. � Eu amo voc�, papai.</p><p>Ent�o ela explodiu um grande beijo no telefone.</p><p>� Eu tamb�m amo voc� � disse, calorosamente, e mandei-lhe um beijo de volta.</p><p>Depois, desliguei o telefone, lutei contra as l�grimas e voltei ao fim da fila de novo, esperando minha vez. Dez minutos depois, eu estava discando para Southampton.</p><p>Primeiro eu ouvi a voz da KGB:</p><p>� <emphasis>Alloa</emphasis>?</p><p>Ent�o a voz gravada da telefonista: �Esta � uma chamada a cobrar a partir de uma pris�o federal. Se voc� deseja aceitar, por favor, pressione 5 agora, se voc� n�o quiser aceitar, pressione 9 ou desligue o telefone, se voc� deseja bloquear as chamadas deste n�mero de forma permanente, pressione 7-7 agora�.</p><p>E ent�o houve um sil�ncio.</p><p>Ah, meu Deus!, pensei. KGB n�o conseguia entender as instru��es! Eu gritei para o telefone:</p><p>� Yulia! N�o pressione 7-7! Sen�o nunca vou poder ligar para voc� de volta! N�o pressione 7-7!</p><p>Olhei em volta procurando um rosto amigo. Um homem negro muito alto era o pr�ximo da fila. Ele estava olhando para mim, com uma express�o divertida. Balancei a cabe�a e disse:</p><p>� Minha namorada � estrangeira. Ela n�o entende a mensagem...</p><p>Ele sorriu de maneira cordial, expondo uma not�vel aus�ncia dos dentes incisivos.</p><p>� Acontece o tempo todo, xar�. � melhor desligar antes que ela aperte o 7-7. Se ela fizer isso � o telefone fez <emphasis>bip-bip</emphasis> �, voc� est� fodido.</p><p>Nesse momento escutei um <emphasis>clic</emphasis> alto. Com o cora��o apertado, levantei o fone e olhei para ele com curiosidade. Ent�o me virei para o imponente homem negro e disse:</p><p>� Eu acho que ela pressionou 7-7.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a e deu de ombros.</p><p>� Ent�o, voc� est� ferrado.</p><p>Eu estava prestes a desligar quando ele disse:</p><p>� Voc� tem outro n�mero em casa?</p><p>Eu assenti com a cabe�a.</p><p>� Sim, por qu�?</p><p>Ele apontou para o telefone.</p><p>� Ent�o ligue para ele. Eles n�o bloqueiam a casa inteira, s� aquela linha.</p><p>� Mas voc� n�o se importa? � perguntei nervosamente. � Pensei que s� fosse uma liga��o de cada vez.</p><p>Ele deu de ombros.</p><p>� Vamos, ligue para sua garota. O que n�o me falta aqui � tempo.</p><p>� Obrigado!</p><p>Mas que cara fant�stico! Primeiro Ming, o Impiedoso, e ent�o esse negro da altura de uma torre. Essas pessoas n�o eram t�o m�s assim, eram? Principalmente esse cara. Ele era um verdadeiro cavalheiro. Mais tarde descobri que ele estava enfrentando 20 anos por causa de extors�o.</p><p>Virei-me, disquei o n�mero novamente e ent�o ela atendeu. Suas primeiras palavras foram:</p><p>� Ah, meus Deus! <emphasis>Maya lubimaya! Ya lublu tibea!</emphasis></p><p>� Eu tamb�m te amo � respondi suavemente. � E a�, est� aguentando bem?</p><p>� Aguentando o qu�? � perguntou ela, com uma fungada confusa.</p><p>Caramba, pensei. Apesar de tudo, era o suficiente para deixar qualquer um louco.</p><p>� Eu quero saber se voc� est� bem.</p><p>� <emphasis>Da</emphasis>... � disse ela, com tristeza. � Eu... Bem... � e depois � Ah, Ah... meus Deus... Eu... Ah, meus Deus � e come�ou a chorar incontrolavelmente.</p><p>Por mais que eu tentasse, n�o conseguia deixar de pensar que eu encontrava conforto em seus solu�os. Era como se cada solu�o, cada l�grima, cada fungada fosse uma forma de ela reafirmar seu amor por mim. Fiz uma nota mental de contar cada �Eu te amos� que ela falasse por dia. Quando eles come�assem a diminuir, eu saberia que o fim estava pr�ximo.</p><p>Naquele dia, definitivamente, o fim n�o estava nem um pouco � vista. No momento em que parou de solu�ar, ela disse:</p><p>� Eu n�o me importo quanto tempo demorar, eu espero por voc� para sempre. Eu n�o vou sair de casa at� que voc� esteja casa.</p><p>Fiel � sua palavra, foi exatamente o que ela fez.</p><p>Quando minha primeira semana atr�s das grades estava chegando ao fim, ela estava l� a cada vez que eu ligava para Southampton. Segundo as regras da cela, voc� podia falar pelo tempo que quisesse em cada chamada, e algumas vezes n�s fal�vamos por horas a fio. Isso era bastante ir�nico, pensei, considerando que nunca t�nhamos conversado muito quando eu estava do lado de fora. Nosso relacionamento se baseara principalmente em sexo e, quando n�o est�vamos fazendo amor, a gente estava comendo, dormindo ou discutindo sobre qual livro de hist�ria era mais preciso.</p><p>Agora, no entanto, n�s n�o t�nhamos essas discuss�es. A gente parecia concordar em tudo, muito porque evit�vamos falar de assuntos que fossem vagamente relacionados com hist�ria, pol�tica, economia, religi�o, gram�tica e, claro, a Lua. Em vez disso, fal�vamos de coisas simples, como todos os jantares maravilhosos que t�nhamos compartilhado juntos... Todas aquelas pequenas fogueiras na praia... E como t�nhamos feito amor a noite inteira. Mas, acima de tudo, a gente falava sobre o futuro, nosso futuro, e como, assim que tudo aquilo tivesse acabado, ir�amos nos casar e viver felizes para sempre.</p><p>Quando n�o estava conversando com a KGB, eu estava lendo livro ap�s livro, tentando me atualizar depois de anos me entretendo com sexo, drogas e rock and roll. Por mais tempo do que poderia me lembrar, eu havia desprezado a leitura, associando-a a t�dio e chatea��o em vez de a admira��o e prazer. Eu vi a mim mesmo como o produto de um equivocado sistema de ensino que enfatizara que n�s dever�amos ler os �cl�ssicos�, os quais, em sua maioria, eram chatos e ultrapassados. Talvez se eu tivesse sido for�ado a ler <emphasis>Tubar�o</emphasis> e <emphasis>O poderoso chef�o</emphasis>, em vez de <emphasis>Moby Dick</emphasis> e <emphasis>Ulysses</emphasis>, as coisas tivessem sido diferentes. (Sempre buscando colocar a culpa em outro lugar.)</p><p>Ent�o, estava tentando recuperar o tempo perdido, com a m�dia de quase um livro por dia, e tamb�m escrevendo tr�s cartas, uma para KGB e as outras duas para cada um de meus filhos. � claro, eu telefonava para as crian�as todos os dias para dizer que os amava e que estaria em casa de volta em breve. Embora detestasse mentir para elas, eu sabia que era a coisa certa a fazer.</p><p>Como esperado, Carter foi f�cil de enganar. N�s convers�vamos sobre qualquer filme da Disney com o qual ele estivesse obcecado no momento e depois troc�vamos alguns �eu te amo�. Nossas conversas n�o duravam mais que um minuto, e depois ele voltava para a feliz ignor�ncia da inf�ncia.</p><p>Chandler, no entanto, j� era outra hist�ria. Nossa conversa durava em m�dia 15 minutos e, se no dia ela estivesse especialmente falante, podia se estender para quase uma hora. Eu n�o sabia exatamente sobre o que a gente falava durante todo esse tempo, mas, enquanto as semanas se arrastavam, notei que ela estava ficando cada vez mais obcecada com Passepartout. Em ess�ncia, ela estava usando o filme para manter controle do meu progresso, da forma como um adulto riscaria os dias em um calend�rio.</p><p>Ela ficava dizendo coisas como: �Passepartout fez isso, papai, e fez aquilo, papai�, como se eu pudesse de alguma forma aprender com os erros dele e acelerar minha viagem ao redor do mundo. Com a ajuda de Gwynne, ela tinha indexado o dia 10 de janeiro como o dia de minha chegada aos Estados Unidos, vindo de Yokohama, exatamente como Passepartout. No entanto, se ela pudesse me ajudar a descobrir uma maneira de viajar mais r�pido ou simplesmente evitar um acidente, ent�o talvez eu pudesse estar em casa para o Natal.</p><p>Ent�o, quando eu lhe disse que estava em Paris, ela disse �Tenha cuidado quando voc� decolar em seu bal�o de ar quente, papai! Passepartout teve que subir no bal�o, e ele quase caiu!�. Tive de prometer que tomaria cuidado.</p><p>E quando eu disse a ela que estava indo para a �ndia, ela disse �Tenha cuidado quando voc� montar em seu elefante, papai, porque Passepartout foi capturado por ca�adores e teve que ser resgatado!�. E a partir da� o assunto se tornaria algo completamente in�cuo, tipo seus novos amigos na escola, algo que ela tinha visto na TV, os brinquedos que ela queria para o Natal. Nunca, nem uma vez, ela trouxe � baila o nome de John Macaluso ou o de sua m�e. Se isso foi por acidente ou premeditado, eu n�o tinha certeza, mas eu podia sentir que Chandler tentava proteger meus sentimentos.</p><p>Em meados de novembro, Alonso finalmente concordou em fazer uma nova tentativa diante de Gleeson. O �nico problema era que ele precisava obter autoriza��o do novo chefe da divis�o criminal, um homem chamado Ken Breen (Ron White havia mudado de lado, tornando-se um advogado de defesa). Breen estava em julgamento e n�o poderia ser perturbado.</p><p>Isso n�o fazia sentido para mim; afinal, Magnum n�o iria levar mais que 15 minutos para fazer uma apresenta��o para Ken Breen. Bo havia assegurado todos os depoimentos necess�rios e estava muito claro que a �nica coisa da qual eu deveria ser acusado era burrice. Eu disse a Magnum:</p><p>� N�o me interessa o quanto ele est� ocupado, eles sempre t�m 15 minutos de sobra para algo importante.</p><p>Magnum explicou que era uma quest�o de protocolo. Quando um promotor vai a julgamento, � como um lutador entrando no ringue, e entre os assaltos ele n�o fala com seu melhor amigo. Tudo com que ele se preocupa � em derrubar o outro boxeador.</p><p>Assim, a possibilidade de eu estar em casa no dia de A��o de Gra�as desapareceu como um peido no vento. Por sorte, eu n�o tinha realmente esperado que isso acontecesse, ent�o n�o me decepcionei muito. Sim, teria sido bom, claro, mas tinha sido uma perspectiva t�o distante que eu n�o fora tolo o suficiente para alimentar minhas esperan�as.</p><p>Como eu descobri rapidamente, as expectativas podem ser tanto seu melhor amigo como seu pior pesadelo quando voc� est� atr�s das grades. Um homem encarando 20 anos de pris�o se apoia na esperan�a de ganhar uma redu��o da pena; quando ele perde essa apela��o, ele se apoia na esperan�a da liberdade condicional; e quando ele perde isso tamb�m, e sua vida parece totalmente in�til e n�o vale mais a pena viver, ele encontra Jesus.</p><p>Eu ca� em uma categoria �nica de quem ficaria ali por um tempo ultracurto, um detento cuja presen�a seria medida por quest�o de meses. No pior dos casos, Magnum assegurou-me, Gleeson me deixaria sair na primavera, simplesmente por miseric�rdia. No entanto, se a gente colocasse nossa mo��o para um pouco antes do Natal, ele n�o conseguia imaginar que John pudesse negar isso. Ele era um homem misericordioso, garantiu Magnum, e estaria disposto a me dar uma segunda chance.</p><p>Que assim seja, pensei. Eu teria de passar o dia de A��o de Gra�as na pris�o. Disquei para Old Brookville na manh� de ter�a-feira da semana de A��o de Gra�as. A data era 23 de novembro. Como sempre, disquei os n�meros com um sorriso no rosto, ansioso, mais que tudo, por ouvir a voz de meus filhos. Infelizmente, no segundo toque, eu ouvi: �Sinto muito, o n�mero que foi chamado foi desconectado. Se voc� chegou a esta grava��o por engano, por favor, desligue o telefone e tente novamente. N�o existe mais nenhuma informa��o dispon�vel�.</p><p>No come�o, n�o desliguei o telefone. Fiquei com ele pressionado em meu ouvido. Eu estava simplesmente surpreso demais para me mexer. Enquanto meu c�rebro procurava desesperadamente por respostas, meus instintos n�o precisavam fazer isso: meus filhos tinham se mudado para a Calif�rnia.</p><p>Dois dias depois, n�o foi nenhuma surpresa quando a Duquesa ligou para meus pais e deixou as novas informa��es de contato na secret�ria eletr�nica deles, e tanto o c�digo de �rea quanto o c�digo postal pertenciam a Beverly Hills.</p><p>Sem perder a calma, anotei ambos. Ent�o desliguei o telefone e fui para o fim da fila. Como havia sete pessoas na minha frente, eu tinha tempo para pensar, descobrir a sequ�ncia precisa de palavr�es a pronunciar, as amea�as apropriadas a fazer e qualquer outra coisa que um homem na minha posi��o poderia dizer, quer dizer, um homem que n�o tinha poder sobre coisa alguma nem sobre ningu�m, incluindo ele mesmo.</p><p>Eu iria cham�-la de puta e acus�-la de querer dar o golpe do ba� e... <emphasis>Mas a quem eu estava enganando?</emphasis> Se eu a chamasse de qualquer dessas coisas, ela digitaria o 7-7 e cortaria todas as comunica��es por telefone! Sem mencionar que poderia arrancar minhas cartas da caixa de correspond�ncia e cortar toda a comunica��o escrita tamb�m. Minha completa falta de poder estava come�ando a me irritar! Contudo, o que mais me enfureceu foi que, no fundo, eu sabia que ela estava certa.</p><p>Quer dizer, o que ela poderia fazer? Eu estava na cadeia e o dinheiro estava acabando. A Duquesa tinha contas a pagar, filhos para criar e o teto sobre a cabe�a dela estava prestes a ser confiscado. E l� estava John Macaluso na ponte, como um cavaleiro de armadura brilhante. O cara tinha dinheiro, uma mans�o e, por coincid�ncia, era um sujeito pra l� de legal. Ele iria apoi�-la, cuidar dela e am�-la.</p><p>E ele iria cuidar das crian�as.</p><p>Falando nisso, e elas? O que seria melhor para elas? Deveriam crescer em Long Island, sob a sombra escura de meu legado? Ou seria melhor para elas ter um novo come�o na Calif�rnia? Claro, o lugar de meus filhos era perto de mim. Disso eu tinha certeza. Mas a que lugar eu pertencia? O que era melhor para mim?</p><p>Tendo t�o pouca escolha, fiz o que eu n�o tinha d�vida de que muitos homens com a infelicidade de ser um prisioneiro na Cela 7N fizeram antes de mim: voltei para a cama e puxei as cobertas sobre a cabe�a.</p><p>E ent�o eu chorei.</p></section><section><p>CAP�TULO 26</p><p><strong>UMA NOVA MISS�O</strong></p><p>Finalmente, a liberdade!</p><p>Ar fresco! Ar livre! O c�u azul sobre mim! A bola alaranjada do sol! As fases gloriosas da lua! O doce perfume das flores frescas! E o perfume ainda mais doce da perereca sovi�tica! E pensar que eu n�o dava o devido valor a essas coisas! Como eu era tolo! Os simples prazeres da vida sempre foram os mais importantes, n�o � mesmo? Eu tinha sido enviado para o inferno e sobrevivido.</p><p>Foi assim que sa� do Centro de Deten��o Metropolitano, numa manh� fria de segunda-feira, com um sorriso no rosto e um sobressalto no cora��o � e com todos os aspectos de minha vida totalmente em frangalhos.</p><p>Muita coisa pode mudar em quatro meses e, em meu caso, era isso que tinha acontecido: meus filhos estavam morando na Calif�rnia; Meadow Lane estava nas m�os do governo, meus m�veis, num dep�sito, meu dinheiro, se esgotando e, para piorar tudo, eu usava uma tornozeleira com restri��es t�o draconianas que eu n�o podia nem mesmo sair de casa, a n�o ser para ir ao m�dico.</p><p>Eu tinha alugado um apartamento duplex que se espalhava pelo 52<sup>o</sup> e 53<sup>o</sup> andares do Edif�cio Galleria, uma ultraluxuosa torre de vidro e concreto que se erguia na Park Avenue com a Rua 57, em Manhattan (Por que n�o ficar preso com estilo?, pensei).</p><p>O edif�cio era um ref�gio de luxo para o lixo da Europa, das duas variedades, oriental e ocidental. Do Oeste, eles vinham de lugares como Roma, Genebra e da <emphasis>Gay Parrrris</emphasis>; e do Leste, vinham dos pa�ses que formavam o antigo bloco sovi�tico, a maioria mafiosos, que tamb�m mantinham casas em Moscou ou S�o Petersburgo quando n�o estavam em fuga. N�o surpreendentemente,  KGB encaixou-se perfeitamente ali, e um de seus amigos russos tinha sido gentil o suficiente para nos alugar o fabuloso apartamento.</p><p>Foi no come�o de dezembro que Magnum me perguntou para qual endere�o eu queria ser liberado assim que Gleeson tivesse aprovado a aplica��o da fian�a. Meadow Lane n�o servia mais, ele explicou, porque seu confisco seria executado no final daquele ano.</p><p>Dada a atual situa��o, minhas op��es eram poucas: comprar uma casa seria rid�culo, ficar em Southampton seria ainda mais rid�culo. Com as crian�as vivendo em Beverly Hills e o cora��o da KGB pertencendo a Manhattan, n�o havia nenhum sentido em morar no meio do nada. Al�m disso, eu precisava ficar perto do escrit�rio da Procuradoria, porque, para minha decep��o, o Chef tinha se recusado a cooperar e estava amea�ando levar seu caso a julgamento; se ele realmente fizesse isso, eu iria passar muitas noites queimando as pestanas me preparando no Gabinete do Procurador.</p><p>No entanto, por mais problem�tica que fosse a decis�o do Chef, ela parecia um distante segundo violino se comparada a meus problemas com Chandler, que desde meados de fevereiro tinha estado fora de si pela emo��o. Os 80 dias haviam se passado e eu ainda n�o tinha acabado de dar minha volta ao mundo. Ela sabia que havia algo errado, e minhas desculpas tinham se esgotado semanas antes.</p><p>� Onde voc� est�? � ela continuava choramingando. � Por que voc� n�o vem para casa? Eu n�o entendo! Voc� prometeu! Voc� n�o me ama mais...</p><p>Foi ent�o que a Duquesa e eu fizemos as pazes um com o outro. N�s mal t�nhamos trocado dez palavras desde aquela terr�vel manh� de quarta-feira e ent�o eu n�o tinha mais escolha. O sofrimento de nossa filha eclipsava o desprezo m�tuo que sent�amos.</p><p>A Duquesa me disse que Chandler estava chateada assim havia meses, n�o deixando transparecer as emo��es ao telefone apenas para meu benef�cio. Ela chorou no Dia de A��o de Gra�as e n�o tinha parado de chorar desde ent�o. Algo tinha que ser feito, disse a Duquesa. Nossa estrat�gia de prote��o tinha sa�do pela culatra. Sugeri que ela telefonasse para Magnum e contasse a ele o que estava acontecendo, e foi o que ela fez; Magnum foi at� o gabinete da Procuradoria implorando que fizessem alguma coisa. Chega de atrasos!, suplicou. N�o se tratava mais de Jordan Belfort, era sobre uma crian�a, uma crian�a que estava sofrendo.</p><p>E foi assim que aconteceu: mo��es foram feitas, audi�ncias foram realizadas, detalhes foram trabalhados e, na �ltima sexta-feira de fevereiro, o juiz Gleeson assinou uma ordem para minha liberta��o. A partir da�, Magnum imediatamente avisou a Duquesa, que ligou imediatamente para Gwynne, que imediatamente pegou um avi�o para a Calif�rnia. Ela pousou em um s�bado, passou duas noites na nova mans�o da Duquesa em Beverly Hills e, em seguida, embarcou em um voo de manh� cedo, de volta para Nova York, com as crian�as a tiracolo. Ela iria pousar �s 5 da tarde, exatamente dali a tr�s horas e meia.</p><p>Com esse pensamento, respirei de maneira profunda e ansiosa, e bati na porta brilhante do apartamento 52 C. Eu j� tinha estado ali uma vez, e por dentro era absolutamente lindo. Um grande hall de m�rmore negro levava a uma sala de estar com pain�is de mogno e com telas afixadas nas paredes. O teto ficava 6 metros acima do piso de m�rmore italiano. No entanto, por mais bonito que fosse o lugar, ele era tamb�m um dos mais tristes apartamentos de toda Manhattan, porque fora ali, naquele mesmo apartamento, onde o filho de Eric Clapton, de 4 anos de idade, havia acidentalmente ca�do da janela do quarto. Eu tinha ficado relutante em alug�-lo por causa disso, mas KGB me garantiu que o apartamento tinha sido aben�oado por um padre e um rabino.</p><p>Ent�o a porta se abriu, mas apenas um pouco. Um momento depois, eu vi aparecer a familiar cabe�a loira sovi�tica por entre a fresta. Sorri para minha comunista preferida e disse, com sotaque russo:</p><p>� Abrir a porta!</p><p>Ela puxou a porta e a abriu totalmente, mas em vez de jogar os bra�os a meu redor e me regar com beijos, ela s� ficou l� com os bra�os cruzados sob os seios. Ela estava usando um par de cal�as jeans muito apertados. O brim fora ferozmente pr�-lavado e os joelhos e coxas tinham o n�mero apropriado de rasgos e furos neles. Eu n�o era um especialista em jeans femininos, mas sabia que aqueles custavam uma fortuna. Ela usava uma camiseta branca simples que parecia sedosa como <emphasis>vison</emphasis>. Seus p�s estavam descal�os e ela estava batendo o p� direito no ch�o de m�rmore, como se estivesse se debatendo se ainda me amava ou n�o.</p><p>Fingindo estar insultado, disse:</p><p>� Bem, voc� n�o vai me dar um beijo? Fiquei preso por quatro meses!</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Vir pegar se quiser.</p><p>� Tudo bem, vou pegar voc�, sua atrevida!</p><p>De repente sa� correndo atr�s dela, como um touro enfurecido pelos horm�nios. Ela desistiu de sua pose e saiu correndo.</p><p>� Socorro! � gritou. � Estou sendo perseguida por capitalista! Socorro, <emphasis>polizia</emphasis>!</p><p>Uma escada de mogno curva no centro da sala erguia-se para o andar de cima, e ela subiu os tr�s primeiros degraus como uma corredora ol�mpica. Eu estava uns bons 4 metros atr�s dela, distra�do pela pura opul�ncia do lugar. A parede traseira era toda de vidro, mostrando a mais impressionante vista de Manhattan que eu j� tinha visto. Excitado como estava, ainda assim eu n�o podia deixar de admir�-la.</p><p>No momento em que cheguei � escada, ela estava sentada l� no alto, as longas pernas escancaradas em completa indiferen�a. KGB estava recostada casualmente, com as palmas das m�os apoiadas no piso de madeira. Ela n�o estava nem um pouco sem f�lego. Quando alcancei o degrau logo abaixo dela, ca� de joelhos, bufando e resfolegando. Por ter ficado preso durante tanto tempo, estava em m�s condi��es f�sicas. Corri meus dedos pelos cabelos dela, descansando um pouco para recuperar o f�lego.</p><p>� Obrigado por esperar � finalmente disse. � Quatro meses � muito tempo.</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Eu sou menina russa. Quando nosso homem senta-se na pris�o ter que esperar � ela se inclinou e me beijou na boca, suavemente, ternamente. E eu ataquei!</p><p>� Preciso fazer amor com voc� agora! � rosnei. � Aqui mesmo, no ch�o � e antes que ela percebesse o que tinha acontecido, j� estava deitada e eu por cima dela, esfregando meus jeans em seus jeans, pelve contra pelve. Beijei-a profundamente, apaixonado!</p><p>De repente, ela virou a cabe�a para o lado e eu estava beijando seu rosto.</p><p>� <emphasis>Nyet!</emphasis> � choramingou. � Aqui n�o! Eu tenho surpresa para voc�!</p><p><emphasis>Uma</emphasis> surpresa, pensei. Por que ela n�o podia simplesmente aprender de uma vez a usar os artigos? Ela estava t�o perto da perfei��o! Quem sabe existisse algum curso que ela pudesse fazer, um livro que pudesse ler...</p><p>� Que tipo de surpresa? � perguntei, ainda sem f�lego.</p><p>Ela come�ou a se contorcer por baixo de mim.</p><p>� Venha � disse ela. � Eu vou mostrar, est� em quarto.</p><p>Ela pegou minha m�o e come�ou a me puxar para cima.</p><p>O quarto principal ficava a menos de 3 metros da escada. Quando eu o vi, fiquei sem palavras. Dezenas de velas acesas estavam espalhadas por todo o aposento, no carpete escuro... Dos quatro lados da plataforma de laca preta da cama... Na cabeceira de laca preta da cama, com seu suave acabamento curvo com bordas douradas... E depois alinhadas de ponta a ponta no peitoril de quase 6 metros da janela, na parede mais distante. As cortinas vermelhas bloqueavam at� a �ltima nesga de luz solar. As luzes estavam apagadas, e as chamas das velas tremeluziam suavemente.</p><p>Na cama <emphasis>king-size</emphasis> havia um edredom de seda italiana azul royal estofado com tantas penas de ganso que parecia macio como uma nuvem. N�s mergulhamos nele com uma risadinha e eu manobrei rapidamente para ficar por cima dela. Em menos de 5 segundos est�vamos fora de nossos jeans e gemendo apaixonadamente.</p><p>Uma hora depois, ainda est�vamos gemendo.</p><empty-line/><empty-line/><p>PRECISAMENTE �S 5 HORAS o porteiro ligou e disse que eu tinha tr�s visitantes no t�rreo. O adulto estava esperando pacientemente, ele disse com uma risada, mas as crian�as n�o. O menino tinha corrido, passando por ele para apertar o bot�o do elevador, e ainda o estava apertando naquele exato minuto. A menina, no entanto, n�o tinha feito isso; ela estava de p� olhando para ele com suspeita. E, pelo som da voz do porteiro, ela parecia deix�-lo nervoso.</p><p>� Pode deixar subir � eu disse, alegremente.</p><p>Desliguei o telefone, agarrei a m�o da KGB e desci as escadas at� o andar de baixo, abrindo a porta da frente. Alguns momentos depois, ouvi a porta do elevador se abrir. E depois, a voz familiar de uma menina:</p><p>� Papai! Onde est� voc�, papai?</p><p>� Eu estou aqui! Siga a minha voz � disse em voz alta, e um momento depois eles viraram a esquina e vieram correndo em minha dire��o.</p><p>� A casa do papai! � gritou Carter. � A casa do papai!</p><p>Agachei-me e eles correram a toda a velocidade para meus bra�os.</p><p>Pelo que pareceu uma eternidade, nenhum de n�s disse nem uma palavra sequer. N�s apenas ficamos ali nos beijando e nos abra�ando e nos apertando uns aos outros por todo o tempo, enquanto KGB e Gwynne nos olhavam em sil�ncio.</p><p>� Eu senti muita falta de voc�s, crian�as! � disse eu, finalmente. � N�o posso acreditar quanto tempo faz! � e comecei a enfiar meu nariz no pesco�o deles, farejando os dois. � Preciso cheirar voc�s dois para ter certeza de que s�o mesmo voc�s. O nariz nunca mente, como voc�s sabem.</p><p>� � a gente � insistiu Chandler.</p><p>� Sim � acrescentou Carter. � � n�s!</p><p>Segurei-os pelos bra�os.</p><p>� Ent�o deixem-me dar uma olhada nos dois. Voc�s n�o t�m nada a esconder, certo?</p><p>Fingi que estava estudando os dois. Chandler estava linda como sempre. Seu cabelo tinha crescido bastante desde o ver�o e estava na altura dos ombros agora. Ela estava usando um vestido de veludo vermelho com duas al�as finas. Por baixo, usava uma blusa branca de algod�o e meia-cal�a de bal�. Era uma menininha perfeita de linda. Eu a abracei e disse:</p><p>� Tudo bem, agora estou convencido de que � voc� mesmo.</p><p>Ela revirou os olhos e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Eu n�o disse?</p><p>� Ei, e eu? � disse Carter. � Ainda sou eu?</p><p>Com isso, ele girou a cabe�a de um lado para o outro, oferecendo-me os dois lados de seu perfil.</p><p>Como sempre, ele era todo c�lios. Seu cabelo era uma exuber�ncia de ondas loiro-platinadas. Estava usando jeans, t�nis e uma camisa de flanela vermelha. Era dif�cil imaginar que quase o t�nhamos perdido quando beb�. Ele era o retrato da sa�de agora, um filho que era motivo de orgulho.</p><p>� � ele? � Chandler perguntou nervosamente. � Ou ele � um rob�?</p><p>� N�o, � ele, tudo bem � eles correram de volta para meus bra�os e come�aram a me beijar novamente.</p><p>Depois de alguns segundos, eu disse:</p><p>� Ei, voc�s n�o v�o dar um beijo em Yulia? Ela tamb�m sentiu falta de voc�s.</p><p>� N�o! � responderam os dois em un�ssono. � S� voc�!</p><p>Bem, isso n�o era bom! Eu sabia que a KGB era sens�vel a tais coisas. Tinha algo a ver com a grande alma russa, embora, exatamente como, eu n�o tivesse a menor ideia.</p><p>� Ah, vamos l� � eu disse, em um tom de lideran�a. � Ela merece um beijo tamb�m, certo?</p><p>� N���ooooooo! � rosnaram eles. � S� o papai!</p><p>Gwynne, ent�o, entrou na conversa.</p><p>� � que eles sentiram tanto a sua falta que n�o se cansam. N�o s�o t�o fofinhos?</p><p>Eu olhei para KGB. Ela parecia ter sido insultada. Pensei em falar com ela s� mexendo a boca, sem emitir sons: <emphasis>� s� porque estavam com muitas saudades!</emphasis> Mas eu sabia que ela n�o ia conseguir fazer leitura labial (j� que mal falava a porra do idioma!).</p><p>� Est� tudo bem! � disse ela, friamente. � Vou levar malas para cima.</p><p>No andar de cima, andamos por um longo corredor estreito, no final do qual havia dois quartos pequenos. Um tinha sido convertido em biblioteca, o outro estava mobiliado com duas camas de solteiro. Enquanto KGB e Gwynne desfaziam as malas, n�s tr�s ficamos sentados no ch�o sobre o tapete marrom, tentando compensar o tempo perdido. Havia muitas sugest�es de Meadow Lane naquele quarto, como dezenas das bonecas favoritas de Chandler ao lado do trenzinho de madeira de Carter que serpenteava pelo tapete, o edredom azul com Thomas, o Tank, estampado numa cama e o edredom rosa e branco de Laura Ashley na outra. Chandler j� estava ocupada organizando suas bonecas em um c�rculo perfeito em torno de n�s, enquanto Carter inspecionava seus trenzinhos para ver se tinha acontecido algum dano durante a mudan�a. De vez em quando, KGB olhava para n�s e sorria com frieza.</p><p>� O.k. � disse eu, tentando quebrar o gelo �, aqui est� o que Yulia e eu preparamos para voc�s nesta semana. J� que perdemos um monte de feriados juntos, eu achei que... Ali�s, <emphasis>a gente</emphasis> achou que podia compensar isso celebrando todos eles agora! � fiz uma pausa e inclinei a cabe�a para o lado, em uma atitude que implicava l�gica. � Antes tarde do que nunca, certo, pessoal?</p><p>Carter disse:</p><p>� Isso significa que a gente vai ganhar mais presentes de Natal?</p><p>Assenti com a cabe�a.</p><p>� Mas � claro que sim! � respondi rapidamente. � E como perdemos o Halloween, amanh� � noite a gente se fantasia e sai por a� procurando travessuras ou gostosuras!</p><p>Com exce��o de mim, evidente. Eu fingiria uma dor nas costas, na noite seguinte, para que n�o precisasse colocar o p� para fora do apartamento e me visse na Cela 7N no dia seguinte.</p><p>Chandler disse:</p><p>� E as pessoas v�o nos dar doces agora?</p><p>� L�gico! � disse eu; que n�o!, pensei.</p><p>Naquele pr�dio voc� teria mais chance de se encontrar com Deus do que ganhar doces. O Galleria era o tipo de <emphasis>esnobem�nio</emphasis> no qual voc� poderia viajar para cima e para baixo nos elevadores durante mil vezes e nunca ver uma �nica crian�a. Na verdade, em toda a hist�ria do edif�cio, nunca tinha acontecido de duas jovens m�es se encontrarem no elevador e dizerem algo do tipo: �Nossa! Como � bom ver voc�! Vamos marcar um dia para nossos filhos brincarem juntos?�.</p><p>Mudando de assunto, falei:</p><p>� A gente tamb�m perdeu o Dia de A��o de Gra�as e o Hanukkah, certo?</p><p>Chandler me cortou:</p><p>� N�s vamos ganhar mais presentes do Hanukkah, n�o vamos?</p><p>Assenti com a cabe�a e sorri:</p><p>� Sim, espertinha, v�o! E n�s tamb�m n�o passamos o Natal juntos... � e Carter me lan�ou um olhar de d�vida � o que significa, conforme Carter disse antes, que ir�o ganhar mais presentes � Carter assentiu uma vez com a cabe�a e voltou a seus trens � e ent�o, por �ltimo, temos o Ano Novo. N�s vamos festejar todos eles.</p><p>Na noite de ter�a-feira, todo mundo estava vestindo suas fantasias, at� mesmo KGB, que, para minha completa surpresa, usava sua faixa de Miss Uni�o Sovi�tica e sua tiara de <emphasis>strass</emphasis>, enquanto Carter e Chandler a olhavam, espantados. Minha roupa de caub�i, com um chap�u, um coldre e um par de rev�lveres de brinquedo quase realistas era bem menos inspiradora e muito menos sexy. As crian�as estavam com suas fantasias de costume: Carter de Power Ranger azul e Chandler vestida de Branca de Neve. Felizmente, nosso vizinho de baixo foi legal o suficiente para brincar junto e dar doces para as crian�as.</p><p>Na noite de quarta-feira, eu fiz peru recheado. Meu antigo eu o teria assado como se fosse couro de sapato, mas o mais recente j� sabia usar o forno. O restante dos pratos e acompanhamentos, como o molho de <emphasis>cranberry</emphasis>, a torta de ab�bora e um toque russo na forma de caviar beluga (a 150 d�lares cada, que fez meu tal�o de cheques se esvaziar rapidamente), veio de um supermercado gourmet nas proximidades, dando um novo significado a <emphasis>esfolar os pre�os.</emphasis></p><p>Na noite de quinta-feira, meus pais vieram. Acendemos uma menor� para minha m�e, e Chandler e Carter receberam seus presentes de Hanukkah (mais dinheiro saindo da conta). Na sexta, n�s fomos � ali�s, melhor dizendo, <emphasis>eles</emphasis> foram � � Macy�s comprar uma �rvore de Natal artificial, e depois passamos o resto do dia ouvindo m�sicas natalinas e decorando a �rvore. E, claro, as crian�as ganharam mais presentes.</p><p>Na noite de s�bado, que era nossa �ltima noite juntos, comemoramos o Ano Novo, o que acabou sendo de fato engra�ado, porque foi quando conheci Igor. Magnum tinha sido muito feliz em sua descri��o, come�ando pelo cabelo cor de prata, que mais parecia uma fina camada de p�lvora brilhante, e ainda mais feliz quanto � postura, que no meu modo de ver s� poderia ser o resultado de uma de duas coisas: ou ele havia passado incont�veis anos em posi��o de sentido em um campo de treinamento secreto da KGB ou algu�m tinha lhe enfiado um bast�o pelo rabo.</p><p>Qualquer que fosse o caso, Igor gostava de beber, embora, de acordo com ele, estivesse simplesmente limpando seu f�gado da forma russa, ou seja, com vodca.</p><p>Sim, n�o havia como negar que Igor fosse inteligente, bem como muito ambicioso. Mais que qualquer outra coisa, tive a n�tida impress�o de que o que ele realmente desejava era possuir a arma do ju�zo final, para que o mundo todo fosse seu ref�m. E por qual motivo? N�o por dinheiro ou poder, nem mesmo pelo sexo! Tudo o que Igor queria � que todo mundo calasse a boca e concordasse com ele.</p><p>Era um pouco depois das 8 da noite e decidimos celebrar o Ano Novo na longa mesa de jantar de 6 metros que, como o resto dos m�veis, era grande, solene e revestida de laca preta italiana. A sala de jantar era grudada � sala de estar e as duas tinham a mesma vista espetacular de Manhattan. �quela hora da noite, as luzes da cidade se elevavam para n�s em uma deslumbrante exibi��o.</p><p>Apesar de eu ser teoricamente o dono da casa, Igor parecia determinado a ser o centro das aten��es naquela noite, enquanto Chandler, Carter e eu � todos usando chap�us iluminados de Ano Novo no formato de chap�u de burro da escola � fing�amos ouvi-lo. KGB usava um deles tamb�m, mas ela estava se dependurando em cada palavra dita por Igor. Era repugnante.</p><p>Do outro lado da mesa de jantar, Igor disse-me:</p><p>� En-ten-da! Eu, com um estalar de dedos � e ele estalou o dedo, enquanto Chandler e Carter olhavam confusos �, posso fazer fogo imposs�vel.</p><p>KGB entrou na conversa.</p><p>� Ele pode, eu j� vi isso.</p><p>Foi a vez de Chandler:</p><p>� Voc� devia chamar Smokey, o urso.</p><p>E depois, a minha vez:</p><p>� Ela est� certa, Igor. O urso Smokey iria cair matando em cima de voc� se soubesse que pode fazer o fogo imposs�vel.</p><p>Carter disse:</p><p>� Por que seu nome � Igor? � nome de monstro.</p><p>KGB, que tinha feito uma esp�cie de conex�o com Carter por causa do Crash Bandicoot, disse:</p><p>� Igor � como Gary. � nome russo.</p><p>Carter deu de ombros, sem se impressionar.</p><p>Igor perguntou a Chandler:</p><p>� Quem � esse urso Smokey de quem voc� fala?</p><p>� Ele � um urso que luta para acabar com os inc�ndios florestais � respondeu ela, alegremente. � Passa na TV.</p><p>Igor balan�ou a cabe�a, compreensivo. Em seguida, levantou uma ta�a de conhaque Baccarat de 250 d�lares, encheu at� o topo de vodca Stolichnaya e bebeu como se fosse �gua. Ent�o colocou a ta�a de boca para baixo com um baque.</p><p>� Voc�s t�m que entender! � declarou. � O fogo n�o pode existir sem oxig�nio. Ent�o, aquele que controlar o oxig�nio controla o fogo.</p><p>Depois de alguns instantes de sil�ncio, Chandler pegou um apito, prendeu-o na boca, olhou para Igor e soprou t�o forte quanto p�de. Igor apertou a mand�bula e cerrou os dentes. Ent�o ele se serviu de outra dose de vodca e bebeu.</p><p>Mais tarde, antes de ir embora, Igor prometeu me dar uma demonstra��o de suas habilidades de controle de fogo, mas n�o naquele momento. Primeiro ele precisava me conhecer melhor, depois ele provaria o que estava dizendo. E foi assim que a noite de Ano Novo terminou.</p><empty-line/><empty-line/><p>NA MANH� SEGUINTE, os problemas come�aram quando chegou a hora de dizer adeus. Na verdade, eu tinha planejado ter uma conversa em particular com cada um de meus filhos antes que eles fossem embora, mas eu simplesmente n�o conseguia encontrar as palavras. Carter, pensei, seria o mais f�cil, sua idade, seu sexo, sua composi��o gen�tica... N�o sei por qual raz�o, mas as coisas pareciam deslizar para longe de seus ombros sem efeitos nocivos.</p><p>Chandler, naturalmente, era o oposto. Ela era uma garotinha complicada, bastante esperta para sua idade. Eu sabia que me despedir dela seria muito dif�cil e que l�grimas seriam derramadas. O que eu n�o contara, por�m, fora a quantidade.</p><p>Eu a encontrei l� em cima, em seu quarto, sozinha. Ela estava deitada de bru�os na cama, seu nariz pressionado profundamente contra o edredom rosa. Ao contr�rio de quando chegou, quando ela tinha se vestido toda caprichada para o papai, estava agora com uma roupa mais pr�tica, com um moletom com capuz rosa.</p><p>Com o cora��o apertado, sentei-me na beira da cama, estiquei a m�o para debaixo de sua camiseta e comecei a acariciar suas costas suavemente.</p><p>� O que h� de errado, gatinha? Gwynnie me disse que voc� n�o est� se sentindo bem.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a sem falar, o rosto ainda pressionado no edredom.</p><p>Eu continuei esfregando suas costas.</p><p>� Voc� est� muito doente para viajar de avi�o?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a da mesma maneira, com um pouco mais de for�a.</p><p>� Ah, entendi � disse, com ar s�rio. � Voc� est� com febre?</p><p>Ela encolheu os ombros.</p><p>� Posso sentir sua testa?</p><p>Ela encolheu os ombros novamente.</p><p>Parei de esfregar suas costas e coloquei a palma da m�o contra sua testa. Ela estava fria.</p><p>� Bem, parece normal, gatinha. Tem alguma coisa doendo?</p><p>� Minha barriga � murmurou ela, no tom de um enfermo.</p><p>Eu sorri por dentro.</p><p>� Ohhhh, sua barriga. Entendi. Bem, por que n�o se vira para que eu possa fazer uma massagem, hein?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a negativamente.</p><p>Eu coloquei as m�os em seus ombros e, com muito cuidado, virei-a suavemente.</p><p>� Venha aqui, querida, deixe-me dar uma olhada em voc� � coloquei seus cabelos para tr�s e fiquei um momento olhando para ela.</p><p>O que eu vi, jamais irei esquecer: o rosto totalmente angustiado de minha filha, os olhos vermelhos e inchados, o l�bio inferior ainda tremendo. Ela estava chorando em seu travesseiro porque n�o queria que eu visse.</p><p>Lutando contra minhas pr�prias l�grimas, sussurrei:</p><p>� Ah, Channy, est� tudo bem. Por favor, n�o chore, meu amor. Papai te ama e sempre vai amar.</p><p>Ela apertou os l�bios em uma linha firme e balan�ou a cabe�a rapidamente, tentando lutar contra as l�grimas. Mas foi in�til. Pequenos fios de l�grimas come�aram a escorrer por seu rosto. Foi quando perdi o controle.</p><p>� Ah, Deus � disse eu, suavemente. � Eu sinto muito, Channy.</p><p>Eu a agarrei com for�a e segurei-a perto de mim.</p><p>� Eu sinto muito, muito. Voc� n�o tem nenhuma ideia, a culpa � toda minha. Por favor, n�o chore, querida.</p><p>Desabei totalmente, incapaz de dizer mais uma palavra. Depois de alguns segundos, ouvi a vozinha dela:</p><p>� N�o chore, papai, eu ainda te amo. Desculpe por fazer voc� chorar � e ent�o ela rompeu o choro, tremendo incontrolavelmente em meus bra�os.</p><p>N�s dois choramos deitados sobre o edredom, pai e filha, agarrados um nos bra�os do outro. Eu me senti como o maior perdedor do mundo, a advert�ncia final do que pode acontecer na vida de um homem. Eu nasci com todos os dons, todas as vantagens. Eu poderia ter tido o que quisesse, mas destru� tudo. Minha pr�pria gan�ncia e meus excessos tinham tirado tudo de mim.</p><p>Depois de alguns minutos, eu estava finalmente apto a me recompor. E disse:</p><p>� Ou�a-me, Chandler. Precisamos ser fortes um para o outro. N�s podemos passar por isso, prometo a voc�! Um dia ficaremos juntos de novo o tempo todo. Eu lhe prometo isso, Channy, do fundo de meu cora��o!</p><p>Com min�sculos solu�os, ela respondeu:</p><p>� Volte para a Calif�rnia comigo, papai, por favor, volte. Eu vou morar com voc� l�.</p><p>Balancei a cabe�a, triste.</p><p>� N�o posso, querida. Por mais que eu queira, n�o posso.</p><p>Ela come�ou a solu�ar de novo.</p><p>� Por que n�o? Eu queria que fosse como era antes!</p><p>Abracei-a gentilmente, rangendo os dentes e balan�ando a cabe�a com raiva. Eu tinha que fazer isso certo de alguma forma. N�o havia nenhuma maneira de eu permitir que meus filhos crescessem sem mim. Eu ia descobrir um jeito de me mudar para a Calif�rnia. Essa seria minha �nica miss�o na vida, nada mais.</p><p>Respirei fundo e me fortaleci.</p><p>� Ou�a, Chandler, eu quero dizer uma coisa.</p><p>Ela olhou para cima.</p><p>Limpei as l�grimas de suas bochechas com as costas de minha m�o.</p><p>� Tudo bem, querida, muito do que vou dizer talvez n�o fa�a sentido para voc� agora, mas um dia vai fazer, quando voc� crescer mais um pouco. � Fiz uma pausa e balancei a cabe�a, perguntando-me se n�o seria melhor que ela nunca soubesse o vigarista que eu tinha sido. � Muito tempo atr�s, fiz algumas coisas erradas na minha empresa, que foram muito ruins, e por causa disso as pessoas perderam dinheiro. Foi onde eu estava nos �ltimos meses: estava ocupado pagando a elas. Voc� entendeu?</p><p>� Sim � respondeu ela, suavemente. � Mas por que voc� n�o pode se mudar para a Calif�rnia agora?</p><p>� Porque ainda n�o acabei de pagar. Ainda vai levar algum tempo, querida, porque foi muita gente que perdeu dinheiro.</p><p>� Eu tenho 12 d�lares em meu cofrinho. Isso ajuda?</p><p>Eu sorri e a acariciei.</p><p>� Guarde esse dinheiro. Eu vou pagar as pessoas com meu pr�prio dinheiro. Mas ou�a uma coisa, Channy, porque vou lhe fazer uma grande promessa agora. Voc� est� pronta?</p><p>� Sim � murmurou.</p><p>� Tudo bem: eu prometo a voc� que, n�o importa o que aconte�a, n�o importa o que eu tenha de fazer, mesmo se eu tiver que andar at� l�... Eu vou me mudar para a Calif�rnia. Voc� tem a minha palavra.</p><p>Seu sorriso iluminou o quarto.</p><p>� E quando vai ser isso?</p><p>Sorri em resposta.</p><p>� Assim que eu puder, gatinha. Mas voc� vai precisar de um pouco de paci�ncia. Mas prometo que vou para l�.</p><p>Ela sorriu e acenou com a cabe�a ansiosamente.</p><p>� Tudo bem, papai.</p><p>� E n�o precisa mais chorar, hein? � acrescentei com um sorriso.</p><p>� Tudo bem � disse ela, me abra�ando. � Eu te amo, papai.</p><p>� Eu tamb�m te amo � respondi rapidamente, e, por mais estranho que parecesse, apesar de todas as chances se empilharem t�o fortemente contra mim, eu sabia que ia concretizar meu objetivo.</p></section><section><p>CAP�TULO 27</p><p><strong>A PALAVRA DA MODA � IRONIA</strong></p><p>Na manh� seguinte, eu estava deitado na cama assistindo ao Financial News Network quando uma �ncora loira falou algo sobre a NASDAQ ter aberto com �forte queda� naquela manh�. Parece que havia um maci�o desequil�brio com um infeliz vi�s para o lado da venda.</p><p>N�o � grande coisa, pensei. A loira provavelmente est� exagerando e, mesmo se ela n�o estiver, n�o importa de qualquer maneira. Afinal, os mercados sobem e descem, e um corretor experiente pode ganhar dinheiro em qualquer mercado.</p><p>Meu plano era infal�vel: com os 250 mil d�lares que eu ainda tinha, iria negociar as a��es mais altas da NASDAQ com a precis�o do Lobo e faria uma pequena fortuna no processo. A NASDAQ tinha mais que duplicado nos �ltimos 12 meses, e quem melhor que o pr�prio Lobo para aproveitar a maior bolha especulativa desde 1929? Seria como tirar doce da boca de uma crian�a.</p><p>Infelizmente, o destino tinha planos diferentes.</p><p>Por volta das 9h30 da manh�, a NASDAQ tinha ca�do mais de 4% e, dois dias depois, caiu outros 5%. No Dia da Mentira, tinha perdido mais de 20%, e eu n�o estava com sorte. A bolha pontocom tinha finalmente estourado e continuaria a esvaziar, a uma taxa imprevis�vel, por um futuro previs�vel. E, sim, embora fosse verdade que um profissional experiente poderia ganhar dinheiro em qualquer mercado, ele n�o poderia faz�-lo com recursos limitados, para n�o ser eliminado com um �nico neg�cio malfeito. Ent�o abandonei meu plano infal�vel antes de come��-lo.</p><p>KGB e eu t�nhamos nos dado bem enquanto eu estivera �sentado na cadeia�, como ela havia se expressado, mas agora que estava fora as coisas tinham ficado mais t�nues. Naturalmente, o sexo ainda era �timo, mas nossas conversas eram m�nimas. Na terceira semana de abril, eu estava certo de que n�o t�nhamos futuro juntos. Isso era �bvio; na verdade, n�o t�o �bvio, j� que no dia 17 de abril, dia do anivers�rio da KGB, fiquei de joelhos e a pedi em casamento. Com o cora��o apertado, disse:</p><p>� Quer se casar comigo, <emphasis>maya lubimaya</emphasis>, e ser minha terceira esposa legalmente? � o que eu n�o disse, mas sabia que seria verdade, foi: �Voc� promete me torturar, me deixar louco e garantir que eu permane�a o homem mais miser�vel do planeta at� que a morte nos separe?�.</p><p>Como ela n�o era capaz de ler meus pensamentos, respondeu depressa:</p><p>� <emphasis>Da, maya lubimaya</emphasis>, eu vou ser esposa � e ent�o eu enfiei em seu dedo anelar sovi�tico um diamante amarelo can�rio de 7 quilates engastado em um anel de platina e fiquei olhando por um momento. Ah, era lindo, tudo bem, e tamb�m muito familiar; de fato, era o anel de noivado da Duquesa, que eu tinha conseguido manter comigo durante a divis�o das posses.</p><p>Seria m� sorte?, me perguntei. Quer dizer, n�o era todo dia que um homem perguntava a uma mulher se ela queria ser sua terceira esposa e ent�o colocava no dedo dela o anel de seu �ltimo casamento fracassado como sinal de amor, afeto e compromisso com ela. Ainda assim, eu tinha minhas raz�es, n�o sendo a �ltima delas o fato de eu n�o ter bem certeza do que dar a ela de anivers�rio (sem mencionar o fato de que um presente de anivers�rio iria me custar uma bela grana e eu estava tentando ter um bom controle financeiro das coisas).</p><p>Mas quando telefonei a George e tentei explicar tudo isso, ele explodiu em cima de mim:</p><p>� O que diabos h� de errado com voc�? � gaguejava. � Voc� poderia ter vendido a coisa por mais de 100 mil, seu imbecil!</p><p>Bl�-bl�-bl�, pensei. KGB tinha ficado comigo nos momentos mais tristes, ent�o eu devia a ela pelo menos um casamento, n�o devia? Al�m do mais, e sua posi��o como primeira, �ltima e �nica Miss Uni�o Sovi�tica na hist�ria da agora defunta na��o? Aquilo devia valer alguma coisa! Ent�o George disse:</p><p>� De qualquer forma, ela nem sequer se d� bem com seus filhos, ent�o sei que nunca vai dar certo.</p><p>Tudo bem. Se as coisas ficassem ruins, bastaria apenas me divorciar novamente.</p><p>Enquanto isso, a Duquesa estava sendo extraordinariamente agrad�vel. Nem bem tinham se passado tr�s semanas desde que meus filhos deixaram Nova York, ela j� os mandara para outra visita. Al�m disso, ela havia concordado em me deixar ficar com eles pelo ver�o inteiro. O �nico problema era: como eu poderia mant�-los entretidos em um pr�dio de apartamentos de Manhattan infestado por lixo europeu enquanto estivesse sob pris�o domiciliar com uma noiva emocionalmente desconectada ao meu lado e que n�o conseguia dizer a palavra �o�? Seria dif�cil. Sem gramado para correr, piscina para nadar ou praia para construir castelos de areia, eles ficariam entediados at� a morte. Sem mencionar que a ilha de Manhattan teria uma temperatura de mais de 30 graus com uma umidade de 1.000%! Como as crian�as poderiam sobreviver a isso? Iriam parecer min�sculos girass�is no deserto de Gobi.</p><p>A cidade n�o era lugar para crian�as, sobretudo no ver�o! Todo mundo sabia disso, especialmente eu. Todos os amigos deles estariam nos Hamptons. Como eu poderia decepcion�-los de novo? Eu j� os tinha colocado em um inferno suficiente apenas do jeito que as coisas estavam. No entanto, seria obscenamente caro alugar um lugar nos Hamptons, e eu estava tentando conservar meus fundos. Se a NASDAQ pelo menos n�o tivesse ca�do!</p><p>Mais uma vez, no entanto, George tinha uma solu��o. Ele me telefonou do celular enquanto estava no meio de um jogo de golfe em Shinnecock e disse:</p><p>� Fiquei sabendo de uma propriedade de 60 mil metros quadrados em Southampton. O propriet�rio � um principe alem�o, ou algo assim, que tem um monte de t�tulos de nobreza e nada de dinheiro, ent�o est� vendo se consegue alugar o lugar baratinho.</p><p>� E como � o lugar? � perguntou o mendigo exigente.</p><p>� Bem, n�o � Meadow Lane � respondeu ele �, mas ainda � bom. Tem piscina, quadra de t�nis, um quintal enorme. � perfeito para as crian�as. Tem at� veados correndo em seu quintal!</p><p>� Quanto �? � perguntei cautelosamente.</p><p>� Cento e vinte mil � respondeu ele. � � um roubo, considerando que o lugar parece um pavilh�o de ca�a su��o.</p><p>� Eu n�o posso pagar isso � disse eu rapidamente, ao que George respondeu ainda mais rapidamente:</p><p>� N�o se preocupe, eu vou pagar a loca��o para voc�. Voc� pode me pagar quando estiver com dinheiro novamente � completou. � Voc� � como um filho para mim, Jordan, e seria bom dar uma parada agora. Ent�o, aceite isso e lembre-se, de cavalo dado n�o se olham os dentes.</p><p>De in�cio, meu orgulho masculino me pediu para resistir � generosidade de George, mas s� por um segundo. O local seria perfeito para meus filhos, e George era, de fato, como um pai para mim. Al�m do mais, para um homem t�o rico quanto ele (t�o rico como eu costumava ser), 120 mil n�o era nada. Nesse n�vel de riqueza, o dinheiro � apenas uma entrada no balan�o financeiro, e voc� tem mais alegria em ajudar as pessoas com ele do que v�-lo crescer 4% no Bridgehampton National Bank. Tudo o que voc� quer em troca � amor, respeito e, claro, gratid�o, tudo o que eu j� sentia por George. Al�m disso, um dia eu pagaria de volta, depois de me tornar rico novamente.</p><p>Ent�o fiz as malas e voltei para os Hamptons. Senti-me como uma porra de uma bola de pingue-pongue! At� que recebi um telefonema surpreendente de Magnum. Era in�cio de junho, e eu atendi a chamada em minha nova sala de estar, que, como George tinha indicado, parecia mesmo um pavilh�o de ca�a.</p><p>Magnum disse:</p><p>� Achei que voc� gostaria de saber que Dave Beall foi indiciado hoje por fraude de valores mobili�rios. Aconteceu nesta tarde na frente do juiz Gleeson.</p><p>Com o cora��o apertado, me sentei em uma cadeira de couro meio detonada. Acima de mim pendia a cabe�a de um alce gigante morto. O alce morto parecia indignado.</p><p>� Indiciado... � murmurei. � Como ele poderia ser indiciado, Greg? Eu pensei que ele estivesse cooperando com os federais!</p><p>� Aparentemente n�o � respondeu Magnum, e ent�o come�ou a explicar como Dave Beall n�o tinha me delatado; ele havia chegado b�bado como um gamb� e, ent�o, tinha contado a um de seus amigos sobre o tal bilhete. O amigo, como se viu, era um dedo-duro no sempre em expans�o dep�sito de dedos-duros do TOC. E o resto, como dizem, � hist�ria.</p><p>As crian�as passaram o ver�o em Southampton e se divertiram muito; no dia em que partiram, Elliot Lavigne foi indiciado por fraude em t�tulos. Ele jogou toda a culpa em mim, � claro, o que foi bastante ir�nico, considerando que um dia eu tinha salvado a vida dele, no que eu agora considerava um lapso moment�neo de julgamento. Na verdade, eu ainda estava contente por ter salvado sua vida, porque durante a semana que se seguiu todo mundo estava me chamando de her�i; mas agora, meia d�cada depois, Elliot estava encarando cinco anos, e eu n�o dava a m�nima.</p><p>Com o Chef, no entanto, a hist�ria foi diferente, e eu dava a m�nima.</p><p>No que se configura a maior ironia de todas, o Chef tinha decidido desafiar a l�gica convencional e levar o caso dele a julgamento. Mas por qu�? Com as fitas de v�deo, as fitas de �udio, meu testemunho, o testemunho de Danny, o testemunho de James Loo e o herm�tico rastro de papel da minha hist�ria su��a como �libi, que estava carregado com as impress�es digitais do Chef, sem falar das duas espetaculares descri��es de seu submarino, o <emphasis>SS Lavador de Dinheiro</emphasis>, ele n�o tinha absolutamente nenhuma chance de ser absolvido. Ele seria considerado culpado da acusa��o e ficaria na cadeia por quase uma d�cada.</p><p>De minha parte, eu ia sofrer a humilha��o p�blica de ter que testemunhar em tribunal aberto contra um homem que eu havia chamado um dia de amigo. Isso sairia nos jornais, nas revistas, na internet, em todo lugar. E qu�o ir�nico seria que o que eu tinha feito com Dave Beall entraria para a hist�ria como nada mais que uma nota de rodap�, uma a��o m�nima para uma d�zia de atos de trai��o.</p><p>Naquele momento, eu estava sentado na sala de interrogat�rios com Alonso e TOC, rindo por dentro quando TOC disse:</p><p>� Sabe de uma coisa, Alonso? Voc� tem o pior caso de TOC que eu j� vi!</p><p>� Do que voc� est� falando? � retrucou Alonso. � Eu n�o tenho TOC! Eu s� quero ter certeza de que as transcri��es s�o precisas.</p><p>� Elas s�o precisas � TOC rebateu, balan�ando a cabe�a, incr�dulo. � Quer dizer, voc� realmente acha que o j�ri d� a m�nima se Gaito disse, �<emphasis>Badabip, badabop, badabup</emphasis>� ou �<emphasis>Badabop, badabip, badabing�</emphasis>? Ambas s�o a mesma coisa, porra! O j�ri sabe disso!</p><p>Alonso, que estava sentado � minha direita, virou a cabe�a para mim um pouco e lan�ou uma piscadela, como se dissesse: �Voc� e eu sabemos que isso � importante, por isso n�o d� import�ncia aos resmungos desse cara do FBI!�.</p><p>Ent�o, ele olhou para TOC, que estava sentado do outro lado da mesa, e disse-lhe:</p><p>� Bem, Greg, quando voc� se formar na faculdade de direito e passar no exame da ordem, ent�o poder� ficar no comando do gravador! � e soltou uma risadinha ir�nica. � Mas, at� l�, eu controlo o gravador! � e apertou o bot�o de retroceder novamente.</p><p>J� era perto das 11 da noite, e o julgamento de Gaito estava a menos de um m�s. H� seis semanas, desde logo depois do Dia do Trabalho, estiv�ramos trabalhando desde as primeiras horas da manh�, tentando avaliar cada parte das transcri��es. Era um processo �rduo, durante o qual n�s tr�s nos sent�vamos no por�o do pr�dio n�mero 26 do Federal Plaza, fic�vamos ouvindo as fitas e fazendo as corre��es naquilo que estava rapidamente se tornando a transcri��o mais precisa de toda a hist�ria do Direito.</p><p>Alonso era, de fato, um bom homem, e fora t�o profundamente ferido que eu estava convencido de que um dia ele iria respirar fundo e simplesmente parar de respirar. Todos o chamavam de Alonso. N�o sei por qual motivo, ele era uma daquelas pessoas que nunca s�o chamadas pelo primeiro nome. Embora nunca tivesse tido o prazer de conhecer os pais dele (que eram ricos aristocratas argentinos, segundo Magnum), eu estava disposto a apostar que eles tamb�m o chamavam de Alonso desde o momento em que ele saiu do ventre da m�e.</p><p>Alonso apertou o bot�o de parada e disse:</p><p>� Muito bem, agora virem para a p�gina 47 da transcri��o 7-B e me digam o que pensam disso.</p><p>TOC e eu assentimos cansados, nos inclinamos para a frente e come�amos a folhear nossas transcri��es de 12 cent�metros de espessura, enquanto Alonso fazia a mesma coisa. Finalmente, quando est�vamos todos na p�gina 47, Alonso apertou o <emphasis>play</emphasis>.</p><p>Tudo o que eu pude ouvir no in�cio foi um zumbido baixo, ent�o um estalo e a� minha pr�pria voz, que sempre soou estranha para mim quando a ouvia em uma fita: �... o risco � de James Loo contrabandear meu dinheiro para fora do pa�s�, dizia minha voz. �E se ele for detido na alf�ndega?�</p><p>Ent�o vinha a voz do Chef: �Bem, e da�? N�o se preocupe com isso! Ele sabe como fazer. Tudo que voc� precisa saber � que o dinheiro vai chegar at� l�. Voc� d� sua grana a ele, ele d� para sua gente e <emphasis>badabip, badabop, badabup... Schhhwiitttt!�</emphasis> � uma palmada aguda do Chef � �e tudo certo! N�o h� como...�.</p><p>Alonso pressionou o bot�o de pausa e balan�ou a cabe�a lentamente, como se estivesse profundamente perturbado. TOC revirou os olhos, preparando-se para a dor. Eu me preparei tamb�m. Finalmente Alonso come�ou a murmurar:</p><p>� <emphasis>Schhhwiitttt</emphasis>, ele continua usando essa palavra � ele soltou mais um de seus profundos suspiros, que eram sua marca registrada. � Eu n�o entendo.</p><p>TOC balan�ou a cabe�a e suspirou.</p><p>� N�s j� passamos por isso antes, Alonso. Significa apenas �e isso � tudo�. Como, <emphasis>schhhwiitttt</emphasis>! Isso � tudo. � TOC me olhou com desespero nos olhos.</p><p>� Certo?</p><p>� Sem d�vida � respondi, assentindo.</p><p>� Ahh, <emphasis>sem d�vida</emphasis>? � declarou Alonso, levantando o dedo em defesa � Mas nem sempre! Dependendo do contexto, pode significar algo diferente � ele olhou para mim e levantou as sobrancelhas. � Certo?</p><p>Eu assenti com a cabe�a lentamente, com ar cansado.</p><p>� Sim, poderia. �s vezes ele usa isso para amarrar as pontas soltas de uma hist�ria constru�da como �libi. Por exemplo, ele vai usar <emphasis>schhhwiitttt</emphasis> para dizer: �E com esse �ltimo documento falso que criamos, o governo nunca vai ser capaz de descobrir as coisas!�. Mas na maior parte do tempo significa o que disse Greg.</p><p>Alonso deu de ombros sem se comprometer.</p><p>� E o que dizer do som das palmas? Isso afeta o significado da express�o <emphasis>schhhwiitttt</emphasis>?</p><p>TOC se dobrou visivelmente, como um animal que tinha acabado de levar um tiro.</p><p>� Eu preciso de um tempo � disse ele, e sem dizer uma palavra deixou a sala de interrogat�rio, fechando a porta suavemente atr�s de si, murmurando algo bem baixinho.</p><p>Alonso olhou para mim e encolheu os ombros.</p><p>� Tempos dif�ceis � disse ele.</p><p>Eu assenti com a cabe�a, concordando.</p><p>� Sim, especialmente para Gaito. Ainda n�o acredito que ele est� levando isso a julgamento. N�o faz nenhum sentido.</p><p>� Nem para mim � concordou ele. � N�o acho que eu j� tenha visto um caso mais amarrado do que este. � suic�dio para Gaito. Algu�m est� dando alguns conselhos muito ruins a ele.</p><p>� Sim, como Brennan � disse eu. � Deve ser.</p><p>Alonso deu de ombros novamente.</p><p>� Ele tem algo a ver, com certeza, mas tem que ser mais que isso. Ron Fischetti � um dos melhores advogados de defesa no ramo, e eu n�o acredito que ele faria Gaito passar por isso apenas porque Brennan disse isso a ele. Sinto que estou deixando passar alguma coisa aqui. Voc� entende o que estou dizendo?</p><p>Eu assenti lentamente, resistindo � vontade de dizer a ele o que eu realmente pensava � que o Dem�nio de Olhos Azuis ia tentar subornar um dos jurados. Era tudo de que Gaito precisava: um jurado em quem se apoiar, e depois Gleeson seria for�ado a anular o julgamento.</p><p>Claro, eu n�o tinha provas, mas hist�rias como essa tinham girado em torno do Dem�nio de Olhos Azuis por anos � desaparecimentos de arquivos, testemunhas fazendo retrata��o de suas declara��es, ju�zes tomando decis�es de surpresa em seu favor, promotores que abandonavam o caso na v�spera do julgamento. Mantive os pensamentos para mim e disse:</p><p>� Meu palpite � que Fischetti vai tentar se concentrar em mim, n�o nos fatos. Ou seja, ele vai fazer com que o j�ri me odeie, ou melhor, me despreze, e ent�o eles v�o absolver em princ�pios gerais. � Dei de ombros. � Ent�o, ele vai tentar me pintar como um viciado em drogas, um devasso, um mentiroso compulsivo, um trapaceiro, ou seja, todas as coisas boas da vida.</p><p>Alonso balan�ou a cabe�a.</p><p>� Ele n�o vai ter essa chance, porque eu farei isso primeiro. N�o leve para o lado pessoal quando eu o fizer, porque vou bater duro quando estiver depondo l� em cima. N�o vou deixar de falar sobre nada, especialmente quando se trata de sua vida pessoal � ele inclinou a cabe�a para um lado. � Voc� sabe do que estou falando?</p><p>Assenti, tristemente.</p><p>� Sim, o que aconteceu na escada com Nadine.</p><p>Ele acenou de volta.</p><p>� E o que aconteceu depois, tamb�m, com sua filha. Vou trazer tudo, todas as coisas obscuras. E voc� n�o pode tentar minimiz�-las ou racionaliz�-las. Voc� vai simplesmente dizer �Sim, eu chutei minha esposa escada abaixo� e �Sim, eu lancei meu carro contra uma porta de garagem com minha filha no banco do passageiro, sem o cinto de seguran�a�, porque, acredite em mim, se voc� tentar minimiz�-las, Fischetti vai rasg�-lo ao meio durante o interrogat�rio. Ele vai dizer: �Ah, ent�o o que voc� est� dizendo, senhor Belfort, � que voc� n�o chutou sua esposa por um lance de escadas, porque ela estava apenas no terceiro degrau. Espere, perdoe-me, senhor Belfort, voc� realmente n�o a chutou, voc� a empurrou, o que � outra hist�ria. Assim, resumindo, o que voc� est� dizendo � que tudo bem um homem empurrar sua esposa por tr�s degraus e ent�o arriscar a vida de sua filha jogando-a para o banco do passageiro de sua Mercedes de 90 mil d�lares e enfiar o carro numa porta de garagem enquanto estava alterado com coca�na e Quaaludes?� � Alonso sorriu. � Percebeu como vai ser?</p><p>� Sim, entendi, mas n�o quero isso.</p><p>� Nenhum de n�s quer isso � concordou ele �, mas esses s�o os fatos aos quais estamos presos.</p><p>Assenti com a cabe�a, resignado. Alonso continuou:</p><p>� Mas o lado bom das coisas � que podemos passar algum tempo conversando sobre como voc� foi para a reabilita��o e ficou s�brio. E ent�o voc� tamb�m pode levantar o assunto das palestras escolares sobre o perigo das drogas � ele sorriu, tranquilo. � Acredite em mim, desde que voc� seja honesto, as coisas funcionar�o. A depend�ncia em drogas � uma doen�a, e as pessoas v�o perdo�-lo por isso. � Ele deu de ombros. � Agora, se ser mulherengo tamb�m fosse uma doen�a, ent�o estar�amos feitos! � e come�ou a rir. � Engra�ado, n�?</p><p>� Sim � respondi, com uma porra de um sorriso hist�rico! Eu teria de admitir, sob juramento, que tinha abatido umas mil prostitutas de todas as formas e tamanhos. A �nica quest�o era: se isso acabaria nos jornais. Era exatamente o tipo de fofoca que o <emphasis>New York Post</emphasis> adorava!</p><p>Alonso tirou do bolso da cal�a um ma�o de Marlboro novinho e um isqueiro Bic barato.</p><p>� Veja, eu n�o tenho o h�bito de burlar a lei � disse ele �, mas, apesar de este ser um edif�cio onde n�o se pode fumar, vou acender de qualquer maneira � ele fez exatamente isso, dando uma tragada leve, como se dissesse: �Eu n�o sou um fumante convicto, s� fa�o isso quando estou estressado�.</p><p>Eu fiquei em sil�ncio e deixei que ele fumasse em paz. Entendi que era algo importante, ser capaz de participar de um simples prazer viril sem ser interrompido por conversa fiada. Meu pai, um dos maiores fumantes de todos os tempos, havia explicado isso para mim em numerosas ocasi�es. �Filho�, ele dizia, �se eu quero me matar com esses palitos de c�ncer do caralho, ent�o pelo menos deixe eu me matar em paz, pelo amor de Deus!�.</p><p>Alonso sorriu para mim e disse:</p><p>� Ent�ooo... Como voc� est�, Jordan?</p><p>Eu inclinei a cabe�a para o lado e olhei para ele por um momento.</p><p>� Como estou? � perguntei. � Voc� est� sendo sarc�stico, Alonso?</p><p>Ele virou os cantos da boca para baixo e balan�ou a cabe�a lentamente.</p><p>� N�o, n�o mesmo. Eu s� quero saber como voc� est�.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Bem, j� faz um longo tempo desde a �ltima vez que algu�m me fez essa pergunta, ent�o preciso pensar sobre isso por um segundo. � Parei por cerca de um d�cimo de segundo, ent�o disse: � Ah, uma merda! E voc�, como vai, Alonso?</p><p>Ele ignorou minhas �ltimas palavras e disse:</p><p>� As coisas v�o melhorar; voc� s� tem que dar tempo ao tempo. Ap�s o julgamento, n�s podemos fazer uma mo��o para tirar sua tornozeleira. � Uma breve pausa, ent�o: � Tenho certeza de que Gleeson vai aprovar, assim que ele ouvir seu depoimento. Isso vai depender de quanto voc� demonstrar que est� arrependido.</p><p>Eu balancei a cabe�a.</p><p>� Bem, eu estou arrependido. Mais do que voc� pode imaginar.</p><p>Ele acenou com a cabe�a.</p><p>� Eu sei, venho fazendo isso h� bastante tempo para saber quando algu�m est� cheio de merda e quando n�o est�. Mas, deixando isso de lado, voc� ainda n�o respondeu � pergunta.</p><p>� Sobre o qu�, como estou?</p><p>� �. Como voc� est�?</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Eu tenho problemas, Alonso. Estou encarando anos de pris�o, estou noivo de uma mulher por quem n�o estou apaixonado, n�o tenho carreira, meus filhos vivem do outro lado do pa�s, estou usando uma porra de uma tornozeleira, tra� meus amigos mais pr�ximos, eles me tra�ram e, ainda por cima, estou prestes a ficar sem dinheiro e n�o tenho como ganh�-lo agora.</p><p>� Voc� vai ficar rico novamente � disse ele, conscientemente. � E n�o acho que algu�m em s� consci�ncia apostaria contra isso.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� Sim, bem, voc� provavelmente est� certo sobre isso, mas acho que n�o ficarei rico por um longo tempo. Estou no meio de uma onda de m� sorte e, at� que ela passe, n�o h� nada que eu possa fazer. Enfim, meu objetivo � morar na Calif�rnia para ficar perto de meus filhos. � isso a�. Eu fiz um juramento � minha filha de que faria isso e n�o vou desapont�-la. Eu gostaria de ir para l� antes de ser condenado. Voc� acha que � realista?</p><p>� Sim, acho que �. E vou fazer o que puder para ajud�-lo, mas voc� tem que ser paciente por um tempo. O pr�ximo ano vai ser agitado, h� processos pendentes, os indiciamentos se aproximam, um monte de coisas ainda est� no ar. Mas deve haver uma luz no final. De um ponto de vista log�stico, por�m, n�o sei se faz sentido voc� se mudar antes de cumprir sua pena. Quer dizer, o que voc� vai fazer: alugar uma casa e, em seguida, ir para a cadeia, logo depois de alug�-la?</p><p>Eu sorri e pisquei.</p><p>� Pode apostar que sim! Antes de eu ir para a cadeia, quero que meus filhos saibam que eu oficialmente me mudei para a Calif�rnia. Dessa forma, eles saber�o que eu voltarei para l� quando sair. E quero passar minha �ltima noite de liberdade com eles em uma casa que seja nossa, e n�o em um hotel. Todos dormiremos na mesma cama, cada um debaixo de um bra�o � parei por um momento, saboreando o pensamento. � � assim que eu quero passar minha �ltima noite em liberdade.</p><p>S� ent�o a porta se abriu e TOC entrou. Ele deu algumas farejadas no ar, com ar de desconfian�a, e depois olhou para o cesto de lixo de metal, onde Alonso tinha jogado o cigarro. Ent�o ele olhou para Alonso e disse:</p><p>� Ent�o, at� onde voc�s foram sem mim? � que est� ficando um pouco tarde.</p><p>Com grande entusiasmo, Alonso disse:</p><p>� Ainda estamos na mesma. � que nos desviamos um pouco...</p><p>Alonso comprimiu os l�bios, suprimindo uma gargalhada.</p><p>Eu suprimi minha gargalhada tamb�m quando os �ltimos vest�gios de cor deixaram o rosto de TOC.</p><empty-line/><empty-line/><p>DIFERENTEMENTE do seriado <emphasis>Law &amp; Order</emphasis>, onde a emo��o � palpitante e a tens�o � t�o espessa que voc� pode cort�-la com uma faca, os acontecimentos da vida real em um tribunal federal s�o completamente o oposto. O juiz Gleeson, por exemplo, fica no alto de sua bancada, �s vezes parecendo interessado, �s vezes parecendo entediado, ocasionalmente parecendo se divertir, mas sempre em completo controle. N�o h� explos�es, discuss�es, pessoas que questionam a sabedoria de suas decis�es nem qualquer coisa que possa lev�-lo a se levantar da cadeira, inclinar-se para a frente sobre sua grande mesa, apontar o dedo e gritar: �Voc� est� se excedendo, advogado! Sente-se ou ser� detido por desacato!�.</p><p>Eu testemunhei durante tr�s dias, tr�s dias indescrit�veis, durante os quais pude notar que Fischetti era bastante competente, mas sem exagero. Ah, ele parecia bem bacana em seu terno de seda cinza de 2 mil d�lares e sua gravata cinza, mas isso era tudo. Suas linhas de questionamento pareciam chatas e enfadonhas. Se eu estivesse sentado no j�ri, teria adormecido.</p><p>Alonso, no entanto, foi brilhante: organizado, eloquente, persuasivo, minucioso. Ele havia deixado Fischetti sem ter para onde ir, al�m de andar em c�rculos, falando e falando, e quanto mais ele falava, mais culpado o cliente parecia. Danny testemunhou tamb�m, assim como um punhado de outras pessoas, apesar de eu n�o ter certeza de quem e quantos. Quanto menos eu soubesse, melhor, explicou Alonso. Eu n�o estava em julgamento, afinal, era apenas uma testemunha.</p><p>Um m�s mais tarde, eu estava sentado na minha cabana de ca�a su��a, debaixo da cabe�a do alce indignado, quando recebi a liga��o de TOC, bastante indignado.</p><p>� O julgamento foi anulado � gaguejou ele. � Eu n�o posso acreditar nisso! Como aquele j�ri n�o o condenou? N�o faz sentido.</p><p>� Voc� consultou o j�ri depois? � perguntei.</p><p>Com nojo, ele respondeu:</p><p>� Sim, por qu�?</p><p>� Bem, deixe-me adivinhar, s� houve um que negou, certo?</p><p>Sil�ncio mortal no in�cio, em seguida, ele completou:</p><p>� Como diabos voc� sabe disso?</p><p>� Apenas um palpite � disse eu. � Quer ouvir meu segundo palpite?</p><p>� Sim � respondeu ele, com cautela.</p><p>� O voto foi daquele safado na fila da frente, um de bigode, certo?</p><p>� Foi, isso mesmo � disse TOC. � Voc� est� apenas supondo?</p><p>� N�o exatamente � respondi, e contei a ele meus pensamentos, ou seja, embora n�o tivesse como provar, a anula��o tinha as digitais do Dem�nio de Olhos Azuis por toda a parte.</p><p>� N�o brinca! Voc� realmente acha isso?</p><p>� Sim, acho. Novamente, eu n�o tenho nenhuma prova, mas, n�o sei, voc� viu Gaito apenas sentado ali, t�o calmo, tranquilo, em paz? Parecia um cara convencido, e Gaito pode ser qualquer coisa, mas n�o � um sujeito convencido, ele � humilde. Talvez eu seja louco, mas toda a cena me pareceu estranha, principalmente aquele jurado; ele parecia desinteressado, como se j� tivesse tomado sua decis�o de antem�o.</p><p>TOC concordou, assim como fez Alonso quando compartilhei meus pensamentos com ele alguns minutos mais tarde, por meio de teleconfer�ncia. De qualquer maneira, n�o havia como provar nada, e Alonso se recusou a investigar, pois considerava isso o ato de um mau perdedor. Al�m disso, ele n�o tinha realmente perdido, a nulidade do julgamento simplesmente significava que Gaito teria de ser julgado de novo, o que aconteceu exatos seis meses depois.</p><p>Durante esses seis meses, de dezembro de 2000 a maio de 2001, queimei a maior parte do dinheiro que tinha me sobrado, assim como o pouco da paci�ncia que ainda me restava com a KGB. Ela, eu tinha certeza, me desprezava no mesmo tanto que eu a ela. Infelizmente, eu nunca tinha sido bom para terminar relacionamentos, e aparentemente a KGB tamb�m n�o. Assim, continuamos noivos, passando nossos dias com sexo raivoso e discuss�es amargas, estas �ltimas muito relacionadas a pousos na Lua e coisas afins.</p><p>Infelizmente, Gaito foi condenado no segundo julgamento, e o j�ri chegou a um veredito em um �nico dia. Eu estava em casa quando recebi a not�cia, e naquele momento me senti como o menor verme sobre a face da Terra. Eu tinha tra�do um amigo, que ficaria na cadeia durante praticamente uma d�cada, porque tinha se recusado a trair um de seus amigos.</p><p>Danny, por sua vez, j� tinha ido para a cadeia; na verdade, ele nem teve chance de testemunhar no segundo julgamento. Danny tinha sido preso na Fl�rida, em uma acusa��o relacionada a fraude de telemarketing ligada a memorabilia de esportes, ou algo assim � Gleeson o condenou no in�cio de abril.</p><p>Quando o ver�o chegou, torrei com as crian�as os poucos d�lares que ainda tinha. Esse, sim, tinha sido um gasto apropriado, pensei, considerando que elas eram a �nica coisa boa em minha vida, de qualquer maneira. Quando me despedi delas no Dia do Trabalho, chorei por dentro, porque sabia que n�o iria v�-las de novo por um longo tempo. Apesar de Alonso manter sua palavra, tirando-me da pris�o domicilar e me permitindo viajar sem restri��es para a Calif�rnia, eu j� n�o podia sustentar essas viagens.</p><p>Isso, no entanto, estava prestes a mudar.</p></section><section><p>CAP�TULO 28</p><p><strong>SAINDO DAS CINZAS</strong></p><p>Foi cerca de uma semana depois do 11 de setembro, quando o pa�s se preparava para a guerra, que minha onda de azar finalmente terminou. Eu estava colado � TV quando um velho amigo telefonou do nada e come�ou a me pedir conselhos sobre algo a que ele continuava se referindo como o <emphasis>boom do refinanciamento</emphasis>.</p><p>As taxas de financiamento de hipotecas tinham ca�do para m�nimos hist�ricos e os americanos faziam refinanciamentos em massa.</p><p>� Voc� pode me fazer um r�pido favor? � perguntou ele.</p><p>� Sim � respondi. � Do que se trata?</p><p>� Eu queria que voc� em escrevesse um <emphasis>script</emphasis> para chamadas telef�nicas de capta��o. H� uma fortuna que pode ser feita via telemarketing com esse neg�cio de refinanciamento.</p><p>Interessante, pensei, mas foi tudo que me passou pela cabe�a. Eu estava t�o deprimido com minha vida que as palavras dele passaram por mim como uma rajada de vento.</p><p>� Tudo bem � eu disse. � Fale um pouco sobre seu neg�cio e eu escrevo um <emphasis>script</emphasis> nesta tarde.</p><p>E ele passou a explicar os pr�s e os contras do refinanciamento para mim.</p><p>Era uma coisa elegantemente simples. Quase todos os propriet�rios de im�veis na �poca tinham uma hipoteca com taxas entre 8% e 10%, ao passo que as taxas atualizadas pairavam pr�ximas de 6%. Ent�o, tudo que o corretor de hipotecas teria de fazer era assegurar um novo empr�stimo (com a taxa de juros mais baixa) para quitar o empr�stimo anterior, e o custo mensal da nova hipoteca para a pessoa iria despencar. Embora houvesse alguns custos menores envolvidos, os chamados custos de fechamento, era poss�vel junt�-los � nova hipoteca, tornando-a um pouco maior que a antiga, mas sem representar um custo para o mutu�rio. Melhor ainda, os custos de fechamento eram uma ninharia em compara��o � poupan�a de longo prazo, que poderia ser de centenas de milhares de d�lares, dependendo do tamanho do empr�stimo.</p><p>� Hummm � murmurei �, parece bem b�sico. Voc� tem contatos para ligar?</p><p>� Sim, comprei uma lista de propriet�rios de im�veis que est�o pagando 8% ou mais. Estou lhe dizendo, vai ser como tirar doce da boca de uma crian�a!</p><p>� Tudo bem � respondi. � D�-me algumas horas e enviarei um <emphasis>script</emphasis> por e-mail. � Ent�o, como um adendo: � Por que voc� n�o me envia alguns contatos enquanto isso, para testar o <emphasis>script</emphasis> e ter certeza de que ele funciona?</p><p>Foi assim que tudo come�ou.</p><p>Ele me passou os nomes, eu escrevi o <emphasis>script</emphasis> e, no meio do meu primeiro contato de vendas, uma mulher haitiana muito animada me cortou no meio da frase, dizendo:</p><p>� Isso parece bom demais para ser verdade! Quando voc� pode vir at� aqui para fazer a papelada?</p><p>Neste mesmo segundo!, pensei. Mas, n�o querendo parecer um vendedor desesperado, eu respondi:</p><p>� Bem, acontece que amanh� estarei em sua regi�o � olhei para o endere�o dela e notei que ela morava em Bushwick, no Brooklyn, um lugar bem perigoso. Por que eu estaria naquela �rea? Que explica��o seria plaus�vel? � fazendo o refinanciamento de um de seus vizinhos � rapidamente acrescentei. � Posso passar a� por volta do meio-dia. Est� bom para a senhora?</p><p>� Perfeito! � respondeu ela. � Vou preparar um lanchinho para n�s.</p><p>No dia seguinte, eu me vi dirigindo atrav�s da zona de guerra do leste do Brooklyn, maravilhado pelo modo como a falta de dinheiro pode tornar um homem corajoso. A casa da mulher era um pr�dio de dois andares em uma rua suja de duas m�os. Do lado de fora, parecia um antro de crack. No interior, cheirava a peixe cozido e bolor. Havia pelo menos 12 haitianos morando l�.</p><p>Ela me ofereceu um lugar em sua mesa de cozinha de f�rmica verde-bosta, onde imediatamente come�ou a me servir feij�o, arroz e peixe cozido, recusando-se a falar sobre a hipoteca at� que eu limpasse meu prato. Enquanto isso, eu continuava a ouvir um grito vindo de um dos quartos no andar de cima. Parecia uma crian�a pequena.</p><p>� Est� tudo bem l� em cima? � perguntei, for�ando um sorriso.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a devagar, conscientemente, como se dissesse: �Tudo est� do jeito que deveria ser�. Ent�o ela comentou:</p><p>� � meu neto, que est� com a febre.</p><p><emphasis>A febre?</emphasis> O que ela quis dizer com aquilo? Pelo tom de voz, ela parecia dar a entender que algum jogo sujo, na forma de alguma for�a sobrenatural, estava envolvido.</p><p>� Bem, sinto muito por isso � disse eu. � Voc� chamou um m�dico?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a negativamente.</p><p>� Eu sou tudo de que ele precisa em termos de medicina.</p><p>Senti um arrepio na espinha. Obviamente, a mulher n�o tinha frequentado uma faculdade de medicina; ela era uma feiticeira, ou <emphasis>moomba</emphasis>, como se dizia. Seja como for, quando eu e Moomba finalmente come�amos a tratar de neg�cios, consegui faturar 7 mil d�lares de comiss�o em menos de 30 minutos e ajudei-a a economizar 300 d�lares por m�s em presta��es. Pelo menos foi isso que eu <emphasis>tentei</emphasis> fazer. O que acabou acontecendo foi ligeiramente diferente.</p><p>Moomba lan�ou-me um sorriso, que exp�s um incisivo central de ouro, e disse:</p><p>� Eu n�o dou a m�nima sobre baixar minha hipoteca e meus pagamentos, Jordan. Eu s� quero conseguir algum dinheiro com a minha casa � ela deu uma piscada. � Sabe como �, um pouco de dinheiro vivo? Voc� nunca sentiu vontade de torrar algum dinheiro?</p><p>Seu nome era Thelma. Eu sorri e devolvi:</p><p>� Bem, Thelma, houve uma vez em que eu estava t�o doido com Quaaludes que decidi esticar meu iate para fazer caber meu hidroavi�o. � Ent�o, completei: � De quanto dinheiro voc� gostaria, Thelma?</p><p>Como eu descobriria logo, a resposta de Thelma foi t�pica de muitos propriet�rios de im�veis americanos, a maioria dos quais atrasaria seus pagamentos de hipoteca e acabaria no arresto jur�dico.</p><p>Ela respondeu:</p><p>� Ou�a, Jordan, consiga para mim o m�ximo de dinheiro que puder, eu n�o dou a m�nima se a taxa for exatamente a mesma de agora. Eu s� quero redecorar minha casa, viajar para lugares ex�ticos, comprar uma nova m�quina de costura, uma televis�o de tela plana e uma lancha de dois motores e, ent�o, quero pagar o saldo em meus cart�es de cr�dito para que possa acabar com tudo em 6 meses e refinanciar mais uma vez! E, a prop�sito, Jordan, se voc� conseguir descobrir uma maneira de me aprovar numa dessas novas hipotecas de taxa ajust�vel, em que o pagamento � superbaixo nos primeiros anos e depois explode a um n�vel que n�o vou, possivelmente, ser capaz de suportar, ent�o isso � o que eu quero tamb�m. Vou me preocupar com os pagamentos quando estiver vivendo em um abrigo para sem-teto!</p><p>Ahhhh, o <emphasis>boom</emphasis> do refinanciamento! Era mesmo igual ao que meu amigo havia me dito. Um dia, claro, seria um inferno pagar por todas essas hipotecas com taxas reajust�veis, um produto que permitiu que qualquer pessoa que estivesse respirando e tivesse um n�mero do Seguro Social (independentemente de cr�dito e de avalia��o de renda) pudesse emprestar 110% do valor de sua casa e s� se preocupar em ser capaz de suportar o pagamento mensal em algum ponto obscuro no caminho. Mas, ainda assim, naquele momento era maravilhoso, e todos os propriet�rios, construtores, banqueiros, corretores de hipoteca, corretores e avaliadores das imobili�rias, varejistas de artigos de luxo e, claro, gestores de fundos de <emphasis>hedge</emphasis> de Wall Street que estavam comprando essas hipotecas malucas para colocar em lucro <emphasis>presumido</emphasis> � que eles poderiam depois propagandear aos investidores para apoiar a no��o de que ainda mantinham o dom�nio do universo �, toda essa gente n�o poderia estar mais feliz. Eu, claro, era o mais feliz de todos.</p><p>Depois de uma semana eu tinha arrecadado 50 mil d�lares em comiss�es, e na semana seguinte esse dinheiro tinha duplicado. E assim, do nada, meus problemas de dinheiro acabaram. A nuvem negra que havia me seguido desde aquele dia horr�vel nos degraus do tribunal tinha finalmente se evaporado.</p><p>No come�o, KGB n�o percebeu nada. N�o foi nenhum choque; afinal, ela passava a maior parte dos dias jogando Crash Bandicoot III (<emphasis>Crash Super Smash</emphasis>, como ela chamava) e as poucas palavras que troc�vamos eram na forma de grunhidos e gemidos, durante o sexo.</p><p>No entanto, ela <emphasis>era</emphasis> minha noiva, ent�o eu achei que era direito contar-lhe a boa not�cia: que dali a um m�s, quando os contratos de empr�stimos fossem fechados, eu estaria rolando na grana de novo. Ent�o n�s poder�amos retomar a apar�ncia de uma vida normal.</p><p>� Que bom � foi tudo o que ela disse. � Ent�o voc� pode me levar para <emphasis>shopping</emphasis> novamente.</p><p>Nos 18 meses em que n�s vivemos juntos, a garota tinha proferido os artigos �a� e �o� apenas uma vez, e tinha sido na hora errada. Esse importante acontecimento se deu enquanto ainda est�vamos vivendo na cidade e eu estava sob pris�o domiciliar. <emphasis>Que momentos felizes eram aqueles!</emphasis> Ela me disse:</p><p>� Belo dia l� fora. Vou ao Central Park agora dar uma caminhada.</p><p>KGB e eu est�vamos morando juntos por tempo demais, e n�s dois sabiamos disso. Na verdade, n�o fiquei nem um pouco surpreso quando, depois de meu primeiro empr�stimo fechado, reservei um voo para a Calif�rnia e ela n�o ficou ofendida quando n�o a convidei para ir junto. Na verdade, ela parecera at� aliviada...</p><p>E que viagem! Eu n�o conseguia me lembrar de alguma vez ter sido mais feliz. Por 79 d�lares a noite, aluguei um quarto min�sculo no Manhattan Beach Hilton e, por um adicional de 29 d�lares na di�ria, aluguei o carro mais barato que a Hertz tinha para oferecer. E como eu tinha voado? <emphasis>Na classe econ�mica!</emphasis> E tamb�m tinha feito escala em Boston, para economizar alguns d�lares extras. <emphasis>O novo eu!</emphasis></p><p>E as crian�as? Bem, aparentemente, a Duquesa havia dito a eles que eu estava com problemas de dinheiro, pois quando fui comprar brinquedos eles se recusaram a comprar qualquer coisa que n�o fossem uns docinhos. No come�o, me senti arrasado � n�o, pior, envergonhado. Eu sempre tentei ser o m�ximo para meus filhos, um pai que podia comprar tudo que eles quisessem e podia lev�-los a qualquer lugar. Afinal de contas, era fun��o do papai mostrar aos filhos apenas o melhor da vida, n�o?</p><p>Aparentemente n�o, porque, ao longo daquela semana, percebi algo muito importante, algo que minha vida anterior de riqueza e fartura tinha camuflado totalmente: meus filhos n�o davam a menor import�ncia para toda a pompa. Tudo o que eles queriam era o pai. Tudo o que eles queriam saber era que ele os amava incondicionalmente e que sempre os amaria. Aquelas eram verdades simples, mas que tinham sido para mim as mais dif�ceis de entender.</p><p>Quando passei a conhecer seus novos amiguinhos, comer em seus restaurantes favoritos e brincar em seus parques prediletos, encontrei uma nova paz na vida. Comecei a pensar que esse poderia ter sido o plano de Deus o tempo todo: minha ascens�o e queda em propor��es b�blicas, apenas para ressuscitar com uma nova capacidade de apreciar as coisas.</p><p>Antes de voar de volta para casa, prometi �s crian�as que voltaria em duas semanas e que iria fazer isso a cada duas semanas, at� que finalmente me mudasse para l� de vez. Ent�o nos despedimos, com risos e sorrisos em vez de l�grimas. Sem dizer nada, todos sab�amos que papai estava de volta.</p><p>Quando cheguei a Nova York, fui direto para o trabalho e descobri que o <emphasis>boom</emphasis> de refinanciamentos estava acelerando a uma taxa exponencial. Em 2000, os americanos tinham se envolvido com as pontocom at� morrer e, em 2001, estavam hipotecando at� morrer. A bolha imobili�ria estava se formando diante de meus olhos. Quando iria estourar? Era como se cada pessoa com quem eu conversasse quisesse refinanciar ou tivesse acabado de fazer isso. Consegui fe char 30 empr�stimos em duas semanas e pulei de volta num avi�o para a Calif�rnia.</p><p>Obviamente, com todos aqueles contratos de empr�stimos, fazia sentido ficar em um quarto um pouco maior no Hilton (uma su�te, na verdade) e alugar um carro um pouco melhor na Hertz (um Lincoln, na verdade). Na terceira viagem, os empr�stimos foram fechados t�o r�pido que decidi voar de primeira classe do JFK. Quer dizer, que mal tinha? Eu estava ganhando meu dinheiro de forma leg�tima e, naquela velocidade, ficaria milion�rio num piscar de olhos!</p><p>Quando cheguei a Los Angeles, o motorista da minha limusine (sim, para economizar tempo, eu tinha uma limusine me esperando) disse que estava surpreso que um homem com dinheiro escolhesse ficar no Hilton. �Por que n�o fica na Beach House?�, perguntou ele calmamente. �Fica a poucos passos da areia, e cada quarto tem uma linda vista para o Pac�fico. Quer dizer, o lugar n�o � barato, mas � sem d�vida o melhor!�</p><p>� Bem, que diabos voc� est� esperando? � respondi ao motorista. � Leve-me para esse lugar, pelo amor de Deus!</p><p>Assim encontrei minha nova casa longe de casa: o Beach House. Era pitoresco, lindo e ficava a menos de 4 quil�metros de meus filhos. Em nossa terceira estadia, Chandler e Carter j� eram como pequenas celebridades por l�. Todo mundo nos conhecia e n�s conhec�amos todo mundo.</p><p>A vida parecia maravilhosa.</p><empty-line/><empty-line/><p>S� EXISTIAM DUAS COISAS me corroendo.</p><p>A primeira era minha amada noiva, KGB.</p><p>N�s nos odi�vamos. Por que ainda continu�vamos vivendo juntos, acho que nenhum de n�s saberia responder. Talvez tivesse algo a ver com a in�rcia. Suas roupas estavam em meus arm�rios, suas calcinhas estavam em minhas gavetas, seus len��is estavam na minha cama, e ningu�m, nem mesmo Mary Poppins, gosta de fazer as malas. Mas, infelizmente, � medida que o ano de 2001 chegava ao fim, o sexo come�ou a desvanecer, o que significava que n�o havia mais raz�o para viver no mesmo c�digo postal.</p><p>Era o Valentine�s Day de 2002, um dia t�o bom quanto qualquer outro para romper o noivado mais mal concebido desde Johnny Depp e Winona Ryder. Na verdade, por que n�o acabar com aquilo ali mesmo, no jantar? N�s est�vamos sentados em uma mesa para dois no Hotel American em Sag Harbor. Era um estabelecimento elegante e, o mais importante, era o tipo de estabelecimento onde algu�m t�o refinada quanto KGB iria pensar duas vezes antes de derramar um copo de Louis Jadot Montrachet safra 1992 sobre minha cabe�a. O <emphasis>sommelier</emphasis>, vestido com um impec�vel smoking preto e sapatos de couro preto, acabara de tirar a rolha da garrafa, que tinha o m�dico pre�o de 350 d�lares.</p><p>Os fabulosos olhos azuis da KGB estavam olhando para mim com desprezo � dist�ncia de uma min�scula mesa apenas. Ela estava ligada a cada uma de minhas palavras, desgostosa com cada uma delas � <emphasis>j�!</emphasis> �, apenas 15 minutos depois de nos sentarmos. Mas eu estava s� come�ando, n�o deveria me apressar. Aquilo tinha de ser mais que uma de nossas brigas t�picas para instigar a sovi�tica a fazer as malas. De seus l�bios vermelho-comunistas, deliciosos como sempre, vieram as palavras:</p><p>� <emphasis>On polny mudak!</emphasis> � seu test�culo de merda! � Voc� acha que voc�s ganha Guerra Fria? Ah, por favor! � s� o dinheiro com a Am�rica! Dinheiro, dinheiro, dinheiro! � o desprezo pingava de cada palavra que ela dizia. � Voc�s fazer meu pa�s � fal�ncia! Seu Ronald Reagan nos chama Imp�rio do Mal e fazer Star Wars! E quem salvar voc�s na Segunda Guerra Mundial? N�s salvar! Perdemos 20 milh�es de pessoas para derrotar o nazismo. Quanto voc�s perder... Dez pessoas? Inacredit�vel! Foda-se Am�rica... <emphasis>Pizda mudak!</emphasis> Suas bichas do caralho!</p><p>Dei de ombros, pouco impressionado com seu mais recente discurso antiamericano.</p><p>� Bem, se voc� odeia tanto este pa�s, Yulia, ent�o por que n�o � comecei a levantar a voz � d� o fora daqui e volta para a porra de seu pr�prio pa�s ou para o que sobrou daquela merda? � Outros casais come�aram a olhar. � Mas antes de ir embora � peguei uma baguete do prato de p�es e ofereci a ela �, tome, leve um peda�o de p�o com voc�, assim n�o vai precisar ficar na fila quando chegar em casa � balancei a cabe�a desdenhosamente. � Bela merda, essa R�ssia! Um esc�rnio! Certa vez uma superpot�ncia, e agora, olhe s� o que sobrou... Voc�s n�o conseguem sequer derrotar a Chech�nia, eles est�o jogando as porras das pedras em voc�s!</p><p>� <emphasis>Blyad!</emphasis> Quem voc� pensa que �? Voc� nunca conseguir garota como eu de novo! Olhe para voc� e olhe para mim. Voc� se arrepender.</p><p>Infelizmente, Yulia tinha raz�o. Ela sem d�vida tinha me derrotado no departamento das apar�ncias. Era o momento de melhorar sua disposi��o. Olhei diretamente em seu rosto e soprei-lhe um beijo carinhoso.</p><p>Ela franziu o nariz pequeno de modelo e murmurou:</p><p>� <emphasis>Mudilo!</emphasis> � seu saco encolhido! � <emphasis>Idi na khui!</emphasis> � V� chupar seu pr�prio pinto!</p><p>� Bem, Yulia, a apar�ncia n�o � tudo � enviei-lhe um sarc�stico sorriso. � E quero agradecer a voc� por me ensinar isso. Veja, meu problema � que eu tive sorte com minhas duas primeiras esposas, ent�o assumi que beleza e personalidade vinham juntas, como num pacote. � Dei de ombros inocentemente. � Agora eu sei que n�o � bem assim.</p><p>� Ah! � rosnou a KGB. � Volte para a ex-mulher que deixou voc� escadaria do tribunal. Bela mulher esse!</p><p>Apesar de tudo, eu ainda sentia necessidade de defender a Duquesa.</p><p>Eu disse:</p><p>� Meu casamento com Nadine terminou muito antes de eu ser indiciado, mas isso n�o interessa. O que importa � o que est� acontecendo conosco, com nosso relacionamento. Ele n�o est� funcionando.</p><p>� <emphasis>Blyad!</emphasis> Voc� n�o tem que me dizer isso. Voc� ser pesadelo para viver. Tudo o que voc� falar � de crian�as e hipotecas, nada mais. Voc� grande chatea��o.</p><p>Com isso, ela desviou o olhar, murmurando mais maldi��es em russo.</p><p>Eu respirei fundo e disse:</p><p>� Ou�a, Yulia, eu realmente n�o quero mais brigar. Voc� foi muito boa para mim num momento em que eu precisava que algu�m fosse bom para mim � dei de ombros com tristeza. � Mas n�s somos pessoas diferentes, voc� e eu. Somos de mundos diferentes, com diferentes livros de hist�ria. N�o � nossa culpa que n�o vejamos as coisas da mesma forma. Nem poder�amos, mesmo que quis�ssemos. � Dei de ombros novamente. � Al�m disso, meu cora��o est� na Calif�rnia, que � onde eu preciso estar, perto de meus filhos. N�o h� outro caminho para mim � balancei a cabe�a e deixei escapar algumas risadas. � Confie em mim, voc� vai ficar melhor sem mim. Eu ainda vou para a cadeia um dia, e n�o tenho ideia de quanto isso vai demorar. Seja como for, acho que voc� deveria se mudar nesta semana. Vou para a Calif�rnia amanh� e n�o estarei de volta at� domingo.</p><p>Com grande orgulho, ela acrescentou:</p><p>� J� fazer planos para isso. Igor vir� amanh� e arrumar minhas coisas. Voc� nunca vai me ver de novo.</p><p>Balancei a cabe�a, triste. O que ela disse era verdade: eu nunca mais iria v�-la de novo. Nosso relacionamento, afinal, n�o era do tipo que se transformaria em amizade (n�o t�nhamos sido amigos nem quando ficamos juntos). Ela mergulharia de volta para a �cena� e eu me mudaria para Calif�rnia t�o logo fosse poss�vel para construir uma nova vida l�. Alugaria uma casa na praia, assim como tinha jurado a Alonso, e veria meus filhos todos os dias, tentando compensar o tempo perdido.</p><p>Vislumbrei o anel de noivado da KGB, aquele que tinha sido da Duquesa. Olhei para ele por um momento, uma enxurrada de lembran�as se despejando em cima de mim. Aquele anel era uma de minhas �nicas posses que restaram dos velhos tempos. Tudo o mais se fora. A maioria de meus m�veis tinha sido roubada do dep�sito, e eu tinha empenhado todos os meus rel�gios de ouro antes de trope�ar no <emphasis>boom</emphasis> dos refinanciamentos. De fato, al�m de alguns poucos ternos Gilberto, a �nica coisa que eu ainda possu�a era minha Mercedes preta de quatro portas. Todo o resto tinha sido comprado com o dinheiro das hipotecas, quer dizer, com o dinheiro que eu ganhei de maneira honesta.</p><p>Aparentemente KGB me viu olhando para o anel, porque ela disse:</p><p>� Ohhh, ent�o voc� quer anel de volta agora?</p><p>Virei os cantos da boca para baixo e balancei a cabe�a lentamente.</p><p>� N�o. Voc� pode ficar com ele, vender, guardar, usar, n�o dou a m�nima para o que far� com ele. Esse anel � amaldi�oado, pelo menos no que me diz respeito. Pode ser que ele traga mais sorte para voc� do que trouxe para mim.</p><p>Fizemos com que o jantar fosse curto, e 10 minutos depois est�vamos de volta ao carro, em dire��o ao apartamento. Est�vamos cruzando a Noyack Road, uma estrada longa, escura e sinuosa que leva de Sag Harbor at� Southampton. Estava frio e �mido; as estradas estavam escorregadias. Eu dirigia a menos de 60 por hora.</p><p>KGB estava olhando para fora, pelo parabrisa. Ela usava um casaco russo comprido e um chap�u combinando, e este �ltimo tinha uma aba larga e uma cauda fofa dependurada na parte de tr�s. Era o tipo de conjunto de pele que s� mesmo uma mulher russa rica e que tinha sido eleita Miss Uni�o Sovi�tica poderia usar sem parecer completamente rid�cula. O anel de noivado estava voltado para dentro, com a pedra descansando na palma da m�o, o pulso fechado com for�a.</p><p>Aparentemente ela n�o teria desistido dele sem luta, de qualquer maneira.</p><p>Inclinei-me para a frente, liguei o r�dio e apertei o bot�o de pesquisa. Uma can��o de amor. <emphasis>Cupido de merda!</emphasis> Por que ningu�m atira na bunda desse cretino com uma de suas pr�prias flechas? Apertei o bot�o de pesquisa de novo, outra can��o de amor.</p><p>� Cuidado! � gritou KGB. � Animais na estrada!</p><p>Eu olhei para a frente. Porra! Cervos, tr�s deles, a apenas 20 metros de dist�ncia e chegando perto rapidamente. Uma onda de adrenalina... Apertei o freio antitravamento e gritei:</p><p>� Segure-se!</p><p>Girei o volante para a direita, tentando levar o carro para dentro da floresta, mas a Mercedes come�ou a derrapar... N�o!... <emphasis>Vamos, seus alem�es de merda!</emphasis> Enfiei a m�o na buzina, mas o cervo apenas olhou para o carro, confuso. Pisquei o farol alto em desespero. O cervo estava a menos de 10 metros. Buzinei de novo, nenhum efeito. Ent�o, girei o volante com for�a para a esquerda... Mais rabeadas... Pisei no freio com ainda mais for�a... Senti o mecanismo de antitravamento das rodas entrar em a��o... Esses <emphasis>boches</emphasis>! Vamos, seus <emphasis>boches</emphasis>... Meu cora��o estava batendo a mil por hora... Eu segurava minha respira��o... N�o... Tarde demais... Vai bater... Os focinhos indefesos dos cervos... Que desperd�cio terr�vel... Cruzei os bra�os e me preparei para o impacto.</p><p>� Segure-se! � gritei. � N�s vamos bater!</p><p>De repente, como por magia, o carro parou completamente a menos de um metro de um dos cervos. KGB e eu ficamos l� sentados, sem dizer uma palavra, a boca aberta, olhando para o cervo que ainda estava congelado pelos far�is do carro. Ao fundo, o cupido ainda estava me torturando com um dueto entre Lionel Richie e Diana Ross: <emphasis>And I�ll give it all to you, my love, my love, my love, my endless love.</emphasis></p><p>� Caralho... � murmurei finalmente, ainda olhando para o veado. Balancei a cabe�a devagar, enquanto os cervos olhavam para tr�s. Eles pareciam incomodados. Desliguei o r�dio e olhei para KGB. Belo chap�u!, pensei. � Meu Deus, essa passou perto! N�o posso acreditar!</p><p>SMASH!</p><p>O impacto do quarto cervo foi t�o profundo que a Mercedes alem� de 1 tonelada pareceu voar alguns metros no ar e depois caiu ao solo em c�mera lenta. Mesmo sem olhar, eu sabia que todo o lado traseiro do passageiro estava completamente destru�do. E o cervo, � claro, estava morto. Eu me virei para KGB e seu chap�u.</p><p>� Voc� est� bem? � perguntei.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a lentamente, com ar sonhador. Ela estava muito at�nita para falar. Com o canto do olho, eu vi os tr�s cervos se dispersarem pela floresta. Naquele momento, compreendi que eles eram uma fam�lia pequena, provavelmente � procura de comida. E eu tive a certeza de ter matado a m�e. <emphasis>Que triste!</emphasis> Disse � KGB para esperar no carro.</p><p>Fora, era uma carnificina pura. Um cervo muito grande de express�o gentil estava deitado sobre seu lado direito, im�vel. Senti um arrepio correr pela espinha. Levantei a gola de meu casaco esportivo para me proteger do frio e fiquei um tempo avaliando o veado. Que estranho, ele ainda estava lindo. N�o havia danos externos. Seus olhos estavam abertos e sem vida. Seu corpo, completamente im�vel. Devia ter quebrado o pesco�o.</p><p>Olhei para a Mercedes. Estava completamente destru�da. Desde a porta traseira at� a roda, todo o lado direito havia sido detonado. Parecia improv�vel que fosse poss�vel tir�-la dali. Tudo bem, pensei. Era meu �ltimo bem contaminado. No dia seguinte eu faria com que fosse levado para o ferro-velho, junto com a KGB.</p><p>Virei-me para o veado, para dar uma olhada de perto. Estava morto? Ele n�o parecia morto. E, de uma s� vez, um medo terr�vel veio subindo pela minha coluna. Um animal morto era portador de m�s not�cias, um sinal que vinha l� das profundezas. Com o cora��o apertado, me agachei e coloquei a m�o na garganta do cervo. Verifiquei a pulsa��o e, subitamente, os olhos do veado piscaram! Pulei para tr�s, espantado.</p><p>Lentamente, muito lentamente, o veado ficou em p� nas quatro patas e come�ou a balan�ar a cabe�a para tr�s e para a frente, como se estivesse tentando se livrar de teias de aranha. Ent�o come�ou a se distanciar mancando. Depois de alguns passos, ele come�ou a trotar, de volta para a floresta, para se reunir com sua fam�lia. Soltei um grande suspiro de al�vio.</p><p>Havia apenas uma �ltima coisa me corroendo.</p></section><section><p>CAP�TULO 29</p><p><strong>O DIA DO JULGAMENTO FINAL</strong></p><p><strong>5 de julho de 2003</strong></p><empty-line/><p><strong>
  Dezessete meses depois</strong></p><p>Os procedimentos estavam ocorrendo exatamente do jeito que eu pensei que aconteceriam. Eles me fizeram fugir do tribunal do juiz Gleeson para que pudesse vomitar meu caf� da manh� com privacidade. Ainda assim, tinha chegado a hora de acabar com aquela loucura, de deixar tudo para tr�s. Eu tinha estado livre sob fian�a por muito tempo, e todo mundo no tribunal sabia disso. Todo mundo, n�o s� o juiz Gleeson, mas Magnum e o homem de Yale, que estavam em p� a meu lado, e Alonso e TOC, que estavam em p� ao lado deles. Todo mundo parecia bastante elegante no dia de minha condena��o.</p><p>A �rea reservada ao p�blico estava cheia, no m�ximo da capacidade, repleta de amigos e de inimigos. Eles estavam sentados atr�s de uma espessa balaustrada de madeira com tampo curvo, a chamada Barra da Justi�a, e estavam todos t�o quietos como ratos de igreja. Entre eles havia uma d�zia de promotores de Justi�a (os amigos, acredite ou n�o), quase a mesma quantidade de jornalistas (os inimigos, � claro), um punhado de completos estranhos que estavam l� simplesmente para observar a condena��o de um homem (s�dicos, percebi) e meus amados pais, Mad Max e Santa Leah, que estavam l� para dar apoio moral.</p><p>J� haviam passado 10 minutos do processo, e Magnum apresentava meu caso a Gleeson, dizendo que minha multa deveria ser muito menor que a de Danny. Gleeson tinha batido nele com 200 milh�es em restitui��o, que seriam pagos em parcelas de mil d�lares por m�s. Com base nisso, o valor estaria totalmente pago em um pouco mais de 16 mil anos, quando estiv�ssemos na pr�xima Era Glacial, �poca em que o dinheiro n�o iria significar tanto. De qualquer forma, eu ainda achei que 200 milh�es em restitui��o era algo ultrajante. N�o que eu n�o merecesse isso, mas como diabos eu poderia poder pagar? Na verdade, eu n�o pagaria; de acordo com Magnum, aquilo era mais simb�lico que qualquer coisa. No entanto, ele ainda se sentiu compelido a apresentar o caso a Gleeson.</p><p>Gleeson o interrompeu e disse:</p><p>� Desculpe interromper, senhor O�Connell. �s vezes, a restitui��o � quase um ato simb�lico, mas n�o neste caso. O senhor Belfort � um <emphasis>ganhador</emphasis>, por falta de melhor termo para defini-lo. Ele vai ganhar muito dinheiro depois que sair da pris�o.</p><p>� Isso eu entendo � disse Magnum �, mas o valor determinado no caso Porsuch estava muito longe... � <emphasis>Que merda!</emphasis> Por que Magnum estava querendo arranjar briga com o juiz Gleeson? Qual era a ideia, porra? Basta deix�-lo me acertar com uma multa simb�lica e decidir uma pena leve para mim na pris�o. � ... de se negociar � continuou Magnum. � Eu s� n�o posso concordar com algo que esteja muito acima de 100 milh�es de d�lares.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio enquanto eu esperava que o juiz Gleeson explodisse com algo como: �COMO VOC� SE ATREVE A QUESTIONAR MEU JULGAMENTO NESTE TRIBUNAL? VOC� SER� DETIDO POR DESACATO, MAGNUM!�. Mas, para minha surpresa, ele reduziu minha restitui��o para 110 milh�es, sem parecer nem um pouco perturbado com isso. Ent�o Gleeson disse:</p><p>� Voc� gostaria de ser ouvido em rela��o � senten�a, senhor O�Connell?</p><p>Magnum assentiu com a cabe�a.</p><p>� Sim, merit�ssimo � <emphasis>e seja breve! Alonso prometeu fazer um apelo em meu nome, por isso n�o roube muito do tempo dele!</emphasis>�, mas apenas algumas observa��es muito breves. � <emphasis>Gra�as a Deus</emphasis>. � Este � um caso no qual entendemos plenamente que houve um crime grave, um crime bastante amplo em termos de tempo envolvido, de n�mero de v�timas e de grande quantidade de danos sofridos por elas.</p><p><emphasis>Bem, muito obrigado, Magnum. O que voc� vai fazer em seguida? Trazer � tona minha inclina��o para prostitutas, drogas e arremesso de an�es? Siga em frente, caramba!</emphasis></p><p>� Em primeiro lugar � continuou Magnum �, o senhor Belfort reconhece que foi motivado pelo ego�smo e pela gan�ncia durante esse per�odo de atividade, e se viu diante de um problema s�rio de uso de drogas, que acho que se encaixou � sua culpa sobre os crimes em que ele esteve envolvido e em sua luta para...</p><p>Nessa hora, eu desliguei. Era muito doloroso para ouvir.</p><p>Claro, eu sabia que Magnum estava fazendo o que tinha de fazer; se ele tentasse minimizar meus crimes, Gleeson n�o consideraria ter algo de positivo para dizer. No entanto, na verdade, a �nica pessoa que realmente poderia me ajudar no processo era Alonso. Qualquer coisa que fosse dita por Magnum seria suspeita, porque ele era meu porta-voz pago, e qualquer coisa que fosse dita por mim seria interpretada como as palavras de um homem desesperado, que faria qualquer coisa para se salvar da pris�o.</p><p>� ...e, no caso do senhor Belfort � concluiu meu porta-voz pago �, apesar da gravidade das infra��es, eu realmente acredito que uma senten�a branda seria apropriada.</p><p>� Obrigado � disse o juiz, que era inteligente o suficiente para saber que Magnum acharia que a clem�ncia seria apropriada para praticamente tudo, exceto estupro ou assassinato.</p><p>Ent�o Gleeson olhou para mim.</p><p>� Senhor Belfort?</p><p>Eu humildemente acenei com a cabe�a e disse:</p><p>� Merit�ssimo, eu gostaria de me desculpar... � <emphasis>N�o fa�a isso, idiota! N�o pe�a desculpas para o mundo! Soa hip�crita!</emphasis>� ...com todas as pessoas que perderam dinheiro...</p><p>E l� fui eu, pedindo desculpas a todos, sabendo que, apesar de estar realmente arrependido, minhas palavras soavam totalmente ocas e eu s� desperdi�ava meu f�lego. Mas eu n�o conseguia me conter, minha mente estava se movendo a mil por hora. Em uma pista, as desculpas jorravam...</p><p>� ...fazer uma lista e pedir desculpas a cada uma das pessoas, mas a lista � t�o grande...</p><p>Na segunda pista, eu estava pensando como seria muito melhor se eu dissesse algo como: <emphasis>Sabe de uma coisa, juiz? Eu fodi com uma coisa aqui de modo terr�vel e gostaria de dizer que foi tudo por causa de todas as drogas, mas a verdade � que n�o foi. Eu era apenas um canalha ganancioso, n�o apenas �vido por dinheiro, mas tamb�m por sexo, pelo poder, pela admira��o de meus colegas e por qualquer outra coisa que voc� possa imaginar. O que torna tudo ainda pior, merit�ssimo, � que eu fui aben�oado com dons maravilhosos e, em vez de us�-los de forma honesta e produtiva, usei-os para corromper outras pessoas, para faz�-las obedecer a meus comandos malignos...</emphasis></p><p>� ... e quando comecei a Stratton, n�o tinha a inten��o de que esse fosse o caminho, mas eu logo sabia exatamente o que estava fazendo e continuei fazendo at� que fosse detido. Eu assumo total responsabilidade por minhas a��es. S� posso culpar minha gan�ncia, a gan�ncia de poder, de dinheiro, de reconhecimento. Eu tenho muito que explicar para meus filhos um dia e espero que eles aprendam com meus erros. Eu gostaria apenas de deixar tudo isso para tr�s e come�ar a pagar as pessoas. � o melhor que posso fazer.</p><p>Baixei a cabe�a em contri��o e sacudi-a com tristeza.</p><p>Houve alguns momentos de sil�ncio, durante os quais me recusei a olhar para cima. Senti que meu discurso tinha sido terrivelmente insatisfat�rio.</p><p>Ouvi Gleeson dizer:</p><p>� Senhor Alonso?</p><p>Alonso disse:</p><p>� Merit�ssimo, n�s acabamos de ouvir o r�u falar brevemente sobre qu�o arrependido ele est�, sobre o que pensa da honestidade e da �tica e como ele est� tentando fazer a coisa certa todos os dias; se eu estivesse sentado onde o senhor est� sentado, juiz, estaria um pouco c�tico em rela��o a um r�u que tenha feito o que este r�u fez. No entanto, passei muitas horas discutindo honestidade e �tica com este homem. � poss�vel que eu seja um otimista, mas acho que ele realmente entendeu. Acredito que ele tenha de fato tentado sair do ponto onde esteve nos �ltimos anos para mudar sua vida. N�o sei o senhor est� ciente disso, mas a primeira vez que o encontrei foi no dia em que o senhor o jogou na pris�o por causa da viagem de helic�ptero para Atlantic City. � <emphasis>Puta merda, de todas as coisas para trazer � tona, por que isso?</emphasis>� Nos meses seguintes, quando ele finalmente foi liberado, acredito que tenha ocorrido uma mudan�a profunda nesse homem. Acho que ele de fato pensou consigo mesmo sobre tudo o que fez e, o mais importante, o que teria de fazer como um cooperador. Pois acho que ele conseguiu. � poss�vel sermos c�ticos? Claro. Penso que exista uma boa raz�o para acreditar nele quando diz o que disse? Sim. Quando testemunhou no julgamento de Gaito, ele passou mais de uma centena de horas se preparando comigo, e foi o pior momento de sua vida. Foi um momento muito dif�cil, mas n�s passamos muito tempo falando sobre o que ele fez, seus enganos passados e suas fraudes, e acho que h� boas raz�es para acreditar nele sobre sua inten��o de cumprir com suas promessas.</p><p>Dei uma r�pida olhada para Gleeson, que estava balan�ando a cabe�a. Ele estava balan�ando a cabe�a concordando, talvez? Era dif�cil dizer. Aquele juiz era frio como uma pedra de gelo. N�o iria mostrar sua jogada antes da hora.</p><p>� Obrigado � disse Gleeson. � Eu acho que todo mundo aqui demonstrou bom senso em n�o falar tanto quanto poderiam, tendo em vista os extremos deste caso, desde o contato criminoso extremo envolvendo o senhor Belfort at� a coopera��o extrema da parte dele. Uma coopera��o extraordin�ria, devo reconhecer � ele me olhou nos olhos. � Isso ajudou a derrubar muitos, muitos anos de pris�o que ele deveria cumprir em outra situa��o, mas isso fica equilibrado por seus muitos anos de fraude arrogante.</p><p>Ele tinha ligado seu incr�vel raio encolhedor, e eu me vi encolhendo cada vez mais enquanto ele dizia:</p><p>� Voc� vitimizou milhares e milhares de pessoas inocentes que confiavam em voc�, que confiavam nas pessoas que trabalharam para voc�. Voc� achou que os reguladores eram uma piada e os tratou com desprezo. Voc� viveu uma vida boa � <emphasis>ah, merda</emphasis> � no mais alto <emphasis>jet-set</emphasis>, n�o porque seus talentos o fizeram chegar at� l�, e n�o tenho d�vidas de que voc� seja um homem talentoso, mas porque estava disposto a mentir, a enganar e a roubar. Seus concorrentes foram colocados em desvantagem, certamente n�o todos, mas a maioria deles fez o que a maioria das pessoas faz, tentaram realizar neg�cios de maneira honrada e honesta, sem roubar o dinheiro de muitas pessoas, tantas que voc� n�o tem como pedir perd�o a todas elas. � importante para a senten�a que estou impondo que voc� tenha aparentemente mudado sua vida. O que li sobre voc� na carta da Promotoria, o que o senhor Alonso disse sobre voc�, penetrou em mim. Parece-me que voc� virou uma p�gina. Eu acho que o mais importante e dif�cil de prever em todo esse processo � o que se traduz no quanto de puni��o voc� merece.</p><p>Ele fez uma pausa e soltou um grande suspiro, o tipo de grande suspiro que o rei Salom�o teria produzido se tivesse sido confrontado com a obriga��o de sentenciar o agora redimido Lobo de Wall Street.</p><p>Eu tensionei minhas n�degas e fiz uma ora��o ao Todo-Poderoso. Gleeson havia condenado Danny a quatro anos, o que, ap�s as dedu��es, equivalia a pouco menos de dois. Do jeito que Magnum e eu hav�amos imaginado, ele iria me dar uma pena menor.</p><p>� � uma decis�o muito, muito dif�cil. Eu tenho pensado sobre isso bastante e durante muito tempo e determinei que uma pena de pris�o de quatro anos � apropriada, e � isso que estou impondo.</p><p>Uma s�bita onda de murm�rios veio da se��o dos espectadores.</p><p>Meu est�mago come�ou a revirar antes que minha mente colocasse todas as informa��es em ordem. As crian�as, o que elas iriam dizer? Mais l�grimas. Abaixei a cabe�a, derrotado. Eu n�o podia acreditar. Foi o que de pior havia na extremidade do espectro, exatamente o que Danny tinha recebido. Meu c�rebro come�ou a voar no meio dos c�lculos. Quarenta meses davam quanto depois das dedu��es? Havia 15% de desconto por bom comportamento, o que dava 7,2 meses, mais 18 meses pelo programa de drogas, isso somado dava 25,2 meses no total, deduzido de 48, dava entre 22 e 23 meses na pris�o...</p><p>Ent�o Gleeson disse:</p><p>� Estou impondo a restitui��o no valor de 110 milh�es de d�lares � n�o � grande coisa, pensei � a pagar no valor de 50% de sua renda bruta. � <emphasis>Puta merda!</emphasis></p><p>Mais murm�rios na se��o dos espectadores! Estavam rindo de mim? N�o podia ser, mas era o que parecia. O que meus pais estariam pensando?</p><p>O tempo parecia andar mais devagar; eu conseguia ouvir Magnum pedindo ao juiz se ele podia me recomendar para o programa de drogas... Gleeson concordou... Magnum estava pedindo um adiamente na notifica��o... Gleeson recomendou 90 dias. Embora Magnum e eu tiv�ssemos falado antes sobre adiar at� depois do Ano Novo, ele disse que n�o deveria ser um problema. Ele estava pedindo a Gleeson que me permitisse cumprir a pena na Calif�rnia, para eu poder ficar perto das crian�as. Gleeson, naturalmente, concordou.</p><p>De repente, percebi Gleeson se levantar da cadeira, e foi assim. Tudo acabou desse jeito. N�o haveria recursos, n�o haveria uma ajuda sobrenatural, nada. Eu estava indo para a cadeia por quase dois anos. E a multa... 50%! Um pesadelo! Como eu poderia pagar aquilo? Eu teria de ganhar na loteria... E nesse meio-tempo seria for�ado a ganhar duas vezes mais que todos os outros para viver a mesma vida. Tudo bem, pensei. Eu iria conseguir facilmente.</p><p>Fora do tribunal, toda a equipe estava reunida no corredor � Alonso, TOC, M�rmon, Magnum, o homem de Yale e meus pais. Ainda era tudo um borr�o para mim. Eu n�o tinha me recuperado do choque. Havia muitas express�es sombrias. Desculpas de Alonso, de TOC e do M�rmon, desejando que as coisas tivessem corrido melhor. Agradeci, prometendo manter contato. Eu sabia que TOC e eu o far�amos. Ainda que f�ssemos t�o diferentes, t�nhamos aprendido muito um com o outro. Apesar de tudo, eu me considerava melhor depois de t�-lo encontrado.</p><p>Ent�o eu me virei para Magnum e o homem de Yale e trocamos abra�os. Eles haviam feito um trabalho incr�vel, especialmente quando eu mais precisei. Se algu�m que eu amava estivesse em apuros, eu recomendaria o escrit�rio de advocacia De Feis O�Connell &amp; Rose de olhos fechados. N�s certamente manter�amos contato.</p><p>Ent�o abracei meus pais, meu pai primeiro.</p><p>Mad Max estava frio como um pepino, a proverbial rocha de Gibraltar. Mas isso era de esperar; afinal, nada o acalmava mais que uma boa cat�strofe. Por dentro, ele estava chorando por mim, mas acho que n�s dois sab�amos que n�o era isso que eu precisava dele. Com o mais triste dos sorrisos, ele estendeu os bra�os para mim e me segurou pelos ombros. Ent�o, me olhou nos olhos e disse:</p><p>� N�s vamos superar isso, filho. Sua m�e e eu estaremos sempre a seu lado.</p><p>Eu balancei a cabe�a, compreensivo, com a certeza de que sempre seria assim. Eles eram pessoas de bem, talvez a �nica coisa boa gerada pela Stratton tenha sido a seguran�a financeira que eles conseguiram, resultado do sal�rio de meu pai quando ele tinha trabalhado l�. Eles iriam envelhecer com gra�a, dignidade e dec�ncia. Eles n�o seriam sobrecarregados com preocupa��es financeiras. Eu estava orgulhoso disso.</p><p>Minha m�e tinha l�grimas nos olhos quando eu a abracei, e eu podia senti-la chorando em meus bra�os. Era exatamente isso que eu precisava dela. Eu precisava saber que havia uma pessoa em todo o mundo que estava mais machucada que todos os outros juntos. Minha m�e era uma mulher brilhante e complicada. Leah Belfort era uma mulher da mais alta fibra moral, que tinha visto o filho viver o tipo de vida que representava tudo aquilo que ela mais detestava, o hedonismo, a ostenta��o e a falta de respeito pelos outros. No entanto, mesmo assim ela ainda me amava, talvez mais do que nunca, simplesmente porque eu precisava.</p><p>Com muito cuidado, segurei-a pelos ombros, da mesma forma que meu pai tinha me segurado. Ent�o forcei um sorriso e disse:</p><p>� Est� tudo bem, m�e. Esses quatro anos n�o s�o realmente quatro anos, ap�s as dedu��es ser�o menos que dois. O tempo vai voar. Vai ficar tudo bem.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a, perplexa.</p><p>� Eu s� n�o entendo como voc� recebeu a mesma pena que Danny. Essa � a �nica coisa que n�o faz sentido para mim.</p><p>� Sim � concordei. � Eu acho que parece um pouco injusto. Mas � assim que a vida �, �s vezes, n�o �?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a. Na verdade, com a idade de 71 anos, ela sabia disso melhor que eu.</p><p>� De qualquer forma � continuei �, Gleeson estava certo, m�e, e voc� sabe disso. Acho que todo mundo sabe. Eu era o c�rebro por tr�s da coisa toda, n�o Danny, e, depois de tudo o que aconteceu, como eu poderia me livrar de passar um tempo na cadeia? Al�m disso, Gleeson � um cara inteligente: ele sabe tudo sobre o programa de drogas e sobre bom comportamento. Ent�o, ele s� me condenou a dois anos, suficientes para me enviar uma mensagem, mas n�o para arruinar minha vida � e pisquei. � Al�m do mais, isso vai me dar uma chance de recuperar o atraso em algumas leituras, o que n�o � de todo ruim, certo? � outro sorriso for�ado.</p><p>� Quando voc� e Nadine v�o contar �s crian�as? � perguntou meu pai.</p><p>� N�s n�o vamos � disse eu, sem emo��o �, pelo menos n�o ainda. Por que preocup�-los agora? Vamos esperar at� antes de eu ir, ent�o contaremos juntos. De qualquer forma, eu tenho de ir agora. Preciso arrumar minhas coisas.</p><p>� Ah, voc� est� indo para a Calif�rnia? � perguntou minha m�e.</p><p>Eu sorri, orgulhoso.</p><p>� N�o, m�e, eu n�o estou <emphasis>indo</emphasis> para a Calif�rnia, eu estou me <emphasis>mudando</emphasis> para l�.</p><p>Eles olharam para mim, incr�dulos.</p><p>� Agora? � perguntou meu pai. � Voc� acha que faz sentido, com essa condena��o pairando sobre sua cabe�a?</p><p>� N�o � respondi calmamente. � Eu tenho certeza de que n�o faz, mas ainda assim vou me mudar. Veja, eu fiz uma promessa para minha filha uma vez e n�o vou decepcion�-la. � Dei de ombros, como se quisesse dizer: ��s vezes o amor supera a l�gica, certo?�. E ent�o completei. � Eu sei que voc�s compreendem.</p><p>As palavras n�o eram necess�rias, afinal, eles eram pais tamb�m.</p><empty-line/><empty-line/><p>FOI ASSIM QUE me tornei residente do Estado da Calif�rnia, quer eles gostassem, quer n�o. Em uma semana, encontrei uma bela casa perto do mar, a menos de uma d�zia de quarteir�es da casa de meus filhos, e estava fazendo exatamente o que havia jurado fazer a Alonso numa outra noite: tentando recuperar o tempo perdido, muito contente de passar meus �ltimos tr�s meses de liberdade numa vida comum, cozinhando para as crian�as, assistindo � TV com eles, levando-os para a escola, jogando futebol, voleibol e o que fosse.</p><p>Ent�o, depois de uma extens�o de tr�s meses, o tempo acabou.</p><p>Era a virada do ano de 2004, um s�bado ensolarado, e eu precisava me apresentar na cadeia na manh� seguinte. Da forma como eu via as coisas, eu tinha duas op��es: eu poderia me apresentar por conta pr�pria ou os delegados viriam me buscar. Embora nenhuma das duas fosse de fato eletrizante, eu havia me resignado � primeira. As crian�as, � claro, n�o tinham a menor ideia, mas estavam prestes a descobrir.</p><p>Naquele exato momento, os dois estavam descendo as escadas, s� sorrisos, enquanto a Duquesa, parecendo nervosa, vinha atr�s deles. John e eu est�vamos sentados na sala de estar, que, em uma �ltima dose de ironia, tinha uma estranha semelhan�a com Meadow Lane: parede de tr�s de vidro, com uma fant�stica vista para o oceano, m�veis <emphasis>shabby chic</emphasis> (de um jeito um pouco mais formal, por�m), dezenas de almofadas, panos e bugigangas espalhadas aqui e ali e lareira de pedra at� o teto. Tudo aquilo revelava o que eu j� suspeitava sobre a Duquesa o tempo todo: ela gostava de decorar suas casas de praia da mesma forma.</p><p>� N�o se preocupe � disse John, que estava sentado � minha frente no sof�. � Vou tratar seus filhos como se fossem meus.</p><p>Eu assenti com a cabe�a, tristemente.</p><p>� Eu sei que voc� far� isso, John. Confio em voc� mais do que voc� pode imaginar.</p><p>E, de fato, eu confiava. Eu tinha chegado a conhecer John bastante bem ao longo dos �ltimos seis meses. Ele era generoso, am�vel, respons�vel, carism�tico, algu�m que cresceu na vida por conta pr�pria e, acima de tudo, um homem que, fiel a suas palavras, tratou meus filhos como se fossem dele. Eles estariam seguros com John, eu sabia, e nada lhes faltaria.</p><p>� Ei, pai � disse Chandler alegremente quando se sentou a meu lado no sof�. � Por que essa reuni�o de fam�lia?</p><p>Carter, no entanto, n�o se sentou; quando estava a uns 5 metros do sof�, ele executou uma manobra e veio deslizando pelo piso de terracota com um par de meias brancas suadas. Ele agarrou o topo do sof� e saltou sobre as costas, como um acrobata, e caiu bem ao meu lado sem incidentes.</p><p>� Oi! � cantou alegremente e, ent�o, se inclinou para tr�s e colocou os p�s em cima de uma mesa de caf� australiana.</p><p>John, sempre disciplinador, lan�ou-lhe um olhar, ao que Carter revirou os olhos azuis e p�s os p�s para baixo. Enquanto isso, a Duquesa sentou-se na poltrona ao lado de John. Ela ainda estava linda, um pouco mais velha, talvez, mas, considerando o que n�s dois t�nhamos vivido, ela parecia muito bem. Ela estava vestida casualmente, com cal�as jeans e uma camiseta, como John e eu. As crian�as vestiam shorts, e a pele deles brilhava de juventude e sa�de.</p><p>Respirei fundo e disse a eles:</p><p>� Venham aqui, pessoal. Tenho algo a falar para voc�s e quero que voc�s se sentem no meu colo enquanto fa�o isso.</p><p>Estiquei um bra�o para cada um deles.</p><p>Carter, em seus 25 quilos, imediatamente saltou para meu colo e se ajeitou na minha coxa direita, as pernas balan�ando entre as minhas. Em seguida, ele colocou os bra�os em volta de mim. Com apenas 8 anos e meio de idade, n�o percebia nada.</p><p>Mas Chandler se moveu lentamente, com mais cautela.</p><p>� � algu�m doente? � perguntou, nervosa, ajeitando-se sobre minha outra coxa.</p><p>� N�o � respondi suavemente �, ningu�m est� doente.</p><p>� Mas � uma m� not�cia, certo?</p><p>Eu balancei a cabe�a, tristemente.</p><p>� Sim, querida, �. Eu tenho que ir embora por algum tempo, e apesar de n�o ser um tempo muito longo para um adulto, vai parecer uma eternidade para voc�s.</p><p>� Quanto tempo? � perguntou ela, rapidamente.</p><p>Eu apertei os dois, trazendo-os para mais perto.</p><p>� Cerca de dois anos, gatinha.</p><p>Eu vi as primeiras l�grimas brotando nos olhos.</p><p>� N�o! � disse ela, com urg�ncia. � Voc� n�o pode ir embora de novo. Voc� acabou de se mudar! N�o nos deixe!</p><p>Lutando contra as l�grimas, eu disse:</p><p>� Escute, quero que voc�s dois ou�am com aten��o... Muito tempo atr�s, quando eu estava no mercado de a��es, fiz algumas coisas que eram muito erradas, coisas das quais n�o estou orgulhoso agora; um monte de pessoas perdeu todo seu dinheiro por causa disso. Agora, depois de tantos anos, tenho que compensar o que fiz, o que significa que tenho de ir para a cadeia por um tempo e...</p><p>Ela caiu em meus bra�os.</p><p>� Ah, n�o, papai, n�o, por favor... � Chandler come�ou a chorar histericamente.</p><p>Eu tinha l�grimas nos olhos.</p><p>� Est� tudo bem, Channy. � s�...</p><p>E ent�o Carter desmoronou em meus bra�os e come�ou a chorar histericamente.</p><p>� Ah, papai, n�o v�! Por favor...</p><p>Apertei-o mais, enquanto ele chorava em meu ombro.</p><p>� Est� tudo bem � disse, fazendo carinho em suas costas. � Vai ficar tudo bem. � Ent�o, falei para Channy: � N�o se preocupe, gatinha, pode acreditar, voc� nem vai ver o tempo passar.</p><p>A Duquesa saiu de sua poltrona. Ela correu e sentou-se na beira do sof� e abra�ou as crian�as tamb�m.</p><p>� Est� tudo bem, crian�as. Vai... Vai ficar tudo bem.</p><p>Eu olhei para a Duquesa e ela tamb�m estava chorando, suas palavras saindo com min�sculos solu�os. Ent�o comecei a chorar, ao ponto em que John tamb�m se levantou de sua poltrona. Ele veio se sentar na beirada da mesa de caf� e colocou os bra�os ao redor das crian�as tamb�m, tentando consol�-las. Ele n�o estava chorando ainda, mas parecia prestes a fazer isso.</p><p>N�o havia nada a fazer, a n�o ser deixar as crian�as chorarem. Acho que todos n�s sab�amos disso, at� mesmo elas. Havia certa quantidade de l�grimas que precisavam ser derramadas antes que meus filhos conseguissem tentar entender o sentido de tudo aquilo, ou pelo menos aceitar o que estava acontecendo.</p><p>Finalmente, depois de alguns minutos afagando as costas e acariciando os cabelos, falando sobre os dias de visita e sobre como eles ainda poderiam conversar comigo pelo telefone e escrever cartas, eles come�aram a se acalmar. Ent�o, tentei explicar como tudo aquilo tinha acontecido, como tinha come�ado a Stratton muito jovem e como logo tudo rapidamente tinha sa�do do controle. Ent�o eu disse:</p><p>� Muito do que aconteceu tinha a ver com drogas, que me deixaram fazer coisas que eu nunca faria normalmente. � muito importante que voc�s dois aprendam com os erros do papai, porque, quando ficarem mais velhos, voc�s poder�o se ver em uma situa��o em que as pessoas estar�o usando drogas e dizendo como � legal e como voc�s se sentiriam bem e todo esse tipo de coisa. Na verdade, essas pessoas podem at� mesmo tentar for��-los a usar drogas, o que pode ser a pior coisa de todas � balancei a cabe�a, seriamente. � E, se isso acontecer, eu quero que voc�s pensem no papai e em todos os problemas que as drogas causaram a ele e como elas quase o mataram uma vez. Ent�o voc�s v�o saber que n�o devem usar, tudo bem?</p><p>Ambos assentiram e disseram que sim.</p><p>� �timo, porque � muito importante para mim que voc�s entendam isso, porque vai fazer com que o tempo em que eu estiver longe de voc�s passe mais r�pido, sabendo que entenderam � parei por um momento, percebendo que eu lhes devia mais que uma explica��o alegando insanidade b�sica centrada no abuso de drogas. � Bem, havia outras raz�es pelas quais cometi esses erros e, por mais que n�o sejam t�o graves quando as drogas, tamb�m s�o muito ruins. O que aconteceu com o papai foi que eu cresci sem ter tanto dinheiro, ao contr�rio de voc�s � fiz um gesto para a parede de vidro, com sua deslumbrante vista para o Pac�fico �, e eu realmente queria ser rico. Ent�o eu cortei alguns caminhos, o que me fez ganhar dinheiro rapidamente. Voc�s entendem o que isso quer dizer?</p><p>Carter balan�ou a cabe�a negativamente. Chandler disse:</p><p>� Voc� roubou dinheiro?</p><p>Fiquei at�nito. Olhei para a Duquesa, e ela mantinha os l�bios comprimidos, como se estivesse tentando evitar uma risadinha. Olhei para John, que deu de ombros, como se dissesse: �Ela � sua filha!�. Ent�o olhei para Chandler.</p><p>� Bem, eu n�o diria que realmente roubei dinheiro, Channy, porque n�o foi bem assim. Deixe-me dar um exemplo: vamos supor que sua amiga telefonou e disse que tinha um brinquedo muito legal que ela queria comprar e lhe pediu para dividir com ela. Voc� topou fazer isso e lhe deu metade do dinheiro, porque sua amiga disse que aquele era o melhor brinquedo do mundo. Mas depois, mais tarde, voc� descobriu que o brinquedo n�o custou tanto quanto ela disse que custaria e que ela usou seu dinheiro para comprar doces, que ela nem sequer dividiu com voc� � balancei a cabe�a gravemente. � Voc� v� o que eu quero dizer? N�o seria ruim?</p><p>Chandler concordou em tom acusador.</p><p>� Ela me roubou!</p><p>� Sim � acrescentou Carter. � Ela roubou!</p><p>Inacredit�vel!, pensei. Sim, talvez eu tivesse roubado, mas pelo menos tinha feito isso com um pouco de brio! Quer dizer, eu n�o tinha usado uma arma nem nada! Mas como � que eu ia explicar t�ticas de venda de alta press�o e manipula��o de a��es para meus filhos?</p><p>A Duquesa entrou na conversa:</p><p>� Bem, � um pouco como roubo, mas a diferen�a � que quando voc� � mais velho, como seu pai ou eu, deveria saber que n�o pode enviar seu dinheiro a estranhos para comprar brinquedos, sabe? Ou seja, voc� deveria assumir a responsabilidade por suas pr�prias a��es. Entenderam?</p><p>� Sim � eles responderam em un�ssono, embora eu n�o tivesse tanta certeza de que fosse verdade. De qualquer forma, eu estava feliz porque a Duquesa tinha feito um esfor�o.</p><p>Houve algumas l�grimas mais � noite, mas o pior j� tinha passado.</p><p>N�o tendo outra escolha, as crian�as rapidamente se resignaram com o fato de que me veriam apenas nos dias de visita, durante um tempo. No final, meu �nico consolo foi que, naquela noite, acabei adormecendo do jeito que eu queria, com Chandler e Carter em meus bra�os. E, claro, eu tinha mantido a promessa � minha filha e me mudado para a Calif�rnia.</p></section><section><p>EP�LOGO</p><p><strong>A TERRA DOS MULLETS</strong></p><p>Por que todos esses mullets?</p><p>Esse n�o foi o primeiro pensamento que tive ao entrar no pr�dio de tijolos da administra��o do Instituto Correcional Taft, mas foi quase o primeiro. Meu primeiro pensamento foi que o edif�cio at� parecia bastante tranquilo. A �rea de recep��o era aberta e arejada, com um teto muito alto, algumas <emphasis>muitas</emphasis> bandeiras americanas e uma pequena sala de estar com cadeiras estofadas de um lado. Dois guardas uniformizados, um de cada sexo, estavam sentados atr�s de uma grande mesa de f�rmica na recep��o, parecendo mais entediados que qualquer coisa.</p><p>Curiosamente, ambos ostentavam mullets.</p><p>O mullet do homem era composto de um cabelo marrom-avermelhado que tinha a consist�ncia de palha de a�o. Era bem alto em cima, elevando-se uns bons 3 cent�metros acima de seu cr�nio moreno, e muito esticado nos lados. No entanto, na parte de tr�s, o mullet era t�o fino quanto cabelo de milho e descia alguns bons cent�metros abaixo do colarinho da camisa cinza-claro de seu uniforme de guarda. O mullet da mulher era de constru��o semelhante, embora seu cabelo fosse loiro abacaxi e muito mais comprido na parte de tr�s.</p><p>Eu tinha investigado um pouco na semana anterior e algu�m que �sabia das coisas� (ou seja, um antigo convidado) me disse que eu deveria aparecer vestindo moletom cinza, camiseta branca e t�nis brancos. Qualquer outra coisa seria confiscada e enviada de volta para minha fam�lia em uma caixa. A �nica exce��o era uma raquete de t�nis, que eu poderia levar comigo. Ele recomendou que eu fizesse isso, porque as raquetes oferecidas eram de qualidade duvidosa.</p><p>Foi por essa raz�o que, precisamente �s 11 horas da manh� de sexta-feira, 2 de janeiro de 2004, entrei no pr�dio da administra��o vestindo um agasalho cinza e carregando uma raquete de t�nis nova debaixo do bra�o direito.</p><p>� Eu sou Jordan Belfort � disse para os dois mullets da entrada. � Estou aqui para come�ar a cumprir minha pena.</p><p>� Bem-vindo ao Taft � disse a mullet f�mea em um tom surpreendentemente amig�vel. � Sente-se ali � ela fez um gesto em dire��o � sala de estar. � Algu�m vir� busc�-lo em alguns minutos.</p><p>Depois de uns minutos, um terceiro guarda surgiu. Ele era baixo, atarracado e de apar�ncia simples, com quadris largos e com o tipo de marcha pesada que denota baixa intelig�ncia. Ele usava o mesmo uniforme cinza dos outros guardas, embora o dele parecesse mais fortemente acolchoado. Em sua m�o direita havia uma prancheta. Em seu cr�nio estreito havia um mullet castanho-claro que parecia exuberante o suficiente para abrigar um ninho de passarinho. Ele olhou para a prancheta e disse:</p><p>� Voc� que � o Belfort?</p><p>� Sim � respondi, observando o fato de que eu n�o era mais o senhor Belfort ou mesmo Jordan Belfort. Eu era simplesmente Belfort.</p><p>� Tudo bem � disse ele, cansado. � Siga-me, Belfort.</p><p>O guarda me levou por uma s�rie de portas de a�o, a �ltima das quais se fechou atr�s de mim com um <emphasis>clank</emphasis> sinistro. A mensagem impl�cita era: �Voc� agora � um prisioneiro, tudo o que conhecia do mundo exterior se foi�. Ent�o entramos em uma pequena sala sem janelas, sem mesa, sem cadeiras, no fundo da qual havia uma grande cortina branca pendurada no teto.</p><p>� Qual � o lance da raquete de t�nis? � perguntou o guarda.</p><p>� Como vou para o Acampamento, me disseram que eu poderia trazer uma raquete de t�nis comigo.</p><p>� N�o mais, eles mudaram as regras h� alguns anos. � Ele olhou para a prancheta por um momento, depois virou-se e disse: � Voc� tem certeza de que est� indo para o Acampamento? Consta aqui que voc� est� indo para o Inferior.</p><p>O Taft tinha duas instala��es separadas: o Inferior e o Acampamento. O Inferior alojava detentos de verdade, enquanto o Acampamento abrigava... Campistas, como diz a palavra. Embora o Inferior n�o fosse ocupado por assassinos e estupradores, ainda tinha seu quinh�o de viol�ncia; o Acampamento, no entanto, n�o tinha nenhuma viol�ncia. Na verdade, ele n�o tinha nem mesmo uma cerca em torno dele, voc� ficava alojado l� na base da palavra de honra e podia sair a qualquer momento.</p><p>Tentando manter a calma, eu disse:</p><p>� Eu tenho certeza de que estou designado para o Acampamento, o juiz recomendou ao dar minha pena e...</p><p>Ele deu de ombros, indiferente.</p><p>� Voc� pode discutir isso com seu conselheiro aqui. D�-me seus t�nis.</p><p>� Meus t�nis? � Olhei para meus t�nis Nike novos. � O que h� de errado com meus t�nis?</p><p>� Eles t�m uma tarja vermelha. Apenas t�nis brancos simples s�o permitidos. N�s vamos envi�-los de volta para sua fam�lia, juntamente com sua raquete. Agora v� para tr�s da cortina e tire a roupa.</p><p>Eu fiz como me foi dito e, dois minutos mais tarde, depois de puxar e olhar atr�s de minhas orelhas, correr os dedos por meu cabelo, abrir minha boca, rolar minha l�ngua, levantar um p� e depois o outro e, finalmente, levantar meu porta-nozes (como o guarda se referiu a ele), ele me devolveu o agasalho cinza e ordenou que me vestisse. Depois, entregou-me um par de chinelos de lona azul, o tipo que Mao dava aos dissidentes pol�ticos ao entrar em um de seus campos de reeduca��o.</p><p>� Sua conselheira � a senhora Richards<sup>1</sup> � disse o guarda. � Ela vai chegar daqui a uma hora. At� l�, sinta-se � vontade.</p><p>Suas �ltimas palavras sa�ram com uma saud�vel dose de ironia; afinal, n�o havia nada no quarto onde eu pudesse sentar, a n�o ser o ch�o de lin�leo barato. Ent�o ele saiu, fechando a porta atr�s de si.</p><p>Mantenha a calma!, pensei. N�o havia nenhuma maneira de eles me manterem no Inferior. Eu pertencia ao Acampamento! N�o tinha hist�rico de viol�ncia e era um r�u prim�rio. Eu tinha at� cooperado com o governo!</p><p>Trinta minutos depois, a porta se abriu e entrou minha conselheira, a senhora Richards. Ela era enorme, com cerca de 1,80 metro de altura, os ombros de um jogador de defesa de futebol americano e as caracter�sticas carnudas de um shar-pei. Seu mullet castanho-escuro parecia ter 1 quil�metro de altura. Estava usando roupas casuais, jeans azuis e um blus�o azul-escuro. Seus p�s estavam cal�ados com botas militares pretas.</p><p>Antes que ela tivesse chance de dizer qualquer coisa, eu me levantei do piso de lin�leo e disse:</p><p>� Senhora Richards, eu tenho um problema s�rio aqui: o guarda me disse que eu estou indo para o Inferior, mas eu fui designado para o Acampamento. O juiz recomendou isso na minha senten�a.</p><p>Ela me deu um sorriso amig�vel, expondo um par de incisivos centrais t�o severamente sobrepostos que faziam-na parecer um gigantesco Snaggletooth<sup>*</sup>. Senti um arrepio na espinha.</p><p>A Snaggletooth me falou em um tom bastante alegre:</p><p>� O.k., bem, vamos ver se a gente consegue resolver isso. Siga-me.</p><p>E at� que a Snaggletooth se mostrou ser algu�m bastante agrad�vel. Ela me levou at� uma pequena sala de entrevistas, onde passou alguns minutos olhando meu arquivo. Por fim, ela disse:</p><p>� Eu tenho uma boa not�cia para voc�, Belfort, voc� de fato se qualifica para o Acampamento.</p><p>Gra�as a Deus!, pensei. Eu era, na verdade, material campista. Sempre soube disso. A troco de qu� fiquei preocupado, porra? Mas que bobagem a minha.</p><p>Ent�o:</p><p>� Espere! Falei muito cedo!</p><p>Uma nova onda de p�nico.</p><p>� O que h� de errado agora?</p><p>� Seu oficial da condicional n�o nos enviou o relat�rio pr�-senten�a. N�o posso colocar voc� no Acampamento at� que eu o revise. O relat�rio tem todas as informa��es sobre seu caso.</p><p>Perto do p�nico, falei:</p><p>� Ent�o voc� est� me botando no Inferior?</p><p>� N�o, n�o � respondeu ela, fazendo seu sorriso Snaggletooth. � N�o vou coloc�-lo no Inferior; vou coloc�-lo no Buraco.</p><p>Meus olhos saltaram das �rbitas occipitais, como se fossem cabides de chap�us.</p><p>� Voc� est� me colocando no Buraco? Num confinamento, como uma solit�ria?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a lentamente.</p><p>� Sim, mas s� at� sua papelada chegar aqui. N�o deve demorar mais de uma semana.</p><p>P�nico e mais p�nico.</p><p>� Uma semana? Como � que pode levar uma semana para minha papelada chegar at� aqui? Eles n�o podem apenas enviar um fax sobre isso?</p><p>Ela apertou os l�bios e negou com um aceno de cabe�a.</p><p>� Ah, meu Deus � murmurei. � Uma semana no buraco. N�o � justo.</p><p>Snaggletooth concordou e disse:</p><p>� Pois �, bem-vindo ao Taft, Belfort.</p><empty-line/><empty-line/><p>PRIMEIRO, ELES PEGARAM minhas roupas e me entregaram um macac�o laranja, ent�o me deram os chinelos de reeduca��o e me pediram para colocar as m�os nas costas, para que pudessem bater as algemas em meus pulsos, que foi o que fizeram, com um sorriso.</p><p>�Eles� eram dois guardas uniformizados da Unidade Especial de Isolamento, mais conhecida como Buraco. Ficava nas entranhas mais profundas do pr�dio da administra��o, uma �rea da pris�o onde ficavam alojados os casos mais graves. Algemado e em p�nico, fui escoltado por um corredor longo e estreito com sinistras portas de a�o de ambos os lados.</p><p>N�o surpreendentemente, �eles� eram de uma ra�a totalmente diferente dos af�veis mullets da recep��o (<emphasis>e nenhum deles exibia mullets!</emphasis>). Eles eram anormalmente altos, muito musculosos e tinham aquele tipo de mand�bulas superdesenvolvidas que indicavam abuso de esteroides acoplado a uma predisposi��o gen�tica para a viol�ncia. Enquanto percorr�amos o caminho pelo Buraco, nenhuma palavra foi trocada, a n�o ser um coment�rio passageiro que eu fiz sobre ser jogado na solit�ria n�o por ter feito algo de errado, mas simplesmente por um desses casos de documentos perdidos ou coisa assim (de forma que eles facilitassem as coisas para mim). A isso, ambos deram de ombros, como quem diz: �Quem se importa?�.</p><p>Os guardas pararam e abriram uma das portas de a�o.</p><p>� D� um passo para dentro � ordenou um deles. � Depois que a porta for fechada, voc� enfia suas m�os atrav�s da abertura na porta e n�s tiramos as algemas.</p><p>Dizendo isso, eles me empurraram para dentro da cela, que era incrivelmente min�scula, talvez com 1,90 metro por 4 ou pouco mais. Duas beliches de a�o estavam cravadas em uma das paredes, um conjunto de assento e mesa de a�o cravado na outra e um vaso sanit�rio de a�o, sem assento, estava � direita, bem � vista de quem olhasse. Uma pequena janela, coberta por barras de ferro, dava para um campo empoeirado. A cama de baixo era ocupada por outro preso, um homem de meia-idade, branco, com a pele de algu�m privado de sol h� muito tempo. Ele estava ocupado escrevendo e, para minha surpresa, ostentava o mullet mais fabuloso de todos. Na verdade, era espetacular, composto de cabelo encaracolado vermelho t�o baixo no topo da cabe�a que voc� poderia us�-la como um prato. No momento em que os guardas fecharam a porta, ele saiu da cama e me perguntou:</p><p>� O que aconteceu? O que eles dizem que voc� fez?</p><p>� Nada � respondi. � Eu me entreguei e eles perderam minha papelada.</p><p>Ele revirou os olhos.</p><p>� Isso � o que eles sempre dizem.</p><p>� Como assim, o que voc� quer dizer com isso?</p><p>� Eu quero dizer que eles fazem dinheiro extra jogando as pessoas no Buraco. Taft n�o faz realmente parte do Bureau de Pris�es, eles s�o uma corpora��o privada, que visa a lucro. Voc� sabia disso, n�o?</p><p>Assenti com a cabe�a.</p><p>� Sim, � propriedade da Corpora��o Wackenhut.</p><p>� Exatamente � disse ele. � Para cada dia que voc� passa no Buraco, Wackenhut cobra do governo mais 100 d�lares. Enfim, sou Sam Hausman<sup>2</sup>. � Ele estendeu o punho fechado em dire��o a mim para um aperto de m�o da pris�o.</p><p>� Jordan Belfort � respondi, batendo as juntas dos meus dedos nas dele. � E voc�, est� no Buraco por qual motivo?</p><p>� Entrei com pedido de penhora da casa do diretor da pris�o e da casa de alguns guardas tamb�m.</p><p>Meus olhos quase saltaram para fora de meu cr�nio.</p><p>� Voc� entrou com um pedido de penhora da casa do diretor? Por que voc� faria isso?</p><p>Ele deu de ombros casualmente.</p><p>� Eu tenho meus motivos. Fiz o mesmo contra o juiz que me condenou. E o promotor tamb�m. Basicamente, destru� o cr�dito deles. E agora estou come�ando o processo de aliena��o desses bens. E voc�, est� na pris�o a troco de qu�?</p><p>Meu Deus, aquele mullet era insano!</p><p>� Manipula��o de a��es. Um monte de outras coisas tamb�m. Tudo de colarinho branco. E voc�?</p><p>Conscientemente, ele me disse:</p><p>� Eu n�o fiz nada, sou inocente.</p><p>Nossa, que surpresa!, pensei.</p><p>� Bem, o que eles <emphasis>dizem</emphasis> que voc� fez?</p><p>� Eles dizem que dei cheques sem fundo, mas isso � mentira. Eu posso escrever todos os cheques do jeito que eu quiser, independentemente de quanto dinheiro h� na minha conta. Essa � a lei.</p><p>� Ah, � mesmo? Por que isso? � perguntei.</p><p>� Porque o governo roubou minha certid�o de nascimento no dia em que nasci e escondeu em algum cofre em Porto Rico. Em troca, eles me deram um laranja chamado SAM HAUSMAN, sim, em letras mai�sculas, n�o o leg�timo Sam Hausman, em letras min�sculas. Quem eu realmente sou: Sam Hausman, em letras min�sculas.</p><p>Ele caminhou at� sua cama, que estava a menos de 1 metro de dist�ncia, e me entregou um livro intitulado <emphasis>Reden��o pela lei</emphasis>.</p><p>� Acredite em mim � disse ele �, depois que terminar de ler este livro, voc� vai entrar com pedidos de penhora contra o diretor, tamb�m. Entenda uma coisa: voc� n�o � nada mais que um escravo, Jordan. Voc� precisa recuperar seu laranja, n�o h� outra maneira.</p><p>Eu balancei a cabe�a e aceitei o livro. Ent�o, para tirar uma com aquele maluco, perguntei:</p><p>� E o que dizer do pessoal do Imposto de Renda? Qual � a hist�ria com eles?</p><p>Ele sorriu conscientemente.</p><p>� A Receita Federal nem mesmo existe; de fato, se voc� encontrar uma lei que seja na Constitui��o dos Estados Unidos autorizando a Receita Federal a cobrar impostos, eu raspo a cabe�a. � <emphasis>Voc� quer dizer, corta os mullets.</emphasis> � Existe apenas uma emenda que faz men��o aos impostos, e ela nunca foi ratificada � com isso, ele estendeu a m�o para uma pilha de pap�is em sua cama e me entregou um que estava no topo. � Esta � uma lista de todos os senadores norte-americanos que ratificaram a 14<sup>a</sup> Emenda. V� em frente e conte: voc� ver� que n�o � suficiente para obter uma maioria leg�tima.</p><p>Assenti com a cabe�a e peguei meu material de leitura, subindo para o beliche de cima. Passei os dias seguintes aprendendo tudo o que havia para saber sobre resgatar meu laranja. Quando eu n�o estava lendo sobre isso, Sam estava falando sobre isso, enquanto refei��es pouco comest�veis eram deslizadas atrav�s de uma pequena abertura na porta de a�o, tr�s vezes ao dia. Sam insistia que qualquer coisa que eu n�o comesse devia ser jogada na privada, incluindo ma��s meio comidas e pacotes fechados de ketchup. Afinal, os malfeitores da Wackenhut reciclavam tudo o que sobrava, em uma tentativa de cortar custos.</p><p>A cada manh�, Sam sorria e dizia:</p><p>� � hora de alimentar o diretor!</p><p>Ent�o ele fazia um n�mero dois fenomenal e soltava a descarga com um aceno de cabe�a.</p><p>Consegui escrever duas cartas por dia, uma para Chandler e outra para Carter. Decidi que seria melhor mentir para eles, dizendo-lhes como o Acampamento era maravilhoso e que eu estava jogando t�nis todos os dias e me exercitando no gin�sio. A �nica raz�o pela qual eu ainda n�o tinha telefonado era que demorava um pouco para conseguir ter uma conta de telefone.</p><p>E enquanto um dia se misturava ao seguinte, Sam me passou tudo sobre o Acampamento, que era, de fato, um lugar confort�vel para se cumprir a pena. Por uma taxa nominal, explicou ele, eu poderia viver como um rei; cozinheiro, mordomo, empregado, massagista e algu�m para fazer o trabalho que me tivesse sido determinado, tudo isso poderia ser assegurado por um custo mensal de menos de mil d�lares, pagos em selos, cigarros ou comida que eu tivesse comprado na intend�ncia ou, ainda, ao pedir que um de meus amigos do lado de fora fizesse uma ordem de pagamento para a conta de outro detento. Embora esta �ltima estrat�gia fosse um pouco contra as regras, todos estavam fazendo isso, ele assegurou.</p><p>Finalmente, na manh� de meu 7<sup>�</sup> dia na solit�ria, a porta de a�o se abriu e eu ouvi as palavras mais gloriosas do mundo:</p><p>� De p�, Belfort. � hora de ir para o Acampamento.</p><p><emphasis>Gra�as a Deus</emphasis>, pensei, quase deixando escorrer l�grimas. Pulei do beliche de cima com a velocidade de um coelho e me virei para Sam, dando uma �ltima olhada para seu mullet de tirar o f�lego:</p><p>� Boa sorte no resgate de seu laranja.</p><p>Ele piscou.</p><p>� Esses cretinos est�o exatamente onde queria que estivessem.</p><p>Realmente � o que parece, pensei.</p><p>Ent�o eu sa� da cela.</p><empty-line/><empty-line/><p>� VOU ENFIAR ISSO aqui em sua garganta � latiu Tony, o negociante de metanfetaminas, que ainda tinha que cumprir cinco anos de sua pena de oito.</p><p>� V� em frente e tente � lati de volta. � Vai voltar direto para voc�.</p><p>Duas horas mais tarde, Tony, o negociante de metanfetaminas, estava de p� a aproximadamente 15 metros de mim, do outro lado da rede de t�nis. Era um dia ameno de inverno, com sol, 15 graus, e era a vez do saque de Tony. Eu fazia o m�ximo para manter os olhos sobre ele, mas estava dif�cil. Afinal, tinha muita coisa acontecendo no Acampamento. Atr�s de Tony havia um campo de futebol, onde um jogo acontecia; � sua direita havia uma quadra de basquete, onde um jogo tamb�m estava em andamento, e perto da quadra de basquete ficava um campo gramado onde duas dezenas de mexicanos estavam sentados em mesas de piquenique de madeira, enrolando tacos e burritos para uma festa na sexta-feira � noite.</p><p>E isso era s� o come�o: atr�s de mim havia um campo de beisebol; � minha direita, uma pista de atletismo, um po�o de ferradura, uma quadra de v�lei e uma cancha de bocha de terra vermelha; � minha esquerda, mais distantes, estavam as trilhas de concreto que levavam a um punhado de pr�dios baixos de concreto � o sal�o de jantar, a sala de recrea��o, a biblioteca, os quartos, a sala de m�sica, a enfermaria e o edif�cio da administra��o do campo. Dispersas ao longo do per�metro, havia pequenas placas brancas � <emphasis>Fora dos limites</emphasis> � e, ao longe, depois das placas, estavam as plan�cies poeirentas da cidade de Taft, limitada por uma inexpressiva serra.</p><p>De repente, uma voz potente veio pelo alto-falante:</p><p>� Contagem! Hora da contagem! Todos voltem para a unidade para a contagem das 4 da tarde.</p><p>Eu estava prestes a largar minha raquete quando notei que nenhum dos outros campistas estava prestando aten��o ao an�ncio; em vez disso, continuaram fazendo o que estavam fazendo. S� quando veio o segundo an�ncio, 10 minutos depois, eles come�aram a se mexer. A unidade era um grande espa�o, aproximadamente do tamanho de um campo de futebol. Ela estava cheia de cub�culos de concreto, delimitada de um lado por banheiros, do outro por salas de TV e quartos e em frente por uma meia d�zia de escrit�rios da administra��o, onde a equipe fingia trabalhar.</p><p>Entrei na unidade e caminhei por um corredor estreito em dire��o ao beliche 12-Inferior. Em ambos os lados do corredor havia pequenos cub�culos, cada um com talvez 3 por 5 metros. Assim como no Buraco, eles continham apenas o essencial: dois beliches, dois arm�rios e um conjunto de a�o de assento e mesa, soldados ao ch�o de concreto cinza.</p><p>Logo que cheguei, encontrei-me rapidamente com meu novo colega de beliche, que parecia um cara decente (a t�pica variedade de revendedor de drogas). Ele era baixo, atarracado, de cabelos e olhos escuros, e tinha sempre uma express�o sombria. Seu nome era Mark e, com exce��o de seus dois dentes da frente, que estavam faltando, parecia razoavelmente saud�vel. Naquele momento, ele estava deitado em sua cama, lendo um livro. Ele prestou pouca aten��o em mim quando entrei no cub�culo e me sentei junto � mesa de a�o.</p><p>Ouvi uma �gil voz feminina:</p><p>� Ei, Belfort!</p><p>Olhei para cima e: <emphasis>um choque</emphasis>! Havia uma pessoa sexy na entrada do cub�culo, olhando para mim. Ela n�o devia ter mais que 1,65 metro e tinha cabelos castanhos, que descansavam sobre um par de ombros delicados e estavam puxados para tr�s, como os de uma l�der de torcida, acentuando seus alegres pequenos seios. Parecia ter por volta de 30 anos e usava uma camisa rosa para fora da cal�a e jeans Levis apertados. No mundo l� fora eu n�o a teria caraterizado como maravilhosa, mas ali dentro parecia mais sexy que uma modelo da Victoria�s Secret.</p><p>Ela disse:</p><p>� Sou sua conselheira, senhorita Strickland.</p><p>O que aconteceu com a Snaggletooth?, pensei.</p><p>� O que aconteceu com a senhora Richards? � perguntei.</p><p>� Ela estava me substituindo na semana passada � ela olhou para mim por um momento e disse: � Bem, voc� n�o parece um cara que roubou 100 milh�es de d�lares. At� que parece bem inocente.</p><p>� Sim, j� ouvi isso antes, mas sou definitivamente culpado do que fui acusado.</p><p>Com uma risada, ela continuou:</p><p>� A gente n�o ouve isso muitas vezes por aqui! Todo mundo � inocente em Taft. Na verdade, por falar nisso, como foi sua semana no Buraco, com Sam Hausman?</p><p>� Ele � um man�aco! Ele tamb�m entrou com um processo de penhora contra voc�?</p><p>Ela come�ou a rir.</p><p>� N�o, mas sou minoria por aqui; ele fez isso contra praticamente todos os outros. Eu acho que ele gosta de mim � e encolheu os ombros. � Enfim, estou mudando voc� depois da contagem, seu novo beliche � o 42-Inferior. � o cub�culo de Chong.</p><p>� Tommy Chong, o ator?</p><p>� Sim, achei melhor deixar voc�s dois no mesmo lugar. Vai ser mais f�cil manter os olhos em voc�s.</p><p>Com isso, a senhorita Strickland sorriu e saiu sem dizer uma palavra.</p><p>Eu tinha ouvido falar que Tommy Chong estava no Taft cumprindo pena por causa de uma acusa��o rid�cula de vender <emphasis>bongs</emphasis><sup>*</sup> pela internet. Do pouco que eu sabia sobre o caso, era uma interpreta��o rid�cula da justi�a. Na verdade, a venda de narguil�s ou <emphasis>bongs</emphasis> n�o era nem mesmo ilegal, mas ele tinha vendido pela internet (e assim atravessado as fronteiras dos estados) e violado a lei. Em consequ�ncia, tinha recebido uma pena de 10 meses.</p><p>Eu resisti � vontade de calcular comparativamente a justi�a de nossas duas condena��es; afinal, se vender <emphasis>bongs</emphasis> se traduzia em 10 meses na cadeia, ent�o como deveria se traduzir o roubo de 100 milh�es de d�lares de milhares de investidores, os milh�es de d�lares transferidos ilegalmente para a Su��a e os atos de deprava��o que desafiavam as leis do homem e de Deus? Cerca de 10 mil anos, imaginei.</p><p>� Que merda que � isso! � reclamou meu colega de cela.</p><p>� O que � uma merda?</p><p>� Pessoas como voc� receberem tratamento especial por aqui.</p><p>� Como assim? Do que est� falando?</p><p>Meu colega encolheu os ombros.</p><p>� Eu n�o estou dizendo que � culpa sua, mas estou aqui h� 19 meses e a �nica vez em que Strickland me dirigiu a palavra foi pra me mandar arrumar a cama. No entanto, voc� est� aqui s� h� algumas horas e ela vem pulando em sua camisa rosa e muda voc� para Tommy Chong. Veja: ela nem vai mand�-lo para a cozinha, como faz com qualquer outro detento rec�m-chegado. Aposto como vai fazer de voc� um cara para limpar a grama ou coisa assim, os melhores trabalhos daqui. � Ent�o, em um tom amig�vel: � Enfim, tudo bem, o que eu realmente gostaria de fazer � ser seu cara na lavanderia. Eu vou cobrar 2 d�lares por semana, al�m de outros 50 centavos pelo amaciante. Voc� pode me pagar tanto em selos quanto em latas de atum, o que ficar mais f�cil para voc�.</p><p>� Tudo bem � respondi. � Eu pago em atum.</p><p>E veio ent�o uma forte voz masculina da frente da unidade.</p><p>� Hora da contagem! Hora da contagem! Todos de p� para a contagem das 4 da tarde.</p><p>Mark saiu da cama e ficou de p� na frente do cub�culo, assim como eu. Um sil�ncio tomou conta da unidade.</p><p>Alguns momentos depois, dois guardas vieram andando em um passo excessivamente r�pido, olhando enquanto passavam. Os passos eram t�o r�pidos que eu tinha certeza de que n�o tinham nos contado, eles s� presumiram que est�vamos todos ali. Enfim, alguns minutos mais tarde, a mesma voz potente gritou �Certo!�, o n�vel de ru�do aumentou de novo e os campistas come�aram a passear pela unidade, como se fossem atletas em um vesti�rio.</p><p>Com um toque das juntas dos punhos fechados, me despedi de meu cara na lavanderia e me dirigi pelo corredor estreito para o 42-Inferior. Quando cheguei ao cub�culo, encontrei Tommy sentado em sua cama, passando os olhos por uma pilha de cartas. Ele era muito mais bonito do que eu me lembrava de seus filmes, embora eu estivesse sempre t�o chapado quando assistia a eles que bem poderia ter sido uma alucina��o. Ele era magro e bronzeado, com cabelos grisalhos prateados e uma bem aparada barba da mesma cor.</p><p>� Tommy... � disse eu.</p><p>Ele olhou para cima e sorriu.</p><p>� �. Jordan, certo?</p><p>Eu assenti com a cabe�a e n�s apertamos as m�os da forma tradicional, ou seja, sem dedos batendo. Ent�o, passamos os minutos seguintes em conversas � toa. Aparentemente, as not�cias viajavam r�pido por ali, porque Tommy parecia saber muito sobre meu caso, assim como eu sabia sobre o dele.</p><p>� Quer dizer que eles fizeram aquele filme, <emphasis>O primeiro milh�o</emphasis>, sobre voc�? � perguntou ele.</p><p>� Na verdade, n�o � respondi. � � vagamente baseado na empresa que eu tinha, mas foi escrito a partir da perspectiva de um funcion�rio de n�vel muito baixo. Ele nem sequer come�ou a contar a hist�ria. Quer dizer, tem a cena em que eles pegam o �nibus para Atlantic City...</p><p>E, enquanto eu explicava os muitos furos do filme, minha mente come�ou a andar por dois caminhos.</p><p>No primeiro, as palavras foram saindo automaticamente:</p><p>� ... E eu posso jurar que meus corretores nunca pegaram um �nibus. Na verdade, se eles pegassem �nibus, seriam apedrejados at� a morte caso isso fosse descoberto. A gente s� usava limusines e jatinhos executivos...</p><p>E no segundo caminho, meu mon�logo interno foi: <emphasis>Porra, n�o posso acreditar como Tommy Chong � diferente do que eu imaginava. � s� olhar para a cara dele enquanto estou contando minha antiga vida de insanidade. Eu poderia jurar que tudo isso seria natural para ele, mas ele realmente parece chocado com minha deprava��o!</emphasis></p><p>S� ent�o outro preso apareceu na entrada do cub�culo. Ele tinha uns 50 anos e parecia uma vers�o detonada de Robin Williams. Ostentava uma barba grisalha ondulada e suficientemente exuberante para uma fam�lia de pardais morar. Com formalidade exagerada, ele disse:</p><p>� Senhor Belfort, sou David, humildemente a seu servi�o. � Ele se curvou. � Eu gostaria de ser seu mordomo. Eu farei qualquer coisa que me pedir: arrumar sua cama, limpar o cub�culo, trazer-lhe o caf� da manh�, n�o h� tarefa muito grande nem muito pequena. � Ele olhou para Tommy. � O senhor Chong, tenho certeza, vai atestar sobre o profissionalismo de meus servi�os.</p><p>Olhei para Tommy, tentando manter uma cara s�ria.</p><p>� David � um bom homem � disse Tommy. � Voc� deveria contrat�-lo.</p><p>� Quanto �? � perguntei a David.</p><p>� Sete livros por m�s � respondeu ele, com orgulho. � Fa�o um excelente <emphasis>vanilla latte</emphasis>. Eu roubo xarope da cozinha.</p><p>� Claro, por que n�o? � respondi. Afinal, um livro de selos custava apenas 7,20 d�lares. Assim, por 50,40 d�lares, eu teria um verdadeiro mordomo de cadeia. � Voc� pode come�ar amanh�.</p><p>David inclinou-se e, em seguida, foi embora.</p><p>Tommy disse:</p><p>� S� tome cuidado se ele oferecer qualquer alimento cozido. Ele est� na cadeia h� 20 anos e passa a maior parte do dia capturando esquilos; ent�o, deixa marinando em molho de soja e depois cozinha no micro-ondas � deu de ombros. � T�m um sabor muito bom, pelo que ouvi.</p><p>Passei um momento revendo aquela cena na cabe�a e me perguntando como ele conseguia pegar os esquilos. Devia colocar algumas armadilhas, pensei. E ent�o ouvi outra voz:</p><p>� Ei, Jordan?</p><p>Eu olhei para cima e vi um mexicano baixo na entrada.</p><p>� O que foi? � disse eu, com um sorriso.</p><p>� Sou Jimmy, o chefe da arruma��o. A senhora Strickland me disse que voc� vai trabalhar para mim � <emphasis>a boa e velha Sra. Strickland!</emphasis> � Eu suponho que voc� realmente n�o queira trabalhar, certo?</p><p>� Absolutamente n�o � respondi r�pido. � Quanto vai custar?</p><p>� Cem d�lares por m�s, e voc� nunca mais vai encostar no cabo de uma vassoura.</p><p>� Fechado � disse eu. � Como voc� quer ser pago?</p><p>� Pe�a a um amigo do lado de fora que envie uma ordem de pagamento para minha irm� todo m�s. Da� ela enviar� para mim.</p><p>� Muito bem � respondi, e, no momento em que ele se afastou, um sujeito de apar�ncia italiana e com enormes dentes brancos e brilhantes enfiou a cabe�a.</p><p>� Voc� � o Jordan? � perguntou.</p><p>Assenti.</p><p>� Sim, como posso ajud�-lo?</p><p>� Sou Russo, o cara que consegue as coisas por aqui. Eu estava assistindo ao seu jogo de t�nis antes. Voc� � muito bom, mas acho que seria muito melhor com a raquete certa.</p><p>� O que voc� tem?</p><p>� Uma Head, Liquidmetal. Novinha.</p><p>� Quanto �?</p><p>� Setenta e cinco d�lares.</p><p>� Vou lev�-la. Como voc� quer ser pago?</p><p>Ele acenou.</p><p>� N�o se preocupe com isso, a gente v� mais tarde. Voc� e eu vamos fazer um monte de neg�cios juntos, deixe-me buscar a raquete. � Ele se afastou.</p><p>Olhei para Tommy e disse:</p><p>� Mas que lugar maluco � esse aqui!</p><p>� Ah, voc� n�o tem ideia � ele disparou de volta. � N�o � exatamente o que se chamaria de �cana dura�, rapaz. De fato, � noite, as pessoas d�o uma escapada para os campos ao redor e pegam pacotes de seus amigos, e alguns deles at� encontram as esposas para transar. � totalmente � vontade.</p><p>E de fato era.</p><p>Enquanto Tommy e eu passamos os dias seguintes trocando hist�rias de guerra, um fluxo aparentemente intermin�vel de presos ofereceram seus servi�os para mim. Tinha Miguel, o massagista mexicano (10 d�lares por 60 minutos, sem final feliz); Teddy, o mestre retratista chin�s (por 20 d�lares voc� dava a ele uma foto de seus filhos e ele a recriava na aquarela); Jimmy, o homem de couro caipira (por 75 d�lares ele fazia um livro de bolso estilo caub�i para enviar � sua esposa em casa); Danny, o barbeiro gay (por seis latas de atum ele cortava seu cabelo enquanto tentava esfregar o pau contra seu joelho)... E assim por diante. Claro, havia ainda todos os <emphasis>chefs</emphasis>, que, usando uma combina��o de alimentos comprados na intend�ncia, plantados nos jardins, contrabandeados nos campos e roubados da cozinha, preparavam �timas refei��es no micro-ondas.</p><p>Foi assim que vivi: tudo do bom e do melhor atr�s das grades.</p><p>Mas foi s� depois da quarta noite conversando sobre nossas hist�rias de guerra que Tommy trouxe para a conversa algo que mudaria minha vida para sempre.</p><p>� Eu estive convivendo com malucos � disse ele �, mas voc�, meu caro, ultrapassou todas as medidas. Pedi para minha mulher dar um Google em voc� porque achei que estava cheio de merda e me enrolando, especialmente sobre aquele absurdo de afundar o iate. Quer dizer, isso � estranho! Quem afunda um iate? Mas ela disse que est� tudo na internet.</p><p>� Sim � respondi com uma mistura de tristeza e orgulho. � Acho que vivi uma vida bem ferrada.</p><p>Tommy encolheu os ombros.</p><p>� Pode ser que sim, mas as hist�rias s�o hil�rias, principalmente a maneira como voc� as conta, com todos os apelidos: o Cabe�a Quadrada, o Chin�s, Mad Max, o Sapateiro, especialmente a Duquesa, que gostaria de conhecer um dia.</p><p>Eu sorri.</p><p>� Bem, tenho certeza de que podemos organizar isso daqui a alguns anos. Eu e ela, na verdade, estamos nos dando bem atualmente, nada mais de atirar coisas um no outro.</p><p>Tommy ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Vou lhe dizer o que voc� realmente <emphasis>tem</emphasis> de fazer.</p><p>� O qu�?</p><p>� Escrever um livro.</p><p>Eu comecei a rir.</p><p>� Escrever um livro? Como vou escrever um livro? Eu n�o sei como escrever! Quer dizer, eu posso escrever, mas n�o um livro inteiro. Agora, se for para <emphasis>falar</emphasis>, a�, sim, eu posso fazer. Sou um orador muito bom, isso eu garanto a voc�. Coloque-me em frente a uma sala cheia de pessoas e eu fa�o todo mundo chorar!</p><p>� N�o h� diferen�a � disse ele, confiante. � Escrever � ter uma voz, e voc� tem uma das melhores vozes que eu j� ouvi. Basta escrever sua hist�ria exatamente do jeito que voc� me contou.</p><p>� Tudo bem, vou tentar � respondi.</p><p>Ent�o passei a semana seguinte tentando encontrar um ponto de partida para minha hist�ria. Algumas coisas muito estranhas tinham de fato acontecido durante toda a minha vida. Parecia uma s�rie de eventos bizarros encadeados, um ap�s o outro. Decidi fazer uma lista deles.</p><p>Em pouco tempo, me peguei pensando por que tantas coisas bizarras continuavam acontecendo comigo. Cheguei � conclus�o de que as coisas n�o vinham acontecendo comigo, eu � que as atra�a as coisas para mim. Era como se eu fosse um esganado compulsivo por castigos e puni��es. No topo da lista estava o desastre do iate; na parte inferior, o arremesso de an�es. Decidi, ent�o, come�ar a escrever.</p><p>Com caneta e papel na m�o, sentei em um dos tranquilos quartos e comecei a escrever meu livro de mem�rias. Duas semanas depois, ainda estava no primeiro par�grafo. Eu li aquilo para mim mesmo. Depois li de novo. <emphasis>Nossa, era uma merda!</emphasis> Um monte de baboseiras sobre os homens em suas torres de marfim querendo saltar l� de cima depois da quebra da Bolsa de 1987. Quem dava a m�nima para aquilo? Eu n�o dava. O que havia de errado comigo? Por que n�o conseguia escrever?</p><p>Decidi tomar um rumo diferente: iria falar sobre meus pais e como eles gostavam de comer no mesmo restaurante o tempo todo. Rapidamente escrevi quatro p�ginas. Olhei para elas, estavam de fato muito boas e me apressei a lev�-las a Tommy, para a cr�tica dele.</p><p>� Tudo bem � disse ele, ansioso. � Vamos ver o que temos aqui.</p><p>E ele come�ou a ler, ler... Mas por que n�o estava rindo? Tinha uma �tima piada no primeiro par�grafo e ele tinha passado direto...</p><p>Um minuto depois, ele olhou para cima.</p><p>� Isso � realmente uma merda! � disse.</p><p>� S�rio?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a rapidamente.</p><p>� Ah, sim, � muito ruim. Quer dizer, � absolutamente terr�vel. N�o tem uma �nica qualidade redentora � encolheu os ombros. � Comece de novo.</p><p>� Mas, como, come�ar de novo? Voc� n�o leu o primeiro par�grafo?</p><p>Tommy me olhou diretamente nos olhos e disse:</p><p>� Quem se importa sobre essa coisa do restaurante? � chato pra caralho e normal demais. Deixe-me dizer uma coisa, Jordan. H� duas coisas sobre a escrita que voc� nunca pode esquecer: primeira, tudo gira em torno de conflito. Sem conflito, ningu�m vai se importar. A segunda coisa � <emphasis>o m�ximo de.</emphasis> Voc� sabe o que significa <emphasis>o m�ximo</emphasis>?</p><p>Dei de ombros, ainda ferido pelo desprezo que Tommy havia mostrado pela hist�ria do restaurante.</p><p>Ele disse:</p><p>� Significa que voc� sempre deve escrever sobre o extremo de alguma coisa. O <emphasis>m�ximo</emphasis> disso, o <emphasis>m�ximo</emphasis>daquilo, a garota mais bonita, o cara mais rico, a depend�ncia de drogas mais estrondosa, a mais insana viagem de iate � ele sorriu calorosamente. � Era disso que se tratava sua vida, cara: o <emphasis>m�ximo de voc�</emphasis><emphasis>mesmo</emphasis>. Entendeu o que eu quero dizer?</p><p>Sim, eu tinha entendido, mas n�o conseguia escrever sobre aquilo.</p><p>De fato, por um m�s inteiro, dia e noite, tudo o que fiz foi escrever, e Tommy revisava meu livro e dizia coisas como: �Est� desajeitado, � irrelevante, � chato, est� p�ssimo, horr�vel�. At� que, finalmente, desisti.</p><p>Com o rabo entre as pernas, entrei na biblioteca da pris�o, � procura de um livro para ler. Depois de alguns minutos, tropecei em <emphasis>A fogueira das vaidades</emphasis>. Eu me lembrava vagamente de ter visto o filme e, do jeito como me lembrava, era horr�vel. Ainda assim, tinha algo a ver com Wall Street, ent�o peguei e li os dois primeiros par�grafos... <emphasis>Que total absurdo que era!</emphasis> Quem iria ler aquela porcaria?</p><p>Fechei o livro e olhei para a capa. <emphasis>Tom Wolfe</emphasis>. Quem era esse porra? Por curiosidade, reli os primeiros par�grafos, tentando descobrir o que estava acontecendo. Era muito confuso. Aparentemente estava acontecendo uma revolta, uma revolta interior ou algo assim. Eu continuei lendo, tentando manter o foco. Ele estava falando sobre uma senhora; n�o dava para ver a mulher, mas ele sabia pelo som da voz dela como seria sua apar�ncia: <emphasis>90 quilos! Com a estrutura de um queimador de �leo</emphasis>! Depois de ler isso, deixei cair o livro e comecei a rir alto. E foi assim. Fui fisgado.</p><p>Li o livro todo em um dia, de cabo a rabo, 698 p�ginas, e ri alto o tempo todo. Fiquei encantado. Hipnotizado. N�o s� era o livro mais brilhante que eu j� tinha lido, mas havia algo sobre o estilo de escrita dele que ressoou em minha alma ou, como Tom Wolfe poderia ter colocado, <emphasis>em minha alma, meu cora��o, meu f�gado e meu dorso</emphasis>.</p><p>Juro por Deus, devo ter lido aquele livro uma dezena de vezes, at� que chegou ao ponto em que conhecia cada palavra de cor. E ent�o li de novo, para aprender a gram�tica. Depois paguei a meu cara de confian�a na lavanderia, Mark, o atravessador de drogas (que tamb�m era um leitor �vido), dez latas de atum para que fizesse um pente fino no livro e anotasse cada analogia em um peda�o de papel separado. Ent�o li isso mais de uma vez, at� que fosse capaz de recitar em meu sono. Antes que eu percebesse, uma voz tinha surgido em minha cabe�a: minha voz de escritor. Era ir�nica, desinibida, desagrad�vel, interesseira e muitas vezes desprez�vel, mas, como Tommy explicou, era engra�ada demais.</p><p>No entanto, eu n�o iria realmente escrever minhas mem�rias na pris�o, o que fiz foi aprender a escrever. Na verdade, quando sa� de l�, 20 meses depois, n�o tinha escrito uma �nica p�gina. Era 1<sup>o</sup> de novembro de 2005 e eu estava morrendo de medo. N�o tinha a menor ideia do que pretendia fazer da minha vida. Acho que muitas pessoas come�am a escrever por inspira��o ou por desespero. No meu caso, era desespero. Eu tinha um passado terr�vel e um futuro incerto, e n�o havia maneira de conciliar os dois.</p><p>Ent�o me sentei na frente do laptop e escrevi o que achei que seria a frase de abertura perfeita. Era como eu me sentia enquanto estive na pris�o durante todos aqueles meses e foi como eu me senti em meu primeiro dia em Wall Street. Na verdade, era o que eu sentia naquele mesmo momento, olhando para a tela em branco do computador.</p><p>�<emphasis>Voc� � pior que um balde de merda</emphasis>�, escrevi.</p></section><section><p>* WASP significa �Branco, Anglo-Sax�o e Protestante� (<emphasis>White, Anglo-Saxon and Protestant</emphasis>). Costuma ser usado em sentido pejorativo para designar os norte-americanos de religi�o protestante e ascend�ncia brit�nica que supostamente det�m enorme poder econ�mico, pol�tico e social. (N. T.)</p><p>** <emphasis>Mayflower</emphasis> foi o navio que, em 1620, transportou os primeiros peregrinos da Inglaterra para o Novo Mundo. (N. T.)</p></section><section><p>* Agulha, em ingl�s. (N. T.)</p><p>* A Mulberry Street faz parte do centro do bairro italiano, e a Court Street fica no centro do Brooklyn, bairro onde mora a maior parte da comunidade judaica da cidade de Nova York. (N. T.)</p><p>* A <emphasis>Racketeer Influenced and Corrupt Organizations</emphasis> (RICO) � uma lei de combate a organiza��es corruptas e influenciadas pelo crime organizado que entrou em vigor em 1970 com a finalidade espec�fica de ajudar no combate � m�fia. (N. T.)</p><p><sup>1</sup> O nome foi mudado.</p></section><section><p>* O Medical College Admissions Test (MCAT) � uma prova feita nos Estados Unidos por pessoas que querem entrar na escola de medicina. (N. T.)</p></section><section><p><sup>1</sup> Os nomes foram trocados</p><p><sup>2</sup> O nome foi trocado</p></section><section><p>* No original, uma brincadeira com a express�o <emphasis>cook the book</emphasis> (cozinhar os livros, em tradu��o literal), que significa falsificar os livros cont�beis. (N. T.)</p><p>** As <emphasis>penny stocks</emphasis> s�o a��es com cota��es muito baixas, significando algo como a��es de �centavos�, ou seja, que n�o valem nem 1 d�lar e s�o negociadas aos centavos. (N. T.)</p><p><sup>1</sup> O nome foi trocado.</p><p>* O primeiro navio a trazer os puritanos ingleses aos Estados Unidos. (N. T.)</p><p>* Marca da Procter &amp; Gamble de limpador multiuso lan�ado em 1958, com um personagem em estilo marinheiro, bronzeado, alto e forte, vestindo camiseta regata, al�m de um brinco na orelha esquerda. (N. T.)</p><p><sup>2</sup> O nome foi trocado.</p><p><sup>3</sup> O nome foi trocado.</p></section><section><p>* No original, �<emphasis>Up your nose with a rubber hose</emphasis>�, insulto repetido sempre pelo personagem de John Travolta nesse seriado, muito popular nos Estados Unidos nos anos 1970. O insulto virou um bord�o na �poca. (N. T.)</p><p><sup>1</sup> O nome foi trocado.</p><p><sup>2</sup> O nome foi trocado.</p></section><section><p><sup>1</sup> O nome foi trocado.</p></section><section><p><sup>1</sup> O nome foi trocado.</p></section><section><p>* <emphasis>Fat farm</emphasis>, em ingl�s. A pron�ncia de �Phat� e �fat� s�o iguais em ingl�s, e �fat� quer dizer �gordo� (N. T.)</p></section><section><p>* A pron�ncia de <emphasis>sauce</emphasis> (molho) e <emphasis>source</emphasis> (fonte) podem soar parecidas em ingl�s. (N. T.)</p></section><section><p><sup>1</sup> O nome foi trocado.</p></section><section><p>*<emphasis>Bong</emphasis> , tamb�m conhecido como purificador, � um aparelho de vidro utilizado para fumar qualquer tipo de erva, principalmente maconha, tabaco e derivados. � similar a um narguil�. (N. T.)</p><p><sup>2</sup> O nome foi trocado.</p></section><section><p><strong>Agradecimentos</strong></p><p>Mais uma vez, gostaria de agradecer meu agente liter�rio, Joel Gotler, por todo seu apoio. Ele tem sido muitas coisas para mim ao longo dos anos e acima de tudo, um amigo.</p><p>Eu tamb�m gostaria de agradecer a minha editora, Danielle Perez, por todo seu maravilhoso discernimento. Eu aprendi mais sobre a t�cnica de escrita com Danielle que com todos os meus professores de ingl�s somados, desde o jardim de inf�ncia at� a faculdade.</p><p>E, claro, gostaria de agradecer a meu editor, Irwyn Applebaum, que me ajudou de tantas maneiras que nem consigo cont�-las todas, e tamb�m muitos agradecimentos a Barb Burg, Theresa Zoro e Chris Artis, do departamento de divulga��o da Bantam Dell.</p><p>Muito obrigado a Alexandra Milchan, por trabalhar t�o duro pelo filme e, � claro, a Scott Lambert, que tem sido um amigo e conselheiro. Scotty e Alexandra s�o casados, e que casal eles formam! Sair para jantar com eles � como assistir a dois pistoleiros atirando, embora com BlackBerrys em vez de armas.</p><p>Eu tamb�m gostaria de agradecer a Terry Winter, que leu o manuscrito in�dito e o sugeriu para adapta��o ao cinema antes que houvesse qualquer burburinho. Ele � um escritor absolutamente brilhante. Eu me senti muito confort�vel com ele fazendo a adapta��o do livro, imaginando que a pessoa que tinha feito Tony Soprano parecer simp�tico era o cara certo para mim.</p><p>Tamb�m gostaria de agradecer a meus pais, Max e Leah, por estarem sempre a meu lado; a meus dois maravilhosos filhos, Chandler e Carter, que escolheram respeitar o pai pelo modo como ele vive sua vida agora, e n�o por seu passado; a minha ex-esposa Nadine (a Duquesa), por ser uma m�e maravilhosa e t�o carinhosa; e a mais recente adi��o a minha vida, o pequeno Bowen Boulliane, que ilumina meus dias com todos os seus <emphasis>bowenismos</emphasis>.</p><p>E muito obrigado a meus bons amigos Bo Dietl, Kris Mesner, Michael Peragine, Paulo Scialla, John Flynn, Todd Kissel, Bob e Toni Shottenhammer, Renne e Anne Sandera, Johnny Marine, Marc Glazier, John Macaluso, Javier Perez (o melhor treinador de futebol do mundo), todos os rapazes da Starbucks � Mitch, Dr. Al, Tre e Jim T. �, a Petros, do Petros Restaurant em Manhattan Beach, por todos os momentos em que ocupei sua mesa para escrever este livro, e Milo, do Shade Hotel, pela mesma raz�o. E, claro, para todos os meus f�s que compraram o Lobo 1, principalmente os que me escreveram cartas de encorajamento. Elas foram muito importantes para mim.</p><p>E, por �ltimo, eu gostaria de agradecer a influ�ncia mais positiva em minha vida, George Benedict, que, por puro exemplo, me mostrou que um leopardo pode definitivamente mudar suas manchas. N�o h� uma s� pessoa em minha vida que tenha sido t�o bom comigo e t�o solid�rio.</p></section><section><empty-line/><p>Nos agitados anos 1990, Jordan Bel-fort fez uma fortuna absurda no mercado de a��es americano. � frente de sua pr�pria empresa, a Stratton Oakmont, fundada quando ele tinha apenas 27 anos, construiu um imp�rio que atra�a jovens sedentos por dinheiro, loucos para trabalhar para um l�der nato como Jordan � e loucos para viver em meio a uma vida de luxo, drogas e sexo.</p><p>Mas esse imp�rio aparentemente invenc�vel chegaria ao fi m. O homem que havia recebido o nome de �Lobo de Wall Street� e se tornara uma lenda se v� encurralado pelo FBI e for�ado a cooperar (leia-se: dedurar seus amigos e ex-colegas) ao longo de uma investiga��o que se arrastaria por 5 anos.</p><p>A vida agora n�o seria mais t�o f�cil para Jordan: seus bens come�am a ser confiscados, seu promotor n�o parece ir com a sua cara, seus antigos amigos s�o presos e sua esposa o abandona. Com seu reinado em ru�nas, ele ainda se v� diante de seu maior desafio: como enfrentar uma batelada de ju�zes e advogados, manter os filhos a seu lado e salvar seu respeito por si pr�prio. Ser� que sua temporada na pris�o o ajudar� a se redimir de todos os seus erros do passado?</p><p>Continua��o do best-seller <emphasis>O Lobo de Wall Street</emphasis>, que virou filme dirigido por Martin Scorsese, este surpreendente livro traz as mem�rias de um homem que teve de abandonar uma vida de excessos e se tornar uma nova pessoa.</p><p>JORDAN BELFORT nasceu no Queens, em Nova York. Seu primeiro neg�cio o levou � fal�ncia aos 24 anos, at� que, tr�s anos depois, fundou a Stratton Oakmont e se tornou um dos homens mais ricos do mercado de a��es nos Estados Unidos. Indiciado pelo governo federal aos 36 anos, ele cumpriu 22 meses na pris�o e passou um m�s na reabilita��o.</p><p>Seus dois best-sellers internacionais (<emphasis>O Lobo de Wall Street</emphasis> e <emphasis>A ca�ada ao Lobo de Wall Street</emphasis>) j� foram publicados em mais de 40 pa�ses. Agora sua hist�ria tamb�m pode ser vista no cinema, no filme dirigido por Martin Scorsese e protagonizado por Leonardo DiCaprio.</p><p>Hoje Jordan mora em Los Angeles e � palestrante motivacional.</p><p>Jordan Belfort, o famoso �Lobo de Wall Street�, fez uma fortuna no mercado de a��es americano nos anos 1990 e viveu uma vida de luxo, drogas, sexo e pura loucura. O problema foi que, para enriquecer dessa maneira, ele n�o seguiu apenas o bom caminho, e o FBI n�o deixou barato�</p><p>Acusado de fraude de valores mobili�rios, manipula��o de a��es, lavagem de dinheiro e outros in�meros crimes financeiros que nem ele saberia citar, Jordan se viu obrigado a cooperar com a Justi�a americana, dedurando amigos e antigos colegas para tentar se livrar de uma pena que poderia chegar a 30 anos de pris�o � e arruinar de vez sua vida.</p><p>Em <emphasis>A ca�ada ao Lobo de Wall Street</emphasis> , Jordan conta com sua fina ironia e acidez todos os detalhes de seu in�cio de carreira, bem como tudo que aconteceu com ele depois que seu imp�rio desmoronou: perdeu a esposa, perdeu o dinheiro e quase perderia os filhos. Uma hist�ria contada sem pudores, por um homem cativante que precisou se reinventar a qualquer custo.</p><p><strong>�O que diferencia a hist�ria de Jordan de outras similares � a sua brutal honestidade�. � Leonardo DiCaprio</strong></p><p><image l:href="#0"/></p></section></body><binary id="cover" 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